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Numero do processo: 10640.723786/2011-16
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Oct 30 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Feb 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2009
DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE.
Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
Numero da decisão: 2001-000.045
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente e Relator
Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente), Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira, Fernanda Melo Leal, a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária.
Nome do relator: JORGE HENRIQUE BACKES
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2009 DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1504; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S2C0T1 Fl. 2 1 1 S2C0T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS SEGUNDA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10640.723786/201116 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 2001000.045 – Turma Extraordinária / 1ª Turma Sessão de 30 de outubro de 2017 Matéria IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA Recorrente JOÃO CARLOS ARANTES Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2009 DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente e Relator Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente), Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira, Fernanda Melo Leal, a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 64 0. 72 37 86 /2 01 1- 16 Fl. 154DF CARF MF 2 Tratase de Notificação de Lançamento relativa à Imposto de Renda Pessoa Física, glosa de Despesas Médicas. A Ementa do Acórdão de Impugnação foi prolatada nos seguintes termos: DEDUÇÕES. DESPESAS MÉDICAS. Havendo a autoridade fiscal efetuado a glosa de despesas médicas devido à falta de comprovação dos gastos financeiros correspondentes por parte do contribuinte, somente há justificativa para seu restabelecimento com a confirmação do efetivo desembolso. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Os fundamentos do lançamento, que se encontram na Notificação de Lançamento, foram os de que os gastos seriam elevados e que não teria sido comprovada a efetividade do pagamento, assim expresso: 1. Tendo em vista que o contribuinte informou na DIRPF do AnoCalendário de 2009 a título de Despesas Médicas , o valor correspondente a R$28.397,16, sua declaração incidiu em malha fiscal, para apresentar os comprovantes originais e cópias das despesas médicas declaradas, solicitados através do Termo de Intimação Fiscal n÷ 2010/064732761887200, emitido eletronicamente em 14/02/2011, apresentando cópias dos recibos. 2. Intimado a apresentar os documentos bancários, solicitados através do Termo de Intimação Fiscal 392/2011, de 27/06/2011: cópias de cheques nominais micro filmados, extratos bancários em que constem saques com compatibilidade de datas e valores, ordens de pagamentos ou transferências eletrônicas, que pudessem comprovar o real pagamento das despesas médicas declaradas para: Diogo Giotti de Morais, Fisioterapeuta, R$7.320,00; Márcio José de Oliveira, Fisioterapeuta, R$5.000,00; Lísia Magalhães Pereira. Fonoaudióloga, R$5.000,00; Bruna Casanova Felício, odontologia, R$7.700,00, e a efetiva prestação dos serviços, apresentou extratos bancários, não apresentando cópias de cheques nominais. 3. Da análise dos extratos e documentos apresentados verificamos, conforme planilha anexa, que não houve saques durante o período, e que os cheques emitidos não têm compatibilidade de datas com os valores declarados, e que serão glosados da DIRPF, ano calendário 2009, nos termos do 1÷ do art. 73 do Decreto n÷ 3.000/99 (Regulamento do Imposto de Renda), e do Acórdão 10244.658, de 21/03/2001, da 2ö Câmara do Conselho de Contribuintes do MF, onde consta que o documento por si só não autoriza a dedução, mormente quando não há prova efetiva de que os serviços foram prestados. No Recurso Voluntário apresentado pelo contribuinte, em apertada síntese, se alega que os recibos são idôneos, que não há indicação no lançamento de elementos de irregularidades neles. Fl. 155DF CARF MF Processo nº 10640.723786/201116 Acórdão n.º 2001000.045 S2C0T1 Fl. 3 3 Voto Conselheiro Relator, Jorge Henrique Backes Verificada a tempestividade do recurso voluntário, dele conheço e passo à sua análise. Os recibos não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, tanto do serviço como do pagamento. Mesmo que não sejam apresentados outros elementos de comprovação, a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve estar fundamentada. Como se trata do documento normal de comprovação, para que sejam glosados devem ser apontados indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. O contribuinte trouxe várias descrições dos serviços médicos ocorridos, com declarações de vários profissionais. No caso, não foram solicitados outros elementos de prova de maneira objetiva, e como fundamento para lançar apenas foi afirmado que recibos são de valores elevados e que não comprovam a efetividade do pagamento de despesas médicas. No entanto, não foram apresentados vícios, indícios ou circunstâncias desabonadoras para os documentos apresentados pelo contribuinte. Não foi apresentada nenhuma investigação, circularização, ou outro procedimento que indicasse algum problema, ou mesmo dúvida, nos documentos. Assim, na ausência de indicações desabonadoras, na falta de fundamentação na recusa, os recibos comprovam despesas médicas. Não deixo de fazer aqui uma fundamentação do entendimento expresso acima, pois a falta de fundamentação é a matéria em discussão. Muitas vezes a autoridade fiscal baseia a recusa a deduções no art.73 do Decreto nº 3.000, de 1999, que assim dispôs: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). Tal artigo indica que determinados documentos não fazem prova absoluta, podendo ser solicitados elementos adicionais de comprovação. No entanto, isso não significa que o juízo, o fundamento da autoridade, dos fatos e do direito, não necessite ser apresentado. E tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como veremos na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. O lançamento pode até ocorrer sem pedido de esclarecimentos ou de prévia intimação ao contribuinte, como consta inclusive em súmula do CARF: Fl. 156DF CARF MF 4 Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. No entanto, a recusa não pode prescindir de justificativa, inclusive porque deduções elevadas podem estar completamente dentro da lei e do direito do contribuinte. Trazendose um pouco de doutrina percebese claramente a necessidade da motivação. Diz Celso Antônio Bandeira de Mello, em relação aos atos discricionários: “A motivação deve ser prévia ou contemporânea à expedição do ato. (…) Naqueloutros, todavia, em que existe discricionariedade administrativa ou em que a prática do ato vinculado depende de apurada apreciação e sopesamento dos fatos e das regras jurídicas em causa, é imprescindível motivação detalhada. [...] E Maria Sylvia Zanella Di Pietro, sobre a motivação expressase assim:: “O princípio da motivação exige que a Administração Pública indique os fundamentos de fato e de direito de suas decisões. Ele está consagrado pela doutrina e pela jurisprudência, não havendo mais espaço para as velhas doutrinas que discutiam se a sua obrigatoriedade alcançava só os atos vinculados ou só os atos discricionários, ou se estava presente em ambas as categorias. A sua obrigatoriedade se justifica em qualquer tipo de ato, porque se trata de formalidade necessária para permitir o controle de legalidade dos atos administrativos.” Passagem do francês Jèze, trazida por Hely Lopes Meirelles: descreve com clareza a necessidade da motivação do ato administrativo: “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional. E além de princípios e doutrinas, também a lei , como antes aventado, dispõe sobre a obrigação de motivar. A Lei nº 9.784/1999 que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal em seu artigo 50, dispõe: “Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: I – neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; II – imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; III – decidam processos administrativos de concurso ou seleção pública; Fl. 157DF CARF MF Processo nº 10640.723786/201116 Acórdão n.º 2001000.045 S2C0T1 Fl. 4 5 IV – dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; V – decidam recursos administrativos; VI – decorram de reexame de ofício; VII – deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais; VIII– importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato administrativo.” Esse artigo da lei não faz diferenciação entre atos vinculados ou discricionários. Todos os atos que se encaixam nas situações dos supracitados incisos, sejam vinculados ou discricionários, devem compulsoriamente ser motivados. A amplitude e o imenso alcance desse artigo sobre os atos administrativos não deixa nenhum resquício de incerteza ou de dúvida: a regra ampla e geral é a obrigatoriedade de motivação dos atos administrativos. E como princípio, de maneira não menos importante, vejase o que diz sobre a matéria o art. 2º da mesma Lei 9.784, de 1999: “Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (…) VII indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão; VIII – observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados; IX adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados; X garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações finais, à produção de provas e à interposição de recursos, nos processos de que possam resultar sanções e nas situações de litígio; (…) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação”. Fl. 158DF CARF MF 6 Assim, na ausência de fundamentação plausível para a recusa de documentos usuais de comprovação é indevida a glosa de despesas médicas. Conclusão Em razão do exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Relator Fl. 159DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15504.012272/2009-03
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/07/1999 a 31/10/2005
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.112
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/2007-64, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/07/1999 a 31/10/2005 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 01 22 72 /2 00 9- 03 Fl. 477DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 3 2 Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, tendo por paradigma o processo n° 10552.000174/200764. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo apresentou contrarrazões onde pugna pela manutenção da decisão recorrida, que , em seu entendimento reflete a melhor interpretação jurídica quanto à aplicação do art. 106, II, "c" ao caso sob análise. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.065, de 25/10/2017, proferido no julgamento do processo 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.065): Quanto ao conhecimento Pelo que consta no processo quanto a sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade. Assim, conheço do recurso da Fazenda Nacional. Quanto ao mérito O presente tema, objeto do presente julgamento repetitivo de recursos, tem entendimento já pacificado no âmbito desta Turma da CSRF, o qual é brilhantemente delineado pela Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira no âmbito do Acórdão 920205.782, de 26 de setembro de 2017, e, assim, adotase Fl. 478DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 4 3 excerto do teor do voto condutor daquele Acórdão, a seguir transcrito, como razões de decidir, verbis: (...) Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “c” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 479DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 5 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): "Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Fl. 480DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 6 5 Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: Fl. 481DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 7 6 “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada Fl. 482DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 8 7 competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor da multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente."(grifos não presentes no original) Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: (...) Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. (grifos não presentes no original). (...)" Fl. 483DF CARF MF Processo nº 15504.012272/200903 Acórdão n.º 9202006.112 CSRFT2 Fl. 9 8 Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Em face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 484DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19395.720024/2012-62
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
ADMINISTRATIVO. VINCULAÇÃO PROCESSUAL. PRESSUPOSTOS.
A vinculação de processos administrativos, por conexão, decorrência ou reflexão, como previsto no regimento interno do CARF, objetiva, na medida do possível, a uniformidade decisória, evitando o dissídio jurisprudencial entre processos que envolvam fatos análogos. Contudo, pressupõe que os processos estejam na mesma fase processual, aguardando julgamento, não sendo recomendada a reunião entre processos em etapas processuais distintas, já julgados ou que, ainda que pendentes de julgamento, tenham sido convertidos em diligência para saneamento, sob pena de tumulto processual.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
LANÇAMENTO. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. OFENSAS AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Nos termos do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, são nulos os atos, despachos e decisões exaradas e/ou praticadas por pessoa incompetente ou com cerceamento de defesa, cujo reconhecimento impõe o exame do caso in concreto, não bastando a tal desiderato alegações genéricas, que não demonstram claramente o prejuízo causado ao direito de defesa.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. RESP 973.733-SC. RECURSO REPETITIVO. ART. 62 DO RICARF/15. OBEDIÊNCIA.
O Superior Tribunal de Justiça, através do REsp nº 973.733-SC, sob a sistemática do art. 543-C do Código de Processo Civil, de reprodução obrigatório no âmbito deste sodalício (art. 62 do RICARF/2015, Portaria MF 343/15), decidiu que, para definição da fluência do lapso decadencial, no caso dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o pagamento antecipado é condição sine qua nom para aplicação do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional, caracterizando-se como tal a retenção de tributo na fonte, cujo recolhimento aos cofres públicos fica a cargo do responsável designado em lei.
PROCEDIMENTOS FISCAIS. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. OFENSA AO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. INOCORRÊNCIA.
O entendimento fixado por autoridades administrativas em procedimentos fiscais anteriormente realizados não possui efeito vinculante prospectivo em relação à interpretação dos órgãos julgadores administrativos, ou mesmo pelos agentes fiscais, para exame de casos análogos supervenientes, não configurando ofensa à segurança jurídica e tampouco reflete alteração de critério jurídico, a deflagrar os efeitos previsto no art. 146 do Código Tributário Nacional.
Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
PIS/PASEP. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO.
As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência do PIS/Pasep, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.637/02.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007
COFINS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO.
As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência da Cofins, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.833/03.
ARQUIVOS MAGNÉTICOS. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO OU ATRASO NA ENTREGA. PENALIDADE. CABIMENTO.
As pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária, sob pena de, em caso de inobservância da forma ou do prazo, sujeitarem-se às multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218/91.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE.
Não configura sonegação, fraude ou conluio (arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64), a justificar a inflição de multa qualificada, no percentual de 150% (cento e cinqüenta por cento), a adoção de novo tratamento contábil a valores recebidos do exterior, anteriormente classificados como reembolsos de custos, com alteração para receitas de prestação de serviços, quando esta alteração de critério se respalda em entendimento fixado por autoridades administrativas, durante procedimento fiscal no mesmo sujeito passivo, ainda que despida de caráter vinculante.
Recurso voluntário provido em parte.
Numero da decisão: 3401-003.990
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para afastar as alegações preliminares, para declarar a decadência do período de apuração janeiro/2007, e para reduzir o percentual da multa de ofício aplicada para o patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento); e (b) por maioria de votos, para reconhecer a incidência das contribuições sobre as operações em comento, vencidos os Conselheiros Tiago Guerra Machado (que manifestou interesse em apresentar declaração de voto) e Rodolfo Tsuboi, que propunham a conversão em diligência.
Rosaldo Trevisan Presidente
Robson José Bayerl Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. O Conselheiro Rodolfo Tsuboi autuou em substituição ao Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que declarou suspeição.
Nome do relator: ROBSON JOSE BAYERL
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para afastar as alegações preliminares, para declarar a decadência do período de apuração janeiro/2007, e para reduzir o percentual da multa de ofício aplicada para o patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento); e (b) por maioria de votos, para reconhecer a incidência das contribuições sobre as operações em comento, vencidos os Conselheiros Tiago Guerra Machado (que manifestou interesse em apresentar declaração de voto) e Rodolfo Tsuboi, que propunham a conversão em diligência. Rosaldo Trevisan Presidente Robson José Bayerl Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. O Conselheiro Rodolfo Tsuboi autuou em substituição ao Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que declarou suspeição.
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ementa_s : Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 ADMINISTRATIVO. VINCULAÇÃO PROCESSUAL. PRESSUPOSTOS. A vinculação de processos administrativos, por conexão, decorrência ou reflexão, como previsto no regimento interno do CARF, objetiva, na medida do possível, a uniformidade decisória, evitando o dissídio jurisprudencial entre processos que envolvam fatos análogos. Contudo, pressupõe que os processos estejam na mesma fase processual, aguardando julgamento, não sendo recomendada a reunião entre processos em etapas processuais distintas, já julgados ou que, ainda que pendentes de julgamento, tenham sido convertidos em diligência para saneamento, sob pena de tumulto processual. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 LANÇAMENTO. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. OFENSAS AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Nos termos do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, são nulos os atos, despachos e decisões exaradas e/ou praticadas por pessoa incompetente ou com cerceamento de defesa, cujo reconhecimento impõe o exame do caso in concreto, não bastando a tal desiderato alegações genéricas, que não demonstram claramente o prejuízo causado ao direito de defesa. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. RESP 973.733-SC. RECURSO REPETITIVO. ART. 62 DO RICARF/15. OBEDIÊNCIA. O Superior Tribunal de Justiça, através do REsp nº 973.733-SC, sob a sistemática do art. 543-C do Código de Processo Civil, de reprodução obrigatório no âmbito deste sodalício (art. 62 do RICARF/2015, Portaria MF 343/15), decidiu que, para definição da fluência do lapso decadencial, no caso dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o pagamento antecipado é condição sine qua nom para aplicação do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional, caracterizando-se como tal a retenção de tributo na fonte, cujo recolhimento aos cofres públicos fica a cargo do responsável designado em lei. PROCEDIMENTOS FISCAIS. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. OFENSA AO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. INOCORRÊNCIA. O entendimento fixado por autoridades administrativas em procedimentos fiscais anteriormente realizados não possui efeito vinculante prospectivo em relação à interpretação dos órgãos julgadores administrativos, ou mesmo pelos agentes fiscais, para exame de casos análogos supervenientes, não configurando ofensa à segurança jurídica e tampouco reflete alteração de critério jurídico, a deflagrar os efeitos previsto no art. 146 do Código Tributário Nacional. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 PIS/PASEP. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência do PIS/Pasep, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.637/02. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 COFINS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência da Cofins, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.833/03. ARQUIVOS MAGNÉTICOS. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO OU ATRASO NA ENTREGA. PENALIDADE. CABIMENTO. As pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária, sob pena de, em caso de inobservância da forma ou do prazo, sujeitarem-se às multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218/91. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. Não configura sonegação, fraude ou conluio (arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64), a justificar a inflição de multa qualificada, no percentual de 150% (cento e cinqüenta por cento), a adoção de novo tratamento contábil a valores recebidos do exterior, anteriormente classificados como reembolsos de custos, com alteração para receitas de prestação de serviços, quando esta alteração de critério se respalda em entendimento fixado por autoridades administrativas, durante procedimento fiscal no mesmo sujeito passivo, ainda que despida de caráter vinculante. Recurso voluntário provido em parte.
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(ATUAL DENOMINAÇÃO DE NOBLE DO BRASIL LTDA.) Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 ADMINISTRATIVO. VINCULAÇÃO PROCESSUAL. PRESSUPOSTOS. A vinculação de processos administrativos, por conexão, decorrência ou reflexão, como previsto no regimento interno do CARF, objetiva, na medida do possível, a uniformidade decisória, evitando o dissídio jurisprudencial entre processos que envolvam fatos análogos. Contudo, pressupõe que os processos estejam na mesma fase processual, aguardando julgamento, não sendo recomendada a reunião entre processos em etapas processuais distintas, já julgados ou que, ainda que pendentes de julgamento, tenham sido convertidos em diligência para saneamento, sob pena de tumulto processual. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 LANÇAMENTO. NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. OFENSAS AO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Nos termos do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, são nulos os atos, despachos e decisões exaradas e/ou praticadas por pessoa incompetente ou com cerceamento de defesa, cujo reconhecimento impõe o exame do caso in concreto, não bastando a tal desiderato alegações genéricas, que não demonstram claramente o prejuízo causado ao direito de defesa. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECADÊNCIA. RESP 973.733 SC. RECURSO REPETITIVO. ART. 62 DO RICARF/15. OBEDIÊNCIA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 39 5. 72 00 24 /2 01 2- 62Fl. 13461DF CARF MF 2 O Superior Tribunal de Justiça, através do REsp nº 973.733SC, sob a sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil, de reprodução obrigatório no âmbito deste sodalício (art. 62 do RICARF/2015, Portaria MF 343/15), decidiu que, para definição da fluência do lapso decadencial, no caso dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, o pagamento antecipado é condição sine qua nom para aplicação do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional, caracterizandose como tal a retenção de tributo na fonte, cujo recolhimento aos cofres públicos fica a cargo do responsável designado em lei. PROCEDIMENTOS FISCAIS. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIOS JURÍDICOS. OFENSA AO PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA. INOCORRÊNCIA. O entendimento fixado por autoridades administrativas em procedimentos fiscais anteriormente realizados não possui efeito vinculante prospectivo em relação à interpretação dos órgãos julgadores administrativos, ou mesmo pelos agentes fiscais, para exame de casos análogos supervenientes, não configurando ofensa à segurança jurídica e tampouco reflete alteração de critério jurídico, a deflagrar os efeitos previsto no art. 146 do Código Tributário Nacional. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 PIS/PASEP. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência do PIS/Pasep, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.637/02. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2007 a 31/12/2007 COFINS. PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS PARA PESSOAS JURÍDICAS DOMICILIADAS NO EXTERIOR. NÃO COMPROVAÇÃO. VERBAS PERCEBIDAS DO EXTERIOR. REEMBOLSO DE DESPESAS/RECUPERAÇÃO DE CUSTOS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO. As verbas percebidas de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior, para se qualificarem como prestação de serviços e não se sujeitarem à incidência da Cofins, exigem prova da efetiva natureza das operações executadas, não servindo a tal objetivo documentos fiscais remissivos e genéricos que não descrevem detalhamento o pretenso serviço prestado, além do que, no caso Fl. 13462DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 11 3 concreto, restou demonstrado que se tratava de reembolso de despesas/recuperação de custos e que, nessa condição, devem compor a base de apuração da contribuição em comento, nos termos do art. 1º, in fine, da Lei nºs 10.833/03. ARQUIVOS MAGNÉTICOS. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO OU ATRASO NA ENTREGA. PENALIDADE. CABIMENTO. As pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária, sob pena de, em caso de inobservância da forma ou do prazo, sujeitaremse às multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218/91. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. Não configura sonegação, fraude ou conluio (arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64), a justificar a inflição de multa qualificada, no percentual de 150% (cento e cinqüenta por cento), a adoção de novo tratamento contábil a valores recebidos do exterior, anteriormente classificados como reembolsos de custos, com alteração para receitas de prestação de serviços, quando esta alteração de critério se respalda em entendimento fixado por autoridades administrativas, durante procedimento fiscal no mesmo sujeito passivo, ainda que despida de caráter vinculante. Recurso voluntário provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para afastar as alegações preliminares, para declarar a decadência do período de apuração janeiro/2007, e para reduzir o percentual da multa de ofício aplicada para o patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento); e (b) por maioria de votos, para reconhecer a incidência das contribuições sobre as operações em comento, vencidos os Conselheiros Tiago Guerra Machado (que manifestou interesse em apresentar declaração de voto) e Rodolfo Tsuboi, que propunham a conversão em diligência. Rosaldo Trevisan – Presidente Robson José Bayerl – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Fl. 13463DF CARF MF 4 Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. O Conselheiro Rodolfo Tsuboi autuou em substituição ao Conselheiro Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, que declarou suspeição. Relatório Trata o presente feito de lançamento para exigência de PIS/Pasep e Cofins, exercício 2007, em razão de insuficiência de recolhimento, bem assim, multa por atraso na apresentação dos arquivos magnéticos. Por bem resumir o caso dos autos, tomo por empréstimo o relatório da decisão de primeiro grau administrativo, verbis: "No Termo de Verificação Fiscal (fl. 12.648 e seguintes), o Auditor fiscal autuante informa, em resumo, que: 1. a empresa já foi objeto de autos de infração junto aos processos nº 15521.000124/200504 e 15521.000127/200963; 2. contratos de afretamento de plataformas e de prestação de serviços firmados entre a Petrobrás e a empresa estrangeira do Grupo Noble (fretadora) e com a empresa nacional do grupo (fiscalizada), respectivamente, foram utilizados para segregar uma única prestação de serviços de perfuração de poços de petróleo em afretamento da plataforma (cerca de 90% da remuneração) e serviços (10%); 3. parte dos recursos encaminhados ao exterior retorna com denominações diversas, artifício utilizado para evitar a tributação (IRPJ, CSLL, PIS, Cofins); 4. há o interesse de empresa estrangeira em prestar serviços de prospecção, perfuração, avaliação, completação e ‘workover’ para a Petrobrás, em território brasileiro; 5. é criada uma empresa no Brasil cujo controle acionário ou de cotas pertence à empresa estrangeira do Grupo; 6. na fase de elaboração do contrato de prestação dos serviços que interessam à Petrobrás são feitos dois contratos distintos, um com a empresa estrangeira para o afretamento de embarcações, e outro com a empresa criada no Brasil, que alcança a prestação dos serviços de que necessita a Petrobrás; 7. o contrato de afretamento envolve os grandes valores, em torno de 90% da soma dos dois contratos firmados, enquanto o contrato firmado com a empresa sediada no Brasil prevê pagamentos da ordem de 10% da mesma soma; 8. assim, uma mesma prestação de serviços é seccionada em duas com o propósito de escoamento para o exterior da maior parte dos valores envolvidos, já que dessa maneira é possível enquadrar quase que a totalidade do valor (soma dos valores dos contratos) sob o alcance de Fl. 13464DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 12 5 alíquota zero que obsta a retenção na fonte para afretamento de embarcações (Lei nº 9.481/97, art. 1º, inciso I); 9. e, uma vez criada artificialmente enorme defasagem entre os valores dos serviços a serem prestados e o afretamento da embarcação, cumpre à empresa do Grupo no exterior reembolsar à fiscalizada no Brasil, para efeito de custeio operacional, pois de outra forma esta última não sobreviveria sem o apelo à falência ou concordata , o que é feito através de transferências bancárias de contas no exterior para contas em bancos no Brasil, com registro contábil em conta denominada ‘conta corrente’ no caso da escrita fiscal da NOBLE, para que esta possa manterse regularmente em atividade; 10. após aquele primeiro procedimento de ofício, a fiscalizada promove reclassificação contábil dos referidos recursos advindos do exterior, renomeia os reembolsos como ‘Receitas Intercompany’, tratandoos como receita de exportação, revestindose do argumento de que fora a própria RFB quem assim classificou; 11. o referido auto de infração junto ao processo nº 15521.000124/200504 foi mantido parcialmente na DRJ, reconhecendo a natureza tributável dos valores que reingressaram no Brasil; 12. o autuado passou a reinterpretar os reingressos de reembolsos para ‘Receitas Intercompany’, tratandoos como receitas de exportação de serviços, argumentando de que este seria o entendimento da RFB, além disso passou a contabilizar custos e despesas no Resultado do Exercício, que estariam relacionados às referidas receitas; 13. entre os elementos de importância probatória (citados no item 5 do Termo de verificação Fiscal) estão cópias dos livros Diário e Razão apresentados, dos contratos assinados com a Petrobrás, e com empresas vinculadas, dos documentos e informações apresentados na diligência realizada junto àquela sociedade de economia mista, também foram objeto de análise as DIPJ apresentadas pelo contribuinte, as Dacon, Notas Fiscais, os pedidos eletrônico de compensação, informações de domínio público sobre o Grupo Noble Corporation, detalhamento acerca de procedimentos de montagem de ‘cabeça de poço’ e perfuração obtidos da Petrobrás; 14. foi exaustivamente comprovado que a autuada passou a atribuir de forma reiterada e dissimulada caráter de isento aos recursos remetidos pela empresa estrangeira do Grupo, que caberia ao PIS/Cofins correspondentes às receitas de exportação com ingresso de divisas, além de se aproveitar de créditos dos custos e insumos; 15. além de frustrar pagamento de PIS/Cofins, a empresa eliminou o recolhimento de todos os tributos federais eventualmente devidos, através de PerDcomp; 16. os referidos valores remetidos do exterior pela empresa estrangeira do Grupo tinham o propósito de fazer face aos custos/despesas necessários à consecução das obrigações firmadas com a Petrobrás, possuindo natureza Fl. 13465DF CARF MF 6 de subvenções bem como de recuperação de custos/despesas, na forma do art. 392 do D. 3.000/99; 17. não há como os referidos valores remetidos do exterior deixarem de integrar as bases de cálculo do PIS/Cofins, sob o argumento de que se tratam de receitas de prestação de serviços no exterior com ingressos de divisas; 18. foi apresentado um contrato de prestação de serviços diferente do entregue ao Fisco em 2007, sendo substituída a palavra ‘serviços’ por ‘obras’ em diversas cláusulas; 19. a fiscalizada não apresenta seus arquivos digitais de notas fiscais de entrada, de clientes/fornecedores e de importação, nem seu livro de registro de compras e apresenta o livro de registro de inventário sem registro em estoque desde de janeiro de 2005; 20. os dois contratos citados, um com a empresa estrangeira para o afretamento de embarcações, e outro com a empresa no Brasil de prestação dos serviços são totalmente vinculados; 21. o negócio de fato conta com dois pólos, a Petrobrás, contratante, e o Grupo Noble Corporation, contratado, não havendo espaço para interpretar qualquer exportação de serviços alcançada pela isenção em relação ao PIS e à Cofins; 22. não cabe isenção, pois reingresso de divisas, já que os recursos referentes a pagamento à empresa controlada saíram do Brasil, através de desequilíbrio contratual; 23. quanto ao fato de que, às vezes, é a própria Petrobrás quem estabelece os percentuais entre os contratos, descabe proveito em favor da contestação da obrigação tributária, pois o fato gerador, percepção de receita e renda, ocorreu, e, não obstante o que preconizam os contratos, deveria o sujeito passivo, controlada, oferecer à tributação as verdadeiras bases de cálculo, antecipando á ação fiscal, como determina o art. 118, I, da Lei nº 5.172/66 (CTN); 24. a empresa estrangeira então remete subvenção para custeio, a fim de reajustar o desequilíbrio contratual, não há, portanto, isenção nem ingresso de divisas, mas sim retorno parcial das divisas, reingresso; 25. a intenção do benefício fiscal da isenção para exportação, como sua delimitação, visam à proteção da finalidade, consoante as decisões administrativas colacionadas ao Termo de Verificação Fiscal (Solução de Divergência COSIT nº 12/2001; Decisão SRRF/7ª. RF/DISIT nº 196/98; Decisão SRRF/7ª. RF/DISIT nº 31/99; Decisão SRRF/7ª. RF/DISIT nº 52/00; 26. o art. 118, do CTN, prioriza o fato concreto em detrimento da forma, a doutrina e a legislação vêm perfilando o mesmo entendimento; 27. para fins de apuração das contribuições a pagar não foram considerados os créditos relativos às supostas receitas de exportação apurados pelo fiscalizado; Fl. 13466DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 13 7 28. nas bases de cálculo foram incluídos os valores advindos do exterior, pois se tratam de subvenção para custeio/reembolso e não receita de exportação, estando sujeitos à tributação do PIS/Cofins; 29. a não apresentação dos arquivos digitais inviabilizou a auditoria fiscal das notas fiscais no ano de 2007; 30. a moldura do art. 44 da Lei nº 9.430/96, combinada com as definições contidas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, ajustase à conduta do contribuinte fiscalizado, pois o mesmo se apropriou indevidamente do instituto da isenção de PIS e Cofins própria da exportação de serviços que represente ingresso de divisas no País, e, além disso, utilizou créditos de PIS e Cofins correspondentes a insumos e despesas destinados/ligados às mesmas operações, sob a mesma condição (entrada de divisas), fazendo constar de pedidos eletrônicos de compensação os efeitos da utilização indevida destes benefícios fiscais, causando praticamente a anulação artificial dos valores a pagar de IRPJ e CSLL; deixou, ainda, de considerar que os valores que recebe do Grupo Noble representa reingresso de divisas, e, como já visto, não fossem as remessas de numerário, a fiscalizada continuaria a apresentar os prejuízos consecutivos fictos que vinha apresentando desde 1992; 31. a ação fraudulenta consiste na triangulação do valor, que é pago pela Petrobrás à fretadora, e retorna para a fiscalizada, o que, não obstante a participação da Petrobrás na formação dos contratos, poderia e deveria ter sido ajustado pela empresa autuada, mediante a tributação dos valores que sabe corresponderem a receitas suas, mas, ao contrário, e de forma passiva, a empresa, associada ao Grupo que é ligada, vem manipulando em seu favor a (não) tributação de seu faturamento; 32. Ficam materializadas, portanto, as hipóteses de sonegação descritas no art. 71, de fraude, no art. 72, e de conluio, art. 73, da Lei nº 4.502/64, definindo o evidente intuito de fraude necessário para a aplicação do §1º do art. 44, da Lei nº 9.430/96. A interessada apresentou a impugnação de fls. 12.933/12.995, na qual, em resumo, alegou que: 1. o argumento básico da fiscalização é de que os valores recebidos pela impugnante pela prestação de serviços à empresas estrangeiras do Grupo seria repatriação de divisas de valores que deveriam ter sido pagos diretamente pela Petrobrás a Noble do Brasil; 2. o I. Fiscal aplicou multa regulamentar pela falta de entrega de arquivos digitais, e aplicou multa qualificada sob alegação de sonegação, fraude e conluio; 3. impõese a devolução integral do prazo para a impugnação, por claro cerceamento de defesa e violação ao artigos 5º, LV, da Constituição Federal (CF/88), pois, em que pese o impugnante ter sido intimado em 15/02/12 da lavratura dos autos de infração, somente no dia 27/02/2012 lhe foi disponibilizada a integralidade da documentação na qual foram baseadas Fl. 13467DF CARF MF 8 as autuações, ficando o impugnante com menos de 13 dias para analisar a extensa documentação e produzir sua impugnação, além disso vários documentos não foram incluídos na digitalização; 4. em sendo o PIS e a COFINS tributos cujo lançamento ocorre por homologação, a decadência do direito da Autoridade Fiscal de lançar ocorre no prazo de cinco anos, contados da ocorrência do fato gerador, de acordo com o que dispõe o art. 150, § 4º, do Código Tributário Nacional; 5. sendo assim, e tendo em vista que o auto de infração foi cientificado ao contribuinte em 15/02/12, concluise que decaiu o direito da Fazenda Pública de constituir o crédito tributário de PIS e COFINS referente a janeiro de 2007; 6. a impugnante recebe há muito tempo ingressos do exterior, sendo que até 2005 tratava tais ingressos como reembolso de despesas incorridas, em favor da Noble B.V., esta na condição de fretadora, ou em favor de outras pessoas jurídicas do Grupo; 7. em 2000 fora fiscalizada pela RFB, tendo sido esta informada que tais ingressos referiamse a despesas incorridas em favor de outras pessoas jurídicas do Grupo, mas nada foi questionado e, assim, continuou a dar o mesmo tratamento a tais ingressos; 8. em 2005, a RFB concluiu que, na verdade, a impugnante prestava serviço às suas coligadas, assim tais ingressos deveriam transitar pelo Resultado do Exercício, lavrando autos de infração; 9. houve, então, por bem mudar o tratamento dado a tais ingressos a fim de ajustarse ao entendimento da RFB, retificando declarações, e escrita contábil, pagando os tributos com acréscimos e celebrando contrato com Noble B.V para ratificar todos os serviços com a nova qualificação dada pela RFB; 10. agora a RFB entende que tais ingressos não são ‘receita de exportação’, não se traduzem em prestação de serviços, ao contrário do que antes afirmava, o que ofende a segurança jurídica, devendo assim ser cancelado o auto de infração; 11. o tom trazido pelo fiscal é de litígio e não de fiscalização, utilizandose de autuações que nem ainda tiveram decisão final; 12. a violação ao princípio da impessoalidade está clara quando o fiscal faz juízo de valor e trata a impugnante como ‘oportunista’, ‘dissimulada’ e ‘fraudadora’; 13. o auto de infração deve ser cancelado por violar os princípios da moralidade e impessoalidade; 14. a autoridade Fiscal não poderia aplicar seu novo entendimento a fatos pretéritos, sob pena de ofensa ao Princípio da Proteção à Confiança (art. 146 do CTN); 15. o objeto principal dos contratos entre o impugnante e a Petrobrás é a prestação de serviços de perfuração, avaliação, completação e ‘workover’, Fl. 13468DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 14 9 mas nos referidos contratos há também um rol de obrigações que se traduz em prestação de serviços, os quais devem ser assumidos pelo impugnante; 16. além dos serviços prestados no âmbito dos contratos firmados com a Petrobrás, seja por meio de prestação de serviço direta a esta ou por intermediação dos serviços inerentes aos contratos de afretamento, a Noble do Brasil também gerencia e intermedeia reformas das embarcações, de propriedade de outras empresas do Grupo, em estaleiros brasileiros, devendo ser ressaltado que tais serviços não guardam qualquer relação com os serviços prestados no âmbito dos contratos com a Petrobrás, tratandose, de fato, de reformas e melhorias dos naviossonda, as quais a administração do Grupo Noble julgou conveniente realizar no Brasil, mas que poderiam ter sido realizadas em qualquer outra parte do mundo; 17. há que se ressaltar ainda que no período em que os navios ficaram em reforma, atracados no porto, não houve aferição de receitas decorrentes do contrato de afretamento, bem como do contrato de prestação de serviços com a Petrobrás; 18. os recursos oriundos da afiliada estrangeira foram regularmente tributadas pelo IRPJ e CSLL, todavia, no que tange ao PIS e à COFINS, a legislação tributária prevê a isenção dessas contribuições para as receitas auferidas em decorrência da prestação de serviços para o exterior (art. 14, III, da MP nº 1.8586, de 29/06/99; art. 5º, II, da Lei nº 10.637/02; art. 6º, II, da Lei nº 10.833/03); 19. depreendese dos dispositivos legais e em consonância com decisões administrativas, que há somente dois requisitos para a isenção: (i) o adquirente seja pessoa estrangeira; e (ii) o ingresso de divisas no País, e, uma vez que os serviços prestados pelo impugnante para afiliadas estrangeiras preenchem os requisitos previstos em lei, o direito à isenção lhe assiste, do mesmo modo como também lhe assiste o direito de se apropriar de créditos de PIS e COFINS; 20. a autoridade fiscal não foi capaz de comprovar qualquer conduta da Impugnante que pudesse ensejar a evasão de divisas; 21. por força do regulamento do Repetro, a Noble do Brasil Ltda, não poderia figurar no contrato de afretamento; 22. a teoria que a autoridade fiscal aponta simulação fiscal no tocante a celebração de dois contratos distintos com a Petrobrás, mas que são presunções, por isso o auto de infração deve ser cancelado; 23. que, além disso, a Petrobrás ressaltou ser esta a prática: a de separação dos contratos de afretamento e da prestação de serviços; 24. há previsão legal para que os valores remetidos ao exterior em pagamento pelo afretamento sejam tributados à alíquota zero; 25. a multa regulamentar aplicada deve ser excluída porque ofende o princípio do contraditório, da proporcionalidade e da razoabilidade, e por ofensa ao art. 106 do CTN; Fl. 13469DF CARF MF 10 26. impõese o afastamento da multa qualificada imposta pela autoridade autuante, pois a divisão de valores entre os contratos de afretamento e serviços não deriva de um estratagema tributário criado pela impugnante ou sua controladora para não pagar tributos, mas, isto sim, de exigência licitatória padrão da própria Petrobrás; 27. além disso, o comportamento do impugnante não pode ser enquadrado como sonegação, fraude ou conluio, que pressupõem dolo ou má fé; 28. ainda que o impugnante entenda cristalina a inexistência de fraude, há que se invocar ao menos o artigo 112 do CTN, que impõe a interpretação mais favorável ao infrator quando da existência de dúvida acerca da aplicação de penalidades; 29. a Delegacia da Receita Federal de Julgamento rechaçou a acusação de fraude por inexistência de provas, já que a fiscalização utilizou se dos dados fornecidos pela própria empresa que acusou ser fraudadora, exatamente como na hipótese desses autos; 30. a jurisprudência do contencioso administrativo federal é clara e farta no sentido de que a ocorrência de fraude apta a justificar a aplicação de multa agravada não se presume e tem que ser provada (cf. Acórdão nº 10419.706; Acórdão nº 10245.697; Acórdão CSRF nº 0102.503), mas, como poderia haver ‘evidente intuito de fraude’ se os contratos e o propósito das remessas do exterior, declarados pelo impugnante, eram conhecidos da fiscalização desde o procedimento fiscal feito em 2000 e foram mantidos desde então; 31. a aplicação de penalidade efetuada pela autoridade fiscal se deveu à desconsideração do negócio jurídico apresentado pelo contribuinte, com uma requalificação dos ingressos recebidos, e, nesse diapasão, a doutrina esclarece que, a boafé do contribuinte deve ser protegida, e a exigência tributária deve ser feita sem a aplicação de penalidades, pois não houve conduta ilícita; 32. quanto à absurda alegação de reincidência vale ressaltar que a autuada nunca foi condenada sequer em âmbito administrativo; 33. o procedimento adotado pela autoridade fiscal de desconsiderar saldos de créditos nãocumulativos apurados em períodos anteriores não encontra qualquer amparo legal, devendo os valores das bases de cálculo do PIS/Cofins ser ajustados.” A DRJ Rio de Janeiro I/RJ manteve integralmente a autuação, em decisão assim ementada: “Nulidade. Pressupostos. Ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Decadência. PIS/Cofins. CTN. Fl. 13470DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 15 11 A declaração de inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, incluída em súmula vinculante, tornou obrigatória a aplicação da regra de decadência prevista no CTN. Multa regulamentar. Embaraços à Fiscalização. A multa regulamentar (artigos 11 e 12 da Lei nº 8.218/91) veda a criação de embaraços à Fiscalização, evitando que o contribuinte deixe de disponibilizar os arquivos quando solicitados pela autoridade competente. Multa de Ofício. Dolo. Qualificação. A multa de ofício qualificada deve ser aplicada quando ocorre a prática de ato destinado a retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da Administração Fiscal da existência do fato gerador. PIS/Cofins. Isenção. Pressupostos. Não Comprovados. Não se cogita de isenção do PIS e da COFINS, na ausência de comprovação da existência de serviços prestados a pessoa jurídica residente ou domiciliada no exterior.” O recurso voluntário, com pequena variação, reprisou a impugnação. Cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões onde sustentou não caracterização do cerceamento do direito de defesa; inocorrência de decadência; ausência de modificação de critério jurídico; inexistência de prestação de serviços a coligadas no exterior, caracterizando as verbas recebidas como subvenção para custeio; irregularidades na escrituração contábil, DACONs e notas fiscais que impedem o direito de crédito do PIS/Pasep e Cofins; e, por fim, o cabimento das penalidades impostas. Em 19/01/2016, o recorrente pleiteou o reconhecimento da vinculação destes autos com os PAs 15521.000124/200504 e/ou 15521.000127/200963 e seu julgamento conjunto, ou, alternativamente, o sobrestamento deste feito até o julgamento daqueles. Em 15/03/2016, o contribuinte requereu a comunicação dos atos processuais por via postal ou pessoal e não pela utilização do Domicílio Tributário Eletrônico – DTE, pelas razões que expõe. É o relatório. Voto Conselheiro Robson José Bayerl, Relator Principio por examinar os requerimentos protocolados em 19/01/2016 e 15/03/2016, que tratam, respectivamente, de conexão processual e forma de ciência de atos processuais. Fl. 13471DF CARF MF 12 Concernente à conexão processual, pretende o recorrente o reconhecimento de sua existência em relação aos PAs 15521.000124/200504 e 15521.000127/200963 e, em face da prevenção, a sua remessa aos relatores daqueles feitos para julgamento conjunto. A conexão se revela pela semelhança entre as demandas postas e tem por objetivo a racionalização do procedimento, através da promoção da economia processual, e, por via reflexa, evitar a prolação de decisões conflitantes. Em sede contenciosa administrativa, o instituto tem tratamento próprio no art. 6º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF 343/2015, o que afastaria o emprego supletivo do Código de Processo Civil. Consoante art. 6º, § 1º do regimento interno, verificase a conexão “entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos”. Feito o conciso intróito, passo ao exame in specie das possibilidades aventadas pelo recorrente. Em relação ao PA 15521.000124/200504, nada obstante veicular matéria idêntica, o que, em tese, evidenciaria a conexão, temse que sua distribuição ocorreu perante a 1ª SEJUL/CARF/MF, como expõe a movimentação processual, o que impede a pretendida reunião, ex vi do art. 6º, § 2º do RICARF/15: “(...) § 2º Observada a competência da Seção, os processos poderão ser distribuídos ao conselheiro que primeiro recebeu o processo conexo, ou o principal, salvo se para esses já houver sido prolatada decisão. (...)” (destacado) É imperativo para reconhecimento da conexão, a competência da Seção para os julgamentos. Nesse passo, tratandose o lançamento consubstanciado nestes autos de PIS/Pasep e Cofins, não há que se falar em competência da 1ª SEJUL, que, nos termos do art. 2º, IV do RICARF/15, restringese às hipóteses de lançamento reflexos assim entendidos aquelas exigências formalizadas em um mesmo procedimento fiscal, o que não é o caso. Mostrase, então, exclusiva a competência da 3ª SEJUL, de maneira que não é possível reconhecer a conexão entre este processo e o PA 15521.000124/200504. Quanto à conexão ante o PA 15521.000127/200963, em consulta à movimentação processual, verifico que o mesmo se encontrava distribuído à 2ª TO/4ª Câmara/3ª SEJUL/CARF/MF, com julgamento convertido em diligência em duas oportunidades (Resoluções nºs 3402000.386, de 19/05/2012, e 3402000.669, de 21/08/2014). Como não bastasse, o relator original teve o seu mandato expirado, o que, em princípio, a teor do art. 49, § 8º do RICARF/2015, exigirá novo sorteio do processo. Logo, o objetivo da conexão não será alcançado com a reunião desses processos, mas, ao contrário, ocasionará confusão processual, com o conseqüente atraso da Fl. 13472DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 16 13 definitividade da decisão administrativa, não alcançando o reconhecimento da conexão o seu desiderato, motivo pelo qual, calcado na faculdade conferida pelo caput do já mencionado art. 6º, diante da situação concreta, afasto a possibilidade da reunião com o PA 15521.000127/209 63. Tocante ao pedido alternativo de avocação dos PAs 19395.720263/201212 e 15586.721073/201303, para julgamento conjunto com o presente feito, também não é possível o seu acolhimento, haja vista que em ambos os processos já houve prolação de decisão, em 31/05/2016 (Acórdão 3402003.005) e 10/03/2016 (Acórdão 3201002.049), respectivamente. Da mesma maneira, não existe previsão regimental para sobrestamento de autos, exceção feita aos processos decorrentes ou reflexos, nos termos do art. 6º, § 5º do RICARF/2015, o que, entretanto, não é o caso dos autos. Pelas razões expostas, indefiro a juntada de processos ou o sobrestamento requeridos. Respeitante ao requerimento acerca da forma de ciência dos atos processuais, com o emprego da via postal ou pessoal, sem a utilização do Domicílio Tributário Eletrônico – DTE, não compete ao CARF determinar a forma como a RFB, através de suas unidades, deve proceder à cientificação de atos processuais, uma vez que está vinculada aos ditames do Decreto nº 70.235/72, motivo pela qual indefiro o requerimento formulado. Ultrapassados os requerimentos, passo ao juízo de admissibilidade recursal, acentuando que a peça interposta preenche os requisitos para seu conhecimento. Preambularmente, no que tange ao cerceamento do direito de defesa, sustenta o recorrente a nulidade do lançamento (não do procedimento), ante a exigüidade do prazo recursal inaugural efetivamente disponibilizado, ao passo que, em função de problemas operacionais, só teve acesso à íntegra do processo após o transcurso de 13 (treze) dias, a contar da ciência da autuação, o que lhe proporcionou apenas 17 (dezessete) dias para efetiva defesa. Examinando a situação concreta e o contexto das fiscalizações, que se sucederam no tempo, dada a reiteração da pretensa infração, concluo inexistir qualquer vício que atente contra a higidez do lançamento. Destarte, o lançamento, como espécie de ato administrativo, ostenta todos os elementos necessários à sua constituição, ou requisitos de validade, como entendem alguns doutrinadores, a saber, competência, objeto, forma, motivo e finalidade. Demais disso, atende às exigências do art. 10 do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal. Especificamente quanto ao cerceamento do direito de defesa, defeito que poderia acarretar, quando muito, a nulidade do procedimento, nos termos do art. 59 do mesmo diploma, não verifico sua ocorrência. Ainda que o recorrente tenha disposto de apenas 17 (dezessete) dias, tratava se de procedimento fiscal rotineiro, cujo objeto era constituir crédito tributário referente a pretensas infrações já verificadas na contabilidade do contribuinte em períodos anteriores, como reconhece o próprio recorrente, quando pugnou pela conexão deste feito com os PAs 15521.000124/200504 e 15521.000127/200963. Fl. 13473DF CARF MF 14 Prova da ausência de prejuízo à defesa reside no fato que, ao examinar o PA 19395.720263/201212, quando do requerimento de prevenção/conexão, constatei que o recurso voluntário lá manobrado e cujo suposto defeito ora questionada não se verificou, é idêntico ao ora em exame. Enfim, a matéria e as divergências de entendimento entre o Fisco e o contribuinte não eram novas, tratandose de lançamentos seqüenciados, daí porque a indisponibilidade material do trintídio legal não representou, por si só, vilipêndio ao direito de defesa. A preterição do direito de defesa, de fato, inquina de nulidade o ato processual praticado nestas condições, porém, o vício deveria ser de tal ordem que impedisse por completo o exercício da ampla defesa e do contraditório, o que definitivamente não ocorreu, uma vez que o recorrente pode exercer seu direito em plenitude, rebatendo específica e minuciosamente todos os pontos componentes da autuação, tanto em primeira, quanto em segunda instância. Não sem razão dispõe o art. 60 do diploma legal em comento que “as irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio.” O sistema processual pátrio acolheu do direito francês o princípio pás de nullité sans grief, consoante o qual não há nulidade sem prejuízo às partes ou ao processo, devidamente insculpido nos arts. 244; 249, § 1º e 250, parágrafo único, do Código de Processo Civil; arts. 563 e 566 do Código de Processo Penal; o próprio art. 60 do Decreto nº 70.235/72, adrede reproduzido. Nessa linha de raciocínio, o recorrente, nada obstante pugnar pela nulidade do lançamento, em momento algum demonstrou o efetivo prejuízo sofrido na defesa de sua causa, o que revela o caráter retórico deste argumento. Tocante à ausência de documentos que relaciona o recorrente, no processo, remeto às colocações da decisão de primeira instância, que frisou a inocorrência do problema e/ou a sua supressão pela sua posse pelo contribuinte, nestes termos: “Os documentos listados pelo contribuinte como não digitalizados (fls. 12.937/12.938) também não são aqueles listados no termo de verificação fiscal como elementos probatórios (fls. 12.686/12.688), por exemplo, a impugnante cita o contrato nº 2050.0007798.04.2, mas este documento não aparece citado no Termo de Verificação Fiscal. Além disso, tratase de documento de que dispõe por ser contrato por ela firmado.” Portanto, não se vislumbra qualquer situação que implique cerceamento do direito de defesa. Na seqüência, quanto à preliminar de decadência, defende o recorrente a caducidade do período de apuração janeiro/2007, à luz das disposições do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional, porquanto a ciência da autuação ocorreu em 15/02/2012. Tanto a decisão de primeiro grau administrativo quanto a Fazenda Nacional, em contra razões, esta última invocando, inclusive, o REsp 973.733/SC, julgado na sistemática Fl. 13474DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 17 15 do recurso repetitivo, aduziram que a ausência de recolhimento impediria a contagem na forma do art. 150, remetendoa ao art. 173, I do CTN. Ocorre que a premissa de ausência de recolhimento é equivocada, como atesta o próprio autuante, no demonstrativo de apuração constante do Termo de Verificação Fiscal, onde se aponta o valor das contribuições retidas na fonte e que, nessa condição, reduziram o valor lançado. Entretanto, a existência de recolhimento, sob forma de retenção na fonte, por si só, neste processo, não garante a contagem do lapso decadencial pelo regramento do art. 150, § 4º, tendo em conta que o lançamento foi lavrado com multa qualificada, o que, em tese, afastaria o seu emprego e atrairia o já citado art. 173, I, a depender do exame da existência de fraude. Considerando que aludida análise realizarseá no bojo do juízo meritório, postergo a decisão acerca da decadência para aquele momento, em conjunto com o cabimento da multa em dobro, nos termos do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Ainda como questão preliminar, o recorrente defende o cancelamento do lançamento em face do que chama de violação ao princípio da impessoalidade, pois, em sua ótica, a autoridade lançadora teria conferido à fiscalização um caráter de litigiosidade incompatível com o seu escopo, como revelaria o uso de palavras que considera pejorativas, o que demonstraria a irresignação do agente com o fato das receitas de afretamento de embarcações estarem sujeitas à alíquota zero do IRRF. Pois bem, esquadrinhando os trechos recortados pelo contribuinte para justificar suas razões, não encontrei qualquer colocação que configurasse pessoalidade no procedimento fiscal, eis que a utilização de termos como “fraude” ou “dissimulação”, e seus derivados, no contexto da ação fiscal, que redundou em lançamento com multa qualificada, não caracteriza desvio do princípio da impessoalidade, mas simples exposição de raciocínio do agente público como fundamento do lançamento. Quanto ao suposto descontentamento da autoridade em relação à alíquota (“zero”) do IRRF sobre as operações que cita, entendo que seja matéria estranha aos autos e, por essa razão, não influencia de modo algum o trabalho aqui analisado, que engloba tão somente exigência de PIS/Pasep e Cofins. Em síntese, não merece acolhida a alegação de nulidade do lançamento por inobservância do princípio da impessoalidade. Há ainda uma alegação de violação dos princípios da segurança jurídica e da moralidade da administração pública, consistente no fato que, segundo relata o recorrente, até 2005 registrava os ingressos de coligadas estrangeiras como reembolso de despesas; em fiscalização realizada em, 2000, relativa ao anocalendário 1997, não houve questionamento sobre o modelo adotado; já em 2005, em procedimento fiscal referente a 2000, porém, entenderam os agentes fiscais que os ingressos correspondiam a receitas de prestação de serviços (PA 15521.000124/200504); e, após decisão administrativa de primeira instância, confirmando a natureza dos ingressos como receita de prestação de serviços, teria (o contribuinte) alterado o tratamento fiscal dessas verbas e reconstituído sua escrita contábil no período de 2001 a 2006, com o recolhimento das diferenças devidas. Fl. 13475DF CARF MF 16 Prosseguindo em seu raciocínio, afirmou que, considerada sua atividade como prestação de serviços, com percepção de valores por residentes no exterior, configurar seía a exportação de serviços, que está abrigada da incidência das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins, de maneira que não poderia agora a Administração Tributária, através de seus agentes, modificar o seu entendimento sobre o tema e aplicálo a fatos pretéritos, o que violaria o art. 146 do Código Tributário Nacional, oportunidade que citou jurisprudência das cortes superiores sobre o tema. Pois bem, dispõe aludido art. 146 do CTN que a modificação dos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa, em relação ao mesmo sujeito passivo, alcançam apenas os fatos geradores ocorridos após sua introdução. A definição dos critérios jurídicos da incidência tributária, pela leitura que faço do dispositivo em comento, compete ao órgão responsável pela administração fazendária, que em âmbito federal, está representado na Secretaria da Receita Federal do Brasil. Nessa ordem de ideias, o art. 146 está imbricado com o art. 100, também do CTN, que define as normas complementares dos decretos, leis, tratados e convenções internacionais, onde se insere a forma como se manifesta a Administração Tributária acerca dos critérios jurídicos a serem observados, seja pelos contribuintes, seja pelos seus agentes encarregados pela fiscalização, acerca da incidência tributária. Então, os critérios jurídicos são delineados pelos atos normativos expedidos, pelas decisões administrativa a que a lei atribua eficácia normativa, os convênios firmados entre os entes federativos e as práticas reiteradas adotadas pelas autoridades administrativas. No caso vertente, nenhuma dessas situações se verificou, não havendo qualquer ato normativo específico em relação ao caso dos autos, ou decisão administrativa vinculante, ou mesmo observância de uma prática reiterada, motivo pelo qual não há que se falar em modificação dos critérios jurídicos a exigir efeitos ad futurum, como defende o contribuinte. A certeza acerca da correção do procedimento contábil e fiscal adotado, à luz da interpretação acolhida pela Administração Tributária, somente se consubstancia mediante a formalização do processo de consulta, previsto e regulado pelos arts. 46 a 58 do Decreto nº 70.235/72. Relativamente ao mérito, propriamente dito, o cerne da celeuma reside na qualificação dos valores percebidos do exterior, anteriormente classificados como “reembolso de despesas” e agora contabilizados como “receitas intercompanhia”, como receita da exportação de serviços e, nessa condição, não sujeitas à incidência de PIS/Pasep e Cofins não cumulativos. A fiscalização afastou a natureza de exportação de serviços, ao argumento que tanto as notas fiscais, como as ordens de serviços vinculadas, não detalham o pretenso “serviço prestado”, limitandose a expressões genéricas e padronizadas (notas fiscais – “serviço prestado ao exterior conforme ordem de serviço”; ordens de serviço – “serviços prestados no Brasil durante o período [...], relativos a aquisição, inspeção, reparo, melhoria e manutenção das embarcações [...]”), o que impede a aferição da real atividade exercida, conforme Termo de Verificação Fiscal (fls. 12.662/12.663), considerando ainda, que, anteriormente, sem qualquer modificação destas atividades exercidas, tais verbas serem consideradas, pelo próprio contribuinte, como ressarcimento de custo de manutenção das embarcações afretadas pela PETROBRÁS, de coligada estrangeira. Fl. 13476DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 18 17 Esclareçase que as notas fiscais, na descrição do serviço, remetem sua especificação às respectivas ordens de serviços, sendo que estas, por seu turno, trazem um texto padronizado, genérico e abrangente. Demais disso, ao longo dos períodos fiscalizados, segundo as autoridades fiscais, foi possível observar a busca incessante do contribuinte, mediante artifícios contábeis (reclassificações) comerciais (ajustes contratuais), em evitar a incidência das contribuições de PIS/Pasep e Cofins sobre os valores recebidos do exterior, culminando com a sua qualificação como exportação de serviços, com a geração de créditos da não cumulatividade. A análise contábil empreendida pela fiscalização revelou a vinculação de custos/despesas em operações no mercado interno e que, sem maiores explicações, a não ser a alegação de equívoco na sua alocação, foram direcionados ao centros de custos relativos a operações no mercado externo. Os lançamentos contábeis, que alimentaram os registros dos centros de custos, foram feitos de maneira global, com a consolidação de vários documentos fiscais em um único lançamento, sem especificação sobre quais documentos se referiam, o que inviabilizou a aferição da vinculação dos custos/despesas com as operações no mercado interno e externo. O contribuinte, intimado a apresentar planilha que permitisse aludida vinculação, não logrou êxito em fazêlo. A fiscalização acentuou, ainda, que o recorrente não apresentou os arquivos magnéticos, especialmente o registro de entradas e o livro de registro de compras, ao argumento de não estar obrigado à sua escrituração, o que também prejudicou o exame das notas fiscais de entradas, geradoras de créditos de PIS/Cofins. A fiscalização, em síntese, entendeu que os contratos segregados em afretamento de embarcações e prestação de serviços, entre as empresas do Grupo Noble e a PETROBRÁS, consistem, em verdade, em um ajuste único, correspondente à prestação de serviços de perfuração, avaliação. “completação” e workover de poços de petróleo ou gás, razão porque não haveria que se falar em “exportação de serviços”, por parte do contribuinte fiscalizado, supostamente prestados à coligada estrangeira, pela manutenção das embarcações afretadas, como sugere a recorrente. Dessa maneira, esse “reingresso” de divisas, da coligada localizada no exterior para o contribuinte autuado, ora recorrente, não poderia ser qualificado como receita derivada de exportação de serviços, fazendo referência a várias soluções de consulta sobre a matéria, correspondendo tais valores a subvenções de custeio/reembolsos de custos e, como tal, sujeitandose ao PIS/Pasep e Cofins. A decisão de primeira instância administrativa, pelas peculiaridades acentuadas no relatório fiscal, acolheu a interpretação expendida no auto de infração, decidindo que não havia prova da efetiva prestação de serviços ao exterior a justificar a isenção, do PIS/Pasep e Cofins, dos valores recebidos da empresa coligada estrangeira, cuidandose de verdadeiros reembolsos de custos havidos pela unidade brasileira do Grupo Noble. Além do que, tal qual os autuantes, questionou os termos do contrato bipartido firmado entre a PETROBRÁS e as empresas do Grupo Noble, onde o afretamento Fl. 13477DF CARF MF 18 das embarcações corresponderia a 90% (noventa por cento) do contrato, sendo o montante destinado à empresa estrangeira, enquanto aos serviços corresponderia os restantes 10% (dez por cento), devidos à pessoa jurídica sediada no Brasil, ora fiscalizada, de maneira que esta última, para o exercício de suas atividades, necessitaria de recorrentes aportes de recursos da sucursal estrangeira. Frisou ainda que as verbas remetidas coincidiam com os custos e despesas havidas na execução do contrato firmado com a PETROBRÁS, como demonstrado pela fiscalização, o que evidenciaria a ausência de efetiva “prestação de serviços”, mas sim de reembolso de custos. O contribuinte, por seu turno, renovando a argumentação da impugnação, alegou, após breve explanação, que suas atividades consistiam em “suporte local e intermediação, contratando, no Brasil, em nome da empresa fretadora da embarcação, os serviços necessários para sua manutenção e perfeito funcionamento, os quais foram remunerados mediante ingresso de divisas decorrentes da exportação de serviços para o exterior” (efl. 13.302). Além desses serviços, às fretadoras de embarcações, realizaria a recorrente, às proprietárias das embarcações, o “gerenciamento e intermediação de reformas das embarcações de propriedade de outras empresas do Grupo em estaleiros brasileiros contratados pela recorrente” (efl. 13.302). Asseverou, na oportunidade, que esses serviços não se confundiriam ou guardariam correlação com aqueles prestados no âmbito dos contratos firmados com a PETROBRÁS. Esses serviços prestados às coligadas estrangeiras do Grupo Noble, a que corresponderiam as “exportações”, consistiam na “intermediação, contratação, procurement e acompanhamento dos reparos efetuados pelos estaleiros brasileiros, remunerandoa, obviamente, por tais serviços” (fl. 13.302) Na seqüência elencou, exemplificativamente, documentos fiscais representativos dessas operações de exportação de serviços, reafirmando o direito à isenção das contribuições não cumualativas previstas nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03. Pois bem, examinando as razões da autuação e da decisão recorrida, bem assim, as ponderações do recorrente, concluo que o lançamento, nessa parte, deve ser mantido, não vislumbrando elementos que corroborem a tese que haveria percepção de valores pela efetiva prestação de serviços a pessoas jurídicas sediadas no exterior, com ingresso de divisas no país, como exigem as normas de regência, pelos motivos que passo a expor. Como registrado pela fiscalização e, sob certo aspecto admitido pelo recorrente, os documentos fiscais não apresentam uma descrição detalhada sobre o pretenso “serviço prestado”, limitandose as notas fiscais a fazer referência a um “serviço prestado ao exterior conforme ordem de serviço”, sem qualquer especificação a que ordem de serviço se vincularia. As ordens de serviço, por seu turno, também não detalham os serviços realizados, apresentando um texto padronizado, abrangente e genérico, como a seguir descrito: “Escopo do trabalho Fl. 13478DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 19 19 Serviços a serem prestados no Brasil durante o período de (...), relativo à aquisição, inspeção, reparo, melhoria e manutenção das Embarcações Noble Leo Segerius, Noble Roger Eason, Noble Muravienko, Noble Paul Wolff e Noble Therald Martin, de acordo com o Contrato de Serviços Principal celebrado por e entre Noble Drilling (Nederland) B.V. e Noble do Brasil Ltda.” Em algumas ordens de serviços, devidamente relacionadas pelo recorrente, além dos termos genéricos, há referência à “gestão e intermediação de restauração da embarcação Noble Therald Martin (reparos no sistema de amarração)” ou “gestão e intermediação de restauração da embarcação Noble Leo Segerius (reparo no tanque e substituição de propulsor)”. Porém, mesmo nestes documentos onde haveria um suposto detalhamento dos serviços, distintamente do que apresenta o recorrente em recurso voluntário, com um texto destacado, nos documentos juntados ao processo (fls. 437/483) não há qualquer expressão realçada, de modo que não é possível identificar se a Noble Brasil, recorrente, inspecionou a embarcação Noble Roger Eason, ou reparou a embarcação Noble Paul Wolff, ou efetuou manutenção da embarcação Noble Muravienko, ou, ainda, em uma hipótese de difícil aceitação, tenha realizado aquisições, inspeções, melhorias e manutenção em todas as embarcações e em todos os períodos designados nas ordens de serviço. Esses textos genéricos, de algum modo, até justificam o porquê de não haver qualquer vinculação entre as notas fiscais e as ordens de serviços: elas são intercambiáveis, servindo qualquer ordem de serviço a qualquer nota fiscal, o que, a meu sentir, só revela a imprestabilidade desses documentos a fazer prova da alegada “exportação de serviços”. Outro ponto controverso do arrazoado do recorrente está na própria definição dos serviços que presta, haja vista que, consoante as ordens de serviços, as atividades consistiriam em aquisições, melhorias, reparos e manutenção, enquanto que, no recurso voluntário, afirma que os serviços corresponderiam a intermediação, contratação, procurement e acompanhamento dos reparos efetuados pelos estaleiros brasileiros. Ou seja, não há clareza nas atividades efetivamente patrocinadas pela recorrente: gerenciamento/intermediação ou execução dos serviços de manutenção? E não se diga, que o fato do recorrente terceirizar os trabalhos não desnaturaria a sua responsabilidade pela manutenção das embarcações, pois, quando o contratante estrangeiro quis especificar a gestão e a intermediação, o fez textualmente, como no caso das ordens de serviços genéricas que previam, também, restauração das embarcações Noble Therald Martin e Noble Leo Segerius. Essa intermediação/terceirização em contraponto à execução direta dos serviços não é o ponto definidor da ausência de exportação de serviços, mas se presta a evidenciar a impossibilidade de se apurar a real atividade prestada pela recorrente às empresas estrangeiras a justificar a classificação das verbas recebidas como “prestação de serviços” e não como reembolso de despesas. A meu sentir, essas incongruências, aliadas ao fato que, anteriormente a 2005, sem que houvesse, pelos elementos dos autos, modificação substancial nas atividades exercidas pela recorrente ao longo do período, esses valores eram carreados pelas empresas estrangeiras a título de “reembolso de despesas”, como reconhece o próprio contribuinte, Fl. 13479DF CARF MF 20 demonstrariam que a situação fática não se alterou a ponto de justificar a mudança da classificação contábil/fiscal dessas operações. Outrossim, o argumento que essa modificação se deveu a procedimento fiscal realizado e que redundou na lavratura de auto de infração (PA 15521.000124/200504) não convence, porque não há, nessas hipóteses, qualquer efeito vinculante que obrigue o sujeito passivo a alterar sua interpretação acerca da legislação, mesmo porque passível de alteração, tanto assim que o próprio contribuinte questionou o lançamento, que ainda pende de decisão definitiva. Em síntese, carece de respaldo probatório a qualificação dos valores percebidos de pessoas jurídicas domiciliadas no exterior como exportação de serviços, como prega o recorrente, a atrair a não incidência prevista nas Leis nºs 10.637/02 e 10.833/03. Essa mesma conclusão foi externada, pelo voto vencedor, no julgamento do PA 19395.720263/201212, do mesmo contribuinte, referente ao anocalendário 2008, envolvendo situação jurídica similar, verbis: “(...) Divirjo desta parte do voto do ilustre relator. A uma porque a escrituração contábil anexada ao processo, notas fiscais, ordens de serviço e contratos, não comprovam que os aportes financeiros oriundos do exterior se referem a receitas de prestação de serviços. (...) A Fiscalização apurou que os valores recebidos da empresa estrangeira sistematicamente cobriram os custos e despesas para a consecução de atividades de perfuração, argumentando que os tributos devidos sobre as receitas (conta 890450) corresponde ao valor do prejuízo contábil (vide fl. 8.694), não restando outra conclusão a não ser que os aportes de recursos do exterior se destinaram a cobrir custos e despesas decorrente de contratos entre a PETROBRAS e o Grupo Noble. No período abrangido pelo presente auto de infração, a fiscalização apurou, com base na contabilidade e nas declarações do próprio contribuinte, que a Noble do Brasil sofreu prejuízo de 225,81% sobre as receitas auferidas junto à Petrobrás, denotando que sem os ingressos do exterior não haveria como a empresa sobreviver financeiramente e honrar os contratos com a estatal (fl. 8.694). Como foi dito acima, a recorrente alegou que os aportes recebidos do exterior são receitas de prestação de serviço, isentas das contribuições, e invocou a seu favor as notas fiscais e as ordens de serviço relacionadas a reparos feitos nas embarcações (fls. 8344/8438 e 8519/8594), que não teriam sido consideradas pela fiscalização e pela DRJ, as quais comprovariam a prestação de serviços ao exterior. Analisando o termo de verificação e o Acórdão da DRJ, verificase que as referidas notas fiscais não foram simplesmente ignoradas pela fiscalização ou pelos julgadores de primeira instância. O problema é que a documentação apresentada não demonstra a vinculação entre os serviços que teriam sido prestados ao exterior com os aportes financeiros, pois os serviços foram não foram discriminados nas notas fiscais, as quais se limitaram a remeter o leitor às ordens de serviço. Fl. 13480DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 20 21 A defesa alegou que apresentou as ordens de serviço às fls. 8519/8594, devidamente acompanhadas das traduções juramentadas (fls. 8599/8649). Pois bem. A apresentação das ordens de serviço não resolve o problema probatório, pois nenhuma das notas fiscais faz referência ao número da ordem de serviço, de forma que não é possível estabelecer correlação entre notafiscal e ordem de serviço. As ordens de serviço, por sua vez, mencionam genericamente vários serviços a serem prestados no Brasil durante certo período de tempo, estabelecendo um preço máximo que poderia ser cobrado. As notas fiscais não dizem qual ou quais desses serviços foram prestados. (...) Ou seja, toda essa documentação não permite identificar qual serviço foi prestado, por quanto foi prestado e nem estabelecer a correlação entre a nota fiscal e a ordem de serviço, o que impede o fisco de vincular a suposta receita de prestação de serviço ao exterior com o suposto serviço prestado. O art. 9, § 1º do DecretoLei nº 1.598/76, estabelece que a escrituração mantida em conformidade com a legislação e devidamente acompanhada dos documentos fiscais e demais documentos pertinentes ao giro do negócio, faz prova a favor do contribuinte em relação aos fatos contábeis nela registrados. No caso concreto, a contabilidade do contribuinte não pode ser aceita como prova de que os valores tributados neste processo correspondem ao recebimento de receita de serviços prestados ao exterior, pois os documentos apresentados não permitem correlacionar os valores escriturados com os documentos que supostamente lhes deram lastro, uma vez que não se sabe qu al nota fiscal corresponde a qual serviço. (...) Desse modo, ao contrário do alegado, não existe nenhuma ‘teoria da conspiração’, pois além do fisco ter demonstrado o déficit de magnitude cavalar na execução dos contratos entre a recorrente e a PETROBRÁS, o contribuinte não comprovou a vinculação entre os aportes financeiros vindos do exterior, com a prestação de serviços, não restando cumprido o primeiro dos requisitos para fruição da isenção, estabelecidos no art. 5º, II, da Lei nº 10.637/2002 e no art. 6º, II da Lei nº 10.833/2003, que exigem que as receitas sejam provenientes da prestação de serviços.” Afastada a hipótese de “prestação de serviços”, infalivelmente resta prejudicado o exame de pretensa isenção/não incidência tributária sobre essas receitas, de sorte que os valores em comento, pelas razões expostas, serão tratados como ressarcimento de custos. Por conveniente, transcrevo o art. 1º da Lei nº 10.637/2002, que define a base de cálculo da contribuição: Fl. 13481DF CARF MF 22 “Art. 1o A contribuição para o PIS/Pasep tem como fato gerador o faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil. § 1o Para efeito do disposto neste artigo, o total das receitas compreende a receita bruta da venda de bens e serviços nas operações em conta própria ou alheia e todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica. § 2o A base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep é o valor do faturamento, conforme definido no caput. § 3o Não integram a base de cálculo a que se refere este artigo, as receitas: I decorrentes de saídas isentas da contribuição ou sujeitas à alíquota zero; II (VETADO) III auferidas pela pessoa jurídica revendedora, na revenda de mercadorias em relação às quais a contribuição seja exigida da empresa vendedora, na condição de substituta tributária; IV de venda dos produtos de que tratam as Leis no 9.990, de 21 de julho de 2000, no 10.147, de 21 de dezembro de 2000, e no 10.485, de 3 de julho de 2002, ou quaisquer outras submetidas à incidência monofásica da contribuição; IV de venda de álcool para fins carburantes; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (Vide Medida Provisória nº 413, de 2008) (Revogado pela Lei nº 11.727, de 2008) V referentes a: a) vendas canceladas e aos descontos incondicionais concedidos; b) reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita. VI – não operacionais, decorrentes da venda de ativo imobilizado. (Incluído pela Lei nº 10.684, de 30.5.2003) VII decorrentes de transferência onerosa, a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS, de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1o do art. 25 da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996. (Incluído pela Medida Provisória nº 451, de 2008) Fl. 13482DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 21 23 VII decorrentes de transferência onerosa a outros contribuintes do Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS de créditos de ICMS originados de operações de exportação, conforme o disposto no inciso II do § 1o do art. 25 da Lei Complementar no 87, de 13 de setembro de 1996. (Incluído pela Lei nº 11.945, de 2009). (Produção de efeitos).” Nessa toada, compõem a base de cálculo da contribuição, nas letras do preceptivo, todas as receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, o que expõe a amplidão do conceito de receita almejado pela norma, encontrandose as exclusões taxativamente relacionadas no texto. Em minha concepção, o conceito de receita lá mencionado melhor se ajusta àquele normalmente admitido em contabilidade, consoante o qual se qualificaria como tal quaisquer valores recebidos e/ou a receber que aumentem os ativos ou reduzam os passivos, oriundos do exercício das atividades da pessoa jurídica, podendo ser citado como exemplos as receitas ativas com vendas, prestação de serviços, juros ativos, receitas com aluguéis, etc., e dentre os valores redutores das obrigações, os descontos obtidos e as variações cambiais ativas verificadas em contas passivas. Este é o conceito amplo de “receitas” adotado pelo International accouting Standards Board1, através do Framework for the preparation and presentation of Financial Statements2. No Brasil, o Comitê de Pronunciamentos Contábeis – CPC, por intermédio do Pronunciamento Técnico CPC 30, assim expõe o conceito de “receita”: “A receita é definida no Pronunciamento Conceitual Básico Estrutura Conceitual para a Elaboração e Apresentação das Demonstrações Contábeis como aumento nos benefícios econômicos durante o período contábil sob a forma de entrada de recursos ou aumento de ativos ou diminuição de passivos que resultam em aumentos do patrimônio líquido da entidade e que não sejam provenientes de aporte de recursos dos proprietários da entidade.” Nesta linha intelectiva, necessário reconhecer que os reembolsos de despesas e as recuperações de custos são considerados, no momento de sua percepção, receitas e, por conseqüência, submetemse à tributação pelo PIS/Pasep nãocumulativo. Também não se diga que tais verbas poderiam ser, por analogia, equiparadas às reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, estabelecidas no art. 1º, § 3º, V, “b”, porquanto, tratandose as exclusões de exceção à norma geral de tributação, segundo as regras hermenêuticas, devem ser interpretadas restritivamente. 1 Organização internacional sem fins lucrativos responsável pela formulação e validação de pronunciamentos internacionais na área de contabilidade. Consulta em http://pt. wikipedia.org, dia 06/03/2015. 2 Descrição dos conceitos básicos que devem ser respeitados na preparação e apresentação das demonstrações financeiras internacionais. Fl. 13483DF CARF MF 24 Em síntese, os valores recebidos do exterior não se caracterizam como exportação de serviços, mas sim como reembolsos de custos e, nesta condição, sofrem a incidência das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins. Outrossim, não procede o argumento de ausência de manifestação, na decisão recorrida, sobre operações específicas que realçariam a ocorrência de prestação de serviços, mais especificamente as reformas e reparos nas embarcações “Noble Therald Martin” e “Noble Leo Segerius”, senão vejamos o seguinte excerto da decisão reclamada: “A impugnante cita dois projetos para demonstrar que não há relação entre os serviços prestados a empresas do Grupo Noble (reformas e reparo de naviossondas) em território brasileiro e aqueles prestados no âmbito dos contratos com a Petrobrás., são aqueles listados à fl. 12.953 na plataforma ‘Noble Theraldi Martin’ e ‘Noble Leo Sugerius’. Cita notas fiscais e ordens de serviços, referentes a tais projetos, que teriam sido ignoradas pela Fiscalização. No entanto, os projetos e respectivas ordens de serviços não foram ignoradas como se observa á fl. 12.663. A Fiscalização argumentou que as ordens de serviços apresentadas são genéricas, apresentando texto único sem qualquer especificação. O impugnante alega simplesmente que o texto único decorre do fato de ser os serviços semelhantes. Entretanto, sem especificar justamente as diferenças que permitiriam a Fiscalização constatar que serviço fora realmente prestado tornam as ordens de serviço mencionadas inúteis para o fim de prova.” Portanto, não há omissão alguma que conspurque as conclusões do julgado a quo e da própria fiscalização. Atinente ao preenchimento dos requisitos para fruição da vindicada isenção, como apresentado na seqüência do recurso voluntário apresentado, já se esclareceu que os valores percebidos não se configuram como exportação de serviços a garantir a não incidência pretendida, ante a inexistência de documentação hábil que individualize os serviços prestados, desiderato não alcançado pelas notas fiscais e ordens de serviço apresentadas, ante sua generalidade e a abrangência de seus termos, como exposto. Quanto à utilização inadequada de presunções legais, fundada na percepção da fiscalização acerca dos contratos firmados entre a recorrente e sua coligada estrangeira (para a suposta prestação de serviços de gestão e intermediação de manutenção das embarcações afretadas), entre a coligada estrangeira e a PETROBRÁS (para fretamento de embarcações) e entre a recorrente e a PETROBRÁS (perfuração, avaliação, completação e “workover”), bem assim, sobre a própria existência de uma simulação visando a redução tributária, corporificada na bipartição dos contratos firmados com a PETROBRÁS, tenho entendimento distinto àqueles apresentados pela fiscalização e pelos julgadores de piso. Com efeito, entendo despiciente discutir a validade dos contratos firmados, inclusive a cisão dos serviços de fretamento e de perfuração, avaliação, completação e “workover” celebrados, mormente porque, segundo a recorrente, esse modelo contratual foi desenvolvido pela contratante e constante de seus editais, sendo condição necessária à celebração do acordo com os vencedores. Fl. 13484DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 22 25 A discussão da natureza dos valores percebidos, para fins de incidência das contribuições lançadas, passo ao largo do reconhecimento da validade dos contratos ou a sua descaracterização, mas sim pelas disposições dos arts. 109 e 118, II do Código Tributário Nacional, como, aliás, salientou o próprio relatório fiscal. Prevêem tais dispositivos que os princípios gerais de direito privado utilizam se para pesquisa da definição, do conteúdo e do alcance de seus institutos, conceitos e formas, mas não para definição dos respectivos efeitos tributários, do mesmo modo que, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindose os efeitos dos fatos efetivamente ocorridos. Assim, ainda que o contrato firmado entre a recorrente e sua coligada estrangeira, que interessa no presente julgado, tenha por objeto a “prestação de serviços”, somente receberá este tratamento tributário se confirmado que as atividades praticadas assim se caracterizam, de outro modo, como no caso vertente, se ficar demonstrado que os valores percebidos não se correlacionam com estas atividades, mas se apresentam como repasses financeiros para cobertura de custos arcados no país, devem receber o tratamento tributário designado a essa figura jurídica, sem necessidade de questionar a validade do contrato, mas apenas desconsiderar os seus efeitos jurídicos na seara tributária. Notese, desconsiderar os efeitos jurídicos em hipótese alguma significa desconsiderar os atos ou negócios jurídicos, porquanto são institutos distintos, eis que a desconsideração dos atos ou negócios equivale a declarálo inválido perante a ordem jurídica, não espraiando daí qualquer efeito, enquanto a desconsideração dos efeitos, preserva o ato ou negócio, mas não lhe reconhece todos os efeitos jurídicos almejados, neste caso específico, os efeitos tributários. Exemplo da diferenciação apresentada encontrase no próprio codex, art. 123, ao dispor que, ressalvada disposições legal, os ajustes particulares relativos à responsabilidade pelo pagamento de tributos não podem ser opostos à Fazenda Nacional, de modo que o sujeito passivo, não pode opor ausência de responsabilidade perante o Fisco fundado em convenção particular, porém, poderá exigir o direito de regresso, lastreado nesse mesmo contrato, perante a esfera civil. Ou seja, a convenção não espraia efeitos tributários, mas pode deflagrar todos os demais efeitos jurídicos nos demais ramos do direito, inclusive o civil e penal. Por essa razão, a desconsideração dos efeitos do contrato na seara tributária, não exige o procedimento referido no art. 116, parágrafo único, do CTN, ainda carente de regulamentação, constituindo norma de eficácia limitada. Após a exposição supra, reafirmo que não se discutirá a validade dos contratos citados, mas apenas os seus reflexos no âmbito tributário, como vem sendo feito. Em face desse posicionamento, fica prejudicado o enfrentamento dos argumentos atinentes aos aspectos contratuais, a pretensa utilização inadequada de presunções fiscais, a separação dos contratos e a independência das pessoas jurídicas do mesmo grupo empresarial. Quanto aos critérios contábeis adotados e a sistemática de segregação de custos, ainda que insista o recorrente na correção de sua escrituração contábil, fiscal e de custos, a fiscalização demonstrou que a forma de registro dos lançamentos contábeis, com a Fl. 13485DF CARF MF 26 consolidação de várias documentos fiscais, impede que se reconheça a adequada vinculação entre as despesas e custos no mercado interno e externo, para fins de apuração do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, uma vez que os valores atribuídos aos centros de custos são alimentados a partir desses lançamentos consolidados. Assim, considerando que os arquivos digitais não foram integralmente apresentados, como relatado pela fiscalização, não foi possível recompor a base de cálculo das contribuições não cumulativas. Relativamente às inconsistências dos arquivos digitais e consequente aplicação da multa prevista nos arts. 11 e 12 da Lei nº 8.212/91, por inobservância da IN SRF 86/2001, argumentou o contribuinte ofensa aos princípios constitucionais do não confisco, da proporcionalidade e da razoabilidade; ofensa ao art. 106, II, “c” do CTN; e que, a multa infligida deveria ser proporcional aos arquivos não apresentados. Relativamente à ofensa a princípios constitucionais, faço remissão ao art. 26 A do Decreto nº 70.235/72 e art. 62 do RICARF/15 (Portaria MF 343/15), que vedam o afastamento de disposição legal sob fundamento de inconstitucionalidade, com as ressalvas textualmente descritas, nenhuma delas aplicável ao processo. Não bastasse, dispõe a súmula CARF nº 2, de natureza impositiva neste sodalício, que o órgão não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. No tocante à aplicação do instituto da "retroatividade benigna", insculpida no art. 106, II, "c" do CTN, entendo que não assiste razão ao contribuinte. Estabelece o art. 11 da Lei nº 8.218/91 que as pessoas jurídicas que utilizarem sistemas de processamento eletrônico de dados para registrar negócios e atividades econômicas ou financeiras, escriturar livros ou elaborar documentos de natureza contábil ou fiscal, ficam obrigadas a manter, à disposição da Secretaria da Receita Federal, os respectivos arquivos digitais e sistemas, pelo prazo decadencial previsto na legislação tributária, cabendo àquele órgão expedir os atos necessários para o estabelecimento da forma e prazo em que aludidos arquivos digitais e sistemas deverão ser apresentados. A IN SRF 86/2001 normatizou a matéria, definindo o prazo de apresentação em 20 (vinte) dias e delegou competência ao CoordenadorGeral de Fiscalização, mediante Ato Declaratório Executivo (ADE), para estabelecer a forma de apresentação, documentação de acompanhamento e especificações técnicas dos arquivos digitais e sistemas. A alegação do contribuinte que a aplicação do art. 106, II, "c" do CTN se respaldaria na unificação dos sistemas de escrituração digital, a partir da implementação do Sistema Público de Escrituração Digital SPED, pelo Decreto nº 6.022/2007, com normatização pela IN RFB 787/2007, que trouxe previsão de uma multa fixa por mês calendário de atraso na entrega dos arquivos, não se sustenta pelas razões que passo a expor. O Sistema Público de Escrituração Digital SPED não substitui e tampouco dispensa a manutenção dos arquivos digitais e sistemas a que alude a IN SRF 86/2001, haja vista que os arquivos a que se referem as legislações são diversos, eis que, enquanto o SPED abarca apenas a versão digital dos Livros Diário e Razão, juntamente com seus auxiliares, e os balancetes diários, balanços e fichas de lançamento, a teor do art. 2º da IN RFB 787/2007, os arquivos da IN SRF 86/2001 são mais abrangentes, englobando, por exemplo, os Livros Fl. 13486DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 23 27 Registro de Entrada e Saída, arquivos de fornecedores/clientes e arquivos de importação, dentre outros. Portanto, não houve revogação tácita da IN SRF 86/2001 pela IN RFB 787/2007. Mesmo porque, as bases legais de aplicação das multas são distintas, encontrando a multa do SPED fundamento no art. 16 da Lei nº 9.779/99 c/c art. 57 da MP 2.15835/2001, enquanto a multa pela falta de entrega dos arquivos digitais do art. 11 da Lei nº 8.218/91 se ampara no art. 12 do mesmo diploma. Tanto assim que a penalidade prevista na IN RFB 787/2007, defendida pelo recorrente como aplicável ao caso dos autos, dirigese somente àquele que transmite o SPED à RFB fora do prazo estabelecido, enquanto a multa exigida pela fiscalização é devida por aquele que, obrigado a manter os arquivos digitais à disposição da Secretaria da Receita Federal do Brasil, não os apresenta na forma e nos prazos previstos na IN SRF 86/2001. Notese, o SPED tem época definida para sua apresentação automática, independentemente de exigência, sendo sua transmissão anual até o último dia útil do mês de maio do ano seguinte ao anocalendário a que se refira a escrituração, enquanto os arquivos da IN SRF 86/2001 devem ser apresentados, quando exigidos, no prazo de 20 (vinte) dias. Assim, entendo que as obrigações acessórias são distintas e convivem harmonicamente, não se comunicando a ponto de permitir a aplicação da pretendida retroatividade benigna, até porque o art. 57 da MP 2.15835/2001, base legal da multa prevista na IN RFB 787/2007, não revogou expressa ou tacitamente as multas previstas no art. 12 da Lei nº 8.218/91. Portanto, correto o lançamento. Concernente ao pedido subsidiário, aplicação proporcional da multa aos arquivos faltantes, não existe previsão legal para sua concessão, ao passo que a fiscalização registrou, e o próprio contribuinte reconhece que nem todos os arquivos digitais foram apresentados, de modo que, nos termos do art. 12, III da Lei nº 8.218/91, equivale a multa a dois centésimos por cento por dia de atraso, calculada sobre a receita bruta da pessoa jurídica no período, limitado a um por cento. No caso vertente, foi aplicado o limite máximo de um por cento sobre a receita bruta, não havendo espaço para, às margens da lei, calcular a multa proporcionalmente, com a adoção de uma fórmula aleatória, como sugere o recorrente. Respeitante à multa qualificada, o argumento da fiscalização para sua exacerbação residiu na forma como os contratos foram firmados com a PETROBRAS, onde o afretamento das embarcações, necessárias aos serviços contratados (perfuração, completação, workover, etc.), correspondia a 90% dos valores devidos, em benefício da empresa estrangeira, pertencente ao mesmo grupo econômico que o autuado, enquanto à prestação dos serviços efetivamente contratados pela PETROBRÁS atribuiuse o percentual de 10% (dez por cento), devido à recorrente, executora do contrato, que, por sua vez, para cobrir os custos de operação, teria simulado um contrato de “prestação de serviços” com aqueloutra, coligada estrangeira, e aproveitado indevidamente da não incidência reservada à exportação de serviços ao exterior, o que se emoldura às condutas descritas nos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64. Fl. 13487DF CARF MF 28 Alertou, ainda, que, em 2005, o contribuinte havia modificado a forma de contabilização dos valores percebidos da coligada estrangeira, que, até então, eram tratados como reembolso de despesas/recuperação de custos, passando a classificálos como receita da prestação de serviços. Em seu favor, o recorrente sustentou que nunca pretendeu se eximir do pagamento dos tributos devidos; que alterou a sua contabilidade em função de entendimento da fiscalização, em procedimento fiscal (PA 15521.000124/200504), onde se fixou que aludidas verbas deveriam ser tratadas como exportação de serviços; quanto à bipartição dos contratos, que é o padrão da indústria de petróleo no Brasil, de modo que não haveria qualquer fraude ou conluio nesses ajustes; que todas as operações foram devidamente registradas, não existindo qualquer ardil ou artifício tendente a ludibriar o Fisco; que a situação atrairia as disposições do art. 112 do Código Tributário Nacional; e, por fim, discorreu sobre a lisura dos contratos firmados. A decisão de primeiro grau reconheceu que a conduta de classificar as verbas percebidas como prestação de serviços e tratálos como exportação, com indevido usufruto de isenção, por si só, não poderia ser enquadrado como sonegação ou fraude, até porque o procedimento fiscal realizado no âmbito do PA 15521.000124/200504, de fato, sinalizou que as verbas recebidas do exterior corresponderiam a receita de prestação de serviços, ainda que essa manifestação não possuísse efeito vinculante algum. Contudo, o colegiado a quo vislumbrou sonegação na formulação dos contratos de “prestação de serviços” firmados com a empresa coligada localizada no exterior, ao passo que, entre 2007 e 2010, sem que houvesse qualquer alteração nas atividades entre ambas, houve a celebração de um novo contrato com sutil alteração de seu objeto visando, na ótica dos julgadores de piso, acobertar esse reembolso de despesa como receita de exportação de serviços, uma vez que o recorrente não apresentou uma explicação plausível para essa modificação. Examinando as alegações da acusação fiscal, do recorrente e do colegiado de primeiro grau, verifico que a “sonegação/fraude” se assentaria no modelo contratual empregado, tanto entre o Grupo Noble e a PETROBRÁS, quanto entre as integrantes do Grupo Noble, recorrente e coligada estrangeira. Ocorre que, como dito alhures, a discussão acerca da validade ou lisura dos contratos não é necessária à avaliação dos seus efeitos tributários, haja vista que o objeto de estudo é a real natureza dos fatos ensejadores da incidência tributária. Nesses autos, o exame desses fatos revelou que as operações realizadas entre o recorrente e sua coligada não se subsumiam à prestação de serviços, pouco importado que assim dispusesse o ajuste firmado entre as partes, mas sim à percepção de verbas como reembolso de custos. Nessa toada, inexistente a “exportação de serviços”, prejudicada a isenção e cabível o lançamento dos valores devidos a título de PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, como assentado ao longo desse modo. Considerando que todos esses elementos, quando exigidos, foram apresentados às autoridades fiscais; que a empresa já foi alvo de procedimentos fiscais, anteriores e posteriores, cuja principal verificação recai sobre fatos jurídicos análogos àqueles abordados neste processo; considerando que os efeitos tributários dos fatos são analisados a partir de sua real natureza, pouco importando o “rótulo jurídico” atribuído pelo sujeito passivo, não vislumbro quaisquer das figuras dos arts. 71 a 73 da Lei nº 4.502/64 a justificar a qualificação da multa. Fl. 13488DF CARF MF Processo nº 19395.720024/201262 Acórdão n.º 3401003.990 S3C4T1 Fl. 24 29 Não se pode olvidar que a qualificação inicial dos valores recebidos do exterior como receita de prestação de serviços partiu de servidores fiscais da própria RFB, que em fiscalização anterior, PA 15521.000124/200504, assim concluíram e, ainda que não ostente caráter vinculante, militam em favor do recorrente, como precedente, de modo que a multa deve ser reduzida ao seu patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Nessa esteira, retomando a questão da decadência, afastada a hipótese de dolo, simulação ou fraude, o prazo extintivo para exercício do direito de lançar deve ser contado na forma do art. 150, § 4º do CTN, e não do art. 173 do mesmo diploma. Assim, existentes pagamentos por retenção na fonte, como destaca o demonstrativo de fl. 12.705, e tendo em conta a ciência da autuação ocorrida em 15/02/2012, por via postal (fl. 12.727), o período de apuração janeiro/2002 foi alcançado pela decadência, conforme entendimento sedimentado no REsp nº 973.733/SC. Por derradeiro, quanto à falta de aproveitamento dos saldos anteriores registrados em DACON, a que o contribuinte faria jus, na apuração das contribuições não cumulativas, destaca a decisão recorrida que referidos saldos credores estão sendo tratados nos PAs 10725.720057/200791 e 10725.720059/200781, que examinaram pedidos de ressarcimento e declarações de compensação, verbis: "(...)Em conseqüência, considerase pertinente a glosa de créditos (ou de saldos de períodos anteriores) relacionados às receitas de exportação dos referidos serviços. Notando ainda que os saldos de créditos de períodos anteriores estão sendo analisados em processos de PER/DCOMP, já indeferidos pela Delegacia local, encontrandose nesta Turma de Julgamento para apreciação do recurso, assim, para evitar decisões contraditórias exclusivamente naqueles autos a questão deverá encontrar solução definitiva. 10725.720057/200791 e 10725.720059/2007 81." (destacado) Registro, por oportuno, que o recorrente não contesta a conclusão da DRJ sobre o tema, limitandose a repetir exatamente o que deduzido em impugnação. Desse modo, na mesma linha intelectiva que o colegiado a quo, não faz sentido reconhecer e atribuir o mesmo direito de crédito em duas situações diversas (apuração de saldo credor utilizado para ressarcimento/compensação e, simultaneamente, abatimento em lançamento), de modo que, empregados os saldos credores na apuração do ressarcimento, em processos específicos, o seu exame, tratamento e reconhecimento, em sendo o caso, deve se dar naqueles feitos, não influenciando de forma alguma o presente lançamento. Demais disso, distintamente do que afirma o recorrente, a fiscalização não tachou os créditos de "fictícios", mas sim as "receitas de exportação" lançadas em DACON, não submetidas à tributação pelo PIS/Pasep e Cofins por efeito de uma pretensa “isenção”, conforme Termo de Verificação Fiscal (fl. 12.700), pois, como demonstrado nestes autos, não correspondem os valores percebidos a qualquer receita de "exportação de serviços", mas de reembolso de despesas e que, nessa qualidade, devem sofrer a incidência das contribuições em comento, como exposto. Fl. 13489DF CARF MF 30 Assim, considerada a tributação dessas receitas nos anoscalendários 2005 e 2006, não haveria qualquer saldo credor passível de transmissão aos exercícios supervenientes, uma vez que, se tributadas corretamente aludidas verbas recebidas de coligadas localizadas no exterior, inexistiria saldos credores, mas sim saldos mensais a pagar, como atestou a fiscalização na seguinte passagem: Logo, não há que se falar na consideração de saldos credores de exercícios anteriores, seja pela sua inexistência pura e simples, seja por estarem sob exame em outros processos administrativos, como asseverado na decisão recorrida. Com estas considerações, voto por dar parcial provimento ao recurso voluntário interposto para declarar a decadência do período de apuração janeiro/2007 e reduzir o percentual da multa de ofício aplicada para o patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Robson José Bayerl Fl. 13490DF CARF MF
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Numero do processo: 15889.000060/2008-17
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1997 a 30/08/2007
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.919
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1997 a 30/08/2007 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 88 9. 00 00 60 /2 00 8- 17 Fl. 974DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 975DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 976DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 977DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 978DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 979DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 980DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 981DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 982DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 983DF CARF MF Processo nº 15889.000060/200817 Acórdão n.º 9202005.919 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 984DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10480.721555/2009-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
CONTRIBUIÇÃO PATRONAL. REMUNERAÇÃO DE SEGURADOS EMPREGADOS E CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS.
São devidas as contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados empregados e contribuintes individuais que prestam serviços à empresa.
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE EM SEDE RECURSAL (ART. 17 DO DECRETO N.º 70.235/72).
Nos termos do art. 17 do Decreto n.º 70.235/72 (PAF), consideram-se não impugnadas as questões não contestadas expressamente pelo impugnante.
PEDIDO DE PERÍCIA. DESNECESSIDADE.
Os pedidos de diligências e/ou perícias podem ser indeferidos pelo órgão julgador quando desnecessários para a solução da lide. Os documentos necessários para fazer prova em favor do contribuinte não são supridos mediante a realização de diligências/perícias, mormente quando o próprio contribuinte dispõe de meios próprios para providenciá-los.
ÔNUS DA PROVA. INSTRUÇÃO PROBATÓRIA.
O ônus da prova é uma conseqüência do ônus de afirmar e, portanto, cabe a quem alega. O recurso deverá ser instruído com os documentos que fundamentem as alegações do interessado. É, portanto, ônus do contribuinte a perfeita instrução probatória.
MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DO NÃO-CONFISCO. EXAME DE CONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (Súmula CARF nº 2).
MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL. RETROATIVIDADE BENIGNA. PORTARIA CONJUNTA PGFN/RFB Nº 14, DE 04/12/2009.
Aos processos de lançamento fiscal dos fatos geradores ocorridos antes da vigência da MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, e não declarados em GFIP, aplica-se a multa mais benéfica, obtida pela comparação do resultado entre a soma da multa vigente à época da ocorrência dos fatos geradores (obrigação principal) e da multa por falta de declaração em GFIP vigente à época da materialização da infração (obrigação acessória), com a multa de ofício (75%) prevista no artigo 35-A, da Lei nº 8.212/1991. Aplicação da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009.
Numero da decisão: 2202-004.301
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. No mérito, pelo voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso, para aplicar a multa mais benéfica, nos termos do art. 2º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009, vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Virgílio Cansino Gil, que deram provimento parcial ao recurso em maior extensão, para reduzir a multa para 0,33% por dia de atraso, limitada a 20% (art. 61 da Lei nº 9.430/96).
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 CONTRIBUIÇÃO PATRONAL. REMUNERAÇÃO DE SEGURADOS EMPREGADOS E CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. São devidas as contribuições previdenciárias incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados empregados e contribuintes individuais que prestam serviços à empresa. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE EM SEDE RECURSAL (ART. 17 DO DECRETO N.º 70.235/72). Nos termos do art. 17 do Decreto n.º 70.235/72 (PAF), consideramse não impugnadas as questões não contestadas expressamente pelo impugnante. PEDIDO DE PERÍCIA. DESNECESSIDADE. Os pedidos de diligências e/ou perícias podem ser indeferidos pelo órgão julgador quando desnecessários para a solução da lide. Os documentos necessários para fazer prova em favor do contribuinte não são supridos mediante a realização de diligências/perícias, mormente quando o próprio contribuinte dispõe de meios próprios para providenciálos. ÔNUS DA PROVA. INSTRUÇÃO PROBATÓRIA. O ônus da prova é uma conseqüência do ônus de afirmar e, portanto, cabe a quem alega. O recurso deverá ser instruído com os documentos que fundamentem as alegações do interessado. É, portanto, ônus do contribuinte a perfeita instrução probatória. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DO NÃOCONFISCO. EXAME DE CONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (Súmula CARF nº 2). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 15 55 /2 00 9- 33 Fl. 1432DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.433 2 MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL. RETROATIVIDADE BENIGNA. PORTARIA CONJUNTA PGFN/RFB Nº 14, DE 04/12/2009. Aos processos de lançamento fiscal dos fatos geradores ocorridos antes da vigência da MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, e não declarados em GFIP, aplicase a multa mais benéfica, obtida pela comparação do resultado entre a soma da multa vigente à época da ocorrência dos fatos geradores (obrigação principal) e da multa por falta de declaração em GFIP vigente à época da materialização da infração (obrigação acessória), com a multa de ofício (75%) prevista no artigo 35A, da Lei nº 8.212/1991. Aplicação da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. No mérito, pelo voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso, para aplicar a multa mais benéfica, nos termos do art. 2º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009, vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Virgílio Cansino Gil, que deram provimento parcial ao recurso em maior extensão, para reduzir a multa para 0,33% por dia de atraso, limitada a 20% (art. 61 da Lei nº 9.430/96). (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Virgílio Cansino Gil, Rosy Adriane da Silva Dias, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto. Relatório Reproduzo o relatório da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Recife (PE), que bem descreveu os fatos ocorridos até a decisão de primeira instância. Cuidase do AI 37.210.4789, envolvendo contribuições sociais patronais, incidentes sobre remunerações creditadas a segurados empregados e contribuintes individuais, no período de 01/2004 a 12/2004, não declaradas em GFIP, relativas ao estabelecimento matriz e à filial /00022, da empresa supracitada, totalizando, na ocasião de sua consolidação, o Fl. 1433DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.434 3 montante de R$1.539.483,00 (um milhão, quinhentos e trinta e nove mil, quatrocentos e oitenta e três reais). Consoante relatório fiscal, os valores que serviram de base de cálculo foram obtidos da contabilidade (contas contábeis especificadas nos anexos III e IV do citado relatório), dado que as folhas de pagamento apresentadas não contemplavam os contribuintes individuais, tampouco os valores relativos às rescisões de contrato individual de trabalho, bem como não continham a integralidade dos valores contabilizados a título de comissões, férias, gratificações. Também havia divergências entre as folhas em formato digital e em meio papel. A autoridade lançadora salienta, ainda, que considerou como integrante do saláriodecontribuição tanto a ajuda de custo, porque paga continuamente, quanto a totalidade dos valores escriturados na conta rescisão, dado que a empresa, segunda informa, não exibiu a integralidade dos Termos de Rescisões de Contratos de Trabalho TRCT e, quando o fez, havia vários sem assinatura dos trabalhadores. Fez, também, incluir, em seu lançamento, diferenças de contribuições sociais pertinentes ao 13º salário de 2004 (levantamento DET), cujas bases de cálculo foram detalhadas no anexo V do mesmo relatório, bem como de acréscimos moratórios em guias recolhidas pela empresa com atraso (levantamento DAL). Cientificada, pessoalmente, em 14/05/2009, a empresa manejou impugnação, em 15/06/2009, ocasião em que requer a total improcedência do lançamento, argüindo, em síntese: I – perda do direito de o fisco constituir o crédito em tela, relativamente ao período anterior a 06/2004; II – erros de base de cálculo – acusa haver, por lapso, inserido despesas em rubricas indevidas, induzindo o Fisco ao erro, dado que: (a) incluiu na conta “despesa de salários e ordenados” (420101001) valores pagos a título de frete, consoante planilha integrante de sua defesa, que, segundo informa, foram auferidos por transportadores autônomos pessoas físicas, a quem chama de “agregado”. Faz juntar cópias de recibos de pagamentos a autônomo – RPA a este título, bem como planilha e razão analítico, requerendo, em conseqüência, o correspondente ajuste na base de cálculo, nos moldes do art. 201, do RPS. (b) erroneamente, escriturou premiações de incentivo na rubrica de comissões. Diz que as mesmas se referem à política constante do Programa Motivacional e Plano Estratégico de Metas e Premiações (juntado às fls. 880/907), tendo caráter esporádico, pagas em quadrimestres/semestres do exercício de 2004, tratandose de ganhos eventuais, não se enquadrando, assim, no campo de incidência da contribuição previdenciária. Faz juntar recibos de pagamentos de referidas premiações. Aduz, ainda, Fl. 1434DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.435 4 que referido plano configura mera liberalidade e o não atingir das metas não autoriza a inclusão dos colaboradores sequer na proporcionalidade nele prevista; as metas e os resultados podem ser alterados, afastando argumento de que são gratificações ajustadas. Requer, em conseqüência, sua exclusão das bases de cálculo, nos moldes da planilha integrante de sua defesa. (c) os valores contabilizados a título de ajuda de custo referem se a despesas com aluguel e combustível de empregados, sobre as quais não há incidência previdenciária, consoante documentos que fez juntar. De igual sorte, elabora planilha. (d) acusa a existência de lançamento, pelo Fisco, tanto em duplicidade, quanto sem registro contábil, em vários meses do período auditado, relativo às rubricas férias a pagar/pagas, tornando ilíquido o crédito. Confecciona planilha. (e) aponta erros do Fisco na transposição dos valores declarados em GFIP para o anexo III, agrupandoos em planilha constante de sua defesa. Fez juntar algumas guias. (f) requer ajuste da base de cálculo contida no anexo IV, com fulcro no art. 201, do RPS, argumentando não haver o Fisco considerado, na confecção do citado anexo, a inclusão de ajudantes e auxiliares de condutores autônomos de veículo rodoviário, conforme planilha de sua defesa, onde assinala, ainda, erros de soma e inclusão de valores inexistentes na contabilidade. III – acusação de que a autoridade fiscal deixou de indicar elementos indispensáveis à validade do AI. IV anui com as divergências entre folhas de pagamento no formato digital e em meio papel, confessando tratarse de falhas técnicas na migração de dados. V – ilegalidade dos juros SELIC. Requer, também, perícia, formulando quesitos e comprometese a efetuar correções em GFIP. O feito foi convertido em diligência, oportunidade em que o fisco voltou a se pronunciar (fls. 1.116/31), esclarecendo que: I – em relação às remunerações, obtidas da conta contábil “salários e ordenados” (4.2.01.01.001), não há, na contabilidade, qualquer registro de que alguns dos valores nela lançados se referiam, efetivamente, a pagamento de frete ou a quaisquer dos recibos, a este título, apresentados pela empresa tanto na impugnação, quanto na diligência. Os históricos da referida conta fazem expressa menção a “pagto. N/data. Salário” ou “pela F.P. mês”. Ressalta, ainda, que existe, no plano de contas da impugnante, conta própria para frete (4.2.01.99.002). II – Os valores das contas contábeis 4.2.02.01.001 (comissões), 4.2.04.01.002 (premiações) e 4.2.01.01.002 (gratificações e Fl. 1435DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.436 5 prêmios) são remuneratórios, dado que não restou demonstrado pela empresa tratarem, efetivamente, de prêmio por incentivo, porque, apesar de dispor de plano de metas: a) não disponibilizou à fiscalização as avaliações nele previstas para fins de concessão de premiação; b) os valores foram pagos de janeiro a dezembro de 2004 e não semestral ou quadrimestralmente, como previsto no citado plano; c) os recibos colacionados pela impugnante, à sua defesa, como pagamento de prêmios, além de não se encontrarem contabilizados, contemplam trabalhadores que não constam como empregados da impugnante, consoante planilha de fl. 1120. III – No tocante à ajuda de custo, a argüição de que se trata de despesas com aluguel e combustível, pagas para o trabalho dos empregados, não restou demonstrada, dado que: a) os valores dos recibos colacionados na defesa não se encontram contabilizados na conta ajuda de custos, utilizada como base para o lançamento; b) os imóveis locados são no mesmo município da matriz (Olinda) e a atividade da empresa, como distribuidora de bebidas, não exige deslocamentos de empregados para a realização de trabalho à distância; d) os documentos de combustíveis não identificam as placas dos respectivos veículos, os nomes completos dos beneficiários e se restringem a recibos, sem quaisquer notas fiscais que os lastreiem. IV – No que se refere aos lançamentos de férias, o fisco identificou os seguintes equívocos: a) os valores de férias da matriz foram lançados na filial /0002 02 e viceversa. Visto que o crédito foi constituído no mesmo AI e, uma vez cientificada a empresa, da situação em tela, não houve qualquer prejuízo à sua defesa, mantendose os valores com a ressalva supracitada; b) erro na competência 05/2004, com lançamento a maior, motivando assim a retificação da base de cálculo. V Quanto às GFIP, o fisco ressalta que deduziu os valores declarados pela empresa nas mesmas, antes do início da ação fiscal, em que pese o erro na versão utilizada pela impugnante. VI – Em relação aos valores lançados como remuneração de autônomos, o fisco diz que: a) os ajudantes ou chapinhas não foram contemplados com a redução da base de cálculo, dada a ausência de comprovação Fl. 1436DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.437 6 pela empresa de que se tratava, de fato, de auxiliares de transportadores autônomos. b) equívoco no tocante aos despachantes, na competência 04/2004, devendo ser deduzido, da base de cálculo, o montante de R$ 460,00; c) lançamento a menor das remunerações de autônomos (médicos) nas competências 05/2004 a 07/2004, com impossibilidade de majoração do lançamento realizado; d) na coluna “outros serviços” da tabela IV, nas competências 10/2004 e 12/2004, os lançamentos respectivos encontramse detalhados a fl. 1128 dos autos, não assistindo razão à defendente de que os mesmos não existem. Cientificada da resposta fiscal, em 18/08/2011 (Aviso Recebimento, fl. 1.279), a empresa aditou, em 01/09/2011(fls. 1291/9), sua impugnação inicial, reiterando seus argumentos e acrescendo: I – em relação aos pagamentos que diz terem sido feito a fretistas e indevidamente incluídos na conta salários: a) a conta contábil 4.2.01.99.002, basicamente, não teve movimentos “por ser exclusiva para fretes pelas saídas contratadas de pessoas jurídicas”; b) os RPA colacionados à defesa são documentos probatórios válidos, sendo ilegal a exigência de outros documentos, já prescritos, até porque não houve determinação de sua guarda; c) a empresa mantinha contrato com apenas 3 transportadores, para “frete pelas entradas ou “frete puxada”, i.e, para retirada do produto da fábrica e entrega nos estabelecimentos da autuada, conforme obrigação contratual da impugnante com a Schincariol, para armazenamento e, posterior, distribuição no varejo, não representando a distância entre matriz e filial qualquer empecilho ao serviços nos moldes citados. Mencionados serviços eram realizados pelos fretistas e auxiliares. II – no tocante à ajuda de custo, compreende aluguéis pagos, como reembolso, a seus funcionários, que são os locatários, motivo pelo qual não figura a empresa nos contratos de locação respectivos e somente exigia de seus obreiros os respectivos recibos, não se podendo requestar novos documentos comprobatórios na diligência fiscal. III – no que se refere às GFIP, diz que o fisco traz, como justificativa, fato novo para a manutenção do lançamento, qual seja: uso pela impugnante de tabela errada na confecção das guias. Alega ocorrência de preclusão para referida justificativa e que a fiscalização deveria terlhe conferido prazo para corrigir a falta, ainda no curso da ação fiscal. Eis, em resumo, o que importa relatar. Fl. 1437DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.438 7 A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Recife (PE) DRJ/REC julgou procedente em parte a impugnação, cuja decisão foi assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 DESPESAS PESSOAIS. ASSUNÇÃO PELA EMPRESA. INCIDÊNCIA. A assunção pela empresa das despesas pessoais dos segurados, como combustível de veículos e aluguel de imóveis, sem que reste comprovada pelos respectivos beneficiários a sua necessária utilização para o desempenho das atividades contratadas com a empresa, não configura reembolso, mas ganho do trabalhador que, pago com habitualidade, atrai a incidência das contribuições sociais correspondentes. BASE DE CÁLCULO. ERRO. RETIFICAÇÃO. A identificação de eventual majoração indevida de base de cálculo,na ocasião do lançamento, manifestamente comprovada, enseja a retificação do crédito constituído. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004 LANÇAMENTO. PRAZO. DECADÊNCIA. As contribuições sociais obedecem ao mesmo prazo qüinqüenal, aplicável aos tributos em geral, no concernente à constituição do respectivo crédito pelo sujeito ativo, que, uma vez não observado, enseja a retificação do lançamento. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte A decisão da DRJ foi no seguinte sentido: Acordam os membros da 7ª Turma de Julgamento, por unanimidade de votos, julgar procedente em parte a impugnação e retificar o lançamento, tendo em conta: Fl. 1438DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.439 8 a) a caducidade do direito de a Fazenda Pública constituir o presente crédito em relação às competências 01/2004 a 04/2004, motivo por que devem ser excluídas do feito; b) o acolhimento da insatisfação do impugnante, em relação à indevida majoração da base de cálculo da competência 05/2004, levantamento SAC – Salário de Contribuição Diferença Apurada (fl. 15), nos seguintes moldes: Base de Cálculo Lançada Base de Cálculo Retificada Valor a deduzir da Base de Cálculo 83.997,69 47.720,00 36.277,69 Conforme despacho de fl. 1431, a DRF considerou como data da ciência a data de interposição do Recurso Voluntário, pois o Aviso de Recebimento (AR) não retornou. O Contribuinte apresentou em 10/03/2014 o Recurso Voluntário de fls. 1389/1429, no qual combate a decisão de primeira instância, reiterando os argumentos da impugnação e requerendo o seguinte: reconhecimento da ilegalidade da aferição indireta, bem como a não incidência das contribuições sociais das bases de cálculo; a aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos do art. 106, II, c, do CTN; a produção de prova pericial a fim de demonstrar o efetivo recolhimento das contribuições previdenciárias. Faz indicação de assistente técnico. É o relatório. Voto Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator. Tratase de exigência fiscal referente a contribuições sociais previdenciárias, no período de 01/2004 a 12/2004, relativas ao estabelecimento matriz e à filial /000202. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. DO PEDIDO DE PERÍCIA No meu entendimento, não cabe a realização de perícia no caso em comento. Fl. 1439DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.440 9 É regra geral no Direito que o ônus da prova é uma conseqüência do ônus de afirmar e, portanto, cabe a quem alega. O artigo 373 do Código de Processo Civil (CPC) art. 333 do antigo CPC estabelece as regras gerais relativas ao ônus da prova, partindo da premissa básica de que cabe a quem alega provar a veracidade do fato. Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. § 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. Embora a Contribuinte afirme que é necessária uma perícia para que se comprove a veracidade das informações prestadas, não podemos deixar de considerar que a responsabilidade pela apresentação das provas compete à Recorrente, não cabendo a determinação de diligencias e perícias para a busca de provas. O artigo 18 do Decreto nº 70.235/72, com redação dada pelo art. 10 da Lei nº 8.748/93, dispõe: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante a realização de perícias ou diligencias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observado o disposto no artigo 28, in fine. Consoante se depreende da leitura do dispositivo acima, a autoridade julgadora poderá indeferir o pedido de perícia, quando considerála prescindível ou impraticável, o que é o caso. As diligências e/ou perícias não podem ser utilizadas para reabrir, por via indireta, a ação fiscal, pois se destinam a subsidiar a formação da convicção do julgador. Desse modo, indefiro o pedido de perícia formulado. DA DECADÊNCIA A DRJ acolheu a preliminar de decadência em relação às competências 01/2004 a 04/2004, uma vez que a ciência do lançamento se deu em 14/05/2009, considerando o prazo decadencial previsto no art. 150, § 4º, CTN. A Contribuinte requer a nulidade do lançamento das competências 05/2004 a 07/2004, referente aos serviços médicos prestados, alegando que o Fisco reconheceu o equívoco no lançamento. No entanto, confundese a Contribuinte em relação ao lançamento efetuado referente aos serviços médicos prestados, pois, conforme bem exposto pela decisão de primeira instância, foi efetuado um lançamento a menor, reconhecido posteriormente pelo Fisco, o qual Fl. 1440DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.441 10 está impossibilitado de constituir um novo crédito em virtude do prazo decadencial. É o que se depreende do seguinte excerto do voto condutor da DRJ: b) nas competências 05/2004 a 07/2004, em que a empresa acusa lançamento a menor, em relação aos médicos que lhe prestaram serviços, o fisco reconheceu o equívoco. Porém, dada a proibição processual de reformatio in pejus, bem como a impossibilidade atual da constituição de novo crédito envolvendo as referidas competências, em virtude do prazo já transcorrido desde a ocorrência dos citados fatos geradores, a informação em nada afeta o presente lançamento; [...] Desse modo, não tem razão a Contribuinte nesse ponto. DAS BASES DE CÁLCULO Inicialmente, cabe analisar os argumentos da Contribuinte em relação ao método utilizado pela Fiscalização para obter as bases de cálculo. Aduz a Contribuinte que a autoridade fiscal utilizou aferição indireta, o que é ilegal, uma vez que possui escrituração fiscal discriminada de todos os recolhimentos de contribuições previdenciárias. No entanto, contrariamente ao que afirma a Recorrente, a auditoria fiscal foi realizada com base nos livros contábeis apresentados pela empresa, utilizando os dados validados no sistema SINCO, assim como os Livros Diário e Razão em meio papel, conforme Relatório Fiscal (fls. 121/128). Assim, não tem razão a Recorrente quanto à legalidade do método utilizado pela Fiscalização. a) Dos salários e ordenados Alega a Recorrente que a Fiscalização desconsiderou todos os RPAs apresentados, cerceando seu direito de defesa. Afirma que tal divergência será melhor analisada ao ser realizada perícia. Não há como acolher as pretensões da Contribuinte, pois em diligência a Fiscalização verificou que nenhum dos recibos apresentados foram individualizados na conta contábil, bem como não existe nenhuma referência a esses pagamentos nos históricos dos lançamentos contábeis. Também não constam retificações ou ajustes visando corrigir eventuais erros de lançamento na contabilidade no ano de 2004. Conforme explicou a DRJ, não se está recusando a validade dos RPAs, mas tão somente atestando que não há provas de que eles tenham sido contabilizados na conta contábil relativa a salários e ordenados. b) Das comissões A Contribuinte defende que remunerou seus empregados a título de produtividade, mediante premiação e incentivo, vinculados ao desempenho individual, setorial e da empresa, observados apenas quadrimestres e semestres, contabilizando os pagamentos na Fl. 1441DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.442 11 rubrica "Despesa Pessoal Comissões" e não tendo incluído em folhas de pagamento nem informado na Guia de Recolhimento do FGTS, por não se enquadrar no campo de incidência das contribuições previdenciárias. Não tem razão a Contribuinte, uma vez que suas alegações são desprovidas de provas. Em nenhum momento ela comprovou as mencionadas avaliações dos beneficiários, apesar de intimada pelo Fisco a fazêlo. A Fiscalização afirma que os valores informados nos recibos não foram contabilizados e a empresa não havia contestado esse fato, assim como ressalta que os valores obtidos pelo Fisco na contabilidade, a título de comissões, foram registrados durante todo o ano de 2004, tanto para a matriz como para a filial, e não apenas por quadrimestre ou semestre. Informa, ainda, que os recibos apresentados estão eivados de erros (fls. 1120/1121). É regra geral no Direito que o ônus da prova é uma conseqüência do ônus de afirmar e, portanto, cabe a quem alega. Nesse caso, o Recorrente apenas alegou e nada provou e, segundo brocardo jurídico por demais conhecido, "alegar e não provar é o mesmo que não alegar". Conforme já exposto, o artigo 373 do Código de Processo Civil (CPC) art. 333 do antigo CPC estabelece as regras gerais relativas ao ônus da prova, partindo da premissa básica de que cabe a quem alega provar a veracidade do fato. Dessa forma, não procedem as alegações da Recorrente nessa matéria. c) Da ajuda de custo Sustenta a Recorrente que se trata de verbas destinadas a cobrir despesas de transporte e instalação dos empregados, em localidade diferente da que residia, estando isenta das contribuições previdenciárias, em conformidade com o art. 28, § 9º, "m". da Lei nº 8.212/91. Defende, ainda, que a Fiscalização não pode se basear apenas na nomenclatura da verba, devendo perquirir a sua real destinação. Aqui mais uma vez a Contribuinte não logrou comprovar as suas alegações, não se desincumbindo do seu ônus probatório. Conforme destacou a Fiscalização (fls. 1121/1122), não restou demonstrado que os valores dos recibos apresentados foram realmente consignados na conta de ajuda de custo. A Contribuinte também não comprovou que tais pagamentos decorreram da mudança de local de trabalho, assim como não constam dos autos provas de que os beneficiários os utilizaram para desempenho de suas atividades na empresa, com a correspondente prestação de contas. Quanto aos aluguéis, a Fiscalização constatou que a atividade da empresa, distribuição de bebidas, não exige o deslocamento de empregados para a realização de trabalhos, bem como os locais locados são em Olinda, próximos à empresa. Em relação às despesas de combustível, informa que nos recibos apresentados não constam a placa do veículo (podendo ser veículos próprios) nem o nome completo, assim como todos eles vêm timbrados como "Não vale como recibo". Em ambos os casos existem recibos de não empregados. Portanto, o lançamento deve ser mantido nessa parte. Fl. 1442DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.443 12 d) Das férias A decisão da DRJ acolheu a retificação na base de cálculo da competência 05/2004, levantamento SAC Salário de Contribuição Diferença Apurada, conforme abaixo: Base de Cálculo Lançada Base de Cálculo Retificada Valor a deduzir da Base de Cálculo 83.997,69 47.720,00 36.277,69 A Contribuinte, em sua impugnação, afirma que o Auditor Fiscal assumiu o equívoco, retificando a dívida, lançada sob tais rubricas, motivo pelo qual a impugnante nada tem a acrescentar (fl. 1298). A DRJ assim se pronunciou sobre a matéria: No tocante ao lançamento de contribuições sociais sobre férias, o fisco esclareceu, no relatório de diligência, que os valores lançados na matriz se referem à filial /00022 e viceversa, fato que ensejou o argumento da empresa de ausência de registro contábil dos mesmos. Dado que o crédito em tela, relativo à matriz e à citada filial, foi constituído no mesmo AI, resulta sem efeito o citado argumento, porque devidamente esclarecida a questão e oportunizado o contraditório, sem que a impugnante voltasse a se pronunciar sobre o assunto. Quanto à argüição de majoração de lançamento, por duplicidade, a única competência em que o fisco identificou erro foi 05/2004. Cientifica da retificação proposta pelo fisco, a impugnante não mais se insurgiu sobre a matéria. Portanto, essa matéria encontrase preclusa, embora tenha a Recorrente se manifestado em seu Recurso Voluntário, alegando que a Fiscalização não segregou as verbas referentes ao terço constitucional de férias e aos abonos de férias, desrespeitando decisão judicial a respeito. Assim, essa matéria encontrase fora do litígio e não serão apreciadas as alegações da Contribuinte, visto que ela não a contestou expressamente no momento oportuno, ou seja, quando da apresentação da sua impugnação ao lançamento. O artigo 17 do Decreto 70.235/72 (PAF) dispõe: “Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)”. Nesse entendimento estão os seguintes julgados deste Conselho: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2006, 2007 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Fl. 1443DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.444 13 Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante, conforme artigo 17, do PAF (Acórdão 2801003.924, Data de Publicação: 27/01/2015, Rel. Marcio Henrique Sales Parada). PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. IMPOSSIBILIDADE DE ANÁLISE EM SEDE RECURSAL (ART. 17 DO DECRETO N.º 70.235/72). Nos termos do art. 17 do Decreto n.º 70.235/72, consideramse não impugnadas as questões não apontadas, expressamente, por ocasião da apresentação da impugnação. (Acórdão 2101 002.658, Data de Publicação: 15/12/2014, Rel. Alexandre Naoki Nishioka). Assunto: CSSL Exercício: 2003 MULTA ISOLADA. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. PRECLUSÃO. Considerase não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo sujeito passivo, constituindose definitivamente o crédito tributário a ela referente. (Acórdão 910100.540, Data de publicação: 29/06/2010, Rel. Leonardo de Andrade Couto). e) Das GFIPs Alega a Recorrente que existe uma série de erros no lançamento, o que o torna imprestável, retirandolhe os requisitos de liquidez e certeza necessários à sua convalidação. Afirma que foi demonstrado nas planilhas em anexo erro na transposição dos valores das GFIPs apresentadas, gerando débito a maior. Em relação ao alegados erros, cabe transcrever excerto do voto vencedor da decisão da DRJ , que bem esclarece o assunto, adotandoo como razões de decidir. A empresa argúi erro, no lançamento, na dedução de valores declarados em GFIP. O fisco, por sua vez, esclarece que deduziu, no presente lançamento, os valores constantes dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil (sistema CNIS – Cadastro Nacional de Informações Sociais – Resumo Mensal), consoante extratos às fls. 151/174 (anexo II, do relatório fiscal do lançamento), alimentados a partir das informações prestadas pela empresa nas GFIP. As divergências assinaladas pela impugnante, às fls. 767/8, referemse às competências 08/2004 a 12/2004 e decorreram, consoante diligência fiscal, da utilização equivocada pela empresa de versões não atualizadas, para o período da prestação das informações, do sistema SEFIP/GFIP. É que a empresa, nas referidas competências, continuou a usar a versão Fl. 1444DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.445 14 6.3 do programa, quando o correto seria a versão 6.4, consoante IN INSS/DC n.º 107/2004. Assim, o equívoco foi produzido pela própria impugnante, que, em conseqüência, assumiu o ônus da falha em questão, uma vez que a motivou. Destaquese que, se o fisco, no curso da ação que ensejou o presente lançamento, houvesse conferido prazo para a correção pela empresa das citadas GFIP, como contesta a defesa, mencionada atitude não teria surtido efeitos na constituição do presente crédito, dado que, após o início da ação fiscal, excluise a espontaneidade do sujeito passivo e quaisquer alterações procedidas nas citadas guias, depois do referido marco, não produzem efeitos no lançamento de ofício. Também, o fato de o fisco identificar as razões das divergência apontadas pela empresa, na ocasião da diligência, não retira a responsabilidade da impugnante pelo erro, nem enseja alterações no lançamento, dado que os valores deduzidos, por prévia declaração em GFIP, estão em consonância com aqueles constantes dos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil, consoante extratos às fls. 151/174, e a empresa, como frisado, é quem deu ensejo à falha. Não se trata de fato novo, mas apenas constatação do motivo das divergências argüidas pela empresa, que ela própria poderia ter identificado. Logo, incabível a argüição de preclusão. O compromisso da empresa, em corrigir as GFIP do período, é dever que se impõe dada a importância da fidelidade das informações de referidas guias para a concessão de benefícios aos segurados, não interferindo, entretanto, com o lançamento ora em discussão. Assim, permanecem incólumes as deduções levadas a cabo pelo fisco no processo em apreço, rejeitandose o queixume da impugnante neste ponto. Assim, não tem razão a Contribuinte nesse ponto. f) Dos contribuintes individuais Prolabore dos sócios: Alega a Recorrente que a autoridade fiscal acabou por violar a eficácia da decisão proferida na ADIN nº 1102, que declarou inconstitucionais as incidências sobre verbas pagas aos empresários e autônomos. Quanto a essa matéria, observase que ela se encontra fora do litígio e não serão apreciadas as alegações da Contribuinte, visto que não foi contestada expressamente no momento oportuno, ou seja, quando da apresentação da sua impugnação ao lançamento. Fl. 1445DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.446 15 Conforme já exposto acima, o artigo 17 do Decreto 70.235/72 (PAF) dispõe: “Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)”. Ajudantes: Defende a Recorrente que sem a relação de emprego não se configura constituição do salário ou remuneração para fins trabalhistas ou previdenciários, conforme art. 3º da CLT. No entanto, não tem razão a Contribuinte, uma vez que a legislação previdenciária é clara no sentido de que a base de cálculo das contribuições previdenciárias devidas pelas empresas alcança também os segurados não empregados que lhe prestem serviços. A Lei nº 8.212/91, em seu artigo 22, III, assim dispõe: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: [...] III vinte por cento sobre o total das remunerações pagas ou creditadas a qualquer título, no decorrer do mês, aos segurados contribuintes individuais que lhe prestem serviços (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999).; O Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 06/05/1999, disciplina: Art. 201. A contribuição a cargo da empresa, destinada à seguridade social, é de: [...] II vinte por cento sobre o total das remunerações ou retribuições pagas ou creditadas no decorrer do mês ao segurado contribuinte individual; (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) [...] § 8º A contribuição será sempre calculada na forma do inciso II do caput quando a remuneração ou retribuição for paga ou creditada a pessoa física, quando ausentes os requisitos que caracterizem o segurado como empregado, mesmo que não esteja inscrita no Regime Geral de Previdência Social. (Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) DA MULTA CONFISCATÓRIA Alega a Recorrente que a multa possui feição confiscatória, conforme já decidido pelo STF (RE 91.70/MG e RE 81.550/MG). Fl. 1446DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.447 16 A alegação da Recorrente de ofensa aos princípios constitucionais não será apreciada, pois o exame da obediência das leis tributárias a esses princípios é matéria que não deve ser abordada na esfera administrativa, conforme se infere da Súmula CARF nº 2, publicada no DOU, Seção 1, de 22/12/2009: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. DA APLICAÇÃO DAS MULTAS A Recorrente requer a aplicação da multa moratória limitada a 20% do valor do débito, em razão da superveniência da nova redação do art. 35 da Lei nº 8.212/91. A Medida Provisória nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, trouxe significativas alterações na sistemática das multas aplicáveis. Antes de sua entrada em vigor, o descumprimento das obrigações principais era penalizado da seguinte forma: As obrigações declaradas em GFIP, mas pagas em atraso, eram penalizadas com multa variável entre 8% a 20%, de acordo com o art. 35, I, da Lei nº 8.212/91 (redação anterior à MP nº 449/2008); As obrigações que não tinham sequer sido declaradas em GFIP, cujos lançamentos ocorreram pela autoridade fiscal, de ofício, eram sancionadas com a multa variável entre 24% a 100%, dependendo da fase processual do débito, nos termos do art. 35, II e III, da mesma Lei. Embora ambas as multas fossem denominadas de “multa de mora”, os percentuais diferenciavamse pela existência de uma declaração prévia do tributo ou pelo lançamento de ofício. A nova sistemática trazida pela MP nº 449/2008 estabeleceu uma distinção entre as multas, denominando de multa de mora aquela incidente sobre as obrigações declaradas em GFIP, porém pagas em atraso, e de multa de ofício aquelas referentes às obrigações lançadas de ofício pela autoridade fiscal. Assim, a multa pelo pagamento em atraso das obrigações já declaradas (anteriormente prevista no art. 35, I) passou a ser de 0,33% ao dia, limitada a 20%, nos termos do atual art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91, que faz remissão ao art. 61, da Lei nº 9.430/96. Por sua vez, para as obrigações lançadas de ofício, a multa (antes prevista no art. 35, II) passou a ser fixa, de 75%, nos termos do art. 35A, da mesma Lei, que faz remissão ao art. 44, I, da Lei nº 9.430/96. Lei nº 8.212/91: Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (Incluído pela Lei nº 11.941, de 2009) O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96 dispõe o seguinte: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: Fl. 1447DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.448 17 I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. Quanto às obrigações acessórias, o seu descumprimento era penalizado com as multas previstas no art. 32, §§ 4º, 5º e 6º, da Lei nº 8.212/91. A MP nº 449/2009, convertida na Lei nº 11.941/2009, revogou os referidos dispositivos, instituindo a multa do art. 32A, da Lei nº 8.212/91, que é de “R$ 20,00 (vinte reais) para o grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas” e “de 2% ao mês calendário ou fração incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento)”. Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitar seá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3º deste artigo. § 1º Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2º Observado o disposto no § 3ª deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3º A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos. Em determinadas situações, a nova sistemática é mais benéfica ao contribuinte, mas em outras é mais severa. Portanto, para o cálculo das multas incidentes sobre fatos geradores ocorridos antes da entrada em vigor da MP nº 449/2008, mas realizado após Fl. 1448DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.449 18 12/2008, devese considerar o princípio da retroatividade benigna, previsto no art. 106, do Código Tributário Nacional CTN. Assim, em respeito ao princípio da retroatividade benigna, as multas relativas aos fatos geradores ocorridos antes de 04/12/2008, mas aplicadas posteriormente a essa data, devem ser calculadas comparandose a legislação anterior com a atual, na forma adotada pela Receita Federal do Brasil (sistemática estabelecida pelo art. 476A, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009): Art. 476A. No caso de lançamento de oficio relativo a fatos geradores ocorridos: (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) I até 30 de novembro de 2008, deverá ser aplicada a penalidade mais benéfica conforme disposto na alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN), cuja análise será realizada pela comparação entre os seguintes valores: (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) a) somatório das multas aplicadas por descumprimento de obrigação principal, nos moldes do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009, e das aplicadas pelo descumprimento de obrigações acessórias, nos moldes dos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009; e (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) b) multa aplicada de ofício nos termos do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) II a partir de 1º de dezembro de 2008, aplicamse as multas previstas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1027, de 22 de abril de 2010) § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1.027, de 22 de abril de 2010) Dessa forma, entendo que a multa mais benéfica deve ser calculada de acordo com o disposto no art. 476A da IN RFB 971/2009, acima transcrito, e deverá ser apurada no momento do pagamento, nos termos do art. 2º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009. CONCLUSÃO Fl. 1449DF CARF MF Processo nº 10480.721555/200933 Acórdão n.º 2202004.301 S2C2T2 Fl. 1.450 19 Diante do exposto, voto no sentido de rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento parcial ao recurso, para aplicar a multa mais benéfica, nos termos do art. 2º da Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 04/12/2009. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator Fl. 1450DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13910.720006/2012-28
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 01/07/2009 a 31/12/2009
MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAIS.
A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA.
O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador.
Numero da decisão: 1001-000.023
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(Assinado Digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente e relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
Nome do relator: LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/07/2009 a 31/12/2009 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAIS. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente e relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/07/2009 a 31/12/2009 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE DÉBITOS E CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS FEDERAIS. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF após o prazo previsto pela legislação tributária sujeita a contribuinte à incidência da multa correspondente. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. O instituto da denúncia espontânea não é aplicável às obrigações acessórias, que são atos formais criados para facilitar o cumprimento das obrigações principais, embora sem relação direta com a ocorrência do fato gerador. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente e relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, José Roberto Adelino da Silva e Eduardo Morgado Rodrigues. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 91 0. 72 00 06 /2 01 2- 28 Fl. 41DF CARF MF 2 Relatório Trata o presente processo de Notificação Fiscal (efl. 09), mediante a qual é exigido o valor de R$ 5.952,76, decorrente de multa por atraso na entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF), relativa ao período de 01/07/2009 a 31/12/2009. O prazo final estabelecido em lei para o cumprimento da obrigação acessória era até o dia 08/04/2010, mas a Contribuinte só a cumpriu em 02/12/2011 (efl. 09). Cientificada da exigência fiscal, a Interessada interpôs impugnação. A decisão de primeira instância (efls. 30/33) manteve o crédito tributário. Cientificada da decisão de primeira instância em 08/01/2013 (efl. 34) a Interessada interpôs recurso voluntário em 07/02/2013 (efls. 35/39), em que aduz, em resumo (repetindo os argumentos da impugnação): (...) uma vez apresentada a declaração e reconhecendo o contribuinte o seu débito para com o Fisco, configura denúncia espontânea, haja vista que a notificação é gravada no programa gerador da DCTF somente após realizada a transmissão, ou seja, fica claro e evidente que o contribuinte ADIANTOUSE à notificação do Fisco. (...) No caso em tela, há que se observar que todos os débitos informados na referida declaração encontramse devidamente quitados nos seus respectivos vencimentos (...) Considerando que se não tivesse havido a atitude da Impugnante em declarar seu débito, não teria sido notificada, ou seja, a informação por parte da empresa aconteceu antes da notificação, o que caracteriza claramente a Denúncia Espontânea, conforme o próprio texto legal assim estabelece. (...) Em casos que se configure denúncia espontânea, é pacífica a decisão do STJ que já se posicionou contrário à aplicação de qualquer espécie de multa, seja ela de caráter moratória ou punitiva.(...) Voto Conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa Relator O recurso voluntário é tempestivo. Considerando que a recorrente repete os fundamentos que apresentou na impugnação, adoto aqui as razões daquela decisão de primeira instância (efls. 30/33) por entender que reflete a melhor interpretação dos fatos e do direito aplicável. Daquela decisão destaco, em resumo: Fl. 42DF CARF MF Processo nº 13910.720006/201228 Acórdão n.º 1001000.023 S1C0T1 Fl. 42 3 mesmo nos casos de entrega espontânea da declaração, antes de qualquer procedimento por parte do Fisco, a aplicação da multa prevista no art. 7º da Lei nº 10.426/2002 permanece pertinente, uma vez que, em se tratando de obrigação acessória, a ela não se aplica o instituto da denúncia espontânea, previsto no art. 138 do CTN. a exclusão de responsabilidade pela denúncia espontânea da infração (art. 138 do CTN) se refere à multa de ofício que acompanha a obrigação principal. a multa aplicada pela falta de entrega, ou entrega após o prazo legalmente estabelecido, nada tem a ver com o fato gerador da obrigação tributária principal. Tratase, sim, de uma penalidade decorrente do descumprimento de uma obrigação acessória formal; o § 2º do art. 7º da Lei nº 10.426/2002 prevê uma redução da multa aplicada, nos casos de a declaração ser apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício (redução à metade) ou uma redução a 75% no caso da declaração ser apresentada no prazo fixado em intimação, respeitados os limites mínimos estabelecidos no parágrafo 3º do mesmo artigo. Desta forma, é evidente que a imposição da penalidade está legalmente prevista, mesmo neste caso de apresentação espontânea da declaração com a devida redução da multa à metade. Adiciono, no que se refere à decisão judicial (Resp 001.6672/SP, 2T/STJ ) apresentada pela recorrente, que esta referese à cobrança de multa de mora (e não a multa prevista no art. 7º da Lei nº 10.426/2002), relacionase a litígio entre partes específicas em que o sujeito passivo não foi parte do processo e tratase de decisão sem força vinculante por não se enquadrar no disposto no artigo do 62 RICARF (Portaria MF nº 343, de 2015). Desta forma, voto por conhecer e negar provimento ao recurso voluntário. (Assinado Digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Relator Fl. 43DF CARF MF
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Numero do processo: 16643.000108/2010-57
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 22 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1302-002.393
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos, com efeitos infringentes, para sanar a omissão apontada e conhecer do recurso de ofício para, apreciando o seu mérito, dar-lhe parcial provimento, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente, justificadamente o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
Nome do relator: MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA
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OCORRÊNCIA DE OMISSÃO E CONTRADIÇÃO. EFEITOS INFRINGENTES. POSSIBILIDADE Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma. Comprovado a contradição e omissão do decisium,restando evidenciada a desconformidade interna da decisão, cabe a admissibilidade dos embargos com efeitos infringentes para alteração do julgado afim de que reflita de modo exato a matéria discutida nos autos. VARIAÇÃO CAMBIAL PASSIVA. INEXISTÊNCIA DE PROVA DE SIMULAÇÃO. Inexistindo prova de simulação, há que se admitir como verdadeiras as operações envolvendo empresas coligadas da contribuinte, comprovadas por documentos hábeis e idôneos, e correta a dedução, pelo regime de competência, da despesa com variação cambial passiva. Exonerase a exigência correspondente. DEDUTIBILIDADE DE DESPESAS DESNECESSÁRIAS. PREVISÃO LEGAL ESPECÍFICA. ADIÇÃO A BASE DE CÁLCULO DA CSLL. A partir de 1º de janeiro de 1996, devem ser adicionadas ao lucro líquido do período, para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social, as despesas incorridas pela pessoa jurídica que não possuam os atributos da necessidade, anormalidade e usualidade, em virtude da previsão legal contida no art. 13 da Lei nº 9.249/1995. DECADÊNCIA Para fins de cômputo do prazo de decadência, tendo havido pagamento antecipado, considerase como início da contagem a data do fato gerador. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 00 01 08 /2 01 0- 57 Fl. 2818DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.816 2 Tendo sido parte do crédito tributário formalizado após o prazo decadencial, exonerase a exigência correspondente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos, com efeitos infringentes, para sanar a omissão apontada e conhecer do recurso de ofício para, apreciando o seu mérito, darlhe parcial provimento, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente, justificadamente o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. Relatório Por bem esclarecer a contradição e omissão constantes no Acórdão nº 1101001.170, transcrevo o Despacho de Admissibilidade de Embargos (fls. 2809/2813): “A Portaria CARF nº 34, de 31 de agosto de 2015, dispõe: Art. 4º Os embargos contra acórdão prolatado por colegiado extinto, opostos anteriormente à vigência da Portaria MF nº 343, de 2015, com análise de admissibilidade pendente, terão o seguinte tratamento: [...] II se o conselheiro relator, ou redator do voto vencedor, não mais integrar a Seção de Julgamento: a) a admissibilidade dos embargos poderá ser realizada pelo Presidente da Câmara a que a Turma extinta estava vinculada e, se admitidos, o processo deverá ser sorteado, no âmbito da Seção, para relatoria [...] Considerando o dispositivo acima transcrito, passase a análise dos embargos de declaração interpostos pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN), em face do Acórdão nº 1101001.170, de 26.08.2014, (Turma extinta), em cuja ementa consta: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004, 2005, 2006, 2007 Fl. 2819DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.817 3 Ementa: RECURSO DE OFÍCIO. CABIMENTO. O recurso de ofício é cabível sempre que a decisão de primeira instância exonerar o contribuinte de pagamento de tributos e encargos de multa, o que não se verifica no presente caso, uma vez que os itens em debate apenas acarretaram a compensação de ofício de prejuízo fiscal de IRPJ e da base negativa da CSLL. [...] Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em NEGAR CONHECIMENTO ao Recurso de Ofício, [...] Notificada da referida decisão em 22.11.2014, a PGFN opôs embargos de declaração em 17.12.2014 (§ 9º do art. 23 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972), suscitando que: A DRJ exonerou todos os valores lançados em razão da infração descrita como “Das despesas desnecessárias – variação cambial sobre valor remetido como investimento em controladas no exterior”. Com relação à infração “Da falta de oferecimento à tributação de lucros auferidos no exterior – lucros de controladas no exterior”, foram exonerados apenas os valores relativos ao anocalendário de 2004, tendo em vista a aplicação da regra prevista no artigo 150, § 4º do CTN. Quanto à infração “Da falta de adição de despesas não dedutíveis”, a DRJ excluiu da tributação a título de CSLL os valores glosados, nos montantes de R$ 73.292,16 (anocalendário de 2005) e R$ 399.849,29 (ano calendário de 2006). Estes, portanto, são os temas objeto do recurso de ofício. A e. Turma a quo, por maioria de votos, não conheceu do recurso de ofício [...] Na visão do colegiado, o recurso de ofício não deveria ser conhecido porque os itens que remanesceram em discussão após a adesão ao parcelamento instituído pela Lei n. 11.941/09 apenas deflagraram compensação de ofício de prejuízo fiscal de IRPJ e da base negativa da CSLL, não havendo, por consequência, qualquer valor (tributo ou multa) a ser pago. Cita em seu fundamento, o art. 70 do Decreto nº 7.574/2011. Analisando, contudo, o teor do relatório do voto condutor do aresto ora embargado, observase que o r. Acórdão incorreu em contradição, uma vez que claramente se percebe que a matéria discutida, ao contrário do que concluiu o voto proferido, não é de simples compensação de ofício de prejuízos fiscais. Ao contrário, todo o relatório dá a entender que se trata de lançamento tributário, onde a fiscalização efetuou a glosa de diversas despesas tidas como desnecessárias, sob o argumento de não serem necessárias e usuais. Ainda que o cômputo ou não dessas despesas apenas venha a alterar o montante do prejuízo fiscal apurado pelo contribuinte, fato é que o mérito da discussão vai muito além da simples compensação de prejuízos. Com efeito, a Lei nº 12.788/2013, resultado da conversão da MP n.º 578/2012, em seu art. 11, alterou o art. 27 da Lei n.º 10.522, de 19 de julho de 2002, estabeleceu novas hipóteses de descabimento de recurso de ofício: “Art. 27. Não cabe recurso de ofício das decisões prolatadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, em processos relativos a tributos administrados por esse órgão: (Redação dada pela Lei nº 12.788, de 2013) I quando se tratar de pedido de restituição de tributos; (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) Fl. 2820DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.818 4 II quando se tratar de ressarcimento de créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, da Contribuição para o PIS/Pasep e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS; (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) III quando se tratar de reembolso do saláriofamília e do salário maternidade; (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) IV quando se tratar de homologação de compensação; (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) V nos casos de redução de penalidade por retroatividade benigna; e (Incluído pela Lei nº 12.788, de 2013) VI nas hipóteses em que a decisão estiver fundamentada em decisão proferida em ação direta de inconstitucionalidade, em súmula vinculante proferida pelo Supremo Tribunal Federal e no disposto no § 6º do art. 19.” Observese que a dispensa no cabimento do recurso de ofício é para casos de homologação de pedido de compensação, o que não acontece na hipótese presente. O pedido de compensação, de iniciativa do sujeito passivo, ocorre mediante a entrega, por este, de pedido/declaração na qual constarão informações relativas aos créditos utilizados e aos respectivos débitos compensados. No caso presente, o que se tem em pauta é o montante do prejuízo fiscal apurado pelo contribuinte, prejuízo este que foi exasperado pelo contribuinte ao contabilizar despesas tidas como desnecessárias. Tais circunstâncias, que foram inclusive reconhecidas no próprio bojo do aresto ora embargado, demandam uma análise muito mais aprofundada a respeito da natureza dessas despesas. O que será feito do valor de imposto devido/a ser creditado em decorrência do cômputo ou não dessas despesas, é outra questão a ser debatida em momento posterior. Agora, o que se discute é a composição do lucro real e do lucro líquido do contribuinte autuado, fato que pode sim vir a acarretar a exigência de tributos e multa. Assim, merece ser sanada a contradição apontada, resultante do fato de o voto condutor do aresto embargado ter reconhecido se tratar de hipótese de lançamento tributário, decorrente, dentre outros fatores, da glosa de despesas tidas como desnecessárias, e ao final ter concluído pelo não conhecimento do recurso de ofício, porque tal lançamento, no futuro, se resolverá em uma simples compensação de prejuízos fiscais. Além da contradição acima apontada, vale aqui acrescentar a existência de outra contradição, pois, como visto a decisão proferida em primeira instância exonerou também parte da infração sobre a tributação dos lucros no exterior, por ter considerado decaídos os valores lançados no tocante ao anocalendário de 2004. Tal infração, em caso de provimento do recurso de ofício, resultará em exigência de tributos e multa e, em relação a este período, o contribuinte não incluiu os respectivos valores no parcelamento, por óbvio. Ainda que a matéria atinente à decadência de período objeto de lançamento esteja pacificada no âmbito deste Conselho, sendo a mesma objeto de recurso de ofício, é dever deste Conselho analisála e confirmar ou não a decisão de primeira instância. [...] Em conclusão, o aresto embargado merece ser sanado, no que tange ao fato de que a decisão de primeira instância exonerou também parte da infração sobre a tributação dos lucros no exterior, a qual, caso mantida, acarretará a exigência de tributo e multa, e no que tange ao fato de que, em que pese voto condutor do aresto embargado ter Fl. 2821DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.819 5 reconhecido se tratar de hipótese de lançamento tributário, o mesmo concluiu pelo não conhecimento do recurso de ofício, porque tal lançamento, no futuro, se resolverá em uma simples compensação de prejuízos fiscais. Ante o exposto, requer a União (Fazenda Nacional) que sejam recebidos e acolhidos os presentes embargos de declaração, para efeito de suprir a contradição apontada.” É o relatório. Voto Conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Relator. Tratase o presente recurso de contradição e omissão no Acórdão nº 1302001.0170 em virtude do não conhecimento do recurso de ofício. Conforme aponta a Procuradoria, no acórdão embargado consta que a decisão de primeira instância acarretou a compensação de ofício do prejuízo fiscal de IRPJ e da base negativa da CSLL. Tal circunstância não caracteriza exoneração de pagamento de tributos e encargos de multa de ofício proporcional (art. 70 do Decreto nº 7.574, de 2011). No caso presente, tratase de compensação de ofício do prejuízo fiscal de IRPJ e da base negativa da CSLL, valores estes majorados nos registros contábeis por dedução indevida de despesas tidas como desnecessárias. Assim, a matéria tributável discutida nos presentes autos é a composição do lucro real e do lucro líquido, fato que pode vir a acarretar a exigência de tributos e aplicação de multa de ofício proporcional. Por conseguinte, no interior da própria decisão restou caracterizado esse vício, ou seja, ficou evidenciada a desconformidade interna da decisão . Também a situação de omissão está apontada objetivamente. Na decisão de primeira instância foi reconhecida a decadência do direito de a Fazenda constituir o crédito tributário no tocante ao anocalendário de 2004. Essa questão inclusive foi objeto de recurso de ofício e deve ser examinada expressamente pela autoridade julgadora ad quem. Verificase que não houve expressa manifestação do julgado sobre ponto em que se impunha o seu pronunciamento de forma obrigatória, dentro dos ditames da causa de pedir. Assim, escorado na disposição do artigo 60 do Decreto 70.235 de 6 de março de 1972, acolho os presentes Embargos, atribuindolhes efeitos infringentes, e passo a apreciar o presente recurso ofício. Do Recurso de Ofício Fl. 2822DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.820 6 I.1 – Das Despesas Desnecessárias de Variação Cambial sobre Valor Remetido como Investimento em Controladas no Exterior Para contextualizar o tópico em comento, necessário narrar os seguintes fatos: • a contribuinte (GLAI) era controladora integral da empresa GOL FINANCE UK; • em julho de 2006, a referida empresa realizou a venda a prazo de seu acervo líquido (direitos e obrigações) à empresa GAC, passando a ser detentora de um "contas a receber" em favor da adquirente GAC; • em outubro de 2006, a GLAI optou por encerrar as atividades de sua controlada GOL FINANCE UK, concluindo a operação em janeiro de 2007; • em razão da extinção da empresa GOL FINANCE UK, a GLAI, sua controladora integral, deixou de possuir um investimento, passando a ser detentora diretamente dos direitos e obrigações da empresa extinta. Entre os direitos assumidos encontravase o "contas a receber" contra a GAC; • esses fatos estão devidamente comprovados por documentos hábeis e idôneos e a fiscalização não faz qualquer prova quanto à existência de simulação. A despesa contabilizada pela contribuinte (GLAI) decorre da seguinte situação: • Ao ser extinta a GOL FINANCE UK, o investimento da contribuinte na referida empresa passou a figurar em seu ativo no grupo "créditos com empresas relacionadas empréstimos com empresas relacionadas", apresentando saldo de R$ 402.840.562,29 em 31/12/2006; • Considerando que esse saldo, em função da variação cambial negativa, passou a ser de R$ 337.122.441,29 em 31/12/2007, a contribuinte reconheceu uma variação cambial passiva de R$ 65.718.121,00 (= R$ 402.840.562,29 R$ 337.122.441,29). Com relação às despesas de variação cambial, a DRJ cancelou a autuação por entender que a fiscalização, ao desqualificar as operações que proporcionaram à contribuinte “trocar” o investimento na GOL FINANCE UK, por um crédito com a GAC (que gerou a referida despesa), deveria ter comprovado a existência da simulação, o que não ocorreu. Nas razões ao recurso de ofício, a União afirma que as operações que geraram a despesa em comento, apesar de não serem ilegais, ocorreram por mera liberalidade do sujeito passivo. Ou seja, a opção de vender os bens de uma Fl. 2823DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.821 7 controladora para outra, em detrimento da capitalização, foi uma opção da empresa, razão porque o gasto decorrente da operação não poderia ser considerado dedutível. Inicialmente, cumpre esclarecer que a opção pela integralização do capital, ou a venda de bens de uma controlada a outra, diz respeito à liberalidade da empresa. Nestes autos a opção escolhida pela empresa não pode ser objetada pois não existem provas da existência de fraude à lei. Adotando a lógica do recurso de ofício, temos que a discussão neste tópico se resume ao enquadramento, ou não, da despesa como necessária à atividade da empresa, o que se refere a momento diverso da organização empresarial comentada anteriormente. Desta forma, não havia porque aterse à existência, ou não, de simulação, mas, tão somente, ao enquadramento da despesa entre aquelas previstas pelo art. 299 do RIR/99, como dedutíveis, ou não. Pois bem. Destacase do Termo de Encerramento de Fiscalização os seguintes trechos: “O investimento que a GLAI detinha na GOL FINANCE UK, era representado pelo capital de USD 166.164.655,00 (fl 43), equivalente em 31/10/2006 a R$ 408.245.314,00 (FL. 48). Ao ser absorvida pela GAC INC, o capital da GOL FINANCE UK (patrimônio líquido) passou a figurar no ativo da controladora GLAI, no grupo "créditos com empresas relacionadas — empréstimos com empresas relacionadas", apresentando saldo em 31/12/2006 R$ 402.840.562,29 (fl. 252 e 404) e em 31/12/2007 R$ 337.122.441,29 (fl. 415). Citese que o objeto social da empresa diz que a finalidade era de conduzir o negócio com vista a lucros dentro dos limites da lei e que será controlada fora do Reino Unido. Na GAC INC os valores da incorporação foram absorvidos não como capital, mas como passivo (31/12/06 = R$ 355.260.032,11 e 31/12/2007 = R$ 337.122.441,27 fls. 187/8). (...) Nas folhas de n° 50 a 102, são encontrados comprovantes de remessas efetuadas pela GLAI para a FINANCE LLP, onde, em todos, é indicado "capitais brasileiros a longo prazo — investimentos diretos no exterior na subsidiaria GOL FINANCE LLP que não foi alterado junto ao Banco Central do Brasil. Assim para todos os efeitos o valor de U$ 166.164.655,00 está registrado como remessa de capital. É de se observar que o valor em pauta foi mantido distinto dos valores de empréstimos declinados nos tópicos a seguir, tanto na GLAI, como na GAC NC. conforme pode ser observado nos balancetes de ambas as empresas, dando a clara conotação, que este valor não estava coberto pelo contrato de mútuo entre as partes. Se tivessem mantido tal valor como capital na GAC INC, os valores relativos à variação cambial, assim como os resultados auferidos no período seriam tomados como equivalência patrimonial que como é do conhecimento universal é neutralizado do resultado tributado através de adição ou exclusão no LALUR. Fl. 2824DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.822 8 À folha 48 é possível notar que o valor de U$ 166.164.655,00 do capital era integralmente aplicado no adiantamento para compra de aeronaves (fl. 48), naturalmente de longo prazo, o que conduz ao entendimento de que tal valor de fato é capital e não empréstimo, como consta da conta onde foi efetivamente lançada. No período 31/10/2006 a 31/12/2006 mesmo com alterações provocadas pela queda da taxa de conversão do dólar americano, o contribuinte manteve o valor que havia como capital da LLP, mesmo tendo tirado de investimento e passado para empréstimo, que não provocou nenhuma anomalia do resultado daquele ano. Já no ano calendário de 2007 o contribuinte passou a fazer a correção dos valores em reais pela cotação da taxa do dólar o que produziu o valor de R$ 65.718.121,00 de variação cambial passiva, reduzindo o eventual lucro do exercício ou aumentando o saldo de prejuízo acumulado e bases negativas da CSLL. Em face do exposto, entendemos que tais despesas são desnecessárias, pois mantido como capital conforme registrado no Banco Central do Brasil, quando da emissão das remessas por transferência ou por contratos de câmbio, não geraria a despesas com variação cambial passiva registrada pelo contribuinte. São anormais e não usual quando se trata de aplicação de longo prazo sustentada por capitalização da empresa que passa para empréstimo na incorporação por empresa sem valor de capital substantivo.” (grifos aditados) (fls. 531/532) Dos trechos do Termo de Encerramento de Fiscalização é possível constatar que os motivos de fato que levam a autoridade fiscal a reputar a despesa de variação cambial como indedutível, passam pela desconsideração das operações procedidas pelo contribuinte, no entanto esbarram na falta de comprovação da existência de simulação nas mesmas, à evidência da afirmação de que a GOL FINANCE UK foi absorvida pela GAC INC, que não encontra respaldo em documentos juntados aos autos. Sendo assim, ratifico a exoneração integral do crédito tributário, quanto ao item das Despesas Desnecessárias de Variação Cambial sobre Valor Remetido como Investimento em Controladas no Exterior, em conformidade com as razões insertas no Acórdão nº 1639.055 da DRJ/SP1, abaixo reproduzidas: “Analisandose o Termo de Encerramento de Fiscalização, percebese que a intenção da fiscalização foi desqualificar as operações realizadas (venda a prazo do acervo líquido da GOL FINANCE UK à GAC e posterior extinção da GOL FINANCE UK), as quais proporcionaram à contribuinte “trocar” o investimento na GOL FINANCE UK (que, avaliado pela equivalência patrimonial não geraria a despesa de variação cambial), por um crédito com a GAC (que gerou a referida despesa). (...) Ocorre que, como bem argumenta a impugnante, a fiscalização não faz qualquer prova quanto à existência de simulação, ou seja, de que, na realidade, não existiria um crédito com a GAC, mas um aumento no Fl. 2825DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.823 9 investimento nessa empresa, que teria absorvido o patrimônio da GOL FINANCE UK (por incorporação). A fiscalização afirma que a GOL FINANCE UK foi incorporada pela GAC, mas tal afirmação não encontra respaldo nos documentos juntados aos autos, que revelam, até prova em contrário, que, de fato, houve a venda a prazo do acervo líquido da GOL FINANCE UK à GAC e posterior extinção da GOL FINANCE UK, o que não se confunde com incorporação. Outra afirmação da fiscalização é a de que o crédito com a GAC foi mantido como capital no registro no Banco Central do Brasil (quando deveria ter sua natureza alterada), mas esse fato revela, quanto muito, apenas uma irregularidade formal, incapaz de descaracterizar as operações comprovadas por documentos hábeis e idôneos. Ademais, para que a suposta simulação tivesse sentido, a impugnante teria que “apostar” que a variação cambial seria negativa, ou seja, que haveria uma diminuição da cotação do dólar americano em relação ao real, não sendo plausível que assumisse esse risco (se a variação cambial fosse positiva, a impugnante teria que reconhecer uma receita de variação cambial). Dessa forma, inexistindo prova de simulação, há que se admitir como verdadeira a venda a prazo do acervo líquido da GOL FINANCE UK à GAC (gerando um crédito à favor da primeira) e a posterior extinção da GOL FINANCE UK, e correta a contabilização do referido crédito (após a extinção da GOL FINANCE UK), na contribuinte, a título de "créditos com empresas relacionadas". Do mesmo modo, há que se admitir como correta a dedução efetuada pela contribuinte, pelo regime de competência, da despesa com variação cambial passiva, face ao disposto no artigo 30, § 1º, da MP nº 2.158/2001 e do artigo 2º, § 1º, da IN SRF nº 345/2003, vigentes à época dos fatos, in verbis (grifos meus): MP nº 2.15833/2001 “Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 2000, as variações monetárias dos direitos de crédito e das obrigações do contribuinte, em função da taxa de câmbio, serão consideradas, para efeito de determinação da base de cálculo do imposto de renda, da contribuição social sobre o lucro líquido, da contribuição para o PIS/PASEP e COFINS, bem assim da determinação do lucro da exploração, quando da liquidação da correspondente operação. § 1º À opção da pessoa jurídica, as variações monetárias poderão ser consideradas na determinação da base de cálculo de todos os tributos e contribuições referidos no caput deste artigo, segundo o regime de competência. (...)”. IN SRF nº 345/2003 Fl. 2826DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.824 10 “Art. 2º As variações monetárias dos direitos de crédito e das obrigações do contribuinte, em função de taxa de câmbio, serão consideradas, para efeito de determinação da base de cálculo do imposto de renda (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), bem assim da determinação do lucro da exploração, quando da liquidação da correspondente operação. § 1º À opção da pessoa jurídica, as variações monetárias de que trata o caput poderão ser consideradas, na determinação da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, segundo o regime de competência. (...)”. I.2 – Da Falta de Adição de Despesas não Dedutíveis Na infração ‘falta de adição de despesas não dedutíveis’, a DRJ deu tratamento diverso ao IRPJ e à CSLL. Apesar de admitir a adição das despesas desnecessárias no tocante ao IRPJ, cancelou o lançamento no que diz respeito à CSLL ao sustentar a inexistência de norma que prescreva que as referidas despesas (as quais a fiscalização considerou desnecessárias, mas não contestou a sua efetividade) devam ser adicionadas ao lucro líquido na apuração da base de cálculo da CSLL. Para tanto, afirmou que as despesas ou encargos contabilmente apropriados, para efeitos de apuração do resultado comercial da pessoa jurídica, ainda que considerados não dedutíveis para efeitos do IRPJ, nem por isso deixariam de ser considerados na apuração da base de cálculo da CSLL. Para esse tributo, ao lucro líquido ou resultado comercial somente se agregam ou excluem valores constantes do artigo 2º dos diplomas legais mencionados, bem como do artigo 13 da Lei nº 9.249/95. Outras exclusões, ainda que pertinentes ao IRPJ, não o são para efeitos da contribuição em questão, por absoluta falência de amparo legal. Em seu Recurso de Ofício, a União afirma que se a legislação do IRPJ preceitua que determinada parcela deva ser adicionada/excluída ou não considerada para efeito da apuração do lucro real, idêntico procedimento deve ser efetuado para cálculo do valor devido da CSLL, por força do que dispõe o art. 57 da Lei n.º 8.891/91. Tal dispositivo não diz respeito unicamente ao IRPJ, pois expressamente determina que as mesmas normas de apuração e pagamento aplicáveis ao imposto, também serão aplicáveis à CSLL. Logo, o cerne da controvérsia consiste em definir se é possível ou não excluir da base de cálculo da CSLL os valores relativos a despesas consideradas desnecessárias. Assiste razão a União. Isto porque, a inteligência do art. 13 da Lei nº 9.249/1995, permite a conclusão de que as despesas desnecessárias devem ser adicionadas ao lucro líquido para fins de determinação da base de cálculo da contribuição social. Em outros termos, o art. 13 da Lei nº 9.249/95 possui um “plus” conotativo em relação ao art. 47 da Lei nº 4.506/1964, uma vez que aquele dispositivo define que certas deduções são vedadas para a determinação da base de Fl. 2827DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.825 11 cálculo da CSLL, ainda que, em se tratando de despesas, estas sejam consideradas necessárias à atividade da empresa e a manutenção da respectiva fonte produtora. Ou seja, o dispositivo determina que nos casos em que a despesa seja considerada necessária, e por via de regra, dedutível, ainda assim, algumas deduções, à exemplo de despesas com alimentação de sócios, acionistas e administradores, não poderão ser excluídas da base de cálculo da CSLL. Afim de esclarecer o entendimento esposado, pedese vênia para transcrever passagem do Voto Vencedor, do Acórdão CSRF nº 9101002.535, que embora se refira a despesas com debêntures, é aplicável ao presente caso que trata de despesas com “seguros em geral”, tendo em vista que, em ambos os casos, as despesas foram computadas na base de cálculo do IRPJ por serem consideradas desnecessárias. Vejamos: “Vencida a discussão acerca da principal matéria dos autos, passase à análise da tese que a contribuinte expôs de forma subsidiária em seu recurso especial. Defende a recorrente que, mesmo que as despesas oriundas da remuneração de suas debêntures sejam consideradas indedutíveis da base de cálculo do IRPJ, elas não o seriam em relação à base de cálculo da CSLL, "uma vez que não estão incluídas dentre os ajustes previstos na Lei nº 7.698/88 e alterações posteriores, que cuidam especificamente da base de cálculo da referida contribuição". Não discordo da recorrente quando esta afirma que a regra do art. 57 da Lei nº 8.981/1995 manteve separadas as bases de cálculo e as alíquotas previstas para o IRPJ e a CSLL. Embora estipule que as normas de apuração e de pagamento do IRPJ se aplicam à CSLL, o próprio dispositivo declara em seguida que serão "mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor": Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (Redação dada pela Lei nº 9.065, de 1995) (grifouse) Não há dúvidas de que a legislação prevê ajustes específicos (adições e exclusões) que não abrangem os dois tributos. Tampouco se discute que nem todos os ajustes de um tributo serve ao outro. Se o art. 57 da Lei nº 8.981/1995 houvesse produzido uma coincidência plena entre as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, seria inteiramente dispensável que normas posteriores a ele viessem estabelecer pontualmente, em determinadas situações, a equiparação. Por exemplo, o art. 60 do DecretoLei nº 1.598/1977 (base legal do art. 464 do RIR/1999) estabelece que, na determinação do lucro real, devem ser adicionados os valores caracterizados como distribuição disfarçada de lucros. Se o art. 57 da Lei nº 8.981/1995 houvesse equiparado as bases de Fl. 2828DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.826 12 cálculo do IRPJ e da CSLL, a partir de então a distribuição disfarçadas de lucros também deveria ser adicionada à base de cálculo da CSLL. Concluise que não era este o caso a partir do momento em que o art. 60 da Lei nº 9.532/1997, abaixo transcrito, veio estabelecer expressamente esta adição à base de cálculo da CSLL. Qual seria o sentido dessa nova norma legal promulgada em 1997 se já houvesse, desde 1995, equiparação das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL determinada pelo art. 57? Art. 60. O valor dos lucros distribuídos disfarçadamente, de que tratam os arts. 60 a 62 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, com as alterações do art. 20 do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Assim, se existem normas posteriores ao art. 57 da Lei nº 8.981/1995 que vêm pontualmente determinar a adição de certos valores à base de cálculo da CSLL, valores estes que antes só eram adicionados ao lucro real, é de se concluir inexoravelmente que o referido art. 57 não equiparou as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Ocorre que tal constatação não é suficiente para sustentar o pleito da recorrente de que as despesas decorrentes da remuneração das debêntures de sua emissão não sejam adicionadas à base de cálculo da CSLL. Isto porque o art. 13 da Lei nº 9.249/1995 determina a adição, à base de cálculo da contribuição, das despesas consideradas desnecessárias: Art. 13. Para efeito de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, são vedadas as seguintes deduções, independentemente do disposto no art. 47 da Lei nº 4.506, de 30 de novembro de 1964: (...) Observese que o art. 47 da Lei nº 4.506/1964, a que se refere o dispositivo reproduzido, é o fundamento legal do art. 299 do RIR/1999, que dispõe exatamente sobre os requisitos da necessidade, usualidade e normalidade para a dedutibilidade das despesas, já exaustivamente discutidos neste tópico. Assim, o texto legal acima transcrito evidencia claramente o vínculo entre a apuração da base cálculo da CSLL e os referidos requisitos para a dedutibilidade de despesas. Do contrário não faria nenhum sentido a ressalva contida no texto. Com efeito, se o texto diz que para uma determinada situação deve se aplicar "A" independentemente de "B", é porque "B" também é aplicável àquela mesma situação. Concluo, desse modo, que as despesas associadas ao pagamento da remuneração das debêntures de emissão da recorrente também não são dedutíveis da base de cálculo da CSLL apurada no anocalendário de 2001. Assim, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte no que se refere ao pedido de cancelamento das glosas de despesas relativas Fl. 2829DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.827 13 à remuneração de debêntures, deduzidas das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL no anocalendário de 2001.” (Acórdão CSRF nº 9101002.535; Processo nº 13899.001314/200616; Redator Designado: Rafael Vidal de Araújo) Assim, podese concluir que o dispositivo legal em comento (art. 13, Lei nº 9.249/95) é a previsão legal específica que prescreve que as despesas desnecessárias devam ser adicionadas ao lucro líquido na apuração da base de cálculo da CSLL. I.3 – Da Falta de Oferecimento à Tributação de Lucros Auferidos no Exterior – Lucros de Controladas no Exterior. Da Decadência Quanto ao AnoCalendário 2004 Com relação à preliminar de decadência do lançamento de créditos tributários referentes à falta de oferecimento à tributação dos lucros auferidos no exterior em 2004, destaco não ter sido comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação, bem como, que houve pagamento antecipado a título de IRPJ e CSLL. Assim, preenchidos os requisitos do art. 150, §4º, do CTN, reputo ter ocorrido a perda do direito de constituir os referidos créditos atinentes ao ano calendário 2004, nos termos do Acórdão de primeira instância, que passo a transcrever: “O entendimento da Procuradoria da Fazenda Nacional, exarado no Parecer PGFN/CAT nº 1.617/2008 (alíneas “d” e “e” do item 49), sobre a fixação do termo a quo de prazos de decadência e prescrição, em face da publicação da Súmula Vinculante nº 8 do STF, é o seguinte: “49. (...) (...) d) para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; e) para fins de cômputo do prazo de decadência, tendo havido pagamento antecipado, aplicase a regra do § 4º do art. 150 do CTN; (...)” (grifei). Os supracitados artigos do CTN dispõem que (grifos meus): “Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) Fl. 2830DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.828 14 § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação”. “Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; (...)”. Em suma, tendo havido pagamento antecipado do tributo e não tendo ocorrido dolo, fraude ou simulação, aplica se o artigo 150, § 4º, do CTN; caso contrário, aplicase o artigo 173, inciso I do CTN. No caso em tela, há que se aplicar, em relação ao anocalendário de 2004 (único contestado na preliminar de decadência), o artigo 150, § 4º, do CTN, considerando 31/12/2004 (data do fato gerador) como início da contagem do prazo decadencial, visto que: (1) não está comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação (sequer mencionada pela fiscalização); e (2) houve pagamentos de estimativas de IRPJ e CSLL, conforme atestado pela própria fiscalização no Termo de Encerramento de Fiscalização. Dessa forma, na data da ciência dos Autos de Infração (24/06/2010), já havia transcorrido mais de 5 anos da data do fato gerador relativo ao anocalendário de 2004 (31/12/2004) e, portanto, decaído o direito de o Fisco constituir o crédito tributário correspondente. Assim, sendo, independentemente da análise de mérito, há que se excluir da tributação o montante de R$ 3.171.817,00, relativo ao anocalendário de 2004. CONCLUSÃO Em face do exposto, ACOLHO os Embargos de Declaração com efeitos infrigentes, para conhecer do Recurso de Ofício, e, no mérito, dar parcial provimento, mantendo a cobrança da CSLL em relação a despesa não computada na sua base de cálculo. É como voto. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Relator Fl. 2831DF CARF MF Processo nº 16643.000108/201057 Acórdão n.º 1302002.393 S1C3T2 Fl. 2.829 15 Fl. 2832DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 35564.006097/2006-67
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Data do fato gerador: 30/10/2006
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PEDIDO DE PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA DO RECURSO. DEFINITIVIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO.
Tendo o contribuinte optado pelo parcelamento dos créditos, resta configurada a renúncia, devendo ser declarada a definitividade do crédito, ficando restabelecido a lançamento em seu estado original.
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECADÊNCIA QUINQUENAL. PEDIDO DE PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA DO RECURSO.
O pedido de parcelamento, importa a desistência do recurso, razão pela qual não devem ser conhecidas as razões apresentadas em sede de Recurso Especial pelo Sujeito Passivo.
Numero da decisão: 9202-006.181
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento, para declarar a definitividade do crédito tributário, em face da desistência do recurso pelo sujeito passivo. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer o Recurso Especial do Contribuinte.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PEDIDO DE PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA DO RECURSO. DEFINITIVIDADE DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. Tendo o contribuinte optado pelo parcelamento dos créditos, resta configurada a renúncia, devendo ser declarada a definitividade do crédito, ficando restabelecido a lançamento em seu estado original. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECADÊNCIA QUINQUENAL. PEDIDO DE PARCELAMENTO. DESISTÊNCIA DO RECURSO. O pedido de parcelamento, importa a desistência do recurso, razão pela qual não devem ser conhecidas as razões apresentadas em sede de Recurso Especial pelo Sujeito Passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento, para declarar a definitividade do crédito tributário, em face da desistência do recurso pelo sujeito passivo. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em não conhecer o Recurso Especial do Contribuinte. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 35 56 4. 00 60 97 /2 00 6- 67 Fl. 466DF CARF MF 2 Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de Auto de Infração, DEBCAD: 37.011.3705, lavrado contra o contribuinte identificado acima, consolidado em 30/10/2006, no valor de R$ 355.315,96 (Trezentos e cinqüenta e cinco mil, trezentos e quinze reais, e noventa e seis centavos), em razão da empresa ter entregue, na rede bancária, suas Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social – GFIP, referentes ao período de novembro de 2000 a novembro de 2005 (não contínuo), com omissões de fatos geradores de contribuições previdenciárias, o que constitui infração ao disposto no art. 32, inciso IV, da Lei nº 8.212, de 24/07/1991. De acordo com o Relatório Fiscal da multa, pelas omissões retro noticiadas, foi aplicada ao sujeito passivo a pena de multa cominada no §5º do art. 32 da Lei nº 8.212/91, e inciso II, do art. 284 do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/1999, uma vez que é primária e não incorreu em agravante. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campinas/SP julgado a impugnação procedente em parte, mantendo em parte o crédito tributário. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 19/04/2012, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2403001.269 (fls. 319/334), com o seguinte resultado: “Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sede de preliminar, negar provimento ao recurso voluntário. No mérito, dar provimento parcial ao recurso para determinar o recálculo da multa, de acordo com o determinado no art. 32A, da Lei 8.212/91, na redação dada pela Lei 11.941/2009, prevalecendo o valor mais benéfico ao contribuinte”. O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/11/2000 a 30/11/2005 PRELIMINARMENTE. DECADÊNCIA PARCIAL QUINQUENAL. SÚMULA VINCULANTE N 8. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PREVIDENCIÁRIA. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. APLICAÇÃO. ART.150, § 4º. CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. Fl. 467DF CARF MF Processo nº 35564.006097/200667 Acórdão n.º 9202006.181 CSRFT2 Fl. 3 3 O STF, em julgamento proferido em 12 de junho de 2008, declarou a inconstitucionalidade do art. 45 da Lei n º 8.212/1991. Após, editou a Súmula Vinculante n º 8, publicada em 20.06.2008, nos seguintes termos: “São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decretolei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário”. Nos termos do art. 103A da Constituição Federal, as Súmulas Vinculantes aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terão efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. Tratandose de contribuição social previdenciária, tributo sujeito ao lançamento por homologação, aplicase a decadência do art. 150, § 4º do Código Tributário Nacional. REGIMENTO INTERNO DO CARF. ART.62A. VINCULAÇÃO À DECISÃO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. RESP N 973.733/SC. TRIBUTO SUJEITO AO LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. OBRIGATORIEDADE DE RECOLHIMENTO. INEXISTÊNCIA. APLICAÇÃO DO ART.173, I, CTN. Considerando a exigência prevista no Regimento Interno do CARF no art.62A, esse Conselho deve reproduzir as decisões do Superior Tribunal de Justiça proferidas em conformidade com o art.543C do Código de Processo Civil. No caso de decadência de tributo sujeito ao lançamento por homologação, o RESP n 973.733/SC decidiu que o art.150, § 4º do Código Tributário Nacional só seria aplicada quando fosse constada a ocorrência de recolhimento, caso contrário, seria aplicado o art.173, I, do Código Tributário Nacional. CORRESPONSÁVEIS. SÓCIOS. NFLD. SIMPLES INDICAÇÃO. AUSÊNCIA DE VÍCIO. A indicação de sócios na NFLD não pode ser interpretada como conduta prejudicável ao sujeito passivo, tendo em vista que tal ato constitui em simples relação dos sócios da empresa à época da autuação, não havendo qualquer tipo de consequencia para esses sóciosgerentes, o que só ocorrerá em sede de execução fiscal, após serem preenchidos os requisitos legais autorizadores. AUTO DE INFRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO.OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. GFIP’S. INFORMAÇÕES INCORRETAS. MULTA. APLICAÇÃO MAIS BENÉFICA. Caso a empresa apresente informações incorretas em GFIP, será lavrado Auto de Infração por esse descumprimento de obrigação acessória em não informar corretamente ao fisco os fatos geradores passíveis de tributação. No caso em tela, a multa Fl. 468DF CARF MF 4 a ser aplicada é a prevista no art.32A da Lei n 8.212/91, com a nova redação dada pela Lei n 11.941/2009, por ser mais benéfica e ser específica às obrigações relacionadas a GFIP. SUCESSÃO EMPRESARIAL TRIBUTO E MULTA POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. COBRANÇA DEVIDA. A pessoa jurídica de direito privado que suceder outra responde integralmente pelos tributos devidos e pela multa decorrente, seja ela de caráter moratório ou punitivo. Recurso Voluntário Provido em Parte. O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional, em 29/05/2012, para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs, tempestivamente, em 22/06/2012, o presente Recurso Especial (fls. 338/346). Em seu recurso visa a reforma do acórdão recorrido em relação ao cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte. Ao Recurso Especial da Fazenda Nacional foi dado seguimento, conforme Despacho nº 2400335/2012, da 4ª Câmara, de 25/06/2012 (fls.379/382). O recorrente, em suas alegações, requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 32A, da Lei nº 8.212/91, em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a soma das duas multas anteriores (arts. 35, II, e 32, IV, da norma revogada) ou a do art. 35A da MP nº 449/2008. Cientificado do Acórdão nº 2403001.269, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN em 11/10/2012 (quintafeira), véspera de feriado nacional (12/10/2012 – sextafeira), o contribuinte apresentou, tempestivamente, em 29/10/2012, Recurso Especial da parte que lhe foi desfavorável (fls.424/441) e contrarrazões (fls.387/423). Em seu recurso visa a rediscussão da seguinte matéria: termo inicial da decadência. Ao Recurso Especial do Contribuinte foi dado seguimento, conforme Despacho nº 2400771/2013, da 4ª Câmara, de 29/07/2013 (fls.444/447). · Em seu recurso, o contribuinte ressalta a decisão do acórdão recorrido que entendeu que o prazo decadencial para exigência dos valores a título de contribuição deveria ser contado com base na regra prevista no artigo 173, inciso I, do CTN, isto é, a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ser efetuado; isto porque, em atenção ao decidido pelo STJ no Resp nº 973.733/SC, o CARF só tem aplicado a regra prevista no artigo 150, §4º, do CTN, que determina a contagem do prazo decadencial a partir do fato gerador do tributo sujeito ao lançamento por homologação, aos casos em que há recolhimento da exação; e, no caso vertente, teria sido verificada a ausência de recolhimento. · Argumenta que tratase de aplicação equivocada do referido precedente judicial, uma vez que, quando o STJ definiu que a aplicação da regra decadencial disposta no artigo 150, §4º, do CTN, Fl. 469DF CARF MF Processo nº 35564.006097/200667 Acórdão n.º 9202006.181 CSRFT2 Fl. 4 5 ocorreria quando houvesse o recolhimento da exação, estava referindose à totalidade do recolhimento realizado no período de competência, e não a eventuais diferenças exigidas pela fiscalização através do auto de infração lavrado em face do contribuinte; e lembra que no presente caso, tratase da exigência de contribuição previdenciária sobre pagamentos eventualmente realizados a funcionários da recorrente através de cartões corporativos, ou seja, não se trata da completa ausência de recolhimento das contribuições previdenciárias nos períodos de competência apontados na autuação, mas sim da suposta falta de recolhimento de diferença do valor devido a título de contribuições previdenciárias. · Alega que, se fosse adotado o raciocínio defendido pelo acórdão recorrido, segundo o qual só incidiria a regra do artigo 150, §4º nos casos de pagamento dos valores exigidos pela fiscalização, chegarse ia a uma hipótese absurda, em que essa regra jamais poderia ser aplicada para exigência de diferenças apuradas por lançamento de ofício pela fiscalização; e diz, que não restam dúvidas que o prazo decadencial a ser aplicado ao caso em tela é o previsto no artigo 150, §4º, do CTN, isto é, o de cinco anos contados a partir da ocorrência do fato gerador, e não o previsto no artigo 173, inciso I, do mesmo diploma legal. Em suas contrarrazões, o contribuinte afirma que, nos casos em que há o descumprimento da obrigação acessória, tal qual nos presentes autos, há de se aplicar o disposto no artigo 32A da Lei nº 8.212/91 e não, como pretende a Recorrente, aplicarse o contido no artigo 35A, uma vez que, de forma inequívoca, o mencionado artigo diz respeito somente á aplicação de penalidade em caso de descumprimento da obrigação principal (recolhimento do tributo); e que, o critério adotado para a aplicação da multa por descumprimento de obrigação acessória foi alterado, devendo assim o valor inicial da multa ser reduzido pela aplicação da nova lei que retroagirá, beneficiando o contribuinte, com fulcro no artigo 106 do CTN. Acrescenta que, a Lei nº 8.212/1991, antes de receber nova redação pela Lei nº 11.941/2009, tratava apenas de multa de mora, não havia o que se falar em multa de ofício, tanto é que nos lançamentos fiscais o percentual continuava sendo majorado com o transcurso do tempo, motivo pelo qual a comparação entre a multa de mora anterior com a multa de ofício atual não pode acontecer, pela distinção de natureza jurídica entre ambas. Cita ainda, que o acórdão recorrido muito bem observou o artigo 112, I, do CTN (in verbis) na aplicação do artigo 32A ao presente caso: Art. 112. À lei tributária que define infrações, ou lhe comina penalidades, interpretase da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvidas quanto: I – à capitulação legal do fato; Ressalta que os acórdãos citados no Resp do Fazenda Nacional como paradigmas não levam à conclusão pretendida pela Recorrente, isto é, naqueles casos foi determinada a aplicação da norma mais benéfica entre a legislação revogada e a atual, porém, Fl. 470DF CARF MF 6 caso se aplique a legislação atual (artigo 35A da Lei nº 8.212/1991) deverá ser deduzido o valor da multa aplicada na NFLD correlata, sobre pena de incorrer em “bis in idem”. O processo foi, mais uma vez, encaminhado para ciência da Fazenda Nacional, em 05/09/2013, para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional apresentou, tempestivamente, em 06/09/2013, contrarrazões (fls. 449/455) ao Recurso Especial do contribuinte. Em suas contrarrazões a Fazenda Nacional, diz que a questão cingese ao marco inicial para a contagem do prazo decadencial, e que o §4º do artigo 150 do CTN explicita a modalidade de lançamento por homologação, segundo o qual o sujeito passivo apura o montante tributável e antecipa o pagamento; porém, no presente caso não se operou lançamento por homologação, pois de acordo com a prova dos autos, a contribuinte não antecipou o pagamento do tributos, sendo que, por conta disso, se procedeu ao lançamento de ofício de exação, na linha preconizada pelo artigo 173, I, do CTN: cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Lembra que, na forma do art. 62A do RICARF, acrescido pela Portaria MF 586/2010, as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo STJ, em matéria infraconstitucional deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF; desse modo, aplicase aos presentes autos o posicionamento que prevaleceu no REsp 973733/SC, julgado na forma do art. 543C do CPC, segundo a qual o prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado (art. 173, I, do CTN), quando, a despeito da previsão legal de pagamento, este não ocorre. Observa que, para o exame da ocorrência de pagamento antecipado parcial, para os fins ora colimados, afigurase óbvia a necessidade de verificarse se o contribuinte pagou parte do débito tributário objeto de cobrança, e não daqueles afetos a outros fatos; e que, no caso em tela, observase que não houve o pagamento parcial das contribuições exigidas, e, portanto, não faz sentido dizer que houve pagamento parcial de contribuição previdenciária sobre essas rubricas. É o relatório. Fl. 471DF CARF MF Processo nº 35564.006097/200667 Acórdão n.º 9202006.181 CSRFT2 Fl. 5 7 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora. Pressupostos de Admissibilidade Os Recursos Especiais interpostos pela Fazenda Nacional e pelo Sujeito Passivo são tempestivos e atendem, em principio, aos pressupostos de admissibilidade. Preliminares ao Mérito Temos sob análise, tanto recurso especial da PGFN que busca a análise da retroatividade benigna, nos casos em que a lançamento de contribuições previdenciárias principais e conexos, bem como recurso especial do sujeito passivo que busca a aplicação da decadência quinquenal tendo por base o art. 150, §4º do CTN. Contudo, após a realização de ambos os exame de admissibilidade dos recursos apresentados, o sujeito passivo apresentou solicitação de juntada de petição nos seguintes termos: Nos termos dos §§1º e 5º do art. 78 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria 343/2015 o pedido de parcelamento importa desistência do recurso, ainda que exista decisão favorável ao sujeito passivo. Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 1º A desistência será manifestada em petição ou a termo nos autos do processo. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratável de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. Fl. 472DF CARF MF 8 [...] § 5º Se a desistência do sujeito passivo for total, ainda que haja decisão favorável a ele com recurso pendente de julgamento, os autos deverão ser 60 encaminhados à unidade de origem para procedimentos de cobrança, tornandose insubsistentes todas as decisões que lhe forem favoráveis. Dessa forma, não há como conhecer do Recurso Especial interposto pelo Sujeito Passivo tendo em vista a desistência expressa pela adesão ao parcelamento. Já em relação ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, não há que se falar em não conhecimento, tendo em vista a sua legitimidade para buscar a alteração de decisão que lhe foi desfavorável; contudo, com a adesão ao parcelamento, não há mais litígio em questão, uma vez que o contribuinte renunciou ao seu direito de discutir o lançamento efetuado. Assim, devese declarar a definitividade do crédito tributário nos moldes fixados no auto de infração. Frisese que ao aderir ao parcelamento e desistir do procedimento administrativo, renunciando as alegações de direito, o parcelamento do débito será realizado tendo por base os exatos valores apurados pelo Fisco quando do lançamento tributário. Conclusão Diante do exposto, voto por NÃO CONHECER do Recurso Especial do Sujeito Passivo e CONHEÇO E DOU PROVIMENTO ao Recurso Especial da Fazenda para declarar a definitividade do crédito tributário. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Fl. 473DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10640.720275/2014-95
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010
PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO - SOCIEDADES EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO
Uma vez caracterizado o caráter simulado de sociedades em conta de participação, cujo objetivo único foi reduzir a tributação pelo lucro real do sócio ostensivo ao transferir suas receitas para a tributação do lucro presumido sem a contrapartida equivalente das despesas, deve ser mantida a autuação.
MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICADA. APLICABILIDADE.
Se as circunstâncias apuradas evidenciam a ação dolosa que objetiva impedir o conhecimento pelo Fisco das reais condições em que ocorreram os fatos geradores, bem como de seus aspectos pessoais por meio da transferência, de maneira artificial, da condição de contribuintes para terceiros, cabe a imposição da multa qualificada.
REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais
Numero da decisão: 1401-002.085
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Guilherme Adolfo dos Santos Mendes - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino Da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO - SOCIEDADES EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO Uma vez caracterizado o caráter simulado de sociedades em conta de participação, cujo objetivo único foi reduzir a tributação pelo lucro real do sócio ostensivo ao transferir suas receitas para a tributação do lucro presumido sem a contrapartida equivalente das despesas, deve ser mantida a autuação. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICADA. APLICABILIDADE. Se as circunstâncias apuradas evidenciam a ação dolosa que objetiva impedir o conhecimento pelo Fisco das reais condições em que ocorreram os fatos geradores, bem como de seus aspectos pessoais por meio da transferência, de maneira artificial, da condição de contribuintes para terceiros, cabe a imposição da multa qualificada. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais
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A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO SOCIEDADES EM CONTA DE PARTICIPAÇÃO Uma vez caracterizado o caráter simulado de sociedades em conta de participação, cujo objetivo único foi reduzir a tributação pelo lucro real do sócio ostensivo ao transferir suas receitas para a tributação do lucro presumido sem a contrapartida equivalente das despesas, deve ser mantida a autuação. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICADA. APLICABILIDADE. Se as circunstâncias apuradas evidenciam a ação dolosa que objetiva impedir o conhecimento pelo Fisco das reais condições em que ocorreram os fatos geradores, bem como de seus aspectos pessoais por meio da transferência, de maneira artificial, da condição de contribuintes para terceiros, cabe a imposição da multa qualificada. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. O CARF não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as preliminares e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 64 0. 72 02 75 /2 01 4- 95 Fl. 2175DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino Da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Em relação às peças iniciais do feito, tomo de empréstimo o relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de impugnação apresentada pela Contribuinte acima identificada contra o lançamento fiscal formalizado por meio dos Autos de Infração de fls. 2 a 46, dos quais é parte integrante o Relatório do Trabalho Fiscal, de fls. 47 a 71. LANÇAMENTO FISCAL O lançamento se refere aos anoscalendário de 2009 e 2010, período em que a Contribuinte optou pela apuração anual do Lucro Real. Exceto quanto aos juros de mora, que devem ser calculados à época do pagamento, os valores lançados encontramse abaixo discriminados: Valores em Reais EXAÇÃO PRINCIPAL MULTA PROPORCIONAL* Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) 2.339.942,74 3.509.914,12 Contribuição Social sobe o Lucro Líquido (CSLL) 719.259,75 1.078.889,63 Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) 383.239,58 574.859,43 Contribuição para o PIS/Pasep 83.312,95 124.969,49 * Multa de ofício proporcional de 150%, prevista no § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Do Relatório do Trabalho Fiscal depreendese que o lançamento decorreu, basicamente, da desconsideração de quatorze Sociedades em Conta de Participação (SCP) em que a Contribuinte autuada figura como sócia ostensiva. Desse modo, todas as receitas e despesas que se encontravam registradas em nome das SCP foram atribuídas à Autuada. Como resultado, o IRPJ e a CSLL – originalmente apurados nas SCP segundo as regras do Lucro Presumido – foram recalculados de acordo com a disciplina do Fl. 2176DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.176 3 Lucro Real. Para esse fim, a fiscalização glosou as exclusões lançadas no Lalur da Autuada, relativas aos resultados positivos obtidos em SCP. De maneira reflexa, a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins – originalmente apuradas na SCP segundo o regime cumulativo – foram recalculadas aplicandose o regramento do regime nãocumulativo. As razões para a desconsideração das SCP foram sintetizadas pela Autoridade Autuante no item 4.8 de seu Relatório, nos seguintes termos: 4.8 Conclusões Diante dos fatos relatados nos itens 4.1. a 4.7 deste relatório, analisados em conjunto, a fiscalização concluiu que a constituição das SCPs foi irregular, pois teve como única motivação a criação artificial de condições para a redução da carga tributária, não tendo qualquer embasamento econômico e comercial. Tratouse de planejamento tributário abusivo e ilícito implementado por meio de reorganização societária. O procedimento adotado pela fiscalizada de fragmentação da empresa é, atualmente, uma das formas de redução de tributos mais utilizadas no meio empresarial, criandose situações de direito que não correspondem às situações de fato, muitas vezes idealizadas por consultores, advogados e contadores. As atividades da empresa original, tributada no lucro real, que possuem altos índices de lucratividade passam a ser desenvolvidas pelas novas empresas criadas, inexistentes de fato. Estas optam pela tributação no regime do lucro presumido, que estabelece coeficientes de presunção de lucro mais favoráveis aos realmente obtidos, havendo grande diminuição da carga tributária. Obviamente que é lícito ao empresário procurar a tributação mais vantajosa para os seus negócios, utilizando para tanto as formas legais disponíveis. Contudo, é inaceitável que os atos praticados se baseiem numa aparente legalidade, sem outras concretas razões econômicas, financeiras e comerciais, além da finalidade de pagar menos tributos. Na análise da legalidade de uma operação há que se observar se há reais motivações negociais que a fundamentem e se existe equidade para todas as partes envolvidas, aqui incluído o Fisco. A reorganização societária implementada pela Orly prescinde desses dois aspectos, pois nela não se encontra razões negociais e há claro prejuízo à Fazenda Pública. Importante ser ressaltado que o conceito de legalidade na administração empresarial não deve ser entendido no sentido estrito de atuação de acordo com os preceitos específicos da lei, mas sim no sentido amplo, de uma conduta que esteja de acordo com os princípios jurídicos, que vão além da lei, como igualdade, proporcionalidade e razoabilidade. O direito do contribuinte administrar sua vida não é irrestrito. Ainda que utilize formas jurídicas admissíveis, o planejamento tributário tem limites impostos pelos valores e princípios sociais básicos da igualdade e da justiça social. Esta concepção está inclusive presente no ordenamento jurídico brasileiro, no artigo 187 do Código Civil de 2002 (Lei nº 10.406/2002), que expressamente prevê que o abuso de direito configura ato ilícito: Código Civil (Lei nº 10.406/2002) “Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercêlo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boafé ou pelos bons costumes.” A constituição das SCPs, além de ter sido ato meramente formal com intuito exclusivo de desonerar a tributação, atende apenas ao interesse de seus acionistas, colocando de lado a livre e justa concorrência, pois outras empresas do setor que não se Fl. 2177DF CARF MF 4 utilizaram deste simulado mecanismo continuaram a pagar os mesmos valores de tributos, e os interesses da sociedade, usuária de serviços públicos custeados com os tributos arrecadados pelo Estado. O fato primordial é que a reorganização societária adotada pela Orly consistiu em evasão fiscal, planejamento tributário abusivo, pois as SCPs não existem de fato, tendo sido intencionalmente criadas somente para reduzir ilicitamente a carga tributária. Em resumo os fatos apurados na fiscalização, descritos neste item 4 do relatório, que levaram a esta conclusão são os seguintes: – Conforme demonstrado pela fiscalização no item 4.3. as atividades de intermediação de negócios desenvolvidas pelas SCPs já eram executadas pela Orly e pela incorporada Halen. Ao contrário do argumentado pela fiscalizada, não foi colocada em execução “uma nova modalidade negocial e secundária à atividade principal das concessionárias”. A Orly e a Halen constituíram as SCPs, na qualidade de sócias ostensivas, e desviaram duas de suas atividades de prestação de serviços para essas sociedades. – A constituição das SCPs foi meramente formal, pois na prática nenhuma destas empresas possuíram despesas normais de funcionamento, como de energia, telefonia e comunicação, materiais de escritório, aluguel, limpeza e conservação. As atividades de intermediação de negócios eram executadas no escritório da sócia ostensiva e utilizaram a sua estrutura física sem quaisquer ônus. Deve ser frisado que, na contabilidade, somente lhe foram apropriadas despesas de pessoal de três ou quatro empregados (dependendo do período), embora existissem formalmente quatorze empresas. Para as duas SCPs de Itaperuna/RJ, houve apenas despesas de um empregado. Idêntica situação ocorreu para as duas SCPs de Cataguases/MG. Nas duas SCPs de Muriaé/MG, no período fiscalizado, foi registrado apenas um empregado de jan/2009 a ago/2010, dois empregados de set a nov/2010 e três empregados em dez/2010. Em resumo, as oito SCPs de Além Paraíba/MG, Guaçuí/ES, Santo Antônio de Pádua/RJ e Macaé/RJ, bem como uma das SCPs de Itaperuna/RJ e outra de Cataguases/MG (total de dez empresas) não possuíram quaisquer despesas, nem sequer de pessoal. As únicas despesas contabilizadas foram de remuneração de empregados em uma SCP de Itaperuna, uma de Cataguases/MG e nas duas de Muriaé (sendo que em uma somente a partir de set/2010). – Ainda com relação às despesas de pessoal, a fiscalizada informou que, em razão da proximidade geográfica e para redução de custos, o funcionário de Itaperuna/RJ atendia os estabelecimentos de Guaçuí/ES, Santo Antônio de Pádua/RJ e de Macaé/RJ e o de Cataguases atendia os estabelecimentos de Além Paraíba/RJ. Esta informação só confirma as constatações do AuditorFiscal de que essas SCPs efetivamente não funcionavam. – Em razão de inexistência de despesas e custos em dez SCPs e de reduzidas despesas em quatro delas (somente custos de pessoal) estas empresas obtiveram lucratividade anual de mais de 98% em relação a sua receita líquida (com demonstrado no item 4.5), índice completamente irreal. – As SCPs e a Orly operavam como uma única empresa, havendo absoluta dependência das primeiras em relação a segunda, seja em relação à utilização gratuita de sua estrutura física, seja no fato de trabalharem exclusivamente com os clientes da sócia ostensiva. – As SCPs estão dentro das dependências da Orly e suas atividades se referem a serviços que as próprias concessionárias de veículos normalmente prestam. As atividade das SCPs estão inseridas no cotidiano da concessionária, inclusive de maneira que o consumidor dos produtos e serviços não é capaz de discernir que uma pluralidade de sociedades o está atendendo. Na prática, tudo se passa como se somente uma empresa existisse. – Conforme visto na contabilidade, a conta contábil Caixa é única em cada filial, de forma que não há segregação de recursos próprios e das SCPs. Se se tratassem de empresas distintas seguramente haveria segregação, visto que os recursos de cada empresa seriam tratados como próprios e de modo independente. Também não há contas bancárias exclusivas para as SCPs, sendo os recursos das atividades da Orly e das SCPs Fl. 2178DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.177 5 movimentados nas mesmas contas. Esses dois fatos confirmam que tratase de empresa única de fato. – Como explicado nos itens 4.1 e 4.2, o capital investido em cada SCP foi de apenas R$1.000,00, cabendo R$990,00 ao sócio ostensivo e R$10,00 ao sócio oculto. O valor é irrisório, principalmente se comparado ao montante dos lucros auferidos por estas empresas, o que proporcionou um retorno do capital investido de 399 vezes em 2009 e de 498 vezes em 2010. São negócios com índices de rentabilidade muito elevados e que fogem à realidade de mercado. Além disso, o valor reduzido do capital investido em empresas tão lucrativas mostra o objetivo de simples cumprimento de uma formalidade, distanciada da realidade. – Outro fato observado pela fiscalização é que os sócios ocultos são pessoas físicas que são sócias de duas das empresas sócias da Orly. Fere o bom senso e a lógica empresarial, o fato de uma empresa se associar a seus próprios investidores para constituir sociedades para desenvolver atividades que ela própria já exerce. Com a execução da reorganização societária e a adoção do lucro presumido para as SCPs a Orly conseguiu economizar aproximadamente R$3,5 milhões no pagamento dos tributos IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS/Pasep nos anos de 2009 e de 2010. Portanto, conseguiu levar a efeito o seu objetivo de redução da carga tributária do grupo empresarial. Para justificar a imposição da multa qualificada, a Autoridade Fiscal assim se manifestou: Nos autos de infração foi aplicada multa de ofício de 150% sobre os tributos apurados, conforme o previsto no artigo 44, inciso I e § 1º da Lei nº 9.430/96, em razão da fiscalizada ter praticado atos que caracterizam sonegação fiscal, fraude e conluio nos termos dos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. A seguir estão transcritos esses dispositivos legais: [...] Ficou demonstrado nos itens 4.1 a 4.8 deste relatório que foram criadas quatorze SCPs que não existem de fato, com o intuito claro de reduzir de forma fraudulenta e simulada os valores devidos de IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS/Pasep. Restou demonstrado que a criação dessas SCPs constituiuse em evasão fiscal, planejamento tributário abusivo e ilícito. As Declarações de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) entregues à Receita Federal pela Orly relativamente aos anoscalendário 2009 e 2010 contêm informações sobre a apuração do IRPJ e da CSLL de forma segregada, ou seja, apuração própria e das SCPs, situação que não existiu na prática, pois tudo funcionava como uma única empresa. Assim sendo, ficou caracterizado que foram apresentadas DIPJ com informações falsas. Do mesmo modo ocorrido com as DIPJ, as Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais (DCTF) também contêm informações fraudulentas. Nas DCTF foram informados os débitos de IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS/Pasep da Orly e das SCPs, referentes a jan/2009 a dez/2010, de forma separada. As formas de apuração dos tributos diferenciadas, mais benéficas, adotadas para as SCPs, implicou em informação de valores em DCTF menores que os efetivamente devidos. A empresa fiscalizada não declarou à RFB e não pagou mais de R$3,5 milhões em tributos, relativos aos anos de 2009 e 2010, mediante a simulação da constituição das SCPs. Esta simulação ocorreu quando a Orly, sócia ostensiva, e os sócios ocultos dolosamente engendraram e praticaram um negócio jurídico aparente, desejando na verdade fraudar o Fisco. Mediante conluio entre as partes foram assinados os contratos de criação das SCPs, atos meramente formais, que consistiram em declarações de vontades irreais. Fl. 2179DF CARF MF 6 A ação dolosa praticada pela Orly e pelos sócios ocultos das SCPs impediu o conhecimento da Receita Federal das reais condições em que ocorreram os fatos geradores e de seus aspectos pessoais, tentando transferir para terceiros (as SCPs) a condição de contribuintes. IMPUGNAÇÃO Do Lançamento e do Relatório do Trabalho Fiscal a Contribuinte foi cientificada em 17 de fevereiro de 2014 (fl. 482). Irresignada, em 14 de março de 2014 apresentou a impugnação de fls. 485 a 532, mais anexos. Inicialmente (itens I e II), a Contribuinte suscita a tempestividade da impugnação e apresenta uma exposição dos fatos. Neste item II, destacase o seguinte excerto: 5. Vinculadas à contribuinte estão à Sociedades em Conta de Participação, que tem como sócios a Orly Veículos e o Sr. Eric Braz Tambasco. Importante destacar desde já que a SCP exerce atividades extraordinárias da contribuinte, quais sejam: • Clientes beneficiários de convênios autorizados de aquisição de veículos Fiat direto da fábrica e a respectiva montadora – SCP vendas diretas (VDI); • Clientes que financiam seus automóveis e as instituições financeiras concedentes do crédito – SCP financiamento de clientes; e ainda, • Clientes frotistas elegíveis à aquisição direta de veículos Fiat direto da fábrica e a respectiva montadora – SCP frotista. 6. Ressaltese, por oportuno, que tais sociedades funcionam nos estabelecimentos das concessionárias e foram formalizadas de acordo com os contratos sociais em anexo (doc. nº 04). 7. Com a explanação supra percebese que o Auto de Infração ora Impugnado foi lavrado frente à ilegal e absurda desconsideração da constituição de Sociedades em Conta de Participação, sem qualquer fundamentação legal para tanto. No item III da sua petição, a Contribuinte apresenta os “fundamentos da impugnação”. No item III.1, discorre sobre sua estrutura societária. Neste item, merece destaque o seguinte excerto: 16. Assim, esclarecidas as atividades exercidas pela Impugnante como empresa Concessionária de veículos automotores, o que está condizente com o descrito em seu contrato social, resta, portanto, esclarecer a constituição das Sociedades em Conta de Participação – SCP, das quais é sócia ostensiva, que exercem as atividades distintas/secundárias ao seu objeto social, descritas nos contratos de constituição (doc. n° 04) que são, conforme já apontado na presente defesa: a mediação e intermediação de vendas diretas pela Internet, mediação e intermediação de vendas diretas para Frotistas e mediação e intermediação de captação de financiamentos. 17. Com relação à natureza jurídica e validade das Sociedades em Conta de Participação, mais comumente conhecidas como SCP, já dissertaram os Srs. Fiscais. Porém, apesar de as considerarem como válidas juridicamente eles concluíram, equivocadamente, pela inexistência de fato das Sociedades em questão por vários fatores, o que resultou no presente Auto de Infração ora combatido. No item III.2, a Impugnante discorre de maneira geral sobre a espécie societária denominada sociedade em conta de participação. Argumenta que as SCP em questão foram devidamente constituídas, em conformidade com a legislação em vigor. Ressalta que, apesar da ausência de personalidade jurídica, para fins tributários a SCP é equiparada a pessoa jurídica. Segundo a Impugnante: 26. Salientase desde já, no entanto, que da análise dos contratos apresentados e conforme se depreende da leitura da legislação citada é evidente a legalidade da Fl. 2180DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.178 7 constituição das SCP debatidas, assim como estas atendem a todas as características desse tipo societário. Neste mesmo item III.2, entre os parágrafos 31 a 46 da impugnação a Contribuinte detalha as atividades exercidas pelas SCP, quais sejam, venda direta, venda a frotistas e intermediação na captação de financiamentos para clientes. Quanto à venda direta, a Impugnante esclarece que a relação jurídica de compra e venda se dá entre consumidor e a fábrica, sendo a atividade de intermediação um negócio jurídico independente, prestado pela SCP, que é remunerada sob a forma de comissão devida pela fábrica. No caso da venda a frotistas, os veículos também são faturados pela fábrica diretamente ao consumidor pessoa jurídica, cabendo à SCP a remuneração pela intermediação do negócio. A terceira espécie de SCP desenvolve a captação de financiamentos, que consiste no encaminhamento de clientes às instituições financeiras que prestam tal serviço, sendo a SCP remunerada também sob a forma de comissão. Depois de descrever as atividades desenvolvidas pelas SCP, a Impugnante afirma o seguinte: 45. Insta salientar que a constituição de uma sociedade autônoma para o desenvolvimento de todas as atividades supra mencionadas, se deu por razões operacionais da empresa, que ao mesmo tempo em que viu no mercado uma possibilidade de empreender em uma atividade diversa/secundária da sua atividade preponderante, viu a necessidade de montar uma estrutura operacional/contábil/financeira diversa daquela que já possuía, a fim da consecução dessa nova atividade. 46. Nesse contexto, esclarecidas as atividades exercidas pelas SCP criadas com as finalidades explicitadas acima, e de acordo com a peculiaridade existente na legislação desse tipo societário, a ausência de seu contato com o mundo exterior, já que a apresentação para terceiros dáse apenas na pessoa de seu sócio ostensivo, equivocaram se os Srs. Fiscais ao alegar que as Sociedades em Conta de Participação não exercem nenhuma função na estrutura societária da Orly Veículos, razão pela qual deve o Auto de Infração ora Impugnado ser anulado em sua totalidade. No item III.3, a Impugnante defende a ilegalidade da desconsideração das SCP. Segundo a Impugnante, a escolha da forma societária cabe aos agentes que decidem se reunir para a exploração de uma determinada atividade, devendo ser considerados vários fatores de ordem econômica e jurídica. Ainda segundo a Impugnante, a escolha pela Sociedade em Conta de Participação é totalmente válida, já que é regulada pela legislação brasileira. No item III.3.1, citando lições doutrinárias, a Impugnante alega existir fundamentação econômica para a constituição das SCP em tela. Nesse sentido, no parágrafo 52 da impugnação, reproduz excerto de obra jurídica em que o autor afirma o seguinte: Fl. 2181DF CARF MF 8 Ainda tratando da fundamentação econômica para a constituição das SCP, a Impugnante alega o seguinte: 54. Ademais, no que tange às funções desenvolvidas pelas SCPs, conforme já mencionado nesta Impugnação, tratase das atividades antes desenvolvidas pela contribuinte em caráter extraordinário. 55. Ocorre que, a forma como funcionava a execução dessas atividades extraordinárias, não se atendia às necessidades do negócio, razão pela qual a contribuinte decide pela concentração de esforços em suas atividades ordinárias, de modo a repassar as demais (de caráter extraordinário que se resumem na intermediação de negócios com clientes especiais) para sociedades devidamente dedicadas a tal função. [...] 59. E tem mais. O Ente Fiscalizador em questão não logrou em comprovar, em momento algum, a sua tese de planejamento tributário abusivo (este tema será apresentado em detalhes nos tópicos posteriores desta Impugnação), agindo como se a transferência das atividades extraordinárias da contribuinte às SCPs incidisse em uma hipótese de presunção legal de ilícito tributário, tendo em vista que impôs à contribuinte o ônus de provar a ilicitude da relação jurídica com as SCPs. O que não se admite! 60. Ora, não é a contribuinte que tem o dever de manifestar a função econômica das SCPs, ao contrário, cabe à fiscalização o dever de comprovar de forma minuciosa a ausência desta função. No item III.3.2, a Impugnante alega que seria incorreta a vinculação da receita de comissão à operação de venda dos veículos. Afirma, ainda, que no Relatório Fiscal teria sido mencionada a realização de operações de consignação com a montadora Fiat. No entanto, no presente caso, a Autoridade Fiscal não estabeleceu tal vinculação e nem relatou a realização de operações de consignação. Ressaltese ainda que, em um dado momento (parágrafo 70), a Impugnante parece atribuir à fiscalização uma frase contendo referência a outra montadora (VW). Além disso, no parágrafo 76 reproduz uma expressão matemática que teria sido elaborada pela Autoridade Fiscal, mas que, na verdade, não consta do Relatório Fiscal. Tais fatos evidenciam que, provavelmente, este item III.3.2 se refira a caso distinto do que ora se analisa, razão pela qual podese concluir que a argumentação nele contida é estranha ao litígio, de modo que não será relatada e nem apreciada. No item III.3.3, a Impugnante retoma a questão do propósito negocial, apresentando argumentação contrária à conclusão da Autoridade Fiscal, no sentido de que as SCP foram criadas apenas para economizar tributos, bem como que inexistem de fato. Nas palavras da Impugnante: Fl. 2182DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.179 9 98. Quanto à existência fática das SCP e ao exercício de suas atividades já se dissertou exaustivamente, bastando para comprovação documental a análise de seu contrato social (formalidade que nem é exigida por lei) e sua escrituração contábil, portanto não cabendo a arguição de que existem apenas no papel. Ademais, o próprio Ente Fiscal admite anteriormente que tais empresas ocupam um papel permanente na estrutura da empresa: a intermediação de financiamentos nas vendas. 99. Relativamente às despesas alocadas na SCP, a situação retratada não poderia ser diferente, já que a única despesa que essa possui é simplesmente os gastos com funcionários que realizam a atividade fim da empresa, e, ainda, apesar de não citado pela Fiscalização, mas pode ser claramente visto nos documentos contábeis anexos, há despesas com os seguintes impostos: ISS, PIS, COFINS, CSLL e IRPJ. 100. Quanto aos custos de venda, portanto, esses devem ser e são alocados nas contas Orly Veículos Ltda., pois a ela incube a atividade relacionada à venda de veículos. 101. Como as SCP funcionam dentro do estabelecimento da sócia ostensiva, utilizando apenas um pequeno espaço que se limita na maioria das vezes a uma mesa onde o funcionário realiza suas atividades de intermediação de negócios, não há porque ter despesas com manutenção de prédios, energia, água, etc. Ora, conforme amplamente demonstrado, um dos propósitos da criação das SCP é a redução de custos operacionais o que efetivamente ocorre nesse caso, e não contraria em qualquer momento o ordenamento jurídico. Mais adiante, ainda no item III.3.3, reproduz uma extensa ementa de julgado do TRF da 5ª Região, a sobre ela assinala que se re refere a acórdão que reforça “a legalidade da forma de recolhimento de tributos utilizada pela Impugnante, pois como sócia ostensiva compete a ela a responsabilidade pela apuração e recolhimento dos impostos devidos pelas SCPs que são pagos juntamente com seus próprios tributos”. No item III.3.4, a Impugnante discorre sobre o planejamento tributário. Primeiramente, alega que as SCP foram criadas para o fim de operacionalizar a atividade de intermediação de negócios entre instituições financeiras e consumidores e, na venda direta, entre a fábrica e consumidores, de modo que seria descabida a conclusão da Autoridade Fiscal no sentido de que seriam simulados os atos de criação dessas sociedades. Alega, ainda, que a Fiscalização não apresentou provas materiais capazes de invalidar a forma pela qual foi tributada a receita regularmente auferida pelas SCP. Mais adiante afirma o seguinte: 116. Outra vantagem advinda da escolha pela conta em participação, devido a alguns aspectos de seu tratamento fiscal, é realmente a possibilidade de utilizar o planejamento tributário como forma de reduzir a carga tributária, o que também não ofende a qualquer dispositivo legal, não sendo motivo para desconstituição das mesmas. 117. Até 2001, a opção pela SCP não trazia nenhum benefício em termos de planejamento tributário, pois a apuração de seus resultados tributáveis tinha como base o mesmo tratamento dado aos demais resultados do sócio ostensivo. A partir de 01.01.01, o art. 14 da Lei n° 9.718/98, combinado com o art. 1º da IN SRF n° 31, de 29.03.01, permitiu que o resultado tributável da SCP seja apurado independentemente da tributação do sócio ostensivo, o que se traduz num planejamento tributário denominado de Planejamento Tributário Optativo onde elegese a melhor forma elisiva entre as opções dadas pelo legislador, como, por exemplo, a tributação do IRPJ pelo lucro real ou presumido. No caso em questão a Impugnante é tributada sob o regime do Lucro Real e nas SCP a tributação é pelo Lucro Presumido. Fl. 2183DF CARF MF 10 118. Sob o ponto de vista equivocado da Fiscalização, a estratégia contábil/tributária utilizada pela Impugnante seria a de alocar os custos e despesas em sua escrituração contábil minimizando suas receitas de modo a gerar prejuízos fiscais sucessivos e de modo inverso as SCP, que não possuem custos e despesas e dispõe de condições vantajosas de tributação, maximizam suas receitas, que sofrerão tributação mais favorecida. Porém, o narrado pelo Fisco não ocorre de fato. [...] 120. Como visto, a Sociedade em Conta de Participação é sujeito passivo tributário e todos os tributos por ela devidos são apurados e recolhidos pelo Sócio Ostensivo Orly Veículos. Todavia, a apuração dos tributos devidos pela SCP é feita independentemente da apuração dos tributos devidos pelo sócio ostensivo, sendo aquela feita pelo Lucro Presumido e essa pelo Lucro Real. Dessa forma, o lucro apurado na SCP (já efetivadas as deduções e incidência de impostos) é distribuído aos sócios, como dividendos, e sendo considerados como receitas da Ostensiva, nos moldes da legislação fiscal, não estão sujeitas novamente à tributação. 121. Não está correto então dizer que a Impugnante transfere receitas obtidas em sua atividade mercantil (vendas de veículos) à Sociedade em Conta de Participação, já que, as receitas recebidas por essas sociedades são apenas quanto às comissões recebidas pela atividade de intermediação de negócios, que também é tributada conforme rege a lei. Ressaltase ainda, que referidas receitas decorrem de uma atividade diversa da venda de veículos, não caracterizada como a atividadefim da Impugnante. 122. Dessa forma, a desconsideração das SCP pela Autoridade Fiscal, ainda que funcionem como forma de planejamento tributário, não tem qualquer amparo legal. Ao contrário, é forma abusiva e arbitrária de utilização de poder. Vale mencionar que tal prática descrita no malfadado parágrafo único do art. 116 do CTN não foi regulamentado por lei ordinária e, portanto, não cabe sua aplicação. 123. E ainda, a par da induvidosa função econômica das SCPs, há que se considerar que estas sociedades foram regularmente constituídas, atuando antes do fato gerador dos tributos lançados e, eficientemente, oferecendo a receita de suas atividades à tributação pelo regime do Lucro Presumido, sem que estivesse obrigadas ao Lucro Real. Ora, não se deixou, em momento algum, de tributar a receita auferida pelas SCPs, ao contrário, tributouse como determina a legislação, na pessoa de cada uma das SCPS. No item IV, a Impugnante simplesmente alega que, em razão da inexistência de motivos para desconstituir as SCP a ela vinculadas, não há motivação legal para a lavratura do Auto de Infração, devendo o mesmo ser considerado nulo. A Contribuinte dedica o item V à impugnação da multa de ofício aplicada. Inicialmente, alega ser precária a fundamentação da Autoridade Fiscal no sentido de caracterizar seu dolo, nos seguintes termos: 136. Em outras palavras, o evidente intuito de sonegação, justificador da aplicação da multa majorada, foi imputado ao contribuinte apenas em tese, sem que conste dos autos qualquer elemento que efetivamente comprove a sua materialidade, posto que se tributa com base em mera presunção. A imputação da sonegação encontrase firmada tão somente na suposta omissão de receita pela hipotética transferência de receitas da ostensiva às SCP para que estas fossem tributados de forma menos onerosa, o que não ocorreu no caso. Além disso, também alega o efeito confiscatório da multa aplicada, e afirma estar ausente a indicação precisa e necessária do crime contra a ordem tributária supostamente cometido, inviabilizando a Representação Fiscal para Fins Penais. Por fim, no item VI, apresenta seus pedidos nos seguintes termos: Por todo o exposto, requer a Impugnante seja a presente Impugnação julgada procedente, reconhecendose a nulidade integral do Auto de Infração, em virtude de Fl. 2184DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.180 11 todas as impropriedades aduzidas nas razões de mérito do ora Impugnado amplamente demonstradas, frente que o lançamento fiscal carece, in tottum, de quaisquer fundamentação que a justifique. Protesta pela produção de todas as provas admitidas em direito, em especial, documental e pericial, realização de diligência nos termos da lei, caso necessário. A Impugnante protesta, ainda, pela juntada de novos documentos, caso entenda necessário; ante o grande volume de documentos envolvidos no procedimento fiscalizatório. Nesses termos, pede deferimento. DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU A decisão recorrida (fls. 1.993 a 2019) negou provimento à impugnação nos termos da ementa abaixo reproduzida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009, 2010 SIMULAÇÃO. COMPROVAÇÃO. A comprovação da natureza simulada de um negócio jurídico deve se concentrar não somente no caráter artificial da declaração exteriorizada, mas também há que se demonstrar a vontade de enganar, o que é perfeitamente possível por meio da revelação da vantagem ou resultado que emerge da realização do negócio da forma como se deu. Considerando que foram devidamente demonstrados tanto a inexistência de fato dos negócios realizados quanto o objetivo subjacente à estratégia, podese concluir que restou comprovada a simulação levada a efeito pela Contribuinte. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. SIMULAÇÃO. Embora seja verdade que o estudo relativo aos limites do planejamento tributário ainda não conte com definições muito precisas, também é verdade que há um consenso entre os diversos autores da doutrina pátria especializada acerca da abusividade do planejamento tributário levado a efeito mediante simulação. O planejamento tributário levado a efeito mediante simulação compreende a formalização de negócios jurídicos absolutamente lícitos em sua aparência, mas que, em essência, não existem. Com sua realização, o que se pretende é apenas evitar ou reduzir a tributação, de modo artificial. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Fl. 2185DF CARF MF 12 Anocalendário: 2009, 2010 MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICADA. APLICABILIDADE. Se as circunstâncias apuradas evidenciam a ação dolosa que objetiva impedir o conhecimento pelo Fisco das reais condições em que ocorreram os fatos geradores, bem como de seus aspectos pessoais por meio da transferência, de maneira artificial, da condição de contribuintes para terceiros, cabe a imposição da multa qualificada. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010 ARGUIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de arguições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados. DILIGÊNCIA OU PERÍCIA. PEDIDO NÃO FORMULADO. Considerase não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no Decreto que regula o processo administrativo fiscal na esfera federal. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR ADMINISTRATIVO. O julgador administrativo não é competente para se pronunciar sobre controvérsias referentes a Processo Administrativo de Representação Fiscal para Fins Penais LANÇAMENTO DECORRENTE. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. Tratandose da mesma matéria fática e não havendo questões de direito específicas a serem apreciadas, estendese ao lançamento decorrente (CSLL, PIS/Pasep e Cofins) a decisão proferida em relação ao lançamento principal (IRPJ). DO RECURSO VOLUNTÁRIO O contribuinte apresentou recurso voluntário mediante o qual se limitou a reiterar (aliás, ipsis litteris) argumentos já trazidos na impugnação. É o relatório do essencial. Fl. 2186DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.181 13 Voto Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator Conforme o disposto no artigo 57 do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015: Art. 57. Em cada sessão de julgamento será observada a seguinte ordem: (...) § 1º A ementa, relatório e voto deverão ser disponibilizados exclusivamente aos conselheiros do colegiado, previamente ao início de cada sessão de julgamento correspondente, em meio eletrônico. A esse artigo foi acrescido o § 3º pela Portaria MF nº 329, de 2017, com a seguinte redação. Abaixo, faço sua reprodução: § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. Pois bem, no presente feito, o recurso voluntário não só deixou de apresentar novas razões de defesa, sua peça recursal é uma cópia literal da impugnação sem qualquer diálogo com a decisão que supostamente pretenderia contraditar. Com base nesse contexto fático e normativo, sigo o voto. PRELIMINARES Pedido de juntada posterior de documentos Em relação ao pedido para juntada posterior de documentos, a decisão recorrida assim se manifestou: Conforme relatado, a Contribuinte “protesta pela produção de todas as provas admitidas em direito”. Em relação à prova documental, “protesta, ainda, pela juntada de novos documentos, caso entenda necessário; ante o grande volume de documentos envolvidos no procedimento fiscalizatório”. Quanto a esse pedido, de se ressaltar que diferentemente do rito comum ordinário previsto pelo Código de Processo Civil, no Processo Administrativo Fiscal federal não há uma fase de instrução probatória, autônoma, posterior à fase postulatória. Nesse aspecto, há que se observar a disciplina do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, que dispõe sobre o Processo Administrativo Fiscal na esfera federal, abaixo reproduzido: Fl. 2187DF CARF MF 14 (...) Portanto, como regra, à luz do dispositivo acima reproduzido, as provas devem ser apresentadas na impugnação, precluindo o direito de a Impugnante apresentálas em outro momento processual. Excepcionalmente, para que seja admitida a juntada de documentos comprobatórios do direito alegado após a apresentação da impugnação, devem ser atendidos os requisitos previstos no § 4º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972, quais sejam, deve ser demonstrada a impossibilidade de sua apresentação no momento da impugnação, ou a prova posteriormente juntada deve se referir a fato ou direito superveniente. No presente caso, após a apresentação da impugnação, não consta que a Contribuinte tenha apresentado requerimento para juntada posterior de documentos. Adoto o mesmo entendimento quanto a este ponto. Pedido de perícia No tocante ao pedido de perícia, a Delegacia de Julgamento assim fundamentou seu voto: A Contribuinte “protesta pela produção de todas as provas admitidas em direito, em especial, documental e pericial, realização de diligência nos termos da lei, caso necessário”. Quanto a esse pedido, mais uma vez há que se observar a disciplina do art. 16 do Decreto nº 70.235, 1972: (...) Portanto, considerando o caráter genérico do requerimento de realização de perícia formulado pela Contribuinte, há que ser indeferido o referido pedido, à luz do dispositivo acima reproduzido. Não vejo razões para qualquer tipo de reparos a decisão recorrida, pois não cabem pedidos genéricos de prova pericial. Representação fiscal para fins penais Quanto à contestação relativa à representação fiscal para fins penais, a autoridade recorrida ofereceu os seguintes fundamentos: Referindose à Representação Fiscal para fins Penais elaborada pela Autoridade Fiscal, a Contribuinte assim se manifestou: (...) Quanto a essa matéria, cumpre dizer que sobre ela o julgador administrativo não tem competência para se manifestar. Inclusive, esse é o objeto da Súmula CARF nº 28: (...) Fl. 2188DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.182 15 Também correto foi o seu decidir, pois amparado por Súmula do CARF, em relação a qual este colegiado está vinculado. MÉRITO Principal Sorte diversa não deve ter as questões atinentes à exigência principal. A Delegacia de Julgamento assim fundamentou seu voto quanto a esse tema: Conforme relatado, a Interessada, que no período fiscalizado optou pela apuração anual do lucro real, explora o comércio de veículos na condição de concessionária da montadora Fiat. Para desenvolver a intermediação na venda direta da montadora para consumidores, bem como a intermediação na captação de financiamentos para instituições financeiras, a Interessada constituiu quatorze Sociedades em Conta de Participação (SCP). Segundo o entendimento da Autoridade Autuante, em relação ao período fiscalizado, “com a execução da reorganização societária e a adoção do lucro presumido para as SCPs a Orly conseguiu economizar aproximadamente R$ 3,5 milhões no pagamento dos tributos IRPJ, CSLL, Cofins e Contribuição para o PIS/Pasep nos anos de 2009 e de 2010”. No entanto, a Autoridade Fiscal concluiu que “a constituição das SCPs foi irregular, pois teve como única motivação a criação artificial de condições para a redução da carga tributária, não tendo qualquer embasamento econômico e comercial. Tratouse de planejamento tributário abusivo e ilícito implementado por meio de reorganização societária”. Ainda segundo a Autoridade Fiscal, no presente caso foram criadas “situações de direito que não correspondem às situações de fato”. Nesse sentido, entendeu que a Interessada promoveu a fragmentação de seus negócios, de modo que “as atividades da empresa original, tributada no lucro real, que possuem altos índices de lucratividade passam a ser desenvolvidas pelas novas empresas criadas, inexistentes de fato”, as quais “optam pela tributação no regime do lucro presumido, que estabelece coeficientes de presunção de lucro mais favoráveis aos realmente obtidos, havendo grande diminuição da carga tributária”. Em síntese, as razões apontadas no Relatório do Trabalho Fiscal para desconsideração das SCP, e a consequente atribuição de seu resultado à Contribuinte autuada, são as seguintes: ▪ no presente caso, a constituição das SCP é meramente formal, pois elas não existem de fato; ▪ a conclusão pela inexistência de fato das SCP decorre dos seguintes indícios conjuntamente considerados: as atividades das SCP eram executadas nas instalações da sócia ostensiva, sem quaisquer ônus; nenhuma das SCP possuíram despesas normais de funcionamento, como de energia, telefonia e comunicação, materiais de escritório, aluguel, limpeza e conservação; Fl. 2189DF CARF MF 16 na contabilidade, somente lhe foram apropriadas despesas de pessoal de três ou quatro empregados (dependendo do período), embora existissem formalmente quatorze SCP; na contabilidade, a conta contábil Caixa é única em cada filial, de forma que não há segregação de recursos próprios e das SCP; também não há contas bancárias exclusivas para as SCPs, sendo os recursos das atividades da Orly e das SCPs movimentados nas mesmas contas; ▪ os sócios ocultos são pessoas físicas que são sócias de duas das empresas sócias da Orly; ▪ as atividades de intermediação de negócios desenvolvidas pelas SCPs já eram executadas pela Orly e pela incorporada Halen; ▪ as SCP e a sócia ostensiva operavam como uma única empresa, havendo absoluta dependência das primeiras em relação a segunda, seja em relação à utilização gratuita de sua estrutura física, seja no fato de trabalharem exclusivamente com os clientes da sócia ostensiva; ▪ as atividade das SCP se referem a serviços que as próprias concessionárias de veículos normalmente prestam; ▪ as atividadesde das SCP estão inseridas no cotidiano da concessionária, inclusive de maneira que o consumidor dos produtos e serviços não é capaz de discernir que uma pluralidade de sociedades o está atendendo; ▪ a estratégia foi implementada com intuito exclusivo de desonerar a tributação; ▪ em razão de inexistência de despesas e custos em dez das SCP, e de reduzidas despesas em quatro delas (somente custos de pessoal), estas sociedades obtiveram lucratividade anual de mais de 98% em relação a sua receita líquida, índice completamente irreal; ▪ o valor reduzido do capital investido em empresas tão lucrativas mostra o objetivo de simples cumprimento de uma formalidade, distanciada da realidade; ▪ Com a execução da reorganização societária e a adoção do lucro presumido para as SCP a Orly conseguiu economizar aproximadamente R$ 3,5 milhões no pagamento dos tributos, nos anos de 2009 e de 2010. Em sua defesa, a Contribuinte afirma que a desconsideração da constituição de Sociedades em Conta de Participação é ilegal e absurda, e não encontra qualquer fundamentação legal para tanto. Em síntese, trouxe os seguintes argumentos: ▪ as SCP exercem atividades extraordinárias, distintas daquelas que constam no objeto social da sócia ostensiva; ▪ a possibilidade de empreender em uma atividade diversa da sua atividade preponderante gerou a necessidade de montar uma estrutura operacional/contábil/financeira diversa daquela que já possuía; ▪ a execução dessas atividades extraordinárias não atendia às necessidades do negócio, razão pela qual a contribuinte decidiu pela concentração de esforços em suas atividades ordinárias, de modo a repassar as demais (de caráter Fl. 2190DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.183 17 extraordinário que se resumem na intermediação de negócios com clientes especiais) para sociedades devidamente dedicadas a tal função; ▪ a constituição das SCP para o desenvolvimento das atividades relacionadas à intermediação de vendas diretas e financiamentos se deu por razões operacionais; ▪ os contratos apresentados e legislação de regência deixam claro que é evidente a legalidade da constituição das SCP debatidas, pois atendem a todas as características desse tipo societário; ▪ quanto à existência fática das SCP e ao exercício de suas atividades basta para comprovação documental a análise de seu contrato social e sua escrituração contábil; ▪ relativamente às despesas alocadas nas SCP, a situação retratada não poderia ser diferente, já que as únicas despesas que essas possuem são simplesmente os gastos com funcionários, e, ainda, apesar de não mencionado pela Fiscalização, há despesas com os seguintes impostos: ISS, PIS, COFINS, CSLL e IRPJ; ▪ como as SCP funcionam dentro do estabelecimento da sócia ostensiva, utilizando apenas um pequeno espaço que se limita na maioria das vezes a uma mesa onde o funcionário realiza suas atividades de intermediação de negócios, não há porque ter despesas com manutenção de prédios, energia, água, etc; ▪ segundo lições da doutrina, a criação de SCP se justifica: em razão da urgência da operação, que não permite o cumprimento de múltiplas e demoradas formalidades exigidas para a constituição de outros tipos societários; ou pelo simples intento de não criar entre os agentes envolvidos um elevado grau de comprometimento; ▪ a fiscalização não comprovou, em momento algum, a sua tese de planejamento tributário abusivo, agindo como se a transferência das atividades extraordinárias da contribuinte às SCP incidisse em uma hipótese de presunção legal de ilícito tributário; ▪ não é a contribuinte que tem o dever de manifestar a função econômica das SCP; ao contrário, cabe à fiscalização o dever de comprovar de forma minuciosa a ausência desta função; ▪ como as SCP foram criadas para o fim de operacionalizar a atividade de intermediação de negócios entre instituições financeiras e consumidores e, na venda direta, entre a fábrica e consumidores, é descabida a conclusão da Autoridade Fiscal no sentido de que seriam simulados os atos de criação dessas sociedades; ▪ outra vantagem advinda da escolha pela conta em participação realmente é a possibilidade de utilizar o planejamento tributário como forma de reduzir a carga tributária, o que também não ofende qualquer dispositivo legal, não sendo motivo para desconstituição das SCP; ▪ a alteração legislativa ocorrida em 2001 permitiu que o resultado tributável da SCP seja apurado independentemente da tributação do sócio ostensivo, o Fl. 2191DF CARF MF 18 que se traduz num planejamento tributário denominado de Planejamento Tributário Optativo em que se elege a melhor forma elisiva entre as opções dadas pelo legislador, como, por exemplo, a tributação do IRPJ pelo lucro real ou presumido; ▪ não está correto dizer que a Impugnante transfere receitas para as SCP; as receitas auferidas pelas SCP decorrem de atividade diversa da venda de veículos, não caracterizada como a atividadefim da Impugnante; ▪ a desconsideração das SCP pela Autoridade Fiscal não tem qualquer amparo legal; uma vez que o malfadado parágrafo único do art. 116 do CTN não foi regulamentado por lei ordinária e, portanto, não cabe sua aplicação; ▪ não se deixou, em momento algum, de tributar a receita auferida pelas SCP, ao contrário, tributouse como determina a legislação, na pessoa de cada uma das SCP. No presente caso, como se nota, a questão principal se resume em examinar a possibilidade de a Contribuinte opor à Fazenda Pública os efeitos da estrutura societária por ela organizada, e que consistiu na constituição de quatorze SCP para atuar nas atividades de intermediação nas vendas diretas e na captação de financiamentos. Considerando a situação fática encontrada pela Autoridade Fiscal, há que se referendar a desconsideração das SCP, para fins de rejeitar os efeitos fiscais decorrentes de sua constituição, conforme passo a explicar. Ainda que as pessoas, físicas ou jurídicas, disponham de liberdade para organizar seus negócios da forma como entenderem mais adequada a seus interesses, essa liberdade não é irrestrita, encontrando limites no próprio ordenamento jurídico. Não se pode ignorar que é intenso o debate acerca da existência de limites ao planejamento tributário. No entanto, quanto à estratégia levada a efeito no presente caso, com relativa tranquilidade podese concluir que o planejamento tributário posto em prática pela Contribuinte encontrase no terreno da abusividade sendo, por consequência, inoponível ao Fisco federal. Na pesquisa dos limites ao planejamento tributário, muito se discute acerca da possibilidade do emprego da interpretação econômica do direito. Além disso, os estudiosos do tema têm se debruçado sobre a caracterização e os efeitos das patologias do negócio jurídico – como o abuso de direito, o abuso de formas jurídicas e a fraude à lei – e sua repercussão sobre o planejamento tributário. Mas, se é verdade que o estudo desses temas ainda não conte com definições muito precisas, por outro lado, seguramente há um consenso entre os diversos autores da doutrina pátria especializada acerca da abusividade do planejamento tributário levado a efeito mediante simulação. O planejamento tributário levado a efeito mediante simulação compreende a formalização de negócios jurídicos absolutamente lícitos em sua aparência, mas que, em essência, não existem. Com sua realização, o que se pretende é apenas evitar ou reduzir a tributação, de modo artificial. Neste ponto, é preciso esclarecer que uma estratégia colocada em prática pelo contribuinte com o fim exclusivo de gerar economia tributária não é, necessariamente, ilícita. Estratégias semelhantes à que ora se aprecia, compreendendo segregação de atividades empresariais antes desempenhadas por uma única pessoa jurídica, podem ser perfeitamente legítimas quando restar demonstrada sua existência concreta para além da mera formalidade, revelando Fl. 2192DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.184 19 elementos caracterizadores da essência negocial envolvida e afastando a possibilidade de a estratégia constituir uma simulação. Por outro lado, o caráter exclusivamente formal e notadamente artificial do arranjo resultante do planejamento tributário é um sinal bastante forte de sua abusividade, indicativo da possibilidade de o arranjo envolver a prática de simulação. Caso a simulação seja comprovada, restará demonstrada a abusividade do planejamento tributário em questão. Esta é justamente a imputação que a Autoridade Fiscal dirige à Contribuinte no presente caso, conforme se depreende do seguinte excerto do Relatório Fiscal: A empresa fiscalizada não declarou à RFB e não pagou mais de R$3,5 milhões em tributos, relativos aos anos de 2009 e 2010, mediante a simulação da constituição das SCPs. Esta simulação ocorreu quando a Orly, sócia ostensiva, e os sócios ocultos dolosamente engendraram e praticaram um negócio jurídico aparente, desejando na verdade fraudar o Fisco. Mediante conluio entre as partes foram assinados os contratos de criação das SCPs, atos meramente formais, que consistiram em declarações de vontades irreais. Portanto, a questão fundamental que deve ser enfrentada neste processo se resume à verificação concreta, ou não, de simulação. De acordo com os ensinamentos de CLÓVIS BEVILÁQUA, “dizse que há simulação quando o ato existe apenas aparentemente, sob a forma em que o agente faz entrar nas relações da vida”. Com isso, podese inferir, desde logo, que a marca essencial da simulação é a falta de existência concreta do ato simulado, pois ele “existe apenas aparentemente”. Nessa linha, prossegue o civilista afirmando que o ato simulado: É um ato fictício, que encobre e disfarça uma declaração real de vontade, ou simula a existência de uma declaração que não se fez. É uma declaração enganosa da vontade, visando a produzir efeito diverso do ostensivamente indicado. Na lição acima reproduzida, datada do início do século XX, ficam bem evidenciados os contornos da simulação: é a declaração feita com o objetivo de enganar, seja porque sob o seu manto não há qualquer vontade real (simulação absoluta), ou porque, na verdade, sob o seu manto há outra vontade que não aquela que o ato simulado representa (simulação relativa). Por essa razão, a simulação é enunciada, frequentemente, como sendo a divergência entre a vontade real e a declarada. Mas, ainda assim, é importante registrar que não se trata de um vício da vontade. Nesse sentido, bastante esclarecedoras são as palavras de FRANCISCO AMARAL: Simulação é uma declaração enganosa da vontade, visando produzir efeito diverso do ostensivamente indicado. Não é vício da vontade, pois não a atinge em sua formação. É antes uma disformidade consciente da declaração, realizada de comum acordo com a pessoa a que se destina, com o objetivo de enganar terceiros. Portanto, diferentemente do erro, do dolo e da coação, que constituem vícios que atingem a própria formação da vontade, na simulação as partes consciente e efetivamente desejam o que praticam. E praticam com a finalidade de enganar terceiros. Desse modo, as indagações acerca da simulação e, consequentemente, a comprovação da natureza simulada de um negócio jurídico, devem se concentrar não somente no caráter artificial da declaração exteriorizada, mas Fl. 2193DF CARF MF 20 também há que se demonstrar a vontade de enganar, o que é perfeitamente possível por meio da revelação da vantagem ou resultado que emerge da realização do negócio da forma como se deu. Em outras palavras, para perquirir a natureza simulada de um negócio jurídico, ao invés de perguntar qual a vontade real e a vontade aparente das partes, mais relevante é indagar sobre a causa do negócio jurídico exteriorizado ou, em outros termos, por que o negócio foi realizado da forma que aparenta. Depois de retomar os contornos teóricos da simulação, a partir deste ponto cumpre verificar se a realidade encontrada pela Autoridade Fiscal no presente caso se enquadra em tais contornos. Conforme restou esclarecido acima, a demonstração da ocorrência concreta da simulação exige a comprovação da inexistência de fato dos negócios praticados e a revelação do motivo que justificou sua realização, sendo suficiente, para tanto, a indicação precisa do resultado atingido. Segundo a Autoridade Fiscal, as SCP constituídas pela Contribuinte autuada só tinham existência “no papel”. Sem ignorar a natureza dessa figura jurídica, caracterizada pela Lei Civil como sociedade não personificada, a fiscalização demonstrou a inexistência de fato das SCP criadas pela Contribuinte a partir da consideração conjunta dos seguintes elementos: ▪ as atividades das SCP eram executadas nas instalações da sócia ostensiva, sem quaisquer ônus; ▪ as SCP e a sócia ostensiva operavam como uma única empresa, havendo absoluta dependência das primeiras em relação a segunda, seja em relação à utilização gratuita de sua estrutura física, seja no fato de trabalharem exclusivamente com os clientes da sócia ostensiva; ▪ nenhuma das SCP incorreram em despesas normais de funcionamento, como de energia, telefonia e comunicação, materiais de escritório, aluguel, limpeza e conservação; ▪ na contabilidade, somente lhe foram apropriadas despesas de pessoal de três ou quatro empregados (dependendo do período), embora existissem formalmente quatorze SCP; ▪ em razão de inexistência de despesas e custos em dez das SCP, e de reduzidas despesas em quatro delas (somente custos de pessoal), estas sociedades obtiveram lucratividade anual de mais de 98% em relação a sua receita líquida, índice completamente irreal; ▪ o valor reduzido do capital investido em empresas tão lucrativas mostra o objetivo de simples cumprimento de uma formalidade, distanciada da realidade. A fiscalização também revelou que, na contabilidade, a conta contábil Caixa era única em cada filial, de forma que não havia segregação entre os recursos da Autuada e os recursos das SCP. Além disso, a fiscalização constatou que também não havia contas bancárias exclusivas para as SCP, sendo os recursos das atividades da Autuada e das SCP movimentados nas mesmas contas. Todos esses fatos contradizem a Impugnante no ponto em que afirma haver estrutura operacional, contábil e financeira dedicada às SCP e diversa daquela que já possuía. Não parece ser essa a verdade, afinal, como é possível falar em estrutura operacional diversa se praticamente todas as instalações utilizadas Fl. 2194DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.185 21 pertencem à Autuada? Como é possível falar em estrutura financeira diversa se nem mesmo havia contas bancárias dedicadas à movimentação das SCP? E, por fim, como é possível falar em estrutura contábil diversa se a conta contábil Caixa era única em cada filial da Autuada? Todas essas constatações, que não restaram devidamente refutadas pela defesa, quando analisadas em conjunto, revelam a existência meramente formal das SCP. E não deixa de ser curiosa essa constatação, afinal, a Lei não exige qualquer formalidade especial para fins de constituição desse tipo societário (CCB, art. 992). Em outras palavras, no presente caso, a existência de entidades cuja constituição dispensa formalidades somente se verifica sob o ponto de vista formal. Também corrobora a tese de inexistência real das SCP o fato de a situação inicialmente observada ter se mantido inalterada. Com efeito, as atividades repassadas às SCP já eram realizadas pela Autuada, e continuaram a ser realizadas nos mesmos estabelecimentos, utilizandose da mesma estrutura física, contábil e financeira, provavelmente atendendo aos mesmos clientes que antes já eram atendidos pela Autuada. Alteração, de verdade, parece que somente ocorreu no plano dos papéis, e essa nova "roupagem jurídica" não deve ter perturbado as operações, afinal, conforme afirmou a Autoridade Fiscal, as atividades das SCP se referem a serviços que as próprias concessionárias de veículos normalmente prestam. Outro aspecto que merece ser apontado diz respeito ao argumento utilizado pela Impugnante para defender a existência de fundamentação econômica para a constituição das SCP em tela. Nesse sentido, no parágrafo 52 da impugnação, a Contribuinte reproduz excerto de obra jurídica em que o autor afirma o seguinte: Como se nota, o autor esclarece que a constituição da SCP se justifica em razão da urgência da operação e do desejo de evitar o comprometimento entre os agentes, que seria originado em decorrência da constituição de uma nova sociedade personificada. Ora, na constituição das SCP sob exame não se fazia presente nem a urgência operacional, e nem o risco da criação de novo comprometimento entre os agentes envolvidos. Como as atividades de intermediação já eram realizadas pela Autuada, não se pode conceber que havia a alegada urgência que demandava a constituição mais ágil de novas entidades sob o tipo societário não personificado, marcado pela informalidade. Da mesma forma, como as SCP foram criadas mediante a Fl. 2195DF CARF MF 22 associação com pessoas físicas que indiretamente já controlavam a própria Autuada, também não se poder afirmar que entre os agentes envolvidos havia o desejo de evitar o comprometimento representado por uma sociedade personificada. A Autuada e os sócios ocultos já mantinham relações societárias anteriores, ainda que indiretamente. Portanto, podese concluir que, no presente caso, as SCP tinham existência somente no papel, e que nem mesmo se faziam presentes as circunstâncias capazes de justificar a constituição de entidades sob esse tipo societário, conforme apontadas pela lição doutrinária que a própria Impugnante colacionou. Para concluir que a constituição das SCP decorreu da realização de negócios simulados, cumpre agora identificar o objetivo da iniciativa, revelador do motivo por trás da intenção de enganar. Nesse caso, a identificação do objetivo é elementar. Segundo apuração realizada pela Autoridade Fiscal, a implementação da estratégia sob exame viabilizou a opção pelo regime do Lucro Presumido por parte das SCP e, com isso, nos anos de 2009 e de 2010, a Autuada evitou o pagamento de aproximadamente R$ 3,5 milhões a título de tributos federais. Em síntese, considerando que foram devidamente demonstrados tanto a inexistência de fato dos negócios realizados quanto o objetivo subjacente à estratégia, podese concluir que restou comprovada a simulação levada a efeito pela Contribuinte. Com isso, fica esclarecido que a fiscalização demonstrou a abusividade do planejamento tributário executado, não havendo que se falar em exigência fiscal por meio de presunção, conforme alegação da Impugnante. Também não há que se falar em mera opção fiscal pelo regime do Lucro Presumido. A legítima opção pelo referido regime pressupõe que a entidade possua existência concreta e em conformidade com o Direito, o que se demonstrou não ser o caso das SCP constituídas pela Impugnante. Quanto à alegada impossibilidade de desconsideração das SCP por conta da ausência de regulamentação do parágrafo único do art. 116 do CTN, cumpre esclarecer que, tanto os que defendem o caráter antielisivo do referido dispositivo (caso de Marco Aurélio Greco), quanto os que defendem se tratar de norma antissimulação (como o faz Alberto Xavier), concordam que, tratandose de simulação, o Código Tributário Nacional já oferece solução desde a sua publicação, em 1966. Em outras palavras, independentemente da tese adotada em relação à caracterização da norma contida no parágrafo único do art. 116 do CTN, parece ser de ampla aceitação o fato de que, ainda que o referido dispositivo não tenha sido regulamentado, em casos de simulação o fisco pode recusar a eficácia dos negócios simulados e alcançar os negócios dissimulados que se enquadrarem na hipótese de incidência tributária, tudo com fundamento no inciso VII do art. 149 do CTN. Desse modo, a ausência de regulamentação do parágrafo único do art. 116 do CTN não representa qualquer obstáculo à atuação do fisco nos casos em que restar demonstrada a prática de simulação. Fl. 2196DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.186 23 Adoto sem nenhum reparo os mesmos fundamentos para manter a autuação principal e adito o fato de os sócios ocultos corresponderem a apenas uma pessoa física em cada uma das 14 sociedades em conta de participação. Foram elas: Eric Braz Tambasco, Thiago Braz Tambasco e Eloy José Mendonça Braz. Essas três pessoas físicas eram sócias de outras pessoas jurídicas sócias da autuada. Esses sócios ocultos participavam apenas com 1% do capital e, portanto, detinham direito a apenas uma fração diminuta do resultado das SCP, o que claramente caracteriza tratarse de uma estrutura meramente formal com o fito de reduzir ilicitamente a tributação da pessoa jurídica sócia ostensiva. Multa qualificada Por derradeiro, também devem ser mantidos os fundamentes da autoridade julgado da primeiro grau com relação à qualificadora da multa. Abaixo, reproduzo sua lavra: Portanto, segundo a Autoridade Fiscal, ao criar quatorze SCP que não existiam de fato, a contribuinte agiu com “o intuito claro de reduzir de forma fraudulenta e simulada os valores devidos de IRPJ, CSLL, Cofins e contribuição para o PIS/Pasep”. Dessa forma, ainda segundo a Autoridade Fiscal, a Autuada e os sócios ocultos “dolosamente engendraram e praticaram um negócio jurídico aparente, desejando na verdade fraudar o Fisco”. Com a prática de tal conduta, a Contribuinte “impediu o conhecimento da Receita Federal das reais condições em que ocorreram os fatos geradores e de seus aspectos pessoais, tentando transferir para terceiros (as SCPs) a condição de contribuintes”. Em sua defesa contra a qualificação da multa de ofício aplicada, além de alegar o efeito confiscatório da multa aplicada, a Impugnante sustenta ser precária a fundamentação da Autoridade Fiscal no sentido de caracterizar seu dolo (...) Como se nota, a Contribuinte alega que a imposição da multa qualificada é incompatível com a exigência que lhe foi dirigida, que teria sido formulada com base em presunção, haja vista que não teria sido comprovada a materialidade de sua conduta ilícita. Ainda segundo a Impugnante, seu “o evidente intuito de sonegação, justificador da aplicação da multa majorada, foi imputado ao contribuinte apenas em tese”. Primeiramente, cumpre registrar que o “evidente intuito de fraude” desde 2007 não consta mais na norma que prevê a qualificação da multa de ofício acrescida aos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal. Além disso, conforme restou esclarecido neste voto, o lançamento fiscal não se fundamentou em mera presunção. Fl. 2197DF CARF MF 24 Na verdade, restou demonstrado o caráter abusivo do planejamento tributário executado pela Contribuinte. De fato, no presente caso, há que se referendar a imposição da multa qualificada. Considerando que as SCP não têm existência concreta, e que foram criadas apenas com a finalidade de para elas transferir a condição de contribuinte que nunca deixou de recair sobre a Impugnante, sua conduta se enquadrou perfeitamente no inciso II do inciso 71 da Lei nº 4.502, de 1964. Ademais, também é possível enquadrar a conduta da Contribuinte no art. 72 da mesma Lei, afinal, por fraude deve se entender não apenas o resultado de falsificações materiais (como a adulteração de documentos, etc.), como parece ser o entendimento da Impugnante. Na medida que a simulação levada a efeito pela Contribuinte foi praticada maliciosamente, com o objetivo de enganar o Fisco federal, resta evidente a natureza fraudulenta de sua conduta, afastando qualquer possibilidade de se tratar de um comportamento fundamentado em mera interpretação equivocada de norma jurídica. Por fim, quanto à alegação de que a multa aplicada teria efeito de confisco, cumpre ressaltar que a apreciação desta matéria foge à alçada das autoridades administrativas de qualquer instância, que não dispõem de competência para examinar hipóteses de violações às normas legitimamente inseridas no ordenamento jurídico nacional. É que em casos como este, em que se pretende afastar penalidades fiscais negando validade aos atos nos quais são previstas, bastante limitada é a atuação do julgador administrativo. Em razão de o assunto estar disciplinado em atos legais regularmente editados e em face de às instâncias administrativas, pelo caráter vinculado de sua atuação, não ser dada a atribuição de apreciar questões relacionadas com a legalidade ou constitucionalidade de qualquer ato legal, descabidas tornamse quaisquer manifestações a esse respeito. Com efeito, a apreciação de assuntos dessa natureza achase reservada ao Poder Judiciário, razão pela qual qualquer discussão quanto aos aspectos da validade das normas jurídicas deve ser submetida ao crivo daquele Poder. Sobre o assunto, o CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS DO MINISTÉRIO DA FAZENDA CARF consolidou seu entendimento em enunciado de Súmula, publicada no DOU nº 244, p. 71, Seção I, do dia 22 de dezembro de 2009: (...) Assim definida tal limitação, cumpre referendar o feito fiscal no que se relaciona à imposição da multa de ofício fixada em 150%. Fl. 2198DF CARF MF Processo nº 10640.720275/201495 Acórdão n.º 1401002.085 S1C4T1 Fl. 2.187 25 Conclusão Por todo o exposto, voto por rejeitar as preliminares suscitadas para, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Fl. 2199DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.012699/2010-11
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2007
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.084
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/2007-64, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo nº: 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 01 26 99 /2 01 0- 11 Fl. 513DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 3 2 Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, tendo por paradigma o processo n° 10552.000174/200764. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo apresentou contrarrazões onde pugna pela manutenção da decisão recorrida, que , em seu entendimento reflete a melhor interpretação jurídica quanto à aplicação do art. 106, II, "c" ao caso sob análise. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202006.065, de 25/10/2017, proferido no julgamento do processo 10552.000174/200764, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202006.065): Quanto ao conhecimento Pelo que consta no processo quanto a sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade. Assim, conheço do recurso da Fazenda Nacional. Quanto ao mérito O presente tema, objeto do presente julgamento repetitivo de recursos, tem entendimento já pacificado no âmbito desta Turma da CSRF, o qual é brilhantemente delineado pela Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira no âmbito do Acórdão 920205.782, de 26 de setembro de 2017, e, assim, adotase Fl. 514DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 4 3 excerto do teor do voto condutor daquele Acórdão, a seguir transcrito, como razões de decidir, verbis: (...) Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “c” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 515DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 5 4 Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): "Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Fl. 516DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 6 5 Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: Fl. 517DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 7 6 “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada Fl. 518DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 8 7 competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor da multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente."(grifos não presentes no original) Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: (...) Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. (grifos não presentes no original). (...)" Fl. 519DF CARF MF Processo nº 10830.012699/201011 Acórdão n.º 9202006.084 CSRFT2 Fl. 9 8 Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Em face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, dar lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 520DF CARF MF
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