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Numero do processo: 11634.001131/2010-54
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Oct 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Dec 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/08/2007 a 31/10/2007
ERRO NA CAPITULAÇÃO LEGAL. EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA.
Estando os fatos devidamente descritos na autuação e tendo sido oportunizado ao contribuinte o direito ao legítimo exercício da ampla defesa e do contraditório, eventuais defeitos na fundamentação legal do débito não são suficientes para invalidar o auto de infração.
Numero da decisão: 9202-007.318
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado).
(Assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
(Assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Estando os fatos devidamente descritos na autuação e tendo sido oportunizado ao contribuinte o direito ao legítimo exercício da ampla defesa e do contraditório, eventuais defeitos na fundamentação legal do débito não são suficientes para invalidar o auto de infração. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Patrícia da Silva, que lhe negaram provimento. Votaram pelas conclusões as conselheiras Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado). (Assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora (Assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho – Redator designado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 63 4. 00 11 31 /2 01 0- 54 Fl. 181DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2402003.646, proferido pela 2ª Turma Ordinária / 4ª Câmara / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de Auto de Infração de crédito devido à Seguridade Social, lançado pela fiscalização contra a empresa, acima identificada, perfazendo um total de R$ 893.708,46 (oitocentos e noventa e três mil e setecentos e oito reais e quarenta e seis centavos), consolidado em 05/08/2010. Tratase de compensação indevida de contribuições previdenciárias efetuadas pela filial da empresa CNPJ n° 61.144.150/000678, nas competências 08/2007, 09/2007 e 10/2007, cujos valores foram declarados em GFIP. O Contribuinte apresentou a impugnação, às fls. 122/136. A DRJ em Curitiba, às fls. 59/68, julgou improcedente a impugnação, mantendo o crédito tributário exigido. O Contribuinte apresentou Recurso Voluntário às fls. 66/78. A 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 91/97, DEU PROVIMENTO ao Recurso Voluntário. A Decisão restou assim ementada: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/08/2007 a 31/10/2007 COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. NORMA APLICÁVEL VIGENTE À ÉPOCA DO ENCONTRO DE CONTAS (FORMULAÇÃO DO PEDIDO). MATÉRIA JULGADA PELO STJ SOB O PÁLIO DO ART. 543C DO CPC. RECURSO REPETITIVO. Na análise do pedido de compensação deverá será aplicada a norma vigente à época do encontro de contas efetuado pelo contribuinte, ou seja, aquela vigente na época do pedido de compensação formulado. Tendo em vista que o art. 44, § 1º da IN SRFB somente teve sua vigência iniciada após ter sido formulado o pedido de compensação em análise, os óbices por ele impostos não podem ser aplicados ao presente caso. Recurso Voluntário Provido. Fl. 182DF CARF MF Processo nº 11634.001131/201054 Acórdão n.º 9202007.318 CSRFT2 Fl. 10 3 Às fls. 99/107, a Fazenda Nacional apresentou Embargos de Declaração, alegando contradição e omissão do julgado, porém, restaram os mesmos rejeitados, às fls. 110/112. Às fls. 114/141, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, arguindo divergência jurisprudencial acerca da seguinte matéria: Nulidade. Inexistência de vício/vício formal versus vício material: a) capitulação legal prejuízo como condição para a anulação do lançamento; e b) ausência de identificação do débito vício formal. Considerou manifesta a identidade (ou similitude) fática entre as situações analisadas no acórdão recorrido e no(s) paradigma(s). Todos os acórdãos confrontados tratam de normas gerais relacionadas ao processo administrativo tributário, notadamente sobre vícios porventura existentes no lançamento. O acórdão recorrido entendeu que a fiscalização não declinou especificamente o débito que ensejou o indeferimento da compensação pretendida, o que caracterizaria cerceamento ao direito de defesa. Noutro passo, o paradigma apresentado, acórdão nº 230200308, ao tratar de elemento essencial ao lançamento, que naquele caso tratavase da demonstração da subordinação jurídica para caracterização do vínculo de emprego, concluiu que a incompletude do relatório fiscal ensejaria apenas a nulidade do lançamento por vício formal. Importante ressaltar que o elemento faltante no caso do paradigma também se configurava como essencial ao lançamento e ao exercício do direito à ampla defesa pelo contribuinte. Nada obstante, o acórdão paradigma apenas anulou o lançamento por vício formal, possibilitando que a fiscalização complementasse o trabalho fiscal nos termos do art. 173, inciso II, do CTN. O acórdão recorrido respaldou ainda seu entendimento no fato de que o óbice disposto no art. 44, § 1º da Instrução Normativa 900 da SRFB não poderia ter sido aplicado ao presente caso, por se tratar de legislação superveniente à compensação efetuada e glosada pela fiscalização. Ocorre que os paradigmas apresentados quanto à matéria, acórdãos nº 1401000894 e nº 10614513, também tratando de casos nos quais se vislumbrou a incorreção do enquadramento legal da autuação, concluíram de modo diverso, afastando qualquer preliminar de nulidade ou mesmo o argumento de insubsistência do lançamento sob esse epíteto. O Contribuinte requereu ao final que, na hipótese de não reformar a sentença que anulou o lançamento, seja anulado o Auto de Infração, porém, por vício formal. Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial, às fls. 144/149, a 4ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU SEGUIMENTO ao recurso, concluindo restar demonstrada a divergência de interpretação em relação às seguintes matérias: Nulidade do lançamento: a) capitulação legal prejuízo como condição para a anulação do lançamento; e b) ausência de identificação do débito vício formal. Cientificado à fl. 153, o Contribuinte apresentou Contrarrazões às fls. 156/165, requerendo, preliminarmente, a inadmissibilidade do recurso especial por não apontar especificamente qual dispositivo legal foi infringido pelo acórdão recorrido. Alega também a falta de similitude fática com o objeto da autuação fiscal, não comprovando, assim, o dissídio jurisprudencial. Ainda preliminarmente, argui que o recurso especial encontra óbice no art. 62, § 2º do RICARF, em virtude de que a matéria pertinente ao caso já foi analisada pelo STJ no REsp 1.164.452, Tema nº 345 de recursos repetitivos. No mérito, requer a manutenção da decisão. Vieram os autos para julgamento. É o relatório. Fl. 183DF CARF MF 4 Voto Vencido Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de Auto de Infração de crédito devido à Seguridade Social, lançado pela fiscalização contra a empresa, acima identificada, perfazendo um total de R$ 893.708,46 (oitocentos e noventa e três mil e setecentos e oito reais e quarenta e seis centavos), consolidado em 05/08/2010. Tratase de compensação indevida de contribuições previdenciárias efetuadas pela filial da empresa CNPJ n° 61.144.150/000678, nas competências 08/2007, 09/2007 e 10/2007, cujos valores foram declarados em GFIP. O Acórdão recorrido negou provimento ao Recurso Voluntário. O Recurso Especial, apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a seguinte divergência: Nulidade do lançamento: a) capitulação legal prejuízo como condição para a anulação do lançamento; e b) ausência de identificação do débito vício formal. O Contribuinte sustenta ser nulo o lançamento efetuado, tendo em vista que a fiscalização não demonstrou, a contento, os fundamentos necessários para a realização do lançamento, dentre eles as bases tributáveis e a própria ocorrência do fato gerador. Para o melhor deslinde da questão é importante observar a questão de prova bem delimitada e decidida pelo acórdão do colegiado a quo: Verificase que o comando normativo determina que a recorrente deveria estar em situação regular junto à Previdência Social para que, somente então, pudesse levar a efeito a compensação de contribuições previdenciárias devidas. Pois bem, da leitura do relatório fiscal, depreendese que a autoridade fiscal apurou que a recorrente estava em situação irregular junto à previdência social, todavia, nas demais ponderações do relatório fiscal do lançamento, sequer chegou a ser apontado quais eram os débitos que estavam em situação irregular, mas apenas que haviam débitos em fase de inscrição em dívida ativa. A meu ver, a ausência do apontamento específico de qual o débito ensejou o indeferimento da compensação pretendida configura o cerceamento do direito de defesa do contribuinte, na medida em que fica preterido em pontualmente poder vir até a comprovar que tal informação esteja equivocada e demonstrar que o lançamento é improcedente. Todavia, no presente caso, ainda em sede preliminar, tenho que exista questão prejudicial até mesmo à alegação da nulidade do lançamento e que já foi alvo de calorosas discussões, tendo sido Fl. 184DF CARF MF Processo nº 11634.001131/201054 Acórdão n.º 9202007.318 CSRFT2 Fl. 11 5 decidida até pelos Tribunais Superiores em favor da pretensão da recorrente. Refirome à tese de que a legislação a ser aplicada ao caso é aquela vigente à época em que formulado o pedido de compensação, de modo que o óbice previsto no art. 44, § 1o da Instrução Normativa 900 da SRFB não se aplica ao presente caso. Pois bem, no caso em apreço a compensação foi efetuada por intermédio de GFIP nas competências de 08/2007 a 10/2007, logo em data muito anterior à vigência da IN 900/08, cujos efeitos somente passaram a valer em 1o de janeiro de 2009, conforme disposto em seu art. 99, a seguir: Art. 99. Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de sua publicação, produzindo efeitos a partir de 1º de janeiro de 2009. Logo, a legislação a ser aplicada ao presente caso deveria ser aquela vigente à época do encontro de contas levado a efeito, ou seja, a legislação vigente à época em que formulado o pedido de compensação, no presente caso, formalizado em 2007. Em que pese o argumento da Fazenda Nacional, entendo que o auto de infração padece de deficiência oriunda da ausência de êxito da fiscalização a ausência do apontamento específico de qual o débito ensejou o indeferimento da compensação, ainda quanto a capitulação do auto de infração este também não corresponde a época dos fatos, sendo posterior, motivo pelo qual deve ser cancelado o Auto de Infração de obrigação principal, por vício material. Isso por que como bem apontado pelo Conselheiro Julio César Vieira Gomes CARF, Processo nº 19994.000022/201032. 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, a descrição do fato precisa demonstrar claramente a ocorrência do fato gerador: No caso do ato administrativo de lançamento, o auto de infração com todos os seus relatórios e elementos extrínsecos é o instrumento de constituição do crédito tributário. E a sua lavratura se dá em razão da ocorrência do fato descrito pela regra matriz como gerador de obrigação tributária. Esse fato gerador, pertencente ao mundo fenomênico, constitui, mais do que sua validade, o núcleo de existência do lançamento. Quando a descrição do fato não é suficiente para a certeza de sua ocorrência, carente que é de algum elemento material necessário para gerar obrigação tributária, o lançamento se encontra viciado por ser o crédito dele decorrente duvidoso. É o que a jurisprudência deste Conselho denomina de vício material. (...)” Diante do exposto, recebo o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, para no mérito negarlhe provimento. Fl. 185DF CARF MF 6 É como voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Voto Vencedor Mário Pereira de Pinho Filho – Redator designado Não obstante as razões suscitadas pela i. Relatora, entendo que as normas afetas à compensação e a jurisprudência deste Conselho conduzem a conclusão diversa daquela apontada no voto vencido. Da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional verificase que foram trazidas ao exame deste Colegiado somente duas questões: a) ausência de identificação do débito que impediu a compensação; e b) capitulação legal prejuízo como condição para a anulação do lançamento. Quanto ao primeiro item, a decisão recorrida detémse a comentar que o Fisco apurou estar o contribuinte em situação irregular perante a Previdência Social sem, contudo, especificar os débitos nessa condição, restringidose a afirmar “que haviam débitos em fase de inscrição em dívida ativa”. Prossegue o Relator da decisão fustigada arguindo que, a seu ver, “a ausência do apontamento específico de qual o débito ensejou o indeferimento da compensação pretendida configura o cerceamento do direito de defesa do contribuinte”, dada a impossibilidade de que esse pudesse comprovar eventual equívoco no apontamento feito pela autoridade autuante. Sobre esse tema, a partir de uma leitura mais atenta do acórdão sob afronta, concluise a que tais arguições, embora revelem uma convicção do relator quanto ao caso concreto, não tiveram qualquer influência sobre decisão adotada pelo Colegiado recorrido. Até porque, o recurso voluntário do contribuinte não faz nenhuma consideração a esse respeito. Muito provavelmente seja esse o motivo de não haver consideração alguma no despacho de admissibilidade que rejeitou os embargos da Fazenda Nacional, mesmo tendo a Procuradoria questionado expressamente o trecho da decisão que faz referência ao assunto. Do mesmo modo, não há nenhuma menção a respeito desse tópico na ementa da decisão, o que reforça a tese aqui esposada. Relativamente ao segundo tema, a decisão a quo aponta para a existência de defeito no lançamento em razão de o Relatório Fiscal (fls. 11/16) fazer alusão ao § 1º do art. 44 da Instrução Normativa RFB nº 900/2008, norma que ainda não havia sido editada à época das dos fatos, para glosar as compensações efetuadas, ao argumento de que “a empresa por ocasião da efetivação das compensações encontravase em débito com as contribuições previdenciárias, com valores já constituídos e inscritos e/ou em fase de inscrição em Dívida Ativa”. De acordo com o referido dispositivo: Art. 44. [...] Fl. 186DF CARF MF Processo nº 11634.001131/201054 Acórdão n.º 9202007.318 CSRFT2 Fl. 12 7 § 1º Para efetuar a compensação o sujeito passivo deverá estar em situação regular relativa aos créditos constituídos por meio de auto de infração ou notificação de lançamento, aos parcelados e aos débitos declarados, considerando todos os seus estabelecimentos e obras de construção civil, ressalvados os débitos cuja exigibilidade esteja suspensa. [...] Ocorre que, quando da compensação, encontravase vigente a Instrução Normativa SRP nº 3/2005, a qual veiculava dispositivo de idêntico teor ao do ato normativo que, neste ponto, lhe sucedeu o qual, digase de passagem, foi a própria Instrução Normativa RFB nº 900/2008. Senão vejamos: Art. 193. Caso haja pagamento de valores indevidos à Previdência Social, de atualização monetária, de multa ou de juros de mora, é facultado ao sujeito passivo optar pela compensação ou pela formalização do pedido de restituição na forma da Seção II deste Capítulo, observadas, quanto à compensação, as seguintes condições: (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) I a compensação deverá ser realizada com contribuições sociais arrecadadas pela SRP para a Previdência Social, excluídas as destinadas para outras entidades ou fundos; (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) II o sujeito passivo deverá estar em situação regular, considerando todos os seus estabelecimentos e obras de construção civil, em relação às contribuições objeto de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD e débito decorrente de Auto de Infração AI, cuja exigibilidade não esteja suspensa, de Lançamento de Débito Confessado LDC, de Lançamento de Débito Confessado em GFIP LDCG, de Débito Confessado em GFIP DCG; (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) III o sujeito passivo deverá estar em dia com as parcelas relativas ao acordo de parcelamento de contribuições objeto dos lançamentos de que trata o inciso II, considerados todos os seus estabelecimentos e obras de construção civil; (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) IV somente é permitida a compensação de valores que não tenham sido alcançados pela prescrição, conforme disposto nos arts. 218 e 219; (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) V a compensação somente poderá ser realizada em recolhimento de importância correspondente a períodos subseqüentes àqueles a que se referem os valores pagos indevidamente. (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 900, de 30 de dezembro de 2008) (Grifouse) Além do que, tanto a Instrução Normativa RFB nº 900/2008 quanto a Instrução Normativa SRP nº 3/2005 prestamse tãosomente a dar operacionalidade ao procedimento de compensação definido em lei e em regulamento, as disposições legais e Fl. 187DF CARF MF 8 regulamentares que serviram de base para o lançamento estão devidamente relacionadas no relatório denominado Fundamento Legal do Débito – FLD (fls. 7/8), e isso está colocado de forma bastante evidente no Relatório Fiscal, nos seguintes termos: 4. Integram o Auto de Infração os seguintes relatórios: [...] c). Fundamentos Legais do Débito: (FLD), que informa ao contribuinte os dispositivos lega que fundamentaram o lançamento efetuado, de acordo com a legislação vigente à época de ocorrência dos fatos geradores; [...] (Grifouse) Recorrendose ao relatório FLD, vêse não haver qualquer irregularidade na indicação das normas que deram azo à autuação. Confirase: Fundamentos Legais das Rubricas 501 COMPENSAÇÃO INDEVIDA 501.06 Competências : 08/2007 a 10/2007 Lei n. 8.212, de 24.07.91, art. 89 (com a redação dada pela Lei n. 9.129, de 20.11.95) e art. 31, parágrafos 1 . , (com as alterações da MP n. 1.66315, de 23.10.98, convertida na Lei n. 9.711, de 21.11.98); Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto n. 3.048, de 06.05.99, artigos 247 a 249, 251, 253 e art. 219, parágrafos 4. e 9. Ademais, mesmo que se admita a existência de eventual erro na fundamentação legal do lançamento, a jurisprudência dominante no âmbito deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais é no sentido de que o sujeito passivo se defende dos fatos que lhe são imputados e não da capitulação legal. Assim, estando os fatos devidamente descritos na autuação e tendo sido oportunizado ao contribuinte o direito ao legítimo exercício da ampla defesa e do contraditório, consoante se verifica no presente caso, eventuais defeitos na fundamentação legal do débito não seriam suficientes a afastar a autuação. Conclusão Ante o exposto voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional para, no mérito, darlhe provimento de forma a restabelecer o lançamento. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 188DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13656.721196/2012-59
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 07 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO.ACOLHIMENTO
Existindo obscuridade, omissão ou contradição no acórdão embargado, impõe-se seu acolhimento para sanar o vício contido na decisão.
Numero da decisão: 3302-006.248
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, para retificar o acórdão embargado, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Raphael Madeira Abad - Relator.
Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado).
Nome do relator: RAPHAEL MADEIRA ABAD
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2008 a 31/03/2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO.ACOLHIMENTO Existindo obscuridade, omissão ou contradição no acórdão embargado, impõese seu acolhimento para sanar o vício contido na decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher parcialmente os embargos de declaração, com efeitos infringentes, para retificar o acórdão embargado, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Raphael Madeira Abad Relator. Participaram do julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad e Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 65 6. 72 11 96 /2 01 2- 59 Fl. 10099DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 3 2 Tratase de processo administrativo no bojo do qual discutese o direito a créditos tributários relativos ao procedimento industrial consistente na industrialização do alumínio. Quando da prolação do Acórdão 3302004.156 restou estabelecida uma sistemática de aproveitamento de créditos, mantendo algumas glosas e revertendo outras, na forma da decisão sob exame. Desta decisão foram opostos Embargos Declaratórios por meio dos quais a Recorrente apontou obscuridadades, contradições e omissões. Foi proferido Despacho de Admissibilidade pelo qual foram admitidos parcialmente os embargos de declaração interpostos pelo contribuinte em relação aos itens 2, 3, 4, 5, 6 e 8 das alegações. É o Relatório. Voto Conselheiro Raphael Madeira Abad Relator. 1. Admissibilidade. Os embargos de declaração opostos pelo Contribuinte, ora Embargante, tiveram o exame de admissibilidade processado regularmente, dele tomo conhecimento. Partindose das premissas estabelecidas pelo Despacho de Admissibilidade, cumpre agora analisar os itens 2, 3, 4, 5, 6 e 8 das alegações 2. Mérito. 2.1. Manutenção de parte da glosa decorrente da aquisição de materiais de embalagem. O Despacho de Admissibilidade assim delineou a alegada contradição na manutenção de parte da glosa decorrente da aquisição de material de embalagem: 2. Contradição na manutenção de parte da glosa decorrente da aquisição de materiais de embalagem. Explica que, no voto, o Relator relacionou, exemplificativamente, alguns bens sobre os quais as glosas deveriam ser revertidas. Na parte dispositiva, contudo, a decisão, contraditoriamente, enumerou alguns itens, contrariando a decisão do Relator de reverter "a glosa integral dos créditos apropriados sobre o preço de aquisição dos referidos materiais". (grifos não constantes do original) Fl. 10100DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 4 3 Relativamente à contradição alegada no que diz respeito aos créditos relativos às aquisições de material de embalagem, cumpre destacar que tal requerimento foi formulado no item 4.2.2. do Recurso Voluntário. Acerca dos referidos materiais de embalagem, o Voto Vencedor do Ilustre Conselheiro José Fernandes do Nascimento tratouos da seguinte forma: "A fiscalização também não andou bem quanto à glosa das aquisições dos materiais de embalagem, tais como “paletes, estrados, ripas e etiquetas”, sob o argumentos de que elas eram destinadas ao transporte e armazenamento dos produtos fabricados pela recorrente. Em consonância com a definição de insumo anteriormente apresentada, para fins de apropriação de crédito das referidas contribuições, a condição de o material de embalagem ser de apresentação, acondicionamento ou de transporte revela ser irrelevante. Para essa finalidade, revelase suficiente a utilização dos referidos materiais no âmbito do processo produtivo, com a finalidade de deixar o produto destinado à venda em condições de ser comercializado, transportado e entregue ao cliente. Em relação à glosa em apreço, a autuada alegou que utilizava diversos tipos de materiais de embalagem, conforme se constata nos excertos extraídos do recurso voluntário, a seguir transcritos: Por exemplo, a alumina, quando comercializada em pó branco, antes de sua transformação em alumínio metálico, é embalada mediante a utilização de diversos insumos necessários a assegurar o acondicionamento do produto, a exemplo de fita gomada, da fita isolante, da etiqueta, dos selos de embalagem, dos papéis de embalagem e dos pallets ou caixas de madeira (conforme detalhado no doc. 07 da impugnação), sem os quais o transporte da alumina não se faz possível. A título exemplificativo, a recorrente junta aos presentes autos fotos da utilização dos pallets de madeira no processo de embalagem dos produtos/insumos utilizados no seu processo produtivo (doc. 12 da impugnação) Mais do que destinados ao transporte a contento, os diversos insumos para embalagem adquiridos pela recorrente prestamse ao acondicionamento do produto, de modo que não haja sua contaminação, por partículas ou umidade, e também para a colocação de informações necessárias e pertinentes aos clientes. (grifos do original) Não há nos autos informação de que os referidos materiais de embalagens não foram utilizados na fase de produção dos bens destinados à venda, logo, deve ser revertida a glosa integral dos créditos apropriados sobre o preço de aquisição dos referidos materiais, inclusive, fita gomada, da fita isolante, dos selos de Fl. 10101DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 5 4 embalagem, dos papéis de embalagem e caixas de madeira, bem como os materiais de embalagem especiais, a exemplo do contentor flex, utilizado para transportar pó de alumínio. De outra parte, não há amparo legal para o reconhecimento do direito de apropriação de crédito sobre o valor de aquisição de máquinas impressoras de etiquetas de embalagem, conforme pretendido pela recorrente. Por terem prazo de vida útil superior a um ano, o custo de aquisição de tais máquinas deve ser registrado nas correspondentes contas do ativo não circulante, subgrupo imobilizado, e os créditos apropriados sobre os encargos de depreciação nos períodos em que incorridos os referidos encargos, na forma estabelecida no art. 3º, § 1º, III, das Lei 10.637/2002 e 10.833/2003. Pelo motivo, devem ser mantidas as glosas das aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano, registrados ou que deveriam ser registrados no ativo permanente. Tais bens não se enquadram no conceito de insumo, logo, indevida apropriação de crédito sobre o valor de aquisição." (grifos não constantes no original) Cotejando o texto do voto vencedor e do dispositivo é possível aferir que existe uma contradição entre eles, eis que o texto do voto do Relator tratou todos os materiais de embalagem, exemplificando alguns, enquanto o dispositivo da decisão enumerou taxativamente os produtos. Analisando o Recurso Voluntário em questão é possível aferir que ao mencionar os materiais de embalagem a Recorrente tratou de: "fita gomada, fita isolante, etiqueta, selos de embalagem, papéis de embalagem, pallets de madeira e caixas de madeira.", tudo constante o item 4.2.e. de fls. 46 de 97. Admitese que no âmbito do regime não cumulativo, independente de serem de apresentação ou de transporte, os materiais de embalagens utilizados no processo produtivo, com a finalidade de deixar o produto em condições de ser estocado e comercializado, são considerados insumos de produção e, nessa condição, geram créditos básicos da referida contribuição. Por este motivo, tendo requerido a reversão da glosa dos créditos relativos a tais produtos acima mencionados, voto no sentido de acolher os embargos, sem efeitos infringentes para suprir a omissão, esclarecendo que devem ser concedidos os créditos para todos os materiais de embalagem expressamente requeridos, expressamente "fita gomada, fita isolante, material de embalagem, etiqueta, selos de embalagem, papéis de embalagem, pallets de madeira, estrados de madeira, ripas e caixas de madeira. Assim, no dispositivo do Acórdão, onde se lê “Por maioria de votos, também em restabelecer o crédito em relação aos paletes, estrados, ripas e etiquetas, fita gomada, fita isolante, selo de embalagem, papel de embalagem, embalagens especiais, parcialmente vencidos os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède e Ricardo Rosa e a Conselheira Maria do Socorro, que concediam apenas para as etiquetas, fita gomada, fita isolante, selo de embalagem, papel de embalagem e embalagens especiais”, passase a se ler "Por maioria de votos, também em reverter a glosa sobre os materiais de embalagem que foram expressamente requeridos no Recurso Voluntário." Fl. 10102DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 6 5 2.2. Contradição e omissão em relação à glosa de aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano ou de valor superior a R$ 326,00. “3. Contradição e omissão em relação à glosa dos créditos decorrentes de aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano ou de valor superior a R$ 326,00. Argumenta que, ao manter a glosa, o acórdão reconheceu o direito de crédito relativos à depreciação dos bens ativáveis, mas não determinou de quem seria o ônus de provar/determinar (i) quais bens não foram ou deveriam ser ativados e (ii) "a partir deles, aplicar os respectivos impactos da apuração dos créditos sobre encargos de depreciação em detrimento do custo de aquisição". O presente item trata da alegada contradição e omissão em relação ao ônus de provar e determinar quais máquinas com prazo de vida útil superior a um ano ou valor superior a R$ 326,00 não foram ou deveriam ser ativados. A decisão sob análise foi redigida nos seguintes termos: "De outra parte, não há amparo legal, para o reconhecimento do direito de apropriação de crédito sobre o valor de aquisição de máquinas impressoras de etiquetas de embalagem, conforme pretendido pela recorrente. Por terem prazo de vida útil superior a um ano, o custo de aquisição de tais máquinas deve ser registrado nas correspondentes contas do ativo não circulante, subgrupo imobilizado, e os créditos apropriados sobre os encargos de depreciação nos períodos em que incorridos os referidos encargos, na forma estabelecida no art. 3º, § 1º, III, das Lei 10.637/2002 e 10.833/2003. (destaques nossos) Pelo motivo, devem ser mantidas as glosas das aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano, registrados ou que deveriam ser registrados no ativo permanente. Tais bens não se enquadram no conceito de insumo, logo, indevida apropriação de crédito sobre o valor de aquisição." A ementa ora embargada foi lavrada nos termos que são transcritos abaixo : “Por unanimidade de votos, em restabelecer os créditos em relação aos produtos químicos, materiais e equipamentos (não registrados no ativo imobilizado) utilizados no processo produtivo e mantida a glosa nas aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano ou de valor superior a R$ 326,00 (trezentos e vinte e seis reais) e máquinas impressoras de etiquetas, resguardado o direito a apropriação de créditos relativos à depreciação dos bens ativáveis. Fl. 10103DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 7 6 Finalmente, esta foi a conclusão a que chegou o Despacho de Admissibilidade. Concernente à glosa de créditos na aquisição de máquinas e equipamentos ativáveis no imobilizado, há uma obscuridade/omissão quanto à expressão "resguardado o direito a apropriação de créditos relativos à depreciação dos bens ativáveis", pois, de fato, não se definiu como será a apropriação destes valores e a quem corresponderia este encargo na liquidação do acórdão. Assim, entendo pelo cabimento dos embargos para esclarecimento. Em relação à competência para se definir a competência para atribuir a vida útil superior a um ano de determinado produto, voto no sentido de acolher os embargos, sem efeitos infringentes para suprir a omissão, esclarecendo que a competência para realizar tal indicação é do fisco. 2.3. Contradição em relação aos créditos decorrentes da aquisição de produtos químicos, materiais e equipamentos (não registrados no ativo imobilizado) utilizados no processo produtivo. Em relação a este item, os Embargos Declaratórios foram admitidos apenas no que diz respeito aos itens especificamente abordados no Recurso Voluntário e indicados nos embargos opostos. "Porém, pareceme haver omissão quanto aos itens especificamente abordados no recurso voluntário e indicados nos embargos opostos. Assim, admito os embargos apenas em relação aos itens expressos no recurso voluntário" Estando a análise dos presentes Embargos Declaratórios limitada ao Despacho de Admissibilidade, neste momento processual somente poderão ser analisados os itens expressos no Recurso Voluntário. Por este motivo cumpre identificar quais foram os bens que apesar de indicados no Recurso Voluntário, não foram objeto de análise quando da prolação do Acórdão ora recorrido, e que foram mencionados nos Embargos de Declaração. No Recurso Voluntário (fls. 27 de 97) foram trazidos à baila os seguintes produtos: Argônio gasoso, argônio líquido, manômetros, acido sulfúrico para análise, ácido cloridrico, ácido sulfúrico, ácido nítrico, cal, soda cáustica, carvão, floculante, pano filtro, tecidos filtrantes, borracha de neoprene para fixação de filtros, filtro cartucho, óleo combustível, GLP, fluoreto de alumínio, criolita fundida, eletrólitos, anodo de carbono, catodo contendo blocos de carbono, varas de eucalipto, energia elétrica, ferramentas, combustível, lubrificantes, raspadores, argamassa refrataria, blocos catódicos, chaparia para carcaça, fibra cerâmica refratária, tijolo refratário, vermiculita, pasta fria, equipamentos de proteção individual, serviços e materiais de manutenção, barras de aço para fabricação dos pinos das cubas, barras coletoras, filtro para tomada de pressão dos reatores, chapa lisa de aço, Fl. 10104DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 8 7 cantoneiras de compensado, rolamentos, solenóide, alavanca desligadoras, eletrodo especial, hexafluoreto de enxofre, tubos de fibra de vidro, juntas, arruela de pressão, conector de cobre estanhado, materiais de usinagem, olhal de suspensão, motores de anéis, amperímetro, potenciômetro, cadinho, correia transportadora, bloco de sobrecarga rexroth, válvula de retenção, válvula limitadora, válvula direcional, pinos de transmissão de energia elétrica, selos para embalagens, filtro cerâmico, molde para lingote, oxigênio, nitrogênio, ar comprimido, tijolos e isolantes refratários para forno de espera, consultoria, motores, calço, cilindros laminadores, anel de grafite, cloro, grafite, fluido para corte, fibra ceramica, fita de aço, sal de fundição, desengraxante, fio extensão, fita e etiqueta adesiva, flutuador refratário, graxa, haste de escumagem, ponteira, cone, tinta, acetileno, água, tubo difusor, bloco difusor, cinta de poliester, prensa, pistões, lâmina, disco de serra, broca, lima, fresas, lixa, parafuso, olhal, pastilha de metal duro, valseina, inibidor de corrosão, termopar, rebolo, fornos de fundição e de aquecimento, tesouras rotativas, guilhotinas, serras, dioxido de carbono, moldes, matrizes, equipamentos e componentes de solda, sal líquido, bem como os insumos da solda TIGMIG, tintas, vernizes, bico venturi, oleo hidráulico. Os Embargos de Declaração trataram exclusivamente dos seguintes bens: Criolita fundida, blocos de carbono, carvão, flexível catódico e arruela Belleville, queimador ep/forno retenção maçarico, flanges do tubo metálico flexível, cabo de aço com mola e arruela para mangueira de ar comprimido, mangueira industrial de borracha pra uso em água e ar, calçados para alinhamento de blocos de concreto, termopar, sensor proxim, indutivos, bloco de sobrecarga, porcas e hastes de lacração, revestimento cerâmico norback, faca para guilhotina prensa, corrente e bombas de plástico em PVC Delimitados os Embargos de Declaração a estes itens, é apenas sobre eles que deve recair a análise no presente momento processual, quais sejam "Criolita fundida, blocos de carbono e carvão". Em relação a estes produtos, é de se acolher os Embargos Declaratórios, com efeitos infringentes, com o objetivo de restabelecer os créditos sobre "Criolita fundida, blocos de carbono e carvão", que foram objeto do Recurso Voluntário, dos Embargos Declaratórios e relacionamse ao processo produtivo. Por esta razão, no dispositivo do Acórdão onde se lê “Por unanimidade de votos, em restabelecer os créditos em relação aos produtos químicos, materiais e equipamentos (não registrados no ativo imobilizado) utilizados no processo produtivo e mantida a glosa nas aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano ou de valor superior a R$ 326,00 (trezentos e vinte e seis reais) e máquinas impressoras de etiquetas, resguardado o direito a apropriação de créditos relativos à depreciação dos bens ativáveis”, passase a se ler, “Por unanimidade de votos, em restabelecer os créditos em relação aos produtos químicos, materiais e equipamentos (não registrados no ativo imobilizado) utilizados no processo produtivo, inclusive criolita fundida, blocos de carbono e carvão, e mantida a glosa nas aquisições de máquinas e equipamentos com prazo de vida útil superior a um ano ou de valor superior a R$ 326,00 (trezentos e vinte e seis reais) e máquinas impressoras de etiquetas, resguardado o direito a apropriação de créditos relativos à depreciação dos bens ativáveis” 2.4. Equipamentos de Proteção Individual EPI. Fl. 10105DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 9 8 A Embargante suscita que a decisão encontrase maculada por contradição e omissão em relação aos créditos na aquisição de equipamentos de proteção individual EPI, o que foi tratado no despacho de admissibilidade nos seguintes termos: 5. Contradição e omissão em relação aos créditos na aquisição de equipamentos de proteção individual EPI. Demonstra que, embora o acórdão tenha reconhecido o direito de apropriação de créditos sobre os valores gastos na aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI), isso não constou da parte dispositiva do voto. Efetivamente, a redação do Voto Vencedor reconhece o direito da Recorrente à reversão das glosas dos valores de aquisição de equipamentos de proteção individual EPI necessários e empregados em todas as etapas do processo produtivo. Também devem ser revertidas a glosa dos valores de aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados em todas as etapas dos processos de industrialização da recorrente. Tais bens são necessários e utilizados na atividade de produção dos bens destinados à venda." Este entendimento também foi manifestado nas conclusões do Voto Vencedor, quando assim dispôs: "III Da Conclusão Por todo o exposto, votase pela rejeição das preliminares arguidas e, no mérito pelo provimento parcial do recurso, para reverter as glosas em relação a: (..) 4) aquisição de equipamentos de proteção individual (EPI), utilizados em todas as etapas dos processos de industrialização;" Contudo, o dispositivo do Acórdão foi omisso em relação à reversão da glosa sobre os Equipamentos de Proteção Individual (EPI). Desta forma, é de se acolher os presentes Embargos de Declaração, sem efeitos infringentes, para integrar o Acórdão Recorrido que deverá fazer constar a reversão da glosa relativa aos créditos decorrentes dos equipamentos de proteção individual EPI utilizados em todo o processo produtivo nos seguintes termos: “Por unanimidade de votos, em reverter as glosas em relação aos equipamentos de proteção individual (EPI) utilizados em todas as etapas dos processos de industrialização.” 2.5. Créditos decorrentes dos gastos com serviços para conservação das instalações industriais. O Despacho de Admissibilidade destaca a omissão em relação aos créditos decorrentes de gastos com serviços para conservação das instalações industriais, verbis: Fl. 10106DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 10 9 “O acórdão também é omisso quanto ao créditos decorrentes dos gastos com serviços para conservação das instalações industriais. Conforme segue, o i. Redator parece entender que há direito ao crédito, mas o dispositivo do acórdão foi silente a respeito. No entendimento deste Relator, com exceção dos serviços de conservação e manutenção das instalações industriais, os demais serviços não se enquadram no conceito de insumo de produção. Além disso, não foram integralmente aplicados na área fabril, conforme informação da própria da recorrente.” (destaques não constantes do original) Efetivamente, não obstante o reconhecimento, por parte do Relator, de que são aproveitáveis os créditos decorrentes dos gastos com serviços para conservação das instalações industriais, tal inteligência não foi reproduzida no dispositivo do Acórdão. Diante desta omissão, é de se acolher os presentes Embargos Declaratórios, sem efeitos infringentes, para que o reconhecimento do direito ao aproveitamento a tais créditos integre o dispositivo do Acórdão, nos seguintes termos: “Por unanimidade de votos, em reverter a glosa dos serviços de conservação e manutenção das instalações industriais.” 2.6. Despesas de aluguéis de galpões e armazenagem. A Embargante suscita que a decisão encontrase maculada por contradição e omissão em relação às despesas com aluguéis de galpões e armazenagem. Em seu Recurso Voluntário a Recorrente sustentou que para a venda de seus produtos ela incorre em gastos com armazenagem de mercadoria em região próxima ao porto. O Voto Vencedor, ao tratar das despesas com armazenagem, entendeu a pertinência da necessidade da Recorrente de armazenar produtos em local próximo ao porto, reconhecendo o direito ao crédito. Em relação as despesas com armazenagem, a recorrente alegou que necessitava guardar produtos em localidade próxima ao porto, para sua posterior embarque e entrega à clientela. Nestes casos, os produtos fabricados, como pó de alumínio e lingote, eram agrupados, mediante a chamada peação ou estufagem, até atingir a quantidade a ser exportada e, em seguida, remetida aos clientes. Dada essas características, as despesas de armazenagem de pó de alumínio e lingote nas instalações portuárias ou retroportuárias, previamente ao embarque, enquadramse no disposto no art. 3º, IX, da Lei 10.833/2003, logo, as glosas dessas despesas devem ser revertidas. Inclusive, o dispositivo da decisão em análise menciona a reversão das glosas com despesas de armazenagem dos produtos em localidade próxima ao porto para posterior embarcação, nos seguintes termos. Fl. 10107DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 11 10 “Por maioria de votos, em reverter a glosa em relação as despesas com armazenagem dos produtos em localidade próxima ao porto, para sua posterior embarcação e entrega à clientela, vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède e Ricardo Paulo Rosa, que mantinham a glosa.” A reversão das referidas glosas também foi tratada nas conclusões do Voto Vencedor, nos seguintes termos: "III Da Conclusão Por todo o exposto, votase pela rejeição das preliminares arguidas e, no mérito pelo provimento parcial do recurso, para reverter as glosas em relação a: (..) 7) despesas de armazenagem do pó de alumínio e do lingote de alumínio nas instalações portuárias ou retroportuárias;” Contudo, nos Embargos Declaratórios a Embargante suscita que foi reconhecido apenas o crédito sobre as despesas com o aluguel de galpões destinados exclusivamente ao armazenamento da alumina e os gastos relativos aos serviços de armazenagem de insumos. Este ponto foi tratado no despacho de admissibilidade nos seguintes termos: 8. Contradição e omissão em relação às despesas com aluguéis de galpões e armazenagem, uma vez que o voto vencedor não tenha se posicionado expressamente a respeito do assunto, do que se depreende que não exista divergência. Efetivamente, as despesas com aluguéis de galpões e armazenagem dos produtos em região próxima ao porto, para posterior venda integram aquilo que se denomina "armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda" de que trata o artigo 3º, IX da lei 10.833/03, razão pela qual voto no sentido de acolher os Embargos de Declaração com efeitos infringentes, para integrar o dispositivo no sentido de que devem ser revertidas as glosas relativas a tais créditos relativos a aluguéis de locais de armazenagem, entendendo que tal custo amoldase ao conceito de custo de armazenagem. Por estas razões, onde se lê “Por maioria de votos, em reverter a glosa em relação as despesas com armazenagem dos produtos em localidade próxima ao porto, para sua posterior embarcação e entrega à clientela, vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède e Ricardo Paulo Rosa, que mantinham a glosa.” passase a ler “Por maioria de votos, em reverter a glosa em relação as despesas com armazenagem dos produtos em localidade próxima ao porto, para sua posterior embarcação e entrega à clientela, inclusive as despesas com aluguéis de galpões, vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède e Ricardo Paulo Rosa, que mantinham a glosa.” É como voto. (assinado digitalmente) Raphael Madeira Abad Fl. 10108DF CARF MF Processo nº 13656.721196/201259 Acórdão n.º 3302006.248 S3C3T2 Fl. 12 11 Fl. 10109DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.008267/2008-06
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 09 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Nov 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/05/2008
OBRA DE CONSTRUÇÃO CIVIL.
A obra para a qual não foi emitida CND de obra inacabada, ao final da construção, poderá ser regularizada em nome do adquirente e emitida a CND com a área total da obra ou por unidade adquirida, conforme o caso, desde que sejam recolhidas as contribuições correspondentes, apuradas com base na área construída total.
Numero da decisão: 2201-004.520
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Douglas Kakazu Kushiyama - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Marcelo Milton da Silva Risso, Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Dione Jesabel Wasilewski, Douglas Kakazu Kushiyama, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente) e Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado)
Nome do relator: DOUGLAS KAKAZU KUSHIYAMA
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A obra para a qual não foi emitida CND de obra inacabada, ao final da construção, poderá ser regularizada em nome do adquirente e emitida a CND com a área total da obra ou por unidade adquirida, conforme o caso, desde que sejam recolhidas as contribuições correspondentes, apuradas com base na área construída total. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente. (assinado digitalmente) Douglas Kakazu Kushiyama Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Marcelo Milton da Silva Risso, Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Dione Jesabel Wasilewski, Douglas Kakazu Kushiyama, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente) e Jose Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 00 82 67 /2 00 8- 06 Fl. 129DF CARF MF 2 Relatório O presente processo trata de Recursos Voluntário em face do Acórdão nº 03 29.043 5ª Turma da DRJ/BSA, fl. 77 a 88, que assim relatou a lide administrativa: Tratase de Auto de Infração de Obrigação Principal — A1OP n°: 37.115.2160, emitido contra a empresa em epígrafe, no valor de R$ 31.347,80 (Trinta e um mil e trezentos e quarenta e sete reais e oitenta centavos), consolidada em 26/06/2008, lavrada durante ação fiscal determinada pelo Mandado de Procedimento Fiscal — MPF 110.0120100.2008.00042. Conforme Relatório Fiscal de fls. 24/30, o crédito tributário lançado tem por objeto as contribuições sociais destinadas à Seguridade Social, incidentes sobre o valor da mãodeobra utilizada na execução da obra de construção civil de CE1: 32.560.00668/78 (Ed. River Side), concernentes à cotaparte dos segurados empregados. A contribuição de Terceiros foi levantada por meio do AI nº 37. 115.2194 e a correspondente à da empresa e do RAT Riscos Ambientais do Trabalho, do AI nº: 37.115.2178. Esclarece que essa obra foi iniciada pela empresa Moraes Construtora Lida, que realizou a execução da obra até a estrutura da 8a laje, das dezessete previstas, desistindo da mesma. Posteriormente, após a adjudicação da obra pelos condôminos que contrataram a sua execução, essa obra inacabada foi adquirida dos Condôminos pela empresa Construtora e Incorporadora Merzian Ltda., em 07/10/2003, sem que as partes fizessem prova da regularidade contributiva previdenCiária, pois a Certidão Negativa de Débito —CND nº.04117200308001080, apresentada durante a lavratura da escritura pública de compra e venda, tinha a finalidade para quaisquer daquelas previstas nas Lei 8.212/91, exceto para averbação de construção civil em imóvel. Em exame ao sistema CCOR _ Consulta contacorrente de Estabelecimento, não foi efetuado nenhum recolhimento com relação a esta obra pela empresa Moraes Construtora Ltda. CE1 inicial 08.902.01772/78, no período sob sua responsabilidade. Informa que a empresa Construtora e Incorporadora Merzian Lida, antes de adquirir a obra inacabada (Ed. River Side), deveria ter exigido a Certidão Negativa de Débito — CND, com a finalidade expressa para averbação de construção civil cm imóvel, fazendo prova da regularidade contributiva previdenciária, conforme determinado pelo artigo 465 da IN 3/2005. E que se a empresa tivesse se orientado no dispositivo acima, teria, dentro do valor pago pela Obra inacabada de R$ 220.000,00, discriminado a parcela paga relativa aos encargos previdenciários. Fl. 130DF CARF MF Processo nº 10120.008267/200806 Acórdão n.º 2201004.520 S2C2T1 Fl. 115 3 Como não procedeu a esta orientação, ao contabilizar a aquisição da Obra inacabada, no valor de R$ 220.000,00, na data de 12/01/2004, em lançamento único, utilizando a conta contábil .3.1.1.01.0001 — Custo Aquisição de Terreno, deixou de contabilizar essa obra em Títulos Próprios. Os gastos relativos a esta aquisição, composto do terreno e do custo da obra cm andamento, deveriam ter sido distribuídos nas seguintes rubricas: 1.3.1.1.01.0001 — Custo de aquisição do terreno e demais rubricas componentes do custo, dentre elas a que discrimina o INSS: 1.3.1.1.01.009. Pela não contabilização em títulos próprios, a empresa foi autuada com a lavratura do Al n° 37.115.2186. Durante a ação fiscal, não foi apresentado nenhum documento de quitação de recolhimento ou de dívida previdenciária relativo a períodos anteriores a janeiro de 2004. Desse modo, tendo em vista a impossibilidade de apurar o custo total de mãodeobra, o débito foi apurado por aferição indireta, com base na área edificada proporcional ao Custo Unitário Básico — CUB, nos termos da legislação de regência. Foram considerados todos os valores pagos a título de mãode obra própria, de retenções cm notas fiscais c de aquisição de concreto utilizado na execução da obra, bem como os recolhimentos previdenciários efetuados pela empresa. E, conforme Ofício de esclarecimentos fornecido pela Empresa, indicando as áreas reduzidas no cálculo do ARO (demonstradas por meio de projeto), o ARO efetuado em 20/11/2007, foi substituído pelo ARO, com cálculo efetuado em 26/03/2008, considerando estas áreas reduzidas. Cientificado do lançamento em 01/07/2008, o contribuinte apresentou defesa em 30/07/2008, alegando em apertada síntese: a autuação foi apurada por aferição indireta, tendo a fiscalização aduzido a impossibilidade de apurar o custo total de mãodeobra; no entanto, não aponta qual dificuldade seria, deixando tal denúncia vaga e, portanto, sem nenhuma aplicabilidade ao caso; nesse sentido, afirma sem razão que a empresa não contabiliza em títulos próprios, bem corno o relatório fiscal é bastante obscuro; como a obra comporta período anterior à aquisição por parte da autuada, cobrando tributos até .a 8a laje, engloba período superior a 5 (cinco anos) que já estaria prescrito; fora rechaçada a demonstração contábil da impugnante, quanto à aquisição da obra inacabada, sendo uma medida descomedida, não coincidindo com a realidade da impugnante, que faz a contabilidade de maneira adequada, respeitando os princípios contábeis; Fl. 131DF CARF MF 4 a aferição indireta é descabida e inapropriada, não havendo motivos para sua realização, sendo que todos os lançamentos procedidos pela Impugnante estão adequados e de acordo com princípios e convenções aplicáveis às ciências contábeis; a autuação não cumpre com os requisitos do art. 37 da Lei 8.212/91, não havendo clareza nem precisão quanto aos exatos descurnprimentos apontados; haver cerceamento de defesa, sendo o preenchimento do relatório turvo, explicações não convincentes acerca do descrédito para com a documentação contábil, postura totalmente discricionária na aferição indireta, utilizando de valores oriundos da imaginação; ter a fiscalização não observado o art. 474 da IN 03/05, tendo desconsiderado diversos valores que poderiam ter sido objeto de análise ( contudo, não demonstra quais são esses valores), também não fora observada a totalidade das formalidades para sua confecção, não constando a hora em que foi lavrado o mesmo; a obra. de construção apresenta inúmeras áreas cobertas e descobertas, o que deverá ser comprovado pela perícia a ser solicitada, bem como não ter sido considerada totalmente a utilização de esquadrias de alumínio, de ferro, e coberturas metálicas, mesmo existindo notas fiscais abrangendo esses materiais préfabricados ( contudo, não demonstra, não anexa nenhum documento); violação ao artigo 142 do CTN; pugna pela realização de diligências e perícias; por fim, solicita o cancelamento da autuação. Foi proferido acórdão com os seguintes fundamentos: As alegações apresentadas pela impugnante mostramse equivocadas, não tendo a mesma carreado aos autos qualquer prova que possa elidir ou mesmo alterar o lançamento efetuado nesta notificação: Primeiramente, observase, ao contrário do afirmado pela Impugnante, que o procedimento de aferição indireta da base de cálculo empregada pelo auditorfiscal foi devidamente justificado e os valores apurados claramente demonstrados, com indicação dos critérios e parâmetros utilizados, conforme: ARO Aviso de Regularização de Obras, às fls. 124/127, DISO Declaração e Informação Sobre Obra de Construção Civil, elaborada pela própria empresa construtora, ás fls. 116/117, Oficio da empresa, datado de 18, de março de 2008, demonstrando as áreas reduzidas, fls.122, Declaração do Engenheiro Técnico responsável, às fls. 123, Termo de Cientificação — comunicando a retificação do cálculo efetuado no ARO, considerando as áreas reduzidas, em conformidade com o projeto apresentado pela empresa c declaração do engenheiro responsável técnico pela obra, à fls. 21. (documentos anexados'ao M no: 37.115.2178). Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10120.008267/200806 Acórdão n.º 2201004.520 S2C2T1 Fl. 116 5 A devida fundamentação legal foi mencionada às fls. 7/8, assim como no Relatório fiscal, e foi lavrado o Auto de Infração Al nº 37.115.2186, por descumprimento de obrigação acessória, não contabilização com títulos próprios. Dessa forma, demonstrados nos autos, de forma clara e precisa, os fundamentos fáticos e jurídicos da exigência fiscal, a alegação de cerceamento de defesa, por parte da defendente, não merece guarida, especialmente porque o contribuinte, na impugnação apresentada, demonstra plena compreensão dos itens da autuação imputada, o que lhe possibilitou oferecer a impugnação da forma apresentada nos autos. Assim sendo, tornase salutar destacar que a empresa impugnante adquiriu obra de construção civil inacabada (execução da obra até a estrutura da 8ª laje), sem que as partes fizessem prova da regularidade contributiva previdenciária, pois a Certidão Negativa de Débito—CND nº. 04117200308001080, apresentada durante a lavratura da escritura pública de compra e venda, tinha a finalidade para quaisquer daquelas previstas na Lei 8.212/91, exceto para averbação de construção civil em imóvel. No caso de obra inacabada, deverá ser apresentado pelo contribuinte laudo de avaliação técnica de um profissional habilitado pelo CREA, acompanhado da Anotação de Responsabilidade TécnicaART, a fim de que seja informado o percentual da construção já realizada, em relação à obra total. O percentual informado será utilizado para conversão em área equivalente para a apuração das contribuições devidas, efetuandose o enquadramento de acordo com a área total do projeto. Sendo que, no caso, para regularização da obra inacabada, a Certidão Negativa de Débito CND deveria ter sido expedida com expressa menção da área parcialmente regularizada. Contudo, a obra para a qual não foi emitida CND de obra inacabada, ao final da construção, poderá ser regularizada cm nome do adquirente c emitida a CND com a área total da obra ou por unidade adquirida, conforme o caso, desde que sejam recolhidas as contribuições correspondentes, apuradas com base na área construída total, verbis: (...) A devida fundamentação legal foi mencionada às fls. 7/8, assim como no Relatório fiscal, e foi lavrado o Auto de Infração AI n ° 37.115.2186, por descumprimento de obrigação acessória, não contabilização em títulos próprios. Dessa forma, como a autuada não providenciou a regularização da obra inacabada, foi que a fiscalização, por meio deste Auto deInfração de Obrigação Principal, constituiu, através de aferição indireta, considerando a área edificada proporcional ao Fl. 133DF CARF MF 6 Custo Unitário Básico — CUB, o crédito previdenciário com base na área construída total. Outrossim, não há que se falar em período prescrito, já que cabe ao interessado a comprovação da realização de parte da obra ou da sua total conclusão em período abrangido pela decadência, e a impugnante não traz aos autos nenhum dos documentos elencados no artigo 482 da Instrução Normativa MPS/SRP n° 3, de 2005. Ao não ter providenciado a regularização da obra inacabada, a impugnante impossibilitou a comprovação de qualquer período eventualmente prescrito. Salientese que, na própria DISO Declaração e Informação Sobre Obra de Construção Civil, elaborada pela empresa construtora, ás fls. 116/117, é declarado como data de início da abra: jul/2005 c término: maio/2007, bem como tratarse de obra nova. Nesse diapasão, devese assinalar que o AutodeInfração por descumprimento de obrigação acessória AIOA: n" 37.115.218 6 foi julgado procedente pelo Acórdão nº 29.045, haja vista que: "No que concerne à contabilidade da empresa, como é cediço, a mesma deve atender, entre outros, aos requisitos previstos no inciso II do artigo 32 da Lei 8.212/91 e no inciso II do § 13° do artigo 225 do Regulamento da Previdência Social, aprovado pelo Decreto 3.048/99, destacandose a utilização de centros de custo distintos para cada obra, e, dentro destes, a contabilização de forma discriminada, das contas que são fatos geradores de contribuição previdenciária, verbis: (...) Dessa forma, como inequivocamente demonstrado pela fiscalização, a empresa, ao contabilizar a aquisição da Obra inacabada, no valor de R$ 220.000,00, na data de 12/01/2004, em lançamento único, utilizando a conta contábil 1.3.1.1.01.0001 Custo Aquisição de Terreno, deixou de contabilizar essa obra em Títulos Próprios, pois parte do custo de aquisição se refere ao custo da obra inacabada (até a estrutura da 8ª laje); como bem assinalado pelo nobre auditor, os gastos relativos a esta aquisição, composto do terreno e do custo da obra em andamento, deveriam ter sido distribuídos nas seguintes rubricas: 1.3.1.1.01.0001 — Custo de aquisição do terreno e demais rubricas componentes do custo, dentre elas a que discrimina o INSS: 1.3.1.1.01.009. Despiciendo acrescentar que, ao não regularizar a parte da obra inacabada, conforme a determinação legal, a fim de que fosse informado o percentual da construção já realizada, em relação à obra total, não contabilizando esses valores, fica impossível determinar o valor total da obra, pois, no custo contabilizado pela empresa adquirente, falta o custo inicial até a estrutura da 8ª laje, o que, a propósito, responde a indagação da impugnante (...quais foram as dificuldades? quais os pontos equivocados?). Portanto, faltando prova regular e formalizada do montante dos salários pagos pela execução de obra de construção civil em qualquer período da sua execução (considerase prova regular e formalizada a escrituração contábil em livro Diário e Razão), está a fiscalização, nos ternos do parágrafo único do artigo 142 Fl. 134DF CARF MF Processo nº 10120.008267/200806 Acórdão n.º 2201004.520 S2C2T1 Fl. 117 7 do CTN, obrigada a efetuar o lançamento, nos, moldes do parágrafo 4 ° do artigo 33 da Lei 8.212/91, sob pena de responsabilidade funcional." Esclareçase também que, conforme ARO Aviso de Regularização de Obras, às fls. 124/126, foram considerados todos os valores pagos a título de mãodeobra própria, de retenções em notas fiscais e de aquisição de concreto utilizados na execução da obra, bem como os recolhimentos previdenciários efetuados pela empresa; além do que foram considerados os redutores integrantes da área total da edificação, determinados pelo artigo 449 da 1N 03/2005 (conforme Oficio de esclarecimentos fornecido pela Empresa, às fls. 122/123). Quanto à alegação de que não fora observada a totalidade das formalidades para a confecção desta autuação, não ,constando a hora em que foi lavrada a mesma, impende destacar que a determinação contida no art. 293, do RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, com relação à hora da autuação, diz respeito somente ao AutodeInfração por descumprimento de obrigação acessória, tendo por objetivo a lavratura do auto no exato momento da constatação da infração praticada, não se aplicando à autuação de obrigação principal, como no presente caso, em que todos os requisitos essenciais a sua constituição estão presentes. Temse também não haver a mínima necessidade de perícia contábil, quanto aos valores apurados pela fiscalização, haja vista não existirem dúvidas alusivas aos valores identificados no lançamento efetuado, demonstrados nos diversos Discriminativos e Relatórios que compõem a notificação. Salientese que o contribuinte, comodamente, poderia trazer aos autos quaisquer documentos que entendesse devidos; ,no entanto, o mesmo não contesta nenhum dos valores lançados, fazendo apenas ilações jurídicas, desprovidas de provas fáticas. Por fim, observase que a notificação em epígrafe foi lavrada na estrita observância das determinações legais vigentes, tendo sido lavrada de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto e consoante o que prescreve a legislação descrita no Relatório de Fundamentos Legais — FLD, de fls. 7/8. Cientificado do acórdão, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário às fls. 88 a 105, alegando em breve síntese: a) preliminar pelo lançamento de crédito tributário decaído; b) preliminar para reconhecer a validade dos lançamentos contábeis; c) preliminar de nulidade por falta de requisitos para preenchimento do AI; d) preliminar por nulidade por desrespeito ao direito de defesa; e) preliminar de nulidade por desatendimento à norma previdenciária e quanto ao mérito: a) redutores para apuração de mão de obra; b) prémoldados e préfabricados; c) arbitramento dos valores considerados como salário de contribuição e d) tipificação e graduação das penalidades impostas. É o relatório do necessário. Fl. 135DF CARF MF 8 Voto Conselheiro Relator Douglas Kakazu Kushiyama Decadência Não há que se falar em decadência no presente caso, tendo em vista que o período de apuração, conforme relatório fiscal é de 01/01/2004 a 31/05/2008 e o contribuinte foi cientificado pessoalmente do lançamento em 01/07/2008, portanto, dentro dos 5 (cinco) anos previsto tanto no artigo 150, § 4º, quanto no artigo 173, ambos do Código Tributário Nacional. Sendo assim, rejeito esta preliminar. Reconhecimento da validade dos lançamentos contábeis Esta preliminar confundese com o mérito da aferição indireta, de modo que será tratado adiante. Falta de requisitos para preenchimento do AI Também não há como reconhecer esta preliminar, tendo em vista que a infração está devidamente caracterizada conforme consta às fls. 7/8 e o contribuinte conseguiu se defender em sua integralidade. O fato de não serem acolhidas suas razões, não dá ensejo à anulação por falta de preenchimento dos requisitos. Deste modo, não prospera esta preliminar. Desrespeito ao direito de defesa Como mencionado no tópico anterior, a infração e a sua correspondente fundamentação legal, está devidamente caracterizada e foram devidamente demonstrados nos autos, de forma clara e precisa, os fundamentos fáticos e jurídicos, são de fácil compreensão, até porque o Recorrente pode se defender de forma que restou devidamente demonstrado que compreendeu o porquê da lavratura do AI. Desatendimento à norma previdenciária Esta preliminar também confundese com o mérito que será tratado adiante. Mérito Conforme foi devidamente relatado, a Recorrente adquiriu obra de construção civil inacabada sem que fizesse prova da regularidade referente ao pagamento das contribuições previdenciárias, a teor do que dispõe o artigo 465 da Lei nº 8.212/91: Fl. 136DF CARF MF Processo nº 10120.008267/200806 Acórdão n.º 2201004.520 S2C2T1 Fl. 118 9 Art. 465. No caso de obra inacabada, deverá ser solicitado ao responsável pela sua regularização o laudo de avaliação técnica de profissional habilitado pelo CREA, acompanhado da respectiva ART, no qual seja informado o percentual da construção já realizada, em relação à obra total, observandose, quanto à matricula, o disposto no § 3ºdo art. 471. § 1º O percentual informado no laudo de avaliação técnica será utilizado para determinação da área que constará na CND de obra inacabada e que servirá de base para a apuração da remuneração sobre a qual incidirão as respectivas contribuições, efetuandose o enquadramento de acordo corn a área total do projeto, e apurandose as contribuições proporcionalmente à área correspondente à obra inacabada, na forma dos inciso 11 e III do § 1 "do aiI. 464. (Nova redação dada pela INMr/RrB n"819, de 2010312008) Devidamente intimada com o ARO Aviso de Regularização de Obras, às fls. 124/127 e não tendo providenciado a regularização da obra inacabada a fiscalização, utilizandose do expediente da aferição indireta, considerando a área edificada proporcional ao Custo Unitário Básico CUB, constituiu o crédito previdenciário com base na área construída total. Além disso, auxilia na fundamentação da utilização da Aferição Indireta o fato de que a Recorrente também foi autuada por descumprimento de obrigação acessória AIOA nº 37.115.2186, pois deveria atender ao disposto no inciso 11 do artigo 32 da Lei nº 8.212/91 e no inciso 11 do § 13 do artigo 225 do Regulamento da Previdência Social (RPS), aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, destacandose a utilização de centros de custo distintos para cada obra, e, dentro destes, a contabilização de forma discriminada, das contas que são fatos geradores de contribuição previdenciária, verbis: Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) 11 lançar mensalmente em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as contribuições, o montante das quantias descontadas, as contribuições da empresa e os lotais recolhidos; ____________________________________ Art.225. A empresa é também obrigada a: (...) II lançar mensalmente em títulos próprios de sua contabilidade, de forma discriminada, os fatos geradores de todas as contribuições, o montante das quantias descontadas, as contribuições da empresa e os totais recolhidos; (...) § 13. Os lançamentos de que trata o inciso II do caput, devidamente escriturados nos livros Diário e Razão, serão Fl. 137DF CARF MF 10 exigidos pela fiscalização após noventa dias contados da ocorrência dos fatos geradores das contribuições, devendo, obrigatoriamente: 1 atender ao principio contábil tio regime de competência; e II registrar; em contas individualizadas, todos os fatos geradores de contribuições previdenciárias de forma a identificar, clara e precisamente, as rubricas integrantes e não integrantes do saláriodecontribuição,bem copio as contribuições descontadas do segurado, as da empresa e os totais recolhidos, por estabelecimento da empresa, por obra de construção civil e por tomador de serviços. Como devidamente demonstrado pela fiscalização, a empresa, deveria contabilizar a aquisição da Obra inacabada, no valor de R$ 220.000,00, na data de 12/01/2004, em lançamento único, utilizando a conta contábil 1.3.1.1.01.0001 — Custo Aquisição de Terreno, deixou de contabilizar essa obra em Títulos Próprios , pois parte do custo de aquisição se refere ao custo da obra inacabada (até a estrutura da 8" laje); como bem assinalado pelo nobre auditor, os gastos relativos a esta aquisição, composto do terreno e do custo da obra em andamento, deveriam ter sido distribuídos nas seguintes rubricas: 1.3.1.1.01.0001 — Custo de' aquisição do terreno e demais rubricas componentes do custo, dentre elas a que discrimina o INSS: 1.3.1.1.01.009. Oportuno destacar que este Conselho registra jurisprudência que evidencia a excepcionalidade das medidas adotadas no lançamento que ora se analisa, bem como a necessidade de que haja adequada fundamentação para elas. Nesse sentido, o Acórdão nº 240102.161, da lavra do Conselheiro Kleber Ferreira de Araújo, registra em sua ementa: AFERIÇÃO INDIRETA DA BASE DE CÁLCULO. PROCEDIMENTO EXCEPCIONAL. CABIMENTO APENAS NAS SITUAÇÃO EM QUE FIQUE DEMONSTRADA A IMPOSSIBILIDADE DE APURAÇÃO DO TRIBUTO COM BASE NA DOCUMENTAÇÃO EXIBIDA PELO SUJEITO PASSIVO. A mera existência de irregularidades na escrita contábil do contribuinte não autoriza, por si só, a aferição indireta das contribuições, quando o Fisco não demonstra que houve sonegação de documentos ou que os elementos apresentados não refletem a real remuneração paga aos segurados a serviço da empresa. Entretanto, não é esta a situação tratada nos autos. No presente caso, conforme ressaltado na decisão recorrida é diversa e justifica a aplicação da aferição indireta, conforme disposto nos seguintes trechos: Despiciendo acrescentar que, ao não regularizar a parte da obra inacabada, conforme a determinação legal, a fim de que fosse informado o percentual da construção já realizada, em relação à obra total, não contabilizando esses valores, fica impossível determinar o valor total da obra, pois, no custo contabilizado pela empresa adquirente, falta o custo inicial até a estrutura da 8° laje, o que, a propósito, responde a indagação da impugnante (...quais foram as dificuldades? quais os pontos equivocados?). Fl. 138DF CARF MF Processo nº 10120.008267/200806 Acórdão n.º 2201004.520 S2C2T1 Fl. 119 11 Portanto, faltando prova regular e formalizada do montante dos salários pagos pela execução de obra de construção civil em qualquer período da sua execução (considerase prova regular e formalizada a escrituração contábil em livro Diário e Razão), está a fiscalização, nos termos do parágrafo único do artigo 142 do CTN, obrigada a efetuar o lançamento, nos moldes do parágrafo 4° do artigo 33 da Lei 8.212/91, sob pena de responsabilidade funcional." Esclareçase também que, conforme ARO Aviso de Regularização de Obras, às Ils. 124/126, foram considerados todos os valores pagos a título de mãodeobra própria, de retenções em notas fiscais e de aquisição de concreto utilizados na execução da obra, bem como os recolhimentos previdenciários efetuados pela empresa; além do que foram considerados os redutores integrantes da área total da edificação, determinados pelo artigo 449 da IN 03/2005 (conforme Oficio de esclarecimentos fornecido pela Empresa, às Ils. 122/1 23). • Quanto à alegação de que não fora observada a totalidade das formalidades para a confecção desta autuação, não constando a hora em que foi lavrada a mesma, impende destacar que a determinação contida no art. 293, do RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, com relação à hora da autuação, diz respeito somente ao AutodeInfração por descumprimento de obrigação acessória, tendo por objetivo a lavratura do auto no exato momento da constatação da infração praticada, não se aplicando à autuação de obrigação principal, como no presente caso, em que todos os requisitos essenciais a sua constituição estão presentes. Temse também não haver a mínima necessidade de perícia contábil, quanto aos valores apurados pela fiscalização, haja vista não existirem dúvidas alusivas aos valores identificados no lançamento efetuado, demonstrados nos diversos Discriminativos e Relatórios que compõem a notificação. Salientese que o contribuinte, comodamente, poderia trazer aos autos quaisquer documentos que entendesse devidos, no entanto, o mesmo não contesta nenhum dos valores lançados, fazendo apenas ilações jurídicas, desprovidas de provas fálicas. Por fim, observase que a notificação em epígrafe foi lavrada na estrita observância das determinações legais vigentes, tendo sido lavrada de acordo com os dispositivos legais e normativos que disciplinam o assunto e consoante o que prescreve a legislação descrita no Relatório de Fundamentos Legais — FLD, de fls. 7/8. No caso em tela, ao contrário do decidido na jurisprudência mencionada, no caso em discussão, os requisitos dos §§ 3.º e 4.º do art. 33 da Lei n.º 8.212/1991, foram preenchidos e resta claro ao estabelecer as hipóteses que trazem a possibilidade de arbitramento das contribuições, ou seja, quando haja recusa, sonegação ou apresentação deficiente de informações por parte do sujeito passivo. Fl. 139DF CARF MF 12 Verificada a hipótese de aplicação da aferição indireta, deve ser negado provimento ao recurso. Quanto ao desconto dos prémoldados, este ponto foi muito bem trabalhados na decisão de primeira instância que peço a vênia para transcrever: Esclareçase também que, conforme ARO Aviso de Regularização de Obras, às íls. 124/126, foram considerados todos os valores pagos a título de mãodeobra própria, de retenções em notas fiscais e de aquisição de concreto utilizados na execução da obra, bem como os recolhimentos previdenciários efetuados pela empresa; além do que foram considerados os redutores integrantes da área total da edificação, determinados pelo artigo 449 da 1N 03/2005 (conforme Oficio de esclarecimentos fornecido pela Empresa, às fls. 122/123). (...) Temse também não haver a mínima necessidade de perícia contábil, quanto aos valores apurados pela fiscalização, haja vista não existirem dúvidas alusivas aos valores identificados no lançamento efetuado, demonstrados nos diversos Discriminativos e Relatórios que compõem a notificação. Salientese que o contribuinte, comodamente, poderia trazer aos autos quaisquer documentos que entendesse devidos; ,no entanto, o mesmo não contesta nenhum dos valores lançados, fazendo apenas ilações jurídicas, desprovidas de provas fáticas. Sendo assim, não há como acolher as razões do Recorrente. Conclusão Por todo o exposto, rejeito as preliminares arguídas e no mérito, voto por conhecer e negar provimento ao recurso voluntário interposto pelo Recorrente. (assinado digitalmente) Conselheiro Relator Douglas Kakazu Kushiyama Fl. 140DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.725597/2017-41
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/04/2012 a 30/12/2012
DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Não há que se falar em nulidade por cerceamento de defesa, quando concedido ao contribuinte prazo mais do que o suficiente para atendimento da intimação, sobretudo quando se observa o prazo de 5 (cinco) dias úteis no tocante às informações e documentos solicitados que digam respeito a fatos que devam estar registrados na escrituração contábil ou fiscal do sujeito passivo, ou em declarações apresentadas à administração tributária.
GLOSA DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITOS LÍQUIDOS E CERTOS. INEXISTÊNCIA.
Na dicção do art. 170 do CTN, a compensação somente pode ser efetuada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública.
Numero da decisão: 2402-006.652
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade, vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (Relator), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que votaram por anular o lançamento por vício formal; e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, votaram pelas conclusões os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira e Luis Henrique Dias Lima. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
(assinado digitalmente)
Mauricio Nogueira Righetti - Redator Designado
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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GLOSA DE COMPENSAÇÃO Recorrente COMPANHIA DE BEBIDAS DAS AMERICAS AMBEV E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2012 a 30/12/2012 DESPACHO DECISÓRIO. NULIDADE. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não há que se falar em nulidade por cerceamento de defesa, quando concedido ao contribuinte prazo mais do que o suficiente para atendimento da intimação, sobretudo quando se observa o prazo de 5 (cinco) dias úteis no tocante às informações e documentos solicitados que digam respeito a fatos que devam estar registrados na escrituração contábil ou fiscal do sujeito passivo, ou em declarações apresentadas à administração tributária. GLOSA DE COMPENSAÇÃO. CRÉDITOS LÍQUIDOS E CERTOS. INEXISTÊNCIA. Na dicção do art. 170 do CTN, a compensação somente pode ser efetuada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de nulidade, vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci (Relator), Jamed Abdul Nasser Feitoza, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior que votaram por anular o lançamento por vício formal; e, no mérito, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, votaram pelas conclusões os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, Denny Medeiros da Silveira e Luis Henrique Dias Lima. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Mauricio Nogueira Righetti. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 55 97 /2 01 7- 41 Fl. 400DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Redator Designado Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Denny Medeiros da Silveira, João Victor Ribeiro Aldinucci, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. Relatório A DRJ fez um relato preciso do despacho decisório que não homologou a compensação e da manifestação de inconformidade apresentada pela contribuinte, que passa a integrar, em parte, o presente relatório: Tratase de glosa de compensações de Contribuições Previdenciárias, declaradas [...] em [...] GFIP nas competências de 04/2012 a 12/2012, cuja análise foi formalizada no Despacho Decisório [...], onde a fiscalização considerou as compensações como indevidas, abrangendo vários estabelecimentos da autuada. O contribuinte foi intimado do Despacho Decisório em 03/05/2017, conforme Aviso de Recebimento AR postal acostado às fls. 128. Segundo consta no referido Despacho Decisório no trabalho de auditoria interna de GFIP, foi constatada a ocorrência de compensações, razão pela qual o contribuinte foi intimado a demonstrar/detalhar, a origem dos créditos utilizados nas compensações declaradas nas referidas competências. O Termo de intimação foi recebido em 23/03/2017, por via postal conforme Aviso de Recebimento AR de fls 96. Segundo o Auditor, na resposta à intimação o contribuinte esclareceu que “Os créditos utilizados pelo contribuinte nas compensações lançadas em GFIP nas competências de 04.2012 a 13.2012 decorrem do recolhimento indevido de contribuições previdenciárias decaídas em Reclamações Trabalhistas.” Com vistas a esclarecer o procedimento exigido no caso de Reclamatória Trabalhista o Auditor informa que: Com relação às reclamatórias trabalhistas, a Carta Magna atribuiu competência exclusiva à Justiça do Trabalho a execução, de ofício, das contribuições sociais decorrentes das sentenças/acordos que proferir, como disposto no art. 114, §3º, da CF, com redação dada pela Emenda Constitucional EC nº 20, de 15.12.1998, e, posteriormente, no inciso VIII do art. 114, da CF, com redação dada pela EC nº 45, de 08.12.2004. Fl. 401DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 3 3 5. A Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, em seu artigo 876, parágrafo único, atribui competência a Justiça do Trabalho na execução dos valores devidos a título de contribuição social decorrentes de sentença/acordos trabalhistas. 6. A Instrução Normativa SRP nº 03/2005, em seu artigo 128, inciso II, letras “a” e “b”, corroborada pela Instrução Normativa RFB nº 971/2009, artigo 101, inciso I e II, respeitou a competência atribuída à Justiça do Trabalho, nos termos do inciso VIII do art. 114 da Constituição Federal, promover de ofício a execução dos créditos das contribuições previdenciárias devidas em decorrência de decisões condenatórias ou homologatórias por ela proferidas. Sobre os documentos juntados aos autos o Auditor esclarece que; Com relação aos elementos juntados aos autos pelo contribuinte: (1) cópia da Solução de Consulta nº 9 – COSIT 02/02/2016, (2) cópia da Informação prestada no Mandado de Segurança nº 500552471.2011.404.7205 e (3) Acórdão Ag. Reg. no Recurso Extraordinário 419.612 Paraná proferido pelo STF, que supostamente fundamentaria a alegada decadência, por considerar o fato gerador das verbas trabalhistas à data efetiva da prestação de serviços, referemse, na verdade, de (1) ao fato gerador da contribuição incidente sobre a remuneração de servidor público vinculado ao RGPS, (2) petição para impedir o lançamento de contribuições previdenciárias, cuja incidência seja reconhecida em virtude de condenação na Justiça do Trabalho, relativos a trabalho prestado há mais de cinco anos antes do lançamento com base na Sumula Vinculante nº 8 do STF, teve liminar deferida em parte que foi cassada na Sentença que julgou extinto o processo em 10/01/2012, transitado em julgado em 29/12/2012, (3) TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL DESTINADA AO CUSTEIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. REMUNERAÇÃO. DEFINIÇÃO DO CRITÉRIO TEMPORAL: REGIME DE COMPETÊNCIA OU REGIME DE CAIXA, os quais, não tem qualquer nexo causal com o assunto ora discutido. Diante dos fatos apurados o Auditor conclui que: Neste contexto, as compensações efetuadas em GFIP, com créditos sabidamente inexistentes de fato, haja vista que os créditos devem ser líquido e certo (art. 170, caput do CTN), com intuito exclusivo de reduzir a base de cálculo das contribuições previdenciária, desnaturase das hipóteses legais. (Lei 8.212/91, art. 11 § único, letras “a”, “b” e “c”; C/C art. 89), pelo qual, devem ser glosados os valores indevidamente compensados, não os homologando, no montante de R$ 33.798.643,28. Por fim, considerando que o contribuinte utilizouse da compensação mesmo tendo conhecimento de que não existiram recolhimentos efetuado indevidamente, que possam servir de lastro para justificar as referidas compensações, e, tampouco, é titular de direito que lhe tenha sido administrativa ou Fl. 402DF CARF MF 4 judicialmente reconhecido, o processo foi enviado para os procedimentos necessários à imputação da multa isolada no percentual de 150% sobre o valor das contribuições que deixaram de ser recolhida, conforme determinado pelo art. 89§10º da Lei 8.212/1991, em função da falsidade das compensações; com o objetivo de retardar, ou impedir, ou reduzir, ou diferir o pagamento do tributo efetivamente devido (art. 44 da Lei 9.430/1996), caracterizando fraude, dolo e simulação conforme art. 72 da Lei nº 4.502/1964. Cientificado a empresa oferece em 02/06/2017, conforme Termo acostado à fls 131, a manifestação de inconformidade de fls. 133/155, onde registra a sua tempestividade, narra os fatos que motivaram a emissão do despacho e alega que a fiscalização contrariou o direito a ampla defesa, porque concluiu o procedimento fiscal antes de vencido o prazo para produção de provas. Reclama que pediu dilação do prazo fixado no Termo de Intimação 0100/2017 e não obteve resposta da fiscalização. Transcreve decisões administrativa e judiciais sobre o tema. Alega que a fiscalização não descreve de forma clara as razões para a glosa da compensação. Diz em verbis: Como não há qualquer elemento ou indício que permita a identificação das razões pelas quais a Fiscalização reputou indevidas as compensações realizadas em GFIP. Em síntese, o Auditor Fiscal, ilegalmente, transferiu à Requerente a missão de deduzir os fundamentos que o conduziram à conclusão, o que, por si só, configura frontal ofensa aos princípios do devido processo legal, da ampla defesa, do contraditório e da necessidade de motivação dos atos e decisões da Administração Pública. No mérito, diz que "a competência para constituir esses créditos tributários ainda pertence à Receita Federal do Brasil, que se legitima no lançamento das contribuições inobstante o resultado da reclamação trabalhista". Aduz que existe divergência sintática entre a alínea "a" do inciso I do artigo 195 da Constituição Federal e o inciso I do artigo 22 da Lei n. 8.212/1991, fato que gera insegurança jurídica, sobretudo em relação às contribuições previdenciárias decorrentes das sentenças da Justiça do Trabalho, porque: • Se o "dever" se adequasse ao modelo constitucional, o aspecto temporal do fato imponível dessas contribuições ocorreria quando a remuneração deveria ter sido paga, ou seja, na prestação do serviço reclamado; • Se, contudo, o "dever" não se adequasse ao modelo constitucional, o aspecto temporal do fato imponível dessas contribuições ocorreria quando do efetivo pagamento da condenação trabalhista. Diz ainda: Fl. 403DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 4 5 47. Para corroborar o entendimento da RFB e da jurisprudência dominante, o Poder Executivo, por meio da Medida Provisória n. 449/08 convertida na Lei n. 11.941/09, inseriu o §2º no artigo 43 da Lei n. 8.212/91, enunciando, em interpretação autentica, que o fato imponível das contribuições previdenciárias ocorre na obrigação de pagar remuneração, ou seja, na prestação de serviço. 48. O § 22 no artigo 43 da Lei n. 8.212/91, agindo como norma interpretativa, consolidou, portanto, o entendimento de que o fato imponível das contribuições previdenciárias, sejam elas decorrentes ou não das decisões da Justiça do Trabalho, ocorre quando da prestação do serviço; momento em que o direito atribui ao empregador o dever de pagar a remuneração, e ao empregado o direito à essa importância. A seguir discorre sobre a decisão do STF que reconhece a inconstitucionalidade do art. 45 da Lei 8.212/1991 e fixou o prazo de decadência em 05 anos, nos moldes do artigo 150§4º do Código Tributário Nacional, que dispõe sobre a decadência do direito de a Fazenda Pública efetivar o lançamento em 05 anos, contados da data da ocorrência do fato gerador. Aduz que: 53. O prazo enunciado no artigo 150, §4º, do CTN não é suspenso tampouco interrompido pela distribuição da reclamação trabalhista, sobretudo porque: i) essa ação judicial não é condição para a constituição do crédito tributário, e ii) não existe amparo legal. 54. Por outro lado, se a reclamação trabalhista fosse pressuposto para a constituição do crédito tributário estarseia negando a compulsoriedade do tributo, porque o direito à remuneração é disponível, haja vista a incidência da prescrição bienal para a formalização da pretensão judicial trabalhista. 55. Não há alternativa, portanto, senão: i) identificar como momento do fato imponível da contribuição previdenciária decorrente da decisão da Justiça do Trabalho o tempo da prestação do serviço que ensejou a remuneração onerada; ii) reconhecer decaído o direito de a RFB constituir os créditos tributários decorrentes de pagamentos de prestações de serviço ocorridas há mais de cinco anos. 56. Nesse sentido é a jurisprudência dominante do Tribunal Superior do Trabalho —TST, que aplicando a Súmula Vinculante n. 08 identifica a decadência das contribuições previdenciárias decorrentes incidentes sobre remunerações pagas por serviços prestados há mais de cinco. A manifestante prossegue com a transcrição de Recursos de Revista onde as decisões foram no sentido do reconhecimento da decadência dos 05 anos nos processos revistos: Fl. 404DF CARF MF 6 ................em conformidade com a jurisprudência atual e reiterada deste Tribunal, no sentido de que aplicável à constituição do crédito previdenciário o prazo decadencial de cinco anos previsto no art. 173 do CTN e de que o termo inicial do lapso decadencial coincide com o primeiro dia do exercício seguinte ao que deveria ter sido feito o lançamento. Óbice do art. 896, § 4º, da CLT e da Súmula 333/TST. Recurso de revista nãoconhecido. Em seguida discorre sobre a aplicação da multa isolada objeto do processo 108757.220782/201708. Resume seus pedidos nos seguintes itens: a) preliminarmente, declarar a nulidade do Despacho Decisório em referência, com o consequente afastamento da conclusão de inexistência dos créditos compensados, uma vez que o procedimento padece de nulidade insanável, em face do cerceamento do direito de defesa do contribuinte b) preliminarmente, declarar a nulidade do Despacho Decisório em referência, com o consequente afastamento da conclusão de inexistência dos créditos compensados, uma vez que tal conclusão não foi devidamente motivada e fundamentada; c) no mérito, reconhecer a improcedência da glosa e da não homologação das compensações, na medida em que os valores compensados decorreram, exclusivamente, de contribuições previdenciárias decaídas indevidamente arrecadadas na Justiça do Trabalho. d) Subsidiariamente, caso não seja integralmente cancelado o lançamento, requer, ao menos, seja afastada a multa agravada, conforme entendimento pacífico da Câmara Superior de Recursos Fiscais. A DRJ julgou a manifestação improcedente, conforme decisão assim ementada: DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. INOCORRÊNCIA. O Cerceamento de direito de defesa somente ocorre quando o sujeito passivo teve prejudicado se a descrição dos fatos é insuficiente ou deficiente, de tal forma, a impedilo de apresentar defesa. COMPENSAÇÃO. GLOSA Cabe à interessada a comprovação da natureza do seu crédito a ser compensado, bem como a sua liquidez e certeza. A glosa de compensação indevida dispensa a formalização de lançamento de ofício mediante auto de infração, em face da sua declaração em GFIP, que constitui instrumento de confissão de dívida, podendose proceder à imediata inscrição do débito nela confessado em Dívida. JUSTIÇA DO TRABALHO. EXECUÇÃO DE OFÍCIO DAS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. CABIMENTO. Fl. 405DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 5 7 É competência material da Justiça do Trabalho a execução das contribuições sociais devidas sobre as verbas reconhecidas como devidas nos atos judiciais que proferir, RESTITUIÇÃO. RECOLHIMENTOS FEITOS EM PERÍODO DECADENTE. INOCORRÊNCIA. Descabe falarse em decadência quanto aos recolhimentos feitos espontaneamente pelo contribuinte em relação a valores devidos por força de execução pela Justiça do Trabalho. A argüição de decadência e a inexigibilidade de contribuição previdenciária, porventura decadente, deve ter sido discutida perante o juízo trabalhista. Não cabe a construção de créditos com esta natureza, em face da posterior entrada em vigor da Súmula Vinculante 08/2008, que não teve aplicação retroativa. O sujeito passivo foi intimado da decisão da DRJ em 09/11/2017, através de carta postal com aviso de recebimento (v. fl. 329), e interpôs recurso voluntário em 11/12/2017, no qual basicamente reiterou os termos de sua Manifestação de Inconformidade. Sem contrarrazões ou manifestação pela PGFN. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo, visto que interposto dentro do prazo legal de trinta dias, e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2 Da nulidade por cerceamento de defesa Neste ponto, a recorrente reitera os argumentos da manifestação de inconformidade acerca do cerceamento aos direitos de defesa. É que a fiscalização teria lhe concedido dilação de prazo para apresentação de documentos até o dia 08/05/2017, mas teria proferido o despacho decisório em 03/05/2017, antes, portanto, daquela data. Realmente, no doc. 2 da manifestação de inconformidade (fl. 307 do PDF), consta que a data limite para o detalhamento do crédito e da compensação seria 08/05/2017 (vide abaixo) e que a auditoria estaria aguardando esse detalhamento: Fl. 406DF CARF MF 8 A despeito disso, o despacho decisório foi proferido em 25 de abril de 2017 e foi notificado ao sujeito passivo em 03/05/2017. Sobre essa questão, o acórdão de impugnação decidiu nos seguintes termos (destacouse): Na apresentação dos esclarecimentos a empresa novamente formula pedido de prorrogação de prazo para apresentar novos esclarecimentos, contudo, até o fechamento do procedimento fiscal, formalizado em 03/05/2017, nada mais apresentou, procedimento também adotado no prazo de contestação, haja vista que junto a esta peça somente foram anexadas: cópia do despacho decisório e uma tela existente no ECAC onde existe a informação de que a "Data limite de detalhamento" é 08/05/2017. Tal detalhamento referese à utilização de planilha do programa denominado AUDCOMP, que não é vinculante para a execução do procedimento fiscal. A afirmação acima destacada não está suficientemente justificada e não há qualquer explicação do que se trata o programa denominado AUDCOMP, tampouco porque a utilização da planilha não seria, no entender da DRJ, vinculante para a execução do procedimento fiscal. De todo modo, no entender deste relator, a prolatação do despacho decisório e a sua ciência à contribuinte antes da data limite prevista no sistema da própria Receita Federal gera uma surpresa e uma consequente violação ao seu direito de defesa, vez que cria a expectativa, no sujeito passivo, de que até aquela data poderiam ser apresentados documentos ou esclarecimentos relativos às compensações então fiscalizadas. Em sendo assim, na dicção do art. 59, inc. II, do Decreto 70235/72, deve ser reconhecida a nulidade do despacho decisório que não homologou a compensação, tendo em vista a existência de preterição ao direito de defesa da recorrente. Tal nulidade, por ser procedimental, e não relativa à materialidade dos fatos geradores, é formal. Vejase, nesse sentido, a doutrina de Leandro Paulsen1: Os vícios formais são aqueles atinentes aos procedimentos e ao documento que tenha formalizado a existência do crédito tributário. Vícios materiais são os relacionados à validade e incidência da lei. Se este conselheiro for vencido na preliminar, cabe analisar o mérito recursal. 3 Da glosa de compensações Do que se depreende da acusação fiscal e das peças processuais que lhe sucederam, é que os créditos compensados pela recorrente seriam oriundos de recolhimentos previdenciários que ela entendeu serem indevidos, realizados em decorrência de condenações trabalhistas, tendo em vista que os fatos geradores teriam ocorrido há mais de cinco anos. No entender da recorrente, na dicção do art. 43, § 2º, da Lei 8212/91, os fatos geradores teriam ocorrido na data da prestação dos serviços, ao passo que a Súmula Vinculante 8 determinaria que o prazo decadencial para a constituição dos créditos seria de cinco anos contados a partir dos fatos geradores. 1 PAULSEN, Leandro. Direito tributário: Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 10. ed. rev. atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado, ESMAFE, 2008, p. 1164. Fl. 407DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 6 9 Em contraponto, a acusação fiscal e a DRJ entenderam que: (a) somente a Justiça do Trabalho teria competência para dirimir a questão relativa aos recolhimentos supostamente indevidos; (b) os documentos anexados pela contribuinte não teriam nexo causal com o assunto ora discutido; e (c) as compensações efetuadas em GFIP com créditos sabidamente inexistentes de fato, haja vista que os créditos devem ser líquidos e certos, devem ser glosadas. Vejase, nesse contexto, os seguintes trechos da fundamentação do acórdão recorrido com destaques: No mérito, conforme já adiantado, entende a manifestante que possuía créditos líquidos e certos decorrentes da aplicação da decadência em pagamentos de contribuição previdenciárias nas RCT, para tanto formula uma tese jurídica onde trata da exigibilidade de formalização do lançamento pela RFB e a existência do reconhecimento da decadência em julgados do TRT. Quanto à exigibilidade do lançamento, é uníssono, em face da legislação transcrita no Despacho Decisório, também reconhecida pela manifestante, que compete à Justiça do Trabalho executar as contribuições previdenciárias nas RCT. Qualquer lançamento de ofício somente poderia ser feito, a partir do trânsito em julgado da decisão condenatória, e mesmo assim somente para parcelas que, por ventura, não tivessem sido já executadas pela Justiça do Trabalho. Esta questão está regida em definitivo nos seguintes atos do poder judiciário: SÚMULA Nº 368 TST Descontos previdenciários e fiscais. Competência. Responsabilidade pelo pagamento. Forma de cálculo. (Conversão das Orientações Jurisprudenciais nºs 32, 141 e 228 da SDI1) I. A Justiça do Trabalho é competente para determinar o recolhimento das contribuições previdenciárias e fiscais provenientes das sentenças que proferir. A competência da Justiça do Trabalho para execução das contribuições previdenciárias alcança as parcelas integrantes do salário de contribuição, pagas em virtude de contrato de emprego reconhecido em juízo, ou decorrentes de anotação da Carteira de Trabalho e Previdência Social CTPS, objeto de acordo homologado em juízo. (exOJ nº 141 Inserida em 27.11.1998) II.É do empregador a responsabilidade pelo recolhimento das contribuições previdenciárias e fiscais, resultante de crédito do empregado oriundo de condenação judicial, devendo incidir, em relação aos descontos fiscais, sobre o valor total da condenação, referente às parcelas tributáveis, calculado ao final, nos termos da Lei nº 8.541/1992, art. 46 e Provimento da CGJT nº 01/96. (exOJ nº 32 Inserida em 14.03.1994 e OJ nº 228 Inserida em 20.06.2001) Fl. 408DF CARF MF 10 III.Em se tratando de descontos previdenciários, o critério de apuração encontrase disciplinado no art. 276, §4º, do Decreto n º 3.048/99 que regulamentou a Lei nº 8.212/91 e determina que a contribuição do empregado, no caso de ações trabalhistas, seja calculada mês a mês, aplicandose as alíquotas previstas no art. 198, observado o limite máximo do salário de contribuição. (ex OJ nº 32 Inserida em 14.03.1994 e OJ 228 Inserida em 20.06.2001) Está súmula foi objeto de apreciação do pleno do STF mediante a emissão da Súmula Vinculante nº 53, que trata da competência da Justiça do Trabalho para executar contribuições previdenciárias decorrentes de suas decisões. A proposta foi apresentada no julgamento do Recurso Extraordinário 569056, com repercussão geral reconhecida. O recurso do INSS, questionava a decisão do Tribunal Superior do Trabalho que negou a incidência automática da contribuição previdenciária nas decisões que reconhecessem a existência de vínculo de emprego – nos termos do item I, da Súmula 368 do TST. O recurso foi desprovido pelo STF, que seguiu o entendimento de que a decisão trabalhista que não dispõe sobre o pagamento de salários, limitandose a reconhecer a existência de vínculo, não constitui título executivo judicial para fins de contribuições previdenciárias. A Súmula 53 do STF tem a seguinte redação: "A competência da Justiça do Trabalho prevista no artigo 114, inciso VIII, da Constituição Federal alcança a execução de ofício das contribuições previdenciárias relativas ao objeto da condenação constante das sentenças que proferir e acordos por ela homologados". Não tem cabimento a alegação segundo a qual a fiscalização teria que fazer o lançamento, pois a competência para a execução das contribuições previdenciárias devidas nas RCT, onde há condenação de valores expressos, é da Justiça do Trabalho, de forma que não poderia a fiscalização exercer tal função. Além do mais, se diverso o procedimento, haveria risco de cobrança em duplicidade. A questão da inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/1991 já foi objeto de pacificação pelo Supremo Tribunal Federal, que, em sessão de 12/06/2008, editou a Súmula Vinculante nº 8, de cumprimento obrigatório pela Administração Pública, de acordo com a Lei nº 11.417, de 19/12/2006, que regulamentou o artigo 103A da Constituição Federal, contudo, não lhe foi atribuída eficácia retroativa, de forma que os pagamentos de contribuições sociais previdenciárias anteriores à sua edição, ainda que se refiram a período superior a 5 anos, devem ser considerados perfeitos e impassíveis de restituição. [...] Totalmente irregular e desprovido de legalidade foi o procedimento da manifestante de evocar, após o transcurso de anos, ser detentoras de créditos oriundos de pretensa decadência de recolhimentos feitos em decorrência de execuções exigidas na Fl. 409DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 7 11 Justiça do Trabalho, no curso de processos de reclamatória trabalhista. Aliás, tal situação sequer foi respaldada na apresentação das tais reclamatórias trabalhista, perante a fiscalização ou juntadas na manifestação de inconformidade. Pois bem. No entender deste relator, o recurso voluntário deve ser desprovido, mas não porque a SRFB não tenha competência para processar e julgar o pedido de restituição, mas sim pelo outro fundamento adotado pela fiscalização para não homologar a compensação, qual seja: a inexistência de certeza e de liquidez do crédito supostamente detido pela contribuinte. Assim como a SRFB tem competência para lançar, de ofício, as contribuições cuja exigibilidade não tenha sido analisada pela Justiça do Trabalho (vide, e.g., o inc. II do art. 101 da IN RFB 971/09), ela também tem competência para processar e julgar os pedidos de restituição fundados em fatos não submetidos ao julgamento daquele órgão judicial. A rigor, o Poder Judiciário sempre tem competência para processar e julgar quaisquer ações relativas à tributação, tendo em vista o princípio da inafastabilidade da jurisdição, mas isso não significa que a Receita também não possa fazêlo, respeitados, evidentemente, os limites da Súmula CARF nº 1 e as demais disposições legais. Todavia, na dicção do art. 170 do CTN, a compensação somente pode ser efetuada com créditos líquidos e certos do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. A certeza e liquidez do crédito do contribuinte em face do Fisco é um requisito essencial para a elaboração do encontro de contas. A despeito disso, e no caso in concreto, o sujeito passivo não se dignou de apresentar qualquer documento que comprovasse sequer a existência dos seus créditos, muito menos a sua certeza e a sua liquidez. Com efeito, e conforme consta do acórdão de impugnação, "tal situação sequer foi respaldada na apresentação das tais reclamatórias trabalhista, perante a fiscalização ou juntadas na manifestação de inconformidade" (como no original). Intimado através do "Termo de Intimação nº 0100/2017 SEORT/DRF/GUARULHOS", fl. 18, a contribuinte apresentou petição solicitando dilação de prazo (fls. 25/26), para, em seguida, prestar os esclarecimentos de fls. 97/102, esclarecimentos, entretanto, totalmente desacompanhados das reclamatórias trabalhistas, das memórias de cálculo e de qualquer outro documento que demonstrasse os seus créditos e que permitisse a sua aferição. Os únicos documentos disponibilizados foram uma solução de consulta relativa às contribuições previdenciárias dos servidores públicos, as informações prestadas num mandado de segurança do qual a contribuinte não é parte e determinados precedentes jurisprudenciais. É induvidoso que se os créditos estariam fundados em recolhimentos realizados há mais de cinco anos, em reclamatórias trabalhistas promovidas em desfavor da empresa, ela deveria ter demonstrado a existência dessa circunstância através dos respectivos documentos comprobatórios, fato este que não passou despercebido ao crivo da decisão da DRJ. A compensação é amplamente reconhecida no direito público e no direito privado e ocorre quando duas pessoas são ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra. Vejase, inicialmente, o que dispõem os arts. 368 e 369 do Código Civil: Fl. 410DF CARF MF 12 Art. 368. Se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguemse, até onde se compensarem. Art. 369. A compensação efetuase entre dívidas líquidas, vencidas e de coisas fungíveis. Como se vê acima, no direito privado a compensação independe da vontade das partes e basta que estejam presentes os pressupostos dos arts. 368 e 369 retro mencionados. Se duas pessoas forem credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguemse até o limite no qual se compensarem. Já no regime tributário, a compensação depende de lei autorizadora (vide abaixo), a qual deve regular as suas condições e as suas garantias. O art. 170 do CTN atribui à lei a possibilidade de compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. Vejase: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) Parágrafo único. Sendo vincendo o crédito do sujeito passivo, a lei determinará, para os efeitos deste artigo, a apuração do seu montante, não podendo, porém, cominar redução maior que a correspondente ao juro de 1% (um por cento) ao mês pelo tempo a decorrer entre a data da compensação e a do vencimento. Art. 170A. É vedada a compensação mediante o aproveitamento de tributo, objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo, antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial. (Incluído pela Lcp nº 104, de 2001) Da leitura do art. 170 do CTN, depreendese que, assim como no direito civil, no direito tributário a compensação somente se opera com créditos líquidos e certos. A par disso, há necessidade de lei autorizadora ("a lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa"). Em sendo assim, a decisão recorrida foi incensurável ao asseverar que "tal situação sequer foi respaldada na apresentação das tais reclamatórias trabalhista, perante a fiscalização ou juntadas na manifestação de inconformidade". 4 Conclusão Diante do exposto, votase no sentido de conhecer e acolher a preliminar, para reconhecer a nulidade do lançamento por vício formal. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 411DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 8 13 Voto Vencedor Conselheiro Mauricio Nogueira Righetti Redator Designado Em que pese as, como de costume, muito bem articuladas razões do Relator, delas ouso a dissentir. A divergência resumese quanto ao entendimento do Relator de que teria havido cerceamento do direito de defesa do recorrente, na medida em que o procedimento teria se encerrado antes de o término do prazo supostamente a ele assinalado, bem como quanto à competência da RFB para reconhecer o direito creditório consubstanciado no pagamento indevido ou a maior de contribuição previdenciária efetuada nos autos de Reclamações Trabalhistas. Pois bem. O caso referese à auditoria das compensações declaradas em GFIP, que conta, hoje, com o sistema "AUDCOMP" como instrumento de auxílio. Em resumo, a partir desse sistema, que se vale de uma interface acessível ao contribuinte, são emitidas intimações, ao mesmo tempo em que recebe as respectivas respostas, que devem ser, na maioria dos casos, lá inseridas on line pelo próprio intimado. Após prestadas as respostas, o sistema promove, sempre que possível, a auditoria automatizada mediante verificações nas bases de dados da RFB. O prazo observado pelo sistema para dar início ao processamento eletrônico é determinado pelo auditor, que, via de regra, o estabelece normalmente em uma data mais a frente do que aquela que, formalmente, assinalou ao intimado. Nesse caso, teria inserido no sistema a data de 08.05.2017. Como bem narrou a decisão de piso, a intimação inicial se deu em 22.03.2017, com a concessão do prazo de 10 dias para atendimento. Em 03.04.2017, no vencimento do prazo, foi pedido sua prorrogação. Ainda que não tivesse sido, expressamente, deferida a prorrogação, a aceitação dos esclarecimento em 06.04.2017, implicou a seu tácito deferimento. Todavia, nessa mesma oportunidade (em 06.04.2017), solicitou nova prorrogação do prazo, sem que para essa, tivesse havido resposta formal ou mesmo tácita. Com isso, deveria ter em mente o recorrente que seu prazo esgotarase findo aquele formalmente lhe concedido. Assim sendo, passados aproximadamente 40 dias, em 03.05.2017 o auditor houve por bem encerrar o procedimento. Fl. 412DF CARF MF 14 Vale destacar, como assentou o voto do Relator, que a alegação de que detinha créditos compensáveis provenientes de reclamatórias trabalhistas "sequer foi respaldada na apresentação das tais reclamatórias trabalhista, perante a fiscalização ou juntadas na manifestação de inconformidade". E reforçase: mesmo em seu recurso voluntário abdicou de tentar fazer a prova material de seu direito. Por sua vez, o artigo 19 da Lei 3.470/58, com a redação dada pela MP 2.158 35/2001, assim dispõe sobre a concessão dos prazos nos procedimentos de ofício: "Art. 19. O processo de lançamento de ofício será iniciado pela intimação ao sujeito passivo para, no prazo de vinte dias, apresentar as informações e documentos necessários ao procedimento fiscal, ou efetuar o recolhimento do crédito tributário constituído. § 1º Nas situações em que as informações e documentos solicitados digam respeito a fatos que devam estar registrados na escrituração contábil ou fiscal do sujeito passivo, ou em declarações apresentadas à administração tributária, o prazo a que se refere o caput será de cinco dias úteis. (destaquei) Nesse rumo, não tendo vislumbrado o efetivo cerceamento de defesa do recorrente, que dispôs de prazo mais do que o suficiente a comprovar o crédito que alegara possuir, em especial em função de sua natureza, voto, neste ponto, por negar provimento ao recurso sob exame. A seu turno, em que pese acompanhar o relator quanto ao não provimento do recurso por ausência de liquidez e certeza do crédito que pretendeu utilizar, discordo quanto à competência da RFB para, neste caso, reconhecer o direito creditório relativo a recolhimentos efetuados em função da execução de decisão condenatória no âmbito da Justiça do Trabalho. Como bem posto pela decisão de piso, "qualquer lançamento de ofício somente poderia ser feito, a partir do transito em julgado da decisão condenatória, e mesmo assim somente para parcelas que, por ventura, não tivessem sido já executadas pela JUstiça do TRabalho." Notase que a pretensão recursal reside em que fosse assentada a necessidade de que houvesse um lançamento administrativo para o recolhimento das contribuições apuradas no âmbito da RT, sendo que, uma vez inexistente, os recolhimentos, na data das compensações, contariam com mais de 5 (cinco) anos e, por tanto, segundo alega, agora indevidos. Assim, a competência da Justiça do Trabalho darseia somente quanto à execução do crédito, mas não quanto a sua constituição. Nesse ponto, reproduzo o excerto a seguir, igualmente extraído da decisão recorrida. Fl. 413DF CARF MF Processo nº 10880.725597/201741 Acórdão n.º 2402006.652 S2C4T2 Fl. 9 15 Percebase do trecho acima, que uma vez determinados, no âmbito judicial, os valores das contribuições incidentes sobre as rubricas que integraram a condenação, não haveria qualquer óbice à execução das mesmas, reputandose, pois, regularmente constituídas. Com efeito, VOTO por rejeitar a preliminar de nulidade suscitada e, no mérito, NEGAR provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Mauricio Nogueira Righetti Fl. 414DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720097/2014-69
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Dec 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
IN 243/2002. LEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 115.
A sistemática de cálculo do "Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de lucro de sessenta por cento (PRL 60)" prevista na Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, não afronta o disposto no art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000.
PRL PONDERADO. LEGALIDADE.
O art. 18, II, da Lei 9.430/96 determina que o preço-parâmetro seja a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, o que não conflita com o PRL ponderado que resultou da média ponderada dos preços em função da quantidade consumida/vendida em cada operação, seja PRL 20 quando revendido como mercadoria, seja PRL 60 quando insumo de produto vendido. A média aritmética dos preços de revenda pode ser a ponderada em função das quantidades consumidas em cada operação, aliás, o que não pode é ser a média aritmética simples dos preços de revenda, pois, se assim, fosse, estaria prejudicado todo o controle de preços de transferência.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. FRETE E SEGURO E IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO.
Uma vez que compõem o preço de venda do produto, o valor do frete, seguro e dos impostos de importação devem ser considerados no preço praticado para fins de apuração dos ajustes dos preços de transferência segundo o método PLR, como forma de se propiciar a comparabilidade entre o preço-parâmetro e o custo de aquisição dos insumos.
CÁLCULOS. ERRO DE FATO.
Constatados, através de diligência fiscal, erros de fato no cálculos dos ajustes de preços de transferência, deve ser exonerada a parcela equivocadamente lançada.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108.
Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2009
CSLL REFLEXO DE IRPJ.
Aplica-se à CSLL o mesmo que foi decidido em relação ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo.
Numero da decisão: 1301-003.498
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; e (ii) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votaram por dar lhe provimento parcial em relação à inclusão de frete, seguro e tributos no preço praticado.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Bianca Felícia Rothschild e Giovana Pereira de Paiva Leite.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009 IN 243/2002. LEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 115. A sistemática de cálculo do "Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de lucro de sessenta por cento (PRL 60)" prevista na Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, não afronta o disposto no art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000. PRL PONDERADO. LEGALIDADE. O art. 18, II, da Lei 9.430/96 determina que o preço-parâmetro seja a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, o que não conflita com o PRL ponderado que resultou da média ponderada dos preços em função da quantidade consumida/vendida em cada operação, seja PRL 20 quando revendido como mercadoria, seja PRL 60 quando insumo de produto vendido. A média aritmética dos preços de revenda pode ser a ponderada em função das quantidades consumidas em cada operação, aliás, o que não pode é ser a média aritmética simples dos preços de revenda, pois, se assim, fosse, estaria prejudicado todo o controle de preços de transferência. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. FRETE E SEGURO E IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO. Uma vez que compõem o preço de venda do produto, o valor do frete, seguro e dos impostos de importação devem ser considerados no preço praticado para fins de apuração dos ajustes dos preços de transferência segundo o método PLR, como forma de se propiciar a comparabilidade entre o preço-parâmetro e o custo de aquisição dos insumos. CÁLCULOS. ERRO DE FATO. Constatados, através de diligência fiscal, erros de fato no cálculos dos ajustes de preços de transferência, deve ser exonerada a parcela equivocadamente lançada. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2009 CSLL REFLEXO DE IRPJ. Aplica-se à CSLL o mesmo que foi decidido em relação ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo.
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LEGALIDADE. SÚMULA CARF Nº 115. A sistemática de cálculo do "Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de lucro de sessenta por cento (PRL 60)" prevista na Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, não afronta o disposto no art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000. PRL PONDERADO. LEGALIDADE. O art. 18, II, da Lei 9.430/96 determina que o preçoparâmetro seja a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, o que não conflita com o “PRL ponderado” que resultou da média ponderada dos preços em função da quantidade consumida/vendida em cada operação, seja PRL 20 quando revendido como mercadoria, seja PRL 60 quando insumo de produto vendido. A média aritmética dos preços de revenda pode ser a ponderada em função das quantidades consumidas em cada operação, aliás, o que não pode é ser a média aritmética simples dos preços de revenda, pois, se assim, fosse, estaria prejudicado todo o controle de preços de transferência. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. FRETE E SEGURO E IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO. Uma vez que compõem o preço de venda do produto, o valor do frete, seguro e dos impostos de importação devem ser considerados no preço praticado para fins de apuração dos ajustes dos preços de transferência segundo o método PLR, como forma de se propiciar a comparabilidade entre o preço parâmetro e o custo de aquisição dos insumos. CÁLCULOS. ERRO DE FATO. Constatados, através de diligência fiscal, erros de fato no cálculos dos ajustes de preços de transferência, deve ser exonerada a parcela equivocadamente lançada. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 97 /2 01 4- 69 Fl. 2035DF CARF MF 2 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 108. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2009 CSLL REFLEXO DE IRPJ. Aplicase à CSLL o mesmo que foi decidido em relação ao IRPJ, por se tratar de lançamento reflexo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado em: (i) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; e (ii) por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Eduardo Dornelas Souza e Amélia Wakako Morishita Yamamoto que votaram por dar lhe provimento parcial em relação à inclusão de frete, seguro e tributos no preço praticado. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Bianca Felícia Rothschild e Giovana Pereira de Paiva Leite. Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado para a cobrança de IRPJ e CSLL, acrescidos de multa de 75% e juros, em razão da constatação, por parte da autoridade fiscalizadora, que o montante total de ajustes a título de preço de transferência seria maior do que o adicionado pelo contribuinte. O ponto de partida do cálculo foi o arquivo "Importações" (doc.3), a partir do qual a fiscalização selecionou as importações de partes vinculadas e de países com tributação favorecida, gerando a planilha "01 Demonstrativo resumo das Importações de vinculadas no anocalendário 2009" (doc. 30), apurando os preços praticados de acordo com a determinação do art. 12, §3º da IN SRF nº 243/2002, e gerando a planilha "02 Demonstrativo dos cálculos dos Preços Praticados itens calculados pelo método PRL" (doc. 31). Para a apuração do preçoparâmetro pelo método PRL, a fiscalização iniciou com a extração das informações do arquivo em "Vendas"; excluiu as vendas para vinculadas; e elaborou, então, a planilha "03 Demonstrativo Resumo das Vendas" (doc. 32), Fl. 2036DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 3 3 contendo os subtotais de quantidade, Valor total da venda, descontos incondicionais, ICMS, PIS, COFINS e Valor Líquido das Vendas por cada código de produto. Os preços parâmetros calculados pelo PRL20, PRL60, e PRL20/60 (ponderado, nos casos de insumos que foram parcialmente utilizados em produção, e parcialmente revendidos), nos documentos nº 33, 34 e 35. A fiscalização também apurou os ajustes pelo PIC, com base na documentação entregue pelo contribuinte, conforme planilhas constantes nos documentos 36, 37 e 38. O quadro de fls. 649/650 mostra o valor total do ajuste apurado para cada um dos itens importados em que foi encontrado algum ajuste a ser efetuado, e está a seguir sintetizado: Nas Fichas 09A (IRPJ) e 17 (CSLL) da DIPJ/2010 (doc. 2), a contribuinte já havia efetuado a adição de R$ 354.039,91, a título de "Ajustes Decorrentes de Métodos de Preços de Transferências". Desta forma, efetuouse ajustes nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL no montante de R$ 21.382.390,39, que é a diferença entre o montante total de ajustes apurado pela fiscalização (R$ 21.736.430,30) e o valor já previamente declarado pela contribuinte (R$ 354.039,91). Notificado, o Contribuinte apresentou Impugnação de fls. 685/741 alegando, em síntese: (i) recalculou de forma equivocada o método PIC para alguns produtos; (ii) utilizou saldos iniciais e finais também equivocados para alguns produtos, o que gerou distorções no consumo do ano e no preçoparâmetro utilizado no método PRL60; (iii) para um produto específico que tinha finalidades distintas, desconsiderou sem base em lei, os métodos PRL20 e PRL60 adotados pela impugnante e calculou uma média ponderada do preçoparâmetro (iv) desqualificou indevidamente os cálculos realizados pela impugnante em relação ao método PRL60, consoante as regras da Lei nº 9.430/96; (v) calculou o preço praticado para fins de comparação com o preçoparâmetro PRL com base em cláusula CIF, sem descontar os valores de frete, seguros e imposto de importação; (vi) alega a ilegalidade da IN SRF nº 243/2002; (vii) impossibilidade de cobrança de juros sobre multa de ofício. O principal ponto de divergência foi o método PRL60, onde se percebe, no Termo de Verificação Fiscal e nos cálculos apresentados pela fiscalização, que as diferenças apuradas decorrem da utilização da sistemática da Lei nº 9.430/96 pela impugnante, ao passo que a fiscalização adota a sistemática da IN SRF nº 243/2002; A DRJ optou por converter o julgamento em diligências cujos relatórios constam em fls. 1652/1668 e 1874/1879. A conclusão da 1ª diligência foi a seguinte: Refazendo os cálculos, considerando as alegações apresentadas pela contribuinte em sua impugnação, a fiscalização apurou um montante total de ajustes a título de preço de transferência no valor de R$ 20.794.531,35 referente ao anocalendário 2009. Fl. 2037DF CARF MF 4 Considerando que a contribuinte já havia efetuado a adição de R$ 354.039,91 a título de "Ajustes Decorrentes de Métodos de Preços de Transferências", o valor correto em termos de matéria tributável é de R$ 20.440.491,44, que é a diferença entre o valor apurado nesta diligência fiscal e o valor já previamente declarado pelo contribuinte. O contribuinte apresentou manifestação indicando erros na apuração, o que gerou a realização da 2ª diligência, que chegou à seguinte conclusão: Assim, atendendo à solicitação da DRJ/SPO, a fiscalização refez os cálculos de ajustes a título de preço de transferência dos itens para os quais foi utilizado o método PRL. Os valores de ajustes foram recalculados não só em função das alterações nas quantidades dos estoques, mas também, como conseqüência direta, em função das alterações dos preços praticados e parâmetros. Assim, a fiscalização apresenta, às fls. 1877/1878, tabela com os novos valores de ajustes apurados a título de preço de transferência dos itens para os quais foi utilizado o método PRL, totalizando R$ 13.746.358,15. O contribuinte se manifesta sobre o novo resultado de diligência, alegando que a diferença entre os ajustes realizados indica a precariedade da autuação fiscal, pugnando pela sua nulidade. A DRJ julgou a Impugnação parcialmente procedente, através do Acórdão nº 1681.335 (fls. 1899/1943), onde: a) rejeitou as preliminares de nulidade; b) afastar a alegação de ilegalidade da IN SRF nº 243/2002; c) rejeitou a alegação da impugnante contrária à inclusão dos valores relativos ao frete, ao seguro e aos tributos no cálculo do preço praticado. d) Quanto à alegação de falta de base legal para utilizar o PRL20/60 de forma ponderada, e que deveria se utilizar o método mais favorável ao contribuinte, rejeitoua com base na SCI Cosit nº 30/2008. e) Acata o resultado das diligências, reduzindo o valor do ajuste de R$ 21.382.390,39 para R$ 13.426.053,36. f) rejeita a alegação de não incidência de juros sobre multa de ofício. Irresignado, o Contribuinte apresenta Recurso Voluntário de fls. 1957/2027, repisando as razões de sua Impugnação. Da mesma forma, em razão do montante exonerado, o presidente da DRJ interpôs Recurso de Ofício. É o relatório. Fl. 2038DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 4 5 Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido pelo Colegiado. Da mesma forma, o Recurso de Ofício ultrapassa o valor de alçada estabelecido pela Portaria MF nº 63/2017, e não se enquadra em nenhuma das hipóteses do art. 27 da Lei nº 10.522/2002, devendo ser conhecido. I) Análise do Recurso de Ofício O contribuinte alegou, ainda em sua Impugnação, que em relação aos itens cujo preço de transferência foi calculado pelo método PRL, houve equívoco quanto ao estoque inicial, ao estoque final e, consequentemente, quanto às quantidades consumidas, afetando o cálculo do preço parâmetro. O equívoco se deu em razão da fiscalização ter utilizado uma planilha que posteriormente, ainda dentro do procedimento de averiguação dos fatos, foi retificada. Esclareceu: “Tivessem sido adotadas as informações constantes dos documentos fornecidos em 14/05/2014 (Intimação n° 5), certamente terseia calculado corretamente os saldos de inventário da planilha e identificado um consumo inferior do aludido produto, concluindo que o ajuste real foi inferior ao ajuste indicado no lançamento. Ou seja, embora a metodologia adotada pela fiscalização para apuração de consumo no PRL60 seja correta, os números utilizados no cálculo são incorretos, já que partiram de planilhas e documentos apresentados pela contribuinte antes da Intimação n° 5.” Em razão da evidência do erro da fiscalização, a própria DRJ solicitou diligência para que fossem refeitos os cálculos dos ajustes de preços de transferência, considerando as quantidade consumidas corretamente, para os itens avaliados pelo método PRL. Sobre a documentação juntada, aduziu a fiscalização no relatório de fls. 1874/1881: Constatamos realmente que para o cálculo das quantidades em estoque, e consequentemente, das quantidades de ajuste, foi utilizada a planilha insumoproduto enviada anteriormente, antes da devida retificação. As quantidades de insumo importado presentes nos estoques iniciais e finais foram então recalculadas com base nas relações insumoproduto retificadas. Salientamos, entretanto, que a alteração nas quantidades de estoque inicial de cada item importado, afeta não só as quantidades de ajuste, mas também os preços praticados, já que Fl. 2039DF CARF MF 6 estes são calculados considerandose também, além de todas as importações do ano, os estoques iniciais. (...) Assim, atendendo à solicitação da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de São Paulo (DRJ / SPO) refizemos os cálculos de ajustes a título de preço de transferência dos itens para os quais foi utilizado o método PRL. Os valores de ajustes a título de preços de transferência foram recalculados não só em função das alterações nas quantidades dos estoques, mas também, como consequência direta, em função das alterações dos preços praticados e parâmetros. A diligência elaborou planilha de fls. 1877/1878, com os novos valores de ajustes para os itens que utilizaram o método PRL, totalizando um ajuste total de R$ 13.746.358,15. Parecenos que a questão é eminentemente matemática, e que a própria fiscalização verificou e sanou o equívoco realizado a esse respeito, à luz dos dados corretamente apresentados pelo contribuinte. Em razão disso, entendo acertada a decisão proferida pela instância a quo, tomando como fundamento complementar da minha decisão o teor dos relatórios de diligência de fls. 1652/1668 e 1874/1879, com fulcro no art. 50, §1º da Lei nº 9.784/99, verbis § 1o A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Desse modo, voto por negar provimento ao Recurso de Ofício. II) Análise do Recurso Voluntário a) Preliminares a.i) Nulidade por inconsistência do lançamento Aduz a Recorrente que a autuação seria nula em razão da inconsistência dos cálculos e da metodologia adotada pela Fiscalização nos ajustes de preço de transferência, que implicaram em redução de 37,21% da autuação. Friso inicialmente que discordo do fundamento dado pela decisão da DRJ, com base no art. 60 do Decreto 70.235/72, cujas irregularidades se referem, a meu ver, àquelas ocorridas no âmbito do procedimento administrativo, e não relativas ao conteúdo do ato que deve obedecer ao art. 142 do CTN. Entretanto, com a devida vênia, entendo que apesar dos erros materiais verificados através da diligência fiscal, pareceme fora de dúvida que o ato administrativo está dotado de todos os requisitos de validade sob o risco de se chegar à situação de que todo lançamento que tivesse algum aspecto a ser reformado poderia ser objeto de anulação, por inconsistência da autuação. Fl. 2040DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 5 7 Vislumbrase nos autos todos os elementos exigidos pelo art. 10 do Decreto 70.235/72, razão pela qual entendemos que não deve ser pronunciada a nulidade por vício de motivação de fato e de direito. Como já defendemos em outras oportunidades, há que se distinguir, naturalmente, duas situações diferentes: o juízo preliminar, acercar do atendimento aos requisitos de lavratura do auto de infração, incluindo aí as exigências probatórias, através do qual se pode concluir pela nulidade da autuação; e o juízo meritório, no qual se efetuará a valoração das provas existentes, para verificar o atendimento integral de todos os ônus probatórios envolvidos e a verificação da procedência ou não das alegações fiscais. Neste momento, cabe fazer apenas o juízo preliminar, cabendo a análise das provas e das operações em questão a um momento posterior. Sob este prisma, verificase que estão presentes os fundamentos da fiscalização, no relato e no auto de infração, estando atendido a exigência mínima para manutenção formal da autuação. Desse modo, voto por rejeitar a preliminar de nulidade arguida. b) Mérito b.i) PRL 20/60 Ponderado opção pelo método mais benéfico ao contribuinte. Aduz o Recorrente que em relação ao produto DESMODUR 20, que tinha finalidade distintas (ora para produção, ora para revenda), a Fiscalização desconsiderou os métodos do PRL 20 e 60 utilizados pela Recorrente, e calculou uma média ponderada entre valores obtidos de acordo com os métodos citados, chegando a um preço parâmetro arbitrário, sem base legal. Na decisão a quo, o relator mencionou seu entendimento pessoal de que o PRL20 e o PRL60 são métodos distintos de apuração do preçoparâmetro e como a legislação de regência não permite a aplicação de mais um método de avaliação para o mesmo produto (um para os produtos importados submetidos a revenda direta, e outro para os produtos importados utilizados na produção ou industrialização), deverseia adotar como preço parâmetro o mais favorável ao contribuinte (o maior valor, e não a média ponderada, evidentemente menor), nos termos do artigo 18, § 4º, da Lei nº 9.430/96 e do artigo 4º, § 2º, da IN SRF nº 32/2001. Entretanto, por vinculação legal, aplicou a Solução de Consulta Interna COSIT nº 30/2008, que dispõe: “Nos casos em que os insumos importados de pessoas vinculadas são aplicados em parte no processo produtivo e em parte são revendidos, ao se eleger o PRL como método de apuração, o preço médio ponderado do período será o resultante da aplicação do método PRL, com margem de vinte por cento, na hipótese de revenda, e do método PRL, com margem de sessenta por cento, na hipótese dos insumos aplicados na produção. Esse será o preço médio ponderado do método PRL apurado para o período anual a ser comparado com os outros dois métodos de apuração (PIC e CPL)”. Nos casos em que o produto foi destinado à revenda, aplicouse a margem de 20% e chegouse a um preço parâmetro segundo o PRL 20. Por outro lado, nos casos em Fl. 2041DF CARF MF 8 que a mercadoria foi utilizada para produção, empregouse a margem de 60% e chegouse a um preço parâmetro para o mesmo bem, usando o PRL 60. Diante dos dois, optou o contribuinte pelo preço parâmetro maior, que lhe assegurou maior dedutibilidade. Aduz o contribuinte que o art. 18, §4º da lei nº 9.430/96 determina que nos casos em que se utilize mais de um método para um mesmo produto, deverá ser considerado dedutível o maior valor apurado, dede que não seja superior ao valor de aquisição (§5º). Além disso, argumenta também que a previsão específica desse "PRL Ponderado" somente surgiu com a inclusão do §14 ao art. 18 da Lei nº 9.430/96, por meio da Lei nº 12.715/2012, que dispôs expressamente: § 14. Na hipótese de um mesmo bem importado ser revendido e aplicado na produção de um ou mais produtos, ou na hipótese de o bem importado ser submetido a diferentes processos produtivos no Brasil, o preço parâmetro final será a média ponderada dos valores encontrados mediante a aplicação do método PRL, de acordo com suas respectivas destinações. Sem dúvidas, tratamse de fortes argumentos para dar suporte à tese defendida, entretanto, tenho para mim, entretanto, que em uma análise alentada da legislação de preços de transferência, tal disposição já poderia ser haurida da própria redação original. A redação da Lei nº 9.430/96, com as alterações da lei nº 9959/2000, dispõe o seguinte: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: definido como a média aritmética dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes; II – Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: III – Método do Custo de Produção mais Lucro – CPL: definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país onde tiverem sido originariamente produzidos, acrescido dos impostos e taxas cobrados pelo referido país na exportação e de margem de lucro de vinte por cento, calculada sobre o custo apurado. Da própria literalidade do dispositivo, resta evidente que o sujeito passivo possui liberdade de escolha entre três métodos possíveis PIC, PRL ou CPL , um para cada inciso. Diferentemente do que alega o Contribuinte, buscando justificar a escolha pelo "método" mais favorável entre o PRL 20 e o PRL 60, não se trata aqui de métodos distintos, mas de um único método. Fl. 2042DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 6 9 É dizer, o contribuinte não tem liberdade para escolher se o preço parâmetro do produto importado será calculado pelo PRL 20 ou 60 essa determinação decorre da própria lei e da destinação que será dada a esse produto, não havendo margem de escolha nesse ponto. Se a opção do sujeito passivo for pelo PRL, ele empregará no cálculo: a margem de 20% se os produtos forem destinados a revenda (item 1 do inciso II); a margem de 60% se os produtos forem empregados na produção de outros bens (item 2 do inciso II). Essa leitura nos parece intuitiva, mas ainda corroborada pelas diretrizes da Lei Complementar 95/98, em seu artigo 11, III, d, que determina que para a obtenção da ordem lógica nos textos legais, as discriminações e enumerações devem ser feitas por meio de incisos, alíneas e itens, sucessivamente. A distinção foi feita, nesse caso, através dos incisos I, II e III do art. 18 da Lei nº 9.430/96. Não parece haver incompatibilidade entre o art. 18, II, que determina a apuração do preço parâmetro pela "média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos" e a utilização de uma média ponderada, levandose em conta as quantidades consumidas na operação e as quantidades revendidas. Como pontuou o Conselheiro Alberto Pinto Souza Júnior, no voto proferido no acórdão CARF nº 1302001.628: Assim sendo, a média aritmética de que trata o inciso II do art. 18 deve ser tida como a média aritmética ponderada em função da quantidade consumida em cada operação, pois há que se aplicar, ao caso, o vetusto, mas nunca ultrapassado, brocardo latino que nos ensina que: prefirase a inteligência dos textos que torne viável o seu objetivo, ao invés da que os reduza à inutilidade (Commodissimum est, id accipi, quo res de qua agitur, magis valeat quam pereat). Uma vez que o PRL 20 e 60 são modelos de cálculo específicos dentro de um mesmo método estabelecido pela legislação, é fora de sentido querer atribuir apenas um deles para todos os produtos, mormente diante da possibilidade de utilização da média ponderada, aplicandose as margens de lucro para os produtos correspondentes, na proporção de sua quantidade. O artigo 12 da IN SRF nº 243/2002 inclusive esclarece ainda mais a redação do art. 18, II, ao dispor: Art. 12. A determinação do custo de bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, dedutível da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá, também, ser efetuada pelo método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL), definido como a média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos: Não nos parece que houve uma inovação nesse ponto, mas simplesmente uma explicitação do sentido mais evidente e razoável do dispositivo legal, de modo que o §14 do art. 18 da Lei nº 9.430/96 em nada inovou na ordem jurídica, mas veio na condição de lei interpretativa, para firmar o sentido adequado da norma, já praticado há muito, com base na redação original. Fl. 2043DF CARF MF 10 Correta, portanto, a SCI Cosit nº 30. de 30/07/2008, aplicada no presente caso. No mesmo sentido, menciono o excelente voto do Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado constante no Acórdão CARF nº 1302002.128. Desse modo, é de rejeitar o argumento suscitado. b.ii) Da Ilegalidade da IN SRF nº 243/2002 Quanto ao argumento da ilegalidade da IN 243/2002, frente à lei nº 9.430/96, tal matéria foi objeto de recente Súmula no âmbito do CARF, cujo teor é o seguinte: Súmula CARF nº 115 A sistemática de cálculo do "Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de lucro de sessenta por cento (PRL 60)" prevista na Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, não afronta o disposto no art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000. Por força de determinação regimental, o Colegiado é obrigado a aplicar as Súmulas desse Conselho, razão pela qual rechaço o argumento da ilegalidade da IN nº 243/2002. a.iii) Inclusão dos valores de frete, seguros e tributos na importação na determinação do preço praticado (cálculo "CIF") Aduz a Recorrente que a adoção do custo CIF + II eleva o ajuste a ser realizado e viola a finalidade das regras de preço de transferência, uma vez que esses valores são pagos a terceiros, partes não vinculadas. Sobre a matéria, já tive oportunidade de votála em outra oportunidade, na qual me filiei ao brilhante voto do Ilustre Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, versado no Acórdão CARF nº 1301003.209 e reproduzido abaixo: Pois bem, sobre o tema, na vigência da IN SRF nº 243, de 2002, tenho opinião firmada a respeito da legalidade dessa norma complementar. Entendo que os valores relativos a frete, seguro e imposto de importação devem compor a apuração do preço praticado, uma vez que compõem também o preço parâmetro. Isso porque o § 4º do art. 4º da IN SRF nº 243/2002 reflete o disposto no § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96, com a redação vigente à época dos fatos (“§ 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação”). Não se pode olvidar que, para fins de preço de transferência, a comparação entre preço praticado e preço parâmetro deve se dar a partir de grandezas semelhantes. Ora, se os valores de frete, seguro e tributos incidentes na importação são computados na apuração do preço de revenda, e o que se deseja é apurar o preço parâmetro em patamares similares aos mesmos bens ou serviços adquiridos no Brasil e de partes independentes, necessariamente o custo do frete, seguro e os tributos não recuperáveis de importação deverão ser considerados. Há de se ter simetria na comparação. O dispositivo legal em debate é claro ao determinar que o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação integram o custo. Fl. 2044DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 7 11 Tal procedimento, na apuração do preço de transferência pelo método PRL, é óbvio. Esse método parte do preço de revenda praticado pelo contribuinte (média aritmética), e, daí, são excluídos alguns valores (descontos incondicionais concedidos, impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, comissões e corretagens pagas, e margem de lucro, nos termos do artigo 18, inciso II, da Lei nº 9.430/96, e do artigo 12 da IN SRF nº 243/2002), para se chegar ao preçoparâmetro, que será comparado ao preço considerado pela contribuinte como custo. Como, evidentemente, a contribuinte considerou na formação do preço de revenda, todos os seus custos, inclusive os de frete e seguro, por ela assumidos, e os tributos incidentes na importação, o preçoparâmetro, formado a partir do preço de revenda, também tem nele embutido os citados custos, ou seja, tratase de preço CIF, e não FOB, como quer fazer crer a impugnante. Assim, para que não ocorram distorções na comparação do preçoparâmetro com o preço praticado pela contribuinte, também o preço praticado deverá ter, em sua composição, tais custos. Comparar nada mais é do que subtrair um do outro, de modo que o efeito de tais custos na apuração de eventual ajuste a ser feito no Lucro Real e na base de cálculo da CSLL será nulo. É justamente dessa forma que se elimina a influência das parcelas do custo de aquisição que não têm qualquer relação de vinculação entre as empresas importadora e exportadora, e se analisa apenas o valor da mercadoria importada. No mesmo sentido podese citar precedente da extinta 5ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes que, no acórdão 1051671, enfrentou a questão com propriedade: [...] A inclusão ou não dos valores do frete, seguro e dos impostos nãorecuperáveis dependerá do método utilizado: PIC, PRL ou CPL. c. Os valores do frete, seguro e dos impostos não recuperáveis alteram de acordo com a variação do preço, das distâncias a serem percorridas,do tipo de transporte a ser utilizado, do peso transportado, entre outras variáveis. Desta maneira, nos casos de comparação direta entre os preços praticados na operação de importação de bens entre pessoas vinculadas e não vinculadas, como no método PIC, a inclusão dos valores mencionados alteraria a comparabilidade entre os preços praticados. d. Neste mesmo sentido, teríamos a opção de não computar os referidos valores, quando da utilização do método CPL. e. Não é o caso do PRL inscrito na legislação brasileira. Este método parte de um preço pelo qual o produto adquirido de uma pessoa vinculada é revendido a uma pessoa não vinculada. A partir deste preço de revenda são efetuados os ajustes deduzindo os valores legalmente especificados. Após o ajuste é deduzida uma margem legalmente estabelecida de 20%. O empresário agrega ao Prego de Revenda os custos correspondentes ao frete, seguro e os impostos não recuperáveis. Desta maneira, se desconsiderarmos no Custo da Importação os valores relativos ao frete, seguro e dos impostos não recuperáveis a comparabilidade para fins de preço de transferência estaria prejudicada. [...] No que tange aos argumentos a respeito da nova redação do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96, nos termos da Lei nº 12.715, de 2012, comumente trazido ao debate, entendo que seu teor depõe contra a recorrente. Explico. Fl. 2045DF CARF MF 12 Em primeiro lugar, caso comumente adotado pelos recorrentes fosse adotada, os custos de frete e seguro suportados pelo importador somente seriam despesas dedutíveis em razão do disposto na redação original do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96. Isso porque o alcance de tal dispositivo somente diria respeito à dedutibilidade de tais despesas. Ora, partindose de tal premissa, teríamos que concluir que a nova redação dada pela Lei nº 12.715/12 teria revogado a dedutibilidade das despesas com frete e seguro realizadas com pessoas não vinculadas nas operações de importações, uma vez que não mais comporão o cálculo do preço praticado para fins de comparação com o preço parâmetro. Não me parece, portanto, a melhor interpretação a tese de que a antiga redação do dispositivo tivesse como objetivo tornar dedutíveis tais desembolsos. Há de se encontrar outra interpretação ao enunciado em questão. Nesse sentido, entendo que a melhor exegese do dispositivo legal em tela coadunase com o disposto no § 4º do art. 4º da IN SRF 243/2002, ou seja: o custo de seguro e frete, bem como dos tributos incidentes na importação, à luz da redação original do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430/96, deveria ser incluído para fins de cálculo do preço praticado porque também estava contido na apuração do preço parâmetro. O objetivo da norma infralegal atacada era equalizar as bases comparativas, em nada desbordando do texto legal. Retornandose ao novo diploma legal, alguns outros comentários merecem ser feitos. Se por um lado o dispositivo passou a excluir do preço parâmetro as operações de frete e seguro contratadas com pessoas não vinculadas (e cujo ônus tenha sido do importador FOB), por outro deixou evidente que nos casos de tais ônus não serem suportados diretamente pelo importador (CIF) os respectivos valores devem compor o preço praticado. Sem dúvida, a partir de 2013 (início de produção de efeitos da Lei nº 12.715/12), o grau de litigiosidade tende a diminuir. Por outro lado, se é possível depreender que a nova redação pode alterar a exegese da anterior – por seu caráter, digamos, interpretativo , não se pode desprezar que também pode se extrair que o novo texto legal inovou, passando a surtir efeitos a partir do anocalendário de 2013. E podese enxergar ainda que há pontos interpretativos e pontos modificativos na norma. Assim, quem contratou com cláusula CIF pode enxergar que a Lei nº 12.715/12 aplicase somente a partir de 2013; por outro lado, quem contratou com cláusula FOB dirá que a nova norma somente interpreta a norma anterior, traduzindo o espírito da arm´s length. O Fisco, por sua vez, pode interpretar de maneira absolutamente inversa, entendendo que em relação à cláusula CIF o novo diploma foi interpretativo, mas no que tange à cláusula FOB aplicarseá somente a partir de 2013. O mesmo raciocínio aplicase aos valores referentes aos tributos incidentes na importação e demais gastos aduaneiros. Portanto, o caráter de mitigação da litigiosidade FiscoContribuinte estampado na exposição de motivos da MP 563 possui muito mais caráter prospectivo que retrospectivo. A meu ver, os pontos trazidos pela Lei nº 12.715, de 2012, revestemse de caráter inovador no que tange à exclusão do preço praticado de algumas despesas. Se na redação original do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, constava que “Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação”, o novo mandamento legal foi claro ao passar a permitir a exclusão da apuração do preço parâmetro dos valores de frete e seguro, de ônus do importador (FOB), quando contratados com pessoas não vinculadas e não localizadas em “paraísos fiscais”. De outro ângulo, observase que manteve a inclusão de tais valores no preço praticado quando a importação se der com cláusula CIF, pois, quisesse alterar seu quantum, certamente o teria feito como o fez nos fretes e seguros contratados diretamente pela importadora com pessoas não vinculadas. Fl. 2046DF CARF MF Processo nº 16561.720097/201469 Acórdão n.º 1301003.498 S1C3T1 Fl. 8 13 A questão da inovação fica ainda mais clara ao analisarmos o tratamento dos tributos incidentes na importação. Se na redação original do dispositivo em tela constava explicitamente que tais valores deveriam compor o preço praticado, o § 6º A inserto no art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, pela Lei nº 12.715, de 2012, passou a determinar a exclusão dos tributos incidentes na importação da composição do preço praticado. Tal alteração, indubitavelmente, não pode ser tachada de interpretativa, pois altera diametralmente o tratamento de tais valores, primeiro incluindoos no preço praticado, e, posteriormente, excluindoos de seu cálculo. Diante do exposto, concluo que, para fins determinação do preço praticado, qualquer exclusão, inclusive dos valores de frete, seguro, tributos, deve ser expressamente autorizada pela legislação, tal qual trazido pela Lei nº 12.715, de 2012. Forte nos argumentos postos acima, e tomandoos como razão de decidir, entendo que o argumento do contribuinte deva ser rechaçado nesse ponto. a.iv) Juros sobre multa de ofício Sobre essa matéria, há muito me manifesto no sentido de reconhecer a não incidência de juros sobre multa de ofício. Entretanto, a matéria se encontra hoje sumulada pelo CARF, através da Súmula nº 108: Súmula CARF nº 108 Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Desse modo, em observância à determinação regimental, aplico a súmula CARF para negar provimento ao pleito do contribuinte. III) Conclusão Ante o exposto, voto por negar provimento ao Recurso Voluntário e negar provimento ao Recurso de Ofício. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 2047DF CARF MF 14 Fl. 2048DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.951079/2015-19
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 18 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO.
Nos pedido de compensação, caso não haja o reconhecimento do direito creditório, devidamente fundamentado em Despacho Decisório, é ônus do contribuinte comprovar, com documentação hábil e idônea, o direito invocado, inclusive de trazer aos autos a comprovação dos declarações por ela transmitidas, sejam originais ou retificadoras.
Numero da decisão: 1302-003.198
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10880.905520/2016-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos César Candal Moreira Filho, Flávio Machado Vilhena Dias, Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Maria Lúcia Miceli, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO
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Shirlei Schanaider Borelli Ltda. Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 PEDIDO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. COMPROVAÇÃO. Nos pedido de compensação, caso não haja o reconhecimento do direito creditório, devidamente fundamentado em Despacho Decisório, é ônus do contribuinte comprovar, com documentação hábil e idônea, o direito invocado, inclusive de trazer aos autos a comprovação dos declarações por ela transmitidas, sejam originais ou retificadoras. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10880.905520/201671, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos César Candal Moreira Filho, Flávio Machado Vilhena Dias, Gustavo Guimarães da Fonseca, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Maria Lúcia Miceli, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil e Luiz Tadeu Matosinho Machado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 95 10 79 /2 01 5- 19 Fl. 116DF CARF MF Processo nº 10880.951079/201519 Acórdão n.º 1302003.198 S1C3T2 Fl. 3 2 Relatório Tratase de pedido de compensação, no qual o contribuinte pretende quitar débitos próprios com suposto crédito, cuja origem seria um pagamento indevido ou a maior de IRPJ Lucro Presumido (código 2089). Em Despacho Decisório eletrônico proferido, houve o reconhecimento parcial do direito creditório, uma vez que foi identificada a utilização do crédito invocado no pedido de compensação para quitar outros débitos do contribuinte. Sendo assim, foi reconhecido um "saldo disponível inferior ao crédito pretendido, insuficiente para compensação nos débitos informados no PER/DCOMP". Ao ser cientificado do despacho proferido, o contribuinte, ora Recorrente, Clínica e Cirurgia Dermatologica Dra. Shirlei Schanaider Borelli Ltda., apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando que, "em razão da elevada carga tributária do país e das particularidades para apuração de todos os tributos que está obrigada a recolher mensalmente” efetuou recolhimento indevido e/ou a maior de IRPJ no período de 06/2010, razão pela qual possui o direito subjetivo à tomada de crédito. Como bem relatado no acórdão recorrido, a Recorrente alega que cumpriu todos os ditames impostos pela legislação para a formulação dos pedido de compensação. Invoca dispositivos do CTN, do Código Civil e da Constituição Federal para respaldar o seu direito subjetivo de utilizar créditos de tributos pagos indevidamente ou a maior. Para comprovar o seu direito, a Recorrente acostou aos autos, quando da apresentação da Manifestação de Inconformidade, o pedido de compensação, comprovante de arrecadação, DCTF e DIPJ. Ao final, requereu a procedência do pedido, para que reste reconhecido o direito creditório e, por consequencia, reste homologada a compensação pretendida. Em análise à Manifestação de Inconformidade, a douta Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP) entendeu por bem julgar como improcedente o apelo do contribuinte, tendo o acórdão recebido a seguinte ementa: DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. PROVA. A legislação tributária que rege as hipóteses de compensação de tributos ou contribuições federais atribui à interessada o ônus de comprovar a disponibilidade de seu crédito junto à Fazenda Pública, bem como o cumprimento dos requisitos estabelecidos para que seu direito creditório possa ser reconhecido pela Administração Tributária, Fl. 117DF CARF MF Processo nº 10880.951079/201519 Acórdão n.º 1302003.198 S1C3T2 Fl. 4 3 depois de constatado que o crédito pleiteado se reveste das necessárias certeza e liquidez. Diante dos meios de prova ofertados e dos dados presentes nos sistemas informatizados da Administração Tributária, não se reconhece o direito creditório em litígio, nem se homologam as compensações declaradas. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Devidamente intimado da decisão proferida em 18/08/2017, a Recorrente apresentou Recurso Voluntário, em 19/09/2017, no qual, em síntese, repisa os argumentos anteriormente apresentados em sua Manifestação de Inconformidade. Este é o relatório. Voto Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1302003.193, de 18/10/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.905520/2016 71, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1302003.193): "DA TEMPESTIVIDADE Como se denota dos autos, a Recorrente foi intimada do teor do acórdão recorrido, via AR, em 05/10/2017 (fl. 104), apresentando o Recurso Voluntário ora analisado no dia 01/11/2017 (comprovante de fl. 106), ou seja, dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Assim, por cumprir os demais requisitos de admissibilidade, o Recurso Voluntário deve ser conhecido e analisado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. DA AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. Fl. 118DF CARF MF Processo nº 10880.951079/201519 Acórdão n.º 1302003.198 S1C3T2 Fl. 5 4 Como se depreende do relatório acima, o Recorrente indicou em pedido de compensação, como direito creditório, suposto pagamento a maior ou indevido de IRPJ Lucro Presumido. Para comprovar a totalidade do seu direito creditório, posto que no Despacho Decisório expedido foi identificada a utilização de parte do crédito no pagamento de outros débitos, do próprio contribuinte, este trouxe aos autos apenas as declarações que havia prestado ao fisco federal. Em brilhante trabalho, contudo, aquela DRJ de Ribeirão Preto demonstrou de forma irretocável que o direito creditório invocado foi utilizado em 03 diferentes pedido de compensação apresentados pelo contribuinte, sendo um deles o que discutido. Demonstrou ainda, o julgador a quo, que o contribuinte retificou a sua DIPJ e DCTF, ressalvando a disparidade entre o débito apurado na "DIPJ retificadora (R$ 1.237.522,71) e o débito declarado em DCTF (R$ 63.549,58), esta última também retificadora". Contudo, houve a constatação que o crédito invocado no presente pedido de compensação foi, de fato, alocado em parte no pagamento de outros débitos do próprio contribuinte. Vejase a conclusão que chegou aquela Turma de Julgamento, que analisou de forma detida as declarações e pagamentos apresentados pela Recorrente. Ressaltase, ainda, que se adota na presente decisão as razões de decidir daquele acórdão, como autoriza do § 3, do artigo 57 do RICARF: 26. Foram efetuados três recolhimentos pela interessada, referidos ao terceiro trimestre do ano calendário de 2010, entre os quais o que daria origem ao direito creditório sob apreciação, ou seja, recolhimento no valor de R$ 53.348,31, sob código de receita 2089: (...) 27. Do recolhimento no valor total de R$ 53.348,31, a quantia de R$13.288,90 encontrase alocada ao débito declarado em DCTF, para o 3º trimestre de 2010, conforme vinculação efetuada pela contribuinte nas informações complementares da DCTF. 28. Houve também a alocação da quantia de R$ 30.712,05 ao mesmo débito declarado em DCTF, valor este correspondente ao “Saldo a Pagar do Débito”. 29. O montante restante, de R$ 9.347,36, deu suporte para o reconhecimento parcial do direito creditório utilizado por meio da Dcomp sob apreciação (R$ 53.348,21 menos R$ 13.288,90 menos R$ 30.712,05 = Fl. 119DF CARF MF Processo nº 10880.951079/201519 Acórdão n.º 1302003.198 S1C3T2 Fl. 6 5 R$ 9.347,36). Vejamse as alocaçõesefetuadas ao débito de IRPJ do terceiro trimestre, declarado em DCTF: (...) 30. Enfim, o recolhimento efetuado, no valor de R$ 53.348,41, indicado como origem do direito creditório, foi integralmente aproveitado, mediante: alocação parcial ao débito declarado em DCTF e como suporte para o reconhecimento parcial do direito creditório utilizado na Declaração de Compensação objeto deste processo. Em conseqüência, o recolhimento efetuado já se esgotou integralmente, isto é, não há saldo residual, e, portanto, não há direito creditório adicional a ser reconhecido. 31. Portanto, não se reconhece o direito creditório em litígio, nem se homologam as compensações declaradas. Devese pontuar que a Recorrente, em sua Manifestação de Inconformidade e, posteriormente, em seu Recurso Voluntário, não trouxe aos autos qualquer comprovação do direito creditório. Trouxe apenas argumentos genéricos que, data venia, em nenhum momento foram referendados com documentação comprobatória. Por outro lado, de forma temerária, a Recorrente afirma que a decisão da DRJ "não apreciou a DCTF retificadora de 06/11/2013, a qual faz alusão rapidamente no item 23 do acórdão." Contudo, desde as premissas que foram fixadas previamente no acórdão proferido, o julgador a quo deixa claro que aquela Turma de Julgamento "tem reiteradamente se manifestado pela aceitação de provas e documentos a qualquer tempo, desde que apresentados antes de iniciado o julgamento". Ademais, ao contrário do que afirma a Recorrente, a análise dos argumentos apresentados partiu das declarações da DIPJ e da DCTF retificadoras. Assim, caberia à Recorrente demonstrar, com documentos hábeis e idôneos, eventual erro nas duas declarações, até mesmo porque, reiterese, toda a análise do direito creditório por parte da DRJ se deu com base nas declarações retificadoras apresentadas pelo próprio contribuinte. E não há no apelo da Recorrente qualquer tentativa de se desconstruir o que restou demonstrado no acórdão proferido. Os argumentos apresentados são genéricos e sem qualquer lastro probatório. Desta feita, por ausência de comprovação, não há como reconhecer o direito creditório do contribuinte, nos termos indicados no pedido de compensação apresentado junto à Receita Federal do Brasil. Fl. 120DF CARF MF Processo nº 10880.951079/201519 Acórdão n.º 1302003.198 S1C3T2 Fl. 7 6 Por todo exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, mantendo, na totalidade, a decisão proferida pela DRJ de Ribeirão Preto (SP)." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 121DF CARF MF
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Numero do processo: 13558.720282/2005-23
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 06 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Dec 07 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1001-000.076
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que esta confirme os recolhimentos efetuados relativamente aos períodos de 01 a 04/2000, em 28/09/2006 e a idoneidade dos comprovantes de recolhimento anexados (folhas 304 a 307).
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa -Presidente
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente) e José Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência à Unidade de Origem, para que esta confirme os recolhimentos efetuados relativamente aos períodos de 01 a 04/2000, em 28/09/2006 e a idoneidade dos comprovantes de recolhimento anexados (folhas 304 a 307). (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente) e José Roberto Adelino da Silva. Relatório Trata o presente processo de recurso voluntário, contra o acórdão número 15 22.948, da 1a Turma da DRJ/SDR, que considerou procedente, em parte, a manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório n° 165/2009 (fls. 236 a 241) emitido pelo seu titular, deferiu parcialmente os pedidos de compensação declarados através de diversos PER/DCOMP's (fls. 01 a 99). Transcrevo, a seguir o relatório: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 35 58 .7 20 28 2/ 20 05 -2 3 Fl. 377DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 3 2 Relatório Os citados pedidos de compensação objetivavam quitar débitos com o saldo negativo do IRPJ relativo ao anocalendário de 2000. A inspetoria de Ilhéus, ao analisar tais pedidos realizou a recomposição dos saldos dos anoscalendário de 1999 e 2000 e concluiu que o saldo negativo do IRPJ em 2000 era de R$ 32.565,61 (fl. 240), deferindo parcialmente o direito creditório requerido pelo contribuinte e homologando as compensações pleiteadas até o limite do direito reconhecido. ' Cientificado do aludido despacho decisório em 23/09/2009 (fl. 244), o contribuinte apresentou sua manifestação de inconformidade em 23/10/2009 (fls. 250 a 268), aduzindo, em síntese, que: a) “em data de 30/06/2004 a Requerente realizou a transmissão do PER/DCOMP n° 17331.89l31.300604.l.3.29511, objetivando a quitação de tributos com créditos decorrentes de saldo negativo de IRPJ do exercício de 2001, ano base 2000, compreendidos ao longo do anocalendário, no valor original de R$ 61.795,19”; b) “o respectivo credito originavase de Imposto de Renda retido na fonte (IRRF) decorrentes de rendimentos de aplicações financeiras durante o exercício de 2000 e de Imposto de renda Pessoa Jurídica (IRPJ) recolhidos indevidamente nos meses de 01 a 04/2000 a título de estimativas”; c) “analisando as informações relativas aos custos e despesas com pessoal constantes nos balancetes e GFIP's dos períodos de 2001/2000 e 2000/1999 o auditor fiscal Alejandro Daniel Corbacho verificou que as informações constantes nos demonstrativos contábeis estavam superiores aos informados nos demonstrativos do Ministério da Previdência social” e que “verificando a suposta divergência.de valores o auditor Alejandro Daniel Corbacho adicionou os montantes de R$ 162.729,49 e R$ 114.014,11 aos valores de Lucro Real constante nas DIPJ dos períodos de 1999 e 2000”; d) “entretanto, tal procedimento fiscal não pode prevalecer uma vez que a empresa reconhece as suas despesas com base no princípio contábil de competência, ou seja, os efeitos financeiros das transações e eventos são reconhecidos nos períodos nos quais ocorrem, independentemente de terem sido recebidos ou pagos. Já o preenchimento das GF IP's ocorrem com base no princípio de caixa, onde se reconhece as despesas (remunerações) com base nos desembolsos efetivos ocorridos no mês ou período”; e) “verificase, então, que as diferenças encontradas pelo fiscal podem ter ocorrido devido ao confronto de informações reconhecidas com base em dois princípios distintos, bem como ao reconhecimento das despesas dedutivas que não servem de base de informação na GFIP” e que “de tal modo, o mesmo não pode desconsiderar a escrita fiscal do contribuinte simplesmente pelas diferenças encontradas no confronto de informações contábeis com informações previdenciárias”; f) “após analisar todas as informações e documentações apresentadas ao longo do processo o auditor fiscal Alejandro'Daniel Corbacho verificou que na DIPJ do exercício de 2000 ano base 1999, mais precisamente no item 16 da ficha 25 A, havia uma diminuição da obrigatoriedade relativa aos créditos com pessoas ligadas como pode ser observado abaixo (diferença no valor de R$1.685.447,81):” g) “detectada a diferença acima demonstrada o auditor descaracterizou a apuração do Lucro Real do exercício de 1999 adicionando a suposta diferença a base de calculo do IRPJ sob alegação que o contribuinte não apresentara provas materiais que comprovassem a respectiva quitação do mútuo ocorrido entre o contribuinte e a empresa Viação Águia Branca”; _ h) “cabe esclarecer que as intimações relativas às apresentações dos documentos que comprovavam as transferências de numerários entre Fl. 378DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 4 3 as empresas ligadas foram lavradas a partir do mês de 08/2009, ou seja, 10 anos após a apresentação da DIPJ 2000 ano base 1999”; ' i) “apesar do contribuinte não apresentar os documentos relacionados à operação guerreada, devido à deterioração temporal, o mesmo disponibilizou ao fisco os livros mercantis que comprovam a operação ocorrida em 23/03/1999” e que “o procedimento fiscal não pode prevalecer, uma vez que o contribuinte apresentou como provas materiais os livros que comprovam a operação ocorrida entre as empresas ligadas”; j) “que apesar do contribuinte ter disponibilizado os livros fiscais, o mesmo não possuía a suposta obrigatoriedade de apresentação, pois o fato gerador do crédito tributário ocorreu a mais de cinco anos”. Cientificada em 23/04/2010 (fl 345), a recorrente apresentou o recurso voluntário em 21/05/2010 (fl 346). VOTO Conselheiro José Roberto Adelino da Silva Relator Inconformada, a recorrente apresentou o Recurso Voluntário, tempestivo, que apresenta os pressupostos de admissibilidade, previstos no Decreto 70.235/72, e, portanto, dele eu conheço. Em seu voto a DRJ concluiu (transcrição parcial): “Como não há mais possibilidade do lançamento do crédito tributário apurado no exercício 2000, devido ao prazo decadencial, art. 173 CTN, os efeitos com relação ao exercício 2001 limitamse à glosa das compensações das estimativas do anocalendário 2000 e da composição de prejuízo fiscal” (fl. 240). ~ Portanto, como resultado da análise realizada pelo Auditor Fiscal, foram modificados os resultados decorrentes da apuração do Lucro Real, inicialmente no anocalendário de 1999, repercutindo no ano de 2000, ao efetuar as glosas das compensações das estimativas, no montante de R$ 9.976,97 e do prejuízo fiscal anteriormente considerado pelo contribuinte (R$14.336,65) na Demonstração do Lucro Real (fl. 161). Verificase também que foi adicionada despesa com pessoal ao Lucro Líquido no montante de R$ 114.014,11, resultando no saldo negativo do IRPJ (anocalendário 2000) no montante de R$ 32.565,61, em contraposição ao informado pelo contribuinte (R$ 61.795,19). _ Na análise do direito creditório alegado pelo contribuinte, a autoridade administrativa tem o direito de questionar a existência do crédito pleiteado exigindo do contribuinte os documentos comprobatórios do referido crédito, como por exemplo, DARF ou outro elemento que não se encontre nos arquivos eletrônicos da RFB. Poderá também determinar a realização de diligência fiscal para verificar, mediante exame de sua escrituração contábil e fiscal, a exatidão das informações prestadas. Fl. 379DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 5 4 Neste ponto é que ocorreu ao fisco que as informações contidas na DIPJ eram inexatas, pois no seu entender, o contribuinte não comprovou a efetivação do mútuo com a empresa Águia Branca, como também teria incluído indevidamente no seu resultado, despesas de pessoal além das informadas em GFIP, além das glosas de estimativas diante da ausência de pagamento das mesmas. ` Entretanto, não poderá a autoridade administrativa efetuar, dentro de um simples parecer, a recomposição do lucro real da pessoa jurídica. Mas foi exatamente o que ocorreu, em claro desrespeito ao Decreto 70.23 5/72 e suas alterações, a autoridade administrativa procedeu ao ajuste do Lucro Real, para indeferir em parte a pretensão do Impugnante. Não quero dizer da impossibilidade de se proceder ao lançamento, mas da necessidade de ser o mesmo efetuado com restrita observância aos dispositivos legais' vigentes sobre a matéria. O CTN assim dispõe: Art. 142 Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcula o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo o caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Como se pode verificar, ao constituir um crédito tributário, superior ao que o contribuinte havia declarado, o Parecer acabou por efetuar um lançamento. Entretanto, existem formas prédefinidas para que se possa efetuar o lançamento, e delas nos dá conhecimento o Decreto 70.235/72. . Art. 2° Os atos e termos processuais, quando a lei não prescrever forma determinada, conterão somente o indispensável à sua finalidade, sem espaço em branco e sem entrelinhas, rasuras ou emendas não ressalvadas. (realcei). É o artigo 9° do citado Decreto que nos orienta quanto às forrnas de deve constar de cada uma. Determina a forma. Entendo que na apreciação do indébito tributário não se deva, no próprio processo, contestar a apuração efetuada pe1o contribuinte quanto ao valor do imposto apurado, mas tão somente quanto aos valores que deles serão abatidos a título de efetivo pagamento, como é o caso das estimativas e do valor do imposto de renda retido na fonte, que se constituem em pagamentos antecipados. 5 A discordância do Fisco para com procedimentos adotados pelo contribuinte até a apuração do quanto a pagar, antes das deduções citadas devem Fl. 380DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 6 5 ser externadas por meio de auto de infração ou 'notificação de lançamento, e no presente caso, ressaltese também que já decaiu este direito, pois já havia transcorrido o prazo de O5 anos contados do fato gerador, conforme declarado pelo próprio Auditor Fiscal, tendo em vista que o Despacho Decisório foi proferido em 16/06/2009 e pretendeuse realizar lançamentos referentes aos anos de 1999 e 2000. Destarte, julgo improcedentes os ajustes efetuados no parecer em análise (fl. 240), relativos aos ajustes ao Lucro Real, conforme detalhados abaixo, pois desprovidos de legalidade quanto à forma de sua exigência. ... No tocante às estimativas relativa ao anoscalendário de 2000, como não foi recolhida, deverá ser mantida a respectiva glosa, pois, conforme já explicitado, são ajustes realizados após o cálculo do IRPJ apurado, valores que poderiam ser abatidos apenas se tivessem sido efetivamente pagos, entretanto o contribuinte não os recolheu. . Em relação às glosas das estimativas do anocalendário de 1999, como o contribuinte não as contestou, tratase de matéria preclusa. Além disto, tal ano calendário não coincide com o período do alegado indébito tributário informado pelo interessado nos seus pedidos de compensação mediante PER/DCOMP, que no caso é o anocalendário 2000, este sim objeto de análise para a concessão do direito creditório requerido neste processo. Ainda em relação ao saldo negativo do IRPJ, referente ao ano calendario 2000, este foi objeto do processo administrativo fiscal n° 13558000598/2005O3, julgado pela 2 Turma desta DRJ em 03 de julho de 20_08, o qual foi reduzido para 57.549,03, conforme cópia do acórdão n° 15 16.132 (fls 278 a 282) cujo demonstrativo final transcrevo a seguir. ... Desta forma, na verdade o contribuinte possuía saldo negativo do IRPJ no valor de R$ 57.549,03, conforme o aludido acórdão, e procedendose a glosa no valor de R$ 9.976,97, relativa às estimativas não recolhidas no ano calendário 2000, resulta no saldo negativo do IRPJ no anocalendário de 2000 no valor de R$ 47.572,06 e como no Despacho Decisório já foi reconhecido o montante de R$ 32.565,61, reconheço a diferença no valor de R$ 15.006,45. Portanto, devese permitir as demais compensações pleiteadas até o limite do indébito tributário comprovado (R$ 15.006,45). Ante o exposto, voto no sentido de DEFERIR EM PARTE a solicitação objeto da Manifestação de Inconformidade, reconhecendo o direito creditório do IRPJ, relativo ao anocalendário de 2000, no montante de R$ 15.006,45, devendo ser efetuadas as compensações dos débitos pleiteados pelo contribuinte até esse . limite, cabendo o prosseguimento da cobrança dos débitos não compensados. Fl. 381DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 7 6 Em seu recurso, a recorrente, basicamente, afirma: · Ocorre que o entendimento exarado pela DRJ quanto ao valor nao reconhecido (R$ 9.976,97) deve ser reformado, tendo em vista que a Recorrente recolheu o valor relativo às estimativas do anocalendário de 2000. · Após apresentar sua declaração de compensação, a Requerente constatou incongruências entre os valores constantes de sua DIPJ e DCTF, realizando a retificação desta última. · Outrossim, constatou que o pagamento por antecipação no importe de R$ 9.976,97 não havia ocorrido, a Recorrente procedeu ao seu recolhimento em 28/09/2006, conforme consta dos comprovantes de arrecadação anexos. Apresenta quadros demonstrativos dos valores recolhidos (fl 348 e 349). Continua: · Importante ressaltar que estes pagamentos, ainda que extemporâneos, não podem ser desconsiderados pela Administração Pública, já que demonstra a quitação do crédito tributário. · Há que se ressaltar que em razão do princípio da verdade material, ante de julgado definitivamente o processo administrativo, as provas úteis ao julgamento da questão deverão ser levadas em consideração pelo julgador, conforme entendimento unânime do extinto Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda TERCEIRA TURMA RECURSO N° 303121078 JULGAMENTO EM 16/05/2005) “PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO PROVA MATERIAL APRESENTADA EM SEGUNDA INSTÂNCIA DE JULGAMENTO PRINCÍPIO DA INSTRUMENTALIDADE PROCESSUAL E A BUSCA DA VERDADE MATERIAL A não apreciação de provas trazidas aos autos depois da impugnação e já na fase recursal, antes da decisão final administrativa, fere o princípio da instrumentalidade processual prevista no CPC e a busca da verdade material, que norteia o contencioso administrativo tributário. " (destacouse) (PRIMEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES DO MINISTÉRIO DA FAZENDA SEGUNDA CÂMARA RECURSO N° 143443 JULGAMENTO EM 06/l 1/2008) PROCESSO ADMINISTRATIVO .FISCAL BUSCA DA VERDADE MATERIAL No processo administrativo' predomina o princípio da verdade material no sentido de identificar se realmente ocorreu ou não o fato gerador. " Fl. 382DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 8 7 (TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES DO MINISTÉRIO DA FAZENDA SEGUNDA CÂMARA RECURSO N° 136880 JULGAMENTO EM 13/11/2008) “PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO PROVA MATERIAL APRESENTADA EM SEGUNDA INSTÂNCIA DE JULGAMENTO PRINCÍPIO DA INSTRUMENTALIDADE PROCESSUAL E A BUSCA DA VERDADE MATERIAL A não apreciação de provas trazidas aos autos depois da impugnação e já na fase recursal, antes da decisão final administrativa, fere o princípio da instrumentalidade processual prevista no CPC e a busca da verdade material, que' norteia o contencioso administrativo tributário. " (destacouse) · Desta forma, ainda que não apresentados em momento anterior, os comprovantes de pagamento do imposto de renda por estimativa devem ser levados em consideração por esta Egrégia Câmara, para os fins de reconhecer o direito creditório da Recorrente e conseqüente homologação da compensação realizada. Por último, requer que seja reconhecido o crédito de R$9.976,97. Transcrevo, a seguir, parte da decisão da DRJ (fl 335, renumerada para 288): Desta forma, na verdade o contribuinte possuía saldo negativo do IRPJ no valor de R$ 57.549,03, conforme o aludido acórdão, e procedendose a glosa no valor de R$ 9.976,97, relativa às estimativas não recolhidas no ano calendário 2000, resulta no saldo negativo do IRPJ no anocalendário de 2000 no valor de R$ 47.572,06 e como no Despacho Decisório já foi reconhecido o montante de R$ 32.565,61, reconheço a diferença no valor de R$ 15.006,45. Portanto, devese permitir as demais compensações pleiteadas até o limite do indébito tributário comprovado (R$ 15.006,45). Ante o exposto, voto no sentido de DEFERIR EM PARTE a solicitação objeto da Manifestação de Inconformidade, reconhecendo o direito creditório do IRPJ, relativo ao anocalendário de 2000, no montante de R$ 15.006,45, devendo ser efetuadas as compensações dos débitos pleiteados pelo contribuinte até esse . limite, cabendo o prosseguimento da cobrança dos débitos não compensados. Mantida, então, a decisão contida no Despacho Decisório ERCA/IRF?ILHDRF/ITA 165/2009, objeto da intimação 073/2009 (fl 289, renumerada para 242) a seguir transcrita: Segue em anexo, para ciência, cópia do Despacho Decisório ERCAJIIRFIILHDRF/ Fica o interessado INTIMADO, nas pessoas de seus representantes legais, a pagar, dentro do prazo de 30 (trinta) dias, contados a Fl. 383DF CARF MF Processo nº 13558.720282/200523 Resolução nº 1001000.076 S1C0T1 Fl. 9 8 partir do recebimento desta (data da assinatura do Aviso de Recebimento AR), o(s) débito(s), cuja compensação não foi homologada, conforme detalhado na Listagem de Débitos anexa. Ao final, o que restou, por parte da recorrente, foi o pedido de reconhecimento do crédito de R$9.976,97, nada mais tendo sido reclamado. Da parte do fisco, ao que se depreende da leitura do Despacho, assim como, da decisão da DRJ, foi o recolhimento do valor acima, devidamente glosado, acrescido dos acréscimos moratórios.. É de se observar que a recorrente efetuou os recolhimentos dos valores correspondentes aos períodos de 01 a 04/2000, em 28/09/2006 (anexou os comprovantes de recolhimento, do montante total, às folhas 304 a 307). Assim, entendo que esses recolhimentos podem (e devem) ser levados em consideração, posto que, ainda que extemporaneamente (acrescidos dos encargos moratórios devidos), eles justificariam o pedido de restituição/compensação ou satisfariam a exigência do débito resultante da glosa, á que a recorrente nada mais deve ao fisco. Ressaltese que os recolhimentos foram efetuados bem antes da emissão do despacho decisório, que ocorreu em 16/09/2009 (fl 279, renumerada para 241). Portanto, proponho converter o julgamento em diligência para a Unidade de Origem, para que esta confirme os recolhimentos efetuados relativamente aos períodos de 01 a 04/2000, em 28/09/2006 e a idoneidade dos comprovantes de recolhimento anexados (folhas 304 a 307). É como voto. (assinado digitalmente) Jose Roberto Adelino da Silva Fl. 384DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10835.720209/2012-76
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Nov 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE.
Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
Numero da decisão: 2001-000.761
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros José Ricardo Moreira (relator) e Fernanda Melo Leal, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Jorge Henrique Backes.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente e Redator Designado.
(assinado digitalmente)
José Ricardo Moreira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes (Presidente), Fernanda Melo Leal, José Alfredo Duarte Filho e José Ricardo Moreira.
Nome do relator: JOSE RICARDO MOREIRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2008 DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
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RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros José Ricardo Moreira (relator) e Fernanda Melo Leal, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Jorge Henrique Backes. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente e Redator Designado. (assinado digitalmente) José Ricardo Moreira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Henrique Backes (Presidente), Fernanda Melo Leal, José Alfredo Duarte Filho e José Ricardo Moreira. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 72 02 09 /2 01 2- 76 Fl. 139DF CARF MF 2 Tratase de Notificação de Lançamento, relativa ao Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), por meio da qual se exige crédito tributário do exercício de 2008, anocalendário de 2007, em que foram glosadas deduções de despesas médicas no valor de R$ 31.200,00. O contribuinte apresentou impugnação, que foi julgada improcedente, mediante Acórdão da DRJ Brasilia de f 117/122. Cientificado, a interessada apresentou recurso voluntário de f. 127/135. Em síntese, alega que atendeu ao que foi solicitado pela autoridade fiscal, apresentando os respectivos recibos relativos às despesas médicas. Aduz que os recibos, por si só, fazem prova dos pagamentos realizados a este título. Argumenta que não está obrigado a apresentar seus exames médicos e laboratoriais. Sustenta ainda que não é razoável exigir a apresentação de extratos ou outros meios de prova dos pagamentos, seja porque a pessoa física não é obrigada a ter escrita fiscal, seja porque a reunião destes documentos é difícil para o contribuinte.. Pugna pela procedência do recurso e pelo cancelamento do crédito tributário. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro José Ricardo Moreira Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. O lançamento cingese à glosa de despesas médicas. O interessado, no recurso, insurgese contra estas glosas, pelas razões que enumera. Dispõe o art. o art.73 do Decreto nº 3.000, de 1999: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). Consta da fundamentação do lançamento, bem como da decisão de primeira instância, que é necessária a apresentação de documentação do efetivo pagamento para comprovação das despesas médicas. Desta forma, verificase que o recibo, ao contrário do que defende a recorrente, não faz prova absoluta da real ocorrência do pagamento. A autoridade fiscal, se entender necessário, pode solicitar outros elementos de convicção da efetiva realização da despesa que se pretende deduzir. Não poderia ser de outra forma. Entender o contrário seria tolher a ação da fiscalização, que ficaria impossibilitada de exercer sua atividade investigativa, na busca de Fl. 140DF CARF MF Processo nº 10835.720209/201276 Acórdão n.º 2001000.761 S2C0T1 Fl. 3 3 verificar a veracidade das declarações prestadas. Há que ser frisado que aqui não se trata de mera prerrogativa, mas de um dever da autoridade fiscal, haja vista tratarse de dedução da base de cálculo e, portanto, de redução do tributo. Com efeito, as solicitações de documentos devem atender à razoabilidade, devendo ser evitados os pedidos de provas impossíveis ou de difícil produção. Analisando a Notificação de Lançamento, verificamos que foram glosadas despesas médicas de valores significativos, que justifica a solicitação de informações adicionais. A Descrição dos Fatos e Enquadramento legal do Lançamento encontrase devidamente fundamentado, com todas as razões que levaram a efetivação da glosa. Não foram apresentadas provas do efetivo pagamento das despesas, não houve suficiente descrição do tratamento ou dos exames realizados. Aqui deve prevalecer o princípio do benefício da prova, já que o interesse em provar é do contribuinte, a quem a prova aproveita. Não há que se falar em quebra de sigilo ou de invasão à privacidade do cidadão. Não há quebra de sigilo perante o fisco, cuja atividade primordial é justamente investigar a veracidade dessas despesas que resultam em redução de tributo. Ademais, ao intimar o contribuinte para apresentar documentos adicionais que comprovam a efetividade das despesas (provas essas que beneficiam o contribuinte), a autoridade fiscal não está interessada na intimidade da pessoa, mas está cumprindo o dever legal de investigar a veracidade das declarações prestadas. Tratase de imposto lançado por homologação e o quantum devido pode ser alterado pela autoridade lançadora, no exercício de suas atribuições legais. Da mesma forma, não se mostra desarrazoado o pedido de apresentação de extratos bancários. Pode ocorrer de o contribuinte haver pago as despesas em cheques ou mediante saques da conta corrente, o que seria facilmente comprovado pela existência de saques de valores compatíveis em datas aproximadas das da efetivação das despesas. O contribuinte poderia requerer à instituição financeira os referidos extratos (em alguns casos, obtémse extratos pela internet, em poucos instantes), sendo que essa providência não lhe seria de difícil execução. O recorrente afirma que efetuou o pagamento das despesas em dinheiro. Analisando a documentação (extratos bancários), verificase que não se mostra suficiente para amparar as alegações do contribuinte. Reproduzo aqui trecho da Decisão da DRJ, que enfrentou com afinco a questão: " No presente caso, foi solicitado ao contribuinte que comprovasse o efetivo pagamento das despesas médicas relativa às profissionais Iranilde Ferreira Cabreira (R$2.800,00), Patrícia Aparecida Tavares (R$14.000,00) e Kelly Cristine Encenha (R$14.000,00). Diante da ausência de comprovação na forma solicitada, a dedução correspondente foi glosada. Em sua impugnação, o contribuinte informa que os pagamentos foram efetuados em moeda corrente e anexa extratos bancários com saques efetuados no ano calendário de 2007 (fls. 19 a 54), no intuito de comprovar Fl. 141DF CARF MF 4 que efetua o pagamento de suas despesas em moeda corrente, sem a utilização de cheques. Constam no processo, ainda, recibos (fls. 77 a 101) e declarações (fls. 69 a 75) emitidas pelas profissionais declaradas como prestadoras dos serviços. Contudo, os documentos apresentados não são suficientes para demonstrar o efetivo pagamento, requisito solicitado pela autoridade fiscal. Não é possível concluir que os saques em conta apresentados nos extratos bancários referemse às despesas declaradas, pois, da análise dos extratos bancários, não foi possível fazer o confronto entre os referidos saques com os recibos apresentados (datas e valores). Ademais, o contribuinte não apresentou nenhuma indicação de quais saques teriam sido utilizados para pagamento dos recibos apresentados, limitandose a apresentar seu extrato bancário com os saques efetuados durante o anocalendário. Ressaltese que a disponibilidade financeira, por si só, não comprova o efetivo pagamento das despesas médicas declaradas. Tal comprovação requer a coincidência de datas e valores, e o impugnante não logrou êxito em fazer a vinculação entre as despesas realizadas e os saques efetuados." Desta forma, adoto a motivação do voto exposto na decisão de primeira instância, que indeferiu a dedução das despesas glosadas. CONCLUSÃO: Diante de todo o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário, e, no mérito, negarlhe provimento, mantendo o crédito tributário lançado. (assinado digitalmente) José Ricardo Moreira Voto Vencedor Discordo do Relator em relação às despesas médicas. Os recibos não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, tanto do serviço como do pagamento. Mesmo que não sejam apresentados outros elementos de comprovação, a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve estar fundamentada. Como se trata do documento normal de comprovação, para que seja glosado devem ser apontados indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, na falta de fundamentação na recusa, os recibos comprovam despesas médicas. Fl. 142DF CARF MF Processo nº 10835.720209/201276 Acórdão n.º 2001000.761 S2C0T1 Fl. 4 5 No caso, não foram solicitados outros elementos de prova de maneira objetiva, e o fundamento para lançar limitase a que recibos não comprovam pagamento de despesas médicas. O lançamento pode até ocorrer sem pedido de esclarecimentos ou de prévia intimação ao contribuinte, como consta inclusive em súmula do CARF: Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. No entanto, a recusa a documentos usuais não pode prescindir de justificativa, inclusive porque deduções elevadas podem estar completamente dentro da lei e do direito do contribuinte. Não deixo de fazer aqui uma fundamentação do entendimento expresso acima, pois a falta de fundamentação é a matéria em discussão. Muitas vezes a autoridade fiscal baseia a recusa a deduções no art.73 do Decreto nº 3.000, de 1999, que assim dispôs: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). Tal artigo indica que determinados documentos não fazem prova absoluta, podendo ser solicitados elementos adicionais de comprovação. No entanto, isso não significa que o juízo, o fundamento da autoridade, dos fatos e do direito, não necessite ser apresentado. E tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como se pode ver no art 2º Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. A rigidez dos termos do art. 73 e § 1º está mais para o período em que foi concebido do que para os dias atuais. Além disso, mesmo na vigência do referido DecretoLei a austeridade do instrumento não era plena, visto que o art. 79, § 1º, do mesmo diploma legal lhe impunha limitações, no seguinte dizer: “Art. 79. Farseá o lançamento exofficio: § 1º Os esclarecimentos prestados só poderão ser impugnados pelos lançadores, com elemento seguro de prova, ou indício veemente de sua falsidade ou inexatidão.”. Assim, na ausência de fundamentação plausível para a recusa de documentos usuais de comprovação é indevida a glosa de despesas médicas. Diante do exposto, voto por dar provimento integral ao recurso voluntário. É como voto. Fl. 143DF CARF MF 6 (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Redator Designado. Fl. 144DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720118/2014-46
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Oct 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Dec 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009
IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS.
Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.249, art. 25/26, c/c MP 2.158-35/2001, art. 74).
TRATADO INTERNACIONAL BRASIL-ÁUSTRIA.
Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001. No caso concreto, o Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil dos lucros auferidos no exterior, especialmente quando essa tributação recai sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado Brasil-Áustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). O fato de a contribuinte ter consolidado os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), por si só, não neutraliza a tributação brasileira, principalmente quando não há pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados.
Numero da decisão: 9101-003.829
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Adriana Gomes Rego (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009 IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.249, art. 25/26, c/c MP 2.158-35/2001, art. 74). TRATADO INTERNACIONAL BRASIL-ÁUSTRIA. Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001. No caso concreto, o Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil dos lucros auferidos no exterior, especialmente quando essa tributação recai sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado Brasil-Áustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). O fato de a contribuinte ter consolidado os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), por si só, não neutraliza a tributação brasileira, principalmente quando não há pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo - Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Adriana Gomes Rego (Presidente).
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 58; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2189; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 2 1 1 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16561.720118/201446 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9101003.829 – 1ª Turma Sessão de 02 de outubro de 2018 Matéria TRIBUTAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR Recorrente MARSELHA HOLDINGS LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano (Lei 9.249, art. 25/26, c/c MP 2.15835/2001, art. 74). TRATADO INTERNACIONAL BRASILÁUSTRIA. Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. No caso concreto, o Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil dos lucros auferidos no exterior, especialmente quando essa tributação recai sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado BrasilÁustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). O fato de a contribuinte ter consolidado os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), por si só, não neutraliza a tributação brasileira, principalmente quando não há pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe deram AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 18 /2 01 4- 46 Fl. 887DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 3 2 provimento. Manifestou intenção de apresentar declaração de voto a conselheira Cristiane Silva Costa. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Rafael Vidal de Araújo, Demetrius Nichele Macei, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Adriana Gomes Rego (Presidente). Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte acima identificada, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência de interpretação da legislação tributária quanto ao que se decidiu sobre a tributação de lucros no exterior. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1401002.040, de 16/08/2017, por meio do qual a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por maioria de votos, manteve o lançamento de IRPJ e CSLL sobre lucros no exterior. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2009 PRELIMINAR DE NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO OCORRÊNCIA. A decisão recorrida foi devidamente fundamentada e enfrentou os argumentos aduzidos pela impugnação de forma clara e satisfatória. O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. O julgador possui o dever de enfrentar apenas as questões capazes de infirmar (enfraquecer) a conclusão adotada na decisão recorrida. LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. CONVENÇÃO BRASILÁUSTRIA DESTINADA A EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO E PREVENIR A EVASÃO FISCAL EM MATÉRIA DE IMPOSTO SOBRE A RENDA. ART. 74 DA MP Nº 2.158 35/2001. NÃO OFENSA. Fl. 888DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 4 3 Não há incompatibilidade entre a Convenção BrasilÁustria e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, não sendo caso de aplicação do art. 98 do CTN, por inexistência de conflito. TRATADO INTERNACIONAL BRASIL ÁUSTRIA. O Tratado firmado entre Brasil e Áustria não impede a tributação na controladora no Brasil os lucros auferidos por controlada no exterior. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as arguições de nulidade e, no mérito, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário. Vencidos os Conselheiros Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Daniel Ribeiro Silva. Designado o Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto para redigir o voto vencedor. Declarouse impedido o Conselheiro José Roberto Adelino da Silva. No recurso especial, a contribuinte afirma que o acórdão recorrido deu à legislação tributária interpretação divergente da que foi dada em outros processos, relativamente à matéria acima mencionada. Para o processamento do recurso, ela desenvolve os argumentos descritos abaixo: A COMPROVAÇÃO DO DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL. o v. acórdão recorrido adotou posição contrária à defendida pela RECORRENTE, entendendo que a incidência do IRPJ e da CSLL sobre os lucros suas da controladas estrangeiras não ofende as disposições do tratado para prevenir a dupla tributação celebrado entre o Brasil e a Áustria, pois, segundo o Acórdão recorrido, "o que nossa lei faz é tributar a nossa empresa"; como consequência deste entendimento, conclui o v. acórdão recorrido que os lucros consolidados na controlada BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBG, domiciliada na Áustria, devem ser tributados junto à RECORRENTE no Brasil; de forma contrária ao que foi definido pela Turma a quo e em consonância com a tese defendida pela RECORRENTE, o Acórdão paradigma nº 10195.802 (DOC. 1) é categórico ao reconhecer que o art. 7° dos tratados, que seguem a Convenção Modelo da OCDE (e da ONU), impede a tributação pelo Brasil dos lucros de controladas, domiciliadas no exterior, tendo em vista que tal dispositivo estabelece competência exclusiva do país de domicílio da controlada estrangeira para a tributação de seus lucros; também de forma contrária ao que foi definido pela Turma a quo e igualmente em consonância com a tese defendida pela RECORRENTE, o Acórdão paradigma nº 110100.365 (DOC. 2) é categórico ao qualificar o lucro considerado disponibilizado ao teor do art. 74 da MP nº 2.15835/2001 como dividendo ficto. No caso em exame, como o artigo 23, parágrafo 2º (métodos para prevenir a dupla tributação) do tratado com a Áustria determina a isenção dos dividendos, inclusive fictos ou presumidos, auferidos pela controladora no Brasil, esta interpretação afasta a tributação pretendida; Fl. 889DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 5 4 em cumprimento ao disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, procedese a seguir ao cotejo analítico entre as ementas do acórdão recorrido e dos acórdãos paradigmas: Acórdão 10195.802 [...] LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. DISPONIBILIZAÇÃO FICTA PARA A CONTROLADORA AQUI NO BRASIL (MP n° 2.15834/2001, ART. 74, § ÚNICO) A partir da vigência do art. 74 da MP 2.15835/2001, para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. LUCROS AUFERIDOS POR INTERMÉDIO DE COLIGADAS E CONTROLADAS NO EXTERIOR Na Lei 9.532/97 o fato gerador era representado pelo pagamento ou crédito (conforme definido no art. 1º da Lei 9.532/97), e o que se tributavam eram os dividendos. A partir da MP 2.158 35/2001, a tributação independe de pagamento ou crédito (ainda que fictos), deixando, pois, de ter como base os dividendos. LUCROS ORIUNDOS DE INVESTIMENTO NA ESPANHA — Nos termos da Convenção Destinada a Evitar a Dupla Tributação e Prevenir a Evasão Fiscal em Matéria de Imposto sobre a Renda entre Brasil e a Espanha, promulgada pelo Decreto n° 76.975, de 1976, em se tratando de lucros apurados pela sociedade residente na Espanha e que não sejam atribuíveis a estabelecimento permanente situado no Brasil, não pode haver tributação no Brasil. Não são também tributados no Brasil os dividendos recebidos por um residente do Brasil e que, de acordo com as disposições da Convenção, são tributáveis na Espanha. CONVERSÃO CAMBIAL A conversão dos lucros da coligada ou controlada para a moeda nacional, para fins de tributação no Brasil, obedece o disposto no §4º do art. 25 da Lei 9.249/95 e no § 3° do art. 6º da IN SRF 213/2002. Acórdão 110100.365 IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002, 2003 DISPONIBILIZAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO. RESULTADOS APURADOS A PARTIR DE 1996. IRPJ. Os lucros auferidos por meio de coligadas ou controladas no exterior, a partir do anocalendário 1996, sujeitamse a tributação no momento em que disponibilizados. Ausente Fl. 890DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 6 5 prova da distribuição efetiva ou presumida dos lucros, o saldo de lucros acumulados até 2001 é considerado disponibilizado em 31/12/2002. Os lucros auferidos a partir de 2002 são considerados disponibilizados na data do balanço no qual tiverem sido apurados. RESULTADOS APURADOS A PARTIR DE 1999. CSLL. Somente os lucros auferidos a partir de 1° de outubro de 1999 sujeitamse a incidência da CSLL no momento de sua disponibilização. TRATADOS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS. Não obstante o STF tenha se posicionado no sentido de inexistência de primazia hierárquica do tratado internacional, em se tratando de Direito Tributário a prevalência da norma internacional decorre de sua condição de lei especial em relação a norma interna. CONVENÇÃO BRASILPORTUGAL PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. PREMISSAS PARA ANALISE DO CONFLITO NORMATIVO. O art. 74 da Medida Provisória n° 215835/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no país mediante ficção de disponibilização (Ins resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior). COMPATIBILIDADE COM O TRATADO INTERNACIONAL. O acordo firmado entre Brasil e Portugal autoriza a tributação de dividendos no Estado onde se situa o beneficiário dos rendimentos e somente proíbe o pais onde se situa a fonte pagadora de tributar lucros não distribuídos. CRÉDITO INDIRETO. INEXISTÊNCIA DE TRIBUTO EXIGÍVEL OU PAGO. Sendo vedada a tributação de lucros não distribuídos no pais de origem, não há porque se cogitar de dedução de imposto de renda pago no exterior em face de tributos devidos no Brasil por disponibilização ficta de lucros. TRIBUTAÇÃO SOBRE O RESULTADO ANTES DE DESCONTADOS OS TRIBUTOS INCIDENTES SOBRE O LUCRO. IMPROCEDÊNCIA. Se a incidência se dá sobre os lucros fictamente disponibilizados, a base de calculo está limitada ao montante passível de distribuição, já liquido dos tributos incidentes sobre o lucro no pais de origem. CONVENÇÃO BRASILLUXEMBURGO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. SEDE ANTERIOR NAS ILHAS CAYMAN. Os resultados apurados e considerados disponibilizados enquanto a empresa mantinha sede nas Ilhas Cayman não são afetados por acordo internacional firmado entre Brasil e Luxemburgo. RESULTADOS APURADOS E CONSIDERADOS DISPONIBILIZADOS EM LUXEMBURGO. HOLDING. A Convenção BrasilLuxemburgo não se aplica às sociedades "holdings" residentes em Luxemburgo. ARGUMENTAÇÃO SUBSIDIARIA PARA INAPLICABILIDADE DA CONVENÇÃO BRASILLUXEMBURGO. PREMISSAS PARA ANALISE DO Fl. 891DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 7 6 CONFLITO NORMATIVO. O art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no pais mediante ficção de disponibilização dos resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior. COMPATIBILIDADE COM O TRATADO INTERNACIONAL. O acordo firmado entre Brasil e Luxemburgo autoriza a tributação de dividendos no Estado onde se situa o beneficiário dos rendimentos e somente proíbe o pais onde se situa a fonte pagadora de tributar lucros não distribuídos. CRÉDITO INDIRETO. INEXISTÊNCIA DE TRIBUTO EXIGÍVEL OU PAGO. Sendo vedada a tributação de lucros não distribuídos no país de origem, não há porque se cogitar de dedução de imposto de renda pago no exterior em face de tributos devidos no Brasil por disponibilização ficta de lucros. CONVERSÃO PARA REAIS Os lucros auferidos no exterior por intermédio de filiais, sucursais, controladas ou coligadas serão convertidos em Reais pela taxa de câmbio, para venda, do dia das demonstrações financeiras cm que tenham sido apurados os correspondentes lucros pelas filiais, sucursais, controladas ou coligadas ainda em cumprimento ao disposto pelo §6º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, procedese a seguir ao cotejo analítico entre trechos do acórdão recorrido e dos acórdãos paradigmas: [...]; comprovado, portanto, o dissídio jurisprudencial, a RECORRENTE passará a demonstrar o prequestionamento da matéria. [...] TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DAS CONTROLADAS DA RECORRENTE NO EXTERIOR. a principal disposição legal invocada como fundamento do lançamento é o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 27 de julho de 2001, que dispõe o seguinte: [...]; em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, o art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual o art. 74 da MP 2.158/35 remete, já dispunha em seus §§ 22 e 39 que os lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil, serão computados na apuração do lucro real mediante adição ao respectivo lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da controlada ou da coligada; o sistema de tributação do art. 25 da Lei nS 9.249/95 manda adicionar ao lucro real da pessoa jurídica no Brasil, o lucro obtido pelas controladas ou coligadas no exterior, ainda que tais lucros tenham sido integralmente retidos e não distribuídos; assim sendo, o imposto brasileiro veio atingir a renda que não é da própria sociedade brasileira, mas renda de titularidade jurídica de sociedades estrangeiras independentes, num sistema de tributação extraterritorial, incompatível com o art. 43 do Código Tributário Nacional (CTN), que exige a disponibilidade jurídica ou econômica para a tributação da renda; Fl. 892DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 8 7 essa incompatibilidade foi reconhecida pela Administração Fiscal através da Instrução Normativa nº 38/96 que fez com que a tributação, na prática incidisse exclusivamente sobre o lucro efetivamente disponibilizado. Este regime foi posteriormente alçado à condição de lei, pela edição da Lei nº 9.532/97 que estabeleceu a tributação dos lucros de origem externa quando do seu pagamento ou crédito para o sócio no Brasil; o Governo, porém, não tinha desistido de taxar os lucros não distribuídos pelas controladas ou coligadas estrangeiras e através da Lei Complementar nº 104/01 introduziu um novo §2º ao art. 43 do CTN, segundo o qual "na hipótese de receita ou de rendimentos oriundos do exterior a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo"; ao abrigo deste §2º do art. 43 do CTN, é que foi editado o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 27 de julho de 2001, que, na prática, reinstituiu o regime do art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual o texto do art. 74 remete; O OBJETO DA TRIBUTAÇÃO DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835/01 E SUA QUALIFICAÇÃO FACE AOS TRATADOS. O MÉTODO ADITIVO COMO FICÇÃO PARA NACIONALIZAR O LUCRO ESTRANGEIRO. face à lei interna brasileira, o objeto da tributação de que tratam o art. 25 da Lei nº 9.249/95 e o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 é o próprio lucro das controladas e coligadas estrangeiras, tal como apurado nos seus balanços, tanto que o lucro "disponibilizado" segundo dispõe a própria Instrução Normativa nº 213/02, art. 1º, §7º corresponde aos valores integrais apurados pela entidade estrangeira, antes mesmo de descontados os impostos pagos no seu país de domicílio; esta tributação de lucros estrangeiros, instituída pelo art. 25 da Lei nº 9.249/95, recai sobre os lucros auferidos no exterior que são incluídos na determinação do lucro real da pessoa jurídica no Brasil, correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. Essa "inclusão" do lucro estrangeiro dáse pela adição ou soma de seus valores ao lucro real brasileiro,segundo decorre expressamente do §2º do mesmo art. 25; logo, o objeto da tributação pelo art. 25 da Lei 9.249/95 é o próprio lucro das entidades estrangeiras (controlada ou coligada), tributado no Brasil pelo método da adição ou soma ao lucro real, tal como já ocorria com os resultados das filiais ou sucursais no exterior, que são entes desprovidos de personalidade jurídica própria; este aspecto da tributação não passou desapercebido pelo Ministro Napoleão Nunes Maia do Superior Tribunal de Justiça que bem o sublinhou em seu voto no julgamento do Resp nº 1.325.709RJ: 63. Repitase que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. ora, examinados o art. 74 da MP nº 2.15835/01 e o art. 25 da Lei nº 9.249/95, que com ele constitui uma unidade incindível, concluise que ambos dispositivos têm Fl. 893DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 9 8 o mesmo objeto: os lucros das controladas e coligadas estrangeiras, somados ao lucro líquido da controladora no Brasil; apesar da dicção clara e inequívoca do art. 74 da MP nº 2.15835/01 e o art. 25 da Lei nº 9.249/95, a decisão recorrida afirma que "o que a nossa lei faz é tributar a nossa empresa"; ora, esta afirmação do v. Acórdão recorrido é puro sofisma, pois o IRPJ e a CSLL só podem tributar o lucro. No caso em exame quem auferiu o lucro não foi a empresa brasileira, mas sim um ente estrangeiro; e tanto o que se tributa no Brasil é o lucro alienígena que o art. 26 da Lei nº 9.249/95 prevê que "a pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital"; a redação do referido dispositivo deixa claro que o imposto incidente sobre os lucros auferidos no exterior poderá ser compensado com o IRPJ incidente sobre esses mesmos lucros no Brasil. E nem haveria razão de ser diferente, pois não se pode conceber porque o Brasil permitiria o abatimento do imposto de um Estado estrangeiro, incidente sobre um lucro estrangeiro, contra o IRPJ brasileiro, incidente sobre lucros brasileiros; a lei brasileira permite a compensação do imposto estrangeiro com o IRPJ e a CSLL no Brasil, pois reconhece a identidade do objeto da tributação; A INTRIBUTABILIDADE DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. vejase que esses diplomas legais em momento algum estabeleceram uma tributação sobre resultados de equivalência patrimonial de controladas e coligadas no exterior. A única referência à equivalência patrimonial está no §6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 que determina que, sem prejuízo do regime de tributação automática de lucros dos §§ 1º, 2º e 3º anteriores, os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, devem continuar a ter o tratamento previsto na legislação vigente; o tratamento mantido em vigor pelo § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 é precisamente aquele de que trata o artigo 23 e seu parágrafo único do Decretolei nº 1.598/77 (com as modificações introduzidas pelo Decretolei nº 1.648/78), segundo o qual: "Art. 23. A contrapartida do ajuste de que trata o artigo 22, por aumento ou redução no valor de patrimônio liquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real. Parágrafo único Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição, nem os ganhos ou perdas de capital derivados de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País." ou seja, o §6º do art. 25 da Lei nº 9.249/95 ratifica a intributabilidade dos resultados de equivalência patrimonial quando dispõe que estes continuam sujeitos ao Fl. 894DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 10 9 tratamento da legislação em vigor, regime esse que não é alterado pelo art. 74 da MP nº 2.158 35/01, mas antes é por ele confirmado através da remissão feita ao art. 25 da Lei nº 9.249/95; o artigo 23 e seu parágrafo único do Decretolei nº 1.598/77 permanecem plenamente em vigor até os dias de hoje, não sendo possível qualquer interpretação que resulte em uma tributação de resultados de equivalência das controladas e coligadas no exterior; também o v. Acórdão recorrido afasta a equivalência patrimonial e reconhece a identidade do lucro estrangeiro com o objeto da tributação pela lei brasileira quando afirma, ao final, que: "Portanto, na presente exigência, o valor objeto da autuação é exatamente o valor do lucro consolidado em sua subsidiária integral situada na Áustria, não havendo que se falar em tributação do valor obtido via método da equivalência patrimonial." neste sentido, aliás, é a invocação da equivalência patrimonial no voto de certos Ministros da Suprema Corte que teve como propósito evidenciar a disponibilidade jurídica dos lucros das controladas estrangeiras ao nível da controladora brasileira, face à lei societária (art. 197 Lei S.A.) e sua consequente compatibilidade com o art. 43 do CTN, não tendo, porém, o alcance de considerar a equivalência como sendo o próprio objeto da tributação; na realidade, o Ministro NELSON JOBIM é categórico ao afirmar que a MP 2.15835/2001 apenas estabeleceu as condições e o momento da disponibilização, momento este que corresponde à apuração contábil do lucro da ESTRANGEIRA e que o acréscimo patrimonial da BRASILEIRA se dá a partir do momento do registro dos lucros no balanço da ESTRANGEIRA porque com o MEP "a BRASILEIRA, sujeita a esse regime, necessariamente já registrava, em seu balanço, os valores do lucro apurado por sua COLIGADA ou CONTROLADA"; não se lê em qualquer passagem de seu voto que o objeto da tributação seja o resultado de equivalência, pelo contrário, este expressamente aponta o lucro da estrangeira, incluído nos resultados da brasileira, como sendo a matéria tributável no País; posteriormente, o Ministro DIAS TOFFOLI no julgamento dos REs nºs 611.586/PR e 541.090/SC votou no mesmo sentido, afirmando que: Em síntese, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 deslocou o momento da incidência do imposto, adotando, entre os regimes de caixa e de competência, esse último. Não firmou presunção, mas, sim, definição de novo aspecto temporal para a regra matriz de incidência. a conclusão do STF de que a mecânica contábil de registrar no balanço do sócio os lucros auferidos por intermédio das controladas e coligadas, utilizandose o MEP, configura acréscimo disponível em nada afeta ou modifica o objeto da tributação, que é expressa e literalmente consagrado no caput do art 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 e no art. 25 da Lei nº 9.249/95 como lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior; com base nestas considerações pode concluirse que o objeto da tributação, nos termos da lei brasileira, é o próprio lucro no exterior e não o resultado de equivalência Fl. 895DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 11 10 patrimonial no Brasil, resultado este que não tem existência própria, nem qualquer autonomia em relação àquele lucro, tanto que com ele não se soma, sendo um mero reflexo não tributável do lucro estrangeiro; ora, é exatamente este lucro austríaco, auferido por pessoa jurídica estrangeira com personalidade distinta, que o art. 7º do tratado com a Áustria impede seja tributado pelo Brasil, como se verá; O ART. 7º DO TRATADO COM A ÁUSTRIA: O REGIME DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA. antes de examinar o que dispõe o art. 7º do tratado com a Áustria, cabe primeiramente recordar que o art. 98 do CTN dispõe que "os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha"; este comando de clareza ímpar determina a prevalência dos tratados sobre a legislação interna, prevalência esta também reconhecida pelo próprio Supremo Tribunal Federal com base no critério da especialidade, no que concerne aos tratados internacionais para prevenir a dupla tributação; portanto, ainda que o art. 7º da MP nº 2.15831/01 tenha sido editado após a entrada em vigor do tratado com a Áustria, aprovado pelo Decreto Legislativo número 95/75 e promulgado pelo Decreto nº 78.107/76, as disposições da convenção internacional prevalecem e devem ser observadas pelo Fisco quer seja em face do art. 98 do CTN, quer pelo seu caráter de norma especial como determina o Supremo Tribunal Federal; por sua vez, o artigo 7º, §1º do Tratado BrasilÁustria estabelece que: "1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exercer suas atividades na forma indicada, seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuídos a esse estabelecimento permanente." o artigo 7º do tratado com a Áustria acima transcrito contempla duas situações distintas; a primeira consiste na atribuição de uma competência exclusiva ao país de residência (p. ex. Áustria) da empresa pessoa jurídica para tributar os seus lucros, excluindo, por consequência, a competência do outro país contratante (p. ex. Brasil) para tributar os lucros da empresa pessoa jurídica residente no primeiro país; é o que decorre da primeira parte do §1º do artigo 7º segundo o qual: "os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, (...)", consagradora de uma regra geral de vedação objetiva da tributação dos lucros de empresas residentes num dado território pelo outro país; a segunda consiste no reconhecimento de uma competência cumulativa de ambos os Estados em presença nos casos em que uma pessoa jurídica residente em um país (p. Fl. 896DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 12 11 ex. Brasil) exerça diretamente no território do outro país (p. ex. Áustria) suas atividades através de um estabelecimento permanente (por exemplo, filial de empresa estrangeira) ali situado; esclareçase que o conceito de estabelecimento permanente para fins do tratado encontrase expressamente previsto no artigo 5 da Convenção com a Áustria, segundo o qual este "designa uma instalação fixa de negócios em que a empresa exerça toda ou parte de sua atividade", esclarecendo no número 7 do artigo 5 que "o fato de uma sociedade residente de um Estado Contratante controlar ou ser controlada por uma sociedade residente do outro Estado Contratante, ou que exerça sua atividade nesse outro Estado (quer seja através de um estabelecimento permanente quer de outro modo) não será, por si só, bastante para fazer de qualquer dessas sociedades estabelecimento permanente da outra"; ou seja, para fins do tratado o fato de uma sociedade, domiciliada em um dos Estados (Áustria), ser controlada por outra sociedade, domiciliada no outro Estado (Brasil), não faz da primeira um estabelecimento permanente da segunda. O conceito de estabelecimento permanente instalação fixa de negócios aplicase a entes despersonificados; o art. 7º dos tratados que seguem o modelo OCDE, como é o caso do tratado com a Áustria e com a Espanha (paradigma 1), faz uma distinção de tratamento entre os entes personificados (i.e., sociedades controladas e coligadas) e os entes desprovidos de personalidade própria (i.e., estabelecimentos permanentes, filial e sucursal), dispondo que só o país de domicílio de entes com personalidade própria tem competência para tributar os lucros de suas atividades; e que tanto o país em que se localizam os entes sem personalidade (filial e sucursal), como o país em que se localiza a casa matriz à qual estão ligados tais entes têm competência para tributar os lucros das atividades que aqueles estabelecimentos geraram no primeiro Estado; resta claro, portanto, que nas relações entre duas pessoas jurídicas com personalidade jurídica própria em que uma (RECORRENTE) é controladora da outra, não pode o país de domicílio da primeira (Brasil) pretender tributar os lucros da segunda empresa, domiciliada no outro país contratante (Áustria), pois cabe a este último a competência exclusiva para a tributação dos lucros das entidades residentes em seu território. Esta competência deixa de ser exclusiva apenas no caso em que os lucros sejam auferidos através de estabelecimento permanente, ou seja, de uma instalação fixa de negócios sem personalidade jurídica própria; assim, aplicandose exemplificativamente o art. 1° ao caso de uma empresa brasileira (EB) que tenha, por exemplo, na Áustria, uma filial (FA) ou controlada (CA), podem extrairse as seguintes conclusões: a) o Brasil pode tributar os lucros da FA, por esta constituir um estabelecimento permanente no exterior (1§ frase, 2ª parte, do §1º); b) a Áustria pode tributar os lucros da FA unicamente na medida em que forem imputáveis a esse estabelecimento (2ª frase do § 1º); c) só a Áustria ("competência exclusiva") pode tributar os lucros auferidos na Áustria pela CA, pois CA é empresa austríaca (1ª frase, 1ª parte do §1º); Fl. 897DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 13 12 d) o Brasil não pode tributar os lucros auferidos na Áustria pela CA, pois só pode tributar estabelecimentos permanentes no exterior e não entidades com personalidade jurídica própria existentes no outro Estado. é precisamente porque as empresas são pessoas jurídicas distintas das dos seus sócios que a primeira parte do caput do art. 7º do tratado dispõe que apenas o Estado Contratante da empresa que aufere os lucros tem competência para tributálos. O Estado Contratante de residência do sócio controlador, por sua vez, terá competência para tributar esses lucros quando distribuídos sob a forma de dividendos. É que neste momento os lucros deixam de pertencer à sociedade que os gerou para se constituir em remuneração do sócio. Essa sistemática do tratado fica bastante claro quando se lê o art. 7º em conjunto com o art. 10 e o 23; o tratado assim distingue dois momentos segundo quem é o titular do lucro. Quando auferido este pertence à sociedade estrangeira e por isso apenas o seu país de domicílio pode tributálo. Quando distribuído, esta passa a constituir remuneração do sócio (dividendo) e aí poderá ser tributado pelo Estado de Residência do sócio, mas como incide a tributação na fonte também no Estado de que provém (de localização da empresa que os distribui), acaba se verificando uma dupla tributação, cujos efeitos são eliminados na forma do art. 23 que estabelece ou o método do crédito ou da isenção para evitar a dupla tributação; quando os lucros são auferidos por um ente desprovido de personalidade jurídica própria (como é o caso do estabelecimento permanente), o tratado (segunda parte do caput do art. 7º) de forma diferente autoriza a sua tributação por ambos os Estados Contratantes, ou seja, o Estado em que se localiza o estabelecimento e o Estado em que está localizada a sua casa matriz, pois neste caso estabelecimento e casa matriz correspondem a uma mesma pessoa jurídica, sem separação ou divisão do ponto de vista legal. Os lucros do estabelecimento, portanto, integram os resultados da pessoa jurídica desde que gerados, pois não há separação da personalidade; vêse, portanto, que o tratado distingue de forma categórica as pessoas dotadas de personalidade jurídica própria dos entes despersonificados, pois reconhece a força e efeitos da personalidade jurídica, característica que, nos termos do número 7 do artigo 5 do tratado com a Áustria, impede que as controladas sejam tratadas como simples estabelecimentos permanentes, ou seja, que as controladas (como a BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) sejam submetidas à segunda parte do caput do art. 7º (competência cumulativa), aplicável apenas aos estabelecimentos permanentes; esse ponto foi percebido pelo Ministro do Superior Tribunal de Justiça, Ari Pargendler, que em seu voto, no acórdão relativo ao julgamento do Resp nº 1.325.709 manifestou que: [...]; o STF, por sua vez, nunca se pronunciou sobre os tratados, mesmo porque se trata de matéria de competência exclusiva do STJ, ao teor do art. 105, inciso III, alínea "a" da Constituição Federal, como, aliás, bem notou o Ministro DIAS TOFFOLI nos acórdãos dos REs nºs 611.586/PR e 541.090/SC; como bem ressaltado pelo Ministro DIAS TOFFOLI, a interpretação dos tratados compete à esfera própria (STJ). O STJ, por sua vez, já exarou sua interpretação sobre a matéria, confirmando a impossibilidade de tributação dos lucros de controlada estrangeira, à luz do art. 7º dos tratados para evitar a dupla tributação; Fl. 898DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 14 13 OS FUNDAMENTOS E OBJETIVOS DO REGIME DE COMPETÊNCIA EXCLUSIVA. O ELEMENTO HISTÓRICO DE INTERPRETAÇÃO. ora, e qual a razão do regime de competência exclusiva do Estado de residência da controlada estrangeira prevista na primeira parte do art. 7º? Precisamente impedir a aplicação de medidas como o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01; como recorda o grande jurisconsulto Ottmar Bühler, pioneiro dos estudos de tributação internacional na Alemanha referida cláusula teve a sua origem em impedir a aplicação, no âmbito das relações internacionais, da chamada "teoria do órgão" (Organtheorie) consagrada em vários países europeus nas primeiras décadas do século XX por influência da jurisprudência e da lei alemã de 1934, que concebiam os grupos de sociedades, baseados numa relação de controle ou domínio, como uma unidade, operandose na controladora uma consolidação dos ganhos e perdas do grupo. E daí as sociedades controladas serem consideradas meros "órgãos" do conjunto, sendo desconsiderada a sua personalidade jurídica; como é natural, a tentativa de aplicação desta doutrina à esfera internacional conduziria a uma deslocalização dos poderes tributários dos Estados onde se situam as empresas controladas ou coligadas para o Estado de sociedade investidora, acarretando uma plúrima tributação dos mesmos lucros. Havia, pois, que afastála de modo categórico; assim, sobretudo por influência dos países anglosaxônicos, que sustentavam a individualidade jurídica e a tributação autônoma das subsidiárias, surgiu a regra de reconhecimento de competência exclusiva ao Estado de localização destas, constante já do Modelo Bilateral de Convenção Tributária da Liga das Nações (Modelo de Londres de 1946) como uma verdadeira "cláusula antiórgão; a cláusula de competência exclusiva vem, assim, afirmar a supremacia do "princípio da separação" (Trennungsprinzip) sobre a teoria do órgão, em matéria de controladas e subsidiárias em geral, atingindo seu objetivo de proibir imperativamente que os Estados de domicílio das controladoras tomem em consideração, por qualquer forma ou técnica legislativa, os lucros das controladas ou coligadas estrangeiras como base de cálculo dos seus próprios tributos incidentes sobre as sociedadesmãe; o Acórdão recorrido afirma que o artigo 7º não poderia ter sido criado para afastar a tributação por normas CFC, pois estas foram criadas posteriormente à criação da Convenção Modelo da OCDE. No entanto, esta afirmação é distorcida, pois como atrás se viu o art. 7º visou coibir a tributação de controladas ou coligadas com base no controle societário como mero critério de conexão, determinando o reconhecimento da personalidade jurídica distinta destas. Esta função do art. 7º, contudo, foi posteriormente relativizada pela OCDE para permitir a compatibilização especificamente com normas anti abuso; ora, as verdadeiras normas CFC (controlled foreign companies provisions) são norma anti abuso na medida em que taxam apenas as rendas de natureza passiva e oriundas de território de baixa ou nula tributação. O art. 74 da MP nº 2.15835/01, contudo, não possui qualquer elemento abusivo, pois tributa indistintamente as controladas estrangeiras, independentemente de seu país de domicílio e da natureza de suas rendas, tanto assim que este caráter meramente arrecadatório da norma foi objeto de crítica pelo Ministro Joaquim Barbosa Fl. 899DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 15 14 em seu voto proferido na ADI 2.588, o que conduziu à adoção destes critérios para certos efeitos no novo regime da Lei nº 12.973/14. Confirase: "Da forma como redigida a norma brasileira presumese indistintamente que todas as controladas ou coligadas no exterior têm esse propósito elisivo ou evasivo" "a presunção o intuito evasivo somente é cabível se a sociedade estrangeira estiver localizada em localizadas em países com tributação favorecida, ou que não imponham controles e registros societários rígidos (paraísos fiscais)". aliás, tais aspectos foram ressaltados no voto da Conselheira Sandra Faroni proferido no Acórdão paradigma, no qual esta apenas admite o afastamento do art. 7º dos tratados nos casos de comprovado abuso de tratado; o regime do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 é exemplo paradigmático de um modelo de tributação assente na superada teoria do órgão, modelos esses que, como se viu, estão terminantemente barrados pelo artigo 7º dos tratados contra a dupla tributação; não é demais insistir em que a cláusula de competência exclusiva do art. 7º constitui o "coração" dos tratados contra a dupla tributação. Sem ela, qualquer tratado fica privado de sentido, pois abre as portas a uma guerra fiscal entre Estados, permitindo que a riqueza tributável em um deles seja objeto de pretensões fiscais cumulativas de outros, invasivas de soberania estrangeira; o art. 7º do tratado com a Áustria apenas reconhece o "princípio da separação" entre subsidiária e sociedademãe evitando que os lucros de uma controlada possam ser tributados no país de residência da controladora como se a primeira fosse uma mera filial ou sucursal (estabelecimento permanente), sem personalidade jurídica própria; contrariamente ao que afirma o Acórdão recorrido, o art. 7º impede a tributação dos lucros não disponibilizados/distribuídos pela controlada na Áustria (BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) pelo Brasil, sendo tal interpretação a que decorre do elemento histórico e da finalidade do art. 7º; A ILEGALIDADE DOS AUTOS DE INFRAÇÃO POR VIOLAÇÃO DO ART. 7º DO TRATADO COM A ÁUSTRIA. O LUCRO ESTRANGEIRO COMO OBJETO DA TRIBUTAÇÃO. a letra da lei interna que fundamenta a tributação (o art. 25 da Lei nº 9.249/95, para o qual remete expressamente o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01) alude expressamente à adição ao lucro da pessoa jurídica brasileira dos próprios lucros auferidos por controladas e coligadas no exterior, independentemente de serem pagos ou creditados; que o objeto da tributação consiste no lucro da própria controlada ou coligada no exterior resulta ainda de o §7º do art. 1º da Instrução Normativa nº 213/02 estabelecer que "os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem Fl. 900DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 16 15 computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem"; o mero fato de a legislação brasileira dispor que os lucros tributáveis são aqueles apurados antes do pagamento do imposto estrangeiro, ou seja, um valor superior ao dos próprios lucros que seriam passíveis de distribuição para o sócio no País, demonstra que o que se está tributando é o próprio lucro da entidade no exterior; SUJEITO PASSIVO BRASILEIRO: MERA MECÂNICA DE TRIBUTAÇÃO. o art. 74 da MP nº 2.15835/01 tributa os lucros da controlada e coligada estrangeira, como se estas pudessem ser sujeitos passivos do imposto de renda e da CSLL no Brasil, no mesmo regime que as filiais e sucursais no exterior, que são entes despersonificados; tal sistemática de tributação significa, pois, o Brasil desprezar a personalidade jurídica das controladas estrangeiras para submetêlas ao mesmo tratamento dos estabelecimentos permanentes, arrogandose uma competência tributária, quando o tratado, como também se viu, é expresso em atribuir competência exclusiva à Áustria, Estado de domicílio da BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; ora, o argumento da decisão recorrida de que não se aplica o tratado porque é a RECORRENTE que está sendo tributada é um puro sofisma; é que o lucro que está sendo tributado pelos autos de infração é, como atrás se viu, o próprio lucro da controlada na Áustria, tendo a lei brasileira eleito a RECORRENTE como uma espécie de responsável, unicamente para viabilizar a tributação extraterritorial pretendida pelo Brasil que de outro modo não seria factível; é que não se vislumbra outra forma pela qual o Fisco Brasileiro conseguiria efetuar o lançamento contra a pessoa jurídica no exterior (remeter o auto de infração por avião?), nem como poderia ele exercer os seus poderes para executar este crédito em outra jurisdição. Ora, a única forma de viabilizar o regime de tributação extraterritorial em causa é fazer com que todas essas consequências recaiam sobre as pessoas que encontram sob o império da lei brasileira, em relação às quais o Fisco pode exercer em toda a sua plenitude seus poderes; NATUREZA OBJETIVA DO COMANDO DO ART. 7º. acresçase, ainda, que como atrás se afirmou "os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha" (art. 98 do CTN). Esta prevalência dos tratados é reconhecida também na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal com base no critério da especialidade; é, aliás, justamente por essa razão que o art. 7º dos tratados, diferentemente de outras disposições do texto convencional, consiste em regra que visa impedir a tributação objetiva dos lucros da empresa, não traduzindo uma regra de conteúdo subjetivo, ou seja, voltada à pessoa (fonte ou residente); INAPLICABILIDADE DOS COMENTÁRIOS DA OCDE À NORMA BRASILEIRA. Fl. 901DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 17 16 frisese novamente que a sistemática de tributação adotada pelo Brasil sequer poderia qualificarse como um regime do tipo controlled foreign companies provisions que apenas se pode falar em relação a uma classe determinada de normas antiabuso do direito internacional (também conhecidas pelo acrônimo normas CFC) aplicáveis exclusivamente em condições excepcionalíssimas que autorizam a tributação automática dos lucros de controladas ou coligadas no exterior quando: (i) os lucros destas são formados substancialmente por rendas passivas; e/ou (ii) estão elas localizadas em territórios de baixa tributação. Tal regime, contudo, jamais se aplica a controladas e coligadas domiciliadas em países que têm nível comparável de tributação; todavia, a lei brasileira, em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, adotou um sistema que se afasta totalmente do tipo CFC, por não ter caráter excepcional nem finalidade antielisiva, uma vez que atinge, como regra geral, a totalidade do lucro das sociedades controladas ou coligadas no exterior, independentemente da natureza dos rendimentos que o integram e do nível de tributação do país ou território de seu domicílio; a total inexistência de um elemento "abusivo" relacionado ou com o território de domicílio ou com a natureza do rendimento demonstra que a lei brasileira não tem a natureza de uma lei "CFC", pois seu objetivo não é antielisivo, mas puramente arrecadatório; daí que mesmo os comentários da OCDE ao art. 7º apontados pelo Auto de Infração e a Solução de Consulta COSIT nº 18/13 como "autorizadores" da tributação em causa, não são aplicáveis no caso do art. 74 da MP n9 2.15835/01, tendo em vista que este não corresponde a uma "controlled foreign companies provisions" objeto dos comentários da OCDE; isso mesmo fica evidente do texto da Lei nº 12.973/14 que, apesar de introduzir os conceitos de renda ativa, os utiliza unicamente para efeito de permitir a adoção temporária (até 2017) do regime de consolidação (art. 74), continuando, contudo, a tributar automaticamente os lucros e toda e qualquer controlada estrangeira em 31 de dezembro de cada ano (art. 73), ainda que confira a opção pelo seu pagamento diferido; este sistema perverso é uma singularidade brasileira, não adotado pelos demais países, pelo que a competitividade das nossas empresas vêse seriamente abalada, pois comporta um ônus fiscal incomparavelmente mais pesado do que o das suas rivais no mercado global; a total inexistência de um elemento "abusivo" relacionado ou com o território de domicílio ou com a natureza do rendimento demonstra que a lei brasileira não tem a natureza de uma lei "CFC"; no caso, a Áustria é um país que possui tributação normal e não é qualificado como país de tributação favorecida, nem à época em que lavrado o Auto de Infração era considerado como regime fiscal privilegiado; INAPLICABILIDADE DOS COMENTÁRIOS DA OCDE ADOTADOS A PARTIR DE 2003 AO TRATADO COM A ÁUSTRIA CELEBRADO EM 1974. vejase, ainda, que os comentários da OCDE, com base nos quais a Solução de Consulta COSIT nº 18/13 pretende sustentar a suposta compatibilidade da lei brasileira com os tratados, além de inaplicáveis às normas brasileiras por não possuírem natureza de normas Fl. 902DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 18 17 CFC, só foram introduzidos em 2003, pois até então a incompatibilidade do art. 7º do modelo OCDE com as próprias normas CFC era orientação dominante da doutrina e da jurisprudência estrangeira (vejase na França o julgamento do Conselho de Estado no caso Schneider); apenas a partir de 2003 é que a OCDE passou a considerar o artigo 7º compatível com as legislações CFC, tendo introduzido um §10.1 aos seus comentários ao artigo 7º da Convenção Modelo, renumerado em 2008 para §13 e em 2010 para §14; ocorre, porém, que o tratado com a Áustria foi celebrado em 24 de maio de 1975 e promulgado pelo Decreto nº 78.107, de 22 de julho de 1976, ou seja, quando tais comentários sequer existiam, pelo que esta nova orientação não pode ser invocada para alterar o alcance e sentido de tratado celebrado sob entendimento diverso tendo em vista o princípio da boa fé (art. 31 da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados) que tem como corolário ser aplicável interpretação e sentido vigentes à data da sua celebração dos tratados; AS CLÁUSULAS ESPECIAIS QUE AUTORIZAM A TRIBUTAÇÃO DE LUCROS DE CONTROLADAS NAS CONVENÇÕES. de todas as considerações acima, pode concluirse que, contrariamente ao que afirma o Acórdão recorrido, o artigo 7º dos tratados contra a dupla tributação é incompatível com a tributação nos termos do art. 74 da MP nº 2.15835/01, só podendo ser afastado se o tratado contiver disposição especial e específica que autorize esta exceção; e tanto tal assertiva é verdadeira que no Tratado com o México, aprovado pelo Decreto nº 6.000/2006, o Brasil houve por bem inserir um artigo 28, §3º, segundo o qual "as disposições da presente Convenção não impedirão que um Estado Contratante aplique as disposições de sua legislação nacional relativa a capitalização insuficiente ou para combater o diferimento, incluída a legislação de sociedades controladas estrangeiras (legislação CFC) ou outra legislação similar"; semelhante redação consta da alínea "d" do item 5 do protocolo anexo ao Tratado com o Peru, aprovado pelo Decreto nº 7.020/2009; estes são os únicos tratados firmados pelo Brasil que contêm tal autorização expressa. No entanto, no caso do tratado BrasilÁustria tal autorização não só inexiste, como é contrária ao sentido e interpretação da convenção vigentes à época de sua celebração, não se podendo, portanto, aceitar a interpretação pretendida pela decisão recorrida; ora, os tratados e as leis não possuem palavras sem sentido, muito menos disposições inteiras sem sentido. Fossem de fato tais acordos plenamente compatíveis com o art. 74 da MP nº 2.15835/01 nenhuma razão existiria para que o tratado com a México tivesse o artigo 28, §3º; A REJEIÇÃO AOS COMENTÁRIOS DA OCDE QUE ADMITIRAM A COMPATIBILIDADE DO ART. 7º COM NORMAS CFC POR PAÍSES MEMBROS. acresce que esta nova orientação dos Comentários da OCDE, que corresponde a uma tendência mais fiscalista que jurídica, não é sequer aceita por todos países membros, tendo sido expressamente rejeitada, dentre outros, pela Bélgica que fez consignar em suas reservas ao art. 7º da Convenção Modelo da OCDE o seguinte: [...]; Fl. 903DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 19 18 a posição externada pela Bélgica em suas reservas ao parágrafo 10.1 dos comentários ao art. 7º da Convenção modelo da OCDE é idêntica ao entendimento aqui manifestado pela RECORRENTE. Por sua vez, o Luxemburgo afirma que: [...]; se se validar o pensamento do acórdão recorrido estarseá esvaziando de conteúdo a primeira parte do §1º e art. 7º, tornandoo inócuo, desnecessário e jamais aplicável; ora, que sentido faria que os tratados tivessem então esse artigo 7º se ele de nada serve? vejase, porém, que a aplicação ao caso concreto do artigo 7º do tratado com a Áustria tem o efeito de derrogar o art. 74 da MP nº 2.15835/01 no que concerne às relações entre a RECORRENTE e sua controlada direta BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; A CONFIRMAÇÃO DO ENTENDIMENTO DA RECORRENTE PELA JURISPRUDÊNCIA. tudo o que atrás se afirmou foi confirmado pelo Superior Tribunal de Justiça, no acórdão relativo ao julgamento do Recurso Especial nº 1.325.709RJ assim ementado: "(...) IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.15735/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. (...) 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode Fl. 904DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 20 19 invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicionálos ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. (...)" em voto de vista, o Ministro Ari Pargendler examina a questão com grande brilhantismo e profundidade, razão pela qual reproduzimos o seguinte trecho: [...]; o TRF4 ao examinar questão idêntica no julgamento da APELAÇÃO/REEXAME NECESSÁRIO nº 2003.72.01.0000144/SC decidiu que: [...]; no mesmo sentido, a jurisprudência administrativa do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais também confere apoio ao entendimento da RECORRENTE, como se vê do Acórdão paradigma nº 10195.802: [...]; A ISENÇÃO DOS DIVIDENDOS NOS TERMOS DO ART. 23 DO TRATADO COM A ÁUSTRIA. A IMPOSSIBILIDADE DE TRIBUTAÇÃO DOS DIVIDENDOS PELO BRASIL. ainda que não se acolha o entendimento consagrado no primeiro paradigma, cujas razões encontramse acima detalhadas, a tributação pretendida pelo Auto de Infração dos lucros de BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é impossível nos termos do art. 23 do tratado com a Áustria, segundo entendimento consagrado no segundo paradigma; é que BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é uma sociedade austríaca sujeita a um regime normal de tributação no país de seu domicílio. Tal entidade quando distribui dividendos para o Brasil, sujeita os mesmos à tributação na fonte na Áustria limitada a 15%, nos termos do art. 10 do tratado: ARTIGO 10 Dividendos 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente de um Estado Contratante a um residente do outro Estado Contratante são tributáveis nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem ser tributados no Estado Contratante onde reside a sociedade que os paga, de acordo com a legislação desse Estado, mas o imposto assim estabelecido não poderá exceder 15% do montante bruto dos dividendos. esses dividendos, contudo, não são passíveis de tributação pelo Brasil, tendo em vista o disposto no nº 2 do art. 23 do tratado, segundo o qual: ARTIGO 23 Método para eliminar a dupla tributação Fl. 905DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 21 20 (...)2. Os dividendos pagos por uma sociedade residente da Áustria a uma sociedade residente do Brasil que possua no mínimo 25% das ações do capital da sociedade que paga os dividendos serão isentos do imposto de sociedade no Brasil. é que o método eleito pelo tratado BrasilÁustria para se evitar a dupla tributação jurídica do sócio brasileiro foi, no caso dos dividendos, o da isenção, segundo o qual os dividendos pagos a um sócio no Brasil são tributados exclusivamente na fonte no país de que se originam, não sendo tributados uma segunda vez no país de residência deste sócio; o Acórdão recorrido, contudo, rejeita este entendimento, sob o argumento de que: [...]; ora, (i) BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH é sociedade sujeita a uma tributação normal na Áustria; (ii) a aplicação do art. 75 tratado impede a tributação dos lucros não distribuídos pela entidade austríaca; e por outro lado, (iii) o art. 23, nº 2 do mesmo tratado impede a tributação dos dividendos, ou seja, desses lucros quando disponibilizados para a RECORRENTE no Brasil; o que se conclui da leitura sistemática destes dispositivos é que o Brasil abriu mão por completo de tributar os lucros da controlada austríaca, quer seja antes de sua disponibilização/distribuição (lucros da controlada austríaca) para o controlador, quer seja depois desta disponibilização/distribuição (dividendos); a possibilidade de qualificação do objeto da tributação pela lei brasileira como dividendos (fictos ou presumidos), para efeitos dos tratados, decorre: a) do entendimento de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/01 apenas antecipou o momento da tributação, mediante a mera alteração da sistemática de tributação caixa (momento da distribuição dos lucros/dividendos) para competência (momento do reconhecimento da receita ao período a que compete), sem alterar, contudo, o objeto (lucros disponibilizados ou dividendos); b) a sistemática de compensação do imposto pago no exterior que permitiu a compensação do imposto de renda de outro país contra o imposto de renda brasileiro não tem por intuito eliminar a dupla tributação econômica, mas sim assegurar que o montante tributado pelo Brasil seja efetivamente equivalente ao dos dividendos (lucros distribuíveis) que o sócio brasileiro perceberia caso os lucros da controlada estrangeira tivessem sido efetivamente distribuídos; c) confirmando o raciocínio acima, a lei brasileira assegura a compensação, pelas controladas estrangeiras, de seus prejuízos com lucros próprios, mas impede a compensação dos mesmos prejuízos com lucros brasileiros ou de outras controladas estrangeiras. de certo modo este é o entendimento partilhado pelo Auto de Infração quando afirma que o art. 74 da MP nº 2.15835/01 teria apenas substituído a tributação em regime de caixa pela tributação em regime de competência, como também entendeu o STF no julgamento da ADI nº 2.588; Fl. 906DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 22 21 mas se esta assertiva for correta, então pelo regime de competência deve também ocorrer o reconhecimento de receitas e despesas ao período a que competem, ou seja, no período em que ocorrerem, independentemente do seu efetivo recebimento ou pagamento; nestas circunstâncias, há que se perquirir qual seria a "receita" reconhecida no período a que compete (31 de dezembro de cada ano) que é objeto de tributação nos termos do art. 74 da MP nº 2.15835/01? Uma vez que "receita" incorrida deve corresponder a uma receita líquida e certa, apenas se pode considerar como tal os dividendos, pois a titularidade de participação acionária em outra entidade resulta para o titular em direitos econômicos consistentes justamente no direito à participação nos lucros mediante a percepção de dividendos; ora, se os lucros da controlada estrangeira "disponibilizados", nos termos do art. 74 da MP 2.15835/01, configuram "receita" reconhecida por competência, esta "receita" só pode ter a natureza de "dividendos", ergo isentos nos termos do art. 23 do tratado com a Áustria; por outro lado, se se admitir a tributação pretendida pelo Auto de Infração de lucro alienígena, não tornado disponível para o sócio no Brasil, se estará tornando inócua a isenção do art. 23 do tratado simplesmente por ter se antecipado o momento da tributação; ademais, vejase que os lucros da BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH quando distribuídos para a RECORRENTE estarão sujeitos à tributação na fonte na Áustria, limitada a 15% nos termos do tratado, sem que essa tributação na fonte seja passível de compensação com o IRPJ e a CSLL incidentes no país, uma vez que o Brasil optou pelo método da isenção como forma de eliminar a dupla tributação sobre esses dividendos; o Brasil assumiu, nos termos do tratado, a obrigação de não tributar os rendimentos do sócio brasileiro, decorrentes de sua participação no capital de empresa austríaca, consistentes tanto nos lucros diretamente produzidos na Áustria, bem como nos lucros decorrentes das participações detidas em terceiras entidades, reservando essa tributação exclusivamente para a Áustria; no entanto, se o IRPJ e a CSLL incidirem no Brasil em momento anterior ao da incidência do imposto austríaco, terseá justamente a dupla tributação, cujo objetivo do tratado era evitar (dupla tributação jurídica), já que a tributação na fonte sobre os dividendos na Áustria, que de futuro se aplicará aos lucros, tem como sujeito passivo justamente o sócio brasileiro que não terá direito de se creditar do imposto austríaco nos termos do tratado (porque este optou pelo método da isenção, não do crédito), nem nos termos da lei interna brasileira (art. 26 da Lei nº 9.249/95); a interpretação do Acórdão recorrido conduz, portanto, a um resultado contrário aos objetivos do tratado, donde logo se percebe não ser esta interpretação correta; é no mínimo desleal a tributação pelo Brasil por meio de uma interpretação do tratado contrária ao seu sentido e finalidade; aliás, esta interpretação desafia as regras de hermenêutica e os princípios consagrados na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, segundo a qual o texto convencional deve ser interpretado segundo a sua finalidade (art. 31) e cumprido de boafé (art. 26) pelos Estadosparte; Fl. 907DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 23 22 a cláusula especial (art. 23) que considera isentos os dividendos pagos por uma empresa domiciliada no exterior (BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH) ao sócio no Brasil torna ainda mais evidente a impossibilidade de se admitir a tributação no Brasil dos lucros da empresa estrangeira, pois se o Brasil não poderia tributar os lucros da entidade austríaca quando distribuídos muito menos poderá fazêlo enquanto não distribuídos, sendo irrazoável e até menos desleal o entendimento de que tal disposição só seria aplicável a dividendos efetivamente pagos; frisese, novamente, que a negativa de aplicação do tratado celebrado com a Áustria e consequentemente da isenção prevista no seu art. 23 pela decisão recorrida conduz justamente à dupla tributação que o tratado tem por objetivo evitar. É que quando os lucros forem efetivamente distribuídos ao sócio no Brasil, tais lucros serão tributados na fonte na Áustria sob a forma de dividendos (15% de IRRF, segundo o art. 10 do tratado), mas essa tributação de fonte na Áustria não é sequer compensável com o IRPJ e a CSLL porque tais tributos incidiram em momento anterior, na apuração dos lucros no balanço, burlando, assim, o tratado no qual o Brasil tinha se comprometido a isentar tal rendimento. Afinal, que eficácia terá a isenção dos dividendos prevista no tratado, se antes da sua distribuição o imposto brasileiro já tiver incidido? mais uma vez esclarece a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (Decreto nº 7.030/09) em seu artigo 27 que "uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado". A mesma convenção também estabelece que "um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade" (artigo 31, número 1). Logo, os EstadosParte devem se abster de praticar atos que frustrem o objetivo e finalidade do tratado, devendo ainda aplicálo de boafé; de fato, se o Brasil concordou isentar a remuneração dos sócios (dividendos), por isso qualquer tentativa espúria de unilateralmente fugir das disposições do tratado, seja pela mudança de nome ou qualificação do objeto da tributação pela lei brasileira, seja através de uma interpretação que conduza a um resultado diverso daquele pretendido pelo tratado, representa uma violação de suas disposições por parte deste Estado Contratante (Brasil) e deve ser prontamente rechaçada por esses julgadores em prol da boafé e lealdade em que se baseiam as relações internacionais; a pretendida tributação dos lucros da controlada estrangeira, antes da distribuição dos lucros sob a forma de dividendos (que são a real remuneração do sócio) é uma burla às disposições do tratado com a Áustria, pois o Brasil se comprometeu a jamais tributar tais valores, sejam enquanto lucros não distribuídos (art. 7º), seja na própria disponibilização para o sócio (art. 23), levando a um resultado contrário àquele que a Convenção objetivava; logo, a interpretação da decisão recorrida de que não são aplicáveis as disposições do tratado com a Áustria ao caso em exame é equivocada, pois conduz à total ineficácia do tratado e a um resultado contrário daquele pretendido, devendo, portanto, serem cancelados integralmente os lançamentos do IRPJ e da CSLL sobre os lucros de BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH; APLICAÇÃO DO TRATADO COM A ÁUSTRIA À CSLL. os lucros em causa foram também submetidos à tributação pela CSLL, com fundamento no art. 21 da Medida Provisória nº 2.15835/01, segundo o qual: [...]; Fl. 908DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 24 23 ocorre que artigo 2, número 2 do tratado celebrado com a Áustria dispõe que "a Convenção também será aplicável aos impostos futuros de natureza idêntica ou análoga que venham a acrescer aos impostos atuais ou a substituílos"; ora, o tratado com a Áustria foi celebrado em 24 de maio de 1975, portanto, antes da instituição da CSLL pela Lei nº 7.689/88, pelo que devem ser automaticamente aplicáveis à CSLL as suas disposições; os tratados contra a dupla tributação aplicamse, em princípio, aos tributos que revestem natureza substancial de tributos sobre a renda e/ou capital, independentemente da sua denominação (nomen iuris), da pessoa de direito público que é seu titular ou do método adotado para a sua cobrança, alcançando inclusive os tributos que forem posteriormente introduzidos, seja em substituição, seja em adição, àqueles já existentes à data da sua celebração; esta regra, constante do art. 2º, §1º, da Convenção Modelo da OCDE, encontrase reproduzida no art. 2º, §2º do Tratado com a Áustria; e, assim sendo, pode afirmarse que as convenções celebradas pelo Brasil são aplicáveis à contribuição social sobre o lucro, instituída pela Lei nº 7.689/88. É que, na verdade, ela é, na sua substância, um adicional ao imposto de renda, distinguindose apenas pela sua destinação, vinculada à finalidade específica da seguridade social. Ora, a natureza dos tributos deve identificarse no fato gerador e na base de cálculo (substancialmente idênticos aos do imposto de renda propriamente dito) e não na sua denominação ou destino, como esclarece o art. 4º do Código Tributário Nacional; a intenção do Estado brasileiro de aplicação dos tratados contra a dupla tributação à CSLL bem se revela, por exemplo, nas seguintes convenções que expressamente a aludem. [...]; tudo isso foi confirmado com a edição da Lei nº 13.202/15, cujo art. 11 dispõe expressamente que os tratados celebrados pelo Brasil para evitar a dupla tributação alcançam a CSLL: [...]; frisese que se trata de lei interpretativa, aplicandose portanto aos fatos geradores pretéritos, ex vi do art. 106, I, do CTN: [...]; assim, todas as considerações atrás desenvolvidas a respeito da inaplicabilidade da pretendida tributação ex vi dos artigos 7º e 23 do tratado com a Áustria, em matéria de IRPJ são igualmente aplicáveis à CSLL, sendo, por conseguinte, indevidas as exigências formuladas a esse título; DO PEDIDO. ante o exposto, requer a RECORRENTE sejam acolhidas as razões deste recurso para que seja aplicado o entendimento firmado nos Acórdãos paradigmas, determinandose o cancelamento integral das exigências fiscais em matéria de imposto de renda da pessoa jurídica e de contribuição social sobre o lucro líquido e o consequente arquivamento do processo administrativo instaurado. Fl. 909DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 25 24 Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da contribuinte, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 07/02/2018, deu seguimento ao recurso, fundamentando essa decisão na seguinte análise sobre a divergência suscitada: Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos, evidenciase que a Recorrente logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, como a seguir demonstrado (destaques do original transcrito): “Impossibilidade de tributação dos lucros/dividendos em virtude da aplicação do tratado internacional” [...] Com relação a essa matéria, ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois, em situações fáticas semelhantes e à luz das mesmas normas jurídicas, chegouse a conclusões distintas. Enquanto a decisão recorrida entendeu que os arts. 7 e 23 das Convenções sobre Dupla Tributação não impedem a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 (inexiste ofensa aos artigos 7 ou 23 do Acordo BrasilÁustria, pela aplicação da norma brasileira para fins de incidência sobre os lucros auferidos pela empresa sediada no Brasil), o primeiro acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 10195.802, de 2006) decidiu, de modo diametralmente oposto, que os arts. 7 e 23 das Convenções sobre Dupla Tributação impedem a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 (tendo em vista o art. 7º da Convenção, não pode haver tributação no Brasil dos lucros auferidos por intermédio da Jalua [empresa espanhola], enquanto não disponibilizados e não caberá a tributação, em face do que dispõe o parágrafo 4 do Art. 23 [da Convenção]). Já no referente ao segundo acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 110100.365, de 2010), não ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, por inexistir divergência de entendimento passível de uniformização. Tanto na decisão recorrida, quanto no acórdão paradigma apontado (Acórdão nº 110100.365, de 2010), chegouse à mesma conclusão, de que o art. 23 das Convenções sobre Dupla Tributação não impede a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001: inexiste ofensa aos artigos [...] 23 do Acordo BrasilÁustria, pela aplicação da norma brasileira para fins de incidência sobre os lucros auferidos pela empresa sediada no Brasil (acórdão recorrido), ou seja, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 estabelece tributação sobre dividendos percebidos por beneficiários situados no país mediante ficção de disponibilização dos resultados auferidos por intermédio de coligadas ou controladas no exterior (acórdão paradigma). Por tais razões, neste juízo de cognição sumária, concluise pela caracterização da divergência de interpretação suscitada. Pelo exposto, do exame dos pressupostos de admissibilidade, PROPONHO seja ADMITIDO o Recurso Especial interposto. Fl. 910DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 26 25 Em 28/02/2018, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que deu seguimento ao recurso especial da contribuinte. Nos termos do art. 23, §§ 8º e 9º, do Decreto nº 70.235/72, a PGFN seria considerada intimada ao término do prazo de trinta dias contados da data acima referida, mas antes disso, em 15/03/2018, o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: DOS FUNDAMENTOS PARA A MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS BRASILEIRO. antes de analisar especificamente os argumentos da recorrente, cabe tecer alguns comentários sobre a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, a fim de determinar se o citado dispositivo é ou não compatível com o Tratado BrasilÁustria; DA INTERPRETAÇÃO E DA QUALIFICAÇÃO DE LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE CONTROLADAS OU COLIGADAS. considerando a existência de Tratado para evitar a dupla tributação da renda, firmado entre BrasilÁustria, o primeiro passo é examinar as normas do referido acordo internacional. Com efeito, devese buscar inicialmente os conceitos trazidos pelos tratados, tendo em vista a sua finalidade específica de regulamentar situações nas quais se verifique a possibilidade de múltipla incidência de tributos sobre o mesmo fato. A utilização do direito interno de cada um dos países contratantes fica reservada às hipóteses em que a convenção remete a ele, ou quando não se encontram os termos na própria Convenção. Nesse contexto, importante examinar os dispositivos do Tratado BrasilÁustria que tratam da tributação de lucros: Tratado BrasilÁustria Artigo 7° Lucros das Empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. a norma acima transcrita, claramente, limitase a definir qual o país poderá tributar de lucros das empresas. Essa é justamente a essência Acordo internacional: fixar a competência tributária quando se verifica a possibilidade de dupla ou múltipla tributação ou isenção da mesma renda. Por essa razão, o conteúdo das normas dos tratados para evitar a dupla tributação, geralmente, está relacionado à delimitação de critérios de competência tributária, às regras para diminuir ou eliminar os efeitos da dupla tributação, entre outros; diante disso, analisando o artigo 7º do Tratado BrasilÁustria, a única conclusão que se pode extrair é que os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado. Entretanto, o mencionado dispositivo não esgota a disciplina da tributação dos lucros submetidos ao poder de tributar de dois ou mais Estados. Isso porque falta um conceito essencial para se estabelecer a relação jurídicotributária, qual seja: explicitar o que pode ser considerado lucro das empresas residentes em cada país. Ora, sem esta definição, Fl. 911DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 27 26 de nada adiantam os critérios de delimitação de competência do artigo 7º, tendo em vista que ainda é preciso esclarecer o conceito do elemento material do fato gerador do tributo; seguindo a linha de raciocínio no sentido de se buscar primeiro no Tratado as definições dos conceitos, voltase a atenção para o artigo 3º, que apresenta as definições gerais: Tratado BrasilÁustria Artigo 3º Definições Gerais 1. Na presente Convenção, a não ser que o contexto imponha interpretação diferente: (...) 2. Para a aplicação da presente Convenção por um Estado Contratante, qualquer expressão que não se encontre de outro modo definida terá o significado que lhe é atribuído pela legislação desse Estado Contratante relativa aos impostos que são objetos da Convenção, a não ser que o contexto imponha interpretação diferente. inicialmente, constatase que o art. 3º dos tratados não trazem o conceito de lucro. Por sua vez, em nenhum outro artigo da Convenção BrasilÁustria foi definido o que seria lucro, para fins de incidência do imposto sobre a renda. Nessa perspectiva, importante notar que o parágrafo 2º do art. 3º prevê uma regra residual, qual seja: deve ser observada a legislação interna do Estado contratante quando não estiverem presentes, no texto do Tratado, a definição de algum termo ou expressão; percebese, portanto, que a definição do que sejam os “lucros de uma empresa de um Estado Contratante” (no caso, o Brasil) deve ser buscada no ordenamento jurídico brasileiro. Esse entendimento está em consonância com a regra de interpretação prevista no próprio Tratado BrasilÁustria. Nesse ponto, vale lembrar que para chegar a essa conclusão seguiuse a metodologia considerada pela doutrina como a mais adequada, a saber: investigar primeiro se o conceito foi trazido pelo Acordo internacional e, não havendo especificação naquela fonte, partese para o direito interno dos países; partindo dessa premissa, o próximo passo é examinar a legislação brasileira sobre a tributação de lucros auferidos no exterior. Mais precisamente, cumpre conferir o conteúdo do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, haja vista ser a norma que fundamentou o lançamento do crédito tributário. Considerando, ainda, que o citado dispositivo remete ao art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, tornase imprescindível analisar as duas normas em conjunto. Assim, vale a pena transcrevêlas abaixo: [...]; o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, dispõe que o lucro das empresas residentes no Brasil será composto pelos resultados auferidos no exterior. Significa dizer que, ao determinar a adição dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, a norma explicita que os rendimentos produzidos no exterior integrarão o lucro real das pessoas jurídicas brasileiras. Tratase da consagração do princípio da universalidade ou da tributação em bases universais, previsto no inciso I do § 2º do art. 153 da Constituição Federal de 1988; por sua vez, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, também contempla regra de definição do elemento material do fato gerador do IRPJ e da CSLL, expresso no seguinte trecho: “determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Fl. 912DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 28 27 Provisória”. Além disso, o dispositivo ainda prevê o elemento temporal do fato gerador, ou seja, o momento em que se consideram disponibilizados os lucros para as controladoras ou coligadas brasileiras. A novidade trazida pelo art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, foi estabelecer que a tributação dos lucros das controladoras e coligadas situadas no Brasil, auferidos por intermédio de suas controladas ou coligadas no exterior, seguiria o regime de competência. O fundamento para essa inovação, é bom ressaltar, encontrase no § 2º do art. 43 do CTN, que autorizou o legislador a estabelecer o momento em que ocorrerá a disponibilização dos rendimentos oriundos do exterior. Desse modo, é possível afirmar que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, apenas complementa o regime de tributação em bases universais, para as pessoas jurídicas residentes no Brasil, inaugurado pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Nessa perspectiva, relevante notar que os dois dispositivos apresentam o mesmo conceito para lucro real, no sentido de que a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL levará em conta os rendimentos auferidos no exterior; assentados esses pontos, cabe agora retornar para a análise da tributação dos lucros auferidos no exterior sob a ótica do Tratado firmado entre BrasilÁustria; as normas brasileiras não extrapolaram os limites do referido Tratado internacional, uma vez que definiram o que seria o lucro da pessoa jurídica situada no Brasil – termo não especificado na Convenção. Por sua vez, também não se verifica incompatibilidade entre o disposto em normas brasileiras e nas normas da Áustria. Isso porque o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, apresenta preceitos que correspondem ao âmbito de competência do Brasil – ou seja, define o que deve ser entendido como lucro das empresas brasileiras e o momento em que será possível haver incidência do IR e da CSLL sobre estes lucros. Dessa maneira, resta evidente que a Fiscalização fundamentou seu trabalho no conceito de lucro fornecido pela legislação brasileira. Com efeito, a autoridade administrativa responsável pelo lançamento, tendo como parâmetro de interpretação o direito interno, constatou a existência de valores que se subsumiriam à hipótese que autoriza a tributação pelo IRPJ e pela CSLL; o principal argumento utilizado pela recorrente, para tentar afastar a tributação no Brasil, diz respeito ao critério de competência definido no art. 7º. Basicamente, alegase que as autoridades brasileiras estariam – com base no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 – tributando os lucros das controladas ou coligadas situadas no exterior, e que essa postura violaria o art. 7º das Convenções. Entretanto, tais afirmações não condizem com a realidade; primeiramente, conforme demonstrado acima, o objeto da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, não é o lucro de empresa estrangeira, mas os lucros da sociedade controladora sediada no Brasil. Significa dizer que o enfoque da legislação nacional foi delimitar o conceito de lucro real, incluindo na base de cálculo do IRPJ e da CSLL os lucros auferidos no exterior por intermédio de controladas ou coligadas. Implica dizer que os valores disponibilizados pelas controladas ou coligadas estrangeiras devem ser qualificados como lucros da controladora residente no Brasil – nos termos do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; como visto acima, compete ao aplicador do tratado buscar nas legislações de cada país contratante o significado dos termos não definidos nos tratados. A r. decisão de primeira instância respeitou tal regra, ao dar ao termo “lucro de empresa residente” um significado que está em conformidade com o ordenamento jurídico brasileiro. Isso porque Fl. 913DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 29 28 entendeu, acertadamente, que a lei brasileira estaria incidindo sobre lucros de empresa residente no Brasil, o que, evidentemente, consiste no escopo da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Portanto, se o art. 7º do tratado dispõe que os “lucros de empresa serão tributados apenas no país de residência”, a lei brasileira não contraria o art. 7º dos tratados. Ao contrário, no caso, o lucro de empresa residente no Brasil está sendo tributado no Brasil, o que implica dizer que o art. 7º está sendo observado e respeitado pela legislação pátria; CLASSIFICAÇÃO DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001, COMO NORMA CFC. ultrapassadas as primeiras considerações acerca da aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, frente aos Tratado firmados pelo Brasil para evitar a dupla tributação, cabe analisar o tema sob outro enfoque. A partir de agora, passa a ser debatida a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, para que fique demonstrado que o citado dispositivo consiste em norma voltada para a disciplina das CFCs. Ademais, é preciso que fique claro o verdadeiro sentido da norma contida no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, para evitar desvirtuamentos em sua aplicação – o que provocaria esvaziamento de sua finalidade; no Termo de Verificação Fiscal, a autoridade lançadora procurou delinear a atual sistemática brasileira no âmbito da tributação de lucros auferidos no exterior. Para isso, trouxe a evolução histórica da legislação sobre o assunto, merecendo destaque, primeiramente, o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. O mencionado dispositivo legal introduziu no ordenamento jurídico o regime de tributação universal da renda das pessoas jurídicas residentes no país, provocando uma mudança de paradigma no modelo de tributação do IRPJ e da CSLL – que antes era orientado pelo critério da territorialidade; o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, deu continuidade à mudança de paradigma iniciada com o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Esse aspecto é facilmente perceptível no próprio texto do caput do art. 74, que ao fazer menção à “determinação da base cálculo do IRPJ e da CSLL” remete para o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995; é possível afirmar, com tranquilidade, que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, visava igualmente submeter as pessoas jurídicas residentes no Brasil ao critério da universalidade da tributação da renda; feitas essas considerações introdutórias, passase às técnicas hermenêuticas que permitem qualificar o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, como norma CFC. A primeira a ser utilizada é a interpretação gramatical, efetivada mediante a simples leitura do texto normativo e a identificação do significado linguístico das palavras que o compõe. Nessa perspectiva, constatase que o dispositivo sob análise disciplina os elementos que devem compor a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, o que é confirmado pelo seguinte trecho: “Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL”. Além disso, é preciso levar em conta a remissão feita ao art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, tendo esse dispositivo fixado que: “Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas”. Por fim, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, traz um marco temporal para determinar o momento em que se entende disponibilizados, para a controladora ou coligada brasileira, os lucros auferidos no exterior por intermédio de sua controlada ou coligada. Isso é o que se extrai desta parte do Fl. 914DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 30 29 texto normativo: “os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento”; diante disso, apegandose apenas à literalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, fica evidente que o parâmetro utilizado para compor a base de cálculo do IRPJ e da CSLL são os lucros obtidos por intermédio das controladas e coligadas no exterior e o momento da disponibilização destes lucros para a controladora ou coligada brasileira. Mais do que isso, já se poderia concluir que o dispositivo regulamenta a tributação da renda de pessoas jurídicas residentes no Brasil. Isso é precisamente o que justifica o termo Controlled Foreign Coorporation, vale dizer, as normas CFC buscam disciplinar a relação entre empresas controladas ou coligadas situadas no exterior e as suas controladoras ou coligadas residentes no país de origem da norma CFC, para fins de apurar os lucros passíveis de tributação auferidos por estas últimas. Dessa maneira, há que se reconhecer que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, reúne as características elementares de normas classificadas como CFC, uma vez que trata de empresas controladas ou coligadas no exterior e da disponibilização dos seus lucros para a controladora ou coligada brasileira; por seu turno, a interpretação histórica também configura ferramenta válida para definir o sentido de uma norma. Com efeito, esse método de investigação considera tanto a evolução histórica da legislação quanto as circunstâncias fáticas que motivaram ou contribuíram para a introdução de uma norma no mundo jurídico. Nessa perspectiva, cumpre salientar que, à época da edição do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, a atenção dos principais países do mundo estava voltada para as práticas de concorrência fiscal internacional prejudicial. Apesar da preocupação com o tema ser antiga, ela ganhou notoriedade com o relatório de 1998 da Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento – OCDE, intitulado Harmful Tax Competition – an Emerging Global Issue. A partir de então, notase que os Estados intensificaram a atuação voltada para diminuir ou eliminar as condutas consideradas prejudiciais no âmbito da tributação internacional; esse contexto permitiu o fortalecimento das teorias de transparência fiscal internacional e, consequentemente, a expansão das normas CFC – estas configurando medidas internas unilaterais que poderiam ser adotadas pelos países que se sentissem prejudicados pelas práticas de concorrência tributária danosa. O Brasil claramente encampou essa linha de atuação, conforme se verifica no art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995 – apesar de ser anterior ao movimento iniciado pela OCDE – e pelo art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Com efeito, ambas as normas tratam da tributação em bases universais e levam em conta o lucro produzido no exterior por empresas controladas ou coligadas. Implica dizer que o país seguiu uma tendência mundial, refletindo na legislação interna a técnica de controle das relações entre empresas controladoras e coligadas e suas respectivas controladas e coligadas, ou seja, adotou as normas CFC para fins de incidência tributária; oportuno ainda utilizar a interpretação finalística para determinar o conteúdo do art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Nesse ponto, conforme explicitado em tópico anterior desta peça, o objetivo do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, foi implementar a tributação universal da renda das pessoas jurídicas e, ao mesmo tempo, evitar o diferimento por tempo indeterminado da renda auferida por intermédio de controladas ou coligadas no exterior; Fl. 915DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 31 30 diante dessas informações, podese concluir que o mencionado dispositivo legal tinha por missão: a) concretizar a tributação em bases universais para as pessoas jurídicas, levando em conta a renda auferida por intermédio das suas controladas ou coligadas no exterior; b) impedir o diferimento indeterminado da tributação de lucros produzidos no exterior – prática que vinha sendo muito adotada por contribuintes para se beneficiar de sistemas tributários mais favoráveis e, ao mesmo tempo, escapar da tributação no Brasil; c) estabelecer a presunção absoluta quanto ao momento em que se realiza a disponibilização dos lucros auferidos no exterior por intermédio de controladas e coligadas; ora, não há como se negar a presença de características típicas de normas CFC no art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Com efeito, devese considerar que a finalidade da norma era combater a elisão fiscal, fator inegavelmente ligado ao conceito de norma CFC. Por outro lado, disciplinar a tributação de rendimentos auferidos no exterior por intermédio de empresas coligadas ou controladas e, ao mesmo tempo, impedir o diferimento da tributação são objetivos inerentes às normas CFC. Afinal, a norma permitirá ao Estado brasileiro trazer para o campo da incidência tributária os resultados obtidos por pessoas jurídicas residentes no país por meio de suas controladas e coligadas no exterior; partindo dessa premissa, convém rememorar que o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, apenas deu continuidade ao regime introduzido pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Assim, é possível concluir que a mesma lógica aplicada a este dispositivo deve ser estendida para aquele. Vale dizer, se o legislador trouxe o art. 74 da Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, para complementar o que havia iniciado com o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, é perfeitamente válido assumir que as duas normas possuem o mesmo objetivo, qual seja: efetivar a tributação em bases universais e coibir o diferimento indeterminado dos rendimentos produzidos no exterior por meio de controladas ou coligadas; nesse contexto, relevante destacar que o Ministro Ayres Britto firmou posicionamento no mesmo sentido da argumentação desenvolvida acima. Isso é o que se verifica em seu voto proferido no julgamento da ADI 2.588, que analisava a constitucionalidade justamente do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Confira se: E o certo é que se cuida de norma inserida no âmbito das chamadas “regras CFC”, sigla que significa, em inglês, controlled foreign corporation , ou, em tradução livre ‘sociedade estrangeira controlada’. Dandose que essas ‘CFC rules’ são instrumentos de tributação em bases universais (TBU), ou independentemente do território desse ou daquele Estado soberano. Vale dizer: pelo regime TBU (ou world wide income taxation), certos países adotam o princípio da universalidade na tributação da renda, em desfavor da tributação fundada no princípio da territorialidade. Com isso, onera: ou a totalidade dos rendimentos obtidos por seus nacionais, pouco importando o domicílio destes (critério da nacionalidade), ou a totalidade das rendas das pessoas residentes no País (critério da residência). Tudo devido à consideração de o princípio da territorialidade não mais se revelar eficaz para assegurar aos Estados soberanos proteção contra a fuga de capitais. Fuga, sobretudo, para os chamados paraísos fiscais. (...) Fl. 916DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 32 31 Nesse diapasão, averbo que não me impressionam as alegações de que tal sistemática de tributação atua como fator de inibição das nossas empresas no processo econ6omiofinanceiro de globalização. Não me impressionam essas alegação porque parte significativa dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, sobretudo os membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, adota alguma forma de mecanismo de tributação em bases universais – conforme pontuei linhas atrás – notadamente pela utilização de modalidades de ‘CFC rules’ Por ilustração, é o que se dá com os Estados Unidos da América (desde 1962), Inglaterra (1984), Alemanha (1972), Japão (1978), Nova Zelândia (1988), França (1980), Canadá (1976), Austrália (1990), Noruega (1992), Finlândia (1994), Espanha (1994), Portugal (1995), Dinamarca (1995), África do Sul (1997), Hungria (1997), México (1997), Argentina (1999), Itália (2000) e Israel (2000). não obstante todo o exposto acima, ainda persistem diversas críticas à qualificação do o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, como norma CFC; isso porque a OCDE teria indicado as condições que, segundo sua opinião, deveriam estar presentes para que um país adote normas CFC. Ocorre que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, não teria algumas dessas condições – daí as críticas impostas ao dispositivo e sua qualificação como norma CFC. A esse respeito, o autor João Francisco Bianco (Transparência fiscal internacional. São Paulo: Dialética, 2007. p. 2526) – tendo por referência documento elaborado pela própria OCDE – sintetiza as quatro condições elencadas pela entidade: Inicialmente, a CFC, para submeterse ao regime especial de tributação, deve ser considerada, pela legislação de residência de seus sócios, uma entidade tributária autônoma e independente. Isso porque vários países não consideram, por exemplo, as sociedades de pessoas como contribuinte de imposto separados de seus sócios, exigindo destes a tributação da renda auferida por aquelas, sob um outro tipo de regime de tributação que não o da CFC. O regime da CFC, portanto, aplicase apenas quando a entidade sediada no exterior for um contribuinte autônomo de imposto, de acordo com a legislação fiscal do país de residência de seus sócios. A segunda condição é que a CFC esteja submetida a uma influência preponderante dos sócios na condução de suas operações, caracterizada pelo controle societário. Normalmente o controle é estabelecido com a detenção pelo sócio de direitos de voto ou de participação no capital social em percentual superior a 50%. (...) A terceira condição é que a CFC esteja sediada em um país de baixa ou nenhuma tributação. Esse tipo de critério é chamado de método Fl. 917DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 33 32 jurisdicional, ou seja, é a partir da jurisdição do país de sede da CFC que irá ser determinada a aplicação ou não do regime de transparência. (...) A quarta condição para a caracterização da CFC referese ao tipo de rendimento auferido. Esse critério é chamado de método transacional, ou seja, é a partir do tipo de transação efetuada pela empresa no exterior – ou da natureza do rendimento auferido – que irá ser determinada a sua submissão ou não ao regime de transparência. o problema apontado por alguns, quando examinam o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é que ele teria sido amplo demais. A crítica à abrangência do dispositivo enfoca, mais precisamente, o fato de o legislador não ter limitado sua aplicação aos países com regime de tributação favorecida – método jurisdicional – e por não ter havido preocupação com a espécie de rendimento submetido ao regime CFC – método transacional; apesar de pertinentes as críticas, é preciso enfatizar que essa foi a escolha feita pelo Brasil ao adotar o seu regime CFC. Implica dizer que o legislador pátrio optou por não seguir integralmente as orientações da OCDE, o que é perfeitamente normal e válido. Vale lembrar que os trabalhos, orientações, relatórios e modelos elaborados pela OCDE não tem força cogente sobre nenhum país – nem mesmo para os seus membros. Portanto, o fato de o Brasil ter escolhido não incluir o método jurisdicional e o método transacional na legislação apenas indica uma opção de política fiscal. Contudo, isso não pode servir de fundamento para afirmar que não se pretendia instituir uma norma CFC por meio do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Nesse ponto, basta lembrar os elementos examinados acima – gramatical, histórico e finalístico –, para se concluir pela natureza CFC da norma inserida no referido art. 74; ademais, cumpre rebater uma crítica que constantemente é lançada contra a norma CFC brasileira, qual seja: não seguir o “padrão internacional”, uma vez que a maioria dos países, ao adotarem normas CFC, utilizam o método transacional e o jurisdicional como parâmetro. Em relação a esse aspecto, importante ressaltar que o fato de a norma brasileira ser diferente não retira a sua natureza de norma CFC. Primeiramente, cumpre frisar que o Brasil não está obrigado a seguir nenhum modelo – ainda mais da OCDE, que consiste em organização internacional da qual o Brasil não faz parte. Implica dizer que não existe nenhuma norma cogente, interna ou externa, que imponha ao Brasil a adoção de um modelo específico de legislação CFC; por seu turno, relevante ressaltar que a essência da norma CFC foi preservada no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, visto que estabeleceuse um regime específico para a tributação dos rendimentos auferidos por intermédio de controladas e coligadas situadas no exterior – de modo a concretizar a tributação universal da renda e impedir o diferimento por tempo indeterminado da tributação. Esse aspecto é que deve ser levado em consideração ao definir a natureza da norma CFC, e não a observância de modelos elaborados por organismos internacionais – ainda mais quando o Brasil não for integrante desta organização internacional. Nessa perspectiva, apenas para reforçar o argumento, cabe citar o exemplo das regras sobre preço de transferência adotadas pelos Brasil. A Lei nº 9.430, de 1996, ao instituir o regime de preço de transferência brasileiro, previu que o cálculo do preço parâmetro observaria a sistemática das margens fixas. Ocorre que essa metodologia é totalmente diferente da que é observada pela maioria dos países – notadamente, os países Fl. 918DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 34 33 membros da OCDE, que seguem o modelo elaborado pela referida organização internacional. Percebam, Srs. Conselheiros, que ninguém questiona a natureza das normas previstas nos art. 18 e 18A da Lei nº 9.430, de 1996, isto é, todos concordam que tratamse de regras sobre preço de transferência. Implica dizer que, mesmo o regime brasileiro de preço de transferência sendo distinto da maioria dos países, isso não serviu como justificativa para desqualificar as normas da Lei nº 9.430, de 1996. A mesma lógica deve ser aplicada, agora, à norma CFC brasileira: não obstante o legislador pátrio ter seguido caminho diferente dos demais países, isso não configura motivo legítimo para rechaçar a natureza de norma CFC do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; diante do exposto, parece não restarem dúvidas de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, detém a natureza de norma CFC; DA APLICABILIDADE DO ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001, FRENTE AO TRATADO PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO FIRMADO ENTRE O BRASIL E A ÁUSTRIA. NORMAS CFC E O ALCANCE DO ART. ART. 74 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835, DE 2001. o primeiro obstáculo à tese defendida pela contribuinte situase no próprio conceito de norma CFC. Com efeito, é da essência das denominadas normas CFC o tratamento das controladas ou coligadas situadas no exterior como pessoas jurídicas distintas da controladora ou coligada residente no país que edita a norma CFC. Dessa maneira, a norma CFC brasileira reconhece e respeita a existência jurídica individual de cada empresa – tanto da residente quanto da não residente no país que elabora a norma. Ora, seguindo a sua natureza de norma CFC, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é direcionado para a pessoa jurídica residente no Brasil, ou seja, ele busca a tributação dos rendimentos da empresa situada no país considerando sua participação nos lucros de sua controlada que se encontra no exterior. Portanto, não procede a alegação da recorrente de que a legislação brasileira teria determinado a tributação do lucro da controlada residente em Áustria; o segundo ponto que precisa ser esclarecido é que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, constitui apenas uma técnica de tributação. Significa dizer que o propósito dessa norma CFC não é desconsiderar a personalidade jurídica da controlada ou coligada situada no exterior, mas apenas incluir na apuração do tributo devido pela empresa residente no Brasil os resultados obtidos por intermédio da subsidiária estrangeira. Tanto é assim que o caput do referido art. 74 traz somente a definição do momento da disponibilização dos lucros auferidos no exterior para a controladora ou coligada no Brasil. A percepção dessa realidade é fundamental para entender o exato conteúdo da norma, qual seja: tratase de uma regra que permite fixar um marco para a disponibilização de lucros e, com isso, sua inclusão na apuração do IRPJ e da CSLL da controladora ou coligada residente no Brasil. Esse é o núcleo da norma e é a partir dele que devem ser extraídos os efeitos tributários; nesse contexto, convém ressaltar que a alegação de que estariam sendo tributados os lucros da empresa estrangeira (VX HOLDINGS GMBH) contrasta com o próprio comando do dispositivo ora analisado. Isso porque o objeto da norma são os lucros disponibilizados aos sócios, e estes não podem ser confundidos com os lucros da própria pessoa jurídica que auferiu os resultados no país estrangeiro. Assim, ao mencionar os lucros disponibilizados pelas controladas e coligadas situadas no exterior, o art. 74 da Medida Fl. 919DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 35 34 Provisória nº 2.15835, de 2001, referese à parcela que caberia aos sócios brasileiros do lucro apurado no exterior por suas subsidiárias; essa interpretação feita acima sobre o art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, é bom frisar, coadunase com todo o cenário delineado até aqui, a saber: a) a natureza CFC da norma, com sua peculiaridade intrínseca de reconhecer a personalidade jurídica distinta da controladora residente no país e da controlada situada no exterior; b) a sua finalidade de implementar a tributação universal da renda das pessoas jurídicas residentes no Brasil – o que corrobora a tese de que o objeto da norma é tributar o lucro do contribuinte residente no país, mesmo que para isso tenhase como parâmetro a sua participação nos resultados obtidos pelas suas controladas ou coligadas residentes no exterior; c) a noção de transparência fiscal e a utilização da norma como um instrumento para evitar o diferimento indeterminado da tributação das rendas auferidas no exterior por intermédio de empresas controladas ou coligadas – daí o porquê da estipulação do momento em que se consideram disponibilizados os lucros para a empresa residente no Brasil. Diante disso, podese afirmar que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, nunca teve por objetivo tributar o lucro de pessoas jurídicas residentes em outros países; nesse ponto, importante destacar que, dentre as teorias que fundamentam a transparência fiscal internacional, existe aquela que considera possível o legislador estabelecer uma presunção absoluta quanto ao momento de disponibilização dos lucros. Ora, essa foi justamente a técnica adotada na legislação brasileira, vale dizer, estipular um momento em que se considerem disponibilizados os lucros provenientes do exterior para os sócios residentes no Brasil. Com efeito, escolheuse a data da apuração do resultado no balanço da controlada ou coligada situada no estrangeiro como marco para a distribuição presumida dos lucros. Dessa maneira, quando o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, se reporta aos lucros disponibilizados pelas controladas e coligadas situadas no exterior, devese interpretálos como a parcela que caberia aos sócios brasileiros do lucro apurado no exterior por intermédio de suas subsidiárias; partindo dessa premissa, é possível interpretar sistematicamente a legislação tributária sobre o assunto, notadamente a Instrução Normativa SRF nº 213, de 2002 – que regulamentou o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Assim, vejamos o que diz o § 7º do art. 1º da citada IN, que geralmente é utilizado como argumento para afirmar que a legislação brasileira busca alcançar os lucros da empresa residente no exterior: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. [...] § 7º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. realmente, uma leitura apressada poderia conduzir à impressão de que o ato normativo acima transcrito determina a tributação do valor integral do lucro obtido pela Fl. 920DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 36 35 controlada ou coligada no exterior. No entanto, convém lembrar que as normas devem ser interpretadas conjuntamente às demais que compõem ordenamento jurídico. Nesse caso, a necessidade de uma visão sistemática é ainda mais flagrante. Primeiro, porque se trata de uma norma que retira seu fundamento de validade de outra, isto é, o art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002, surgiu para regulamentar a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Em segundo lugar, há que se levar em conta todas as peculiaridades que envolvem o referido art. 74, a fim de que a interpretação do ato infra legal – IN SRF nº 213, de 2002 – não destoe da própria “lei” que motivou a sua existência – Medida Provisória n° 2.15835, de 2001. Implica dizer que a interpretação do § 7° do art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002, precisa ser compatível com a norma CFC brasileira; nessa perspectiva, devese ter em mente que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, impõe a tributação do lucro disponibilizado pela controlada ou coligada residente no exterior, de modo que essa realidade era conhecida pela Administração Pública quando fora editado o § 7° do art. 1° da IN SRF nº 213, de 2002. Ora, basta lembrar que o projeto para a Medida Provisória n° 2.15835, de 2001, saiu do próprio Ministério da Fazenda. Assim, não faz sentido que, no momento de regulamentar o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 – por meio da IN SRF nº 213, de 2002 –, a Administração Tributária tenha se esquecido do conteúdo da norma que ela mesma havia proposto no projeto daquela Medida Provisória; feitas essas considerações, resta desvendar o significado da expressão “valores antes de descontado o tributo pago no país de origem”. Percebam, Srs. Conselheiros, que para fins da incidência do IRPJ e da CSLL, a legislação brasileira criou uma presunção absoluta de que os lucros foram disponibilizados aos sócios brasileiros na data de sua apuração no balanço da controlada ou coligada residente no exterior. Implica dizer que, no momento em que for apurado o lucro no exterior, ele será oferecido à tributação no Brasil – na proporção da participação da empresa brasileira em suas controladas e coligadas estrangeiras. Dessa maneira, para aplicar a técnica de tributação prevista no art. 74 da Medida Provisória nº 2.158 35, de 2001, nem se deve cogitar sobre a existência ou não de tributação no país de residência da controlada ou coligada estrangeira. Com efeito, se realmente houve pagamento de tributo no exterior, isso será relevante apenas em um segundo momento, vale dizer: os impostos pagos no exterior somente terão importância para fins de compensação com o tributo a ser pago no Brasil. E é por essa razão que o texto da IN SRF nº 213, de 2002, faz a ressalva quanto ao tributo pago no exterior, de modo a preservar a lógica da norma prevista no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; esse também foi o entendimento firmado no voto da Conselheira Edeli, no Acórdão n° 110100.365, proferido pela 1ª Turma da 1ª Câmara da 1ª Sessão do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF. Confirase: Somente se poderia cogitar da tributação integral do lucro apurado pela controlada se a incidência se verificasse sobre o próprio lucro. Contudo, por tudo até aqui exposto, o IRPJ e a CSLL incidem sobre os lucros fictamente disponibilizados, ficção esta que opera quanto ao momento da disponibilização, e não surte efeitos sobre a materialidade do fato gerador, a qual permanece limitada ao montante passível de distribuição, ou seja, ao valor líquido após dedução dos tributos incidentes sobre o lucro no país de origem. Fl. 921DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 37 36 Possivelmente quando o ato normativo tratou do cômputo de lucros, rendimentos e ganhos de capital pelo valor antes de descontado o tributo pago no país de origem, cogitavase da incidência de tributo sobre o próprio rendimento a ser oferecido à tributação no Brasil, cuja compensação, inclusive, foi expressamente trazida no art. 14 da mesma Instrução Normativa. Certamente os tributos incidentes sobre os lucros da controlada não estão contemplados nesta previsão de dedução, e assim também não integram o montante a ser oferecido à tributação na forma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/2001. diante disso, fica evidente que a técnica de tributação prevista na IN SRF nº 213, de 2002, apenas reflete a sistemática brasileira de tributação em bases universais, que concede, aos residentes no Brasil, crédito referente ao tributo pago no exterior. Essa é a justificativa para os valores a serem contabilizados na controladora ou coligada situada no Brasil corresponderem ao montante dos lucros auferidos no exterior antes do pagamento de impostos. Com isso, permitese a tributação da parcela dos lucros que efetivamente pertencem à controladora ou coligada brasileira, atribuindose aos impostos pagos no exterior apenas a finalidade de créditos compensáveis com os tributos devido no Brasil. Portanto, não há qualquer fundamento para se afirmar que o lucro objeto de tributação pertence à pessoa jurídica residente no exterior; O ENTENDIMENTO DA OCDE SOBRE A EFICÁCIA DAS NORMAS CFC EM FACE DOS TRATADOS PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. com base nas premissas firmadas no tópico anterior, passase a afastar os argumentos no sentido de que a exigência do IRPJ e da CSLL viola o art. 7º do Tratado firmado entre o Brasil e a Áustria para evitar a dupla tributação sobre a renda; o entendimento da contribuinte é no sentido de que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, determinaria a tributação dos lucros da própria controlada ou coligada residente no exterior. Segundo a recorrente, a Fiscalização teria desrespeitado a competência exclusiva da Áustria para tributar os lucros auferidos pelas pessoas jurídicas residentes naquele país; com o devido respeito à recorrente, os argumentos trazidos no decorrer desta peça tornam insubsistentes as suas alegações. Inicialmente, cumpre salientar que o auto de infração realmente tem por objeto os lucros da empresa brasileira – MARSELHA HOLDINGS LTDA. –, e não de sua controlada no exterior – VX HOLDINGS GMBH. Ora, restou demonstrado que a natureza do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é de norma CFC. Nesse ponto, convém mais uma vez frisar que é da essência da norma CFC brasileira o reconhecimento da personalidade jurídica distinta da controladora ou coligada e das suas controladas e coligadas residentes no exterior. Dessa maneira, não existe a alegada desconsideração da personalidade jurídica das empresas situadas no exterior, para fins de tributação. Com efeito, o intuito na norma brasileira é definir o momento da disponibilização dos lucros para as pessoas jurídicas residentes no país. Significa dizer que a base material da tributação são os lucros dos sócios residentes no Brasil – apurados a partir dos lucros provenientes de suas controladas ou coligadas no exterior; importante esclarecer que a utilização de normas CFC não viola o propósito dos Tratados para evitar dupla tributação. Mais especificamente, não há qualquer incompatibilidade entre o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e o art. 7 do Fl. 922DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 38 37 tratado firmado entre o Brasil e a Áustria. Sobre esse tema, é imprescindível conferir o entendimento da OCDE, uma vez que o tratado entre o Brasil e a Áustria, para evitar a dupla tributação sobre a renda, seguiu a estrutura da convenção Modelo elaborada pela OCDE: 23. A utilização de ‘companhias de base’ [‘base companies’ em inglês] também pode ser tratada através de normas sobre sociedades controladas no exterior [‘Controlled Foreign Corporations/CFCs’ em inglês]. Um número significativo de países membros e não membros adotou tal legislação. Enquanto o design desse tipo de legislação varia consideravelmente de país para país, um traço comum dessas regras, agora internacionalmente reconhecidas como um instrumento legítimo para proteger a base tributária local, é que elas resultam na tributação, por um Estado Contratante, de seus residentes relativamente à renda proveniente de sua participação em certas entidades estrangeiras. Argumentouse algumas vezes, com base numa determinada interpretação de dispositivos da Convenção tais como o Art. 7º, § 1º, e o Art. 10, § 5º, que esse traço comum da legislação sobre sociedades controladas no exterior estaria em conflito com tais dispositivos. Pelos motivos expostos nos parágrafos 14 dos “Comentários” ao Art. 7º e 37 dos ‘Comentários’ ao Art. 10, tal interpretação não está de acordo com o texto dos dispositivos. A interpretação também não se sustenta quando os dispositivos são lidos em seu contexto. Portanto, enquanto alguns países consideraram útil esclarecer expressamente, em suas convenções, que a legislação das sociedades controladas no exterior não está em conflito com a Convenção, tal esclarecimento não é necessário. Reconhecese que a legislação das sociedades controladas no exterior estruturada dessa forma não é contrária aos dispositivos da Convenção. (destaques não constam do original) percebese, portanto, que a própria OCDE reconhece que o modelo das regras CFC varia consideravelmente entre os países, ou seja, não há um “padrão único” de legislação CFC. O traço comum desse tipo de regra, conforme registrado nos comentários, é a tributação dos residentes de um Estado Contratante em relação à renda proveniente de sua participação em empresas estrangeiras – característica esta presente no art. 74 da MP nº 2.158 35/2001. Dessa forma, as regras CFC não estão em conflito com os tratados porque está claro, no âmbito internacional, que cada país pode dispor livremente sobre a base de cálculo do imposto de renda devido pelo residente que investe no exterior, desde que impeça a dupla tributação. Aliás, podese dizer que essa é a regra fundamental para fins de interpretação dos tratados para evitar a dupla tributação, de acordo com a conclusão que está evidenciada no parágrafo 14 dos comentários ao Art. VII da Convenção Modelo da OCDE (tradução livre): 14. O propósito do § 1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus próprios residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontrados em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa do outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros Fl. 923DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 39 38 (ver também § 23 dos “Comentários” ao art. 1º e §§ 37 a 39 dos “Comentários” ao art. 10). (destaques não constam do original) diante disso, temse que o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, é autêntica norma CFC e está em perfeita harmonia com o art. 7 do Tratado Brasil Áustria. Isso porque aquele dispositivo apenas estabeleceu que os lucros auferidos pelas controladas no exterior consideramse disponibilizados para a controladora brasileira na data do balanço em que tiverem sido apurados. Como os lucros da sociedade estrangeira são imputados à empresa brasileira, não há descumprimento ao art. 7 do Tratado – afinal, continuará havendo tributação dos lucros disponibilizados à controladora residente no Brasil. Assim, resta comprovada a inaplicabilidade do art. 7 da Convenção Brasil–Áustria ao caso dos presentes autos; por fim, cumpre ressaltar que o Supremo Tribunal Federal já firmou seu posicionamento em relação à constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, no julgamento da ADI 2.588. Naquela oportunidade, a suprema corte afirmou que o dispositivo somente não poderia ser aplicável para coligadas residente em país sem tributação favorecida. Por seu turno, o STF voltou a se pronunciar sobre o tema após ter concluído o julgamento da ADI 2.588, tendo ratificado o entendimento proferido no citado precedente e avançado em alguns pontos, notadamente no que diz respeito à constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, quando o caso envolver controladas residentes fora de “paraíso fiscal”. Tratase do julgamento de dois recursos extraordinários, pelo plenário do STF, conforme noticiado no Informativo do STF nº 701: IR e CSLL: disponibilidade de lucros de controlada ou coligada no exterior para controladora ou coligada no Brasil O Plenário concluiu julgamento de recursos extraordinários em que discutida a constitucionalidade do art. 74 e parágrafo único da Medida Provisória 2.15835/2001, que estabelece que os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento, bem como que os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31.12.2001 serão considerados disponibilizados em 31.12.2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. A repercussão geral da questão constitucional fora reconhecida no RE 611586/PR (DJe de 2.5.2012). No entanto, em virtude da identidade de temas, o RE 541090/SC fora apregoado em conjunto — v. Informativo 700. No tocante ao RE 611586/PR, por maioria, negouse provimento ao recurso, consoante o que decidido na ADI 2588/DF. Consignouse que a empresa recorrente seria controlada e situada em “paraíso fiscal”, de modo que a legislação impugnada seria aplicável ao caso. Vencido o Min. Marco Aurélio, que provia o recurso, na linha do voto proferido na ADI 2588/DF. Por outro lado, no que se refere ao RE 541090/SC, interposto pela União, por votação majoritária, proveuse parcialmente o recurso, para considerar ilegítima a tributação retroativa, haja vista a inaplicabilidade do parágrafo único do art. 74 da Medida Provisória 2.15835/2001, à luz do que decidido na ADI 2588/DF. Registrouse cuidar de empresas controladas fora de Fl. 924DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 40 39 “paraíso fiscal”. O Min. Teori Zavascki reajustou o voto anteriormente proferido, no tocante à retroatividade tributária. Vencidos os Ministros Joaquim Barbosa, relator e Presidente, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello, que desproviam o recurso. Por fim, deliberouse, por maioria, que os autos retornassem à origem para que houvesse pronunciamento acerca de eventual vedação de bitributação baseada em tratados internacionais. Considerouse que a temática, embora suscitada, não teria sido debatida na origem, que decidira apenas quanto à inconstitucionalidade de lei, questão prejudicial em relação aos tratados. Vencido o Min. Dias Toffoli, que, ao enfrentar a matéria, considerava não existir bitributação na hipótese. O Min. Marco Aurélio, tendo em vista haver desprovido o recurso, não se manifestou a respeito. [destaques não constam do original] RE 611586/PR, rel. Min. Joaquim Barbosa. RE 541090/SC, rel. orig. Min. Joaquim Barbosa, red. p/ o acórdão Min. Teori Zavascki, 10.4.2013. diante disso, resta evidente a constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e a sua compatibilidade com os Tratados firmados pelo Brasil para evitar a dupla tributação da renda. A única ressalva encontrase no entendimento estabelecido pelo STF, no julgamento da ADI 2.588, e diz respeito às coligadas residentes em países sem tributação favorecida. Contudo, essa última hipótese não se aplica ao caso dos autos; DO MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. a contribuinte sustenta, ainda, que os resultados auferidos por intermédio da controlada VX HOLDINGS, residente na Áustria, não poderiam ser utilizados para fins de apurar a base de cálculo do IRPJ e da CSLL da controladora brasileira. Segundo a recorrente, a Fiscalização teria incluído como lucro da MARSELHA HOLDING LTDA. os resultados de MEP registrados em decorrência do investimento detido na VX HOLDING. Assim, para a contribuinte, apenas seriam lucros tributáveis aqueles reconhecidos pela MARSELHA HOLDING LTDA, não poder ser considerados os resultados de MEP. A tese da recorrente, portanto, consiste em afirmar que os resultados provenientes do MEP, registrados pela MARSELHA HOLDING LTDA, não podem ter o mesmo tratamento dos lucros; no entanto, a contribuinte está equivocada quanto a aplicação do MEP; a legislação brasileira determina que as pessoas jurídicas que detenham investimentos relevantes em controladas ou coligadas estão obrigadas a avaliar esses investimentos por meio do MEP. Isso acontece em virtude da própria essência do MEP, vale dizer, consiste em uma técnica de avaliação do patrimônio que resulta na consolidação dos resultados de todo o grupo empresarial. Por essa razão, todas as pessoas jurídicas que integram o grupo empresarial são consideradas como uma única unidade econômica. Esse é o posicionamento de Bulhões Pedreira, para quem “as demonstrações financeiras consolidadas informam a posição financeira e os resultados de um grupo de pessoas jurídicas, como se fossem uma única entidade.”.18 Disso decorre que, para a correta aplicação do MEP, tanto os investimentos diretos quanto os indiretos devem ser refletidos na controladora do grupo. Trata se de uma consequência lógica da aplicação do MEP. Com efeito, somente será possível avaliar Fl. 925DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 41 40 o real valor do investimento detido pela controladora se forem considerados todos os resultados obtidos pela sua controlada. Implica dizer que a determinação do resultado do grupo econômico – que consiste justamente no objetivo da avaliação por meio do MEP – apenas será obtido quando considerados todos os lucros auferidos dentro da cadeia de pessoas jurídicas que compõem o grupo empresarial; nesse ponto, é preciso esclarecer outro equívoco incorrido pela recorrente, qual seja: acreditar que a consolidação dos resultados auferidos por controladas diretas e indiretas residentes no exterior deve ser feito pela controlada direta – no caso, a VX HOLDINGS GMBH. Conforme já explicitado acima, o MEP é uma imposição da legislação brasileira, que somente obriga a pessoa jurídica residente no Brasil a realizar sua escrituração contábil observando o MEP. Nessa linha os ensinamentos de Bulhões Pedreira (Imposto sobre a renda – pessoas jurídicas. v. I. Rio de Janeiro: Justec, 1979, pp. 521522), quando afirma que: 2. Determinação pela Investidora – A determinação do valor de patrimônio líquido do investimento é procedimento de escrituração da investidora. Consiste na reunião das informações e nos cálculos necessários para determinar o ajuste no valor de patrimônio líquido do investimento a ser procedido nos registros contábeis da investidora, e não implica nenhum lançamento na escrituração das coligadas ou controladas. Cabe à investidora obter as informações, proceder aos cálculos e lançar o ajuste na sua escrituração, sem que daí resulte modificação na escrituração da controlada ou coligada. portanto, cabe à controladora brasileira o trabalho de realizar a consolidação dos resultados do grupo empresarial, levando em conta os lucros obtidos tanto pelas controladas diretas quanto pelas indiretas. Implica dizer que, mesmo que a legislação da Áustria não exija que a VX HOLDINGS GMBH utilize o MEP, isso não afeta a obrigação da sua controladora residente no Brasil registrar e oferecer à tributação os resultados auferidos por intermédio das pessoas jurídicas controladas pela empresa situada em Áustria. Com efeito, essa é a consequência da aplicação do MEP, isto é, determinar o resultado auferido por todo o grupo empresarial, que deve ser vislumbrado como uma unidade econômica; por seu turno, cabe ressaltar que a Fiscalização nunca buscou alterar ou desrespeitar a legislação da Áustria, como tenta fazer parecer a recorrente. Percebam, Srs. Conselheiros, que em nenhum momento a autoridade fiscal questionou os valores declarados pela contribuinte a título de lucro da VX HOLDINGS GMBH ou de resultados de MEP. Caso tivessem sido impugnados esses valores, pela Administração Tributária brasileira, teria razão a contribuinte. Nesse ponto, relevante salientar que a apuração do lucro na controladora brasileira em nada altera a escrituração contábil e fiscal da controlada residente no exterior – e nem poderia, pois as atribuições das autoridades fazendárias brasileiras não possuem esse alcance; o procedimento adotado pela autoridade fiscal brasileira apenas cumpriu o que determina a legislação do Brasil, vale dizer: apurar o resultado da controladora residente no Brasil por meio da aplicação do MEP. Para isso, era necessário levar em conta todos os lucros auferidos dentro da cadeia de empresas controladas pela MARSELHA HOLDINGS LTDA. no exterior, inclusive as controladas indiretas – em consonância com os ensinamentos de Bulhões Pedreira, acima transcritos. Com efeito, a correta avaliação dos investimentos detidos pela MARSELHA HOLDINGS LTDA. no exterior somente é possível se todos os Fl. 926DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 42 41 resultados do grupo empresarial forem devidamente trazidos para os balanços da controladora residente no Brasil. Tratase da essência do MEP; feitas essas considerações, passase a enfrentar os argumentos relativos à “tributação do MEP”, contra a qual se insurge a recorrente; em primeiro lugar, é preciso esclarecer que não está sendo tributado o MEP, como afirma a contribuinte. O objeto de tributação do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15875, de 2001, é o mesmo: o resultado obtido por pessoas jurídicas situadas no Brasil, por intermédio de suas controladas ou coligadas residentes no exterior. Nesse cenário, o MEP aparece como um instrumento para determinar esse resultado, e não o objeto da tributação em si. Na linha do entendimento de Bulhões Pedreira, o MEP serve para refletir os resultados das controladas no balanço da controladora, notadamente, o lucro obtido pela controlada e que caberia à controladora na sua condição de acionista. Aliás, convém destacar que, em diversas ocasiões, o resultado relativo ao MEP corresponde integralmente aos lucros auferidos pela controlada e que são imediatamente refletidos na controladora, como ajuste do valor do investimento. Daí porque é possível que o valor do MEP seja considerado em sua totalidade para a apuração do lucro da controladora, isto é, não por ser o objeto da tributação, mas por representar os lucros auferidos pela controladora em virtude de sua participação na controlada; por outro lado, cabe rebater o argumento da contribuinte acerca do tratamento neutro do MEP e sua compatibilidade com o regime de tributação previsto no art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e no art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001. Para isso, importante conferir o que dispõe o mencionado art. 25: [...]; seguindo o raciocínio explicitado acima, o MEP é o instrumento indicado pela legislação brasileira para aferir o resultado econômico obtido pelo grupo empresarial, via reflexo no balanço da controladora dos resultados obtidos por meio da controlada. Contudo, isso não quer dizer que o MEP será o objeto da tributação – conforme já explicitado anteriormente. Isso porque estão incluídos no MEP valores que não correspondem ao lucro, como o resultado das variações cambiais, que não devem ser utilizados na apuração do lucro tributável. E é por essa razão que a norma acima transcrita trouxe o tratamento da tributação dos lucros no § 2º e o tratamento do MEP no § 6º; a presença de outras riquezas distintas do lucro, nos resultados apurados via MEP, não retira a sua aptidão para servir de parâmetro no momento de definir o lucro tributável da controladora. Com efeito, para atender ao disposto no inciso II do § 2º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, é preciso que a controladora adicione os lucros auferidos por intermédio da sua controlada “na proporção de sua participação acionária”. Nessa perspectiva, cumpre ressaltar que os lucros auferidos por intermédio da controlada estão contidos nos valores reconhecidos por meio do MEP, razão pela qual devese extrair dos resultados do MEP a parcela referente aos lucros e adicionála ao lucro real da controladora. Ao proceder dessa forma, o contribuinte não estará oferecendo à tributação o MEP, mas tão somente adicionando ao seu lucro a parcela que lhe cabe dos lucros auferidos por intermédio de sua controlada residente no exterior, na proporção de sua participação acionária na referida controlada. Diante disso, mostrase improcedente qualquer argumentação no sentido de que a legislação brasileira estaria determinando a tributação do MEP; restaria a explicação para o comando inserido no § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. Alguns argumentam que este dispositivo serviria de fundamento para afastar a Fl. 927DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 43 42 utilização do MEP como parâmetro na tributação dos lucros auferidos por intermédio de controladas ou coligadas residentes no exterior. Segundo essa corrente, o mencionado § 6º do art. 25 teria assegurado a neutralidade tributária que a legislação anterior à Lei nº 9.249, de 1995, conferia aos resultados de MEP. Entretanto, essa interpretação do § 6º somente pode prevalecer se forem esquecidos os demais dispositivos do art. 25 – o que não faz nenhum sentido; novamente, importante salientar que o MEP é instrumento para a aferição do lucro tributável da controladora, mas não o objeto da tributação. Nessa linha de raciocínio, temse que a controladora apenas adicionará ao seu lucro real a parcela do MEP que corresponder ao lucro obtido em virtude de sua participação na controlada situada no exterior – devendo ser desconsiderado qualquer valor que não corresponda ao lucro. E o que acontece com os resultados de MEP que não correspondem ao lucro? Ora, permanecem tendo o tratamento previsto nas regras vigentes antes da instituição das normas de tributação em bases universais para as pessoas jurídicas – vale dizer, o art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, e o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001; daí porque o § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, prevê que o tratamento do MEP continuará sendo o mesmo “previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º”. Com efeito, ao se apurar o lucro real, os valores correspondentes ao MEP não afetarão o resultado tributável, dandose o seguinte tratamento: o resultado positivo de MEP é excluído do lucro real, enquanto o resultado negativo é adicionado. Isso atende à primeira parte do citado § 6º do art. 25. Por outro lado, a parcela do MEP correspondente ao lucro auferido por intermédio da controlada ou coligada residente no exterior deverá ser adicionada ao lucro real, conforme determinam os §§ 2º e 3º do art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995. É justamente este procedimento que justifica a parte final do § 6º do art. 25, ou seja, a expressão “sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º”. Por fim, complementando essa sistemática introduzida pelo art. 25 da Lei nº 9.249, de 1995, o art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, previu que os lucros seriam considerados disponibilizados da data em que apurados os balanços das controladas ou coligada no exterior. Dessa maneira, todos os lucros mensurados via MEP – sejam provenientes de controladas diretas ou indiretas – devem ser refletidos no balanço da controladora residente no Brasil e oferecidos à tributação. Nesse ponto, importante lembrar que o STF já se manifestou sobre a constitucionalidade do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, e firmou posicionamento no sentido da validade tributação nos moldes previstos neste dispositivo. O resultado desse julgamento foi relevante, posto que assentou duas premissas, quais sejam: (a) o reconhecimento dos resultados por meio da utilização do MEP implica disponibilidade da renda para a controladora brasileira; e (b) havendo disponibilidade, os lucros são de titularidade da pessoa jurídica residente no Brasil. Portanto, não cabe qualquer argumento sobre a ausência de disponibilidade de lucros apurados por meio da aplicação do MEP, visto que o STF apreciou esse tema ao julgar a ADI 2.588 e confirmou a constitucionalidade da tributação; DOS PEDIDOS ante o exposto, requer a União seja negado provimento ao recurso especial manejado pelo contribuinte, mantendose o acórdão proferido pela e. Turma a quo. É o relatório. Fl. 928DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 44 43 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço do recurso, pois este preenche os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto lançamento para a constituição de crédito tributário a título de IRPJ e CSLL sobre lucros auferidos no exterior pela contribuinte autuada, relativamente ao anocalendário de 2009. O Termo de Verificação Fiscal informa que a estrutura societária da fiscalizada no exterior no ano calendário de 2009 era a seguinte: MARSELHA HOLDINGS LTDA empresa brasileira autuada | | Bradesco Overseas Salsburg Service GMBH 100% (atual razão social da VX Holdings) Áustria | | Bradesco Overseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoal LDA (Atual Razão social da Rodeo Drive Serviços e Marketing LDA) 100,00% Funchal | | Imagra Overseas LTD 100% Bahamas A autuação teve como base o valor que constava do Balanço Patrimonial e do demonstrativo de Resultado da controlada na Áustria (115.082.144,20 Euros, correspondente a R$ 288.548.912,62, menos o valor disponibilizado, R$ 5.089,42, que consta da ficha 09 da DIPJ do ano calendário de 2009). Fl. 929DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 45 44 Ainda de acordo com o Termo de Verificação Fiscal, todo o lucro líquido auferido no exterior em 2009 foi gerado na controlada em Funchal, no valor de 120.445.596,29 Euros, que correspondia a R$ 301.996.865,95. O lançamento foi mantido na primeira instância e também na segunda instância administrativa (acórdão ora recorrido). E nesta fase de recurso especial, a contribuinte insurgese mais uma vez contra o referido lançamento. Apesar do longo relatório, e das várias abordagens que ele apresenta, a controvérsia instaurada nos presentes autos está vinculada a uma questão fundamental, que consiste em examinar se a tributação de lucros no exterior viola ou não os tratados para evitar a dupla tributação da renda. Esta 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) examinou recentemente vários processos que traziam essa mesma questão, alguns casos envolvendo tratados firmados com outros países, mas com idêntico conteúdo. Transcrevo aqui as conclusões do Acórdão nº 9101002.332, de 04/05/2016, orientadas pelo voto do conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que as adoto: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. DISPONIBILIZAÇÃO. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda da pessoa jurídica (IRPJ) e da CSLL os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior são considerados disponibilizados para a controladora no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados. Lançamento procedente. LUCROS OBTIDOS POR CONTROLADA NO EXTERIOR. CONVENÇÃO BRASILPAÍSES BAIXOS DESTINADA A EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO E PREVENIR A EVASÃO FISCAL EM MATÉRIA DE IMPOSTO SOBRE A RENDA. ART. 74 DA MP Nº 2.158 35/2001. NÃO OFENSA. Não há incompatibilidade entre a Convenção BrasilHolanda (Países Baixos) e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.15835/ 2001, não sendo caso de aplicação do art. 98 do CTN, por inexistência de conflito. COMPENSAÇÃO DE PREJUÍZOS FISCAIS DE CONTROLADA NO EXTERIOR COM OS SEUS PRÓPRIOS PREJUÍZOS. Os prejuízos apurados por uma controlada ou coligada, no exterior, podem ser compensados com lucros dessa mesma controlada ou coligada. Recurso Especial do Contribuinte Negado. [...] Voto Vencedor Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, Redator Designado. [...] Fl. 930DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 46 45 CONCLUSÃO Desta forma, com base nas razões acima podese concluir de forma incontornável o seguinte: 1ª matéria A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001 é norma que visa evitar o diferimento eterno do pagamento do IRPJ decorrente dos ganhos de atividades no estrangeiro das empresas brasileiras, enquadrandose no conceito de legislação de controladas no exterior (Controlled Foreign Corporations – CFC). O Supremo Tribunal Federal entendeu constitucional a cobrança do IRPJ nessa modalidade, inferindose, portanto, sua adequação ao que é preconizado pelo art. 43 do CTN, embora tenha concluído por haver restrições no caso das coligadas no exterior – matéria estranha ao presente processo. A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001 não incide sobre o lucro da entidade estrangeira sobre o controle da entidade brasileira, mas sobre o seu reflexo no patrimônio da entidade brasileira, auferível pelo MEP e, por conseguinte, não há que se cogitar de aplicação do art. 7º das convenções modelo da OCDE ou da ONU. A norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001, ainda que considerada como incidente sobre a distribuição presumida de dividendos, o que afastaria de pronto o art. 7º das convenções modelo da OCDE ou da ONU, afasta também a incidência imediata do art. 10 daquelas convenções visto que o art. 10 só se aplica aos dividendos efetivamente distribuídos – o que não é o caso. Como a Convenção de Dupla Tributação BrasilHolanda não traz norma específica relativa à situação prevista na norma contida no art. 74 da MP n. 2.15835/2001, e não há como fazer incidir no caso o art. 7º ou o art. 10 do referido Acordo, pelas razões já expostas, concluise que não há conflito entre a norma interna e a Convenção BrasilHolanda, sendo inapropriada qualquer alegação no sentido de violação do que dispõe o art. 98 do CTN (norma de resolução de conflitos) À vista dessas conclusões, com o devido respeito às posições contrárias, ficam afastados inelutavelmente os argumentos do recorrente e do voto do i. Relator, confirmandose as conclusões do Ac. recorrido, pelo que nego provimento ao recuso especial do contribuinte em relação ao IRPJ. Como já exposto, desnecessário discutir aqui se o tratado abrange também a CSLL, tendo em vista o que dispõe o art. 11 da Lei n. 13.202, de 8 de dezembro de 2015. Assim, embora se entenda que os tratados abrangem também a CSLL, no caso presente o que não se aplica é o Convenção BrasilHolanda, por conseguinte mantémse a decorrência do lançamento em relação à CSLL. Fl. 931DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 47 46 Transcrevo também trechos do voto proferido pelo conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101003.088, de 13/09/2017, que acolho como razões de decidir: [...] Voltando para o caso concreto, a matéria a ser analisada é se o Tratado BrasilLuxemburgo teria repercussão na materialidade prevista pelo art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001. A assunto já foi discutido em recentes julgamentos no presente Colegiado: Acórdão nº 9101002.589 ("caso EAGLE"), nº 9101002.751 (PETROBRÁS), nº 9101002.832 (INTERCEMENT), cujas razões para decidir adoto nos presentes autos. Transcrevo o art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. O aspecto material da norma trata dos lucros auferidos no exterior, por intermédio das controladas ou coligadas, em quantum proporcional à participação da controladora do Brasil sobre o investimento. Para operacionalizar a apuração dos lucros auferidos de controladas/coligadas (investidas) no Brasil, quanto no exterior, tomouse como base os resultados na contabilidade da investidora refletidos por meio do Método de Equivalência Patrimonial. Para investimentos no Brasil, a investidora contabiliza o resultado positivo da investida, proporcional à sua participação, e exclui o resultado na apuração do lucro real. Nesse caso, viabilizase a neutralidade porque, como o lucro auferido pela investida já foi tributado no Brasil, não cabe sua tributação no resultado da investidora. E principalmente porque a investida encontrase no Brasil, ou seja, os lucros auferidos pela investida são necessariamente oferecidos à tributação. Situação diferente ocorre quando o investimento tem sede no exterior. Nesse caso, a legislação brasileira previu, inicialmente, o mesmo tratamento em relação à contabilização do resultado positivo da investida: o lucro proporcional à sua participação é incluído no resultado da empresa brasileira, e excluído na apuração do lucro real. Contudo, dispôs uma etapa complementar: se os lucros forem auferidos de controladas e coligadas, cabe a adição no resultado tributável, na proporção de participação da investidora brasileira sobre o investimento, ao final de cada anocalendário. Partese da premissa de que os lucros são da investidora brasileira, e, por isso, a sua tributação não deve estar subordinada à política tributária adotada pelo país onde se encontra o investimento. Isso porque o país onde se encontra o investimento pode optar por tributar o lucro em bases tributáveis menores, e a controladora brasileira, Fl. 932DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 48 47 que detêm poder de decisão sobre a investida, pode optar em não receber os lucros auferidos. Tratase de situação em que a neutralidade que ocorre quando investidora e investida estão no Brasil é desvirtuada. Porque quando ambas estão no Brasil, a mesma alíquota é aplicada sobre o lucro da investida e o da investidora. Tributase o lucro de investida, e tal valor não é tributado pela investidora. Não há prejuízo no sistema. Por outro lado, se investida está em país de tributação menor, não há que se falar em neutralidade. Na realidade, operacionalizase um diferimento em tempo indeterminado da tributação. E, precisamente para se evitar tal diferimento, o art. 74 da norma em debate dispôs expressamente sobre aspecto temporal: o lucro presumese distribuído para a empresa brasileira (na condição de detentora das ações/quotas da investida), na proporção de sua participação, ao final do anocalendário. E a neutralidade, que se operacionaliza quando tanto investida quanto investidora estão no Brasil, também é tutelada ao se dispor quando a investida está no exterior. Vale transcrever o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. Como se pode observar, não se pode falar em bitributação. A neutralidade da tributação entre investida e investidora é operacionalizada por meio de outro mecanismo, mediante compensação do que a investida já recolheu aos cofres no exterior, e superase a questão do diferimento de tributação por tempo indeterminado. A tributação só se consuma se as alíquotas no exterior foram inferiores às praticadas no Brasil. Inclusive, é precisamente a situação tratada no caso concreto. Registrese que a autoridade autuante deduziu do lançamento fiscal, com correção, os valores pagos pela Contribuinte a título de imposto de renda na Luxemburgo. Por sua vez, precisamente sobre a perspectiva de que a materialidade trata dos lucros auferidos pela investidora brasileira, que não se aplica o art. 7º da Convenção BrasilLuxemburgo. Isso porque os lucros, apesar de auferidos pela empresa no exterior, pertencem, na medida da participação societária, ao seu investidor que se localiza no Brasil. Ou seja, a legislação brasileira diz respeito aos lucros auferidos pelo contribuinte, investidor, residente no Brasil. Por isso que entendo não haver reparos na interpretação conferida pela Receita Federal, por meio da Solução de Consulta Interna nº 18, da Cosit: As convenções internacionais para evitar dupla tributação que seguem o modelo da OCDE trazem uma regra de tributação exclusiva dos lucros disposta no Parágrafo 1 do Artigo 7, segundo a qual os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Fl. 933DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 49 48 Contratante por meio de um estabelecimento permanente ali situado. Se a empresa exercer suas atividades na forma indicada, seus lucros poderão ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis àquele estabelecimento permanente. Transcrevese a redação do citado parágrafo: “Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado, a não ser que a empresa exerça a sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento estável aí situado. Se a empresa exercer a sua atividade deste modo, os seus lucros podem ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem imputáveis a esse estabelecimento estável.” 26. Assim, para entender a compatibilidade entre os acordos celebrados pelo Brasil para evitar a dupla tributação que seguem o modelo da OCDE e a legislação sobre a tributação de lucros de controladas e coligadas no exterior, é importante destacar o Comentário da própria OCDE sobre o Parágrafo 1º do Artigo 7 da Convenção Modelo (tradução livre): “ 10.1 O propósito do §1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontradas em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa de outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros.” 27. Conforme exposto pela OCDE, não seriam os lucros da sociedade investida tributados pelo Estado de residência dos sócios, mas os lucros auferidos pelos próprios sócios, em que pese na apuração da base de cálculo tributável seja utilizado como referência o valor dos lucros auferidos pela sociedade sediada no outro Estado. Portanto, o parágrafo 1º não visa impedir o Estado de residência dos sócios de tributar a renda obtida por intermédio de sua participação em sociedades domiciliadas no exterior. 28. O art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, prevê a tributação da renda dos sócios brasileiros decorrente de sua participação em empresas domiciliadas no exterior. Ou seja, a norma interna incide em contribuinte brasileiro, não gerando qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros. 29. É certo que a função primordial dos tratados é promover, mediante a eliminação da dupla tributação, as trocas de bens e serviços e a movimentação de capitais e pessoas. Esse objetivo é igualmente alcançado uma vez que o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995, autoriza a compensação dos tributos pagos no exterior, na hipótese de reconhecimento de lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real. Portanto, a aplicação da norma interna Fl. 934DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 50 49 brasileira não acarreta a bitributação econômica dos lucros decorrentes de investimentos no exterior. 30. Além disso, é importante ressaltar que, segundo o Comitê de Assuntos Fiscais da OCDE, os acordos para evitar dupla tributação também têm por escopo a prevenção da elisão e evasão fiscal, já que os contribuintes poderiam ser tentados a abusar da legislação fiscal de um Estado, através da exploração das diferenças entre as várias legislações dos países ou jurisdições, de maneira a evitar a dupla não tributação. Transcrevese, por elucidativo, o parágrafo 7 dos Comentários da ConvençãoModelo: " 7. O objetivo principal das convenções para evitar a dupla tributação é promover, mediante a eliminação da dupla tributação internacional, o comércio internacional de bens e serviços, e a circulação de capitais e de pessoas. Também é objetivo das convenções evitar a fraude e evasão fiscal. 7.1 Os contribuintes podem ser tentados a abusar das leis tributárias do Estado, explorando as diferenças entre as legislações dos países ... " Assim, não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001, e as dispostas na Convenção BrasilLuxemburgo para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano calendário, havendo, nesse contexto, incidência do IRPJ e da CSLL. A lei brasileira, ao estabelecer a base de tributação do IRPJ e da CSLL para as empresas brasileiras, determinou que se computasse nessa base os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior. O que está em questão, portanto, é a tributação do lucro auferido por empresa brasileira no exterior e não o lucro de empresa do exterior. É oportuno novamente destacar o Comentário da própria OCDE sobre o Parágrafo 1º do Artigo 7 da Convenção Modelo (tradução livre): "[...]. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa de outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros.” Não há, desse modo, nenhuma incompatibilidade entre a legislação brasileira (voltada para os seus próprios residentes) e os tratados internacionais (aplicados às empresas não residentes). De qualquer forma, apesar de toda a controvérsia sobre as questões relativas à tributação de lucros no exterior e os alegados problemas de bitributação, é sempre importante lembrar que a legislação brasileira assegura à empresa brasileira que detém investimentos no exterior o direito de compensar o imposto pago no exterior, ficando, assim, eliminada qualquer chance de dupla tributação sobre a mesma renda/lucro. Em seu recurso, a contribuinte faz várias críticas à lei brasileira, no sentido de que ela incorreria em dupla tributação: "as verdadeiras normas CFC (controlled foreign companies provisions) são norma anti abuso na medida em que taxam apenas as rendas de natureza passiva e oriundas de território de baixa ou nula tributação"; "os lucros destas são formados substancialmente por rendas passivas; e/ou (ii) estão elas localizadas em territórios Fl. 935DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 51 50 de baixa tributação. Tal regime, contudo, jamais se aplica a controladas e coligadas domiciliadas em países que têm nível comparável de tributação", e "a lei brasileira, em matéria de sociedades controladas e coligadas no exterior, adotou um sistema que se afasta totalmente do tipo CFC, por não ter caráter excepcional nem finalidade antielisiva, uma vez que atinge, como regra geral, a totalidade do lucro das sociedades controladas ou coligadas no exterior, independentemente da natureza dos rendimentos que o integram e do nível de tributação do país ou território de seu domicílio". Ocorre que essa linha de argumentação da contribuinte é na verdade contraditória com sua situação específica. Conforme mencionado no início deste voto, e registrado desde o Termo de Verificação Fiscal, todo o lucro auferido no exterior em 2009, no montante de R$ 301.996.865,95, foi gerado na controlada em Funchal (Ilha da Madeira). Na verdade, uma pequena parte desse lucro corresponde ao resultado da controlada indireta Imagra, nas Bahamas. O resultado positivo da Imagra somou R$ 1.826.419,05, e foi incorporado no resultado de sua controladora (Bradesco Overseas Funchal). A decisão de primeira instância administrativa proferida nestes autos, Acórdão 1671.977 3ª Turma da DRJ/SP1, de 15/04/2016, fez a seguinte análise sobre essa situação: 42. A quase totalidade dos lucros consolidados na controlada austríaca, Bradesco Overseas Salsburg Service GMBH, foi gerada pelas atividades desenvolvidas pela investida domiciliada na Ilha Madeira, enquanto que a parte restante, significativamente menor, pela investida IMAGRA, residente nas Bahamas. [...] 47. Assim, embora a Impugnante, ao consolidar os lucros na controlada direta austríaca, tenha seguido o disposto no artigo 1º, artigo 6º, da IN SRF nº 213/02, fato confirmado pela Fiscalização, não há, no entender deste relator, que se falar em aplicar o Tratado do Brasil com a Áustria, já que não foi neste país onde ocorreram as atividades operacionais que geraram os lucros de que tratam os lançamentos tributários. 48. A Instrução Normativa SRF nº 188/2002, vigente à época dos fatos geradores, relaciona, em seu artigo 1º, Inciso XXX, a Ilha da Madeira, como sendo dependência de tributação favorecida: IN SRF nº 188/2002 Art. 1º Para todos os efeitos previstos nos dispositivos legais discriminados acima, consideramse países ou dependências que não tributam a renda ou que a tributam à alíquota inferior a 20% ou, ainda, cuja legislação interna oponha sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à sua titularidade as seguintes jurisdições: (...) XXX Ilha da Madeira; (...) Fl. 936DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 52 51 49. Cabe lembrar ainda que o tratado entre Brasil e Portugal reconhece a Zona Franca da Ilha da Madeira como sendo de tributação favorecida: 9. Com referência às Zonas Francas da Ilha da Madeira, da Ilha de Santa Maria e de Manaus, à SUDAM e à SUDENE Fica entendido que os benefícios desta Convenção não serão atribuídos a qualquer pessoa que tenha direito a benefícios fiscais relativos ao imposto sobre o rendimento de acordo com os dispositivos da legislação e de outras medidas relacionadas com as Zonas Francas da Ilha da Madeira, da Ilha de Santa Maria, de Manaus, a SUDAM e a SUDENE ou a benefícios similares àqueles concedidos, disponíveis ou tornados disponíveis segundo qualquer legislação ou outra medida adotada por qualquer Estado Contratante. As autoridades competentes dos Estados Contratantes notificarseão sobre qualquer legislação ou medida similar e consultarseão sobre a similaridade, ou não, de tais benefícios. 50. No tocante à controlada indireta IMAGRA, que auferiu parte pequena dos lucros de que cuidam os lançamentos tributários, ela está domiciliada nas Bahamas, país que também é considerado de tributação favorecida e com o qual o Brasil não assinou acordo para evitar a dupla tributação: IN SRF nº 188/2002 Art. 1º Para todos os efeitos previstos nos dispositivos legais discriminados acima, consideramse países ou dependências que não tributam a renda ou que a tributam à alíquota inferior a 20% ou, ainda, cuja legislação interna oponha sigilo relativo à composição societária de pessoas jurídicas ou à sua titularidade as seguintes jurisdições: (...) VI Comunidade das Bahamas; (...) 51. A corroborar com o entendimento acima exposto, observase que a Impugnante não traz aos autos imposto de renda pago no exterior, evidenciando que, se fosse acolhida a sua tese, restaria configurada a dupla não tributação, situação que os acordos para evitar a dupla tributação visam a coibir. O que se percebe é que a contribuinte, invocando tratado internacional para evitar dupla tributação, pretende ficar exonerada de tributo que nem foi pago no exterior. O que ela busca é a dupla não tributação, e os tratados internacionais não tem essa finalidade. Está bem claro que a tributação em pauta recaiu sobre lucros gerados em locais onde não há tributação da renda/lucro, locais que não estão abarcados pelo Tratado BrasilÁustria (Funchal/Ilha da Madeira e Bahamas). Não há que se alegar que o Tratado BrasilÁustria tem que ser aplicado porque a contribuinte consolidou os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria), independentemente de haver ou não pagamento de tributo no exterior. Isso configuraria um evidente uso indevido (abusivo) do tratado para evitar dupla tributação. Certamente, não é essa a finalidade desses tratados. Fl. 937DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 53 52 Correto, portanto, o posicionamento adotado pelo acórdão recorrido. Desse modo, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso especial da contribuinte. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 938DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 54 53 Declaração de Voto Conselheira Cristiane Silva Costa Com a devida vênia ao Ilustre Relator, por quem tenho profunda admiração, divirjo quando aos pontos tratados a seguir. O artigo 7º do Tratado BrasilÁustria (Decreto nº 78.107/1976) impede a tributação de lucros apurados pela sociedade residente na Áustria. É o teor do citado artigo 7º: ARTIGO 7 Lucros das empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 2. Quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado Contratante através de um estabelecimento permanente aí situado, serão atribuídos em cada Estado Contratante a esse estabelecimento permanente os lucros que obteria se constituísse uma empresa distinta e separada exercendo atividades idênticas ou similares, em condições idênticas ou similares, e transacionando com absoluta independência com a empresa de que é um estabelecimento permanente. 3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente é permitido deduzir as despesas que tiverem sido feitas para a consecução dos objetivos do estabelecimento permanente, incluindo as despesas de administração e os encargos gerais de direção assim realizados. 4. Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar mercadorias para a empresa. 5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos outros artigos da presente Fl. 939DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 55 54 Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas disposições deste Artigo. 6. O disposto nos parágrafos 1 a 5 também se aplica aos rendimentos recebidos pelo "Stille Gesellschafter" de uma "Stille Gesellschaft" da lei austríaca. Sobreleva considerar, ainda, que o Superior Tribunal de Justiça decidiu que os Tratados Internacionais prevalecem sobre as normas de direito interno, em razão de sua especialidade, nos termos do artigo 98, do Código Tributário Nacional, conforme acórdão cuja ementa é parcialmente transcrita a seguir: “(...) 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizarse com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boafé. Fl. 940DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 56 55 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicioná los ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boafé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.15835/2001, aderese a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP (Recurso Especial nº 1.325.709, 1ª Turma, DJe de 20/05/2014 grifamos) É importante ponderar que o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento referido, também reconheceu a ilegalidade do artigo 7º, §1º, da IN/SRF 213/2002, que trata do reflexo na contabilidade da investidora pelo Método de Equivalência Patrimonial. O artigo 7º, §1º da IN/SRF 213/2002 tem a seguinte redação: Art. 7º A contrapartida do ajuste do valor do investimento no exterior em filial, sucursal, controlada ou coligada, avaliado pelo método da equivalência patrimonial, conforme estabelece a legislação comercial e fiscal brasileira, deverá ser registrada para apuração do lucro contábil da pessoa jurídica no Brasil. § 1º Os valores relativos ao resultado positivo da equivalência patrimonial, não tributados no transcorrer do anocalendário, deverão ser considerados no balanço levantado em 31 de dezembro do anocalendário para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Nesse sentido, destaco trecho da íntegra do acórdão (Resp 1.325.709) a respeito da ilegalidade IN/SRF 213/2002: 63. Repitase que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. (...) 66. Nesse contexto, quanto à base de cálculo, como sustentado pela recorrente, o art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.15835/01) a qual objetivou regular. Fl. 941DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 57 56 67. Com efeito, analisandose a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.15835/01, constatase que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultados de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. Ressalvo que o acórdão referido não foi submetido à sistemática de recursos repetitivos (artigo 543C, do CPC/1973 e 1.036 a 1.041, do CPC/2015), não sendo obrigatória sua aplicação pelos Conselheiros do CARF (art. 62, §2º, RICARF/2015). De toda sorte, compartilho do entendimento daquela Corte Superior, pela impossibilidade de tributação dos lucros por força de Tratados Internacionais. Sobreleva considerar, ainda, que os lucros auferidos pelas controladas indiretas foram consolidados na controlada direta (Áustria), como se extrai do Termo de Verificação Fiscal: No quadro 2 – DA ESTRUTURA SOCIETÁRIA – vimos que a controladora brasileira possuía duas controladas diretas no exterior no ano calendário de 2009: na Áustria, a BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH, com 100,00% de participação A controlada direta da Áustria controla totalmente a empresa Bradesco Obverseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoa LDA, em Funchal. A controlada indireta IMAGRA, nas Bahamas, teve sua participação societária adquirida pela Bradesco Overseas Funchal – Consulting Services, Sociedade Unipessoal LDA em Março de 2009. Seu resultado positivo (...) foi incorporado por sua controladora, compondo o lucro dessa última. A controlada austríaca e de Funchal apresentaram lucro nos seus respectivos balanços patrimoniais e demonstrativos de resultados. Por suas demonstrações financeiras, podemos ver que todo o lucro líquido do exercício em questão foi gerado na controlada em Funchal (...). Como vimos anteriormente, a controlada direta BRADESCO OVERSEAS SALSBURG SERVICE GMBH, reconheceu esse resultado em seu Balanço Patrimonial, cumprindo o §6º da IN 213/2002 (...) Assim sendo, estamos aptos a determinar agora o Valor Tributável. Esse valor é aquele que deveria ter sido adicionado ao Lucro Líquido no Brasil para a determinação do Lucro Real da fiscalizada. O Valor é aquele já citado anteriormente e que consta do Balanço Patrimonial e do demonstrativo de Resultado da controlada na Austria. Exatamente porque consolidados os lucros na controlada direta, o Tratado BrasilÁustria também é aplicável aos lucros consolidados pelo auditor fiscal autuante. Até Fl. 942DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 58 57 porque a tributação – individualizada – das controladas indiretas implicaria em modificação do critério jurídico do lançamento. Pondero, ainda, que a orientação da Receita Federal do Brasil era pela necessária consolidação dos lucros das controladas indiretas na controlada direta, como se observa do artigo 1º §6º, da IN SRF 213/2002: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. § 1º Os lucros referidos neste artigo são os apurados por filiais e sucursais da pessoa jurídica domiciliada no Brasil e os decorrentes de participações societárias, inclusive em controladas e coligadas. § 2º Os rendimentos e ganhos de capital a que se refere este artigo são os auferidos no exterior diretamente pela pessoa jurídica domiciliada no Brasil. § 3º A pessoa jurídica domiciliada no Brasil que auferir lucros, rendimentos e ganhos de capital oriundos do exterior, objeto das normas desta Instrução Normativa, está obrigada ao regime de tributação com base no lucro real. § 4º Os lucros de que trata este artigo serão adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da pessoa jurídica no Brasil, integralmente, quando se tratar de filial ou sucursal, ou proporcionalmente à sua participação no capital social, quando se tratar de controlada ou coligada. § 5º Para efeito de tributação no Brasil, os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação dos valores, ainda que todas as entidades estejam localizadas em um mesmo país, sendo admitida a compensação de lucros e prejuízos conforme disposto no § 5º do art. 4º desta Instrução Normativa. § 6º Os resultados auferidos por intermédio de outra pessoa jurídica, na qual a filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente, serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil. § 7º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. Fl. 943DF CARF MF Processo nº 16561.720118/201446 Acórdão n.º 9101003.829 CSRFT1 Fl. 59 58 § 8º Os rendimentos e os ganhos de capital, decorrentes de aplicações ou operações efetuadas no exterior, integrarão os resultados da pessoa jurídica domiciliada no Brasil, e as perdas reconhecidas nesses resultados são indedutíveis e devem ser adicionadas para determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL. O §6º, acima colacionado, é bastante claro ao determinar que “os resultados auferidos de outra pessoa jurídica” (referindose à controlada indireta) “na qual a filial, sucursal controlada ou coligada, no exterior, mantenha qualquer tipo de participação societária, ainda que indiretamente” (referindose à controlada direta), “serão consolidados no balanço da filial, sucursal, controlada ou coligada” (novamente tratando da controlada direta) “para efeito de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL da beneficiária no Brasil”. Tratamento distinto recebiam as controladas diretas, conforme §5º acima reproduzido. Com efeito, “os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação de valores”. A interpretação que concilie os §5º e §6º há de se vislumbrar a clareza do tratamento das controladas diretas pelo §5º e controladas indiretas pelo §6º. O agente fiscal autuante, portanto, consolidou os lucros das controladas indiretas na controlada direta (localizada na Áustria) observando os ditames da IN SRF 213/2002, mas equivocouse ao desconsiderar o Tratado BrasilÁustria quanto à consolidação efetuada. Nesse contexto, voto por dar provimento ao recurso especial da contribuinte, para reforma do acórdão recorrido. (assinado digitalmente) Cristiane Silva Costa Fl. 944DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10850.905214/2012-69
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Nov 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011
CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA.
Não caracteriza cerceamento de defesa a emissão de despacho decisório eletrônico que traz o fundamento para a não homologação da compensação, em razão da inexistência de direito creditório.
PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA.
Em se tratando de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito aos créditos pleiteados.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-005.705
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente.
(assinado digitalmente)
Maysa de Sá Pittondo Deligne - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado).
Nome do relator: MAYSA DE SA PITTONDO DELIGNE
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR Recorrente FIDO CONSTRUTORA MONTAGENS INDUSTRIAIS, IMPORTACAO E EXPORTACAO LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011 CERCEAMENTO DE DEFESA. INEXISTÊNCIA. Não caracteriza cerceamento de defesa a emissão de despacho decisório eletrônico que traz o fundamento para a não homologação da compensação, em razão da inexistência de direito creditório. PER/DCOMP. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Em se tratando de compensação, o contribuinte possui o ônus de prova do seu direito aos créditos pleiteados. Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 90 52 14 /2 01 2- 69 Fl. 81DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Avila (suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, sendo substituída pelo Conselheiro Renato Vieira de Avila (suplente convocado). Relatório Tratase de Declaração de Compensação de crédito de COFINS Não Cumulativa, oriundo de pagamento indevido ou a maior realizado por meio de DARF recolhido em 23/09/2011 (período de apuração 31/08/2011, código de receita 5856), com débito da mesma natureza referente ao período de apuração de julho/2012, objeto da Declaração de Compensação (DCOMP) n.º 31764.20378.260912.1.3.046631 (efls. 26) Uma vez que o DARF informado já havia sido utilizado para a quitação do débito de COFINS, no mesmo valor, da competência de 31/08/2011, foi transmitido o despacho decisório eletrônico (efl. 7), com o seguinte teor: Inconformada, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada improcedente pelo acórdão ementado nos seguintes termos: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/08/2011 a 31/08/2011 PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. MOTIVAÇÃO. Válida a decisão que expressa a inexistência de direito creditório para compensação fundada na vinculação total do pagamento a débito declarado pelo próprio interessado. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. FUNDAMENTAÇÃO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Na medida em que o despacho decisório que não homologou a Fl. 82DF CARF MF Processo nº 10850.905214/201269 Acórdão n.º 3402005.705 S3C4T2 Fl. 82 3 compensação declarada teve como fundamento fático a verificação dos valores objeto de declaração pelo próprio sujeito passivo, não há falar em cerceamento de defesa. BASE DE CÁLCULO. CONCEITO DE FATURAMENTO. A base de cálculo das contribuições para o PIS e a COFINS é o valor do faturamento mensal, assim entendido o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil, consoante disposições das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido." (efl. 36) Intimada desta decisão pela via postal em 26/11/2013 (efl. 47), a empresa apresentou Recurso Voluntário em 16/12/2013 (efl. 49/63), alegando, em síntese: (i) preliminarmente, a nulidade do despacho decisório e da decisão recorrida por não analisarem a legitimidade do crédito de COFINS relativo à competência de agosto/2011. O despacho teria sido emitido pelo sistema de informática, sem identificar as razões para o não reconhecimento do crédito, com prejuizo ao contraditório e a ampla defesa; e (ii) a legitimidade do crédito pleiteado, vez que efetuada em conformidade com a disciplina normativa da IN RFB 900/2008. Indica, de forma geral, que "a Impugnante, ao calcular o quantum debeatur do COFINS, utilizouse de base de cálculo com valores que indevidamente a integravam, ou seja, de base de cálculo ampliada." (efl. 60). Pleiteia a produção de provas. Os autos foram direcionados a este Conselho após serem apensados ao processo n.º 10850.722580/201616, correspondente ao Auto de Infração para exigência de multa isolada por compensação indevida, incluído em pauta de julgamento nesta mesma oportunidade. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Maysa de Sá Pittondo Deligne O Recurso Voluntário é tempestivo e deve ser conhecido. Primeiramente, sustenta a Recorrente que teria ocorrido cerceamento ao seu direito de defesa, vez que não teriam sido esclarecidas as razões para as glosas dos créditos. Contudo, conforme se depreende do despacho decisório (efl. 7), cuja cópia foi reproduzida no relatório, as razões para a negativa do crédito são claras. O contribuinte pretendia o reconhecimento de pagamento indevido ou a maior de COFINS Não cumulativa relativa ao período de apuração de 31/08/2011 com fulcro no DARF recolhido no valor de R$ 47.366,12. Contudo, este valor recolhido foi integralmente utilizado para quitar o valor da COFINS não cumulativa devida no referido período (de, repitase, R$ 47.366,12), não remanescendo crédito passível de compensação. Fl. 83DF CARF MF 4 Ora, ao contrário do que aduz a Recorrente, desde o início do processo lhe foram disponibilizadas todas as informações quanto à glosa do crédito, não tendo sido apresentado qualquer documento ou informação que pudesse afastar esse fato. Assim, inexiste nos autos a nulidade ou o cerceamento ao direito de defesa suscitado pela Recorrente. Adentrando no mérito, observase que a Recorrente não trouxe nenhum elemento fático ou jurídico capaz de afastar a conclusão do despacho decisório. Ora, como já firmado por esta turma em distintas oportunidades, como no Acórdão n.º 3402004.763, de 25/10/2017, de minha relatoria, em se tratando de Declarações de ressarcimento e de compensação, o contribuinte figura como titular da pretensão e, como tal, possui o ônus de prova quanto ao fato constitutivo de seu direito. Em outras palavras, o sujeito passivo possui o encargo de comprovar, por meio de documentos hábeis e idôneos, a existência do direito creditório, demonstrando que o direito invocado existe. Assim, caberia ao sujeito passivo trazer aos autos os elementos aptos a comprovar a existência de direito creditório, capazes de demonstrar, de forma cabal, que a Fiscalização incorreu em erro ao não homologar a compensação pleiteada, em conformidade com os arts. 15 e 16 do Decreto nº 70.235/19721. Com efeito, o ônus probatório nos processos de compensação é do postulante ao crédito, tendo este o dever de apresentar todos os elementos necessários à prova de seu direito, no entendimento reiterado desse Conselho. A título de exemplo: "Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 31/07/2009 a 30/09/2009 VERDADE MATERIAL. INVESTIGAÇÃO. COLABORAÇÃO. A verdade material é composta pelo dever de investigação da Administração somado ao dever de colaboração por parte do particular, unidos na finalidade de propiciar a aproximação da atividade formalizadora com a realidade dos acontecimentos. PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO/RESSARCIMENTO. ÔNUS PROBATÓRIO. DILIGÊNCIA/PERÍCIA. Nos processos derivados de pedidos de compensação/ressarcimento, a comprovação do direito creditório incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes. Não se presta a diligência, ou perícia, a suprir deficiência probatória, seja do contribuinte ou do fisco. (...)" (Processo n.º 11516.721501/201443. Sessão 23/02/2016. Relator Rosaldo Trevisan. Acórdão n.º 3401003.096 grifei) Atentandose para o presente caso, não se vislumbra qualquer fundamento fático ou jurídico trazido pela Recorrente capaz de alterar a conclusão em torno do direito ao crédito alcançada no despacho decisório e mantida pela decisão recorrida. Com efeito, sequer foram acostados aos autos a cópia da DCTF referente à competência de agosto/2011 ou qualquer outro documento fiscal ou contábil que pudesse demonstrar que o valor da COFINS Não cumulativa devida em 31/08/2011 não alcançava o montante de R$ 47.366,12, como indicado pela fiscalização no despacho. 1 “Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. Art. 16. A impugnação mencionará: (...) III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir;" Fl. 84DF CARF MF Processo nº 10850.905214/201269 Acórdão n.º 3402005.705 S3C4T2 Fl. 83 5 Sua defesa apenas afirma, de forma geral e sem qualquer fundamento fático ou jurídico, que o crédito estaria respaldado em discussões em torno da impossibilidade de expansão do conceito de receita bruta para a COFINS, discussão essa, tradicionalmente, travada para as contribuições cumulativas (da Lei n.º 9.718/98), e não para as não cumulativas como é o caso dos autos (da Lei n.º 10.833/2003). Desta forma, inexiste qualquer documento ou alegação jurídica concreta nos presentes autos suscetível a alterar a conclusão alcançada no despacho decisório pela não homologação das compensações, que deve ser mantida. Nesse sentido, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Maysa de Sá Pittondo Deligne. Fl. 85DF CARF MF
score : 1.0
