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6515850 #
Numero do processo: 11020.721490/2014-73
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 23 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Thu Oct 06 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/02/2009 a 28/02/2013 MATÉRIA IMPUGNADA E NÃO APRECIADA NO JULGAMENTO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. ANULAÇÃO DA DECISÃO. NECESSIDADE DE NOVO JULGAMENTO. Comprovado que existiu matéria impugnada que não foi objeto de manifestação no julgamento de primeira instância, deve-se anular o julgamento para que a autoridade a quo realize novo julgamento, apreciando todas as matérias que foram objeto da impugnação. Recurso Voluntário Provido em Parte
Numero da decisão: 3201-002.264
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso voluntário para anular a decisão de primeira instância para realização de um novo julgamento. Winderley Morais Pereira - Presidente Substituto e Relator. Participaram do presente julgamento, os Conselheiros: Mércia Helena Trajano Damorim, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, José Luiz Feistauer de Oliveira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Cassio Schappo e Winderley Morais Pereira.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA

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PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     2   Relatório    Por  bem  descrever  os  fatos  adoto,  com  as  devidas  adições,  o  relatório  da  primeira instância que passo a transcrever.    Trata­se  de  Auto  de  Infração  lavrado  contra  o  contribuinte  acima qualificado (fls.14467 e 14470/14475 e Demonstrativos de  fls.14476/14479,  Demonstrativo  de  Apuração  do  IPI  –  reconstituição  da  escrita  fiscal  e  diferenças  a  cobrar  de  fls.14480/14485  e Demonstrativo  de multa  de  juros  de mora  –  IPI de fls.14487/14488 e enquadramento legal discriminado à fl.  14488),  através  do  qual  foi  constituído  o  crédito  tributário  referente  ao  Imposto  sobre  Produtos  Industrializados  ­  IPI  no  valor  de  R$1.839.681,30,  acrescido  da  multa  de  ofício  no  percentual  de  225%  e  dos  juros  de  mora,  totalizando  R$6.564.427,64, em razão de ter sido verificado que:     Item  001  –  Créditos  Indevidos­Crédito  básico  indevido:  estabelecimento  industrial  ou  equiparado  deixou  de  recolher  imposto em decorrência da escrituração e utilização de crédito  indevido  conforme  demonstrado  no  relatório  fiscal,  no  período  compreendido  entre  28/02/2009  e  28/02/2013,  constando  do  enquadramento legal as infrações aos dispositivos mencionados  de fls.14471/14474 dos Regulamentos do IPI­ RIPI/2002 e 2010;    Item 002 – Créditos indevidos­Crédito indevido por devolução  ou  retorno  de  produto:  o  estabelecimento  industrial  ou  equiparado  deixou  de  recolher  imposto  em  decorrência  da  utilização indevida de créditos relativos à devolução de produtos  sem comprovação do  seu  efetivo  ingresso  no  estabelecimento  e  sem a descrição/identificação do produto recebido em devolução  conforme  demonstrado  em  relatório  fiscal  anexo,  no  período  compreendido entre 31/07/2011 e 31/12/2013, por  infração aos  dispositivos  contidos  no  enquadramento  legal  citado  às  fls.14475.     Lavrou o Termo de Responsabilidade Solidária de Direito para  os  administradores  da  sociedade:  Luis  Carlos  Postal,  CPF  498.608.870­04  e  José  Pasqualini,  CPF  328.331.050­53,  por  infração ao art.124, inciso II, da Lei nº5.172, de 1966 (fl.14469 e  14523/15526).   Através  da  Planilha  de  fls.14489/14494  e  14495/14497  foi  demonstrada  a  reconstituição  de  escrita  fiscal  de  IPI  e  demonstrativo dos saldos da escrita fiscal do IPI.   No Relatório Fiscal em anexo às fls.14509/14522, a fiscalização  informa  que  após  auditoria  realizada  no  documentário  fiscal  e  contábil  restaram  não  provadas  a  origem  e  a  legitimidade  dos  créditos de IPI destacado nas notas fiscais de entradas emitidas  pelo sujeito passivo com destaque apenas do IPI, e IPI destacado  nas  devoluções  de  mercadorias  sem  a  identificação  e  comprovação  da  origem  e  da  efetividade  das  operações.  Tais  fatos constituem infração a legislação tributária e o imposto que  Fl. 14953DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.953          3 deixou de ser declarado e recolhido foi objeto de lançamento de  ofício  conforme  demonstrado  neste  relatório  e  nos  anexos  do  Auto de Infração de exigência do crédito de IPI formalizado no  presente processo administrativo.   Consta ainda do relatório que, a partir do acesso a documentos  apreendidos por ocasião das buscas e apreensões determinadas  pelo Juiz Mauro Caum Gonçalves, do juízo da 2ª Vara Criminal  do  Foro Central  da Comarca  de  Porto  Alegre/RS,  verificou­se  que o valor do imposto a recolher pela empresa ora autuada era  determinado  em  parceria  com  a  empresa  de  consultoria,  Economia  ­  Consultoria  Tributária  Ltda.  –  CNPJ  nº  05.240.669/0001­74, e os honorários cobrados pela consultoria  correspondiam a um percentual de 20,0% sobre os tributos que a  empresa deixava de recolher pela inserção de créditos indevidos.   A empresa, para reduzir o valor do imposto a recolher (IPI), em  cada período de apuração, registrava em sua escrituração fiscal  e  contábil  um crédito de  IPI  inexistente mediante a emissão de  notas  fiscais  com  informações  falsas  (Cópias de DANFE’s,  por  amostragem,  em  anexo  às  folhas  nº.  9755/9787),  tendo  por  adquirente e fornecedor a mesma pessoa, a fiscalizada. Conclui­ se que os dados dessas notas fiscais são  todos  falsos, conforme  relação  de  notas  fiscais  de  entradas,  emitidas  pelo  sujeito  passivo  com  IPI  destacado  indevidamente  e  descontado  do  IPI  devido  pelas  saídas  de  produtos  tributados  que  anexa  às  fls.  14498/14501).   A  fiscalização  descreve  no  relatório  que  foi  verificada  outra  prática  delituosa  tendente  a  reduzir  o  montante  do  tributo  devido: a emissão de notas fiscais de devolução de mercadorias  com  destaque  do  IPI,  do  PIS  e  da  COFINS  sem  ter  sido  comprovado  o  efetivo  retorno  da  mercadoria  comercializada,  sendo que o emitente da nota fiscal e o remetente da mercadoria  é o mesmo: a empresa fiscalizada.     Foram  lavrados  os Termos  de  Sujeição Passiva  Solidária  para  os  sócios  administradores  pelos  débitos  apurados  objeto  deste  lançamento  de  ofício  com  aplicação  da  multa  qualificada  de  150%, com base no art. 135, III do Código Tributário Nacional  (CTN)  majorada  em  50%  por  não  atender  as  intimações  reintimações,  passando  de  150%  para  225%,  tendo  sido  providenciada  ainda,  por  dever  de  ofício,  a  Representação  Fiscal para Fins Penais (processo 11020­722.089/2014­51), nos  termos do Decreto nº 2.730/98 para as providências cabíveis.   O  contribuinte  foi  cientificado  da  autuação  em  27/08/2014,  fl.14530  e  os  sócios,  relativamente  aos  Termos  de  Sujeição  Passiva, às  fls.1443614538,  tendo apresentado sua  impugnação  ao lançamento em 26/09/2014 (fls.14542/14585), alegando:     a  autoridade  fiscal  lavrou  o  auto  de  infração  que,  resumidamente,  aponta  a  ocorrência  de  duas  situações  que  teriam  beneficiado,  de  forma  ilegal,  a  empresa  contribuinte  na  tomada de créditos de IPI, quais sejam: emissão de notas fiscais  próprias  com  destaque  do  IPI  e  a  emissão  de  notas  fiscais  próprias  relativas  à  devolução  de  mercadorias,  também  com  destaque de IPI;   Fl. 14954DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     4   com  relação  à  primeira,  jamais  agiu  de  má­fé  pois  estava  certa de que a operação estava respaldada na legislação vigente,  conforme informações prestadas pela assessoria contratada cuja  razão  social  é  Economia  ­  Consultoria  Tributária  Ltda,  de  propriedade do sr. Luis Adriano Vargas Buchor;     com  relação  a  segunda  situação,  não  merece  guarida  as  alegações da autoridade fiscal visto que o referido procedimento  está respaldado da legislação vigente;     nulidade  do  auto  de  infração,  cerceamento  do  direito  de  defesa,  princípio  do  contraditório  e  da  ampla  defesa  –  a  autoridade  fiscal  deixou  de  analisar  importantes  e  relevantes  documentos  apresentados  pela  empresa, mas  deixou  de  relatar  tal fato no Relatório Fiscal do Auto de Infração relativo ao IPI.  Contudo fez constar no Relatório Fiscal do Auto de Infração n°  11020­721.494/2014­51,  relativo  ao  PIS  e  à  COFINS,  cujo  processo administrativo de fiscalização é o mesmo que embasa o  auto  de  infração  da  presente  impugnação,  que  deixou  de  examinar  os  pendrives  recebidos  02/07/2014  (doc.  fls.  9491/9509), porque estes estavam corrompidos;    os referidos pendrives continham livros razão da empresa e a  relação  detalhada  de  todas  as  notas  fiscais  de  devolução  que  embasaram  o  creditamento  do  IPI  sobre  cancelamento  de  vendas,  mas  a  empresa  nunca  foi  intimada  sobre  a  impossibilidade  de  leitura  parcial  do  pendrive,  que  por  conseguinte,  inviabilizou  a  análise  da  documentação  apresentada;     diante  disso,  impõe­se  a  nulidade  do  presente  auto  de  infração,  uma  vez  que  a  empresa  apresentou  em  todas  as  ocasiões a documentação solicitada que se entende não ter sido  analisada,  conforme  afirmações  do  próprio  auditor  fiscal  no  Termo de fiscalização;    a nulidade pelo cerceamento de defesa e da inobservância dos  princípios do contraditório e da ampla defesa, evidencia­se mais  de uma vez no auto de infração;    a autoridade fiscal utilizou documentos que foram adquiridos  de  forma emprestada, advindos de processo diverso, e que não  foram levados ao conhecimento da empresa fiscalizada no curso  do processo de fiscalização, conforme declaração prestada pela  autoridade  fiscal  à  folha  08  do  Relatório  Fiscal  do  Auto  de  Infração, “... acesso a documentos apreendidos por ocasião das  buscas  e  apreensões  determinadas  pelo  Juiz  Mauro  Caum  Gonçalves  do  juizo  da  2a  Vara  Criminal  do  Foro  Central  da  Comarca de Porto Alegre, RS, para fins de instrução probatória  no processo n° 001/2.13.0009568­5 contra Luis Adriano Vargas  Buchor e Outros...”;     a  empresa  jamais  foi  intimada  a  se  manifestar,  ou  prestar  explicações,  sobre  o  teor  dos  documentos  utilizados  de  forma  emprestada  pela  autoridade  fiscal.  A  empresa  não  tem  como  saber  o  teor  de  tais  documentos.  O  oficio  está  datado  de  09/01/2014,  sendo  que  o  inicio  da  fiscalização  ocorreu  em  24/03/2014  e  o  fiscal  utilizou  tais  documentos  no  curso  do  procedimento fiscalizatório;     vislumbra­se  claro  o  cerceamento  a  defesa  da  empresa  contribuinte, ora impugnante, a juntada aos autos, por parte da  fiscalização,  de  novos  documentos,  sem  que  a  empresa  Contribuinte tenha sido intimada a se manifestar;   Fl. 14955DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.954          5  em relação à prova emprestada tributária, previsto no Código  Tributário Nacional, art. 199, deve­se de logo destacar que não  serve  como prova  plena  do  fato  jurídico a  que  se  quer  provar.  Transcreve doutrina e jurisprudência sobre a matéria;     é  um  corolário  do  princípio  do  devido  processo  legal,  caracterizado  pela  possibilidade  de  resposta  e  a  utilização  de  todos os meios de defesa em direito admitidos;    à empresa não foi permitida a ampla defesa e o contraditório,  princípios  constitucionais  de  indiscutível  predominância  no  ordenamento  jurídico  pátrio,  já  que  resta  evidente  o  cerceamento de defesa, razão pela qual deve ser anulado o auto  de infração;     em  resposta  a  intimação  para  que  a  empresa  apresentasse,  dentre outros, a origem dos créditos e seu fundamento legal, se  fosse  o  caso,  planilhas  com  cálculos,  dos  valores  lá  descriminados,  a  empresa  salientou  que  tal  documentação  estaria  sob  os  cuidados  da  empresa  Economia  Consultoria  Tributária  Ltda.,  que  não  forneceu  quaisquer  documentos  e  planilhas pertinentes à apuração dos referidos créditos;     mas  a  impugnante  além  disso,  prontificou­se  a  elaborar  o  planilhamento dos referidos créditos com o fim de cumprir com a  intimação, caso assim entendesse pertinente o Sr. Auditor­Fiscal,  que  não  se  manifestou  quanto  ao  alegado  pela  empresa,  e  no  relatório  fiscal  considerou  que  a  contribuinte,  ora  impugnante,  estaria  na  verdade  transferindo  a  responsabilidade  para  uma  terceira empresa;    a empresa impugnante peticionou dentro do prazo estipulado,  para  que  lhe  fosse  dada  a  oportunidade  de  elaboração  das  planilhas  dos  créditos  de  IPI  considerados  indevidamente  aproveitados;     vislumbra­se  claro  o  cerceamento  a  defesa  da  empresa  contribuinte,  ora  impugnante,  não  tendo  sido  permitido  o  contraditório;    quanto ao mérito, entendeu o Agente Fiscal que da apreciação  dos registros efetuados na escrita fiscal da empresa impugnante,  restou  constatado  que  houve  a  escrituração  e  a  utilização  de  "créditos fiscais de IPI" de forma dolosa e fraudulenta visto que  não  restou  comprovada  a  origem  dos  créditos  apurados  e  lançados posteriormente no Livro Registro de Apuração do IPI;    conforme o próprio Auditor Fiscal afirma, de que não houve  comprovação  material  que  ensejaria  o  direito  aos  créditos  fiscais  de  IPI,  não  há  como  imputar  a  ação  dolosa  a  empresa  impugnante,  haja  vista não  ter  ficado  caracterizada  a  intenção  de seus representantes em fraudar os cofres públicos através de  utilização  dos  créditos  de  IPI  na  forma  em  que  foram  operacionalizados  pelos  srs.  LUIS  ADRIANO  VARGAS  BUCHOR  e  CRISTIANO  VARGAS  BUCHOR  por  meio  da  empresa "ECONOMIA CONSULTORIA TRIBUTÁRIA LTDA.";    se não há comprovação do dolo praticado pela impugnante, o  Fisco  não  pode  considerar,  a  título  de  utilização  de  créditos  fiscais  de  IPI,  que  a  mesma  tenha  cometido  fraude  fiscal.  Ademais,  a  fraude  pressupõe  vontade  livre  e  consciente.  No  entanto, longe fica a configurá­la, tal como disposto no referido  Auto de Infração;   Fl. 14956DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     6   caberia  a  autoridade  fazendária  provar  a  exteriorização  da  vontade  da  impugnante  em  praticar  a  fraude  a  ela  imputada,  tarefa esta carregada de subjetividade;     em  que  pese  a  administração  fazendária  entender  em  responsabilizar  também  a  impugnante  pela  fraude  cometida  pelos  Srs.  Luis  Adriano  Vargas  Buchor  e  Cristiano  Vargas  Buchor  por  meio  da  empresa  "ECONOMIA  CONSULTORIA  TRIBUTÁRIA  LTDA.",  o  mesmo  não  procede  em  face  da  ausência de dolo do contribuinte;     não  há  como  caracterizar  o  dolo  e  a  fraude  como  alegados  pela  fiscalização.  Torna­se  forçoso,  também,  considerar  que  a  impugnante  teria,  de  forma  dolosa,  reduzido  o  imposto  devido  (IPI),  de  forma  a  causar  prejuízo  ao  erário  público.  Tendo  a  impugnante agido de boa­fé quanto ao lançamento dos créditos  do  IPI, considerado  inidôneo pelo Fisco, não se pode presumir  que  a  impugnante  tenha  agido  com  dolo,  restando  afastada  a  alegação de fraude a ela imputada;    a impugnante foi assessorada anteriormente pela empresa de  Consultoria  Tributária  denominada  "ECONOMIA  CONSULTORIA  TRIBUTÁRIA  LTDA",  a  qual  não  forneceu  os  documentos  e  planilhas  pertinentes  à  apuração  dos  referidos  créditos, apesar de notificada;     pelo  que  foi  informado  pela  empresa  ECONOMIA  CONSULTORIA  TRIBUTÁRIA  LTDA.  à  época  dos  fatos,  os  referidos  créditos  extemporâneos  são  oriundos  da  exclusão  do  ICMS da base de cálculo do  IPI,  os quais  se  enquadrariam na  condição  de  insumos,  destinados  a  atividade  da  empresa  em  obediência a não cumulatividade prevista no art. 155, § 2º, I da  Constituição  Federal.  Portanto,  a  empresa  impugnante  não  detinha no momento solicitado a documentação pretendida pela  fiscalização;     ademais,  a  própria  impugnante  se manifestou  no  sentido  de  elaborar  o  planilhamento/apuração  dos  referidos  créditos  caso  entendesse pertinente e necessário por parte da fiscalização, mas  não  foi  reintimada  pela  fiscalização  para  apresentar  o  planilhamento  dos  créditos  na  forma  por  ele  sugerido,  resultando  em  vício  no  Auto  de  Infração  lavrado,  ensejando  a  sua  nulidade,  em  face  da  inobservância  dos  princípios  do  contraditório  e da ampla defesa,  pelo  cerceamento de defesa a  empresa impugnante;     quanto à  glosa  de  créditos  tomados  sobre  as  notas  fiscais  relativas  às  vendas  canceladas  por  devolução  de  mercadorias,  emitidas no período de ago/2011 a dez/12, a empresa pretende,  ainda,  em  sede  de  impugnação  administrativa,  fazer  com  que  sejam  analisados  os  documentos  apresentados  no  curso  da  fiscalização  e  que  foram  utilizados  como  fundamento  para  utilização dos referidos créditos, obtendo, com isso, a revisão do  auto de infração com o fito de ver reduzido a zero a autuação da  autoridade fiscal;     em  resposta  à  Fiscalização  a  impugnante  já  havia  se  manifestado  no  sentido  de  que  a  empresa  havia  comprovado a  efetiva devolução dos produtos nos termos da legislação vigente,  ou  seja,  a  Subseção  II  do Decreto  n°  7.212  de  15  de  junho  de  2010, mais especificamente o previsto nos artigos 231, 232, 234  e 466;     inclusive,  no  que  se  refere  às  notas  fiscais  de  entrada  relacionadas em anexo ao auto de infração, servem estas como  Fl. 14957DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.955          7 comprovações  das  devoluções,  o  que  por  si  só  já  autoriza  seja  decretada a nulidade do presente auto de infração;     quanto  às  demais  notas  fiscais  de  entrada,  a  empresa  impugnante  prestou  todas  as  informações  possíveis,  onde  restaram  comprovadas  tanto  na  escrituração  das  notas  fiscais  nos  Livros  Registro  de  Entradas  e  nos  Livros  Registro  de  Inventário  (estes  apresentados  como  controle  facultativo  nos  termos do art. 466 do Decreto n° 7.212 de 15/06/10), bem como  pelos  registros  contábeis  da  empresa  constantes  do  SPED  Contábil;    os dados dos produtos devolvidos vêm especificados nas notas  fiscais emitidas na entrada destes produtos, que por sua vez são  os mesmos constantes nas notas fiscais originárias, tais como o  número,  a  data  de  emissão,  o  valor,  o  imposto  e  a  causa  da  devolução,  que  não  consiste  necessariamente  na  devolução  da  quantia  paga,  podendo  o  ressarcimento  ser  efetivado  com  a  troca do produto;    quanto às exigências legais referidas no artigo 231, I e II do  Decreto 7.212/2010, a empresa cumpriu com todos os requisitos  legais exigidos;     existiram  as  devoluções  especialmente  nas  operações  realizadas por consumidores e empresas prestadoras de serviços  ­ em relação às quais os clientes não emitiram a respectiva nota  fiscal de devolução, razão pela qual a própria empresa emitiu a  nota fiscal de entrada. A emissão das Notas Fiscais de entrada,  com  o  CFOP  1201,  deve­se  a  falta  de  emissão  da  respectiva  Nota  Fiscal  de  devolução  por  parte  do  cliente  da  empresa  (a  maioria  desses  casos  refere­se  a  devoluções  efetivadas  por  consumidores finais e empresas prestadoras de serviço);    apresentou devidamente os Livros Registros de Entradas e o  Livro  Registro  de  Inventário,  como  controle  facultativo  de  entrada  de  itens  devolvidos,  de  acordo  com  o  disposto  no  art.  466 do Decreto n° 7.212 de 15 de junho de 2010 que autoriza o  contribuinte  a  optar  pela  utilização  deste  controle,  em  substituição  ao  Livro  Registro  de  Controle  da  Produção  e  do  Estoque (obrigatório somente a partir de 1o de janeiro de 2015),  o  qual  compreende  o  controle  quantitativo  dos  produtos,  permitindo assim a apuração do estoque por item;     apresentou  os  arquivos  digitais  relativos  aos  documentos  fiscais  do  estabelecimento  compreendendo:  Arquivo  Mestre  de  Mercadorias/Serviços  e  Arquivo  de  Itens  de  Mercadorias/Serviços  ­  Notas  Fiscais  de  Saída  ou  de  entrada  Emitidas  pela  Pessoa  Jurídica  (arquivos  4.3.1  e  4.3.2  do  ADE  15/2001); Arquivo Mestre de Mercadorias/Serviços  (Entrada) e  Arquivo  de  Itens  de  Mercadorias/Serviços  (Entradas)  ­  Notas  Fiscais  Emitidas  por  Terceiros  (arquivos  4.3.3  e  4.3.4  do ADE  15/2001) e Arquivo de Cadastro de PJ/PF, Tabela de Natureza  da Operação e Tabela de Mercadorias/Serviços (arquivos 4.9.1,  4.9.4 e 4.9.5 do ADE 15/2001);    não há como incidir a multa de 150% sobre o valor do crédito  apurado,  não  ocorrência  da  má­fé,  e  majoração  de  50%  pelo  não  atendimento  das  intimações,  sendo  notificada,  no  presente  auto de infração, a pagar a parcela de multa de 225%;   Fl. 14958DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     8  qualificação da multa para aplicação do percentual de 150%,  depende, não só da intenção do agente, como também da prova  fiscal  da  ocorrência  da  fraude  ou  do  evidente  intuito  desta,  caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse  fim.  Na  situação  versada  nos  autos  não  restou  cabalmente  comprovado  o  dolo  por  parte  do  contribuinte  para  fins  tributário, logo incabível a aplicação da multa qualificada;     discorda  da  aplicação  da  multa  de  150%  sobre  créditos  de  PIS e COFINS glosados por divergência de interpretação entre o  que a empresa entende como sendo passível de creditamento e o  que a fiscalização entende como não sendo;    no caso concreto, a infração que a Autoridade fiscal imputa à  impugnante,  em  realidade,  resulta  do  preenchimento  de  informação  considerada  inconsistente  pela  fiscalização,  que  seria  detectada  automaticamente  pelos  sistemas  informatizados  da SRF. Não há portanto, na conduta da impugnante  intuito de  fraude, condição necessária ao agravamento da multa, devendo  esta ser reduzida para multa moratória;    quanto a majoração da multa em 50%. na forma do artigo 44,  § 2°, da lei n.° 9.430, de 1996, com a alegação de que a empresa  contribuinte  deixou  de  atender  a  solicitação  da  Autoridade  Fiscal,  ou  atendeu  de  forma  insuficiente,  deixando  de  fornecer  documentos que sabidamente detinha a guarda, proporcionando  a  mora  na  verificação  e  maiores  ônus  à  Administração  Tributária  pela  demanda  de  diligências  e  de  outras  fontes  de  informações, conforme  já exposto,  tais alegações não condizem  com  a  verdade  dos  fatos,  conforme  relato  do  auditor  fiscal  em  seu relatório fiscal;    em que pese o atendimentos das intimações pela impugnante e  da  apresentação  dos  documentos  supra  mencionados,  é  entendimento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ­  CARF de que a simples falta de apresentação de livros contábeis  e fiscais, e de documentos, não justifica o agravamento da multa;     dentre  as  limitações  ao  poder  de  tributar  previstos  constitucionalmente,  temos  outros  que,  embora  não  expressos,  podem ser depreendidos do Sistema Tributário Nacional, e o que  releva, no caso da  imposição de multa excessiva, é o postulado  da  proporcionalidade,  o  qual  tem  sido  aplicado  pelo  Supremo  Tribunal Federal como decorrência dos princípios do Estado de  Direito  e  do  devido  processo  legal,  constantes  da CF/88  e  por  isso,  por  não  se  encontrar  presentes,  neste  caso,  os  requisitos  indispensáveis  à  aplicação majoração  da multa  em  50%  pelos  fundamentos acima expostos,  tal encargo deve ser extirpado do  auto de infração;     a  multa  é  confiscatória,  pois  recente  orientação  jurisprudencial  do  STF  firmou  o  entendimento  de  que  a  multa  fiscal  aplicada a  empresa  contribuinte  em percentual  acima de  20% não se mostra razoável, configurando na espécie o caráter  confiscatório  da  penalidade  pecuniária  (decisão  proferida  pela  Segunda  Turma  do  Supremo  Tribunal  Federal,  da  lavra  do  Relator  Ministro  Celso  de  Mello  no  Agravo  Regimental  no  Recurso Extraordinário  n°  754.554/GO,  interposto  pelo Estado  de Goiás, cuja ementa transcreve);    dentro das limitações ao poder de tributar, o art. 150,  inciso  IV da Constituição Federal, dispõe a vedação do ente tributante  a utilizar do tributo "com efeito de confisco”;   Fl. 14959DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.956          9   requer  seja  excluída  a  multa  aplicada  pelas  razões  acima  expendidas,  ou  caso  assim  não  entenda Vossa  Senhoria,  que  a  mesma  seja  reduzida  ao  percentual  de  20%,  a  incidir  sobre  o  valor do débito original, sem a correção;     o  Auto  de  Infração  ora  impugnado  prevê  a  concessão  de  redução de multa de 50% (cinquenta por cento) se o pagamento  for  realizado  até  o  vencimento  da  intimação  ou  de  40%  (quarenta  por  cento),  caso  seja  requerido  parcelamento  do  débito  no  prazo  legal  para  impugnação.  Se  vislumbra  claro  cerceamento  a  defesa  do  contribuinte,  já  que,  quanto menor  a  utilização  dos  mecanismos  de  defesa  que  lhe  compete,  menor  será  o  desconto.  A  vantagem  financeira  oferecida  pela  Receita  Federal  tem  estreita  relação  com  a  total  inexistência  de  contraditório  e  ampla  defesa,  direitos  constitucionalmente  previstos ao contribuinte;     transcreve  jurisprudência  e  doutrina  relativamente  ao  contraditório  e  devido  processo  legal  e  requer,  caso  a  impugnação  ao  auto  de  infração  seja  julgada  procedente,  ou  parcialmente procedente, necessário a concessão dos descontos  de  50%  (para  pagamento  à  vista)  ou  de  40%  (para  parcelamento),  mesmo  após  a  apresentação  da  presente  impugnação;     por  todas as  razões,  requer a acolhida  integral da presente,  para  que  seja,  preliminarmente  anulado  o  auto  de  infração,  e  caso vencidas as preliminares, seja recalculado o referido auto  de infração, relativamente ao IPI.     Às fls. 14612/14627 consta a impugnação ao Termo de Sujeição  Passiva  apresentada  pelos  sócios  administradores  Luis  Carlos  Postal e José Pasqualini.   Consta ainda dos autos a documentação pertinente ao Mandado  de  Segurança  nº2002.71.07.013159­5/RS,  com  pedido  de  Liminar,  impetrado  pelo  interessado  contra  as  alterações  promovidas pela Lei nº9.718, de 1998, a majoração da alíquota  da  Cofins  de  2%  para  3%  e  contra  a  ampliação  da  base  de  cálculo das duas exações, PIS e a Cofins e contra a inclusão do  ICMS  na  base  de  cálculo  das  referidas  contribuições  (fls.909/965).   Às  fls.961/989,  foram  anexadas  as  cópias  processuais,  a  sentença  que  julgou  parcialmente  procedente  o  pedido  para  conceder a segurança para o efeito de declarar incidentalmente  a  inconstitucionalidade  do  artigo  3º,  §1º,  da  Lei  nº9.718/98,  reconhecer o direito da impetrante de recolher a exação, no que  tange à base de cálculo, conforme a Lei Complementar nº70/91,  até  o  mês  de  fevereiro  de  1996;  a  Apelação  em  Mandado  de  Segurança (fls.981/993 e fl.994) do impetrante foi desprovida e a  Apelação  da  União  e  Remessa  Oficial  providas  e  por  fim,  o  Supremo  Tribunal  Federal,  no  Acórdão  do  Recurso  Extraordinário  RE  553692  (fls.995/998)  reconheceu  a  repercussão  geral  das  controvérsias  e  determinou  a  devolução  dos  autos  ao  Tribunal  de  origem,  consoante  o  disposto  no  art.328,  parágrafo  único  do  RISTF,  combinado  com  o  artigo  543­B e parágrafos do Código de Processo Civil.   Fl. 14960DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     10 Tendo  em  vista  o  disposto  na  Portaria  RFB  nº  453,  de  11  de  abril de 2013 (DOU 17/04/2013), e no art. 2º da Portaria RFB nº  1.006,  de  24  de  julho  de  2013  (DOU  25/07/2013),  e  conforme  definição da Coordenação­Geral de Contencioso Administrativo  e Judicial da RFB, o presente e­processo foi encaminhado a esta  DRJ para apreciação (fl.14823). "      A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, negou provimento a  impugnação, mantendo integralmente o lançamento. A decisão foi assim ementada:     ASSUNTO:  IMPOSTO  SOBRE  PRODUTOS  INDUSTRIALIZADOS ­ IPI   Período de apuração: 01/02/2009 a 28/02/2013   NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.   Não há que se cogitar de nulidade do auto de  infração  lavrado  por  autoridade  competente,  com  a  observância  dos  requisitos  previstos  na  legislação  que  rege  o  processo  administrativo  tributário.   Não  configura  cerceamento  do  direito  de  defesa  quando  o  conhecimento pelo acusado dos atos processuais e o seu direito  de defesa foram plenamente assegurados.   CRÉDITO. DEVOLUÇÃO DE PRODUTOS.   O crédito de IPI somente pode ser admitido se houver operação  que se caracterize como efetiva devolução dos produtos, e ainda  atendidas as exigências contidas na legislação de regência.   MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA   A  prática  reiterada  de  apresentar  ao  fisco  declarações  inverídicas, que ocultam o efetivo valor da obrigação tributária  principal, constitui fato que evidencia intuito de fraude e implica  qualificação da multa de ofício.   Cabível  a  multa  qualificada  de  150%,  majorada  em  50%,  quando  estiver  perfeitamente  demonstrado  nos  autos  que  o  agente  envolvido  na  prática  da  infração  tributária  conseguiu o  objetivo desejado de,  reiteradamente, reduzir o  imposto devido,  bem  como  deixou  de  atender  às  intimações  para  apresentar  documentos fiscais que a lei o obriga a manter em boa guarda e  ordem à disposição da fiscalização.   MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO.   A  vedação  prevista  no  inciso  IV  do  art.  150  da  Constituição  Federal  restringe­se  ao  valor  do  tributo  ou  contribuição,  de  forma que a exigência de multa de ofício prevista em lei não se  reveste  de  caráter  confiscatório,  cabendo  à  autoridade  administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação  que a instituiu.   Impugnação Improcedente   Crédito Tributário Mantido     Intimados da decisão da primeira instância, a empresa Movelpar apresentou  recurso  voluntário.  Os  responsáveis  solidários  Luis  Carlos  Postal  e  José  Pasqualini  apresentaram em conjunto recurso voluntário.    Fl. 14961DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.957          11 No seu recurso a Movelpar repisa as alegações apresentadas na impugnação.  Os solidários alegam em sede preliminar, que a decisão da primeira instância  não enfrentou as matérias constantes das suas impugnações e portanto, a decisão teria incorrido  em cerceamento do direito de defesa. A seguir reiteram os argumentos trazidos na impugnação,  afirmando  a  nulidade  do  Termo  de  Sujeição  Passiva;  a  ausência  de  provas  da  participação  dolosa dos sócios nas infrações imputadas; abusividade da multa aplicada em 225% , diante da  ausência de comprovação de dolo. Finalizando o recurso, pedem a anulação do auto de infração  em  face  da  equivocada  interpretação  do  art.  124,  I  do CTN  e  caso  vencida  a  preliminar  de  nulidade, que seja afastada a responsabilidade solidária dos recorrentes, excluindo­os do polo  passivo do crédito tributário exigido no auto de infração, bem como a exclusão da imputação  da multa qualificada.    É o Relatório.  Voto             Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator.        Os  recursos  apresentados,  pela Movelpar  e  os  solidários  Luis  Carlos  Postal  e  José  Pasqualini,  são  tempestivos  e  por  atenderem  os  demais  requisitos  de  admissibilidade  devem ser conhecidos.        Os recorrentes solidários alegam em sede preliminar, que a decisão da primeira  instância não enfrentou as defesas constantes da sua impugnação (e­fls. 14612 a 14627).         Em que pese o extenso e bem fundamentado voto da Delegacia de Julgamento,  não  é  possível  identificar  o  enfrentamento  das  questões  referentes  ao  Termo  de  Sujeição  Passiva  e  do  pedido  dos  impugnantes  solidários  de  exclusão  do  polo  passivo  da  obrigação  tributária.        É  inconteste que  sendo  o Termo de Sujeição Passiva  lavrado  pela Autoridade  Fiscal, torna o solidário co­responsável por todos as obrigações constantes do lançamento e lhe  outorga o direito a questionar tal posicionamento da Autoridade Fiscal, tanto a sua qualificação  como solidário da obrigação tributária quanto ao próprio mérito deste lançamento.  Destarte,  a  impugnação  tempestiva  apresentada  pelo  solidário  atende  os  requisitos  previstos  no Decreto  nº  70.235/72  e  instaura  quanto  a  este  interessado  também  o  litígio  administrativo,  sendo  necessária  o  cumprimento  de  todos  as  esferas  de  julgamento  previstas no Processo Administrativo Fiscal.  A corroborar tal entendimento, em decisão de 28/11/2011, no RE 608426, de  relatoria  do Ministro  Joaquim Barbosa,  foi  trazido  a  lume  a  discussão  quanto  a  situação  do  solidário  na  obrigação  tributária.  O  entendimento  caminhou  no  sentido  da  aplicação  do  princípios  do  contraditório  e  da  ampla  defesa  aos  devedores  solidários,  transcrevo  abaixo  trecho constante desta decisão:  Fl. 14962DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     12 "Em  relação  ao  art.  5º,  LV  da  Constituição,  observo  que  os  princípios  do  contraditório  e  da  ampla  defesa  aplicam­se  plenamente  à  constituição do  crédito  tributário em desfavor  de  qualquer  espécie  de  sujeito  passivo,  irrelevante  sua  nomenclatura  legal  (contribuintes,  responsáveis,  substitutos,  devedores  solidários  etc).  Por  outro  lado,  a  decisão  administrativa que atribui sujeição passiva por responsabilidade  ou por substituição também deve ser adequadamente motivada e  fundamentada,  sem  depender  de  presunções  e  ficções  legais  inadmissíveis  no  âmbito  do  Direito  Público  e  do  Direito  Administrativo. Considera­se presunção inadmissível aquela que  impõe  ao  sujeito  passivo  deveres  probatórios  ontologicamente  impossíveis, irrazoáveis ou desproporcionais, bem como aquelas  desprovidas  de  motivação  idônea,  isto  é,  que  não  revelem  o  esforço  do  aparato  fiscal  para  identificar  as  circunstâncias  legais que permitem a extensão da relação jurídica tributária."    Este Conselho  já  se manifestou  em  discussões  anteriores  quanto  a matéria,  assegurando o direito ao contraditório administrativo aos solidários arrolados no processos, cito  abaixo algumas destas decisões:  "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL  Ano­calendário: 2006  CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.  Constitui cerceamento do direito de defesa, e portanto é nula, a  decisão  que  deixa  de  apreciar  a  impugnação  proposta  pelo  sujeito  passivo  solidário.Acórdão  1201­00.686,  2ª  Câmara/1ª  Turma Ordinária. Rel. Marcelo Cuba Netto."    " ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL  Ano­calendário. 2001, 2002, 2003, 2004  PROCESSO  ADMINISTRATIVO  FISCAL­  RESPONSÁVEL  SOLIDÁRIO — CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.  Se  a  fiscalização,  nos  termos  do  art.  124  do CTN conclui  pela  presença  de  solidariedade  em  razão  de  interesse  comum  na  situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, e  levando  em  conta  que  segundo  o  §  único  do  mesmo  artigo,  a  solidariedade  não  importa  em  beneficio  de  ordem,  resulta  que  todos  os  devedores  solidários  devem  constar  no  lançamento  tributário e do titulo executivo, uma vez que a responsabilidade  tributária é una e todos os envolvidos encontram­se na posição  de  sujeitos  passivos  da  obrigação  tributária,  assim,  não  conhecer  os  argumentos  expendidos  pelos  indicados  no  autos  para  compor  o  p6lo  passivo  da  obrigação  tributária  constitui  cerceamento  do  direito  de  defesa.  Acórdão  1103­00.043.  1ª  Câmara/3ª  Turma  Ordinária.  Rel.  Albertina  Silva  Santos  de  Lima."    Fl. 14963DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA Processo nº 11020.721490/2014­73  Acórdão n.º 3201­002.264  S3­C2T1  Fl. 14.958          13 "PROCESSO  ADMINISTRATIVO  FISCAL.  RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. COMPETÊNCIA.  Por  força  dos  princípios  do  contraditório  e  da  ampla  defesa,  deve o órgão administrativo discutir a questão da solidariedade,  pois essencial ao deslinde do litígio e por efetivamente produzir  efeitos  concretos.  Processo  anulado  a  partir  da  decisão  de  primeira instância, inclusive. Acórdão 202­17.251. 2ª Câmara /  2º Conselho. Rel. Gustavo Kelly ALencar."    "Assunto: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA  ­ IRPJ  Exercícios: 1999, 2000, 2001, 2002, 2003  Ementa:  SUJEIÇÃO  PASSIVA  SOLIDÁRIA  ­  NECESSIDADE  DE  APRECIAÇÃO  ­  Carece  de  respaldo  legal  a  decisão  de  primeira  instância  que  deixa  de  conhecer  impugnações  interpostas  por  sujeitos  passivos  solidários  com  base  no  argumento  de  que  o  acórdão  prolatado  em  segundo  grau  é  inexeqüível.  O  responsável  tributário  que  ingressa  na  relação  jurídico­tributária como sujeito passivo indireto, poderá dela ser  excluído  se  assim  entender  as  autoridades  competentes  para  apreciar  as  suas  razões.  Não  conhecer  os  argumentos  expendidos pelos indicados no autos para compor o pólo passivo  da  obrigação  tributária  constitui,  à  evidência,  cerceamento  do  direito de defesa.. Acórdão 105­17.371. 5ª Câmara/ 1º Conselho  de Contribuintes. Rel. Wilson Fernandes Guimarães."    Por fim, jogando uma pá de cal sobre a discussão, o CARF editou a Súmula  nº 71, que determina a apreciação administrativa dos recursos apresentados pelos responsáveis  solidários.    “Súmula CARF nº 71   Todos  os  arrolados  como  responsáveis  tributários  na  autuação  são parte legítima para impugnar e recorrer acerca da exigência  do  crédito  tributário  e  do  respectivo  vínculo  de  responsabilidade.”    Caracterizado o  cerceamento do direito de defesa,  é necessária  a  realização  de novo julgamento, apreciando todas as impugnações apresentadas.  Quanto aos efeitos da  anulação da decisão a quo, ao meu sentir, não existe  dúvida quanto ao prejuízo dos atos decorrentes, pois um novo julgamento poderá ter caminhos  diferentes  daquele  que  foi  anulado  e  sendo  assim,  eventuais  posicionamentos  da  decisão  poderão prejudicar ou  trazer novos  julgados que poderão ser objeto de questionamento pelas  partes  envolvidas,  tanto  o  devedor  principal,  quanto  os  solidários  e  também  a  Fazenda  Fl. 14964DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA     14 Nacional representada pela sua Procuradoria. Assim, é mister que todos os atos realizados no  processo  a partir  da decisão declarada nula,  sejam  cancelados,  sendo o  processo  retornado a  situação anterior à decisão.  Diante do exposto, voto no sentido de anular o acórdão da primeira instância,  determinando  um  novo  julgamento  da  DRJ  apreciando  todas  as  alegações  apresentadas  nas  impugnações.         Winderley Morais Pereira                               Fl. 14965DF CARF MF Impresso em 06/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 30/09/2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA, Assinado digitalmente em 30/09/ 2016 por WINDERLEY MORAIS PEREIRA

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6472078 #
Numero do processo: 11070.722574/2014-39
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 09 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Aug 22 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2009, 2010 DECADÊNCIA. Se a despesa é elemento que compõe a base de cálculo, critério quantitativo de um determinado fato imponível, o prazo decadencial para que o Fisco efetue o lançamento fundado na glosa de tal despesa deverá ser contado em função desse fato imponível, de tal forma que o dies a quo será inexoravelmente: ou a data do fato imponível, se aplicável for o art. 150, § 4º do CTN; ou então, o primeiro dia do exercício seguinte ao que Fisco poderia efetuar o lançamento relativo a este fato imponível, se aplicável for o art. 173, I, do CTN. SIMULAÇÃO. NÃO CONFIGURADA. GLOSA DE DESPESA FINANCEIRA. INDEVIDA. É legítimo que a investidora no exterior pudesse optar entre adquirir diretamente a participação em sociedade brasileira ou então aportar recursos em uma subsidiária brasileira, para que esta adquirisse a participação desejada. Afasta a acusação de simulação a constatação de que: se os valores emprestados à subsidiária brasileira tivessem nela ingressado como aumento de capital, não existiria as despesas financeiras com juros de empréstimo questionadas na autuação, mas teria sido aumentada a base de cálculo dos juros sobre capital próprio e, consequentemente, poder-se-ia ter despesas maiores de JCP, in casu, em valores próximos aos juros dos empréstimos pagos. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Tratando-se da mesma situação fática e do mesmo conjunto probatório, a decisão prolatada no lançamento do IRPJ é aplicável, mutatis mutandis, ao lançamento da CSLL.
Numero da decisão: 1302-001.945
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de decadência suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Marcelo Calheiros Soriano e Ana. de Barros Fernandes Wipprich. ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR – Relator. LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Ana de Barros Fernandes Wipprich, Alberto Pinto Souza Júnior, Marcelo Calheiros Soriano, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix .
Nome do relator: ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 19; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2353; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1­C3T2  Fl. 6.587          1 6.586  S1­C3T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO    Processo nº  11070.722574/2014­39  Recurso nº               Voluntário  Acórdão nº  1302­001.945  –  3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  9 de agosto de 2016  Matéria  IRPJ e CSLL.  Recorrente   JOHN DEERE BRASIL LTDA.  Recorrida   FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA ­ IRPJ  Ano­calendário: 2009, 2010  DECADÊNCIA.  Se  a  despesa  é  elemento  que  compõe  a  base  de  cálculo,  critério quantitativo de um determinado fato imponível, o prazo decadencial  para que o Fisco efetue o lançamento fundado na glosa de tal despesa deverá  ser contado em função desse  fato  imponível, de  tal  forma que o dies a quo  será inexoravelmente: ou a data do fato imponível, se aplicável for o art. 150,  §  4º  do CTN;  ou  então,  o  primeiro  dia  do  exercício  seguinte  ao  que  Fisco  poderia efetuar o lançamento relativo a este fato imponível, se aplicável for o  art. 173, I, do CTN.   SIMULAÇÃO.  NÃO  CONFIGURADA.  GLOSA  DE  DESPESA  FINANCEIRA. INDEVIDA.  É  legítimo  que  a  investidora  no  exterior  pudesse  optar  entre  adquirir  diretamente a participação em sociedade brasileira ou então aportar recursos  em  uma  subsidiária  brasileira,  para  que  esta  adquirisse  a  participação  desejada.  Afasta  a  acusação  de  simulação  a  constatação  de  que:  se  os  valores  emprestados à subsidiária brasileira tivessem nela ingressado como aumento  de  capital,  não  existiria  as  despesas  financeiras  com  juros  de  empréstimo  questionadas  na  autuação, mas  teria  sido  aumentada  a  base  de  cálculo  dos  juros  sobre  capital  próprio  e,  consequentemente,  poder­se­ia  ter  despesas  maiores  de  JCP,  in  casu,  em  valores  próximos  aos  juros  dos  empréstimos  pagos.  TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL.  Tratando­se  da  mesma  situação  fática  e  do  mesmo  conjunto  probatório,  a  decisão  prolatada no  lançamento  do  IRPJ  é  aplicável, mutatis mutandis,  ao  lançamento da CSLL.         AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 07 0. 72 25 74 /2 01 4- 39 Fl. 2327DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a  preliminar de decadência suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento ao  recurso  voluntário,  vencidos  os  Conselheiros  Marcelo  Calheiros  Soriano  e  Ana.  de  Barros  Fernandes Wipprich.     ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR – Relator.   LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO ­ Presidente  Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho  Machado  (Presidente),  Ana  de  Barros  Fernandes  Wipprich,  Alberto  Pinto  Souza  Júnior,  Marcelo Calheiros  Soriano, Marcos Antonio Nepomuceno  Feitosa, Rogério Aparecido Gil  e  Talita Pimenta Félix .    Relatório  Versa  o  presente  processo  sobre  recurso  voluntário  interposto  pelo  contribuinte em face do Acórdão n˚ 15­38.763, da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal  do Brasil de Julgamento em Salvador, cuja ementa assim dispõe:  ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO  Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010  DECADÊNCIA. PRAZO.  O  prazo  de  decadência  do  IRPJ  é  de  cinco  anos,  a  contar  da  ocorrência  do  fato  gerador,  que,  no  caso  do  IRPJ  apurado  anualmente,  ocorre  ao  final  do  ano  calendário  quando  se  começa  a  contar o prazo de que trata o art. 150, §4º do CTN.  ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA ­ IRPJ  Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010  NORMA  ANTIELISIVA.  MP  nº  66/2002.  EXPOSIÇÃO  DE  MOTIVOS.  Os arts. 13 e 14 constantes da redação original da MP nº 66/2002 não  tinham  como  objetivo  disciplinar  “situações  relacionadas  com  a  prática  de  dolo,  fraude  ou  simulação,  para  as  quais  a  legislação  tributária brasileira já oferece tratamento específico”, conforme se lê  do item 11 da Exposição de Motivos da referida MP.  ELEMENTOS CONCEITUAIS. SIMULAÇÃO.  Considera­se  elemento  conceitual  da  simulação  invalidante  a  existência  de  um  ato  jurídico  cujo  conteúdo  seja  intencionalmente  inverídico quanto ao ato em si, às disposições negociais, às pessoas  ou à data.  Na  simulação  relativa  há,  realmente,  um  negócio  jurídico  que  aparece,  porém  mentiroso  quanto  a  seu  conteúdo,  no  todo  ou  em  parte,  às  pessoas,  às  datas,  que  se  pratica  com  a  finalidade  de  dissimular  outro,  cujas  conseqüências  jurídicas  são  as  efetivamente  queridas.  EMPRESA VEÍCULO. EXISTÊNCIA EFÊMERA.  Considera­se  empresa  veículo  aquela  que  tenha  sido  instituída  ou  aproveitada para exercer uma atividade já exercida por outra entidade  pertencente ao grupo;  tenha existência efêmera; não  tenha realizado  Fl. 2328DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.588          3 qualquer  atividade  operacional;  e  não  tenha  incorrido  em  qualquer  despesa  ou  custo,  enfim,  que  tenha  sido  utilizada  exclusivamente  para transportar despesas.  Evidenciado nos autos  a  intenção  livre  e consciente da  contribuinte  em  criar  despesas  financeiras,  com  o  intuito  de  reduzir,  indevidamente,  a  carga  tributária  devida,  tal  conduta  deve  ser  caracterizada  como  fraudulenta,  sendo cabível  a  aplicação da multa  qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento) incidente sobre o  imposto que deixou de ser recolhido em razão da referida conduta.  ERRO DE PROIBIÇÃO.  A configuração do  chamado erro de proibição  requer a  constatação  de que, no momento da ação, o agente não tenha consciência de que  pratica uma conduta ilícita.  ART. 142 CTN. ENTENDIMENTO DOUTRINÁRIO. PROPOSTA.  O entendimento doutrinário sobre a aplicação do art. 142 do CTN é  no  sentido  de  que  só  se  deve  falar  em  proposta  de  aplicação  de  penalidade  tributária  quando  a  infração  for  identificada  por  autoridade que não tenha competência para o lançamento.  AUTORIDADE  ADMINISTRATIVA.  OBRIGAÇÃO  LEGAL.  LANÇAMENTO DE OFÍCIO.  Descabe  a  autoridade  administrativa  negar  a  aplicação  de  norma  inserida regularmente no ordenamento jurídico com vistas a afastar a  obrigação  legal  ali  prevista  e  exigida  em  lançamento  de  ofício,  porquanto  implicaria  em  se  pronunciar  sobre  a  legalidade  ou  constitucionalidade  da  norma  que  deu  causa,  o  que  é  vedado  na  esfera administrativa e cuja prerrogativa é do poder judiciário.  JUROS  DE  MORA.  MULTA  DE  OFÍCIO.  CRÉDITO  TRIBUTÁRIO.  Os  juros  de  mora  incidem  sobre  a multa  objeto  de  lançamento  de  ofício, ainda que sua exigibilidade esteja suspensa em face ao recurso  administrativo, uma vez que ela integra o crédito tributário.  AUTOS  DECORRENTES  CONTRIBUIÇÃO  SOCIAL  SOBRE  O  LUCRO LÍQUIDO – CSLL IRPJ. MATÉRIA FÁTICA IDÊNTICA.  RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO.  Em se  tratando de matéria  fática  idêntica àquela que serviu de base  para o lançamento do Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica, devem  ser  estendidas  as  conclusões  advindas  da  apreciação  daquele  lançamento  aos  relativos  à  Contribuição  Social  sobre  o  Lucro  Líquido, em razão da relação de causa e efeito advindas dos mesmos  fatos geradores e elementos probantes.  Impugnação Improcedente  Crédito Tributário Mantido    A recorrente tomou ciência da decisão recorrida em 27/05/2015 (Termo a  fls. 2150) e interpôs recurso voluntário em 24/06/2015 (Termo a fls. 2319 e segs.), no qual  alega as seguintes razões de defesa:  a) quanto à autuação:  Fl. 2329DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     4   a.1)  que  o  Auto  de  Infração  que  deu  origem  ao  presente  processo  administrativo  pretende  exigir  da  Recorrente  valores  supostamente  devidos  a  título  de  IRPJ/CSLL, relativos ao ano­calendário de 2009, acrescidos de multa agravada de 150% e  juros  de mora,  além  de  exigir  também multa  isolada  de  50%  calculada  sobre  os mesmos  supostos fatos geradores alegados pela D. Fiscalização;    a.2) que a D. Fiscalização alega que a Recorrente teria indevidamente  deduzido,  no  ano­calendário  de  2009,  determinadas  despesas  financeiras  decorrentes  de  operação de empréstimo;    a.3) que as despesas financeiras incorridas pela Recorrente se devem a  contratação de dívida pela John Deere Brasil Ltda. ("JD Brasil") em 1999, dívida esta que,  por sucessão, foi transferida à recorrente após a incorporação da JD Brasil;    a.4) que  a D. Fiscalização  alega que,  como  essa  dívida  foi  contraída  pela JD Brasil para justamente adquirir o controle societário da Recorrente em favor da sua  controladora  no  exterior,  as  despesas  financeiras  relacionadas  ao  empréstimo  não  seriam  necessárias  à  Recorrente,  de  forma  que  a  sua  dedutibilidade,  para  fins  de  apuração  do  IRPJ/CSLL, violaria o disposto nos artigos 299 e 300 do RIR/99;    a.5) que, em outras palavras, a D. Fiscalização questiona a necessidade  das  despesas  financeiras  para  a  atividade  da  Recorrente,  pelo  fato  de  que  a  dívida  foi  contraída para financiar a sua própria aquisição pela JD Brasil no ano­calendário de 1999;    a.6) a D. Fiscalização alega que as despesas financeiras deduzidas pela  Recorrente  no  ano­calendário  de  2009  foram  resultado  de  uma  reorganização  societária  efetuada  com o uso de  sociedade  interposta que não  teve qualquer propósito  econômico e  negocial,  pois,  no  entender  equivocado  da  D.  Fiscalização,  o  único  objetivo  da  estrutura  levada a efeito era permitir que as despesas financeiras decorrentes da dívida contratada pela  JD Brasil (enquadrada pela D. Fiscalização como sociedade interposta) fossem transferidas à  Recorrente para que essa sociedade pudesse se aproveitar de benefícios fiscais resultantes da  dedução dessas despesas;    a.7)  que  a  Fiscalização  entendeu  que  as  operações  societárias  realizadas  pela  Recorrente  estavam  embasadas  em  intenção  deliberada  de  agir  de  forma  dolosa,  cujo  objetivo  era  de  apenas  reduzir  ou  suprimir  a  apuração,  declaração  e  o  pagamento de tributo, a D. Fiscalização aplicou uma abusiva multa de 150% com base nos  artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30.11.1964 (Lei 4.502/64) em conjunto com o artigo  44, §1° da Lei n° 9.430, de 27.12.1996 (Lei 9.430/96);    a.8) que, não bastasse esse abuso cometido pela D. Fiscalização, houve  a exigência simultânea da multa isolada de 50%, por conta de suposto não recolhimento das  estimativas mensais pela Recorrente;  b) Quanto à decadência:  b.1)  que  a  presente  exigência  fiscal  refere­se  à  glosa  de  despesas  financeiras incorridas pela Recorrente que derivam de uma dívida contraída no ano­  calendário de 1999, portanto, 15 (quinze) anos antes da lavratura do Auto de Infração  que deu origem ao presente processo;  b.2) que o  IRPJ e a CSLL são  tributos sujeitos ao  lançamento por  homologação, aplicando­se o prazo de 5 (cinco) anos contados a partir da ocorrencia  do fato gerador, nos termos do artigo 150, §4° do CTN;  b.3)  que  o  fato  da  operação  de  contratação  de  empréstimo  em  análise no presente processo administrativo produzir efeitos futuros é irrelevante para  fins  de  contagem  do  prazo  decadencial,  tal  como  já  decidido  pelo  CONSELHO  ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS:  Fl. 2330DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.589          5 “CSLL  ­  BASE  NEGATIVA  ­  AJUSTES  NO  PASSADO  COM REPERCU5AO  FUTURA  ­  DECADENCIA  ­  Adicionar  valores  tidos  como  indedutíveis  em  um  determinado  período,  provocando  a  diminuição  do  saldo  de  base  negativa,  embora  resultando  em  efeitos futuros, na prática, equivale a efetuar um lançamento de  ofício naquele período  já atingido pela decadência. Vedação."  (Acordao  n°  107­06.572,  da  antiga  7a  Camara  do  Primeiro  Conselho  de  Contribuintes;  Cons.  Rel.  Luiz  Martins  Valero;  sessao de 20.3.2002 ­ nao destacado no original)”  b.4) que ao contrário do que sustenta a r. Decisao recorrida, apesar  de  a  dedutibilidade  das  despesas  financeiras  relacionadas  a  dívida  contratada  produzirem  efeitos  futuros,  deve­se  considerar,  para  fins  de  contagem  do  prazo  decadencial, somente a data em que a dívida foi contratada pelo contribuinte;  b.5)  que  a  r.  Decisao  recorrida  ignorou  que  o  presente  Auto  de  Infração  visa  questionar  a  dedutibilidade  de  despesas  financeiras  que  tem  sido  deduzidas pela Recorrente há muitos períodos, que foram inclusive fiscalizados pela  D.  Fiscalizacao,  assim,  como  seria  possível  admitir  que  as  despesas  financeiras  incorridas pela Recorrente seriam apenas parcialmente legítimas para fins de dedução  fiscal?   b.6) que o presente questionamento da D. Fiscalização encontra­se  fulminado  pela  decadência,  visto  que  a  dívida  em  questão  foi  contraída  no  ano­  calendário  de  1999  e  o Auto  de  Infração  que  deu  origem  ao  presente  processo  foi  lavrado somente em 9.12.2014, isto é, praticamente 10 (dez) anos após o término do  prazo decadencial;    c) Quanto à decadência de parte da exigência fiscal:    c.1)  que, mesmo  que  a  decadência  acima  não  seja  considerada,  o  que se admite apenas para argumentar, deve ser mencionado que a Recorrente está sujeita a  apuração e recolhimento do IRPJ/CSL de acordo com o regime de estimativa mensal;    c.2)  que,  se  há  pagamentos  mensais  de  tributos  ao  longo  do  período­base, é lícito pressupor a ocorrência de fatos geradores mensais do IRPJ/CSL, tanto  isso é verdade que caso o contribuinte, por um lapso ou mesmo por sua opção, não realize os  recolhimentos  mensais  por  estimativa,  a  D.  Fiscalização  exige  a multa  isolada  e  também  eventuais diferenças dos tributos, não sendo permitido ao contribuinte sustentar o argumento  de  que  o  fato  gerador  do  IRPJ  ocorre  somente  em  31  de  dezembro  do  respectivo  ano­ calendário, logo, claro está que há fatos geradores mensais do IRPJ e da CSLL;    c.3)  que  a  presente  autuação  somente  poderia  se  referir  a  fatos  geradores  ocorridos  a  partir  de  dezembro  de  2009,  não  podendo  alcançar  as  despesas  financeiras deduzidas antes deste período, logo, resta comprovado que se operou decadência  quanto  ao  direito  de  o  Fisco  exigir  qualquer  parcela  do  IRPJ/CSL  relativos  aos meses  de  Janeiro até novembro de 2009, tendo em vista que o Auto de Infração que deu origem a esse  processo foi lavrado apenas em 9.12.2014, assim, o Auto de Infração, ao menos em relação  aos  fatos  geradores  ocorridos  nos  meses  de  Janeiro  até  novembro  de  2009,  deve  ser  cancelado de plano;  Fl. 2331DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     6 d) quanto aos fatos:    d.1) que a recorrente iniciou suas atividades no país em 1979 por meio  de uma associação com a indústria brasileira Schneider Logemann com a aquisição de 20%  do capital social da SLC S/A, antiga denominação da recorrente;    d.2)  que,  em  1996,  a  fim  de  expandir  e  melhor  organizar  suas  atividades  no Brasil,  a D&C  e  a Schneider  Logemann  implementaram  uma  reorganização  societária, que resultou: (i) no aumento da participação da D&C no capital da SLC (antiga  denominação da Recorrente e que passaria a ser denominada SLC John Deere S.A.) de 20%  para  40%;  e  (ii)  na  criação  de  sociedade  holding  denominada  John  Deere  Brasil  Participações  Ltda.  ("JD  Participações"),  sociedade  controlada  pela  D&C  que  passou  a  consolidar o investimento da sociedade estrangeira no Brasil, assim, para o que interessa ao  presente  processo,  tem­se  que,  até  junho  de  1999,  a  estrutura  societária  da  Recorrente  poderia ser graficamente demonstrada da seguinte forma:        d.3) que o cenário apresentado no Brasil era extremamente promissor  para  os  participantes  do  agronegócio,  de  forma  que  a  D&C,  já  experimentando  bons  resultados  por meio  da  atuação  no mercado  brasileiro  com  a  sua  participação  de  40%  na  SLC,  encontrava  justificativa  econômica  para  aumentar  ainda mais  a  sua  atuação  no  país,  assim  foi  que,  em  1999,  a  D&C  tomou  uma  decisão  relevante  para  os  rumos  dos  seus  negócios no Brasil e efetuou a aquisição da totalidade do capital da SLC, sociedade que, até  aquele momento, era controlada pelo Grupo Schneider Logemann;    d.4)  que  a  essa  época,  a  Schneider  Logemann  havia  constituido  no  segundo  semestre  de  1998  uma  holding  brasileira  denominada  Evaux  Participações  S.A.  ("Evaux");    d.5)  que  a  Evaux,  em  25.6.1999,  após  integralização  de  seu  capital  com  as  ações  da  ora  Recorrente,  passou  a  deter  a  participação  de  60%  que  a  Schneider  Logemann possuía diretamente na SLC e, a partir desse momento, portanto, a SLC passou a  ser controlada por duas holdings brasileiras: a JD Participações (com 40%), pertencente ao  Grupo John Deere, e a Evaux (com 60%), pertencente ao Grupo Schneider Logemann:  Fl. 2332DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.590          7     d.6) que, em 28.6.1999, visando a aquisição da totalidade do capital da  SLC, a D&C promoveu um aporte de capital na  JD Brasil no valor de US$ 86.500.000,00  (R$  154.558.200,00),  por  meio  de  remessa  registrada  no  Banco  Central  do  Brasil  ("BACEN") conforme contrato de cambio n° 99/003707;    d.7)  que,  a  partir  de  28.6.1999,  a  JD  Brasil  passou  a  deter  recursos  financeiros  no  valor  de  US$  173.500.000,00,  sendo  que  US$  86.500.000,00  (R$  154.558.200,00)  foram  obtidos  via  aumento  de  capital  (equity)  e  US$  87.000.000,00  (R$  155.451.600,00) via emprestimo (debt);    d.8)  que  no  dia  30.6.1999,  com  base  no  Contrato  de  Subscrição  de  Ações  celebrado  com  a  Schneider  Logemann,  o  qual  formalizou  todas  as  premissas  da  transação que seria fechada entre o Grupo John Deere e o Grupo Schneider Logemann, a JD  Brasil efetuou aumento de capital da Evaux no valor de R$ 305.542.800,00, de forma que a  Evaux emitiu 303.230.193 novas ações em favor da JD Brasil;      d.9) que, em 1.7.1999, os acionistas da Evaux aprovaram o protocolo  de cisão parcial do seu patrimônio e a  retirada da JD Brasil do seu quadro de acionistas e,  Fl. 2333DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     8 por  conta  da  cisão  parcial  da  Evaux,  o  Grupo  Schneider  Logemann  passou  a  deter  os  recursos  financeiras  que  foram  previamente  aportados  pela  JD  Brasil,  enquanto  que  a  JD  Brasil  passou  a  deter  60%  de  participação  societária  que  a  Evaux  detinha  na  SLC  (atual  recorrente);    d.10) que como  resultado da  cisão da Evaux, o objetivo principal da  transação  que  havia  sido  firmada  com  a  Schneider  Logemann  por  meio  do  Contrato  de  Subscrição de Ações havia sido atingido: o Grupo John Deere passou a deter a totalidade do  capital da Recorrente  (denominada, à época, SLC), sendo que, nesse momento, a estrutura  societária da Recorrente poderia ser demonstrada graficamente da seguinte forma:    d.11)  que  visando  a  cumprir  os  demais  procedimentos  necessários  a  expansão do Grupo  John Deere no Brasil,  a SLC  incorporou  a  JD Brasil  em 31.7.1999,  a  valores  contábeis,  ocasionando  a  extinção  da  sociedade  incorporada,  sendo  que  essa  incorporação também foi formalizada de acordo com as leis brasileiras, com a aprovação de  protocolos de incorporação e de justificação, além de estar embasada em laudo elaborado por  empresa especializada;    d.12) que, com a incorporação da JD Brasil, a Recorrente (antiga SLC)  sucedeu  essa  sociedade  em  todos  os  seus  direitos  e  obrigações,  inclusive  na  obrigação  de  liquidar  a  dívida  contraída  pela  JD  Brasil  frente  a  JD  CV,  dívida  esta  que  possibilitou  a  própria aquisição do investimento adicional (de 60%) na SLC pelo Grupo John Deere;    d.13) que, por razões legais (i.e., sucessão universal de bens e direitos)  estabelecidas pela legislação societária, a dívida assumida pela sociedade incorporada passou  a ser amortizada pela Recorrente;  e)  quanto  aos  motivos  determinantes  para  reforma  da  decisão  recorrida:    e.1)  que  a  estrutura  adotada  pelo  Grupo  John  Deere  no  Brasil  para  aquisição da totalidade do capital da Recorrente, com a utilização da JD Brasil e a captação  de recursos obtidos por meio de dívida, sendo o valor do financiamento relevante em relação  ao  preço  total  pago  aos  vendedores,  é  comum  e  normal  no  contexto  de  investimentos  e  aquisições de empresas, sendo que essa prática ficou conhecida no mercado como "compra  alavancada",  ou,  em  inglês,  "leveraged  buyout"  (LBO),  e  se  tornou  popular  a  partir  da  década de 1980;  Fl. 2334DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.591          9   e.2)  que  as  regras  gerais  que  condicionam  a  dedutibilidade  de  determinada despesa se encontram no artigo 47 da Let 4.506/64, base legal do artigo 299 do  RIR/99:  Art. 47. São operacionais as despesas não computadas nos custos,  necessárias a atividade da empresa e a manutenção da respectiva  fonte produtora.  §  1°  São  necessárias  as  despesas  pagas  ou  incorridas  para  a  realização das transações ou operações exigidas pela atividade da  empresa.  § 2° As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normals  no tipo de transações, operações ou atividades da empresa.    e.3)  que  o  Parecer  Normativo  n°  32,  de  17.8.1981  (PN  32/81)  da  Coordenação do Sistema de Tributação ("CST"), esclarece que despesa necessária é aquela  essencial as transações exigidas para a exploração das atividades, principais ou acessórias, da  sociedade  que  estejam vinculadas  a  continuidade  da  fonte  produtora  dos  rendimentos,  por  sua vez, despesa normal seria aquela cujo valor se verifica comumente no tipo de operação  ou transação efetuada e que, na realização do negócio, se apresenta de forma costumeira ou  ordinária, e, por  fim, despesa usual seria aquela habitual para o tipo de negócio de que se  trata;    e.4)  que  as  despesas  financeiras  derivadas  de  empréstimos  tomados  pelas pessoas jurídicas são consideradas como necessárias e, portanto, dedutíveis da base de  cálculo do IRPJ/CSL;    e.5)  que  as  despesas  financeiras  de  empréstimos  incorridas  pelas  pessoas  jurídicas  são dedutíveis  sob o pressuposto de que são  tomadas em seu benefício e  estão vinculadas aos objetivos empresariais da pessoa jurídica;    e.6)  que  o  artigo  17,  parágrafo  único  do  Decreto­lei  1.598/77,  reproduzido  no  artigo  374  do  RIR/99,  estabelece  que  os  juros  pagos  ou  incorridos  pelo  contribuinte serão dedutíveis como custo ou despesa operacional:  Art. 17 Omissis  Paragrafo  unico  ­  Os  juros  pagos  ou  incorridos  pelo  contribuinte  sao  dedutiveis  como  custo  ou  despesa  operacional, observadas as seguintes normas:  a)  Omissis  b)  os  juros  de  empréstimos  contraídos  para  financiar  a  aquisição  ou  construção  de  bens  do  ativo  permanente,  incorridos  durante  as  fases  de  construção  e  pre­operacional,  podem  ser  registrados  no  ativo  diferido,  para  serem  amortizados.    e.7) que mais diretamente relacionado ao caso em análise no presente  processo  administrativo,  o  artigo  31  da  Lei  11.727/08  estabelece  um  regime  tributário  específico  para  as  despesas  financeiras  vinculadas  a  aquisição  de  investimentos  por  sociedades holdings, confira­se:  Art. 31. A pessoa juridica que tenha por objeto exclusivamente  a gestão de participações societárias (holding) poderá diferir o  Fl. 2335DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     10 reconhecimento das despesas com juros e encargos financeiros  pagos  ou  incorridos  relativos  a  empréstimos  contraídos  para  financiamento de investimentos em sociedades controladas.    e.8) que a dívida contraída pela JD Brasil atendeu as regras de preços  de transferência vigentes à época e também as regras de subcapitalização que só vieram a ser  editadas muitos anos após a contratação original do empréstimo (Lei 12.249/10);    e.9)  que  se  trata  de  hipótese  regulada  de  forma  expressa  pela  legislação tributária em vigor e se a operação foi completamente efetuada de acordo com as  regras que vigoravam àquela época, não poderia a D. Fiscalização exigir ou obrigar que JD  Brasil  ou  a  Recorrente  adotassem  a  prática  que  elas  entendem  que  resultaria  em  maior  pagamento de tributos, ainda mais, destaque­se que as despesas financeiras glosadas pela D.  Fiscalização no presente processo são completamente usuais e normais, na medida em que os  juros pagos no valor de 10% estavam bem alinhados com a taxa SELIC vigente à época em  que incorridos pela Recorrente (10,13 % e 9,9% para 2009 e 2010, respectivamente);    e.10) que, caso a contratação da dívida pela JD Brasil pudesse ser  desconsiderada pela D. Fiscalização, o que se admite apenas a título de argumentação,  tem­se que os recursos financeiras obtidos via dívida deveriam ser considerados como  capital  da  sociedade,  tendo  em  vista  que  esses  mesmos  recursos  financeiros  eram  necessários para que a JD Brasil  efetuasse a aquisição da  integralidade do capital da  Recorrente;    e.11)  que  se  os  valores  fossem  considerados  como  capital  da  JD  Brasil,  o  valor  do  patrimônio  líquido  dessa  sociedade  seria maior,  o  que  traria  uma  maior  base  para  pagamento  de  JCP  aos  seus  sócios  (mesmo  após  a  incorporação  da  sociedade pela Recorrente) e, nesse  cenário,  as despesas de JCP distribuídos pela JD  Brasil  ou  pela Recorrente  (após  a  incorporação  da  JD Brasil)  seriam maiores  e,  nos  termos  do  artigo  9°  da  Lei  9.249/95,  também  poderiam  ser  deduzidas  para  fins  de  apuração  do  IRPJ/CSLL,  logo,  mesmo  que  a  dívida  pudesse  ser  desconsiderada  no  presente  caso,  essa  questão  ­  dedução  de  valores  maiores  de  JCP  ­  deveria  ter  sido  levada em consideração pela D. Fiscalização e pela r. Decisao recorrida;    e.12)  que  os  recursos  financeiros  captados  pela  JD Brasil  via  dívida  foram efetivamente empregados na aquisição da totalidade do capital da Recorrente, no ano­ calendário  de  1999,  configurando  um  negócio  lícito  e  que  trouxe  efetivos  benefícios  econômicos ao Grupo John Deere (do qual a Recorrente passou a fazer parte) no Brasil;    e.13)  que  na  pretensão  de  glosar  as  despesas  financeiras  incorridas  pela Recorrente, a D. Fiscalização questiona a necessidade de tais despesas, pelo fato de ter  considerado que a dívida foi contraída para financiar a própria aquisição da Recorrente em  favor  da  controladora  no  exterior,  porém  essa  alegação  da  D.  Fiscalização  não  merece  prosperar;    e.14)  que  a  dívida  tomada  pela  JD  Brasil  tinha  como  objetivo  permitir a aquisição da totalidade do capital da Recorrente, fato este que nem foi colocado  em dúvida pela D. Fiscalização, além disso, a aquisição de participações societárias e, sem  dúvida alguma, transação necessária ao desempenho da atividade empresarial e, no caso em  análise, a aquisição da Recorrente pelo Grupo John Deere no Brasil fazia parte da estratégia  de  crescimento  do  grupo  no  País,  tendo  em  vista  o  momento  favorável  apresentado  pelo  mercado agrícola brasileiro;    e.15)  que,  na  medida  em  que  essas  despesas  financeiras  eram  dedutíveis  para  a  pessoa  jurídica  incorporada  (a  JD  Brasil),  não  há  dúvidas  de  que  elas  devem também ser dedutíveis para a incorporadora (a Recorrente), ao contrário do que alega  a D. Fiscalização e a r. Decisao recorrida;  Fl. 2336DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.592          11   e.16)  que  a  JD  Brasil  foi  a  sociedade  que  adquiriu  investimento  relevante  para  a  atuação  do  Grupo  John  Deere  no  Brasil,  aquisição  esta  realizada  em  estrutura usual e normal para o  tipo de negócio que se pretendia  realizar e  sem configurar  qualquer abuso por parte das partes envolvidas;    e.17) que,  ainda  que  a  utilização  da  JD Brasil  não  estivesse  baseada  em  razões  empresariais,  o  que  se  admite  apenas  para  argumentar,  deve  ser  salientado  que  essa sociedade era uma sociedade holding pura e, por tal motivo, não foi constituída para ter  empregados ou quaisquer outros ativos além de unicamente participações societárias;    e.18) que na legislação aplicável, a possibilidade de existência de uma  sociedade  cujo  objeto  social  seja  a  mera  detenção  de  outra(s)  sociedade(s)  está  expressamente prevista no artigo 2°, § 3°, da Lei das S. A., confira­se:  Art. 2° Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim  lucrativo,  não  contrario  à  lei,  a  ordem  pública  e  aos  bons  costumes.  (...)  §  3°  A  companhia  pode  ter  por  objeto  participar  de  outras  sociedades; ainda que não prevista no estatuto a participação e  facultada  como  meio  de  realizar  o  objeto  social,  ou  para  beneficiar­se de incentivos fiscais.     e.19)  que,  ainda  que  não  se  entenda  que  houve  efetivo  propósito  negocial  e  verdadeira  substância  econômica  na  operação  ora  discutida,  o  que  se  admite  apenas  para  argumentar,  não  é  dado  a  D.  Fiscalização  desconsiderar  negócios  jurídicos  existentes, válidos e eficazes apenas com base em uma suposta interpretação da "substância  econômica”;    e.20) que, de 1999 a 2008, as despesas financeiras foram informadas a  D.  Fiscalização  e  foram  consideradas  como  legítimas  para  fins  fiscais,  sendo  que,  agora,  passados quase 10 (dez) anos desde quando a Recorrente passou a deduzir as despesas, a D.  Fiscalização passou a considerar que a dedução em análise seria uma fraude cometida pela  Recorrente, o que é um completo absurdo;    e.21)  que  também  deve  ser  levada  em  consideração  que,  além  de  a  dívida em questão estar expressamente autorizada e  formalizada no âmbito do BACEN, as  autoridades fiscais consideraram as despesas  financeiras como válidas e dedutíveis durante  quase  10  (dez)  anos,  de  forma  que  o  presente  questionamento  traz  enorme  insegurança  jurídica para a Recorrente e merece ser  imediatamente cancelado por este E. CONSELHO  ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS;  f) quanto à qualificação da multa:    f.1)  que,  a  título  de  argumentação,  ainda  que  fosse  admitida  a  exigência do principal nesta autuação, não poderia ser aplicada a multa qualificada de 150%;    f.2) que o caso em análise tem um ponto fundamental que afasta desde  logo a qualificação da multa, qual seja: o empréstimo foi contratado em 1999 e, de 1999 a  2008,  a D.  Fiscalização  entendeu  como  firme  e  boa  a  despesa  financeira  decorrente  deste  contrato;     f.3)  que  tudo  estava  contabilizado  e  formalizado  no BACEN,  então  como  pode  apenas  depois  de  quase  uma  década  a  administração  publica  rever  seu  entendimento e agora considerar como fraude?  Fl. 2337DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     12   f.4) que, no caso em exame, não se verifica a ocorrência de fraude à lei  tributária,  tampouco  em  abuso  de  direito  ou  simulação,  pois,  em  momento  algum  a  Recorrente pretendeu realizar atos societários para "driblar" as normas tributárias em questão  buscando a redução dos tributos devidos;    f.5) que, no caso analisado, ao contrário do que se pretende imputar à  Recorrente, não se verifica a ocorrência de sonegação ou simulação, pois todos os negócios  celebrados conferiram e transferiram direitos para os seus verdadeiros titulares, os negócios  contêm declarações, condições e cláusulas verdadeiras e nenhum documento foi antedatado  ou pós­datado;    f.6) que todos os documentos descreveram as operações tal como elas  efetivamente  ocorreram  ou  ocorreriam  e,  em nenhum momento,  a Recorrente  ou  qualquer  das outras sociedades envolvidas tentou "esconder" suas operações das autoridades fiscais;  g) que é a impossibilidade da aplicação simultânea da multa de oficio e  multa  isolada decorre do  chamado principio da  consunção,  como  já  confirmado pela  CÂMARA  SUPERIOR  DE  RECURSOS  FISCAIS,  quando  a  primeira  conduta  se  afigura  como  mero  meio  para  a  obtenção  do  resultado  previsto  na  segunda,  a  penalidade  aplicável  a  segunda  conduta  necessariamente  prevalece  sobre  a  da  primeira;  f) quanto ao juros de mora:    f.1) que na mesma sessão de 8.12.2014 na qual foi aprovada a Súmula  da CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS vedando a aplicação concomitante da  multa  isolada de 50% com a multa de ofício,  foi ainda  rejeitada pelo Pleno da CÂMARA  SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS a proposta de Súmula que autorizaria a aplicação de  juros de mora  sobre  a multa de oficio  (4a Proposta de Enunciado de Súmula prevista pela  Portaria 23/14), assim, resta evidente a impossibilidade de cobrança de juros a taxa SELIC  sobre as multas aplicadas no presente caso.    f.2) que a taxa SELIC não pode ser aplicada aos créditos tributários e,  se  admitida  a  sua  aplicação,  só  podera  incidir  sobre  o  crédito  tributário  principal,  não  podendo  recair  sobre  o  valor  da  multa  de  ofício,  que  é  penalidade  e  não  tem  natureza  tributária.             É o relatório.    Voto             Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior.  O  recurso  voluntário  é  tempestivo  e  foi  subscrito  por  mandatários  com  poderes para tal, conforme procuração a fls. 2222, razão pela qual dele conheço.    DA DECADÊNCIA  Fl. 2338DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.593          13   Não procede a alegação da recorrente de que o prazo decadencial devesse ser  contado da data em que a dívida em questão foi contraída no ano­calendário de 1999, pois as  despesas  financeiras  em  questão  são  elementos  formadores  da  base  tributável  dos  fatos  geradores de 2009 e 2010, sendo que é ônus da contribuinte provar que todas as despesas que  entraram nas  referidas  bases  tributáveis  são  necessárias  à manutenção  da  fonte  produtora  da  renda.     Ora,  se  a  despesa  é  elemento  que  compõe  a  base  de  cálculo,  critério  quantitativo de um determinado fato imponível, o prazo decadencial para que o Fisco efetue o  lançamento  fundado  na  glosa  de  tal  despesa  deverá  ser  contado  em  função  desse  fato  imponível, de tal forma que o dies a quo será inexoravelmente ou a data do fato imponível se  aplicável fosse o art. 150, § 4º do CTN; ou então, o primeiro dia do exercício seguinte ao que  Fisco poderia efetuar o lançamento, se aplicável for o art. 173, I, do CTN.     Ademais, o  legislador ordinário atentou, para situações como essas, em que  atos jurídicos passados possam influenciar fatos geradores futuros, e para tanto assim dispôs no  art. 37 da Lei 9.430/96:  “Art. 37. Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos  a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros,  serão  conservados  até  que  se  opere  a  decadência  do  direito  de  a  Fazenda  Pública  constituir  os  créditos  tributários  relativos  a  esses  exercícios.”    Como  se  vê,  não  somente  o  prazo  decadencial  não  se  conta  da  data  da  constituição da dívida, como estava obrigada a recorrente a conservar toda a documentação que  o comprovasse, para fazer jus a dedutibilidade da despesa.    Assim, uma vez que a  ciência dos  autos de  infração  se deu em 11/12/2014  (Termo a fls. 1568), deve ser afastada a alegação de decadência dos lançamentos do IRPJ e da  CSLL ainda que  este Colegiado venha  a  entender que não  fora comprovada  a ocorrência de  dolo, fraude ou simulação, pois, ao se aplicar o art. 150, § 4º, na espécie, temos que o dies ad  quem  do  direito  de  o  Fisco  lançar  o  IRPJ  e  a CSLL do  fato  gerador  de  31/12/2009  (o mais  antigo entre os  lançados) seria 31/12/2014, ou seja, data posterior àquela em que ocorrera os  lançamentos em tela (11/12/2014).     Vale  acrescentar  que  incorre  em  rotundo  equívoco  a  recorrente  quando  sustenta ser o fato gerador do IRPJ e CSLL mensais. Trata­se,  in casu, de lucro real anual e,  consequentemente, de base ajustada anual, em observância a  livre opção feita pela recorrente  em sua DIPJ2010 (fls. 1183) e DIPJ2011 (fls.1334), logo os fatos geradores em tela ocorreram  em 31/12/2009 e 31/12/2010. Ademais,  em 2009 e 2010, não havia  a opção de  apuração do  IRPJ/CSLL pelo fato gerador mensal, pois, desde a Lei 9.430/96, o IRPJ e a CSLL só poderiam  ser apurados sobre fato gerador trimestral ou anual.     Por sua vez, o fato de ser exigida antecipações mensais para quem apure pelo  lucro real anual, não significa que o fato gerador do  tributo (IRPJ/CSLL) seja mensal. Tanto  isso  é  verdade  que,  transcorrido  o  ano­calendário,  não  é  mais  possível  o  lançamento  da  antecipação sobre a base estimada mensal, ou seja, sequer há falar em prazo quinquenal para  lançamento das antecipações (IRPJ/CSLL) sobre base estimada mensal,  já que o direito de o  Fisco  lançá­las  caduca  ao  final  do  ano­calendário  a  que  compitam.  Nesse  sentido,  vale  a  transcrição do verbete da seguinte Súmula CARF:   Fl. 2339DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     14 Súmula  CARF  nº  82:  Após  o  encerramento  do  ano­calendário,  é  incabível  lançamento  de  ofício  de  IRPJ  ou  CSLL  para  exigir  estimativas não recolhidas.    Por sua vez, a  regra decadencial para o  lançamento das multas  isoladas por  falta de recolhimento das antecipações mensais é sempre aquela do art. 173,  I, do CTN, pois  seria  de  todo  absurdo  imaginar  que  a  uma multa  aplicada  sempre  de  ofício  pudesse  incidir  norma que versa sobre lançamento por homologação (art. 150, §4º, CTN). Ao se aplicar o art.  173,  I, na espécie,  temos que o dies ad quem do direito de o Fisco  lançar as multas  isoladas  relativas aos fatos geradores de janeiro a novembro de 2009 (os mais antigos entre os lançados)  seria  31/12/2014,  ou  seja,  data  posterior  àquela  em  que  ocorrera  os  lançamentos  em  tela  (11/12/2014).    Por essa razão, voto por afastar as preliminares de decadência alegadas.      No  mérito,  vale,  inicialmente,  a  transcrição  dos  seguintes  excertos  do  Relatório Fiscal a fls. 1508 e segs., in verbis:   “10.  A  FISCALIZADA  foi  intimada  a  apresentar  os  Livros  de  Apuração  do  Lucro  Real  dos  anos  2009  e  2010,  planilha  com  os  cálculos  das  despesas  financeiras  geradas  pelo  empréstimo nos meses  dos anos 2009 e 2010 e alterações do contrato social promovidas entre  01/01/2009 e 31/12/2010.  11.  Também,  foi  dispensada  de  reapresentar  os  documentos  que  basearam procedimentos fiscais anteriores, amparados pelos Mandados  de Procedimento Fiscal  nº MPF 1010800­2008.00548­3  e  10.0.01.00­ 2013­00044­7, e foi cientificada que a fiscalização reportar­se­ia aos  documentos apresentados, declarações e esclarecimentos prestados  pelo  Sujeito  Passivo  e/ou  terceiros  em  resposta  aos  Termos  de  Intimação  que  compõem  os  processos  administrativos  fiscais  digitais  nº  11070722318/2011­07,  11070720968/2012­91  e  11070.722930/2013­33,  quando  os  mesmos  se  apresentarem  como  elementos de provas e se referirem ao objeto de verificação do presente  procedimento.”    Tendo  sido  relator  do  voto  condutor  do  acórdão  que  julgou  o  recurso  voluntário objeto do PAF nº 11070720968/2012­91, valho­me da análise que ali  fiz sobre os  eventos  ocorridos  no  ano  1999  no  meu  voto  condutor  do  Acórdão  nº  1302­001.522  (de  22/09/2014), para assim a descrevê­los:    OPERAÇÕES DE 1999 (todas as folhas a seguir citadas se referem ao PAF  nº 11070720968/2012­91)  Por último, quanto ao segundo grupo de operações (realizadas em 1999), tem  razão o Termo de Constatação Fiscal (do PAF nº 11070720968/2012­91), quando o qualifica  como uma operação casa­separa.  Vejamos, então,  esses mesmos  fatos  relatados a partir das provas dos autos  (PAF nº 11070720968/2012­91):  1º  ­  Em  15/06/1999,  o  Grupo  John  Deere  adquire  uma  empresa  de  “prateleira”, constituída em fevereiro de 1999 por duas pessoas físicas (Célia Oliveira e Olavo  Barbosa),  e  altera  sua denominação de Sassatune Comercial Ltda para  John Deere do Brasil  Ltda., (vide doc. a fls. 4152 e 4167), sendo que, do capital social no valor R$ 100,00, a Deere  Fl. 2340DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.594          15 & Company participava com 99% e a Deere Payroll Service com 1%. Essa empresa iria servir  justamente, com veremos, à operação casa/separa e, logicamente iria desaparecer ao longo do  processo. Alerto que ao final dos eventos, quando já extinta a John Deere do Brasil Ltda (JDB),  a SCL­JD passa assumi essa denominação (JDB).              2º  ­  A  fls.  1853/1855,  consta  Ata  da  Evaux  de  25/06/1999,  em  que  é  registrada a deliberação sobre a ratificação de empresa especializada para a avaliação das ações  de emissão da SLC­JD a serem conferidas à capital social, o qual passaria de R$ 100,00 para  R$  149.117.338,00,  mediante  a  emissão  de  621.321.825.  Nesse  momento,  Schneider  Logemann  transfere,  em  integralização  de  capital,  o  que  era  o  objeto  da  compra  e  venda  dissimulada, ou seja, a sua participação na SLC­JD;    Deerer Payroll    Deere Company                1 cota      99,99%                                  JDB Participações    JDB    Schneider Logemann      40%              100%                    EVAUX                      60%                                SLC­JD            Deerer Payroll    Deere Company                1 cota      99,99%                                  JDB Participações    John Deere do Brasil  (JDB)    Schneider Logemann      40%              60%                                  SLC­JD          Fl. 2341DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     16 3º  ­ Em  30/06/1999,  Schneider  Logemann  e  Deere  &  Company  celebram  contrato  (doc.  a  fls.  692),  no  qual,  em  verdade,  pactuam  o  roteiro  dos  atos  simulados  a  serem realizados a para a concretização da compra e venda dissimulada da participação  da Schneider Logemann na SLC­JD para o Grupo Deere,  além de  estipular  as  garantias  para as partes. Observo que se trata de um contrato sem objeto, isso mesmo, não há nenhuma  cláusula tratando do objeto do contrato, se não vejamos as cláusulas desse contrato:  Cláusula 1 – Definições  Cláusula Constituição da SL2  Cláusula 3 Subscrição de Ações da SL2 pela Deere e Cisão da SL2  Cláusula 4 Declarações e Garantias da SL  Cláusula 5 Declarações e Garantia da Deere  Cláusula 6 Compromissos da SL até o Fechamento  Cláusula 7 Condições para as Obrigações da Deere para o Fechamento  Cláusula 8 Condições para as Obrigações da SL para o Fechamento  Cláusula 9 Outras Avenças das Partes  Cláusula 10 Indenização  Cláusula 11 Disposições Gerais  Assim, o que se verifica é que todas essas cláusulas, primeiro, dissimulam o  verdadeiro objeto do contrato que era simplesmente celebrar a venda pela Schneider Logemann  de sua participação na SLC­JD para o Grupo John Deer, segundo, que ali estavam celebradas  as providências que cada uma das partes deveriam tomar para a realização dos atos simulados.  Por  que  não  se  celebrou  uma  simples  compra  e  venda  de  participação  societária?  Simplesmente, porque do modo como pactuado, houve, no mínimo, a dissimulação do ganho  de capital. Prossigamos na análise dos eventos posteriomente.  4º  ­  Seguindo  o  roteiro  pactuado,  ainda  em  30/06/1999,  conforme  Ata  da  Evaux  a  fls.  1869/1873,  seu  capital  social  é  aumentado  em  R$  72.775.246,00  (passando  de  R$  149.117.338,00 para R$ 221.892.584,00), com a emissão de 303.230.193 novas ações ON sem  valor nominal, as quais são naquele ato subscritas e integralizadas pela JDB pelo valor de R$  305.542.800,00, dos quais R$ 232.767.554,00 são ágio na  subscrição que será  registrado em  conta  de  reserva  de  ágio  no  PL  da  Evaux.  Estava,  então  celebrado  o  “casamento”entre  o  comprador e o vendedor, com  tudo preparado para a “separação’, pois  já havia o  registro do  ágio na  JDB e o  acréscimo patrimonial  na Schneider Logemann, devido ao  aumento  sofrido  pelo  PL  da  Evaux  com  o  registro  da  reserva  de  ágio  no  valor  de  R$  232.767.554,00.  A  estrutura societária então ficou assim:    Deerer Payroll    Deere Company              1 cota      99,99%                              JDB Participações    JDB    Schneider Logemann    40%        32,79%      67,20%                        Fl. 2342DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.595          17               EVAUX                    60%                            SLC­JD        5º Um dia  depois,  em  01/07/1999,  ocorre  a  separação,  pois,  pela Ata  da  JDB  a  fls.  1877,  é  aprovado o Protocolo de cisão parcial da Evaux com a saída da JDB do seu quadro societário e  com a versão, a ela, das ações ordinárias da SLC­JD que compunham o ativo da cindida. Ou  seja, com isso, fecha­se, em dois dias, a operação casa­separa, a adquirente (Grupo John Deere)  sai com o objeto da compra (SLC­JD) e a alienante com o pagamento (R$ 232.767.554,00 em  reserva de capital na Evaux). Vejamos a estrutura societária após a “separação”:     Deerer Payroll    Deere Company              1 cota      99,99%                              JDB Participações    JDB    Schneider Logemann    40%        60%      100%                            SLC­JD      EVAUX    6º  ­ Em 31/10/1999, SLC­JD incorpora JDB (doc. a  fls. 4199/4.202), sendo  que  a  Deerer  Payroll  Service  cede  as  ações  da  SLC­JD  (em  substituição)  para  Deere  &  Company. A estrutua societária ficou assim:    Deerer Payroll    Deere Company      1 cota      99,99%  60%                    JDB Participações              40%                                SLC­JD            7º  ­  Em  30/07/2007,  a SLC­JD,  agora  denominada  John Deere Brasil  Ltda  incorpora a JDB Participações (vide doc. a fls. 2704 a 2706).  Fl. 2343DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO     18   Deerer Payroll    Deere & Company      1 cota      99,99%                                    John Deere Brasil Ltda  (ex­ SLC­JD, que  incorporou SLC­JD,  JDB, JD Participações)        Ora,  as  operações  ocorridas  em  1999,  descritas  acima,  revelam  uma  simulação para dissimular o ganho de  capital  que deveria  ter  sido oferecido  à  tributação por  Schneider  Logemann.  Ou  seja,  o  beneficiário  de  toda  a  simulação  foi  o  grupo  Schneider  Logemann, ao ocultar o ganho de capital, propósito para o qual a Evaux foi constituída. Assim,  ainda  que  não  tivesse  sido  criada  a  Evaux  e  a  aquisição  da  participação  dela  na SLC­JD  se  desse  por  meio  de  uma  operação  de  compra  e  venda  direta  entre  a  JDB  e  a  Schneider  Logemann,  isso  não  seria  tributariamente  mais  oneroso  para  a  JDB,  mas  apenas  para  a  Schneider Logemann.  Logo,  a  operação  casa/separa,  que  está  perfeitamente  configurada  nos  atos  acima descrito, não macula a operação de crédito entre a JDB e a JD CV, até porque ela seria  necessária mesmo que fosse para a concretização dos atos ditos dissimulados, ou seja, compra  e  venda  direta  da  participação  na  SLC  entre  a  JDB  e  a  Schneider  Logemann,  pois  não  se  discute o efetivo preço pago na operação.  Noutro  ponto,  vale  ressaltar  que  entendo  perfeitamente  legítimo  que  a  controladora no exterior pudesse optar entre adquirir diretamente a participação na SLC­JD ou  então  aportar  recursos  em  um  subsidiária  brasileira  (JDB),  para  que  esta  adquirisse  a  participação desejada. É lógico que a segunda opção seria mais benéfica já que possibilitaria o  aproveitamento  do  ágio  pago  após  cumprida  as  condições  do  art.  7º  ou  8º  da  Lei  9.532/97.  Todavia, entendo que esses são caminhos lícitos que a legislação confere ao contribuinte, razão  pela  qual  não  verifico  qualquer  patologia  jurídica  nesta  conduta  a  macular  a  operação  de  crédito contraída pela JDB.   Ora, se os recursos eram necessários para que o Grupo John Deere adquirisse  a  participação  que  o  Grupo  Schneider  Logemann  tinha  na  SLC­JD,  tem  razão  a  recorrente  quando alerta que: se os valores aportados como empréstimos para a aquisição da participação  da SLC­JD tivessem ingressado como aumento de capital, não existiria as despesas financeiras  com juros do empréstimo, mas teria sido aumentada a base de cálculo dos juros sobre capital  próprio (pelo aumento do PL) e, consequentemente, poder­se­ia ter despesas maiores de JCP.  Ora, os JCP poderiam poderiam gerar despesas financeiras de valores bem próximos aos juros  dos empréstimos pagos, pois como alega a recorrente, os juros pagos no valor de 10% estavam  bem alinhados com a taxa SELIC vigente à época em que incorridos pela Recorrente (10,13 %  e 9,9% para 2009 e 2010, respectivamente).  Esse ponto levantado pelo recorrente enfraquece qualquer alegação de que a  despesa  não  fosse  necessária,  pois,  ainda  que  tivesse  sido  feito  um  aumento  de  capital,  a  recorrente  poderia  gerar  despesas  com  JCP.  Ressalte­se  que  tanto  os  juros  dos  empréstimos  como  o  JCP  gerariam  recolhimento  de  IRRF  na  remessa,  razão  pela  qual  também  não  se  vislumbra, neste ponto, qualquer ardil.   Fl. 2344DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 11070.722574/2014­39  Acórdão n.º 1302­001.945  S1­C3T2  Fl. 6.596          19 É verdade que, ao realizar a operação de empréstimo em vez de um aumento  de capital, o Grupo JD viabilizou uma operação que permitia o retorno ao exterior de todo o  capital antes aportado na JDB, com o pagamento da amortização, porém isso é irrelevante do  ponto de vista tributário, já que não teria qualquer efeito sobre bases tributáveis.  Por  último,  equivoca­se  o  autuante  quando  alega  que  o  empréstimo  foi  contraído para que a recorrente adquirisse ela própria. Trata­se de uma visão equivocada que  parte  de  premissas  falsas.  Primeiro,  quando houve  a operação  de  empréstimo,  existiam duas  pessoas  jurídicas:  a  JDB  e  a  SLC­JD,  esta  controlada  pelo  Grupo  Schneider  Logemann  e  aquela  pelo  Grupo  John  Deere.  Segundo,  o  empréstimo  foi  tomado  pela  JDB,  que  não  é  a  recorrente,  mas  que  viria  a  ser  posteriormente  incorporada  pela  recorrente.  Terceiro  e mais  importante,  é  que  a  alegação  do  autuante  dá  a  falsa  impressão  de  que  o  dinheiro  pago  na  aquisição da participação da SLC­JD teria ficado no Grupo John Deere, o que não é verdade,  pois o destinatário do pagamento foi o Grupo Schneider Logemann. Assim, se hoje a recorrente  se  chama  JDB  e  se  ela  incorporou  a  antiga  JDB,  isso  não  significa  em  absoluto  que  o  empréstimo tenha sido contraído por ela e para a compra dela própria.  Por tudo antes exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário, para  cancelar os lançamentos em tela.   (assinado digitalmente)  Alberto Pinto Souza Junior                             Fl. 2345DF CARF MF Impresso em 22/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/08/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 18/0 8/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO

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Numero do processo: 13888.904231/2009-44
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 07 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Aug 17 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Data do fato gerador: 29/02/2004 PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA. Até julho de 2004 não existe norma que desonere as receitas provenientes de vendas a empresas sediadas na Zona Franca de Manaus das contribuições PIS e COFINS, a isso não bastando o art. 4º do Decreto-Lei nº 288/67. Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-004.096
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Maria Teresa Martínez López, que davam provimento. Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Tatiana Midori Migiyama, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Érika Costa Camargos Autran, Rodrigo da Costa Pôssas, Vanessa Marini Cecconello, Maria Teresa Martínez López e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 8; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1892; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRF­T3  Fl. 2          1 1  CSRF­T3  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS    Processo nº  13888.904231/2009­44  Recurso nº  1   Especial do Contribuinte  Acórdão nº  9303­004.096  –  3ª Turma   Sessão de  07 de junho de 2016  Matéria  PIS/COFINS. Incidência sobre receitas de vendas a empresas sediadas na ZFM.  Recorrente  CRISTINA APARECIDA FREDERICH & CIA LTDA  Interessado  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP  Data do fato gerador: 29/02/2004  PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA  ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA.  Até julho de 2004 não existe norma que desonere as receitas provenientes de  vendas a empresas sediadas na Zona Franca de Manaus das contribuições PIS  e COFINS, a isso não bastando o art. 4º do Decreto­Lei nº 288/67.  Recurso Especial do Contribuinte Negado.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam  os  membros  do  Colegiado,  pelo  voto  de  qualidade,  negar  provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana  Midori  Migiyama,  Demes  Brito,  Érika  Costa  Camargos  Autran  e  Maria  Teresa  Martínez  López, que davam provimento.     Carlos Alberto Freitas Barreto ­ Presidente e Relator  Participaram  do  presente  julgamento  os  Conselheiros  Henrique  Pinheiro  Torres,  Tatiana Midori  Migiyama,  Júlio  César  Alves  Ramos,  Demes  Brito,  Gilson Macedo  Rosenburg  Filho,  Érika  Costa  Camargos  Autran,  Rodrigo  da  Costa  Pôssas,  Vanessa Marini  Cecconello, Maria Teresa Martínez López e Carlos Alberto Freitas Barreto.       AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 90 42 31 /2 00 9- 44 Fl. 272DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 3          2 Relatório  Trata­se  de  recurso  especial  de  divergência  interposto  pela  contribuinte  com fulcro nos artigos 64,  inciso II e 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do  Conselho  Administrativo  de  Recursos  Fiscais  ­  RICARF,  aprovado  pela  Portaria  MF  nº  256/09, meio pelo qual busca a reforma do Acórdão nº 3303­002.518, que negou provimento  ao recurso voluntário. Decidiu o colegiado a quo pela incidência das contribuições sobre as  receitas  oriundas  de  vendas  a  empresas  sediadas  na  Zona  Franca  de Manaus,  no  período  tratado neste processo.  Cientificado do mencionado acórdão o  sujeito passivo apresentou  recurso  especial suscitando divergência  jurisprudencial quanto à  isenção das contribuições sobre as  receitas  decorrentes  de  vendas  de mercadorias  e  serviços  para  empresas  com domicílio  na  Zona Franca de Manaus.   O  recurso  foi  admitido  por  intermédio  de  despacho  do  Presidente  da  Câmara recorrida, e a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões.  É o relatório, em síntese.    Voto             Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator  Este  processo  foi  julgado  na  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido no Acórdão 9303­003.934, de  07/06/2016, proferido no julgamento do processo 10650.902444/2011­41, paradigma ao qual o  presente processo foi vinculado.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio  nos  termos  regimentais,  o  entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303­003.934):  "A matéria,  única,  posta  ao  exame do colegiado não é nova. Com efeito,  já  tivemos  oportunidade  de  nos  pronunciar  sobre  ela  em  diversas  ocasiões,  tendo  eu  firmado  convicção  pela  inaplicabilidade  de  qualquer  medida  desonerativa  (seja  isenção, imunidade ou alíquota zero) aos fatos geradores anteriores a julho de 2004.  No relatório da Dra. Vanessa consta que o contribuinte aduziu em seu recurso:  "que:  (a)  o  Decreto­Lei  nº  288/67  equipara  os  efeitos  das  operações  de  venda  para  a  Zona  Franca  de  Manaus  às  exportações  para  o  estrangeiro,  sendo­lhes  aplicáveis  as  vantagens  fiscais  estabelecidas  pela  legislação  para  as  exportações, nos  termos do seu art. 4º;  (b) o Superior Tribunal  de Justiça pacificou o entendimento no sentido da não incidência  de PIS sobre as receitas decorrentes das vendas para empresas  sediadas  na  Zona  Franca  de Manaus;  (c)  o  Supremo  Tribunal  Fl. 273DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 4          3 Federal,  ao  proferir  liminar  na  Ação  Direta  de  Inconstitucionalidade  nº  2.348­9,  suspendeu  a  eficácia  da  expressão ‘na Zona Franca de Manaus’, contida no inciso I, do  §2º  do  art.  14  da MP  nº  2.037­24/00,  expressão  suprimida  do  diploma legal pelo Poder Executivo ao editar, na mesma data, a  MP nº 2.037­25/2000;  e, por  fim,  (d) não  incide o PIS para os  fatos geradores ocorridos em fevereiro de 2002, tendo em vista a  revogação da expressão ‘na Zona Franca de Manaus’ do inciso  I,  §2º do art.  14 da MP nº 2.037­25/2000 e a equiparação dos  efeitos  fiscais  das  vendas  para  a  Zona  Franca  de  Manaus  às  exportações para o exterior".  Considero­os  todos  abarcados  no  voto  que  segue,  proferido  em  sessão  de  2011, no qual enfrentei ainda outros argumentos. Reconheço haver decisões do STJ em sentido  oposto, mas, como nenhuma delas cumpre os requisitos do art. 62 do atual regimento interno  desta Casa, peço vênia para continuar teimando.   Disse­o eu naquela ocasião:  Vale  iniciá­lo  reenunciando  o  criativo  entendimento  da  recorrente:  a)  não há necessidade de previsão legal expressa concessiva da  isenção  porque  o  decreto­lei  288  e  o  Ato  Complementar  35/67 bastam;  b)  deferida  isenção  para  exportações  em  geral,  a  vendas  à  ZFM está imediata e automaticamente estendida;  c)  tendo o Ato Complementar à Constituição de 67 a natureza  de lei complementar, como pacificado em nossos Tribunais,.  nenhuma lei ordinária o poderia revogar;  d)  a “revogação” pretendida somente vigorou entre ___ e ___,  sendo de rigor reconhecer a isenção, ao menos, nos períodos  anterior e posterior.  Ainda  que  criativo,  o  raciocínio  desenvolvido  na  defesa  não  merece  prosperar  cabendo  a manutenção da  decisão  recorrida  pelos motivos que se expõem em seguida. Em primeiro lugar, a  premissa  de  que  o  decreto­lei  288  teria  assegurado que  todo e  qualquer  incentivo  direcionado  a  promover  as  exportações  deveria,  imediata  e  automaticamente,  ser  estendido  à  Zona  Franca de Manaus não resiste sequer ao primeiro dos métodos  interpretativos consagradamente admitidos: a literalidade.  É  que  tal  extensão  somente  caberia  se  o  citado  decreto  tivesse  afirmado que  as  remessas  de  produtos  para  a Zona Franca  de  Manaus  são  exportação.  Nesse  caso,  a  equiparação  valeria  mesmo  para  outros  efeitos,  não  fiscais.  Poderia,  para  o  que  interessa,  restringi­la  a  “todos  os  efeitos  fiscais”.  Se  o  tivesse  feito, dúvida não haveria de que qualquer mudança posterior na  legislação  que  viesse  a  afetar  as  exportações,  no  que  tange  a  tributos,  afetaria  do  mesmo  modo  e  na  mesma  medida  aquela  zona.  Fl. 274DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 5          4 Mas já foi repetidamente assinalado que o artigo 4º daquele ato  legal, embora traga de fato a expressão acima, apôs a ressalva  “constantes  da  legislação  em  vigor”.  Não  vejo  como  essa  restrição possa ser entendida de modo diverso do que  tem sido  interpretado  pela  Administração:  apenas  os  incentivos  às  exportações  que  já  vigiam  em  1  de  fevereiro  de  1967  estavam  “automaticamente” estendidos à ZFM por força desse comando.  E  ponho  a  palavra  entre  aspas  porque  nem  mesmo  o  Poder  Executivo – e vale assinalar que estamos falando de um período  de  exceção,  em  que  o  Poder  executivo  quase  tudo  podia  –  pareceu estar tão seguro desse automatismo, visto que fez editar,  na  mesma  data,  o  Ato  Complementar  35,  cujo  artigo  7º  assegurou aquela extensão ao ICM.   Aliás,  da  interpretação  dada  pela  recorrente  a  este  último  ato  também divergimos. Deveras, pretende ela que ele  teria alçado  ao  patamar  de  lei  complementar  a  equiparação  já  prevista  no  decreto­lei. A meu ver, porém, tudo o que faz é definir com maior  precisão  o  que  se  entende  por  produtos  industrializados  para  efeito da não incidência de ICM nas exportações já prevista na  Constituição  de  67.  Define­os  no  parágrafo  1º,  recorrendo  à  tabela do  então criado  imposto  sobre produtos  industrializados  (tabela  anexa  à  Lei  4.502).  No  parágrafo  segundo,  estende,  também para efeito de ICM, aquela imunidade às vendas a zonas  francas.  Essa  interpretação  me  parece  forçosa  quando  se  sabe  que,  segundo  a  boa  técnica  legislativa,  os  parágrafos  de  um  dado  artigo  não  acrescentam  matéria  ao  disposto  no  caput,  apenas  esclarecem  sobre  o  alcance  daquela  matéria.  E  ao  esclarecer  podem  impor  uma  definição  restritiva,  como  no  parágrafo  primeiro,  ou  extensiva,  como  no  segundo. O  que  não  pode  um  simples parágrafo é tratar de matéria que não esteja contida no  caput  e nos  seus  incisos. E não parece haver dúvida de que aí  apenas se cuida da imunidade do ICM.   Assim, o ato legal nem previu imunidade genérica, nem estendeu  ao IPI a imunidade do ICM, como afirma a empresa.   Ora,  se  a  previsão  do  decreto­lei  deveria  alcançar  “todos  os  efeitos  fiscais” e já havia previsão de  imunidade de ICM sobre  produtos  industrializados,  para  que  tal  parágrafo  no  ato  complementar?  Há, contudo, razões mais profundas do que a mera literalidade.  É que a zona franca de Manaus não é meramente uma área livre  de  restrições  aduaneiras,  característica  das  chamadas  zonas  francas  comerciais.  O  que  se  buscou  com  a  sua  criação  foi  induzir  a  instalação  naquele  distante  rincão  nacional  de  empresas de  caráter  industrial,  que gerassem emprego e  renda  para  a  região  Norte.  Para  tanto,  definiu­se  um  conjunto  de  incentivos  fiscais que,  à  época de  sua criação,  seria  suficiente,  no entender dos seus  formuladores, para gerar aquela atração.  Tais  incentivos,  e  apenas  eles,  configuram  diferenciação  em  favor dos produtos  importados e  industrializados naquela área.  Fl. 275DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 6          5 Foi  essa  diferença  tributária  que  induziu  a  criação  do  parque  industrial que ali se veio a instalar e, assim, é apenas a retirada  de algum daqueles incentivos que pode ser taxada de “quebra de  contrato”.   A  contrário  senso,  novos  incentivos  fiscais  que  se  venham  a  instituir podem ou não ser a ela estendidos conforme entenda útil  o legislador por ocasião de sua instituição.   Isso  não  se  dá  automaticamente  com os  incentivos  genéricos à  exportação cujo objetivo comum tem sido a geração das divisas  imprescindíveis ao pagamento dos compromissos internacionais  durante  tanto  tempo  somente  alcançáveis  por  meio  das  exportações.  Por  óbvio,  a  ninguém  escapa  que  vendas  à  ZFM  não  geram  divisas.  Diferentes,  pois,  os  objetivos,  nenhum  automatismo se justifica.  Prova desse raciocínio é que dois anos apenas após a criação da  ZFM,  inventaram  os  “legisladores  executivos”  de  então  novo  incentivo  à  exportação,  o  malsinado  “crédito  prêmio”  posteriormente  tão  combatido  nos  acordos  de  livre  comércio  a  que o País aderia. Sua legislação expressamente incluiu a Zona  Franca. Fê­lo,  no  entanto,  apenas  para  os  casos  em que,  após  serem  “exportados”  para  lá,  fossem  dali  efetivamente  exportados  para  o  exterior  (“reexportados”,  na  linguagem  do  dec­lei).  Em  outras  palavras,  já  em  1969  dava  o  executivo  provas  de  que  aquela  extensão  nem  era  automática,  nem  tinha  que se dar sem qualquer restrição.  Logo,  ainda  que  se  avance  na  interpretação  da  norma,  ultrapassando o método  literal  e  adentrando­se  o  histórico  e  o  teleológico,  se  chega  à  mesma  conclusão:  o  decreto­lei  288  apenas determinou a adoção dos incentivos fiscais à exportação  já  existentes  e  acresceu  incentivos  específicos  voltados  a  promover  o  desenvolvimento  da  região  menos  densamente  povoada de nosso território.  Nessa  linha  de  raciocínio,  portanto,  há  de  se  buscar  na  legislação  específica  do  PIS  e  da  COFINS,  tributos  somente  instituídos  após  a  criação  da  ZFM,  dispositivo  que  preveja  alguma forma de desoneração nas vendas àquela região, seja a  não  incidência,  alíquota  zero  ou  isenção.  E  não  se  precisa  ir  longe para ver que ela somente começa a existir em 2004, com a  edição da Medida Provisória 202.  De  fato,  a  “exclusão  das  receitas  de  exportação”  da  base  de  cálculo  do  PIS  tratada  na  Lei  7.714  e  a  isenção  da  COFINS  sobre receitas de exportação prevista na Lei Complementar 70 e  objeto da Lei complementar 85 não incluíram expressamente as  vendas à ZFM ainda que tenham estendido o benefício a outras  operações  equiparadas  a  exportação.  Um  exame  cuidadoso  dessas  extensões  vai  revelar  o  que  se  disse  acima:  todas  elas  geram, imediata ou mediatamente, divisas internacionais.   A  conclusão  que  se  impõe,  assim,  é  que  não  havia,  até  o  surgimento da Medida Provisória 1.858 qualquer benefício fiscal  Fl. 276DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 7          6 que desonerasse de PIS e de COFINS as receitas obtidas com a  venda de produtos para empresas sediadas na ZFM. É certo que  esse  entendimento  não  era  uníssono,  muita  peleja  tendo  se  travado entre o fisco e os contribuintes que pretendiam estarem  tais  vendas  amparadas  pelos  atos  legais mencionados.  E  essas  divergências  somente  se agravaram com a  edição da MP,  cuja  redação padece de diversas inconsistências.  Com  efeito,  tal  MP,  que  revogou  a  Lei  7.714  e  a  Lei  Complementar  85,  disciplinando  por  completo  a  isenção  das  duas  contribuições  nas  operações  de  exportação  trouxe  dispositivo  expresso  “excluindo”  as  vendas  à  ZFM.  Isso,  por  óbvio,  aguçou  a  interpretação  de  que  já  havia  dispositivo  isentivo e que esse dispositivo estava sendo agora revogado.  Defendo  que  não,  embora  seja  forçoso  reconhecer  que  o  dispositivo  apenas  criou  desnecessário  imbróglio.  Com  efeito,  ouso divergir da conclusão exposta no Parecer PFGN 1789 no  sentido  de  que  tal  ressalva  se  destinava  apenas  aos  comandos  insertos nos incisos IV, VI, VIII e IX. A razão para tanto é que aí  ventilam­se hipóteses  intrinsecamente ligadas ao objetivo que o  ato  pretende  incentivar:  vendas  para  o  exterior  que  trazem  divisas para o país. Refiro­me aos incisos VIII (vendas com o fim  de  exportação  a  trading  companies  e  demais  empresas  exportadoras)  bem  como  o  fornecimento  de  bordo  a  embarcações  em  tráfego  internacional  (ship’s  Chandler).  Além  disso,  a  interpretação  não  apenas  retira  um  incentivo,  ela  pressupõe  um  desincentivo:  qualquer  trading  do  decreto­lei  1.248/72,  exportadora  inscrita  na  SECEX  ou  ship’s  Chandler  instalada  em  outro  ponto  do  território  nacional  terá  vantagem  em relação à que ali se instale. Não faz sentido tal discriminação  contra a ZFM.   A  interpretação  dada  pela  douta  PGFN  parece  buscar  um  sentido  para  o  comando do  parágrafo  de modo  a  não  torná­lo  redundante.  Fê­lo,  todavia,  da  pior  forma,  a  meu  sentir,  pois  fixou­se no método literal esquecendo­se de considerar o motivo  da norma. Realmente, uma cuidadosa leitura do parecer permite  ler  o  artigo,  com  o  respectivo  parágrafo  segundo,  da  seguinte  forma:  há  isenção  quando  se  vende  com  o  fim  específico  de  exportação,  desde  que  a  empresa  compradora  (trading  ou  simples exportadora inscrita na SECEX) NÃO esteja situada na  ZFM. Com a exclusão do parágrafo: há isenção quando se vende  com  o  fim  específico  de  exportação,  mesmo  que  a  empresa  compradora  (trading  ou  simples  exportadora  inscrita  na  SECEX) esteja situada na ZFM.  Ora, o objeto da isenção versada nesses dispositivos nada tem a  ver com a localização da compradora mas com o que ela faz. É a  atividade (exportação com conseqüente ingresso de divisas) que  se quer incentivar. O que se tem de decidir é se a mera venda à  ZFM, que não gera divisa nenhuma, deve a isso ser equiparado.  Foi  isso, em meu entender, que o parágrafo quis dizer: não é o  que o Parecer da PGFN consegue nele ler.   Fl. 277DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 8          7 Em conseqüência  desse  parecer,  surgem  decisões  como  as  que  ora  se  examinam:  o  pedido  tinha  a  ver  com  venda  a  ZFM.  A  decisão  abre  a  possibilidade  de  que  tenha  mesmo  havido  recolhimento  indevido, mas  por motivo  completamente  diverso.  E  mais,  atribui  ao  contribuinte  a  prova  dessa  outra  circunstância,  que  não  motivara  o  seu  pedido.  Nonsense  completo.  Esse  meu  reconhecimento  implica  aceitar  que  o  malsinado  parágrafo  estava  sim  se  referindo,  genericamente,  às  vendas  à  ZFM, ou, mais  claramente,  está  ele a dizer que, para  efeito do  incentivo de PIS e COFINS, a mera venda a empresa sediada na  ZFM não se equipara à exportação de que cuida o  inciso II do  ato  legal  em  discussão.  Mas,  ao  fazê­lo,  não  está  revogando  dispositivo isentivo anterior: está simplesmente cumprindo o seu  papel esclarecedor, ainda que nesse caso melhor fosse nada ter  tentado esclarecer...  Aliás,  idêntico  dispositivo  esclarecedor  poderia  ter  estado  presente na LC 85 e na Lei 7.714 como já estivera no decreto­lei  491.  Com  isso,  muita  discussão  travada  administrativamente  teria sido evitada ou transferida para o Judiciário. É a ausência  de  tal  dispositivo  e  sua  presença  na  nova  lei  que  cria  o  imbróglio.  Ele  não  leva,  contudo,  em  minha  opinião,  à  interpretação  simplória  de  que  tal  ausência  implicasse  haver  isenção.  Para  isso,  primeiro,  se  tem  de  admitir  que  basta  o  Decreto­lei 288.   Essa interpretação, parece­me, está em maior consonância com  o espírito legisferante, pois não faz sentido considerar que uma  norma  que  procura  incentivar  as  exportações  tenha  instituído  uma discriminação contra uma região (região, aliás, que sempre  se  procurou  incentivar)  em  operações  que  produzem  o  mesmo  resultado: a geração de divisas internacionais.  A minha conclusão é, assim, de que mesmo entre 1º de fevereiro  de  1999  e  31  de  dezembro  de  2000  há,  sim,  isenção  das  contribuições  naquelas  hipóteses,  ainda  que  a  empresa  esteja  situada na ZFM. Em outras palavras, a localização da empresa  não é impeditivo à fruição do incentivo à exportação, desde que  cumprido o que está previsto naqueles incisos.   Mas  tampouco  há  isenção  APENAS  PORQUE  A  COMPRADORA LÁ ESTEJA. Nos recursos ora em exame, esse  foi o fundamento do pedido e a ele deveria  ter­se  restringido a  DRJ.  Nesses  termos,  só  causa  mais  imbróglio  a  afirmação  constante  no  acórdão  recorrido  de  que  “haveria  direito”  no  período de 1º de janeiro de 2001 a julho de 2004 mas não estava  ele adequadamente comprovado. Simplesmente não há o direito  na forma requerida.  E por isso mesmo não cabe a pretensão do contribuinte de que a  Administração  adapte  o  seu  pedido  fazendo  as  pesquisas  internas  que  permitam apurar  se  alguma das  empresas  por  ele  listadas na planilha referida se enquadra naquelas disposições.   Fl. 278DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 13888.904231/2009­44  Acórdão n.º 9303­004.096  CSRF­T3  Fl. 9          8 O máximo que se poderia admitir,  dado o  teor da decisão,  era  que, em grau de recurso,  trouxesse a empresa tal prova. Não o  fez, porém, limitando­se a postular a nulidade da decisão porque  não determinou aquelas diligências.  Não sendo obrigatória a realização de diligências, como se sabe  (art. __ do Decreto 70.235), sua ausência não acarreta nulidade  da decisão proferida por quem legalmente competente para tal.  Cabe  sim  manter  aquela  decisão  dado  que  o  contribuinte  não  comprovou o  seu  direito  como  lhe  exigem o Decreto  70.235,  a  Lei 9.784 e o próprio Código Civil (art. 333).  Com  tais  considerações,  nego  provimento  ao  recurso  do  contribuinte.  Com essas mesmas considerações, votei,  também aqui, pelo não provimento  do recurso do contribuinte, sendo esse o acórdão que me coube redigir."  Aplicando­se  as  razões  de  decidir,  o  voto  e  o  resultado  acima  do  processo  paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do  RICARF, nega­se provimento ao recurso especial do contribuinte, em razão da incidência das  contribuições  sobre  as  receitas  oriundas  de  vendas  efetuadas  a  empresas  sediadas  na  Zona  Franca de Manaus, no período tratado neste processo.     Carlos Alberto Freitas Barreto                              Fl. 279DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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Numero do processo: 13804.008129/2003-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 15 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Oct 11 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Exercício: 2002 Ementa: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO.AUSÊNCIA DE PRESSUPOSTOS.NÃO CONHECIMENTO. Recurso interposto sem demonstrar a ocorrência das situações previstas no art. 65 do RICARF, limitando-se a atacar o próprio mérito do julgado.
Numero da decisão: 1302-001.987
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em não conhecer dos Embargos de Declaração, nos termos do voto do Relator. LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO - Presidente. (assinado digitalmente) MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA - Relator. (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente), Alberto Pinto Souza Júnior, Ana de Barros Fernandes Wipprich, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Marcelo Calheiros Soriano, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix.
Nome do relator: MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA

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PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LUIZ TA DEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 13804.008129/2003­11  Acórdão n.º 1302­001.987  S1­C3T2  Fl. 711          2     Relatório  Na  sessão  plenária  de  28  de  agosto  de  2014,  a  2ª  Turma  da  3ª Câmara  da  1ª  Seção  de  Julgamento  deste  Conselho  negou  conhecimento  aos  embargos  de  declaração  da  Procuradoria da Fazenda Nacional por meio do Acórdão nº 1302­001.495, assim ementado:    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA ­ IRPJ  Exercício: 2002  PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. EMBARGOS INTEMPESTIVOS.  Vencido o prazo para oposição, não se conhece dos embargos.    Os autos foram remetidos à Procuradoria da Fazenda Nacional em 29/09/2014,  os quais interpuseram novos Embargos de Declaração.  Em despacho exarado às fls.706/709 dos autos, a presidente da 3ª Câmara da 2ª  Turma Ordinária admitiu os Embargos de Declaração opostos pela Embargante, nos termos do  art.65 §2º, e no art.49, §5º, ambos do Anexo II do Regimento Interno do CARF, aprovado pela  Portaria MF nº 343/2015. Vejamos alguns trechos do despacho de admissibilidade.    "De acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527/2010,  os  Procuradores  da  Fazenda  Nacional  são  considerados  intimados  com  o  término  do  prazo  de  30  (trinta)  dias  contados  da  data  em  que  os  autos  lhes  foram entregues. Em 27/10/2014 a Fazenda Nacional restituiu os autos com a  oposição  tempestiva  de  embargos  às  fls.  661/667,  apontando  contradição  no  julgado porque fundamentado, equivocadamente, na data de apresentação dos  embargos  indicada  à  fl.  816,  distinta  daquela  que  consta  na  contrafé  juntada  aos presentes embargos.  Confirma­se nos autos que os embargos considerados intempestivos no Acórdão  nº 1302­001.495 eram objeto do presente processo que foi movimentado para o  CARF,  via  "Relação  de  Movimentação  ­  RM"  emitida  no  COMPROT,  em  20/02/2013, mesma data que consta da contrafé apresentada pela embargante  (fl. 667). Tais circunstâncias, porém, não foram consideradas no voto condutor  do acórdão embargado, que se valeu, apenas, da data manuscrita na RM de fl.  652, sendo certo que a servidora que atesta o recebimento atua na 3ª Câmara  desta 1ª Seção de Julgamento, e não no GEPAF, onde a embargante afirma ter  apresentado o recurso."    É o relatório.      Voto             Fl. 711DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LUIZ TA DEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 13804.008129/2003­11  Acórdão n.º 1302­001.987  S1­C3T2  Fl. 712          3 Conselheiro MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA.    Para melhor elucidar a questão, esclarecimentos  iniciais devem ser  feitos, para  posteriormente adentramos na questão do conhecimento ou não do presente recurso.  Em  sede  de  julgamento  do  recurso  voluntário,  a  2ª  Turma  Ordinária  da  3ª  Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF deu provimento parcial ao recurso voluntário do  contribuinte,  para  reconhecer  o  saldo  negativo  no  montante  de  R$  14.219.471,86  (R$  14.052.802,56 + R$ 158.342,24 + 8.327, 06).  Da  decisão  de Recurso Voluntário,  a  Procuradoria  da  Fazenda Nacional  opôs  embargos de Declaração, que não foram conhecidos por meio do Acórdão nº 1302­001.007, em  razão de ser intempestivo.  Desta decisão foram opostos novos embargos pela Fazenda Nacional indicando  que a data  aposta nos embargos não correspondem à data  em que a  referida peça processual  fora entregue no CARF, solicitando à época, a juntada da contrafé dos embargos na qual consta  o seu recebimento, por servidor do GEPAF, em 28/10/2011.  Com  isso,  diante  da  “falta” da  prova da  tempestividade  dos  embargos  outrora  interpostos,  os  novos  embargos  da  PFN  também  não  foram  conhecidos,  por  serem  considerados intempestivos, nos termos do Acórdão nº 1302­001.495.  Segundo a Embargante¸ litteris:    Este  último  julgado  laborou  em  grande  equívoco,  ao  novamente  considerar  como  a  data  da  interposição  do  recurso  a  data  em  que  o  GEPAF  (setor  de  protocolo  interno  do  CARF)  entrega  a  petição  já  protocolada  pela  parte,  na  Secretaria da Câmara.  No entender do eminente julgador, os embargos de Declaração somente foram  opostos em 25/02/2013. Tal informação, entretanto, encontra­se equivocada.  A  referida  data  corresponde,  em  verdade,  à  data  em  que  a  petição  foram  entregues na respectiva Câmara julgadora e não no CARF.  Com efeito, os processos oriundos da Procuradoria da Fazenda Nacional para  o  CARF  são  entregues  no  GEPAF,  órgão  deste  colegiado,  que  recebe  os  processos, bem como os recursos eventualmente interpostos.  Nem sempre a data de recebimento no GEPAF corresponde, exatamente, à data  em  que  o  recurso  é  entregue  na  Secretaria  da  Câmara  competente  para  o  julgamento  do  mesmo.  Contudo,  a  data  da  interposição  do  recurso  a  ser  considerada é a data do protocolo e da entrega do processo no GEPAF, ainda  que esta data não coincida com a data de entrega do recurso na Secretaria da  Câmara julgadora.  Isso porque, repita­se, as partes litigantes neste CARF não podem e não devem  ser prejudicadas por eventual demora do protocolo interno do CARF na entrega  das petições ali protocoladas.    Em  que  pese  os  argumentos  colacionados  pela  Embargante,  entendo  que  não  merece reparos o Acordão n. 1302­001.495. Senão vejamos:    ­ No dia 15/02/2013 a Embargante é intimada do Acórdão n. 1302­001.007, fls.  650 do e­processo;  ­  Às  fls.  652  do  e­processo  consta  no  SISTEMA  COMUNICAÇÃO  E  PROTOCOLO  –  COMPROT  movimentação  processual  datada  do  dia  20/02/2013,  sem  especificar se estamos tratando de devolução dos autos ou de protocolo de petição.  Fl. 712DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LUIZ TA DEU MATOSINHO MACHADO Processo nº 13804.008129/2003­11  Acórdão n.º 1302­001.987  S1­C3T2  Fl. 713          4 ­ O que consta tanto às  fls. 652 e 653 do e­processo é o carimbo da Servidora  Osmarine  Cardoso  Santos,  datado  do  dia  25/02/2013,  dando  a  entender  que  o  protocolo  do  recurso  foi  realizado  naquela  data,  isto  é,  após  a  data  final  para  protocolo  que  era  do  dia  22/02/2013    Ademais, reza o art. 65 do Regimento Interno do CARF, litteris:    Art.  65.  Cabem  embargos  de  declaração  quando  o  acórdão  contiver  obscuridade,omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou  for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar­se a turma.    Pelo exame da peça recursal, constata­se que a Embargante em momento algum  demonstrou  a  ocorrência  das  situações  previstas  no  citados  dispositivo  legal,  limitando­se  a  atacar  o  próprio  mérito,  desprezando  totalmente  os  pressupostos  para  o  cabimento  de  tal  recurso.  Isto posto, voto no sentido de NÃO CONHECER dos Embargos Declaratórios.    É o voto.     MARCOS  ANTONIO  NEPOMUCENO  FEITOSA  ­  Relator                               Fl. 713DF CARF MF Impresso em 11/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 10/10/2016 por MARCOS ANTONIO NEPOMUCENO FEITOSA, Assinado digitalmente em 11/10/2016 por LUIZ TA DEU MATOSINHO MACHADO

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6477005 #
Numero do processo: 10580.722192/2008-44
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 21 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Fri Aug 26 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2005, 2006, 2007 RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. DIFERENÇAS DE URV. MINISTÉRIO PÚBLICO DA BAHIA. NATUREZA TRIBUTÁVEL Sujeitam-se à incidência do Imposto de Renda, conforme o regime de competência, as verbas recebidas acumuladamente pelos membros do Ministério Público do Estado da Bahia, denominadas "diferenças de URV", inclusive os juros remuneratórios sobre elas incidentes, por absoluta falta de previsão legal para que sejam excluídas da tributação. Recurso Especial do Contribuinte conhecido e provido parcialmente.
Numero da decisão: 9202-004.142
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado por unanimidade de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento parcial para determinar o cálculo do tributo sobre a verba recebida, inclusive juros, de acordo com o regime de competência, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Patrícia da Silva, Ana Paula Fernandes e Maria Teresa Martínez López, que lhe deram provimento integral. (Assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente e Relator EDITADO EM: 18/08/2016 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente), Maria Teresa Martinez Lopez (Vice-Presidente), Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Gerson Macedo Guerra.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1844; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRF­T2  Fl. 415          1 414  CSRF­T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS    Processo nº  10580.722192/2008­44  Recurso nº               Especial do Contribuinte  Acórdão nº  9202­004.142  –  2ª Turma   Sessão de  21 de junho de 2016  Matéria  IRPF  Recorrente  ADRIANI VASCONCELOS PAZELLI  Interessado  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA ­ IRPF  Exercício: 2005, 2006, 2007  RENDIMENTOS  RECEBIDOS  ACUMULADAMENTE.  DIFERENÇAS  DE  URV.  MINISTÉRIO  PÚBLICO  DA  BAHIA.  NATUREZA  TRIBUTÁVEL  Sujeitam­se  à  incidência  do  Imposto  de  Renda,  conforme  o  regime  de  competência,  as  verbas  recebidas  acumuladamente  pelos  membros  do  Ministério Público do Estado da Bahia, denominadas "diferenças de URV",  inclusive os juros remuneratórios sobre elas incidentes, por absoluta falta de  previsão legal para que sejam excluídas da tributação.  Recurso Especial do Contribuinte conhecido e provido parcialmente.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado por unanimidade de votos, em conhecer o  Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por voto de qualidade, em dar­lhe provimento  parcial para determinar o cálculo do tributo sobre a verba recebida, inclusive juros, de acordo  com  o  regime  de  competência,  vencidos  os  conselheiros Gerson Macedo Guerra, Rita  Eliza  Reis  da  Costa  Bacchieri,  Patrícia  da  Silva,  Ana  Paula  Fernandes  e  Maria  Teresa  Martínez  López, que lhe deram provimento integral.               AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 21 92 /2 00 8- 44 Fl. 375DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO     2 (Assinado digitalmente)  Carlos Alberto Freitas Barreto – Presidente e Relator  EDITADO EM: 18/08/2016  Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Alberto Freitas  Barreto  (Presidente),  Maria  Teresa  Martinez  Lopez  (Vice­Presidente),  Luiz  Eduardo  de  Oliveira Santos, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da  Silva, Elaine Cristina Monteiro  e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor  de Souza Lima  Junior e Gerson Macedo Guerra.  Relatório  O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º  e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o  relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 10580.720843/2009­42.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio  nos  termos  regimentais,  o  inteiro  teor do voto vencedor proferido naquela decisão (Acórdão 9202­004.124):  Trata­se  de Auto  de  infração  lavrado  contra  o  contribuinte  em  epígrafe para cobrança de IRPF sobre rendimentos auferidos do  Ministério Público  da Bahia,  a  título  de  valores  indenizatórios  de URV.  Tais  rendimentos  decorreram  de  diferenças  de  remuneração  ocorridas quando da conversão de Cruzeiro Real para Unidade  Real  de  Valor  (URV)  em  1994,  reconhecidas  e  pagas  em  36  parcelas  iguais  no  período  de  janeiro  de  2004  a  dezembro  de  2006, com base na Lei Complementar nº 20/2003, do Estado da  Bahia. Importante destacar, ainda que referida Lei dispôs serem  de natureza indenizatória as verbas em questão.  No  entendimento  da  autoridade  fiscal,  as  diferenças  recebidas  pelo  contribuinte  têm  natureza  salarial,  pois  decorreram  de  diferenças  de  remuneração  ocorridas  quando  da  conversão  de  Cruzeiro  Real  para  URV  em  1994  e,  portanto,  são  tributáveis  pelo  IRPF,  sendo  irrelevante  a  denominação  dada  pela  Lei  do  Estado da Bahia.  Para a apuração do  imposto devido  foi considerado os valores  das diferenças salariais, incluindo atualização e juros.  Inconformado, o  contribuinte apresentou  impugnação, que  fora  julgada procedente em parte, para excluir da base de cálculo do  imposto  valores  recebidos  a  título  de  URV  sobre  férias  indenizadas e 13º salário.  Ato  seguinte,  tempestivamente  foi  apresentado  Recurso  Voluntário,  onde,  por  unanimidade  de  votos,  foi  dado  provimento parcial ao recurso para excluir da exigência a multa  de ofício.  Fl. 376DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.722192/2008­44  Acórdão n.º 9202­004.142  CSRF­T2  Fl. 416          3 Inconformado com essa decisão o contribuinte, tempestivamente,  apresentou  Recurso  Especial  de  divergência,  alegando,  em  resumo:  a) Os rendimentos previstos na Lei Complementar 20/2003  tem  a  mesma  natureza  daqueles  mencionados  pela  Lei  Federal  nº  10.477/2002,  que  trata  do  pagamento  de  diferenças  de  URV  a  membros  do  Ministério  Público  Federal;  b)  É  nítida  a  natureza  remuneratória  das  diferenças  de  URV,  na  medida  em  que  representam  ressarcimento  pelo  erro de cálculo da remuneração;  c)  É  aplicável  ao  caso  a  mesma  interpretação  dada  pelo  STF  através  da  Resolução  245/2002,  que  reconheceu  a  natureza  indenizatória  das  diferenças  de  URV  pagas  aos  membros da magistratura federal;  d)  Quebra  da  isonomia  quando  se  dispensa  tratamento  tributário diverso em relação às diferenças de URV pagas  aos  membros  da  magistratura  Federal  e  aos  membros  do  MPF  em  relação  aos  membros  do  Ministério  Público  Estadual;  e) Vicio material na formação da base de cálculo do IRPF,  na  medida  em  que  não  foi  observado  o  regime  de  competência  em  relação  aos  rendimentos  recebidos  acumuladamente;  f) Não incidência do IRPF sobre juros moratórios  Na  análise  de  admissibilidade,  foi  dado  parcial  seguimento  ao  Recurso  Especial  interposto  pelo  Contribuinte  para  que  fosse  reapreciada  a  questão  da não  incidência  do  Imposto  de Renda  sobre  diferenças  de  URV,  que  teriam  natureza  indenizatória  e  para que fosse rediscutida a não incidência de Imposto de Renda  sobre rendimentos correspondentes a juros de mora.  Regularmente  intimada  o  a  Fazenda  Nacional  apresentou  contrarrazões.  É o relatório.  Fl. 377DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO     4   Voto             Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto ­ Relator  Este  processo  foi  julgado  na  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido no Acórdão 9202­004.124, de  21/06/2016, proferido no julgamento do processo 10580.720843/2009­42, paradigma ao qual o  presente processo foi vinculado.  O Recurso Especial  interposto pelo Contribuinte é  tempestivo e  visa rediscutir as seguintes matérias:  ­  não  incidência  do  Imposto  de Renda  sobre  diferenças  de  URV, que teriam natureza indenizatória e, caso assim não se  entenda,   ­  não  incidência  de  Imposto  de  Renda  sobre  a  rubrica  correspondente a juros de mora.  A matéria não é nova neste Colegiado.  Trata­se  de  Auto  de  Infração  relativo  ao  Imposto  de  Renda  Pessoa  Física  dos  anos­calendário  de  2004,  2005  e  2006,  acrescido  de multa  de  ofício  no  percentual  de  75%  e  juros  de  mora,  tendo  em  vista  a  reclassificação,  como  tributáveis,  de  rendimentos  declarados  como  isentos,  recebidos  do  Ministério  Público do Estado da Bahia a título de “Valores Indenizatórios  de  URV”,  em  trinta  e  seis  parcelas,  no  período  de  janeiro  de  2004 a dezembro de 2006, em decorrência da Lei Complementar  do Estado da Bahia nº 20, de 08/09/2003, editada em virtude do  objeto  da  Ação  Ordinária  de  nº  140.975921531,  julgada  pelo  Tribunal de Justiça do Estado da Bahia, e em consonância com  os precedentes do Supremo Tribunal Federal, especialmente nas  Ações Ordinárias nºs 613 e 614.  As  verbas  ora  analisadas  constituem  diferenças  salariais  verificadas  na  conversão  da  remuneração  do  servidor  público,  quando  da  implantação  do  Plano  Real,  portanto  tais  valores  referem­se a salários (vencimentos) não recebidos ao longo dos  anos.  Nesse  passo,  o  objetivo  da  ação  judicial  e/ou  da  lei  do  estado  da  Bahia  foi  simplesmente  pagar  à  Contribuinte  aquilo  que  antes  deixou  de  ser  pago,  que  nada  mais  é  que  salário,  portanto de natureza tributável.  Assim, o recebimento da verba ora tratada configura acréscimo  patrimonial  e,  consequentemente,  sujeita­se  à  incidência  do  Imposto de Renda, consoante dispõe o art. 43 do CTN:  Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda  e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a  aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica:  Fl. 378DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.722192/2008­44  Acórdão n.º 9202­004.142  CSRF­T2  Fl. 417          5 I  ­  de  renda,  assim  entendido  o  produto  do  capital,  do  trabalho ou da combinação de ambos; II ­ de proventos de  qualquer  natureza,  assim  entendidos  os  acréscimos  patrimoniais não compreendidos no inciso anterior.  § 1º A incidência do imposto independe da denominação da  receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica  ou  nacionalidade  da  fonte,  da  origem  e  da  forma  de  percepção.  O  dispositivo  legal  acima  não  deixa  dúvidas  acerca  da  abrangência  da  tributação  do  Imposto  de  Renda,  abarcando  qualquer  evento  que  se  traduza  em  aumento  patrimonial,  independentemente  da  denominação  que  seja  dada  ao  ganho.  Seguindo esta linha, a Lei nº 7.713, de 1988, assim dispõe:  Art.  1º  Os  rendimentos  e  ganhos  de  capital  percebidos  a  partir  de  1º  de  janeiro  de  1989,  por  pessoas  físicas  residentes ou domiciliados no Brasil, serão tributados pelo  imposto  de  renda  na  forma  da  legislação  vigente,  com  as  modificações introduzidas por esta Lei.  Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido,  mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de  capital forem percebidos.  (...)  § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital,  do  trabalho  ou  da  combinação  de  ambos,  os  alimentos  e  pensões  percebidos  em  dinheiro,  e  ainda  os  proventos  de  qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos  patrimoniais  não  correspondentes  aos  rendimentos  declarados.  (...)  §  4º  A  tributação  independe  da  denominação  dos  rendimentos,  títulos  ou  direitos,  da  localização,  condição  jurídica  ou  nacionalidade  da  fonte,  da  origem  dos  bens  produtores da  renda,  e da  forma de percepção das  rendas  ou  proventos,  bastando,  para  a  incidência  do  imposto,  o  benefício do contribuinte por qualquer  forma e a qualquer  título.  (...)” (grifei)  Quanto  à  alegação  de  violação  ao  princípio  da  isonomia,  a  Contribuinte  traz  à  baila  o  fato  de  que  o  Supremo  Tribunal  Federal,  em  sessão  administrativa,  atribuiu  natureza  indenizatória  ao  Abono  Variável  concedido  aos  membros  da  Magistratura da União pela Lei nº 10.474, de 2002. Ademais, a  Procuradoria­Geral da Fazenda Nacional, por meio do Parecer  PGFN nº 529, de 2003, manifestou  entendimento no sentido de  que a verba em tela não estaria sujeita à tributação.   Fl. 379DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO     6 Entretanto, a Resolução nº 245, do STF, bem como o Parecer da  PGFN,  se  referem  especificamente  ao  abono  concedido  aos  Magistrados da União pela Lei nº 10.474, de 2002; e o que  se  discute  no  presente  processo  é  se  tal  entendimento  deve  ser  aplicado à verba recebida pelos membros da Ministério Público  do Estado da Bahia.   Primeiramente,  verifica­se  que  a  posição  do  Supremo Tribunal  Federal – STF sobre a natureza do Abono Variável atribuído aos  Magistrados  da União  foi  definida  em  sessão  administrativa  e  expedida por meio de Resolução, e não em sessão de julgamento  daquela  Corte  e,  assim,  não  se  trata  de  uma  decisão  judicial,  cujos  efeitos  são  bem  distintos  dos  de  uma  resolução  administrativa.  Destarte,  obviamente  que  a  Resolução  do  STF  nunca vinculou a Administração Tributária da União.  Com  o  advento  do  Parecer  PGFN/Nº  529,  de  2003,  da  Procuradoria­Geral  da  Fazenda  Nacional,  aprovado  pelo  Ministro da Fazenda, portanto com força vinculante em relação  aos  Órgãos  da  Administração  Tributária,  concluiu­se  que  o  Abono Variável de que trata o art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002,  teria  natureza  indenizatória.  Entretanto,  dito  parecer  é  claro  quanto  aos  limites  desse  entendimento,  conforme  será  demonstrado na seqüência.  O  parecer  destaca  que  o  Superior  Tribunal  de  Justiça  –  STJ  consolidou entendimento no sentido de que abonos recebidos em  substituição a aumentos salariais sofrem a incidência do Imposto  de  Renda.  Após,  faz  a  ressalva  de  que,  segundo  entendimento  dessa  mesma  Corte,  nos  casos  de  abono  concedido  como  reparação pela supressão ou perda de direito, ele  tem natureza  indenizatória. Ainda  segundo o  parecer  da PGFN,  seria  este  o  entendimento  do  STF,  manifestado  por  meio  da  Resolução  nº  245,  de  2002,  relativamente  ao  abono  variável  e  provisório  previsto  no  art.  6º  da  Lei  nº  9.655,  de  1998,  com  a  alteração  estabelecida no art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002.  Assim, claro está que o Parecer da PGFN somente reconheceu a  natureza indenizatória do Abono Variável, previsto nas Leis nºs  9.655,  de  1998,  e  10.474, de  2002,  acolhendo entendimento  do  STF, no sentido de que tal verba destinar­se­ia a reparar direito.  Destarte,  a  Resolução  nº  245,  do  STF,  não  possui  efeitos  de  decisão  judicial,  e  o  Parecer  PGFN/Nº  529,  de  2003,  apenas  reconhece  a  natureza  indenizatória  do  abono  concedido  aos  Magistrados da União, acatando interpretação do STF quanto à  natureza  reparatória,  especificamente  para  esse  abono.  Portanto,  ambos  os atos alcançam apenas o abono previsto no  art. 6º da Lei nº 9.655, de 1998, com a alteração estabelecida no  art. 2º da Lei nº 10.474, de 2002.  Ademais, a Resolução nº 245, do STF, excluiu do abono a verba  referente à diferença de URV, o que evidencia que esta não tem  natureza  indenizatória,  mas  sim  de  recomposição  salarial.  Confira­se  a  manifestação  Superior  Tribunal  de  Justiça,  por  meio de voto da Ministra Eliana Calmon, reconhecendo a falta e  identidade  entre  o  abono  salarial  tratado  na  Resolução  e  as  diferenças de URV:  Fl. 380DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.722192/2008­44  Acórdão n.º 9202­004.142  CSRF­T2  Fl. 418          7 “Na  jurisprudência  desta  Casa,  colho  os  seguintes  precedentes,  que  sempre  distinguiram  as  hipóteses  de  percepção das diferenças remuneratórias da URV do abono  identificado  na  Resolução  245/STF:  (...)”  (STJ,  Recurso  Especial  n.º  1.187.109/MA,  Segunda  Turma,  Ministra  Relatora Eliana Calmon, julgado em 17/08/2010)  E também o Ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal,  em decisão no Recurso Extraordinário n.º 471.115:  “Os  valores  assim  recebidos  pelo  recorrido  decorrem  de  compensação  pela  falta  de  oportuna  correção  no  valor  nominal  do  salário,  quando  da  implantação  da  URV  e,  assim, constituem parte integrante de seus vencimentos.  As parcelas representativas do montante que deixou de ser  pago,  no  momento  oportuno,  são  dotadas  dessa  mesma  natureza jurídica e, assim, incide imposto de renda quando  de seu recebimento.  No  que  concerne  à  Resolução  no.  245/02,  deste  Supremo  Tribunal  Federal,  utilizada  na  fundamentação  do  acórdão  recorrido, tem­se que suas normas a tanto não se aplicam,  para  o  fim  pretendido  pelo  recorrido  (...)”  (STF,  Recurso  Extraordinário  n.º  471.115, Ministro  Relator  Dias  Toffoli,  julgado em 03/02/2010)  Assim, não há como estender­se o alcance dos atos legais acima  referidos para verbas distintas, concedidas para outro grupo de  servidores,  por  meio  de  ato  específico,  diverso  daqueles  referidos na Resolução do STF e no Parecer da PGFN.  Com efeito, a norma que concede isenção deve ser interpretada  sempre  literalmente,  conforme  inciso  II,  do  art.  111,  do  CTN.  Ademais,  o  mesmo  código  veda  o  emprego  da  analogia  ou  de  interpretações  extensivas  para  alcançar  sujeitos  passivos  em  situação  supostamente  semelhante,  o  que  implicaria  concessão  de isenção sem lei federal própria, o que ofenderia o § 6º, do art.  150, da Constituição Federal, e o art. 176, do CTN.  Destarte, a verba em exame deve ser efetivamente tributada.  Quanto à alegada inexigibilidade de Imposto de Renda incidente  sobre  a  verba  recebida  pela  contribuinte  a  título  de  juros  de  mora, a decisão do STJ, no  julgamento do REsp 1.227.133/RS,  sob  o  rito  do  art.  543­C,  do CPC,  é  no  sentido  de  que  estaria  restrita  aos  casos  de  pagamento  a  destempo  de  verbas  trabalhistas de natureza  indenizatória, oriundas de condenação  judicial, por força da norma isentiva prevista no inciso V, do art.  6º, da Lei nº 7.713, de 1988. Confira­se:  TRIBUTÁRIO.  IMPOSTO  DE  RENDA.  INCIDÊNCIA.  JUROS DE MORA. CARÁTER REMUNERATÓRIO. TEMA  JULGADO PELO STJ SOB A SISTEMÁTICA DO ART. 543­ C DO CPC.  Fl. 381DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO     8 1. Por  ocasião  do  julgamento  do REsp 1.227.133/RS,  pelo  regime  do  art.  543­C  do  CPC  (recursos  repetitivos),  consolidou­se o entendimento no sentido de que 'não incide  imposto  de  renda  sobre  os  juros  moratórios  legais  em  decorrência de sua natureza e função indenizatória ampla.'  Todavia, após o julgamento dos embargos de declaração da  Fazenda  Nacional,  esse  entendimento  sofreu  profunda  alteração,  e  passou  a  prevalecer  entendimento  menos  abrangente. Concluiu­se neste  julgamento que  'os  juros de  mora  pagos  em  virtude  de  decisão  judicial  proferida  em  ação  de  natureza  trabalhista,  devidos  no  contexto  de  rescisão  de  contrato  de  trabalho,  por  se  tratar  de  verba  indenizatória paga na forma da lei, são isentos do imposto  de  renda,  por  força  do  art.  6º,  V,  da  Lei  7.713/88,  até  o  limite da lei'.  2.  Na  hipótese,  não  sendo  as  verbas  trabalhistas  decorrentes  de  despedida  ou  rescisão  contratual  de  trabalho,  assim  como  por  terem  referidas  verbas  (horas  extras)  natureza  remuneratória,  deve  incidir  o  imposto  de  renda  sobre  os  juros  de  mora.  Agravo  regimental  improvido.(AgRg  no  REsp  1235772  RS  –  julgado  em  26/06/2012)  PROCESSUAL  CIVIL  E  TRIBUTÁRIO.  AGRAVO  REGIMENTAL  NOS  EMBARGOS  DE  DIVERGÊNCIA  EM  RECURSO  ESPECIAL.  IMPOSTO  DE  RENDA.  JUROS DE MORA DECORRENTES DO PAGAMENTO EM  ATRASO  DE  VERBAS  TRABALHISTAS.  NÃO  INCIDÊNCIA.  MATÉRIA  JÁ  PACIFICADA  PELA  PRIMEIRA  SEÇÃO.  RECURSO  ESPECIAL  REPETITIVO  1.227.133/RS.  1.  A  Primeira  Seção,  por  ocasião  do  julgamento  do  REsp  1.227.133/RS,  sob  o  rito  do  art.  543C  do  CPC,  fixou  orientação  no  sentido  de  que  é  inexigível  o  imposto  de  renda sobre os juros de mora decorrentes do pagamento a  destempo de verbas trabalhistas de natureza indenizatória,  oriundas de condenação judicial.  2.  Agravo  regimental  não  provido.”  (AgRg  nos  REsp  1163490 SC – julgado em 14/03/2012)  Da  análise  do  julgamento  do  Recurso  Repetitivo  1.227.133/RS,  verifica­se  que  são  isentos  do  imposto  de  renda  os  juros  de  mora  decorrentes  do  pagamento  a  destempo de verbas trabalhistas de natureza  indenizatória,  oriundas  de  condenação  judicial,  conforme  a  regra  do  “accessorium sequitur suum principale”.  Assim,  não  sendo  as  verbas  trabalhistas  de  natureza  indenizatória, o imposto de renda deve incidir também sobre os  juros de mora.  Ressalte­se  que  as  verbas  ora  analisadas  já  foram  objeto  de  julgamento  pela  Câmara  Superior  de  Recursos  Fiscais,  oportunidade  em  que  se  deu  provimento  ao  Recurso  Especial  interposto  pela  Fazenda  Nacional,  por  meio  do  Acórdão  nº  9202­003.585, de 03/03/2015, assim ementado:  Fl. 382DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10580.722192/2008­44  Acórdão n.º 9202­004.142  CSRF­T2  Fl. 419          9 ASSUNTO:  IMPOSTO  SOBRE  A  RENDA  DE  PESSOA  FÍSICA  ­IRPF  Exercício:  2005,  2006,  2007  IRPF.  VALORES INDENIZATÓRIOS DE URV, CLASSIFICADOS  A  PARTIR  DE  INFORMAÇÕES  PRESTADAS  PELA  FONTE PAGADORA. INCIDÊNCIA.  Incide o IRPF sobre os valores  indenizatórios de URV, em  virtude de sua natureza remuneratória.  Precedentes do STF e do STJ.  Recurso especial provido."  A decisão foi assim registrada:  "Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos,  em  dar  provimento  ao  recurso  especial  da  Fazenda,  determinando  o  retorno  dos  autos  à  turma  a  quo,  para  analisar as demais questões trazidas no recurso voluntário  do  contribuinte.  Vencido  o  Conselheiro  Marcelo  Oliveira,  que  votou  por  negar  provimento  ao  recurso.  Fez  sustentação  oral  o Dr. Marcio Pinto  Teixeira, OAB/BA  nº  23.911,  patrono  da  recorrida.  Defendeu  a  Fazenda  Nacional  a  Procuradora Dra.  Patrícia  de  Amorim Gomes  Macedo."  Assentada  a  natureza  tributável  dos  rendimentos  objeto  da  autuação,  resta  esclarecer  que  o  tributo  devido  deve  ser  calculado de acordo com as tabelas vigentes à época em que os  rendimentos deveriam ter sido pagos ao Contribuinte. Saliente­ se  que  a  questão  já  foi  decidida  pelo  STF,  no RE  614.406/RS,  com  trânsito  em  julgado  em  11/12/2014,  e  repercussão  geral  previamente reconhecida, em 20/10/2010, na sistemática do art.  543­B, do Código de Processo Civil.   Destarte,  os  Conselheiros  do  CARF  devem  reproduzir  o  entendimento  do  citado  julgado,  prolatado  pelo  STF  em  23/10/2014, conforme determina o art. 62, § 2º, do Anexo II, do  RICARF,  aprovado  pela  Portaria  MF  nº  343,  de  2015.  Nesse  passo, a decisão vinculante é no sentido de aplicar­se o regime  de competência, vedada a aplicação do regime de caixa.  Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pelo  Contribuinte e, no mérito, dou­lhe provimento parcial, para que  o cálculo do Imposto de Renda seja efetuado com base no regime  de competência.   Em face do acima exposto, voto no sentido de conhecer o Recurso Especial  do  Contribuinte  para,  no  mérito,  dar­lhe  provimento  parcial,  para  determinar  o  cálculo  do  tributo sobre a verba recebida, inclusive juros, de acordo com o regime de competência.    (Assinado digitalmente)  Carlos Alberto Freitas Barreto  Fl. 383DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO     10                               Fl. 384DF CARF MF Impresso em 26/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 25/08/2016 por AFONSO ANTONIO DA SILVA, Assinado digitalmente em 25/08/2 016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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Numero do processo: 11020.000862/2004-52
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2006
Ementa: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2003 a 30/09/2003 PIS E COFINS COMPENSAÇÃO DE CRÉDITO DE NATUREZA NÃO-TRIBUTÁRIA. LANÇAMENTO. MULTA ISOLADA. APLICAÇÃO RETROATIVA DE NORMA PREJUCIDIAL AO CONTRIBUINTE. IMPOSSIBILIDADE. Nos termos do art. 106 do CTN, não encontra guarida no universo jurídico pátrio a aplicação retroativa de norma posteriormente editada, tendente à aplicação de penalidade, o que toma nula a lavratura do auto de infração em virtude da falta de requisito formal de validade, uma vez que lavrado com fundamento em norma não aplicável ao caso concreto, bem como ante a ausência dé comprovação de indícios de fraude. Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 201-79.492
Decisão: ACORDAM os Membros da PRIMEIRA CÂMARA do SEGUNDO CONSELHO DE CONTRIBUINTES, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Relator-Designado. Vencidos os Conselheiros Walber José da Silva (Relator), que dava provimento parcial, e Maurício Taveira e Silva, que negava provimento. Designado o Conselheiro Gileno Gurjão Barreto para redigir o voto vencedor.
Nome do relator: Gileno Gurjão Barreto

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Numero do processo: 10882.902908/2008-91
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 07 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Wed Aug 17 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/09/2001 a 30/09/2001 PIS e COFINS. RECEITAS DE VENDAS A EMPRESAS SEDIADAS NA ZONA FRANCA DE MANAUS. INCIDÊNCIA. Até julho de 2004 não existe norma que desonere as receitas provenientes de vendas a empresas sediadas na Zona Franca de Manaus das contribuições PIS e COFINS, a isso não bastando o art. 4º do Decreto-Lei nº 288/67. Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-004.042
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Maria Teresa Martínez López, que davam provimento. Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Tatiana Midori Migiyama, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Érika Costa Camargos Autran, Rodrigo da Costa Pôssas, Vanessa Marini Cecconello, Maria Teresa Martínez López e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, pelo voto de qualidade, negar provimento ao recurso especial. Vencidos os Conselheiros Vanessa Marini Cecconello, Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran e Maria Teresa Martínez López, que davam provimento. Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Henrique Pinheiro Torres, Tatiana Midori Migiyama, Júlio César Alves Ramos, Demes Brito, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Érika Costa Camargos Autran, Rodrigo da Costa Pôssas, Vanessa Marini Cecconello, Maria Teresa Martínez López e Carlos Alberto Freitas Barreto.

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PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 3          2 Relatório  Trata­se  de  recurso  especial  de  divergência  interposto  pela  contribuinte  com fulcro nos artigos 64,  inciso II e 67 e seguintes do Anexo II do Regimento Interno do  Conselho  Administrativo  de  Recursos  Fiscais  ­  RICARF,  aprovado  pela  Portaria  MF  nº  256/09, meio pelo qual busca a reforma do Acórdão nº 3801­004.996, que negou provimento  ao recurso voluntário. Decidiu o colegiado a quo pela incidência das contribuições sobre as  receitas  oriundas  de  vendas  a  empresas  sediadas  na  Zona  Franca  de Manaus,  no  período  tratado neste processo.  Cientificado do mencionado acórdão o  sujeito passivo apresentou  recurso  especial suscitando divergência  jurisprudencial quanto à  isenção das contribuições sobre as  receitas  decorrentes  de  vendas  de mercadorias  e  serviços  para  empresas  com domicílio  na  Zona Franca de Manaus.   O  recurso  foi  admitido  por  intermédio  de  despacho  do  Presidente  da  Câmara recorrida, e a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões.  É o relatório, em síntese.    Voto             Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator  Este  processo  foi  julgado  na  sistemática  dos  recursos  repetitivos,  regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de  junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplica­se o decidido no Acórdão 9303­003.934, de  07/06/2016, proferido no julgamento do processo 10650.902444/2011­41, paradigma ao qual o  presente processo foi vinculado.  Transcreve­se,  como  solução  deste  litígio  nos  termos  regimentais,  o  entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303­003.934):  "A matéria,  única,  posta  ao  exame do colegiado não é nova. Com efeito,  já  tivemos  oportunidade  de  nos  pronunciar  sobre  ela  em  diversas  ocasiões,  tendo  eu  firmado  convicção  pela  inaplicabilidade  de  qualquer  medida  desonerativa  (seja  isenção, imunidade ou alíquota zero) aos fatos geradores anteriores a julho de 2004.  No relatório da Dra. Vanessa consta que o contribuinte aduziu em seu recurso:  "que:  (a)  o  Decreto­Lei  nº  288/67  equipara  os  efeitos  das  operações  de  venda  para  a  Zona  Franca  de  Manaus  às  exportações  para  o  estrangeiro,  sendo­lhes  aplicáveis  as  vantagens  fiscais  estabelecidas  pela  legislação  para  as  exportações, nos  termos do seu art. 4º;  (b) o Superior Tribunal  de Justiça pacificou o entendimento no sentido da não incidência  de PIS sobre as receitas decorrentes das vendas para empresas  sediadas  na  Zona  Franca  de Manaus;  (c)  o  Supremo  Tribunal  Fl. 159DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 4          3 Federal,  ao  proferir  liminar  na  Ação  Direta  de  Inconstitucionalidade  nº  2.348­9,  suspendeu  a  eficácia  da  expressão ‘na Zona Franca de Manaus’, contida no inciso I, do  §2º  do  art.  14  da MP  nº  2.037­24/00,  expressão  suprimida  do  diploma legal pelo Poder Executivo ao editar, na mesma data, a  MP nº 2.037­25/2000;  e, por  fim,  (d) não  incide o PIS para os  fatos geradores ocorridos em fevereiro de 2002, tendo em vista a  revogação da expressão ‘na Zona Franca de Manaus’ do inciso  I,  §2º do art.  14 da MP nº 2.037­25/2000 e a equiparação dos  efeitos  fiscais  das  vendas  para  a  Zona  Franca  de  Manaus  às  exportações para o exterior".  Considero­os  todos  abarcados  no  voto  que  segue,  proferido  em  sessão  de  2011, no qual enfrentei ainda outros argumentos. Reconheço haver decisões do STJ em sentido  oposto, mas, como nenhuma delas cumpre os requisitos do art. 62 do atual regimento interno  desta Casa, peço vênia para continuar teimando.   Disse­o eu naquela ocasião:  Vale  iniciá­lo  reenunciando  o  criativo  entendimento  da  recorrente:  a)  não há necessidade de previsão legal expressa concessiva da  isenção  porque  o  decreto­lei  288  e  o  Ato  Complementar  35/67 bastam;  b)  deferida  isenção  para  exportações  em  geral,  a  vendas  à  ZFM está imediata e automaticamente estendida;  c)  tendo o Ato Complementar à Constituição de 67 a natureza  de lei complementar, como pacificado em nossos Tribunais,.  nenhuma lei ordinária o poderia revogar;  d)  a “revogação” pretendida somente vigorou entre ___ e ___,  sendo de rigor reconhecer a isenção, ao menos, nos períodos  anterior e posterior.  Ainda  que  criativo,  o  raciocínio  desenvolvido  na  defesa  não  merece  prosperar  cabendo  a manutenção da  decisão  recorrida  pelos motivos que se expõem em seguida. Em primeiro lugar, a  premissa  de  que  o  decreto­lei  288  teria  assegurado que  todo e  qualquer  incentivo  direcionado  a  promover  as  exportações  deveria,  imediata  e  automaticamente,  ser  estendido  à  Zona  Franca de Manaus não resiste sequer ao primeiro dos métodos  interpretativos consagradamente admitidos: a literalidade.  É  que  tal  extensão  somente  caberia  se  o  citado  decreto  tivesse  afirmado que  as  remessas  de  produtos  para  a Zona Franca  de  Manaus  são  exportação.  Nesse  caso,  a  equiparação  valeria  mesmo  para  outros  efeitos,  não  fiscais.  Poderia,  para  o  que  interessa,  restringi­la  a  “todos  os  efeitos  fiscais”.  Se  o  tivesse  feito, dúvida não haveria de que qualquer mudança posterior na  legislação  que  viesse  a  afetar  as  exportações,  no  que  tange  a  tributos,  afetaria  do  mesmo  modo  e  na  mesma  medida  aquela  zona.  Fl. 160DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 5          4 Mas já foi repetidamente assinalado que o artigo 4º daquele ato  legal, embora traga de fato a expressão acima, apôs a ressalva  “constantes  da  legislação  em  vigor”.  Não  vejo  como  essa  restrição possa ser entendida de modo diverso do que  tem sido  interpretado  pela  Administração:  apenas  os  incentivos  às  exportações  que  já  vigiam  em  1  de  fevereiro  de  1967  estavam  “automaticamente” estendidos à ZFM por força desse comando.  E  ponho  a  palavra  entre  aspas  porque  nem  mesmo  o  Poder  Executivo – e vale assinalar que estamos falando de um período  de  exceção,  em  que  o  Poder  executivo  quase  tudo  podia  –  pareceu estar tão seguro desse automatismo, visto que fez editar,  na  mesma  data,  o  Ato  Complementar  35,  cujo  artigo  7º  assegurou aquela extensão ao ICM.   Aliás,  da  interpretação  dada  pela  recorrente  a  este  último  ato  também divergimos. Deveras, pretende ela que ele  teria alçado  ao  patamar  de  lei  complementar  a  equiparação  já  prevista  no  decreto­lei. A meu ver, porém, tudo o que faz é definir com maior  precisão  o  que  se  entende  por  produtos  industrializados  para  efeito da não incidência de ICM nas exportações já prevista na  Constituição  de  67.  Define­os  no  parágrafo  1º,  recorrendo  à  tabela do  então criado  imposto  sobre produtos  industrializados  (tabela  anexa  à  Lei  4.502).  No  parágrafo  segundo,  estende,  também para efeito de ICM, aquela imunidade às vendas a zonas  francas.  Essa  interpretação  me  parece  forçosa  quando  se  sabe  que,  segundo  a  boa  técnica  legislativa,  os  parágrafos  de  um  dado  artigo  não  acrescentam  matéria  ao  disposto  no  caput,  apenas  esclarecem  sobre  o  alcance  daquela  matéria.  E  ao  esclarecer  podem  impor  uma  definição  restritiva,  como  no  parágrafo  primeiro,  ou  extensiva,  como  no  segundo. O  que  não  pode  um  simples parágrafo é tratar de matéria que não esteja contida no  caput  e nos  seus  incisos. E não parece haver dúvida de que aí  apenas se cuida da imunidade do ICM.   Assim, o ato legal nem previu imunidade genérica, nem estendeu  ao IPI a imunidade do ICM, como afirma a empresa.   Ora,  se  a  previsão  do  decreto­lei  deveria  alcançar  “todos  os  efeitos  fiscais” e já havia previsão de  imunidade de ICM sobre  produtos  industrializados,  para  que  tal  parágrafo  no  ato  complementar?  Há, contudo, razões mais profundas do que a mera literalidade.  É que a zona franca de Manaus não é meramente uma área livre  de  restrições  aduaneiras,  característica  das  chamadas  zonas  francas  comerciais.  O  que  se  buscou  com  a  sua  criação  foi  induzir  a  instalação  naquele  distante  rincão  nacional  de  empresas de  caráter  industrial,  que gerassem emprego e  renda  para  a  região  Norte.  Para  tanto,  definiu­se  um  conjunto  de  incentivos  fiscais que,  à  época de  sua criação,  seria  suficiente,  no entender dos seus  formuladores, para gerar aquela atração.  Tais  incentivos,  e  apenas  eles,  configuram  diferenciação  em  favor dos produtos  importados e  industrializados naquela área.  Fl. 161DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 6          5 Foi  essa  diferença  tributária  que  induziu  a  criação  do  parque  industrial que ali se veio a instalar e, assim, é apenas a retirada  de algum daqueles incentivos que pode ser taxada de “quebra de  contrato”.   A  contrário  senso,  novos  incentivos  fiscais  que  se  venham  a  instituir podem ou não ser a ela estendidos conforme entenda útil  o legislador por ocasião de sua instituição.   Isso  não  se  dá  automaticamente  com os  incentivos  genéricos à  exportação cujo objetivo comum tem sido a geração das divisas  imprescindíveis ao pagamento dos compromissos internacionais  durante  tanto  tempo  somente  alcançáveis  por  meio  das  exportações.  Por  óbvio,  a  ninguém  escapa  que  vendas  à  ZFM  não  geram  divisas.  Diferentes,  pois,  os  objetivos,  nenhum  automatismo se justifica.  Prova desse raciocínio é que dois anos apenas após a criação da  ZFM,  inventaram  os  “legisladores  executivos”  de  então  novo  incentivo  à  exportação,  o  malsinado  “crédito  prêmio”  posteriormente  tão  combatido  nos  acordos  de  livre  comércio  a  que o País aderia. Sua legislação expressamente incluiu a Zona  Franca. Fê­lo,  no  entanto,  apenas  para  os  casos  em que,  após  serem  “exportados”  para  lá,  fossem  dali  efetivamente  exportados  para  o  exterior  (“reexportados”,  na  linguagem  do  dec­lei).  Em  outras  palavras,  já  em  1969  dava  o  executivo  provas  de  que  aquela  extensão  nem  era  automática,  nem  tinha  que se dar sem qualquer restrição.  Logo,  ainda  que  se  avance  na  interpretação  da  norma,  ultrapassando o método  literal  e  adentrando­se  o  histórico  e  o  teleológico,  se  chega  à  mesma  conclusão:  o  decreto­lei  288  apenas determinou a adoção dos incentivos fiscais à exportação  já  existentes  e  acresceu  incentivos  específicos  voltados  a  promover  o  desenvolvimento  da  região  menos  densamente  povoada de nosso território.  Nessa  linha  de  raciocínio,  portanto,  há  de  se  buscar  na  legislação  específica  do  PIS  e  da  COFINS,  tributos  somente  instituídos  após  a  criação  da  ZFM,  dispositivo  que  preveja  alguma forma de desoneração nas vendas àquela região, seja a  não  incidência,  alíquota  zero  ou  isenção.  E  não  se  precisa  ir  longe para ver que ela somente começa a existir em 2004, com a  edição da Medida Provisória 202.  De  fato,  a  “exclusão  das  receitas  de  exportação”  da  base  de  cálculo  do  PIS  tratada  na  Lei  7.714  e  a  isenção  da  COFINS  sobre receitas de exportação prevista na Lei Complementar 70 e  objeto da Lei complementar 85 não incluíram expressamente as  vendas à ZFM ainda que tenham estendido o benefício a outras  operações  equiparadas  a  exportação.  Um  exame  cuidadoso  dessas  extensões  vai  revelar  o  que  se  disse  acima:  todas  elas  geram, imediata ou mediatamente, divisas internacionais.   A  conclusão  que  se  impõe,  assim,  é  que  não  havia,  até  o  surgimento da Medida Provisória 1.858 qualquer benefício fiscal  Fl. 162DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 7          6 que desonerasse de PIS e de COFINS as receitas obtidas com a  venda de produtos para empresas sediadas na ZFM. É certo que  esse  entendimento  não  era  uníssono,  muita  peleja  tendo  se  travado entre o fisco e os contribuintes que pretendiam estarem  tais  vendas  amparadas  pelos  atos  legais mencionados.  E  essas  divergências  somente  se agravaram com a  edição da MP,  cuja  redação padece de diversas inconsistências.  Com  efeito,  tal  MP,  que  revogou  a  Lei  7.714  e  a  Lei  Complementar  85,  disciplinando  por  completo  a  isenção  das  duas  contribuições  nas  operações  de  exportação  trouxe  dispositivo  expresso  “excluindo”  as  vendas  à  ZFM.  Isso,  por  óbvio,  aguçou  a  interpretação  de  que  já  havia  dispositivo  isentivo e que esse dispositivo estava sendo agora revogado.  Defendo  que  não,  embora  seja  forçoso  reconhecer  que  o  dispositivo  apenas  criou  desnecessário  imbróglio.  Com  efeito,  ouso divergir da conclusão exposta no Parecer PFGN 1789 no  sentido  de  que  tal  ressalva  se  destinava  apenas  aos  comandos  insertos nos incisos IV, VI, VIII e IX. A razão para tanto é que aí  ventilam­se hipóteses  intrinsecamente ligadas ao objetivo que o  ato  pretende  incentivar:  vendas  para  o  exterior  que  trazem  divisas para o país. Refiro­me aos incisos VIII (vendas com o fim  de  exportação  a  trading  companies  e  demais  empresas  exportadoras)  bem  como  o  fornecimento  de  bordo  a  embarcações  em  tráfego  internacional  (ship’s  Chandler).  Além  disso,  a  interpretação  não  apenas  retira  um  incentivo,  ela  pressupõe  um  desincentivo:  qualquer  trading  do  decreto­lei  1.248/72,  exportadora  inscrita  na  SECEX  ou  ship’s  Chandler  instalada  em  outro  ponto  do  território  nacional  terá  vantagem  em relação à que ali se instale. Não faz sentido tal discriminação  contra a ZFM.   A  interpretação  dada  pela  douta  PGFN  parece  buscar  um  sentido  para  o  comando do  parágrafo  de modo  a  não  torná­lo  redundante.  Fê­lo,  todavia,  da  pior  forma,  a  meu  sentir,  pois  fixou­se no método literal esquecendo­se de considerar o motivo  da norma. Realmente, uma cuidadosa leitura do parecer permite  ler  o  artigo,  com  o  respectivo  parágrafo  segundo,  da  seguinte  forma:  há  isenção  quando  se  vende  com  o  fim  específico  de  exportação,  desde  que  a  empresa  compradora  (trading  ou  simples exportadora inscrita na SECEX) NÃO esteja situada na  ZFM. Com a exclusão do parágrafo: há isenção quando se vende  com  o  fim  específico  de  exportação,  mesmo  que  a  empresa  compradora  (trading  ou  simples  exportadora  inscrita  na  SECEX) esteja situada na ZFM.  Ora, o objeto da isenção versada nesses dispositivos nada tem a  ver com a localização da compradora mas com o que ela faz. É a  atividade (exportação com conseqüente ingresso de divisas) que  se quer incentivar. O que se tem de decidir é se a mera venda à  ZFM, que não gera divisa nenhuma, deve a isso ser equiparado.  Foi  isso, em meu entender, que o parágrafo quis dizer: não é o  que o Parecer da PGFN consegue nele ler.   Fl. 163DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 8          7 Em conseqüência  desse  parecer,  surgem  decisões  como  as  que  ora  se  examinam:  o  pedido  tinha  a  ver  com  venda  a  ZFM.  A  decisão  abre  a  possibilidade  de  que  tenha  mesmo  havido  recolhimento  indevido, mas  por motivo  completamente  diverso.  E  mais,  atribui  ao  contribuinte  a  prova  dessa  outra  circunstância,  que  não  motivara  o  seu  pedido.  Nonsense  completo.  Esse  meu  reconhecimento  implica  aceitar  que  o  malsinado  parágrafo  estava  sim  se  referindo,  genericamente,  às  vendas  à  ZFM, ou, mais  claramente,  está  ele a dizer que, para  efeito do  incentivo de PIS e COFINS, a mera venda a empresa sediada na  ZFM não se equipara à exportação de que cuida o  inciso II do  ato  legal  em  discussão.  Mas,  ao  fazê­lo,  não  está  revogando  dispositivo isentivo anterior: está simplesmente cumprindo o seu  papel esclarecedor, ainda que nesse caso melhor fosse nada ter  tentado esclarecer...  Aliás,  idêntico  dispositivo  esclarecedor  poderia  ter  estado  presente na LC 85 e na Lei 7.714 como já estivera no decreto­lei  491.  Com  isso,  muita  discussão  travada  administrativamente  teria sido evitada ou transferida para o Judiciário. É a ausência  de  tal  dispositivo  e  sua  presença  na  nova  lei  que  cria  o  imbróglio.  Ele  não  leva,  contudo,  em  minha  opinião,  à  interpretação  simplória  de  que  tal  ausência  implicasse  haver  isenção.  Para  isso,  primeiro,  se  tem  de  admitir  que  basta  o  Decreto­lei 288.   Essa interpretação, parece­me, está em maior consonância com  o espírito legisferante, pois não faz sentido considerar que uma  norma  que  procura  incentivar  as  exportações  tenha  instituído  uma discriminação contra uma região (região, aliás, que sempre  se  procurou  incentivar)  em  operações  que  produzem  o  mesmo  resultado: a geração de divisas internacionais.  A minha conclusão é, assim, de que mesmo entre 1º de fevereiro  de  1999  e  31  de  dezembro  de  2000  há,  sim,  isenção  das  contribuições  naquelas  hipóteses,  ainda  que  a  empresa  esteja  situada na ZFM. Em outras palavras, a localização da empresa  não é impeditivo à fruição do incentivo à exportação, desde que  cumprido o que está previsto naqueles incisos.   Mas  tampouco  há  isenção  APENAS  PORQUE  A  COMPRADORA LÁ ESTEJA. Nos recursos ora em exame, esse  foi o fundamento do pedido e a ele deveria  ter­se  restringido a  DRJ.  Nesses  termos,  só  causa  mais  imbróglio  a  afirmação  constante  no  acórdão  recorrido  de  que  “haveria  direito”  no  período de 1º de janeiro de 2001 a julho de 2004 mas não estava  ele adequadamente comprovado. Simplesmente não há o direito  na forma requerida.  E por isso mesmo não cabe a pretensão do contribuinte de que a  Administração  adapte  o  seu  pedido  fazendo  as  pesquisas  internas  que  permitam apurar  se  alguma das  empresas  por  ele  listadas na planilha referida se enquadra naquelas disposições.   Fl. 164DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO Processo nº 10882.902908/2008­91  Acórdão n.º 9303­004.042  CSRF­T3  Fl. 9          8 O máximo que se poderia admitir,  dado o  teor da decisão,  era  que, em grau de recurso,  trouxesse a empresa tal prova. Não o  fez, porém, limitando­se a postular a nulidade da decisão porque  não determinou aquelas diligências.  Não sendo obrigatória a realização de diligências, como se sabe  (art. __ do Decreto 70.235), sua ausência não acarreta nulidade  da decisão proferida por quem legalmente competente para tal.  Cabe  sim  manter  aquela  decisão  dado  que  o  contribuinte  não  comprovou o  seu  direito  como  lhe  exigem o Decreto  70.235,  a  Lei 9.784 e o próprio Código Civil (art. 333).  Com  tais  considerações,  nego  provimento  ao  recurso  do  contribuinte.  Com essas mesmas considerações, votei,  também aqui, pelo não provimento  do recurso do contribuinte, sendo esse o acórdão que me coube redigir."  Aplicando­se  as  razões  de  decidir,  o  voto  e  o  resultado  acima  do  processo  paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do  RICARF, nega­se provimento ao recurso especial do contribuinte, em razão da incidência das  contribuições  sobre  as  receitas  oriundas  de  vendas  efetuadas  a  empresas  sediadas  na  Zona  Franca de Manaus, no período tratado neste processo.     Carlos Alberto Freitas Barreto                              Fl. 165DF CARF MF Impresso em 17/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/08/2016 por CLEUZA TAKAFUJI, Assinado digitalmente em 16/08/2016 por CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO

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Numero do processo: 12466.722114/2014-20
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 27 00:00:00 UTC 2016
Ementa: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 25/11/2014 RECURSO DE OFÍCIO. EXCLUSÃO DA EMPRESA PALÁCIO DAS LÃS MALHAS LTDA DA EXIGÊNCIA FISCAL. INEXISTÊNCIA DE PROVAS CONTRA A SOLIDÁRIA. É inconteste que o importador e o encomendante são pessoas jurídicas distintas. Logo, não é plausível exigir que o encomendante tenha responsabilidade sobre a contabilidade do importador. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. INTIMAÇÃO VIA EDITAL. DEVOLUÇÃO DO PRAZO RECURSAL. Diante da expressa previsão contida no Decreto n. 70.235/1972, não há se falar em nulidade da intimação feita por edital, desde que cumpridos os requisitos elencados no próprio artigo 23. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. JURISDIÇÃO DIVERSA. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE EXPEDIDORA. INOCORRÊNCIA. Alteração do domicílio fiscal do contribuinte após o início do procedimento de fiscalização. IN RFB 748/2002. Delegação possível. Previsão IN SRF 228/2002. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. IMPORTAÇÕES POR ENCOMENDA. A legislação que tipifica a prática da interposição fraudulenta na modalidade presumida expressamente prevê que para a constatação dessa infração basta a inexistência de provas. Para elidir os indícios é de responsabilidade do importador que atue por encomenda fazer provas sobre a existência de recursos próprios na data de fechamento das operações. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. INFRAÇÃO ADUANEIRA SUI GENERIS. INDEPENDE DE COMPROVAÇÃO DE DOLO OU DE RESULTADO. A interposição fraudulenta presumida é caracterizada, apenas, pela não comprovação da origem, disponibilidade e transferências dos recursos empregados nas operações de comércio exterior. Art. 23 do Decreto-Lei n. 1.455/1976
Numero da decisão: 3302-003.371
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Também por unanimidade de votos, foram rejeitadas as preliminares e , no mérito, negado provimento ao Recurso Voluntário. Fez sustentação oral a Dra. Melissa Lançado - OAB 122.682 - MG
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO

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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Data do fato gerador: 09/09/2014 RECURSO DE OFÍCIO. EXCLUSÃO DA EMPRESA ABC BRASIL DA EXIGÊNCIA FISCAL. INEXISTÊNCIA DE PROVAS CONTRA A SOLIDÁRIA. É inconteste que o importador e o encomendante são pessoas jurídicas distintas. Logo, não é plausível exigir que o encomendante tenha responsabilidade sobre a contabilidade do importador. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. INTIMAÇÃO VIA EDITAL. DEVOLUÇÃO DO PRAZO RECURSAL. Diante da expressa previsão contida no Decreto n. 70.235/1972, não há se falar em nulidade da intimação feita por edital, desde que cumpridos os requisitos elencados no próprio artigo 23. ARGÜIÇÃO DE NULIDADE. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. JURISDIÇÃO DIVERSA. INCOMPETÊNCIA DA AUTORIDADE EXPEDIDORA. INOCORRÊNCIA. Alteração do domicílio fiscal do contribuinte após o início do procedimento de fiscalização. IN RFB 748/2002. Delegação possível. Previsão IN SRF 228/2002. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. IMPORTAÇÕES POR ENCOMENDA. A legislação que tipifica a prática da interposição fraudulenta na modalidade presumida expressamente prevê que para a constatação dessa infração basta a inexistência de provas. Para elidir os indícios é de responsabilidade do importador que atue por encomenda fazer provas sobre a existência de recursos próprios na data de fechamento das operações. Fl. 7.600Fl. 7.600 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária setembro de 2016 setembro de 2016 Normas de Administração Tributária Normas de Administração Tributária MULTIMEX S.A. MULTIMEX S.A. FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL AA Fl. 7601DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 2 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. INFRAÇÃO ADUANEIRA SUI GENERIS. INDEPENDE DE COMPROVAÇÃO DE DOLO OU DE RESULTADO. A interposição fraudulenta presumida é caracterizada, apenas, pela não comprovação da origem, disponibilidade e transferências dos recursos empregados nas operações de comércio exterior. Art. 23 do Decreto-Lei n. 1.455/1976. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso de Ofício. Também por unanimidade de votos, foram rejeitadas as preliminares e , no mérito, negado provimento ao Recurso Voluntário. Fez sustentação oral a Dra. Melissa Lançado - OAB 122.682 - MG. Ricardo Paulo Rosa - Presidente Lenisa Prado - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Waker Araújo, Paulo Guilherme Dérouledé, Domingos Sá, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Prado. Relatório Trata-se de auto de infração lavrado em 09/09/2014 contra a ora recorrente, formalizando a exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro, no valor de R$ 2.518.714,49, em decorrência das constatações ultimadas em procedimento fiscal instaurado pelo Mandado de Procedimento Fiscal n. 0727600-2014-00040. Foram cominadas a pena de perdimento prevista no § 2º, do art. 23 do Decreto Lei n. 1.455/1976, e a aplicação da multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias (§ 3º do mesmo artigo), uma vez que não foi apresentada documentação que possibilitasse a comprovação da origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência dos recursos que demonstrassem o financiamento de suas importações, e porque a mercadoria importada não era passível de apreensão. A infração constatada pelo fiscal autuante decorre exclusivamente da ausência de registros contábeis da empresa importadora, o que resulta na tipificação da interposição fraudulenta presumida. Nesse auto de infração o fiscal apontou a empresa ABC Brasil Comércio Ltda como responsável solidária. Fl. 7602DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.601 3 Cientificadas sobre o teor do auto de infração, as contribuintes - solidária e principal - apresentaram impugnações. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo Naquela afastou a solidariedade atribuída à empresa ABC Brasil Comércio Ltda, mas manteve a autuação contra a empresa Multimex. Segue transcrição da ementa do referido acórdão: Assunto: Imposto sobre a Importação - II Data do fato gerador: 09/09/2014 Dano ao erário por infração de não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas importações. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. A presunção decorre de lei e implica na inversão do ônus da prova, atribuindo ao importador a responsabilidade da demonstração da forma de financiamento de suas importações. A incidência do art. 33 da Lei n. 11.488/2007 é específica para a prática EFETIVA da interposição fraudulenta de terceiros onde o importador de fato (SUJEITO PASSIVO OCULTO/ REAL COMPRADOR) está identificado. Dado princípio da PERSONALIDADE, a o importador e o encomendante são entidades distintas. Logo, não é plausível exigir que o encomendante tenha conhecimento e muito menos qualquer gerência sobre o fato da contabilidade do importador ser imprestável. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido A empresa Multimex S.A. foi intimada sobre o teor do acórdão acima mencionado via edital publicado em 30/07/2015 (sendo presumidamente considerada intimada em 14/08/2015), por não ter sido localizada no domicílio fiscal fornecido à Secretaria da Receita Federal (fl. 7432). Por sua vez, a empresa ABC Brasil Comércio Ltda foi considerada intimada pela abertura dos documentos disponibilizados em sua caixa eletrônica no Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (Portal e-CAC) em 19/08/2015 (fl. 7435). A contribuinte não apresentou recurso à instância superior dentro do prazo de 30 (trinta) dias previsto no art. 33 do Decreto n. 70.235/1972 (Termo de Perempção acostado à folha 7572). Os autos ascenderam a este Conselho com recurso apresentado pela contribuinte Multimex S.A. (fls. 7440/7555) e com recurso de ofício (diante da exclusão da contribuinte solidária do auto de infração). Fl. 7603DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 4 É o relatório. Voto Conselheira Lenisa Prado, 1. RECURSO DE OFÍCIO Trata-se de recurso de ofício submetido a este Colegiado em virtude da exclusão da empresa ABC Brasil do pólo passivo da exigência fiscal, o que exonera crédito tributário em montante superior1 ao limite de alçada previsto no art. 1º da Portaria MF n. 03, de 03 de janeiro de 2008. A instância de origem considerou que a exigência lavrada no auto de infração contra a contribuinte ABC Brasil tem por fundamento exclusivo a sua condição de empresa encomendante de produtos importados pela Multimex (caracterizada como interposta pessoa). E resume os principais argumentos trazidos na ação fiscal, no que se refere a contribuinte solidária, da seguinte forma: "1. A contabilidade da empresa MULTIMEX é imprestável, o que implica em sua incapacidade de efetuar a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação; 2. A empresa ABC Brasil figura como ENCOMENDANTE nas Declarações de Importação em análise no presente Auto de Infração". A turma julgadora acatou o raciocínio lógico e jurídico apresentado pelo relator, que brilhantemente aponta que: "Se a empresa ABC Brasil se apresente à fiscalização como encomendante, tal qual afirmado no próprio Relatório de Procedimento Fiscal, que outra conduta a fiscalização pode exigir dessa empresa? A fiscalização não trouxe evidências de confusão patrimonial, administrativa, de uso de pessoal, como é próprio de outros casos envolvendo o uso de interposta pessoa em operações de importação maculadas pela prática de interposição fraudulenta de terceiros. Entende-se que a fiscalização para abarcar a empresa ABC BRASIL no pólo passivo da autuação mescla indevidamente os conceitos de prática efetiva e prática presumida da interposição fraudulenta de terceiros. 1 Acórdão n. 16-069.593, prolatado em 15/07/2015 pela Delegacia de Julgamentos da Receita Federal em São Paulo (DRJ/SPO). Fl. 7604DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.602 5 Pinça-se o seguinte fragmento do Relatório de Procedimento Fiscal, às folhas 6 do processo digital, que expressa justamente tal confusão conceitual: Em que pese a obrigação do importador de revender as mercadorias importadas ao encomendante pré-determinado, é o importador quem formaliza a compra internacional, logo deve dispor de capacidade econômica e financeira para o pagamento da importação, bem como das demais despesas de nacionalização. Da mesma forma, o encomendante também deve ter capacidade econômica e financeira para adquirir as mercadorias revendidas pelo importador contratado, conforme se depreende do art. 5º da IN SRF n. 634/06. Sim, sem dúvida. A colocação da fiscalização é irrepreensível. Contudo, não se pode confundir os conceitos que alicerçam as duas formas de prática de interposição fraudulenta de terceiros (efetiva e presumida), sob o risco de se remeter aquele indicado como sujeito passivo oculto a exigência de produção de prova infernal! Cada qual deve responder pela comprovação da origem, disponibilidade e transferência DOS SEUS PRÓPRIOS RECURSOS empregados na transação, não podendo se responsabilizar um pela não comprovação do outro. (...) Há a necessidade premente da fiscalização aduaneira atentar para tal distinção conceitual, sob o risco de se inviabilizar toda e qualquer revenda de produtos importados no mercado nacional, ao confundir a figura do REAL COMPRADOR (sujeito passivo oculto) com a do MERO COMPRADOR. Se a empresa ABC BRASIL se identifica para a fiscalização como encomendante, no momento do registro da Declaração de Importação, onde está a ocultação do sujeito passivo? (...) Não há o menor sentido em apontá-la como sujeito passivo oculto, a luz do inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n. 1.455/76. Antes de prosseguir na análise, um importante adendo se faz necessário: É preciso reprimir o uso indevido do artigo 124, I, do Código Tributário Nacional para querer abarcar tanto importador quanto o sujeito passivo oculto no pólo passivo do Auto de Infração nas autuações de prática de interposição fraudulenta de terceiros. (...) Isso porque o artigo 124 do Código Tributário Nacional é próprio para a Sujeição Passiva Solidária, no âmbito das Fl. 7605DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 6 normas gerais da relação jurídico tributária, disciplinada ao longo do segundo livro do CTN, cujo objeto é o tributo! (...) Nesse diapasão, pelo fato da prática de interposição fraudulenta de terceiros (efetiva ou presumida) ser um ilícito aduaneiro, o instituto a ser considerado não é a responsabilidade solidária tributária, mas sim o da coautoria, na forma do artigo 95 do Decreto-Lei n. 37/66". Diante desses esclarecimentos, acrescido ainda os fatos que (i) a fiscalização não apresentou provas de confusão patrimonial, administrativa, ou de uso pessoal, e; (ii) que a contribuinte ABC BRASIL se apresentou à fiscalização como encomendante (nos termos dos arts. 32 e 95 do Decreto- Lei n. 37/66), a instância de origem concluiu que não é plausível exigir que a contribuinte ABC BRASIL tenha conhecimento ou ingerência sobre a contabilidade (imprestável) da empresa MULTIMEX. , motivo pelo qual não é possível descrevê-la como sujeito passivo oculto. Por essas razões foi decretada a exclusão da contribuinte ABC BRASIL do pólo passivo da exigência fiscal sob julgamento. Sobre essa conclusão, entendo que não há reparos a fazer ao acórdão recorrido. Acrescento ao rol dos fundamentos que remetem à exclusão da contribuinte do auto de infração, o fato que não há no relatório fiscal qualquer menção a vantagem percebida pela empresa ABC BRASIL nas transações investigadas, nem tão pouco qualquer prejuízo ao erário. Por esse motivo, voto pelo improvimento do recurso de ofício, adotando in totum a fundamentação apresentada pelo Conselheiro Jorge Lima Abud, relator do acórdão recorrido, no que concerne a apreciação da responsabilidade da contribuinte ABC BRASIL. 2. RECURSO DO CONTRIBUINTE MULTIMEX O recurso voluntário apresentado pela contribuinte Multimex S.A. é tempestivo2 e, por esse motivo, dele tomo conhecimento. Trago a conhecimento os principais argumentos elencados no apelo da recorrente, desconsiderando a ordem em que foram apresentados: 2.1. PRELIMINARES: 2.1.1. NULIDADE DA INTIMAÇÃO POR EDITAL. A recorrente requer a devolução do prazo para apresentar suas razões recursais, uma vez que foi indevidamente intimada sobre o conteúdo do acórdão recorrido via edital, apesar de seu endereço e de seu responsável legal serem conhecidos, certos e determinados. 2 A empresa foi considerada intimada via edital em 14/08/2015 (fls. 7432) e interpôs o recurso voluntário sob julgamento em 14/09/2015 (fl. 7440). Fl. 7606DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.603 7 À folha 7427 dos autos eletrônicos está o termo de intimação endereçado à empresa Multimex S.A. no endereço Al. Santos, 1800 - Conjunto 8285 - Cerqueira Cesar - São Paulo/SP, CEP n. 01418-102. À folha 7432 está o Edital n. 011246681500033, na forma prevista no § 1º do art. 23 do Decreto n. 70.235/1972, endereçado a Multimex S.A., justificado "por não ter sido localizado no domicílio fiscal fornecido à Secretaria da Receita Federal". No âmbito do processo administrativo fiscal, a intimação via edital encontra previsão expressa, conforme se verifica do texto do Decreto n. 70.235/1972: Art. 23. Far-se-á a intimação (...) §1º. Quando restar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: I - no endereço da administração tributária na internet; II - em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação, ou; III - um única vez, em órgão da imprensa oficial. O próprio recorrente informa ter iniciado os expedientes burocráticos para alteração de seu domicílio fiscal, motivo pelo qual foram infrutíferas as intimações feitas de acordo com os incisos I e II do artigo 23. Deste modo é legítima a intimação em sua forma editalícia. Considero válida a intimação também diante da ausência de prejuízo a ampla defesa e ao contraditório, uma vez que o recurso voluntário foi apresentado tempestivamente e apresenta 116 laudas, o que demonstra a sua completude. 2.2. DA NULIDADE DO PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO - VÍCIO NO MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. A recorrente defende a nulidade do procedimento de fiscalização e, por conseqüência, do próprio auto de infração, já que: (i) o art. 3º da IN SRF 228/2002 prevê que o início da ação fiscalizadora deve ser precedido por determinação pelo Inspetor da Alfândega, o que não ocorreu no caso, já que o Termo de Início de Fiscalização foi assinado por auditores fiscais; (ii) a intimação sobre o início do procedimento fiscal instaurado foi encaminhada a endereço errado, já que "naquela data (10/02/2014) a Recorrente havia alterado sua matriz/sede e domicílio fiscal para a cidade do Rio de Janeiro/RJ, conforme a ata da Assembléia Geral Extraordinária ocorrida no dia 30 de janeiro de 2014"; (iii) e esclarece que "quando da primeira intimação, a empresa já não mais estava na circunscrição da Alfândega de Vitória/ES, uma vez que a transferência da sede produziu efeitos desde o dia 30 de janeiro passado. A primeira intimação consistiu, assim, em ato praticado por autoridade administrativa incompentente"; Fl. 7607DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 8 (iv) aduz que o fato do Termo de Procedimento Fiscal ter sido emitido por Inspetor-Chefe que não detinha competência territorial para tanto, sem autorização de seu superior, anula a validade do procedimento fiscal, conforme estipulado pelo art. 14 da IN RFB n. 1.169/2011 e pela regra insculpida no art. 6º da Portaria RFB n. 1.687/2014; (v) para deflagrar procedimentos investigatórios sobre as atividades do comércio exterior (IN SRF n. 228/2002) é necessária a autorização do Superintendente Regional da Receita Federal. Para a recorrente, a inexistência da referida autorização enseja o reconhecimento de vício insanável, "sendo que a Fiscalização Aduaneira desbordou do trilho legal, agiu de forma abusiva e arbitrária e invadiu competência e jurisdição de outra Repartição Aduaneira e outros AFRFB sem justa causa". Sobre essa preliminar, é importante traçar o histórico dos fatos: 30/01/2014 - Data da Assembléia Geral sobre a alteração de endereço da empresa Multimex S.A; 07/02/2014 - Reconhecimento das firmas sobre a Ata da Assembléia Geral; 04/02/2014 - Diligência ao estabelecimento da matriz da contribuinte, que resultou inócuo, já que a empresa estava fechada, sem nenhum administrador, representante legal ou funcionário; 10/02/2014 - Ciência do contribuinte sobre o Termo de Início da Fiscalização; 28/02/2014 - Protocolo da alteração do endereço da contribuinte perante a Junta Comercial; 06/03/2014 - A contribuinte apresentou a Resposta 06 03 2014, acompanhada de atos constitutivos e alguns documentos. Nessa oportunidade requereu a dilação de prazo em 60 dias, a qual foi deferida parcialmente (30 dias). Considerando a cronologia traçada, percebe-se que não há se falar em nulidade da intimação por erro no endereço de destino, já que a própria contribuinte fechou a sala onde funcionava o estabelecimento comercial antes do término das tratativas burocráticas de alteração de seu domicílio. Sendo certo que não se pode valer de nulidade provocada por ato próprio, não há de prevalecer a alegada nulidade. Não existe a pretensa nulidade apontada pela recorrente, resultante da incompetência territorial do auditor fiscal. Isso porque, quando do início do procedimento, o domicílio fiscal da contribuinte ainda era em Vitória/ES, o que torna vinculada aquela Delegacia de Julgamentos, conforme dita a regra do art. 22 da IN RFB n. 748/2007. Também não vislumbro a nulidade decorrente da lavratura do MPF por outro auditor fiscal, diferente do superintendente. Em primeiro lugar, porque o parágrafo único do artigo 142 do Código Tributário Nacional é taxativo ao determinar que "a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional". Em segundo lugar porque consta na IN SRF 228/2002 a previsão de delegação de suas atribuições, visando a conveniência da administração pública. A propósito: Art. 3º Cabe ao titular da unidade da SRF de fiscalização aduaneira com jurisdição sobre o domicílio fiscal do estabelecimento matriz da empresa determinar o início da ação Fl. 7608DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.604 9 fiscalizadora, mediante expedição de Mandado de Procedimento Fiscal (MPF). Parágrafo único. Considerados a conveniência da administração e os recursos disponíveis, o Superintendente Regional da Receita Federal poderá designar outra unidade da região fiscal para conduzir o procedimento especial previsto nesta Instrução Normativa. A interpretação que confiro a este artigo encontra arrimo nos termos insertos no Regimento Interno da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF n. 203/2012, bem como no art. 2º do Decreto n. 3.724/2001, que assim prevêm: Art. 303. Aos Delegados- Adjuntos da Receita Federal do Brasil incumbe, no âmbito da respectiva jurisdição, assistir o Delegado da Receita Federal do Brasil no desempenho de suas atribuições, substituindo-o quando das suas ausências e impedimentos. Art. 2º. A Secretaria da Receita Federal, por intermédio de servidor ocupante do cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal, somente poderá examinar informações relativas a terceiros, constantes de documentos, livros e registros de instituições financeiras e de entidades a ela equiparadas, inclusive os referentes a contas de depósitos e de aplicações financeiras, quando houver procedimento de fiscalização em curso e tais exames forem considerados indispensáveis. § 1º. Entende-se por procedimento de fiscalização a modalidade de procedimento fiscal a que se referem o art. 7º e seguintes do Decreto n. 70.235/1971, que dispõe sobre o processo administrativo fiscal. § 2º O procedimento de fiscalização somente terá início por força de ordem específica denominada Mandado de Procedimento Fiscal (MPF), instituído em ato da Secretaria da Receita Federal, ressalvado o disposto nos §§ 3º e 4º deste artigo. § 3º. Nos casos de flagrante constatação de contrabando, descaminho ou qualquer outra prática de infração à legislação tributária, em que a retardação do início do procedimento fiscal coloque em risco os interesses da Fazenda Nacional, pela possibilidade de subtração da prova, o Auditor-Fiscal da Receita Federal deverá iniciar imediatamente o procedimento fiscal, e, no prazo de cinco dias, contado da sua data de início, será expedido MPF especial, do qual será dada ciência ao sujeito passivo.. Como se vê, a regra determina que os procedimentos fiscais deverão ser conduzidos por Auditores Fiscais da Receita Federal. O reconhecimento da competência dos auditores é reverberado ao permitir que Delegado-adjunto substitua o Delegado titular, de modo a preservar o interesse público inerente às funções promovidas por essa categoria de servidores públicos. Aos auditores compete dar prosseguimento aos trabalhos fiscais, nas Fl. 7609DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 10 ausências e impedimentos do titular, o que impõe o poder/dever de emitir MPF. Portanto, inexiste a suscitada nulidade. 2.3. MÉRITO. Para introduzir as alegações de mérito que defende, a recorrente esclarece os seguintes fatos: (i) que "possui filial na mesma região metropolitana de Vitória/ES, onde tinha aproximadamente 40 funcionários, área pátio e 1.000 m2 de área de galpão para suas instalações, em especial para a guarda e manutenção de máquinas e equipamentos pesados que comercializava"; (ii) que apresentou os relatórios emitidos pelo Banco Central, além de contratos com instituições bancárias, que demonstram a concessão de financiamentos bancários para as operações de importação, e a existência de fluxo de caixa suficiente e compatível com a sua movimentação fiscal e financeira; (iii) que demonstrou possuir concessão de crédito junto a diversos fornecedores, que também promoveram as condições em seu fluxo financeiro para a realização das operações de importação. A contribuinte se insurge contra a conclusão a que chegou a instância de origem que, acolhendo os termos insertos no voto do relator, admitiu que a contabilidade é a única prova capaz de demonstrar a licitude das operação de comércio exterior por ela praticadas. Para contraditar a limitação admitida no acórdão recorrido, a importadora traz a conhecimento os arts. 4º e 6º da IN SRF n. 228/200234, que permite a adoção de outros meios de provas, além da contabilidade propriamente dita. 3 Diante das dificuldades em obter a documentação necessária, o auditor fiscal determinou a conversão da fiscalização em andamento no procedimento especial de verificação da origem dos recursos aplicados em operações de comércio exterior regulamentado pela IN SRF 228/2002. 4 Art. 4º O procedimento especial será iniciado mediante intimação à empresa para, no prazo de 20 dias: (...) II - comprovar a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações. Art. 6º. Para efeito de cumprimento do disposto no inciso II do caput do art. 4º, além dos registros e demonstrações contábeis, poderão ser apresentados, dentre outros, elementos de prova de: I - integralização do capital social; II - transmissão de propriedade de bens e direitos que lhe pertenciam e do recebimento do correspondente preço; III - financiamento de terceiros, por meio de instrumento de contrato de financiamento ou de empréstimo, contendo: a) identificação dos participantes da operação: devedor, fornecedor, financiador, garantidor e assemelhados; b) descrição das condições de financiamento: prazo de pagamento do principal, juros e encargos, margem adicional, valor de garantia, respectivos valores-base para cálculo, e parcelas não financiadas; e c) forma de prestação de identificação dos bens oferecidos em garantia. § 1º. Quando a origem dos recursos for justificada mediante a apresentação de instrumento de contrato de empréstimo firmado com pessoa física ou com pessoa jurídica que não tenha essa atividade como objeto societário, o provedor dos recursos também deverá justificar a sua origem, disponibilidade e, se for o caso, efetiva transferência. § 2º. Os elementos de prova referentes a transações financeiras deverão estar em conformidade com as práticas comerciais. Fl. 7610DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.605 11 2.3.1. REGULARIDADE DA EMPRESA COMO IMPORTADORA E LICITUDE E LEGALIDADE DAS IMPORTAÇÕES COMO REALIZADAS O auto de infração sob análise foi arrimado na constatação do auditor fiscal que considerou que: "A MULTIMEX registrou importações, nas modalidades por conta própria, por conta e ordem e por encomenda, no período de 2010 a 2014, no valor CIF de R$ 333.423.039,79, num total de aproximadamente 2.600 DIs. Só na modalidade por conta própria foram registradas importações num valor total CIF de R$ 154.591.519,12. Assim, constatamos a incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira evidenciada, ficando, portanto, o contribuinte sujeito ao procedimento especial de fiscalização previsto na IN SRF n. 228/2002, nestes termos: Art. 1º. As empresas que revelarem indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira evidenciada ficarão sujeitas a procedimento especial de fiscalização, nos termos desta Instrução Normativa". Por outro lado, a recorrente afirma que comprovou através de documentos idôneos que exerce suas atividades empresariais em conformidade com as regras de mercado, e que vale-se de recursos próprios para importar mercadorias e nacionalizá-las, além de importar produtos por conta e ordem de terceiros. Sobre a existência e legitimidade do fluxo de caixa necessário para as importações, assim se pronunciou a recorrente: "74. Com relação ao Demonstrativo de Fluxo de Caixa, período compreendido entre 2010 e 2014, verifica-se que a Recorrente possuía, no ano de 2010, saldo mensal positivo em média superior a R$ 1.500.000,00. No ano, perfazia um fluxo de caixa positivo de R$ 17.000.000,00 considerando apenas receitas e despesas operacionais e empréstimos contraídos. Descontadas as despesas administrativas, o resultado continua positivo, em torno de R$ 4.330.287,89. Nos anos posteriores de período submetido à fiscalização, o fluxo de caixa situa-se na faixa de R$ 20.000.000,00 sem considerar as despesas administrativas. Isso é clara evidência que a empresa possuía recursos suficientes a sustentar suas atividades. 75. Com relação à origem lícita de recursos, convém registrar que o balanço patrimonial de 2009 já foi devidamente auditado e § 3º. No caso de comprovação baseada em recursos provenientes do exterior, além dos elementos de prova previstos no caput, deverá ser apresentada cópia do respectivo contrato de câmbio. § 4º. Na hipótese de § 3º, caso o remetente dos recursos seja pessoa jurídica, deverão ser também identificados os integrantes de seus quadros societário e gerencial. Fl. 7611DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 12 analisado pela própria Receita Federal, sendo considerado perfeitamente hábil em relação às regras e normas contábeis. Esses dados constam do Processo Administrativo n. 15586.720288/2013-07, da Delegacia da Receita Federal em Vitória/ES, citado no relatório que acompanha o auto de infração, peça inicial deste processo. Portanto, a Fiscalização sabia, ou deveria saber,que a Recorrente dispunha de recursos e origem lícita de recursos. Mais, a MULTIMEX possuía cerca de R$ 1.303.439,75 em disponibilidade no final do ano de 2009, e cerca de R$ 59.966.013.64 de saldo devedor na conta clientes, valores suficientes para suportar o volume de operações para o ano de 2010. Da análise das disponibilidades, do estoque declarado, do capital social e da reserva de lucro, bem como da capacidade de financiamento das operações, verifica-se facilmente a capacidade econômica e financeira da Recorrente. Ou sejam a referida demonstração contábil faz prova a favor da Recorrente". Menciona, ainda, a decisão proferida nos autos do Processo Administrativo n. 11128.001870/2010-66, onde foi confirmada a existência de capacidade econômica e financeira. Por se fundir com os próximos tópicos, trataremos sobre a ausência de apreciação sobre as provas adiante. 2.3.2. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA - AUSÊNCIA DE FATOS PRESUNTIVOS, ANTECEDENTES, A PERMITIR A PRESUNÇÃO DA INTERPOSIÇÃO. OFENSA AO PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. A recorrente refuta a conclusão que a falta de escrituração contábil enseja na decretação da interposição fraudulenta presumida. Afirma que a presunção contida no § 2º, do art. 23 do Decreto Lei 1.455/1976 é relativa e, portanto, admite-se prova em contrário. Defende que, na hipótese da contabilidade não ser o meio de prova adequado, dever-se-ia considerar os documentos por ela apresentados (notas fiscais de entrada e de saída, contratos de câmbio, arquivos de importação e exportação, tabela de mercadorias/serviços, documentação técnica dos sistemas de processamento de dados utilizados, livros fiscais digitais), já que sobre esses documentos paira a presunção de veracidade necessária para embasar o pronunciamento final da autuação. Com efeito, a contribuinte trouxe aos autos vasta documentação, dentre as quais destaco: Resposta 07 04 2014 - Contém: (i) comprovante de recebimento de R$ 1mil da acionista Contactweb; (ii) CD com arquivos ADE COFINS e SVA; (iii) CD com documentos de especificação técnica e os manuais do sistema de processamento de dados utilizados em suas atividades de comércio exterior; (iv) CD com notas fiscais; (v) CD com contrato de câmbio; (vi) contratos de financiamento com BNDES e extrato de dívida. Resposta 29 04 2014 - Contém: (i) registro do suporte técnico solicitado à empresa produtora do software Conexos relativamente aos erros na geração dos arquivos digitais; (ii) contratos de câmbio do período de 2010 a 2013; (iii) ata da assembléia geral extraordinária ocorrida em 30/01/2014. Resposta 16 05 2014 - Contém: (i) arquivo eletrônico, em formato xml, com as notas fiscais de saída emitidas em 2014; (ii) cópia dos contratos de câmbio liquidados em 2014. Fl. 7612DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.606 13 Resposta 23 05 2014 - Contém cópias das rescisões dos contratos de trabalho de funcionários, para comprovar a dificuldade em atender as solicitações do fiscal em tempo hábil. Declarações PJ - Importações por encomenda - Contém extratos de declaração de importação da contribuinte. Contrato de crédito bancário - Contém: (i) cópias das cédulas de crédito bancário contratados com BicBanco; (ii) solicitação de abertura de crédito de importação perante o Banco do Brasil; (iii) contrato para desconto de títulos perante o Banco do Brasil; Contrato de crédito bancário - Contém: (i) cédulas de garantia bancária contratadas com BicBanco; (ii) instrumentos de cessão fiduciária em garantia com o BicBanco. Contrato de crédito bancário - Contém: (i) Aditamento ao contrato de abertura de linha de crédito perante o Banco Santander; (ii) extrato da conta corrente do contribuinte no Banco Real; (iii) cédulas de crédito bancário/ capital de giro contratado perante o Banco Real; (iv) comprovantes de empréstimos e financiamento perante o Banco do Brasil. Contrato de crédito bancário - Contém: (i) contrato de abertura de crédito BB Giro Empresa Flex/Banco do Brasil; (ii) registros de operações de importação financiadas; (iii) pedido de abertura de crédito para importação com o Banco do Brasil. Documentos diversos - Contém: (i) contrato de distribuição exclusivo firmado entre a contribuinte e Changlin Company Limited; (ii) commercial invoices das empresas Umedisc Ltd; Sunju Trading Co; Sun Do Textile Co; Zebra Tecnologies International LLC; Shanghai Reden Industrial Co; Kaiping Lindexin Import and Export Trading Co; J.R.D. Exports Inc; dentre outros; (ii) consulta de extratos de conta corrente no Banco do Brasil Empresarial; (iii) extratos bancários com saldo de aplicação e empréstimo consolidados em 31/12/2010; (iv) extratos bancários com saldo de aplicação e empréstimo consolidados em 31/12/2012; (v) planilhas do Banco Central informando a situação de crédito da recorrente. Documentos Diversos - Livros Contábeis - Contém: (i) demonstração contábil/ balanço patrimonial, gerado pelo Sistema Público de Escrituração Digital - SPED, referente a vários períodos entre 01/01/2009 a 31/03/2010; (ii) cópias dos livros diário no formato digital; (iii) cópia do Sistema Integrado de Informações sobre Operações Interestaduais com Mercadorias e Serviços - SINTEGRA. É de se destacar que todas as provas foram acostadas aos autos pelo contribuinte dentro do prazo previsto no art. 16, § 4º do Decreto n. 70.235/1972. As infrações relatadas no auto de infração culminam com a imputação de interposição fraudulenta (ato pelo qual uma pessoa jurídica empresta o seu nome para facilitar vantagens à outra que não conseguiria pessoalmente certas benesses da lei) em sua forma presumida. Essa infração aduaneira foi introduzida à legislação tributária inicialmente através da Medida Provisória n. 66, de 29 de agosto de 2002 e posteriormente incorporada ao ordenamento jurídico pátrio por meio da Lei n. 10.637/2002. A Receita Federal regulamentou o tipo através das Instruções Normativas n. 206/2002 e 228/2002. Os dispositivos legais que versam sobre a forma presumida da infração aduaneira prescrevem que as autoridades fazendárias podem aplicar a penalidade de pena de perdimento ou multa equivalente ao valor aduaneiro, utilizando como meio de prova meros Fl. 7613DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 14 indícios, bastando para tanto presumir que o importador não possui recursos financeiros suficientes para arcar com a operação de comércio exterior, até prova em contrário do contribuinte. A propósito, seguem os dispositivos legais: Decreto-Lei n. 1.455/1976 Art. 23. Consideram-se dano ao Erário das infrações relativas às mercadorias: I - importadas, ao desamparo de guia de importação ou documento de efeito equivalente, quando a sua emissão estiver vedada ou suspensa na forma da legislação específica em vigor; (...) V - estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias § 2º Presume-se interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados § 3º As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n. 70.235, de 6 de março de 1972 (grifos nossos). Deste modo, considerando as especificidades da infração aduaneira atribuída à ora recorrente, as provas apresentadas pela contribuinte devem comprovar a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos necessários para arcar com as operações de importação. Mais especificamente sobre o tema das provas, é necessário trazer a conhecimento o teor dos arts. 59 e 60 da Lei n. 10.637/2002, onde se lê: Art. 59. O art. 23 do Decreto-Lei n. 1.455, de 7 de abril de 1976, passa a vigorar com as seguintes alterações: (...) § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. Fl. 7614DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.607 15 § 2º Presume-se interposição fraudulenta na operação do comércio exterior a não- comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º A pena prevista no § 1º converte-se em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida. Art. 60. O art. 81 da Lei n. 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações: (...) § 1º Será também declarada inapta a inscrição da pessoa jurídica que não comprove a origem, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. § 2º Para fins do disposto no § 1º, a comprovação da origem de recursos provenientes do exterior dar-se-á mediante, cumulativamente: I - prova do regular fechamento da operação de câmbio, inclusive com a identificação da instituição financeira no exterior encarregada da remessa dos recursos para o País; II - identificação do remetente dos recursos, assim entendido como a pessoa física ou jurídica titular dos recursos remetidos. § 3º No caso de o remetente referido no inciso II do § 2º ser pessoa jurídica deverão ser também identificados os integrantes de seus quadros societário e gerencial. § 4º O disposto nos §§ 2º e 3º aplica-se, também, na hipótese de que trata o § 2º do art. 23 do Decreto- Lei n. 1.455, de 7 de abril de 1976. (grifos nossos). Depreende-se dos artigos acima transcritos que a prova que é suficiente para elidir a imputação de interposição fraudulenta na sua forma presumida é específica, sendo necessário e indispensável o documento que comprove o regular fechamento da operação de câmbio bem como a identificação do remetente dos recursos. Ademais, é certo que para que suceda a efetiva configuração do ilícito, quando esse for fundamentado em presunção, é indispensável a constatação de indícios convergentes. Esses indícios devem ser apresentados pelo auditor fiscal em sua autuação, em atenção ao que determina o art. 9º do Decreto n. 70.235/19725. Da mesma forma o art. 2º da Lei n. 9.784/1998 impõe ao fiscal a incumbência de produzir e apresentar todas as provas necessárias para justificar a penalização do contribuinte, uma vez que: 5 Dispõe que para a exigência de crédito tributário é necessário instruir o auto de infração com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito Fl. 7615DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 16 "Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único: Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: I - autuação conforme a lei e o Direito; (...) VII - indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão; VIII - observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados; IX - adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados". Na hipótese dos autos, existe uma peculiaridade que deve ser abordada. A ora recorrente foi autuada sobre as importações realizadas por encomenda. O art. 11 da Lei n. 11.281/2006 impunha como requisitos (i) a aquisição de mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado e (ii) financiamento da operação por conta do importador, e não do encomendante. Pouco depois foi publicada a Lei n. 11.291/2006 que subdividiu a modalidade importação por encomenda para albergar também a hipótese da importação por conta e ordem de terceiros. Essa lei manteve, contudo, a importação por encomenda nos termos anteriores, ou seja, ainda requer que a operação seja financiada por recursos próprios do importador. Sobre esse ponto acertadamente o auditor fiscal aduz que: "Em que pese a obrigação do importador de revender as mercadorias importadas ao encomendante pré-determinado, é o importador quem formaliza a compra internacional, logo deve dispor de capacidade econômica e financeira para o pagamento da importação, bem como das demais despesas da nacionalização. Da mesma forma, o encomendante também deve ter capacidade econômica e financeira para adquirir as mercadorias revendidas pelo importador contratado, conforme se depreende do art. 5º da IN SRF n. 634/06". É importante trazer a colação as observações feitas pelo auditor fiscal após analisar a documentação apresentada pela ora recorrente: "14.Apresentar extratos mensais das movimentações bancárias da empresa, emitidos e autenticados por estas instituições bancárias, de todas as instituições bancárias nas quais operou, manteve ou mantêm conta, dos anos de 2010, 2011, 2012 e 2013. Comentários: Em 06/03/2014 informou que todas as movimentações bancárias estariam representadas nos demonstrativos contábeis. Entretanto, fomos claros no quesito Fl. 7616DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.608 17 da intimação em solicitar os extratos, independentemente da contabilidade. Reintimada, em 17/04/2014, repisou as informações que todas as movimentações bancárias estariam representadas nos demonstrativos contábeis, portanto, recusou-se a apresentar os extratos bancários. 18. Apresentar cópia integral dos contratos de câmbio liquidados nos anos de 2010, 2011, 2012 e 2013, indicando o número da Declaração de Importação a qual cada um dos contratos se refere; Comentários: Em 06/03/2014, solicitou prazo de 60 (sessenta) ias para apresentação. Deferimos 30 (trinta) dias e, em 07/04/2014, apresentou contratos de câmbio em arquivos digitais em formatos de imagem JPG, uma folha por arquivo, sem estar devidamente organizados por contrato de câmbio, com folhas fora da seqüência, faltando folhas e folhas invertidas, inviabilizando a análise. Também não foram indicados os números das Declarações de Importação (DI) a qual o contrato se refere. Reintimada, em 29/04/2014 a MULTIMEX apresentou uma caixa de arquivo morto contendo contratos de câmbio e, posteriormente, em 05/05/2014, complementou o atendimento apresentando mais duas caixas de arquivo morto. Em 14/05/2014, apresentou contratos de câmbio de 2014, e mais contratos de câmbio de períodos anteriores (2011 e 2012). 19. Informar dados sobre as operações de importações realizadas pela empresa, nos anos de 2010, 2011, 2012 e 2013. Apresentar impresso e meio magnético (planilha EXCEL), seguindo modelo fornecido em Anexo a este termo; Comentários: Em 06/03/2014, solicitou prazo de 60 (sesssenta) dias para apresentação. Deferimos 30 (trinta) dias e, em 07/04/2014, solicitou mais 90 dias de prazo, que deferimos. Entretanto, a empresa não apresentou mais nenhuma resposta ou esclarecimento para este item. (...) 24. Transferir para estabelecimento da empresa na região da Grande Vitória todos os extratos originais das Declarações de Importação registradas nos anos de 2010, 2011, 2012 e 2013, assinadas pelo representante legal da empresa e acompanhadas das vias originais dos documentos obrigatórios de instrução, nos termos do art. 553 do Decreto n. 6.759/2009 (Regulamento Aduaneiro). Os documentos devem ser organizados e colocados à disposição da fiscalização para exame. Comentários: Em 06/03/2014, informou que estava providenciando a remoção dos documentos, entretanto, não informou em que prazo atenderia ao quesito. Reintimada em 27/03/2014, em 17/04/2014, informou que os documentos eram Fl. 7617DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 18 necessários para refazer a contabilidade, e solicitou o mesmo prazo concedido para a contabilidade. Em 23/04/2014 diligenciamos o estabelecimento matriz da MULTIMEX, onde tomamos a termo as declarações da procuradora da empresa que informou: que não sabia onde os documentos se encontravam; que buscaria essa informação junto à diretoria; e que os documentos poderiam ser disponibilizados na sede da empresa, na filial na Rodovia Carlos Lindenberg ou na contabilidade. Solicitou prazo de 24 horas para informar de forma definitiva onde os documentos seria disponibilizados (...) Por não ter apresentado os documentos, a empresa foi autuada, dentre outras infrações, através do Auto de Infração n. 0727600/00222/14, consubstanciado no Processo Digital n. 12466.721649/2014-83. Em 05/06/2014 intimamos a MULTIMEX a apresentar, em relação às importações por encomenda, os extratos originais das DIs e as vias originais dos documentos de instrução. A empresa não apresentou resposta e não prestou qualquer esclarecimento, razão pela qual foi autuada também em relação a esses documentos, através do Auto de Infração n. 0727600/00401/14, consubstanciado no Processo Digital n. 12466.722001/2014-24".(grifos nossos). E não se pode divergir da conclusão do auditor: "A falta de comprovação da origem lícita, da efetiva transferência e da disponibilidade dos recursos empregados pela MULTIMEX nas operações de comércio exterior comprova a interposição fraudulenta, por presunção legal, conforme determina o § 2º, do art. 23, do Decreto- lei n. 1.455/76". À vista das normas mencionadas, é correto concluir que o importador que atua nas operações por encomenda que pretende elidir a suspeita de ter praticado a infração, deve (i) comprovar a sua capacidade financeira no momento em que a operação de importação foi realizada (Lei n. 11.291/2006) e (ii) apresentar os documentos de fechamento de câmbio (art. 60 da Lei n. 10.637/2002). Diante das manifestações do auditor fiscal é evidente que a ora recorrente não apresentou provas suficientes para tanto. Deste modo, correta a autuação sob julgamento. 2.3.3. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DO DOLO ESPECÍFICO DE FRAUDAR. IMPOSSIBILIDADE DE CARACTERIZAÇÃO DA INFRAÇÃO DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. A recorrente colaciona precedentes deste Conselho6 no sentido que na ausência de comprovação de fraude ou simulação, subsiste apenas a ocultação pura e simples, o 6 Acórdão n. 3402.002.2275, proferido nos autos do Processo Administrativo n. 10983.721008/2012-92, pela 2ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção em 28/01/2014; Acórdão n. 3401.002.191, proferido nos autos do Processo Administrativo n. 11128.720296/2011-20, pela 1ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção. Fl. 7618DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.609 19 que não caracteriza o dano ao erário tipificado no art. 23, V, do Decreto Lei 1.455/1976. Segue transcrição do texto normativo: Art. 23. Consideram-se dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V - estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a perda de perdimento das mercadorias. § 2º Presume-se interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n. 70.235, de 6 de março de 1972. § 4º O disposto no § 3º não impede a apreensão da mercadoria nos casos previstos no inciso I ou quando for proibida sua importação, consumo ou circulação no território nacional.(grifos nossos) Da leitura da transcrição percebe-se que uma das espécies de interposição fraudulenta consiste na não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Não se faz necessário comprovar o dolo na conduta praticada pelo contribuinte. A infração aduaneira também não está atrelada a configuração de fraude ou simulação, como leva a crer a defesa da ora recorrente. Desta forma, é de rigor afastar a pretensão da recorrente, uma vez que a letra da norma não permite concluir que na ausência de fraude ou simulação, subsistiria apenas a ocultação pura e simples, que afastaria a configuração de dano ao erário. Ao contrário, o art. 23 do Decreto-Lei n. 1.455/1976 expressamente prevê que a mera ocultação configura o prejuízo necessário para configurar a prática da interposição fraudulenta presumida. 2.3.4. AUSÊNCIA DE DANO AO ERÁRIO EM RAZÃO DO NÃO COMETIMENTO DAS ALEGADAS INFRAÇÕES. PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. Afirma que nos autos não há prova de que a recorrente tenha praticado qualquer ato ilícito, seja administrativo ou tributário, nem que tenha simulado operações de comércio exterior, ocultou o real importador ou adquirente ou que tenha incorrido em falsidade ideológica. Fl. 7619DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 20 Comprovou-se, por outro lado, que a contribuinte efetivamente pagou pelas mercadorias importadas (vide contratos de fechamento de câmbio). Deste modo, não está comprovada a vantagem em atuar da maneira descrita pelo auditor fiscal. Inexistindo o dolo - elemento subjetivo do tipo - não há se falar em simulação, nem tão pouco no uso de documento falso no despacho aduaneiro de importação. Pois bem. De acordo com os comentários feitos pelo auditor fiscal, a ora recorrente não apresentou documentação suficiente e nem tão pouco acostou aos autos os contratos de fechamento de câmbio que pudessem corroborar o quanto alega (vide transcrições insertas no item 2.2). Como já dito, a infração aduaneira de interposição fraudulenta presumida não requer a comprovação do dolo do contribuinte para a sua configuração. É infração objetiva, tipificada pela conduta e não por seus resultados. É de tal sorte que a própria definição de dano ao erário é trazida de forma taxativa pela legislação tributária vigente, independentemente da demonstração do binômio de benefício ao contribuinte/ prejuízo ao erário. O preceito da norma que estrutura a infração de interposição fraudulenta presumida é de possibilitar a completa ciência do fluxo de dinheiro de que se vale o importador, não importando os benefícios que ele aufere (ou não) com a prática dessa infração. A ausência de provas que certifiquem a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos necessários para a operação de importação é o que basta para a responsabilização do contribuinte pela infração. No caso dos autos, já está evidenciada a ausência das provas necessárias para elidir a infração. 2.3.5. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DE DANO AO ERÁRIO EM FACE DO RECOLHIMENTO DOS TRIBUTOS INCIDENTES. Esclarece que os produtos importados objeto da fiscalização estão fora do campo de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, o que afasta a potencialidade lesiva ao erário. E, por esse fato, a contribuinte questiona a utilidade da conduta dolosa imputada, já que não há de se falar em redução da carga tributária, ou qualquer outro benefício decorrente. Alega que o dano ao erário é condição sine qua non para a aplicação da pena de perdimento de bens e sua conversão em multa, conforme determina o artigo 618 do Decreto n. 4.543/2002. Destaca que a Receita Federal já consolidou entendimento (Solução de Consulta n. 33 - SRRF/7ª RF/ DISIT) que a cessão de nome é uma conduta dolosa de natureza fraudulenta, que possui como objetivo "a mitigação do valor dos tributos que de outra forma incidiriam sobre a operação realizada, especialmente do IPI, do PIS e da COFINS". Demonstrado que as mercadorias fiscalizadas não sofrem a incidência do IPI, e que estavam acompanhadas das respectivas guias de importação onde se verifica que os tributos devidos foram recolhidos, conclui que a cobrança é improcedente, já que a conduta não se coaduna com a definição de dano ao erário prevista no artigo 23 do Decreto Lei 1.455/1976. Fl. 7620DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.610 21 Nos autos do processo em julgamento não há comprovação de que os produtos importados objeto da fiscalização estão fora do campo de incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, como sustenta a ora recorrente. O período objeto da fiscalização compreende aproximadamente 2.600 operações de importações, sendo que a contribuinte não apresentou os documentos que instruem as DIs correspondentes. Diante da absoluta ausência de provas, não é possível confirmar o que alega a ora recorrente. E a ausência de provas nos autos não afasta a evidente contradição, uma vez que a ora recorrente, ao mesmo tempo em que afirma que os produtos importados não são tributados, também registra que: "219. Ademais, é fato incontroverso que as mercadorias não se encontram desamparadas de suas respectivas guias de importação e que todos os tributos foram recolhidos no momento do registro da DI". Sobre o argumento acerta da ausência de dano ao erário, já foram feitas as ponderações necessárias nos itens 2.5 e 2.6 do voto em tela. No entanto, primando pela dialética própria do processo administrativo, trago a conhecimento precedente deste Conselho em sentido diametralmente oposto ao que defendido pela ora recorrente: CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF - Terceira Seção TERCEIRA CÂMARA - PRIMEIRA TURMA RECURSO: RECURSO VOLUNTÁRIO MATÉRIA: MULDI ACÓRDÃO: 3301-002.651 Assunto: Imposto sobre a Importação - II Data do fato gerador: 23/06/2006 QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO. QUESTÕES CONSTITUCIONAIS. Nos termos da Súmula n.º 2 do CARF o Conselho não é competente para se pronunciar acerca de inconstitucionalidade de Leis. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. PRESUMIDA E COMPROVADA. ELEMENTOS DE PROVA. Na interposição de terceiros se pune a ocultação que se perfaz por todo e qualquer meio de fraude ou simulação, incluindo a interposição fraudulenta. A ocultação decorrente da interposição fraudulenta se presume nos casos de não-comprovação da origem, da disponibilidade e da transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. INTERPOSIÇÃO. PROVA DE DANO AO ERÁRIO. DESNECESSIDADE. Pelo disposto no artigo 23 do Decreto- Lei n.º 1.455/1976 as infrações lá descritas são punidas com a pena de perdimento porque as condutas lá expressas são legalmente consideradas como dano ao erário configurando-se a presunção jure et de jure. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. Fl. 7621DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 22 MULTA DE 10% DO VALOR DA OPERAÇÃO. ART. 33 DA LEI Nº 11.488/2007. MULTA SUBSTITUTIVA DA PENA DE PERDIMENTO. ART. 23 DO DECRETO-LEI Nº 1.455/1976. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. POSSIBILIDADE. A multa de 10% prevista no art. 33 da Lei nº 11.488/2007 é aplicável a quem cedeu o nome na interposição fraudulenta, em operações de comércio exterior. Ela é cabível tanto na interposição fraudulenta presumida ou comprovada. Este dispositivo legal não alterou em nada as regras vigentes a respeito da responsabilidade solidária aplicável aos que de alguma forma colaboraram com a prática do dano ao erário previsto no art. 23 do Decreto-Lei nº 1.455/1976. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONFIGURAÇÃO. São solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, respondendo pela infração, conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie. RECURSO VOLUNTÁRIO INTEMPESTIVO. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece do recurso voluntário, apresentado pelo sujeito passivo solidário, pois interposto após decorrido o prazo de trinta dias estabelecido no art. 33 do Decreto nº 70.235/72, contados da ciência da decisão de primeira instância. (grifos nossos) Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido. Deste modo, entendo que não merece prosperar a alegação da ora recorrente. 2.3.7. A LEI N. 11.488/2007 E A MULTA DE 10%. Por fim, a recorrente afirma que a Lei n. 11.488/2007 impõem às pessoas jurídicas que praticam interposição fraudulenta multa de 10% sobre o valor da operação acobertada, e não a pena de perdimento e a conversão do perdimento em pecúnia. Aduz que seria incongruente admitir que a recorrente não seria a real adquirente das mercadorias e, ao mesmo tempo, dela exigir crédito relativo à conversão da penalidade de perdimento em multa (pena aplicável aos adquirentes dos bens), sob pena de bis in idem. Considerando o teor do art. 33 da Lei n. 11.488/2007 e o inciso V, do art. 23 do Decreto Lei n. 1.475/1976, a ocultação do real importador é uma única conduta e, desta forma, deve ser aplicada a sanção específica para a conduta, diante do princípio da especialidade. Para solucionar a querela apresentada, é de rigor lembrar o conteúdo das normas mencionadas. A saber: Lei n. 11.488/2007 Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Fl. 7622DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA Processo nº 12466.722114/2014-20 Acórdão n.º 3302-003.371 S3-C3T2 Fl. 7.611 23 Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei n. 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Lei n. 9.430/1996 Art. 81. Poderá ser declarada inapta, nos termos e condições definidos pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, a inscrição do CNPJ da pessoa jurídica que, estando obrigada, deixar de apresentar declarações e demonstrativos em 2 (dois) exercícios consecutivos. § 1º Será também declarada inapta a inscrição da pessoa jurídica que não comprove a origem, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos empregados em operações de comércio exterior. Percebe-se que não encontra respaldo a lógica da ora recorrente. Isso porque a multa prevista na Lei n. 11.488/2007 não afasta a pena de perdimento ou a sua conversão em multa. No entanto, o artigo 33 da mencionada lei pressupõe a identificação tanto do sujeito passivo oculto (real comprador) quanto da interposta pessoa na importação. Essa conclusão se extraí da exceção trazida em seu parágrafo único, que afasta a referida multa nas hipóteses das contribuintes que forem declaradas inaptas. Ou seja, se o importador de fato, aquele que financia a importação não foi identificado - como é próprio da prática presumida da interposição fraudulenta de terceiros - não cabe a multa de 10% prevista no artigo 33 da Lei n. 11.488/2007, mas a declaração de inaptidão do CNJP, prevista no art. 81, § 1º da Lei n. 9.430/1996. Acertadamente, na autuação sob julgamento, a ora recorrente não foi apenada com a multa de 10% prevista no art. 33 da Lei n. 11.488/2007, mas com a pena de perdimento ou a sua conversão em multa, prevista no art. 23, § 3º do Decreto- Lei n. 1.455/19767, com a redação dada pelo art. 59 da Lei n. 10.637/2002, combinado com o art. 81, inciso III da Lei n. 10.833/03. A propósito: CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF - Terceira Seção TERCEIRA CÂMARA - PRIMEIRA TURMA 7 § 3º. As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n. 70.235/1972. Fl. 7623DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA 24 RECURSO: RECURSO VOLUNTARIO MATÉRIA: MULDI ACÓRDÃO: 3301-002.638 Assunto: Imposto sobre a Importação - II Data do fato gerador: 28/03/2012 MULTA DO ARTIGO 33 DA LEI N.º 11.488/2007. CESSÃO DE NOME. INAPLICABILIDADE NO CASO DE INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA A multa do artigo 33 da Lei 11.488/2007 não se aplica nos casos da interposição presumida por conta da não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados constante do § 2º do artigo 23 do Decreto-Lei n.º 1.455/1976 à qual continua-se aplicando a inaptidão da inscrição no CNPJ. Recurso Voluntário Provido.(grifos nossos) Assim, não existem motivos para reformar a autuação nesse ponto. CONCLUSÃO Diante do exposto, nego provimento ao recurso de ofício e nego provimento ao recurso voluntário apresentado pela MULTIMEX S.A. Lenisa Prado - Relatora Fl. 7624DF CARF MF Impresso em 14/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/10/2016 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/20 16 por LENISA RODRIGUES PRADO, Assinado digitalmente em 13/10/2016 por RICARDO PAULO ROSA

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Numero do processo: 16561.720079/2014-87
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 09 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Tue Aug 23 00:00:00 UTC 2016
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2010 RENDIMENTOS DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. NEGÓCIOS EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO DE PESSOA LIGADA. Presume-se distribuição disfarçada de lucros o negócio pelo qual a pessoa jurídica realiza com pessoa ligada qualquer negócio em condições de favorecimento, assim entendidas as condições que sejam mais vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Enquadra-se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em favor dos acionistas da companhia fechada, quando a remuneração é composta unicamente de participação dos lucros, em percentuais estratosféricos para operações desta natureza. IRRF. DEDUÇÃO DO VALOR PAGO. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. Das despesas que foram pagas a título de remuneração das debêntures, com retenção de imposto de renda exclusiva de fonte, uma parte delas, após a incidência do IRPJ e da CSLL, revela-se como lucros passíveis de distribuição, os quais não estariam sujeitos à retenção do imposto por ocasião de sua distribuição. No caso, a própria fiscalização requalificou os valores pagos como distribuição disfarçada de lucros. Assim, para restabelecer a verdade dos fatos, cabe o estorno da parte do imposto de renda, indevidamente retido na fonte e comprovadamente pago, que corresponda proporcionalmente à parcela que poderia ser distribuída com isenção. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2010 SUJEIÇÃO PASSIVA. RESPONSABILIDADE ATRIBUÍDA A ADMINISTRADOR DA PESSOA JURÍDICA. ART. 135, III, DO CTN. SIMPLES INADIMPLMENTO. IMPOSSIBILIDADE. A simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa. Precedente do STJ no REsp 1.101.728/SP julgado no rito do art. 543-C do CPC/1973. O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente. Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. DISCUSSÃO. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA. Incabível na esfera administrativa a discussão de que uma determinada norma legal não é aplicável por ferir princípios constitucionais, pois essa competência é atribuída exclusivamente ao Poder Judiciário, na forma dos artigos 97 e 102 da Constituição Federal. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO. A vedação quanto à instituição de tributo com efeito confiscatório é dirigida ao legislador e não ao aplicador da lei. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE A FATOS GERADORES OCORRIDOS ANTES DA LAVRATURA DO PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Constatando-se que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2010, e os lançamentos realizados foram formalizados posteriormente, respectivamente nos anos-calendário de 2012 e 2013, não há como considerar que, somente com base nesses elementos, se qualifique a penalidade, mormente quando, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização não qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2010 REDUÇÃO DOS LUCROS POR REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES. DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS. São indedutíveis, devendo ser adicionados à base de cálculo da CSLL, os valores pagos a título de remuneração de debêntures, tendo em vista os contornos de artificialidade presentes na operação, e a expressa previsão legal de tributação, por esta contribuição, dos lucros distribuídos disfarçadamente. Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2010 ARROLAMENTO PARA FINS DE CONTROLE. POSSIBILIDADE. Na esteira das decisões proferidas pelos tribunais superiores e nos termos da legislação, é lícito o arrolamento de bens como medida acautelatória, sempre que o crédito tributário total lançado contra o sujeito passivo exceder 30% do seu patrimônio conhecido. Recurso Provido em Parte.
Numero da decisão: 1402-002.265
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso nas questões atinentes a confisco e a inconstitucionalidade de lei, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e da decisão de primeira instância, e, no mérito, dar provimento parcial ao recurso voluntário para deduzir do imposto apurado o valor correspondente a 82,50% do IRRF incidente sobre a remuneração paga e reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. Por maioria de votos, excluir os sócios pessoas físicas do polo passivo da obrigação jurídico-tributária. Vencido nessa matéria o Conselheiro Leonardo de Andrade Couto que votou por manter a responsabilidade dos coobrigados. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto - Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Caio Cesar Nader Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO

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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 56; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2369; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S1­C4T2  Fl. 775          1 774  S1­C4T2  MINISTÉRIO DA FAZENDA  CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS  PRIMEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO    Processo nº  16561.720079/2014­87  Recurso nº               Voluntário  Acórdão nº  1402­002.265  –  4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária   Sessão de  09 de agosto de 2016  Matéria  IRPJ  e  CSLL  Recorrente  HOSPITAL E MATERNIDADE SANTA JOANA S/A E OUTROS  Recorrida  FAZENDA NACIONAL    ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA ­ IRPJ  Ano­calendário: 2010  RENDIMENTOS  DE  DEBÊNTURES.  DISTRIBUIÇÃO  DISFARÇADA  DE LUCROS. NEGÓCIOS EM CONDIÇÕES DE FAVORECIMENTO DE  PESSOA LIGADA.  Presume­se  distribuição  disfarçada  de  lucros  o  negócio  pelo  qual  a  pessoa  jurídica  realiza  com  pessoa  ligada  qualquer  negócio  em  condições  de  favorecimento,  assim  entendidas  as  condições  que  sejam  mais  vantajosas  para  a  pessoa  ligada  do  que  as  que  prevaleçam  no  mercado  ou  em  que  a  pessoa jurídica contrataria com terceiros.  Enquadra­se nesta situação a emissão de debêntures feita exclusivamente em  favor  dos  acionistas  da  companhia  fechada,  quando  a  remuneração  é  composta  unicamente  de  participação  dos  lucros,  em  percentuais  estratosféricos para operações desta natureza.  IRRF.  DEDUÇÃO DO VALOR  PAGO.  DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA  DE LUCROS.  Das despesas que foram pagas a título de remuneração das debêntures, com  retenção  de  imposto  de  renda  exclusiva  de  fonte,  uma  parte  delas,  após  a  incidência  do  IRPJ  e  da  CSLL,  revela­se  como  lucros  passíveis  de  distribuição, os quais não estariam sujeitos à retenção do imposto por ocasião  de  sua  distribuição. No  caso,  a  própria  fiscalização  requalificou  os  valores  pagos  como  distribuição  disfarçada  de  lucros.  Assim,  para  restabelecer  a  verdade  dos  fatos,  cabe  o  estorno  da  parte  do  imposto  de  renda,  indevidamente  retido  na  fonte  e  comprovadamente  pago,  que  corresponda  proporcionalmente à parcela que poderia ser distribuída com isenção.  ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO  Ano­calendário: 2010     AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 00 79 /2 01 4- 87 Fl. 775DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 776          2 SUJEIÇÃO  PASSIVA.  RESPONSABILIDADE  ATRIBUÍDA  A  ADMINISTRADOR  DA  PESSOA  JURÍDICA.  ART.  135,  III,  DO  CTN.  SIMPLES INADIMPLMENTO. IMPOSSIBILIDADE.  A  simples  falta  de  pagamento  do  tributo  não  configura,  por  si  só,  nem em  tese,  circunstância  que  acarreta  a  responsabilidade  subsidiária  do  sócio,  prevista  no  art.  135  do CTN.  É  indispensável,  para  tanto,  que  tenha  agido  com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da  empresa.  Precedente  do  STJ  no REsp  1.101.728/SP  julgado  no  rito  do  art.  543­C  do  CPC/1973.  O  inadimplemento  da  obrigação  tributária  pela  sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio­gerente.  Inteligência do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ.  PRINCÍPIOS  CONSTITUCIONAIS.  DISCUSSÃO.  IMPOSSIBILIDADE.  AUSÊNCIA DE COMPETÊNCIA.  Incabível na esfera administrativa a discussão de que uma determinada norma  legal  não  é  aplicável  por  ferir  princípios  constitucionais,  pois  essa  competência  é  atribuída  exclusivamente  ao  Poder  Judiciário,  na  forma  dos  artigos 97 e 102 da Constituição Federal. O CARF não é competente para se  pronunciar  sobre a  inconstitucionalidade de  lei  tributária  (Súmula CARF nº  2).  PRINCÍPIO DO NÃO CONFISCO.  A vedação quanto à instituição de tributo com efeito confiscatório é dirigida  ao legislador e não ao aplicador da lei.  MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. MANUTENÇÃO DA CONDUTA  INFRACIONAL APÓS AUTUAÇÕES ANTERIORES, MAS REFERENTE  A  FATOS  GERADORES  OCORRIDOS  ANTES  DA  LAVRATURA  DO  PRIMEIRO AUTO DE INFRAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.  Constatando­se que o lançamento trata de fatos geradores ocorridos no ano­ calendário  de  2010,  e  os  lançamentos  realizados  foram  formalizados  posteriormente, respectivamente nos anos­calendário de 2012 e 2013, não há  como  considerar  que,  somente  com  base  nesses  elementos,  se  qualifique  a  penalidade, mormente quando, diante dos mesmos  fatos,  a Fiscalização não  qualificou a penalidade nas autuações anteriores referente aos mesmos fatos.  ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO ­ CSLL  Ano­calendário: 2010  REDUÇÃO  DOS  LUCROS  POR  REMUNERAÇÃO  DE  DEBÊNTURES.  DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS.  São  indedutíveis,  devendo  ser  adicionados  à  base  de  cálculo  da  CSLL,  os  valores  pagos  a  título  de  remuneração  de  debêntures,  tendo  em  vista  os  contornos de artificialidade presentes na operação, e a expressa previsão legal  de tributação, por esta contribuição, dos lucros distribuídos disfarçadamente.  ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA  Ano­calendário: 2010  ARROLAMENTO PARA FINS DE CONTROLE. POSSIBILIDADE.  Fl. 776DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 777          3 Na esteira das decisões proferidas pelos tribunais superiores e nos termos da  legislação, é lícito o arrolamento de bens como medida acautelatória, sempre  que o crédito tributário total lançado contra o sujeito passivo exceder 30% do  seu patrimônio conhecido.  Recurso Provido em Parte.      Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.  Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer  do  recurso  nas  questões  atinentes  a  confisco  e  a  inconstitucionalidade  de  lei,  rejeitar  as  preliminares de nulidade do  lançamento e da decisão de primeira instância, e, no mérito, dar  provimento  parcial  ao  recurso  voluntário  para  deduzir  do  imposto  apurado  o  valor  correspondente a 82,50% do  IRRF  incidente  sobre  a  remuneração paga  e  reduzir  a multa de  ofício ao percentual de 75%. Por maioria de votos, excluir os  sócios pessoas  físicas do polo  passivo  da  obrigação  jurídico­tributária.  Vencido  nessa  matéria  o  Conselheiro  Leonardo  de  Andrade Couto que votou por manter a responsabilidade dos coobrigados.   (assinado digitalmente)  Leonardo de Andrade Couto ­ Presidente  (assinado digitalmente)  Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Relator  Participaram  da  sessão  de  julgamento  os  Conselheiros:  Caio  Cesar  Nader  Quintella, Demetrius Nichele Macei, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo de Andrade  Couto, Leonardo Luís Pagano Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Luiz Augusto de  Souza Gonçalves e Paulo Mateus Ciccone.   Fl. 777DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 778          4   Relatório  HOSPITAL  E  MATERNIDADE  SANTA  JOANA  S/A  (procuração  à  fl.  548),  EDUARDO RAHME AMARO  (procuração  à  fl.  568), ANTONIO RAHME AMARO  (procuração à fl. 570) e EDMA HUESPE DE AMARO (procuração à fl. 562) recorrem a este  Conselho,  com  fulcro  no  art.  33  do  Decreto  nº  70.235,  de  1972,  objetivando  a  reforma  do  acórdão nº 07­36.771 da 3ª Turma da Delegacia  de  Julgamento  em Florianópolis que  julgou  improcedente a impugnação por eles apresentada.  Por  bem  refletir  o  litígio  até  aquela  fase,  adoto  o  relatório  da  decisão  recorrida, complementando­o ao final:  Auto de Infração de IRPJ  O  auto  de  infração  de  Imposto  de  Renda  Pessoa  Jurídica  –  IRPJ  (fls.  553561)  exige  o  recolhimento  de R$  5.449.498,05  de  imposto, R$  8.174.247,08  a  título  de  multa  de  lançamento  de  ofício  de 150%,  prevista  no  art.  44,  §1º,  da  Lei  nº  9.430,  de  27  de  dezembro de 1996, em a redação dada pelo art. 14 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, e  R$ 1.853.374,29 de juros de mora, relativamente a fato gerador ocorrido em 31/12/2010.  (os  acréscimos legais serão recalculados na data da efetiva extinção do crédito tributário)  O  lançamento  fiscal,  com  base  no  Lucro  Real,  decorre  do  pagamento/crédito de remuneração de debêntures de emissão privada, adquiridos pelos sócios  da  pessoa  jurídica,  correspondente  a  85%  dos  lucros  antes  da  provisão  para  o  imposto  de  renda, fato que caracteriza a ocorrência de distribuição disfarçada de lucros em conseqüência  da realização de negócios em condições de favorecimento de pessoa ligada, conforme descrito  no Termo de Verificação Fiscal, com infração ao disposto no art. 3º da Lei nº 9.249, de 1995,  e arts. 247, 249, I, 251, 464, VI, 465, 466 e 467, V, do RIR de 1999:  31/12/2010: .............................Valor Apurado ......R$ 21.797.992,22  Auto de Infração de CSLL  O auto de  infração de Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido ­ CSLL  exige  o  recolhimento  de  R$  1.961.819,30  de  contribuição,  R$  2.942.728,95  de  multa  de  lançamento de ofício de 150% e R$ 667.214,74 de juros de mora.  O lançamento decorre da infração que deu causa ao  lançamento de IRPJ,  sendo,  portanto,  devida  a CSLL  com  base  nos  dispositivos  legais  citados  no  enquadramento  legal do Auto de Infração.  DEMAIS SUJEITOS PASSIVOS  No  Auto  de  Infração  consta  também,  como  Responsáveis  Solidários,  os  únicos acionistas (diretores) da Interessada, as pessoas de Eduardo Rahme Amaro, Antonio  Rahme Amaro e Edma Huespe de Amaro (os pertinentes detalhes encontram­se no item 07 do  Termo de Verificação Fiscal)   Termo de Verificação Fiscal  Fl. 778DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 779          5 1 – Das Considerações Iniciais quanto à Ação Fiscal  O procedimento foi iniciado a partir das determinações contidas  no Mandado de Procedimento Fiscal (MPF) nº 08.1.85.00­2013­ 00260­0,  relativo  à  empresa  HOSPITAL  E  MATERNIDADE  SANTA JOANA S.A., CNPJ 60.678.604/0001­13, abrangendo as  verificações  quanto  ao  Imposto  de  Renda  da  Pessoa  Jurídica  (IRPJ) e à Contribuição sobre o Lucro Líquido (CSLL), no ano­ calendário de 2010.  Ressalte­se que a empresa foi autuada pela mesma infração, em  relação  aos  anos­calendário  de  2007  (processo  nº  16561.720156/2012­37),  2008  e  2009  (processo  nº16643.720002/2013­16).      [...]  3 – Das Participações de Debêntures  No decorrer da fiscalização, constatamos que a empresa deduziu  do  “Resultado  do  Período  de  Apuração”,  o  valor  de  R$  21.797.992,24,  no  ano­calendário  de  2010,  a  título  de  “Participação de Debêntures” (ficha 6A, item 65 da DIPJ 2011).  [...]  Em Assembléia Geral  Extraordinária  realizada  em  15  de  abril  de 1998, os dirigentes e acionistas representantes da  totalidade  do  capital  social  do  HOSPITAL  E  MATERNIDADE  SANTA  JOANA S/A, deliberaram a  emissão privada de  21.000  (vinte  e  uma  mil)  debêntures  série  única,  do  tipo  subordinadas,  nominativas,  endossáveis  e  não  conversíveis  em  ações,  com  participação  nos  lucros,  sem  vencimento  pré­fixado,  com  valor  unitário de R$ 1.000,00 (um mil reais) e valor global de emissão  de R$ 21.000.000,00 (vinte e um milhões de reais);  As  referidas  debêntures  foram  adquiridas  pelos  três  acionistas  na seguinte proporção:  Debenturista  Quant.  Total  %  Eduardo Rahme Amaro  10.996  R$ 10.996.000,00  52,36  Antônio Rahme Amaro  8.077  R$ 8.077.000,00  38,46  Edma Huespe Amaro  1.927  R$ 1.927.000,00  9,18  Totais  21.000  R$ 21.000.000,00  100,00  No  entanto,  do  total  de  R$  21.000.000,00  subscrito,  R$  5.052.000,00 originaram­se da transferência de saldo de Lucros  Acumulados,  sendo  R$  1.685.000,00  destinado  para  cada  debenturista. Assim, o montante ingressado na sociedade através  de  recursos  provenientes  dos  sócios  foi  de  R$  15.948.000,00,  conforme abaixo descrito:  Fl. 779DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 780          6 Debenturista  Transferido da  conta Lucros  Acumulados  Depositado em  dinheiro  Total  Eduardo Rahme Amaro  R$ 1.685.000,00  R$ 9.311.000,00  R$ 10.996.000,00  Antonio Rahme Amaro  R$ 1.685.000,00  R$ 6.392.000,00  R$ 8.077.000,00  Edma Huespe Amaro  R$ 1.685.000,00  R$ 245.000,00  R$ 1.927.000,00  Totais  R$ 5.052.000,00  R$ 15.948.000,00  R$ 21.000.000,00  (...)  De  acordo  com  a  ata  da  Assembléia  Geral  Extraordinária  realizada em 15 de abril de 1998, no item F.1, a única forma de  remuneração  das  debêntures  prevista  era  a  participação  nos  lucros,  à  razão  de  50%  (cinqüenta  por  cento)  sobre  o  lucro  apurado  em  31  de  dezembro  de  cada  ano,  a  partir  de  31/12/1998, antes da provisão para o Imposto de Renda.  Em AGE de 02 de junho de 1999 (averbada em 06/07/1999), os  sócios da fiscalizada aprovaram o aumento da remuneração das  debêntures, que passou a ser de 65% (sessenta e cinco por cento)  dos lucros, antes da provisão para o Imposto sobre a Renda.  Na AGE de 07 de janeiro de 2002 (averbada em 02/04/2002), foi  aprovado  novo  aumento  da  remuneração  das  debêntures,  passando  a  ser  de  85%  (oitenta  e cinco  por  cento)  dos  lucros,  antes da provisão para o Imposto sobre a Renda.  Embora  não  reflita  no  cálculo  do  ano­calendário  em  apreço  (2010),  é  importante  mencionar  que,  na  Assembléia  Geral  Extraordinária  de  24  de  janeiro  de  2013  (averbada  em  02/12/2013),  foi  aprovada  nova  alteração  na  remuneração  das  debêntures, desta vez para menor, passando a ser de 30% (trinta  por cento) dos lucros, antes da provisão para o Imposto sobre a  Renda.  Cabe  observar  que  tal  alteração  ocorreu  após  a  lavratura  do  Auto  de  Infração  relativo  ao  ano­calendário  de  2007,  o  que  demonstra  que  a  empresa  manteve  a  prática  de  planejamento  tributário por meio de pagamento de remuneração de debêntures  aos  sócios,  mesmo  tendo  ciência  de  que  tal  prática  ia  de  encontro ao posicionamento do Fisco Federal.  Em fevereiro de 2013, a empresa sofreu novo Auto de Infração,  relativo aos anos­calendário de 2008 e 2009, e em dezembro do  mesmo  ano,  foi  cientificada  do  início  da  presente  ação­fiscal,  relativa ao ano­calendário de 2010. Somente em 02/01/2014 os  acionistas  se  reuniram  em  Assembléia  Geral  Extraordinária,  deliberando pelo resgate total das debêntures, ou seja, cessaram  enfim o planejamento tributário abusivo aqui abordado.  Fl. 780DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 781          7 No  período  objeto  do  presente  Termo  de  Verificação  Fiscal  (2010),  foram  pagos  os  seguintes  valores  a  título  de  remuneração de debêntures:  Acionista  Percentual  de  Participação  Lucro Líquido  Valor  Distribuído  (85%)  IRRF (20%)  Remuneração  Líquida    R$ 25.644.696,73  R$ 21.797.992,22  R$ 4.359.598,44  R$ 17.438.393,78  Eduardo Rahme Amaro  52,36  R$ 11.413.843,98  R$ 2.282.768,80  R$ 9.131.075,18  Antonio Rahme Amaro  38,46  R$ 8.383.938,51  R$ 1.676.787,70  R$ 6.707.150,81  Edma Huespe Amaro   9,18    R$ 2.000.209,73  R$ 400.041,95  R$ 1.600.167,78  [...]  Na  verdade,  a  empresa  retira  85%  do  lucro  antes  de  calcular o  IRPJ e a CSLL e  lança como obrigação  junto  aos sócios em contas do Passivo Exigível a Longo Prazo.  No  entanto,  esses  valores  não  são  repassados  integralmente  aos  sócios.  Conforme  estes  vão  fazendo  retiradas  de  numerários  da  empresa  sob  quaisquer  motivações,  esses  valores  vão  sendo  descontados  dessas  contas passivas.  Esta discrepância entre o valor retirado do lucro e aquele  efetivamente  pago  ao  sócio  fica  ainda  mais  gritante  no  caso  da  sócia  Edma  Huespe  Amaro.  Ao  observarmos  a  conta de provisão de remuneração de debêntures devida a  ela  (bem  como  os  recibos  de  pagamento  apresentados),  identificamos que ela “saca” quase mensalmente o valor  fixo de R$ 20.000 e/ou R$ 25.000,00.  Ora, se a participação de debêntures é calculada por meio  de  um  percentual  sobre  o  lucro,  conforme  a  fiscalizada  esclareceu,  é  incoerente  que  o  valor  repassado  ao  sócio  seja  um valor  fixo mensal  (e  não  o  percentual  calculado  sobre  o  lucro),  o  que  reforça  a  descaracterização  da  operação como remuneração de debêntures.  [...]  Fica  evidente,  assim,  que  as  debêntures  estão  sendo  usadas  indevidamente  tão­somente  como  um  artifício  malicioso,  criado  pela  empresa  para  retirar  da  base  de  cálculo  do  IRPJ  e  da  CSLL  parte  significativa  do  lucro,  que  fica  separada  numa  conta  do  Passivo  Exigível  a  Longo  Prazo.  Conforme  a  empresa  paga  valores  aos  sócios,  sob  quaisquer  pretextos,  estes  valores  vão  sendo  lançados  a  débito  da  conta  de  provisão  de  debêntures,  diminuindo  seu  saldo,  dando  uma  aparente  validade  jurídica  para  o  suposto  pagamento  de  remuneração  de  debêntures,  que  na  realidade  trata­se  de  distribuição  de  lucro,  indedutível  das  bases  de  cálculo  do  IRPJ  e  da  CSLL.  Fl. 781DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 782          8 Assim,  a  despesa  com  remuneração  de  debêntures,  no  valor  de R$  21.797.992,22  deduzida  pela  fiscalizada  da  base de cálculo do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e  da  Contribuição  Social  sobre  o  Lucro  Líquido  no  ano­ calendário  de  2010,  constitui  infração  à  legislação  tributária conforme a seguir demonstramos.  4 – Das Infrações Apuradas  As  debêntures  constituem  instrumentos  de  captação  emitidos  pelas  companhias,  os  quais  as  provêem  de  recursos novos obtidos no mercado para o financiamento,  geralmente  a  longo  prazo,  de  suas  atividades.  Elas  conferem  a  seus  titulares  um  direito  de  crédito  contra  a  companhia  emitente,  nas  condições  constantes  da  escritura de emissão.  Todavia,  na  situação  ora  apreciada,  levando­se  em  consideração  que  os  debenturistas  são  tão­somente  os  próprios  acionistas  administradores  da  emissora,  é  inegável que da operação não houve qualquer ingresso de  haveres  novos  e  externos  para  investimento  pela  companhia, o que desvirtua o  intuito maior desse  tipo de  operação.  A  forma  de  remuneração  das  debêntures  emitidas  pela  fiscalizada é algo bastante  incomum, dado que se baseia  exclusivamente no lucro. Embora a participação no lucro  esteja legalmente prevista no art. 56 da Lei nº 6.404/76, a  forma de remuneração necessária e usual das debêntures  é  o  pagamento  de  juros,  posto  que  as  debêntures,  na  definição  de  Fábio  Ulhoa  Coelho,  “são  valores  mobiliários  que  conferem  direito  de  crédito  perante  a  sociedade  anônima,  nas  condições  constantes  do  certificado (se houver) e da escritura de emissão” (Curso  de Direito Comercial – vol. 2 – edição 2000 – pág. 141).  [...]  Como visto acima, a participação nos lucros como forma  de  remuneração  adicional  das  debêntures  tem  como  finalidade tornar mais atrativa esta forma de captação de  recursos no mercado. Ora, tal não é o caso das debêntures  emitidas  pelo  HOSPITAL  E  MATERNIDADE  SANTA  JOANA  S/A,  pois,  trata­se  de  uma  emissão  privada,  exclusivamente  em  nome  dos  três  sócios  administradores  da empresa, sem prazo determinado (“ad aeternum”), que  sequer foi ofertada ao mercado.  Em  vista  do  exposto,  resta  evidente  que  a  operação  engendrada  pela  fiscalizada  não  se  enquadra  como  emissão de debêntures, pois não há qualquer previsão de  se remunerar os recursos obtidos através de pagamento de  juros.  Fl. 782DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 783          9 Por  outro  lado,  do  ponto  de  vista  financeiro,  a  suposta  remuneração das debêntures emitidas pela fiscalizada não  tem  qualquer  paralelo  com  o  mundo  real  (razão  que  explica  o  fato  de  ter  sido  oferecida  somente  aos  sócios).  Compulsando  as  DIPJ  apresentadas  pela  fiscalizada  desde  1998,  ano  da  emissão,  verifica­se  que  foram  distribuídas as seguintes remunerações de debêntures até  2010:  Ano  Lucro Líquido  %  Distribuído  Valor  Distribuído  Retorno  %  Valor Distribuído  Acumulado  Retorno %  Acumu.  1998  R$  17.272.012,76  50%  R$  8.636.006,38  41,12  R$ 8.636.006,38  41,12%  1999  R$  24.417.525,53  65%  R$  15.871.982,57  75,58%  R$ 24.507.988,95  116,70%  [...]    2008  [...]  85%    2009  [...]  85%    2010  R$  25.644.696,73  85%  R$  21.797.992,22  103,80%  R$164.738.419,78  784,47%  Observa­se  que  ao  final  de  1999,  ano  seguinte  ao  da  emissão  das  debêntures,  a  empresa  já  havia  remunerado  os  debenturistas  com  mais  de  100% do  capital “emprestado”  (total  de R$ 24.507.988,95,  ou seja, 116,70% dos R$ 21.000.000,00 captados).  Passados  doze  anos,  a  remuneração  acumulada  paga  aos  sócios  debenturistas  totaliza  R$  164.738.419,78,  ou  seja,  um  retorno  de  784,47% em relação ao capital investido de R$ 21.000.000,00.  Como  se  vê,  apenas  um  ano  após  a  emissão  das  debêntures,  a  empresa  já  havia  devolvido  valor  equivalente  aos R$  21.000.000,00  captados e, mesmo assim, continuou remunerando seus debenturistas  com valores vultosos, situação que perdurou até o ano­calendário de  2013, após sofrer duas autuações pela DEMAC/SPO.    Resta evidente que a emissão de debêntures realizada pela fiscalizada  não possui qualquer racionalidade econômica, a não ser a economia  de tributos. É de se questionar qual empresa no mundo real ofereceria  como remuneração por um empréstimo uma participação de 85% de  seu  lucro  anual  a  pessoas  que  não  fossem  os  próprios  sócios  da  empresa.  Não  é  crível  que  tamanha  benesse  fosse  concedida  a  um  terceiro, sem ligação ou influência nos negócios da empresa.  Por  certo,  a  fiscalizada  utilizou­se  de  tal  operação  não  para  alavancar  seus  negócios,  mas  para  artificialmente  aumentar  o  resultado  não­tributável  e  as  despesas  supostamente  dedutíveis  incrementando  dessa  forma  o  lucro  da  sociedade,  ao  arrepio  da  legislação tributária.  Fl. 783DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 784          10 Ainda  que  a  administração  tributária  não  possa  determinar  diretamente  o  modo  como  o  setor  privado  deva  fazer  uso  de  seus  recursos  para  investimento  (respeitados,  por  óbvio,  os  ditames  legalmente estabelecidos para tanto), porquanto a ordem econômica  nacional  escora­se,  dentre  outros,  no  princípio  da  livre  iniciativa,  cumpre  àquela  examinar  os  reflexos  tributários  decorrentes  da  atividade empresarial empreendida.  Assim,  observa­se  claramente  que  a  operação  engendrada  pela  fiscalizada caracteriza­se como distribuição disfarçada de  lucros,  já  que trata­se de negócio realizado em condições de favorecimento com  pessoas  ligadas  (in  casu,  os  seus  próprios  acionistas),  mediante  a  remuneração  das  debêntures  com  85%  dos  lucros  apurados  nos  exercícios  sociais  objetos  de  ação  fiscal,  conforme  já  demonstrado  nos  parágrafos  precedentes.  É  inegável  que  se  os  debenturistas  fossem  realmente  terceiros,  as  condições  de  remuneração  das  debêntures previstas não prevaleceriam. Observe­se a redação do art.  464, VI, do RIR/99:  “Seção II ­ Lucros Distribuídos Disfarçadamente  Art.  464.  Presume­se  distribuição  disfarçada  de  lucros  no  negócio  pelo qual a pessoa jurídica (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art. 60, e  Decreto­Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II):  [...]  VI ­ realiza com pessoa ligada qualquer outro negócio em condições  de favorecimento, assim entendidas condições mais vantajosas para  a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado ou em que a  pessoa jurídica contrataria com terceiros.” (grifo do original)    Confirma­se  aqui  também  a  indedutibilidade  das  despesas  com  fundamento no art. 467, V do RIR/99, in verbis:  “Art. 467. Para efeito de determinar o lucro real da pessoa jurídica  (Decreto­Lei  nº  1.598,  de  1977,  art.  62,  e Decreto­Lei  nº  2.065,  de  1983, art. 20, incisos VII e VIII):  [...]  V  ­  no  caso  do  inciso  VI  do  art.  464,  as  importâncias  pagas  ou  creditadas  à  pessoa  ligada,  que  caracterizarem  as  condições  de  favorecimento, não serão dedutíveis.” (grifo do original)    [...]  Entendimento  idêntico  serviu  de  fundamento  para  decisão  em  caso  similar,  proferida  pela  2ª  Turma  da  Delegacia  de  Julgamento  de  Campinas/SP,  em  08/11/2007,  no  Acórdão  nº  05­19.988,  conforme  ementa abaixo transcrita:  “  (...)  Configuram  ato  de  liberalidade  ou  de  favor,  estranho  aos  objetivos  sociais,  as  despesas  financeiras  com  remuneração  de  debêntures, apenas sob a forma de participação nos lucros, emitidas e  subscritas  exclusivamente  pelos  acionistas  da  própria  emitente,  quando 97% do  lucro apurado ao final de cada exercício social resta  Fl. 784DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 785          11 comprometido  com  seu  pagamento.  É  ato  estranho  aos  objetivos  sociais da empresa produzir lucros para terceiros.  Despesas Financeiras. Remuneração de Debêntures.  Indedutibilidade.  Distribuição Disfarçada de Lucros.  Presume­se  distribuição  disfarçada  de  lucros  no  negócio  pelo  qual  a  pessoa  jurídica  realiza  com  pessoa  ligada  qualquer  negócio  em  condições  de  favorecimento,  assim  entendidas  condições  mais  vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no mercado  ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros. Para efeito de  determinar  o  lucro  real  da  pessoa  jurídica,  as  importâncias  pagas  ou  creditadas  à  pessoa  ligada,  que  caracterizarem  as  condições  de  favorecimento, não serão dedutíveis.”  Em caso semelhante (Acórdão nº 101­94.986 de 19 de maio de 2005),  a  Conselheira  Sandra  Maria  Faroni  ressalta  em  seu  voto  que  a  empresa,  sem  incorrer  de  fato  em  nenhuma  despesa,  visto  que  a  participação  nos  lucros  é  inerente  à  condição  de  acionista,  teria  formalizado  uma  operação  que  lhe  permitiria  reduzir  o  lucro  tributável em percentual significativo.  A seguir transcrevemos trechos do mencionado voto:  “Além de não estar demonstrado ser usual a emissão de debêntures  remuneradas  exclusivamente  com  participação  nos  lucros  (...),  é  pouco crível que a empresa abrisse mão de 70% de seus lucros para  remunerar terceiros debenturistas. Isso, definitivamente, não é usual.  A não ser, é claro, que esses  terceiros  fossem os mesmos detentores  do capital da empresa, quando, então, a empresa (melhor dizendo, os  detentores  do  capital)  não  estariam  abrindo  mão  de  coisa  alguma  (como  no  presente  caso,  em  que  a  emissão  de  debêntures  foi  para  subscrição  privada  dos  seus  cinco  acionistas).  Adotando  a  forma  jurídica  de  emissão  de  debêntures  a  serem  integralizadas  exclusivamente  por  seus  acionistas  e  com  os  próprios  lucros  creditados  nas  respectivas  contas  correntes,  os  acionistas  continuaram  a  fazer  jus  aos  lucros,  que  permanecem  na  empresa  remunerados a uma taxa muito superior à TJLP e à Selic.  O  cerne  da  questão  reside  na  caracterização  da  despesa  como  necessária  (usual  e  normal).  Ricardo Mariz  de Oliveira,  (in RT  Inf.  241/242, de 1980)  leciona que “a despesa é não necessária quando  for  decorrente  de  ato  de  liberalidade,  não  no  sentido  de  espontaneidade, mas no sentido jurídico de ato de favor, estranho aos  objetivos sociais”.  No  caso,  a  remuneração  das  debêntures  com  até  70%  dos  lucros  caracterizou ato de liberalidade. Embora seja próprio da companhia  captar  recursos  para  fazer  frente  às  suas  necessidades,  mediante  emissão  de  debêntures,  não  é  razoável  entender  como  dentro  dos  objetivos sociais da empresa o comprometimento de mais de 2/3 de  seus lucros com essa finalidade.  (...)  Fl. 785DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 786          12 Conquanto  não  seja  seu  único  escopo,  a  companhia  busca  obter  lucros  para  os  seus  acionistas,  e  não  para  pessoas  estranhas  ao  quadro social. A utilização de parcela módica de  seus  lucros como  remuneração adicional aos juros, para tornar atrativa a captação de  recursos no mercado, é perfeitamente compatível com o objeto social  de qualquer sociedade empresária. Não porém o comprometimento  de até 70% dos seus lucros nesse mister. É ato estranho aos objetivos  sociais da empresa produzir lucros para terceiros.  (...)  Endosso  a  decisão  de  primeira  instância,  cujas  razões  de  decidir  subscrevo, e considero não demonstrada a necessidade das despesas  deduzidas.  Não  pode  ser  oponível  ao  Fisco  uma  operação  que  objetivou  exclusivamente  reduzir  a  carga  tributária.  Mediante  operações  formalizadas  apenas  “em  papel”,  a  empresa  transformou  artificialmente lucros distribuídos em despesa dedutível. A empresa,  sem incorrer de fato em nenhuma despesa (visto que a participação  nos  lucros  é  inerente  à  condição  de  acionista),  formalizou  uma  operação que lhe permitiria reduzir o lucro tributável em até 70%.”  (grifos do original)  Vale  repisar  que  esta  fiscalização  autuou  a  empresa  pela  mesma  infração nos anos­calendário de 2007 a 2009, e as autuações  foram  mantidas  integralmente  pelas DRJ do Rio  de  Janeiro  e  de Curitiba,  conforme se vê nos trechos das ementas reproduzidos abaixo:  [...]  Cumpre  ainda  lembrar  a  disposição  contida  no  artigo  57  da  Lei  nº  8.981/1995,  com  a  redação  dada  pela  Lei  nº  9.065/1995,  a  seguir  transcrito:  “Art.  57.  Aplicam­se  à  Contribuição  Social  sobre  o  Lucro  (Lei  nº  7.689,  de  1988)  as  mesmas  normas  de  apuração  e  de  pagamento  estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive  no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e  as  alíquotas  previstas  na  legislação  em  vigor,  com  as  alterações  introduzidas  por  esta  Lei.  (Redação  dada  pela  Lei  nº  9.065,  de  1995).”  [...]  6 – Da Qualificação da Multa de Ofício  Em  face  do  lançamento  de  ofício  do  IRPJ  e  da  CSLL  acima  caracterizada, cumpre o exame da multa de ofício aplicável ao caso  em questão. A redação do art. 44, inciso II, da Lei nº 9.430/96, dada  pela Lei nº 11.488/2007, assim dispõe:  “Art.  44.  Nos  casos  de  lançamento  de  ofício,  serão  aplicadas  as  seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)  I ­ de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença  de  imposto  ou  contribuição  nos  casos  de  falta  de  pagamento  ou  Fl. 786DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 787          13 recolhimento,  de  falta  de  declaração  e  nos  de  declaração  inexata;  (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)  (...)  §  1º  O  percentual  de  multa  de  que  trata  o  inciso  I  do  caput  deste  artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei  nº 4.502, de 30 de novembro de 1964,  independentemente de outras  penalidades  administrativas  ou  criminais  cabíveis.  (Redação  dada  pela Lei nº 11.488, de 2007)”  Especial atenção deve ser dedicada ao que dispõe o §1º do art. 44 da  Lei  nº  9.430/96,  acima  transcrito.  Nele  citado,  o  art.  72  da  Lei  nº  4.502/64 assim define fraude:  “Art . 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir  ou  retardar,  total  ou parcialmente,  a ocorrência do  fato gerador da  obrigação  tributária  principal,  ou  a  excluir  ou  modificar  as  suas  características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto  devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento.”  O  procedimento  adotado  pela  fiscalizada  está  compreendido  na  hipótese  prevista  na  norma  acima.  Não  cabe  à  companhia  invocar  desconhecimento ou prática de erro escusável, uma vez que a mesma  já  foi  autuada  em  virtude  do  mesmo  fato  (processos  nºs  16561.720156/2012­37  e  16643.720002/2013­16)  e  ainda  assim  persistiu na prática, conforme se verifica nas suas DIPJ e no estatuto  de  constituição  das  debêntures,  o  qual  foi  alterado  em  24/01/2013,  reduzindo­se  o  percentual  de  remuneração  de  85%  para  30%  dos  lucros apurados no ano­calendário de 2013, somente tendo cessado a  prática  lesiva  à  norma  tributária  em  relação  ao  ano­calendário  corrente, após o início da presente ação fiscal.  A  caracterização  da  fraude  se  configura  no  desvirtuamento  da  finalidade do instituto da emissão de debêntures, que deve ser usado  para  a  captação  de  recursos,  e  não,  como  no  presente  caso,  para  descapitalizar  a  empresa,  promovendo  um  enriquecimento  indevido  dos sócios em detrimento do erário público.  A operação engendrada pela fiscalizada, conforme já exposto, é legal  apenas no seu aspecto formal, mas ilícita na medida em que objetivou  unicamente  reduzir  a  carga  tributária  a  que  estava  sujeita.  Pelo  exposto,  fica  patente  a  caracterização  do  intuito  fraudulento,  justificando­se plenamente a aplicação da multa qualificada.  7 – Da Responsabilidade Tributária Solidária dos Sócios  Antônio  Rahme  Amaro  e  Eduardo  Rahme  Amaro,  sempre  foram  acionistas e diretores da empresa fiscalizada, desde sua constituição  em  1963.  Por  outro  lado,  Edma  Huepe  de  Amaro  ingressou  na  diretoria  da  empresa  em  1994.  No  ano  em  que  se  iniciou  o  planejamento  tributário  objeto  da  presente  ação  fiscal,  por meio  de  emissão  de  debêntures  (1998)  até  a  data  em  que  foi  encerrada  a  presente ação fiscal, os três nomes citados compuseram a Diretoria e  assinaram os atos que visaram a redução da incidência tributária.  Fl. 787DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 788          14 Nos termos do artigo 121 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966  (Código Tributário Nacional  ­ CTN), é  sujeito passivo da obrigação  tributária:  “Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada  ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária.  Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz­se:  I ­ contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação  que constitua o respectivo fato gerador;  II ­ responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua  obrigação decorra de disposição expressa de lei.” (grifo do original)  Na  condição  de  únicos  acionistas  e  diretores,  Eduardo  Rahme  Amaro,  Antônio  Rahme  Amaro  e  Edma  Huespe  de  Amaro  eram  diretamente  interessados  nos  resultados  da  empresa,  pois,  além  de  administrá­la,  possuíam  juntos  100%  de  seu  capital,  não  restando  meios de negar que visaram não somente o lucro propriamente dito,  que  é  o  objetivo  de  qualquer  empresário,  mas  principalmente,  visaram ter um aumento deste lucro lançando mão de uma economia  tributária resultante de um planejamento abusivo por eles engendrado  e posto em prática.  No  que  tange  à  responsabilidade  solidária,  o  artigo  135  do  CTN  ainda dispõe que:  “Art.  135.  São  pessoalmente  responsáveis  pelos  créditos  correspondentes  a  obrigações  tributárias  resultantes  de  atos  praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social  ou estatutos:  I ­ as pessoas referidas no artigo anterior;  II ­ os mandatários, prepostos e empregados;  III ­ os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de  direito privado.(grifo do original)  Além  de  se  beneficiarem  diretamente  da  economia  tributária  conseguida, há que se ressaltar que os três acionistas deliberaram em  assembléia a  emissão de debêntures  (e  suas alterações)  com  fins de  reduzir  o  resultado  tributável  da  empresa,  que  na  realidade,  tratavam­se  de  lucros  distribuídos  disfarçadamente,  conforme  já  exaustivamente  demonstrado.  Tal  fato  fica  comprovado  através  das  Atas de Assembléias (que contém assinatura dos três acionistas), bem  como dos  recibos de pagamento  juntados ao presente processo, que  comprovam as retiradas de numerários procedidas pelos mesmos.  Sendo assim e de acordo com a previsão legal contida no artigo 135,  inciso  III,  da  Lei  nº  5.172/66  (CTN),  constata­se  a  SUJEIÇÃO  PASSIVA  POR  RESPONSABILIDADE  PESSOAL  dos  acionistas  com  poderes  de  administração  Eduardo  Rahme  Amaro,  Antônio  Rahme  Amaro  e  Edma  Huespe  de  Amaro,  pelos  débitos  fiscais  constituídos  em  nome  da  empresa HOSPITAL E MATERNIDADE  Fl. 788DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 789          15 SANTA JOANA S/A, relativos ao período fiscalizado de 01/01/2010  a 31/12/2010.  Da Impugnação  A interessada e os responsáveis solidários apresentaram uma impugnação,  em conjunto, em 03/10/2014,  tempestiva, conforme informa o Despacho de fl.621, cujo teor é  sintetizado a seguir:  a) no tópico Preliminar: “Do Indevido Arrolamento de Bens – Violação À  Súmula Vinculante nº 21 do Supremo Tribunal Federal” aduz que registro do arrolamento  no cartório de imóveis viola o art. 198 do CTN, que veda a divulgação de informação sobre a  situação  econômica  ou  financeira  do  sujeito  passivo  ou  de  terceiros  e  sobre  a  natureza  e  o  estado de seus negócios ou atividades; que tal gravame  impossibilita o exercício dos direitos  inerentes à propriedade, com flagrante violação ao Direito de Propriedade garantido no art.  5º, XXII, da Magna Carta; que, ademais, o arrolamento viola os termos da Súmula Vinculante  nº 21 do STF e do art. 103A da Constituição Federal;  a)  Mérito:  no  tópico  “Das  Debêntures  Emitidas  pela  Impugnante”  argumenta que a emissão das debêntures autorizada em 15/04/1998 era a melhor alternativa  para captação de recursos necessários ao financiamento de seus negócios; que para sustentar  que houve distribuição disfarçada de lucros, a autoridade fiscal apresentou uma descrição das  características  gerais  mais  comuns  das  emissões  públicas  de  debêntures,  enfatizando  a  sua  função  de  instrumento  de  captação  de  recursos  financeiros  junto  ao  mercado  mediante  pagamento de  juros, para então concluir que a emissão privada  teria  infringido a  legislação  (repete as premissas da autoridade fiscal que estão no Termo);  b)  no  tópico  “Do  Direito  que  Ampara  a  Dedução  das  Participações  Asseguradas às Debêntures de Emissão da Impugnante” alega que a autoridade  fiscal não  aponta  qual  dispositivo  de  lei  teria  sido  infringido  pela  impugnante  e  nem  em  quais  circunstâncias isto teria ocorrido; que a emissão das debêntures encontra­se amparada no art.  52 da Lei nº6.404/76, no qual não há qualquer ressalva em relação às condições, qualidades  ou  natureza  dos  titulares  das  debêntures;  que  o  art.  56  da  Lei  nº  6.404/76,  ao  enumerar  as  vantagens  atribuíveis  às  debêntures  (juros  ou  participação  nos  lucros  ou  prêmios  de  reembolso)  em  nenhum  momento  determinou  a  eleição  de  qualquer  uma  das  vantagens  em  particular,  assim  como  não  determinou  a  eleição  cumulativa  destas  mesmas  vantagens,  entendimento esse também adotado pela CVM para emissões públicas;  ­ que a emissão de debêntures, aprovada pela AGE de 15/04/1998, observou  todas as  formalidades  legais necessárias e exigidas pela  lei para validade do negócio,  tendo  tido plena publicidade e oposição perante quaisquer  terceiros; que  foi  lavrada a competente  escritura de emissão, a qual foi registrada no 1º Cartório de Registro de Imóveis de São Paulo;  que a existência ou não de  esforço de  venda ou de colocação dos  títulos  junto aos  terceiros  subscritores  serve apenas para caracterizar o  tipo de emissão de debêntures –  se pública ou  privada; que a retirada mensal em qualquer montante não guarda relação alguma com o valor  atribuível ao debenturista; a operação de debêntures praticada insere­se dentro daquela esfera  mínima de liberdade de que dispõe a sociedade empresária contribuinte e seus acionistas para  agirem com base na exclusiva vontade e intenção deliberada de assim procederem;  c)  no  tópico “Das Razões Empresariais  que  Justificaram a Emissão  das  Debêntures  pela  Impugnante”  argúi  que  as  debêntures  fizeram  parte  de  um  plano  de  reestruturação e preparação da empresa para suportar seu novo ciclo de crescimento que se  fazia necessário; que, portanto, havia: (i) necessidade de recursos financeiros para financiar a  expansão  das  operações;  (ii)  a  necessidade  dos  acionistas  de  reaverem  os  recursos  emprestados à empresa para fins de satisfação de suas demandas pessoais e familiares; que a  Fl. 789DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 790          16 operação  não  foi  casuística,  temporária  ou  inconsistente,  de  forma  a  desnaturar  a  efetiva  vontade  das  partes  envolvidas  ou  com  o  uso  abusivo  e  egoísta  de  institutos  jurídicos  ou  mediante  fraude a alguma lei; que houve  flagrante motivação de longo prazo, consistente no  tempo,  em  linha com uma estratégia  empresarial previamente definida; que a dedutibilidade  destes encargos das bases de cálculo do IRPJ e CSLL é inquestionável à vista do que prevêem  os art. 462 do RIR de 1999 e Lei nº 7.689, de 1988, e alterações posteriores;  d.I) no tópico “Da Efetiva Captação de Recursos Novos pela Impugnante”  assevera  que  a  entrada de  recursos  foi  confirmada pela  autoridade  fiscal,  que afirma que  o  montante  de R$  15.948.000,00  ingressou  na  sociedade  através  de  recursos  provenientes  dos  sócios; que não há qualquer ressalva, condição ou vedação imposta pela legislação societária  ou  pela  legislação  fiscal  em  subscrever  as  debêntures  mediante  compensação  dos  créditos  mantidos em conta corrente pelos acionistas;   d.II)  no  tópico  “Da  Situação  Acionistas­Debenturistas,  Sendo  as  Debêntures Remuneradas com Base em Participação nos Lucros: Plenamente Justificável no  Caso Concreto da Impugnante” alega que a condição de credor­acionista foi um dos fatores  que  possibilitou  a  instrumentalização  do  passivo  da  impugnante  sob  a  forma  de  debêntures  remuneradas  com  base  na  participação  nos  lucros;  que  muito  provavelmente  nenhum  investidor  aportaria  recursos  em  um  empreendimento  sobre  o  qual  não  teria  qualquer  influência  na  gestão,  e  nenhuma  garantia  de  retorno;  que  a  própria  lei  societária  admite  expressamente a possibilidade de os acionistas da pessoa jurídica subscreverem debêntures de  sua emissão, quando as mesmas forem conversíveis em ações;    d.III) no tópico “Da Impossibilidade de se Efetuar Lançamento Tributário  por  Presunção:  a  Autoridade  Fiscal  Deveria  Ter  Investigado  os  Efeitos  da  Operação  da  Impugnante  em  Relação  a  Parâmetros  Objetivos  de  Mercado”  argúi  que  são  muitos  os  julgados pela ilegalidade de lançamentos tributários fundados em presunções não previstas em  lei;  que  o  custo  financeiro  do  empréstimo  instrumentalizado  pelas debêntures  foi  compatível  com as taxas de juros médias praticadas para empréstimos bancários no mesmo período (taxa  média de juros para a conta garantida – código 3943 foi de 87,57% para o ano de 2010);  ­  que  a  autoridade  fiscal  não  considerou  as  receitas  geradas  pelo  valor  recebido (receitas financeiras de R$ 183.430,93 no ano de 2010); que toda a sistemática da lei  de  regência  dá  tratamento  unificado  no  resultado  entre  receitas  e  despesas  financeiras;  que  falhou a autoridade fiscal, já que não se preocupou em provar as taxas do mercado, limitando­ se  a  questionar  a  remuneração  de  um  empréstimo  com  uma  participação  de  85%  do  lucro  anual; que a irrelevância do questionamento fiscal já foi objeto de análise pelo CARF, que em  situação análoga considerou plenamente justificável a participação de 97% do lucro (processo  13820.000860/200210, Acórdão 10197.021);  dIV) no tópico “Da Ausência de Quaisquer das Hipóteses do Artigo 464 do  Regulamento  do  Imposto  de  Renda”  argumenta  que  não  estão  presentes  quaisquer  das  hipóteses  previstas  no  artigo  464  do RIR  de  1999,  sendo  certo  que  a  autoridade  fiscal  nem  mesmo  abordou  o  suposto  fundamento  de  validade  da  exigência;  se  a  autoridade  fiscal  considera  que  os  valores  pagos  como  remuneração  atrelada  às  debêntures  mostrou­se  excessivo, deveria ter demonstrado qual seria o valor pago no mercado caso houvesse tomada  de empréstimo em instituição financeira; que, ainda que o valor pago fosse excessivo, seria o  caso de glosa apenas do valor do excesso e não do valor total;  dV) No Tópico “Não demonstração do valor de mercado da remuneração  de debêntures: inaplicabilidade específica do art.464, VI, do RIR/99”, alega que a autoridade  autuante  não  comprovou  qual  valor  de mercado  “que  serve  de  parâmetro  para  se  verificar  eventual remuneração excessiva no caso concreto.”  Fl. 790DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 791          17 E)  no  tópico  “Do  Imposto  de  Renda  na  Fonte  –  IRRF:  Pagamento  Indevido  a Prevalecer  o Entendimento  da Autoridade Fiscal” aduz  que  a  autoridade  fiscal  glosou a despesa, mas não considerou os recolhimentos correspondentes de IRRF;  F) no tópico “Da ausência de norma que determine a indedutibilidade da  base de cálculo da CSLL”, procura a  Impugnante demonstrar que não haveria espaço para  tributação de CSLL.  G) No tópico Da Indevida Qualificação da Multa de Ofício, entendem que  a qualificação dada não condiz com a norma, além de ser confiscatória, em desentendimento  do  STF;  que  a  emissão  de  debêntures  nos moldes  em  que  realizada  encontra­se  prevista  na  legislação das S/A que nos outros procedimentos administrativos, referentes a outros períodos,  a  mesma  autoridade  não  vislumbrou  a  nomeada  “patente  caracterização  do  instituto  fraudulento”; que é inaceitável a qualificação da multa por incorrer em suposta reincidência  em 2010, invocando a autoridade fiscal irregularidades em anos anteriores;  H) no tópico Da Indevida Responsabilização Solidária dos Sócios, afirma  que não sabe qual lei foi infringida para que se pudesse responsabilizar os sócios por infração  de lei (art.135 do CTN); ainda que a responsabilidade dos sócios prevista no art.1º da Lei das  S/A, limita­se a sua participação acionária então subscrita.  A  3ª  Turma  da  DRJ  em  Florianópolis,  em  análise  da  impugnação  apresentada, julgou­a improcedente.  O contribuinte foi cientificado da decisão em 08 de julho de 2015 (fl. 669).  Todos os corresponsáveis foram intimados da decisão em 13 de julho de 2015 (fls. 671­673).  Em 06 de agosto de 2015 (fl. 675) foi apresentado recurso voluntário único  para contribuinte e corresponsáveis (fls. 676­743).  Em síntese, a Recorrente repisa, no mérito, seus argumentos apresentados em  impugnação.  Argui  ainda  nulidade  da  decisão  de  primeira  instância  por  suposto  aperfeiçoamento  do  lançamento  ao  trazer  parâmetro  de  comparação  para  fins  de  atestar  a  condição vantajosa, parâmetro esse jamais mencionado pela Fiscalização.  A  Procuradoria  da  Fazenda Nacional  apresentou  contrarrazões  de  fls.  750­ 773 requerendo a manutenção integral da exigência.  É o relatório.  Fl. 791DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 792          18 Voto             Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Relator.  1 ADMISSIBILIDADE  O  recurso  voluntário  apresentado  é  tempestivo  e  assinado  por  procurador  devidamente  habilitado.  Preenchidos  os  demais  pressupostos  de  admissibilidade  do  recurso,  dele,  portanto,  tomo  conhecimento,  exceto  em  relação  às  questões  atinentes  a  confisco  e  a  inconstitucionalidade de lei, conforme se abordará oportunamente.      2 PRELIMINAR  a) Nulidade por cerceamento do direito de defesa  Alegam os Recorrentes que os lançamentos seriam nulos porque a autoridade  fiscal  não  teria  indicado  o  dispositivo  de  lei  que  fora  violado,  tampouco  em  quais  circunstâncias teria se dado tal transgressão.  Os pressupostos legais para a validade do auto de infração são determinados  pelo  art.  10  do Decreto  nº  70.235,  de  1972,  que  trata  do  Processo Administrativo  Fiscal,  a  seguir transcrito:  Art.  10.  O  auto  de  infração  será  lavrado  por  servidor  competente,  no  local  da  verificação  da  falta,  e  conterá  obrigatoriamente:  I ­ a qualificação do autuado;  II ­ o local, a data e a hora da lavratura;  III ­ a descrição do fato;  IV ­ a disposição legal infringida e a penalidade aplicável;  V  ­  a determinação da exigência  e a  intimação para cumpri­la  ou impugná­la no prazo de 30 (trinta) dias;   VI  ­  a  assinatura  do  autuante  e  a  indicação  de  seu  cargo  ou  função e o número de matrícula.  A respeito da nulidade, o mesmo diploma legal assim dispõe:  Art. 59. São nulos:  I ­ os atos e termos lavrados por pessoa incompetente;  Fl. 792DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 793          19 II  ­  os  despachos  e  decisões  proferidos  por  autoridade  incompetente ou com preterição do direito de defesa.  § 1.º. A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que  dele diretamente dependam ou sejam conseqüência.  §  2.º.  Na  declaração  de  nulidade,  a  autoridade  dirá  os  atos  alcançados  e  determinará  as  providências  necessárias  ao  prosseguimento ou solução do processo.  § 3.º. Quando puder decidir o mérito a favor do sujeito passivo a  quem  aproveitaria  a  declaração  de  nulidade,  a  autoridade  julgadora  não  a  pronunciará  nem  mandará  repetir  o  ato  ou  suprir­lhe a falta. (Acrescido pelo art. 1.º da Lei n.º 8.748/1993)  Art.  60.  As  irregularidades,  incorreções  e  omissões  diferentes  das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e  serão  sanadas  quando  resultarem  em  prejuízo  para  o  sujeito  passivo,  salvo  se  este  lhes  houver  dado  causa,  ou  quando  não  influírem na solução do litígio. (grifo nosso)  Art.  61. A nulidade  será declarada pela autoridade competente  para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade.  Compulsando  os  autos,  constata­se  que  os  autos  de  infração  lavrados  preenchem os requisitos elencados pelo art. 10 do Decreto nº 70.235, de 1972.  Além  disso,  no  caso  concreto,  a  autoridade  fiscal  autuante  consignou  expressamente a ofensa ao artigo 464, VI, do RIR/99, apontando ainda a indedutibilidade das  despesas  nos  termos  do  art.  467  do mesmo  diploma  legal.  Da  simples  leitura  do  Termo  de  Verificação Fiscal depreende­se que não há qualquer dúvida quanto à ausência de prejuízo aos  Recorrentes,  tanto  que,  já  em  sede  de  impugnação  defenderam­se  plenamente,  despendendo  com clareza e qualidade, todos os argumentos necessários ao pleno exercício de suas defesas.  Nesse aspecto, frise­se que a possibilidade de defesa foi amplamente viabilizada pelos detalhes  da  descrição  dos  fatos  realizada  pela  autoridade  fiscal  realizada  no  Termo  de  Verificação  Fiscal, no qual se apontou com minúcias os fatos constatados.  Portanto, não há que se falar em cerceamento de defesa. Isso porque, não se  constata qualquer prejuízo ao pleno exercício do contraditório e da ampla defesa por parte dos  Recorrentes, aliás, prejuízo esse primordial à caracterização de nulidade, conforme apregoa o  art.  60  do Decreto  nº  70.235/72:  “As  irregularidades,  incorreções  e  omissões  diferentes  das  referidas  no  artigo  anterior  não  importarão  em  nulidade  e  serão  sanadas  quando  resultarem em prejuízo para o sujeito passivo”.   Assim  sendo,  sob  os  aspectos  formais,  não  há  qualquer mácula  no  auto  de  infração lavrado.  No  mais,  o  agir  da  autoridade  fiscal  se  deu  no  desempenho  das  funções  estatais, de acordo com as normas legais e com respeito a todas as garantias constitucionais e  legais dirigidas aos contribuintes.  Portanto, deve ser afastada esta arguição de nulidade.    Fl. 793DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 794          20 b) Arrolamento: suposta ofensa à Súmula Vinculante nº 21 do Supremo Tribunal Federal  Segundo  os  Recorrentes  o  arrolamento  realizado  contraria  a  Súmula  Vinculante nº 21 do Supremo Tribunal Federal, assim vazada:  Súmula Vinculante 21  É  inconstitucional  a  exigência  de  depósito  ou  arrolamento  prévios  de  dinheiro  ou  bens  para  admissibilidade  de  recurso  administrativo.  Neste  ponto,  parece­me  que  há  enorme  equívoco  da  Recorrente,  pois  o  arrolamento  promovido  pela  autoridade  fiscal  em  nada  se  confunde  com  a  inconstitucionalidade reconhecida pelo STF.   A Súmula Vinculante n. 21 pacifica entendimento há tempos desposado pelo  STF,  no  sentido  de  que  não  deva  existir  qualquer  entrave  para  a  interposição  de  recurso  administrativo, como corolário ao princípio do duplo grau de jurisdição.  A hipótese dos autos é totalmente distinta, posto que baseada na premissa,  estabelecida em lei, de que a autoridade fiscal deverá adotar medidas acautelatórias quando o  crédito  tributário  total  lançado  contra  o  sujeito  passivo  exceder  30%  do  seu  patrimônio  conhecido.  Tal  medida  está  expressamente  prevista  nos  artigos  64  e  64­A  da  Lei  n.  9.532/97, que em nada se confundem com a lógica defendida pela empresa:  Art.  64.  A  autoridade  fiscal  competente  procederá  ao  arrolamento de bens e direitos do sujeito passivo sempre que o  valor  dos  créditos  tributários  de  sua  responsabilidade  for  superior a trinta por cento do seu patrimônio conhecido.  § 1º Se o crédito tributário for formalizado contra pessoa física,  no  arrolamento  devem  ser  identificados,  inclusive,  os  bens  e  direitos  em nome  do  cônjuge,  não  gravados  com  a  cláusula  de  incomunicabilidade. §  2º  Na  falta  de  outros  elementos  indicativos,  considera­se  patrimônio conhecido, o valor constante da última declaração de  rendimentos apresentada.  §  3º  A  partir  da  data  da  notificação  do  ato  de  arrolamento,  mediante  entrega  de  cópia  do  respectivo  termo,  o  proprietário  dos  bens  e  direitos  arrolados,  ao  transferi­los,  aliená­los  ou  onerá­los, deve comunicar o fato à unidade do órgão fazendário  que jurisdiciona o domicílio tributário do sujeito passivo.  § 4º A alienação, oneração ou  transferência,  a qualquer  título,  dos  bens  e  direitos  arrolados,  sem  o  cumprimento  da  formalidade  prevista  no  parágrafo  anterior,  autoriza  o  requerimento de medida cautelar fiscal contra o sujeito passivo.  §  5º  O  termo  de  arrolamento  de  que  trata  este  artigo  será  registrado  independentemente  de  pagamento  de  custas  ou  emolumentos:  Fl. 794DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 795          21 I  ­  no  competente  registro  imobiliário,  relativamente  aos  bens  imóveis;  II  ­  nos  órgãos  ou  entidades,  onde,  por  força  de  lei,  os  bens  móveis ou direitos sejam registrados ou controlados;  III ­ no Cartório de Títulos e Documentos e Registros Especiais  do  domicílio  tributário  do  sujeito  passivo,  relativamente  aos  demais bens e direitos.  §  6º  As  certidões  de  regularidade  fiscal  expedidas  deverão  conter informações quanto à existência de arrolamento.  § 7º O disposto neste artigo só se aplica a soma de créditos de  valor  superior  a  R$  500.000,00  (quinhentos  mil  reais).  (Vide  Decreto nº 7.573, de 2011)  § 8º Liquidado, antes do seu encaminhamento para inscrição em  Dívida  Ativa,  o  crédito  tributário  que  tenha  motivado  o  arrolamento, a autoridade competente da Secretaria da Receita  Federal  comunicará  o  fato  ao  registro  imobiliário,  cartório,  órgão ou entidade  competente de  registro  e controle,  em que o  termo de arrolamento tenha sido registrado, nos termos do § 5º,  para que sejam anulados os efeitos do arrolamento.  § 9º Liquidado ou garantido, nos termos da Lei nº 6.830, de 22  de setembro de 1980, o crédito tributário que tenha motivado o  arrolamento,  após  seu  encaminhamento  para  inscrição  em  Dívida Ativa, a comunicação de que  trata o parágrafo anterior  será  feita  pela  autoridade  competente  da  Procuradoria  da  Fazenda Nacional.   §  10.  Fica  o  Poder  Executivo  autorizado  a  aumentar  ou  restabelecer o  limite de que  trata o § 7o deste artigo.  (Incluído  pela Lei nº 11.941, de 2009)  §  11.  Os  órgãos  de  registro  público  onde  os  bens  e  direitos  foram arrolados possuem o prazo de 30 (trinta) dias para liberá­ los,  contados  a  partir  do  protocolo  de  cópia  do  documento  comprobatório da comunicação aos órgãos fazendários, referido  no § 3o deste artigo. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014)  § 12. A autoridade fiscal competente poderá, a requerimento do  sujeito passivo, substituir bem ou direito arrolado por outro que  seja de valor igual ou superior, desde que respeitada a ordem de  prioridade  de  bens  a  serem  arrolados  definida  pela  Secretaria  da  Receita  Federal  do  Brasil,  e  seja  realizada  a  avaliação  do  bem arrolado e do bem a ser substituído nos termos do § 2o do  art. 64­A. (Incluído pela Lei nº 13.043, de 2014)  Art.64­A.O arrolamento de que trata o art. 64 recairá sobre bens  e  direitos  suscetíveis  de  registro  público,  com  prioridade  aos  imóveis, e em valor suficiente para cobrir o montante do crédito  tributário de responsabilidade do sujeito passivo.   Fl. 795DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 796          22 §  1o  O  arrolamento  somente  poderá  alcançar  outros  bens  e  direitos  para  fins  de  complementar  o  valor  referido  no  caput.  (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014)  § 2o Fica a critério do sujeito passivo, a expensas dele, requerer,  anualmente,  aos  órgãos  de  registro  público  onde  os  bens  e  direitos  estiverem  arrolados,  por  petição  fundamentada,  avaliação dos referidos ativos, por perito indicado pelo próprio  órgão de registro, a identificar o valor justo dos bens e direitos  arrolados e evitar, deste modo, excesso de garantia.  Entendo  que  a  conduta  fiscal  não  merece  qualquer  reparo,  pois  seguiu  as  determinações legais para a espécie.   Aliás,  os  procedimentos  lavrados  para  o  arrolamento  são  plenamente  reconhecidos pela jurisprudência dos Tribunais Superiores, a exemplo do quanto decidido em  recente manifestação do STJ:  AgRg no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 305.062 ­ RS  (2013/0054805­1)  TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO QUE OBJETIVA  CANCELAMENTO DE ATO DE ARROLAMENTO DE BENS E  DIREITOS. ART. 64 DA LEI 9.635/1997. ALEGAÇÃO DE QUE  O  CRÉDITO  TRIBUTÁRIO  EM  NOME  DO  DEVEDOR  REPRESENTA  MENOS  DE  30%  DE  SEU  PATRIMÔNIO.  AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DA ATUAL  SITUAÇÃO DA  EMPRESA. APLICAÇÃO DA SÚMULA 7/STJ.  1. É pacífico no STJ o entendimento de que o arrolamento de  bens,  instituído  pelo  art.  64  da  Lei  9.532/1997,  gera  cadastro  em  favor  do  Fisco,  destinado  apenas  a  viabilizar  o  acompanhamento  da  evolução  patrimonial  do  sujeito  passivo  da obrigação  tributária. Este último permanece no pleno gozo  dos atributos da propriedade,  tanto que os bens arrolados, por  não se vincularem à satisfação do crédito tributário, podem ser  transferidos,  alienados  ou  onerados,  independentemente  da  concordância da autoridade fazendária.   2.  Nos  termos  do  art.  64  da  Lei  n.  9.532/1997,  a  autoridade  fiscal competente procederá ao arrolamento de bens, quando o  valor  dos  créditos  tributários  da  responsabilidade  do  devedor  for  superior  a  30%  de  seu  patrimônio  conhecido,  e  tal  procedimento  só  é  exigido  da  referida  autoridade  quando  o  crédito tributário for superior a R$ 500.000,00.  3. A respeito da alegação de que a medida de arrolamento não  poderia ser decretada porque o crédito fiscal não superaria 30%  (trinta  por  cento)  do  patrimônio  da  agravante,  o  Tribunal  de  origem  consignou  que  o  balanço  patrimonial  apresentado  não  está  apto  a  demonstrar  a  atual  situação  do  patrimônio  da  empresa.  Fl. 796DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 797          23 4. Entender de forma diversa implica revolver o conteúdo fático­ probatório  dos  autos.  Incide  a  Súmula  7/STJ:  "A  pretensão  de  simples reexame de prova não enseja recurso especial."  5. Agravo Regimental não provido.  Afasto, portanto, a preliminar suscitada pela Recorrente.    3 MÉRITO  3.1 REMUNERAÇÃO DE DEBÊNTURES – DISTRIBUIÇÃO DISFARÇADA DE LUCROS  O  litígio  diz  respeito  a  auto  de  infração  no  qual  foram  glosadas  despesas,  relativas  a  remuneração  de  debêntures,  entendendo  a  autoridade  fiscal  autuante  que,  em  realidade, teria havido a distribuição disfarçada de lucros aos sócios. O enquadramento legal do  lançamento inclui, entre outros dispositivos, os arts. 464, inciso VI, 465, 466 e 467, inciso V,  todos  do  Decreto  nº  3000/1999  (Regulamento  do  Imposto  de  Renda  –  RIR/99),  a  seguir  transcritos:  Art.  464.  Presume­se  distribuição  disfarçada  de  lucros  no  negócio  pelo  qual  a  pessoa  jurídica  (Decreto­Lei  nº  1.598,  de  1977, art. 60, e Decreto­Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso II):  [...]  VI  ­  realiza  com  pessoa  ligada  qualquer  outro  negócio  em  condições  de  favorecimento,  assim  entendidas  condições  mais  vantajosas  para  a  pessoa  ligada  do  que  as  que  prevaleçam no  mercado ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros.  §3ºA prova de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa  jurídica  e  em condições  estritamente  comutativas,  ou  em que a  pessoa jurídica contrataria com terceiros, exclui a presunção de  distribuição disfarçada de lucros (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977,  art. 60, §2º).  Art. 465. Considera­se pessoa ligada à pessoa jurídica (Decreto­ Lei  nº  1.598,  de  1977,  art.  60,  §3º,  e Decreto­Lei  nº  2.065,  de  1983, art. 20, inciso IV):  I­o  sócio  ou  acionista  desta,  mesmo  quando  outra  pessoa  jurídica;  II­o administrador ou o titular da pessoa jurídica;  III­o cônjuge e os parentes até o terceiro grau, inclusive os afins,  do  sócio  pessoa  física  de  que  trata  o  inciso  I  e  das  demais  pessoas mencionadas no inciso II.  §1ºValor  de  mercado  é  a  importância  em  dinheiro  que  o  vendedor  pode  obter mediante  negociação do  bem no mercado  (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art. 60, §4º).  Fl. 797DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 798          24 §2ºO  valor  do  bem  negociado  freqüentemente  no  mercado,  ou  em bolsa, é o preço das vendas efetuadas em condições normais  de  mercado,  que  tenham  por  objeto  bens  em  quantidade  e  em  qualidade  semelhantes  (Decreto­Lei  nº  1.598,  de  1977,  art.  60,  §5º).  §3ºO  valor  dos  bens  para  os  quais  não  haja  mercado  ativo  poderá  ser  determinado  com base  em negociações anteriores  e  recentes do mesmo bem, ou em negociações contemporâneas de  bens  semelhantes,  entre  pessoas  não  compelidas  a  comprar  ou  vender  e  que  tenham  conhecimento  das  circunstâncias  que  influam de modo relevante na determinação do preço (Decreto­ Lei nº 1.598, de 1977, art. 60, §6º).  §4ºSe o valor do bem não puder ser determinado nos termos dos  §§2ºe 3ºe o  valor negociado pela pessoa  jurídica basear­se  em  laudo de avaliação de perito ou empresa especializada, caberá à  autoridade  tributária  a  prova  de  que  o  negócio  serviu  de  instrumento à distribuição disfarçada de  lucros  (Decreto­Lei nº  1.598, de 1977, art. 60, §7º).  Art. 466. Se a pessoa  ligada  for  sócio ou acionista controlador  da  pessoa  jurídica,  presumir­se­á  distribuição  disfarçada  de  lucros ainda que os negócios de que tratam os incisos I a VI do  art. 464 sejam realizados com a pessoa ligada por intermédio de  outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta  ou  indiretamente,  interesse  (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art.  61, e Decreto­Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI).  Parágrafo único.Para os efeitos deste artigo, sócio ou acionista  controlador  é  a  pessoa  física  ou  jurídica  que,  diretamente  ou  através de sociedade ou sociedades sob seu controle, seja titular  de  direitos  de  sócio  ou  acionista  que  lhe  assegurem,  de  modo  permanente,  a maioria  de  votos  nas  deliberações  da  sociedade  (Decreto­Lei  nº  1.598,  de  1977,  art.  61,  parágrafo  único,  e  Decreto­Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI).  Art.  467.  Para  efeito  de  determinar  o  lucro  real  da  pessoa  jurídica (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art. 62, e Decreto­Lei nº  2.065, de 1983, art. 20, incisos VII e VIII):  [...]  V ­ no caso do inciso VI do art. 464, as  importâncias pagas ou  creditadas à pessoa ligada, que caracterizarem as condições de  favorecimento, não serão dedutíveis.            Fl. 798DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 799          25   A matéria ora  tratada não é nova nesta Corte Administrativa. Em  relação a  essa mesma emissão de debêntures, em relação a outros anos­calendário já houve lançamentos  anteriores,  a  saber:  em  relação  ao  ano­calendário  de  2007  a  exigência  compõe  o  processo  administrativo fiscal nº 16561.720156/2012­37 e, relativamente aos anos­calendário de 2008 e  2009 o processo nº 16643.720002/2013­16. Esses dois processos foram objeto de julgamentos  em  outras  turmas  julgadores  nos  últimos meses,  tendo  o  de  número  16561.720156/2012­37  sido  julgado  pela  1ª  Turma Ordinária  da  3ª Câmara  (negado  provimento  por  unanimidade  –  Acórdão  1301­001.979  –  Relator  Conselheiro  Waldir  Veiga  Rocha)  e  o  de  número  16643.720002/2013­16  apreciado  pela  1ª  Turma  Ordinária  da  2ª  Câmara  (dado  provimento  parcial por unanimidade – Acórdão 1201­001.412 – Relator Conselheiro Roberto Caparroz de  Almeida,  e Redator Designado o Conselheiro  João Otávio Oppermann Thomé). Em  relação  a  esse  último  processo,  somente  um  conselheiro  votava  por  dar  provimento  ao  recurso  voluntário,  tendo  o  Conselheiro  Relator,  acompanhado  de  mais  um  membro  do  colegiado,  votado  por  negar  provimento  ao  recurso  voluntário.  Coube  ao  Conselheiro  João  Otávio  Oppermann Thomé redigir o voto vencedor relativo ao aproveitamento, em parte, do IRRF relativo  à remuneração paga das debêntures em questão.  O  início  do  voto  condutor  do  Acórdão  1301­001.979  relativo  à  glosa  das  despesas com remuneração de debêntures muito bem resume os contornos da lide:  A situação discutida nos autos diz  respeito à  remuneração de debêntures  iniciada  pela Recorrente em 1998, de  tal  sorte que  foi aprovada, à época, pelos  sócios da  empresa,  a  emissão  de  21.000  debêntures  não  conversíveis  em  ações,  ao  valor  unitário de R$ 1.000,00, vale dizer, no montante global de R$ 21.000.000,00.  Uma das características inusitadas da operação é o fato de que as debêntures não  possuem prazo de vencimento,  ou  seja, a obrigação a  elas  relativa permaneceria,  em favor dos adquirentes, ad infinitum.   Ademais, a remuneração dos  títulos  teria como base a participação nos  lucros da  emitente. Inicialmente, a proporção da participação era de 50%, antes da provisão  para  o  IRPJ,  posteriormente  aumentada  para  65%  e  85%,  percentual  vigente  ao  tempo dos fatos apreciados.  Parte do capital utilizado na emissão proveio dos próprios sócios da empresa, que,  sintomaticamente, também são os únicos detentores dos títulos, em razão dos quais  recebem, de forma permanente, vultosa remuneração.   Destaque­se que não houve, na operação, a participação ou o aporte de capital de  qualquer investidor externo.  Dessa  forma,  em  pouco  mais  de  um  ano  (1998  a  1999)  a  empresa  já  havia  remunerado os debenturistas em mais de 100% do capital emprestado, sendo certo  que até o momento da fiscalização (2009), os beneficiários já haviam obtido retorno  superior a 680% do capital investido, sem qualquer perspectiva de alteração, posto  que a remuneração, como mencionado, não tem prazo de encerramento.  Por força disso, o Contribuinte deduziu da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, nos  anos­calendário  de  2008  e  2009,  despesas  pagas  a  título  de  participações  de  debêntures,  nos  montantes  de  R$  22.144.505,80  e  R$  33.986.481,72,  respectivamente.   Fl. 799DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 800          26 A  autoridade  fiscal  entendeu  que  os  pagamentos  refletiam,  de  fato,  transferência  indevida  do  resultado  da  empresa  para  as  pessoas  físicas  que  a  controlam,  com  redução  da  carga  tributária  incidente  sobre  o  lucro,  em  condições  de  favorecimento.  Na tabela elaborada pela autoridade fiscal autuante à fl. 433 consta o valor da  remuneração  acumulada  relativa  às  debêntures  (considerado  como  valor  distribuído  pela  autoridade  autuante),  demonstrando  que  em  13  anos  o  retorno  acumulado  foi  de  784,47%,  tendo  sido  distribuído  no  ano­calendário  objeto  do  lançamento  (2010)  o  total  de  R$  21.797.992,22:    No que tange à dedutibilidade da remuneração das debêntures, entendo que o  entendimento firmado em ambos os julgados citados não merece reparo: restou caracterizada a  distribuição  disfarçada  de  lucros  em  razão  da  realização  de  negócios  em  condições  de  favorecimento à pessoa ligada, ou seja, em condições mais vantajosas para a pessoa ligada  do que aquelas que prevaleceriam no mercado.  A  respeito  das  debêntures  e  de  suas  características,  entendo  ser  necessário  tecer alguns comentários preliminares.  A equipe de professores da FIPECAFI, na obra Manual de Contabilidade das  Sociedades por Ações, esclarece que "as debêntures são  títulos, normalmente a  longo prazo,  emitidos  pela  companhia  com  garantia  de  certas  propriedades,  bens  ou  aval  do  emitente".  Segundo os mesmos autores, as debêntures fornecem para a companhia recursos a longo prazo  para  financiar  a  sua  atividade.  Esclarecem,  ainda,  que  as  debêntures,  geralmente,  concedem  juros  fixos  ou  vedáveis,  podendo,  também,  conceder  participação  no  lucro  da  companhia  e  prêmio de reembolso.  A AMBIMA ­ Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro,  em material disponibilizado no sitio eletrônico1, esclarece que:   As  debêntures  são  valores mobiliários  de  renda  fixa  que  podem  ser  emitidos  por  sociedades  por  ações,  de  capital  aberto  ou  fechado.  Entretanto,  para  que  sejam                                                              1 Disponível em: <http://www.debentures.com.br/espacodoinvestidor/introducaoadebentures.asp> Acesso em: 15  jul 2016.  Fl. 800DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 801          27 distribuídas  publicamente,  devem  ser  emitidas  por  companhias  de  capital  aberto,  com prévio registro na CVM – Comissão de Valores Mobiliários. Há duas  formas  de  debêntures:  nominativas  ou  escriturais.  Quanto  à  classe,  podem  ser  simples,  conversíveis  ou  permutáveis.  Já  no  que  diz  respeito  à  garantia,  podem  ter  as  seguintes classificações: real, flutuante, quirografária ou subordinada.  Esses  títulos  dão  aos  seus  detentores  um  direito  de  crédito  sobre  a  companhia  emissora  e possuem características particulares de prazo  e  rentabilidade,  sempre  definidas  em  sua  escritura  de  emissão.  As  escrituras  são  os  documentos  mais  importantes  das  emissões  de  debêntures.  Nelas,  estão  descritas  todas  as  características do papel: valor nominal; indexador pelo qual o valor é atualizado;  prazo; forma de cálculo; rentabilidade proposta pelo emissor; fluxo de pagamento;  e condições que devem ser obedecidas pela companhia emissora ao longo da vida  útil do ativo. [grifos nossos]  De  acordo  com  Roberto  Barcelos  de  Magalhãeas2,  "as  debêntures  são  obrigações  representativas  de  parcelas  de  um  único  empréstimo  tomado  por  sociedade  anônima."  Rubens Requião, comentando acerca de debêntures, afirma:  As  debêntures,  também  chamadas  obrigações  ao  portador,  são  títulos  de  crédito  causais,  que  representam  frações  do  valor  de  contrato  de  mútuo,  com  privilegio  geral sobre os bens sociais ou garantia real sobre determinados bens, obtidos pelas  sociedades anônimas no mercado de capitais. A fim de evitar os inconvenientes de  pequenos  e  constantes  financiamentos  a  curto  prazo  e  a  juros  altos,  no mercado  financeiro, as sociedades por ações têm a faculdade exclusiva de obter empréstimos,  tomados  ao  público  a  longo  prazo  e  a  juros mais  compensadores,  inclusive  com  correção monetária, mediante resgate a prazo fixo ou em sorteios periódicos.   J. X. Carvalho de Mendonça3, assim se refere às debêntures:  Essa  operação  a  que  recorrem  as  sociedades  anônimas,  é,  como  dissemos,  um  empréstimo; é o contrato de mútuo, que se distingue do simples mútuo, definido no  art.  247  do  Código  Comercial,  pela  divisão  da  quantia  mutuada  em  frações,  expressa  por  títulos  ao  portador,  títulos  de  crédito  negociáveis,  e  pelo  processo  especial  de  amortização,  isto  ê,  do  reembolso  gradual  do  capital  da  divida  por  parcelas mínimas, em regra, durante longo prazo....  Ainda  em  conformidade  com  o  autor  (J.  X.  Carvalho  de  Mendonça),  "o  empréstimo  é  contrato  real;  não  existe  sem  a  quantia  que  a  sociedade  deseja  mutuar  seja  materialmente  paga  ou  encaixada.  Deve  ser  realizado  em  dinheiro  e  nesta  espécie  resgatável.  Não  se  compreenderia  empréstimo  sem  prestação  de  capitais.  Se  a  emissão não tem esse intuito, é nula". [grifos nossos]  No que se refere à remuneração da debênture, Modesto Carvalhosa4, embora  reconheça  que  a  legislação  não  o  diga  expressamente,  defende  que  são  os  juros  a  sua  remuneração natural:                                                              2 MAGALHÃES, Roberto Barcellos de, Lei das S/A: comentários por artigo ­ 2 ed. Rio de Janeiro: Freitas  Bastos, 1997, p. 245.  3 MENDONÇA, Jose Xavier Carvalho de, Tratado de Direito Comercial Brasileiro, Vol. II, Tomo III, Campinas:  Bookseller, 2001.  Fl. 801DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 802          28 O  caráter  facultativo  da  norma  permite  a  atribuição  de  outras  vantagens  remuneratórias  complementares,  que  façam  as  debêntures atrativas e com melhor colocação no mercado.  Fica  então  reafirmado  o  principio  da  onerosidade  e  comercia/idade  da  debênture,  que  não  poderá  deixar  de  oferecer  vantagem  pecuniária, compativelmente remuneratória do capital mutuado.  Faculta  a  Lei  de  1976  que,  além  dos  juros,  poderá  a  escritura  de  emissão  estabelecer  outras  vantagens,  como  a  participação  nos  lucros  e prêmios,  notadamente de  reembolso. A alusão a  juros  variáveis  constitui  acessório  do  juro  fixo  estabelecido, consubstanciados aqueles  na aceitação, pela  comunhão de debenturistas, de vantagens adicionais aos  juros prefixados, quando  da colocação de novas séries, ou de debêntures em tesouraria.  Assim  os  juros  fixos  constituem  a  remuneração  básica  e  indeclinável  das  debêntures, sendo as demais modalidades acessórias daqueles, como a participação  nos lucros da companhia e/ou o prêmio de reembolso.  E,  dentre  essas  vantagens  adicionais  aos  juros  fixos,  poderá  a  companhia emissora oferecer preferência aos  tomadores na aquisição de bens, na  prestação  de  serviços  ou  na  aquisição  de  direito,  sempre  visando  tornar  mais  atrativa e competitiva a colocação das debêntures no mercado.  Os  juros  constituem,  como  referido,  a  forma  necessária  de  remuneração  dos  recursos  emprestados  pelos  debenturistas  companhia.  Sendo  a  remuneração  própria do capital mutuado, os juros serão sempre devidos. [grifos nossos]  Do  visto  neste  tópico,  resta  claro  que,  em  sua  essência,  a  debênture  corresponde a um contrato de mútuo, ou seja,  trata­se de um empréstimo de médio ou  longo  prazo, remunerado com juros mais favoráveis em relação ao mercado financeiro, tomado pela  companhia emissora junto a particulares.  Analisando a operação em questão entendo que não se pode compará­la com  operações  típicas  envolvendo  debêntures,  tratando­se,  a  bem  da  verdade,  de  operação  absolutamente  artificial  cujo  propósito  foi,  exclusivamente,  diminuir  as  bases  de  cálculo  de  IRPJ e de CSLL, reduzindo em 34% do valor da remuneração paga o valor a recolher de IRPJ  de CSLL, substituindo­os por uma tributação exclusiva na fonte de 20% de imposto de renda.  De  igual  forma,  não  se  pode  olvidar  que  o  contribuinte  tem  o  direito  de  estruturar o seu negócio de maneira que melhor lhe convém, com vistas à redução de custos e  despesas,  inclusive à  redução dos  tributos, sem que  isso  implique, necessariamente, qualquer  ilegalidade.  Entretanto,  o  que  não  se  admite  atualmente  é  que  os  atos  e  negócios  praticados  se  baseiem  numa  aparente  legalidade,  sem  qualquer  finalidade  empresarial  ou  negocial,  para  disfarçar  o  real  objetivo  da  operação,  quando  unicamente  almeje  reduzir  o  pagamento de tributos.   Nesse  sentido,  colacionam­se  a  seguir  os  ensinamentos  de  Marco  Aurélio  Greco5:                                                                                                                                                                                           4 CARVALHOSA, Modesto; Comentários à Lei das Sociedades Anônimas, 2002, Editora Saraiva, vol.1, p. 647.  5 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 198­208.  Fl. 802DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 803          29 ... a pergunta que se põe é: admitida a existência do direito de o  contribuinte organizar a sua vida, este direito pode ser utilizado  sem quaisquer restrições? Ou seja, tal direito é ilimitado? Todo  e  qualquer  “planejamento”  é  admissível?  Minha  resposta  é  negativa. (pág. 190)  Ou seja, cumpre analisar o tema do planejamento tributário não  apenas  sob  a  ótica  das  formas  jurídicas  admissíveis,  mas  também  sob  o  ângulo  da  sua  utilização  concreta,  do  seu  funcionamento  e  dos  resultados  que  geram  à  luz  dos  valores  básicos de igualdade, solidariedade social e justiça. (pág. 202)  [...]  com  o  advento  do  Código  Civil  de  2002  a  questão  ficou  solucionada,  pois  seu  artigo  187  é  expresso  ao  prever  que  o  abuso de direito configura ato ilícito:  Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que,  ao exercê­lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu  fim  econômico  ou  social,  pela  boa­fé  ou  pelos  bons  costumes.  (pág. 206)  No Brasil, entendo que esta possibilidade de recusa de tutela ao  ato  abusivo  (mesmo  antes  do  Código  Civil  de  2002)  encontra  base  no  ordenamento  positivo,  por  decorrer  dos  princípios  consagrados  na Constituição  de  1988  e  da  natureza  da  figura.  Porém,  a  atitude  do  Fisco  no  sentido  de  desqualificar  e  requalificar  os  negócios  privados  somente  poderá  ocorrer  se  puder  demonstrar  de  forma  inequívoca  que  o  ato  foi  abusivo  porque  sua  única  ou  principal  finalidade  foi  conduzir  a  um  menor pagamento de imposto.  Esta  conclusão  resulta  da  conjugação  dos  vários  princípios  acima expostos e de uma mudança de postura na concepção do  fenômeno  tributário  que  não  deve mais  ser  visto  como  simples  agressão ao patrimônio individual, mas como instrumento ligado  ao princípio da solidariedade social. (pág. 208)  Em  suma,  não  há  dúvida  de  que  o  contribuinte  tem  o  direito,  encartado  na  Constituição  Federal,  de  organizar  sua  vida  da  maneira  que  melhor  julgar.  Porém,  o  exercício  deste  direito  supõe  a  existência  de  causas  reais  que  levem  a  tal  atitude.  A  auto­organização  com  a  finalidade  predominante  de  pagar  menos  imposto  configura  abuso  de  direito,  além  de  poder  configurar  algum  outro  tipo  de  patologia  do  negócio  jurídico,  como, por exemplo, a fraude à lei. (pág. 228)  Nota­se,  assim,  que  o  direito  ao  planejamento  tributário  não  pode  ser  absoluto,  há  que  haver  uma  conformação  entre  a  existência  do  direito  e  o  modo  como  se  exerceu esse direito, sob pena de incorrer­se em abuso de direito.  Fl. 803DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 804          30 Ricardo  Lobo  Torres,  a  esse  respeito,  esclarece  que  “a  proibição  da  elisão  abusiva  no  campo  tributário  nada  mais  é  que  a  especificação  do  princípio  geral,  jurídico  e  moral, da vedação do abuso de direito”.6  A tributação, historicamente, sempre contou com a rejeição do povo. Esse o  motivo em função do qual foi fixada, em 1215, a limitação à tributação pela lei. Na Inglaterra  de então, os barões e os religiosos procuraram conter o arbítrio do Rei, fixando que não haveria  tributação sem lei que a estabelecesse. Mais adiante, a Constituição Norte­Americana de 1787  e  a Declaração  dos Direitos  do Homem  e  do Cidadão  de  1789  reprisaram  a  limitação.  Essa  perspectiva, entretanto, sofreu alteração ao longo do tempo. Hoje, a tributação não é mais uma  concessão da  sociedade  em  favor do Estado, mas um  instrumento da  sociedade que  tem por  finalidade manter uma máquina pública  estruturada em  favor da própria  sociedade. Esse  é o  sentido  do  dever  fundamental  do  indivíduo  de  recolher  os  tributos  devidos.  Confira­se,  a  respeito,  o  pensamento  de  Klaus  Tipke  (“Justiça  Fiscal  e  Princípio  da  Capacidade  Contributiva”, Douglas Yamashita, São Paulo, Malheiros, 2002, pág. 13):  O dever de pagar impostos é um dever fundamental. O imposto  não  é  meramente  um  sacrifício,  mas  sim  uma  contribuição  necessária  para  que  o  Estado  possa  cumprir  suas  tarefas  no  interesse do proveitoso convívio de todos os cidadãos. O Direito  tributário  de  um  Estado  de  Direito  não  é  Direito  técnico  de  conteúdo qualquer, mas ramo jurídico orientado por valores. O  direito  Tributário  afeta  não  só  a  relação  cidadão/Estado,  mas  também a relação dos cidadãos uns com os outros. É um direito  da coletividade.  A Constituição Federal  de 1988 caminhou no  sentido defendido por Tipke,  quando  afirma  no  seu  art.  1º  que  a  República  Federativa  do  Brasil  constitui­se  em  Estado  Democrático  de  Direito  e  estipula  como  seus  fundamentos  a  soberania,  a  cidadania,  a  dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo  político.  A  atividade  produtiva  deve  cumprir  o  seu  papel  social  de  importância  ao  desenvolvimento do país e de fonte de manutenção dos membros da sociedade, mas sem que se  sobreponha à cidadania e a dignidade humana.  O art. 3º da Constituição estipula como objetivos fundamentais da República  Federativa  do  Brasil  a  construção  de  uma  sociedade  livre,  justa  e  solidária,  a  garantia  do  desenvolvimento  nacional,  a  erradicação  da  pobreza  e  a  marginalização  e  a  redução  das  desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem,  raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.  Para  o  atingimento  desses  objetivos  é  de  suma  importância  os  recursos  oriundos  da  tributação,  daí  que  não  se  pode  admitir  o  planejamento  tributário  lastreado  exclusivamente na liberdade negocial e no respeito às formas, mas com mascaramento dos atos  e negócios praticados para disfarçar o real objetivo da operação, unicamente para se esquivar  do pagamento dos tributos.  O pagamento de tributos é a contrapartida à proteção estatal que cada cidadão  aspira. Ele tem muita importância para a coletividade e, por isso, pode ser exigido. Não se pode  ter  uma  fixação  por  direitos,  sob  o  aspecto  individualista,  esquecendo­se  dos  deveres,  que                                                              6  LOBO TORRES, Ricardo.  Planejamento Tributário. Elisão  abusiva  e  evasão  fiscal. Rio  de  Janeiro:  Elsevier,  2012, p. 20.  Fl. 804DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 805          31 também são importantes e que cada cidadão deve cumprir em função da posição que ocupa na  sociedade.  Cabível  assentar,  também,  que  a  orientação  constitucional  e  jurisprudencial  antes  referida  não  representa  novidade  em  termos  internacionais.  Nos  Estados  Unidos  da  América, meca do capitalismo e do liberalismo, a Suprema Corte, ao apreciar o caso Gregory  v. Helvering, já em 1935, reconheceu o direito de planejamento do contribuinte, mas afastou a  licitude  de  operações  societárias  nas  quais  presente  choque  entre  a  realidade  e  o  artifício  formal. Daquele julgado, que tratou de pretensa operação societária isenta do imposto de renda,  colhe­se o seguinte excerto da decisão (“Interpretação Econômica do Direito Tributário: o caso  Gregory v. Helvering e as doutrinas do propósito negocial (business purpose) e da substância  sobre a forma (substance over form)”, Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy, Revista Fórum de  Direito Tributário, Belo Horizonte, nº 43, págs. 55 a 62):  Nessas  circunstâncias,  os  fatos  falam  por  eles  mesmos  e  permitem  apenas  uma  única  interpretação.  O  único  empreendimento, embora conduzido nos termos do  item “b” da  seção  112,  fora  de  fato  uma  forma  elaborada  e  errônea  de  transposição  simulada  como  reorganização  societária,  e  nada  mais.  A  regra  que  exclui  de  consideração  o  motivo  da  elisão  fiscal  não  guarda  pertinência  com  a  situação  presente,  porquanto  a  transação  em  sua  essência  não  é  alcançada  pela  intenção  pura  da  lei.  Sustentar­se  de  outro  modo  seria  uma  exaltação  do  artifício  em  desfavor  da  realidade,  bem  como  retirar da previsão legal em questão qualquer propósito sério. É  mantido o julgamento de segunda instância.  Marco  Aurélio  Greco  assevera  ainda  que  “nem  tudo  o  que  é  lícito  é  o  honesto” e que o “o ordenamento jurídico não se resume à legalidade; ele contempla também  mecanismos em última análise de neutralização de esperteza”, fazendo   parte  daquilo  que  Tércio  Sampaio  Ferraz  Júnior  denomina  de  regras de calibração do ordenamento. Ou seja, os textos legais  dão  as  peças  do  sistema  jurídico,  mas  para  que  funcionem  coordenadamente  precisam  ser  calibradas,  ajustadas.  7  (grifo  nosso)  Sobre o tema, Ricardo Lobo Torres conclui que   No direito tributário o mais  importante para a Administração é  requalificar o ato abusivo, sem anulá­lo em suas consequências  no plano das relações comerciais ou trabalhistas.[...] Na elisão,  afinal de contas, ocorre um abuso na subsunção do fato à norma  tributária;  como  lembra Paul Kirchhof,  a  elisão  é  sempre  uma  subsunção  malograda  [...]  Cabe  à  Administração  Tributária,  conseguintemente,  corrigir  a  subsunção  malograda,  requalificando o fato de acordo com a interpretação correta da  regra de incidência. 8  Discorrendo sobre o tema planejamento tributário, Greco assim se manifesta:                                                              7 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 231.  8  LOBO TORRES, Ricardo.  Planejamento Tributário. Elisão  abusiva  e  evasão  fiscal. Rio  de  Janeiro:  Elsevier,  2012, p. 25.  Fl. 805DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 806          32 Recordando:  na  primeira  fase,  predomina  a  liberdade  do  contribuinte  de  agir  antes  do  fato  gerador  e  mediante  atos  lícitos, salvo simulação; na segunda fase do ainda predomina a  liberdade de agir antes do fato gerador e mediante atos lícitos,  porém  nela  o  planejamento  é  contaminado  não  apenas  pela  simulação,  mas  também  pelas  outras  patologias  do  negócio  jurídico, como o abuso de direito e a fraude à lei.  Na  terceira  fase,  acrescenta­se  um  outro  ingrediente  que  é  o  princípio da capacidade contributiva que – por ser um princípio  constitucional  tributário – acaba por eliminar o predomínio da  liberdade, para temperá­la com a solidariedade social inerente à  capacidade contributiva. 9 (grifo nosso)  Salienta  ainda  o  doutrinador  que  a  capacidade  contributiva  é  uma  norma  programática “possuindo caráter positivo em todos os momentos da atividade de concreção dos  preceitos constitucionais: legislação, execução e jurisdição. É a afirmação de que a eficácia  jurídica alcança os intérpretes e aplicadores do Direito e não apenas o legislador” 10. (grifo  nosso) Acrescenta ainda que se trata de instrumentos de controle do abuso de direito, fraude à  lei e outras patologias dos negócios jurídicos, uma vez que negariam a eficácia de regramentos  constitucionais.11  O Supremo Tribunal Federal  já vêm se manifestando nesse sentido, como é  possível observar no voto do Ministro Carlos Velloso no julgamento do RE nº 227.832­1 DJ de  28.06.2002), cujo excerto transcreve­se a seguir:  [...]  a  interpretação  puramente  literal  e  isolada  do  §3º  do  art.  155  da  Constituição  Federal  levaria  ao  absurdo,  conforme  linhas atrás registramos, de ficarem excepcionadas do princípio  inscrito  no  art.  195,  caput,  da  mesma  Carta  –  “a  seguridade  social  será  financiada por  toda  a  sociedade,  de  forma direta  e  indireta,  nos  termos  da  lei...”  –  empresas  de  grande  porte,  as  empresas  de  mineração,  as  distribuidoras  de  derivados  de  petróleo,  as  distribuidoras  de  eletricidade  e  as  que  executam  serviços  de  telecomunicações  –  o  que  não  se  coaduna  com  o  sistema  da  Constituição,  e  ofensiva,  tal  modo  de  interpretar  isoladamente  o  §  3º  do  art.  155,  a  princípios  constitucionais  outros, como o da igualdade (C.F., artigo 5º e artigo 150, II) e  da capacidade contributiva.  A respeito da colisão entre liberdade de iniciativa e solidariedade, Greco, em  excepcional análise sobre o tema, conclui:  [...] quando se diz que é preciso tributar segundo a capacidade  contributiva,  também  é  preciso  ponderar  não  ser  adequado  transformar  a  capacidade  contributiva  num valor  absoluto  que  atropele a legalidade e a tipicidade. [...]  Minha  concepção  ideológica  é  de  que  sempre  haverá  de  ponderar  os  dois  conjuntos  de  valores;  ou  seja,  para  mim  o  ponto de partida é o de que ambos devem estar sentados à mesa                                                              9 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 319.  10 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 343.  11 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 344.  Fl. 806DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 807          33 para dialogar. Vale dizer, não é a rigor um “ponto” de partida,  mas uma “dualidade” de partida. Não há caso que não envolva  dois  tipos  de  valores.  Isso  está  escrito  com  todas  as  letras  no  artigo  3º,  I,  da  Constituição  de  1988  –  quando  formula  os  objetivos do Estado brasileiro – ao estabelecer que um deles é o  de construir uma sociedade livre, justa e solidária. Formulação  linguística  muito  feliz,  pois  coloca  numa  ponta  a  liberdade  (típica do Estado de Direito) e, na outra ponta, a solidariedade  (típica do Estado Social) e entre elas a justiça que resultará da  ponderação das duas. Ou seja, só vamos ter justiça se e quando  houver ponderação entre os valores liberdade e solidariedade. 12  (grifo nosso)  Portanto, o procedimento adotado pela autoridade fiscal encontra­se em total  sintonia  com  os  princípios  da  legalidade  e  da  livre  iniciativa,  encontrando  eco  não  só  na  doutrina, mas também na jurisprudência, inclusive do Pretório Excelso. Também não há que se  falar  em  desconsideração  da  personalidade  jurídica  ou  de  atos  jurídicos.  O  que  houve,  na  prática,  foi  uma  requalificação  dos  atos  realizados  pelo  contribuinte,  prática  adotada  como  regra de calibração do sistema (conforme Tércio Sampaio Ferraz Júnior), ou de “neutralização  de esperteza”, nas palavras de Marco Aurélio Greco.  Portanto, as alegações da RECORRENTE quanto à ausência de normas para  o  procedimento  adotado  pela  fiscalização,  ou  possíveis  infringências  da  autoridade  fiscal  ao  princípio da legalidade, mostram­se superadas, quer pela doutrina, quer pela jurisprudência do  Pretório Excelso. Também não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica ou  de  atos  jurídicos.  O  que  houve,  na  prática,  foi  uma  requalificação  dos  atos  realizados  pelo  contribuinte, prática adotada como regra de calibração do sistema (conforme Tércio Sampaio  Ferraz Júnior), ou de “neutralização de esperteza”, nas palavras de Marco Aurélio Greco.  A  fim  ainda  de  evitar  maiores  questionamentos,  devemos  responder  se  é  necessária a descrição do conceito  jurídico em que se enquadram determinados  fatos. Marco  Aurélio Greco assim expôs sobre o tema:  [...]  o  foco  da  prova  neste  campo  não  é  determinado  conceito  jurídico  que  expresse  uma  patologia  do  negócio  jurídico.  Ou  seja,  o  foco  da  prova  no  planejamento  tributário  não  é  a  simulação, a fraude à lei ou o abuso em si mesmos considerados.  O reconhecimento da existência de um caso de simulação, fraude  ou  abuso  será  decorrência  de  uma  prova  anteriormente  produzida que estará focada no caso em si, naquilo que ocorreu  em função da conclusão que se extrair a partir disto, então, será  possível  afirmar  ter  ou  não  ocorrido  a  patologia  do  negócio  jurídico.  Por  isso, pouco ajuda  iniciar o debate sobre a prova pensando  numa  das  patologias.  Ao  contrário,  pensar  nelas  ofusca  a  análise  e  lança  na  bruma  exatamente  aquilo  que  deve  ser  o  núcleo da preocupação nessa análise. Em suma, o tema da prova                                                              12 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. São Paulo: Dialética, 2011, p. 53­54.  Fl. 807DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 808          34 no planejamento tributário não é um debate “conceitual” ligado  às patologias. 13 (grifo nosso)  [..]  Provar o que não está escrito  O primeiro ponto sensível é  ter bem nítido que aquilo que deve  ser  provado  é  que  não  está  escrito.  Objeto  da  prova  no  planejamento tributário transcende o texto escrito. 14  [...]  Provar o ocorrido  O  segundo  ponto  consiste  em  determinar  o  que  ocorreu,  se  aquilo descrito no texto ou se outro evento.  A  prova  direta  de  que  teria  ocorrido  evento  diverso  daquele  descrito no texto raramente existe. É uma exceção. Pode existir a  prova  direta  de  alguns  elementos  ou  aspectos  de  algo  mais  amplo, mas a prova do planejamento tributário realizado se dá,  como  regra,  através  do  exame  do  conjunto  de  elementos  que  cercam o caso. 15  Manifestar vontade sem escrever  [...]  No planejamento, busca­se provar certa operação ou negócio, o  que envolve identificar a vontade manifestada pelas partes.  Ocorre que a  vontade pode  ser manifestada  tanto pela palavra  escrita,  como  pela  conduta  humana.  O  agir,  independente  de  estar acompanhado de palavras, é uma forma suficiente de o ser  humano  manifestar  sua  vontade.  Portanto,  se  a  prova,  neste  campo,  visa  demonstrar  algo  que  não  está  escrito  –  mas  que  corresponda  à  manifestação  de  vontade  das  partes  –  assume  relevância a identificação do agir das partes.   [...]  Ou  seja,  a  somatória  de  escritos  e  condutas  pode  adquirir  um  perfil não coincidente com o texto escrito a denotar a existência                                                              13  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 191.  14  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 194.  15  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 194.  Fl. 808DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 809          35 de  uma  intenção  que  consubstancia  manifestação  de  vontade  diferente daquela que resultar apenas do texto. 16  Conflito de qualificações  [...]  A experiência jurídica apresenta muito frequentemente situações  em que há conflitos de qualificação; vale dizer, em que distintas  pessoas enquadram os mesmos fatos em categorias distintas. Isto  é facilmente identificado na jurisprudência do Supremo Tribunal  Federal  e  do  Superior  Tribunal  de  Justiça  naquilo  que  é  denominado  de  “qualificação  ou  valoração  jurídica  de  fato  certo”. São casos em que, apesar de o Tribunal não poder rever  a prova dos fatos, assume serem eles certos, mas reconhece que  as  partes  não  estão  discutindo  sobre  a  existência  do  fato,  mas  sobre a sua valoração ou qualificação. 17  Comportamento concludente  Na medida em que o foco da análise abrange o que está escrito,  mas  também  as  condutas  realizadas,  assume  relevância  o  denominado  “comportamento  concludente”,  que  corresponde  à  ação  que  denota  certa manifestação  de  vontade  ainda  que  não  expressa em palavras.  Esta ideia não é original; está subjacente ao preceito do Código  Comercial  que,  apesar  de  ter  sido  revogado,  permanece  como  critério  de  interpretação.  Trata­se  do  artigo  131.3  que  previa  claramente  que  “o  fato  dos  contraentes  posterior  ao  contrato,  que  tiver  relação  com  o  objeto  principal,  será  a  melhor  explicação  da  vontade  que  as  partes  tiverem  no  ato  de  celebração do mesmo contrato”.  Vale dizer, para bem explicar qual o sentido do contrato, cumpre  verificar como as partes se comportaram, que ação realizaram,  pois  esta  deve  estar  em  sintonia  com  o  negócio  jurídico  celebrado  e,  se  houver  discrepância  entre  o  texto  escrito  e  o  comportamento,  “a  melhor  explicação”  é  a  que  resulta  deste  comportamento e não do que foi escrito pelas partes.  Este  mesmo  entendimento  se  extrai  do  artigo  112  do  Código  Civil, ao acentuar que a literalidade das palavras não é decisiva  quando  for  possível  identificar  a  intenção  consubstanciada  no  texto, o que se dá verificando o comportamento realizado pelas  partes. 18                                                              16  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 196.  17  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 197.  18  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 199.  Fl. 809DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 810          36 Exame do contexto  Examinar  o  contexto  da  operação  realizada  implica  examinar  seus  antecedentes  e  consequentes,  onde  se  encontram,  respectivamente  o  motivo  e  a  finalidade  do  ato  ou  negócio.  Motivo da operação deve ser uma razão prévia e real, enquanto  finalidade da operação deve predominantemente não tributária.  Sublinhe­se que esta finalidade (ou a intenção acima referida) é  a objetiva, que resulta dos fatos e das condutas; não se trata de  uma  finalidade  ou  intenção  subjetiva  que  estaria  na mente  das  pessoas.  Motivo  que  não  seja  real  e  prévio  à  operação,  assim  como  finalidade exclusiva ou predominantemente tributária são razões  que  fragilizam,  ou  mesmo  contaminam,  planejamentos  tributários feitos. 19  Distribuição do ônus da prova  Em operações  de  planejamento  tributário,  contribuinte  e  Fisco  podem ser chamados a prova fatos relevantes para a conclusão  que postulam.  Do lado do contribuinte, na medida em que motivo e  finalidade  passam a ser relevantes para a oponibilidade da operação e de  seus efeitos ao Fisco, dele espera­se uma justificativa do porquê  e  do  para  quê  realizou  a  operação.  Se  o  contribuinte  não  justificar o que fez, isto não é suficiente para autorizar o Fisco a  cobrar, mas  sua  posição  na  discussão  se  fragiliza  pois,  se  não  explica  o  motivo  e  a  finalidade,  abre­se  maior  espaço  para  o  Fisco caminhar na construção da sua qualificação dos fatos.  Como provar  [...]  a  falta  de  inerência,  de  relevância  (entre  motivo  e  operação),  ou  a  falta  de  pertinência  (entre  operação  e  finalidade)  bem  como  a  falta  de  congruência  entre  os  três  elementos  é  um  indicador  de  a  operação  apresentada  pelo  contribuinte  não  ser  aquela  que  resulta  dos  textos  e  das  condutas, mas  o que  realmente  existiu  foi  outra  operação,  esta  sim  que  atende  a  outra  estrutura  de  inerência,  relevância,  pertinência e congruência. 20  Portanto,  vê­se  com  cristalina  clareza  que  o  mais  importante  é  a  correta  descrição  dos  fatos  e  não  sua  qualificação.  Nesse  aspecto,  a  Fiscalização  foi  exemplar:  preocupou­se mais com os fatos efetivamente ocorridos do que com sua qualificação jurídica.  E  isso,  repise­se,  em  nada  prejudicou  a  RECORRENTE,  que  pôde  se  defender  de  todos  os  pontos abordados na autuação.                                                              19  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 200.  20  GRECO,  Marco  Aurélio.  A  Prova  no  Planejamento  Tributário.  In:  NEDER,  Marcos  Vinícius,  DINIZ  DE  SANTI, Marcos e FERRAGUT, Maria Rita (coords). A Prova no Processo Tributário. São Paulo, Dialética, 2010,  p. 201.  Fl. 810DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 811          37   Retornando  ao  caso  concreto,  ressalta  aos  olhos  o  posicionamento  artificial  da Recorrente em face das leis de regência de cunhos societário e fiscal.   Não se pode classificar como usual o comprometimento de 85% do resultado  da  pessoa  jurídica,  ainda  mais  em  operação  que,  em  tese,  perpetua  tal  comprometimento,  mediante  remuneração  a  debenturistas  sem  termo  definido.  Trata­se,  a  toda  evidência,  de  operação  cujo  único  objetivo  foi  o  de  transferir  aos  titulares  valores  que,  de  outra  forma,  deveriam primeiro ser tributados, tanto a título de IRPJ como de CSLL, ou, em outras palavras,  transformou­se  o  que  seria  despesa  indedutível  (distribuição  de  lucros)  em  despesas  que  supostamente afetam o resultado tributável do período (remuneração de debêntures). Tudo isso  por meio de operação absolutamente artificial, o que não mais se admite atualmente.  No que diz respeito aos argumentos dos Recorrentes de que a operação teria  sido  usual  e  o  montante  empregado  na  capitalização  da  empresa,  especialmente  para  a  aquisição da Pro Matre Paulista S.A., outra sorte não lhes se socorre. Isso porque tal aquisição  ocorreu logo após a emissão das debêntures e, ainda assim, uma década após isso, remanesceu  a obrigação de remunerar os sócios.   Caso o objetivo dos Recorrentes  realmente  fosse o de capitalizar a empresa  para essa aquisição específica, o resgate dos títulos já deveria ter sido feito, até porque restou  comprovado que o capital dos sócios foi remunerado, em uma década, em mais de 780%, o que  não parece razoável, tampouco se encontra dentro dos parâmetros de mercado.  Também não há de se falar em comparação com taxas de juros e outros tipos  de remuneração de mercado, haja vista que, conforme já esclarecido, o cerne da questão não é  o  retorno  financeiro  em  si,  mas  o  fato  de  que  a  operação  ter  sido  realizada  de  modo  absolutamente  artificial,  em  evidente  benefício  dos  sócios  às  custas  da  minoração  da  carga  tributária que efetivamente a pessoa jurídica deveria suportar.  No mais,  corroboro  o  entendimento  firmado  pelo  Conselheiro  João Otávio  Oppermann  Thomé  no  que  diz  respeito  à  desconsideração  da  operação  como  um  todo,  implicando,  por  conseguinte,  a  dedutibilidade  de  parte  do  imposto  de  renda  na  fonte  retido  quando da ocasião do pagamento da remuneração das debêntures. Peço então vênia ao ilustre  Conselheiro a fim de adotar como razões de decidir o fundamento de seu voto:  Inicialmente,  há  que  se  ressaltar  que,  em  face  de  todos  os  elementos  de  atipicidade  e  anormalidade  que  cercaram  a  operação  envolvendo  a  utilização  das  debêntures  aqui discutidas, todos já devidamente destacados pelo ilustre relator no seu voto, também reputo  estar suficientemente demonstrado que houve artificialismo na operação.  De forma muito sucinta, apenas para rememorar, os enumero, sendo que os  elementos a seguir devem ser evidentemente analisados em seu conjunto, como, aliás, sempre  tem  sido  feito  pelo  CARF  em  situações  assim,  uma  vez  que,  se  isoladamente  considerados,  nenhum  deles  talvez  configurasse  uma  expressa  violação  à  lei:  (i)  debêntures  sem  prazo  de  vencimento; (ii) remuneração das debêntures apenas com base em participação nos lucros; (iii)  elevado percentual de comprometimento dos  lucros com a  remuneração das debêntures  (85%  nos anos em litígio); (iv) emissão privada de debêntures, com subscrição exclusivamente pelos  sócios; (v) elevadíssimo retorno financeiro aos beneficiários das debêntures  (superior a 680%  do capital investido, entre a data da emissão das debêntures, em 1998, e a da fiscalização, em  2009).  Fl. 811DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 812          38 De fato, em situações como esta, o CARF tem sistematicamente rechaçado a  dedutibilidade fiscal das  remunerações pagas, sendo este  também o meu entendimento acerca  da questão, conforme já por mim externado em outros julgamentos tratando desta matéria.  Durante o julgamento na  sessão de abril,  foi arguido que não seria correto  falar  em  artificialidade  da  operação,  uma  vez  que  a  acusação  fiscal  não  contemplara  tal  denominação, nem tampouco qualificara a multa de ofício aplicada.  Que  não  houve  qualificação  da multa  de  ofício,  dúvidas  não  há. Contudo,  apesar  de  não  ter  qualificado  a  multa  de  ofício,  a  leitura  atenta  e  completa  do  Termo  de  Verificação Fiscal (TVF) permite concluir, com segurança, que a autoridade fiscal descreveu,  de forma compreensiva, uma operação artificial, maquiada ou ardilosamente engendrada, com a  precípua  ou  única  finalidade  de  indevidamente  suprimir  tributos,  pelo  que  não  procede  o  argumento trazido a debate.  Para não estender em demasia  esta análise,  transcrevo apenas os  seguintes  parágrafos  do  TVF,  alguns  dos  quais,  aliás,  também  já  foram  transcritos  pelo  ilustre  relator  (grifei):  Fica  evidente,  assim,  que  as  debêntures  são  apenas  um  artifício  criado  pela  empresa  para  retirar  da  base  de  cálculo  do  IRPJ  e  da  CSLL  parte  significativa do lucro, que fica separada numa conta do Passivo Realizável a Longo  Prazo. Conforme a empresa paga valores aos sócios, sob quaisquer pretextos, estes  valores vão sendo lançados a débito da conta de provisão de debêntures, diminuindo  seu saldo, dando uma aparente validade jurídica para o suposto pagamento de  remuneração  de  debêntures,  que  na  realidade  trata­se  de  distribuição  de  lucro,  indedutível das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.  (...)  Por  certo,  a  fiscalizada  utilizou­se  de  tal  operação  não  para  alavancar  seus negócios, mas para artificialmente aumentar o resultado não tributável e  as  despesas  supostamente  dedutíveis  incrementando  dessa  forma  o  lucro  da  sociedade, ao arrepio da legislação tributária.  (...)  Assim, observa­se claramente que a operação engendrada pela fiscalizada  caracteriza­se como distribuição disfarçada de lucros (...)  Se o objetivo da empresa era a captação de recursos para a consecução de  seus  objetivos, poderiam  ter  sido  adotadas  outras  formas  de  transferência  de  capital  proporcionando  o  alcance  dos  mesmos  resultados  perseguidos  sem  a  necessidade de redução de 85% da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como, por  exemplo,  a  capitalização,  que,  na  essência,  foi  o  negócio  verdadeiramente  praticado pela empresa, o qual esta denominou como emissão de debêntures.  (...) Lança­se mão,  assim,  exclusivamente  da  forma,  em  detrimento  de  sua respectiva substância jurídica, para respaldar a redução da base tributária do  imposto.  Nos  outros  julgamentos  precedentes  a  que  me  referi,  não  havia  neles  a  caracterização, pela fiscalização, dos pagamentos efetuados a título de suposta remuneração aos  debenturistas,  como  distribuição  disfarçada  de  lucros.  Apesar  de  aqueles  casos,  em  síntese,  contemplarem debêntures com características substancialmente equivalentes às aqui discutidas,  as despesas haviam sido glosadas sob o fundamento legal da desnecessidade/artificialidade das  despesas (fundamento o qual, diga­se a propósito, em tudo se enquadraria também ao caso aqui  em comento).  Fl. 812DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 813          39 Minha manifestação, nos referidos casos, sempre seguiu, em linhas gerais, a  jurisprudência  originada  a  partir  do  precedente  mais  antigo,  e  exaustivamente  referido  por  praticamente todos que intervieram no presente processo, qual seja, o Acórdão n. 101­94.986,  de lavra da ilustre Conselheira Sandra Faroni. Ou seja, deve­se considerar que os pagamentos  feitos tiveram a natureza de distribuição de lucros, o que acaba por trazer implicações sobre as  quais se falará adiante.  No  caso  concreto,  o  que  se  tem,  em  última  análise,  é  que  a  própria  fiscalização  já  enquadrou  os  pagamentos  na  forma  em  que  o  CARF,  e  este  conselheiro,  entendiam que a mesma deveria ser enquadrada. E, para isto,  tendo encontrado a  fiscalização  dispositivo legal que atenderia ao pressuposto, dele lançou mão.  Assim,  tendo  em  conta  apenas  esta  primeira  observação,  não  haveria,  a  priori, motivos para que a solução a ser aqui adotada, a meu modo de ver, devesse ser distinta  daquela por mim já defendida nos citados precedentes, uma vez que a  fiscalização nada mais  fez  do  que,  em  certa medida,  antecipar  uma  consideração  que  este  conselheiro  faria.  E,  nos  precedentes  a  que  me  refiro,  tendo  em  conta  a  artificialidade  das  despesas  criadas  com  a  remuneração das debêntures, sempre as considerei integralmente indedutíveis.  Aqui chegamos, então, ao ponto principal que me levou a solicitar vistas dos  autos.  A  caracterização  destas  despesas,  pela  fiscalização,  como  distribuição  disfarçada  de  lucros,  tem  o  condão  de  determinar  que  a  tributação  deva  se  dar  apenas  pela  diferença com relação ao valor que seria ordinariamente pago pela contribuinte em operações  de mercado, e não pela integralidade daquelas despesas?  Reproduz­se a seguir os dispositivos legais pertinentes:  "Art.  464.  Presume­se  distribuição  disfarçada  de  lucros  no  negócio pelo qual a pessoa jurídica (Decreto­Lei nº 1.598, de  1977, art. 60, e Decreto­Lei nº 2.065, de 1983, art. 20, inciso  II):  (...)  VI  ­  realiza  com  pessoa  ligada  qualquer  outro  negócio  em  condições de favorecimento, assim entendidas condições mais  vantajosas para a pessoa ligada do que as que prevaleçam no  mercado  ou  em  que  a  pessoa  jurídica  contrataria  com  terceiros.  (...)  §  3º  A  prova  de  que  o  negócio  foi  realizado  no  interesse  da  pessoa  jurídica  e  em  condições  estritamente  comutativas,  ou  em que  a  pessoa  jurídica  contrataria  com  terceiros,  exclui  a  presunção  de  distribuição  disfarçada  de  lucros  (Decreto­Lei  nº 1.598, de 1977, art. 60, § 2º).  Art.  467.  Para  efeito  de  determinar  o  lucro  real  da  pessoa  jurídica (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art. 62, e Decreto­Lei  nº 2.065, de 1983, art. 20, incisos VII e VIII):  (...)  Fl. 813DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 814          40 V ­ no caso do inciso VI do art. 464, as importâncias pagas ou  creditadas  à  pessoa  ligada,  que  caracterizarem as  condições  de favorecimento, não serão dedutíveis."  Conforme visto, trata­se de presunção legal, cujo condão é o de transferir o  ônus da prova de sua desconstituição para o sujeito passivo, conforme, aliás, expressa ressalva  do parágrafo 3º do art. 464, acima transcrito.  Ao  sujeito  passivo,  portanto,  para  que  fosse  afastada  a  presunção,  caberia  fazer a prova "de que o negócio foi realizado no interesse da pessoa jurídica e em condições  estritamente comutativas, ou em que a pessoa jurídica contrataria com terceiros" (grifei). São  duas, portanto, as condições para o afastamento da presunção.  A  despeito  das  alegações  recursais  no  sentido  de  que  a  remuneração  das  debêntures não teria excedido os valores das despesas com as quais a contribuinte normalmente  teria  de  arcar  se  contratasse  com  terceiros  (segunda condição),  e  das manifestações  da  douta  PFN,  em  sede  de  contrarrazões,  de  que  esta  prova  não  teria  sido  adequadamente  feita  pela  recorrente  (e  de  que  nem  poderia  a  recorrente,  lógica  e  racionalmente,  à  época,  em  1998,  conhecer  as  variáveis  que  definiriam  se  era  mais  vantajoso  obter  empréstimo  via  mútuo  ou  debêntures  para  os  anos  subsequentes),  o  fato  é  que,  por  todo  o  quanto  exposto  no  voto  do  ilustre  relator,  e por  este voto  corroborado, não houve prova  alguma de que o negócio  tenha  sido realizado no interesse da pessoa jurídica (primeira condição).  Ao  contrário,  restou  suficientemente  demonstrado  que  o  alegado  motivo  para a capitalização da empresa por meio da emissão de debêntures não se sustenta, sendo que o  verdadeiro  propósito  da  operação  foi  o  de  apenas  lograr  obter  uma  indevida  redução  dos  tributos  devidos.  E,  como  exaustivamente  referido  tanto  pelo  ilustre  relator,  quanto  pelas  autoridades  lançadora e  julgadora de primeira  instância, não é do  interesse da pessoa jurídica  produzir lucros para terceiros.  Portanto, não restou desconstituída pela recorrente a presunção legal.  Há  que  se  atentar,  agora,  à  seguinte  peculiaridade  da  referida  presunção  legal.  Quando  a  lei  trata  da  possibilidade  de  sua  desconstituição,  pelo  sujeito  passivo, de fato é  feita  referência aos parâmetros de mercado com os quais a pessoa  jurídica  contrataria com terceiros. Apenas neste aspecto é que faria algum sentido — acaso já não se  tivesse aqui afastado a pretensão da recorrente de desconstituição da presunção — recorrer­se a  um comparativo com taxas de juros praticadas pelos bancos em operações de mercado, como  quer a recorrente.  Contudo,  ao  tratar da  específica hipótese de configuração da presunção de  distribuição disfarçada de lucros de que aqui se trata, a  lei  traz uma redação mais ampla, pois  define que esta resta caracterizada, também, quando forem realizados negócios em condições de  favorecimento à pessoa ligada, ou seja, em condições mais vantajosas para a pessoa ligada do  que aquelas que prevaleceriam no mercado.  Não é por outro motivo, aliás, que o CARF, por exemplo, em precedente do  qual este conselheiro não participou, entendeu que o comparativo deveria ser feito com índices  tais como o IGPM + 6%, NTN­C, e 100% do CDI (Acórdão nº 101­97.021), ou seja,  índices  que refletem a expectativa de retorno esperado por uma pessoa física em aplicações de renda  fixa (títulos públicos, e fundos de renda fixa, atrelados ou não ao DI ­ Depósito Interbancário), e  não em índices que reflitam o custo de captação de recursos, pela empresa,  junto ao mercado  financeiro, conforme quer a recorrente (taxa média de juros para conta garantida).  Fl. 814DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 815          41 Portanto,  se  alguma  diferença  houvesse  de  ser  apurada,  para  fins  de  tributação  a  título  de  distribuição  disfarçada  de  lucros,  esta  haveria  de  ser  com  relação  aos  primeiros mencionados índices, ou quiçá com relação à Selic ou à TJLP, índices mencionados  pela decisão  recorrida, mas não com relação aos  índices  reclamados pela  recorrente. Este é o  primeiro ponto a ser observado.  Entretanto, e basicamente, ao se analisar a questão da distribuição disfarçada  de lucros sob a ótica da condição mais vantajosa, para a pessoa ligada, do que aquelas que esta  mesma  pessoa  ligada  lograria  obter  no  mercado,  então,  com  a  devida  vênia,  não  se  há  de  argumentar  pela  dedução  de  qualquer  valor,  com  relação  àqueles  que  foram  objeto  de  lançamento nos anos de 2008 e 2009.  Não  é  necessário  maior  esforço  argumentativo  para  demonstrar  que,  sob  qualquer parâmetro, jamais lograriam as pessoas ligadas obter semelhante remuneração àquela  obtida  por  meio  das  operações  engendradas  pela  recorrente,  e  que,  neste  sentido,  é  absolutamente  despropositado  cogitar­se  de  eventual  dedução,  ano  a  ano,  frente  a  tais  parâmetros  de  remuneração  (aplicações  de  renda  fixa),  quando  a  fiscalização  já  demonstrara  que, apenas nos dois primeiros anos da operação, já haviam obtido os debenturistas mais do que  o integral retorno de todo o capital investido. Até o final do ano anterior aos lançamentos fiscais  de  que  aqui  se  trata,  por  exemplo,  ou  seja,  o  ano  de  2007,  a  remuneração  já  havia  atingido  413,38%.  Diante de tal cenário, com a devida vênia, de há muito que os pagamentos  efetuados já haviam configurado uma integral e indevida vantagem aos sócios debenturistas.  Rejeito,  portanto,  no  caso  concreto,  o  argumento  recursal  de  cálculo  da  distribuição  disfarçada  de  lucros  tendo  por  base  apenas  a  diferença  entre  o  valor  da  remuneração  atribuída  às  debêntures  e  o  valor  da  eventual  despesa  apurada  com  base  em  quaisquer taxas de juros do mercado financeiro.  De  se  ressaltar  que  o  quanto  exposto  com  relação  ao  IRPJ  aplica­se  integralmente também à CSLL, em razão da expressa previsão legal contida no art. 60 da Lei nº  9.532/97,  aliás,  expressamente  mencionado  nos  autos  de  infração  lavrados  [fls.  563  dos  presente autos]:  "Art. 60. O valor dos  lucros distribuídos disfarçadamente, de  que tratam os arts. 60 a 62 do Decreto­Lei nº 1.598, de 1977,  com as alterações do art. 20 do Decreto­Lei nº 2.065, de 26 de  outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido  para  efeito  de  determinação  da  base  de  cálculo  da  contribuição social sobre o lucro líquido."  Por  fim,  retomando  a  observação  anteriormente  feita,  o  fato  de  se dar  aos  valores pagos o tratamento de lucros distribuídos implica, a meu modo de ver, a possibilidade  de  aproveitamento do  imposto de  renda  retido na  fonte efetivamente pago, nos moldes que a  seguir  se  discorrerá,  uma  vez  que  tal  imposto,  ou  ao menos  parte  dele,  não  seria  devido  na  hipótese de distribuição de lucros. Vale observar que, no caso, é  inconteste que a fiscalização  requalificou os fatos, e, neste sentido, já me manifestei em outras ocasiões que a requalificação  deve ser feita de modo integral. Neste sentido, por exemplo, as seguintes ementas em acórdãos  de minha relatoria:  Acórdão 1102­000.820:  CONSTITUIÇÃO  DE  EMPRESA  COM  ARTIFICIALISMO.  DESCONSIDERAÇÃO  DOS  SERVIÇOS  PRETENSAMENTE  PRESTADOS.  Fl. 815DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 816          42 MULTA  QUALIFICADA.  NECESSIDADE  DA  RECONSTITUIÇÃO  DE  EFEITOS VERDADEIROS.  Comprovado  o  artificialismo  na  terceirização  de  serviços  a  empresas  controladas,  cujo  objetivo  foi  reduzir  a  carga  tributária  da  recorrente  mediante  a  tributação de relevante parcela de seu resultado pelo lucro presumido nas pretensas  prestadoras  de  serviços,  correto  o  procedimento  de  desconsiderar  as  despesas  correspondentes. Todavia,  se  ao  engendrar  as  operações  artificiais,  a  empresa que  pretensamente prestou os serviços sofreu tributação, ainda que de tributos diversos,  há  de  se  recompor  a  verdade  material,  compensando­se  todos  os  tributos  já  recolhidos.  Acórdão 1102­00.659:  IRRF. DEDUÇÃO DO VALOR PAGO.  Das despesas que foram pagas a título de remuneração das debêntures, com  retenção de imposto de renda exclusiva de fonte, uma parte delas, após a incidência  do  IRPJ e da CSLL,  revela­se como  lucros passíveis de distribuição, os quais não  estariam sujeitos à retenção do imposto por ocasião de sua distribuição. Assim, para  restabelecer  a  verdade  dos  fatos,  cabe  o  estorno  da  parte  do  imposto  de  renda,  indevidamente  retido  na  fonte  e  comprovadamente  pago,  que  corresponda  proporcionalmente à parcela que poderia ser distribuída com isenção.  Transcrevo a  seguir o  teor de minha manifestação a  respeito no âmbito do  segundo precedente acima mencionado (Acórdão 1102­00.659), o qual trata especificamente de  debêntures  com  características  substancialmente  equivalentes  às  aqui  discutidas,  igualmente  subscritas  apenas por  sócios pessoas  físicas,  e em que  a pessoa  jurídica, em  face dos valores  lançados  de  ofício,  igualmente  submeteu­se  à  tributação  pelo  IRPJ  à  alíquota  total  de  25%  (considerados a alíquota básica mais o adicional) e pela CSLL à alíquota de 9%:  "Para  finalizar,  com  relação  ao  IRRF,  entendo  assistir  parcial  razão  à  recorrente.  É que desde a edição da Lei nº 9.249/95, estabeleceu o legislador a  isenção  do imposto de renda na distribuição de lucros já tributados na pessoa jurídica, como  forma  de  evitar  uma  dupla  incidência  sobre  os  mesmos  resultados.  Entretanto,  a  recorrente deu aos valores pagos aos sócios o tratamento de participações atribuídas  a  debêntures,  as  quais,  por  não  serem  tributadas  na  pessoa  jurídica,  sofrem  a  incidência do imposto de renda na fonte por ocasião do pagamento.  A  i. Conselheira Sandra Faroni,  no  seu  voto proferido  no Acórdão nº 101­ 94.986, bem abordou a questão, nos seguintes termos:  “Entendo,  todavia,  que  por  uma  questão  de  razoabilidade,  deve  ser  deduzida da exigência o valor pago a título de imposto de renda retido  na  fonte.  É  que,  ao  se  considerar  como  indedutíveis  as  despesas  correspondentes  aos  rendimentos de debêntures,  na  realidade  está­se  tratando  os  valores  contabilizados  a  título  de  remuneração  de  debêntures como lucros distribuídos. Nesse caso, não cabe o imposto  de  renda  retido  na  fonte,  e  uma  vez  que  se  trata  de  incidência  exclusiva,  não  compensável  na  declaração  dos  beneficiários,  deve  o  respectivo valor ser deduzido da presente exigência.”  Assim,  na  esteira  também dos precedentes  citados pela  recorrente,  entendo  que,  ao  se  restabelecer  a  verdade  dos  fatos,  deve­se  fazê­lo  de  modo  integral,  permitindo  a  compensação  de  tributos  comprovadamente  recolhidos,  e  que  não  precisariam  sê­lo,  de  sorte  que  a  exigência  da  submissão  desta  compensação  à  apresentação de DCOMP por parte da recorrente, como pontuou a decisão recorrida,  não se justifica em casos como este. Do mesmo modo, as eventuais imprecisões ou  Fl. 816DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 817          43 desencontros quanto aos períodos de apuração constantes nas DIRF e DCTF, frente  aos  comprovantes  DARF  de  pagamento,  ainda  que  com  incorreção  no  código  do  tributo, não constituem óbice à compensação do imposto, no presente caso, porque  entendo  que  a  recorrente,  de  modo  suficiente,  demonstrou  na  peça  recursal  a  realização  dos  recolhimentos  de  IRRF  sobre  os  valores  das  questionadas  participações.  Entretanto, o provimento deve ser apenas parcial, neste mister, e explico por  quê.  É  que  não  é  à  totalidade  dos  valores  pagos  a  título  de  participação  de  debenturistas que se pode aplicar a isenção de imposto como lucros distribuídos.  Os lucros que poderiam ser disponibilizados com isenção correspondem tão  somente  a  66% dos  valores  considerados  como  participação  de  debenturistas,  em  razão justamente da incidência do IRPJ e da CSLL aqui exigidos de ofício (25% +  9% = 34%).  Tomando­se  como  exemplo  uma  “participação  de  debenturistas”  igual  a  R$100,00, ao considerá­las indedutíveis, e tributá­las a 34%, vemos que restam, na  verdade, contabilmente, somente R$66,00 para distribuição isenta.  Por  outro  lado,  ao  promover  a  distribuição  daqueles  R$100,00,  a  empresa  tributou  pelo  IRRF  a  20%,  de modo  que  os  debenturistas  receberam,  líquido,  tão  somente R$80,00.  Ocorre assim que, do valor de R$80,00 recebido, a parcela de R$66,00 não  precisaria  ter  sido  submetida  à  tributação  pelo  IRRF,  porque  oriunda  de  lucros  já  tributados na pessoa jurídica. A parcela restante, por sua vez, à toda evidência, não  tem origem  em  lucros  contábeis  tributados  na  pessoa  jurídica,  não  havendo  razão  para que seja agraciada com qualquer espécie de isenção. Portanto, do IRRF pago,  precisamente 82,50% (R$ 66,00 dividido por R$ 80,00) deve ser abatido na presente  autuação, sendo incabível o aproveitamento dos restantes 17,50% do IRRF pago.  A  dedução  desta  parcela  de  82,50%  do  IRRF  pago,  conforme  já  restou  assentado no Acórdão nº 101­95.588 (Embargos de Declaração interpostos contra o  Acórdão  nº  101­94.986),  deve  ser  feita  diretamente  do  crédito  tributário  lançado,  alcançando proporcionalmente, portanto, os consectários legais.  Tendo sido recolhido IRRF no montante de R$(...), a parcela a ser deduzida,  equivalente a 82,50%, corresponde a R$(...).  Pelo exposto, dou parcial provimento ao recurso voluntário, para reduzir do  valor do imposto de renda lançado o montante de R$(...), correspondente a parte do  valor  do  imposto  retido  na  fonte  sobre  as  importâncias  pagas  a  título  de  remuneração das debêntures."  No caso concreto, a própria autoridade fiscal autuante identificou os valores  do  imposto  de  renda  retido  pela  pessoa  jurídica  recorrente,  conforme  excerto  do  Termo  de  Verificação Fiscal a seguir reproduzido:  No período objeto do presente Termo de Verificação Fiscal (2010),  foram pagos os seguintes valores a título de remuneração de debêntures:    Fl. 817DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 818          44 Desse  modo,  e  em  razão  de  todo  o  exposto,  dou  parcial  provimento  ao  recurso voluntário, para reduzir, do valor do imposto de renda lançado em 2010, o montante de  R$  3.705.658,68,  correspondente  à  parcela  de  82,50%  do  valor  do  imposto  retido  na  fonte  sobre as importâncias pagas a título de remuneração das debêntures.  3.2 DA MULTA QUALIFICADA  Em  relação  aos  argumentos  sobre  confisco,  esclareça­se,  ainda,  que  a  vedação  à  utilização  de  tributo  com  efeito  de  confisco,  preceituada  pelo  art.  150,  IV,  da  Constituição da República Federativa do Brasil não se destina aos aplicadores da Lei, mas sim  ao Poder Legislativo, que deve tomar em consideração tal preceito quando da elaboração das  leis.  No que tange às questões que envolvem os demais princípios constitucionais  e  inconstitucionalidade de  leis  apontadas pela Recorrente,  seu mérito não pode ser  analisado  por  este  Colegiado.  Essa  análise  foge  à  alçada  das  autoridades  administrativas,  que  não  dispõem  de  competência  para  examinar  hipóteses  de  violações  às  normas  legitimamente  inseridas no ordenamento jurídico nacional.   Deve­se  observar  que  as  supostas  ofensas  aos  princípios  constitucionais  levam  a  discussão  para  além  das  possibilidades  de  juízo  desta  autoridade.  No  âmbito  do  procedimento  administrativo  tributário,  cabe,  tão  somente,  verificar  se  o  ato  praticado  pelo  agente  do  fisco  está,  ou  não,  conforme  à  lei,  sem  emitir  juízo  de  constitucionalidade  das  normas  jurídicas que embasam aquele ato. Ademais, o próprio Regimento  Interno do CARF,  em  seu  art.  62,  dispõe  que  “Fica  vedado  aos membros  das  turmas  de  julgamento  do CARF  afastar a aplicação ou deixar de observar  tratado, acordo  internacional,  lei ou decreto,  sob  fundamento de inconstitucionalidade.” O caso concreto não se enquadra nas exceções elencada  no parágrafo único de tal dispositivo regimental, portanto, as normas atacadas são de aplicação  cogente aos membros do CARF.  Por  fim,  sobre  a  matéria  este  Conselho  já  pacificou  seu  entendimento  por  meio da Súmula nº 2, cujo teor é o seguinte:  O  CARF  não  é  competente  para  se  pronunciar  sobre  a  inconstitucionalidade de lei tributária.  Portanto, não se conhece do recurso em relação aos argumentos de confisco e  de inconstitucionalidade de lei.  A decisão recorrida, assim justifica a exasperação da penalidade:  A  Fiscalizada  já  tinha  sido  autuada  em  anos  anteriores  (acompanhado  em  outros  processos) e pela mesma razão, conforme já anotado no Relatório da Fiscalização.  Se naqueles anos (2007, 2008 e 2009) a Fiscalização aplicou multa de ofício de 75%  nos lançamentos acompanhados nos processos já citados no Relatório, que cuidavam  da mesma  infração então verificada nos  fatos geradores em 2007, 2008 e 2009, e,  agora,  foi  aplicada  (no  ano  de  2010,  objeto  do  presente  lançamento)  a  multa  de  ofício qualificada, de 150%, não vejo qualquer  impedimento para que  tal pudesse  ser feito.  Fl. 818DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 819          45 Conforme  apontado  no  ilustrativo  quadro  montado  no  Termo  de  Verificação  Fiscal, parcialmente reproduzido no Relatório deste Voto, veja que a Fiscalizada já  tinha  liquidado  as  obrigações  com  seus  debenturistas  (acionistas)  lá  em  1999,  ou  seja, já tinha pago mais de R$ 21.000.000,00 dos recursos originais captados.  Mesmo  assim,  continuou  despejando  recursos  (contabilmente  reduzindo  o  lucro  tributável)  a  seus  sócios  (únicos  debenturistas)  por mais  de  dez  anos,  chegando  a  cifras espantosas, tendo sido totalizado uma importância a eles distribuído, até o ano  calendário de 2010, de R$ 164.738.419,78!  E tudo isto reduzindo (indevidamente) o resultado tributável, algo que não se pode  pactuar,  sob  pena  de  as  pessoas  jurídicas,  por  meio  deste  artifício  doloso,  não  pagarem mais IRPJ e CSLL.   A  empresa,  utilizando­se  das  normas  legais  que  regem  certas  matérias,  como  o  presente caso, deturpa e distorce todo o regramento jurídico posto, com apenas uma  finalidade: a redução ou eliminação total dos tributos devidos.  É como afirmou a autoridade autuante, acertadamente  A  caracterização  da  fraude  se  configura  no  desvirtuamento  da  finalidade  do  instituto  da  emissão de debêntures, que deve ser usado para a  captação  de  recursos,  e  não,  como  no  presente  caso, para descapitalizar a empresa, promovendo  um  enriquecimento  indevido  dos  sócios  em  detrimento do erário público.  Discordo de tal entendimento.  Em  primeiro  lugar  porque  a  presente  exigência  trata  de  fatos  geradores  ocorridos  no  ano­calendário  de  2010,  sendo  que  os  lançamentos  realizados  anteriormente  (processos  16561.720156/2012­37  e  16643.720002/2013­16)  foram  formalizados  posteriormente, respectivamente nos anos­calendário de 2012 e 2013.  E ainda que a data da ocorrência do fato gerador que ensejou o lançamento já  houvessem  sido  lavrados  autos  de  infração  relativos  a  períodos  anteriores,  sobre  o  mesmo  tema, entendo que o cenário não se alteraria, a menos que já houvesse decisão administrativa  definitiva e  irreformável em relação às exigências anteriores, nos moldes tratados no art. 560  do Decreto nº 7.212/2010 – Regulamento do IPI, que determina que caracteriza “reincidência  específica a prática de nova  infração de um mesmo dispositivo [...] dentro de cinco anos da  data  em  que  houver  passado  em  julgado,  administrativamente,  a  decisão  condenatória  referente à infração anterior.” (Lei nº 4.502, de 1964, art. 70).  Dito isso, é importante ressaltar que, diante dos mesmos fatos, a Fiscalização  não qualificou a penalidade nas autuações anteriores.  Antes de adentrar na análise do caso concreto, entendo ser necessário separar  o que sejam atos elisivos em contraposição aos atos evasivos.  O planejamento  tributário  se caracteriza,  na maior parte das  situações,  pelo  seu  caráter  preventivo.  Isto  significa  que  as  diversas  alternativas  existentes  são  analisadas  e  avaliadas antes da ocorrência do fato gerador do tributo.  Fl. 819DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 820          46 Desse modo, o contribuinte que pretende planejar, com vista à economia de  impostos,  terá de dirigir a sua atenção para o período anterior à ocorrência do fato gerador e  nesse período adotar as opções legais disponíveis.  Alguns autores utilizam expressões para definir o tipo de ato praticado pelo  contribuinte. Temos, basicamente: elisão, evasão e elusão.  A  denominada  elisão  equivaleria  a  um  planejamento  tributário  consistente.  Trata­se  de  obtenção  de  economia  de  imposto  obtida  por  interpretação  razoável  da  lei  tributária.   Para  alguns  autores  ainda  existe  o  denominado  planejamento  tributário  abusivo. Nesse caso, no entender de Ricardo Lobo Torres a economia tributária seria praticada  a partir de um ato revestido de forma jurídica que não se subsume na descrição abstrata da lei  ou  no  seu  espírito21.  Para Marco  Aurélio  Greco,  teríamos,  aqui,  a  denominada  fraude  à  lei  (imperativa),  não  caracterizando  fraude,  mas,  por  afronta  ao  princípio  da  capacidade  contributiva,  daria  azo  ao  pagamento  do  tributo  correspondente. A  não  caracterização  de  fraude implicaria, por conseguinte, a ausência de repercussão penal.22  Roberto Lobo Torres, apontando teses do direito internacional, assinala dois  testes para detectar a elisão abusiva:  - propósito negocial  (business purpose  test): não devem surtir  efeitos contra o Fisco os  negócios jurídicos que tenham por finalidade única a obtenção de economia de tributos;  - proporcionalidade: considera­se abuso de forma a escolha de forma jurídica inadequada  que  resulte  numa  vantagem  não  prevista  em  lei  sem  que  o  contribuinte  comprove  o  fundamento  não  tributário  da  escolha,  de  acordo  com  o  quadro  geral  das  circunstâncias23.  Para  esse  doutrinador,  o  planejamento  tributário  abusivo  “se  restringe  ao  abuso  da  possibilidade  expressa  da  letra  da  lei  e  dos  conceitos  jurídicos  indeterminados;  inicia­se  com  a  manipulação  de  formas  jurídicas  lícitas  para  culminar  na  ilicitude  atípica  ínsita ao abuso de direito (art. 187 do Código Civil).”24  Heleno Tôrres25 denomina como elusão tributária os casos de elisão ilícita. A  elisão  poderia  ser  definida  como  as  opções  legítimas  que  o  ordenamento  apresenta  ao  contribuinte,  já  a  elisão  com abuso  de direito,  ou  elusão,  se  restringiria  aos  casos  em que  o  contribuinte, utilizando­se de  liberdades negociais, utiliza negócio  jurídico  legítimo e válido,  mas com causa alheia àquela natural do negócio, com o intuito único de economia tributária.                                                              21 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro:  Elsevier, 2012, p. 8.  22 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3. ed. São Paulo: Dialética, 2011.  23 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro:  Elsevier, 2012, p. 8.  24 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro:  Elsevier, 2012, p. 9.  25  TÔRRES,  Heleno  Taveira.  Direito  Tributário  e  direito  privado:  autonomia  privada,  simulação,  elusão tributária. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003; pp. 189 e 190.  Fl. 820DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 821          47 Já a chamada evasão se dá após a ocorrência do fato gerador, consistindo em  sua  ocultação  “com  o  objetivo  de  não  pagar  o  tributo  devido  de  acordo  com  a  lei,  sem  qualquer modificação na estrutura da obrigação ou na responsabilidade do contribuinte.[...]  Compreende a  sonegação, a  simulação, o  conluio  e a  fraude  contra a  lei,  que  consistem na  falsificação  de  documentos  fiscais,  na  prestação  de  informações  falsas  ou  na  inserção  de  elementos  inexatos  nos  livros  fiscais,  com  o  objetivo  de  não  pagar  o  tributo  ou  de  pagar  importância inferior à devida. É, também, crime definido pela lei penal. Não se confundem a  fraude à lei, que é forma de elisão abusiva, e a fraude contra legem, que é evasão ilícita”.26  Marco  Aurélio  Greco  esclarece  quais  as  reações  do  ordenamento  jurídico  diante da simulação, abuso de direito e fraude à lei:  Na  simulação  –  seja  vista  da  perspectiva  da  vontade  ou  do  motivo/causa  –  sempre há um negócio real e um aparente (ou apenas aparente no caso de pura  mentira).  A  reação  do  ordenamento  é  considerar  ocorrido  o  negócio  real  e  ignorar o negócio aparente. Aplica­se a  lei pertinente ao negócio real  (ou ao  nenhum negócio).  No abuso de direito, como o problema é o excesso no seu exercício, neutraliza­ se  o  excesso  e  nega­se  a  tutela  jurídica  apenas  a  essa  parte. Portanto,  é  um  caso de ineficácia parcial do que foi feito.  Na fraude à lei, busca­se contornar determinada norma imperativa, mediante a  utilização  de  outra  norma  (ou  ausência  de  previsão  expressa). Neste  caso,  o  ordenamento  reage  aplicando  a  norma  contornada.  Se  o  contribuinte,  por  hipótese, quis gerar um ágio para evitar a  reavaliação  tributada, aplica­se a  norma da  reavaliação. Fez­se uma cisão  seletiva para  contornar o ganho de  capital na alienação de participação societária, aplica­se a norma do ganho de  capital.  Note­se  a  diferença:  no  abuso  de  direito  há  uma  norma,  um  direito  e  um  excesso no seu exercício; na simulação há duas causas ou duas vontades para  uma única norma; na fraude à lei, são duas normas para um único ato. Para  figuras  diferentes,  reações  diferentes  do  ordenamento  jurídico  diante  da  sua  ocorrência.” 27  Em  resumo:  A  elisão  precede  a  ocorrência  do  fato  gerador  no  mundo  fenomênico. A sonegação e a fraude (= evasão) dão­se após a ocorrência daquele fato.28   Podemos assim resumir as questões:                                                              26 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro:  Elsevier, 2012, p. 9­10.  27 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3. ed. São Paulo: Dialética, 2011. p. 285­286.  28 LOBO TORRES, Ricardo. Planejamento Tributário: elisão abusiva e evasão fiscal. Rio de Janeiro:  Elsevier, 2012, p. 8.  Fl. 821DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 822          48 Figura Nomenclatura Momento Crime Multa Observações Planejamento Tributário Antes do Fato  Gerador Não ­ ­ Planejamento Tributário  Abusivo ou Elusão Antes do Fato  Gerador Não "Comum"  (75%) Abuso de Direito,  Fraude à Lei Evasão Sonegação, Fraude  (=Dolo) Após o Fato  Gerador Sim Qualificada  (150%) Sonegação, Fraude  ou Conluio Elisão   No caso concreto, não tenho dúvidas de que a conduta praticada pela autuada  enquadra­se no conceito de elisão abusiva, uma vez que as provas coligidas indicam que todos  os atos foram praticados antes da ocorrência do fato gerador, devidamente contabilizados em  calcados em documentos formalmente corretos, e, nesse cenário, quer se enquadre tal conduta  como  abuso  de  direito  (o  que  implica  a  requalificação  dos  fatos),  ou  como  fraude  à  lei  (aplicando­se a lei imperativa para cálculo da exação), não há que se falar em fraude contra lei  de que trata o art. 72 da Lei nº 4.502/64.  Também não há que se falar em sonegação (art. 71 da Lei nº 4.502/64), uma  vez  que  todos  os  atos  foram  devidamente  declarados  à  Receita  Federal,  excluindo­se  a  possibilidade de ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente,  o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação  tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais.  A questão atinente à artificialidade da operação  limita­se aos contornos das  patologias de abuso de direito ou de fraude à lei, o que, conforme já observado, não implicam  afronta direta à lei, mas sim utilização de dispositivo legal com excesso no seu gozo (abuso de  direito) ou contorno de determinada norma  imperativa mediante a utilização de outra norma,  denominada norma de contorno (fraude à lei).  Tanto o abuso de direito quanto a fraude à lei são institutos previstos na lei  civil, com características próprias, mas não foram eleitos pelo legislador tributário como razão  para qualificação da penalidade.  Portanto, tratando­se de planejamento tributário, ainda que abusivo, entendo  não restar caracterizado o dolo apto a ensejar a qualificação da penalidade, mormente quando  não há ocultação da prática e da intenção final dos negócios levados a efeito.  Além  do  mais,  não  se  pode  esquecer  que  a  autuação  como  distribuição  disfarçada de lucros se calca em presunção legal, aplicando­se, com as adaptações necessárias,  o disposto na Súmula CARF nº 1429, haja vista a ausência de comprovação do evidente intuito  de fraude do sujeito passivo.  Como  argumento  adicional,  não  há  como  ignorar  que  à  época  dos  fatos  geradores havia doutrina de peso que endossava o procedimento adotado pela autuada.  Logo, ausentes elementos que permitam enquadrar a conduta da autuada nos  conceitos  de  sonegação,  fraude  ou  conluio  (arts.  71,  72  e  73  da  Lei  nº  4.502/64),  voto  por  reduzir a penalidade para 75%.                                                              29  Súmula  CARF  nº  14:  A  simples  apuração  de  omissão  de  receita  ou  de  rendimentos,  por  si  só,  não  autoriza  a  qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo.  Fl. 822DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 823          49 3.3  DA  RESPONSABILIDADE  ATRIBUÍDA  AOS  SÓCIOS  COM  PODERES  DE  GERÊNCIA  Conforme  consta  no  Termo  de  Verificação  Fiscal,  as  pessoas  de  Antonio  Rahme  Amaro,  Eduardo  Rahame  Amaro  e  Edma  Huepe  de  Amaro  foram  arroladas  como  responsáveis  solidários,  tendo  inclusive  consideradas  no  Auto  de  Infração,  como  Demais  Sujeitos Passivos:  7 – Da Responsabilidade Tributária Solidária dos Sócios  Antônio Rahme Amaro e Eduardo Rahme Amaro, sempre  foram acionistas e diretores da empresa fiscalizada, desde  sua constituição em 1963. Por outro lado, Edma Huepe de  Amaro ingressou na diretoria da empresa em 1994. No ano  em  que  se  iniciou  o  planejamento  tributário  objeto  da  presente  ação  fiscal,  por  meio  de  emissão  de  debêntures  (1998)  até  a  data  em  que  foi  encerrada  a  presente  ação  fiscal,  os  três  nomes  citados  compuseram  a  Diretoria  e  assinaram  os  atos  que  visaram  a  redução  da  incidência  tributária.  Nos termos do artigo 121 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro  de  1966  (Código  Tributário  Nacional  ­  CTN),  é  sujeito  passivo da obrigação tributária:  “Art.  121.  Sujeito  passivo  da  obrigação  principal  é  a  pessoa  obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária.  Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz­ se:  I  ­  contribuinte,  quando  tenha  relação  pessoal  e  direta  com  a  situação que constitua o respectivo fato gerador;  II  ­  responsável,  quando,  sem  revestir  a  condição  de  contribuinte,  sua  obrigação  decorra  de  disposição  expressa  de  lei.” (grifo do original)  Na condição de únicos acionistas  e diretores, Eduardo Rahme  Amaro, Antônio Rahme Amaro e Edma Huespe de Amaro eram  diretamente  interessados nos resultados da empresa, pois, além  de  administrá­la,  possuíam  juntos  100%  de  seu  capital,  não  restando  meios  de  negar  que  visaram  não  somente  o  lucro  propriamente dito, que é o objetivo de qualquer empresário, mas  principalmente,  visaram  ter  um  aumento  deste  lucro  lançando  mão de uma economia tributária resultante de um planejamento  abusivo por eles engendrado e posto em prática.  No que tange à responsabilidade solidária, o artigo 135 do CTN  ainda dispõe que:  “Art.  135.  São  pessoalmente  responsáveis  pelos  créditos  correspondentes  a  obrigações  tributárias  resultantes  de  atos  praticados com excesso de poderes ou  infração de  lei,  contrato  social ou estatutos:  Fl. 823DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 824          50 I ­ as pessoas referidas no artigo anterior;  II ­ os mandatários, prepostos e empregados;  III ­ os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas  de direito privado.(grifo do original)  Além  de  se  beneficiarem  diretamente  da  economia  tributária  conseguida,  há  que  se  ressaltar  que  os  três  acionistas  deliberaram  em  assembléia  a  emissão  de  debêntures  (e  suas  alterações)  com  fins  de  reduzir  o  resultado  tributável  da  empresa,  que  na  realidade,  tratavam­se  de  lucros  distribuídos  disfarçadamente,  conforme  já  exaustivamente demonstrado. Tal  fato  fica  comprovado  através  das  Atas  de  Assembléias  (que  contém assinatura dos três acionistas), bem como dos recibos de  pagamento  juntados  ao  presente  processo,  que  comprovam  as  retiradas de numerários procedidas pelos mesmos.  Sendo assim e de acordo com a previsão legal contida no artigo  135,  inciso  III,  da  Lei  nº  5.172/66  (CTN),  constata­se  a  SUJEIÇÃO  PASSIVA  POR  RESPONSABILIDADE  PESSOAL  dos  acionistas  com  poderes  de  administração  Eduardo  Rahme  Amaro,  Antônio  Rahme  Amaro  e  Edma  Huespe de Amaro, pelos débitos fiscais constituídos em nome da  empresa HOSPITAL E MATERNIDADE SANTA JOANA S/A,  relativos ao período fiscalizado de 01/01/2010 a 31/12/2010.  Passo à análise do tema.  O  termo  responsabilidade,  em  sentido  amplo,  possui  estreita  ligação  com o  direito civil, em especial com o direito das obrigações. Karl Larenz aduz que a possibilidade de  o devedor responder, em regra, com seu patrimônio perante o credor surgiu de longa evolução  do direito de obrigações e do direito de execução.30  A obrigação, em sentido  técnico,  tem origem em uma relação  jurídica entre  duas ou mais partes, na qual o polo ativo (credor) passa a ter o direito de exigir do polo passivo  (devedor)  uma  prestação,  ou,  de  modo  contrário,  o  devedor  passa  a  ter  obrigação  de  determinado comportamento ou conduta para com o credor.31  No  bojo  dessa  relação  jurídica  obrigacional,  tem­se  como  elemento  necessário o denominado vínculo. Este pode se originar de inúmeras fontes e obriga o devedor  a cumprir determinada prestação para com o credor. Subdivide­se em débito  (prestação a ser  cumprida conforme pactuado) e responsabilidade (o direito de o credor exigir o cumprimento  da obrigação quando não satisfeita a prestação, podendo esta exigência incidir, inclusive, sobre  os bens do devedor).  Segundo Gonçalves  A  responsabilidade  é,  assim,  a  consequência  jurídica  patrimonial do descumprimento da relação obrigacional. Pode­                                                             30  LARENZ,  1958,  apud  GONÇALVES,  Carlos  Roberto.  Direito  Civil  Brasileiro:  Teoria  Geral  das  Obrigações. Vol. II. 6. ed. rev. – São Paulo: Saraiva, 2009, p. 35.  31 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Vol. II. 6. ed. rev. –  São Paulo: Saraiva, 2009, p. 22.  Fl. 824DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 825          51 se,  pois,  afirmar  que  a  relação  obrigacional  tem  por  fim  precípuo  a  prestação  devida  e,  secundariamente,  a  sujeição  do  patrimônio do devedor que não a satisfaz.32  No âmbito da responsabilidade civil e tributária, a sujeição tem como limite o  patrimônio do  responsável,  ainda que não  seja este,  necessariamente,  o  infrator da norma de  conduta desrespeitada.  Já o  termo responsabilidade tributária, em sentido ainda amplo, é entendido  como a sujeição do patrimônio de uma pessoa, física ou jurídica, ao cumprimento de obrigação  tributária  inadimplida  por  outrem.  Assim,  pode­se  afirmar  que  “responsabilidade  tributária”  possui conceito próximo a “sujeição passiva  tributária”, porém,  ressalte­se que há diferenças  entre estes conceitos: enquanto a sujeição tributária nasce a partir da ocorrência do fato gerador  da obrigação tributária principal, a responsabilidade exsurge somente se a pretensão tributária  tornar­se  exigível,  ou  nas  palavras  de  Luciano  Amaro,  “a  presença  do  responsável  como  devedor  na  obrigação  tributária  traduz  uma  modificação  subjetiva  no  polo  passivo  da  obrigação, na posição que, naturalmente, seria ocupada pela figura do contribuinte”.33  É  importante  distinguir  a  responsabilidade  tributária  da  responsabilidade  civil. Esta advém da prática de ato ilícito lato sensu causador de dano a terceiro, sobrevindo a  obrigação  de  indenizar,  enquanto  aquela,  em  que  pesem  algumas  hipóteses  de  surgimento  a  partir  de atos  ilícitos  (artigos 134, 135 e 137 do CTN), possui  também como propulsor  atos  lícitos.34  Assim discorre Maria Rita Ferragut sobre a responsabilidade:  É  a  ocorrência  de  um  fato  qualquer,  lícito  ou  ilícito  (morte,  fusão,  excesso  de  poderes  etc.),  e  não  tipificado  como  fato  jurídico  tributário,  que  autoriza  a  constituição  da  relação  jurídica entre o Estado­credor e o responsável, relação essa que  deve pressupor a existência do fato jurídico tributário. 35   Ao  ponderar  sobre  a  matéria,  Marcos  Vinícius  Neder  anota  que  a  responsabilidade tributária tem respaldo no CTN, o qual consagra normas gerais sobre sujeição  passiva  de  tal  forma  a  redirecionar  a  responsabilidade  pela  dívida  tributária  do  contribuinte  para um  terceiro,  facilitando e  tornando mais efetivo o  trabalho dos órgãos da administração  tributária36, e afirma que a “lei  tributária autoriza ao Fisco incluir  terceira pessoa, distinta da  que pratica o fato jurídico tributário, no polo passivo da obrigação tributária como responsável  pelo pagamento do crédito tributário”.37                                                              32 GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral das Obrigações. Vol. II. 6. ed. rev. –  São Paulo: Saraiva, 2009, p. 35.  33 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 10. ed. atual. – São Paulo: Saraiva, 2004, p. 295.  34  FERRAGUT,  Maria  Rita.  Responsabilidade  Tributária:  Conceitos  Fundamentais.  In.:  NEDER,  Marcos  Vinicius; FERRAGUT, Maria Rita (Coord.). Responsabilidade Tributária. São Paulo: Dialética, 2007, p. 11.  35  FERRAGUT,  Maria  Rita.  Responsabilidade  Tributária:  Conceitos  Fundamentais.  In.:  NEDER,  Marcos  Vinicius; FERRAGUT, Maria Rita (Coord.). Responsabilidade Tributária. São Paulo: Dialética, 2007, p. 11.  36  NEDER, MARCOS  Vinícius.  Solidariedade  de  Direito  e  de  Fato  –  Reflexões  acerca  de  seu  Conceito.  In.:  NEDER,  Marcos  Vinicius;  FERRAGUT,  Maria  Rita  (Coord.).  Responsabilidade  Tributária.  São  Paulo:  Dialética, 2007, p. 28.  37  NEDER, MARCOS  Vinícius.  Solidariedade  de  Direito  e  de  Fato  –  Reflexões  acerca  de  seu  Conceito.  In.:  NEDER,  Marcos  Vinicius;  FERRAGUT,  Maria  Rita  (Coord.).  Responsabilidade  Tributária.  São  Paulo:  Dialética, 2007, p. 28.  Fl. 825DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 826          52 O CTN contempla  em seus  artigos 128  a 138 os  casos de  responsabilidade  tributária, assim distribuídos:  ­ Disposição geral (art. 128);  ­ Responsabilidade dos sucessores (arts. 129 a 133);  ­ Responsabilidade de terceiros (art. 134 e 135) e  ­ Responsabilidade por infrações (arts. 136 a 138).  O que nos interessa, no momento, é a análise da responsabilidade dos representantes  legais de empresas a que se refere o art. 135, III, do CTN, verbis:  Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações  tributárias  resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou  infração de  lei,  contrato social ou estatutos:  [...]  III ­ os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.  Doravante, de modo genérico, o tema será tratado como responsabilidade dos  representantes legais de empresas.    Elementos da Responsabilidade Tributária do Representante Legal de Empresas  Para a caracterização da responsabilidade a que alude o art. 135, III, do CTN,  faz­se necessário a presença dois elementos:  ­  Elemento  pessoal:  diz  respeito  ao  sujeito  que  deu  azo  à  ocorrência  da  infração,  ou  seja,  o  executor,  partícipe  ou  mandante  da  infração.  Trata­se,  na  realidade,  do  administrador da sociedade, independentemente de ser ou não sócio. Assim sendo, não poderão  ser incluídos como responsáveis quaisquer sujeitos que não possuam poder de decisão;  ­ Elemento fático: necessidade de conduta que implique excesso de poderes  ou infração de lei, contrato social ou estatuto.38  Desse  modo,  “não  basta  ser  sócio  da  empresa  (pessoa  jurídica),  é  indispensável  que  exerça  função  de  administração  no  período  contemporâneo  aos  fatos  geradores”.39  Conforme já salientado, o art. 135, III, do CTN possibilita responsabilizar os  diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado desde que sejam os  responsáveis  pela  ocorrência  do  elemento  fático  que  ensejou  o  nascimento  da  obrigação  tributária.                                                              38 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002. São Paulo: Noeses, 2009,  p. 124.  39 BODNAR, Zenildo. Responsabilidade Tributária do Sócio­Administrador. 5. reimp. Curitiba: Juruá, 2010,  p. 99.  Fl. 826DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 827          53 O  conceito  de  diretor  é  dado  pelo  art.  144  da  Lei  nº  6.404/76  –  Lei  das  Sociedades Anônimas: o  sócio ou administrador de uma organização é o que possui poderes  para representá­la, inclusive em juízo, bem como para praticar todos os atos necessários ao seu  regular funcionamento.40  Já a definição de gerente é trazida pelo Código Civil (art. 1.172 e seguintes):  considera­se  gerente  o  preposto  permanente  no  exercício  da  empresa,  na  sede  desta,  ou  em  sucursal,  filial  ou  agência. Note­se  que  na  hipótese  de  lei  não  determinar  poderes  especiais,  considera­se o gerente autorizado a praticar todos os atos necessários ao exercício dos poderes  que lhe foram outorgados.41  Maria Rita Ferragut assim conceitua representante:  é  a  pessoa  física  ou  jurídica  que,  em  função  de  um  contrato  mercantil,  obriga­se  a  obter  pedidos  de  compra  e  venda  de  mercadorias  fabricadas  ou  comercializadas  pelo  representado,  não  tendo  poderes  para  concluir  a  negociação  em  nome  do  representado.  Não  possui  vínculo  empregatício,  e  sua  subordinação  tem  caráter  empresarial,  cingindo­se  à  organização do exercício da atividade econômica.42  Percebe­se  que,  para  a  caracterização  da  responsabilidade  de  que  trata  o  dispositivo legal em questão, faz­se necessária a coexistência de dois elementos essenciais em  relação  a  um  fato:  que  seja  praticado  por  um  representante  legal  de  empresa  e  que  denote  excesso de poder ou infração à lei ou atos constitutivos da pessoa jurídica.  Passo à análise do caso concreto.  A autoridade fiscal, ao cominar a penalidade qualificada de 150%, entendeu  restar caracterizado o conjunto fático­jurídico a ensejar a responsabilidade tributária dos sócios,  todos com poder de gerência.  Entendo não lhe assistir razão.  Isso  porque,  ao  restar  descaracterizada  a  operação  dita  como  fraudulenta,  incide o entendimento já consolidado no âmbito do Superior Tribunal de justiça que pode ser  resumida com a transcrição do Enunciado nº 430 da Súmula do STJ:  O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só,  a responsabilidade solidária do sócio­gerente  Mais recentemente, julgou­se a matéria sob a égide do disposto no art. 543­C  do CPC/1973  (“recurso  repetitivo”),  sendo  que  a  Primeira  Seção  do  STJ,  no  julgamento  do  REsp 1.101.728/SP, de Relatoria do Ministro Teori Albino Zavascki, consolidou entendimento  segundo o qual “a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese,  circunstância  que  acarreta  a  responsabilidade  subsidiária  do  sócio,  prevista  no  art.  135  do                                                              40 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002. São Paulo: Noeses, 2009,  p. 125.  41 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002. São Paulo: Noeses, 2009,  p. 126.  42 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade Tributária e o Código Civil de 2002. São Paulo: Noeses, 2009,  p. 126.  Fl. 827DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 828          54 CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei,  ao contrato social ou ao estatuto da empresa”.  Saliento que o simples inadimplemento da obrigação não pode gerar, de per  si, a responsabilidade do administrador da pessoa jurídica. Ao assim dispor, por outro lado, o  STJ  deixou  transparecer  que  em  hipóteses  de  um  inadimplemento,  digamos,  “qualificado”,  pode­se sim atribuir a responsabilidade de que tratar o art. 135 do CTN, conforme venho me  pronunciando em diversos julgados.   Com efeito, não comungo do entendimento daqueles que limitam a aplicação  do  caput  do  art.  135  do  CTN  às  hipóteses  de  cometimento  de  infração  à  lei  societária,  excluindo às infrações às leis tributárias. Não me parece ser crível que, em se tratando de uma  norma  tributária,  exclua­se  do  rol  de  infrações,  aptas  a  ensejar  a  corresponsabilidade,  justamente as próprias leis aplicáveis aos tributos.  Ocorre que, no presente caso, estamos diante de um simples inadimplemento  de tributo, tanto que votei pela desqualificação da penalidade, reduzindo­a ao patamar de 75%.  Esclareço que tal implicação não possui correspondência biunívoca, ou seja,  não se pode fazer o raciocínio inverso a ponto de se concluir que, na ausência de tal penalidade  qualificada, não incidiria a responsabilidade tributária de que trata o art. 135, III, do CTN.  Isso porque há hipóteses em que sequer é necessário o lançamento de ofício  do  crédito  tributário  para  que  o  responsável  legal  da  pessoa  jurídica  responda  pelo  crédito  tributário, como, por exemplo, nos casos de apropriação indébita previdenciária (art. 168­A do  Código Penal) e na apropriação indébita de que trata como crime contra a ordem tributária pela  art. 2º, inciso II, da Lei nº 8.137/90 (falta de recolhimento de imposto de renda retido na fonte e  de IPI destacado na nota fiscal, por exemplo). Em tais hipóteses, basta o contribuinte declarar o  débito  e  não  recolhê­lo  para  que  o  administrador  da  pessoa  jurídica,  ao  lado  da  própria  empresa,  passe  a  responder  pelo  débito  correspondente,  sem que haja  necessidade  sequer  da  realização do lançamento de ofício, e, muito menos, de penalidade qualificada.  Nesse mesmo sentido, este colegiado vem decidindo que nos lançamentos em  que  reste  configurado  que  a  pessoa  jurídica  autuada  encontra­se  em  nome  de  interpostas  pessoas, mas o fato gerador correspondente não tem qualquer correlação com tal interposição  (por exemplo, depósitos bancários, sem comprovação de origem, nas próprias contas da pessoa  jurídica autuada – art. 42 da Lei nº 9.430/96), não há incidência de multa qualificada, mas os  reais  proprietários  de  tal  pessoa  jurídica  devem  responder  pelo  crédito  tributário  correspondente, quer por força do art. 124,  I, do CTN, quer pelo disposto no art. 135,  III, do  CTN quando demonstrados que administravam tal pessoa jurídica.43                                                              43 A esse respeito, veja­se o Acórdão 1402­002.120, por mim relatado e julgado por esta turma na sessão de 01 de  março de 2016, cujo o seguinte excerto do voto condutor do aresto é elucidativo:   “[...]A meu ver, os elementos apontados pela autoridade fiscal não permitem concluir ter o contribuinte  tenha agido com dolo, de modo a caracterizar a fraude a que alude o artigo 72 da Lei nº 4.502/1964.  Em primeiro lugar porque a autuação baseia­se única e exclusivamente em presunção legal de omissão de  receitas,  sendo  que  as  contas  bancárias  em  que  se  apoia  o  lançamento  estavam  em  nome  da  própria  empresa. No mais, o fato de a fiscalização acusar o contribuinte de possuir interpostas pessoas, embora  possa  surtir  efeitos  no  que  atine  à  responsabilidade  tributária  de  terceiros,  em  nada  altera  as  características da ocorrência do fato gerador, este sim, elemento a ser levado em consideração para fins  de dosimetria da penalidade a ser cominada.  Fl. 828DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 829          55 A  respeito  do  art.  124,  I,  do  CTN,  destaco  o  entendimento  comumente  adotado pelo i. Conselheiro Leonardo de Andrade Couto:  [...] Já a solidariedade obrigacional dos devedores prevista no inciso I, do art. 124 é  definida pelo  interesse  comum ainda que a  lei  seja omissa,  pois  trata­se de norma  geral.  Justamente  por  não  ter  sido  definida  pela  lei,  a  expressão  “interesse  comum”  é  imprecisa, questionável, abstrata e mostra­se inadequada para expor com exatidão a  condição em que se colocam aqueles que participam da realização do fator gerador.  Daí  a  fragilidade  do  inciso  I,  do  mencionado  art.  124,  do  CTN;  muitas  vezes  utilizado de forma equivocada para estabelecer uma espécie de sujeição passiva de  forma indireta.  Para  que  haja  solidariedade  com  supedâneo  no  art.  124,  I  do CTN,  é  preciso  que  todos  os  devedores  tenham  um  interesse  focado  exatamente  na  situação  que  constitua  o  fato  gerador  da  obrigação  tributária.  Ainda  que  mais  de  uma  pessoa  tenha  interesse  comum  em  algum  fato,  para  que  haja  solidariedade  tributária  é  necessário que o objeto deste interesse recaia sobre a  realização do fato que tem a  capacidade de gerar a tributação. 44   Mais ainda, é necessário que o interesse comum não seja simplesmente econômico  mas sim jurídico, entendendo­se como tal aquele derivado de uma relação jurídica  de  qual  o  sujeito  de  direito  seja  parte  integrante,  e  que  interfira  em  sua  esfera  de  direitos e deveres e o legitima a postular em juízo em defesa do seu interesse.  No  caso  de  grupos  econômicos  definidos  pela  participação  societária,  como  no  presente  caso,  tal  circunstância,  por  si  só,  não  define  juridicamente  o  interesse  comum.  O  interesse  jurídico  se  caracteriza  quando  a  situação  realizada  por  uma  pessoa é capaz de gerar os mesmos direitos e obrigações para a outra. E este tipo de  interesse não existe entre sociedades que mantêm a sua independência e distinção,  ainda que vinculadas  a um objetivo  econômico comum. Para que duas  sociedades  tivessem interesse jurídico comum capaz de imputar a solidariedade, seria necessário  que  ambas  tivessem  realizado  conjuntamente  o  fato  gerador  tributário,  como,  por  exemplo,  que  ambas  fossem  proprietárias  do  mesmo  imóvel,  ou  que  tivessem  prestado um serviço em conjunto ou que tivessem alienado um produto ao mercado  consumidor em parceria. 45   Sob  esse  prisma,  a  autoridade  fiscal  não  apontou  qualquer  circunstância  que  estabelecesse um liame da coobrigada com a ocorrência do fato gerador, derivado de  ações ou omissões praticadas exclusivamente pela autuada.                                                                                                                                                                                            Veja­se  que  o  fato  de  a  empresa  estar  em  nome  de  terceiros  em  nada  dificultou  a  seleção  da  pessoa  jurídica para procedimento fiscal, ou seja, não impediu, dificultou ou retardou tanto o conhecimento da  ocorrência do fato gerador por parte da autoridade fiscal (sonegação) quanto a própria ocorrência do fato  gerador  (fraude),  uma  vez  que  as  contas  bancárias  a  partir  das  quais  se  apurou  a  omissão  de  receita  estavam em nome da própria RECORRENTE.  Assim, concluo que a  fraude detectada  tem a ver com a  cobrança do  crédito  tributário, e não  com  sua  constituição.”    44 BARCELOS, Soraya Marina. Os Limites da Obrigação Tributária Solidária Prevista   no art. 124   do Código  Tributário  Nacional  e  o  Princípio  da  Preservação  da  Empresa.  Disponível  em  http://www.mcampos.br/posgraduacao/Mestrado/dissertacoes/2011. Acesso em 31/08/2012.    45 idem  Fl. 829DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO Processo nº 16561.720079/2014­87  Acórdão n.º 1402­002.265  S1­C4T2  Fl. 830          56 No  presente  caso  não  há  qualquer  outro  elemento  que  possa  justificar  a  imputação de responsabilidade aos sócios com poder de gerência, quer com base no art. 135,  III, ou ainda no art. 124, I, ambos do CTN.  Assim sendo, voto por excluir a imputação de responsabilidade tributária aos  coobrigados.    4 CONCLUSÃO  Isso  posto,  voto  por  não  conhecer  do  recurso  nas  questões  atinentes  a  confisco e a inconstitucionalidade de lei, rejeitar as preliminares de nulidade do lançamento e  da  decisão  de  primeira  instância,  e,  no mérito,  dar  provimento  parcial  ao  recurso  voluntário  para deduzir do imposto apurado o valor correspondente a 82,50% (R$ 3.705.658,68 ) do IRRF  incidente sobre a remuneração paga, reduzir a multa de ofício ao percentual de 75% e excluir  os sócios pessoas físicas do polo passivo da obrigação jurídico­tributária.   (assinado digitalmente)  FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO ­ Relator                                Fl. 830DF CARF MF Impresso em 23/08/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Assinado digitalmente em 22/08/2016 por LEONARD O DE ANDRADE COUTO

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Numero do processo: 10380.725119/2013-48
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 03 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Oct 10 00:00:00 UTC 2016
Numero da decisão: 1302-000.418
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Os membros da Turma resolvem, por maioria, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencida a Relatora Conselheira Talita Pimenta Félix, que dava provimento parcial ao recurso voluntário, acompanhada pelas Conselheiras Ana de Barros Fernandes Wipprich e Edeli Pereira Bessa, sendo designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior. (documento assinado digitalmente) EDELI PEREIRA BESSA - PRESIDENTE (documento assinado digitalmente TALITA PIMENTA FÉLIX - Relatora (documento assinado digitalmente) ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edeli Pereira Bessa (Presidente), Ana de Barros Fernandes Wipprich, Alberto Pinto Souza Júnior, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix 1. Da Autuação A discussão travada nos autos se refere à cobrança de crédito tributário de IRPJ1 (fls2. 03/43), CSLL3 (fls. 44/79), COFINS4 (fls. 80/90) e PIS/PASEP5 (fls. 91/101), cujo total perfaz R$ 87.779.772,62 (fls. 02), relativo aos anos-calendários de 2006, 2007 e 2008, com aplicação de multa de 225%, cuja infração revela: (i) suposta não emissão de diversas notas fiscais em atividade de revenda de mercadorias, ocasionando omissão de receita, quantificada mediante o arbitramento do lucro (bruto mensal), em razão de o contribuinte não haver apresentado documentos contábeis/fiscais exigidos em notificação fiscal. 2. Do Termo de Verificação Fiscal - TVF Para melhor compreensão fática do caso sob análise, cumpre observar que o TVF (fls. 103/119) determinou a fiscalização na empresa Maesio Candido Vieira ME, cujo início se deu em 10/11/2010 (TIF). Nesta, em virtude de suspeita de planejamento fiscal fraudulento – com utilização de interpostas pessoas – procedeu-se à abertura de diligências em diversas empresas suspeitas, além da Recorrente, as empresas Ponto Econômico LTDA, Polo do Eletro Comercial de Móveis LTDA, Ponto do Eletro Móveis e Eletrodomésticos LTDA, VW Comercial de Móveis e Eletrodoméstico LTDA. 2.1Solicitados a apresentar os livros e notas fiscais, nem contribuinte, nem Fisco Cearense os forneceram, o que levou o Fisco Federal a realizar auditoria na contabilidade digital, com fundamento nos arts. 529 a 532 do RIR/99, que apontou como atípicos os seguintes fatos contábeis, são eles: (i) a ausência de registro no balancete patrimonial das empresas da conta “Banco conta movimento”, que no entanto dispunha da conta “Fornecedores e Duplicatas a Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro; (ii) ainda no balancete digital, a fiscalização observou que as contas “Estoques”, “Transferências de mercadorias”, “Caixa” e “Clientes a Receber” apresentam valores relevantes; (iii) por fim, diz que os históricos não permitem identificar a procedência e o destinação das transações, o que se torna impossível sem a apresentação da documentação pela contribuinte, cita os artigos 256 e 267 do RIR/99. 2.2Em relação às contas lançadas na escrita contábil/fiscal, vale registar que: (i) na conta “Caixa e Bancos” não há escrituração na conta “Banco Conta Movimento”, mas mesmo assim registra as contas “Transferência de Mercadorias”, “Clientes a Receber”, “Outros Clientes a Receber”- entre outras – para lançar sua receita. Em razão da ausência da conta “Banco” a RFB não pode futilizar seu sistema de auditoria; (ii) na conta “Clientes – Duplicatas a Receber”, em razão da falta de documentos, notou-se que as vendas não passavam pela conta de Receita da contabilidade. Além disso, há gastos elevados com “Manutenção, Conservação e Reparos, Material de Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que nos primeiros lançamentos ficou demonstrado que as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada. O TVF revela, ainda, que a fiscalização chegou à conclusão de que a “recusa da apresentação se deu por motivo de ausência de documentação idônea”. Vale registrar que o Sr. Máesio compareceu aos autos - como sócio - e requereu a prorrogação do prazo para apresentação dos documentos de todas as empresas, esse prazo durou, aproximadamente, 08 meses. 2.3Foi aplicada multa qualificada sob a alegação de ocorrência de: (i) conduta reiterada e sistemática da contribuinte, pela não apresentação dos documentos que respaldariam a contabilidade nos anos de 2006 a 2008, e; (ii) uso continuado de interpostas pessoas, uma vez que Maesio Candido Vieira e Macavi Importadora e Exportadora de Móveis são denominações para um mesmo CNPJ. Sendo constituída como empresa individual em 10/10/89, permanece até hoje na mesma situação, e ao longo dos anos foram utilizadas interpostas pessoas (que ou eram parentes ou pessoas com próximas), cuja consequência é a sonegação fiscal. Ainda neste aspecto, o TVF aduz que as empresas foram constituídas entre 1999 e 2004, e que entre 2009 e 2011 o Sr. Maesio passa a participar de direito de todas elas, indício de “continuidade do uso de interpostas pessoas em um longo período de tempo”, cujo principal beneficiário foi Maesio Candido Vieira ME, dados de um planejamento ilícito, averiguado mediante histórico das alterações contratuais de cada empresa. Por fim, no cadastro da RFB em 23/05/2013, constava que a empresa Macavi possuía 24 filiais, porém, no site de atendimento ao cliente constatou-se o número de 42 estabelecimentos. Neste ponto, cumpre ressaltar que tal multa foi fundamentada da seguinte forma (fls. 43, 79, 90 e 101): 2.4Por fim, revela ser incabível alegação de decadência (Resp Recurso Repetitivo n. 973.733-SC) por restar estabelecido pela Corte Superior de Justiça que “qualquer medida preparatória necessária ao lançamento de ofício, interrompe a contagem do prazo decadencial”. 3.Da Impugnação e da Decisão da DRJ/BHE Irresignada, a autuada apresentou Impugnação ao lançamento fiscal (fls. 854/884), peça comum a diversos processos6. Todavia, a DRJ/BHE rejeitou as preliminares e a decadência suscitadas e, julgando improcedente a Impugnação, manteve a exigência fiscal (fls. 889/912). Foi dada ciência eletrônica a autuada em 27/12/2013 (fls. 919). 4.Do Recurso Voluntário Nesta mesma data, foi interposto Recurso Voluntário pela autuada (fls. 921/966), com os seguintes argumentos: i) acerca do cabimento (art. 33 do Decreto Lei. 70.235/72) e tempestividade (art. 56, do Decreto Lei n. 70.235/72) do recurso, aduz, serem pertinentes quando de decisões proferidas pela da Turma de Julgamento, total ou parcialmente, devendo ser interposto no prazo de 30 dias contados de sua ciência, que neste caso se deu via Sistema E-Cac em 27/10/13 (o acórdão foi assinado digitalmente em 14/11/13), considerando o prazo de 30 dias para a interposição, seu término ocorreu em 27/12/2013; ii) quanto à descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal, que enseja ausência de sua validade e eficácia, aduz que a fiscalização deve se encerrar a cada 60 dias, na ausência de qualquer outro ato que indique prosseguimento dos trabalhos, nos termos do art. 33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11. ii.1) O primeiro documento levado à recorrente ocorreu no dia 10/11/2010 (fls. 138). Após, a recorrente solicitou 01 vez prorrogação de prazo, até 21/01/2011 e, novamente, prorrogando-o até 14/02/2011. Deste modo, o referido prazo teria se encerrado em 14/04/2011. Ressalta que até esta data não houve outro ato escrito da fiscalização; ii.2) Em 29/10/2012, iniciou-se a segunda diligência (fls. 126), dando continuidade à fiscalização, com a intimação da autuada. Desta forma, o referido prazo de 60 dias terminaria no dia 29/12/2012; ii.3) Posteriormente, houve a terceira diligência (fls. 120), cuja ciência pela autuada se deu em 11/03/2013. Desta forma, o referido prazo de 60 dias terminaria em 21/06/2013. Ressalta que apenas em 10/07/2013 (fls. 850) houve o auto de infração e respectivo Termo de Encerramento. Deste modo, ao final de cada prazo de 60 dias, devolveu-se a espontaneidade (art. 138 do CTN) à autuada, ensejando – em virtude do decurso do prazo – ausência de validade e eficácia da ação fiscal. Destarte, requer a reforma do acórdão recorrido para que, reconhecendo-se a referida descontinuidade da ação fiscalizatória, esta acarrete o reconhecimento da decadência do período pleiteado no impugnação, bem como do pleiteado no recurso (2006, 2007 e 2008). iii) A decadência de diversos períodos autuados; iv) Quanto à penalidade, questiona a aplicação da qualificação e o agravamento, alegando que: iv.1) a fiscalização teria justificado o arbitramento pela falta de entrega de documentos. Todavia, afirma que todos aqueles legalmente exigíveis foram entregues, não havendo motivo apto a imputar a aplicação do art. 530, III do RIR. Isto restaria evidente no Termo de Encerramento (fls. 752), o qual demonstra ter devolvido documentos; iv.2) inexistiu a figura de interpostas pessoas. Com base no exposto, a Recorrente pleiteia o recebimento do recurso e a reforma do acórdão recorrido, para que: i) seja reconhecida a declaração da descontinuidade da ação fiscal, com fulcro no art. 33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11 e, por consequência, o reconhecimento da decadência de todo o período autuado (2006, 2007 e 2008). Momento em que faz menção ao julgamento ocorrido no PAT 10315.720696/2013-27, para empresa do mesmo grupo econômico (Polo do Eletro Comercial de Móveis LTDA). Neste tópico, defende a nulidade da cobrança tributária, apontando a razão pela qual trimestres (IRPJ e CSLL) e meses (PIS e COFINS) devem ser declarados decaídos, seja pelo transcurso do prazo de cinco anos, seja pelo pagamento do tributo; ii) a declaração de insubsistência/improcedência do auto de infração, em virtude de não estar pendente a entrega de qualquer documento, considerando-se a decorrência do prazo legal; iii) o direito de se realizar sustentação oral. Por fim, juntou vários comprovantes de pagamento (fls. 967/974). Em síntese, é como relato. 1.PRELIMINARMENTE 1.1Do Cabimento e da Tempestividade do Recurso Voluntário O “Termo de Abertura de Documento”, relativo à intimação do acórdão recorrido ocorreu em 18/12/2013 (fls. 918). Assim, considerando o prazo de 30 dias para a interposição do recurso (art. 56 do Decreto n. 70.235), interpondo o recurso em 27/12/2013 (fls. 919), tempestiva é a presente manifestação. 1.2Da Decadência Em preliminar a Recorrente pleiteia a nulidade dos AIIM (Autos de Infração e imposição de multa) sob a alegação de que os exercícios de 2006, 2007 e 2008 (i) foram atingidos pela decadência, ou, (ii) pelo fato de haverem sido quitados, conforme comprovantes de pagamento que anexa. Ato contínuo, a parte argumenta que os créditos cobrados neste auto “são claramente tributos sujeitos a lançamento por homologação”, estando, portanto, sujeitos ao prazo decadencial do art. 150, parágrafo 4o, do CTN. Divergindo do posicionamento da contribuinte, entendo que o prazo decadencial a qual esta sujeita, em razão da imputação que lhe foi cometida, é o enunciado pelo art. 173, inciso I, do CTN, uma vez que há fortes indícios probatórios que demonstrem a ocorrência de fraude nas operações que realizou. Este, assunto que será abordado no item seguinte, no mérito. Assim sendo, o primeiro registro que se faz é que os tributos cobrados nestes autos de infrações dizem respeito a tributos que podem estar sujeitos a lançamento por homologação, mas, para tanto, seria imprescindível que a contribuinte não houvesse incorrido na pratica de dolo, fraude ou simulação. Consoante reiterado, também, nas Súmulas CARF ns. 72 e 101, donde se lê que: Súmula CARF n. 72: Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. E, Súmula CARF n. 101: Na hipótese de aplicação do art. 173, inciso I, do CTN, o termo inicial do prazo decadencial é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Por entender que a fiscalização comprovou a existência de fraude1, entendo pela aplicação do art. 173, inciso I, do Diploma Tributário Nacional. Assim sendo, já que a Recorrente foi autuada em 08/07/2013 (fls. 850), encontram-se decaídos os períodos de 2006, 2007 e 2008 (para os fatos ocorridos até junho deste ano). 1.3 Da relação entre a “decadência” e a “descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal” A contribuinte traça um paralelo entre “decadência” e o que intitula “descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal”. E com base nestes institutos faz algumas afirmações com as quais discordo, por entender não possuir qualquer respaldo legal, são elas: 1.3.1 Que a lavratura do AIIM deveria ter ocorrido no período de 60 dias do prazo da fiscalização, que após o término deste prazo inexistiria qualquer pendência em aberto, e que lhe seria restabelecida a espontaneidade De acordo com suas palavras, a Recorrente deseja que esta Turma Julgadora reconheça a “descontinuidade da ação fiscal preparatória”, uma vez que os autos foram lavrados fora do período da fiscalização (60 dias), momento no qual, segundo entende, já haveria readquirido a sua espontaneidade, cuja consequência direta seria a decadência. Deste modo, alega em sua peça recursal que: (...) resta demonstrada a inexistência de validade e eficácia da ação fiscal, na qual foi devolvida a espontaneidade ao contribuinte, ponto primordial do presente Recurso que deve ser modificado por este respeitável órgão julgador e que se encontra substanciado na legislação colacionada na defesa e ratificada no presente Recurso. Diante do exposto, nota-se que a Recorrente aborda (como ponto primordial de sua defesa) a relação entre o período em que esteve sujeita à fiscalização e a validação desta, relação que não possui amparo legal, desde que respeitado o instituto da decadência, claro. E por concordar com a posição da DRJ, transcrevo parte de seu voto que, após citar os parágrafos 1o e 2o, do art. 7o, do Decreto n. 70.235/72, assim se manifesta: Nos termos do § 1º supra, o início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Já o § 2° determina que, para os efeitos do disposto no § 1º, os atos que determinam o início do procedimento valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. Como se vê, é tão somente para fins de exclusão da espontaneidade que ocorre a perda de validade, por decurso de tempo, do ato que determina o início do procedimento fiscal. Noutras palavras, a falta de continuidade do procedimento fiscal não produz nenhum outro efeito além de restituir a espontaneidade. (Sem grifo no original). Não há respaldo legal a validar o fato de que a ausência de continuidade da fiscalização influencie na contagem do prazo decadencial, ou mais absurdo ainda, que produza como consequência o efeito de “encerrar por decurso de prazo (validade) qualquer exigência que, à data do encerramento, perdera a exigibilidade”. 1.3.2Que a fiscalização não poderia ter sido realizada “virtualmente”, mas sim in loco Defende a contribuinte que a fiscalização foi realizada “por correspondência”, sem que os fiscais jamais houvessem ido à empresa. Ocorre que, em razão da escrituração digital e do cruzamento de dados contábeis/fiscais, é perfeitamente possível às fiscalizações federal, estaduais e municipais realizarem auditorias nas documentações dos contribuintes sem, necessariamente, precisarem ir até às empresas. 1.3.3 Que as exigências de apresentação de documentos, solicitadas pelo Fisco Federal, são ilegais, por serem (iii.1) tarefas privativas da fiscalização e (iii.2) por não ser a contribuinte obrigada a fazer prova contra si. Mais uma vez equivoca-se, de acordo com o inciso III, art. 530 do RIR/99, o contribuinte que deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, estará sujeito à tributação com base no lucro arbitrado. Assim, nos termos do acórdão da DRJ: (...) por ter sido a impugnante intimada a prestar esclarecimentos mediante o uso de planilhas específicas, “a autoridade do lançamento transferiu os papéis de trabalho do auditor para o auditado”. Mas nada há de censurável ou irregular no procedimento fiscal. Com efeito, todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos auditores-fiscais no exercício de suas funções. É o que dispõe o art. 927 do RIR, de 1999: Art. 927. Todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos Auditores-Fiscais do Tesouro Nacional no exercício de suas funções, sendo as declarações tomadas por termo e assinadas pelo declarante (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º). Há incoerência lógica em se defender a impossibilidade de o Fisco Federal poder solicitar a apresentação de documentos do e pelo contribuinte. Se tal tarefa não for uma obrigação da parte, de quem seria? Quem poderia fazê-lo em seu nome? Tarefa privativa da fiscalização, talvez, pudesse ser o fato de somente esta ter o poder de solicitar escrituração contábil-fiscal do contribuinte. Nesta tônica, afasto todos os argumentos acima delineados, os quais são tratados pela Recorrente, em memorial, como preliminares. 2. DO MÉRITO Quanto ao mérito, inicio pela análise da imputação do arbitramento do lucro, para somente após passar à análise da aferição da decadência, tal inversão justifica-se uma vez que a depender do posicionamento quanto à legitimidade, ou não, da aplicação do arbitramento, consequência natural será a tomada de posição quanto ao prazo inicial a ser adotado para contar o prazo decadencial (se art. 150, parágrafo 4o ou 173, inciso I, ambos, do CTN). Em outros termos, a decadência será diretamente influenciada pelo arbitramento. 2.1Do Arbitramento dos Lucros A imputação que recai sobre a contribuinte versa sobre a suposta não emissão de diversas notas fiscais em atividade de revenda de mercadorias, ocasionando omissão de receita, quantificada mediante o arbitramento4 do lucro, em razão de não haver apresentado documentos contábeis/fiscais exigidos em notificações fiscais. Florence Haret5 ao relacionar a presunção ao arbitramento, explica que: (...) o fato antecedente que faz admitir a técnica do arbitramento é da ordem da ilicitude. Ausentes as condutas ilícitas, é vedado arbitrar. (...) O sentido presuntivo aqui não esta no arbitramento, como regime de tributação, posto ordinariamente à disposição da fiscalização se e quando procedido ilícito pelo contribuinte. O arbitramento, em verdade, é consequência de uma presunção anterior: a da ocorrência do fato antecedente da regra-matriz. Mediante procedimento fiscalizatório, descoberta a ausência de declaração a menor, em primeiro, o Fisco presume ocorrência em face das documentações encontradas; para depois, diante do caráter pecuniário de toda a prestação tributária, proceder à quantificação do valor do tributo, mediante técnica de apuração chamada arbitramento. Logo, o arbitramento em si mesmo não é presunção, nem sanção: é forma de apuração do valor a título de tributo que tem por causa conduta ilícita. (Sem grifo no original). E consoante prescreve o inciso III, art. 530, do RIR/99, o lucro será arbitrado pela autoridade fiscal quando a escrituração a que estiver obrigado a contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para (i) identificar a efetiva movimentação financeira, impedindo o (ii) conhecimento do lucro real. Seguindo lições de Maria Rita Ferragut6, o arbitramento do lucro esta intrinsecamente conectado à ocorrência de fraude, que possui como fatos tipificadores a ocorrência de: (i) interposta pessoa; (ii) apresentação de documentação fiscal inidônea/falsidade de informações; (ii) reiteração de conduta; (iv) simulação de negócios jurídicos e, (v) informações divergentes entre os fiscos. Pois bem, segundo informa o TVF – cuja contraprova não foi produzida pela Recorrente – 03 (três) das condutas acima mencionadas foram cometidas, conforme se infere das linhas que seguem. 2.1.1 Interpostas Pessoas A fiscalização, mediante análise dos contratos sociais e suas alterações, constatou que Maesio Candido Vieira e Macavi Importadora e Exportadora de Móveis são denominações para um mesmo CNPJ, cuja constituição ocorreu como empresa individual em 10/10/89, permanecendo nas mesmas condições até hoje. Ocorre que, ao longo dos anos foram utilizadas interpostas pessoas – parentes ou pessoas que mantinham relacionamento muito próximo com o Recorrente – para a constituição das empresas mencionadas no TVF. Referidas empresas foram criadas entre 1999 e 2004, e entre 2009 e 2011 o Sr. Maesio Candido Vieira passa a participar de direito de todas elas, o que a fiscalização atribui a nomenclatura de “continuidade do uso de interpostas pessoas em um longo período de tempo”. Confirmando tais fatos, a Recorrente valida o procedimento adotado pela fiscalização ao afirmar que “a interposição de familiares não trouxe qualquer prejuízo à arrecadação de tributos e, em segundo ponto, não menos essencial, o sócio controlador e sua esposa assumiram a integralidade das quotas de todas as empresas, antes de qualquer procedimento fiscal (...)”. A assertiva de que tal comportamento não trouxe danos ao erário público não procede. Quanto a este instituto, Maria Rita Ferragut7, registra que: O primeiro e mais contundente dos fatos tipificadores da fraude é a demonstração da utilização, pelo sujeito passivo, de interposta pessoa, considerada como sendo a pessoa física ou jurídica que oculta, esconde, encobre o verdadeiro interessado no negócio. (...) É assim denominada por ‘interpor-se’ entre o sujeito ativo e o ‘real’ sujeito passivo, com o objetivo central de evitar que este último integre a relação jurídica tributária. (...) Não temos dúvidas de que a constatação da existência de interposta pessoa é prova do dolo. Tais dados revelam indícios veementes da utilização de terceiros com o intuito de sonegação fiscal, o que respalda a atuação da fiscalização. 2.1.2Apresentação de documentação fiscal inidônea/falsidade de informações O segundo fato tipificador da ocorrência de fraude, segundo informa e documenta o TVF, registra que a contribuinte cometeu uma série de ilícitos contábeis que impediram o Fisco Federal de conhecer o lucro por ela apurado. E vale mencionar que, além da contribuinte, o Fisco Estadual Cearense, quando solicitado a apresentar os livros e notas fiscais da mesma, também não o fez, situação que levou a fiscalização a realizar auditoria na contabilidade digital. E para registrar tais ilícitos, aponto: (i) a ausência de registro (no balancete patrimonial das empresas) da conta “Banco conta movimento”, que no entanto dispunha da conta “Fornecedores e Duplicatas a Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro; (ii) ainda no balancete digital, a fiscalização observou que as contas “Estoques”, “Transferências de mercadorias”, “Caixa” e “Clientes a Receber” apresentam valores relevantes; (iii) na conta “Clientes – Duplicatas a Receber”, em razão da falta de documentos, notou-se que as vendas não passavam pela conta de Receita da contabilidade. Além disso, há gastos elevados com “Manutenção, Conservação e Reparos, Material de Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que nos primeiros lançamentos ficou demonstrado que as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada; (iv) bem como, que os históricos não permitem identificar a procedência e o destinação das transações, o que se torna impossível ante a ausência de apresentação da documentação pela contribuinte. A contribuinte se defende informando que apresentou os documentos exigidos, bem como, que a fiscalização procedeu, de modo ilegal, ao solicitar a apresentação de planilhas, desejando que este “assumisse as tarefas privativas da auditoria fiscal, intimando-o a elaborar planilhas; em suma, a fazer provas contra si mesmo”8. Em tese procede a assertiva de que apresentou documentos, porém, não de forma válida, pois não comprovou os registros pertinentes aos fatos contábeis contestados pela fiscalização, situação que descredencia os lançamentos escriturados, permitindo a aplicação do método arbitral de lucros9. Neste sentido, transcrevo trecho da decisão proferida pela DRJ, com a qual concordo, segue: (...) consta do termo de devolução de documentos anexado a fls. 331 que foram objeto de devolução apenas os livros Diário, Razão e de Apuração do Lucro Real (Lalur) referentes aos anos-calendários fiscalizados. Portanto, ao contrário do que sugere a impugnante, não houve devolução de nenhum documento comprobatório de sua escrituração. Vale ressaltar que, nos termos do art. 923 do RIR, de 1999, abaixo reproduzido, a escrituração só tem valor probatório em favor do contribuinte se os fatos nela registrados estiverem comprovados por documentos hábeis. Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). Alega-se ainda que, por ter sido a impugnante intimada a prestar esclarecimentos mediante o uso de planilhas específicas, “a autoridade do lançamento transferiu os papéis de trabalho do auditor para o auditado”. Mas nada há de censurável ou irregular no procedimento fiscal. Com efeito, todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos auditores-fiscais no exercício de suas funções. Deste modo, não havia outra alternativa ao Fisco Federal, se não o arbitramento do lucro, já que a irregularidade apontada diz respeito à ausência de documentação hábil10 a formalizar as operações realizadas pela contribuinte. 2.1.3Reiteração da Conduta Como terceiro, e último, apontamento do fato tipificador da fraude, a contribuinte – de modo sistemático e reiterado – não apresentou a documentação relativa aos anos-calendários de 2006, 2007 e 2008. Para tratar melhor este tema, sigo me valendo das lições de Maria Rita Ferragut, que explica que: Errar de forma esporádica é possível e, isoladamente, não revela má-fé do sujeito. Já a conduta repetitiva é forte indício da intenção de fraudar o Fisco. (...) O Problema que se coloca, a partir dessa conclusão, é a definição ‘conduta reiterada’. Quantas vezes o ilícito deve ser praticado, para que o fato assuma esse foro? Reiteração é conceito indeterminado. O erro esporádico – uma ou duas vezes em largo espaço de tempo – não se consubstancia numa conduta reiterada. Se, em contrapartida, tal erro ocorrer ao longo de todo o ano, restará configurada a reiteração. (...) Há de se registrar, também, que a reiteração é relevante apenas se a conduta repetida for grave o suficiente à configuração da responsabilidade subjetiva inerente à fraude. Não qualquer conduta, mas somente aquela que leva à convicção de que o sujeito deve ter querido lesar os cofres públicos. 2.2Da Aplicação de Penalidades A Recorrente se insurge contra a aplicação (i) da qualificadora (75%) e do (ii) agravamento (150%) da multa de ofício, porém, restando caracterizado fortes e relevantes indícios de fraude em sua conduta, cabível – e imprescindível - é a aplicação de multa qualificada e agravada. Ressalvo que os dois pontos serão abordados em conjunto, neste tópico, em razão de sua relação intrínseca. Assim, segundo dispõe a legislação abaixo transcrita: O enunciado do art. 44, da Lei n. 9.430/96, já alterado pela Lei n. 11.488/07, resultado da conversão da MP n. 351 de 2007, prescreve que: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) §1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. O inciso I, determina a aplicação do percentual de 75% “nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”, este, exatamente o caso dos autos. Nestes termos, elucida o acórdão da DRJ que: Tenha-se em mente ainda que, relativamente aos anos-calendários de 2006 a 2008 e em razão das infrações apuradas neste processo, deixaram de ser recolhidos nada menos que R$ 22.797.636,93 de tributos em valores originais (sem juros e multas). Ademais, constatou-se insuficiência de recolhimento, sem exceção, em todos os trimestres dos três anos fiscalizados. Ocorre que o parágrafo primeiro impõe a duplicação do percentual da multa (150%), agravamento, acaso o contribuinte se adeque a um dos dispositivos da Lei n. 4.502/64 (arts. 71, 72 e 73). E conforme amplamente registrado em linhas pretéritas, não restam dúvidas de que houve o cometimento de fraude (art. 72), sendo assim, de acordo com o Capítulo II (das penalidades), Seção II (da aplicação e gradação das penalidades), lê-se que: Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Reforça ainda tal provimento as Súmulas CARF ns. 25 e 96, abaixo transcritas, respectivamente: A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64. Bem como: A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica, por si só, o agravamento da multa de ofício, quando essa omissão motivou o arbitramento dos lucros. Após mencionar a legislação de regência, e apenas a título de reforço, reitero os motivos determinantes à imputação das penalidades mencionadas transcrevendo - por compreender a situação fático-jurídica nos mesmos moldes dos argumentos esposados no acórdão da DRJ - parte de seus argumentos: (...) a multa imposta ao empresário individual foi qualificada não por ter sido ele considerado interposta pessoa, mas sim porque, entre outras razões, ele teria se beneficiado do esquema fraudulento. Não vem a propósito, portanto, o argumento de que, “em se tratando de uma empresa individual, como é o caso da MAÉSIO CANDIDO VIEIRA, CNPJ nº 35.023.647/0001-13, o seu titular não pode ser laranja de si mesmo”. Ainda segundo a impugnante, não haveria nenhum “proveito fiscal de colocar pai, mãe, esposa e colaboradores mais próximos à frente das novas empresas”, as quais teriam sido criadas apenas “em prol do incremento de crédito bancário”. Tais argumentos, contudo, não são hábeis para afastar a qualificação da multa. Pelo contrário, até reforçam a constatação fiscal de que houve fraude na composição do quadro social das empresas. E a interposição de pessoas é um modo de dissimular as condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Tenha-se em mente ainda que, relativamente aos anos-calendários de 2006 a 2008 e em razão das infrações apuradas neste processo, deixaram de ser recolhidos nada menos que R$ 22.797.636,93 de tributos em valores originais (sem juros e multas). Ademais, constatou-se insuficiência de recolhimento, sem exceção, em todos os trimestres dos três anos fiscalizados. Tudo isso num contexto em que se evidenciou o intuito de fraude na elaboração da escrituração, cujas inconsistências são de causar espécie, como, por exemplo: “omissões de informações financeiras com a falta na escrituração contábil da conta Banco conta movimento”, “falta de escrituração da conta do ativo imobilizado” e “as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada”. Cumpre também considerar as inexatidões cadastrais encontradas: diversos estabelecimentos não foram informados no CNPJ. Mais grave ainda é a conduta reiterada e sistemática, sem nenhuma justificativa plausível, de não apresentar a documentação que teria embasado a escrituração, cujo propósito não pode mesmo ter sido outro senão o de ocultar do fisco a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. Em suma, justificam a qualificação da multa não só a relevância dos valores e a habitualidade da conduta, mas todo o contexto fático-probatório dos autos. Por fim, não tem cabimento algum falar em exclusão de responsabilidade por denúncia espontânea da infração, uma vez que faltam, no caso, os seguintes requisitos previstos no art. 138 do CTN: pagamento do tributo devido e dos juros de mora ou depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Com o intuito de evitar lacunas entre o arguido pela parte e os motivos do “livre convencimento motivado”, registrado neste voto, ressalvo que não há que se falar em “mais de uma punição pelo mesmo fato”, em razão de: primeiro, não ser o arbitramento do lucro uma metodologia punitiva11; segundo, a qualificação decorrer, também, da constatação e comprovação da pratica de fraude; e, por fim, terceiro, o agravamento decorre da inadequada apresentação dos documentos contábeis e fiscais exigidos pela fiscalização12. Ante todo o exposto, resta cristalino o correto posicionamento da fiscalização ao imputar penalidade mais gravosa à conduta realizada pela Recorrente. Conclusão Nestes termos, voto por julgar procedentes os autos de infrações em referência, mantendo a aplicação das multas qualificadas e agravadas. É como voto.
Nome do relator: TALITA PIMENTA FELIX

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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Os membros da Turma resolvem, por maioria, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. Vencida a Relatora Conselheira Talita Pimenta Félix, que dava provimento parcial ao recurso voluntário, acompanhada pelas Conselheiras Ana de Barros Fernandes Wipprich e Edeli Pereira Bessa, sendo designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior. (documento assinado digitalmente) EDELI PEREIRA BESSA - PRESIDENTE (documento assinado digitalmente TALITA PIMENTA FÉLIX - Relatora (documento assinado digitalmente) ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edeli Pereira Bessa (Presidente), Ana de Barros Fernandes Wipprich, Alberto Pinto Souza Júnior, Luiz Tadeu Matosinho Machado, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa, Rogério Aparecido Gil e Talita Pimenta Félix 1. Da Autuação A discussão travada nos autos se refere à cobrança de crédito tributário de IRPJ1 (fls2. 03/43), CSLL3 (fls. 44/79), COFINS4 (fls. 80/90) e PIS/PASEP5 (fls. 91/101), cujo total perfaz R$ 87.779.772,62 (fls. 02), relativo aos anos-calendários de 2006, 2007 e 2008, com aplicação de multa de 225%, cuja infração revela: (i) suposta não emissão de diversas notas fiscais em atividade de revenda de mercadorias, ocasionando omissão de receita, quantificada mediante o arbitramento do lucro (bruto mensal), em razão de o contribuinte não haver apresentado documentos contábeis/fiscais exigidos em notificação fiscal. 2. Do Termo de Verificação Fiscal - TVF Para melhor compreensão fática do caso sob análise, cumpre observar que o TVF (fls. 103/119) determinou a fiscalização na empresa Maesio Candido Vieira ME, cujo início se deu em 10/11/2010 (TIF). Nesta, em virtude de suspeita de planejamento fiscal fraudulento – com utilização de interpostas pessoas – procedeu-se à abertura de diligências em diversas empresas suspeitas, além da Recorrente, as empresas Ponto Econômico LTDA, Polo do Eletro Comercial de Móveis LTDA, Ponto do Eletro Móveis e Eletrodomésticos LTDA, VW Comercial de Móveis e Eletrodoméstico LTDA. 2.1Solicitados a apresentar os livros e notas fiscais, nem contribuinte, nem Fisco Cearense os forneceram, o que levou o Fisco Federal a realizar auditoria na contabilidade digital, com fundamento nos arts. 529 a 532 do RIR/99, que apontou como atípicos os seguintes fatos contábeis, são eles: (i) a ausência de registro no balancete patrimonial das empresas da conta “Banco conta movimento”, que no entanto dispunha da conta “Fornecedores e Duplicatas a Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro; (ii) ainda no balancete digital, a fiscalização observou que as contas “Estoques”, “Transferências de mercadorias”, “Caixa” e “Clientes a Receber” apresentam valores relevantes; (iii) por fim, diz que os históricos não permitem identificar a procedência e o destinação das transações, o que se torna impossível sem a apresentação da documentação pela contribuinte, cita os artigos 256 e 267 do RIR/99. 2.2Em relação às contas lançadas na escrita contábil/fiscal, vale registar que: (i) na conta “Caixa e Bancos” não há escrituração na conta “Banco Conta Movimento”, mas mesmo assim registra as contas “Transferência de Mercadorias”, “Clientes a Receber”, “Outros Clientes a Receber”- entre outras – para lançar sua receita. Em razão da ausência da conta “Banco” a RFB não pode futilizar seu sistema de auditoria; (ii) na conta “Clientes – Duplicatas a Receber”, em razão da falta de documentos, notou-se que as vendas não passavam pela conta de Receita da contabilidade. Além disso, há gastos elevados com “Manutenção, Conservação e Reparos, Material de Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que nos primeiros lançamentos ficou demonstrado que as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada. O TVF revela, ainda, que a fiscalização chegou à conclusão de que a “recusa da apresentação se deu por motivo de ausência de documentação idônea”. Vale registrar que o Sr. Máesio compareceu aos autos - como sócio - e requereu a prorrogação do prazo para apresentação dos documentos de todas as empresas, esse prazo durou, aproximadamente, 08 meses. 2.3Foi aplicada multa qualificada sob a alegação de ocorrência de: (i) conduta reiterada e sistemática da contribuinte, pela não apresentação dos documentos que respaldariam a contabilidade nos anos de 2006 a 2008, e; (ii) uso continuado de interpostas pessoas, uma vez que Maesio Candido Vieira e Macavi Importadora e Exportadora de Móveis são denominações para um mesmo CNPJ. Sendo constituída como empresa individual em 10/10/89, permanece até hoje na mesma situação, e ao longo dos anos foram utilizadas interpostas pessoas (que ou eram parentes ou pessoas com próximas), cuja consequência é a sonegação fiscal. Ainda neste aspecto, o TVF aduz que as empresas foram constituídas entre 1999 e 2004, e que entre 2009 e 2011 o Sr. Maesio passa a participar de direito de todas elas, indício de “continuidade do uso de interpostas pessoas em um longo período de tempo”, cujo principal beneficiário foi Maesio Candido Vieira ME, dados de um planejamento ilícito, averiguado mediante histórico das alterações contratuais de cada empresa. Por fim, no cadastro da RFB em 23/05/2013, constava que a empresa Macavi possuía 24 filiais, porém, no site de atendimento ao cliente constatou-se o número de 42 estabelecimentos. Neste ponto, cumpre ressaltar que tal multa foi fundamentada da seguinte forma (fls. 43, 79, 90 e 101): 2.4Por fim, revela ser incabível alegação de decadência (Resp Recurso Repetitivo n. 973.733-SC) por restar estabelecido pela Corte Superior de Justiça que “qualquer medida preparatória necessária ao lançamento de ofício, interrompe a contagem do prazo decadencial”. 3.Da Impugnação e da Decisão da DRJ/BHE Irresignada, a autuada apresentou Impugnação ao lançamento fiscal (fls. 854/884), peça comum a diversos processos6. Todavia, a DRJ/BHE rejeitou as preliminares e a decadência suscitadas e, julgando improcedente a Impugnação, manteve a exigência fiscal (fls. 889/912). Foi dada ciência eletrônica a autuada em 27/12/2013 (fls. 919). 4.Do Recurso Voluntário Nesta mesma data, foi interposto Recurso Voluntário pela autuada (fls. 921/966), com os seguintes argumentos: i) acerca do cabimento (art. 33 do Decreto Lei. 70.235/72) e tempestividade (art. 56, do Decreto Lei n. 70.235/72) do recurso, aduz, serem pertinentes quando de decisões proferidas pela da Turma de Julgamento, total ou parcialmente, devendo ser interposto no prazo de 30 dias contados de sua ciência, que neste caso se deu via Sistema E-Cac em 27/10/13 (o acórdão foi assinado digitalmente em 14/11/13), considerando o prazo de 30 dias para a interposição, seu término ocorreu em 27/12/2013; ii) quanto à descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal, que enseja ausência de sua validade e eficácia, aduz que a fiscalização deve se encerrar a cada 60 dias, na ausência de qualquer outro ato que indique prosseguimento dos trabalhos, nos termos do art. 33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11. ii.1) O primeiro documento levado à recorrente ocorreu no dia 10/11/2010 (fls. 138). Após, a recorrente solicitou 01 vez prorrogação de prazo, até 21/01/2011 e, novamente, prorrogando-o até 14/02/2011. Deste modo, o referido prazo teria se encerrado em 14/04/2011. Ressalta que até esta data não houve outro ato escrito da fiscalização; ii.2) Em 29/10/2012, iniciou-se a segunda diligência (fls. 126), dando continuidade à fiscalização, com a intimação da autuada. Desta forma, o referido prazo de 60 dias terminaria no dia 29/12/2012; ii.3) Posteriormente, houve a terceira diligência (fls. 120), cuja ciência pela autuada se deu em 11/03/2013. Desta forma, o referido prazo de 60 dias terminaria em 21/06/2013. Ressalta que apenas em 10/07/2013 (fls. 850) houve o auto de infração e respectivo Termo de Encerramento. Deste modo, ao final de cada prazo de 60 dias, devolveu-se a espontaneidade (art. 138 do CTN) à autuada, ensejando – em virtude do decurso do prazo – ausência de validade e eficácia da ação fiscal. Destarte, requer a reforma do acórdão recorrido para que, reconhecendo-se a referida descontinuidade da ação fiscalizatória, esta acarrete o reconhecimento da decadência do período pleiteado no impugnação, bem como do pleiteado no recurso (2006, 2007 e 2008). iii) A decadência de diversos períodos autuados; iv) Quanto à penalidade, questiona a aplicação da qualificação e o agravamento, alegando que: iv.1) a fiscalização teria justificado o arbitramento pela falta de entrega de documentos. Todavia, afirma que todos aqueles legalmente exigíveis foram entregues, não havendo motivo apto a imputar a aplicação do art. 530, III do RIR. Isto restaria evidente no Termo de Encerramento (fls. 752), o qual demonstra ter devolvido documentos; iv.2) inexistiu a figura de interpostas pessoas. Com base no exposto, a Recorrente pleiteia o recebimento do recurso e a reforma do acórdão recorrido, para que: i) seja reconhecida a declaração da descontinuidade da ação fiscal, com fulcro no art. 33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11 e, por consequência, o reconhecimento da decadência de todo o período autuado (2006, 2007 e 2008). Momento em que faz menção ao julgamento ocorrido no PAT 10315.720696/2013-27, para empresa do mesmo grupo econômico (Polo do Eletro Comercial de Móveis LTDA). Neste tópico, defende a nulidade da cobrança tributária, apontando a razão pela qual trimestres (IRPJ e CSLL) e meses (PIS e COFINS) devem ser declarados decaídos, seja pelo transcurso do prazo de cinco anos, seja pelo pagamento do tributo; ii) a declaração de insubsistência/improcedência do auto de infração, em virtude de não estar pendente a entrega de qualquer documento, considerando-se a decorrência do prazo legal; iii) o direito de se realizar sustentação oral. Por fim, juntou vários comprovantes de pagamento (fls. 967/974). Em síntese, é como relato. 1.PRELIMINARMENTE 1.1Do Cabimento e da Tempestividade do Recurso Voluntário O “Termo de Abertura de Documento”, relativo à intimação do acórdão recorrido ocorreu em 18/12/2013 (fls. 918). Assim, considerando o prazo de 30 dias para a interposição do recurso (art. 56 do Decreto n. 70.235), interpondo o recurso em 27/12/2013 (fls. 919), tempestiva é a presente manifestação. 1.2Da Decadência Em preliminar a Recorrente pleiteia a nulidade dos AIIM (Autos de Infração e imposição de multa) sob a alegação de que os exercícios de 2006, 2007 e 2008 (i) foram atingidos pela decadência, ou, (ii) pelo fato de haverem sido quitados, conforme comprovantes de pagamento que anexa. Ato contínuo, a parte argumenta que os créditos cobrados neste auto “são claramente tributos sujeitos a lançamento por homologação”, estando, portanto, sujeitos ao prazo decadencial do art. 150, parágrafo 4o, do CTN. Divergindo do posicionamento da contribuinte, entendo que o prazo decadencial a qual esta sujeita, em razão da imputação que lhe foi cometida, é o enunciado pelo art. 173, inciso I, do CTN, uma vez que há fortes indícios probatórios que demonstrem a ocorrência de fraude nas operações que realizou. Este, assunto que será abordado no item seguinte, no mérito. Assim sendo, o primeiro registro que se faz é que os tributos cobrados nestes autos de infrações dizem respeito a tributos que podem estar sujeitos a lançamento por homologação, mas, para tanto, seria imprescindível que a contribuinte não houvesse incorrido na pratica de dolo, fraude ou simulação. Consoante reiterado, também, nas Súmulas CARF ns. 72 e 101, donde se lê que: Súmula CARF n. 72: Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. E, Súmula CARF n. 101: Na hipótese de aplicação do art. 173, inciso I, do CTN, o termo inicial do prazo decadencial é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Por entender que a fiscalização comprovou a existência de fraude1, entendo pela aplicação do art. 173, inciso I, do Diploma Tributário Nacional. Assim sendo, já que a Recorrente foi autuada em 08/07/2013 (fls. 850), encontram-se decaídos os períodos de 2006, 2007 e 2008 (para os fatos ocorridos até junho deste ano). 1.3 Da relação entre a “decadência” e a “descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal” A contribuinte traça um paralelo entre “decadência” e o que intitula “descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal”. E com base nestes institutos faz algumas afirmações com as quais discordo, por entender não possuir qualquer respaldo legal, são elas: 1.3.1 Que a lavratura do AIIM deveria ter ocorrido no período de 60 dias do prazo da fiscalização, que após o término deste prazo inexistiria qualquer pendência em aberto, e que lhe seria restabelecida a espontaneidade De acordo com suas palavras, a Recorrente deseja que esta Turma Julgadora reconheça a “descontinuidade da ação fiscal preparatória”, uma vez que os autos foram lavrados fora do período da fiscalização (60 dias), momento no qual, segundo entende, já haveria readquirido a sua espontaneidade, cuja consequência direta seria a decadência. Deste modo, alega em sua peça recursal que: (...) resta demonstrada a inexistência de validade e eficácia da ação fiscal, na qual foi devolvida a espontaneidade ao contribuinte, ponto primordial do presente Recurso que deve ser modificado por este respeitável órgão julgador e que se encontra substanciado na legislação colacionada na defesa e ratificada no presente Recurso. Diante do exposto, nota-se que a Recorrente aborda (como ponto primordial de sua defesa) a relação entre o período em que esteve sujeita à fiscalização e a validação desta, relação que não possui amparo legal, desde que respeitado o instituto da decadência, claro. E por concordar com a posição da DRJ, transcrevo parte de seu voto que, após citar os parágrafos 1o e 2o, do art. 7o, do Decreto n. 70.235/72, assim se manifesta: Nos termos do § 1º supra, o início do procedimento exclui a espontaneidade do sujeito passivo em relação aos atos anteriores e, independentemente de intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas. Já o § 2° determina que, para os efeitos do disposto no § 1º, os atos que determinam o início do procedimento valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. Como se vê, é tão somente para fins de exclusão da espontaneidade que ocorre a perda de validade, por decurso de tempo, do ato que determina o início do procedimento fiscal. Noutras palavras, a falta de continuidade do procedimento fiscal não produz nenhum outro efeito além de restituir a espontaneidade. (Sem grifo no original). Não há respaldo legal a validar o fato de que a ausência de continuidade da fiscalização influencie na contagem do prazo decadencial, ou mais absurdo ainda, que produza como consequência o efeito de “encerrar por decurso de prazo (validade) qualquer exigência que, à data do encerramento, perdera a exigibilidade”. 1.3.2Que a fiscalização não poderia ter sido realizada “virtualmente”, mas sim in loco Defende a contribuinte que a fiscalização foi realizada “por correspondência”, sem que os fiscais jamais houvessem ido à empresa. Ocorre que, em razão da escrituração digital e do cruzamento de dados contábeis/fiscais, é perfeitamente possível às fiscalizações federal, estaduais e municipais realizarem auditorias nas documentações dos contribuintes sem, necessariamente, precisarem ir até às empresas. 1.3.3 Que as exigências de apresentação de documentos, solicitadas pelo Fisco Federal, são ilegais, por serem (iii.1) tarefas privativas da fiscalização e (iii.2) por não ser a contribuinte obrigada a fazer prova contra si. Mais uma vez equivoca-se, de acordo com o inciso III, art. 530 do RIR/99, o contribuinte que deixar de apresentar à autoridade tributária os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal, estará sujeito à tributação com base no lucro arbitrado. Assim, nos termos do acórdão da DRJ: (...) por ter sido a impugnante intimada a prestar esclarecimentos mediante o uso de planilhas específicas, “a autoridade do lançamento transferiu os papéis de trabalho do auditor para o auditado”. Mas nada há de censurável ou irregular no procedimento fiscal. Com efeito, todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos auditores-fiscais no exercício de suas funções. É o que dispõe o art. 927 do RIR, de 1999: Art. 927. Todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos Auditores-Fiscais do Tesouro Nacional no exercício de suas funções, sendo as declarações tomadas por termo e assinadas pelo declarante (Lei nº 2.354, de 1954, art. 7º). Há incoerência lógica em se defender a impossibilidade de o Fisco Federal poder solicitar a apresentação de documentos do e pelo contribuinte. Se tal tarefa não for uma obrigação da parte, de quem seria? Quem poderia fazê-lo em seu nome? Tarefa privativa da fiscalização, talvez, pudesse ser o fato de somente esta ter o poder de solicitar escrituração contábil-fiscal do contribuinte. Nesta tônica, afasto todos os argumentos acima delineados, os quais são tratados pela Recorrente, em memorial, como preliminares. 2. DO MÉRITO Quanto ao mérito, inicio pela análise da imputação do arbitramento do lucro, para somente após passar à análise da aferição da decadência, tal inversão justifica-se uma vez que a depender do posicionamento quanto à legitimidade, ou não, da aplicação do arbitramento, consequência natural será a tomada de posição quanto ao prazo inicial a ser adotado para contar o prazo decadencial (se art. 150, parágrafo 4o ou 173, inciso I, ambos, do CTN). Em outros termos, a decadência será diretamente influenciada pelo arbitramento. 2.1Do Arbitramento dos Lucros A imputação que recai sobre a contribuinte versa sobre a suposta não emissão de diversas notas fiscais em atividade de revenda de mercadorias, ocasionando omissão de receita, quantificada mediante o arbitramento4 do lucro, em razão de não haver apresentado documentos contábeis/fiscais exigidos em notificações fiscais. Florence Haret5 ao relacionar a presunção ao arbitramento, explica que: (...) o fato antecedente que faz admitir a técnica do arbitramento é da ordem da ilicitude. Ausentes as condutas ilícitas, é vedado arbitrar. (...) O sentido presuntivo aqui não esta no arbitramento, como regime de tributação, posto ordinariamente à disposição da fiscalização se e quando procedido ilícito pelo contribuinte. O arbitramento, em verdade, é consequência de uma presunção anterior: a da ocorrência do fato antecedente da regra-matriz. Mediante procedimento fiscalizatório, descoberta a ausência de declaração a menor, em primeiro, o Fisco presume ocorrência em face das documentações encontradas; para depois, diante do caráter pecuniário de toda a prestação tributária, proceder à quantificação do valor do tributo, mediante técnica de apuração chamada arbitramento. Logo, o arbitramento em si mesmo não é presunção, nem sanção: é forma de apuração do valor a título de tributo que tem por causa conduta ilícita. (Sem grifo no original). E consoante prescreve o inciso III, art. 530, do RIR/99, o lucro será arbitrado pela autoridade fiscal quando a escrituração a que estiver obrigado a contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para (i) identificar a efetiva movimentação financeira, impedindo o (ii) conhecimento do lucro real. Seguindo lições de Maria Rita Ferragut6, o arbitramento do lucro esta intrinsecamente conectado à ocorrência de fraude, que possui como fatos tipificadores a ocorrência de: (i) interposta pessoa; (ii) apresentação de documentação fiscal inidônea/falsidade de informações; (ii) reiteração de conduta; (iv) simulação de negócios jurídicos e, (v) informações divergentes entre os fiscos. Pois bem, segundo informa o TVF – cuja contraprova não foi produzida pela Recorrente – 03 (três) das condutas acima mencionadas foram cometidas, conforme se infere das linhas que seguem. 2.1.1 Interpostas Pessoas A fiscalização, mediante análise dos contratos sociais e suas alterações, constatou que Maesio Candido Vieira e Macavi Importadora e Exportadora de Móveis são denominações para um mesmo CNPJ, cuja constituição ocorreu como empresa individual em 10/10/89, permanecendo nas mesmas condições até hoje. Ocorre que, ao longo dos anos foram utilizadas interpostas pessoas – parentes ou pessoas que mantinham relacionamento muito próximo com o Recorrente – para a constituição das empresas mencionadas no TVF. Referidas empresas foram criadas entre 1999 e 2004, e entre 2009 e 2011 o Sr. Maesio Candido Vieira passa a participar de direito de todas elas, o que a fiscalização atribui a nomenclatura de “continuidade do uso de interpostas pessoas em um longo período de tempo”. Confirmando tais fatos, a Recorrente valida o procedimento adotado pela fiscalização ao afirmar que “a interposição de familiares não trouxe qualquer prejuízo à arrecadação de tributos e, em segundo ponto, não menos essencial, o sócio controlador e sua esposa assumiram a integralidade das quotas de todas as empresas, antes de qualquer procedimento fiscal (...)”. A assertiva de que tal comportamento não trouxe danos ao erário público não procede. Quanto a este instituto, Maria Rita Ferragut7, registra que: O primeiro e mais contundente dos fatos tipificadores da fraude é a demonstração da utilização, pelo sujeito passivo, de interposta pessoa, considerada como sendo a pessoa física ou jurídica que oculta, esconde, encobre o verdadeiro interessado no negócio. (...) É assim denominada por ‘interpor-se’ entre o sujeito ativo e o ‘real’ sujeito passivo, com o objetivo central de evitar que este último integre a relação jurídica tributária. (...) Não temos dúvidas de que a constatação da existência de interposta pessoa é prova do dolo. Tais dados revelam indícios veementes da utilização de terceiros com o intuito de sonegação fiscal, o que respalda a atuação da fiscalização. 2.1.2Apresentação de documentação fiscal inidônea/falsidade de informações O segundo fato tipificador da ocorrência de fraude, segundo informa e documenta o TVF, registra que a contribuinte cometeu uma série de ilícitos contábeis que impediram o Fisco Federal de conhecer o lucro por ela apurado. E vale mencionar que, além da contribuinte, o Fisco Estadual Cearense, quando solicitado a apresentar os livros e notas fiscais da mesma, também não o fez, situação que levou a fiscalização a realizar auditoria na contabilidade digital. E para registrar tais ilícitos, aponto: (i) a ausência de registro (no balancete patrimonial das empresas) da conta “Banco conta movimento”, que no entanto dispunha da conta “Fornecedores e Duplicatas a Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro; (ii) ainda no balancete digital, a fiscalização observou que as contas “Estoques”, “Transferências de mercadorias”, “Caixa” e “Clientes a Receber” apresentam valores relevantes; (iii) na conta “Clientes – Duplicatas a Receber”, em razão da falta de documentos, notou-se que as vendas não passavam pela conta de Receita da contabilidade. Além disso, há gastos elevados com “Manutenção, Conservação e Reparos, Material de Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que nos primeiros lançamentos ficou demonstrado que as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada; (iv) bem como, que os históricos não permitem identificar a procedência e o destinação das transações, o que se torna impossível ante a ausência de apresentação da documentação pela contribuinte. A contribuinte se defende informando que apresentou os documentos exigidos, bem como, que a fiscalização procedeu, de modo ilegal, ao solicitar a apresentação de planilhas, desejando que este “assumisse as tarefas privativas da auditoria fiscal, intimando-o a elaborar planilhas; em suma, a fazer provas contra si mesmo”8. Em tese procede a assertiva de que apresentou documentos, porém, não de forma válida, pois não comprovou os registros pertinentes aos fatos contábeis contestados pela fiscalização, situação que descredencia os lançamentos escriturados, permitindo a aplicação do método arbitral de lucros9. Neste sentido, transcrevo trecho da decisão proferida pela DRJ, com a qual concordo, segue: (...) consta do termo de devolução de documentos anexado a fls. 331 que foram objeto de devolução apenas os livros Diário, Razão e de Apuração do Lucro Real (Lalur) referentes aos anos-calendários fiscalizados. Portanto, ao contrário do que sugere a impugnante, não houve devolução de nenhum documento comprobatório de sua escrituração. Vale ressaltar que, nos termos do art. 923 do RIR, de 1999, abaixo reproduzido, a escrituração só tem valor probatório em favor do contribuinte se os fatos nela registrados estiverem comprovados por documentos hábeis. Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). Alega-se ainda que, por ter sido a impugnante intimada a prestar esclarecimentos mediante o uso de planilhas específicas, “a autoridade do lançamento transferiu os papéis de trabalho do auditor para o auditado”. Mas nada há de censurável ou irregular no procedimento fiscal. Com efeito, todas as pessoas físicas ou jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os esclarecimentos exigidos pelos auditores-fiscais no exercício de suas funções. Deste modo, não havia outra alternativa ao Fisco Federal, se não o arbitramento do lucro, já que a irregularidade apontada diz respeito à ausência de documentação hábil10 a formalizar as operações realizadas pela contribuinte. 2.1.3Reiteração da Conduta Como terceiro, e último, apontamento do fato tipificador da fraude, a contribuinte – de modo sistemático e reiterado – não apresentou a documentação relativa aos anos-calendários de 2006, 2007 e 2008. Para tratar melhor este tema, sigo me valendo das lições de Maria Rita Ferragut, que explica que: Errar de forma esporádica é possível e, isoladamente, não revela má-fé do sujeito. Já a conduta repetitiva é forte indício da intenção de fraudar o Fisco. (...) O Problema que se coloca, a partir dessa conclusão, é a definição ‘conduta reiterada’. Quantas vezes o ilícito deve ser praticado, para que o fato assuma esse foro? Reiteração é conceito indeterminado. O erro esporádico – uma ou duas vezes em largo espaço de tempo – não se consubstancia numa conduta reiterada. Se, em contrapartida, tal erro ocorrer ao longo de todo o ano, restará configurada a reiteração. (...) Há de se registrar, também, que a reiteração é relevante apenas se a conduta repetida for grave o suficiente à configuração da responsabilidade subjetiva inerente à fraude. Não qualquer conduta, mas somente aquela que leva à convicção de que o sujeito deve ter querido lesar os cofres públicos. 2.2Da Aplicação de Penalidades A Recorrente se insurge contra a aplicação (i) da qualificadora (75%) e do (ii) agravamento (150%) da multa de ofício, porém, restando caracterizado fortes e relevantes indícios de fraude em sua conduta, cabível – e imprescindível - é a aplicação de multa qualificada e agravada. Ressalvo que os dois pontos serão abordados em conjunto, neste tópico, em razão de sua relação intrínseca. Assim, segundo dispõe a legislação abaixo transcrita: O enunciado do art. 44, da Lei n. 9.430/96, já alterado pela Lei n. 11.488/07, resultado da conversão da MP n. 351 de 2007, prescreve que: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) §1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. O inciso I, determina a aplicação do percentual de 75% “nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata”, este, exatamente o caso dos autos. Nestes termos, elucida o acórdão da DRJ que: Tenha-se em mente ainda que, relativamente aos anos-calendários de 2006 a 2008 e em razão das infrações apuradas neste processo, deixaram de ser recolhidos nada menos que R$ 22.797.636,93 de tributos em valores originais (sem juros e multas). Ademais, constatou-se insuficiência de recolhimento, sem exceção, em todos os trimestres dos três anos fiscalizados. Ocorre que o parágrafo primeiro impõe a duplicação do percentual da multa (150%), agravamento, acaso o contribuinte se adeque a um dos dispositivos da Lei n. 4.502/64 (arts. 71, 72 e 73). E conforme amplamente registrado em linhas pretéritas, não restam dúvidas de que houve o cometimento de fraude (art. 72), sendo assim, de acordo com o Capítulo II (das penalidades), Seção II (da aplicação e gradação das penalidades), lê-se que: Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Reforça ainda tal provimento as Súmulas CARF ns. 25 e 96, abaixo transcritas, respectivamente: A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64. Bem como: A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica, por si só, o agravamento da multa de ofício, quando essa omissão motivou o arbitramento dos lucros. Após mencionar a legislação de regência, e apenas a título de reforço, reitero os motivos determinantes à imputação das penalidades mencionadas transcrevendo - por compreender a situação fático-jurídica nos mesmos moldes dos argumentos esposados no acórdão da DRJ - parte de seus argumentos: (...) a multa imposta ao empresário individual foi qualificada não por ter sido ele considerado interposta pessoa, mas sim porque, entre outras razões, ele teria se beneficiado do esquema fraudulento. Não vem a propósito, portanto, o argumento de que, “em se tratando de uma empresa individual, como é o caso da MAÉSIO CANDIDO VIEIRA, CNPJ nº 35.023.647/0001-13, o seu titular não pode ser laranja de si mesmo”. Ainda segundo a impugnante, não haveria nenhum “proveito fiscal de colocar pai, mãe, esposa e colaboradores mais próximos à frente das novas empresas”, as quais teriam sido criadas apenas “em prol do incremento de crédito bancário”. Tais argumentos, contudo, não são hábeis para afastar a qualificação da multa. Pelo contrário, até reforçam a constatação fiscal de que houve fraude na composição do quadro social das empresas. E a interposição de pessoas é um modo de dissimular as condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Tenha-se em mente ainda que, relativamente aos anos-calendários de 2006 a 2008 e em razão das infrações apuradas neste processo, deixaram de ser recolhidos nada menos que R$ 22.797.636,93 de tributos em valores originais (sem juros e multas). Ademais, constatou-se insuficiência de recolhimento, sem exceção, em todos os trimestres dos três anos fiscalizados. Tudo isso num contexto em que se evidenciou o intuito de fraude na elaboração da escrituração, cujas inconsistências são de causar espécie, como, por exemplo: “omissões de informações financeiras com a falta na escrituração contábil da conta Banco conta movimento”, “falta de escrituração da conta do ativo imobilizado” e “as vendas não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada”. Cumpre também considerar as inexatidões cadastrais encontradas: diversos estabelecimentos não foram informados no CNPJ. Mais grave ainda é a conduta reiterada e sistemática, sem nenhuma justificativa plausível, de não apresentar a documentação que teria embasado a escrituração, cujo propósito não pode mesmo ter sido outro senão o de ocultar do fisco a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais. Em suma, justificam a qualificação da multa não só a relevância dos valores e a habitualidade da conduta, mas todo o contexto fático-probatório dos autos. Por fim, não tem cabimento algum falar em exclusão de responsabilidade por denúncia espontânea da infração, uma vez que faltam, no caso, os seguintes requisitos previstos no art. 138 do CTN: pagamento do tributo devido e dos juros de mora ou depósito da importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de apuração. Com o intuito de evitar lacunas entre o arguido pela parte e os motivos do “livre convencimento motivado”, registrado neste voto, ressalvo que não há que se falar em “mais de uma punição pelo mesmo fato”, em razão de: primeiro, não ser o arbitramento do lucro uma metodologia punitiva11; segundo, a qualificação decorrer, também, da constatação e comprovação da pratica de fraude; e, por fim, terceiro, o agravamento decorre da inadequada apresentação dos documentos contábeis e fiscais exigidos pela fiscalização12. Ante todo o exposto, resta cristalino o correto posicionamento da fiscalização ao imputar penalidade mais gravosa à conduta realizada pela Recorrente. Conclusão Nestes termos, voto por julgar procedentes os autos de infrações em referência, mantendo a aplicação das multas qualificadas e agravadas. É como voto.

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PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 982            2   1. Da Autuação    A discussão  travada  nos  autos  se  refere  à  cobrança  de  crédito  tributário  de  IRPJ1  (fls2.  03/43), CSLL3  (fls.  44/79), COFINS4  (fls.  80/90)  e  PIS/PASEP5  (fls.  91/101),  cujo  total  perfaz  R$  87.779.772,62  (fls.  02),  relativo  aos  anos­calendários  de  2006,  2007  e  2008, com aplicação de multa de 225%, cuja infração revela:    (i) suposta não emissão de diversas notas fiscais em atividade de revenda de  mercadorias,  ocasionando  omissão  de  receita,  quantificada  mediante  o  arbitramento do  lucro (bruto mensal), em razão de o contribuinte não haver  apresentado documentos contábeis/fiscais exigidos em notificação fiscal.    2.   Do Termo de Verificação Fiscal ­ TVF    Para melhor compreensão fática do caso sob análise, cumpre observar que o  TVF  (fls.  103/119)  determinou  a  fiscalização  na  empresa Maesio  Candido Vieira ME,  cujo  início  se  deu  em  10/11/2010  (TIF).  Nesta,  em  virtude  de  suspeita  de  planejamento  fiscal  fraudulento – com utilização de interpostas pessoas – procedeu­se à abertura de diligências em  diversas empresas suspeitas, além da Recorrente, as empresas Ponto Econômico LTDA, Polo  do Eletro Comercial  de Móveis  LTDA,  Ponto  do Eletro Móveis  e Eletrodomésticos  LTDA,  VW Comercial de Móveis e Eletrodoméstico LTDA.    2.1  Solicitados a apresentar os livros e notas fiscais, nem contribuinte, nem  Fisco  Cearense  os  forneceram,  o  que  levou  o  Fisco  Federal  a  realizar  auditoria  na  contabilidade  digital,  com  fundamento  nos  arts.  529  a  532  do  RIR/99, que apontou como atípicos os seguintes fatos contábeis, são eles:    (i)  a  ausência  de  registro  no  balancete  patrimonial  das  empresas  da  conta  “Banco  conta movimento”,  que  no  entanto  dispunha  da  conta  “Fornecedores  e Duplicatas  a  Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro;    (ii)  ainda  no  balancete  digital,  a  fiscalização  observou  que  as  contas  “Estoques”,  “Transferências  de  mercadorias”,  “Caixa”  e  “Clientes  a  Receber”  apresentam  valores relevantes;    (iii) por fim, diz que os históricos não permitem identificar a procedência e o  destinação das transações, o que se torna impossível sem a apresentação da documentação pela  contribuinte, cita os artigos 256 e 267 do RIR/99.    2.2  Em  relação  às  contas  lançadas  na  escrita  contábil/fiscal,  vale  registar  que:    (i)  na  conta  “Caixa  e Bancos”  não  há  escrituração  na  conta  “Banco Conta  Movimento”, mas mesmo assim registra as contas “Transferência de Mercadorias”, “Clientes a  Receber”,  “Outros Clientes  a Receber”­  entre  outras  –  para  lançar  sua  receita.  Em  razão  da  ausência da conta “Banco” a RFB não pode futilizar seu sistema de auditoria;    Fl. 1022DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 983            3 (ii)  na  conta  “Clientes  –  Duplicatas  a  Receber”,  em  razão  da  falta  de  documentos,  notou­se  que  as  vendas  não  passavam  pela  conta  de  Receita  da  contabilidade.  Além  disso,  há  gastos  elevados  com  “Manutenção,  Conservação  e  Reparos,  Material  de  Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que  nos  primeiros  lançamentos  ficou  demonstrado  que  as  vendas  não  passavam  pelas  contas  de  resultado, reduzindo o montante da receita declarada.    O TVF revela, ainda, que a fiscalização chegou à conclusão de que a “recusa  da apresentação se deu por motivo de ausência de documentação idônea”. Vale registrar que o  Sr.  Máesio  compareceu  aos  autos  ­  como  sócio  ­  e  requereu  a  prorrogação  do  prazo  para  apresentação  dos  documentos  de  todas  as  empresas,  esse  prazo  durou,  aproximadamente,  08  meses.    2.3  Foi aplicada multa qualificada sob a alegação de ocorrência de:    (i) conduta reiterada e sistemática da contribuinte, pela não apresentação dos  documentos que respaldariam a contabilidade nos anos de 2006 a 2008, e;    (ii)  uso  continuado  de  interpostas  pessoas,  uma  vez  que  Maesio  Candido  Vieira  e Macavi  Importadora  e  Exportadora  de Móveis  são  denominações  para  um mesmo  CNPJ. Sendo constituída como empresa individual em 10/10/89, permanece até hoje na mesma  situação,  e ao  longo dos  anos  foram utilizadas  interpostas pessoas  (que ou  eram parentes ou  pessoas com próximas), cuja consequência é a sonegação fiscal. Ainda neste aspecto, o TVF  aduz  que  as  empresas  foram  constituídas  entre  1999  e  2004,  e  que  entre  2009  e  2011  o Sr.  Maesio  passa  a  participar  de  direito  de  todas  elas,  indício  de  “continuidade  do  uso  de  interpostas  pessoas  em  um  longo  período  de  tempo”,  cujo  principal  beneficiário  foi Maesio  Candido  Vieira  ME,  dados  de  um  planejamento  ilícito,  averiguado  mediante  histórico  das  alterações contratuais de cada empresa. Por fim, no cadastro da RFB em 23/05/2013, constava  que a empresa Macavi possuía 24 filiais, porém, no site de atendimento ao cliente constatou­se  o número de 42 estabelecimentos.    Neste  ponto,  cumpre  ressaltar  que  tal  multa  foi  fundamentada  da  seguinte  forma (fls. 43, 79, 90 e 101):        2.4  Por  fim,  revela  ser  incabível  alegação  de  decadência  (Resp  Recurso  Repetitivo n. 973.733­SC) por restar estabelecido pela Corte Superior de Justiça que “qualquer  medida  preparatória  necessária  ao  lançamento  de  ofício,  interrompe  a  contagem  do  prazo  decadencial”.     3.  Da Impugnação e da Decisão da DRJ/BHE    Irresignada,  a  autuada  apresentou  Impugnação  ao  lançamento  fiscal  (fls.  854/884), peça comum a diversos processos6. Todavia, a DRJ/BHE rejeitou as preliminares e a  decadência suscitadas e, julgando improcedente a Impugnação, manteve a exigência fiscal (fls.  889/912). Foi dada ciência eletrônica a autuada em 27/12/2013 (fls. 919).     4.  Do Recurso Voluntário    Fl. 1023DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 984            4 Nesta  mesma  data,  foi  interposto  Recurso  Voluntário  pela  autuada  (fls.  921/966), com os seguintes argumentos:    i) acerca do cabimento (art. 33 do Decreto Lei. 70.235/72) e tempestividade  (art. 56, do Decreto Lei n. 70.235/72) do recurso, aduz, serem pertinentes quando de decisões  proferidas  pela  da  Turma  de  Julgamento,  total  ou  parcialmente,  devendo  ser  interposto  no  prazo de 30 dias contados de sua ciência, que neste caso se deu via Sistema E­Cac em 27/10/13  (o  acórdão  foi  assinado  digitalmente  em  14/11/13),  considerando  o  prazo  de  30  dias  para  a  interposição, seu término ocorreu em 27/12/2013;    ii)   quanto à descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal, que enseja  ausência de sua validade e eficácia, aduz que a fiscalização deve se encerrar a cada 60 dias, na  ausência de qualquer outro ato que  indique prosseguimento dos  trabalhos, nos  termos do art.  33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11.     ii.1) O  primeiro  documento  levado  à  recorrente  ocorreu  no  dia  10/11/2010  (fls.  138).  Após,  a  recorrente  solicitou  01  vez  prorrogação  de  prazo,  até  21/01/2011  e,  novamente,  prorrogando­o  até  14/02/2011.  Deste  modo,  o  referido prazo  teria  se  encerrado em 14/04/2011. Ressalta que até  esta data  não houve outro ato escrito da fiscalização;     ii.2)  Em  29/10/2012,  iniciou­se  a  segunda  diligência  (fls.  126),  dando  continuidade  à  fiscalização,  com  a  intimação  da  autuada.  Desta  forma,  o  referido prazo de 60 dias terminaria no dia 29/12/2012;     ii.3) Posteriormente, houve a  terceira diligência  (fls. 120), cuja ciência pela  autuada  se  deu  em  11/03/2013.  Desta  forma,  o  referido  prazo  de  60  dias  terminaria  em  21/06/2013.  Ressalta  que  apenas  em  10/07/2013  (fls.  850)  houve o auto de infração e respectivo Termo de Encerramento.      Deste modo, ao final de cada prazo de 60 dias, devolveu­se a espontaneidade  (art.  138  do  CTN)  à  autuada,  ensejando  –  em  virtude  do  decurso  do  prazo  –  ausência  de  validade e  eficácia da ação  fiscal. Destarte,  requer  a  reforma do acórdão  recorrido para que,  reconhecendo­se  a  referida  descontinuidade  da  ação  fiscalizatória,  esta  acarrete  o  reconhecimento da decadência do período pleiteado no impugnação, bem como do pleiteado no  recurso (2006, 2007 e 2008).    iii) A decadência de diversos períodos autuados;    iv)  Quanto  à  penalidade,  questiona  a  aplicação  da  qualificação  e  o  agravamento, alegando que:    iv.1)  a  fiscalização  teria  justificado  o  arbitramento  pela  falta  de  entrega  de  documentos. Todavia,  afirma que  todos  aqueles  legalmente  exigíveis  foram  entregues, não havendo motivo apto a imputar a aplicação do art. 530, III do  RIR.  Isto  restaria  evidente  no  Termo  de  Encerramento  (fls.  752),  o  qual  demonstra ter devolvido documentos;    iv.2) inexistiu a figura de interpostas pessoas.    Fl. 1024DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 985            5 Com  base  no  exposto,  a  Recorrente  pleiteia  o  recebimento  do  recurso  e  a  reforma do acórdão recorrido, para que:     i)  seja  reconhecida  a  declaração  da  descontinuidade  da  ação  fiscal,  com  fulcro no art. 33, §3º do Decreto Federal n. 7.574/11 e, por consequência, o reconhecimento da  decadência de todo o período autuado (2006, 2007 e 2008). Momento em que faz menção ao  julgamento  ocorrido  no  PAT  10315.720696/2013­27,  para  empresa  do  mesmo  grupo  econômico (Polo do Eletro Comercial de Móveis LTDA). Neste tópico, defende a nulidade da  cobrança  tributária,  apontando  a  razão  pela  qual  trimestres  (IRPJ  e  CSLL)  e  meses  (PIS  e  COFINS)  devem  ser  declarados  decaídos,  seja  pelo  transcurso  do  prazo  de  cinco  anos,  seja  pelo pagamento do tributo;    ii)  a  declaração  de  insubsistência/improcedência  do  auto  de  infração,  em  virtude de não estar pendente a entrega de qualquer documento, considerando­se a decorrência  do prazo legal;    iii) o direito de se realizar sustentação oral.     Por fim, juntou vários comprovantes de pagamento (fls. 967/974).    Em síntese, é como relato.              1.  PRELIMINARMENTE    1.1  Do Cabimento e da Tempestividade do Recurso Voluntário    O  “Termo  de  Abertura  de  Documento”,  relativo  à  intimação  do  acórdão  recorrido  ocorreu  em  18/12/2013  (fls.  918). Assim,  considerando  o  prazo  de  30  dias  para  a  interposição  do  recurso  (art.  56  do Decreto  n.  70.235),  interpondo  o  recurso  em  27/12/2013  (fls. 919), tempestiva é a presente manifestação.    1.2  Da Decadência    Em preliminar a Recorrente pleiteia a nulidade dos AIIM (Autos de Infração e  imposição  de  multa)  sob  a  alegação  de  que  os  exercícios  de  2006,  2007  e  2008  (i)  foram  atingidos pela decadência, ou, (ii) pelo fato de haverem sido quitados, conforme comprovantes  de pagamento que anexa. Ato contínuo, a parte argumenta que os créditos cobrados neste auto  “são claramente  tributos  sujeitos a  lançamento por homologação”,  estando, portanto,  sujeitos  ao prazo decadencial do art. 150, parágrafo 4o, do CTN.    Fl. 1025DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 986            6 Divergindo  do  posicionamento  da  contribuinte,  entendo  que  o  prazo  decadencial a qual esta sujeita, em razão da imputação que lhe foi cometida, é o enunciado pelo  art.  173,  inciso  I,  do  CTN,  uma  vez  que  há  fortes  indícios  probatórios  que  demonstrem  a  ocorrência  de  fraude  nas  operações  que  realizou.  Este,  assunto  que  será  abordado  no  item  seguinte, no mérito.    Assim sendo, o primeiro registro que se faz é que os tributos cobrados nestes  autos  de  infrações  dizem  respeito  a  tributos  que  podem  estar  sujeitos  a  lançamento  por  homologação, mas, para tanto, seria imprescindível que a contribuinte não houvesse incorrido  na pratica de dolo, fraude ou simulação. Consoante reiterado, também, nas Súmulas CARF ns.  72 e 101, donde se lê que:    Súmula  CARF  n.  72:  Caracterizada  a  ocorrência  de  dolo,  fraude  ou  simulação, a contagem do prazo decadencial rege­se pelo art. 173, inciso I, do  CTN.    E,    Súmula CARF n. 101: Na hipótese de aplicação do art. 173, inciso I, do CTN,  o  termo  inicial  do  prazo  decadencial  é  o  primeiro  dia  do  exercício  seguinte  àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.     Por  entender  que  a  fiscalização  comprovou  a  existência  de  fraude1,  entendo  pela  aplicação  do  art.  173,  inciso  I,  do Diploma Tributário Nacional. Assim  sendo,  já  que  a  Recorrente foi autuada em 08/07/2013 (fls. 850), encontram­se decaídos os períodos de 2006,  2007 e 2008 (para os fatos ocorridos até junho deste ano).      1.3   Da  relação  entre  a  “decadência”  e  a  “descontinuidade,  validade  e  eficácia da ação fiscal”    A  contribuinte  traça  um  paralelo  entre  “decadência”  e  o  que  intitula  “descontinuidade, validade e eficácia da ação fiscal”. E com base nestes institutos faz algumas  afirmações com as quais discordo, por entender não possuir qualquer respaldo legal, são elas:    1.3.1   Que a lavratura do AIIM deveria ter ocorrido no período de 60 dias do  prazo da fiscalização, que após o término deste prazo inexistiria qualquer pendência em aberto,  e que lhe seria restabelecida a espontaneidade    De acordo com suas palavras,  a Recorrente deseja que esta Turma Julgadora  reconheça  a  “descontinuidade  da  ação  fiscal  preparatória”,  uma  vez  que  os  autos  foram  lavrados  fora  do  período  da  fiscalização  (60  dias),  momento  no  qual,  segundo  entende,  já  haveria  readquirido a sua espontaneidade, cuja consequência direta  seria a decadência. Deste  modo, alega em sua peça recursal que:    (...) resta demonstrada a inexistência de validade e eficácia da ação fiscal, na  qual  foi  devolvida  a  espontaneidade  ao  contribuinte,  ponto  primordial  do  presente Recurso que deve ser modificado por este respeitável órgão julgador  e  que  se  encontra  substanciado  na  legislação  colacionada  na  defesa  e  ratificada no presente Recurso.  Fl. 1026DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 987            7   Diante do exposto, nota­se que a Recorrente aborda (como ponto primordial de  sua defesa) a relação entre o período em que esteve sujeita à fiscalização e a validação desta,  relação que não possui amparo legal, desde que respeitado o instituto da decadência, claro.     E por concordar com a posição da DRJ, transcrevo parte de seu voto que, após  citar os parágrafos 1o e 2o, do art. 7o, do Decreto n. 70.235/72, assim se manifesta:    Nos  termos do § 1º supra, o  início do procedimento exclui a espontaneidade  do  sujeito  passivo  em  relação  aos  atos  anteriores  e,  independentemente  de  intimação, a dos demais envolvidos nas infrações verificadas.    Já  o  §  2°  determina  que,  para  os  efeitos  do  disposto  no  § 1º,  os  atos  que  determinam  o  início  do  procedimento  valerão  pelo  prazo  de  sessenta  dias,  prorrogável,  sucessivamente,  por  igual  período,  com  qualquer  outro  ato  escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos.    Como se vê, é tão somente para fins de exclusão da espontaneidade que ocorre  a perda de validade, por decurso de tempo, do ato que determina o início do  procedimento  fiscal.  Noutras  palavras,  a  falta  de  continuidade  do  procedimento  fiscal  não  produz  nenhum  outro  efeito  além  de  restituir  a  espontaneidade. (Sem grifo no original).    Não  há  respaldo  legal  a  validar  o  fato  de  que  a  ausência  de  continuidade  da  fiscalização influencie na contagem do prazo decadencial, ou mais absurdo ainda, que produza  como consequência o efeito de “encerrar por decurso de prazo (validade) qualquer exigência  que, à data do encerramento, perdera a exigibilidade”.    1.3.2  Que  a  fiscalização  não  poderia  ter  sido  realizada  “virtualmente”,  mas sim in loco    Defende  a  contribuinte que  a  fiscalização  foi  realizada “por  correspondência”,  sem  que  os  fiscais  jamais  houvessem  ido  à  empresa.  Ocorre  que,  em  razão  da  escrituração  digital  e  do  cruzamento  de  dados  contábeis/fiscais,  é  perfeitamente  possível  às  fiscalizações  federal, estaduais e municipais realizarem auditorias nas documentações dos contribuintes sem,  necessariamente, precisarem ir até às empresas.     1.3.3   Que as exigências de apresentação de documentos, solicitadas pelo  Fisco  Federal,  são  ilegais,  por  serem  (iii.1)  tarefas  privativas  da  fiscalização  e  (iii.2)  por  não  ser  a  contribuinte  obrigada  a  fazer  prova contra si.    Mais uma vez  equivoca­se,  de  acordo  com o  inciso  III,  art.  530 do RIR/99, o  contribuinte  que  deixar  de  apresentar  à  autoridade  tributária  os  livros  e  documentos  da  escrituração comercial e fiscal, estará sujeito à tributação com base no lucro arbitrado. Assim,  nos termos do acórdão da DRJ:    (...) por ter sido a impugnante intimada a prestar esclarecimentos mediante o  uso  de  planilhas  específicas,  “a  autoridade  do  lançamento  transferiu  os  papéis de trabalho do auditor para o auditado”. Mas nada há de censurável  Fl. 1027DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 988            8 ou irregular no procedimento fiscal. Com efeito, todas as pessoas físicas ou  jurídicas, contribuintes ou não, são obrigadas a prestar as informações e os  esclarecimentos  exigidos  pelos  auditores­fiscais  no  exercício  de  suas  funções. É o que dispõe o art. 927 do RIR, de 1999:    Art.  927.  Todas  as  pessoas  físicas  ou  jurídicas,  contribuintes  ou  não,  são  obrigadas  a  prestar  as  informações  e  os  esclarecimentos  exigidos  pelos  Auditores­Fiscais do Tesouro Nacional no exercício de suas  funções, sendo  as declarações tomadas por termo e assinadas pelo declarante (Lei nº 2.354,  de 1954, art. 7º).    Há  incoerência  lógica  em se defender  a  impossibilidade de o Fisco Federal  poder solicitar a apresentação de documentos do e pelo contribuinte. Se tal tarefa não for uma  obrigação da parte, de quem seria? Quem poderia  fazê­lo em seu nome? Tarefa privativa da  fiscalização,  talvez,  pudesse  ser  o  fato  de  somente  esta  ter  o  poder  de  solicitar  escrituração  contábil­fiscal do contribuinte.    Nesta  tônica,  afasto  todos  os  argumentos  acima  delineados,  os  quais  são  tratados pela Recorrente, em memorial, como preliminares.       2.   DO MÉRITO    Quanto ao mérito, inicio pela análise da imputação do arbitramento do lucro,  para somente após passar à análise da aferição da decadência, tal inversão justifica­se uma vez  que  a  depender  do  posicionamento  quanto  à  legitimidade,  ou  não,  da  aplicação  do  arbitramento,  consequência  natural  será  a  tomada  de  posição  quanto  ao  prazo  inicial  a  ser  adotado para contar o prazo decadencial (se art. 150, parágrafo 4o ou 173, inciso I, ambos, do  CTN). Em outros termos, a decadência será diretamente influenciada pelo arbitramento.    2.1  Do Arbitramento dos Lucros    A imputação que recai sobre a contribuinte versa sobre a suposta não emissão  de  diversas  notas  fiscais  em  atividade  de  revenda  de  mercadorias,  ocasionando  omissão  de  receita,  quantificada mediante  o  arbitramento4  do  lucro,  em  razão  de  não  haver  apresentado  documentos contábeis/fiscais exigidos em notificações fiscais.    Florence Haret5 ao relacionar a presunção ao arbitramento, explica que:    (...) o fato antecedente que faz admitir a técnica do arbitramento é da ordem  da ilicitude. Ausentes as condutas ilícitas, é vedado arbitrar. (...)  O  sentido  presuntivo  aqui  não  esta  no  arbitramento,  como  regime  de  tributação,  posto  ordinariamente  à  disposição  da  fiscalização  se  e  quando  procedido  ilícito  pelo  contribuinte.  O  arbitramento,  em  verdade,  é  consequência  de  uma  presunção  anterior:  a  da  ocorrência  do  fato  antecedente  da  regra­matriz.  Mediante  procedimento  fiscalizatório,  descoberta a ausência de declaração a menor, em primeiro, o Fisco presume  ocorrência em face das documentações encontradas; para depois, diante do  caráter pecuniário de toda a prestação tributária, proceder à quantificação  do  valor  do  tributo, mediante  técnica  de  apuração  chamada  arbitramento.  Fl. 1028DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 989            9 Logo, o arbitramento em si mesmo não é presunção, nem sanção: é forma de  apuração do valor a título de tributo que tem por causa conduta ilícita. (Sem  grifo no original).    E consoante prescreve o inciso III, art. 530, do RIR/99, o lucro será arbitrado  pela  autoridade  fiscal  quando  a  escrituração  a  que  estiver  obrigado  a  contribuinte  revelar  evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável  para (i) identificar a efetiva movimentação financeira, impedindo o (ii) conhecimento do lucro  real.     Seguindo  lições  de  Maria  Rita  Ferragut6,  o  arbitramento  do  lucro  esta  intrinsecamente  conectado  à  ocorrência  de  fraude,  que  possui  como  fatos  tipificadores  a  ocorrência  de:  (i)  interposta  pessoa;  (ii)  apresentação  de  documentação  fiscal  inidônea/falsidade  de  informações;  (ii)  reiteração  de  conduta;  (iv)  simulação  de  negócios  jurídicos e, (v) informações divergentes entre os fiscos.    Pois bem, segundo informa o TVF – cuja contraprova não foi produzida pela  Recorrente – 03 (três) das condutas acima mencionadas foram cometidas, conforme se infere  das linhas que seguem.     2.1.1 Interpostas Pessoas    A  fiscalização,  mediante  análise  dos  contratos  sociais  e  suas  alterações,  constatou  que Maesio  Candido  Vieira  e Macavi  Importadora  e  Exportadora  de Móveis  são  denominações para um mesmo CNPJ, cuja constituição ocorreu como empresa individual em  10/10/89, permanecendo nas mesmas condições até hoje. Ocorre que, ao longo dos anos foram  utilizadas  interpostas  pessoas  –  parentes  ou  pessoas  que  mantinham  relacionamento  muito  próximo com o Recorrente – para a constituição das empresas mencionadas no TVF.     Referidas empresas foram criadas entre 1999 e 2004, e entre 2009 e 2011 o  Sr. Maesio  Candido  Vieira  passa  a  participar  de  direito  de  todas  elas,  o  que  a  fiscalização  atribui a nomenclatura de “continuidade do uso de interpostas pessoas em um longo período de  tempo”. Confirmando tais fatos, a Recorrente valida o procedimento adotado pela fiscalização  ao  afirmar  que  “a  interposição  de  familiares  não  trouxe  qualquer  prejuízo  à  arrecadação  de  tributos e, em segundo ponto, não menos essencial, o sócio controlador e sua esposa assumiram  a integralidade das quotas de todas as empresas, antes de qualquer procedimento fiscal (...)”. A  assertiva de que tal comportamento não trouxe danos ao erário público não procede.    Quanto a este instituto, Maria Rita Ferragut7, registra que:    O  primeiro  e  mais  contundente  dos  fatos  tipificadores  da  fraude  é  a  demonstração  da  utilização,  pelo  sujeito  passivo,  de  interposta  pessoa,  considerada  como  sendo  a  pessoa  física  ou  jurídica  que  oculta,  esconde,  encobre o verdadeiro interessado no negócio.  (...) É assim denominada por  ‘interpor­se’  entre o  sujeito ativo e o  ‘real’  sujeito passivo, com o objetivo  central  de  evitar  que  este  último  integre  a  relação  jurídica  tributária.  (...)  Não temos dúvidas de que a constatação da existência de interposta pessoa é  prova do dolo.     Fl. 1029DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 990            10 Tais  dados  revelam  indícios  veementes  da  utilização  de  terceiros  com  o  intuito de sonegação fiscal, o que respalda a atuação da fiscalização.     2.1.2  Apresentação  de  documentação  fiscal  inidônea/falsidade  de  informações    O  segundo  fato  tipificador  da  ocorrência  de  fraude,  segundo  informa  e  documenta  o  TVF,  registra  que  a  contribuinte  cometeu  uma  série  de  ilícitos  contábeis  que  impediram o Fisco Federal de conhecer o lucro por ela apurado. E vale mencionar que, além da  contribuinte, o Fisco Estadual Cearense, quando solicitado a apresentar os livros e notas fiscais  da  mesma,  também  não  o  fez,  situação  que  levou  a  fiscalização  a  realizar  auditoria  na  contabilidade digital. E para registrar tais ilícitos, aponto:    (i)  a  ausência  de  registro  (no  balancete  patrimonial  das  empresas)  da  conta  “Banco  conta movimento”,  que  no  entanto  dispunha  da  conta  “Fornecedores  e Duplicatas  a  Receber”, o que levou à conclusão de que as transações eram realizadas em dinheiro;    (ii)  ainda  no  balancete  digital,  a  fiscalização  observou  que  as  contas  “Estoques”,  “Transferências  de  mercadorias”,  “Caixa”  e  “Clientes  a  Receber”  apresentam  valores relevantes;    (iii)  na  conta  “Clientes  –  Duplicatas  a  Receber”,  em  razão  da  falta  de  documentos,  notou­se  que  as  vendas  não  passavam  pela  conta  de  Receita  da  contabilidade.  Além  disso,  há  gastos  elevados  com  “Manutenção,  Conservação  e  Reparos,  Material  de  Construção, entre outros”, que não constaram no ativo imobilizado imóvel. Informa, ainda, que  nos  primeiros  lançamentos  ficou  demonstrado  que  as  vendas  não  passavam  pelas  contas  de  resultado, reduzindo o montante da receita declarada;    (iv) bem como, que os históricos não permitem identificar a procedência e o  destinação  das  transações,  o  que  se  torna  impossível  ante  a  ausência  de  apresentação  da  documentação pela contribuinte.    A  contribuinte  se  defende  informando  que  apresentou  os  documentos  exigidos, bem como, que a fiscalização procedeu, de modo ilegal, ao solicitar a apresentação de  planilhas, desejando que este “assumisse as tarefas privativas da auditoria fiscal, intimando­o a  elaborar planilhas; em suma, a fazer provas contra si mesmo”8.     Em  tese  procede  a  assertiva  de  que  apresentou  documentos,  porém,  não  de  forma válida, pois não comprovou os registros pertinentes aos fatos contábeis contestados pela  fiscalização, situação que descredencia os lançamentos escriturados, permitindo a aplicação do  método  arbitral  de  lucros9.  Neste  sentido,  transcrevo  trecho  da  decisão  proferida  pela  DRJ,  com a qual concordo, segue:    (...)  consta  do  termo  de  devolução  de  documentos  anexado  a  fls. 331  que  foram objeto de devolução apenas os livros Diário, Razão e de Apuração do  Lucro  Real (Lalur)  referentes  aos  anos­calendários  fiscalizados.  Portanto,  ao contrário do que sugere a impugnante, não houve devolução de nenhum  documento  comprobatório  de  sua  escrituração.  Vale  ressaltar  que,  nos  termos do art. 923 do RIR, de 1999, abaixo reproduzido, a escrituração só  Fl. 1030DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 991            11 tem  valor  probatório  em  favor  do  contribuinte  se os  fatos  nela  registrados  estiverem comprovados por documentos hábeis.  Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz  prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por  documentos hábeis,  segundo  sua natureza, ou assim definidos  em preceitos  legais (Decreto­Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º).    Alega­se  ainda  que,  por  ter  sido  a  impugnante  intimada  a  prestar  esclarecimentos  mediante  o  uso  de  planilhas  específicas,  “a  autoridade  do  lançamento  transferiu  os  papéis  de  trabalho  do  auditor  para  o  auditado”. Mas  nada  há  de  censurável  ou  irregular  no  procedimento  fiscal.  Com  efeito,  todas  as  pessoas  físicas  ou  jurídicas,  contribuintes  ou  não,  são  obrigadas  a  prestar  as  informações  e  os  esclarecimentos  exigidos  pelos auditores­fiscais no exercício de suas funções.     Deste  modo,  não  havia  outra  alternativa  ao  Fisco  Federal,  se  não  o  arbitramento  do  lucro,  já  que  a  irregularidade  apontada  diz  respeito  à  ausência  de  documentação hábil10 a formalizar as operações realizadas pela contribuinte.    2.1.3  Reiteração da Conduta    Como  terceiro,  e  último,  apontamento  do  fato  tipificador  da  fraude,  a  contribuinte – de modo sistemático e reiterado – não apresentou a documentação relativa aos  anos­calendários de 2006, 2007 e 2008.     Para  tratar  melhor  este  tema,  sigo  me  valendo  das  lições  de  Maria  Rita  Ferragut, que explica que:    Errar de  forma esporádica é possível e,  isoladamente, não revela má­fé do  sujeito.  Já  a  conduta  repetitiva  é  forte  indício  da  intenção  de  fraudar  o  Fisco. (...)   O Problema que se coloca, a partir dessa conclusão, é a definição ‘conduta  reiterada’.  Quantas  vezes  o  ilícito  deve  ser  praticado,  para  que  o  fato  assuma esse foro?  Reiteração é conceito indeterminado. O erro esporádico – uma ou duas vezes  em largo espaço de tempo – não se consubstancia numa conduta reiterada.  Se,  em  contrapartida,  tal  erro  ocorrer  ao  longo  de  todo  o  ano,  restará  configurada a reiteração. (...)    Há de se registrar, também, que a reiteração é relevante apenas se a conduta  repetida for grave o suficiente à configuração da responsabilidade subjetiva inerente à fraude.  Não  qualquer  conduta, mas  somente  aquela  que  leva  à  convicção  de  que  o  sujeito  deve  ter  querido lesar os cofres públicos.      2.2  Da Aplicação de Penalidades    A Recorrente se insurge contra a aplicação (i) da qualificadora (75%) e do (ii)  agravamento  (150%)  da  multa  de  ofício,  porém,  restando  caracterizado  fortes  e  relevantes  indícios  de  fraude  em  sua  conduta,  cabível  –  e  imprescindível  ­  é  a  aplicação  de  multa  Fl. 1031DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 992            12 qualificada e agravada. Ressalvo que os dois pontos serão abordados em conjunto, neste tópico,  em razão de sua relação intrínseca. Assim, segundo dispõe a legislação abaixo transcrita:    O enunciado do art. 44, da Lei n. 9.430/96, já alterado pela Lei n. 11.488/07,  resultado da conversão da MP n. 351 de 2007, prescreve que:    Art.  44.  Nos  casos  de  lançamento  de  ofício,  serão  aplicadas  as  seguintes  multas:   I  ­  de  75%  (setenta  e  cinco  por  cento)  sobre a  totalidade  ou  diferença  de  imposto ou contribuição nos casos de  falta de pagamento ou recolhimento,  de falta de declaração e nos de declaração inexata;    (...)    §1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será  duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de  novembro  de  1964,  independentemente  de  outras  penalidades  administrativas ou criminais cabíveis.     O inciso I, determina a aplicação do percentual de 75% “nos casos de falta de  pagamento  ou  recolhimento,  de  falta  de  declaração  e  nos  de  declaração  inexata”,  este,  exatamente o caso dos autos. Nestes termos, elucida o acórdão da DRJ que:    Tenha­se em mente ainda que, relativamente aos anos­calendários de 2006 a  2008  e  em  razão  das  infrações  apuradas  neste  processo,  deixaram  de  ser  recolhidos  nada  menos  que  R$ 22.797.636,93  de  tributos  em  valores  originais (sem  juros  e  multas).  Ademais,  constatou­se  insuficiência  de  recolhimento, sem exceção, em todos os trimestres dos três anos fiscalizados.    Ocorre que o parágrafo primeiro impõe a duplicação do percentual da multa  (150%), agravamento, acaso o contribuinte se adeque a um dos dispositivos da Lei n. 4.502/64  (arts. 71, 72 e 73). E conforme amplamente registrado em linhas pretéritas, não restam dúvidas  de que houve o cometimento de fraude (art. 72), sendo assim, de acordo com o Capítulo II (das  penalidades), Seção II (da aplicação e gradação das penalidades), lê­se que:    Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total  ou  parcialmente,  a  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  ou  a  excluir  ou  modificar  as  suas  características  essenciais,  de  modo  a  reduzir  o  montante  do  imposto  devido  a  evitar  ou  diferir  o  seu  pagamento.    Reforça  ainda  tal  provimento  as  Súmulas  CARF  ns.  25  e  96,  abaixo  transcritas, respectivamente:    A presunção  legal de omissão de receita ou de rendimentos, por  si  só, não  autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação  de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64.    Bem como:    Fl. 1032DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 993            13 A falta de apresentação de livros e documentos da escrituração não justifica,  por si só, o agravamento da multa de ofício, quando essa omissão motivou o  arbitramento dos lucros.    Após mencionar a legislação de regência, e apenas a título de reforço, reitero  os  motivos  determinantes  à  imputação  das  penalidades  mencionadas  transcrevendo  ­  por  compreender  a  situação  fático­jurídica  nos  mesmos  moldes  dos  argumentos  esposados  no  acórdão da DRJ ­ parte de seus argumentos:    (...)  a  multa  imposta  ao  empresário  individual  foi  qualificada  não  por  ter  sido ele considerado interposta pessoa, mas sim porque, entre outras razões,  ele teria se beneficiado do esquema fraudulento.  Não vem a propósito, portanto, o argumento de que, “em se tratando de uma  empresa individual, como é o caso da MAÉSIO CANDIDO VIEIRA, CNPJ nº  35.023.647/0001­13, o seu titular não pode ser laranja de si mesmo”.   Ainda  segundo  a  impugnante,  não  haveria  nenhum  “proveito  fiscal  de  colocar pai, mãe, esposa e colaboradores mais próximos à frente das novas  empresas”, as quais teriam sido criadas apenas “em prol do incremento de  crédito bancário”.     Tais  argumentos,  contudo,  não  são  hábeis  para  afastar  a  qualificação  da  multa. Pelo contrário, até reforçam a constatação fiscal de que houve fraude na composição do  quadro social das empresas. E a interposição de pessoas é um modo de dissimular as condições  pessoais  de  contribuinte,  suscetíveis  de  afetar  a  obrigação  tributária  principal  ou  o  crédito  tributário correspondente. Tenha­se em mente ainda que, relativamente aos anos­calendários de  2006 a 2008 e em razão das infrações apuradas neste processo, deixaram de ser recolhidos nada  menos que R$ 22.797.636,93 de tributos em valores originais (sem juros e multas).     Ademais, constatou­se insuficiência de recolhimento, sem exceção, em todos  os trimestres dos três anos fiscalizados. Tudo isso num contexto em que se evidenciou o intuito  de fraude na elaboração da escrituração, cujas inconsistências são de causar espécie, como, por  exemplo: “omissões de informações financeiras com a falta na escrituração contábil da conta  Banco conta movimento”, “falta de escrituração da conta do ativo imobilizado” e “as vendas  não passavam pelas contas de resultado, reduzindo o montante da receita declarada”.     Cumpre  também  considerar  as  inexatidões  cadastrais  encontradas:  diversos  estabelecimentos  não  foram  informados  no CNPJ. Mais  grave  ainda  é  a  conduta  reiterada  e  sistemática, sem nenhuma justificativa plausível, de não apresentar a documentação que teria  embasado a escrituração, cujo propósito não pode mesmo ter sido outro senão o de ocultar do  fisco  a  ocorrência  do  fato  gerador  da  obrigação  tributária  principal,  sua  natureza  ou  circunstâncias materiais.    Em suma, justificam a qualificação da multa não só a relevância dos valores e  a habitualidade da conduta, mas todo o contexto fático­probatório dos autos.    Por fim, não tem cabimento algum falar em exclusão de responsabilidade por  denúncia espontânea da infração, uma vez que faltam, no caso, os seguintes requisitos previstos  no  art.  138  do  CTN:  pagamento  do  tributo  devido  e  dos  juros  de  mora  ou  depósito  da  importância arbitrada pela autoridade administrativa, quando o montante do tributo dependa de  apuração.  Fl. 1033DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA Processo nº 10380.725119/2013­48  Resolução nº  1302­000.418  S1­C3T2  Fl. 994            14   Com o  intuito de  evitar  lacunas  entre o  arguido pela parte  e os motivos do  “livre  convencimento motivado”,  registrado  neste  voto,  ressalvo  que  não  há  que  se  falar  em  “mais  de uma punição  pelo mesmo  fato”,  em  razão  de:  primeiro,  não  ser  o  arbitramento  do  lucro uma metodologia punitiva11; segundo, a qualificação decorrer, também, da constatação e  comprovação da pratica de fraude; e, por fim, terceiro, o agravamento decorre da inadequada  apresentação dos documentos contábeis e fiscais exigidos pela fiscalização12.     Ante todo o exposto, resta cristalino o correto posicionamento da fiscalização  ao imputar penalidade mais gravosa à conduta realizada pela Recorrente.     Conclusão    Nestes  termos,  voto  por  julgar  procedentes  os  autos  de  infrações  em  referência, mantendo a aplicação das multas qualificadas e agravadas.     É como voto.    Talita Pimenta Felix ­ Relator    Voto Vencedor    Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior.      Não  obstante  o  substancioso  voto  da  Relatora,  ouso  dele  divergir,  pois  entendo que não podemos adentrar na discussão da regra decadencial aplicável na espécie, se a  documentação e informações constantes dos autos não permitem que esta Turma possa proferir  o julgamento caso, eventualmente, decida pela aplicação do art. 150, § 4º, do CTN.         Assim,  voto  por  converter  o  julgamento  em  diligência,  para  que  a  DRF/Fortaleza:    a)  informe se a  recorrente declarou débitos de  IRPJ, CSLL, COFINS e PIS  em  outras  DCTFs  do  ano  de  2007,  além  daquelas  dos  meses  de  jan/2007  e  dez/2007,  respectivmente a e­fls. 794 e 254;    b) informe os pagamentos efetuados pela recorrente a título de IRPJ, CSLL,  COFINS  e PIS  relativos  a  fatos  geradores do  ano de 2007, bem como as  retenções na  fonte  sofridas no mesmo ano de 2007; e    c)  junte,  aos  autos,  a  documentação  que  suporta  as  respostas  aos  itens  anterior.    Alfim,  que  seja  dada  ciência  ao  recorrente  do  relatório  de  diligência,  concedendo­lhe  prazo  para  se  manifestar  nos  autos,  após  o  que,  retorne­se  os  autos  a  este  Colegiado para prosseguimento do feito.  Alberto Pinto S. Jr. ­ Relator.  Fl. 1034DF CARF MF Impresso em 10/10/2016 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 21/09/2016 por TALITA PIMENTA FELIX, Assinado digitalmente em 07/10/2016 por LUIZ TADEU MATOSINHO MACHADO, Ass inado digitalmente em 23/09/2016 por ALBERTO PINTO SOUZA JUNIOR, Assinado digitalmente em 06/10/2016 por EDELI PEREIRA BESSA

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