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Numero do processo: 13839.911508/2009-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Data do fato gerador: 09/10/2006
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DCOMP. ÔNUS DA PROVA.
I - Em processo de compensação tributária, ao contribuinte, enquanto autor do pedido de compensação, incumbe a prova da existência do crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional ao tempo da transmissão da DCOMP (Lei n° 9.784, de 1999, arts. 36 e 69; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, I; e Lei nº 13.105, de 2015, arts. 15 e 373, I), data em que a compensação tributária se efetiva sob condição resolutória. II - A simples apresentação de DCTF retificadora, ainda que acompanhada de DARF, não se constitui em prova de pretenso erro, sendo a retificação da DCTF ineficaz por caber ao contribuinte (CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; e Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II) o ônus de comprovar o erro não apurável pelo mero exame da DCTF. III - O princípio da verdade material não pode ser invocado para se afastar o ônus jurídico de o contribuinte instruir a manifestação de inconformidade com suas provas documentais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°; e Lei n° 9.430, art. 74, §11), sob pena de ofensa aos princípios da legalidade, da colaboração dos contribuintes e da duração razoável do processo.
Numero da decisão: 2401-005.639
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente.
(assinado digitalmente)
José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: JOSE LUIS HENTSCH BENJAMIN PINHEIRO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF Data do fato gerador: 09/10/2006 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. DCOMP. ÔNUS DA PROVA. I - Em processo de compensação tributária, ao contribuinte, enquanto autor do pedido de compensação, incumbe a prova da existência do crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional ao tempo da transmissão da DCOMP (Lei n° 9.784, de 1999, arts. 36 e 69; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, I; e Lei nº 13.105, de 2015, arts. 15 e 373, I), data em que a compensação tributária se efetiva sob condição resolutória. II - A simples apresentação de DCTF retificadora, ainda que acompanhada de DARF, não se constitui em prova de pretenso erro, sendo a retificação da DCTF ineficaz por caber ao contribuinte (CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; e Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II) o ônus de comprovar o erro não apurável pelo mero exame da DCTF. III - O princípio da verdade material não pode ser invocado para se afastar o ônus jurídico de o contribuinte instruir a manifestação de inconformidade com suas provas documentais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°; e Lei n° 9.430, art. 74, §11), sob pena de ofensa aos princípios da legalidade, da colaboração dos contribuintes e da duração razoável do processo.
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DCOMP. ÔNUS DA PROVA. I Em processo de compensação tributária, ao contribuinte, enquanto autor do pedido de compensação, incumbe a prova da existência do crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional ao tempo da transmissão da DCOMP (Lei n° 9.784, de 1999, arts. 36 e 69; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, I; e Lei nº 13.105, de 2015, arts. 15 e 373, I), data em que a compensação tributária se efetiva sob condição resolutória. II A simples apresentação de DCTF retificadora, ainda que acompanhada de DARF, não se constitui em prova de pretenso erro, sendo a retificação da DCTF ineficaz por caber ao contribuinte (CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; e Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II) o ônus de comprovar o erro não apurável pelo mero exame da DCTF. III O princípio da verdade material não pode ser invocado para se afastar o ônus jurídico de o contribuinte instruir a manifestação de inconformidade com suas provas documentais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°; e Lei n° 9.430, art. 74, §11), sob pena de ofensa aos princípios da legalidade, da colaboração dos contribuintes e da duração razoável do processo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 91 15 08 /2 00 9- 71 Fl. 173DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 174 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andréa Viana Arrais Egypto, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Rayd Santana Ferreira, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Luciana Matos Pereira Barbosa, Matheus Soares Leite e Miriam Denise Xavier. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão da 7ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo, que, por unanimidade de votos, julgou IMPROCEDENTE Manifestação de Inconformidade apresentada contra Despacho Decisório que NÃO HOMOLOGOU compensação do crédito original (utilizado) no valor de R$ 5.426,63, a partir de pretenso Pagamento Indevido/a Maior de Imposto de Renda Retido na Fonte (cód 0422, PA 29/09/2006) veiculado na PER/DCOMP 20286.62245.291106.1.3.049668, em razão de o pagamento ter sido utilizado na extinção de débitos declarados em DCTF. Intimado do Despacho Decisório em 24/07/2009, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade em 19/08/2009 alegando, em síntese: a) O recolhimento do IRRF incidente sobre Royalties foi efetuado de forma antecipada nos períodos compreendidos entre Junho a Dezembro de 2006. Entretanto, a ausência de averbação do contrato de Royalties pelo INPI Instituto Nacional de Propriedade Industrial impossibilitou o pagamento. b) Não havendo pagamento de Royalties, a retenção de imposto de renda na fonte foi indevida. Intimado em 24/08/2009 a regularizar a representação, o contribuinte apresentou em 04/09/2009 cópia de alteração contratual, bem como cópia da conta "Royalties a Pagar" do Livro Razão, copia de Certificado de Averbação n° 070437/02, referente ao aditivo de 10/01/2008 ao Contrato de 01/04/2007, e cópia de Contrato de Royalties firmado em 01/04/2007 e Aditivo de 10/01/2008 com prazo de 30/05/2007 a 29/05/2012. Em 22/05/2014, a manifestação de inconformidade foi julgada improcedente. Do Acórdão, em síntese, se extrai: a) O Requerente sustenta a existência do indébito tributário amparandose com cópia de razão consolidado da movimentação da conta de royalties a pagar no ano de 2006, cópia de contrato e aditivo de licença de tecnologia firmado com a Huf Husbeck & Furst GmbH & Co sem tradução juramentada e da cópia do Certificado de Averbação emitido pelo INPI em fevereiro/2008. b) O recolhimento noticiado encontrase integralmente alocado ao débito de IRRF (Código de Receita 0422) especificado do despacho decisório. O contribuinte efetuou a transmissão da DCTF retificadora após a ciência do despacho decisório. Fl. 174DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 175 3 b) A matéria em litígio exigia do requerente a apresentação de amplo conjunto probatório à plena demonstração da pertinência do crédito reivindicado, entre os quais: (i) cópia integral dos Contratos de Licença de Transferência e Exploração de Tecnologia e seus aditivos depositados no INPI, acompanhados dos correspondentes Certificados de Averbação naquele órgão de registro; (ii) cópias das faturas (invoice) de prestação de serviço; e (iii) cópias das operações de fechamento de câmbio destinadas ao pagamento das operações de royalties e dos Registros Declaratórios Eletrônicos – RDE correlatos (CartaCircular Bacen nº 2.816, de 15/04/1998), tudo devidamente acompanhado de todo acervo documental suplementar, se for o caso, e da escrituração contábil (contas patrimoniais e de resultado) que permitam a averiguação das alusões que propugnam o lapso no preenchimento da DCTF (CTN, art. 165, I). Documentos em língua estrangeira devem observar a disciplina do art. 224 do Código Civil, do art. 157 do Código de Processo Civil, dos arts. 129 e 148 da Lei nº 6.015, de 31/12/1973 (Lei de Registros Públicos). c) A comprovação da verdade material relacionada ao direito creditório sob litígio, bem como o ônus da prova, devem obedecer aos ditames fixados no art. 9º, §1º do DecretoLei nº 1.598, de 1977, regulamentado pelo art. 923 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99), condições estas que não ficaram configuradas no momento do ingresso da manifestação de inconformidade. Cientificado em 27/06/2014, o contribuinte interpôs em 25/07/2014 recurso voluntário, em síntese, alegando: a) A empresa apresentou impugnação alegando pagamento antecipado de IRRF sobre Royalties e Assistência Técnica, referente a uma eventual e futura prestação de serviços por terceiro, fato que não aconteceu a caracterizar o pagamento indevido. Ante a ausência de averbação do contrato de Royalties pelo INPI, impossibilitouse o pagamento dos mesmos pela inocorrência do fato gerador. b) Ainda que os documentos apresentados com a manifestação de inconformidade fossem insuficientes, o julgador não poderia decidir mediante simples aplicação do ônus da prova, sob pena de ofensa ao princípio da verdade material. Cabia diligência para que o contribuinte complementasse a documentação ou apresentasse esclarecimentos (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 18) Doutrina e jurisprudência respaldam esse entendimento. O mesmo dever jurídico se impõe ao CARF. A documentação acostada com a manifestação de inconformidade já era suficiente. Mas, para não haver dúvidas apresenta documentação complementar. c) Pede a reforma integral do Acórdão da DRJ, bem como o reconhecimento do direito creditório e a homologação da compensação. Por fim, requer diligência caso seja necessária. É o Relatório. Fl. 175DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 176 4 Voto Conselheiro José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Presentes os pressupostos de admissibilidade, tomo conhecimento do recurso voluntário. O princípio da verdade material não pode ser invocado para se afastar o ônus jurídico de o contribuinte instruir a manifestação de inconformidade com suas provas documentais (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°; e Lei n° 9.430, art. 74, §11), sob pena de ofensa aos princípios da legalidade, da colaboração dos contribuintes e da duração razoável do processo. Com lastro no art. 18 do Decreto n° 70.235, de 1972, a autoridade julgadora pode realizar diligência de ofício, mas tratase de providência complementar à instrução probatória e não destinada a retirar das partes o ônus de provar suas alegações. Esse entendimento tem prevalecido no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, como bem ilustram as seguintes ementas: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2004 PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INDISPENSABILIDADE. Nos processos que versam a respeito de compensação, a comprovação do direito creditório recai sobre aquele a quem aproveita o reconhecimento do fato, que deve apresentar elementos probatórios aptos a comprovar as suas alegações. Logo, deve o contribuinte demonstrar que o crédito que alega possuir é capaz de quitar, integral ou parcialmente, o débito declarado em Per/Dcomp. Salientese que alegações desprovidas de indícios mínimos para ao menos evidenciar a verdade dos fatos ou colocar dúvida quanto à acusação fiscal de insuficiência de crédito, uma vez a análise fiscal é realizada sobre informações prestadas pelo contribuinte, colhidas nos sistemas informatizados da RFB, carece de elementos que justifica a autorização da realização de diligência, pois esta não se presta a suprir deficiência probatória. (Processo n° 10120.907657/200933; Acórdão nº 3001000.312 – 3ª Seção/Turma Extraordinária/1ªTurma; Sessão de 11 de abril de 2018) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006 PEDIDO DE DILIGÊNCIA. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE COMPROVAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA. NÃO APRESENTAÇÃO DE INFORME DE RENDIMENTOS. PEDIDO DE DILIGÊNCIA REJEITADO. Fl. 176DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 177 5 Nos autos do processo de compensação tributária, o contribuinte é autor do pedido de compensação tributária. O ônus da prova incumbe ao autor quanto ao fato constitutivo do seu direito creditório pleiteado, consoante Código de Processo Civil (Lei nº 13.105, de 2015, art. 373, I) de aplicação subsidiária ao processo administrativo tributário federal, e com observância do Decreto nº 70.235/72 (arts. 15 e 16). Incumbe ao contribuinte a demonstração, acompanhada das provas hábeis e idôneas, da existência do crédito que alega possuir contra Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. Os requisitos ou atributos de liquidez e certeza quanto ao crédito objetado contra a Fazenda Nacional devem estar preenchidos ou satisfeitos quando da transmissão da DCOMP, data em que a compensação tributária se efetiva, sob condição resolutória. A busca da verdade material não autoriza o julgador a substituir o interessado na produção das provas. (Processo n° 10880.997365/200982; Acórdão nº 1301002.908 – 1ª Seção/3ªCâmara/1ªTurma Ordinária; Sessão de 16 de março de 2018) Acrescentese que a simples apresentação de DCTF retificadora, ainda que acompanhada de DARF, não se constitui em prova de pretenso erro. A retificação da DCTF é ineficaz, pois cabe ao contribuinte o ônus de comprovar o erro não apurável pelo mero exame da DCTF (CTN, art. 147; Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II1). Novamente, invocase atual e iterativa jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Anocalendário: 2003 DÉBITO INFORMADO EM DCTF. NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DO ERRO A simples retificação de DCTF para alterar valores originalmente declarados, desacompanhada de documentação hábil e idônea, não pode ser admitida para modificar Despacho Decisório. 1 Lei nº 5.172, de 1966 Código Tributário Nacional Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. § 1º A retificação da declaração por iniciativa do próprio declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento § 2º Os erros contidos na declaração e apuráveis pelo seu exame serão retificados de ofício pela autoridade administrativa a que competir a revisão daquela. Lei n° 5.869, de 1973 Código de Processo Civil REVOGADO Art. 333. O ônus da prova incumbe: II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Lei n° 13.105, de 2015 Código de Processo Civil VIGENTE Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente. Art. 373. O ônus da prova incumbe: II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 178 6 COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Constatada a inexistência do direito creditório por meio de informações prestadas pelo interessado à época da transmissão da Declaração de Compensação, cabe a este o ônus de comprovar que o crédito pretendido já existia naquela ocasião. (Processo n° 15374.903703/200886; Acórdão nº 2201004.420 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária; Sessão de 04 de abril de 2018) ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 2010 MERA ALEGAÇÃO DE ERRO MATERIAL. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO DCOMP. ERRO DE PREENCHIMENTO DA DCTF. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO ERRO. A alegação de que houve erro material no preenchimento da DCTF, mesmo que posteriormente retificada, e que determinado débito de IRRF teria sido pago a maior, não é suficiente para assegurar que tenha sido, de fato, maior que o devido em face da legislação tributária aplicável, de modo a justificar a existência de direito creditório. É imprescindível a apresentação de prova cabal e inconteste do alegado erro material. (Processo n° 16327.910429/200919; Acórdão nº 2201004.442 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária; Sessão de 04 de abril de 2018) Destarte, incumbe ao contribuinte a prova da existência do crédito liquido e certo contra a Fazenda Nacional ao tempo da transmissão da DCOMP (Lei n° 9.784, de 1999, arts. 36 e 69)2, data em que a compensação tributária se efetiva, sob condição resolutória. Além disso, em procedimento de análise da compensação do crédito, é do contribuinte o ônus de provar a existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo, ou seja, do alegado erro na DCOMP original (Lei n° 5.869, de 1973, art. 333, II; Lei n° 13.105, 2015, arts. 15 e 373, II). Portanto, não tendo o requerente se desincumbindo de seu ônus probatório, correta a decisão veiculada no Acórdão de piso ao compreender como não provados os pressupostos de existência e validade do crédito postulado e como não comprovada sua disponibilidade para amparar o exercício da compensação declarada. As provas documentais do contribuinte devem ser apresentadas com a manifestação de inconformidade (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, III e §4°)3. Em 2 Lei n° 9.784, de 1999. Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 69. Os processos administrativos específicos continuarão a regerse por lei própria, aplicandoselhes apenas subsidiariamente os preceitos desta Lei. 3 Decreto n° 70.235, de 1972. Art. 16. A impugnação mencionará: III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) § 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Fl. 178DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 179 7 homenagem ao princípio da verdade material, se admite a juntada após a manifestação de inconformidade nas hipóteses das alíneas a, b e c do § 4° do art. 16 do Decreto n° 70.235, de 1972, mediante requerimento à autoridade julgadora de primeira instância devidamente fundamentado (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, §5°)4 ou, após a decisão de primeira instância, mediante juntada aos autos e a instruir recurso (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, §6°)5, devendo, a rigor, se observar as mesmas hipóteses das alíneas do referido § 4° (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, §§ 4°, 5° e 6°). No caso concreto, não restou demonstrada nenhuma das situações previstas nas alíneas a, b e c do §4° do art. 16 do Decreto n° 70.235, de 1972. Por conseguinte, a documentação que instrui o recurso voluntário não mereceria ser conhecida como prova do contribuinte. Ainda que se entenda que o princípio da verdade material autoriza o julgador a conhecer de ofício de tais documentos, eles não têm o condão de comprovar as alegações do contribuinte, como a seguir será demonstrado. Além disso, eventual diligência a ser promovida com lastro em tais documentos não versaria sobre questões pontuais a serem esclarecidas por quesitos específicos (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, IV), mas na simples intimação do contribuinte para que produzisse prova que legalmente já deveria ter instruído a manifestação de inconformidade (Decreto n° 70.235, de 1972, art. 16, §4°). Logo, não é cabível a conversão do presente julgamento em diligência. O recurso foi instruído com procuração, cópia do contrato social, cópias dos Termos de Abertura e Encerramento dos Livros Diário 036 a 042 e do que supostamente seriam algumas páginas desses livros; cópia de Contrato de Licença firmado em 01/04/2007; e cópia de Certificado de Averbação INPI 070437/01 com prazo de cinco anos a partir de 27/12/2007. No prazo para comprovar a regularidade da representação em relação à manifestação de inconformidade, já haviam sido carreados aos autos cópia da conta "Royalties a Pagar" do Livro Razão, copia de Certificado de Averbação n° 070437/02, referente ao aditivo de 10/01/2008 ao Contrato de 01/04/2007, e cópia de Contrato de Royalties firmado em 01/04/2007 e Aditivo de 10/01/2008 com prazo de 30/05/2007 a 29/05/2012. De plano, ressaltese que a integralidade dos Livros Diário pertinentes às alegações do contribuinte deveriam ter sido apresentada para se comprovar todos os montantes efetivamente escriturados como pagos a título de Royalties e todos os valores retidos e recolhidos, bem como excertos dos Livros Razão com as contas pertinentes. a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) refirase a fato ou a direito superveniente; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) 4 Decreto n° 70.235, de 1972. Art. 16 (...) § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) 5 Decreto n° 70.235, de 1972. Art. 16 (...) § 6º Caso já tenha sido proferida a decisão, os documentos apresentados permanecerão nos autos para, se for interposto recurso, serem apreciados pela autoridade julgadora de segunda instância. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) Fl. 179DF CARF MF Processo nº 13839.911508/200971 Acórdão n.º 2401005.639 S2C4T1 Fl. 180 8 Em relação ao excerto do Livro Diário não foram apresentados os respectivos Termos de Abertura e Encerramento. De qualquer forma, a força probatória do Livro Razão é reflexa ao respectivo Livro Diário devidamente formalizado e registrado. Os Termos de Abertura e Encerramento apresentados em cópia com o recurso voluntário foram datados e firmados entre junho e dezembro de 2006, tendo sido levados a registro em 2007 e em Cartório de Registro de Pessoas Naturais. As cópias do que se supõe serem folhas escolhidas desses livros atestam como data de elaboração os dias 25, 28 ou 29 de 05/2007 ou 04/06/2007. Logo, as folhas dos livros teriam sido elaboradas após a data de conclusão dos mesmos, constante dos respectivos Termos de Encerramento. Diante da impossibilidade jurídica de um Livro Diário ser confeccionado após a data de lavratura de seu termo de encerramento, tais documentos são destituídos de valor probatório, bem como o excerto do Livro Razão apresentado por não poder ser confrontado com os respectivos Livros Diário. Acrescentese ainda que, além de não se ter apresentado a integralidade dos Livros Diários, não foi exibido o Plano de Contas e os históricos dos lançamentos, inclusive do excerto do Livro Razão, são extremamente lacônicos e/ou codificados não havendo como os compreender adequadamente estando desacompanhados dos documentos que lhes deram suporte. O Contrato de Licença e Aditamento (em inglês e vernáculo sem tradução juramentada, não há como se afirmar com segurança serem duas versões de um mesmo contrato) e os Certificados de Averbação apresentados apresentam validade a partir de 30/05/2007. Como consta da PER/DCOMP e do DARF, o IRRF 0422 se refere ao período de apuração 29/09/2006. Os poucos documentos apresentados não permitem se concluir acerca dos valores que deveriam ter sido retidos e recolhidos em relação ao período de apuração e nem delimitar na esfera dos fatos concretos o alegado erro (antecipação de pagamento e inocorrência do fato gerador). Como bem destacou o Acórdão da DRJ, todos os Contratos de Licença e Contratos de Câmbio celebrados pelo contribuinte; os Certificados de Averbação INPI; invoices; DARFs; Livros e Demonstrações Contábeis etc, bem como os devidos esclarecimentos para se explicitar em tal documentação os fatos dela alegados, deveriam ter sido apresentados desde a manifestação de inconformidade. As provas constantes dos autos são incapazes de gerar a convicção acerca dos fatos e argumentos alegados, não tendo o recorrente se desincumbido de seu ônus probatório. Isso posto, voto por conhecer do recurso voluntário e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro Relator Fl. 180DF CARF MF
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Numero do processo: 12448.723403/2012-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF
Ano-calendário: 2008
ISENÇÃO POR MOLÉSTIA GRAVE. CONDIÇÕES.
O reconhecimento da isenção de que trata o inciso XIV, art. 6º, da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, requer o cumprimento de dois requisitos: o rendimento ter natureza de aposentadoria, reforma ou pensão e comprovação, por meio de laudo médico oficial, da existência de doença mencionada na lei.
Restando demonstrado o atendimento aos requisitos legais, impõe-se o reconhecimento do direito à isenção.
Numero da decisão: 2402-006.319
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar
provimento ao recurso voluntário.
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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ISENÇÃO. MOLÉSTIA GRAVE. Recorrente MILTON DE CARVALHO CABRAL Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2008 ISENÇÃO POR MOLÉSTIA GRAVE. CONDIÇÕES. O reconhecimento da isenção de que trata o inciso XIV, art. 6º, da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, requer o cumprimento de dois requisitos: o rendimento ter natureza de aposentadoria, reforma ou pensão e comprovação, por meio de laudo médico oficial, da existência de doença mencionada na lei. Restando demonstrado o atendimento aos requisitos legais, impõese o reconhecimento do direito à isenção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mário Pereira de Pinho Filho, Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregorio Rechmann Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 34 03 /2 01 2- 01 Fl. 277DF CARF MF 2 Relatório Tratase de recurso voluntário em face da decisão da 5ª Tuma da DRJ/REC, consubstanciada no Acórdão nº 1146.109, que julgou procedente em parte a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Por bem descrever os fatos até a decisão de primeira instância, transcrevo o relatório da decisão recorrida: Em desfavor do contribuinte acima identificado, foi emitida Notificação de Lançamento (fl. 14), relativamente ao anocalendário de 2008, na qual foi lançado crédito tributário, conforme discriminação abaixo: 2. O valor cobrado acima referese à restituição indevida, oriundo do seguinte cálculo: IAR declarado = R$ 203.799,16; IAR já restituído = R$ 22.705,25; IAR calculado após a notificação = R$ 20.448,05; IAR a devolver = R$ 2.257,20. 3. De acordo com a “Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal”, referido lançamento decorrera das seguintes infrações, conforme imagem do processo às fls. 15 e 16: Fl. 278DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 3 3 (...) 4. Irresignado, o contribuinte apresenta impugnação (fls. 2 a 11), sob os seguintes fundamentos: (...) imagem da peça impugnatória original: (...) valores da original e depois a retificadora: Fl. 279DF CARF MF 4 (...) alegação da isenção existência de moléstia grave: (...) contestação – glosa de despesas médicas: Fl. 280DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 4 5 A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Recife (PE) julgou procedente em parte a impugnação do sujeito passivo, com base nas seguintes conclusões, em síntese: Ø A lide abrange duas questões: (i) omissão de rendimentos: a defesa alega que os rendimentos são isentos porquanto estariam abrigados pela regra da exclusão de tributação sobre proventos de aposentadoria, em virtude da existência de moléstia grave (cegueira). A autoridade fiscal considera omissão de rendimentos os valores não oferecidos à tributação quando da apresentação da declaração retificadora; e (ii) dedução indevida de despesas médicas: o impugnante aduz que os recibos apresentados comprovam a realização da despesa e traz aos autos declarações emitidas pela profissional que prestou o serviço. A fiscalização informa que os recibos não atendem as formalidades necessárias. Da isenção dos rendimentos em virtude de moléstia grave A isenção prevista no inciso XXXIII do art. 39 do RIR/99 (isenção de rendimento de aposentadoria, reforma ou pensão por existência de moléstia grave), depende do cumprimento de duas condições cumulativas: a) rendimentos oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão (condição de caráter objetivo); e b) sujeito passivo portador de alguma das moléstias previstas no texto legal, comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial (condição de caráter subjetivo). Fl. 281DF CARF MF 6 Para efeito de reconhecimento da isenção, sem prejuízo das demais exigências legais, somente podem ser aceitos laudos periciais emitidos por instituições públicas, independentemente da vinculação destas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os laudos médicos expedidos por entidades privadas (hospitais, clínicas ou médicos particulares), não podem ser aceitos, ainda que o atendimento decorra de convênio referente ao SUS. Na espécie, o impugnante apresenta cópia de despacho emitido pela Gerência Executiva do INSS no Rio de Janeiro, segundo o qual consta a existência de enfermidade especificada no inciso XIV do art. 6º da Lei 7.713/1988. Posteriormente, anexa declaração da citada gerência (fl. 71). Tornouse consensual, na literatura médica internacional, que a “cegueira legal” é definida por duas escalas oftalmológicas, com vistas à delimitação do grupamento de deficientes visuais, cegos e portadores de visão subnormal, quais sejam: acuidade visual, aquilo que se enxerga a uma determinada distância, e o campo visual, que é a amplitude da área alcançada pela visão, delimitações estas que acompanham as tabelas na CID10, referindose a cada classificação. Assim, considerase “cegueira” quando esses valores encontramse abaixo de 0,05 ou o campo visual menor do que 10 graus (categorias 3, 4 e 5), com a classificação “H54.0 Cegueira, ambos os olhos”. (grifos acrescidos). A classificação em comento, cujos parâmetros diferenciam a “Cegueira, em ambos os olhos” da “Visão subnormal”, foi utilizada pelo Decreto n.º 5.296/2004, que regulamentou a Lei n.º 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas deficientes que especifica. Assim, a cegueira tem parâmetros diferentes da “baixa visão” ou subnormal. Como se observa, no caso concreto, não está devidamente comprovada que a deficiência visual do contribuinte se caracteriza como cegueira na forma da lei e, dessa forma, o pleito do contribuinte não pode ser atendido. A certidão emitida pelo INSS não traz a classificação completa da deficiência visual, visto que informa apenas a CID H54, grupo onde também está incluído parâmetro relativo à visão subnormal ou à baixa visão. Ainda, verificase que o despacho no processo reconhece a deficiência visual nos termos legais a partir de 2011, em contradição com a declaração à fl. 71. Da comprovação das despesas médicas Nos termos do inciso III do § 1º, do art. 80, combinado com o § 1º, do art.73, todos do RIR/1999, para que as despesas médicas constituam dedução, é necessária a comprovação, mediante documentação hábil e idônea, da prestação dos serviços, limitandose, ainda, a pagamentos especificados e comprovados ou justificados, a juízo da autoridade lançadora. Fl. 282DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 5 7 No presente caso, a fiscalização desclassifica os recibos sob o argumento de não atender as formalidades necessárias. No entanto, como se observa, pelos documentos acostados às fls 36 a 43 (recibos e declarações), foram atendidos os requisitos formais previstos na legislação (identificação e endereço do profissional, especificação do serviço etc.). Assim, a dedução referente às despesas com a profissional Cláudia Márcia de Moraes Souza, no valor total de R$ 7.620,00, será restabelecida. Cientificado dessa decisão, o contribuinte interpôs recurso voluntário de fls. 100/132, por meio do qual apresenta os seguintes esclarecimentos e requerimentos, em síntese: Fl. 283DF CARF MF 8 Fl. 284DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 6 9 Fl. 285DF CARF MF 10 Fl. 286DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 7 11 Fl. 287DF CARF MF 12 Fl. 288DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 8 13 Fl. 289DF CARF MF 14 Fl. 290DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 9 15 Fl. 291DF CARF MF 16 Fl. 292DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 10 17 Fl. 293DF CARF MF 18 Fl. 294DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 11 19 Fl. 295DF CARF MF 20 Após o protocolo do recurso voluntário nos termos supra transcritos, o Recorrente, por meio de petição protocolizada em 17/11/2015, trouxe aos autos o Acórdão nº 11 50.317 da 5ª Turma da DRJ de Recife (mesma turma e relator da decisão recorrida no presente caso), por meio do qual restou reconhecido o seu direito à isenção por moléstia grave, referente ao anocalendário 2010, conforme ementa abaixo reproduzida: Registrese, conforme sinalizado pelo Recorrente na petição apresentada em 17/11/2015, que, após ter conhecimento do seu direito à isenção do IRPF em função de moléstia grave, o contribuinte transmitiu à SRFB declarações retificadoras referentes aos seguintes exercícios: Fl. 296DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 12 21 Como se vê, por meio do Acórdão 1150.317, objeto do PAF 15463.720577/2015 56, referente ao anocalendário 2010, a DRJ reconheceu o direito creditório do contribuinte em função do seu direito à isenção do IRPF em decorrência de moléstia grave. É o relatório. Fl. 297DF CARF MF 22 Voto Conselheiro Gregório Rechmann Junior Relator O recurso é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deve ser conhecido. Da análise dos autos, verificase que a discussão gira em torno da não apresentação (ou da apresentação mas com deficiência) de laudo oficial atestando que o recorrente é portador de moléstia grave a justificar a isenção do IRPF. É o que se infere, pois, do parágrafo 7.8 do acórdão recorrido, abaixo reproduzido: 7.8. Como se observa, no caso concreto, não está devidamente comprovada que a deficiência visual do contribuinte se caracteriza como cegueira na forma da lei e, dessa forma, o pleito do contribuinte não pode ser atendido. A certidão emitida pelo INSS não traz a classificação completa da deficiência visual, visto que informa apenas a CID H54, grupo onde também está incluído parâmetro relativo à visão subnormal ou à baixa visão. Ainda, verificase que o despacho no processo reconhece a deficiência visual nos termos legais a partir de 2011, em contradição com a declaração à fl. 71. Sobre a matéria, o inciso XIV, art. 6º, da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelas Leis n.º 8.541, de 23 de dezembro de 1992, e n.º 11.052, de 29 de dezembro de 2004, assim determinam: Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: (...) XIV os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Pagel (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma; (...) Por sua vez, o art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, passou a veicular a exigência de que a moléstia fosse comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, nos termos a seguir: Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de Fl. 298DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 13 23 dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º O serviço médico oficial fixará o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 2º Na relação das moléstias a que se refere o inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, fica incluída a fibrose cística (mucoviscidose). No caso em análise, verificase que a própria fiscalização e a DRJ evoluíram o seu entendimento, passando a reconhecer que o Recorrente é portador, de fato, de moléstia grave, fazendo jus à isenção do IRPF, nos termos da legislação de regência da matéria. É o que se infere, pois, do Acórdão 1150.317, proferido não apenas pela mesma Turma da DRJ que exarou a decisão ora recorrida, mas tendo o mesmo relator, o AuditorFiscal João Wanderley Regueira Filho. De fato, analisandose o relatório daquela decisão, temse que: (i) aquele lançamento foi decorrente, além da glosa de despesas médicas, da não comprovação da natureza jurídica dos rendimentos percebidos (se seriam proventos recebidos a título de aposentadoria ou não); (ii) em sua defesa, o contribuinte aduziu que: Fl. 299DF CARF MF 24 Como se vê, os fatos que deram origem ao presente lançamento são os mesmos que originaram aquele objeto do PAF 15463.720577/201556, referente ao anocalendário 2010, no qual a própria fiscalização e a DRJ, reconhecem que o Recorrente é portador de moléstia grave, sendo lídimo o seu direito à isenção do IRPF. Ademais, não se deve olvidar e ignorar o fato de que o próprio INSS já reconheceu que (i) o recorrente é portador de moléstia grave, (ii) que a moléstia o acomete desde 2004 e (iii) que o recorrente faz jus à isenção do imposto de renda, conforme se infere dos laudos, declarações e comunicações emitidos por aquele órgão e juntado aos autos pelo contribuinte, abaixo reproduzidos: Fl. 300DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 14 25 Fl. 301DF CARF MF 26 Registrese, pela sua importância que, nos autos do PAF 12448.723404/201247, o Recorrente apresentou nova declaração do INSS (de fls. 261) na qual a perita médica daquele órgão expressamente informa que o Sr. MILTON DE CARVALHO CABRAL (...) comprova doença classificada pela CID X H54.1, diagnosticada em JUNHO/2004 (...), conforme tela abaixo: Fl. 302DF CARF MF Processo nº 12448.723403/201201 Acórdão n.º 2402006.319 S2C4T2 Fl. 15 27 Conclusão Ante o exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para determinar o reconhecimento do direito creditório, conforme abaixo demonstrado: Item da declaração Declarados Após a Notificação Após o Julgamento DRJ Após o Julgamento CARF 1‐ Rendimentos Tributáveis 113.831,42 791.376,53 791.376,53 113.831,42 2‐ Total das deduções 108.904,36 100.696,36 108.316,16 108.316,16 3‐ Base de Cálculo (1 menos 2) 4.927,06 690.680,17 683.060,17 5.515,26 4‐ Imposto devido (tabela progressiva) ‐ 183.351,11 181.255,70 ‐ 5‐ Imposto pago 203.799,16 203.799,16 203.799,16 203.799,16 6‐ Resultado (Imposto a Restituir ‐ IAR) 203.799,16 20.448,05 22.543,46 203.799,16 7‐ Imposto já restituído 22.705,25 22.705,25 22.705,25 22.705,25 8‐ Imposto suplementar (6‐7) ‐ 2.257,20 161,99 ‐ 9‐IAR a Devolver 181.093,91 ‐ ‐ 181.093,91 É como voto. (assinado digitalmente) Gregório Rechmann Junior Fl. 303DF CARF MF
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Numero do processo: 16643.720067/2013-61
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Apr 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
LANÇAMENTO DE OFÍCIO. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ERRO DE DIREITO. VEDAÇÃO.
É vedada à administração pública o reexame de matéria e período já fiscalizados com base na mudança de critério jurídico e/ou erro de direito.
Numero da decisão: 1401-002.405
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Guilherme Adolfo dos Santos Mendes - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo Dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo De Oliveira Barbosa.
Nome do relator: GUILHERME ADOLFO DOS SANTOS MENDES
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(NA QUALIDADE DE SUCESSORA DA CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA. CNPJ Nº 05.322.792/000134) Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 LANÇAMENTO DE OFÍCIO. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ERRO DE DIREITO. VEDAÇÃO. É vedada à administração pública o reexame de matéria e período já fiscalizados com base na mudança de critério jurídico e/ou erro de direito. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Livia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 64 3. 72 00 67 /2 01 3- 61 Fl. 1838DF CARF MF 2 Guilherme Adolfo Dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Leticia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo De Oliveira Barbosa. Relatório Tratase de recurso voluntário. Em relação às peças iniciais de acusação e defesa, adoto o relatório elaborado pela autoridade julgadora recorrida, que passo a transcrever: Tratase de autos de infração à legislação do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas –IRPJ e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL, lavrados em 18/12/2013, pela Delegacia de Maiores Contribuintes DEMAC de São Paulo/SP, para constituir o crédito tributário no total de R$ 78.430.122,48 (incluídos o principal, a multa de ofício de 75% e os juros de mora devidos até a data da lavratura, tendo em conta as irregularidades apuradas, no anocalendário 2008, descritas no Termo de Verificação Fiscal de fls. 1377/1413, parte integrante da peça acusatória, e abaixo transcrito: No exercício das funções de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil e como resultado dos trabalhos de fiscalização realizados no contribuinte acima indicado, iniciados em 19/11/2013, seguindo o disposto nos artigos 904, 911, 927 e 928 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3000, de 26/03/99, verificamos os seguintes fatos: ATIVIDADES EXERCIDAS NO EXTERIOR LUCROS, RENDIMENTOS E GANHOS DE CAPITAL Esclarecimentos Iniciais: 1. A presente fiscalização, respaldada no Mandado de Procedimento Fiscal MPF n° 08.1.85.002011003240, teve origem na Diligência autorizada pelo MPFD n° 08.1.85.00 2013002570, iniciada em 08/11/2013, conforme data de recebimento constante do Aviso de Recebimento dos Correios; 2. Os tributos abrangidos pelo referido mandado são o Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e o período fiscalizado é de 01 de janeiro de 2008 a 31 dezembro de 2008 e tem, como su je i to pass i vo, a VPar , in co rporadora da Cazben e , por tan to , responsáve l por sucessão pe las in f rações comet idas por sua i nco rporada; 3. A presente reanálise tem como causa a discrepância entre os valores de lucros auferidos pelas controladas da Votorantim GmbH Áustria (antes AZBEN Holding G.M.B.H.), conforme documentos apresentados pela fiscalizada (prejuízo de 200.700.00 € ou seja, R$ 469.035.900,00), e o resultado, constante dos demonstrativos da CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA., CNPJ n° 05.322.792/000134, controlada da fiscalizada, quando de sua incorporação pela mesma em novembro de 2008 (resultado positivo de equivalência patrimonial de R$ 254.369.940,49); 4. A Cazben sempre teve como único ativo, sua participação de 60% na Votorantim GmbH Áustria, na qual sua controladora, a fiscalizada, detinha os restantes 40%; 5. Pelo motivo acima e por ser uma holding, o único resultado da Cazben se dava exclusivamente em razão de sua participação societária na empresa Austríaca; Histórico: 6. A fiscalizada, doravante apenas VPar, foi constituída em 1918 e sua denominação à época era S.A. Indústrias Votorantim. 7. Em 30 de abril de 2002 foram alteradas tanto sua denominação quanto seu objeto social para, respectivamente, Votorantim Participações S.A. e “par t i c ipa r de soc iedades Fl. 1839DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.839 3 c i v i s ou comerc ia i s , de qua lquer na tureza , e admin is t rar seus bens e in t eresses ” . 8. A CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA. (doravante apenas Cazben), CNPJ 05.322.792/000134, NIRE 35.217.866.921, incorporada pela VPar em dezembro de 2008, foi constituída em 3 de outubro de 2002 como sociedade por ações, JUCESP PROTOCOLO 433776/020, com sede na Cidade de São Paulo, Estado de São Paulo, na Rua Professor Aprígio Gonzaga, 282, sala 03, CEP 04303000; 9. Quando de sua constituição o capital social subscrito foi de R$ 200,00 (duzentos reais), divididos em 200 quotas de ações, distribuídas em partes iguais entre seus dois sócios, Diego Rodrigues Agudo e Carlos Eduardo Azedo. 9.1. O objeto declarado da Sociedade era: 9.1.1 A administração patrimonial de bens próprios; 9.1.2 A participação em empreendimentos comerciais e industriais, e 9.1.3. A participação como acionista ou quotista em quaisquer sociedades de quaisquer ramos de negócios, no Brasil e no Exterior. 10. Em 19 de dezembro de 2002 foi efetivada a primeira alteração contratual da Sociedade, JUCESP PROTOCOLO 65503/030; 11. O quotista Diego Rodrigues Agudo retirouse da sociedade mediante a cessão e transferência de 100 (cem) quotas, no valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma, representativas da totalidade de sua participação no capital social da sociedade para o novo quotista VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A., CNPJ 61.082.582/0001 97, que ingressara na sociedade; 12. O quotista Carlos Eduardo Azedo renunciou aos seus direitos de preferência na cessão e transferência das quotas e retirouse também da sociedade mediante a cessão e transferência de: 12.1. 99 (noventa e nove) quotas, no valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma, para o novo quotista VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A., (uma) quota, no valor total de R$ 1,00 (um real) para o novo quotista VOTORANTIM INVESTIMENTOS INTERNACIONAIS S.A., CNPJ 04.480.652/000121, que ingressara na sociedade. 12.2. Os novos quotistas decidiram: 12.2.1. Alterar o endereço da sede da CAZBEN para a R. Amauri, 255, 11° Andar, Conjunto B, Chácara Itaim, São Paulo, Capital, CEP 01.448000 e; 12.2.2. Aumentar o capital social para R$ 1.000,00 (um mil reais) mediante a emissão de 800 (oitocentas) novas quotas no valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma; 12.2.3. O aumento de capital foi totalmente subscrito pelo quotista VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A., a ser integralizado no prazo de 01 (um) ano, a contar de 19/12/2002 em moeda corrente nacional e/ou bens. A quotista VOTORANTIM INVESTIMENTOS INTERNACIONAIS S.A. renunciou expressamente ao seu direito de preferência na subscrição das novas quotas; 12.2.4. A sócia gerente VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A. nomeou para o cargo de Gerentes Delegados da sociedade os Srs. Mário Bavaresco Júnior, RG n° 5.409.858 SSPSP , inscrito no CPF n° 988.166.75853 e Nelson Koichi Shimada, RG n°5.763.570 SSPSP, inscrito no CPF n° 001.231.86803; 13. Ainda em 19 de dezembro de 2002 foi efetivada a segunda alteração contratual da Sociedade, registrada na JUCESP sob o PROTOCOLO 65504/033; Fl. 1840DF CARF MF 4 13.1. Os novos sócios decidiram aumentar o capital social de R$1.000,00 (um mil reais) para R$ 146.222.944,00 (cento e quarenta e seis milhões, duzentos e vinte e dois mil, novecentos e quarenta e quatro reais) com um aumento efetivo de 146.221.944,00 (cento e quarenta e seis milhões, duzentos e vinte e um mil, novecentos e quarenta e quatro reais), mediante a emissão de 146.221.944 (cento e quarenta e seis milhões, duzentos e vinte e um mil, novecentos e quarenta e quatro) novas quotas no valor nominal de R$ 1,00 (um real) cada uma. A totalidade do capital social subscrito foi integralizada da seguinte forma: 13.1.1. 146.221.943 (cento e quarenta e seis milhões, duzentos e vinte e um mil, novecentos e quarenta e três) quotas pela quotista VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A. Sendo: 13.1.1.1. 89.374.943 (oitenta e nove milhões, trezentos e setenta e quatro mil, novecentos e quarenta e três) quotas, mediante a conferência de 60% de sua participação societária no capital social da VOTORANTIM INTERNATIONAL HOLDING N.V., fundamentado no Balanço Patrimonial da própria empresa sediada em Curaçau, levantado em 31 de outubro de 2002; e 13.1.1.2. 56.848.000 quotas em Nota Promissória “Pro Soluto” emitida pela investidora VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A em favor da CAZBEN, com vencimento em 31 de janeiro de 2003; 13.1.1.3. 1 quota (equivalente a um Real) pela quotista VOTORANTIM INVESTIMENTOS INTERNACIONAIS S. A., em moeda corrente nacional. 13.2. A quotista VOTORANTIM INVESTIMENTOS INTERNACIONAIS S.A. renunciou expressamente ao seu direito de preferência na subscrição das novas quotas; 13.3. A sócia gerente VOTORANTIM PARTICIPAÇÕES S.A. ratificou a nomeação para o cargo de Gerentes Delegados da sociedade dos Srs. Mário Bavaresco Júnior, RG n° 5.409.858 SSPSP , inscrito no CPF n° 988.166.75853 e Nelson Koichi Shimada, RG n°5.763.570 SSPSP, inscrito no CPF n° 001.231.86803; 14. A CAZBEN declarou possuir apenas uma única participação societária: a AZBEN Holding G.M.B.H. (AZBEN), sediada na Áustria, com uma participação societária de 60%. 15. O objeto social da AZBEN (atual Votorantim GmbH) é segundo a CAZBEN: 15.1. A aquisição e administração de participações em sociedades de todo o tipo e o investimento em bens de capital; 15.2. Todas as atividades oportunas e/ou necessárias, com exceção de transações bancárias, para o alcance dos objetivos citados no item (15.1); 16. Como podese notar pelas informações contidas nos itens acima, bem como na DIPJ 2008, a VPar er a , an tes da inco rporação da Cazben , em 30 /12/2008 , con t ro ladora de la , com uma par t ic ipação de 99,99% e da Azben com 40% das quo tas; 17. Por sua vez, a Cazben é con t ro lado ra da Azben com uma par t i c ipação de 60%, pa r t i c i pação essa i n tegra l i zada pe la VPar na empresa bras i le i ra , ou se ja , a VPar cons t i t u iu a Cazben com quo tas da Azben de sua t i t u la r idade ; 18. Portanto, fica claro que a VPar e a Cazben pertencem ao mesmo grupo empresarial; 19. Em razão do acima exposto, no presente Auto de Infração a VPar será autuada, em 60% do resultado da Azben (Votorantim GmbH), excluídos os valores anteriormente autuados no processo n° 16643.720017/201384, em razão dos motivos adiante explanados. Os restantes 40% foram autuados em outro processo, tendo como sujeito passivo a mesma VPar; 20. Conforme informações apresentadas pela VPar, temos abaixo suas par t i c ipações soc ie tár ias d i re tas : 20.1 Azben (Atual Votorantim GmbH Áustria) 40%; 20.2 VotoVotorantim Overseas Trading Operations III Ltd. (Cayman) 100%; Fl. 1841DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.840 5 20.3 VotoVotorantim Overseas Trading Operations IV Ltd. (Cayman) 50% 20.4 Hailstone Ltd. (Ilhas Virgens Britânicas) 100%; 20.5 Sta. Helen Holding II BV (Curacao) 100%; 21. A Azben (razão social alterada para Votorantim GmbH em 17 de janeiro de 2008), por sua vez, possui as seguintes participações societárias em 2008, conforme organograma apresentado. Portanto, as empresas abaixo são con t ro ladas ind i re tas da VPar: 21.1 Votorantim International Holding NV (Curaçao), constituída em 11/10/91 100%; 21.2 Votorantim International North America (USA Delaware), constituída em 13/08/92 100%; 21.3 Votorantim International Europe GmbH (Alemanha), constituída em 06/12/95 100%; 21.4 Votorantim International Australia Pty (Austrália), constituída em 16/04/04 100%; 21.5 Citrovita NV (Bélgica), constituída em 05/06/08 99,9%; 21.6 The Bulk Services Corp (Cayman), constituída em 17/02/98 100%; 21.7 Votorantim Terminal NV (Bélgica), constituída em 02/04/97 97%; 21.8 US Zinc Asian Pacific (Barbados), constituída em 31/01/06 100%; 21.9 Votorantim Europe KFT (Hungria), constituída em 31/01/08 100%. Lucros au fe r i dos no ex ter i o r po r cont ro ladas /co l igadas já t r i bu tados 22. Em razão dos fatos acima descritos, a fiscalizada foi autuada no processo n° 16643.720017/201384, por lucros auferidos por suas con t ro ladas ind i re tas (ou seja, controladas diretas da Votorantim GMBH), nos montantes constantes da tabela abaixo: Base de Cálculo do IRPJ e reflexo na CSLL: LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR PELAS CONTROLADAS INDIRETAS DA VPAR EM 2008 Empresa Participação (%) Resultado Resultado Proporcional (Autuação) Votorantim International Holding NV (Curaçao) 60 US$ 22.889.000 US$ 13.733.400 Votorantim International North America (USA Delaware) 60 US$ 2.146.391 US$ 1.287.834,60 Votorantim Intl Australia PTY (Australia) 60 752.268 AUD 451.360,80 AUD Citrovita NV (Bélgica) 59,94 923.958,03 € 553.820,44 € The Bulk Services Corp. (Cayman) 60 US$ 1.310.602 US$ 786.361,20 Votorantim Terminal NV (Bélgica) 60 139.676,21 € 83.805,73 € Votorantim Europe KFT (Hungria) 60 2.685.142.268 HUF 1.611.085.360,80 HUF Notese que as participações da tabela acima referemse ao percentual de titularidade da Cazben nas empresas, como con t ro ladora ind i re ta . Portanto, temos os seguintes resultados abaixo que já foram objeto de autuação: Em Dólares Americanos: US$ 13.733.400,00+ US$ 1.287.834,60+ US$ 786.361,20 = US$ 15.807.595,80 X 2,337 = R$ 36.942.351,38 Em Euros: 553.820,44 €+83.805,73 €=637.626,17€ X 3,23815 = R$ 2.064.729,18 Em Forints Húngaros: 1.611.085.360,80 HUF X 0,012197 = R$ 19.650.408,15 Fl. 1842DF CARF MF 6 Em Dólares Australianos: 451.360,80 AUD X 1,60435 = R$ 724.140,70 As taxas de câmbio acima são do dia 31/12/2008. Portanto, tendo em vista que não houve disponibilização da var i ação pa t r imon ia l pos i t i va decorrente dos lucros auferidos pelas suas coligadas e controladas no exterior, por parte da VPar, o auto de infração anteriormente lavrado teve base de cálculo relativa às suas con t ro ladas ind i re tas , representado pela adição das seguintes parcelas: R$ 36.942.351,38+ R$ 2.064.729,18+ R$ 19.650.408,15+ R$ 724.140,70, perfazendo um total de R$ 59.381.629,41. Lucros au fe r idos no ex ter i o r pe las con t r o ladas ind i re tas da VPar au tuados no p resen te p rocesso 23. Entretanto, constatouse na última página dos documentos de incorporação da Cazben por sua controladora, a VPar, existir um saldo de imposto a tributar conforme abaixo detalhamos; 24. O documento em questão, de nome Docs Incorp Cazben.pdf apresenta um demonstrativo da empresa incorporada, onde consta um Resultado de Equivalência Patrimonial/Lucro Operacional/Lucro antes do IR e CSLL/Lucro Líquido do Período, em novembro de 2008, de R$ 254.369.940,49, e um PL de R$ 465.894.782,39; 25. A fiscalizada foi então intimada a apresentar os documentos abaixo e explicar: 1. Demonstrativo da Votorantim GmbH (antes Azben Holdings GmbH) de novembro de 2008, em moeda original e em Reais, que embasou o Balanço e DRE da Cazben, quando da sua incorporação pela VPar; 2. No demonstrativo acima separar os resultados das controladas/coligadas dos resultados da própria Azben; 3. Explicar e documentar por meio de documentos hábeis, idôneos e legíveis, o que motivou prejuízo em dezembro de 2008, transformando o lucro apurado até novembro em um resultado negativo de 200.700.000 €; 26. Em resposta protocolizada em 09 de dezembro de 2013, a VPar solicitou prazo adicional de 20 dias, culminando em 29 de dezembro de 2008, alegando que as “ so l i c i tações envo l vem in formações de terce i ros ” . Ora, se a demonstração constante no documento Docs Incorp Cazben.pdf foi elaborada com base nessas “ in fo rmações de terce i r os ” , é óbvio que a fiscalizada possui tais documentos em seus arquivos. Além disso, os terceiros são, na verdade, controladas da fiscalizada, que tem sobre eles total controle e acesso. Juntese a isso a rapidez em se obter informações no mundo informatizado de hoje e chegamos à conclusão do mote apenas protelatório do requerimento; 27. Pelo motivo acima, passamos a calcular o valor dos lucros auferidos por suas controladas indiretas, ainda não autuados em procedimento fiscal anteriormente concluído; 28. Portanto, se a Cazben não possuía nenhum ativo além de sua participação de 60% na Votorantim GmbH, esse resultado se refere ao resultado da equivalência patrimonial da empresa austríaca na brasileira; 29. Sabendose que a moeda original do demonstrativo da Votorantim GmbH é o Euro, calculouse a va r i ação camb ia l sobre o PL da empresa do início de 2008 até o final do mesmo ano: PL = R$ 465.894.782,39 no final de 2008 Taxa de câmbio do Euro naquela data é de 3,23815 Sabendo que o PL em Euro, em 2008, era de 143.876.837,82 €, que à taxa de câmbio do Euro em 01/01/2008, de 2,61143, perfaz um total de R$ 375.724.290,59, a diferença entre o PL em reais do começo e do final de 2008 é o resu l tado da va r iação camb ia l do PL, ou seja, R$ 90.170.491,80; Fl. 1843DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.841 7 30. Porém, no caso em tela, o resultado da equivalência patrimonial é a soma da variação cambial do PL e do lucro da empresa austríaca. Portanto, o percentual do lucro da empresa austríaca que cabe à Cazben, em razão de sua participação (60%), foi de R$ 254.369.940,49 menos R$90.170.491,80, ou seja, R$ 164.199.448,69; 31. Da mesma forma, o lucro total da Votorantim GmbH é de R$ 164.199.448,69 dividido pela participação da Cazben na empresa, ou seja 60%, e portanto, seu valor é R$ 273.665.747,82; 32. Entretanto sabemos que a Cazben possuía 60% da Votorantim GmbH e, portanto, o lucro a ela atribuido é de R$ 164.199.448,69; 33. Sabemos também que desse valor, R$ 59.381.629,41 já haviam sido anteriormente autuados (V. Item 22), restando R$ 104.817.819 ,28 objeto de autuação no presente processo; Leg is lação ap l i cáve l 34 Da Tributação em Bases Universais: 34.1 A Lei n°. 9.249/95 aboliu a aplicação do princípio da territorialidade ao imposto de renda das pessoas jurídicas, substituindoo pelo princípio da universalidade. O art. 25 dessa Lei dispõe: “Art. 25° Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. § 1º Os rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na apuração do lucro líquido das pessoas jurídicas com observância do seguinte: I os rendimentos e ganhos de capital serão convertidos em Reais de acordo com a taxa de câmbio, para venda, na data em que forem contabilizados no Brasil; II caso a moeda em que for auferido o rendimento ou ganho de capital não tiver cotação no Brasil, será ela convertida em dólares norteamericanos e, em seguida, em Reais; § 2º Os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, no exterior, de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I as filiais, sucursais e controladas deverão demonstrar a apuração dos lucros que auferirem em cada um de seus exercícios fiscais, segundo as normas da legislação brasileira. II os lucros a que se refere o inciso I serão adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora, na proporção de sua participação acionária, para apuração do lucro real; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido os lucros auferidos por filiais, sucursais ou controladas, até a data do balanço de encerramento; IV as demonstrações financeiras das filiais, sucursais e controladas que embasarem as demonstrações em Reais deverão ser mantidas no Brasil pelo prazo previsto no art. 173 da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966. § 3° Os lucros auferidos no exterior por coligadas de pessoas jurídicas domiciliadas no Brasil serão computados na apuração do lucro real com observância do seguinte: I os lucros realizados pela coligada serão adicionados ao lucro líquido, na proporção da participação da pessoa jurídica no capital da coligada; Fl. 1844DF CARF MF 8 II os lucros a serem computados na apuração do lucro real são os apurados no balanço ou balanços levantados pela coligada no curso do períodobase da pessoa jurídica; III se a pessoa jurídica se extinguir no curso do exercício, deverá adicionar ao seu lucro líquido, para apuração do lucro real, sua participação nos lucros da coligada apurados por esta em balanços levantados até a data do balanço de encerramento da pessoa jurídica; IV a pessoa jurídica deverá conservar em seu poder cópia das demonstrações financeiras da coligada. § 4° Os lucr os a que se re fe rem os 2° e 3 º serão conver t idos em Rea is pe la taxa de câmb io , pa ra venda , do d ia das demonst rações f inance i ras em que tenham s ido apurados os lucros da f i l i a l , sucur sa l , con t ro lada ou co l igada. § 5º Os prejuízos e perdas decorrentes das operações referidas neste artigo não serão compensados com lucros auferidos no Brasil. § 6º Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2°e 3º”. 34.2. A Medida Provisória n°. 2.15835, editada em 27 de Julho de 2001 dispõe como deverão ser considerados para fins de apuração do lucro real os lucros auferidos por intermédio de controladas ou coligadas, sediadas no exterior a partir do ano calendário de 2002. A vigência da Medida Provisória n°. 2.15835 a partir de 29/07/01, fundamentase nos termos do art. 2º da EC n° 32 de 11 de setembro de 2001 que dispõe em seu Art. 2º: “As medidas provisórias editadas em data anterior à da publicação desta emenda continuam em vigor até que medida provisória ulterior as revogue explicitamente ou até deliberação definitiva do Congresso Nacional”. O art. 74 da citada Medida Provisória n° 2.15835/2001 dispõe da seguinte forma sobre a disponibilização de lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior: “Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Parágrafo único. Os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização ^revistas na legislação em vigor”. Essa alteração está fundamentada no Art. 43 do Código Tributário Nacional, cuja redação é a seguinte: “Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção (Parágrafo incluído pela LCP n° 104, de 10.1.2001). Fl. 1845DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.842 9 § 2º Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo (Parágrafo incluído pela LCP n° 104, de 10.1.2001)”. Os lucros auferidos a partir de 1º de janeiro de 2002 por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados, portanto, para fins de inclusão na base de cálculo do IRPJ e da CSLL da controladora ou coligada no Brasil, na data da sua apuração em balanço. 34.3 Compensação de Prejuízos de Anos Anteriores: A Instrução Normativa SRF n° 213, de 7 de outubro de 2002 dispõe: Art. 1º Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, por pessoa jurídica domiciliada no Brasil, estão sujeitos à incidência do imposto de renda das pessoas jurídicas (IRPJ) e da contribuição social sobre o lucro líquido (CSLL), na forma da legislação específica, observadas as disposições desta Instrução Normativa. (...) § 5º Para efeito de tributação no Brasil, os lucros serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, de forma individualizada, por filial, sucursal, controlada ou coligada, vedada a consolidação dos valores, ainda que todas as entidades estejam localizadas em um mesmo país, sendo admitida a compensação de lucros e prejuízos conforme disposto no § 5° do art. 4º desta Instrução Normativa, (grifo nosso) 34.4 Tratamento do prejuízo apurado no exterior: A IN/SRF 213/02 dispõe em seu art. 4º: É vedada a compensação de prejuízos de filiais, sucursais, controladas ou coligadas, no exterior, com os lucros auferidos pela pessoa jurídica no Brasil. § 1º Os prejuízos a que se refere este artigo são aqueles apurados com base na escrituração contábil da filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, efetuada segundo as normas legais do país de seu domicílio, correspondentes aos períodos iniciados a partir do anocalendário de 1996. § 2º Os prejuízos apurados por uma controlada ou coligada, no exterior, somente poderão ser compensados com lucros dessa mesma controlada ou coligada (grifo nosso). § 3º Na compensação dos prejuízos a que se refere o § 2º não se aplica a restrição de que trata o art. 15 da Lei n° 9.065, de 1995. Da Tributação de Resultados de Controladas Indiretas 35. A legislação brasileira não restringe a tributação universal aos lucros auferidos via controladas diretas, mas alcança também os resultados apurados pelas controladas indiretas, conforme exposto abaixo. Para maior facilidade e compreensão do complexo esquema engendrado pela Cazben para evitar a tributação dos resultados de suas controladas no exterior, passamos a agrupálas conforme denominação abaixo: 35.1 Azben, atual Votorantim GmbH (Áustria) controlada direta da Cazben e indireta da VPar; 35.2 SubGrupo “Controladas Indiretas da Cazben”, formado pelas empresas controladas diretas da Azben, atual Votorantim GmbH (Áustria): 35.2.1 Votorantim International Holding NV (Curaçao), constituída em 11/10/91 100%; Fl. 1846DF CARF MF 10 35.2.2 Votorantim International North America (USA Delaware), constituída em 13/08/92 100%; 35.2.3 Votorantim International Europe GmbH (Alemanha), constituída em 06/12/95 100%; 35.2.4 Votorantim International Australia Pty (Austrália), constituída em 16/04/04 100%; 35.2.5 Citrovita NV (Bélgica), constituída em 05/06/08 99,9%; 35.2.6 The Bulk Services Corp (Cayman), constituída em 17/02/98 100%; 35.2.7 Votorantim Terminal NV (Bélgica), constituída em 02/04/97 97%; 35.2.8 US Zinc Asian Pacific (Barbados), constituída em 31/01/06 100%; 35.2.9 Votorantrade NV (Curaçao), constituída em 11/10/91 36. Os lucros conduzidos por intermédio da Azben (Áustria) não foram oferecidos à tributação pela VPar, sob o argumento de que estariam resguardados pelo Tratado Brasil Áustria. Em que pese o fato do art.74 da MP 2.15835 evitar o diferimento da tributação do acréscimo patrimonial auferido pela empresa sediada no Brasil, em decorrência dos lucros obtidos por sua(s) controlada(s) ou coligada(s) no exterior (V. ITEM 22.4), independentemente do fato de ser(em) sediada(s) ou não em país com acordo para evitar dupla tributação com o Brasil, o acordo internacional não alcança os lucros gerados por pessoa jurídica que não reside em qualquer dos Estados Contratantes, ou seja, gerados pelos SubGrupos “Controladas Indiretas da Cazben 1” e “Controladas Indiretas da Cazben 2” como decidido pela antiga Primeira Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, no julgamento do caso Eagle: LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE CONTROLADAS INDIRETAS Para fins de aplicação do art. 74 da MP n° 2.15835, os resultados de controladas indiretas consideramse auferidos diretamente pela investidora brasileira, e sua tributação no Brasil não se submete às regras do tratado internacional firmado com o país de residência da controlada direta, mormente quando esses resultados não foram produzidos em operações realizadas no país de residência da controlada, evidenciado o planejamento fiscal para não tributálos no Brasil (Acórdão nº 10197.070 Relatora: Sandra Faroni Sessão de 17/12/2008). Não existe, na legislação brasileira, qualquer regra que limite a tributação universal apenas aos lucros apurados por controladas diretas. O conceito legal de sociedade controlada definido no art. 243, § 2°, da Lei n° 6.404/76 abarca tanto as controladas diretas quanto as indiretas, e esse conceito foi recepcionado sem qualquer ressalva pela legislação tributária, como será pormenorizado a seguir. Para fins societários a sociedade controlada é aquela na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos amestradores, nos termos dos arts. 116 e 243, § 2º, da Lei das S/A: Art. 116. Entendese por acionista controlador a pessoa, natural ou jurídica, ou o grupo de pessoas vinculadas por acordo de voto, ou sob controle comum, que: (...) b) usa efetivamente seu poder para dirigir as atividades sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da companhia. (...) Art. 243. O relatório anual da administração deve relacionar os investimentos da companhia em sociedades coligadas e controladas e mencionar as modificações ocorridas durante o exercício. (...) Fl. 1847DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.843 11 § 2º Considerase controlada a sociedade na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores (grifos nossos). Mais: Art. 384 do RIR/99. Serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido os investimentos relevantes da pessoa jurídica (Lei n° 6.404, de 1976, art. 248, e DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 67, inciso XI): I em sociedades controladas; [...] § 2º Considerase controlada a sociedade na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores (Lei n° 6.404, de 1976, art. 243, §2°). Ainda: Art. 466 do RIR/99. Se a pessoa ligada for sócio ou acionista controlador da pessoa jurídica, presumirseá distribuição disfarçada de lucros ainda que os negócios de que tratam os incisos I a VI do art. 464 sejam realizados com a pessoa ligada por intermédio de outrem, ou com sociedade na qual a pessoa ligada tenha, direta ou indiretamente, interesse (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 61, e DecretoLei n° 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI). Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, sócio ou acionista controlador é a pessoa física ou jurídica que, diretamente ou através de sociedade ou sociedades sob seu controle, seja titular de direitos de sócio ou acionista que lhe assegurem, de modo permanente, a maioria de votos nas deliberações da sociedade (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 61, parágrafo único, e DecretoLei n° 2.065, de 1983, art. 20, inciso VI) (grifos nossos). Em suma: não há qualquer dispositivo legal que exclua os resultados apurados por sociedade controlada indiretamente da tributação universal, e, portanto, a Cazben deveria ter disponibilizado os lucros auferidos por TODAS as suas controladas indiretas. Da compensação do imposto pago no exterior 37. Como exaustivamente discorrido desde o início do presente Termo, os fatos em questão ocorreram em 2007, portanto, há 4 anos atrás e, segundo a DIPJ 2008, 2009 e 2010, não houve qualquer compensação de imposto pago no exterior. O Regulamento do Imposto de Renda (RIR99), em seu art. 395 dispõe: Compensação do Imposto Pago no Exterior Art. 395. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas decorrentes da prestação de serviços efetuada diretamente, computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos, ganhos de capital e receitas de prestação de serviços (Lei n° 9.249, de 1995, art. 26, e Lei n° 9.430, de 1996, art. 15). § 1º Para efeito de determinação do limite fixado no caput, o imposto incidente, no Brasil, (...) § 6º Os créditos de imposto de renda pagos no exterior, relativos a lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, somente serão compensados com o imposto Fl. 1848DF CARF MF 12 devido no Brasil, se referidos lucros, rendimentos e ganhos de capital forem computados na base de cálculo do imposto, no Brasil, até o final do segundo anocalendário subseqüente ao de sua apuração (Lei n° 9.532, de 1997, art. 1º, § 4º) (Grifo nosso). Portanto, eventual imposto pago no exterior à época não poderá ser compensado com o tributo devido no Brasil. Tratados internacionais para evitar a dupla tributação 38. As convenções entre países para evitar a dupla tributação em matéria de impostos sobre o rendimento, não podem ser interpretadas ou empregadas como um tratado internacional destinado a garantir isenção de impostos. 39. Tais acordos e convenções visam a evitar a dupla tributação jurídica. Vale, assim, dizer que o tratado para evitar a dupla tributação em matéria de imposto sobre a renda, firmado entre dois Estados, não tem a finalidade de atribuir competência exclusiva a um dos Estados contratantes de tributar o lucro da pessoa jurídica domiciliada em seu território. O tratado para evitar a dupla tributação em matéria de imposto sobre a renda visa, sim, a evitar a dupla tributação jurídica internacional. 40. A dupla tributação jurídica internacional está definida no capítulo introdutório dos “Comentários da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)”: “1. A dupla tributação jurídica internacional pode ser geralmente definida como a incidência de impostos comparáveis em dois (ou mais) Estados, sobre o mesmo contribuinte, em relação ao mesmo objeto durante períodos idênticos. Seus efeitos prejudiciais sobre a troca de bens e serviços e a movimentação de capital, tecnologia e pessoas são tão bem conhecidos que raramente se faz necessário dar ênfase à importância da remoção dos obstáculos apresentados pela dupla tributação ao desenvolvimento de relações econômicas entre países. 2. Há muito os países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico reconhecem a conveniência de esclarecer, padronizar e confirmar a situação fiscal de contribuintes que exerçam atividades comerciais, industriais, financeiras, ou de qualquer outro tipo, em outros países por meio da aplicação por todos os países de soluções comuns para casos idênticos de dupla tributação. 3. Este é o principal propósito do Modelo de Convenção Tributária sobre o Rendimento e o Capital da OCDE, que proporciona meios para solucionar de maneira uniforme os problemas mais comuns que surgem na área de dupla tributação jurídica internacional. Conforme recomendação do Conselho OCDE, os países membros, ao concluir ou revisar convenções bilaterais, deverão observar esta Convenção Modelo, segundo a interpretação apresentada nos Comentários e levar em consideração as ressalvas ali contidas, devendo suas autoridades tributárias seguir os Comentários, conforme de tempos em tempos modificados, e segundo suas observações ali contidas, quando da aplicação e interpretação das disposições de suas convenções tributárias bilaterais baseadas na Convenção Modelo” (Grifos nossos). 41. Ainda nos “Comentários da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)”, no capítulo que trata do “Comentário ao Artigo 1 relativo às pessoas visadas”, Parágrafo 23, encontramos o disposto a seguir: “23. A utilização de sociedadesbase também pode ser tratada por meio de disposições que tratem de sociedades controladas no exterior. Um número significativo de países membros e nãomembros atualmente adota essa legislação. Embora o objetivo desse tipo de legislação varie consideravelmente entre os países, uma característica comum dessas normas, agora internacionalmente reconhecidas como instrumento legítimo de proteção da base tributária interna, é que resultam na tributação, pelo Estado Contratante, do rendimento atribuído à participação de seus residentes em certas entidades estrangeiras. Argumentase, por vezes, com base em certa interpretação de disposições da Convenção, como o parágrafo 1 do Artigo 7 e o parágrafo 5 do Artigo 10, que essa característica comum da legislação de controladas estrangeiras entraria em conflito com essas disposições. Pelas razões expostas no parágrafo 14 do Comentário ao Artigo 7 e 37 do Comentário ao Artigo 10, essa interpretação não está de acordo com Fl. 1849DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.844 13 a redação das disposições. Também não se sustenta quando as disposições são interpretadas em seu contexto. Assim, embora alguns países entendam ser útil esclarecer expressamente, em suas convenções, que a legislação das controladas estrangeiras não entra em conflito com a Convenção, esse esclarecimento não se faz necessário. Admitese que a legislação de controladas estrangeiras estruturada dessa maneira não é contrária às disposições da Convenção”. 42. O parágrafo 1 do artigo 7 do Convenção para Evitar a Dupla Tributação em Matéria de Impostos sobre a Renda e o Capital BrasilÁustria (Decreto n° 78.107, de 22 de julho de 1976), BrasilBélgica (Decreto n° 75.542/1973) e BrasilHungria (Decreto n° 510/1992) dispõe que: “ARTIGO 7° Lucros das empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente”. 43. No capítulo que trata do “Comentário ao Artigo 1” dos “Comentários da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)”, título II “Comentários às disposições do Artigo”, Parágrafo 14, encontramos a seguinte orientação quanto à interpretação do Parágrafo 1 do Artigo 7: “14. O propósito do parágrafo 1 é limitar o direito de um Estado Contratante de tributar os lucros das empresas do outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante de tributar seus próprios residentes segundo as disposições referentes a empresas estrangeiras controladas contidas em sua legislação interna, embora o imposto incidente sobre esses residentes possa ser calculado por referência à parcela dos lucros de empresa residente no outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes na empresa. O imposto exigido dessa forma por um Estado de seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa do outro Estado e não se poderá, dizer que está sendo exigido sobre tais lucros (vide também o parágrafo 23 do Comentário ao Artigo 1 e os parágrafos 37 a 39 do Comentário ao Artigo 10)” (Grifos nossos). 44. A legislação fiscal pátria, quando determina que os lucros auferidos no exterior por controladas domiciliadas em outros Estados sejam adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora brasileira, permite que o Estado contratante (Brasil) exerça o direito de tributar seu próprio residente, que é a controladora brasileira (VPar), segundo as disposições inerentes à matéria em sua legislação doméstica. Convenção BrasilÁustria para evitar a dupla tributação e da interposição de sociedade com finalidade elisiva: 45. A ligação societária indireta entre a Cazben (Brasil) e a Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA – Delaware), Votorantim International Europe, Votorantim International Austrália Pty (Austrália), Citrovita NV (Bélgica), The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao) é um exemplo típico de interposição de sociedade por razões exclusivamente elisivas. Aliás, a Áustria não possui restrições legais ao recebimento de rendimentos de empresas sediadas em outros países por suas holdings e os dividendos pagos a residente no Brasil por residente na Áustria estão isentos de tributação também no Brasil por força do TDT. Diante do que foi explicado, fica claro que a criação da Votorantim GMBH (antiga Azben) Áustria, foi, sem dúvida nenhuma, a busca de uma elisão tributária abusiva destinada a Fl. 1850DF CARF MF 14 subtrair os rendimentos das controladas indiretas acima elencadas, da base tributária do imposto de renda e da contribuição social dos seus reais beneficiários no Brasil. A expressão “beneficial owner”, trazida para o vernáculo como beneficiário efetivo ou real beneficiário, foi criada para designar aquele que, na realidade, auferirá as vantagens decorrentes do tratado, no caso de interposição de terceira pessoa. Tratase de alguém reconhecido como proprietário por equidade, por lhe pertencerem o uso da coisa, embora o título legal pertença a outra pessoa. Como regra geral, presumemse idôneos os documentos apresentados pela parte como comprovantes de sua prática. Por consequência, o exame da regularidade dos atos prescinde do exame do grau de conformidade entre o comprovante e a realidade comprovada, isto é, que em determinadas situações, emergem evidências de que existiu, na realidade fática, um determinado negócio jurídico, enquanto que os comprovantes apresentados à fiscalização registram a ocorrência de negócio jurídico distinto, provocando um negócio de natureza diversa. Entendemos que os tratados para evitar a dupla tributação internacional ganharam maior relevância, dada a preocupação devida ao incremento do comércio internacional e da consequente ativação do fluxo de investimento entre nações. O fenômeno da bitributação internacional, se caracteriza pela imposição de tributos semelhantes em dois ou mais Estados, sobre um mesmo contribuinte, a respeito de um mesmo fato gerador e em períodos idênticos, que não poderiam passar despercebidos no mundo jurídico, havendo suscitado inúmeros estudos que o situam como o ponto principal do direito tributário internacional, fazendoo objeto de uma rede de tratados, os TDT (Tratados de Dupla Tributação ). A globalização da economia, com o crescimento acelerado do comércio internacional, veio acarretar o incremento das possibilidades de múltipla incidência de tributação. Fez se então necessário apresentar proposições que facultem evitar essa incidência danosa ao comércio internacional e ao fluxo de capitais entre os diversos países, ao mesmo tempo que, evitem prejudicar os interesses tributários de cada um deles. É preciso deixar bem claro que as convenções entre países para evitar a dupla tributação em matéria de impostos sobre o rendimento, como o próprio nome indica, não são tratados internacionais destinados a garantir a manutenção de impostos em nível ínfimo ou mesmo a isenção dos mesmos, mas sim, a evitar da dupla tributação. Portanto, antes mesmo de examinar o inteiro teor do tratado, podese concluir que é falsa a assertiva de que o lucro da pessoa jurídica domiciliada na Áustria somente poderia ser tributado na própria Áustria, bastando comprovar a tributação sobre o lucro efetuado na Áustria para ver afastada ou proporcionalmente diminuída a exigência do crédito tributário, nos termos do art. 26 da Lei n° 9.249/95. A Convenção de Dupla Tributação com a Áustria, como todo tratado internacional, deve ser interpretada de boa fé e à luz do respectivo objeto e fim, conforme, inclusive, recomendações da OCDE, descartandose interpretações que conduzam a resultados manifestamente absurdos ou despropositados (seja fuga tributária, seja dupla tributação). A holding austríaca, mera sociedade condutora de rendimentos, foi constituída por razões de economia tributária, auferindo e pagando dividendos não por sua própria conta, mas para seus beneficiários efetivos no Brasil. A Votorantim GmbH Áustria, possui apenas posse temporária dos dividendos, se tanto, e em função exclusiva do interesse fiscal dos seus controladores. Assim, a interposição da holding austríaca em operação internacional (Austrália, Curaçao, Bélgica, Alemanha, EUADelaware, Cayman, Barbados, e Hungria com o Brasil), por razões tributárias, constitui um caso de confronto direto com a finalidade da Convenção Brasil/Áustria. Não podemos nos esquecer que nos demonstrativos da Votorantim GmbH Áustria, está bem claro que seu resultado é apenas resultado de operações intragrupo que poderiam ser efetuadas de qualquer outro lugar do mundo e por qualquer outra empresa do grupo. Fl. 1851DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.845 15 Dessa forma constatase o abuso ao tratado. Este abuso se materializa basicamente quando entre uma sociedade A e uma sociedade B, se interpõe uma sociedade C que atua como condutora entre A e B, de forma tal que a sociedade A seja beneficiada com acordo existente entre os Estados das sociedades A e C. Para nosso caso particular A é representada pela Votorantim Participações (brasileira), B as empresas Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA – Delaware), Votorantim International Europe, Votorantim International Austrália Pty (Austrália), Citrovita NV (Bélgica), The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao) e C a Votorantim GmbH Áustria, empresa chamada de condutora, sendo que “A” representa a beneficiaria final mercê do acordo de evitar a bi tributação. É evidente que o esquema resulta conveniente sempre que a tributação no Estado cujo tratado constitui a sociedade condutora, não seja elevada (no caso, a Áustria tributa apenas os resultados positivos obtidos dentro de seu território). A interposição de uma empresa poderia ser feita com objetivos por exemplo de redução de custos de transportes ou contratar mão de obra mais barata, mas não como forma de elidir o pagamento de impostos. Se bem que seja evidente que para a constituição da nova sociedade, provavelmente também se considere o fator tributário, não é o que se persegue primariamente com a criação da mesma. Nos tratados mais recentes, temos as chamadas medidas antiabuso, que não são mais do que cláusulas introduzidas nos próprios tratados, que buscam criar limites à aplicação do mesmo tratado em determinadas circunstâncias, que vão se multiplicando à medida que a prática das “Treaty Shopping” são mais e mais disseminadas. Hoje em dia, modelos da OCDE da ONU e especialmente o modelo dos Estados Unidos, contém uma série de cláusulas e mecanismos que buscam evitar os abuso no uso dos tratados. Já com relação ao propósito comercial ou negocial, é estabelecido que se a empresa os tem, então sua operação não será considerada como artificial, usandose como parâmetro o principio do “arms length”. Para evitar abusos ao contrário, ou seja, inserir diversas cláusulas que tornem o tratado de difícil negociação ou aplicação, surgiu a cláusula chamada cláusula de “boa fé”, já mencionada anteriormente, que estabelece que as cláusulas antiabuso, não se aplicam quando a sociedade é motivada por razões comerciais e não tem objetivo, ao menos central, de obter benefícios do tratado pelo que lhes seriam aplicadas as normas antiabuso. A conclusão é de que, quando um estado renuncia total ou parcialmente à sua autoridade de tributar uma determinada atividade, o faz com a finalidade de beneficiar a seus próprios residentes e não a terceiras pessoas. Se estamos frente a um contribuinte que realiza atos ao amparo de uma norma, iludindo a aplicação de outra, contra os princípios do direito tributário internacional, ficamos frente à fraude da lei tributária. Por isso não se pode pretender fazer prevalecer figuras societárias ou contratuais cujo único fim seja a evasão de impostos disfarçada de elisão. Sobre a estrutura de um TDT (Tratado de Dupla Tributação) cita que as pessoas visadas são aquelas residentes em Estados Contratantes, enquanto que, o domicílio fiscal, também denominado residência, definese utilizando primeiramente o critério de habitação permanente, posteriormente o de centro de interesses vitais, depois o de permanência habitual, em seguida o de nacionalidade e, finalmente, o de mútuo acordo entre os Estados Contratantes. Concluise, portanto, que para as pessoa jurídicas, o critério é o lugar de sua sede de direção efetiva, que no caso da fiscalização em analise é o Brasil, pois entendemos que a Votorantim GmbH Áustria é mero conector, travestido de empresa operacional, para aproveitamento do beneficio tributário. Fl. 1852DF CARF MF 16 Uma pessoa que atue em um dos Estados contratantes por conta de uma empresa do outro Estado Contratante, desde que não seja um agente independente, será considerado estabelecimento permanente se esta pessoa tiver e habitualmente exercer autoridade para concluir contratos em nome da empresa, excluídos os de compra de bens ou mercadorias para a empresa. Concluise, portanto, que o simples controle de uma sociedade residente em um Estado Contratante, por outra residente em outro Estado contratante, não é suficiente para a caracterização de estabelecimento permanente e que são estabelecimentos estáveis as instalações que adquirem ou realizam diretamente um lucro, tendo caráter imediatamente produtivo, o que não é o caso da Votorantim GmbH. Por tudo o que foi arrazoado, entendemos que devem ser tributados os lucros auferidos pelas Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA – Delaware), Votorantim International Europe, Votorantim International Austrália Pty (Austrália), Citrovita NV (Bélgica), The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao), por ser a VPar efetivamente a beneficiária de tais resultados além de, conforme a legislação brasileira, ser controladora indireta das empresas sediadas em terceiros países. A fiscalização não contesta o ato jurídico praticado, mas a verdadeira repercussão econômica dos fatos subjacentes. 46. Das infrações à legislação: A fiscalizada infringiu: Art. 74 da MP 215835/2001 Art. 25, §§ 2° e 3º, da Lei n° 9.249/95; Art. 16 da Lei n° 9.430/96; Arts. 249, inciso II, e 394, do RIR/99; 47. Do encerramento parcial do procedimento fiscal: Os lançamentos de ofício foram elaborados nos termos do art. 926 do Decreto n°. 3.000, de 26 de março de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda 1999), apurando valores sujeitos à incidência da Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Fica ressalvado o direito da Fazenda Nacional efetuar outras verificações, no mesmo ou em outros períodos de apuração, para a constituição de eventuais créditos tributários a seu favor. E para constar e surtir efeitos legais, lavramos o presente termo em duas vias de igual teor que vão assinadas por nós AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil sendo uma das vias enviadas ao domicílio fiscal do contribuinte, por via postal, com aviso de recebimento (AR). Cientificada dos lançamentos, por via postal (AR de fls. 1416) em 20/12/2013 (sextafeira), a contribuinte, por intermédio de seus advogados e bastantes procuradores (cf. instrumentos de procuração e de substabelecimento de fls. 1460/1461), protocolizou a impugnação de fls. 1419/1459, em 21/01/2014, alegando em sua defesa as seguintes razões de fato e de direito. Afirma a tempestividade da impugnação. Tece comentários acerca do procedimento fiscal que teria originado os Autos de Infração, autuados no processo nº 16643.720017/201384, sobre os lucros auferidos pelas controladas diretas e indiretas, sediadas no exterior, no montante tributável de R$ 59.373.488,12, considerados individualmente, sem obedecer a Fl. 1853DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.846 17 sistemática da consolidação dos resultados, com base em decisão do Conselho de Contribuintes (Acórdão nº 10197.070 – Caso Eagle II). Anota a Impugnante que, no Termo de Verificação Fiscal, lavrado no âmbito daquele processo, não teria sido feita referência às expressões “método de equivalência patrimonial”, “tributação de ganho de equivalência patrimonial”, ou similar. Naqueles autos de infração teria sido formalizada a tributação sobre os lucros individualmente auferidos pelas controladas estrangeiras diretas e indiretas da Impugnante. Faz menção ao seguinte trecho do termo de verificação fiscal, integrante daquele processo: “Em que pese o fato do art. 74 da MP 2.15835 evitar o diferimento da tributação do acréscimo patrimonial auferido pela empresa sediada no Brasil, em decorrência dos lucros obtidos por sua(s) controlada(s) ou coligada(s) no exterior (V. ITEM 22.4), independentemente do fato de ser(em) sediada(s) ou não em país com acordo para evitar dupla tributação com o Brasil, o acordo internacional não alcança os lucros gerados por pessoa jurídica que não reside em qualquer dos Estados Contratantes, ou seja, gerados pelos SubGrupos ‘Controladas Indiretas da Cazben’ e ‘Controladas Indiretas da Cazben 2’ como decidido pela antiga Primeira Câmara do 1º Conselho de Contribuintes, no julgamento do caso Eagle: ‘LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE CONTROLADAS INDIRETAS Para fins de aplicação do art. 74 da MP n° 2.15835, os resultados de controladas indiretas consideramse auferidos diretamente pela investidora brasileira, e sua tributação no Brasil não se submete às regras do tratado internacional firmado com o país de residência da controlada direta, mormente quando esses resultados não foram produzidos em operações realizadas no país de residência da controlada, evidenciado o planejamento fiscal para não tributálos no Brasil’ (Acórdão 10197.070. Relatora: Sandra Faroni. Sessão de 17/12/2008) [...] Em suma: não há qualquer dispositivo legal que exclua os resultados apurados por sociedade controlada indiretamente da tributação universal, e, portanto, a Cazben deveria ter disponibilizado os lucros auferidos por TODAS as suas controladas indiretas. [...] Por tudo o que foi arrazoado, entendemos que devem ser tributados os lucros auferidos pelas Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA Delaware), Votorantim International Europe, Votorantim International Australia Pty (Austrália), Citrovita NV (Bélgica), The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao), por ser a VPar efetivamente a beneficiária de tais resultados além de, conforme a legislação brasileira, ser controladora indireta das empresas sediadas em terceiros países”. Passase a transcrever as razões apresentadas pela contribuinte contra a presente autuação: “2.5. Não obstante o encerramento do procedimento de fiscalização referido no item 2.1. e a lavratura dos autos de infração em março de 2013, as autoridades fiscais iniciaram, em novembro do mesmo ano, uma diligência, nos termos do Mandado de Procedimento Fiscal de Diligência (“MPFD”) n.° 08.1.85.002013002570 (do qual a IMPUGNANTE foi cientificada em 19.11.2013), para obter, em síntese, informações a respeito da composição dos resultados de VOTORANTIM GMBH e suas controladas no anocalendário de 2008 (fls. 3 a 5 dos autos). 2.6. Em 09.12.2013, a IMPUGNANTE protocolizou pedido de dilação de prazo para atendimento a tal solicitação, tendo em vista que as questões referiamse a informações de terceiros (fls. 7 a 17 dos autos). 2.7. Em 11.12.2013, foi emitido o Mandado de Procedimento Fiscal de Fiscalização (“MPF F”) n.° 08.1.85.002013003240, que transformou a diligência em fiscalização para reexame Fl. 1854DF CARF MF 18 de informações relativas ao anocalendário de 2008. Contudo, a IMPUGNANTE somente foi cientificada do início dessa fiscalização posteriormente, na mesma ocasião em que foi notificada da lavratura dos AUTOS, o que fica evidente pela leitura do “Termo de Intimação n° 2” (fls. 1414 e 1415 dos autos). 2.8. Ou seja, curiosamente, a IMPUGNANTE foi cientificada em 20.12.2013, ao mesmo tempo, do início e do encerramento da fiscalização de que trata o MPFF n.° 08.1.85.00 2013003240, e ainda da lavratura dos AUTOS. 2.9. De acordo com o Termo de Verificação Fiscal que acompanha os AUTOS (“TVF”), o reexame das informações da IMPUGNANTE relativas ao anocalendário de 2008 teria se justificado por uma diferença de valores entre dois documentos examinados: (i) as demonstrações financeiras de VOTORANTIM GMBH e (ii) o “Laudo de avaliação contábil dos bens, direitos e obrigações de CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA. para fins de incorporação em outra sociedade” (“LAUDO DE INCORPORAÇÃO”) (fls. 1328 a 1334 dos autos). 2.10. Lêse no TVF (fls. 1378 e 1379 dos autos): “3. A presente reanálise tem como causa a discrepância entre os valores de lucros auferidos pelas controladas da Votorantim GmbH Áustria (antes AZBEN Holding G.M.B.H.), conforme documentos apresentados pela fiscalizada (prejuízo de 200.700.000 € ou seja, R$ 469.035.900,00), e o resultado, constante dos demonstrativos da CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA., CNPJ n° 05.322.792/000134, controlada da fiscalizada, quando de sua incorporação pela mesma em novembro de 2008 (resultado positivo de equivalência patrimonial de R$ 254.369.940,49);” 2.11. Conforme apontado nas planilhas do item 2.1., acima, a Impugnante informou à fiscalização os resultados auferidos em 31.12.2008 por suas investidas no exterior (fls. 1182 a 1207 dos autos), tendo a VOTORANTIM GMBH apurado prejuízo de € 200.700.000,00 no período. Especificamente quanto às controladas de VOTORANTIM GMBH, as planilhas do item 2.1. apontam que seus lucros em 31.12.2013 somavam R$59.373.488,12 (proporcionalmente à participação da CAZBEN), os quais foram integralmente tributados pelos autos de infração lavrados em 26.03.2013. 2.12. Não obstante, segundo o TVF, teria sido constatado, por meio da leitura do LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN, um saldo de imposto a cobrar (fls. 1387 dos autos): “23. Entretanto, constatouse na última página dos documentos de incorporação da Cazben por sua controladora, a VPar, existir um saldo de imposto a tributar conforme abaixo detalhamos; 24. O documento em questão, de nome Docs Incorp Cazben.pdf apresenta um demonstrativo da empresa incorporada, onde consta um Resultado de Equivalência Patrimonial/Lucro Operacional/Lucro antes do IR e CSLL/Lucro Líquido do Período, em novembro de 2008, de R$ 254.369.940,49, e um PL de R$ 465.894.782,39;” 2.13. Com base, portanto, em uma informação extraída de uma planilha do LAUDO DE INCORPORAÇÃO, que aponta que, em novembro de 2008, a CAZBEN tinha como resultado de equivalência patrimonial o valor de R$254.369.940,49, as autoridades fiscais entenderam que haveria “saldo de imposto a cobrar”. 2.14. Para chegar ao alegado “saldo de imposto a cobrar”, o TVF obedeceu à seguinte curiosa metodologia de cálculo: (i) considerando o patrimônio líquido (“PL”) de CAZBEN relativo a novembro de 2008 no valor de R$465.894.782,39, constante do LAUDO DE INCORPORAÇÃO, realizou a sua conversão para Euros pela taxa de 31.12.2008 (e não de novembro de 2008) de R$3,23815, alcançando o montante de €143.876.837,82; (ii) considerando o PL de CAZBEN em Euros como €143.876.837,82, procedeu à sua conversão para Reais pela taxa de 01.01.2008 de R$2,61143, chegando a um montante de R$375.724.290,59; Fl. 1855DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.847 19 (iii) em seguida, subtraiu o PL em Reais do começo de 2008 do PL em Reais de novembro de 2008, perfazendo um total de R$90.170.491,80, que equivaleria à variação cambial do PL de CAZBEN nesse período; (iv) considerando que o resultado de equivalência patrimonial de CAZBEN abrangeria a soma da variação cambial do seu PL e dos lucros de sua “única investida” (VOTORANTIM GMBH), diminuiu a variação cambial apontada no item (iii) do valor tido como resultado de equivalência patrimonial (R$254.369.940,49), chegando a um montante de R$164.199.448,69, que equivaleria aos lucros VOTORANTIM GMBH, refletidos nas demonstrações financeiras de CAZBEN por meio da equivalência patrimonial; (v) esse valor (R$164.199.448,69), portanto, seria o montante dos lucros de VOTORANTIM GMBH que caberia à CAZBEN, considerando sua participação de 60% na empresa austríaca; e (vi) considerando que o valor de R$59.373.488,12 já havia sido tributado no âmbito do processo administrativo n.° 16643.720017/201384, conforme item 2.11., acima, excluiu esse valor do suposto lucro de VOTORANTIM GMBH, chegando ao montante de R$104.817.819,28 (R$164.199.448,69 R$59.373.488,12), que é o objeto de autuação dos AUTOS. 2.15. Conquanto a metodologia descrita acima deixe claro que os AUTOS partiram do resultado de equivalência patrimonial registrado no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN para chegar ao suposto crédito tributário, em certos trechos do TVF as autoridades fiscais se contradizem e pretendem impor a tributação sobre os lucros das controladas indiretas da IMPUGNANTE (os quais já haviam sido integralmente tributados no processo administrativo n° 16643.720017/201384) (fls. 1388 dos autos): “27. Pelo motivo acima, passamos a calcular o valor dos lucros auferidos por suas controladas indiretas, ainda não autuado em procedimento fiscal anteriormente concluído;” (Grifouse.) 2.16. Embora os AUTOS reconheçam impor tributação sobre os lucros originalmente auferidos pelas investidas da IMPUGNANTE e de VOTORANTIM GMBH, o TVF não aplicou as Convenções para Evitar a Dupla Tributação celebradas pelo Brasil com a Áustria (“CONVENÇÃO ÁUSTRIA”) (país onde é domiciliada VOTORANTIM GMBH), e tampouco as Convenções para Evitar a Dupla Tributação celebradas pelo Brasil com a Bélgica (“CONVENÇÃO BÉLGICA”) (país onde são domiciliadas VOTORANTIM TERMINAL e CITROVITA) e com a Hungria (“CONVENÇÃO HUNGRIA”) (país onde é domiciliada VOTORANTIM KFT). 2.17. O TVF teceu, ainda, uma série de considerações a respeito das Convenções para Evitar Dupla Tributação e utilizou, de forma aleatória e imprecisa, diversos conceitos de direito tributário internacional como “sociedade meramente condutora”, “interposição de sociedade por razões exclusivamente elisivas”, “busca de elisão tributária abusiva”, “treaty shopping” e “beneficial owner”. 2.18. Entretanto, em momento algum os referidos conceitos foram efetivamente utilizados para sustentar a autuação, o que é plenamente justificável não só pela sua inaplicabilidade ao presente caso, como também pela inexistência de fundamento na legislação brasileira. 2.19. Em síntese, o TVF alega que: (i) a reanálise de documentos e informações relativos ao anocalendário de 2008 (já examinados no âmbito de fiscalização encerrada anteriormente com a lavratura dos autos de infração de 26.03.2013) teria como causa a discrepância entre as demonstrações financeiras de VOTORANTIM GMBH e o LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN; (ii) o valor constante da linha “Resultado de Equivalência Patrimonial” relativo a novembro de 2008, do LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN, abrangeria os lucros auferidos por controladas estrangeiras de CAZBEN (VOTORANTIM GMBH e suas investidas), os quais, Fl. 1856DF CARF MF 20 com suposto fundamento no art. 74 da Medida Provisória n.° 2.15835, de 24.08.2001 (“MP n.° 2.15835/01”), poderiam ser tributados na pessoa da IMPUGNANTE; (iii) a tributação dos lucros apurados pelas controladas de VOTORANTIM GBMH (VIH, VINA, VOTORANTIM AUSTRÁLIA, THE BULK, VOTORANTIM TERMINAL, CITROVITA e VOTORANTIM KFT) seria possível, porque não haveria regra na legislação brasileira que limitasse a tributação universal apenas aos lucros auferidos via controladas diretas; (iv) as convenções internacionais para evitar a dupla tributação celebradas com outros países não impedem a tributação no Brasil dos lucros auferidos por controladas e coligadas residentes nesses países, porquanto a pretensão do fisco brasileiro recairia sobre os lucros da IMPUGNANTE, e não das investidas estrangeiras; e (v) os impostos pagos no exterior por investidas da IMPUGNANTE somente seriam compensáveis com o IRPJ e a CSL devidos no Brasil até o fim do segundo anocalendário a partir da ocorrência de tais lucros, com pretenso apoio no parágrafo 6º do art. 395 do Decreto n.° 3.000, de 26.03.1999 (Regulamento do Imposto de Renda “RIR”). 2.20. Os AUTOS não podem prosperar, como restará demonstrado a seguir. 3. DA IMPROCEDÊNCIA DOS AUTOS PELA AUSÊNCIA DOS PRESSUPOSTOS NECESSÁRIOS PARA A REVISÃO DE LANÇAMENTO ANTERIORMENTE EFETUADO 3.1. Como visto acima, a IMPUGNANTE foi intimada da abertura de procedimento fiscal para verificação do cumprimento das suas obrigações tributárias relativas ao anocalendário 2008 em 12.12.2011, por meio do MPFF n.° 08.1.85.002011003110. 3.2. Após prestar os seus esclarecimentos, em 26.03.2013, a IMPUGNANTE foi cientificada da lavratura de autos de infração exigindo crédito tributário relativo a IRPJ e CSL, sob o fundamento de que os lucros auferidos por empresas domiciliadas no exterior (controladas diretas e indiretas) deveriam ter sido oferecidos à tributação. 3.3. Não obstante o encerramento do procedimento de fiscalização acima referido, em novembro de 2013, a IMPUGNANTE foi intimada do MPFD n° 08.1.85.002013002570, em que a fiscalização a intima a prestar esclarecimentos a respeito dos mesmos fatos e período que originaram os autos de infração mencionados acima (ou seja, informações sobre a composição dos resultados de VOTORANTIM GMBH e suas controladas no anocalendário de 2008). 3.4. Embora o referido MPFD não fizesse qualquer menção à autorização para reexame de obrigações tributárias relativas a exercício já autuado, a IMPUGNANTE se colocou à disposição para prestar esclarecimentos e, por tratarse de informações referentes a empresas estrangeiras, requereu a prorrogação de prazo para o seu atendimento. 3.5. Ocorre que, sem que quaisquer esclarecimentos tenham sido prestados ou documentos fornecidos pela IMPUGNANTE, a fiscalização requereu a conversão do MPFD em MPFF (MPFF n.° 08.1.85.002013003240), no qual consta autorização para o reexame das obrigações tributárias relativas ao anocalendário de 2008 (conforme art. 906 do RIR), e lavrou os AUTOS, dos quais a IMPUGNANTE foi cientificada em 20.12.2013. 3.6. Enganase a fiscalização ao presumir que a mera autorização para reexame das obrigações tributárias seria suficiente para embasar a lavratura de novos autos de infração, relativamente a período e fatos já autuados, sem que esteja presente qualquer das circunstâncias autorizadoras da revisão do lançamento. 3.7. O artigo 142 da Lei n.° 5.172, de 25.10.1966 (Código Tributário Nacional “CTN”), estabelece que, como procedimento necessário à constituição do crédito tributário, o lançamento pressupõe a verificação de todos os seus aspectos e, por essa razão, é definitivo, regendose pelo princípio da inalterabilidade: “Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Fl. 1857DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.848 21 Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional.” 3.8. A alteração do lançamento tributário, portanto, é exceção e pode ser realizada de ofício pela fiscalização apenas nas hipóteses previstas no artigo 149 do CTN, que dispõe: “Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recusese a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública”. 3.9. Assim, embora a mera autorização (nos termos do art. 906 do RIR) seja suficiente para permitir o reexame, pela fiscalização, de período já autuado, a efetiva revisão do lançamento relativo a esse período para exigência de eventual diferença de tributo não exigido anteriormente está condicionada à comprovação da ocorrência de uma das situações descritas no art. 149 do CTN. Citese, a esse respeito, o seguinte trecho do voto proferido pelo Conselheiro RYCARDO HENRIQUE MAGALHÃES DE OLIVEIRA no acórdão da Câmara Superior de Recursos Fiscais – (“CSRF”) n.° 0202.922: “Nessa esteira de entendimento, é de bom alvitre esclarecer que não basta o fiscal autuante consignar no Termo de Verificação Fiscal o documento da lavra da autoridade superior determinando o reexame de período já fiscalizado, tendo em vista não ter o condão de motivar o lançamento, de forma a tornálo válido, devendo haver a efetiva comprovação de uma das hipóteses previstas no artigo 149, do CTN, sob pena de cerceamento do seu direito de defesa da contribuinte, não lhe oferecendo, igualmente, a segurança jurídica, que deve nortear os atos da administração. Mais a mais, o artigo 906, do RIR/1999, contempla tão somente o reexame de período já fiscalizado, ou seja, a refiscalização, que estará vinculada à ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal. Entrementes, a revisão do lançamento anteriormente efetuado, objeto do reexame, somente poderá ser Fl. 1858DF CARF MF 22 procedida quando restar comprovada uma das hipóteses permissivas constantes do artigo 149, do CTN. Em outras palavras, existindo ordem expressa da autoridade fiscal competente, o fisco poderá refiscalizar/reexaminar períodos já fiscalizados quantas vezes entender necessárias. Porém, a revisão do lançamento anterior, ou melhor, a exigência de diferenças relativas a períodos já fiscalizados, objetos de lançamento pretérito, somente deverá ser efetuada quando encontrar sustentáculo na norma legal que regulamenta a matéria, artigo 149 do CTN, o qual impõe a comprovação da efetiva ocorrência das hipóteses insculpidas em seus incisos, o que não se constata no caso vertente. [...] Destarte, ao proceder de forma omissa, deixando de demonstrar e comprovar no Termo de Verificação Fiscal os motivos que levaram o fisco a promover a revisão do lançamento, bem como o dispositivo legal que a contempla, qual seja, artigo 149, e incisos, do CTN, na forma que determina a legislação tributária, o ilustre fiscal autuante incorreu em vício insanável, capaz de determinar a improcedência do feito.” (Grifouse.) (CSRF. Acórdão n.° 0202.922. Rei. RYCARDO HENRIQUE MAGALHÃES DE OLIVEIRA. 28.01.2008.) 3.10. No mesmo sentido, os seguintes acórdãos do CARF: “A revisão de lançamento fiscal somente poderá ser levada a efeito quando devidamente enquadrada no artigo 149, e incisos, do CTN, impondo, ainda, ao fiscal autuante a devida comprovação da ocorrência de uma ou mais hipóteses permissivas constantes daquele dispositivo legal, em observância à segurança jurídica dos atos administrativos, bem corno à ampla defesa e contraditório do contribuinte, sob pena de improcedência da autuação. [...] Em outras palavras, existindo ordem expressa da autoridade fiscal competente, o Fisco poderá refíscalizar/reexaminar períodos já fiscalizados quantas vezes entender necessárias. Porém, a revisão do lançamento anterior, ou melhor, a exigência de diferenças relativas a períodos já fiscalizados, objetos de lançamento pretérito, somente deverá ser efetuada quando encontrar sustentáculo na norma legal que regulamenta a matéria, artigo 149 do CTN, o qual impõe a comprovação da ocorrência das hipóteses insculpidas em seus incisos, o que não se constata no caso vertente. [...] Destarte, ao proceder de forma omissa, deixando de demonstrar e comprovar no Relatório Fiscal os motivos que levaram o fisco a promover a revisão do lançamento, na forma que determina a legislação tributária, o ilustre fiscal autuante incorreu em vicio insanável, capaz de determinar a improcedência do feito” (Grifouse). (CARF. Acórdão n.° 240100.889. Rel. Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira. 27.01.2010.) “REVISÃO LANÇAMENTO. ART. 149 CTN. AUSÊNCIA DE MOTIVO. A constituição de um novo lançamento ou a revisão de crédito previdenciário decorrente de auditoria fiscal previdenciária que abranja períodos e fatos já objeto de auditorias fiscais anteriores, nas quais a contabilidade foi verificada, está condicionada a ocorrência das hipóteses previstas no art. 149 do CTN, cuja ocorrência deve restar plenamente demonstrada. Constatase uma efetiva ausência dos motivos que poderiam justificar a revisão do lançamento, o que acarreta a improcedência do lançamento. [...] Portanto, apesar de uma refiscalização poder ser determinada independente da efetiva constatação da ocorrência de uma das hipóteses previstas no art. 149 do CTN. Em procedimento de refiscalização, a realização tanto de um novo lançamento como a revisão de lançamento necessitam de suporte fático e de direito em uma das hipóteses Fl. 1859DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.849 23 previstas no já aludido dispositivo legal” (CARF. Acórdão n.° 240100.534. Rei. Elias Sampaio Freire. 19.08.2009). [...] II O lançamento pode ser revisto exofficio, condicionandose a necessidade da administração fiscal comprovar a ocorrência de uma das situações do art. 149 do CTN; III Fora dessas hipóteses, à segurança jurídica prestigiada pelo Códex Tributário não permite que o Fisco modifique de oficio, crédito já devidamente constituído, ou imponha uma exigência fiscal referente a período já fiscalizado e onde teria se constatado naquela oportunidade anterior não haver; [...] Nesse passo, entendo que a fiscalização previdenciária quando no primeiro procedimento fiscal, já teve a oportunidade de verificar a natureza dos pagamentos aqui englobados, e naquele momento não fez incidir as contribuições que ora se cobra. Vale dizer, a autoridade fiscal anterior teve ao crivo dos seus olhos, os mesmos fatos que levaram ao presente levantamento, não tendo sobre eles considerado qualquer ocorrência da hipótese de incidência do tributo em estudo, o que nos leva a entender que aqui se tem um lançamento por revisão, sem qualquer motivação de fato ou de direito. Nem se diga que sobre os valores aqui discutidos não teriam sofrido tributação em lançamento anterior, para se afirmar que não se trataria de procedimento revisional, na medida em que a revisão em si não ocorre apenas quando presente um lançamento, mas igualmente quando a fiscalização analisa os recolhimentos do contribuinte e os considera corretos ou tributa outros valores. Em linguagem mais clara, ao tributar outras parcelas, o agente fiscal estará homologando tacitamente as que eventualmente não forem tributadas, de forma que nova exigência fiscal sobre o período já analisado, somente poderá ser empreendida nas estritas hipóteses do art. 149 do CTN, como já exposto acima” (CARF. Acórdão n.° 240100.049. Rel. Rogério de Lellis Pinto. 04.03.2009). “A revisão de lançamento fiscal somente poderá ser levada a efeito quando devidamente enquadrada nas regras do artigo 149 do CTN, impondo, ainda, ao fiscal autuante a devida motivação da ocorrência de uma ou mais hipóteses declaradas no citado dispositivo”. (CARF. Acórdão n.° 230102.561. Rei. Damião Cordeiro de Moraes. 07.02.2012). 3.11. Em outras palavras, ainda que haja autorização para reexame, a validade do novo lançamento relativo a período já fiscalizado e autuado está condicionada à comprovação (pela fiscalização) da ocorrência de pelo menos uma das circunstâncias previstas no art. 149 do CTN, que deverá ser motivada e constar do documento que fundamenta a revisão do lançamento. 3.12. No caso, a fiscalização não tece qualquer comentário no TVF (ou nos AUTOS) sobre a circunstância prevista no art. 149 do CTN que supostamente autorizaria a revisão do lançamento anteriormente efetuado (autos de infração relativos ao processo administrativo n.° 16643.720017/201384), limitandose a afirmar que a “causa” da reanálise seria a “discrepância entre os valores de lucros auferidos pelas controladas da Votorantim GmbH Áustria”. 3.13. E não o faz simplesmente porque não há circunstância no caso que possa ser utilizada para fundamentar a revisão do lançamento. Todos os fatos e documentos relativos à composição dos resultados de VOTORANTIM GMBH e suas controladas no anocalendário de 2008, objeto dos autos de infração lavrados em 26.03.2013 e dos AUTOS, foram disponibilizados e analisados por ocasião do lançamento pretérito, tendo a fiscalização meramente alterado o seu entendimento. 3.14. Tanto isso é verdade, que a fiscalização não precisou de qualquer novo documento ou esclarecimento para lavrar os AUTOS, tendo se baseado unicamente no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN, documento já analisado no âmbito do procedimento fiscal Fl. 1860DF CARF MF 24 amparado pelo MPFF n.° 08.1.85.002011003110 (conforme processo administrativo n.° 16643.720017/201384). 3.15. A esse respeito, transcrevemos o seguinte trecho do TVF: ‘22. Em razão dos fatos acima descritos, a fiscalizada foi autuada no processo n° 16.643720.017/201384, por lucros auferidos por suas controladas indiretas (ou seja, controladas diretas da Votorantim GMBH), nos montantes constantes da tabela abaixo: [...] 23. Entretanto, constatouse na última página dos documentos de incorporação da Cazben por sua controladora, a VPar, existir um saldo de imposto a tributar conforme abaixo detalhamos: 24. O documento em questão, de nome Docs Incorp Cazben.pdf apresenta um demonstrativo da empresa incorporada, onde consta um Resultado de Equivalência Patrimonial/Lucro Operacional/Lucro antes do IR e CSLL/Lucro Líquido do Período, em novembro de 2008, de R$ 254.369.940,49, e um PL de R$ 465.894.782,39; 25. A fiscalizada foi então intimada a apresentar os documentos abaixo e explicar: 1. Demonstrativo da Votorantim GmbH (antes Azben Holdings GmbH) de novembro de 2008, em moeda original e em Reais, que embasou o balanço e DRE da Cazben, quando da sua incorporação pela VPar; 2. No demonstrativo acima separar os resultados das controladas/coligadas dos resultados da própria Azben; 3. Explicar e documentar por meio de documentos hábeis, idôneos e legíveis, o que motivou prejuízo em dezembro de 2008, transformando o lucro apurado até novembro em um resultado negativo de 200.700.000 €; 26. Em resposta protocolizada em 09 de dezembro de 2013, a VPar solicitou prazo adicional de 20 dias, culminando em 29 de dezembro de 2008, alegando que as ‘solicitações envolvem informações de terceiros’. Ora, se a demonstração constante no documento Docs Incorp Cazben.pdf foi elaborada com base nessas ‘informações de terceiros’, é óbvio que a fiscalizada possui tais documentos em seus arquivos. Além disso, os terceiros são, na verdade, controladas da fiscalizada, que tem sobre eles total controle e acesso. Juntese a isso a rapidez em se obter informações no mundo informatizado de hoje e chegamos à conclusão do mote apenas protelatório do requerimento; 27. Pelo motivo acima, passaremos a calcular o valor dos lucros auferidos por suas controladas indiretas, ainda não autuados em procedimento fiscal anteriormente concluído; 28. Portanto, se a Cazben não possuía nenhum ativo além de sua participação de 60% na Votorantim GmbH, esse resultado se refere ao resultado de equivalência patrimonial da empresa austríaca na brasileira’; 3.16. Reforça esse entendimento o fato de que os valores exigidos nos autos de infração lavrados em 26.03.2013 foram deduzidos do valor apurado pela fiscalização nos AUTOS, todos relativos à composição dos resultados de VOTORANTIM GMBH e suas controladas domiciliadas no exterior no anocalendário de 2008, o que comprova claramente tratarse de revisão do lançamento por mudança de entendimento (e, por conseguinte, alteração de critério jurídico, conforme se demonstrará na seção 4). 3.17. Ocorre que a mera “mudança de entendimento” para passar a dar relevância a fato já conhecido e não considerado por ocasião do lançamento não está listada no artigo 149 do CTN como circunstância autorizadora da sua revisão. A esse respeito, citamos o entendimento de EDUARDO SABBAG e ALBERTO XAVIER: EDUARDO SABBAG: Fl. 1861DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.850 25 “O comando dispõe sobre a apreciação de fato não conhecido ou não provado à época do lançamento anterior. Dizse que este lançamento teria sido perpetrado com erro de fato, ou seja, defeito que não depende de interpretação normativa para sua verificação. Frisese que não se trata de qualquer ‘fato’, mas aquele que não foi considerado por puro desconhecimento de sua existência. Não é, portanto, aquele fato, já de conhecimento do Fisco, em sua inteireza, e, por reputálo despido de relevância, tenhao deixado de lado, no momento do lançamento. Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma ‘relevância jurídica’, a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, com fulcro no artigo 146. do CTN. (...). Neste art. 146. do CTN. prevêse um ‘erro’ de valoração jurídica do fato (o tal ‘erro de direito’), que impõe a modificação quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua ocorrência. Não perca de vista, aliás, que inexiste previsão de erro de direito, entre as hipóteses do art. 149, como causa permissiva de revisão de lançamento anterior” (Grifouse). (SABBAG, Eduardo Sabbag. Manual de Direito Tributário. São Paulo: Ed. Saraiva (1ª edição). P. 707.) ALBERTO XAVIER: “O verdadeiro fundamento da limitação da revisão do lançamento à hipótese de erro de fato resulta do caráter taxativo dos motivos da revisão do lançamento enumerados no artigo 149 do Código Tributário Nacional e que, como vimos, são, além da fraude e do vício de forma, dever apreciarse ‘fato não conhecido ou não provado por ocasião de lançamento anterior’ (inciso VIII). Significa isto que, se só pode haver revisão pela invocação de novos fatos e novos meios de prova referentes à matéria que foi objeto de lançamento anterior, essa revisão é proibida no que concerne a fatos completamente conhecidos e provados” (Grifouse). (XAVIER, Alberto. Do lançamento. Teoria geral do ato do procedimento e do processo tributário. Rio de Janeiro: Forense, 1997. P. 255.) 3.18. Assim, ausente no TVF e nos AUTOS a comprovação, pela fiscalização, da ocorrência de uma das hipóteses permissivas da revisão do lançamento previstas no art. 149 do CTN, devem ser cancelados os AUTOS. 4. DA IMPROCEDÊNCIA DOS AUTOS EM DECORRÊNCIA DA MODIFICAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO ADOTADO PELAS AUTORIDADES FISCAIS 4.1. Ainda que, por absurdo, sejam superados os argumentos acima, os AUTOS devem ser cancelados, porque modificaram o critério jurídico adotado nos autos de infração lavrados em março de 2013, em desacordo com o que estabelece o art. 146 do CTN. 4.2. Conforme descrito na seção 2, os autos de infração de 26.03.2013 (que originaram o processo administrativo n.° 16643.720017/201384) têm por objeto os lucros auferidos pelas controladas estrangeiras diretas e indiretas da IMPUGNANTE, considerados individualmente, sem obediência à sistemática da consolidação prevista no art. 1º, parágrafo 6º, da Instrução Normativa SRF n.° 213, de 07.10.2002 (“IN SRF n° 213/02”). 4.3. No processo administrativo mencionado acima, as autoridades fiscais chegaram ao suposto crédito tributário devido por meio das informações fornecidas pela IMPUGNANTE durante o procedimento de fiscalização, com as quais elaboraram a tabela constante das fls. 1385 e 1386 dos autos, que indica os lucros auferidos por cada controlada de VOTORANTIM GMBH, individualmente. 4.4. No termo de verificação fiscal do referido processo, não há qualquer menção à equivalência patrimonial; o que se tributa são os lucros computados individualmente por cada controlada (direta ou indireta), conforme a tabela mencionada acima, e com suposto apoio, aliás, em precedente do 1° CC (o Caso Eagle II), como apontado no item 2.4, supra. Fl. 1862DF CARF MF 26 4.5. A despeito da lavratura dos referidos autos de infração em 26.03.2013, as autoridades fiscais pretenderam, em novembro de 2013, reexaminar documentos e informações fornecidos pela IMPUGNANTE relativamente a 2008 (período de apuração já fiscalizado e autuado), nos termos do MPFD n.° 08.1.85.002013002570 e do MPFF n.° 08.1.85.00 2013003240. 4.6. Ao proceder a tal reanálise, as autoridades fiscais alegam ter verificado a existência de um saldo de imposto a cobrar da IMPUGNANTE em relação ao referido período de apuração (2008). Ora, considerando o critério utilizado para a lavratura dos autos de infração de 26.03.2013, seria possível esperar que tal “saldo a cobrar” se referisse a lucros de controladas diretas ou indiretas, individualmente considerados, que, por alguma razão, tivessem deixado de ser computados pela fiscalização, pela mesma linha de argumentos anteriormente adotada. Isso porque, só assim haveria coerência jurídica entre os autos de infração de março e os AUTOS; em outras palavras, só assim poderseia dizer que os AUTOS seguiram o mesmo critério jurídico adotado nos autos de 26.03.2013. 4.7. Para surpresa da IMPUGNANTE, todavia, não foi o que ocorreu; os AUTOS foram lavrados com base em critério jurídico totalmente distinto daquele que havia sido adotado nos autos de infração de 26.03.2013. 4.8. De acordo com o TVF, as autoridades fiscais identificaram, ao analisar o LAUDO DE INCORPORAÇÃO documento, frisese, a que já tinham tido acesso durante o procedimento de fiscalização encerrado em março de 2013 que, em novembro de 2008, a CAZBEN tinha registrado como resultado de equivalência patrimonial o valor de R$ 254.369.940,49. 4.9. Com base meramente no referido LAUDO DE INCORPORAÇÃO e na informação supostamente discrepante de que VOTORANTIM GMBH apurara prejuízo no anocalendário de 2008 (encerrado em 31.12.2008, e não em novembro de 2008), as autoridades fiscais entenderam haver saldo de tributo a cobrar. 4.10. Para chegar ao montante supostamente remanescente a exigir, o TVF seguiu o raciocínio demonstrado no item 2.14., supra. Em resumo, as autoridades entenderam que o resultado de equivalência patrimonial de CAZBEN referiase aos lucros de VOTORANTIM GMBH a que faria jus em função de sua participação de 60% em VOTORANTIM GMBH. 4.11. Não foram examinados, nesta nova fiscalização, documentos ou informações relativos aos lucros de VOTORANTIM GMBH, ou de qualquer outra empresa estrangeira; para chegar ao suposto crédito tributário, partiuse simplesmente do valor apontado como “resultado de equivalência patrimonial” no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN. 4.12. É dizer, o TVF tributou, na IMPUGNANTE, o resultado positivo de equivalência patrimonial (relativo a novembro de 2008, repitase) que supostamente caberia a CAZBEN em razão de sua participação de 60% em VOTORANTIM GMBH, sem se deter na análise dos resultados efetivamente apurados individualmente pelas investidas estrangeiras, critério adotado quando da lavratura dos autos de infração de 26.03.2013. 4.13. Ou seja, (i) no lançamento efetuado em março de 2013, a fiscalização tributou os lucros auferidos por controladas estrangeiras diretas e indiretas da IMPUGNANTE, individualmente consideradas; mas, (ii) nos AUTOS, por meio da revisão do lançamento anteriormente efetuado, as autoridades fiscais tributaram o resultado positivo de equivalência patrimonial registrado no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN, e deduziram os valores exigidos de acordo com o critério apontado no item (i). 4.14. Evidentemente, tratase de critérios jurídicos absolutamente diferentes. A título ilustrativo, a IMPUGNANTE apresenta a seguir um quadro exemplificativo por meio do qual fica evidente a disparidade (e incompatibilidade) entre as duas formas utilizadas pelas autoridades fiscais (nos autos de março e nos AUTOS) para chegar ao suposto crédito tributário: EXEMPLO: Fl. 1863DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.851 27 Sociedade brasileira (BRCo) é titular de investimento em sociedade situada no exterior (EXTCo) que, por sua vez, é titular de participações em sociedade residente em X (XCo) e em sociedade residente em Y (YCo). XCo aufere, em determinado anocalendário, lucro de $100. Nesse mesmo período, YCo incorre em prejuízo de $80. Em decorrência, os resultados de EXTCo são compostos não apenas pelos seus rendimentos auferidos em EXT, mas também externamente (i.e., em bases universais), de modo que os resultados de suas controladas repercutem no seu próprio resultado. Imaginese, ainda, que as atividades próprias de EXTCo gerem um saldo de $50. Nesse cenário, o lucro de EXTCo será de $70. 4.15. De acordo com o critério jurídico adotado pelos autos de 26.03.2013, diante da situação hipotética posta no exemplo acima, as autoridades fiscais calculariam o tributo devido com base nos lucros auferidos individualmente por cada empresa estrangeira; terse ia, portanto: (i) lucro de EXTCo de $50; (ii) lucro de XCo de $100, e (iii) desconsideração do prejuízo de YCo, chegandose ao montante total de $150, que seria objeto de tributação. 4.16. Por outro lado, caso fosse seguido, no exemplo acima, o mesmo critério adotado pelos AUTOS, terseia a tributação sobre o resultado positivo de equivalência patrimonial de BRCo, no valor de $70. 4.17. Conclusão: diante de um mesmo cenário fático, as autoridades administrativas conceberam duas formas distintas de se calcular o suposto crédito tributário devido pela IMPUGNANTE, com base em fundamentos jurídicos diferentes e incompatíveis; e, o que é pior, pretenderam aplicar ambos à IMPUGNANTE em relação ao mesmo período de apuração, o que não se pode, em hipótese alguma, admitir. 4.18. Com efeito, é cediço que, na atividade de lançamento, cabe às autoridades administrativas verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo, e sendo o caso, propor a aplicação da penalidade cabível (art. 142 do CTN); tudo isso por meio de atividade administrativa plenamente vinculada (arts. 3º e 142, parágrafo único, do CTN). 4.19. Ora, não se pode admitir que, em momento posterior à lavratura de um auto de infração, as mesmas autoridades administrativas autuantes venham buscar novo fundamento jurídico para determinar a matéria tributável e o valor do tributo relativamente ao mesmo período já autuado, de modo a afetar o lançamento anteriormente efetuado. 4.20. A própria existência de dois lançamentos em relação ao mesmo período de apuração com base em critérios jurídicos diversos é inadmissível, pois equivale a fazer letra morta dos arts. 3º e 142 do CTN, segundo os quais o ato de lançamento é vinculado e deve ser Fl. 1864DF CARF MF 28 fundado em certeza da fiscalização, e jamais pode ser orientado por lógica de “tentativa e erro”. 4.21. A jurisprudência administrativa é pacífica ao entender que a falta de certeza no lançamento que fica evidente in casu, em razão da utilização de critérios diferentes para tributar o mesmo período maculao de forma insanável: “LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO CERTEZA NECESSÁRIA O lançamento tributário não comporta incertezas. As dúvidas em relação aos elementos em que se baseou devem beneficiar o contribuinte e não o fisco” (1° CC. Acórdão n.° 10709.530. Rel. Luiz Martins Valero. 16.10.2008). “IRPJ DETERMINAÇÃO DA MATÉRIA TRIBUTÁVEL NULIDADE A verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, a determinação da matéria tributável, o cálculo do montante do tributo devido e a identificação do sujeito passivo, definidos no art. 142 do Código Tributário Nacional CTN, são elementos fundamentais, intrínsecos, do lançamento, sem cuja delimitação precisa não se pode admitir a existência da obrigação tributária em concreto” (1° CC. Acórdão n.° 10196.537. Rel. Alexandre Andrade Lima da Fonte Filho. 24.01.2008). “LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO CERTEZA NECESSÁRIA O lançamento tributário não comporta incertezas. As dúvidas em relação aos elementos em que se baseou devem beneficiar o contribuinte e não o fisco” (Grifouse.) (1° CC. Acórdão n.° 10707.902. Rel. Marcos Vinícius Neder de Lima. ™ 26.01.2006). “LANÇAMENTO REQUISITOS OBRIGATÓRIOS MÍNIMOS Nulo é o lançamento que não contempla corretamente a matéria tributável e os dispositivos legais infringidos, não cabendo à autoridade julgadora aperfeiçoálo para suprir a falta implicando em vício de forma na apuração da matéria tributável” (1° CC. Acórdão n.° 10321.789. Rel. Victor Luís de Salles Freire. 12.11.2004). (...) 4.22. Por oportuna, citese a lição de HUGO DE BRITO MACHADO: “A possibilidade de mudança de critério jurídico, seja pela mudança de interpretação, seja pela mudança do critério de escolha de uma das alternativas legalmente permitidas, transformaria a atividade de lançamento em atividade discricionária, o que não se pode admitir em face da própria natureza do tributo, que há de ser cobrado, por definição, mediante atividade administrativa plenamente vinculada” (MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao Código Tributário Nacional, vol. III. São Paulo: Atlas, 2005. P. 126.) 4.23. O fato de que os AUTOS excluíram o montante tributado no processo administrativo n.° 16643.720017/201384 não afasta a ilegalidade contida neles. Isso porque, se, (i) por um lado, tal exclusão demonstra claramente que se trata de uma revisão e complementação do lançamento anterior, (ii) por outro, evidencia que o crédito tributário apurado nos AUTOS foi calculado com base em critério jurídico diverso do critério adotado para a lavratura dos autos de 26.03.2013, tanto que ambos chegaram a resultados diferentes. 4.24. Dispõe o art. 146 do CTN: “Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução” (Grifou se). 4.25. Dessa forma, é possível concluir que é vedada a lavratura de auto de infração (ato administrativo de ofício) fundado em critério jurídico diverso do critério adotado em lançamento anterior contra o mesmo sujeito passivo para complementar o crédito tributário exigido relativo ao mesmo período de apuração. 4.26. Nesse sentido, afirma LUCIANO AMARO: Fl. 1865DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.852 29 “O que o texto legal de modo expresso proíbe não é a mera revisão de lançamento com base em novos critérios jurídicos; é a aplicação desses novos critérios a fatos geradores ocorridos antes de sua introdução (que não necessariamente terão sido já objeto de lançamento). Se, quanto ao fato gerador de ontem, a autoridade não pode, hoje, aplicar novo critérios jurídico (diferente do que, no passado, tenha aplicado em relação a outros fatos geradores atinentes ao mesmo sujeito passivo), a questão não se refere (ou não se resume) à revisão de lançamento (velho), mas abarca a consecução de lançamento (novo). É claro que, não podendo o novo critério ser aplicado para lançamento novo com base em fato gerador ocorrido antes da introdução do critério, com maior razão este também não poderá ser aplicado para rever lançamento velho. Todavia, o que o preceito resguardaria contra a mudança de critério não seriam apenas lançamentos anteriores, mas fatos geradores passados” (Itálicos do original. Grifouse) (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 18ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012. Pp. 377 e 378.) 4.27. Segue a mesma linha HUGO DE BRITO MACHADO: “Um novo auto de infração, ou auto de infração além do anteriormente lavrado, serão desvaliosos [sic] se nestes estiver envolvida questão meramente jurídica, questão de direito, porque neste caso haverá mudança de critério jurídico, vedada pelo art. 146 do Código Tributário Nacional” (MACHADO, Hugo de Brito. Comentários ao Código Tributário Nacional, vol. III. São Paulo: Atlas, 2005. P. 130.) 4.28. Idêntica posição consolidouse, já há muito tempo, na jurisprudência judicial, conforme evidencia a Súmula n.° 227 do extinto Tribunal Federal de Recursos, que dispõe: “A mudança de critério jurídico adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento.” 4.29. Não é outro, aliás, o entendimento da jurisprudência administrativa sobre a matéria, conforme demonstram os acórdãos abaixo, prolatados pelo CARF e pelo 1° CC: “ATO DE LANÇAMENTO. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. FATOS GERADORES PRETÉRITOS. INAPLICABILIDADE. A modificação introduzida, de ofício, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento, em relação a um mesmo sujeito passivo, somente será aplicado em relação aos fatos geradores futuros (art. 146 do CTN). [...] É inquestionável que o dispositivo em apreço trata de modificação de critério jurídico adotado em relação a prévio ato de lançamento tributário, realizado pela autoridade administrativa (lançamento de ofício), que a alteração do critério jurídico aplicado anteriormente seja introduzida por meio de ato de autoridade administrativa (ato de ofício) ou de decisão administrativa ou judicial, e que tanto o lançamento quanto o ato de ofício ou decisório refiramse a um mesmo sujeito passivo. Assim, com base no conteúdo jurídico do referido preceito legal, verificase que três condições deverão ser atendidas para que haja a configuração da mudança do critério jurídico, no âmbito do lançamento tributário: a) a primeira: haja um prévio ato de lançamento de oficio, em que a autoridade administrativa tenha adotado um determinado critério jurídico; b) a segunda: a modificação do critério jurídico anteriormente aplicado seja introduzida pela autoridade administrativa (mediante ato de oficio) ou pelo órgão julgador administrativo ou judicial (por meio de decisão administrativa ou judicial); e c) a terceira: tanto o ato de lançamento quanto o ato de ofício e as decisões administrativa e judicial refiramse a um mesmo sujeito passivo. [...] Fl. 1866DF CARF MF 30 Em outras palavras, o novo critério jurídico não poderá ser aplicado para rever lançamento (lançamento velho) nem para lançamento novo, atinente a evento tributário ou fato gerador ocorrido antes da sua introdução no mundo jurídico” (Grifouse) (CARF. Acórdão n.° 310200.684. Rel. José Fernandes do Nascimento. 26.05.2010.) “Na forma do Art. 146 do CTN, a modificação nos critérios jurídicos adotados pela Autoridade Administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução, impedindo novo lançamento sobre o mesmo objeto” (1° CC. Acórdão n.° 30235783. Rel. Paulo Affonseca de Barros Faria Júnior. 14.06.2007). “LANÇAMENTO DE OFÍCIO MODIFICAÇÃO DOS CRITÉRIOS JURÍDICOS VEDAÇÃO O disposto no art. 146 do CTN veda à administração tributária introduzir modificações, benéficas ou não ao contribuinte, em lançamentos inteiros, perfeitos e acabados, em homenagem à certeza e segurança das relações jurídicas” (1° CC. Acórdão n.° 10196.209. Rel. Paulo Roberto Cortez. 14.06.2007.) “NORMAS PROCESSUAIS PROCESSO ADMINISTRATIVO FINDO LANÇAMENTO ULTERIOR MODIFICAÇÃO DOS CRITÉRIOS JURÍDICOS VEDAÇÃO O disposto no art. 146 do CTN veda ao Fisco a introdução de modificações, benéficas ou não ao contribuinte, em lançamentos inteiros, perfeitos e acabados, em homenagem à certeza e segurança das relações jurídicas. Dessa forma, findo o processo administrativo em razão do recolhimento do tributo lançado, não é admissível a revisão posterior com novo lançamento de ofício em razão de modificação dos critérios jurídicos” (1° CC. Acórdão n.° 10708.912. Rel. Natanael Martins. 01.03.2007). “NORMAS PROCESSUAIS PROCESSO ADMINISTRATIVO FINDO LANÇAMENTO ULTERIOR MODIFICAÇÃO DOS CRITÉRIOS JURÍDICOS VEDAÇÃO. O disposto no art. 146 do CTN veda ao Fisco a introdução de modificações, benéficas ou não ao contribuinte, em lançamentos inteiros, perfeitos e acabados, em homenagem à certeza e segurança das relações jurídicas. Dessa forma, findo o processo administrativo em razão do recolhimento do tributo lançado, não é admissível a revisão posterior com novo lançamento de oficio em razão de modificação dos critérios jurídicos. [...] Na acusação primitiva foi apurada omissão de receitas da recorrente relativa ao ano calendário de 1997, tendo a fiscalização exigido imposto de renda com a utilização da alíquota de 8% para a apuração do lucro presumido. Já na nova acusação, após o recolhimento por parte da contribuinte da imposição que lhe foi aplicada, o Fisco muda de interpretação e, diante do mesmo caso concreto, da mesma legislação vigente, retoma e lavra novo auto de infração, porém, neste, o lucro presumido passou a ser calculado sob o percentual de 32%. Ressaltese que foi aplicado sobre a mesma matéria anteriormente lançada de ofício. [...] A modificação dos critérios jurídicos do lançamento é vedada pelo art. 146 do CTN. com o fito de garantir a estabilidade das relações jurídicas, conferindolhe certeza e segurança. A administração não pode ‘de forma alguma introduzir modificações, sejam elas benéficas ou não ao contribuinte, em lançamentos inteiros, perfeitos e acabados, uma vez que nestes já está completa toda a estrutura da relação obrigacional [...]’ (Américo Masset Lacombe In ‘Comentários ao Código Tributário Nacional’, Ives Gandra Martins (coord.), Saraiva, 1998, Vol. 2, p. 293). Se fosse possível que a administração fazendária pudesse modificar critérios jurídicos a seu favor na valoração do fato gerador, a atividade de lançamento passaria a ser discricionária, e não vinculada, como determina o parágrafo único do art. 142 do CTN. [...] Ora, o caso concreto, a toda evidência, não se ajusta dentre as hipóteses passíveis de revisão do lançamento, dado que a autoridade administrativa. quando do exercício da atividade fiscalizadora, teve pleno conhecimento dos fatos que ensejaram a infração, Fl. 1867DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.853 31 tendo interpretado a legislação vigente no sentido de que o percentual aplicável para a apuração do lucro presumido seria de 8%. retornando, posteriormente, para aperfeiçoar o lançamento, agora com o entendimento de que a alíquota correta seria de 32%, e não aquela aplicada no lançamento primitivo. É flagrante a alteração do critério jurídico do lançamento, não sendo cabível nem mesmo em relação ao anocalendário de 1996, em obediência ao estabelecido no art. 146 do CTN, anteriormente descrito, tendo em vista que a modificação dos critérios jurídicos somente por ser aplicada quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. Dessa forma, tendo em vista que em relação ao mesmo sujeito passivo, indiscutivelmente, houve a alteração nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa em relação ao anocalendário de 1997, o que a legislação de regência não autoriza, deve ser acolhida a preliminar de nulidade do lançamento, cujo efeito, evidentemente, também deve ser aplicável ao anocalendário de 1996” (Grifouse) (1° CC. Acórdão n.° 10707.264. Rel. Natanael Martins. 13.08.2003). 4.30. Ante o exposto, concluise que os AUTOS fundamentamse em critério jurídicos diverso daquele que orientou a lavratura dos autos de infração de 26.03.2013, sendo que ambos pretendem tributar a IMPUGNANTE em relação ao mesmo período de apuração (anocalendário de 2008), razão por que devem ser cancelados, nos termos do art. 146 do CTN. 5. DA IMPROCEDÊNCIA DOS AUTOS EM RAZÃO DA ILEGALIDADE DO CRITÉRIO JURÍDICO ADOTADO PARA O CALCULO DO SUPOSTO CRÉDITO TRIBUTÁRIO 5.1. Caso, por absurdo, sejam superados os argumentos acima aduzidos, que comprovam a total improcedência dos AUTOS, o que se cogita apenas para argumentar, é inadmissível a pretensa tributação do resultado positivo de equivalência patrimonial registrado no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN relativo a novembro de 2008, conforme se demonstrará a seguir. 5.2. De acordo com o TVF, o que os AUTOS pretendem tributar é o resultado positivo de equivalência patrimonial a que faria jus a CAZBEN em novembro de 2008, em razão de sua participação de 60% no capital de VOTORANTIM GMBH. Lêse no TVF: “5. Pelo motivo exposto acima e por ser uma holding, o único resultado da Cazben se dava exclusivamente em razão de sua participação societária na empresa Austríaca [VOTORANTIM GMBH antes AZBEN Holding GmbH]; [...] 16. Como podese notar pelas informações contidas nos itens acima, bem como na DIPJ 2008, a VPar era, antes da incorporação da Cazben, em 30/12/2008, controladora dela, com uma participação de 99,99% e da Azben com 40% das quotas; 17. Por sua vez, a Cazben é controladora da Azben com uma participação de 60%, participação essa integralizada pela VPar na empresa brasileira, ou seja, a VPar constituiu a Cazben com quotas de Azben de sua titularidade; 18. Portanto, fica claro que a VPar e a Cazben pertencem ao mesmo grupo empresarial; 19. Em razão do acima exposto, no presente Auto de Infração, a VPar será autuada, em 60% do resultado da Azben (Votorantim GmbH”), excluídos os valores anteriormente autuados no processo n° 16643.720.017/201384, em razão dos motivos adiante explanados. Os restantes 40% foram autuados em outro processo, tendo como sujeito passivo a mesma VPar; [...] Fl. 1868DF CARF MF 32 23. Entretanto, constatouse na última página dos documentos de incorporação da Cazben por sua controladora, a VPar, existir um saldo de imposto a tributar conforme abaixo detalhamos; 24. O documento em questão, de nome Docs Incorp Cazben.pdf apresenta um demonstrativo da empresa incorporada, onde consta um Resultado de Equivalência Patrimonial/Lucro Operacional/Lucro antes do IR e CSLL/Lucro Líquido do Período, em novembro de 2008. de R$254.369.940,49, e um PL de R$ 465.894.782,39; [...] 28. Portanto, se a Cazben não possuía nenhum ativo além de sua participação de 60% na Votorantim GmbH, esse resultado se refere ao resultado da equivalência patrimonial da empresa austríaca na brasileira; [...] 32. Entretanto, sabemos que a Cazben possuía 60% da Votorantim GmbH e, portanto, o lucro a ela atribuído é de R$ 164.199.448,69;” (Destaques do original. Grifouse.) 5.3. Conforme mencionado acima, o item 28. do trecho acima transcrito deixa claro que os AUTOS impõem a tributação sobre o resultado positivo de equivalência patrimonial do investimento de CAZBEN em VOTORANTIM GMBH em novembro de 2008, a que faria jus a CAZBEN. 5.4. Ao proceder dessa forma, as autoridades autuantes violaram o critério temporal a ser considerado na determinação do crédito tributário e, com isso, incorreram em erro no seu cálculo, na medida em que partiram de montante que não poderia ter sido utilizado para fins de apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSL. 5.5. De acordo com o caput do art. 74 da MP n.° 2.15835/01, os lucros da controlada estrangeira “serão considerados disponibilizados na data do balanço no qual tiverem sido apurados”: “Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento” (Grifouse). 5.6. Ou seja, consideramse disponibilizados os lucros apurados no balanço da controlada estrangeira referente ao momento em que se encerra o período de apuração contábil da referida empresa, instante no qual efetivamente se pode falar em lucro ou prejuízo. 5.7. Isso porque, até o encerramento do período de apuração, não é possível definir se a empresa auferiu lucros ou prejuízos; o que se tem são resultados parciais, que não equivalem ao resultado final da empresa no referido período. 5.8. Com efeito, o LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN aponta, na melhor das hipóteses, o resultado parcial de equivalência patrimonial relativo à participação em VOTORANTIM GMBH, pois o documento reflete as demonstrações financeiras da empresa austríaca relativas a 30.09.2008, conforme informado em resposta à fiscalização (fls. 86 dos autos). Ou seja, tratase de resultado referente a momento anterior ao fim do período de apuração contábil de VOTORANTIM GMBH (31.12.2008). 5.9. Isto é, ao contrário do que afirma o TVF, o resultado de equivalência apontado no LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN se refere não a novembro de 2008, mas a setembro daquele anocalendário, conforme permitido pelo art. 248,I, da Lei n.° 6.404, de 15.12.1976 (“Lei das S.A.”). 5.10. A IMPUGNANTE apresentou, durante o procedimento de fiscalização encerrado em março de 2013, as demonstrações financeiras de VOTORANTIM GMBH, cujo período de apuração se encerra em 31.12 de cada anocalendário, e que apontam a apuração de um prejuízo de € 200.700.000,00 em 31.12.2008. Fl. 1869DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.854 33 5.11. Esse é o balanço da empresa estrangeira que poderia ter sido utilizado para apuração de IRPJ e CSL supostamente devidos pela IMPUGNANTE, nos termos do caput do art. 74 da MP n.° 2.15835/01. 5.12. Como reconhece o TVF, os AUTOS baseiamse em informação constante do LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN, de novembro de 2008. Esse documento, por óbvio, (i) não é o balanço da controlada estrangeira VOTORANTIM GMBH, (ii) não reflete o resultado da empresa estrangeira no período, pois se refere a momento anterior ao encerramento do seu exercício (31 de dezembro) e (iii) ao contrário do que afirma o TVF, sequer se refere a lucros de VOTORANTIM GMBH em novembro de 2008, mas à sua situação patrimonial em 30.09.2008. 5.13. Ora, não se pode admitir que as autoridades fiscais simplesmente ignorem as demonstrações financeiras de VOTORANTIM GMBH apresentadas, escolhendo um outro documento que, sob o ponto de vista arrecadatório, lhe favorece, mas que viola a própria base legal da suposta infração (art. 74 da MP n° 2.15835/01). 5.14. Em resumo, o que os AUTOS tributaram, ao se basearem no LAUDO DE INCORPORAÇÃO, é uma “não renda”, pela própria inocorrência do fato gerador do IRPJ e da CSL naquele momento (novembro de 2008), ausente qualquer acréscimo patrimonial neste momento. 5.15. Não há, aliás, nos autos, qualquer elemento que permita desqualificar as demonstrações financeiras de VOTORANTIM GMBH relativas a 31.12.2008, que apontam a apuração de prejuízo. E tampouco o TVF se preocupou em justificar as razões por que esse documento foi absolutamente desconsiderado, em benefício do LAUDO DE INCORPORAÇÃO, o qual, conforme demonstrado acima, não contempla o resultado final de VOTORANTIM GMBH no anocalendário de 2008. 5.16. Não cabe às autoridades fiscais autuantes, por óbvio, criar métodos de tributação simplesmente porque lhes favorecem do ponto de vista da arrecadação, sobretudo quando tais métodos violam frontalmente as normas que regem a incidência dos tributos em questão. 5.17. Como se não bastasse a ilegalidade cometida pelos AUTOS na apuração do montante supostamente tributável, as autoridades fiscais pretendem, ainda, em absoluta dissonância com a legislação tributária: (i) tributar o resultado positivo de equivalência patrimonial da IMPUGNANTE e (ii) desconsiderar os acordos para evitar a dupla tributação celebrados pelo Brasil. 5.18. Conforme descrito acima, os AUTOS impõem a tributação sobre o resultado positivo de equivalência patrimonial do investimento em VOTORANTIM GMBH em novembro de 2008, a que faria jus a CAZBEN. 5.19. No entanto, de acordo com o art. 25, parágrafo 6º, da Lei n.° 9.249, de 26.12.1995 (“Lei n.° 9.249/95”), que instituiu a tributação da renda da pessoa jurídica em bases universais no Brasil citado pelo próprio TVF como base legal das infrações imputadas, conforme fls. 1412 dos autos o resultado positivo de equivalência patrimonial não deverá ser adicionado ao lucro real; é dizer, não será objeto de tributação pelo IRPJ: Lei nº 9.249/95: “Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. [...] § 6º Os resultados da avaliação dos investimentos no exterior, pelo método da equivalência patrimonial, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, sem prejuízo do disposto nos §§ 1°, 2º e 3º” (Grifouse). Fl. 1870DF CARF MF 34 DecretoLei n° 1.598, de 26.12.1977 (“DL n° 1.598/77”): “Art. 23 A contrapartida do ajuste de que trata o artigo 22. por aumento ou redução no valor de patrimônio liquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (Redação dada pelo Decretolei n° 1.648, de 1978). Parágrafo único Não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste do valor do investimento ou da amortização do ágio ou deságio na aquisição, nem os ganhos ou perdas de capital derivados de investimentos em sociedades estrangeiras coligadas ou controladas que não funcionem no País” (Incluído pelo Decretolei n° 1.648, de 1978)” (Grifouse). 5.20. Ou seja, de acordo com o disposto no art. 23 do DL n.° 1.598/77, o resultado positivo de equivalência patrimonial não será considerado para fins de apuração do IRPJ. Esse tratamento foi mantido expressamente pela legislação posterior que instituiu a tributação da renda da pessoa jurídica em bases universais, conforme demonstra o parágrafo 6º do art. 25 da Lei n° 9.249/95. 5.21. Diante disso, resta claro que a pretensão dos AUTOS não encontra base legal que a sustente; pelo contrário, a tributação do resultado de equivalência patrimonial é expressamente vedada pela legislação tributária. 5.22. Nem se alegue que o critério adotado pelos AUTOS encontra fundamento no caput do art. 74 da MP n.° 2.15835/01. Primeiramente, esse dispositivo não afastou a regra da não tributação do ajuste de equivalência patrimonial, uma vez que faz referência expressa ao art. 25 da Lei n° 9.249/95 (item 5.5., supra). 5.23. Se, por outro lado, os AUTOS pretendessem tributar os lucros de VOTORANTIM GMBH, apenas mensurado pela equivalência patrimonial registrada na IMPUGNANTE, haveria de se aplicar a CONVENÇÃO ÁUSTRIA, de modo que tais lucros não estariam sujeitos à tributação no Brasil, de acordo com o art. 7º desse acordo. 5.24. Dessa forma, é possível concluir que, qualquer que seja a justificativa utilizada pelas autoridades fiscais para sustentar a tributação do resultado positivo de equivalência patrimonial das investidas em novembro de 2008 (constante do LAUDO DE INCORPORAÇÃO), tal pretensão não encontra apoio na ordem jurídica brasileira, já que: (i) a tributação da receita de equivalência patrimonial é vedada pelo art. 25, parágrafo 6º, da Lei n° 9.249/95 e pelo art. 23 do DL n° 1.598/77; e (ii) a tributação dos lucros não disponibilizados de investidas austríacas (como é o caso de VOTORANTIM GMBH), mensurados pelo ajuste de equivalência patrimonial, não são tributáveis no Brasil, nos termos do art. 7º da CONVENÇÃO ÁUSTRIA, como se evidenciará a seguir. 5.25. Com efeito, a linha de raciocínio segundo a qual devem ser tributados os lucros das controladas estrangeiras (apenas mensurados pelo método de equivalência patrimonial) contraria os compromissos assumidos internacionalmente pelo Brasil. 5.26. Como apontado acima, o art. 7º da CONVENÇÃO ÁUSTRIA veda a tributação por um Estado contratante do lucro de empresa residente no outro Estado contratante (ressalvada a existência de estabelecimento permanente no primeiro Estado), nos seguintes termos: “ARTIGO 7 Lucros das empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente.” 5.27. Ou seja, a CONVENÇÃO ÁUSTRIA exclui a competência impositiva do Brasil sobre os lucros auferidos pelas sociedades residentes na Áustria, que somente podem ser tributadas neste país. Fl. 1871DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.855 35 5.28. Contudo, segundo o TVF, a legislação nacional que pretende tributar os lucros originalmente auferidos por VOTORANTIM GMBH teria por objeto lucros da CAZBEN, razão pela qual não estaria em confronto com a CONVENÇÃO ÁUSTRIA (fls. 1406 dos autos): “44. A legislação fiscal pátria, quando determina que os lucros auferidos no exterior por controladas domiciliadas em outros Estados sejam adicionados ao lucro líquido da matriz ou controladora brasileira, permite que o Estado contratante (Brasil) exerça o direito de tributar seu próprio residente, que é a controladora brasileira (VPar), segundo as disposições inerentes à matéria em sua legislação doméstica”. 5.29. Ora, o trecho reproduzido no irem 5.28., supra, que fundamenta o raciocínio de que o TVF pretende tributar os lucros da própria IMPUGNANTE opõese à passagem reproduzida no irem 5.2., acima, que deixa claro que os AUTOS impõem a tributação sobre os resultados positivos de equivalência patrimonial relativos à participação em VOTORANTIM GMBH. 5.30. Como se não bastassem os conflitos lógicos demonstrados acima, a autoridade fiscal adota, ainda, no item 27 do TVF, uma terceira linha de argumentação: a de que o objeto dos AUTOS seriam os lucros das controladas indiretas, e não de VOTORANTIM GMBH: “27. Pelo motivo acima, passamos a calcular o valor dos lucros auferidos por suas controladas indiretas, ainda não autuado em procedimento fiscal anteriormente concluído;” 5.31. Essa linha de raciocínio não encontra suporte no método utilizado pelo TVF para apurar o suposto crédito tributário (item 2.14., acima). Além disso, os lucros das controladas indiretas foram integralmente tributados nos autos de infração de 26.03.2013. 5.32. Estas não são as únicas incoerências internas de que padece o TVF. As autoridades fiscais autuantes afirmam buscar apoio na decisão do 1° CC no julgamento do Caso Eagle II, e terminam por afastar a aplicação de todo e qualquer acordo para evitar a dupla tributação celebrado pelos países de residência das controladas diretas e indiretas da IMPUGNANTE com o Brasil. Lêse no TVF (fls. 1396 e 1397 dos autos): “Em que pese o fato do art. 74 da MP 2.15835 evitar o diferimento da tributação do acréscimo patrimonial auferido pela empresa sediada no Brasil, em decorrência dos lucros obtidos por sua(s) controlada(s) ou coligada(s) no exterior (V. ITEM 22.4), independentemente do fato de ser(em) sediada(s) ou não em país com acordo para evitar dupla tributação com o Brasil, o acordo internacional não alcança os lucros gerados por pessoa jurídica que não reside, em qualquer dos EstadosContratantes, ou seja, gerados pelos SubGrupos ‘Controladas Indiretas da Cazben 1’ e ‘Controladas Indiretas da Cazben 2’ como decidido pela antiga Primeira Câmara do 1° Conselho de Contribuintes, no julgamento do caso Eagle: ‘LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR INTERMÉDIO DE CONTROLADAS INDIRETAS Para fins de aplicação do art. 74 da MP n° 215835, os resultados de controladas indiretas consideramse auferidos diretamente pela investidora brasileira, e sua tributação no Brasil não se submete às regras do tratado internacional firmado com o país de residência da controlada direta, mormente quando esses resultados não foram produzidos em operações realizadas no país de residência da controlada, evidenciado o planejamento fiscal para não tributálos no Brasil’ (Acórdão 10197.070. Relatora: Sandra Faroni. Sessão de 17/12/2008). [...] Em suma: não há qualquer dispositivo legal que exclua os resultados apurados por sociedade controlada indiretamente da tributação universal, e, portanto, a Cazben deveria ter disponibilizado os lucros auferidos por TODAS as suas controladas indiretas. [...] Fl. 1872DF CARF MF 36 Por tudo o que foi arrazoado, entendemos que devem ser tributados os lucros auferidos pelas Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA Delaware), Votorantim International Europe, Votorantim International Australia Pty (Austrália), Citrovita NV (Bélgica), The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao), por ser a VPar efetivamente a beneficiária de tais resultados além de, conforme a legislação brasileira, ser controladora indireta das empresas sediadas em terceiros países”. 5.33. Todavia, no Caso Eagle II, os conselheiros entenderam que os lucros não disponibilizados auferidos por empresas domiciliadas em países com os quais o Brasil celebrou acordo para evitar a dupla tributação não estavam sujeitos à tributação no País, em razão do disposto no art. 7º das referidas convenções, conforme se depreende do trecho abaixo da ementa do mencionado acórdão: “LUCROS ORIUNDOS DE INVESTIMENTO NA ESPANHA Nos termos da Convenção Destinada a Evitar a Dupla Tributação e Prevenir a Evasão Fiscal em Matéria de Imposto sobre a Renda entre Brasil e a Espanha, promulgada pelo Decreto n° 76.975, de 1976, em se tratando de lucros apurados pela sociedade residente na Espanha e que não sejam atribuíveis a estabelecimento permanente situado no Brasil, não pode haver tributação no Brasil” (1° CC. Acórdão n.° 10197.070. Relator designado Valmir Sandri. 17.12.2008). 5.34. Ou seja, o TVF alega fundamentarse em julgado prolatado pelo 1° CC, mas, ao afastar todas as convenções para evitar a dupla tributação celebradas pelo Brasil, acaba por seguir linha de raciocínio que diverge inteiramente da solução adotada no caso supostamente usado como precedente (Caso Eagle II). 5.35. Como se não suficientes as incoerências internas do TVF, o racional desenvolvido nele vai de encontro aos autos de infração de que decorre o processo administrativo n.° 16643.720015/201123 (Doc. 04), formalizado em face da IMPUGNANTE pelas mesmas autoridades fiscais, em relação à mesma estrutura societária e operacional, tendo por objeto apenas período de apuração anterior (o anocalendário de 2007). 5.36. Nesse processo, ao contrário dos AUTOS, não foram tributados os resultados apurados por empresas domiciliadas em países parceiros de acordo de bitributação. Reproduzse a seguir trecho do termo de verificação fiscal do referido processo: “Observese ainda que o resultado da Votorantim International Europe BV (Países Baixos) e da própria Azben (ínfimos US$ 843 mil) não são por nós incluídos no Auto de Infração em virtude do TDT; e o resultado da Votorantim International Europe GmbH (Alemanha) é pífio, não influindo em praticamente nada na presente autuação”. 5.37. A constatação de que o fisco se guia por critérios diversos e incompatíveis para impor a tributação sobre contribuintes na mesma situação reforça, uma vez mais, a conclusão de que a conduta das autoridades autuantes é orientada por uma lógica de “tentativa e erro”, discricionária e absolutamente distante do caráter vinculado da atividade de lançamento, nos termos do parágrafo único do art. 142 do CTN, conforme já evidenciado na seção 4, acima. 5.38. Adicionalmente, a interpretação pretendida pelo TVF esvazia completamente o conteúdo da CONVENÇÃO ÁUSTRIA (e de qualquer acordo para evitar a bitributação). Afinal, o art. 7º da referida convenção tornase praticamente inaplicável, na medida em que qualquer lucro gerado por controlada/coligada na Áustria é tratado pelo Brasil como lucro da investidora brasileira. 5.39. O STJ já decidiu, no REsp n.° 1.161.467/RS, que a interpretação restritiva de convenção para evitar a dupla tributação que culmine com a sua não aplicação deve ser rechaçada, porquanto absurda. Discutiase, neste caso, a aplicação do art. 7º das convenções celebradas pelo Brasil com o Canadá e com a Alemanha (então vigente) para afastar a imposição de imposto de renda sobre remessas para o exterior a título de contraprestação por serviços prestados por empresas estrangeiras. O fisco sustentava que tais pagamentos não representavam “lucro da empresa estrangeira”, de modo que não Fl. 1873DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.856 37 estavam abrangidas pelo disposto no art. 7º das referidas convenções. O Tribunal, no entanto, entendeu o contrário: “A expressão ‘lucro da empresa estrangeira’, contida no art. VII das duas Convenções, não se limita ao ‘lucro real’. Do contrário, não haveria materialidade possível sobre a qual incidir o dispositivo, porque todo e qualquer pagamento ou remuneração remetido ao estrangeiro está sujeito a adições e subtrações ao longo do exercício financeiro. É regra de hermenêutica que devem ser rechaçadas as interpretações que levem ao absurdo, como é o caso da interpretação aqui defendida pela Fazenda Nacional. Com efeito, ao equiparar ‘lucro das empresas estrangeiras’ com ‘lucro real das empresas estrangeiras’, tornou absolutamente inaplicável a norma” (Grifouse). 5.40. Em suma, o TVF faz letra morta da CONVENÇÃO ÁUSTRIA, em absoluta contrariedade ao princípio da boafé, o qual, reconhecidamente, deve reger a interpretação dos tratados internacionais. 5.41. É regra clara da lógica e hermenêutica jurídica a que preceitua que se devem afastar conclusões e interpretações absurdas, despidas de sentido. Nesse sentido, são as lições de CARLOS MAXIMILIANO: “Deve o Direito ser interpretado inteligentemente: não de modo que a ordem legal envolva um absurdo, prescreva inconveniências, vá ter a conclusões inconsistentes ou impossíveis. Também se prefere a exegese de que resulte eficiente a providência legal ou válido o ato, à que torne aquela sem efeito, inócua, ou este, julgamento nulo. [...] Desde que a interpretação pelos processos tradicionais conduz a injustiça flagrante, incoerências do legislador, contradição consigo mesmo, impossibilidades ou absurdos, devese presumir que foram usadas expressões impróprias, inadequadas, e buscar um sentido equitativo, lógico e acorde com o sentir geral e o bem presente e futuro da comunidade” (MAXIMILIANO, Carlos. Hermenêutica e Aplicação do Direito. Rio de Janeiro: Forense, 2006. Pp. 270, 271). 5.42. Sobre o assunto, a doutrina de JOÃO MENDES NETO: “O absurdo na lei não deve ser concebido. Quando a lei nos leva a admitilo, tornase necessário, com o auxílio de processos tradicionais de hermenêutica, e até com os dados modernos da Sociologia, buscar nas suas expressões um sentido equitativo, lógico, ponderado. Quando isso não for possível, é preciso desprezar a lei. ‘Ordenar o que não há meio de fazer, proibir o que se não pode evitar, é desarrazoar, é ensandecer. Não se há de supor que a lei ordinária, quando mais a lei constitucional, caduque e delire. Da interpretação dos textos legislativos se deve refugar sempre o absurdo. Absurdus intellectu ab omni dispositione est abjiciendus’ (Comentários à Constituição, vol. VI, pág. 205). [...] As regras mais elementares da hermenêutica nos ensinam que aos textos legislativos, quando suscetíveis de inteligência razoável, não se deve imputar intenção absurda [...]” (Grifouse) (MENDES NETO, João. Rui Barbosa e a Lógica Jurídica Ensaio de prática da argumentação. São Paulo: Saraiva, 1949. Pp. 132,133). 5.43. Há que se ressaltar, ainda, que o racional desenvolvido pelo TVF no sentido de que a legislação brasileira sujeita à tributação os lucros da investidora brasileira, auferidos por meio da participação na empresa estrangeira também encontra obstáculos em peculiaridades da CONVENÇÃO ÁUSTRIA. 5.44. Com efeito, além de o art. 7º do referido acordo vedar a tributação pelo Brasil dos lucros auferidos por empresas austríacas, o art. 23 (2) da CONVENÇÃO ÁUSTRIA Fl. 1874DF CARF MF 38 determina que os dividendos distribuídos por sociedades austríacas (como é o caso de VOTORANTIM GMBH) à investidora brasileira que detenha mais de 25% do capital social da primeira (como é o caso da IMPUGNANTE) estão isentos de tributação no Brasil: “ARTIGO 23 Método para eliminar a dupla tributação [...] 2. Os dividendos pagos por uma sociedade residente da Áustria a uma sociedade residente do Brasil que possua no mínimo 25% das ações do capital da sociedade que paga os dividendos serão isentos do imposto de sociedade no Brasil.” 5.45. Como se pode observar, de acordo com a CONVENÇÃO ÁUSTRIA, o Brasil não pode sujeitar à tributação os lucros não distribuídos das empresas estrangeiras (art. 7º) e, cumprido o requisito da participação mínima, tampouco pode tributar os lucros distribuídos na forma de dividendos (art. 23 (2)). 5.46. Contudo, a Solução de Consulta Interna da Coordenação Geral de Tributação (“COSIT”) n.° 18, de 08.08.2013 (“Solução de Consulta Interna COSIT n.° 18/13”) – que consolidou o entendimento da RFB de que o art. 74 da MP n.° 2.15835/01 tem por objeto os lucros da investidora brasileira, e portanto não violaria os tratados internacionais para evitar a dupla tributação sustenta que, quando o Estado Contratante deseja renunciar à competência para tributar os lucros não distribuídos por controladas estrangeiras, ele o faz expressamente (de modo que o art. 7º dos acordos não se prestaria a tais fins, deduzse): “32. É importante destacar contudo que, quando um Estado Contratante opta por abrir mão de tributar o seu próprio residente, ele o faz expressamente nos acordos, como se verifica em algumas convenções internacionais assinadas pelo Brasil, a exemplo dos tratados celebrados com a Dinamarca (Decreto n° 75.106, de 20 de dezembro de 1974) e com as Repúblicas Tcheca e Eslovaca (Decreto n° 43, de 25 de fevereiro de 1991), em que foi estabelecida cláusula mediante a qual não são tributáveis os lucros não distribuídos: ‘ARTIGO 23 Métodos para eliminar a dupla tributação 5. Os lucros não distribuídos de uma sociedade anônima de um Estado Contratante cujo capital pertencer ou for controlado, total ou parcialmente, direta ou indiretamente, por um ou mais residentes de outro Estado Contratante não são tributáveis no último Estado’”. 5.47. Para sustentar sua conclusão, a Solução de Consulta Interna COSIT n° 18/13 cita os acordos de bitributação celebrados pelo Brasil com a Dinamarca e com as Repúblicas Tcheca e Eslovaca. Segundo a referida solução de consulta, os lucros auferidos, mas não distribuídos, por controladas dinamarquesas, por exemplo, não poderiam ser tributados pelo Brasil exclusivamente em razão do disposto em seu art. 23 (5), conforme trecho transcrito acima. 5.48. Entretanto, esses acordos (com a Dinamarca e com as Repúblicas Tcheca e Eslovaca) não limitam a tributação, pelo Brasil, dos dividendos distribuídos pela sociedade estrangeira à investidora brasileira, ao contrário da CONVENÇÃO ÁUSTRIA. 5.49. Nesse cenário, além de esvaziar por completo a função do art. 7º das convenções para evitar a dupla tributação, a interpretação adotada pelo TVF contém uma incoerência flagrante. Ora, se a própria COSIT reconhece que há convenções nas quais o Brasil renunciou ao direito de tributar lucros não distribuídos, como se pode admitir a tributação de lucros auferidos por sociedade residente em país cuja convenção com o Brasil impede a tributação até mesmo dos lucros distribuídos, como é o caso da Áustria? 5.50. Ou seja, se até mesmo os lucros eventualmente distribuídos por VOTORANTIM GMBH na forma de dividendos para a IMPUGNANTE não estariam sujeitos à tributação pelo Brasil, certamente os lucros não distribuídos auferidos pela empresa austríaca não devem ser tributados no País, de modo que devem ser cancelados os AUTOS. 6. DA TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DAS CONTROLADAS E COLIGADAS NO EXTERIOR Fl. 1875DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.857 39 6.1. A tributação dos lucros das controladas e coligadas estrangeiras, introduzida pela Lei n.° 9.249/95: (i) desconsideravalhes a personalidade jurídica, equiparandoas a meras filiais ou sucursais de sociedades brasileiras; e (ii) incorporava imediatamente os lucros de balanço da sociedade estrangeira à base de cálculo do IRPJ da sua controladora/coligada brasileira, ou seja, na data em que apurados no balanço da sociedade estrangeira (e os convertia à taxa de câmbio de venda do dia das demonstrações financeiras da sociedade estrangeira). 6.2. Foram duas as principais críticas feitas a esse regime de tributação, que implica a absoluta transparência da empresa do exterior para fins fiscais no Brasil: (i) infringência ao art. 146, III, “a”, da Constituição Federal de 1988 (“CF/88”), e ao art. 43 do CTN (que define o fato gerador do imposto de renda), por desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade estrangeira geradora do lucro e tributálo de imediato como se desde o seu surgimento pertencesse à sua controladora, exatamente o que o Plenário do Supremo Tribunal Federal (“STF”) repudiara pouco antes ao declarar inconstitucional o imposto sobre o lucro líquido (“ILL”) no Recurso Extraordinário (“RE”) n° 172.058SC (RTJ 161/1043); e (ii) violação das mais de 20 convenções para evitar bitributação da renda então já celebradas pelo Brasil, sob as quais os lucros das empresas são tributados apenas no país em que gerados. 6.3. Ante essas críticas, a Secretaria da Receita Federal (“SRF”) baixou a Instrução Normativa n.° 38, de 27.06.1996 (“IN SRF n.° 38/96”), que, a pretexto de regulamentar a Lei n° 9.249/95, mudoulhe totalmente a essência: os lucros da controlada ou coligada estrangeira passaram a ser tributados na investidora brasileira apenas quando “disponibilizados” em favor desta, ou seja, quando a esta efetivamente transferidos por pagamento, crédito, remessa, entrega ou emprego. 6.4. Ao contrário da Lei n° 9.249/95, a IN SRF n.° 38/96 respeitou a personalidade jurídica da empresa estrangeira e os seus lucros passaram a ser tributados no Brasil apenas quando distribuídos, como dividendos, o que, em tese, a legislação interna e as convenções salvo algumas exceções admitiriam. 6.5. O regime da IN SRF n.° 38/96 foi elevado ao plano de lei ordinária em 1997, pela Lei n° 9.532, de 10.12.1997 (“Lei n.° 9.532/97”), o que atesta o reconhecimento do fisco da invalidade das normas da Lei n° 9.249/95 e da IN SRF n° 38/96. 6.6. Nessa linha manifestouse o Ministro de Estado da Fazenda, na Exposição de Motivos n° 644, com que encaminhou à Presidência o projeto de medida provisória que se transformou na Lei n° 9.532/97: “4. O art. 1º do Projeto referese às hipóteses em que os lucros auferidos por filiais, sucursais, controladas ou coligadas de empresas brasileiras no exterior são considerados disponíveis para a investidora no Brasil. Esta definição é importante do ponto de vista tributário, tendo em vista que o fato gerador do imposto de renda, na hipótese desses rendimentos, ocorre com a disponibilização dos lucros auferidos no exterior” (Grifouse). 6.7. O parágrafo 2° do art. 43 do CTN, acrescido pela Lei Complementar n° 104, de 10.01.2001 (“LC n.° 104/01”), dispôs que a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará a disponibilidade de receita e rendimentos oriundos do exterior. 6.8. Com suposto apoio nessa norma, o art. 74 da MP n.° 2.15834, de 27.07.2001 (posteriormente revogada pela MP n.° 2.15835/01): (i) determina a tributação, no Brasil e como se tivessem sido “disponibilizados” à investidora brasileira, os lucros de sua controlada ou coligada estrangeira na data em que registrados no balanço desta, ou seja, com transparência, com desconsideração da personalidade jurídica da empresa do exterior e violação do art. 146, III, “a”, da CF/88, como reconhecido pelo STF no precedente do ILL; (ii) repristina indiretamente o regime da Lei n° 9.249/95, já revogado, nessa parte, pela Lei n° 9.532/97; e (iii) na sua parte final, delega a “regulamento” dispor sobre contribuinte e base de cálculo de imposto de renda, o que cabe somente a lei complementar e sequer MP ou lei ordinária poderia fazer. Fl. 1876DF CARF MF 40 6.9. Em suma, o art. 74 da MP n.° 2.15835/01 cria ficção de fato gerador de IR. tanto que “considera disponibilizados” os lucros do exterior em data certa; seja o tivessem sido, tal norma não precisaria “considerar disponibilizados” esses lucros, e tributa uma não renda, ou renda inexistente, e em poder de quem não teve acréscimo patrimonial algum. 6.10. Nesse sentido manifestouse o Ministro JOAQUIM BARBOSA, ao proferir seu voto no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 2.588 (“ADI 2.588”), interposta pela Confederação Nacional da Indústria (“CNI”), em 21.12.2001, para questionar o art. 74 da MP n° 2.15835/01. Segundo o Ministro, não há qualquer espécie de correspondência entre o fim do ano civil e a disponibilização de lucros auferidos por sociedades investidas no exterior: “[...] inexiste qualquer relação necessária entre o dia 31 de dezembro de cada ano e a disponibilização de recursos provenientes de participações nos lucros e nos resultados de investimentos. Nem mesmo os tortuosos jogos de palavras com as expressões ‘disponibilidade econômica’, ‘disponibilidade jurídica’ são capazes de escamotear essa dissociação. [...] Em conclusão, o término do ano civil para fins tributários não pode ser singelamente considerado como o momento no qual há ou deve haver a distribuição de lucros aos sócios ou aos acionistas. E, ao meu sentir, é incorreta a utilização do método chamado MEP para suprir essa dissociação entre o marco escolhido pela tributação e a disponibilidade jurídica da renda proveniente dos lucros distribuídos. [...] Na Ação Direta n° 2.588, eu conheço da Ação Direta e a julgo parcialmente procedente, para dar interpretação conforme a Constituição ao art. 74 da MP 2.158, de modo a limitar a sua aplicação à tributação das pessoas jurídicas sediadas no Brasil cujas controladas ou coligadas no exterior estejam localizadas em países de tributação favorecida, ou seja, os países desprovidos de controles societários e fiscais adequados, normalmente conhecidos como Paraísos Fiscais. Esse é o meu voto.” (Grifouse.) 6.11. Ou seja, ao equiparar o mero registro contábil dos lucros das sociedades investidas à sua efetiva disponibilização para a IMPUGNANTE, sem que tenha havido qualquer deliberação societária determinando o pagamento desse suposto “lucro” à investidora, o TVF desrespeitou o conceito de renda adotado pela legislação pátria, que pressupõe efetiva disponibilidade econômica ou jurídica. Em outras palavras, o art. 74 da MP n° 2.15835/01 não se coaduna com a sistemática brasileira de tributação da renda; é, portanto, ilegal. 7. DA IMPROCEDÊNCIA DA EXIGÊNCIA DE MULTA À IMPUGNANTE POR SUPOSTA INFRAÇÃO COMETIDA POR CAZBEN 7.1. Caso sejam superados os argumentos expostos acima, o que se admite para fins de argumentação, ainda assim, a multa imposta à IMPUGNANTE não seria cabível. Isso porque, o crédito constituído contra a IMPUGNANTE referese a fatos geradores ocorridos no anocalendário de 2008, quando a participação societária em VOTORANTIM GMBH, objeto da presente autuação, pertencia à empresa CAZBEN, posteriormente sucedida pela IMPUGNANTE, por incorporação. 7. 2. Neste contexto, aplicase ao presente caso o art. 132 do CTN, assim redigido: “Art. 132. A pessoa jurídica de direito privado que resultar de fusão, transformação ou incorporação de outra ou em outra é responsável pelos tributos devidos até a data do ato pelas pessoas jurídicas de direito privado fusionadas, transformadas ou incorporadas.” (Grifouse.) 7.3. Como se vê, a empresa sucessora é responsável apenas pelo pagamento dos tributos devidos pela pessoa jurídica incorporada, mas não pelas penalidades pecuniárias decorrentes do não pagamento desses tributos. Nesse sentido, afirma LUCIANO AMARO: “Outra questão que merece registro é o das multas por infrações que possam ter sido praticadas antes do evento que caracterize a sucessão. Tanto nas hipóteses do art. 132 Fl. 1877DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.858 41 como nas do art. 133, referese a responsabilidade por tributos. Estariam aí incluídas as multas? Várias razões militam contra essa inclusão. Há o princípio da personalização da pena, aplicável também em matéria de sanções administrativas. Ademais, o próprio Código define tributo, excluindo expressamente a sanção de ilícito (art. 30). Outro argumento de ordem sistemática está no art. 134; ao cuidar da responsabilidade de terceiros, esse dispositivo não fala em tributos, mas em “obrigação tributária” (abrangente também as penalidades pecuniárias, ex vi do art. 113, § 1°). Esse artigo, contudo, limitou a sanção às penalidades de caráter moratório (embora ali se cuide de atos ou omissões imputáveis aos responsáveis). Se, quando o Código quis abranger penalidades, usou de linguagem harmônica com os conceitos por ele fixados, há de entenderse que, ao mencionar responsabilidade por tributos, não quis abarcar as sanções. Por outro lado, se dúvida houvesse, entre punir ou não o sucessor, o art. 112 do Código manda aplicar o princípio in dúbio pro reo. O Supremo Tribunal Federal, em vários julgados, negou a responsabilidade do sucessor por multas referidas a infrações do sucedido” (AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2005. P. 325). 7.4. Destaquese, inclusive, que as próprias cortes administrativas já reconheceram a inexistência de sucessão quanto às multas tributárias, como demonstra o acórdão proferido pelo 1º CC (atual CARF), assim ementado: “Multa Empresa Sucessora Responsabilidade Pessoal da Imputação Inaplicabilidade Uma vez comprovado que a empresa sucedida foi incorporada anteriormente ao lançamento de ofício, sendo que os atos que conduziram a aplicação da multa foram apurados na gestão da empresa sucedida, não se pode responsabilizar a empresa sucessora, com a multa isolada, uma vez patente, tanto na doutrina, quanto na jurisprudência administrativa e judiciária, a responsabilidade pessoal do agente em matéria penal, como é o presente caso. Portanto, inaplicável a multa conforme lançada contra a empresa sucessora. Lançamento improcedente. Recurso Provido” (1° CC. Acórdão n.° 10194.950. Rel. Orlando José Gonçalves Bueno. 15.04.2005.) 7.5. Dessa forma, mesmo que fosse devido o IRPJ e a CSL ora lançados, não seria cabível a imposição da multa relativa ao seu não pagamento, sob pena de ofensa ao artigo 132 do CTN. 8. DAS CONCLUSÕES E DOS PEDIDOS 8.1. Conforme exaustivamente demonstrado nesta impugnação, os AUTOS não podem prosperar, pois: (i) não está presente nenhuma das hipóteses permissivas da revisão do lançamento previstas no art. 149 do CTN; (ii) as autoridades autuantes alteraram o critério jurídico que fora adotado em autos de infração lavrados anteriormente para tributar a IMPUGNANTE em relação ao mesmo período de apuração, em violação ao art. 146 do CTN e também ao art. 142 do CTN, segundo a qual a atividade de lançamento é plenamente vinculada, de modo que não pode ser orientada por lógica de tentativa e erro; (iii) fundamentamse em documento (LAUDO DE INCORPORAÇÃO de CAZBEN) que não revela o resultado final de VOTORANTIM GMBH no anocalendário de 2008, de modo que tal documento não tem relação com o fato gerador do IRPJ e da CSL e, portanto, não pode ser utilizado para fins de apuração dos referidos tributos; (iv) desrespeitam a norma segundo a qual o resultado positivo de equivalência patrimonial relativo a investimentos no exterior não será considerado para fins de apuração do IRPJ; (v) violam as convenções para evitar a dupla tributação celebradas pelo Brasil, cujos arts. 7º dispõem que os lucros auferidos por empresas estrangeiras e não disponibilizados não serão tributados pelo Brasil; Fl. 1878DF CARF MF 42 (vi) o art. 74 da MP n° 2.15835/01 cria ficção de fato gerador de IR, e tributa uma não renda, ou renda inexistente, e em poder de quem não teve acréscimo patrimonial algum, no caso, a IMPUGNANTE; (vii) o mero registro contábil do lucro das sociedades no exterior não representa a imediata disponibilidade econômica ou jurídica desses lucros à IMPUGNANTE; e (viii) na linha do voto do Min. JOAQUIM BARBOSA, o alcance do art. 74 da MP n.° 2.158 35/01 é restrito aos lucros auferidos em paraísos fiscais. 8.2. Dessa forma, a IMPUGNANTE requer sejam cancelados integralmente os AUTOS. 8.3. Subsidiariamente, a IMPUGNANTE requer seja excluída a multa de ofício imposta, nos termos do art. 132 do CTN. DA DECISÃO DE PRIMEIRO GRAU A decisão de primeiro grau negou provimento à impugnação nos termos da ementa abaixo transcrita: AUTO DE INFRAÇÃO. NULIDADE. A admissibilidade de nulidade da autuação fiscal promovese apenas em relação aos atos e termos lavrados por agente incompetente, bem assim repercutem na tramitação processual defronte circunstâncias que denotem a ocorrência do cerceamento do exercício do direito de defesa do contribuinte. LANÇAMENTO COMPLEMENTAR. ADMISSIBILIDADE. Revelase plenamente regular a feitura de lançamento complementar diante da certificação de incorreções e inexatidões em exames supervenientes desde que promovido com coerência lógica com os fundamentos jurídicos e conclusões assentados na autuação originária, bem assim com observância com os demais pressupostos normativos essenciais para determinação da validade do auto de infração. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. INOCORRÊNCIA. Descabe a alegação de mudança de critério jurídico relacionado ao lançamento complementar na hipótese em que evidente a observância da interpretação e da coerência lógica empregada na caracterização da infração tributária que determinou a lavratura da autuação originária. CERCEAMENTO DE DEFESA. Certificado que o sujeito passivo foi regularmente cientificado da autuação e concedido prazo regular para a instauração da fase contenciosa do procedimento, descabida a alegação de preterição do direito de defesa. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. LIMITAÇÃO DETERMINADA PELO PRINCÍPIO DA UNICIDADE DE Fl. 1879DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.859 43 JURISDIÇÃO. MANDADO DE SEGURANÇA PREVENTIVO. INGRESSO DE MEDIDA JUDICIAL DE OBJETO E CAUSA DE PEDIR COM CONTEÚDO ANÁLOGO À IMPUGNAÇÃO APRESENTADA NA ESFERA ADMINISTRATIVA. CONCOMITÂNCIA. PREJUDICIALIDADE. A imposição do princípio da unicidade de jurisdição no sistema processual brasileiro determina uma regra delimitadora à instauração da fase litigiosa do procedimento na esfera administrativa competente, visto que defeso a coexistência simultânea de litigância análoga àquela em tramitação na via judicial. Importa em renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de medida judicial sob qualquer natureza de modalidade processual, antes ou depois do lançamento de oficio e independentemente da consecução ou não de provimento jurisdicional, sobretudo quando configurada a identidade do conteúdo do objeto da pretensão e da causa de pedir demandada na esfera administrativa e na via judicial. MULTA DE OFÍCIO. RESPONSABILIDADE DA SUCESSORA POR INCORPORAÇÃO. A incorporadora é responsável pelo pagamento da multa decorrente de infração atribuída à incorporada, mormente se sucessora e sucedida são empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. RECURSO VOLUNTÁRIO O contribuinte apresentou recurso voluntário (FL. 1.6561.714) em que reitera as mesmas razões suscitadas na peça impugnatória. CONTRARRAZÕES A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões às fls. 1717 1774. É o relatório. Voto Conselheiro Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Relator O presente feito (16643.720067/201361) guarda relação com outros três: 16643.720017/201384, 16643.720068/201314 e 16643.720018/201329. Fl. 1880DF CARF MF 44 Os de número 16643.720017/201384, 16643.720068/201314 referemse aos mesmos fatos com a mesma qualificação jurídica. A única diferença entre os dois diz respeito ao tipo de sucessão que levou os créditos lançados a serem atribuídos ao recorrente. A sucessão, porém, não é objeto de litígio. De igual sorte, os de número 16643.720067/201361 e 16643.720068/201314 guardam a mesma relação entre si. Por outro lado, no processo 16643.720068/201314, agravase a exigência em relação ao processo 16643.720018/201329 e, da mesma maneira, no processo 16643.720067/201361, que estamos a julgar, formalizase idêntico agravamento em relação ao proceso nº 16643.720017/201384. Pois bem, as peças de acusação e defesa nos processos 16643.720068/2013 14 e 16643.720067/201361, exceto em relação ao caminho sucessório, são absolutamente similares e, naquele, já houve decisão proferida pelo CARF, mediante o acórdão nº 1201 001.687, de 17 de maio de 2017. Naquela oportunidade, a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara desta Sessão decidiu dar provimento por unanimidade ao recurso voluntário, nos termos da seguinte ementa: ARTIGO 149 DO CTN. REFISCALIZAÇÃO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO E MOTIVAÇÃO. IMPROCEDÊNCIA DA AUTUAÇÃO. A revisão de lançamento fiscal somente é cabível no caso da fiscalização fundamentar e motivar a ocorrência de uma ou mais hipóteses permissivas constantes do artigo 149 do CTN, sob pena de improcedência do Auto de Infração. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. MODIFICAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ERRO DE DIREITO. VEDAÇÃO. É vedada à administração pública o reexame de matéria e período já fiscalizados com base na mudança de critério jurídico e/ou erro de direito. IRPJ. TRIBUTAÇÃO DE LUCROS NO EXTERIOR. PRESUNÇÃO SIMPLES. ILEGALIDADE. É ilegal o lançamento de IRPJ feito com base na presunção simples de existência de lucro no exterior, apurado com base na receita de equivalência patrimonial registrada por empresa do grupo com base em balanço intermediário levantado em 30/11 para efeito de incorporação. O voto condutor foi assim proferido: A presente discussão é composta por argumentos preliminares que dizem respeito à legitimidade ou não da refiscalização e do respectivo critério jurídico empregado pela fiscalização. Superados esses temas, e caso os argumentos em prol da ilegitimidade do procedimento fiscal não sejam acolhidos, necessária a análise do mérito propriamente dito, o qual, em suma, envolve as matérias da existência ou não de concomitância da presente lide com determinada ação judicial proposta pelo contribuinte, assim como sobre a "prevalência" ou não do artigo 7° do Tratado Brasil e Áustria em relação ao artigo 74 da MP 2.158/35. É incontroverso na presente lide que as exigências constituídas por meio do presente processo são decorrentes de um reexame de período (2008) já fiscalizado. Isso pode ser facialmente constatado em diversas passagens do TVF, tais como no item 3 (que o Fl. 1881DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.860 45 fiscal afirma categoricamente tratarse de hipótese de reanálise) e no item 19, no qual a fiscalização certifica que os valores autuados no processo n° 16643720018/201329 foram excluídos deste lançamento, por tratarse de cobrança complementar. Essa revisão do lançamento foi motivada em face da "discrepância entre os valores de lucros auferidos pelas controladas da Votorantim GmbH Áustria (antes AZBEN Holding G.M.B.H.), conforme documentos apresentados pela fiscalizada (prejuízo de 200.700.00 € ou seja, R$469.035.900,00), e o resultado, constante dos demonstrativos da CAZBEN PARTICIPAÇÕES DO BRASIL LTDA., CNPJ n° 05.322.792/000134, controlada da fiscalizada, quando de sua incorporação pela mesma em novembro de 2008 (resultado positivo de equivalência patrimonial de R$ 254.369.940,49" e fundamentada no artigo 906 do RIR/99 ("em relação ao mesmo exercício, só é possível um segundo exame, mediante ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal"). No entender, então, do auditor fiscal autuante, uma vez constatada eventual discrepância entre documentos já fiscalizados anteriormente, basta a emissão de uma ordem da Superintendência, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal para que seja juridicamente possível reexaminar período já fiscalizado. Nenhum reparo caberia ao raciocínio, não fosse, é certo, um "pequeno detalhe": a refiscalização é matéria regulamentada pelos artigos 145 e 149 do CTN, que assim prescrevem: "Artigo 145 O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: [... ] III iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no artigo 149." "Artigo 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recusese a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; Fl. 1882DF CARF MF 46 VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública." Embora seja possível sustentar que a autorização referida no art. 906 do RIR/99 seja suficiente, do ponto de vista formal, a permitir o reexame de período já fiscalizado, a refiscalização ainda está condicionada às hipóteses descritas no artigo 149. Como se nota, o artigo 149 do CTN regulamentou pormenorizadamente as hipóteses de refiscalização ao indicar uma lista numerosa e taxativa das situações que permitem a revisão de ofício do lançamento. Nesse passo, a conhecida distinção entre "erro de fato" e "erro de direito" é pertinente, pois os incisos I a IX acima são hipóteses de erro de fato, e não de erro de direito. O mencionado preceito legal, pois, só autoriza a revisão do lançamento quando, em procedimento de fiscalização, for confirmado de forma inequívoca que o contribuinte ou a autoridade fiscal se utilizaram de práticas irregulares resultando em não pagamento do tributo, pois caso contrário, estarseia diante de um cenário de completa insegurança jurídica, onde o contribuinte, após ter o seu lançamento homologado pela administração, estaria sujeito a cobranças posteriores. Destacamse, nesse sentido, o posicionamento doutrinário sobre o assunto. Vejase, a título exemplificativo, algumas lições sobre a matéria: "O que o artigo (art. 149) afirma é que, se vier a ser comprovado que o sujeito passivo desvirtuou a sua declaração, agindo com dolo, fraude ou simulação, o lançamento efetivado com base nessa declaração poderá ser revisto de ofício, resultando daí a sua anulação, total ou parcial, ou sua complementação ou substituição por um novo lançamento, desta feita de ofício". g.n. (FREITAS, Vladimir Passos. Código Tributário Nacional Comentado. Editora Revista dos Tribunais. 5 a edição, 2011, página 769) "O tema da revisão do lançamento por iniciativa de ofício da autoridade administrativa envolve a ponderação de um conflito latente entre o princípio da legalidade favorável à eliminação da ilegalidade que tenha afetado o ato primário de lançamento e o princípio da segurança jurídica favorável à estabilidade das situações jurídicas subjetivas declaradas por atos da autoridade pública. Ora, se é certo que a restauração da legalidade violada, pela revisão do ato ilegal, reclama o afastamento de limites que a impeçam ou dificultem, também é verdade que a inexistência desses limites geraria para os particulares intoleráveis situações de incerteza, submetendoos, porventura de surpresa, a uma pluralidade de novas definições da Fl. 1883DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.861 47 mesma situação jurídica, por ato da mesma autoridade ou de autoridade distinta, num reexercício ilimitado do seu poder de lançar. Sistemas baseados numa ilimitada revisibilidade dos atos tributários por iniciativa da Administração só podem conceberse em ordens jurídicas de inspiração totalitária, avessas à ideia de segurança jurídica, como a do nacionalsocialismo alemão que autorizava a Administração fiscal a corrigir, sem quaisquer limites, os erros das suas decisões". (XAVIER, Alberto. Do lançamento: Teoria Geral do Ato do Procedimento e do Processo Tributário. Editora Forense. 2a edição, 1997, página 239) "o lançamento, em razão das suas características e dos efeitos que dele decorrem, quer seja, mais exatamente, considerado como um elemento do processo formativo da obrigação tributária, não pode ser revisto, modificado ou substituído por outro, por ato espontâneo da Administração, em prejuízo do contribuinte, com fundamento em erro incorrido na valoração jurídica dos dados ou elementos de fato em que se tenha baseado, quer tal valoração jurídica tenha sido efetuada diretamente pela Administração, quer tenha sido adiantada pelo contribuinte ou terceiro obrigado à declaração ou informação, e aceita pela Administração" (DE SOUZA. Rubens Gomes. Revista de Direito Administrativo, Volume 14, Pagina 24). Nessa linha de raciocínio, temos que a homologação do lançamento, que no presente caso foi realizada de ofício pela administração pública quando da emissão dos Autos de Infração objeto do processo administrativo n° 16.643720.018/201329, só poderia ser revista pela administração pública caso ela motivasse e comprovasse tratarse de uma das hipóteses do artigo 149 do CTN. Ocorre, entretanto, que os Autos de Infração e o TVF não indicam nenhuma das hipóteses previstas em tal dispositivo e sequer fazem menção ao referido artigo 149. Ora, ao agravar um lançamento já finalizado e homologado de ofício, é dever do fisco demonstrar o preenchimento dos requisitos exigidos pelo artigo 149 do CTN. Uma omissão nesse sentido como ocorreu no caso concreto contamina a autuação. Nesse sentido é o entendimento proferido pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme atesta a ementa do julgado abaixo. NORMAS PROCEDIMENTAIS. REFISCALIZAÇÃO. ARTIGO 149, CTN. AUSÊNCIA COMPROVAÇÃO DOS FATOS ENSEJADORES DA REVISÃO DE LANÇAMENTO. IMPROCEDÊNCIA AUTUAÇÃO. A revisão de lançamento fiscal somente poderá ser levada a efeito quando devidamente enquadrada no artigo 149, e incisos, do CTN, impondo, ainda, ao fiscal autuante a devida comprovação da ocorrência de uma ou mais hipóteses permissivas constantes daquele dispositivo legal, em observância à segurança jurídica dos atos administrativos, bem como à ampla defesa e contraditório do contribuinte, sob pena de improcedência da autuação. (Acórdão CSRF 0202.922. Sessão de 28/01/2008). Pela clareza do voto, trago à baila a seguinte passagem do voto condutor proferido no julgado em questão. Fl. 1884DF CARF MF 48 "Nessa esteira de entendimento, é de bom alvitre esclarecer que não basta o fiscal autuante consignar no Termo de Verificação Fiscal o documento da lavra de autoridade superior determinando o reexame de período já fiscalizado, tendo em vista não ter o condão de motivar o lançamento, de forma a tornálo válido, devendo haver a efetiva comprovação de uma das hipóteses previstas no artigo 149, do CTN, sob pena de cerceamento do seu direito de defesa da contribuinte, não lhe oferecendo, igualmente, a segurança jurídica, que deve nortear os atos da administração. Mais a mais, o artigo 906, do RIR/1999, contempla tão somente o reexame de período já fiscalizado, ou seja, a refiscalização, que estará vinculada à ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal. Entrementes, a revisão do lançamento anteriormente efetuado, objeto do reexame, somente poderá ser procedida quando restar comprovada uma das hipóteses permissivas constantes do artigo 149, do CTN. Em outras palavras, existindo ordem expressa da autoridade fiscal competente, o fisco poderá refiscalizar/reexaminar períodos já fiscalizados quantas vezes entender necessárias. Porém, a revisão do lançamento anterior, ou melhor, a exigência de diferenças relativas a períodos já fiscalizados, objetos de lançamento pretérito, somente deverá ser efetuada quanto encontrar sustentáculo na norma legal que regulamenta a matéria, artigo 149, do CTN, o qual impõe a comprovação da efetiva ocorrência das hipóteses insculpidas em seus incisos, o que não se constata no caso vertente. De igual forma, referida omissão impossibilita que as autoridades julgadoras tenham conhecimento pleno de todos os fatos motivadores do lançamento, com a finalidade de formar sua livre convicção quanto a regularidade do feito, sobretudo quando é cediço que, tratandose de erro de direito na autuação anterior, não poderá haver a revisão do lançamento. Nessa toada, a indicação clara e precisa, dos fatos que ensejaram a revisão do lançamento, devidamente comprovados, com a respectiva motivação na norma legal (artigo 149, CTN), é condição sine qua non à validade do ato administrativo sub examine. Corroborando o entendimento acima esposado, frisese que a própria autoridade julgadora de primeira instância, reconhecendo a omissão incorrida pelo fiscal autuante, tentou, sem muita especificidade, demonstrar a existência dos requisitos necessários à revisão do lançamento, procurando enquadrála nos incisos IV e VIII, do artigo 149, do CTN, não logrando êxito em sua empreitada, eis que, igualmente, não foi precisa em suas conclusões nem muito mesmo comprovou a ocorrência de fato novo ou erro/omissão no lançamento anterior. Destarte, ao proceder de forma omissa, deixando de demonstrar e comprovar no Termo de Verificação Fiscal os motivos que levaram o fisco a promover a revisão do lançamento, bem como o dispositivo legal que a contempla, qual seja, artigo 149, e incisos, do CTN, na forma que determina a legislação tributária, o ilustre fiscal autuante incorreu em vicio insanável, capaz de determinar a improcedência do feito." Fl. 1885DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.862 49 Caminhando nessa mesma trilha, entendo que, diante da ausência de motivação e fundamentação para ter adotado o método excepcional de refiscalização, entendo que a revisão do lançamento levada a cabo pela autoridade fiscal responsável pelo presente lançamento configurase ato administrativo ilegal. Mas, não é só. No caso presente, a autoridade fiscal voltou a examinar a mesma relação jurídica que foi objeto do processo administrativo n° 16643.720018/201329, mas adotou um critério jurídico diferente do que foi empregado naquela ocasião e também contraditório com os próprios termos relatados no TVF. No "primeiro caso", do qual também fui designado como relator, os Autos de Infração de IRPJ e CSLL também têm por objeto a tributação dos lucros auferidos pelas controladas indiretas, apurados individualmente considerados, lucros estes que foram apurados pela fiscalização com base na DIPJ e nos demais documentos fornecidos pela Recorrente, notadamente as demonstrações financeiras levantadas em 31/12/2008. A autoridade fiscal autuante, após citar determinados dispositivos legais, e com base em determinado precedente jurisprudencial do CARF (Acórdão 101.97.070 "caso Eagle"), sustenta que (fls. 1.408 e 1.410): Não existe, na legislação brasileira, qualquer regra que limite a tributação universal apenas aos lucros apurados por controladas diretas. O conceito legal de sociedade controlada definido no art. 243, parágrafo 2°, da Lei n° 6.404/76 abarca tanto as controladas diretas quanto as indiretas, e esse conceito foi recepcionado sem qualquer ressalva pela legislação tributária, como será pormenorizado a seguir. [... ] Em suma: não há qualquer dispositivo legal que exclua os resultados apurados por sociedade controlada indiretamente da tributação universal, e, portanto, a Cazben deveria ter disponibilizado os lucros auferidos por TODAS as suas controladas indiretas.[...] Mais adiante, o TVF chega a sustentar que (fls. 1.417, 1.420 e seguintes): 45. Convenção BrasilAustria para evitar a dupla tributação e da interposição de sociedade com finalidade elisiva. (grifei) [... ] Não podemos nos esquecer que nos demonstrativos da Votorantim GmbH Áustria, está bem claro que seu resultado é apenas resultado de operações intraqrupo que poderiam ser efetuadas de qualquer outro lugar do mundo e por qualquer outra empresa do grupo. Dessa forma constatase o abuso ao tratado. [... ] Fl. 1886DF CARF MF 50 Concluise, portanto, que para as pessoas jurídicas, o critério é o lugar de sua sede de direção efetiva, que no caso da fiscalização em análise é o Brasil, pois entendemos que a Votorantim GmbH Austria é mero conector, travestido de empresa operacional, para aproveitamento do benefício tributário. Uma pessoa que atue em um dos Estados contratantes por conta de uma empresa do outro Estado Contratante, desde que não seja um agente independente, será considerado estabelecimento permanente se esta pessoa tiver e habitualmente exercer autoridade para concluir contratos em nome da empresa, excluídos os de compra de bens ou mercadorias para a empresa. Concluise, portanto, que o simples controle de uma sociedade residente em um Estado Contratante, por outra residente em outro Estado contratante, não é suficiente para a caracterização de estabelecimento permanente e que são estabelecimentos estáveis as instalações que adquirem ou realizam diretamente um lucro, tendo caráter imediatamente produtivo, o que não é o caso da Votorantim GmbH. Por tudo o que foi arrazoado, entendemos que devem ser tributados os lucros auferidos pelas Votorantim International Holding NV (Curaçao), Votorantim International North America (USA Delaware, Votorantim International Europe , Votorantim International Australia Pty (Australia, Citrovita NV (Bélgica, The Bulk Services Corp (Cayman), Votorantim Terminal NV (Bélgica), US Zinc Asian Pacific (Barbados), Votorantim Europe KFT (Hungria) e a Votorantrade NV (Curaçao), por ser a VPar efetivamente a beneficiária de tais resultados além de, conforme a legislação brasileira, ser controladora indireta das empresas sediadas em terceiros países." Como se nota, o critério jurídico utilizado para a lavratura dos Autos de Infração de março de 2013 consistiu na apuração do lucro individual proveniente de cada uma das empresas investidas pela controlada indireta, sob a premissa de que não haveria proibição legal para assim proceder e, mais ainda, em face da "desconsideração" da Votorantim GmbHÁustria pela autoridade autuante. Vale dizer, naquela ocasião, o fisco, após constatar que a Votorantim GmbHÁustria não teria "substância" afinal seria uma holding que apenas possuiria participações societárias em empresas do mesmo grupo , entendeu tratarse de empresa simulada, razão pela qual considerou o lucro tributável a soma dos lucros de cada uma das empresas (tributação individual), e não pelo conjunto dos resultados registrados (tributação consolidada). Já em setembro de 2013, a autoridade fiscal, ao proceder a malfadada reanálise, alegou ter verificado a existência de saldo devedor em aberto a título de IRPJ e CSLL sobre os lucros daquelas mesmas controladas indiretas, lucros estes apurados a partir da análise do Laudo de Incorporação da referida empresa Cazben, que registra que, em setembro de 2008, a Cazben teria auferido resultado de equivalência patrimonial da ordem de R$ 254.369.940,49. A partir desse valor, e considerando a participação societária de 40% da Recorrente na sociedade austríaca, a fiscalização adotou uma certa linha que entendeu lógica (vide itens 27 a 33 do TVF), encontrando um novo valor a título de lucro da Votorantim Fl. 1887DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.863 51 GmbH Áustria, de R$ 109.466.299,13, quantia superior ao que havia apurado na fiscalização encerrada alguns meses antes. Ato contínuo, concluiu que: 33. Sabemos também que desse valor, R$ 39.587.752,90 já haviam sido anteriormente autuados (V. Item 22), restando R$ 69.878.546,23 objeto de autuação no presente processo. Por ocasião, então, do reexame, o lucro do exterior apurado foi imputado pelo agente fiscal à própria Votorantim GmbH Áustria com base na receita de equivalência patrimonial indicada em balanço levantado pela Cazben em razão de sua incorporação, em 30/11/2008, pela Recorrente. A meu ver resta patente que esse segundo critério, adotado na nova fiscalização, é totalmente diferente do até então utilizado. No primeiro momento, a tributação dos lucros ocorreu de forma individual com base nos balanços de 31/12/2008 de cada uma das empresas controladas indiretamente (investidas da Votorantim Áustria). Neste processo, todavia, a tributação ocorreu em face de um "único resultado", pretensamente apurado pela Votorantim Áustria, que é, digase de passagem, a mesma sociedade que foi considerada simulada (interposta), conforme visto. E, mais ainda, naquele caso o fisco levou em conta os valores dos lucros das empresas no exterior controladas indiretas com base nas demonstrações de 31/12/2008. Neste caso, o método adotado foi o de tomar como parâmetro o valor registrado a título de receita de equivalência patrimonial da Cazben datada de 30/11/2008. Não é difícil notar, a meu ver, o emprego de dois diferentes critérios jurídicos para uma mesma relação jurídica, o que é vedado pelo ordenamento jurídico. A mudança do critério jurídico sobre o lançamento é impossível juridicamente, como decorrência lógica dos artigos 145 e 149 do CTN, dada a vedação da revisão de lançamento por erro de direito, conforme já exposto. Ademais, o CTN buscou reforçar a proteção sobre os eventos já fiscalizados por meio do seu artigo 146, in verbis: Artigo 146 A modificação introduzida, de ofício ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução. A leitura desse dispositivo legal não deixa dúvidas de que o critério jurídico não pode ser alterado após a realização do lançamento, notadamente quando há notório erro de direito, caracterizado, nesse caso concreto, por equivocada e contraditória valoração jurídica dos fatos. Nesse sentido é a jurisprudência dos tribunais superiores, conforme atesta a decisão do STJ a seguir transcrita. Fl. 1888DF CARF MF 52 TRIBUTARIO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. IMPOSTO DE IMPORTAÇAO. REDUÇAO TARIFARIA. REVISAO DO LANÇAMENTO. ERRO DE DIREITO. SUMULA N° 227/TFR. "A mudança de critério jurídico adotado pelo Fisco não autoriza a revisão de lançamento" (Súmula n° 227/TFR). Precedentes desta Corte. Agravo regimental improvido. (STJ. 1a Turma. AgRg no REsp 423.093. DOU 21/10/2002). TRIBUTÁRIO IMPORTAÇÃO DESEMBARAÇO ADUANEIRO RECLASSIFICAÇÃO DA MERCADORIA REVISÃO DE LANÇAMENTO POR ERRO DE DIREITO IMPOSSIBILIDADE SÚMULA 227 DO EXTINTO TFR. 1. É permitida a revisão do lançamento tributário, quando houver erro de fato, entendendose este como aquele relacionado ao conhecimento da existência de determinada situação. Não se admite a revisão quando configurado erro de direito consistente naquele que decorre do conhecimento e da aplicação incorreta da norma. 2. A jurisprudência do STJ, acompanhando o entendimento do extinto TRF consolidado na Súmula 227, tem entendido que o contribuinte não pode ser surpreendido, após o desembaraço aduaneiro, com uma nova classificação, proveniente de correção de erro de direito. 3. Hipótese em que o contribuinte atribuiu às mercadorias classificação fiscal amparada em laudo técnico oficial confeccionado a pedido da auditoria fiscal, por profissional técnico credenciado junto à autoridade alfandegária e aceita por ocasião do desembaraço aduaneiro. (AgRg no Resp 1.347.324/RS, Superior Tribunal de Justiça) Grifei. RECURSO ESPECIAL MANDADO DE SEGURANÇA PIS E COFINS SUSPENSÃO DE INCIDÊNCIA OBRIGATORIEDADE ART. 146 DO CTN MUDANÇA CRITÉRIO JURÍDICO INAPLICABILIDADE A FATOS PRETÉRITOS ERRO DE DIREITO. 1. É obrigatória a "suspensão de incidência do PIS e da COFINS" a partir da IN SRF n. 660/06, na hipótese prevista no art. 9°, III, c/c o art. 8°, §1°, III, da Lei n. 10.925/2004. 2. A inobservância dos procedimentos previstos na IN SRF 660/06 não leva à presunção de incidência das contribuições para efeito eventual direito a creditamento. 3. Entendimento adotado pela administração tributária somente após a Solução Consulta Interna (SCI) n. 58/SRF, 25/11/2008. Até essa data, por equivocada valoração jurídica dos fatos, reconhecese a pratica erro de direito. 4. A orientação firmada na SCI n. 58/SRF aplicase apenas ás situações cujos fatos geradores ocorreram após 25/11/2008, proibida a retroatividade art. 146 do CTN. 5. Recurso especial parcialmente provido. (STJ. 1a Turma. Resp 1.303.543. Dje 11/04/2012). Grifei. Feitas essas considerações, forçoso concluir que a fiscalização, diante de um mesmo cenário fático, diante do mesmo contribuinte e em relação a período já fiscalizado, Fl. 1889DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.864 53 jamais poderia ter se valido de duas formas distintas (e contraditórias) de apurar a matéria tributária e a respectiva base de cálculo. Reforça tal assertiva o comando do 142 do CTN, a saber: "Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional". Sobressai desse dispositivo legal a imposição à Administração Tributária (atividade vinculada e obrigatória) de averiguar a subsunção do fato à norma geral e abstrata, individualizandoa e tipificandoa. Para que a autoridade fiscalizatória possa efetivamente proceder ao lançamento, deve antes confirmar a ocorrência dos fatos que teriam deflagrado a incidência tributária, o que deve necessariamente se pautar pelos princípios da busca da verdade material e legalidade. Isso porque a oneração do patrimônio do contribuinte somente pode decorrer de situações suficientemente descritas em lei e perfeitamente identificadas no mundo dos fatos, sob pena de se tributar uma realidade económica inexistente ou diversa daquela prevista na regra matriz de incidência correspondente. É o dever pela busca da verdade material que impõe a necessidade do fisco determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Como destaca Manoel Antonio Gadelha Dias (O vício formal no lançamento tributário. in Direito tributário e processo administrativo aplicados. TÔRRES, Heleno Taveira, QUEIROZ, Mary Elbe, FEITOSA, Raymundo Juliano (Coords.). São Paulo: Quartier Latin, 2005. pp. 345346), expresidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda, os requisitos do lançamento podem ser divididos em dois grandes grupos: (i) os requisitos fundamentais ou estruturais, e (ii) os requisitos complementares ou formais. Nas suas palavras: "[...] para que o lançamento possa produzir os seus efeitos, nele deverão estar presentes todos os seus elementos e pressupostos. Atendidos tais requisitos, o lançamento será ato perfeito e acabado, produzindo efeitos jurídicos, ainda que eivados de vícios e imperfeições. Fl. 1890DF CARF MF 54 Por outro lado, a ausência ou deficiência dos requisitos pode levar á invalidade do ato do lançamento, com consequências distintas em razão da natureza da imperfeição. A luz do Código Tributário Nacional, fonte de direito material nacional, e do Decreto n° 70.235/1972, fonte de direito formal de âmbito restrito à União, entendemos que os requisitos do lançamento podem ser divididos em dois grandes grupos: 1°) o dos requisitos fundamentais ou estruturais; e 2°) o dos requisitos complementares ou formais. Se o defeito no lançamento disser respeito a requisito fundamental, estaremos diante de vício substancial ou vício essencial, que macula o lançamento, ferindoo de morte, pois impede a concretização da formalização do vínculo obrigacional entre o sujeito ativo e o sujeito passivo. Os requisitos fundamentais são aqueles intrínsecos ao lançamento e dizem respeito à própria conceituação do lançamento insculpida no art. 142 do CTN, qual seja a valoração jurídica do fato jurídico tributário pela autoridade competente, mediante a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, a determinação da matéria tributável, o cálculo do tributo e a identificação do sujeito passivo. [... ] Já se o vício estiver presente no que denominamos de requisitos complementares do lançamento, ou seja, naqueles que devem compor a linguagem para a comunicação jurídica, consistente na notificação ao sujeito passivo, estaremos falando de vício formal. Os requisitos complementares ou formais são aqueles exigidos por lei para o momento da edição do ato, por isso são denominados requisitos extrínsecos ao lançamento. O aludido inciso II do art. 173 do CTN, ao prescrever a anulação do lançamento na hipótese de existência formal, por certo está se referindo apenas às aludidas formalidades extrínsecas, ou seja, aquelas que dizem respeito apenas à forma como o ato se exterioriza." Quando o lançamento apresentar falhas em seus requisitos fundamentais ou estruturais (fundamentação jurídica, determinação da matéria objeto de tributação, metodologia de apuração e identificação do sujeito passivo etc.), a hipótese verificada é de nulidade do ato. Apoiado nesses ensinamentos, entendo que o lançamento ora debatido é nulo em razão do estranho critério de apuração utilizado. Não custa lembrar que, no que concerne especificamente à situação fática dos presentes autos, a fiscalização apurou a base tributável com base no resultado de equivalência patrimonial de empresa do grupo, resultado este auferido em balanço intermediário, referente a 30/11/2008, utilizado para efeitos de incorporação. Fl. 1891DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.865 55 Esse critério, quando menos, contraria a isenção prevista no artigo 428 do RIR/99, assim como viola os aspectos temporal e quantitativo previstos no artigo 25 da Lei 9.249/95. Estes dispositivos possuem, respectivamente, a seguinte redação: "Artigo 427 Não será computado na determinação do lucro real o acréscimo ou a diminuição do valor de patrimônio líquido de investimento, decorrente de ganho ou perda de capital por variação na percentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada (DecretoLei n° 1.598, de 1977, art. 33, § 2°, e DecretoLei n° 1.648, de 1978, art. 1°, inciso VI "Artigo 25 Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano". A meu ver esses dispositivos legais, por si só, são mais do que suficientes para ratificar que realmente não houve, no lançamento ora questionado, a devida valoração jurídica do fato jurídico tributário pela autoridade competente. Isso porque o fiscal considerou como base de sua metodologia de apuração o valor apurado a título de receita de equivalência patrimonial, que constitui rendimento isento (cf. artigo 428 do RIR/99). Ademais, levou em conta o resultado de 30/11 de empresa do grupo, e não o resultado da empresa investida apurado em 31/12, como determina a lei 9.249/95. O caminho percorrido pelo fisco, contudo, revela que estamos diante de uma tributação sobre fato jurídico não comprovado, ou melhor, sobre uma riqueza presumida. Ocorre, porém, que esse tipo de presunção (presunção simples) não é admitida no direito tributário. As presunções, diante do princípio da legalidade estrita, somente são válidas se tiverem base em lei. Somente a lei pode criar presunções, permitindo a inversão do ônus probatório. Nesse sentido leciona Luís Eduardo Schoueri (Presunções Simples e Indícios no Procedimento Administrativo Fiscal. In: Valdir de Oliveira Rocha. (Org.). Processo Administrativo Fiscal. São Paulo: Dialética, 1997. P. 85): "A razão porque não cabe o emprego de presunções simples em lugar das provas é imediata: estando o sistema tributário brasileiro submetido à rigidez do princípio da legalidade, a subsunção dos fatos à hipótese de incidência tributária é mandatória para que se dê o nascimento da obrigação tributária do contribuinte. Admitir que o mero raciocínio de probabilidade por parte do aplicador da lei substitua a prova é conceber a possibilidade ainda que remota diante da altíssima probabilidade que motivou a ação fiscal de que se possa exigir um tributo sem que necessariamente tenha ocorrido o fato gerador". Fl. 1892DF CARF MF 56 Nesse sentido já se manifestou a Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme atesta a ementa do julgado adiante colacionado. "PRESUNÇÃO COMO MEIO DE PROVA Presunção é a ilação que se tira de um fato conhecido para provar a existência de um fato desconhecido. Sua validade repousa em três requisitos: o da gravidade, o da previsão e o da concordância, não prosperando a ilação quando os indícios escolhidos autorizem conclusões antípodas, como ocorreu no caso concreto. Incumbe ao Fisco provar que o ato se fez na contramão da lei de regência com o propósito doloso de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador da obrigação tributária. " (CSRF, Ac. 0106.015. Sessão de 14/10/2008). CONCLUSÃO Por todo o exposto, acato as alegações preliminares e CONHEÇO do RECURSO VOLUNTÁRIO para DARLHE PROVIMENTO. É como voto. Pois bem, em relação à primeira preliminar relativa aos pressupostos jurídicos para revisão do lançamento, concordo na integralidade com o voto acima transcrito correspondente à mesma situação e ao mesmo sujeito passivo, como já asseveramos no início. Só adito que a questão tratada é preliminar e capaz de tornar nulo o lançamento em razão de retirar a competência da autoridade fiscal para constituir o crédito tributário. Conforme disposto no art. 59, inciso I, do Decreto nº 70.235/72, que regula o processo administrativo fiscal, a única hipótese de nulidade de atos (o lançamento é um ato e não uma decisão ou um despacho, por isso não se aplica a outra hipótese prevista no inciso II) é a incompetência do agente, o que se configura quando inexiste pressupostos para a revisão. Quanto ao mais que foi enfrentado no voto transcrito, considero questões de mérito, que ficam prejudicadas em razão do provimento da questão preliminar. Conclusão Isso posto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Guilherme Adolfo dos Santos Mendes Fl. 1893DF CARF MF Processo nº 16643.720067/201361 Acórdão n.º 1401002.405 S1C4T1 Fl. 1.866 57 Fl. 1894DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.002239/2004-84
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Nov 12 00:00:00 UTC 2010
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
Exercício: 2000
OMISSÃO DE RECEITAS. DIFERENÇA ENTRE VALORES
DECLARADOS E ESCRITURADOS.
A constatação de que o contribuinte escriturou receita superiores àquelas
declaradas ao Fisco leva à conclusão de que as diferenças constituem receitas
omitidas. Incumbe ao contribuinte provar, com documentos hábeis e idôneos,
a causa das diferenças, o que não ocorreu no caso sob exame. A autuação
deve, então, ser considerada procedente.
OMISSÃO DE RECEITAS. PAGAMENTOS EFETUADOS COM
RECURSOS À MARGEM DA CONTABILIDADE.
A falta de escrituração de pagamentos efetuados pela pessoa juridica
caracteriza omissão de receitas, quando a pessoa jurídica não lograr
comprovação do contrário.
DECADÊNCIA. IRPJ. CSLL. PIS. COFINS. LANÇAMENTO POR
HOMOLOGAÇÃO.
0 direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após
cinco anos, contados a partir da ocorrência do fato gerador, para os tributos
sujeitos ao lançamento por homologação, disciplinado pelo art. 150, § 4 0, do
CTN.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF
Ano-calendário: 1999
IRRF. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
INAPLICABILIDADE.
No que diz respeito ao imposto de renda incidente na fonte sobre pagamentos
a beneficiários não identificados, a inexistência de qualquer atividade por
parte do contribuinte, muito menos pagamento ou declaração, que tenha sido levada ao conhecimento do Fisco e que pudesse ser passível de homologação,
afasta a possibilidade de que pudessem ser aplicáveis as disposições especiais
do art. 150, § 4 0, do CTN. Nessas condições, aplicável à decadência a regra
geral do art. 173, I, do mesmo código.
Numero da decisão: 1301-000.445
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, acolher a decadência em relação ao 1º, 2° e 3º trimestres de 1999, para o IRPJ e CSLL; e em relação aos fatos geradores ocorridos até 30/10/1999, para o PIS e COFINS. Por maioria de votos, negar a
decadência em relação ao IRF, vencidos os Conselheiros Ricardo Luiz Leal de Melo (Relator) e Valmir Sandri. Designado o Conselheiro Waldir Veiga Rocha, para redigir o voto vencedor nessa parte. No mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
Nome do relator: Waldir Viega Rocha
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Exercício: 2000 OMISSÃO DE RECEITAS. DIFERENÇA ENTRE VALORES DECLARADOS E ESCRITURADOS. A constatação de que o contribuinte escriturou receita superiores àquelas declaradas ao Fisco leva à conclusão de que as diferenças constituem receitas omitidas. Incumbe ao contribuinte provar, com documentos hábeis e idôneos, a causa das diferenças, o que não ocorreu no caso sob exame. A autuação deve, então, ser considerada procedente. OMISSÃO DE RECEITAS. PAGAMENTOS EFETUADOS COM RECURSOS À MARGEM DA CONTABILIDADE. A falta de escrituração de pagamentos efetuados pela pessoa juridica caracteriza omissão de receitas, quando a pessoa jurídica não lograr comprovação do contrário. DECADÊNCIA. IRPJ. CSLL. PIS. COFINS. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. 0 direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados a partir da ocorrência do fato gerador, para os tributos sujeitos ao lançamento por homologação, disciplinado pelo art. 150, § 4 0, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Ano-calendário: 1999 IRRF. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. INAPLICABILIDADE. No que diz respeito ao imposto de renda incidente na fonte sobre pagamentos a beneficiários não identificados, a inexistência de qualquer atividade por parte do contribuinte, muito menos pagamento ou declaração, que tenha sido sf-u„,AA at), /Leonardo de Andrade Couto — Presidente 1 ' / 1 U '-, JJ '144\ I ii 10 / 1 ' t 1 • Ricardo Linz Leal de/Me° — Relator' Waldir Veiga R1aÍ a — Redator designado Editado em: )0 ) a .1 110J1 Processo n° 19515.002239/2004-84 S -C3T1 Acórdão n.° 1301-00.445 FL 573 levada ao conhecimento do Fisco e que pudesse ser passível de homologação, afasta a possibilidade de que pudessem ser aplicáveis as disposições especiais do art. 150, § 4 0, do CTN. Nessas condições, aplicável à decadência a regra geral do art. 173, I, do mesmo código. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, acolher a decadência em relação ao 1 0, 2° e 3 0 trimestres de 1999, para o IRPJ e CSLL; e em relação aos fatos geradores ocorridos até 30/10/1999, para o PIS e COFINS. Por maioria de votos, negar a decadência em relação ao IRF, vencidos os Conselheiros Ricardo Luiz Leal de Melo (Relator) e Valmir Sandri. Designado o Conselheiro Waldir Veiga Rocha, para redigir o voto vencedor nessa parte. No mérito, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Leonardo de Andrade Couto, Valmir Sandri, Waldir Veiga Rocha, Ricardo Luiz Leal de Melo, Paulo Jackson da Silva Lucas e André Ricardo Lemes da Silva. 2 Processo n° 19515.002239/2004-84 SI-C3T I Acórdão n.° 1301-00.445 11. 574 Relatório Aplauso Auto Posto Ltda., já qualificada nestes autos, inconformada com o Acórdão n° 16-15.504, de 20/11/2007, da 5' Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em São Paulo/SP, recorre voluntariamente a este Colegiado, objetivando a reforma do referido julgado. Contra o contribuinte acima identificado foram lavrados, em 23/11/2004, os autos de infração de IRPJ (fls. 169/170), CSLL (173/175 e 257/259) c IRRF (fls. 448/450), em 23/11/2004, conforme os termos de constatação fiscal de fls 163/165 (omissão de receita da atividade, IRPJ e CSLI); de fls. 253/254 (diferença entre o valor escriturado e o declarado e pago, CSLL) e o de fls. 442/445 (pagamento sem causa/operação não comprovada IRRF). Os autos do processo n° 19515.002238/2004-30 que trata da CSLL, devida sobre valor escriturado e não declarado ou pago, e de n° 19515.002563/2004-01 referente ao IRRF incidente sobre pagamentos sem causa, foram anexados ao presente processo fiscal, referente ao IRPJ e CSLL sobre omissão de receitas, para julgamento único, nos termos da Portaria da Secretaria da Receita Federal n°6.129, de 02/12/2005, publicada no DOU de 06/12/2005. Cientificado, em 23/11/2004, nos próprios autos de infração, o contribuinte apresentou, em 22/12/2004, as impugnações de fls. 182/199, 266/283 e 463/480 com as seguintes alegações: - preliminarmente, requereu a reunido dos processos ns. 19515.002239/2004- 84, 19515.002238/2004-30 e, 19515.002563/2004-01 por tratarem de matérias relacionadas, devendo tais processos terem o mesmo desfecho; - teria decaído o direito à constituição do crédito tributário, relativo ao IRRI CSLL e ao IRRF, pois os autos foram lavrados em novembro de 2004 e referem-se a fatos geradores ocorridos durante o exercício de 1999, e os créditos ocorridos entre janeiro e outubro de 1999, encontrar-se-iam fulminados pela decadência, de acordo com o CTN, por se tratarem de tributos sujeitos ao lançamento por homologação; - no mérito, de acordo com o art, 924 do RIR/99 o ônus da prova caberia a autoridade administrativa, pois se a fiscalização levantou suspeita quanto a. origem dos valores informados na escrita fiscal, incumbiria-lhe averiguar sua exatidão e não levantar a falsa conclusão de que a diferença referiria-se a valores não submetidos à tributação. - as mesmas alegações apresentadas para o IRPJ o foram para os autos reflexos. A 5' Turma da DRJ em Sao Paulo/SP analisou a impugnação apresentada pela contribuinte e, por via do Acórdão n° 16-15.504, de 20/11/2007, considerou parcialmente procedente o lançamento corn a seguinte ementa: ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTARIA Ano-calendário: 1999 3 Processo n° 19515.002239/2004-84 SI-C3T1 Acórdão n.° 1301-00.445 Fl. 575 DECADÊNCIA. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido efetuado o Iançamento. Processo n° 19515.002239/2004 - 84 Acórdão n.° 1301-00.445 DECADÊNCIA. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário relativo às contribuições destinadas a financiar a Seguridade Social somente se extinguiria com o decurso do prazo de 10 (dez) anos, contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido efetuado o lançamento. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURIDICA - IRPJ Ano-calendário: 1999 PAGAMENTO NÃO CONTABILIZADO. OMISSÃO DE RECEITA. PRESUNÇÃO. Presume-se omissão de receita a folio de registro contábil de pagamento realizado. TRIBUTAÇÃO REFLEXA Em se tratando de exigência reflexa que tem por base os mesmos fatos que ensejaram o lançamento do imposto sobre a renda, a decisão de mérito prolatada em relação ao auto de infração principal constitui prejulgado nas decisões decorrentes. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA REMO NA FONTE - IRRF Ano-calendário: 1999 PAGAMENTO SEM CAUSA. INCIDÊNCIA. Está sujeito a incidência do imposto, exclusivamente na fonte, a aliquota de 35%, todo pagamento efetuado por pessoas jurídicas a beneficiário não identificado ou, ainda, os pagamentos efetuados e os recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados OU não, quando não comprovada a operação ou a sua causa. Lançamento Procedente. Ciente da decisão de primeira instância em 22/04/2008, a contribuinte apresentou recurso voluntário em 20/05/2008 conforme carimbo de recepção A folha 510. No recurso interposto (fls. 510/551) a recorrente repete os argumentos trazidos na fase impugnatória. izi.._. É o Relatório. 4 Processo n° 19515.002239/2004-84 Sl-C3T1 Acórdão n.° 1301-00.445 Fl. 576 Voto Vencido Conselheiro Ricardo Luiz Leal de Melo, Relator 0 recurso é tempestivo e dele conheço. De inicio, cumpre destacar que a prova da efetiva inexistência da omissão de receitas apontadas pela autoridade fiscal cabe ao interessado. A falta de comprovação adequada caracteriza omissão de receita, de acordo com o disposto no art. 40 da Lei 9.430/1996. A omissão de receitas somente é elidida pela apresentação de prova documental. A prova corresponde a documentos cuja guarda e conservação estão a cargo do próprio interessado, e que, por força do § 40, do art. 16, do Decreto n° 70.235/1972, deveriam ter sido apresentados juntamente com a peça de impugnação ou com o recurso voluntário. A Recorrente juntou aos autos documentos tentando comprovar a correção de seus lançamentos contábeis e assim comprovar a inexistência de omissão de receita. Todavia, no entender desse relator, os mesmos não foram suficientes para tanto. Por outro lado é de suma importância a análise da preliminar de decadência já que a autuação foi lavrada em novembro de 2004 para alcançar fatos geradores de julho a dezembro de 1999. Fácil notar que decaiu o direito Unido de lançar tributos referentes aos meses de outubro de 1999, inclusive, para trás. Inaplicável o artigo 173 do CTN já que estamos analisando casos relativos aos tributos lançados por homologação, cuja disciplina está prevista no artigo 150, parágrafo 4°, do Código Tributário. Em conclusão, por todo o exposto, voto para acolher a decadência em relação ao 1 0, 2° e 3° trimestres de 1999, para o IRPJ e CSLL; e em relação aos fatos geradores ocorridos até 30/10/1999, para o PIS e COFINS. Ricardo Luiz Leal de Melo Voto Vencedor Conselheiro Waldir Veiga Rocha, Redator Designado Em que pese o bem elaborado e fundamentado voto do ilustre Relator, durante as discussões ocorridas por ocasião do julgamento do presente litígio surgiu Processo n° 19515.002239/2004-84 SI-C3TI Acórao n.° 1301-00.445 VI. 577 divergência que levou a conclusão diversa, exclusivamente no que tange à contagem do prazo decadencial para o imposto de renda retido na fonte. 0 eminente Relator bem caracterizou os lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS como sendo de tributos sujeitos a lançamento por homologação e, desta forma, sujeitos ao regramento do art. 150, § 4 0, do CTN, ou seja, a contagem do lustro decadencial deveria ser feita a partir da ocorrência do fato gerador tributário. No que toca ao IRRF, entretanto, o Colegiado considerou que essa modalidade do imposto de renda não se enquadra, de forma alguma, no conceito de tributo sujeito a lançamento por homologação. Inexiste qualquer atividade, muito menos pagamento antecipado nem declaração, praticada pelo contribuinte que tenha sido levada ao conhecimento do Fisco e que pudesse ser passível de homologação. Nessas condições, tenho por aplicável a regra geral do art. 173, inciso 1, do CTN, segundo a qual o prazo decadencial de cinco anos se inicia a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido efetuado o lançamento. A aplicação dessa regra ao caso concreto leva A. conclusão de que os fatos geradores do IRRF ocorridos no ano-calendário 1999 poderiam ter sido objeto de lançamento dentro desse mesmo ano, iniciando-se o prazo decadencial em 01/01/2000 e encerrando-se em 31/12/2004. Tendo em vista que o lançamento foi cientificado ao sujeito passivo em 23/11/2004, esses fatos geradores não foram alcançados pela decadência. Em conclusão, a decisão do Colegiado foi por acolher a decadência em relação ao 1 0, 20 e 3° trimestres de 1999, para IRPJ e CSLL; e em relação aos fatos geradores ocorridos até 30/10/1999, para PIS e COF1NS. No mérito, o Colegiado negou provimento ao recurso voluntário. aldir Veiga R6 ha o
score : 1.0
Numero do processo: 10980.940783/2011-94
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.677
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 80 .9 40 78 3/ 20 11 -9 4 Fl. 105DF CARF MF Processo nº 10980.940783/201194 Resolução nº 3301000.677 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório de Cofins por suposto pagamento indevido ou a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. A DRF, no despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição ou compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da inexistência de crédito, o Pedido de Restituição foi indeferido e a compensação declarada não foi homologada, conforme o caso. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade cuja argumentação é a seguir resumida. Sustenta que é uma instituição de educação sem fins lucrativos e, nos termos do art. 14, X da MP nº 2.15835, de 2001, estaria isenta da Cofins. Argumenta que tal dispositivo estabelece que tal isenção se dá, a partir de 01/02/1999, para as receitas relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13, o qual, por sua vez, referese às “instituições de educação e de assistência social” arroladas no art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Afirma que se encaixa nos requisitos legais, uma vez que: (a) não remunera, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; (b) aplica integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; e (c) assegura a destinação de seu patrimônio à outra instituição congênere, em caso de extinção. Anexa o seu Estatuto Social para provar o alegado. Relativamente à expressão “atividade própria” (art. 14, X, da MP 2.158/35), argumenta que deve ser entendida como aquela atividade regular e relativa à natureza essencial da entidade. Sustenta que ‘própria’ é toda a atividade prevista em seu estatuto, ou na lei, já que conexa à própria existência da pessoa jurídica. Assim, assevera que “a existência de finalidade lucrativa não devia ser vinculada à gratuidade ou não dos serviços prestados ou à forma de obtenção da receita, nas, sim, à forma como ela é aplicada. Caso constitua objetivo da instituição exercer atividade educacional sem fins lucrativos, ainda que o serviço seja prestado mediante o pagamento de mensalidade ou retribuições, a receita obtida com as mensalidades constitui receita própria de sua atividade e, desta forma, estaria isenta da Cofins.” Afirma, outrossim, que os princípios da legalidade e da legalidade tributária impede o Fisco de exigir tributo que não está previsto em lei, acrescentando que a lei, nesse caso, prevê expressamente uma isenção. Portanto, em seu entendimento, não há “espaço para que atos normativos como, por exemplo, decretos, instruções normativas, atos interpretatórios ou declaratórios criem qualquer redução ou limitação à isenção de Cofins prevista nos artigos 13 e 14 da MP 2.15835/ 01”. Fl. 106DF CARF MF Processo nº 10980.940783/201194 Resolução nº 3301000.677 S3C3T1 Fl. 4 3 No seguimento, tece comentários sobre o instituto da compensação para afirmar que “tendo a instituição recolhido o tributo de forma indevida tem direito à restituição/compensação”. Em razão do alegado, requer a restituição e homologação da compensação pleiteada. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Cientificada da decisão da DRJ, foi interposto recurso voluntário repisando os argumentos já apresentados na manifestação de inconformidade. É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.653, de 24 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10980.934785/200920, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.653): "A teor do relatado, a discussão no presente processo trata da isenção a ser aplicada as instituições de educação e sem fins lucrativos, previsto no art. 14, X da MP 2.15835/2001. Consultando os autos não é possível identificar quais são as receitas que a Recorrente considerou como isentas para justificar o seu direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência, a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.15835/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. " Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10980.940783/201194 Resolução nº 3301000.677 S3C3T1 Fl. 5 4 Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.158 35/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 108DF CARF MF
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Numero do processo: 10073.720670/2017-01
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2015
DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE.
São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo ano-calendário da obrigação tributária.
Numero da decisão: 2001-000.535
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernanda Melo Leal - Relatora.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: FERNANDA MELO LEAL
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2015 DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo ano-calendário da obrigação tributária.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes - Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal - Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira.
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COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo anocalendário da obrigação tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira, que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 07 3. 72 06 70 /2 01 7- 01 Fl. 58DF CARF MF 2 Relatório Contra o contribuinte acima identificado foi emitida Notificação de Lançamento relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2015, anocalendário de 2014, por meio do qual foram glosadas despesas médicas no valor total de R$ 30.000,00, por falta de comprovação de documental suficiente para ratificação da ocorrência da despesa, de acordo com a fiscalização.. O interessado foi cientificado da notificação e apresentou impugnação de fls 02 e ss, juntando documentos para evidenciar parcialmente as despesas . Alega, em síntese, que se trata de despesa própria com tratamento odontológico, consigna a anexação dos documentos probatórios correspondentes e requer o acolhimento da impugnação. A DRJ Rio de Janeiro, na análise da peça impugnatória, manifestou seu entendimento no sentido de que os comprovantes fornecidos e juntados ao processo pelo Contribuinte não comprovam a despesa. Em sede de Recurso Voluntário, junta a contribuinte todos os demais documentos necessários para tentar comprovar o quanto alegado, além de declaração emitida pelo profissional do serviço médico odontológico, contendo todos os detalhes e informações exigidas. É o relatório. Voto Conselheira Fernanda Melo Leal Relatora. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Mérito Glosa de despesas médicas Nos termos do artigo 8°, inciso II, alínea "a", da Lei 9.250/1995, com a redação vigente ao tempo dos fatos ora analisados, são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda pessoa física as despesas a título de despesas médicas, psicológicas e dentárias, quando os pagamentos são especificados e comprovados. Lei 9.250/1995: Art. 8°. A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10073.720670/201701 Acórdão n.º 2001000.535 S2C0T1 Fl. 3 3 a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. (...) § 2º O disposto na alínea ‘a’ do inciso II: (...) II restringese aos pagamentos feitos pelo contribuinte, relativos ao seu próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro de Pessoas Jurídicas de quem recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento.” O Recorrente apresentou os documentos necessários a comprovar as despesas médicas incorridas por ele relativos a tratamento dentário . A decisão de primeira instancia sustentou que o Recorrente não comprovou as despesas médicas , nos seguintes termos: “[...] Também é vital sublinhar que o parágrafo 3º, do art. 97, da IN da RFBnº 1.500/14 dispõe que todas as despesas deduzidas estarão sujeitas à comprovação ou justificação do pagamento ou da prestação dos serviços, a juízo da autoridade lançadora ou julgadora. Não é demais esclarecer que todo esse cuidado diz respeito à proteção do próprio Estado, em sentido amplo, pois a partir do momento em que um contribuinte declara uma dedução, em sua declaração de ajuste anual, ele na verdade está transferindo para toda a sociedade um gasto que em princípio é somente dele. É justamente por isso que o legislador criou a mencionada norma legal, unicamente para que haja um necessário cuidado do aplicador da Lei quando da análise para a permissão ou não de uma dedução na declaração de ajuste anual. Então, importa que fique bem esclarecido que não se trata aqui de estar duvidando do contribuinte ou qualquer outra pura e simples objeção, mas sim está se seguindo à risca o que a legislação impõe a todos os servidores investidos na figura da autoridade tributária que neste caso é o Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil. O fato é que os recibos de fls. 05 a 16 foram incapazes de comprovar a real prestação do serviço profissional, tendo em Fl. 60DF CARF MF 4 vista que os mesmos se limitaram a informar que teria ocorrido “prestação de serviços odontológicos”, sendo insuficientes para que o julgador pudesse formar o seu convencimento em relação a quais serviços odontológicos teriam sido realizados. Além disso, o suposto tratamento odontológico teria tido um custo de R$ 30.000,00, sendo uma quantia consideravelmente expressiva que no mínimo necessitaria de um detalhamento quanto ao efetivo tratamento que o profissional teria desempenhado em face do contribuinte em epígrafe. Sendo assim, não resta outra hipótese se não a de manter a glosa de despesas médicas no montante de R$ 30.000,00. Destarte, com base em todo o exposto supra, voto pela Improcedência da Impugnação em tela, ficando ratificado o resultado apurado na Notificação de Lançamento de fls. 19 a 23. [...]” No caso concreto, demonstrase, ao longo do processo, que a autoridade fiscal entende que a documentação apresentada não foi suficiente para comprovar que as despesas médicas apresentadas são próprias, eis que não estaria claro nos documentos apresentados. Neste diapasão, merece trazer à baila o princípio pela busca da verdade material. Sabemos que o processo administrativo sempre busca a descoberta da verdade material relativa aos fatos tributários. Tal princípio decorre do princípio da legalidade e, também, do princípio da igualdade. Busca, incessantemente, o convencimento da verdade que, hipoteticamente, esteja mais aproxima da realidade dos fatos. De acordo com o princípio são considerados todos os fatos e provas novos e lícitos, ainda que não tragam benefícios à Fazenda Pública ou que não tenham sido declarados. Essa verdade é apurada no julgamento dos processos, de acordo com a análise de documentos, oitiva das testemunhas, análise de perícias técnicas e, ainda, na investigação dos fatos. Através das provas, buscase a realidade dos fatos, desprezandose as presunções tributárias ou outros procedimentos que atentem apenas à verdade formal dos fatos. Neste sentido, deve a administração promover de oficio as investigações necessárias à elucidação da verdade material para que a partir dela, seja possível prolatar uma sentença justa. A verdade material é fundamentada no interesse público, logo, precisa respeitar a harmonia dos demais princípios do direito positivo. É possível, também, a busca e análise da verdade material, para melhorar a decisão sancionatória em fase revisional, mesmo porque no Direito Administrativo não podemos falar em coisa julgada material administrativa. A apresentação de provas e uma análise nos ditames do princípio da verdade material estão intrinsecamente relacionadas no processo administrativo, pois a verdade material apresentará a versão legítima dos fatos, independente da impressão que as partes tenham daquela. A prova há de ser considerada em toda a sua extensão, assegurando todas as garantias e prerrogativas constitucionais possíveis do contribuinte no Brasil, sempre observando os termos especificados pela lei tributária. Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10073.720670/201701 Acórdão n.º 2001000.535 S2C0T1 Fl. 4 5 A jurisdição administrativa tem uma dinâmica processual muito diferente do Poder Judiciário, portanto, quando nos depararmos com um Processo Administrativo Tributário, não se deve deixar de analisálo sob a égide do princípio da verdade material e da informalidade. No que se refere às provas, é necessário que sejam perquiridas à luz da verdade material, independente da intenção das partes, pois somente desta forma será possível garantir o um julgamento justo, desprovido de parcialidades. Somase ao mencionado princípio também o festejado princípio constitucional da celeridade processual, positivado no ordenamento jurídico no artigo 5º, inciso LXXVIII da Constituição Federal, o qual determina que os processos devem desenvolverse em tempo razoável, de modo a garantir a utilidade do resultado alcançado ao final da demanda. Ratifico, ademais, a necessidade de fundamento pela autoridade fiscal, dos fatos e do direito que consubstancia o lançamento. Tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. Assim sendo, com fulcro nos festejados princípios supracitados, e baseando se no quanto exposto pelo Contribuinte, ou seja, de que a despesa incorreu de fato (evidenciada através dos comprovantes juntados ao processo), entendo que deve ser dado provimento ao recurso . CONCLUSÃO: Diante tudo o quanto exposto, voto no sentido de, CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para acatar as despesas médicas acima mencionadas. (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal. Fl. 62DF CARF MF
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Numero do processo: 11128.721580/2016-28
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Aug 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador:25/07/2012
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. AÇÃO COLETIVA. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA.
A existência de Medida Judicial Coletiva interposta por associação de classe não tem o condão de caracterizar renúncia à esfera administrativa por concomitância.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3002-000.210
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, afastando a concomitância e determinando o retorno dos autos à DRJ para que profira novo julgamento analisando todas as alegações da Impugnação.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto da Silva Esteves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DA SILVA ESTEVES
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AÇÃO COLETIVA. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A existência de Medida Judicial Coletiva interposta por associação de classe não tem o condão de caracterizar renúncia à esfera administrativa por concomitância. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, afastando a concomitância e determinando o retorno dos autos à DRJ para que profira novo julgamento analisando todas as alegações da Impugnação. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 12 8. 72 15 80 /2 01 6- 28 Fl. 153DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 199 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves. Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra o Acórdão 16076.335 da DRJ/SPO, que manteve integralmente o Crédito Tributário lançado pelo Auto de Infração, que exige da contribuinte a multa pelo atraso na prestação de informações sobre veículo ou carga nele transportada, penalidade prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DecretoLei nº 37, de 1966, cuja redação foi alterada pela Lei 10.833, de 2003. A partir desse ponto, transcrevo o relatório do Acórdão recorrido por bem retratar as vicissitudes do presente processo: "Trata o presente sobre exigência de crédito tributário no valor de R$ 5.000,00, contra PANALPINA LTDA., a título de multa prevista no art. 107, IV, “e”, do Decretolei nº 37/66, com a redação dada pelo art. 77 da Lei nº 10.833/03, formalizada em 14/12/2008, formalizada em 22/06/2016. Relata a Fiscalização que, em procedimento fiscal de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo sujeito passivo supra citado, apurou ocorrência da infração – NÃO PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÃO SOBRE VEÍCULO OU CARGA TRANSPORTADA, OU SOBRE OPERAÇÕES QUE EXECUTAR, prevista no art. 107, inciso IV, alínea “e”, do Decretolei nº 37/66, com a redação dada pelo art. 77 da Lei nº 10.833/2003, regulamentado pelo art. 728, inciso IV, alínea “e” do Decreto nº 6.759/09, porque a autuada deixou de prestar referidas informações, no Sistema Carga, conforme art. 22 da IN SRF nº 800/2007, relativas à desconsolidação do Conhecimento Eletrônico (CE) MHBL 151205129967738 a destempo a partir de 04/07/2012 17:15hs., segundo o prazo previamente estabelecido pela Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB, com o registro extemporâneo do(s) Conhecimento(s) Eletrônico(s) (CE) Agregado(s) HBL 151205137377120; CIU8484724, trazida ao Porto de Santos, pelo Navio M/V PARANAGUA EXPRESS, em sua viagem 227S, com atracação registrada em 19/07/2012 15:12hs.; assim, aplicou a multa no valor de R$ 5.000,00. Regularmente intimada em 20/07/2016 (fl. 47), a autuada apresentou impugnação de fls. 49/69, em 17/08/2016, alegando tempestividade da impugnação e, quanto ao direito, nulidade do auto de infração por descumprimento de ordem judicial, destacando que é membro da Associação Nacional das Empresas Transitarias, Agentes de Carga Aérea, Comissárias de Fl. 154DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 200 3 Despachos e Operadores Intermodais (ACTC), que ingressara com ação –processo nº 000523886.2015.403.6100, visando afastar exigência de multas, e que prestou informações antes de qualquer ato fiscalizador da RFB, caracterizando denúncia espontânea, como estabelecido no art. 102 do Decretolei nº 37/66; proferida, em 07/08/2015, decisão com deferimento da antecipação de tutela determinando que a ré se abstenha de exigir das associadas da autora as penalidades em discussão, no exercício da denúncia espontânea, a ação fiscal constitui flagrante descumprimento de ordem judicial; sustenta, ainda, a nulidade por ilegitimidade de parte, porquanto a impugnante, è época dos fatos atuou como agente marítimo de empresa de transporte internacional, e não sendo armadora do navio, nem realizou o transporte não pode ser responsabilizada, porque simples mandatário do transportador – o art. 37 da IN SRF nº 28/94 atribui ao transportador a responsabilidade do registro dos dados de embarque, no prazo de sete dias, e cita jurisprudência; argumenta ausência de prejuízo à fiscalização aduaneira, salientando ofensa aos princípios da razoabilidade e proporcionalidade e vedação ao confisco, com o argumento de que a administração não pode ser arbitrária em seus atos, não podendo a multa ultrapassar o valor da atividade econômica porque acaba por violar o princípio do não confisco; aponta, mais, ofensa aos princípios da ampla instrução probatória e da verdade material por aterse a autoridade administrativa às informações constantes no conhecimento eletrônico para presumir a culpa da impugnante pelo atraso ou, ainda, para presumir o prejuízo, porquanto o fisco deve investigar os fatos independentemente de presunções; alega ofensa ao princípio da legalidade, afirmando que as infrações e penalidade devem ser estabelecida por lei e, no caso em tela, a sanção imposta tem como fundamento o Decretolei nº37/66, editado pelo chefe do poder executivo, ele não é lei em sentido estrito; salientando exclusão da penalidade por denúncia espontânea, pede a improcedência do lançamento, afastando a penalidade." Analisando as argumentações da contribuinte, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo (DRJ/SPO) julgou a Impugnação de modo a não conhecêla, quanto à matéria objeto de ação judicial, e julgála improcedente, quanto à matéria diferenciada, por Acórdão que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 25/07/2016 Fl. 155DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 201 4 Prestação de informação sobre veículo ou carga transportada. Desconsolidação de carga. Prestação na forma prescrita em lei. Responsabilidade do transportador. Agente marítimo é o representante do transportador internacional. Obrigação acessória decorre de norma de conduta. Denúncia espontânea. Inaplicabilidade. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em seqüência, após ser cientificada dessa decisão, a contribuinte apresenta Recurso Voluntário (108/129), no qual requereu a reforma do Acórdão recorrido, repisando e reforçando argumentos jurídicos já apresentados. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves Relator O direito creditório envolvido no presente processo encontrase dentro do limite de alçada das Turmas Extraordinárias, conforme disposto no art. 23B do RICARF. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Embora não tenha sido alegada pela recorrente, por ser matéria de ordem pública, há que reconhecer que a principal controvérsia posta sob análise cingese à existência ou não de concomitância entre o processo administrativo e o judicial em casos de ações coletivas propostas por associações de classe, da qual o contribuinte faça parte. Essa matéria se mostra, atualmente, pacificada no âmbito desta Corte, como demonstram os recentes Acórdãos: Acórdão 1402001.629: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Fl. 156DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 202 5 Período de apuração: 01/01/1997 a 31/12/1997 NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. NULIDADE. PROCESSO TRIBUTÁRIO. CONCOMITÂNCIA. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. INOCORRÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo por associação de classe não impede que o contribuinte associado pleiteie individualmente tutela de objeto semelhante ao da demanda coletiva, já que aquele (mandado de segurança) não induz litispendência e não produz coisa julgada em desfavor do contribuinte nos termos da lei. A renúncia à instância administrativa de que trata o art. 38 da Lei n. 6.830/80 pressupõe ato de vontade do contribuinte expressado mediante litisconsórcio com a associação na ação coletiva ou propositura de ação individual de objeto análogo ao processo administrativo, o que não se verifica na hipótese. CERCEAMENTO DO DIREITO À AMPLA DEFESA. NÃO ENFRENTAMENTO DE TODOS OS ARGUMENTOS DE DEFESA. NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO. Afastadas a concomitância e a renúncia à discussão administrativa, é de se reconhecer a nulidade da decisão de primeira instância que deixou de apreciar todos os argumentos de impugnação. Nova decisão deve ser proferida, em atenção ao duplo grau de jurisdição previsto nas regras de regência do processo administrativo fiscal. Acórdão 9303005.472: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/1999 a 30/09/2004 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo, por substituto processual, não se configura hipótese em que se deva declarar a renúncia à esfera administrativa. Recurso Especial do Procurador negado. Acórdão 9303005.057 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 157DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 203 6 Período de apuração: 31/10/1995 a 31/10/1998 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo por associação de classe não impede que o contribuinte associado pleiteie individualmente tutela de objeto semelhante ao da demanda coletiva, já que aquele (mandado de segurança) não induz litispendência e não produz coisa julgada em desfavor do contribuinte nos termos da lei. Ainda que haja alcance dos efeitos jurídicos da decisão para os representados da entidade, não se materializa a identidade entre os sujeitos dos processos, ou seja, autor da medida judicial e recorrente no âmbito administrativo, diante da qual é possível aferir a manifestação de vontade (critério subjetivo) que exige a renúncia. Assim, a existência de Medida Judicial Coletiva interposta por associação de classe não tem o condão de caracterizar renúncia à esfera administrativa por concomitância. Embora seja certo que as entidades de classe, quando propõem ações coletivas, estão agindo no interesse de seus filiados, também é correto supor que estes podem não ter manifestado sua concordância com a propositura daquelas ações. Mesmo quando assembléias aprovam o caminho judicial a ser seguido pela entidade, ainda assim, devemos ter em conta que a decisão da maioria não reflete, necessariamente, a vontade de todos os filiados. Creio oportuno trazer a colação as Súmulas do Supremo Tribunal Federal que ratificam a independência das entidades de classe, quanto à propositura de ações coletivas: Súmula STF nº 629 A impetração de mandado de segurança coletivo por entidade de classe em favor dos associados independe da autorização destes. Súmula STF nº 630 A entidade de classe tem legitimação para o mandado de segurança ainda quando a pretensão veiculada interesse apenas a uma parte da respectiva categoria. (grifos nossos) Fl. 158DF CARF MF Processo nº 11128.721580/201628 Acórdão n.º 3002000.210 S3C0T2 Fl. 204 7 Assim, pareceme não ser razoável o reconhecimento da concomitância somente pela existência de uma ação coletiva movida por entidade de classe, da qual o contribuinte faça parte, sem que esteja clara a vontade deste, pois diferentemente das ações individuais, nas quais resta cristalina a intenção de o contribuinte optar pela via judicial, nas coletivas, isto, em princípio, não ocorre. Ademais, quando o sujeito passivo impetra uma ação individual versando sobre a mesma matéria discutida em processo administrativo, ocorre uma presunção legal absoluta da desistência tácita ao contencioso administrativo. Contudo, em ações coletivas, ajuizadas por substitutos processuais, não se aplica tal presunção, pois do contrário, estaria se violando os Direitos Constitucionais ao Contraditório e à Ampla Defesa. Desta forma, entendo não existir concomitância no presente caso. Assim sendo, por todo o exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, afastando a concomitância e determinando a devolução do processo à instância a quo para que profira novo julgamento analisando todas as alegações da Impugnação. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Fl. 159DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.940317/2011-17
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jul 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.676
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência.
Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator
(assinado digitalmente)
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
Nome do relator: WINDERLEY MORAIS PEREIRA
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decisao_txt : Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira - Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência. Winderley Morais Pereira Presidente e Relator (assinado digitalmente) Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Winderley Morais Pereira, Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Rodolfo Tsuboi e Valcir Gassen. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 80 .9 40 31 7/ 20 11 -1 7 Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10980.940317/201117 Resolução nº 3301000.676 S3C3T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório de Cofins por suposto pagamento indevido ou a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. A DRF, no despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição ou compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da inexistência de crédito, o Pedido de Restituição foi indeferido e a compensação declarada não foi homologada, conforme o caso. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade cuja argumentação é a seguir resumida. Sustenta que é uma instituição de educação sem fins lucrativos e, nos termos do art. 14, X da MP nº 2.15835, de 2001, estaria isenta da Cofins. Argumenta que tal dispositivo estabelece que tal isenção se dá, a partir de 01/02/1999, para as receitas relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13, o qual, por sua vez, referese às “instituições de educação e de assistência social” arroladas no art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Afirma que se encaixa nos requisitos legais, uma vez que: (a) não remunera, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; (b) aplica integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; e (c) assegura a destinação de seu patrimônio à outra instituição congênere, em caso de extinção. Anexa o seu Estatuto Social para provar o alegado. Relativamente à expressão “atividade própria” (art. 14, X, da MP 2.158/35), argumenta que deve ser entendida como aquela atividade regular e relativa à natureza essencial da entidade. Sustenta que ‘própria’ é toda a atividade prevista em seu estatuto, ou na lei, já que conexa à própria existência da pessoa jurídica. Assim, assevera que “a existência de finalidade lucrativa não devia ser vinculada à gratuidade ou não dos serviços prestados ou à forma de obtenção da receita, nas, sim, à forma como ela é aplicada. Caso constitua objetivo da instituição exercer atividade educacional sem fins lucrativos, ainda que o serviço seja prestado mediante o pagamento de mensalidade ou retribuições, a receita obtida com as mensalidades constitui receita própria de sua atividade e, desta forma, estaria isenta da Cofins.” Afirma, outrossim, que os princípios da legalidade e da legalidade tributária impede o Fisco de exigir tributo que não está previsto em lei, acrescentando que a lei, nesse caso, prevê expressamente uma isenção. Portanto, em seu entendimento, não há “espaço para que atos normativos como, por exemplo, decretos, instruções normativas, atos interpretatórios ou declaratórios criem qualquer redução ou limitação à isenção de Cofins prevista nos artigos 13 e 14 da MP 2.15835/ 01”. Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10980.940317/201117 Resolução nº 3301000.676 S3C3T1 Fl. 4 3 No seguimento, tece comentários sobre o instituto da compensação para afirmar que “tendo a instituição recolhido o tributo de forma indevida tem direito à restituição/compensação”. Em razão do alegado, requer a restituição e homologação da compensação pleiteada. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento manteve integralmente o despacho decisório, julgando improcedente a manifestação de inconformidade. Cientificada da decisão da DRJ, foi interposto recurso voluntário repisando os argumentos já apresentados na manifestação de inconformidade. É o Relatório. Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.653, de 24 de maio de 2018, proferido no julgamento do processo 10980.934785/200920, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.653): "A teor do relatado, a discussão no presente processo trata da isenção a ser aplicada as instituições de educação e sem fins lucrativos, previsto no art. 14, X da MP 2.15835/2001. Consultando os autos não é possível identificar quais são as receitas que a Recorrente considerou como isentas para justificar o seu direito creditório. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência, a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.15835/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. " Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10980.940317/201117 Resolução nº 3301000.676 S3C3T1 Fl. 5 4 Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência a fim de que a Unidade de Origem intime a Recorrente para que no prazo de 30 (trinta) dias prorrogável uma vez por igual período, detalhar de forma pormenorizada quais são as receitas que aplicou a isenção prevista no art. 14, X da MP 2.158 35/2001. A Unidade de Origem, se julgar necessário, poderá manifestarse quanto as informações apresentadas, inclusive fazendo as diligências e intimações que julgar necessárias. Concluída a diligência, os autos deverão ser devolvidos a este Conselho para prosseguimento do julgamento. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Fl. 110DF CARF MF
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Numero do processo: 13850.720207/2015-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 02 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1301-000.610
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o presente julgamento em diligência para sobrestá-lo até que seja proferida decisão administrativa definitiva nos processos 13884.905622/2012-11 e 13884.900493/2013-56, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o presente julgamento em diligência para sobrestálo até que seja proferida decisão administrativa definitiva nos processos 13884.905622/201211 e 13884.900493/201356, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado contra o contribuinte identificado acima, referente à cobrança do Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL de fls. 21922196, que exige o recolhimento de R$ 17.430.216,10 de contribuição, R$ 13.072.662,08 a título de multa de lançamento de ofício de 75% e R$ 4.674.783,96 de juros de mora. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 38 50 .7 20 20 7/ 20 15 -2 0 Fl. 3022DF CARF MF Processo nº 13850.720207/201520 Resolução nº 1301000.610 S1C3T1 Fl. 3 2 Consta do Relatório Fiscal que o saldo negativo de R$ 8.690.511,23 de CSLL do anocalendário de 2012, declarado na DIPJ 2013, foi convertido em saldo de CSLL a pagar de R$ 17.430.215,10 em decorrência dos seguintes ajustes: 1) glosa da estimativa de março/2012, no valor de R$ 18.211.440,72, compensada com o saldo do imposto pago no exterior no anos calendário de 2011, controlado na Parte “B” do Lalur, porquanto não restou comprovado que o lucro no exterior correspondente foi à época adicionado à base de cálculo da CSLL; 2) glosa da parcela de R$ 468.040,91 do débito de estimativa do mês de agosto/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 08649.12699.280912.1.3.039153 (PER/DCOMP inicial nº 14421.30899.180912.1.3.036108), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de saldo negativo de CSLL do anocalendário de 2011, nos autos do processo nº 13884.721038/201477; 3) glosa da parcela de R$ 1.358.184,53 do débito de estimativa do mês de setembro/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 21973.58063.311012.1.3.170035 (PER/DCOMP inicial nº 14094.76116.160712.1.1.172876), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de Reintegra do 2º trimestre/2012, nos autos do processo nº 13884.905622/201211; 4) glosa da parcela de R$ 3.265.823,04 do débito de estimativa do mês de novembro/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 02046.77021.171212.1.3.178156 (PER/DCOMP inicial nº 05115.51453.301112.1.5.174102), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de Reintegra do 3º trimestre/2012, nos autos do processo nº 13884.900493/201356; 5) glosa da parcela de R$ 1.707.226,33 do débito de estimativa do mês de dezembro/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 26411.28017.310113.1.3.170568 (PER/DCOMP inicial nº 02706.15118.140113.1.1.178074), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de Reintegra do 4º trimestre/2012, nos autos do processo nº 13884.900494/201309; 6) diferença de R$ 12.333.454,42 de lucros auferidos por controladas no exterior adicionados a menor à base de cálculo da CSLL do ano calendário de 2012; a contribuinte adicionou à base de cálculo da CSLL o valor de R$ 173.879.745,63 de lucros disponibilizados no exterior, mas a Autoridade Fiscal apurou lucros no montante de R$ 186.213.200,05. Cientificado, o Contribuinte apresentou tempestiva Impugnação aduzindo preliminarmente a nulidade da autuação sob o argumento de cerceamento do direito de defesa em decorrência da utilização de fundamentação legal e fática obscura e incoerente pois o Relatório Fiscal (RF) está repleto de alegações desconexas, fundadas em transcrições legislativas e fáticas descoordenadas, que dificultaram demasiadamente o entendimento das acusações contra ela emitidas. Aduz que o agente fiscal glosou estimativas compensadas utilizadas na formação do saldo negativo de CSLL do anocalendário de 2012, no montante de R$ Fl. 3023DF CARF MF Processo nº 13850.720207/201520 Resolução nº 1301000.610 S1C3T1 Fl. 4 3 6.799.274,91, em face de os correspondentes créditos utilizados estarem em discussão nos processos 13884.721038/201477, 13884.905622/201211, 13884.900493/201356 e 13884.900494/201309; se o direito creditório postulado pela requerente está intimamente ligado ao objeto desses processos administrativos, deve o presente processo ser sobrestado até que seja proferida decisão definitiva nos processos administrativos correlatos No mérito, contesta todas as glosas efetuadas, com argumentos que serão oportunamente apresentados. A DRJ/Curitiba julgou parcialmente procedente a Impugnação, não acatando a preliminar de nulidade, mas julgou procedente em parte o lançamento de Contribuição Social Sobre o Lucro LíquidoCSLL, mantendo a exigência de R$ 14.612.978,07 de contribuição, acrescidos da multa de lançamento de ofício de 75% e dos acréscimos legais. Irresignado, o Contribuinte apresentou seu Recurso Voluntário, repisando todas as razões de sua Impugação, e aduzindo complementarmente a nulidade parcial da decisão da DRJ por inovação no critério jurídico utilizado na autuação. Da mesma forma, em razão da exoneração parcial do sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, a autoridade de primeira instância interpôs Recurso de Ofício nos termos do art. 34, I e §1º do Decreto 70.235/72. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator O Recurso Voluntário é tempestivo e atende a todos os demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. Da mesma forma, o Recurso de Ofício atende aos seus requisitos de admissibilidade e ultrapassa o valor de alçada, também devendo ser conhecido pelo Colegiado. O presente processo não se encontra maduro para julgamento por este Colegiado, em razão da existência de processos prejudiciais com capacidade de afetar as conclusões fiscais que embasaram a autuação em trâmite no âmbito deste CARF. Há diversas razões para tanto, que serão aduzidas em seguida: I) glosa da parcela de R$ 1.358.184,53 do débito de estimativa do mês de setembro/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 21973.58063.311012.1.3.17 0035 (PER/DCOMP inicial nº 14094.76116.160712.1.1.172876), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de Reintegra do 2º trimestre/2012, nos autos do processo nº 13884.905622/201211; II) glosa da parcela de R$ 3.265.823,04 do débito de estimativa do mês de novembro/2012, cuja compensação, declarada no PER/DCOMP n° 02046.77021.171212.1.3.178156 (PER/DCOMP inicial nº 05115.51453.301112.1.5.174102), não foi homologada pela DRF/São José dos Campos por insuficiência do crédito de Reintegra do 3º trimestre/2012, nos autos do processo nº 13884.900493/201356; Fl. 3024DF CARF MF Processo nº 13850.720207/201520 Resolução nº 1301000.610 S1C3T1 Fl. 5 4 O contribuinte apresentou a compensação relativo a débitos de estimativa do mês de setembro/2012 e novembro/2012, restando parcela que foi glosada, nos valores indicados acima. Os processos nos quais essas glosas são discutidas se encontram atualmente no CARF, pendente de distribuição desde 02/09/2016 (final 201211) e 03/05/2017 (final 2013 56), de modo que elas não podem ser tomadas por definitivas por este Colegiado. De pronto, é evidente a vinculação entre os processos em razão de decorrência, nos termos do art. 6º, §1º, II do RICARF: Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observando se a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: II decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; Entretanto, não é possível a este Colegiado requerer o apensamento destes processos aos presentes autos através da sua distribuição por dependência (art. 6º, §2º do RICARF), haja vista que a matéria é de competência da 3ª Seção de Julgamento do CARF, por se tratar o REINTEGRA de um regime aduaneiro especial de exportação, nos termos do art. 4º, XVII do Anexo II do RICARF. Desse modo, tratase de hipótese clara de aplicação do art. 6º, §5º do anexo II do RICARF: § 5º Se o processo principal e os decorrentes e os reflexos estiverem localizados em Seções diversas do CARF, o colegiado deverá converter o julgamento em diligência para determinar a vinculação dos autos e o sobrestamento do julgamento do processo na Câmara, de forma a aguardar a decisão de mesma instância relativa ao processo principal. Portanto, é mister que o Colegiado decida pelo sobrestamento do presente processo na Câmara, determinando a vinculação dele aos PAFs nº 13884.905622/201211 e nº 13884.900493/201356, que deverão ter o seus resultados juntados a estes autos, após exarada decisão definitiva na esfera administrativa. Conclusão Ante o exposto, voto por converter o presente julgamento em diligência para sobrestálo até o julgamento definitivo dos processos administrativos: a) 13884.905622/201211 e b) 13884.900493/201356. Após o trânsito em julgado desses processos, cópia da decisão definitiva deverá ser juntada aos presentes autos, retornando o processo a este relator para julgamento. É como voto. (assinado digitalmente) Fl. 3025DF CARF MF Processo nº 13850.720207/201520 Resolução nº 1301000.610 S1C3T1 Fl. 6 5 Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 3026DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.721820/2013-90
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Aug 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
ÁGIO. EMPRESA VEÍCULO. MULTA QUALIFICADA. ARTIGO 71, 72 E 73 DA LEI 4.502/64. DESCABIMENTO.
Para que se possa imputar a qualificação da multa, nos termos do artigo 44, I, §1º da Lei 9.430/1996, é imprescindível identificar a conduta praticada: se sonegação, fraude ou conluio - respectivamente, arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964.
A acusação de artificialismo de uma operação baseada na imputação de ilícitos atípicos, revelada pelo uso de empresa veículo para aproveitamento fiscal de ágio, sem a demonstração cabal de invalidades efetivas e do intuito de fraudar, sonegar ou atuar em conluio do sujeito passivo, não autoriza a qualificação da multa de ofício, independentemente do posicionamento que se tenha quanto à dedutibilidade do ágio na questão.
Além disso, o conceito de fraude fiscal do art. 72 da Lei 4.502/1964 exige que se demonstre condutas dolosas tendentes a afetar o fato gerador do tributo, ao passo que a dedução de despesas com ágio, ainda que considerada indevida, é uma conduta relativa à apuração da base de cálculo dos tributos sobre a renda.
Numero da decisão: 1301-003.226
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, na parte devolvida à turma pela CSRF, em dar provimento ao recurso voluntário para reduzir a multa de ofício para 75%.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Augusto Daniel Neto - Relator.
Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: CARLOS AUGUSTO DANIEL NETO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008, 2009 ÁGIO. EMPRESA VEÍCULO. MULTA QUALIFICADA. ARTIGO 71, 72 E 73 DA LEI 4.502/64. DESCABIMENTO. Para que se possa imputar a qualificação da multa, nos termos do artigo 44, I, §1º da Lei 9.430/1996, é imprescindível identificar a conduta praticada: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente, arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. A acusação de artificialismo de uma operação baseada na imputação de ilícitos atípicos, revelada pelo uso de empresa veículo para aproveitamento fiscal de ágio, sem a demonstração cabal de invalidades efetivas e do intuito de fraudar, sonegar ou atuar em conluio do sujeito passivo, não autoriza a qualificação da multa de ofício, independentemente do posicionamento que se tenha quanto à dedutibilidade do ágio na questão. Além disso, o conceito de fraude fiscal do art. 72 da Lei 4.502/1964 exige que se demonstre condutas dolosas tendentes a afetar o fato gerador do tributo, ao passo que a dedução de despesas com ágio, ainda que considerada indevida, é uma conduta relativa à apuração da base de cálculo dos tributos sobre a renda. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, na parte devolvida à turma pela CSRF, em dar provimento ao recurso voluntário para reduzir a multa de ofício para 75%. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 18 20 /2 01 3- 90 Fl. 1886DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Relator. Participaram do presente julgamento os seguintes Conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Ausente justificadamente a Conselheira Bianca Felícia Rothschild. Relatório Tratamse de Autos de Infração de IRPJ Imposto de Renda Pessoa Jurídica e de CSLL Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, decorrente da glosa de despesas de amortização de ágio na aquisição de investimento, nos anos de 2007, 2008 e 2009, acrescido de multa qualificada. Por bem descrever o ocorrido, socorrome de trechos do relatório elaborado pela DRJ na lavratura do Acórdão nº 1655.654. A matéria tributável do anocalendário de 2007, de R$ 22.116.438,62, foi integralmente compensada com prejuízos (fl. 1.245) e bases negativas de CSLL do próprio período (fl. 1.260). A matéria tributável do anocalendário de 2008, de R$ 22.116.438,62, foi integralmente compensada com prejuízos (fl. 1.246) e bases negativas de CSLL do próprio período (fl. 1.261). A matéria tributável do anocalendário de 2009 foi parcialmente compensada com prejuízos e bases negativas do período e com prejuízos e bases negativas de períodos anteriores, conforme demonstrativos de fls. 1.247 e 1.262, tendo a parcela não compensada resultado na constituição de ofício de crédito tributário, (...) Em razão do pagamento do débito decorrente de exclusões indevidas na apuração do Lucro Real, item I do TVF de fls. 1232/1241, o presente relatório apresentará apenas o que for pertinente ao deslinde do feito. A autoridade fiscal considerou indevida a dedução de R$ 22.396.138,56 efetuada na linha 47 da Ficha 7A de suas DIPJ relativas aos anoscalendários 2007, 2008 e 2009, a título de amortização de ágio, após analisar os eventos abaixo descritos: 1. Em 17/07/96, o Grupo Econômico multinacional HOLCIM adquire 95,94% das ações da Companhia CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, CNPJ nº 33.160.318/000199, da seguinte forma: compra integral da Santa Rosalia Participações, a qual detinha 63,53% da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, pelo valor de US$ 207,1 milhões em moeda nacional; aquisição de 32,41% da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO diretamente das pessoas físicas “Irmãs Pereira da Silva”, pelo valor de US$ 86 milhões, pagos mediante a entrega de 537.520 ações ordinárias da HOLCIM BRASIL S/A, as quais correspondiam a 12,17% de seu capital social. Fl. 1887DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 3 3 2. Na mesma data, 17/07/1996, foi celebrado o “Acordo de Acionistas e Contrato de Opção” entre as Irmãs Pereira da Silva, a controladora da HOLCIM BRASIL S/A (Holderfin BV, sociedade holandesa) e uma outra empresa do grupo (Holderbank Financière Glaris Ltd., empresa suíça), para estipular direito de preferência à Holderbank Financière Glaris Ltd na compra das ações da HOLCIM BRASIL S/A detidas pelas Irmãs Pereira da Silva e, ainda, o direito da Holderbank Financière Glaris Ltd. ou de qualquer afiliada adquirir, em 31/05/2001, todas aquelas ações remanescentes; 3. Em 30/06/2000, as Irmãs Pereira da Silva vendem à Holderfin BV 134.380 ações da HOLCIM BRASIL S/A pelo valor de R$ 38.748.375,00; 4. Em 18/12/2000 a Holderfin BV integraliza essas 134.380 ações da HOLCIM BRASIL S/A em aumento de capital da empresa PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., CNPJ nº 02.564.317/000186 (conforme 2ª. alteração contratual desta empresa). Esta operação foi registrada somente após 12/07/2001, ou seja, necessariamente, após a segunda recompra; 5. Em 02/07/2001 a Holderbank Financière Glaris Ltd., através de sua filiada PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., exerce o seu direito de compra e adquire as 403.140 ações restantes que as "Irmãs Pereira da Silva" possuíam da HOLCIM BRASIL S/A, pelo valor de R$ 199.926.063,46; 6. Ainda em 02/07/2001, a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., desdobra o seu Investimento na HOLCIM BRASIL S/A, composto por 537.520 ações, em custo de aquisição no valor de R$ 17.510.052,24 e ágio no valor R$ 221.164.386,22, totalizando os R$ 238.674.438,46 pagos em 30/06/2000 e em 02/07/2001; 7. Em 20/12/2001 é aprovada a incorporação da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. pela HOLCIM BRASIL S/A a qual, a partir do ano calendário de 2002, vem amortizando o valor do ágio gerado na operação a razão de 10% ao ano. Aduziu a fiscalização, em síntese, que: I) a contribuinte criou artificialmente as condições estabelecidas pelo legislador para se enquadrar nos termos do §6º, inciso II do art. 386, do RIR/99. II) A intenção do Grupo Holcim foi a aquisição da Companhia de Cimento Portland Paraíso; jamais a de ter as Irmãs Pereira da Silva como acionistas da HOLCIM BRASIL S/A, conforme evidenciado pelo Acordo de Acionistas celebrado entre as partes que, por sua vez, previa direito de preferência para a reaquisição daquelas ações; III) A recompra das ações da HOLCIM BRASIL S/A se deu por dois caminhos diversos: (a) no primeiro procedimento, a Holderfin BV adquiriu diretamente da família Pereira da Silva, pelo valor de R$ 38.748.375,00, 134.380 ações da HOLCIM BRASIL, ou seja, parte do que havia sido transferido às vendedoras na ocasião da compra da Cimento Portland Paraíso; (b) no segundo, a Holderfin BV integralizou o valor da compra na empresa veículo PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. para que, no mesmo dia, essa empresa veículo Fl. 1888DF CARF MF 4 adquirisse o restante das ações da HOLCIM BRASIL S/A. que estavam sob titularidade das Irmãs Pereira da Silva; Para isso, utilizou uma empresa veículo denominada PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA, que teve como única função receber os recursos da investidora real e adquirir a participação na investida, para logo após ser incorporada pela investida. Posteriormente, a HOLCIM BRASIL S/A incorporou a empresa veículo, fazendo com que as ações daquela retornassem ao domínio da Holderfin BV. Sobre a multa qualificada, a fiscalização concluiu que a operação montada pelo Grupo Econômico HOLCIM, a qual envolveu a utilização da empresa veículo PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., não teve motivação econômica ou negocial e teve por único propósito receber o ágio pago pela empresa estrangeira Holderfin BV, na aquisição de 17% do capital social do contribuinte para posteriormente amortizálo. A conduta da fiscalizada, em conluio com as demais empresas do grupo, enquadrase no previsto no artigo 44, inciso I, § 1º, da Lei nº 9.430/96, vez que configurada a hipótese prevista no artigo 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. A Impugnação alegou, em síntese: a) o lapso temporal entre as operações societárias realizadas e a legalidade da operação. b) a normalidade da cláusula de direito de preferência conferido ao Grupo Holcim na aquisição das ações da família Pereira da Silva; c) a empresa PARAÍSO PARTICIPAÇÕES tem como finalidade a obtenção e gestão de participações societárias em outras empresas, razão pela qual não tem grande quadro de funcionários ou atividades operacionais; d) existência de motivação extratributária, conforme manifestação oficial da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, e parecer que demonstrou a necessidade de mercado da Holcim fazer frente à concorrência do grupo Votorantim; e) Inocorrência de fraude, conluio ou sonegação; f) decadência do direito do fiscal, em 2013, alterar o ágio contabilizado em 2001, nos termos do art. 150, §4º do CTN; A 5ª Turma da DRJ em São Paulo I/SP negou provimento integralmente à impugnação apresentada, ensejando a interposição de Recurso Voluntário para o CARF, o qual foi julgado integralmente procedente através do Acórdão CARF nº 1301001.950, em 02 de Março de 2016. Nesse acórdão, negouse provimento à preliminar de decadência, reconhecendose, todavia, o direito do contribuinte à amortização do ágio. O referido acórdão foi objeto de Recurso Especial por parte da Procuradoria da Fazenda, vindo a ser admitido e julgado no âmbito da 1ª CSRF através do Acórdão CSRF nº 9101003.132, que reverteu o entendimento favorável ao contribuinte, como se depreende de sua ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 1889DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 4 5 Anocalendário: 2007, 2008, 2009 ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da “confusão patrimonial” a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na “mais valia” do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a “confusão patrimonial”, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. Em razão do provimento integral no CARF, a matéria relativamente à aplicação da multa qualificada não foi apreciada pelo Colegiado, não sendo também objeto de devolução através do Recurso Especial da PFN, razão pela qual os autos retornam à esta turma, em nova composição, para o julgamento da parte remanescente do Recurso Voluntário do Contribuinte. É o relatório. Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. A matéria meritória remanescente para julgamento neste Colegiado diz respeito exclusivamente à alegação 3.6 do Recurso Voluntário do Contribuinte (fls. 1565/1570), que versa sobre a necessidade de redução da multa qualificada. Inicialmente, refirome especificamente às razões esposadas pela Douta Fiscalização na imputação das sanções ora contestadas, em fls. 12391241 (as reproduções de legislação serão omitidas): Fl. 1890DF CARF MF 6 Em oposição, a Recorrente aduziu: I) Não há a descrição de qualquer conduta dolosa cometida pela Recorrente, com a finalidade de fraude à fiscalização tributária. II) Há uma diferença entre fraude e divergência na qualificação jurídica no presente caso, haveria uma divergência quanto a extensão do benefício fiscal previsto na Lei nº 9.532/97. III) Cita jurisprudência do CARF. Pois bem, inicio a análise da questão posta pela legislação de regência, marcadamente o art. 44, I, §1º da Lei nº 9.430/96, verbis: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Como condição qualificadora da multa, mencionou os arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: Fl. 1891DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 5 7 I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Pela descrição fática constante do TVF, a conduta imputada ao contribuinte foi a de "modificar característica essencial do fato gerador, a sua base de cálculo, (...), de modo a reduzir o montante do imposto devido", correspondente à fraude do art. 72 da Lei nº 4.502/64, bem como o conluio (art. 73), pela participação de diversas pessoas jurídicas. De início, vislumbramos um claro problema terminológico que deságua em uma impropriedade técnica: a fraude qualificadora da multa do art. 44, I da Lei nº 9.430/96 é sempre uma conduta referente ao fato gerador do tributo que não foi declarado ou deixou de ser pago as condutas podem ser impedilo ou retardálo, ou excluir/modificar uma de suas características essenciais, e a finalidade é a redução do seu montante ou o diferimento do pagamento. O fato gerador a que se refere o art. 72 não é a descrição hipotética e abstrata que somente a lei pode construir e que se põe como condição da incidência tributária (denominada usualmente na doutrina como Hipótese de Incidência), mas sim aquele fato gerador a que se refere o art. 114 do Código Tributário Nacional ("Art. 114. Fato gerador da obrigação principal é a situação definida em lei como necessária e suficiente à sua ocorrência."). Na acatada lição de Geraldo Ataliba, o fato gerador (imponível) é o fato concreto, localizado no tempo e no espaço, acontecido efetivamente e que, por corresponder rigorosamente à descrição prévia, hipoteticamente formulada pela hipótese de incidência legal, dá nascimento à obrigação tributária (ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ªed. São paulo: Malheiros, 2009, p.68). Em se tratando do Imposto de Renda, o CTN exerceu a sua função de estabelecimento de normas gerais, impondose hierarquicamente como Lei Complementar nos termos do art. 34, §5º das ADCT da CF/88, dispondo sobre a hipótese de incidência em seu art. 43, que assim prescreveu as condições de fato para a incidência do referido imposto: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: Fl. 1892DF CARF MF 8 I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Portanto, de forma singela, a incidência do IRPJ se dará em razão da aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou de proventos de qualquer natureza fórmula singela, mas de reconhecida complexidade na doutrina e jurisprudência. Não cabe a nós, aqui, desvelála, mas simplesmente pôr em evidência o seu conteúdo, para fins de delimitação do alcance das qualificadoras da multa. Nesse sentido, recorrendome novamente às lições de Ataliba, a configuração do fato (aspecto material), sua conexão com alguém (aspecto pessoal), sua localização (aspecto espacial) e sua consumação num momento fático determinado (aspecto temporal), reunidos unitariamente determinam o efeito jurídico desejado pela lei: a criação da obrigação jurídica concreta (ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ªed. São paulo: Malheiros, 2009, p.69). De uma forma mais analítica e estruturada, Paulo de Barros Carvalho pontuou que a regra matriz de incidência dos tributos é dividida entre uma hipótese, composta por critérios materiais, espaciais e temporais, e uma consequência, composta pelos critérios pessoal, base de cálculo e alíquota (CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário Fundamentos Jurídicos da Incidência, 8ªed. São Paulo: Saraiva, 2010, p.133). Não se trata de uma questão fradesca ou meramente acadêmica, sobretudo em razão da estruturação científica do CTN, mas sim nuclear para o deslinde do alcance do art. 72 da Lei nº 4.502/64. Como se vê, a base de cálculo, a despeito de ser uma perspectiva dimensível do aspecto material, não compõe a hipótese de incidência do tributo descrição hipotética do fato gerador , mas sim a estrutura abstrata da obrigação que surgirá com o nascimento da exação. A distinção entre a hipótese de incidência e a base de cálculo é reconhecida na própria legislação, como se vê no art. 44 do CTN, que contrasta com o art. 43, já citado: Art. 44. A base de cálculo do imposto é o montante, real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos tributáveis. Da mesma forma, o art. 97 do CTN: Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: III a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; Por fim, assumindo o risco da redundância, o contraste se põe de forma ainda mais evidente no art. 219 do RIR/99, evidenciando se tratarem de coisas distintas: Art.219.A base de cálculo do imposto, determinada segundo a lei vigente na data de ocorrência do fato gerador, é o lucro real (Subtítulo III), presumido (Subtítulo IV)ou arbitrado (Subtítulo V), correspondente ao período de apuração (Lei nº 5.172, de 1966, arts. 44, 104 e 144, Lei nº 8.981, de 1995, art. 26, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º). Fl. 1893DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 6 9 Diante disso, resta absolutamente claro que o art. 72 da Lei nº 4.502/64, ao descrever a fraude como uma série de condutas relativas ao fato gerador do tributo, acaba por excluir do seu escopo as condutas relativas aos demais aspectos do tributo a exemplo da base de cálculo, alíquota ou sujeição passiva, que dizem respeito à prescrição da obrigação tributária, e não à caracterização da ocorrência fática. Essa questão se torna mais relevante ainda, em se constate a lavratura de representação fiscal pra fins penais em razão da ocorrência da fraude do art. 72 da Lei nº 4.502/64. Há uma açodada relação biunívoca necessária entre multa qualificada e crime contra a ordem tributária (Lei nº 8.137/90), pela utilização das expressões "sonegação" e "fraude" em ambos os regramentos. Essa relação semântica, entretanto, não existe. Em rigor, o Direito Tributário brasileiro possui dois sentidos diferentes para "sonegação" e "fraude" fiscais um constante na lei nº 4.502/64 e outro na lei nº 8.137/90, sendo este último mais amplo do que o primeiro. Analisando apenas o caso da fraude fiscal, vejamos os dois dispositivos: Lei nº 4.502/64 Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Lei nº 8.137/90 Art. 1° Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo, ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas: Art. 2° Constitui crime da mesma natureza: I fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos, ou empregar outra fraude, para eximirse, total ou parcialmente, de pagamento de tributo; De fato, ambas as condutas visam penalizar condutas que visem a redução, total ou parcial, do tributo devido todavia, a fraude fiscal da Lei 4.502 pressupõe condutas relativas apenas ao fato gerador, enquanto a fraude fiscal da Lei 8.137 abrange condutas fraudulentas relativas a qualquer aspecto da regra tributária. Há um claro escopo mais restrito daquele, em relação a esta. Sequer se poderia afirmar que se trata de uma questão interpretativa, haja vista o reenvio expresso determinado pelo legislador. Explico. O legislador deve observar regras básicas de redação, com vistas a garantir que a mensagem seja o mínimo possível dissonante da intenção do emissor. Para isso, o art. 11 da Lei Complementar nº 95/98 trouxe diversas determinações: Art. 11. As disposições normativas serão redigidas com clareza, precisão e ordem lógica, observadas, para esse propósito, as seguintes normas: Fl. 1894DF CARF MF 10 I para a obtenção de clareza: a) usar as palavras e as expressões em seu sentido comum, salvo quando a norma versar sobre assunto técnico, hipótese em que se empregará a nomenclatura própria da área em que se esteja legislando; b) usar frases curtas e concisas; c) construir as orações na ordem direta, evitando preciosismo, neologismo e adjetivações dispensáveis; d) buscar a uniformidade do tempo verbal em todo o texto das normas legais, dando preferência ao tempo presente ou ao futuro simples do presente; e) usar os recursos de pontuação de forma judiciosa, evitando os abusos de caráter estilístico; II para a obtenção de precisão: a) articular a linguagem, técnica ou comum, de modo a ensejar perfeita compreensão do objetivo da lei e a permitir que seu texto evidencie com clareza o conteúdo e o alcance que o legislador pretende dar à norma; b) expressar a idéia, quando repetida no texto, por meio das mesmas palavras, evitando o emprego de sinonímia com propósito meramente estilístico; c) evitar o emprego de expressão ou palavra que confira duplo sentido ao texto; d) escolher termos que tenham o mesmo sentido e significado na maior parte do território nacional, evitando o uso de expressões locais ou regionais; e) usar apenas siglas consagradas pelo uso, observado o princípio de que a primeira referência no texto seja acompanhada de explicitação de seu significado; f) grafar por extenso quaisquer referências a números e percentuais, exceto data, número de lei e nos casos em que houver prejuízo para a compreensão do texto; (Redação dada pela Lei Complementar nº 107, de 26.4.2001) g) indicar, expressamente o dispositivo objeto de remissão, em vez de usar as expressões ‘anterior’, ‘seguinte’ ou equivalentes; (Incluída pela Lei Complementar nº 107, de 26.4.2001) III para a obtenção de ordem lógica: a) reunir sob as categorias de agregação subseção, seção, capítulo, título e livro apenas as disposições relacionadas com o objeto da lei; b) restringir o conteúdo de cada artigo da lei a um único assunto ou princípio; Fl. 1895DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 7 11 c) expressar por meio dos parágrafos os aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida; d) promover as discriminações e enumerações por meio dos incisos, alíneas e itens. Para o presente caso, calham especificamente as disposições dos incisos I, "a" e II, "g", que tratam do uso das palavras no texto, determinando que sejam usadas em sentido comum, salvo hipótese de terminologia técnica, ao mesmo tempo que exige que os casos em que se utilize da técnica de remissão, se determine expressamente o dispositivo ao qual se remete. O uso comum não inspira maiores investigações aqui, visto que depende do contexto em que se insere o texto, bem como os sentidos consensados socialmente. Por outro lado, ao utilizar conceitos técnicos, o legislador se põe diante de três alternativas, bem explicitadas por Heleno Tôrres, ao tratar da relação entre o Direito Privado e o Direito Civil: As relações entre normas de direito civil e normas tributárias supõem destas últimas um mecanismo seletivo de propriedades para determinar os específicos efeitos dos atos jurídicos de direito privado no âmbito tributário. E, assim, poderemos ter: i) criação de algum tipo próprio, alheio a quaisquer outros do direito privado; ii) um reenvio direto àquelas matérias, quando as normas tributárias nada prescrevem de inovador; ou ainda iii) uma transformação dos conceitos sem que estes percam suas identidades nas relações regidas exclusivamente pelo direito privado (TORRES, Heleno Taveira. Autonomia privada, simulação e elusão tributária. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2003, p.131). No mesmo sentido, Fernando Daniel Fonseca(Cf. Normas Tributárias e a Convergência das Regras Contábeis aos Padrões Internacionais. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2014, p.8485) aduz que três possibilidades se descortinam: a) Construção de conceitos autônomos atribuição de sentido específico para o termo, no ramo tributário; b) Incorporação de conceitos assunção de um conceito preexistente; c) Reenvio a lei tributária faz remissão ao conceito que se refere. Historicamente sempre existiu um conceito de fraude no âmbito do Direito Civil, como vício do negócio jurídico. Entretanto, na seara tributária, o legislador achou por bem criar um conceito de fraude fiscal, positivado no art. 72 da Lei nº 4.502/64, utilizado também no Código Tributário Nacional, mas também utilizouse de um conceito penal, mais amplo, de fraude ao elaborar a Lei nº 8.137/90 portanto, construiu um conceito autônomo na Lei nº 4.502/64, e incorporou um conceito existente na Lei nº 8.137/90. Ao elaborar a Lei nº 9.430/96, o legislador nem criou um novo conceito, nem se utilizou de forma tácita de um conceito preexistente, mas sim fez um reenvio para o conceito de fraude da Lei nº 4.502/64. É dizer, os conceitos de ambas as leis eram preexistentes à Lei nº 9.430/96, mas o legislador fez uma escolha expressa de reenvio, para o conceito mais restrito de fraude Fl. 1896DF CARF MF 12 fiscal. Da mesma forma que, quando quis tratar da representação fiscal para fins penais, fez remissão expressa aos conceitos hauridos da Lei nº 8.137/90, em seu art. 83, verbis: Art. 83. A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1o e 2o da Lei no 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e aos crimes contra a Previdência Social, previstos nos arts. 168A e 337A do DecretoLei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), será encaminhada ao Ministério Público depois de proferida a decisão final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente. Portanto, não há como escapar da escolha expressa feita pelo legislador, nesse caso, por um conceito mais restrito de fraude fiscal para fins de multa qualificada. Sob uma perspectiva estritamente jurídica, podese dizer não apenas que esses homônimos escondem uma assimetria conceitual, mas também que o legislador fez uma escolha expressa em qual seria aplicado para fins de qualificação de multa, e qual seria aplicado para fins de imputação de crime contra a ordem tributária o que quer dizer, por exemplo, ser possível a representação fiscal para fins penais, sem que haja a qualificação da multa aplicada. Essa constatação não é novidade, entretanto, tendo sido a razão determinante do afastamento da qualificação da multa no Acórdão CARF nº 3403002.256, de relatoria do Conselheiro Antonio Carlos Atulim, ao analisar caso em que o contribuinte inserira informações falsas nas declarações de compensação, para utilizar créditos que não dispunha de fato. Aduziu o relator em seu voto: Explicando melhor: a definição de sonegação e de fraude previstas nas leis penais é mais abrangente do que a definição que visa à qualificação da penalidade administrativa. Existem situações concretas que podem ser enquadradas como crime de sonegação fiscal ou crime contra a ordem tributária, mas que não se encaixam perfeitamente na descrição contida na Lei nº 4.502/64. Isso significa que o fato da penalidade administrativa não ter sido qualificada, não impede o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, se este entender que a conduta do contribuinte se enquadra no que dispõe a lei penal. Os arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64 estabelecem as circunstâncias qualificativas da multa de ofício, definindo o que se considera sonegação, fraude e conluio para o fim de exasperar a sanção administrativa ao descumprimento da obrigação tributária principal. Esses artigos não definem crimes, mas sim hipóteses de exasperação da multa administrativa. E não se diga, como forma de contornar o presente argumento, que a determinação da base de cálculo faz parte da constatação também do fato gerador, ou que são atividades unitárias, pois tal assunção vai na contramão do disposto no art. 142 do CTN, que aduz: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a Fl. 1897DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 8 13 matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. É dizer, tratamse de duas atividades distintas em razão da própria diferença entre o fato gerador e a base de cálculo , a verificação da ocorrência do fato gerador (etapa na qual a fiscalização pode verificar a ocorrência de fraude fiscal) e, sucessivamente, a determinação da matéria tributável e cálculo do tributo, pela aplicação da alíquota correspondente. Desse modo, estando devidamente consolidada na legislação a distinção entre fato gerador e base de cálculo, resta claro que as condutas que afetem este último estão fora do alcance do conceito de fraude fiscal abrangido pelo art. 72 da Lei nº 4.502/64, visto que sua literalidade exige que se afete dolosamente a ocorrência do fato gerador ou suas características fundamentais. Retornando ao caso concreto, o próprio fiscal reconheceu que o planejamento tributário realizado pelo contribuinte afetou o montante do tributo devido através da sua base de cálculo que, como demonstrado exaustivamente, nada tem de "característica essencial" do fato gerador. De fato, a dedução das despesas de ágio na apuração do Lucro Real faz parte da determinação da matéria tributável (leiase base de cálculo), e não da realização do fato gerador (que nos termos do art. 43 do CTN, é a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos) isso fica absolutamente claro da leitura do art. 247 do RIR/99 c/c com o art. 219 do mesmo diploma: Art.247.Lucro real é o lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas por este Decreto Tratase, portanto, de apuração da matéria tributável. É plenamente possível que o fato gerador ocorra, mas que no momento da apuração se verifique uma base de cálculo negativa o que novamente reitera a distinção pertinente para fins de qualificação da multa de ofício. É preciso que reste claro: o fato gerador do IRPJ não é auferimento de Lucro Real, mas sim a aquisição de disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza, sendo a materialidade tributável calculada à partir da apuração do Lucro Real do exercício, aplicandose sobre ele a alíquota cabível. Desse modo, pela circunstância da dedução das despesas de ágio afetar a apuração da base de cálculo, entendo que ainda que acatando a premissa de ilicitude dessa conduta do contribuinte, consolidada pelo julgamento da CSRF, se verifica que ela não atende à condição do art. 72 da Lei nº 4.502/64, devendo ser afastada a qualificadora. Quanto à imputação da ocorrência de conluio, previsto no art. 73 da Lei nº 4.502/64, entendo também ser indevida. Reproduzimos abaixo o dispositivo: Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Fl. 1898DF CARF MF 14 A primeira razão é de natureza lógica: uma vez que reconhecemos que não foi atendido o pressuposto fático do art. 72 daquela lei, por consequência também não é possível reconhecer a ocorrência do conluio. A segunda razão é não é de tão evidente constatação. De acordo com o TVF, todas as empresas envolvidas no planejamento tributário HOLCIM BRASIL LTDA e PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. eram controladas direta ou indiretamente pela empresa holandesa HOLDERFIN BV, nos termos do art. 243, §2º da Lei nº 6.404/76. Isso quer dizer, na estrita dicção legal, que a HOLDERFIN BV, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais das outras empresas. Em bom português, a vontade manifestada à partir das deliberações sociais de todas as empresas se confunde com a vontade da controladora. Portanto, podese dizer que, a despeito da diversidade de entidades, em rigor haveria uma única vontade, imposta por força da titularidade de cotas sociais com poder deliberativo. Assim, afastase o requisito chave do conluio: a existência de um ajuste entre pessoas, que nada mais é do que um pacto, um acordo entre duas ou mais partes um encontro de vontades visando atingir um único escopo ilícito. No presente caso, apesar da existência de várias pessoas, não há acordo ou se há, não passa de mero simulacro para atos de uma vontade unitária e concentrada na HOLDERFIN BV , de modo que também não pode haver conluio. Mais ainda, há um óbice de ordem probatória à qualificação da multa pretendida pela fiscalização. Não há no TVF nada que descreva qualquer conduta fraudulenta ou simulada do contribuinte, e não há a verificação de dolo para a realização de condutas ilícitas, tampouco. O que há, novamente recorrendo à dicção do próprio fiscal, é a constatação de "ausência de motivação econômica ou negocial" ou, simplesmente, "falta de motivação extratributária". É preciso cautela nesse ponto. Nos termos do art. 142 do CTN, é competência do auditor fiscal, em sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Ao se referir ao "caso", o dispositivo já evidencia que cabe ao auditor identificar a conduta ilícita que é causa de imputação da penalidade (ou qualificação, no presente caso). Além disso, não baste alegar a ocorrência do fato ilícito é preciso que ele seja demonstrado de forma suficiente e por todos os meios de prova indispensáveis para a sua comprovação. É dizer, o ônus probatório da conduta ilícita repousa sobre os ombros da Administração Tributária, conforme determinado pelo art. 9º do Decreto 70.235/72: Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Fl. 1899DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 9 15 Mais, é preciso que haja a individualização da conduta ilícita, até mesmo para identificar o sujeito que deverá ser punido, conforme o universal princípio da individualização das penas, entre nós positivado no art. 5º, XLVI da CF/88. Por fim, é preciso que a motivação da aplicação da penalidade seja, nos termos do art. 50, II, §1º da Lei nº 9.784/99, explícita, clara e congruente: Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: II imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; § 1o A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Resta identificarmos as condições legais de sua validade, dentro dos parâmetros indicados. Por explícita, há que se compreender enunciados todos os elementos do raciocínio jurídico aplicado desde os indícios e provas utilizados para construção da premissa maior do argumento, até a interpretação dada à legislação para identificar a premissa menor, explicitando assim o iter intelectual subjacente à instanciação da norma consubstanciada naquele ato. Portanto, tratase de uma característica decorrente de uma relação entre a motivação adotada e o agente administrativo. Por clara, referese naturalmente à clareza textual como virtude de linguagem, essencialmente ligada à capacidade do texto ser compreendido pelos destinatários, o que exige a eliminação de ambiguidades, indeterminações e contradições, bem como a adoção de uma escrita objetiva. Consubstancia, pois, uma elemento da motivação em si mesma, enquanto texto gramaticalmente estruturado. Por fim, resta a congruência. Tratase de um conceito linguístico adaptado da geometria, dizendo respeito a uma relação de semelhança, correspondência ou referibilidade é dizer, a motivação congruente deve guardar precisa referibilidade com os fatos ou atos que ensejaram a atuação administrativa. Tratase, pois, de um elemento que se depreende do cotejo da motivação com os fatos/atos aos quais ela se refere. Portanto, em síntese, na aplicação de uma multa qualificada, é dever do auditor fiscal: I) Subsumir precisamente qual a causa da qualificação; II) Comprovar suficientemente a ocorrência das condições materiais de imputação, inclusive o dolo do sujeito passivo; Fl. 1900DF CARF MF 16 III) Individualizar a conduta responsável pela qualificação; IV) Apresentar motivação clara, explícita e congruente, que guarde coerência com o restante da autuação. Da conclusão de que o planejamento tributário foi abusivo, incorrendo nos chamados ilícitos atípicos (falta de propósito negocial, abuso de direito, abuso de formas, ausência de motivo extratributário etc.), não permite sucessivamente a qualificação da multa aplicada, sendo necessário o atendimento de um ônus probatório específico da fiscalização, que comprove a conduta de sonegação ou fraude, dos arts. 71 e 72 da Lei nº 4.502/64, respectivamente. Essa posição vem sendo adotada na 1ª CSRF em diversos casos, a exemplo do Caso H Stern, Acórdão CSRF nº 9101002.189, cuja ementa aduziu: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2001, 2002 MULTA QUALIFICADA. Para que se possa preencher a definição do evidente intuito de fraude que autoriza a qualificação da multa, nos termos do artigo 44, II, da Lei 9.430/1996, é imprescindível identificar a conduta praticada: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente, arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. A mera imputação de simulação não é suficiente para a aplicação da multa de 150%, sendo necessário comprovar o dolo, em seus aspectos subjetivo (intenção) e objetivo (prática de um ilícito). Mais recentemente, no Acórdão CSRF nº 9101003.365, julgado em Janeiro de 2018, mantevese a glosa das deduções de despesas decorrentes de ágio interno, mas afastouse a qualificação da multa em razão da falta de demonstração cabal do intuito de fraudar ou sonegar do sujeito passivo. A ementa dessa parte do voto foi eloquente: MULTA QUALIFICADA. A acusação de artificialismo de uma operação baseada na ausência de seu propósito negocial revelada pela geração de ágio interno e com uso de empresa veículo, sem a demonstração cabal de invalidades efetivas e do intuito de fraudar, sonegar ou atuar em conluio do sujeito passivo, com a devida subsunção aos artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 4502/64 não autoriza a qualificação da multa de ofício, independentemente do posicionamento que se tenha quanto à dedutibilidade do ágio na questão. Esse ponto se torna mais sensível quando são invocados, para justificar a ineficácia dos negócios jurídicos e das operações societárias perante a fiscalização, os ilícitos atípicos, pelo simples motivo de que eles não são condutas tecnicamente ilícitas, mas somente ineficazes perante o Fisco, mantendo todos os seus efeitos para outros fins. É dizer, o dolo existente, nesses casos, não é um dolo direcionado a uma conduta ilícita, mas sim a uma conduta lícita, mas considerada abusiva pela Administração. Não há que se confundir o dolo exigido para a caracterização das condutas de sonegação e fraude que são direcionadas a condutas ilícitas, com a finalidade de afetar o fato gerador ou o conhecimento dele por parte da autoridade , com o dolo existente na realização Fl. 1901DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 10 17 de um planejamento tributário, que se direciona à realização de condutas lícitas com a finalidade (exclusiva ou não) de redução dos tributos. Do fato da fiscalização entender que negócios realizados com o fito de planejamento tributário, apenas, não são eficazes perante ela não gera a ilação de que eles sejam ilícitos. Nesse mesmo sentido, e indo além nas conclusões, ao pugnar pela impossibilidade de qualquer multa nos casos de ilícitos atípicos, é a lição de Marco Aurélio Greco, em sua tradicional obra sobre o tema: Várias vezes repeti que a questão da elisão tributária envolve uma divergência quanto à qualificação jurídica de fatos certos; divergência que, do ângulo do contribuinte, apoiase na convicção da regularidade, não apenas forma, de sua conduta. Na primeira hipótese, os fatos estão explícitos, à disposição do Fisco e ressalta com clareza o cerne do debate que é a divergência de qualificação. Neste contexto, entendo que a boa fé do contribuinte e a confiança que deposita no ordenamento jurídico como um todo (no qual entendeu encontrar guarida) devem ser protegidos. Portanto, que a exigência tributária se faça, mas sem a aplicação de penalidades, pois não houve conduta ilícita do contribuinte. Terá havido a prática de um ato ou a celebração de um negócio ineficaz perante o Fisco, mas não de um ato ilícito (...). (Planejamento Tributário, 3ªed. São Paulo: Dialética, 2011, p.588) Sobre a necessidade de comprovação do dolo para o enquadramento de ilícitos fiscais, também se manifestou o I. Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, no Acórdão CARF nº 1402002.082: Vêse que, para enquadrar determinado ilícito fiscal nos dispositivos dessa lei, há necessidade que esteja caracterizado o dolo. O dolo, que se relaciona com a consciência e a vontade de agir, é elemento de todos os tipos penais de que trata a Lei nº 4.502, de 1964, ou seja, a vontade de praticar a conduta, para a subsequente obtenção do resultado. Deve ficar demonstrada que a conduta praticada teve o intuito consciente voltado a suprimir ou reduzir o pagamento do tributo ou contribuições devidos. Analisando o presente caso, não se pode dizer que a reorganização societária levada a efeito pela recorrente tivesse por finalidade impedir ou retardar o conhecimento dos fatos por parte da autoridade fazendária, caracterizando sonegação. Da mesma forma, em momento algum procurouse ocultar os atos que praticou visando afetar o fato gerador. Não verificamos nos autos conduta objetiva e determinada que indique o dolo do contribuinte e justifique a qualificadora da multa. Não houve geração e aproveitamento ilícito do ágio pelo contrário, todas as operações foram públicas e registradas, e houve o efetivo pagamento pela aquisição dos investimentos com ágio, conforme afirmado pela própria fiscalização. Não há qualquer traço de simulação ou dissimulação nas operações societárias, mas tãosomente a vontade da Fiscalização de desconsiderar negócios realizados de forma lícita, por considerálos não ilícitos, mas desprovidos de motivação extratributária. Fl. 1902DF CARF MF 18 Ademais, mesmo o argumento da ausência de motivação extratributária goza é de exemplar fragilidade, visto que mesmo na decisão da DRJ diversos dos seus fundamentos foram afastados (fls. 1512/1513): A autoridade fiscal afirmou que o Grupo Holcim jamais teve a intenção de ter as antigas controladoras da Companhia de CIMENTO PORTLAND PARAÍSO (as “Irmãs Pereira da Silva”) como acionistas da HOLCIM BRASIL S/A., o que só teria ocorrido para viabilizar a aquisição daquela Companhia. Porém, as negociações empresariais entre partes independentes envolvem, naturalmente, uma troca de interesses, presentes a cada uma das partes um sacrifício e um benefício, os quais correspondem ao benefício e ao sacrifício da outra parte. Assim, em princípio, não se mostra irregular o fato de o ingresso das Irmãs Pereira da Silva no grupo (sacrifício do grupo Holcim) ter ocorrido para viabilizar a aquisição da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO (benefício do grupo Holcim) e sua incorporação ao grupo em janeiro de 1997. Objetivamente, se a saída e posterior retorno das ações da HOLCIM BRASIL S/A fossem desconsideradas, forçoso concluir que o valor pago às Irmãs Pereira da Silva pelo Grupo HOLCIM, por ocasião da “recompra” daquelas ações, teria sido, na realidade, para pagamento da aquisição, pelo mesmo grupo HOLCIM, dos 32% que as Irmãs Pereira da Silva detinham sobre a Companhia de Cimento PORTLAND PARAÍSO. Entretanto, além da distância temporal – as ações da Cia CIMENTO PORTLAND foram transferidas ao Grupo HOLCIM em 1996 e os pagamentos relativos ao “ágio” foram efetuados em 2000 e 2001 – não há nos autos elementos que comprovem a eventual suspeita de que os valores pagos às Irmãs Pereira da Silva não se vinculam à (re) aquisição das ações da HOLCIM BRASIL S/A. Ressaltese que o interesse legítimo do Grupo Holcim na aquisição dessa companhia (Cia CIMENTO PORTLAND PARAÍSO) não foi questionada pela fiscalização. Ressaltese, mais ainda, que a holding PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., cujo propósito negocial foi rechaçado pela fiscalização, não tem relação com o GRUPO PARAÍSO, integrado pela Cia. CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, empresa operacional que foi incorporada ao Grupo Holcim em janeiro de 1997, muito antes da criação da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. (maio de 1998). Ao final, o fundamento da glosa foi a de que o propósito negocial da aquisição da CIA CIMENTO PORTLAND não se comunicava com a criação da holding PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA, que foi utilizada para adquirir os investimentos com ágio e ser incorporada pela Recorrente, em seguida. Portanto, no fim, o fundamento da glosa é a utilização de empresaveículo para o aproveitamento fiscal de ágio. A questão não é pacífica na jurisprudência do CARF, mas se tem um ponto nela que se apresenta como unânime é de que não é ilícito constituir uma empresa veículo, mesmo que a utilização dela tenha a eficácia negada pelo Fisco. Para além disso, nenhum dos ponto levantados no TVF se mantém como justificativa da glosa. Portanto, tampouco há qualquer prova da realização das condutas dos arts. 72 e 73 da Lei nº 4.502/64, razão pela qual deve ser afastada a qualificadora da multa. Conclusão Fl. 1903DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 1301003.226 S1C3T1 Fl. 11 19 Desse forma, na matéria devolvida ao conhecimento do Colegiado por força da decisão da CSRF, dáse provimento integral ao Recurso para reduzir a multa para o patamar de 75%, afastando a qualificadora imputada. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 1904DF CARF MF
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