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Numero do processo: 10872.720172/2019-14
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 30 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2015
NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. NEGATIVA AO PEDIDO DE DILIGÊNCIA. FALTA DE APRECIAÇÃO DE PROVAS. INOCORRÊNCIA.
Comprovado que todos os documentos apresentados foram analisados, não se admite a alegação de falta de motivação do ato administrativo. Também não há violação ao art. 31 do Decreto nº 70.235/72, no que respeita à determinação de que a decisão deva referir-se expressamente às razões de defesa suscitadas pela Recorrente.
PIS E COFINS. DECLINAÇÃO DE COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO. REGIMENTO INTERNO DO CARF.
O PIS e a COFINS exigidos por conta de infração autônoma e independente das demais objeto dos autos de infração albergados por este processo devem ser julgados pela 3ª Seção de Julgamento, conforme o disposto no art. 4º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2015
GLOSA DE CUSTOS. DIVERGÊNCIA. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE ESCLARECIMENTO POR PARTE DO CONTRIBUINTE.
Oscustosedespesasoperacionaissãodedutíveisnaapuraçãodoresultadodapessoajurídicaapenassedevidamentecomprovadacomdocumentação hábileidôneaàrealizaçãodasoperaçõesquelhederamorigem.
Numero da decisão: 1401-007.529
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a glosa de R$163.497.839,00 e, em relação ao recurso de ofício, por voto de qualidade, declinar da competência do seu julgamento para a 3ª Seção do CARF, nos termos do voto do Relator.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves – Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 2015 NULIDADE DA DECISÃO RECORRIDA. NEGATIVA AO PEDIDO DE DILIGÊNCIA. FALTA DE APRECIAÇÃO DE PROVAS. INOCORRÊNCIA. Comprovado que todos os documentos apresentados foram analisados, não se admite a alegação de falta de motivação do ato administrativo. Também não há violação ao art. 31 do Decreto nº 70.235/72, no que respeita à determinação de que a decisão deva referir-se expressamente às razões de defesa suscitadas pela Recorrente. PIS E COFINS. DECLINAÇÃO DE COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO. REGIMENTO INTERNO DO CARF. O PIS e a COFINS exigidos por conta de infração autônoma e independente das demais objeto dos autos de infração albergados por este processo devem ser julgados pela 3ª Seção de Julgamento, conforme o disposto no art. 4º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015 GLOSA DE CUSTOS. DIVERGÊNCIA. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE ESCLARECIMENTO POR PARTE DO CONTRIBUINTE. Oscustosedespesasoperacionaissãodedutíveisnaapuraçãodoresultadodapessoajurídicaapenassedevidamentecomprovadacomdocumentação hábileidôneaàrealizaçãodasoperaçõesquelhederamorigem.
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NEGATIVA AO PEDIDO DE DILIGÊNCIA. FALTA DE APRECIAÇÃO DE PROVAS. INOCORRÊNCIA. Comprovado que todos os documentos apresentados foram analisados, não se admite a alegação de falta de motivação do ato administrativo. Também não há violação ao art. 31 do Decreto nº 70.235/72, no que respeita à determinação de que a decisão deva referir-se expressamente às razões de defesa suscitadas pela Recorrente. PIS E COFINS. DECLINAÇÃO DE COMPETÊNCIA PARA O JULGAMENTO. REGIMENTO INTERNO DO CARF. O PIS e a COFINS exigidos por conta de infração autônoma e independente das demais objeto dos autos de infração albergados por este processo devem ser julgados pela 3ª Seção de Julgamento, conforme o disposto no art. 4º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2015 GLOSA DE CUSTOS. DIVERGÊNCIA. ÔNUS DA PROVA. FALTA DE ESCLARECIMENTO POR PARTE DO CONTRIBUINTE. Os custos e despesas operacionais são dedutíveis na apuração do resultado da pessoa jurídica apenas se devidamente comprovada com documentação hábil e idônea à realização das operações que lhe deram origem. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 17765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a glosa de R$163.497.839,00 e, em relação ao recurso de ofício, por voto de qualidade, declinar da competência do seu julgamento para a 3ª Seção do CARF, nos termos do voto do Relator. (documento assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves – Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de julgamento de recurso voluntário (v. e-fls. 17.275/17.305) interposto em face do acórdão nº 12-116.081 - 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro – DRJ/RJO (v. e-fls. 17.233/17.265), que julgou parcialmente procedente a impugnação da Recorrente (v. e-fls. 16.910/16.954). Por bem refletir os fatos que envolvem o presente processo, reproduzo abaixo o Relatório da decisão recorrida: Trata o presente processo de crédito constituído pela SRRF 07 – DIFIS / Grupo de Fiscalização 02, mediante a lavratura de Autos de Infração em 11/12/2019 para lançamento de IRPJ, CSLL, COFINS e PIS do ano-calendário de 2015, nos seguintes valores (fls. 16.817 a 16.847): No Termo de Verificação Fiscal nº 029 (fls. 16.622 a 16.653) verifica-se, em síntese, que: A fiscalização teve início em 15/03/2018, quando o contribuinte foi intimado a apresentar diversos demonstrativos e esclarecimentos, dentre os quais os relativos a aquisição e contabilização de energia para revenda e procedimentos de perdas não técnicas. Em atendimento às intimações, o contribuinte apresentou planilhas eletrônicas e diversos arquivos digitais contendo documentos comprobatórios relativos à aquisição de bens para revenda. Fl. 17766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 3 Na análise dos arquivos digitais a fiscalização constatou que os custos de aquisição de energia elétrica para revenda foram agrupados pelo contribuinte da seguinte forma: Também foram constatadas pela fiscalização divergências entre os valores de energia adquirida para revenda, tendo sido solicitados esclarecimentos ao contribuinte: Após conferência e análise final da Escrituração Contábil Digital (ECD), Escrituração Contábil Fiscal (ECF), notas fiscais eletrônicas, planilhas, arquivos digitais e demais documentos apresentados pelo contribuinte, a fiscalização entendeu que não foram comprovadas, com documentação hábil e idônea, as seguintes aquisições de energia para revenda: Em relação ao grupo “Energia – Mercado de Curto Prazo – MCP”: 59) Com relação às Notas de Liquidação das Contabilizações do Mercado de Curto Prazo da CCEE (NLC), apresentadas em 16 de julho de 2019, cujos valores se encontram na coluna "Valor Nota em Reais" da aba Energia - MCP, constatamos que não foram apresentadas Notas para os meses (competência) de julho (R$ 178.499.433,24) e outubro (R$ 58.470.885,42), quando da lavratura do Termo No 022, tendo o mesmo sido novamente intimado a apresentar as notas em questão, através do item 5 do citado Termo. 60) Constatamos que o contribuinte não apresentou as Notas de Liquidação em questão, dentre os documentos e arquivos digitais entregues em 28 de agosto de 2019. A planilha eletrônica intitulada DOC06_Docs_Sumarios_CCE_MCP, que foi apresentada em 25 de fevereiro de 2019 e reapresentada em 28 de agosto de 2019 não dispõe das fórmulas utilizadas em suas células, não sendo possível estabelecer uma memória de cálculo. Ressalte-se que se trata de documento emitido pelo próprio fiscalizado e que deste modo não se presta a comprovar custos. Os comunicados emitidos pela CCEE que foram apresentados pelo contribuinte, também em 28 de agosto de 2019 (Doc. 011), por sua vez, não indicam valores ou fazem referências a quaisquer compensações. Desconsiderados os Fl. 17767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 4 valores dos meses de julho e outubro restou diferença a comprovar da ordem de R$ 213.054.866,58 (Duzentos e treze milhões, cinquenta e quatro mil, oitocentos e sessenta e seis reais e cinquenta e oito centavos). Em relação ao grupo “Outros Transp. Itaipu” e “Outros CUSD”: 65) Consideradas todas as faturas/Notas de débito e chaves de acesso a Notas Fiscais Eletrônicas, apresentadas na data de 28/08/2019, conforme indicado na planilha eletrônica "Doc_01_Compras_2015_v4", constatamos diferenças a comprovar com relação aos valores levados a resultado na conta ECF 3.01.01.01.07.01.29, contas componentes G315426000 - Dist-Ln-Rd-Se-Oper En Elet-Transporte Itaipu e G315421001 -Dist-Ln-Rd-Se- Oper En Elet-Enc Uso Rede Elet-CUSD, da ordem de R$ 1.072.345,36 (Hum milhão, setenta e dois mil, trezentos e quarenta e cinco reais e trinta e seis centavos) e R$ 1.123.121,81 (Hum milhão, cento e vinte e três mil, cento e vinte e um mil reais e oitenta e um centavos), respectivamente. As diferenças se encontram indicadas na planilha eletrônica elaborada pela fiscalização, intitulada "Diferenças Valores consignados em ECF versus valores comprovados - Quadro Consolidado AC 2015", que seguiram para apreciação/contestação do contribuinte, quando da Lavratura do Termo No 026. Em relação aos grupos “Energia – Energia”, “Energia – Cotas”, “Energia – Angra” e “Energia – MCSD”: 87) Constatamos conseqüentemente que a diferença a ser comprovada pelo contribuinte, conforme constatado no item 12 do Termo No 026, relativamente à Energia- Energia, Energia-Cotas, Energia Angra G315412000 e Energia MCSD, escrituradas na conta ECD G315412000 Dist-Ln Rd Sub-oper com En El-Compra-Suprimento, parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, passou a ser da ordem de R$ 19.738.363,61 (Dezenove milhões, setecentos e trinta e oito mil, trezentos e sessenta e três reais e sessenta e um centavos). Verificamos que o contribuinte passou a indicar corretamente (sinal negativo), na aba Energia-Energia, da planilha eletrônica Doc_01_Compras_2015_v5, os valores referentes a Notas de Ressarcimento e Notas de Débito em favor da própria fiscalizada. Estas Notas foram apresentadas em 28/08/2019 (Doc. 06) e seguem juntadas aos autos. Em relação ao grupo “Energia – Itaipu”: 89) Constatamos também que a diferença a ser comprovada pelo contribuinte, conforme constatado no item 15 do Termo No 026, para Energia Itaipu, conta ECD G315413000 (Distr-Ln Rd Sub-oper com En El-Comp Rev-Rep.ITAIPU), parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, passou a ser da ordem de R$ 3.977.520,21 (Três milhões, novecentos e noventa e sete mil, quinhentos e vinte reais e vinte e um centavos), conforme planilha "Doc_01_Compras_2015_v5 - Revisado Fiscalização" e "Diferenças ECF ECD versus comprovado Termo No 029, que seguem em anexo para apreciação do contribuinte. Em relação ao grupo “Garantias”: 102) Verificamos assim diferença a comprovar com relação aos valores constantes do Quadro 02 (R$ 632.055,12) da Resposta apresentada em 25/02/2019, escriturados na conta ECD G315415004 (Dist-Ln-Rd-Se-Oper com En El-Comp Rev-Garantias), parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, da ordem de R$ 8.150,54 (Oito mil, cento e Fl. 17768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 5 cinquenta reais e cinquenta e quatro centavos), conforme demonstrado na planilha "Diferenças ECF ECD versus comprovado Termo No 029, encaminhada em anexo. Ainda em relação à apuração do IRPJ e CSLL, a fiscalização também conclui que: 103) O contribuinte novamente apresenta esclarecimentos, em sua reposta de 21/11/2019, com relação às diferenças constatadas por esta fiscalização, acerca dos quais transcrevemos os trechos destacados a seguir: "em respeito ao princípio da competência contábil, a Enel RJ eve (SIC) registrar em sua contabilidade os custos com a energia elétrica adquirida para revenda no momento em que a ocorre sua disponibilização. Nesse momento, contudo, esta concessionária ainda não tem a informação precisa quanto à total dimensão desse custo, uma vez que a CCEE somente consegue proceder às liquidações de compra e venda de energia após um ou dois meses da sua disponibilização através do sistema, quando os fornecedores de energia conseguem emitir as respectivas notas fiscais". "Por esta razão, nesse primeiro momento a Enel RJ contabiliza as provisões feitas com base em estimativas internas, levando em consideração alguns critérios, como por exemplo, as previsões contratuais e os preços médios da energia para determinar a estimativa mais próxima do que será efetivamente liquidado no(s) mês(es) seguinte(s)". Após um ou dois meses (grifo nosso), como dito acima, a CCEE disponibiliza às empresas de energia relatórios com os valores das liquidações de compra e venda de energia, bem como das receitas definitivas dos CCEARs por disponibilidade. Nesse momento, são então emitidas as respectivas notas fiscais de fornecimento da energia elétrica. Ao receber as notas fiscais, a Enel RJ reconhece os respectivos custos e reverte a provisão reconhecida nos meses anteriores. 105) Diante do fato do prazo para entrega da Escrituração Contábil Digital (ECD) se encerrar no último dia útil do mês de maio do ano seguinte ao ano calendário que se refere a escrituração, entendemos que o contribuinte dispõe de prazo razoável para efetuar todos os ajustes necessários para fins da correta escrituração dos valores referentes a aquisição de energia para revenda. 106) O mesmo ocorre com o prazo para entrega da Escrituração Contábil Fiscal (ECF) que é estabelecido para o último dia do mês de julho do ano posterior ao período da escrituração. Ressaltamos que no caso da ECF o contribuinte exerceu seu direito a entregar retificadora, transmitida na data de 24/03/2017, antes da ciência do Termo de Início de Fiscalização, ocorrida em 15/03/2018. 107) Diante de tais fatos entendemos que o contribuinte teve prazo maior que o razoável para fins da correta apuração dos valores referentes a aquisição de energia para revenda que deveriam ser levados a resultado. 108) Concluímos, deste modo, que o contribuinte não logrou êxito em comprovar as despesas referente a aquisição de energia para revenda conforme indicadas a seguir na planilha elaborada pela fiscalização, intitulada "Diferenças ECF ECD versus comprovado Termo No 029", encaminhada em anexo ao presente Termo. Fl. 17769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 6 O contribuinte também foi intimado a apresentar demonstrativo que informasse o percentual utilizado, a cada mês, relativamente às perdas comerciais (não técnicas), para fins de estorno dos créditos de PIS e COFINS, bem como informar a fonte que determinou o percentual de perda técnica reconhecido na tarifa e apresentar a respectiva documentação, demonstrativo ou meio de divulgação do percentual em questão. Em atendimento à intimação, esclareceu que o valor mensal das perdas não técnicas não é objeto de registro contábil em uma conta específica e que "de acordo com as regras do setor elétrico é o resultado do balanço energético da Companhia (total de energia elétrica adquirida - total de energia elétrica vendida) informado pela Agência de Energia Elétrica -ANEEL"; que "com base no balanço energético é apurado o percentual de perdas mensal (perda global); e que desse percentual, abate-se o percentual relativo a perdas técnicas chegando-se ao percentual de perdas não técnicas (comerciais)". Também informou que as perdas não técnicas são obtidas a partir da diferença entre as perdas totais (Aquisição Total - Total Faturado) e as perdas técnicas. Relativamente às perdas técnicas, informou o percentual de 8,18% adotado em todos os meses. O contribuinte também informou o percentual das perdas não técnicas aplicado para fins de redução dos créditos de PIS e COFINS em sua EFD AC 2015; porém encaminhou planilha eletrônica com percentuais significativamente diferentes para os meses de abril e julho a outubro, conforme indicado no quadro comparativo disposto a seguir: A fiscalização entendeu que as perdas não técnicas são definidas conforme as regras estabelecidas no submódulo 2.6 do PRORET aprovado pelas Resoluções Normativas 640/2014 e 660/2015, os quais demonstram de modo claro que o percentual de perdas não técnicas é calculado em relação ao mercado de baixa tensão da concessionária, conforme fórmula transcrita a seguir: Com base nestas regras, concluiu, que para fins tributários, no caso do estorno dos créditos de PIS e COFINS, deve ser aplicado o percentual de 18,38% utilizado para o mercado de baixa tensão, divulgado pela ANEEL para o contribuinte. Fl. 17770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 7 Utilizado o percentual de perdas não técnicas para o mercado de baixa tensão divulgados pela ANEEL foi constatado pela fiscalização créditos indevidamente descontados na apuração do PIS e da COFINS, conforme disposto no quadro a seguir: O contribuinte foi cientificado dos Autos de Infração em 27/12/2019 através de seu Domicílio Tributário Eletrônico – DTE (fls. 16.893 a 16.899) e em 24/01/2020 apresentou Impugnação (fls. 16.907 e fls. 16.910 a 16.954), onde alega, em síntese, que: Preliminarmente Os Autos de infração seriam nulos, uma vez que os lançamentos fiscais teriam sido formalizados em desacordo com entendimentos vinculantes proferidos no âmbito da RFB: no que se refere ao IRPJ e CSLL, a Solução de Consulta COSIT n° 101/2016 e Solução de Consulta COSIT n° 99.015/2016 e no que se refere à contribuição ao PIS e à COFINS, a Solução de Consulta COSIT n° 27/2008 e Solução de Consulta COSIT n° 17/2016, com efeitos definidos na Solução de Consulta n° 60/2019. Autuação de IRPJ e CSLL O procedimento de fiscalização teve por escopo inicial verificar a validade dos valores declarados como despesas dedutíveis relativos à aquisição de energia elétrica para revenda. Para isto, a fiscalização comparou as notas fiscais e documentos de aquisições de energia elétrica efetuadas pela Impugnante com os valores de custo de aquisição de energia elétrica registrados em sua contabilidade no ano de 2015. No curso da fiscalização, a impugnante esclareceu que os valores registrados como custo relativo à aquisição de energia elétrica não deveriam ser analisados vis-à-vis as notas fiscais e documentos de venda, uma vez que, devido a particularidades do setor, o custo de energia elétrica registrado na contabilidade das distribuidoras, por determinação dos princípios contábeis, ratificados pelo Manual de Contabilidade do Setor Elétrico e em consonância com a NBCT TG Estrutura Conceitual aprovado pelo Conselho Federal de Contabilidade, é estimado para se respeitar o princípio da competência, e não reflete, ao menos no mês de sua aquisição, aquele efetivamente incorrido. O custo de aquisição de energia elétrica não é próprio das distribuidoras, mas do consumidor final, razão pela qual é integralmente repassado na tarifa, que é fixa e reajustada uma vez ao ano. O valor da tarifa é estimado para cada ano, ou seja, não é possível precisar qual será o valor exato que as distribuidoras irão desembolsar para adquirir energia elétrica, pois esse custo poderá variar por diversos fatores, como Fl. 17771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 8 meteorológicos, variação cambial, variação do consumo estimado inicialmente, dentre outros. Tendo isto em vista, em observância ao Princípio da Competência, quando a energia é disponibilizada, a Impugnante registra o custo estimado de sua aquisição e, após um ou dois meses depois da disponibilização da energia elétrica, momento em que a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica ("CCEE") consegue liquidar as operações de compra e venda de energia e, conseqüentemente, os fornecedores/geradores conseguem emitir as respectivas notas fiscais de venda, a Impugnante reverte o lançamento contábil em que registrou o custo estimado e registra contabilmente o valor de custo efetivamente incorrido. Desta forma, é provável que nem todas as provisões de custo estimado registradas em um ano calendário sejam revertidas dentro do mesmo período. Em virtude das normas contábeis, uma vez que o custo de aquisição de energia elétrica é integralmente repassado ao consumidor por meio da tarifa, para todo custo de aquisição estimado contabilizado deverá ser registrado no resultado da distribuidora uma receita estimada equivalente, isto porque, sabe-se que a distribuidora será integralmente ressarcida quanto a esse custo. E, considerando que a própria Receita Federal entende que as distribuidoras devem oferecer à tributação a receita estimada, para fins de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, pelo regime de competência, ou seja, no momento do seu registro contábil (Solução de Consulta COSIT n° 101/2016 e Solução de Consulta COSIT n° 99.015/2016), considerando a certeza quanto ao seu recebimento, da mesma forma, as despesas correlatas deverão ser deduzidas pelo regime de competência, de modo a harmonizar as bases de cálculo dos tributos - sob pena de tributação de patrimônio. Foi ainda demonstrado que nos casos em que o custo estimado pela distribuidora foi maior ou menor do aquele estimado de acordo com as normas contábeis e regulatórias da ANEEL para fins de fixação da tarifa, que é aquele que será integralmente ressarcido, foi criado um mecanismo regulatório chamado de Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da "Parcela A" - "CVA", instituído por meio da Portaria Interministerial MF/MME n° 296, de 25 de outubro de 2001, que tem como objetivo neutralizar eventual diferença existente entre o custo estimado pela ANEEL, para fins de cobertura pela tarifa, e aquele efetivamente estimado/incorrido, de forma a impedir que a distribuidora tenha qualquer prejuízo ou ganho com essa aquisição de energia elétrica. Em outras palavras, esse mecanismo regulatório impede que haja qualquer impacto da aquisição da energia elétrica para revenda no resultado contábil da distribuidora e, conseqüentemente, na sua base tributável do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Assim, tem-se que no momento da aquisição da energia para revenda, a distribuidora é obrigada a registrar, em observância ao Princípio da Competência, um custo estimado dessa aquisição e, caso esse seja superior ou inferior ao custo estimado pela ANEEL na tarifa do período, deverá ser contabilizado uma CVA positiva ou negativa, que irá neutralizar essa diferença, de forma que a receita atrelada a essa despesa com a aquisição da energia seja sempre equivalente. Não obstante, a fiscalização entendeu que a Impugnante não teria apresentado documentação hábil e idônea que comprovasse os valores declarados como custo de Fl. 17772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 9 aquisição de energia para revenda. Assim, foi realizado um reajuste nas bases de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de forma a fazer refletir o valor considerado como efetivamente comprovado pela fiscalização. Como se vê, a fiscalização desconsiderou todas as especificidades acima demonstradas, para entender que a Impugnante deveria ter comprovado documentalmente os custos registrados em sua contabilidade, em que pese a sua demonstração de que estes são sempre estimados e, ainda que estes sejam superiores ao custo efetivo, não impactam no resultado da companhia em virtude de mecanismo regulatório criado pelo Governo Federal. A estrutura tarifária brasileira pode ser descomposta em três componentes: (I) custos não gerenciáveis; (II) custos gerenciáveis; e, (III) componentes financeiros. Os custos não gerenciáveis, também denominado de Parcela A, são os custos que não estão sob a esfera de controle da administração da distribuidora, que são repassados diretamente para as tarifas (pass-through), segundo regras muito claras estabelecidas pela ANEEL. A Parcela A é basicamente composta das seguintes rubricas: (I) aquisição de energia; (II) custos de transmissão de energia a longa distância; e, (III) encargos setoriais. A aquisição de energia elétrica por parte das distribuidoras no Brasil possui diversas especificidades, dentre elas o fato de que as distribuidoras de energia elétrica não têm liberdade para gerenciar os custos com a aquisição de energia para atender seus respectivos mercados. A maior parte da energia que abastece o mercado regulado é adquirida em leilões organizados pelo Poder Público, que atua em nome das distribuidoras, preservando para si a capacidade de influir sobre a contratação de energia e com isso viabilizar a construção de novos empreendimentos de geração e a economicidade tarifária. E, ainda, há agentes reguladores, como a ANEEL e o Operador Nacional do Sistema Elétrico - "ONS", que estabelecem as regras e condições de funcionamento do mercado de energia, desde a sua geração até a liquidação das compras e vendas na CCEE . Por se tratar de um procedimento complexo, a CCEE necessita usualmente do prazo de um a dois meses para conseguir efetivar a liquidação desses contratos de compra de energia e das demais operações ocorridas em cada mês. No entanto, como já mencionado, por força do princípio da competência, considerando que a Impugnante necessita contabilizar o custo com essa aquisição já no momento em que a energia lhe é disponibilizada, isso é feito de forma estimada, com base em estudos internos da distribuidora. Os custos gerenciáveis, também conhecidos como Parcela B, são aqueles sobre os quais a distribuidora possui discricionariedade, tais como gastos com empregados, aquisição de insumos para a prestação do serviço e contratação de serviços de terceiros . Ao contrário do que ocorre com a Parcela A, nesse caso, a ANEEL não permite o repasse automático dos custos operacionais para as tarifas, pois somente são repassados os custos considerados como eficientes pela ANEEL. Isto porque, um eventual repasse automático dos custos operacionais para a tarifa constituiria um desincentivo à eficiência e à modicidade tarifária. Fl. 17773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 10 A soma dos custos referentes às Parcelas A e B é a chamada tarifa econômica, que não é aquela efetivamente paga pelos consumidores, pois a conta de luz é baseada na tarifa financeira, que contempla uma série de outras rubricas de custo que são em conjunto chamadas de componentes financeiros. Os componentes financeiros são, de forma genérica, de três tipos: a CVA (Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da "Parcela A"), os subsídios e outros itens, como déficits no orçamento do Programa Luz Para Todos, dentre outros. Especificamente no que se refere a CVA, a Lei n° 10.192, de 14 de fevereiro de 2001, em seu artigo 2o e parágrafos, somente admitia a estipulação de correção monetária ou de reajuste por índices de preços ou de custos, nos contratos com prazo de duração igual ou superior a um ano, considerando nula de pleno direito qualquer estipulação de reajuste ou correção monetária de periodicidade inferior a um ano, bem como quaisquer expedientes que produzissem efeitos financeiros equivalentes aos de reajuste de periodicidade inferior à anual. Com a Medida Provisória n° 2.227, de 4 de setembro de 2001, foi aceita a possibilidade de periodicidade menor que um ano para aplicação de atualizações financeiras de valores de itens da "Parcela A" acima citada (nos contratos de concessão de distribuição), através de mecanismos de compensação das variações ocorridas entre os reajustes tarifários anuais. Em decorrência da citada Medida Provisória, os Ministros de Estado da Fazenda e de Minas e Energia emitiram a Portaria Interministerial n° 296, de 25 de outubro de 2001, posteriormente substituída pela Portaria Interministerial n° 25, de 24 de janeiro de 2002, criando a CVA destinada a registrar as variações ocorridas no período entre reajustes tarifários. A partir de março de 2016, a CVA passou a ser regulamentada pelo Procedimento de Regulação Tarifária - PRORET 4.2, elaborado pela ANEEL, conforme definido na Resolução Normativa n° 703, de 15 de março de 2016. Em virtude da natureza dos componentes da Parcela A, cujos valores podem variar sem ingerência da distribuidora, e sem que seja possível o repasse imediato mediante tarifa, uma vez que, conforme mencionado acima, esta somente é reajustada anualmente, foi instituída a CVA para registro das variações entre o valor previsto dos custos não gerenciáveis e o efetivamente incorrido no período compreendido entre os reajustes tarifários. O saldo da CVA deverá ser compensado nas tarifas de fornecimento de energia elétrica da concessionária nos doze meses subsequentes à data de reajuste tarifário anual. Sendo que esse saldo poderá ser positivo ou negativo; na hipótese de a CVA ser negativa, será cobrado do consumidor um valor menor do que a tarifa econômica, enquanto que se a CVA for positiva, o consumidor deverá ressarcir a distribuidora dos recursos adiantados. Os custos não gerenciáveis não devem ser suportados pelas distribuidoras. Este é o caso do custo de aquisição da energia elétrica, por exemplo, que é integralmente repassado na tarifa paga pelo consumidor. Assim, a variação entre o custo de aquisição de energia elétrica estimado na tarifa e o efetivamente incorrido, não deve impactar no resultado contábil das distribuidoras. Em outras palavras, caso o custo efetivo seja superior Fl. 17774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 11 ao estimado, não pode haver registro no resultado de despesa a maior do que aquele coberto pela tarifa e vice-versa. Este mecanismo regulatório é a CVA, e foi instituída com a publicação da Medida Provisória n° 2.227/01 e da Portaria Interministerial n° 25/02. A partir da entrada em vigor destas normas, as empresas distribuidoras de energia elétrica passaram a registrar contabilmente os direitos (CVA ativa) e obrigações (CVA passiva) resultantes da variação, entre os reajustes tarifários anuais, de parte dos seus itens de custo estimados da parcela A, tendo como contrapartida um registro no resultado. Portanto, para todo registro de CVA, seja no ativo ou no passivo, a contrapartida será sempre no resultado, de forma que para toda despesa excedente ao custo estimado, registrada no resultado em razão da variação do custo efetivo, haverá uma receita equivalente, A respeito do tratamento fiscal destes registros, a Solução de Consulta COSIT n° 101/2016 prevê expressamente que as receitas reconhecidas em contrapartida aos valores registrados na CVA integram a base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS e devem ser oferecidas à tributação observando-se o regime de competência. Ora, se as receitas registradas na conta de CVA, correspondentes ao custo estimado e efetivo, são consideradas para fins de oferecimento à tributação pelo IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, direito líquido e certo, igualmente devem ser consideradas líquidas e certas as despesas referentes ao custo estimado vinculado às receitas mencionadas. Portanto, não pode a fiscalização, desconsiderando as especificidades do setor, e o próprio entendimento da Receita Federal, alegar que houve qualquer recolhimento a menor de tributo com base em uma regra genérica, não aplicável ao presente caso, de que valores de provisões não são dedutíveis. Ainda que os custos com aquisição de energia elétrica tivessem sido superestimados, o que se admite apenas à título argumentativo, por meio do registro da CVA, mecanismo regulatório de observação obrigatória, as receitas decorrentes da venda de energia elétrica teriam sido superestimadas na exata medida da diferença entre a cobertura pela tarifa e o custo contabilizado. Para toda despesa superestimada deduzida da base de cálculo do IRPJ e da CSLL ou utilizada como base de cálculo para a apuração de créditos de PIS e COFINS, houve o reconhecimento de uma receita de CVA equivalente à diferença entre a cobertura pela tarifa e o custo contabilizado que foi oferecida à tributação pelo IRPJ, pela CSLL, pelo PIS e pela COFINS. Ainda que os custos com aquisição de energia elétrica tivessem sido superestimados, o que se admite apenas à título argumentativo, por meio do registro da CVA, as receitas decorrentes da venda de energia elétrica teriam sido igualmente superestimadas. Portanto, para toda despesa superestimada deduzida da base de cálculo do IRPJ/CSLL ou utilizada como base de cálculo para a apuração de créditos de PIS/COFINS, houve o reconhecimento de uma receita de CVA equivalente que foi oferecida à tributação Fl. 17775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 12 pelo IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de forma que, não há que se falar em recolhimento de tributos a menor. A fim de demonstrar na prática todo procedimento descrito acima, a Impugnante discorre, a título exemplificativo, a respeito do caso de Jirau, ocorrido em 2015, e que representou o maior impacto nesse procedimento de provisão/reversão neste ano. O tratamento contábil e fiscal dado aos valores de custo de aquisição de energia elétrica em 2015 não configurou um erro, mas decorreu das peculiaridades do setor, reconhecidas pela própria Receita Federal. Por determinação regulatória e das normas contábeis, esses custos são sempre contabilizados de forma estimada no mês, sendo que quando da sua liquidação, o procedimento correto a ser adotado é a sua reversão, com o registro do valor efetivo, tanto na CVA (que registra um ativo ou passivo) como no custo dedutível para fins dos referidos tributos. A Impugnante não deixou de fazer a correta apuração dos valores referentes a aquisição de energia para revenda, apenas registrou tais valores em um primeiro momento de forma estimada, para, posteriormente, reverter essa provisão, e registrar o valor efetivo. Sendo que todos esses lançamentos contábeis tiveram o seu devido tratamento tributário, sem qualquer recolhimento a menor de tributo, tal como amplamente demonstrado. Autuação de COFINS e PIS As perdas na distribuição podem ser definidas como a diferença entre a energia elétrica adquirida pelas distribuidoras e a faturada aos seus consumidores. Essas perdas podem ser técnicas ou não técnicas. As perdas técnicas ocorrem devido ao processo físico de transporte da energia. Inevitavelmente, uma parte da energia adquirida será dissipada com o calor entre os suprimentos de energia da distribuidora e os pontos de entrega nas instalações das unidades consumidoras, por exemplo. As perdas não técnicas ou comerciais decorrem principalmente de furto (ligação clandestina, desvio direto da rede), fraudes (adulterações no medidor ou desvios), erros de leitura, medição e de faturamento. Essas perdas, também denominadas popularmente como "gatos", estão em grande medida associadas às características socioeconómicas das áreas de concessão. Em relação às perdas não técnicas, a impugnante apresentou à fiscalização planilha (DOC. 11) de composição dos valores que embasam o percentual de estorno, bem como esclareceu que o cálculo do percentual de perdas não técnicas utilizado pela ANEEL se presta unicamente para fins regulatórios (e não tributários), pois reflete apenas as perdas relacionadas ao mercado de baixa tensão, sem considerar as perdas do mercado de alta tensão. Não obstante os esclarecimentos, a fiscalização entendeu que as perdas relacionadas ao mercado de alta tensão não deveriam ser consideradas justamente porque não compõem o cálculo na ANEEL previsto no item 22 do submódulo 2.6 do PRORET. Fl. 17776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 13 Ademais, a fiscalização concluiu que o fator motivador que encontra respaldo nas determinações dos artigos 3o , §13 e o art. 15, inciso II, ambos da lei n° 10.833, de 2003 é o furto de energia, que seria evento típico do mercado de baixa tensão (conforme item 135 do TVF-fl. 2358 dos autos). Por esta razão, a fiscalização aplicou o percentual de estorno de 18,38% (divulgado pela ANEEL para a Impugnante na Resolução n° 112/2014), e lançou o crédito tributário correspondente ao montante estornado a maior. A controvérsia sobre o tema reside no método utilizado para cálculo do percentual de estorno das perdas não técnicas: o Agente Fiscal se valeu do percentual regulatório (que não considera as perdas do mercado de alta tensão), enquanto a Impugnante entende que as perdas do mercado de alta tensão devem compor o cálculo por representar a verdade material para fins tributários. Em termos práticos, para que sejam refletidas todas as perdas incorridas pela Impugnante, o cálculo do % das perdas não técnicas deve ser elaborado da seguinte maneira: resultado do total da energia injetada (A) na rede da distribuidora, subtraído do total de energia efetivamente faturada (B), é o total de perdas (C) sofridas pela Impugnante. Dividindo-se a perda total (C) pela energia injetada na rede (A), obtém-se o percentual total de perdas (D). Esse valor de perdas não técnicas é informado regularmente à ANEEL e é integralmente estornado pela Impugnante, conforme se verifica das planilhas (DOC. 11) entregues no curso da fiscalização. Ao invés de apurar o percentual real de perdas da Impugnante, a fiscalização limitou-se a tomar de empréstimo o percentual de perda não-técnica regulatória de 18,38%, divulgado pela ANEEL em referência ao mercado de baixa tensão, considerando uma média para o ano civil (uma vez que o ano tarifário da Ampla é de Março a Fevereiro do outro ano) e observando a metodologia de cálculo estabelecida por meio das Resoluções Normativas ANEEL n° 640/2014 e 660/2015, que aprovaram os módulos de procedimentos de regulação tarifária vigentes à época dos fatos, e o aplicou ao longo de todo o ano-calendário de 2015. Nos últimos anos, instada por Contribuintes em dúvida quanto ao conceito de insumo no serviço de distribuição de energia elétrica e o tratamento que deve ser dado aos créditos de PIS/COFINS, a RFB exarou algumas manifestações (Soluções de Consulta) sobre o tema. Em 9 de setembro de 2008, a Coordenação Geral de Tributação exarou a Solução de Consulta COSIT n° 27 (SC 27/2008), na qual, ainda sob a égide do restritivo (e ilegal) conceito de insumo imposto pelas Instruções Normativas n° 247/2002 e 404/2004, analisou detidamente alguns dos custos incorridos para a perfectibilização do serviço de distribuição de energia elétrica, e concluiu que alguns geravam direito ao crédito, enquanto outros não. A Autoridade Fiscal entendeu que, partindo-se da premissa de que a parcela das perdas incluída nas tarifas é considerada insumo do serviço prestado e compõe a base de cálculo dos créditos a serem descontados pelas distribuidoras adquirentes do serviço, Fl. 17777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 14 pode-se aferir que para a distribuidora que adquire a energia para utilização como insumo na sua prestação de serviço, o custo do insumo irá incluir a parcela do preço da aquisição referente às perdas, de modo que essas perdas também serão consideradas na base de cálculo do crédito que será apurado em virtude da energia elétrica adquirida. Por considerar que as perdas (até então não divididas em perdas técnicas e perdas não técnicas) compõem a tarifa da energia repassada ao consumidor, a referida SC deixou de tratar da necessidade de estorno dos créditos de PIS/COFINS. Posteriormente, em 16 de julho de 2016, foi editada a Solução de Consulta COSIT n° 17 (SC n° 17/2016), que novamente se debruçou sobre o direito ao crédito de PIS e COFINS sobre os insumos relacionados à atividade de distribuição de energia elétrica, mas agora especificamente sobre o tratamento que deve ser conferido aos créditos das Contribuições quando da ocorrência da perda do insumo (energia elétrica). Em resumo, na SC n° 17/2016 foi firmado o entendimento de que a energia elétrica perdida em virtude das oscilações e peculiaridades sistema (perdas técnicas) dá direito ao crédito, enquanto a energia elétrica perdida em decorrência de furtos (perdas não técnicas), deve ser estornada, nos termos do §13 do art. 3o da Lei 10.833/2004. Vê-se, portanto, que claramente a RFB alterou seu entendimento sobre o tema: na SC n° 27/2008, não havia distinção sobre os tipos de perda nem previsão acerca da necessidade de estorno, enquanto na SC n° 17/2016 há distinção entre os tipos de perda, e imposição do estorno para as perdas não técnicas. Ciente de que promoveu alteração no critério jurídico até então adotado sobre o tema, a Administração Tributária exarou a Solução de Consulta n° 60, em 27 de fevereiro de2019 (SC n° 60/2019), na qual reafirma os termos da SC 17/2016, mas esclarece que o estorno dos créditos de PIS e COFINS só poderá ser exigido dos Contribuintes para fatos geradores ocorridos APÓS 3 de agosto de 2016. De fato, conforme mencionado na ementa da SC n° 17/2016, a consulta que deu origem à SC n° 27/2008 foi formulada em nome da Associação Brasileira das Distribuidoras de Energia Elétrica - ABRADEE, da qual a Impugnante é associada (DOC. 13 - Declaração da ABRADEE). Por esta razão, concluiu a Autoridade Fiscal na SC n° 60/2019 que as associadas da Consulente (ABRADEE) só poderiam ser submetidas ao novo critério jurídico (obrigatoriedade do estorno) após 3 de agosto de 2016. A aplicação de novo critério jurídico para fatos geradores pretéritos viola o art. 146 do CTN e a Lei de introdução às normas do direito brasileiro (LINDB) - alterações da Lei n° 13.655/2018. Da Inexigibilidade de multa de ofício e juros, nos termos do artigo 100, § único do CTN Admitindo-se, apenas para fins de argumentação, que fosse válida a exigência de PIS e COFINS no caso dos presentes autos e no percentual pretendido pelo Agente Fiscal, Fl. 17778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 15 deve ser ao menos cancelada a exigência dos juros de mora e da multa de ofício, nos termos do parágrafo único do artigo 100 do CTN. Isso porque, conforme exaustivamente demonstrado nos capítulos anteriores, a Impugnante sequer estava obrigada a realizar o estorno, conforme orientação exarada pela própria RFB na SC 17/2008, formulada pela ABRADEE, da qual a Impugnante é associada. O fato de a Impugnante ter realizado o estorno com base no percentual que considera as perdas não técnicas incorridas nos mercados de baixa e alta tensão não diminui o fato de que sequer estaria obrigada a realizar o estorno, de modo que, na remota hipótese de ser mantida a exigência fiscal, deve ao menos ser cancelada a cobrança de multa e juros, eis que, nesse caso, é impositiva a aplicação do parágrafo único do artigo 100 do CTN. Da impossibilidade da exigência de juros de mora sobre a multa de ofício Ainda que se entenda pela manutenção, mesmo que seja de parte do Auto de Infração, o que se admite apenas por amor ao debate, também não poderá subsistir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Isto porque, a partir do vencimento do prazo para recolhimento dos créditos apurados no lançamento, as Autoridades Administrativas, conforme procedimento já conhecido, certamente computarão juros de mora sobre a multa de ofício aplicada, além dos juros que já incidem sobre o valor principal da dívida, aumentando sobremaneira o valor da obrigação tributária de forma totalmente ilegal. Ocorre que não é essa a interpretação que o E. CARF e a C. CSRF têm acerca da matéria, uma vez que é possível identificar uma série de precedentes em que foi afastada a aplicação de juros sobre multa de ofício em razão da sua falta de previsão legal. Ao analisar a matéria, a C. CSRF expressamente consignou que a penalidade pecuniária não decorre de tributo ou contribuição, mas do descumprimento do dever de seu pagamento ou declaração. São reiterados os precedentes neste sentido, tais como as decisões refletidas nos recentes Acórdãos de n° 2202-002.165, n° 1202-001.017, n° 2202-002.429, n° 1202001.096 en° 1202- 001.133. Ademais, cumpre ressaltar que a multa tem nítido caráter de sanção, penalidade, pelo inadimplemento de obrigação. Na seara tributária, há espaço somente para a incidência de juros de natureza moratória. Afinal, o Estado, no exercício de sua competência tributária, não empresta dinheiro ao contribuinte, não havendo, portanto, como cobrar-lhe juros compensatórios. Isto posto, é possível afirmar que, em se tratando de dívida, os juros existem para indenizar o credor pela inexecução da obrigação no prazo estipulado. Não é por outra razão que não existe limite temporal para a incidência de juros. Vale dizer, enquanto a obrigação não for cumprida, os juros serão computados. Fl. 17779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 16 O mesmo não ocorre com a multa, porquanto sua natureza é diversa. Sua incidência não se presta para repor ou indenizar o capital alheio, mas para punir a inexecução da obrigação. Assim, não há como pretender a incidência de juros sobre a multa de ofício, na medida em que, por definição, se os juros remuneram o credor pela privação do uso de seu capital, eles devem incidir somente sobre o que deveria ter sido recolhido no prazo legal, e não foi. Fora dessa hipótese, qualquer incidência de juros se mostra abusiva e arbitrária, por ausência de seu pressuposto de fato - reposição do numerário que deveria ter ingressado nos cofres públicos, mas não ingressou pela falta do contribuinte. Justamente por essa razão é que não há previsão legal para a incidência de juros sobre multa. O § 3o do artigo 61 da Lei n° 9.430 determina que sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3o do artigo 5o , a partir do primeiro dia do mês subsequente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. À evidência, a expressão sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora, que inaugura o dispositivo acima transcrito, diz respeito somente ao valor do principal relativo à obrigação tributária não paga no vencimento. Basta, para isso, notar que o artigo 61, caput, da Lei n° 9.430 está assim redigido: Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal (...), não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora (...). Resta claro que o débito decorrente de tributos e contribuições a que se refere a lei é composto apenas pelo valor do principal, isto é, do tributo vencido e não pago. Posteriormente ao vencimento é que são lançados os acréscimos de multa e juros sobre o débito. Essa constatação fica ainda mais evidente se atentar para o fato de que, quando o legislador ordinário pretendeu autorizar a incidência de juros sobre a multa decorrente de lançamento de ofício, fê-lo expressamente. Nesse sentido, destaque-se o quanto determinado pelo artigo 43 da Lei n° 9.430/96, cujo parágrafo único determina a incidência de juros moratórios sobre as multas e os juros exigidos isoladamente, mostrando-se inafastável concluir que não há previsão legal para a cobrança de juros de mora sobre a multa lançada de ofício nos casos que não foram abrangidos pelo artigo 43 da Lei n° 9.430, como, inclusive, já decidido pela C. CSRF. A impugnante requer o cancelamento integral do Auto de Infração lavrado, extinguindo-se a totalidade do crédito tributário exigido, ou, subsidiariamente: (I) que seja afastada a multa de ofício e os juros incidentes sobre a segunda acusação, nos termos do artigo 100, § único do CTN e (II) que seja afastada a exigência de juros de mora calculados com base na Taxa Selic sobre a multa de ofício lançada. Protesta ainda pela juntada posterior de quaisquer documentos que se façam necessários, bem como pela produção de todas as provas em direito admitidas, atestando, de logo, pela autenticidade de eventuais cópias não autenticadas anexadas à presente, nos termos do artigo 365, inciso IV e da parte final do § Io do artigo 544, ambos do CPC e que Fl. 17780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 17 todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados de seus advogados, sob pena de nulidade. A impugnação ao auto de infração foi apreciada pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento do Rio de Janeiro – DRJ/RJO, que editou o acórdão nº 12-116.081 – 12ª Turma da DRJ/RJO, cuja ementa reproduzo abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 ÔNUS DA PROVA. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. Nos termos do Decreto 70.235/72, a impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar. Cabe, portanto, à impugnante trazer juntamente com suas alegações impugnatórias todos os documentos que dêem a elas força probante. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 ÔNUS DA PROVA. ALEGAÇÕES DESACOMPANHADAS DE COMPROVAÇÃO DOCUMENTAL. Nos termos do Decreto 70.235/72, a impugnação deve ser instruída com os documentos em que se fundamentar. Cabe, portanto, à impugnante trazer juntamente com suas alegações impugnatórias todos os documentos que dêem a elas força probante. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL - COFINS Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 PERDAS NÃO TÉCNICAS. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DISTRIBUIDORES DE ENERGIA ELÉTRICA - ABRADEE. ASSOCIADAS. EFEITOS DA SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 27, DE 9/09/2008. SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 60, DE 2009. EFEITO VINCULANTE. Nos termos da Solução de Consulta Cosit nº 60, de 27/02/2009, vinculante para a RFB, as associadas da ABRADEE cuja petição resultou na Solução de Consulta Cosit nº 27, de 2008, devem estornar os créditos da Cofins relativos às perdas não técnicas somente a partir de 03 de agosto de 2016, data da publicação na internet e no sítio da RFB da SCI Cosit nº 17, de 13 de julho de 2016, já que houve alteração de entendimento exarado em solução de consulta publicada na vigência da IN RFB nº 740, de 2007. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 Fl. 17781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 18 PERDAS NÃO TÉCNICAS. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE DISTRIBUIDORES DE ENERGIA ELÉTRICA - ABRADEE. ASSOCIADAS. EFEITOS DA SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 27, DE 9/09/2008. SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 60, DE 2009. EFEITO VINCULANTE. Nos termos da Solução de Consulta Cosit nº 60, de 27/02/2009, vinculante para a RFB, as associadas da ABRADEE cuja petição resultou na Solução de Consulta Cosit nº 27, de 2008, devem estornar os créditos do PIS/Pasep relativos às perdas não técnicas somente a partir de 03 de agosto de 2016, data da publicação na internet e no sítio da RFB da SCI Cosit nº 17, de 13 de julho de 2016, já que houve alteração de entendimento exarado em solução de consulta publicada na vigência da IN RFB nº 740, de 2007. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 NULIDADE. PRESSUPOSTOS. Ensejam a nulidade apenas os atos e termos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Os débitos relativos às multas de ofício, quando não recolhidos no prazo legal, sujeitam-se à incidência de juros de mora. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2015 a 31/12/2015 PRODUÇÃO DE PROVAS APÓS A APRESENTAÇÃO DE IMPUGNAÇÃO. PROTESTO GENÉRICO. Há que ser indeferido o protesto genérico pela produção de provas, face ao não atendimento das condições previstas no art. 16 do Decreto nº 70.235/72. ENDEREÇAMENTO DAS INTIMAÇÕES. DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO. No processo administrativo fiscal é prevista a intimação do sujeito passivo apenas no domicílio tributário, assim considerado o do endereço postal, eletrônico ou de fax, pelo contribuinte fornecido, para fins cadastrais, à Secretaria da Receita Federal. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte A DRJ/RJO deu parcial provimento à impugnação tão somente para excluir integralmente os créditos tributários lançados de PIS e COFINS. Os fundamentos adotados pela decisão recorrida para dar parcial provimento à impugnação foram postos nos seguintes termos: Da preliminar de nulidade dos Autos de Infração Fl. 17782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 19 A impugnante alega que os Autos de Infração seriam nulos, uma vez que várias Soluções de Consulta vinculantes relativas ao IRPJ, CSLL, COFINS e PIS não teriam sido observadas pela fiscalização. Estatuem os arts. 59 e 60 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, verbis: Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. (...) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. (Grifou-se) Como se vê, o art. 59, II do Decreto nº 70.235, de 1972, trata de nulidade de despachos e decisões, o que não é o caso dos autos de infração, que se enquadra no art. 59, I. Ainda de acordo com o art. 59, I, supra, só se pode cogitar de declaração de nulidade do auto de infração – que se insere na categoria de ato ou termo –, quando esse for lavrado por pessoa incompetente (art. 59, I). Por sua vez, a nulidade por preterição do direito de defesa, como se infere do art. 59, II, transcrito, somente pode ser declarada quando o cerceamento está relacionado aos despachos e às decisões, ou seja, somente pode ocorrer em uma fase posterior à lavratura do auto de infração. Quaisquer outras irregularidades, incorreções e omissões não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, a teor do art. 60 do Decreto nº 70.235, de 1972. No art. 10 do mesmo Decreto 70.235 são estatuídos os requisitos para a lavratura do auto de infração, o qual deverá ser lavrado por agente competente e conter, obrigatoriamente, os elementos arrolados em seus incisos I a VI, como se pode verificar em seu texto, transcrito abaixo: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I - a qualificação do autuado; II - o local, a data e a hora da lavratura; III - a descrição do fato; IV - a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V - a determinação da exigência e a intimação para cumpri-la ou impugná-la no prazo de trinta dias; Fl. 17783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 20 VI - a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. Da combinação dos dispositivos acima transcritos depreende-se que só a inobservância dos pressupostos legais para a constituição do lançamento e para lavratura do auto de infração ou a incompetência do autuante são causas suficientes para invalidar a autuação e, conseqüentemente, o lançamento nela consignado. Como isso não ocorreu no presente caso, descabe a anulação ou cancelamento dos autos em análise. As alegações quanto às Soluções de Consulta são questões de mérito e serão apreciadas ao longo do voto. Dos juros sobre a multa de ofício (...) Percebe-se, assim, que a multa lançada de ofício constitui uma obrigação tributária principal, integrando efetivamente o crédito tributário. Como os juros de mora incidem sobre a totalidade do débito quando não há o adimplemento no prazo legal, não há como justificar a não incidência desses juros sobre o valor da multa de ofício. O § 3º do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, ao tratar da incidência dos juros sobre o valor do débito, determina sua incidência também sobre a multa lançada de ofício, já que esta é parte integrante do débito. (...) Com base em tais argumentos, reputo correta a incidência de juros de mora sobre as multas de ofício. Do pedido de produção de provas Ao final de sua impugnação, a requerente protesta pela produção de todas as provas admitidas em direito, especialmente pela juntada posterior de documentos. No campo do Processo Administrativo Fiscal são normalmente admitidos como meios de prova os documentos, as diligências e as perícias. Dispõe o Decreto nº 70.235/72, em seu art. 18: (...) Da mera leitura desse dispositivo, conclui-se que a prova produzida por meio da diligência ou da perícia tem como objetivo formar o convencimento da autoridade julgadora, que, em face da presença de questões de difícil deslinde, pode ter a necessidade de obter mais elementos de prova. No entanto, não é esse o caso no presente processo, visto que ele se encontra instruído com as informações e documentos necessários e suficientes para sua solução. Ainda em relação a diligências e perícias, estabelece o artigo 16 do Decreto nº 70.235/72: (...) Fl. 17784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 21 Como se observa no dispositivo acima reproduzido, caso a requerente entenda serem necessárias diligências ou perícias, deve justificá-las, formulando os quesitos referentes aos exames desejados, bem como, no caso de perícia, o nome, endereço e qualificação profissional de seu perito. Portanto, o protesto genérico pela produção de provas não atende aos requisitos previstos no art. 16, IV, do Decreto nº 70.235/72, devendo ser considerado não formulado o pedido de diligência ou perícia, conforme previsto no §1º desse mesmo artigo. No que tange à prova documental, o mesmo artigo 16 do Decreto nº 70.235/72 dispõe nos §§ 4º e 5º: (...) De acordo com esse dispositivo legal, o momento para apresentação de documentos comprobatórios é o da apresentação da manifestação de inconformidade. Transcorrido este, apenas será possível a juntada de tais elementos ao processo administrativo se, e somente se, ocorrer algum dos eventos descritos na norma legal. Dessa forma, não tendo a requerente demonstrado enquadrar-se nos casos de excepcionalidade elencados no art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72, tem-se por prejudicado o pleito. Portanto, há que ser indeferido o protesto genérico da requerente pela produção de provas em momento posterior ao da entrega da impugnação. Do pedido de envio de intimações para o endereço do advogado A impugnante também requer que todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados de seus advovogados. A súmula vinculante CARF nº 110 trata do assunto nos seguintes termos: No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo. Assim não é cabível a intimação dirigida ao endereço do advogado do sujeito passivo, devendo ser indeferido tal pedido. Da autuação de IRPJ e CSLL A impugnante alega, como preliminar de mérito, a nulidade da autuação em face de decisão proferida em soluções de consulta vinculantes. No caso, as Soluções de Consulta COSIT nº 101/2016 e Solução de Consulta COSIT nº 99.015/2016. Já tendo sido desconsiderada anteriormente a preliminar de nulidade, passa-se a analisar o mérito da autuação. Conforme mencionado pela própria interessada, a fiscalização teve por objetivo verificar a validade dos valores declarados como despesas dedutíveis relativos à aquisição de energia elétrica para revenda. Para isto, comparou as notas fiscais e documentos de aquisições de energia elétrica com os respectivos custos registrados em sua contabilidade no ano de 2015. Fl. 17785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 22 A impugnante também alega que: a) esclareceu à fiscalização que os valores registrados como custo relativo à aquisição de energia elétrica não deveriam ser analisados vis-à-vis as notas fiscais e documentos de venda, uma vez que, devido à particularidades do setor, o custo de energia elétrica registrado na contabilidade das distribuidoras, por determinação dos princípios contábeis, ratificados pelo Manual de Contabilidade do Setor Elétrico e em consonância com a NBCT TG Estrutura Conceituai aprovado pelo Conselho Federal de Contabilidade, é estimado para se respeitar o princípio da competência, e não reflete, ao menos no mês de sua aquisição, aquele efetivamente incorrido. b) o custo de aquisição de energia elétrica não é próprio das distribuidoras, mas do consumidor final, razão pela qual é integralmente repassado na tarifa. Ocorre que a tarifa, por meio do qual a Impugnante é remunerada, é fixa e reajustada apenas uma vez ao ano. Assim, no momento em que a ANEEL fixa o valor da tarifa, ela o faz considerando custos estimados, pois não é possível precisar qual será o valor exato que as distribuidoras irão desembolsar ao longo do ano para adquirir energia elétrica, pois esse custo poderá variar por diversos fatores. c) em observância ao Princípio da Competência, quando a energia é disponibilizada registra o custo de sua aquisição e, após um ou dois meses depois da disponibilização da energia elétrica, momento em que a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica ("CCEE") consegue liquidar as operações de compra e venda de energia e, consequentemente, os fornecedores/geradores conseguem emitir as respectivas notas fiscais de venda, reverte o lançamento contábil em que registrou o custo estimado e registra contabilmente o valor de custo efetivamente incorrido. d) para todo custo de aquisição estimado contabilizado deverá ser registrado no resultado da distribuidora uma receita estimada equivalente, isto porque, sabe-se que a distribuidora será integralmente ressarcida quanto a esse custo. e) a Receita Federal entende que as distribuidoras devem oferecer à tributação a receita estimada, para fins de incidência do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, pelo regime de competência, ou seja, no momento do seu registro contábil (Solução de Consulta COSIT n° 101/2016 e Solução de Consulta COSIT n° 99.015/2016). Da mesma forma, as despesas correlatas deverão ser deduzidas pelo regime de competência, de modo a harmonizar as bases de cálculo dos tributos - sob pena de tributação de patrimônio. f) nos casos em que o custo estimado pela distribuidora foi maior ou menor do aquele estimado de acordo com as normas contábeis e regulatórias da ANEEL para fins de fixação da tarifa, que é aquele que será integralmente ressarcido, foi criado um mecanismo regulatório chamado de Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da "Parcela A" - "CVA", instituído por meio da Portaria Interministerial MF/MME n° 296, de 25 de outubro de 2001, que tem como objetivo neutralizar eventual diferença existente entre o custo estimado pela ANEEL, para fins de cobertura pela tarifa, e aquele efetivamente estimado/incorrido, de forma a impedir que a distribuidora tenha qualquer prejuízo ou ganho com essa aquisição de energia elétrica. Fl. 17786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 23 g) no momento da aquisição da energia para revenda, a distribuidora é obrigada a registrar, em observância ao Princípio da Competência, um custo estimado dessa aquisição e, caso esse seja superior ou inferior ao custo estimado pela ANEEL na tarifa do período, deverá ser contabilizado uma CVA positiva ou negativa, que irá neutralizar essa diferença, de forma que a receita atrelada a essa despesa com a aquisição da energia seja sempre equivalentes. h) não obstante, em que pese todas as particularidades acima mencionadas foi cientificada do Auto de Infração, no qual a fiscalização entendeu que não teria sido apresentado documentação hábil e idônea que comprovasse os valores declarados como custo de aquisição de energia para revenda. Assim, foi realizado um reajuste nas bases de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, de forma a fazer refletir o valor considerado como efetivamente comprovado pela fiscalização. i) a fiscalização desconsiderou todas as especificidades acima demonstradas, para entender que a Impugnante deveria ter comprovado documentalmente os custos registrados em sua contabilidade, em que pese a sua demonstração de que estes são sempre estimados e, ainda que estes sejam superiores ao custo efetivo, não impactam no resultado da companhia em virtude de mecanismo regulatório criado pelo Governo Federal. Na impugnação também são descritos os lançamentos contábeis padronizados da constituição e reversão dos custos estimados de aquisição de energia elétrica (fls. 16.927 e 16.928), de modo a demonstrar que para todo registro de CVA, seja no ativo ou no passivo, a contrapartida será sempre no resultado, de forma que para toda despesa excedente ao custo estimado, registrada no resultado em razão da variação do custo efetivo, haverá uma receita equivalente. A fim de demonstrar o tratamento contábil destas operações na prática, apresenta como exemplo o Caso Jirau, que é uma usina hidrelétrica construída no Rio Madeira, em Rondônia, com a qual firmou contrato de aquisição de energia no valor de R$ 163.497.839,00 (fls. 16.930 a 16.933). Com base nas tabelas apresentadas, procura esclarecer que o reconhecimento da provisão do custo, referente à aquisição da energia elétrica no mercado de curto prazo, não gerou qualquer impacto no resultado contábil da empresa em 2015. Isto porque, assim como houve registro da despesa, houve um registro equivalente de receita de CVA, anulando-se o efeito do custo registrado. Por sua vez, as Soluções de Consulta COSIT n° 101/2016 e n° 99.015/2016 citadas pela impugnante dispõem que: Solução de Consulta COSIT n° 101/2016 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO EMENTA: CONCESSIONÁRIA DISTRIBUIDORA DE ENÉRGIA ELÉTRICA. VALORES REGISTRADOS NA CONTA CVA. TRIBUTAÇÃO. As receitas reconhecidas em contrapartida aos valores registrados na Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da “Parcela A” (CVA) integram a Fl. 17787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 24 base de cálculo dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, e devem ser oferecidas à tributação no período de apuração em que forem verificadas as diferenças positivas e registradas na escrituração contábil da concessionária. As variações monetárias incidentes sobre o saldo verificado na conta CVA caracterizam-se como receitas financeiras, e desta forma devem ser oferecidas à tributação, observado o regime de competência. Extinta a concessão, os valores correspondentes aos ativos ou passivos regulatórios não recuperados através de reajuste tarifário, reduzem (no caso de ativos) ou aumentam (no caso dos passivos) a base de cálculo dos tributos federais, após o reconhecimento de seu valor pela agência regulatória. DISPOSITIVOS LEGAIS: Constituição Federal, art. 150; Código Tributário Nacional (CTN), arts. 43 e 114; Lei nº 6.404, arts. 177 e 187; Decreto-Lei nº 1.598, de 1977; Lei nº 8.897, de 1995; Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/1999), arts. 251 e 274; Lei nº9.718, de 1998; Portaria Interministerial MF/MME nº 25, de 2002; Pronunciamento Técnico CPC nº 30, de 2012; Orientação Técnica OCPC nº 08, de 2014; Nota Técnica nº280/2014-SFF/SCT/SER/ANEEL; Ato Declaratório Executivo Cosit nº 20, de 2015. Solução de Consulta COSIT n° 99.015/2016 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO EMENTA: CONCESSIONÁRIA DISTRIBUIDORA DE ENÉRGIA ELÉTRICA. VALORES REGISTRADOS NA CONTA CVA. TRIBUTAÇÃO. As receitas reconhecidas em contrapartida aos valores registrados na Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da “Parcela A” (CVA) integram a base de cálculo dos tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, e devem ser oferecidas à tributação no período de apuração em que forem verificadas as diferenças positivas e registradas na escrituração contábil da concessionária. As variações monetárias incidentes sobre o saldo verificado na conta CVA caracterizam-se como receitas financeiras, e desta forma devem ser oferecidas à tributação, observado o regime de competência. Extinta a concessão, os valores correspondentes aos ativos ou passivos regulatórios não recuperados através de reajuste tarifário, reduzem (no caso de ativos) ou aumentam (no caso dos passivos) a base de cálculo dos tributos federais, após o reconhecimento de seu valor pela agência regulatória. SOLUÇÃO VINCULADA À SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 101, DE 30 DE JUNHO DE 2016. DISPOSITIVOS LEGAIS: Constituição Federal, art. 150; Código Tributário Nacional (CTN), arts. 43 e 114; Lei nº 6.404, arts. 177 e 187; Decreto-Lei nº 1.598, de 1977; Lei nº 8.897, de 1995; Decreto nº 3.000, de 1999 (RIR/1999), arts. 251 e 274; Lei Fl. 17788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 25 nº9.718, de 1998; Portaria Interministerial MF/MME nº 25, de 2002; Pronunciamento Técnico CPC nº 30, de 2012; Orientação Técnica OCPC nº 08, de 2014; Nota Técnica nº280/2014-SFF/SCT/SER/ANEEL; Ato Declaratório Executivo Cosit nº 20, de 2015. De acordo com os Autos de infração de IRPJ e CSLL e do Termo de Verificação Fiscal nº 29, foram glosados os seguintes valores, diante da não apresentação de documentação hábil e idônea, que comprovasse as diferenças apuradas, com relação à aquisição de bens para revenda: Tais valores encontram-se discriminados na planilha eletrônica denominada “Doc 1 Compras 2015 V5 Revisado”, e sintetizados na planilha eletrônica denominada “Dif ECF ECD versus comprovado Termo 029”, anexadas como arquivos não pagináveis, respectivamente, às fls. 16.654 e 16.655 deste processo. O resumo dos valores glosados, obtido a partir das citadas planilhas, é o seguinte: Embora as alegações da impugnante relativas à constituição e reversão das provisões de custos estimados de aquisição de energia elétrica e seus efeitos tributários estejam de acordo com as normas contábeis e fiscais em vigor, o contribuinte não demonstrou no decorrer da fiscalização que as diferenças apontadas não afetaram a apuração do IRPJ e da CSLL, uma vez que, conforme alegado, “para toda despesa excedente ao custo estimado, registrada no resultado em razão da variação do custo efetivo, haverá uma receita equivalente”. Da mesma forma, na impugnação não foram apresentados os lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA ou qualquer prova documental no sentido de demonstrar que os valores glosados tiveram efeito nulo na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Fl. 17789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 26 O contribuinte também não esclareceu qual seria a relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau citada na impugnação (fls. 16.930 a 16.933) com os valores objeto dos Autos de Infração de IRPJ e CSLL, sintetizados no quadro acima. Assim, há que se considerar devidos os lançamentos de IRPJ e CSLL. Da autuação de PIS e COFINS A impugnante alega, como preliminar de mérito, a nulidade da autuação em face de decisão proferida em solução de consulta vinculante. Diz que há três soluções de consulta tratando da matéria e que a última delas, de 2019, esclarece que “o estorno dos créditos de PIS e COFINS só poderá ser exigido dos Contribuintes para fatos geradores ocorridos após 3 de agosto de 2016.” Já tendo sido desconsiderada anteriormente a preliminar de nulidade, passa-se a analisar o mérito da autuação. Segundo a Solução de Consulta Cosit nº 60, de 27/02/2019, o submódulo 2.6 do PRORET (Procedimentos de Regulação Tarifária), aprovado pela Resolução Normativa Aneel nº 660, de 2015, trata das Perdas de Energia. Nesse submódulo constam as seguintes definições: 3.1. DEFINIÇÕES E CONCEITOS 12. Energia Vendida - EV: representa toda energia vendida pela concessionária ao seu mercado cativo, consumo próprio e energia suprida com tarifa regulada às concessionárias de distribuição. 13. Energia Entregue - EE: energia transportada pelo sistema da distribuidora com faturamento apenas por TUSD, calculada pela soma da energia entregue a consumidores livres, autoprodutores e outra concessionária que acesse o sistema de distribuição. 14. Energia Injetada - EI: somatório de toda energia injetada na rede de distribuição da concessionária via pontos de fronteira (menos a energia exportada para a rede básica) ou geração local (própria ou de terceiros). 15. Perdas na Distribuição - PD: diferença entre a energia injetada na rede da distribuidora e o total de energia vendida e entregue, expressa em megawatt-hora MWh, e composta pelas perdas técnicas e não técnicas. 16. Perdas Técnicas - PT: parcela das perdas na distribuição inerente ao processo de transporte, de transformação de tensão e de medição da energia na rede da concessionária, expressa em megawatt-hora MWh. 17. Perdas Não Técnicas - PNT: representa todas as demais perdas associadas à distribuição de energia elétrica, tais como furtos de energia, erros de medição, erros no processo de faturamento, unidades consumidoras sem equipamento de medição, etc. Corresponde à diferença entre as Perdas na Distribuição e as Perdas Técnicas, em megawatt-hora (MWh). Fl. 17790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 27 18. Perdas na Rede Básica – PRB: são perdas externas à rede de distribuição da concessionária e representam a parcela de energia dissipada no transporte da energia no sistema de transmissão da Rede Básica e Demais Instalações de Transmissão. O submódulo 3.2 do PRORET, também citado na Solução de Consulta Cosit nº 60, de 2019, estabelece: Submódulo 3.2 7. PERDAS REGULATÓRIAS DE ENERGIA 55. Denominam-se perdas de energia o somatório das perdas elétricas no sistema de distribuição, as quais se dividem em perdas técnicas e não técnicas, e das perdas na Rede Básica, conforme definições a seguir: Perdas técnicas: Montante de energia elétrica dissipada no sistema de distribuição em decorrência das leis da Física relativas aos processos de transporte, transformação de tensão e medição de energia elétrica; Perdas não técnicas: Perdas associadas à distribuição de energia elétrica, tais como fraude e furtos de energia, erros de medição, erros no processo de faturamento, unidades consumidoras sem equipamento de medição, dentre outros; e Perdas na Rede Básica: Montante de energia elétrica dissipada no sistema de transmissão e nas Demais Instalações de Transmissão de uso compartilhado em decorrência das leis da Física relativas aos processos de transporte, transformação de tensão e medição de energia elétrica; Em decorrência dos conceitos e definições extraídos da Resolução Normativa Aneel mencionada, na Solução de Consulta Cosit chegou-se às seguintes, porém prévias, conclusões: 27. Depreende-se das normas regulatórias acima transcritas que as perdas regulatórias são formadas pelas perdas na rede básica e as perdas na distribuição. As perdas na rede básica são inerentes ao sistema de transmissão e as perdas na distribuição são relativas ao sistema de distribuição. 28. Quanto à perda na distribuição, esta é formada pela diferença entre a energia injetada na rede de distribuição e a energia vendida e entregue aos clientes. Tal perda é formada pela soma das perdas técnicas e não técnicas. 29. A TUSD, por sua vez, constitui-se em uma tarifa utilizada para efetuar o faturamento mensal de usuários do sistema de distribuição de energia elétrica, composta por custos da distribuidora e sua remuneração. Dentre os custos componentes da TUSD, encontram-se as perdas no sistema de distribuição (perdas técnicas regulatórias, perdas não técnicas regulatórias e perdas da rede básica devido às perdas regulatórias). Fl. 17791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 28 Como ressaltado, para o contribuinte teria havido nulidade da autuação, uma vez que refere-se a fatos geradores ocorridos no ano-calendário de 2015. Isso, ao que consta, em razão do conflito que haveria entre as Soluções de Consulta nºs 27, de 2008 e 60, de 2019 e as Soluções de Consulta Interna nºs 17, de 2016 e 3, de 2017, todas da Cosit. Essa questão chegou a ser analisada na mencionada Solução de Consulta nº 60, de 2019 (é o quinto questionamento nela formulado). Nela constam as seguintes considerações: 72. O quinto questionamento circunscreve-se à produção de efeitos da Solução de Consulta Interna (SCI) nº 17, de 2016, no que se refere ao tratamento das perdas não técnicas, já que argumenta que a Solução de Consulta Cosit nº 27, de 2008, examinou o conceito de insumo, sem entrar na especificidade das perdas técnicas e não técnicas ocorridas no processo de distribuição de energia. 73. A consulente considera que houve mudança de entendimento da Cosit entre a Solução de Consulta Cosit nº 27, de 2008, e a SCI Cosit nº 17, de 2016, sendo que esta foi confirmada, quanto ao tratamento das perdas não técnicas, pela SCI Cosit nº 3, de 2017. 74. Sendo assim, argumenta que os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins vinculados às perdas não técnicas só precisam ser estornadas após a publicação da SCI nº 17, de 2016, já que antes dessa data a administração não exigia o referido estorno, entendimento que acredita estar exposto na SC Cosit nº 27, de 2008. 75. Em relação ao processo de consulta à interpretação da legislação tributária federal, já foi informado que este encontra guarida nos artigos 48 a 50 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, nos artigos 46 a 53 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 e nos artigos 88 a 102 do Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011. O assunto ainda é tratado atualmente pela Instrução Normativa RFB nº 1.396, de 2013, que revogou a Instrução Normativa RFB nº 740, de 2 de maio de 2007. 76. A IN RFB nº 740, de 2007, vigente à época da publicação da SC Cosit nº 27, de 2008, bem como a IN RFB nº 1.396, de 2013, são contundentes no sentido de exigir entre os requisitos da consulta que a mesma circunscreva-se a fato determinado, contenha descrição detalhada de seu objeto, indicação das informações necessárias à elucidação da matéria, bem como a indicação dos dispositivos da legislação tributária que ensejaram a apresentação da consulta, conforme trechos extraídos abaixo: IN RFB nº 740, de 2007 Art. 3º (...) (...) Fl. 17792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 29 §1º A consulta será feita mediante petição e deverá atender aos seguintes requisitos: (...) III - circunscrever-se a fato determinado, conter descrição detalhada de seu objeto e indicação das informações necessárias à elucidação da matéria; IV - indicação dos dispositivos que ensejaram a apresentação da consulta, bem como dos fatos a que será aplicada a interpretação solicitada. [grifos ao original] IN RFB nº 1.396, de 2013 Art. 3º (...) (...) § 2º A consulta deverá atender aos seguintes requisitos: (...) III - circunscrever-se a fato determinado, conter descrição detalhada de seu objeto e indicação das informações necessárias à elucidação da matéria; e IV - indicação dos dispositivos da legislação tributária e aduaneira que ensejaram a apresentação da consulta, bem como dos fatos a que será aplicada a interpretação solicitada. [grifos ao original] 77. Destarte, cumpre verificar o que a peticionária questionou em sua consulta que gerou a SC Cosit nº 27, de 2008, para atestar se de fato a administração se posicionou sobre o estorno ou não das perdas não técnicas no processo de distribuição de energia elétrica. 78. Nesse contexto, faz-se necessário transcrever alguns trechos da SC nº 27, de 2008: Solução de Consulta Cosit nº 27, de 2008 Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA. REGIME DE APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA. DESCONTO DE CRÉDITOS. A atividade de distribuição de energia elétrica pode ser entendida como prestação de serviço. Para fins de desconto de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, no regime de apuração nãocumulativa, considera-se insumo na atividade de distribuição de energia elétrica: Fl. 17793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 30 I) o encargo de uso do Sistema de Transmissão, deduzidas as parcelas não correlacionadas com prestação de serviço; II) o encargo de Uso do Sistema de Distribuição, deduzidas as parcelas não correlacionadas com prestação de serviço; III) o encargo decorrente do Contrato de Conexão ao Sistema de Transmissão (CCT); IV) o Encargo de Serviços do Sistema (ESS). Adicionalmente, dão direito ao desconto de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, no regime de apuração não cumulativa, na atividade de distribuição de energia elétrica: I) os gastos com materiais aplicados ou consumidos na atividade de fornecimento de energia elétrica, desde que não estejam, nem tenham sido incluídos, no ativo imobilizado; II) os encargos de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens do ativo imobilizado, observado o art. 31 da Lei nº 10.865, de 30/04/2004. Não se considera insumo na atividade de distribuição de energia elétrica, não concedendo direito a desconto de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, no regime de apuração não cumulativa: I) a quota da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC); II) a quota da Reserva Global de Reversão (RGR); III) os gastos a serem destinados à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Dispositivos Legais: art. 3º da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002, art. 66 da Instrução Normativa SRF nº 247, de 21 de novembro de 2002, § 9º do art. 8º da Instrução Normativa SRF nº 404, de 12 de março de 2004. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins ATIVIDADE DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA. REGIME DE APURAÇÃO NÃO CUMULATIVA. DESCONTO DE CRÉDITOS. A atividade de distribuição de energia elétrica pode ser entendida como prestação de serviço. Para fins de desconto de créditos da Cofins, no regime de apuração nãocumulativa, considera-se insumo na atividade de distribuição de energia elétrica: I) o encargo de uso do Sistema de Transmissão, deduzidas as parcelas não correlacionadas com prestação de serviço; II) o encargo de Uso do Sistema de Distribuição, deduzidas as parcelas não correlacionadas com prestação de serviço; III) o encargo decorrente do Contrato de Conexão ao Sistema de Transmissão (CCT); Fl. 17794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 31 IV) o Encargo de Serviços do Sistema (ESS). Adicionalmente, dão direito ao desconto de créditos da Cofins, no regime de apuração não cumulativa, na atividade de distribuição de energia elétrica: I) os gastos com materiais aplicados ou consumidos na atividade de fornecimento de energia elétrica, desde que não estejam, nem tenham sido incluídos, no ativo imobilizado; II) os encargos de depreciação de máquinas, equipamentos e outros bens do ativo imobilizado, observado o art. 31 da Lei nº 10.865, de 30/04/2004. Não se considera insumo na atividade de distribuição de energia elétrica, não concedendo direito a desconto de créditos da Cofins, no regime de apuração não cumulativa: I) a quota da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC); II) a quota da Reserva Global de Reversão (RGR); III) os gastos a serem destinados à Conta de desenvolvimento Energético (CDE). Dispositivos Legais: art. 3º da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, art.8º da Instrução Normativa SRF nº 404, de 12 de março de 2004. (...) Relatório (...) 10. Mais especificamente, a consulta está, ao final, assim formulada (fls. 33/34): “1) Os concessionários de serviço público de distribuição de energia elétrica poderão creditar-se dos valores referentes aos custos comentados no item 4 letras “a” a “f” acima para fins de cálculo PIS/Cofins devido sobre suas receitas? 2) Os concessionários de geração de serviço público ou de uso de bem público em regime de produção independente, poderão creditar-se dos valores dos custos comentados no item 4 letras “a”, “b, “d” a “f” acima, para fins de cálculo do PIS/Cofins devido sobre suas receitas? 3) Os concessionários de serviço público de transmissão poderão creditar-se do valor correspondente aos custos comentados no item 4 letras “d” e “e” acima para fins de cálculo do PIS/Cofins sobre suas receitas?” 11. Os custos elencados listados no item 4 da consulta estão assim intitulados: “a) Encargo de Uso do Sistema de Transmissão e Encargo de Uso do Sistema de Distribuição”; “b) Encargo de Conexão ao Sistema de Transmissão”; “c) Encargo de Serviço do Sistema (ESS)”; “d) Materiais Fl. 17795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 32 aplicados ou consumidos na atividade de fornecimento de energia elétrica”; “e) Encargos de depreciação de máquinas e equipamentos e outros bens do ativo imobilizado”; “f) Conta de Consumo de Combustível – CCC”; “g) Reserva Global de Reversão – RGR”; “h) Contribuição à Conta de Desenvolvimento Energético -CDE”. (...) Fundamentos (...) 21. Embora no pedido final a consulente se reporte apenas aos custos integrantes das letras “a” a “f” do item 4 da petição, no bojo da consulta também indaga sobre o direito a créditos sobre os custos das letras “g” e “h” do mesmo item. Afigurando-se um lapso manifesto a não inclusão destes no pedido final, tais custos serão também apreciados nesta Solução de Consulta. (...) Do Encargo de Uso do Sistema de Transmissão e do Encargo de Uso do Sistema de Distribuição (item 4, letra “a”, da petição) (...) 95. Por fim, sabendo de acordo com o art. 51 do Decreto nº 4.541, de 2002, bem como no § 1º do art. 1º do Decreto nº 4.562, de 2002, que a TUST e a TUSD é formada por: a) custos de transporte; b) perdas de energia elétrica; c) encargos de conexão; e d) encargos setoriais (entre eles as quotas para formação da CDE); responde-se à consulente que somente determinadas parcelas da TUST e da TUSD geram direito ao desconto de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, entre elas: os custos de transporte; as perdas de energia elétrica; os encargos de conexão (analisado em seção específica) e os encargos setoriais deduzidos termos não correlacionados com prestação de serviço. [grifos ao original] 79. Em conformidade com o transcrito acima, a SC Cosit nº 27, de 2008, tratou das “perdas de energia elétrica” da TUST e da TUSD em seu item 95, afirmando que esse componente (perdas) estariam dentre os que geram créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, sem fazer qualquer especificação de qual espécie de perda estaria em referência e sem prever a necessidade de estorno de determinadas parcelas. 80. Por outro lado, a ementa da SCI Cosit nº 17, de 2016, afirma, na parte relativa aos dois tributos em análise, que “entretanto, as distribuidoras de energia elétrica devem estornar dos créditos a parcela relativa às perdas de energia elétrica que excederem as perdas técnicas (perdas não técnicas), independentemente do motivo que tenha causado essas perdas (furtos de energia, erros de medição, Fl. 17796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 33 erros no processo de faturamento, etc.)”. A SCI Cosit nº 3, de 2017, confirma tal tratamento às perdas não técnicas com texto idêntico em sua ementa. 81. Nesses termos, considera-se que de fato houve mudança de interpretação à legislação tributária federal, restando saber a partir de que data a consulente deve aplicar a mudança interpretativa. 82. A princípio, ressalta-se que as soluções de consultas publicadas na vigência da IN RFB nº 740, de 2007, não vinculavam todos os contribuintes, mas apenas as partes interessadas da consulta. As consultas à legislação tributária federal passaram a ter força vinculante no âmbito da RFB apenas a partir da IN RFB nº 1.396, de 2013, que prevê tal efeito em seus arts. 8º e 9º. Ainda ressaltase que SCI nº 17, de 2016, foi publicada na vigência da IN RFB nº 1.396, de 2013. Diante desses fatos, reproduzem-se alguns trechos sobre efeitos da consulta nessas duas instruções normativas: IN RFB nº 740, de 2007 Art. 14. A consulta eficaz, formulada antes do prazo legal para recolhimento de tributo, impede a aplicação de multa de mora e de juros de mora, relativamente à matéria consultada, a partir da data de sua protocolização até o trigésimo dia seguinte ao da ciência, pelo consulente, da Solução de Consulta. (...) § 4º No caso de consulta formulada por entidade representativa de categoria econômica ou profissional em nome dos associados ou filiados, os efeitos referidos neste artigo somente os alcançarão depois de cientificada a consulente da solução da consulta. (...) § 6º Na hipótese de alteração de entendimento expresso em Solução de Consulta, a nova orientação alcança apenas os fatos geradores que ocorrerem após a sua publicação na Imprensa Oficial ou após a ciência do consulente, exceto se a nova orientação lhe for mais favorável, caso em que esta atingirá, também, o período abrangido pela solução anteriormente dada. IN RFB nº 1.396, de 2013 Art. 17. Na hipótese de alteração de entendimento expresso em Solução de Consulta sobre interpretação da legislação tributária e aduaneira, a nova orientação alcança apenas os fatos geradores que ocorrerem depois da sua publicação na Imprensa Oficial ou depois da ciência do consulente, exceto se a nova orientação lhe for mais favorável, caso em que esta atingirá, também, o período abrangido pela solução anteriormente dada. 83. Verificou-se, por meio da leitura dos autos do processo que gerou a SC Cosit nº 27, de 2008, que a autora da consulta é uma associação. Perquirindo essa trilha, a Fl. 17797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 34 IN RFB nº 740, de 2007, conforme acima colacionado, previa em seu art. 14, §4º, que a consulta eficaz formulada por entidade representativa em nome dos associados somente os alcançarão depois de cientificada a consulente da solução de consulta, ao passo que a IN RFB nº 1.396, de 2013, prevê em seu artigo 17 que na hipótese de alteração de entendimento expresso em Solução de Consulta, a nova orientação alcança apenas os fatos geradores que ocorrerem depois da publicação na Imprensa Oficial ou depois da ciência do consulente, exceto se a nova orientação lhe for mais favorável, o que não é o caso. 84. Sobre os efeitos da consulta interna, a IN RFB nº 1.396, de 2013, dispõe: IN RFB nº 1.396, de 2013 Art. 8º Na solução da consulta serão observados os atos normativos, as Soluções de Consulta e de Divergência sobre a matéria consultada proferidas pela Cosit, bem como as Soluções de Consulta Interna da Cosit e os demais atos e decisões a que a legislação atribua efeito vinculante. [destaques ao original] 85. Cotejando as supracitadas normas, resta concluir que as associadas da consulente cuja petição resultou na Solução de Consulta nº 27, de 2008, devem estornar os créditos relativos às perdas não técnicas somente a partir de 03 de agosto de 2016, data da publicação na internet e no sítio da RFB da SCI Cosit nº 17, de 13 de julho de 2016, já que houve alteração de entendimento exarado em solução de consulta publicada na vigência da IN RFB nº 740, de 2007. A pessoa jurídica em questão, como é possível constatar (fl. 17.255), é uma das associadas da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica – ABRADEE, desde 1996. O art. 9º da IN RFB nº 1399, de 2014, estabelece que: Art. 9º A Solução de Consulta Cosit e a Solução de Divergência, a partir da data de sua publicação, têm efeito vinculante no âmbito da RFB, respaldam o sujeito passivo que as aplicar, independentemente de ser o consulente, desde que se enquadre na hipótese por elas abrangida, sem prejuízo de que a autoridade fiscal, em procedimento de fiscalização, verifique seu efetivo enquadramento. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1434, de 30 de dezembro de 2013) Como o entendimento contido na referida solução de consulta têm efeito vinculante no âmbito da RFB, há que se considerar indevido o lançamento relativo às perdas não técnicas cujos créditos da não cumulatividade de COFINS e PIS que foram estornados pelo contribuinte no ano-calendário de 2015 em valores menores àqueles apurados pela fiscalização. Neste sentido, deixo de analisar as alegações do contribuinte a respeito da inexigibilidade de multa de ofício e juros incidentes sobre esta autuação, por perda de objeto. CONCLUSÃO Fl. 17798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 35 Por todos os fundamentos expostos, VOTO por julgar procedente em parte a impugnação, para: a) manter integralmente os créditos tributários lançados de IRPJ e CSLL, acrecidos de multa de ofício de 75% e de juros de mora; b) excluir integralmente os créditos tributários lançados de COFINS e PIS. A DRJ/RJO recorreu de ofício em relação à parcela do crédito tributário exonerado, no caso, os lançamentos relativos ao PIS e à COFINS. Ainda irresignada com a decisão proferida pela DRJ/RJO, a Contribuinte apresentou o recurso voluntário de e-fls. 17.275/17.305, através do qual repete grande parte dos termos da Impugnação além do seguinte: 1) Preliminarmente, argui a nulidade do acórdão recorrido. Alega, que o v. acórdão recorrido reconheceu integralmente a procedência das alegações da Recorrente, afirmando que estão de acordo com as normas contábeis e fiscais em vigor. Contudo, afirmou que não teria sido apresentada qualquer prova no sentido de demonstrar que os valores glosados não impactaram a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e que a Recorrente não teria esclarecido a relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau com a autuação; ao contrário do que afirmou o v. acórdão recorrido, a Recorrente não apenas esclareceu a clara relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau com a autuação e a razão dos valores glosados não terem impactado a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como também apresentou lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valor de Itens da Parcela A – “CVA”, que comprovam que os valores glosados tiveram efeito nulo na apuração dos referidos tributos. Conforme verifica-se da página 23 da Impugnação, a Recorrente apresentou duas tabelas que demonstram de forma clara e inequívoca os lançamentos contábeis a débito e a crédito referentes ao caso da Usina Hidrelétrica de Jirau que, repisa-se, representa o maior valor referente ao procedimento de provisão/reversão no ano de 2015, ano ao qual se refere a autuação. Fl. 17799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 36 Verifica-se, portanto, que a Recorrente apresentou justamente “os lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA” que o v. acórdão recorrido afirma não terem sido apresentados. A verdade é que, apesar de a Recorrente ter comprovado, por meio da apresentação de seus registos contábeis, que os valores glosados não tiveram qualquer impacto na apuração da base de cálculo do IPRJ e da CSLL, tais documentos não foram analisados. O v. acórdão recorrido se limitou a afirmar que as provas documentais não foram apresentadas, quando na realidade, conforme demonstrado acima, foram devidamente trazidas aos autos, apesar de sequer terem sido analisadas pelos julgadores. Por esta razão, a Recorrente está certa de que o v. acórdão é nulo no tocante à manutenção integral dos créditos tributários lançados a título de IPRJ e CSLL. Isto porque, a ausência de análise das provas apresentadas pela Recorrente evidencia que o v. acórdão recorrido violou as previsões do artigos 2º, caput e parágrafo único, inciso VII e 50, inciso VI, §1º da Lei nº 9.784/99, que determinam que todos os atos administrativos devem ser devidamente motivados de forma explícita, clara e congruente, conforme se verifica a seguir: (...) Caso “os lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA” apresentados pela Recorrente tivessem sido analisados, a 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro/RJ teria concluído que os valores glosados não tiveram impacto na apuração do IRPJ e da CSLL, e que o i. fiscal autuante não deveria ter considerado parte dos custos de energia elétrica como simplesmente não comprovados documentalmente, vez que nunca o serão já que parte destes custos são estimados e produzem efeito tanto na apuração dos valores a pagar dos referidos tributos como custo dedutível, como na apuração da base de cálculo através da contabilização da CVA, com o consequente cancelamento integral o Auto de Infração. Fl. 17800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 37 Além disso, ao deixar de analisar os registos contábeis apresentados pela Recorrente, o v. acórdão recorrido violou o disposto no §1º do art. 4891 do Código de Processo Civil, que se aplica supletiva e subsidiariamente ao processo administrativo, conforme disposto em seu art. 15. O mencionado §1º do art. 489, do CPC prevê que não se considera fundamentada a decisão que não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador. Especificamente a respeito do processo administrativo fiscal, o art. 31 do Decreto nº 70.235/72 determina que a decisão deverá referir-se expressamente às razões de defesa suscitadas pelo Impugnante, in verbis: (...) Conclui-se, portanto, que ao deixar de analisar as evidências apresentadas pela Recorrente, inclusive por meio de registros contábeis, que comprovam que os valores glosados não impactaram a apuração ou recolhimento do IRPJ e da CSLL, o v. acórdão recorrido incorreu em vício de nulidade. No presente caso, não há dúvidas de que as demonstrações apresentadas são essenciais ao deslinde da presente controvérsia, na medida em que o próprio v. acórdão recorrido expressamente afirma que a apresentação dos “lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA” seria suficiente para comprovação do direito da Recorrente, o que, apesar de apresentado, não foi objeto de análise. Resta, portanto, demonstrada a necessidade de que seja reconhecida a nulidade parcial do v. acórdão recorrido, de forma a determinar o retorno dos autos para a Delegacia de Julgamento para que sejam efetivamente analisados todos os argumentos e documentos apresentados pela Recorrente. No entanto, com o intuito de aproveitar os atos processuais já praticados, em atenção aos princípios da eficiência e da economia processual, caso V. Sas. entendam que a nulidade apontada seja sanável, a Recorrente requer seja determinada a conversão em diligência, de forma a determinar a análise dos documentos apresentados pela D. Fiscalização. 2) No mérito repete as alegações já trazidas quando da impugnação, relativamente ao “contexto do setor elétrico – aquisição de energia elétrica, parcela A e CVA”, “das especificidades do setor elétrico e os seus impactos na contabilidade”, “da dedutibilidade dos custos de aquisição de energia elétrica registrados pela Recorrente” e “da demonstração do tratamento contábil na prática”. Em relação a este último ponto, o recurso voluntário acresceu o seguinte: Fl. 17801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 38 A conciliação abaixo demonstra este procedimento na íntegra, sendo: (a) o item 1), o custo da aquisição de energia elétrica que é coberto pela tarifa, e é estimado quando da última revisão tarifária; (b) o item 2), que corresponde ao custo estimado no momento da aquisição da energia elétrica, e que é registrado de acordo com o regime de competência, conforme orientação da própria Receita Federal; (c) o item 3), que corresponde ao valor de CVA registrado no resultado contábil, para fins de neutralização dos efeitos do custo coberto pela tarifa vis-à- vis o custo estimado da aquisição de energia no período; e, (d) o item 4 que é a diferença entre os itens 1, 2 e 3: Fl. 17802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 39 Verifica-se, portanto, que a diferença entre o custo coberto pela tarifa, estimado quando da última revisão tarifária, e o custo estimado registrado pelo regime de competência é exatamente o valor da CVA, o que demonstra de forma clara que para todo custo estimado registrado, haverá o registro de uma CVA correspondente no resultado. Assim, o procedimento de constituição de provisão e reversão, utilizado pela Recorrente para o registro dos seus custos, tem efeito neutro no resultado contábil da empresa, razão pela qual não há que se falar em recolhimento a menor de IRPJ e CSLL. Ademais, apesar do lançamento contábil referente à Jirau demonstrar perfeitamente o procedimento adotado na prática e se tratar do maior valor referente a esse procedimento de provisão/reversão neste ano, o que não foi analisado pelo v. acórdão recorrido, a Recorrente vem demonstrar mais exemplos a fim de sanar quaisquer dúvidas porventura existentes. Da análise dos meses de maio e setembro, por exemplo, conclui-se também que o procedimento adotado pela Recorrente para o registro dos seus custos por meio de constituição de provisão/reversão não gerou qualquer impacto no seu resultado contábil, uma vez que o registro de CVA garante que estes lançamentos sejam neutralizados. Isto porque, assim como no mês de outubro, o valor de receita registrado na conta CVA nos meses de maio e setembro é equivalente à diferença entre o valor de custo estimado coberto pela tarifa e o valor de custo estimado registrado de acordo com o regime de competência, neutralizando qualquer eventual divergência contabilizada no resultado, conforme verifica-se da conciliação a seguir: Fl. 17803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 40 Assim, as conciliações acima apresentadas reforçam o que já foi comprovado, ou seja, que para todo valor de provisão de custo estimado ou de custo efetivo, registrado como despesa no resultado contábil da Recorrente, em que se verifica diferença em relação ao custo coberto pela tarifa, registra-se um valor equivalente de CVA, que será lançada como receita no resultado quando o custo estimado ou efetivo superar o coberto pela tarifa, ou como despesa, quando o custo estimado ou efetivo for inferior ao coberto pela tarifa. Fl. 17804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 41 Portanto, o efeito deste procedimento no resultado contábil é zero ou praticamente zero. Ora, se não há impacto no resultado, não há impacto na apuração ou recolhimento dos tributos. E nem se alegue novamente que não seria possível verificar a relação entre os valores aqui apresentados e a presente atuação, pois além dos exemplos acima mencionadas serem relativos ao ano de 2015, período objeto do Auto de Infração ora em discussão, as contas de custo consideradas nas conciliações demonstradas acima são as mesmas contas de custo analisadas pela fiscalização e que foram objeto do Auto de Infração, conforme verifica-se dos dois exemplos abaixo: Desta forma, resta comprovado que o procedimento utilizado pela Recorrente para o registro dos seus custos além de estar de acordo com as regras contábeis e regulatórias, não gerou qualquer impacto na apuração do IRPJ e da CSLL, razão pela qual não há que se falar em recolhimento a menor destes tributos. 3) Da impossibilidade de exigência de juros de mora sobre a multa de ofício – também neste ponto repete ipsis litteris, o teor da impugnação a respeito da matéria. 4) Ao final, requer que todas as intimações sejam feitas aos cuidados dos Patronos que subscrevem a petição. Após, vieram os autos a este Conselheiro para relato e voto. Analisado o processo e posto em julgamento, a Turma firmou o entendimento da necessidade da sua conversão em diligência através da Resolução nº 1401-001.017, de 08 de abril de 2024, pelos seguintes motivos: Fl. 17805DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 42 Porém, em respeito ao princípio do Colegiado, me curvei ao entendimento da maioria de meus pares, que manifestaram sua preocupação ante à carência de elementos suficientes para uma tomada de decisão. Assim, após as discussões de praxe, a Turma resolveu converter o julgamento em diligência para que a Autoridade Administrativa aprofundasse a investigação no sentido de esclarecer se, no cômputo dos R$213.054.866,58 glosados pela Fiscalização, que se refeririam em seu total aos períodos de apuração de julho e outubro de 2015, estariam contidos os R$163.497.839,00 relativos aos custos com a Usina de Jirau. A dúvida principal reside no fato de que as glosas referem-se aos períodos de apuração de julho (R$178.499.433,24) e outubro (R$58.470.885,42) de 2015, enquanto os R$163.497.839,00, segundo a Recorrente, referir-se-iam ao período de outubro. Ou seja, as competências relativas aos valores glosados não “fechariam”, em termos de datas e valores, com a competência dos custos de Jirau (outubro/2015). Outra questão a ser complementada pela diligência diz respeito à citada reversão da provisão com Jirau para fins de neutralidade; deve-se aproveitar a diligência para melhor instruir os autos com a apresentação dos assentamentos contábeis/fiscais que comprovariam a reversão da citada provisão, se houver. Por todo o exposto, deve a Autoridade Administrativa: Intimar a Contribuinte para que, a partir das glosas realizadas pela Autoridade Fiscal relativas ao grupo “Energia – Mercado de Curto Prazo – MCP” da CCEE (NLC), que importaram em R$213.054.866,58, apresente a devida conciliação das despesas glosadas, com o fito de comprovar que a glosa que alegadamente seria relativa às despesas com a Usina Jirau, no montante de R$163.497.839,00, estaria abarcada pelo trabalho fiscal, justificando, em especial, a diferença das competências relativas às glosas dos meses de julho (R$178.499.433,24 e outubro (R$58.470.885,42) de 2015; Apresente os documentos fiscais e contábeis que comprovam a alegada reversão realizada para fins de neutralização das despesas com a Usina de Jirau no montante de R$163.497.839,00; Após a apresentação dos demonstrativos e documentos solicitados, elabore relatório conclusivo a respeito das novas informações juntadas aos autos; Abra prazo de 30 (trinta) dias para a manifestação da Contribuinte em relação ao Relatório de Diligência. Assim, foram os autos encaminhados à Unidade Local de jurisdição da Contribuinte que, em atendimento ao pedido formulado acima, assim se manifestou, em apertada síntese: (...) Fl. 17806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 43 Fl. 17807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 44 Já a Contribuinte, em sua manifestação ao Relatório de Diligência aduz o seguinte: (...) II. AS CONCLUSÕES DO TERMO DE DILIGÊNCIA Nº 002 8. Como não poderia deixar de ser, o Termo de Diligência nº 002 reconheceu a indevida contabilização de R$ 163.497.839,34, oriundo do exemplo da Usina de Jirau, na glosa do Grupo Contábil Energia MCP. 9. Isso porque a AMPLA utilizou a conta contábil nº G315400004 para realizar uma sucessão de provisões e estornos no valor de R$ 163.497.839,34, a partir de outubro de 2015; até que, em março de 2016, a AMPLA verificou que não havia Fl. 17808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 45 mais risco de liquidação que justificasse a manutenção da provisão, procedendo então, à sua reversão. 10. Nessa ordem de ideias, o Termo de Diligência nº 002 reconheceu que a provisão do custo ligado à aquisição da energia elétrica no MCP em decorrência do atraso nas obras da Usina de Jirau, não gerou qualquer impacto no resultado contábil da AMPLA. Veja-se: (...) 11. Tem-se, então, que o Termo de Diligência nº 002 reconheceu a sistemática de provisões e reversões descrita no recurso voluntário de fls. 17.275/17.305, para calcular um novo montante de R$ 49.557.027,24 a título de glosa no Grupo Contábil Energia MCP. 12. Portanto, com base unicamente nas conclusões atingidas pelo Termo de Diligência nº 002, impõe-se o provimento do recurso voluntário de fls. 17.275/17.305 neste particular, a fim de que a glosa do Grupo Contábil Energia MCP seja reduzida de R$ 213.054.866,58 para R$ 49.557.027,24. III. A NECESSIDADE DE REVISÃO DAS DEMAIS GLOSAS QUE AMPARAM O AUTO DE INFRAÇÃO 13. Em que pese a AMPLA esteja de pleno acordo com a conclusão atingida pelo Termo de Diligência nº 002, cabe recordar que o caso da Usina de Jirau foi exemplificativamente citado pelo recurso voluntário de fls. 17.275/17.305, com o objetivo de ilustrar a dinâmica contábil das despesas dedutíveis de aquisição de energia para revenda, sem prejuízo de outras glosas indevidamente realizadas pela D. Fiscalização. 14. A esse respeito, em que pese a D. Autoridade Diligenciadora tenha identificado uma glosa de R$ 49.557.027,24 para o Grupo Contábil Energia MCP, o fato é que todas essas provisões foram revertidas na contabilidade da AMPLA, sem impactos no resultado contábil. Em outras palavras, para cada registro da despesa, houve um registro equivalente de receita que anulou o efeito do custo registrado, devidamente resguardado pela neutralização de CVA. 15. Dando contornos mais positivos a esse entendimento, a AMPLA consolidou o anexo demonstrativo evidenciando a diferença nula do saldo de todas as suas contas do Grupo Contábil Energia MCP, ante a sistemática de provisões e reversões (DOC. 01): Fl. 17809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 46 16. Explica-se: segundo a D. Fiscalização, em 31.12.2015, a AMPLA detinha um saldo de R$ 880.420.565,91 em suas contas do Grupo Contábil Energia MCP (parte 1 da tabela acima). 17. Para contabilizar este valor, a D. Fiscalização calculou diferença entre (i) os montantes das notas fiscais de liquidação e documentos de aquisições de energia elétrica efetuadas pela AMPLA e (ii) os valores de custo de aquisição de energia elétrica registrados na contabilidade da AMPLA no ano de 2015. 18. Ocorre que, conforme restou demonstrado no exemplo de JIRAU, as especificidades contábeis do setor elétrico poderão ensejar a reversão ou liquidação de provisões meses após a disponibilização da energia. Ou seja, nem todas as provisões de custo estimado registradas nos últimos meses de 2015 serão revertidas dentro do mesmo ano-calendário. 19. Dito isso, ao considerar as notas fiscais de outubro a dezembro de 2015, cujos registros só foram realizados em 2016, o saldo das contas do Grupo Contábil Energia MCP corresponderia mais precisamente a R$ 1.032.906.250,61 (parte 2 da tabela acima). 20. Sobre este saldo reajustado, a AMPLA também precisou retificar uma segunda distorção decorrente do fato de que a D. Fiscalização, ao analisar os valores registrados como custo de aquisição de energia elétrica vis-à-vis as notas fiscais e documentos de venda, considerou o valor efetivo da nota de liquidação e, quando comparado com o saldo registrado nas contas de custo, existe uma diferença de R$ 1.089.387,37, que foi contabilizada diretamente na conta fornecedor, conforme se extrai da seguinte tela do SAP: Fl. 17810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 47 21. Como a diferença acima não foi registrada nas contas de custo da AMPLA, ela consequentemente não foi considerada na base de cálculo de tomada de crédito da companhia. 22. Assim, se levadas em conta essas notas de liquidação – que, repita-se, não foram escrituradas na conta contábil de custos –, tem-se que o saldo efetivamente provisionado do Grupo Contábil Energia MCP equivale a R$ 1.031.816.863,24 para o ano-calendário autuado (parte 3 da tabela acima). 23. Nesse contexto, o referido saldo de R$ 1.031.816.863,24 foi integralmente neutralizado pela AMPLA, seja com base exemplo de JIRAU (parte 4 da tabela acima), seja mediante reversões que se concretizaram no ano de 2015 e nos primeiros meses de 2016(parte 5 da tabela acima). 24. Assim, a toda evidência, resta comprovada a insubsistência da manutenção da glosa de R$ 49.557.027,24 para o Grupo Contábil Energia MCP, na medida em que todos os valores provisionados foram devidamente revertidos pela AMPLA. Impõe-se, assim, o abatimento deste valor da base de cálculo da autuação. 25. Na prática, o demonstrativo acostado à presente manifestação (vide DOC. 01) apenas corrobora o entendimento de que o tema do auto de infração é regado de complexidades contábeis, razão pela qual não é possível realizar o simples confronto de notas fiscais com os valores de custo registrados no resultado contábil da empresa para quantificar a sua base de cálculo, à luz das particularidades contábeis inerentes ao setor de energia elétrica. 26. No final das contas, tem-se que a D. Fiscalização utilizou bases e critérios equivocados para calcular as glosas dos Grupos Contábeis Energia MCP, Energia - Energia, Energia - Cotas, Energia - Angra, Energia MCSD, Energia Itaipu, Outros Transp. Itaipu, Outros CUSD e Garantias. Razão pela qual a AMPLA reitera seu pedido para que seja dado integral provimento ao recurso voluntário de fls. 17.275/17.305. IV. CONCLUSÃO 27. Por todo o acima exposto, a AMPLA desde logo manifesta sua concordância com as conclusões alcançadas pelo Termo de Diligência nº 002, que reconheceu a indevida contabilização de R$ 163.497.839,34, oriundo do exemplo da Usina de Jirau, na glosa do Grupo Contábil Energia MCP, o que por si só deveria ensejar o provimento do recurso voluntário de fls. 17.275/17.305 neste particular. 28. De todo modo, diante das informações complementares prestadas na presente manifestação, a AMPLA mais uma vez requer seja dado integral provimento ao recurso voluntário de fls. 17.275/17.305, a fim de que restem desfeitas todas as glosas realizadas na presente autuação; ou, caso assim não se entenda, seja ao menos afastada a glosa remanescente de R$ 49.557.027,24 do Grupo Contábil Energia MCP. É o relatório. Fl. 17811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 48 VOTO Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e sua matéria se enquadra na competência deste Colegiado. Quanto ao recurso de ofício, conforme veremos mais adiante, carecerá de decisão acerca de seu integral recebimento e julgamento, haja vista tratar de matéria que, em parte e, a princípio, escapa da competência deste Colegiado. Mais à frente voltaremos com mais detalhe ao assunto. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. Como vimos no Relatório, o presente processo trata de auto de infração de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS (v. e-fls. 16.817/16.846), relativos ao ano calendário de 2015, cujo objeto principal foi a glosa de custos, mais especificamente, daqueles relacionados à aquisição de bens para revenda (materiais aplicados na produção de serviços). Tais glosas influenciaram na apuração da base de cálculo de todos os tributos exigidos. Especificamente em relação ao PIS e à COFINS, também foi objeto de glosa o estorno dos créditos relativos às perdas comercias (não técnicas), conforme o percentual divulgado pela ANEEL, referente à Baixa Tensão, em conformidade com as Resoluções Normativas Aneel nº 640/2014 E 660/2015 (a Fiscalização aplicou o percentual de 18,38% para apurar a glosa dos estornos de créditos). O presente procedimento fiscal foi empreendido em continuidade à auditoria realizada em relação ao ano calendário de 2014 e que é objeto do lançamento autuado no processo fiscal nº 10872.720163/2018-34, que foi objeto de apreciação por parte desta Turma ao proferir o Acórdão nº 1401-006.821, de 20/02/2024, e que resultou na seguinte decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício e em relação ao recurso voluntário, afastar as arguições de nulidade do auto de infração e da decisão recorrida para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, afastando as glosas de custos no total de R$107.307.896,87, devendo os lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS serem adequados de acordo com o decisum. A Autoridade Fiscal apurou, a princípio, divergências entre os valores informados nas contas ECF nº 3.01.01.03.01.03, 3.01.01.09.01.99 e 3.01.01.07.01.29; os valores indicados nos quadros 01, 02 e 03, constantes da resposta a intimação feita em face da contribuinte e respondida em 25/02/2019, detalhados mensalmente no arquivo intitulado “DOC 02 REVISADO”, planilha “Resumo Contas 2015”; e ainda, haveria divergência dos dados acima com os totais obtidos a partir do o arquivo intitulado “Doc_01_Compras_2015_v3 REVISADO FISCALIZAÇÃO, também elaborado pela Recorrente em resposta ao Termo de Intimação nº 020. Tais divergências foram submetidas à apreciação da Contribuinte e podem ser resumidas conforme o quadro abaixo: Fl. 17812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 49 Também foi objeto de apuração, por parte da Fiscalização, a informação constante da EFD (Escrituração Fiscal Digital) Contribuições AC 2015, em que a contribuinte teria considerado, para fins de apuração da Base de Cálculo dos Créditos de PIS e COFINS, um valor de aquisição de bens para revenda da ordem de R$ 18.857.886.635,50 (Dezoito bilhões, oitocentos e cinquenta e sete milhões, oitocentos e oitenta e seis mil, seiscentos e trinta e cinco reais e cinquenta centavos), conforme Demonstrativo intitulado “BC Aquisição de Bens para revenda EFD AC 2015”. Tais valores foram submetidos à apreciação/contestação por parte da Contribuinte, quando da lavratura do Termo de Intimação nº 020. Ainda, com relação a apuração de créditos na EFD Contribuições AC 2015, a Fiscalização teria apurado que a Contribuinte consignara ajustes de redução dos créditos para o PIS e para a COFINS, decorrentes de Perdas Comerciais e Estornos de Compra de Energia Elétrica para Revenda da ordem de R$32.983.157,00 (trinta e dois milhões, novecentos e oitenta e três mil, cento e cinquenta e sete reais) e R$1.426.877.527,06 (hum bilhão, quatrocentos e vinte e seis milhões, oitocentos e setenta e sete mil, quinhentos e vinte e sete reais e seis centavos), conforme detalhado mensalmente nos Demonstrativos “Ajustes de Redução do Crédito PIS EFD Contribuições AC 2015” e “Ajustes de Redução do Crédito COFINS EFD Contribuições AC 2015”, submetidos à apreciação/contestação por parte da Contribuinte, quando da lavratura do Termo de Intimação nº 020. Ao final de quase um ano de auditoria fiscal, após diversas intimações e concessões de prazos (incluindo as respectivas dilatações para o atendimento), a Autoridade Fiscal chegou à conclusão que não teriam sido comprovados por parte da Contribuinte os seguintes valores, informados na apuração das bases de cálculo dos tributos do respectivo ano calendário a título de custos relacionados à aquisição de bens para revenda (materiais aplicados na produção de serviços): 1) Em relação ao grupo “Energia – Mercado de Curto Prazo – MCP” - em relação às Notas de Liquidação das Contabilizações do Mercado de Curto Prazo da CCEE (NLC), não foram apresentados os documentos relativos aos meses (competência) de julho (R$178.499.433,24) e outubro (R$58.470.885,42); Desconsiderados tais valores, restou uma diferença a comprovar da ordem de R$213.054.866,58 (Duzentos e treze milhões, cinquenta e quatro mil, oitocentos e sessenta e seis reais e cinquenta e oito centavos). 2) Em relação ao grupo “Outros Transp. Itaipu” e “Outros CUSD” – foram constatadas diferenças a comprovar com relação aos valores levados a Fl. 17813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 50 resultado na conta ECF 3.01.01.01.07.01.29, contas componentes G315426000 - Dist-Ln-Rd-Se-Oper En Elet-Transporte Itaipu e G315421001 -Dist-Ln-Rd-Se-Oper En Elet-Enc Uso Rede Elet-CUSD, da ordem de R$1.072.345,36 (Hum milhão, setenta e dois mil, trezentos e quarenta e cinco reais e trinta e seis centavos) e R$1.123.121,81 (Hum milhão, cento e vinte e três mil, cento e vinte e um mil reais e oitenta e um centavos), respectivamente; 3) Em relação aos grupos “Energia – Energia”, “Energia – Cotas”, “Energia – Angra” e “Energia – MCSD” – Foram constatadas diferenças a serem comprovadas relativamente à Energia-Energia, Energia-Cotas, Energia Angra G315412000 e Energia MCSD, escrituradas na conta ECD G315412000 Dist-Ln Rd Sub-oper com En El-Compra-Suprimento, parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, da ordem de R$19.738.363,61 (Dezenove milhões, setecentos e trinta e oito mil, trezentos e sessenta e três reais e sessenta e um centavos); 4) Em relação ao grupo “Energia – Itaipu” – Foram constatadas diferenças a serem comprovadas para o Grupo Energia Itaipu, conta ECD G315413000 (Distr-Ln Rd Sub-oper com En El-Comp Rev-Rep.ITAIPU), parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, da ordem de R$3.977.520,21 (Três milhões, novecentos e noventa e sete mil, quinhentos e vinte reais e vinte e um centavos); 5) Em relação ao grupo “Garantias” – Por último, ainda foram constatadas diferenças a serem comprovadas em relação aos valores escriturados na conta ECD G315415004 (Dist-Ln-Rd-Se-Oper com En El-Comp Rev-Garantias), parte componente da conta ECF 3.01.01.09.01.99, da ordem de R$8.150,54 (Oito mil, cento e cinquenta reais e cinquenta e quatro centavos); 6) Em resumo, no tocante aos autos de infração de IRPJ e CSLL, as glosas efetivadas pela Fiscalização podem ser assim demonstradas: 7) A Base de Cálculo consignada na EFD Contribuições AC 2015, para fins de apuração dos créditos de PIS e COFINS, no valor de aquisição de bens para revenda era da ordem de R$18.857.886.635,50. Após a auditoria fiscal, os valores efetivamente comprovados pela Contribuinte importaram em R$3.238.920.572,22 (três bilhões, duzentos e trinta e oito milhões, novecentos e vinte mil, quinhentos e setenta e dois reais e vinte e dois centavos). A Fiscalização adotou o percentual de perdas não técnicas para o mercado de baixa tensão divulgados pela ANEEL, constatando, assim, créditos indevidamente descontados, na apuração do PIS e da COFINS, em valores superiores, conforme disposto no quadro a seguir: Fl. 17814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 51 Apresentada a impugnação ao lançamento, a DRJ/RJO proferiu decisão dando parcial provimento ao recurso para tão somente afastar as exigências do PIS e da COFINS na sua integralidade. Já os lançamentos do IRPJ e da CSLL restaram incólumes. Preliminarmente, a decisão recorrida afastou a alegação de nulidade do auto de infração. Também negou provimento à arguição de não incidência de juros de mora sobre a multa de ofício nem tampouco aos pedidos de produção de provas, especialmente pela juntada posterior de documentos e, ainda, ao requerimento de envio de intimações para o endereço do advogado. No mérito, a Autoridade Julgadora esclareceu que a lide se limitava à verificação da validade dos valores declarados como despesas dedutíveis relativos à aquisição de energia elétrica para revenda. Para isto, a Fiscalização teria comparado as notas fiscais e documentos de aquisições de energia elétrica com os respectivos custos registrados em sua contabilidade no ano de 2015. A Autoridade julgadora analisou os documentos e planilhas apresentados pela Contribuinte, aliado às informações prestadas pela Fiscalização e materializadas no Termo de Verificação Fiscal de e-fls. 16.622/16.652 (com os documentos que o embasaram). À medida que formos analisando as alegações constantes do recurso voluntário, retornaremos ao decidido pela DRJ de forma mais minudente. Do Recurso Voluntário – Glosa de Custos O recurso voluntário repete, em grande medida, os termos da impugnação, agregando argumentos para rebater alguns pontos que não teriam sido atendidos pela decisão recorrida. Vamos a eles: 1) Preliminarmente, argui a nulidade do acórdão recorrido. Essa questão da nulidade parcial do acórdão recorrido, da forma como foi abordada pela Recorrente, está intimamente ligada ao próprio mérito do lançamento de IRPJ e CSLL, razão pela qual as conclusões aqui exposadas servirão em grande medida para a resolução da pendenga. Fl. 17815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 52 Como vimos no Relatório, a Recorrente alega que o acórdão recorrido teria reconhecido integralmente a procedência das suas alegações afirmando que estariam de acordo com as normas contábeis e fiscais em vigor. Contudo, o acórdão recorrido teria afirmado que não teria sido apresentada qualquer prova no sentido de demonstrar que os valores glosados não teriam impactado a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e que a Recorrente não teria esclarecido a relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau com a autuação. Argui que, ao contrário do que afirmara o v. acórdão recorrido, a Recorrente não apenas teria esclarecido a clara relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau com a autuação e a razão dos valores glosados não terem impactado a apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, como também teria apresentado lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valor de Itens da Parcela A – “CVA”, que comprovariam que os valores glosados tiveram efeito nulo na apuração dos referidos tributos. Cita a página 23 da Impugnação, onde a Recorrente teria apresentado duas tabelas que demonstrariam de forma clara e inequívoca os lançamentos contábeis a débito e a crédito referentes ao caso da Usina Hidrelétrica de Jirau, que representaria o maior valor referente ao procedimento de provisão/reversão no ano de 2015. Tais documentos não teriam sido analisados, violando as previsões do artigos 2º, caput e parágrafo único, inciso VII e 50, inciso VI, §1º da Lei nº 9.784/99, que determinam que todos os atos administrativos devem ser devidamente motivados de forma explícita, clara e congruente. Além disso, ao deixar de analisar os registos contábeis apresentados pela Recorrente, o v. acórdão recorrido violou o disposto no §1º do art. 489 do Código de Processo Civil, que se aplica supletiva e subsidiariamente ao processo administrativo. Também teria violado o art. 31 do Decreto nº 70.235/72, que determinaria que a decisão deve referir-se expressamente às razões de defesa suscitadas pelo Impugnante. Antes de mais nada, reproduzo os termos do acórdão recorrido no ponto: Embora as alegações da impugnante relativas à constituição e reversão das provisões de custos estimados de aquisição de energia elétrica e seus efeitos tributários estejam de acordo com as normas contábeis e fiscais em vigor, o contribuinte não demonstrou no decorrer da fiscalização que as diferenças apontadas não afetaram a apuração do IRPJ e da CSLL, uma vez que, conforme alegado, “para toda despesa excedente ao custo estimado, registrada no resultado em razão da variação do custo efetivo, haverá uma receita equivalente”. Da mesma forma, na impugnação não foram apresentados os lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA ou qualquer prova documental no sentido de demonstrar que os valores glosados tiveram efeito nulo na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Fl. 17816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 53 O contribuinte também não esclareceu qual seria a relação do exemplo da Usina Hidrelétrica de Jirau citada na impugnação (fls. 16.930 a 16.933) com os valores objeto dos Autos de Infração de IRPJ e CSLL, sintetizados no quadro acima. Assim, há que se considerar devidos os lançamentos de IRPJ e CSLL. 2) No mérito repete as alegações já trazidas quando da impugnação, relativamente ao “contexto do setor elétrico – aquisição de energia elétrica, parcela A e CVA”, “das especificidades do setor elétrico e os seus impactos na contabilidade”, “da dedutibilidade dos custos de aquisição de energia elétrica registrados pela Recorrente” e “da demonstração do tratamento contábil na prática”. 3) Da impossibilidade de exigência de juros de mora sobre a multa de ofício – também neste ponto repete ipsis litteris, o teor da impugnação a respeito da matéria. Analisado o processo e posto em julgamento, esta Turma firmou o entendimento da necessidade da sua conversão em diligência através da Resolução nº 1401-001.017, de 08 de abril de 2024, pelos seguintes motivos: Porém, em respeito ao princípio do Colegiado, me curvei ao entendimento da maioria de meus pares, que manifestaram sua preocupação ante à carência de elementos suficientes para uma tomada de decisão. Assim, após as discussões de praxe, a Turma resolveu converter o julgamento em diligência para que a Autoridade Administrativa aprofundasse a investigação no sentido de esclarecer se, no cômputo dos R$213.054.866,58 glosados pela Fiscalização, que se refeririam em seu total aos períodos de apuração de julho e outubro de 2015, estariam contidos os R$163.497.839,00 relativos aos custos com a Usina de Jirau. A dúvida principal reside no fato de que as glosas referem-se aos períodos de apuração de julho (R$178.499.433,24) e outubro (R$58.470.885,42) de 2015, enquanto os R$163.497.839,00, segundo a Recorrente, referir-se-iam ao período de outubro. Ou seja, as competências relativas aos valores glosados não “fechariam”, em termos de datas e valores, com a competência dos custos de Jirau (outubro/2015). Outra questão a ser complementada pela diligência diz respeito à citada reversão da provisão com Jirau para fins de neutralidade; deve-se aproveitar a diligência para melhor instruir os autos com a apresentação dos assentamentos contábeis/fiscais que comprovariam a reversão da citada provisão, se houver. Na impugnação ao lançamento e no recurso voluntário, a Recorrente fez um esforço enorme para esclarecer a sistemática de contabilização das receitas, custos e despesas às quais estão sujeitas as concessionárias de prestação de serviços de energia elétrica. E creio que conseguiu, pois foi muito hábil para tanto. O recurso é bastante profícuo nesse sentido pois Fl. 17817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 54 esclarece pormenorizadamente os mecanismos adotados, de acordo com as regras fixadas pela ANEEL e pela própria Receita Federal para tanto. Entretanto, apesar de ter se desincumbido muito bem da tarefa de esclarecimento dos mecanismos adotados para a contabilização de suas receitas, custos e despesas, os recursos apresentados, s.m.j., não foram suficientes para esclarecer o objeto do lançamento em si, qual seja, os valores lançados nas demonstrações/declarações apresentadas à Receita Federal (ECF/ECD) a título de custos de aquisição de bens para revenda (materiais aplicados na produção de serviços), que serviram à apuração da base de cálculo dos tributos IRPJ, CSLL, PIS e COFINS do ano calendário de 2015. Ao iniciar a auditoria, a Fiscalização partiu dos valores informados na ECF/ECD e os comparou com aqueles informados pela própria Recorrente em resposta às intimações efetuadas para a respectiva comprovação. E não foram poucas as intimações, reintimações, concessões de prazos para atendimento etc. Terminada a fase inquisitória (da auditoria), deu-se a lavratura dos autos de infração com a consequente instauração da lide. Assim, cabia à Recorrente, creio, focar os seus esforços não somente no esclarecimento da sistemática própria de contabilização das empresas distribuidoras de energia elétrica; cabia a ela atacar diretamente as glosas ainda pendentes de comprovação e que foram perfeitamente delimitadas pela Autoridade Fiscal conforme já vimos anteriormente. Entretanto, tanto a impugnação quanto o recurso voluntário preferiram discorrer muito mais sobre a sistemática de contabilização própria das empresas do setor elétrico para, ao fim e ao cabo, com base nessa sistemática, tentar induzir o julgador a concluir que “não haveria qualquer possibilidade de apuração e recolhimento de tributo a menor, razão pela qual o presente Auto de Infração merece ser integralmente cancelado” (v. e-fls. 16.930). Vejam: Ocorre que, conforme demonstrado acima, por especificidades do setor de energia elétrica, no momento de disponibilização da energia elétrica à distribuidora, não se sabe ao certo qual será o custo efetivo da Impugnante com a aquisição de energia elétrica no mês. Por esta razão, inicialmente, em respeito ao referido Princípio da Competência, a Impugnante, assim como as distribuidoras do setor, registra uma provisão do valor estimado de custo de aquisição de energia elétrica. Após a liquidação dos contratos e operações pela CCEE, o que, conforme descrito acima, ocorre cerca de dois meses após a disponibilização da energia, a Impugnante reverte a provisão inicialmente registrada e registra a despesa efetiva incorrida. Desta forma, é provável que nem todas as provisões de custo estimado registradas em um ano calendário sejam revertidas dentro do mesmo período. De fato, em regra, as despesas de provisões não devem impactar a apuração dos tributos. Contudo, ao contrário dos demais setores, como se verificou acima, o setor de energia elétrica possui peculiaridades que levam ao registro de custos e receitas equivalentes em valores estimados. E, de acordo com o entendimento da própria Fl. 17818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 55 Receita Federal, conforme será demonstrado a seguir, estes valores devem ser considerados para fins apuração do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Sendo assim, não se pode analisar os valores de custo incorrido apenas com base na conciliação entre as notas fiscais e documentos emitidos e os valores de custo de aquisição de energia elétrica registrados no resultado contábil da companhia em determinado período, é preciso levar em consideração as peculiaridades do setor. (...) Ademais, conforme demonstrado exaustivamente, ainda que os custos com aquisição de energia elétrica tivessem sido superestimados, o que se admite apenas à título argumentativo, por meio do registro da CVA, mecanismo regulatório de observação obrigatória, as receitas decorrentes da venda de energia elétrica teriam sido superestimadas na exata medida da diferença entre a cobertura pela tarifa e o custo contabilizado. Portanto, neste caso, para toda despesa superestimada deduzida da base de cálculo do IRPJ e da CSLL ou utilizada como base de cálculo para a apuração de créditos de PIS e COFINS, houve o reconhecimento de uma receita de CVA equivalente à diferença entre a cobertura pela tarifa e o custo contabilizado que foi oferecida à tributação pelo IRPJ, pela CSLL, pelo PIS e pela COFINS. Desta forma, resta demonstrado que não haveria qualquer possibilidade de apuração e recolhimento de tributo a menor, razão pela qual o presente Auto de Infração merece ser integralmente cancelado. Quando cita o “caso de Jirau”, vide e-fls. 16.930, o faz nos seguintes termos: “A fim de demonstrar na prática todo procedimento descrito acima, a Impugnante discorrerá, a título exemplificativo, a respeito do caso de Jirau, ocorrido em 2015, e que representou o maior impacto nesse procedimento de provisão/reversão neste ano”. Vejam a forma como se manifestou a Recorrente na impugnação em relação ao referido caso (v. e-fls. 16.930/16.933): Jirau é uma usina hidrelétrica construída no Rio Madera, em Rondônia, com a qual a Impugnante firmou contrato de aquisição de energia. Contudo, devido a um atraso no cronograma das suas obras, a construção da Usina de Jirau não foi concluída a tempo, de forma que, para cumprir o contrato firmado com a Impugnante, essa usina precisou adquirir energia elétrica no Mercado de Curto Prazo. Ocorre que, o preço da aquisição de energia no mercado de curto prazo oscila e pode ter um preço superior ao dos contratos, que foi o que ocorreu, de forma que o preço da energia elétrica nesse caso acabou sendo muito maior do aquele firmado no contrato entre a Usina de Jirau e a Impugnante. Em regra, nestes casos, a geradora de energia elétrica é obrigada a repassar a energia elétrica que adquiriu no mercado de curto prazo pelo preço firmado no contrato inicial com a distribuidora, sem repassar a diferença do custo que teve que incorrer para adquirir a energia de forma emergencial. Fl. 17819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 56 Contudo, a Usina de Jirau, em 2013, ajuizou uma ação para garantir que não lhe fossem impostas sanções pelo atraso na geração de energia, sob a alegação de que o atraso na finalização das obras ocorreu em razão de fatores que fugiram do seu controle, como greves e atos de vandalismo. Nos autos desta ação, foi proferida decisão que deferiu o pedido liminar da Usina de Jirau. Assim, a partir da competência de julho de 2015, a CCEE entendeu que a Impugnante deveria reconhecer um passivo referente à aquisição da energia elétrica no mercado de curto prazo no valor R$ 163,5 milhões (DOC. 09), pois, a seu ver, à época, em razão da liminar proferida, este custo não seria arcado pela Usina de Jirau. Assim, a Impugnante registrou uma provisão no referido valor, reconhecendo a despesa e a respectiva receita de CVA no mesmo valor, conforme se verifica dos lançamentos contábeis abaixo: Como se verifica da análise dos lançamentos contábeis destacados acima, o reconhecimento da provisão do custo, referente à aquisição da energia elétrica no mercado de curto prazo em decorrência do atraso nas obras da Usina de Jirau, não gerou qualquer impacto no resultado contábil da Impugnante. Isto porque, assim como houve registro da despesa, houve um registro equivalente de receita de CVA, anulando- se o efeito do custo registrado. Em setembro de 2015, antes da liquidação da referida competência de julho/2015, a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica – “ABRADEE”, obteve uma decisão liminar favorável em outro processo judicial, que garantia às distribuidoras de energia elétrica o direito de não arcar com os custos referente à Fl. 17820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 57 aquisição de energia elétrica no mercado de curto prazo em decorrência do atraso nas obras de Jirau. Em razão desta decisão liminar, a CCEE estornou o lançamento feito em julho na competência de agosto. Contudo, considerando que se tratava de uma decisão provisória, receosa de que a decisão liminar fosse cassada ou, ainda, revertida em instância superior, e, tendo em visto o alto valor envolvido que poderia ser objeto de liquidação pela CCEE, a Impugnante manteve a provisão de R$ 163,5 milhões no passivo. No entanto, em março de 2016, a CCEE, considerando a nova decisão judicial obtida na ação ajuizada pela ABRADEE, enviou um novo comunicado (DOC. 10) à Impugnante informando que a nova decisão judicial alterou o entendimento inicial de que as distribuidoras deveriam arcar com o custo da aquisição da energia no mercado de curto prazo em razão do atraso nas obras da Usina de Jirau. Assim, tendo em vista a decisão judicial e o comunicado enviado pela CCEE, a Impugnante entendeu que não havia mais risco de liquidação do valor R$ 163,5 milhões que justificasse a manutenção da provisão, procedendo, então, à sua reversão. Nesse sentido, em virtude do contexto narrado acima, é importante destacar que no caso de Jirau, fato é que a fiscalização jamais encontraria nota fiscal que comprovasse a liquidação do custo referente à Jirau. O que só corrobora o que vem sendo defendido, no sentido de que não se pode realizar o simples confronto de notas fiscais com os valores de custo registrados no resultado contábil da Impugnante. O setor elétrico tal como regulado e a sua lógica de funcionamento não permitem esse simples confronto. Isto porque, além de não ter havido a efetiva liquidação do valor referente ao caso de Jirau, a provisão registrada em 2015, apenas foi revertida em 2016. Portanto, ao realizar a composição das provisões constituídas e revertidas no ano de 2015, de fato, haverá uma parcela destas provisões, como no caso de Jirau, que apenas foram revertidas no período subsequente. No caso de Jirau, tal reversão em período subsequente se deu em função de um comunicado da CCEE, mas isto também pode ocorrer nos casos em que a Impugnante estima custo de aquisição de energia que apenas é liquidado no ano seguinte pela CCEE. Assim, a reversão da provisão do custo estimado e o registro do custo efetivo apenas ocorrerão em período posterior. Ocorre que, ao contrário do que entendeu a fiscalização, essa diferença entre os valores de provisões constituídas e revertidas não gera qualquer impacto no resultado contábil da Impugnante, pois como demonstrado em tópico anterior, o registro de CVA equivalente garante que estes lançamentos sejam neutralizados. Se não há impacto no resultado, não há impacto na apuração dos tributos, de forma que não houve recolhimento de qualquer tributo a menor. Este caso específico, relativo à Usina Hidrelétrica de Jirau, foi objeto da diligência requerida por esta Turma na Resolução nº 1401-001.017. Entendeu o Colegiado que havia fundada dúvida acerca da inclusão dos R$163.497.839,00 (relativos especificamente à Usina de Fl. 17821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 58 Jirau) no cômputo das glosas referentes às aquisições de energia no Mercado de Curto Prazo – MCP, que importaram num total de R$213.054.866,58; a referida resolução também determinou que fosse apurado se tais valores teriam sido efetivamente objeto de reversão da provisão contabilizada para fins de neutralidade da tributação. Assim, restou intimada a Contribuinte para, a partir das glosas realizadas pela Autoridade Fiscal relativas ao grupo “Energia – Mercado de Curto Prazo – MCP” da CCEE (NLC), que importaram em R$213.054.866,58, apresentasse a devida conciliação das despesas glosadas, com o fito de comprovar que a glosa que alegadamente seria relativa às despesas com a Usina Jirau, no montante de R$163.497.839,00, estaria abarcada pelo trabalho fiscal, apresentando os documentos fiscais e contábeis que comprovassem a alegada reversão realizada para fins de neutralização das despesas com a Usina de Jirau no montante de R$163.497.839,00. O resultado da diligência já foi minuciosamente detalhado no Relatório, mas vale aqui reproduzir suas conclusões para efeito de melhor balizar a decisão a ser tomada: Fl. 17822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 59 A conclusão da Autoridade Diligenciadora foi no sentido de reconhecer que os R$163.497.839,00, relativos especificamente à Usina de Jirau, estavam consubstanciados no cômputo das glosas referentes às aquisições de energia no Mercado de Curto Prazo – MCP, que importou num total de R$213.054.866,58; o relatório fiscal ainda apontou que tais valores foram objeto de reversão da provisão contabilizada para fins de neutralização dos custos com a Usina de Jirau no montante de R$163.497.839,00. Portanto, e da mesma forma como manifestado pela Contribuinte em sua petição de e-fls. 17.751/17.758, apresentada após a ciência do Relatório de Diligência, concluímos que deve ser afastada a glosa de R$163.497.839,00 referente ao caso específico da Usina de Jirau. A Contribuinte, em sua manifestação ao relatório de diligência, reitera seu pedido para que o decidido em relação a Jirau seja estendido às demais glosas de mesma natureza efetuadas pela Fiscalização (reduzidas após a diligência para R$49.557.027,24), pois seguiriam a mesma linha de procedimento que teria sido realizado pela empresa, considerando as especificidades da contabilização do setor elétrico. Entretanto, referida alegação não pode ser aceita, haja vista que tais glosas se referem a valores que inicialmente não teriam sido comprovados, relativamente aos meses de julho (R$178.499.433,24) e outubro (R$58.470.885,42) de 2015; essas glosas foram realizadas haja vista a inexistência das Notas de Liquidação das Contabilizações do Mercado de Curto Prazo da CCEE (NLC) dos respectivos meses (pelo menos não foram apresentadas pela Recorrente após regular intimação e reintimação). Aliás, referidas notas de liquidação também não foram apresentadas por ocasião do recurso voluntário, também não foi encontrado no recurso nenhuma remissão a eles ou à sua ausência; tais documentos seriam de apresentação obrigatória para comprovar os valores glosados relativamente aos meses de julho e outubro de 2015. As glosas realizadas relativamente aos custos com a aquisição de energia no Mercado e Curto Prazo – MCP, não abrangeram unicamente aos custos comprovados pela diligência e que dizem respeito especificamente ao caso Jirau. Aliás, os documentos de e-fls. 945 (planilha DOC06_Docs_Sumarios_CCE_MCP.xlsx) demonstram justamente o afirmado acima. Fl. 17823DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 60 Também resta patente o acerto da decisão recorrida ao afirmar que não teriam sido apresentados os lançamentos contábeis a crédito na conta de resultado de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A – CVA ou qualquer prova documental no sentido de demonstrar que os valores glosados tiveram efeito nulo na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Como dito acima, o exemplo de Jirau (conforme a diligência), pelo menos da forma como apresentado pela Recorrente, faz prova apenas em relação ao referido caso em si, pois está inserido em um contexto muito próprio e particular. Desse modo, e analisando tudo o que consta do processo, não há como se fazer uma correlação automática entre o caso Jirau e o restante das glosas realizadas pela Fiscalização. Por todo o exposto, não há como se dar guarida às alegações da Recorrente relativamente à pretensa nulidade parcial da decisão recorrida, entretanto, há que se reconhecer como indevidas as glosas efetuadas pela Fiscalização, no importe de R$163.497.839,00, referente ao caso específico da Usina de Jirau. E, considerando que o recurso voluntário não acresceu em praticamente nada o que já havia sido discorrido quando da impugnação, adoto como minhas as razões da decisão recorrida para fundamentar o provimento apenas parcial do recurso relativamente aos lançamentos de IRPJ e CSLL; isso, por absoluta falta de comprovação, seja contábil, seja documental, relativamente às glosas apontadas objetivamente pela Fiscalização no Auto de Infração, à exceção dos valores exigidos relativamente ao caso da Usina de Jirau. Em resumo, dou parcial provimento ao recurso voluntário relativamente aos lançamentos de IRPJ e CSLL tão somente para afastar a glosa de custo de R$163.497.839,00. Do Recurso de Ofício A DRJ/RJO deu parcial provimento à impugnação tão somente para excluir os lançamentos tributários relativos ao PIS e à COFINS. Registre-se que o recurso voluntário não teceu nenhuma linha acerca dos lançamentos de PIS e COFINS, que abrangeu apenas uma infração, decorrente da glosa do estorno de parte do crédito apurado referente às perdas de energia ocorridas durante o processo de distribuição (perdas não técnicas, ou comerciais), conforme previsão contida no § 13 do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Esta infração foi totalmente cancelada pela decisão recorrida, nos seguintes valores: DESCRIÇÃO PIS COFINS CONTRIBUIÇÃO 6.114.745,79 26.920.952,33 JUROS DE MORA 2.432.406,51 10.708.350,73 Fl. 17824DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 61 MULTA PROPORCIONAL 4.586.059,32 20.190.714,22 TOTAL DO CRÉDITO 13.133.211,62 57.820.017,28 Ocorre que a matéria tributável, neste ponto específico, s.m.j., não poderia ser objeto de apreciação por parte desta Turma. Como já vimos anteriormente, a exigência de PIS e COFINS, na espécie, diz respeito ao estorno de parte do crédito apurado referente às perdas de energia ocorridas durante o processo de distribuição (perdas não técnicas, ou comerciais), conforme previsão contida no § 13 do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Assim, em tese, trata-se de infração autônoma e independente das demais objeto dos autos de infração albergados por este processo. Por essa razão, proponho que o recurso de ofício seja apartado destes autos e encaminhado para julgamento pela 3ª Seção de Julgamento, conforme o disposto no art. 4º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF. Portanto, meu voto neste ponto específico é de declinar da competência para o julgamento do recurso de ofício para a 3ª Seção de Julgamento especificamente no tocante aos estornos dos créditos referentes às perdas de energia ocorridas durante o processo de distribuição (perdas não técnicas, ou comerciais), conforme previsão contida no § 13 do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Quanto à questão levantada em relação à exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, trata-se de matéria sumulada (vide a Súmula CARF nº 108, abaixo), razão pela qual nego provimento ao recurso no ponto. Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129 de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Por último, também em relação ao pedido de que as intimações sejam feitas aos cuidados dos Patronos que subscrevem a petição, deve-se observar a Súmula CARF nº 110: No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129 de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Por todo o exposto, voto por afastar as arguições de nulidade da decisão recorrida para, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário para afastar a glosa de R$163.497.839,00 e, em relação ao recurso de ofício, declinar da competência do seu julgamento para a 3ª Seção do CARF. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 17825DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2019/arquivos-e-imagens/portaria-me-129-sumulas_efeito-vinculante.pdf http://idg.carf.fazenda.gov.br/noticias/2019/arquivos-e-imagens/portaria-me-129-sumulas_efeito-vinculante.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1401-007.529 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10872.720172/2019-14 62 Fl. 17826DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10320.723458/2012-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2008
IRPF. FATO GERADOR COMPLEXIVO. DECADÊNCIA.
O fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física é complexivo, ou seja, ainda que devida antecipação à medida que os rendimentos e ganhos de capital forem recebidos, o fato gerador só se aperfeiçoa definitivamente no dia 31 de dezembro do ano-calendário
PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INOCORRÊNCIA. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SÚMULA CARF N. 11.
Inexiste prescrição intercorrente durante o processo administrativo fiscal, vez que sequer se iniciou a contagem do prazo prescricional, uma vez que não há constituição definitiva do crédito tributário. De acordo com a Súmula CARF nº 11, não se reconhece no âmbito do processo administrativo fiscal o instituto da prescrição intercorrente.
JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA E JUDICIAL EFEITOS.
As decisões administrativas e judiciais proferidas por órgãos colegiados, sem lei que lhes atribua eficácia, não constituem normas complementares do Direito Tributário. As decisões judiciais fazem coisa julgada às partes, não beneficiando, nem prejudicando terceiros
OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA.
São tributáveis os rendimentos recebidos de pessoa jurídica não declarados pelo contribuinte.
COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
A lei impõe exclusivamente ao sujeito passivo comprovar a origem dos depósitos mantidos em contas bancárias de sua titularidade, sendo obrigação do impugnante provar por meio de documentação hábil e idônea a procedência do depósito e a sua natureza. Tais elementos de prova devem coincidir em datas e valores com cada depósito que se pretenda comprovar. O ônus da prova da origem dos depósitos é do contribuinte e não da autoridade tributária por tratar-se de uma presunção legal de omissão de rendimentos passível de prova em contrário por parte do autuado.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS.
Para os fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
Numero da decisão: 2302-004.025
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário.
Sala de Sessões, em 22 de julho de 2025.
Assinado Digitalmente
Carmelina Calabrese – Relator
Assinado Digitalmente
Johnny Wilson Araujo Cavalcanti – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Alfredo Jorge Madeira Rosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Carmelina Calabrese, Roberto Carvalho Veloso Filho, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente).
Nome do relator: CARMELINA CALABRESE
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FATO GERADOR COMPLEXIVO. DECADÊNCIA. O fato gerador do imposto sobre a renda de pessoa física é complexivo, ou seja, ainda que devida antecipação à medida que os rendimentos e ganhos de capital forem recebidos, o fato gerador só se aperfeiçoa definitivamente no dia 31 de dezembro do ano-calendário PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. INOCORRÊNCIA. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SÚMULA CARF N. 11. Inexiste prescrição intercorrente durante o processo administrativo fiscal, vez que sequer se iniciou a contagem do prazo prescricional, uma vez que não há constituição definitiva do crédito tributário. De acordo com a Súmula CARF nº 11, não se reconhece no âmbito do processo administrativo fiscal o instituto da prescrição intercorrente. JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA E JUDICIAL EFEITOS. As decisões administrativas e judiciais proferidas por órgãos colegiados, sem lei que lhes atribua eficácia, não constituem normas complementares do Direito Tributário. As decisões judiciais fazem coisa julgada às partes, não beneficiando, nem prejudicando terceiros OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. São tributáveis os rendimentos recebidos de pessoa jurídica não declarados pelo contribuinte. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS. A lei impõe exclusivamente ao sujeito passivo comprovar a origem dos depósitos mantidos em contas bancárias de sua titularidade, sendo obrigação do impugnante provar por meio de documentação hábil e Fl. 302DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 2 idônea a procedência do depósito e a sua natureza. Tais elementos de prova devem coincidir em datas e valores com cada depósito que se pretenda comprovar. O ônus da prova da origem dos depósitos é do contribuinte e não da autoridade tributária por tratar-se de uma presunção legal de omissão de rendimentos passível de prova em contrário por parte do autuado. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Para os fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares arguidas e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. Sala de Sessões, em 22 de julho de 2025. Assinado Digitalmente Carmelina Calabrese – Relator Assinado Digitalmente Johnny Wilson Araujo Cavalcanti – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Alfredo Jorge Madeira Rosa, Angelica Carolina Oliveira Duarte Toledo, Carmelina Calabrese, Roberto Carvalho Veloso Filho, Rosane Beatriz Jachimovski Danilevicz, Johnny Wilson Araujo Cavalcanti (Presidente). RELATÓRIO PROCEDIMENTO FISCAL Fl. 303DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 3 Trata o processo em epígrafe do Auto de Infração referente ao lançamento de ofício referente ao Imposto de Renda pessoa física, exercício de 2008, ano-calendário 2007, onde, conforme relata a autoridade fiscal, foram constatadas irregularidades referentes a omissão de rendimentos de aluguel recebidos de pessoa jurídica e omissão de rendimentos caracterizados por depósitos bancários com origem não comprovada. A autoridade fiscal, e-fls. 5 a 8, descreve assim os fatos: 1) RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE ALUGUÉIS E ROYALTIES RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS. Omissão de rendimentos de aluguéis recebidos de pessoa jurídica, conforme apurado em Declaração de Imposto de Renda na Fonte – DIRF. Durante o ano- calendário de 2007, o sujeito passivo recebeu rendimentos de aluguel tendo como fonte pagadora a empresa ENESA ENGENHARIA S/A e não declarado na Declaração de Imposto de Renda Pessoa Física do Exercício 2008, referente ao ano-calendário 2007. Intimado a apresentar os comprovantes de rendimento de aluguel, o sujeito passivo apresentou o Demonstrativo de Imposto de Renda no qual consta o valor de R$ 1.500,0 como valor bruto, desde o mês de março/2007 até dezembro/2007. Deste valor foi subtraída a importância da taxa de administração no valor de R$ 150,00 restando um valor líquido de R$1.350,00, em cada mês a ser tributado de ofício. Também foi aproveitado no presente Auto de Infração, como dedução, o valor de R$ 27,95, referente ao Imposto de Renda na Fonte retido pela fonte pagadora conforme informações na DIRF/2007. 2) DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. OMISSÃO DE RENDIMENTOS CARACTERIZADA POR DEPÓSITOS BANCÁRIOS COM ORIGEM NÃO COMPROVADA. Omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em conta(s) de depósito ou de investimento, mantida(s) em instituição(ões) financeira(s), em relação aos quais o sujeito passivo, regularmente intimado, não comprovou mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, conforme apurado em análises efetuadas nos extratos bancários das Contas Correntes e Contas de Poupança mantidas no Banco do Brasil S/A, no Banco BRADESCO S/A e UNIBANCO S/A, discriminados nos “EXTRATO DE CRÉDITO – Origem não comprovada mediante documentação hábil e idônea” (fls. 12/20), parte integrante do presente Auto de Infração. IMPUGNAÇÃO O sujeito passivo foi devidamente cientificado do auto de infração em 21/12/2012, e-fls. 229. Inconformado, na data de 15/01/2013, e-fls. 235 a 243, apresentou impugnação, juntamente com documentos, alegando em síntese: Fl. 304DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 4 DECADÊNCIA, alega que o ano-calendário de 2007, já teria sido alcançado pela decadência, nos termos do § 4º, art. 150, da Lei nº 5.172, de 1972. RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS, aduz que os valores constantes do auto de infração relativos ao período de março a dezembro de 2007, foram objeto de retenção do imposto de renda na fonte. Argumenta que se devido fosse já teria sido pago e se tivesse lançamento suplementar já teria sido fulminado pela decadência, considerando que já havia ultrapassado cinco anos na data da lavratura do auto de infração. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA, argumenta que embora fulminados pelo instituto da decadência, os valores integrantes deste item, na sua totalidade, excetuando-se apenas o valor de R$ 55.600,42, da parcela total de dezembro de R$ 81.907,83, correspondentes ao período de 11/12/2007 a 31/12/2007, passa-se à presente abordagem a título de argumentação, meramente. Alega que toda receita é um ingresso, mas nem todo ingresso é uma receita, portanto devem ser excluídos os valores que possuem caráter transitório. Cita legislação e jurisprudência administrativa. Por fim, requer a insubsistência do Auto de Infração, exonerando o impugnante das exigências tributárias decorrentes. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA Tendo sido apresentada impugnação tempestiva, o julgamento foi realizado em 07/08/2018, quando foi proferido o Acórdão nº 12-100.198, da 18ª Turma da DRJ/RJO, e-fls. 267 a 276, considerando a impugnação improcedente e, consequentemente, o crédito tributário foi mantido, conforme decisão assim ementada: ALEGAÇÃO DE DECADÊNCIA. No caso de imposto por homologação, com pagamento de imposto apontado na Declaração de Ajuste Anual, o direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após cinco anos contados do fato gerador do imposto, ou seja, 31 de dezembro do respectivo ano-calendário. OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. São tributáveis os rendimentos recebidos de pessoa jurídica não declarados pelo contribuinte. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS. A lei impõe exclusivamente ao sujeito passivo comprovar a origem dos depósitos mantidos em contas bancárias de sua titularidade, sendo obrigação do impugnante provar por meio de documentação hábil e idônea a procedência do depósito e a sua natureza. Fl. 305DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 5 Tais elementos de prova devem coincidir em datas e valores com cada depósito que se pretenda comprovar. O ônus da prova da origem dos depósitos é do contribuinte e não da autoridade tributária por tratar-se de uma presunção legal de omissão de rendimentos passível de prova em contrário por parte do autuado. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Para os fatos geradores ocorridos a partir de 01/01/1997, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. DECISÕES ADMINISTRATIVAS. As decisões administrativas não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aplicam a qualquer outra ocorrência senão àquele objeto da decisão. RECURSO VOLUNTÁRIO Cientificado do Acórdão de Impugnação na data de 29/08/2018, e-fls. 281, o contribuinte, na data de 21/09/2018, apresentou Recurso Voluntário, e-fls. 284 a 297, e em suas razões de recurso, repete as razões trazidas na peça de impugnação, apenas demonstrando seu inconformismo da decisão de primeira instância. Em apertada síntese afirma que merece reforma o julgado por vícios insanáveis pelos motivos abaixo: a) A decisão de primeira instância não acatou sua argumentação de decadência pelo art. 150, § 4º do CTN, bem como contesta a não aplicação de julgados administrativos que tratam da mesma matéria, uma vez que o CTN em seu artigo 100, II, testifica que as decisões monocromáticas ou colegiadas de órgãos administrativos são fontes formais secundárias do Direito Tributário. Requer acatar como ocorrida a decadência. b) Acrescenta que o crédito tributário, ora questionado, está alcançado pelo instituto da prescrição, considerando sua ciência em 21/12/2012, a impugnação de 14/01/1013 e somente julgado em 07/08/2018, portanto mais de cinco anos, após a impugnação. c) Com relação a manutenção do crédito tributário referente a Omissão de rendimentos por depósitos bancários de origem não comprovada e da Omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, se limita a transcrever a fundamentação do acórdão e repetir suas alegações trazidas na peça de impugnação. Fl. 306DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 6 É o relatório. VOTO Conselheira Carmelina Calabrese, Relatora CONHECIMENTO O Recurso Voluntário é tempestivo e dele tomo conhecimento. PRELIMINARES DECADÊNCIA O Recorrente sustenta a decadência do crédito tributário, na data do lançamento, nos termos do art. 150, § 4º do art. 150 do CTN, por ter pagamento de imposto de renda retido na fonte. Razão não assiste ao Recorrente, vejamos: Trata-se de lançamento de ofício de Imposto de Renda Pessoa Física – IRPF, exercício de 2008, ano-calendário de 2007, decorrente de omissão de rendimentos, sendo o recorrente cientificado do lançamento em 21/12/2012, e-fls. 229. O fato gerador do Imposto de Renda é complexivo, ou seja, ainda que devida a antecipação do imposto à medida que os rendimentos forem percebidos, o fato gerador só se aperfeiçoa definitivamente no dia 31 de dezembro do ano-calendário, nos termos da Lei n° 8.134, de 1990, arts. 2°, 9º ao 11, conforme transcrição a seguir: Art. 2° O Imposto de Renda das pessoas físicas será devido à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos, sem prejuízo do ajuste estabelecido no art. 11. [...] Art. 9° As pessoas físicas deverão apresentar anualmente declaração de rendimentos, na qual se determinará o saldo do imposto a pagar ou a restituir. Parágrafo único. A declaração, em modelo aprovado pelo Departamento da Receita Federal, deverá ser apresentada até o dia vinte e cinco do mês de abril do ano subseqüente ao da percepção dos rendimentos ou ganhos de capital. Art. 10. A base de cálculo do imposto, na declaração anual, será a diferença entre as somas dos seguintes valores: Fl. 307DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 7 I - de todos os rendimentos percebidos pelo contribuinte durante o ano- base, exceto os isentos, os não tributáveis e os tributados exclusivamente na fonte; e II - das deduções de que trata o art. 8° Art. 11. O saldo do imposto a pagar ou a restituir na declaração anual (art. 9°) será determinado com observância das seguintes normas: I - será apurado o imposto progressivo mediante aplicação da tabela (art. 12) sobre a base de cálculo (art. 10); II - será deduzido o valor original, excluída a correção monetária do imposto pago ou retido na fonte durante o ano-base, correspondente a rendimentos incluídos na base de cálculo (art. 10); Nesse sentido, de que o fato gerador do IRPF se dá no dia 31 de dezembro de cada ano-calendário, por ser um imposto complexivo, há entendimento já formalizado por este Conselho: Acórdão nº 2001-006.772 – 2ª Seção de Julgamento / 1ª Turma Extraordinária Sessão de 21/03/2024 DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Para o IRPF, o fato gerador do imposto sobre os rendimentos sujeitos ao ajuste anual aperfeiçoa-se no momento em que se completa o período de apuração dos rendimentos e deduções: 31 de dezembro de cada ano- calendário, quando se constata que o sujeito passivo sofreu retenção do imposto de renda na fonte pagadora ao longo do exercício, à medida que recebe rendimentos tributáveis, ou recolheu o tributo mensalmente, quando sujeitos ao Carnê-Leão. Acórdão nº 2002-008.594 – 2ª SEÇÃO/2ª TURMA EXTRAORDINÁRIA Sessão de 24/07/2024 DECADÊNCIA. IRPF. FATO GERADOR COMPLEXIVO E ANUAL. O fato gerador do IRPF é complexivo e anual, se completando em 31 de dezembro de cada ano-calendário. Trata-se, inclusive, de entendimento da Súmula CARF nº 38: Súmula CARF nº 38 Aprovada pela 2ª Turma da CSRF em 08/12/2009 Fl. 308DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 8 O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, relativo à omissão de rendimentos apurada a partir de depósitos bancários de origem não comprovada, ocorre no dia 31 de dezembro do ano-calendário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 383, de 12/07/2010, DOU de 14/07/2010). Acórdãos Precedentes: Acórdão nº 102-49363, de 05/11/2008 Acórdão nº 102-48799, de 07/11/2007 Acórdão nº 104-23286, de 25/06/2008 Acórdão nº 106-16788, de 06/03/2008 Acórdão nº 106-17207, de 17/12/2008 Acórdão nº 106- 16730, de 23/01/2008 Acórdão nº CSRF/04-00.627, de 18/09/2007 Acórdão nº CSRF/04-00.713, de 11/12/2007. Desse modo, em sendo o fato gerador do IRPF complexivo e se aperfeiçoa no dia 31 de dezembro de cada ano-calendário e, considerando que o presente lançamento diz respeito ao ano-calendário de 2007, o fato gerador se deu em 31/12/2007, ocorrendo a decadência apenas em 31/12/2012. PRESCRIÇÃO Aduz, o Recorrente, que o crédito tributário, ora questionado, está alcançado pelo instituto da prescrição, considerando sua ciência em 21/12/2012, a impugnação de 14/01/2013 e somente julgado em 07/08/2018, portanto mais de cinco anos, após a impugnação. Razão não assiste à Recorrente. Cabe esclarecer que, de acordo com a Súmula Carf nº 11, de observância obrigatória, “não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal”. Tal enunciado tem como fundamento legal a inexistência de contagem do prazo prescricional durante o processo administrativo, pois ainda não há constituição definitiva do crédito tributário. Nesse sentido: Súmula CARF n° 11 Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Acórdãos Precedentes: Fl. 309DF CARF MF Original http://idg.carf.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portaria-383.pdf D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 9 Acórdão nº 103-21113, de 05/12/2002 Acórdão nº 104-19410, de 12/06/2003 Acórdão nº 104-19980, de 13/05/2004 Acórdão nº 105-15025, de 13/04/2005 Acórdão nº 107-07733, de 11/08/2004 Acórdão nº 202- 07929, de 22/08/1995 Acórdão nº 203-02815, de 23/10/1996 Acórdão nº 203-04404, de 11/05/1998 Acórdão nº 201-73615, de 24/02/2000 Acórdão nº 201-76985, de 11/06/2003 Assim, não deve prevalecer a aplicação do artigo 174, do Código Tributário Nacional ao presente caso, conforme pleiteado pelo recorrente, eis que não há que se falar em constituição definitiva do crédito tributário. DECISÕES DE ÓRGÃOS ADMINISTRATIVOS Em suas razões recursais, o Recorrente alega que as decisões monocráticas ou colegiadas de órgãos administrativos são fontes formais secundárias do Direito Tributário, conforme art. 100, II, do CTN e, portanto, segundo devem ser acatadas, também não prosperam. Por oportuno, esclareço, que decisões administrativas e as judiciais, à exceção das proferidas pelo STF, sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquele objeto da decisão. A Jurisprudência Administrativa, reforço, não sendo o caso de súmula com efeito vinculante, devidamente relacionada em Portaria do Ministro da Fazenda, as decisões proferidas pelo órgão julgador de segunda instância não têm o condão de vincular os julgamentos, pelo fato de não terem eficácia normativa, nos termos do inciso II do artigo 100 do Código Tributário Nacional. Desse modo, pelos motivos expostos, não acato as preliminares de decadência e prescrição. MÉRITO Com relação a manutenção do crédito tributário referente a omissão de rendimentos por depósitos bancários de origem não comprovada e da omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, se limita a transcrever a fundamentação do acórdão de primeira instância e repetir suas alegações trazidas na peça de impugnação. Dessa forma, considerando que o Recorrente não trouxe nenhum argumento ou justificativa capaz de demonstrar equívoco no Acórdão recorrido e, por concordar com os fundamentos utilizados, decido mantê-lo por seus próprios fundamentos, valendo-me do artigo 114, §12, I, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, o qual adoto, neste quesito, como razão de decidir: Fl. 310DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 10 Omissão de Rendimentos Caracterizada por Depósitos Bancários de Origem não Comprovada Faz-se mister frisar que a fiscalização apurou omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada no ano-calendário de 2007. As contas bancárias objeto de procedimento fiscal são do Banco do Brasil S/A, Banco BRADESCO S/A e UNIBANCO S/A, conforme os “EXTRATOS DE CRÉDITO – Origem não comprovada mediante documentação hábil e idônea” (fls. 12/20). Do estudo do presente processo, constata-se que o autuado não trouxe aos autos, com a sua impugnação, nenhum elemento de prova material com o objetivo de comprovar a origem dos depósitos bancários. Observa-se que o lançamento foi lastreado corretamente na hipótese prevista no art. 42, caput e §§ 1º e 2º, da Lei nº 9.430, de 1996, abaixo transcrito: “Art. 42. Caracterizam-se também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeter-se-ão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos.” Percebe-se que a própria legislação estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o Lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. Então, no caso em questão, não há que se cogitar se a autoridade tributária teria que provar a efetiva omissão de receita, mas sim deve ser indagado se a origem dos depósitos objeto de autuação foi comprovada ou não pelo sujeito passivo. O art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, definiu que os depósitos bancários de origem não comprovada caracterizam omissão de rendimentos e não meros indícios de omissão, razão pela qual não há que se estabelecer o nexo causal entre cada depósito e o fato que represente a omissão de receita, ou mesmo restringir a Fl. 311DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 11 hipótese fática à ocorrência de variação patrimonial positiva ou a indícios de sinais exteriores de riqueza, nem tampouco demonstrar a existência de renda auferida. Em outras palavras, ao fazer uso de uma presunção legalmente estabelecida, o Fisco fica dispensado de provar o fato alegado, qual seja a omissão de rendimentos, cabendo exclusivamente ao contribuinte, para afastar a presunção, provar que o fato presumido não existiu. Trata-se, portanto, de uma presunção relativa passível de prova em contrário por parte do sujeito passivo. Frise-se que todos os depósitos considerados como de origem não comprovada necessitam de justificação, por meio de documentação hábil e idônea, com valores e datas coincidentes. Convém destacar que não bastam meras alegações de que parte dos valores que transitaram pelas contas bancárias do impugnante seriam resultantes de transações comerciais em que teria atuado em parceria, intermediando relação entre indústrias cerâmicas, fabricantes de tijolos, telhas e lajotas e pequenos revendedores de material de construção, ficando essas contas correntes sujeitas a um fluxo de entrada e saída de numerário que não necessariamente lhe pertenciam. É importante ressaltar que para que haja a prova da origem de um determinado depósito, se faz necessário comprovar a sua procedência e também a natureza do mesmo, por meio de elementos de prova materiais que possuam datas e valores coincidentes, o que em momento algum foi providenciado pelo contribuinte em epígrafe, em relação aos depósitos de origem não comprovada que ensejaram o lançamento. É curial ressaltar que a legislação, ao exigir a comprovação da origem dos depósitos, está atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que a cada depósito corresponde uma operação já tributada, isenta, não tributável ou que será tributada após ser identificada. Não basta, portanto, para afastar a tributação, que se saiba a forma pela qual o depósito ocorreu ou de onde o valor veio, sendo imprescindível que a natureza da operação que determinou o depósito esteja inteiramente elucidada. Diante da ausência de elementos probatórios, conclui-se que o recorrente não conseguiu provar a origem dos depósitos bancários em questão. Por isso, faz-se mister confirmar integralmente a omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada como apurada no presente Auto de Infração. Omissão de Rendimentos Recebidos de Pessoa Jurídica A fiscalização apurou a infração de Omissão de rendimentos de aluguéis recebidos de pessoa jurídica, conforme a Declaração de Imposto de Renda na Fonte – DIRF. Fl. 312DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 12 Durante o ano-calendário de 2007, o sujeito passivo recebeu rendimentos de aluguel tendo como fonte pagadora a empresa ENESA ENGENHARIA S/A e não informou em sua Declaração de Imposto de Renda Pessoa Física/2008 (fls. 22/34). A autoridade fiscal informou que intimado a apresentar os comprovantes de rendimento de aluguel, o contribuinte apresentou o Demonstrativo de Imposto de Renda no qual constou o valor de R$ 1.500,0 como valor bruto, desde o mês de março/2007 até dezembro/2007. Desse valor foi subtraída a importância da taxa de administração no valor de R$ 150,00 restando um valor líquido de R$1.350,00, em cada mês a ser tributado de ofício. O fisco acrescentou que também foi aproveitado no presente Auto de Infração, como dedução, o valor de R$ 27,95, referente ao Imposto de Renda na Fonte retido pela fonte pagadora conforme informações contidas na DIRF. Aduz o impugnante que os valores relativos ao período de março a dezembro/2007, foram objeto de retenção na fonte, do imposto de renda a eles relativo, nos termos da Descrição dos Fatos, no campo próprio e respectivo demonstrativo de apuração, do Auto de Infração ora impugnado. Acrescenta que se devido fosse, já se encontraria recolhido. Por outro lado, se passível de lançamento suplementar, já estaria fulminado pela decadência. Cabe esclarecer que o presente Auto de Infração não está cobrando o IRRF e sim o resultado apurado no ajuste anual, o qual leva em conta o IRRF para efeito de cálculo do imposto apurado no presente lançamento. No que tange à questão decadencial, conforme discorrido anteriormente, observa- se que tais valores não foram alcançados pela decadência e, tampouco, o impugnante logrou trazer aos autos algum documento comprobatório a fim de elidir a omissão apurada pela fiscalização. Portanto, cumpre manter mais este item da autuação. Resultado do Julgamento Com base em todo o exposto supra, VOTO PELA IMPROCEDÊNCIA DA IMPUGNAÇÃO, devendo ser mantido o crédito tributário lançado. Não é demais destacar que o ônus da prova compete a quem alega possuir o direito, conforme dispõe o artigo 373 do Código de Processo Civil - CPC: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Logo, não merece reforma o Acórdão Recorrido. Fl. 313DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2302-004.025 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10320.723458/2012-13 13 CONCLUSÃO: Ante o exposto, conheço do Recurso Voluntário, rejeito as preliminares de decadência e prescrição e, no mérito, negar-lhe provimento. É como voto. Assinado Digitalmente Carmelina Calabrese Fl. 314DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10540.734460/2020-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 24 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Aug 18 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2017
SIMPLES NACIONAL. EXCLUSÃO DE OFÍCIO. EXCESSO DE RECEITA BRUTA.
A empresa de pequeno porte que, no ano-calendário, exceder o limite de receita bruta permissivo para participação no regime tributário favorecido do Simples Nacional e não comunicar a sua exclusão será excluída de ofício com efeitos operantes a partir de 1º de janeiro do ano-calendário subsequente ao que se verificara o excesso de receita bruta.
Numero da decisão: 1302-007.452
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas, e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator.
Assinado Digitalmente
Henrique Nimer Chamas – Relator
Assinado Digitalmente
Sergio Magalhães Lima – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Henrique Nimer Chamas, Alberto Pinto Souza Junior, Miriam Costa Faccin, Natalia Uchoa Brandao, Sergio Magalhaes Lima(Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Extraordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Marcelo Izaguirre da Silva, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Luis Angelo Carneiro Baptista.
Nome do relator: HENRIQUE NIMER CHAMAS
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EXCLUSÃO DE OFÍCIO. EXCESSO DE RECEITA BRUTA. A empresa de pequeno porte que, no ano-calendário, exceder o limite de receita bruta permissivo para participação no regime tributário favorecido do Simples Nacional e não comunicar a sua exclusão será excluída de ofício com efeitos operantes a partir de 1º de janeiro do ano-calendário subsequente ao que se verificara o excesso de receita bruta. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares de nulidade suscitadas, e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto do relator. Assinado Digitalmente Henrique Nimer Chamas – Relator Assinado Digitalmente Sergio Magalhães Lima – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luis Angelo Carneiro Baptista (substituto[a] integral), Henrique Nimer Chamas, Alberto Pinto Souza Junior, Miriam Fl. 210DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.452 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10540.734460/2020-33 2 Costa Faccin, Natalia Uchoa Brandao, Sergio Magalhaes Lima(Presidente), a fim de ser realizada a presente Sessão Extraordinária. Ausente(s) o conselheiro(a) Marcelo Izaguirre da Silva, substituído(a) pelo(a) conselheiro(a) Luis Angelo Carneiro Baptista. RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário oposto em face de acórdão da DRJ, que julgou improcedente a manifestação de inconformidade do sujeito passivo. Em face do sujeito passivo foi proferido o Despacho Decisório nº 0.470/2020-05ªRF (fls. 2 a 8) e o Ato Declaratório Executivo (“ADE”) nº 0.007/2020-5ª RF, excluindo-o de ofício do regime do Simples Nacional, com efeitos retroativos a 01/01/2017, em virtude de ter sido ultrapassado o limite legal máximo para enquadramento no regime simplificado e por ter sido verificada a falta de comunicação de exclusão obrigatória. A contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 88 a 95), arguindo a nulidade do lançamento decorrente da exclusão do Simples Nacional por imprecisão da capitulação legal e o cumprimento do limite disposto na lei complementar que rege o Simples Nacional. A DRJ julgou pela improcedência da manifestação de inconformidade (fls. 100 a 104), refutando a alegação de nulidade e entendendo pelo acerto do ADE. Intimada em 15/07/2021, a contribuinte apresentou Recurso Voluntário (fls. 112 a 137) em 16/08/2021, arguindo pela nulidade do processo por ausência de intimação do advogado devidamente constituído; nulidade do lançamento por violação dos prazos normativos, de intimação e anterior à lavratura do auto de infração; e, no mérito, abuso do poder discricionário. O Recurso fora distribuído à 3ª Câmara Recursal de DRJ (fls. 204 a 207), que declarou sua incompetência, devendo o processo seguir o rito ordinário e o encaminhou para o CARF. É o relatório. VOTO Conselheiro Henrique Nimer Chamas, Relator. Admissibilidade Fl. 211DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.452 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10540.734460/2020-33 3 O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele conheço. Delimitação da controvérsia O litígio adstringe-se às alegações relacionadas à nulidade do processo por ausência de intimação do advogado devidamente constituído; nulidade do lançamento por violação dos prazos normativos, de intimação e anterior à lavratura do auto de infração; e, no mérito, abuso do poder discricionário, porquanto o limite de faturamento do Simples Nacional não teria sido excedido. Preliminares De início, destaco que não merece prosperar a alegação de nulidade por falta de direcionamento das intimações para o endereço do advogado do contribuinte. Tal questão resta pacificada neste CARF, sendo objeto da Súmula CARF nº 110: Súmula CARF nº 110 No processo administrativo fiscal, é incabível a intimação dirigida ao endereço de advogado do sujeito passivo. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 129, de 01/04/2019, DOU de 02/04/2019). Acórdãos Precedentes: 1402-001.411, de 10/07/2013; 2401-003.400, de 19/02/2014; 2402-006.114, de 04/04/2018; 3302-004.864, de 25/10/2017; 3403-002.901, de 23/04/2014; 9101- 003.049, de 10/08/2017 Rejeito a alegação de nulidade. Conseguinte, com relação à nulidade relacionada aos prazos normativos, destaca-se que o TDPF nº 0520100-2019-00162-3 foi regularmente emitido e as intimações foram realizadas de forma regular, conforme dispõe o item “II” do Relatório Fiscal, pois, após o retorno da citação por carta, foi providenciado o Edital Eletrônico nº 006250553, cuja ciência se deu em 28/11/2019. Posteriormente, foi emitido novo TIPF com expedição em 17/12/2019 e retorno, muito tempo depois conforme registrado anteriormente, com data de 23/12/2019 com a mesma indicação de “desconhecido” assinalada pelo agente dos Correios, motivando a representação fiscal para fins de tornar a inscrição do sujeito passivo inapta perante o CNPJ, consubstanciada no processo administrativo nº 10510.720.176/2020-37. Não há nulidade a ser reconhecida, bem como, a partir da alegação da contribuinte sobre a configuração da denúncia espontânea, afasto-a, porquanto a partir da ciência do TDPF, o instituto jurídico se esvazia e as diversas retificações das obrigações acessórias realizadas não surtem efeitos para eximir o lançamento e cobrança de penalidades. Fl. 212DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.452 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10540.734460/2020-33 4 No mais, destaco que não observo nenhuma das hipóteses previstas nos artigos 10, 59 e 60 do Decreto-lei nº 70.235/1972 para reconhecer as nulidades invocadas pela contribuinte. Mérito A contribuinte alega o abuso do poder discricionário, porquanto não teria excedido a receita bruta para o enquadramento do Simples Nacional. Suas razões não merecem prosperar. Como sabido, no Direito Tributário, aplica-se a lei vigente à época dos fatos para verificar a conformidade da obrigação tributária. Como o excesso de receita bruta se deu no ano de 2016, à época, a Lei Complementar nº 123/2006 definia o de receita bruta permissivo para participação no regime até o valor de R$ 3.600.000,00 de faturamento anual, bem como determina a exclusão do regime tributário daquelas empresas que excederem tal faturamento, veja: Art. 3º Para os efeitos desta Lei Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno porte, a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário a que se refere o art. 966 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente registrados no Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso, desde que: (...) II - no caso da empresa de pequeno porte, aufira, em cada ano-calendário, receita bruta superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior a R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais). (...) § 9º A empresa de pequeno porte que, no ano-calendário, exceder o limite de receita bruta anual previsto no inciso II do caput deste artigo fica excluída, no mês subsequente à ocorrência do excesso, do tratamento jurídico diferenciado previsto nesta Lei Complementar, incluído o regime de que trata o art. 12, para todos os efeitos legais, ressalvado o disposto nos §§ 9º-A, 10 e 12. § 9º-A. Os efeitos da exclusão prevista no §9º dar-se-ão no ano-calendário subsequente se o excesso verificado em relação à receita bruta não for superior a 20% (vinte por cento) do limite referido no inciso II do caput. A contribuinte emitiu NFe no valor de R$ 3.771.034,84 e declarou no PGDAS-D R$ 3.648.498,48, no ano de 2016, o que a enquadra na situação do §9º-A do artigo 3º da Lei Complementar nº 123/2006. Ocorre que a contribuinte deveria ter comunicado a causa de exclusão do Simples Nacional até o último dia útil do mês de janeiro de 2017 (art. 30, §1º, inciso IV, alínea “b”, da LC nº Fl. 213DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1302-007.452 – 1ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10540.734460/2020-33 5 123/2006) e, na falta de comunicação da exclusão obrigatória, concretiza-se a hipótese de exclusão de ofício (art. 29, inciso I, da LC nº 123/2006). Diante desse cenário, o procedimento fiscal acertou ao interpretar e aplicar as leis supramencionadas. Por fim, destaco que a contribuinte trouxera em seu recurso trechos da Lei Complementar nº 123/2006 alterada em 2016, pela Lei Complementar nº 155, cujos efeitos relacionados ao aumento do limite para opção do Simples Nacional se iniciaram somente no primeiro dia do ano de 2018, conforme previsto no artigo 11, inciso III, da Lei Complementar nº 155/2016. Rejeito as alegações meritórias de defesa. Conclusão Ante ao exposto, conheço do Recurso Voluntário, rejeito as preliminares arguidas e, no mérito, nego provimento às pretensões recursais, mantendo a decisão recorrida. Assinado Digitalmente Henrique Nimer Chamas Fl. 214DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10140.720909/2014-41
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Aug 18 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/05/2011 a 31/10/2012
CONTRIBUIÇÕES INCIDENTES SOBRE A COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL DO PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA. SUB-ROGAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA ADQUIRENTE. SÚMULA CARF Nº 150.
A inconstitucionalidade declarada por meio do RE 363.852/MG não alcança os lançamentos que tenham como fundamento a Lei nº 10.256/2001.
RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. LEGITIMIDADE. SÚMULA CARF N° 172.
A pessoa indicada no lançamento na qualidade de contribuinte não possui legitimidade para questionar a responsabilidade imputada a terceiros pelo crédito tributário lançado.
GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. SOLIDARIEDADE. SÚMULA CARF Nº 210.
As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem solidariamente pelo cumprimento das obrigações previstas na legislação previdenciária, nos termos do art. 30, inciso IX, da Lei nº 8.212/1991, c/c o art. 124, inciso II, do CTN, sem necessidade de o fisco demonstrar o interesse comum a que alude o art. 124, inciso I, do CTN.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124 DO CTN. INTERESSE COMUM.
No caso do artigo 124, I, o interesse comum é jurídico e não meramente econômico. O interesse jurídico comum deve ser direto, imediato, na realização do fato gerador que deu ensejo ao lançamento, e resta configurado quando as pessoas participam em conjunto da prática dos atos descritos na hipótese de incidência.
RETROATIVIDADE DA LEGISLAÇÃO MAIS BENÉFICA. LEI Nº 14.689/2023. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA REDUZIDA A 100%.
As multas aplicadas por infrações administrativas tributárias devem seguir o princípio da retroatividade da legislação mais benéfica. Deve ser observado, no caso concreto, a superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou o percentual da Multa Qualificada, reduzindo-a a 100%, por força da nova redação do art. 44, da Lei nº 9.430/96, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN.
Numero da decisão: 2401-012.205
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial aos recursos voluntários para aplicar a retroação da multa qualificada prevista no art. 44, §1º, VI, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pela Lei nº 14.689/23, reduzindo-a ao percentual de 100%.
Assinado Digitalmente
Elisa Santos Coelho Sarto – Relatora
Assinado Digitalmente
Miriam Denise Xavier – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Elisa Santos Coelho Sarto, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Leonardo Nunez Campos, Marcio Henrique Sales Parada, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente).
Nome do relator: ELISA SANTOS COELHO SARTO
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SUB-ROGAÇÃO DA PESSOA JURÍDICA ADQUIRENTE. SÚMULA CARF Nº 150. A inconstitucionalidade declarada por meio do RE 363.852/MG não alcança os lançamentos que tenham como fundamento a Lei nº 10.256/2001. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. LEGITIMIDADE. SÚMULA CARF N° 172. A pessoa indicada no lançamento na qualidade de contribuinte não possui legitimidade para questionar a responsabilidade imputada a terceiros pelo crédito tributário lançado. GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. SOLIDARIEDADE. SÚMULA CARF Nº 210. As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem solidariamente pelo cumprimento das obrigações previstas na legislação previdenciária, nos termos do art. 30, inciso IX, da Lei nº 8.212/1991, c/c o art. 124, inciso II, do CTN, sem necessidade de o fisco demonstrar o interesse comum a que alude o art. 124, inciso I, do CTN. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 124 DO CTN. INTERESSE COMUM. No caso do artigo 124, I, o interesse comum é jurídico e não meramente econômico. O interesse jurídico comum deve ser direto, imediato, na realização do fato gerador que deu ensejo ao lançamento, e resta configurado quando as pessoas participam em conjunto da prática dos atos descritos na hipótese de incidência. RETROATIVIDADE DA LEGISLAÇÃO MAIS BENÉFICA. LEI Nº 14.689/2023. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA REDUZIDA A 100%. Fl. 1361DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 2 As multas aplicadas por infrações administrativas tributárias devem seguir o princípio da retroatividade da legislação mais benéfica. Deve ser observado, no caso concreto, a superveniência da Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, que alterou o percentual da Multa Qualificada, reduzindo-a a 100%, por força da nova redação do art. 44, da Lei nº 9.430/96, nos termos do art. 106, II, “c”, do CTN. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial aos recursos voluntários para aplicar a retroação da multa qualificada prevista no art. 44, §1º, VI, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pela Lei nº 14.689/23, reduzindo-a ao percentual de 100%. Assinado Digitalmente Elisa Santos Coelho Sarto – Relatora Assinado Digitalmente Miriam Denise Xavier – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Elisa Santos Coelho Sarto, José Luís Hentsch Benjamin Pinheiro, Leonardo Nunez Campos, Marcio Henrique Sales Parada, Matheus Soares Leite, Miriam Denise Xavier (Presidente). RELATÓRIO O acórdão de nº 01-32.440, da 4ª Turma da DRJ/BEL, de e-fls. 851-882, bem resume o lançamento: O presente processo, COMPROT nº 10140.720909/2014-41, trata do Auto de Infração de Obrigação Principal nº 51.048.238-4 (fls. 06/17), lavrado contra a empresa em epígrafe e se refere às contribuições devidas à Seguridade Social, correspondes às rubricas Rural e SAT/RAT, incidentes sobre os valores da comercialização rural referentes às operações de aquisições de cereais de Fl. 1362DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 3 produtores rurais pessoas físicas, no valor consolidado(14/05/2014) com juros e multa à época do lançamento de R$ 5.155.082,57 (cinco milhões, cento e cinquenta e cinco mil, oitenta e dois reais e cinqüenta e sete centavos). É constituído do levantamento L1 – COMERC PRODUÇÃO RURAL GRUPO EC. De forma sucinta, a Comtral foi constituída em 2009, com capital social de R$ 15.000,00, valor incompatível com seu volume de operações de compras. O quadro social era composto por João Santana Rodrigues de Lima (sócio administrador e detentor de 99% da Comtral até 01/2011, sendo posteriormente substituído por seu sogro Raimundo Luiz) e Marcel D Angelis Ferreira Silva. João e Marcel são pessoas modestas, que ocupavam funções de baixa qualificação e remuneração e em suas DIRPF o único patrimônio declarado eram participações na Comtral e na empresa SW Atacadista. Destaca-se, ainda, que Raimundo era um senhor de 74 anos que recebia benefício de amparo social ao idoso pelo INSS desde 2007. A fiscalização não localizou a empresa Comtral em diligência realizada na cidade de Chapadão do Sul. Ao realizar diligência na casa do Sr. Raimundo, este não soube dar nenhuma informação sobre a Comtral, afirmando que seu genro lhe repassava um salário mínimo por mês para que constasse como sócio administrador da empresa. Em diligência à casa do Sr. João, este também não soube dar informações sobre suas empresas Comtral e SW Atacadista. Como sintetiza o Relatório Fiscal, de e-fls. 82 – 118: 2.10. Tem-se assim uma empresa sem patrimônio, sem qualquer estrutura organizacional e operacional, com ínfimo capital social e sócios desprovidos de capacidade econômica e gerencial. Estes fatos por si só esboçam procedimentos que visam mascarar, artificiosamente ocultar e dissimular os negócios de terceiros. Este conjunto de indícios evidencia desde já que os sócios que compõem a pessoa jurídica são interpostas pessoas, condição esta que modifica dolosamente as características dos fatos geradores dos tributos decorrentes de suas atividades econômicas, vez que se apresentam ficticiamente no polo passivo da obrigação tributária, ocultando terceiros responsáveis efetivamente pela ocorrência dos fatos geradores de tributos. 2.11. Conforme narrado no relatório fiscal do processo 10140-720.758/2014-21, a empresa SW Atacadista operou até maio de 2011 e se encontra atualmente inativa. Na sequência, a pessoa jurídica Comtral Comércio e Transportes Ltda. foi constituída para dar prosseguimento, em idêntica sistemática, às atividades de compra e venda de cereais até então realizadas pela SW Atacadista. 2.12. A SW Atacadista emitiu as últimas notas fiscais de aquisição de produção rural em 20/05/2011 (sexta-feira) e de venda em 21/05/2011 (sábado). O sujeito passivo Comtral emitiu suas primeiras notas fiscais de aquisição de produção rural e de venda em 23/05/2011 (segunda-feira). Observa-se que não houve qualquer dissolução de continuidade no estratagema em prática, pois a Comtral Fl. 1363DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 4 simplesmente deu prosseguimento com idêntico modus operandi às atividades da SW Atacadista. 2.13. Além da utilização das mesmas interpostas pessoas, há outras coincidências denunciadoras do evidente liame entre estas empresas. Como se demonstrará, os procuradores destas empresas e terceiros (empresas e pessoas físicas) que efetivamente se beneficiaram desta estratégia fraudulenta são os mesmos. 2.14. As empresas SW Atacadista e Comtral Comércio têm suas sedes em Chapadão do Sul e todos seus sócios também são residentes nesta cidade. Entretanto, no período fiscalizado, suas operações comerciais se concentraram em Rio Brilhante- MS, muito embora também não possuíssem qualquer estrutura operacional naquela cidade. A atividade econômica destas empresas resumia-se exclusivamente na compra e venda de cereais, sem qualquer beneficiamento. [...] A análise das notas fiscais de saída emitidas por estas empresas mostra uma evidente e contínua concentração das vendas para as empresas Copramil Comércio e Transporte de Produtos Agrícolas Ltda., CNPJ 01.010.309/0001-25, e Teixeira Comércio de Cereais Ltda., CNPJ 10.536.426/0001-18, cujas atividades principais também consistem na compra e venda de cereais. Observa-se que esta ativa relação comercial manteve-se inalterada quando a SW Atacadista foi substituída pela Comtral. [...] Ao se analisar as compras para comercialização realizadas pela Copramil, verifica- se que mais de 90% são originárias das empresas SW Atacadista e Comtral. Assim, a Copramil avulta-se como o maior cliente destas empresas, sobressaindo-se muito acima dos demais. Com faturamento de mais de R$ 129.042.371,67 em 2011 e de R$ 93.393.579,73 em 2012, a Comtral deixou de recolher todos os tributos devidos. Assim como a SW Atacadista, a Comtral também nomeou e constituiu como procuradores os Srs. Edegar Rodrigues da Silva Machado e Alcídio Mário Angst, residentes e domiciliados em Rio Brilhante/MS. Estes senhores não possuem qualquer patrimônio conhecido e ocupavam funções simples, também indicando que foram utilizados para ocultar a identificação dos reais beneficiários. 3.4. O Sr. Edegar Rodrigues declarou à fiscalização que é corretor de cereais e que prestava serviços como autônomo para a empresa Copramil Comércio e Transporte de Produtos Agrícolas Ltda. As suas declarações do imposto de renda pessoa física, retificadas em 12/02/2014, apresentam rendimentos recebidos das pessoas jurídicas Copramil Comércio e Transporte de Produtos Agrícolas Ltda., CNPJ 01.010.309/0001-25, e de São Lourenço Armazéns Gerais, CNPJ 05.015.427/0001-87. Apresentou à fiscalização diversas cópias de cheques dos Fl. 1364DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 5 anos de 2012 e 2013. Conforme se vê no anexo 04, os cheques foram emitidos ora pelas empresas São Lourenço Armazéns Gerais e Copramil, ora pelas pessoas físicas André Reginatto e Laércio Reginatto. Assim, resta evidenciado que o Sr. Edegar não é de fato o condutor dos negócios, dotado de poderes ilimitados, das empresas SW Atacadista e Comtral, mas tão somente um prestador de serviços das empresas e da família Reginatto. 3.5. Portanto, vê-se que estes procuradores também não demonstram possuir capacidade econômica nem estrutura organizacional e operacional para estar efetivamente no comando de empresas que faturavam dezenas de milhões de reais. Tais quais os sócios formais destas empresas, estes também têm a mera função de se apresentarem como responsáveis por empreendimentos ou atos de terceiros, encobrindo dolosamente interesses de outrem. Ainda de acordo com o Relatório Fiscal, foi constatada a existência de um grupo econômico de fato. Havia um grupo de empresas capitaneadas pelos Srs. Nedile Reginatto, Laércio Reginatto e André Reginatto, que são produtores rurais e empresários de considerável poder econômico e patrimônio conhecido. Com informações obtidas através de Requisições sobre Movimentação Financeira – RMF junto a instituições financeiras, identificou-se um ativo fluxo de recursos financeiros entre a SW Atacadista/ Comtral com as empresas Copramil, São Lourenço Armazéns, Abastecedora Nova Alvorada, Comércio de Cereais Vacaria, Reginatto & Reginatto e com as pessoas físicas Nedile Reginatto, Laércio Reginatto e André Reginatto. Destaca-se que a Comtral não mantinha relações comerciais de compra e venda com as empresas, São Lourenço Armazéns Gerais, Abastecedora Nova Alvorada, Comércio de Cereais Vacaria e Reginatto & Reginatto, mesmo com o alto fluxo de transferências. Sobre a empresa Comércio de Cereais Vacaria, o Relatório fiscal destaca: 4.8. A empresa Comércio de Cereais Vacaria Ltda., CNPJ 01.049.145/0001-40, tem como sócios, atualmente, Leodil Martins Plens, CPF ..., e José Cândido de Novaes, CPF ... . Segundo o Cadastro Nacional de Informações Sociais – CNIS, Leodil manteve vínculos empregatícios com as empresas Cerealista Alvorada Ltda. e Alvorada Armazéns Gerais Ltda., ambas empresas pertencentes à Nedile Reginatto. O Sr. José Cândido de Novaes igualmente manteve vínculos empregatícios com Cerealista Alvorada Ltda. e Comércio de Cereais Rio Brilhante Exportação e Importação Ltda., empresas também pertencentes à Nedile Reginatto. 4.9. Embora a empresa Comércio de Cereais Vacaria tenha recebido recursos financeiros provenientes da Comtral, suas Declarações de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa Jurídica – DIPJ dos exercícios 2010, 2011 e 2012 revelam que a mesma não exerceu qualquer atividade operacional. 4.10. Entre os documentos apresentados, identificou-se cópias de cheques da empresa Comércio de Cereais Vacaria utilizados para o pagamento de operações Fl. 1365DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 6 de aquisição de produção rural realizadas pela Comtral Comércio e Transportes Ltda. Em relação à empresa Copramil, o Relatório Fiscal chama atenção para o fato de haver transferências da Comtral para ela, sem que haja registro fiscal de qualquer venda da Copramil para a Comtral, apenas da Comtral para a Copramil. A Comtral também não manteve qualquer relação comercial de compra e venda com o Sr. Nedile Reginatto, mas foram identificadas inúmeras transferências de recursos financeiros para a conta bancária deste. Quanto aos Srs. Laércio e André Reginatto, detectou-se vendas de produção rural destes para a empresa Comtral. Entretanto, os valores remetidos para as contas bancárias deles são visivelmente superiores aos valores constantes nas notas fiscais que acobertaram estas operações. O Sr. André também enviou valores para a Comtral, sem que houvesse operação de venda registrada. 4.16. No documento datado de 14/02/2014, anexo 01, em resposta ao TIF 02 o Adv. José Bijos Júnior declara: · que os grãos adquiridos dos produtores rurais eram imediatamente revendidos para outras empresas compradoras, em especial ao grupo econômico constituído pelas empresas Copramil, São Lourenço Armazéns Gerais, Abastecedora Nova Alvorada Ltda., empresas sob administração do sócio do grupo Sr. Laércio Reginatto; · que a “dinâmica do pagamento dos produtores rurais e outras despesas da empresa fiscalizada, era controlada pelo grupo que revendia os grãos adquiridos da Comtral e, com expressa autorização dessa, efetuava pagamentos diretamente aos credores da empresa ...”; · “... toda movimentação financeira das operações de compra e venda de produtos e os respectivos pagamentos, dada a falta de estrutura compatível da Comtral, era realizada pelo grupo parceiro da mesma, do qual o Sr. Laerte Reginatto é o sócio majoritário e que dispunha, livremente, dos recursos financeiros devidos à Comtral, ...”; · “... até pagamento de frete, combustíveis e outras despesas, eram feitas via grupo São Lourenço, o qual armazenava, secava e classificava os grãos adquiridos pela Comtral, e os revendia no mercado de commodities, ...”. 4.17. À vista destes esclarecimentos prestados Adv. José Bijos, pode-se deduzir que a Comtral só existia na aparência. Era meramente uma empresa fictícia, pois não dispunha de estrutura administrativa, operacional e financeira, e deste modo era usada por terceiras empresas. Acentue-se que toda movimentação financeira ficava a cargo de terceiros e que Sr. Laércio Reginatto dispunha livremente dos recursos financeiros devidos à Comtral, demonstrando que o sujeito passivo não possuía qualquer autonomia. Prenuncia-se assim o papel traçado para a Comtral Comércio e Transportes Ltda. na estratégia do grupo de empresas em questão: Fl. 1366DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 7 estancar em si os custos tributários decorrentes da aquisição de produção rural de pessoa física. 4.18. O Sr. Edegar, o Adv. José Bijos e o Contador Antônio Luiz Chanfrim apresentaram à fiscalização, juntamente com o termo de esclarecimentos, cópias de diversos documentos financeiros (extratos bancários, cópias de cheques, TED´s e outros documentos bancários) e contratos de confirmação. Posteriormente, em 21/03/2014, ao apresentar à fiscalização o termo desta mesma data juntado no anexo 01, o Sr. Edegar afirmou que os originais dos documentos apresentados se encontravam de posse da empresa Copramil. E ainda que as contas bancárias de titularidade da Comtral, assim como da empresa SW Atacadista, eram movimentadas e administradas efetivamente por pessoas da empresa Copramil. O Relatório Fiscal analisa alguns documentos selecionados e indica que o Sr. Nedile se colocava ostensivamente como representante da Comtral, tanto em operações de compra quanto de venda de produção rural, assinando documentos, mesmo não estando revestido de poderes. Em seguida, descreve a sistemática utilizada pelas empresas para pagamentos aos produtores rurais, deduzindo que os valores referentes às vendas simuladas do sujeito passivo Comtral para a empresa Copramil não passavam por sua conta bancária mantida no Sicredi. A Auditoria Fiscal explica que, segundo os esclarecimentos do procurador Sr. Edegar, esta prática consistia na emissão de cheques nominais à Comtral em valores exatos a ser repassados aos produtores rurais. À Comtral cabia tão somente endossar os cheques, o que era realizado por aquele procurador. Por conseguinte, a Copramil quitava com estes cheques as aquisições de produção rural realizadas por intermédio da Comtral. Outra prática para quitação da aquisição de produção, consistia na transferência bancária de recursos financeiros da Copramil para a Comtral. Os valores eram depositados na única conta corrente da Comtral, aberta no Sicredi por seu procurador, Sr. Edegar. A Fiscalização observou que os valores depositados eram imediatamente transferidos para terceiros e o saldo ao fim de cada mês era próximo de zero. Os valores recebidos de terceiros também eram prontamente transferidos para empresas do grupo econômico e para os Srs. Nedile, Laércio e André. Resta cristalino que estes senhores e a empresa Copramil são os protagonistas de todas as operações comerciais que desaguaram na ocorrência de fatos geradores da contribuição previdenciária ora constituída, relações estas imputadas fictícia e fraudulentamente ao sujeito passivo Comtral Comércio e Transportes Ltda. Frise- se que toda a organização gerida pelos senhores Nedile Reginatto, Laércio Reginatto e André Reginatto (figura 09) foi beneficiária das vantagens econômicas resultantes do esquema aqui delineado. Deste modo, ante ao princípio da primazia da realidade dos fatos sobre as formas dos atos, as pessoas jurídicas e Fl. 1367DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 8 físicas relacionadas no topo deste relatório estão sendo incluídas no polo passivo da obrigação tributária constituída pelos Autos de Infração 51.048.238-4. Foi aplicada multa qualificada, em 150%. Foram incluídos como sujeitos passivos solidários: ABASTECEDORA NOVA ALVORADA; COPRAMIL COMÉRCIO E TRANSPORTE DE PROD. AGRÍCOLAS LTDA; COMÉRCIO DE CEREAIS VACARIA LTDA – ME; SÃO LOURENÇO ARMAZÉNS GERAIS LTDA- ME; REGINATTO & REGINATTO LTDA- EPP; SW ATACADISTA DE CEREAIS LTDA – ME; ALCÍDIO MÁRIO ANGST; NEDILE REGINATTO; EDEGAR RODRIGUES DA SILVA MACHADO; LAÉRCIO REGINATTO; ANDRÉ REGINATTO. Foram apresentadas as seguintes impugnações, contendo os tópicos: Dos fatos; Funrural; Do Grupo Econômico e da Solidariedade Passiva; Da Inconstitucionalidade da Contribuição Social Rural; Da Supressão da Contribuição Social Rural; Conclusão; 1- Comércio de Cereais Vacaria LTDA (e-fls. 404-427); 2- Reginatto e Reginatto LTDA (e-fls. 430-454); 3- Copramil Com. Transp. De Prod. Agrícolas LTDA (e-fls. 457-480); 4- Laércio Reginatto (e-fls. 483-504); 5- Abastecedora Nova Alvorada LTDA (e-fls. 554-575); 6- São Lourenço Armazéns Gerais LTDA (e-fls. 580-601); 7- Nedile Reginatto (e-fls. 607-628); 8- Edgar Rodrigues da Silva Machado (e-fls. 652-673); 9- André Reginatto (e-fls. 698-716); 10- Alcidio Mario Angst (e-fls. 737-758); 11- Comtral Comércio e Transportes LTDA ME (e-fls. 761-781). Fl. 1368DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 9 A SW Atacadista de Cereais LTDA ME não apresentou Impugnação. Encaminhados os autos à 4ª Turma da DRJ/BEL, esta decidiu pela improcedência das impugnações, em decisão assim ementada (e-fls. 851-882): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/05/2011 a 31/10/2012 SUJEIÇÃO PASSIVA. CIÊNCIA DOS COOBRIGADOS. Todos os autuados deverão ser cientificados do auto de infração, com abertura de prazo para que cada um deles apresente impugnação. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. ARGÜIÇÃO. AFASTAMENTO DA LEGISLAÇÃO VIGENTE. INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. INCOMPETÊNCIA. A instância administrativa é incompetente para afastar a aplicação da legislação vigente em decorrência da argüição de sua inconstitucionalidade ou ilegalidade. PRODUTOR RURAL PESSOA FÍSICA. COMERCIALIZAÇÃO DE SUA PRODUÇÃO RURAL. EXIGÊNCIA FUNDADA EM LEGISLAÇÃO VIGENTE. São devidas as contribuições do empregador rural pessoa física e do segurado especial, incidentes sobre a receita bruta da comercialização de sua produção. Art. 25, I e II da Lei nº 8.212/91, com redação alterada pela Lei nº 10.256/2001. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS INCIDENTES SOBRE A RECEITA PROVENIENTE DA COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUÇÃO RURAL DE PRODUTOR. Decisão do STF com efeito inter partes, sem repercussão geral, não alcança os contribuintes que não são parte no processo. A autoridade administrativa, por força de sua vinculação ao texto da norma legal, e ao entendimento que a ele dá o Poder Executivo, deve-se limitar a aplicá-la, não tendo competência para declarar norma inconstitucional. CARACTERIZAÇÃO DE GRUPO ECONÔMICO. Para a configuração de grupo econômico, no âmbito do Direito Previdenciário e do Direito do Trabalho, não é indispensável a existência de uma empresa líder, que exerça controle direto sobre outra; a mera coordenação é suficiente para caracterizar a unidade de interesses e a afinidade de objetivos, hipótese em que não há prevalência de uma empresa sobre a outra, mas conjugação de interesses com vistas à ampliação, manutenção e credibilidade dos negócios. O conjunto fático probatório demonstra que as empresas envolvidas combinam recursos e esforços para consecução de objetivos comuns, atuando economicamente como um grupo. SOLIDARIEDADE. LEGITIMIDADE PASSIVA. Fl. 1369DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 10 Restando caracterizada a existência de grupo econômico, caberá a solidariedade entre as empresas componentes do mesmo, para fins de recolhimento das contribuições previdenciárias, consoante autoriza o art. 30, inciso IX, da Lei 8.212/91. RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS E REPRESENTANTES DA EMPRESA. Identificada o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação tributária, é imputada aos sócios e representantes da empresa a responsabilização solidária do artigo 124, inciso I, do CTN. FRAUDE. SONEGAÇÃO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. MULTA AGRAVADA. Demonstrada a ocorrência de fraude/sonegação pela empresa, a multa de ofício deve ser agravada, sendo aplicada em dobro. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformados, o sujeito passivo principal e os solidários apresentaram Recursos Voluntários similares, nas seguintes folhas: COMTRAL COMÉRCIO E TRANSPORTES LTDA (e-fls. 1191-1216); ABASTECEDORA NOVA ALVORADA (e-fls. 994-1018); COPRAMIL COMÉRCIO E TRANSPORTE DE PROD. AGRÍCOLAS LTDA (e-fls. 1278-1304); COMÉRCIO DE CEREAIS VACARIA LTDA – ME (e-fls. 1305-1331); SÃO LOURENÇO ARMAZÉNS GERAIS LTDA- ME (1332-1358); REGINATTO & REGINATTO LTDA- EPP (e-fls. 1058-1082); ALCÍDIO MÁRIO ANGST (e-fls. 1249 – 1273); NEDILE REGINATTO (e-fls. 936-961); EDEGAR RODRIGUES DA SILVA MACHADO (1218-1243); LAÉRCIO REGINATTO (e-fls. 965-990); ANDRÉ REGINATTO (e-fls. 1122-1146). A Recorrente Comtral, sujeito passivo principal, após discorrer sobre a tempestividade do Recurso, argumenta, de forma sintetizada: i) O grupo econômico e a responsabilidade passiva solidária: como é comum nesse ramo de negócio, usava e tinha parceiros econômicos que em alguma Fl. 1370DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 11 etapa da compra e venda de cereais são usados, por possuírem capacidade física de armazenamento ou por possuírem maior capacidade financeira na compra de cereais, ou por possuírem maior entrância no mercado. Sempre foram usados os meios legais disponíveis para fazer pagamentos. Não existia grupo econômico; ii) Dos fatos: sintetiza o lançamento; iii) FUNRURAL: Primeiramente, informa a Recorrente que exerce atividade comercial de compra e venda de cereais e possui, entre seus parceiros comerciais, filiados a sindicatos e outras entidades classistas como APROSOJA e FAMASUL que possuem liminar para não recolhimento da contribuição por sub-rogação do adquirente de produção rural de produtor pessoa física ou buscam na justiça a declaração da inconstitucionalidade, mencionando inclusive a ação nº 0003010-26.2010.403.6000. Esclarece ainda que os fornecedores não exercem suas atividades em regime de economia familiar, e após entendimento firmado pelo STF, de que o recolhimento é inconstitucional, deixaram de efetuar o pagamento referente ao FUNRURAL, calculada pelo resultado da comercialização de seus produtos rurais. Que a contribuição que vem sendo cobrada a título de FUNRURAL é uma nova fonte de custeio da seguridade social, que deveria ter sido criada por Lei Complementar. O STF já apontou a inconstitucionalidade da lei, conforme decisão do R.E 363852, de 03/02/2010, e confirmou na decisão de 17/03/2011, no sentido de que houve a criação de uma nova fonte de custeio da Previdência. Desde então, deixou de recolher a contribuição. iv) Mérito – Da inconstitucionalidade da contribuição social rural: o modelo previdenciário trazido pela atual redação do artigo 25 da Lei 8.212/91, introduzida pela Lei nº 10.256/01 não se amolda aos preceitos constitucionais dos arts. 195, parágrafo 5º e 154, I. Da supressão da contribuição social rural: Que não são mais devidas as alíquotas referentes ao FUNRURAL, e nem as sobre o valor comercial dos produtos rurais, ambas previstas no art. 15, da LC 11/77, tendo em vista que a primeira foi suprimida pelo art. 3º, § 1º, da Lei 7.787/89, e a segunda foi extinta com a edição da Lei nº 8.213/91, em seu art. 138. Que foi julgado recentemente, no STJ, o Recurso Extraordinário 363.852, em que se discutiu a incidência do FUNRURAL sobre a comercialização de produtos agrícolas, tendo em vista que o art. 1º, da Lei 8.540/92, ao modificar o art. 25 da Lei 8.212/91, teria criado uma nova hipótese de contribuição social sobre a receita bruta, equiparando os empregadores Fl. 1371DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 12 rurais a segurados especiais, tornando evidente a inexigibilidade da contribuição, não podendo o autor ser compelido a fazer recolhimento declarado inconstitucional. Da repercussão geral: a repercussão geral é evidenciada quando a matéria discutida nos autos traz questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social e jurídico, no presente caso, especialmente por englobar a arrecadação tributária. A cobrança ilegal de um tributo, de forma a desrespeitar a CF, afeta não somente o autor, mas sim a coletividade, que está à mercê dos abusos do Fisco. A matéria discutida possui inúmeros recursos aguardando julgamento nº âmbito do STF, o que é outro fator que demonstra que possui repercussão geral, nos termos do § 1º, do art. 543-b do Código de Processo Civil. O Ministério da Fazenda deliberou, através da Portaria 586/2010, que o CARF deverá, por meio de seus conselheiros, suspender todos os recursos administrativos em tramite que discutam matérias reconhecidas pelo Supremo como de repercussão geral. Até que o STF julgue matéria considerada como de repercussão geral, os recursos que se encontram no CARF e que tratam do mesmo tema deverão ficar suspensos, sendo que, após julgada a questão no STF, caberá ao CARF também seguir tal posicionamento. A questão da contribuição ora em debate o STF já afirmou posicionamento que é inconstitucional, e que em 17/10/2013 o STF no RE 596.177/RS foi declarada novamente a inconstitucionalidade, agora em sede de repercussão geral. v) Do Grupo Econômico: não fez e nem faz parte de nenhum grupo econômico. Embora tenha estrutura enxuta, possuía, à época dos fatos, estrutura organizacional suficiente para realizar suas operações, adotando para isso a estratégia de parcerias com empresas do mesmo ramo nas regiões em que atuava. Com a empresa Copramil, por exemplo, ela realizava compras e vendas em conjunto, utilizando a estrutura física dessa além da sua entrância no mercado de Rio Brilhante/MS, o que por si só não caracteriza a composição de um Grupo Econômico. De acordo com o inciso I, do art. 124, do CTN, a comprovação do interesse comum no fato imponível se torna ponto crucial na constatação da solidariedade das empresas formadoras do grupo econômico, uma vez que a regra da independência da personalidade jurídica deve prevalecer. No que respeita ao contido no inciso II, do art. 124 do CTN, embora o legislador tenha uma ampla discricionariedade para determinar o sujeito passivo, decorre da Constituição a necessidade de que esse tenha uma mínima relação com o Fl. 1372DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 13 fato gerador, especialmente tratando-se de responsabilidade solidária. Que não é possível, à autoridade administrativa, por sua parcialidade, aplicar a Teoria da Desconsideração da Personalidade Jurídica, adotada pelo Direito Civil brasileiro em sua modalidade maior, que exige, para sua aplicação, a comprovação de fraude à lei ou confusão patrimonial entre as empresas do Grupo. Para a imputação de responsabilidade do art. 124, I, do CTN, deve ser demonstrado o interesse comum do ponto de vista jurídico. Os critérios de formação de grupo econômico não estão presentes no caso em tela, quais sejam, diversas pessoas jurídicas com unicidade de controle ou direção de uma ou mais pessoa ou atuação coordenada, visto que a empresa possuía vários parceiros econômicos em diversas regiões. Que não descontava do produtor a contribuição do FUNRURAL por entender esse indevido e inconstitucional, o que não caracteriza infração legal. Quanto ao modus operandi de pagamento, modalidade muito utilizada nº ramo, a cessão de crédito, procedimento previsto o Código Civil, artigos 299 a 303, é negócio jurídico onde o credor de uma obrigação, chamado cedente, transfere a um terceiro, chamado cessionário, sua posição ativa na relação obrigacional, independentemente da autorização do devedor, que se chama cedido, ou seja, a cessão é a venda do crédito, sendo que o cedido continua devendo a mesma coisa, só mudando o seu credor. A cessão de crédito se justifica para estimular a circulação de riquezas, através da troca de títulos, além de não exigir formalidade entre o novo e o velho credor, podendo até ser verbal, mas para ter efeito contra terceiros deve ser feita por escrito. Nesse caso, não se vislumbra a possibilidade de a autoridade fiscal proceder a desconsideração da personalidade de ofício, como órgão parcial que é, devendo respeitar cláusula jurisdicional, produzindo nova norma específica para aquele caso concreto. Considerando que uma das empresas tenha mero interesse econômico nº fato gerador, o que não é o caso, e a mesma direção, não há responsabilização das demais formadoras do Grupo Econômico, conforme posicionamento do STJ. Transcreve este posicionamento. Para a decretação da solidariedade de Grupo Econômico ocorrer é necessário ou comprovar a fraude ou conluio, ou a participação de cada uma delas no fato gerador em si, não apenas se restringindo ao interesse econômico, mas a real participação da pessoa jurídica naquele fato. Se a empresa adota um modo legal, qual seja, a cessão de crédito para pagamento do produtor, o mero fato de a empresa compradora pagar Fl. 1373DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 14 diretamente o produtor não caracteriza infração de lei, mas mero interesse econômico de todos os envolvidos no negócio. Por fim, o fato de ter mais ou menos volume de negócios com determinada empresa não caracteriza, por si só, conluio, visto o princípio da livre concorrência e livre mercância. Quanto ao Recurso do Sr. Nedile Reginatto (e-fls. 936-961), além de repetir as argumentações trazidas pela Comtral, também indica: i) Que é produtor rural e empresário e não consta no quadro de sócio de algumas empresas hoje paralisadas, vendeu produtos para as empresas autuadas, tendo recebido por tais negócios recursos em sua conta correntes, mas nunca comprou, vendeu e nem pagou ou recebeu nenhum valor em nome das empresas COMTRAL e SW; Nunca fez ou faz parte de um grupo econômico, nem dos quadros societários das autuadas, é pai de Laércio e André Reginatto, o que, por si só, não configura grupo econômico ou ilícito. Os recursos recebidos da Comtral foram para pagamento de produtos vendidos a ela. O recorrente apenas vendeu produtos para a autuada, faz prova disso sua movimentação financeira do período, não possuía procuração dela, não usava e nem tinha ou tem poderes a si conferido para realizar alguns pagamentos, TEDS, recebimentos, dar quitação, etc, em nome da autuada. Além disso, afirma nunca ter tido qualquer poder de direção e condução dos negócios de tal empresa. É pessoa séria produtor rural e empresário, teve negócios com a autuada a época dos supostos fatos, assim como teve com uma gama de outros parceiros comerciais na região, além de ter negócio com diversos produtores rurais o que explica o alto volume de movimentação financeira na época dos fatos. Forneceu produtos mas sem controlá-Ia como tenta sugerir o fisco. Lembra que o faturamento e o volume de negócio na época com a autuada foi grande, portanto justifica os volumes movimentados em suas contas, e que os recursos movimentados em sua conta corrente vêm de seus próprios negócios (venda de grãos, e de suas empresas), por conta disso reafirma nunca ter participado de nenhum grupo econômico com a autuada Comtral. Portanto não participou de fato e de direito e nem tem interesse qualquer nos fatos que supostamente deram origem ao fato gerador. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. Fl. 1374DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 15 O Sr. Laercio Reginatto (e-fls. 965 e ss.), além de repetir as argumentações trazidas pela Comtral, também indica: i) O recorrente é produtor rural, portanto nunca possuiu e nem possui relação direta nenhuma com os fatos elencados no processo aqui discutido, pretende demonstrar que nunca fez e nem faz parte de nenhum grupo econômico seja ele qual for e que nunca se associou a nenhuma pessoa física ou jurídica para sonegar contribuição a seguridade social. Nunca teve poder de direção e de decisão nas empresas e nunca participou e nem participa de nenhum grupo econômico, que teve sim apenas venda de produtos agrícolas para algumas das empresas supra citadas, já que as empresas supra são do ramo de comercio de cereais e possuíam negócios em Rio Brilhante/MS localidade onde o recorrente possui propriedade rural. O recorrente é produtor rural e empresário e consta no quadro de sócio das empresas Copramil, Abastecedora Nova Alvorada e São Lourenço Armazéns Gerais, vendeu produtos para as empresas autuadas, tendo recebido tais produtos em sua conta corrente, e que nunca comprou vendeu e nem pagou ou recebeu nenhum valor em nome das empresas Comtral E SW. Não faz e nunca fez parte de nenhum grupo econômico, nem dos quadros societários das autuadas, é filho de Nedile Reginatto e irmão de André Reginatto, o que por si só não configura grupo econômico nem ilícito. Os recursos recebidos das empresas foram para pagamento de produtos vendidos ou tem origem da empresa Copramil. O recorrente apenas vendeu produtos para a autuada, faz prova disso sua movimentação financeira do período, não possuía procuração dela, não usava e nem tinha ou tem poderes a si conferido para realizar alguns pagamentos, TEDS, recebimentos, dar quitação, etc, em nome da autuada. Além disso, afirma nunca ter tido qualquer poder de direção e condução dos negócios de tal empresa. É pessoa séria produtor rural e empresário, teve negócios com a autuada a época dos supostos fatos, assim como teve com uma gama de outros parceiros comerciais na região, além de ter negócio com diversos produtores rurais o que explica o alto volume de movimentação financeira na época dos fatos. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. A empresa Abastecedora Nova Alvorada Ltda adicionou, resumidamente que: Fl. 1375DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 16 i) Exerce atividade comercial de compra e venda de combustíveis, (posto de combustível), portanto nunca possuiu e nem possui relação direta nenhuma com os fatos elencados nos processos discutidos, pretende demonstrar que nunca fez e nem faz parte de nenhum grupo econômico seja ele qual for e que nunca se associou a nenhuma pessoa física ou jurídica para sonegar contribuição a seguridade social (FUNRURAL) até porque pelo seu ramo de atividade não se sujeita a tal tributo. Nunca teve poder de direção e de decisão nas empresas e nunca participou e nem participa de nenhum grupo econômico, que teve sim apenas venda de combustível (pois é posto de combustível) para transportadoras que prestavam serviços para alguma das autuadas, já que as empresas supra são do ramo de comercio de cereais e possuem filial ou negócios na região de Rio Brilhante e Nova Alvorada do Sul/MS. Não é controladora nem consta no quadro de sócio da empresa autuada, nem nas outras carreadas como devedoras solidarias, apenas vendeu combustível a transportadoras que prestaram serviços para a autuada, tendo recebido por tais serviços recursos em sua conta corrente, não comprou ou vendeu produtos da empresa COMTRAL, nunca realizou pagamentos e recebimentos direto a terceiros (produtores rurais) a ordem das autuadas. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. A responsável solidária Reginatto e Reginatto LTDA, resumidamente, adicionou: i) A recorrente exerce atividade comercial de restaurante e lanchonete na cidade de Nova Alvorada do Sul-MS, nunca teve negócio com a empresa autuada COMTRAL, não compra e nem vende de cereais, não possui e nem possuiu relação direta nenhuma com os fatos elencados no processo e não fazia parte de grupo econômico. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. O responsável solidário André Reginado, resumidamente, adicionou: i) É produtor rural e empresário, portanto, nunca possuiu e nem possui relação direta nenhuma com os fatos elencados nos processos aqui discutidos, pretende então aqui em sede de recurso demonstrar que nunca fez e nem faz parte de nenhum grupo econômico. O recorrente é produtor rural e empresário e não consta no quadro de sócio das empresas, vendeu produtos para as empresas autuadas, tendo recebido Fl. 1376DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 17 tais produtos em sua conta corrente, e que nunca comprou vendeu e nem pagou ou recebeu nenhum valor em nome das empresas COMTRAL E SW. Não faz e nunca fez parte de nenhum grupo econômico, nem dos quadros societários das autuadas, é irmão de Laercio Reginatto e filho de Nedile Reginatto, o que por si só não configura grupo econômico nem ilícito. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. O responsável solidário Edgar Rodrigues da Silva Machado, resumidamente, adicionou: i) O recorrente é corretor de cereais, portanto nunca possuiu e nem possui relação direta nenhuma com os fatos elencados nos processos aqui discutidos, pretende então aqui em sede de recurso demonstrar que nunca fez e nem faz parte de nenhum grupo econômico. Nunca teve poder de direção e de decisão nas empresas e nunca participou e nem participa de nenhum grupo econômico, que teve sim e apenas a relação de corretor de cereais onde atuava na compra e venda de produtos agrícolas para algumas das empresas citadas, percebendo comissão por seus serviços. Possui procuração da Comtral que lhe dá poder para desenvolver sua atividade, que repisa, é a atuação na área de corretor de cereais. Vendeu e comprou produtos para a empresa autuada, tendo recebido por seus serviços comissão com recibos, que foram regularmente declaradas em suas declarações de IR. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. O responsável solidário Alcídio Mário Angst, resumidamente, adicionou: i) O recorrente é aposentado, foi auxiliar financeiro e corretor de cereais, não consta e nunca constou no quadro de sócio das empresas envolvidas no polo passivo da obrigação. Possui procuração de algumas delas que lhes davam poder para desenvolver suas atividades, quais sejam, a atuação como auxiliar financeiro e de corretor de cereais. Vendeu e comprou produtos para as empresas autuadas, tendo recebido por seus serviços comissão e salários. Não faz e nunca fez parte de nenhum grupo econômico. Ao final, pede também a reconsideração da multa de 75%. As empresas Copramil Comércio e Transporte de Prod. Agrícolas Ltda, Comércio de Cereais Vacaria Ltda – Me e São Lourenço Armazéns Gerais Ltda apresentaram também os mesmos argumentos da Comtral. Fl. 1377DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 18 Em seguida, os autos foram encaminhados a este d. Conselho. É o relatório. VOTO Conselheira Elisa Santos Coelho Sarto, Relatora 1. Admissibilidade Os recursos interpostos são tempestivos e, presentes os demais pressupostos de admissibilidade, devem ser conhecidos. 2. Da contribuição por sub-rogação do adquirente de produção rural de produtor pessoa física Os Recorrentes insurgem-se contra a contribuição social sobre a comercialização da produção rural adquirida de produtor pessoa física, indicando a sua inconstitucionalidade. Inicialmente, os Recorrentes afirmam que possuem, entre seus parceiros comerciais (fornecedores e clientes), filiados a sindicatos e outras entidades classistas que possuem liminar para não recolhimento da contribuição social exigida do produtor rural pessoa física, citando como exemplo a APROSOJA. A contribuinte principal menciona o processo de nº 0003010- 16.2010.403.6000. No entanto, além de não trazer aos autos provas de quais clientes e fornecedores eram filiados à APROSOJA, o mencionado processo não teve resultado positivo. Em consulta realizada ao processo, verifica-se que houve a improcedência da sentença, uma vez que o magistrado não identificou vício de inconstitucionalidade da contribuição, tendo a decisão transitado em julgado em 21/08/2018. Ainda, sobre a cobrança da contribuição por sub-rogação do adquirente de produtor rural pessoa física, nota-se que este d. Conselho já se manifestou, no processo de nº 10140.720760/2014-08, em relação à SW Atacadista de Cereais LTDA, que possui o mesmo fundamento fático do presente caso e que teve como Recorrentes a Comtral e demais empresas solidárias aqui listadas. Destaco a fundamentação do Conselheiro Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, no acórdão de nº 2003-006.692, de 15/05/2025: Nos citados tópicos, as RECORRENTES apresentam razões que convergem para um mesmo ponto: a inconstitucionalidade do FUNRURAL. Cita decisões do STJ e do STF a respeito do tema. No entanto, não merece prosperar o inconformismo das RECORRENTES. Fl. 1378DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 19 Conforme exposto, o presente lançamento versa sobre a contribuição ao FUNRURAL, incidente sobre a receita bruta proveniente da comercialização de produtos do empregador rural pessoa física, prevista nos incisos I e II do artigo 25 da Lei nº 8.212/91 e no art. 6º da Lei nº 9.528/97, com a redação da Lei nº 10.256/2001. O argumento central da defesa da RECORRENTE é no sentido de que, quando do julgamento do RE 363.852/MG, o STF teria declarado a inconstitucionalidade das contribuições do produtor rural pessoa física empregador incidentes sobre a comercialização de sua produção rural. No entanto, mediante referido julgamento, o STF declarou, por unanimidade, a inconstitucionalidade do artigo 1º da Lei nº 8.540/92, que previa o recolhimento da contribuição acima referida, pois esta lei foi anterior à Emenda Constitucional 20/1998 (responsável por alterar a base de cálculo para fins de incidência da referida contribuição). É que antes da EC 20/1998, as contribuições sociais do empregador somente poderiam incidir sobre a folha de salários, o faturamento e o lucro. Com o advento da referida emenda, surgiu a possibilidade de utilizar a receita como base de cálculo das contribuições sociais do empregador. Válido transcrever trechos do voto proferido pelo Ministro Marco Aurélio quando do julgamento do RE 363852/MG: "(...) Forçoso é concluir que, no caso de produtor rural, embora pessoa natural, que tenha empregados, incide a previsão relativa ao recolhimento sobre o valor da folha de salários. É de ressaltar que a Lei nº 8212/91 define empresa como a firma individual ou sociedade que assume o risco de atividade econômica urbana ou rural, com fins lucrativos, ou não, bem como os órgãos e entidades da administração pública direta, indireta e fundacional - inciso I do artigo 15. Então, o produtor rural, pessoa natural, fica compelido a satisfazer, de um lado, a contribuição sobre a folha de salários e, de outro, a COFINS, não havendo lugar para ter-se novo ônus, relativamente ao financiamento da seguridade social, isso a partir de valor alusivo à venda de bovinos. Cumpre ter presente, até mesmo, a regra do inciso II do artigo 150 da Constituição Federal, no que veda instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente. De acordo com o artigo 195, § 8º, do Diploma Maior, se o produtor não possui empregados, fica compelido, inexistente a base de incidência da contribuição - a folha de salários - a recolher percentual sobre o resultado da comercialização da produção. Se, ao contrário, conta com empregados, estará obrigado não só ao recolhimento sobre a folha de salários, como também, levando em conta o faturamento, da contribuição Social para Financiamento da Seguridade Social - COFINS e da prevista - tomada a mesma base de incidência, o valor comercializado - no artigo 25 da Lei nº 8.212/91. Assim, não fosse suficiente a duplicidade, considerado o faturamento, tem-se, ainda, a quebra da isonomia. Fl. 1379DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 20 "(...)não há como deixar de assentar que a nova fonte deveria estar estabelecida em lei complementar." "Ante esses aspectos, conheço e provejo o recurso interposto para desobrigar os recorrentes da retenção e do recolhimento da contribuição social ou do seu recolhimento por subrogação sobre a "receita bruta proveniente da comercialização da produção rural " de empregadores, pessoas naturais, fornecedores de bovinos para abate, declarando a inconstitucionalidade do artigo 1º da Lei nº 8.540/92, que deu nova redação aos artigos 12, incisos V e VII, 25 , incisos I e II, e 30, inciso IV, da Lei 8.212/91, com redação atualizada até a Lei nº 9.528/97, até que legislação nova, arrimada na Emenda Constitucional nº 20/98, venha a instituir a contribuição, tudo na forma do pedido inicial, invertidos os ônus da sucumbência." Após a EC 20/98, foi editada a Lei nº 10.256/2001, que deu nova redação ao caput do art. 25 da Lei nº 8.212/91. Ou seja, a referida Lei nº 10.256/2001 foi editada quando já estava em vigor a nova redação do art. 195, I, da Constituição, dada pela EC 20/98, que passou a prever nova fonte de custeio da seguridade social, qual seja, a receita dos empregadores. Sendo assim, é evidente que o RE 363852/MG dispõe somente acerca do art. 25 da Lei nº 8.212/91 com redação dada pelo art. 1º da Lei nº 8.540/92 (atualizada até a Lei nº 9.528/97), ao passo que o presente lançamento se refere a fatos geradores ocorridos em 2009 e 2010, posteriores, portanto, à Lei nº 10.256/2001, que deu nova redação ao art. 25, I e II, da Lei nº 8.212/91. Tanto é que, quando da apreciação de embargos de declaração opostos no RE 596177/RS, o STF reconheceu que não houve o exame da matéria sob o enfoque da exigência do tributo com fundamento na Lei nº 10.256/2001: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. FUNDAMENTO NÃO ADMITIDO NO DESLINDE DA CAUSA DEVE SER EXCLUÍDO DA EMENTA DO ACÓRDÃO. IMPOSSIBILIDADE DA ANÁLISE DE MATÉRIA QUE NÃO FOI ADEQUADAMENTE ALEGADA NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO NEM TEVE SUA REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. INEXISTÊNCIA DE OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO OU OMISSÃO EM DECISÃO QUE CITA EXPRESSAMENTE O DISPOSITIVO LEGAL CONSIDERADO INCONSTITUCIONAL. I – Por não ter servido de fundamento para a conclusão do acórdão embargado, exclui-se da ementa a seguinte assertiva: “Ofensa ao art. 150, II, da CF em virtude da exigência de dupla contribuição caso o produtor rural seja empregador”(fl. 260). II – A constitucionalidade da tributação com base na Lei 10.256/2001 não foi analisada nem teve repercussão geral reconhecida. III – Inexiste obscuridade, contradição ou omissão em decisão que indica expressamente os dispositivos considerados inconstitucionais. Fl. 1380DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 21 IV – Embargos parcialmente acolhidos, sem alteração do resultado. Sendo assim, a decisão proferida pelo STF no RE 363.852/MG não é aplicável ao presente caso, que é totalmente englobado pela Lei nº 10.256/2001. Para evitar confusão do contribuinte, importante destacar que, caso o presente lançamento se referisse a fatos anteriores à Lei nº 10.256/2001, é evidente que o RE 363.852/MG seria aplicável ao caso. No entanto, os fatos geradores ocorridos em 2009 a 2011 já estavam totalmente acobertados pela Lei nº 10.256/2001, o que afasta o caso concreto do alcance da decisão proferida no RE 363.852/MG. Ademais, cumpre esclarecer que não houve a declaração de inconstitucionalidade integral do art. 25, I e II, nem do art. 30, IV, ambos da Lei 8.212/91, uma vez que estes dispositivos tratam tanto do produtor rural pessoa física empregador quanto do segurado especial, ao passo que o RE 363.852/MG abrangeu apenas o primeiro, na medida que a Constituição (antes da EC 20/98) já previa forma de contribuição sobre resultado da comercialização da produção de determinados produtores rurais que exerçam suas atividades em regime de economia familiar, sem empregados permanentes (art. 195, § 8º). Este produtor rural delimitado no art. 195, § 8º, da Constituição é exatamente aquele previsto no art. 12, VII, da Lei nº 8.212/91, e que, portanto, encontra-se sujeito à contribuição prevista no art. 25 da mesma Lei. Ou seja, na decisão proferida quando do julgamento do RE 363.852, o STF reconheceu a inconstitucionalidade apenas das contribuições devidas pelo produtor rural pessoa física empregador, no período anterior à Lei 10.256/2001 e, consequentemente, também afastou a sub-rogação para estas contribuições, pois não haveria lógica em se manter a sub-rogação do tributo reconhecidamente inconstitucional. Portanto, evidente que não houve a declaração de inconstitucionalidade integral dos arts. 25, I e II, e 30, IV, ambos da Lei 8.212/91, uma vez que tais dispositivos eram (e ainda são) fundamentos para a sub-rogação da a empresa adquirente nas obrigações dos segurados especiais (referido no art. 12, VII, da Lei nº 8.212/91) pelo recolhimento da contribuição sobre resultado da comercialização da produção. Apenas a título de esclarecimento, pondero que este tribunal administrativo deve afastar a aplicação de dispositivo declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF, nos termos do art. 62, I, do RICARF. No entanto, é preciso fazer sempre uma distinção dos dispositivos tidos por inconstitucionais e aqueles que serviram de fundamentação para o lançamento. Digo isso porque, no presente caso, a RECORRENTE afirma obstinadamente que o STF já teria declarado a inconstitucionalidade da regra que determina a sub-rogação insculpida ano art. 30, IV, da Lei n 8.212/91. No entanto, conforme já exposto com detalhes acima, o julgamento do RE 363.852 não socorre o pleito da RECORRENTE, haja vista que tal decisão diz respeito à inconstitucionalidade do “artigo 1º da Lei nº 8.540/92, que deu nova redação aos artigos 12, incisos V e VII, 25, incisos I e II, e 30, inciso IV, da Fl. 1381DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 22 Lei 8.212/91, com redação atualizada até a Lei nº 9.528/97”, ao passo que o lançamento deste processo foi realizado com fundamento no art. 25 da Lei nº 8.212/91 com a redação dada pela Lei nº 10.256/2001. Necessário trazer nos autos a informação de que o STF realizou o julgamento de mérito do RE 718.874, que tinha por objeto tema com repercussão geral acerca da constitucionalidade da contribuição a ser recolhida pelo empregador rural pessoa física, prevista no art. 25 da Lei 8.212/1991, com a redação dada pela Lei 10.256/2001. Em 30/03/2017, o Plenário do STF decidiu o seguinte: “O Tribunal, por maioria, apreciando o tema 669 da repercussão geral, conheceu do recurso extraordinário e a ele deu provimento, vencidos os Ministros Edson Fachin (Relator), Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello, que negavam provimento ao recurso. Em seguida, por maioria, acompanhando proposta da Ministra Cármen Lúcia (Presidente), o Tribunal fixou a seguinte tese: "É constitucional formal e materialmente a contribuição social do empregador rural pessoa física, instituída pela Lei 10.256/2001, incidente sobre a receita bruta obtida com a comercialização de sua produção", vencido o Ministro Marco Aurélio, que não se pronunciou quanto à tese. Redator para o acórdão o Ministro Alexandre de Moraes” Neste sentido, por meio da recente apreciação pela Corte Suprema do RE 718.874, restou decidido ser constitucional a contribuição social do empregador rural pessoa física instituída pela Lei nº 10.256/2001. Esta é justamente a orientação da Súmula CARF nº 150, cujo teor aplica-se ao caso concreto: Súmula CARF nº 150 Aprovada pela 2ª Turma da CSRF em 03/09/2019 A inconstitucionalidade declarada por meio do RE 363.852/MG não alcança os lançamentos de subrogação da pessoa jurídica nas obrigações do produtor rural pessoa física que tenham como fundamento a Lei nº 10.256, de 2001. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 410, de 16/12/2020, DOU de 18/12/2020). Ademais, importante esclarecer à RECORRENTE que, não tendo sido declarada a inconstitucionalidade de qualquer dispositivo legal que fundamentou o presente lançamento, não se pode cogitar a ilegalidade/inconstitucionalidade deste, haja vista que corretamente enquadrado nas normas em vigor. Sendo assim, não se pode cogitar seja afastada a aplicação dessas normas, pois gozam de presunção de constitucionalidade. O STF não confirmou que as alterações promovidas pela Lei nº 10.256/2001 continuam contrarias ao texto constitucional, pois, conforme acima exposto, essa questão foi objeto de recente apreciação pela Corte Suprema (RE 718.874), quando restou decidido ser constitucional a contribuição social do empregador rural pessoa física instituída pela Lei nº 10.256/2001. Fl. 1382DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 23 Por fim, esclareça-se que a apreciação de inconstitucionalidade é matéria estranha a competência deste órgão julgador administrativo, conforme Súmula nº 02 do CARF, a conferir: Súmula CARF nº 02 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária” Neste sentido, entendo que não devem prosperar as alegações de inconstitucionalidade dos dispositivos que tratam das contribuições devidas pelo produtor rural pessoa física empregador e da sub-rogação em relação às suas contribuições, haja vista que: (i) o presente lançamento é posterior à Lei nº 10.256/2001 (que não foi objeto de análise pelo STF no RE 363.852/MG); e (ii) não é competência do CARF se pronunciar sobre inconstitucionalidade de lei tributária. Sendo assim, não prosperam os argumentos dos Recorrentes em relação à não aplicação da contribuição por sub-rogação do adquirente de produção de produtor rural pessoa física. 3. Do grupo econômico e da responsabilidade solidária A autuada principal Comtral e os devedores solidários insurgem-se contra a imputação da responsabilidade solidária. Este tópico não pode ser conhecido enquanto alegação da autuada, tendo em vista a Súmula CARF nº 172: Súmula CARF nº 172 Aprovada pelo Pleno em sessão de 06/08/2021 – vigência em 16/08/2021 A pessoa indicada no lançamento na qualidade de contribuinte não possui legitimidade para questionar a responsabilidade imputada a terceiros pelo crédito tributário lançado. (Vinculante, conforme Portaria ME nº 12.975, de 10/11/2021, DOU de 11/11/2021). Entretanto, o argumento merece enfrentamento por ter sido suscitado pelos demais Recorrentes, os devedores solidários. Defendem os responsáveis solidários que não possuem relações formais com a autuada, que não havia poder de decisão e direção, apenas relações comerciais lícitas e corriqueiras. Ainda, indicam que para a responsabilização pelo art. 124 do CTN deve haver a comprovação do interesse comum não basta que este seja econômico, mas jurídico. Ainda, indica Fl. 1383DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 24 que só seria possível a responsabilização se comprovados os requisitos da Teoria Maior da desconsideração da personalidade jurídica, previstos no art. 50 do Código Civil. No entanto, não prosperam os argumentos dos Recorrentes. A fiscalização não descaracterizou a personalidade jurídica a que se refere o art. 50 do Código Civil, eis que não se almeja atingir bens particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente por abuso de personalidade jurídica. O Relatório Fiscal nem sequer menciona a desconsideração da personalidade jurídica. O que houve foi que a fiscalização considerou a utilização da Comtral como interposta pessoa jurídica, para concentrar as dívidas previdenciárias e não quitá-las. Ressalta-se que, neste caso, a responsabilidade do grupo econômico não se trata de desconsideração da personalidade jurídica, mas de previsão legal, notadamente, o artigo 30, inciso IX da Lei nº 8.212/91: Art. 30. A arrecadação e o recolhimento das contribuições ou de outras importâncias devidas à Seguridade Social obedecem às seguintes normas: (...) IX - as empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem entre si, solidariamente, pelas obrigações decorrentes desta Lei; A leitura do dispositivo legal acima revela que o legislador não estabeleceu critérios objetivos para a definição do que se entende por “grupo econômico”, para fins de imputação de responsabilidade solidária. Contudo, a concepção contemporânea de grupo econômico supera a mera participação societária de uma pessoa física ou jurídica em diversas empresas. A noção atual de grupo econômico transcende a simples vinculação societária entre empresas ou a presença comum de sócios em diferentes pessoas jurídicas, como sustentado pelos Recorrentes. A jurisprudência e a doutrina têm reconhecido a configuração de grupo econômico — ainda que informal — quando se constata a existência de um centro de comando comum, caracterizado por um poder de administração e controle empresarial exercido de forma unificada sobre as diversas entidades, a partir de uma mesma origem ou núcleo decisório. Trata-se do denominado “grupo econômico de fato”. É precisamente essa a hipótese retratada nos autos. Embora inexista vínculo jurídico-formal entre as empresas e pessoas físicas arroladas como corresponsáveis, a fiscalização evidenciou de forma clara e didática a existência de um comando comum, com centralização do poder decisório e da gestão econômica nas mãos dos sócios pertencentes à família Reginatto. Diante do extenso acervo probatório apresentado pela autoridade fiscal, aliado à minuciosa análise do Relatório Fiscal, resta incontroverso o nítido desvio de finalidade das autuadas, funcionando como mera fachada empresarial, sem lastro patrimonial, capacidade econômica, nem estrutura operacional mínima para suportar o vultoso volume de operações a ela Fl. 1384DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 25 formalmente atribuídas. Destacam-se os seguintes fatos, dentre os inúmeros trazidos pela fiscalização: i) Alto fluxo financeiro entre as empresas da família Reginatto/pessoas físicas e a autuada principal Comtral. Ainda, havia transferências que não estavam lastreadas em compra e venda; ii) Sócios da Comtral sendo pessoas simples, com profissões modestas e sem patrimônio e que, quando perguntadas, não sabiam informar sobre a empresa. Inclusive, um dos sócios, o Sr. Raimundo, mencionou que recebia um salário mínimo para constar como sócio-administrador da empresa; iii) As empresas da família Reginatto tinham total acesso à conta bancária da Comtral, realizando toda a movimentação financeira desta e com acesso aos documentos originais das transações de compra e venda que a Comtral realizava; iv) Baixo valor do capital social da Comtral; v) O Sr. Nedile Reginatto assinando documentos em nome da Comtral, colocando-se como representante desta; vi) Pagamentos da produção rural adquirida pela Comtral sendo realizada diretamente pela Copramil. Fica claro o envolvimento da Família Reginatto e das empresas dos quais são sócios. Em relação aos procuradores da Comtral, Srs. Edgar e Alcidio, o Relatório Fiscal evidencia que estes estavam cientes de toda a operação e tinham a função de se apresentarem como responsáveis por empreendimentos da Comtral, encobrindo dolosamente os interesses da família Reginatto. Portanto, os indícios mencionados, quando analisados em conjunto, evidenciam, de forma cristalina, que os sócios formais e procuradores atuaram como interpostas pessoas, instrumentalizadas com o único intuito de ocultar os verdadeiros beneficiários econômicos e responsáveis tributários pelas operações realizadas. A sujeição passiva solidária é prevista no art. 124 do CTN: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I - as pessoas que tenham interêsse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; II - as pessoas expressamente designadas por lei. Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. Fl. 1385DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 26 Uma vez que o grupo econômico de fato ficou claro na descrição do Relatório Fiscal e há previsão legal no art. 30, IX da Lei nº 8.212/91, pode haver a responsabilização solidária. Destaca-se a inteligência da Súmula CARF nº 210: Súmula CARF nº 210 Aprovada pela 2ª Turma da CSRF em sessão de 26/09/2024 – vigência em 04/10/2024 As empresas que integram grupo econômico de qualquer natureza respondem solidariamente pelo cumprimento das obrigações previstas na legislação previdenciária, nos termos do art. 30, inciso IX, da Lei nº 8.212/1991, c/c o art. 124, inciso II, do CTN, sem necessidade de o fisco demonstrar o interesse comum a que alude o art. 124, inciso I, do CTN. No presente caso, destaca-se que também há evidente interesse comum entre as partes, previsto no inciso I do art. 124 do CTN. Para que se configure o interesse jurídico comum é necessária a presença de interesse direto pelas partes no fato gerador, beneficiando-se dos resultados decorrentes dele devido à atuação em comum. A participação comum pode ocorrer tanto de forma direta, quando as pessoas efetivamente praticam em conjunto o fato gerador, quanto de forma indireta, quando constatado ajustes ilícitos entre as partes em conluio, almejando a sonegação. Assim, como relatado anteriormente, tanto as pessoas jurídicas quanto as pessoas físicas atuaram em conjunto, subsistindo a responsabilidade solidária. Dessa forma, entendo que a simulação e a fraude foram caracterizadas pelo trabalho fiscal, motivo pelo qual deixo de acolher as alegações dos Recorrentes. 4. Da multa Em relação à multa qualificada, entendo que correta, tendo em vista que ficou demonstrada a fraude engendrada pelos Recorrentes. No entanto, tendo em vista o disposto no art. 106, II, “c”, do Código Tributário Nacional, esta deve ser reduzida ao percentual de 100% nos termos do art. 44, §1º, VI, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pela Lei nº 14.689/23. 5. Conclusão Pelo exposto, voto por conhecer dos Recursos Voluntários e, no mérito, dar-lhes parcial provimento para aplicar a retroação da multa qualificada prevista no art. 44, §1º, VI, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pela Lei nº 14.689/23, reduzindo-a ao percentual de 100%. Assinado Digitalmente Fl. 1386DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2401-012.205 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10140.720909/2014-41 27 Elisa Santos Coelho Sarto Fl. 1387DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 11060.721030/2015-50
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 30/12/2013
PEDIDO DE PERÍCIA / DILIGÊNCIA E PRODUÇÃO DE PROVAS. INDEFERIMENTO PELA AUTORIDADE JULGADORA. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE E ADEQUADA. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA.
É facultada à autoridade julgadora a determinação para realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias para a apreciação de provas. O simples fato do julgador indeferi-las por considerá-las prescindíveis, não acarreta em cerceamento de defesa.
NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA.
Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adota-se os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 - RICARF.
NULIDADE. HIPÓTESES.
Somente ensejam a nulidade a lavratura de atos e termos por pessoa incompetente e o proferimento de despachos e decisões por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa.
CONDUTOR AUTÔNOMO DE VEÍCULO RODOVIÁRIO. MONTANTE UTILIZADO NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COMBUSTÍVEL FORNECIDO PELA EMPRESA. IMPOSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO.
O salário de contribuição do condutor autônomo de veículo rodoviário corresponde a vinte por cento do valor bruto auferido pelo frete, não se admitindo a dedução de qualquer valor relativo aos dispêndios com combustível e manutenção do veículo.
ARGUIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. ANÁLISE. IMPOSSIBILIDADE.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2).
MULTA DE OFÍCIO DE 75%.
A aplicação da multa de ofício decorre do cumprimento da norma legal, de forma que, apurada a infração, é devido o lançamento da multa de ofício.
MULTA. VEDAÇÃO AO CONFISCO.
A vedação ao confisco pela Constituição Federal se refere a tributo e é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa aplicar a multa nos moldes da legislação que a instituiu.
Numero da decisão: 2402-013.033
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância suscitada e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário interposto.
Assinado Digitalmente
Gregório Rechmann Junior – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Francisco Ibiapino Luz (substituto integral), Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria e Rodrigo Duarte Firmino (presidente).
Nome do relator: GREGORIO RECHMANN JUNIOR
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INDEFERIMENTO PELA AUTORIDADE JULGADORA. MOTIVAÇÃO SUFICIENTE E ADEQUADA. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA. É facultada à autoridade julgadora a determinação para realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias para a apreciação de provas. O simples fato do julgador indeferi-las por considerá-las prescindíveis, não acarreta em cerceamento de defesa. NÃO APRESENTAÇÃO DE NOVAS RAZÕES DE DEFESA PERANTE A SEGUNDA INSTÂNCIA ADMINISTRATIVA. CONFIRMAÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. Não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adota-se os fundamentos da decisão recorrida, nos termos do inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 - RICARF. NULIDADE. HIPÓTESES. Somente ensejam a nulidade a lavratura de atos e termos por pessoa incompetente e o proferimento de despachos e decisões por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. CONDUTOR AUTÔNOMO DE VEÍCULO RODOVIÁRIO. MONTANTE UTILIZADO NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COMBUSTÍVEL FORNECIDO PELA EMPRESA. IMPOSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO. O salário de contribuição do condutor autônomo de veículo rodoviário corresponde a vinte por cento do valor bruto auferido pelo frete, não se admitindo a dedução de qualquer valor relativo aos dispêndios com combustível e manutenção do veículo. Fl. 1520DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 2 ARGUIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. ANÁLISE. IMPOSSIBILIDADE. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2). MULTA DE OFÍCIO DE 75%. A aplicação da multa de ofício decorre do cumprimento da norma legal, de forma que, apurada a infração, é devido o lançamento da multa de ofício. MULTA. VEDAÇÃO AO CONFISCO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal se refere a tributo e é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa aplicar a multa nos moldes da legislação que a instituiu. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância suscitada e, no mérito, negar provimento ao recurso voluntário interposto. Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Francisco Ibiapino Luz (substituto integral), Gregório Rechmann Junior, João Ricardo Fahrion Nüske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Marcus Gaudenzi de Faria e Rodrigo Duarte Firmino (presidente). RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto em face da decisão da 5ª Turma da DRJ/JFA, consubstanciada no Acórdão 09-58.660 (p. 1.462), que julgou improcedente a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Fl. 1521DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 3 Na origem, trata-se de lançamento fiscal com vistas a exigir crédito tributário consubstanciado nos DEBCADs abaixo especificados: 1) AIOP – DEBCAD nº 51.072.575-9 (p. 03): referente à obrigação principal proveniente da contribuição previdenciária patronal para custeio da seguridade social, incidente sobre a remuneração dos segurados contribuintes individuais: transportadores autônomos. 2) AIOP - DEBCAD nº 51.072.576-7 (p. 14): referente à obrigação principal proveniente da contribuição previdenciária de 11% descontadas da remuneração dos segurados contribuintes individuais: transportadores autônomos. 3) AIOP - DEBCAD nº 51.072.577-5 (p. 24): referente à contribuição social de 2,5% para custeio das entidades e fundos – SEST E SENAT. De acordo com o Relatório Fiscal (p. 37), tem-se que: (...) A empresa Java Transportes faz uso de Transportadores rodoviários autônomos e de empresas que realizam transporte de carga para realizar seus objetivos. Para pagamento destes utiliza um documento chamado Carta-Frete (contrato de afretamento) que se presta como meio de pagamento de despesas de viagens e frete ao caminhoneiro. Essa prática entre a transportadora e os Freteiros que esta contrata possibilita o pagamento de fretes sem a utilização de papel moeda. A carta-frete é um documento expedido pelo Transportador em favor do Caminhoneiro, por intermédio do qual, a título de pagamento de despesas e do frete contratado, este último fica autorizado a efetuar, em postos de combustíveis previamente autorizados, sua troca por diesel, produtos e até mesmo por dinheiro propriamente dito. Efetuada essa troca pelo carreteiro nesses postos conveniados, estes últimos passam a ser credores da Transportadora do valor consignado no documento, montante esse que é pago pelo devedor, de acordo com o que tiver sido estabelecido entre o Posto de Combustível e a Transportadora. Ocorre que neste documento, contrato de afretamento ou carta frete, embora discriminado na composição do frete a retenção para a Previdência Social e para o SEST/SENAST os valores são sempre zerados ou nulos. A empresa tomadora de serviços de transportador autônomo, de auxiliar de condutor autônomo, deverá reter e recolher as contribuições do segurado para a Previdência Social e as devidas ao Sest e ao Senat, além da contribuição dela própria. O salário-de-contribuição para o segurado contribuinte individual condutor autônomo de veículo rodoviário, do auxiliar de condutor autônomo, conforme estabelecido no § 4° do art. 201 do RPS, corresponde a 20% (vinte por cento) do valor bruto auferido pelo frete, Carreto, transporte, não se admitindo a dedução Fl. 1522DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 4 de qualquer valor relativo aos dispêndios com combustível e manutenção do veículo, ainda que parcelas a este título figurem discriminadas no documento. A contribuição social previdenciária do segurado contribuinte individual é 11% (onze por cento), incidente sobre o salário de contribuição quando a remuneração que lhe for paga ou creditada, no decorrer do mês, for por serviços prestados a empresa. A Contribuição do transportador autônomo, ou de auxiliar de condutor autônomo para o Sest é de 1,5% e a do Senat é de 1,0%, incidente sobre o salário de contribuição. A contribuição social previdenciária da empresa é 20% (vinte por cento), incidente sobre o salário de contribuição do contribuinte individual que lhe presta serviços. Com base na documentação entregue pelo contribuinte em meio papel ou digital e os dados constantes dos sistemas da Receita Federal do Brasil verificamos que o contribuinte não reteve, não declarou e nem recolheu as contribuições por serviços prestados por Transportadores rodoviários autônomos a seu serviço no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2013. Cientificada do lançamento fiscal, a Contribuinte apresentou a sua competente defesa administrativa (p. 1.402), esgrimindo suas razões de defesa nos seguintes pontos, em síntese: (i) não ocorrência do fato gerador; (ii) ausência de demonstração do inadimplemento das contribuições exigidas por parte dos contribuintes individuais; (iii) improcedência de exigência de recolhimento de contribuição sobre contratação de pessoas jurídicas; (iv) a aplicação de percentual sobre o rendimento bruto dos transportadores autônomos macula o lançamento tributário de ilegalidade, ante a aplicação de norma inválida; (v) não bastasse a fixação da base de cálculo, por ato infralegal, a matéria ainda ganhou a disciplina da IN RFB 971/2009, que dispõe sobre normas gerais de tributação previdenciária. Tal norma não considera os casos de subcontratação de transporte rodoviário de cargas, em que o valor do frete é repassado em parte pelo contratante ao subcontratado. A remuneração efetiva é a diferença entre o valor contratado para o frete e o valor repassado ao subcontratado; (vi) inexigibilidade das contribuições ao SEST / SENAT; (vii) aduz que a fiscalização não considerou os pagamentos efetuados a transportadores autônomos cooperados, cuja alíquota descrita no artigo 22, IV, da Lei 8.212/1991, que é de 15% sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços; Fl. 1523DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 5 (viii) ofensa aos princípios da capacidade contributiva, do não confisco, da razoabilidade, da propriedade privada e da livre iniciativa; (ix) inexigibilidade da multa de ofício; e (x) reclassificação da multa de ofício para a multa de mora. A DRJ julgou improcedente impugnação, nos termos do susodito Acórdão nº 09- 58.660 (p. 1.462), conforme ementa abaixo reproduzida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 30/12/2013 CONDUTOR AUTÔNOMO DE VEÍCULO RODOVIÁRIO. MONTANTE UTILIZADO NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COMBUSTÍVEL FORNECIDO PELA EMPRESA. IMPOSSIBILIDADE DE DEDUÇÃO. O salário de contribuição do condutor autônomo de veículo rodoviário corresponde a vinte por cento do valor bruto auferido pelo frete, não se admitindo a dedução de qualquer valor relativo aos dispêndios com combustível e manutenção do veículo. INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO. À esfera administrativa não cabe conhecer de argüições de inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo, matéria de competência do Poder Judiciário, por força do próprio texto constitucional ÔNUS DA PROVA. Os fatos extintivos ou modificativos, argüidos como matéria de defesa, devem ser demonstrados pelo contribuinte mediante produção de provas documentais, a fim de que possam provocar a extinção ou a alteração do crédito tributário constituído. SOLICITAÇÃO DE PERÍCIA. Considera-se não formulado o pedido de perícia que não apresente seus motivos e não contenha indicação de quesitos e do perito. MULTA. CONFISCO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificada dos termos da decisão de primeira instância, a Contribuinte apresentou recurso voluntário (p. 1.484), reiterando, em síntese, os termos da impugnação, além de pugnar Fl. 1524DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 6 pela nulidade da decisão de primeira instância em razão do indeferimento do pedido de realização de perícia contábil. Sem contrarrazões. É o relatório. VOTO Conselheiro Gregório Rechmann Junior, Relator. O recurso voluntário é tempestivo e atende os demais requisitos de admissibilidade. Deve, portanto, ser conhecido. Conforme exposto no relatório supra, trata-se o presente caso de lançamento fiscal com vistas a exigir crédito tributário referente às contribuições devidas à Seguridade Social parte da empresa (DEBCAD nº 51.072.575-9, p. 03), dos contribuintes individuais (DEBCAD nº 51.072.576-7, p. 14), bem como das contribuições devidas a outras entidades e fundos (terceiros) (DEBCAD nº 51.072.577-5, p. 24). De acordo com o Relatório Fiscal (p. 37), tem-se que a empresa não reteve, não declarou e nem recolheu as contribuições por serviços prestados por Transportadores rodoviários autônomos a seu serviço no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2013. A Contribuinte, em sua peça recursal, pugna, inicialmente, pela nulidade da decisão de primeira instância em razão do indeferimento do pedido de realização de perícia. Na sequência, reitera as razões de defesa deduzidas em sede de impugnação, nos seguintes termos, em síntese: (i) não ocorrência do fato gerador; (ii) ausência de demonstração do inadimplemento das contribuições exigidas por parte dos contribuintes individuais; (iii) improcedência de exigência de recolhimento de contribuição sobre contratação de pessoas jurídicas; (iv) a aplicação de percentual sobre o rendimento bruto dos transportadores autônomos macula o lançamento tributário de ilegalidade, ante a aplicação de norma inválida; (v) não bastasse a fixação da base de cálculo, por ato infralegal, a matéria ainda ganhou a disciplina da IN RFB 971/2009, que dispõe sobre normas gerais de tributação previdenciária. Tal norma não considera os casos de subcontratação de transporte rodoviário de cargas, em que o valor do frete é repassado em parte pelo contratante ao subcontratado. A remuneração efetiva é a diferença entre o valor contratado para o frete e o valor repassado ao subcontratado; (vi) inexigibilidade das contribuições ao SEST / SENAT; Fl. 1525DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 7 (vii) aduz que a fiscalização não considerou os pagamentos efetuados a transportadores autônomos cooperados, cuja alíquota descrita no artigo 22, IV, da Lei 8.212/1991, que é de 15% sobre o valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços; (viii) ofensa aos princípios da capacidade contributiva, do não confisco, da razoabilidade, da propriedade privada e da livre iniciativa; (ix) inexigibilidade da multa de ofício; e (x) reclassificação da multa de ofício para a multa de mora. Passemos, então, à análise das razões recursais da Contribuinte. Da Preliminar de Nulidade da Decisão de Primeira Instância por Cerceamento do Direito de Defesa A Recorrente inaugura suas razões de defesa pugnando pela anulação da decisão de primeira instância por cerceamento do direito de defesa, em face do indeferimento do pedido de perícia. Razão não assiste aos Recorrentes. Sobre o tema, o artigo 18 do Decreto 70.235/72, estabelece que: Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendê-las necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. (destaquei) No presente caso, o julgador a quo destacou que, de acordo com o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (PAF), em seu art. 16, § 1º (com a redação dada pela Lei nº 8.748, de 9 de dezembro de 1993, art. 1º) considera-se não formulado o pedido de perícia que não nomear perito e indicar os seus motivos e os quesitos requeridos. No caso, o sujeito passivo não indicou perito, nem formulou quesitos a serem atendidos, sendo o seu pleito, portanto, inepto. Não há que se falar, pois, em cerceamento de defesa em decorrência do indeferimento do pedido de realização de perícia. Ademais, não se deve olvidar que, nos termos do art. 29 do susodito Decreto nº 70.235/72, na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias. É dizer: a determinação de diligências / perícias é uma faculdade dada à autoridade julgadora que a utiliza de acordo com a sua livre convicção durante a análise do processo. Assim, rejeita-se a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância suscitada. Das Demais Razões Recursais Fl. 1526DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 8 Com relação às demais razões de defesa deduzidas no apelo recursal apresentado pela Contribuinte, considerando que tais alegações em nada diferem daquelas apresentadas em sede de impugnação, estando as conclusões alcançadas pelo órgão julgador de primeira instância em consonância com o entendimento perfilhado por este Relator, em vista do disposto no inc. I, § 12, do art. 144, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 1.634/2023 – RICARF, não tendo sido apresentadas novas razões de defesa perante a segunda instância administrativa, adoto os fundamentos da decisão recorrida, in verbis: É pertinente registrar que o fato gerador no lançamento em comento, decorre da obrigação da empresa, de recolher contribuição previdenciária patronal incidente sobre a remuneração dos contribuintes individuais, previstas no art. 22 inciso III da Lei nº 8.212/1991, a seguir transcrito: Art. 22. A contribuição a cargo da empresa, destinada à Seguridade Social, além do disposto no art. 23, é de: III - vinte por cento sobre o total das remunerações pagas ou creditadas a qualquer título, no decorrer do mês, aos segurados contribuintes individuais que lhe prestem serviços; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 1999). O Decreto nº3.048/1999, que aprova o Regulamento da Previdência Social define a condição de condutor autônomo de veículo e determina a forma de apuração da base de cálculo da contribuição nos artigos art. 9º §15 incisos I e II e 201, § 4º, nos seguintes termos: Art. 9º São segurados obrigatórios da previdência social as seguintes pessoas físicas: .......... §15. Enquadram-se nas situações previstas nas alíneas "j"e"l" do inciso V do caput, entre outros:(Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 29/11/1999) I - o condutor autônomo de veículo rodoviário, assim considerado aquele que exerce atividade profissional sem vínculo empregatício, quando proprietário, co-proprietário ou promitente comprador de um só veículo; II - aquele que exerce atividade de auxiliar de condutor autônomo de veículo rodoviário, em automóvel cedido em regime de colaboração, nos termos da Lei nº6.094, de 30 de agosto de 1974; Art.201. A contribuição a cargo da empresa, destinada à seguridade social, é de: ........ II- vinte por cento sobre o total das remunerações ou retribuições pagas ou creditadas no decorrer do mês ao segurado contribuinte individual;(Redação dada pelo Decreto nº 3.265, de 1999) ............ Fl. 1527DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 9 §4º - A remuneração paga ou creditada a condutor autônomo de veículo rodoviário, ou ao auxiliar de condutor autônomo de veículo rodoviário, em automóvel cedido em regime de colaboração, nos termos da Lei nº 6.094, de 30 de agosto de 1974, pelo frete, carreto ou transporte de passageiros, realizado por conta própria, corresponde a vinte por cento do rendimento bruto.(Redação dada pelo Decreto nº 4.032, de 2001). De pronto é importante esclarecer que a impugnante discute a legalidade do ato normativo que majorou o percentual para apuração da base de cálculo de 11,71% para 20% do valor bruto do frete. Cumpre elucidar que a administração pública deve observar o princípio da estrita legalidade, sendo que as leis e atos normativos nascem com a presunção de constitucionalidade e legalidade, que só pode ser elidida pelo Poder Judiciário, conforme a competência determinada pela Carta Magna. Salvo algumas situações específicas, a legislação expressamente veda aos órgãos de julgamento administrativo afastar a aplicação de lei por inconstitucionalidade ou ilegalidade, como se pode observar pelo que dispõe o artigo 26-A do Decreto nº 70.235, de 1972, na redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. Assim, ao agente público, por estar atrelado ao princípio da legalidade, resta o dever de seguir e aplicar os mandamentos impostos pela lei, não podendo dela se afastar, sob pena de ser responsabilizado por esse ato. A título de ilustração, é oportuno informa que o julgamento da matéria no Supremo Tribunal Federal, conforme ATA Nº 13, de 22/05/2013. DJE nº 103, divulgado em 31/05/2013 no Sítio do STF tem o seguinte histórico: STF – CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS – Inconstitucionalidade do art. 1º da Portaria MPAS nº 1.135 de 05/04/2001, que estabeleceu que a remuneração paga ou creditada ao condutor autônomo de veículo rodoviário, ou ao auxiliar de condutor autônomo de veículo rodoviário (art. 9º, §15, I e II, do Decreto nº 3.048/1999), em automóvel cedido em regime de colaboração, pelo frete, carreto ou transporte de passageiros, corresponde a 20% do rendimento bruto. Trata-se do Recurso em Mandado de Segurança Coletivo (RMS) nº 25.476/DF interposto pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) pela não aplicação da Portaria MPAS nº 1.135/2001, que estabeleceu, em seu art. 1º, que a remuneração paga ou creditada ao condutor autônomo de veículo rodoviário, ou ao auxiliar de condutor autônomo de veículo rodoviário, em automóvel cedido em regime de colaboração, nos termos da Lei nº 6.094/1974, de que tratam, respectivamente os incisos I e II do § 15 do art. 9º do Decreto nº 3.048/1999, pelo frete, carreto ou transporte de passageiros, corresponde a 20% do rendimento bruto. Fl. 1528DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 10 O julgamento do recurso foi retomado pelo Plenário em 22/5/2013 (Acórdão ainda não publicado), com o voto-vista do Ministro Gilmar Mendes, que considerou que a Portaria MPAS nº 1.135/2001, ao majorar o percentual de 11,71% para 20%, feriu o princípio da estrita legalidade tributária (reserva legal e tipicidade tributária). Ainda segundo o Ministro, tanto o Decreto nº 3.048/1999 quanto a Portaria MPAS nº 1.135/2001 seriam inconstitucionais. Entretanto, tendo em vista o princípio da proibição da "reformatio in pejus" e, considerando que o pedido da recorrente se restringia tão somente a não aplicação do percentual previsto no art. 1º da Portaria MPAS nº 1.135/2001, o Ministro negou provimento ao recurso da CNT, acompanhando o relator, Ministro Eros Grau. O entendimento vencedor, no entanto, foi o da divergência, que considerou inconstitucional a referida Portaria, mas entendeu aplicável ao caso o Decreto nº 3.048/1999, em razão da proibição da "reformatio in pejus", vencidos os Ministros Eros Grau e Gilmar Mendes. Dessa forma, o STF considerou então válido o percentual de 11,71% (nos termos do Decreto nº 3.048/1999) até o advento do Decreto nº 4.032/2001, quando a contribuição passou a ser de 20%. (grifo original) Na oportunidade, registra-se que o acórdão foi publicado em 26/05/2014 no DJE nº 99 contendo a seguinte ementa: RMS 25476 / DF - DISTRITO FEDERAL RECURSO ORD. EM MANDADO DE SEGURANÇA Relator(a): Min. LUIZ FUX Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO Julgamento: 22/05/2013 Órgão Julgador: Tribunal Pleno Publicação DJe-099 DIVULG 23-05-2014 PUBLIC 26-05-2014 EMENT VOL- 02731-01 PP-00001 Parte(s) RECTE.(S) : CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO TRANSPORTE - CNT ADV.(A/S) : WILFRIDO AUGUSTO MARQUES E OUTRO(A/S) RECDO.(A/S) : UNIÃO ADV.(A/S) : ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO Ementa TRIBUTO – BASE DE INCIDÊNCIA – PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ESTRITA. A fixação da base de incidência da contribuição social alusiva ao frete submete- se ao princípio da legalidade. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL – FRETE – BASE DE INCIDÊNCIA – PORTARIA – MAJORAÇÃO. Surge conflitante com a Carta da República majorar mediante portaria a base de incidência da contribuição social relativa ao frete. MANDADO DE SEGURANÇA – BALIZAS. No julgamento de processo subjetivo, deve-se observar o pedido formalizado. Decisão Fl. 1529DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 11 A Turma, acolhendo proposta do Relator, afetou o julgamento da presente causa ao Plenário do Tribunal. 2a. Turma, 13.06.2006. Decisão: Após o voto do Senhor Ministro Eros Grau (Relator), negando provimento ao recurso, e do voto do Senhor Ministro Marco Aurélio manifestando pela divergência, no que foi acompanhado pela Senhora Ministra Cármen Lúcia e pelos Senhores Ministros Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Carlos Britto, Cezar Peluso e Sepúlveda Pertence, pediu vista dos autos o Senhor Ministro Gilmar Mendes. Ausente, justificadamente, o Senhor Ministro Celso de Mello. Falou pela recorrida, União, o Ministro Álvaro Augusto Ribeiro Costa, Advogado-Geral da União. Presidência da Senhora Ministra Ellen Gracie. Plenário, 18.10.2006. Decisão: Prosseguindo no julgamento, o Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Ministro Marco Aurélio, que lavrará o acórdão, deu provimento ao recurso, vencidos os Ministros Eros Grau (Relator) e Gilmar Mendes. Impedidos os Ministros Teori Zavascki e Luiz Fux. Não participou da votação o Ministro Dias Toffoli. Presidiu o julgamento o Ministro Joaquim Barbosa. Plenário, 22.05.2013. Com o transcrito fica definido que a edição do Decreto nº 4.032 em 26/11/2001, nos mesmos moldes da Portaria nº 1.135 de 05/04/2001, aumentou regularmente a base de cálculo de 11,71% para 20% do valor do frete. Desta forma, eliminou-se o vício de legalidade apontado pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento citado. Portanto, a inconstitucionalidade da majoração declarada pela Suprema Corte, limita-se ao período precedente à vigência do Decreto nº 4.032/2001, ou seja, até 31/10/2001, o que não alcança o período do lançamento em pauta, haja vista que estão sendo cobradas contribuições de 01/2010 a 12/2013, período com vigência do percentual de 20% de valor bruto do frete. Quanto à base de cálculo a fórmula legal pré-estabelecida em 20% já visa alcançar, efetivamente, o preço do frete. Pressupõe a legislação que a redução dos 80% correspondem às demais despesas, tais como a manutenção do veículo e o combustível. A prova das partes envolvidas na operação de transporte deve ser empreendida nos termos estabelecidos no art. 6º da Lei nº. 11.442, de 5 de janeiro de 2007, in verbis: “Art. 6º O transporte rodoviário de cargas será efetuado sob contrato ou conhecimento de transporte, que deverá conter informações para a completa identificação das partes e dos serviços e de natureza fiscal.” Logo, resta evidenciado o descabimento da alegação de que o conhecimento de transporte não serve como documento para comprovação da efetiva prestação de serviços por pessoas físicas indicadas nos contratos de afretamento. Feitos estes esclarecimentos, retornando, especificamente, às alegações da impugnação cumpre esclarecer que nas planilhas elaboradas pela fiscalização Fl. 1530DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 12 identificadas como: - RELAÇÃO DE DADOS DO FRETE (fls. 478/1016); - ANEXO 1 "DEMONSTRATIVO DOS VALORES PAGOS A FRETEIROS POR COMPETÊNCIA" (fls 1017/1200) onde o auditor indicou o nome e os CPF dos "freteiros autônomos"; - ANEXO 2 - DEMONSTRATIVO DE VALORES PAGOS A FRETEIROS AUTÔNOMOS - ANO 2011" (fls. 1201/1248) ANEXO 3 - ano de 2012 (fls. 1249/1280) ANEXO 4 - ano de 2013 (fls. 1281/1345) onde o auditor identifica o CPF do Freteiro e apresenta o número do CTRC e o histórico da conta contábil, e ANEXO 5 - ano 2010 (fls. 1346/1379) onde o Auditor identifica o CPF do Freteiro e informa que a empresa "não apresentou contabilidade -só livro caixa" é possível firmar a convicção de que o fisco identificou as pessoas físicas sujeitas à incidência da contribuição. Também fica claro no Anexo RL - Relatório de Lançamentos combinado com o Anexo Discriminativo do Débito, que a fiscalização apurou, em primeiro lugar, o valor bruto do frete e definiu a base de cálculo de 20%, depois o valor da contribuição patronal, segurados e terceiros sobre o valor deste percentual de 20% do frete, atendendo, assim, a legislação que rege a matéria. Vêem-se nos autos que a forma de apresentação dos fatos geradores adotada pela fiscalização, permite ao autuado identificar, de maneira individualizada, o condutor, a competência e o conhecimento do frete. A impugnante reclama que foi considerado o valor bruto do frete e que não foram excluídas as pessoas jurídicas, todavia, não aponta, quais pessoas jurídicas foram consideradas, bem como não exemplifica nenhum valor irregular da base de cálculo. A alegação contrária ao lançamento fiscal, sem prova inequívoca não é suficiente para desconstituir o feito fiscal, cabendo ao contribuinte o ônus de provar suas alegações, conforme preceitua a Lei 9.784/1999: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Dai salienta-se que fatos extintivos ou modificativos, argüidos como matéria de defesa, devem ser demonstrados pelo contribuinte mediante produção de provas documentais, a fim de que possam provocar a extinção ou a alteração do crédito tributário constituído. O mesmo argumento se aplica às alegações de que não se observou as regras relativas aos serviços prestados por condutores pertencentes a cooperativa de trabalho, pois o levantamento está atrelado à pessoas físicas devidamente identificadas e não a pessoas jurídicas. Neste ponto a autuada pede a realização de perícia, contudo, de acordo com o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (PAF), em seu art. 16, § 1º (com a redação dada pela Lei nº 8.748, de 9 de dezembro de 1993, art. 1º) considera-se não formulado o pedido de perícia que não nomear perito e indicar os seus motivos e os quesitos requeridos. No caso, o sujeito passivo não indicou perito, nem formulou quesitos a serem atendidos, sendo o seu pleito, portanto, inepto. Fl. 1531DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 13 No tocante à alegação do caráter confiscatório, tem-se, no caso, que todo o procedimento da fiscalização esta prevista na legislação, não podendo a administração afastar sua aplicação sob pena de responsabilidade funcional. Ressalte-se, ainda, que a auditoria fiscal ao aplicar a legislação não tem faculdade discricionária, somente a vinculada nos termos do que disciplina o artigo 142, parágrafo único do CTN, sendo a multa aplicada em consonância com o disposto nas determinações legais constantes do Relatório de Fundamentos Legais do Débito/FLD. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador. Tal princípio orienta a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Adicionalmente aos fundamentos supra reproduzidos, ora adotados como razões de decidir, cumpre destacar que, em relação à nulidade no âmbito do processo administrativo tributário federal, cabe esclarecer que este é regulado por legislação específica, no caso o Decreto nº 70.235, de 1972, o qual determina as hipóteses de nulidade no seu art. 59. No presente caso, observa-se que os Autos de Infração e seus anexos são perfeitamente compreensíveis, estando devidamente motivados, e permitem a constatação de que os fatos verificados no decorrer da ação fiscal foram narrados com clareza e coerência, e que todas as formalidades essenciais relacionadas à lavratura do AI foram atendidas. Nesse contexto, também se constata que foi possível o pleno exercício do direito de defesa e do contraditório, pois se demonstra nos autos que a Contribuinte foi regularmente cientificada do lançamento fiscal, tendo acesso a todas as informações necessárias para elaborar a sua defesa. A impugnação apresentada atesta que a Autuada teve pleno conhecimento das infrações, devidamente descritas e capituladas no lançamento fiscal e que exerceu plenamente o seu direito de defesa, combatendo as infrações apuradas por meio de apresentação de impugnação com alegações e documentos. Da leitura do Relatório da Ação Fiscal e documentos anexos, e dos devidos demonstrativos de apuração que fazem parte do lançamento fiscal, verifica-se a descrição dos motivos de fato e de direito caracterizadores da infração apontada pela autoridade fiscal, com o correspondente enquadramento legal, viabilizando, assim, o pleno conhecimento da lide. Desse modo, uma vez efetuado o lançamento de ofício, por ato juridicamente válido, com a abertura do prazo de impugnação legalmente estabelecido, houve plena observância dos princípios do devido processo legal, do contraditório e do amplo direito de defesa, tendo a Contribuinte nesta ocasião exercido sua prerrogativa de contestar o auto de infração. Portanto, não devem ser acatadas as alegações de nulidade do lançamento fiscal. Com relação ao mérito do lançamento fiscal, destaque-se os precedentes abaixo citados desse Egrégio Conselho: Fl. 1532DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 14 Acórdão nº 2202-007.986 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. TRABALHADORES AUTÔNOMOS FRETISTAS. A empresa é obrigada a recolher as contribuições a seu cargo incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas, a qualquer título, aos segurados empregados, trabalhadores avulsos e contribuintes individuais a seu serviço no prazo definido em lei ACÓRDÃO 2002-008.911 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. TRANSPORTADOR RODOVIÁRIO AUTÔNOMO. É devida a contribuição social previdenciária do segurado incidente sobre a remuneração do condutor autônomo de veículo rodoviário, pelo frete, carreto ou transporte de passageiros. Acórdão nº 2401-009.746 CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. TRANSPORTADOR RODOVIÁRIO AUTÔNOMO. É devida a contribuição social sobre a remuneração paga devida ou creditada ao condutor autônomo de veículo rodoviário, pelo frete, carreto ou transporte de passageiros. No que tange à alegação de inconstitucionalidade de lei, não compete à autoridade administrativa apreciar a arguição e declarar ou reconhecer a inconstitucionalidade de lei, pois essa competência foi atribuída, em caráter privativo, ao Poder Judiciário, pela Constitucional Federal, art. 102. A mais abalizada doutrina escreve que toda atividade da Administração Pública se passa na esfera infralegal e que as normas jurídicas, quando emanadas do órgão legiferante competente, gozam de presunção de constitucionalidade, bastando sua mera existência para inferir a sua validade. Sobre o tema, conferia-se o enunciado da Súmula CARF nº 2: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária Quanto à alegação recursal de que a multa de ofício de 75% ofende o princípio constitucional da “proibição do confisco”, insculpido no art. 150, inciso V, da Carta Republicana, esclarecemos que tal princípio é dirigido ao legislador, visando orientar a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Não observado esse princípio, a lei deixa de integrar o mundo jurídico, por inconstitucional. Fl. 1533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.033 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.721030/2015-50 15 Por sua vez, a multa em questão está prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 27/12/96, que assim dispõe, em sua redação vigente ao tempo dos fatos: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata;(Vide Lei nº 10.892, de 2004)(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Desse modo, independente do seu quantum, a multa em análise decorre de lei e deve ser aplicada pela autoridade tributária sempre que for identificada a subsunção do caso concreto à norma punitiva, haja vista o disposto no art. 142, § único, do Código Tributário Nacional (CTN), Lei 5.172, de 25/10/66: Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Sendo assim, uma vez positivada a norma, é dever da autoridade tributária aplica- la, sob pena de responsabilidade funcional. Ademais, não se deve olvidar que, nos termos do já mencionado Enunciado de Súmula CARF nº 2, o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Por fim, mas não menos importante, a proposta de redução da multa para o patamar da de mora, no caso 20%, não subsiste em face da legislação de regência da matéria acima exposta. Neste espeque, não há qualquer provimento a ser dado ao apelo recursal da Contribuinte, impondo-se a manutenção do julgado de primeira instância pelos seus próprios fundamentos. Conclusão Ante o exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância suscitada e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário interposto. Assinado Digitalmente Gregório Rechmann Junior Fl. 1534DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 10340.721160/2023-93
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 31 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020, 2021, 2022
BENEFÍCIOS FISCAIS DO ICMS. SUBVENÇÃO ESTATAL. NÃO CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS E INADEQUAÇÃO À JURISPRUDÊNCIA PREDOMINANTE. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL.
A subvenção governamental é concedida por uma norma estatal com vistas à instituição de um benefício econômico determinado, quantificado em dinheiro, a um beneficiário específico e perfeitamente identificado, ou a um conjunto de beneficiários que atendam a critérios previamente estabelecidos.
Os benefícios concedidos a título de isenção/redução/etc do ICMS, de forma geral e objetiva não geram qualquer ganho, juridicamente falando, à Contribuinte, pois não foi ela quem deixou de suportar o valor do tributo exonerado. Ao não gerar qualquer ganho ou renda àquela contribuinte alcançada pela isenção/redução/etc, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL não podem sofrem qualquer interferência ou ajuste na sua apuração.
Extrai-se do item 1 do Tema 1.182/STJ que é “Impossível excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, salvo quando atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014)”. Assim, a decisão judicial estabelece que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc não são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; a exceção se configura no caso em que forem atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014).
O item 1 do Tema 1.182/STJ também estabelece que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL tão somente quando forem instituídos com o intuito de estimular a implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e quando registrados em reservas de lucros (atendidas as restrições contidas no próprio dispositivo legal). Tal conclusão apenas reforça o entendimento de que benefícios concedidos de forma geral e objetiva, como é o caso dos autos, não podem ser considerados como subvenção (muito menos de investimento), não podendo, portanto, serem excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ARTIFICIALIDADE DA ESCRITURAÇÃO. CABIMENTO DA EXASPERAÇÃO.
A consideração de uma isenção/redução/etc de ICMS como se fosse uma subvenção para investimento nunca foi, perante este Tribunal, um tema controvertido e/ou de alta indagação, inexistindo qualquer divergência quanto à interpretação da legislação tributária aplicável. O que se evidencia no presente processo é que não há justificativa plausível para uma operação que se mostra em tudo essencialmente artificial e dezarrazoada, desprovida de substância jurídica e orquestrada com o fim único de suprimir tributos, razão pela qual cabível a exasperação da multa de ofício.
CSLL. LANÇAMENTO REFLEXO. DECORRÊNCIA.
O decidido em relação ao IRPJ deve ser adotado, no mérito, em relação à exigência da CSLL, haja vista que com ele compartilha os mesmos fundamentos de fato e para o qual não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhe recomende tratamento diverso.
Numero da decisão: 1401-007.536
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário; vencida a Conselheira Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin que lhe dava provimento; e por voto de qualidade dar provimento ao recurso de ofício; vencidos os Conselheiros Daniel Ribeiro Silva, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin e Andressa Paula Senna Lisias que lhe negavam provimento. Manifestaram a intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Daniel Ribeiro Silva e Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin.
Assinado Digitalmente
Luiz Augusto de Souza Gonçalves – Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente).
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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SUBVENÇÃO ESTATAL. NÃO CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS E INADEQUAÇÃO À JURISPRUDÊNCIA PREDOMINANTE. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL. A subvenção governamental é concedida por uma norma estatal com vistas à instituição de um benefício econômico determinado, quantificado em dinheiro, a um beneficiário específico e perfeitamente identificado, ou a um conjunto de beneficiários que atendam a critérios previamente estabelecidos. Os benefícios concedidos a título de isenção/redução/etc do ICMS, de forma geral e objetiva não geram qualquer ganho, juridicamente falando, à Contribuinte, pois não foi ela quem deixou de suportar o valor do tributo exonerado. Ao não gerar qualquer ganho ou renda àquela contribuinte alcançada pela isenção/redução/etc, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL não podem sofrem qualquer interferência ou ajuste na sua apuração. Extrai-se do item 1 do Tema 1.182/STJ que é “Impossível excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, salvo quando atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014)”. Assim, a decisão judicial estabelece que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc não são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; a exceção se configura no caso em que forem atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014). Fl. 1956DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 2 O item 1 do Tema 1.182/STJ também estabelece que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL tão somente quando forem instituídos com o intuito de estimular a implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e quando registrados em reservas de lucros (atendidas as restrições contidas no próprio dispositivo legal). Tal conclusão apenas reforça o entendimento de que benefícios concedidos de forma geral e objetiva, como é o caso dos autos, não podem ser considerados como subvenção (muito menos de investimento), não podendo, portanto, serem excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. ARTIFICIALIDADE DA ESCRITURAÇÃO. CABIMENTO DA EXASPERAÇÃO. A consideração de uma isenção/redução/etc de ICMS como se fosse uma subvenção para investimento nunca foi, perante este Tribunal, um tema controvertido e/ou de alta indagação, inexistindo qualquer divergência quanto à interpretação da legislação tributária aplicável. O que se evidencia no presente processo é que não há justificativa plausível para uma operação que se mostra em tudo essencialmente artificial e dezarrazoada, desprovida de substância jurídica e orquestrada com o fim único de suprimir tributos, razão pela qual cabível a exasperação da multa de ofício. CSLL. LANÇAMENTO REFLEXO. DECORRÊNCIA. O decidido em relação ao IRPJ deve ser adotado, no mérito, em relação à exigência da CSLL, haja vista que com ele compartilha os mesmos fundamentos de fato e para o qual não há nenhuma razão de ordem jurídica que lhe recomende tratamento diverso. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao recurso voluntário; vencida a Conselheira Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin que lhe dava provimento; e por voto de qualidade dar provimento ao recurso de ofício; vencidos os Fl. 1957DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 3 Conselheiros Daniel Ribeiro Silva, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin e Andressa Paula Senna Lisias que lhe negavam provimento. Manifestaram a intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros Daniel Ribeiro Silva e Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin. Assinado Digitalmente Luiz Augusto de Souza Gonçalves – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Claudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Fernando Augusto Carvalho de Souza, Andressa Paula Senna Lisias, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente). RELATÓRIO Por bem retratar os fatos que albergam o presente processo, reproduzo o Relatório da decisão recorrida naquilo que nos interessa à apreciação do presente recurso. Trata o presente processo de auto de infração lavrado em desfavor do contribuinte acima identificado, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) dos períodos de apuração compreendidos nos anos-calendário de 2017 a 2022, totalizando os valores abaixo resumido: Termo de Verificação Fiscal (TVF) 2. Na descrição dos fatos, a autoridade fiscal fundamenta que a fiscalizada excluiu indevidamente das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, relativo aos períodos de apuração em questão, os valores derivados de desonerações de caráter geral, como a não incidência constitucional (imunidade) em operações de produtos destinadas à exportação, bem como de isenções e reduções de base de cálculo de ICMS, também concedidas pelos entes estaduais de forma ampla e geral. Em suas palavras: Em síntese do que será detalhadamente descrito, a contribuinte pratica os seguintes ilícitos tributários: a) Exclui das bases de cálculo do IRPJ e CSLL montantes que nunca compuseram o Lucro Contábil da empresa. Esses montantes não Fl. 1958DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 4 correspondem a Receitas adicionadas ou Despesas deduzidas contabilmente em decorrência do recebimento de Subvenções de qualquer tipo; b) Os valores excluídos não resultam de mutações patrimoniais efetivas. Não ampliaram o Ativo ou reduziram o Passivo da empresa; c) Os lançamentos contábeis realizados constituem uma forma fraudulenta, para simular acréscimos de Receitas que, de fato, não foram auferidas; d) A empresa constitui uma Reserva de Lucros intitulando-a, com a falsa aparência, de Subvenção para Investimentos. Esse procedimento reforça a fraude contábil porque a reserva em questão não tem origem ou lastro em subvenções e sim no lucro normal de suas operações. 3. Segundo apurado pela Autoridade Fiscal, foram excluídos da apuração do Lucro Real, a título de subvenções, os montantes abaixo relacionados: 4. A auditoria fez uso de dados e informações contábeis constantes na Escrituração Contábil Digital – ECD, de informações fiscais constantes na Escrituração Contábil Fiscal – ECF, bem como das informações prestadas pelo contribuinte. 5. No curso do procedimento fiscal, ficou constatado que, no período de 2017 a 2022, daquilo que o contribuinte considerou como benefícios fiscais dedutíveis a título de subvenções, 13% são oriundos das operações com isenção e redução de base de cálculo do ICMS e outros 87% são decorrentes de operações como não incidência do ICMS, amparadas por imunidade constitucional. 6. Segundo a Autoridade Fiscal, os incentivos fiscais que a fiscalizada alega lhe permitir desoneração tributária não são dedutíveis das bases de cálculo de IRPJ e CSLL. Afirma que o contribuinte simulou o recebimento dos benefícios gerais e irrestritos associados ao ICMS como se fossem Subvenções para investimentos efetivamente recebidas e, por conseguinte, dedutíveis. Contudo, tais valores nunca compuseram o resultado (lucro contábil) na forma de receitas, não podendo, portanto, serem excluídas da apuração do lucro real. Fl. 1959DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 5 É importante destacar as características básicas das deduções indevidamente utilizadas pela fiscalizada: a) Os benefícios fiscais em questão não coincidem, de forma alguma, com aqueles concedidos a título de Crédito Presumido de ICMS; b) As pretensas subvenções não foram auferidas, (nem recebidas) sob nenhuma forma. Não geraram ou acresceram receita à fiscalizada, não resultando em quaisquer mutações patrimoniais reais, ou seja, elevando ativos ou reduzindo passivos; c) A forma de inserção dos lançamentos na escrituração contábil das mesmas serviu apenas e tão somente para dar aparência de formalidade a Subvenções não recebidas efetivamente e, desta forma, simular o direito à dedução nas bases de cálculo do IRPJ e CSLL 7. A Autoridade Fiscal alega que o contribuinte se utilizou de registros contábeis fictícios, sem substância e com o único intuito de simular a existência de subvenções fiscais que nunca existiram e, assim, justificar a exclusão desses valores das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, numa ação que foi considerada uma simulação de fatos econômicos inexistentes com o intuito de fraudar o recolhimento de IRPJ e CSLL. Em suas palavras: Mas o simples registro contábil não gera, concede, ou garante um direito. Antes do registro é necessário a realidade, a existência factual do bem ou direito. Na contabilidade da SIPAL, a “subvenção” escriturada simplesmente NÃO EXISTE! E os registros efetuados servem apenas e tão somente para uma simulação, uma fraude, que tenta reduzir, indevidamente, obrigações sociais que deveriam ter sido recolhidas ao erário. Neste caso, os registros contábeis e a escrituração fiscal no LALUR eram absolutamente desnecessários, podendo mesmo ser considerada indevida. Os registros foram feitos, exclusivamente, para simular uma mutação que, se tivesse ocorrida de fato, poderia resultar numa redução de tributos. O simples registro não comprova o fluxo ou a mutação patrimonial. Como veremos a seguir, os registros efetuados nas contas de Ativo e Passivo da fiscalizada não correspondem a alterações patrimoniais reais, pois sequer ocorreram fluxos reais de valores, direitos ou obrigações. Como veremos também, a constituição de Reserva para Incentivos Fiscais, com valores transferidos dos Resultados de Exercício, objetivou apenas dar aparência à exigência central do caput do art. 30 da 12.973/2014 (constituição de Reservas de Lucros). Os registros contábeis relacionados às pretensas Subvenções auditadas neste procedimento são fictícios. Têm por objetivo exclusivo simular fatos econômicos inexistentes e fraudar, escandalosamente, o recolhimento de IRPJ e CSLL. Fl. 1960DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 6 (...) A fiscalizada utiliza duas contas de resultado, uma a Débito e outra à Crédito, na escrituração contábil das pretensas receitas de subvenções. Ou seja, produz lançamentos que se anulam e não produzem nenhuma mutação patrimonial na empresa. Após apurar um Lucro Contábil, não afetado pelas pretensas receitas, procede à exclusão dos mesmos valores na apuração do Lucro Real. 8. A autoridade fiscal destaca ainda que, com vistas a dar a impressão de cumprimento dos requisitos legais necessários a dedutibilidade das supostas subvenções, o contribuinte constituiu Reservas de Lucros. Contudo, tais valores não são lastreados ou originados em operações com benefícios fiscais, sendo, portanto, mais uma simulação. Na contabilidade da SIPAL a escrituração de receitas oriundas de subvenções para investimento é fictícia. Os lançamentos contábeis produzem apenas um efeito aparente e as supostas receitas NUNCA COMPUSERAM o Resultado do Exercício da fiscalizada. Reforçando a simulação, a fiscalizada cria uma reserva no Patrimônio Líquido, intitulada Reservas de Lucros – Subvenção p/ Investimentos. Essa reserva é constituída a partir de Lucros Acumulados resultantes das operações reais e normais da empresa, os quais não são formados, influenciados ou afetados por receitas de subvenções. Essa vinculação sem lastro e origem objetivou, exclusivamente, simular o cumprimento da condição prevista no caput do artigo 30 da Lei 12.973/2014. 9. As irregularidades fiscais apuradas no procedimento foram então consideradas vinculadas a uma operação fraudulenta, motivando assim a aplicação de multa qualificada e representação fiscal para fins penais. 10. A ciência dos autos de infração foi dada ao contribuinte em 20/11/2023 (fl. 1155). Impugnação 11. Irresignada, a autuada apresentou, representada por seus advogados, a impugnação de fls. 1160 a 1306, protocolizada em 19/12/2023, na qual alega que as exclusões consideradas indevidas pela fiscalização, fundamentam-se: (i) no parecer do Deputado Federal Alexandre Baldy, relator do projeto transformado na Lei Complementar nº 160/2017, em que se revela o amplo alcance que se pretendia dar aos novos comandos: “Além disso, acolhemos ideia do nobre Deputado Luiz Carlos Hauly e incluímos artigos que deixam claro que os incentivos e benefícios fiscais de ICMS recebidos pelas pessoas jurídicas, desde que esses valores sejam mantidos em conta de reserva de Patrimônio Líquido, são subvenções para investimento, Fl. 1961DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 7 sobre eles não incidindo, por consequência, IRPJ e CSLL”(excerto de Parecer inserto no item 10.13 desta impugnação); (ii) no contido nos arts. 9º e 10 da Lei Complementar nº 160/2017; (iii) na Mensagem nº 276, de 7 de agosto de 2017, da Presidência da República, na qual consta o entendimento exarado pelo Ministério da Fazenda e pela Advocacia Geral da União, que indicaram, como razão de veto dos arts. 9º e 10 da LC 160/2017, que, no mérito, causariam: “distorções tributárias, ao equiparar as subvenções meramente para custeio às para investimento, desfigurando seu intento inicial, de elevar o investimento econômico, além de representar significativo impacto na arrecadação tributária federal. Por fim, poderia ocorrer resultado inverso ao pretendido pelo projeto, agravando e estimulando a chamada ‘guerra fiscal’ entre os Estados, ao invés de mitigá-la.” (excerto de Parecer inserto no item 10.13 desta impugnação); (iv) na manifestação do Deputado Luiz Carlos Hauly, na sessão conjunta que apreciou e derrubou os vetos. Veja-se: “O que não pode é a Receita Federal do Brasil, da noite para o dia, alterar o que a lei determina. Mas foi isso que ela fez nos últimos 2 anos. A lei determinava a não incidência de tributo entre os entes federados. A usurpação da Receita Federal, a ganância que ela tem hoje em arrecadar, isso transformou o Brasil num dos maiores detentores de contenciosos nº mundo. Sabem de quanto é hoje o contencioso na Justiça Federal nos Estados e nos Conselhos de Contribuintes? É de 2 trilhões. E a maioria dos contenciosos são indevidos. Trata-se de ganância. Acha-se que se pode tributar tudo a qualquer preço, de forma desmedida. Srs. Senadores, Srs. Deputados, que representam os seus Estados, não é lícito uma empresa receber 10 milhões de incentivo fiscal de um Estado X e a Receita Federal querer cobrar Imposto de Renda, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, PIS, COFINS, e ainda estabelece multa de 75%. Ela recebeu 10 milhões, e está devendo 112 milhões [sic]. Ora, o que vai acontecer com o Brasil? O Brasil está numa grande crise, mas começou a sair dela. Esses autos de infração da Receita Federal são um escárnio à legislação, são uma afronta à Federação brasileira, são indevidos e injustos, pois destroem a indústria brasileira, destroem os negócios do País. Não podem a Receita Federal e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional induzir o Presidente da República ao erro do veto!” (excerto de Parecer inserto no item 10.13 desta impugnação); (v) importante ressaltar que as subvenções recebidas e constituídas pela impugnante se deram contemporânea e tempestivamente aos respectivos fatos geradores e anos calendários (e não extemporaneamente), de modo que o procedimento da impugnante se deu, entre novembro/2017 a dezembro/2020, em inteira observância e durante a vigência das Soluções de Consultas exaradas pela RFB nºs 11/2020, 3.020/2020 e 55/2021 (dentre outras), que possuem efeito vinculante para a própria Receita Federal do Brasil e serviram de orientação para a impugnante, nos termos dos arts. 9º e 17 da IN RFB nº 1.936/2013 (vide tópico 10 desta impugnação); Fl. 1962DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 8 (vi) no Convênio ICMS 190/2017; (vii) no contido no par. único, inc. II, art. 3º da Lei Complementar nº 87/1996 e nº Convênio ICMS 84/2009; (viii) no Pronunciamento Técnico do Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC 07(R1) – Subvenção e Assistência Governamentais; (ix) em Pareceres subscritos por doutrinadores que se inserem entre os mais ilustres e renomados tributaristas do Brasil, Dr. Roque Antonio Carraza, Dr. Sacha Calmon Navarro Coêlho e Dra. Misabel de Abreu Machado Derzi (vide itens 10.12 e 10.13 desta impugnação); (x) por fim, no decidido pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema 1.182 e nº Recurso Especial nº 1.968.755-PR, bem como no decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, no Tema 475, e em acórdãos dos Tribunais Superiores que estão colacionados ao longo desta impugnação. 12. Requer o reconhecimento preliminar de nulidade por cerceamento do direito de defesa de todo o procedimento fiscal, ou, no mínimo, pela nulidade da inclusão do ano-calendário de 2022 uma vez que, para o período, não foi dada a oportunidade de manifestação do contribuinte, no curso do procedimento fiscal. 13. Reitera que o procedimento adotado teve por base os arts. 9º e 10 da Lei Complementar nº 160, o art. 30 da Lei nº 12.973/2014, as Soluções de Consultas da RFB nºs 11/2020, 3.010/2020 e 55/2021 (dentre outras), o Convênio ICMS 190/2017 e o CPC 07, ressaltando, inclusive, que seu procedimento se encontra exatamente de acordo com o decidido pelo STJ no Tema 1.182 e no Recurso Especial nº 1.968.755-PR, bem como com a jurisprudência do STF e do STJ. 14. Ainda de forma preambular, requer a suspensão do julgamento do presente processo até que ocorra o trânsito em julgado pelo STJ no que se refere ao tema 1.182, uma vez que as decisões proferidas pelo STJ passam a ter efeito vinculante para a RFB, a partir da elaboração de manifestação pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, nos termos da Lei nº 10.522, de 2002. Sugere que a necessidade de suspensão do julgamento se dá em razão de a posição do STJ exarada no tema 1.182 confrontar com a posição adotada pela fiscalização nos presentes autos. 15. Contesta a interpretação dada pelas Autoridades Fiscais quanto ao decidido pelo STJ no tema 1.182 de que apenas os créditos presumidos de ICMS é que estariam abarcados pela decisão do STJ, enquanto a redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção e diferimento, entre outros, não estariam atendidos. Defende que essa interpretação está totalmente equivocada e vai de encontro ao que foi decidido pela egrégia corte. 16. Defendem ainda que jamais teriam informado, dentre as subvenções para investimento que declarou ao fisco, qualquer valor relativo às operações de ICMS ao abrigo da imunidade (sem incidência constitucional). Afirmam que os Auditores Fl. 1963DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 9 Fiscais inadvertidamente consideraram que a dispensa do pagamento do ICMS diferido estariam ao abrigo da imunidade, o que não é verdade. 17. Afirmam que seguiram as orientações exaradas pela RFB na Solução de Consulta COSIT nº 11, de 2020 que se aplica exatamente ao caso concreto, diferentemente da interpretação dada pelas Autoridades Fiscais que interpretam que essa Solução de Consulta não teria efeito vinculante para os demais contribuintes, posição esta que confronta orientação expressa da própria RFB constante da Solução de Consulta COSIT nº 3.010/2020, bem como na Solução de Consulta COSIT nº 55, de 2021. 18. Questionam a multa qualificada aplicada e a representação fiscal para fins penais, uma vez que não teria havido a prática de qualquer crime tributário doloso por parte da impugnante. 19. A impugnante contesta ainda o direito de a RFB realizar novo procedimento fiscalizatório uma vez que o tema já teria sido objeto de procedimento administrativo anterior de diligência fiscal, iniciado em setembro de 2021 e encerrado em janeiro de 2022. 20. Por fim, pugna pelo reconhecimento da decadência do direito de a RFB efetuar lançamento relativo ao ano-calendário de 2017. 21. É o relatório. A impugnação apresentada pela Contribuinte foi apreciada pela Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil 09, que editou o acórdão nº 109-021.932 – 12ª Turma, em 27 de junho de 2024, cuja ementa reproduzo abaixo: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020, 2021, 2022 PRELIMINAR. NULIDADE. FASE INQUISITÓRIA DO PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Na etapa do procedimento fiscal que antecede o lançamento, prevalece o princípio inquisitório. Somente após a impugnação é que se inicia a fase litigiosa do processo, na qual é garantido ao contribuinte o amplo exercício do contraditório e da ampla defesa. Não há falar em nulidade por cerceamento do direito de defesa, quando o contribuinte teve acesso amplo aos elementos da autuação, apresenta defesa dentro do prazo e compreende as razões de fato e de direito apresentadas. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SOBRESTAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. As normas reguladoras do Processo Administrativo Fiscal não admitem o sobrestamento do julgamento de processo de exigência fiscal, devendo, a Fl. 1964DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 10 Administração Pública impulsionar o processo até sua decisão final (Princípio da Oficialidade). SUBVENÇÃO. BENEFÍCIO FISCAL DE ICMS. NÃO CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL. SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 253, DE 2023 Impossível excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, - tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, quando não observados os seguintes requisitos: a) concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos, não se aplicando aos incentivos ou benefícios fiscais concedidos de maneira incondicionada, de forma gratuita ou sem nenhum ônus ou dever ao subvencionado; e b)registro em reserva de lucros e limitações correspondentes. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) Quanto à impugnação de auto de infração lavrado como reflexo de fatos apurados para o lançamento do IRPJ, são aplicáveis as mesmas razões que deram fundamento à decisão acerca da impugnação a este, quando não houver alegação específica no tocante ao auto reflexo. MULTA QUALIFICADA. MATÉRIA DE RELEVANTE E DISSEMINADA CONTROVÉRSIA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE A mera divergência de interpretação da legislação tributária, não pode justificar o agravamento da multa de ofício, especialmente quando o contribuinte evidenciou em suas obrigações acessórias a posição adotada. A conclusão de que a exclusão de valores da base de cálculo do IRPJ e da CSLL é irregular é fundamento para a sua glosa, mas não para a qualificação da multa de ofício. REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS. IMPOSSIBILIDADE DE DISCUSSÃO NO ÂMBITO DO PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. A matéria penal é de competência do Ministério Público Federal, não sendo o órgão de julgamento administrativo competente para se pronunciar sobre a questão. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte A decisão acima afastou as preliminares apresentadas, reconheceu a decadência do lançamento para o ano-calendário de 2017, mantendo-o para os demais anos, e reduziu a multa de ofício para o percentual de 75%, nos termos do relatório e voto. Irresignada com a decisão retro, a Contribuinte apresentou o recurso voluntário de e-fls. 1.520/1.576, através do qual praticamente repete os mesmos termos da impugnação de e- fls. 1.160/1306, reiterando os seguintes pontos em seu pedido: Fl. 1965DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 11 1) Que se reconheça a aplicabilidade vinculante do entendimento do STJ no julgamento do Tema repetitivo nº 1.182 ao presente caso, nos termos do art. 99 do RICARF/2023, uma vez que i) “Para a exclusão dos benefícios fiscais relacionados ao ICMS, — tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros — da base de cálculo do IRPJ e da CSLL não deve ser exigida a demonstração de concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos”, ii) o contribuinte constituiu a adequada reserva (na forma do artigo 30, da Lei nº 12.973/2014) e iii) os valores nunca foram utilizados para finalidade estranha à garantia da viabilidade do empreendimento econômico, aspecto este jamais questionado; 2) a manutenção do entendimento exarado pela DRJ no sentido de que não houve dolo, fraude ou simulação no presente caso, de modo que foi acertado o afastamento da multa qualificada, em razão da legitimidade dos benefícios, do procedimento adotado e das reservas constituídas, afastando-se a alegação de lançamentos fictícios e de inexistência de saldos para utilização em períodos futuros; 3) a manutenção do entendimento exarado pela DRJ em relação ao reconhecimento da decadência relativa ao ano-calendário de 2017; 4) na remota hipótese de abandono e afronta ao referido entendimento do Colendo STJ, que seja determinada a conversão do julgamento em diligência para verificação da efetiva realização dos investimentos; 5) subsidiariamente, caso assim não se entenda, requer o reconhecimento dos efeitos vinculantes à Recorrente quanto à Solução de Consulta COSIT nº 11/2020 até 22/12/2020, em razão do princípio da segurança jurídica; 6) ou, o sobrestamento do presente julgamento até o trânsito em julgado do acórdão proferido pelo STJ quando do julgamento do Tema 1.182. Já a Procuradoria da fazenda Nacional protocolou as contrarrazões de e-fls. 1.691/1.734, através do qual alega o seguinte, em apertadíssima síntese: 1) As vendas praticadas pelo Recorrente com fins específicos de exportação estão abrangidas pela não incidência prevista no art. 3º, II, e parágrafo único, da Lei Complementar 87/96, e não cumprem com o requisito para dedução do IRPJ e CSLL estabelecido no art. 30, §4º da Lei 12.973/2014, uma vez que esse dispositivo legal equiparou à subvenção para investimento exclusivamente os benefícios fiscais instituídos pelos Estados ou pelo Distrito Federal; 2) O STJ, no Resp 1.987.158 e o Tema 1.182 do STJ, definiu que os benefícios fiscais de ICMS que não aumentam a receita dos contribuintes (as “grandezas negativas, decorrentes do exercício, pelo ente tributante, do poder de não Fl. 1966DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 12 tributar (a outra face do poder de tributar) - que, como tais, não poderiam logicamente ser tomadas como receita”), não podem ser deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Por outro lado, os benefícios fiscais de ICMS poderão ser deduzidos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL quando cumprirem com as condições do art. 30 da Lei 12.973/2014, ou seja, quando representarem alguma forma de acréscimo de recursos para aplicação em investimentos. Como referido no EDcl no REsp 1.987.158/SC É MISTER O DIRECIONAMENTO DO RESULTADO DO BENEFÍCIO À IMPLANTAÇÃO OU EXPANSÃO DE EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS; 3) Os benefícios fiscais de ICMS, deduzidos pelo Recorrente da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, são isenções gerais, não correspondem a renúncia de receita em benefício do Recorrente (art. 14 da LRF). Portanto, os benefícios fiscais de ICMS, a que o Recorrente faz jus, não representam dispêndio estatal, a ser aplicado pelo Recorrente em investimentos. A exclusão dos benefícios da base de cálculo do IRPJ e CSLL não cumpre com os requisitos do art. 30, caput, §§1º e 2º da Lei 12.973/2014; 4) O Recorrente simulou o registro de reserva de lucros, mediante lançamentos contábeis sem substância fática, e também por esse motivo não cumpriu com as condições do art. 30 da Lei 12.973/2014 para a dedução do benefício fiscal de ICMS da base de cálculo do IRPJ e CSLL; 5) A fiscalização apresentou provas de que o contribuinte fez lançamentos de despesas de ICMS, que não estão respaldadas pelas correspondentes notas fiscais. Diante de tais provas, é evidente que o contribuinte cometeu fraude dolosa, cabendo a reforma da decisão de primeira instância. Afinal, os autos vieram a este Conselheiro para relatar e votar. É o Relatório. VOTO Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e sua matéria se enquadra na competência deste Colegiado. Os demais pressupostos de admissibilidade igualmente foram atendidos. Em relação ao recurso de ofício, apesar de, por um lapso, não constar do decisum proferido pela DRJ, também será admitido e apreciado neste voto haja vista que o crédito tributário exonerado ultrapassou em muito o limite estabelecido pela Portaria MF nº 02, de 17 de janeiro de 2023. Como vimos no Relatório, o auto de infração tem como fundamento a glosa de exclusões do lucro líquido na apuração do lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Referidas Fl. 1967DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 13 glosas referem-se a benefícios fiscais do ICMS auferidos pela Recorrente em suas operações nos estados do Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mais especificamente incidentes sobre (i) vendas com fins específicos para exportação, (ii) dispensa de pagamento do ICMS diferido, (iii) dispensa de pagamento do ICMS sobre fretes, (iv) vendas com isenção de ICMS e (v) vendas com redução na base de cálculo do ICMS. Em apertadíssima síntese, a Recorrente alega que o seu proceder estaria fundamentado nos arts. 9º e 10 da Lei Complementar nº 160, no art. 30 da Lei nº 12.973/2014, nas Soluções de Consultas da RFB nºs 11/2020, 3.010/2020 e 55/2021 (dentre outras), no Convênio ICMS 190/2017 e no CPC 07; ressalta, ainda, que o seu procedimento se encontra exatamente de acordo com o decidido pelo STJ no Tema 1.182 e no Recurso Especial nº 1.968.755- PR, bem assim na jurisprudência do STF e do STJ. Já a Fiscalização elenca os seguintes ilícitos tributários que teriam sido praticados pela Recorrente, ao arrepio das próprias normas adotadas por ela para fundamentar o seu procedimento, mediante, nas suas palavras, verdadeiro “contorcionismo interpretativo” das normas e decisões judiciais adotadas, pois: a) Exclui das bases de cálculo do IRPJ e CSLL montantes que nunca compuseram o Lucro Contábil da empresa. Esses montantes não correspondem a Receitas adicionadas ou Despesas deduzidas contabilmente em decorrência do recebimento de Subvenções de qualquer tipo; b) Os valores excluídos não resultam de mutações patrimoniais efetivas. Não ampliaram o Ativo ou reduziram o Passivo da empresa; c) Os lançamentos contábeis realizados constituem uma forma fraudulenta, para simular acréscimos de Receitas que, de fato, não foram auferidas; d) A empresa constitui uma Reserva de Lucros intitulando-a, com a falsa aparência, de Subvenção para Investimentos. Esse procedimento reforça a fraude contábil porque a reserva em questão não tem origem ou lastro em subvenções e sim no lucro normal de suas operações. A DRJ, por sua vez, concluiu pela inexistência de contradição entre a posição externalizada pela RFB nas Instruções Normativas RFB nº 1.700, de 2017, bem assim em suas Soluções de Consulta e o decidido pelo STJ quando da análise do Tema 1.182. Segundo a DRJ, “tanto a RFB quanto o STJ assentaram o entendimento de que com o advento da LC nº 160, de 2017, quanto ao ICMS, a Lei definiu que todos os incentivos e benefícios fiscais ou financeiro- fiscais relativos a esse tributo são considerados subvenções para investimento, portanto passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, desde que observados os requisitos e as condições impostos pelo art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014” (grifei). E tais requisitos legais seriam as seguintes: a) concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos, não se aplicando aos incentivos ou benefícios fiscais concedidos de maneira incondicionada, de forma gratuita ou sem nenhum ônus ou dever ao subvencionado; e b) registro em reserva de lucros e limitações correspondentes. Fl. 1968DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 14 Neste ponto, faço um primeiro reparo à decisão recorrida, pois não são todos os benefícios fiscais que podem vir a ser considerados subvenções para investimento, sendo, portanto, passíveis de exclusão da Base de Cálculo do IRPJ e da CSLL; são passíveis da referida exclusão tão somente aqueles que exigem uma contrapartida do contribuinte em termos de investimento para implantação ou expansão do empreendimento. Veremos essa questão logo mais à frente neste voto com mais acuidade. Questões preliminares Antes de passar às questões de mérito, precisamos nos ater a algumas preliminares trazidas pela Contribuinte, de mesmo teor já apresentadas quando da impugnação ao lançamento. Em relação a essas preliminares, adotarei os mesmos termos da decisão recorrida, forte no disposto no art. 114, § 12, do RICARF, e com os quais me coaduno inteiramente. Considerações iniciais 23. Destaque-se que o julgador não precisa avaliar todas as questões trazidas pela autoridade tributária ou pela impugnante na medida em que já tenha elementos suficientes para proferir a decisão, conforme art. 29 do Decreto nº 70.235, de 1972. Adota-se o entendimento já manifestado pelo Poder Judiciário, como o a seguir transcrito: O julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo suficiente para proferir a decisão. O julgador possui o dever de enfrentar apenas as questões capazes de infirmar(enfraquecer) a conclusão adotada na decisão recorrida. Assim, mesmo após a vigência do CPC/2015, não cabem embargos de declaração contra a decisão que não se pronunciou sobre determinado argumento que era incapaz de infirmar a conclusão adotada. STJ. 1ª Seção. EDcl no MS 21.315-DF, Rel. Min. Diva Malerbi (Desembargadora convocada do TRF da 3ª Região), julgado em 8/6/2016 23.1. Deve-se deixar claro, desde o início, que os julgadores administrativo também se submetem ao princípio do livre convencimento motivado. Portanto, podem e devem formar convicção própria à luz da legislação vigente à época dos fatos ainda que eventualmente se busque subsídios na doutrina e nos precedentes de tribunais judiciais e administrativos. Questões Preliminares 24. A impugnante requer, preliminarmente, o reconhecimento de nulidade integral ou, no mínimo, da nulidade da inclusão do ano-calendário de 2022, dado que referido período foi incluído no procedimento fiscal sem que houvesse sido dada a oportunidade de manifestação por parte do contribuinte, ferindo assim o direito constitucional de ampla defesa. 24.1. Não assiste razão ao contribuinte. Na etapa do procedimento fiscal que antecede o lançamento, prevalece o princípio inquisitório. Somente após a Fl. 1969DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 15 impugnação é que se inicia a fase litigiosa do processo, na qual é garantido o amplo exercício do contraditório e da ampla defesa. 24.2. Assim, pode a Autoridade Fiscal, se entender que possui todas as informações necessárias, efetuar lançamento de ofício, independente de intimação prévia do contribuinte. Em que pese não haver óbice ao lançamento sem intimação prévia, no curso do procedimento fiscal, a Autoridade Fiscal o notificou, por meio do Termo de Constatação Fiscal III (fls. 766-767 e ciência às fls. 958/959) acerca da inclusão dos anos-calendário 2017 e 2022. 24.3. Ademais, não há falar em nulidade do auto de infração por cerceamento do direito de defesa quando o interessado teve amplo acesso aos elementos constantes da peça de autuação, incluindo uma explicação detalhada das infrações imputadas; apresentou defesa oportuna, instaurando regularmente o contraditório; e apresentou extensa defesa em seu arrazoado, mostrando uma compreensão completa dos fatos apresentados. 25. A impugnante contesta ainda o direito da RFB realizar novo procedimento fiscalizatório uma vez que o tema já teria sido objeto de procedimento administrativo anterior de diligência fiscal, iniciado em setembro de 2021 e encerrado em janeiro de 2022. Segundo a contribuinte, o procedimento fiscal de diligência mencionado (TDPF-D 09.0.01.00-2021-05280-6) foi encerrado sem a realização de qualquer procedimento fiscal, de modo que haveria precluído o direito de a RFB efetuar novo procedimento fiscalizatório para o período objeto do primeiro procedimento, qual seja: anos-calendário 2017 a 2020. 25.1. Com relação a esse ponto cabe esclarecer que o procedimento administrativo anterior, mencionado pelo contribuinte, foi de diligência e teve por objetivo obter esclarecimentos e informações preliminares à ação fiscal. Esse tipo de procedimento serve inclusive para que a Administração Tributária avalie se será ou não necessário iniciar um procedimento fiscal para constituição de ofício do crédito tributário. Destarte, o encerramento do procedimento fiscal de diligência não tem o condão de homologar as exclusões declaradas pelo contribuinte. 25.2. Cumpre ressaltar ainda que, mesmo que o procedimento anterior instaurado fosse um procedimento fiscal, destinado à constituição de ofício do crédito tributário, não há óbice a instauração de um segundo exame de período anteriormente já fiscalizado. O Decreto 9.580, de 2018 (Regulamento do Imposto de Renda – RIR 2018) é claro em seu art. 951 quando admite um segundo exame, desde que aprovado por autoridade competente, o que ocorreu no caso concreto. Assim, incabível falar em nulidade do auto de infração também quanto a esse ponto. Art. 951. Em relação ao mesmo exercício, somente é possível o segundo exame de período fiscalizado por meio de ordem escrita do Coordenador de Fiscalização, do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Secretaria Fl. 1970DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 16 da Receita Federal do Brasil do Ministério da Fazenda (Lei nº 3.470, de 1958, art. 34). 26. Uma última questão que trataremos como preliminar, é o requerimento da impugnante para que as autoridades julgadoras decidam pelo sobrestamento do julgamento do presente processo até que ocorra o trânsito em julgado no STJ do Tema 1.182 e a PGFN realize a competente manifestação, a qual será vinculante para a RFB (art. 19, inc. VI, alíneas “a” e “b”, da Lei nº 10.522/2022 e Solução de Consulta RFB nº 252/2023) e, por consequência, deverá ser aplicada no âmbito dos autos de infração em apreço. 26.1. O Decreto nº 70.235, de 1972 e o Decreto nº 7.574, de 2011 não autorizam a pretendida suspensão do trâmite processual. Ressalte-se, por oportuno, que o processo administrativo fiscal é regido por princípios, dentre os quais, o da oficialidade, que obriga a administração a impulsionar o processo até a sua decisão final (art. 2º, inciso XII, da Lei 9.784, de 1999). Deste modo, não pode a autoridade administrativa proceder ao sobrestamento de processo com litígio regularmente instaurado. Do efeito vinculante das Soluções de Consulta Cosit 27. Antes de seguirmos para a análise de mérito, cabe ainda enfrentar a questão do efeito vinculante das Soluções de Consulta Cosit nº 11/2020, 145/2020, dentre outras. 27.1. O contribuinte alega que seguiu estritamente as orientações contidas nas acima mencionadas Soluções de Consulta, vigentes para o período em discussão, quando classificou os benefícios e incentivos fiscais de ICMS como subvenções para investimento, excluindo-os da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Assim, requer que seja reconhecido que as Soluções de Consulta possuem efeito vinculante no âmbito da RFB, decidindo-se pela improcedência do lançamento. 27.2. Por outro lado, a Autoridade Tributária entende que as Soluções de Consulta Cosit mencionadas pelo contribuinte não se aplicam ao caso concreto, argumentando: Na resposta ao TIF, às fls. 13/70 e na petição, às fls. 701/721, a fiscalizada argumenta estar amparada na Solução de Consulta COSIT nº 11/2020 para justificar as exclusões realizadas. Na mesma direção faz referências às Soluções de Consulta nº 145/2020 e nº 55/2021. As Soluções de Consulta em questão não se aplicam ao caso concreto. Senão vejamos: a. A SC nº 11/2020 trata especificamente de caso de Subvenção do Estado do Ceará. A consulente busca esclarecer dúvidas sobre os efeitos da Lei Estadual nº 14.237, de 2008, daquele Estado. b. A SC nº 145/2020 também trata da mesma subvenção do Estado do Ceará - Lei Estadual nº 14.237, de 2008. c. A SC nº 55/2021 trata de reduções e isenções de ICMS conforme Convênio ICMS nº 100/1997 e, destinadas a sementes e a fabricação de rações para Fl. 1971DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 17 animais, por óbvio, não contempla a situação fática alegada pela fiscalizada. Importante observar que as soluções de consultas proferidas pela Receita Federal do Brasil (RFB) partem da premissa de serem verdadeiros os pressupostos fáticos-situacionais descritos pelos consulentes, pois a consulta tributária não gera nenhum efeito se constatado que tais pressupostos não foram descritos adequadamente ou diferem da situação fática. Para explicitar essa questão, ressalvas geralmente são feitas na fundamentação das Soluções de Consulta (SC), conforme se evidencia, a seguir, em duas dessas SC: (...) A situação concreta da SIPAL não corresponde nem à subvenção do Estado do Ceará, nem ao Convênio ICMS nº 100/1997 27.3. Antes de enfrentar a natureza vinculante das mencionadas Soluções de Consulta ao caso concreto, destaco que a Solução de Consulta Cosit nº 145, de 2020 reformou a Solução de Consulta Cosit nº 11, de 2020 que, como vimos, o contribuinte também alega ter utilizado como fonte de orientação. Contudo, em que pese a Solução de Consulta Cosit nº 11, de 2020 ter sido reformada, os fundamentos permaneceram os mesmos, tendo a Solução de Consulta reformadora, externalizado de forma mais detalhada o entendimento da RFB quanto aos requisitos impostos pelo art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014, sem alterar os fundamentos contidos na Solução de Consulta reformada. 27.4. Especificamente quanto ao caráter vinculante da Solução de Consulta no âmbito da RFB e a sua aplicabilidade ao caso concreto, dou razão ao contribuinte. Senão vejamos: 27.5. A IN RFB nº 2.058, de 2021 que regula o processo de consulta dispõe em seu art. 33: Art. 33. As soluções de consulta proferidas pela Cosit, a partir da data de sua publicação: I - têm efeito vinculante no âmbito da RFB; e II - respaldam o sujeito passivo que as aplicar, ainda que não seja o respectivo consulente, desde que se enquadre na hipótese por elas abrangida, sem prejuízo da verificação de seu efetivo enquadramento pela autoridade fiscal em procedimento de fiscalização. 27.6. Independente de qual contribuinte as aplicar, não há dúvidas que as Soluções de Consulta proferidas pela Cosit possuem efeito vinculante no âmbito da RFB. A dúvida, reside, portanto, se a hipótese abrangida pelas Soluções de Consulta se enquadra ou não ao caso concreto. 27.7. Reconheço que a Autoridade Fiscal pode, em procedimento de fiscalização, contestar a aplicabilidade da Solução de Consulta, ao verificar que o caso concreto não se amolda a hipótese por ela abarcada. Foi isso que a Autoridade Fiscal buscou desqualificar ao afirmar que as Soluções de Consulta utilizadas pelo Fl. 1972DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 18 contribuinte tratam de benefícios e incentivos fiscais específicos que não os mesmos objeto de análise no procedimento fiscal. 27.8. Não posso concordar com essa alegação. Pegando o exemplo da Solução de Consulta nº 145, de 2020, em que pese o consulente ter trazido o caso concreto de incentivo concedido pelo Governo do Estado do Ceará na forma de redução de alíquota de ICMS de produtos por ela comercializados, toda a fundamentação e conclusão da norma tratou do tema subvenções para investimento de forma ampla e geral, não se restringindo ao caso concreto do consulente. 27.9. Assim, forçoso concluir que assiste razão à impugnante ao afirmar que a Solução de Consulta nº 145, de 2020 é válida para servir de parâmetro para sua interpretação ao caso concreto, tendo, portanto, efeito vinculante para a RFB. 27.10. Contudo, para afirmar que a interpretação dada a Solução de Consulta é suficiente para que seja reconhecido seu direito à exclusão dos benefícios e incentivos fiscais de ICMS, da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, é necessário enfrentar a ressalva contida em sua conclusão, relembrando: “desde que observados os requisitos e as condições impostos pelo art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014, dentre os quais, a necessidade de que tenham sido concedidos como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos.” 27.11. Em síntese, a Solução de Consulta Cosit nº 145, de 2020 é aplicável ao caso concreto por tratar do mesmo tema objeto da presente controvérsia. Contudo, em que pese ela admitir que, a partir da LC 160, de 2017, quanto ao ICMS, não cabe mais discutir se determinado incentivo ou benefício fiscal é ou não subvenção para investimento, igualmente reconheceu que se faz necessário observar as demais condições impostas por lei, o que faremos na análise de mérito. Por todo o exposto, reitero estar completamente de acordo com os fundamentos adotados pela decisão recorrida nas questões preliminares acima elencadas, razão pela qual nego- lhes provimento. Razões de Mérito A questão fulcral a ser dirimida neste voto parece-me que caminha no sentido de determinar, primeiramente, a exata natureza dos benefícios fiscais excluídos pela Recorrente na apuração da base de cálculo do IRPJ e da CSLL e, a partir daí, confirmar ou não se tais benefícios atendem aos requisitos legais firmados em lei e nas decisões judiciais terminativas e vinculantes proferidas pelas mais altas cortes do país. A Fiscalização glosou as exclusões a título de subvenções conforme o quadro demonstrativo abaixo (vide TVF): Fl. 1973DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 19 Estas exclusões têm origem em incentivos gerados em todo o período fiscalizado nos seguintes valores: Os incentivos gerados, de acordo com cada um dos benefícios fiscais auferidos pela Contribuinte estão assim distribuídos: Portanto, extrai-se das planilhas acima que aproximadamente 87% dos benefícios gerados referem-se a operações voltadas à exportação dos produtos comercializados pela Recorrente. Apenas 17% das operações correspondem a vendas no mercado interno. Fl. 1974DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 20 A legislação que, segundo a Recorrente, teria reconhecido os benefícios e incentivos fiscais relativos ao ICMS como subvenções para investimento podem ser resumidas conforme o quadro abaixo: De forma exemplificativa vou me ater ao Decreto nº 2.212/14, editado pelo estado do Mato Grosso, que abarca a maior parte das operações listadas acima. Vejam o seu teor: DECRETO N° 2.212, DE 20 DE MARÇO DE 2014 - Aprova o Regulamento do ICMS e dá outras providências. REGULAMENTO DO IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES RELATIVAS À CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS E SOBRE PRESTAÇÕES DE SERVIÇOS DE TRANSPORTE INTERESTADUAL E INTERMUNICIPAL E DE COMUNICAÇÃO – ICMS (A QUE SE REFERE O DECRETO N° 2.212, DE 20 DE MARÇO DE 2014) Art. 1° Este regulamento dispõe sobre normas e procedimentos referentes ao Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS, com base no art. 155, inciso II, da Constituição Federal, no Código Tributário Nacional (Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966), na Lei Complementar (federal) n° 87, de 13 de setembro de 1996, na Lei n° 7.098, de 30 de dezembro de 1998, na Lei n° 8.797, de 8 de janeiro de 2008, observadas as alterações que lhes foram conferidas, nas demais leis, federais ou estaduais, que afetam o aludido imposto e o respectivo processo administrativo, bem como em atos celebrados no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, além de outros Atos editados tratando de matéria com reflexos no citado tributo. (cf. art. 1° da Lei n° 7.098/98, alterado pela Lei n° 7.364/2000) (...) CAPÍTULO III DA NÃO INCIDÊNCIA Seção I Fl. 1975DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 21 Das Disposições Gerais relativas à Não Incidência Art. 5° O imposto não incide sobre: (v. caput do art. 4° da Lei n° 7.098/98) (...) II – operações e demais prestações não previstas no inciso XIX do caput deste artigo, que destinem ao exterior mercadorias, inclusive produtos primários e produtos industrializados semielaborados, ou serviços, observado o disposto nos artigos 6° a 11; (...) § 3° Equipara-se às operações de que trata o inciso II do caput deste artigo a saída de mercadoria realizada com o fim específico de exportação para o exterior, destinada a: (cf. § 3° do art. 4° da Lei n° 7.098/98) I – empresa comercial exportadora, inclusive tradings ou outro estabelecimento da mesma empresa; II – armazém alfandegado ou entreposto aduaneiro. ANEXO IV DAS OPERAÇÕES E PRESTAÇÕES ALCANÇADAS POR ISENÇÃO DO ICMS (a que se refere o artigo 17 das disposições permanentes) (...) Seção II Da Isenção em Operações com Insumos para a Agropecuária em Geral Art. 115 Operações internas realizadas com os insumos agropecuários a seguir indicados: (cf. cláusula terceira do Convênio ICMS 100/97 e alterações) (...) XIX – milho, quando destinado a produtor, à cooperativa de produtores, à indústria de ração animal ou órgão oficial de fomento e de desenvolvimento agropecuário vinculado ao Estado; XX – amônia, ureia, sulfato de amônio, nitrato de amônio, nitrocálcio, MAP (mono-amônio fosfato), DAP (diamônio fosfato), cloreto de potássio, adubos simples e compostos, fertilizantes e DL Metionina e seus análogos, produzidos para uso na agricultura e na pecuária, vedada a sua aplicação quando dada ao produto destinação diversa; (Grifos meus) O Decreto nº 2.212/2014 é a norma que instituiu o Regulamento do ICMS do estado do Mato Grosso e tem por base legal o art. 155, inciso II, da Constituição Federal, o Código Tributário Nacional (Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966), a Lei Complementar (federal) n° 87, de 13 de setembro de 1996, a Lei n° 7.098, de 30 de dezembro de 1998 (lei estadual que consolida as normas relativas ao ICMS, conforme o disposto na Constituição Federal e na LC nº 87/96) e a Lei Fl. 1976DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 22 n° 8.797, de 8 de janeiro de 2008 (lei estadual que disciplina o Processo Administrativo Tributário no MT). Uma das normas que fundamentam o Decreto nº 2.212/2014 é a Lei Complementar nº 87/96 que, a partir do comando constitucional inserido no art. 155, § 2º, inciso XI, dispõe sobre o ICMS, e dá outras providências. Vejam o disposto no seu art. 3º, inc. II e seu parágrafo único: Art. 3º O imposto não incide sobre: (...) II - operações e prestações que destinem ao exterior mercadorias, inclusive produtos primários e produtos industrializados semi-elaborados, ou serviços; (...) Parágrafo único. Equipara-se às operações de que trata o inciso II a saída de mercadoria realizada com o fim específico de exportação para o exterior, destinada a: I - empresa comercial exportadora, inclusive tradings ou outro estabelecimento da mesma empresa; II - armazém alfandegado ou entreposto aduaneiro. O texto acima, como não poderia deixar de ser, foi reproduzido no art. 5º do Decreto nº 2.212/2014, como vimos anteriormente. Dito isto, é de solar clarividência que se trata de norma geral e objetiva, pois são instituídas e direcionadas a determinados produtos ou atividades, sem que se exija qualquer contrapartida específica por parte dos Contribuintes alcançados pela mesma. Neste diapasão, vale reproduzir trecho das contrarrazões apresentadas pela PGFN, às e-fls. 1.714 a 1.719, com o qual me coaduno inteiramente: II.3. Isenções concedidas em caráter geral não correspondem a acréscimo de recursos em favor do contribuinte, e portanto não podem ser classificadas como subvenção para investimento 67. Como visto, os benefícios fiscais que o Recorrente fez jus (venda com isenção, redução na base de cálculo, dispensa de pagamento do ICMS diferido e venda com fins específicos de exportação) são isenções totais ou parciais de tributo, que beneficiam todos os contribuintes que realizem as operações de venda de mercadorias, e não sujeitas a qualquer tipo de contrapartida dos particulares. 68. Os benefícios fiscais foram objeto de regulamentação pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/2000) que, em seu art. 14, definiu o seguinte: “Art. 14. A concessão ou ampliação de incentivo ou benefício de natureza tributária da qual decorra renúncia de receita deverá estar acompanhada de estimativa do impacto orçamentário-financeiro no exercício em que deva iniciar sua vigência e nos dois seguintes, atender ao disposto na lei de diretrizes orçamentárias e a pelo menos uma das seguintes condições Fl. 1977DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 23 I - demonstração pelo proponente de que a renúncia foi considerada na estimativa de receita da lei orçamentária, na forma do art. 12, e de que não afetará as metas de resultados fiscais previstas no anexo próprio da lei de diretrizes orçamentárias; II - estar acompanhada de medidas de compensação, no período mencionado no caput, por meio do aumento de receita, proveniente da elevação de alíquotas, ampliação da base de cálculo, majoração ou criação de tributo ou contribuição. § 1º A renúncia compreende anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, CONCESSÃO DE ISENÇÃO EM CARÁTER NÃO GERAL, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo que implique redução discriminada de tributos ou contribuições, e outros benefícios que correspondam a tratamento diferenciado”. [...] 71. O §1º do art. 14 da LRF diz que as isenções em caráter não geral são consideradas benefício de natureza tributária por meio de renúncia de receita. 72. O TCU, no Acórdão 747/2010 Plenário, esclareceu que a “isenção em caráter não geral”, prevista no art. 14, §1º da LRF, são as isenções concedidas a contribuintes determinados, que possuem tratamento diferenciado em face dos demais sujeitos passivos. Confira-se: “De mais a mais, entendo pertinente o reforço do esclarecimento quanto à amplitude da isenção considerada para fins do disposto no § 1º do art. 14 da LRF ("A renúncia compreende anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, concessão de isenção em caráter não geral, alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo que implique redução discriminada de tributos ou contribuições, e outros benefícios que correspondam a tratamento diferenciado"), a qual abrange, para as espécies em destaque, apenas todo e qualquer benefício resultado de tratamento de caráter especial ou específico para contribuintes, de natureza diria quase personalística, podendo também considerar extratos sociais ou econômicos. Equivale a dizer que concessões de isenção em caráter geral, alterações de alíquota ou modificações de base de cálculo que impliquem em redução não discriminada de tributos ou contribuições, bem assim outras espécies que não impliquem em tratamento diferenciado, ou seja, que se revistam de generalidade, não se subsumem à regra do art. 14 da LRF, uma vez que, dadas as sete espécies previstas no referido dispositivo (§ 1º) para o gênero renúncia, houve por bem o legislador ordinário em adjetivar, de modo restritivo, apenas as três últimas (isenção, redução de alíquota e base de cálculo e outros benefícios), infirmando-as de modo a conferir-lhes condição de diferenciação no sistema tributário, o que permite concluir pela restrição à incidência da norma (art. 14 da LRF), no contexto de condições expressas e objetivas para a sua aplicação”. Fl. 1978DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 24 73. Ainda acerca do conceito de isenção em caráter não geral para fins de aplicação do art. 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal, cabe também fazer referência ao PARECER SEI Nº 6092/2020/ME3 , da Coordenação-Geral de Assuntos Tributários da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, que explica o seguinte: [...] 75. Portanto, quando o Estado concede isenção em caráter não geral, para determinado contribuinte, entende-se que há ato equiparado a dispêndio público, visando uma determinada finalidade econômica ou social. 76. Por outro lado, quando o Estado concede isenção em caráter geral, ou seja, para todos os contribuintes, indiscriminadamente, não há renúncia de receita pública, visando finalidade econômica ou social. 77. Ou seja, se o contribuinte se beneficia de isenção em caráter geral, não está recebendo “renúncia de receita”. 78. Ocorre que a condição para a dedução da subvenção para investimentos, prevista no art. 30 da Lei 12.973/2014, é que o benefício de natureza tributária, inclusive mediante isenção ou redução de impostos, vise a implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. 79. Ora, o contribuinte que goza de isenção em caráter geral não recebe “renúncia de receita” pública, e portanto não goza de benefício de natureza tributária para implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. 80. Em resumo: i. a isenção geral não corresponde a renúncia de receitas; ii. a isenção não geral corresponde a renúncia de receitas; iii. só é possível que o Estado conceda o benefício fiscal para investimentos, previsto no art. 30 da Lei 12.973/2014, caso realize algum tipo de transferência de recursos (via despesa pública ou renúncia de receitas) para os contribuintes; iv. o contribuinte que se beneficia de isenção geral não está recebendo “renúncia de receita” pública, conforme previsão contida no art. 14 da LRF; v. se o contribuinte não recebe nenhuma “renúncia de receita” pública, não há benefício fiscal a ser utilizado para investimento; vi. o benefício de ICMS que corresponde a isenção geral não cumpre os requisitos de dedutibilidade da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, previstos no art. 30 da Lei 12.973/2014 81. Perceba-se que o entendimento acima está totalmente alinhado com o definido pelo STJ no Tema 1.182. 82. Em primeiro lugar, porque, como visto, o STJ distinguiu os benefícios fiscais que representam algum tipo de dispêndio do Fisco Estadual em favor do Fl. 1979DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 25 contribuinte, daqueles que não configuram dispêndio, a exemplo das isenções e reduções gerais. 83. O STJ afirmou claramente que as isenções de ICMS não podem ser excluídas da base de cálculo do IRPJ e da CSLL porque não correspondem a uma receita dos contribuintes. Consta do voto condutor do Resp 1.987.158 que retirar esses valores da base de cálculo do IRPJ e da CSLL configuraria verdadeira isenção heterônoma vedada pela Constituição Federal de 1988. 84. Por outro lado, o STJ também decidiu que, conforme o art. 30, §4º da Lei 12.973/2014, as isenções de ICMS poderão ser consideradas subvenção para investimento, se cumpridas as condições do art. 30 da Lei 12.973/2014. 85. É verdade que, consoante o STJ, para fins de aplicação do art. 30 da Lei 12.973/2014, não cabe ao Fisco verificar se a legislação estadual ou distrital concedeu, na origem, subvenção para investimento. 86. Entretanto, nas isenções gerais não há renúncia de receita do Estado em favor dos particulares. Portanto, os contribuintes não recebem nenhuma transferência pública que possa ser vinculada a algum tipo de investimento em implantação ou expansão de empreendimento econômico. 87. Ausente qualquer ação estatal que possa ser classificada como renúncia de receita em favor do contribuinte, não há benefício fiscal que possa ser classificado como subvenção para investimento, nos termos do art. 30 da Lei 12.973/2014. (Grifos meus) Do texto acima, com o qual estou de pleno acordo, extrai-se que no caso da concessão de isenção de caráter não geral, específica para determinado Contribuinte, em situações perfeitamente delimitadas, entende-se que há ato equiparado a dispêndio público, visando uma determinada finalidade econômica ou social. Ao contrário, quando o ente federado concede isenção em caráter geral, ou seja, para todo o universo de contribuintes, indiscriminadamente, não há renúncia de receita pública que vise qualquer finalidade econômica ou social. E, não havendo renúncia de receita pública ou dispêndio público que vise a uma determinada finalidade econômica ou social, não se configura o conceito de subvenção governamental. Isso porque a subvenção governamental é concedida por uma norma estatal com vistas à instituição de um benefício econômico determinado, quantificado em dinheiro, a um beneficiário específico e perfeitamente identificado, ou a um conjunto de beneficiários que atendam a critérios previamente estabelecidos. Assim, em resumo, a primeira conclusão a que chegamos é de que as normas arroladas pela Contribuinte e que lhe confeririam o direito aos vários benefícios e incentivos fiscais gozados nos anos calendários fiscalizados, não se tratam, de forma alguma, de subvenções governamentais, sejam elas de custeio ou de investimento. Fl. 1980DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 26 Ou seja, os valores que deixaram de ser arrecadados por força das isenções/reduções/etc do ICMS não se constituem em receita da Contribuinte. O ICMS é um tributo indireto, é destacado na nota fiscal e tem seu encargo financeiro repassado ao consumidor final de bens e serviços. Portanto, ao deixar de incidir na operação sobre vendas com isenção/redução/etc, a desoneração se dará na figura do consumidor, e não para o vendedor. Se alguém vier a obter ganho nessa operação, esse alguém será o consumidor e não o vendedor. Tal conclusão tem fundamento na própria essência do ICMS, cujo valor compõe a própria base de cálculo por força de lei (art. 13, § 1°, inciso I, da Lei Complementar n° 87, de 13 de setembro de 1996) – por isso se diz que é calculado “por dentro”; tal característica garante a repercussão jurídica desse tributo na figura do adquirente. Isto posto, verifica-se que quando a Contribuinte vende seus produtos com isenção/redução/etc do ICMS não obtém qualquer ganho, juridicamente falando, pois não foi ela quem deixou de suportar o valor do tributo exonerado. Ao não gerar qualquer ganho ou renda àquela contribuinte alcançada pela isenção/redução/etc, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL não podem sofrem qualquer interferência ou ajuste na sua apuração, pois não se pode excluir aquilo que nunca foi incluído. Explicando melhor, os valores exonerados não podem ser considerados como receita pois não transitam por contas de resultado; por conseguinte, não deverão compor o lucro líquido da empresa. E se tais valores não compõem o lucro líquido, nada há para ser excluído na apuração do lucro real, base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Poderíamos parar a discussão por aqui, haja vista termos chegado à conclusão de que os valores exonerados da Contribuinte por força das isenções/reduções/etc, concedidas em caráter geral e objetivo, não se caracterizam como subvenção. Também pontuamos que tais valores, efetivamente, não transitam por contas de resultado, pois não se constituem de ganhos efetivos da Contribuinte e, por conseguinte, nenhuma lógica ou autorização legal existem para sua exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Mas, por amor ao debate e, para que não paire nenhuma dúvida a respeito das alegações da Recorrente, nos reportaremos às suas principais arguições, apresentadas desde o desenrolar do procedimento fiscal, qual sejam, o estrito cumprimento do disposto no art. 30 da Lei nº 12.973/2014, com a redação conferida pela Lei Complementar nº 160/2017, e as teses fixadas pelo STJ no Tema 1.182. Como vimos acima, a isenção/redução/etc de ICMS não gera qualquer resultado ou renda para o contribuinte; portanto, o que a Recorrente excluiu das bases de cálculo de IRPJ e da CSLL constitui-se de outros rendimentos que não as alegadas subvenções para investimento. Assim, os rendimentos excluídos (sejam eles operacionais ou não operacionais) são, a princípio, tributáveis para fins de IRPJ e CSLL. Sua exclusão das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL dependeria, sob qualquer fundamento ou hipótese, de lei de iniciativa da União, a quem é dada a competência constitucional para instituir tais tributos. Fl. 1981DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 27 Admitir a tese da Recorrente seria o mesmo que consentir que os estados membros pudessem instituir uma desoneração dita heterônoma; seria como admitir que uma lei estadual tivesse o condão de autorizar a exclusão desses “outros rendimentos” das bases de cálculo de tributos cuja competência para sua instituição é unicamente da União. Com certeza não foi esse o entendimento proferido pelo STJ no Tema 1.182. Vejam o seu teor: 1. Impossível excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, salvo quando atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014), não se lhes aplicando o entendimento firmado no ERESP 1.517.492/PR que excluiu o crédito presumido de ICMS das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. 2. Para a exclusão dos benefícios fiscais relacionados ao ICMS, - tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL não deve ser exigida a demonstração de concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. 3. Considerando que a Lei Complementar 160/2017 incluiu os §§ 4º e 5º ao art. 30 da Lei 12.973/2014 sem entretanto revogar o disposto no seu § 2º, a dispensa de comprovação prévia, pela empresa, de que a subvenção fiscal foi concedida como medida de estímulo à implantação ou expansão do empreendimento econômico não obsta a Receita Federal de proceder ao lançamento do IRPJ e da CSSL se, em procedimento fiscalizatório, for verificado que os valores oriundos do benefício fiscal foram utilizados para finalidade estranha à garantia da viabilidade do empreendimento econômico. Para uma melhor compreensão em relação ao decidido pelo STJ, vejamos o teor dos arts. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e do art. 30, da Lei n. 12.973/2014: Lei Complementar nº 160/2017 Art. 10. O disposto nos §§ 4º e 5º do art. 30 da Lei no 12.973, de 13 de maio de 2014, aplica-se inclusive aos incentivos e aos benefícios fiscais ou financeiro- fiscais de ICMS instituídos em desacordo com o disposto na alínea ‘g’ do inciso XII do § 2º do art. 155 da Constituição Federal por legislação estadual publicada até a data de início de produção de efeitos desta Lei Complementar, desde que atendidas as respectivas exigências de registro e depósito, nos termos do art. 3º desta Lei Complementar. Lei nº 12.973/2014 Art. 30. As subvenções para investimento, inclusive mediante isenção ou redução de impostos, concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos e as doações feitas pelo poder público não serão computadas na determinação do lucro real, desde que seja registrada em Fl. 1982DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 28 reserva de lucros a que se refere o art. 195-A da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, que somente poderá ser utilizada para: I - absorção de prejuízos, desde que anteriormente já tenham sido totalmente absorvidas as demais Reservas de Lucros, com exceção da Reserva Legal; ou II - aumento do capital social. § 1º Na hipótese do inciso I do caput, a pessoa jurídica deverá recompor a reserva à medida que forem apurados lucros nos períodos subsequentes. § 2º As doações e subvenções de que trata o caput serão tributadas caso não seja observado o disposto no § 1º ou seja dada destinação diversa da que está prevista no caput, inclusive nas hipóteses de: I - capitalização do valor e posterior restituição de capital aos sócios ou ao titular, mediante redução do capital social, hipótese em que a base para a incidência será o valor restituído, limitado ao valor total das exclusões decorrentes de doações ou subvenções governamentais para investimentos; II - restituição de capital aos sócios ou ao titular, mediante redução do capital social, nos 5 (cinco) anos anteriores à data da doação ou da subvenção, com posterior capitalização do valor da doação ou da subvenção, hipótese em que a base para a incidência será o valor restituído, limitada ao valor total das exclusões decorrentes de doações ou de subvenções governamentais para investimentos; ou III - integração à base de cálculo dos dividendos obrigatórios. § 3º Se, no período de apuração, a pessoa jurídica apurar prejuízo contábil ou lucro líquido contábil inferior à parcela decorrente de doações e de subvenções governamentais e, nesse caso, não puder ser constituída como parcela de lucros nos termos do caput, esta deverá ocorrer à medida que forem apurados lucros nos períodos subsequentes. § 4º Os incentivos e os benefícios fiscais ou financeiro-fiscais relativos ao imposto previsto no inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal, concedidos pelos Estados e pelo Distrito Federal, são considerados subvenções para investimento, vedada a exigência de outros requisitos ou condições não previstos neste artigo. § 5º O disposto no § 4º deste artigo aplica-se inclusive aos processos administrativos e judiciais ainda não definitivamente julgados. (Incluído pela Lei Complementar nº 160, de 2017) Primeiramente, vejamos o que significa a expressão contida no item 1 do Tema 1.182 que, literalmente, assevera ser “Impossível excluir os benefícios fiscais relacionados ao ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, salvo quando atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014)”. Em regra, a decisão judicial Fl. 1983DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 29 estabelece que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc não são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; a exceção se configura no caso em que forem atendidos os requisitos previstos em lei (art. 10, da Lei Complementar n. 160/2017 e art. 30, da Lei n. 12.973/2014). O art. 10 da LC nº 160/2017 faz referência aos benefícios fiscais ou financeiros- fiscais do ICMS instituídos em desacordo com o disposto na alínea “g” do inciso XII do § 2º do art. 155 da Constituição Federal; trata-se, no caso, daqueles benefícios instituídos por diversos estados brasileiros no âmbito daquilo que se apelidou de “guerra fiscal”. Portanto, ao dispor que também para esses benefícios aplica-se o disposto nos §§ 4º e 5º do art. 30 da Lei nº 12.973/2014, nada mais está a dizer do que, também a estes benefícios, deve ser dado o tratamento de subvenções para investimento. Já que foi citado, o § 4º do art. 30 da Lei nº 12.973/2014 determina que “os incentivos e os benefícios fiscais ou financeiro-fiscais relativos ao imposto previsto no inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal, concedidos pelos Estados e pelo Distrito Federal, são considerados subvenções para investimento, vedada a exigência de outros requisitos ou condições não previstos neste artigo”. Em sua parte final está disposto que para tal consideração (como sendo subvenções para investimento) não é admitida “a exigência de outros requisitos ou condições não previstos neste artigo”, o que nos remete ao caput do art. 30, onde identificamos que o requisito para a exclusão do benefício fiscal da base de cálculo do IRPJ e da CSLL é a sua concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos; já a condição estabelecida pelo precitado artigo é justamente o registro do benefício em reservas de lucros. Conclui-se, portanto, da leitura do item 1 do Tema 1.182, que os benefícios fiscais de isenção/redução/etc são passíveis de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL tão somente quando forem instituídos com o intuito de estimular a implantação ou expansão de empreendimentos econômicos E quando registrados em reservas de lucros (atendidas as restrições contidas no próprio dispositivo legal). Tal conclusão apenas reforça o entendimento de que benefícios concedidos de forma geral e objetiva, como é o caso dos autos, não podem ser considerados como subvenção (muito menos de investimento), não podendo, portanto, serem excluídos da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Passemos, pois, ao disposto nos itens 2 e 3 do Tema 1.182. O item 2 determina que não deva ser exigida a demonstração da concessão dos benefícios fiscais do ICMS como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos para efeito de sua exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. E no item 3, para complementar tal assertiva, o STJ assevera que tal dispensa de comprovação não obsta “a Receita Federal de proceder ao lançamento do IRPJ e da CSSL se, em procedimento fiscalizatório, for verificado que os valores oriundos do benefício fiscal foram utilizados para finalidade estranha à garantia da viabilidade do empreendimento econômico”. Dessa forma, o STJ reforça, mais uma vez, a necessidade de que o benefício concedido e excluído da apuração do IRPJ e da CSLL tenha sido concedido com o objetivo Fl. 1984DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 30 finalístico de estimular a implantação ou a expansão de determinado empreendimento econômico, tudo conforme o disposto no art. 30 da Lei nº 12.973/2014. Volto a reproduzir excerto das contrarrazões da PGFN, em que se resumem essas questões tratadas acima e com as quais estou plenamente de acordo: i. A Lei Complementar 160/2017 e os parágrafos 4º e 5º da Lei 12.973/2014 não revogaram o art. 30, caput, §§1º e 2º da Lei 12.973/2014. O §2º do art. 30 da Lei 12.973/2014 estabelece claramente que § 2º As doações e subvenções de que trata o caput serão tributadas caso não seja observado o disposto no § 1º ou seja dada destinação diversa da que está prevista no caput ii. Portanto, remanesce como requisito para a dedução, previsto no caput do art. 30 da Lei 12.973/2014, o direcionamento dos recursos provenientes de benefícios fiscais de ICMS a investimentos; iii. Os requisitos de formação de reserva de lucros e impossibilidade de distribuição da reserva aos sócios ou acionistas possui, como premissa inafastável, o recebimento e direcionamento de recursos provenientes de benefícios fiscais para investimentos. Sem a comprovação de tal direcionamento, não há sentido lógico na formação de reserva de lucros (já que não existe receita ou lucro que forme essa reserva. Esse aspecto será explorado no tópico abaixo); iv. O STJ, no Tema 1.182, dispensou a prova de que a legislação estadual ou distrital tenha instituído subvenção para investimento. Entretanto, cabe ao contribuinte cumprir o requisito para dedução (direcionamento da verba para investimentos) previsto no art. 30 da Lei 12.973/2014. Conforme se extrai da ementa do EDcl no REsp 1987158/SC É MISTER O DIRECIONAMENTO DO RESULTADO DO BENEFÍCIO À IMPLANTAÇÃO OU EXPANSÃO DE EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS; v. A Solução de Consulta Cosit 11/2020, apesar de ter afirmado que os incentivos fiscais relativos ao ICMS devem ser considerados subvenções para investimento, não tratou dos requisitos para a dedutibilidade desses incentivos, conforme previsão contida no art. 30 da Lei 12.973/2014. O requisito foi esclarecido na Solução de Consulta Cosit 145/2020, que definiu que “A partir da Lei Complementar nº 160, de 2017, os incentivos e os benefícios fiscais ou financeiro-fiscais relativos ao ICMS, concedidos por estados e Distrito Federal e considerados subvenções para investimento por força do § 4º do art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014, poderão deixar de ser computados na determinação do lucro real desde que observados os requisitos e as condições impostos pelo art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014, dentre os quais, a necessidade de que tenham sido concedidos como estímulo à implantação ou expansão de Fl. 1985DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 31 empreendimentos econômicos”. Não há, portanto, que se falar em “efeito vinculante” da Solução de Consulta Cosit 11/2020. Assim, caem por terra, conforme acima exposto, as razões arguidas pela Contribuinte de que teria cumprido com o disposto nas teses fixadas pelo STJ no Tema 1.182 e no art. 30 da Lei nº 12.973/2014, com a redação conferida pela Lei Complementar nº 160/2017, além da observância do decidido através das Soluções de Consulta da COSIT de nºs 11/2020 e 145/2020. Tratando especificamente das Soluções de Consulta citadas pela Contribuinte, e que teriam sido rigorosamente seguidas por ela no seu proceder, a Receita Federal colocou uma pá de cal na discussão ao editar o Ato Declaratório Interpretativo nº 04/2024, aplicável a fatos pretéritos e vinculante para qualquer interpretação que se queira dar às orientações emanadas do COSIT. Abaixo reproduzo o seu inteiro teor: Art. 1º Este Ato Declaratório Interpretativo dispõe sobre o tratamento tributário aplicável às subvenções para investimento, de que trata o art. 30 da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014. Art. 2º A finalidade do art. 30 da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, é impedir que o acréscimo patrimonial proporcionado pela receita correspondente às transferências de recursos qualificadas como subvenções para investimento, realizadas por pessoas jurídicas de direito público, seja computado na determinação do lucro real, desde que atendidos os requisitos e condições nele previstas, além do disciplinamento contido no art. 198 da Instrução Normativa RFB nº 1.700, de 14 de março de 2017, sem prejuízo do disposto no § 4º do referido art. 30. § 1º A receita de que trata o caput é aquela reconhecida e mensurada em estrita observância aos requisitos previstos na Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e, subsidiariamente, nas normas contábeis, sem prejuízo do disposto no § 2º. § 2º Os valores registrados na escrituração comercial, correspondentes à receita referida no § 1º, deverão ser comprovados por documentos hábeis, segundo a sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais, conforme o disposto no art. 9º, § 1º, do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. Art. 3º O art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014, possui natureza jurídica de ajuste de exclusão ao lucro líquido do período de apuração para fins de determinação do lucro real, cuja aplicação está inserida na sistemática dessa determinação. Parágrafo único. Para a exclusão da parcela integrante do lucro líquido do período de apuração é fundamental que tal valor corresponda ao acréscimo patrimonial de que trata o art. 2º. Art. 4º Nos termos do art. 30, § 4º, da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, os incentivos e benefícios fiscais ou financeiro-fiscais referentes ao Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços Fl. 1986DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 32 de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação - ICMS equiparam-se, para fins de apuração do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas - IRPJ, às subvenções para investimento, desde que atendidos os requisitos e condições previstos no art. 30 da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014. Parágrafo único. A exclusão prevista no art. 3º, relativamente aos incentivos e benefícios de que trata o caput: I - também deverá corresponder ao acréscimo patrimonial proporcionado para a pessoa jurídica por tais incentivos e benefícios, de modo a impedir que sejam incluídos na base de cálculo do IRPJ; e II - não será realizada, caso não haja acréscimo patrimonial para a pessoa jurídica, de modo a evitar que a base de cálculo do IRPJ seja reduzida indevidamente. Art. 5º O disposto no presente Ato Declaratório Interpretativo aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, nos termos do art. 50 da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014. Art. 6º Publique-se no Diário Oficial da União Assim, restou definitivamente consagrado no âmbito da Administração Tributária que, em se tratando de subvenções de ICMS há que ser considerado o seguinte: a) Primeiramente, deve-se perquirir se a subvenção recebida corresponde a uma transferência de recursos do Estado para a Contribuinte, não se aplicando, portanto, aos benefícios que têm como destinatários os adquirentes das mercadorias ou os tomadores de serviços; b) A subvenção recebida deve ser contabilizada a crédito de receita, tendo como contrapartida um lançamento a débito, seja decorrente de aumento de ativo ou redução de passivo; c) A subvenção recebida deve resultar em acréscimo patrimonial e compor o lucro contábil; d) Por último, as exclusões da base de cálculo do IRPJ e da CSLL devem corresponder ao exato valor das subvenções recebidas, devendo ser glosadas no caso de excesso em relação aos valores obtidos. Tais requisitos e/ou conclusões estão de acordo com o Tema 1.182 do STJ, que assevera somente ser possível a aplicação do art. 30 da Lei nº 12.973/2014 aos casos em que o resultado do benefício seja direcionado à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. Em relação à multa de ofício, a decisão recorrida afastou a qualificação e, consequentemente, reconheceu a decadência dos fatos geradores ocorridos em 2017; a DRJ Fl. 1987DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 33 considerou que o procedimento adotado pela Contribuinte, apesar de equivocado, dependeria da caracterização do dolo do sujeito passivo, por agir com evidente intuito de fraude, o que não teria ocorrido pelo fato de que o seu proceder resultou de divergências quanto à interpretação da legislação tributária aplicável, em especial, no caso concreto, por tratar-se de matéria de relevante e disseminada controvérsia jurídica. Assim, com o afastamento da qualificação da multa de ofício, requer-se a apreciação do recurso necessário a este Conselho, haja vista o valor exonerado ter suplantado o limite estabelecido pela Portaria MF nº 2, de 2023, (quando o valor em discussão é superior a R$ 15 milhões). No mérito do afastamento da qualificação da multa de ofício, discordo da decisão recorrida. Como vimos anteriormente, o procedimento da Recorrente está calcado em uma premissa absolutamente falsa, qual seja, a de que as isenções/reduções/etc do ICMS incidentes sobre as operações que pratica, e que lhe foram concedidas via normas revestidas de caráter geral e objetivo, gerariam benefícios enquadrados como se subvenções para investimento fossem. Dessa forma, apropriou-se do arcabouço legal/jurisprudencial vigente, relativo aos efeitos fiscais/tributários incidentes quando da percepção de tais subvenções governamentais, para beneficiar-se pela redução das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL. Mas não ficou somente no campo das alegadas interpretações jurídicas consideradas equivocadas pela Fiscalização. Foi além, agindo dolosamente para perpetrar uma fraude na sua escrita contábil no intuito de dar um verniz de legalidade à tese de que faz jus a uma verdadeira subvenção de investimento via isenções/reduções/etc de ICMS. Conforme muito bem delineado no Termo de Verificação Fiscal, a Contribuinte lançou mão de registros contábeis eivados do vício da simulação, efetuados com o intuito de demonstrar o cumprimento, tanto da percepção do benefício como se subvenção fosse, quanto do atendimento ao comando legal insculpido no art. 30 da Lei nº 12.973/2014 de lançar tais recursos em reservas de lucros. Vejam como se manifestou a Autoridade Fiscal: Registros contábeis, se corretamente realizados e interpretados, explicam a essência de todos os fatos econômicos. A escrituração contábil é uma obrigação óbvia para identificação de bens, direitos e obrigações reais das entidades. É condição básica porque determinado fato econômico, se não registrado, não pode ser aferido e mensurado corretamente. A escrituração contábil serve, portanto, para registro de fatos e eventos reais que efetivamente afetam o patrimônio das empresas. Mas o simples registro contábil não gera, concede, ou garante um direito. Antes do registro é necessário a realidade, a existência factual do bem ou direito. Na contabilidade da SIPAL, a “subvenção” escriturada simplesmente NÃO EXISTE! E os registros efetuados servem apenas e tão somente para uma simulação, uma Fl. 1988DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 34 fraude, que tenta reduzir, indevidamente, obrigações sociais que deveriam ter sido recolhidas ao erário. Neste caso, os registros contábeis e a escrituração fiscal no LALUR eram absolutamente desnecessários, podendo mesmo ser considerada indevida. Os registros foram feitos, exclusivamente, para simular uma mutação que, se tivesse ocorrida de fato, poderia resultar numa redução de tributos. O simples registro não comprova o fluxo ou a mutação patrimonial. Como veremos a seguir, os registros efetuados nas contas de Ativo e Passivo da fiscalizada não correspondem a alterações patrimoniais reais, pois sequer ocorreram fluxos reais de valores, direitos ou obrigações. Como veremos também, a constituição de Reserva para Incentivos Fiscais, com valores transferidos dos Resultados de Exercício, objetivou apenas dar aparência à exigência central do caput do art. 30 da 12.973/2014 (constituição de Reservas de Lucros). Os registros contábeis relacionados às pretensas Subvenções auditadas neste procedimento são fictícios. Têm por objetivo exclusivo simular fatos econômicos inexistentes e fraudar, escandalosamente, o recolhimento de IRPJ e CSLL. Evidenciaremos essas constatações pela explicitação de quatro aspectos: a) Exposição dos lançamentos fictícios e sem substância realizados pela fiscalizada; b) Espelhando as informações falsas pela comparação dos lançamentos com as amostras de operações apresentadas pela fiscalizada; c) Exemplificando, a partir de amostra apresentada, a forma correta de contabilização e escrituração fiscal de operações sem benefícios fiscais e com benefícios fiscais; d) Explicitando a falsa interpretação das orientações do Comitê de Pronunciamentos Contábeis – CPC 07 6.1 - Os lançamentos contábeis, sem substância, de receitas não auferidas e não reconhecidas A fiscalizada utiliza duas contas de resultado, uma a Débito e outra à Crédito, na escrituração contábil das pretensas receitas de subvenções. Ou seja, produz lançamentos que se anulam e não produzem nenhuma mutação patrimonial na empresa. Após apurar um Lucro Contábil, não afetado pelas pretensas receitas, procede à exclusão dos mesmos valores na apuração do Lucro Real. De dezembro/ 2017 a maio/2018 os lançamentos contábeis expunham de forma mais explícita a simulação da fiscalizada. Às fls. 792/793, se encontram partida e contrapartida da escrituração contábil nestes períodos. Em 2017, os lançamentos que tentam dar aparência, simulam, o recebimento do benefício, são escriturados da seguinte forma: Fl. 1989DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 35 a) Um lançamento que se anula para fins de acréscimo patrimonial, debitando uma conta contábil de resultado (31301000101101 - I.C.M.S) e creditando uma outra conta do mesmo grupo de resultado (31301001101101 - ICMS - SUBVENCAO PARA INVESTIMENTOS). b) Um segundo lançamento absolutamente imprestável, para não dizer ridículo, porque escritura partida e contrapartida contra ela mesma, reproduz a nulidade no Passivo. Os lançamentos na conta de passivo 21301001101101– ICMS BENEFÍCIO FISCAL LC 160/2017 representam uma situação sui generis, algo parecido com um passivo natimorto de ICMS com os estados. Foi registrado, mas nunca existiu. Um lançamento surreal sem nenhuma mutação no patrimônio da empresa. Vejam a transcrição abaixo: c) Para cumprir, apenas aparentemente, o preceito contido no caput do artigo 30 da Lei nº 12.973/2014, a fiscalizada constitui uma Reserva de Lucros a título de Subvenções para investimentos. A constituição dessa reserva registra a transferência de Lucros da conta 24501000201101- LUCROS OU PREJUIZOS ACUMULADOS (débito), para a conta 24202001101101- RESERVA LUCROS- SUBVENCAO P/INVESTIMENTOS (crédito) da seguinte forma: A constituição dessa reserva, com esse nome ou não, poderia ser realizada pela fiscalizada. Mas é claro que os fatos econômicos, a origem patrimonial, que deram lastro à reserva nunca foram o recebimento de valores destinados pelos estados. No Termo de Constatação e Intimação Fiscal 02, às fls. 725/727, a inexistência de mutações patrimoniais nas contas de Receita e do Passivo foram objeto de constatação, sendo a fiscalizada, intimada a: “Demonstrar, de forma individualizada, como as diversas hipóteses de tratamento tributário do ICMS para cada uma das operações quantificadas em demonstrativos já apresentados (Venda com fins específicos para Exportação; Dispensa de pagamento do ICMS Diferido; Venda com Isenção de ICMS; Vendas com Redução na Base de Cálculo do ICMS e Dispensa de pagamento do ICMS Fl. 1990DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 36 sobre Frete) sensibilizaram o resultado da empresa. Ou seja, como resultaram em benefícios econômicos efetivos (acréscimo de Ativos ou de Receitas, ou a redução de Despesas/Passivos/Obrigações). Em resposta às fls. 737, a contribuinte apresenta a forma de escrituração adotada a partir de junho/2018. A forma de contabilização iniciada em 2017 é reproduzida até maio/2018, conforme cópia de razão contábil extraída da ECD, às fls. 961. A partir de junho/2018, a fiscalizada adota uma sutil alteração na forma de efetuar os lançamentos. Procede aos lançamentos nas mesmas contas de resultado, mas com contrapartida na conta de passivo. O efeito é exatamente o mesmo, mas a pequena alteração fornece melhor aparência a simulação, vinculando-a ao CPC 07 de forma equivocada e oportunista como abordaremos mais à frente. Assim, a mesma simulação contábil se faz presente a partir de maio/2018. Se utilizando de contrapartidas na conta de passivo 21301001101101 - ICMS BENEFÍCIO FISCAL LC 160/2017, a fiscalizada efetua dois lançamentos nas contas de resultado que se anulam. Um a crédito na conta 31301001101101 - ICMS - SUBVENCAO PARA INVESTIMENTOS (como se fosse receita) e outro a débito na conta 31301000101101 - I.C.M.S. (como se fosse despesa). Abaixo a imagem com a descrição dos lançamentos apresentados pela contribuinte às fls. 737 e 738. Credita-se uma receita inexistente. E no mesmo momento debita-se uma despesa, também inexistente. Fl. 1991DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 37 Ou seja, não há mutação no patrimônio. Não existem receitas ou ganhos a serem excluídos do LALUR e LACS, porque não há ajustes a serem realizados no Lucro Líquido conforme os artigos 260 e 261 do RIR/2018, anteriormente apresentados. Distorcendo a realidade, a contribuinte conclui que com os lançamentos acima, “...a subvenção acaba interferindo no resultado da fiscalizada, pois o valor do ICMS que deixou de ser pago em face dos benefícios fiscais se transforma em receita não tributável, com todos os seus reflexos contábeis e fiscais (conta 31301-0011)” Ora, não há interferência nenhuma. Qual “reflexo contábil” ocorreu se os lançamentos representaram um fato econômico fictício e vazio? Qual reflexo fiscal que não seja a indevida expectativa derivada de um planejamento tributário mais que abusivo? Assim como no ano calendário 2017, nos períodos subsequentes é também efetuado um lançamento a débito na conta 24501000101101 - Lucros Acumulados com crédito na conta 24202001101101- RESERVA LUCROS- SUBVENCAO P/INVESTIMENTOS. Como já destacado, essa formalização objetiva dar aparência ao cumprimento do contido no caput do artigo 30 da Lei nº 12.973/2014. Em tese, a constituição ou composição dessa reserva, com esse nome ou não, pode ser realizada pela fiscalizada a qualquer tempo. Trata-se de uma liberalidade possível à empresa. Fl. 1992DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 38 Na sequência da exposição da forma os lançamentos, a fiscalizada expõe a essência da ilusão que quer ver aceita pelo fisco. Às fls. 739, assevera: “A cronologia dos registros contábeis demonstra inequivocamente a repercussão patrimonial originada pelos incentivos e benefícios fiscais do ICMS concedidos pelos Estados, mediante a redução de despesas e o acréscimo das receitas que se transformam em lucros acumulados, que ao final do exercício são levados para a reserva de lucros.” Quanto delírio cabe num pedaço de papel! Senão vejamos: a) Os lançamentos não produziram repercussão patrimonial; b) Os lançamentos não produziram lucros acumulados; c) O que foi levado para reserva de lucros não foi originado em incentivos fiscais. Por fim e já buscando dar direção para a interpretação completamente distorcida, atrela seus argumentos ao CPC 07 nos seguintes termos: “Em face de que o ICMS é subvencionado, debita-se o imposto a recolher contra os percentuais de isenção, redução de base de cálculo, diferimento, dispensa de pagamento, etc., sobre cada operação (D - 21301-0011), lançando-se a crédito em conta de receita não tributável (31301-0011), a qual sensibiliza o resultado da empresa ao final de cada exercício, ao se transformar em Lucro Acumulado e ser posteriormente registrado em reserva de lucros. Tal sistemática de contabilização está balizada nos ditames do Comitê de Pronunciamentos Contábeis - CPF 07 “Subvenção e Assistência Governamentais”, que prescreve:” É claro que não ocorreu sensibilização alguma do resultado da empresa! Também não houve transformação em Lucro Acumulado originado de subvenções. A forma enviesada, para não dizer má-fé, destaca o lançamento a crédito de receita (31301-0011) e se “esquece” do lançamento a débito (31301-0001 – I.C.M.S.) tratado contabilmente e destacado (entre parênteses) como despesa dedutível pela contribuinte “(Despesa DEDUTÍVEL: Reduz a base do IRPJ e CSLL)”. Ora, a despesa também não existiu porque não houve ônus nenhum econômico. Se a contribuinte queria apenas registrar a despesas para efeitos de controle (como feito com a receita), então essa despesa deveria ser objeto de adição às Bases de Cálculo na apuração do Lucro Real, assim como a exclusão de Receita efetivada. Ambas (receita e despesa) são inexistentes, mas a fiscalizada, de forma ilícita e ardilosa, efetua somente a exclusão da primeira no LALUR/LACS. Como visto, a forma dos lançamentos efetuados a partir de junho/2018 produz os mesmos efeitos dos lançamentos efetuados até maio/2018, quais sejam: nenhuma mutação/alteração patrimonial. Na sequência do Termo de Verificação Fiscal a Autoridade Administrativa demonstra com um exemplo concreto a forma com que a Contribuinte realiza os lançamentos contábeis, no caso, de operações de saída de mercadorias com o fim específico de exportação, Fl. 1993DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 39 que correspondem a aproximadamente 87%, em termos de valor, das operações questionadas. Em seguida, didaticamente, a Autoridade Fiscal apresenta a forma correta de escrituração dos valores exonerados, para, enfim, desnudar a falsa interpretação dada pela Recorrente ao CPC-07, alegado como referência, pela Contribuinte, para defender a forma como escriturou os “benefícios recebidos”. Vejam que salta aos olhos a artificialidade dos lançamentos contábeis efetuados, pois, conforme muito bem dito pela Autoridade Fiscal, não redundaram em “sensibilização alguma do resultado da empresa”, bem assim, não geraram nenhuma mutação patrimonial, inexistindo a produção de lucros acumulados originados em incentivos fiscais. Abrindo um parênteses para falar do CPC-07, trata-se de uma norma contábil, e não uma regra fiscal. Além disso, “deve ser aplicado na contabilização e na divulgação de subvenção governamental e na divulgação de outras formas de assistência governamental”. Nesse contexto, o CPC-07 define subvenção governamental como sendo “uma assistência governamental geralmente na forma de contribuição de natureza pecuniária, mas não só restrita a ela, concedida a uma entidade normalmente em troca do cumprimento passado ou futuro de certas condições relacionadas às atividades operacionais da entidade. Não são subvenções governamentais aquelas que não podem ser razoavelmente quantificadas em dinheiro e as transações com o governo que não podem ser distinguidas das transações comerciais normais da entidade”. Resta bem claro do teor do próprio Pronunciamento que a sua aplicação restringe- se a benefícios concedidos a uma entidade isoladamente ou a um grupo de entidades que atendam a determinados critérios, previamente estabelecidos, de caráter geral e subjetivo. Portanto, os benefícios concedidos indistintamente a todos os contribuintes, como é o caso em apreço, de caráter geral e objetivo, relacionados unicamente aos produtos vendidos ou às atividades por eles desenvolvidas, não podem ser tidas por subvenções governamentais. Em não sendo subvenções governamentais, conforme fartamente já foi exposto anteriormente, inaplicáveis os ditames do CPC-07. Voltando aos fatos arrolados no Termo de Verificação Fiscal tidos por simulados pela Autoridade Autuante, entendo estar fartamente demonstrada a fraude empreendida pela Recorrente através dos lançamentos contábeis efetuados sem lastro e/ou fundamento. A recorrente lançou mão de sua contabilidade para camuflar o recebimento de subvenções para investimento. Neste caso, vejo claramente o propósito deliberado de trasmudar a natureza dos valores exonerados de ICMS via isenção/redução/etc, concedidas em caráter geral e objetivo, para com isso diminuir ou mesmo evitar a tributação do IRPJ e da CSLL. A Autoridade Fiscal fundamentou a aplicação da multa qualificada ao considerar que teria ficado evidenciado o intuito de fraude, na medida que a Contribuinte teria se utilizado de subterfúgio (simulação) ao realizar os lançamentos contábeis, da forma como procedeu, para “gerar” os benefícios ditos de subvenção para investimento. Vejam como ela se manifestou: Fl. 1994DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 40 A infração Exclusões Indevidas de Subvenções Não Recebidas está vinculada à uma simulação detalhadamente descrita no tópico 6. Como visto, todos os registros contábeis estão relacionados a fluxos e mutações patrimoniais inexistentes, fictos, servindo exclusivamente para deduções indevidas nas Bases de Cálculo do IRPJ e CSLL. A simulação identificada neste caso equivale ao conceito a fraude com definição contida no art. 72 da Lei n° 4.502, de 1964. Esse tipo de conduta está descrito nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964 abaixo transcritos: Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art. 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Os fatos descritos no curso do presente Termo de Verificação Fiscal concorrem para demonstrar o evidente intuito de fraude da autuada e, inequivocadamente, comprovam a conduta dolosa por esta praticada. Assim, a multa sobre os créditos tributários objeto da infração supra destacada será qualificada à alíquota de 100 % (cento por cento), conforme prescreve o art. 44, § 1º, inciso VI, da Lei 9.430/96, recém-introduzido no ordenamento legal pela Lei 14.689/2023. A decisão recorrida, ao afastar a qualificação, escudou-se no argumento de que no presente caso haveria forte divergência quanto à interpretação da legislação tributária aplicável. E, por considerar que a discussão trata de tema controvertido, que passou por mutações constantes, tendo sido objeto de diversas alterações legislativas, Pareceres Normativos, Soluções de Consulta, bem assim objeto de discussão em sede de recurso repetitivo, afastou a qualificação da multa de ofício. Ora, como já vimos anteriormente, não estamos apreciando tema controvertido, de alta indagação, nem subsiste qualquer divergência quanto à interpretação da legislação tributária aplicável. Aliás, nesses anos todos em que milito no CARF, esta é a primeira vez que lido com a situação de se considerar uma isenção/redução/etc de ICMS como se fosse uma subvenção para investimento, não passível de cômputo, portanto, na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Fl. 1995DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 41 A matéria subvenção para investimento não é nova no CARF; há muitos anos se discute sua exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Entretanto, tais discussões se cingem, na sua maciça maioria de situações, na dicotomia entre subvenção para investimento X subvenção para custeio. Essa dicotomia foi mitigada com a edição da Lei Complementar nº 160/2014, cujo objetivo primordial foi o de encerrar a discussão a respeito dos benefícios concedidos pelos estados da federação, no âmbito da chamada guerra fiscal. Entretanto, tais benefícios, concedidos pelos estados membros, de forma alguma se confundiam com as isenções concedidas em caráter geral e objetivo mas, outrossim, tratavam de estabelecer condições para a instalação de novos empreendimentos ou para a expansão dos já existentes em seus territórios. Considero que as teses defendidas pela Contribuinte são absolutamente temerárias, podendo trazer prejuízos incalculáveis para a arrecadação federal e aos próprios estados e municípios (via fundos de participação), não havendo, como já vimos anteriormente neste voto, qualquer plausibilidade ou mesmo razoabilidade para seu acolhimento. O procedimento fiscal foi realizado de forma bastante consistente, indo à fundo nas questões que permeiam todos os fatos considerados, em seu conjunto, como fraudulentos. Isso nos deixa seguros para afirmar que não procedem os argumentos da Recorrente para justificar uma operação que se mostra em tudo essencialmente artificial e desarrazoada, desprovida de substância jurídica e orquestrada com o fim único de suprimir tributos. Mais do que ausentes os critérios de plausibilidade e/ou razoabilidade da tese da Recorrente, ressalte-se que não basta ser lícita a operação para que seus efeitos sejam automaticamente oponíveis ao Fisco. Para que possam gerar efeitos tributários, mais que conformidade com a lei, a operação realizada deve estar conforme o Direito. Em assim sendo, os atos praticados pela Recorrente podem ser considerados como realizados de forma abusiva, sendo, portanto, inoponíveis ao Fisco por serem considerados ilícitos (art. 187 do Código Civil) e, acima de tudo, fraudulentos. Por serem inoponíveis ao Fisco, as consequências tributárias deles decorrentes (despesas/exclusões/compensações) devem ser consideradas indevidas, razão pela qual absolutamente escorreito o procedimento fiscal quanto às glosas empreendidas. Por todo o exposto, a decisão recorrida neste ponto não pode ser mantida, razão pela qual dou provimento ao recurso de ofício para restabelecer, tanto a multa qualificada em seu patamar de 100%, quanto a exigência relativa ao ano calendário de 2017, afastada pela DRJ por considerar que não teria havido fraude por parte da Contribuinte. A Recorrente não apresentou nenhuma alegação específica em relação à autuação da CSLL. Assim, e considerando que o decidido em relação ao IRPJ deve ser adotado de forma idêntica à referida contribuição, haja vista que com ele compartilha os mesmos fundamentos de fato e de direito, mantém-se integralmente a respectiva autuação. Em resumo, o voto é por dar provimento ao recurso de ofício e negar provimento ao recurso voluntário. Fl. 1996DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 42 Assinado Digitalmente Luiz Augusto de Souza Gonçalves DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Daniel Ribeiro Silva Inicialmente parabenizo o Ilmo. Conselheiro Relator pelo excelente voto, com o qual divergi tão somente em relação ao provimento do recurso de Ofício. Entretanto, em relação ao Recurso Voluntário entendo que a análise foi irretocável. Cumpre ressaltar que, o debate a respeito da caracterização de determinados incentivos como subvenções para investimento, especialmente no âmbito estadual, é tema complexo, polêmico e que já dura algumas décadas. Por sua vez, mesmo com o advento da Lei Complementar 160/2017, que promoveu alterações na redação do art. 30 da Lei 12.973/2017, e que veio para tentar pacificar definitivamente o assunto, quase 10 anos depois o tema ainda permanece com pontos de insegurança, o que meu ver acabaram sendo intensificados pelas análises e decisões que o STJ vem adotando para o caso, que de certa forma apenas contribuíram para gerar mais inseguranças e dúvidas quanto ao seu efetivo alcance. Entretanto, um ponto é certo em minha convicção. A ideia de que a LC 160/2017 veio a convalidar todo e qualquer incentivo estadual como subvenção para investimento é absolutamente inadequada. Entretanto, em que pese minha posição sobre o tema, que se coaduna com o excelente voto condutor, não posso deixar de registrar meu respeito a posições divergentes como as explicitadas pelos professores Marcelo Magalhães e Alexandre Evaristo Costa, o que apenas confirma minha ressalva inicial sobre a complexidade do tema. O fato é que, todo o histórico legislativo deixa claro que o objetivo almejado com a LC 160/2017 foi o de pacificar as divergências de interpretações que o fisco federal realizava à respeito dos incentivos estaduais concedidos como subvenções para investimento. Isto porque, as metodologias e formatos foram os mais variados possíveis. Além disso, existia a discussão a respeito da validade dos incentivos concedidos sem a aprovação de convênio do Confaz no âmbito da denominada “guerra fiscal”. O fato é que o legislativo nacional buscou pacificar a questão, estabelecendo alterações através da LC 160/2017 para finalizar debates sobre o tema. Fl. 1997DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 43 Entretanto, diante de todo o contexto, resta claro que o §4º. do art. 30 da Lei 12.973/2014 ao estabelecer que incentivos estaduais seriam considerados subvenção para investimento, não estava a conceder cheque em branco para todo e qualquer incentivo ser alçado a tal natureza. O próprio texto normativo estabelece a necessidade de respeitar os requisitos previstos no referido artigo, entre eles, o fato do incentivo ter sido concedido com objetivo de estimular investimentos, nos exatos termos do caput do seu artigo. Por sua vez, o que a decisão do STJ através do Tema 1182 veio aclarar foi que, independentemente da sistemática de incentivo, seja isenção, redução de base, diferimento, entre outros, qualquer que fosse a técnica adotada pelo incentivo estadual para fins de subvenção de investimento, desde que cumpridos os demais requisitos formais, seriam válidos. Entretanto, repito, isso não se tornou um cheque em branco para todo e qualquer incentivo estadual ser caracterizado como subvenção para investimento. Veja que a própria decisão do STJ permite que a receita Federal verifique o cumprimento dos requisitos formais previstos no art. 30 da Lei 12.973/2014, é isso que se depreende do item 3 do referido tema. Diante de todo o contexto histórico que verificamos, a vedação para exigência da demonstração de concessão como estímulo à implantação ou expansão do empreendimento econômico está diretamente ligado ao tal requisito do sincronismo que sempre foi exigido pela Receita Federal. Em resumo, se a lei estadual descreve minimamente tal incentivo como subvenção para investimento, justifica a sua implementação à atração de investimentos como, por exemplo, um incentivo direcionado à atração e fortalecimento de determinado ramo econômico (atacadistas ou centros de distribuição, por exemplo), seja qual for a técnica utilizada (isenção, redução de base ou diferimento), foi depositada para fins de convalidação nos termos do Convênio 190, e cumpriu os demais requisitos do art. 30 da Lei 12.973/2014, não poderia a Receita Federal questionar a natureza de tal subvenção. Entretanto, não foi o caso verificado no presente processo, no qual estamos diante de incentivos gerais, genéricos, sem a mínima condicionante de investimentos (apesar que qualquer incentivo acaba por atrair investimentos), onde não se comprovou o cumprimento do Convênio 190, sendo que alguns deles estão previstos na própria Constituição Federal, não se tratando de ato voluntário do ente estatal. Exatamente por isso que acompanhei o voto condutor, o qual enfrentou de forma brilhante a questão. Entretanto, ressalto, mais uma vez, que a questão não é simples e possui posicionamentos absolutamente respeitados em sentido diverso. Por este motivo que divergi em relação ao provimento do Recurso de Ofício. Fl. 1998DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 44 Isto porque, diante de toda a situação posta, se entendendo a Recorrente que a adoção da sua interpretação estaria correta, não haveria outra forma de promover a contabilização dos referidos incentivos senão da forma realizada. Exatamente por isso entendi que não haveria fraude à contabilidade, mas simples reflexo da realidade entendida como correta pela Recorrente, por mais que não concorde com a interpretação por ela adotada. Ademais, entendo razoável a interpretação de que, se correta fosse a interpretação da Recorrente, o CPC 07 daria base aos lançamentos contábeis realizados. A contabilidade precisa refletir os fatos, se a Recorrente entende que a sua interpretação a respeito da subvenção é a correta, interpretação esta amparada por boas posições de firmes juristas, não haveria outra forma para se refletir em sua contabilidade a não ser a que foi adotada. Ressalte-se, por oportuno, que nada foi escondido ou omitido, pelo contrário, os lançamentos foram explícitos e justificados à autoridade fiscal, além de condizentes com a interpretação adotada pelo contribuinte. Assim, diante do exposto, não vislumbrei a fraude contábil apontada pela autoridade fiscal, tampouco o dolo com intuito de sonegar. Ao final das contas, estamos diante de uma gigante do setor agrícola que jamais faria uma reformulação da contabilidade neste nível sem imaginar que não poderia ser fiscalizada ou que enganaria a fiscalização federal. Esses foram os motivos que me levaram a divergir do voto condutor em relação ao provimento do Recurso de Ofício. Assinado Digitalmente Daniel Ribeiro Silva Conselheira Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin Com a devida vênia ao eminente Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves e à respeitável maioria, apresento minha declaração de voto vencido no Acórdão proferido no processo em epígrafe. Divirjo do entendimento prevalecente neste julgamento, especialmente no que tange à qualificação dos benefícios fiscais de ICMS como subvenções para investimento, para fins de exclusão da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, bem como quanto à manutenção da multa de ofício qualificada. Minha compreensão do conjunto normativo e jurisprudencial aplicável, em particular da Lei Complementar nº 160/2017 e do Tema 1.182 do Superior Tribunal de Justiça (STJ), conduz a uma conclusão distinta, alinhada aos argumentos de defesa apresentados pela Recorrente SIPAL Indústria e Comércio Ltda. Entendo que a interpretação dada aos requisitos do art. 30 da Lei nº 12.973/2014, conforme modificado pela LC nº 160/2017, e à tese firmada no Tema 1.182 do STJ, não pode desconsiderar o propósito legislativo de pacificar a controvérsia sobre a “guerra fiscal” e conferir segurança jurídica aos contribuintes que se beneficiaram de incentivos estaduais. Fl. 1999DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 45 II. A Natureza das Subvenções e o Alcance do Tema 1.182 do STJ. O voto condutor fundamenta a não exclusão dos benefícios fiscais de ICMS (isenções, reduções de base de cálculo, diferimento, etc.) da base de cálculo do IRPJ e da CSLL na premissa de que estes não geram receita ou ganho para o contribuinte, beneficiando o consumidor final, e por não se tratarem de estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos nos termos exigidos pelo art. 30 da Lei nº 12.973/2014. Contrariamente a esse entendimento, a Lei Complementar nº 160/2017, em seu art. 10 e ao incluir os §§ 4º e 5º no art. 30 da Lei nº 12.973/2014, teve como objetivo precípuo equiparar os incentivos e benefícios fiscais ou financeiro-fiscais de ICMS concedidos pelos Estados e Distrito Federal a subvenções para investimento, vedando a exigência de outros requisitos ou condições, não previstos no art. 30. Nesse sentido, a interpretação do Tema 1.182 do STJ exige uma análise mais detida, especialmente de sua tese nº 2: STJ Tema 1.182, Tese 2 “Para a exclusão dos benefícios fiscais relacionados ao ICMS, - tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL não deve ser exigida a demonstração de concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos.” Esta tese é crucial. Ela expressamente dispensa a exigência de demonstração de que o benefício foi concedido como estímulo direto à implantação ou expansão de empreendimentos. A intenção do legislador, e posteriormente consolidada pelo STJ, foi conferir caráter de subvenção de investimento a esses benefícios de ICMS, superando a discussão sobre a natureza intrínseca do incentivo na sua origem. A lei, de certo modo, cria uma ficção jurídica para fins de tributação federal, equiparando-os a subvenções para investimento. A argumentação de que tais benefícios não “compõem o lucro líquido” ou não representam “acréscimo patrimonial” por não serem uma “receita” tradicional (uma vez que o ICMS é um tributo indireto) falha em reconhecer a especialidade da regra legal e jurisprudencial. A desoneração de um encargo fiscal, mesmo que repercutido ao consumidor final, confere um benefício econômico ao contribuinte, seja pela redução de um custo, seja pela melhoria de sua competitividade no mercado. É esse benefício econômico, equiparado legalmente a subvenção, que a legislação visa excluir da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, desde que observados os requisitos formais de registro em reserva de lucros e a não utilização para finalidade estranha à viabilidade do empreendimento, conforme a tese nº 3 do Tema 1.182 do STJ. A própria Delegacia de Julgamento (DRJ), em seu acórdão, reconheceu que a Solução de Consulta COSIT nº 145/2020 (que reformou a SC COSIT nº 11/2020), “é válida para servir de parâmetro para sua interpretação ao caso concreto, tendo, portanto, efeito vinculante para a RFB”. Embora a DRJ tenha mantido a necessidade de observar a condição de estímulo à Fl. 2000DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 46 implantação/expansão, a tese nº 2 do STJ Tema 1.182, reiterada pela Recorrente, flexibiliza significativamente essa “demonstração”. A Recorrente, como explicitado no relatório do voto condutor, “constituiu a adequada reserva (na forma do artigo 30, da Lei nº 12.973/2014) e os valores nunca foram utilizados para finalidade estranha à garantia da viabilidade do empreendimento econômico”. Este ponto é crucial e alinha-se diretamente com as condições estabelecidas no art. 30 da Lei nº 12.973/2014 e as teses do STJ. Dessa forma, a análise deve focar na observância dos requisitos formais e na destinação dos valores, e não na natureza original do benefício de ICMS, que a própria LC 160/2017 e o STJ equipararam a subvenção para investimento. Vamos à análise dos benefícios em questão: Estado Concedente Ato Concessivo e Operação Subvencionada MS Art. 29, I, do Anexo I, do Dec. 9.203/98 e Convênio ICMS n. 100/97 VENDA COM ISENÇÃO – Isenção das saídas internas dos produtos: desfolhantes, dessecantes, espalhantes adesivos, lubrificantes de sementes, formicidas, fungicidas, herbicidas, inseticidas, larvas de insetos ou ácaros, bactérias, vírus, usados como inseticidas biológicos, destinados a estabelecimentos agrícolas, pecuários ou agropecuários. MT Art. 115, XIX, Anexo IV, do Dec. 2.212/2014 e Convênio ICMS n. 100/97 VENDA COM ISENÇÃO – Isenção operações internas realizadas com insumo agropecuário milho, quando destinado ao produtor, à cooperativa de produtores, à indústria de ração animal ou órgão oficial de fomento e de desenvolvimento agropecuário vinculado ao Estado. MT Art. 115, XX. Anexo IV, do Dec. n. 2.212/2014 e Convênio n. 100/97 VENDA COM ISENÇÃO – Isenção operações internas realizadas com o insumo agropecuário amônia, uréia, sulfato de amônio, nitrato de amônio, nitrocálcio, MAP (mono-amônio fosfato), DAP (di-amônio fosfato), cloreto de potássio, adubos simples e compostos, fertilizantes e DL Metioninina e seus análogos, produzidos para uso na agricultura e na pecuária, vedada a sua aplicação quando dada ao produto destinação diversa. MT Art. 581, parágrafo único, do Dec. 2.212/2014 e LC 87/96 e Convênio ICMS 84/2009 Fl. 2001DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 47 DISPENSA DO PAGAMENTO DE ICMS DIFERIDO – Dispensa do pagamento do ICMS diferido nos casos em que a operação estiver abrangida por uma das hipóteses de isenção do imposto sobre exportações MT Art. 5º., II, parágrafo 3º. do Dec. 2.212/14 e LC 87/96 e Convênio ICMS n. 84/09. VENDA COM FINS ESPECÍFICOS DE EXPORTAÇÃO – Isenção de ICMS sobre operações de saída de mercadorias realizada com o fim específico de exportação para o exterior, destinada a empresa comercial exportadora e armazém alfandegado ou entreposto aduaneiro. PR Art. 24, parágrafo único, Anexo VIII e art. 46, I, parágrafo 2º. parte geral, do Dec. 7.871/2017 e Convênio ICMS 84/09 DISPENSA DE PAGAMENTO DE ICMS DIFERIDO – Dispensa de pagamento do imposto diferido ou suspenso relativo às operações ou prestações anteriormente abrangidas por diferimento ou suspensão, como as operações ou prestações destinadas ao exterior. PR Item 16, Anexo VI, Decreto 7.871/2017, Convênios ICMS 100/97, 49/17, 57/03 e 123/11 REDUÇÃO DE BASE DE CÁLCULO – Redução para 70% nas operações com insumo agropecuário milho, quando destinado a produtor, a cooperativa de produtores, a indústria de ração animal, ou a órgão oficial de fomento e desenvolvimento agropecuário vinculado ao Estado ou ao Distrito Federal. PR Art. 3º., II, parágrafo único, I e II do Dec. 7.871/2017 e LC 87/96 do Convenio ICMS 84/2009 VENDA COM FINS EXPECÍFICOS DE EXPORTAÇÃO – Isenção de ICMS sobre operações de saída de mercadorias realizada com fim específico de exportação para o exterior, destinada a empresa comercial exportadora e armazém alfandegado ou entreposto aduaneiro. Como se nota, a Recorrente se beneficia de isenções, reduções de base de cálculo e dispensa de pagamento de ICMS diferido, vinculados à operação com determinados produtos agrícolas, em determinadas regiões e com destinação a determinados adquirentes, configurando, portanto, benefícios condicionados ao cumprimento de requisito e condições previstos na norma que os fundamenta, tratando-se de isenção, tal qual previsto no artigo 176 do CTN: Fl. 2002DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 48 Art. 176. A isenção, ainda quando prevista em contrato, é sempre decorrente de lei que especifique as condições e requisitos exigidos para a sua concessão, os tributos a que se aplica e, sendo caso, o prazo de sua duração. Parágrafo único. a isenção pode ser restrita a determinada região do território da entidade tributante, em função de condições a ela peculiares. Destaca-se que os benefícios que implicam em redução de base de cálculo e isenções relativos às saídas internas de insumos agropecuários previstos no Convênio ICMS 100/97, permanecem válidos, com vigência prorrogada até 31/12/2027, conforme estabelecido na 197ª Reunião Ordinária, realizada em Rio Branco, AC, pelo Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, no dia 4 de julho de 2025, cuja ratificação restou estabelecida pelo Convênio ICMS 79/2025: Não diferente disto, o Convenio ICMS 84/09, que trata dos benefícios incidentes sobre as operações de saída de mercadoria realizada com o fim específico de exportação, especialmente quando equipara à exportação a saída de mercadoria, no mercado interno, para estabelecimento exportador com fim específico de exportação, também permanece válido e vigente em sua essência, conforme disposto pelo Convênio ICMS 170/2021, celebrado pelo Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, na sua 182ª Reunião Ordinária, realizada em Brasília, DF, no dia 1º de outubro de 2021. Fl. 2003DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 49 Portanto, não há que se questionar a constitucionalidade, ou legalidade de tais benefícios, ante o cumprimento do disposto na alínea “g” do inciso XII do § 2º do art. 155 da Constituição Federal, ou tão pouco a necessidade de adesão ao benefício via depósito dos documentos comprobatórios de concessão, para convalidação do dito benefício. Neste seguir, evidente que os incentivos e benefícios fiscais ou financeiro-fiscais referentes ao Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS, gozados pela Recorrente, equiparam-se, para fins de apuração do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas - IRPJ, às subvenções para investimento, desde que atendidos os requisitos e condições previstos no art. 30 da Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014, conforme disciplinado pelo Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 4, de 4 de dezembro de 2024. Ao sustentar que os benefícios fiscais de ICMS concedidos em caráter geral e irrestrito não poderiam ser considerados subvenção para investimento, cria-se um obstáculo á aplicação da norma disciplinada pelo § 4º do art. 30 da Lei nº 12.973/2014, o qual determina que “os incentivos e os benefícios fiscais ou financeiro-fiscais relativos ao imposto previsto no inciso II do caput do art. 155 da Constituição Federal, concedidos pelos Estados e pelo Distrito Federal, são considerados subvenções para investimento, vedada a exigência de outros requisitos ou condições não previstos neste artigo”, ao passo que aqui não restou estabelecida nenhuma distinção entre os diversos tipos possíveis de incentivos fiscais relativos ao ICMS. Partir do pressuposto de que apenas ao contribuinte que possuir algum tipo de acordo bilateral ou regime tributário especial e diferenciado é que será dado o direito de Fl. 2004DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 50 equiparação do benefício de ICMS, às subvenções de investimento, contraria referido texto de lei, uma vez que, tal discussão restou superada pela decisão do STJ, no julgamento do tema 1.182, cujo trecho da ementa reforça a ideia de que: “Para a exclusão dos benefícios fiscais relacionados ao ICMS, - tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, entre outros - da base de cálculo do IRPJ e da CSLL não deve ser exigida a demonstração de concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos”. (g.n.) Portanto, tem-se na verdade, que o STJ, em sede de recursos repetitivos nos RE’s nº 1.945.110/RS e nº 1.987.158, firmou tese de que a aferição do cumprimento dos requisitos do art. 30 Lei nº 12.973/2012 deve se restringir à constituição de reservas de incentivos, nos casos de outros tipos de benefícios fiscais dos ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, não cabendo ser exigida a demonstração de sua concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. Entendimento já referendado por este CARF em outras oportunidades (Acórdão 1202-001.503) no qual o D. Conselheiro Rel. Leonardo Couto de Andrade destaca que: “Nos termos do § 4º, qualquer incentivo, benefício fiscal ou financeiro-fiscal relativo ao ICMS deve ser tido como subvenção para investimento. O caráter genérico do dispositivo não estabelece distinção entre os diversos tipos possíveis de incentivos fiscais relativos ao tributo em questão. [...] Quanto à implantação ou expansão de empreendimentos importa avaliar se a subvenção para investimentos de per si subentende a aplicação nessas situações. Em outros termos: “subvenção para investimentos concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos” seria uma coisa só e não uma condicional. Voltando ao § 4º, tem-se um texto abrangente e genérico para definir a subvenção para investimento, o que já seria suficiente para desfazer a unificação conceitual acima sugerida. Significa que podem existir modalidades de subvenção para investimento que, pela sua natureza, já demandam a vinculação a um projeto de implantação ou expansão de empreendimentos. Por outro lado, é perfeitamente possível que a subvenção para investimento seja concedida por outras razões”. Ainda no âmbito desta 1ª Seção, pela contemporaneidade e por abarcar o posicionamento do Poder Judiciário sobre o tema, vale trazer à baila o voto condutor do Acórdão 9101-006.891 de lavra do I. Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado, prolatado pela 1ª Turma da CSRF em 04/04/2024, transcreve-se a ementa, já bem elucidativa: INCENTIVOS FISCAIS DO ICMS. CRÉDITO PRESUMIDO. NATUREZA DA SUBVENÇÃO. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO DO IRPJ E DA CSLL. SUPERVENIÊNCIA DAS ALTERAÇÕES INTRODUZIDAS PELA LC Nº 160/2017. DISCUSSÃO SUPERADA POR Fl. 2005DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 51 DECISÃO DO STJ EM SEDE DE RECURSOS REPETITIVOS. OBSERVÂNCIA OBRIGATÓRIA PELO CARF. A Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, em sede de embargos de divergência, teve a oportunidade de discutir uma dentre as espécies do gênero "benefícios fiscais". Por ocasião do julgamento dos ERESP 1.517.492/PR, a Primeira Seção entendeu que a espécie de favor fiscal de "crédito presumido" não estará incluída na base de cálculo do IRPJ e da CSLL, independente das alterações introduzidas pela LC. nº160/2017 ao art. 30 da Lei 12.973/2012. O STJ em sede de recursos repetitivos nos RE’s nº 1.945.110/RS e nº 1.987.158 firmou tese de que a aferição do cumprimento dos requisitos do art. 30 Lei nº 12.973/2012 deve se restringir à constituição de reservas de incentivos, nos casos de outros tipos de benefícios fiscais dos ICMS, tais como redução de base de cálculo, redução de alíquota, isenção, diferimento, não cabendo ser exigida a demonstração de sua concessão como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos. (g.n). Nesse mesmo sentido, Acórdão 1402-006-949, de relatoria do D. Conselheiro Alessandro Bruno Macêdo Pinto: 17. Logo, a inclusão do mencionado § 4º consolida entendimento de que todos os benefícios estaduais de ICMS são subvenções para investimento, independentemente se concedidos como benefício fiscal propriamente dito ou se vinculado à eventual contrapartida. 18. Por conseguinte, passou a não mais existir a necessidade do contribuinte provar que as parcelas são concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos, sendo irrelevante qualquer discussão a respeito da diferença conceitual entre subvenção por investimento e subvenção por custeio no que tange aos benefícios do ICMS. 19. Neste sentido, cumpre destacar a Solução de Consulta COSIT nº 15/2020, que assim dispõe: [...] De acordo com a legislação de regência, temos que: 18.1. Existem dois tipos de subvenções para investimento, quais sejam, as subvenções concedidas como estímulo à implantação ou expansão de empreendimentos econômicos, inclusive quando concedidas por meio de isenções ou reduções de impostos, e os incentivos e benefícios fiscais ou financeiro-fiscais relativos ao ICMS, concedidos pelos estados e pelo Distrito Federal; 18.2. As subvenções para investimento recebidas, aqui também inclusos os incentivos relativos ao ICMS concedidos pelos estados e Distrito Federal, não serão computadas na determinação do lucro real e do resultado ajustado, desde que registradas em reserva de incentivos fiscais, que somente poderá ser utilizada para absorção de prejuízos e aumento do capital social, observadas os demais requisitos estabelecidos na lei; [...] Fl. 2006DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 52 20. Ademais disso, a Solução de Consulta COSIT nº 11/2020 faz uma retrospectiva legislativa, demonstrando que até o advento da LC nº 160/2017 fazia-se necessário identificar e distinguir a natureza da subvenção, contudo, isto não é mais necessário, vez que a norma atribuiu a qualificação de subvenção para investimento a todos os incentivos e benefícios fiscais atinentes ao ICMS concedidos pelos Estados, não se aplicando os requisitos antigos arrolados no PN CST nº 112/2017, in fine: [...] 21 Esse é o entendimento consubstanciado nos atos aludidos os quais se encontram em vigor, sendo, portanto, de observância obrigatória por toda administração tributária federal, não tendo sido mitigado até o advento da Lei Complementar (LC) nº 160, de 7 de agosto de 2017. Ocorre que essa Lei Complementar, introduziu novo comando legal, que, ao modificar, em parte, o objeto daquilo que é disciplinado tanto pelo PN CST nº 112, de 1978, quanto pela IN RFB nº 1.700, de 2017, faz com que esses atos normativos devam ser interpretados à luz do novo paradigma. 22 A LC nº 160, de 2017, foi editada para possibilitar a celebração de convênio entre os estados, com vistas à convalidação dos incentivos fiscais relativos ao ICMS concedidos à revelia do Confaz - intento alcançado com a publicação do Convênio ICMS 190, de 2017. Paralelamente ao seu objetivo principal, trouxe também em seu texto regramento específico quanto ao tratamento de subvenção para investimento de todo benefício fiscal concernente àquele imposto. Este último ponto foi introduzido no ordenamento por intermédio de seu art. 9º, o qual acrescentou os §§ 4º e 5º ao já mencionado art. 30 da Lei nº 12.973, de 2014: [...] 23 A norma em questão insere novo comando legal ao dispositivo que confere o adequado tratamento tributário, no que tange ao IRPJ e a CSLL, às subvenções para investimento. A LC nº 160, de 2017, atribui a qualificação de subvenção para investimento a todos os incentivos e os benefícios fiscais ou econômico-fiscais atinentes ao ICMS. Significa dizer que a essa espécie de benefício fiscal não mais se aplicam os requisitos arrolados no PN CST nº 112, de 2017, com vistas ao enquadramento naquela categoria de subvenção. 24 Como consequência das novas disposições legais trazidas pela LC nº 160, de 2017, foi publicada a Instrução Normativa RFB nº 1.881, de 03 de abril de 2019, que acrescentou o §8º ao art. 198 da Instrução Normativa RFB nº 1.700, de 2017, retro transcrito, nos seguintes termos: [...] 25 Vale destacar ainda o caráter retroativo da novidade, consoante o estabelecido no art. 10 da LC n° 160, de 2017: [...] Fl. 2007DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 53 21. Com efeito, não se verifica mais a diferenciação em relação a subvenções para custeio ou subvenções para investimento, restando claro que todos os benefícios fiscais de ICMS se enquadram na segunda classificação. 22. Noutro giro, no que tange aos incentivos fiscais de ICMS, portanto, concedidos pelos Estados, não há mais necessidade de avaliação de cumprimento de contrapartidas específicas para enquadramento como subvenção para investimento, uma vez que foi incluída regra especial (§ 4º, do art. 30, da Lei nº 12.973/2014) para este tipo de benefício fiscal, o que foi ratificado pelas Soluções de Consulta COSIT nºs 11/2020 e 15/2020. (g.n.). De outro lado, a Recorrente demonstrou nos autos que constituiu a reserva de incentivos fiscais, em conta específica, tal qual determinado pelo art. 30 da Lei 12.973/2014, tendo a autoridade fiscal deixado claro que houve a exclusão da base de cálculo do IRPJ e CSLL de montantes classificados a título de subvenção par investimentos que nunca compuseram o Lucro Contábil. Todavia, a autoridade fiscal se valeu desse método de contabilização, para atribuir a Recorrente acusação de simulação pela constituição fraudulenta da conta de reserva de lucros. Neste ponto, temos que o CPC 07, Pronunciamento Técnico que deve ser aplicado na contabilização e na divulgação de subvenção governamental e na divulgação de outras formas de assistência governamental, conforme orientado pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis, disciplina que: Redução ou isenção de tributo em área incentivada 41.Certos empreendimentos gozam de incentivos tributários de imposto sobre a renda na forma de isenção ou redução do referido tributo, consoante prazos e condições estabelecidos em legislação específica. Esses incentivos atendem ao conceito de subvenção governamental. 42.O reconhecimetno contábil dessa redução ou isenção tributária como subvenção para investimento é efetuado registrando-se o imposto total no resultado como se devido fosse, em contrapartida à receita de subvenção equivalente, a serem demonstrados um deduzido do outro. Quanto a contabilização dos valores recebidos a título de subvenções, o prof. Eliseu Martins , aponta que: Os benefícios fiscais que se enquadram na definição de subvenção do CPC 07, devem ser evidenciados em separado como receitas de subvenção; os que não se enquadram, podem (deveriam?) ser também mostrados em separado nas notas explicativas das demonstrações das entidades afetadas. A modalidade dos benefícios fiscais não altera a sua natureza de receita. Alguns benefícios fiscais são receitas explícitas, como os créditos presumidos e abatimento de dívidas; outros, conhecidos como reduções de despesas ou reduções de custos, tais como a redução de base de cálculo e alíquota reduzida de Fl. 2008DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 54 ICMS, também são receitas. A diferença entre eles é meramente temporal: os primeiros ocorrem em momentos distintos (primeiro a despesa e depois a receita) e os segundos ocorrem concomitantemente (como registro da despesa integral concomitantemente ao registro da receita do benefício fiscal, resultando no tributo pelo valor já líquido da receita do benefício, ou, na prática, o lançamento de uma despesa líquida da receita do benefício fiscal). Portanto, é cabível (e até recomendável) eu o contribuinte registre receitas decorrentes dos benefícios fiscais que importam na redução do imposto devido como despesa bruta e receita do benefício. Também é possível (o mais comum na prática) que o registro seja feito pelo valor da despesa já líquido da receita do benefício fiscal. Ambas as formas de contabilização independem da forma como essa redução é concedida – se por crédito presumido, redução de base de cálculo, alíquota reduzida ou outras formas. No caso concreto, conforme apontado desde a Impugnação (fl. 1160), a Recorrente demonstrou o método de contabilização quando: 1- Apurou-se o ICMS devido e efetuou o registro a débito como despesa dedutível em conta de resultado (D-31301-0001), cuja contrapartida é o registro da obrigação em conta de passivo do imposto a recolher (C-21301-0011); 2- Após isso, debitou-se o imposto a recolher contra os percentuais de isenção, redução de base de cálculo e dispensa de pagamento de ICMS diferido, sobre cada operação (D-21301-0011), lançando-se a crédito em conta de receita não tributável (C-31301-0011); 3- Ao final do ano-calendário, a receita não tributável converteu-se em lucro acumulado, o qual é posteriormente registrado na conta de reserva de lucros. Diante de tais esclarecimentos, tem-se que a Recorrente se valeu de normas e padrões de contabilidade geralmente aceitos e que não levam a um resultado diferente do legítimo, motivo pelo qual não merece reparo o mecanismo de contabilização das subvenções para investimento adotado pela Recorrente, não havendo o que se falar em simulação ou fraude como pretendido pela d. autoridade fiscal. A livre escolha do contribuinte sobre os processos de contabilização adotados vem disciplinada pelo Parecer Normativo CST n. 347/70, segundo o qual: “Às repartições fiscais não cabe opinar sobre processos de contabilização, os quais são de livre escolha do contribuinte. Tais processos só estarão sujeitos à impugnação quando em desacordo com as normas e padrões de contabilidade geralmente aceitos, ou que possam levar a um resultado diferente do legítimo”. Disso, tem-se que no caso em questão a operação foi realizada as claras, com balanços submetidos à auditoria externa e sem ressalvas (fl. 169 e 247), de modo a permitir a Fl. 2009DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 55 rastreabilidade do montante das subvenções declaradas como recebidas pela entidade, dando ao usuário externo a possibilidade de verificação do montante dos benefícios fiscais e a sua destinação na constituição de reservas de incentivos, tal qual exigido pelo art. 30 da lei 12.973/2014. III. Da Multa de Ofício Qualificada: Ausência de Dolo e Controvérsia Jurídica. A manutenção da multa de ofício qualificada em 100%, tal qual proposta pelo voto condutor, baseia-se na alegação de que a Contribuinte agiu com dolo, simulando operações e alterando sua escrita contábil para fraudar o recolhimento de IRPJ e CSLL. O voto sustenta que os lançamentos contábeis efetuados pela SIPAL são “artificializados” e “sem lastro”. Contudo, a própria Delegacia de Julgamento, em sua decisão anterior, expressamente afastou a multa qualificada, reconhecendo que a questão envolvia uma “matéria de relevante e disseminada controvérsia jurídica” e que “a mera divergência de interpretação da legislação tributária, não pode justificar o agravamento da multa de ofício”. Esta avaliação da DRJ está em consonância com a jurisprudência administrativa e judicial consolidada, que reserva a multa qualificada para casos inequívocos de dolo, fraude ou simulação. A complexidade do tema das subvenções, com sucessivas alterações legislativas (Lei nº 12.973/2014, LC nº 160/2017), Pareceres Normativos, Soluções de Consulta divergentes e, finalmente, a fixação de teses em sede de recurso repetitivo pelo STJ (Tema 1.182), demonstra, por si só, a existência de uma intensa controvérsia jurídica. A Recorrente buscou fundamentar seu procedimento em um conjunto de normas e entendimentos (LC 160/2017, Art. 30 da Lei 12.973/2014, Soluções de Consulta RFB, Convênio ICMS 190/2017, CPC 07 e jurisprudência do STJ e STF), o que afasta a presunção de dolo. A tentativa de adequar os registros contábeis à nova realidade jurídica imposta pela equiparação legal dos benefícios de ICMS a subvenções para investimento, mesmo que de forma que a fiscalização considere “não tradicional” ou “sem lastro” no sentido econômico usual, não pode ser sumariamente qualificada como fraude. O CPC 07, invocado pela contribuinte, é uma norma contábil que busca refletir a essência das operações, e a adequação de escritas frente a inovações legislativas (como a LC 160/2017) pode gerar divergências interpretativas sobre a melhor forma de representação contábil. A discordância sobre a forma de lançamento não se equipara, por si só, à simulação dolosa. Considerando que a matéria era e continua sendo objeto de acirrado debate jurídico, a conduta da contribuinte deve ser interpretada sob o prisma da boa-fé objetiva, buscando aplicar a legislação conforme sua interpretação. A imputação de dolo exige prova robusta da intenção de fraudar, o que não se verifica de maneira inequívoca nos autos, em face da legítima controvérsia sobre o tema. Conclusão Diante do exposto: Fl. 2010DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L I D A D O ACÓRDÃO 1401-007.536 – 1ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10340.721160/2023-93 56 1. Voto por dar provimento ao recurso voluntário da SIPAL Indústria e Comércio Ltda. no mérito, reconhecendo a possibilidade de exclusão dos benefícios fiscais de ICMS da base de cálculo do IRPJ e da CSLL, em conformidade com o art. 30 da Lei nº 12.973/2014 (com as alterações da LC nº 160/2017) e a interpretação do Tema 1.182 do STJ, uma vez que a Recorrente cumpriu os requisitos formais de constituição de reserva e não utilizou os valores para finalidade estranha ao empreendimento. 2. Subsidiariamente, negar provimento ao Recuso de ofício, com voto por manter o afastamento da multa de ofício qualificada, aplicando-se o percentual de 75%, conforme decidido pela DRJ, por entender que não restou configurado o dolo, a fraude ou a simulação, mas sim uma divergência de interpretação sobre matéria complexa e controversa. 3. Voto, ainda, por manter o reconhecimento da decadência relativa ao ano- calendário de 2017, conforme decisão da DRJ, em alinhamento com a ausência de prova de dolo que justificaria a qualificação da multa e a ampliação do período fiscalizado. É como voto. Assinado Digitalmente Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin Fl. 2011DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto Declaração de Voto
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Numero do processo: 15504.724708/2014-60
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 21 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Aug 22 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. LEVANTAMENTO FISCAL. VÍNCULO EMPREGATÍCIO. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. OMISSÕES SANADAS. EMBARGOS ACOLHIDOS SEM EFEITOS MODIFICATIVOS.
I. CASO EM EXAME
Embargos de declaração opostos por Hospital Vera Cruz S/A contra o Acórdão nº 2202-009.796, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, sob a alegação de omissões no julgado.
O acórdão embargado manteve a exigência das contribuições previdenciárias e das multas por descumprimento de obrigações acessórias, reconhecendo a existência de vínculo empregatício. A contribuinte alegou omissões quanto à comprovação do fato gerador, à ausência de simulação nos contratos analisados e ao pedido de exclusão de valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria, bem como à aplicação do art. 112 do CTN no que tange à validade das multas impostas.
II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO
A controvérsia reside na verificação da existência de omissões no acórdão embargado, notadamente quanto:
(i) à ausência de manifestação sobre a comprovação do fato gerador das contribuições previdenciárias;(ii) ao pedido subsidiário de exclusão de valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria, diante da alegação de inexistência de simulação; e(iii) ao pedido de cancelamento das multas impostas pelo descumprimento de obrigações acessórias, com base na interpretação do art. 112 do CTN.
III. RAZÕES DE DECIDIR
Omissão quanto à comprovação do fato gerador: O acórdão embargado analisou detalhadamente os elementos que fundamentaram o lançamento, reconhecendo a ocorrência do fato gerador com base na documentação colhida durante a auditoria fiscal. Assim, inexistiu omissão, pois a matéria foi expressamente apreciada no julgamento.
Omissão quanto ao levantamento CS-Consultoria e à exclusão de valores: O acórdão embargado não se manifestou expressamente sobre o argumento de que a ausência de qualificação da multa afastaria a existência de simulação nos contratos firmados com pessoas jurídicas. Tampouco analisou a necessidade de exclusão dos valores das contribuições previdenciárias relativas aos segurados que já haviam atingido o teto previdenciário. Sanada essa omissão, esclareceu-se que a ausência de multa qualificada não afasta a exigibilidade das contribuições e que a fiscalização já havia considerado os valores recolhidos dentro do limite legal.
Omissão quanto à aplicação do art. 112 do CTN às multas por descumprimento de obrigações acessórias: O acórdão embargado não se manifestou quanto à aplicação do art. 112, II, do CTN, que determina a interpretação favorável ao contribuinte em caso de dúvida na tipificação da infração. Sanada essa omissão, esclareceu-se que não havia incerteza jurídica sobre a infração, uma vez que a fiscalização fundamentou a aplicação das penalidades na reclassificação das relações contratuais como vínculos empregatícios.
IV. DISPOSITIVO E TESE
Embargos de declaração acolhidos parcialmente, sem efeitos modificativos, apenas para sanar as omissões apontadas, mantendo inalterado o resultado do Acórdão nº 2202-009.796.
Numero da decisão: 2202-011.320
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração sem efeitos modificativos, apenas para sanar as omissões apontadas, mantendo inalterado o resultado do Acórdão nº 2202-009.796.
Assinado Digitalmente
Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator
Assinado Digitalmente
Sara Maria de Almeida Carneiro Silva – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Andressa Pegoraro Tomazela, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Ricardo Chiavegatto de Lima (substituto[a] integral), Thiago Buschinelli Sorrentino, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva (Presidente).
Nome do relator: THIAGO BUSCHINELLI SORRENTINO
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CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS. LEVANTAMENTO FISCAL. VÍNCULO EMPREGATÍCIO. OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. OMISSÕES SANADAS. EMBARGOS ACOLHIDOS SEM EFEITOS MODIFICATIVOS. I. CASO EM EXAME Embargos de declaração opostos por Hospital Vera Cruz S/A contra o Acórdão nº 2202-009.796, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, sob a alegação de omissões no julgado. O acórdão embargado manteve a exigência das contribuições previdenciárias e das multas por descumprimento de obrigações acessórias, reconhecendo a existência de vínculo empregatício. A contribuinte alegou omissões quanto à comprovação do fato gerador, à ausência de simulação nos contratos analisados e ao pedido de exclusão de valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria, bem como à aplicação do art. 112 do CTN no que tange à validade das multas impostas. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO A controvérsia reside na verificação da existência de omissões no acórdão embargado, notadamente quanto: (i) à ausência de manifestação sobre a comprovação do fato gerador das contribuições previdenciárias; (ii) ao pedido subsidiário de exclusão de valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria, diante da alegação de inexistência de simulação; e Fl. 826DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 2 (iii) ao pedido de cancelamento das multas impostas pelo descumprimento de obrigações acessórias, com base na interpretação do art. 112 do CTN. III. RAZÕES DE DECIDIR Omissão quanto à comprovação do fato gerador: O acórdão embargado analisou detalhadamente os elementos que fundamentaram o lançamento, reconhecendo a ocorrência do fato gerador com base na documentação colhida durante a auditoria fiscal. Assim, inexistiu omissão, pois a matéria foi expressamente apreciada no julgamento. Omissão quanto ao levantamento CS-Consultoria e à exclusão de valores: O acórdão embargado não se manifestou expressamente sobre o argumento de que a ausência de qualificação da multa afastaria a existência de simulação nos contratos firmados com pessoas jurídicas. Tampouco analisou a necessidade de exclusão dos valores das contribuições previdenciárias relativas aos segurados que já haviam atingido o teto previdenciário. Sanada essa omissão, esclareceu-se que a ausência de multa qualificada não afasta a exigibilidade das contribuições e que a fiscalização já havia considerado os valores recolhidos dentro do limite legal. Omissão quanto à aplicação do art. 112 do CTN às multas por descumprimento de obrigações acessórias: O acórdão embargado não se manifestou quanto à aplicação do art. 112, II, do CTN, que determina a interpretação favorável ao contribuinte em caso de dúvida na tipificação da infração. Sanada essa omissão, esclareceu-se que não havia incerteza jurídica sobre a infração, uma vez que a fiscalização fundamentou a aplicação das penalidades na reclassificação das relações contratuais como vínculos empregatícios. IV. DISPOSITIVO E TESE Embargos de declaração acolhidos parcialmente, sem efeitos modificativos, apenas para sanar as omissões apontadas, mantendo inalterado o resultado do Acórdão nº 2202-009.796. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração sem efeitos modificativos, apenas para sanar as omissões apontadas, mantendo inalterado o resultado do Acórdão nº 2202-009.796. Fl. 827DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 3 Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino – Relator Assinado Digitalmente Sara Maria de Almeida Carneiro Silva – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Andressa Pegoraro Tomazela, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Ricardo Chiavegatto de Lima (substituto[a] integral), Thiago Buschinelli Sorrentino, Sara Maria de Almeida Carneiro Silva (Presidente). RELATÓRIO Por brevidade, transcrevo o teor da decisão com a qual a Sra. Sônia de Queiroz Accioly, Presidente da 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF, admitiu os presentes embargos de declaração: Trata-se de Embargos de Declaração apresentado pela contribuinte contra acórdão proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF. Do acórdão embargado A 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção exarou o Acórdão nº 2202- 009.796, em 5/04/2023 (fls. 776 a 789), conforme ementas a seguir: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2010 PRECLUSÃO. MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. NÃO CONHECIMENTO DE ALEGAÇÕES SUSCITADAS EM RECURSO QUE NÃO FORAM APRESENTADAS EM IMPUGNAÇÃO. Nos termos do art. 14 do Decreto nº 70.235/72, a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento, devendo nela conter, conforme disposto no art. 16, inciso III, os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir. Estabelece, ainda, o art. 17 do referido Decreto que se considerará não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo Fl. 828DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 4 impugnante. Consideram-se, portanto, preclusas as alegações da contribuinte em recurso voluntário que não integraram a impugnação do lançamento. SEGURADO EMPREGADO. CARACTERIZAÇÃO. Cabível pela autoridade lançadora, diante da prova colhida, desconsiderar os vínculos formalmente pactuados em prol da efetiva relação jurídica consubstanciada no plano fático, caracterizando os trabalhadores como segurados empregados, promovendo o lançamento das contribuições sobre folha de pagamento e pertinentes multas por descumprimento de obrigação acessória. A decisão foi registrada nos seguintes termos: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso, não conhecendo das alegações de ofensa ao art. 129 da Lei nº 11.196/05; e, na parte conhecida, negar-lhe provimento. Tempestividade A contribuinte foi cientificada do Acórdão em 5/06/2023, apresentando, tempestivamente, em 12/06/2023, os Embargos de Declaração de fls. 805 a 813. Dos Embargos de Declaração Os Embargos de Declaração foram apresentados com fundamento no art. 65 do Anexo II, do Regimento Interno do CARF – RICARF (Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015), no qual a contribuinte alega a existência de: a) Omissão quanto à ausência de comprovação do fato gerador pela autoridade fazendária; b) Omissão quanto ao pedido subsidiário de ausência de simulação e exclusão dos valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria; e c) Omissão quanto ao pedido subsidiário de reconhecimento da invalidade das multas pelo descumprimento de obrigações acessórias. Admissibilidade dos Embargos de Declaração Os Embargos de Declaração estão previstos no art. 65, do Anexo II do RICARF: Art. 65. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciar-se a turma. Do dispositivo transcrito, observa-se que os embargos de declaração são cabíveis apenas nas hipóteses em que ocorra na decisão atacada as seguintes hipóteses: a) omissão no enfrentamento de ponto que a turma deveria se pronunciar; b) obscuridade, que se caracteriza pela impossibilidade de se compreender o raciocínio desenvolvido para fundamentar a decisão e/ou o que efetivamente restou decidido pelo órgão de julgamento; e c) contradição entre a decisão e os seus fundamentos. Feitas essas considerações, passa-se à necessária apreciação. Fl. 829DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 5 a) Omissão quanto à ausência de comprovação do fato gerador pela autoridade fazendária A embargante alega que o acórdão restou omisso quanto aos argumentos trazidos em recurso voluntário de que a autoridade fiscal não teria demonstrado a ocorrência do fato gerador das contribuições previdenciárias, afrontando o disposto no art. 142 do CTN. Da leitura do inteiro teor do acórdão, verifica-se que não assiste razão à embargante. O voto condutor do acórdão concluiu pela higidez do lançamento fiscal, o qual, baseado na documentação verificada durante a auditoria fiscal realizada, demonstra a prestação de serviços de pessoas físicas mediante a utilização de contratos de prestação de serviços de pessoas jurídicas. Dessa forma, não se verifica omissão no julgado a fim de justificar o acolhimento dos embargos. b) Omissão quanto ao pedido subsidiário de ausência de simulação e exclusão dos valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS-Consultoria A embargante alega omissão no acórdão embargado em relação ao levantamento CS – Consultoria, quanto às alegações de inexistência de simulação na contratação das pessoas jurídicas e ao pedido de exclusão das contribuições previdenciárias da parte dos segurados. Da leitura do inteiro teor do acórdão e compulsando os autos, verifica-se que assiste razão à embargante. Tais alegações constaram do Item 5 do Recurso Voluntário, todavia, sobre elas nada disse o acórdão embargado, sequer sobre seu conhecimento. Assim, resta verificada a omissão alegada. c) Omissão quanto ao pedido subsidiário de reconhecimento da invalidade das multas pelo descumprimento de obrigações acessórias A embargante alega omissão no acórdão embargado em relação ao pedido subsidiário quanto à invalidade das multas por descumprimento de obrigações acessórias aplicadas. Da leitura do inteiro teor do acórdão e compulsando os autos, verifica-se que assiste razão à embargante. Tais alegações constaram do Item 6 do Recurso Voluntário, todavia, sobre elas nada disse o acórdão embargado, sequer sobre seu conhecimento. Assim, resta verificada a omissão alegada. Diante do exposto, os embargos foram admitidos parcialmente, em relação aos seguintes pontos: Fl. 830DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 6 a) Omissão quanto ao pedido subsidiário de ausência de simulação e exclusão dos valores relativos à parte dos segurados no levantamento CS- Consultoria; e b) Omissão quanto ao pedido subsidiário de reconhecimento da invalidade das multas pelo descumprimento de obrigações acessórias. É o relatório. VOTO O Conselheiro Thiago Buschinelli Sorrentino, relator: 1 CONHECIMENTO Presentes os requisitos de admissibilidade, conheço dos embargos de declaração. 2 QUADRO Trata-se de embargos de declaração opostos por Hospital Vera Cruz S/A contra o Acórdão nº 2202-009.796, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, alegando a existência de omissões no julgado. O embargante sustenta, inicialmente, que a decisão embargada não se manifestou sobre a ausência de comprovação do fato gerador pela autoridade fazendária. Alega que o lançamento das contribuições previdenciárias se deu com base em amostragens, sem análise individualizada das relações jurídicas envolvidas. Invoca o art. 142 do CTN, que impõe à Administração Tributária o dever de delimitar a matéria tributável e comprovar o fato gerador de forma inequívoca. Diante disso, requer o acolhimento dos embargos com efeitos infringentes, a fim de cancelar integralmente o lançamento ou, subsidiariamente, afastá-lo em relação aos contratos não individualmente analisados. Em segundo lugar, o embargante aponta omissão quanto ao pedido subsidiário de exclusão dos valores relativos às sociedades do levantamento CS-Consultoria. Argumenta que a fiscalização não comprovou a existência de simulação, e que a não qualificação da multa aplicada indicaria a inexistência de fraude, sonegação ou conluio. Além disso, sustenta que, caso se mantenha a exigência, deveriam ser excluídos os valores das contribuições já recolhidas até o teto previdenciário. Requer o provimento dos embargos para sanar a omissão e atribuir-lhes efeitos modificativos, excluindo as contribuições indevidamente exigidas. Fl. 831DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 7 Por fim, o embargante sustenta que a decisão não se manifestou sobre o pedido subsidiário de cancelamento das multas por descumprimento de obrigações acessórias. Defende que a qualificação das verbas como remuneratórias foi objeto de controvérsia, atraindo a aplicação do art. 112, II, do CTN, que determina a interpretação favorável ao contribuinte em casos de dúvida. Alega que o acórdão mencionou as multas na ementa, mas não fundamentou sua manutenção, o que configura omissão relevante. Requer o provimento dos embargos para que haja pronunciamento sobre o tema e o consequente cancelamento das penalidades. A decisão embargada rejeitou parcialmente o recurso voluntário, sob o fundamento de que a matéria relativa ao art. 129 da Lei nº 11.196/2005 estava preclusa, pois não foi arguida na impugnação administrativa. Além disso, confirmou a existência de vínculo empregatício, ressaltando que os contratos possuíam modelo padronizado e que os serviços eram prestados com subordinação e habitualidade. No tocante ao levantamento CS-Consultoria, reconheceu que apenas dois contratos foram analisados, mas entendeu que essa amostragem era suficiente para caracterizar a relação empregatícia de forma geral. Quanto às obrigações acessórias e multas, manteve a exigência, sem análise específica sobre a aplicação do art. 112 do CTN. Diante disso, o embargante sustenta que a decisão embargada não examinou questões essenciais, o que configura omissão. Requer o acolhimento dos embargos com efeitos modificativos, a fim de cancelar ou reduzir o lançamento tributário e as penalidades impostas. O embargante aponta vícios de omissão na decisão embargada, requerendo sua integração. Os embargos de declaração, nos termos do art. 1.022 do Código de Processo Civil e do art. 65 do Anexo II da Portaria MF nº 343/2015, destinam-se a esclarecer obscuridade, eliminar contradição ou suprir omissão de ponto ou questão sobre a qual o órgão julgador deveria ter se manifestado. 3 OMISSÃO QUANTO AO LEVANTAMENTO CS-CONSULTORIA E EXCLUSÃO DE VALORES O embargante sustenta que a decisão embargada não analisou o argumento de que a não qualificação da multa aplicada pela fiscalização demonstraria a inexistência de fraude ou simulação, afastando a necessidade de autuação. Além disso, argumenta que os valores das contribuições previdenciárias de segurados que já atingiram o teto deveriam ser excluídos. De fato, o acórdão embargado fundamentou a manutenção do lançamento no entendimento de que os contratos analisados pela fiscalização seguiam um modelo uniforme, caracterizando vínculo empregatício e subordinação. No entanto, não houve manifestação expressa quanto à alegação da não qualificação da multa e seus impactos na caracterização da exigência tributária, tampouco sobre a possibilidade de exclusão dos valores já recolhidos até o teto previdenciário. Sanando essa omissão, esclarece-se que a ausência de multa qualificada não é determinante para afastar a exigência fiscal, uma vez que o fundamento do lançamento repousa Fl. 832DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.320 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 15504.724708/2014-60 8 na reclassificação das relações contratuais como vínculo empregatício e na consequente incidência das contribuições previdenciárias devidas. Quanto à exclusão de valores já recolhidos, esclarece-se que a fiscalização, ao calcular as contribuições previdenciárias devidas, considerou os valores já recolhidos até o teto previdenciário, conforme os elementos constantes dos autos. 4 OMISSÃO QUANTO ÀS MULTAS POR DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS E APLICAÇÃO DO ART. 112 DO CTN O embargante alega que o acórdão não examinou a aplicabilidade do art. 112, II, do CTN, que estabelece que, em caso de dúvida na interpretação de normas sancionatórias, a interpretação deve ser favorável ao contribuinte. A decisão embargada manteve a penalidade sem explicitar se haveria dúvida jurídica relevante sobre a obrigação acessória imposta. Sanando essa omissão, esclarece-se que a interpretação favorável ao contribuinte nos termos do art. 112 do CTN se aplica quando há incerteza quanto à tipificação da infração, o que não se verifica no caso concreto. A fiscalização identificou que as obrigações acessórias foram descumpridas com base na caracterização do vínculo empregatício, e a decisão embargada confirmou esse entendimento. 5 DISPOSITIVO Diante do exposto, acolho os embargos de declaração sem efeitos modificativos, apenas para sanar as omissões apontadas, mantendo inalterado o resultado do Acórdão nº 2202- 009.796. É como voto. Assinado Digitalmente Thiago Buschinelli Sorrentino Fl. 833DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto 1 CONHECIMENTO 2 quadro 3 Omissão quanto ao levantamento CS-Consultoria e exclusão de valores 4 Omissão quanto às multas por descumprimento de obrigações acessórias e aplicação do art. 112 do CTN
score : 1.0
Numero do processo: 10480.733168/2012-45
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Jul 23 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Aug 18 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 15/04/2011 a 13/07/2011
VOTO DE QUALIDADE. ARTIGO 112 DO CTN. AFASTAMENTO DE MULTA E JUROS. IMPOSSIBILIDADE.
Uma vez confirmado o erro de classificação fiscal, não há que se falar em afastamento da multa de ofício no patamar de 75% e dos juros moratórios por força do disposto no artigo 112 do CTN. A aplicação da multa de ofício não decorre de haver ou não conduta dolosa por parte da empresa.
Numero da decisão: 3401-014.028
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer dos embargos de declaração para negar-lhes provimento.
Assinado Digitalmente
Leonardo Correia Lima Macedo – Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Ana Paula Giglio, Laércio Cruz Uliana Júnior, Celso Jose Ferreira de Oliveira, Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos e Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente).
Nome do relator: LEONARDO CORREIA LIMA MACEDO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 15/04/2011 a 13/07/2011 VOTO DE QUALIDADE. ARTIGO 112 DO CTN. AFASTAMENTO DE MULTA E JUROS. IMPOSSIBILIDADE. Uma vez confirmado o erro de classificação fiscal, não há que se falar em afastamento da multa de ofício no patamar de 75% e dos juros moratórios por força do disposto no artigo 112 do CTN. A aplicação da multa de ofício não decorre de haver ou não conduta dolosa por parte da empresa.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 15/04/2011 a 13/07/2011 VOTO DE QUALIDADE. ARTIGO 112 DO CTN. AFASTAMENTO DE MULTA E JUROS. IMPOSSIBILIDADE. Uma vez confirmado o erro de classificação fiscal, não há que se falar em afastamento da multa de ofício no patamar de 75% e dos juros moratórios por força do disposto no artigo 112 do CTN. A aplicação da multa de ofício não decorre de haver ou não conduta dolosa por parte da empresa. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer dos embargos de declaração para negar-lhes provimento. Assinado Digitalmente Leonardo Correia Lima Macedo – Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os julgadores Ana Paula Giglio, Laércio Cruz Uliana Júnior, Celso Jose Ferreira de Oliveira, Mateus Soares de Oliveira, George da Silva Santos e Leonardo Correia Lima Macedo (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de embargos de declaração opostos pelo contribuinte em face do acórdão nº 3401- 011.579, proferido em 23/03/2023, pela 1ª Turma Ordinária da 4º Câmara da 3º Seção de Julgamento do CARF. Fl. 1435DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.028 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.733168/2012-45 2 Do Despacho de Admissibilidade de Embargos O despacho de admissibilidade de embargos dá seguimento com base na seguinte conclusão: CONCLUSÃO Com base nas razões acima expostas, admito, em parte, os embargos de declaração opostos pelo contribuinte para sanar a omissão sobre a aplicabilidade do artigo 112 do CTN, para relevação das penalidades. Encaminhe-se para novo sorteio no âmbito da turma, tendo em vista que os Conselheiros relator e redator não mais compõem o colegiado. Vê-se, portanto que o Embargos foram admitidos de forma parcial apenas para sanar a omissão sobre a aplicabilidade do artigo 112 do CTN, para relevação das penalidades. Dos Embargos A empresa INTERCEMENT BRASIL S.A. apresentou Embargos de Declaração contra o Acórdão nº 3401-011.579. No tocante a parte admitida nos Embargos, a Empresa pede provimento em relação ao art. 112 do CTN e à necessidade de cancelamento das penalidades aplicadas, em face da dúvida real sobre a capitulação legal do fato, sua natureza e circunstâncias em relação à NCM aplicável ao Cimento Portland CP II-F40. 28. Por fim, o acórdão deve ser integrado para que se manifeste sobe a aplicabilidade do art. 112 do CTN12 ao caso, para relevação das penalidades aplicadas à Embargante. A discussão sobre a classificação fiscal do Cimento Portland CP II-F40 foi extremamente acirrada e o desfecho desfavorável se deu por aplicação do voto de qualidade pró-fisco. 29. Nesses casos, aplica-se a regra de proporcionalidade do art. 112 do CTN, pois há efetiva dúvida sobre a capitulação legal do fato, sua natureza e circunstâncias no que tange à classificação fiscal do cimento. Existindo dúvida quanto à correta classificação fiscal que deve ser atribuída ao cimento, deve ser afastada a penalidade aplicada pela suposta classificação incorreta. 30. A dúvida se revela, inclusive, pela remansosa jurisprudência desse Eg. Conselho, que sempre validou a classificação fiscal adotada pela Embargante. 31. Assim, deve ser integrada a decisão, para que se manifeste sobre a necessidade de cancelar a multa aplicada à Embargante, em face do que dispõe o art. 112 do CTN. O Pedido consta conforme a seguir: V. PEDIDO 33. Se superada a preliminar, que os aclaratórios sejam providos para sanar omissão em relação Fl. 1436DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3401-014.028 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10480.733168/2012-45 3 (...) (c) ao art. 112 do CTN e à necessidade de cancelamento das penalidades aplicadas à Embargante, em face da dúvida real sobre a capitulação legal do fato, sua natureza e circunstâncias em relação à NCM aplicável ao Cimento Portland CP II- F40. É o relatório. VOTO Conselheiro Leonardo Correia Lima Macedo, relator. Dos Embargos de Declaração A seguir, apresenta-se a análise do pedido admitido nos Embargos de Declaração opostos pela INTERCEMENT BRASIL S.A. Aplicação do art. 112 do CTN A Embargante sustenta que, diante da dúvida jurídica relevante sobre a correta classificação do cimento CP II-F40 (dúvida revelada por votos vencidos e precedentes favoráveis), deveria ser aplicada a regra do art. 112 do CTN, afastando-se a penalidade por interpretação dúbia da norma. Esse dispositivo determina que, em caso de dúvida na definição de infrações ou penalidades, a interpretação mais favorável deve ser adotada. Assim, a empresa defende o afastamento da penalidade (multa de ofício de 75%) e dos juros moratórios. Apesar da relevância do art. 112 do CTN, entendo que, no caso em apreço, o resultado do julgamento foi claro, ou seja, não há dúvida jurídica para afastar a penalidade, tendo sido a classificação confirmada de forma consistente no acórdão embargado. Conclusão Diante do exposto, conheço dos embargos de declaração, e no mérito, nego provimento. Assinado Digitalmente Leonardo Correia Lima Macedo Conselheiro Fl. 1437DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10384.721074/2015-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 29 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Aug 20 00:00:00 UTC 2025
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2012
AFERIÇÃO INDIRETA. BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE.
A aferição indireta do salário-de-contribuição encontra-se perfeitamente autorizada na hipótese de recusa ou sonegação de documento ou informação solicitado pela Fiscalização, ou na sua apresentação deficiente.
INFRAÇÃO. LIVROS. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE.
A apresentação de Livros com informação diversa da realidade, ou, ainda, com omissão de informação verdadeira constitui infração à Lei de custeio previdenciário.
INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DE LEI OU ATO NORMATIVO. ARGÜIÇÃO.
A instância administrativa é incompetente para se manifestar sobre inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo.
MULTA DE OFÍCIO
A multa de ofício é de aplicação obrigatória em todos os casos de exigências de impostos e contribuições decorrentes de lançamento de ofício, não podendo ser dispensada ou reduzida por falta de previsão legal.
Numero da decisão: 2402-013.071
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, negar provimento ao recurso voluntário.
Assinado Digitalmente
João Ricardo Fahrion Nüske – Relator
Assinado Digitalmente
Rodrigo Duarte Firmino – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Gregorio Rechmann Junior, Diogo Cristian Denny (substituto[a] integral), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente)
Nome do relator: JOAO RICARDO FAHRION NUSKE
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2012 AFERIÇÃO INDIRETA. BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE. A aferição indireta do salário-de-contribuição encontra-se perfeitamente autorizada na hipótese de recusa ou sonegação de documento ou informação solicitado pela Fiscalização, ou na sua apresentação deficiente. INFRAÇÃO. LIVROS. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE. A apresentação de Livros com informação diversa da realidade, ou, ainda, com omissão de informação verdadeira constitui infração à Lei de custeio previdenciário. INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DE LEI OU ATO NORMATIVO. ARGÜIÇÃO. A instância administrativa é incompetente para se manifestar sobre inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo. MULTA DE OFÍCIO A multa de ofício é de aplicação obrigatória em todos os casos de exigências de impostos e contribuições decorrentes de lançamento de ofício, não podendo ser dispensada ou reduzida por falta de previsão legal.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Gregorio Rechmann Junior, Diogo Cristian Denny (substituto[a] integral), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente)
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BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE. A aferição indireta do salário-de-contribuição encontra-se perfeitamente autorizada na hipótese de recusa ou sonegação de documento ou informação solicitado pela Fiscalização, ou na sua apresentação deficiente. INFRAÇÃO. LIVROS. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE. A apresentação de Livros com informação diversa da realidade, ou, ainda, com omissão de informação verdadeira constitui infração à Lei de custeio previdenciário. INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DE LEI OU ATO NORMATIVO. ARGÜIÇÃO. A instância administrativa é incompetente para se manifestar sobre inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo. MULTA DE OFÍCIO A multa de ofício é de aplicação obrigatória em todos os casos de exigências de impostos e contribuições decorrentes de lançamento de ofício, não podendo ser dispensada ou reduzida por falta de previsão legal. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, negar provimento ao recurso voluntário. Fl. 3327DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 2 Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske – Relator Assinado Digitalmente Rodrigo Duarte Firmino – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Marcus Gaudenzi de Faria, Gregorio Rechmann Junior, Diogo Cristian Denny (substituto[a] integral), Joao Ricardo Fahrion Nuske, Luciana Vilardi Vieira de Souza Mifano, Rodrigo Duarte Firmino (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de recurso voluntário interposto nos autos do processo nº 10384.721074/2015-64 , em face do acórdão nº 14-62.912, julgado pela 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, em sessão realizada em 27 de setembro de 2016, na qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem que assim os relatou: Trata-se de crédito lançado contra o contribuinte identificado em epígrafe, no montante de R$ 165.598,79, referente ao período de 03/2011 a 12/2012, compreendendo contribuições da empresa (artigo 22, inciso III da Lei nº 8.212/91) incidentes sobre remuneração paga sob a forma de lucros distribuídos além do legalmente permitido aos sócios Mauro Carvalho Lopes e Maria Beatriz Borges Lopes, e lavratura de auto por descumprimento de obrigação tributária acessória, conforme consta do Relatório Fiscal, fls. 11/34. Compõem o lançamento os autos de infração abaixo discriminados: A fiscalização confrontou os valores de lucros distribuídos nos anos de 2011 e 2012 e constatou que a empresa distribuiu mais que o legalmente permitido. No caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro presumido (cópia das declarações IRPJ 2013/Ano-Calendário 2012, IRPJ 2012/Ano- Calendário 2011 e IRPJ 2011/Ano-Calendário 2010), o art. 10 da Lei nº 9.249/95 dispõe que os lucros ou dividendos distribuídos serão isentos, observadas as disposições legais. De acordo com o regime de tributação (Lucro Presumido) adotado pela empresa, os lucros podem ser distribuídos somente até: Fl. 3328DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 3 - o valor correspondente ao lucro presumido, diminuído de todos os impostos e contribuições (art. 48, § 2°, I da IN RFB 93/1997); ou - o valor correspondente ao lucro contábil, desde que a empresa demonstre, através de escrituração contábil feita com observância da lei comercial, que o lucro efetivo é maior que o lucro presumido (art. 48, § 2°, II da IN RFB 93/1997). Entretanto, a fiscalização desconsiderou a contabilidade apresentada pela empresa: Livros Diário 15 a 17, anos calendário 2010 a 2012, por ter constatado informação diversa da realidade e omissão de informação verdadeira, conforme detalhado no Relatório Fiscal do auto de infração 51.075.598-4. Neste caso, a empresa somente está autorizada a distribuir o valor correspondente ao lucro presumido, diminuído de todos os impostos e contribuições. De acordo com os valores declarados pela empresa nas Declarações IRPJ 2013/2012 e 2012/2011, a fiscalização efetuou o cálculo da distribuição de lucro não tributável, que corresponde ao Lucro Presumido deduzidos os valores de Impostos (IRPJ e Adicional IRPJ) e Contribuições (CSLL, PIS e COFINS). Os valores de lucros distribuídos em 2011 estão lançados na Conta 3665(Distribuição de Lucros - Exercício 2011) e em 2012 na conta 3872 (Distribuição de Lucros — Exercício 2012) e informados nas Declarações IRPF 2012/2011, 2013/2012 do sócio Mauro Lopes no campo Rendimentos Isentos e Não Tributáveis. O valor total distribuído à Sra. Maria Beatriz Lopes (R$ 120.000,00) não constou na sua Declaração IRPF 2013/2012. Do confronto dos valores de lucros distribuídos nos anos de 2011 e 2012, a fiscalização constatou que a empresa distribuiu mais do que o legalmente permitido, conforme tabela abaixo reproduzida, demonstrando o valor da Distribuição Isenta (Lucro Não Tributável)por trimestre de apuração, confrontado ao valor da Distribuição Efetiva de acordo com os lançamentos contábeis, o Balanço Patrimonial e as Declarações IRPF apresentadas pelos sócios: A base de cálculo da contribuição devida corresponde nas competências discriminadas na tabela acima à diferença entre a Distribuição Efetiva de Lucros e a Distribuição Isenta. Aplicou-se a multa de ofício no valor de 75% (setenta e cinco por cento)sobre a contribuição devida, na forma do art. 35-A da Lei nº 8.212/91. Constam como elementos examinados na Ação Fiscal que fundamentam o presente lançamento: - Livro Diário n° 15, Ano 2010, Termo de Autenticação JUCEPI 11/002553-9, e respectivo Livro Razão; - Livro Diário n° 16, Ano 2011, Termo de Autenticação JUCEPI 13/003174-7, e respectivo Livro Razão; Fl. 3329DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 4 - Livro Diário n° 17, Ano 2012, Termo de Autenticação JUCEPI 13/003175-5, e respectivo Livro Razão; - Ficha Rendimentos Isentos e Não Tributáveis do Imposto de Renda Pessoa Física do Sr. Mauro Carvalho Lopes, CPF 131.928.843-08, Ano-Calendário 2011(controle 24269264. 767151) e Ano-Calendário 2012 (controle 242701412273730); - Auto de Infração de Obrigação Acessória 51.075.598-4, anexo a este Relatório, com os motivos determinantes para a desconsideração da Contabilidade apresentada pela empresa; - Contrato Social, Aditivos 01 e 02 e Documentos Pessoais dos sócios; - Declaração IRPJ da empresa, Exercício 2013, Ano-Calendário 2012(Recibo 22.85.54.59.13); - Declaração IRPJ da empresa, Exercício 2012, Ano-Calendário 2011(Recibo 38.80.99.45.87). Auto de infração por descumprimento de obrigação acessória Debcad nº 51.075.598-4 Trata-se de auto de infração lavrado por descumprimento de obrigação acessória, por ter a empresa apresentado a contabilidade dos anos calendários 2010 a 2012 com Informação Diversa da Realidade/Omissão de Informação Verdadeira, conforme consta do Relatório Fiscal, fls. 21/34. A empresa apresentou os Livros Contábeis Diário nº 15 (Ano 2010, Termo de Autenticação 11/002553-9), Diário nº 16 (Ano 2011, Termo de Autenticação 13/003174-7)e Diário nº 17 (Ano 2012, Termo de Autenticação 13/003175-5), e respectivos Livros Razão, assinados pelo Contador Zilton Ferreira Lages Filho, CPF 183.902.693-68, CRC-PI 003420, com as seguintes deficiências apontadas pela fiscalização, a seguir transcritas: Ano 2010 Livro Diário nº 15 - Falta de reconhecimento contábil das despesas com os serviços contábeis: o Balancete de 2010 (fls. 84 do Livro Diário n.15) indica lançamentos a débito na conta 2329 (Serviços de Terceiros - Despesa Administrativa - Despesa Operacional -Despesa) no valor de R$ 9.886,20 durante o ano de 2010, sem nenhum lançamento relativo ao pagamento dos serviços contábeis, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo próprio contador pessoa física, CPF 183.902.693-68, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo escritório contábil pessoa jurídica (ADM INFORMÁTICA), CNPJ 03.584.822/0001-55 (Razão 2010, fls. 146, cópia anexa). - Omissão dos lançamentos contábeis relativos às Folhas-de-Pagamento das obras HOSPITAL DE OTORRINO (cópia folha completa anexa), CEI 51.207.44898/79, e S R BRASIL (cópia folha simplificada anexa), CEI 51.208.91259/71. A empresa declarou em GFIP, na competência Dez/2012, as remunerações de trabalhadores alocados nas matrículas CEI destas duas obras, apresentou as Folhas-de-Pagamento (completa e simplificada), mas omitiu os lançamentos destas folhas na Fl. 3330DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 5 contabilidade (Livro Diário n. 15, fls. 73). Nesta competência, foram lançadas as despesas com Folha-de-Pagamento: LIBERTATIS, CENTRO DISTRIBUIÇÃO, HOSP ALIANÇA, ESCRITÓRIO, EDILSON VIANA, NORBERTO CAMPELO, ENGECOPI, MEDICARCI, CENTRO COMERCIAL e UDI. Foram omitidos os lançamentos: débito de 3301 (Salários) a crédito de 945(Salários a Pagar) relativos à FP HOSPITAL DE OTORRINO e FP S R BRASIL. - Lançamento duplicado da 1ªParcela 13º Salário (rubrica 7) constante na Folha de Pagamento de Nov/2010 (cópia anexa). O lançamento da 1ª Parcela 13. Salário consta em: Lançamento Correto: Débito de 164 (Adiantamento 13. Salário) a Crédito de 52 (Caixa) - Livro Diário n. 15, fls. 67, no valor de R$ 57.332,72, em 30/nov/2010. Lançamento duplicado: Débito de 3301 (Salários) a Crédito de 945 (Salários a Pagar)- Livro Diário n. 15, fls. 65, em 30/nov/2010. O valor do Adiantamento 13. Salário(rubrica 7) está portanto embutido nos lançamentos da despesa com folha de novembro, gerando uma distorção entre o valor contabilizado e o adiantamento, que é reconhecido duplamente como direito (164-Conta do Ativo) e como despesa (3301-Conta de Resultado). Assim, em vez de uma despesa de folha de R$ 136.219,91, a empresa faz lançamentos contábeis que totalizam R$ 193.267,38. Intimada (TIF 6/2015), a Assessoria Contábil limitou-se a dizer: "Os Pagamentos das folhas de 13° Salário de 2010 e 2011 foram registrados em conta própria conforme documentação enviada pela empresa". - Omissão de lançamento contábil relativo à compra de material de construção: a)NF 195.216 (cópia anexa), no valor de R$ 19.769,70, emitida em 27/08/2010 (Sem lançamento no Livro Diário n. 15, fls. 41). A cópia eletrônica da Nota Fiscal foi obtida mediante pesquisa no Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). Intimada (TIF 7/2015), a Assessoria Contábil limitou-se a dizer: “Informamos que os lançamentos de compra de Material de Construção foram registrados em conta própria, conforme todas as notas fiscais enviadas pela empresa” Anos 2010 e 2011 - Falta de reconhecimento contábil das receitas provenientes do contrato de construção civil celebrado com a contratante Medicarei Medicina Arte e Ciência S/C, CNPJ 02.737.110/0001-66. Objeto: "É objeto do presente contrato a administração de mão-de-obra da construção de um edifício comercial, onde funcionará uma clínica, localizado na Rua Lizandro Nogueira, 2042 Centro Norte, de propriedade do Contratante, em Teresina, Estado do Piauí". Valor: R$ 21.000,00 Data de Celebração do Contrato: 16 de Março de 2010. NFS Emitida: 417, em 28/09/2011, no valor de R$ 21.000,00. CEI: 51.206.58814/75, com área total de 479,23 m2 , resultante da demolição de L09,13m2 de uma área anterior de 182 m2 e acréscimo de 406,32m2. Fl. 3331DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 6 a) O contrato por administração é aquele em que a empresa contratada somente administra a obra de construção civil e recebe como pagamento uma percentagem sobre todas as despesas realizadas na construção ou um valor previamente estabelecido em contrato, denominado "taxa de administração". b) Não é o presente caso, posto que a empresa Mauro Lopes contrata os trabalhadores da obra MEDICARCI em seu próprio nome, conforme Declarações GFIP e folhas-de-pagamento anexas (out/2010 e dez/2010). Somente no ano de 2010, sem considerar o FGTS e a Contribuição Previdenciária, a empresa Mauro Lopes declarou em GFIP remuneração total para o CEI 51.206.58814/75 no valor de R$ 153.334,58. c) Já no ano de 2011, sem considerar os mesmos encargos, a empresa declarou remuneração total no valor de R$ 16.184,80. d) Contudo, para tal monta de despesas (somente com folha, na ordem de R$ 180.000,00) não há o correspondente reconhecimento contábil das receitas (Notas Fiscais de Serviços emitidas e contabilizadas de apenas R$ 21.000,00). e) Questionada, a empresa esclareceu que tal fato se deve pelo pagamento direto da folha pelo contratado. Ou seja, a empresa lança as despesas de folha, mas o pagamento de tais despesas se dá pela contratante, sem a emissão das NFS correspondentes às receitas correlatas às despesas, em grave ofensa aos Princípios Contábeis da Oportunidade e da Competência. f) A tabela abaixo discrimina o Salário-de-Contribuição declarado em GFIP relativo à obra MEDICARCI (CEI 51.206.58814/75) pela empresa Mauro Lopes (CNPJ 00.988.603/0001-43), bem como as folhas dos Livros Diários n. 15 e n. 16, que contêm o reconhecimento da despesa de folha-de-pagamento desta obra. (...)Falta de reconhecimento contábil das receitas provenientes da execução de obra de construção civil celebrado com o Sr. Edilson Viana de Carvalho, CPF 001.560.433-00. ART 00019035845905019317: "Projeto e Construção de um Edifício Comercial denominado Edificação Mista - Comércio e Serviços, com área total de 440m2 . Esta obra atende as normas de acessibilidade da ABNT. Endereço da Obra: Rua Anfrísio Lobão, 2024, São Cristóvão, Teresina-PI. Período: 27/10/2010 a 28/02/2011". Valor: R$ 30.000,00 Data de Emissão da ART: 17 de Fevereiro de 2011. NFS Emitida: 415, em 27/09/2011, no valor de R$ 30.000,00. CEI: A empresa Mauro Lopes não matriculou esta obra de construção civil. a) O contrato por administração é aquele em que a empresa contratada somente administra a obra de construção civil e recebe como pagamento uma percentagem sobre todas as despesas realizadas na construção ou um valor previamente estabelecido em contrato, denominado "taxa de administração". Fl. 3332DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 7 b) Não é o presente caso, posto que a empresa Mauro Lopes contrata os trabalhadores da obra EDILSON VIANA em seu próprio nome, conforme folhas-de pagamento anexas (out/2010 e dez/2010). Na falta de matrícula CEI específica para esta obra, o recolhimento dos encargos se dá com a alocação dos trabalhadores em uma matrícula CEI pertencente a outra obra. Ex: O Sr. Antônio José Ribamar de Sousa, pedreiro, com salário-de-contribuição igual a R$ 504,00 na competência 12/2010, pertence à folha-de-pagamento EDILSON VIANA, mas está alocado na GFIP desta competência no CEI 51.207.44898/79 -HOSPITAL DE OTORRINOLARINGOLOGIA. c) Somente no ano de 2010, sem considerar o FGTS e a Contribuição Previdenciária, a empresa Mauro Lopes contabilizou despesas de folha no valor de R$ 49.021,72. Já no ano de 2011, sem considerar os mesmos encargos, a empresa contabilizou R$ 36.735,11. d) Contudo, para tal monta de despesas (somente com folha, na ordem de R$ 85.000,00) não há o correspondente reconhecimento contábil das receitas (Notas Fiscais de Serviços emitidas e contabilizadas de apenas R$ 30.000,00). e) Questionada, a empresa esclareceu que tal fato se deve pelo pagamento direto da folha pelo contratado. Ou seja, a empresa lança as despesas de folha, mas o pagamento de tais despesas se dá pela contratante, sem a emissão das NFS correspondentes às receitas correlatas às despesas, em grave ofensa aos Princípios Contábeis da Oportunidade e da Competência. (...)Ano 2011 (Livro Diário nº 16)- Falta de reconhecimento contábil das despesas com os serviços contábeis: o Balancete de 2011 (fls. 123 do Livro Diário n.16) indica lançamentos a débito na conta 2329 (Serviços de Terceiros - Despesa Administrativa - Despesa Operacional -Despesa) no valor de R$ 169.871,77 durante o ano de 2011, sem nenhum lançamento relativo ao pagamento dos serviços contábeis, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo próprio contador pessoa física, CPF 183.902.693-68, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo escritório contábil pessoa jurídica (ADM INFORMÁTICA), CNPJ 03.584.822/0001-55 (Razão 2011, fls. 223 a 225). - Lançamentos multiplicados das despesas com Rescisão Contratual na competência agosto/2011, débito de 3317 (13º Salário/Férias/Rescisão) a crédito de 917(Rescisões/Férias/13º Salário a pagar). Nesta competência, foram lançadas despesas com o histórico TRCT - Termo de Rescisão de Contrato de Trabalho, conforme Tabela 3, no valor de R$ 110.369,00. O valor lançado nesta competência foi submetido a auditoria dos Termos de Rescisão de Contrato de Trabalho (TRTC). Intimada (TIF 7/2015), a empresa apresentou 29 (vinte e nove) TRTC, conforme Tabela 4, no valor de R$ 46.464,35, bem aquém dos valores lançados (real = 42% x lançado). Por sua vez, a Assessoria Contábil limitou-se a dizer: "Os pagamentos e lançamentos das rescisões de Agosto de 2011 foram registrados em conta própria, conforme documentação enviada pela empresa”. Fl. 3333DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 8 (...)- Omissão dos lançamentos contábeis relativos à compra de material de construção: a) NF 38.132 (cópia anexa), no valor de R$ 27.590,62, emitida em 28/03/2011 (Sem lançamento no Livro Diário n. 16, fls. 20); b) NF 16.140, no valor de R$ 14.164,00 (cópia anexa), emitida em 05/08/2011 (Sem lançamento no Livro Diário n. 16, fls. 63). As cópias eletrônicas das Notas Fiscais foram obtidas mediante pesquisa nº Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). Intimada (TIF 7/2015), a Assessoria Contábil limitou-se a dizer: "Informamos que os lançamentos de compra de Material de Construção foram registrados em conta própria, conforme todas as notas fiscais enviadas pela empresa". - Falta de comprovação fiscal do lançamento 2128 (Pro Labore) a 52 (Caixa), nº valor de R$ 19.710,00, em 31/dez/2011 (Livro Diário n. 16, fls. 115). O histórico do lançamento é claro: PG COMPL. PRO LABORE, indicando contabilmente o reconhecimento de uma despesa mediante pagamento complementar de Pro Labore. O valor desta remuneração complementar, contudo, não foi declarada em GFIP, ficando à margem da incidência da contribuição previdenciária devida pela empresa, correspondente a 20% do valor pago ou creditado, nos termos do art. 22, III da Lei 8.212/91 (a empresa declarou apenas R$ 4.905,00 de Pro Labore nesta competência). Intimada (TIF 7/2015), a Assessoria Contábil da empresa esclarece, já próximo ao prazo fatal de homologação do lançamento (nov/2011-mar/2015), que "o lançamento na conta de Pro Labore no valor de R$ 19.710,00 foi erro material, que será ajustado". Ano 2012 Livro Diário nº 17 - Falta de reconhecimento contábil das despesas com os serviços contábeis: o Balancete de 2012 (fls. 86 do Livro Diário n.17) indica lançamentos a débito na conta 2329 (Serviços de Terceiros - Despesa Administrativa - Despesa Operacional -Despesa) no valor de R$ 283.691,63 durante o ano de 2012, sem nenhum lançamento relativo ao pagamento dos serviços contábeis, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo próprio contador pessoa física, CPF 183.902.693-68, seja mediante pagamento de notas fiscais emitidas pelo escritório contábil pessoa jurídica (ADM INFORMÁTICA), CNPJ 03.584.822/0001-55 (Razão 2012, fls. 150 a 152). Omissão de lançamento contábil relativo à compra de material de construção constante nas Notas Fiscais abaixo relacionadas. A Coluna Diário 17 da Tabela apresenta as folhas do Livro Diário sem os respectivos lançamentos. (...)As cópias eletrônicas das Notas Fiscais foram obtidas mediante pesquisa nº Sistema Público de Escrituração Digital (SPED). Intimada (TIF 7/2015), a Assessoria Contábil limitou-se a dizer: "Informamos que os lançamentos de compra de Material de Construção foram registradas em conta própria, conforme todas as notas fiscais enviadas pela empresa". Fl. 3334DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 9 As deficiências acima apontadas constituem infração ao previsto no art. 33, § 3° da Lei n° 8.212/91, c.c. art. 233, parágrafo único do Regulamento da Previdência Social/RPS, aprovado pelo Decreto n° 3.048/99. Constam como Anexos do Relatório Fiscal do auto de infração : - Anexo 1A Falta de reconhecimento contábil das despesas com os serviços de contabilidade, fl. 126; - Omissão na contabilização da folha de pagamento das obras Hosp Otorrino, S R Brasil, fl. 139; - Anexo 1B - Lançamento Contábil Duplicado do Adiantamento 13. Salário de 2010 (Rubrica 7), pago na Folha de pagamento de Novembro, fl. 154; - Anexo 1C - - Nota fiscal de compra de material de construção omitida da contabilidade , fls. 232; - Anexo 2 – falta de reconhecimento contábil das receitas decorrentes da obra Medicarci, despesas de folha de pagamento incompatível com a receita auferida, fls. 235; - Falta de reconhecimento contábil das receitas decorrentes da obra Edílson Viana de Carvalho, despesas de folha de pagamento incompatível com a receita auferida, fl. 273, 440 m2 - Anexo 3 - Termo de Rescisão de Contrato de Trabalho em 08/2011, lançamentos multiplicados, fl. 295 - Pro labore Complementar sem recibo fl. 339, - Anexo 4 - Notas fiscais de compra de material de construção omitida na contabilidade, fl. 342; - Declarações Fiscais, fl. 382. Em julgamento a DRJ firmou a seguinte posição: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2010 a 31/12/2012 CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PARA A SEGURIDADE SOCIAL. CONTRIBUINTE INDIVIDUAL. DISTRIBUIÇÃO DE LUCRO Os valores recebidos por sócio a título de distribuição de lucro, em desconformidade com a legislação tributária, compõem sua remuneração sujeitando-se à incidência da contribuição previdenciária. AFERIÇÃO INDIRETA. BASE DE CÁLCULO. LEGALIDADE. A aferição indireta do salário-de-contribuição encontra-se perfeitamente autorizada na hipótese de recusa ou sonegação de documento ou informação solicitado pela Fiscalização, ou na sua apresentação deficiente. INFRAÇÃO. LIVROS. APRESENTAÇÃO DEFICIENTE. Fl. 3335DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 10 A apresentação de Livros com informação diversa da realidade, ou, ainda, com omissão de informação verdadeira constitui infração à Lei de custeio previdenciário. INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE DE LEI OU ATO NORMATIVO. ARGÜIÇÃO. A instância administrativa é incompetente para se manifestar sobre inconstitucionalidade ou ilegalidade de lei ou ato normativo. MULTA DE OFÍCIO A multa de ofício é de aplicação obrigatória em todos os casos de exigências de impostos e contribuições decorrentes de lançamento de ofício, não podendo ser dispensada ou reduzida por falta de previsão legal. PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA RAZOABILIDADE. O emprego dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade não autoriza o julgador administrativo a dispensar ou reduzir multas expressas na lei, não havendo desrespeito a estes princípios quando a autuação se pauta pelo princípio da legalidade. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Sobreveio Recurso Voluntário alegando, em síntese 1) indevida desconsideração da escrita contábil; 2) decadência do crédito tributário da competência 03/2011; 3) caráter confiscatório da multa de 75% É o relatório. VOTO Conselheiro João Ricardo Fahrion Nüske, Relator Sendo tempestivo e preenchidos parcialmente os demais requisitos, conheço em parte do recurso voluntário. Considerando que a Recorrente não trouxe nenhum argumento e/ou justificativa capaz de demonstrar equívoco no Acórdão recorrido e, por concordar com os fundamentos utilizados, decido mantê-lo por seus próprios fundamentos, valendo-me do artigo 50, §1º, da Lei nº 9.784/995 c/c o artigo 114, §12, I, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (“RICARF”), o qual adoto como razão de decidir, in verbis: Do Resumo dos Fatos que Sustentam os Lançamentos Impugnados Como visto, a fiscalização lançou contribuições previdenciárias sobre remuneração paga sob a forma de lucros distribuídos além do legalmente permitido aos sócios, desconsiderando a contabilidade apresentada pela empresa (Livros Diário 15 a 17, anos calendário 2010 a 2012), por ter constatado Fl. 3336DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 11 informação diversa da realidade e omissão de informação verdadeira, o que motivou a lavratura do auto de infração Debcad nº 51.075.598-4, com fundamento no seguinte permissivo legal: Lei nº 8.212/91 Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). (...) § 3º Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009).. (...) RPS - Decreto nº 3.048/99 Art. 233 - Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, o Instituto Nacional do Seguro Social e a Secretaria da Receita Federal podem, sem prejuízo da penalidade cabível nas esferas de sua competência, lançar de ofício importância que reputarem devida, cabendo à empresa, ao empregador doméstico ou ao segurado o ônus da prova em contrário. Parágrafo único - Considera-se deficiente o documento ou informação apresentada que não preencha as formalidades legais, bem como aquele que contenha informação diversa da realidade, ou, ainda, que omita informação verdadeira. grifei Em primeiro plano, deve-se esclarecer que a distribuição de lucros é uma maneira de remuneração do capital, não integrando o salário de contribuição, desde que feita em conformidade com a legislação. Para as pessoas jurídicas que mantenham escrituração contábil, pode-se distribuir lucros acima do excedente após deduzidos os impostos e contribuições sociais da RFB (excluídas as previdenciárias), contudo, até o limite contábil efetivo demonstrado por meio de balancetes ou balanços extraídos da escrituração contábil, feita de acordo com as leis comerciais. Pois bem, o impugnante não se insurge diretamente quanto aos valores apurados no levantamento “LU – Distribuição de Lucros” apurado no Discriminativo do Débito, fls. 03/05, mas contra a desconsideração da escrita contábil sob o argumento de que não foram evocados motivos suficientemente contundentes para justificar tão gravoso ato que acabou por determinar a necessidade de realização da aferição indireta da base de cálculo das contribuições exigidas, Fl. 3337DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 12 asseverando que cumpriu com todas as determinações legais, refutando uma a uma as irregularidades apontadas pela fiscalização na contabilidade alegando que não incorreu em vícios na contabilidade. Passa-se pois a análise dos argumentos apresentados na defesa em confronto com as provas apresentadas, separando por itens para melhor esclarecimento da matéria posta em litígio. Falta de reconhecimento contábil das despesas com os serviços contábeis A fiscalização aponta a falta de lançamentos relativo a pagamento de serviços contábeis nos Livros Diário ano calendário 2010 a 2012, seja para o contador que assina os Livros Contábeis e atesta a existência de contabilidade regular, fls. 48, Zilton Ferreira Lages Filho, seja para pessoa jurídica de que detém a titularidade, ADM Informática LTDA -ME (CNPJ 03.584.822/0001-55), fls. 127/131. Apesar de o impugnante alegar que a contratação dos mencionados serviços não se deu com a citada pessoa jurídica ADM Informática LTDA - ME (CNPJ 03.584.822/0001-55) nem ao menos com a pessoa física de Zilton Ferreira Lages Filho (CPF 183.902.693-68), mas sim com a pessoa jurídica + Mais Automação LTDA (CNPJ 09.092.670/0001-50), conforme documentação que anexa, não há prova do pagamento destes serviços na conta 2329 (Serviços de Terceiros) no ano calendário 2010 e 2011, como pode se observar do Razão 2010, fls. 952, Razão 2011, fls. 1.180/.1182 . Somente no Razão 2012, fls. 1.343/134, há pagamento a empresa Mais Automação em 28/05, 27/06, 30/07, 24/08, 26/10, 26/11 e 21/12 em idêntico valor R$ 622,00, porém compulsando as provas juntadas nos autos do processo lavrado na mesma ação fiscal, 10384.721098/2015-13, não há como se dar razão ao impugnante por tratar-se de serviços de processamento de dados, não específicos de contabilidade, como reproduzo da nota fiscal de serviços acostadas as fls. 2.831/2.837: O que a fiscalização quis demonstrar com isto é que não há despesas registradas com pagamento de contabilidade seja para pessoa física do contador Zilton Ferreira Lages Filho, seja para pessoa jurídica, apesar de este constar como responsável pelos registros contábeis perante o CRC e assinar os Livros Diários examinados. Falta de Lançamento contábil da folha de pagamento das obras Hosp Otorrino e S R Brasil Comprovadamente houve omissão dos lançamentos contábeis na competência 12/2010, relativos às Folhas-de-Pagamento das obras Hospital de Otorrino, CEI 51.207.44898/79, e S R BRASIL, CEI 51.208.91259/71, juntadas às fls. 141/153, e não escrituradas como se observa à fl. 73 do Livro Diário nº 15, (fls 139 e fls. 567). Neste ponto, o impugnante reconhece a ausência dos registros na competência 12/2010, porém no seu entendimento trata-se de mero erro contábil uma vez que Fl. 3338DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 13 houve elaboração de folhas de pagamento e declaração em GFIP, inexistindo qualquer benefício de ordem tributária. Não se pode concordar com tal afirmação pois referida omissão de despesa reflete diretamente na apuração do Resultado do exercício, reforçando a tese da fiscalização quanto a omissão de informação na contabilidade da empresa. Lançamento Contábil Duplicado do Adiantamento 13º A fiscalização aponta lançamento duplicado de Adiantamento de 13º salário na Folha de pagamento de Novembro/2010, comprovado às fls. 65 e 67 do Livro Diário(fls. 154), com a contabilização do adiantamento de salário a débito da conta Adiantamento 13 Salário e a crédito de caixa e novamente a Débito de Salário e a crédito de Salários a pagar. O valor do Adiantamento 13. Salário (rubrica 7) está portanto embutido nos lançamentos da despesa com folha de novembro, gerando uma distorção entre o valor contabilizado e o adiantamento, que é reconhecido duplamente como direito (164-Conta do Ativo) e como despesa (3301-Conta de Resultado). Assim, em vez de uma despesa de folha de R$ 136.219,91, a empresa faz lançamentos contábeis que totalizam R$ 193.267,38. Reconhece a impugnante que houve esta ocorrência porém alega que não houve benefício quanto a duplicidade, contudo, como bem demonstra a fiscalização na tabela 1 do relatório fiscal, cria-se uma distorção entre o valor contabilizado e o adiantamento, que é reconhecido duplamente como direito (164-Conta do Ativo) e como despesa (3301-Conta de Resultado). Conforme relatado, em vez de uma despesa de folha de R$ 136.219,91, a empresa fez lançamentos contábeis que totalizam R$ 193.267,38. Tal contabilização reflete diretamente na apuração do Lucro do exercício, reforçando a tese da fiscalização quanto a omissão de informação na contabilidade da empresa. Omissão de lançamento contábil de notas fiscais de compra de material de construção A fiscalização apurou mediante consulta no Sistema Público de Escrituração Digital/SPED, omissão de escrituração de notas fiscais de compra de material de construção nos anos calendários 2010 a 2012, totalizando R$ 242.495,03, somente no ano calendário 2012 (fls. 82 a 106), conforme tabela nº 6 do relatório fiscal, e ainda: - NF 195.216, fls. 79, no valor de R$ 19.769,70, emitida em 27/08/2010(Sem lançamento no Livro Diário 15, fl. 41). - NF 38.132, fls. 80, no valor de R$ 27.590,62, emitida em 28/03/2011(Sem lançamento no Livro Diário n. 16, fls. 20); b) NF 16.140, no valor de R$ 14.164,00 fls. 81, emitida em 05/08/2011 (Sem lançamento no Livro Diário 16, fl. 63). Fl. 3339DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 14 No entendimento do impugnante este erro é ínfimo, ocorrendo falta de escrituração de apenas 28 notas fiscais, que não conduziram a recepção de qualquer proveito por parte da impugnante. Porém, estes erros vão refletir diretamente na análise do custo das obras executadas pela construtora, permitindo concluir pela omissão de informação verdadeira na contabilidade da empresa. Falta de Reconhecimento contábil de receitas provenientes de contratos de construção civil A fiscalização detalha em relação ao contrato de administração de obra de construção civil, contratantes Medicarei Medicina Arte e Ciência S/C, CNPJ 02.737.110/0001-66 (edifício comercial 479,23 m²) e Edilson Viana de Carvalho, CPF 001.560.433-00 (edifício comercial 440 m²), que apesar de ter sido contratada a administração destas obras em que a construtora recebe taxa de administração, constatou-se que a autuada declarou os trabalhadores destas obras em seu nome em GFIP de acordo com as folhas de pagamento apresentadas(Anexo 2, fls. 235/294). No entanto para o montante de despesas com a folha, R$ 180.000,00 na obra Medicarei e R$ 85.000,00 para a obra de Edílson Carvalho, não há o correspondente reconhecimento contábil das receitas, no primeiro caso Notas Fiscais de Serviços emitidas e contabilizadas de apenas R$ 21.000,00 e no segundo caso no total de R$ 30.000,00. Destacado ainda pela fiscalização que no caso da obra de Edílson Carvalho, a construtora não matriculou referida obra, sendo os pagamentos da folha alocados no CEI de outra obra. O impugnante reconhece que realizou contratos de administração de obra nos moldes do inciso XXIX do art. 322 da Instrução Normativa RFB nº 971/20091 , porém enfatiza que os pagamentos da folha foram feitos pelo próprio tomador da obra, não se configurando em receita mas a ingresso destinado a repasse a terceiros, o que não gerou ônus aos cofres públicos pois a tributação foi devidamente recolhida. Ora, não há como se admitir que despesas de folha registradas em nome da autuada possam ser quitadas com meros repasses de numerário por conta dos contratantes destas obras, sem o correspondente ingresso da respectiva receita, considerando que o registro contábil deve espelhar a realidade do negócio jurídico entabulado, conforme preconizam os Princípios Contábeis, dentre estes o da Oportunidade e da Competência. Quanto ao argumento de que a obrigação de matricular a obra referente ao contratante Edílson Carvalho não é do administrador da obra, mas do tomador, de fato, tal argumento estaria correto caso não fossem encontrados na contabilidade da autuada os registros das folhas de pagamento e declarações em GFIP dos trabalhadores desta obra, como indicado na Tabela 3 do relatório fiscal: Fl. 3340DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 15 Lançamentos multiplicados das despesas com Rescisão Contratual Segundo a fiscalização foram lançadas despesas com o histórico TRCT -Termo de Rescisão de Contrato de Trabalho às fls. 71 a 78 do Livro Diário 16, no valor de R$ 110.369,00, competência 08/2011 (Anexo 3, fls. 295). Contudo, intimada a apresentar os respectivos Termos de Rescisão, Termo de Intimação fl. 78, a autuada apresentou apenas 29(vinte e nove) TRTC, no valor de R$ 46.464,35. O impugnante reconhece tal erro porém alega que não houve omissão de informações para fins fiscais e recolhimento a menor de tributo. Corrobora-se o quanto afirmado pela fiscalização quanto a apresentação deficiente dos livros contábeis. Falta de comprovação fiscal do lançamento de Pro Labore Segundo a fiscalização houve reconhecimento de despesas no pagamento de pro labore complementar no valor de R$ 19.710,00, em 31/dez/2011, à fls 115 do Livro Diário 16 (Anexo 3, fls. 339/341), porém sem apresentação do documento fiscal relativo a este pagamento. Novamente o impugnante reconhece tal erro, e vagamente afirma que “será retificado”. Contudo, não houve recolhimento das contribuições previdenciárias devidas sobre o pagamento do pro labore complementar, motivo pelo qual estão sendo exigidas no processo 10384.721036/2015-10, lavrado nesta mesma ação fiscal. Da Desconsideração da Contabilidade Da análise de todo o exposto, entendo que as irregularidades apontadas pela fiscalização na contabilidade da empresa são significativas e dão margem a apuração por aferição indireta. Em relação ao Livro Diário, de longa data tanto as leis comerciais como civis exigem o cumprimento de certas formalidades para que sua escrituração tenha valor probante, devendo registrar fielmente os fatos contábeis ocorridos. A Lei nº 10.406, de 10/01/2002 (Código Civil), assim dispôs a respeito da escrituração dos Livros: Art. 226. Os livros e fichas dos empresários e sociedades provam contra as pessoas a que pertencem, e, em seu favor, quando, escriturados sem vício extrínseco ou intrínseco, forem confirmados por outros subsídios. Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. Art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica. Fl. 3341DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 16 Art. 1.184. No Diário serão lançadas, com individuação, clareza e caracterização do documento respectivo, dia a dia, por escrita direta ou reprodução, todas as operações relativas ao exercício da empresa grifei Por seu turno a legislação comercial determina a observância de escrituração contábil com obediência aos princípios da contabilidade geralmente aceitos, dentre estes a contabilização das receitas, custos e despesas segundo o regime de competência. Confira-se: Lei nº 6.404/76 Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. grifei Dentre os Princípios Fundamentais de Contabilidade, de observância obrigatória na escrituração contábil, merecem destaque os princípios da competência e da oportunidade, aprovados pela Resolução CFC nº 750/93: O PRINCÍPIO DA COMPETÊNCIA Art. 9º As receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, sempre simultaneamente quando se correlacionarem, independentemente de recebimento ou pagamento. O PRINCÍPIO DA OPORTUNIDADE Art. 6º O Princípio da OPORTUNIDADE refere-se, simultaneamente, à tempestividade e à integridade do registro do patrimônio e das suas mutações, determinando que este seja feito de imediato e com a extensão correta, independentemente das causas que as originaram. grifei O Código de Processo Civil determina expressamente em seu artigo 4192 a indivisibilidade da escrituração contábil, o que equivale dizer que não há como atribuir-lhe a distinção de “parcialmente regular” ou “regular em parte”. Conforme se depreende do relatório fiscal e das provas juntadas pela fiscalização, no decorrer da ação fiscal foi constatado que a impugnante apresentou o livro contábil (Diário) de forma deficiente, omitindo informações verdadeiras. A própria empresa reconhece que a escrituração contábil possui erros os quais alega que poderiam ser corrigidos e que considera que não houve prejuízo na apuração das contribuições previdenciárias pela fiscalização. Tal fato, ao contrário do entendimento da autuada, não se constitui mera irregularidade, enquadrando-se perfeitamente na situação prevista no § 3º do art. 33 da Lei nº 8.212/91 (apresentação deficiente de documento), que autoriza o arbitramento: Lei nº 8.212/91 Fl. 3342DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 17 Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). (...) § 2º A empresa, o segurado da Previdência Social, o serventuário da Justiça, o síndico ou seu representante, o comissário e o liquidante de empresa em liquidação judicial ou extrajudicial são obrigados a exibir todos os documentos e livros relacionados com as contribuições previstas nesta Lei. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). § 3º Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida.(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). (...) § 6º Se, no exame da escrituração contábil e de qualquer outro documento da empresa, a fiscalização constatar que a contabilidade não registra o movimento real de remuneração dos segurados a seu serviço, do faturamento e do lucro, serão apuradas, por aferição indireta, as contribuições efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. RPS - Decreto nº 3.048/99 Art. 233 - Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, o Instituto Nacional do Seguro Social e a Secretaria da Receita Federal podem, sem prejuízo da penalidade cabível nas esferas de sua competência, lançar de ofício importância que reputarem devida, cabendo à empresa, ao empregador doméstico ou ao segurado o ônus da prova em contrário. Parágrafo único - Considera-se deficiente o documento ou informação apresentada que não preencha as formalidades legais, bem como aquele que contenha informação diversa da realidade, ou, ainda, que omita informação verdadeira. Além da apresentação deficiente dos Livros Diário, que por si só já autoriza a desqualificação da contabilidade, observou-se inconsistência na escrituração contábil da empresa que certamente refletiu no resultado do exercício, não podendo justificar a distribuição de lucros em valor superior ao lucro presumido. Diante de todos os fatos apontados, o auto de infração por descumprimento de obrigação acessória - Debcad nº 51.075.598-4 - deve ser mantido, assim como a apuração das contribuições devidas mediante aferição indireta, - auto de infração Fl. 3343DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 18 Debcad nº 51.075.608-5 - uma vez presentes os requisitos previstos no artigo 33, § 3º da Lei nº 8.212/91. Da Viabilidade da Discussão da Constitucionalidade de uma Norma na Esfera Administrativa. Caráter Confiscatório da Multa de Ofício no Patamar de 75% do Tributo Devido O impugnante sustenta que a multa aplicada no patamar de 75% do tributo afronta princípios constitucionais dentre estes o do não confisco, devendo ser declarada nesta instância administrativa sua inconstitucionalidade. No presente caso a multa foi aplicada de acordo com o artigo 35-A da Lei nº 8.212/91, c.c. art. 44 da Lei nº 9.430/96, verbis: Lei n° 8.212/91 Art. 35-A3 . Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplica-se o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996 Lei n° 9.430/96 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) grifei Conforme se verifica dos dispositivos acima, indicados no relatório Fundamentos Legais do Débito, a multa foi aplicada em atenção às determinações legais, nº percentual de 75% do valor devido. Desta forma, não há qualquer ilegalidade no procedimento adotado pela fiscalização, uma vez que aplicou a multa de acordo com a legislação vigente à época dos fatos geradores. No que diz respeito a alegação de a multa ser excessiva em alusão ao princípio constitucional do não confisco, esclareça-se que a vedação constitucional em comento dirige-se ao legislador com o intuito de impedir a instituição de tributo que tenha em seu conteúdo aspectos ameaçadores à propriedade ou à renda tributada, mediante, por exemplo, a aplicação de alíquotas muito elevadas. Portanto, a observância desse princípio relaciona-se com o momento de criação do tributo, de modo que, vencida esta etapa, não configura confisco a simples aplicação da lei tributária. Outro aspecto que também deve ser salientado é que a vedação do confisco insere-se como cláusula integrante das limitações ao poder de tributar, ou seja, o art. 150, IV, da Constituição Federal, prescreve comando destinado ao legislador, para que este não crie tributo que supere as forças patrimoniais do contribuinte, subtraindo-lhe, indevidamente, os recursos de que necessita à sua manutenção. Fl. 3344DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 19 O mesmo ocorre com os princípios invocados da razoabilidade e da proporcionalidade que são dirigidos primordialmente ao legislador pois orientadores da feitura da lei. Dessa forma, as alegações de afronta a princípios constitucionais visando o afastamento da multa aplicada são de todo inócuas no âmbito administrativo, pois a autoridade fiscal, sob pena de responsabilidade funcional, deve cumprir as determinações legais e normativas de forma plenamente vinculada. Assim, uma vez positivada a norma, é dever da autoridade fiscal aplicá-la, sem perquirir acerca dos efeitos que gerou. Outrossim, o artigo 26-A do Decreto nº 70.235/72, incluído pela Lei nº 11.941 de 27/05/2009, que rege o contencioso administrativo fiscal federal, veda expressamente o afastamento da aplicação de dispositivos de Lei por razões de inconstitucionalidade, verbis: Art. 26-A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 6º O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I – que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; II – que fundamente crédito tributário objeto de: a) dispensa legal de constituição ou de ato declaratório do Procurador-Geral da Fazenda Nacional, na forma dos arts. 18 e 19 da Lei n o 10.522, de 19 de julho de 2002; b) súmula da Advocacia-Geral da União, na forma do art. 43 da Lei Complementar no 73, de 10 de fevereiro de 1993; ou c) pareceres do Advogado-Geral da União aprovados pelo Presidente da República, na forma do art. 40 da Lei Complementar n° 73, de 10 de fevereiro de 1993. grifei Em conclusão, não merece reparo a imposição da multa lavrada neste auto. Ainda, com relação a jurisprudência deste CARF no sentido da necessidade de provas robustas para desconsideração da contabilidade, entendo que as mesmas restaram apresentadas pela fiscalização com a identificação de diversas incongruências em diversos contratos, receitas e lançamentos. Com relação ao argumento da Decadência, a aplicação do 150, §4º do CTN, como pretende o contribuinte, exige o recolhimento ainda que parcial do valor devido, o que não se constata nos autos. Conclusão Fl. 3345DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2402-013.071 – 2ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10384.721074/2015-64 20 Ante o exposto voto por negar provimento ao recurso voluntário. Assinado Digitalmente João Ricardo Fahrion Nüske Fl. 3346DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 11080.734452/2018-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 28 00:00:00 UTC 2021
Data da publicação: Tue Aug 05 00:00:00 UTC 2025
Numero da decisão: 3302-002.013
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o processo no CARF até a decisão final do processo de compensação/crédito vinculado, nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3302-002.012, de 28 de outubro de 2021, prolatada no julgamento do processo 11080.735040/2018-87, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Gilson Macedo Rosenburg Filho - Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Lima Abud, Walker Araujo, Larissa Nunes Girard, Jose Renato Pereira de Deus, Carlos Delson Santiago (suplente convocado), Raphael Madeira Abad, Denise Madalena Green, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). Ausente o conselheiro Vinicius Guimaraes, substituído pelo conselheiro Carlos Delson Santiago.
Nome do relator: Não se aplica
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em sobrestar o processo no CARF até a decisão final do processo de compensação/crédito vinculado, nos termos do voto condutor. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo- lhes aplicado o decidido na Resolução nº 3302-002.012, de 28 de outubro de 2021, prolatada no julgamento do processo 11080.735040/2018-87, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Gilson Macedo Rosenburg Filho - Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Lima Abud, Walker Araujo, Larissa Nunes Girard, Jose Renato Pereira de Deus, Carlos Delson Santiago (suplente convocado), Raphael Madeira Abad, Denise Madalena Green, Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente). Ausente o conselheiro Vinicius Guimaraes, substituído pelo conselheiro Carlos Delson Santiago. Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado na resolução paradigma. Trata-se IMPUGNAÇÃO apresentada pela requerente ante Notificação de Lançamento que, em vista da não homologação de compensação, aplicou a multa prevista no Parágrafo 17 do artigo 74 da Lei n° 9.430, de 1996, com alterações posteriores. A base de cálculo da infração corresponde ao somatório dos débitos remanescentes da compensação realizada, que são calculados, de acordo com a legislação de regência, para a data de transmissão da Declaração de Compensação. Regularmente cientificada do deferimento parcial de seu pleito, a interessada apresentou manifestação de inconformidade, aduzindo em sua defesa as razões sumariamente expostas a seguir: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 10 80 .7 34 45 2/ 20 18 -0 8 Fl. 216DF CARF MF Original Fl. 2 da Resolução n.º 3302-002.013 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 11080.734452/2018-08 Da pendência de análise do processo n° 10880.907732/2015-11, onde se deu a compensação que deu origem à multa ora exigida. A multa ora discutida está relacionada com a compensação que foi glosada através de Despacho Decisório, objeto do Processo de Crédito n° 10880.907732/2015-11, tendo a ora Impugnante apresentado naqueles autos a competente Manifestação de Inconformidade, que, atualmente, pende de análise em primeira instância administrativa. Decorre da lógica que, em sendo reconhecido o direito da Impugnante no processo n° 10880.907732/2015-11, correto estará o valor do crédito e, consequentemente, estarão validadas as compensações efetuadas, e nada será devido pela mesma, nem mesmo a multa ora combatida. Por outro lado, apenas se o desfecho daquele processo for desfavorável à ora Impugnante é que se poderia considerar a exigência da citada multa. Em um cenário como o ora observado, O SOBRESTAMENTO DO JULGAMENTO DO PRESENTE PROCESSO SE MOSTRA CRUCIAL, com o que se evitará exigência indevida. Se o débito principal oriundo de suposta compensação não homologada ainda será discutido no processo n° 10880.907732/2015-11, o prosseguimento da cobrança nestes autos de multa a ele relacionada poderá ensejar o enriquecimento sem causa da Administração, além de violação explícita aos princípios da moralidade e da eficiência administrativa, albergados pela Constituição Federal e pela Lei n° 9.784/98. Tal não pode ser admitido, motivo pelo qual se requer o sobrestamento do julgamento do presente processo, até o encerramento do julgamento do processo n° 10880.907732/2015-11. Inconstitucionalidade do Artigo 74, §17, da Lei ne 9.430/96 e a repercussão geral determinada pelo STF. O sobrestamento em tela também é justificado pela discussão da inconstitucionalidade do §17 do artigo 74 da Lei n° 9.430/96, que tem "repercussão geral" reconhecida pelo Min. Ricardo Lewandowski, nos termos do art. 543-A, §1, do anterior CPC, aguardando julgamento pelo Supremo Tribunal Federal - STF. O Recurso Extraordinário n° 796.939/RS está agora sob a Relatoria do Min. Edson Fachin, que suspendeu o processamento de todos os feitos pendentes que versem sobre o mesmo tema, nos termos do artigo 1.035, §52, do Código de Processo Civil, e deverá em breve encaminhar o processo para julgamento em conjunto com a ADI 4.905. Nos autos daquele Recurso Extraordinário, a Procuradoria Geral da República, em Parecer do Dr. Rodrigo Janot Monteiro de Barros, deixa claro que somente mediante a comprovação de ato ilícito do contribuinte seria potencialmente aplicável qualquer tipo de sanção ou multa. Fl. 217DF CARF MF Original Fl. 3 da Resolução n.º 3302-002.013 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 11080.734452/2018-08 Neste cenário em que, por determinação do STF, estão suspensos os julgamentos de todos os processos que discutem a aplicação da multa isolada prevista no artigo 74, §17, da Lei n° 9.430/96, cuja inconstitucionalidade deverá em breve ser declarada, requer-se o sobrestamento do julgamento do presente processo administrativo até a decisão definitiva do STF. A Delegacia Regional de Julgamento julgou improcedente a impugnação. A empresa foi intimada do Acórdão de Impugnação e ingressou com Recurso Voluntário alegando, em síntese: Da vinculação do presente recurso ao processo administrativo n° 10880.907732/2015-11; Da desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa isolada e sua evidente violação aos princípios gerais do direito; Da impossibilidade de concomitância de multas. - DO PEDIDO Por todo o exposto, a Recorrente pugna seja dado provimento ao presente Recurso Voluntário, afastando-se por completo a exigência da multa isolada objeto da Notificação de Lançamento que deu azo à cobrança ora impugnada, por se tratar de sanção política vedada em nosso ordenamento, em flagrante violação ao princípio da irretroatividade da norma tributária, além de não terem sido verificados os requisitos de má-fé e fraude. Além disso, deve ser também cancelada porque a multa ora aplicada não pode coexistir com a multa já aplicada no Despacho Decisório que avaliou os créditos tributários compensados. É o relatório. Voto Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado na resolução paradigma como razões de decidir: Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3 a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte. A empresa foi intimada do Acórdão de Impugnação, por via eletrônica, em 16 de junho de 2020, às e-folhas 133. A empresa ingressou com Recurso Voluntário, em 15 de julho de 2020, às e-folhas 135. Fl. 218DF CARF MF Original Fl. 4 da Resolução n.º 3302-002.013 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 11080.734452/2018-08 O Recurso Voluntário é tempestivo. Da Controvérsia. Foram alegados os seguintes pontos no Recurso Voluntário: Da vinculação do presente recurso ao processo administrativo n° 10880.907733/2015-57; Da desproporcionalidade e irrazoabilidade da multa isolada e sua evidente violação aos princípios gerais do direito; Da impossibilidade de concomitância de multas. Passa-se à análise. Trata-se de analisar multa por compensação não homologada, expressamente prevista na Lei n° 9.430, de 1996, art. 74, § 17, e alterações posteriores, nos casos de declaração de compensação não homologada, salvo no caso de falsidade da declaração apresentada. O lançamento da multa isolada decorreu da não homologação das compensações tratadas no processo administrativo n° 10880.907733/2015-57. Referido processo de crédito já foi analisado na primeira instância do contencioso administrativo. Ingressou-se com o Recurso Voluntário. Observemos os andamentos do mencionado processo: O art. 6º do RICARF, trata das questões relacionadas aos processos conexos, decorrententes e reflexos, recebendo a seguinte redação: Fl. 219DF CARF MF Original Fl. 5 da Resolução n.º 3302-002.013 - 3ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 11080.734452/2018-08 Art. 6º Os processos vinculados poderão ser distribuídos e julgados observando- se a seguinte disciplina: §1º Os processos podem ser vinculados por: I - conexão, constatada entre processos que tratam de exigência de crédito tributário ou pedido do contribuinte fundamentados em fato idêntico, incluindo aqueles formalizados em face de diferentes sujeitos passivos; II - decorrência, constatada a partir de processos formalizados em razão de procedimento fiscal anterior ou de atos do sujeito passivo acerca de direito creditório ou de benefício fiscal, ainda que veiculem outras matérias autônomas; e III - reflexo, constatado entre processos formalizados em um mesmo procedimento fiscal, com base nos mesmos elementos de prova, mas referentes a tributos distintos. Desta forma, tendo em vista entender que o processo em discussão é decorrente os processo de nº 10880.907733/2015-57, sendo certo que a decisão nele proferida pode influenciar diretamente na decisão, voto no sentido de converter o presente julgamento em diligência, sobrestando o julgamento do processo na Câmara, de forma a aguardar a decisão definitiva e proceder sua juntada no presente processo. CONCLUSÃO Importa registrar que, nos autos em exame, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduz-se o decidido na resolução paradigma, no sentido de sobrestar o processo no CARF até a decisão final do processo de compensação/crédito vinculado. (assinado digitalmente) Gilson Macedo Rosenburg Filho - Presidente Redator Fl. 220DF CARF MF Original
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