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Numero do processo: 18088.720015/2023-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Dec 01 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Feb 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020
RECURSO DE OFÍCIO. MULTA QUALIFICADA. LEI 14.689/2023. RETROATIVIDADE BENIGNA.
A Lei 14.689/2023, aplicou penalidade menos severa aos casos envolvendo sonegação, fraude ou conluio, cabendo sua aplicação retroativa, nos termos do artigo 106, II, c, do Código Tributário Nacional. Recurso de ofício negado.
OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO DE OFÍCIO.
Estão sujeitos ao lançamento de ofício os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados, independentemente de sua denominação.
REQUISITOS MATERIAIS. AUTO DE INFRAÇÃO. VERIFICAÇÃO ABSTRATA. CONSISTÊNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. O cumprimento dos requisitos exigidos no artigo 142 do CTN se realiza abstratamente, pela correlação coerente entre os fatos contidos na acusação fiscal e o auto de infração em que se exterioriza.
PAGAMENTO SEM CAUSA. IDENTIFICAÇÃO DO BENEFICIÁRIO. DETENTOR DA DISPONIBILIDADE ECONÔMICA. CONTRIBUINTE. POSSIBILIDADE.
A falta de identificação da causa do pagamento, não impede a autoridade fiscal de realizar o lançamento tributário em face do beneficiário do acréscimo patrimonial, uma vez que ele é o detentor da disponibilidade econômica, independentemente da denominação dada ao rendimento.
DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS OU NEGÓCIOS JURÍDICOS. TIPICIDADE TRIBUTÁRIA. PRIMAZIA DA REALIDADE. POSSIBILIDADE.
A desconsideração de atos e negócios jurídicos autorizado no parágrafo único do artigo 116, do CTN, visa prestigiar a substância à forma, e não autoriza o lançamento de exigência fiscal não prevista em lei, interpretando-se o fato gerador abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelo contribuinte, da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos.
MULTA QUALIFICADA. FRAUDE. CABIMENTO.
Constatando-se que o contribuinte se valeu de subterfúgios para modificar as características elementares da exação ou para reduzir o montante do imposto devido, é cabível a qualificação da multa de ofício.
SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. APLICABILIDADE.
A solidariedade a que se refere o inciso I do art. 124, do Código Tributário Nacional, decorre de interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, contribuindo mais de uma pessoa para a realização do fato gerador, a ele ligados por interesses jurídicos e não meramente econômicos.
Numero da decisão: 2202-011.667
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos recursos de ofício e voluntário, e, no mérito, por maioria de votos, negar-lhes provimento, vencida a Conselheira Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento parcial. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Thiago Buschinelli Sorrentino.
Sala de Sessões, em 1 de dezembro de 2025.
Assinado Digitalmente
Marcelo Valverde Ferreira da Silva – Relator
Assinado Digitalmente
Ronnie Soares Anderson – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva (Relator), Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Ronnie Soares Anderson (Presidente).
Nome do relator: MARCELO VALVERDE FERREIRA DA SILVA
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MULTA QUALIFICADA. LEI 14.689/2023. RETROATIVIDADE BENIGNA. A Lei 14.689/2023, aplicou penalidade menos severa aos casos envolvendo sonegação, fraude ou conluio, cabendo sua aplicação retroativa, nos termos do artigo 106, II, "c", do Código Tributário Nacional. Recurso de ofício negado. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Estão sujeitos ao lançamento de ofício os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados, independentemente de sua denominação. REQUISITOS MATERIAIS. AUTO DE INFRAÇÃO. VERIFICAÇÃO ABSTRATA. CONSISTÊNCIA. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. O cumprimento dos requisitos exigidos no artigo 142 do CTN se realiza abstratamente, pela correlação coerente entre os fatos contidos na acusação fiscal e o auto de infração em que se exterioriza. PAGAMENTO SEM CAUSA. IDENTIFICAÇÃO DO BENEFICIÁRIO. DETENTOR DA DISPONIBILIDADE ECONÔMICA. CONTRIBUINTE. POSSIBILIDADE. Fl. 10758DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 2 A falta de identificação da causa do pagamento, não impede a autoridade fiscal de realizar o lançamento tributário em face do beneficiário do acréscimo patrimonial, uma vez que ele é o detentor da disponibilidade econômica, independentemente da denominação dada ao rendimento. DESCONSIDERAÇÃO DE ATOS OU NEGÓCIOS JURÍDICOS. TIPICIDADE TRIBUTÁRIA. PRIMAZIA DA REALIDADE. POSSIBILIDADE. A desconsideração de atos e negócios jurídicos autorizado no parágrafo único do artigo 116, do CTN, visa prestigiar a substância à forma, e não autoriza o lançamento de exigência fiscal não prevista em lei, interpretando-se o fato gerador abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelo contribuinte, da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. MULTA QUALIFICADA. FRAUDE. CABIMENTO. Constatando-se que o contribuinte se valeu de subterfúgios para modificar as características elementares da exação ou para reduzir o montante do imposto devido, é cabível a qualificação da multa de ofício. SOLIDARIEDADE TRIBUTÁRIA. APLICABILIDADE. A solidariedade a que se refere o inciso I do art. 124, do Código Tributário Nacional, decorre de interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, contribuindo mais de uma pessoa para a realização do fato gerador, a ele ligados por interesses jurídicos e não meramente econômicos. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos recursos de ofício e voluntário, e, no mérito, por maioria de votos, negar-lhes provimento, vencida a Conselheira Andressa Pegoraro Tomazela, que deu provimento parcial. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Sara Maria de Almeida Carneiro Silva e Thiago Buschinelli Sorrentino. Sala de Sessões, em 1 de dezembro de 2025. Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva – Relator Fl. 10759DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 3 Assinado Digitalmente Ronnie Soares Anderson – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Sara Maria de Almeida Carneiro Silva, Henrique Perlatto Moura, Marcelo Valverde Ferreira da Silva (Relator), Thiago Buschinelli Sorrentino, Andressa Pegoraro Tomazela, Ronnie Soares Anderson (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Auto de Infração referente ao Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF), anos-calendário 2017, 2018, 2019 e 2020, para exigência do crédito tributário do imposto de renda da pessoa física para a infração de omissão de rendimentos da pessoa jurídica sem vínculo empregatício, no valor de R$ 32.197.813,61, que somado à multa proporcional qualificada de 150% e os juros moratório até a data do lançamento, resulta em R$ 90.413.849,42. No Relatório de Auditoria Fiscal (fls. 8.082 a 8.185), a Autoridade Tributária descreve e fundamenta o lançamento conforme pontos a seguir destacados. ALEXANDRE SIQUEIRA MONTEIRO, doravante denominado Alexandre, tem como ocupação principal, segundo suas declarações de imposto de renda, "DIRIGENTE, PRESIDENTE E DIRETOR DE EMPRESA INDUSTRIAL, COMERCIAL OU PRESTADORA DE SERVIÇOS", e foi executivo de grandes empresas do ramo de seguro. Seu irmão JOÃO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO, doravante denominado João Eduardo, tem como ocupação principal, segundo suas declarações de imposto de renda, “DIRIGENTE, PRESIDENTE E DIRETOR DE EMPRESA INDUSTRIAL, COMERCIAL OU PRESTADORA DE SERVIÇOS”, possuindo a condição de sócio/dirigente/acionista de diversas empresas. Alexandre, foi dirigente, acionista e administrador de empresas do ramo de seguro, principalmente empresas do grupo Caixa, tendo sido inclusive responsável pelo CNPJ da Caixa Seguradora S/A. Previamente a este procedimento, foram efetuadas auditorias nas pessoas jurídicas: A) JATAR CORRETORA E ADMINISTRADORA DE SEGUROS LTDA, CNPJ 03.266.804/0001-25, doravante denominada "JATAR". Sócio de direito: LUCIANA PENHA DE PAULA, CPF 024.200.367-27 (pessoa interposta). Sócios de fato: Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro. Fl. 10760DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 4 B) LGN BRASIL CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, CNPJ 11.959.691/0001-71, doravante denominada "LGN". Sócios de fato e de direito: Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro. C) MASS SOLUTION CORRETORA DE SEGUROS EIRELI, CNPJ 10.375.139/0001-73, doravante denominada "MASS SOLUTION". Sócios: João Eduardo e Deise Verônica da Cunha Moraes (ex-companheira de Alexandre) D) MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO, MARKETING PROMOCIONAL E SERVIÇOS LTDA, CNPJ 10.915.505/0001-30, doravante denominada "MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO". Sócio de direito: João Eduardo Siqueira Monteiro e Mass Solution. Sócios de fato: Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro E) MASSBROKER MARKETING E SERVIÇOS LTDA, CNPJ 11.946.752/0001-66, doravante denominada "MASBROKER MARKETING". Sócio de direito: João Eduardo Siqueira Monteiro e Mass Solution. Sócios de fato: Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro. Também foi efetuado procedimento fiscal em face de João Eduardo Siqueira Monteiro. Os atos (intimações, ARs, editais, respostas, RMF, extratos bancários) concernentes a este procedimento estão colacionados nos Docs. 18/42. Será demonstrado e comprovado neste relatório que Alexandre (com auxílio de João Eduardo) utilizaram as pessoas jurídicas descritas no item anterior como "empresas de passagem" de recursos, simulando operações de prestações de serviços, empréstimos, compra e venda e doações com o escopo de auferir rendimentos disfarçados na forma de "lucros recebidos". As citadas empresas também pagaram despesas pessoais e de familiares de Alexandre e João Eduardo. Os dois ainda foram beneficiados com bens (veículos, imóveis), que foram adquiridos com recursos que saíram das contas bancárias das citadas empresas, provenientes das supostas prestações de serviços. O controle de fato de todas as empresas listadas no item anterior está nas mãos de Alexandre e João Eduardo, diretamente ou por intermédio de pessoas interpostas (laranjas). Os recursos que ingressaram nas empresas citadas tiveram origem em contratos dissimulados de pessoas jurídicas com empresas do grupo Caixa, das quais Alexandre foi executivo. João Eduardo, irmão de Alexandre, como "longa manus" (executor de ordens) de Alexandre, auxiliava este na administração dos recursos, que eram transformados em bens, investimentos, sendo parte deles destinados ao patrimônio pessoal dos dois. Fl. 10761DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 5 Além de distribuírem "lucros" a Alexandre, João Eduardo e Thierry, as empresas citadas pagavam despesas pessoais dos dois e de familiares (pensões alimentícias, cartões de créditos, compra de móveis e imóveis, gastos com fazendas, compras de veículos, viagens a lugares exóticos, gastos com veículos, reformas de imóveis etc.). Estes recursos que foram destinados ao patrimônio pessoal dos dois (na forma de depósitos em conta corrente, compra de imóveis ou gastos pessoais e de familiares), que está sendo tributados neste auto de infração. O procedimento fiscal teve por origem a operação DESCARTE, em que foram cumpridos pela Polícia Federal, com participação de Auditores Fiscais da RFB, Mandados de Busca e Apreensão, decretados pela Justiça Federal, em diversos endereços. A Justiça Federal compartilhou o material apreendido com a Receita Federal do Brasil (doc. A199). Com base em documentos os mais variados possíveis (e-mails, cópias de notas fiscais eletrônicas, cópias de contratos sociais, cópias de diversos tipos de contratos etc.), foi possível constatar que várias empresas foram criadas ou utilizadas com a finalidade única de emissão de notas fiscais sem lastro, ou seja, inidôneas. Foram identificadas mais de 20 empresas com essa finalidade. Entre essas empresas, encontram-se a CLARO ADVOGADOS ASSOCIADOS, beneficiária do pagamento efetuado pela WIZ (CNPJ 42.278.473/0001-03), a qual Alexandre era dirigente. Constatou-se que a CLARO ADVOGADOS foi utilizada como centro de operações do esquema, cobrando percentual das notas fiscais em cada operação a título de custas (pagamentos pelo "serviço" de emissão de notas fiscais fraudulentas). Em apertadíssima síntese, a CLARO ADVOGADOS, por intermédio de empresas emissoras de notas fiscais pagavam "comissões" para os controladores das empresas. A CLARO possuía procurações que lhes davam amplos poderes para o gerenciamento das empresas que emitiram notas fiscais inidôneas. A CLARO ADVOGADOS também emitia notas fiscais inidôneas, que não correspondiam efetivamente a serviços prestados. Esses valores, posteriormente, eram devolvidos em parte à fonte pagadora, ficando a CLARO com um percentual de "comissão". Com o desdobramento da operação DESCARTE, foi iniciada a operação CANAL SEGURO e, por intermédio do pedido de busca e apreensão criminal (5005094-02.2020.4.03.6181) – doc. A199, foi deferido busca e apreensão em vários endereços entre eles de Alexandre e João Eduardo. Que os documentos apreendidos nesta fase da Operação Canal Seguro comprovam que ALEXANDRE (em unidade de desígnio com seu irmão – JOÃO EDUARDO) criaram pessoas jurídicas descritas e entabularam contratos dissimulados com empresas que tinham relacionamento comercial com o grupo CAIXA, com o objetivo de desviar recursos e receber uma parcela dos valores envolvidos nestas transações. Fl. 10762DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 6 A acusação fiscal pretende demonstrar que empresas relacionadas a Alexandre e João Eduardo não prestam serviços de fato e todos os valores por ela recebidos tiveram origem em contratos simulados com intermediários e clientes de empresas do grupo Caixa. Os beneficiários das operações é Alexandre Siqueira Monteiro e seu irmão João Eduardo Siqueira Monteiro que utilizaram uma intrincada rede de pessoas jurídicas e pessoas físicas interpostas (laranjas) em benefício próprio. (A) JATAR CORRETORA E ADMINISTRADORA DE SEGUROS LTDA A Jatar, segundo os atos constitutivos, tem como sócio administrador LUCIANA PENHA DE PAULA. Por intermédio do termo de início de procedimento fiscal 1 29 2022 de 22.02.2022 (doc. A1) a Jatar foi devidamente intimada a apresentar a relação de contas bancárias, os extratos bancários e os valores distribuídos a título de lucros de 2017 a 2020, com os respectivos beneficiários. Em razão do não atendimento, foi gerada a Solicitação de Movimentação Financeira à Caixa Econômica Federal e Itaú Unibanco. Após a conciliação dos extratos, a Jatar foi intimada para esclarecer sobre os 97 créditos, devidamente numerados de 1 a 97, no valor total de R$ 24.064.094,61 (doc. A12) e sobre os 1654 débitos, devidamente numerados de 1 a 1654, no valor total de R$ 27.052.454,42 (doc. A13). As respostas demonstram, além de João Eduardo receber valores diretamente da Jatar “por ordem de Luciana” foram pagas diversas despesas pessoais dele, além de valores relativos a aquisições de imóveis, reformas, mobiliários, consórcio, viagens e até veículos, que estão devidamente identificados no Relatório Fiscal (fls. 8.102). Quanto a natureza dos valores creditados, a firmou laconicamente que se tratava de serviços prestados, sem mencionar quais seriam os colaboradores envolvidos ou os detalhes dessa prestação. Diante da evasiva da resposta dada, a fiscalização realizou diligência na fonte pagadora BERKLEY INTERNACIONAL DO BRASIL SEGUROS S/A, que além da JATAR, também realizou pagamentos para as empresas MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO, MARKETING, PROM E SERV LTDA e MASSBROKER MARKETING E SERVIÇOS LTDA., no entanto, a diligenciada não foi capaz de demonstra o cumprimento das obrigações da contratada: 2.1.1. Atender a Interveniente e os corretores de seguros por ela indicados, conforme instruções recebidas da Seguradora e sempre agindo com clareza, boa- fé, transparência, eficiência e confiança; 2.1.3. Enviar os documentos cadastrais dos corretores que intermediarão a contratação dos seguros ofertados pela Seguradora; 2.1.4. Receber da Interveniente e dos corretores propostas de contratação de seguros, encaminhando esses documentos à Seguradora, nos prazos e meios previamente convencionados entre as Partes; 2.1.6. Comunicar à Seguradora, no prazo de 24 (vinte e quatro) horas contadas da data do seu conhecimento, a ocorrência de sinistros comunicados por corretores Fl. 10763DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 7 ou segurados, remetendo-lhe, em seguida, os demais comentários e informações necessárias; 2.1.1.9. Informar à Seguradora, em documento apartado à proposta de seguro, a comissão de corretagem a ser paga ao corretor e a remuneração a ser paga à Representante. Considerando que CÉSAR AUGUSTO MONTEIRO DA SILVA pagou R$ 11.450.000,00 à Jatar em 20.04.2017, foi devidamente intimado por intermédio do termo 1 286 2022 (doc. A145) a justificar comprovar o respectivo pagamento. Em resposta (doc. A149) declarou que a FARMASEG (empresa em que era sócio) firmou um compromisso de cessão de transferência de cotas com a Jatar (doc. A150), no qual se comprometeu a ceder até 49% das cotas da empresa à citada empresa, caso ela contribuísse para o crescimento da FARMASEG. Uma vez que a FARMASEG foi vendida, inviabilizando o pactuado, resolveu compensar a JATAR com esta quantia para evitar potenciais litígios. A fiscalização apontou que o suposto pagamento de natureza indenizatória foi realizado antes de qualquer ação para crescimento da FARMASEG, e que o montante é incompatível com o valor patrimonial das 49% das cotas da empresa, concluindo que de acordo com que foi minuciosamente descrito, CÉSAR AUGUSTO não teria conseguido comprovar o motivo de ter pagado R$ 11.450.000,00 à Jatar (fls. 8.109). Além da quantia de R$ 11.450.000,00 a FARMASEG, atual BLIST - SOLUCOES, ASSISTENCIA E SERVICOS EMPRESARIAIS LTDA, no período compreendido entre 03.02.2017 e 04.10.2018, realizou mais 22 (vinte e dois) depósitos para a JATAR que totalizam R$ 2.678.632,05. Devidamente intimada, a fonte pagadora mencionou o contrato (doc. A162 e A163), cuja remuneração da Jatar é de 20% dos valores pagos pela Caixa Seguradora à Farmaseg. À despeito da intimação a FARMASEG / BLIST não foi capaz de esclarecer qual teria sido a contribuição da JATAR, como parceiro estratégico na captação de clientes da Caixa que justificasse os pagamentos realizados, concluindo a fiscalização que não teria ocorrido qualquer tipo de prestação de serviço. A HABSEG ADMINISTRACAO E CORRETAGEM DE SEGUROS LTDA pagou à JATAR R$ 3.571.853,39. Após ser intimada para justificar os pagamentos (doc. A180) e declarou (doc. A182 e A184) não possuir os documentos solicitados pela fiscalização. A WIZ PARCEIROS E CORRETAGEM DE SEGUROS LTDA, CNPJ 21.534.365/0001-76, que na época dos pagamentos tinha como denominação social Finanseg Administração e Corretagem de Seguros Ltda, pagou à JATAR R$ 5.244.578,43 no ano de 2017. Devidamente intimada a justificar os pagamentos (doc. A185), declarou (doc. A186) que a aquisição da Finanseg pela Wiz Soluções e Corretagem de Seguros S/A, CNPJ 42.278.473/0001-03, deu-se após os pagamentos e que, assim, não tinha informações. Os pagamentos à Jatar foram realizados a título de lucros de 2016 e antecipação de lucros, conforme consta no termo 2 299 2022 (doc. A187). No contrato social da Finanseg, consta Fl. 10764DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 8 que em 10.03.2017 saiu da sociedade a Jatar e entrou Cozenza RJ Participações Ltda, ambas representadas por LUCIANA PENHA DE PAULA. O capital social da empresa foi alterado para R$ 1.812.140,00. Em 20.06.2017, três meses depois, a Finanseg foi adquirida pela Wiz Soluções e Corretagem de Seguros S/A, CNPJ 42.278.473/0001-03, por valor não inferior a R$ 240.000.000,00 (doc. A190), com pagamentos parcelados até 2020. LUCIANA PENHA DE PAULA, é pessoa interposta utilizada por João Eduardo Siqueira Monteiro e Alexandre Siqueira Monteiro, que são os donos de fato da Jatar. Nas mídias digitais apreendidas na operação de busca e apreensão (fase Canal Seguro – doc. A199), foram encontrados diversos diálogos no aplicativo WhatsApp no quais denotam a condição de Luciana como “laranja” de João Eduardo e Alexandre. Ainda sobre a JATAR, nos anos de 2017 a 2019 a Jatar teve apenas um empregado e, ainda assim, as despesas trabalhistas e encargos sociais de um único funcionário não eram suportadas pela Jatar, pois foram reembolsadas pela Berkley, de acordo com o descrito no parágrafo A.19.1.9. Portanto, infere-se que a funcionária estava a serviço da Berkley e não da Jatar Corretora. Do exposto, no período 2017 a 2019 a Jatar não teve nenhum empregado e não realizou pagamentos de serviços a terceiros. Os recursos que ingressaram na Jatar tiveram como origem a Finanseg, Farmaseg, César Augusto (ex-sócio da Farmaseg) e Berkley. Todas estas empresas auferiram rendimentos e tinham vínculos com empresas do grupo CAIXA: a) Finanseg teve como fonte pagadora (segundo consta em DIRF) milionários valores oriundos da Caixa Econômica Federal, CNPJ 00.360.305/0001-04, Caixa Consórcio, CNPJ 05.349.595/0001-09 e Caixa Seguros S/A, CNPJ 34.020.354/0001- 10. Posteriormente foi adquirida e incorporada por Wiz Parceiros e Corretagem e Seguros Ltda, consoante descrito no parágrafo A.19.5. b) No que concerne à Farmaseg, a remuneração da Jatar era de 20% dos valores pagos pela Caixa Seguradora à Farmaseg, de acordo com o descrito no parágrafo A.19.3.3. O contrato é de 01.04.2015 (doc. A162). c) Cesar Augusto era sócio da Farmaseg e não comprovou o motivo do milionário pagamento feito à Jatar, no total de R$ 11,45 milhões, conforme descrito no parágrafo A.19.2. Importante salientar a ingerência de Alexandre Siqueira Monteiro no negócio, fato que foi descrito por César (parágrafo A.19.2.11). d) O contrato da Jatar com a Berkley (doc. A.21) tem como “interveniente” PAR SEGUROS ESPECIAIS CORRETORA DE SEGUROS S/A, CNPJ 12.656.482/0001-1, atual Wiz Corporate Soluções e Corretagem de Seguros LTDA, do grupo Caixa. O mesmo ocorreu com a Massbroker Intermediação e Massbroker Marketing (docs. A136 e A137). Nos créditos de nº 1 a 395 do anexo I deste relatório (doc. 16) estão discriminados individualmente os destinos do valor de R$ 11.051.326,18, salientando que TODOS tiveram como escopo beneficiar Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro, inobstante mais Fl. 10765DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 9 de 98% tenham sido contabilizados como lucros distribuídos à pessoa interposta Luciana Penha de Paula. (B) LGN BRASIL CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA A LGN, segundo os atos constitutivos, tem como sócio administrador ALEXANDRE SIQUEIRA MONTEIRO e JOÃO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO. Por intermédio do termo de início de procedimento fiscal 1 28 2022 de 22.02.2022 (doc. A1) a LGN foi devidamente intimada a apresentar a relação de contas, os extratos bancários e os valores distribuídos a título de lucros de 2017 a 2020, com os respectivos beneficiários. Após a exibição dos extratos bancários, a LGN foi intimada para esclarecer a origem dos 351 créditos que totalizavam R$ 10.361.044,87. Parte destes créditos tiveram origem da empresa INTEGRA PARTICIPACOES S.A, CNPJ 17.429.901/0001-04, em cuja resposta a LGN assim se manifestou: “A consultoria foi prestada, a partir do profundo conhecimento dos sócios da Sociedade no mercado de corretagem e seguros em geral, considerando o fato do Cliente ter participação acionária relevante em Corretora de Seguros, incluindo, mas não se limitando, a participação em reuniões com acionistas e executivos das Cias envolvidas, e representantes do mercado de seguro em geral. Toda cobrança dos serviços prestados foi efetuada mediante a emissão da respectiva nota fiscal eletrônica, com o respectivo registro nos livros contábeis da LGN e pagamento dos tributos incidentes. Os custos de viagem e translado eram suportados diretamente pelo cliente, não sendo necessária a cobrança de verba disponibilizada contratualmente.” A LGN se limitou a informar na “expertise” dos sócios. Não foi apresentado nenhum quesito contido no item 1.4 do termo 2 287 2022 (doc. B5) que realmente comprovasse a efetiva prestação do serviço, tais como: descrever detalhadamente como a consultoria era prestada, exibição de troca de e-mails, relatórios, atas que comprovassem a efetiva prestação do serviço, a identificação dos prestadores, horas dispendidas e com quem ou quais pessoas se dava o relacionamento com a tomadora INTEGRA PARTICIPACOES S.A. A INTEGRA também foi diligenciada. Em resposta (doc. B58), declarou que a necessidade da contratação da LGN foi devido ao fato de Alexandre (sócio da LGN) ter integrado a diretoria da WIZ; que tinha necessidade de contratar um consultor experiente; não era obrigada a buscar outros orçamentos; não houve e-mails, atas, reuniões e todas as tratativas eram feitas por telefone; que os serviços eram prestados por Alexandre e não havia controle de horas; que o valor de R$ 732 mil era um “prêmio de performance”. Nota-se, assim como a LGN, a Integra não conseguiu explicar e comprovar o motivo do contrato e qual serviço foi prestado. Ficou claro que o único objetivo da relação contratual era a figura de Alexandre, ex-dirigente da Wiz (CNPJ 42.278.473/0001-03). Também não conseguiu demonstrar cabalmente o motivo do pagamento do tal “prêmio de performance”. Fl. 10766DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 10 Concluiu a fiscalização que a LGN é uma empresa ficta, de passagem de recursos, utilizada pelos sócios Alexandre e João Eduardo com o escopo de ocultar recursos para se eximir ao recolhimento de tributos. a) A LGN não conseguiu comprovar os serviços que teriam sido prestados à Integra Participações S/A, conforme descritos nos parágrafos B.5 a B.8. Devidamente intimada a reintimada, declarou que os serviços eram prestados exclusivamente pelos sócios, que não tinha controle das horas dispendidas, que não tinha registro de atas e tampouco reuniões. b) A Integra, também intimada, também não conseguiu comprovar os motivos dos pagamentos (nem os principais e nem o “prêmio de performance”, de acordo com o descrito no parágrafo B9). c) A própria Integra confirmou que a necessidade da contratação do serviço foi devido ao fato de Alexandre Siqueira Monteiro ter integrado a diretoria da WIZ. d) Em que pese ter “auferido” receitas de mais de R$ 7 milhões no período de 2017 a 2019, a LGN não teve empregados e tampouco contratou serviços de terceiros. e) De acordo com a ECF dos anos-calendário de 2017 a 2019, as despesas operacionais da LGN são inexpressivas (R$ 658.417,30), se comparadas com o montante de receita bruta (R$ 7.773.566,14), ou seja, um ínfimo percentual de 8%. f) Devidamente intimada a apresentar os comprovantes de despesas da empresa, declarou que os extratos bancários demonstrariam as despesas. g) Parte dos recursos que ingressaram na LGN tiveram como origem a Integra, cujo contrato era vinculado à Wiz (CNPJ 42.278.473/0001-03) empresa do grupo CAIXA já múltiplas vezes mencionada neste relatório. Os créditos da LGN (doc. 16) estão discriminados individualmente, totalizando R$ 11.878.643,32, salientando que grande parte foi depositada na conta bancária conjunta de Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro (Itaú Unibanco c/c 3752-74306). Todos os valores foram contabilizados na LGN como “distribuição de lucros”. (C) MASS SOLUTION CORRETORA DE SEGUROS EIRELI Mass Solution, antiga Massbroker Corretora de Seguros Eireli, segundo consulta aos sistemas informatizados da RFB tem atualmente como titular das cotas João Eduardo Siqueira Monteiro e Deise Verônica da Cunha Moraes (companheira de Alexandre na época) constou no contrato social até 26.12.2019. Por intermédio do termo de início de procedimento fiscal 1 27 2022 (doc. C1), a Mass Solution foi intimada para exibir os extratos bancários e bem como identificar os valores pagos a título de lucros distribuídos aos sócios. Após a exibição dos extratos, foram eles devidamente conciliados para que o diligenciado informasse a origem dos créditos. Fl. 10767DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 11 Identificado o tomador BSF GESTAO EM SAUDE LTDA, CNPJ 20.595.406/0001-71, no total de R$ 817.747,20 a Mass Solution assim se pronunciou: a) não houve a formalização desse negócio através de um contrato escrito; b) a Sociedade foi contratada pela BSF para realizar a prospecção de negócios de modo a viabilizar a venda de produtos da BSF para potenciais clientes; c) os serviços foram prestados exclusivamente pelo administrador da sociedade, João Monteiro; d) Inicialmente o Sr. João Monteiro se relacionou com o Sr. Danilo Berndt, executivo da empresa. Ocasionalmente o Sr. João Monteiro interagiu com o Sr. Luís Blotta e com o Sr. Maximiano para obtenção de informação técnica dos produtos da BSF objeto da prospecção de novos negócios; e) a Sociedade não possui o CPF dos Srs. Luís Blotta, Danilo Berndt e Maximiano, tão pouco das demais pessoas com quem houve interações. A única interação formal por e-mail que a Sociedade conseguiu localizar que diz respeito à relação é juntada no Anexo 5.1.3. A BSF também foi intimada (doc. C56) e reintimada (doc. C62) a comprovar o motivo do pagamento dos valores à Mass Solution. Em resposta (doc. C63), declarou: “Em relação a contrato escrito, conforme solicitação, como se trata de uma relação comercial entre empresas privadas, a peticionária à época não celebrou contrato escrito, utilizando o expediente de e-mail para a manifestação de vontade (doc. Em anexo) do negócio jurídico entre partes, nos anos de 2019 e 2020, conforme os documentos fiscais, em anexo.” Relacionada ainda com a Mass Soluction, a fiscalização constatou a movimentação financeira realizada a título de empréstimos, cujo saldo contabilmente fora baixado como incobráveis, que teriam sido parcialmente saldados por meio de dação em pagamento de imóveis, a despeito de tais bens não haverem ingressado no ativo da empresa credora. De acordo com os fatos descritos, conclui-se que a Mass Solution é uma empresa ficta, de passagem de recursos, utilizada por Alexandre e João Eduardo com o escopo de ocultar recursos para se eximir da tributação, pois: a) Nem as fontes pagadoras e tampouco Mass Solution conseguiram comprovar o motivo pela qual os valores ingressaram nas contas desta última. A consultoria que teria sido prestada à BSF não foi comprovada, consoante descrito nos parágrafos C.5, C.6 e C.7. b) Em um fato inusitado (descrito no parágrafo C.6), no dia seguinte após troca de mensagens sobre o “um modelo contrato” com a BSF, a Mass Solution já recebeu a primeira parcela de R$ 311.329,99. c) As explicações fornecidas para os ingressos oriundos da Flamingo e Ivan Carlos estão recheadas de incongruências que foram devidamente listadas nos parágrafos C.10 e C11. d) Além a operações listadas acima, no procedimento de busca e apreensão da operação Descarte (fase Canal Seguro – doc. A199) foi arrecadado um “termo de Fl. 10768DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 12 doação” (doc. 15) na qual consta que Ivan Carlos “doou” R$ 3.647.000,0 para João Eduardo Siqueira Monteiro. e) Importante destacar que Ivan Carlos Machado de Aragão é executivo de diversas empresas com o nome de Wiz (empresa do grupo Caixa), conforme descrito no parágrafo C.11.1. f) Em que pese o alto volume de receitas, a Mass Solution Corretora não teve nenhum empregado no período de 2017 a 2019 e não realizou pagamentos de serviços a terceiros. Do valor total de ingressos no valor de R$ 4.452.384,05, R$ 600.000,00 foi depositado na conta bancária de Antônio Cássio dos Santos (conforme parágrafos C.10.2 e C.10.3) e R$ 10.000,00 na conta bancária de Flavia Medina Wanderlei Aguiar (como descrito no parágrafo C.12). Tais valores foram contabilizados como lucros distribuídos a João Eduardo. D) MASSBROKER INTERMEDIACAO, MARKETING PROMOCIONAL E SERV LTDA A MASSBROKER INTERMEDIACAO, segundo consulta aos sistemas informatizados da RFB, tem como sócios João Eduardo e Mass Solution. Por intermédio do termo de início de procedimento fiscal 1 26 2022 (doc. D1), a Massbroker Intermediação foi intimada a apresentar os extratos bancários do período de 2017 a 2019 e, ainda, a relação detalhada dos lucros distribuídos aos sócios no período. Em resposta (doc. D7) apresentou os respectivos extratos e uma relação com os lucros distribuídos ao sócio JOAO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO. A Massbroker Intermediação recebeu da Berkley International do Brasil Seguros S/A o valor de R$ 1.712.651,88, conforme itens 2 a 68 do anexo I do termo 3 26 2022 (doc. D9). A fonte pagadora foi intimada a se manifestar sobre a efetiva prestação dos serviços, mas a resposta a diligenciada informa que não localizou os relatórios pertinentes, e que os serviços foram prestados por João Eduardo. A Massbroker Intermediação também foi intimada a comprovar sua capacidade operacional para a prestação de serviços, respondendo que não tem bens do ativo não circulante, que não tem comprovantes de despesas e que a sede da empresa é em um imóvel de propriedade do sócio João (doc. D17). Identificados no anexo I deste relatório (doc. 16) constam os valores individuais que compõem o total de R$ 1.168.208,82. Tais valores foram depositados na conta bancária conjunta de João Eduardo Siqueira Monteiro e Alexandre Siqueira Monteiro e foram contabilizados na Massbroker Intermediação na maioria dos casos, como “distribuição de lucros”. (E) MASSBROKER MARKETING E SERVICOS LTDA Massbroker Marketing, baixada em 26.11.2021, segundo consulta aos sistemas informatizados da RFB tinha como sócios João Eduardo Siqueira Monteiro, Mass Solution Corretora de Seguros e Elece Corretagem, Assessoria e Consultoria EIRELI. Fl. 10769DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 13 Após a intimação para a exibição dos extratos bancários e sua conciliação, a fiscalização identificou contendo 179 créditos, no valor total de R$ 145.631.960,60 (Anexo I) e 323 débitos, no valor total de R$ 163.727.264,70 (Anexo II). Entre os créditos foram identificados pagamentos realizados pelas seguintes empresas: a) USS SOLUCOES GERENC. LTDA, CNPJ 01.979.936/0001-79 b) SUL AMERICA COMPANHIA NAC DE SEGUROS, CNPJ 33.041.062/0001-09 c) BERKLEY INTERN DO BRASIL SEGUROS S/A, CNPJ 07.021.544/0001-89. A Massbroker Marketing foi intimada para exibir os contratos de prestação de serviço, comprovar a efetividade da prestação e as horas dispendidas na atividade, informar o nome dos prestadores e com quem se relacionavam nos tomadores, comprovando os treinamentos dados aos funcionários, intermediários e corretores nos termos contratados: CLÁUSULA QUARTA – DAS OBRIGAÇÕES DA CONTRATADA 4.1. A CONTRATADA deverá oferecer o devido treinamento relativo aos produtos da CONTRTANTE, conforme orientação destas, aos seus funcionários, intermediários e corretores e quaisquer outras pessoas envolvidas na prestação de serviços objeto deste CONTRATO. No que diz respeito à comprovação e descrição dos serviços prestados, assim se manifestou: “Os serviços prestados para tais clientes encontram-se previstos nos contratos ora encaminhados como Anexo 3.4.1. De qualquer forma, apresentamos informações mais específicas sobre cada um dos contratos. Com relação ao contrato mantido com a Sul América, o relatório constante do item 2.2. do Termo 4 25 2022 indica de forma clara o detalhamento dos serviços de consultoria prestados para referido cliente. Com relação ao contrato mantido com a USS, trata-se de contrato de avaliação e intermediação, de modo que a Sociedade avaliou os serviços prestados pela USS e com base nessa análise intermediou e assessorou a USS a apresentar proposta de renegociação com seu cliente. Com relação ao contrato mantido com a Berkley, trata-se de um contrato de assessoria em seguros para potencializar as vendas de seguros da referida seguradora.” “Com relação ao contrato com a SUL América, o relatório constante do item 2.2 do Termo 4 15 2022 indica os serviços prestados. Com relação ao contrato com a USS, considerando que se trata de um contrato de avaliação e intermediação, a natureza do serviço não requer a apresentação de relatório ou qualquer outro documento que possa ser usado para demonstrar a efetiva realização. O serviço é consubstanciado pela própria intermediação do contrato com o cliente. Com relação à Berkley, também se trata de intermediação com base na gestão de demandas comerciais e emissão de apólices e endosso diretamente no site da seguradora.” “Os trabalhos foram realizados pelo sócio administrador João e pelos sócios da consultoria Certa Consultores (Sr. Ruy Reis Vasconcellos Filho – CPF: 973.386.058-15) e A. L. de Mello – Consultoria Empresarial (Sr. Anderson Lima de Mello – CPF: 370.715.487-49), que prestaram serviços para a Sociedade, Fl. 10770DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 14 bem como por funcionários da Sociedade.” Em relação à A.L. Mello, não foi apresentada nem notas fiscais e tampouco o contrato. Segundo listagem constante no anexo II do termo 3 25 2022 (doc. E10) a A. L. Mello recebeu R$ 1.933.857,21 no período de 10/2017 a 04/2020. Mesmo tendo pagado esta vultosa quantia, a Massbroker Marketing declarou (doc. E30) que “não foi possível localizar até o momento o contrato”. A contabilidade da Massbroker Marketing, registra que quase todos os pagamentos à A. L. Mello foram contabilizados como lucros distribuídos a João Eduardo Siqueira Monteiro. Além disso, tais pagamentos eram efetuados imediatamente após os recebimentos, pela Massbroker Marketing, de valores da Sul América (atual Traditio). Anderson Lima de Mello, titular da A.L. Mello, foi diretor da Traditio Cia de Seguros (atual denominação da Sul América) e da WIZ Benefício Empresarial Soluções e Corretagens. A TRADITIO COMPANHIA DE SEGUROS, atual denominação social da Sul América Cia de Seguros, foi intimada por intermédio do termo 1 298 2022 (doc. E34), a esclarecer e comprovar o motivo dos pagamentos efetuados de R$ 25.642,153,48 à Massbroker Marketing e Serviços Ltda. Em resposta, a Traditio declarou (doc. E37) que o contrato efetuado com a Massbroker Marketing tinha como objetivo “de monitorar a viabilidade e performance do contrato de cosseguro que a Sul América Companhia Nacional de Seguros (“SulAmérica”) firmou com a Caixa Seguradora S.A. (sendo esta última a seguradora líder), para a distribuição do produto Caixa Seguro Auto”. Declarou também que não possuía documentos “por escrito” concernente à contratação da Massbroker Marketing. Em que pese ter pagado à Massbroker Marketing mais de R$ 25 milhões no período de 01/2017 a 04/2020, a Traditio (Sul América) alegou que as tratativas para o negócio foram feitas de forma “oral”. Não apresentou qualquer documento hábil e idôneo que comprovasse a efetiva prestação de serviço (relatório de horas trabalhadas, e-mails, atas de reuniões, memoriais, relatório de viagens etc.). Não apresentou documentos acerca da necessidade da contratação dos serviços e tampouco demonstrou porque contratou a Massbroker Marketing. Tendo em vista o milionário valor envolvido no negócio (mais de R$ 25 milhões), a “contratante” (Traditio/Sulamerica) não apresentou elementos suficientes comprovando que o serviço foi efetivamente prestado. A USS SOLUCOES GERENCIADAS LTDA pagou mais de R$ 79 milhões à Massbroker Marketing entre 01/2017 e 07/2019. Além dos pagamentos ordinários mensais, que iniciou com cerca de R$ 1,6 milhão em 30/01/2017 e terminou com R$ 735 mil em 01/2019, a USS pagou à Massbroker valores relativos à “rescisão contratual”, de R$ 38,5 milhões em 20/12/2017 e R$ 18,2 milhões entre os meses 02/2019 e 07/2019, totalizando mais de R$ 56 milhões. A indenização de R$ 38.500.000,00 foi paga consoante termo de transação (doc. E64) e teve origem em um contrato de 17.08.2011 que não foi apresentado nem pela Massbroker Marketing e nem pela USS, em que pese ambos terem sido intimados (doc. E51, item 1.4.4). A Fl. 10771DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 15 indenização de R$ 18,12 milhões foi paga consoante termo de transação (doc. E71) e teve origem em um contrato de 30.04.2017 (doc. E22). Muito embora o contrato tratar de “estudo, análise operacional, econômico- financeira”, apoio, assessoria na coordenação de trabalhos, na coordenação de reuniões, nem a USS e nem a Massbroker apresentaram atas de reuniões, e-mails, memoriais, estudos ou qualquer documento que demonstrasse cabalmente que os serviços foram devidamente prestados. Segundo cláusula 2.1 do contrato (doc. E22), a remuneração seria de 13% sobre a receita líquida obtida pela USS no contrato que seria celebrado com a Caixa Seguradora S/A. Apesar da alta remuneração, que resultou de milionário pagamento (cerca de R$ 79 milhões), o único documento que a USS se reportou foi o contrato, nenhum outro documento adicional. Apesar de ter sido devidamente intimado, nem a USS e nem a Massbroker apresentaram documentos que justificariam a necessidade do serviço contratado. Muito embora o contrato entre a Massbroker e a USS não exista previsão de indenização por rescisão contratual realizou pagamento de cerca de R$ 56,7 milhões devido à descontinuidade dos contratos firmados entre ela e a Caixa. No item 1.410 do termo 1 297 2022 (doc. E51), a USS foi intimada a justificar de forma detalhada o motivo da rescisão dos dois contratos com a Massbroker, juntando comunicações (e-mail, mensagens, atas de reuniões, relatórios, memorandos etc.) que comprovam as negociações que resultaram na rescisão contratual e no pagamento das referidas indenizações. Prossegue a autoridade fiscal que os créditos do anexo I deste relatório (doc. 16) estão discriminados individualmente os valores que estão sendo tributados neste auto de infração, que alcançou o total de R$ 85.902.412,44, cuja origem foi a Massbroker Marketing. Friso que a maioria dos valores foram depositados na conta bancária conjunta de Alexandre Siqueira Monteiro e João Eduardo Siqueira Monteiro e foi contabilizado na Massbroker Marketing como “distribuição de lucros”. Que o valor destinado à Elecê pela Massbroker Marketing foi de R$ 55.330.000,00, pagos a título de distribuição de lucros e teve como beneficiário final Thierry Marc Claude Claudon. Conclui a autoridade fiscal: “A fonte de recursos do esquema foi a atuação de Alexandre e Thierry como executivos de empresas do grupo Caixa, conforme fluxo constante no parágrafo 14. Sem a atuação de ambos, as empresas fictas Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação, Massbroker Marketing, TMCC, Louverne e Elecê não receberiam uma PARCELA dos valores pagos pelas empresas prestadoras de serviços contratadas pelo grupo Caixa (Finanseg, Farmaseg, Integra, Berkley, USS e Sul América). Com estes recursos, Alexandre (com auxílio de seu irmão, João Eduardo) e Thierry criaram as empresas fictas já descritas e simularam operações de serviços, compra e venda, doações, transferências. Assim, os recursos eram “lavados” e destinados ao patrimônio pessoal de ambos.” Fl. 10772DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 16 Da base de cálculo considerada de R$ 117.082.958,53, grande parte (R$ 101.309.977,50) foi depositado na conta conjunta de Alexandre/João (341-3752-7430-6). Lembrando que R$ 3.630.000,00 foi depositado na conta de Luciana, que depositou o mesmo valor, no mesmo dia, na mesma conta conjunta de Alexandre/João Eduardo. Portanto, do montante total que está sendo tributado, cerca de 90% foram depositados na conta conjunta de ambos. A diferença foi utilizada para depósito em conta individual de ambos, para pagamento de bens, de despesas próprias e de terceiros, conforme descrito detalhadamente neste relatório. Cabe lembrar que João tinha procuração para movimentar as contas de Alexandre (doc. 13). A teor do disposto no art. 135, inciso III, do Código Tributário Nacional (CTN), a Autoridade Tributária considera que JOÃO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO é pessoalmente responsável pelo crédito tributário apurado. Com base no art. 124, inciso I, do CTN, a Autoridade Tributária arrolou como responsáveis solidárias pelo crédito tributário constituído as pessoas jurídicas: (I) LGN BRASIL CONSULTORIA EMPRSARIAL LTDA, CNPJ 11.959.691/0001-71, consoante dados e fatos constantes do capítulo “B” do Relatório de Auditoria Fiscal; e (II) MASS SOLUTION CORRETORA DE SEGUROS EIRELI, CNPJ 10.375.139/0001-73, consoante dados e fatos constantes do capítulo “C” do Relatório de Auditoria Fiscal. Também com base no artigo 124, inciso I, do CTN, JOÃO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO foi arrolado como responsável solidário pelo crédito tributário constituído, pois, segundo relato da Autoridade Tributária, efetivamente obteve vantagem econômica e participou dos fatos geradores que ensejaram as fraudes apuradas, já que: (1) João Eduardo teve imóveis comprados com recursos que transitaram pelas empresas fictas; (2) despesas dos imóveis de João Eduardo também foram pagos com esses recursos; (3) as empresas fictas pagaram valores a terceiros a mando de João Eduardo (como exemplo, José Feitosa da Silva e Flávia Medina Wanderlei Aguiar). Com fundamento no art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007, foi aplicada a multa de ofício duplicada (de 75% para 150%), pois se concluiu que a conduta do contribuinte, descrita e detalhada no Relatório de Auditoria Fiscal, caracteriza-se como sonegação, fraude e conluio, consoante artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4502, de 1964. Foi lavrada Representação Fiscal para Fins Penais (processo nº 18088-720017/2023- 24), nos termos da Portaria RFB nº 1.750, de 12 de novembro de 2018, pelo fato de a conduta do sujeito passivo caracterizar, em tese, crime contra a ordem tributária, (arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990). Da Impugnação Cientificado do lançamento em 13/9/2023 (AR à fl. 8.205), o sujeito passivo apresentou, em 12/10/2023, a Impugnação de fls. 8.315-8.453, na qual expõe os argumentos de defesa resumidos nos itens a seguir. Fl. 10773DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 17 I. Tempestividade A impugnação foi apresentada dentro do prazo legal de 30 dias (art. 56, do Decreto nº 7.574, de 2011) da ciência do Auto de Infração. II. Fatos Em 21/2/2022, a Equipe Especial de Fiscalização – EFRAU da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Presidente Prudente iniciou um procedimento fiscal sobre diversas empresas das quais o Impugnante e/ou seu irmão João Eduardo Siqueira Monteiro (“João Eduardo”) e/ou o Thierry Marc Claude Claudon (“Thierry”) eram sócios de fato e/ou de direito. Além disso, foi realizado procedimento fiscal, com base no TDPF nº 0810500.2022.00297, sobre diversas empresas e pessoas físicas que realizaram pagamentos a essas pessoas jurídicas ou que delas receberam pagamentos. João Eduardo, que é/era sócio de diversas dessas empresas foi intimado para prestar informações e documentos apenas em 17/1/2023, ou seja, quase um ano após o início do procedimento fiscal. No curso dos procedimentos de fiscalização, todos os fiscalizados apresentaram prontamente os esclarecimentos e documentos solicitados pela autoridade fiscal. Os esclarecimentos prestados pelas empresas foram reforçados pelas respostas apresentadas pelas contratantes dos serviços. Independentemente do que os fiscalizados e os contratantes dos serviços (pagadores) viessem a esclarecer e comprovar em suas respostas, a tese da Fiscalização sempre permaneceu rígida e intocável de que as atividades desempenhadas pelas empresas eram de “fachada”, os valores por elas recebidos tinham origem em contratos simulados com intermediários e clientes de empresas do Grupo Caixa e as referidas empresas serviam exclusivamente de “passagem” de recursos para benefício do Impugnante, de João Eduardo e de Thierry. Tal tese da Fiscalização foi construída como um resquício da operação da Polícia Federal denominada “Canal Seguro”, na qual foram investigados diversos contratos envolvendo a Wiz Participações e Corretagem de Seguros (“WIZ”), empresa na qual o Impugnante foi diretor e depois conselheiro. Ressalta-se que a operação foi encerrada com relação ao Impugnante, a João Eduardo e a Thierry sem oferecimento de denúncia e demais implicações penais, em razão de celebração de Acordo de Não Persecução Penal – ANPP (doc. 03). Porém, a fiscalização da EFRAU não se deu por satisfeita e começou a buscar todo e qualquer tipo de subsídio para, de alguma forma, atribuir a Impugnante e/ou a João Eduardo algum ilícito de natureza tributária. Apesar de o Impugnante ter sido, desde sempre, um dos focos da fiscalização conduzida pela EFRAU, apenas em 25/8/2023 é que foi expedido contra este o TDPF nº 08.1.05.00.2023.00215-6. Contudo, em momento algum foi solicitado qualquer esclarecimento ao Impugnante. Fl. 10774DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 18 Exatos 10 dias depois da intimação do Impugnante sobre o início do procedimento fiscal, isto é, em 4/9/2023, e sem que lhe fosse solicitado qualquer esclarecimento e/ou documento, a fiscalização da EFRAU lavrou o Auto de Infração contra o Impugnante, para cobrança de supostos débitos de IRPF, dos anos-calendário de 2017 a 2020, acrescidos de juros de mora e de multa de ofício qualificada de 150%, sob acusação de sonegação fiscal. O Impugnante entende que não há qualquer respaldo fático ou jurídico para que prevaleça a autuação fiscal. III. Esclarecimentos sobre alguns fatos importantes e afirmações inverídicas da Fiscalização A conclusão alcançada pela Fiscalização no sentido de que as empresas fiscalizadas, em especial Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação, Massbroker Marketing e Elecê, seriam meras empresas de passagem está equivocada, tendo sido pautada em um indevido uso de presunções e em uma análise superficial e enviesada dos documentos e informações prestados durante o procedimento fiscal. Tais empresas tinham capacidade operacional condizente com a respectiva atividade, foram as efetivas beneficiárias dos valores recebidos e apontados no Relatório de Auditoria Fiscal e auferiram lucros, sendo certo que os montantes distribuídos aos seus sócios o foram a título de dividendos, uma vez que estes são/eram sócios de fato destas e, no caso da LGN, o Impugnante é sócio de direito, não havendo que se falar em tributação pelo IRPF, nos termos do artigo 10 da Lei nº 9.249, de 1995. a) Quem são o Impugnante, João Eduardo e Thierry O Impugnante é executivo que trabalha no ramo de corretagem de seguros há mais de 30 anos. Integrou o quadro da WIZ Soluções e Corretagem de Seguros (“WIZ Soluções”) por toda sua carreira, tendo ocupado cargo de diretoria por cerca de 20 anos e, nos últimos anos naquela empresa, o seu Conselho de Administração. Deixou a WIZ em 13 de abril de 2017 (doc. 04), quando a empresa estava cotada na bolsa de valores por quase R$ 3 bilhões. A WIZ é uma companhia aberta privada brasileira que atua no setor de corretagem de seguros e soluções financeiras e oferece uma variedade de serviços relacionados a seguros, incluindo consultoria, intermediação na contratação de seguros, gestão de benefícios, entre outros. A WIZ foi corretora parceira da Caixa Seguradora (“CSH”) por décadas. João Eduardo é irmão do Impugnante e trabalha com corretagem de seguros há décadas. Começou a trabalhar nesse ramo antes mesmo do Impugnante e compôs o quadro de colaboradores da Cajuti Corretora de Seguros, depois no Unibanco Seguros e teve passagem pela FENAE Corretora. João Eduardo é sócio de empresas no ramo de corretagem, no setor imobiliário e já teve sociedade em outros negócios. João Eduardo não tem herdeiros, tem uma união estável (fls. 133 a 135) sendo que é muito próximo do Impugnante e de seus filhos. João Eduardo foi/é sócio do Impugnante em Fl. 10775DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 19 várias empresas operacionais e/ou patrimoniais, porém também tem/tinha empresas sem a participação do Impugnante, tais como a Massbroker Intermediação e a Mass Solution (antiga Massbroker Corretora). Thierry, por sua vez, presidiu a CSH entre 2001 e 2017. Considerando os negócios realizados entre a CSH e a WIZ ao longo dos anos e o fato de a CSH ter participação societária na WIZ, o Impugnante e Thierry desenvolveram um relacionamento profissional e pessoal. A CSH, diferentemente do que a Fiscalização pretende fazer crer, também é uma empresa privada, fundada em 1967 pela união entre a CNP Assurances, que há mais de 150 anos lidera o mercado francês na área de seguros, e a Caixa Econômica Federal (“CEF”). Tal empresa atuava com exclusividade na venda de seguros no balcão da CEF e era controlada, do ponto de vista societário, pela CNP Assurances. Thierry deixou a Presidência da CSH em agosto de 2017 (doc. 04). O Impugnante, ao deixar a WIZ, tinha o projeto de desenvolver um conglomerado de empresas de seguros, o que seria feito por meio da ELECÊ. A ideia era contratar Thierry – pessoa de inquestionável capacidade profissional e de confiança do Impugnante – para gerir esta empresa. Porém, em razão de uma cláusula de non compete existente no contrato do Impugnante com a WIZ, esse plano precisou ser adiado, de modo que a ELECÊ, sociedade já existente e que concentra diversos investimentos de propriedade do Impugnante, permaneceu como uma sociedade de investimentos. b) Por que a EFRAU passou a fiscalizar empresas em que Alexandre, Joao Eduardo e/ou o Impugnante tinham participação? Como relata a própria Fiscalização, tudo se inicia com a Operação Descarte, por meio da qual a Polícia Federal investigou um esquema de corrupção envolvendo agentes públicos em contratos de lixo em alguns municípios de São Paulo. No decorrer dessa operação, dois escritórios de advocacia, em delação premiada, informaram que tinham emitido notas fiscais frias não só para empresas públicas, mas também para empresas privadas, dentre elas a WIZ. A partir disso, a Receita Federal do Brasil passou a investigar a WIZ e, de todos os contratos analisados, fiscalizou profundamente os contratos firmados com CLARO ADVOGADOS, CALAZANS ADVOGADOS e MARTHI. Diante dessa constatação, o Ministério Público Federal criou a tese de que haveria indícios de que o Impugnante teria cometido crime contra o sistema financeiro, deflagrando, em novembro de 2020, a Operação Canal Seguro, que implicou investigações realizadas pelo Ministério Público Federal e, também, pela Receita Federal do Brasil, por meio da EFRAU. A partir de então, foi instaurada uma investigação criminal e fiscal sobre o Impugnante, suas empresas e sobre todos aqueles a sua volta que, de alguma forma, teriam relação com seus negócios. c) O ANPP firmado pelo Impugnante com o MPF e sua importância para o presente caso Fl. 10776DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 20 Deflagrada a Operação Canal Seguro, o Impugnante procurou o Ministério Público Federal (MPF) para a realização de um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP). Depois de diversas tratativas com o MPF e investigações por parte deste, que duraram quase três anos, o acordo foi firmado em 17/8/2023, ou seja, antes da lavratura do Auto de Infração. Nesse acordo, o Impugnante confirmou a verdade sobre os fatos de maneira incondicional, tendo reconhecido todos os fatos constantes do anexo do referido acordo. Em razão da celebração do ANPP, o Impugnante se comprometeu ainda ao ressarcimento da expressiva quantia de R$ 9.655.873,46. Por isso, aceitou realizar “(i) o ressarcimento em prol da União de R$ 7.355.873,46 e (...) (ii) a quitação, durante o prazo de vigência deste acordo – 02 anos – dos valores devidos no processo administrativo nº 18088720071/2020-27 decorrentes do Auto de Infração lavrado pela Secretaria da Receita Federal referente a valores pagos pela MARTHI em benefício do Investigado, cujo valor atualmente é de aproximadamente R$ 2.300.000,00”. Além disso, foi submetido a uma multa de R$ 66.000,00. No ANPP, o Impugnante não tratou apenas dos fatos relacionados às contratações das empresas Claro Advogados, Calazans Advogados e MARTHI pela WIZ, mas também das empresas de que o Impugnante e seu irmão JOÃO EDUARDO eram sócios de fato (por meio de pessoas s que podem ser consideradas “laranja”) e/ou de direito, dos negócios realizados por estas empresas, seu relacionamento e negócios com Thierry etc. Conforme se afere dos fatos relatados e reconhecidos pelo Impugnante no anexo do ANPP (que foram apresentados sob condição de verdade), parte de suas empresas estavam efetivamente em nome de interpostas pessoas (“laranjas”), notadamente de Luciana Penha de Paula (“Luciana” – amiga do Impugnante) e de Luiz Fernando Bastos de Miranda (“Luiz Fernando” – sobrinho do Impugnante), dentre elas as empresas JATAR e ELECÊ, de modo que o Impugnante era o sócio de fato dessas empresas, além de ser sócio de fato e de direito da LGN. Esse aspecto da existência de “laranjas” nas empresas do Impugnante é abordado diversas vezes do Relatório de Auditoria Fiscal como se fosse uma grande descoberta feita pela fiscalização da EFRAU quando, em verdade, o próprio Impugnante já havia reconhecido este fato nas tratativas do ANPP firmado com o MPF. A despeito de o Impugnante reconhecer que as empresas “em nome” de Luciana e Luiz Fernando eram de fato suas, ao se analisar tal acordo, é possível constatar que o Impugnante (sob condição de verdade incondicional e com a chancela do MPF, após longa investigação), em suas declarações, confirmou que tais empresas eram existentes e esclareceu os negócios e contratos por elas realizados, os quais não guardam qualquer relação com lavagem de dinheiro ou desvio de recursos. No ANPP, há todo o contexto fático em que os negócios foram realizados pelas empresas do Impugnante, do que se evidencia que envolviam apenas contratantes que são empresas privadas (ex.: USS, Sul America etc.), que faziam negócios com outras empresas privadas (entre elas a CSH) e não tinham propósitos ilícitos nem de economia fiscal. Fl. 10777DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 21 Foram negócios efetivos, em que as empresas do Impugnante e do seu irmão João Eduardo, por intermédio não só dos serviços de intermediação exercidos diretamente por estes, mas também por meio de serviços efetivos prestados por seu irmão João Eduardo (inclusive reconhecidos pelo fiscal no Relatório de Auditoria Fiscal), dos funcionários das empresas e de terceiros contratados, geraram resultados às empresas contratantes, justificando-se assim a remuneração percebida por tais empresas. João Eduardo e Luciana também realizaram ANPP com o Ministério Público Federal, conforme anexos, sendo que as declarações contidas nos acordos por eles firmados apenas corroboram aquelas prestadas pelo Impugnante (doc. 05). d) Presunções adotadas pela Fiscalização que não têm qualquer fundamento e respaldo probatório No âmbito da investigação realizada pela EFRAU, foram intimadas diversas empresas e pessoas físicas que tomaram/prestaram serviços das empresas investigadas e/ou praticaram outro tipo de negócio jurídico. A fiscalização da EFRAU queria, a todo custo, encontrar irregularidades nas atividades das empresas nas quais o Impugnante, João Eduardo e/ou Thierry eram sócios e nem sequer abriu ao Impugnante a oportunidade de esclarecer os fatos, tal como fez ao Ministério Público Federal por meio da ANPP. Essa postura adotada pela fiscalização da EFRAU apenas contribuiu em seu desfavor, uma vez que diversos atos e negócios jurídicos praticados pelas empresas e demais envolvidos foram interpretados de maneira equivocada, dando origem a um Auto de Infração com diversos erros materiais e pautado em muitas presunções não previstas em lei, que não se prestam para fundamentar o lançamento combatido. As contratações dos clientes das empresas do Impugnante e do seu irmão pelas empresas privadas CSH e demais empresas do Grupo foram absolutamente regulares, realizadas após um processo de seleção de fornecedores, atendendo aos requisitos e exigências de governança e controle da CSH. Qual é a prova carreada aos autos que respalda, de maneira cabal ou sequer por meio de um único indício, a conclusão fiscal da existência desse tal “esquema” perpetrado para beneficiar o Impugnante? Absolutamente nenhuma, justamente porque isso não existiu. Se tivesse existido, o próprio Ministério Público Federal já teria constatado o ilícito durante a investigação criminal ocorrida e nem sequer celebraria o ANPP com o Impugnante, Joao Eduardo, Luciana e Thierry. Ressalta-se que o Impugnante nunca prestou os serviços de intermediação e de corretagem por meio de suas empresas por uma questão de economia fiscal ou para esconder algum ilícito, como quer fazer crer a Fiscalização. Fl. 10778DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 22 O Impugnante não quis constar como sócio de direito nas referidas empresas porque muitas das atividades de intermediação realizadas com a sua participação ocorreram ainda durante a sua Presidência na WIZ e, apesar de não haver ilicitude ou conflito nisso, poderia prejudicar a sua imagem e da própria empresa no mercado. IV. Preliminar – Da Nulidade do Auto de Infração O lançamento padece de diversas nulidades materiais, o que deve conduzir ao reconhecimento da sua integral nulidade. IV.1.a – Erro na definição da matéria tributável e na base de cálculo: a forma como o lançamento foi realizado implica erro tanto na definição da matéria tributável quanto na base de cálculo do tributo devido, na medida em que há claro descasamento entre a motivação do lançamento (empresas supostamente fictas, sendo o Impugnante o verdadeiro beneficiário dos rendimentos auferidos por estas empresas) e a base de cálculo eleita pela Fiscalização (valores distribuídos pelas empresas aos seus sócios). Dado o evidente erro na definição da matéria tributável e da base de cálculo do IRPF lançado contra o Impugnante, deve-se reconhecer a nulidade material do lançamento, sob pena de se admitir a afronta ao art. 142 do Código Tributário Nacional (CTN). IV.1.b – Erro na definição da matéria tributável e do sujeito passivo: constatação de pagamento sem causa deve ensejar o lançamento do IRRF a 35% contra a fonte pagadora. Se a autoridade fiscal entendeu que as empresas e demais pessoas fiscalizadas (fontes pagadoras) não lograram êxito em comprovar a efetiva causa dos pagamentos realizados às empresas do Impugnante, jamais esse fato poderia justificar o lançamento contra o Impugnante (que nem sequer foi efetivamente fiscalizado) a título de IRPF sobre rendimentos tributáveis omitidos. No caso em que é identificada a ocorrência de pagamento sem causa, há uma infração fiscal expressamente tipificada na legislação, mais especificamente no artigo 61, parágrafo 1º, da Lei nº 8.981, de 1995, que prevê a incidência do IRRF, à alíquota de 35%, a ser lançado contra a fonte pagadora. Verifica-se que a autuação fiscal padece de erro (i) na definição da matéria tributável e do fato gerador, já que o tributo a ser lançado seria o IRRF e não o IRPF e (ii) de sujeição passiva, já que o lançamento seria contra as fontes pagadoras e não contra o Impugnante, o que também importa em nulidade material insanável, sob pena de violação ao art. 142 do CTN. IV.1.c – Lançamento pautado em presunção simples e com erro de sujeição passiva e de base de cálculo – inobservância do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. A Fiscalização aponta que o Impugnante, juntamente com seu irmão João Eduardo, eram/são os sócios de fato das empresas Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação e Massbroker Marketing, além de João Eduardo ser também o sócio de direito da LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação e Massbroker Marketing. Fl. 10779DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 23 Além disso, a Fiscalização reconhece que quase 90% dos valores considerados como base de cálculo do Auto de Infração foram depositados pelas mencionadas empresas na conta bancária conjunta do Impugnante e de João Eduardo. A despeito disso, de maneira infundada e sem qualquer respaldo legal, a Fiscalização decidiu atribuir ao Impugnante, na qualidade de contribuinte, a integralidade dos rendimentos creditados na sua conta bancária conjunta com seu irmão, como se ele fosse o único beneficiário desses valores, ignorando totalmente o fato (incontroverso) de que João Eduardo também era/é sócio das empresas e, assim, beneficiário de parte desses depósitos. Ao contrário do que presumiu a Fiscalização, tal conta bancária, a despeito de estar em cotitularidade do Impugnante e do seu irmão João Eduardo, era exclusivamente movimentada por João Eduardo, sendo que os valores lá creditados eram, em sua grande maioria, dele e utilizados ou investidos em seu benefício. João Eduardo não tem herdeiros, tem uma união estável homoafetiva com separação total de bens e seu parente mais próximo é o seu irmão (Impugnante). Assim, por uma questão de segurança e para facilitar trâmites sucessórios, João Eduardo decidiu fazer sua conta bancária em cotitularidade com o Impugnante, sendo que não há qualquer indício de que o Impugnante realizou qualquer movimentação de referida conta, o que de fato não houve e pode ser comprovado se questionado junto ao Banco Itaú. Inclusive, em testamento já formalizado por João Eduardo, o Impugnante aparece como seu único herdeiro (doc. 07). Mais absurdo ainda foi o fato de a Fiscalização ter atribuído ao Impugnante os rendimentos creditados na referida conta bancária pela Massbroker Intermediação e pela Mass Solution, empresas nas quais o Impugnante não tinha qualquer participação de fato ou de direito. Estas empresas são exclusivamente de João Eduardo e todos os valores por elas distribuídos foram em proveito deste. Na época dos fatos em discussão, a Massbroker Intermediação tinha como sócios João Eduardo, com 99,99% da participação societária, e a Mass Solution, com 0,01%, que, por sua vez, também era uma empresa de João Eduardo, detentor de 99,98% da participação societária, como se verifica nos contratos sociais de ambas as sociedades vigentes no período em discussão (doc. 08). A Fiscalização também não se atentou (ou simplesmente ignorou) o fato de que, no que se refere aos dividendos distribuídos pela Massbroker Marketing, a parcela atribuível ao Impugnante era apenas aquela distribuída à ELECÊ (detentora de 50% das cotas da empresa), sendo que os valores depositados na conta bancária em questão (conta conjunta) eram em benefício exclusivamente de João Eduardo, sócio de fato e de direito, detentor de 50% das cotas dessa sociedade (doc. 09). Além disso, ignorou-se que João Eduardo era também sócio das demais empresas – LGN e Jatar –, de modo que ao menos uma parte dos valores distribuídos por estas empresas seria em seu favor e não somente do Impugnante. Fl. 10780DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 24 Até porque seria assumir que João Eduardo não teria qualquer atividade (o que a própria Fiscalização rebate ao deixar claro que ele “gerencia as empresas”, conforme expresso no item A.19.1.7 do Relatório de Auditoria Fiscal) e nem sequer teria recursos para sua sobrevivência, já que todos os rendimentos por ele auferidos de suas empresas seria em favor do Impugnante. Afirma-se, assim, que a Fiscalização atribuiu ao Impugnante todos os valores distribuídos pelas empresas Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação e Massbroker Marketing sem qualquer base legal ou probatória para isso. Considerando que a Fiscalização não logrou êxito em demonstrar qual parcela do valor seria efetivamente atribuível ao Impugnante, há nulidade material insanável do Auto de Infração. Ainda que se admita que a Fiscalização poderia se utilizar de alguma presunção no presente lançamento, esta seria a prevista no art. 42, da Lei nº 9.430, de 1996, uma vez que a própria Fiscalização pauta o lançamento em “omissão de rendimentos” e utilizada como base (cerca de 90%) valores depositados em conta bancária. E, neste caso, a Fiscalização deveria (1) ter intimado o Impugnante e João Eduardo a prestarem esclarecimentos sobre a titularidade dos valores depositados em tal conta bancária, conforme Súmula CARF nº 29 e (2) se não comprovada/individualizada a titularidade, ter observado o disposto no parágrafo 6º do referido art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Assim, também por atribuir ao Impugnante a integralidade de rendimentos que, seja pela realidade dos fatos seja pela presunção legal prevista no art. 42, § 6º, da Lei nº 9.430, de 1996, seriam em parte de João Eduardo, o lançamento padece de erro de base de cálculo e de sujeição passiva, reforçando a necessidade de sua anulação, por afronta ao art. 142 do CTN. Se a Turma de Julgamento não decidir pela nulidade do lançamento neste ponto, é de rigor que, no limite, os valores da conta conjunta do Impugnante e do seu irmão João Eduardo, atribuídos como rendimentos omitidos do Impugnante, sejam integralmente excluídos da base de cálculo do IRPF, pelas mesmas razões. IV.2 – Ausência de fundamentação legal e impossibilidade de desconsideração dos negócios jurídicos Conforme se afere da leitura do Auto de Infração e do Relatório de Auditoria Fiscal, a Fiscalização, em momento algum, invoca um dispositivo legal que fundamente a desconsideração da personalidade jurídica das empresas, tampouco dos negócios jurídicos realizados, o que já deveria importar na nulidade do lançamento por ausência de fundamentação legal. Para desconsiderar os atos praticados sob alegação de simulação, teria como único fundamento cabível o parágrafo único do artigo 116 do CTN, porém este é um dispositivo de eficácia limitada, que depende de regulamentação, conforme reconheceu recentemente o Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento da ADI nº 2.446. Fl. 10781DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 25 A jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais também vem rechaçando autuações fiscais fundamentadas no argumento de desconsideração da operação em razão da ausência de fundamentação legal para essa desconsideração, já que não há regulamentação do artigo 116, parágrafo único, do CTN. Ainda que se entenda que o Impugnante teria adotado a estrutura de recebimento de valores por meio de empresas das quais era sócio de direito e/ou de fato com o fim de economia fiscal, como pretendeu a Fiscalização, nos termos do entendimento firmado pelo STF, este fato, por si só, não bastaria para justificar a requalificação dos negócios jurídicos realizados. Portanto, dada a ausência de fundamentação legal para que sejam desconsiderados e requalificados os negócios jurídicos praticados, notadamente pela ausência de regulamentação do parágrafo único do artigo 116 do CTN, e de sua inaplicabilidade aos casos de elisão fiscal, a autuação fiscal também não merece subsistir, devendo ser considerada nula por ausência de fundamento legal e afronta ao princípio da legalidade. V. Improcedência do Auto de Infração a. Esclarecimentos sobre a prestação dos serviços de corretagem e intermediação e a possibilidade de sua prestação pela Pessoa Jurídica Há uma premissa totalmente equivocada que é um dos pilares da autuação fiscal: o suposto entendimento de que uma ou mais pessoas físicas não poderiam prestar serviços por meio de uma pessoa jurídica, tampouco concentrar e gerenciar o patrimônio, notadamente bens imóveis por meio desta. A estrutura em que uma ou mais pessoas físicas constituem uma pessoa jurídica para prestação de serviços pelos sócios e/ou centralização do patrimônio não somente é plenamente lícita, como amplamente utilizada no Brasil. O ordenamento jurídico pátrio permite expressamente a prestação de serviços por pessoa física por meio de pessoa jurídica, prestigiando, como o STF já destacou, a liberdade econômica e de livre organização. O que a legislação de regência e a jurisprudência rechaçam é o uso de pessoa jurídica para mascarar a relação de emprego e/ou para mascarar atos e operações ilícitas. São casos em que há uma relação jurídica subjacente que se busca mascarar para burlar a lei ou por questões ilícitas. O fenômeno da “pejotização”, rechaçado pela doutrina e pela jurisprudência, diz respeito ao uso da pessoa jurídica para descaracterizar a relação de emprego e afastar a aplicação das normas trabalhistas. A relação de emprego é aquela em que há subordinação, habitualidade e pessoalidade. No caso vertente, nem mesmo a Fiscalização cogita que o Impugnante teria relação de emprego com quaisquer das empresas tomadoras dos serviços contratados das empresas das quais era sócio de direito ou de fato. Fl. 10782DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 26 A outra hipótese em que a jurisprudência rechaça o uso da pessoa jurídica é quando esta é utilizada como um meio de ocultar práticas ilícitas realizadas pela pessoa física. Há vasta jurisprudência de casos envolvendo investigados das Operações Lava Jato e Zelotes, nas quais se constatou que as pessoas jurídicas foram utilizadas como meio para o recebimento ou pagamento de propinas e, especialmente por esta razão, as receitas recebidas por meio de pessoas jurídicas foram reclassificadas na pessoa física, afinal esta foi quem cometeu o ato ilícito que deu origem ao fato gerador tributado. No presente caso, essa jurisprudência tampouco se aplica, pois, como demonstrado e comprovado, não houve qualquer ato ilícito praticado pelo Impugnante na prestação dos serviços de intermediação e corretagem por meio de suas empresas. A afirmação fiscal de que estas empresas teriam sido constituídas para “lavar dinheiro” e que os contratos firmados serviriam para justificar a passagem de direitos ao Impugnante de empresas do Grupo Caixa é totalmente especulativa e infundada, sem qualquer prova a esse respeito, mesmo após toda a investigação conduzida na Operação Canal Seguro. Tanto é que, no ANPP do Impugnante, foram esclarecidos todos os fatos relacionados às suas empresas e o MPF não identificou qualquer ilícito a ser punido e negociado. Os serviços prestados eram absolutamente regulares e os contratos celebrados entre partes privadas, sendo certo que não se buscou, em momento algum, ocultar os negócios realizados por meio das empresas do Impugnante, mas tão somente a sua efetiva participação nessas empresas. O Impugnante nunca quis constar como sócio de direito nas referidas empresas porque muitas das atividades de intermediação realizadas com a participação do Impugnante ocorreram ainda durante a sua Presidência na WIZ Soluções e, apesar de não haver ilicitude ou conflito nisso, poderia prejudicar a sua imagem e da própria empresa no mercado. Não há, contudo, qualquer “esquema” a ser ocultado e nem “dinheiro a ser lavado” por meio das empresas em questão, até porque, exceto pela JATAR e ELECÊ, seu irmão era formalmente sócio e administrador das empresas. Verifica-se no caso concreto que o Impugnante ao constituir as empresas para prestação dos serviços e/ou gestão do seu patrimônio, não cometeu qualquer irregularidade ou ilicitude, como quer fazer parecer a autoridade fiscal. b. Efetiva Existência e Substância das Empresas e da Regularidade dos Valores Recebidos As empresas JATAR, MASSBROKER MARKETING, LGN e ELECÊ, das quais detinha participação de fato e/ou de direito, assim como as empresas MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO e MASS SOLUTION, do seu irmão João Eduardo, tinham efetiva substância e todos os valores por elas recebidos nos anos-calendário de 2017 a 2020 têm causa conhecida e justificada, não se sustentando a afirmação de que seriam meras empresas fictas de passagem. Fl. 10783DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 27 A) Empresas que o Impugnante tem/tinha participação de fato e/ou de direito JATAR – item “A” do Relatório de Auditoria Fiscal O Impugnante e seu irmão João Eduardo compraram a sociedade JATAR em janeiro de 2015. Como nessa época o Impugnante ainda fazia parte da WIZ Participações, buscando evitar uma exposição negativa junto ao mercado, o Impugnante e João Eduardo (sócios de fato) decidiram ingressar na sociedade por meio de Luciana Penha de Paula (“Luciana”), sócia de direito, pessoa da confiança de ambos. Assim, a empresa passou a ter como sócia de direito Luciana, com 99,99% da participação societária e José Antônio Gomes manteve apenas 0,01% da participação em tal sociedade. Os sócios de fato da JATAR eram o Impugnante e seu irmão João Eduardo. A JATAR, no exercício do seu objeto social, firmou contratos de prestação de serviços, notadamente com a Berkley International Brasil Seguros S/A (“Berkley”) e com a Farmaseg Soluções Assistência e Serviços Empresariais Ltda. (“Farmaseg”). Além disso, a JATAR teve participação societária em duas empresas do ramo de seguros, que se tornaram muito relevantes no mercado: a Finanseg Administração e Corretagem de Seguros (“Finanseg”) e a Habseg Administração e Corretagem de Seguros (“Habseg”). A JATAR, desde quando adquirida pelo Impugnante e por João Eduardo, em janeiro de 2015, teve ao menos 3 funcionários CLT (doc. 10) e efetiva sede administrativa (doc. 11). A empresa era tributada com base no lucro presumido e, nos anos fiscalizados (2017 a 2020), recolheu um valor relevante de tributos federais, de aproximadamente R$ 2,1 milhões, considerando IRPJ, CSLL, PIS e COFINS pagos ou retidos pelas fontes pagadoras, conforme atestado pelo Parecer Técnico de Natureza Contábil elaborado pela Porto & Reis (Anexo I). De acordo com a Fiscalização, nem a JATAR nem as fontes pagadoras, durante o curso do procedimento fiscal, teriam logrado êxito em demonstrar a causa dos pagamentos realizados. Porém, esses pagamentos tiveram suas causas devidamente esclarecidas e comprovadas durante o procedimento fiscal, sendo que a autoridade autuante, com o objetivo maior de lavrar o Auto de Infração contra o Impugnante a todo e qualquer custo, decidiu praticamente ignorar as informações recebidas. Os comentários a seguir, sobre a causa de cada um dos pagamentos recebidos pela JATAR, reforçam o fato de que a empresa tinha efetiva substância e prestava serviços a partes não relacionadas, no pleno exercício do seu objeto social. Pagamentos realizados à JATAR por BLIST (Farmaseg) e Cesar Augusto Antunes da Silva Conforme esclarecido por Cesar Augusto, em sua resposta ao Termo de Intimação Fiscal 1 286/2022, e pela BLIST (antiga Farmaseg), na resposta aos Termos de Intimação Fiscal nºs Fl. 10784DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 28 1 287/2022 e 3 287/2022, Cesar Augusto era sócio e administrador de três empresas do Grupo Admix, dentre elas a Farmaseg. A Farmseg tinha por objeto social “a prestação de serviços e assistência empresarial, logística, intermediação de negócios e participação em outras sociedades”, atuava em âmbito nacional na gestão de benefícios de medicamentos e, dentre outras atividades, comercializava planos de medicamentos. Em 2015, visando à expansão da sua área de autuação para grandes, médias e pequenas empresas e considerando que a JATAR possuía conhecimento na negociação de benefícios corporativos, a Farmaseg firmou com a JATAR: (i) Contrato de Prestação de Serviços, que tinha como objeto a atividade comercial na qual a JATAR ofereceria à sua carteira de clientes produtos e serviços da Farmaseg. A remuneração dos serviços de intermediação prestados foi estabelecida no patamar de 20% sobre o efetivo resultado das vendas (fls. 2.721 a 2.735). (ii) Compromisso de Cessão de Quotas, por meio do qual prometeu ceder à JATAR quotas representativas de até 49% do seu capital social, se esta efetivamente contribuísse para o seu crescimento e desenvolvimento dos negócios, contribuição essa que seria advinda justamente dos serviços de intermediação prestados pela JATAR à Farmaseg, objeto do contrato mencionado no item (i) acima (fls. 2.695 a 2.702). Porém, pouco mais de um ano após a assinatura dos contratos, a integralidade das quotas das empresas do Grupo Admix, o que incluía a Farmaseg, foi vendida por Cesar Augusto para o Grupo AON. Tal venda frustrou a expectativa da JATAR de participar do capital social da Farmaseg. Cesar Augusto, na qualidade de ex-sócio e administrador da referida empresa, prevendo que poderia ter problemas com a JATAR em decorrência do consequente descumprimento do referido Compromisso de Cessão de Quotas, em 20/4/2017, após diversas negociações, firmou com tal empresa um “Instrumento Particular de Transação”, por meio do qual restou estipulado o pagamento, por Cesar – sócio controlador do Grupo Admix e beneficiário de R$ 1,5 bilhão decorrente da venda de suas empresas para o Grupo AON – à JATAR, do valor de R$ 11.450.000,00. Este numerário correspondia ao valor das quotas de emissão da Farmaseg que a JATAR teria direito caso o compromisso de cessão fosse cumprido (fls. 2.695 a 2.702). O valor acordado entre as Partes foi inclusive menor do que aquele atribuído à participação societária que deveria ter sido transferida para a Jatar, conforme confirma o laudo de avaliação da empresa à época, devidamente registrado no cartório de títulos e documentos para fins de cumprimento do disposto no artigo 20, § 3º, do Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, com redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014 (fls. 2.715 a 2.719). Como declarado pelo próprio Cesar Augusto na sua resposta à Fiscalização de fls. 2.692, a assinatura do referido Instrumento e o pagamento do valor à JATAR tinham por objetivo Fl. 10785DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 29 “evitar um litígio decorrente do descumprimento do compromisso de cessão, o que poderia colocar em risco a operação com o Grupo AON”. A despeito da assinatura do Instrumento Particular de Transação entre a JATAR e Cesar Augusto, a Farmaseg, já na gestão do Grupo AON, continuou tomando os serviços da JATAR e, por conseguinte, efetuando o pagamento da remuneração devida a esta empresa, estipulada no patamar de 20% sobre o efetivo resultado das vendas, conforme previsto em contrato, o que justificou os pagamentos recebidos pela JATAR no período de 02/2017 a 10/2018, no valor total de aproximadamente R$ 2,67 milhões. Conforme destacado pela Farmaseg (atual Blist) em sua resposta à fiscalização de fls. 2.859 a 2.868, “como a JATAR efetuava intermediação (corretagem) a prova dos serviços prestados é efetuada pelos relatórios mensais (ora apresentados), nos quais constavam os valores a serem pagos à JATAR por tal intermediação (...). É importante lembrar que no mercado de corretagem/intermediação, não se exigem usualmente estudos, memoriais, comprovantes de reuniões, discriminação de horas gastas, considerando que os contratos são por resultado”. Esta remuneração era calculada pela Farmaseg, a partir de relatórios mensais de medição compartilhados com a JATAR que, posteriormente, emitia as respectivas notas fiscais, conforme procedimento comumente adotado em serviços dessa natureza (fls. 2.948). Essa relação contratual foi finalizada apenas em outubro de 2018, quando as partes assinaram a Notificação de Rescisão de Prestação de Serviços (fls. 2.762). Não há que se falar, portanto, em pagamentos sem causa. Pagamentos realizados à JATAR por WIZ Parceiros (Finanseg) A WIZ Parceiros, anteriormente denominada Finanseg, inicialmente tinha como único sócio Marcos Melchior de Biase, corretor de seguros com mais de 20 anos de experiência e relevante atuação no mercado, sendo que, em maio de 2015, a JATAR ingressou como sócia, passando a ser detentora de 60% do seu capital social (cf. fls. 2.990 e seguintes). A Finanseg tinha por objeto social a corretagem de seguro de todos os ramos, a administração de carteiras de seguros, serviços de venda de consórcios em geral, entre outras atividades relacionadas ao mercado securitário, conforme clausula terceira do seu contrato social. Essa empresa foi idealizada por seus sócios para ser a maior plataforma de vendas de consórcios do Brasil e, de fato, o foi. A Autoridade Fiscal questiona a causa do pagamento realizado pela Finanseg à JATAR, no valor total de R$ 5.224.578,43, entre 5/1/2017 e 25/4/2017, alegando que “Intimada, a Jatar não apresentou comprovação dos serviços que teriam sido prestados à (...) Finanseg (...)” (fls.8.123). Contudo, como a própria Fiscalização reconhece no item A.19.5.1 do Relatório de Auditoria Fiscal, o valor pago à JATAR tinha natureza de dividendos, conforme declarado em sua Fl. 10786DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 30 Escrituração Contábil Digital, que faz prova a seu favor, justamente porque a JATAR era sócia detentora de 60% das cotas daquela empresa. O Impugnante não consegue nem sequer entender a razão pela qual a Fiscalização presumiu que a Finanseg teria tomado algum serviço da JATAR. Afirma-se serem descabidas as afirmações da Fiscalização no que se refere à Finanseg e, em especial, quanto ao questionamento da causa do pagamento à JATAR no valor de R$ 5.224.578,43, que, como demonstrado, trata-se de dividendos, não havendo que se falar em comprovação de prestação de serviços. Pagamentos realizados à JATAR por Habseg A Habseg era uma empresa cuja participação societária era em parte detida pela JATAR, conforme se verifica do seu Distrato Social (doc. 13). A Fiscalização não faz questionamentos diretos quanto aos valores pagos pela Habseg à JATAR. Apenas menciona que, intimada, a empresa não teria esclarecido a razão destes pagamentos. Ocorre que a Habseg é uma empresa já extinta e a Fiscalização solicitou esclarecimentos a Marcos Biasi que, como esclareceu na resposta às fls. 2.972 e seguintes, não ficou com a guarda dos documentos da empresa. O Impugnante esclarece que tais valores pagos pela Habseg à JATAR, que totalizaram R$ 3,57 milhões, tinham natureza de dividendos, dado que a JATAR era sócia dessa empresa, conforme devidamente comprovado (doc. 13). Pagamentos realizados à JATAR por Berkley A Berkley é uma seguradora devidamente autorizada a atuar no Brasil pela Superintendência de Seguros Privados (“SUSEP”), colocando à disposição dos clientes diversas modalidades de cobertura securitária, dentre elas seguros de garantia direcionados para obras de construção civil. Buscando ampliar os seus negócios em todas as regiões do Brasil, a Berkley firmou com a JATAR (fls. 1.173 a 1.188), Massbroker Marketing (fls. 7.384 a 7.399) e Massbroker Intermediação (fls. 4.935 a 4.951), em 6/4/2015, Contratos de Prestação de Serviços que tinham por objeto a representação de seguros, o que envolvia o atendimento da PAR Riscos Especiais Corretora de Seguros S/A (“PAR Corretora”) e dos corretores por ela indicados e a transmissão dos negócios por estes angariados à Berkley. Como esclarecido pela Berkley à Fiscalização (fls. 2.274), a contratação desses serviços junto às três empresas mencionadas se deu por uma questão de “regionalização dos serviços”, de modo que cada empresa ficou responsável por desenvolvê-los em uma região do país: a Massbroker Marketing era responsável pelas regiões Norte e Nordeste; a Massbroker Intermediação, pelas regiões Sul e Centro-Oeste; e a JATAR, pela região Sudeste. Como afirmou a Fl. 10787DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 31 Berkley “os contratos foram firmados por regiões, pois o principal objetivo da Berkley, devidamente alcançado, foi a ampliação de sua distribuição geográfica de atuação, com maior capilaridade de atendimento dos seus clientes por corretores especializados” (fls. 2.275). Conforme estipulado na cláusula quarta dos contratos, a remuneração acordada pelas partes previa: a) um pagamento inicial de R$ 660.000,00 (no caso da Massbroker Marketing e Massbroker Intermediação, esse valor era de R$ 670.000,00, independentemente de qualquer resultado); e b) um comissionamento de 3,5% sobre os prêmios recebidos pela Berkley, que somente passaria a ser devido após a comercialização de contratos de seguros atingir valor superior àquele suficiente para gerar a remuneração de R$ 660.000,00, inicialmente paga. Além disso, foi acordado o pagamento de um valor mensal de até R$ 10.000,00, a título de divulgação e despesas de marketing, se atendidas algumas metas mínimas, previstas na cláusula quinta do contrato. Para o devido atendimento à Berkley, a Jatar e demais contratadas precisariam de funcionários exclusivos para esta carteira, restou acordado entre as partes que a Berkley faria o reembolso dos custos desses funcionários. A Berkley, ao prestar esclarecimentos dos valores pagos a Jatar, Massbroker Marketing e Massbroker Intermediação, afirmou que “o gerenciamento das corretoras de seguros envolvidas na comercialização dos seguros objeto dos contratos não se dava com a interveniência da Berkley, mas entre as assessorias [dentre elas Jatar] e as corretoras (...) iniciada a operação e indicadas as corretoras, estas estabeleciam fluxo operacional e de informações diretamente com a Berkley” (fls. 2.273 e ss). Ademais, instada a comprovar a efetiva prestação dos serviços pelas contratadas (dentre elas a Jatar), a Berkley apresentou: planilhas de cálculos das remunerações pagas; notas fiscais e e-mails trocados entre as partes sobre atingimento de metas; cartas de fiança apresentadas pelas contratadas a Berkley para garantir o valor da remuneração inicial de R$ 670.000,00 que, de acordo com determinadas cláusulas do contrato, poderia ter que ser devolvido à Berkley em algum momento (fls. 2.536 a 2.541). Tais documentos, dada a natureza dos serviços prestados (corretagem/intermediação) e sua forma de remuneração (baseada especialmente em resultado), são suficientes para comprovar a efetiva prestação de serviços pela demais contratadas. Assim, diversamente do que concluiu a Fiscalização: (i) houve uma efetiva causa para os pagamentos realizados pela Berkley à Jatar, no período de 2017 a 2019, no valor de aproximadamente R$ 1,1 milhão, qual seja, a prestação dos serviços de corretagem/intermediação prestados pela Jatar com foco na região Sudeste, sendo certo que houve a efetiva comprovação da prestação, levando-se em consideração a natureza desses serviços e a forma de remuneração contratada; Fl. 10788DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 32 (ii) houve uma razão para que a Berkley firmasse contratos distintos com Jatar, Massbroker Marketing e Massbroker Intermediação, sendo descabida a alegação da Fiscalização de que “não há e não foram apresentados motivos para que a mesma empresa (Berkley) fizesse três contratos praticamente iguais com três empresas diferentes”; (iii) o funcionário contratado pela Jatar efetivamente prestava serviços a esta, uma vez que era ele quem executava mais diretamente as obrigações da empresa assumidas no Contrato de Prestação de Serviços firmado com a Berkley. O fato de este funcionário atender exclusivamente a um cliente da Jatar e de a Berkley reembolsar as despesas com este funcionário não muda a relação jurídica/trabalhista existente. Tratou-se, apenas, de mais uma forma de remuneração pelos serviços prestados pela Jatar, ainda que na prática denominada de “reembolso”. O custo do funcionário era apenas a forma de precificação dessa remuneração. MASSBROKER MARKETING – item “E” do Relatório de Auditoria Fiscal A Massbroker Marketing foi constituída em 15/5/2010, sendo que, no período fiscalizado (2017 a 2020), tinha como sócios João Eduardo e Elecê, cada um com 50% da participação societária, conforme contrato social vigente neste período (doc. 13). A Elecê, por sua vez, tinha como única sócia a HL3 Participações S/A que, por seu turno, tinha como sócio detentor de 99,99% de suas ações Luiz Fernando (doc. 14). Luiz Fernando era sobrinho do Impugnante e, como reconhecido por este no ANPP (doc. 03), era apenas o sócio de direito de tais empresas, sendo o Impugnante o sócio de fato. Na realidade, portanto, a Massbroker Marketing tinha como sócios (i) a Elecê, detida de fato pelo Impugnante – logo, sócio indireto da Massbroker Marketing e (ii) João Eduardo. Assim, verifica-se, o equívoco da Fiscalização em afirmar que a Massbroker Marketing tinha como único sócio de direito João Eduardo e o equívoco maior ainda em concluir que (i) João Eduardo era apenas um sócio aparente e que todo o valor distribuído pela Massbroker Marketing à sua conta bancária conjunta com o Impugnante seria atribuível apenas a este último e (ii) todo o dinheiro distribuído à Elecê seria destinado a Thierry. Pelo contrário, João Eduardo era efetivo sócio (de direito e de fato) da Massbroker Marketing e todo o valor distribuído pela empresa a ele e creditado em sua conta bancária era efetivamente dele e não do Impugnante. A Massbroker Marketing era uma empresa que tinha um escritório físico, com espaço para reunião com clientes e toda a estrutura necessária para o exercício da sua atividade empresarial, como se afere pelas fotos anexas (doc. 15). A administração da sociedade era feita diretamente pelo sócio João Eduardo, que também participava da execução dos contratos de prestação de serviços firmados pela empresa. Fl. 10789DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 33 Durante o período em discussão (2017 a 2020), a Massbroker Marketing prestou relevantes serviços de intermediação e corretagem, todos para instituições privadas, notadamente: USS, Sul America e Berkley. A sociedade tinha ao menos 1 (um) funcionário CLT (doc. 16) e, também, contratava empresas de consultoria especializada para auxiliar na prestação dos seus serviços aos seus clientes, mais especificamente, as empresas Certa Consultores e A. L. de Mello – Consultoria Empresarial. Conforme informação prestada por João Eduardo na resposta à Fiscalização de fls. 405 e seguintes: “Os trabalhos foram realizados pelo sócio administrador João e pelos sócios da consultoria Certa Consultores (Sr. Ruy Reis Vasconcellos Filho - CPF: 973.386.058-15) e A. L. de Mello - Consultoria Empresarial (Sr. Anderson Lima de Mello - CPF: 370.715.487-49), que prestaram serviços para a Sociedade, bem como por funcionários da Sociedade”. O Impugnante também tinha participação relevante na prestação dos serviços para os quais a Massborker Marketing era contratada, considerando toda sua experiência no ramo de seguros, assistência e relacionamentos desenvolvidos ao longo da sua extensa e sólida carreira. Porém, diversamente do que faz parecer a Fiscalização, esses serviços não eram única e exclusivamente prestados pelo Impugnante. A prestação dos serviços era efetivamente realizada pela Massbroker nas pessoas de seus sócios, funcionários e consultorias terceirizadas especializadas. A Massbroker Marketing sempre cumpriu as suas obrigações fiscais, sendo que, no período em discussão (2017 a 2020), recolheu um valor bastante relevante de tributos federais, de aproximadamente R$ 15,7 milhões, considerando IRPJ, CSLL, PIS e COFINS pagos e/ou retidos pelas fontes pagadoras, conforme atestado pelo Parecer Técnico de Natureza Contábil elaborado pela Porto & Reis (Anexo I). A Fiscalização concentra-se em questionar os pagamentos realizados pela USS, Sul America e Berkley, em favor da Massbroker Marketing no período de 2017 a 2020. O Impugnante reafirma que os pagamentos decorreram da efetiva prestação de serviços. Pagamentos realizados à Massbroker Marketing pela USS Os pagamentos realizados pela USS à Massbroker Marketing nos anos de 2017 a 2019, que somaram o valor total de R$ 79,8 milhões, compõem-se de: (i) pagamentos mensais da remuneração pela prestação de serviços de intermediação, com base no contrato firmado em 30/4/2017, no valor total de R$ 23,2 milhões; (ii) pagamento de indenização pela rescisão do contrato de prestação de serviços firmado em 17/8/2011, no valor de R$ 38,5 milhões; e Fl. 10790DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 34 (iii) pagamento de indenização pela rescisão do contrato de prestação de serviços firmado em 30/4/2017, no valor bruto de R$ 21,03 milhões que, deduzido o IRRF, implicou o pagamento de R$ 18,1 milhões. Pagamentos da Sul America à Massbroker Marketing Restou mais do que comprovada a efetiva prestação dos serviços de consultoria pela Massbroker Marketing à Sul America, o que se denota, em especial, do contrato de prestação de serviços firmado entre as partes, dos relatórios detalhados dos serviços prestados enviados mensalmente à Massbroker Marketing para a Sul América, das notas fiscais de prestação de serviços, da resposta prestada pela Sul América que atesta os serviços tomados e da resposta prestada pela A.L. Mello – Consultoria Empresarial, subcontratada pela Massbroker Marketing para atuar diretamente na prestação de serviços à Sul America. O contrato de prestação de serviços firmado tem objeto lícito, se deu entre partes independentes e privadas e, diversamente do que a Fiscalização quer induzir, não há qualquer irregularidade no fato de a Massbroker Marketing ter assessorado a Sul America no gerenciamento de um produto (cosseguro veicular) junto à CSH. Justificada, portanto, a remuneração total de R$ 25.642.153,48 da Sul America à Massbroker Marketing, ao longo dos anos de 2017 e 2020, devendo ser afastados todos os questionamentos da Fiscalização a esse respeito. Pagamentos da Berkley à Massbroker Marketing No que se refere à contratação pela Berkley, o Impugnante faz referência aos parágrafos 194 a 204 da impugnação, nos quais esclarece a natureza dos serviços prestados, aponta a documentação comprobatória existente e justifica a razão pela qual foram firmados três contratos, qual seja, uma questão de “regionalização dos serviços”, de modo que cada empresa ficou responsável por desenvolvê-los em uma região do país: a Massbroker Marketing era responsável pelas regiões Norte e Nordeste; a Massbroker Intermediação era responsável pelas regiões Sul e Centro-Oeste e a JATAR pela região sudeste. Como afirmou a Berkley “os contratos foram firmados por regiões, pois o principal objetivo da Berkley, devidamente alcançado, foi a ampliação de sua distribuição geográfica de atuação, com maior capilaridade de atendimento dos seus clientes por corretores especializados” (fls. 2.275). Logo, também não devem subsistir as alegações fiscais que questionam os pagamentos realizados pela Berkley à Massbroker Marketing. LGN – Item “B” do Relatório de Auditoria Fiscal A LGN é sociedade que foi constituída em 7/5/2010, tendo como sócios o Impugnante, com 23,40% da participação societária, e João Eduardo, com 76,60% de participação societária. João Eduardo também atua como administrador da sociedade, gerenciando as atividades do dia a dia, pagamentos e recebimentos de valores, contratos firmados etc. Fl. 10791DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 35 Os questionamentos da Fiscalização acerca dos valores distribuídos entre 2017 e 2020 ignoram que a LGN: (i) trata-se de uma empresa efetivamente existente, sendo absolutamente normal concentrar a gestão de patrimônio mobiliário e imobiliário em uma empresa especialmente patrimonial, constituída pelo Impugnante e por seu irmão João Eduardo para centralizar seus bens; (ii) justamente por sua natureza, é normal também não ter funcionários, sendo certo que, conforme será demonstrado a seguir, a prestação de serviços à Integra Participações se deu exclusivamente pelo Impugnante, o que também não guarda qualquer irregularidade; e(iii) o mais absurdo – o Impugnante e seu irmão João Eduardo são sócios dessa empresa de fato e de direito, sendo que, na resposta à Fiscalização de fls. 8 e seguintes, foi devidamente informado quanto foi distribuído de lucro para cada um dos sócios no período de 2017 a 2020 (cf. demonstrativo de fls. 271), cabendo ao Impugnante o valor total de R$ 2.600.000,00. A Fiscalização sustenta, contudo, que os serviços prestados pela LGN à Integra Participações, que resultaram em pagamentos de R$ 3.129.897,50, teriam, em verdade, sido prestados pessoalmente pelo Impugnante e, por conta disso, somado à suposta ausência da comprovação dos serviços, atribuindo ao Impugnante todo o lucro distribuído pela LGN entre 2017 e 2020, ignorando o fato de que João Eduardo também era sócio da empresa e que grande parte desse lucro distribuído, no total de R$ 11.878.643,32, sequer era decorrente prestação de serviços à Integra Participações. Não há como se admitir a tese fiscal de que a LGN seria uma empresa ficta de passagem de recursos, utilizada pelo Impugnante e por seu irmão João Eduardo para ocultar recursos e sonegar tributos, quando restou comprovado que a LGN exerceu regularmente sua atividade de empresa patrimonial, concentrando e gerenciando bens móveis e imóveis dos sócios e, ainda, efetivamente prestou serviços de consultoria à Integra, principalmente na pessoa do Impugnante, o que também é absolutamente regular e não justifica a desconsideração da personalidade jurídica da empresa para atribuir integralmente ao Impugnante, como rendimentos omitidos, os valores que foram distribuídos pela LGN aos seus sócios a título de dividendos, durante os anos-calendário de 2017 a 2020. ELECÊ – item “H” do Relatório de Auditoria Fiscal A ELECÊ é uma sociedade cujo principal objeto social é a atividade de corretagem e agenciamento de seguros, tendo sido constituída em 1993. É uma sociedade ativa até hoje e, desde setembro de 2017, tem como única sócia a HL3 Participações S/A, que, por seu turno, tinha como sócio detentor de 99% de suas ações Luiz Fernando Bastos de Miranda (“Luiz Fernando”) e Werley Pereira Passos como detentor de 1% das ações (doc. 14). Luiz Fernando é sobrinho do Impugnante e, como reconhecido por este no ANPP (doc. 03), era apenas o sócio de direito da empresa, sendo o Impugnante o sócio de fato. Fl. 10792DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 36 Até 31/8/2019, a ELECÊ detinha 50% das ações da Massbroker Marketing. A ELECÊ representava a parte do investimento do Impugnante em tal empresa, sendo que os demais 50% de participação era efetivamente detida por seu irmão João Eduardo, o qual fazia a gestão de fato da Massbroker Marketing. Deste fato, se justifica o pagamento total de R$ 55,3 milhões pela Massbroker Marketing à ELECÊ, entre 2017 e 2019, que se deu a título de dividendos, sendo que a parcela de R$ 13.000.000,00, paga em 24/12/2019, conforme esclarecido durante o curso do procedimentos fiscal “foi relativa a lucros distribuídos à Elecê referente ao período que possuía participação na Massbroker Marketing”. A ELECÊ, muito embora ainda não estivesse exercendo sua atividade de corretagem, já exercia há bastante tempo a atividade de centralizar e gerenciar investimentos do Impugnante, concentrando grande parte dos seus investimentos em ações, títulos públicos e mercado imobiliário. A TMCC já era uma empresa existente à época, ativa e que prestava serviços a outros clientes. E, muito embora prestasse serviços a ELECÊ, nem a TMCC nem Thierry tinham poderes decisórios sobre a empresa, tampouco Thierry era sócio desta. Todo e qualquer pagamento, assinatura de escritura ou movimentação financeira poderia até contar com o assessoramento da TMCC e, portanto, de Thierry, no entanto, era o administrador da ELECÊ, sobrinho e pessoa de confiança do Impugnante, quem de fato executava tais atividades. Quanto ao valor de R$ 2.619.983,72 pago pela ELECÊ ao escritório de advocacia Lopes e Versani, a Fiscalização entendeu que tal valor teria sido pago em benefício do Impugnante, apenas porque identificou no site do STF um processo judicial, sob sigilo, que supostamente seria a ele relacionado e patrocinado por tal escritório. Porém, conforme declaração anexa, fornecida pelo escritório Lopes e Versani, tal pagamento refere-se a honorários advocatícios pagos pela ELECÊ, mas não em favor do Impugnante (doc. 21). Desconstituída a premissa fiscal, resta evidenciada a total improcedência do lançamento de IRPF sobre o valor de R$ 2.619.983,72, seja porque não foi pago em benefício do Impugnante, seja porque, diversamente do que entende a Fiscalização, a ELECÊ não é e nunca foi uma empresa ficta de passagem de recursos. B) Empresas que o Impugnante não tem/tinha participação de fato e/ou de direito (empresas apenas de João Eduardo) MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO – item “D” do Relatório de Auditoria Fiscal Na época dos fatos em discussão, a Massbroker Intermediação tinha como sócios João Eduardo, com 99,99% da participação societária, e a Mass Solution, com 0,01% da participação societária, que, por sua vez, também era uma empresa de João Eduardo, detentor de 99,98% da participação societária, como se verifica nos contratos sociais de ambas as sociedades Fl. 10793DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 37 vigentes no período em discussão (doc. 08). A empresa era efetivamente operante, prestava serviços e era diretamente gerida pelo sócio João Eduardo. Não à toa, a Massbroker Intermediação possuía dois funcionários, Patrícia de Lima Bais Siqueira e Euzenir Dionísio da Silva, que assessoravam João Eduardo na prestação dos serviços da empresa, como fazem prova os contracheques do período autuado (doc. 22). Além disso, a Massbroker Intermediação possuía um escritório físico na Barra da Tijuca que era utilizado para receber e atender novos clientes em reuniões. No regular exercício do seu objeto social, a Massbroker Intermediação firmou contrato de prestação de serviços com a Berkley, o que deu origem aos recebimentos que perfizeram o valor total de R$ 1,7 milhão no período de 2017 a 2019. No que se refere à contratação pela Berkley, o Impugnante faz referência aos parágrafos 193 a 203 da impugnação, nos quais esclarece a natureza dos serviços prestados, aponta a documentação comprobatória existente e justifica a razão pela qual foram firmados três contratos, qual seja, uma questão de “regionalização dos serviços”. Logo, também não devem subsistir as alegações fiscais que questionam os pagamentos realizados pela Berkley à Massbroker Intermediação. MASS SOLUTION – item “C” do Relatório de Auditoria Fiscal A Mass Solution (anteriormente denominada Massbroker Corretora de Seguros EIRELI), é uma empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI), constituída em 23/9/2008, cujas cotas, a partir de 26/12/2019, passaram a ser detidas 100% por João Eduardo. Até 26/12/2019, João Eduardo detinha 99,08% da participação societária e Deise Verônica era detentora de 0,02% da participação societária. Trata-se, portanto, de uma sociedade detida por João Eduardo, na qual Impugnante nunca teve qualquer participação como sócio de direito ou de fato, nem tinha qualquer conhecimento sobre as operações por ela realizadas. A Mass Solution tem como objeto social a corretagem de seguros em todos os ramos e a participação social em outras sociedades. Os valores recebidos pela Mass Solution, questionados pela Fiscalização, relativos a Ivan Carlos Machado Aragão (“IVAN”, R$ 1.030.009,00) e Flamingo FNC Adm. e Part. Ltda (“FLAMINGO”, R$ 1.075.652,00), ambos são relacionados a mútuos concedidos pela Mass Solution e posteriormente quitados pelos devedores, como explicado, de forma detalhada, na resposta à Fiscalização de fls. 4470 e seguintes. Está claro que não se verificou qualquer irregularidade no mútuo celebrado entre a Mass Solution e IVAN, sendo certo que o valor de R$ 1.030.009,00 recebido pela Mass Solution refere-se à parcela do mútuo quitada em dinheiro, evidenciando que são equivocados os apontamentos apresentados pela Fiscalização. Fl. 10794DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 38 Em relação à FLAMINGO, de acordo com os documentos acostados aos autos (contratos de mútuos – fls. 4.439 a 4.442, recibo de quitação – fls. 4.450 a 4.456 e termo de dação em pagamento – fls. 4.447 a 4.449), bem como com as informações prestadas pela Mass Solution às fls. 4.479 e seguintes, ficou esclarecido que a MASS SOLUTION (antiga Massbroker Corretora) firmou com a FLAMINGO um empréstimo inicial de R$ 2.000.000,00, em 28/1/2015, e, posteriormente, um novo empréstimo, no valor de R$ 1.000.000,00, em 23/12/2015. A Fiscalização, de maneira infundada, alega que estes empréstimos concedidos à FLAMINGO pela Mass Solution seriam obscuros, mas não há nada de obscuro na realização de empréstimos entre partes privadas, decorrendo do exercício de liberalidade das partes contratantes. No limite, a Fiscalização poderia ter questionado o recolhimento do IOF, se fosse o caso. Por fim, no que se refere aos valores recebidos da BSF Gestão em Saúde Ltda. (“BSF”), no montante total de R$ 817.747,20, conforme esclarecido pela Mass Solution no curso da fiscalização, foram relativos à prestação de serviços de prospecção de negócios a fim de viabilizar a venda de produtos da BSF para potenciais clientes (fls. 4.482 e seguintes). Quanto à comprovação da efetiva prestação dos serviços, dada a sua natureza – serviços de corretagem e negociação – é mais do que normal que não haja produção de documentos, visto que tais serviços se materializam a partir de reuniões e demais formas de contato interpessoal. O Impugnante também ressalta que a BSF apresentou em sua resposta cópia do e- mail de contratação da Mass Solution e notas fiscais emitidas, o que é suficiente para comprovar a efetiva prestação considerando a natureza dos serviços contratados (fls. 4.517 e seguintes e 4.637 e seguintes). c. Natureza de Dividendos dos valores distribuídos e sua Isenção do IRPF As informações e provas apresentadas nos itens acima desconstituem a premissa da autuação fiscal de que as empresas Jatar, Massbroker Marketing, LGN, ELECÊ, Massbroker Intermediação e Mass Solution não teriam substância, sendo meras empresas de passagem. Restou evidenciado que essas empresas atuaram no limite dos seus objetos sociais, de maneira totalmente lícita, firmando contratos e prestando serviços a sociedades exclusivamente privadas, cujas operações restaram comprovadas. Assim, não há qualquer fundamento para que a Fiscalização desconsidere a personalidade jurídica delas. Os valores distribuídos por tais empresas ao Impugnante – reconhecido sócio de fato da Jatar, Massbroker Marketing, LGN e ELECÊ, como declarado no ANPP e pela própria Fiscalização – assim como ao seu irmão João Eduardo (sócio dessas empresas – exceto ELECÊ) e sócio da Massbroker Intermediação e Mass Solution, referem-se a dividendos distribuídos aos sócios, dado que essas empresas apuravam lucros, conforme declarado nas respectivas contabilidades. Fl. 10795DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 39 Conforme atestado pelo Parecer Técnico de Natureza Contábil elaborado pela Porto & Reis (Anexo I), as empresas Massbroker Marketing, Jatar e LGN das quais o Impugnante era sócio de fato/direito, assim como a Massbroker Intermediação e Mass Solution, que eram detidas por João Eduardo, tinham lucros acumulados mais do que suficientes para fazer frente aos valores distribuídos a título de dividendos no período de 2017 a 2020. Não há dúvidas da natureza de dividendos dos valores distribuídos por tais empresas aos seus sócios, dentre eles o Impugnante. Os dividendos são isentos da tributação do IRPF, nos termos do artigo 10 da Lei nº 9.249, de 1995, o que fulmina o lançamento fiscal. d. Subsidiariamente: Necessária Dedução dos Tributos Pagos pelas Empresas e do IRRF Lançado contra o Impugnante Caso se decida pela manutenção da autuação, deve-se, ao menos, reconhecer a necessidade de dedução, do IRPF lançado, da integralidade dos tributos federais recolhidos pelas empresas ou retidos pelas fontes pagadoras sobre tais rendimentos (IRPJ, CSLL, PIS e COFINS). A Autoridade Fiscal, ao fundamentar a qualificação da multa de ofício, já reconhece que as empresas consideradas fictas recolheram todos os tributos federais decorrentes da realização de suas atividades e em nenhum momento questionou a apuração ou os valores de tributos pagos por tais empresas. Além disso, o Parecer Técnico de Natureza Contábil elaborado pela Porto & Reis (Anexo I), junto com os comprovantes de recolhimento (doc. 24), comprova, de maneira detalhada, todos os valores recolhidos a título IRPJ, CSLL, PIS e COFINS e retidos pelas fontes pagadoras, referentes à Massbroker Marketing, Jatar, LGN, Elecê, Massbroker Intermediação e Mass Solution, durante os anos-calendário de 2017 a 2020 [valores discriminados em tabela disposta no § 352 da impugnação]. Contudo, se entender que não seria possível tal dedução, requer-se que, ao menos, seja reconhecido o direito das empresas consideradas fictas à restituição desses tributos, com a interrupção do prazo prescricional até o encerramento do litígio posto nestes autos. VI. Inaplicabilidade da Multa de Ofício Qualificada A multa de ofício qualificada deve ser afastada, dada a inexistência de qualquer sonegação fiscal A imposição da multa qualificada constitui uma exceção à regra geral, prevendo uma penalidade excessivamente onerosa ao contribuinte. Assim, a sua aplicação deve ser bastante cautelosa, mediante a correta demonstração da ocorrência das hipóteses em que há o seu cabimento. É necessária a concreta demonstração, por parte da Fiscalização, do intuito doloso do contribuinte de praticar os crimes fiscais previstos nos artigos 71, 72 e 73, da Lei nº 4.502, de 1964. Trata-se de uma penalidade gravíssima que jamais poderá ser aplicada pautada em meras presunções, suposições e preconcepções. Para a aplicação e manutenção da multa de ofício Fl. 10796DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 40 qualificada, é pressuposto a prova cabal e individualizada da conduta dolosa que se caracterize como fraude, sonegação ou conluio. Nesse sentido, a jurisprudência do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais sobre a matéria vem decidindo de maciçamente pelo afastamento da multa qualificada nas situações em que não há a comprovação flagrante e incontestável do dolo caracterizados da fraude, da sonegação e do conluio [transcreve ementas de acórdãos: 2402-010.780, de 15/9/2022; 2401-011.279, de 8/8/2023]. VII. Do reconhecimento da Extinção, pela Decadência, do débito de IRPF do ano- calendário de 2017, em razão da inocorrência de sonegação – art. 150, § 4º, do CTN O IRPF é um tributo sujeito ao lançamento por homologação, cujo fato gerador ocorre no dia 31 de dezembro de cada ano. Assim, dada sua natureza, em regra, para lançamento do débito a Autoridade Fiscal está sujeita ao prazo decadencial de 5 anos, previsto no art. 150, § 4º, do CTN, contado a partir da ocorrência do fato gerador. A exceção só ocorre se o contribuinte não promover algum recolhimento antecipado do tributo ou se comprovada a existência de dolo, fraude ou simulação. Neste caso, a contagem do prazo decadencial será regida pelo art. 173, inciso I, do CTN, de modo que o termo a quo de 5 anos para o lançamento do crédito tributário desloca-se para o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido realizado. Esse entendimento já foi consagrado pelo Superior Tribunal de Justiça, por meio do julgamento do RESP nº 973.733, sob a sistemática dos recursos repetitivos. No presente caso, como demonstrado, deve ser afastada a imputação de sonegação ao Impugnante, uma vez que este nunca agiu com dolo específico para a prática desse ilícito penal e, tampouco, a Fiscalização, ou mesmo o Ministério Público Federal, no âmbito da Operação Canal Seguro, logrou êxito em comprová-lo. Tendo em vista que o fato gerador do IRPF do ano-calendário de 2017 ocorreu em 31/12/2017, o termo final de 5 anos para lançamento de eventual diferença devida pelo Impugnante ocorreu em 31/12/2022. Contudo, o lançamento tributário combatido ocorreu apenas em 13/9/2023. O mesmo ocorre para a parcela do débito de IRPF do ano-calendário de 2018 calculada sobre valores supostamente recebidos pelo Impugnante até 31/8/2023. Isto porque, considerando que a autuação fiscal está pautada na alegação de omissão de rendimentos e levou em conta em quase sua totalidade valores recebidos na conta bancária conjunta do Impugnante e de João Eduardo, deve-se considerar que tais valores seriam passíveis de tributação no mês em que recebidos (i.e. sujeitos a recolhimento pelo carnê-leão), tal como estabelece o art. 42, §§ 1º e 4º, da Lei nº 9.430, de 1996. Assim, em se tratando de tributo cuja incidência ocorre mês a mês, por expressa previsão legal, para a parcela do débito de IRPF apurada sobre recebimentos até 31/8/2018 Fl. 10797DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 41 também se operou a decadência, já que o prazo quinquenal para lançamento desta parcela do débito encerrou-se em 31/8/2023. VIII. Subsidiariamente: Necessária redução da Multa de Ofício Qualificada para 100% (Princípio da Retroatividade Benigna – Art. 106, II, “c”, do CTN) Caso se decida pela manutenção da qualificação da multa de ofício, o que admite apenas por eventualidade, é de rigor a sua redução para o patamar de 100% sobre o valor do tributo exigido, o que se aplica inclusive para a parcela dos débitos de IRPF que já foi recolhido no curso do prazo de impugnação. Quando da lavratura do Auto de Infração, estava vigente a redação do artigo 44, parágrafo 1º, da Lei nº 9.430, de 1996, que previa a aplicação da multa de ofício qualificada no patamar de 150% do valor do tributo, nos casos de fraude, sonegação e conluio. Porém, poucos dias após a lavratura do documento, em 21/9/2023, foi publicada a Lei nº 14.689, de 2023, que reduziu a multa de ofício qualificada nos casos de fraude, sonegação e conluio, ao patamar de 100%. Com base na retroatividade benigna (art. 106, II, do CTN), a multa deve ser reduzida para 100%, conforme lei tributária superveniente e mais benéfica ao contribuinte. IX. Pedidos Ao final, o Impugnante requer: (i) preliminarmente, seja reconhecida a nulidade material do Auto de Infração, por afronta ao artigo 142 do Código Tributário Nacional, em decorrência de erro na definição do fato gerador e matéria tributária, da base de cálculo e sujeição passiva e, ainda, por ausência de fundamentação legal e afronta ao princípio da legalidade tributária; ou (ii) no mérito, seja julgado improcedente o auto de infração, uma vez que demonstrada a natureza de dividendos dos valores distribuídos pelas empresas aos seus sócios, dentre eles o Impugnante, não havendo que se falar em incidência do IRPF; ou (iii) subsidiariamente, na hipótese de ser mantido integral ou parcialmente o lançamento do IRPF: (iii.a) seja reconhecida a possibilidade de dedução, do IRPF lançado, da integralidade dos tributos federais recolhidos pelas empresas Jatar, Massbroker Marketing, Massbroker Intermediação, LGN, ELECÊ e Mass Solution e/ou retidos pelas fontes pagadoras (IRPJ, CSLL, PIS e COFINS). Contudo, caso se entenda que não seria possível tal dedução, que seja reconhecido o direito das empresas consideradas fictas à restituição desses tributos, com a interrupção do prazo prescricional até o encerramento do litígio posto nestes autos; (iii.b) seja afastada a aplicação da multa de ofício qualificada, uma vez que pautada em mera presunção, sem qualquer comprovação da ocorrência do dolo específico de sonegação fiscal, que nunca existiu; Fl. 10798DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 42 (iii.c) uma vez afastada a imputação do dolo e da multa de ofício qualificada, seja reconhecida a extinção, pela decadência, do débito de IRPF do ano calendário de 2017 e, também, da parcela do crédito tributário de IRPF apurado sobre valores recebidos até 31/8/2018, nos termos dos artigos 150, parágrafo 4º, e 156, inciso V, ambos do Código Tributário Nacional; (iii.d) na eventualidade de manutenção da multa de ofício qualificada, esta deverá ser reduzida para 100%, previsto na atual redação do artigo 44, § 1º, inciso IV, da Lei nº 9.430, de 1996, dada pela Lei nº 14.689, de 2023, por ser mais benéfica, nos termos do artigo 106, inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional. Também cientificado do lançamento em 13/9/2023 (AR à fl. 9.413), JOÃO EDUARDO SIQUEIRA MONTEIRO, arrolado como responsável solidário pelo crédito tributário constituído, apresentou, em 12/10/2023, a Impugnação de fls. 9.338-9.386, na qual adota as mesmas razões de defesa de ALEXANDRE, cabendo destacar as alegações específicas a seguir sintetizadas: Discordância com relação ao mérito da autuação fiscal, no que diz respeito aos fundamentos de fato e de direito apresentados para suportar a exigência de IRPF em face do seu irmão ALEXANDRE, que também resultou na imputação da sua responsabilidade solidária. O Impugnante, juntamente com seu irmão ALEXANDRE, era efetivo sócio das empresas MASSBROKER MARKETING e LGN, de modo que é totalmente inadequada a atribuição, a ALEXANDRE, de todos os valores creditados por estas empresas na conta bancária do Impugnante conjunta com seu irmão. Inclusive, como reconhecido pela própria Fiscalização, o Impugnante teve benefício econômico decorrente das atividades exercidas por tais empresas, na medida em que delas era efetivamente sócio, conforme reconheceu em seu ANPP com o Ministério Público Federal. Com os lucros dessas empresas, o Impugnante comprou bens imóveis, pagou despesas de seus imóveis e outras despesas (inclusive algumas de seu próprio irmão), não havendo qualquer irregularidade nesses fatos. E, ainda, é certo que os lucros depositados em sua conta bancária, ainda que em cotitularidade com ALEXANDRE, eram recursos próprios do Impugnante, sendo absolutamente irregular a pretensão de atribuição desses valores a ALEXANDRE. O Impugnante tem uma união estável homoafetiva com separação total de bens (fls. 133 a 135) e não possui herdeiros necessários, de modo que o seu parente mais próximo e que ficaria com seu patrimônio em caso de falecimento é o seu irmão ALEXANDRE ou os seus sobrinhos (filhos do seu irmão, em caso de falecimento do próprio), conforme testamento anexo (doc. 05). Assim, nada mais razoável do que, para facilitar trâmites sucessórios, o Impugnante manter o seu irmão como cotitular da sua conta bancária. Não pode prevalecer a presunção fiscal de que todos os valores lá creditados seriam de ALEXANDRE. Seria o mesmo que assumir que o Impugnante nem sequer tem recursos para sua sobrevivência. Fl. 10799DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 43 Quanto às empresas MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO e MASS SOLUTION, diversamente do que concluiu a Fiscalização, eram, de fato e de direito, exclusivamente do Impugnante, não podendo a Fiscalização atribuir a ALEXANDRE os dividendos distribuídos por estas empresas ao Impugnante. Inaplicabilidade da Responsabilidade Solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN De acordo com o dispositivo supra, a responsabilidade solidária entre devedores decorre da existência de interesse comum na realização da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal. Com base nos argumentos de defesa que apresenta, muitos deles repetindo e reforçando a tese defendida na impugnação de ALEXANDRE, JOÃO EDUARDO requer: (i) no mérito, os esclarecimentos e provas trazidos com relação à efetiva substância das empresas MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO e MASS SOLUTION e à natureza de dividendos dos valores por elas distribuídos, sejam acolhidos para que, em conjunto com as alegações que serão trazidas pelo ALEXANDRE em sua impugnação, conduzam à integral improcedência do auto de infração de IRPF ora combatido; e na remota hipótese de se entender pela manutenção integral ou parcial do auto de infração; (ii) seja integralmente afastada a responsabilidade tributária que lhe foi atribuída pelos supostos créditos tributários de IRPF, constituídos em face do ALEXANDRE, tendo em vista: (ii.a) que, como demonstrado na presente defesa e será evidenciado na impugnação do ALEXANDRE, o lançamento é nulo, por violação ao artigo 142, do CTN; (ii.b) a inaplicabilidade do artigo 135, inciso III, do CTN, ao presente caso, dada a impossibilidade de se imputar responsabilidade com base em tal dispositivo a uma pessoa física pelo débito de outra pessoa física; e (iii.c) a inaplicabilidade do artigo 124, inciso I, do CTN ao presente caso, dado que a fiscalização não evidenciou que o Impugnante teria interesse comum na prática do fato gerador autuado, sendo que limitou-se a demonstrar benefícios econômicos, os quais não caracterizam interesse comum para justificar a responsabilidade pretendida e apenas confirmam que o Impugnante, de fato, era beneficiário de parte dos valores, estando incorreta a autuação que pretendeu atribuir a integralidade dos rendimentos ao ALEXANDRE. As pessoas jurídicas LGN BRASIL CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA (LGN) e MASS SOLUTION CORRETORA DE SEGUROS EIRELI (MASS SOLUTION), também arroladas como responsáveis solidárias pelo crédito tributário constituído, apresentaram, em 12/10/2023, a Impugnação conjunta de fls. 8.216 a 8.236, na qual alegam, em síntese: Tempestividade da impugnação. Fl. 10800DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 44 Discordância com relação ao mérito da autuação fiscal, que se pauta essencialmente na alegação de que seriam pessoas jurídicas fictas e inexistentes de fato, já que tinham atividade operacional e prestaram os serviços delas contratados, o que, por si só, leva à insubsistência da exigência de IRPF e necessidade de reconhecimento da improcedência do lançamento. Por questão de economia processual, as Impugnantes adotam as razões de defesa apresentadas por ALEXANDRE em relação ao mérito do lançamento, para que os argumentos postos em tal impugnação passem a integrar a defesa por elas apresentada. Inaplicabilidade da Responsabilidade Solidária com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN. De acordo com o dispositivo supra, a responsabilidade solidária entre devedores decorre da existência de interesse comum na realização da situação que constitui o fato gerador da obrigação principal. Já é pacificado o entendimento doutrinário e jurisprudencial do Conselho Administrativo de Recursos Ficais (CARF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de que tal expressão deve ser interpretada como “interesse jurídico”, que existe quando duas pessoas ocupam o mesmo polo de uma relação obrigacional e conjuntamente praticam o fato gerador do tributo. O interesse comum não é definido por mero interesse econômico no resultado, com o proveito da situação originadora do fato gerador da obrigação principal, mas pelo interesse jurídico, que está atrelado à realização conjunta da situação que constitui o fato gerador. Para fins de imputação de tal responsabilidade tributária denota-se a necessidade de que os envolvidos empenhem esforços conjuntamente para, então, alcançarem um propósito específico. No presente caso, a prevalecer as alegações da Fiscalização, de que as Impugnantes eram empresas fictas e inexistentes, para passagem de recursos para ALEXANDRE, é evidente que essas empresas não teriam praticado nem contribuído (empenhado esforços conjuntamente) para a prática do fato gerador. Não é factível considerar que empresas “inexistentes” possam ter qualquer interesse jurídico ou realizar o fato gerador e, muito menos, participar da relação jurídico- tributária que deu origem ao fato gerador. Portanto, a alegação da Fiscalização, no Relatório de Auditoria Fiscal, de que as Impugnantes seriam “empresas fictas” ou “inexistentes de fato” não se mostra coerente com a alegação simultânea de imputação de responsabilidade solidária a elas, com fundamento no art. 124, inciso I, do CTN, o qual pressupõe uma efetiva atuação/participação para alcançar o suposto objetivo pretendido, como já reconhecido pelo CARF e pelo STJ. Fl. 10801DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 45 As Impugnantes requerem, assim, seja dado provimento à impugnação, sendo integralmente afastada a responsabilidade tributária que lhes foi atribuída pelo suposto crédito tributário de IRPF, dos anos-calendário de 2017 a 2020, constituídos em face de ALEXANDRE, ante a equivocada aplicação do art. 124, inciso I, do CTN, conforme entendimento jurisprudencial pacífico do CARF e do STJ. Sobreveio o Acórdão 105-013.417, da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador, que por unanimidade de votos julgou parcialmente procedente a impugnação para afastar as preliminares de nulidade do lançamento e, no mérito, julgar procedente em parte a impugnação, mantendo em parte o crédito tributário, com manutenção integral do imposto lançado e redução da multa de ofício, de 150% para 100%, além da manutenção da solidariedade tributária imputada. A decisão foi assim ementada: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2017, 2018, 2019, 2020 OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO. CABIMENTO. É cabível o lançamento fiscal para constituir crédito tributário decorrente de omissão de rendimentos auferidos pelo contribuinte, com base em declarações ou outros documentos examinados pela autoridade tributária no curso do procedimento fiscal. MÚTUO FINANCEIRO. FORMALIDADES DO CONTRATO E COMPROVAÇÃO DO EFETIVO TRÂNSITO DO NUMERÁRIO. CONDIÇÕES NECESSÁRIAS. São insuficientes alegações de empréstimos desacompanhadas de provas que irrefutavelmente demonstrem a transferência efetiva do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo) e vice-versa (no pagamento do empréstimo) com indicação de valor, data e condições coincidentes com o previsto no contrato, documento que deve conter registro público para que surta efeitos perante terceiros. NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Não ocorre a nulidade do Auto de Infração quando forem observadas as disposições do artigo 142 do Código Tributário Nacional e os requisitos previstos na legislação que rege o Processo Administrativo Fiscal. MULTA QUALIFICADA. RETROATIVIDADE BENIGNA. A lei tributária deve ser aplicada a ato ou fato pretérito, tratando-se de ato não definitivamente julgado, quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. SOLIDARIEDADE TRIBUÁRIA. APLICAÇÃO AO CASO. A solidariedade a que se refere o inciso I do art. 124 do Código Tributário Nacional decorre de interesse comum da pessoa responsabilizada na situação vinculada ao Fl. 10802DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 46 fato jurídico tributário, que pode ser tanto o ato lícito que gerou a obrigação tributária como o ilícito que a desfigurou. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Considerando que a redução do percentual da multa representou em exoneração do crédito tributário superior ao limite do art. 1º da Portaria MF nº 2, de 17 de janeiro de 2023, foi interposto Recurso de Ofício. O contribuinte Alexandre Siqueira Monteiro e os solidários João Eduardo Siqueira Monteiro, Nalura Consultoria e Administração de Bens Ltda (LGN Brasil Consultoria Empresarial Ltda) e Mass Solution Corretora de Seguros Ltda foram cientificados do Acórdão de Impugnação em 21.11.2024, 21.11.2024, 11.11.2024 e 19.12.2024, respectivamente. João Eduardo Siqueira apresentou Recurso Voluntário em 23.12.2024 (fls. 9.680 a 9.706) suscitando os seguintes pontos de questionamento quanto a decisão recorrida: (i) não se comprovou o interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal para que figurasse como integrante do polo passivo; (ii) que houve a prestação efetiva dos serviços, considerados pela fiscalização como inexistente ou simulados, ratificando a correta distribuição dos lucros; (iii) que sendo o recorrente sócio de fato e de direito das empresas LGN Brasil Consultoria Empresarial Ltda e Mass Solution Corretora de Seguros Ltda, seria ele o contribuinte do tributo e não responsável solidário do rendimento de seu irmão. Alexandre Siqueira Monteiro apresentou Recurso Voluntário em 23.12.2024 (fls. 9.712 a 9.717), questionando os seguintes pontos da decisão recorrida: (i) nulidade material do auto de infração; (ii) que houve a prestação efetiva dos serviços, considerados pela fiscalização como inexistente ou simulados, ratificando a correta distribuição dos lucros; (iii) dedução da exação os tributos auto lançados pela fonte pagadora, bem como aqueles descontados das faturas de prestação de serviço; (iv) afastamento da multa qualificada; (v) reconhecimento da preliminar ao mérito da decadência para os fatos geradores apurados até 31.08.2018; (vi) redução da multa de ofício ao patamar de 100% em razão da retroatividade benigna do disposto no Lei nº 14.689/2023. É o relatório. VOTO Conselheiro Marcelo Valverde Ferreira da Silva, Relator RECURSO DE OFÍCIO Considerando que ao reduzir a multa qualificada de 150% para 100%, o Acórdão 105-013.417 resultou em exoneração de crédito tributário em valor superior ao limite de alçada previsto na Portaria MF nº 2, de 2023, devendo ser submetida ao recurso de ofício, previsto no Fl. 10803DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 47 artigo 34, I, do Decreto nº 70.235/1972. A decisão recorrida alterou o valor da multa de ofício aplicada de R$ 48.296.720,43 para 32.197.813,61, exonerando o crédito tributário em mais de R$ 15 milhões. No julgamento do RE 736.090, o Supremo Tribunal Federal apreciou em sede de repercussão geral o limite da multa qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio, tendo em vista a vedação constitucional ao efeito confiscatório. A decisão resultou no Tema nº 863: Até que seja editada lei complementar federal sobre a matéria, a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio limita-se a 100% (cem por cento) do débito tributário, podendo ser de até 150% (cento e cinquenta por cento) do débito tributário caso se verifique a reincidência definida no art. 44, § 1º-A, da Lei nº 9.430/96, incluído pela Lei nº 14.689/23, observando-se, ainda, o disposto no § 1º-C do citado artigo. Ante a decisão prolatada pela Corte Constitucional que limitou a multa tributária qualificada em razão de sonegação, fraude ou conluio, resta evidente o reconhecimento da aplicabilidade da multa de ofício (penalidade), limitada ao percentual de 100% (cem por cento), para as situações pretéritas, até a entrada em vigor da Lei 14.689/2023, que deu nova redação ao § 1º e incisos do artigo 44 da Lei nº 9.430/1996. Diante da limitação dada pela Corte Constitucional e considerando o instituto da retroatividade benigna prevista na alínea “c”, do inciso II, do artigo 106, do Código Tributário Nacional, para a aplicação pretérita da Lei 14.689/2023, esta Turma Ordinária vem aplicando reiteradamente a redução do percentual da multa de ofício para 100%, desde que não constatada a reincidência ou o agravamento da multa pela falta de exibição de documentos. Assim sendo, inexistindo elemento a indicar a reincidência do sujeito passivo, com fundamento na alínea “c”, do inciso II, do artigo 106, do Código Tributário Nacional, correta foi a decisão guerreada que aplicou a retroatividade benigna tributária para que a multa de ofício fosse reduzida ao percentual de 100% (cem por cento). Portanto, nego provimento ao Recurso de Ofício. Os recursos voluntários apresentados por Alexandre Siqueira Monteiro e de João Eduardo Siqueira são tempestivos, e presentes os demais requisitos para sua admissibilidade, deles tomo conhecimento. RECURSO VOLUNTÁRIO DE ALEXANDRE SIQUEIRA MONTEIRO Preliminar – Nulidades Materiais do Auto de Infração (Afronta ao art. 142, do CTN) O recorrente defende a nulidade do auto de infração, argumentando os seguintes vícios: (a) erro na apuração da matéria tributável e da base de cálculo do IRPF, (b) bem como por erro na identificação do fato gerador e do sujeito passivo e (c) por ausência de fundamentação legal. Em síntese alega que é necessário haver a perfeita subsunção do fato à norma de incidência Fl. 10804DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 48 prevista no artigo 142 do Código Tributário Nacional, sem o qual restará caracterizada a nulidade do lançamento tributário, não sendo o vício passível de saneamento. Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Quanto ao erro na definição da matéria tributável e da base de cálculo, defende “que a fiscalização deveria, então, ter atribuído ao Recorrente a integralidade das receitas por elas auferidas, reclassificando-as como rendimento da pessoa física observada a natureza de cada um desses rendimentos para fins de definição dos efeitos tributários (rendimentos de serviços, ganho de capital, devolução de empréstimos etc.), e, após a apuração do IRPF sobre essas receitas, deduzido os tributos pagos e retidos das pessoas jurídicas”, sendo este o procedimento adotado quando se constata a reclassificação das receitas da pessoa jurídica para a pessoa física. O segundo ponto de divergência que potencialmente poderia nulificar o lançamento, diz respeito a suposto erro na matéria tributável e na identificação do sujeito passivo. Segundo argumentado pelo recorrente, partindo-se do pressuposto da existência de operações fictas, seria sujeito passivo da obrigação fiscal cada uma destas fontes pagadoras que supostamente realizaram ao sujeito passivo pagamentos sem causa, nos termos do artigo 61, parágrafo 1º, da Lei nº 8.981/1995. O terceiro fundamento neste capítulo recursal se ancora em erro de sujeição passiva e de base de cálculo pela adoção de presunções em que a DRJ teria ignorado o argumento de que o lançamento teria partido de presunção simples, sem previsão legal ou respaldo lógico para tanto, ao atribuir como rendimentos do Recorrente valores depositados na conta bancária conjunta com João Eduardo, argumentando que os depósitos realizados também beneficiaram seu irmão. Conclui seu raciocínio aduzindo que a fiscalização atribuiu ao recorrente todos os valores creditados em conta bancária conjunta, implicando a nulidade material insanável do lançamento. No entanto, a DRJ rechaçou a argumentação do recorrente, concluindo pela validade da autuação. Ora, toda a argumentação defensiva se encontra em uma zona limítrofe entre questões preliminares e o próprio mérito da acusação fiscal. É certo que cabe a autoridade fiscal “verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível”. Tal como o julgador de piso, entendo que a autoridade lançadora se desincumbiu satisfatoriamente dos requisitos exigidos no artigo 142, do CTN. Tais elementos constitutivos do Fl. 10805DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 49 lançamento devem ser apreciados abstratamente, ou seja, a fiscalização deve realizar a devida correlação entre a acusação fiscal e o documento em que ela se exterioriza, bem como ao sujeito passivo a quem a obrigação tributária é imputada. Logo, o vício que em tese poderia ser passível de nulidade decorreria da evidente incoerência, e não se presta para questionar a conclusão adotada pela autoridade lançadora que desvia esta análise para questões meritórias. A acusação fiscal registrou que nos anos de 2017, 2018, 2019 e 2020, o recorrente com a participação de seu irmão João Eduardo auferiu rendimentos no total de R$ 117.082.958,53 pagos por empresas a ele vinculadas: JATAR CORRETORA E ADMINISTRADORA DE SEGUROS LTDA, CNPJ 03.266.804/0001-25, LGN BRASIL CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA, CNPJ 11.959.691/0001- 71, MASS SOLUTION CORRETORA DE SEGUROS EIRELI, CNPJ 10.375.139/0001-73, MASSBROKER INTERMEDIACAO, MARKETING PROMOCIONAL E SERVICOS LTDA, CNPJ 10.915.505/0001-30, MASSBROKER MARKETING E SERVICOS LTDA, CNPJ 11.946.752/0001-66 e ELECE CORRETAGEM, ASSESSORIA, CONSULTORIA E ADMINISTRAÇÃO DE SEGUROS EIRELI, CNPJ 73.642.225/0001-15 (fls. 8.186 a 8.204). Em razão da constatação acima, a fiscalização considerou tais rendimentos como omitidos, e decorrente do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoa jurídica, desconsiderando que tais valores teriam sido auferidos a título de lucros ou dividendos, uma vez que concluiu que tais pagamentos não foram realizados pela retribuição de serviços prestados, servindo de empresas-veículo para remunerar o recorrente. Assim sendo, ainda que o recorrente discorde da acusação fiscal, os fatos apontados e a conclusão dada pela fiscalização, abstratamente, apresentam coerência, mormente porque a legislação do imposto de renda da pessoa física considera fato gerador do tributo a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou os acréscimos patrimoniais de qualquer natureza, nos termos do artigo 43, do Código Tributário Nacional. Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1º A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. § 2º Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. Fl. 10806DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 50 Apenas para qualificar o debate quanto a questão preliminar, é preciso ressaltar que a base de cálculo apontada pela fiscalização corresponde aos valores identificados como pagos pelas empresas a ele vinculadas, que conforme a fiscalização realizaram operações fictas, de sorte a possibilitar tal rendimento ao recorrente. Portanto, não há que se falar em erro na apuração da matéria tributável e da base de cálculo do IRPF. O recorrente ainda aventa a possibilidade de erro material no lançamento, em razão da autoridade fiscal não haver deduzido do crédito tributário os valores de tributos e contribuições retidos e de recolhimentos realizados pelas pessoas jurídicas, cuja receita foi desconsiderada. Ora, não há qualquer determinação legal que obrigue a autoridade lançadora a tal conduta, motivo pelo qual não se pode cogitar alguma nulidade, caso a autoridade lançadora assim não o proceda. A matéria envolvendo o aproveitamento do pagamento de tributos e contribuições e dos valores retidos será deduzida em capítulo próprio. Também não há que se argumentar que ausente a prestação dos serviços pelas fontes pagadoras, elas deveriam ser os sujeitos passivos, nos termos do artigo 61, parágrafo 1º, da Lei nº 8.981/1995, sujeito a alíquota de 35%. Pois bem, tal previsão legal é aplicada aos pagamentos a beneficiários não identificados ou quando não comprovada a operação ou a sua causa. Art. 61. Fica sujeito à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais. § 1º A incidência prevista no caput aplica-se, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa, bem como à hipótese de que trata o § 2º, do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991. § 2º Considera-se vencido o Imposto de Renda na fonte no dia do pagamento da referida importância. § 3º O rendimento de que trata este artigo será considerado líquido, cabendo o reajustamento do respectivo rendimento bruto sobre o qual recairá o imposto. Pois bem, a acusação fiscal é explícita ao atribuir ao sujeito passivo e ao seu irmão a disponibilidade econômica e jurídica relativamente aos acréscimos patrimoniais decorrentes dos supostos lucros ou antecipações, cujas recursos tiveram por origem operações sem causa. Na realidade, existe uma causa para o pagamento que não seria aquela representada pelos documentos que lhes dão suporte. Às fls. 96 do Relatório Fiscal, a autoridade lançadora identifica o que teria motivado os pagamentos realizados por meio das empresas Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação, Massbroker Marketing, e Elecê. “Alexandre Siqueira Monteiro e Thierry Marc Claude Claudon, como ex-executivos do grupo Caixa, eram mentores do esquema, pois obviamente, devido às suas atuações, os fornecedores da CAIXA pagavam parte dos recursos recebidos às Fl. 10807DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 51 empresas fictas Jatar (A), LGN (B), Mass Solution (C), Massbroker Intermediação (D), Massbroker Marketing (E), TMCC (F), Louverne (G) e Elecê (H). Estas cinco primeiras empresas poderiam ser denominadas “núcleo Alexandre” e as três últimas (TMCC, Louverne e Elecê) “núcleo Thierry”. Ainda com relação a identificação do sujeito passivo, o recorrente menciona que a maior parte dos pagamentos foram revertidos para uma conta conjunta com seu irmão, não se conformando que tenha sido caracterizado como único contribuinte, e àquele atribuída a condição de solidário. De fato, o relatório fiscal aponta tal situação, e que João Eduardo Siqueira Monteiro atua como procurador do recorrente. No entanto, a tese acusatória conclui a atuação personalíssima do recorrente na atividade que resultou no lançamento da exação. Além disso, considerando a evidente confusão patrimonial envolvendo os irmãos, e o interesse comum de João Eduardo que também se beneficiou diretamente do fato gerador, conforme apontado pela autoridade fiscal, e que o instituto da solidariedade não comportar benefício de ordem, respondem ambos pela integralidade da obrigação tributária, conforme parágrafo único do artigo 124, do Código Tributário Nacional. A fim de que não pairem dúvidas, é importante esclarecer que o lançamento fiscal não encontra fundamento no artigo 42, da Lei nº 9.430/1996, razão pela qual é inaplicável o disposto no § 6º da referida lei. O lançamento fiscal está amparado nos artigos 37, 38, 45, 55, incisos I a IV, VI, IX a XII, XIV a XIX, 56 e 83 do RIR/99, no artigo 1º, inciso IX e parágrafo único, da Lei nº 11.482/07, incluído pela Lei n° 13.149, de 2015 (vide auto de infração), motivo pelo qual não se cogita da ausência de fundamentação legal para o lançamento. Assim sendo, rejeito a preliminar. Preliminar - Ausência de fundamentação legal para desconsideração de pessoas jurídicas O recorrente alega que a autoridade fiscal para atribuir ao sujeito passivo os supostos rendimentos omitidos, teve que desconsiderar atos ou negócios jurídicos, nos termos do parágrafo único do artigo 116, do Código Tributário Nacional. Que tal procedimento se encontra em questionamento por meio da ADI nº 2.446, ajuizado pela Confederação Nacional do Comércio, e que o vício em questão é suficiente para fulminar o lançamento em razão da irregularidade procedimental. Creio que a alegação se encontra superada, haja vista o Supremo Tribunal Federal, por maioria de votos, julgou improcedente o pedido formulado nessa ação direta de inconstitucionalidade, transitada em julgado em 05.05.2022. A Ministra Carmem Lúcia relatora da ADI nº 2.446, assim argumentou em seu voto: “O fato gerador ao qual se refere o parágrafo único do art. 116 do Código Tributário Nacional, incluído pela Lei Complementar n. 104/2001, é, dessa forma, aquele previsto em lei. Fl. 10808DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 52 Faz-se necessária, assim, a configuração de fato gerador que, por óbvio, além de estar devidamente previsto em lei, já tenha efetivamente se materializado, fazendo surgir a obrigação tributária. Assim, a desconsideração autorizada pelo dispositivo está limitada aos atos ou negócios jurídicos praticados com intenção de dissimulação ou ocultação desse fato gerador.” [...] “Autoridade fiscal estará autorizada apenas a aplicar base de cálculo e alíquota a uma hipótese de incidência estabelecida em lei e que tenha se realizado. Tem-se, pois, que a norma impugnada visa conferir máxima efetividade não apenas ao princípio da legalidade tributária, mas também ao princípio da lealdade tributária.” Reitera o recorrente que inexiste óbice à prestação de serviços por meio de pessoa jurídica, o que é absolutamente induvidoso. Ocorre que a autoridade fiscal escorou o lançamento deduzindo que os serviços alegados pelo recorrente não foram efetivamente prestados, motivo pelo qual considerou que os valores a ele destinados a título de lucros distribuídos ou antecipados, para fazer jus a despesas ou a aquisição de bens, na realidade são rendimentos tributados e não isentos, disfarçados sob a forma de distribuição de lucros. Vale esclarecer que não existiu a desconsideração da pessoa jurídica, pois o que de fato aconteceu foi que a autoridade lançadora identificando a atuação personalíssima do contribuinte, considerou que parte das receitas originariamente pagas às pessoas jurídicas foram posteriormente transferidos aos recorrentes mediante distribuição de lucros, para a esfera de tributação da pessoa física. E considerando que as causas das supostas receitas não corresponderiam aos documentos em que se sustentam (simulação), os acréscimos patrimoniais foram atribuídos aos recorrentes. Portanto, inexiste qualquer violação procedimental da autoridade fiscal a macular o lançamento ou que justifique a declaração de sua nulidade em razão de vício material ou formal, na sua constituição. Assim sendo, rejeita-se a preliminar. Mérito Efetiva Existência e Substância das Empresas e da Natureza de Dividendos dos Valores Atribuídos ao Recorrente Em síntese, reclama o recorrente que as alegações trazidas pela autoridade fiscal foram tomadas como verdades absolutas, e que não se dignou o julgador de piso a fazer o correto juízo das alegações e documentos trazidos por ocasião da impugnação, que seriam suficientes para comprovar a origem dos recursos recebidos pelas empresas consideradas fictas, a apuração de lucros por essas empresas e a natureza de dividendos dos valores por elas distribuídos a seus sócios de fato e de direito, no caso o Recorrente e o João Eduardo. Ou seja, que todas as empresas Fl. 10809DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 53 que destinaram lucros ao recorrente existiam, eram operacionais, tinham substância e comprovaram a origem lícita dos valores por elas recebidos. Quanto aos documentos apresentados pelo recorrente em sua impugnação constata-se: a) Parecer Técnico de Natureza Contábil; b) Acordo de Não Persecução Penal; c) Declarações de Ajuste Anual; d) Contratos Sociais; e) Testamento de João Eduardo; f) Recibos de Pagamentos de Salários; g) Notas Fiscais de Prestação de Serviços. Por outro lado, a fiscalização em sua peça acusatória com mais de 8.000 páginas tentou demonstrar que os recursos destinados para as empresas Jatar Corretora e Administradora de Seguros Ltda, LGN Brasil Consultoria Empresarial Ltda, Mass Solution Corretora de Seguros Eireli, Massbroker Intermediação, Marketing Promocional e Serviços Ltda, Massbroker Marketing e Serviços Ltda e Elecê Corretagem, Assessoria, Consultoria e Administração de Seguros Eireli, na realidade, tinham por objetivo remunerar o recorrente, por meio de contratos fictícios de prestação de serviços no segmento de seguros, indenizações, empréstimos e doações. A fiscalização intimou os inúmeros tomadores de serviço, supostos pagadores de empréstimos e de indenizações que verteram recursos para as empresas relacionadas ao contribuinte e o solidário, e considerando as débeis justificativas para a realização dos negócios, entendeu que seriam uma forma de remunerar o primeiro. Não se pode perder de vista o montante dos recursos envolvidos, cuja infração remonta a R$ 117.082.958,53 e que transitaram pelas empresas abaixo discriminadas. Jatar Corretora e Administradora de Seguros Ltda 11.051.326,18 LGN Brasil Consultoria Empresarial Ltda 11.878.643,32 Mass Solution Corretora de Seguros Eireli 4.452.384,05 Massbroker Intermediação, Marketing Promocional e Serviços Ltda 1.168.208,82 Massbroker Marketing e Serviços Ltda 85.902.412,44 Elece Corretagem, Assessoria, Consultoria e Administração de Seguros Eireli 2.629.983,72 TOTAL 117.082.958,53 Este relator não ignora o laudo contábil exibido que aponta que os recursos financeiros efetivamente transitaram pelas empresas em questão e que demonstra a disponibilidade do lucro contábil, o que não foi em momento algum questionado pela autoridade lançadora. No entanto, o que vem ao caso é a demonstração da efetiva prestação dos serviços realizado por estas empresas ou por seus sócios ou a origem dos recursos que transitaram por intermédio delas, prestando-se como ferramenta de passagem de recursos que teriam por destino o contribuinte e/ou o solidário. Logo, o ponto de convergência da questão é muito mais probatório do que jurídico, embora o recorrente também tenha realizado questionamentos neste sentido. Ou seja, no que diz respeito ao conjunto probatório, o recorrente se insurge contra a conclusão a que chegou o julgador originário, apelando para que este CARF o reavalie. Vejamos, então, a motivação adotada pelo julgador de piso que levou à manutenção do lançamento tributário. Fl. 10810DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 54 Os argumentos de defesa contrapostos pelo sujeito passivo na impugnação não se mostram suficientes para fulminar as conclusões da auditoria-fiscal, obtidas a partir dos diversos procedimentos fiscais efetuados junto às pessoas físicas e jurídicas envolvidas. Em boa parte da impugnação o sujeito passivo apenas repete justificativas já apresentadas durante os procedimentos fiscais, juntando documentação já examinada, conforme se observa no minucioso relato da Autoridade Tributária. Apesar de oferecer extensa argumentação de defesa, o Impugnante não apresenta elementos de prova suficientes para infirmar, de modo inequívoco, a apuração fundamentada da Autoridade Tributária e demonstrada nos autos. [...] Ocorre que alegações de empréstimos devem ser acompanhadas de provas que irrefutavelmente demonstrem a transferência efetiva do numerário entre credor e devedor (na tomada do empréstimo) e vice-versa (no pagamento do empréstimo) com indicação de valor, data e condições coincidentes com o previsto no contrato, documento que deve conter registro público para que surta efeitos perante terceiros. Tal comprovação não ocorre no caso em exame, pois, como já constatado no curso dos procedimentos fiscais, as operações alegadas não se encontram adequadamente registradas e comprovadas nos documentos apresentados, inclusive contábeis, carecendo de força probatória para se contrapor ao lançamento. [...] Como se observa, a utilização conveniente das pessoas jurídicas prestava-se ao arranjo negocial pretendido para cada momento, de modo a solucionar ou contornar situações impeditivas ou desvantajosas para as partes envolvidas, notadamente ALEXANDRE, seu irmão JOÃO EDUARDO e THIERRY. [...] Para que se possa contraditar um lançamento fundado em omissão de rendimentos, é necessário que o contribuinte demonstre documentalmente a origem dos recursos recebidos, de modo a provar que não se trata de rendimentos tributáveis. No presente caso, o Impugnante não se desincumbe dessa obrigação. Limita-se a listar meras alegações, desacompanhadas da documentação de suporte suficiente. [...] Com efeito, os argumentos apresentados, desprovidos de comprovação documental adicional, não são suficientes para infirmar os procedimentos efetuados e descritos pela Autoridade Tributária, que se baseou nos documentos e informações colhidos no curso dos procedimentos fiscais, devendo-se, assim, ser mantido o lançamento tributário. [...] Fl. 10811DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 55 Às alegações do julgador originário, acrescento ainda a falta de capacidade operacional das empresas acima indicadas para a prestação dos serviços que teriam gerado um proveito econômico de R$ 117.082.958,53. Insisto, que muitos dos contratos apresentados geravam obrigação para a prestadora, incompatíveis com a sua estrutura com pouquíssimos colaboradores, quando não, apenas um empregado. Vide as obrigações previstas na contratação da JATAR e da MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO pela Berkley. 2.1.1. Atender a Interveniente e os corretores de seguros por ela indicados, conforme instruções recebidas da Seguradora e sempre agindo com clareza, boa- fé, transparência, eficácia e confiança; 2.1.3. Enviar os documentos cadastrais dos corretores que intermediarão a contratação dos seguros ofertados pela Seguradora. 2.1.4. Receber da interveniente e dos corretores propostas de contratação de seguros, encaminhando esses documentos à Seguradora, nos prazos e meios previamente convencionados. 2.1.6. Comunicar à Seguradora, no prazo de 24 (vinte e quatro) horas contadas da data de seu conhecimento, a ocorrência de sinistros comunicados por corretores ou segurados, remetendo-lhe, em seguida, os demais comentários e informações necessárias. A contratação de serviços de consultoria, tais como aqueles com a INTEGRA PARTICIPAÇÕES S/A com a LGN, também tiveram respostas evasivas tanto do prestador como do tomador, que não conseguiu explicar satisfatoriamente a diferença entre o valor contratado e o efetivamente pago, alegando que seriam decorrentes de um prêmio de performance. Por sua vez o prestador alega que sua atividade decorre do seu profundo conhecimento dos negócios de seguros, não sendo capaz de demonstrar sequer os seus custos com viagem. A consultoria foi prestada, a partir do profundo conhecimento dos negócios da Sociedade no mercado de corretagem e seguros em geral, considerando o fato do Cliente ter participação acionária relevante em Corretora de Seguros, incluindo, mas não se limitando, a participação em reuniões com acionistas e executivos das Cias envolvidas e representantes do mercado de seguro em geral. Toda cobrança dos serviços prestados foi efetuada mediante emissão de respectiva nota fiscal eletrônica, como respectivo registro nos livros contábeis da LGN e pagamento dos tributos incidentes. Os custos de viagem e translado eram suportados diretamente pelo cliente, não sendo necessária a cobrança da verba disponibilizada contratualmente. (Documentos B10, B11 e B14) Com a BSF GESTAO EM SAUDE LTDA, a MASS SOLUTION teria sido contratada para a prospecção de negócios em que foram pagos o montante de R$ 817 mil, inexistindo sequer contrato formalizado por escrito (Doc. C63). O tomador também foi intimado para demonstrar a efetividade do serviço prestado, mas não obteve êxito. Conforme a fiscalização, a Mass Solution também esteve envolvida em mútuos, cujas operações foram questionadas pela fiscalização (fls. 56 a 61 do Relatório Fiscal). Fl. 10812DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 56 Entre 2017 e 2020 transitaram pela MASSBROKER MARKETING E SERVICOS LTDA aproximadamente R$ 86 milhões, oriundos das empresas USS SOLUÇÕES GERENCIAIS LTDA, SUL AMÉRICA, BERKLEY, LOUVERNE e TMCC. Com a SUL AMÉRICA o contrato apresentado obrigava a MASSBROKER MARKETING ao fornecimento de treinamento aos seus funcionários, intermediários e corretores. Sobre os demais tomadores, assim se manifestou a prestadora: Com relação ao contrato com a Sul América, o relatório constante do item 2.2 do Termo 4 15 2022 indica os serviços prestados. Com relação ao contrato com a USS, considerando que se trata de um contrato de avaliação e intermediação, a natureza do serviço não requer a apresentação de relatório ou qualquer outro documento que possa ser usado para demonstrar a sua efetiva realização. O serviço é consubstanciado pela própria intermediação do contrato com o cliente. Com relação à Berkley, também se trata de intermediação com base na gestão de demandas comerciais e emissão de apólices e endossos diretamente no site da seguradora. (fls. 74 do Relatório Fiscal) Ainda, relativamente à USS SOLUÇÕES GERENCIAIS LTDA, a fiscalização identificou o pagamento à título de indenização de um valor de R$ 56 milhões, que teria sido motivado pela descontinuidade dos contratos firmados entre ela e a Caixa, muito embora não existisse qualquer previsão contratual para este pagamento ao prestador. Assim sendo, dentro da prerrogativa dada ao julgador para sua livre convicção e avaliação do conjunto probatório, não posso adotar outra conclusão que não seja a mesma do julgador originário. Todas as manifestações do recorrente, tais quais aquelas apresentadas pelas supostas prestadoras dos serviços, não autorizam a conclusão diversa da fiscalização, na medida em que não restou demonstrada a efetiva prestação dos serviços pelas empresas Jatar Corretora e Administradora de Seguros Ltda, LGN Brasil Consultoria Empresarial Ltda, Mass Solution Corretora de Seguros Eireli, Massbroker Intermediação, Marketing Promocional e Serviços Ltda, Massbroker Marketing e Serviços Ltda e Elecê Corretagem, Assessoria, Consultoria e Administração de Seguros Eireli. Portanto, a despeito de todos os esforços, não restou comprovada a prestação dos serviços pelas empresas envolvidas, que serviram de meio para remunerar o recorrente, conforme consta da acusação fiscal: Alexandre Siqueira Monteiro e Thierry Marc Claude Claudon, como ex-executivos do grupo Caixa, eram mentores do esquema, pois obviamente, devido às suas atuações, os fornecedores da CAIXA pagavam parte dos recursos recebidos às empresas fictas Jatar (A), LGN (B), Mass Solution (C), Massbroker Intermediação (D), Massbroker Marketing (E), TMCC (F), Louverne (G) e Elecê (H). Estas cinco primeiras empresas poderiam ser denominadas “núcleo Alexandre” e as três últimas (TMCC, Louverne e Elecê) “núcleo Thierry”. [...] Fl. 10813DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 57 A fonte de recursos do esquema foi a atuação de Alexandre e Thierry como executivos de empresas do grupo Caixa, conforme fluxo constante no parágrafo 14. Sem a atuação de ambos, as empresas fictas Jatar, LGN, Mass Solution, Massbroker Intermediação, Massbroker Marketing, TMCC, Louverne e Elecê não receberiam uma PARCELA dos valores pagos pelas empresas prestadoras de serviços contratadas pelo grupo Caixa (Finanseg, Farmaseg, Integra, Berkley, USS e Sul América). Com estes recursos, Alexandre (com auxílio de seu irmão, João Eduardo) e Thierry criaram as empresas fictas já descritas e simularam operações de serviços, compra e venda, doações, transferências. Assim, os recursos eram “lavados” e destinados ao patrimônio pessoal de ambos. Observa-se que o recorrente juntou com sua impugnação o Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) de fls. 8.561 a 8.624, que segundo ele, demonstraria que as acusações apontadas pela autoridade lançadora não se sustentariam, haja vista o Ministério Público não teria identificado irregularidades sobre as quais resultou no lançamento fiscal. De fato, o procedimento fiscal teve origem em investigação policial desenvolvida no âmbito da Operação Descarte em que foi constatada a emissão de documentos fiscais, sem que houvesse a efetiva prestação dos serviços para a transferência de valores a pessoas ligadas aos supostos tomadores. O recorrente teve seu nome associado a esta operação, pois teria se utilizado deste esquema referente a valores pagos em seu benefício pela Wiz Soluções, resultando no ANPP em que restou obrigado ao pagamento de R$ 7.355.873,46 mais aproximadamente R$ 2.300.000,00 devido no Processo Administrativo n° 18088.720071/2020-27. Pois bem, o ANPP se refere a condutas ocorridas antes dos fatos geradores exigidos neste processo. Não se pode argumentar que a assinatura do ANPP em 17.08.2023 pudesse representar a ausência de qualquer outra irregularidade até aquela data, como pretende o recorrente. Muito pelo contrário, o conjunto probatório fartamente citado neste tópico, aponta que o contribuinte permaneceu beneficiário de recursos, mas ora sob nova roupagem, através de empresas sob sua participação direta ou indireta, por intermédio de seu irmão ou de interpostas pessoas. Menciona, também, que o julgador não se pronunciou sobre os pagamentos realizados pela empresa ELECÊ ao escritório de advocacia Lopes e Versiani, no valor de R$ 2.619.983,72. Em seu trabalho, a fiscalização diligenciou tanto em relação às fontes pagadoras como aos potenciais destinatários destes recursos, de modo a demonstrar que os recursos efetivamente vieram em benefício do recorrente. A tributação levada a efeito tem por origem a disponibilidade econômica ou jurídica e não a sua aplicação, motivo pelo qual o argumento trazido é irrelevante ao deslinde da questão. A autoridade fiscal, também apresentou às fls. 96 do Relatório Fiscal, um infográfico que demonstra que todas as fontes pagadoras por onde os supostos recursos tiveram origem, foram contratadas pelas empresas do grupo Caixa: Caixa Econômica Federal (00.360.305/0001- 04), CNP Consórcio S.A. Administradora de Consórcios (05.349.595/0001-09), Caixa Seguradora Fl. 10814DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 58 S.A. (34.020.354/0001-10) e Wiz Corporate Soluções e Corretagem de Seguros Ltda (12.656.482/0001-11). Assim sendo, todo o conjunto probatório não autoriza outra conclusão que não seja a mesma do julgador originário, não se podendo imputar as receitas supostamente auferidas às prestadoras, uma vez que são fortíssimos os indícios de que os supostos serviços não foram efetivamente prestados por elas, mas que tais empresas foram utilizadas como instrumento para ofuscar o objetivo de destinar recursos financeiros para o recorrente. Aproveitamento dos recolhimentos e dos valores retidos das empresas pelas quais transitaram os pagamentos Subsidiariamente, o recorrente solicita que os valores recolhidos e retidos referentes às receitas reclassificadas sejam aproveitados pelo julgador, conforme contido no Parecer Técnico e, que seriam inquestionáveis diante da argumentação trazida na acusação fiscal, de que tais receitas não corresponderiam a efetiva prestação de serviços. Para bem delimitar a questão, o pedido do contribuinte parte de uma premissa de que houve erro no lançamento, devendo o julgador saneá-lo mediante o aproveitamento dos pagamentos realizados originariamente sobre a receita desclassificada, considerando o equívoco no cálculo do montante devido (artigo 142, do CTN). Por este motivo, o termo correto é o aproveitamento dos recolhimentos e/ou retenções, não se confundindo com a compensação prevista no artigo 74, da Lei 9.430/1996, que é ato de iniciativa da pessoa jurídica. A regra matriz de apuração dos tributos da pessoa física e da pessoa jurídica são completamente diversas, o que dificulta a pretensão do recorrente. Ademais, a exigência fiscal ora em debate tem por origem os valores que efetivamente foram vertidos aos recorrentes e não a receita bruta das denominadas empresas veículo. Logo, não se trata de mera reclassificação de receitas. Insisto neste ponto. Não é possível fazer a correlação direta entre a base de cálculo sobre a qual recaíram os recolhimentos de tributos e contribuições das chamadas empresas veículo, com àquela adotada pela fiscalização para a exigência do imposto do contribuinte e do responsável, na medida em que esta última considerou os valores que efetivamente ingressaram no patrimônio destes por meio de distribuição de lucros e do pagamento de despesas em favor deles. Portanto, ainda que em tese fosse plausível o aproveitamento de recolhimentos das pessoas jurídicas, considerando a inexistência da correlação citada no parágrafo anterior, seria inaugurada no âmbito deste processo administrativo a discussão envolvendo a liquidação destes supostos créditos, ampliando a lide para circunstâncias alheias à acusação fiscal. Não podendo a autoridade lançadora fazer o aproveitamento dos recolhimentos da pessoa jurídica na apuração do crédito tributário da pessoa física, não há competência para o julgador realizá-lo, dentro do seu limite de atuação que é o controle de legalidade do lançamento Fl. 10815DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 59 tributário. Se assim o fizesse, estaria interferindo na própria regra matriz tributária do IRPF, o que lhe é vedado. Seguindo o raciocínio acima, para que fosse possível a apropriação dos recolhimentos da pessoa jurídica referente a receitas reclassificadas para sua exigência na pessoa física, é necessário expressa autorização legal, o que inexiste. Logo, restou ao recorrente apelar pela injustiça quanto ao não acolhimento da sua pretensão, sustentando que “em razão de princípios norteadores da administração pública e do ordenamento jurídico-tributário, tal dedução é medida que se impõe”. A atividade do julgador administrativo é vinculada a estrita legalidade, não podendo sob o argumento de “fazer justiça tributária” interferir na esfera do legislador para acolher pretensão incompatível com o ordenamento jurídico-tributário ou o acolhimento de deduções não previstas em lei, na medida que tais providências são uma exclusividade do Poder Judiciário. É certo que a compensação administrativa, a pedido ou de ofício, não exige a identidade de espécie tributária entre o direito creditório e o débito que pretende extinguir, mas este procedimento está sujeito a ritos procedimentais incompatíveis com a discussão envolvendo a acusação fiscal, e vão em sentido contrário com a tese defensiva do recorrente que se insurge contra o próprio lançamento. Logo, o processo administrativo da exigência fiscal não é o fórum adequado para a discussão envolvendo direito creditório, que somente poderia ser travada após a definitividade da questão relativa ao lançamento de ofício. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 SIMULAÇÃO. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. APROVEITAMENTO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. IMPOSSIBILIDADE. Inadmissível o aproveitamento, no contencioso administrativo, dos tributos recolhidos pela pessoa jurídica que teve seus rendimentos deslocados para a pessoa física, vez que não se pode dizer tenha o lançamento, que assim não o fez, incorrido em vício de legalidade. Número da decisão: 9202-011.117 – Processo 16004.720356/2016-39 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010, 2011 RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA. PESSOA JURÍDICA. PESSOA FÍSICA. APROVEITAMENTO DE TRIBUTOS. IMPOSSIBILIDADE. Os pedidos de compensação e restituição ostentam rito próprio, não se afigurando possível a sua análise no bojo de processo de lançamento de crédito tributário, especialmente quando o crédito a que se pretende compensar é oriundo de terceiros. Fl. 10816DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 60 Número da decisão: 9202-011.427 – Processo 11060.722991/2016-62 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010, 2011, 2012 TRIBUTO. RECOLHIMENTO INDEVIDO. PESSOA JURÍDICA. PESSOA FÍSICA. APROVEITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. CONTRIBUINTES DISTINTOS. CRÉDITO DE TERCEIROS. O recolhimento indevido de tributo efetuado por pessoa jurídica constitui-se crédito dela, pessoa jurídica, e caracteriza crédito de terceiros para a pessoa física, independente desta ter com aquele qualquer tipo de vinculação. Não há previsão legal no atual ordenamento jurídico pátrio para aproveitamento de crédito de terceiros para compensar débito próprio. Número da decisão: 9202-011.208 – Processo 12448.731372/2014-15 O entendimento acima é o que atualmente prevalece na 2ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, órgão responsável pela uniformização da jurisprudência do CARF, conforme precedentes citados nos Acórdãos 9202-011.117, 9202-011.427, 9202-011.208, os quais adoto para não acolher o pedido de aproveitamento ou compensação dos valores recolhidos pelas pessoas jurídicas. Afastamento da Multa de Ofício Qualificada Muito embora o julgador de origem tenha aplicado o instituto da retroatividade benigna para reduzir o percentual da multa qualificada de 150% para 100%, o recorrente segue irresignado, argumentando que a autoridade fiscal foi incapaz de demonstrar o intuito doloso do recorrente em praticar as condutas descritas nos artigos 71, 72 e 73, da Lei n° 4.502/1964. O recorrente apresenta uma série de precedente que vão no sentido da tese defensiva, alegando que a qualificação da multa não pode estar embasada em presunções, cabendo à autoridade lançadora demonstrar o dolo específico para sua configuração. Senão vejamos qual foi a argumentação da fiscalização para qualificar a multa de ofício aplicada: 35. A infração apurada neste procedimento enseja a aplicação da multa de ofício duplicada (de 75% para 150%), segundo o que determina o artigo 44 § 1° da Lei 9.430/1996, com redação dada pela Lei 11.488/2007, pois a conduta do contribuinte exaustivamente descrita neste relatório caracteriza-se como sonegação, fraude e conluio, consoante se depreende da leitura do artigo 71 da Lei 4502/1964, adiante transcrito: [...] 36. Consoante já descrito, Alexandre, João e Thierry criaram uma grande rede de empresas fictas, algumas em nomes de laranjas, e simulavam operações de serviços, empréstimos, doações para dar aparente normalidade ao negócio. João era procurador de Alexandre e tinha poderes para movimentar contas bancárias, Fl. 10817DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 61 comprar, vender, ceder, doar imóveis, representar Alexandre em repartições públicas, ou seja, TINHA todos os poderes para agir em nome de Alexandre (procuração doc. 13). [...] 38. A rede de empresas fictas criadas, com emissão de notas fiscais e pagamentos de impostos tinham como escopo dar aparente legalidade ao negócio. As empresas eram tributadas pelo lucro presumido, que, em linhas gerais, presume que 32% das receitas são os lucros, incidindo o imposto de renda (IRPJ) e contribuição social (CSLL) sobre o resultado deste percentual. Porém, de acordo com o já descrito, mais de 90% das receitas eram distribuídas aos sócios como “lucros”. As empresas não tinham despesas correntes normais e não tinham empregados. 39. De todo o exposto, está tipificada a sonegação, pois houve ação dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal do Imposto de Renda Pessoa Física sua natureza ou circunstâncias materiais, de acordo com o descrito no artigo 71 da Lei 4.502/64. As palavras ditas pela autoridade fiscal, não conduzem a outra conclusão. O recorrente por intermédio de operações simuladas de prestação de serviços, empréstimos, doações e indenizações, pretendeu esconder a natureza dos rendimentos de que foi beneficiário de fontes que contrataram com o grupo Caixa. Este relator ficou convencido de que os contratos de prestação de serviço apresentados para justificar a transferência de numerário, efetivamente não ocorreram nas circunstâncias em que foram registrados, dada a evidente incapacidade operacional das supostas prestadoras em cumprirem as obrigações ali contidas. Além disso, identificou-se o recebimento de indenizações em circunstâncias bastante incomuns, justificadas para se evitar contendas judiciais, sem que se demonstrasse o prejuízo sofrido, mas amparadas na diminuição de um potencial ganho futuro. Ingressos de recursos recebidos à título de devolução de empréstimos também foram apontados pela fiscalização, em que tanto o credor como o devedor, não conseguiram demonstrar a efetiva transmissão de numerário das operações que lhe deram origem. O recorrente não pode argumentar que as conclusões da autoridade fiscal são meras invencionices, cabendo-lhe demonstrar o dolo específico necessário a aplicação da qualificadora da multa de ofício proporcional. Ora, não é esperado que o sujeito passivo confesse a ocorrência das sérias imputações que lhe são feitas, pois a ninguém se obriga produzir prova em seu desfavor, mas dentro da livre apreciação da prova produzida pela fiscalização, não resta dúvida que o recorrente pretendeu alterar a natureza ou as circunstâncias materiais do fato gerador, como também suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido. Fl. 10818DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 62 Estas condutas se amoldam nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964, que nos termos do § 1° do artigo 44 da Lei 9.430/1996, vigente na data da ocorrência dos fatos geradores, determina a duplicação da multa proporcional prevista no “caput” deste mesmo artigo, quando do lançamento de ofício. Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; [...] Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Portanto, nenhum reparo a decisão do julgador originário que manteve a multa de ofício, inicialmente aplicada ao percentual de 150%, mas que em razão da retroatividade benigna dada pela nova regulamentação pela Lei 14.689/2023, foi alterada para 100%. Decadência Parcial do Lançamento Neste tópico de seu recurso, o peticionário argumenta que dada a inocorrência de sonegação ou fraude, aplicável ao caso seria o § 4º do artigo 150, do Código Tributário Nacional, que determina a contagem do prazo decadencial a partir da data da ocorrência do fato gerador. No capítulo anterior, a discussão envolvendo a existência de fraude ou simulação foi devidamente enfrentada, concluindo-se pela existência destas condutas, praticadas com a intenção de alterar a natureza dos rendimentos tributáveis, justificando a aplicação do artigo 173, I do CTN, nos termos da Súmulas CARF nº 72 e 101. Caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, a contagem do prazo decadencial rege-se pelo art. 173, inciso I, do CTN. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018) Na hipótese de aplicação do art. 173, inciso I, do CTN, o termo inicial do prazo decadencial é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018) Mesmo que se alegue o pagamento antecipado do tributo, o artigo 173, I do CTN determina que o início de contagem do prazo decadencial se dá a partir do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. No caso concreto, o lançamento do ano calendário de 2017, cujo fato gerador complexivo se efetiva em 31.12.2017, teria a contagem do prazo decadencial iniciada em 01.01.2019, autorizando a ocorrência do lançamento tributário até 31.12.2023. Fl. 10819DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 63 O recorrente ainda alega a decadência parcial do lançamento tributário, questionando o momento da ocorrência do fato gerador. Ora, tanto esta Turma de Julgamento como a Câmara Superior vêm reiteradamente entendendo que se o rendimento omitido está sujeito ao ajuste anual, há que se reconhecer que se trata de fato gerador complexivo, operando- se no último dia do ano calendário. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA (IRPF) Ano-calendário: 2005 FATO GERADOR COMPLEXIVO. DECADÊNCIA. O fato gerador do IRPF é complexivo, perfazendo-se em 31 de dezembro de cada ano. Comprovado que o lançamento ocorreu dentro do prazo quinquenal previsto na legislação tributária, não há que se falar em decadência. Número da decisão: 2202-010.765 – Processo 15521.000176/2010-30 Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2000 OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA. TRIBUTO SUJEITO AO AJUSTE ANUAL DA DIRPF. DECADÊNCIA MENSAL. NÃO APLICABILIDADE. FATO GERADOR COMPLEXIVO. JURISPRUDÊNCIA DOMINANTE. De conformidade com a jurisprudência consolidada neste Colegiado, tratando-se de tributo sujeito ao ajuste anual na DIRPF, ainda que submetidas a antecipações mensais no decorrer do período, o fato gerador do Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF, exigido a partir da omissão de rendimentos é complexivo, operando-se em 31 de dezembro do correspondente ano-calendário, contando-se o prazo decadencial para constituição do crédito tributário a partir daquela data. Recursos especiais do Procurador e do Contribuinte negados. Número da decisão: 9202-002.438 – Processo 10980.012783/2006-35 Tal matéria, inclusive foi recentemente objeto da Súmula CARF nº 223: O fato gerador do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (IRPF), exigido a partir da omissão de rendimentos sujeitos ao ajuste anual, é complexivo, operando-se em 31 de dezembro do correspondente ano-calendário, ainda que apurado em bases mensais ou objeto de antecipações no decorrer do período. A existência de antecipação do pagamento do tributo pode trazer repercussão no início da contagem do prazo decadencial, mas não desloca o momento da ocorrência do fato gerador do imposto de renda da pessoa física, que em qualquer das circunstâncias, ocorre no último dia do ano. A ciência do lançamento ocorreu no ano de 2023, portanto, dentro do prazo decadencial para a exigência do imposto relativamente ao ano calendário de 2017. RECURSO VOLUNTÁRIO DE JOÃO EDUARDO SIQUEIRA Fl. 10820DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 64 O recurso voluntário do solidário João Eduardo Siqueira argumenta em preliminar o erro na apuração do fato gerador, na base de cálculo, e na identificação do sujeito passivo. No mérito, a ausência de interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, não se conformando com a responsabilidade a ele atribuída. Aduz que a autoridade julgadora se limitou a repetir o que constava do relatório fiscal, ignorando as provas trazidas pelos recorrentes. Reitera a efetiva prestação dos serviços desclassificados no lançamento, e que o Acordo de Não Persecução Penal faz prova a seu favor, considerando que o Ministério Público não identificou os ilícitos atribuídos ao contribuinte ou ao solidário, sendo os valores questionados isentos por se tratar de lucros distribuídos. Preliminar – Nulidade do Lançamento A questão relativa à nulidade do lançamento foi devidamente enfrentada no recurso voluntário de Alexandre Siqueira Monteiro, que pleiteava com base em idênticos fundamentos de erro na apuração do fato gerador, na base de cálculo, e na identificação do sujeito passivo. São os mesmíssimos argumentos os que foram refutados em relação ao contribuinte, aplicando-se nos mesmos termos e limites ao solidário. No entanto, questiona a condição de solidário dos créditos tributários que transitaram pelas empresas MASSBROKER INTERMEDIAÇÃO e MASS SOLUTION, e que inexistindo participação societária de Alexandre nestas empresas, era o solidário e não o contribuinte quem se beneficiou dos rendimentos considerados omitidos. O relatório fiscal bem delimitou a matéria, concluindo que era Alexandre o mentor do esquema para recebimento de recursos por intermédio de operações fictas, e que tais ingressos financeiros não teriam sido revertidos a ele e ao solidário sem a sua efetiva participação e influência, sendo Alexandre o detentor da disponibilidade jurídica ou financeira destes recursos. 36. Consoante já descrito, Alexandre, João e Thierry criaram uma grande rede de empresas fictas, algumas em nomes de laranjas, e simulavam operações de serviços, empréstimos, doações para dar aparente normalidade ao negócio. João era procurador de Alexandre e tinha poderes para movimentar contas bancárias, comprar, vender, ceder, doar imóveis, representar Alexandre em repartições públicas, ou seja, TINHA todos os poderes para agir em nome de Alexandre (procuração doc. 13). Inobstante isso, verifica-se no caso uma nítida confusão patrimonial entre os irmãos em que João Eduardo é procurador de Alexandre, e que este último é o beneficiário, conforme testamento, de todo o patrimônio do primeiro em caso de falecimento. Tais circunstâncias, antes de representar qualquer argumento para segregar os rendimentos entre os irmãos, justificam a solidariedade atribuída por ocasião do lançamento, restando o interesse comum no fato gerador, motivo pelo qual ambos (João Eduardo e Alexandre) respondem pela integralidade do crédito tributário, sem benefício de ordem, nos termos do parágrafo único do artigo 124, do CTN. Ausência de Interesse Comum (art. 124, I do CTN) Fl. 10821DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 65 O recorrente defende que não restou caracterizado o interesse comum, previsto no artigo 124, I do CTN a justificar a imputação de responsabilidade solidária, que não se aperfeiçoaria em razão de mero interesse financeiro. E que a autoridade julgadora se limitou a repetir na sua fundamentação o mesmo teor do relatório fiscal e de menções ao Parecer Normativo COSIT nº 04/2018. Aponta a incongruência da decisão, que concluiu que para a suficiência do interesse comum bastaria a “realização conjunta pelas pessoas envolvidas da situação que constitui o fato gerador, isto é, não há a necessidade de que as pessoas estejam no mesmo lado da relação jurídica, bastando a existência de vínculo com o fato gerador ou com o sujeito passivo”. Ocorre que a suposta contradição apontada não é contra o fundamento do julgador de piso, mas a insurgência é com o exemplo contido no citado parecer, que segundo o recorrente, destoa da jurisprudência pátria. Analisando o conjunto probatório, verifico que não existe mero interesse econômico no fato gerador, mas que Alexandre e João Eduardo o realizaram conjuntamente. O primeiro, devido a sua participação direta, e o segundo, auxiliando-o na sua consecução. Ao final, ambos se beneficiaram, também financeiramente, com o proveito dos rendimentos aplicados em finalidades de interesse comum ou de cada um deles isoladamente. Portanto, a despeito dos esforços do recorrente, está caracterizado o liame legal do solidário com o fato gerador para sua responsabilidade, nos exatos termos do artigo 124, I, do CTN, pois ambos, Alexandre e João Eduardo, realizaram o fato gerador. É preciso restar bem esclarecido, que João Eduardo não é um simples mandatário de Alexandre, mas é diretamente interessado no fato gerador, pois conforme fartamente demonstrado, se beneficiou com rendimentos da acusação fiscal. Isso liga João Eduardo diretamente ao fato gerador. Ademais, a situação não deve ser apreciada como se os fatos geradores fossem isolados ou desconexos. A acusação fiscal demonstrou a existência de transferência de recursos financeiros de empresas que contrataram com o Grupo Caixa para Alexandre, por intermédio de operações simuladas de prestação de serviços, indenizações ou empréstimos. No ANPP, Alexandre assim se manifesta sobre João Eduardo: “O João é meu irmão por parte de mãe e a pessoa mais próxima de mim. Temos uma relação afetiva muito grande. Eu e meus filhos somos praticamente a única família dele. Meu irmão é solteiro e por reunir problemas emocionais, tem uma dependência muito grande de mim.” [...] “Embora seja uma pessoa inteligente e organizada na administração de empresas, seguia sempre minhas orientações para quase todos os negócios que mantinha, onde eu participava em ideias e indicações. Ele é sócio informal das diversas empresas indicadas, empresas essas que tiveram seus negócios constituídos sob minha orientação estratégica. Ele era sócio formal de algumas das companhias pois sempre tive receio de terceiros sugerirem a Fl. 10822DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2202-011.667 – 2ª SEÇÃO/2ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 18088.720015/2023-35 66 existência de conflito de interesses nos negócios celebrados entre referidas empresas e a CORRETORA." (fls. 29 do ANPP) E o próprio João Eduardo, no Acordo de Não Persecução Penal esclarece sua atuação junto às empresas destinatárias dos recursos: "Muitos dos negócios que fizemos nessas empresas foram originados por indicação e desenvolvimento do meu irmão Alexandre, sendo que eu sempre fui a pessoa que fazia a parte operacional e administrativa da gestão dessas empresas. Da mesma forma, também fui o responsável pela gestão do nosso patrimônio em conjunto, realizando aplicações financeiras e investimentos diversos." (fls. 57 do ANPP) Portanto, os registros acima demonstram que João Eduardo de maneira consciente, se prestava como longa manus de Alexandre, atuando conjuntamente com ele na realização do fato gerador controlado neste processo, razão pela qual há que se manter a responsabilidade solidária a ele atribuída, nos termos do artigo 124, I, do Código Tributário Nacional. CONCLUSÃO: Por todo o exposto, voto por conhecer do recurso de ofício e voluntários, rejeitando as preliminares de erro na apuração da matéria tributável, da base de cálculo do IRPF, na identificação do fato gerador e do sujeito passivo, e no seu mérito, negar-lhe provimento, inclusive ao recurso de ofício. Assinado Digitalmente Marcelo Valverde Ferreira da Silva Fl. 10823DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13005.902507/2014-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 03 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/07/2008 a 30/09/2008
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO.
Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica.
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE.
A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico.
Numero da decisão: 3102-003.217
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.196, de 11 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13005.720207/2014-18, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO. Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE. A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.196, de 11 de dezembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13005.720207/2014-18, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 89DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 2 Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente/procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que denegara/acolhera em parte o Pedido de Ressarcimento/Compensação apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente a suposto crédito de Pis-Pasep/Cofins. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: 1. REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO. Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica. 2. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE. A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico. 3. DECISÃO ADMINISTRATIVA. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Consideram-se definitivos os ajustes efetuados na base de cálculo dos créditos a descontar relativamente aos itens que não foram expressamente contestados. Cientificado do acórdão recorrido, o Sujeito Passivo interpôs Recurso Voluntário, reiterando a existência do direito creditório postulado e requerendo o integral ressarcimento, aduzindo os seguintes argumentos, em síntese: I. As aquisições de produtos sujeitos ao regime de apuração monofásico dão direito a crédito no regime não cumulativo por aplicação do art. 17, da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004. Fl. 90DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 3 II. Não há vedação legislativa à apropriação de créditos decorrentes de aquisição de produtos sujeitos ao regime monofásico. Ao final, pugna pelo provimento do recurso. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Despacho Decisório, através de Parecer juntado aos autos de folhas 30 a 32, assim descreveu as glosas: Intimado a prestar esclarecimentos, o contribuinte informou que tem como objeto social o comércio atacadista de cerveja, chope e refrigerantes, e comércio varejista de bebidas, e que adquire mercadorias da Cia Cervejaria Primo Schincariol S.A., além de custear a energia elétrica. Da análise da planilha apresentada, constata-se que as operações que deram origem a estes créditos referem-se a aquisições, para revenda, de água, refrigerante e cervejas, classificadas nos códigos 22.011000, 22.021000, 22.029000 e 22.030000 da TIPI. Entretanto, os incs. I dos arts. 3 das Leis n. 10.833/2003 e 10.637/2002, e alterações posteriores, vedam o desconto de créditos de PIS/COFINS na aquisição de bens para revenda, no caso de produtos classificados nas posições 22.01, 22.02, 22.03 (cerveja de malte) e no código 2106.90.10 Ex 02. Também não geram direito à apuração de crédito de PIS/COFINS as despesas de fretes destas operações (aquisições para revenda), uma vez que os valores destes fretes integram o custo de aquisição dos produtos, nos termos do parág. primeiro do art. 289 do Regulamento do Imposto de Renda – RIR (Decreto n. 3.000, de 26 de março de 1999). Em razão do exposto, o Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil – AFRFB glosou os valores da rubrica “Créditos a Descontar à Alíquota de 1,65%”, do período fiscalizado. Lembrando que os créditos glosados referem-se ao 1º Trimestre/2007, assim estava redigido o referido dispositivo legal: Art. 2º Para determinação do valor da contribuição para o PIS/Pasep aplicar-se-á, sobre a base de cálculo apurada conforme o disposto no art. 1º, a alíquota de 1,65% (um inteiro e sessenta e cinco centésimos por cento). § 1º Excetua-se do disposto no caput a receita bruta auferida pelos produtores ou importadores, que devem aplicar as alíquotas previstas: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) Fl. 91DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 4 VIII - no art. 49 da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e alterações posteriores, no caso de venda de água, refrigerante, cerveja e preparações compostas classificados nos códigos 22.01, 22.02, 22.03 e 2106.90.10 Ex 02, todos da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.925, de 2004) Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) nos incisos III e IV do § 3º do art. 1º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) b) no § 1º do art. 2º desta Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) A Recorrente assim argumenta em seu Recurso Voluntário: 42. A autoridade fiscal, portanto, baseia sua fundamentação nas alíneas “b”, dos incs. I, dos arts. 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, que remetem aos §§ 1º e 1º- A do art. 2º das mesmas leis, que previam em seu inc. VIII o direcionamento ao art. 58-A da Lei nº 10.833/03, o qual tratava do regime monofásico de tributação das bebidas, até serem revogados pela Lei nº 13.097/15, que instituiu o sistema de tributação das bebidas frias. Vemos que a motivação pela impossibilidade de se apropriar de créditos decorrentes da aquisição de produtos para a revenda, sujeitos à monofasia, não foi levantada pela Autoridade Tributária, mas sim pela recorrente, tendo em vista que a vedação à apropriação de créditos, que foram glosados no Despacho Decisório, é expressa no inciso VIII, do § 1º, do art. 2º, da Lei nº 10.637/2002. De fato, estes produtos estavam sujeitos ao regime monofásico, definido pelo já supracitado dispositivo que embasou a glosa, combinado com o art. 49 e 59-A, da Lei nº 10.833/2003, e ainda que não houvesse uma vedação expressa, entendo que não cabe a apropriação de créditos decorrentes de produtos sujeitos à monofasia. Ocorre que os produtos sujeitos à tributação monofásica não podem gerar créditos de forma alguma, visto que este tipo de tributação é incompatível com o regime de tributação não cumulativo. Esta posição é reproduzida na Solução de Consulta COSIT nº 218, de 06 de agosto de 2014, onde se lê: “21 Nesse sentido, pelo exposto até aqui, deve-se reiterar que o fato de uma pessoa jurídica revendedora estar inserida em uma cadeia cuja incidência das contribuições em apreço se dá sob a forma monofásica não inviabiliza, per si, a apuração de créditos a serem descontados dessas contribuições, com exceção daquele decorrente da aquisição de bens monofásicos. Estando a pessoa jurídica vinculada a não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, em tese, é possível o desconto de alguns créditos. 22 Contudo, em vista do caráter geral com que são colocados os questionamentos da consulente, é prudente alertar que as hipóteses ensejadoras de créditos são aquelas taxativamente elencadas nos incisos dos arts. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, sendo cabível a apuração de crédito tão somente na medida em que as hipóteses discriminadas forem aplicáveis à atividade praticada Fl. 92DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 5 pela consulente e dentro dos próprios limites estabelecidos pela legislação regente.” Notem que a sentença em negrito do item 21 desta Solução de Consulta é explícita em excluir os créditos decorrentes da aquisição de produtos monofásicos para a apuração de créditos das pessoas jurídicas submetidas ao regime não cumulativo. Esta consulta decorre de dúvida do consulente sobre a possibilidade de utilização de créditos não decorrentes de produtos monofásicos na apuração de débitos decorrentes de sua atividade que é a de varejista de combustíveis. Também encontramos este entendimento em decisões do Superior Tribunal de Justiça conforme podemos verificar em trecho do voto da eminente Ministra Assusete Magalhães no AIREsp nº1.895.032/PE: "TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PIS/COFINS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. DECISÃO AGRAVADA EM CONFORMIDADE COM A JURISPRUDÊNCIA DA TURMA. 1. O Superior Tribunal de Justiça possui firme entendimento de que as receitas provenientes das atividades de venda e revenda sujeitas ao pagamento das contribuições do PIS/PASEP e da COFINS em regime especial de tributação monofásica não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do regime de incidência não cumulativo. 2. Agravo interno a que se nega provimento" (STJ, AgInt no REsp 1.743.909/RJ, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEGUNDA TURMA, DJe de 22/10/2019). "TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. ART. 17 DA LEI 11.033/2004. REGIME MONOFÁSICO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. 1. O Tribunal a quo, ao analisar a controvérsia, consignou: 'Posteriormente, a Segunda Turma, ao julgar o REsp 1.267.003/RS, decidiu rever sua orientação quanto ao segundo fundamento, passando a entender que o art. 17 da Lei 11.033/04 não teria aplicação exclusiva ao Regime Tributário para o Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária - REPORTO. Nesse mesmo precedente, compreendeu-se, também, não ser possível o aproveitamento de créditos pela incompatibilidade de regimes – a tributação monofásica, com alíquota concentrada na atividade de venda, não permite o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do Regime de Incidência Não-Cumulativo - e pela especialidade de normas, haja vista que a inserção em Regime Especial de Tributação Monofásica afasta a aplicação da regra gral do art. 17 da Lei 11.033/2004 e do art. 16 da Lei 11.116/2005, e por especialidade, chama a incidência do art.3°, I, 'b' da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que vedam o creditamento. (...) Feitas essas considerações, filio-me ao entendimento de que a técnica do creditamento é incompatível com a incidência monofásica do tributo porque não há cumulatividade. Inaplicável, portanto, à impetrante, por incompatibilidade de regimes e por especialidade de suas normas, o disposto nos artigos 17, da Lei 11.033/2004, e 16, da Lei 11.116/2005, cujo âmbito de incidência se restringe ao regime não-cumulativo.' 2. O entendimento alhures encontra-se pacificado na jurisprudência da Segunda Turma do STJ, segundo o qual o regime de tributação monofásica é incompatível com o direito ao creditamento das contribuições ao PIS e à COFINS. Fl. 93DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 6 3. Recurso Especial não provido" (STJ, REsp 1.806.338/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, DJe de 11/10/2019). "AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. RECURSO INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DO CPC/2015. ENUNCIADO ADMINISTRATIVO Nº 3. TRIBUTÁRIO. PIS/PASEP E COFINS. CREDITAMENTO. ART. 17 DA LEI 11.033/2004, C/C ART. 16, DA LEI N. 11.116/2005. REVENDA DE AUTOPEÇAS. REGIME DE INCIDÊNCIA MONOFÁSICA DAS CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS. REGIME ESPECIAL EM RELAÇÃO AO REGIME DE INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. 1. Consoante os precedentes desta Segunda Turma de Direito Tributário do Superior Tribunal de Justiça, as receitas provenientes das atividades de venda e revenda sujeitas ao pagamento das contribuições ao PIS/PASEP e à COFINS em Regime Especial de Tributação Monofásica não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do Regime de Incidência Não-Cumulativo, a teor dos artigos 2º, §1º, e incisos; e 3º, I, 'b' da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Desse modo, não se lhes aplicam, por incompatibilidade de regimes e por especialidade de suas normas, o disposto nos artigos 17, da Lei n. 11.033/2004, e 16, da Lei n. 11.116/2005, cujo âmbito de incidência se restringe ao Regime Não-Cumulativo, salvo determinação legal expressa. Precedentes: REsp. Nº 1.267.003 - RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 17.09.2013; AgRg no REsp. Nº 1.239.794 - SC, Segunda Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 17.09.2013. 2. Indiferentes se tornam as alterações efetuadas no art. 8º VII 'a' da Lei n.º 10.637/2002 e art. 10, VII 'a' da Lei n.º 10.833/2003 pelo art. 42, III, 'c' e 'd', da Lei n. 11.727/2008, e pelo art. 21, da Lei n. 10.865/2004 no art. 1º, §3º, IV, da Lei n. 10.833/2003 e pelo art. 37 da Lei n. 10.865/2004 no art. 1º, §3º, IV, da Lei n. 10.637/2002, pois a incompatibilidade é dos próprios regimes de tributação. 3. Incompatibilidade que se restringe às mercadorias e produtos sujeitos à tributação monofásica, não alcançando as atividades empresariais como um todo. 4. A vedação ao referido creditamento estava originalmente no art. 3º, I, da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003, em suas redações originais. Depois, com o advento da Lei n. 10.865/2004, a vedação migrou para o art. 3º, I, 'a' e 'b', da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Posteriormente, sobreveio a Lei n. 11.787/2008 que reforçou a vedação com a alteração do art. 3º, I, 'b', da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Tivesse havido derrogação da vedação pelo art. 17, da Lei n. 11.033/2004, esta não sobreviveria ao regramento realizado pela lei posterior que reafirmou a vedação (Lei n. 11.787/2008) e que não foi declarada inconstitucional. 5. Agravo regimental não provido" (STJ, AgInt no REsp 1.772.957/PR, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 14/05/2019). "TRIBUTÁRIO. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PIS/COFINS. REPORTO. REGIME ESPECIAL NÃO CUMULATIVO. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. I - Muito embora o Superior Tribunal de Justiça possua jurisprudência no sentido de que o aproveitamento de créditos relativos ao PIS e a COFINS, conforme disposição do art. 17 da Lei n. 11.033/2004, não é de exclusividade dos contribuintes beneficiários do Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária (REPORTO), verifica-se, a despeito de tal entendimento, que as receitas sujeitas ao pagamento de PIS e COFINS, em regime especial de tributação monofásica, não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do Fl. 94DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 7 regime de incidência não cumulativo. Neste sentido: DESEMBARGADORA CONVOCADA TRF 3ª REGIÃO), SEGUNDA TURMA, julgado em 10/5/2016, DJe de 17/5/2016; REsp 1440298/RS, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/10/2014, DJe 23/10/2014. II - Agravo interno improvido" (STJ, AgInt no AREsp 1.218.476/MA, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, SEGUNDA TURMA, DJe de 28/05/2018) O regime de tributação monofásico está previsto no § 4º, do Artigo 149, da Constituição Federal de 1988, artigo que trata das contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas, onde se estabelece que “a lei definirá as hipóteses em que as contribuições incidirão uma única vez”. Fábio Rodrigues de Oliveira, em seu PIS E COFINS na Prática, 3ª Edição, assim define o regime de tributação monofásica: A incidência monofásica, também conhecida por tributação diferenciada ou concentrada abrange um grupo de tributos que estão sujeitos à aplicação de alíquotas específicas, superiores às básicas de 0,65% e 3% (regime cumulativo) e 1,65% e 7,6% (regime não-cumulativo). (...) Basicamente, fabricantes e importadores aplicam sobre as receitas auferidas na venda de tais produtos alíquotas maiores às usuais, enquanto os demais contribuintes da cadeia de comercialização (atacadistas e varejistas) tributam as receitas auferidas nas vendas dos mesmos produtos com alíquota zero. O ônus do tributo, portanto, fica concentrado no fabricante ou importador, motivo pelo qual a sistemática é conhecida por “incidência monofásica”. O conceito não deve se confundir com o da não cumulatividade, na medida em que só há de se falar em cumulatividade, ou em não cumulatividade, nos regimes de tributação plurifásico, onde os tributos incidem diversas vezes na cadeia produtiva ou comercial, podendo-se descontar o montante pago na operação antecedente (não-cumulativo), ou não (cumulativo). Não devemos confundir também a monofasia com a substituição tributária, pois aquela não pretende reproduzir a base de cálculo do último membro da cadeia de circulação de bens a que se aplica, sendo apenas o caso de uma única incidência. A técnica aplicada pela legislação para a implementação de um regime de tributação monofásico foi a de impor uma alíquota superior à alíquota normal a um determinado sujeito passivo na cadeia de circulação de bens ou de produção, aplicando alíquota zero aos demais participantes a jusante. Alternativamente, vemos nos regimes a que são submetidos o biodiesel, a nafta petroquímica e o querosene de aviação a determinação de incidência única, conforme as Leis que regulam a cobrança de PIS/COFINS sobre estes produtos. Fl. 95DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 8 Interessante destacar que as alíneas a e b, do inciso I, do caput, dos artigos 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, de redação idêntica, e reproduzido abaixo, combinadas com o § 2º, deste mesmo artigo, delimitam o alcance da utilização dos créditos de PIS/COFINS, sendo que o inciso I, e alíneas, impedem expressamente o creditamento dos bens sujeitos ao regime monofásico nas aquisições para a revenda. “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; b) nos §§ 1º e 1º-A do art. 2º desta Lei II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor I - de mão-de-obra paga a pessoa física; e II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição.” Chamo a atenção para o § 2º, onde a vedação a gerar créditos é ainda mais ampla do que a encontrada no inciso I, do caput do artigo 3º, especialmente no seu inciso II, que afasta a formação de crédito sobre aquisições de quaisquer bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. A exposição de motivos da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003, convertida na Lei nº 10.833/2003, é clara ao excluir a monofasia da não-cumulatividade e, consequentemente, impedir o aproveitamento de créditos decorrentes do regime monofásico, o que é mais do que coerente com a natureza deste regime. “11. Sem prejuízo de convivência harmoniosa com a incidência não-cumulativa da COFINS, foram excluídas do modelo, em vistas de suas especificidades, as cooperativas, as empresas optantes pelo SIMPLES, as instituições financeiras, as pessoas jurídicas de que trata a Lei nº 7.102, de 20 de junho de 1983, as tributadas pelo imposto de renda com base no lucro presumido ou arbitrado, os órgãos públicos, as autarquias e fundações públic33as federais, estaduais e municipais, as fundações cuja criação tenha sido autorizada por lei, as pessoas jurídicas imunes a impostos, as receitas tributadas em regime monofásico ou de substituição tributária, as referidas no art. 5o da Lei no 9.716, de 26 de novembro de 1998, as decorrentes da prestação de serviços de telecomunicações e de serviços das empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens.” Fl. 96DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10485.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10485.htm#art2 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 9 O mesmo encontramos na exposição de motivos referentes à conversão em Lei, da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, Lei nº 10.637/2002: “8. Sem prejuízo de convivência harmoniosa com a incidência não cumulativa do PIS/Pasep, foram excluídos do modelo, em vista de suas especificidades, as cooperativas, as empresas optantes pelo Simples ou pelo regime de tributação do lucro presumido, as instituições financeiras e os contribuintes tributados em regime monofásico ou de substituição tributária.” Desta forma, a metodologia do regime de não cumulatividade não se confunde com a admissão de créditos decorrentes de regime de tributação diverso e propositalmente separado em razão de especificidades dos setores submetidos à monofasia identificados pelo legislador. Seria uma deturpação da metodologia da não cumulatividade admitir créditos que lhe são estranhos com consequências no valor do tributo devido em cada etapa do ciclo econômico. A sentença presente no inciso II, do § 2º do artigo 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, “não sujeitos ao pagamento da contribuição”, deve ser lida como se referindo ao regime previsto nestas duas Leis, não devendo se confundir com a contribuição paga sob outro regime, sob pena de desvirtuar a arquitetura da incidência tributária pretendida e a própria lógica do sistema. No entanto, o inciso II, do caput do art. 3º, da Lei nº 10.833/2003, permite que a aquisição de combustíveis e lubrificantes, produtos sujeitos à monofasia, para servirem de insumos na produção de outros bens sejam computados como créditos para a apuração do valor devido destas contribuições. Ocorre que a lógica dos tributos não cumulativos decorre da possibilidade do contribuinte creditar-se pelos valores pagos ao segmento precedente à título destes tributos na apuração de seus próprios débitos. Vemos que na dinâmica do ICMS e do IPI, o contribuinte faz jus, como regra, ao montante do tributo pago nas suas aquisições e esta é a confirmação de que o crédito no regime não cumulativo decorre dos montantes cuja a carga tenha sido suportada pelo contribuinte que pretende direito ao respectivo crédito, como regra. No caso do ICMS e IPI, o valor do imposto na transação é suportado pelo comprador, que reconhece seu montante pelo valor destacado na nota fiscal, cabendo ao vendedor a apuração do valor a ser efetivamente recolhido em razão dos créditos que ele próprio acumulou de forma prévia nas suas aquisições, ou seja, nas operações em que ele suportou a carga do tributo cobrado naquela operação. Fl. 97DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 10 Já no regime monofásico a carga tributária é suportada pelo vendedor exclusivamente, e a sua capacidade de repasse aos preços depende de aspectos econômicos de mercado, podendo ou não ser repassadas ao preço praticado nas suas vendas, dependendo da elasticidade preço/demanda e fatores concorrenciais. A dinâmica do PIS/COFINS difere um pouco da metodologia dos ICMS e IPI, em razão destes impostos incidirem sobre atividades específicas de industrialização e circulação de bens e serviços, enquanto a PIS/COFINS incide sobre uma base muito mais ampla, o que implica também numa base mais ampla em relação aos seus créditos, no entanto, a lógica mantém-se pois os créditos referentes a pagamentos não suportados pelo contribuinte somente podem ser considerados como exceção à regra, ou como regimes especiais. Como no regime monofásico a carga tributária é suportada por apenas uma determinada parte da cadeia de negócios de determinados produtos, não cabe falar de créditos a serem utilizados decorrentes de regime monofásico por contribuinte que adquira estes bens, a não ser pela exceção à regra, que neste caso está expressamente citada no inciso II, do caput do artigo 3º, citado acima. Notem que a outra exceção neste mesmo inciso (II, caput do art. 3º) refere- se a pagamentos por conta e ordem de encomendantes e do valor do ICMS, que podem ser excluídos da base de cálculo da PIS/COFINS por industriais e importadores de veículos de transporte, em razão do artigo 2º, da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, de natureza diversa dos insumos para a fabricação de bens, e por isto excluídos da possibilidade de serem considerados como créditos. Esta exceção foi expressamente abordada no Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, onde também encontramos a vedação de que despesas com combustíveis gerem créditos quando aplicadas em atividades diversas da produção de bens ou da prestação de serviços. “139. Daí, considerando que combustíveis e lubrificantes são consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos de qualquer espécie, e, em regra, não se agregam ao bem ou serviço em processamento, conclui-se que somente podem ser considerados insumos do processo produtivo quando consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos utilizados pela pessoa jurídica no processo de produção de bens ou de prestação de serviços. (...) 142. Sem embargo, permanece válida a vedação à apuração de crédito em relação a combustíveis consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos utilizados nas demais áreas de atividade da pessoa jurídica (administrativa, contábil, jurídica, etc.), bem como utilizados posteriormente à finalização da produção do bem destinado à venda ou à prestação de serviço.” Fl. 98DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.217 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.902507/2014-13 11 Por fim, cabe analisarmos o artigo 17, da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004, que se alega permitir a acumulação de créditos não sujeitos ao pagamento da contribuição. “Art. 17. As vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações.” Não posso concordar com esta argumentação, pois considero que o disposto neste artigo refere-se a contribuintes que vendam bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, sem fazer qualquer juízo ao regime de tributação das aquisições necessárias à consecução futura destas vendas ou prestação de serviços, as quais se pressupõe serem aquelas capazes de gerarem créditos e, portanto, sem interferir com o conteúdo do artigo 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Sendo assim, os bens adquiridos que sejam submetidos ao regime monofásico não geram créditos nem quando destinados a revenda, nem quando utilizados como insumos para a produção de outros bens ou serviços. Diante de todo o exposto, conheço do Recurso Voluntário e voto por negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 99DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 11060.902383/2019-82
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 13 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 03 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011
MATÉRIA NÃO IMPUGNADA.
Não cabe apreciação de matéria que não foi contestada em Recurso Voluntário, por ausência de apresentação da fundamentação da contestação, sendo aplicado o art. 17, do Decreto nº 70.25/1972.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011
PIS/PASEP. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS SOBRE FRETES. TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS.
Não cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e Cofins não-cumulativos sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, conforme Súmula CARF nº 217.
Numero da decisão: 3102-003.100
Decisão: Acordam os membros do colegiado, em julgar o processo da seguinte forma: i) por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário; e ii) por maioria, para negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimarães e Wilson Antônio de Souza Correa que davam provimento parcial para reverter a glosa com relação aos combustíveis e lubrificantes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.088, de 13 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 11060.900182/2015-17, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: PEDRO SOUSA BISPO
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Não cabe apreciação de matéria que não foi contestada em Recurso Voluntário, por ausência de apresentação da fundamentação da contestação, sendo aplicado o art. 17, do Decreto nº 70.25/1972. Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/10/2011 a 31/12/2011 PIS/PASEP. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS SOBRE FRETES. TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS. Não cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e Cofins não-cumulativos sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, conforme Súmula CARF nº 217. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, em julgar o processo da seguinte forma: i) por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário; e ii) por maioria, para negar provimento ao recurso. Vencidos os conselheiros Joana Maria de Oliveira Guimarães e Wilson Antônio de Souza Correa que davam provimento parcial para reverter a glosa com relação aos combustíveis e lubrificantes. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3102-003.088, de 13 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 11060.900182/2015-17, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 112DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Wilson Antonio de Souza Correa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou improcedente Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de COFINS. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, em síntese abaixo, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITO. INSUMOS. CONCEITO. BENS E SERVIÇOS. São considerados insumos geradores de créditos das contribuições do PIS/Pasep e da Cofins, no sistema da não cumulatividade, os bens e serviços adquiridos e utilizados em qualquer etapa do processo de produção de bens e serviços destinados à venda, como também os gastos utilizados na manutenção de ativos responsáveis pela produção dos bens e serviços finais. COMBUSTÍVEIS E LUBRIFICANTES UTILIZADOS PARA O TRANSPORTE DE PRODUTOS ACABADOS. Os gastos com combustível e lubrificantes utilizados em caminhões para o transporte dos produtos vendidos (produto final), não podem ser considerados como insumos geradores de créditos do PIS e da Cofins, por não integrarem quaisquer das etapas de produção de bens destinados à venda. MANUTENÇÃO DE BENFEITORIAS. MANUTENÇÃO DA FROTA. Os gastos com manutenção de veículos (carretas) e de instalações e benfeitorias (silos) não podem ser considerados como insumos geradores de créditos do PIS e da Cofins, por não se constituírem em bens utilizados no processo produtivo da empresa, não integrando quaisquer das etapas de produção de bens destinados à venda ou da prestação de serviços. A Recorrente tomou ciência da Decisão de Primeira Instância e apresentou Recurso Voluntário, alegando o seguinte: I. O conceito de insumo deve ser apreciado sob a ótica dos critérios de essencialidade e relevância, e que o ramo de atividade da Recorrente exige o Fl. 113DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 3 transporte de grãos por seus caminhões como parte integrante do processo produtivo. II. O inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/2002, prevê expressamente a possibilidade de apropriação de créditos referentes a combustíveis e lubrificantes como insumos. III. A Recorrente utiliza transporte próprio para movimentar os produtos destinados à venda. IV. É devida a apropriação de créditos decorrentes de atividades que resultarão na exportação de produtos pela aplicação do art. 17, da Lei nº11.033/2004. Por fim, apresenta o seguinte pedido: Por tais razões, REQUER se digne Vossa Senhoria dar provimento ao presente Recurso Voluntário para, em reformando a decisão em questão, reconhecer os créditos de PIS e COFINS decorrentes de custos com lubrificantes, combustíveis e manutenção de frota. ANTE TODO O EXPOSTO a Empresa requer se dignem Vossas Senhorias receberem e proverem o presente Recurso Voluntário para, reformando o Acórdão recorrido, reconhecer a validade dos créditos da COFINS apurados pela Empresa a título de combustíveis, lubrificantes e manutenção de silos e, por conseguinte, homologar as compensações efetuadas pela recorrente. Nesses Termos, Pede e espera deferimento. Este é o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: O Recurso Voluntário é tempestivo e reveste-se dos demais requisitos de admissibilidade, de forma que dele tomo conhecimento. Da matéria não impugnada Nas glosas realizadas pela Administração Tributária e que deram origem ao contencioso controlado por este processo, constam gastos com os valores de despesas de conservação de silos, que são citados apenas superficialmente na descrição dos fatos no Recurso Voluntário sem, contudo, tecer qualquer consideração sobre estes gastos e sua elegibilidade para serem considerados Fl. 114DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 4 como créditos válidos a serem reconhecidos na apuração não cumulativa de PIS/COFINS. Desta forma, considero que não houve recurso referente a estas glosas por ferir o Princípio da Dialeticidade por não ter apresentado os fundamentos de sua contestação ou os motivos que fundamentem especificamente seu pedido em relação a estes itens. Recorro-me de forma complementar ao Código de Processo Civil, Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, em seu art. 932, que transcrevo abaixo: Art. 932. Incumbe ao relator: I - dirigir e ordenar o processo no tribunal, inclusive em relação à produção de prova, bem como, quando for o caso, homologar autocomposição das partes; II - apreciar o pedido de tutela provisória nos recursos e nos processos de competência originária do tribunal; III - não conhecer de recurso inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os fundamentos da decisão recorrida; (...) Sendo assim, considero matéria não impugnada os itens acima listados, contra os quais torna-se definitiva a Decisão de Primeira Instância, nos termos do art. 17, Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. Art. 17. Considerar-se-á não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) Mérito O Despacho Decisório determinou as glosas de créditos pleiteados nos PER, e que deram origem ao presente contencioso, da seguinte forma: 19. Na tabela "créditos passiveis de ressarcimento", discriminados os valores lançados pelo contribuinte nos DACON'S entregues em 31/12/2014 e os valores apurados pelo exame dos arquivos digitais e documentos fiscais apresentados pelo contribuinte, levando em consideração as divergências, discriminamos, ainda, os valores passíveis de ressarcimento. 20. Das divergências encontradas conforme valores na tabela "créditos passíveis de ressarcimento", a com título "Outras operações com direito à crédito", pois, continuaram sendo lançados nos Dacon's, que foram retificados em 31/12/2014, os valores de despesas de conservação de silos e dos caminhões, despesas com combustíveis e lubrificantes, sendo que não existe previsão legal, por isso, excluímos estes valores da base de cálculo dos créditos. No Recurso Voluntário, a Recorrente argumenta que os gastos com combustíveis e lubrificantes são essenciais ou relevantes ao seu processo produtivo e, portanto, precisam ser reconhecidos como insumos, num primeiro momento. Em seguida, sem fazer qualquer separação, entre esta primeira alegação e a próxima, também alega que tratam-se de despesas para operar frota própria de veículos utilizados não no processo produtivo, mas no transporte de produtos Fl. 115DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 5 acabados para a venda, o que impede uma clara definição de se todos os gastos ou apenas parte deles são específicos ao processo produtivo, ou se há parte deles que possam ser atribuídos a produtos em elaboração. Na verdade, mais adiante no Recurso Voluntário afirma claramente que trata de fretes ou despesas de transporte de produtos acabados, sem especificar se foram efetivamente vendidos ou destinados a outros estabelecimentos da Recorrente, como podemos constatar abaixo: No caso dos autos, a atividade da empresa é o beneficiamento e comercialização de grãos e outros bens, sendo imprescindível a utilização de transporte das mercadorias (seja próprio ou terceirizado). Assim, quando realizado o transporte dos produtos em seus caminhões, incorre em custos com combustíveis, lubrificantes, além da manutenção de sua frota que, nos termos da decisão do STJ, devem ser considerados para fins de créditos do PIS e da COFINS. Portanto, à luz do precedente em RECURSO REPETITIVO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, deve a questão dos autos ser enfrentada, afastando a omissão apontada como existente, que certamente levará ao provimento do recurso também neste tópico. (...) Nota-se, portanto, que as legislações instituidoras da não-cumulatividade do PIS/COFINS foram claras no sentido de assegurar o direito da empresa em apurar créditos das despesas incorridas com combustíveis, lubrificantes e manutenção de frota, sem as limitações apresentadas na decisão. Como bem reconhecido em decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça (REsp 1.235.979/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, Rel. p/ Acórdão Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 16/12/2014, DJe 19/12/2014), tratando dos créditos de PIS e COFINS combustíveis, conclui que “Em outras palavras, caracterizada a prestação de serviços de transporte, ainda que associada à venda de suas próprias mercadorias, há de ser reconhecido o direito ao creditamento pelo valor pago na aquisição das peças, combustíveis e lubrificantes necessários a esse serviço, posto que insumos. ...” No mesmo sentido são as decisões exaradas, nas esferas administrativa e judicial, como se observa pelas ementas abaixo transcritas: (...) Reitera-se o fato relevante para a solução da presente controvérsia que deve ser considerado, qual seja, que a empresa LUIZ MINOZZO realiza o seu próprio transporte quando da venda dos produtos, caracterizando a hipótese de frete próprio que, por óbvio, integra a cadeia de produção/comercialização. O contrato social e os documentos trazidos aos autos comprovam que entre as atividades da empresa está o transporte de mercadorias, portanto, combustíveis e lubrificantes são sim insumos na prestação de suas atividades. Neste sentido, destaca-se a previsão expressa da Lei 10.833, que em seu artigo 3º, inciso IX, assegura o direito de desconto do crédito em relação a, entre outros, despesas de frete, conforme segue: LEI 10.833 - “(...) Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) IX - armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor.” Com efeito, a aquisição de combustíveis realizada pela empresa LUIZ MINOZZO configura hipótese de despesa na venda de produto já produzido, portanto, parte do ciclo direto de comercialização que segue a produção. São despesas que se não se identificam com o processo de transformação ou produção dos bens e produtos, estão relacionadas aos valores gastos com a Fl. 116DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 6 estrutura comercial da empresa, sendo, portanto, aplicado o inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833. Conclui-se, portanto, considerando as peculiaridades da atividade social da LUIZ MINOZZO, aliadas à característica própria do transporte das mercadorias por ela vendidas, que ou a despesa com combustíveis utilizados no transporte (frete) das vendas é também um componente do tipo "insumo" previsto no artigo 3º, inciso II, da Lei nº 10.833, ou, então constitui-se em despesa de vendas, pois a operação é realizada com esse propósito e o ônus é suportado pelo vendedor, permitindo, então, o direito ao creditamento de tal despesa com o frete conforme previsão no inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833. Por fim, trazemos outro precedente do CARF que corrobora com o entendimento aqui sustentado: (...) Com efeito, a aquisição de combustíveis realizada pela empresa LUIZ MINOZZO configura hipótese de despesa na venda de produto já produzido, portanto, parte do ciclo direto de comercialização que segue a produção. São despesas que se não se identificam com o processo de transformação ou produção dos bens e produtos, estão relacionadas aos valores gastos com a estrutura comercial da empresa, sendo, portanto, aplicado o inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833. Conclui-se, portanto, considerando as peculiaridades da atividade social da LUIZ MINOZZO, aliadas à característica própria do transporte das mercadorias por ela vendidas, que ou a despesa com combustíveis utilizados no transporte (frete) das vendas é também um componente do tipo "insumo" previsto no artigo 3º, inciso II, da Lei nº 10.833, ou, então constitui-se em despesa de vendas, pois a operação é realizada com esse propósito e o ônus é suportado pelo vendedor, permitindo, então, o direito ao creditamento de tal despesa com o frete conforme previsão no inciso IX do artigo 3º da Lei nº 10.833. Também não há documentos fiscais no processo que demonstrem a natureza destes fretes. O ônus da prova é matéria tratada no artigo 333, da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, o Código de Processo Civil (CPC), revogada pelo novo Código de Processo Civil, Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015, o qual em seu artigo 373, reproduz inteiramente os incisos I e II, da Lei revogada. “Art. 333. O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Parágrafo único. É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando: I - recair sobre direito indisponível da parte; II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.” A questão fundamental para se determinar o ônus da prova é a autoria da proposição da ação. É comum a afirmação de que à parte que acusa cabe a incumbência de provar suas alegações. De fato, é o que ocorre no lançamento tributário, quando a autoridade tributária, quer por notificação de lançamento, quer por auto de infração, figura como autor Fl. 117DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 7 da pretensão de direito e, portanto, precisa incumbir-se do ônus probatório. O Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, é bem claro neste sentido, na medida em que expressa este conceito no seu artigo 9º, como podemos ver reproduzido a seguir: “Art. 9º A exigência de crédito tributário, a retificação de prejuízo fiscal e a aplicação de penalidade isolada serão formalizadas em autos de infração ou notificação de lançamento, distintos para cada imposto, contribuição ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito.” O mesmo encontramos no Decreto nº 7.574, de 29 de dezembro de 2011, que regula a determinação e exigência de créditos tributários da União, nos seus artigos 25 e 26. “Art. 25. Os autos de infração ou as notificações de lançamento deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito ( Decreto nº 70.235, de 1972, art. 9º , com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, art. 25). Art. 26. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do sujeito passivo dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais ( Decreto-Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, art. 9º , § 1º ) Parágrafo único. Cabe à autoridade fiscal a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância do disposto no caput ( Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º , § 2º )” Vemos ainda que a escrituração regular faz prova a favor do sujeito passivo, desde que os fatos nela registrados sejam comprovados por documentos hábeis, conforme o caput do artigo 26, acima, e novamente a responsabilidade de provar cabe ao autor da ação, conforme previsto no seu parágrafo único, neste caso a autoridade fiscal, quando assim se configurar. A Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, que trata do Processo Administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, e é de aplicação subsidiária ao Processo Administrativo Fiscal, reproduz o mesmo conceito, como podemos notar pela reprodução dos seus artigos 36 e 37, a seguir: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 37. Quando o interessado declarar que fatos e dados estão registrados em documentos existentes na própria Administração responsável pelo processo ou em outro órgão administrativo, o órgão competente para a instrução proverá, de ofício, à obtenção dos documentos ou das respectivas cópias. No entanto, no caso em questão não se trata de fato constitutivo do direito da Fazenda Pública, mas sim da Recorrente, que pleiteia o ressarcimento de créditos Fl. 118DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D70235cons.htm#art9.. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art9%C2%A71 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art9%C2%A71 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art9%C2%A72 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del1598.htm#art9%C2%A72 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.100 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 11060.902383/2019-82 8 de COFINS aos quais teria direito, neste caso, ela própria figurando como autora e, portanto, suportando o ônus da prova. É necessário também ressaltar que, no que diz respeito a prova a favor do contribuinte, em razão da manutenção de contabilidade regular, seus registros precisam estar de acordo com os documentos fiscais comprobatórios, o que vale dizer que cabe a autoridade tributária verificar se os registros escriturais refletem adequadamente notas fiscais e outros documentos ficais, especialmente em relação aos seus montantes, aspectos formais e natureza das operações a que se refiram. A interpretação possível neste caso, dada a ausência de fundamentação sobre como os caminhões ou as despesas com transporte contribuem para o processo produtivo dos bens que serão negociados pela Recorrente, é que se não se pode afirmar nem que as despesas com veículos são insumos ou fretes de vendas, pois não há provas que sustentem esta afirmação. Com relação à manutenção de créditos das contribuições relativos a gastos relacionados com receitas não tributadas, nos termos do art. 17, da Lei nº 11.033/2004, cabe esclarecer que as glosas não decorreram da Autoridade Tributária ter alegado qualquer impossibilidade de manutenção destes créditos, apenas que os gastos glosados não correspondiam aos critérios da lista exaustiva dos artigos 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Sem razão à Recorrente neste ponto. Voto por conhecer o Recurso Voluntário e negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de conhecer e negar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Redator Fl. 119DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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Numero do processo: 13855.900442/2018-86
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 03 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/2016 a 30/09/2016
EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. LEITE. CAIXAS COLETIVAS. CRÉDITO. POSSIBILIDADE.
As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR.
GASTOS POSTERIORES À FINALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO. ACONDICIONAMENTO FÁBRICA. MANUTENÇÃO DE EXPEDIÇÃO. MANUTENÇÃO DE EMPILHADEIRA. CRÉDITO. POSSIBILIDADE.
São considerados insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep os serviços adquiridos e utilizados no setor de expedição, acondicionamento de fábrica e na manutenção de empilhadeira da pessoa jurídica, em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço.
FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS SUJEITOS A CRÉDITO PRESUMIDO. REGISTRO AUTÔNOMO. CRÉDITO BÁSICO. POSSIBILIDADE.
Os fretes de aquisição de insumos que tenham sido registrados de forma autônoma em relação ao bem adquirido, e submetidos a tributação podem gerar créditos básicos da não cumulatividade, na mesma proporção do patamar tributado. No caso de crédito presumido, sendo o frete de aquisição registrado em conjunto com os insumos adquiridos, receberá o mesmo tratamento destes. No entanto, havendo registro autônomo e diferenciado, e tendo a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui insumo, e, portanto, permite a tomada de crédito.
RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA APLICAÇÃO DA SELIC. POSSIBILIDADE. TERMO INICIAL DOS CRÉDITOS O 361º DIA APÓS A DATA DE PROTOCOLO DO PEDIDO DE RESSARCIMENTO.
Conforme decidido no julgamento do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, tendo como termo inicial da atualização monetária dos créditos 361º dia após a data de protocolo do pedido administrativo de ressarcimento.
Numero da decisão: 3302-015.346
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.342, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13855.906002/2016-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Sergio Roberto Pereira Araujo(substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES
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LEITE. CAIXAS COLETIVAS. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. GASTOS POSTERIORES À FINALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO. ACONDICIONAMENTO FÁBRICA. MANUTENÇÃO DE EXPEDIÇÃO. MANUTENÇÃO DE EMPILHADEIRA. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. São considerados insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep os serviços adquiridos e utilizados no setor de expedição, acondicionamento de fábrica e na manutenção de empilhadeira da pessoa jurídica, em qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS SUJEITOS A CRÉDITO PRESUMIDO. REGISTRO AUTÔNOMO. CRÉDITO BÁSICO. POSSIBILIDADE. Os fretes de aquisição de insumos que tenham sido registrados de forma autônoma em relação ao bem adquirido, e submetidos a tributação podem gerar créditos básicos da não cumulatividade, na mesma proporção do patamar tributado. No caso de crédito presumido, sendo o frete de aquisição registrado em conjunto com os insumos adquiridos, receberá o mesmo tratamento destes. No entanto, havendo registro autônomo e diferenciado, e tendo a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito Fl. 168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 2 básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui insumo, e, portanto, permite a tomada de crédito. RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA APLICAÇÃO DA SELIC. POSSIBILIDADE. TERMO INICIAL DOS CRÉDITOS O 361º DIA APÓS A DATA DE PROTOCOLO DO PEDIDO DE RESSARCIMENTO. Conforme decidido no julgamento do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, tendo como termo inicial da atualização monetária dos créditos 361º dia após a data de protocolo do pedido administrativo de ressarcimento. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.342, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13855.906002/2016-71, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Sergio Roberto Pereira Araujo(substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento/Compensação apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de Contribuição para o PIS/Pasep. Fl. 169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 3 Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Em síntese, na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2016 a 30/09/2016 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. No regime da não cumulatividade, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam essenciais ou relevantes para a produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. CRÉDITOS. INSUMOS. SERVIÇOS COM MANUTENÇÃO. São considerados insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep os bens e serviços adquiridos e utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço. CRÉDITOS. INSUMOS. GASTOS POSTERIORES À FINALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO. Os gastos posteriores à finalização do processo de produção não são considerados insumos para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep apurada no regime não cumulativo. CRÉDITOS. INSUMOS. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. As embalagens utilizadas para viabilizar o transporte de mercadorias não são consideradas insumos, não dando, pois, direito a desconto de crédito na apuração da Contribuição para o PIS/Pasep no regime da não cumulatividade. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. FRETES SOBRE COMPRAS. O valor do frete pago na aquisição de mercadorias, quando contratado de pessoa jurídica e suportado pelo adquirente dos bens, pode gerar créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, uma vez que ele integra o custo de aquisição. Se os bens adquiridos gerarem o direito ao crédito presumido, os dispêndios com os respectivos fretes somente podem gerar o mesmo tipo de crédito. CRÉDITO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. VEDAÇÃO LEGAL. Por expressa disposição legal, não incide atualização monetária sobre créditos da Contribuição para o PIS/Pasep objeto de ressarcimento. Tomando ciência da decisão, a Recorrente apresentou Recurso Voluntário, reiterando os argumentos apresentados na Impugnação. É o relatório. Fl. 170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 4 VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos, dele tomo conhecimento. RAZÕES DE MÉRITO: DAS GLOSAS DE COM GASTOS POSTERIORES A FINALIZAÇÃO DO PROCESSO PRODUTIVO - MANUTENÇÃO DE EMPILHADEIRAS, ACONDICIONAMENTO DE FÁBRICA E MANUTENÇÃO EXPEDIÇÃO. A) MANUTENÇÃO DE EMPILHADEIRA; ACONDICIONAMENTO FÁBRICA E MANUTENÇÃO DE EXPEDIÇÃO A Recorrente defendeu que a utilização de gastos com manutenção de empilhadeira, acondicionamento de fábrica e manutenção de expedição são justificados, apesar de ocorrerem depois da produção, do envaze e encaixotamento, não são dissociados do processo produtivo, ao contrário, são vinculados à atividade, essenciais e relevantes, estando intrinsecamente relacionados a atividade e objeto social. O Acórdão da DRJ05 manteve glosas sobre os itens sob o seguinte argumento (fls. 141): Resta claro que as despesas aqui tratadas (44641.5 – Manutenção Expedição, 42804.8 – Acondicionamento Fábrica e 42608.8 – Manutenção Empilhadeira) são posteriores à finalização do processo de produção do leite e dos seus derivados, não se enquadrando no conceito de insumo essencial e relevante para a industrialização dos produtos. Mantêm-se a glosas efetuadas no Despacho Decisório. Passo a análise. Como se contata nos autos, a Recorrente é empresa dedicada à fabricação de laticínios, principalmente leite, conforme se depreende do seu Contrato Social. Constou do Acórdão da DRJ05 (fls. 140), a logística de utilização de tais dispêndios: Diversos Expedição (426.209) Após o envase dos produtos, estes são acondicionados em pallets (dimensão de 1,00 x 1,20 m) para serem transportados internamente e armazenados por empilhadeiras até os Drive in do armazém de estocagem de produtos acabados, que permanecerão até que sejam expedidos. No momento da expedição, as Fl. 171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 5 empilhadeiras movimentam os pallets com produtos até o setor de expedição, para serem vistoriados e envolvidos em filmes plásticos, formando assim, as unidades de transporte e que, também, servirão para movimentação e armazenamento nos clientes. Em vários casos, os pallets não são retornados à fábrica, ou quando existe seu retorno, estes se encontram muitas vezes danificados. Acondicionamento Fábrica (428.048) É o setor que compreende todas as esteiras que conduzem o produto em unidades até os acumuladores. Após a saída dos acumuladores, o produto, ainda em unidade, é conduzido até a cardboard onde é feita a junção de 12 unidades, formando as caixas coletivas, e as esteiras continuam a conduzir o leite, agora na forma de caixa coletiva, até a máquina envolvedora de filme termo encolhível. Esta máquina (Shrink) envolve a caixa coletiva com filme termo encolhível, aplica calor para contrair o filme e conformálo na caixa coletiva, que após esta aplicação é recolhida (manualmente) por um funcionário que empilha as caixas por camadas no pallet e, por fim, disponibiliza para ser armazenada nos drive in no setor de armazenamento de produto acabado. O setor de acondicionamento é de fundamental importância para a produção de produtos longa vida, uma vez que, após o envase unitário, o produto tem que ser juntado em caixas e posteriormente em pallets para ser armazenado em estruturas metálicas elevadas, viabilizando assim a armazenagem de 7 pallets/ m2. A constante manutenção das esteiras, paleteiros elétricos e manuais, acumuladores, máquinas plastificadoras e envolvedoras de caixas coletivas se deve ao fato de que esse setor é o final da linha de envase e sua eventual paralização tem impacto direto em toda a cadeia produtiva de produtos longa vida. Devido a alta velocidade de produção, caso a linha paralize, todo o processo paraliza, da esterilização ao armazenamento de produto acabado. (Grifos no original) Observa-se que houve o reconhecimento da essencialidade das fases relatadas, a ponto de se entender que, sendo o final da linha de envase, sua eventual paralização tem impacto direto em toda a cadeia produtiva da Recorrente, tratando-se da fabricação de laticínios, principalmente leite, produto que possui estreita vinculação com os normativos de fiscalização de saúde pública, pelo seu alto consumo e o aspecto da manutenção de sua qualidade. Do mesmo modo, o manuseio dos produtos em empilhadeiras, descrito pela fiscalização (Diversos Expedição - 426.209), destina-se ao transporte interno e armazenamento do produto no curso de sua produção que, após o envase são transportados internamente e armazenados por empilhadeiras até o armazém de estocagem. Novamente são movimentados até o setor de expedição para sofrerem vistorias e serem envolvidos em filmes plásticos. O art. 176 da Instrução Normativa RFB nº 2121, DE 15.12.2022, estabeleceu que se consideram insumos os bens ou serviços essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços, e que tenham sua utilização decorrente de imposição legal, e mesmo após a finalização do processo de produção, como é o caso sob análise Art. 176 - § 1º Consideram-se insumos, inclusive: Fl. 172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 6 I - Bens ou serviços necessários à elaboração de insumo em qualquer etapa anterior de produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros (insumo do insumo); II - Bens ou serviços que, mesmo utilizados após a finalização do processo de produção, de fabricação ou de prestação de serviços, tenham sua utilização decorrente de imposição legal; (Grifei). A Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção deste Conselho julgou pela possibilidade de crédito quanto aos serviços de expedição: NÃO-CUMULATIVIDADE. INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. RESP 1.221.170-PR. (...) NÃO-CUMULATIVIDADE. TERCEIRIZAÇÃO. SERVIÇO DE EXPEDIÇÃO. TRANSPORTE INTERNO PARA CONFERÊNCIA DO PRODUTO ACABADO E POSTERIOR CARREGAMENTO PARA VENDA. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. No tocante à Expedição, por estar relacionada ao transporte interno para conferência do produto acabado e carregamento para venda posterior, a autorização da tomada de crédito se dá com fundamento no art. 3º, IX c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833/2003. Recurso Voluntário Provido. (Decisão: 3301-010.086, 1ª TO da 4ª. C da 2ª Seção, data da publicação 15.06.2021, Relatora Semíramis de Oliveira Duro). (Grifei). Quanto ao custo “Acondicionamento Fábrica (428.048)”, o Acórdão da DRJ05 fez referência que compreende todas as esteiras que conduzem o produto em unidades até os acumuladores. Após a saída dos acumuladores, o produto, ainda em unidade, é conduzido até a cardboard onde é feita a junção de 12 unidades, formando as caixas coletivas, e as esteiras continuam a conduzir o leite, agora na forma de caixa coletiva, até a máquina envolvedora de filme termo encolhível. De fato, são operações que sucedem a fabricação do produto, conduto, proceidmentos que Neste sentido, a Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF decidiu que custos/despesas incorridos com pallets, papelão e filmes strech para proteção e transporte dos produtos alimentícios, cumpridos os demais requisitos, permite direito ao crédito das contribuições: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 CRÉDITOS. GASTOS COM PALLETS, PAPELÃO E FILMES STRECH PARA PROTEÇÃO E TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas incorridos com pallets, papelão e filmes strech para proteção e transporte dos produtos alimentícios, quando necessários à manutenção da integridade e natureza desses produtos, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, em sede de recurso repetitivo, aplicado no âmbito do CARF por força do disposto no 99 do Regimento Interno fixado pela Portaria n.º 1.634/2023. (Decisão 9303-014.896, 3ª. T, 3ª. Seção da CSRF, publicação 09.05.2024, Relator Alexandre Freitas Costa). (Grifei). Fl. 173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 7 Por fim, quanto ao item “Manutenção de Expedição”, o Acórdão evidenciou que a constante manutenção das esteiras, paleteiros elétricos e manuais, acumuladores, máquinas plastificadoras e envolvedoras de caixas coletivas se deve ao fato de que esse setor é o final da linha de envase e sua eventual paralização tem impacto direto em toda a cadeia produtiva de produtos longa vida. A alta velocidade de produção seria diretamente impactada caso ocorra qualquer paralização em face de falta de manutenção, afetando o processo produtivo como um todo. Deste modo, entendo que cabe razão à Recorrente, considerando que os processos de “manutenção de empilhadeira”, “acondicionamento fábrica” e “manutenção de expedição”, são inerentes ao processo produtivo do setor a que se dedica, viabilizam o funcionamento ordinário dos ativos produtivos, pois sua falta implica substancial perda de qualidade do produto ou serviço disponibilizado, se enquadrando no conceito de insumo essencial e relevante para a industrialização dos seus produtos. Voto pelo provimento do Recurso neste ponto, para reverter a glosa descrita. DAS GLOSAS DE MATERIAIS DE EMBALAGENS – CAIXAS COLETIVAS Conforme consta dos autos, a principal atividade da interessada é a exploração da indústria e comércio de leite e derivados (creme de leite, queijo mussarela, queijo parmesão, manteiga, bebida láctea achocolatada). É pessoa jurídica que exerce atividade agropecuária, e se dedica a produtos destinados à alimentação humana classificados no capítulo 4, da NCM. Diz a Recorrente que a embalagem é utilizada para acondicionar 12 caixas de leite de 1 litro, e os seus custos foram excluídos da base de créditos sob o argumento de tratar-se de uma embalagem de transporte e não de apresentação. Como afirmando pela Recorrente em seu Recurso Voluntário (fls. 116-117): “(...) 2. Trata-se de uma embalagem de apresentação, pois, diferentemente do que foi dito pelo agente fiscal ela é confeccionada em material resistente, colorido, com impressão de todos os dados e informações do produto. Justamente para poder ser manuseada no ponto de venda como embalagem de apresentação destinada ao consumidor final. O consumidor que adquire estes produtos da Requerente os leva para casa nas exatas condições – de embalagem - em que saíram da fábrica. Esta embalagem de apresentação padrão com 12 unidades do produto agrega valor ao produto, pois, tem designer, cores, informação, quantidade etc. (...) 3. A comercialização do leite longa vida se dá por caixa de 12 unidades, como se verifica pela leitura dos documentos fiscais já analisados pelo agente julgador. A comercialização do produto leite não se dá em unidades de 1 litro, mas sim em unidades de caixas contendo 12 litros. Desta forma, a embalagem é do produto e não simplesmente para transporte. Consta no processo cópia de Nota Fiscal que comprova a operação. Fl. 174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 8 4. A caixa longa vida não pode ser amassada ou molhada, tampouco perfurada, pois, qualquer amassamento ou umidade causará a deterioração do produto com perda total, que conforme já especificamos acima é leite. Sem a utilização das caixas coletivas, a indústria teria que realizar grande quantidade de trocas do produto leite longa vida, bem como teria um alto volume de perdas por deterioração, o que tornaria inviável a sua produção e comercialização. Ora, é sabido mesmo para quem é leigo no assunto que um produto tão perecível como é o leite exige cuidados específicos no seu acondicionamento para que permaneçam garantidas as propriedades para consumo humano. Acondicionar adequadamente o produto é uma das etapas do processo produtivo. (Grifei). Alegou que, por se constituir em um produto altamente perecível, de imediato já comprova a relevância e essencialidade das embalagens, e que tais características são ratificadas pela garantia de qualidade e conversação que agregam ao produto. A DRJ05 registrou que o processo industrial da interessada se constitui de tratamentos térmicos (aquecimento e resfriamento) do leite e acondicionamento para consumo, executados em sua matriz, em Patrocínio Paulista. O Acórdão da DRJ tratou o material de embalagem para apresentação – caixa coletiva, a partir do relato do auditor fiscal, segregando o produto: a) O produto de maior volume de vendas do contribuinte é o leite, vendido em embalagem de 1 litro. Esta sim é considerada embalagem de apresentação e com direito a crédito de Pis e COFINS. b) Já as embalagens do tipo “Caixa Coletiva” são destinadas a facilitar o transporte, não contém todas as informações do produto, não valorizam o produto, são feitas em material de qualidade inferior ao da embalagem de 1 litro, não são comumente vendidos (no varejo) em embalagem coletiva e o seu acondicionamento na etapa de expedição (o produto já está fabricado e embalado). c) Que a legislação faz distinção entre as embalagens incorporadas ao produto durante o processo de industrialização e aquelas que se destinam tão somente ao transporte dos produtos acabados. Passo à análise. O Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17.12.2018, ao evidenciar as repercussões oriundas do julgamento do Recurso Especial 1.221.170/PR, pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, afirmou: a) “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; Fl. 175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 9 b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja” b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Ao tratar de bens e serviços utilizados por imposição legal, o Parecer COSIT nº 05/2018 destacou a atividade de preparação de alimentos, em que a interpretação para fins de cálculo de crédito das Contribuições deve-se a uma visão conglobante do sistema normativo: 35. Como exemplo de atividades que promovem a reunião de insumos para produção de um bem novo que não são consideradas industrialização, mas que podem ser consideradas produção de bens para fins de apuração de créditos das contribuições com base no dispositivo em tela, citam-se as hipóteses de preparação de produtos alimentares não acondicionados em embalagem de apresentação mencionadas no inciso I do caput do art. 5º do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (Regulamento do IPI). (...) 49. Conforme relatado, os Ministros incluíram no conceito de insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, em razão de sua relevância, os itens “cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção (...) por imposição legal”. (...) 51. Daí se constata que a inclusão dos itens exigidos da pessoa jurídica pela legislação no conceito de insumos deveu-se mais a uma visão conglobante do sistema normativo do que à verificação de essencialidade ou pertinência de tais itens ao processo de produção de bens ou de prestação de serviços por ela protagonizado. Aliás, consoante exposto pelo Ministro Mauro Campbell Marques em seu segundo aditamento ao voto (que justamente modificou seu voto original para incluir no conceito de insumos os EPIs) e pela Ministra Assusete Magalhães, o critério da relevância (que engloba os bens ou serviços exigidos pela legislação) difere do critério da pertinência e é mais amplo que este. (Grifei). Em relação ao transporte de alimentos industrializados, a regulamentação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA SG Resolução 10/1984, dispõe sobre instruções para conservação nas fases de transporte, comercialização e consumo dos alimentos perecíveis, industrializados ou beneficiados, acondicionados em embalagens, determinou, dentre outras medidas, que os alimentos perecíveis, acondicionados em embalagens para a sua conservação devem oferecer orientação segura para que o alimento não se torne impróprio para o consumo, sob pena de ensejar a abertura de processo de infração sanitária contra a empresa que desatender tais recomendações (itens 1, 2, 3 e 12). Fl. 176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 10 Na mesma linha, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, em Resolução RDC nº 722, de 01/07.2022, tratou dos limites máximos tolerados (LMT) de contaminantes em alimentos (concentração máxima do contaminante legalmente aceita), em todos os setores envolvidos nas etapas de produção, industrialização, armazenamento, transporte e distribuição de alimentos para o consumo humano. Pelos exemplos acima, observa-se que a conservação nas fases de transporte de alimentos, como é o caso do leite, é decorrente de imposição legal. Tanto pelas singularidades de cada cadeia produtiva quanto por imposição legal, para o setor de produção de alimentos, como é o caso da Recorrente, identifica-se na embalagem de acondicionamento o critério da relevância (“é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção”), nos termos dos normativos citados. Neste sentido, embalagem de apresentação ou de transporte, deve compor a base de créditos de PIS/Pasep e de COFINS. Quanto a questão de o insumo ser utilizado após a industrialização do bem, a Instrução Normativa RFB nº 2121, DE 15.12.2022, ao definir os créditos decorrentes da aquisição de insumos, estabeleceu o que segue: Art. 176 - § 1º Consideram-se insumos, inclusive: I - Bens ou serviços necessários à elaboração de insumo em qualquer etapa anterior de produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros (insumo do insumo); II - Bens ou serviços que, mesmo utilizados após a finalização do processo de produção, de fabricação ou de prestação de serviços, tenham sua utilização decorrente de imposição legal; (Grifei). A Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF enfrentou o tema. veja-se: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2007 a 30/09/2007 CONCEITO DE INSUMOS NA SISTEMÁTICA NÃO-CUMULATIVA. (...) EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. (3ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Decisão 9303- 011.355, de 30.10.2021, Processo 10925.901881/2011-71, Relator Jorge Olmiro Lock Freire). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007 CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO DE CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. EMBALAGENS PARA TRANSPORTE. Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/18, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo - qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser diretamente ou indiretamente empregados e cuja Fl. 177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 11 subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Nessa linha, deve-se reconhecer o direito ao crédito das contribuições sobre as despesas com embalagens para transporte. (3ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Decisão 9303-012.948, de 11.05.2022, Relatora Tatiana Midori Migiyama). (Grifei). Com razão a Recorrente. Não me parece razoável, data vênia, considerar que embalagens que acondicionam alimentos, não cumprem elemento estrutural e inseparável do processo produtivo, sendo a sua falta, efetiva privação da qualidade do produto. Voto pelo provimento do Recurso neste ponto, para reverter a glosa descrita. DOS SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS (FRETES DE LEITE IN NATURA) A Recorrente argumentou que o frete é um insumo/serviço necessário e imprescindível para a realização da atividade industrial a que se propõem a Recorrente. Que é contratado única e exclusivamente para transportar os produtos que são industrializados, ou seja, representa um serviço utilizado para que a industrialização dos produtos possa ocorrer. Afirmou que adquire mercadorias/insumos para industrialização, sendo o serviço de frete nas compras é imprescindível para obtenção do produto. Que se trata de uma operação comercial totalmente independente da compra do insumo, tem fornecedores distintos e documentos fiscais (NFs) distintos de forma que o pagamento deste serviço é um custo diretamente vinculado a produção da Recorrente, custo que sofre incidência do PIS e da COFINS. A decisão recorrida (DRJ05) decidiu que a despesa com frete na aquisição de bens não gera crédito do PIS/Pasep e COFINS por si só, mas sim porque integra o custo da mercadoria revendida e o da matéria prima utilizada. Neste caso, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre a despesa com frete na aquisição está relacionada à possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens adquiridos. Tomando por base a Solução de Consulta COSIT nº 214/2019, a DRJ05 decidiu que o frete advém de aquisições de leite in natura (insumo), que compõem a base do crédito presumido. A natureza do crédito relativo ao frete pago segue a mesma natureza do crédito proveniente da aquisição do bem transportado: se os bens adquiridos geraram o direito ao crédito presumido, os dispêndios com os respectivos fretes somente podem gerar o mesmo tipo de crédito. Vejamos em detalhes. Fl. 178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 12 O frete pago na aquisição de matéria prima, nos termos da legislação vigente, permite o direito ao crédito das Contribuições. Veja-se o art. 171 da Instrução Normativa nº 2.121/2022, que reproduz o teor da Lei: Art. 171. Para efeito de cálculo dos créditos de que trata esta Seção, integram o valor de aquisição: (...) II - o valor do seguro e do frete relativos ao produto adquirido, quando suportados pelo comprador. (...) Não há qualquer restrição ou vinculação com o crédito do produto adquirido, de modo a vincular o crédito do frete com o crédito do produto transportado. Trata- se de operação independente, exigindo-se apenas que o custo seja suportado pelo comprador. Sabe-se que o frete integra o custo dos bens (destinados à revenda ou utilizados como insumo de produção), o custo de aquisição dos bens (mercadorias ou insumos), gera direito ao desconto de crédito, desde que contratado de pessoa jurídica e cujo ônus tenha sido suportado pelo adquirente. A Câmara Superior de Recursos Fiscais deste Conselho enfrentou o tema, de modo didático estabeleceu os critérios de identificação de cada tipo de frete. Assim o frete relacionado a produto sujeito a crédito presumido, havendo registro autônomo diferenciado, dará direito ao crédito básico. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2005 NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO OU SUSPENSÃO. POSSIBILIDADE. CONDIÇÕES. Os fretes de aquisição de insumos que tenham sido registrados de forma autônoma em relação ao bem adquirido, e submetidos a tributação (portanto, fretes que não tenham sido tributados à alíquota zero, suspensão, isenção ou submetidos a outra forma de não-oneração pelas contribuições) podem gerar créditos básicos da não cumulatividade, na mesma proporção do patamar tributado. No caso de crédito presumido, sendo o frete de aquisição registrado em conjunto com os insumos adquiridos, receberá o mesmo tratamento destes. No entanto, havendo registro autônomo e diferenciado, e tendo a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui insumo, e, portanto, permite a tomada de crédito (salvo nas hipóteses de vedação legal, como a referida no inciso II do § 2º do art. 3º da Lei 10.833/2003). (Decisão 9303-014.893, Relatora Liziane Angelotti Meira, 3ª. Turma, 3ª. Seção da Câmara Superior de Recursos Fiscais, publicação 06.05.2024). O frete é categorizado como operação autônoma em relação aos produtos que transporta. Tratando-se de operação autônoma, devidamente tributada e que compõe o custo de aquisição da mercadoria para revenda, sobre ela deve-se calcular o crédito das Contribuições. Com razão a Recorrente. Fl. 179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 13 Voto por dar provimento a este ponto. DO DIREITO À ATUALIZAÇÃO DOS CRÉDITOS PLEITEADOS À TAXA SELIC A Recorrente destacou que a correção monetária não representa plus mas mera preservação do poder aquisitivo da moeda. A sua não incidência a partir do 361º dia após o protocolo do pedido de ressarcimento, em relação a cada crédito gerado, representa deferimento parcial do direito e do crédito, posto que parcelas significativas seriam simplesmente suprimidas. Apontou o julgamento do Recurso Especial nº 1.767.945 - PR (2018/0243465-0), consoante decisão de afetação ao rito dos repetitivos. De fato, o Recurso Especial nº 1.767.945/PR, julgado pela Primeira Seção do STJ em 12.02.2020, com relatoria do Ministro Sérgio Kukina, teve submetida a seguinte questão: “Definição do termo inicial da incidência de correção monetária no ressarcimento de créditos tributários escriturais: a data do protocolo do requerimento administrativo do contribuinte ou o dia seguinte ao escoamento do prazo de 360 dias previsto no art. 24 da Lei n. 11.457/2007”. Foi firmada a seguinte tese: TESE FIRMADA: "O termo inicial da correção monetária de ressarcimento de crédito escritural excedente de tributo sujeito ao regime não cumulativo ocorre somente após escoado o prazo de 360 dias para a análise do pedido administrativo pelo Fisco (art. 24 da Lei n. 11.457/2007)". A Câmara Superior de Recursos Fiscais analisou o tema em decisão nº 9303- 014.843, acatando a aplicação da correção monetária pela SELIC em conformidade com o RESP 1.767.945/PR, fixando como termo inicial da atualização monetária dos créditos o 361º dia após a data de protocolo do pedido de ressarcimento: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL (COFINS) Período de apuração: 01/07/2004 a 30/09/2004 COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. RESSARCIMENTO. CORREÇÃO MONETÁRIA APLICAÇÃO DA SELIC. POSSIBILIDADE. Conforme decidido no julgamento do REsp 1.767.945/PR, realizado sob o rito dos recursos repetitivos, é devida a correção monetária no ressarcimento de crédito escritural da não cumulatividade acumulado ao final do trimestre, após escoado o prazo de 360 dias para a análise do correspondente pedido administrativo pelo Fisco. (Decisão 9303-014.843, Relator Alexandre Freitas Costa, 3ª. Turma, CSRF, 3ª. Seção, Data publicação 22.05.2024). Grifei. Com razão a Recorrente, a decisão deve ser reformada para o cálculo da correção monetária com base na SELIC, fixando como termo inicial da atualização monetária dos créditos o 361º dia após a data de protocolo do pedido de ressarcimento. Fl. 180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.346 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.900442/2018-86 14 Voto por dar provimento a este ponto. Voto em dar provimento ao Recurso Voluntário. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Fl. 181DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13005.720209/2014-07
Turma: Segunda Turma Ordinária da Primeira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Feb 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO.
Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica.
REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE.
A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico.
Numero da decisão: 3102-003.223
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento.
Sala de Sessões, em 11 de dezembro de 2025.
Assinado Digitalmente
Jorge Luís Cabral – Relator
Assinado Digitalmente
Pedro Sousa Bispo – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
Nome do relator: JORGE LUIS CABRAL
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO. Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE. A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Sala de Sessões, em 11 de dezembro de 2025. Assinado Digitalmente Jorge Luís Cabral – Relator Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente).
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TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO. Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE. A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Sala de Sessões, em 11 de dezembro de 2025. Assinado Digitalmente Jorge Luís Cabral – Relator Fl. 133DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 2 Assinado Digitalmente Pedro Sousa Bispo – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Jorge Luís Cabral, Joana Maria de Oliveira Guimaraes, Wilson Antonio de Souza Correa, Fabio Kirzner Ejchel, Sabrina Coutinho Barbosa, Pedro Sousa Bispo (Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Recurso Voluntário interposto contra o Acórdão nº 109-002.619, proferido pela 13ª Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento 09/DRJ09, que por unanimidade de votos julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade. Por bem retratar os fatos, reproduzo o relatório do voto da Primeira Instância. Trata o presente processo de manifestação de inconformidade apresentada em contestação ao indeferimento do Pedido de Ressarcimento eletrônico (PER) de n° 28394.81761.31 0709.1.1.10-7179, transmitido em 31/07/2009, por meio do qual a contribuinte solicita ressarcimento de crédito de contribuição para Programa de Integração Social (PIS/Pasep), no valor de R$ 29.149,97, apurado no regime da não cumulatividade, mercado interno, relativo ao 1º trimestre de 2006, e à não homologação da compensação vinculada ao crédito do referido PER. Na apreciação do pleito, a Delegacia da Receita Federal em Santa Cruz do Sul (DRF/SCS), fundamentou o Despacho Decisório 99 - DRF/SCS/SAORT, em 25 de março de 2014, no Parecer DRF/SCS/SAFIS nº 11, de 18 de março de 2014 (folhas 30 a 32), no qual a autoridade fiscal esclarece que os incisos I dos art. 3º das Leis nº 10.833, de 2003, e 10.637, de 2002, vedam o desconto de créditos PIS/Pasep e Cofins na aquisição de bens para revenda, no caso de produtos classificados nas posições 22.01, 22.02, 22.03 (cerveja de malte) e no código 2106.90.10 Ex 02. E, ainda, que não geram direito à apuração de créditos de PIS/Pasep e Cofins as despesas de frete destas o perações – aquisição para revenda – um vez que os valores desses fretes integram o custo de aquisição dos produtos, nos termos do §1º do art. 289 do Regulamento do Imposto de Renda – RIR (Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999). Inconformada, a contribuinte apresenta manifestação de inconformidade, às 56 a 63, na qual expõe suas razões de contestação. A contribuinte afirma ser comerciante dos produtos classificados nos códigos 22.01, 22.02 e 22.03 da Tabela do IPI (Tipi) - água, cerveja e refrigerante, sujeitos à incidência monofásica do PIS/Pasep e da Cofins. Alega que, como é tributada pelo lucro real, aplica-se às receitas auferidas com as vendas desses produtos a incidência não cumulativa, em decorrência da revogação do § 2º do art. 52 e do art. 56 da Lei nº 10.833, de 2003, pelo art. 16, inciso II, alínea "a", da Lei nº 10.925, de 2004. Em razão do sistema monofásico, argumenta que a alíquota do PIS/Pasep e da Cofins, incidente na operação de revenda desses produtos, é zero. Prossegue sua defesa com a alegação de que, com o advento da Lei nº 11.033, de 2004, os revendedores de produtos sujeitos à alíquota zero de PIS/Pasep e de Cofins, passaram a ter direito à manutenção dos créditos, conforme disposto no art. 17. No caso dos produtos em análise, afirma que o dispositivo deve ser aplicado a partir de 1º de novembro de 2004, data em que a receita auferida com sua venda passou a ser tributada pelo sistema não cumulativo. Fl. 134DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 3 Defende a contribuinte que restou totalmente revogada, por via tácita, a alínea "b", d o inciso I do caput do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, e da Lei nº 10.637, de 2002, uma vez que as bebidas classificadas nos citados códigos da Tipi são vendidas com alíquota zero. Logo, alega que o revendedor passa a ter direito ao cálculo e à utilização do respectivo crédito. A contribuinte argumenta, ainda, que a partir do ano de 2005, com a publicação da Lei nº 11.116, de 2005, ao saldo credor existente em virtude do que prevê o art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pode-se atribuir dois destinos: a compensação com outros tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal ou poderá ser feito pedido de ressarcimento em moeda corrente. A manifestante, em sua defesa, cita também a IN SRF nº 594, de 2005, que trata da incidência do PIS/Pasep e da Cofins para determinados produtos sujeitos ao sistema monofásico de incidência dessas contribuições, bem como da utilização dos respectivos créditos. Assim decidiu a Autoridade Julgadora de Primeira Instância: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. AQUISIÇÃO DE BENS PARA REVENDA. CRÉDITO. VEDAÇÃO. Por expressa determinação legal, é vedado ao comerciante atacadista e varejista o direito de descontar ou manter crédito referente às aquisições, no mercado interno, de produtos submetidos à incidência monofásica. REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. ART. 17 DA LEI Nº 11.033/2004. MONOFÁSICO. IMPOSSIBILIDADE. A manutenção dos créditos, prevista no art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, pressupõe a possibilidade de creditamento, que é expressamente vedada na aquisição de bens para revenda sujeitos ao regime monofásico. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 DECISÃO ADMINISTRATIVA. MATÉRIA NÃO CONTESTADA. Consideram-se definitivos os ajustes efetuados na base de cálculo dos créditos a descontar relativamente aos itens que não foram expressamente contestados. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A Recorrente tomou ciência da Decisão de Primeira Instância no dia 30 de dezembro de 2020, e apresentou Recurso Voluntário no dia 27 de janeiro de 2021. Em seu Recurso Voluntário alega o seguinte: I. As aquisições de produtos sujeitos ao regime de apuração monofásico dão direito a crédito no regime não cumulativo por aplicação do art. 17, da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004. II. Não há vedação legislativa à apropriação de créditos decorrentes de aquisição de produtos sujeitos ao regime monofásico. Por fim, apresenta o seguinte pedido: DO PEDIDO 57. Ante o exposto, requer e espera a recorrente que o presente recurso seja julgado procedente, com vistas a reconhecer os créditos apurados sobre os produtos monofásicos, posto que, a partir do art. 17 da Lei nº 10.865/04, permite-se a apuração de créditos de PIS/COFINS sobre aquisições de produtos submetidos à tal incidência, e que seja(m) homologada(s) a(s) compensação(ões) declarada(s), com a consequente extinção do(s) crédito(s) tributário(s) constituído(s). P. Deferimento. Fl. 135DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 4 Este é o relatório. VOTO Conselheiro Jorge Luís Cabral, Relator O Despacho Decisório, através de Parecer juntado aos autos de folhas 30 a 32, assim descreveu as glosas: Intimado a prestar esclarecimentos, o contribuinte informou que tem como objeto social o comércio atacadista de cerveja, chope e refrigerantes, e comércio varejista de bebidas, e que adquire mercadorias da Cia Cervejaria Primo Schincariol S.A., além de custear a energia elétrica. Da análise da planilha apresentada, constata-se que as operações que deram origem a estes créditos referem-se a aquisições, para revenda, de água, refrigerante e cervejas, classificadas nos códigos 22.011000, 22.021000, 22.029000 e 22.030000 da TIPI. Entretanto, os incs. I dos arts. 3 das Leis n. 10.833/2003 e 10.637/2002, e alterações posteriores, vedam o desconto de créditos de PIS/COFINS na aquisição de bens para revenda, no caso de produtos classificados nas posições 22.01, 22.02, 22.03 (cerveja de malte) e no código 2106.90.10 Ex 02. Também não geram direito à apuração de crédito de PIS/COFINS as despesas de fretes destas operações (aquisições para revenda), uma vez que os valores destes fretes integram o custo de aquisição dos produtos, nos termos do parág. primeiro do art. 289 do Regulamento do Imposto de Renda – RIR (Decreto n. 3.000, de 26 de março de 1999). Em razão do exposto, o Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil – AFRFB glosou os valores da rubrica “Créditos a Descontar à Alíquota de 1,65%”, do período fiscalizado. Lembrando que os créditos glosados referem-se ao 1º Trimestre/2006, assim estava redigido o referido dispositivo legal: Art. 2º Para determinação do valor da contribuição para o PIS/Pasep aplicar-se-á, sobre a base de cálculo apurada conforme o disposto no art. 1º, a alíquota de 1,65% (um inteiro e sessenta e cinco centésimos por cento). § 1º Excetua-se do disposto no caput a receita bruta auferida pelos produtores ou importadores, que devem aplicar as alíquotas previstas: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) VIII - no art. 49 da Lei no 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e alterações posteriores, no caso de venda de água, refrigerante, cerveja e preparações compostas classificados nos códigos 22.01, 22.02, 22.03 e 2106.90.10 Ex 02, todos da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.925, de 2004) Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos : (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) nos incisos III e IV do § 3º do art. 1º desta Lei; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) b) no § 1º do art. 2º desta Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) A Recorrente assim argumenta em seu Recurso Voluntário: 42. A autoridade fiscal, portanto, baseia sua fundamentação nas alíneas “b”, dos incs. I, dos arts. 3º das Leis nº 10.637/02 e 10.833/03, que remetem aos §§ 1º e 1º-A do art. 2º das mesmas leis, que Fl. 136DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 5 previam em seu inc. VIII o direcionamento ao art. 58-A da Lei nº 10.833/03, o qual tratava do regime monofásico de tributação das bebidas, até serem revogados pela Lei nº 13.097/15, que instituiu o sistema de tributação das bebidas frias. Vemos que a motivação pela impossibilidade de se apropriar de créditos decorrentes da aquisição de produtos para a revenda, sujeitos à monofasia, não foi levantada pela Autoridade Tributária, mas sim pela recorrente, tendo em vista que a vedação à apropriação de créditos, que foram glosados no Despacho Decisório, é expressa no inciso VIII, do § 1º, do art. 2º, da Lei nº 10.637/2002. De fato, estes produtos estavam sujeitos ao regime monofásico, definido pelo já supracitado dispositivo que embasou a glosa, combinado com o art. 49 e 59-A, da Lei nº 10.833/2003, e ainda que não houvesse uma vedação expressa, entendo que não cabe a apropriação de créditos decorrentes de produtos sujeitos à monofasia. Ocorre que os produtos sujeitos à tributação monofásica não podem gerar créditos de forma alguma, visto que este tipo de tributação é incompatível com o regime de tributação não cumulativo. Esta posição é reproduzida na Solução de Consulta COSIT nº 218, de 06 de agosto de 2014, onde se lê: “21 Nesse sentido, pelo exposto até aqui, deve-se reiterar que o fato de uma pessoa jurídica revendedora estar inserida em uma cadeia cuja incidência das contribuições em apreço se dá sob a forma monofásica não inviabiliza, per si, a apuração de créditos a serem descontados dessas contribuições, com exceção daquele decorrente da aquisição de bens monofásicos. Estando a pessoa jurídica vinculada a não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, em tese, é possível o desconto de alguns créditos. 22 Contudo, em vista do caráter geral com que são colocados os questionamentos da consulente, é prudente alertar que as hipóteses ensejadoras de créditos são aquelas taxativamente elencadas nos incisos dos arts. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, sendo cabível a apuração de crédito tão somente na medida em que as hipóteses discriminadas forem aplicáveis à atividade praticada pela consulente e dentro dos próprios limites estabelecidos pela legislação regente.” Notem que a sentença em negrito do item 21 desta Solução de Consulta é explícita em excluir os créditos decorrentes da aquisição de produtos monofásicos para a apuração de créditos das pessoas jurídicas submetidas ao regime não cumulativo. Esta consulta decorre de dúvida do consulente sobre a possibilidade de utilização de créditos não decorrentes de produtos monofásicos na apuração de débitos decorrentes de sua atividade que é a de varejista de combustíveis. Também encontramos este entendimento em decisões do Superior Tribunal de Justiça conforme podemos verificar em trecho do voto da eminente Ministra Assusete Magalhães no AIREsp nº1.895.032/PE: "TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PIS/COFINS. REGIME ESPECIAL DE TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. DECISÃO AGRAVADA EM CONFORMIDADE COM A JURISPRUDÊNCIA DA TURMA. 1. O Superior Tribunal de Justiça possui firme entendimento de que as receitas provenientes das atividades de venda e revenda sujeitas ao pagamento das contribuições do PIS/PASEP e da COFINS em regime especial de tributação monofásica não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do regime de incidência não cumulativo. Fl. 137DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 6 2. Agravo interno a que se nega provimento" (STJ, AgInt no REsp 1.743.909/RJ, Rel. Ministro OG FERNANDES, SEGUNDA TURMA, DJe de 22/10/2019). "TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. PIS E COFINS. ART. 17 DA LEI 11.033/2004. REGIME MONOFÁSICO. CREDITAMENTO. IMPOSSIBILIDADE. 1. O Tribunal a quo, ao analisar a controvérsia, consignou: 'Posteriormente, a Segunda Turma, ao julgar o REsp 1.267.003/RS, decidiu rever sua orientação quanto ao segundo fundamento, passando a entender que o art. 17 da Lei 11.033/04 não teria aplicação exclusiva ao Regime Tributário para o Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária - REPORTO. Nesse mesmo precedente, compreendeu-se, também, não ser possível o aproveitamento de créditos pela incompatibilidade de regimes – a tributação monofásica, com alíquota concentrada na atividade de venda, não permite o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do Regime de Incidência Não-Cumulativo - e pela especialidade de normas, haja vista que a inserção em Regime Especial de Tributação Monofásica afasta a aplicação da regra gral do art. 17 da Lei 11.033/2004 e do art. 16 da Lei 11.116/2005, e por especialidade, chama a incidência do art.3°, I, 'b' da Lei 10.637/2002 e da Lei 10.833/2003, que vedam o creditamento. (...) Feitas essas considerações, filio-me ao entendimento de que a técnica do creditamento é incompatível com a incidência monofásica do tributo porque não há cumulatividade. Inaplicável, portanto, à impetrante, por incompatibilidade de regimes e por especialidade de suas normas, o disposto nos artigos 17, da Lei 11.033/2004, e 16, da Lei 11.116/2005, cujo âmbito de incidência se restringe ao regime não-cumulativo.' 2. O entendimento alhures encontra-se pacificado na jurisprudência da Segunda Turma do STJ, segundo o qual o regime de tributação monofásica é incompatível com o direito ao creditamento das contribuições ao PIS e à COFINS. 3. Recurso Especial não provido" (STJ, REsp 1.806.338/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, DJe de 11/10/2019). "AGRAVO INTERNO EM RECURSO ESPECIAL. RECURSO INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DO CPC/2015. ENUNCIADO ADMINISTRATIVO Nº 3. TRIBUTÁRIO. PIS/PASEP E COFINS. CREDITAMENTO. ART. 17 DA LEI 11.033/2004, C/C ART. 16, DA LEI N. 11.116/2005. REVENDA DE AUTOPEÇAS. REGIME DE INCIDÊNCIA MONOFÁSICA DAS CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS. REGIME ESPECIAL EM RELAÇÃO AO REGIME DE INCIDÊNCIA NÃO-CUMULATIVO. IMPOSSIBILIDADE DE CREDITAMENTO. 1. Consoante os precedentes desta Segunda Turma de Direito Tributário do Superior Tribunal de Justiça, as receitas provenientes das atividades de venda e revenda sujeitas ao pagamento das contribuições ao PIS/PASEP e à COFINS em Regime Especial de Tributação Monofásica não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do Regime de Incidência Não-Cumulativo, a teor dos artigos 2º, §1º, e incisos; e 3º, I, 'b' da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Desse modo, não se lhes aplicam, por incompatibilidade de regimes e por especialidade de suas normas, o disposto nos artigos 17, da Lei n. 11.033/2004, e 16, da Lei n. 11.116/2005, cujo âmbito de incidência se restringe ao Regime Não-Cumulativo, salvo determinação legal expressa. Precedentes: REsp. Nº 1.267.003 - RS, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 17.09.2013; AgRg no REsp. Nº 1.239.794 - SC, Segunda Turma, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 17.09.2013. 2. Indiferentes se tornam as alterações efetuadas no art. 8º VII 'a' da Lei n.º 10.637/2002 e art. 10, VII 'a' da Lei n.º 10.833/2003 pelo art. 42, III, 'c' e 'd', da Lei n. 11.727/2008, e pelo art. 21, da Lei n. 10.865/2004 no art. 1º, §3º, IV, da Lei n. 10.833/2003 e pelo art. 37 da Lei n. 10.865/2004 no art. 1º, §3º, IV, da Lei n. 10.637/2002, pois a incompatibilidade é dos próprios regimes de tributação. 3. Incompatibilidade que se restringe às mercadorias e produtos sujeitos à tributação monofásica, não alcançando as atividades empresariais como um todo. 4. A vedação ao referido creditamento estava originalmente no art. 3º, I, da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003, em suas redações originais. Depois, com o advento da Lei n. 10.865/2004, a vedação migrou para o art. 3º, I, 'a' e 'b', da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Posteriormente, sobreveio a Lei n. 11.787/2008 que reforçou a vedação com a alteração do art. 3º, I, 'b', da Lei n. 10.637/2002 e da Lei n. 10.833/2003. Tivesse havido derrogação da vedação pelo art. Fl. 138DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 7 17, da Lei n. 11.033/2004, esta não sobreviveria ao regramento realizado pela lei p osterior que reafirmou a vedação (Lei n. 11.787/2008) e que não foi declarada inconstitucional. 5. Agravo regimental não provido" (STJ, AgInt no REsp 1.772.957/PR, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 14/05/2019). "TRIBUTÁRIO. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PIS/COFINS. REPORTO. REGIME ESPECIAL NÃO CUMULATIVO. ACÓRDÃO EM CONSONÂNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. I - Muito embora o Superior Tribunal de Justiça possua jurisprudência no sentido de que o aproveitamento de créditos relativos ao PIS e a COFINS, conforme disposição do art. 17 da Lei n. 11.033/2004, não é de exclusividade dos contribuintes beneficiários do Regime Tributário para Incentivo à Modernização e à Ampliação da Estrutura Portuária (REPORTO), verifica-se, a despeito de tal entendimento, que as receitas sujeitas ao pagamento de PIS e COFINS, em regime especial de tributação monofásica, não permitem o creditamento pelo revendedor das referidas contribuições incidentes sobre as receitas do vendedor por estarem fora do regime de incidência não cumulativo. Neste sentido: DESEMBARGADORA CONVOCADA TRF 3ª REGIÃO), SEGUNDA TURMA, julgado em 10/5/2016, DJe de 17/5/2016; REsp 1440298/RS, Rel. Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/10/2014, DJe 23/10/2014. II - Agravo interno improvido" (STJ, AgInt no AREsp 1.218.476/MA, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, SEGUNDA TURMA, DJe de 28/05/2018) O regime de tributação monofásico está previsto no § 4º, do Artigo 149, da Constituição Federal de 1988, artigo que trata das contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas , onde se estabelece que “a lei definirá as hipóteses em que as contribuições incidirão uma única vez”. Fábio Rodrigues de Oliveira, em seu PIS E COFINS na Prática, 3ª Edição, assim define o regime de tributação monofásica: A incidência monofásica, também conhecida por tributação diferenciada ou concentrada abrange um grupo de tributos que estão sujeitos à aplicação de alíquotas específicas, superiores às básicas de 0,65% e 3% (regime cumulativo) e 1,65% e 7,6% (regime não-cumulativo). (...) Basicamente, fabricantes e importadores aplicam sobre as receitas auferidas na venda de tais produtos alíquotas maiores às usuais, enquanto os demais contribuintes da cadeia de comercialização (atacadistas e varejistas) tributam as receitas auferidas nas vendas dos mesmos produtos com alíquota zero. O ônus do tributo, portanto, fica concentrado no fabricante ou importador, motivo pelo qual a sistemática é conhecida por “incidência monofásica”. O conceito não deve se confundir com o da não cumulatividade, na medida em que só há de se falar em cumulatividade, ou em não cumulatividade, nos regimes de tributação plurifásico, onde os tributos incidem diversas vezes na cadeia produtiva ou comercial, podendo-se descontar o montante pago na operação antecedente (não-cumulativo), ou não (cumulativo). Não devemos confundir também a monofasia com a substituição tributária, pois aquela não pretende reproduzir a base de cálculo do último membro da cadeia de circulação de bens a que se aplica, sendo apenas o caso de uma única incidência. A técnica aplicada pela legislação para a implementação de um regime de tributação monofásico foi a de impor uma alíquota superior à alíquota normal a um determinado Fl. 139DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 8 sujeito passivo na cadeia de circulação de bens ou de produção, aplicando alíquota zero aos demais participantes a jusante. Alternativamente, vemos nos regimes a que são submetidos o biodiesel, a nafta petroquímica e o querosene de aviação a determinação de incidência única, conforme as Leis que regulam a cobrança de PIS/COFINS sobre estes produtos. Interessante destacar que as alíneas a e b, do inciso I, do caput, dos artigos 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, de redação idêntica, e reproduzido abaixo, combinadas com o § 2º, deste mesmo artigo, delimitam o alcance da utilização dos créditos de PIS/COFINS, sendo que o inciso I, e alíneas, impedem expressamente o creditamento dos bens sujeitos ao regime monofásico nas aquisições para a revenda. “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I - bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: a) no inciso III do § 3º do art. 1º desta Lei; b) nos §§ 1º e 1º-A do art. 2º desta Lei II - bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (...) § 2º Não dará direito a crédito o valor I - de mão-de-obra paga a pessoa física; e II - da aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribu ição, inclusive no caso de isenção, esse último quando revendidos ou utilizados como insumo em produtos ou serviços sujeitos à alíquota 0 (zero), isentos ou não alcançados pela contribuição.” Chamo a atenção para o § 2º, onde a vedação a gerar créditos é ainda mais ampla do que a encontrada no inciso I, do caput do artigo 3º, especialmente no seu inciso II, que afasta a formação de crédito sobre aquisições de quaisquer bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição. A exposição de motivos da Medida Provisória nº 135, de 30 de outubro de 2003, convertida na Lei nº 10.833/2003, é clara ao excluir a monofasia da não-cumulatividade e, consequentemente, impedir o aproveitamento de créditos decorrentes do regime monofásico, o que é mais do que coerente com a natureza deste regime. “11. Sem prejuízo de convivência harmoniosa com a incidência não -cumulativa da COFINS, foram excluídas do modelo, em vistas de suas especificidades, as cooperativas, as empresas optantes pelo SIMPLES, as instituições financeiras, as pessoas jurídicas de que trata a Lei nº 7.102, de 20 de junho de 1983, as tributadas pelo imposto de renda com base no lucro presumido ou arbitrado, os órgãos públicos, as autarquias e fundações públic33as federais, estaduais e municipais, as fund ações cuja criação tenha sido autorizada por lei, as pessoas jurídicas imunes a impostos, as receitas tributadas em regime monofásico ou de substituição tributária, as referidas no art. 5o da Lei no 9.716, de 26 de novembro de 1998, as decorrentes da prestação de serviços de telecomunicações e de serviços das empresas jornalísticas e de radiodifusão sonora e de sons e imagens.” O mesmo encontramos na exposição de motivos referentes à conversão em Lei, da Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, Lei nº 10.637/2002: Fl. 140DF CARF MF Original http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10485.htm#art2 D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 9 “8. Sem prejuízo de convivência harmoniosa com a incidência não cumulativa do PIS/Pasep, foram excluídos do modelo, em vista de suas especificidades, as cooperativas, as empresas optantes pelo Simples ou pelo regime de tributação do lucro presumido, as instituições financeiras e os contribuintes tributados em regime monofásico ou de substituição tributária.” Desta forma, a metodologia do regime de não cumulatividade não se confunde com a admissão de créditos decorrentes de regime de tributação diverso e propositalmente separado em razão de especificidades dos setores submetidos à monofasia identificados pelo legislador. Seria uma deturpação da metodologia da não cumulatividade admitir créditos que lhe são estranhos com consequências no valor do tributo devido em cada etapa do ciclo econômico. A sentença presente no inciso II, do § 2º do artigo 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003, “não sujeitos ao pagamento da contribuição”, deve ser lida como se referindo ao regime previsto nestas duas Leis, não devendo se confundir com a contribuição paga sob outro regime, sob pena de desvirtuar a arquitetura da incidência tributária pretendida e a própria lógica do sistema. No entanto, o inciso II, do caput do art. 3º, da Lei nº 10.833/2003, permite que a aquisição de combustíveis e lubrificantes, produtos sujeitos à monofasia, para servirem de insumos na produção de outros bens sejam computados como créditos para a apuração do valor devido destas contribuições. Ocorre que a lógica dos tributos não cumulativos decorre da possibilidade do contribuinte creditar-se pelos valores pagos ao segmento precedente à título destes tributos na apuração de seus próprios débitos. Vemos que na dinâmica do ICMS e do IPI, o contribuinte faz jus, como regra, ao montante do tributo pago nas suas aquisições e esta é a confirmação de que o crédito no regime não cumulativo decorre dos montantes cuja a carga tenha sido suportada pelo contribuinte que pretende direito ao respectivo crédito, como regra. No caso do ICMS e IPI, o valor do imposto na transação é suportado pelo comprador, que reconhece seu montante pelo valor destacado na nota fiscal, cabendo ao vendedor a apuração do valor a ser efetivamente recolhido em razão dos créditos que ele próprio acumulou de forma prévia nas suas aquisições, ou seja, nas operações em que ele suportou a carga do tributo cobrado naquela operação. Já no regime monofásico a carga tributária é suportada pelo vendedor exclusivamente, e a sua capacidade de repasse aos preços depende de aspectos econômicos de mercado, podendo ou não ser repassadas ao preço praticado nas suas vendas, dependendo da elasticidade preço/demanda e fatores concorrenciais. A dinâmica do PIS/COFINS difere um pouco da metodologia dos ICMS e IPI, em razão destes impostos incidirem sobre atividades específicas de industrialização e circulação de bens e serviços, enquanto a PIS/COFINS incide sobre uma base muito mais ampla, o que implica também numa base mais ampla em relação aos seus créditos, no entanto, a lógica mantém-se pois os créditos referentes a pagamentos não suportados pelo contribuinte somente podem ser considerados como exceção à regra, ou como regimes especiais. Fl. 141DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 10 Como no regime monofásico a carga tributária é suportada por apenas uma determinada parte da cadeia de negócios de determinados produtos, não cabe falar de créditos a serem utilizados decorrentes de regime monofásico por contribuinte que adquira estes bens, a não ser pela exceção à regra, que neste caso está expressamente citada no inciso II, do caput do artigo 3º, citado acima. Notem que a outra exceção neste mesmo inciso (II, caput do art. 3º) refere-se a pagamentos por conta e ordem de encomendantes e do valor do ICMS, que podem ser excluídos da base de cálculo da PIS/COFINS por industriais e importadores de veículos de transporte, em razão do artigo 2º, da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, de natureza diversa dos insumos para a fabricação de bens, e por isto excluídos da possibilidade de serem considerados como créditos. Esta exceção foi expressamente abordada no Parecer Normativo COSIT/RFB nº 5/2018, onde também encontramos a vedação de que despesas com combustíveis gerem créditos quando aplicadas em atividades diversas da produção de bens ou da prestação de serviços. “139. Daí, considerando que combustíveis e lubrificantes são consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos de qualquer espécie, e, em regra, não se agregam ao bem ou serviço em processamento, conclui-se que somente podem ser considerados insumos do processo produtivo quando consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos utilizados pela pessoa jurídica no processo de produção de bens ou de prestação de serviços. (...) 142. Sem embargo, permanece válida a vedação à apuração de crédito em relação a combustíveis consumidos em máquinas, equipamentos ou veículos utilizados nas demais áreas de atividade da pessoa jurídica (administrativa, contábil, jurídica, etc.), bem como utilizados posteriormente à finalização da produção do bem destinado à venda ou à prestação de serviço.” Por fim, cabe analisarmos o artigo 17, da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004, que se alega permitir a acumulação de créditos não sujeitos ao pagamento da contribuição. “Art. 17. As vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações.” Não posso concordar com esta argumentação, pois considero que o disposto neste artigo refere-se a contribuintes que vendam bens ou serviços não sujeitos ao pagamento da contribuição, sem fazer qualquer juízo ao regime de tributação das aquisições necessárias à consecução futura destas vendas ou prestação de serviços, as quais se pressupõe serem aquelas capazes de gerarem créditos e, portanto, sem interferir com o conteúdo do artigo 3º, das Leis nº 10.637/2002 e 10.833/2003. Sendo assim, os bens adquiridos que sejam submetidos ao regime monofásico não geram créditos nem quando destinados a revenda, nem quando utilizados como insumos para a produção de outros bens ou serviços. Diante de todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Fl. 142DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3102-003.223 – 3ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13005.720209/2014-07 11 Assinado Digitalmente Jorge Luís Cabral Fl. 143DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10530.901512/2014-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Feb 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013
EMPRESA COMERCIAL EXPORTADORA. APURAÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS VINCULADOS À RECEITA DE EXPORTAÇÃO. VEDAÇÃO.
É vedado à empresa comercial exportadora aproveitar créditos relativos a custos, despesas e outros encargos por conta da aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, para apurar de PIS e COFINS no regime não-cumulativo vinculados à receita de exportação, nos termos do § 4º do art. 6º e inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003.
AQUISIÇÕES. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. RATEIO. CRÉDITO VEDADO.
Empresas comerciais exportadoras se encontram legalmente impedidas de apurar créditos de PIS/COFINS vinculados à aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, tampouco referentes a quaisquer encargos e despesas atinentes a tal exportação.
PIS/COFINS. FRETE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições.
PIS/COFINS. DIREITO AO CRÉDITO. ENERGIA ELÉTRICA CONSUMIDA. SÚMULA CARF Nº 224.
Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada.
CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. SÚMULA CARF Nº 231.
O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes.
DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. ARTIGO 373, INCISO I DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
É ônus do Contribuinte apresentar as provas necessárias para demonstrar a liquidez e certeza de seu direito creditório, devendo ser aplicado o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil.
Numero da decisão: 3402-012.790
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3402-012.789, de 14 de outubro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10530.901508/2014-04, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, José de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: ARNALDO DIEFENTHAELER DORNELLES
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013 EMPRESA COMERCIAL EXPORTADORA. APURAÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS VINCULADOS À RECEITA DE EXPORTAÇÃO. VEDAÇÃO. É vedado à empresa comercial exportadora aproveitar créditos relativos a custos, despesas e outros encargos por conta da aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, para apurar de PIS e COFINS no regime não-cumulativo vinculados à receita de exportação, nos termos do § 4º do art. 6º e inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003. AQUISIÇÕES. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. RATEIO. CRÉDITO VEDADO. Empresas comerciais exportadoras se encontram legalmente impedidas de apurar créditos de PIS/COFINS vinculados à aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, tampouco referentes a quaisquer encargos e despesas atinentes a tal exportação. PIS/COFINS. FRETE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. PIS/COFINS. DIREITO AO CRÉDITO. ENERGIA ELÉTRICA CONSUMIDA. SÚMULA CARF Nº 224. Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. SÚMULA CARF Nº 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. ARTIGO 373, INCISO I DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL É ônus do Contribuinte apresentar as provas necessárias para demonstrar a liquidez e certeza de seu direito creditório, devendo ser aplicado o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil.
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013 EMPRESA COMERCIAL EXPORTADORA. APURAÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS VINCULADOS À RECEITA DE EXPORTAÇÃO. VEDAÇÃO. É vedado à empresa comercial exportadora aproveitar créditos relativos a custos, despesas e outros encargos por conta da aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, para apurar de PIS e COFINS no regime não-cumulativo vinculados à receita de exportação, nos termos do § 4º do art. 6º e inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003. AQUISIÇÕES. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. RATEIO. CRÉDITO VEDADO. Empresas comerciais exportadoras se encontram legalmente impedidas de apurar créditos de PIS/COFINS vinculados à aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, tampouco referentes a quaisquer encargos e despesas atinentes a tal exportação. PIS/COFINS. FRETE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. PIS/COFINS. DIREITO AO CRÉDITO. ENERGIA ELÉTRICA CONSUMIDA. SÚMULA CARF Nº 224. Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito Fl. 268DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 2 outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. SÚMULA CARF Nº 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. ARTIGO 373, INCISO I DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL É ônus do Contribuinte apresentar as provas necessárias para demonstrar a liquidez e certeza de seu direito creditório, devendo ser aplicado o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3402-012.789, de 14 de outubro de 2025, prolatado no julgamento do processo 10530.901508/2014-04, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, José de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Fl. 269DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 3 RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista no art. 87, §§ 1º, 2º e 3º, do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Versa o presente litígio sobre Pedido de Ressarcimento de crédito oriundo de pagamento indevido ou a maior de PIS-PASEP/COFINS não-cumulativa, indicado para compensação com débitos de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil. O Despacho Decisório Eletrônico reconheceu a existência de direito creditório e homologou parcialmente as compensações declaradas na respectiva DCOMP. Cientificada do Despacho Decisório, a Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, que foi julgada improcedente. A Contribuinte foi intimada do v. acórdão de primeira instância, apresentando tempestivamente o Recurso Voluntário, pelo qual pediu o provimento para reforma do acórdão recorrido, para o fim de que seja integralmente reconhecido o direito creditório pretendido, homologando-se as compensações declaradas. É o relatório. VOTO Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: 1. Pressupostos legais de admissibilidade Conforme Despacho de Encaminhamento de fls. 324 o Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. 2. Mérito 2.1. Do método de apuração dos créditos Versa o presente litígio de Pedido de Ressarcimento (“PER”) n° 42271.18306.151013.1.1.09-7730, por meio do qual a Recorrente objetiva o ressarcimento de créditos de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social na sistemática não-cumulativa, apurados no terceiro Fl. 270DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 4 trimestre do ano-calendário de 2013, para compensação de débitos próprios. O Despacho Decisório concedeu parcialmente o PER no valor de R$ 818.166,02 e, como resultado, homologou parcialmente as DCOMPs apresentadas, alegando a ausência de crédito disponível para compensação. A DRJ de origem manteve o entendimento do Despacho Decisório, determinando que, para calcular o percentual de rateio aplicável aos contribuintes que operam parte sob o regime cumulativo e parte sob o regime não-cumulativo, é necessário excluir da receita bruta total as receitas das operações em que a empresa atuou como comercial exportadora. Argumentou a defesa que o art. 3º, § 7º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/03 prevê, nas hipóteses em que somente parte das receitas tributáveis pela pessoa jurídica esteja sujeito ao regime não-cumulativo, deverá haver a apropriação do crédito exclusivamente em relação aos custos e despesas relacionados a tais receitas. Neste sentido, estão previstos nos § 8º dos respectivos arts. 3º dois critérios, a saber: (i) a apropriação direta, que dependerá de um controle contábil que permita identificar qual a parcela dos custos e despesas atreladas às receitas não cumulativas; e (ii) o rateio proporcional, calculado por meio da aplicação aos custos e às despesas da razão percentual entre a receita não cumulativa e a receita total. Argumentou, ainda, que não estão incluídas no rol dos aludidos dispositivos as receitas de exportação que ficaram determinadas na redação dos artigos 6º da Lei nº 10.833/03 e 5º da Lei nº 10.637/02. A redação dos §1º e §3º dos mencionados artigos é bastante clara quanto a existência de créditos nas operações de exportação, de modo que a interpretação sistemática desses dispositivos leva à lógica conclusão da inclusão das receitas de exportação junto às receitas sujeitas ao regime da não cumulatividade. Com isso, entende que não há que se falar de exclusão das receitas decorrentes de operações com fim específico de exportações do cômputo do rateio proporcional. O direito creditório foi negado pela DRJ com a seguinte motivação: Em que pese o esforço argumentativo desenvolvido pelo contribuinte, não há como acatar o entendimento por ele defendido. Da leitura do § 4° do art. 6° da Lei n° 10.833/03, já transcrito, infere-se que há vedação para Fl. 271DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 5 apuração, pela empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim específico de exportação, de “créditos” vinculados à receita de exportação, não havendo restrição a qualquer das hipóteses legais de creditamento. Assim, entende-se que a exegese correta é no sentido de que todas as hipóteses previstas nos incisos dos arts. 3º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 estão alcançadas pela vedação. Não há aqui nenhuma interpretação extensiva. Na verdade, é o entendimento defendido pelo contribuinte que se afasta do sentido da norma, pois tende a fazer uma limitação da vedação à apuração de créditos que não encontra amparo no texto legal. A Receita Federal do Brasil, através da sua Coordenação-Geral de Tributação, pronunciou-se sobre esse tema na Solução de Divergência COSIT nº 8, de 24/01/2017 (publicada no DOU de em 26/01/2017, seção 1, página 23). A seguir, transcreve-se a ementa dessa Solução Divergência, bem como trechos da sua fundamentação: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ARMAZENAGEM E FRETE NA OPERAÇÃO DE VENDA. TRANSPORTE INTERNACIONAL DE CARGAS. (....) A empresa comercial exportadora não poderá se utilizar de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, na forma do disposto no art. 3º, inciso IX c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833, de 2003 relativamente a frete e armazenagem vinculados à exportação, por expressa vedação legal contida no art. 6º, § 4º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003. Em síntese, a controvérsia principal neste litígio versa sobre o alcance da vedação à apuração de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep contida no § 4º do art. 6º e no art. 15, III, da Lei nº 10.833/2003, bem como o que deve ser computado como receita de exportação para efeito do rateio proporcional a que se referem os §§ 8º e 9º do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Como informado em razões recursais, a Recorrente é uma joint venture formada por três empresas de comercialização de grãos, vendas de insumos agrícolas e logística, sendo elas a AMAGGI, a LOUIS DREYFUS COMPANY e a subsidiária brasileira do grupo japonês ZEN-NOH GRAIN. Sua atuação consiste na comercialização de soja e milho, na venda de insumos (notadamente fertilizantes, defensivos e sementes) e na exploração de serviços de logística de grãos. A atividade econômica principal da Contribuinte é declarada através do CNAE 46.22-2-00 (comércio atacadista de soja). Vejamos o Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral: Fl. 272DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 6 Para demonstrar a operação conduzida pela Recorrente, que consiste na compra e venda de grande volume de commodities, cujos gastos incorridos com serviços de movimentação de mercadorias explica como fundamentais, foi exposto em peça recursal o fluxograma das etapas que compreendem a recepção dos grãos adquiridos, que abaixo reproduzo: Fl. 273DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 7 Portanto, a defesa confirma que desenvolve suas atividades na comercialização e na prestação de serviços de logística e, para cumprimento de seus objetos sociais que constituem, dentre outros, o comércio atacadista de soja, realização de atividades pós-colheita, o transporte rodoviário de cargas e a atividade de operador portuário. Não obstante as considerações da Recorrente, observa-se no presente caso que há vedação expressa quanto à apropriação de créditos vinculados a receita de exportação, conforme dispõe o §4º do art.6º, da Lei nº10.833/03, in verbis: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; II prestação de serviços para pessoa física ou jurídica domiciliada no exterior, com pagamento em moeda conversível; II prestação de serviços para pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; Fl. 274DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 8 II compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 2º A pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1º poderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8ºe 9º do art. 3º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. (...) Art. 15. Aplica-se à contribuição para o PIS/PASEP não cumulativa de que trata a Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, o disposto: (...) III nos §§ 3 e 4º do art. 6º desta Lei. (destaques nossos) Constata-se que ao regular o §§ 1º e 4º do art. 6º e o inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003, assim define: § 1º do art. 6º: O direito ao crédito de COFINS e PIS é restrito ao contribuinte que realiza a operação de saída com pagamento das contribuições; § 4º do art. 6º: A vedação ao crédito também se aplica aos custos, despesas e encargos que integram o preço da mercadoria vendida com o fim específico de exportação; Inciso III do art. 15: Amplia a vedação ao impedir a apropriação de créditos de PIS e COFINS para empresas comerciais exportadoras em relação a aquisição de mercadorias e custos associados à exportação. Por sua vez, o § 6°-A do artigo 40 da Lei nº 10.865/2004, reafirma que despesas relacionadas à receita de exportação não são elegíveis para créditos de COFINS e PIS. Vejamos: Art. 40. (...). § 6º-A. A suspensão de que trata este artigo alcança as receitas de frete, bem como as receitas auferidas pelo operador de transporte multimodal, Fl. 275DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 9 relativas a frete contratado pela pessoa jurídica preponderantemente exportadora no mercado interno para o transporte dentro do território nacional de: (Redação dada pela Lei nº 11.774, de 2008) Resta claro que os dispositivos legais acima estabelecem que a não- cumulatividade das contribuições para o PIS/Pasep e a COFINS não se aplica às empresas comerciais exportadoras no que tange à apuração de créditos sobre a aquisição de mercadorias destinadas à exportação. Com isso, mesmo que as despesas de frete estejam diretamente ligadas ao processo de exportação, a legislação impede a apropriação de créditos de COFINS e PIS. A vedação ao crédito busca evitar que um crédito já apropriado em uma etapa anterior seja novamente utilizado por outro contribuinte na cadeia, o que poderia causar distorções e injustiças no cálculo das contribuições. Assim, a vedação é necessária para manter a integridade e a justiça do sistema não-cumulativo. A Solução de Divergência COSIT nº 8, de 24/01/2017 (publicada no DOU de em 26/01/2017, invocada pela DRJ, assim conclui: 39. Diante do exposto, soluciona-se a presente divergência respondendo ao autor do recurso que os dispêndios de frete internacional na operação de venda efetuados por Empresas Comerciais Exportadoras não geram créditos da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime de apuração não cumulativa devido às expressas vedações legais contidas no § 4º do art. 6º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003, e no inciso II do § 2º do art. 3º das leis nº 10.833, de 2003 e nº 10.637, de 2002. 40. Os dispêndios com armazenagem vinculada à exportação efetuados por Empresas Comerciais Exportadoras não geram créditos da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime de apuração não cumulativa, por expressa vedação legal contida no § 4º do art. 6º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003. 41. Reformam-se as Soluções de Consulta SRRF10/Disit nº 103, de 24 de maio de 2007, e SRRF08/Disit nº 151, de 02 de junho de 2006 quanto à interpretação do inciso II do § 2º do art. 3º das leis nº 10.833, de 2003 e nº 10.637, de 2002. (destaque nosso) Por sua vez, concordo com a conclusão do ilustre Julgador de primeira instância, de que está “correto o procedimento fiscal de não considerar as receitas correspondentes às referidas operações no montante da receita de exportação e nem no montante da receita bruta total, auferida em cada mês, utilizados no cálculo do rateio proporcional dos custos, despesas e Fl. 276DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 10 encargos comuns que autorizam o aproveitamento de créditos a serem descontados das contribuições para o PIS e COFINS”. Portanto, está correta a conclusão da DRJ em manter a glosa dos créditos decorrentes da aquisição de soja e fertilizantes e com fim específico de exportação, bem como das despesas com a respectiva armazenagem. 2.2. Da Transferência de Mercadorias (Retorno Simbólico/Recusa da Mercadoria) Entende a Recorrente que devem ser revertidas as glosas dos créditos originados de transferências de mercadorias relativas aos retornos simbólicos e recusa da mercadoria. Para tanto, justifica que necessita utilizar, por vezes, da transferência dos insumos entre os estabelecimentos como forma de atender às demandas de mercado, permitindo a maior eficiência de suas operações. O pedido foi negado pela DRJ em razão da conclusão de que cabe ao contribuinte demonstrar que foram observadas todas as especificidades necessárias para gerar crédito. Reproduzo os fundamentos da decisão recorrida neste ponto: C.2) TRANSFERÊNCIA DE MERCADORIAS - RETORNO SIMBÓLICO/RECUSA DA MERCADORIA O contribuinte entende que, em qualquer hipótese, os gastos com fretes devem autorizar o creditamento, já que, ao contrário da tributação das mercadorias adquiridas, o frete é um negócio jurídico autônomo, sujeito à incidência da contribuição ao PIS e da COFINS, sendo possível, portanto, o creditamento integral das contribuições sobre tais pagamentos, mesmo na hipótese em que não houve a venda de mercadoria, mas incorreu em gastos com seu transporte, como no caso de retorno simbólico ou recusa da mercadoria. Sobre o tema, assim se manifestou a fiscalização: 3.3.3.4. Retorno Simbólico de Mercadoria (item "f") 134. Outra situação encontrada, quando da análise dos documentos fiscais entregues, diz respeito à existência de conhecimentos de transporte sobre os quais a fiscalizada procedeu à apropriação de créditos de Pis/Pasep e Cofins, em que o produto transportado refere-se à nota fiscal de "retorno simbólico de mercadoria", a exemplo do CTRC n° 629, de 13/06/2013, vinculado à NF n° 2281. (...) 136. Vê-se, portanto, que referidos documentos fiscais não se referem a operações venda de mercadoria, mas apenas de procedimento atinente à formalização do transporte das mercadorias para fins de formação de lote e posterior exportação. Fl. 277DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 11 137. Tal operação, no entanto, não se enquadra em qualquer hipótese legalmente prevista para creditamento, motivo pelo qual os respectivos valores foram excluídos do cálculo. 3.3.3.6. Mercadoria recusada (item "h") 143. Dentre os documentos relacionados na rubrica em análise, constam CTRC relativos ao transporte da mercadoria proveniente do Porto de Cotegipe para entrega no estabelecimento da fiscalizada ou em estabelecimento formalmente contratado como depositário. 144. Em análise dos referidos conhecimentos de transportes, foi verificado que se trata de devoluções da soja anteriormente enviada ao Porto para embarque e que não atenderam ao padrão de qualidade exigido, a exemplo do CTRC nº 6136, de 25/09/2013, relativo à NF nº 2747 145. Portanto, mais uma vez, não se trata de despesa de frete relativa a operações de vendas, conforme exigido pelo inciso IX do art. 3º das Leis n°s 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003, capazes de gerar crédito; tampouco se enquadram nas outras hipóteses de tomada de crédito relacionadas nos demais incisos do retromencionado art. 3º . 146. Por tal motivo, os documentos fiscais relacionados no citado Anexo V, identificados como "mercadoria recusada", serão excluídos do cálculo. Registre-se que, não obstante a previsão da lei seja no sentido de autorizar o creditamento sobre os fretes em inúmeras hipóteses, cabe ao contribuinte demonstrar que foram observadas todas as especificidades necessárias para gerar crédito (por exemplo e conforme já solicitado pela fiscalização: se o ônus foi do comprador/contribuinte e o local de origem do transporte (no caso de frete de compra), se o frete interno ocorreu dentro do processo produtivo (no caso de transporte entre estabelecimentos), se o ônus foi do vendedor/contribuinte e o local de destino do transporte (no caso de frete de venda). No caso de frete oriundo de mercadoria recusada ou retorno simbólico, visto não se enquadrarem em nenhuma das hipóteses que geram crédito de PIS e COFINS, deve ser mantida a glosa. Mesmo tendo ocorrido os gastos com transporte das mercadorias, esses valores não geram direito a crédito de PIS e Cofins, pois não decorreram de vendas e tampouco estão associados ao seu processo produtivo, não se podendo aplicar, como defende o impugnante, o art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Ademais, para caracterização dessas despesas como insumo, a interpretação deve ser efetuada à luz da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF e do Parecer Normativo COSIT/RFB Nº 05, de 17/12/2018, que como se pode verificar, não autorizam que se considerem referidos gastos como insumos. Com razão à decisão recorrida. Fl. 278DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 12 Versando este litígio sobre pedido de crédito, aplica-se o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil, que atribui o ônus da prova ao autor quanto ao fato constitutivo de seu direito. Vejamos as decisões abaixo colacionadas: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2000 a 30/06/2000 RESSARCIMENTO DO IPI. COMPROVAÇÃO Quando dados ou documentos solicitados ao interessado forem necessários a apreciação de pedido formulado, a demonstrar o direito do contribuinte, ele se obriga a apresentá-los para comprovar o seu direito, caso contrário se sujeita à análise de seu pedido destituída de provas. ÔNUS DA PROVA Cabe a defesa do ônus dos fatos que fundamentam o pedido de ressarcimento. Recurso voluntário negado. (Acórdão nº 3403-003.392 – PAF nº 13869.000095/00-40 – Relator: Conselheiro Antonio Carlos Atulim) Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins Data do Fato Gerador: 20/04/2007 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. (Acórdão nº 9303-007.218 – PAF nº 10840.909854/2011-86 – 3ª Turma da CSRF - Relator: Conselheiro Rodrigo da Costa Possas) ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 30/04/2004 COMPENSAÇÃO. RECOLHIMENTOS INDEVIDOS DE COFINS/PIS. AUSÊNCIA DE LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. É ônus do contribuinte comprovar a liquidez e certeza de seu direito creditório, conforme determina o caput do art. 170 do CTN, devendo demonstrar de maneira inequívoca a sua existência. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE NEGADO. Fl. 279DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 13 (Acórdão nº 9303-002.562 – PAF nº 10120.904658/2009-26 – 3ª Turma da CSRF - Relator: Conselheiro Rodrigo da Costa Possas) Destaco a fundamentação que embasou o voto condutor do v. Acórdão nº 9303-002.562, de relatoria do Ilustre Conselheiro Rodrigo da Costa Possas, abaixo reproduzida: Aqui o ônus probante é daquele que pleiteia o direito creditório, nos exatos termos do art. 333 do CPC. A comprovação de uma das partes de determinado fato ou situação jurídica decorre da distribuição legal do ônus da prova. Há que se “convencer” o julgador da existência do direito e a parte contrária dos fatos impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do sujeito ativo. O que ocorre é a assunção dos riscos de uma decisão desfavorável de quem efetivamente tinha o ônus probatório, ou seja, o encargo jurídico de demonstrar a veracidade de fatos ou a existência de situações jurídicas que ensejassem que os julgadores tomassem uma decisão que lhe fosse favorável. Não há a obrigatoriedade das partes em se produzir a prova. É interesse de ambas as parte em fazê-lo. Mas se o ônus decaí em uma parte e ela não o faz, assume os riscos e as consequências estabelecidos no arcabouço jurídico relacionado àquela matéria. O ônus da prova não é um dever e nem um comportamento necessário da parte interessada, mas um direito de a parte poder convencer os julgadores acerca da veracidade de suas alegações, aumentando as chances de uma decisão favorável. In casu, o titular do direito creditório, em tese, é que tem que provar, por meio de provas suficiente para demonstrar a certeza e liquidez do direito. A meu ver o contribuinte não se desincumbiu desse ônus. Destarte, apenas com a retificação da DCTF não gera direito creditório. Mesmo que haja uma retificação a destempo, o fato é que este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais vem relativizando o entendimento da preclusão tanto da retificação da DCTF quanto ao momento da apresentação de provas, desde sejam provas cabais, necessárias e suficientes. A prova deve exaurir em si mesma, ou seja, a sua simples apresentação é suficiente para a comprovação do direito, não tendo que se fazer outras averiguações. Reforçando: quando demonstrado pelo contribuinte, que o seu direito creditório é líquido e certo, tudo em homenagem ao Princípio da Verdade Material, desde que sejam apresentadas as provas necessárias e suficientes para embasar a operação, tem-se relativizado a ocorrência da preclusão temporal. Nesse sentido, há diversos julgados, tais como: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Fl. 280DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 14 Ano-calendário: 2003 DCTF. RETIFICAÇÃO CONSIDERADA NÃO ESPONTÂNEA EM PROCESSO ANTERIOR. VERDADE MATERIAL. DCTF retificadora apresentada de forma não espontânea, em virtude de transmissão efetivada após a ciência de despacho decisório de não homologação de compensação, que não reconhecer o direito creditório alegado, viabiliza compensações posteriores, relativas a esse mesmo crédito se for comprovada através dos documentos fiscais competentes em virtude do princípio da verdade material. DÉBITOS CONFESSADOS. RETIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE ESCRITA FISCAL. COMPROVAÇÃO DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Eventual retificação dos valores confessados em DCTF deve ter por fundamento, como no caso, os dados da escrita fiscal do contribuinte, para a comprovação da existência de direito creditório decorrente de pagamento indevido (Acórdão 130201.015– 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária) Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2004 PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. AUSÊNCIA DE PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da DCTF, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da existência do crédito compensado. A simples retificação, desacompanhada de suporte probatório, não autoriza a homologação da compensação do crédito tributário. Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido. (Acórdão3802001.550– 2ª Turma Especial) Observe-se que para que seja aceito o direito creditório, ainda que a DCTF não tenha sido retificada espontaneamente, deve ser comprovado de maneira cabal o direito creditório, mediante a comprovação dos valores pagos a maior pela apresentação da contabilidade escriturada à época dos fatos, acompanhada por documentos que a embasam. É dizer, planilha confeccionada pela empresa, desacompanhada de quaisquer outros documentos, não se prestam à finalidade almejada. Aliás, a consulta ao banco de dados da jurisprudência deste Conselho, demonstra que há diversos pedidos de compensação da Recorrente, que foram denegados pela ausência de prova, como os Acórdãos 3802001.602, 3801001.660, 3801001.659, 3802001.598, 3802001.599, 3802001.593, entre outros. (sem destaques no texto original) Assim, cabe ao contribuinte trazer aos autos os elementos aptos a comprovar a existência de direito creditório, capazes de demonstrar, de Fl. 281DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 15 forma cabal, que a Fiscalização incorreu em erro ao não homologar a compensação pleiteada. Por tais razões, deve ser mantida a glosa em referência. 2.3. Dos Fretes nas Aquisições A Contribuinte pede o direito creditório sobre os fretes pagos na aquisição de soja de pessoas física, que assim foi fundamentada no Termo de Verificação Fiscal: 3.3.3.2. Aquisição de soja e fertilizante (itens “c” e “d”) 113. Identificação, dentre os documentos fiscais apresentados, de frete pago para transporte da mercadoria do fornecedor/produtor até o armazém da fiscalizada. Trata-se, pois, de frete pago nas aquisições de soja, adubos e fertilizantes. 114. Inicialmente, cabe observar, que o frete pago pelo adquirente na compra de insumos destinados à fabricação de bens destinados à venda integra o custo de aquisição desses insumos, consoante a boa técnica contábil e o disposto no art. 289, c/c o art. 290, I, do Regulamento do Imposto de Renda (RIR), aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, que assim dispõe: “Subseção III Custo dos Bens ou Serviços Art. 289. O custo das mercadorias revendidas e das matérias-primas utilizadas será determinado com base em registro permanente de estoques ou no valor dos estoques existentes, de acordo com o Livro de Inventário, no fim do período de apuração (Decreto-Lei nº 1.598/1977, art. 14). § 1º O custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação (Decreto-Lei nº 1.598/1977, art. 13). § 2º Os gastos com desembaraço aduaneiro integram o custo de aquisição. § 3º Não se incluem no custo os impostos recuperáveis através de créditos na escrita fiscal.” Custo de Produção Art. 290. O custo de produção dos bens ou serviços vendidos compreenderá, obrigatoriamente (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 13, § 1º): I - o custo de aquisição de matérias-primas e quaisquer outros bens ou serviços aplicados ou consumidos na produção, observado o disposto no artigo anterior; (---)” Fl. 282DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 16 115. Portanto, regra geral, o frete pago na aquisição de mercadorias destinadas à revenda ou de insumos para fabricação de bens destinados a venda, quando contratado com pessoa jurídica domiciliada no País e suportado pelo adquirente dos insumos, pode, nos termos do art.3º, II, das Leis nº10.637, de 2002, e nº10.833, de 2003, gerar créditos de contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins, já que, nessa situação, ele integra o valor de aquisição dos insumos. 116. Por outro lado, tem-se que o dispêndio relativo ao frete é de natureza acessória, ou seja, acompanha o principal (aquisição do produto). A veracidade de tal questão confirma-se com o fato de que: se o produto adquirido não se enquadrar como insumo do processo produtivo não poderá constituir-se em base de cálculo para a apropriação da contribuição; tampouco o serviço de transporte o fará, dado que depende daquele. 117. Isto posto, fácil perceber que as despesas de frete concernentes à aquisição de soja, adubo e fertilizantes não podem compor a base de cálculo dos créditos de PIS e COFINS, em razão de: i) a soja ter sido adquirida de pessoa física e, por conseguinte, não se sujeitar à incidência das contribuições; ou, ainda, ter sido adquirida com suspensão de incidência das contribuições, e ii) os adubos e fertilizantes, na venda para o mercado interno, sujeitarem-se à alíquota zero das contribuições, conforme disposto no art. 1º, da Lei nº 10.925, de 2004. 118. Portanto, de acordo com art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.637, de 2002, e do art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.833, de 2003, veda-se o aproveitamento do crédito em relação a tais operações. De fato, não havendo tributação no elo imediatamente anterior da cadeia produtiva, a apuração de créditos nas compras feitas incide na vedação legal, dado que não há o que ressarcir. 119. Por fim, nos termos da legislação vigente, o gasto com o transporte de mercadoria somente gerará crédito caso se refira a transporte de “mercadoria capaz de gerar crédito”. É que, em se tratando de valor que integra o custo de aquisição, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre a despesa com o serviço deve ser determinada em função da possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens adquiridos. Não havendo apropriação do crédito referente à aquisição do produto, não há que se falar da apropriação do frete a ele relativo. Assim concluiu a DRJ de origem: A manifestante aduz que, embora somente haja previsão expressa para o crédito relativo a "frete nas operações de venda", quando o ônus for suportado pelo vendedor, há que se observar que, na compra de bens, o frete, quando pago pelo adquirente, consoante a boa técnica contábil, integra o custo de aquisição desses bens, o que está consagrado no art. 289, § 1º do RIR/1999 ("o custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do Fl. 283DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 17 contribuinte"). Assim, também na forma de serviços estipulados no inciso II do artigo 2º, poderá o valor do frete compor a base de cálculo dos créditos a serem descontados do PIS e da Cofins Não-Cumulativos. Sobre as despesas com fretes, cumpre analisá-las à luz da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF e do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17/12/2018, que atualmente orientam as decisões da Receita Federal do Brasil quanto ao conceito de insumos. Relativamente aos gastos com frete na aquisição, deve está demonstrada a natureza do insumo adquirido e transportado, pois o crédito dos valores de frete pagos na aquisição é admitido na mesma proporção em que se der o creditamento do bem adquirido. Quando o bem adquirido não gera crédito, o frete correspondente também não gera crédito. Nesse passo, relativamente aos gastos com transporte de soja adquirida de pessoas físicas, sem incidência, portanto, das contribuições de PIS e COFINS, não são os mesmos hábeis a gerar crédito. Quanto aos fretes relativos aos bens adquiridos com fim específico de exportação, como já foi dito no tópico precedente, o § 4° do Art. 6° da Lei n° 10.833/03 veda a apuração de “créditos” vinculados às receitas de bens adquiridos com fim específico de exportação, entendida a impossibilidade de creditamento de qualquer uma das hipóteses previstas nos onze incisos do art. 3º da Lei nº 10.833/03. Com relação à matéria em análise, deve ser aplicada a SÚMULA CARF nº 188, que assim prevê: Súmula CARF nº 188 Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 20/06/2024 – vigência em 27/06/2024 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Acórdãos Precedentes: 9303-014.478; 9303-014.428; 9303-014.348 Com isso, deve ser revertida a glosa sobre os fretes na aquisição de insumos não tributados, desde que cumpridos os demais requisitos legais, ou seja, desde que a aquisição do frete seja originada de pessoa jurídica pelo comprador das mercadorias e desde que tais fretes tenham sido tributados e contabilizados em separado. 2.4. Energia elétrica Fl. 284DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 18 Com relação às despesas com energia elétrica, a Recorrente sustenta que a energia elétrica consumida nas atividades da empresa confere o direito ao crédito do PIS e da COFINS, conforme determinação expressa do artigo 3º, III das Leis 10.637/2002 e 10.833/03. Aduz ainda que, não obstante a revogação do inciso V das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, as despesas e encargos financeiros também devem ser consideradas no cômputo da base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS, eis que insumo necessário à consecução das atividades da impetrante. Esclareceu o i. Julgador da DRJ que na análise dos documentos apresentados nos autos, foi verificado pela auditoria que o contribuinte utiliza como base de cálculo para o crédito das contribuições o total da fatura emitida pela concessionária de distribuição de energia elétrica. Assim, com fundamento no inciso III, art. 3o das Leis n°s 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003, glosou os valores pagos a título de encargos, acatando somente para fins de crédito, os gastos identificados como “consumo de energia”. A glosa foi mantida sobre outros gastos constantes da fatura, diversos ao gasto com consumo, tais como juros e multa por atraso no pagamento, por falta de previsão legal para seu aproveitamento como crédito das contribuições. Para tanto, invocou-se o inciso III do artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que assim dispõe: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) III - energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Está correta a DRJ em manter a glosa em referência. Sobre a matéria, aplica-se a SÚMULA CARF nº 224, que assim prevê: SÚMULA CARF Nº 224: Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 26/08/2025 – vigência em 01/09/2025 Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito Fl. 285DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 19 outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada. Acórdãos Precedentes: 9303-014.155, 9303-015.234, 9303-015.264, 9303-006.627, 9303-014.981, 9303-015.151. Por tais razões, deve ser mantida a glosa dos créditos em referência. 2.5. Créditos Extemporâneos Com relação aos créditos extemporâneos, argumenta a defesa que o crédito não aproveitado em determinado mês poderá sê-lo nos meses subsequentes, conforme disposto no § 4º, do art. 3º, da Lei n° 10.833/2003, ressaltando que a legislação é expressa neste sentido. O i. Julgador a quo negou o pedido, concluindo que, “conforme se depreende do art. 3º, §1º, da Lei nº 10.833/2003, o crédito da contribuição será determinado mediante a aplicação da respectiva alíquota sobre o valor de bens, serviços, despesas e encargos incorridos no mês.” A DRJ entende que as alterações relativas às informações prestadas no demonstrativo em tela deveriam ser formalizadas por intermédio de Dacon retificador o qual, substituindo integralmente o demonstrativo retificado, serviria, entre outros, para efetivar qualquer alteração nos créditos informados em demonstrativos anteriores. Ademais, ao entregar o Dacon retificador, alterando valores informados em DCTF, a pessoa jurídica deveria apresentar, igualmente, DCTF retificadora. Trata-se de providência indispensável em face de que, apurados créditos relativos à contribuição, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL correspondentes aos mesmos períodos também sofrem reflexos indissociáveis. Sobre a matéria, não obstante o entendimento desta relatora, deve ser aplicada a SÚMULA CARF nº 231, que assim prevê: SÚMULA CARF Nº 231: Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 05/09/2025 – vigência em 16/09/2025 O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. Acórdãos Precedentes: 9303-011.780, 9303-013.263, 9303-014.081. Por tais razões, deve ser mantida a glosa dos créditos em referência. Fl. 286DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.790 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901512/2014-64 20 Ante o exposto, conheço e dou parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Redator Fl. 287DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 13855.901713/2017-30
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 11 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Tue Feb 03 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015
EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. LEITE. CAIXAS COLETIVAS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE.
As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR.
CRÉDITO PRESUMIDO. FRETES SOBRE COMPRAS. POSSIBILIDADE.
O valor do frete pago na aquisição de mercadorias, quando contratado de pessoa jurídica e suportado pelo adquirente dos bens, pode gerar créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, uma vez que ele integra o custo de aquisição. Havendo registro autônomo e diferenciado, a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui “insumo”, e, portanto, permite a tomada de crédito integral.
Numero da decisão: 3302-015.330
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.318, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13855.900248/2016-39, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
Assinado Digitalmente
Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Sergio Roberto Pereira Araujo(substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente).
Nome do relator: LAZARO ANTONIO SOUZA SOARES
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conteudo_txt : Metadados => date: 2026-01-30T02:11:33Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: Microsoft® Word 2010; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; language: pt-BR; dcterms:created: 2026-01-30T02:11:33Z; Last-Modified: 2026-01-30T02:11:33Z; dcterms:modified: 2026-01-30T02:11:33Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2026-01-30T02:11:33Z; pdf:docinfo:creator_tool: Microsoft® Word 2010; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2026-01-30T02:11:33Z; meta:save-date: 2026-01-30T02:11:33Z; pdf:encrypted: false; modified: 2026-01-30T02:11:33Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; dc:language: pt-BR; meta:creation-date: 2026-01-30T02:11:33Z; created: 2026-01-30T02:11:33Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 13; Creation-Date: 2026-01-30T02:11:33Z; pdf:charsPerPage: 1764; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: SERVIÇO FEDERAL DE PROCESSAMENTO DE DADOS (SERPRO) using ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2026-01-30T02:11:33Z | Conteúdo => D O C U M E N T O V A L ID A D O MINISTÉRIO DA FAZENDA Conselho Administrativo de Recursos Fiscais PROCESSO 13855.901713/2017-30 ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA SESSÃO DE 11 de novembro de 2025 RECURSO VOLUNTÁRIO RECORRENTE USINA DE LATICINIOS JUSSARA SA INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015 EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. LEITE. CAIXAS COLETIVAS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. CRÉDITO PRESUMIDO. FRETES SOBRE COMPRAS. POSSIBILIDADE. O valor do frete pago na aquisição de mercadorias, quando contratado de pessoa jurídica e suportado pelo adquirente dos bens, pode gerar créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, uma vez que ele integra o custo de aquisição. Havendo registro autônomo e diferenciado, a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui “insumo”, e, portanto, permite a tomada de crédito integral. ACÓRDÃO Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Este julgamento seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, sendo-lhes aplicado o decidido no Acórdão nº 3302-015.318, de 11 de novembro de 2025, prolatado no julgamento do processo 13855.900248/2016-39, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Fl. 165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Mário Sérgio Martinez Piccini, Francisca das Chagas Lemos, Sergio Roberto Pereira Araujo(substituto[a] integral), Louise Lerina Fialho, Marina Righi Rodrigues Lara e Lázaro Antônio Souza Soares (Presidente). RELATÓRIO O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 1.634, de 21 de dezembro de 2023. Dessa forma, adota-se neste relatório substancialmente o relatado no acórdão paradigma. Trata-se de Recurso Voluntário, interposto em face de acórdão de primeira instância que julgou procedente em parte Manifestação de Inconformidade, cujo objeto era a reforma do Despacho Decisório exarado pela Unidade de Origem, que julgou o Pedido de Ressarcimento apresentado pelo Contribuinte. O pedido é referente ao suposto crédito de Contribuição para o PIS/Pasep. Os fundamentos do Despacho Decisório da Unidade de Origem e os argumentos da Manifestação de Inconformidade estão resumidos no relatório do acórdão recorrido. Na sua ementa, estão sumariados os fundamentos da decisão, detalhados no voto: ASSUNTO: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/07/2015 a 30/09/2015 REGIME DA NÃO CUMULATIVIDADE. CONCEITO DE INSUMOS. No regime da não cumulatividade, o termo “insumo” não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para a atividade da empresa, mas, sim, tão somente aqueles, adquiridos de pessoa jurídica, que efetivamente sejam essenciais ou relevantes para a produção de bens destinados à venda ou na prestação do serviço da atividade. CRÉDITOS. INSUMOS. SERVIÇOS COM MANUTENÇÃO. São considerados insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep os bens e serviços adquiridos e utilizados na manutenção de bens do ativo imobilizado da pessoa jurídica responsáveis por qualquer etapa do processo de produção de bens destinados à venda e de prestação de serviço. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CRÉDITO PRESUMIDO. FRETES SOBRE COMPRAS. O valor do frete pago na aquisição de mercadorias, quando contratado de pessoa jurídica e suportado pelo adquirente dos bens, pode gerar créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, uma vez que ele integra o custo de aquisição. Se os bens adquiridos gerarem o direito ao crédito presumido, Fl. 166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 3 os dispêndios com os respectivos fretes somente podem gerar o mesmo tipo de crédito. CRÉDITOS. INSUMOS. EMBALAGEM DE TRANSPORTE. As embalagens utilizadas para viabilizar o transporte de mercadorias não são consideradas insumos, não dando, pois, direito a desconto de crédito na apuração da Contribuição para o PIS/Pasep no regime da não cumulatividade. CRÉDITOS. INSUMOS. GASTOS POSTERIORES À FINALIZAÇÃO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO. Os gastos posteriores à finalização do processo de produção não são considerados insumos para fins de creditamento da Contribuição para o PIS/Pasep apurada no regime não cumulativo. CRÉDITO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. TAXA SELIC. VEDAÇÃO LEGAL. Por expressa disposição legal, não incide atualização monetária sobre créditos da Contribuição para o PIS/Pasep objeto de ressarcimento. Tomando ciência da decisão, a Recorrente apresentou Recurso Voluntário. Em síntese, requereu que seja aplicado o conceito de insumo para fins de créditos de PIS/Pasep e COFINS fixado pelo STJ no REsp nº 1.220.170/PR. Apresentou as razões para a reforma do acórdão recorrido: 2.1.1. - Das Glosas de Materiais de Embalagens – Caixas Coletivas: Para a Recorrente, os itens glosados são insumos necessários e efetivamente aplicados ao produto industrializado e diretamente relacionados a sua atividade operacional, portanto, atendem ao critério de essencialidade e relevância para a consecução da atividade econômica por ela desempenhada. 2.1.2 – Dos Serviços Utilizados como Insumos (Fretes de leite in natura) – a) Que seja afastado o entendimento de cálculo crédito presumido sobre serviços de frete de compras e seja reconhecido o crédito integral com determinação para a aplicação das alíquotas de 1,65% (Pis) e 7,60% (COFINS) com o serviço fretes de compras (fretes de leite in natura); 2.1.3. Das Glosas de com Gastos Posteriores a Finalização do Processo produtivo: despesas denominadas “diversos expedição” e “acondicionamento fábrica” e “manutenção empilhadeira”. É o relatório. VOTO Fl. 167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 4 Tratando-se de julgamento submetido à sistemática de recursos repetitivos na forma do Regimento Interno deste Conselho, reproduz-se o voto consignado no acórdão paradigma como razões de decidir: ADMISSIBILIDADE O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos, dele tomo conhecimento. RAZÕES DE MÉRITO: DAS GLOSAS DE MATERIAIS DE EMBALAGENS – CAIXAS COLETIVAS Conforme consta dos autos, a principal atividade da interessada é a exploração da indústria e comércio de leite e derivados (creme de leite, queijo mussarela, queijo parmesão, manteiga, bebida láctea achocolatada), sendo pessoa jurídica que exerce atividade agropecuária, dedicada a produtos destinados à alimentação humana classificados no capítulo 4, da NCM. Diz a Recorrente que dentre as glosas sofridas, a mais expressiva é a que se refere aos materiais de embalagens – caixas coletivas. A embalagem é utilizada para acondicionar 12 caixas de leite de 1 litro, e os seus custos foram excluídos da base de créditos sob o argumento de tratar-se de uma embalagem de transporte e não de apresentação. Como afirmando no Recurso Voluntário: “(...) 2. Trata-se de uma embalagem de apresentação, pois, diferentemente do que foi dito pelo agente fiscal ela é confeccionada em material resistente, colorido, com impressão de todos os dados e informações do produto. Justamente para poder ser manuseada no ponto de venda como embalagem de apresentação destinada ao consumidor final. O consumidor que adquire estes produtos da Requerente os leva para casa nas exatas condições – de embalagem - em que saíram da fábrica. Esta embalagem de apresentação padrão com 12 unidades do produto agrega valor ao produto, pois, tem designer, cores, informação, quantidade etc. (...) A comercialização do produto leite não se dá em unidades de 1 litro, mas sim em unidades de caixas contendo 12 litros. Desta forma, a embalagem é do produto e não simplesmente para transporte. Consta no processo cópia de Nota Fiscal que comprova a operação. 4. A caixa longa vida não pode ser amassada ou molhada, tampouco perfurada, pois, qualquer amassamento ou umidade causará a deterioração do produto com perda total, que conforme já especificamos acima é leite. Sem a utilização das caixas coletivas, a indústria teria que realizar grande quantidade de trocas do produto leite longa vida, bem como teria um alto volume de perdas por deterioração, o que tornaria inviável a sua produção e comercialização. Ora, é sabido mesmo para quem é leigo no assunto que um produto tão perecível como é o leite exige cuidados específicos no seu acondicionamento para que permaneçam garantidas as propriedades para consumo humano. Acondicionar adequadamente o produto é uma das etapas do processo produtivo. (Grifei). Fl. 168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 5 Sobre o produto por ela fabricado, a Recorrente argumentou que produz um produto altamente perecível, o que já comprova a relevância e essencialidade das embalagens em debate. Ainda, tais características são ratificadas pela garantia de qualidade e conversação que agregam ao produto. O Acórdão da DRJ tratou o material de embalagem para apresentação – caixa coletiva, a partir do relato do auditor fiscal, segregando o produto: a) O produto de maior volume de vendas do contribuinte é o leite, vendido em embalagem de 1 litro. Esta sim é considerada embalagem de apresentação e com direito a crédito de Pis e COFINS. b) Já as embalagens do tipo “Caixa Coletiva” são destinadas a facilitar o transporte, não contém todas as informações do produto, não valorizam o produto, são feitas em material de qualidade inferior ao da embalagem de 1 litro, não são comumente vendidos (no varejo) em embalagem coletiva e o seu acondicionamento na etapa de expedição (o produto já está fabricado e embalado). Concluiu que, ainda que se considere importante para a movimentação do produto, as “caixas coletivas” não compõem o processo de industrialização do leite, sendo relacionadas a etapa posterior ao envase, ou seja, depois de concluído o processo produtivo. Somente as embalagens incorporadas ao produto durante o processo de fabricação são caracterizadas como insumo, as “caixas coletivas” – embalagens destinadas a facilitar o transporte do leite e empregadas posteriormente à finalização do processo de produção – não geram créditos da COFINS, devendo ser mantidas as glosas efetuadas no Despacho Decisório. Passo à análise. O Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17.12.2018, ao evidenciar as repercussões oriundas do julgamento do Recurso Especial 1.221.170/PR, pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, afirmou: a) “critério da essencialidade diz com o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço”: a.1) “constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço”; a.2) “ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência”; b) já o critério da relevância “é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja” b.1) “pelas singularidades de cada cadeia produtiva”; b.2) “por imposição legal”. Ao tratar de bens e serviços utilizados por imposição legal, o Parecer COSIT nº 05/2018 destacou a atividade de preparação de alimentos, em que a Fl. 169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 6 interpretação para fins de cálculo de crédito das Contribuições deve-se a uma visão conglobante do sistema normativo: 35. Como exemplo de atividades que promovem a reunião de insumos para produção de um bem novo que não são consideradas industrialização, mas que podem ser consideradas produção de bens para fins de apuração de créditos das contribuições com base no dispositivo em tela, citam-se as hipóteses de preparação de produtos alimentares não acondicionados em embalagem de apresentação mencionadas no inciso I do caput do art. 5º do Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010 (Regulamento do IPI). (...) 49. Conforme relatado, os Ministros incluíram no conceito de insumos geradores de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, em razão de sua relevância, os itens “cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção (...) por imposição legal”. (...) 51. Daí se constata que a inclusão dos itens exigidos da pessoa jurídica pela legislação no conceito de insumos deveu-se mais a uma visão conglobante do sistema normativo do que à verificação de essencialidade ou pertinência de tais itens ao processo de produção de bens ou de prestação de serviços por ela protagonizado. Aliás, consoante exposto pelo Ministro Mauro Campbell Marques em seu segundo aditamento ao voto (que justamente modificou seu voto original para incluir no conceito de insumos os EPIs) e pela Ministra Assusete Magalhães, o critério da relevância (que engloba os bens ou serviços exigidos pela legislação) difere do critério da pertinência e é mais amplo que este. (Grifei). Em relação ao transporte de alimentos industrializados, a regulamentação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA SG Resolução 10/1984, dispõe sobre instruções para conservação nas fases de transporte, comercialização e consumo dos alimentos perecíveis, industrializados ou beneficiados, acondicionados em embalagens, determinou, dentre outras medidas, que os alimentos perecíveis, acondicionados em embalagens para a sua conservação devem oferecer orientação segura para que o alimento não se torne impróprio para o consumo, sob pena de ensejar a abertura de processo de infração sanitária contra a empresa que desatender tais recomendações (itens 1, 2, 3 e 12). Na mesma linha, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, em Resolução RDC nº 722, de 01/07.2022, tratou dos limites máximos tolerados (LMT) de contaminantes em alimentos (concentração máxima do contaminante legalmente aceita), em todos os setores envolvidos nas etapas de produção, industrialização, armazenamento, transporte e distribuição de alimentos para o consumo humano. Pelos exemplos acima, observa-se que a conservação nas fases de transporte de alimentos, como é o caso do leite, é decorrente de imposição legal. Fl. 170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 7 Tanto pelas singularidades de cada cadeia produtiva quanto por imposição legal, para o setor de produção de alimentos, como é o caso da Recorrente, identifica-se na embalagem de acondicionamento o critério da relevância (“é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção”), nos termos dos normativos citados. Neste sentido, embalagem de apresentação ou de transporte, deve compor a base de créditos de PIS/Pasep e de COFINS. Quanto a questão de o insumo ser utilizado após a industrialização do bem, a Instrução Normativa RFB nº 2121, DE 15.12.2022, ao definir os créditos decorrentes da aquisição de insumos, estabeleceu o que segue: Art. 176 - § 1º Consideram-se insumos, inclusive: I - Bens ou serviços necessários à elaboração de insumo em qualquer etapa anterior de produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros (insumo do insumo); II - Bens ou serviços que, mesmo utilizados após a finalização do processo de produção, de fabricação ou de prestação de serviços, tenham sua utilização decorrente de imposição legal; (Grifei). A Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF enfrentou o tema. veja-se: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2007 a 30/09/2007 CONCEITO DE INSUMOS NA SISTEMÁTICA NÃO-CUMULATIVA. (...) EMBALAGENS PARA TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. CRÉDITOS. POSSIBILIDADE. As despesas incorridas com embalagens para transporte de produtos alimentícios, desde que destinados à manutenção, preservação e qualidade do produto, enquadram-se na definição de insumos dada pelo STJ, no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR. (3ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Decisão 9303-011.355, de 30.10.2021, Processo 10925.901881/2011-71, Relator Jorge Olmiro Lock Freire). (Grifei). ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2007 a 31/03/2007 CONCEITO DE INSUMOS. CRÉDITO DE CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. EMBALAGENS PARA TRANSPORTE. Com o advento da NOTA SEI PGFN MF 63/18, restou clarificado o conceito de insumos, para fins de constituição de crédito das contribuições não cumulativas, definido pelo STJ ao apreciar o REsp 1.221.170, em sede de repetitivo - qual seja, de que insumos seriam todos os bens e serviços que possam ser diretamente ou indiretamente empregados e cuja subtração resulte na impossibilidade ou inutilidade da mesma prestação do serviço ou da produção. Ou seja, itens cuja subtração ou obste a atividade da empresa ou acarrete substancial perda da qualidade do produto ou do serviço daí resultantes. Nessa linha, deve-se reconhecer o direito ao crédito das contribuições sobre as despesas com embalagens para transporte. (3ª. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, Decisão 9303-012.948, de 11.05.2022, Relatora Tatiana Midori Migiyama). (Grifei). Fl. 171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 8 Com razão a Recorrente. Não me parece razoável, data vênia, considerar que embalagens que acondicionam alimentos, não cumprem elemento estrutural e inseparável do processo produtivo, sendo a sua falta, efetiva privação da qualidade do produto. Voto pelo provimento do Recurso neste ponto, para reverter a glosa descrita. DOS SERVIÇOS UTILIZADOS COMO INSUMOS (FRETES DE LEITE IN NATURA) Quanto a aquisição de serviços de frete, a Recorrente assegurou tratar-se de um insumo/serviço necessário e imprescindível para a realização da atividade industrial a que se dedica. Trata-se de uma operação comercial totalmente independente da compra do insumo, tem fornecedores e documentos fiscais (NFs) distintos, de forma que o pagamento deste serviço é um custo diretamente vinculado à produção. Trata-se de custo que sofre incidência do PIS/Pasep e da COFINS, logo para que cumpra a não-cumulatividade tais dispêndios devem compor a base de créditos. Destacou os aspectos de suas operações: 1. Adquire mercadorias/insumos para industrialização; 2. O serviço de frete nas compras é imprescindível para obtenção do produto, de forma que somente há produção com a compra destes serviços de fretes prestados por outras pessoas jurídicas, já que o insumo precisa chegar à fábrica, o que gera custo onerado pelo PIS/Pasep para Recorrente. A DRJ05 afirmou que: “Não há previsão legal específica para o cálculo de créditos da não cumulatividade em relação ao frete pago nas operações de compras” (fls. 124). Tratando-se de valor que integra o custo de aquisição, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre o gasto com frete deve ser determinada em função da possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens transportados, ou seja, nem todo gasto com frete é capaz de gerar crédito a ser deduzido na apuração não-cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, mas somente o frete pago nas aquisições de insumos ou mercadorias passíveis também de creditamento. No caso sob análise, o frete advém de aquisições de leite in natura (insumo), que compõem a base do crédito presumido. A natureza do crédito relativo ao frete pago segue a mesma natureza do crédito proveniente da aquisição do bem transportado: se os bens adquiridos geraram o direito ao crédito presumido, os dispêndios com os respectivos fretes somente podem gerar o mesmo tipo de crédito. (Grifei). Assim, a decisão da DRJ adotou a tese de que o creditamento sobre frete na aquisição é admitido na mesma proporção em que se der o creditamento do bem Fl. 172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 9 adquirido. Quando o bem adquirido gera direito ao crédito presumido, o frete somente pode gerar o mesmo tipo de crédito. Passo a análise. Sabe-se que o frete integra o custo dos bens (destinados à revenda ou utilizados como insumo de produção), o custo de aquisição dos bens (mercadorias ou insumos), gera direito ao desconto de crédito, desde que contratado de pessoa jurídica e cujo ônus tenha sido suportado pelo adquirente. O frete é categorizado como operação autônoma em relação aos produtos que transporta. Tratando-se de operação autônoma, devidamente tributada e que compõe o custo de aquisição da mercadoria para revenda, sobre ela deve-se calcular o crédito das Contribuições. A própria Instrução Normativa nº 2.121/2022, ao tratar dos créditos básicos das Contribuições, já definiu: Art. 171. Para efeito de cálculo dos créditos de que trata esta Seção, integram o valor de aquisição: (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 2152, de 14 de julho de 2023): (...) II - O valor do seguro e do frete relativos ao produto adquirido, quando suportados pelo comprador. (Grifei). Nos casos de vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência, não há impedimento da manutenção dos créditos vinculados a tais operações, desde que regularmente apurados: Art. 172. As vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota de 0% (zero por cento) ou não incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS não impedem a manutenção pelo vendedor dos créditos de que trata o art. 169 vinculados a essas operações, desde que regularmente apurados (Lei nº 11.033, de 2004, art. 17). 1 A jurisprudência da 3ª Câmara Superior de Recursos Fiscais – CSRF do CARF, acatou a tese de créditos sobre fretes sobre aquisições de produtos, reconhecendo o crédito básico das Contribuições na presença de registro autônomo e diferenciado da operação, ainda que se trate de operações com produtos sujeitos a crédito presumido. Veja-se: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. FRETE NA AQUISIÇÃO DE INSUMOS TRIBUTADOS À ALÍQUOTA ZERO. POSSIBILIDADE. CONDIÇÕES. Os fretes de aquisição de insumos que tenham sido registrados de forma autônoma em relação ao bem adquirido, e submetidos a tributação (portanto, fretes que não tenham sido tributados à alíquota zero, suspensão, isenção ou 1 IN 2121/2022: Art. 169. Os créditos de que trata esta Seção serão determinados mediante a aplicação, sobre a sua base de cálculo, dos percentuais de: I - 1,65% (um inteiro e sessenta e cinco centésimos por cento), para os créditos da Contribuição para o PIS/Pasep; e II - 7,6% (sete inteiros e seis décimos por cento), para os créditos da COFINS. Fl. 173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 10 submetidos a outra forma de não-oneração pelas contribuições) podem gerar créditos básicos da não cumulatividade, na mesma proporção do patamar tributado. No caso de crédito presumido, sendo o frete de aquisição registrado em conjunto com os insumos adquiridos, receberá o mesmo tratamento destes. No entanto, havendo registro autônomo e diferenciado, e tendo a operação de frete sido submetida à tributação, caberá o crédito presumido em relação ao bem adquirido, e o crédito básico em relação ao frete de aquisição, que também constitui “insumo”, e, portanto, permite a tomada de crédito (salvo nas hipóteses de vedação legal, como a referida no inciso II do § 2º do art. 3º da Lei 10.833/2003). (3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS, processo 10935.901797/2016-42, 07.10.2024, DECISÃO 9303-015.275, Relatora Liziane Angelotti Meira). (Grifei). De fato, o inciso II, § 2º, do art. 3º, das Leis nos 10.637/2002 e 10.833/2003, veda o crédito somente sobre a aquisição de bens ou serviços não sujeitos ao pagamento das contribuições, mas não impede o crédito sobre serviços tributados vinculados a bens não sujeitos à tributação. Com razão a Recorrente. Voto por dar provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. DAS GLOSAS DE COM GASTOS POSTERIORES A FINALIZAÇÃO DO PROCESSO PRODUTIVO A Recorrente debateu as glosas sobre gastos que a fiscalização denominou “posteriores ao processo de industrialização”, que alcançam especificamente as despesas denominadas “diversos expedição” e “acondicionamento fábrica” e “manutenção empilhadeira”. Passo a análise dos tópicos recorridos. A) DIVERSOS EXPEDIÇÃO; ACONDICIONAMENTO FÁBRICA E MANUTENÇÃO EMPILHADEIRA A Recorrente alegou que são passíveis de creditamento todos os bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Afirmou que não classifica as atividades em processo produtivo e atividades posteriores ao processo produtivo porque este não pode ser dissociado, compreende todas as atividades (insumos e serviços) necessárias à disponibilização do produto ao seu consumidor. O processo inicia com a compra dos insumos e termina com a venda dos produtos industrializados. Para a DRJ restou claro que as despesas glosadas (44641.5/44811.4 – Manutenção Expedição, 42804.8 – Acondicionamento Fábrica e 42608.8 – Manutenção Empilhadeira) são posteriores à finalização do processo de produção do leite e dos seus derivados, não se enquadrando no conceito de insumo essencial e Fl. 174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 11 relevante para a industrialização dos produtos. Manteve as glosas efetuadas no Despacho Decisório. Passo a análise. Ao tratar de bens e serviços utilizados por imposição legal, o Parecer COSIT nº 05/2018 destacou os produtos e serviços de limpeza, desinfecção e dedetização de ativos produtivos, os chamados “gastos gerais de fabricação” de produtos alimentícios. Veja-se: 7.4. PRODUTOS E SERVIÇOS DE LIMPEZA, DESINFECÇÃO E DEDETIZAÇÃO DE ATIVOS PRODUTIVOS (...) 98. Como relatado, na presente decisão da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, os Ministros consideraram elegíveis ao conceito de insumos os “materiais de limpeza” descritos pela recorrente como “gastos gerais de fabricação” de produtos alimentícios. 99. Aliás, também no REsp 1246317 / MG, DJe de 29/06/2015, sob relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, foram considerados insumos geradores de créditos das contribuições em tela “os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios”. 100. Malgrado os julgamentos citados refiram-se apenas a pessoas jurídicas dedicadas à industrialização de alimentos (ramo no qual a higiene sobressai em importância), parece bastante razoável entender que os materiais e serviços de limpeza, desinfecção e dedetização de ativos utilizados pela pessoa jurídica na produção de bens ou na prestação de serviços podem ser considerados insumos geradores de créditos das contribuições. 101. Isso porque, à semelhança dos materiais e serviços de manutenção de ativos, trata-se de itens destinados a viabilizar o funcionamento ordinário dos ativos produtivos (paralelismo de funções com os combustíveis, que são expressamente considerados insumos pela legislação) e bem assim porque em algumas atividades sua falta implica substancial perda de qualidade do produto ou serviço disponibilizado, como na produção de alimentos, nos serviços de saúde etc. (Grifei). A Instrução Normativa RFB nº 2121, de 15.12.2022, estabeleceu em seu art. 176, que se consideram insumos os bens ou serviços considerados essenciais ou relevantes para o processo de produção ou fabricação de bens destinados à venda ou de prestação de serviços, e que tenham sua utilização decorrente de imposição legal, como é o caso sob análise (no aspecto da manutenção de qualidade do produto ou serviço disponibilizado), ainda que utilizados após a finalização do processo produtivo: Art. 176 - § 1º Consideram-se insumos, inclusive: I - Bens ou serviços necessários à elaboração de insumo em qualquer etapa anterior de produção de bem destinado à venda ou na prestação de serviço a terceiros (insumo do insumo); II - Bens ou serviços que, mesmo utilizados após a finalização do processo de produção, de fabricação ou de prestação de serviços, tenham sua utilização decorrente de imposição legal; (Grifei). Fl. 175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 12 Quanto aos gastos denominados “diversos expedição” /” acondicionamento fábrica”, relativamente aos produtos alimentícios, a Câmara Superior de Recursos Fiscais do CARF decidiu que custos/despesas incorridos com pallets, papelão e filmes strech para proteção e transporte dos produtos alimentícios, cumpridos os demais requisitos, permite direito ao crédito das contribuições. CRÉDITOS. GASTOS COM PALLETS, PAPELÃO E FILMES STRECH PARA PROTEÇÃO E TRANSPORTE DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS. POSSIBILIDADE. Os custos/despesas incorridos com pallets, papelão e filmes strech para proteção e transporte dos produtos alimentícios, quando necessários à manutenção da integridade e natureza desses produtos, enquadram-se na definição de insumos dada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no julgamento do REsp nº 1.221.170/PR, em sede de recurso repetitivo, aplicado no âmbito do CARF por força do disposto no 99 do Regimento Interno fixado pela Portaria n.º 1.634/2023. (Decisão 9303-014.896, 3ª. T, 3ª. Seção da CSRF, publicação 09.05.2024, Relator Alexandre Freitas Costa). (Grifei). A Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção deste Conselho julgou pela possibilidade de crédito quanto aos serviços de expedição: NÃO-CUMULATIVIDADE. TERCEIRIZAÇÃO. SERVIÇO DE EXPEDIÇÃO. TRANSPORTE INTERNO PARA CONFERÊNCIA DO PRODUTO ACABADO E POSTERIOR CARREGAMENTO PARA VENDA. CRÉDITO. POSSIBILIDADE. No tocante à Expedição, por estar relacionada ao transporte interno para conferência do produto acabado e carregamento para venda posterior, a autorização da tomada de crédito se dá com fundamento no art. 3º, IX c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833/2003. Recurso Voluntário Provido. (Decisão: 3301-010.086, 1ª TO da 4ª. C da 2ª Seção, data da publicação 15.06.2021, Relatora Semíramis de Oliveira Duro). (Grifei). Quanto aos gastos denominados “manutenção empilhadeira”, a 3ª. Turma Extraordinária da 3ª Seção do Carf, decidiu que gera direito a crédito a aquisição de gás GLP consumido em empilhadeiras utilizadas para transporte de insumos e produtos dentro do pátio da empresa. Veja-se: PIS E COFINS NÃO CUMULATIVOS. CONCEITO DE INSUMO. CRÉDITO. GLP CONSUMIDO EM EMPILHADEIRAS. POSSIBILIDADE. Gera direito a crédito das contribuições não cumulativas a aquisição de gás GLP consumido em empilhadeiras utilizadas para transporte de insumos e produtos dentro do pátio da empresa, mas desde que observados os demais requisitos legais, dentre os quais tratar-se de insumo em cuja aquisição houve o pagamento das contribuições. (...) PIS E COFINS NÃO CUMULATIVOS. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE. DIREITO A CRÉDITO. ÓLEO DIESEL UTILIZADO EM MÁQUINAS DE LAVAR. POSSIBILIDADE. De acordo com o inciso II do artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, o conceito de insumo pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos das contribuições sobre dispêndios com óleo diesel empregado como combustível de máquinas de lavar utilizados para a Fl. 176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3302-015.330 – 3ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 13855.901713/2017-30 13 limpeza do ambiente de trabalho, identificados nos autos, por empresa que tenha por atividade a produção agrícola. (...) (Decisão: 3003-001.057, 3ª. Turma Extraordinária da 3ª. Seção, publicação 01.06.2020, Relator Marcos Antonio Borges) (Grifei). Deste modo, entendo que cabe razão à Recorrente, considerando que os processos de “acondicionamento fábrica”, “manutenção de expedição”, “manutenção de empilhadeira”, inerente ao processo produtivo do setor a que se dedica, se enquadrando no conceito de insumo essencial e relevante para a industrialização dos seus produtos. Voto pelo provimento do Recurso neste ponto, para reverter a glosa descrita. Voto em dar provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas referentes a materiais de Embalagens – Caixas Coletivas; serviço fretes de compras (fretes de leite in natura); diversos expedição; acondicionamento fábrica; manutenção de expedição; manutenção de empilhadeira. Conclusão Importa registrar que as situações fática e jurídica destes autos se assemelham às verificadas na decisão paradigma, de sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas, não obstante os dados específicos do processo paradigma eventualmente citados neste voto. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 87 do RICARF, reproduz-se o decidido no acórdão paradigma, no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário. Assinado Digitalmente Lázaro Antônio Souza Soares – Presidente Redator Fl. 177DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10530.901508/2014-04
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Mon Feb 02 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013
EMPRESA COMERCIAL EXPORTADORA. APURAÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS VINCULADOS À RECEITA DE EXPORTAÇÃO. VEDAÇÃO.
É vedado à empresa comercial exportadora aproveitar créditos relativos a custos, despesas e outros encargos por conta da aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, para apurar de PIS e COFINS no regime não-cumulativo vinculados à receita de exportação, nos termos do § 4º do art. 6º e inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003.
AQUISIÇÕES. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. RATEIO. CRÉDITO VEDADO.
Empresas comerciais exportadoras se encontram legalmente impedidas de apurar créditos de PIS/COFINS vinculados à aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, tampouco referentes a quaisquer encargos e despesas atinentes a tal exportação.
PIS/COFINS. FRETE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 188.
É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições.
PIS/COFINS. DIREITO AO CRÉDITO. ENERGIA ELÉTRICA CONSUMIDA. SÚMULA CARF Nº 224.
Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada.
CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. SÚMULA CARF Nº 231.
O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes.
DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. ARTIGO 373, INCISO I DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
É ônus do Contribuinte apresentar as provas necessárias para demonstrar a liquidez e certeza de seu direito creditório, devendo ser aplicado o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil.
Numero da decisão: 3402-012.789
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições.
Assinado Digitalmente
Cynthia Elena de Campos – Relatora
Assinado Digitalmente
Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, José de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente).
Nome do relator: CYNTHIA ELENA DE CAMPOS
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INTERESSADO FAZENDA NACIONAL Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/07/2013 a 30/09/2013 EMPRESA COMERCIAL EXPORTADORA. APURAÇÃO DE CRÉDITOS DE PIS E COFINS VINCULADOS À RECEITA DE EXPORTAÇÃO. VEDAÇÃO. É vedado à empresa comercial exportadora aproveitar créditos relativos a custos, despesas e outros encargos por conta da aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, para apurar de PIS e COFINS no regime não-cumulativo vinculados à receita de exportação, nos termos do § 4º do art. 6º e inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003. AQUISIÇÕES. FIM ESPECÍFICO DE EXPORTAÇÃO. RATEIO. CRÉDITO VEDADO. Empresas comerciais exportadoras se encontram legalmente impedidas de apurar créditos de PIS/COFINS vinculados à aquisição de mercadorias com o fim específico de exportação, tampouco referentes a quaisquer encargos e despesas atinentes a tal exportação. PIS/COFINS. FRETE. AQUISIÇÃO DE INSUMOS NÃO TRIBUTADO. CREDITAMENTO. POSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 188. É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. PIS/COFINS. DIREITO AO CRÉDITO. ENERGIA ELÉTRICA CONSUMIDA. SÚMULA CARF Nº 224. Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos Fl. 533DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 2 estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada. CRÉDITOS EXTEMPORÂNEOS. CONTRIBUIÇÃO NÃO CUMULATIVA. SÚMULA CARF Nº 231. O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. ARTIGO 373, INCISO I DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL É ônus do Contribuinte apresentar as provas necessárias para demonstrar a liquidez e certeza de seu direito creditório, devendo ser aplicado o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao Recurso Voluntário para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos – Relatora Assinado Digitalmente Arnaldo Diefenthaeler Dornelles – Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Anselmo Messias Ferraz Alves, Anna Dolores Barros de Oliveira Sá Malta, José de Assis Ferraz Neto, Mariel Orsi Gameiro, Cynthia Elena de Campos e Arnaldo Diefenthaeler Dornelles (Presidente). Fl. 534DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 3 RELATÓRIO Versa o presente litígio sobre Pedido de Ressarcimento de crédito oriundo de pagamento indevido ou a maior da Contribuição da COFINS não-cumulativa, indicado para compensação com débitos de tributos administrados pela Receita Federal do Brasil. O Despacho Decisório Eletrônico reconheceu a existência de direito creditório no valor de R$ 818.166,02 e homologou parcialmente as compensações declaradas na respectiva DCOMP, considerando o Relatório Fiscal emitido no processo nº 10530.723164/2015-69. Cientificada do Despacho Decisório, a Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada improcedente por unanimidade de votos, nos termos do v. Acórdão proferido pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Recife/PE. A Contribuinte foi intimada do v. acórdão de primeira instância, apresentando tempestivamente o Recurso Voluntário, pelo qual pediu o provimento para reforma do acórdão recorrido, para o fim de que seja integralmente reconhecido o direito creditório pretendido, homologando-se as compensações declaradas. Apresentado o recurso, o processo foi encaminhado para inclusão em lote e sorteio para julgamento. É o relatório. VOTO Conselheira Cynthia Elena de Campos, Relatora. 1. Pressupostos legais de admissibilidade Conforme Despacho de Encaminhamento de fls. 324 o Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual deve ser conhecido. 2. Mérito 2.1. Do método de apuração dos créditos Versa o presente litígio de Pedido de Ressarcimento (“PER”) n° 42271.18306.151013.1.1.09-7730, por meio do qual a Recorrente objetiva o ressarcimento de créditos de Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social na sistemática não- cumulativa, apurados no terceiro trimestre do ano-calendário de 2013, para compensação de débitos próprios. Fl. 535DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 4 O Despacho Decisório concedeu parcialmente o PER no valor de R$ 818.166,02 e, como resultado, homologou parcialmente as DCOMPs apresentadas, alegando a ausência de crédito disponível para compensação. A DRJ de origem manteve o entendimento do Despacho Decisório, determinando que, para calcular o percentual de rateio aplicável aos contribuintes que operam parte sob o regime cumulativo e parte sob o regime não-cumulativo, é necessário excluir da receita bruta total as receitas das operações em que a empresa atuou como comercial exportadora. Argumentou a defesa que o art. 3º, § 7º das Leis nº 10.637/2002 e nº 10.833/03 prevê, nas hipóteses em que somente parte das receitas tributáveis pela pessoa jurídica esteja sujeito ao regime não-cumulativo, deverá haver a apropriação do crédito exclusivamente em relação aos custos e despesas relacionados a tais receitas. Neste sentido, estão previstos nos § 8º dos respectivos arts. 3º dois critérios, a saber: (i) a apropriação direta, que dependerá de um controle contábil que permita identificar qual a parcela dos custos e despesas atreladas às receitas não cumulativas; e (ii) o rateio proporcional, calculado por meio da aplicação aos custos e às despesas da razão percentual entre a receita não cumulativa e a receita total. Argumentou, ainda, que não estão incluídas no rol dos aludidos dispositivos as receitas de exportação que ficaram determinadas na redação dos artigos 6º da Lei nº 10.833/03 e 5º da Lei nº 10.637/02. A redação dos §1º e §3º dos mencionados artigos é bastante clara quanto a existência de créditos nas operações de exportação, de modo que a interpretação sistemática desses dispositivos leva à lógica conclusão da inclusão das receitas de exportação junto às receitas sujeitas ao regime da não cumulatividade. Com isso, entende que não há que se falar de exclusão das receitas decorrentes de operações com fim específico de exportações do cômputo do rateio proporcional. O direito creditório foi negado pela DRJ com a seguinte motivação: Em que pese o esforço argumentativo desenvolvido pelo contribuinte, não há como acatar o entendimento por ele defendido. Da leitura do § 4° do art. 6° da Lei n° 10.833/03, já transcrito, infere-se que há vedação para apuração, pela empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim específico de exportação, de “créditos” vinculados à receita de exportação, não havendo restrição a qualquer das hipóteses legais de creditamento. Assim, entende-se que a exegese correta é no sentido de que todas as hipóteses previstas nos incisos dos arts. 3º das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003 estão alcançadas pela vedação. Não há aqui nenhuma interpretação extensiva. Na verdade, é o entendimento defendido pelo contribuinte que se afasta do sentido da norma, pois tende a fazer uma limitação da vedação à apuração de créditos que não encontra amparo no texto legal. A Receita Federal do Brasil, através da sua Coordenação-Geral de Tributação, pronunciou-se sobre esse tema na Solução de Divergência COSIT nº 8, de 24/01/2017 (publicada no DOU de em 26/01/2017, seção 1, página 23). A seguir, Fl. 536DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 5 transcreve-se a ementa dessa Solução Divergência, bem como trechos da sua fundamentação: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Ementa: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. ARMAZENAGEM E FRETE NA OPERAÇÃO DE VENDA. TRANSPORTE INTERNACIONAL DE CARGAS. (....) A empresa comercial exportadora não poderá se utilizar de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep, na forma do disposto no art. 3º, inciso IX c/c art. 15, II, da Lei nº 10.833, de 2003 relativamente a frete e armazenagem vinculados à exportação, por expressa vedação legal contida no art. 6º, § 4º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003. Em síntese, a controvérsia principal neste litígio versa sobre o alcance da vedação à apuração de créditos da Contribuição para o PIS/Pasep contida no § 4º do art. 6º e no art. 15, III, da Lei nº 10.833/2003, bem como o que deve ser computado como receita de exportação para efeito do rateio proporcional a que se referem os §§ 8º e 9º do art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Como informado em razões recursais, a Recorrente é uma joint venture formada por três empresas de comercialização de grãos, vendas de insumos agrícolas e logística, sendo elas a AMAGGI, a LOUIS DREYFUS COMPANY e a subsidiária brasileira do grupo japonês ZEN-NOH GRAIN. Sua atuação consiste na comercialização de soja e milho, na venda de insumos (notadamente fertilizantes, defensivos e sementes) e na exploração de serviços de logística de grãos. A atividade econômica principal da Contribuinte é declarada através do CNAE 46.22-2-00 (comércio atacadista de soja). Vejamos o Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral: Fl. 537DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 6 Para demonstrar a operação conduzida pela Recorrente, que consiste na compra e venda de grande volume de commodities, cujos gastos incorridos com serviços de movimentação de mercadorias explica como fundamentais, foi exposto em peça recursal o fluxograma das etapas que compreendem a recepção dos grãos adquiridos, que abaixo reproduzo: Fl. 538DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 7 Portanto, a defesa confirma que desenvolve suas atividades na comercialização e na prestação de serviços de logística e, para cumprimento de seus objetos sociais que constituem, dentre outros, o comércio atacadista de soja, realização de atividades pós-colheita, o transporte rodoviário de cargas e a atividade de operador portuário. Não obstante as considerações da Recorrente, observa-se no presente caso que há vedação expressa quanto à apropriação de créditos vinculados a receita de exportação, conforme dispõe o §4º do art.6º, da Lei nº10.833/03, in verbis: Art. 6º A COFINS não incidirá sobre as receitas decorrentes das operações de: I exportação de mercadorias para o exterior; II prestação de serviços para pessoa física ou jurídica domiciliada no exterior, com pagamento em moeda conversível; II prestação de serviços para pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; III vendas a empresa comercial exportadora com o fim específico de exportação. § 1º Na hipótese deste artigo, a pessoa jurídica vendedora poderá utilizar o crédito apurado na forma do art. 3º, para fins de: I dedução do valor da contribuição a recolher, decorrente das demais operações no mercado interno; II compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específica aplicável à matéria. Fl. 539DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 8 § 2º A pessoa jurídica que, até o final de cada trimestre do ano civil, não conseguir utilizar o crédito por qualquer das formas previstas no § 1º poderá solicitar o seu ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. § 3º O disposto nos §§ 1º e 2º aplica-se somente aos créditos apurados em relação a custos, despesas e encargos vinculados à receita de exportação, observado o disposto nos §§ 8ºe 9º do art. 3º. § 4º O direito de utilizar o crédito de acordo com o § 1º não beneficia a empresa comercial exportadora que tenha adquirido mercadorias com o fim previsto no inciso III do caput, ficando vedada, nesta hipótese, a apuração de créditos vinculados à receita de exportação. (...) Art. 15. Aplica-se à contribuição para o PIS/PASEP não cumulativa de que trata a Lei no 10.637, de 30 de dezembro de 2002, o disposto: (...) III nos §§ 3 e 4º do art. 6º desta Lei. (destaques nossos) Constata-se que ao regular o §§ 1º e 4º do art. 6º e o inciso III do art. 15 da Lei nº 10.833, de 2003, assim define: § 1º do art. 6º: O direito ao crédito de COFINS e PIS é restrito ao contribuinte que realiza a operação de saída com pagamento das contribuições; § 4º do art. 6º: A vedação ao crédito também se aplica aos custos, despesas e encargos que integram o preço da mercadoria vendida com o fim específico de exportação; Inciso III do art. 15: Amplia a vedação ao impedir a apropriação de créditos de PIS e COFINS para empresas comerciais exportadoras em relação a aquisição de mercadorias e custos associados à exportação. Por sua vez, o § 6°-A do artigo 40 da Lei nº 10.865/2004, reafirma que despesas relacionadas à receita de exportação não são elegíveis para créditos de COFINS e PIS. Vejamos: Art. 40. (...). § 6º-A. A suspensão de que trata este artigo alcança as receitas de frete, bem como as receitas auferidas pelo operador de transporte multimodal, relativas a frete contratado pela pessoa jurídica preponderantemente exportadora no mercado interno para o transporte dentro do território nacional de: (Redação dada pela Lei nº 11.774, de 2008) Fl. 540DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 9 Resta claro que os dispositivos legais acima estabelecem que a não-cumulatividade das contribuições para o PIS/Pasep e a COFINS não se aplica às empresas comerciais exportadoras no que tange à apuração de créditos sobre a aquisição de mercadorias destinadas à exportação. Com isso, mesmo que as despesas de frete estejam diretamente ligadas ao processo de exportação, a legislação impede a apropriação de créditos de COFINS e PIS. A vedação ao crédito busca evitar que um crédito já apropriado em uma etapa anterior seja novamente utilizado por outro contribuinte na cadeia, o que poderia causar distorções e injustiças no cálculo das contribuições. Assim, a vedação é necessária para manter a integridade e a justiça do sistema não-cumulativo. A Solução de Divergência COSIT nº 8, de 24/01/2017 (publicada no DOU de em 26/01/2017, invocada pela DRJ, assim conclui: 39. Diante do exposto, soluciona-se a presente divergência respondendo ao autor do recurso que os dispêndios de frete internacional na operação de venda efetuados por Empresas Comerciais Exportadoras não geram créditos da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime de apuração não cumulativa devido às expressas vedações legais contidas no § 4º do art. 6º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003, e no inciso II do § 2º do art. 3º das leis nº 10.833, de 2003 e nº 10.637, de 2002. 40. Os dispêndios com armazenagem vinculada à exportação efetuados por Empresas Comerciais Exportadoras não geram créditos da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep no regime de apuração não cumulativa, por expressa vedação legal contida no § 4º do art. 6º c/c art. 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003. 41. Reformam-se as Soluções de Consulta SRRF10/Disit nº 103, de 24 de maio de 2007, e SRRF08/Disit nº 151, de 02 de junho de 2006 quanto à interpretação do inciso II do § 2º do art. 3º das leis nº 10.833, de 2003 e nº 10.637, de 2002. (destaque nosso) Por sua vez, concordo com a conclusão do ilustre Julgador de primeira instância, de que está “correto o procedimento fiscal de não considerar as receitas correspondentes às referidas operações no montante da receita de exportação e nem no montante da receita bruta total, auferida em cada mês, utilizados no cálculo do rateio proporcional dos custos, despesas e encargos comuns que autorizam o aproveitamento de créditos a serem descontados das contribuições para o PIS e COFINS”. Portanto, está correta a conclusão da DRJ em manter a glosa dos créditos decorrentes da aquisição de soja e fertilizantes e com fim específico de exportação, bem como das despesas com a respectiva armazenagem. 2.2. Da Transferência de Mercadorias (Retorno Simbólico/Recusa da Mercadoria) Fl. 541DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 10 Entende a Recorrente que devem ser revertidas as glosas dos créditos originados de transferências de mercadorias relativas aos retornos simbólicos e recusa da mercadoria. Para tanto, justifica que necessita utilizar, por vezes, da transferência dos insumos entre os estabelecimentos como forma de atender às demandas de mercado, permitindo a maior eficiência de suas operações. O pedido foi negado pela DRJ em razão da conclusão de que cabe ao contribuinte demonstrar que foram observadas todas as especificidades necessárias para gerar crédito. Reproduzo os fundamentos da decisão recorrida neste ponto: C.2) TRANSFERÊNCIA DE MERCADORIAS - RETORNO SIMBÓLICO/RECUSA DA MERCADORIA O contribuinte entende que, em qualquer hipótese, os gastos com fretes devem autorizar o creditamento, já que, ao contrário da tributação das mercadorias adquiridas, o frete é um negócio jurídico autônomo, sujeito à incidência da contribuição ao PIS e da COFINS, sendo possível, portanto, o creditamento integral das contribuições sobre tais pagamentos, mesmo na hipótese em que não houve a venda de mercadoria, mas incorreu em gastos com seu transporte, como no caso de retorno simbólico ou recusa da mercadoria. Sobre o tema, assim se manifestou a fiscalização: 3.3.3.4. Retorno Simbólico de Mercadoria (item "f") 134. Outra situação encontrada, quando da análise dos documentos fiscais entregues, diz respeito à existência de conhecimentos de transporte sobre os quais a fiscalizada procedeu à apropriação de créditos de Pis/Pasep e Cofins, em que o produto transportado refere-se à nota fiscal de "retorno simbólico de mercadoria", a exemplo do CTRC n° 629, de 13/06/2013, vinculado à NF n° 2281. (...) 136. Vê-se, portanto, que referidos documentos fiscais não se referem a operações venda de mercadoria, mas apenas de procedimento atinente à formalização do transporte das mercadorias para fins de formação de lote e posterior exportação. 137. Tal operação, no entanto, não se enquadra em qualquer hipótese legalmente prevista para creditamento, motivo pelo qual os respectivos valores foram excluídos do cálculo. 3.3.3.6. Mercadoria recusada (item "h") 143. Dentre os documentos relacionados na rubrica em análise, constam CTRC relativos ao transporte da mercadoria proveniente do Porto de Cotegipe para entrega no estabelecimento da fiscalizada ou em estabelecimento formalmente contratado como depositário. 144. Em análise dos referidos conhecimentos de transportes, foi verificado que se trata de devoluções da soja anteriormente enviada ao Porto para embarque e que Fl. 542DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 11 não atenderam ao padrão de qualidade exigido, a exemplo do CTRC nº 6136, de 25/09/2013, relativo à NF nº 2747 145. Portanto, mais uma vez, não se trata de despesa de frete relativa a operações de vendas, conforme exigido pelo inciso IX do art. 3º das Leis n°s 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003, capazes de gerar crédito; tampouco se enquadram nas outras hipóteses de tomada de crédito relacionadas nos demais incisos do retromencionado art. 3º . 146. Por tal motivo, os documentos fiscais relacionados no citado Anexo V, identificados como "mercadoria recusada", serão excluídos do cálculo. Registre-se que, não obstante a previsão da lei seja no sentido de autorizar o creditamento sobre os fretes em inúmeras hipóteses, cabe ao contribuinte demonstrar que foram observadas todas as especificidades necessárias para gerar crédito (por exemplo e conforme já solicitado pela fiscalização: se o ônus foi do comprador/contribuinte e o local de origem do transporte (no caso de frete de compra), se o frete interno ocorreu dentro do processo produtivo (no caso de transporte entre estabelecimentos), se o ônus foi do vendedor/contribuinte e o local de destino do transporte (no caso de frete de venda). No caso de frete oriundo de mercadoria recusada ou retorno simbólico, visto não se enquadrarem em nenhuma das hipóteses que geram crédito de PIS e COFINS, deve ser mantida a glosa. Mesmo tendo ocorrido os gastos com transporte das mercadorias, esses valores não geram direito a crédito de PIS e Cofins, pois não decorreram de vendas e tampouco estão associados ao seu processo produtivo, não se podendo aplicar, como defende o impugnante, o art. 3º da Lei nº 10.833/2003. Ademais, para caracterização dessas despesas como insumo, a interpretação deve ser efetuada à luz da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF e do Parecer Normativo COSIT/RFB Nº 05, de 17/12/2018, que como se pode verificar, não autorizam que se considerem referidos gastos como insumos. Com razão à decisão recorrida. Versando este litígio sobre pedido de crédito, aplica-se o artigo 373, inciso I do Código de Processo Civil, que atribui o ônus da prova ao autor quanto ao fato constitutivo de seu direito. Vejamos as decisões abaixo colacionadas: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/04/2000 a 30/06/2000 RESSARCIMENTO DO IPI. COMPROVAÇÃO Quando dados ou documentos solicitados ao interessado forem necessários a apreciação de pedido formulado, a demonstrar o direito do contribuinte, ele se obriga a apresentá-los para comprovar o seu direito, caso contrário se sujeita à análise de seu pedido destituída de provas. Fl. 543DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 12 ÔNUS DA PROVA Cabe a defesa do ônus dos fatos que fundamentam o pedido de ressarcimento. Recurso voluntário negado. (Acórdão nº 3403-003.392 – PAF nº 13869.000095/00-40 – Relator: Conselheiro Antonio Carlos Atulim) Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – Cofins Data do Fato Gerador: 20/04/2007 DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. (Acórdão nº 9303-007.218 – PAF nº 10840.909854/2011-86 – 3ª Turma da CSRF - Relator: Conselheiro Rodrigo da Costa Possas) ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 30/04/2004 COMPENSAÇÃO. RECOLHIMENTOS INDEVIDOS DE COFINS/PIS. AUSÊNCIA DE LIQUIDEZ E CERTEZA DO DIREITO CREDITÓRIO. É ônus do contribuinte comprovar a liquidez e certeza de seu direito creditório, conforme determina o caput do art. 170 do CTN, devendo demonstrar de maneira inequívoca a sua existência. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE NEGADO. (Acórdão nº 9303-002.562 – PAF nº 10120.904658/2009-26 – 3ª Turma da CSRF - Relator: Conselheiro Rodrigo da Costa Possas) Destaco a fundamentação que embasou o voto condutor do v. Acórdão nº 9303- 002.562, de relatoria do Ilustre Conselheiro Rodrigo da Costa Possas, abaixo reproduzida: Aqui o ônus probante é daquele que pleiteia o direito creditório, nos exatos termos do art. 333 do CPC. A comprovação de uma das partes de determinado fato ou situação jurídica decorre da distribuição legal do ônus da prova. Há que se “convencer” o julgador da existência do direito e a parte contrária dos fatos impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do sujeito ativo. O que ocorre é a assunção dos riscos de uma decisão desfavorável de quem efetivamente tinha o ônus probatório, ou seja, o encargo jurídico de demonstrar a veracidade de fatos ou a existência de situações jurídicas que ensejassem que Fl. 544DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 13 os julgadores tomassem uma decisão que lhe fosse favorável. Não há a obrigatoriedade das partes em se produzir a prova. É interesse de ambas as parte em fazê-lo. Mas se o ônus decaí em uma parte e ela não o faz, assume os riscos e as consequências estabelecidos no arcabouço jurídico relacionado àquela matéria. O ônus da prova não é um dever e nem um comportamento necessário da parte interessada, mas um direito de a parte poder convencer os julgadores acerca da veracidade de suas alegações, aumentando as chances de uma decisão favorável. In casu, o titular do direito creditório, em tese, é que tem que provar, por meio de provas suficiente para demonstrar a certeza e liquidez do direito. A meu ver o contribuinte não se desincumbiu desse ônus. Destarte, apenas com a retificação da DCTF não gera direito creditório. Mesmo que haja uma retificação a destempo, o fato é que este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais vem relativizando o entendimento da preclusão tanto da retificação da DCTF quanto ao momento da apresentação de provas, desde sejam provas cabais, necessárias e suficientes. A prova deve exaurir em si mesma, ou seja, a sua simples apresentação é suficiente para a comprovação do direito, não tendo que se fazer outras averiguações. Reforçando: quando demonstrado pelo contribuinte, que o seu direito creditório é líquido e certo, tudo em homenagem ao Princípio da Verdade Material, desde que sejam apresentadas as provas necessárias e suficientes para embasar a operação, tem- se relativizado a ocorrência da preclusão temporal. Nesse sentido, há diversos julgados, tais como: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Ano-calendário: 2003 DCTF. RETIFICAÇÃO CONSIDERADA NÃO ESPONTÂNEA EM PROCESSO ANTERIOR. VERDADE MATERIAL. DCTF retificadora apresentada de forma não espontânea, em virtude de transmissão efetivada após a ciência de despacho decisório de não homologação de compensação, que não reconhecer o direito creditório alegado, viabiliza compensações posteriores, relativas a esse mesmo crédito se for comprovada através dos documentos fiscais competentes em virtude do princípio da verdade material. DÉBITOS CONFESSADOS. RETIFICAÇÃO. NECESSIDADE DE ESCRITA FISCAL. COMPROVAÇÃO DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. Eventual retificação dos valores confessados em DCTF deve ter por fundamento, como no caso, os dados da escrita fiscal do contribuinte, para a comprovação da existência de direito creditório decorrente de pagamento indevido (Acórdão 130201.015– 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária) Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Ano-calendário: 2004 Fl. 545DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 14 PER/DCOMP. RETIFICAÇÃO DA DCTF APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. AUSÊNCIA DE PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. O contribuinte, a despeito da retificação extemporânea da DCTF, tem direito subjetivo à compensação, desde que apresente prova da existência do crédito compensado. A simples retificação, desacompanhada de suporte probatório, não autoriza a homologação da compensação do crédito tributário. Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido. (Acórdão3802001.550– 2ª Turma Especial) Observe-se que para que seja aceito o direito creditório, ainda que a DCTF não tenha sido retificada espontaneamente, deve ser comprovado de maneira cabal o direito creditório, mediante a comprovação dos valores pagos a maior pela apresentação da contabilidade escriturada à época dos fatos, acompanhada por documentos que a embasam. É dizer, planilha confeccionada pela empresa, desacompanhada de quaisquer outros documentos, não se prestam à finalidade almejada. Aliás, a consulta ao banco de dados da jurisprudência deste Conselho, demonstra que há diversos pedidos de compensação da Recorrente, que foram denegados pela ausência de prova, como os Acórdãos 3802001.602, 3801001.660, 3801001.659, 3802001.598, 3802001.599, 3802001.593, entre outros. (sem destaques no texto original) Assim, cabe ao contribuinte trazer aos autos os elementos aptos a comprovar a existência de direito creditório, capazes de demonstrar, de forma cabal, que a Fiscalização incorreu em erro ao não homologar a compensação pleiteada. Por tais razões, deve ser mantida a glosa em referência. 2.3. Dos Fretes nas Aquisições A Contribuinte pede o direito creditório sobre os fretes pagos na aquisição de soja de pessoas física, que assim foi fundamentada no Termo de Verificação Fiscal: 3.3.3.2. Aquisição de soja e fertilizante (itens “c” e “d”) 113. Identificação, dentre os documentos fiscais apresentados, de frete pago para transporte da mercadoria do fornecedor/produtor até o armazém da fiscalizada. Trata-se, pois, de frete pago nas aquisições de soja, adubos e fertilizantes. 114. Inicialmente, cabe observar, que o frete pago pelo adquirente na compra de insumos destinados à fabricação de bens destinados à venda integra o custo de aquisição desses insumos, consoante a boa técnica contábil e o disposto no art. 289, c/c o art. 290, I, do Regulamento do Imposto de Renda (RIR), aprovado pelo Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, que assim dispõe: “Subseção III Fl. 546DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 15 Custo dos Bens ou Serviços Art. 289. O custo das mercadorias revendidas e das matérias-primas utilizadas será determinado com base em registro permanente de estoques ou no valor dos estoques existentes, de acordo com o Livro de Inventário, no fim do período de apuração (Decreto-Lei nº 1.598/1977, art. 14). § 1º O custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte e os tributos devidos na aquisição ou importação (Decreto-Lei nº 1.598/1977, art. 13). § 2º Os gastos com desembaraço aduaneiro integram o custo de aquisição. § 3º Não se incluem no custo os impostos recuperáveis através de créditos na escrita fiscal.” Custo de Produção Art. 290. O custo de produção dos bens ou serviços vendidos compreenderá, obrigatoriamente (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 13, § 1º): I - o custo de aquisição de matérias-primas e quaisquer outros bens ou serviços aplicados ou consumidos na produção, observado o disposto no artigo anterior; (---)” 115. Portanto, regra geral, o frete pago na aquisição de mercadorias destinadas à revenda ou de insumos para fabricação de bens destinados a venda, quando contratado com pessoa jurídica domiciliada no País e suportado pelo adquirente dos insumos, pode, nos termos do art.3º, II, das Leis nº10.637, de 2002, e nº10.833, de 2003, gerar créditos de contribuição para o PIS/Pasep e de Cofins, já que, nessa situação, ele integra o valor de aquisição dos insumos. 116. Por outro lado, tem-se que o dispêndio relativo ao frete é de natureza acessória, ou seja, acompanha o principal (aquisição do produto). A veracidade de tal questão confirma-se com o fato de que: se o produto adquirido não se enquadrar como insumo do processo produtivo não poderá constituir-se em base de cálculo para a apropriação da contribuição; tampouco o serviço de transporte o fará, dado que depende daquele. 117. Isto posto, fácil perceber que as despesas de frete concernentes à aquisição de soja, adubo e fertilizantes não podem compor a base de cálculo dos créditos de PIS e COFINS, em razão de: i) a soja ter sido adquirida de pessoa física e, por conseguinte, não se sujeitar à incidência das contribuições; ou, ainda, ter sido adquirida com suspensão de incidência das contribuições, e ii) os adubos e fertilizantes, na venda para o mercado interno, sujeitarem-se à alíquota zero das contribuições, conforme disposto no art. 1º, da Lei nº 10.925, de 2004. 118. Portanto, de acordo com art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.637, de 2002, e do art. 3º, § 2º, II, da Lei nº 10.833, de 2003, veda-se o aproveitamento do crédito em relação a tais operações. De fato, não havendo tributação no elo imediatamente anterior da cadeia produtiva, a apuração de créditos nas compras feitas incide na vedação legal, dado que não há o que ressarcir. Fl. 547DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 16 119. Por fim, nos termos da legislação vigente, o gasto com o transporte de mercadoria somente gerará crédito caso se refira a transporte de “mercadoria capaz de gerar crédito”. É que, em se tratando de valor que integra o custo de aquisição, a possibilidade de apropriação de crédito calculado sobre a despesa com o serviço deve ser determinada em função da possibilidade ou não de apropriação de crédito em relação aos bens adquiridos. Não havendo apropriação do crédito referente à aquisição do produto, não há que se falar da apropriação do frete a ele relativo. Assim concluiu a DRJ de origem: A manifestante aduz que, embora somente haja previsão expressa para o crédito relativo a "frete nas operações de venda", quando o ônus for suportado pelo vendedor, há que se observar que, na compra de bens, o frete, quando pago pelo adquirente, consoante a boa técnica contábil, integra o custo de aquisição desses bens, o que está consagrado no art. 289, § 1º do RIR/1999 ("o custo de aquisição de mercadorias destinadas à revenda compreenderá os de transporte e seguro até o estabelecimento do contribuinte"). Assim, também na forma de serviços estipulados no inciso II do artigo 2º, poderá o valor do frete compor a base de cálculo dos créditos a serem descontados do PIS e da Cofins Não-Cumulativos. Sobre as despesas com fretes, cumpre analisá-las à luz da Nota SEI nº 63/2018/CRJ/PGACET/PGFN-MF e do Parecer Normativo COSIT/RFB nº 05, de 17/12/2018, que atualmente orientam as decisões da Receita Federal do Brasil quanto ao conceito de insumos. Relativamente aos gastos com frete na aquisição, deve está demonstrada a natureza do insumo adquirido e transportado, pois o crédito dos valores de frete pagos na aquisição é admitido na mesma proporção em que se der o creditamento do bem adquirido. Quando o bem adquirido não gera crédito, o frete correspondente também não gera crédito. Nesse passo, relativamente aos gastos com transporte de soja adquirida de pessoas físicas, sem incidência, portanto, das contribuições de PIS e COFINS, não são os mesmos hábeis a gerar crédito. Quanto aos fretes relativos aos bens adquiridos com fim específico de exportação, como já foi dito no tópico precedente, o § 4° do Art. 6° da Lei n° 10.833/03 veda a apuração de “créditos” vinculados às receitas de bens adquiridos com fim específico de exportação, entendida a impossibilidade de creditamento de qualquer uma das hipóteses previstas nos onze incisos do art. 3º da Lei nº 10.833/03. Com relação à matéria em análise, deve ser aplicada a SÚMULA CARF nº 188, que assim prevê: Súmula CARF nº 188 Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 20/06/2024 – vigência em 27/06/2024 Fl. 548DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 17 É permitido o aproveitamento de créditos sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pela Contribuição para o PIS/Pasep e pela Cofins não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas contribuições. Acórdãos Precedentes: 9303-014.478; 9303-014.428; 9303-014.348 Com isso, deve ser revertida a glosa sobre os fretes na aquisição de insumos não tributados, desde que cumpridos os demais requisitos legais, ou seja, desde que a aquisição do frete seja originada de pessoa jurídica pelo comprador das mercadorias e desde que tais fretes tenham sido tributados e contabilizados em separado. 2.4. Energia elétrica Com relação às despesas com energia elétrica, a Recorrente sustenta que a energia elétrica consumida nas atividades da empresa confere o direito ao crédito do PIS e da COFINS, conforme determinação expressa do artigo 3º, III das Leis 10.637/2002 e 10.833/03. Aduz ainda que, não obstante a revogação do inciso V das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, as despesas e encargos financeiros também devem ser consideradas no cômputo da base de cálculo das contribuições ao PIS e a COFINS, eis que insumo necessário à consecução das atividades da impetrante. Esclareceu o i. Julgador da DRJ que na análise dos documentos apresentados nos autos, foi verificado pela auditoria que o contribuinte utiliza como base de cálculo para o crédito das contribuições o total da fatura emitida pela concessionária de distribuição de energia elétrica. Assim, com fundamento no inciso III, art. 3o das Leis n°s 10.637, de 2002 e 10.833, de 2003, glosou os valores pagos a título de encargos, acatando somente para fins de crédito, os gastos identificados como “consumo de energia”. A glosa foi mantida sobre outros gastos constantes da fatura, diversos ao gasto com consumo, tais como juros e multa por atraso no pagamento, por falta de previsão legal para seu aproveitamento como crédito das contribuições. Para tanto, invocou-se o inciso III do artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que assim dispõe: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) III - energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Está correta a DRJ em manter a glosa em referência. Fl. 549DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 18 Sobre a matéria, aplica-se a SÚMULA CARF nº 224, que assim prevê: SÚMULA CARF Nº 224: Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 26/08/2025 – vigência em 01/09/2025 Para efeito de apuração de crédito no âmbito do regime da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, somente será considerada a energia elétrica efetivamente consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se enquadrando nesse conceito outras despesas como a Contribuição para o Custeio da Iluminação Pública (COSIP) ou a demanda contratada. Acórdãos Precedentes: 9303-014.155, 9303-015.234, 9303-015.264, 9303-006.627, 9303- 014.981, 9303-015.151. Por tais razões, deve ser mantida a glosa dos créditos em referência. 2.5. Créditos Extemporâneos Com relação aos créditos extemporâneos, argumenta a defesa que o crédito não aproveitado em determinado mês poderá sê-lo nos meses subsequentes, conforme disposto no § 4º, do art. 3º, da Lei n° 10.833/2003, ressaltando que a legislação é expressa neste sentido. O i. Julgador a quo negou o pedido, concluindo que, “conforme se depreende do art. 3º, §1º, da Lei nº 10.833/2003, o crédito da contribuição será determinado mediante a aplicação da respectiva alíquota sobre o valor de bens, serviços, despesas e encargos incorridos no mês.” A DRJ entende que as alterações relativas às informações prestadas no demonstrativo em tela deveriam ser formalizadas por intermédio de Dacon retificador o qual, substituindo integralmente o demonstrativo retificado, serviria, entre outros, para efetivar qualquer alteração nos créditos informados em demonstrativos anteriores. Ademais, ao entregar o Dacon retificador, alterando valores informados em DCTF, a pessoa jurídica deveria apresentar, igualmente, DCTF retificadora. Trata-se de providência indispensável em face de que, apurados créditos relativos à contribuição, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL correspondentes aos mesmos períodos também sofrem reflexos indissociáveis. Sobre a matéria, não obstante o entendimento desta relatora, deve ser aplicada a SÚMULA CARF nº 231, que assim prevê: SÚMULA CARF Nº 231: Aprovada pela 3ª Turma da CSRF em sessão de 05/09/2025 – vigência em 16/09/2025 O aproveitamento de créditos extemporâneos da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS exige a apresentação de DCTF e DACON retificadores, comprovando os créditos e os saldos credores dos trimestres correspondentes. Acórdãos Precedentes: 9303-011.780, 9303-013.263, 9303-014.081. Por tais razões, deve ser mantida a glosa dos créditos em referência. Fl. 550DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 3402-012.789 – 3ª SEÇÃO/4ª CÂMARA/2ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10530.901508/2014-04 19 3. Dispositivo Ante o exposto, conheço e dou parcial provimento ao Recurso Voluntário, para reverter as glosas sobre as despesas com serviços de fretes na aquisição de insumos não onerados pelas Contribuições não cumulativas, desde que tais serviços, registrados de forma autônoma em relação aos insumos adquiridos, tenham sido efetivamente tributados pelas referidas Contribuições. É como voto. Assinado Digitalmente Cynthia Elena de Campos Fl. 551DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 16045.720026/2016-67
Turma: Primeira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 26 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Wed Feb 04 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013
RECURSO DE OFÍCIO. SÚMULA CARF 103. VALOR EXONERADO INFERIOR AO VALOR DE ALÇADA NA DATA DE APRECIAÇÃO DO RECURSO EM SEGUNDA INSTÂNCIA.
Verificando-se que o valor exonerado, na data de apreciação do recurso de ofício, é inferior ao valor de alçada, incabível o conhecimento do recurso de ofício. A Portaria MF n° 02, de 17 de janeiro de 2023, atualmente vigente, dispõe que a decisão de primeira instância administrativa se encontra sujeita à confirmação pelo CARF quando exonerar o contribuinte do pagamento de valor superior a R$ 15.000.000,00 (Quinze Milhões de Reais).Recurso de ofício não conhecido.
DESPESAS COM PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. GLOSA.
Para se comprovar uma despesa, de modo a torna-la dedutível, face à legislação do imposto de renda, é indispensável comprovar o dispêndio corresponde à contrapartida de serviços efetivamente prestados pelo beneficiário dos pagamentos.
PAGAMENTO SEM CAUSA/OPERAÇÃO NÃO COMPROVADA. CAUSA ILÍCITA.
Fica sujeito à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, a alíquota de trinta e cinco por cento, o pagamento cuja causa ou a operação não for comprovada. Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, compra e venda, entre outros) que ensejou o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa. Pode-se dizer que a norma objetiva, dentre outros pontos, transparência fiscal do contribuinte. Para comprovar tanto a operação quanto a causa não basta uma roupagem jurídica, registro contábil, tampouco a apresentação da nota fiscal, contrato etc., é indispensável que o contribuinte comprove de forma inequívoca, com documentos hábeis e idôneos, a efetividade da operação e a causa do pagamento. E mais, a operação e a causa devem ser lícitas, é dizer, não há falar-se que atividade ilícita, possa figurar como causa de pagamento e, com efeito, elidir o IR-Fonte.
PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS, SEM CAUSA. POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO COM GLOSA DE DESPESA.
Não há qualquer incompatibilidade intrínseca entre o regime do lucro real e o lançamento de IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário, sem causa. As bases jurídicas para a incidência do IRPJ/Lucro Real e do IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário não identificado ou sem causa são completamente distintas.
Numero da decisão: 1101-001.959
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, nos termos do voto do Relator, i) por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício; em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: a) reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%; b) reconhecer a decadência parcial dos créditos tributários relativos à glosa de despesas de IRPJ e CSLL referentes às operações realizadas com a empresa Antônio Menezes no ano-calendário de 2010; c) afastar a responsabilidade solidária; ii) por maioria de votos, em afastar a multa isolada, vencidos os Conselheiros Efigênio de Freitas Júnior e Edmilson Borges Gomes que negavam provimento em relação à matéria.
Sala de Sessões, em 26 de novembro de 2025.
Assinado Digitalmente
Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator
Assinado Digitalmente
Efigenio de Freitas Junior – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente)
Nome do relator: DILJESSE DE MOURA PESSOA DE VASCONCELOS FILHO
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SÚMULA CARF 103. VALOR EXONERADO INFERIOR AO VALOR DE ALÇADA NA DATA DE APRECIAÇÃO DO RECURSO EM SEGUNDA INSTÂNCIA. Verificando-se que o valor exonerado, na data de apreciação do recurso de ofício, é inferior ao valor de alçada, incabível o conhecimento do recurso de ofício. A Portaria MF n° 02, de 17 de janeiro de 2023, atualmente vigente, dispõe que a decisão de primeira instância administrativa se encontra sujeita à confirmação pelo CARF quando exonerar o contribuinte do pagamento de valor superior a R$ 15.000.000,00 (Quinze Milhões de Reais). Recurso de ofício não conhecido. DESPESAS COM PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. GLOSA. Para se comprovar uma despesa, de modo a torna-la dedutível, face à legislação do imposto de renda, é indispensável comprovar o dispêndio corresponde à contrapartida de serviços efetivamente prestados pelo beneficiário dos pagamentos. PAGAMENTO SEM CAUSA/OPERAÇÃO NÃO COMPROVADA. CAUSA ILÍCITA. Fica sujeito à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, a alíquota de trinta e cinco por cento, o pagamento cuja causa ou a operação não for comprovada. Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, compra e venda, entre outros) que ensejou o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a Fl. 3165DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 2 operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa. Pode-se dizer que a norma objetiva, dentre outros pontos, transparência fiscal do contribuinte. Para comprovar tanto a operação quanto a causa não basta uma roupagem jurídica, registro contábil, tampouco a apresentação da nota fiscal, contrato etc., é indispensável que o contribuinte comprove de forma inequívoca, com documentos hábeis e idôneos, a efetividade da operação e a causa do pagamento. E mais, a operação e a causa devem ser lícitas, é dizer, não há falar-se que atividade ilícita, possa figurar como causa de pagamento e, com efeito, elidir o IR-Fonte. PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS, SEM CAUSA. POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO COM GLOSA DE DESPESA. Não há qualquer incompatibilidade intrínseca entre o regime do lucro real e o lançamento de IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário, sem causa. As bases jurídicas para a incidência do IRPJ/Lucro Real e do IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário não identificado ou sem causa são completamente distintas. ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, nos termos do voto do Relator, i) por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício; em dar provimento parcial ao recurso voluntário para: a) reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%; b) reconhecer a decadência parcial dos créditos tributários relativos à glosa de despesas de IRPJ e CSLL referentes às operações realizadas com a empresa Antônio Menezes no ano-calendário de 2010; c) afastar a responsabilidade solidária; ii) por maioria de votos, em afastar a multa isolada, vencidos os Conselheiros Efigênio de Freitas Júnior e Edmilson Borges Gomes que negavam provimento em relação à matéria. Sala de Sessões, em 26 de novembro de 2025. Assinado Digitalmente Fl. 3166DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 3 Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho – Relator Assinado Digitalmente Efigenio de Freitas Junior – Presidente Participaram da sessão de julgamento os julgadores Roney Sandro Freire Correa, Jeferson Teodorovicz, Edmilson Borges Gomes, Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Rycardo Henrique Magalhaes de Oliveira, Efigenio de Freitas Junior (Presidente) RELATÓRIO Trata-se de recursos voluntários (e-fls. 2739-2802; 2811-2872) interpostos contra acórdão da 8ª Turma da DRJ/RJO (e-fls. 2631-2698) que julgou parcialmente procedente impugnação apresentadas contra auto de infração de IRPJ, CSLL e IRRF relativos aos anos- calendário 2010, 2011, 2012 e 2013 (e-fls. 2-67), em que se apontam as seguintes infrações: IRPJ CUSTOS, DESPESAS OPERACIONAIS E ENCARGOS INFRAÇÃO: DESPESAS NÃO COMPROVADAS Lançamento para constituição de crédito tributário referente ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, decorrente de glosa de despesas inexistentes, apuradas conforme consta no Termo de Verificação Fiscal, em anexo. MULTA OU JUROS ISOLADOS INFRAÇÃO: FALTA DE RECOLHIMENTO DO IRPJ SOBRE BASE DE CÁLCULO ESTIMADA Lançamento para constituição de crédito tributário referente à multa de 50% incidente sobre o valor do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica determinado sobre base de cálculo estimada, não recolhido ou compensado, conforme consta no Termo de Verificação Fiscal, em anexo. CSLL CUSTOS/DESPESAS OPERACIONAIS/ENCARGOS INFRAÇÃO: CUSTOS/DESPESAS OPERACIONAIS/ENCARGOS NÃO COMPROVADOS Fl. 3167DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 4 Lançamento para constituição de crédito tributário referente à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, decorrente de glosa de despesas inexistentes, apuradas conforme consta no Termo de Verificação Fiscal, em anexo. IRRF: PAGAMENTO SEM CAUSA OU BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO INFRAÇÃO: IMPOSTO DE RENDA NA FONTE SOBRE PAGAMENTOS SEM CAUSA OU DE OPERAÇÃO NÃO COMPROVADA Lançamento para constituição de crédito tributário referente ao Imposto de Renda na Fonte incidente sobre pagamento sem causa, conforme consta no Termo de Verificação Fiscal, em anexo. O Termo de Verificação Fiscal (e-fls. 68-107) que acompanha os autos de infração aponta os seguintes fatos principais: 2 – Da Operação Lava Jato Na denúncia do crime de organização criminosa o MPF relata que uma grande organização criminosa se estruturou com a finalidade de praticar delitos em desfavor da PETROBRAS, a qual compreende três núcleos fundamentais: O primeiro núcleo, integrado pelas empreiteiras, voltava-se à prática de crimes de cartel e licitatórios contra a PETROBRAS, de corrupção de seus agentes e de lavagem dos ativos havidos com a prática destes crimes. O segundo núcleo, integrado por PAULO ROBERTO COSTA, RENATO DUQUE, PEDRO BARUSCO e outros empregados do alto escalão da PETROBRAS, foi corrompido pelos integrantes do primeiro núcleo, passando a auxiliá-los na consecução dos delitos de cartel e licitatórios. O terceiro núcleo, núcleo financeiro da organização criminosa, constituído e cujo funcionamento se dá no entorno de uma figura que se convencionou chamar de “operador”, verdadeiro intermediador de interesses escusos, voltado à operacionalização do pagamento das vantagens indevidas aos integrantes do segundo núcleo, assim como para a lavagem dos ativos decorrentes dos crimes perpetrados por toda a organização criminosa. (...) Esse núcleo atuou provendo serviços de lavagem profissionais e terceirizados, como, por exemplo, utilizando-se de empresas de fachada com as quais as empreiteiras formalizavam contratos ideologicamente falsos, que pudessem criar uma aparente justificativa econômica para o pagamento, como a prestação de consultoria com a emissão de notas fiscais “frias”. Com efeito, será demonstrado que a Fiscalizada entabulou contrato com uma noteira utilizada pelo operador Júlio Camargo, contrato esse ideologicamente falso, com objetivo de possibilitar o fluxo financeiro da propina para os agentes (políticos e privados) envolvidos. Ou seja, restará comprovado que neste Fl. 3168DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 5 contrato não houve a efetiva prestação de serviços, até porque a empresa de fachada não possuía capacidade operacional para tanto 2.1 – Do cartel formado pelas empreiteiras pertencentes ao “Grupo” (...) 2.2 -Da participação dos operadores no esquema criminoso O mecanismo engendrado pelas empreiteiras para o pagamento das propinas negociadas nas obras da Petrobrás envolveu a prestação de serviços fictos pelas empresas de fachada controladas pelos operadores. Tais agentes, no intuito de dissimular os pagamentos ilícitos, constituíram empresas para a emissão de documentação fiscal inidônea. Em verdade, trata-se de contratos de prestação de serviços de consultoria inexistente. Trata-se tais espécies de contrato de maneira amplamente difundida na prática criminosa em que a aferição dos serviços prestados poderia mais facilmente ser dissimulada. Com efeito, nas auditorias fiscais nas empresas prestadoras de serviços controladas pelos operadores, verifica-se a completa falta de materialidade dos serviços prestados. Isto quer significar que, em regra, inexiste capacidade técnica do prestador; a mão-de-obra da prestadora é dissonante com a “expertise” exigida pelo contrato; o objeto do contrato faz-se sem sentido pois a intermediação nas contratações das sociedades de economia mista sujeitas ao processo licitatório não necessitam de intermediação comercial dada sua publicidade e transparência; o objeto contratual genérico e disperso é próprio dos sistemas de fraude contratual; a falta de documentação comprobatória dos custos dos prestadores dos serviços, dada a inefetividade dos serviços, é comum para as prestadoras não obstante envolver várias empresas de diferentes sócios; a ausência de documentação comprobatória das empreiteiras quando instadas a comprovarem a materialidade do serviços tomados. Em verdade será comprovado pela cadeia de delações dos envolvidos na organização criminosa e demais provas do enlace dos envolvidos e seus negócios ilícitos, que os operadores serviam para azeitar os pagamentos das propinas pelos empreiteiros para os demais elos da cadeia criminosa. Com efeito, para que pagamentos fossem feitos das diretorias da Petrobrás loteadas para a corrupção, necessária a interveniência dos operadores para determinação do montante, da forma e dos destinatários dos pagamentos de propina. Estabelecida a organização na Petrobrás será aclarada sua forma de atuação pelos operadores Alberto Youssef e Julio Camargo. (...) 2.2.1- Do operador Alberto Youssef no esquema criminoso Relata o doleiro como montou as empresas de fachada para emissão de notas fiscais “frias” e repasse para os beneficiários do esquema criminoso. Também esclarece como os recursos foram “lavados” de molde a não permitir a Fl. 3169DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 6 identificação dos recebedores das propinas pagas. Diga-se que seu papel nos crimes perpetrados envolve o recebimento de numerário identificado como se serviços prestados fossem, entregando-os em seguida aos destinatários não identificados. Para atividade desta jaez, operava como um agente financeiro ilícito nacional e internacionalmente, pois ordinariamente entregava por seus empregados o numerário em espécie, seja em reais ou em moeda estrangeira. (...) Com efeito, identificou-se que a Mendes Júnior foi beneficiária de notas fiscais “frias” emitidas pelas noteiras GFD INVESTIMENTOS LTDA e EMPREITEIRA RIGIDEZ, controladas por ALBERTO YOUSSEF. Tal estratagema, a par de materializar a lavagem de capitais, também resultou na prática dos crimes tributários, pois, mediante pagamentos sem causa, foram suprimidos tributos e contribuições sociais devidos à União, pelo fato de que esses pagamentos foram lançados na contabilidade das empreiteiras como custos(ou despesas operacionais), ensejando a ilegal redução da base de cálculo do Imposto de Renda (IRPJ) e da Contribuição Social (CSLL).Com efeito, identificou-se que a Mendes Júnior foi beneficiária de notas fiscais “frias” emitidas pelas noteiras GFD INVESTIMENTOS LTDA e EMPREITEIRA RIGIDEZ, controladas por ALBERTO YOUSSEF. Tal estratagema, a par de materializar a lavagem de capitais, também resultou na prática dos crimes tributários, pois, mediante pagamentos sem causa, foram suprimidos tributos e contribuições sociais devidos à União, pelo fato de que esses pagamentos foram lançados na contabilidade das empreiteiras como custos(ou despesas operacionais), ensejando a ilegal redução da base de cálculo do Imposto de Renda (IRPJ) e da Contribuição Social (CSLL). (...) 2.2.2- Do operador Julio Camargo no esquema criminoso (...) Explicou o operador como fazia a lavagem de capitais. Tal qual afirmado por Alberto Youssef com suas empresas de fachada, também Julio Camargo utilizava as suas empresas para o repasse das propinas que intermediava. Neste caso, pelas empresas Treviso, PIEMONTE e Auguri transitaram recursos que foram direcionados para os demais beneficiários do esquema. Desta forma está consignado no Termo de Colaboração nº 01 de Júlio Camargo (fls. 1665/1671), a seguir transcrito (fl. 1670): (...) Com efeito, a auditoria financeira das contas das empresas indicadas comprova as transferências não somente de Julio Camargo para o exterior, mas também de suas empresas para o exterior. Verifica-se a sistemática transferência de numerário destinada aos acertos das propinas no exterior. Ademais, nos livros Fl. 3170DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 7 contábeis e declarações de imposto de renda do período (DIPJ) as distribuições de dividendos são elevadas. Diga-se que tal prática coaduna-se com a atividade de lavagem de capitais, eis que ao enviar os recursos os sócios estão “camuflando” os destinatários dos recursos lavados. Neste ponto, a distribuição de dividendos representa a última das etapas do processo criminoso de lavagem de dinheiro, ao desconectar o pagamento das empreiteiras dos envios para os beneficiários dos pagamentos de propina. Serve ao propósito claro de dificultar ou impedir o rastro financeiro. A seguir estão as constantes transferências das empresas Treviso e PIEMONTE, e de Julio Camargo para o exterior, obtidas a partir dos extratos bancários das noteiras e da pessoa física do operador. (...) 2.2.2.1 – Da Diligência na empresa PIEMONTE Em visita à sede das empresas, foram entrevistados os funcionários a fim de serem levantadas as atividades exercidas. Pelo quanto apurado, os funcionários não disseram com precisão as atividades das empresas, conforme consta no Termo de Declaração de Empregados de fls. 1708/1723. Mais ainda. Apenas confirmaram a atividade de representação comercial para a empresa Prysmian, não descrevendo ou sabendo informar sobre outras atividades desempenhadas. Este desconhecimento ocorre de maneira uniforme pelos 3 funcionários. Do objeto social da empresa, apenas sabiam que seria da área de petróleo com a Petrobrás, e que algumas pessoas como Alberto Youssef faziam visitas frequentes. De início, nem os funcionários sabem as atividades desenvolvidas pela empresa além da representação comercial da Prysmian, causando mais espécie ainda que passados meses dos mesmos questionamentos iniciais, não tenha se dignado em comprovar a materialidade dos serviços além da representação comercial nas vendas de cabos elétricos. Por meio do Termo de Intimação de fls. 1694/1696, a empresa PIEMONTE foi intimada a apresentar documentos que comprovassem a efetiva prestação de serviço à APOLO, dentre outros, sendo que em resposta, apresentou os seguintes documentos: (...) Pela análise dos documentos apresentados, verifica-se que se trata de catálogos, e-mails, certificados, manuais, proposta comercial etc., e que dentre eles não consta qualquer recomendação destinada à contratante, tal como estabelece o item 2.1 – “a” do contrato celebrado entre ambos, transcrito a seguir: (...) Evidentemente, tais elementos não se prestam para comprovar a prestação de serviços de consultoria / assessoria, tal como previsto no item 1.1 do contrato celebrado entre APOLO e PIEMONTE, tendo em vista que dentre eles não consta Fl. 3171DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 8 qualquer relatório ou documento equivalente contendo instruções / orientações destinadas à empresa contratante, o mínimo esperado para um contrato de valor superior a R$ 7.000.000,00 (sete milhões de reais). 2.2.2.2 - Das verdadeiras atividades das empresas de Julio Camargo Em procedimentos de diligência junto às empresas PIEMONTE, Treviso e Auguri, em que o Sr. Júlio figura como sócio, anteriormente ao início do procedimento fiscal junto à APOLO, por meio dos Termos de Intimação de fls. 1689/1701, foi solicitada a apresentação de contratos de prestação de serviço firmados entre as empresas do Sr. Júlio Camargo e terceiros. Em resposta, foram apresentados os contratos celebrados entre as empresas CCDL e Treviso, UTC e a PIEMONTE, e NEDL Construção de Dutos do Nordeste Ltda e PIEMONTE, fls. 1724/1752, cuja análise nos mostra que possuem o mesmo objeto, conforme segue: (...) Verifica-se acima que o leque de atividades a ser prestado permite facilmente aos contratantes a comprovação documental do objeto contratual. Não obstante, passado tempo suficiente para detalhamento, foram apenas apresentados, aos Auditores encarregados dessas diligências, e-mails em que na maior parte das vezes o operador é copiado. Inexiste função compatível com as acima detalhadas que constem nas trocas de mensagens eletrônicas. Ademais, não há qualquer contratação de profissionais na área de atuação das contratantes, não obstante o volume de serviços que contratos da monta envolvida demandariam. Isto porque, de acordo com adágio ianque: não há almoço de graça. Presente a verdade, das duas uma: ou se trata de profissional de ilibada “expertise” no ramo de petróleo ou o volume de serviços demandado estaria incompatível com as parcas remunerações das poucas funcionárias. Como o profissional da propina não tem qualquer “expertise” técnica comprovada, estamos, por óbvio, diante da indecorosa terceira opção, aceita em parte pelo operador, qual seja, a de que inexistiu qualquer prestação de serviços para todos os consórcios e empreiteiras contratantes, até mesmo no contrato em que atuaria como representante comercial da Prysmian. (...) 3 – Das Informações prestadas por Carlos Eduardo de Sá Baptista De acordo com informações prestadas pelo Sr. Carlos Eduardo de Sá Baptista, Diretor-Presidente da APOLO, à Comissão Interna de Apuração, da Petrobrás, fls. 1543/1548 (documento obtido na denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal), o Sr. Júlio Camargo fora contratado pela APOLO, em 2009, com a seguinte finalidade (...) 4 – Da Denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal Fl. 3172DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 9 Cientificada, a Recorrente e responsável solidário apresentaram impugnação em que defenderam o afastamento das infrações, a existência de decadência, a impossibilidade de qualificação da penalidade e o afastamento da responsabilidade solidária. A DRJ proferiu acórdão que restou a seguir ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 PROVA EMPRESTADA. ADMISSIBILIDADE. É lícito ao Fisco Federal valer-se de informações colhidas por outras autoridades públicas para efeito de lançamento tributário, desde que estas guardem pertinência com os fatos cuja prova se pretenda oferecer. PROCEDIMENTO FISCAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. O procedimento fiscal é inquisitório e, por isso, não se lhe aplica a ampla defesa e o contraditório. Inocorre cerceamento do direito de defesa quando se assegura ao interessado o pleno conhecimento dos atos processuais. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. Existindo prova de que os administradores do contribuinte pessoa jurídica agiram com infração de lei, exsurge a responsabilidade tributária solidária prevista no art. 135, inciso III, do CTN. DECADÊNCIA. FRAUDE. Em caso de dolo, fraude ou simulação, o termo para contagem do prazo para constituição do lançamento por homologação é o previsto no inciso I do artigo 173 do CTN. MULTA QUALIFICADA. FRAUDE. Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, prevista no art. 44, da Lei nº 9.430/96, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo enquadra-se nas hipóteses definidas nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. Afasta-se a multa agravada, caso não fique cabalmente demonstrada ocorrência daquelas hipóteses definidas na Lei nº 4.502/64. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. CABIMENTO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 GLOSA DE GASTOS. DESPESA ILÍCITA. ATRIBUTOS DE DEDUTIBILIDADE. Descoberta a origem ilícita de pagamento, a respectiva despesa deve ser caracterizada como não necessária, não usual e não normal, motivando a glosa. Fl. 3173DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 10 MULTA ISOLADA. ESTIMATIVA NÃO PAGA. Constatada a falta ou a insuficiência de recolhimento mensal por estimativa, é devido o lançamento de multa exigida isoladamente. MULTA ISOLADA. MULTA PROPORCIONAL. IMPOSTO NÃO PAGO. CONCOMITÂNCIA. Aplica-se a multa de 50% sobre os valores devidos por estimativa e não recolhidos, bem como a multa de ofício sobre o imposto não pago apurado em 31/12. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplica-se ao lançamento reflexo a solução dada ao lançamento principal, em face da relação de causa e efeito entre ambos. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE - IRRF Ano-calendário: 2010, 2011, 2012, 2013 PAGAMENTO SEM CAUSA. ART. 61, LEI Nº 8.981/1995. DECADÊNCIA. PAGAMENTO ANTECIPADO. AUSÊNCIA. ART. 173, I, CTN. Na ausência de pagamento antecipado a título de IRRF sobre pagamentos sem causa ou a beneficiário não identificado, a contagem do prazo decadencial para o lançamento de ofício do IRRF correspondente se dá na forma do art. 173, inciso I, do CTN. PAGAMENTO SEM CAUSA. ART. 61, LEI Nº 8.981/1995. Sujeita-se à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte o pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas, cuja causa não for comprovada, ainda que esse pagamento resultar em redução do lucro líquido da empresa. “BIS IN IDEM”. IRRF. PAGAMENTO SEM CAUSA. GLOSA DE DESPESA. COMPATIBILIDADE. O lançamento de glosa de despesa indedutível é compatível com o lançamento do IRRF motivado pelo pagamento correspondente, cuja causa não seja comprovada. Contribuinte e responsável solidários apresentaram recursos voluntários em que reiteram as razões de impugnação. É o relatório. VOTO Conselheiro Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho, Relator Os recursos voluntários são tempestivos e preenchem os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, deles tomo conhecimento. Fl. 3174DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 11 No que tange ao recurso de ofício, este não deve ser conhecido. Cumpre observar que, sobre o conhecimento do recurso de ofício, nos termos da Súmula CARF 103, “para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância”. O limite de alçada atualmente vigente é aquele previsto na Portaria MF 2/2023, que estabelece como limite o valor de R$15.000.000,00 (quinze milhões de reais): Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento de Delegacia de Julgamento da Receita Federal do Brasil (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 15.000.000,00 (quinze milhões de reais). No caso em tela, a parcela exonerada (que se refere à multa qualificada afastada para parte do lançamento) é inferior a referido limite, ensejando o não conhecimento do recurso de ofício, conforme demonstrativo ao final do voto da DRJ: Assim, não conheço do recurso de ofício. I. Preliminares. Nulidade por violação à presunção de inocência e cerceamento do direito de defesa. Em sede de preliminar, pleiteiam as Recorrentes em seu recurso voluntário que “considerando o teor da sentença proferida pelo MM. Juízo da 13ª Vara Federal em Curitiba, nos autos da Ação Penal nº 5030883-80.2016.4.04.7000/13ª VF em Curitiba, e considerando o que dispõe o CTN, em seu artigo 112, inciso II e III, seja acolhida a primeira preliminar suscitada no item III do presente recurso, determinando-se a anulação integral das três autuações que visam à Fl. 3175DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 12 cobrança do IRPJ, da CSLL e do IRRF, reconhecendo-se o vício incorrido no lançamento pela violação ao princípio da presunção de inocência e à coisa julgada”. A respeito do tema, destaco que – como bem consignou a DRJ - são comuns os procedimentos de ofício que se baseiam em documentos coletados por outros órgãos. Não há vedação que impeça a autoridade de se valer de um documento oficial obtido em outro âmbito administrativo, ou mesmo judicial, desde que a peça tenha fé e tenha sido carreada aos autos de forma regular. Trata-se de “ponto de partida”, sobre o qual a fiscalização tem o dever de aprofundamento, como detalharei adiante. Todavia, os ilícitos penais e tributários são regidos por normas distintas, obedecem a regras sistêmicas diferentes e se apuram por meio de processos de natureza diversa. Dessa forma, as conclusões adotadas pela esfera penal poderão ser úteis no convencimento do julgador administrativo tributário, mas não o condicionam. Assim, como bem observou a DRJ: Embora a referida ação penal analise as condutas dos réus relativamente às ações conseqüentes ao contrato da Apolo Tubulars (impugnante) com a Petrobrás, notadamente com relação às operações entre a impugnante e a empresa Piemonte, de Julio Camargo, não há verdadeiramente concomitância entre a referida ação penal e este processo administrativo. Lá se cuida de crimes não tributários, a exemplo dos crimes de corrupção ativa e passiva (art. 317 do Código Penal); lavagem de dinheiro (art. 1º, caput, da Lei n.º 9.613, de 1998); associação criminosa (art. 288 do CP), quando aqui se cuida, na esfera administrativa, de exigências meramente fiscais. Assim, afasto essa preliminar. Ainda em sede de preliminar, alegam as Recorrentes que não foi possibilitado à impugnante produzir provas, ter oitivas, acompanhar depoimentos, prestar testemunho, etc, durante o procedimento fiscal, e que, portanto, seria nula a autuação. Peço vênia para transcrever as razões da DRJ quanto ao tema, com as quais concordo: 24. Coerentemente com essa interpretação, o art. 14 do Decreto 70.235, de 1972, preceitua: “a impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento”. Com a apresentação da impugnação o procedimento se torna processo, estabelecendo-se o conflito de interesses: de um lado o fisco que acusa a existência de débito tributário, fundando sua pretensão de recebê-lo e, de outro, o contribuinte, que opõe resistência por meio da apresentação de impugnação. É a partir desse momento que, iniciada a fase processual, passa a vigorar, na esfera administrativa, o princípio constitucional da garantia ao devido processo legal, no qual está compreendido o respeito à ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes, nos termos do art. 5º, inciso LV, da Constituição Federal. Fl. 3176DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 13 25. A defesa e o devido processo legal foram garantidos após a lavratura do auto de infração, pois com ela a impugnante passou a ter direito à contestação, alegando tudo o que entendeu cabível, inclusive apresentar as provas que entendesse serem relevantes. 26. Em vista do até aqui exposto, pode-se asseverar que não procede a afirmação de ter havido lesão ao princípio do amplo direito de defesa por parte da impugnante, como se pode comprovar pela impugnação apresentada pela contribuinte. As provas utilizadas para a formalização dos lançamentos estão explícitas no processo. A defesa e o julgamento igualmente estão adstritos à verdade demonstrada no processo. Sendo assim, o direito pleno de defesa, o contraditório e o devido processo legal são oportunizados com a possibilidade de apresentação das impugnações. Assim, igualmente afasto essa preliminar. Em conclusão, rejeito as preliminares suscitadas. II. Mérito. Glosa de despesas e IRRF sobre pagamento sem causa. Discute-se no caso em tela auto de infração que tem por objeto a glosa de despesas, por não comprovação, bem como o lançamento decorrente de multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e o lançamento de IRRF por pagamento sem causa/beneficiário não identificado. De antemão, importa notar que tais espécies de infração são de cunho eminentemente probatório. A glosa de despesas pela sua não comprovação diz respeito justamente à (in)capacidade de o contribuinte provar que os seus dispêndios (custos ou despesas) se deram por operações efetivamente existentes, isto é, lastreadas em documentos comprobatórios mínimos que demonstrem que o serviço efetivamente existiu ou que a mercadoria efetivamente foi adquirida. Da mesma forma, a infração relativa ao IRRF sobre pagamentos sem causa igualmente decorre, como efetivamente deve ser, quando o contribuinte não é capaz de comprovar a materialidade que justifica o fluxo financeiro. Veja-se que sequer se está a discutir o caráter operacional da despesa, mas de questão antecedente e prejudicial: a despesa decorre de uma operação efetivamente existente? Ou melhor, a despesa tem existência real? Veja-se que a legislação atinente ao Imposto de Renda expressamente determina que a pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais, e que essa escrituração deve abranger todas as suas operações (art. 251 do RIR/99), e será sujeita à verificação pela autoridade fiscal (art. 276): Fl. 3177DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 14 Art. 251. A pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 7º). Parágrafo único. A escrituração deverá abranger todas as operações do contribuinte, os resultados apurados em suas atividades no território nacional, bem como os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior (Lei nº 2.354, de 29 de novembro de 1954, art. 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 25). [...] Art. 276. A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita à verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova, observado o disposto no art. 922 (Decreto-Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º). E, mais ainda, a legislação igualmente determina que, para fazer prova em favor do contribuinte, a escrituração deve ser mantida com observância das disposições legais, como dispõe o artigo 9º, § 1º, do Decreto-lei 1.598, de 1977, matriz legal do art. 923, do RIR/99: Art 9º - A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos da sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. § 1º - A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (Grifo nosso) Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). Não basta, pois, para justificar a dedutibilidade com custos e despesas, que o contribuinte lastreie suas operações apenas de forma escritural. Deve manter em boa guarda, enquanto não prescritas as ações cabíveis, todos os documentos que instrumentalizam as operações registradas contabilmente e que alteraram sua situação patrimonial, incluindo, consequentemente, documentos que comprovem a efetividade das operações e das transações financeiras neles refletidos. Outro não é o entendimento deste Conselho, a exemplo dos seguintes acórdãos da Câmara Superior de Recursos Fiscais: Fl. 3178DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 15 GLOSA DE DESPESAS. ÔNUS DA PROVA. Cabe ao contribuinte a comprovação das operações e correspondentes despesas que considera dedutíveis para fins de imposto de renda, incluindo sua efetividade. DESPESAS COM PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. GLOSA. Para se comprovar uma despesa, de modo a torná-la dedutível, face à legislação do imposto de renda, é indispensável comprovar o dispêndio corresponde à contrapartida de serviços efetivamente prestados pelo beneficiário dos pagamentos. (Acórdão 9101-004.020 – 13/02/2019) No mesmo sentido acórdãos das Turmas Ordinárias, inclusive desta Turma Julgadora: DESPESA DEDUTÍVEL. DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. A escrituração regular para ter força probante das despesas nela registradas deve estar lastreada em documentos hábeis e idôneos segundo a natureza dessas despesas. Trata-se, portanto, de consectário lógico nº sentido de que a despesa dedutível somente poderá ser deduzida, para fins de apuração do lucro real, se comprovado o pagamento (liquidação da despesa) e a efetividade (realização da despesa). Trata-se de ônus do contribuinte. (CARF – Acórdão 1101-001.320 – 11/06/2024) LUCRO REAL. DESPESAS DEDUTÍVEIS. EFETIVIDADE. COMPROVAÇÃO. AUSÊNCIA. GLOSA. PROCEDÊNCIA. É procedente a glosa de despesas que, embora relacionadas às atividades produtivas da empresa, o contribuinte não logra êxito em comprovar, com documentação hábil e idônea, a realização das despesas e serviços, nem o efetivo pagamento, logo, não comprovados nos termos da legislação do IR, o que justifica a glosa da dedução. (CARF – Acórdão 1202-001.578 – 28/03/2025) Semelhante raciocínio é aplicável ao caso do IRRF sobre pagamento sem causa e/ou beneficiário não identificado. Trata-se de incidência prevista no art. 61 da Lei 8.981/95. Dispõe o artigo: Lei nº 8.981, de 1995, base legal do art. 675, do Decreto nº 3000, de 1999 (RIR/99) Art. 61. Fica sujeito à incidência do Imposto de Renda exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais. § 1º A incidência prevista no caput aplica-se, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, Fl. 3179DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 16 contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa, bem como à hipótese de que trata o § 2º, do art. 74 da Lei nº 8.383, de 1991. § 2º Considera-se vencido o Imposto de Renda na fonte no dia do pagamento da referida importância. § 3º O rendimento de que trata este artigo será considerado líquido, cabendo o reajustamento do respectivo rendimento bruto sobre o qual recairá o imposto. Como se vê, estão sujeitos à incidência do imposto de renda exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%, os pagamentos elencados nas seguintes hipóteses: i) Pagamentos efetuados por pessoa jurídica a beneficiário não identificado: a pessoa jurídica não comprova a identificação do beneficiário, ou o Fisco comprova que o beneficiário indicado pela pessoa jurídica não recebeu o pagamento. ii) Pagamentos efetuados ou recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa: Operação é o negócio jurídico (prestação de serviço, compra e venda, entre outros) que ensejou o pagamento. Causa é o motivo, a razão, o fundamento do pagamento. Com efeito, não comprovada a efetividade do negócio jurídico ou a causa do pagamento o lançamento também é devido. Note-se que há uma relação entre a operação ensejadora do pagamento e a causa desse pagamento, porquanto não comprovada a primeira o pagamento também poderá ser considerado sem causa Como bem observou o Ilmo. Conselheiro Efigenio de Freitas Junior, em voto a respeito do tema (Acórdão 1101-001.357), “para comprovar tanto a operação quanto a causa não basta uma roupagem jurídica, registro contábil, tampouco a apresentação da nota fiscal, contrato etc., é indispensável que o contribuinte comprove de forma inequívoca, com documentos hábeis e idôneos, a efetividade da operação e a causa do pagamento. E mais, a operação e a causa devem ser lícitas, é dizer, não há falar-se que atividade ilícita possa figurar como causa de pagamento e, com efeito, elidir o IR-Fonte”. Portanto, reitero: em semelhança ao que ocorre nas infrações relativas à glosa de despesas por não comprovação, a infração relativa ao IRRF com base no artigo 61 da Lei 8.981/1995 igualmente é de cunho eminentemente probatório. Ainda, observo que é plenamente possível e lícita a concomitância de ambas as infrações. Nesse sentido é o Acórdão 9101-007.300 da Câmara Superior de Recursos Fiscais, julgado em 03/03/2025: PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS, SEM CAUSA. POSSIBILIDADE DE CUMULAÇÃO COM GLOSA DE DESPESA. Não há qualquer incompatibilidade intrínseca entre o regime do lucro real e o lançamento de IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário, sem causa. As bases Fl. 3180DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 17 jurídicas para a incidência do IRPJ/Lucro Real e do IR/Fonte sobre pagamento a beneficiário não identificado ou sem causa são completamente distintas. Feitas tais observações, destaco que as infrações narradas no Termo de Verificação Fiscal decorrem, como já relatado, de Representação Fiscal que dá conhecimento, à Receita Federal do Brasil, de determinados fatos apurados em investigações criminais envolvendo as empresas PIEMONTE EMPREENDIMENTOS LTDA. e ANTONIO MENEZES ENGENHARIA E MEIO AMBIENTE LTDA., empresas estas que foram contratadas pela APOLO TUBULARS, ora Recorrente. Tais fatos decorrem basicamente das investigações empreendidas no âmbito da “Operação Lava Jato”, deflagrada pelo Ministério Público Federal e cuja relevância e aspectos gerais são de amplo e notório conhecimento. Em que pese o seu caráter de fato notório, tratando- se de processo administrativo fiscal em que se apuram infrações tributárias de caráter específico, cabe delimitar com precisão quais as questões da operação que serviram como “ponto de partida” à fiscalização, assim como aquelas que não tem relação direta com as infrações de natureza tributária, a fim de evitar-se a “contaminação” do processo administrativo fiscal com questões de ordem penal não necessariamente replicáveis à matéria tributária ou mesmo questões de cunho social ou moral, igualmente impertinentes. E, como já destaquei, infrações de glosa de despesas e IRRF – tais como as discutidas nestes autos – são de cunho eminentemente probatório. A sua manutenção ou não diz respeito à capacidade de o contribuinte provar a substância das operações, muito mais do que às decorrências na esfera penal. Assim, em específico, aponta o Termo de Verificação Fiscal – TVF que a empresa Recorrente, APOLO TUBULARS, teria efetuado pagamento às empresas PIEMONTE e ANTONIO MENEZES, com a aparência de prestações de serviço, mas que verdadeiramente serviriam a encobrir fluxo financeiro operado pelo Sr. Julio Camargo, alegadamente destinado aos beneficiários de esquema criminoso envolvendo as contratações realizadas pela Petrobras e seus diretores. Veja-se o seguinte trecho do TVF que resume o ponto: A atividade do operador, conforme se observa nas mensagens apresentadas, era, a partir de seu relacionamento com as empresas fornecedoras da Petrobrás, não mais atuar como representante comercial, mas como “prospector” de negócios na Petrobrás, envolvendo o contato facilitado que tinha com os ex-diretores da estatal e as empresas contratadas. Diga-se que para as empresas com participação estatal como a Petrobrás, a licitação é ordinária. Neste ponto, desnecessária a figura do representante comercial, pois o processo deveria ser público e igualitário entre os concorrentes. Ocorre que nos casos de que se cuida, das duas uma hipótese: há dispensa de licitação e paga-se propina pela contratação sem concorrência, ou há licitação que está corrompida. Nos casos versados ocorreram ambas hipóteses para contratações distintas. Em verdade, o papel do operador sempre foi de azeitar as relações entre corruptos e corruptores, de molde a viabilizar as contratações com o pagamento das propinas que se incumbia de liquidar. Fl. 3181DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 18 A partir das informações recebidas da investigação criminal, a Receita Federal então deu início ao procedimento de fiscalização. O Termo de Início de Fiscalização – TIF (e-fls. 120-147), nesse sentido, consignou as informações essenciais obtidas da fiscalização criminal e, ato contínuo, intimou a Recorrente a comprovar a materialidade das operações. Pelo caráter elucidativo, e por bem resumir o que foi efetivamente “trazido” do inquérito, transcrevo os principais pontos deste TIF: Os Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil que subscrevem este termo, no exercício de suas funções, amparados pelo Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal (TDPF) acima, e nos termos dos 904. 909, 910, 915, 927 e 928 do Decreto n» 3.000, de 26 de marco de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR/99). CONSIGNAM abaixo as informações sobre a empresa PIEMONTE EMPREENDIMENTOS LTDA. CNPJ 04.733.787/000 V51, doravante PIEMONTE: 1. - Que referida empresa emitiu Notas Fiscais de prestação de serviço à fiscalizada no período de 2010 a 2013, no valor total de R$ 7.117.425,78; 2 — Que no quadro societario da referida empresa figura o Sr. JULIO GERIN DE ALMEIDA CAMARGO. 3 - Que o Sr. JULIO CAMARGO firmou acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal/Policia Federal, conforme consta no documento intitulado 'Termo de Colaboração n° 7", lavrado em 3 de novembro de 2014, em anexo; 4 - Que nesse documento, o Sr. JULIO CAMARGO declara o seguinte: "QUE os recursos que o declarante remetia para a conta no CREDIT SUISSE eram decorrentes de contratos de consultoria firmado pelo declarante por intermédio de suas empresas AUGURI, TREVISO e PIEMONTE com consorcios e outras empresas contratados pela PETROBRÀS, conformo já relatado em termos anteriores; QUE no Brasil, o declarante realizava a distribuição de dividendos tías empresas AUGUR!. TREVISO e PIEMONTE, em favor de sua pessoa física, e, em seguida, remetia os valores ao banco CREDIT SUISSE, a título de investimentos no exterior, mediante a formalização de contratos de cambio; QUE utilizou a conta no CREDIT SUISSE para efetuar pagamentos de propina em favor de RENATO DUQUE e PEDRO BARUSCO, a contas indicadas pelos mesmos, que serão informadas assim que receber os extratos bancários;" 5 - Que em diligência ao endereço cadastral da referida empresa, Auditores- Fiscais da Receita Federal do Brasil consignaram no 'Termo de Constatação e Retenção de Documentos^ lavrado em 30/03/2015. em anexo, o quanto segue: 5.1 - Que no local funcionava um escritório contábil; 5.2 - Que no local não havia funcionários ou sócios da empresa PIEMONTE; 5.3 - Que funcionários da PIEMONTE não frequentavam o local com habitualidade, e Fl. 3182DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 19 5.4 - Que no local foram encontradas apenas algumas caixas de documentos contábeis da PIEMONTE do arquivo morto. 6 - Que Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil colheram as seguintes informações prestadas por CAMILA GERMANO BUSSI. CPF 302.217.438-12, funcionária do grupo de empresas do Sr. JULIO CAMARGO conhecido como TREVISO (no qual se inclui a empresa PIEMONTE), conforme consta; no Termo de Declarações, em anexo. (...) 6 2 - Oue a Declarante, durante o tempo que lã esteve, não soube dizer o que a empresa de fato fazia, apenas controlava o caixa das empresas, sendo reiteradamente cobrada pela diretoria para controlar os pagamentos de contas e se os recursos entravam nas datas e valores indicados. (...) 6.5 - Que foi dito a ela que o Grupo Treviso faria consultoria ou assessoria empresarial ou representação comercial, mas não sabia que tipo de consultoria era prestada. 6.6 - Que a declarante, com exceção de algumas notas fiscais de serviço e algumas pastas, como uma pasta intitulada "Estaleiro da Bahia", não se recorda de ter visto ou manipulado um contraio de prestação de serviços ou relatório de consultoria / assessoria referentes ã prestação de serviços prestados pelas empresas do Sr. Júlio. (...) 7 - Que Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil colheram as seguintes informações prestadas por ADRIANA DE ALENCAR SILVA, CPF 263.782.418-21, funcionária do grupo de empresas do Sr. JULIO CAMARGO conhecido como TREVISO (no qual se inclui a empresa PIEMONTE), conforme consta no Termo de Declarações, em anexo: (...) 7.3 - Que a Sra. Ingrid tena dito que o Grupo Treviso faria consultoria, mas não sabia que tipo de consultoria era prestada. Que, com exceção de pessoas em tese ligadas à Petrobrás. nunca presenciou a freqüência de clientes, nunca viu um contrato, uma nota fiscal por serviços prestados pelas empresas do Sr. Julio, nunca viu ou ouviu falar de qualquer relatório de consultoria prestada pelas empresas do Sr Julio, enfim, as salas, as mesas e armários das dependências, inclusive as dos gestores, ficavam sempre limpas e vazias. (...) Isso posto, fica a interessada intimada a, no prazo de 20 (vinte) dias corridos contados da data da ciencia deste termo; Fl. 3183DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 20 a - Informar se a empresa PIEMONTE EMPREENDIMENTOS LTDA. CNPJ 04.733 787/0001-51. prestou os serviços acima mencionados à fiscalizada; b - Apresentar cópia das Notas Fiscais de serviço emitidas pela PIEMONTE e copia dos comprovantes de pagamentos destinados a essa empresa; c - Informar se o valor dos serviços prestados foi deduzido na apuração da base de cálculo do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, e qual o montante anual deduzido; d - Apresentar o Livro de Apuração do Lucro Real referente aos anos-calendario de 2010 a 2013. e - Apresentar Relatórios, elaborados pela empresa prestadora, referentes aos serviços prestados; f - Informar quais foram as linhas de condutas estratégicas recomendadas à contratante, conforme consta no ilem 2.1 da cláusula segunda - obrigações do contratado, do Contrato firmado entre a fiscalizada e a empresa PIEMONTE, em 1º de fevereiro de 2010; g - Apresentar todos os contratos de prestação de serviço originais, com firma reconhecida, firmados entre a fiscalizada e a PIEMONTE. Vale destacar que o TIF foi acompanhado de Termo de Colaboração prestado pelo Sr. Julio Camargo, Termo de Constatação e retenção de documentos junto à empresa TREVISO, Termos de Declaração relativos às informações prestadas pelas Sras. Camila Bussi, Adriana Alencar, Eva Angelica Brosler, bem como com o Contrato de Prestação de Serviços firmado entre a Recorrente, APOLO TUBULARS, e a empresa PIEMONTE. Tal intimação foi efetivamente respondida pela Recorrente (e-fls. 154-170). Em petição, destacou a Recorrente que de fato manteve relação com a empresa PIEMONTE, mas “trata-se de negócio lícitos de consultoria, assessoria na área de petróleo e gás e no acompanhamento dos contratos de fornecimentos decorrentes de licitações vencidas em pregões eletrônicos”. Questionou a credibilidade dos depoimentos prestados pelas funcionárias, e refutou veementemente o que chamou de “tentativa de vincular os pagamentos efetuados pela efetiva prestação dos serviços a atos de corrupção que teriam sido praticados pelo Sr. Julio Camargo” e que “nunca existiu relação entre os serviços prestados pela Piemonte, os pagamentos efetuados pela Fiscalizada e eventuais fornecimentos à Petrobras”. Afirmou, ainda, que, naquele contexto, desejava expandir sua atuação, com o desenvolvimento de novos produtos, a fim de atender a demanda da Petrobras e que, para tanto, “Identificadas as potencialidades de mercado, a Fiscalizada foi buscar no mercado consultores e parceiros capazes de somar esforços no reconhecimento da qualidade na fabricação de seus novos produtos, tubos de ligas não ferrosas, com diâmetros, roscas e conexões variadas. Essa seria sua meta comercial para fomentar o portfólio de produtos, consequentemente, suas receitas, além de viabilizar uma maior participação no mercado de exploração de petróleo e gás nacional”. Fl. 3184DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 21 Nesse esforço, identificou O currículo da empresa do Sr. Julio Gerin de Almeida Camargo reunia predicados necessários para uma boa parceria com a Fiscalizada. Tratava-se de um prestador de serviços com expoente no mercado, representava diversas empresas dentro do Sistema PETROBRAS. Cumpre registrar que naquele momento, em 2010, nâo se cogitava na existência de cartel, corrupção na PETROBRAS, etc. Nada, absolutamente nada, pesava sobre a conduta e aos serviços que eram prestados pelo Sr. Julio Gerin de Almeida Camargo representando várias empresas de grande porte em vários setores. No ano de 2010 era fato notório que se tratava de um representante comercial que representava diversas empresas, em diversos ramos, com enorme conhecimento do Sistema PETROBRAS. Com a experiência e o Know How da Piemonte Empreendimentos Ltda, via o Sr. Julio Gerin de Almeida Camargo, a Fiscalizada atuou para o reconhecimento da qualidade de seus produtos com vistas a obter os certificados que a permitissem participar das licitações. Ressalte-se, por oportuno, que o objeto do contrato de prestação de serviços firmado com a Piemonte Empreendimentos Ltda não tinha por objetivo negociar preços. condições e fornrcimrntos para a Pfc ffíOBRAS Por oportuno, e aqui cabe um parêntese para um esclarecimento adicional. Essa seria uma hipótese impossível na prática, pois, nem caberia ao consultor de planejamento estratégico e de acompanhamento do contrato, representar a Fiscalizada em negociações de preços e condições de fornecimentos para a PETROBRAS. Ressaltamos que desde o ano de 2008 as aquisições eram feitas pela PETROBRAS mediante pregão eletrônico, ou seja, não havia como ocorrer ingerência externa ou interna. Para ilustrar esse argumento estamos anexando exemplos de licitações vencidas pela Fiscalizada, em certame digital, nas quais sequer houve o fornecimento instantâneo de produtos (Documento n? 06) ou o pronto recebimento. Segue afirmando que, “com apoio da Piemonte Empreendimentos Ltda. a Fiscalizada procedeu à revisão de seus cadastros, demonstrando suas novas parcerias, por exemplo, com a Universidade Federal do Rio de Janeiro visando desenvolver novos diâmetros de tubos, novas ligas metálicas não ferrosas que fossem mais resistentes à corrosão química e elétrica, pressão, temperatura, obtendo, através da homologação técnica a certificação de vários novos produtos no CRCC da PETROBRAS” e que “durante o relacionamento da Fiscalizada com a Piemonte Empreendimentos Ltda., e seu principal sócio Julio Gerin de Almeida Camargo, a Fiscalizada efetuou extremos esforços no reconhecimento da qualidade de seus produtos e processos, aumentando o número de produtos cadastrados no CRCC para um portfólio bem mais expressivo, e com maiores possibilidades de participar dos certames do Sistema PETROBRAS”. Defende, em síntese, que os serviços a possibilitaram melhoria comercial e operacional. Fl. 3185DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 22 Respondendo de forma específica aos quesitos formulados no TIF, a Recorrente então afirma serem estes os serviços prestados, anexa 40 notas fiscais de prestação de serviço e defende sua dedutibilidade à luz do art. 299 do RIR/99. A respeito da apresentação de relatórios, projetos e documentos comprobatórios do serviço, afirma que “a dinâmica dos serviços prestados não exigia relatórios ou medições para o seu pagamento. A prestação de serviços pode ser constatada, inclusive, com o testemunho de terceiros”. Com efeito, dentre os vários documentos acostados aos autos naquela ocasião (e- fls. 151-519) não é possível identificar, além das notas fiscais, quaisquer documentos que sejam atribuíveis à prestação de serviço da empresa PIEMONTE. Há vários documentos relativos às atividades da Recorrente, é verdade, mas nenhum deles apresenta vinculação com a assessoria realizada pela PIEMONTE. Os documentos apresentados foram, inclusive, muito oportunamente listados no TVF, e sua menção é nesta altura oportuna: Relacionou-se abaixo os elementos apresentados pela Fiscalizada em resposta ao Termo de Início de Procedimento Fiscal (fls. 120/147): a – Resposta apresentada pela Fiscalizada (fls. 154/170); b – Contrato celebrado entre a APOLO e a PIEMONTE (fls. 174/179); c – Certificados de Registro e Classificação Cadastral emitidos pela Petrobrás (fls. 180/202); d – Relatórios de Divulgação em nome de Petronect (fls. 203/207); e – Convite Eletrônico Nacional Um Envelope Contrato emitido pela Petrobrás (fls. 208/220); f – Resumos de Oportunidade diversos emitidos pela Petronect (fls. 221/239); g – Convite 17-012/11 emitido pela Petrobrás (fls. 240/255); h – Convite Eletrônico NC- 0988303118 emitido pela Petrobrás (fls. 256/262); i – Resumos de Oportunidade diversos emitidos pela Petronect (fls. 263/266); j – Correspondência da Fundação Coppetec destinada à APOLO, datada de 29 de agosto de 2012 (fl. 267); l – Convênio firmado pela FINEP e Coppetec (fls. 268/301); m – Nota de Empenho em nome da Finep (fl. 302); n – Cópia de folha do diário Oficial da União (fl. 303); o – Acordo firmado entre APOLO e Coppetec (fls. 304/309); p – Relatórios de Acompanhamento Técnico em nome da APOLO (fls. 310/318); q – Termo de Rescisão de Contrato firmado entre APOLO e PIEMONTE (fls. 319/320); Fl. 3186DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 23 r – Foto de troféu concedido pela Petrobrás à APOLO (fl. 321); s – Notas Fiscais, Comprovantes de Pagamentos e Comprovantes de recolhimento de tributos retidos, referentes à suposta prestação de serviço envolvendo a APOLO e a PIEMONTE (fls. 322/519); Diligência semelhante foi também empreendida junto à PIEMONTE (e-fls. 1694- 1696). A resposta da prestadora teve o seguinte conteúdo: PIEMONTE EMPREENDIMENTOS LTDA. por seu representante legal que ao final subscreve» vera expor c requerer o quanto segue: I) Em anexo os contratos do APOLO, PRYSMIAN. UTC, NEDL, CCDL e CAMARGO CORREA. II) Quanto as pessoas relacionadas aos contratos e locais de prestação dos serviços, estão indicados nos respeclivos contratos; III) Os serviços contratados foram executados pelos sócios da empresa, e na fornia estabelecida nos respectivos contratos; IV) Todos os documentos gerados na execução dos contratos, c de propriedade dos contratantes conforme disposto nas cláusulas contratuais; V) Em anexo contrato com a M QU1AN. Quanto ao demais contratos não foram localizados por hora. cm função do tempo liábil para tal; VI) Observe-se constante no item IH. e a RAIS referente a TREV1SO. Solicitamos a Autoridade Fiscal, observar as cláusulas contratuais quanto ao sigilo e a confidencialidade dos contratos, cuja violação poderá gerar sanções legais cabíveis. À luz desse acervo probatório, a questão que se apresenta é, então, saber se há elementos suficientes a afastar a infração. Em outras palavras, teria o contribuinte se desincumbido do ônus de provar a materialidade e substância de sua escrituração contábil, à luz das premissas jurídicas fixadas anteriormente? E, nesse sentido, entendo que a resposta é negativa. Como bem observou a DRJ, para além de qualquer conclusão adotada pelo Ministério Público Federal ou na esfera criminal, “não há como atestar o cumprimento dos atributos de dedutibilidade dessas despesas da Apolo Tubulars com a Piemonte, pois, limitando-me somente à seara da verificação documental da dedutibilidade, entendo que não foi possível nem mesmo confirmar a prestação de serviços nos moldes descritos no contrato correspondente”. Nesse ponto, faço a observação de que, embora os serviços previstos no contrato firmado com a PIEMONTE serem relativamente “amplos”, ainda assim entendo que serviços de consultoria geram um mínimo de comprovação material. Veja-se o escopo do contrato: Fl. 3187DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 24 a) Acompanhamento da situação atual do cadastro da CONTRATANTE na PETROBRAS e ações necessárias para se realizar o cadastramento e/ou "upgrade" do mesmo; b) Promover reuniões da CONTRATANTE com os gerentes ria PETROBRAS. c) Identificar nos Planos de Negócios da PETROBRAS os projetos que sejam “alvo” de interesse e viáveis à CONTRATANTE, bem como desenvolvimento dos negócios focados em tais projetos selecionados; d) Acompanhamento dos conviles de cotação feitos pela PETROBRAS para a CONTRATANTE, até a assinatura dos respectivos contratos com a PETROBRAS. É de se imaginar que tais serviços, ainda que personalíssimos, envolvam alguma materialização, ainda que mínima. É bem verdade que serviços de natureza profissional são contratados não necessariamente pelos documentos produzidos ou materializados, mas mesmo tais serviços podem ser minimanete comprovados. Em se tratando de consultoria de gestão e comercial, poderiam haver planos, relatórios, atas de reunião, planejamentos estratégicos, apresentações comerciais, e-mails e tratativas comerciais registradas. Todavia, como se nota dos documentos apresentados, além das notas fiscais, não há documentos atribuíveis diretamente à PIEMONTE ou ao serviço por ela prestado. Portanto, entendo não estar suficientemente provada a prestação de serviços, razão pela qual entendo cabível o lançamento pela glosa da despesa e pelo IRRF sobre pagamento sem causa relativamente às operações com a empresa PIEMONTE, à luz das premissas jurídicas anteriormente fixadas. Já com relação ao contrato da ANTONIO MENEZES, o Termo de Intimação 01 (e- fls.809), dirigiu-se à comprovação dos serviços realizados pela empresa ANTONIO MENEZES ENGENHARIA E MEIO AMBIENTE LTDA. Desde a fiscalização e também no recurso voluntário, a defesa da Recorrente se centra na notória qualificação do seu titular, o Sr. Antonio Menezes, notadamente por se tratar de pessoa que já antes prestava serviço técnico à impugnante, e que ficou acordado que seria ele o responsável pelo acompanhamento técnico do contrato de fornecimento de tubos entre a Apolo e a Petrobrás, e não a Piemonte. Destacam que o Sr. Antonio Menezes não foi denunciado na “Lava Jato” e que os documentos apresentados não teriam sido levados em conta. Naquela ocasião, anexou a Recorrente e-mails trocados com a Petrobras (e-fls. 823- 824), notas fiscais e comprovantes de pagamento (e-fls. 825-1235), bem como os contratos firmados (e-fls. 1236-1249). Igualmente foi expedido Termo de Intimação à prestadora em questão (e-fls. 1250), em que se requer detalhes e informações sobre a prestação de serviços. A resposta da prestadora apresentou o seguinte teor: Fl. 3188DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 25 Quesito "a": A resposta a indagação é afirmativa. O relacionamento entre os sócios da Antonio Menezes Engenharia e Meio Ambiente Ltda, doravante ALBRA, com a Apolo Tubulars S/A existe desde o ano de 2007. Quesito "b": Tenho dois contratos firmados com a Apolo Tubulars, cujas cópias seguem anexadas, além do distrato firmado em dezembro de 2013 para encerramento do relacionamento; Quesito "c": Os contatos realizados com a empresa Apolo Tubulars S/A eram feitos com diversos profissionais, em diversos níveis. O contrato de prestação de serviços foi negociado e assinado pelo Sr. Carlos Eduardo de Sá Batista, Presidente da Companhia na época. Conforme disposição dos estatutos sociais da Companhia, a qual exigia duas assinaturas, o contrato também foi assinado por Mario Cristiano Benford. Questito "d" Os contatos na Apolo Tubulars S/A foram firmados com o Presidente Carlos Eduardo de Sá Batista, Wilson Rossa Cordeiro, Diretor industriai; Eduardo Gerk, na época Gerente Comercial, Igor Gomes, gerente de Qualidade. Também tivemos contato com outros profissionais da Companhia, que se desligaram ao longo do relacionamento, tais como: Eduardo A. Valle (ex- presidente) Mónica Castelo Branco, Antonio Caruso. Quanto às inscrições no CPF de cada uma das pessoas físicas, estou diligenciando para obter, pois não temos em nossos cadastros por não ser uma informação imprescindível para a prestação de serviços. O contrato firmado com a empresa em questão possui o seguinte escopo: a) Acompanhamento da situação atual do cadastro da CONTRATANTE na PETROBRÁS e ações necessárias para se realizar o cadastiamento e/ou "up-grade" do mesmo: b) Promover reuniões da CONTRATANTE com os gerentes da PETROBRÁS de suas subsidiarias. c) Identificar nos Planos de Negócios da PETROBRÁS os projetos que sejam *arvo* de interesse e viáveis à CONTRATANTE, bem como desenvolvimento dos negócios focados em tais projetos selecionados; d) Acompanhamento dos convites de cotação feitos pela PETROBRÁS para a CONTRATANTE, atê a assinatura dos respectivos contratos com a PETROBRÁS É interessante observar que, apesar de a Recorrente afirmar que a empresa ANTÔNIO MENEZES teria prestado serviços voltados para a área técnica, ao passo que os prestados pela empresa PIEMONTE estariam relacionados com o ramo comercial do negócio, o confronto dos contratos de prestação de serviço firmados com ambas empresas (fls. 141/146 e 1242/1247), evidencia que o objeto de cada contrato é idêntico (litteris), como bem observou o TVF. Fl. 3189DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 26 A fiscalizada e a prestadora se limitarm a informar que a dinâmica dos serviços prestados não exigia relatórios ou medições para seu pagamento. Reitero as considerações efetuadas anteriormente quanto à dinâmica probatória em infrações de glosa de despesa e IRRF, assim como quanto à mínima materialização dos serviços prestados, ainda que intelectuais e de natureza personalíssima. Faço minhas as palavras da DRJ: 65. Pois bem. No que toca exclusivamente ao aspecto material da dedutibilidade dessas despesas, entendo que agiu corretamente a fiscalização, quando tratou como indedutíveis essas rubricas. 66. A simples alegação de que a Albra ficou com “a parte técnica da produção de tubos” já causa estranheza em si, haja vista que a impugnante é a própria produtora desses tubos, deixando ainda mais sem justificativa essa contratação. 67. A alegação de que a Abra acompanhava esse contrato junto a Petrobrás também carece de comprovação de como esse acompanhamento se dava. Notadamente quando vimos que, como destacou a fiscalização, verifica-se que eram praticamente idênticos os objetos dos contratos da Apolo com a Piemonte e com a Albra, conforme pode ser visto às fls. 141/146 e 1242/1247. 68. Por sua vez, os documentos mencionados (fls. 1252 a 1459)4 comprovam, no máximo, a existência da relação entre os que ali se comunicam, da qualificação dos engenheiros e da ocorrência dos pagamentos, mas não logram dar substância real à relação jurídico-econômica decorrente do contrato, o qual vincula, em suas cláusulas, uma necessária comprovação de seu objeto. Mais ainda, como destacou a fiscalização, é muito estranho admitir uma dinâmica de serviços que não demande relatórios ou medições do trabalho fornecido, quando se trata de contrato supostamente de ordem técnica e que monta R$ 7.321.779,15. Destaco que esse contrato representava 97% do faturamento da Albra ao longo dos anos- calendário de 2010 a 2013 (TVF, fls. 95). 69. Do mesmo modo, a alegação de que depoimentos de funcionários da Petrobrás (fls. 2426 e ss) serviriam para comprovar que a Albra prestara serviços que “... consistiram em orientar, desenvolver, equipar laboratório de pesquisa e desenvolvimento de produtos e obter as credenciais necessárias para o fornecimento de produtos.” (fls. 2395), uma vez que não se apresentam associados a qualquer documentação relevante que os corrobore, não são elementos suficientes para comprovar a dedutibilidade das despesas e dar causa ao pagamento correspondente. 70. De qualquer modo, não muito diferente do que aconteceu com a Piemonte, a ausência de elementos probatórios, a exemplo de relatórios, demonstrativos, avaliações que demonstrassem como se dava esse acompanhamento, pela Albra, do contrato da Apolo com a Petrobras, não nos habilita a tomar como dedutíveis essas despesas, pois a própria verificação daqueles atributos de dedutibilidade Fl. 3190DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 27 estapados no art. 299 do RIR, de 1999, ficou prejudicada. Nesse contexto, mantenho a glosa de despesas apontada no auto de infração. Assim, igualmente entendo por manter a glosa de despesas e o lançamento de IRRF quanto à prestadora ANTONIO MENEZES. Importa observar que trouxe a Recorrente aos autos cópia do acórdão proferido nos autos da ação criminal n. 5030883-80.2016.4.04.7000/PR, em que figurou o Sr. Carlos Eduardo de Sá Baptista, sócio-diretor da APOLO, como réu. Concluiu-se naquela decisão: Como tenho consignado outros processos relacionados à Operação Lava-Jato, asdeclarações do colaborador devem se prestar tanto como elemento de convicção apto a condenarcomo também para absolver. Os indícios no sentido de que os réus Paulo de Castro e Carlos Eduardoagiram cientes de que a atuação de Júlio Camargo não era 'estritamente técnica' não conduz àconclusão de dolo em suas condutas, como afirma o Ministério Público Federal. São coisas bastantedistintas. Frise-se que o princípio da presunção de não culpabilidade, expressamente previsto noart. 5°, inciso LVII, da Constituição Federal, é uma das principais garantias penais atribuídas emfavor do indivíduo, como forma de conferir uma maior proteção ao direito de liberdade, a fim de quea sua restrição, quando necessária, somente seja possível após o esgotamento de todas asoportunidades processuais. É do Estado, no exercício do jus puniendi , o ônus de demonstrar, no decorrer doprocesso, a culpabilidade do acusado pela prática da infração penal, devendo esta serinequivocamente comprovada por provas produzidas dentro de um devido processo constitucional elegal, garantindo-se o contraditório e a ampla defesa. Somente após todo o desenrolar de um devidoprocesso constitucional e legal, restando, ao final, comprovada a culpabilidade do acusado, e, assimmesmo, após já se ter encerrada a atividade jurisdicional pelo trânsito em julgado da decisãocondenatória, é que se afastará a sua inocência, imputando-lhe a prática criminosa de formadefinitiva. Deve ser mantida, assim, a absolvição dos réus PAULO DE CASTRO e CARLOSEDUARDO DE SÁ em relação à imputação de crime de corrupção ativa, com fundamento no artigo386, VII, do Código de Processo Penal, por falta de prova suficiente para a condenação. Veja-se, a esse respeito, que a absolvição se deu pela inexistência de prova do dolo em sua conduta pessoal, a fim de caracterizar o crime de corrupção ativa. Todavia, tal conclusão – como já apontei – não necessariamente se aplica à esfera tributária, regida por normas e sistemática distinta. Como já apontei, o que se apura neste caso é a comprovação material de determinadas operações, para fim de justificar e dar suporte ao Fl. 3191DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 28 lançamento contábil de despesa, bem como quanto à comprovação da causa da operação para fins de incidência do IRRF. A falta de prova do elemento doloso para a pessoa física dirigente, que implica na absolvição penal desta, não implica na insubsistência da infração tributária. Em conclusão, no mérito, nego provimento ao recurso voluntário. III. Multa Qualificada. No Termo de Verificação Fiscal, houve a qualificação da multa, a partir da seguinte fundamentação: Foram consideradas qualificadas as infrações acima descritas, isto porque a evasão tributária perpetrada pela fiscalizada ao deixar de recolher os tributos descritos acima foi idealizada através da utilização de notas fiscais de prestação de serviços inidôneas, pois os serviços não foram prestados. Conforme suso demonstrado, os pagamentos foram feitos por razão outra. Serviram para o acobertamento contábil e financeiro do pagamento de propinas. Estes fatos minudentemente relatados caracterizam a figura da sonegação fiscal. A auditada tinha conhecimento da inidoneidade dos pagamentos realizados e da consequência tributária na apuração dos tributos devidos na apuração do imposto de renda, contribuição social e imposto retido na fonte, mas preferiu agir de maneira evasiva, registrar os pagamentos com histórico contábil falso, utilizando- se de documentação inidônea. Desta forma, praticou atos que deliberada e sistematicamente demonstram a presença do DOLO, no sentido de ter a consciência e querer a conduta de sonegação e agir em conluio com outra empresa, descritas nos art. 71 e 73 da Lei nº 4.502/64, justificando a aplicação da multa qualificada de 150%. Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. A aplicação da multa de ofício em percentual de 150% (cento e cinquenta por cento) está prevista nº art. 44, inc. I e § 1º da Lei 9.430/96 (litteris): Fl. 3192DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 29 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007)I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004)(Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007).................................... § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Destaco que a DRJ afastou a qualificação da multa apenas em relação às despesas e pagamentos relativos à empresa ANTONIO MENEZES, afastando a qualificação tanto quanto com relação ao IRPJ e CSLL sobre a glosa de despesas, quanto relativamente ao IRRF: Da multa qualificada 71. No campo da aplicação da multa de 150% sobre essa matéria, entendo que os autos carecem de elementos que associem esses gastos a um outro tipo de conduta comissiva no sentido de criar um processo fraudulento de redução da incidência tributária. São estes os pontos que me fazem pender em favor dos argumentos dos impugnantes neste ponto: 72. Assim, embora entenda que a dedutibilidade das despesas com o contrato da impugnante com a empresa Albra não tenha sido comprovada, o que autoriza a glosa desses dispêndios na apuração do lucro tributável, entendo que fiscalização não comprovou de forma cabal que esses gastos se originariam de uma operação fraudulenta. Não se justifica, portanto, a aplicação qualificada da multa de ofício, pois não vejo as figuras do inc. I, § 1º, do art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, e dos arts. 71 e 72, da Lei nº 4.502, de 1964. Da incidência da multa qualificada de 150% sobre o IRRF 118. Sob os mesmo argumentos usados neste voto quando tratei do IRPJ e da CSLL, entendo, assim, que, no que toca aos pagamentos feitos pela impugnante à empresa Piemonte, os fatos lá tratados caracterizam a fraude e a sonegação fiscal, justificando a aplicação da multa qualificada de 150%, com fulcro no art. 44, inciso I e § 1º da Lei nº 9.430, de 1996, também sobre o IRRF apurado sobre os pagamentos sem causa feitos à empresa Piemonte. O recurso de ofício não foi conhecido, de forma que resta sob litígio tão somente a qualificação da multa incidente sobre a glosa de despesas e o IRRF relativos às operações prestadas pela empresa PIEMONTE. Insurge-se a Recorrente ao afirmar: No caso em exame a fiscalização limitou-se a aplicar a penalidade agravada, presumindo o evidente intuito de fraude, adotando os termos da acusação formulada pelo MPF em processo de natureza penal contra um acionista e os Fl. 3193DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 30 diretor presidente à época dos fatos, sem produzir a comprovação que a justificasse. A incidência da multa agravada sobre os tributos supostamente apurados foi arbitrariamente aplicada, sem qualquer respaldo em fatos que indicassem a conduta fraudulenta ou voltada para o intuito de fraudar a arrecadação tributária. No caso em tela, entendo assistir razão à posição da DRJ, em virtude das circunstâncias do caso concreto, que demonstram haver o elemento doloso que autoriza a qualificação, elemento este não suficientemente elidido pela Recorrente. Nego provimento ao recurso voluntário quanto ao ponto. IV. Decadência. Alega a Recorrente a ocorrência de decadência parcial do lançamento em relação ao IRPJ e à CSLL relativamente ao ano calendário de 2010, e quanto ao IRRF em relação ao período compreendido entre os meses de janeiro a setembro de 2011. No que diz respeito ao IRPJ e CSLL, afasta-se a alegação de decadência em razão da existência de dolo, conforme indicado no item anterior, que manteve a qualificação da multa, devendo-se aplicar a regra geral do art. 173, I, do CTN, mercê da exceção prevista na parte final do § 4º do art. 150, que excepciona os casos em que for comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Há de se observar, no que diz respeito às operações realizadas com a empresa ANTONIO MENEZES, que a existência de dolo, fraude e simulação foi afastada pela própria DRJ, o que redundou no afastamento da qualificação da multa em relação a esta parte do crédito tributário lançado. A decadência deveria ter sido igualmente reconhecida pela DRJ relativamente a parte dos fatos geradores. Tal circunstância deve ser observada, a fim de se dar parcial provimento ao recurso voluntário. Já com relação ao IRRF, não obstante controvérsias históricas a respeito da caracterização do IRRF como lançamento por homologação e o enquadramento na regra do artigo 150 §4º do CTN ou na sistemática do artigo 173, I, do CTN, o fato é que houve o julgamento pelo STJ, do Tema Repetitivo 163 (REsp 973.733/SC), que determinou (de maneira vinculante para o Carf) a adoção do prazo do artigo 173, I, do CTN, nas hipóteses dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, para os quais não tenha ocorrido o pagamento antecipado da exação. A partir de tal definição, deu-se neste Conselho a edição da Súmula n. 114, cuja redação dispõe que “O Imposto de Renda incidente na fonte sobre pagamento a beneficiário não identificado, ou sem comprovação da operação ou da causa, submete-se ao prazo decadencial previsto no artigo 173, I, do CTN”. Fl. 3194DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 31 O seguinte acórdão da Câmara Superior bem evidencia o racional que sustenta referida Súmula: IR-FONTE SOBRE PAGAMENTO A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO. DECADÊNCIA. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. Cada fato gerador de IR-fonte (cada pagamento efetuado pela fonte pagadora a um beneficiário) é um fato gerador próprio, completo, autônomo, individual, que não se comunica com outras retenções relativas a outros pagamentos feitos pela fonte pagadora (outros fatos geradores). O fato gerador do IR-fonte é um típico fato gerador instantâneo. Não há nesse caso a figura do fato gerador complexivo (periódico), como se dá com o IRPJ e a CSLL. Se cada fato gerador de IR-fonte é único, não há como falar em pagamento parcial de tributo. Não há como utilizar recolhimentos de IR-fonte referentes a outras retenções (outros fatos geradores), independentemente do código de recolhimento, da rubrica, etc., para fins de deslocar a contagem da decadência para a regra do art. 150 do CTN. O deslocamento da regra decadencial só seria possível se o contribuinte apresentasse recolhimento parcial de IR-fonte para uma determinada retenção feita por ele, o que é difícil de acontecer, e também não é o caso dos autos. Ainda assim, o deslocamento só abrangeria esse específico fato gerador, e não serviria para antecipar a contagem da decadência para todos os demais fatos geradores de IR-fonte ocorridos na mesma semana, no mesmo decêndio, na mesma quinzena, no mesmo mês, no mesmo trimestre, no mesmo ano, etc. (Acórdão 9101-003.231) Assim, entendo ter caminhado bem a DRJ ao decidir: 102. No caso sob exame, não consta que tenha havido, no período objeto de lançamento, qualquer pagamento, por parte do contribuinte, a título de IRRF, com base no art. 61 da Lei nº 8.981, de 1995. 103. Assim, independentemente das hipótese estudadas, e mesmo da verificação da ocorrência, ou não, de fraude, aplica-se a regra prevista no art. 173, inciso I, do CTN. Nesse contexto, não há decadência, uma vez que o auto de infração foi notificado à contribuinte em 14/10/2016, ao responsável solidário em 01/12/2016 (fls. 2383), ao passo que o fato gerador mais antigo (pagamento) se deu em 17/01/2011 (fls. 118), o que levou, nesse caso, o termo final do prazo qüinqüenal para 31/12/2016. Diante do exposto, dou provimento parcial ao recurso voluntário, unicamente para reconhecer a decadência parcial do crédito tributário lançado, relativamente à parcela do lançamento decorrente da glosa de despesas relativas à empresa ANTONIO MENEZES, todo o ano- calendário de 2010. V. Multa isolada estimativa. Fl. 3195DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 32 A respeito da questão jurídica relativa à concomitância entre a multa isolada e a multa de ofício, não se trata de matéria nova perante este Conselho Administrativo. Na verdade, o tema foi e continua sendo objeto de intensa controvérsia administrativa, com posicionamentos louváveis em diferentes sentidos, ainda que antagônicos. Em especial, há maior controvérsia sobre a aplicação temporal da Súmula 105 do CARF, à luz da alteração promovida pela Lei n. 11.488/2007 ao art. 44 da Lei 9.430/1996. Basicamente, entre aqueles que reconhecem a validade da Súmula 105 do CARF, a divergência se dá em torno de sua aplicação temporal. Para uma primeira corrente, a Súmula 105 do CARF tem sua eficácia temporal limitada aos fatos geradores ocorridos antes de 2007, em função da alteração legislativa promovida pela Lei 11.488/2007. Em sentido contrário, há também o entendimento de que, mesmo com referida mudança legislativa, não houve alteração substancial do sentido da norma jurídica e, portanto, a Súmula permanece sendo aplicável. Os seguintes precedentes (dentre tantos outros), exemplificam ambos os posicionamentos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2014, 2015 MULTA ISOLADA. ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO. SÚMULA CARF Nº 105. ALCANCE. O enunciado da Súmula Carf nº 105 no sentido de que “a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício” alcança somente fatos geradores anteriores à Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488, de 2007. (CARF - Acórdão nº 1201-006.210 – 1ª Seção de Julgamento / 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária – Sessão de 19 de outubro de 2023) ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2010, 2011 MULTA ISOLADA - CONCOMITÂNCIA - PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO A multa isolada pelo descumprimento do dever de recolhimentos antecipados deve ser aplicada sobre o total que deixou de ser recolhido, ainda que a apuração definitiva após o encerramento do exercício redunde em montante menor. Pelo princípio da absorção ou consunção, contudo, não deve ser aplicada penalidade pela violação do dever de antecipar, na mesma medida em que houver aplicação de sanção sobre o dever de recolher em definitivo. Esta penalidade absorve aquela até o montante em que suas bases se identificarem. (CARF - Acórdão nº 9101-006.618 – CSRF / 1ª Turma – Sessão de 14 de junho de 2023) Fl. 3196DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 33 Entendo ser o segundo entendimento o mais acertado e por isso o adoto neste caso. Em síntese, entendo que a Súmula 105 do CARF é aplicável a todos os casos, independentemente da competência em que aplicadas as multas, em função da natureza de referidas penalidades, que não foi alterada em essência pela Lei 11.488/2007. Vejamos o que diz o artigo 44 da Lei 9.430/1996, já com as alterações promovidas por referida Lei: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II - de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: a) na forma do art. 8o da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano-calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. Em primeiro lugar, há de se notar que o caput do artigo tinha a mesma redação, mesmo antes da Lei 11.488/2007, isto é, “serão aplicadas”, de forma que a alteração legal não fez qualquer diferença neste ponto. Faço tal observação, pois há entendimentos que enxergam, nessa redação imperativa, a justificativa para a incidência conjunta de ambas as multas. Em minha visão, a questão é, na verdade, pertinente à natureza das penalidades, e não à redação do dispositivo legal. Em outras palavras, de “essência” da norma, e não de “forma”. Neste ponto específico, faço referência ao voto condutor do Acórdão n. 9101-005- 692, de relatoria da Conselheira Livia de Carli Germano: “Não obstante, compreendo que, muito embora a Lei 11.488/2007 tenha trazido alterações no texto do artigo 44 da Lei 9.430/1996, a norma, em sua essência, não foi alterada, sobretudo no que diz respeito à cobrança da multa isolada. É dizer, a simples mudança na forma de escrever o disposto no art. 44 da Lei 9.430/1996, com a devida vênia, não muda a norma, tampouco a natureza da multa isolada em relação à multa de ofício, quando esta é aplicada no caso concreto. Riccardo Guastini aponta a diferença entre texto e norma, indicando que o texto é o objeto da interpretação jurídica, sendo a norma o seu resultado. O autor define interpretação jurídica como “a atribuição de sentido (ou significado) a um texto normativo.” (GUASTINI, Riccardo. Das fontes às normas. Edson Bini (trad.). São Fl. 3197DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 34 Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 23). Assim, o discurso do intérprete seria construído na forma do enunciado standard “T significa S”, em que T equivale ao texto normativo e S equivale ao sentido ou significado que lhe é atribuído.” Nessa toada, entendo que a norma jurídica do art. 44 da Lei 9.430/1996 não foi suficientemente alterada, no que de fato importa, isto é, as hipóteses infracionais que dão ensejo às penalidades. A multa de ofício de 75%, prevista no inciso I, aplica-se à falta de pagamento de imposto ou contribuição, ao passo que a multa isolada de 50% refere-se às estimativas mensais não recolhidas, de tal forma que não se pode olvidar que estas são meras antecipações do tributo devido, não sendo tributo autônomo. Assim, embora sejam penalidades distintas, voltadas a infrações distintas, quando ambas as obrigações não foram cumpridas pelo contribuinte, o princípio da absorção ou consunção impõe que a infração pelo inadimplemento do tributo devido prevaleça, afinal o dever de antecipar o pagamento por meio de estimativas configura etapa preparatória para o dever de recolher o tributo efetivamente devido, este sim o bem jurídico tutelado pela norma. A título ilustrativo, destaco a argumentação contida no Acórdão CSRF 9101- 006.782, da 1ª Turma: Não nego que a base de cálculo das multas seja diversa (valor da estimativa devida versus valor do ajuste anual devido), assim como não nego que se trata de punição pelo descumprimento de deveres diferentes (a multa isolada como pena por não antecipar parcelas do tributo calculadas sobre uma base provisória, e a multa de ofício por não recolher o tributo apurado como devido no ajuste anual). Ocorre que, sempre que a falta de recolhimento da estimativa refletir no valor do ajuste anual devido e este não for recolhido, ensejando a aplicação da multa de ofício, teremos uma dupla repercussão da primeira infração, já que esta ensejará, ao mesmo tempo, a exigência da multa isolada e da multa de ofício. Aqui, sim, é relevante o fato de a estimativa ser mera antecipação do tributo devido no ajuste anual, sendo de se ressaltar a impossibilidade de se punir, ao mesmo tempo, uma conduta ilícita e seu meio de execução. Há de se observar ainda que a consunção é justamente o fundamento que já fundamentava os precedentes que vieram a redundar na edição da Súmula 105 do CARF. Veja-se o Acórdão nº 1803-01.263, proferido pela C. 3ª Turma Especial da 1ª Seção desse E. CARF, em sessão de julgamento de 10/04/2012, que consta como o último acórdão precedente à Súmula 105 do CARF: APLICAÇÃO CONCOMITANTE DE MULTA DE OFÍCIO E MULTA ISOLADA NA ESTIMATIVA - Incabível a aplicação concomitante de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas no curso do período de apuração e de ofício pela falta de pagamento de tributo apurado no balanço. A infração relativa ao não recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de Fl. 3198DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 35 reduzir o imposto no final do ano. Pelo critério da consunção, a primeira conduta é meio de execução da segunda. O bem jurídico mais importante é sem dúvida a efetivação da arrecadação tributária, atendida pelo recolhimento do tributo apurado ao fim do ano-calendário, e o bem jurídico de relevância secundária é a antecipação do fluxo de caixa do governo, representada pelo dever de antecipar essa mesma arrecadação. Portanto, se a própria Súmula 105 do CARF é baseada na absorção das penalidades, entendo que o entendimento que ela sufraga é também aplicável a fatos geradores mais recentes, uma vez que se está diante de entendimento sumular baseado na norma, e não no texto legal. Por fim, destaco que, sobre o tema, já se manifestou o Superior Tribunal de Justiça, inclusive em julgados recentes: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. OFENSA AOS ARTIGOS 489 E 1.022, AMBOS, DO CPC/2015. NÃO CARACTERIZAÇÃO. MULTA ISOLADA E MULTA DE OFÍCIO. ART. 44, I E II, DA LEI 9.430/1996 (REDAÇÃO DADA PELA LEI 11.488/2007). EXIGÊNCIA CONCOMITANTE. IMPOSSIBILIDADE NO CASO. PRECEDENTES. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E NÃO PROVIDO. (...)5. Nesse sentido, no caso em apreço, me valho da linha argumentativa a muito difundida nessa Corte, segundo a qual preleciona pela aplicação do princípio da consunção ao exigir o cumprimento de medidas sancionatórias. A rigor, o princípio da consunção não se dá em abstrato, mas sim em concreto. É um preceito calcado na evolução do direito ocidental de limitação das punições (e não de sua eliminação). Dentro desse contexto, como critério de interpretação e aplicação do direito, entende-se que, para cada conduta, uma só punição em concreto, prevalecendo a maior, ainda que essa conduta possa ser enquadrada em mais de um tipo legal de infração. Precedentes no mesmo sentido (STJ – Recurso Especial n. 2.104963 – Sessão de 05/12/2023) Assim, entendo que o entendimento contido na Súmula 105 do CARF é aplicável aos fatos geradores ocorridos mesmo após a edição da Lei 11.488/2007, considerando que esta não promoveu alteração na natureza das infrações. Diante do exposto, dou provimento ao recurso voluntário nesse ponto. VI. Responsabilidade solidária. No que tange à responsabilidade solidária, o TVF fundamentou-se no artigo 135, III, do CTN, nos seguintes termos: 15 – Da Responsabilidade Tributária Tendo em vista que Carlos Eduardo de Sá Batista, CPF 100.638.977-68, assinou os contratos de prestação de serviço firmados entre a APOLO e as empresa PIEMONTE e ANTÔNIO MENEZES, contratos esse ideologicamente falsos, conforme demonstrado, fica caracterizada sua participação dolosa na prática das infrações acima relatadas Fl. 3199DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 36 Esclareça-se que Carlos Eduardo esteve à frente da Fiscalizada no cargo de Diretor Presidente nº período de 04/01/2007 a 07/05/2010 e 20/01/2012 a 18/02/2016 (fls. 2146/2156), e que os pagamentos à PIEMONTE e à ANTÔNIO MENEZES, e os lançamentos contábeis referentes às operações envolvendo a Fiscalizada e essas empresas (contabilização das despesas e dos pagamentos) ocorreram no período de 2010 a 2013. Tais fatos implicam a responsabilização tributária pessoal do Diretor Presidente, de acordo com o estabelecido no art. 135, inciso III da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 – Código Tributário Nacional(CTN): A DRJ manteve a responsabilização do Sr. Carlos Eduardo, sob o seguinte fundamento: 128. No caso sob exame, conforme já destacado antes neste voto, a fiscalização da Receita Federal, muito embora de posse de fartos elementos produzidos na Ação Penal nº 503088380.2016.4.04.7000/PR, no âmbito da operação Lava Jato, como são exemplos os depoimentos, as denúncias e mesmo as chamadas colaborações premiadas dos diversos atores, logrou produzir o seu próprio conjunto probatório, que indubitavelmente deu lastro para a apuração de irregularidades cometidas pela contribuinte Apolo, no âmbito da legislação tributária federal. 129. Esse mesmo escopo probatório permite concluir que os aludidos atos praticados pela contribuinte Apolo, o foram com a participação direta do Sr. Carlos Eduardo. Com efeito, esse senhor foi quem buscou os “serviços” do Sr. Julio Camargo (Piemonte), pessoa, como vimos antes de neste voto, dedicada a criar indevidas facilitações das empreiteiras junto à Petrobrás. Em suma, vimos que o Sr. Carlos Eduardo de Sá Batista foi o promotor do contrato com a Piemonte, o qual, de sua vez, se revelou um mecanismo para propiciar pagamento de propinas para o esquema criminoso, bem como disfarçar esses pagamentos como se de serviços fossem. Portanto, agiu o Sr. Carlos Eduardo de Sá Batista com infração à lei, na medida em que autorizou a apropriação, pela contribuinte Apolo, de despesas sabidamente fictícias e de pagamentos sem causa. 130. O fato de o Sr. Carlos Eduardo de Sá Batista ter sido absolvido na referida ação penal, como podemos ver na sentença de fls. 73 e 2516 10, não influi nessa conclusão. Os crimes sobre ele imputados eram os de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, quando aqui se está analisando sua responsabilização sobre infrações de cunho fiscal, cometidas pela pessoa jurídica da Apolo Tubulars. Nesse quadrante, a presunção de que seria ele inocente quanto a tais crimes não o afasta da responsabilização tributária solidária. (...) 132. Com efeito, Carlos Eduardo esteve à frente da impugnante no cargo de Diretor Presidente no período de 04/01/2007 a 07/05/2010 e 20/01/2012 a Fl. 3200DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 37 18/02/2016 (fls. 2146/2156), e que os pagamentos à Piemonte e à Albra, e os lançamentos contábeis referentes às operações envolvendo a impugnante e essas empresas (contabilização das despesas e dos pagamentos) ocorreram no período de 2010 a 2013. 133. Ocorre que esses pagamentos e lançamentos de despesas, mesmo quando ocorridos em datas em que ele não era diretor-presidente, decorrem da avença promovida pelo Sr. Carlos Eduardo quando era, sim, diretor presidente. Como vimos, foi ele quem procurou o Sr. Julio Camargo, e assinou contrato com a Piemonte. Assim, não há como afastar sua responsabilização pelos créditos tributários decorrentes das referidas operações irregulares. Pois bem. O artigo 135 do CTN tem a seguinte redação: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: II - os mandatários, prepostos e empregados; III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Sobre a interpretação de tal dispositivo legal, cumpre trazer à baila a lição de Maria Rita Ferragut: “A existência de uma infração é condição necessária ao desencadeamento da responsabilidade do administrador, mas insuficiente. Para que reconheçamos a recepção do art. 135 pela ordem constitucional de 1988, é indispensável a aplicação de seu preceito em fiel harmonia com a necessidade de uma conduta dolosa, de modo que a responsabilidade pessoal não atinja aqueles que praticaram o ilícito apenas com culpa. (...) O elemento subjetivo, aqui, significa que a responsabilidade nasce somente se o administrador agir intencionalmente com o animus de praticar a conduta típica, mesmo sabendo que o ordenamento jurídico proíbe tal comportamento. (...) A intenção de fraudar, de agir de má-fé e de prejudicar terceiros é fundamental1”. Tem-se, então, que, além dos elementos fáticos de modo a comprovar a prática de “ato com excesso de poderes, infração do contrato social ou de lei”, estes exigem um elemento 1 FERRAGUT, Maria Rita. Responsabilidade tributária. 4. Ed., ver., atual. e ampl. – São Paulo: Noeses, 2020. Pag. 115. Fl. 3201DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 38 doloso que deve ser provado. Mais ainda em se tratando em casos de planejamento tributário, os quais se inserem em zonas controversas da interpretação jurídica. Cumpre ainda observar que o simples inadimplemento de tributo não caracteriza como infração à lei para fins de aplicação do art. 135 do CTN. Sobre tal ponto, o Superior Tribunal de Justiça tem jurisprudência firmada no sentido de que o mero inadimplemento do tributo não é por si só suficiente para atrair a aplicação do artigo 135 do CTN, senão vejamos: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DISPENSA. RESPONSABILIDADE DO SÓCIO. TRIBUTO NÃO PAGO PELA SOCIEDADE. (...) 2. É igualmente pacífica a jurisprudência do STJ no sentido de que a simples falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese, circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da empresa (EREsp 374.139/RS, 1ª Seção, DJ de 28.02.2005). 3. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (STJ - RECURSO ESPECIAL Nº 1.101.728 - SP (2008/0244024-6)) TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. REDIRECIONAMENTO. IMPOSSIBILIDADE NA ESPÉCIE. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO DOS REQUISITOS DO ART. 135 DO CTN OU DE OCORRÊNCIA DE DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA EMPRESA. ADEMAIS, O MERO INADIMPLEMENTO DE TRIBUTO NÃO GERA, POR SI SÓ, A RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO SÓCIO- GERENTE. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 430/STJ. AGRAVO INTERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. Segundo a jurisprudência desta Corte, para que se legitime o redirecionamento da Execução Fiscal, é imprescindível o preenchimento de pelo menos um dos requisitos do art. 135 do CTN ou a demonstração de que houve dissolução irregular da empresa, não bastando, apenas, o exercício da gerência no período do fato gerador do tributo cobrado. Precedentes: AgInt no REsp. 1.611.500/SC, Rel. Min. FRANCISCO FALCÃO, DJe 18.3.2019; REsp. 1.651.600/SP, Rel. Min. HERMAN BENJAMIN, DJe 20.4.2017. 2. Conforme se depreende da Súmula 430 do STJ, o inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a responsabilidade solidária do sócio-gerente. 3. Agravo Interno do ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL a que se nega provimento. (AgInt no AREsp 752.607/RS, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 13/05/2019, DJe 20/05/2019) Portanto, a responsabilidade tributária de dirigentes, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado – resumidamente sócio-gerente – não se confunde com a responsabilidade do sócio. Afinal, não é a condição de ser sócio da pessoa jurídica que atrai a responsabilidade tributária, mas sim a conduta, a atuação como gestor ou representante da Fl. 3202DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 39 pessoa jurídica e a prática de atos com excesso de poder, infração à lei, contrato social ou estatuto. Qualquer que seja a base legal da imputação de responsabilidade, seja o artigo 124 ou 135 do CTN, é importante ter em mente o dever de fundamentação específica. Há um ônus argumentativo e de motivação a ser vencido pela autuação. Não basta a mera indicação dos dispositivos, nem a menção genérica aos mesmos fatos imputados ao contribuinte principal. É necessário indicar com precisão em que medida o responsável solidário tem “interesse comum no fato gerador” ou praticou atos com excesso de poderes, infração à lei ou estatuto. Portanto, é necessário que o Fisco aponte a prova da infração e, especialmente, o nexo causal da participação do administrador na prática dos atos do artigo 135 do CTN, bem como o elemento doloso. E essa prova não se dá com a mera indicação dos nomes das pessoas físicas e jurídicas para as quais se pretende a responsabilização. A individualização da conduta de cada responsável no lançamento é imprescindível, incontornável. No caso do artigo 135 é necessário demonstrar qual o sócio que geria a sociedade, evidenciar seus poderes de gestão e como tais poderes vinculam-se com os atos ilícitos que se apresenta. E, no caso em tela, entendo que o TVF não se desincumbiu do ônus de fundamentação suficiente. Há apenas menção ao fato de ser o Sr. Carlos Eduardo o sócio-gestor da empresa e, como tal, “assinou os contratos de prestação de serviço firmados entre a APOLO e as empresa PIEMONTE e ANTÔNIO MENEZES” e que os pagamentos foram feitos em época que a pessoa física em questão seria administradora. Ainda, como segundo fator relevante, e diferentemente do que apontei em relação à pertinência da esfera penal à apuração da infração tributária, entendo relevantes as conclusões a que chegou o Judiciário, mesmo porque lá se reconheceu a inexistência de dolo, o que, de fato, entendo não ter sido demonstrado pela fiscalização no caso em tela. Assim, dou provimento ao recurso voluntário para afastar a responsabilidade solidária. VII. Conclusão. Diante do exposto, dou provimento parcial ao recurso voluntário da contribuinte, unicamente para: A) Reduzir a multa de ofício ao patamar de 100%, em face da retroatividade benigna; Fl. 3203DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 1101-001.959 – 1ª SEÇÃO/1ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 16045.720026/2016-67 40 B) Afastar a multa isolada pelo não recolhimento de estimativa mensal pela consunção; C) Reconhecer a decadência parcial dos créditos tributários relativos à glosa de despesas de IRPJ e CSLL, especificamente com relação às operações realizadas com a empresa ANTONIO MENEZES (ALBRA) no ano-calendário de 2010. Dou provimento ao recurso voluntário do responsável solidário CARLOS EDUARDO DE SÁ BAPTISTA, para afastar-lhe a responsabilidade solidária. Não conheço do recurso de ofício. Assinado Digitalmente Diljesse de Moura Pessoa de Vasconcelos Filho Fl. 3204DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
score : 1.0
Numero do processo: 10865.721064/2016-05
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 03 00:00:00 UTC 2025
Data da publicação: Fri Feb 06 00:00:00 UTC 2026
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/05/2011 a 31/12/2013
RECURSO VOLUNTÁRIO. AUSÊNCIA DE IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO.
Somente com a interposição de impugnação se instaura a fase litigiosa do procedimento em face de cada um dos coobrigados. Assim, em que pese a sujeita passiva solidária deva ser cientificada de todos os atos praticados no processo, sua atuação do ponto de vista do litígio resta obstaculizada ante a inércia quando do prazo para a apresentação da impugnação, restando precluso o seu direito de se manifestar no processo administrativo em sede recursal.
No lançamento não foi atribuída responsabilidade solidária a terceiros, sendo matéria e sujeitos estranhos à lide.
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. DECADÊNCIA. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. CONSTATAÇÃO DE DOLO E FRAUDE. OCORRÊNCIA. APLICAÇÃO ARTIGO 173, I, DO CTN.
O prazo decadencial para a constituição dos créditos previdenciários é de 05 (cinco) anos, nos termos dos dispositivos legais constantes do Código Tributário Nacional, tendo em vista a declaração da inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos dos REs nºs 556664, 559882 e 560626, oportunidade em que fora aprovada Súmula Vinculante nº 08, disciplinando a matéria.
In casu, aplicou-se o prazo decadencial insculpido no artigo 173, I, do CTN, eis que restou comprovada a ocorrência de dolo e fraude.
MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. COMPROVAÇÃO SIMULAÇÃO. FRAUDE. CABIMENTO.
Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64.
TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA.
Pelo Princípio da Verdade Material, uma vez configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos.
Constatado que o vínculo empregatício formalmente estabelecido dissocia-se do verdadeiro sujeito passivo, é legítima a atuação fiscal que restabelece a realidade dos fatos, com o consequente lançamento tributário no correto contribuinte, com fulcro no artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, c/c Pareceres/CJ nºs 330/1995 e 1652/1999.
RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, II, C DO CTN. REDUÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA PARA 100%.
O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c.
A Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento).
Numero da decisão: 2301-011.891
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso interposto pelos terceiros e, quanto ao recurso da autuada, afastar a decadência e dar provimento parcial para reduzir o percentual da multa qualificada a 100%.
Assinado Digitalmente
Marcelle Rezende Cota – Relatora
Assinado Digitalmente
Diogo Cristian Denny – Presidente
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Andre Barros de Moura(substituto[a] integral), Carlos Eduardo Avila Cabral, Diogo Cristian Denny(Presidente).
Nome do relator: MARCELLE REZENDE COTA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/05/2011 a 31/12/2013 RECURSO VOLUNTÁRIO. AUSÊNCIA DE IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO. Somente com a interposição de impugnação se instaura a fase litigiosa do procedimento em face de cada um dos coobrigados. Assim, em que pese a sujeita passiva solidária deva ser cientificada de todos os atos praticados no processo, sua atuação do ponto de vista do litígio resta obstaculizada ante a inércia quando do prazo para a apresentação da impugnação, restando precluso o seu direito de se manifestar no processo administrativo em sede recursal. No lançamento não foi atribuída responsabilidade solidária a terceiros, sendo matéria e sujeitos estranhos à lide. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. DECADÊNCIA. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. CONSTATAÇÃO DE DOLO E FRAUDE. OCORRÊNCIA. APLICAÇÃO ARTIGO 173, I, DO CTN. O prazo decadencial para a constituição dos créditos previdenciários é de 05 (cinco) anos, nos termos dos dispositivos legais constantes do Código Tributário Nacional, tendo em vista a declaração da inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos dos REs nºs 556664, 559882 e 560626, oportunidade em que fora aprovada Súmula Vinculante nº 08, disciplinando a matéria. In casu, aplicou-se o prazo decadencial insculpido no artigo 173, I, do CTN, eis que restou comprovada a ocorrência de dolo e fraude. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. COMPROVAÇÃO SIMULAÇÃO. FRAUDE. CABIMENTO. Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. Pelo Princípio da Verdade Material, uma vez configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Constatado que o vínculo empregatício formalmente estabelecido dissocia-se do verdadeiro sujeito passivo, é legítima a atuação fiscal que restabelece a realidade dos fatos, com o consequente lançamento tributário no correto contribuinte, com fulcro no artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, c/c Pareceres/CJ nºs 330/1995 e 1652/1999. RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, II, C DO CTN. REDUÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA PARA 100%. O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c. A Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento).
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso interposto pelos terceiros e, quanto ao recurso da autuada, afastar a decadência e dar provimento parcial para reduzir o percentual da multa qualificada a 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota – Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Andre Barros de Moura(substituto[a] integral), Carlos Eduardo Avila Cabral, Diogo Cristian Denny(Presidente).
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AUSÊNCIA DE IMPUTAÇÃO DE RESPONSABILIDADE. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO DE IMPUGNAÇÃO. PRECLUSÃO. NÃO CONHECIMENTO. Somente com a interposição de impugnação se instaura a fase litigiosa do procedimento em face de cada um dos coobrigados. Assim, em que pese a sujeita passiva solidária deva ser cientificada de todos os atos praticados no processo, sua atuação do ponto de vista do litígio resta obstaculizada ante a inércia quando do prazo para a apresentação da impugnação, restando precluso o seu direito de se manifestar no processo administrativo em sede recursal. No lançamento não foi atribuída responsabilidade solidária a terceiros, sendo matéria e sujeitos estranhos à lide. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. DECADÊNCIA. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. CONSTATAÇÃO DE DOLO E FRAUDE. OCORRÊNCIA. APLICAÇÃO ARTIGO 173, I, DO CTN. O prazo decadencial para a constituição dos créditos previdenciários é de 05 (cinco) anos, nos termos dos dispositivos legais constantes do Código Tributário Nacional, tendo em vista a declaração da inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, pelo Supremo Tribunal Federal, nos autos dos RE’ s nºs 556664, 559882 e 560626, oportunidade em que fora aprovada Súmula Vinculante nº 08, disciplinando a matéria. In casu, aplicou-se o prazo decadencial insculpido no artigo 173, I, do CTN, eis que restou comprovada a ocorrência de dolo e fraude. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. COMPROVAÇÃO SIMULAÇÃO. FRAUDE. CABIMENTO. Fl. 394DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 2 Cabível a imposição da multa qualificada de 150%, quando demonstrado que o procedimento adotado pelo sujeito passivo se enquadra nas hipóteses tipificadas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/64. TRABALHADORES VINCULADOS À EMPRESA PRESTADORA DE SERVIÇO OPTANTE PELO SIMPLES. DESCONSIDERAÇÃO DO VÍNCULO EXISTENTE. CARACTERIZAÇÃO DIRETAMENTE COM A EMPRESA PRINCIPAL. PRIMAZIA DA REALIDADE SOBRE A FORMA. Pelo Princípio da Verdade Material, uma vez configurado que a relação jurídica formal apresentada não se coaduna com a relação fática verificada, subsistirá a última. De acordo com o art. 118, inciso I do Código Tributário Nacional, a definição legal do fato gerador é interpretada abstraindo-se da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos seus efeitos. Constatado que o vínculo empregatício formalmente estabelecido dissocia- se do verdadeiro sujeito passivo, é legítima a atuação fiscal que restabelece a realidade dos fatos, com o consequente lançamento tributário no correto contribuinte, com fulcro no artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social - RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/99, c/c Pareceres/CJ nºs 330/1995 e 1652/1999. RETROATIVIDADE BENIGNA. ART. 106, II, C DO CTN. REDUÇÃO DA MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA PARA 100%. O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c. A Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento). ACÓRDÃO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 395DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 3 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, não conhecer do recurso interposto pelos terceiros e, quanto ao recurso da autuada, afastar a decadência e dar provimento parcial para reduzir o percentual da multa qualificada a 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota – Relatora Assinado Digitalmente Diogo Cristian Denny – Presidente Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Flavia Lilian Selmer Dias, Marcelle Rezende Cota, Monica Renata Mello Ferreira Stoll, Andre Barros de Moura(substituto[a] integral), Carlos Eduardo Avila Cabral, Diogo Cristian Denny(Presidente). RELATÓRIO Trata-se de Auto de Infração lavrado contra a Recorrente acima identificada, relativo as contribuições previdenciárias destinadas aos TERCEIROS, incidentes sobre a remuneração pagas aos segurados da empresa F. C. Aguaí Transportes e Logística Ltda – EPP, caracterizados como segurados empregados da autuada, relativa ao período de 01/05/2011 a 31/12/2013. De acordo com o Relatório Fiscal (e-fls. 16/29), extrai-se que constituíram fatos geradores das contribuições lançadas as remunerações a empregados, com correspondentes contribuições não declaradas em GFIP, no período de 05/2011 a 12/2013, apuradas a partir da documentação do contribuinte referente às empresas CTM Comércio e Transportes Matielo Ltda e F. C. Aguaí Transportes e Logística Ltda - EPP, e em específico de suas GFIPs e folhas de pagamento, conforme cópias às fls. 099/246. As bases de cálculo foram apuradas requalificando todos os fatos geradores formalmente registrados nessas duas empresas como vinculados à empresa principal (CTM Comércio e Transportes Matielo Ltda). A fiscalização identificou que a empresa F. C. Aguaí Transportes e Logística Ltda – EPP, CNPJ nº 06.302.887/0001-59, atuou como empresa satélite do sujeito passivo CTM Comércio e Transportes Matielo Ltda., caracterizando-a como uma “empresa interposta” da “empresa principal”, com total dependência econômica, financeira e administrativa dos mesmos empresários, Srs. Fernando e Cristiano Gandra Matielo, existindo de fato uma única empresa, havendo apenas um fracionamento meramente formal do fluxo de documentos fiscais e do Fl. 396DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 4 faturamento a fim de usufruir indevidamente do tratamento diferenciado concedido pelo regime do Simples Nacional. Por entender caracterizado o dolo e configuradas as hipóteses dos crimes de sonegação fiscal, contra a ordem tributária e falsidade ideológica por parte da contribuinte, a partir dos fatos descritos em seu relato, a fiscalização considerou, para fins do lançamento efetuado, o prazo decadencial do art. 173, inciso I, do CTN, bem como aplicou a multa qualificada de 150%, prevista no art. 44, §1º, da Lei nº 9.430/1996, a partir da caracterização das hipóteses dolosas dos arts. 71 e 72, da Lei nº 4.502/1964. Após apresentação de impugnação por parte da Recorrente, foi proferido Acórdão n° 14-64.947 pela 10ª TURMA da DRJ em Ribeirão Preto/SP, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, mantendo a integra do lançamento, conforme Ementa abaixo transcrita (e-fls. 344/364): ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/05/2011 a 31/12/2013 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS. VINCULAÇÃO DEPENDENTE DE DISPOSIÇÃO LEGAL EXPRESSA. As decisões judiciais e administrativas somente vinculam os julgadores de 1ª instância nas situações expressamente previstas na legislação. ORGANIZAÇÃO DA ATIVIDADE EMPRESARIAL EM DIVERSAS EMPRESAS. PROPÓSITO NÃO NEGOCIAL E AUSÊNCIA DE AUTONOMIA. RECONSIDERAÇÃO DAS RELAÇÕES JURÍDICAS. CARACTERIZAÇÃO DE PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. A organização empresarial de um conjunto de atividades sujeito a um controle comum na forma de empresas distintas deve corresponder à realidade econômica e ter propósito eminentemente negocial, sob pena de serem reconsideradas as relações jurídicas subjacentes e caracterizado o dolo na configuração de planejamento tributário abusivo sempre que identificados a falta de autonomia entre as empresas e o objetivo principal de redução de tributos que, conjugados, propiciem a determinação artificial das bases de cálculo e/ou alíquotas desses tributos. LANÇAMENTO. INCLUSÃO NA BASE DE CÁLCULO DE AVISO PRÉVIO INDENIZADO. NÃO COMPROVAÇÃO. Não merece ser acolhida a alegação formalizada pelo sujeito passivo em relação a parcela que considera indenizatória, porém, que não se encontra comprovadamente incluída na autuação. MULTA QUALIFICADA. SONEGAÇÃO, FRAUDE OU CONLUIO. APLICAÇÃO. Fl. 397DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 5 Aplica-se a multa qualificada correspondente à duplicação do percentual da multa de ofício quando verificada a ocorrência de conduta dolosa caracterizada como sonegação, fraude ou conluio. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DOLO, FRAUDE OU SIMULAÇÃO. PRAZO. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, caracterizada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o prazo decadencial se inicia no primeiro dia do exercício seguinte àquele a partir do qual poderia ter ocorrido o lançamento. GRUPO ECONÔMICO DE FATO. CARACTERIZAÇÃO. Caracteriza-se a existência de grupo econômico de fato quando duas ou mais empresas estão sobre a administração, a direção ou o controle de uma delas. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DE TERCEIROS. Ausente defesa apresentada em nome de terceiros responsáveis solidários pelo crédito tributário, não cabe a apreciação de oposição à imputação de responsabilidade solidária apresentada pelo contribuinte, na medida em que este não detém legitimidade e nem interesse para tanto. MATÉRIA FORA DO OBJETO DO PROCESSO. CONTESTAÇÃO NÃO APRECIADA. A contestação de matéria não integrante do objeto do processo não é passível de apreciação pelo órgão julgador. PROVAS. OPORTUNIDADE Com a impugnação ocorre a oportunidade da apresentação de provas, precluindo o direito de o impugnante apresentá-las em outro momento processual. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Inconformadas com a referida decisão, a Recorrente, cientificada em 13/04/2017 (e-fl. 375), interpôs em 12/05/2017 Recurso Voluntário em conjunto com a pessoa jurídica F.C. Aguai Transportes e os sócios Sr. Cristiano Gandra e Fernando Gandra (e-fls. 379/390), repisando às alegações da impugnação, motivo pelo qual adoto o relatório da decisão de piso: 2. O contribuinte alega ter sido induzido a erro material pelo profissional contador que lhe prestou serviços, o qual teria orientado a constituir a empresa F.C. Aguaí e, portanto, os sócios da empresa acreditavam estar corretos ao longo de todo o período, sem dolo ou má-fé em relação à constituição e operação da nova empresa, tanto que, ao contratar novo profissional que constatou o erro no procedimento, adotou providências para corrigi-lo mesmo antes do início da ação fiscal. , o que pode ser constatado pela transferência de todos os funcionários da F.C. Aguaí para a CTM na data de 05/02/2016, descaracterizando a hipótese de simulação e a possibilidade de sujeição passiva de seus sócios. Fl. 398DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 6 3. Informa que a não apresentação de documentos deveu-se à não entrega destes pelo contador da época, tendo sido inclusive lavrado um Boletim de Ocorrência contra ele. 4. Contesta a responsabilização solidária a partir de grupo econômico, apontando que dependeria de elementos mais consistentes e de crivo do Judiciário, considerando que são empresas distintas, com vida própria, sedes diferentes, ainda que de sócios iguais, afirmando que a fiscalização usou de mera presunção e não se teria aprofundado na análise documental. 5. Insurge-se contra a inclusão da rubrica AVISO PRÉVIO na base de cálculo do tributo lançado, por entender que se trata de verba indenizatória e excluída da incidência da contribuição previdenciária. 6. Clama pela decadência e pela prescrição da cobrança dos valores lançados referentes a competências anteriores a 05/2011, a partir da aplicação da regra do art. 150, §4º, do CTN, asseverando que não caberia a aplicação da parte final desse dispositivo por entender comprovada a ausência de fraude, dolo ou simulação, dadas as providências para regularização tomadas espontaneamente e previamente à ação fiscal. Traz decisões administrativas e a Súmula 99 do CARF. 7. Refuta a possibilidade de sujeição passiva solidária dos sócios por entender restar sem prova, crivo ou contraditório, contrariando a lei e o princípio da presunção da inocência. Reforça apontando que não foi apurado nenhum fato ou ato que tenha sido praticado pelos sócios ou que teriam conhecimento de qualquer fraude. Acrescenta que os sócios não tiveram qualquer ganho com a situação, mas sim prejuízos pela má prestação do serviço contábil. 8. Contesta a multa aplicada por terem por base suposta infração não ocorrida, mormente não declaração em GFIP de informações relativas à ação trabalhista. Entende que a inexigibilidade do tributo se estenderia também à multa. Aponta ter-se configurado confisco na aplicação da multa de 150% e que ela teria sido aplicada na ausência de dolo. 9. Expõe que os juros são indevidos por não serem exigíveis os créditos tributários antes do trânsito em julgado da reclamatória trabalhista, estando equivocada a adoção da prestação dos serviços como marco inicial, eis que inexistindo obrigação principal não há que se cogitar em obrigação acessória. Por fim, os Recorrentes pugnam que seja julgado totalmente improcedente o presente Auto de Infração, com o cancelamento da integralidade do crédito tributário. É o relatório. VOTO Fl. 399DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 7 Conselheira Marcelle Rezende Cota, Relatora Admissibilidade – Recurso de Terceiros Observa-se que a pessoa jurídica F.C. Aguai Transportes e os sócios Sr. Cristiano Gandra e Fernando Gandra, estão qualificados no Recurso Voluntário apresentado pela autuada, porém, em relação a estes terceiros, o Recurso não deve ser conhecido, por não atender os requisitos de admissibilidade. Primeiramente, imperioso mencionar que o presente lançamento diz respeito as contribuições destinadas aos TERCEIROS, por este motivo, não foi atribuída responsabilidade solidária a nenhuma pessoa jurídica ou física, limitando-se a sujeição passiva a empresa autuada (C T M – COMÉRCIO E TRANSPORTES). Assim sendo, por tratar-se de matéria estranha a lide, não deve ser conhecido o Recurso impetrado por F.C. Aguai Transportes, Cristiano Gandra e Fernando Gandra. Para além do exposto, mesmo se as pessoas tivessem sido arroladas como responsáveis solidários, do mesmo modo não caberia o conhecimento da peça. Isto porque, não houve apresentação de impugnações destes no prazo legal, precluindo o direito de ingressar na lide administrativa em momento posterior. Com efeito, nos termos do art. 14 do Decreto nº 70.235/72 (Processo Administrativo Fiscal), somente com a interposição de impugnação se instaura a fase litigiosa do procedimento em face de cada um dos coobrigados. Embora a decisão quanto ao mérito da exigência em favor de um dos coobrigados possa aproveitar aos demais e a interposição de impugnação por um deles, suspenda a exigibilidade em face de todos eles, em conformidade com o art. 125 do CTN, o litígio instaurado se restringe ao coobrigado que interpôs a impugnação e se limita às matérias expressamente impugnadas, nos termos do art. 17 do Decreto nº 70.235/72. Tal matéria é corriqueira neste Tribunal, conforme depreende-se do Acórdão n° 2401-007.820, da lavra do Ilustre Conselheiro José Luis Hentsch Benjamin Pinheiro, senão vejamos parte da ementa abaixo transcrita: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO DE RESPONSÁVEL SOLIDÁRIO REVEL. NÃO CONHECIMENTO. O processo administrativo fiscal não admite a interposição de recurso voluntário por revel. Por não haver lacuna em face do disposto no art. 17 do Decreto n° 70.235, de 1972 (Portaria MPAS n° 357, de 2002, art. 6°, § 4°; e Portaria MPS n° 520, de 2004, art. 9°, § 6°), não é cabível a aplicação subsidiária dos arts. 50, parágrafo único, e 322, parágrafo único, da Lei n° 5.869, de 1973, e dos arts. 15, 119, parágrafo único, e 346, parágrafo único, da Lei n° 13.105, de 2015. Fl. 400DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 8 Portanto, não conheço do recurso voluntário apresentado pelos terceiros estranhos a lide. Admissibilidade do Recurso da Autuada Conheço do Recurso Voluntário, uma vez tempestivo e preenchidos os demais requisitos de admissibilidade. Prejudicial de Mérito Da Decadência A Recorrente pugna pela decadência e a prescrição da cobrança dos valores lançados referentes a competências anteriores a 05/2011, a partir da aplicação da regra do art. 150, §4º, do CTN, asseverando que não caberia a aplicação da parte final desse dispositivo por entender comprovada a ausência de fraude, dolo ou simulação, dadas as providências para regularização tomadas espontaneamente e previamente à ação fiscal. Traz decisões administrativas e a Súmula 99 do CARF. O exame dessa matéria impõe sejam levadas a efeito algumas considerações, senão vejamos. O artigo 45, inciso I, da Lei nº 8.212/91, estabelece prazo decadencial de 10 (dez) anos para a apuração e constituição das contribuições previdenciárias, como segue: Art. 45 – O direito da Seguridade Social apurar e constituir seus créditos extingue- se após 10 (dez) anos contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído; [...] Por outro lado, o Código Tributário Nacional em seu artigo 173, caput, determina que o prazo para se constituir crédito tributário é de 05 (cinco) anos, contados do exercício seguinte àquele em que poderia ter sido lançado, in verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; [...] Fl. 401DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 9 Com mais especificidade, o artigo 150, § 4º, do CTN, contempla a decadência para os tributos sujeitos ao lançamento por homologação, nos seguintes termos: Art. 150 O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, opera-se pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. [...] § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considera-se homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. O núcleo da questão reside exatamente nesses três artigos, ou seja, qual deles deve prevalecer para as contribuições previdenciárias, tributos sujeitos ao lançamento por homologação. Ocorre que, após muitas discussões a respeito do tema, o Supremo Tribunal Federal, em 11/06/2008, ao julgar os RE’s nºs 556664, 559882 e 560626, por unanimidade de votos, declarou a inconstitucionalidade do artigo 45 da Lei nº 8.212/91, oportunidade em que aprovou a Súmula Vinculante nº 08, abaixo transcrita, rechaçando de uma vez por todas a pretensão do Fisco: Súmula nº 08: São inconstitucionais o parágrafo único do artigo 5º do Decreto- lei 1569/77 e os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, que tratam de prescrição e decadência de crédito tributário. Registre-se, ainda, que na mesma Sessão Plenária, o STF achou por bem modular os efeitos da declaração de inconstitucionalidade em comento, estabelecendo, em suma, que somente não retroagem à data da edição da Lei em relação a pedido de restituição judicial ou administrativo formulado posteriormente à 11/06/2008, concedendo, por conseguinte, efeito ex tunc para os créditos pendentes de julgamentos e/ou que não tenham sido objeto de execução fiscal. Consoante se positiva da análise dos autos, a controvérsia a respeito do prazo decadencial para as contribuições previdenciárias, após a aprovação/edição da Súmula Vinculante nº 08, passou a se limitar a aplicação dos artigos 150, § 4º, ou 173, inciso I, do Código Tributário Nacional. Indispensável ao deslinde da controvérsia, mister se faz elucidar, resumidamente, as espécies de lançamento tributário que nosso ordenamento jurídico contempla, como segue. Primeiramente destaca-se o lançamento de ofício ou direto, previsto no artigo 149 do CTN, onde o fisco toma a iniciativa de sua prática, por razões inerentes a natureza do tributo ou quando o contribuinte deixa de cumprir suas obrigações legais. Já o lançamento por declaração Fl. 402DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 10 ou misto, contemplado no artigo 147 do mesmo Diploma Legal, é aquele em que o contribuinte toma a iniciativa do procedimento, ofertando sua declaração tributária, colaborando ativamente. Alfim, o lançamento por homologação, inscrito no artigo 150 do Códex Tributário, em que o contribuinte presta as informações, calcula o tributo devido e promove o pagamento, ficando sujeito a eventual homologação por parte das autoridades fazendárias. Dessa forma, estando às contribuições previdenciárias sujeitas ao lançamento por homologação, defende parte dos julgadores e doutrinadores que a decadência a ser aplicada seria aquela constante do artigo 150, § 4º, do CTN, levando-se em consideração a natureza do tributo atribuída por lei, independentemente da ocorrência de pagamento, entendimento compartilhado por este conselheiro. Ou seja, a regra para os tributos sujeitos ao lançamento por homologação é o artigo 150, § 4º, do Código Tributário, o qual somente não prevalecerá nas hipóteses de ocorrência de dolo, fraude ou conluio, o que ensejaria o deslocamento do prazo decadencial para o artigo 173, inciso I, do mesmo Diploma Legal. Não é demais lembrar que o lançamento por homologação não se caracteriza tão somente pelo pagamento. Ao contrário, trata-se, em verdade, de um procedimento complexo, constituído de vários atos independentes, culminando com o pagamento ou não. Observe-se, pois, que a ausência de pagamento não desnatura o lançamento por homologação, especialmente quando a sujeição dos tributos àquele lançamento é conferida por lei. E, esta, em momento algum afirma que assim o é tão somente quando houver pagamento. Não fosse assim, o que se diria quando o contribuinte apura prejuízos e não tem nada a recolher, ou mesmo quando encontra-se beneficiado por isenções e/ou imunidades, onde, em que pese haver o dever de elaborar declarações pertinentes, informando os fatos geradores dos tributos dentre outras obrigações tributárias, deixa de promover o pagamento do tributo em razão de uma benesse fiscal? Cabe ao Fisco, porém, no decorrer do prazo de 05 (cinco) anos, contados do fato gerador do tributo, nos termos do artigo 150, § 4º, do CTN, proceder à análise das informações prestadas pelo contribuinte homologando-as ou não, quando inexistir concordância. Neste último caso, promover o lançamento de ofício da importância que imputar devida. Aliás, como afirmado acima, a regra nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação é o prazo decadencial insculpido no artigo 150, § 4º, do CTN, o qual dispôs expressamente os casos em que referido prazo deslocar-se-á para o artigo 173, inciso I, na ocorrência de dolo, fraude ou simulação comprovados. Somente nessas hipóteses a legislação específica contempla a aplicação de outro prazo decadencial, afastando-se a regra do artigo 150, § 4º. Como se constata, a toda evidência, a contagem do lapso temporal em comento independe de pagamento. Fl. 403DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 11 Ou seja, comprovando-se que o contribuinte deixou efetuar o recolhimento dos tributos devidos e/ou promover o autolançamento com dolo, utilizando-se de instrumentos ardilosos (fraude e/ou simulação), o prazo decadencial será aquele inscrito no artigo 173, inciso I, do CTN. Afora essa situação, não se cogita na aplicação daquele dispositivo legal. É o que se extrai da perfunctória leitura das normas legais que regulamentam o tema. Por outro lado, alguns julgadores e doutrinadores entendem que somente aplicar- se-ia o artigo 150, § 4º, do CTN quando comprovada a ocorrência de recolhimentos relativamente ao fato gerador lançado, seja qual for o valor. Em outras palavras, a homologação dependeria de antecipação de pagamento para se caracterizar, e a sua ausência daria ensejo ao lançamento de ofício, com observância do prazo decadencial do artigo 173, inciso I. Ressalta-se, ainda, o entendimento de outra parte dos juristas, suscitando que o artigo 150, 4º, do Código Tributário Nacional, prevalecerá quando o contribuinte promover qualquer ato tendente a apuração da base de cálculo do tributo devido, seja pelo pagamento, escrituração contábil, declaração do imposto em documento próprio, etc. Melhor elucidando, o contribuinte deverá adotar algum procedimento com o fito de apurar o tributo para que pudesse se cogitar em “homologação”. Afora posicionamento pessoal a propósito da matéria, por entender que as contribuições previdenciárias devem observância ao prazo decadencial do artigo 150, § 4°, do Códex Tributário, independentemente de antecipação de pagamento, salvo quando comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, o certo é que a partir da alteração do Regimento Interno do CARF (artigo 62-A), introduzida pela Portaria MF nº 586/2010, os julgadores deste Colegiado estão obrigados a “reproduzir” as decisões do STJ tomadas por recurso repetitivo, razão pela qual deixaremos de abordar aludida discussão, mantendo o entendimento que a aplicação do dispositivo legal retro depende da existência de recolhimentos do mesmo tributo no período objeto do lançamento, na forma decidida por aquele Tribunal Superior nos autos do Resp n° 973.733/SC, assim ementado: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: Resp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg Fl. 404DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 12 nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontra-se regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial rege-se pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelando-se inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuida-se de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deu- se em 26.03.2001. 6. Destarte, revelam-se caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Na esteira desse raciocínio, uma vez delimitado pelo STJ e, bem assim, pelo Regimento Interno do CARF que nos lançamentos por homologação a antecipação de pagamento é indispensável à aplicação do instituto da decadência, nos cabe tão somente nos quedar a aludida conclusão e constatar ou não a sua ocorrência. Contudo, a controvérsia em relação a referido tema encontra-se distante de remansoso desfecho, se fixando agora em determinar o que pode ser considerado como Fl. 405DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 13 antecipação de pagamento das contribuições, sobretudo em face das diversas modalidades e/ou procedimentos adotados por ocasião do lançamento fiscal. Para afastar qualquer dúvida a esse respeito foi editada a Súmula CARF n° 99, que assim dispõe: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa à rubrica especificamente exigida no auto de infração. Essa súmula é de observância obrigatória, nos termos do Regimento Interno do CARF. No entanto, no caso dos autos, há de se observar primeiro a existência ou não do DOLO. Como a imputação do dolo no presente caso, ensejou também a aplicação da multa qualificada, fazemos a análise conjunta, pois, uma vez afastada a exigência da multa, consequentemente, não resta configurado o dolo. Preambularmente, cumpre transcrever a legislação que fundamentou a exigência da multa no presente lançamento de ofício: Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata. (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Como se vê, a multa de 75%, prevista no inciso I, acima transcrito, é objetiva e independe da culpa ou dolo do agente. O artigo 136 do Código Tributário Nacional assim diz: Art. 136 Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. Contudo, a multa qualificada de 150%, em atendimento ao que disciplina o §1º, art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, poderá ser aplicada somente nos casos previstos nos art. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, 1964, que têm a seguinte redação: Fl. 406DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 14 Art. 71 - Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I - da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II - das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação principal ou o crédito tributário correspondente. Art. 72 - Fraude é toda ação ou omissão, dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou deferir o seu pagamento. Art. 73 – Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos no art. 71 e 72. A sonegação pode se dar em razão de uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe sempre a intenção de causar dano à fazenda pública, um propósito deliberado de se subtrair, no todo ou em parte, a uma obrigação tributária. Na sonegação sempre existe o dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública. Para ser enquadrado neste conceito, basta o contribuinte agir com dolo na desobediência da lei fiscal. A sonegação impede a apuração da obrigação tributária principal diante da ocultação de bens ou de fatos jurídicos à incidência fiscal (fato gerador já realizado) enquanto na figura da fraude a ação ou omissão visa escamotear o pagamento do imposto devido - reduzi-lo, evitá-lo ou retardá-lo. Depreende-se dos dispositivos acima transcritos que para aplicação da multa qualificada deve existir o elemento fundamental de caracterização que é o evidente intuito de fraudar ou de sonegar. Ainda de acordo com os dispositivos legais acima transcritos, impõe-se à autoridade lançadora a observância dos parâmetros e condições básicas previstas na legislação de regência em casos de imputação da multa qualificada, que somente poderá ser levada a efeito quando àquela estiver convencida do cometimento do crime (dolo, fraude ou sonegação), devendo, ainda, relatar todos os fatos de forma pormenorizada, possibilitando ao contribuinte a devida análise da conduta que lhe está sendo atribuída e, bem assim, ao procurador de que o delito efetivamente praticado. Em outras palavras, não basta a indicação da conduta dolosa, fraudulenta, a partir de meras presunções e/ou subjetividades, impondo a devida comprovação por parte da autoridade fiscal da intenção pré-determinada do contribuinte, demonstrada de modo concreto, sem deixar margem a qualquer dúvida, visando impedir/retardar o recolhimento do tributo devido. Fl. 407DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 15 Este entendimento, aliás, encontra-se sedimentado no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, conforme se extrai dos julgados com suas ementas abaixo transcritas: MULTA AGRAVADA – Fraude – Não pode ser presumida ou alicerçada em indícios. A penalidade qualificada somente é admissível quando factualmente constatada as hipóteses de fraude, dolo ou simulação. (8ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 108-07.561, Sessão de 16/10/2003) (grifamos) MULTA QUALIFICADA – NÃO CARACTERIZAÇÃO – Não tendo sido comprovada de forma objetiva o resultado do dolo, da fraude ou da simulação, descabe a qualificação da penalidade de ofício agravada. (2ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 102-45.625, Sessão de 21/08/2002) MULTA DE OFÍCIO – AGRAVAMENTO – APLICABILIDADE – REDUÇÃO DO PERCENTUAL – Somente deve ser aplicada a multa agravada quando presentes os fatos caracterizadores de evidente intuito de fraude, como definido nos artigos 71 a 73 da Lei n° 4.502/64, fazendo-se a sua redução ao percentual normal de 75%, para os demais casos, especialmente quando se referem às infrações apuradas por presunção. (8ª Câmara do 1° Conselho de Contribuintes – Acórdão n° 108- 07.356, Sessão de 16/04/2003) (grifamos) Na esteira desse raciocínio, ratificando posicionamento pacífico do então 1º Conselho de Contribuintes, o CARF consagrou de uma vez por todas o entendimento acima, editando a Súmula nº 14, determinando que: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a QUALIFICAÇÃO da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo No mesmo sentido, especificamente em relação a presunção de omissão de rendimentos, foi editada a Súmula CARF nº 25, que assim dispõe: Súmula CARF nº 25 A presunção legal de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação de uma das hipóteses dos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64. A meu ver, para aplicar a multa qualificada é necessária a prova da evidente intenção de sonegar ou fraudar, condição imposta pela lei. A prova deve ser material, pois o evidente intuito de sonegação não pode ser presumido. Não basta a prova da falta de recolhimento da contribuição devida, tampouco meros indícios; é necessária que estejam perfeitamente identificadas e comprovadas a circunstância material do fato, com vistas a configurar o evidente intuito de sonegar, relativamente a cada fato gerador do imposto. Em que pese esta Conselheira ter o entendimento de que a simples caracterização como segurados empregados, por si só, não tem o condão de ensejar a qualificação da multa, Fl. 408DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 16 devendo haver a devida comprovação das condutas, os fatos constantes no relatório fiscal são aptos a justificar a tipificação prevista no artigo mencionado, uma vez que o sujeito passivo, de fato, simulou situação inexistente, ao qual sabidamente não fazia jus. Com efeito, o agente lançador justificou a imposição da penalidade exacerbada a conduta dolosa com o fito de escapar da tributação, vejamos: 19 Aplica-se ao débito juros (SELIC) previstos no artigo 35 da Lei nº 8.212/91, com a redação alterada pela Lei nº 11.941, de 27/05/2009 e, em função da conduta dolosa adotada pelos administradores da empresa, descrita nos itens 5 a 12 anteriores, prevista na legislação detalhada adiante, aplica-se a multa de ofício qualificada de 150% prevista no artigo 44, § 1º da Lei nº 9.430/1996, com a redação dada pelo artigo 14 da Medida Provisória nº 351/2007, e pelo artigo 14 da Lei nº 11.488/2007. Sua aplicação está relacionada às circunstâncias previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502/1964, a qual estabelece: (grifo nosso) Extrai-se os seguintes excertos dos itens 5 a 12, transcrevo: 5.6 Com praticamente ausência de funcionários na “empresa principal” C.T.M. COM. E TRANSPORTES, e a manutenção dos mesmos na “empresa interposta” F.C. AGUAÍ, conforme indicado nos subitens 5.1.1. e 5.1.2 anteriores, ficou patente a confusão além da patrimonial por não registrar veículos de transporte e administrativa por ter os mesmos administradores empresários, também a confusão de empregados. Neste panorama, o art. 2º, § 2º, da CLT, in verbis, permite que o trabalhador postule seus direitos contra qualquer das empresas agrupadas, tendo em vista a responsabilidade solidária instituída pela previsão legal: (...) 6 Com idêntico ramo de atividade, a “empresa interposta” F.C. AGUAÍ, atuou como empresa satélite do sujeito passivo a “empresa principal” C.T.M. COMÉRCIO E TRANSPORTES MATIELO LTDA, e com total dependência econômica, financeira e administrativa dos mesmos empresários, Srs. Fernando e Cristiano Gandra Matielo, como citado nos itens 5.1.1 e 5.1.2 anteriores, esquema esse, descaracterizado no procedimento fiscal, pois, trata-se na realidade de uma única empresa, fracionando-se apenas o fluxo de documentos fiscais e obviamente, abrigando os contratos de trabalho, com o tratamento tributário diferenciado concebido pelo SIMPLES NACIONAL. 6.1 Apesar de não ter sido apresentado os assentamentos contábeis ou livro caixa de ambas as empresas, com as informações prestadas à Receita Federal, foi possível constatar no banco de dados, o montante de salários pagos e a total ausência de faturamento na “empresa interposta” FC AGUAÍ, como demonstrado no item 5.12 anterior. O procedimento denota a inexistência total da “empresa interposta”. Fl. 409DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 17 (...) Tem-se, portanto, que o dolo ficou evidenciado a partir da orquestração da tentativa, precípua, de economia tributária, a qual não se pode afirmar que não foi consciente, pois foi fruto de um planejamento, que envolveu, inclusive, uma sequência temporal e um padrão comportamental, especialmente, reafirmando que a existência da pessoa jurídica F.C. Aguai Transportes poderia subsistir somente no plano meramente formal, com evidente escopo de proporcionar indevidamente ao sujeito passivo o benefício instituído pelo Simples Nacional. Tal fato reduziu, em muito, a base de cálculo das Contribuições Previdenciárias para o custeio do Regime Geral de Previdência Social e consequentemente as próprias Contribuições Previdenciárias e as destinadas a outras entidades e fundos. Sem espaço, no caso concreto, para aplicação do art. 112 do CTN. No caso sob análise não se identifica planejamento tributário, mas sim a simulação de uma situação com o objetivo único de reduzir encargos tributários ilegalmente. A Recorrente não está aplicando a legislação à situação fática, mas simulando uma estrutura organizacional para obter benefícios fiscais. No caso retratado, a aparência de licitude não se coaduna a realidade, encoberta no plano formal, típica da simulação. O dolo necessário e suficiente ao intuito de fraude restou caracterizado pela fiscalização a partir da demonstração da artificialidade presente na formalização da atividade desenvolvida como sendo desempenhada por empresas distintas. Considerando os fatos expostos e todos os elementos trazidos aos autos e já apreciados nos tópicos anteriores, considera-se demonstrada a ocorrência da conduta descrita nos artigos 71 e 72 da Lei nº 4.502/1964 a justificar a qualificação da multa, prevista no §1° do artigo 44 da Lei nº 9.430/96, considerando-se improcedentes as alegações da defesa sobre o tema. Após o delineamento dos fundamentos fáticos e jurídicos, verifica-se, ainda, que o lançamento fiscal em tela refere-se às competências a partir de 05/2011, conforme discriminativo de débito (e-fls 06/11). Em outras palavras, a competência mais antiga lançada é a 05/2011. Neste diapasão, tendo a fiscalização constituído o crédito previdenciário em 10/05/2016 (AR – e-fl. 4) com a devida ciência da Recorrente, verifica-se que mesmo fosse possível aplicar os termos do artigo 150, § 4°, do CTN, os fatos geradores objeto do presente lançamento não estariam abarcados pela decadência. Dito isto, por consequência óbvia, comprovado o dolo no presente caso, nos termos do artigo 173, I do Codex, não há que se falar em decadência. Mérito Desconsideração do Negócio – Caracterização – Primazia da Realidade Fl. 410DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 18 Trata-se de créditos tributários referentes às contribuições sociais previdenciárias devidas aos Terceiros, incidentes sobre a remuneração de trabalhadores que formalmente foram registrados como segurados da empresa F.C. AGUAÍ (optante pelo SIMPLES), mas que diante da situação fática verificada pela fiscalização, foram vinculados à sociedade empresarial C T M – COMÉRCIO E TRANSPORTES LTDA, ora Autuada. A autoridade fiscal concluiu que houve uma “simulação” na contratação, pela autuada, dos serviços que lhes foram prestados pela empresa F.C. Aguai, a fim de dissimular os fatos geradores das contribuições lançadas. Observa-se do Recurso que a Recorrente não questiona nenhum dos elementos fáticos que fundamentaram o lançamento, aduzindo apenas que a criação e operação da empresa optante pelo regime simplificado tenha sido um erro o qual aduz ter sido induzida pelo contador à época dos fatos, apenas contestando a implicação da existência desses elementos nos efeitos a eles atribuídos. Pois bem, a questão central na solução do presente litígio repousa na verificação da existência ou não de elementos fáticos e jurídicos suficientes para caracterizar a contratação de empregados registrados na pessoa jurídica optante pelo Simples para com o autuado. Inobstante os argumentos da Recorrente contra referido procedimento levado a efeito na constituição do crédito tributário ora exigido, a legislação previdenciária, por meio do artigo 229, § 2º, do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048/1999, impôs ao Auditor Fiscal a obrigação de considerar os contribuintes individuais (autônomos), prestadores de serviços pessoas jurídicas ou outros prestadores de serviços como segurados empregados, quando verificados os requisitos legais, in verbis: Art. 229. [...] § 2º Se o Auditor Fiscal da Previdência Social, constatar que o segurado contratado como contribuinte individual, trabalhador avulso, ou sob qualquer outra denominação, preenche as condições referidas no inc. I «caput» do art.9º, deverá desconsiderar o vínculo pactuado e efetuar o enquadramento como segurado empregado Verifica-se do artigo supracitado, que o legislador ao mencionar “ [...] ou sob qualquer outra denominação [...]”, deu margem a desconsideração da personalidade jurídica de empresas ou dos negócios jurídicos, quando constatados os pressupostos para tanto, tal como procedeu o Auditor Fiscal na presente demanda. Mais a mais, esse procedimento também encontra respaldo no Parecer/MPAS/CJ nº 1652/99 c/c Parecer/MPAS/CJ nº 299/95, os quais apesar de não vincularem este Colegiado, tratam da matéria com muita propriedade, com as seguintes ementas: EMENTA Fl. 411DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 19 PREVIDENCIÁRIO – CUSTEIO – VÍNCULO EMPREGATÍCIO– DESCARACTERIZAÇÃO DE MICROEMPRESÁRIOS. 1. A descaracterização de microempresários, pessoas físicas, em empregados é perfeitamente possível se verificada a existência dos elementos constituintes da relação empregatícia entre o suposto “tomador de serviços” e o tido “microempresário. EMENTA Débito previdenciário. Avocatória. Segurados empregados indevidamente caracterizados como autônomos. Procedente a NFLD emitida pela fiscalização do INSS. Revogação do Acórdão nº 671/94 da 2ª Câmara de Julgamento do Conselho de Recursos da Previdência Social, que decidiu contrariamente a esse entendimento. Ainda a respeito do tema, cumpre transcrever o artigo 12, inciso I, alínea “a”, da Lei nº 8.212/91, e o artigo 3º da CLT, que assim estabelecem: Art. 12. São segurados obrigatórios da Previdência Social as seguintes pessoas físicas? I – como empregado: a) aquele que presta serviço de natureza urbana ou rural à empresa, em caráter não eventual, sob sua subordinação e mediante remuneração, inclusive como diretor empregado;” Art. 3º. Considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Assim, constatados todos os requisitos necessários à caracterização da relação laboral, a autoridade administrativa, de conformidade com os dispositivos legais encimados, tem a obrigação de caracterizar como segurado empregado qualquer trabalhador que preste serviço ao contribuinte nestas condições, fazendo incidir, consequentemente, as contribuições previdenciárias sobre as remunerações pagas ou creditadas em favor daqueles. Contudo, não basta que a autoridade lançadora presuma tal situação. Deve, em verdade, deixar explicitamente comprovada a existência dos pressupostos legais da relação empregatícia, sob pena de improcedência do lançamento por ausência de comprovação do fato gerador do tributo, e cerceamento do direito de defesa do contribuinte. É o que determina o artigo 37 da Lei nº 8.212/91, nos seguintes termos: Art. 37. Constatado o atraso total ou parcial no recolhimento de contribuições tratadas nesta Lei, ou em caso de falta de pagamento de benefício reembolsado, a fiscalização lavrará notificação de débito, com discriminação clara e precisa dos fatos geradores, das contribuições devidas e dos períodos a que se referem, conforme dispuser o regulamento. (g.n.) Fl. 412DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 20 No mesmo sentido, o artigo 142 do Código Tributário Nacional, ao atribuir a competência privativa do lançamento à autoridade administrativa, igualmente, exige que nessa atividade o fiscal autuante descreva e comprove a ocorrência do fato gerador do tributo lançado, como segue: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível Transposta a questão atinente à fundamentação legal, passa-se à análise dos fundamentos de fato que embasam os procedimentos adotados pela fiscalização. Na hipótese dos autos, a ilustre autoridade lançadora, ao proceder a caracterização dos empregados da pessoa jurídica como sendo, na realidade, funcionários do autuado, foi muito feliz em sua empreitada, demonstrando e comprovando, no entendimento desta Conselheira, os requisitos legais necessários à configuração do vínculo, como passaremos a demonstrar. Nesse particular o Relatório Fiscal, ao qual ora se reporta, traz um extenso rol de elementos que levaram à conclusão encimada. Pode-se resumi-lo nos termos seguintes: 5.2 Descrito nos subitens anteriores, mantiveram em atividades a “empresa interposta” FC AGUAÍ, para fracionar a atividade e manter a opção pelo SIMPLES NACIONAL, que constitui um regime tributário diferenciado, simplificado e favorecido, destinado às microempresas e às empresas de pequeno porte, previsto na Lei Complementar nº 123/2006 e alterações posteriores. Em consequência, a contratação de trabalhadores através dessa empresa assegurou irregularmente ao contribuinte, as vantagens e os benefícios do regime. 5.3 Pela falta de apresentação de documentos solicitados no Termo de Início de Procedimento Fiscal citado no item 2 anterior para análise, no caso, de assentamentos contábeis ou livro Caixa da “empresa interposta” FC AGUAÍ, a fiscalização valeu-se das informações constante do banco de dados da Receita Federal do Brasil, informado contemporaneamente pela própria empresa, transcritos nos subitens 5.1.1. e 5.1.2 anteriores; informação de que ambas as empresas exercerem a mesma atividade econômica; e, por serem geridas pelos mesmos sócios. (...) 5.3.2 Em relação à “empresa principal” C.T.M. COM. E TRANSPORTES, os registros contábeis de 2013, foram obtidos no SPED conforme requisição anexa e, foi obtido do atual escritório de contabilidade responsável, a informação de estarem providenciando nova escrituração contábil de 2011 a 2013, cópia de e-mail em anexo, tendo em vista também não terem sido apresentadas e constando da notificação via Cartório, citada no item anterior. Fl. 413DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 21 5.4 Pela ausência de apresentação de assentamentos contábeis ou de livro caixa, fica prejudicada análise da real dependência econômica e financeira das empresas, entretanto, na “empresa principal” C.T.M. COM. E TRANSPORTES, cumpre observar que a contabilidade baixada pelo SPED 2013, não abrange movimentação bancária. 5.5 Pela análise da movimentação financeira da “empresa interposta” FC AGUAÍ, como citado no subitem 5.1.2 anterior, ser superior aos limites de Receita para fins de permanência no SIMPLES NACIONAL, uma vez que a mesma não registrou Receita Bruta e, por ser administrada pelos mesmos empresários, também conclui-se pela exclusão do referido regime tributário, além obviamente, da ausência de apresentação de livros contábeis ou Caixa. 5.6 Com praticamente ausência de funcionários na “empresa principal” C.T.M. COM. E TRANSPORTES, e a manutenção dos mesmos na “empresa interposta” F.C. AGUAÍ, conforme indicado nos subitens 5.1.1. e 5.1.2 anteriores, ficou patente a confusão além da patrimonial por não registrar veículos de transporte e administrativa por ter os mesmos administradores empresários, também a confusão de empregados. Neste panorama, o art. 2º, § 2º, da CLT, in verbis, permite que o trabalhador postule seus direitos contra qualquer das empresas agrupadas, tendo em vista a responsabilidade solidária instituída pela previsão legal: (...) 6 Com idêntico ramo de atividade, a “empresa interposta” F.C. AGUAÍ, atuou como empresa satélite do sujeito passivo a “empresa principal” C.T.M. COMÉRCIO E TRANSPORTES MATIELO LTDA, e com total dependência econômica, financeira e administrativa dos mesmos empresários, Srs. Fernando e Cristiano Gandra Matielo, como citado nos itens 5.1.1 e 5.1.2 anteriores, esquema esse, descaracterizado no procedimento fiscal, pois, trata-se na realidade de uma única empresa, fracionando-se apenas o fluxo de documentos fiscais e obviamente, abrigando os contratos de trabalho, com o tratamento tributário diferenciado concebido pelo SIMPLES NACIONAL. 6.1 Apesar de não ter sido apresentado os assentamentos contábeis ou livro caixa de ambas as empresas, com as informações prestadas à Receita Federal, foi possível constatar no banco de dados, o montante de salários pagos e a total ausência de faturamento na “empresa interposta” FC AGUAÍ, como demonstrado no item 5.12 anterior. O procedimento denota a inexistência total da “empresa interposta”. 6.2 Os empresários, Srs. Fernando Gandra Matielo e Cristiano Gandra Matielo, são os reais beneficiários, por se tratar dos sócios quotistas e administradores de ambas as empresas “principal e interposta”. 7 Evidente que não se trata de empresas distintas funcionando de “per si” e desenvolvendo cada qual a sua atividade nas localidades de suas sedes. Estamos Fl. 414DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 22 diante de um só empreendimento econômico, cumprindo um único contrato de prestação de serviços de transporte rodoviário de carga, firmado com a “empresa principal” C.T.M. COMÉRCIO E TRANSPORTES MATIELO LTDA, CNPJ. 54.237.698/0001-92, a qual acha-se fracionada com o objetivo de usufruir dos favores fiscais instituídos com o SIMPLES NACIONAL. 7.1 A convivência empresarial ocorre com os empresários Fernando e Cristiano Gandra Matielo, administrar ambas as empresas como se fosse única, uma vez que fisicamente já estão ligadas conforme demonstrado nas fotos do item 5.1.1 e 5.1.2 anteriores, separando-se apenas o fluxo de documentos fiscais e faturamento para permanência no SIMPLES NACIONAL. 7.2 Pelo até então descrito, comprova a insofismável simbiose empresarial. (...) Minha impressão é que o conjunto probatório juntado pelo Fisco é robusto, consistente e convergente o suficiente para vincular diretamente os segurados empregados da PJ optante pelo SIMPLES a Recorrente, atestando a sua condição de verdadeiro tomador dos serviços prestados pelos segurados. Pautado nas provas articuladas por ambas as partes, o convencimento quanto à vinculação decorre não só do conjunto fático-probatório carreado pela fiscalização, mas também pela linha argumentativa utilizada para contrapor a acusação fiscal, pela qual a Recorrente faz considerações genéricas, sem refutar concreta e efetivamente os fatos, os nomes, os números e os documentos colhidos pela fiscalização ao longo do procedimento de auditoria. Na verdade, como dito nos parágrafos inaugurais, a Recorrente não questiona os fatos mas sim, de certo modo, até confirma as razões trazidas pela auditoria, argumentando apenas que foi induzida ao erro por parte do contador. Dito isto, a própria “confirmação” da Recorrente, com os fatos supra narrados, já são suficientes para manutenção da infração. Por fim, a análise conjunta dos elementos probatórios leva à conclusão da efetiva prestação dos serviços pelos trabalhadores para a pessoa jurídica notificada, não optante pelo Simples. Por amor ao debate, neste aspecto, tendo a Recorrente repisado as alegações da defesa inaugural sem juntar nenhum novo elemento de prova, peço vênia para transcrever excertos da decisão recorrida e adotá-los como razões de decidir, por muito bem analisar as alegações suscitadas pelo autuado e documentos acostados aos autos, in verbis: O conjunto de anomalias que caracterizam a dependência e a falta de autonomia entre as empresas CTM Comércio e Transportes Matielo Ltda e F. C. Aguaí Transportes e Logística Ltda. - EPP foram devidamente descritos pela fiscalização e a apresentação de mais elementos foi limitada pela omissão do contribuinte à intimação para entrega de documentação contábil: Fl. 415DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 23 1. as empresas desempenham a mesma atividade econômica de transporte rodoviário de cargas, na forma de uma atividade econômica integrada em relação ao restante do mercado, com o conjunto das duas empresas representando um segmento contínuo e bem definido da cadeia de valor do ramo de atuação; 2. estrutura, recursos e despesas desproporcionalmente distribuídos entre as empresas do grupo em relação ao volume de atividades e pessoas de cada uma delas (fls. 040/045): 2.1. o total dos valores das remunerações declarados em GFIP, por si só, já excede em muito o limite legal de 20% além da receita declarada pelo contribuinte; 2.2. a soma das receitas brutas das empresas envolvidas no conluio empresarial, identificado pela fiscalização a partir, dentre outros, da distribuição artificial de faturamento e mão-de-obra entre elas, ultrapassa o limite legal estabelecido para ingresso e permanência no regime simplificado; 2.3. as empresas têm seus respectivos estabelecimentos na mesma localidade, em prédios muito próximos de uma mesma rua (vide foto a fl. 043); 2.4. ocorre distribuição artificial e oportunista do faturamento e da mão-de-obra, com a concentração de mão-de-obra na empresa tributada pelo faturamento e a concentração do faturamento na empresa tributada pela mão-de-obra; 2.5. identificou-se uma distribuição inviável dos veículos das empresas transportadoras, pois todos os 24 veículos estão registrados no patrimônio da empresa que possui apenas 3 motoristas, enquanto não há veículos na empresa que tem 59 motoristas. 3. os sócios das duas empresas são exatamente os mesmos, indicando que há um único grupo de pessoas controlador de todo o grupo de empresas. Por seu turno, os elementos que indicam a determinação das bases de cálculo e alíquotas dos tributos por critérios exclusivamente internos ao grupo de empresas são: 1. concentração da mão-de-obra e redução artificial do faturamento na empresa tributadas pelo faturamento: - a empresa EPP (enquadrada no Simples Nacional) apresenta inconsistências inexplicáveis, pois as despesas com pessoal apresentam valores superiores aos da empresa principal e suas receitas são nulas ao longo de todo o período fiscalizado. 2. redução da mão-de-obra e concentração do faturamento na empresa tributada pela remuneração da mão-de-obra: - a empresa principal (CTM) é que registra o faturamento da atividade que varia de cerca de R$ 750.000,00 a R$ 12.000.000,00 entre 2011 e 2013, no entanto apresenta somente menos de 10% da mão-de-obra a ela vinculada (3 motoristas de um total de 97 funcionários). Fl. 416DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 24 Portanto, é forçoso concluir que não há autonomia entre as empresas e dessa interdependência decorre a possibilidade de reorganização meramente formal das suas estruturas e recursos com o objetivo de reduzir a tributação por meio da composição artificial das bases de cálculo envolvidas, quais sejam faturamento e remuneração da mão-de-obra. Logo, a organização da atividade econômica integrada entre as diversas empresas não atende a um propósito negocial, mas a um propósito meramente tributário, configurando-se um planejamento tributário abusivo. Deve ser destacado que neste caso a verdade material, como restou amplamente demonstrado acima, difere das formalidades dos atos e negócios praticados e sobre estas prevalece. Como se observa das constatações encimadas, a autoridade lançadora se desincumbiu do ônus de comprovar os requisitos da relação laboral entre os funcionários com o ora autuado, na forma que a legislação de regência exige, mais precisamente o artigo 229, § 2°, do Decreto n° 3.048/99 –Regulamento da Previdência Social, além de toda legislação citada neste voto, possibilitando, assim, a desconsideração da personalidade jurídica daquela empresa optante pelo SIMPLES com o fito reclassificar o vínculo entre tais funcionários com a Recorrente. Constata-se, assim, que o fiscal autuante, ao promover o lançamento, agiu da melhor forma, com estrita observância à legislação que regula o tema, demonstrando circunstanciadamente os fatos que ensejaram a constituição do crédito previdenciário, impondo a manutenção da autuação em sua integralidade. Do Aviso Prévio – Alegação Genérica A Recorrente alega que as bases de cálculo utilizadas no lançamento foram apuradas de forma incorreta pela autoridade fiscal, visto que, segunda ela, englobam as verbas a título de aviso prévio que, por serem indenizatórias, não integram o campo de incidência das contribuições sociais previdenciária. Quanto à incidência sobre o aviso prévio, conforme já analisado, parte-se do ponto de que o que foi informado pela empresa optante pelo SIMPLES em sua GFIP como base de cálculo de contribuições sociais previdenciárias. Sucede que, da análise dos autos, observa-se que a Recorrente sequer apresentou provas de que as referidas bases de cálculo efetivamente englobam as verbas que aduz estarem fora do campo de incidência das contribuições sociais previdenciárias. Destaca-se, ainda, que a decisão de piso, com o intuito de examinar tal fato, realizou a apuração base de cálculo para as três primeiras competências consideradas na ação fiscal rubrica a rubrica e verificou que a base de cálculo apurada pelo contribuinte não poderia ter Fl. 417DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 25 originalmente incluído as rubricas associadas ao aviso prévio, pois se o houvesse feito, as bases de cálculo teriam resultado sensivelmente maiores, senão vejamos os dizeres: A fiscalização descreve que o valor das bases de cálculo lançadas são os valores registrados pelo próprio contribuinte nos resumos de suas folhas de pagamento e GFIPs da empresa F.C. Aguaí (fls. 051/052). A título de exemplo, reproduzimos aqui a apuração das bases de cálculo pela própria empresa apresentada nos resumos das folhas de pagamento para as competências 01/2011 a 03/2011 (fls. 181, 184 e 186) e comparamos com os valores utilizados pela fiscalização nessa mesma ação fiscal (dados conjuntos dos dois processos decorrentes dessa ação, o presente e o processo nº 10865.721063/2016-52), apenas para concluir que são idênticos: (...) Portanto, não houve recálculo por parte da fiscalização, que simplesmente utilizou a própria base de cálculo apresentada pelo contribuinte, ou seja, não foi a fiscalização que eventualmente decidiu por incluir rubricas de aviso prévio na base de cálculo, mas o próprio contribuinte que já havia incluído essas rubricas e inclusive apurou os descontos dos empregados com base nesses valores. E mesmo que se abrisse aqui a discussão acerca de eventual erro do contribuinte na apuração da base de cálculo por inclusão das rubricas afetas ao aviso prévio e revisão do seu entendimento por ocasião da impugnação, a matéria não mereceria melhor sorte. A fim de verificar tal possibilidade, o presente relator refez a apuração da base de cálculo para as três primeiras competências consideradas na ação fiscal rubrica a rubrica e verificou que a base de cálculo apurada pelo contribuinte não poderia ter originalmente incluído as rubricas associadas ao aviso prévio, pois se o houvesse feito, as bases de cálculo teriam resultado sensivelmente maiores, conforme demonstra a planilha a seguir, onde se percebe que a inclusão dessas verbas (marcar na tabela a coluna INCID com “1” e, consequentemente, incluir as rubricas correspondentes na soma da apuração) geraria bases de cálculo maiores do que as que foram consideradas (...) Assim, não cabe sequer discutir se incidiria contribuição previdenciária sobre parcela paga a título de aviso prévio, pois não restou comprovado que parcela dessa natureza tenha sido incluída na base de cálculo. (grifamos) Diante do exposto, verifica-se que deve ser considerada improcedente de pronto a alegação da Recorrente. Da Retroatividade Benigna (Multa Qualificada) Fl. 418DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 26 Como visto no primeiro tópico deste voto, restou configurada a qualificadora da multa de ofício. Dito isto, nos resta analisar a superveniência da legislação por meio do instituto da retroatividade. O instituto da retroatividade benigna permite a aplicação de lei a fato gerador de penalidade pelo descumprimento de obrigação tributária ocorrido antes da sua vigência, desde que mais benéfica ao contribuinte e o correspondente crédito ainda não esteja definitivamente constituído, exatamente como diz o CTN, art. 106, inciso II, alínea “c”, que ora transcrevo: Art. 106. A lei aplica-se a ato ou fato pretérito: [...] II - tratando-se de ato não definitivamente julgado: [...] c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. Nesse pressuposto, a Lei nº 14.689, de 20 de setembro de 2023, deu nova conformação ao art. 44 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 996, refletindo diretamente na penalidade apurada por meio do correspondente procedimento fiscal. Com efeito, a multa de ofício qualificada ora em litígio teve seu percentual reduzido de 150% (cento e cinquenta por cento) para 100% (cem por cento), verbis: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I - de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; [...] § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será majorado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis, e passará a ser de: VI – 100% (cem por cento) sobre a totalidade ou a diferença de imposto ou de contribuição objeto do lançamento de ofício;[...] Neste diapasão, referida penalidade deverá ser recalculada para o patamar vigente de 100% (cem por cento). Conclusão Pelas razões acima expostas, voto no sentido de: a. não conhecer do Recurso Voluntário interposto pelos terceiros (F.C. Aguai Transportes, Cristiano Gandra e Fernando Gandra); e Fl. 419DF CARF MF Original D O C U M E N T O V A L ID A D O ACÓRDÃO 2301-011.891 – 2ª SEÇÃO/3ª CÂMARA/1ª TURMA ORDINÁRIA PROCESSO 10865.721064/2016-05 27 b. conhecer do Recurso Voluntário da autuada para afastar a decadência e, no mérito, dar-lhe parcial provimento para reduzir a multa qualificada ao patamar de 100%. Assinado Digitalmente Marcelle Rezende Cota Fl. 420DF CARF MF Original Acórdão Relatório Voto
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