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Numero do processo: 10166.721734/2016-62
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Sep 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012
NULIDADE DO LANÇAMENTO
Aplicação do princípio da primazia da resolução de mérito de acordo com § 2º do art. 282 do CPC de 2015 e art. 59 § 3º do Decreto-lei 70.235/72
SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. RESPONSABILIDADE
Diante do provimento do recurso voluntário do sujeito passivo principal, afastando o lançamento, dá-se provimento aos recursos dos solidários para excluí-los do lançamento.
CONTRATAÇÃO DE PESSOA JURÍDICA PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO MÉDICOS. RELAÇÃO DE EMPREGO. SÓCIO MÉDICO. PRESENÇA DOS REQUISITOS. SUBORDINAÇÃO. NECESSIDADE DE PROVA NOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO.
Dada a formalização de contratos de prestação de serviços médicos diretamente com pessoas jurídicas, compete ao Fisco o ônus probatório da existência do vínculo de emprego entre instituição hospitalar e sócios das contratadas, na medida em que a prova cabe a quem tem interesse em fazer prevalecer o fato afirmado, sob pena de insubsistência do crédito tributário.
A circunstância de o médico prestar serviços diretamente ligados à atividade-fim do hospital, por si só, não leva ao reconhecimento do vínculo de emprego, dependendo da prova da subordinação. Via de regra, não se presume a subordinação do médico, tendo em vista as peculiaridades da atividade médica.
Numero da decisão: 2201-004.587
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento aos recursos voluntários, vencido o Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo, que negou provimento.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Presidente.
(assinado digitalmente)
Marcelo Milton da Silva Risso - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente).
Nome do relator: MARCELO MILTON DA SILVA RISSO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 NULIDADE DO LANÇAMENTO Aplicação do princípio da primazia da resolução de mérito de acordo com § 2º do art. 282 do CPC de 2015 e art. 59 § 3º do Decreto-lei 70.235/72 SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. RESPONSABILIDADE Diante do provimento do recurso voluntário do sujeito passivo principal, afastando o lançamento, dá-se provimento aos recursos dos solidários para excluí-los do lançamento. CONTRATAÇÃO DE PESSOA JURÍDICA PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO MÉDICOS. RELAÇÃO DE EMPREGO. SÓCIO MÉDICO. PRESENÇA DOS REQUISITOS. SUBORDINAÇÃO. NECESSIDADE DE PROVA NOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO. Dada a formalização de contratos de prestação de serviços médicos diretamente com pessoas jurídicas, compete ao Fisco o ônus probatório da existência do vínculo de emprego entre instituição hospitalar e sócios das contratadas, na medida em que a prova cabe a quem tem interesse em fazer prevalecer o fato afirmado, sob pena de insubsistência do crédito tributário. A circunstância de o médico prestar serviços diretamente ligados à atividade-fim do hospital, por si só, não leva ao reconhecimento do vínculo de emprego, dependendo da prova da subordinação. Via de regra, não se presume a subordinação do médico, tendo em vista as peculiaridades da atividade médica.
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RESPONSABILIDADE Diante do provimento do recurso voluntário do sujeito passivo principal, afastando o lançamento, dáse provimento aos recursos dos solidários para excluílos do lançamento. CONTRATAÇÃO DE PESSOA JURÍDICA PARA PRESTAÇÃO DE SERVIÇO MÉDICOS. RELAÇÃO DE EMPREGO. SÓCIO MÉDICO. PRESENÇA DOS REQUISITOS. SUBORDINAÇÃO. NECESSIDADE DE PROVA NOS AUTOS. IMPOSSIBILIDADE DE PRESUNÇÃO. Dada a formalização de contratos de prestação de serviços médicos diretamente com pessoas jurídicas, compete ao Fisco o ônus probatório da existência do vínculo de emprego entre instituição hospitalar e sócios das contratadas, na medida em que a prova cabe a quem tem interesse em fazer prevalecer o fato afirmado, sob pena de insubsistência do crédito tributário. A circunstância de o médico prestar serviços diretamente ligados à atividade fim do hospital, por si só, não leva ao reconhecimento do vínculo de emprego, dependendo da prova da subordinação. Via de regra, não se presume a subordinação do médico, tendo em vista as peculiaridades da atividade médica. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 17 34 /2 01 6- 62 Fl. 2269DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.270 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento aos recursos voluntários, vencido o Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo, que negou provimento. (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Presidente. (assinado digitalmente) Marcelo Milton da Silva Risso Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Dione Jesabel Wasilewski, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim, Douglas Kakazu Kushiyama, Daniel Melo Mendes Bezerra, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo (Presidente). Relatório 1 Adoto como relatório o da decisão da DRJ/BEL de fls. 1.967/1.999, por bem relatar os fatos ora questionados. 1 DA AÇÃO FISCAL Foi lavrado o seguinte Auto de Infração: Contribuição a outras entidades e fundos: incidentes sobre as remunerações pagas, devidas ou creditadas aos segurados empregados, nas competências de 01/2012 a 12/2012, e não declaradas em Guias de Recolhimento do Fundo de Garantia e Tempo de Serviço e de Informações à Previdência Social (GFIP), lavrado em 03/03/2016, no valor de R$ 5.398.814,57 (cinco milhões trezentos e noventa e oito mil oitocentos e quatorze reais e cinquenta e sete centavos). O Auditor Fiscal relata que a impugnante contratou pessoas jurídicas para prestação de serviços, que são executados por pessoas físicas, como forma de reduzir custos trabalhistas e tributários. 1.1 DA OBRIGAÇÃO PRINCIPAL 1.1.1 Contratação de médicos como pessoas jurídicas pejotização Relata que da análise de documentos, verificou alguns fatos: • as despesas com pagamentos a médicos era escriturada em “Serviços Médicos Pessoa Jurídica”, e as receitas com serviços Fl. 2270DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.271 3 médicos era contabilizada como Receita Operacional do Hospital Santa Marta (HSM); • as notas fiscais emitidas por essas pessoas jurídicas, apresentavam como discriminação do serviço “ salários”, “férias” e “13º salário”, “adiantamentos”, “pendências”, “escalas”, “plantões”, “coordenação”, e que os médicos, cujos nomes estavam relacionados nelas como os prestadores dos serviços, não tinham qualquer vínculo societário ou empregatício com essas supostas empresas; • essas notas fiscais discriminavam serviços que foram prestados em período anterior à constituição daquelas pessoas jurídicas; o que também foi verificado nas escalas médicas, onde os nomes dos médicos que prestaram serviços por meio de pessoas jurídicas, constavam nessas escalas, mesmo antes da constituição das supostos empresas. • os sócios do HSM, e seus familiares eram os únicos sócios de empresas “pejotizadas”, como ocorreu nos casos das empresas “Laboratório de Patologia e Clinicas Ltda. – EPP (LAPAC) e Clínica Ouvir Ltda – ME; empresas por meio das quais os médicos prestaram serviços ao HSM; Além disso, o contador do HSM é contador de várias dessas pessoas jurídicas; • em diligência realizada “in loco” no HSM verificou que os médicos presentes no dia da visita, prestavam serviços no hospital desde 2012. Diante dessas constatações concluiu o seguinte: [...] fica muito claro que o Hospital Santa Marta usou as empresas com o único objetivo de contabilizar os salários dos médicos por meio delas; e em muitos casos, sem a preocupação sequer de haver uma relação formal destes com a empresa emitente da nota fiscal. Tendo com isso o objetivo de pagar menos tributo. Assevera que a atividade médica era exercida com pessoalidade, pois as notas fiscais eram emitidas em nome dos médicos pessoas físicas, que constavam tanto na relação de médicos encaminhada ao Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde em 2012 (CNES), quanto no arquivo de prontuários entregue à fiscalização, discriminando “médicos por empresa”, e “sócios ativos” (médicos) em 2012, sendo que os serviços prestados por eles eram contabilizados na conta “serviços médicos pessoas jurídicas”. Argumenta que os serviços eram exercidos continua e permanentemente, pois as escalas médicas tinham periodicidade mensal; as notas fiscais foram emitidas em vários ou em todos os meses do ano; a Fl. 2271DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.272 4 relação de médicos enviadas ao CNES continha os mesmos médicos em todos os meses do ano, os quais também foram informados no ano de 2015; assim como, nos prontuários entregues à fiscalização, esses médicos apareciam em todos os meses do ano. Acrescenta que os serviços prestados por esses médicos fazem parte do objeto do empreendimento hospitalar. Eles eram pagos por meio de notas fiscais, que eram escrituradas na conta “serviços médicos pessoa jurídica”. Havia subordinação deles às diretrizes do hospital, pois os pacientes eram todos do hospital, que assumia toda a responsabilidade pelas ações deles. Assevera que havendo obrigatoriedade de o médico comparecer ao hospital para realizar seus serviços, sem poder executálos em outro lugar caracteriza subordinação jurídica. Cita a legislação que rege a vinculação empregatícia, disposta na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), para fins de contribuição previdenciária, conforme Lei nº 8.212/91. Relembra os princípios da primazia da realidade e da indisponibilidade, e sobre a desconsideração do vínculo pactuado não se tratar de desconsideração ou anulação da personalidade jurídica. Faz comentários ao art. 129 da Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005, para afirmar que se a participação da pessoa jurídica tem caráter meramente formal, estará caracterizado o vínculo empregatício quando presentes a não eventualidade do serviço prestado e a subordinação. Cita ainda os artigos 206 e 207 da Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, ressaltando as situações em que não incide contribuição previdenciária sobre honorários recebidos por profissionais, que utilizam as dependências ou os serviços de empresas que atuam na área de saúde. Após essas considerações o Auditor fiscal narra que analisando as Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP), apresentadas pelo HSM, verificou que este declarou apenas um médico como segurado e somente na competência 03/2012, enquanto na sua Declaração do Imposto de Renda Retido na Fonte (DIRF) do anocalendário 2012, havia vários beneficiários declarados no Código 1708 (Remuneração de Serviços Profissionais Prestados por Pessoa Jurídica), e na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ) desse ano, o contribuinte declarou receita operacional no valor de R$ 116.598.607,32. Reproduz planilhas extraídas da Contabilidade da impugnante, da DIPJ/2012, e de notas fiscais emitidas pela impugnante, onde na descrição dos serviços realizados aparecia “serviços médicos e hospitalares prestados”. Fl. 2272DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.273 5 Narra ainda que a impugnante escriturou em sua contabilidade a despesa de “serviços médicos pessoa jurídica”, discriminando em seu histórico o nome da pessoa jurídica e o número da nota fiscal. Na DIPJ 2012 declarou o valor de R$ 38.295.623,12 em “serviços prestados por terceiros”, entre os quais está incluso “serviços médicos pessoa jurídica”, no valor de R$ 32.110.712,30, conforme detalhamento apresentado para a fiscalização. Com essas informações o Auditor Fiscal concluiu: Dessa forma, de plano, nos termos dos artigos 206 e 207 da IN 971/09, vêse que toda receita pelos serviços médicos prestados no hospital era auferida pelo Hospital Santa Marta que a contabilizava na CONTA: 311103 RECEITA OPERACIONAL, valor: R$ 116.598.607,32. Também se caracteriza de plano que o Hospital Santa Marta era o responsável pelo pagamento dos salários dos médicos, e contabilizava esta despesa na conta: 3313010002 SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURÍDICA, no valor total de R$ 32.110.712,3. Acrescenta que as notas fiscais escrituradas na conta contábil 3313010002 (serviços médicos pessoa jurídica) apresentavam no campo discriminação dos serviços prestados, o valor de salários e férias. Anexa essas notas e as informações prestadas pela empresa, relativas à conta “serviços médicos pessoa jurídica”, demonstrando a que médico corresponde cada nota fiscal. Apresenta o exemplo do médico Edvaldo Silva Lima, Diretor Médico desde 2012, conforme informação prestada pelo HSM: • Ele foi declarado em GFIP com o CBO “Diretores e gerentes de operações em empresa de serviços de saúde”, totalizando o valor de R$ 57.026,30 em 2012, e informado para o CNES como empregado celetista e carga horária de 12 horas; • É sócio da pessoa jurídica Clínica de Proctologia Ltda ME – Edvaldo Lima & Murilo Mendes Associados Ltda. (PROCTOMED), que prestou serviços ao HSM, emitindo notas fiscais que totalizaram R$ 236.178,61, no ano de 2012. Tais notas apresentavam na discriminação dos serviços prestados o valor pago a esse médico; • Em análise às empresas das quais ele é sócio, verificou que elas também emitiram notas fiscais por serviços prestados ao HSM, contendo o nome de todos os médicos que receberam por esses serviços, sem que eles tivessem qualquer vinculação empregatícia ou de prestação de serviço com aquelas empresas. Afirma ainda que a prática narrada foi constatada em todas as empresas analisadas por amostragem. Descreve cada uma delas, anexando planilhas com dados extraídos dos registros contábeis, Fl. 2273DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.274 6 notas fiscais, cadastros das empresas, dados das DIPJ, inclusive demonstrando que muitas empresas apropriavam despesas em notas fiscais, de períodos anteriores à constituição da própria empresa. Narra que realizou cotejo entre os dados constantes nos sistemas cadastrais da Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB), os prontuários entregues pelo HSM contendo o período em que cada médico realizou os atendimentos, e as GFIP’s transmitidas por ele, onde apurou que vários médicos não possuem qualquer relação de vínculo quer societário quer empregatício com as empresas emitentes das notas fiscais. Informa que em diligência às dependências do HSM em 02/02/2015, onde verificou a escala médica mensal, e recolheu assinatura dos médicos em escala no dia, constatou a presença da médica “Weridyana Batista de Oliveira”, que prestou serviços ao Hospital em 2012, por intermédio das empresas “Climast Clínica de Mastologia Ginecologia E Obstetricia Ltda” e “Gestar Serviços Médicos Ltda”, conforme informações da autuada. Concluiu que o fato de ela estar prestando serviços desde 2012 caracteriza vínculo empregatício. Acrescenta que essa situação ocorreu com vários médicos, dos quais o Auditor Fiscal anexou as fichas de coleta de assinatura do dia da visita, e cópia da Cédula de Identidade de Médico (CIM). Informa que o nome de todos eles constavam registrados no histórico da conta contábil 3313010002 (SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURÍDICA). Faz referência a processo judicial no qual a impugnante foi diretamente responsabilizada por serviço médico efetuado por um dos médicos que lhe prestavam serviços. Com isso, afirma demonstrar que todos os pressupostos caracterizadores da relação empregatícia, dispostos na Lei nº 8.212/91 estavam presentes. O Auditor Fiscal citou o §2º do art. 206 da IN RFB 971/09, expondo a base de cálculo utilizada para o lançamento. Aduz ter comprovado, com os fatos apresentados, que a impugnante não tinha a qualidade de mera repassadora. Assim, considerou como remuneração a soma dos valores escriturados na conta contábil 3313010002 (SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURÍDICA), sobre a qual aplicou as alíquotas determinadas pela legislação vigente. Com relação aos diretores do HSM, apurou que eles recebiam remuneração por meio de emissão de notas fiscais, nas quais constava como discriminação de serviços inclusive pagamento de 13º salário. Anexou relação dos profissionais que prestaram serviço, e planilhas extraídas dos registros contábeis contendo os valores recebidos por eles por intermédio dessas empresas; resposta de um dos prestadores de serviço obtida mediante Fl. 2274DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.275 7 circularização na suposta empresa; contracheques; e relação dos sócios, sóciosadministradores, contadores e diretores, cujos nomes constavam escriturados na conta contábil “Serviços de Consultoria/Planejamento” (3313010010). Muitos deles não são informados em GFIP, nem em folha de pagamento, e se informados, o são com cargo diferente do de diretor Informa que na constituição de crédito foi considerada a faixa salarial, o teto do salário contribuição, e os valores já declarados em GFIP. Aplicou a qualificação da multa de ofício a 150%, considerando que todos os fatos relatados demonstram o intuito de sonegação, fraude ou simulação, nos termos do art. 44, §1º, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 1.2 DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS 1.2.1 Não escrituração em títulos próprios A Autoridade Fiscal lavrou Auto de Infração porque a empresa deixou de escriturar em títulos próprios de sua contabilidade os fatos geradores de contribuição previdenciária, nos termos do inciso II do art. 32 da Lei 8.212/91 e inciso II do § 13º do art. 225 do Decreto 3.048/99. Acrescenta que a impugnante lançou na conta contábil 3313010002 (SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURÍDICA) outras despesas que não têm natureza de serviços médicos, tais como serviços de outdoor, hotéis, chaveiros, construção, tecnologia, dentre outros. Anexa Planilha exemplificativa. A multa aplicada foi calculada nos termos do art. 92 da Lei nº 8.212/91, e art. 102 do Decreto nº 3.048/99, c/c Portaria Interministerial Ministros de Estado do Trabalho e Previdência Social MTPS/MF nº 1 de 08 de janeiro de 2016. Em função do intuito de sonegação, fraude ou simulação, o Auditor Fiscal agravou a multa, elevandoa em três vezes, nos termos dos artigos 290 e 292 do Decreto nº 3.048/99. 1.2.2 Não atendimento à intimação O Auditor Fiscal relata ter solicitado, por meio do Termo de Intimação Fiscal (TIF) nº 4 e TIF nº 5, relação contendo todos os diretores, coordenadores e gerentesmédicos, entretanto, a empresa apresentou uma relação contendo apenas diretor técnico e gerentes de enfermagem, por isso lavrou Auto de Infração nos termos do art. 32, inciso III, § 11 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 03 de dezembro de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009; e art. 225, inciso III, do Decreto nº 3.048, de 06 de maio de 1999. O valor da multa foi calculado nos termos dos arts. 92 e 102 da Lei nº 8.212/91, e art. 283, inciso II, alínea “b” e art. 373 do Decreto nº 3.048/99, c/c Portaria Interministerial Ministros de Fl. 2275DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.276 8 Estado do Trabalho e Previdência Social MTPS/MF nº 1 de 08 de janeiro de 2016. Em função do intuito de sonegação, fraude ou simulação, o Auditor Fiscal agravou a multa, elevandoa em três vezes, nos termos dos artigos 290 e 292 do Decreto nº 3.048/99. 1.3 DA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA: GRUPO ECONÔMICO DE FATO O Auditor Fiscal relata que os sócios da impugnante são também sócios de outras empresas, que por serem controladas, controladoras e coligadas, formam grupo econômico de fato (conforme tabela abaixo), que decorre do exercício do poder de controle. Anexa planilha com dados cadastrais das empresas do grupo, com percentual de participação dos sócios em cada empresa. Atribuiu responsabilidade solidária às empresas do grupo, nas contribuições objeto do lançamento e aos Autos de Infração decorrentes de obrigação acessória. 1.4 DA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA: ART. 135 DO CTN O Auditor Fiscal responsabilizou solidariamente os dirigentes da empresa, Manuel Ronaldo de Oliveira Simeão, Sebastião Maluf, Marcos Antonio da Costa Diniz, e o contador Marcio Silva Cunha, pois foram os responsáveis pelos documentos/notas fiscais escriturados na contabilidade, e em função de a conduta da empresa caracterizar as hipóteses previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, com a intenção de causar prejuízo ao Fisco. Fundamenta a responsabilização nos seguintes dispositivos: artigos 124, I, II, combinado com o art. 149, inciso VII, e art. 135, incisos II e III do CTN; inciso IX do art. 30 da Lei nº 8.212/91; e art. 167 da Lei nº 10.406/02. Fl. 2276DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.277 9 Exemplifica que a empresa Centro de Medicina Intervencionista Ltda – ME, além de possuir o mesmo endereço, objeto e contador do HSM, a quantidade de sócios/médicos que entraram e saíram dessa suposta empresa destoa da intenção de criar uma sociedade, servindo apenas de respaldo para lançamentos contábeis. Acrescenta que a solidariedade dos grupos econômicos abrange a multa por descumprimento das obrigações acessórias, nos termos do art. 152, §5º da IN RFB nº 971/09. E no caso da ocorrência de interesse comum ou dolo, abrangem as contribuições previdenciárias e relativas a outras entidades e fundos. 2 DA IMPUGNAÇÃO APRESENTADA PELO HOSPITAL SANTA MARTA A impugnante faz uma síntese da constituição do crédito lançado pela fiscalização, transcrevendo trechos do Relatório Fiscal, e aduz serem inverídicos os fatos apontados pela fiscalização, pugnando pelo cancelamento e nulidade dos Autos de Infração. 2.1 A DISTINÇÃO ENTRE SERVIÇOS MÉDICOS E SERVIÇOS HOSPITALARES A impugnante começa distinguindo serviços médicos de serviços hospitalares: [...] serviços médicos (serviços intelectuais, de natureza científica, atinente ao exercício da medicina), os quais são prestados por profissionais médicos ou por grupos de profissionais constituídos em pessoas jurídicas, [...] serviços hospitalares (consistente no fornecimento de leitos, apartamentos, estrutura de enfermagem, nutrição, além do fornecimento de materiais, medicamentos e alimentação, especificamente solicitados pelos profissionais médicos), que são prestados pelos Hospitais. Afirma que o Auditor Fiscal cometeu equívoco ao confundir esses dois institutos, pois entendeu que o hospital presta serviços médicos quando em realidade presta exclusivamente serviços hospitalares, que complementam os serviços médicos propriamente ditos, que são prestados exclusivamente por médicos, “[...] que atuam como pessoa física ou constituídos em forma de pessoa jurídica, [...]”. Explica o funcionamento de hospitais com quadro clínico aberto, que possuem um mínimo de corpo clínico e permitem que profissionais médicos internem seus pacientes em sua estrutura, havendo diferença entre quem presta os serviços médicos e os hospitalares. Diz que este é o caso do HSM. De outro lado, estão os hospitais com quadro clínico fechado, que possuem corpo clínico próprio, havendo interação entre os serviços médicos e hospitalares. Cita que o Ministério da Saúde distingue essas modalidades. Fl. 2277DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.278 10 Assim, ela ressalta que não exerce a atividade da medicina, e que os médicos externos precisam ser cadastrados no Hospital para aferição de que estão habilitados para exercer a medicina, e que eles exercem suas atividades eventualmente nas dependências do HSM sem pertencer ao seu corpo clínico. Acrescenta que esses médicos exercem suas atividades em outros hospitais e também atendem em seus próprios consultórios, podendo ser substituídos por qualquer profissional habilitado sem qualquer autorização do HSM, e que também não faz nem controla a escala de plantão como afirmou a fiscalização, estando ausentes os requisitos da pessoalidade e subordinação, razão pela qual eles não podem ser considerados seus funcionários. Com esses argumentos afirma que a hipótese de “pejotização” levantada pela Autoridade Fiscal não se sustenta. Aduz que a fiscalização não observou o contrato social da contribuinte para demonstrar a identidade entre as atividades do hospital e das clínicas, e presumiu que havia terceirização de atividade fim e relações empregatícias. 2.2 DA CORRETA DEFINIÇÃO DE CONTRATANTE, CONTRATADO, TOMADOR E REPASSADOR NA RELAÇÃO JURÍDICA OBJETO DA AUTUAÇÃO Explica que o paciente atendido no HSM é o tomador de serviço, o plano de saúde é o contratante (ou o paciente se for particular), o médico ou clínica médica é o contratado, e o HSM, por determinação das operadoras de Planos de Saúde, recebe o valor pelos serviços prestados e imediatamente o repassa aos médicos, e, portanto, estas ou os pacientes particulares são os contratantes que pagam diretamente os honorários aos médicos. 2.3 A NULIDADE DO AUTO ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO Aduz que não tem qualquer ingerência ou conhecimento sobre os valores pagos diretamente pelos planos de saúde às clínicas médicas, nem pela forma de pagamento pelos serviços prestados por essas pessoas jurídicas. Afirma, que em função da liberdade de atuação em virtude de existência de hospitais de quadro clínico aberto, há dificuldade de as operadoras de Planos de Saúde negociar com milhares de médicos individualmente, por isso, por imposição dos convênios o pagamento dos honorários médicos é feito em conjunto com o de serviços hospitalares pela utilização de sua estrutura. Anexa contratos com essas operadoras. Diz que o Hospital encaminha ao Convênio uma nota fiscal com as receitas próprias e com os honorários dos profissionais de saúde ou da clínica que prestou o serviço. Acrescenta que o montante pago pelo Convênio ao HSM é repassado à clínica ou ao médico, por isso sua natureza de receita de terceiros. Aduz que a responsabilidade pelo pagamento das contribuições previdenciárias deve recair sobre Fl. 2278DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.279 11 o particular ou operadoras de Planos de Saúde que são as verdadeiras fontes pagadoras. Cita os artigos 206 e 207 da Instrução Normativa nº 971, de 13 de novembro de 2009. Informa que o pequeno equívoco contábil quanto aos recursos que ingressaram no HSM, e posteriormente repassados, não desnatura a intermediação existente nessa relação. Assevera que as notas fiscais emitidas pelas clínicas médicas demonstram que elas receberam a integralidade dos honorários que lhe cabiam. Cita a Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 1.642, de 7 de agosto de 2002, que dispõe que as operadoras de saúde, cooperativas, hospitais e empresas de seguro de saúde devem efetuar o pagamento dos honorários diretamente aos médicos sem qualquer retenção. Arrazoa que a contabilização de tais recursos com despesa dedutível do Imposto sobre a Renda das Pessoas Jurídicas (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) decorre da dificuldade contábil da empresa de segregar as receitas hospitalares das médicas, que são pagas de uma só vez pelos Convênios, pois há emissão de uma única nota fiscal. E, apesar dessa forma de escrituração, os recursos são repassados integralmente aos profissionais e clínicas médicas. Nessa argumentação afirma ser nulo o Auto de Infração por erro na identificação do sujeito passivo. Cita art. 142 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, e artigos 59 e 60 do Decreto nº 70.235/72, e transcreve doutrina para embasar a nulidade requerida por erro de direito. 2.4 A AFRONTA, CONTIDA NO AUTO DE INFRAÇÃO AOS DISPOSITIVOS DA LEI Nº 11.196/05 Alega que o lançamento contraria o permissivo da Lei nº 11.196/05, que permite aos serviços que se encaixam em seu tipo legal de se constituírem em pessoas jurídicas. Acrescenta, que a fiscalização também se imiscuiu na seara do Poder Judiciário Trabalhista para desconsiderar a pessoa jurídica regularmente constituída, e reconhecer elementos de vínculos empregatícios, usurpando competência. Descreve que o art. 129 da Lei nº 11.196/2005 regularizou a atividade de prestação de serviços por profissionais liberais, por meio da constituição de pessoas jurídicas, pois antes esse tipo de contratação era contestado pela Secretaria da Receita Federal e Instituto Nacional do Seguro Social, que a entendiam como forma de evitar o pagamento de tributos e disfarçar os vínculos empregatícios. Assevera que não existia e não há qualquer dispositivo que restrinja a constituição de pessoa jurídica por um indivíduo, para prestação de serviços. Nesse sentido, cita o art. 647 do Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, e o Fl. 2279DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.280 12 princípio da livre iniciativa, nos termos do art. 170 da Constituição Federal de 1988. Assevera que a inclusão desse artigo na Lei teve a intenção de inibir as autuações originadas por essas interpretações, e cristalizar que a competência para reconhecer as relações de emprego é exclusivamente do Poder Judiciário. Aduz ainda que a SRFB carece de competência para desconsiderar a personalidade jurídica de uma empresa legalmente constituída, cuja atribuição é também do Poder Judiciário. Arrazoa que se a SRFB entendesse que determinada empresa estaria sendo constituída para lesar o Fisco evitaria sua criação, não emitindo Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ), nem documentos de regularidade fiscal, uma vez que seria paradoxo, conferir vida à empresa e depois desconsiderála juridicamente, por incapacidade de controle, e autuar terceiro que mantém relação jurídica com ela. 2.5 DA AUSÊNCIA DOS ELEMENTOS DO VÍNCULO EMPREGATÍCIO E DO DOLO NA CONDUTA DO CONTRIBUINTE Alega que não estão presentes os pressupostos previstos no art. 12, da Lei nº 8.212/91. Transcreve carta encaminhada à Delegacia Regional do Trabalho do Distrito Federal (DRTDF) pelas entidades representativas dos profissionais médicos, na qual os médicos afirmam não existir relação de emprego mantida com o HSM. Diante disso, a impugnante conclui que somente a Justiça Trabalhista poderia contrapor essa manifestação de vontade. 2.6 DOS SUPOSTOS PAGAMENTOS A DIRETORES COMO PESSOAS JURÍDICAS Arrazoa a impugnante que não se deve confundir as atividades administrativas do diretor do hospital, por exemplo, com suas atividades de profissional médico junto a seus pacientes, pois para aquela atividade não há exigência de exclusividade, cuja remuneração é distinta da recebida quando as atividades médicas são exercidas por meio de sua pessoa jurídica. Acrescenta que mesma situação ocorre com outros diretores que cumulam funções distintas sem correlação com a área médica. Afirma que a fiscalização não provou que não houve a prestação de serviço pelas pessoas jurídicas, nem que ocorreu simulação ao pagamento de diretores; portanto, como não houve a descaracterização da prestação de serviço, não há como manter o lançamento tributário. 2.7 DO NÃO CABIMENTO DA MULTA QUALIFICADA A impugnante alega que, ao contrário do que a fiscalização tenta demonstrar, a constituição dos médicos em pessoas jurídicas não Fl. 2280DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.281 13 foi uma determinação dela em conluio com esses profissionais. Transcreve trecho do Relatório Fiscal. Relembra a carta enviada ao DRTDF, em que há a afirmação de que esses profissionais atuam de forma autônoma por meio dessas pessoas jurídicas. Conclui que a fiscalização não comprovou a existência de simulação ou fraude, e, portanto, não cabe a aplicação da multa qualificada. Argumenta que caberia ao Fisco comprovar de forma definitiva a intuição do agente, o dolo em realizar conluio com o objetivo de sonegação fiscal. Alega que também não foi demonstrada qualquer ação dolosa da impugnante no sentido de mascarar a obrigação tributária. Afirma que em momento algum escondeu ou modificou o fato gerador. Assevera que ocorreu entendimentos diferentes entre ela e o Fisco, o qual acredita que o fato descrito se trata de relação de emprego, enquanto ela que se trata de relação entre pessoas jurídicas. Ressalta que as figuras da fraude, dolo e simulação não foram comprovadas, cita doutrina e jurisprudência do CARF, no sentido do ônus da prova nessas situações para fins de qualificação da multa. 2.8 DAS INFRAÇÕES POR DESCUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS E DAS CONTRIBUIÇÕES DESTINADAS A OUTRAS ENTIDADES E FUNDOS Arrazoa que sendo cancelado o lançamento fiscal em função das alegações apresentadas, os Autos de Infração decorrentes de obrigações acessórias também não subsistem. 2.8.1 Da suposta ausência de atendimento à intimação Argumenta que o Auditor Fiscal foi contraditório ao dizer que o HSM não apresentou os documentos solicitados; se o que afirma se comprovasse não teria conseguido relacionar todos os diretores. Diz que houve uma insatisfação da Autoridade Fiscal pela forma como as informações foram apresentadas. Transcreve jurisprudência do CARF sobre multa por não atendimento à intimação e apresentação de forma insatisfatória de livros contábeis e fiscais. Arrazoa que se as informações estavam insuficientes, a fiscalização deveria ter reiterado e detalhado como gostaria de receber os documentos. 2.9 O NÃO CABIMENTO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA – GRUPO ECONÔMICO Alega que não se sustenta a responsabilidade solidária, em função da caracterização do grupo econômico. Transcreve trechos do Relatório Fiscal, para dizer que “[...] o Auto de Infração somente se “esqueceu” de fazer a imprescindível vinculação entre os fatos geradores objeto da presente autuação e as ações perpetradas por essas demais empresas.”. Diz que a Autoridade Fiscal considerou que as contribuições devidas por uma sociedade passariam automaticamente para Fl. 2281DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.282 14 outras, apenas pelo fato de formarem grupo econômico. Discorda dessa situação, pois as sociedades do grupo têm personalidades jurídicas distintas, gestão e organização independentes, e não há provas nos autos de que tenha havido confusão entre as empresas apontadas, seja no âmbito operacional, comercial, trabalhista e financeiro; o que seria necessário para atribuir solidariedade tributária a um terceiro, pois a vinculação ao fato gerador é requisito para essa caracterização. Nesse sentido cita doutrina e artigos 113, 118, 121 e 128 da Lei nº 5.172/66. Acrescenta que a responsabilização deveria ter sido fundamentada em provas de que as empresas atuaram na realização do fato gerador de descumpriumento da obrigação tributária, cujo ônus cabe ao Fisco. Cita jurisprudência do Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRT/4ª), do Superior Tribunal de Justiça (STJ), e de julgado da Delegacia de Julgamento da Receita Federal de Belo Horizonte (DRJ/BHE). 2.10 DA INDEVIDA SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA DOS SÓCIOS DO CONTRIBUINTE Transcreve trecho do Relatório Fiscal para alegar que o Fisco deveria ter comprovado que os diretores participaram da suposta fraude da “pejotização”, pois não é o simples interesse comum ou econômico na situação que constitui o fato gerador, conforme art. 124, I e II do CTN, “[...] que justifica a solidariedade passiva, mas o interesse jurídico, vinculado a uma atuação comum ou conjunta quanto ao fato gerador.”. Assevera que a suposta “pejotização” não foi criada por ela, muito menos pelos dirigentes, e se foi criada pelos médicos não se pode aplicar o art. 128 do Código Tributário Nacional (CTN). Quanto ao inciso III do art. 135, do CTN, assevera que os supostos atos tidos contrários à legislação teriam sido praticados pela pessoa jurídica e não pelos administradores, o que daria razão para a reforma do Auto de Infração. Acrescenta que esse artigo só teria aplicabilidade se os atos de infração à lei fossem cometidos pelos administradores à revelia da sociedade, caso contrário, quem estará praticando o ato será a sociedade e não o sócio, e quem responderá pelos tributos é a pessoa jurídica. Aduz que “[...] a infração à lei capaz de gerar a responsabilidade do administrador é aquela de natureza societária, o que em momento algum restou demonstrado no presente Auto de Infração.”. Afirma que em momento algum houve infração à lei societária que justificasse a solidariedade dos diretores, mas tão somente atos praticados pela sociedade, cujas suposições de infração à lei derivaram de presunções e conclusões precipitadas sem provas que a suportassem. 2.11 DOS PEDIDOS A impugnante querer: Fl. 2282DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.283 15 a) Nulidade do lançamento fiscal; b) Procedência da impugnação, cancelamento da exigência e afastamento das multas aplicadas, inclusive as decorrentes das obrigações acessórias e às contribuições destinadas a outras entidades e fundos. c) Se não reconhecidos os pedidos anteriores, a desqualificação da multa de 150% para 75%. d) Reforma do lançamento quanto à solidariedade tanto das empresas quanto dos diretores arrolados como responsáveis. e) Todos os meios de prova admitidos e juntada posterior de documentos. 3 DAS IMPUGNAÇÕES APRESENTADAS POR SEBASTIÃO MALUF, MARCOS ANTONIO DA COSTA DINIZ, MANUEL RONALDO DE OLIVEIRA SIMEÃO Os impugnantes fazem uma síntese da constituição do crédito tributário, transcrevendo trechos do Relatório Fiscal, e aduzem que os fatos apontados pela fiscalização são inverídicos. Afirmam ser ilegal e sem razão a inclusão deles como responsáveis solidários. 3.1 O NÃO CABIMENTO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Nesse ponto, as impugnações têm o mesmo teor da apresentada pelo HSM. Os defendentes alegam que a Autoridade Fiscal considerou que as contribuições devidas por uma sociedade passariam automaticamente para seus diretores em função do cargo ocupado por eles no Hospital Santa Marta. Acrescenta que a regra é a responsabilização da pessoa jurídica, os diretores e sóciosgerentes apenas seriam responsabilizados “quando agissem com excesso de poderes ou infração de lei, contrato ou dos estatutos”, nos termos do art. 124, do CTN, e não há provas de que o impugnante teria atuado dessa forma, seja no âmbito operacional, comercial, trabalhista e financeiro. Interpretam que o art. 30 da Lei nº 8.212/91 só poderia ser utilizado para impor responsabilidade tributária às empresas do grupo e aos diretores mediante provas concretas de que aquelas atuaram de forma a determinar a realização do fato gerador, e estes com excesso de poderes ou infração de lei, contrato ou dos estatutos. 3.2 QUANTO AO MÉRITO Utilizam as mesmas razões apresentadas na impugnação do HSM, quanto à consideração de um planejamento tributário efetuado por ele, e dizem que o Fisco distorceu os fatos por desconhecer a realidade do setor médicohospitalar no Distrito Fl. 2283DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.284 16 Federal, atribuindo uma inexistente situação de fraude ou simulação ao hospital, e ignorando a existência de pessoas jurídicas regularmente constituídas. Ressaltam que os Autos de Infração devem ser cancelados, pois extrapolam a competência da Autoridade Fiscal, no reconhecimento de vínculo empregatício, e em razão de erro na identificação do sujeito passivo. 3.3 DOS PEDIDOS: Os impugnantes requerem: a) acolhimento total das impugnações e cancelamento da imputação da responsabilidade solidária a eles; b) nulidade dos Autos de Infração pelas mesmas razões apresentadas na impugnação do HSM; c) provar o alegado por todos os meios de prova e juntada posterior de documentos. 2 – A impugnação foi julgada improcedente por decisão da DRJ assim ementada: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2012 a 31/12/2012 NULIDADE DO LANÇAMENTO Estando os atos administrativos revestidos de suas formalidades essenciais, não há que se falar em nulidade do procedimento fiscal. Matérias alheias a essas comportam decisão de mérito. COMPETÊNCIA DO AUDITORFISCAL A Secretaria da Receita Federal do Brasil, por meio de seus agentes fiscais, possui poderes para investigar a situação fática que configura vinculação de trabalhadores à Previdência Social para fins de arrecadação e lançamento da contribuição respectiva, todavia sem prejuízo ou interferência nas normas afetas à legislação do trabalho. PEJOTIZAÇÃO. CONTRATAÇÃO DE TRABALHADORES. EMPRESA INTERPOSTA. EFEITOS FISCAIS E PREVIDENCIÁRIOS. CONJUNTO PROBATÓRIO. Para afastar a caracterização de contratação de trabalhadores por empresa interposta e seus respectivos efeitos tributários e previdenciárias, a impugnante deve ultrapassar o campo das alegações e produzir provas que se contraponham às levantadas pelo setor fiscal, mormente aquelas relacionadas à existência dos elementos caracterizadores da relação de emprego, pessoalidade, onerosidade, não eventualidade e subordinação. Fl. 2284DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.285 17 LEI 11.196/05. INAPLICABILIDADE QUANDO HÁ PRESTAÇÃO DE SERVIÇO COM CARACTERÍSTICAS DA RELAÇÃO DE EMPREGO. A contratação de prestadores de serviços na condição de pessoas jurídicas somente é legal, de acordo com o art. 129 da Lei nº 11.196/05, desde que não se caracterize vínculo de emprego entre a empresa contratante e a prestadora de serviços contratada. Constatados os requisitos necessários para a configuração de vínculo empregatício, deve ser desconsiderado o vínculo pactuado e ser efetuado o enquadramento como segurado empregado. SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. RESPONSABILIDADE São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Diante de expressa previsão legal, é cabível a responsabilização solidária de administradores ou representantes de pessoas jurídicas pelos créditos tributários decorrentes, uma vez comprovada documentalmente, por uma série de elementos convergentes, a sua atuação determinante, na direção dos rumos empresariais, para a prática de condutas ilícitas. MULTA QUALIFICADA A multa de ofício de 150% é aplicável sempre que caracterizada a prática de ato com o objetivo de impedir o conhecimento da ocorrência do fato gerador pela autoridade fazendária. DILAÇÃO PROBATÓRIA A prova documental deve ser apresentada juntamente com a impugnação, sob pena de preclusão. DECISÕES ADMINISTRATIVAS E JUDICIAIS É vedada a extensão administrativa dos efeitos de decisões judiciais contrárias à orientação estabelecida para a administração direta e autárquica em atos de caráter normativo ordinário. 3 Cientificado da decisão de piso o contribuinte interpôs recurso voluntário às fls. (2.150/2.202), seguido dos recursos dos sujeitos passivos tributários fls. 2.209/2.220 (Manuel Ronaldo de Oliveira Simeão), Fls. 2.227/2.238 (Marcos Antonio da Costa Diniz) e fls. 2.244/2.255 ( Sebastião Maluf) mantendo praticamente os mesmos argumentos da impugnação e ao final requer o provimento do recurso com o cancelamento do auto de infração. 4 É o relatório do necessário. Fl. 2285DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.286 18 Voto Conselheiro Marcelo Milton da Silva Risso Relator 5 – Todos os recursos são tempestivos e preenchem os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. 6 Peço venia antes de adentrar ao mérito para indicar a análise teórica sobre o tema ora em discussão nesse lançamento introduzida pelo I. Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira no Ac. que diante de seu grande conhecimento poderá nos elucidar com suas lições, verbis: "Preceitua a Carta da República que a ordem econômica é fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, com expressa garantia para todos do livre exercício de qualquer atividade econômica. Assim está redigido o artigo 170: "Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei." O preceito constitucional é claro em garantir que qualquer do povo pode exercer todo tipo de atividade econômica encontrando, por óbvio, na lei, o limite desse exercício. Dessa constatação, podemos inferir que é lícito ao profissional que presta serviços, fazêlo por meio de uma pessoa jurídica, uma vez que o exercício dessa atividade econômica não encontra óbice legal, tampouco a constituição de uma empresa com essa mister ofende a ordem jurídica. Cediço que a conformação societária dessa pessoa jurídica é critério daquele que a constitui, existindo no ordenamento pátrio diversos modelos societários que se amoldam a esse mister. Constituída a pessoa jurídica, essa ficção passa a contar com a tutela do ordenamento jurídico que empresta Fl. 2286DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.287 19 personalidade ficta a essa pessoa, que passa a ser objeto e sujeito de direito. Não obstante, a prestação de serviços atividade econômica cujo o objeto é uma obrigação de fazer por vezes também é prestada por uma pessoa física, realizada pelo trabalho dessa pessoa, atividade também valorizada pelo mesmo comando constitucional acima mencionado. Por muito tempo, a doutrina distinguiu pelo atributo da pessoalidade, a prestação de serviços realizado pela pessoa jurídica daquele prestado pela pessoa física. Assim, quando o contratante precisava que tal serviços fosse prestado por determinada pessoa, era essa a contratada, em razão da característica única que é atributo típico do ser humano, do trabalhador. Se, por outro lado, a prestação do serviço se resumia a um objetivo determinado, um 'facere' pretendido, a contratação de pessoa jurídica atendia a essa necessidade, vez que despicienda a característica de personalidade para a execução do objeto do contrato de prestação de serviços. Se por um lado, no âmbito dos contratos, tal diferenciação interessa somente às partes, causando pouco, ou nenhum, impacto a terceiros, por outro, no âmbito tributário, tal diferenciação é ponto fulcral, em razão da diferenciação da exação incidente sobre as duas formas de prestação de serviços, menos onerosa quando prestada por pessoa jurídica. O menor custo tributário, tanto para o contratante, quanto para o prestador de serviços, fomentou uma crescente transformação de pessoas físicas que prestavam serviços, trabalhadores portanto, em empresas. Em 2005, com o advento da Lei nº 11.196, a legislação tributária passou a explicitamente admitir tal fenômeno. Vejamos a redação do artigo 129: "Art. 129. Para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tãosomente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei no10.406, de 10 de janeiro de 2002 Código Civil." Claríssima a disposição legal. Havendo prestação de serviços por meio de pessoa jurídica, mesmo que atribuição de obrigações às pessoas físicas, e sendo esses serviços de natureza intelectual, assim compreendidos os científicos, os Fl. 2287DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.288 20 artísticos e os culturais, o tratamento fiscal e previdenciário deve ser aquele aplicável as pessoas jurídicas, exceto no caso de desvio de finalidade ou confusão patrimonial, como consta das disposições do artigo 50 do Código Civil Brasileiro. Não obstante o exposto, cediço recordar que a CLT impõe limite legal à prestação de serviços por pessoa jurídica. Tal limite se expressa exatamente na relação de trabalho. Vejamos as disposições da Lei Trabalhista: " Art. 2º Considerase empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço. (...) Art. 3º Considerase empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Parágrafo único Não haverá distinções relativas à espécie de emprego e à condição de trabalhador, nem entre o trabalho intelectual, técnico e manual. (...) Art. 9º Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação." (destaquei) Patente o limite da prestação de serviços personalíssimos por pessoa jurídica: a relação de emprego. Ao recordarmos as disposições do CTN, constantes não só do parágrafo único do artigo 116, como também do inciso VII do artigo 149, podemos asseverar que, encontrando a Autoridade Tributária as características da relação de emprego na contratação de prestação de serviços por pessoa jurídica, surge o direito do Fisco de desconsiderar tal situação jurídica, vez que dissimuladora do contrato de trabalho, e constituir o crédito tributário decorrente da constatação do fato gerador verificado com o trabalho da pessoa física. Dito de maneira diversa: para que haja o lançamento tributário por desconsideração da prestação de serviços por meio de pessoa jurídica é ônus do Fisco a comprovação da existência da relação de emprego entre a pessoa física que prestou os serviços objeto da desconsideração da personalidade jurídica e o contratante desses serviços. Fl. 2288DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.289 21 A doutrina trabalhista é assente em reconhecer o vínculo de emprego quando presentes, simultaneamente, as características da pessoalidade, da onerosidade, da habitualidade e da subordinação. Confrontemos as disposições da melhor doutrina trabalhista com os ditames específicos da Lei nº 11.196/05, com o objetivo de encontrarmos a exata diferenciação entre a relação de emprego e a prestação de serviços por pessoa jurídica. Em primeiro lugar é necessário observar que a pessoalidade não é relevante no distinção em apreço. Tal afirmação se corrobora com a simples leitura do artigo 129 da Lei nº 11.196, que explicitamente afasta a questão do caráter personalíssimo e da atribuição de obrigações às pessoas que compõe a sociedade prestadora de serviços. Em segundo lugar, forçoso reconhecer que a habitualidade não apresenta relevância como fato distintivo entre a prestação de serviços por pessoa física ou jurídica, vez que tanto numa como em outra, a habitualidade, ou ausência desta, podem estar presentes. Nesse ponto é necessário recordar que nas relações comerciais também se instaura uma relação de confiança, decorrente do conhecimento da excelência na prestação de serviços do fornecedor habitual. A análise da onerosidade também não ajuda no traço distintivo. Cediço que tanto no emprego quanto na mera relação comercial de prestação de serviços, o pagamento pelos serviços prestados está presente. Logo, o ponto fulcral da distinção é a subordinação. Somente na relação de emprego o contratante, no caso empregador, subordina o prestador de serviços, no caso , o empregado. Porém, não se pode, sob pena de ofensa ao direito, entender que qualquer forma de direção da prestação de serviços é a subordinação típica das normas trabalhistas. Esta, a subordinação trabalhista, se apresenta em duas situações específicas. A primeira se observa quando o empregador, no nosso caso o contratante da prestação de serviços conduz, ordena, determina a prestação de serviços. É a chamada subordinação subjetiva onde o prestador de serviços, o trabalhador, recebe ordens específicas sobre seu trabalho, assim entendida a determinação de como trabalhar, de Fl. 2289DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.290 22 como executar as tarefas a ele, trabalhador, atribuídas. É a subordinação típica, aquela presente no modelo fordistataylorista de produção. Modernamente, encontramos o segundo modelo de subordinação, erroneamente chamado por muitos de subordinação jurídica. Não se pode admitir tal denominação, quanto mais a afirmação que esta subordinação decorre do contrato. Ora, qualquer contrato imputa direitos e deveres e por certo, desses decorre subordinação jurídica, posto que derivada de um negócio jurídico que atribui obrigações. Essa moderna subordinação é a chamada subordinação estrutural, nos dizeres de Maurício Godinho Delgado. É a subordinação consubstanciada pela inserção do trabalhador no modelo organizacional do empregador, na relação institucional representada pelo fluxo de informações e de prestação de serviços constante do negócio da empresa contratante desses serviços. Mister realçar que é por meio da subordinação estrutural que o empregador, o tomador de serviços que subordina o prestador, garante seu padrão de qualidade, uma vez que controla todo o fluxo da prestação dos serviços necessários a consecução do mister constante de seu objeto social, ou seja, é por meio de um modelo de organização que há o padrão de qualidade necessário e o controle das atividades e informações imprescindíveis para a prestação final dos serviços, para a elaboração do produto, para a venda da mercadoria que é o fim da atividade econômica pretendida pelo contratante dos serviços, pelo empregador. Com essa considerações, a solução da lide tributária instaurada por meio do presente recurso voluntário será encontrada a partir da comprovação, ou não, da existência da relação de emprego, consubstanciada pela comprovação da subordinação, entre as pessoas físicas que prestaram os serviços mencionados no auto de infração e a Recorrente." 7 De acordo com a fiscalização, fls. 44/344 em síntese a autuada é um hospital, sendo que todos ou a maioria dos atendimentos médicos realizados por pessoas jurídicas contratadas e depois de examinar livros contábeis, notas fiscais de prestação de serviços, escalas de plantão médico, entre outros documentos, concluiu pela existência de simulação e fraude na contratação das sociedades de profissionais para a prestação de serviços médicos, tendo por finalidade a dissimulação da verdadeira relação de emprego mantida entre a empresa autuada e os sócios das sociedades civis contratadas (pessoas físicas) e outros médicos que não tinham nenhum vínculo formal com as pessoas jurídicas, mas que prestavam serviço Fl. 2290DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.291 23 dentro do hospital através dessas pessoas jurídicas. O lançamento e a constatação de tais fatos foram todos estabelecidos através de arbitramento. 8 Dessa maneira a fiscalização entendeu que tanto os sócios das pessoas jurídicas prestadoras de serviços na área médica foram considerados segurados empregados da autuada, devido à comprovação da presença dos requisitos básicos da relação empregatícia: serviço prestado por pessoa física, pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação, da mesma forma os médicos sem qualquer vínculo formal com essas pessoas jurídicas. 9 A título de comprovação dos fatos imputados ao sujeito passivo, os seguintes elementos de prova, entre outros, depreendese das considerações consignadas pela autoridade fiscal no item 4 e 5 do Relatório Fiscal (fls. 24/27), foram, em síntese, considerados segurados empregados pelas seguintes razões: "4. Como resultado da ação fiscal, constatado que houve Pejotização contratação de pessoas jurídicas para prestação de serviços quando estes são de fato executados por pessoas físicas, de forma subordinada, habitual e onerosa, visando proporcionar irregularmente a redução de custos trabalhistas e economia de tributos (Contribuições Previdenciárias e Imposto de Renda), tanto por parte da contratante quanto dos prestadores de serviço. Foram apurados os créditos tributários previdenciários mediante lançamento dos valores devidos. 5. IIII – CONTRATAÇÃO DE MÉDICOS como Pessoas Jurídicas – Pejotização Da análise das notas fiscais, da contabilidade e dos demais documentos apresentados aferiuse, entre outros: As receitas com os serviços médicos prestados foram contabilizadas pelo hospital na conta de resultado: conta contábil: 311103 Receita Operacional no valor de R$ 116.598.607,32; As despesas com os pagamentos aos médicos foram escriturados na conta de resultado: 3313010002 SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURÍDICA, no valor total de R$ 32.110.712,3. Há caso em que a própria nota fiscal emitida discrimina que os serviços médicos prestados tratase do pagamento de SALÁRIOS e de FÉRIAS; Há caso em que a própria nota fiscal emitida discrimina que os serviços médicos prestados tratase do pagamento de 13º SALÁRIO; Fl. 2291DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.292 24 A empresa individualizou no corpo da notal fiscal, confirmado pela relação de médico por nota fiscal entregue pelo contribuinte à fiscalização (anexo 4 Médicos por empresas conta 3313010002 SERVIÇOS MÉDICOS PESSOA JURIDICA.), médicos que não possuem nenhuma vinculação com a empresa emitente da nota fiscal.(não são sócios, nem empregados). Houve a prestação de serviços médicos de forma extemporânea. Os médicos prestaram serviços antes de se tornarem sócios das empresas emitentes das notas fiscais. Houve apropriação de despesas de escalas médicas extemporâneas; ou seja, os serviços médicos foram prestados pelos médicos antes da constituição da empresa. Houve apropriação de despesas no corpo da nota fiscal atinentes a adiantamentos, pendências, escalas, plantões, coordenação. O que evidencia a pessoalidade, subordinação, onerosidade, não eventualidade. O próprio sócio do Hospital Santa Marta, Manuel Ronaldo de Oliveira Simeao CPF: 193.230.77704, e seu cônjuge Suely Maria Pimentel Simeao, CPF: 028.977.76153, são os únicos sócios de empresa que prestou serviço ao Hospital Santa Marta: Empresa LAPAC Laboratorio de Patologia e Clinicas LTDA – EPP, CNPJ: 00.454.686/000190. Ressaltese ainda que o cônjuge CPF: 028.977.76153 SUELY MARIA PIMENTEL SIMEAO, CBO: 251510PSICOLOGO CLINICO, junto com as filhas: CPF: 864.967.19187 VANESSA PIMENTEL SIMEAO e CPF: 864.079.37191 SIMONE PIMENTEL SIMEAO também são sócias da empresa CNPJ: 08.329.752/000102 CLINICA OUVIR LTDA – ME, que prestou serviços médicos ao Hospital Santa Marta. O contador do Hospital Santa Marta, CPF: 308.432.78153 Marcio Silva Cunha, também é o contador de várias empresas que prestaram serviços ao Hospital Santa Marta; Em trabalho de campo no Hospital Santa Marta, realizado em 02/02/2015, feito por amostragem, foi constatada a prestação de serviço in loco da médica Weridyana Batista de Oliveira, CPF: 694.774.50120, CRM:17616, com a coleta de sua assinatura. Esclareça que o Hospital Santa Marta informou que ela teria prestado serviços médicos em 2012 intermediada por empresas; contudo, em análise aos cadastros da RFB, ela não possuía nenhuma vinculação com tais empresas (não era sócia nem empregada). Bem como, o fato de continuar prestando serviços em 2015 é caracterizador do vinculo empregatício. Coincidentemente, nesse trabalho de campo, todas as assinaturas dos médicos coletadas foram de médicos que prestaram serviços médicos em 2012, e continuam prestando em Fl. 2292DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.293 25 2015. O que demonstra, de forma clara, os vínculos empregatícios. Dessa forma, fica muito claro que o Hospital Santa Marta usou as empresas com o único objetivo de contabilizar os salários dos médicos por meio delas; e em muitos casos, sem a preocupação sequer de haver uma relação formal destes com a empresa emitente da nota fiscal. Tendo com isso o objetivo de pagar menos tributo. E como a atividade médica era exercida com: Pessoalidade (personalizados no corpo das notas fiscais emitidas, na relação de médicos encaminhadas ao CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde em 2012, no arquivo de prontuário entregue à fiscalização, na relação médico por empresa entregue à fiscalização, na relação de sócios ativos (médicos) em 2012 das empresas contabilizadas na conta contábil 3313010002 serviços médicos pessoa jurídica. Vide ANEXOS. De maneira continua e permanente: as escalas médicas são de periodicidade mensal, as notas fiscais são emitidas em vários meses no ano; quando não, em todos os meses do ano, a relação de médicos encaminhadas ao CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde em 2012, engloba os mesmos médicos em todos os meses do ano e comprova que médicos informados em 2012 continuam sendo informados em 2015. O prontuário entregue à fiscalização relaciona os médicos nos dozes meses do ano. Assim como o serviço prestado é parte integrante da cadeia produtiva do hospital; ou seja, inserese no objeto do empreendimento hospitalar. Os médicos recebiam pagamentos, ainda que por meio de notas fiscais escrituradas na conta de resultado: 3313010002 Serviços Médicos Pessoa Jurídica, no valor total de R$ 32.110.712,3. (Configurado como mera tentativa de fraude a direitos trabalhistas e tributários pejotização) onerosidade. Havia subordinação às diretrizes traçadas pelo hospital: os pacientes eram todos do hospital (Receita Operacional de R$ 116.598.607,32), que assumia os riscos do trabalho executado pelo médico, a chamada alteridade, como ocorrido no Processo: 2003.01.1.0308045 do TJDFT). Outrossim, só o fato de haver obrigatoriedade de o profissional médico comparecer ao hospital para prestar o seu serviço, não podendo realizálo em outro local, por si só, já caracteriza a subordinação jurídica. Denotase, por amostragem, o vínculo empregatício." Fl. 2293DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.294 26 10 Quanto ao mérito do recurso entendo que deve ser dado provimento, uma vez que a autoridade fiscal não se desvencilhou em comprovar os elementos caracterizadores do vínculo de emprego. 11 No que concerne à chamada “pejotização“ de empregados, importa verificar se há, ou não, a presença dos elementos fáticojurídicos caracterizadores do vínculo empregatício na relação de trabalho constituída entre a recorrente e os trabalhadores que, apontados pela fiscalização, lhe teriam prestado serviço nos períodos de competência fiscalizados. 12 Entendo com a devida venia, nos caso dos autos, a autoridade lançadora passou ao largo da demonstração inequívoca, e até mesmo da comprovação, da existência desses elementos fáticojurídicos na relação de trabalho, sobretudo no que pertine à comprovação da subordinação na prestação dos serviços. 13 Dada a prestação de serviços diretamente com pessoas jurídicas, compete ao Fisco o ônus probatório da existência do vínculo de emprego, visto que a prova dos fatos jurídicos cabe a quem tem interesse em fazer prevalecer o que afirma. 14 Em outras palavras, a fiscalização deve adicionar aos autos os elementos que demonstrem indubitavelmente a ocorrência dos fatos que invoca como fundamento à sua pretensão, assim como as circunstâncias em que foram verificados durante o procedimento investigatório. 15. Na hipótese de médicos, enquadrados na categoria dos profissionais liberais, a comprovação da prestação de serviços na condição de empregados representa ainda mais desafio à fiscalização, tendo em vista as peculiaridades do exercício da profissão, em caráter personalíssimo, com independência de opinião e autonomia de execução da medicina, via de regra. 16 Dito de outro modo, o tão só fato de que os sócios das pessoas jurídicas contratadas pela fiscalizada prestavam diretamente o serviço contratado não se afigura suficiente para provar que o elemento da pessoalidade na relação de trabalho está ligado à pessoa física do sócio e não à pessoa jurídica, fazendose necessário que a imputação esteja acompanhada de outros elementos de prova que descredenciem a pessoa jurídica como o sujeito dessa relação, o que, todavia, na espécie, a fiscalização, a meu ver, não logrou fazer integralmente. Fl. 2294DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.295 27 17 Esse desafio da fiscalização na minha ótica acabou na demonstração "precária" da comprovação do vínculo de emprego através de arbitramento, utilizandose de forma genérica de situações que sequer chegam próximo dos elementos caracterizadores indicados nos arts. 2º e 3º da CLT aplicando os mesmos efeitos jurídicos a todas as pessoas jurídicas e pessoas físicas indicadas na autuação, sem estabelecer qualquer motivação para efetuar o levantamento fiscal e o cálculo através de aferição indireta na forma do art. 148 do CTN. 18 No detalhamento desses pressupostos da prestação de serviço com vinculação empregatícia, o Fisco Federal não os individualizou por contrato ou profissional de saúde, como muitas vezes procede os diversos Termo de Verificação Fiscal já analisados em casos como este, mas sim optou em considerar provado o vínculo de emprego reproduzindo esse fato a todos os profissionais médicos, a título de elementos de prova do vínculo de emprego da seguinte forma: " Em trabalho de campo no Hospital Santa Marta, realizado em 02/02/2015, feito por amostragem, foi constatada a prestação de serviço in loco da médica Weridyana Batista de Oliveira, CPF: 694.774.50120, CRM:17616, com a coleta de sua assinatura. Esclareça que o Hospital Santa Marta informou que ela teria prestado serviços médicos em 2012 intermediada por empresas; contudo, em análise aos cadastros da RFB, ela não possuía nenhuma vinculação com tais empresas (não era sócia nem empregada). Bem como, o fato de continuar prestando serviços em 2015 é caracterizador do vinculo empregatício. Coincidentemente, nesse trabalho de campo, todas as assinaturas dos médicos coletadas foram de médicos que prestaram serviços médicos em 2012, e continuam prestando em 2015. O que demonstra, de forma clara, os vínculos empregatícios. Dessa forma, fica muito claro que o Hospital Santa Marta usou as empresas com o único objetivo de contabilizar os salários dos médicos por meio delas; e em muitos casos, sem a preocupação sequer de haver uma relação formal destes com a empresa emitente da nota fiscal. Tendo com isso o objetivo de pagar menos tributo. E como a atividade médica era exercida com: Pessoalidade (personalizados no corpo das notas fiscais emitidas, na relação de médicos encaminhadas ao CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde em 2012, no arquivo de prontuário entregue à fiscalização, na relação médico por empresa entregue à fiscalização, na relação de sócios ativos (médicos) em 2012 das empresas contabilizadas na conta contábil 3313010002 serviços médicos pessoa jurídica. Vide ANEXOS. Fl. 2295DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.296 28 De maneira continua e permanente: as escalas médicas são de periodicidade mensal, as notas fiscais são emitidas em vários meses no ano; quando não, em todos os meses do ano, a relação de médicos encaminhadas ao CNES Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde em 2012, engloba os mesmos médicos em todos os meses do ano e comprova que médicos informados em 2012 continuam sendo informados em 2015. O prontuário entregue à fiscalização relaciona os médicos nos dozes meses do ano. Assim como o serviço prestado é parte integrante da cadeia produtiva do hospital; ou seja, inserese no objeto do empreendimento hospitalar. Os médicos recebiam pagamentos, ainda que por meio de notas fiscais escrituradas na conta de resultado: 3313010002 Serviços Médicos Pessoa Jurídica, no valor total de R$ 32.110.712,3. (Configurado como mera tentativa de fraude a direitos trabalhistas e tributários pejotização) onerosidade. Havia subordinação às diretrizes traçadas pelo hospital: os pacientes eram todos do hospital (Receita Operacional de R$ 116.598.607,32), que assumia os riscos do trabalho executado pelo médico, a chamada alteridade, como ocorrido no Processo: 2003.01.1.0308045 do TJDFT). Outrossim, só o fato de haver obrigatoriedade de o profissional médico comparecer ao hospital para prestar o seu serviço, não podendo realizálo em outro local, por si só, já caracteriza a subordinação jurídica. Denotase, por amostragem, o vínculo empregatício." Sem grifos no original 19 A partir dessa única constatação acima reproduzida a fiscalização utilizou para identificar a relação de emprego para todos os casos. Contudo, se utilizarmos também através de amostragem alguns pontos identificados no próprio relatório fiscal vamos constatar que a fiscalização adota premissa equivocada e que por si só na visão desse relator afasta o lançamento tributário. 20 A fiscalização alega que "fica muito claro que o Hospital Santa Marta usou as empresas com o único objetivo de contabilizar os salários dos médicos por meio delas; e em muitos casos, sem a preocupação sequer de haver uma relação formal destes com a empresa emitente da nota fiscal. Tendo com isso o objetivo de pagar menos tributo."; com essa afirmação a fiscalização parte do pressuposto de que as pessoas jurídicas foram constituídas de forma fraudulenta a título de não pagar diretamente os "salários" pelos serviços médicos dos prestadores que não tinham nenhum contrato formal com as pessoas jurídicas prestadoras e o hospital e até mesmo dos sócios das pessoas jurídicas. Fl. 2296DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.297 29 21 Às fls. 57 do relatório fiscal a fiscalização faz referência como prova da empresa DIGESTIVE CLINICA DO APARELHO DIGESTIVO CNPJ: 14.353.297/000183, que foi uma das desconsideradas pela fiscalização, alegando que havia nas Notas Fiscais a indicação de médicos que não eram sócios e não tinham nenhum contrato ou vínculo formal a título de prestação de serviços, contudo a fiscalização junta aos autos a GFIP dessa empresa em que identificamos diversos empregados registrados: 22 Continuando seu raciocínio a autoridade fiscal afirma: Fl. 2297DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.298 30 "Portanto, os médicos personalizados nas Notas Fiscais e no documento entregue pelo contribuinte, abaixo: Lívia Gomes dos Santos Tavares – CPF 00242676191; Adriano Cláudio Pereira de Morais – CPF 02367287400; Alexandre Chastuni Pereira Teixeira – CPF 04381511603; Juline Monteiro Marinho – CPF 05192871425; José Guilherme Filho – CPF 26893398387; Edson Lustosa Machado – CPF 09606220397; Jandui Gomes de Abreu Filho – CPF 347889415; Drª Lina. Não possuem nenhuma vinculação com a empresa DIGESTIVE CLINICA DO APARELHO DIGESTIVO LTDA. Portanto, os médicos não poderiam ser pessoas jurídicas já que não eram sócios da pessoa jurídica emitente da nota fiscal. Nem eram terceirizados, já que também não eram empregados dessa pessoa jurídica emitente da nota fiscal. Fica muito claro que o Hospital Santa Marta usou as empresas com o único objetivo de contabilizar os salários dos médicos por meio delas; sem a preocupação sequer de haver uma relação formal destes com a empresa emitente da nota fiscal. Tendo com isso o objetivo de pagar menos tributo." 23 Não verifico nos autos nenhuma prova que sugere que as pessoas jurídicas, tais como a acima indicada, fosse utilizada para orquestrar um ato simulatório no qual alega a fiscalização. Pelo contrário, verifico que a fiscalização parte de uma premissa sem qualquer fundamento e provas concretas para alegar tal fato. Chegase ao absurdo de se alegar a simulação de uma pessoa jurídica que contem empregados no setor administrativo, sem ao menos promover o levantamento da estrutura de fato e de direito de tal empresa. Às fls. 2.125 por exemplo o recorrente traz prova de uma estrutura da referida empresa e de outras indicadas como emissoras das notas fiscais. 24 Verificamos portanto que partindo da mesma premissa que a fiscalização, ou seja, através de amostragem, não há prova da simulação perpetrada pelas pessoas jurídicas que prestavam serviço à recorrente, e portanto, com isso a autuação é improcedente, posto que de acordo com art. 2º da CLT: "Art. 2º Considerase empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da atividade econômica, Fl. 2298DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.299 31 admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço." Grifei 25 Ora, se considera empregador aquele que "assalaria" ou remunera de alguma forma o trabalho pessoal da pessoa física. Contudo, no caso, sem a prova robusta de que as pessoas jurídicas que prestavam serviço à recorrente foram utilizadas como meros "anteparos" ou "pessoa interposta" para tentar "mascarar a relação de emprego", e pelo fato desses profissionais que de acordo com a fiscalização "os médicos não poderiam ser pessoas jurídicas já que não eram sócios da pessoa jurídica emitente da nota fiscal. Nem eram terceirizados, já que também não eram empregados dessa pessoa jurídica emitente da nota fiscal." o fato de serem remunerados pelas pessoas jurídicas prestadoras de serviço já afastaria qualquer tipo de responsabilidade da recorrente. 26 No caso, não sabemos sequer a relação desses prestadores para com as prestadoras de serviço, no máximo, o que podemos considerar sem qualquer sombra de dúvida é uma relação de prestação de serviço autônoma, e mesmo assim para com essas prestadoras que remuneravam esses médicos, não podendo se afirmar qualquer tipo de vínculo tal como foi alegado de forma categórica pela fiscalização sem qualquer fundamento jurídico, verbis: "Em trabalho de campo no Hospital Santa Marta, realizado em 02/02/2015, feito por amostragem, foi constatada a prestação de serviço in loco da médica Weridyana Batista de Oliveira, CPF: 694.774.50120, CRM:17616, com a coleta de sua assinatura. Esclareça que o Hospital Santa Marta informou que ela teria prestado serviços médicos em 2012 intermediada por empresas; contudo, em análise aos cadastros da RFB, ela não possuía nenhuma vinculação com tais empresas (não era sócia nem empregada). Bem como, o fato de continuar prestando serviços em 2015 é caracterizador do vinculo empregatício." 27 A constatação acima mencionada pela autoridade fiscal com o consequente efeito jurídico não é crível, não há elementos de causa e efeito que por si só geram a relação de emprego, o simples fato da pessoa ter trabalhado para uma outra em época anterior sem qualquer tipo de contrato formal (CLT ou autonômo) e o fato de ainda continuar trabalhando nos mesmos moldes, em nada prova e configura o vínculo de emprego ou a denominação de empregado do art. 3º da CLT. 28 Outrossim, outros fatos narrados a seguir em nada faz crer por si só que existe a configuração do vínculo de emprego: Fl. 2299DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.300 32 Assim como o serviço prestado é parte integrante da cadeia produtiva do hospital; ou seja, inserese no objeto do empreendimento hospitalar. Omissis Havia subordinação às diretrizes traçadas pelo hospital: os pacientes eram todos do hospital (Receita Operacional de R$ 116.598.607,32), que assumia os riscos do trabalho executado pelo médico, a chamada alteridade, como ocorrido no Processo: 2003.01.1.0308045 do TJDFT). Outrossim, só o fato de haver obrigatoriedade de o profissional médico comparecer ao hospital para prestar o seu serviço, não podendo realizálo em outro local, por si só, já caracteriza a subordinação jurídica. Grifei 29 A respeito desse assunto acima indicado (subordinação) adoto como razões de decidir parte do voto do I. Conselheiro Cleberson Alex Friess no Ac. 2401004.413 em caso similar temos, verbis: 33.1 A par da participação integrativa do trabalhador na atividade da empresa, é necessária a demonstração adicional da existência de poder diretivo e disciplinar do empregador, afastando de vez a autonomia da atividade do trabalhador, ainda que tais requisitos não se configurem sob a forma clássica de ordens diretas voltadas à prestação de serviço. 34. Com o devido respeito aos que pensam diferente, o fato de o médico prestar serviços diretamente ligados à atividade fim do hospital, por si só, não leva ao reconhecimento do vínculo de emprego, até porque, nessa área médica, não é incomum a relação ocorrer de uma forma autônoma. 35. Passandose mais especificamente à análise dos fatos e motivos que amparam a acusação fiscal, verifico que o Regimento Interno do Corpo Clínico do Hospital Ministro Costa Cavalcanti não estabelece uma relação vertical e hierárquica entre diretor clínico e profissional médico, mas sim, como destaca a recorrente, uma aproximação horizontal, de caráter técnico, assegurada a autonomia e a ética no exercício da medicina (fls. 8.858/8.877). 36. É frágil a proposta de descaracterizar a autonomia que usufruem os profissionais médicos pelo fato de fazerem parte do corpo clínico do hospital, submetendose às normas administrativas estabelecidas no regimento. 36.1 O respeito dos horários de consultas e exames agendados, assim como o cumprimento das normas administrativas emanadas pela entidade hospitalar, não são de molde a caracterizar a subordinação. Longe disto, porquanto o respeito às normas de organização interna básica é algo imprescindível Fl. 2300DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.301 33 ao funcionamento de qualquer instituição que presta serviços de saúde. 37. Por sua vez, não localizei nos autos elementos contundentes que revelem a falta de definição da agenda pelo próprio médico, de modo a lhe faltar independência para estabelecer a sua jornada diária e eventuais ausências, tendo que comparecer necessariamente ao hospital, mesmo que concedido ao profissional alguma flexibilidade nos seus horários. 38. No caso da escala de plantões, embora obrigação identificada em diversos contratos, por haver necessidade da presença de médicos "in loco" no período de 24 (vinte e quatro) horas, não há provas que deixava de levar em conta a disponibilidade de horários de cada médico, com interferência da instituição além de uma finalidade de acompanhamento e coordenação da atividade. 38.1 Aparentemente, eventuais substituições dos plantonistas eram permitidas, mediante troca de horários de plantões entre os colegas da respectiva sociedade contratada, inexistindo uma obrigação de um determinado médico comparecer ao hospital, sob pena de punição, proibindolhe assim de mandar outro profissional no seu lugar, sem autorização prévia do contratante. 39. Em uma visão geral, os contratos de prestação de serviços e os respectivos valores das notas fiscais emitidas indicam o faturamento pelas pessoas jurídicas de valores constantemente alterados ao longo dos meses, conforme fls. 8.303/8.422, evidenciando o repasse a título de honorários médicos ao contratado, oriundos da produtividade variável aferida no atendimento a pacientes particulares e conveniados, e não o pagamento de salários. 40. Segundo a fiscalização, a disponibilização do espaço físico, da estrutura de recepção e marcação de consultas, entre outros aspectos, às pessoas jurídicas contratadas, sem custos adicionais, acabaria afastando os riscos econômicos decorrentes da criação das sociedades médicas contratadas, demonstrando que constituía o objeto pactuado, indubitavelmente, a própria atividade do profissional de saúde. 40.1 Tal raciocínio, porém, deve ser avaliado no contexto da natureza dos serviços prestados, em que a dispensabilidade da interposição da pessoa jurídica na relação contratual é evidente, dadas as características dos serviços médicos contratados, os quais serão desempenhados necessariamente por uma pessoa física que fornece a sua força de trabalho, ainda que vinculada a uma pessoa jurídica. 40.2 De todo modo, mesmo constatada que a participação da pessoa jurídica tem caráter meramente formal, apenas restará configurado o vínculo empregatício se comprovada a subordinação jurídica na relação mantida entre tomador do serviço e sócio da sociedade médica. Fl. 2301DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.302 34 41. Ante as especificidades próprias da profissão de médico, em que não há impedimento legal, segundo entendo, para a contratação de pessoa jurídica ou mesmo de autônomos (contribuintes individuais) na atividade fim de hospitais, caberia a fiscalização, por exemplo, aprofundar a investigação junto aos prestadores de serviço, preferencialmente avaliando de maneira individual a situação do profissional. 41.1 Tal procedimento poderia auxiliar na demonstração pormenorizada do vínculo empregatício existente, inclusive quanto à eventual imposição pelo hospital aos médicos da forma jurídica para a sua contratação. 42. Embora possível, a generalização da existência de subordinação nas dezenas de contratações de pessoas jurídicas exige bastante cautela e, principalmente, um conjunto probatório robusto e convincente da realidade fática comum. 42.1 É imprescindível a fiscalização convencer o julgador que os serviços não eram prestados de forma autônoma para a entidade hospital, havendo significativa limitação de comando e controle sobre as atividades profissionais exercidas, caracterizando, desse modo, trabalho subordinado. 43. Em vista de exposto, em que pese o esforço despendido pela autoridade fiscal para demonstrar os pressupostos da relação de emprego, não logrou êxito em comprovar o requisito subordinação, em linguagem de prova convincente, o que dispensa a análise da presença dos demais requisitos cumulativos ensejadores do vínculo empregatício noticiados pela acusação fiscal e refutados pela fiscalizada no recurso voluntário." 30 A pessoalidade, não eventualidade e onerosidade são requisitos que podem estar presentes em outras relações de trabalho, como na atividade autônoma. É, contudo, o requisito da subordinação que tem papel relevante e fundamental para delimitar se o trabalhador detém a condição de empregado ou não. 31 Via de regra, não se presume a subordinação do médico. É nesse ponto, em especial, que reside as dificuldades da área de fiscalização previdenciária, porque o reconhecimento do vínculo empregatício entre hospital e o profissional de saúde exige prova cabal dessa subordinação, ou pelo menos indícios sérios, convergentes e contundentes da submissão da atividade que desempenha ao poder de direção do tomador, implicando clara limitação da autonomia do médico. 32 Portanto não há elementos de prova robustos, sendo que até mesmo a alegação de nota fiscal indicando salário e férias e 13º salário, após a análise por esse relator por amostragem nas milhares de notas fiscais, juntadas no eprocesso em arquivos não Fl. 2302DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.303 35 pagináveis, consideradas como um dos elementos de prova pela fiscalização, não verifiquei outras notas com o mesmo teor, (a grande maioria consta serviços médicos prestados) sendo que ao que parece a fiscalização utilizou apenas de uma nota com esse teor para comprovar a existência de vínculo de emprego. 33 Em relação à prova em caso similar julgado recentemente por essa Turma de relatoria do Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira no excerto antes indicado verbis: "Não há uma única prova das alegações fiscais. Há, sim, anexos que relacionam o nome de médicos que prestaram serviços ao hospital (fls. 92/132), anexo com nomes de médicos que não eram sócios das empresas declaradas em DIRF (fls. 133/169), anexo de com nomes de profissionais que constavam dos prontuários do hospital e eram sócios da empresas prestadoras (fls. 170/174), Anexo com o quadro societário das pessoas jurídicas prestadoras de serviço (fls. 210/226), inúmeros contratos de prestação de serviços anexados ao Relatório Fiscal (fls 495/565) e várias notas fiscais da empresas prestadoras (fls. 566/582). Nada mais! Nenhuma prova das alegações fiscais. Nenhuma comprovação nem por amostragem de que uma pessoa física, aquele ser individualmente considerado, prestou serviço pessoal para o tomador, por intermédio de pessoa jurídica. Nenhuma comprovação, mesmo que indiciária, de que fulano de tal estava subordinado, hierarquicamente ou por meio de inserção no modelo organizacional do tomador de seus serviços. Ora, mera análise de contrato, embasada em percepção da autoridade fiscal, fundada em frase de efeito e imputações de vícios de consentimento e de ilicitudes várias, não tem o condão de comprovação da fraude, ou simulação previstas no artigo 9º da CLT que ensejam a aplicação das normas trabalhistas ao caso concreto. Não há subordinação que seja ínsita a um tomador de serviços que, por previsão contratual, determine o local da prestação de serviços! Ofende o primado da lógica, querer crer que algum contratante de serviços a serem prestados, alguém que contrate outrem para um facere, para uma obrigação de fazer, não defina o local aonde o serviço será prestado, ou preveja, contratualmente, a eventual alteração de tal local. Fl. 2303DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.304 36 Não se pode por ser um argumento pueril dizer que por existir na avença a possibilidade do contratante mudar o local do atendimento médico a ser prestado pelo contratado (mudar o consultório do médico que paga pelo aluguel do mesmo), demonstra a vinculação do prestador às regras do tomador, que reproduzimos abaixo com o perdão da repetição (fls 56, in fine): Trechos que deixam clara a permissão de ocupação de área física, para permitir que o médico atue dentro do ambiente do Hospital, sob o seu controle e subordinação: “CLÁUSULA PRIMEIRA – DO OBJETO O presente contrato tem por objetivo a ocupação de área física no Ambulatório do HOSPITAL CONTRATANTE, adequada ao exercício das atividades profissionais da CONTRATADA e restrita a atendimento ambulatorial para o exercício das atividades profissionais da CONTRATADA, relativa à sua especialidade de Ginecologia, mediante o pagamento mensal de uma taxa de ocupação.” Ora, se há pagamento pela utilização do espaço do hospital, resta de maneira cabal, afastada a alegada subordinação e controle. Não se pode emprestar presunção de veracidade a alegações que pretendem imputar relação de emprego com base em um contrato que prevê pagamento por ocupação de um espaço físico no pretenso empregador. Nunca soube de empregado que pagasse aluguel por sua mesa ou espaço de trabalho para seu empregador. Não há, como dito, nenhuma comprovação das alegações fiscais. Não se prova pessoalidade pelo simples motivo de que não há nenhuma identificação concreta de que fulano, beltrano ou sicrano, prestavam serviços 'intuito personae' ao Recorrente. Não se comprova tal argumento com a seguinte afirmação (fls. 72) " (...) a pessoalidade é patente, pois faz se necessário a interveniência de profissionais de saúde de quem são exigidos requisitos funcionais, como: registro no CRM, formação e especialização, que permitem que o profissional e somente ele possa executar os procedimentos nos pacientes da REDE DOR – HSL " Ora, qualquer um dos milhares de médicos registrados no CRM são, potencialmente habilitados a prestar serviços médicos, tendo registro, formação e especialização, afastando de forma patente para se usar a expressão da autoridade fiscal a pessoalidade exigida para a caracterização do empregado. Diante de todo o exposto, e ressaltando a necessidade da comprovação da relação de emprego para a desconsideração da relação entre as pessoas jurídicas prestadoras e a tomadora dos serviços, forçoso reconhecer a procedência das alegações recursais, em razão da comprovação dos fatos impeditivos do direito do Fisco ao crédito tributário lançado." Fl. 2304DF CARF MF Processo nº 10166.721734/201662 Acórdão n.º 2201004.587 S2C2T1 Fl. 2.305 37 34 Deixo de me manifestar em relação às preliminares indicadas no recurso em vista do seu provimento quanto ao mérito aplicando o princípio da primazia da resolução de mérito de acordo com § 2º do art. 282 do CPC de 2015 e art. 59 § 3º do Decretolei 70.235/72 que se pode afirmar que, "quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta". 35 Pelo exposto nesse tópico dou provimento ao recurso e por consequência afasto, deixo de analisar as razões recursais no tocante a qualificadora da multa e ao descumprimento de obrigações acessórias, sendo que tais fundamentos são aplicados também quanto ao lançamento indicado no item quanto a IIIIII – CONTRATAÇÃO DOS DIRETORES como Pessoas Jurídicas – Pejotização CONTA CONTÁBIL: 3313010010 SERVIÇOS DE CONSULTORIA /PLANEJAMENTO. 36 Quanto aos recursos dos sujeitos passivos por solidariedade, em vista do provimento do recurso principal, dou provimento aos mesmos afastando a solidariedade passiva dos mesmos. Conclusão 37 Diante do exposto, com fundamento na legislação competente e nas disposições acima mencionadas, voto por CONHECER e DAR PROVIMENTO RECURSO VOLUNTÁRIO do sujeito passivo principal e DOU PROVIMENTO ao recurso dos sujeitos passivos por solidariedade. assinado digitalmente Marcelo Milton da Silva Risso Fl. 2305DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10783.723672/2011-41
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005
RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO.
Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda.
RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO.
Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
Numero da decisão: 2402-006.356
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior.
Nome do relator: MARIO PEREIRA DE PINHO FILHO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindo-se valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior.
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ME ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2005 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA INFERIOR AO ESTABELECIDO EM PORTARIA DO MINISTRO DA FAZENDA. NÃO CONHECIMENTO. Não se conhece de recurso de ofício cujo crédito exonerado, incluindose valor principal e de multa, é inferior ao estabelecido em ato editado pelo Ministro da Fazenda. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. VIGÊNCIA. DATA DE APRECIAÇÃO. Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do recurso de ofício. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Mario Pereira de Pinho Filho, Maurício Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silva, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Júnior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 78 3. 72 36 72 /2 01 1- 41 Fl. 1490DF CARF MF Processo nº 10783.723672/201141 Acórdão n.º 2402006.356 S2C4T2 Fl. 3 2 Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma deste julgamento. Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária "Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997, tendo em vista que o crédito exonerado, principal e encargos de multa, relativos a contribuições previdenciárias de custeio, beneficio, terceiros e sanções pecuniárias, superava a época o valor de alçada estipulado no art. 1º da Portaria MF nº 03, de 03 de janeiro de 2008. O valor objeto de exoneração é inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais), vindo a julgamento apenas o Recurso de Oficio. É o relatório." Voto Conselheiro Mário Pereira de Pinho Filho Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018, proferido no âmbito do processo n° 19515.722966/201271, paradigma ao qual o presente processo encontrase vinculado. Transcrevese, a seguir, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o inteiro teor do voto condutor proferido pelo Conselheiro Jamed Abdul Nasser Feitoza, digno relator da susodita decisão paradigma, reprisese, Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 03 de julho de 2018: Acórdão nº 2402006.333 4ª Câmara/2ª Turma Ordinária “Antes de adentrar a análise do caso concreto, importa observar que o presente julgamento terá efeitos sobre lote repetitivo, eis que o caso em foco foi eleito como paradigma e terá seu resultado aplicado ao lote a que esta relacionado, nos termos do art. 47 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015 – RICARF. Fl. 1491DF CARF MF Processo nº 10783.723672/201141 Acórdão n.º 2402006.356 S2C4T2 Fl. 4 3 Admissibilidade. Tratase de Recurso de Oficio manejado, por força de reexame necessário, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, tendo em vista que, à época em que foi proferida a decisão de primeira instância administrativa, o crédito exonerado superava o valor de alçada estipulado estabelecido em ato próprio. De acordo com o I do art. 34 do Decreto nº 70.235/1972: Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997)(Produção de efeito) II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. § 1º O recurso será interposto mediante declaração na própria decisão. § 2° Não sendo interposto o recurso, o servidor que verificar o fato representará à autoridade julgadora, por intermédio de seu chefe imediato, no sentido de que seja observada aquela formalidade. (Grifouse) O colegiado a quo proferiu decisão em que julgou parcialmente procedente a impugnação, exonerando créditos relativos ao principal e encargos de multas em valor inferior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil de reais) Cabe ao colegiado julgar a admissibilidade do Recurso de Oficio e, constatandose que o crédito exonerado é inferior àquele que levaria o caso a um reexame necessário na atualidade, não conhecer de referido recurso. O limite referido está posto na Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, in verbis: Art. 1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de ofício sempre que a decisão exonerar sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 2.500.000,00 (dois milhões e quinhentos mil reais). § 1º O valor da exoneração deverá ser verificado por processo. Fl. 1492DF CARF MF Processo nº 10783.723672/201141 Acórdão n.º 2402006.356 S2C4T2 Fl. 5 4 § 2º Aplicase o disposto no caput quando a decisão excluir sujeito passivo da lide, ainda que mantida a totalidade da exigência do crédito tributário. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Ainda que à época do julgamento de primeira instância tal valor permitisse a interposição do Recurso de Oficio ora julgado, ao caso deve ser aplicado o limite de dispensa atualmente vigente, conforme entendimento consolidado neste Conselho, nos termos da Súmula CARF 103: Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Conclusão Ante ao exposto voto por não conhecer do Recurso de Oficio em razão de o crédito exonerado ser inferior ao limite estabelecido no art. 1º a Portaria MF nº 63, de 9 de fevereiro de 2017, aplicável ao caso conforme Súmula CARF 103. (assinado digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza” Conclusão Nesse contexto, pelas razões de fato e de Direito ora expendidas, voto por NÃO CONHECER do Recurso de Ofício (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Fl. 1493DF CARF MF
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Numero do processo: 10950.725646/2015-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 22/07/2013, 12/12/2013, 16/12/2013, 24/02/2014, 04/04/2014, 14/05/2014, 21/07/2014, 21/08/2014, 22/09/2014, 08/10/2014, 24/10/2014, 27/11/2014, 20/01/2014, 06/02/2015, 19/02/2015
DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA NÃO LOCALIZADA. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA.
A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presume-se por conta e ordem deste. Considera-se dano ao Erário a ocultação do real responsável pela operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é substituída por multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas.
Numero da decisão: 3301-005.009
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente).
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 22/07/2013, 12/12/2013, 16/12/2013, 24/02/2014, 04/04/2014, 14/05/2014, 21/07/2014, 21/08/2014, 22/09/2014, 08/10/2014, 24/10/2014, 27/11/2014, 20/01/2014, 06/02/2015, 19/02/2015 DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA NÃO LOCALIZADA. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste. Considerase dano ao Erário a ocultação do real responsável pela operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é substituída por multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Salvador Candido Brandão Junior, Ari Vendramini, Semiramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Winderley Morais Pereira (Presidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 95 0. 72 56 46 /2 01 5- 11 Fl. 1132DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.133 2 Relatório Adoto o relatório da decisão de primeira instância: "Trata o presente processo de auto de infração lavrado para constituição de crédito tributário no valor de R$ 706.169,95 referente a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, em substituição à pena de perdimento, pela impossibilidade de sua apreensão. Depreendese da “Descrição dos fatos e enquadramento legal” do auto de infração (fls. 807 a 811) e do “Relatório de Procedimento Especial” (fls. 711 a 803), que a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. registrou diversas operações de importação (listadas às folhas 806) indicando ser o importador e real adquirente das respectivas mercadorias declaradas. Relata a autoridade fiscal que a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. foi submetida a procedimento especial de fiscalização (previsto nas Instruções Normativas SRF n° 680/06 e RFB n° 1.169/11) em razão de ter sido constatado, por ocasião dos despachos das declarações de importação n° 15/05051233 e 15/09070518, em conferência física, que as caixas de papelão utilizadas para o transporte internacional das mercadorias bem como suas embalagens e manuais continham a identificação de uma terceira pessoa jurídica: G. M. T. INDUSTRIA E COMERCIO DE COLCHOES LTDA – EPP (CNPJ 00.118.220/000114 – marca “physical”). Registra a fiscalização com base em tabela onde apresenta, para cada declaração de importação, as datas de desembaraço e de emissão das notas fiscais de entrada e saída – que (fl. 732): ..., obtevese prova material que de fato muitas mercadorias importadas pela fiscalizada sequer chegam a transitar fisicamente pelas suas dependências comerciais (estoques), pois nas mesmas datas em que são desembaraçadas, já são emitidas as notas fiscais de entrada e de saída, com as mesmas sendo remetidas diretamente para os clientes encomendantes (reais adquirentes). Analisando os registros contábeis restou identificado pela autoridade que nas datas em que são emitidas as notas fiscais de saída das mercadorias importadas em nome da fiscalizada, são escriturados os respectivos valores como se tivessem sido recebidos à vista, em dinheiro e no caixa da empresa, através de lançamentos a débito na conta Caixa, tendo como contrapartida, lançamentos a crédito na conta Vendas Mercado Interno. Prosseguindo em sua análise, as folhas 734 a 767, para cada uma das operações de venda, a fiscalização indica a correspondente operação de importação, data em que ocorreu a contratação e liquidação dos contratos de câmbio, data em que foi registrada arespectiva declaração de importação, bem como o fluxo financeiro de recursos com vistas a suprir os gastos necessários à realização da operação. Há a indicação das datas, valores, lançamentos contábeis (quando existentes). Em cada caso é informado o documento que dá sustentação à conclusão da autoridade. O modus operandi é basicamente o mesmo nas operações de importação: o contrato de câmbio é registrado antecipadamente ao registro da declaração de importação com recursos financeiros de terceiros (alguns identificados e outros não Fl. 1133DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.134 3 – depósito em dinheiro no caixa do banco ou Transferência Eletrônica Disponível TED); embora a fiscalizada tenha apresentado a informação de que os recursos teriam origem em empréstimo realizado pelo sócio da empresa Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES, não foram apresentados documentos que atestem tal fato e, os registros contábeis, diferentemente dos comprovantes bancários e da alegação apresentada, foram realizados como se o recurso financeiro, em valor equivalente ao do fechamento do contrato de câmbio, tivesse sido repassado da conta corrente bancária para o caixa da própria empresa (suprir o caixa); em momento posterior é registrada a respectiva declaração de importação. A análise do fluxo dos recursos financeiros, relacionados aos contratos de câmbio antecipados ao registro das respectivas declarações de importação revela que houve antecipação de recursos para a concretização das operações de importação. Em sua análise a fiscalização aponta que notas fiscais de entrada e de saída, contratos de câmbio e extratos bancários comprovam que a contabilidade da fiscalizada, pelo emprego da forma relatada de escrituração dos fatos contábeis, foi distorcida de modo a não refletir a real transação de comércio exterior. Também aponta que a análise do fluxo financeiro, em alguns casos, demonstra que os adiantamentos de recursos foram realizados por pessoas ligadas ao reais adquirentes das mercadorias. Idêntica análise foi realizada pela fiscalização nas operações de importação cujas mercadorias não foram formalmente comercializadas pela autuada, isto é, mercadorias que não foram objeto de venda no mercado interno. As folhas 768 a 781, para cada uma das operações de importação, foi feita a respectiva análise. Conclui que restou constatado que a empresa não registra as operações quando efetivamente ocorrem, que os contratos de câmbio são registrados antecipadamente ao registro das declarações de importação com recursos financeiros de terceiros (alguns identificados e outros não – depósito em dinheiro no caixa do banco ou Transferência Eletrônica Disponível – TED) ou mediante Contrato Particular de Abertura de Crédito Para Financiamento de Importação – FINIMP firmado junto ao Banco Bradesco (cuja análise do extrato bancário apresentado pela fiscalizada não revelou os lançamentos correlacionados). Face à precariedade dos registros contábeis, a conclusão fiscal é que a maior parte da contabilidade da empresa foi construída visando simular operações que não condizem com a realidade dos fatos. Intimada a apresentar documentos hábeis e idôneos a comprovar a origem dos depósitos em dinheiro que deram sustentação à origem de tais recursos, a autuada se limitou a informar apenas que os recursos lançados a crédito na conta corrente bancária foram efetuados pelo sócio da empresa Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES. Contudo, não obstante a falta de provas a comprovar os alegados depósitos realizados pelo sócio da empresa, a fiscalização apresenta as folhas 786 a 792 informações relacionadas aos rendimentos declarados pelo Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES, bem como a movimentação financeira que teria sido realizada por este no mesmo período. Chama a atenção para o fato de que no ano de 2014, ano que consta o suposto empréstimo de R$ 676.000,00, a movimentação financeira de somente R$ 368.358,76. De outro lado, não foi possível identificar venda de patrimônio apto a permitir tal renda para fazer frente ao alegado empréstimo (cujo extrato bancário indica ter origem na Empresa G. M. T. INDUSTRIA E COMERCIO DE COLCHOES LTDA – EPP). Fl. 1134DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.135 4 Assim, embora em algumas operações de importação tenha sido possível constatar a origem dos recursos junta a terceiros identificados nos documentos bancários, em outras não foi possível identificar objetivamente os fornecedores dos recursos, restando não comprovada (neste caso) a origem dos recursos utilizados nas operações de importação, sendo plenamente aplicável a presunção legal prevista no § 2º do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76. Conclui a fiscalização que a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. de fato operou “por conta e ordem” de terceiros ocultos das relações obrigacionais tributárias. Deixou, portanto, de atender o disposto na Instrução Normativa SRF nº 225/02 e na Instrução Normativa SRF n° 247/02. Em razão dos fatos anteriormente citados a fiscalização considerou então ocorrida a infração tipificada no artigo 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455/76, porém em razão da entrega a consumo das mercadorias (impossibilidade de apreensão), foi aplicada a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias em substituição à aplicação da pena de perdimento, conforme estabelecido no § 3º do mesmo dispositivo legal. Cientificada, a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. apresentou impugnação de folhas 815 a 909, anexando os documentos de folhas 910 a 935. Em síntese apresenta os seguintes argumentos: Que, apesar da dissertação acerca da legislação aplicável ao processo de importação, não foi apresentada a necessária subsunção ao caso concreto, passível de demonstrar a incidência de tais normas à penalidade aplicada no auto de infração; Que, há nulidade do auto de infração por desvio de finalidade e motivação. Há afronta ao princípio administrativo da verdade material, devem ser observados os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, da boafé (subjetiva e objetiva), do in dubio pro reo, ; Que, foi comprovada a estrutura, capacidade financeira e capacidade operacional da impugnante. Estão rigorosamente cumpridas as formalidades previstas nos dispositivos legais indicados pela fiscalização. Foram identificados os sócios, as pessoas responsáveis pelas negociações e comprovada a origem dos recursos (esclarecimentos da empresa e extratos de movimentação de conta corrente); Que, em observância aos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa, impera destacar que, por não ter o impugnante acesso prévio ao início do procedimento fiscal, restou caracterizada ofensa a tais princípios; Que, foram apresentados todos os fechamentos de câmbio solicitados (impugnante remetente), com a devida identificação da instituição financeira encarregada pelas remessas de recursos. Em nenhum momento foi cogitado que os recursos empregados são provenientes de origem ilícita; Que, os lançamentos a crédito na conta corrente foram efetuados pelo sócio da empresa Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES, ao qual se contabilizou como empréstimo da pessoa física para a empresa, que foi devidamente liquidado no decorrer do exercício fiscal. Os pagamentos adiantados foram realizados diretamente pelo sócio proprietário da autuada. A própria Declaração de Imposto de Renda comprova que o mesmo possuía capacidade financeira suficiente para tais empréstimos; Fl. 1135DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.136 5 Que, foram apresentadas declarações do exportador sobre os processos de negociações realizadas, referentes, às respectivas declarações de importação. Não houve fraude, simulação, ocultação ou interposição fraudulenta de terceiros; Que, não é verdade que as emissões de notas fiscais de entrada e saída ocorreram na mesma data em que foram desembaraçadas; Que, ainda que a fiscalização se baseie em um modelo antigo onde se compra para depois se vender e não reflete a atualidade comercial, pois são empresas que trabalham com estoques de produtos de valor alto e, para venda, é feita a busca do fornecedor para suprir a demanda comercial; Que, mesmo que se tratasse de importação por encomenda (o que não é o caso), não haveria proibição (Lei n° 11.281/06). É ilegal o entendimento no sentido que a compra e posterior venda para cliente que já possui vínculo negocial de compra e venda de mercadorias representa conta e ordem de terceiros; Que, para configuração do dano exigese a presença incontestável de fraude e simulação (que não se presumem, mas devem ser provadas por quem alega); Que, em nenhum momento foi relatada qualquer acusação de sonegação de impostos, subfaturamento, concorrência desleal ou qualquer outra infringência. Não houve dano ao Erário; Que, o fechamento adiantado do câmbio se deve em razão de exigências do fornecedor estrangeiro, sendo tal fato registrado nas declarações de importação. Os empréstimos do sócio e transferência bancária efetuada por outro cliente não caracteriza qualquer ato ilegal; Que, em relação à contabilização das operações de importação, realmente é de se analisar e ajustar eventuais equívocos na escrituração; Que, requer a concessão de prazo para que sejam disponibilizados pela instituição financeira os contratos bancários; Que, a penalidade é excessiva, tem caráter confiscatório. Há ofensa à capacidade contributiva da empresa autuada; Que, o caso é de aplicação dos artigos 111 e 112 do CTN; Requer seja acolhida a impugnação, preliminarmente declarado nula a autuação e, no mérito, a sua insubsistência e improcedência. Em 22/02/2016, foi lavrado o Termo de Ciência (fl. 937) para notificar o contribuinte da alteração no número do auto de infração. Cientificado da modificação (fl. 940), não houve aditamento à peça inicial de defesa. Em 18/08/2016 foi lavrado o Termo de Apensação (fl. 946) relacionado ao processo administrativo com a Representação Fiscal para Fins Penais. É o relatório." A DRJ em Florinópolis (SC) julgou a impugnação improcedente e o Acórdão n° 0739.277, de 22 de fevereiro de 2017, foi assim ementado: "Assunto: Obrigações Acessórias Fl. 1136DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.137 6 Data do fato gerador: 22/07/2013, 12/12/2013, 16/12/2013, 24/02/2014, 04/04/2014, 14/05/2014, 21/07/2014, 21/08/2014, 22/09/2014, 08/10/2014, 24/10/2014, 27/11/2014, 20/01/2014, 06/02/2015, 19/02/2015 DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA NÃO LOCALIZADA. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO DA MERCADORIA. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste. Considerase dano ao Erário a ocultação do real responsável pela operação de importação, infração punível com a pena de perdimento, que é substituída por multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido" Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário, em que, basicamente, repetiu os argumentos contidos na impugnação, cujos títulos dos tópicos, foram os seguintes: 3. PRELIMINARMENTE. 3.1. DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR DESVIO DE FINALIDADE E MOTIVAÇÃO." 3.2. DA NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR FALTA DE ATENÇÃO AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS: a) Princípio da Capacidade Contributiva, b) Princípio do Não Confisco, c) Princípio da Razoabilidade, d) Princípio da Proporcionalidade, entre outros. 4. DO MÉRITO. FUNDAMENTOS JURÍDICOS. 4.1. DA ALEGADA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. ÔNUS DA PROVA E AUSÊNCIA DE PREJUÍZO AO ERÁRIO: a fiscalização desconsiderou a comprovação apresentada. 4.2. DO DETALHAMENTO DAS OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO: as conclusões da fiscalização acerca das operações de importação, notas fiscais de entrada e saída e movimentações financeiras e respectivos registros contábeis estão equivocadas. Por exigência do fornecedor estrangeiro, com o qual não tinha vínculo societário, realizava adiantamentos, que não foram omitidos da fiscalização, pois figuraram nas DI. Recolheu todos os tributos. E os valores desconsiderados como prova de capacidade financeira eram, de fato, empréstimos realizados pelo sócio Evandro Ferreira Tavares ou adiantamentos de clientes, operações lícitas. Por fim, consigna que agiu de boafé. 4.3. DA MULTA APLICADA. PENALIDADE EXCESSIVA. CARÁTER CONFISCATÓRIO: não restou comprovada qualquer conduta dolosa e tampouco houve dano ao erário, que pudesse ser punido com a multa aplicada. Ofende o princípio da capacidade contributiva., caracterizando flagrante confisco. Fl. 1137DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.138 7 4.4. DA OFENSA À CAPACIDADE CONTRIBUTIVA DA EMPRESA AUTUADA. 5. DO PRINCÍPIO DA FINALIDADE: uma vez que foram cumpridas todas as formalidades legais, não deve subsistir a acusação, por ausência de finalidade. 6. DA APLICABILIDADE DO ART. 112 DO CTN: por todos os fatos e fundamentos apresentados no recurso, a defesa deve ser integralmente acatada. Não obstante, caso restem dúvidas, deve ser conferida a interpretação mais favorável ao contribuinte, à luz do art. 112 do CTN. 7. DAS OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO QUE TIVERAM AS COMPROVAÇÕES CONSIDERADAS PELA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. CANCELAMENTO DA MULTA.: requer que sejam canceladas as multas aplicadas sobre as operações que foram consideradas como comprovadas pela fiscalização e DRJ. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Marcelo Costa Marques d'Oliveira O recurso voluntário preenche os requisitos de admissibilidade e deve ser conhecido. A contenda foi descrita no relatório e os argumentos de defesa devidamente enfrentados pela DRJ, que julgou a impugnação improcedente. Por concordar plenamente com seu conteúdo, faço do voto condutor do Acórdão DRJ n° 0739.277, de 22 de fevereiro de 2017, minha razão de decidir, com fulcro no § 1° do art. 50 da Lei n° 9.784/99: "Voto Preenchidos os requisitos formais de admissibilidade do processo e conhecimento da impugnação procedese ao julgamento. A impugnante alega ofensa aos princípios do contraditório e da ampla defesa por não ter acesso prévio ao início do procedimento fiscal. A autoridade anexou aos autos e cita expressamente em seu “Relatório de Procedimento Especial” que em distintos momentos intimou a interessada a apresentar documentos e esclarecimentos, especialmente quanto à origem dos recursos empregados nas operações de importação (fls. 33 a 36, 511 a 513 e, 522 a 523). Portanto, foi ofertada à interessada a oportunidade de apresentar os documentos e esclarecimentos necessários a comprovar, durante o procedimento fiscal, a origem dos recursos empregados nas operações de importação. Ademais, nos termos do artigo 142 da Lei n° 5.172/66 (Código Tributário Nacional – CTN), a atividade relacionada a constituição do crédito tributário, isto é, o procedimento relacionado à fiscalização é atribuído exclusivamente à autoridade administrativa: Fl. 1138DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.139 8 Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. (Grifos acrescidos) Evidentemente, nos casos em que necessário, a autoridade poderá intimar o sujeito passivo (como o fez no caso dos autos) para que este apresente documentos ou esclarecimentos, nos termos previstos pela legislação de regência, mas notese que nestes casos o interesse tem por origem a fiscalização e não o interesse do sujeito passivo. Por outro lado, independentemente de decidir por levar adiante a constituição do crédito tributário sem a participação direta do sujeito passivo ou com a participação deste (esclarecimentos e documentos), a fiscalização sempre estará vinculada ao disposto no artigo 9º do Decreto n° 70.235/72, que determina a formalização da exigência com juntada dos respectivos termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito: Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. ...(Grifos acrescidos) Tal exigência tem por objeto resguardar que a interessada conheça além dos fundamentos, as provas que dão ensejo à exigência imposta, podendo assim ter pleno conhecimento dos fatos jurídicos, permitindo então que seja exercido o direito de ampla defesa e, caso deseje, seja apresentado contraditório. Por fim, o momento para se discordar das provas colhidas e do entendimento firmado no transcurso do procedimento de revisão e respectiva autuação se dá na apresentação da impugnação, contestando a exigência efetuada de ofício, quando então a legislação processual oportuniza ao fiscalizado (sujeito passivo) o contraditório e a ampla defesa, a teor do que dispõe no artigo 16 do Decreto nº 70.235/72: Art. 16. A impugnação mencionará: ... III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir; ... (Grifos acrescidos) No mais, se observa com a mais nítida clareza que a autuada demonstrou total conhecimento dos fatos imputados no auto de infração em trato, bem como da legislação tributária aplicável, tendo exercido sua defesa de forma ampla, não havendo porque cogitar de qualquer hipótese de nulidade por conta do alegado cerceamento do direito de defesa. Fl. 1139DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.140 9 Finalmente, quanto ao tema, cumpre esclarecer que as ações fiscais, por se tratarem de procedimentos de caráter investigativo, podem ser conduzidas unilateralmente por parte da autoridade fiscal; entretanto, os resultados desta conduta unilateral devem ficar devidamente consubstanciados por provas nos termos do direito , sob pena de, em assim não sendo, restar comprometida a possibilidade concreta (e assegurada pela Constituição Federal no inciso LV do art. 5º) de o sujeito passivo, na fase litigiosa do procedimento fiscal, contraditar os argumentos e meios utilizados pelo fisco para embasar a exigência. Em sua peça de defesa a interessada demonstra ter pleno conhecimento dos fundamentos que deram ensejo a lavratura da exigência, tanto que apresentou o contraditório, numa ampla defesa. Os direitos inerentes ao exercício do contraditório e ampla defesa estão resguardados no presente processo administrativo, sendo impossível estender tais direitos ao procedimento anterior de fiscalização. Somente a partir de apresentação de impugnação tempestiva ao auto de infração é que se instaura o litígio entre a Fazenda e o sujeito passivo, inexistindo cerceamento do direito de defesa quando, na fase de impugnação, foi concedida ao autuado oportunidade de apresentar documentos e esclarecimentos. A interessada alega preliminarmente a nulidade da autuação por entender que houve desvio de finalidade e motivação. Tal alegação não procede. Como se depreende do “Relatório de Procedimento Especial” a fiscalização didaticamente apresentou tanto o embasamento legal, quanto os fatos jurídicos, quanto os fundamentos que dão ensejo à aplicação da multa em questão. O caso dos autos trata da imposição de penalidade. Impossível aplicar o disposto no artigo 111 da Lei nº 5.172/66 (Código Tributário Nacional – CTN), o caso não é de suspensão ou exclusão do crédito tributário, outorga de isenção ou de dispensa do cumprimento de obrigações tributárias acessórias. A autuação não foi lastreada na ausência de estrutura, capacidade financeira ou capacidade operacional da impugnante, também não foi lastreada em irregularidades relacionadas ao capital social e correspondente subscrição. A fiscalização deixa evidente que a autuação está lastreada no fato de a interessada ter recebido recursos de terceiros em momento anterior ao registro das declarações de importação e, ainda, não ter comprovado a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação. Vale dizer, a fiscalização demonstrou que os recursos empregados não tiveram origem na própria empresa, mas sim junto a terceiros. Portanto, em que pese a interessada alegar possuir capacidade financeira para realizar as operações de importação, o que restou demonstrado no caso concreto, é que as operações de importação só puderam ser concretizadas em virtude da interferência financeira de terceiros. Terceiros estes que não foram apresentados à fiscalização por ocasião do registro das respectivas declarações de importação. A fiscalização pontua detalhadamente a existência de adiantamentos de recursos por parte de terceiros com vistas a viabilizar a aquisição das mercadorias objeto de importação (fechamento dos contratos de câmbio). A autuação está fundamentada na constatação de que os recursos financeiros foram disponibilizados por terceiros, que permaneceram ocultos perante a autoridade aduaneira, caracterizando a prática de simulação nos registros das declarações de importação. O fato de a interessada discordar da conclusão da autoridade fiscal ou de interpretar as normas de maneira diversa não implica em concluir que a autuação é Fl. 1140DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.141 10 desprovida de finalidade e motivação, portanto, não se acatam as alegações ofertadas neste sentido. Impossível aplicar ao caso os princípios da razoabilidade ou proporcionalidade, a conduta em questão está perfeitamente tipificada na lei, e na lei também está determinado a respectiva pena, não havendo espaço para qualquer interpretação discricionária que pudesse deixar margem à aplicação de tais princípios. A autoridade fiscal é regida pelo princípio da estrita legalidade. Como se sabe, a administração pública regese pelo princípio da estrita legalidade (CF, art. 37, caput), especialmente em matéria de administração tributária, que é uma atividade administrativa plenamente vinculada (CTN, arts. 3o e 142, parágrafo único). O argumento apresentado, no sentido de que o procedimento adotado não acarretou em prejuízo ao Erário ou de que houve boafé, não pode ser acatado. Ocorre que no presente caso a responsabilidade é objetiva, independe da intenção do agente ou responsável e da efetividade,natureza e extensão dos efeitos do ato. É o que preceitua o artigo 136 da Lei n° 5.172/66 – Código Tributário Nacional (CTN): Art. 136. Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. (Grifos acrescidos) Quanto à existência ou não de dano ao Erário em razão da conduta da interessada, não obstante o disposto no caput do artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/1976 claramente determinar que a ocorrência da hipótese em apreço, por si só, caracteriza o dano ao Erário, sendo prescindível qualquer espécie de comprovação neste sentido, o próprio Decreto n° 6.759/09, artigo 689, inciso XXII, ao regulamentar a matéria definiu a ocorrência da hipótese como ato danoso ao Erário, isto é, ato que uma vez praticado, configura o dano ao Erário: Art. 689. Aplicase a pena de perdimento da mercadoria nas seguintes hipóteses, por configurarem dano ao Erário (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 105; e DecretoLei nº 1.455, de 1976, art. 23, caput e § 1º, este com a redação dada pela Lei no 10.637, de 2002, art. 59): ... XXII estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. ... (Grifos acrescidos) Portanto, é inócuo no âmbito do processo administrativo tributário em apreço discutir a existência ou magnitude do “dano ao Erário” decorrente dos fatos em questão, já que a administração não pode se desvincular do preceituado na legislação que rege a matéria. Quanto à aplicação do princípio do “in dubio pro reo” ou do disposto no artigo 112 da Lei n° 5.172/66 – Código Tributário Nacional (CTN), há que se esclarecer que o caso dos autos não é de dúvidas quanto à capitulação legal do fato, Fl. 1141DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.142 11 à natureza ou às circunstâncias materiais do fato, ou à natureza ou extensão dos seus efeitos, à autoria, imputabilidade, ou punibilidade e, à natureza da penalidade aplicável, ou à sua graduação. Vale dizer, os dispositivos invocados não podem ser aplicados, eis que ausente o pressuposto da dúvida. As provas acostadas aos autos são robustas, os dispositivos normativos são claros, os fatos jurídicos estão perfeitamente delineados. A exigência promovida por meio do auto de infração do presente processo decorre de infração considerada como dano ao Erário, capitulada no artigo 23, inciso V, do Decretolei nº 1.455/1976 (com a redação dada pela Lei nº 10.637/2002), que assim dispõe: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: ... V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. ... § 1o O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. § 2o Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3o As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) ... (Grifos acrescidos) A pena prevista para a infração antes descrita é o perdimento das mercadorias importadas conforme § 1º do mesmo artigo, porém, em razão de as mercadorias importadas não terem sido localizadas, a fiscalização lavrou auto de infração para exigência de multa equivalente ao valor aduaneiro das mesmas, como determinado no § 3º do mesmo artigo 23 do Decretolei nº 1.455/1976 (redação dada pela Lei nº 12.350/10). Por ocasião das apresentações das declarações de importação, a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. declarou ser o importador e o adquirente das mercadorias (extratos folhas 133 a 509), isto é, que as operações de importação estavam sendo realizadas por conta própria da declarante, com seus próprios recursos, afastando assim a hipótese destas operações estarem sendo realizadas “por conta e ordem de terceiros” ou “por encomenda” destes. Ocorre que os extratos bancários da interessada quando confrontados com os contratos de câmbio das respectivas declarações de importação acabaram por revelar que, diferentemente dos registros contábeis lavrados pela impugnante e das informações apostas nas declarações de importação (modalidade por conta própria), que os recursos financeiros foram antecipados por terceiros: alguns desconhecidos e outros identificados. Fl. 1142DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.143 12 A interessada aduz que os valores depositados por terceiros não identificados seriam “empréstimos” de seu sócio, o Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES. Ocorre que mesmo intimada no curso do procedimento fiscal a apresentar os comprovantes e documentos que atestassem tal fato jurídico, a interessada se limitou apenas a “declarar” tais acontecimentos. Em sua peça de defesa, mesmo a autuação tendo sido clara em estabelecer que a ausência de comprovantes implica na não comprovação dos recursos, a impugnante novamente apenas afirma a ocorrência de “empréstimo” para sustentar a origem dos recursos. Neste sentido, além da ausência de documentos que comprovem a efetiva ocorrência dos empréstimos, milita em desfavor da interessada o fato de os demonstrativos de renda e patrimônio do Sr. EVANDRO FERREIRA TAVARES não registrarem qualquer movimentação financeira ou patrimonial que dê sustentação à alegada ocorrência de empréstimo. Também os registros contábeis da autuada não fazem qualquer remissão aos alegados empréstimos, não se logrou identificar a entrada dos recursos na empresa nem a saída dos recursos mediante o pagamento dos valores supostamente emprestados pelo sócio. Ao contrário, os registros contábeis detectados pela fiscalização indicam que os contratos de câmbio teriam sido fechados com recursos do próprio caixa da empresa, situação que igualmente não se coaduna com a verdade, vez que restou devidamente comprovado nos autos que os recursos não transitaram pela conta caixa e sim pela conta corrente bancária. Finalmente, quanto à provisão de recursos financeiros por terceiros, tais fatos não se restringiram a um único caso ou operação de importação, mas ao contrário, revelou ser a regra de procedimento para o fechamento de câmbio e consequente fornecimento das mercadorias, verdadeiro "modus operandi", que por si só, já seria suficiente para afastar a alegação de mera ocorrência de empréstimo financeiro. Incumbe à interessada, como se sabe, ao apresentar a impugnação, trazer os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir, conforme disposto no inciso III do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972. Neste sentido, no presente caso, quanto à efetiva existência do alegado empréstimo, não trouxe qualquer elemento que pudesse laborar a seu favor, não trouxeram à luz provas de fatos ou argumentos que pudessem excluir a sua responsabilidade nos termos da legislação. A fiscalização aponta que terceiros (pessoas identificadas ou não) adiantaram, ao menos, parte dos recursos financeiros que foram utilizados nas operações de importação (utilizados nos contratos de câmbio). A impugnante ratifica a existência dos adiantamentos (fato incontroverso – fl. 881), apenas aduz que seu objetivo era satisfazer a exigência do fornecedor estrangeiro. Portanto é possível concluir que a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. realizava as operações de importação utilizando recursos terceiros, que eram adiantados (parte em relação ao registro das respectivas declarações de importação). Portanto, neste aspecto a autuação está correta, vez que segundo o disposto no artigo 27, da Lei n° 10.637/02 , presumese por conta e ordem de terceiros a utilização de recursos destes nas operações de comércio exterior (fl. 718): Art. 27. A operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória no 2.15835, de 24 de agosto de 2001. (Grifos acrescidos) Fl. 1143DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.144 13 Há que se considerar que anteriormente ao registro das declarações de importação, por ocasião da compra no exterior (envio dos recursos mediante contrato de câmbio), a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. já possuía plena certeza da natureza da operação comercial, inexistindo motivos para que a declaração de importação posteriormente registrada fosse apresentada de forma diversa daquela prescrita na legislação de regência (omissão do real comprador). A Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. registrou as declarações de importação em nome próprio, ocultando os reais adquirentes, que adiantaram recursos para fins de realização das operações de comércio exterior. Neste caso, deveria a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. ter adotado os procedimentos indicados na Instrução Normativa SRF n° 225/02: Art. 2º A pessoa jurídica que contratar empresa para operar por sua conta e ordem deverá apresentar cópia do contrato firmado entre as partes para a prestação dos serviços, caracterizando a natureza de sua vinculação, à unidade da Secretaria da Receita Federal (SRF), de fiscalização aduaneira, com jurisdição sobre o seu estabelecimento matriz. Parágrafo único. O registro da Declaração de Importação (DI) pelo contratado ficará condicionado à sua prévia habilitação no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex), para atuar como importador por conta e ordem do adquirente, pelo prazo previsto no contrato. Art. 3º O importador, pessoa jurídica contratada, devidamente identificado na DI, deverá indicar, em campo próprio desse documento, o número de inscrição do adquirente no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). § 1º O conhecimento de carga correspondente deverá estar consignado ou endossado ao importador, configurando o direito à realização do despacho aduaneiro e à retirada das mercadorias do recinto alfandegado. § 2º A fatura comercial deverá identificar o adquirente da mercadoria, refletindo a transação efetivamente realizada com o vendedor ou transmitente das mercadorias.(Grifos acrescidos) Assim, diante do fato de ter a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. consignado a operação como se fosse uma importação direta, sem constar a empresa adquirente, resta caracterizada a ocultação. Tendo, portanto, o inciso V do artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/1976, com a redação alterada pela Lei nº 10.637/2002 que prevê como infração a ocultação do sujeito passivo, do real adquirente e do real responsável pela operação, trancando todas as portas para a ocultação de terceiro vinculado a qualquer título à importação expressamente fundamentado a autuação em questão, não há que se falar em insubsistência da mesma. A existência de adiantamentos de recursos em data anterior ao registro da declaração de importação das mercadorias estrangeiras indica que de fato as mercadorias já haviam sido negociadas em momento anterior à formalização do procedimento alfandegário perante a autoridade aduaneira, inexistindo motivos para que referida informação não fosse consignada nas respectivas declarações de importação. Fl. 1144DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.145 14 As provas trazidas aos autos contrariam os argumentos apresentados na peça de defesa, posto que indicam que independentemente de possuir recursos, a Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. recebia adiantamentos financeiros dos reais adquirentes para a operação de comércio exterior. A impugnante aduz que não é verdade que as emissões de notas fiscais de entrada e saída ocorreram na mesma data em que foram desembaraçadas. Embora tal fato não modifique a existência dos adiantamentos de recursos já relatados, é preciso registrar que, neste aspecto a razão assiste à interessada. A simples observação das datas apostas na tabela de folhas 732 já permite atestar que as notas fiscais foram emitidas em data diversa do desembaraço das respectivas declarações de importação. Contudo, como já dito antes, a autuação encontrase lastreada na não comprovação, pela interessada, da origem dos recursos empregados nas operações de importação, isto é, nos adiantamentos de recursos por terceiros, que restaram ocultos nas operações de importação. Assim, embora a alegação ofertada seja procedente, não é apta a afastar a imposição da penalidade. A presente autuação não se encontra fundamentada na ausência de capacidade operacional ou financeira da autuada, nem em qualquer um dos pressupostos indicados pela Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA.: 1) sonegação de impostos, 2) subfaturamento das mercadorias importadas, 3) concorrência desleal; 4) vinculação com fornecedores. Notese que não são estes os fundamentos da presente autuação, mas sim a ocultação dos reais adquirentes das mercadorias que adiantaram recursos para que as operações de importação pudessem ser concretizadas, conduta realizada pela Empresa MOBILE COMERCIO DE APARELHOS LTDA. por ocasião do registro das declarações de importação citadas nos autos. A simulação restou demonstrada na medida em que os atos formais praticados pela empresa aparentavam situação divergente daquela efetivamente ocorrida. O importador não foi o real adquirente das mercadorias estrangeiras como declarou por ocasião da apresentação da documentação à autoridade aduaneira, agiu como interposta pessoa. Sobre a alegação de que a autuação tem efeito confiscatório, temse que a Constituição Federal, em seu artigo 150, IV, veda às pessoas jurídicas de direito público a utilização de tributo com o efeito de confisco, clara limitação ao poder de tributar. Podese dizer que o princípio do nãoconfisco é uma limitação imposta pelo legislador constituinte ao legislador infraconstitucional, não podendo este último instituir tributo que tenha efeito confiscatório, dirigese ao legislador ordinário e não ao servidor público que aplica a lei. Finalmente, num segundo momento, o princípio dirigese, eventualmente, ao Poder Judiciário que deve aplicálo no controle difuso ou concentrado da constitucionalidade das leis. Todavia, não se pode dizer que o princípio esteja direcionado à administração tributária. Esta se submete ao princípio da legalidade, não podendo se esquivar à aplicação de lei editada conforme o processo legislativo constitucional. Não cabe à administração tributária criar a lei, e muito menos se furtar a aplicála ou negar sua vigência. Ao contrário, a administração deve continuar a observar a lei até que outra a revogue, ou então que o Poder Judiciário a afaste. Quanto à juntada posterior de documentos complementares (produção de provas), destacase que o § 4º, do artigo 16, do Decreto nº 70.235/1972 determina Fl. 1145DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.146 15 que a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que apresentada uma das hipóteses que evitam a preclusão de tal direito, quais sejam: a demonstração da impossibilidade de apresentação oportuna por motivo de força maior (art. 16, § 4°, alínea “a”); que a prova se refira a fato ou a direito superveniente (art. 16, § 4°, alínea “b”); ou que a prova se destine a contrapor questões trazidasposteriormente à lide (art. 16, § 4°, alínea “c”). Não se verifica, até o presente momento, qualquer uma das hipóteses no caso concreto. A impugnante, no curso do procedimento fiscal, foi regularmente intimada em 05/10/2015 a apresentar os documentos (Termo de Intimação Fiscal n° 181/2015). Poderia ainda ter apresentado tais documentos (se entende hábeis a comprovar o alegado) em conjunto com a presente peça de defesa lavrada em 27/01/2016. Não o fez. Não apresenta qualquer motivo que se enquadre nas exceções previstas no § 4º, do artigo 16, do Decreto nº 70.235/1972. O pleito não pode ser deferido. Assim, em virtude de todos os motivos apresentados e dos fatos presentes no caso concreto, voto no sentido de JULGAR IMPROCEDENTE A IMPUGNAÇÃO, mantendo o crédito tributário exigido. Sala de Sessões – Florianópolis, 22 de fevereiro de 2017. Emerson da Silva Cabral – Relator" Antes de finalizar, cumpre mencionar que, no recursos voluntário, no tópico "7. DAS OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO QUE TIVERAM AS COMPROVAÇÕES CONSIDERADAS PELA AUTORIDADE ADMINISTRATIVA. CANCELAMENTO DA MULTA" a recorrente menciona o trecho abaixo transcrito da decisão da DRJ para requerer que sejam canceladas as multas aplicadas sobre as operações que foram consideradas como comprovadas: "Assim, embora em algumas operações de importação tenha sido possível constatar a origem dos recursos junta a terceiros identificados nos documentos bancários, em outras não foi possível identificar objetivamente os fornecedores dos recursos, restando não comprovada (neste caso) a origem dos recursos utilizados nas operações de importação, sendo plenamente aplicável a presunção legal prevista no § 22 do artigo 23, do DecretoLei ng 1.455/76. (RELATÓRIO — FLS. 4)" (g.n.) Da leitura do citado excerto do voto condutor, depreendi que houve operações financeiras, cujas origens foram identificadas (ex: transferência bancária, via TED, realizada por cliente). Contudo, em seu conjunto, não foram consideradas suficientes para afastar a acusação fiscal de ocultação do real comprador, pois os lançamentos contábeis e a própria DI não espelhavam o que ocorrera. E, no Relatório Fiscal (fls. 711 a 803), também não constatei operação sobre a qual tenha incidido a pena de perdimento, que tenha sido plenamente comprovada. Portanto, afasto este argumento de defesa. Em suma, com base no acima exposto, nego provimento ao recurso voluntário. É como voto. Fl. 1146DF CARF MF Processo nº 10950.725646/201511 Acórdão n.º 3301005.009 S3C3T1 Fl. 1.147 16 (assinado digitalmente) Marcelo Costa Marques d'Oliveira Fl. 1147DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13925.000308/2002-45
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 29 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 17 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3402-001.399
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Aparecida Martins de Paula - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Cynthia Elena de Campos, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, que foi substituída pelo Suplente convocado.
Nome do relator: MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Cynthia Elena de Campos, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Rodrigo Mineiro Fernandes e Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado). Ausente justificadamente a Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz, que foi substituída pelo Suplente convocado. Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento (DRJ) em Curitiba que julgou procedente o lançamento. Versa o processo sobre auto de infração para a exigência de Cofins, multa de ofício e juros de mora, no valor total de R$54.475,17, relativamente a períodos de apuração entre agosto de 1997 a maio de 2002, decorrente das diferenças encontradas entre o valor escriturado e o valor da contribuição que foi declarado ou pago pela contribuinte. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 39 25 .0 00 30 8/ 20 02 -4 5 Fl. 859DF CARF MF Processo nº 13925.000308/200245 Resolução nº 3402001.399 S3C4T2 Fl. 860 2 Após ser cientificada a contribuinte apresentou impugnação, alegando, em síntese: a) decadência relativamente ao período de agosto a novembro de 1997; b) valor devido menor do que o lançado; c) repasses não podem ser classificados como faturamento e d) de 01/02/1999 a 30/06/2000, estava sujeita ao recolhimento da Cofins apenas sobre os ganhos da intermediação na revenda de veículos. Após a conversão do julgamento em diligência, a DRJ decidiu por não acatar os argumentos da impugnante, sob os seguintes fundamentos principais: Não se pode acolher a tese de decadência arguída, a uma porque o lançamento impugnado pelo contribuinte é lançamento ex officio, e a duas porque in casu o prazo disponível para que o Fisco efetue o lançamento não é de cinco, mas de dez anos, conforme previsto no inciso I do art. 45 da Lei n.° 8.212/91. A base de cálculo da contribuição exigida foi levantada corretamente segundo o critério de apropriação de receitas adotado pelo próprio contribuinte, eis que arrimada em lançamentos contábeis consignados nos Livros Razão e Diário (fls. 05/604). Quanto à pretensão de exclusão de receitas aventada com fulcro no inciso III do § 2° do art. 3° da Lei 9.718, de 1998, também não pode ser acolhida sem que as referidas disposições tenham sido regulamentadas pelo Poder Executivo. No lançamento foi observado o tratamento tributário diferenciado conferido pelo art. 5° da Lei n.° 9.716/98, conforme comprovam as planilhas demonstrativas acostadas às fls. 783 e 784 do volume IV processo. Sem que o impugnante tenha colacionado ao processo os documentos que lastreariam o lançamento contábil que alega estar correto, considero inafastável o valor de receita de vendas de veículos usados, relativa ao mês de dezembro de 2001, eis que referido valor, no montante de R$249.585,96, foi coletado pelo Fisco no livro Diário do próprio contribuinte autuado. Cientificada em 13/02/2006, a interessada apresentou recurso voluntário em 14/03/2006, repisando as alegações da impugnação e acrescentando outras, sob os seguintes tópicos: a) Da decadência parcial; b) A inobservância das orientações do PNCOSIT N° 02/96; c) O lançamento não obedece os parâmetros estabelecidos no artigo 3° da Lei n° 9.718/98; d) A inconstitucionalidade das alterações da base de calculo da COFINS promovidas pela lei n° 9.718/98; e e) Do erro no lançamento pelo agente fiscal do valor das vendas de veículos usados no mês de dezembro de 2001. Em 25 de abril de 2007, a Quarta Câmara do Segundo Conselho de Contribuintes converteu o julgamento do recurso em diligência para que fosse certificado nos autos qual teria sido o critério adotado pela fiscalização, com base nos livros contábeis obrigatórios, para considerar o valor de R$ 249.585,96 como sendo a base de cálculo do mês de dezembro de 2001, e não o valor de R$ 203.490,00. Fl. 860DF CARF MF Processo nº 13925.000308/200245 Resolução nº 3402001.399 S3C4T2 Fl. 861 3 Em resposta, manifestouse a fiscalização em 06/02/2008 no sentido de que o valor de vendas de veículos usados a ser considerado para o período de dezembro de 2001 seria de R$ 203.490,00. O processo foi distribuído por sorteio a esta Relatora em 28/02/2018. É o relatório. Voto Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Relatora Atendidos os requisitos de admissibilidade, tomase conhecimento do recurso voluntário. Como se sabe, é obrigatória aos membros deste CARF a reprodução do conteúdo de decisão definitiva de mérito proferida pelo STF e pelo STJ na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil. Também não se desconhece que foi declarada a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98 pelo Supremo Tribunal Federal, tendo sido reconhecida a repercussão geral, para reafirmar a jurisprudência do Tribunal nesse sentido1. Em consequência, para as empresas que se dedicam à venda de mercadorias comerciais e industriais e/ou à prestação de serviços, é ao total das receitas oriundas dessas atividades que corresponde a base de cálculo das contribuições do PIS e da Cofins enquanto aplicável aquele ato legal2 . 1 RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.09.2006; REs 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 18.08.2006)Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso Improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS, prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (RE 585235/MG, Relator: Min. Cézar Peluso, julgado em 10/09/2008). 2 Acórdão nº 9303002.444– 3ª Turma, de 08 de outubro de 2013 Relator: JÚLIO CÉSAR ALVES RAMOS PIS E COFINS. ALARGAMENTO. EMPRESAS INDUSTRIAIS E DE SERVIÇOS. Nos termos do quanto decidido pelo Pleno do STF no julgamento dos recursos extraordinários nºs 357.950, 390840, 358273 e 346084, deve ser repudiada a ampliação do conceito de faturamento intentado pelo § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98. Em conseqüência, para as empresas que se dedicam à venda de mercadorias comerciais e industriais e/ ou à prestação de serviços, é ao total das receitas oriundas dessas atividades que corresponde a base de cálculo das contribuições PISe PASEP enquanto aplicável aquele ato legal. Acórdão nº 3401003.828– 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, de 29 de junho de 2017 Relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/07/2003 a 31/07/2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. ART. 3º, § 1º, LEI Nº 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. As receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Devese, assim, ser acolhido o resultado da diligência constante no Relatório de Diligência Fiscal. Considerando a comprovação documental da validade do crédito, consistente em recolhimento Fl. 861DF CARF MF Processo nº 13925.000308/200245 Resolução nº 3402001.399 S3C4T2 Fl. 862 4 Assim, resguardando eventual julgamento posterior do Colegiado na linha dos entendimentos acima apontados, voto no sentido de determinar a realização de diligência, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235/72 e dos arts. 35 a 37 e 63 do Decreto nº 7.574/2011, para que a Unidade de Origem verifique a composição da base de cálculo da Cofins adotada no lançamento, inclusive, se for o caso, intimando a contribuinte a apresentar a documentação pertinente, e, ao final, elabore um Relatório Conclusivo com a discriminação dos valores relativos às receitas tributadas com base no alargamento da base de cálculo da Cofins promovido pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, dos montantes que seriam exigíveis da contribuinte a título de Cofins acaso não existisse o referido alargamento e de eventuais valores da contribuição a serem exonerados em face do entendimento do STF em repercussão geral (RE 346.084/PR). Após a intimação da recorrente do resultado da diligência, concedendolhe o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, nos termos do art. 35 do Decreto nº 7.574/2011, o processo deve retornar a este Colegiado para prosseguimento. (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula indevido ou a maior de Cofins sobre receitas financeiras, deve o sujeito passivo ter atendido o seu pleito creditório. Recurso Voluntário provido. Direito creditório reconhecido. Fl. 862DF CARF MF
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Numero do processo: 10680.913250/2009-08
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 30 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Sep 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004
CRÉDITO POR PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
Instaurado o contencioso administrativo, em razão da não homologação de compensação de débitos com crédito de suposto pagamento indevido ou a maior, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso normal do processo administrativo.
DCOMP. ERRO NO PREENCHIMENTO DO VALOR DO CRÉDITO. RETIFICAÇÃO DE OFÍCIO. IMPOSSIBILIDADE.
Os órgãos de julgamento administrativo não são competentes para proceder à retificação de declarações apresentadas pelo contribuinte, sobretudo para aumentar o valor do crédito inicial declarado em PER/DCOMP e cuja certeza e liquidez não foi comprovada nos autos do PAF.
Numero da decisão: 3302-005.799
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Diego Weis Junior - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo.
Nome do relator: DIEGO WEIS JUNIOR
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/04/2004 a 30/04/2004 CRÉDITO POR PAGAMENTO INDEVIDO. COMPROVAÇÃO DA CERTEZA E LIQUIDEZ. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Instaurado o contencioso administrativo, em razão da não homologação de compensação de débitos com crédito de suposto pagamento indevido ou a maior, é do contribuinte o ônus de comprovar nos autos, tempestivamente, a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar. Não há como reconhecer crédito cuja certeza e liquidez não restou comprovada no curso normal do processo administrativo. DCOMP. ERRO NO PREENCHIMENTO DO VALOR DO CRÉDITO. RETIFICAÇÃO DE OFÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. Os órgãos de julgamento administrativo não são competentes para proceder à retificação de declarações apresentadas pelo contribuinte, sobretudo para aumentar o valor do crédito inicial declarado em PER/DCOMP e cuja certeza e liquidez não foi comprovada nos autos do PAF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 68 0. 91 32 50 /2 00 9- 08 Fl. 158DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 158 2 Diego Weis Junior Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), José Renato Pereira de Deus, Raphael Madeira Abad, Walker Araújo. Relatório Cuidase de Recurso Voluntário interposto contra acórdão da 11ª Turma da DRJ/RPO assim ementado. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 09/06/2004 PER/DCOMP. REVISÃO DE OFICIO.. Somente os erros contidos na declaração de compensação e apuráveis pelo seu exame serão retificados de ofício pela autoridade administrativa a que competir a revisão daquela. DCTF. CONFISSÃO DE DÍVIDA. Considerase confissão de dívida os débitos declarados em DCTF (Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais), motivo pelo qual qualquer alegação de erro no seu preenchimento deve vir acompanhada de declaração retificadora munida de documentos idôneos para justificar as alterações realizadas no cálculo dos tributos devidos. Nesses termos, não pode ser acatada a mera alegação de erro de preenchimento desacompanhada de elementos de prova que justifique a alteração dos valores registrados em DCTF. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional, para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. COMPENSAÇÃO TRIBUTÁRIA. Fl. 159DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 159 3 Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170, do Código Tributário Nacional. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Na origem, o sujeito passivo apresentou, em 26.04.2007, Declaração de Compensação DCOMP (fls. 40 a 46), objetivando a compensação de saldo de suposto crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior da COFINS relativa ao mês de abril de 2004, com débitos de IRRF provenientes de pagamentos efetuados entre junho e julho de 2005. Sobreveio, em 09.04.2009, Despacho Decisório (fl. 48) que não reconheceu o direito creditório sob o fundamento de que embora tenha sido localizado o pagamento indicado, o mesmo foi integralmente utilizado para quitação de outros débitos do contribuinte. Inconformado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade (fls. 2 a 9) alegando em síntese: a) Que na apuração da COFINS relativa ao mês de abril de 2004 foi inicialmente apurado e recolhido o montante de R$546.984,46, tendo sido constatado, tempos depois, que o recolhimento efetuado foi superior ao realmente devido, remanescendo crédito de R$169.061,70, dos quais R$4.804,91 foram utilizados na DCOMP em discussão nestes autos; b) Na DCTF original, embora correto o montante devido e o montante pago, houve equívoco na vinculação dos DARF´s pagos aos valores devidos, tendo sido apresentada (em 25.05.2009) declaração retificadora, corrigindo as informações anteriormente apresentadas e evidenciando assim a origem do direito creditório; c) Que na primeira compensação, realizada por meio da DCOMP nº 31588.39436.230205.1.3.045289, informou erroneamente, no campo "valor original do crédito inicial" a quantia de R$88.705,00, quando deveria ter informado o valor de R$169.061,70; d) Não pôde retificar a DCOMP inicial e as que lhe sucederam, para corrigir o saldo original inicial de seu crédito; e) Que segundo o princípio da verdade material deve o julgamento administrativo ter em conta a verdade real que sobressai de todo o conjunto fático probatório, reconhecendo o crédito e homologando a compensação; Ao fim, pugna pelo reconhecimento do crédito a que faz jus e pede ainda a retificação de ofício da DCOMP em discussão, para alterar o valor do crédito inicial para R$169.061,70, o que implicará em modificação dos demais campos relacionados ao montante do crédito. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP), em sessão de 22 de setembro de 2014, julgou improcedente a manifestação de Fl. 160DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 160 4 inconformidade e não reconheceu o direito creditório pleiteado, assim fundamentando suas razões de decidir: a) A Retificação de DCOMP deve ser formalizada por meio do programa PER/DCOMP ou em formulário em papel, nos casos admitidos, e apreciada pela unidade da RFB de jurisdição do contribuinte, não competindo à DRJ apreciar retificações de declarações; b) Segundo o CTN, somente os erros apuráveis a partir do exame da própria declaração podem ser retificados de ofício, não sendo esse o caso dos autos, vez que se trata de valores e documentos aos quais somente o próprio sujeito passivo poderia apurar; c) A DCTF retificadora foi apresentada após a ciência do Despacho Decisório, cessando a espontaneidade e impedindo a sua produção de efeitos, nos termos do art. 11, §2º, III da IN RFB nº 903, de 30 de dezembro de 2008; d) Na época da emissão do Despacho Decisório, as informações constantes da base de dados da RFB, enviadas pelo próprio contribuinte, não permitiam o reconhecimento do direito creditório, razão pela qual é acertado o despacho combatido; e) O reconhecimento de direito creditório exige a comprovação da liquidez e certeza do crédito pleiteado com base na verificação da exatidão das informações prestadas, confrontandoas com os registros e documentos contábeis e fiscais; f) Não há nos autos qualquer documento que permita a comprovação da existência do crédito declarado e, portanto, na falta de provas, deve ser rejeitada a pretensão do interessado; g) Que consoante ao disposto no CTN, CPC e PAF o ônus probatório da existência de certeza e liquidez do crédito pretendido utilizar é do contribuinte, e que não tendo sido apresentadas as provas necessárias não há como reconhecer o direito creditório. Em 09.12.2015 o contribuinte acessou o conteúdo do despacho decisório, disponível em sua caixa postal eletrônica, tendo apresentado o Recurso Voluntário em análise em 18.12.2015, onde ratifica argumentos da Manifestação de Inconformidade e sustenta que segundo o Parecer Normativo COSIT nº 2, de 28.08.2015, se o julgador administrativo verificar que o indeferimento do crédito decorreu da falta de retificação de DCTF, poderá baixar o processo em diligência, nos termos do art. 18 do PAF, a fim de analisar quesitos fáticos envolvendo o crédito. Alega ainda o recorrente que uma vez demonstrada a origem do crédito, a reforma da decisão recorrida é medida que se impõe, e que caso não seja reconhecido de plano o direito creditório, seja o processo baixado em diligência para que a DRF verifique a existência do crédito, em homenagem ao princípio da verdade material. Pugna também pela revisão de ofício da DCOMP, com base nos mesmos motivos já aduzidos por ocasião da Manifestação de Inconformidade. Fl. 161DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 161 5 É o relatório. Voto Conselheiro Diego Weis Junior, Relator. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos pressupostos e requisitos de admissibilidade. A solução do presente caso cingese a confirmação da existência de certeza e liquidez do direito creditório utilizado pelo contribuinte em declaração de compensação com débitos próprios, tornando necessários breves esclarecimentos sobre as etapas de análise das declarações de compensação eletrônicas. 1 Da necessidade de confirmação da certeza e liquidez do crédito declarado em compensação. A compensação enquanto modalidade de extinção do crédito tributário, prevista no art. 156, II, do CTN, operase mediante a existência de crédito líquido e certo oponível à fazenda pública, sem o que não há como efetivar o encontro de contas pretendido pelo contribuinte. Assim, têmse que o direito à compensação existe na medida exata da certeza e liquidez do crédito em favor do contribuinte. Não restando comprovadas a certeza e liquidez do crédito do contribuinte, não há como operacionalizar a compensação. Atualmente, a compensação pode ser declarada pelo próprio contribuinte, em meio eletrônico, mediante preenchimento e transmissão de Declaração de Compensação DCOMP, na qual se indicará em detalhes o crédito existente e o débito a ser compensado, sujeitandose a ulterior homologação por verificação fiscal. A verificação fiscal das compensações declaradas pelos contribuintes se opera em dois momentos distintos, a saber: 1) Verificação Eletrônica: Consiste no cruzamento de informações fiscais do contribuinte, disponíveis na base de dados dos sistemas utilizados pela Receita Federal do Brasil, objetivando verificar a consistência e coerência da compensação declarada. Detectada, nesta fase de verificação, qualquer inconsistência ou divergência entre valores e informações do contribuinte, não homologase a compensação realizada, oportunizando ao interessado o contraditório e ampla defesa em processo administrativo fiscal específico. 2) Verificação Documental: Uma vez instaurado o processo administrativo fiscal, pela apresentação de Manifestação de Inconformidade à não homologação decorrente da verificação eletrônica, tem início a nova etapa de análise do direito creditório, que passa a se operar mediante verificação de documentos hábeis e idôneos que comprovem a existência do crédito utilizado pelo contribuinte. Neste segundo momento de verificação, devem Fl. 162DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 162 6 ser observadas todas as regras e princípios aplicáveis ao processo administrativo fiscal. Em outras palavras, na etapa de verificação eletrônica antes de instaurado o contencioso administrativo são consideradas somente as informações e dados constantes dos sistemas utilizados pela Receita Federal do Brasil. Contudo, uma vez constatada a inconsistência/divergência das informações existentes nos sistemas informatizados, não homologase a compensação declarada e iniciase a etapa de verificação documental, nos autos de processo administrativo fiscal, onde incumbe ao contribuinte comprovar a existência de certeza e liquidez do crédito que pretende utilizar. Resta evidente que todas as contendas que chegam para julgamento a este Conselho Administrativo de Recurso Fiscais se enquadram na etapa de verificação documental, sujeitas, portanto, a todas as regras e princípios aplicáveis ao processo administrativo fiscal. Importante destacar ainda que o início da etapa de verificação documental faz com que as informações anteriormente prestadas pelo contribuinte, nas declarações eletrônicas transmitidas ao fisco, precisem ser comprovadas por outros meios no processo administrativo fiscal. Ou seja, uma vez que as declarações anteriormente apresentadas pelo contribuinte ao fisco não foram suficientes para a homologação da compensação na etapa de verificação eletrônica, não terão elas, quando desacompanhadas de outros documentos que as ratifiquem, força probatória suficiente para atestar a certeza e liquidez do crédito na etapa de verificação documental. No presente caso, até o julgamento do recurso voluntário, o contribuinte não trouxe aos autos qualquer elemento capaz de comprovar, ainda que minimamente, a certeza e liquidez de seu direito creditório. Apenas foram anexadas cópias de atos constitutivos, documentos pessoais, procurações e declarações (DCOMP e DCTF) transmitidas ao fisco, desacompanhadas de qualquer outro documento que possa atestar a sua exatidão. Sequer há a descrição de qual teria sido o erro cometido pelo contribuinte quando da apuração da COFINS do mês de abril de 2004, que culminou no recolhimento de R$546.984,46, e que tempos depois teria sido objeto de revisão, originando o suposto crédito. Nos termos do §4º do art. 16 do Decreto Lei nº 70.235/1972, a prova documental deve ser trazida aos autos juntamente com a impugnação. No presente caso, deveria o contribuinte ter produzido suas provas por ocasião da apresentação da Manifestação de Inconformidade, no sentido de comprovar a existência do crédito pretendido. Contudo, conforme dito alhures, até o julgamento do presente recurso, o contribuinte não trouxe aos autos qualquer elemento que evidencie a existência de seu direito creditório. Nessa senda, a divergência entre as declarações apresentadas pelo contribuinte ao fisco (DCTF e DCOMP), combinada com a falta de apresentação de provas documentais da certeza e liquidez do crédito tributário, compromete a análise do pleito, ofendendo aos princípios da celeridade e da economicidade processual. Fl. 163DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 163 7 Não pode o princípio da verdade material ser utilizado como argumento para o afastamento injustificado das normas que regem o Processo Administrativo Fiscal, de modo a acobertar a inércia do contribuinte em comprovar as suas alegações. No mesmo sentido entendeu a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF, em decisão consubstanciada no acórdão de nº 9303005.226. "...o ônus de comprovar a certeza e liquidez do crédito pretendido compensar é do contribuinte. O papel do julgador é, verificando estar minimamente comprovado nos autos o pleito do Sujeito Passivo, solicitar documentos complementares que possam formar a sua convicção, mas isso, repitase, de forma subsidiária à atividade probatória já desempenhada pelo contribuinte. Não pode o julgador administrativo atuar na produção de provas no processo, quando o interessado, no caso, a Contribuinte não demonstra sequer indícios de prova documental, mas somente alegações. Pelo exposto, não pode prosperar a alegação do recorrente de que, segundo o Parecer Normativo COSIT n. 2, de 28.08.2015, caberia aos julgadores administrativos o impulso para a produção de provas da certeza e liquidez do direito creditório pretendido. 2 Da retificação de ofício das Declarações de Compensação. Pugna ainda o recorrente pela retificação de ofício do PER/DCOMP nº 19075.40394.260407.1.7.040771, a fim de que seja alterado, primeiro, o campo "valor original do crédito inicial", no qual, hoje, é informada a cifra de R$88.705,08, quando deveria constar o valor de R$169.061,70, e que, por decorrência lógica, todos os campos subsequentes que se referem ao crédito deverão ser igualmente modificados. Ainda segundo o recorrente, todas essas modificações se fazem necessárias pois, acolhidas as razões do Recurso Voluntário, não será possível à recorrente a utilização futura do saldo remanescente de seu crédito. Em primeiro, cumpre esclarecer que não há qualquer previsão no sentido de atribuir competência a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais para a realização de retificação de declarações apresentadas pelo contribuinte. O Art. 1º do Anexo II do Regimento Interno do CARF RICARF, estabelece que os órgãos julgadores tem por finalidade julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de primeira instância, bem como os recursos de natureza especial, que versem sobre a aplicação da legislação referente a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. Em segundo, ainda que, hipoteticamente, fosse possível atender a tal pedido do recorrente, o mesmo estaria condicionado à existência de certeza e liquidez do direito creditório pleiteado, o que, conforme visto no tópico anterior, definitivamente não foi comprovado nestes autos. Por todo o exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fl. 164DF CARF MF Processo nº 10680.913250/200908 Acórdão n.º 3302005.799 S3C3T2 Fl. 164 8 Diego Weis Junior Relator Fl. 165DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.735704/2012-12
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 12 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008
CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. BOLSAS DE PESQUISA E EXTENSÃO. CARACTERIZAÇÃO DE VANTAGENS PARA O DOADOR. CONTRAPRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. INCIDÊNCIA.
Incide contribuição previdenciária sobre a remuneração paga, devida ou creditada, a qualquer título, aos segurados contribuintes individuais que prestem serviços à empresa. Constitui base de cálculo de contribuição previdenciária o pagamento de bolsas de ensino, pesquisa e extensão se os resultados reverterem economicamente para o doador ou pessoa interposta, ou se caracterizarem contraprestação de serviços.
OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. DECLARAÇÃO EM GFIP.
Devida a contribuição previdenciária (obrigação principal), é obrigação da empresa declará-la em GFIP (obrigação acessória).
MULTA.
A inclusão de contribuições em lançamento fiscal dá ensejo à incidência de multa, conforme legislação aplicável à matéria, observada aquela mais benéfica ao contribuinte.
Numero da decisão: 2402-006.584
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário para, na parte conhecida, por maioria de votos, negar-lhe provimento. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira De Pinho Filho - Presidente.
(assinado digitalmente)
Jamed Abdul Nasser Feitoza - Relator.
Participaram do julgamento os conselheiros: Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Junior e Mario Pereira de Pinho Filho (Presidente).
Nome do relator: JAMED ABDUL NASSER FEITOZA
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BOLSAS DE PESQUISA E EXTENSÃO. CARACTERIZAÇÃO DE VANTAGENS PARA O DOADOR. CONTRAPRESTAÇÃO DE SERVIÇOS. INCIDÊNCIA. Incide contribuição previdenciária sobre a remuneração paga, devida ou creditada, a qualquer título, aos segurados contribuintes individuais que prestem serviços à empresa. Constitui base de cálculo de contribuição previdenciária o pagamento de bolsas de ensino, pesquisa e extensão se os resultados reverterem economicamente para o doador ou pessoa interposta, ou se caracterizarem contraprestação de serviços. OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. DECLARAÇÃO EM GFIP. Devida a contribuição previdenciária (obrigação principal), é obrigação da empresa declarála em GFIP (obrigação acessória). MULTA. A inclusão de contribuições em lançamento fiscal dá ensejo à incidência de multa, conforme legislação aplicável à matéria, observada aquela mais benéfica ao contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário para, na parte conhecida, por maioria de votos, negarlhe provimento. Vencidos os conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Renata Toratti Cassini e Gregório Rechmann Junior. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 57 04 /2 01 2- 12 Fl. 2077DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.036 2 (assinado digitalmente) Mario Pereira De Pinho Filho Presidente. (assinado digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza Relator. Participaram do julgamento os conselheiros: Mauricio Nogueira Righetti, João Victor Ribeiro Aldinucci, Denny Medeiros da Silveira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luis Henrique Dias Lima, Renata Toratti Cassini, Gregório Rechmann Junior e Mario Pereira de Pinho Filho (Presidente). Relatório Cuidase de Recurso Voluntário, de fls. 1.129 usque 1.177, voltada contra acórdão de fls. 1.021 a 1.036, que, por unanimidade de votos, julgou improcedente a Impugnação apresentada (fls. 705 a 739), mantendo o crédito tributário conforme lançado. O relatório da r. decisão vergastada tem os seguintes moldes: Do lançamento Em decorrência de ação fiscal levada a efeito na Fundação Médica do Rio Grande do Sul, foram lavrados os seguintes Autos de Infração – AI: 1) AI DEBCAD nº 37.385.1316: no valor de R$ 4.909.040,90 (quatro milhões, novecentos e nove mil e quarenta reais e noventa centavos), consolidado em 13/12/2012, referente a contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos a contribuintes individuais, nas competências 01/2008 a 12/2008; e 2) AI DEBCAD nº 37.385.1324 (Código de Fundamento Legal 68): no valor de R$ 32.342,40 (trinta e dois mil, trezentos e quarenta e dois reais e quarenta centavos), consolidado em 13/12/2012, lavrado conforme dispõe o parágrafo 5º do artigo 32 da Lei nº 8.212/91, por infração ao disposto no artigo 32, inciso IV, da mesma Lei nº 8.212/91, ao deixar a empresa de informar, em Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social – GFIP, dados relacionados a fatos geradores de contribuição previdenciária, na competência 10/2008. O Relatório do Procedimento Fiscal informa que os valores lançados dizem respeito a pagamentos efetuados a professores médicos e médicos pesquisadores, membros da Fundação Fl. 2078DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.037 3 Médica do Rio Grande do Sul e servidores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como bolsas de pesquisa e extensão. Da impugnação A empresa teve ciência do lançamento em 18/12/2012 e apresentou impugnação tempestiva em 16/01/2013, com breve síntese dos fatos, afirmando que “os auditores fiscais da Receita Federal do Brasil examinaram superficialmente, alguns documentos representativos da atividade da Fundação Médica e de seus membros (professores)”, contratos e convênios concernentes a pesquisas com empresas produtoras de drogas e medicamentos e convênios de cooperação firmados com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre e entenderam que os valores repassados aos professores, “pela Fundação Médica, a título de Bolsa de Extensão ou Pesquisa, não possuem essa qualificação, por não atender aos requisitos legais e regulamentares decorrentes dessa legislação específica.” Expõe que tal entendimento não pode prosperar, “por ser inaplicável o enquadramento legal pretendido pelos Auditores da Receita Federal do Brasil, porquanto a autuada não estava obrigada, na forma da legislação vigente, a proceder os recolhimentos de contribuições previdenciárias sobre bolsas de pesquisa e extensão”. Tece considerações sobre o estatuto da Fundação Médica do Rio Grande do Sul; salienta que “obteve, em Ação Ordinária, junto à Justiça Federal, pelo Processo nº 2002.71.00.0460139, a declaração do gozo da IMUNIDADE tributária sobre impostos de competência da União Federal, em conformidade com o que prevê o artigo 150, inciso VI, alínea "c", da CF/88.”; traz da previsão, no estatuto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão; e que faz parte da estrutura da UFRGS o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que não é entidade componente da universidade, mas empresa pública de direito privado, criada pela Lei nº 5.604/1970. Explana da atuação da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, e expõe que com “o advento da Lei nº 8.958/94, que criou o modelo de operacionalidade para o relacionamento das instituições federais de ensino superior e de pesquisa científica e tecnológica, a Fundação Médica do Rio Grande do Sul providenciou sua adaptação estatutária à regra então criada, justamente para adequarse ao modelo legal de FUNDAÇÃO DE APOIO, credenciandose perante o Ministério da Educação e Ministério da Ciência e Tecnologia nos termos desta lei.” Informa que, com a Lei nº 8.958/1994, as “especificidades das atividades de apoio à pesquisa, à extensão e ao ensino realizadas pela Fundação Médica do Rio Grande do Sul, junto ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre HCPA são disciplinadas em Convênios Operacionais”. Fl. 2079DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.038 4 Afirma que a Fundação Médica do Rio Grande do Sul cumpre importante papel educacional e social, “colaborando com o cumprimento da obrigação constitucional cabível ao Estado, de promover e incentivar o desenvolvimento científico, a pesquisa e a capacitação tecnológica”. Salienta que as Fundações passam por rigoroso acompanhamento da administração pública, para atestar sua regularidade. Que a Fundação Médica do Rio Grande do Sul, ligada aos médicos e residentes a quem presta apoio (ressalta não estar tratando de vínculo empregatício), através de convênios firmados com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, participa no desenvolvimento de projetos afetos a diversas áreas médicas. Para a realização dos convênios e seus programas atuam os membros da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, “que são professores da UFRGS, e que se adaptam ao sistema de bolsistas, uma vez que, como funcionários públicos, auferem a sua remuneração com tal vínculo com a Universidade Federal, e que outro vínculo de ordem trabalhista não podem manter. Aí se inserem as disposições trazidas pela Lei nº 8.958/94, especialmente no seu artigo 4º e parágrafos, que define a inexistência de vínculo empregatício de qualquer natureza, ... ‘podendo as fundações contratadas, para sua consecução, concederem bolsas de ensino, de pesquisa e de extensão’.” Afirma que o exercício das atividades de preceptoria, coordenação e controle de alunos (médicos residentes) não pode ser caracterizada como contraprestação de serviços, por tratarse de atividades inseridas dentro de um modelo de extensão universitária adequado “às exigências definidas e consideradas capazes de promover o processo educativo e científico.” Entende que o “auferimento de Bolsa de Extensão/Pesquisa, deste modo, não consubstancia, de maneira alguma, remuneração tributável, como entendeu a fiscalização da RFB, ou seja, não há de se falar em exigência de considerála base de cálculo para efeitos de incidência da Previdência Social”, existindo norma “isencional específica”, não havendo relação empregatícia entre a Fundação Médica do Rio Grande do Sul e seus “integrantes e apoiados”. “Durante o ato de ensinar, há ato médico, porém sem contra prestação de serviços executados em benefício da instituição apoiadora (HCPA), ocorrendo treinamento de Médicos Residentes do HCPA no exercício prático. Portanto tratase de uma atividade de ensino extra muros. Atividade essa reconhecida como atividade de extensão pela UFRGS.” Fl. 2080DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.039 5 Os professores estão envolvidos na atividade de ensino ligada à assistência, mas esta não faz parte da cadeia de assistência permanente do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, inexistindo a alegada contraprestação por seu serviço. É o corpo médico do hospital, médicos contratados (não docentes), que presta o atendimento assistencial cotidiano. Afirma que não pode restar “dúvida de que a Fundação Médica do Rio Grande do Sul possa estar enquadrada no conceito (formal e legal) de FUNDAÇÃO DE APOIO (artigo 2º, inciso III, da Lei nº 8.958/1994) devidamente credenciada pelo Ministério da Educação, e Ministério, Ciência, Tecnologia e Inovação, na forma da Portaria Interministerial nº 475, de 14/04/2008.” Assim, como disposto no artigo 4º da Lei nº 8.958/1994, não existe vínculo empregatício de qualquer natureza, podendo haver a concessão de bolsas de ensino, pesquisa e de extensão. Cita o Decreto nº 5.205/2004 para afirmar que as bolsas de ensino, pesquisa e extensão constituem doação civil aos professores. Declara enquadrarse na isenção prevista na legislação (lei e decreto), “posto que as bolsas de pesquisa e extensão não possuem natureza remuneratória, são consideradas doações realizadas pela Fundação, conformandose aos exatos termos do art. 538 do Código Civil: ‘Considerase doação o contrato em que uma pessoa, por liberdade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para outra.’" (Grifos no original) Afirma, ainda, que “a concessão das bolsas não representa benefício para o doador, a Fundação, vez que esta está apenas repassando, de um lado, verbas públicas, de cunho orçamentário, e que possuem, a priori, esta destinação específica e integral, para realização dos programas de extensão universitária e, de outro lado, apenas repassando aos professores a ela vinculados á realização de projetos de pesquisa, as verbas próprias que advêm das pessoas jurídicas interessadas nessas pesquisas científicas. A contraprestação de serviço não está presente, no conceito aplicado pela Fiscalização da Receita Federal do Brasil, pois que o beneficiário da bolsa constituise em mera peça de uma grande engrenagem, inserido no sistema de gerenciamento e realização dos projetos de educação e extensão, vinculados à residência médica, refletindo o interesse do Governo Federal (Comissão Nacional de Residência Médica Resolução nº 02/2006, de 17 de maio de 2006), do HCPA, mas com a participação permanente e indispensável da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, como Fl. 2081DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.040 6 Fundação de Apoio que gerencia a consecução dos programas de extensão da Universidade.” Cita decisão judicial, Ação Anulatória de Débito Fiscal nº 95.00166828 e Apelação Cível nº 1999.71.00.0266656/RS, onde foram considerados nulos lançamentos onde o INSS pretendia estabelecer relação trabalhista entre professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuais membros da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (caso que entende idêntico ao que aqui impugna). Alega que “Como se pode notar, o assunto é recorrente. Primeiramente, esse órgão fiscalizador buscou a caracterização do vínculo empregatício, ou de relação trabalhista/previdenciária, entre os professores da UFRGS e o HCPA, Empresa Publica, não tendo logrado êxito. Agora, busca de outro prisma rever a mesma relação, de modo a firmar conceitos de relação jurídico/tributária que obrigue a autora, Fundação Médica, a rever todos os seus conceitos sobre a estrutura funcional, a manutenção e renovação de convênios, eis que a obrigatoriedade de considerar remuneração não isenta de tributos as BOLSAS DE PESQUISA E EXTENSÃO representará uma revolução onerosa, definitivamente marcante, que influenciará negativamente a realização dos objetivos sociais e estatutários das entidades (HCPA, FMRS e UFRGS).” Ressalta que os repasses de verbas, feitos pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, em decorrência dos convênios firmados com a Fundação Médica do Rio Grande do Sul sempre foram devidamente demonstrados e registrados em documentação contábil na forma da lei e dos costumes contábeis e que as bolsas recebidas pelos professores têm natureza diversa de uma contraprestação de serviço, não gerando benefício para o doador, como pretende a Fiscalização. Apresenta cópia de Parecer conclusivo do Tribunal de Contas da União – TCU. Alega que a “interpretação que advém, ademais, da jurisprudência pátria, a respeito de Bolsas de Estudo, Bolsas de Extensão e Bolsas de Pesquisa, acerca da isenção frente ao Imposto de Renda, aplicase ao conceito extensivo de tributo, qual seja o das contribuições previdenciárias, dada a natureza congênere. Assim, o Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, (atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) possui julgados que se enquadram perfeitamente ao presente caso.” Afirma que a nãoincidência, ou isenção, de contribuição previdenciária sobre “BOLSAS” em geral é matéria tratada em legislação avulsa que introduziu modificações na Lei nº 8.212/1991. Cita as Leis nº 6.494/1977, complementação educacional de estagiário, nº 9.394/1996 e nº 9.528/1997, educação básica de empregados e seus dependentes e nº 12.761/2012, vale cultura. Fl. 2082DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.041 7 Reafirma inconteste a constatação que as atividades de extensão desenvolvidas pelos membros da Fundação Médica do Rio Grande Sul, atuando como professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, junto ao Hospital de Clinicas de Porto Alegre, seja nos convênios relativos à preceptoria dos médicos residentes, seja nos contratos de pesquisa, não representam contraprestação de serviços. Alega deturpado o entendimento da Auditoria Fiscal de que os professores da Fundação Médica do Rio Grande do Sul sejam “os propulsores de toda a atividade assistencial do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (...) eis que a verdadeira força de trabalho desse Hospital Escola, vinculado à UFRGS, com patrocínio quase que exclusivo da União Federal, é representada por seus empregados, em quadro representativo de cerca de 1.189 (um mil cento e oitante e nove) profissionais, entre médicos e enfermeiros, sendo mais representativa a quantidade de profissionais médicos e enfermeiros”, tendo os professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul o objetivo de qualificação, de formação, de extensão universitária, traduzidos nos convênios ou contratos celebrados com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre “ou com organizações de direito público interessadas em pesquisas voltadas, unicamente, para a saúde pública.” Registra “que a celebração de CONTRATOS (pesquisa), mesmo quando privadas, não resultam tão somente vantagens para os patrocinadores dessas pesquisas, pois, não menos verdade é o fato de que o resultado de tais investimentos (quando surgem e se concretizam), representam substrato científico e acadêmico de que decorrerá, infalivelmente, geração de novos conhecimentos, aprendizagem, sem falar na melhoria das condições de trabalho para a comunidade científica, na melhoria de condutas específicas para os novos profissionais da área da saúde que ali, no HCPA complementam sua formação.” Quanto ao Auto de Infração DEBCAD nº 37.385.1324, alega que em não havendo incidência de contribuição, deixa de ser exigível qualquer penalidade pelo descumprimento da norma do artigo 32, inciso IV, da Lei nº 8.212/1991, que determina a declaração em GFIP de fato gerador. Frisa que “o procedimento adotado, de informar aos seus associados, professores da UFRGS representativos da Fundação Médica, que o ‘rendimento’ é isento, por se tratar de BOLSA, somente foi adotado a partir da regulamentação, em 2005, quando a norma isentiva passou a ser compreendida na sua integralidade.” Entende inusitada a referência, no Relatório Fiscal, à existência de ilícito penal, pois “esta Fundação, que é entidade sem fins lucrativos, devidamente reconhecida até mesmo pelo Poder Judiciário, portanto não podendo ser nomeada como ‘empresa’ pela fiscalização, como o fez, há que se pronunciar, nesta Impugnação, sobre o verdadeiro disparate representado nesta manifestação oficial, qual seja o de encaminhamento de representação para fins penais.” Fl. 2083DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.042 8 Expõe que os “administradores da Fundação Médica, que exercem mandato eletivo de duração de 02 (dois) anos, são membros da Fundação que assumem, como administradores, unicamente a responsabilidade, o ônus, sem ‘bônus’, pois que continuam exercendo, na integralidade, as suas funções de preceptoria, de orientação, de pesquisadores, de acordo com o CONVÊNIO/CONTRATO em que estão inseridos, nada recebendo de remuneração pelo exercício de direção da instituição.” Que, de “outra parte, como já acima restou configurado e amplamente acentuado, a administração da ora impugnante possui o respaldo da legislação própria, assim como de Parecer do Tribunal de Contas da União (transcrito retro), que corrobora a lisura de suas decisões. Nesse contexto, ainda que haja espaço para se discutir e divergir sobre a interpretação da norma específica, não se pode colher, da situação assim posta, qualquer conotação de dolo, de má fé, de cometimento de ilicitude que possa dar origem a qualquer tipo de ação penal. Por isso é que, de antemão, a Impugnante rechaça a intenção da autoridade arrecadadora/fiscalizadora, representada na ação de seus agentes. Afigurase, no caso concreto, no entender desta instituição, verdadeiro abuso de autoridade.” Requer seja declarado nulo ou insubsistente o Auto de Infração, tendo em vista que “a doação de BOLSAS DE PESQUISA E EXTENSÃO, pela fundação Médica, a seus membros, profissionais vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, na realização de programas específicos, derivados da preceptoria de médicos residentes, não se enquadra na hipótese legal de rendimento tributável, em face ao que preconiza o art. 6º da Lei nº 8.958/94, bem assim o Decreto que a regulamenta, de nº 5.205/2004.” Alternativamente, requer seja julgado insubsistente o Auto de Infração, com a declaração de inexigibilidade da multa isolada, face a alteração da Lei nº 11.488/2007, que suprimiu a eficácia do artigo 9º da Lei nº 10.426/2002, suprimindo a hipótese de incidência de multa isolada para o caso em tela. Por último, ainda alternativamente, se devida a multa cobrada, “não poderia sêlo no montante calculado pelo AFRFB autuante, pois é indevido o reajuste da base de cálculo, vez que esta hipótese só se aplicaria na cobrança do imposto, diretamente, da fonte pagadora do rendimento, que assumiria o ônus do tributo. Não sendo o caso, a base de cálculo não pode sofrer reajuste, pelo quanto deve ser reduzida a penalidade. Em seu recurso, inicialmente, esclarece que é fundação criada com a finalidade de conferir assistência projetos de pesquisa, ensino e extensão institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul por meio do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e, por isso, estaria autorizada a conceder bolsas aos associados pela participação nos projetos de extensão matéria do presente processo. Fl. 2084DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.043 9 Aponta que receberia do HCPA os recurso que repassa aos membros pela participação nos projetos e que tais tal ação estaria, inclusive, chancelada pelo Tribunal de Contas da União, através de sua auditoria (fls. 720/729). Aduz que, em 1998, a instituição já teria sofrido investigação idêntica à presente (NFLD nº 32.722.3111, fls. 1.201/1.205), conseguindo seu cancelamento através da Ação Anulatória nº 1999.71.00.0266656 (fls. 1.207/1.212), posto que teria entendido a decisão judicial que a qualificação empregatícia utilizada seria indevida. Alega, em preliminar, total ilegitimidade passiva, uma vez que, segundo seu entendimento, ainda que fosse cabível a tese fiscalizatória da existência de efetiva prestação de serviços, não seria a recorrente beneficiada com qualquer contraprestação, apenas repassando os valores aos associados como doação. Arrazoa que, segundo art. 22, inc. III, da Lei nº 8.212/91, reprodução daquilo que contido no art. 195, inc. I, "a", da Constituição Federal, haveria, como materialidade inafastável para o pagamento das contribuições previdenciárias, ser o sujeito passivo beneficiário do serviço (tomador e pagador). Junta jurisprudência advinda deste Tribunal Administrativo em defesa de sua tese. A seguir, ainda quanto a sua ilegitimidade passiva, afiança que haveria "erro crasso" na definição da atividade realizada pela Fundação recorrente, eis que o "serviço apontado pelo lançamento fiscal foi prestado ao Hospital das Clínica de Porto Alegre e a Laboratórios, e não à recorrente" e "o pagamento foi realizado pelos laboratórios e pelo Hospital de Clínicas, sendo a recorrente mera repassadora desses valores". De igual modo, aponta que, segundo a própria autuação, não seria tomadora ou beneficiária dos serviços prestados pelos professores. Assim, direciona que não poderia "a recorrente figurar no pólo passivo da obrigação tributária que tem como materialidade ' PAGAR remuneração por serviço que LHE SEJA PRESTADO', se a mesma ALÉM DE NÃO EFETUAR PAGAMENTO também não é BENEFICIÁRIA, NÃO AUFERINDO QUALQUER VANTAGEM DESSE SERVIÇO". Apresenta o seguinte esquema: A seu ver, o lançamento seria "incoerente" uma vez que a motivação pega pela Fiscalização não é compatível com a realidade fática ou com a materialidade das ações Fl. 2085DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.044 10 realizadas. Uma vez que, reprisa, ainda que ocorresse prestação de serviços, não seria beneficiária deles, conforme contratos de fls. 186/222, 145/155 e 354/365. Salienta, calcandose na decisão judicial anteriormente proferida na Ação Anulatória postulada pelo HCPA, que a atual fiscalização, ao invés de alterar o conteúdo do lançamento, uma vez que teria sido afastada sua procedência por decisão judicial, apenas teria alterado o sujeito passivo da persecução fiscal, sendo assim demonstrado seu total desacerto. Esclarece, posteriormente, quanto a nulidade do auto de infração, que, na qualidade de instituição apoiadora, apenas centralizaria os recursos financeiros e as atividades administrativas relacionadas aos projetos de pesquisa e extensão, sendo responsável pelo pagamento das bolsas e pela aquisição do material necessário às atividades acadêmicas, da seguinte forma: Advoga que há ilegalidade no levantamento realizado por arbitramento, uma vez que teria se valido o Relatório Fiscal (às fls. 16/18) da presunção de que todas as bolsas pagas a título de projeto de pesquisa decorreriam de contratos firmados com laboratórios, que os retirariam da seara da doação civil, transmutandoos ao conceito de prestação de serviços, envolvendo, na visão fiscal, interesses comerciais, efetuando, portanto, lançamento sobre a totalidade dos pagamentos realizado a título de bolsa. Quanto a isso, aponta que, ainda que vingasse a tese fiscal, no sentido da finalidade comercial dos contratos, diversos deles, utilizados pela Fiscalização, não se encaixariam nas premissas fixadas pelo próprio Auditor, posto que muitos desses projetos seriam patrocinados por instituições de fomento e outras entidades, englobando pagamentos decorrentes de contratos com natureza completamente diferente da que infirmada na verificação fiscal. Junta doutrina e jurisprudência corroborando seus argumentos. De igual modo, indigita a nulidade por não haver qualquer demonstração sobre vantagem econômica auferida pela recorrente, ou qual serviço teria sido por ela tomado, assinalando que os indícios postos na presente lide não seriam hábeis para fundamentar o lançamento contra o contribuinte. Requer, nas preliminares, que seja declarado nulo o auto de infração combatido, porque inexistiria comprovação dos fatos sobre os quais se encontra calcado, a saber, vantagem econômica ou contraprestação de serviço para a recorrente. Fl. 2086DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.045 11 No mérito, aponta que todos os requisitos impostos pela legislação, qual seja, a observação do §1º, do art. 4º, da Lei nº 8.958/94, art. 26 da Lei nº 8.250/95 e art. 6º do Decreto nº 5.205/04, teriam sido cumpridos, caracterizando assim todos os pagamentos como doações civis ou repasses pela participação em projetos de pesquisa e extensão. Destaca, quanto a não incidência de contribuição previdenciária sobre os valores repassados aos membros da Fundação a título de bolsa de extensão, que possui diversos cursos de extensão na área da saúde, sendo tais ações coordenadas por professores da Instituição de Ensino Superior que, ao mesmo tempo, são seus membros. Explicita: Esquema esse que seria utilizado por todos os convênios realizados entre a Fundação e o HCPA. Estabelece, com fulcro em decisão judicial que reconhece ser a recorrente entidade sem fins lucrativos, que tais convênios, seriam feitos com expressa previsão de valores, utilizando seu orçamento para cobrir as despesas dos projetos desenvolvidos em conjunto pelas duas instituições, incluindo os custos administrativos, bolsas de extensão e eventuais serviços adicionais. Acrescenta, às fls. 1.156, que "a inexistência de vantagem econômica decorre, ainda, do fato de o atendimento realizados pelos médicos e enfermeiros residentes, sob a supervisão dos docentes, ser mais oneroso para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre do que o atendimento convencional." (g.o.) Assenta tal argumento porque, a seu ver, ficaria nítido que faltaria elemento essencial para o lançamento pretendido, conforme anteriormente esposado, qual seja, a vantagem econômica, não sendo possível conceber que as referidas doações acarretem qualquer préstimo à recorrente. Cita jurisprudência deste CARF. Em seguida, entremostra que seria "imperioso referir que as doações recebidas pelos professores membros da recorrente já foram analisados pelo Poder Judiciário, tendo o mesmo reconhecido o preenchimento de todos os requisitos legais para fruição da isenção do imposto de renda." (fls. 1.158) Em suas razões, não haveria contraprestação de serviços nos casos em tela, eis que não seriam prestados tais serviços, tendo a Fiscalização confundido os encargos e responsabilidades atribuídas aos membros da Recorrente com a "prestação de serviço médico" realiza pelos médicos residentes empregados do Hospital. Fl. 2087DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.046 12 Às fls. 1.160: "Em síntese, o mero fato de haver uma prestação como encargo na doação, não faz com que isso seja considerado como contraprestação, pois a contraprestação é prestação realizada em valor equiparável ao bem entregue. Além disso, os programas de extensão na área da saúde possuem como finalidade precípua a qualificação profissional dos médicos residentes que atendem (serviço) o público, sendo supervisionados (encargo do projeto) pelos professores da Fundação Médica, ora recorrente. Contudo, os residentes lidam com vidas humanas, e erros nessa área podem ser fatais. por esse motivo, é necessária a supervisão de docentes da área da saúde, cujas atividades resumemse em (i) observar os atendimentos, (ii) supervisionar os laudos médicos realizados, (iii) analisar os prontuários e auxiliar os residentes na escolha do tratamento adequado. Ou seja, os docentes membros da recorrente não atendem diretamente os pacientes do HCPA." Alude que a atividade de supervisão realizada pelos professores nada mais é que atividademeio, sendo a atividadefim a produção do conhecimento, que traz a reboque o aprendizados dos médicos residentes e o tratamento dos pacientes, não guardando relação com o resultado do atendimento. Arrola doutrina e jurisprudência em defesa de sua enunciação, apontando que não haveria como subsistir a cobrança em testilha. Quanto à bolsa de pesquisa, monta o seguinte esquema: Diante disso, a recorrente apenas repassaria os valores pagos pela entidade patrocinadora ao membro escolhido a partir de sua aptidão técnica, a título de bolsa (doação), reprisando, uma vez mais, que não existe vantagem econômica nos contratos por si firmados. Colaciona jurisprudência de Tribunais Regionais e do c. Superior Tribunal de Justiça. Reprisa que, com base no Acórdão nº 568234/102 do Tribunal de Contas da União, que teria reconhecido a legitimidade dos projetos de pesquisa e extensão, requerendo seja dado provimento ao recurso, de modo a cancelar o lançamento realizado pela autoridade administrativa. Fl. 2088DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.047 13 Por derradeiro, requer a redução da multa aplicada referente ás competências de janeiro a novembro de 2008, posto que a MP nº 449/08 teria instituído penalidade mais benéfica à recorrente, a qual deve, a seu ver, ser aplicada retroativamente, nos termos do art. 106, "c", do CTN. Isso porque, a multa aplicada pela fiscalização, de 24% (hoje em 40%), acordo com o artigo 35, da Lei nº 8.212/91, escaparia do racional exposto pela Medida Provisória 449/08, convertida na Lei nº 11.941/09, que limitou a multa em 20%. Assim, a penalidade mais branda instituída pela legislação deveria ser, por ordem do Código Tributário Nacional, ser aplicado ao presente caso. Junta jurisprudência deste Conselho. Em seguida, quanto a competência 10/2008, pontua a impossibilidade de cumulação de multa de ofício e multa por descumprimento de obrigação acessória sobre o mesmo suporte fático, eis que tendo sido constituído crédito decorrente de obrigação principal, não caberia a imposição de multa por descumprimento de obrigação acessória motivada pela apresentação de declaração inexata, sob pena de dupla penalização sobre o mesmo fato. Roga, nesse ponto, para que seja afastada a multa aplicada pelo descumprimento da obrigação acessória. Propugna, ainda, o afastamento dos juros sobre multa de ofício, entendendo que somente incidiria juros de mora sobre a multa de ofício quando lançada de forma isolada, não havendo disposição legal que embase os juros no presente caso. Requer o cancelamento do auto de infração pela (i) ilegitimidade passiva da Fundação; (ii) iliquidez e certeza do crédito; (iii) falta de cumprimento de requisitos legais que configurem a existência de prestação de serviços; e, sucessivamente, (iv) seja reduzida a multa de mora aplicada; (v) seja desconstituída a multa por descumprimento de obrigação acessória; (vi) excluída a cobrança de juros sobre a multa de ofício. Às fls. 1.378 a 1.397, junta Acórdão nº 2801003.779, da 1ª Turma ESpecial da Segunda Seção de Julgamento do CARF, em que seria reconhecida a isenção de IRPF sobre as bolsas recebidas por um dos membros da Recorrente. Nesse oportuno, reforça seus argumentos quanto a ausência de recolhimento de Contribuições Sociais Previdenciárias sobre as doações oferecidas. Às fls. 1.423 usque 1.425, é juntada Resolução da 3ª Câmara da Segunda Turma Ordinária da Segunda Seção desta Corte, onde, por ter o Relator deixado o CARF, apenas se requisitou: "Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos em converter o julgamento em diligência para que sejam prestados esclarecimentos acerca dos fatos geradores lançados, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado." Baixado em diligência, houve Despacho de fls. 1.434 a 1.442, reiterando os argumentos lançados no Relatório Fiscal, no sentido de que as atividades prestadas e lançadas tratarseiam de prestação de serviços. Fl. 2089DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.048 14 Aponta que os esclarecimentos prestados no processo nº 11080.735705/2012 67 também esclareceriam o lançamento. Analisa 6 dos contratos realizados pela Recorrente, destacando os pontos em que restariam demonstradas a prestação de serviços executada pelos membros da apelante, sendo devida a contribuição. Intimada, a recorrente junta, às fls. 1.448 a 1.464, petição alegando, em apertada síntese que: 1. a análise efetuada pela diligência fiscal seria superficial, uma vez que, além de analisar menos de 10% dos contratos firmados pela Recorrente, não teriam sido esclarecidas as determinações do CARF. 2. na tentativa de salvar os lançamento fiscal, teria deixado de analisar os contratos firmados e com entidades públicas, que não utilizariam, como afirmado pelo RF, os estudos para fins comerciais. 3. não existem interesses privados nas atividades realizadas, uma vez que o resultado das pesquisas seriam, sempre, de interesse público; 4. haveria ilegitimidade passiva da recorrente, como em outros casos de ilegitimidade de fundações de apoio, citando precedentes deste Conselho. Sanados os pontos, requer, uma vez mais, o provimento do recurso e o cancelamento do lançamento. Junta diversos Acórdão advindos desta Corte Administrativa. Em seguida, às fls. 1.501/1.506, apontando: "5. No caso em tela, os preceptores/pesquisadores vinculados à Recorrente irresignados com o posicionamento da RFB que lhes exigia tanto o IRPF, como a contribuição do INSS sobre as bolsas ajuizaram ações perante a Justiça Federal em Porto Alegre, através das quais buscaram o reconhecimento de que sua atividade não configura prestação de serviço à Recorrente e, conseqüentemente, não está sujeita ao IRPF nem à contribuição para o INSS . 6. Analisando os pleitos ajuizados pelos preceptores/pesquisadores, que têm como objeto a percepção das bolsas repassadas pela Recorrente, o Poder Judiciário reconheceu a procedência, de modo definitivo, de TODAS as ações, cristalizando a inexigibilidade da contribuição para o INSS, pela inexistência da contraprestação de serviços que constitui a materialidade do crédito tributário ora discutido." Fiase que, com a promulgação da Lei nº 13.243/16, estaria cristalina sua argumentação no sentido da nulidade do crédito tributário ora perseguido. Reafirma, por vez terceira, sua ilegitimidade passiva. Fl. 2090DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.049 15 Requer, subsidiariamente seja cancelado o crédito tributário relativamente à base que abrange pagamentos a professores/preceptores cujas ações judiciais já foram definitivamente julgadas, bem como, a desconstituição da multa por 6 descumprimento de obrigação acessória dupla penalização e a exclusão dos juros sobre a multa de ofício, que somente se aplica quando esta for lançada de modo isolado, uma vez que o art. 61 da Lei n° 9.430/96 institui regime diferente para hipóteses em que estas duas parcelas são exigidas em conjunto, consoante entendimento deste Egrégio Conselho. Anexa, às fls. 1.538/1.586, planilha com informações das ações judiciais que atingiriam o presente lançamento. Junta diversas decisões relativas aos processos citados na planilha coligida. Com isso, os autos vieram para julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Jamed Abdul Nasser Feitoza Relator 1. ADMISSIBILIDADE. 1.1. DA TEMPESTIVIDADE. No que se refere a tempestividade o processo apresenta um iter conturbado. O Acórdão recorrido consta das folhas 1021 a 1036. Na folha de nº 1038 consta solicitação de cópia dos autos concedida em 04/04/2013. Na Fl. 1042 consta termo de abertura de documentos eletrônicos datado de 11/04/2013 e termo indicando o dia 17/04/2013 como data de ciência por decurso de prazo. Em 24/04/2013, nova solicitação de cópias foi apresentada e deferida [Fl. 1044]. Em 26 de junho de 2013 a Recorrente apresenta pedido de reabertura de prazo para interposição do Recurso Voluntário, sob o fundamento de ter recebido orientação equivocada na repartição. [Fl. 1068] Em 25/06/2013 novo requerimento de cópias foi apresentado pela Recorrente e deferido. [Fl. 1077]. Em 04/07/2013 a Recorrente apresenta novo pedido de reabertura de prazo, nesta oportunidade o fundamento para tal pedido foi a ausência de adesão da Recorrente ao domicílio tributário eletrônico. [Fls. 1085/1090]. A DRFPOA, analisando as questões relacionadas ao pedido de reabertura de prazo entendeu pela impossibilidade eis que, ao contrário do que alegava a Recorrente, no Fl. 2091DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.050 16 período em que recebeu e acesso a notificação em sua caixa postal eletrônica, sua opção pelo Domicilio Tributário Eletrônico estava ativa e vigente1. [Fl. 1106] Em 09/09/2013, a Recorrente tomou ciência do indeferimento de seu requerimento de reabertura de prazo para interposição do Recurso Voluntário. [Fl. 1108] Como reação ao indeferimento, a Recorrente impetrou o MS nº 5036377 19.2013.404.7100/RS e obteve liminar com os seguintes termos [Fls. 1111/1115]: Ante o exposto, defiro a liminar, determinando (i) a suspensão dos atos expropriatórios da execução fiscal n. 50331009220134047100 e, consequentemente, a suspensão do prazo para oposição de embargos; e (ii) a reabertura do prazo para interposição de recurso no processo administrativo nº 11080.735704/201212. Em 10/07/2013 a Recorrente apresentou novo pedido de cópias que lhes foram entregues na mesma data. [Fl. 1118]. Em 29/07/2013 a Recorrente foi intimada via correio [Fl. 1124] quanto a reabertura do prazo para interposição de Recurso Voluntário, que foi interposto em 26/08/2013 [Fls. 1128]. Verificamos que a Recorrente falhou, em mais de uma oportunidade, no controle de prazo e adequado exercício do seu direito de insurgência. Seu prazo para interposição de Recurso Voluntário, em realidade, teve inicio em 04/04/2013, momento em que, por meio de cópia dos autos, obteve conhecimento inequívoco do teor do acórdão recorrido2. Embora este fundamento não tenha sido oposto a Recorrente e, mesmo sendo procedente as razões da fiscalização para indeferir o pedido de reabertura de prazo, ao obter decisão judicial lhe conferindo tal direito, no que concerne a tempestividade, a questão encontrase resolvida, não sendo obstáculo ao conhecimento do Recurso Voluntário. Apesar de intempestivo a decisão judicial resolve a questão, entretanto, existem outras questões que demandam analise. 1 "A fim de reforçar a informação de que o interessado era optante pelo Domicílio Tributário Eletrônico (DTE) à época da intimação nº 690/2013, em paralelo à consulta aos extratos da Caixa Postal do interessado, solicitouse ao SERPRO informações a respeito das datas em que houve a opção pelo DTE. Em resposta, o SERPRO informou através do documento de fls. 1104/1105, que o interessado optou em 21/01/2013 e cancelou essa opção somente em 03/07/2013, estando, portanto, em plena vigência a opção feita pelo interessado, quando da emissão da intimação nº 690/2013, assim como à época de sua leitura e de seu respectivo transcurso de prazo para interposição de recurso." 2 No âmbito do processo administrativo federal, conforme previsão do §3º do Art. 26, da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, a intimação pode ser realizada nos autos, por via postal ou outro meio que assegure a certeza da ciência do interessado. "Art. 26. O órgão competente perante o qual tramita o processo administrativo determinará a intimação do interessado para ciência de decisão ou a efetivação de diligências. §1º A intimação deverá conter: I identificação do intimado e nome do órgão ou entidade administrativa; II finalidade da intimação; III data, hora e local em que deve comparecer; IV se o intimado deve comparecer pessoalmente, ou fazerse representar; V informação da continuidade do processo independentemente do seu comparecimento; VI indicação dos fatos e fundamentos legais pertinentes. §2º A intimação observará a antecedência mínima de três dias úteis quanto à data de comparecimento. §3º A intimação pode ser efetuada por ciência no processo, por via postal com aviso de recebimento, por telegrama ou outro meio que assegure a certeza da ciência do interessado. Fl. 2092DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.051 17 1.2. DA AUSÊNCIA DE CONCOMITÂNCIA E DA INAPLICABILIDADE DOS EFEITOS DO RE 566.622 AO CASO. Conforme já registrado no decisório a quo, "a Fundação Médica do Rio Grande do Sul ajuizou ação declaratória de inexigibilidade de tributos incidentes sobre renda e patrimônio, objetivando a declaração de sua imunidade, nos termos do artigo 150, inciso VI, alínea ‘c’, da Constituição Federal de 1988 – CF/88, c/c o artigo 14, do Código Tributário Nacional – CTN, frente aos impostos arrecadados e administrados pela Secretaria da Receita Federal, incidentes sobre aquisições, no mercado interno e externo, de bens, mercadorias e equipamentos, destinados ao uso e consumo ou que irão compor o ativo imobilizado; sobre ganhos de capital em aplicações financeiras ou recursos buscados junto ao mercado financeiro; e sobre quaisquer impostos que venham a onerar o seu patrimônio, renda ou serviço, referentemente à competência da parte ré.", não havendo que se falar em concomitância. Contudo o lançamento de crédito tributário referese a parte patronal, concernente a contribuição previdenciária de contribuintes individuais supostamente a serviço da Recorrente e consolidado em 13/12/2012, referente a contribuições previdenciárias patronais incidentes sobre valores pagos a tais segurados, nas competências 01/2008 a 12/2008. Vejamos: Tratandose de entidade sem fins lucrativos, que faz jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º3, da Constituição Federal, sendo tal condição reconhecida na ação judicial já referida. Contudo, apesar de cabível, a Recorrente, na impugnação ou Recurso Voluntário, não apresentou tal alegação como alegação essencial e impeditiva do direito de constituir tais créditos. Faz referencia a característica de entidade imune ou isenta de modo superficial e incidental, como parte dos argumentos para demonstrar a inexistência de retributividade nas operações que realiza [Fl. 1155]. Vejamos: 3 § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. Fl. 2093DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.052 18 Ocorre que, por força de decisão proferida nos autos do RE 566.6224, se tais questões estivessem presentes como argumentos da lide, o caso estaria sob restrição de julgamento em decorrência de determinação do Excelentíssimo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Dr. Marco Aurélio de Melo, nos seguintes termos: Petição/STF nº 6.604/2017 DESPACHO LIMINAR CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CARF CIÊNCIA. 1. O Gabinete prestou as seguintes informações: A Fundação Armando Alvares Penteado, admitida no processo como interessada, requer a comunicação, mediante ofício, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF acerca da suspensão dos processos que versem a mesma matéria do extraordinário. Narra ter alcançado, na decisão de deferimento da intervenção, medida acauteladora voltada ao sobrestamento dos processos relacionados ao Tema nº 32, atinente à reserva de lei complementar para instituir requisitos para a concessão de imunidade tributária às entidades beneficentes de assistência social. Destaca o fundamento do pronunciamento mencionado artigo 1.035, § 5º, do Código de Processo Civil–, no qual ficou consignada expressamente a impossibilidade de acionamento do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991 pela Administração Pública. Relata a ausência de implementação da medida no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, vinculado ao 4 STF RE: 566622 RS RIO GRANDE DO SUL, Relator: Min. MARCO AURÉLIO, Data de Julgamento: 23/02/2017, Data de Publicação: DJe038 01/03/2017 Fl. 2094DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.053 19 Ministério da Fazenda, responsável pelo exame dos recursos contra atos formalizados no âmbito da Secretaria da Receita Federal do Brasil RFB. Afirma que a recusa do Órgão decorre da falta de previsão regimental a respaldar a suspensão dos processos. Ressalta a iminência de julgamento, no CARF, de processo administrativo relevante para a entidade. Noticia a expedição de ofício, pela Secretaria Judiciária, a todos os tribunais do território nacional, não tendo havido comunicação aos órgãos administrativos. Em 30 de junho de 2016, Vossa Excelência proferiu a seguinte decisão: RECURSO EXTRAORDINÁRIO TERCEIRO ADMISSÃO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO REPERCUSSÃO GERAL– JULGAMENTO VOTOS PROFERIDOS PLENÁRIO SEQUÊNCIA PROJEÇÃO NO TEMPO LIMINAR DEFERIDA. 1. O assessor Dr. Vinicius de Andrade Prado prestou as seguintes informações: Por meio da petição/STF nº 28.420/2016, a Fundação Armando Alvares Penteado requer a admissão no processo na qualidade de assistente simples ou, sucessivamente, terceira. Caso não atendido o pleito, postula a apreciação do articulado com base no direito de petição, ante o envolvimento de questão por si avaliada como de ordem pública. Segundo narra, na condição de entidade sem fins lucrativos, tem jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º, da Constituição Federal, relativa ao pagamento de contribuição para a seguridade social. Ressalta a insistência da União em questionar a própria qualificação e lançar tributos, cobrandoos em valores elevados, no que comprometida a continuidade da prestação dos serviços. Conforme esclarece, o Tribunal reconheceu, no caso, a repercussão geral da controvérsia atinente à validade do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991 considerada a alegada reserva de lei complementar para disciplinar a imunidade. Aponta figurar como ré em ação coletiva na qual veiculada a temática, tendo interposto extraordinário, o qual encontrase sobrestado na origem. Assevera o início do exame do paradigma em 4 de junho de 2014, estando o julgamento suspenso em virtude de pedido de vista formalizado pelo ministro Teori Zavascki. Frisa a continuidade da cobrança das contribuições previdenciárias mediante execuções fiscais. Diz da impossibilidade de obtenção de certidões negativas de débito ou positivas com efeito de negativa. Enfatiza haver óbice quanto à renovação, junto ao Ministério da Educação, do próprio credenciamento e da autorização dos cursos por si oferecidos, pelo que entende demonstrado o interesse em intervir no processo. Caso não admitida a participação, evoca o direito fundamental de petição para suscitar questão tida como de ordem pública. Consoante argumenta, com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, ficam necessariamente suspensos, de forma automática, todos os processos nos quais envolvidos temas cuja repercussão geral foi reconhecida pelo Supremo, presente o efeito multiplicador, no que a Fazenda estaria impedida de prosseguir com a cobrança das contribuições. Evoca os seguintes preceitos: Art. 1.035. [...] §5º Reconhecida a repercussão geral, o relator no Supremo Tribunal Federal determinará a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou Fl. 2095DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.054 20 coletivos, que versem sobre a questão e tramitem no território nacional. [...] Art. 1.036. Sempre que houver multiplicidade de recursos extraordinários ou especiais com fundamento em idêntica questão de direito, haverá afetação para julgamento de acordo com as disposições desta Subseção, observado o disposto no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal e no do Superior Tribunal de Justiça. [...] Art. 1.037. Selecionados os recursos, o relator, no tribunal superior, constatando a presença do pressuposto do caput do art. 1.036, proferirá decisão de afetação, na qual: [...] II determinará a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que versem sobre a questão e tramitem no território nacional; [...] Art. 1.040. Publicado o acórdão paradigma: [...] III os processos suspensos em primeiro e segundo graus de jurisdição retomarão o curso para julgamento e aplicação da tese firmada pelo tribunal superior; Discorre sobre a primazia dos precedentes no novo diploma processual. Cita os princípios da isonomia e da segurança jurídica, bem assim a pertinência da racionalização da prestação jurisdicional. Articula com a imediata incidência dos mencionados preceitos, uma vez versada matéria de natureza processual, ante o disposto no artigo 1.046 do Código de 2015. Entende em jogo a autoridade da decisão do Supremo. Evoca o artigo 328 do Regimento Interno. Ressalta já terem sido proferidos quatro votos no paradigma contra a tese da Fazenda. Requer a admissão como assistente simples da recorrente, com base no artigo 119, §1º, e 121 do Código de Processo Civil de 2015 ou, sucessivamente, como terceira, presente o artigo 138 do referido diploma ou, não deferido o ingresso, o conhecimento das razões expostas com base no direito de petição. Postula seja declarada a suspensão de todos os processos a envolver o Tema 32 da repercussão geral até o julgamento do paradigma, bem assim determinado à Administração que se abstenha de produzir efeitos negativos sobre a situação da requerente na pendência de decisão quanto ao tema, inclusive no tocante à recusa de expedição de certidões positivas com efeito negativo. Caso não se entenda automática a suspensão, pede seja ela determinada na situação concreta relativamente aos processos nos quais veiculada a controvérsia debatida no recurso extraordinário nº 566.622. Juntou procuração e reprodução de atos constitutivos. 2. É preocupante a situação do Plenário em termos de julgamentos. Acumulamse não só os processos que aguardam pauta como também outros que devem ter a seqüência do exame. A situação deste é emblemática. Libereio para a pauta em 23 de maio de 2014. O pregão veio a ocorrer no dia 4 imediato, observado então período razoável. Após o meu voto, no que fui acompanhado pelos ministros Joaquim Barbosa que não mais integra o Tribunal, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso, pediu vista o ministro Teori Zavascki. Pois bem, Sua Excelência liberou o processo para a continuidade da apreciação há mais de ano, e isso não foi possível. O resíduo de processos que aguardam a pauta dirigida, publicada no sítio do Supremo, é muito grande. Somente sob a minha relatoria, existe mais de uma centena de processos. É hora de perceber o contexto, de voltar os olhos Fl. 2096DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.055 21 para os jurisdicionados. É hora de otimizar o tempo, agilitando se os julgamentos. Em se tratando de processo sob repercussão geral, surgem conseqüências danosas. Uma vez admitida, dáse o fenômeno do sobrestamento de processos que, nos diversos Tribunais do País, versem a mesma matéria, sendo que hoje há previsão no sentido do implemento da providência requerida § 5º do artigo 1.035 do Código de Processo Civil. A entrega da prestação jurisdicional deve ocorrer conciliandose celeridade e conteúdo. Daí a necessidade de atentarse para o estágio atual dos trabalhos do Plenário. Dificilmente conseguese julgar, fora processos constantes em listas, mais de uma demanda, o que projeta no tempo, em demasia, o desfecho de inúmeros conflitos de interesse. No caso, temse quatro votos proferidos no sentido da inconstitucionalidade do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991. Enquanto isso, o Poder Público continua aplicandoo, gerando dificuldades de toda ordem para entidades beneficentes. Impõe se o deferimento de medida de urgência, muito embora ocorra no campo da atuação judicante individual, o que não é o melhor. 3. Admito a requerente como terceira interessada. Implemento a medida acauteladora, suspendendo, nos termos do artigo 1.035, §5º, do Código de Processo Civil, o curso de processos que veiculem o tema, obstaculizando o acionamento, pela Administração Pública, do artigo 55 da Lei nº 8.212/1991. 4. Ante a situação retratada no que respeita à entrega da prestação jurisdicional, considerado o Plenário, remetam cópia desta decisão ao presidente ministro Ricardo Lewandowski, que, certamente, adotará providências salutares. 5. Publiquem. O exame do extraordinário iniciouse em 4 de junho de 2014. Vossa Excelência proveu o recurso, tendo sido acompanhado pelos ministros Joaquim Barbosa, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. O ministro Teori Zavascki pediu vista. Em 19 de outubro de 2016, Sua Excelência negou provimento ao extraordinário. Após os votos dos ministros Rosa Weber, Luiz Fux, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, no sentido do desprovimento, o julgamento foi adiado. 2. Oficiem, na forma requerida, encaminhandose a íntegra da decisão interlocutória formalizada. 3. Publiquem. Brasília – residência –, 23 de fevereiro de 2017, às 9h55. Ministro MARCO AURÉLIO Relator A decisão judicial em referência impõe restrição de julgamento e suspensão do processo administrativo quando tratar da referida imunidade, entretanto, embora pudesse ser alegada como situação impeditiva para o lançamento, não foi esse o iter escolhido pela Recorrente, que somente referencia tal condição de modo tangencial. Este é o desafio que se impõe como condição de admissibilidade do presente Recurso, eis que sendo matéria que apenas tangencialmente toca a questão de imunidade referida pelo RE 566.622, poderia o colegiado entender que tal processo estaria inapto ao julgamento por estar abrangido pelos efeitos da decisão judicial referida o que imporia suspensão do processo até a ultimação do citado RE. Contudo a questão da imunidade apenas foi referida de modo tangencial e não integra a tese de oposição ou consta dos pedidos, razão pela qual o entendimento que Fl. 2097DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.056 22 apresentamos ao colegiado segue no sentido do conhecimento e julgamento do Recurso Voluntário. Restando vencedor na analise de admissibilidade realizada até este ponto passamos as demais questões inerentes as avaliações quanto ao conhecimento. 1.3. DA INOVAÇÃO NA LIDE. Confrontando as peças de impugnação e recurso verificamos que as nulidade proemiais não constavam da conformação inicial da lide, tão pouco decorreram de situações jurídicas que já não estivessem originariamente postas nos autos. Travar seu conhecimento implica em flertar com a supressão de instância, premiar a inovação e ferir o devido processo legal em oposição ao regramento contido no Art. 17 do Decreto nº 70.235/71, não podendo ser levada ao colegiado para julgamento. Como não vislumbramos outras situações impeditivas, já que o Recurso Voluntário preenche os requisitos intrínsecos e extrínsecos votamos por dele conhecer apenas parcialmente. 2. MÉRITO. No mérito as alegações da Recorrente são, em essência, exatamente as mesmas articuladas em sua impugnação. Não vislumbrando, nos elementos probatórios juntados aptidão para modificar o que fora decidido quanto ao mérito, assim, votamos por manter a decisão recorrida e, nos termos do §3º5 do Art 57 do anexo II do RICARF, adotaremos a fundamentação da decisão recorrida. Vejamos seus termos: A autuada apresenta entendimento jurisprudencial da não incidência de tributos e contribuições previdenciárias sobre valores pagos como Bolsa de Pesquisa e Extensão. Ocorre, no caso em tela, que conforme o Relatório do Procedimento Fiscal, pelo exame dos contratos firmados ficou demonstrado que a remuneração recebida a esse título não obedece os ditames legais que regem a matéria. As questões centrais do presente lançamento tratam de serem as bolsas de extensão e pesquisa fato gerador de contribuição previdenciária e da condição de contribuintes individuais dos professores médicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membros da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, que prestam serviços ao Hospital de Clínicas de Porto Alegre. 5 Art. 57. Em cada sessão de julgamento será observada a seguinte ordem: [...] III relatório, debate e votação dos recursos constantes da pauta. § 1º A ementa, relatório e voto deverão ser disponibilizados exclusivamente aos conselheiros do colegiado, previamente ao início de cada sessão de julgamento correspondente, em meio eletrônico. [...] § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida. (Redação dada pela Portaria MF nº 329, de 2017) Fl. 2098DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.057 23 A legislação que rege a matéria, Lei n° 8.958/1994, que dispõe sobre as relações entre as instituições federais de ensino superior e de pesquisa científica e tecnológica e as fundações de apoio, e o Decreto n° 5.205/2004, que Regulamenta esta Lei, determinam: Lei 8.958/1994: "Art. 1º As instituições federais de ensino superior e de pesquisa científica e tecnológica poderão contratar, nos termos do inciso XIII do art. 24 da Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993, e por prazo determinado, instituições criadas com a finalidade de dar apoio a projetos de pesquisa, ensino e extensão e de desenvolvimento institucional, científico e tecnológico de interesse das instituições federais contratantes ". Art. 4º As instituições federais contratantes poderão autorizar, de acordo com as normas aprovadas pelo órgão de direção superior competente, a participação de seus servidores nas atividades realizadas pelas fundações referidas no art. 1º desta lei, sem prejuízo de suas atribuições funcionais. § 1º A participação de servidores das instituições federais contratantes nas atividades previstas no art. 10 desta lei, autorizada nos termos deste artigo, não cria vínculo empregatício de qualquer natureza, podendo as fundações contratadas, para sua execução, concederem bolsas de ensino, de pesquisa e de extensão. Decreto n° 5.205/2004: "Art 1º As instituições federais de ensino superior e de pesquisa científica e tecnológica poderão celebrar com as fundações de apoio contratos ou convênios, mediante os quais essas últimas prestarão às primeiras apoio a projetos de ensino, pesquisa e extensão, e de desenvolvimento institucional, científico e tecnológico, por prazo determinado. § 1° Para os fins deste Decreto, consideramse instituições federais de ensino superior as universidades federais, faculdades, faculdades integradas, escolas superiores e centros federais de educação tecnológica, vinculados ao Ministério da Educação ". (...) Art. 6º As bolsas de ensino, pesquisa e extensão a que se refere o art. 4o, § 1º, da Lei n° 8.958, de 1994, constituemse em doação civil a servidores das instituições apoiadas para a realização de estudos e pesquisas e sua disseminação à sociedade, cujos resultados não revertam economicamente para o doador ou pessoa interposta, nem importem contraprestação de serviços. §4° Somente poderão ser caracterizadas como bolsas, nos termos deste Decreto, aquelas que estiverem expressamente previstas, identificados valores, periodicidade, duração e beneficiários, no teor dos projetos a que se refere este artigo. Fl. 2099DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.058 24 Art. 7° As bolsas concedidas nos termos deste Decreto são isentas do imposto de renda, conforme o disposto no art. 26 da Lei n° 9.250, de 26 de dezembro de 1995, e não integram a base de cálculo de incidência da contribuição previdenciária prevista no art. 28, incisos I a III, da Lei n° 8.212, de 24 de julho Observese que, conforme o artigo 150, parágrafo 6º , da Constituição Federal e os artigos 97, 111 e 176 do Código Tributário Nacional – CTN, qualquer isenção será sempre decorrente de lei específica, cujas disposições deverão ser interpretadas de forma restritiva. Assim, para que os valores recebidos a título de bolsa de extensão e de pesquisa, sejam isentos e nãotributáveis, dentre outras condições, não podem importar contraprestação de serviços ou trazer qualquer vantagem para o doador ou pessoa interposta. Quanto ao argumento de que as bolsas de pesquisa e extensão teriam atendido integralmente ao disposto na Lei n° 8.958/1994 e no Decreto n° 5.205/2004, de forma a estarem totalmente isentas de quaisquer recolhimentos de contribuições sociais, não assiste razão à autuada. De acordo com o disposto no artigo 4°, parágrafo 1°, da Lei 8.958/1994, a participação de servidores das instituições federais contratantes, nas atividades previstas no artigo 1° desta lei, autorizada nos termos deste artigo, não cria vínculo empregatício de qualquer natureza, podendo as fundações contratadas para sua execução conceder bolsas de ensino, pesquisa e extensão. Conforme previsto no artigo 6º do Decreto 5.205/2004, as bolsas de ensino, pesquisa e extensão a que se refere o artigo 4°, parágrafo 1°, da Lei 8.958/1994, constituemse em doação civil a servidores das instituições apoiadas, para a realização de estudos e pesquisas e sua disseminação à sociedade, com resultados que não revertam economicamente para o doador ou pessoa interposta, nem importem contraprestação de serviços. No parágrafo 4° do mesmo artigo 6º do Decreto, é previsto que somente poderão ser caracterizadas como bolsas, aquelas que estiverem expressamente previstas, identificados valores, periodicidade, duração e beneficiários, no teor dos projetos a que se refere esse artigo. Desse modo, o ponto controvertido é justamente a verificação se os valores pagos aos segurados se enquadraram como bolsas para fins de isenção de contribuição previdenciária. Quanto à concessão das bolsas de pesquisa o conflito assentase na natureza da remuneração, bem como na vantagem econômica auferida pelo patrocinador. Nos termos da legislação citada, a concessão de bolsa de pesquisa será doação civil, negócio de liberalidade, transferência de bens ou vantagens conforme definido no artigo Fl. 2100DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.059 25 538 do Código Civil, desde que o pagamento feito pelo doador não reverta em vantagem para ele ou para pessoa interposta. Sobre doação, observese o Parecer PGFN/CAJE/N° 593/90, de 31 de julho de 1990, da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional: 18 . Assim, a doação de valores, em pecúnia ou em bens, com encargo ou remuneração imputada ao donatário, somente manterá íntegra sua natureza civil, se o encargo ou remuneração não representar vantagem para o doador, sob pena de caracterizarse a relação de emprego contra salário. 19. Exemplificando: se o doador faz doação de valor, seja em bens ou em pecúnia, mas atribui ao donatário o encargo de serviços a favor dele doador, na verdade se caracteriza contrato de emprego contra salário, in natura ou em bens, não se podendo vislumbrar o negócio civil da doação; se, todavia, o doador faz doação de valor, em bens ou pecúnia, atribuindo ao donatário o encargo de serviços, mas que não sejam a favor dele doador ou de pessoa interposta que lhe possa comunicar vantagem econômica, subsiste a doação civil como prevista no Código Civil e não a relação de emprego. 20. A bolsa de estudo ou de pesquisa, será doação civil, negócio de liberalidade, desde que o pagamento feito pelo doador atribuindo o encargo da realização de estudo ou de pesquisa não reverta esse resultado economicamente para ele doador ou para pessoa interposta. Será doação, pois, o pagamento de valor, em pecúnia ou in natura, à pessoa sob condição de que realize um curso acadêmico ou uma pesquisa para o domínio público, sem que o resultado do estudo ou pesquisa seja diretamente aproveitado economicamente pelo doador. Ao contrário, se o resultado do estudo ou da pesquisa reverter ao doador, estarse á diante de relação de emprego contra salário. (...) Temse, em conseqüência, que se o resultado da atividade desenvolvida pelo bolsista importar em vantagem para o doador, não se estará diante de uma doação, pois perdido o caráter de liberalidade. As circunstâncias dos contratos entre empresas privadas e a Fundação Médica do Rio Grande do Sul, comprovadas pela autoridade lançadora, descaracterizam o pagamento da bolsa como doação, haja vista o tipo de cláusulas contratuais formalizadas entre as partes, que demonstram, na verdade, interesses comerciais, cercados de normas de segurança atinentes, por exemplo, à quebra de sigilo e direito autoral. Nos termos apresentados, nos contratos, existe a vantagem para o patrocinador da pesquisa pois, ao final, o resultado é de sua propriedade. Os contratos firmados entre a Fundação Médica do Rio Grande do Sul e os Patrocinadores estão revestidos de características de contratos de prestação de serviço, apresentando cláusulas em Fl. 2101DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.060 26 que a fundação, como “BENEFICIÁRIO designado está autorizado a receber todos os pagamentos pelos serviços prestados nos termos deste CONTRATO.” (Grifouse) Ainda, “Todos os tributos e encargos incidentes ou relativos à prestação de serviços objeto do presente acordo de patrocínio para condução de estudo clínico correrão por conta da parte que a este estiver obrigada, sendo retidos na forma da legislação vigente.” (Grifouse) Consta, também, do Relatório do Procedimento Fiscal, a constatação de que os contratos dispõem que os resultados do estudo e quaisquer informações, dados e registros relativo ao estudo serão propriedade exclusiva do Patrocinador: Anexo A Termos e Condições, item 2) Informações Confidenciais e de Propriedade Exclusiva. Todas as informações (incluindo, entre outros, documentos, descrições, dados, Fichas Clínicas "CCRFs"), fotografias, vídeos e instruções) e materiais (incluindo, entre outros, o Produto em investigação e produtos comparadores), fornecidos para o CENTRO DE PESQUISA pela QUINTILES, PATROCINADOR ou seus representantes (oralmente, por escrito ou forma eletrônica), e todos os dados, relatórios e informações relativas ao ESTUDO ou seu andamento (doravante denominadas "Informações Confidenciais") serão de propriedade do PATROCINADOR. (...) O PATROCINADOR terá a propriedade exclusiva de quaisquer invenções ou descobertas decorrentes total ou parcialmente das Informações Confidenciais ou decorrentes como resultado do ESTUDO. (...)."Desse modo, patente a violação ao artigo 6° do Decreto nº 5.205/2004, já que os resultados das pesquisas revertem economicamente para o “doador” e o pagamento das bolsas importa contraprestação de serviços. O pesquisador submetese à fiscalização pela contratante do andamento da pesquisa, à sugestão de adoção de procedimentos técnicos, operacionais, e à prestação de contas. Pelo exposto não procede o argumento de que os profissionais que receberam as bolsas de pesquisa não podem ser considerados como contribuintes individuais por receber valores como doação, posto que, no caso em tela, caracterizada a remuneração por serviços prestados. No tocante à concessão das bolsas de extensão, conforme informou a própria autuada, os professores bolsistas desenvolvem a atividade de preceptoria, sendo que “Para se compreender a atuação da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, há que se repassar, de antemão, a existência e funcionamento do Hospital de Clínicas de Porto Alegre HCPA como HospitalEscola da UFRGS, onde os membros da referida Fundação, na condição de professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuam como propulsores e peças básicas dos projetos de extensão e de assistência à saúde, tendo como Fl. 2102DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.061 27 mote originário a preceptoria na formação complementar dos médicos residentes (...) faz irradiar, para a sociedade, o aperfeiçoamento de todos os profissionais da área e, com isto, beneficiando a população que busca o atendimento médico ambulatorial desse Hospital Escola, basicamente representada no atendimento assistencial decorrente da preceptoria realizada junto ao atendimento prestado pelos médicos residentes e em aperfeiçoamento profissional aos pacientes do SUS, que também está inserido nos objetivos estatutários do HCPA.” Conforme informado pelo Auditor Fiscal no Relatório do Procedimento Fiscal, subitem 9.5.4, não há, no convênio firmado entre a Fundação Médica e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, referência à bolsa de extensão e coordenação do Programa de Docência em Residência Médica e Assistência à Saúde; e os valores relativos às bolsas não são determinados nos convênios, pois que fixados mensalmente pela Diretoria da Fundação, infringindo as disposições do parágrafo 4° do artigo 6° do Decreto nº 5.205/2004. Consta, também, do Relatório do Procedimento Fiscal, que parte integrante das atividades dos professores médicos vinculados à Fundação Médica do Rio Grande do Sul é a prestação de serviços médicos à população usuária do Sistema Único de Saúde conforme demonstram os Relatórios de Ação de Extensão. A condição para que os valores sejam enquadrados como bolsas é não ser contraprestação a serviços executados pelos beneficiários, conforme previsto no artigo 6° do Decreto nº 5.205/2004. Retribuindo o serviço prestado pelo segurados, os valores não podem ser enquadrados como doação. De acordo com o disposto no artigo nº 538 do Código Civil, considerase doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra. Assim, os valores são devidos aos segurados não por uma liberalidade da empresa, mas em virtude de serviços prestados. A prestação de serviços remunerada é fato gerador de contribuição previdenciária. Observese os documentos juntados aos autos, onde estão expressos os objetivos do programa: PROGRAMA DE DOCÊNCIA EM RESIDÊNCIA MÉDICA E ASSISTÊNCIA A SAÚDE NO HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE PELOS PROFESSORES DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, MEMBROS DA FUNDAÇÃO MÉDICA DO RIO GRANDE DO SUL 7.1.1. Desenvolver programa de extensão de preceptoria em residência médica, mediante assistência pelos professores e médicos residentes, aos pacientes do SUS Sistema Único de Saúde, em níveis ambulatoriais, hospitalares e de diagnósticos perante o CONCEDENTE; (...)8.4. Todos os atendimentos, internações e procedimentos em pacientes através do programa desenvolvido junto ao CONCEDENTE, serão realizados em nome de membros da Fl. 2103DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.062 28 CONVENENTE, que serão responsáveis na forma da legislação vigente; (...) Identificação: Desenvolver o Programa de Extensão em Residência Médica no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, visando à preceptoria dos médicos residentes contratados, mediante a assistência à comunidade pelos professores médicos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, membros da Fundação Médica do Rio Grande do Sul. PLANO DE TRABALHO fl. 2/3 Participação de Professores da UFRGS no Programa de Residência Médica, mediante a Assistência Médica à Pacientes do HCP: Logo, a bolsa de extensão percebida pelos participantes dos programas de extensão importa uma contraprestação de serviços, prestados no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, sendo que o resultado das atividades desenvolvidas pelos bolsistas representa o cumprimento de uma obrigação do Hospital, que contrata, por meio da Fundação Médica, o atendimento assistencial necessário à cobertura da população provida pelo SUS. É de se ressaltar que a Fundação Médica do Rio Grande do Sul, especificamente sobre a concessão destas bolsas de extensão, em 25/02/2002 recebeu da Secretaria da Receita Federal a Solução de Consulta SRRF/10ª RF/DISIT/ n° 18, contendo a seguinte orientação: Diante de todo o exposto respondase à consulente que os valores por ela pagos a título de bolsa de extensão aos participantes do Programa de Extensão Assistência à Saúde e Docência em Residência Médica são tributáveis na fonte e na declaração de ajuste anual do beneficiário. (...) Finalizando, esclareçase à consulente que o fato de inexistir vínculo empregatício entre ela e os professores bolsistas não tem o condão de classificar como rendimentos isentos, não sujeitos, portanto, à incidência do imposto de renda, as referidas bolsas. O art. 37 do RIR/1999, transcrito no item 3 da presente Solução de Consulta, inclusive, determina que constituem rendimento bruto todo o produto do trabalho, independentemente da existência ou não de vínculo empregatício. Assim, a Fazenda Nacional manifestou o entendimento de que a bolsa de extensão importava em uma contraprestação de serviços, executados no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, não atendendo as condições de isenção, como normatizadas pelo Decreto n° 5.205/2004. Fl. 2104DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.063 29 Temse, no caso, a relação previdenciária dos prestadores de serviço como contribuintes individuais a serviço da Fundação Médica do Rio Grande do Sul, configurando, a remuneração paga a título de bolsa, em fato gerador de contribuição, por estar em desacordo com a legislação que excluiu esta modalidade de remuneração da incidência de tributação. Notese que a relação previdenciária em pauta é entre os profissionais contratados como segurados contribuintes individuais e a Fundação Médica do Rio Grande do Sul e não entre profissionais segurados empregados e o Hospital das Clínicas de Porto Alegre, que já foi objeto de Ação Judicial nº 95.00166828, e Apelação Cível nº 1999.71.00.026665 6/RS, tendo a 2ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região entendido não existirem os pressupostos da caracterização do vínculo empregatício. Frisese que o pagamento de remuneração na forma de bolsas de pesquisa e extensão não é fato gerador de contribuição previdenciária somente quando cumpridas as condições determinadas no Decreto n° 5.205/2004. Considerando que houve o descumprimento das condições impostas para o reconhecimento da isenção, temse como correto o lançamento das contribuições previdenciárias devidas pelos pagamentos efetuados a contribuintes individuais que prestam serviços à Fundação Médica do Rio Grande do Sul por meios de contratos de pesquisa e extensão. Assim, ao contrário do afirmado pela autuada, há prestação de serviço por parte do professor médico preceptor. Essa prestação é traduzida tanto na prestação de serviços de ensino quanto pela assistência médica no atendimento ao SUS. Não assiste razão à impugnante ao afirmar que o doador não se beneficiou da atividade dos beneficiários. Ao utilizarse da mão deobra dos segurados, a entidade conseguiu cumprir os contratos e convênios, e com isso auferiu rendimento pelos serviços executados. A impugnante não possui direito à imunidade de contribuições previdenciárias. Somente as entidades beneficentes de assistência social que atendam aos requisitos de lei na forma do art. 195, parágrafo 7° da Constituição Federal possuem tal direito. A imunidade prevista no art. 150, inciso VI da Constituição Federal – que se refere, exclusivamente, a impostos – não se confunde com a prevista no artigo 195, parágrafo 7°. Observese, finalmente, a ementa do Acórdão nº 230201.388 – 3ª Câmara/2ª Turma Ordinária, do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, de 26 de outubro de 2011, julgando o recurso interposto pela Fundação Médica do Rio Grande do Sul contra decisão proferida no Acórdão nº 0927.637 – 5ª Turma da DRF/JFA, de 16 de dezembro de 2009, no julgamento do Fl. 2105DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.064 30 processo administrativo nº 12269.004711/200857, referente ao Auto de Infração DEBCAD nº 37.200.6175, lançamento de contribuição patronal incidente sobre pagamentos efetuados a contribuintes individuais, nas competências 01/2003 a 12/2007: CONTRIBUINTES INDIVIDUAIS. REMUNERAÇÃO. BOLSAS DE ENSINO. LEI 8.958. A condição para que os valores sejam enquadrados como bolsas é justamente não ser contraprestação a serviços executados pelos beneficiários, conforme previsto no art. 6° do Decreto n 5.205. Retribuindo o serviço prestado pelo segurados, os valores não podem ser enquadrados como doação. De acordo com o disposto no art. 538 do Código Civil, considerase doação o contrato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra. Assim, os valores foram devidos aos segurados não por uma liberalidade da empresa; 1 pois a liberalidade não teria uma causa jurídica. Os valores foram devidos em virtude de serviços prestados (a verdadeira causa jurídica) no interesse da entidade. Como se sabe, a prestação de serviços remunerada é fato gerador de contribuição previdenciária. Não haveria incidência de contribuição previdenciária se os valores fossem pagos de acordo com a Lei n 8.958. Todavia restou demonstrada a desobediência do comando legal. Multa mais benéfica Com relação às multas constantes do presente lançamento, temse que a multa aplicada para as competências 01/2008 a 11/2008, no Auto de Infração DEBCAD nº 37.385.1316, observado o disposto no artigo 106, inciso II, alínea “c” do CTN, teve por base o disposto no artigo 35, inciso II, da Lei nº 8.212/1991, vigente à época dos fatos geradores, por mais benéfica ao contribuinte, conforme demonstrado no item 13 do Relatório do Procedimento Fiscal. O cálculo efetuado, para aplicação da multa mais benéfica, tem por base o disposto no artigo 476A, da Instrução Normativa RFB nº 971/2009, DOU de 17/11/2009: “Art. 476A. No caso de lançamento de oficio relativo a fatos geradores ocorridos: I até 30 de novembro de 2008, deverá ser aplicada a penalidade mais benéfica conforme disposto na alínea “c” do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 1966 (CTN), cuja análise será realizada pela comparação entre os seguintes valores: a) somatório das multas aplicadas por descumprimento de obrigação principal, nos moldes do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009, e das aplicadas pelo descumprimento de obrigações acessórias, nos moldes dos §§ 4º, 5º e 6º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à Lei nº 11.941, de 2009; e b) multa Fl. 2106DF CARF MF Processo nº 11080.735704/201212 Acórdão n.º 2402006.584 S2C4T2 Fl. 2.065 31 aplicada de ofício nos termos do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. II a partir de 1º de dezembro de 2008, aplicamse as multas previstas no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 Da multa de ofício Em relação à multa de ofício, aplicada no Auto de Infração DEBCAD nº 37.385.1316, incidente sobre as contribuições impagas, na competência 12/2008, foi aplicada, conforme consta dos respectivos anexos Fundamentos Legais do Débito – FLD, com suporte no artigo 35A da Lei n.º 8.212, de 24 de julho de 1991, incluído pela Medida Provisória n.º 449, de 04 de dezembro de 2008, convertida na Lei n.º 11.941, de 27 de maio de 2009, combinado com o artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996, vigente à época dos fatos geradores. Da obrigação acessória Quanto à infração objeto do AI DEBCAD nº 37.385.1324, é de se ver que foram afastadas, no presente voto, as alegações relativas à impugnação apresentada contra o AI DEBCAD nº 37.385.1316 e mantida a exigência fiscal relativa às contribuições incidentes sobre os valores pagos a segurados contribuintes individuais. Conseqüentemente, devem ser declarados em GFIP os fatos geradores destas contribuições. A multa aplicada pelo descumprimento de obrigação acessória, por infração ao disposto no artigo 32, inciso IV, da Lei nº 8.212/91, foi lançada conforme o disposto no parágrafo 5º do artigo 32 da mesma Lei nº 8.212/91, vigente à época da infração, conforme determina o artigo 144 do CTN, observandose, em se tratando de penalidade, o disposto no artigo 106, inciso II, alínea ‘c’, do mesmo diploma legal. Conclusão Por todo o exposto voto por conhecer do Recurso Voluntário apenas parcialmente, para na parte conhecida negarlhe provimento. (assinando digitalmente) Jamed Abdul Nasser Feitoza Fl. 2107DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.725977/2010-81
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Aug 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Oct 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2006, 2007, 2008
ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE - APP.
Para efeitos tributários, especialmente isenção, Área de Preservação Permanente - APP são as áreas assim definidas pelo só efeito do Código Florestal, bem como as demais áreas declaradas como tal por Ato do Poder Público e desde que tomadas as demais providências de regularização.
ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL - APA.
A exploração em Áreas de Proteção Ambiental - APA tem especial controle pelos órgãos ambientais. Porém, o fato de um imóvel estar localizado em uma APA, por si só, não o torna, automaticamente, isento de ITR; somente para as áreas de preservação especificas nela contidas, e desde que cumpridas as demais exigências legais, se concederá a exclusão tributária, tais como: Áreas de Preservação Permanente - APP, Área de Interesse Ecológico - AIE reconhecido por Ato do Poder Público, Área de Reserva Legal - ARL, e demais áreas previstas em leis.
ÁREAS DE FLORESTAS PRESERVADAS. REQUISITOS DE ISENÇÃO.
A concessão de isenção de ITR para as Áreas de Preservação Permanente - APP ou de Utilização Limitada - AUL, como Área de Reserva Legal - ARL, está vinculada à comprovação de sua existência, como laudo técnico específico e averbação na matrícula até a data do fato gerador, respectivamente, e de sua regularização através do Ato Declaratório Ambiental - ADA, cujo requerimento deve ser protocolado no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA no prazo regulamentar. A prova de uma não exclui a da outra. A partir do exercício de 2007 o ADA passou a ser exigido anualmente e o prazo de entrega coincide com o prazo da declaração do ITR.
ISENÇÃO. HERMENÊUTICA.
A legislação tributária para concessão de benefício fiscal deve ser interpretada literalmente, assim, se não atendidos os requisitos legais para a isenção, a mesma não deve ser concedida.
VALOR DA TERRA NUA. VTN. LAUDO TÉCNICO.
O lançamento que tenha alterado o VTN declarado, utilizando valores de terras constantes do Sistema de Preços de Terras da Secretaria da Receita Federal - SIPT, nos termos da legislação, é passível de modificação somente se, na contestação, forem oferecidos elementos de convicção, embasados em Laudo Técnico, elaborado em consonância com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT, que apresente valor de mercado diferente ao do lançamento, relativo ao mesmo município do imóvel e ao ano base questionado.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 2202-004.676
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Presidente
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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Para efeitos tributários, especialmente isenção, Área de Preservação Permanente APP são as áreas assim definidas pelo só efeito do Código Florestal, bem como as demais áreas declaradas como tal por Ato do Poder Público e desde que tomadas as demais providências de regularização. ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL APA. A exploração em Áreas de Proteção Ambiental APA tem especial controle pelos órgãos ambientais. Porém, o fato de um imóvel estar localizado em uma APA, por si só, não o torna, automaticamente, isento de ITR; somente para as áreas de preservação especificas nela contidas, e desde que cumpridas as demais exigências legais, se concederá a exclusão tributária, tais como: Áreas de Preservação Permanente APP, Área de Interesse Ecológico AIE reconhecido por Ato do Poder Público, Área de Reserva Legal ARL, e demais áreas previstas em leis. ÁREAS DE FLORESTAS PRESERVADAS. REQUISITOS DE ISENÇÃO. A concessão de isenção de ITR para as Áreas de Preservação Permanente APP ou de Utilização Limitada AUL, como Área de Reserva Legal ARL, está vinculada à comprovação de sua existência, como laudo técnico específico e averbação na matrícula até a data do fato gerador, respectivamente, e de sua regularização através do Ato Declaratório Ambiental ADA, cujo requerimento deve ser protocolado no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA no prazo regulamentar. A prova de uma não exclui a da outra. A partir do exercício de 2007 o ADA passou a ser exigido anualmente e o prazo de entrega coincide com o prazo da declaração do ITR. ISENÇÃO. HERMENÊUTICA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 59 77 /2 01 0- 81 Fl. 261DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 262 2 A legislação tributária para concessão de benefício fiscal deve ser interpretada literalmente, assim, se não atendidos os requisitos legais para a isenção, a mesma não deve ser concedida. VALOR DA TERRA NUA. VTN. LAUDO TÉCNICO. O lançamento que tenha alterado o VTN declarado, utilizando valores de terras constantes do Sistema de Preços de Terras da Secretaria da Receita Federal SIPT, nos termos da legislação, é passível de modificação somente se, na contestação, forem oferecidos elementos de convicção, embasados em Laudo Técnico, elaborado em consonância com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT, que apresente valor de mercado diferente ao do lançamento, relativo ao mesmo município do imóvel e ao ano base questionado. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Presidente (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto, Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez (suplente convocada), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Ronnie Soares Anderson. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 10980.725977/201081, em face do acórdão nº 0427.759, julgado pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campo Grande (DRJ/CGE), em sessão realizada em 19 de março de 2012, no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar improcedente a impugnação apresentada pela contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório do ilustre Conselheiro Rafael Pandolfo, quando da Resolução nº 2202000.475, pois estava ele como Relator deste processo: 1 Procedimento de Fiscalização Em 25/11/10, o recorrente recebeu intimação (fls. 3/5 do eprocesso) requisitando os seguintes documentos ligados ao imóvel “RIO VERDE I”, relativos aos exercícios de 2006, 2007 e 2008: Fl. 262DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 263 3 a) matrícula atualizada do registro imobiliário, com averbação da área de reserva legal b) comprovação da existência da ARL — Área de Reserva Legal; c) ADA — Ato Declaratório Ambiental –, requerido tempestivamente junto ao IBAMA; d) documentos comprobatórios das APP — Áreas de Preservação Permanente , como laudos técnicos acompanhados de ART Anotação de Responsabilidade Técnica; e) no caso de APP constituída pelo poder público, apresentar o ato normativo que constituiu a área; f) laudo de avaliação técnica de acordo com a NBR 14.653 da ABNT, com grau de precisão e fundamentação II, acompanhado de ART; A intimação continha relação dos valores a serem utilizados para o arbitramento do VTN — Valor da Terra Nua — em caso de não apresentação de laudo técnico, de acordo com a aptidão agrícola. Esta intimação não foi respondida. 2 Auto de Infração Em face da inércia do representante do espólio em atender à intimação, o Fisco lavrou auto de infração de ITR para os anos de 2006 a 2008, constituindo um crédito tributário total de R$ 597.069,11, incluídos imposto, multa de ofício de 75% e juros de mora. O fundamento do auto de infração foi a reconstituição do lançamento, com a desconsideração das áreas de preservação permanente e área de reserva legal declaradas, incluindoas na base de cálculo do tributo, em virtude da falta de comprovação das áreas isentas. Ainda, devido à discrepância entre o valor de VTN registrado no SIPT para a região e o declarado pelo recorrente, foi considerada existente subavaliação do valor da terra, que ensejou arbitramento da VTN. O arbitramento foi realizado da seguinte forma: as áreas declaradas como de BENFEITORIAS foram consideradas de aptidão “Terra mista mecanizada”, as com áreas declaradas como de PRODUTOS VEGETAIS foram consideradas de aptidão “Terra mista mecanizável”, e as DEMAIS ÁREAS foram consideradas “Terra mista não mecanizável”. O arbitramento levou em consideração o município Guaraqueçaba/PR e a data de cada fato gerador para estipular os valores. Por fim, a mudança nas áreas tributáveis modificou o grau de utilização de 100% para 30,9%, implicando a modificação da alíquota aplicável para a de 6%. O recorrente foi intimado do lançamento em 28/12/10. 3 Impugnação Inconformado com o lançamento, o espólio do contribuinte apresentou impugnação ao auto de infração, por meio de sua inventariante judicialmente constituída. Os argumentos esgrimidos foram: a) não foram atendidas as solicitações devido à extensa lista de documentos requisitados ao recorrente, que recebeu, ao mesmo tempo, intimação semelhante em relação a outros três imóveis de Fl. 263DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 264 4 propriedade do espólio. O prazo exíguo de 30 dias estendido pela fiscalização inviabilizou a juntada de toda a documentação. b) existe Área de Preservação Ambiental constituída pelo poder público Na área onde está situado o imóvel autuado. Essa APA existe pelo fato de a propriedade estar inserta no ecossistema da Mata Atlântica. O Decreto Federal nº 90.883/85 e o Decreto Estadual PR nº 1.228/92 comprovam que estas áreas foram declaradas como de Preservação Ambiental pelo poder público; c) as Áreas de Preservação Ambiental são isentas de ITR, vez que são áreas de interesse ecológico para proteção de ecossistemas, e se encaixam na isenção prevista no art. 10, II, b, da Lei 9.393/97; d) além disso, a área é de topografia acidentada, coberta por topos, encostas de morros, serras, montanhas, rios, riachos, córregos, etc, sendo imprópria para qualquer exploração que não a ecológica. A título exemplificativo, o acesso é tão limitado que somente pode ser realizado através de barcos, utilizando os diversos braços de mar que circundam a área, já que não existe qualquer estrada ou caminho pela via terrestre; e) o ADA nº 11041410496877 demonstra que toda a área da Fazenda está inserta em APA, motivo que levou o contribuinte a, em anos anteriores, declarar a totalidade da área como de interesse ecológico, embora nos últimos anos a prática fosse declarar 573,1 ha a título de APP e 233,8 ha como ARL. Ainda, em decorrência das exigências legais atuais, foram protocolados pedidos de regularização ambiental juntos ao IAP/ERCBA, conforme documentos anexos à impugnação; f) mais de 50% da propriedade são florestas em manejo e/ou matas naturais existentes, averbadas nas matrículas e identificadas em mapa anexo às matrículas; g) o contribuinte, quando vivo, era criador de gado em outras propriedades, mas desde a aquisição das terras objeto deste auto de infração não exerceu qualquer atividade econômica em sua extensão devido à impossibilidade de exploração do terreno, seja pelo fato de ser área de preservação ambiental, seja pela dificuldade de desenvolver qualquer cultura no terreno; h) é considerada como área de relevante interesse ecológico a área de Mata Atlânica, havendo, inclusive, jurisprudência do CARF nesse sentido, reconhecendo a isenção de áreas análogas; i) o laudo técnico ambiental reconhece que as áreas da propriedade são tanto de interesse ecológico como de preservação permanente; j) não procede o argumento do fiscal de que é possível a cultura da terra em casos específicos, motivo pelo qual não pode ser considerada isenta a área, pois a regra é a limitação, e a exploração só pode ser realizada mediante autorização e nos moldes definidos pelo IBAMA; k) o tributo é obrigação Fl. 264DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 265 5 pecuniária decorrente de lei, mediante a constatação da ocorrência do fato jurídico tributário. Desse modo, a falta de declaração do contribuinte não é capaz de fazer surgir tributo. Ainda, o arbitramento ignora totalmente os documentos apresentados à Fiscalização em procedimento de fiscalização em relação aos anos anteriores, pois toma como áreas não mecanizáveis áreas que são de preservação permanente, composta de manguezais, banhados, morros, serras, montanhas, dentre outras formações geográficas consideradas APP; l) O VTN da terra, de acordo com o valor da compra atualizado monetariamente à época do fato gerador é de R$ 3,11 por hectare, devendo ser utilizado este valor para fins de base de cálculo do lançamento. É impossível avaliar o valor das terras de outra forma, pois não se encaixam nas aptidões agrícolas disponíveis, e, ainda por cima, são áreas que não contém propriedade semelhante comerciada recentemente, o que inviabiliza a comparação para fins de apuração de valor. Inclusive, tal imóvel seria incomerciável, pois seu valor não é comercial, mas sim ambiental. Em anexo à impugnação, o recorrente apresentou os seguintes documentos: a) matrículas atualizadas dos imóveis, acompanhadas de plantas e memoriais descritivos das propriedades (fls. 77/89 do eprocesso); b) laudo técnico (fls. 90/99 do eprocesso); c) Decreto nº 90.883/85 (fls. 102/105 do e processo); d) Decreto Estadual PR nº 1.228/92(fls. 106/109 do eprocesso); e) ADA’s relativos aos exercícios de 2010 (fls. 111); f) Tabela de cálculo da atualização monetária do preço da terra desde a aquisição (fls. 112/115 do eprocesso) ; g) Protocolos junto ao IAP do PR, requisitando a regularização das áreas ambientais (fls. 117/120). 4 Acórdão de Impugnação A 1ª Turma da DRJ/CGE julgou, por unanimidade, improcedente a impugnação do recorrente, com base nos seguintes fundamentos: a) não há nulidade por cerceamento de defesa, posto que o recorrente foi intimado previamente ao lançamento para apresentar comprovação dos fatos registrados em sua DITR, e não o fez no prazo estendido, o que levou a Fiscalização a lavrar auto de infração; b) o laudo técnico apresentado não consegue retratar com a exatidão necessária a natureza das APP’s, somente listando o tamanho das APA’s, que não são isentas de ITR, por falta de disposição legal. As APA’s não podem ser compreendidas como APP’s, pois não impedem a exploração da área, apenas a limitam, e a prova disso é que há exploração agrícola em parte da propriedade, conforme declarado na DITR; c) as averbações constantes na matrícula são referentes a uma espécie de áreas de preservação permanente e áreas de manejo florestal para fins de exploração. Sendo assim, a área de reserva legal carece de averbação, motivo pelo qual não deve ser reconhecida; d) foram apresentados três ADA’s, um anterior a 2007, outro de 2009 e outro de 2010. Desde 2007 é necessária a protocolização anual de ADA no prazo de até seis meses após a Fl. 265DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 266 6 entrega da DITR. Desse modo, somente estaria preenchido este requisito formal em relação ao exercício de 2006. De qualquer sorte, devido à falta de comprovação nenhuma das APP’s foi acolhida; e) frente à falta de laudo de avaliação do valor do imóvel, deve prevalecer o arbitramento realizado; Assim, tendo a DRJ de origem compreendido pela improcedência da impugnação, o contribuinte, inconformado, apresentou recurso voluntário às fls. 169/190, onde são reiterados os argumentos já lançados em impugnação, bem como acrescentados novos, que foram assim sintetizados pelo Conselheiro Rafael Pandolfo, quando da Resolução nº 2202 000.475: 5 Recurso Voluntário Ciente do resultado do julgamento, em 18/04/12, o recorrente apresentou recurso voluntário tempestivo, em 11/05/12, reiterando os argumentos da impugnação, adicionando que a falta de averbação da área de reserva legal implica multa, de acordo com a legislação regente da matéria, mas nunca a sua desconsideração para fins de isenção do ITR. Nenhum documento novo foi apresentado junto ao recurso voluntário. Com a chegada deste processo ao CARF, foi ele colocado em pauta de julgamento, sendo em 18/04/2013 resolvido pelos Conselheiros membros da 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do CARF, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência. Ainda, em que pese a conversão em diligência, na Resolução às fls.226/231 foi proferido voto no sentido de que haveria necessidade da autoridade preparadora juntar aos autos o extrato onde constam as informações de que a autoridade lançadora se baseou para arbitrar o valor. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da Receita Federal, elaborado pelo Auditor Fiscal Sidney Dolinksi que assim relatou: " Em atendimento ao contido na Resolução n° 2202000.740 (fls. 226/231), o presente processo foi movimentado a esta Equipe, para juntar aos autos o extrato onde constam as informações que a autoridade lançadora se baseou para arbitrar o valor do imóvel rural, com base nos dados constantes do SIPT. Considerando o exposto acima, em 19/06/2017, foram impressos ; A tabela de preços médios de terras agrícolas detalhamento por característica de 2006 a 2016, da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento SEAB do Estado do Paraná (fl. 235); Conceito das classes de terras agrícolas, da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento SEAB do Estado do Paraná (fl. 236); Telas do Sistema de Preços de Terras SIPT dos exercícios de 2006/07/08 (fls.237/243). Informo ainda que estes valores estão disponíveis, para consulta pública, no endereço: http://www.agricultura.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.ph Fl. 266DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 267 7 p?conteudo=30 e que o DERAL, no item 4 ESCLARECIMENTOS, transcreve: "cumprenos esclarecer que, anualmente, a Secretaria de Estado da Agricultura — SEAB, por meio do Departamento de Economia Rural — DERAL, realiza a pesquisa de Terras Agrícolas por Município. A referida pesquisa é realizada nos 21 Núcleos Regionais da SEAB, pelos respectivos Técnicos do Departamento em cada Núcleo, ficando assim a Seab, com base na Lei 9393/96, Art. 14 ,sS' 1 o , como Órgão Oficial responsável para realização da pesquisa. Os Técnicos promovem reuniões com os Sindicatos, Produtores, Imobiliárias e Demais Agentes que detêm a informação sobre o mercado de Terras Agrícolas na Região e/ou no Município, com a finalidade de dar transparência à Sociedade sobre a Metodologia utilizada e a forma de atuação do DERAL na execução da referida pesquisa. Outrossim, fazse necessário salientar que os dados finais da pesquisa devem ser utilizados apenas como uma referência de preço, pois são resultantes de uma média de preços de mercado (negócios realizados e/ou intenções de compra) SECRETÁRIA DE ESTADO DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO – SEAB DEPARTAMENTO DE ECONOMIA RURAL — DERAL DIVISÃO DE ESTATÍSTICAS BÁSICAS — DER 5 em cada Município. Portanto, não devem ser utilizados como valor absoluto, fechado, isto devido à dinâmica do mercado, e principalmente, levando em consideração as diferenças quanto à localização, topografia, tipo de solo, fertilidade, utilização, entre outras variáveis e características próprias de cada propriedade e de cada um dos 399 Municípios do Paraná Diante do exposto, firmo o relatório, concluindo que os lançamentos foram baseados nos procedimentos de Oficio constante no Art. 14, da Lei 9.393/96. "No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como da subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal procederá à determinação e ao lançamento de oficio do imposto, considerando informações sobre preços de Terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimento de fiscalização. sS 1° As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1°, inciso II da Lei n° 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios" EM ANEXO: 01 cópia da Resolução n° 2202000.740 (fls. 226/231); 01 cópia da tabela de preços médios de terras agrícolas detalhamento por característica de 2006 a 2016, da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento SEAB do Estado do Paraná (fl. 235); Fl. 267DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 268 8 01 cópia do Conceito das classes de terras agrícolas, da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento SEAB do Estado do Paraná (fl. 236); Telas do Sistema de Preços de Terras SIPT dos exercícios de 2006/07/08 (fls.237/243). É o relatório, Encaminhese, para ciência do contribuinte e manifestação sobre os termos do presente relatório no prazo de 15 (quinze trinta) dias, conforme disposto na Resolução n° 2202 000.740." Assim, foram juntadas às fls.239/246, os documentos solicitados para autoridade de modo a apresentar os preços das terras agrícolas, demonstrando a razão da cobrança como posta pela Autoridade Preparadora. Inconformada, com os documentos juntados, o contribuinte manifestase nas fls.256/259, no sentido de que os preços aplicados e demonstrados em tabela pela Autoridade não podem ser aplicados no caso concreto, pois a área, em questão, seria imprópria para qualquer tipo de comercialização e exploração. Dessa forma, os autos retornam a esta Turma para análise dos documentos trazidos, para fins de análise das razões apresentadas em Recurso Voluntário. É o relatório. Voto Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Das Áreas Preservadas A razão que embasa a discordância com as glosas em pautas seria o fato de que o imóvel estaria localizado dentro da APA Guaraqueçaba, coberto por Mata Atlântica, situação que, de acordo com o sujeito passivo, daria o direito à isenção. Em razão disso, como bem referido pelo julgado de origem, é importante esclarecer que para concessão de isenção não se questiona, apenas, se as áreas de florestas estão ou não preservadas, pois, sua preservação, pelo menos em uma dimensão mínima, Reserva Legal, ou a Preservação Permanente para evitar a degradação de rios, desmoronamentos de morros etc., ou seja, garantir o ambiente natural é de obrigação legal. Se não cumprida, há previsão de penalidade e a sua fiscalização cabe ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA. Com os argumentos apresentados se pretende demonstrar que as mesmas existem independentemente das formalidades exigidas. Entretanto, para obter a isenção tributária, como mais à frente será melhor explicado, é necessário o cumprimento de requisitos legais. Não basta, somente, reservar e/ou preservar e declarar, pois, essas áreas, além de existirem, atendendo à legislação Fl. 268DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 269 9 ambiental, têm que estar documentadas, regularizadas e atualizadas, toda vez que assim a lei tributária exigir para serem contempladas com a isenção. Para melhor entendimento a respeito da matéria, apresentase o conceito e requisitos legais para que as áreas reservadas sejam isentas do ITR, independentemente se de Utilização Limitada, como Área de Reserva Legal – ARL, Área de Servidão Florestal – ASF, Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN ou declarada de Interesse Ecológico AIE, bem como se de Preservação Permanente – APP, sendo os principais a demonstração da existência da APP, através de laudo técnico ou do Ato do Poder Público que assim a declarou, a averbação da área de Utilização Limitada na matrícula do imóvel e, a apresentação tempestiva do ADA ao IBAMA informando as áreas em questão. Com relação à APP existem dois tipos: a) áreas que em virtude da topografia das florestas e tipo de acidentes geográficos específicos são definidas por lei como APP e b) áreas que pela destinação são declaradas como APP por Ato do Poder Público. No artigo 2º, do Código Florestal, se lista os locais de situação das florestas que, pelo só efeito dessa lei, consideramse de preservação permanente: Art. 2° Consideramse de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima será: (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 1 de 30 (trinta) metros para os cursos d'água de menos de 10 (dez) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 2 de 50 (cinqüenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinqüenta) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 3 de 100 (cem) metros para os cursos d'água que tenham de 50 (cinqüenta) a 200 (duzentos) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 4 de 200 (duzentos) metros para os cursos d'água que tenham de 200 (duzentos) a 600 (seiscentos) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 5 de 500 (quinhentos) metros para os cursos d'água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros; (Incluído pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; c) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados olhos d'água, qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinqüenta) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) Fl. 269DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 270 10 d) no topo de morros, montes, montanhas e serras; e) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; f) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues; g) nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) h) em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, qualquer que seja a vegetação. (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) Para comprovar estes tipos de preservação permanente basta a apresentação de laudo técnico eficazmente elaborado por profissional habilitado, acompanhado de ART, atestando a existência de florestas, detalhando as dimensões e locais listados no referido artigo de lei. Neste aspecto, o laudo apresentado se limita em informar da localização do imóvel na APA de Guaraqueçaba. Embora em suas defesas a contribuinte afirme com mais detalhes a respeito dos tipos de APP, as informações do laudo são genéricas, fazem referência à área total, de sua localização em APA, porém, não especifica, não dimensiona e nem localiza a áreas enquadráveis no referido dispositivo legal como APP. Conforme artigo 3º, do mesmo Código Florestal, dependendo da destinação existem outros tipos de florestas que, também, se consideram como APP. Vejamos o artigo: Art. 3º Consideramse, ainda, de preservação permanentes, quando assim declaradas por ato do Poder Público, as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas; c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares; e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico; f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção; g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; h) a assegurar condições de bemestar público. Entretanto, como se vê nesse dispositivo legal, para que tais áreas possam ser consideradas APP necessitam de Ato do Poder Público que assim a declare. Fl. 270DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 271 11 Para este item, como já visto, o interessado pretende sustentar seus argumentos nas legislações relativas à APA de Guaraqueçaba, por entender que pelo fato de seu imóvel estar localizado no perímetro dessa área seria de interesse ecológico com direito à isenção. Porém, este argumento, por si só, não é suficiente para comprovar a isenção, pois, se assim fosse, praticamente todos os imóveis situados nessa região seriam isentos, situação esta que não ocorre. A lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que estatui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, estabelece critérios e normas para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação define, em seu artigo 15, o que é a Área de Proteção Ambiental – APA: Art. 15. A Área de Proteção Ambiental é uma área em geral extensa, com um certo grau de ocupação humana, dotada de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bemestar das populações humanas, e tem como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. Assim, resta claro se tratar de área extensa com possibilidade de ocupação humana e de utilização dos recursos naturais e, assim, tributável, bem diferente do conceito de APP, que deve ser preservada sem exploração e, se cumpridos demais requisitos legais, com possibilidade de isenção do ITR. Nas diversas legislações que tratam de áreas de proteção se especifica, inclusive, que apenas as atividades potencialmente poluidoras, as de terraplanagem, entre outras, que ameacem extinguir as espécies de flora e fauna é que estariam proibidas. Ainda, consoante referido pelo julgador de primeira instância, a Receita Federal do Brasil, desde o ano de 1999, através do Manual de Perguntas e Respostas – MPR, relativo à DITR do correspondente exercício, vem, sistematicamente, orientando os contribuintes do ITR. Vejamos as questões 13 e 184, do MPR referente ao exercício 2001, também aplicável aos exercícios em pauta: 184. Por que os imóveis rurais situados em Área de Proteção Ambiental (APA) e nas Reservas Extrativistas são tributados? Desde modo, conclui acertadamente a DRJ de origem o seguinte: "Desde o início, convém dizer o seguinte: um dos objetivos precípuos da legislação ambiental e da legislação tributária é, indubitavelmente, estimular a preservação do meio ambiente, via benefício fiscal. No entanto, o benefício da exclusão do ITR, inclusive na APA e nas Reservas Extrativistas, não se estende genericamente a todas as áreas do imóvel. Somente se aplica a áreas específicas da propriedade particular, vale dizer, somente para as áreas de interesse ambiental efetivamente situadas no imóvel como: área de preservação permanente, área de reserva legal, área de RPPN e área de proteção de ecossistema bom como área imprestável para a atividade rural, desde que reconhecidas de Fl. 271DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 272 12 interesse ambiental. O reconhecimento dessas áreas depende de ato específico, por imóvel, expedido pelo Ibama (Ato Declaratório Ambiental – ADA). O benefício fiscal estendese apenas para essas áreas específicas do imóvel, uma vez que elas, em regra, não podem ser exploradas economicamente. Por outro lado, inclusive na APA e nas Reservas Extrativistas, há, em regra, áreas do imóvel rural destinadas ou utilizadas pela atividade agrícola, pecuária, aqüícola, florestal, industrial e mineral. Logo, impossível a concessão de isenção do ITR para todas as áreas da propriedade situada na APA e na Reserva Extrativista, pois há áreas exploradas economicamente." Assim, fica entendido que as áreas contidas dentro dos limites da APA de Guaraqueçaba, não podem ser, de maneira geral e automática, consideradas de interesse ecológico para efeito de exclusão do ITR. Dependendo, para tal fim, do cumprimento das exigências legais previstas para cada tipo de área ambiental. Além disso, da DITR fiscalizada consta a ocorrência de atividades rurais, como área de produtos vegetais. Diante do exposto, deve ser negado o recurso quanto a esta matéria. Da Área de Reserva Legal Segundo a legislação que rege a matéria, a Reserva Legal, com dimensão mínima dependendo da região do país, sendo a menor 20,0% da propriedade, deve ser averbada à margem da matrícula de registro de imóveis. Vejamos o texto do artigo 16 e seu parágrafo 2º, da lei nº 4.771/1965, o Código Florestal: Art. 16. As florestas e outras formas de vegetação nativa, ressalvadas as situadas em área de preservação permanente, assim como aquelas não sujeitas ao regime de utilização limitada ou objeto de legislação específica, são suscetíveis de supressão, desde que sejam mantidas, a título de reserva legal, no mínimo: (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) (Regulamento) (...) § 8º A área de reserva legal deve ser averbada à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, sendo vedada a alteração de sua destinação, nos casos de transmissão, a qualquer título, de desmembramento ou de retificação da área, com as exceções previstas neste Código. (Incluído pela Medida Provisória nº 2.16667, de 2001) Neste ponto, as averbações constantes das matrículas apresentadas não são relativas a Área de Reserva Legal ARL. Algumas dizem respeito a tipo áreas de preservação permanente, que não necessita de averbação, mas, de laudo eficaz demonstrando, dimensionando e localizando as áreas de acordo com o enquadramento nos respectivos artigos Fl. 272DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 273 13 do Código Florestal, e as outras averbações são referentes a áreas destinadas a exploração de floresta com plano de manejo. Face a isto, não merece provimento o recurso em relação a esta matéria. Das Razões das Glosas Passandose à situação concreta, as glosas ocorreram por não haver sido atendida a intimação para apresentação dos documentos comprobatórios. Na defesa da contribuinte o argumento principal é o fato de o imóvel estar localizado em APA, que por si só não permite conceder isenção, e a documentação apresentada não comprovou a existência de APP conforme enquadramento do Código Florestal; nas matrículas do imóvel não consta averbação de ARL de acordo com o mesmo código e; finalmente, não foram apresentados ADA, entregues ao IBAMA no prazo regulamentar para os exercícios e pauta. Em razão disso, as áreas glosadas não deveriam estar declaradas como isentas, pois, não foram cumpridos os requisitos legais para tal. Ainda, não estavam amparadas para essa concessão. Assim, sua informação como isenta configura declaração incorreta. Tendo em vista que não houve apresentação de documentação que comprove a existência e regularização da APP e ARL, glosadas por não haver sido atendida a intimação para comprovação, bem como não haver sido apresentado Laudo Técnico de Avaliação da Terra Nua, concluise não haver como desconstituir o crédito tributário em discussão. Isto posto, e considerando tudo mais que dos autos consta, entendo que não merece acolhimento o recurso em relação ao afastamento do tributo. Do Valor da Terra Nua A respeito do VTN, quando da análise das DITR, alega o contribuinte que o fiscal verificou que o valor atribuído ao imóvel está aquém dos valores médios informados nas declarações da região, bem como dos valores constantes da tabela SIPT, o procedimento da fiscalização deve ser a intimação do declarante para comprovar a origem dos valores declarados e a forma de cálculo utilizada, entre outros. Para tal, o documento eficaz que possibilita essa comprovação é o laudo técnico, elaborado em atenção às normas constantes da ABNT, órgão orientador e controlador dos trabalhos de profissionais da área, acompanhado dos documentos que comprovam a caracterização do imóvel, as fontes idôneas de pesquisa, a similitude da propriedade em relação às amostras levantadas no município, entre outros. Como já visto, tendo em vista o não atendimento à intimação, consequentemente, não apresentação de laudo de avaliação que fora solicitado, o VTN foi modificado pelo Fisco, sendo utilizadas as informações do SIPT. Ainda, devido à discrepância entre o valor de VTN registrado no SIPT para a região e o declarado pelo recorrente, foi considerada existente subavaliação do valor da terra, que ensejou arbitramento da VTN. O arbitramento foi realizado da seguinte forma: as áreas declaradas como de BENFEITORIAS foram consideradas de aptidão “Terra mista Fl. 273DF CARF MF Processo nº 10980.725977/201081 Acórdão n.º 2202004.676 S2C2T2 Fl. 274 14 mecanizada”, as com áreas declaradas como de PRODUTOS VEGETAIS foram consideradas de aptidão “Terra mista mecanizável”, e as DEMAIS ÁREAS foram consideradas “Terra mista não mecanizável”. O arbitramento levou em consideração o município Guaraqueçaba/PR e a data de cada fato gerador para estipular os valores. Carece de razão a contribuinte, portanto. Do Laudo Técnico Com a impugnação, novamente, não foi apresentado laudo de avaliação. No laudo técnico destinado a informar da localização do imóvel na APA de Guaraqueçaba, a respeito do VTN se informou, apenas, que a área não possui valor tributal e nem com alíquota para imposto. Assim sendo, não há, também, como alterar este dado do lançamento. Desde modo, não merece provimento o recurso quanto a este argumento. Conclusão. Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Fl. 274DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11020.903303/2012-14
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/02/2008 a 28/02/2008
RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO
Direitos creditórios pleiteados via Declaração de Compensação - Nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, essencial a comprovação da liquidez e certeza dos créditos para a efetivação do encontro de contas, comprovação esta que é ônus do contribuinte, sendo incabível a transferência da responsabilidade ao Fisco.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-005.629
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães, Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad e Paulo Guilherme Deroulede. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 90 33 03 /2 01 2- 14 Fl. 145DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório do tributo por suposto pagamento a maior ou indevido e aproveitar esse crédito com débitos referentes a impostos e contribuições administrados pela RFB. Por meio de Despacho Decisório Eletrônico, a compensação pleiteada não foi homologada ante a ausência/insuficiência de créditos oponíveis contra a Fazenda Pública, uma vez que o pagamento indicado foi encontrado, encontrandose, todavia, totalmente alocado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Cientificado da decisão o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade alegando em sede de preliminar sua nulidade. No mérito, insurgiuse contra o caráter confiscatório da multa exigida, bem como contra a taxa Selic. A Delegacia Regional de Julgamento de Porto Alegre por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão nº 10 049.310. Cientificada da Decisão da Delegacia Regional de Julgamento, a impugnante ingressou com RECURSO VOLUNTÁRIO junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, alegando, em síntese, que: ü A Decisão ora atacada deve ser de plano anulada por esta Colenda Câmara, uma vez que não respeitou os mais basilares princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos, pois ainda que levantados tais pontos na manifestação, os mesmos não foram devidamente apreciados, razão pela qual se impõe sejam eles devidamente analisados nesta instância de julgamento; ü A decisão elaborada não se presta a dar início ao contraditório administrativo, eis que, como visto, carente de fundamentação; ü Não houve qualquer diligência por parte da Fiscalização com o intuito de verificar a natureza do crédito postulado, sendo seu proceder tão somente na injustificada negativa do crédito pretendido e na retórica imposição do ônus da prova do crédito à Contribuinte; ü Pelo exposto, resta claro o prejuízo aos direitos da Contribuinte ao exercício de sua defesa, vez que impossibilitada de defenderse da forma apregoada no Texto Magno. Neste contexto, não pairam quaisquer dúvidas quanto ao direito dos administrados à ampla defesa Fl. 146DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 4 3 no processo administrativo, sendo este verdadeiro critério de validação dos atos e processos administrativos; ü A decisão recorrida, como visto, teve como fundamento a inexistência de crédito, porquanto o ônus da prova, quanto ao crédito, seria da Contribuinte. Nada mais equivocado, uma vez que, como veremos, o processo administrativo pautase pela verdade material ou verdade real, não havendo espaço para presunções legais ou mesmo de ‘verdades’ processuais decorrentes de eventual distribuição do ônus da prova; ü O valor lançado a título de multa, flagrantemente ilegal como a seguir demonstrarseá, é manifestamente excessivo ferindo, desta maneira o princípio constitucional do não confisco e dos princípios administrativos da razoabilidade e da proporcionalidade. Neste contexto, é princípio básico que a pena, no caso a multa aplicada em face de infrações, não pode ultrapassar os estritos limites da lei ou melhor, do direito como um todo valendo para o caso específico do direito tributário, a definição legal do tributo como insuscetível de servir como instrumento de penalização do contribuinte; ü A inaplicabilidade da TAXA SELIC aos supostos débitos como juros de mora e a limitação dos juros de mora dada pelo código tributário nacional; ü A possibilidade do enfrentamento pelo tribunal administrativo do argumento de inconstitucionalidade de norma legal. DO PEDIDO Pelo exposto, requer a Recorrente seja dado integral provimento ao presente Recurso Voluntário, a fim de que sejam homologadas as compensações declaradas, reconhecendose a relevância dos fundamentos de fato e de direito ora encaminhados ao seu elevado crivo, com a consequente reforma do Acórdão recorrido. É o relatório. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302005.615, de 23 de julho de 2018, proferido no julgamento do processo 11020.903279/201213, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302005.615): "Da admissibilidade. Por conter matéria desta E. Turma da 3a Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário tempestivamente interposto pelo contribuinte, considerando que a empresa MECÂNICA COMERCIAL E IMPORTADORA LTDA foi cientificada Acórdão n° 1049.299, em 15/04/2014, via Aviso de Recebimento, às folhas 76 do processo digital. A empresa MECÂNICA COMERCIAL E IMPORTADORA LTDA apresentou o seu Recurso Voluntário em 09/05/2014, às folhas 78 do processo digital. O recurso é tempestivo. Da controvérsia. Não respeito aos princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos; A decisão elaborada é carente de fundamentação; Ausência der diligência por parte da Fiscalização; A inexistência de crédito e o ônus da prova; O valor lançado a título de multa fere o princípio constitucional do não confisco e dos princípios administrativos da razoabilidade e da proporcionalidade; A inaplicabilidade da TAXA SELIC; O enfrentamento do argumento de inconstitucionalidade. Das preliminares. Não respeito aos princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos É alegado às folhas 03 do Recurso Voluntário: Fl. 148DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 6 5 A Decisão ora atacada deve ser de plano anulada por esta Colenda Câmara, uma vez que não respeitou os mais basilares princípios administrativos e constitucionais que norteiam os Atos Administrativos, pois ainda que levantados tais pontos na manifestação, os mesmos não foram devidamente apreciados, razão pela qual se impõe sejam eles devidamente analisados nesta instância de julgamento. Assim, de forma mais pormenorizada, passaremos em seguida a expor que a decisão que não homologou as compensações pretendidas pela ora Recorrente deixou de atender o requisito constitucional da fundamentação do ato administrativo, além de ferir os princípios também constitucionais da ampla defesa, contraditório e do devido processo legal. Sem razão a Recorrente. O Acórdão n° 1049.299, ora guerreado, de pronto explicita o motivo pelo qual a Administração não homologou a compensação: os pagamentos tidos como indevidos foram localizados, mas já se encontram “integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no Per/Dcomp”. Portanto, a fiscalização aponta um fato preciso, certo e determinado que fulmina as pretensões da então impugnante. Reafirmando a própria argumentação do Voto exarado no Acórdão n° 1049.299, a fundamentação fática a pouco transcrita explicita o indeferimento do pleito, não necessitando de esclarecimento adicional, uma vez que os controles de conta corrente exercido pela autoridade administrativa indicavam a alocação para outro débito do suposto crédito oponível pela interessada. De outra sorte, a Recorrente não explicita o porquê que os princípios constitucionais da ampla defesa, contraditório e do devido processo legal foram desrespeitados. Assim sendo, por ora, tomase essa argumentação como mera retórica. A decisão elaborada é carente de fundamentação. É alegado às folhas 04 do Recurso Voluntário: Ora, Nobres Julgadores, como pode afirmar a Fiscalização que é inexistente o crédito que a Contribuinte pretende compensar se sequer possui meios de determinar qual seria a natureza deste crédito e sua origem??? Ademais, em atenção ao princípio processual administrativo da verdade material, o procedimento correto da Fiscalização, no caso em tela, seria intimar a Contribuinte para que prestasse informações sobre qual a origem do crédito postulado, bem como seu fundamento de validade. Isto porque não pode a Administração ‘presumir’ a inexistência de crédito e de plano não homologar as compensações declaradas pela Contribuinte. Fl. 149DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 7 6 Todavia, este foi o nefasto procedimento da Administração que, desta maneira, emitiu decisão desprovida da necessária fundamentação que deve conter o Ato Administrativo. Digase ainda que a necessidade de fundamentação ou motivação dos atos administrativos é obrigatória para o exame de sua legalidade, finalidade e da moralidade administrativa. A argumentação esposada não guarda sintonia com o texto do Acórdão n° 1049.299, a começar pela motivação presente no Voto do Acórdão n° 10 49.299: os pagamentos tidos como indevidos foram localizados, mas já se encontram “integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no Per/Dcomp”. Portanto, o Acórdão n° 1049.299 contém uma fundamentação explicita que inaugura o próprio voto. No mais, depreendese da própria fundamentação transcrita que os créditos apontados pela empresa MECÂNICA COMERCIAL existem! Tanto é que já se encontram integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, e por esse motivo não se prestam a atender a pretensão pleiteada. Quanto à alegação de que o procedimento correto da Fiscalização, no caso em tela, seria intimar a Contribuinte para que prestasse informações sobre qual a origem do crédito postulado, digase, em tempo, que esse é o propósito tanto da Manifestação de Inconformidade como do próprio Recurso Voluntário e em ambos os casos a empresa MECÂNICA COMERCIAL se limitou a se valer de retórica, sem trazer fatos concretos que suportassem sua argumentação e/ou desabonassem a fundamentação trazida no Voto do Acórdão n° 1049.299. Em tempo, há que se diga, que o Voto do Acórdão n° 1049.299 já faz essa advertência ao então impugnante, empresa MECÂNICA COMERCIAL, ao citar e transcrever os artigos 15 e 16 do Decreto n° 70.235/72. Ausência de diligência por parte da Fiscalização. É alegado às folhas 11 do Recurso Voluntário: Frisase novamente que não houve qualquer diligência por parte da Fiscalização com o intuito de verificar a natureza do crédito postulado, sendo seu proceder tão somente na injustificada negativa do crédito pretendido e na retórica imposição do ônus da prova do crédito à Contribuinte. Desta maneira, resta prejudicado o contraditório administrativo e, consequentemente, o devido processo legal e, ainda, a ampla e irrestrita defesa da Contribuinte. A decisão da DRJ deveria exprimir o entendimento Fiscal quanto ao crédito postulado pelo Contribuinte, deixando claro qual o Juízo de Valor utilizado para sua não aceitação. Não houve qualquer diligência nesse sentido, porque a Delegacia Regional de Julgamento se convenceu da existência de fato preciso, certo e determinado que fulmina as pretensões da então impugnante. Fl. 150DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 8 7 E como o Recurso Voluntário é árido em trazer elementos de prova que desabonem esse entendimento, não se percebe a necessidade de qualquer diligência, tomando essa demanda como uma tentativa de procrastinar o presente processo. Do mérito. A inexistência de crédito e o ônus da prova É alegado às folhas 11 do Recurso Voluntário: A decisão recorrida, como visto, teve como fundamento a inexistência de crédito, porquanto o ônus da prova, quanto ao crédito, seria da Contribuinte. Nada mais equivocado, uma vez que, como veremos, o processo administrativo pautase pela verdade material ou verdade real, não havendo espaço para presunções legais ou mesmo de ‘verdades’ processuais decorrentes de eventual distribuição do ônus da prova. Neste sentido, o artigo 333 do Código de Processo Civil, invocado pelo Juízo administrativo a quo, é manifestamente inaplicável ao procedimento administrativo. A comprovação dos fatos é o próprio objeto do processo administrativo, não havendo que se distribuir o ônus probatório entre as partes. (Negrito próprio) Como já mencionado em questão enfrentada alhures: os créditos apontados pela empresa MECÂNICA COMERCIAL existem! Tanto é que já se encontram integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, e por esse motivo não se prestam a atender a pretensão pleiteada. Por esse motivo, não paira para a fiscalização qualquer dúvida quanto à existência, qualidade, valor e destinação do crédito, não havendo motivos para a realização de diligência. Quanto à solicitação de perícia, o artigo 36 do Decreto nº 7.574, de 29/09/2011, assim explicita: Art. 36. A impugnação mencionará as diligências ou perícias que o sujeito passivo pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação de quesitos referentes aos exames desejados, e, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional de seu perito deverão constar da impugnação (Decreto no 70.235, de 1972, art. 16, inciso IV, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 1o Deferido o pedido de perícia, ou determinada de ofício sua realização, a autoridade designará servidor para, como perito da União, a ela proceder, e intimará o perito do sujeito passivo a realizar o exame requerido, cabendo a ambos apresentar os respectivos laudos em prazo que será fixado segundo o grau de Fl. 151DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 9 8 complexidade dos trabalhos a serem executados (Decreto no 70.235, de 1972, art. 18, com a redação dada pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 2o Indeferido o pedido de diligência ou de perícia, por terem sido consideradas prescindíveis ou impraticáveis, deverá o indeferimento, devidamente fundamentado, constar da decisão (Decreto no 70.235, de 1972, arts. 18 e 28, com as redações dadas pela Lei no 8.748, de 1993, art. 1o). § 3o Determinada, de ofício ou a pedido do impugnante, diligência ou perícia, é vedado à autoridade incumbida de sua realização escusarse de cumprilas. A Lei 9.874 que se aplica subsidiariamente ao Decreto nº 7.574, de 29/09/2011, assim dispõe: Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. § 1o Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. § 2o Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou protelatórias. A relevância do fato é caracterizada por haver correspondência entre este e a situação enfocada no processo, bem como por seu reconhecimento desencadear efeitos jurídicos peculiares. A pertinência, por sua, vez, diz respeito ao relacionamento entre o fato e a lide instalada. O mesmo se pode dizer da concludência, entendida como a possibilidade de conduzir o julgador à conclusão acerca dos fatos discorridos no processo. Fato concludente, nessa concepção, não significa o enunciado que, por si só, seja suficiente para formar a convicção do julgador, mas todo fato que, ao lado de outros, possa atuar como argumento para a procedência ou improcedência da demanda, em nada se distinguindo do chamado fato pertinente. Considerado fato inconcludente aquele que leva ao convencimento da ocorrência ou inocorrência de situações não envolvidas na discussão processual (fato impertinente), sua prova seria totalmente inócua. Nesse ponto, notase o intrínseco relacionamento entre os requisitos do fato susceptível de ser objeto de prova e a função que a prova assume no sistema jurídico: sendo destinada ao convencimento do julgador, só tem cabimento a realização de enunciação probatória relativa a fatos que possam levar a essa persuasão. Não foi apresentado qualquer fato, motivo ou justificativa relevante que propiciasse a realização da perícia, a luz do que já foi exposto, mesmo porque toda perícia tem por objetivo auxiliar o julgador na formação de sua melhor convicção racional e na busca da verdade material, ação que já se processou. Das penalidades. Da arguição de confisco e desrespeito aos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Fl. 152DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 10 9 Quanto ao princípio do nãoconfisco, e por conseguinte o princípio da razoabilidade – proporcionalidade, agasalhase o entendimento o de que vem a ser essa uma limitação imposta pelo Legislador constituinte ao Legislador infraconstitucional (ordinário), portanto, não se podendo dizer que o princípio esteja direcionado à Administração Tributária. A inaplicabilidade da TAXA SELIC Sobre o assunto, o art. 161, § 1º, do CTN, abaixo reproduzido, outorga à lei a faculdade de estabelecer os juros de mora incidentes sobre os créditos não integralmente pagos no vencimento, fixando o percentual de 1% na hipótese de a lei não dispor de forma diversa. Art. 161 O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantias previstas nesta Lei ou em lei tributária”. §1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de 1% (um por cento) ao mês. Em atenção a tal dispositivo, a Lei nº 9.430/96, em seu art. 61, § 3º, estabeleceu expressamente, para o cálculo dos juros de mora, a aplicação da taxa Selic. Oportuno registrar, conforme reconhecido pela interessada, que, sobre o assunto, já existe Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (antiga súmula do Conselho de Contribuintes, renumerada pela Portaria CARF nº 106, de 21/12/2009), como segue: Súmula CARF nº 4 A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Assim, estando a exigência devidamente fundamentada, conforme já anteriormente mencionado, não cabe a este órgão administrativo perquirir da legalidade ou inconstitucionalidade dessa norma, uma vez que, enquanto esta não é declarada inconstitucional pelos órgãos competentes do Poder Judiciário e não é expungida do sistema normativo, tem presunção de validade, presunção esta que é vinculante para a administração pública. Portanto, é defeso aos órgãos administrativos jurisdicionais, de forma original, reconhecer alegação de ilegalidade ou inconstitucionalidade de disposições que fundamentam o lançamento, ainda que sob o pretexto de deixar de aplicálas ao caso concreto. Nesse mesmo sentido, está, como já citado, o art. 26A do Decreto nº 70.235/72. Confirmando este posicionamento, já foi editada Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (antiga súmula do Conselho de Contribuintes, renumerada pela Portaria CARF nº 106, de 21/12/2009), dispondo, in verbis: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 153DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 11 10 Todavia, ainda que nos fosse possível enveredar por tais caminhos, cumpririanos lembrar que a jurisprudência do STJ já há muito se consolidou no sentido da legitimidade da aplicação da SELIC nos créditos tributários, como é possível depreender dos julgados abaixo: AgRg no Ag 932732 PRIMEIRA TURMA – Julgado em 18/12/2008: “1. Os créditos tributários recolhidos extemporaneamente, cujos fatos geradores ocorreram a partir de 1º de janeiro de 1995, a teor do disposto na Lei 9.065/95, são acrescidos dos juros da taxa SELIC, operação que atende ao princípio da legalidade.(...)” REsp 1028724 PRIMEIRA TURMA – Julgado em 06/05/2008: “(...) 10. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários.(...)” REsp 1086308 SEGUNDA TURMA – Julgado em 09/12/2008: “(...) 2. É legítima a utilização da taxa Selic como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07).(...)” Diante da mais recente jurisprudência, não haveria como considerar de outra forma. E, como argumento de reforço no sentido da aplicação justa, vale observar que o STJ posicionase no sentido da aplicação da SELIC tanto a favor da Fazenda Pública, quanto a favor dos contribuintes, como se depreende do julgado abaixo: AgRg no Ag 599960 – SEGUNDA TURMA – Julgado em 07/12/2004: “(...)A Primeira Seção deste egrégio Superior Tribunal de Justiça, na assentada de 14.05.2003, consolidou o entendimento no sentido da aplicação da Taxa SELIC, na restituição/compensação de tributos, a partir da data da entrada em vigor da lei que determinou sua incidência no campo tributário, conforme dispõe o artigo 39 da Lei n. 9.250/95.(...)” Também não merece prosperar a alegação de que o CTN, no art. 161 §1o, estabelece taxa de 1% e que uma norma com força de lei complementar não poderia ser contrariada ou modificada por uma lei ordinária, pois que o próprio texto do código já excepciona sua aplicabilidade: CTN Art. 161 § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. (grifo nosso) Passando à questão da revogação dos arts. 34 e 35 da Lei 8.212/91 pela MP 449/08, temos que, inicialmente, estabelecer a natureza dos juros de mora ora revogados. Há de se explicitar que os juros de mora não têm caráter punitivo, mas sim, de compensação pela falta de disponibilidade dos recursos por parte da Fazenda. Fl. 154DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 12 11 Destarte, no que tange a retroatividade, as regras de aplicação da legislação tributária previstas art. 106 inciso II do CTN não alcançam os juros de mora, fazendo valer a regra geral de aplicação temporal das leis tributárias prevista no art. 144 do mesmo diploma legal: CTN Art. 144. O lançamento reportase à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. Inobstante o fato de a mudança trazida pela nova legislação ser muito pouco significante (diferença de apenas 1% aplicável no mês do recolhimento) tal mudança não se opera retroativamente, continuando a valer a metodologia vigente à época do fato gerador. Não há, portanto, como acatar o afastamento da taxa Selic no cálculo dos juros de mora. O enfrentamento do argumento de inconstitucionalidade. A presente questão relacionase com as hipóteses de aplicação, pelas Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento, de norma declarada inconstitucional pelo STF em controle difuso, quando não há resolução do Senado Federal ou ato do Secretário da Secretaria da Receita Federal do Brasil (RF), dispensando a aplicação da lei, tratado ou ato normativo federal, declarado inconstitucional. No Brasil, em regra, o controle de constitucionalidade de leis e atos normativos compete ao Poder Judiciário e pode realizarse por duas vias distintas: a concentrada (controle abstrato) e a difusa (controle concreto). Na via concentrada, a constitucionalidade da norma é examinada em tese e o que se busca é expelir do sistema jurídico o ato inconstitucional. Não se cuida do julgamento de uma relação concreta, mas sim da validade de uma norma em abstrato frente à Constituição. É por isso que, nesse âmbito, a declaração de inconstitucionalidade tem eficácia objetiva (erga omnes), o que impossibilita a aplicação da norma viciada pelos órgãos de julgamento administrativo. Por outro lado, no controle difuso, o autor da ação não procura a tutela do Poder Judiciário preocupado com a inconstitucionalidade da lei em tese. Seu objetivo é a efetivação de determinado direito subjetivo concreto, exigível em face de alguém. A questão constitucional é apreciada apenas de forma acessória, incidental, a fim de que o Poder Judiciário possa decidir o mérito da causa, reconhecendo ou não o direito subjetivo do autor. Disso se extrai que, na via difusa, a declaração de inconstitucionalidade de ato normativo proferida no bojo de decisão judicial definitiva só alcança as partes do processo (eficácia inter partes) e, por consequência, não vincula objetivamente os órgãos de julgamento administrativo – a não ser na hipótese prevista no art. 52, inciso X, da Constituição Federal (resolução do Senado Federal), ou, no caso das Delegacias de Julgamento da Receita Federal do Brasil, na hipótese prevista no art. 4º, parágrafo único, do Decreto nº 2.346, de 10 de outubro de 1997. Essa última exceção merece maior detalhamento, pois se relaciona diretamente com a questão apresentada. O art. 77 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, autorizou o Poder Executivo a disciplinar as hipóteses em que a Administração Tributária federal Fl. 155DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 13 12 pode afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional por decisão definitiva do STF: Art. 77. Fica o Poder Executivo autorizado a disciplinar as hipóteses em que a administração tributária federal, relativamente aos créditos tributários baseados em dispositivo declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal, possa: I absterse de constituílos; II retificar o seu valor ou declarálos extintos, de ofício, quando houverem sido constituídos anteriormente, ainda que inscritos em dívida ativa; III formular desistência de ações de execução fiscal já ajuizadas, bem como deixar de interpor recursos de decisões judiciais. A regulamentação de tal dispositivo legal veio com o referido Decreto nº 2.346/1997, que, em seu art. 4º, estabeleceu o seguinte: Art. 4º Ficam o Secretário da Receita Federal e o Procurador Geral da Fazenda Nacional, relativamente aos créditos tributários, autorizados a determinar, no âmbito de suas competências e com base em decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal que declare a inconstitucionalidade de lei, tratado ou ato normativo, que: I não sejam constituídos ou que sejam retificados ou cancelados; II não sejam efetivadas inscrições de débitos em dívida ativa da União; III sejam revistos os valores já inscritos, para retificação ou cancelamento da respectiva inscrição; IV sejam formuladas desistências de ações de execução fiscal. Parágrafo único. Na hipótese de crédito tributário, quando houver impugnação ou recurso ainda não definitivamente julgado contra a sua constituição, devem os órgãos julgadores, singulares ou coletivos, da Administração Fazendária, afastar a aplicação da lei, tratado ou ato normativo federal, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Ou seja, na hipótese de o Secretário da Receita Federal do Brasil determinar o afastamento da aplicação de lei, tratado ou ato normativo federal declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso, os julgadores das DRJs ficam vinculados a essa determinação. Tratase aqui de interpretação do parágrafo único do dispositivo à vista do caput. No entanto, a Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, alterou o Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, retirando a vedação antes existente de afastamento de aplicação de acordo internacional, lei ou decreto, sob o fundamento de inconstitucionalidade, somente para os casos em que a norma já tenha sido declarada inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal. Fl. 156DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 14 13 Tal alteração gerou divergência de entendimento acerca da possibilidade de extensão dos efeitos subjetivos de declaração de inconstitucionalidade aos processos administrativos em curso na RFB nas hipóteses em que não se verificam as mencionadas vinculações objetivas, ou seja, fora dos casos previstos no art. 52, inciso X, da Constituição Federal, e no art. 4º, parágrafo único, do Decreto nº 2.346/1997. De um lado, estão os que defendem que sim, que, em determinados casos, os julgadores das DRJs podem afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. Fundamentamse, para tanto, na interpretação do §6º, inciso I, do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (redação dada pela Lei nº 11.941/2009): Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 6º O disposto no caput deste artigo não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; Entendem, portanto, que tal dispositivo, por ser posterior ao Decreto nº 2.346/1997, tacitamente revogou o seu art. 4º, que exigia a edição de ato do Secretário da RFB que autorizasse a não aplicação de norma declarada inconstitucional, com base em decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal. Argumentam também que persistir na aplicação de dispositivos legais cuja inconstitucionalidade vem sendo reiteradamente declarada incidentalmente pelo STF traria prejuízos futuros à Fazenda Pública, em razão de eventuais ônus sucumbenciais. A rigor, o caput do artigo 26A do Decreto nº 70.235/72 veda aos órgãos de julgamento administrativo afastar a aplicação de ato normativo sob fundamento de inconstitucionalidade. No entanto, o inciso I do §6º desse mesmo artigo, dispõe que tal vedação não se aplica a ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF”. A par disso, para a primeira corrente temse que é perfeitamente cabível o entendimento de que o inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 estaria circunscrito às decisões tomadas em controle concreto ou difuso de constitucionalidade. Não se vislumbra possível interpretar a vedação de que trata o caput do artigo 26A no sentido de que estaria se referindo às decisões proferidas em controle abstrato ou concentrado de constitucionalidade, porquanto isso significaria esvaziálo de conteúdo, em afronta ao postulado hermenêutico de que não se deve interpretar uma norma de modo a negarlhe aplicabilidade. Afinal, não se pode perder de vista que as declarações de inconstitucionalidade em abstrato excluem a norma viciada do mundo jurídico (em regra, com efeitos ex tunc). Nesse sentido, referida norma não poderia mais ser aplicada pelos órgãos de julgamento administrativo, independentemente do disposto no inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 Ademais, importa salientar que não se quer dizer que o inciso I do §6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72 determina que os órgãos de julgamento Fl. 157DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 15 14 administrativo neguem aplicação a ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF” em controle difuso. O que ele faz é afastar a vedação prevista no caput do artigo. Assim, concluindo, para esta corrente o inciso I do §6º permite que os órgãos de julgamento administrativo deixem de aplicar ato normativo “que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do STF” em controle difuso. Por outro lado, tem os que são contrários à possibilidade de os julgadores das DRJs afastarem a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. Defendem que, em face do princípio da legalidade, nenhuma autoridade administrativa pode negar aplicação a norma vigente; que, para tal negativa, fazse necessário que referida norma seja devidamente excluída do ordenamento jurídico – quer por sua revogação, quer por declaração de inconstitucionalidade na via concentrada, quer ainda na hipótes2e do art. 52, inciso X, da Constituição Federal –, ou que seja ela objeto do ato do Secretário da RFB previsto no art. 4º do Decreto nº 2.346/1997. Em reforço, os adeptos dessa segunda corrente mencionam a Solução de Consulta Interna nº 5 Cosit, de 03 de março de 2009, que consigna em seu parágrafo 17 e 18: 17. Diante desse fato, a Administração Tributária Federal deve reconhecer que, uma vez declarada a inconstitucionalidade das disposições contidas no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, mesmo que em decisão de controle difuso pelo STF, também está prejudicado o comando previsto no art. 10 do Decreto nº 4.524, de 2002, na parte em que define o faturamento (receita bruta) como sendo a totalidade das receitas auferidas pelas pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas exercidas e da classificação contábil adotada para a escrituração das receitas, em relação às pessoas jurídicas detentoras de declaração de inconstitucionalidade prolatada pelo Poder Judiciário, por ser o mencionado Decreto norma de caráter apenas regulamentar. 18. Entretanto, as pessoas jurídicas enquadradas no regime cumulativo de apuração da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins, que não possuam quaisquer medidas judiciais declaratórias da inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo promovida pelo disposto no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, de 1998, continuam obrigadas aos recolhimentos mensais das referidas contribuições, tendo como base de cálculo o montante do faturamento (receita bruta) entendido como a totalidade das receitas auferidas, sendo irrelevantes o tipo de atividade por elas exercida e a classificação contábil adota para as receitas. (o grifo é do original) É de se registrar que, recentemente, foram aprovados pelo Ministro da Fazenda os Pareceres PGFN/CRJ nº 492/2010, de 22 de março de 2010, e o Parecer PGFN/CDA nº 2.025, de 27 de outubro de 2011. O primeiro concluiu no sentido de que a PGFN: (i) não mais apresente recursos, ordinários ou extremos, contra as decisões judiciais, desfavoráveis à Fazenda Nacional, que se mostrarem consentâneas com precedente judicial formado sob a nova sistemática de julgamento prevista nos arts. 543B e 543C do CPC; (ii) não mais interponha RESP/RE contra acórdãos proferidos em consonância com jurisprudência reiterada e pacífica do STF/STJ (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CASTF/CRJ); (iii) não mais interponha agravo regimental contra decisões monocráticas de Relator (dos TRF´s, do STJ ou do Fl. 158DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 16 15 STF) que, com respaldo em jurisprudência reiterada e pacífica daqueles Tribunais Superiores (indicada em lista elaborada e divulgada, periodicamente, pela CASTF/CRJ), também adotada pela respectiva Turma, neguem seguimento a recursos, nos termos do art. 557 do CPC; (iv) não mais apresente impugnação/contestação contra pedido(s) formulado(s) com respaldo em precedente judicial oriundo de julgamento submetido à sistemática prevista nos arts. 543B e 543C do CPC. Por seu turno, o Parecer PGFN/CDA nº 2.025/2011, aprovado pelo Ministro da Fazenda, estabeleceu orientações a serem observadas pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, pela Secretaria da Receita Federal do Brasil e pelos demais órgãos do Ministério da Fazenda, quando caracterizada hipótese de dispensa de contestação e recursos, bem como desistência dos já interpostos, de que trata a Portaria PGFN nº 294/ 2010. Em resumo, como conseqüência da aprovação dos referidos Pareceres pelo MF, a Receita Federal do Brasil passa a estar vinculada às decisões do STJ e STF nas causas repetitivas julgadas na forma dos arts. 543B e 543C do CPC, quando não houver ressalvas por parte da PGFN. No entanto, discutese, ainda, se essa vinculação ocorre para as atividades de julgamento, considerandose que o Parecer PGFN/CDA nº 2.025/2011 trata de aplicação às atividades de constituição e cobrança de créditos no âmbito da RFB, nada mencionando sobre a hipótese de julgamento administrativo. Observase que, até a edição da Lei nº 11.941/2009, que introduziu o § 6º do art. 26A do Decreto nº 70.235/72, a posição majoritária na Primeira Instância do contencioso administrativo era no sentido de não afastar a aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso. A partir dessa alteração legal, essa tendência já não se confirma, uma vez que são identificadas várias decisões que defendem o afastamento da aplicação de ato normativo quando o caso se subsume ao disposto no § 6º, I, do art. 26A do Decreto nº 70.235/72. Decisões favoráveis ao não afastamento aplicação de ato normativo declarado inconstitucional pelo STF em controle difuso: Trecho de ementa: CONTROLE INCIDENTAL DE CONSTITUCIONALIDADE. MODO DIFUSO. EFICÁCIA ENTRE AS PARTES. A decisão do STF em sede de controle difuso de constitucionalidade tem efeito apenas entre as partes, ou seja, não beneficia terceiros não integrantes da lide; para que essa decisão tenha efeitos erga omnes deve haver edição de Resolução do Senado suspendendo a execução do dispositivo declarado inconstitucional, ou, em outra hipótese, para que decisões da espécie obriguem a administração pública ao seu cumprimento, carece que a inconstitucionalidade seja declarada em controle concentrado ou que o STF edite súmula vinculante, nos termos da Lei nº 11.417, de 2006. (Acórdão DRJ/CTA nº 06 34.502, 24/11/2011) Trecho de ementa: EFEITOS DE DECISÕES JUDICIAIS. INCONSTITUCIONALIDADE INCIDENTAL. SÚMULA VINCULANTE. As decisões judiciais produzem efeitos somente às partes envolvidas. A declaração incidental de inconstitucionalidade possui efeito erga omnes quando advinda de Resolução do Senado Federal ou mediante Súmula Vinculante Fl. 159DF CARF MF Processo nº 11020.903303/201214 Acórdão n.º 3302005.629 S3C3T2 Fl. 17 16 do Supremo Tribunal Federal. (Acórdão DRJ/FNS nº 0726.431, de 27/10/2011) Trecho de ementa: ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE E ILEGALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação tributária vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade e ilegalidade de atos legais regularmente editados. (Acórdão DRJ/FNS n° 07 19.634, de 23/04/2010) Trecho de ementa: COISA JULGADA MATERIAL. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. RESOLUÇÃO DO SENADO. SEGURANÇA JURÍDICA. INAFASTABILIDADE. A segurança jurídica, como direito fundamental, é limite que não permite a anulação do julgado, sobretudo na esfera administrativa, ainda que a norma legal que serviu de pressuposto à decisão judicial tenha sido posteriormente acoimada de inconstitucionalidade, em decisão do STF. (Acórdão DRJ/CTA nº 0615.022, 15/08/2007) Diante de tudo que foi exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso da Contribuinte. É como voto." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 160DF CARF MF
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Numero do processo: 10920.004019/2010-87
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Oct 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 02/06/2009
Ementa:
MULTA POR CESSÃO DE NOME - ART. 33 DA LEI 11.488/2007
A pessoa jurídica que ceder seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com intuito de ocultar os reais intervenientes ou beneficiários sujeita-se à multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo esta ser inferior a R$ 5.000,00, nos termos do artigo 33 da Lei nº 11.488/2007.
Numero da decisão: 3302-006.012
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Vinícius Guimaraes (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Vinícius Guimaraes (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Vinícius Guimaraes (Suplente Convocado), Walker Araujo, Orlando Rutigliani Berri (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior, Raphael Madeira Abad. Relatório Tratase de Auto de Infração para aplicação de multa igual ao valor comercial da mercadoria de que trata o artigo 83, I da Lei nº 4.502/1964 (artigo 704 do RA/2009), multa de 1% do valor aduaneiro pela omissão e prestação de informação inexata ou incompleta de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 00 40 19 /2 01 0- 87 Fl. 307DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 308 2 natureza administrativotributária e a multa de 10% por cessão de nome de que trata o artigo 33 da Lei 11.488/2007, por ocultação do real adquirente em importação declarada como própria pela D&A, ocultando a suposta real adquirente PLANET INDÚSTRIA METALMECANICA LTDA. Em impugnação, a recorrente aduziu que: 1. Preliminarmente, a nulidade da autuação por falta de competência da autoridade fiscal, por não haver MPFF específico de Revisão Aduaneira; a nulidade por excesso de prazo na conclusão procedimental; a nulidade por aplicação da multa prevista no artigo 704 do RA/2009, quando deveria ter aplicado a pena de perdimento, uma vez que não havia prova do consumo da mercadoria e por ser penalidade mais específica; a necessidade de comprovação do consumo da mercadoria; ilegitimidade passiva, uma vez que a pena de perdimento deveria ser aplicada em face do real adquirente e não do importador ostensivo; nulidade da autuação por erro no enquadramento legal para aplicação da multa de 10%; 2. No mérito, as premissas fáticas adotadas pela fiscalização são errôneas, visto que a recorrente não omitiu o CNPJ do encomendante, mas foi impedida pelo sistema de incluílo; na modalidade por encomenda, o limite do RADAR deve ser computado como de importador e não do encomendante; a habilitação simplificada para pequena monta limita apenas as importações próprias, mas não as por encomenda; 3. A recorrente cumpriu todos os requisitos do ADI nº 7/2002, para a caracterização da recorrente como adquirente da mercadoria, tratandose de importação própria para revenda a encomendante prédeterminado; 4. Não houve a comprovação da interposição fraudulenta, por não ter havido a comprovação da indisponibilidade financeira da recorrente; 5. A ausência do elemento danoso e falta de recolhimento do tributo; 6. A relevação da pena de perdimento; 7. A aplicação do artigo 112 do CTN; 8. Caso se mantenha a multa aplicada, esta deve ser reduzida ao seu valor aduaneiro. A responsável solidária foi cientificada (efl. 135), mas não consta a peça impugnatória nos autos. Apresentada a impugnação, a DRJ proferiu o Acórdão nº 1650.676, julgando parcialmente procedente a impugnação, afastando a aplicação da multa de 1% sobre o valor aduaneiro de que trata o inciso III do artigo 711 do RA/2009 e a multa regulamentar do IPI de que trata o artigo 83, inciso I da Lei nº 4.502/1964, mantendo, por outro lado, a multa por cessão de nome de que trata o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007. Inconformada, a recorrente interpôs recurso voluntário, alegando: 1. A nulidade do Auto de Infração por ausência de Mandado de Procedimento Fiscal específico para a revisão aduaneira; Fl. 308DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 309 3 2. A necessidade de comprovação do consumo para aplicação da multa do artigo 704 do RA; 3. A caracterização da importação por encomenda, não havendo ocultação do encomendante; 4. A ausência do elemento danoso; 5. A necessidade de aplicação da penalidade mais favorável, ou seja, a aplicação da multa de 1% por prevista no inciso III do artigo 711 do RA; 6. A inocorrência de ocultação do real encomendante, a ausência de cessão, a nulidade de fundamentação para aplicação da multa de 10%, a vedação ao confisco concernente à penalidade aplicada. Na sessão de 24/05/2017, esta turma, em outra composição, converteu o julgamento em diligência para que o setor SEDOC/CARF juntasse o documento que atestasse a tempestividade da peça recursal, tendo sido respondido que o envio da peça processual via malote encaminhado pela unidade da RFB não continha o documento requerido. Na forma regimental, o processo foi distribuído a este relator. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O recurso voluntário interposto pela D&A COMERCIO E SERVICOS IMP E EXP LTDA atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. Destaca se que a responsável solidária PLANET INDÚSTRIA METALMECANICA LTDA não apresentou impugnação ao lançamento, sendo considerada revel. Antes de adentrarmos na análise das razões recursais, é necessário delimitar o litígio. A decisão de primeira instância julgou o Auto de Infração parcialmente procedente, mantendo a multa por cessão de nome no valor de R$ 5.000,00 (originais) e afastando a exigência da multa de um por cento sobre o valor aduaneiro da mercadoria, com capitulação no inciso III, do artigo 711 do Regulamento Aduaneiro Decreto 6759/2009 e da multa regulamentar do IPI com capitulação no art. 83, inciso I, da Lei no 4.502/64, não havendo recurso de ofício interposto. Assim, a alegação concernente à necessidade de comprovação de consumo para aplicação da multa do artigo 704 do RA/2009 perdeu seu objeto, uma vez que tal multa foi exonerada pela decisão recorrida. Quanto às demais alegações, embora se refiram a todo o momento à pena de perdimento, este voto apenas abordará os argumentos da recorrente que se vincularem à infração de cessão de nome, já que as demais infrações foram exoneradas. Preliminarmente, a recorrente pugnou pela incompetência da autoridade fiscal e nulidade da autuação por ausência do MPF específico para revisão aduaneira. Ocorre Fl. 309DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 310 4 que no Termo de Verificação Fiscal restou consignado que houve a emissão de MPF para revisão aduaneira, conforme excerto abaixo extraído da efl. 114: "Ultrapassada a possibilidade de aplicação da pena de perdimento, e em vista das informações coletadas no procedimento fiscal que permitiram concluir pela simulação continuada de importações por conta própria, o procedimento fiscal foi estendido e convertido em revisão aduaneira pelo MPF n° 09202002010005320 REGIONAL, código de acesso 1937696. Ademais, salientase que o MPF é um instrumento administrativo, cujo descumprimento poderia levar a efeitos administrativofuncionais, mas não é requisito essencial do lançamento, nem altera a competência do auditor fiscal para a lavratura do Auto de Infração, cuja atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional, nos termos do parágrafo único do artigo 142 do CTN. Destacase ainda que a Lei nº 10.593/2002, em seu artigo 6º, dispõe sobre a competência do auditor fiscal, estabelecendo que o Poder Executivo poderia regulamentar as atribuições, o que foi efetivado pelo Decreto nº 6.641/2008, que em seu artigo 2º1 dispôs sobre a competência para constituir o crédito tributário e praticar os atos relacionados ao controle aduaneiro etc. Já a Portaria RFB nº 11.371/2007, instituidora do MPF, disciplinou apenas a forma como seriam emitidos os procedimentos fiscais, não se imiscuindo na competência legal conferida ao auditor fiscal, nem configurando requisito essencial do lançamento, nos termos do artigo 10 do Decreto nº 70.935/1972. Neste sentido, citase Acórdão nº 9101001.798, proferido em 19/11/2013, pela Câmara Superior de Recurso Fiscais, cuja ementa, parcialmente, transcrevese: NORMAS PROCESSUAIS MPF MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL NULIDADE DO LANÇAMENTO. O MPF é instrumento de controle administrativo e eventual irregularidade em sua emissão não tem o condão de trazer nulidade ao lançamento. Não pode se sobrepor ao que dispõe o Código Tributário Nacional acerca do lançamento tributário, e aos dispositivos da Lei n° 10.593/2002, que trata da competência funcional para a 1avratura do auto de infração. Ainda em preliminares, a recorrente invocou a nulidade da autuação por erro na fundamentação legal, citando diversos artigos do RA/2009 relativos a exportações, perdimento de moeda etc. Todavia, o Auto de Infração deixa evidente que a aplicação da multa por cessão de nome no valor de R$ 5.000,00 foi aplicada com fulcro no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, conforme disposto na efl. 122. 1 Art. 2o São atribuições dos ocupantes do cargo de AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil: I no exercício da competência da Secretaria da Receita Federal do Brasil e em caráter privativo: a) constituir, mediante lançamento, o crédito tributário e de contribuições [...] c) executar procedimentos de fiscalização, praticando os atos definidos na legislação específica, inclusive os relacionados com o controle aduaneiro, apreensão de mercadorias, livros, documentos, materiais, equipamentos e assemelhados; Fl. 310DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 311 5 No mérito, a recorrente, essencialmente, refuta a ocorrência de ocultação do real adquirente, como causa para a infração de cessão de nome com vistas ao acobertamento dos reais intervenientes ou beneficiários. A acusação fiscal é de que houve interposição fraudulenta na operação que culminou no registro da DI nº 09/06912380, em 02/06/2009. Afirmou a fiscalização que a recorrente realizou diversas importações por conta e ordem da PLANET DENIM como real adquirente, no período de 26/02/2008 a 24/01/2010, sendo que mercadorias similares às objeto da importação em julgamento foram importadas desde 29/05/2008, inclusive do mesmo fornecedor OEM Collecting Industrial Co Limited da China, em julho e setembro de 2009. Na escrituração contábil, a recorrente registrou os valores depositados pela PLANET DENIM como adiantamentos de importações por conta e ordem nos dias 02/06/2009, 03/06/2009 e 04/06/2009. As demais importações ocorridas antes e depois desta DI indicavam a PLANET DENIM como real adquirente e as mercadorias como estoque em poder de terceiros, ao passo que as mercadorias importadas pela DI em análise foram escrituradas como mercadorias para revenda, tendo a entrada e saída ocorridas no mesmo dia 15/07/2009. Diante destes fatos, a fiscalização acusou a recorrente de burla ao controle aduaneiro, ao não informar o CNPJ da PLANET DENIM em campo próprio como real adquirente ou encomendante e que a importação fora indevidamente registrada como por conta própria. Em sua defesa, a recorrente aduziu que a operação foi de importação por encomenda, tendo havido firmado contrato específico para tanto, feito habilitação no RADAR para ambas empresas, indicado o importador e encomendante nos documentos de despacho e informado na DI tratarse de importação por encomenda no campo "informações complementares", operado com recursos próprios, que cumpriu todos os requisitos do ADN nº 7/2002 para se caracterizar como proprietário, alegando tratarse importação própria para revenda a encomendante. Alegou, ainda, que a autoridade fiscal não fez a acusação de interposição fraudulenta, embora tenha afirmado haver a ocultação dos reais intervenientes, não investigou a capacidade econômicofinanceira das empresas e, uma vez, que havia capacidade financeira do importador, não há que se falar em interposição fraudulenta ou ocultação dos reais intervenientes, sendo descabida a pena de perdimento, inclusive, pela ausência de elemento danoso, uma vez que não houve falta de recolhimento de tributos incidentes na importação. Pediu, ainda, a aplicação da denúncia espontânea do artigo 102 do Decretolei nº 37/1996. Continuando, pugnou pela aplicação da penalidade mais favorável, a multa de 1% prevista no artigo 711, inciso III do RA/2009, conforme disposto no artigo 112 do CTN, que a multa de 10% é inaplicável em razão dos argumentos já tecidos e que houve julgamento favorável à recorrente em outro processo com os mesmos fatos. O primeiro ponto da defesa diz respeito à informação nos documentos relacionados à DI nº nº 09/06912380 consta o nome da encomendante. Porém, nos "dados Complementares" da DI, efl. 88, não consta a informação de que a operação se tratava de importação por encomenda, nem consta no nome da PLANET DENIM como emcomendante neste campo ou no campo "Adquirente da Mercadoria", que, ao contrário, informa a recorrente como adquirente. Não localizei outros documentos nos autos que corroboram as afirmações da recorrente quanto à indicação da PLANET DENIM como encomendante. Fl. 311DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 312 6 Afirma ainda que operou com recursos próprios, mas na efl. 109, constam lançamentos com histórico de "Adiantamento Importação por Conta e Ordem" relativo aos valores dos tributos e despesas incidentes na importação e o valor da mercadoria, nas datas de 02/06/2009 e 03/06/2009, antes portanto da emissão da nota fiscal de venda ocorrida em 15/07/2009, configurando o adiantamento de recursos para o custeamento da operação de importação. Quanto ao cumprimento do disposto no ADI nº 7/2002, verificase que a IN SRF 225/2002 data de 18/10/2002, posterior ao ato interpretativo mencionado, estabelecendo a pena de perdimento, para a inserção de informação nos documentos de instrução da DI que não traduzam a realidade das operações, afastando, portanto, a caracterização da propriedade pela informação constante nos documentos referidos, quando a situação fática indica a ocorrência de simulação. Concernente à falta de recolhimento de tributos e inexistência de dano ao erário, tal alegação é estranha ao objeto do litígio que se restringiu à aplicação do artigo 33 da Lei nº11.488/2007, multa por cessão de nome para acobertar os reais intervenientes ou beneficiários e não multa equivalente ao valor aduaneiro em razão de mercadorias consumidas, substituta da pena de perdimento, que não foi aplicada. Também não há que se falar em denúncia espontânea prevista no artigo 1022 do Decretolei nº 37/1966, uma vez que não há provas nos autos de que a recorrente tenha informado a condição de operação por encomenda com a PLANET DENIM às autoridades fiscais, antes de qualquer procedimento de ofício. Constatase, ademais, que a recorrente informou a PLANET DENIM em diversas importações por conta e ordem, desde 26/02/2008 a 14/01/2010, escriturando na contabilidade os produtos como estoque de terceiros, mas para a DI em questão, embora ciente da necessidade de informála como encomendante em campo próprio e da existência do adiantamento de recursos para arcar com os custos da importação, preferiu informar a operação como por conta própria, acobertando o real beneficiário, que era a PLANET DENIM. Deste modo, as multas que deveriam ser aplicadas seriam a multa equivalente ao valor aduaneiro de que trata o §3º do artigo 23 do Decretolei nº 1.455/1976 e a multa por cessão de nome de que trata o artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, sendo que no lugar da multa equivalente foi aplicada a multa do artigo 83, I da Lei nº 4.502/1964, exonerada na decisão de primeira instância, remanescendo a aplicação da multa de cessão de nome. 2 Art.102 A denúncia espontânea da infração, acompanhada, se for o caso, do pagamento do imposto e dos acréscimos, excluirá a imposição da correspondente penalidade. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 1º Não se considera espontânea a denúncia apresentada: (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) b) após o início de qualquer outro procedimento fiscal, mediante ato de ofício, escrito, praticado por servidor competente, tendente a apurar a infração. (Incluído pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) § 2o A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Medida Provisória nº 497, de 2010) § 2o A denúncia espontânea exclui a aplicação de penalidades de natureza tributária ou administrativa, com exceção das penalidades aplicáveis na hipótese de mercadoria sujeita a pena de perdimento. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) Fl. 312DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 313 7 Destarte, não há que falar em aplicação de penalidade mais favorável ou o artigo 112 do CTN, uma vez que o fato se subsume à norma tipificada no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007. Já no que se refere à decisão da DRJ proferida no processo nº 10920.005216/200980, uma vez que os fatos são distintos, pois naquele processo restou caracterizado que a encomendante e a modalidade da importação foram informadas no campo 'Dados Complementares", os documentos que ampararam as importações indicavam a encomendante e que não se comprovou que os recursos vieram das encomendantes, fatos distintos dos aqui verificados. Por fim, a recorrente pediu o afastamento do limite mínimo da multa por cessão de nome prevista no artigo 33 da Lei nº 11.488/2007, em razão de seu caráter confiscatório. Esclareçase, porém, que a argüição de inconstitucionalidade de atos normativos deve ser formulada perante o Poder Judiciário, em vista da competência constitucional prevista nos artigos 97 e 102 da Carta Magna, sendo vedado a este conselho conhecer desta alegação, conforme artigo 59 do Decreto nº 7.574/2011, exceto nas hipóteses previstas no artigo 623 d Anexo II do Regimento Interno, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Neste sentido, foi publicada a Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Diante de todo o exposto, voto para negar provimento aos recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède 3 Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal; II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; c) Dispensa legal de constituição ou Ato Declaratório da ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) aprovado pelo Ministro de Estado da Fazenda, nos termos dos arts. 18 e 19 da Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002; d) Parecer do AdvogadoGeral da União aprovado pelo Presidente da República, nos termos dos arts. 40 e 41 da Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993; e e) Súmula da AdvocaciaGeral da União, nos termos do art. 43 da Lei Complementar nº 73, de 1973. Fl. 313DF CARF MF Processo nº 10920.004019/201087 Acórdão n.º 3302006.012 S3C3T2 Fl. 314 8 Fl. 314DF CARF MF
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Numero do processo: 10930.000388/2007-86
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 04 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Sep 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004
INCIDÊNCIA DE JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE.
Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa Selic. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional.
Numero da decisão: 9101-003.661
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo Relator e Presidente em Exercício.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Demétrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o Conselheiro André Mendes de Moura, substituído pelo Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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LEGALIDADE. Sobre o crédito tributário não pago no vencimento incidem juros de mora à taxa Selic. Compõem o crédito tributário o tributo e a multa de ofício proporcional. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo – Relator e Presidente em Exercício. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, Demétrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o Conselheiro André Mendes de Moura, substituído pelo Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 0. 00 03 88 /2 00 7- 86 Fl. 692DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela FAZENDA NACIONAL em 21/04/2014, com fundamento no art. 67 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22/06/2009 (RICARF/2009), em que se alega a existência de divergência jurisprudencial acerca de matéria relacionada à lide. A recorrente insurgese contra o Acórdão nº 1802002.066, por meio do qual os membros da 2a Turma Especial da 2ª Câmara da 1a Seção de Julgamento do CARF decidiram, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. A decisão recorrida manteve a exigência dos créditos tributários de IRPJ, constituídos pela Fiscalização em razão de a contribuinte INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE JUNTAS UNIVERSAL LTDA, tributada com base no lucro presumido, ter declarado, nas DIPJ e DCTF relativas aos anoscalendário 2002 a 2004, receitas brutas trimestrais inferiores àquelas verificadas em seus livros fiscais e contábeis. Em decorrência das mesmas irregularidades, foram lançados também adicionais trimestrais de IRPJ e créditos relacionados aos tributos reflexos CSLL e PIS. A autuação descrita fora integralmente mantida em sede de julgamento administrativo de primeira instância. Posteriormente, a 2a Turma Especial da 2ª Câmara da 1ª Seção manteve os créditos principais, mas deu provimento parcial ao recurso voluntário apresentado pela contribuinte para afastar a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício, em julgamento que culminou na prolação do acórdão contra o qual ora se insurge a recorrente. O acórdão recorrido foi assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2002, 2003, 2004 Ementa: RECEITA BRUTA. CONCEITO. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO DO ICMS. A receita bruta compreende o preço dos serviços prestados, não sendo incluídos os impostos não cumulativos, cobrados destacadamente do comprador ou contratante, dos quais o prestador dos serviços seja mero depositário. Portanto, não há permissivo legal para que se exclua da receita bruta, o ICMS incidente sobre as vendas. INCONSTITUCIONALIDADE. MATÉRIA SUMULADA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. COBRANÇA DE JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO LANÇADA JUNTAMENTE COM TRIBUTO OU CONTRIBUIÇÃO. NÃO CABIMENTO Fl. 693DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 4 3 Os juros com base na taxa Selic não devem incidir sobre a multa de ofício lançada juntamente com tributo ou contribuição, uma vez que o artigo 61 da Lei n.º 9.430/96 apenas impõe sua incidência sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Igualmente, não incidem os juros previstos no artigo 161 do CTN sobre a multa de ofício. As polêmicas e controvérsias sobre esse assunto vem de longa data, o que já fragiliza a tese em favor da incidência, pois, tratandose de norma punitiva, com implicação direta na dimensão da pena, não poderia o texto legal dar margem a tantas dúvidas. No âmbito das normas jurídicas de natureza punitiva, nenhuma pena, via de regra, vai sendo agravada com o decurso do tempo. Para que isso pudesse ocorrer (juros sobre a multa/penalidade), a Lei deveria ser muito clara a respeito, o que não se verifica no texto normativo vigente. LANÇAMENTOS REFLEXOS CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS CSLL e PIS. Decorrendo as exigências da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada a mesma decisão proferida para o imposto de renda, na medida em que não há fatos ou argumentos novos a ensejar conclusão diversa. Após a formalização do acórdão, os autos foram encaminhados de forma eletrônica à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN) em 21/05/2014, para fins de ciência do teor da decisão. A intimação pessoal do Procurador se deu, portanto, em 20/06/2014, nos termos do § 3º do art. 7º da Portaria MF nº 527/2010. Em 24/06/2014, a PGFN interpôs tempestivamente recurso especial insurgindose contra o Acórdão nº 1802002.066, sob a alegação de que a decisão teria dado à legislação tributária interpretação diversa da que tem sido adotada em outros processos julgados no âmbito do CARF, no que toca à regularidade da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Em atendimento aos requisitos de admissibilidade do recurso especial previstos nos arts. 67 e seguintes do Anexo II do RICARF/2009, a recorrente apontou acórdãos de turmas da Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) que teriam dado ao tema debatido interpretação diversa daquela esposada pela decisão recorrida. A PGFN narra que o acórdão recorrido afastou a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício por entender que tal multa não integra o débito sobre o qual a legislação autoriza a incidência de juros moratórios. Sendo assim, a recorrente defende que a decisão recorrida teria interpretado a legislação aplicável ao caso de forma conflitante com a adotada nos Acórdãos nº 910100.539 (proferido pela 1ª Turma da CSRF) e nº CSRF/0400.651 (prolatado pela extinta 4ª Turma da CSRF), que consideraram que os juros de mora, calculados à taxa Selic, incidem sobre todo o crédito tributário constituído, aí incluída a multa de ofício. Após defender a existência de divergência jurisprudencial entre os acórdãos recorrido e paradigmas, a PGFN apresenta alegações que deveriam, sob seu ponto de vista, provocar a reforma da decisão recorrida. Em suma, argumentase que: Nos termos do § 1º do art. 113 do CTN, o que caracteriza a obrigação tributária principal é seu conteúdo pecuniário (obrigação de dar dinheiro). Assim, evidentemente a multa de ofício teria natureza de obrigação principal; Fl. 694DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 5 4 Já o art. 39 do CTN preceitua que o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A única conclusão possível seria, portanto, que o crédito tributário engloba tanto o tributo (principal) quanto a multa; Assim, o § 1º do art. 161 do CTN, ao determinar que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, estaria contemplando tanto o tributo quanto a multa de ofício como base de incidência dos juros moratórios; O art. 61 da Lei nº 9.430/1996 também se refere tanto ao tributo (principal) quanto à multa de ofício quando menciona "débitos para com a União". Assim, seu § 3º determina a incidência da taxa Selic ("taxa a que se refere o § 3º do art. 5" da mesma Lei), a título de juros de mora, sobre ambas as verbas; Corrobora tal conclusão o art. 950, § 3º, do Regulamento do Imposto de Renda (Decreto nº 3.000/1999 RIR/1999), que determina que não incide multa de mora quando o valor do imposto já tiver servido de base para aplicação da multa de ofício. Assim, afastase a possibilidade de que o caput do art. 61 da lei nº 9.430/1996 pudesse permitir a incidência de multa de mora sobre a multa de ofício; Além disso, o art. 61 da Lei nº 9.430/1996 fala na incidência de multa de mora e de juros moratórios apenas sobre débitos "não pagos nos prazos previstos na legislação específica". Como a multa de mora e os juros de mora não têm prazo de vencimento (salvo quando exigidos isoladamente em virtude de lançamento de ofício), a única interpretação possível é que o art. 61 e seu § 3º, ao se referirem a "débitos para com a União" e a "débitos a que se refere este artigo" tratam dos tributos e das multas de ofício (cujo prazo para pagamento é de trinta dias após a ciência do lançamento pelo sujeito passivo); Também o art. 2º, § 2º, da Lei nº 6.830/1980 e o art. 39 da Lei nº 4.320/1964 corroboram a conclusão pela incidência de juros de mora sobre a multa de ofício ao disporem que os débitos inscritos na Dívida Ativa da União abrangem os juros moratórios. Não haveria razão jurídica suficiente para determinar a aplicação de tais acréscimos ao mesmo débito quando apto a ser executado (Dívida Ativa) e afastála quando ainda em discussão administrativa, embora não pago no vencimento; Por fim, os arts. 29 e 30 da Lei nº 10.522/2002 vão no mesmo sentido, ao determinarem a incidência da taxa Selic sobre débitos de qualquer natureza devidos à União. A PGFN encerra seu recurso especial com o pedido de que este seja admitido e provido para reformar o acórdão recorrido, reconhecendose a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício lançada. A irresignação da Fazenda Nacional foi submetida a juízo de admissibilidade, a fim de se verificar a observância dos requisitos regimentalmente exigidos dos recursos especiais. As conclusões foram expostas em despacho de 04/02/2016, que entendeu ter sido devidamente comprovada pela recorrente a existência de dissenso jurisprudencial entre os Acórdãos nº 1802002.066 (recorrido) e nº 910100.539 e nº CSRF/0400.651 (paradigmas) no que concerne à incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Assim, deuse seguimento ao recurso especial interposto pela PGFN. Em 31/03/2016, a contribuinte foi intimada, por via postal, a tomar ciência do Acórdão nº 1802002.066, do recurso especial apresentado pela PGFN e do despacho que o Fl. 695DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 6 5 admitiu. Em resposta, e em consonância com as disposições infralegais, o contribuinte protocolou, em 15/04/2016, de forma tempestiva, dois documentos: i) contrarrazões aos argumentos constantes do recurso especial da PGFN e; ii) seu próprio recurso especial, em que questiona partes do Acórdão nº 1802002.066 que lhe foram desfavoráveis. Nas contrarrazões opostas ao recurso especial da Fazenda Nacional, a contribuinte perfilou alegações que podem ser assim resumidas: Não há que se falar em divergência jurisprudencial a respeito do tema da incidência de juros de mora sobre multa de ofício, uma vez que existem diversos precedentes com o mesmo entendimento exposto pelo acórdão recorrido; A aplicação de juros de mora só é possível mediante o inadimplemento do tributo. Este consubstancia "retenção" de capital do Estado, motivo pelo qual o contribuinte é legalmente obrigado a remunerar o Ente Público pelo período em que detém os referidos valores, o que se dá mediante a aplicação dos juros de mora; Já as multas (sejam moratórias, sejam decorrentes do lançamento de ofício) devem ser excluídas da incidência de juros, uma vez que não consubstanciam capital do Estado, sendo também decorrentes justamente da "retenção" indevida (inadimplemento) de valores pertencentes ao Estado (natureza jurídica sancionatória); O art. 3º do CTN corrobora tal entendimento ao excluir as multas do conceito de tributo. Por conta de tudo que expôs, a contribuinte recorrida requer que seja negado provimento ao recurso especial interposto pela PGFN. Conforme se adiantou, na mesma data em que protocolou suas contrarrazões, a contribuinte apresentou também recurso especial, com o objetivo de contestar o posicionamento do acórdão recorrido em relação às matérias: i) nulidade do lançamento em razão da ausência de notificação quanto ao MPF; ii) nulidade do lançamento em razão de erro na apuração da base de cálculo da COFINS; e iii) erros de cálculo do montante lançado a título de IRPJ adicional e nos demais tributos objeto do lançamento. Quanto à primeira matéria questionada, a contribuinte relata que o acórdão recorrido teria concluído que a ausência de notificação quanto à emissão de MPF não invalida o lançamento tributário correspondente. Assim, teria se configurado divergência jurisprudencial frente ao Acórdão nº 340300.380, cujo entendimento é no sentido de que o MPF é relevante para determinar a espontaneidade do contribuinte, sendo necessário à validade do lançamento que haja a regular intimação do início da fiscalização. No que toca à segunda matéria, a contribuinte argumenta que o acórdão recorrido, ao considerar que o ICMS se inclui na base de cálculo da COFINS, teria entrado em conflito com o Acórdão nº 1201001.396, por meio do qual a 2ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF teria decidido que a base de cálculo da COFINS é o "faturamento mensal, correspondente à receita bruta da pessoa jurídica, compreendendo a totalidade das receitas decorrentes da venda de bens ou da prestação de serviços, permanecendo fora do campo de incidência das contribuições as receitas financeiras auferidas". Fl. 696DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 7 6 Por fim, o recurso especial da contribuinte defende a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e o Acórdão nº 1201001.342 em relação a erros de cálculo do montante lançado a título de IRPJ adicional e dos demais tributos lançados. Isso porque a decisão recorrida teria consignado que o lançamento sob análise abrangeu créditos tributários que já haviam sido declarados pela recorrente em suas DIPJ, além de algumas diferenças apuradas, o que contrariaria o teor do acórdão paradigma, que entende que o lançamento de ofício de créditos já constituídos pelo contribuinte via lançamento por homologação é totalmente descabido, uma vez que a obrigação já foi regularmente formalizada pelo contribuinte, ainda que não tenha havido o pagamento. Após arguir a existência de divergência jurisprudencial acerca das três matérias citadas, a contribuinte conclui pedindo que seu recurso especial seja conhecido e provido para reformar o Acórdão nº 1802002.066 e anular os créditos tributários objeto do presente processo. Despacho de 10/02/2017 analisou o cumprimento dos requisitos regimentais de admissibilidade pelo recurso especial interposto pela contribuinte. Concluiuse que a contribuinte não logrou êxito em comprovar nenhum dos dissensos jurisprudenciais alegados, pelos seguintes motivos: i) matéria "nulidade do lançamento em razão da ausência de notificação quanto ao MPF": Tanto a decisão recorrida quanto o acórdão paradigma (nº 340300.380) chegaram à mesma conclusão, no sentido de que a ausência de notificação relativa ao MPF não prejudica a validade de um auto de infração. Além disso, a contribuinte não abordou o fato de o acórdão recorrido ter afirmado que a matéria não fora contestada em sede de impugnação, o que, por si só, já inviabilizaria esta parte do recurso especial; ii) matéria "nulidade do lançamento em razão de erro na apuração da base de cálculo da COFINS": Os acórdãos recorrido e paradigma tratam de situações fáticas distintas, o que demanda, obrigatoriamente, decisões diversas. Enquanto o acórdão recorrido discute a inclusão de ICMS na base de cálculo da COFINS, a decisão paradigma (nº 1201001.396) discute a inclusão de receitas financeiras na base de cálculo da COFINS; iii) matéria "erros de cálculo do montante lançado a título de IRPJ adicional e nos demais tributos objeto do lançamento": Os acórdãos recorrido e paradigma tratam de situações fáticas distintas, o que demanda, obrigatoriamente, decisões diversas. Enquanto a decisão recorrida discute declaração de débitos em DIPJ, o que não constitui confissão de dívida, o acórdão paradigma (nº 1201001.342) aborda a declaração de débitos em DCTF e PER/DComp, que constitui confissão de dívida. Além disso, a contribuinte não abordou o fato de o acórdão recorrido ter afirmado que a matéria não fora contestada em sede de impugnação, o que, por si só, já inviabilizaria esta parte do recurso especial. Com base nas constatações descritas, o Presidente da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF decidiu negar seguimento ao recurso especial interposto pela contribuinte. Intimada em 23/05/2017, por via postal, a respeito do aludido despacho, a contribuinte apresentou agravo tempestivo em 26/05/2017, com o objetivo de reverter a decisão e obter o seguimento recursal em relação a duas das três matérias contestadas. Fl. 697DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 8 7 Quanto à matéria "nulidade do lançamento em razão de erro na apuração da base de cálculo da COFINS", a contribuinte agravante defende que o despacho do Presidente da 2ª Câmara da 1ª Seção deveria ser revisto em razão de decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em sede de repercussão geral, quanto à inconstitucionalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da COFINS. A agravante defende que tal decisão judicial afetaria o presente processo de duas formas: a) segundo o art. 62 do RICARF, os julgadores administrativos seriam obrigados a seguir o entendimento construído pelo STF; e b) nos termos do art. 19 da Lei 10.522/2002, lançamentos tributários realizados com base em matérias decididas pelo STF de maneira desfavorável à Fazenda Pública devem ser revistos de ofício. Já tratando da matéria "erros de cálculo do montante lançado a título de IRPJ adicional e nos demais tributos objeto do lançamento", o agravo da contribuinte repisa os argumentos do recurso especial e acrescenta que, segundo entendimento já exarado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), a DIPJ constitui instrumento de confissão de dívida, contrariamente ao afirmado no despacho de exame de admissibilidade do seu recurso. Na conclusão, a contribuinte pede que seu agravo seja conhecido e provido e que seu recurso especial seja admitido. Requer ainda que seja dado provimento ao seu recurso a fim de se reformar o Acórdão nº 1802002.066. O agravo foi analisado em despacho de 11/09/2017, aprovado pelo Presidente da CSRF. Em relação à matéria "nulidade do lançamento em razão de erro na apuração da base de cálculo da COFINS", expôsse que o propósito do agravo é discutir a verificação do atendimento aos pressupostos de admissibilidade dos recursos especiais, previstos no RICARF/2015, e não a análise acerca de eventuais efeitos decorrentes de fatos supervenientes (no caso concreto, proferimento de decisão judicial pelo STF). Já no que se relaciona à segunda matéria abordada no agravo, "erros de cálculo do montante lançado a título de IRPJ adicional e nos demais tributos objeto do lançamento", o despacho concluiu que a decisão agravada foi acertada ao negar seguimento ao recurso, diante da patente ausência de similitude fática entre os acórdãos recorrido e paradigma, o que impede a configuração de dissídio jurisprudencial. Assim, o agravo da contribuinte foi rejeitado e os autos seguiram para esta Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) para o julgamento do recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. É o relatório. Fl. 698DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 9 8 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Conforme relatado, tanto a Fazenda Nacional quanto a contribuinte interpuseram recursos especiais contra o Acórdão nº 1802002.066, questionando os aspectos que lhes foram desfavoráveis. No entanto, apenas a irresignação fazendária obteve seguimento. A contribuinte, por ocasião do oferecimento de contrarrazões ao recurso especial interposto pela PGFN, não apresentou arguições preliminares de não conhecimento recursal, razão pela qual adoto os fundamentos do despacho de exame de admissibilidade exarado em 04/02/2016 e CONHEÇO do recurso da Fazenda Nacional, que contestou apenas a questão da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, matéria que passo a analisar. A cobrança de juros de mora sobre os créditos não pagos até a data de vencimento é prevista no art. 161 do CTN, nos seguintes termos: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. A expressão "crédito", utilizada no caput do artigo reproduzido, obviamente se refere ao crédito tributário, pela própria natureza do diploma legal que habita. Para se definir o alcance de tal expressão, recorrese a outro dispositivo do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Já a definição de obrigação principal, mencionada no art. 139 do CTN, é trazida pelo §1º do art. 113 do mesmo Código. Tal obrigação tem por objeto o pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. In verbis: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, convertese em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. Fl. 699DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 10 9 O critério utilizado pelo CTN para enquadrar determinada obrigação tributária como principal é, portanto, seu conteúdo pecuniário. Uma vez que a multa de ofício tem a característica de penalidade pecuniária, fica claro que ela integra a obrigação principal, ao lado dos tributos. Interpretando em conjunto os dispositivos reproduzidos, concluise que incidem juros de mora sobre os créditos tributários não integralmente pagos no vencimento (art. 161) e que tais créditos decorrem da obrigação principal (art. 139), englobando o tributo e a multa de ofício (art. 113, §1º). Assim, a conclusão construída é a de que o CTN prevê a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional. Os defensores da tese da ilegalidade da cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício argumentam que a interpretação literal do caput do art. 161 do CTN impossibilitaria tal incidência em razão da presença da expressão "sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis". Se a penalidade referente à multa de ofício já estiver contemplada na expressão "crédito não integralmente pago no vencimento", a que outras penalidades cabíveis estaria se referindo o legislador? indagam. Ocorre que, frequentemente, a interpretação de uma norma tributária demanda a consideração da realidade jurídica e fática a que se aplica. Mais do que isso, a norma deve ser interpretada sistematicamente, levandose em conta todo o sistema tributário pátrio. A este respeito, examinese a interessante colocação da Ilustre Conselheira Viviane Vidal Wagner, designada para redigir o voto vencedor do Acórdão CSRF nº 9101 00.539, de 11/03/2010: "Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. E a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema." Sendo assim, a melhor interpretação a ser dada ao art. 161 do CTN é, sem dúvida, aquela que guarda harmonia com os demais dispositivos daquele Código que tratam do tema sob análise, quais sejam, os arts. 113 e 139. Fl. 700DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 11 10 Além do CTN, a Lei nº 9.430/1996, em seu art. 61, caput e §3º, também dispõe sobre o cabimento de juros de mora sobre multa de ofício: Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) (...) §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o §3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Medida Provisória nº 1.725, de 1998) (Vide Lei nº 9.716, de 1998) Depreendese do artigo reproduzido que incidem juros de mora sobre os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, não pagos nos prazos previstos pela legislação específica. A multa de ofício se amolda perfeitamente a tal definição, já que sua cobrança decorre, entre outras hipóteses, da falta de pagamento de imposto ou contribuição, nos termos do inciso I do art. 44 da Lei nº 9.430/1997. Sendo assim, a exemplo do que ocorre com o art. 161 do CTN, também o art. 61 da Lei nº 9.430/1997 fundamenta a possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Corrobora ainda tal entendimento o art. 43 da Lei nº 9.430/1997 que, em seu parágrafo único, prevê expressamente a incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. Assim, vêse que a legislação não enxerga incompatibilidade entre os juros de mora e uma multa pecuniária de caráter punitivo: Art. 43. Poderá ser formalizada exigência de crédito tributário correspondente exclusivamente a multa ou a juros de mora, isolada ou conjuntamente. Parágrafo único. Sobre o crédito constituído na forma deste artigo, não pago no respectivo vencimento, incidirão juros de mora, calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O Egrégio Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou a respeito da legalidade da cobrança de juros de mora nos moldes praticados no presente processo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: ‘É legítima a incidência de juros de mora sobre Fl. 701DF CARF MF Processo nº 10930.000388/200786 Acórdão n.º 9101003.661 CSRFT1 Fl. 12 11 multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.’ (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (STJ, 1ª T., AgRg no REsp 1335688/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, dez/2012) Por fim, tanto o § 3º do art. 61 quanto o parágrafo único do art. 43, ambos da Lei nº 9.430/1997, fazem alusão à taxa aplicável a título de juros de mora: taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais. Quanto a este ponto, a matéria já foi inclusive pacificada por meio da edição da Súmula CARF nº 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Desse modo, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional para restabelecer a cobrança de juros de mora sobre a multa de ofício. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Fl. 702DF CARF MF
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