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Numero do processo: 10865.720309/2008-69
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2004
ESTIMATIVA. COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84).
Numero da decisão: 9101-002.653
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negar-lhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário.
Fez sustentação oral o patrono do contribuinte, Dr. Gustavo Froner Minatel, OAB-SP 210198, escritório Minatel Advogados.
[assinado digitalmente]
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO FREITAS BARRETO
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ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004 ESTIMATIVA. COMPENSAÇÃO. POSSIBILIDADE. Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação (Súmula CARF nº 84). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em negarlhe provimento, com retorno dos autos à Unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. Fez sustentação oral o patrono do contribuinte, Dr. Gustavo Froner Minatel, OABSP 210198, escritório Minatel Advogados. [assinado digitalmente] Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Carlos Alberto Freitas Barreto. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 5. 72 03 09 /2 00 8- 69 Fl. 269DF CARF MF Processo nº 10865.720309/200869 Acórdão n.º 9101002.653 CSRFT1 Fl. 3 2 Tratase de Recurso Especial apresentado pela Fazenda Nacional contra o Acórdão nº 120100.411, que julgou o recurso voluntário interposto pela contribuinte acerca da possibilidade de compensação de créditos de pagamentos de estimativas. O Acórdão recorrido deu provimento ao recurso voluntário para afastar o argumento jurídico da não homologação, entendendo ser possível a compensação de créditos de pagamentos de estimativas. Em seguida, para comprovar a divergência de interpretação necessária ao conhecimento do seu recurso, a Fazenda Nacional interpôs o presente recurso especial de divergência, por entender que a decisão de reconhecer a possibilidade de compensação do valor indevidamente pago, ou pago a maior, de estimativa é fruto de interpretação da legislação tributária que conflita com a interpretação adotada no acórdão paradigma colacionado aos autos. O recurso foi admitido por meio do despacho do Presidente da Câmara. Após, sobrevieram contrarrazões em que o sujeito passivo defende o acerto da decisão questionada e pugna pela sua manutenção. É o Relatório. Voto Conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9101002.610, de 16/03/2017, proferido no julgamento do processo 10280.900603/200912, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9101002.610): O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento, na forma como foi admitido. O contribuinte apresentou DCOMP apontando indébito oriundo de pagamento a maior de estimativa. Ao apreciar a referida declaração, a Receita Federal não homologou a compensação, sob o fundamento de que o pagamento de estimativa não é passível de compensação, devendo compor a apuração anual do tributo. A decisão recorrida foi no sentido oposto, reconhecendo o direito de o contribuinte compensar o indébito de estimativa, devolvendo os autos para a unidade de origem, para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário pleiteado, vez que essa matéria ainda não sofreu apreciação pela Administração Tributária. Fl. 270DF CARF MF Processo nº 10865.720309/200869 Acórdão n.º 9101002.653 CSRFT1 Fl. 4 3 O recurso especial veio para que esta Câmara Superior reforme a decisão recorrida, restabelecendo a declaração de impossibilidade de o contribuinte compensar crédito de estimativa, nos termos da legislação infralegal então em vigor. Todavia, a IN RFB nº 900, de 2008, retirou a referida proibição do ordenamento tributário e é pacífico na jurisprudência administrativa o entendimento de que seus efeitos devem retroagir para alcançar as compensações pendentes de decisão administrativa. Esse entendimento é adotado pela própria Administração Tributária, exteriorizado por meio da Solução de Consulta Interna Cosit n° 19, de 05/12/2011, assim ementada: ESTIMATIVAS. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO. O art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, que admite a restituição ou a compensação de valor pago a maior ou indevidamente de estimativa, é preceito de caráter interpretativo das normas materiais que definem a formação do indébito na apuração anual do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica ou da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, aplicandose, portanto, aos PER/DCOMP originais transmitidos anteriormente a 1º de janeiro de 2009 e que estejam pendentes de decisão administrativa. Caracterizase como indébito de estimativa inclusive o pagamento a maior ou indevido efetuado a este título após o encerramento do período de apuração, seja pela quitação do débito de estimativa de dezembro dentro do prazo de vencimento, seja pelo pagamento em atraso da estimativa devida referente a qualquer mês do período, realizado em ano posterior ao do período da estimativa apurada, mesmo na hipótese de a restituição ter sido solicitada ou a compensação declarada na vigência das IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005. A nova interpretação dada pelo art. 11 da IN RFB nº 900, de 2008, aplicase inclusive aos PER/DCOMP retificadores apresentados a partir de 1º de janeiro de 2009, relativos a PER/DCOMP originais transmitidos durante o período de vigência da IN SRF nº 460, de 2004, e IN SRF nº 600, de 2005, desde que estes se encontrem pendentes de decisão administrativa. No âmbito deste Tribunal Administrativo, a matéria foi pacificada por meio da Súmula CARF nº 84: Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Procuradoria, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, conheço do recurso especial da Fl. 271DF CARF MF Processo nº 10865.720309/200869 Acórdão n.º 9101002.653 CSRFT1 Fl. 5 4 Fazenda Nacional, e, no mérito, negolhe provimento, com retorno dos autos à unidade de origem para verificação da certeza e liquidez do crédito tributário. assinado digitalmente Carlos Alberto Freitas Barreto Fl. 272DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.000411/2002-30
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jan 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Feb 16 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001
EMBARGOS -CONTRADIÇÃO - RESULTADO DE JULGAMENTO
Contradição endógena ao resultado do julgamento consignada na folha de rosto do acórdão em relação à fundamentação do voto gera a necessidade de saneamento como conseqüência lógica ou necessária para a supressão do equívoco.
Numero da decisão: 9303-004.577
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração, nos termos do voto da relatora.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Tatiana Midori Migiyama - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: TATIANA MIDORI MIGIYAMA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração, nos termos do voto da relatora. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama - Relatora Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração, nos termos do voto da relatora. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Relatora AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 00 04 11 /2 00 2- 30 Fl. 807DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama (Relatora), Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Charles Mayer de Castro Souza, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Embargos de Declaração opostos pela Fazenda Nacional em face do acórdão de embargos 9303003.381 que, por unanimidade de votos, consignou o provimento dos embargos de declaração opostos pelo sujeito passivo ao acórdão de Recurso Voluntário para retificar a ementa e a parte dispositiva do acórdão embargado – através da seguinte ementa: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ACOLHIMENTO. Constatada a existência de obscuridade, omissão ou contradição no acórdão exarado pelo CARF, correto o acolhimento dos embargos de declaração visando a sanar o vício apontado. Embargos Providos Para melhor elucidar o consignado nesse acórdão de embargos, importante transcrever o voto da relatora (Grifos meus): “[...] Tratase de análise de embargos de declaração interpostos tempestivamente pela contribuinte. [...] Assiste razão à embargante pelas seguintes razões: Recurso especial da Fazenda Nacional: Analisando o acórdão vergastado, percebese uma contradição no voto vencido do i. Conselheiro Antonio Carlos Atulim, em relação ao recurso interposto pela d. Procuradoria. Confirase: Estando devidamente fundamentado o entendimento expresso pela Fazenda do que considera contrariedade a lei é patente o preenchimento dos pressupostos de admissibilidade do referido recurso, não merecendo prosperar a preliminar apresentada. Fl. 808DF CARF MF Processo nº 13971.000411/200230 Acórdão n.º 9303004.577 CSRFT3 Fl. 808 3 Contrariamente, ao acima exposto consta da conclusão do voto do nobre Conselheiro relator: 1. Dar provimento parcial ao Recurso Especial da Procuradoria da Fazenda Nacional nos seguintes termos: a) não conhecer do recurso quanto à exclusão da base de cálculo do crédito presumido dos valores relativos às vendas para o exterior de soja em grão e de mercadoria revendida sem sofrer industrialização, por ser matéria estranha aos autos; (grifos inseridos) Consta, no entanto, do acórdão: ACORDAM os Membros da Segunda Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais: 1) pelo voto de qualidade, DAR provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. Nas palavras do voto do Conselheiro Relator: a) não conhecer do recurso quanto à exclusão da base de cálculo do crédito presumido dos valores relativos às vendas para o exterior de soja em grão e de mercadoria revendida sem sofrer industrialização, por ser matéria estranha aos autos; (grifos inseridos) Pela motivação exposta no voto, o correto é ter constado também do acórdão, no que se refere ao recurso interposto pela Fazenda Nacional, "recurso conhecido em parte". Recurso especial da contribuinte: Já em relação ao recurso da contribuinte, há contradição do texto da ementa, devendo ser excluído o seguinte: IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. INSUMOS ADQUIRIDOS DE COOPERATIVAS. Incluemse da base de cálculo do crédito presumido do IPI as aquisições de insumos efetuadas de cooperativas a partir de novembro de 1999. MP n° 1.8587/1999 e AD SRF nº 88/99. Isto porque, a um, independentemente do período dos autos, o voto vencedor do Conselheiro Julio César Vieira Gomes foi por reconhecer o direito ao crédito presumido de IPI, o valor relativo aos insumos Fl. 809DF CARF MF 4 adquiridos tanto das pessoas físicas como de cooperativas. A dois, pelo fato de a matéria pertinente às cooperativas já se encontrar na mesma ementa constante do acórdão embargado. Confirase: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS OU COOPERATIVAS. TAXA SELIC. Integra a base de cálculo do crédito presumido de IPI o valor referente ao crédito relativo aos insumos adquiridos de cooperativas e pessoas físicas. Por derradeiro, devese também corrigir o texto da ementa, de forma a explicitar o resultado final no que diz respeito à taxa SELIC. Assim, onde se lê: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS, FÍSICAS OU COOPERATIVAS. TAXA SELIC. Devese ler: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS OU COOPERATIVAS. A exclusão da palavra "SELIC" fazse necessário, tendo em vista já constar da ementa, em outro item específico. Confirase: RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. Incabível a atualização do ressarcimento pela taxa Selic, por se tratar de hipótese distinta da repetição de indébito. Desta forma, concluo como correto: I em relação ao recurso da Fazenda: pela motivação exposta no voto, o correto é ter também constado do acórdão, "recurso conhecido em parte". II em relação ao recurso da contribuinte, conforme anteriormente exposto, o acerto de redação de forma a explicitar o que foi decidido nos votos vencido e vencedor. Dessa forma, a ementa do acórdão embargado passa a ser a seguinte: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO. SERVIÇOS DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. Fl. 810DF CARF MF Processo nº 13971.000411/200230 Acórdão n.º 9303004.577 CSRFT3 Fl. 809 5 O crédito presumido do IPI diz respeito, unicamente, ao custo de matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem, não podendo ser incluídos, em sua base de cálculo, os valores dos serviços de industrialização por encomenda. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS OU COOPERATIVAS. Integra a base de cálculo do crédito presumido de IPI o valor referente ao crédito relativo aos insumos adquiridos de cooperativas e pessoas físicas. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. INSUMOS. CONCEITO JURÍDICO. ENERGIA ELÉTRICA. COMBUSTÍVEIS. LENHA. MATÉRIA SUMULADA. Não se conhece de matéria do recurso que contrarie súmula em vigor, nos termos do § 2º do art. 38 do RICSRF. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS ADQUIRIDOS PARA REVENDA. Não se conhece de matéria do recurso que não preencha pressuposto de admissibilidade. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS NT. COEFICIENTE DE EXPORTAÇÃO. As matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, aplicados na fabricação de produtos NT, devem ser excluídas da base de cálculo do crédito presumido. Entretanto, os valores relativos às operações de vendas de produtos NT devem integrar não só a receita de exportação, mas também a receita operacional bruta, para fins de apuração do coeficiente de exportação. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. Incabível a atualização do ressarcimento pela taxa Selic, por se tratar de hipótese distinta da repetição de indébito. Recursos especiais da Fazenda Nacional e do Contribuinte conhecidos em parte e, na parte conhecida, providos em parte. É como voto. Fl. 811DF CARF MF 6 [...]” Considerando o acórdão de embargos, a Fazenda Nacional, opôs Embargos de Declaração, suscitando a existência de contradição/obscuridade em sua fundamentação, trazendo o que segue (Grifos meus): “Analisando o inteiro teor da decisão, constatase a existência de contradição/obscuridade em sua fundamentação. A nova ementa recebeu a seguinte redação: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO. SERVIÇOS DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. O crédito presumido do IPI diz respeito, unicamente, ao custo de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, não podendo ser incluídos, em sua base de cálculo, os valores dos serviços de industrialização por encomenda. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS OU COOPERATIVAS. Integra a base de cálculo do crédito presumido de IPI o valor referente ao crédito relativo aos insumos adquiridos de cooperativas e pessoas físicas. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. INSUMOS. CONCEITO JURÍDICO. ENERGIA ELÉTRICA. COMBUSTÍVEIS. LENHA. MATÉRIA SUMULADA. Não se conhece de matéria do recurso que contrarie súmula em vigor, nos termos do § 2º do art. 38 do RICSRF. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS ADQUIRIDOS PARA REVENDA. Não se conhece de matéria do recurso que não preencha pressuposto de admissibilidade. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS NT. COEFICIENTE DE EXPORTAÇÃO. As matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, aplicados na fabricação de produtos NT, devem ser excluídas da base de cálculo do crédito presumido. Entretanto, os valores relativos Fl. 812DF CARF MF Processo nº 13971.000411/200230 Acórdão n.º 9303004.577 CSRFT3 Fl. 810 7 às operações de vendas de produtos NT devem integrar não só a receita de exportação, mas também a receita operacional bruta, para fins de apuração do coeficiente de exportação. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. Incabível a atualização do ressarcimento pela taxa Selic, por se tratar de hipótese distinta da repetição de indébito. Recursos especiais da Fazenda Nacional e do Contribuinte conhecidos em parte (sic) e, na parte conhecida, providos em parte. Data vênia, em relação ao Recurso da Fazenda Nacional, a redação deveria ser a seguinte: Recurso especial da Fazenda Nacional conhecido em parte. Na parte conhecida, provido integralmente. Essa conclusão coincide com o que decidido no Acórdão nº 02 03.407. Vejamos (fls. 704) “1. Dar provimento parcial ao Recurso Especial da Procuradoria da Fazenda Nacional nos seguintes termos: a) Não conhecer do recurso parcial ao Recurso Especial da Procuradoria da Fazenda Nacional nos seguintes termos: b) Excluir da base de cálculo do crédito presumido o valor dos serviços de industrialização por encomenda; e c) Afastar a aplicação da taxa Selic. Em relação à parte conhecida, o provimento foi integral, e não parcial como está exposto na ementa acima descrita. Desse modo, requer a União (Fazenda Nacional) o conhecimento e o provimento do presente recurso para que seja saneado o vício acima. [...]” Os Embargos de Declaração foram acolhidos em Despacho às fls. 801/806. É o relatório. Fl. 813DF CARF MF 8 Voto Conselheira Tatiana Midori Migiyama Relatora Depreendendose da análise dos autos do processo, conheço dos embargos interpostos pela Fazenda Nacional, vez que houve contradição quanto ao resultado de julgamento e os fundamentos do acórdão de embargos – ora embargados. Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, temse que se insurgiu contra os capítulos do acórdão de fls. 529 a 542 que, por maioria, deu provimento parcial ao recurso voluntário “para incluir no valor das aquisições de matériaprima, produto intermediário e material de embalagem o valor referente à industrialização de latas destinadas a material de embalagem e o valor das aquisições feitas a cooperativas após setembro de 1999 e para deduzir, também da receita operacional bruta, os valores relativos a incidência da taxa Selic sobre os ressarcimentos, a partir da data da protocolização do pedido”. Recordase que o recurso fazendário foi conhecido apenas em parte, haja vista que a matéria atinente à exclusão da base de cálculo do crédito presumido dos valores relativos às vendas para o exterior de soja em grão e de mercadoria revendida sem sofrer industrialização foi considerada estranha à lide. Na parte conhecida, referente à tomada de crédito presumido de IPI sobre o custo dos serviços de industrialização por encomenda e à atualização do ressarcimento pela taxa Selic, o provimento foi integral, haja vista o que consta do ementário reproduzido no voto condutor do julgamento dos Embargos de Declaração interpostos pelo contribuinte (Grifos meus): “Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/10/2001 a 31/12/2001 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. BASE DE CÁLCULO. SERVIÇOS DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR ENCOMENDA. O crédito presumido do IPI diz respeito, unicamente, ao custo de matérias primas, produtos intermediários e materiais de Fl. 814DF CARF MF Processo nº 13971.000411/200230 Acórdão n.º 9303004.577 CSRFT3 Fl. 811 9 embalagem, não podendo ser incluídos, em sua base de cálculo, os valores dos serviços de industrialização por encomenda. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS OU COOPERATIVAS. Integra a base de cálculo do crédito presumido de IPI o valor referente ao crédito relativo aos insumos adquiridos de cooperativas e pessoas físicas. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. INSUMOS. CONCEITO JURÍDICO. ENERGIA ELÉTRICA. COMBUSTÍVEIS. LENHA. MATÉRIA SUMULADA. Não se conhece de matéria do recurso que contrarie súmula em vigor, nos termos do § 2a do art. 38 do RICSRF. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS ADQUIRIDOS PARA REVENDA. Não se conhece de matéria do recurso que não preencha pressuposto de admissibilidade. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. PRODUTOS NT COEFICIENTE DE EXPORTAÇÃO. As matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, aplicados na fabricação de produtos NT, devem ser excluídas da base de cálculo do crédito presumido. Entretanto, os valores relativos às operações de vendas de produtos NT devem integrar não só a receita de exportação, mas também a receita operacional bruta, para fins de apuração do coeficiente de exportação. RESSARCIMENTO DE CRÉDITOS. ATUALIZAÇÃO PELA TAXA SELIC. Incabível a atualização do ressarcimento pela taxa Selic, por se tratar de hipótese distinta da repetição de indébito. Recursos especiais da Fazenda Nacional e do Contribuinte conhecidos em arte e, na parte conhecida, providos em parte. Fl. 815DF CARF MF 10 Sendo assim, vêse que há contradição no acórdão embargado, que merece saneada. Em vista do exposto, é de se acolher os Embargos de Declaração, rerratificando o resultado de julgamento: “DE: Recursos especiais da Fazenda Nacional e do Contribuinte conhecidos em parte e, na parte conhecida, providos em parte. PARA: Recursos especiais da Fazenda Nacional e do Contribuinte conhecidos em parte e, na parte conhecida, em relação ao: · Recurso Especial do contribuinte, providos em parte. · Recurso Especial da Fazenda, providos integralmente. É o meu voto. (Assinado digitalmente) Tatiana Midori Migiyama Fl. 816DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.004646/2007-38
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/03/2002 a 30/09/2003
DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO. ART. 173, I DO CTN. RESP N. 973.733/SC.
Na ausência de pagamento, a regra decadencial aplicável é a do artigo 173, I do CTN, conforme entendimento do STJ expresso no REsp no 973.733/SC, na sistemática do artigo 543-C do antigo CPC (atual artigo 1036 do novo CPC, veiculado pela Lei no 13.105/2015), e, portanto, de observância obrigatória por este tribunal administrativo, tendo em vista o artigo 62, § 2º do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria MF no 343/2015.
Numero da decisão: 3401-003.446
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração, com efeitos infringentes, negando-se provimento ao recurso voluntário interposto.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, Fenelon Moscoso de Almeida, Hélcio Lafetá Reis (suplente), André Henrique Lemos, Rodolfo Tsuboi (suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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AUSÊNCIA DE PAGAMENTO. ART. 173, I DO CTN. RESP N. 973.733/SC. Na ausência de pagamento, a regra decadencial aplicável é a do artigo 173, I do CTN, conforme entendimento do STJ expresso no REsp no 973.733/SC, na sistemática do artigo 543C do antigo CPC (atual artigo 1036 do novo CPC, veiculado pela Lei no 13.105/2015), e, portanto, de observância obrigatória por este tribunal administrativo, tendo em vista o artigo 62, § 2º do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria MF no 343/2015. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração, com efeitos infringentes, negandose provimento ao recurso voluntário interposto. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, Fenelon Moscoso de Almeida, Hélcio Lafetá Reis (suplente), André Henrique Lemos, Rodolfo Tsuboi (suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 00 46 46 /2 00 7- 38 Fl. 293DF CARF MF 2 Relatório Tratase de embargos de declaração (fls. 283 a 285)1 opostos pela Fazenda, em relação ao Acórdão nº 340100.336 (fls. 275 a 280), no qual, por unanimidade, foi dado parcial provimento ao recurso voluntário interposto, exclusivamente para reconhecer a decadência do direito de o fisco exigir os valores relativos ao período anterior a agosto de 2002: “PIS e COFINS. DECADÊNCIA. O PIS e a COFINS se submetem ao prazo decadencial de cinco anos para constituição do crédito tributário pelo fisco, conforme preconizado pelo CTN. São inconstitucionais os artigos 45 e 46 da Lei 8.212/91, nos termos da Súmula Vinculante no 8 do STF”. (Acórdão nº 3401 00.336, Rel. Cons. Fernando Cleto Marques Duarte, unânime, sessão de 19.out.2009) (grifo nosso) Alega a embargante que o acórdão incidiu em contradição "quando do exame individualizado de ponto essencial ao deslinde do fato e decorrente equívoco na análise documental”, informandose no voto condutor que houve pagamento parcial das contribuições, no caso em análise; e omissão quanto à análise do Demonstrativo de Apuração da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, no qual restaria claro que o contribuinte não antecipou o pagamento relativo às contribuições. Os embargos foram admitidos, em relação à omissão, pelo despacho de fls. 290 a 292, e o processo foi a mim sorteado, em 23/06/2016, para inclusão em pauta de julgamento e apreciação pelo colegiado, no mérito. Em virtude da suspensão das sessões, por determinação do CARF, de outubro a dezembro de 2016, e de ser a pauta de janeiro de 2017 mera reprodução da definida originalmente para o mês de outubro de 2016, o processo foi indicado para pauta no mês de fevereiro de 2017, não tendo sido julgado por falta de tempo hábil. É o relatório. 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator Tendo os pressupostos para admissibilidade dos embargos já sido avaliados no despacho de fls. 290 a 292, passase diretamente à análise da omissão objetivamente apontada. Importante destacar que no exame de admissibilidade não se estava a verificar efetivamente se houve omissão, mas se esta havia sido objetivamente apontada. Relevante ainda informar que com o novo RICARF, aprovado pela Portaria MF no 343/2015, Fl. 294DF CARF MF Processo nº 10120.004646/200738 Acórdão n.º 3401003.446 S3C4T1 Fl. 294 3 mais precisamente com seu art. 65, § 8º, passou a existir expressa previsão de sustentação oral pelas partes no julgamento de embargos de declaração. A omissão apontada pela Fazenda Nacional se refere à ausência de análise, no voto condutor do acórdão embargado, do Demonstrativo de Apuração da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, no qual restaria claro que o contribuinte não antecipou o pagamento relativo às contribuições, afetando a regra aplicável em relação à decadência. Ao afastar o prazo decenal de decadência das contribuições, com amparo na Súmula Vinculante no 8, do Supremo Tribunal Federal, o colegiado não teria discutido efetivamente se houve pagamento, limitandose a afirmar, à fl. 279, que a regra do artigo 150, § 4o do Código Tributário Nacional “deve ser aplicada aos casos em que houve algum pagamento do contribuinte, ainda que insuficiente, como ocorreu no presente caso”. Como indica a embargante, os demonstrativos estão presentes no processo, às fls. 81/82 e 91/92, que atestariam o valor “ZERO” no campo “Valor Recolhido”. Ao verificar tais demonstrativos, no entanto, percebo que a Fazenda Nacional confundiu “DACON” (Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais) com os demonstrativos anexos à própria autuação. Às fls. 81/82 e 91/92 constam os demonstrativos de valores lançados, produzidos ao final da fiscalização, e não os valores presentes na documentação fiscal da empresa apresentada à RFB (DACON / DCTF). No entanto, apesar de indicar páginas referentes a demonstrativo diverso, há que se reconhecer que a Fazenda chama a atenção para o fato de que não houve, no voto condutor do acórdão embargado, análise específica sobre a existência de eventuais pagamentos, o que merece melhor aprofundamento no enfrentamento dos embargos interpostos. Recordese que as razões de autuação, tanto em relação à COFINS (fl. 81) quanto à Contribuição para o PIS/PASEP (fl. 91), apesar de remeterem a “diferença apurada entre valor escriturado e declarado/pago”, afirmam que no período de março de 2002 a setembro de 2003 a cooperativa contabilizou valores das contribuições sobre receitas operacionais na conta contábil no 213105, mas não os declarou nas DCTF tampouco os recolheu. E, às fls. 76 a 78 é perceptível que não houve recolhimentos das contribuições no período de janeiro de 1993 a julho de 2007. Flagrante, assim, a omissão na análise de documentos constantes do processo, que dão conta de que não houve, efetivamente, recolhimentos no período. Devese, então, acolher os embargos, com efeitos infringentes, demandandose a aplicação da regra decadencial compatível com o caso concreto. Diante da ausência de pagamento antecipado, aplicável é a regra do artigo 173 do CTN, conforme entendimento expresso pelo STJ no REsp no 973.733/SC, na sistemática do artigo 543C do antigo CPC (atual artigo 1036 do novo CPC, veiculado pela Lei no 13.105/2015), e, portanto, de observância obrigatória por este tribunal administrativo, tendo em vista o artigo 62, § 2º do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria MF no 343/2015: “PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO Fl. 295DF CARF MF 4 CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial quinquenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 163/210). 3. O dies a quo do prazo quinquenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs.. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs.. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs.. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro Fl. 296DF CARF MF Processo nº 10120.004646/200738 Acórdão n.º 3401003.446 S3C4T1 Fl. 295 5 de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial quinquenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 973733/SC, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/08/2009, DJe 18/09/2009) (grifo nosso) Nesse sentido já decidiu, reiteradamente, este CARF: “(...) DECADÊNCIA. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO. ART. 173, I DO CTN. RESP N. 973.733/SC. Na ausência de pagamento, a regra decadencial aplicável é a do art. 173, I do CTN, conforme entendimento do STJ expresso no REsp no 973.733/SC, na sistemática do art. 543C do CPC, e, portanto, de observância obrigatória por este tribunal administrativo, tendo em vista o art. 62A do Anexo II do RICARF.” (Acórdão no 3403002.298, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, unânime em relação à matéria, sessão de 25.jun.2013) (No mesmo sentido os Acórdãos no 3403 003.106 e 107, no 3403003.305, no 3101001.267, no 3302 002.589, no 3403002.767, no 9202003.060, no 9303002.849 e no 9303002.857). Assim, havendo nos autos demonstração de ausência de recolhimento antecipado das contribuições, sobre a qual não se manifestou o acórdão embargado, há que se acolher os embargos com efeitos infringentes, e determinar a aplicação, ao caso, da regra decadencial prevista no artigo 173, I do Código Tributário Nacional (“O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado”). Sendo os débitos mais remotos da autuação correspondentes ao mês de março de 2002, e tendo sido o lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo em 10/08/2007, conforme AR de fl. 100, não há configuração de decadência no presente processo. Diante do exposto, devem ser acolhidos os embargos de declaração, com efeitos infringentes, negandose provimento ao recurso voluntário interposto. Rosaldo Trevisan Fl. 297DF CARF MF 6 Fl. 298DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.720659/2013-66
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2008
DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação e com regime de apuração mensal, aplica-se, quando houver pagamento, o prazo decadencial de cinco anos, contados a partir da data do fato gerador, nos termos do artigo 150, § 4o, do CTN.
Numero da decisão: 1201-001.587
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR provimento ao Recurso de Ofício.
(documento assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida Relator e Presidente
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães.
Nome do relator: ROBERTO CAPARROZ DE ALMEIDA
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LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. No caso de tributos sujeitos a lançamento por homologação e com regime de apuração mensal, aplicase, quando houver pagamento, o prazo decadencial de cinco anos, contados a partir da data do fato gerador, nos termos do artigo 150, § 4o, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NEGAR provimento ao Recurso de Ofício. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida – Relator e Presidente Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, Luiz Paulo Jorge Gomes e José Carlos de Assis Guimarães. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 06 59 /2 01 3- 66 Fl. 1142DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 3 2 Como os fatos e a matéria jurídica foram bem relatados pela decisão de primeira instância, reproduzoa a seguir: Conforme o Termo de Verificação Fiscal (TVF) de fls. 89100, em ação fiscal empreendida junto à contribuinte supramencionada, a fiscalização apurou os fatos descritos a seguir: Receita obtida da alienação de ações decorrente de incorporação da Bovespa Holding pela Nova Bolsa A contribuinte possuía 6 títulos patrimoniais da Bovespa e, após o evento da desmutualização dessa bolsa, passou a deter 4.240.572 ações da Bovespa Holding S/A, no montante de R$ 9.412.822,26. Tais ações foram classificadas pela contribuinte no Ativo Circulante, conta 1.3.1.20.20.00001 “Bovespa Holding S/A”. Também foram transferidas, para a conta 1.3.1.20.20.00001, 1.294.244 ações convertidas da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), no valor de R$ 2.886.164,12. Com isso, o saldo dessa conta em 30/09/2007 passou a ser de R$ 12.298.986,38. Em 10/2007 a contribuinte alienou 1.383.704 ações da Bovespa Holding, remanescendo um saldo de 4.151.112 ações, no valor de R$ 9.224.253,14, contabilizadas na conta 1.3.1.20.10.00041 “Bovespa Holding S/A”, em 31/10/2007. A contribuinte também possuía 3 títulos da BM&F (sócio efetivo, corretora de mercadorias e agente de compensação), pelos quais recebeu o total de 9.869.625 ações da BM&F S/A, no montante de R$ 9.869.625,00. Tais ações foram registradas inicialmente no Ativo Permanente, sendo transferidas em seguida para o Ativo Circulante, conta 1.3.1.20.20.00002 “BMF S/A”, cujo saldo em 30/09/2007 era de R$ 9.869.625,00. Em 11/2007 a contribuinte alienou 3.454.369 ações da BM&F S/A, remanescendo um saldo de 6.415.256 ações, no valor de R$ 6.415.256,00, em 30/11/2007. Em 05/2008 houve a incorporação das ações da Bovespa Holding e da BM&F S/A pela Nova Bolsa, passando a Bovespa Holding a ser subsidiária integral da Nova Bolsa. A incorporação de ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa caracterizase como uma alienação, sujeita à incidência do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. A seu turno, a contribuinte deliberou em Assembleia Geral Extraordinária (AGE) de 02/07/2007, publicada em 12/07/2007, a redução de seu capital social em R$ 20.000.000,00, de R$ 31.817.600,00 (20 milhões de ações ordinárias) para R$ 11.817.600,00 (7.680.881 ações ordinárias), mediante reembolso aos acionistas de 12.319.119 ações, ocorrendo o pagamento aos Fl. 1143DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 4 3 acionistas somente após a autorização do Banco Central do Brasil (Bacen). Em outra AGE, de 16/10/2007, foi deliberado que a liquidação dos R$ 20.000.000,00 se daria pela entrega aos sócios da impugnante da seguinte forma: Registrese que a efetiva redução de capital da contribuinte, e a respectiva liquidação aos sócios, ocorreu somente após a homologação do Banco Central, ocorrida em 01/07/2008. Assim, até 01/07/2008, os ativos utilizados para redução de capital (ações da Bovespa Holding e da BM&F S/A) pertenciam ao ativo circulante da contribuinte. Em razão disso, a alienação das ações antes da aprovação do Bacen sujeita a empresa ao pagamento dos tributos devidos nessa operação. Na operação de incorporação das ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa, cada acionista da primeira recebeu 1,42485643 ações ordinárias da Nova Bolsa para cada ação da Bovespa Holding que detinha. Adicionalmente, cada acionista da Bovespa Holding recebeu uma ação preferencial da Nova Bolsa a cada dez ações da Bovespa Holding. Portanto, em 05/2008, com a incorporação de ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa, a contribuinte passou a deter 5.819.556 ações ordinárias da Nova Bolsa (4.084.311 x 1,42485643) e 408.431 ações preferenciais resgatáveis da Nova Bolsa. Na AGE da Nova Bolsa de 08/05/2008 foi estabelecido o valor de R$ 24,82/ação da Bovespa Holding, totalizando R$ 17.942.090.162,46, e também aprovado o resgate da totalidade das 72.288.840 ações preferenciais por R$ 17,15340847 por ação. Com isso, as 408.431 ações preferenciais recebidas pela contribuinte foram alienadas no ato da incorporação, e o ganho foi oferecido à tributação do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins, conforme documentos apresentados pela contribuinte às fls. 73 88. Em 05/05/2008 a contribuinte alienou 66.800 ações da Bovespa Holding, oferecendo o ganho obtido à tributação do IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Após essa alienação, restou um saldo de 4.084.311 Fl. 1144DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 5 4 ações da Bovespa Holding, no valor de R$ 9.075.286,98, conforme demonstrativo elaborado pela contribuinte às fls. 75. Na operação de incorporação de ações pela Nova Bolsa, a contribuinte, detentora de ações da Bovespa Holding, entregou as sob a forma de conferência de bens para subscrição de capital na Nova Bolsa S/A, recebendo em troca ações da Nova Bolsa, por um valor superior ao valor contábil das ações da Bovespa Holding que detinha em seu Ativo Circulante, conta 1.3.1.20.10.00041. Esse aumento foi de R$ 9.075.286,98 para R$ 101.372.599,02 (4.084.311 ações de custo unitário R$ 24,82), resultando em um ganho líquido de R$ 92.297.312,04, tributável pelo IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Falta de recolhimento de estimativa mensal – multa isolada Em 05/2008 a contribuinte apurou prejuízo de R$ 537.534,87, conforme as fichas 11 e 16 da Declaração de Informações Econômicofiscais da Pessoa Jurídica. – DIPJ, do ano calendário 2008 (fls.8488). Todavia, deixou de incluir o ganho de R$ 92.297.312,04, obtido na incorporação de ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa, no cálculo das estimativas de IRPJ e de CSLL, sujeitandose à multa isolada prevista na legislação sobre os valores não recolhidos, conforme tabela de fls. 100. Os autos de infração constam às fls. 101125, e foram fundamentados nos seguintes dispositivos legais: Fl. 1145DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 6 5 Da Impugnação Inconformada, a contribuinte apresentou a impugnação de fls. 157213, acompanhada dos documentos de fls. 214617, apresentando, em síntese, as seguintes alegações: 1. Da ilegitimidade passiva da impugnante. As ações da Bovespa Holding não eram de propriedade da impugnante quando da incorporação promovida pela Nova Bolsa. A manifestação do Bacen que homologa o ato societário gera efeitos retroativos ao 60º dia após a publicação da deliberação assemblear. Fl. 1146DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 7 6 O art. 142 do CTN e o art. 10 do Decreto nº 70.235/72 estabelecem a correta identificação do sujeito passivo como um dos pressupostos de validade do lançamento. No presente caso, a redução de capital da impugnante sujeitase à fiscalização do Bacen, e somente após isso o ato é passível de registro na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp). Todavia, a manifestação do Bacen não tem caráter constitutivo, mas declaratório, conforme a decisão do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN) proferida nos autos do Recurso Voluntário nº 2.947, processo BCB 9800849520. Além disso, o Plano Contábil das Instituições do Sistema Financeiro Nacional (Cosif) determina que, uma vez deliberada em AGE a redução de capital, os respectivos lançamentos devem constar na contabilidade da instituição, ocorrendo após a homologação do Bacen apenas a devolução do capital aos acionistas (Circulares Bacen 1.273/87 e 2.750/97, e Cosif Cap.1, seção 16). O próprio Fisco, na Solução de Consulta Interna (SCI) Cosit nº 01/12, entende que, quando o particular não deu causa à demora no registro das operações societárias, seus efeitos valem desde a data de sua assinatura. As atas das AGE de 02/07/2007 e 19/10/2007, relativas à redução de capital da impugnante, foram enviadas ao Bacen de imediato, porém, a homologação da autoridade monetária ocorreu apenas em 01/07/2008 (fls. 330332). Após isso, a ata da AGE de 02/07/2007 foi apresentada à Jucesp no prazo de 30 dias, fazendo com que seus efeitos fossem considerados desde as datas em que deliberados, ou 60 dias após a publicação, no caso de redução de capital (art. 36 da Lei nº 8.934/94). O art. 174 da Lei nº 6.404/76 estabelece que a deliberação de redução de capital produz efeitos 60 dias após sua publicação. No caso, a ata foi publicada em 12/07/2007, surtindo efeitos em 11/09/2007. Logo, à época da incorporação de ações (08/05/2008), a impugnante não era proprietária das ações da Bovespa Holding, devendo ser cancelados os autos de infração. 2. Da decadência das exigências. O art. 173, I, do CTN aplicase ao lançamento por declaração. Por sua vez, os tributos cobrados IRPJ, CSLL, PIS e Cofins submetemse à modalidade de lançamento por homologação, observandose a regra do art.150, §4º, do CTN. Sendo assim, decaiu em 06/13 o direito de a Administração Fiscal proceder ao lançamento do fato gerador da incorporação de ações de 05/2008, por transcurso do prazo de cinco anos previsto no referido dispositivo. No caso do PIS e da Cofins, a impugnante efetuou recolhimentos, ainda que parciais, para o período 05/2008, conforme DCTF às fls. 409 e 420. Fl. 1147DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 8 7 Em relação ao IRPJ e à CSLL, regime de apuração de estimativa mensal, a obrigação de recolher tais tributos surge com o acréscimo patrimonial relativo ao ganho de capital, pois a estimativa é um pagamento do imposto devido, apurado de forma simplificada. Assim, o fato gerador do IRPJ e da CSLL sobre o ganho de capital surge no momento em que se considera obtido o rendimento, e tais tributos, se devidos fossem, teriam que integrar a base apurada em 05/2008. Nesse passo, o IRPJ e a CSLL sobre o ganho de capital submetemse ao regime de lançamento por homologação, aplicandose a regra do art. 150, §4º, do CTN. Como a impugnante foi intimada em 19/06/13 da cobrança relativa a 05/2008, as exigências de IRPJ e de CSLL devem ser canceladas. Observese ainda que o prazo decadencial não pode ser contado pela regra do art. 173, I, do CTN, pois houve recolhimento de IRPJ e de CSLL em 05/2008, conforme DCTF e DIPJ às fls. 396 453. 3. Da inexistência de apuração de acréscimo tributável na incorporação de ações. Figura inconfundível com a alienação. Ato societário cuja natureza é de substituição de ativos com o efeito de subrogação legal. Características particulares da incorporação de ações da Bovespa Holding pela Nova Bolsa que afastam cogitarse de ganho tributável na situação concreta. A incorporação de ações não representa alienação, pois não há uma transmissão de propriedade em troca de dinheiro ou bens que revele a disponibilidade sobre o ativo. Não há livre destinação da propriedade pelo titular, nem vontade deste de se desfazer do investimento. Nesse sentido os Pareceres Normativos (PN) CST nº 39/81 e 06/85. Não se aplica à incorporação de ações o regime fiscal previsto para a subscrição e aumento de capital com bens consignado na autuação. Se houvesse norma aplicável à incorporação de ações, o dispositivo seria o art. 439 do RIR/99, que trata de reavaliação de ações entregues em integralização, sendo a maisvalia mantida em conta de reserva de reavaliação. No momento da alienação da participação adquirida, tributarseia a referida reserva. No caso, ocorreu uma substituição de ações da Bovespa Holding por participação na Nova Bolsa, promovida pelos administradores dessas empresas (não pelos acionistas), com efeito de uma subrogação real, conforme doutrina de Nelson Eizirik às fls.184. Não houve disponibilidade de acréscimo patrimonial, pois parte (60%) das ações não poderia ser vendida por um período após a transação (cláusula de lockup, constante dos documentos 22, 24 e 25, fls. 383390; e documentos 21 e 23, fls. 02 e 03 do processo Fl. 1148DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 9 8 em papel 16327.000210/201388). Sendo assim, em 08/05/2008, 60% das ações estavam indisponíveis para comercialização, não havendo ganho de capital tributável. Ademais, em 20/10/2008, após o período de lockup, o valor de mercado das ações (R$ 6,60) era inferior ao fixado na relação de troca realizada em 08/05/13 (R$ 24,82). Pelo exposto, concluise que, ausente a disponibilidade das ações, impõese a insubsistência da autuação, ou, alternativamente, que os lançamentos são parcialmente insubsistentes por erro na determinação da base tributável. Além disso, o Fisco considerou que o ágio registrado pela Nova Bolsa no investimento na Bovespa Holding não era passível de amortização (processo 16327.001536/201080). Nesse passo, não se pode tributar o ganho equivalente ao ágio cuja amortização foi negada à Nova Bolsa. Se o ágio por expectativa de rentabilidade futura não pode ser amortizado, tal ágio não decorre de negócio que gera ganho tributável ao alienante. Cabe dizer ainda que a incorporação de ações ocorreu independentemente da concordância da impugnante, confirmando a inexistência de disponibilidade característica em alienações sujeitas à tributação pelo IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Consignese ainda a inviabilidade econômica do exercício do direito de dissenso pela impugnante, ante o irrisório valor de reembolso (R$ 2,18893051/ação). 4. Do erro no procedimento de quantificação da base de cálculo e do crédito tributário. Iliquidez e incerteza dos lançamentos. Obrigatoriedade de consideração da importância tributada quando da alienação das ações pelos seus proprietários. Parte do alegado ganho já foi tributado pelo acionista Nelson B. Spinelli ao vender parte das ações a terceiros, conforme notas de corretagem, comprovantes de recolhimento e demonstrativos de fls. 455617. Em consequência, a fiscalização deveria ter considerado esse montante no valor a ser tributado, pois refletem o ganho de um mesmo fato gerador. Portanto, deve ser afastada a autuação, por iliquidez e incerteza dos lançamentos, ou então reduzida pelas diferenças apontadas. 5. Da inexistência da obtenção de receita operacional. Alienação de ativo permanente. Improcedência dos lançamentos de PIS e Cofins. As ações da Bovespa Holding não podem ser tratadas como os demais valores mobiliários negociados pela impugnante na exploração de seu objeto social, eis que a impugnante detinha as ações da Bovespa Holding há vários anos, primeiro como títulos patrimoniais e depois como ações. A impugnante não tinha por Fl. 1149DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 10 9 objetivo a propriedade provisória da participação em tela, mas sim detêla institucionalmente. A participação societária na Bovespa se deu por conta própria e com recursos exclusivos da impugnante, possuindo caráter institucional, não se confundindo com ações adquiridas de terceiros ou em nome próprio com objetivo financeiro. Assim, a incorporação de ações envolveu negócio dissociado daqueles explorados no objeto social da impugnante, constituindo uma receita não operacional. Por se tratar de participação institucional (e não temporária e especulativa), na qual a impugnante atua como acionista ativa e dirigente (e não como mera acionista de capital), justificase a avaliação desse investimento pelo método da equivalência patrimonial. A substituição das ações da Bovespa Holding deuse por ato fora do controle da impugnante, e foi uma consequência do negócio praticado que não modificou a continuidade na sua propriedade. Houve simples atualização da nomenclatura dos títulos detidos, formalizandose a transação societária. Para se avaliar a permanência do investimento deve ser considerada como data de aquisição do investimento o momento de obtenção dos títulos patrimoniais para operação na associação Bovespa. Registrese que a Bovespa Holding foi constituída por cisão, operação na qual o próprio Fisco considera inexistir alienação. Assim, não subsistem os autos de infração de PIS e de Cofins, pois o suposto ganho não resulta de atividade operacional da impugnante. 6. Da inexigibilidade do PIS e da Cofins. A base de cálculo de ambos no sistema cumulativo é o faturamento (venda de mercadorias e a prestação de serviços). O STF declarou inconstitucional o §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, o que motivou a revogação do dispositivo. Devem ser afastadas as autuações de PIS e de Cofins pois a base de cálculo dessas contribuições, conforme o art. 3º da Lei nº 9.718/98 é o produto da venda de mercadorias e da prestação de serviços, não compreendendo a alienação de valores mobiliários. Nesse sentido o PN Cosit nº 03/2012. A alienação referida pela fiscalização envolve valores mobiliários (art. 2º, I, da Lei nº 6.385/76), não configurando venda de mercadorias nem prestação de serviços. Do exposto, impõese o cancelamento dos autos de infração de PIS e de Cofins, ou ao menos, o sobrestamento do processo, no que se refere à incidência dessas contribuições, até que a questão seja decidida no STF (RE nº 609.096). Fl. 1150DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 11 10 7. Da improcedência das multas isoladas. Impossibilidade de cominação das multas isoladas com as multas de ofício lançadas pelas mesmas infrações. As penalidades isoladas devem ser afastadas, pois têm origem nos mesmos fatos e foram aplicadas simultaneamente com as multas de ofício lançadas (imputação de dupla pena para o mesmo ilícito). Afastadas as exigências de IRPJ e de CSLL, ficam prejudicadas as cobranças de multas isoladas. A multa isolada não foi aplicada “isoladamente”, conforme o art.44 da Lei nº 9.430/96, sendo imposta juntamente com a multa de ofício. Porém, a exigência de multa de ofício e respectivos tributos exclui a imposição da multa isolada, a teor do art.112 do CTN. As multas também são improcedentes por terem sido constituídas em 2013, após o encerramento do período de apuração apenado (2008). Nesse caso, não há razão para imposição da penalidade isolada, pois a análise da antecipação do tributo perde o sentido, e o fato passível de punição ficou superado. (...) Às fls.618 a DicatDeinf/SP informa que os documentos listados a seguir, anexados à impugnação, constam do processo em papel 16327.000210/201388: Anúncio do Início de Oferta Pública de Distribuição Secundária de Ações Ordinárias de Emissão da Bolsa de Mercadorias & Futuros BM&F S/A, publicado no jornal Gazeta Mercantil de 29/11/2007 (fls.02); Republicação do Aviso Ao Mercado, publicado em 05 de Outubro de 2007, para inclusão dos logotipos das corretoras consorciadas. Aviso ao Mercado Bovespa Holding S/A, publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 15/10/2007 (fls. 03). Em 01/11/13 a contribuinte junta aos autos cópia de decisão proferida no processo 16327.720143/201311 pela 8ª Turma desta DRJ que teria entendido pela ausência de alienação na incorporação de ações da Bovespa Holding (fls. 625665). Apenso aos autos constam o processo de representação penal 19515.722585/201292 e o processo contendo documentos em papel 16327.000210/201388. Em sessão de 27 de fevereiro de 2014, a 10a Turma da Delegacia de Julgamento de São Paulo, por unanimidade de votos, julgou parcialmente procedente a impugnação, para manter as autuações relativas ao IRPJ e à CSLL e afastar as autuações a título de PIS e COFINS. Da decisão houve Recurso de Ofício, por força do limite de alçada. Fl. 1151DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 12 11 Por seu turno, a interessada interpôs Recurso Voluntário, no qual repetiu, basicamente, os argumentos da impugnação (fls. 737 e seguintes) e juntou pareceres jurídicos. A ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário (fls. 1.066 e seguintes), pugnando pelo seu desprovimento. Os autos foram encaminhados a este Conselho para apreciação e julgamento. Posteriormente, o sujeito passivo apresentou Petição (fls. 1.105) informando ter optado pelo pagamento à vista, com redução, dos débitos relativos ao IRPJ e à CSLL mantidos pela DRJ, nos termos do artigo 42 da Lei n. 13.043/2014: Assim, requer que este processo tenha regular prosseguimento tão somente em relação à equivocada exigência da contribuição ao PIS e da COFINS e seus consectários, objeto do Recurso de Oficio, posto ser assegurado pelo programa a opção pelo pagamento parcial dos valores vinculados aos feitos administrativos em curso, conforme se verifica do artigo 10, §3°, da Portaria Conjunta PGFN/RFB n° 148/2015. A desistência do Recurso Voluntário foi reconhecida pelo Ilmo. Presidente desta Câmara, mediante despacho de fls. 1.117: Tratase de solicitação de desistência de recurso consoante petição constante dos autos, apresentada pela ora interessada, ao amparo do disposto no § 1º do art. 78 do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. Conforme o disposto no § 3º do art.78, Anexo II, do RICARF, no caso de desistência do recurso, fica configurada renúncia ao direito sobre o qual se funda o recurso interposto pelo sujeito passivo, inclusive na hipótese de já ter ocorrido decisão favorável ao recorrente. Dessa forma, à luz do disposto nos §§ 4º e 5º, art. 78, Anexo II do RICARF, o processo deve retornar à unidade da administração tributária da origem para prosseguir na exigência do crédito tributário objeto de desistência, tornandose insubsistentes todas as decisões que forem favoráveis ao sujeito passivo; e, se for o caso, apartar os autos com retorno do processo ao CARF, para apreciação da matéria não contemplada pela desistência. Os autos foram encaminhados à DEINF São Paulo, para providências. A autoridade de jurisdição do sujeito passivo manifestouse mediante despacho de fls. 1.136, nos seguintes termos: Diante das informações apresentadas pelo Contribuinte, copiadas ao presente processo às fls. 11191129, efetuamos as seguintes verificações: Fl. 1152DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 13 12 a) Com relação à regularidade da adesão à anistia, informamos que o Contribuinte protocolou o pedido de adesão dentro do prazo previsto pelo art. 11 da Portaria Conjunta PGFN/RFB n.148/2014, ie. até 04/02/2015, na forma prevista do Anexo I; (fls. 11191120) b) Os débitos, em tela, estão compreendidos na abrangência da anistia concedida, ou seja, débitos de IRPJ e CSLL, decorrentes de ganho de capital ocorrido até 31/12/2008 pela alienação de ações que tenham sido originadas da conversão de títulos patrimoniais de associações civis sem fins lucrativos "Nova Bolsa S/A"; (fls. 89100) c) O Contribuinte juntou dentro do prazo previsto pelo art 11, § 4o, da Portaria Conjunta PGFN/RFB n. 148/2014, ie. até 31/03/2015, Anexo II, com discriminação de débitos; (fls. 1121 1122) d) O Contribuinte desistiu expressa e irrevogavelmente de discussão administrativa que tinha por objeto os débitos indicados e renunciou a qualquer alegação de direito sobre as quais se funda, tempestivamente, ie. até 31/03/2015, nos termos do art. 10 da Portaria Conjunta PGFN/RFB n. 148/2014 e seus parágrafos; (fls.11051110, 1119) e) O Contribuinte efetuou pagamento no valor de R$ 6.514.338,94, sob código de receita 4983, em 04/02/2015, portanto, dentro do prazo disponível, ie. até 04/02/2015. Memória de cálculo foi apresentada às fls. 11231125. DARF apresentado à fl. 1127. Extrato de pagamento à fl. 1130; f) O Contribuinte apresentou Anexo IV em que indica o montante de créditos próprios de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL para quitação dos débitos. (fl. 1126). 5. Diante do exposto, finalizadas as verificações acima, conclui se que o Contribuinte cumpriu com os requisitos formais exigidos pela Lei 13.043/14, artigo 42, para aderir aos benefícios da anistia, no entanto, uma vez que os sistemas da RFB não estão preparados para tratamento da anistia nessas condições, propõese: a) Desmembramento dos débitos relativos à anistia do art. 42 da Lei 13.043/14 para o processo 16327.720424/201617 em situação de "suspenso por representação" pelo PAF 16327.72153/201519, com encaminhamento à DIFIS/DEINF/SPO para verificação dos valores calculados pelo Contribuinte. b) Após desmembramento, devolução do presente processo ao Conselho de Recursos Fiscais CARF, com os débitos remanescentes na discussão administrativa, quais sejam: PIS (2986) e COFINS (2960), período de apuração de 12/2008, para fins de prosseguimento das atividades de sua alçada. Os Fl. 1153DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 14 13 débitos permanecerão com exigibilidade suspensa, conforme art. 151, inciso III, CTN. Os autos retornaram ao CARF e foram sorteados a este Conselheiro. É o relatório. Voto Conselheiro Roberto Caparroz de Almeida, Relator O recurso de ofício é tempestivo, atende aos pressupostos legais e o montante cancelado é superior ao atual limite de alçada, razão pela qual dele conheço. Como se depreende do relatório, as únicas matérias que remanescem em discussão, após a desistência da interessada em razão de adesão à sistemática de parcelamento, são as autuações a título de PIS e COFINS, que foram canceladas pela decisão de piso e objeto do Recurso de Ofício. O fundamento para o cancelamento dos autos de infração foi a constatação de que já havia transcorrido o prazo decadencial. Pois bem. O fato jurídico do PIS e da COFINS, sujeito a lançamento por homologação, ocorre mensalmente, nos termos do artigo 150, § 4o, do Código Tributário Nacional: Art. 150 – O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. § 1º O pagamento antecipado pelo obrigado nos termos deste artigo extingue o crédito, sob condição resolutória da ulterior homologação do lançamento. (...) § 4º Se a lei não fixar o prazo à homologação, será ele de 5 (cinco) anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Sabese que a contagem de prazo nos moldes do dispositivo acima, em detrimento da regra geral prevista no artigo 173 do CTN, depende da existência de pagamento Fl. 1154DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 15 14 do tributo, circunstância que possibilita a atuação da administração tributária com vistas à homologação. Tratase de condição essencial, reconhecida pelos tribunais superiores. Com efeito, a partir da publicação do Recurso Especial n. 973.733/SC, julgado em 12 de agosto de 2009, a matéria encontrase definida no âmbito do Superior Tribunal de Justiça e deve, portanto, ser seguida neste Colegiado: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal Fl. 1155DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 16 15 (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). (...) 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (destaques do original) No caso sob análise, constatase, na esteira do que entendeu a decisão de piso, que a interessada efetuou pagamento parcial de PIS e de COFINS para o período de maio de 2008 (fls. 672 a 674) e que os valores foram declarados em DCTF (fls. 409 e ss.), conforme documentos a seguir reproduzidos. Fl. 1156DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 17 16 Dado que o fato jurídico para os dois tributos foi considerado pela autoridade fiscal como ocorrido em 31 de maio de 2008, o prazo para eventual lançamento do crédito tributário correspondente encerrouse em 31 de maio de 2013. Como a ciência dos lançamentos somente se deu em 19 de junho de 2013, conforme demonstrado a seguir, constatase que naquela data o direito potestativo do fisco já se encontrava fulminado pela decadência. Notase que a própria autoridade fiscal entendeu que o fato jurídico ocorreu em maio de 2008, embora nos autos de infração tenha consignado o período de dezembro de 2008. Vejamos, a título de comprovação, o que consta do Termo de Verificação Fiscal: Não merece reparos, portanto, a decisão recorrida, que reconheceu a decadência para o PIS e a COFINS, cancelando os respectivos lançamentos. Ante o exposto CONHEÇO do Recurso de Ofício e, no mérito, voto por NEGARLHE provimento. Fl. 1157DF CARF MF Processo nº 16327.720659/201366 Acórdão n.º 1201001.587 S1C2T1 Fl. 18 17 É como voto. (documento assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Relator Fl. 1158DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10768.022672/89-17
Turma: Sétima Câmara
Seção: Primeiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Mon Jul 12 00:00:00 UTC 1999
Ementa: IR FONTE — RESPONSABILIDADE PELO RECOLHIMENTO — A
fonte pagadora é obrigada a recolher o imposto, ainda que não o
tenha retido, quando obrigada legalmente a retê-lo. Entretanto,
não tendo sido caracterizado que a contribuinte tenha pago ou
creditado o rendimento, não há como imputar-lhe a obrigação
legal de retenção. O lançamento requer prova segura da
ocorrência do fato gerador do tributo. Tratando-se de atividade
plenamente vinculada (Código Tributário Nacional, arts. 3° e 142),
cumpre à fiscalização realizar as inspeções necessárias à
obtenção dos elementos de convicção e certeza indispensáveis à
constituição do crédito tributário. Havendo dúvida sobre a
exatidão dos elementos em que se baseou o lançamento, a
exigência não pode prosperar, por força do disposto no art. 112
do CTN. O imposto, por definição (CTN. art.3°), não pode ser
usado como sanção.
Numero da decisão: CSRF/01-02.730
Decisão: ACORDAM os Membros da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por
maioria de votos, NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado, vencidos os Conselheiros Cândido Rodrigues Neuber, Verinaldo Henrique da Silva e Dimas Rodrigues de Oliveira.
Nome do relator: Carlos Alberto Gonçalves Nunes
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ementa_s : IR FONTE — RESPONSABILIDADE PELO RECOLHIMENTO — A fonte pagadora é obrigada a recolher o imposto, ainda que não o tenha retido, quando obrigada legalmente a retê-lo. Entretanto, não tendo sido caracterizado que a contribuinte tenha pago ou creditado o rendimento, não há como imputar-lhe a obrigação legal de retenção. O lançamento requer prova segura da ocorrência do fato gerador do tributo. Tratando-se de atividade plenamente vinculada (Código Tributário Nacional, arts. 3° e 142), cumpre à fiscalização realizar as inspeções necessárias à obtenção dos elementos de convicção e certeza indispensáveis à constituição do crédito tributário. Havendo dúvida sobre a exatidão dos elementos em que se baseou o lançamento, a exigência não pode prosperar, por força do disposto no art. 112 do CTN. O imposto, por definição (CTN. art.3°), não pode ser usado como sanção.
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VAL E CÂMBIO Sessão de : 12 de julho de 1999 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 IR FONTE — RESPONSABILIDADE PELO RECOLHIMENTO — A fonte pagadora é obrigada a recolher o imposto, ainda que não o tenha retido, quando obrigada legalmente a retê-lo. Entretanto, não tendo sido caracterizado que a contribuinte tenha pago ou creditado o rendimento, não há como imputar-lhe a obrigação legal de retenção. O lançamento requer prova segura da ocorrência do fato gerador do tributo. Tratando-se de atividade plenamente vinculada (Código Tributário Nacional, arts. 3° e 142), cumpre à fiscalização realizar as inspeções necessárias à obtenção dos elementos de convicção e certeza indispensáveis à constituição do crédito tributário. Havendo dúvida sobre a exatidão dos elementos em que se baseou o lançamento, a exigência não pode prosperar, por força do disposto no art. 112 do CTN. O imposto, por definição (CTN. art.3°), não pode ser usado como sanção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto pela FAZENDA NACIONAL, ACORDAM os Membros da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por maioria de votos, NEGAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado, vencidos os Conselheiros Cândido Rodrigues Neuber, Verinaldo Henrique da Silva e Dimas Rodrigues de Oliveira. Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 PEgÉl r Á RODRIGUES PRESIDENTE CARLOS ALBERTO GONÇALVESIÇIUNES RELATOR FORMALIZADO EM: (,) Participaram, ainda, do presente julgamento, os seguintes Conselheiros: CELSO ALVES FEITOSA, ANTONIO DE FREITAS DUTRA, VICTOR LUIS DE SALLES FREIRE, LEILA MARIA SCHERRER LEITÃO, REMIS ALMEIDA ESTOL, AFONSO CELSO MATTOS LOURENÇO, WILFRIDO AUGUSTO MARQUES, FRANCISCO DE SALES R. DE QUEIROZ, MANOEL ANTONIO GADELHA DIAS e LUIZ ALBERTO CAVA MACEIRA. Ausente justificadamente o Conselheiro FRANCISCO DE PAULA C.C. GIF FON'. 2 Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 Recurso n° : RP/106-0.427 Recorrente : FAZENDA NACIONAL RELATÓRIO A Fazenda Nacional, por seu douto Procurador junto à Sexta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, com fundamento no artigo 5°, I, da Portaria MFn° 55/98, recorre a este Colegiado (fls. 134/136) contra o Acórdão n° 106-09.488, de 11/11/97 (fis. 129/132), não unânime, que deu provimento ao Recurso n°84.334. O acórdão recorrido tem a seguinte ementa: IR FONTE — RETENÇÃO — RENDIMENTOS DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS — OBRIGAÇÃO DA FONTE PAGADORA — O rendimento real produzido por quaisquer aplicações financeiras, auferido por qualquer beneficiário, inclusive pessoa jurídica isenta, fica sujeito à incidência do Imposto de Renda na Fonte. IR FONTE — RESPONSABILIDADE PELO RECOLHIMENTO — A fonte pagadora é obrigada a recolher o imposto, ainda que não o tenha retido, quando obrigada legalmente a retê-lo. Não tendo sido caracterizado que a contribuinte tenha pago ou creditado o rendimento, não há como imputar-lhe a obrigação legal de retenção. Recurso provido." A Douta Procuradoria sustenta que o acórdão objeto do recurso especial deve ser reformado, devendo prevalecer o voto vencido. A autoridade lançadora comprovou nos autos que a contribuinte fez operações financeiras. Todavia, quando da realização de diligência requerida pela Sexta Câmara, ficou evidenciado que os referidos documentos desapareceram. 7 3 Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 Como é obrigação legal da contribuinte guardar seus documentos fiscais, o extravio de qualquer documento, após iniciada a fiscalização, pode ser entendido como manobra para induzir em erro o órgão fiscal do Governo. No caso concreto, a falta de juntada dos documentos aos autos para melhor esclarecer a Câmara, deveu-se exclusivamente à atitude do recorrido. O recurso da Douta Procuradoria foi acolhido pelo ilustre Presidente da Egrégia Sexta Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes pelo despacho de fls.137/138. 1 Intimada por edital, fls. 150, em 23/07/98, da decisão recorrida e do recurso da Procuradoria da Fazenda Nacional, a empresa não apresentou contra-razões ao recurso especial (fls. 152). É o relatório. 4 Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02 .730 VOTO Conselheiro CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES, Relator: Recurso tempestivo ( fls. 134 a 135) e assente em lei. O contribuinte, desde a instauração do litígio, sustenta que apenas comprou e vendeu para seus clientes tftulos de emissão dos Bancos de Crédito Real de Minas Gerais e de Crédito Nacional, no sistema SELIC, como fazem as instituições não financeiras do mercado, mas que não pagou ou creditou rendimento algum, o que devia ser feito pelos bancos credenciados junto ao Banco Central. Por esse serviço de intermediação recebeu comissão dos clientes para os quais prestou os serviços. O Decreto-lei n 2.394/87 é claro ao estabelecer que a pessoa jurídica que creditar ou pagar os rendimentos é responsável pela retenção do imposto de renda na fonte (fls. 37/44). Como os bancos não fizeram a retenção, a fiscalização ao invés de cobrar-lhes o imposto de renda na fonte, lançou-o impropriamente contra a corretora. E requereu diligências junto ao Banco Central para esclarecimento do fato. Sua tese foi acolhida pela Sexta Câmara (fls. 117/122) que, através da Resolução106-0.788, de 24/04/95, converteu o julgamento em diligência para que a repartição fiscal: 1) diligenciasse para esclarecer se a recorrente pagou/creditou rendimentos de curto prazo ou somente praticou atos de intermediação de compra e venda de títulos; e 2) expedisse ofício ao Banco Central para verificar se a recorrente poderia efetuar o pagamento/crédito de rendimentos de títulos de curto prazo. II 5 Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 Deixou patente a Câmara que seria necessário verificar se a corretora pagou ou creditou rendimentos ao mandar verificar se o fato ocorrera e se ela estaria legitimada a tanto. A diligência frustrou pela inexistência de meios de se compulsar a documentação solicitada, segundo esclareceu o advogado da empresa (fls.124) e o encarregado da diligência, este bem mais minucioso (fls. 125). As razões ali apresentadas são lidas na íntegra para melhor conhecimento do Plenário. Ora, do exposto se infere que, no momento da diligência, já estava a Câmara sinalizando no sentido de que essa prova deveria ter sido produzida para validade do lançamento, isto é, como parte do lançamento, ou como diz o art. 142 do Código Tributário Nacional para " verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível." O lançamento requer prova segura da ocorrência do fato gerador do tributo. Tratando-se de atividade plenamente vinculada (Código Tributário Nacional, arts. 3° e 142), cumpre à fiscalização realizar as inspeções necessárias à obtenção dos elementos de convicção e certeza indispensáveis à constituição do crédito tributário. Havendo dúvida sobre a exatidão dos elementos em que se baseou o lançamento, a exigência não pode prosperar, por força do disposto no art. 112 do CTN. O imposto, por definição (CTN. art.3°), não pode ser usado como sanção. Portanto, não é válido lançar para depois provar; é imperativo provar a ocorrência do fato para depois lançar, já que a atividade administrativa do lançamento é plenamente vinculada e o ônus da prova era do fisco. Em princípio, o fisco, durante o período de fiscalização, deveria colher a prova de que a corretora pagara ou creditara rendimentos. Como não atentara para esse mister, deixou correr a oportunidade de fazê-lo e lançou mal. / 6 Processo n° : 10768.022672/89-17 Acórdão n° : CSRF/01-02.730 Não se discute que o contribuinte tem o dever legal de conservar em boa guarda e conservação seus livros fiscais e documentos em que se apoie a sua escrituração, enquanto não prescreverem as ações que lhe sejam pertinentes. Isto é, realmente, um imperativo do Código Tributário Nacional, art. 195, parágrafo único. O que está em jogo, é que na fase recursal não há lugar lugar para o fisco ressuscitar lançamento natimorto. Se o lançamento é feito sem prova da ocorrência da obrigação tributária, depois de impugnado não pode mais ser corrigido, e à autoridade julgadora cumpre compor o litígio. Daí, o acerto do voto condutor do acórdão recorrido, da lavra do ilustre Conselheiro Mário A lbertino Nunes, a^ dizer r'^rn muito docrnrfinn- "Inobstante o fato de não terem sido respondidas as questões colocadas na Resolução, por motivos de força maior, como foi lido, importa que o fato gerador só teria ocorrido se a contribuinte tivesse efetuado os pagamentos sobre os quais incidiria o IRF. Impunha-se, portanto, que tal fato tivesse ficado evidenciado. E a prova de que tal pagamento teria sido efetuado caberia, sem dúvida, a quem alega o fato, ou seja, ao Fisco. Não tendo sido a Autoridade Fiscal capaz de provar que a recorrente efetuou os pagamentos em questão, não há como manter a exigência, devendo ser cancelada, reformando-se, por isso, a r. decisão recorrida." Nesta ordem de juízos, nego provimento ao recurso. Brasília (DF), em 12 de julho de 1999 CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES 7 Page 1 _0000200.PDF Page 1 _0000300.PDF Page 1 _0000400.PDF Page 1 _0000500.PDF Page 1 _0000600.PDF Page 1 _0000700.PDF Page 1
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Numero do processo: 10805.721654/2012-19
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 24 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007
JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. FACULDADE SUJEITA AO REGIME DE COMPETÊNCIA E A CRITÉRIOS TEMPORAIS. DEDUÇÃO EM EXERCÍCIOS POSTERIORES. VEDAÇÃO.
1- O pagamento ou crédito de juros sobre capital próprio a acionista ou sócio representa faculdade concedida em lei, que deve ser exercida em razão do regime de competência. Incabível a deliberação de juros sobre capital próprio em relação a exercícios anteriores ao da deliberação, posto que os princípios contábeis, a legislação tributária e a societária rejeitam tal procedimento, seja pela ofensa ao regime de competência, seja pela apropriação de despesas em exercício distinto daquele que as ensejou.
2- As despesas de Juros com Capital Próprio devem ser confrontadas com as receitas que formam o lucro do período, ou seja, tem que estar correlacionadas com as receitas obtidas no período que se deu a utilização do capital dos sócios, no período em que esse capital permaneceu investido na sociedade.
3- A aplicação de uma taxa de juros que é definida para um determinado período de um determinado ano, e seu rateio proporcional ao número de dias que o capital dos sócios ficou em poder da empresa, configuram importante referencial para a identificação do período a que corresponde a despesa de juros, e, conseqüentemente, para o registro dessa despesa pelo regime de competência,
4- Não existe a possibilidade de uma conta de despesa ou de receita conservar seus saldos para exercícios futuros. Em outros termos, apurado o resultado, o que era receita deixa de sê-lo e também o que era despesa deixa de sê-lo. Apenas as contas patrimoniais mantém seus saldos de um ano para outro. os JCPs podem passar de um exercício para o outro, desde que devidamente incorrida e escriturada a despesa dos JCPs no exercício em que o capital dos sócios foi utilizado pela empresa, com a constituição do passivo correspondente.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO. INOCORRÊNCIA DE BIS IN IDEM.
1- A multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em concomitância (bis in idem) de multas. A multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente.
2- A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano-calendário correspondente. No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (precedente da CSRF, Acórdão nº 9101-002.438, de 20/09/2016).
TRIBUTAÇÃO REFLEXA - CSLL
Estende-se ao lançamento decorrente, no que couber, a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula.
Numero da decisão: 9101-002.699
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer de ambos os Recursos Especiais. No mérito, quanto ao Recurso Especial do Contribuinte, por voto de qualidade, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; quanto ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, acordam, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento.
(documento assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente.
(documento assinado digitalmente)
Rafael Vidal De Araujo - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ESTIMATIVAS MENSAIS MULTA ISOLADA. Recorrentes FAZENDA NACIONAL GENERAL MOTORS DO BRASIL LTDA. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. FACULDADE SUJEITA AO REGIME DE COMPETÊNCIA E A CRITÉRIOS TEMPORAIS. DEDUÇÃO EM EXERCÍCIOS POSTERIORES. VEDAÇÃO. 1 O pagamento ou crédito de juros sobre capital próprio a acionista ou sócio representa faculdade concedida em lei, que deve ser exercida em razão do regime de competência. Incabível a deliberação de juros sobre capital próprio em relação a exercícios anteriores ao da deliberação, posto que os princípios contábeis, a legislação tributária e a societária rejeitam tal procedimento, seja pela ofensa ao regime de competência, seja pela apropriação de despesas em exercício distinto daquele que as ensejou. 2 As despesas de Juros com Capital Próprio devem ser confrontadas com as receitas que formam o lucro do período, ou seja, tem que estar correlacionadas com as receitas obtidas no período que se deu a utilização do capital dos sócios, no período em que esse capital permaneceu investido na sociedade. 3 A aplicação de uma taxa de juros que é definida para um determinado período de um determinado ano, e seu rateio proporcional ao número de dias que o capital dos sócios ficou em poder da empresa, configuram importante referencial para a identificação do período a que corresponde a despesa de juros, e, conseqüentemente, para o registro dessa despesa pelo regime de competência, 4 Não existe a possibilidade de uma conta de despesa ou de receita conservar seus saldos para exercícios futuros. Em outros termos, apurado o resultado, o que era receita deixa de sêlo e também o que era despesa deixa de sêlo. Apenas as contas patrimoniais mantém seus saldos de um ano para outro. os JCPs podem passar de um exercício para o outro, desde que devidamente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 72 16 54 /2 01 2- 19 Fl. 1880DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 3 2 incorrida e escriturada a despesa dos JCPs no exercício em que o capital dos sócios foi utilizado pela empresa, com a constituição do passivo correspondente. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO. INOCORRÊNCIA DE BIS IN IDEM. 1 A multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em concomitância (bis in idem) de multas. A multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente. 2 A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no ano calendário correspondente. No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (precedente da CSRF, Acórdão nº 9101002.438, de 20/09/2016). TRIBUTAÇÃO REFLEXA CSLL Estendese ao lançamento decorrente, no que couber, a decisão prolatada no lançamento matriz, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer de ambos os Recursos Especiais. No mérito, quanto ao Recurso Especial do Contribuinte, por voto de qualidade, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento; quanto ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, acordam, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Fl. 1881DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 4 3 (documento assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal De Araujo Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rego, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luis Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Carlos Alberto Freitas Barreto (Presidente). Relatório Tratase de recursos especiais de divergência interpostos pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e pela contribuinte acima identificada, fundamentados atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Esses recursos buscam reverter o que foi decidido no Acórdão nº 1402 001.489, de 05/11/2013, por meio do qual a 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF deu provimento parcial a recurso voluntário anteriormente apresentado, para fins de, entre outras questões, cancelar a exigência da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL, e manter as exigências decorrentes da glosa de despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referentes a períodos anteriores. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva transcritas abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. Na determinação do lucro real serão adicionadas as despesas deduzidas na apuração do lucro líquido que, de acordo com a legislação tributária pertinente, não sejam dedutíveis. A dedutibilidade dos Juros sobre o Capital Próprio é condicionada ao pagamento ou creditamento em favor dos sócios, atendido o limite legal. Sob pena de infringir o regime de competência, é vedado imputar em determinado exercício o montante de Juros sobre o Capital Próprio de períodos anteriores. O dispêndio tem natureza de despesa financeira, para fins fiscais, inclusive quando for imputado aos dividendos. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007 CSLL. DECORRÊNCIA. Fl. 1882DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 5 4 Versando sobre as mesmas ocorrências fáticas, aplicase ao lançamento reflexo à CSLL o que restar decidido no lançamento do IRPJ. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007 MULTA ISOLADA POR FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO E MULTA DE OFÍCIO PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas quando há concomitância com a multa de oficio proporcional sobre o tributo devido no ajuste anual, mesmo após a vigência da nova redação do art. 44 da Lei 9.430/1996 dada pela Lei 11.488/2007. MULTA DE OFÍCIO. LANÇAMENTO. A multa de lançamento de ofício decorre de expressa determinação legal, e é devida nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata, não cumprindo à administração afastála. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista nos artigos 43 e 61, § 3º, da Lei nº 9.430/1996. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a exigência da multa isolada. Vencidos os Conselheiros Leonardo de Andrade Couto e Fernando Brasil de Oliveira Pinto, que negavam provimento integralmente ao recurso. Em primeira votação, por voto de qualidade, manter a exigência referente à glosa das despesas de pagamentos com juros sobre capital próprio e a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Vencidos os Conselheiros Carlos Pelá, Moisés Giacomelli Nunes da Silva e Paulo Roberto Cortez, que davam provimento ao recurso. Os Conselheiros Carlos Pelá e Moisés Giacomelli Nunes da Silva apresentarão declaração de voto. RECURSO ESPECIAL DA PGFN Fl. 1883DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 6 5 Em seu recurso especial, a PGFN afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, especificamente quanto à parte da decisão que cancelou a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL. Para o processamento de seu recurso, a PGFN desenvolve os seguintes argumentos: DA COMPROVAÇÃO DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL (COTEJO ANALÍTICO) a ementa do acórdão recorrido ficou assim redigida: [...] ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007 MULTA ISOLADA POR FALTA/INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO E MULTA DE OFÍCIO PROPORCIONAL. CONCOMITÂNCIA. INAPLICABILIDADE. É inaplicável a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas quando há concomitância com a multa de oficio proporcional sobre o tributo devido no ajuste anual, mesmo após a vigência da nova redação do art. 44 da Lei 9.430/1996 dada pela Lei 11.488/2007. [...] diversamente, decidiram os acórdãos paradigmas ora indicados: Acórdão nº 1401000.761 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário:2005, 2006, 2007 IRPJ. CSLL. ESTIMATIVA. FALTA DE RECOLHIMENTO. MULTA ISOLADA. A falta ou insuficiência de recolhimento das estimativas mensais, decorrente do cometimento de infração tributária, implica na multa de 50%, aplicada isoladamente, sobre o valor que deixou de ser recolhido a título de estimativa. MULTA ISOLADA. ENCERRAMENTO DO ANO CALENDÁRIO, CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO. Segundo o art. 115 do CTN, obrigação acessória “é qualquer situação que, na forma da legislação aplicável, impõe a prática ou a abstenção de ato que não configure obrigação principal”. No caso do recolhimento das estimativas do IRPJ, tratase de antecipação de imposto de renda, pelo que, ao final do ano calendário, com a ocorrência do fato gerador do imposto de renda, as estimativas passam a ser absorvidas pelo imposto de renda devido em razão do ajuste anual, desnaturando a sua natureza como obrigação instrumental. Não existe, assim, a possibilidade de se aplicar, cumulativamente, a multa de ofício pelo não recolhimento do imposto de renda apurado com o ajuste anual, e a multa isolada pelo descumprimento de obrigação acessória quando, em verdade, essa Fl. 1884DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 7 6 obrigação acessória converteuse em obrigação principal ao final do ano calendário, pela superveniência do fato gerador do imposto de renda. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO. INAPLICABILIDADE DAS NORMAS E PRINCÍPIOS DO DIREITO PENAL AO DIREITO TRIBUTÁRIO. DIVERSIDADE DE CONTEXTOS. DIVERSIDADE DA NATUREZA DAS SANÇÕES. As normas e princípios do direito penal, relativas a excludentes de ilicitude ou dirimentes, tendo em conta as sanções restritivas de liberdade ali cominadas, não são aplicáveis às sanções administrativas de caráter exclusivamente patrimonial, previstas no âmbito do direito tributário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado em DAR provimento PARCIAL ao recurso, nos seguintes termos: I) Por maioria de votos, DAR provimento em relação aos períodos anteriores 2007. Vencidos os Conselheiros Antonio Bezerra Neto (Relator) e Fernando Luiz Gomes de Mattos. Designado para redigir o voto vencedor nesta parte, o Conselheiro Alexandre Antônio Alkmim Teixeira; e II) Pelo voto de qualidade, NEGAR provimento em relação à multa isolada do anoscalendário de 2007. Vencidos os Conselheiros Alexandre Antônio Alkmim Teixeira, Maurício Pereira Faro e Karem Jureidini Dias. Acórdão nº 1802001.408 [...] MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO INOCORRÊNCIA Não há entre as estimativas e o tributo devido no final do ano uma relação de meio e fim, ou de parte e todo (porque a estimativa é devida mesmo que não haja tributo devido). A multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em concomitância de multas. A multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente. [...] as ementas transcritas, por si só, já demonstram a existência do dissídio jurisprudencial. Contudo, para evidenciar que, diante de contextos fáticos semelhantes, foram adotadas soluções jurídicas diversas, passase a transcrever os seguintes trechos dos votos condutores dos acórdãos paradigmas (transcrições contidas no recurso); é manifesta a identidade (ou similitude) fática entre as situações analisadas no acórdão recorrido e nos paradigmas; em todos os casos confrontados foi questionada a aplicação da multa isolada prevista no art. 44, inciso II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, conjuntamente com a multa de ofício no percentual de 75%, lançada com fundamento no art. 44, inciso I da Lei nº 9.430/96, em relação ao anocalendário de 2007; Fl. 1885DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 8 7 nada obstante a identidade fática dos casos confrontados, os Colegiados adotaram entendimento jurídico divergente; no acórdão n. 1401000.761, indicado como paradigma, discutiuse a possibilidade de cobrança concomitante da multa isolada com a multa de ofício em relação aos anoscalendário de 2005, 2006 e 2007. O Colegiado, por maioria de votos, resolveu cancelar a cobrança da multa isolada nos anos de 2005 e 2006. Manteve, entretanto, a exigência da multa isolada em relação ao anocalendário 2007, em face da mudança legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351/2007 (convertida na Lei nº 11.488/2007) na redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96; mesmo contexto fáticojurídico foi apresentado no outro paradigma, Acórdão nº 1802001.408, que discutiu a incidência cumulativa da multa de ofício com a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, em relação ao anocalendário de 2007; no presente caso, a autuação referese ao anocalendário de 2007; o acórdão ora recorrido, proferido pela e. Turma Ordinária a quo, afastou a aplicação da multa isolada prevista no art. 44, II, alínea “b”, da Lei nº 9.430/96, por considerar ilegítima a incidência da multa isolada por falta de recolhimento de estimativas concomitantemente com a multa de ofício; destacou a decisão combatida, que o advento da MP n. 351, convertida na Lei n. 11.488/2007 não alterou esse panorama. Segundo o aresto, o citado diploma legal “deixou de prever a possibilidade de haver cumulatividade dessas multas”; oor outro lado, os acórdãos paradigmas entenderam ser plenamente possível a cominação da penalidade, em razão do não recolhimento das estimativas, tendo como base de cálculo os resultados mensais apurados pelo contribuinte, mesmo após o encerramento do ano calendário; em relação à aplicação concomitante da multa isolada com a multa de ofício, foi rechaçada pelos arestos adotados como parâmetros de divergência qualquer alegação de bis in idem e qualquer possibilidade de aplicação do princípio da consunção, próprio do Direito Penal; conforme a tese esposada nos acórdãos indicados como parâmetros de divergência, a multa de ofício decorre da omissão de rendimentos tributáveis, enquanto a multa isolada decorre do não cumprimento, pelo contribuinte, do regime de antecipação mensal do pagamento do imposto; emportante ressaltar que os precedentes que renderam azo à aprovação do enunciado nº 15 da Súmula do CARF trataram de lançamentos relativos a fatos geradores ocorridos anteriormente à entrada em vigor da Medida Provisória n. 351 de 2007, convertida na Lei n. 11.488 de 2007; cesse quadro, inserese inclusive o acórdão n. 910100.450, cujos trechos foram indicados na fundamentação da decisão recorrida, pois trata dos anoscalendário de 1999 a 2001 (anos anteriores a 2007); Fl. 1886DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 9 8 logo, o verbete e o acórdão n. 910100.450 tratam de situação fáticojurídica diversa da que é objeto do presente recurso; cabe notar ainda que os paradigmas analisaram a questão à luz do disposto na Medida Provisória n. 351, convertida na Lei n. 11.488 de 2007; pelo exposto, afiguramse presentes os pressupostos de admissibilidade do recurso especial segundo as disposições do art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais; DOS FUNDAMENTOS PARA REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO conforme disposição do artigo 2º da Lei nº. 9.430, de 1996, as pessoas jurídicas que optam pelo lucro real com apuração anual de resultados ficam obrigadas ao pagamento do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, apurados mensalmente, com base na estimativa; em caso de inadimplemento dessa obrigação tributária, a mesma lei estipulou, no art. 44, II, b, da Lei n.º 9.430/96, na redação dada pela Lei n.º 11.488/07, a multa de ofício, exigida isoladamente, nos seguintes termos: [...]; a multa é exigida tanto na hipótese de apuração de lucro real e base de cálculo positiva da CSLL e/ou do IRPJ, como no caso da apuração de prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa da CSLL e/ou do IRPJ. Não fosse assim, o termo “ainda” seria desnecessário. E, como se sabe, a lei não contém palavras inúteis ou desnecessárias; observese, também, que a lei não restringiu a aplicação da multa ao lançamento efetuado antes do término do anocalendário. Pelo contrário, a expressão “ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário” leva à conclusão de que o lançamento pode ser efetuado após o seu encerramento, uma vez que antes não se sabe qual será o resultado do período anual e, portanto, se o lançamento apenas pudesse ser realizado durante o anocalendário, a expressão não teria razão de existir; portanto, a multa isolada prevista no artigo 44, par. 1º, inciso IV da Lei nº. 9.430, de 1996 (atual art. 44, II, b, da mesma lei, na redação dada pela Lei n.º 11.488/07), decorre do descumprimento da obrigação de recolher a estimativa apurada no mêscalendário, independentemente de se apurar ou não resultado anual tributável, sendo cabível mesmo após o encerramento do anocalendário e nada tendo a ver com a multa devida pela falta de recolhimento do tributo apurado com base no lucro real anual ou trimestral; exigese a multa isolada se o contribuinte, que optou pelo regime de estimativa, deixar de fazer o pagamento do imposto, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente; interpretandose a Lei nº 8.981/95, à qual a Lei nº 9.430/96 faz remissão, concluise que a única hipótese em que a penalidade imposta a quem não faz o pagamento do imposto por estimativa pode ser elidida, ocorre quando o contribuinte justifica o não pagamento com a transcrição dos balancetes no Livro Diário; Fl. 1887DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 10 9 e esse fato, que representa uma excludente de punibilidade, não aconteceu na espécie; uma vez constatada a falta de pagamento do imposto devido por estimativa, após o término do anocalendário, há que ser aplicada a mula isolada sobre os valores devidos e não recolhidos pela pessoa jurídica; estando a infração corretamente tipificada em lei, e havendo sido plenamente caracterizada no presente processo administrativo, a responsabilidade do contribuinte só pode ser afastada caso exista expresso permissivo legal, a teor não só do art. 136 do CTN, como do art. 97, VI, do Código; outrossim, a multa isolada por falta de recolhimento das estimativas e a multa de ofício aplicada pela falta ou insuficiência de recolhimento do tributo devido são penalidades distintas, com bases de cálculo distintas. Não há no caso identificação ou mesmo consunção. São sanções diversas e autônomas que não se confundem e não se interpenetram; no acórdão nº 910100.947, a Primeira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais sinalizou ser possível a cobrança concomitante da multa de ofício com a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas após a entrada em vigor da MP nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, tendo no caso então sob exame cancelado a exigência da multa isolada por se tratar de período anterior à alteração legislativa; constou do voto condutor do aresto: “É necessário destacar que a Medida Provisória nº 351, de 22 de janeiro de 2007, convertida na Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, veio a disciplinar posteriormente a aplicação de multas nos casos de lançamento de ofício pela Administração Pública Federal. A partir de janeiro de 2007, o mencionado art. 44 passou a apresentar a seguinte redação, verbis: [...] Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir “sobre a totalidade ou diferença de tributo”, mas apenas sobre “valor do pagamento mensal” a título de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. [grifos no original] Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de oficio em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tornar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de ofício passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. Fl. 1888DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 11 10 o entendimento de que é cabível a multa isolada não destoa do posicionamento agasalhado por outros órgãos julgadores deste Eg. Conselho (ementas e votos transcritos); por tais razões, sob qualquer ótica que se observe a questão, cabe concluir que a decisão recorrida merece reforma, devendo ser restabelecido o lançamento em sua integralidade. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da PGFN, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 29/05/2015, admitiu o recurso com base na seguinte análise sobre a divergência suscitada: [...] Na análise dos fatos verificase que o acórdão recorrido tratou da questão sob a ótica da impossibilidade de concomitância entre essa penalidade e a multa de ofício aplicada junto com o tributo, inclusive após a alteração legislativa trazida ao mundo jurídico pela Lei n° 11.488/2007. Pelo exame do Acórdão 1401000.761 constase que a decisão entendeu pela regularidade da concomitância entre as multas a partir do anocalendário de 2007, em sentido diverso ao entendimento da decisão recorrida. Assim a divergência restou demonstrada. O paradigma 1802001.4081 é ainda mais abrangente, pois decidiu pela procedência da cobrança das multas em concomitância independentemente do período de referência, o que só reforça a caracterização do dissenso. Salientando que a Súmula CARF nº 105 só tem aplicabilidade reconhecida para os fatos geradores até 2006, entendo que a divergência jurisprudencial foi comprovada, motivo pelo qual proponho que seja dado seguimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional. CONTRARRAZÕES DA CONTRIBUINTE Em 08/06/2015, a contribuinte foi intimada do despacho que admitiu o recurso especial da PGFN, e em 22/06/2015 ela apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os argumentos descritos a seguir: PRELIMINAR IMPOSSIBILIDADE DE CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL EM RAZÃO DA EXISTÊNCIA DE SÚMULA DE JURISPRUDÊNCIA DA C. CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS o artigo 67, § 3º do RICARF, estabelece que "não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a Súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso"; ora, a regra contida no artigo é clara quanto ao não cabimento do recurso especial. No entanto, a Fazenda Nacional apesar de ter conhecimento da Súmula n° 105 da C. CSRF, interpôs o recurso especial, argumentando que a conjuntura fática verificada no caso concreto é distinta da abordada pela referida Súmula; Fl. 1889DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 12 11 com efeito, na redação da Súmula n° 105 não há qualquer distinção entre os fatos geradores ocorridos após as alterações trazidas pela Lei n°11.488/2007. Confirase: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 §1º, inciso IV da Lei n° 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. evidenciase, portanto, que os argumentos suscitados pela Fazenda Nacional a fim de que seja dado seguimento ao seu Recurso Especial não merecem prosperar, uma vez que não foram atendidos os requisitos mínimos de cabimento; OS MOTIVOS DETERMINANTES DA MANUTENÇÃO PARCIAL DO V. ACÓRDÃO N° 1402001.489 A ABUSIVIDADE DA EXIGÊNCIA CONCOMITANTE DE MULTA ISOLADA E DE OFÍCIO: ESTIMATIVAS MENSAIS DO ANO CALENDÁRIO DE 2007 a tese levantada pela Fazenda Nacional não encontra fundamento no entendimento majoritário desse E. CARF. Isso porque é totalmente improcedente a exigência de multa, seja ela punitiva ou isolada, pois os tributos ora questionados são indevidos. Não obstante, se fosse admitida a possibilidade de cobrança da multa no caso em tela, o que se admite apenas para argumentar, temse que a mesma somente poderia ser exigida uma única vez e não duas, como afirma a Fazenda Nacional; é necessário que se reconheça que, se uma empresa é optante do regime de estimativa mensal na tributação pelo IRPJ e CSL, e essa empresa acredita que a legislação aplicável lhe autoriza a excluir montantes mensais do seu lucro tributável, é claro que essa exclusão terá efeito tanto nos montantes mensais como no montante anual. Ao se admitir a imposição de multa nesses casos, seria como admitir que a multa de ofício seria de 125%, o que seria um absurdo; pretender dizer que a multa isolada é aplicada em Infração distinta daquela da multa de ofício revela um formalismo descabido e totalmente desconectado de qualquer razoabilidade jurídica e interpretativa. É sabido que uma única conduta a de reconhecer menos receita ao longo do ano necessariamente leva ao resultado de a receita total anual ser também inferior (aos olhos da D. Fiscalização), então é evidente que não se pode aplicar duas penalidades nesse caso, pois se trata de uma única conduta. Constitui claro excesso a cobrança de dupla penalidade nessa situação; do ponto de vista técnicojurídico, o artigo 44 da Lei 9.430/96 é claro ao estabelecer que a multa isolada somente pode ser exigida quando a pessoa jurídica, sujeita ao pagamento do imposto por estimativa, deixar de fazêlo, mesmo que essa pessoa jurídica tenha prejuízo fiscal/base negativa de CSL no período ou que já tenha recolhido o tributo. Nessa hipótese, por não existir valor de principal exigível, em princípio, poderia ser exigida a multa isolada; entretanto, quando houver tributo a ser pago, o referido artigo é claro ao estabelecer que a multa punitiva deverá ser cobrada juntamente com o valor do principal. É importante notar que, nesse caso, não teria cabimento a exigência da multa isolada, pois esta somente pode ser exigida quando não existe valor de principal a ser exigido; Fl. 1890DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 13 12 aliás, esse é o entendimento que se extrai da Lei n° 9.430/96 e que foi expressado na Instrução Normativa SRF n° 93, de 1997. Confirase: Instrução Normativa SRF n° 93/1997 Art. 15. O lançamento de ofício, caso a pessoa jurídica tenha optado pelo pagamento do imposto por estimativa, restringirseá à multa de ofício sobre os valores não recolhidos. ora, não há dúvidas de que a Fazenda Nacional extrapolou os limites previstos na Lei 9.430/96 ao exigir a dupla cobrança de multa, devendo ser imediatamente cancelada a exigência da multa isolada, tendo em vista que a mesma seria totalmente improcedente no caso em análise. Ou seja, não pode haver sobre a mesma base de cálculo, a cumulação da multa isolada com qualquer outra penalidade; além disso, é entendimento reiterado na jurisprudência desse E. CARF que a multa isolada não pode ser exigida em concomitância com a multa de ofício (ementas transcritas); cabe destacar que esse é exatamente o entendimento manifestado pelo ilustre Prof. Marco Aurélio Greco, de que o artigo 44 da Lei 9.430/96 prevê apenas uma única hipótese passível de penalização, qual seja, aquela descrita em seu caput: a falta de pagamento do tributo devido (transcrição contida nas contrarrazões); além disso, ao contrário do sustentado pela Fazenda Nacional, a alteração dada pela Lei n° 11.488/2007, que implicou diferenciação da base de cálculo da multa isolada prevista no inciso II do artigo 44 da Lei n° 9.430/96, não autorizou a incidência concomitante da multa de ofício. Nesse sentido, caso fosse permitida a cumulação das multas, ainda que incidentes em bases de cálculos distintas, estaríamos diante de claro bis in idem, vedado no sistema brasileiro, ainda que o fato se afigure enquadrável pelas normas prescritivas das duas punições; destaquese ainda que a impossibilidade de aplicação simultânea da multa de ofício e multa isolada decorre do chamado princípio da consunção. Como já confirmado por essa C. CSRF, quando a primeira conduta se afigura como mero meio para a obtenção do resultado previsto na segunda, a penalidade aplicável à segunda conduta necessariamente prevalece sobre a da primeira. Por essa razão, somente a multa de ofício pode ser aplicada ao final do anocalendário, que é a segunda e principal conduta, não havendo que se falar na punição pela multa isolada da mera condutameio nesse caso, que é a falta de antecipações no regime de estimativa mensal, em função dos mesmos fatos geradores (Acórdão CSRF n° 9101 001.574 ementa e voto transcritos); ademais, sem qualquer prejuízo aos argumentos acima, é ainda importante mencionar que, mesmo que as multas aplicadas a título de falta de pagamento mensais de IRPJ e de CSL por estimativa fossem de fato exigíveis, o que se admite apenas para argumentar, elas sequer poderiam ser cobradas da Recorrida; isso porque os pagamentos mensais antecipados pelo contribuinte a título de IRPJ (estimativas) não têm o condão de extinguir de imediato o crédito tributário em questão, o que só ocorrerá quando encerrado o exercício fiscal, ou seja, no último dia de cada ano. É nessa data que ocorre o fato gerador do tributo, sendo possível apurar, somente então, qual o Fl. 1891DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 14 13 montante efetivamente devido, bem como se houve ou não pagamento a maior por meio das estimativas mensais antecipadas; assim é que, uma vez encerrado o período de apuração anual do tributo e tendo a Recorrida entregue a DIPJ, não pode mais ser exigido, como ocorre no presente caso, o pagamento mensal por estimativa, devendo prevalecer o valor do tributo efetivamente devido no final do anocalendário e regularmente recolhido pela Recorrida (Acórdão CSRF/0105.327 ementa transcrita); tendo em vista o entendimento já consolidado da jurisprudência administrativa quanto à impossibilidade de aplicação da multa isolada de 50% juntamente com a multa de ofício, esse Tribunal Administrativo aprovou na sessão de 8.12.2014 a Súmula 105; frisese que, ao contrário do alegado pela Fazenda Nacional, a Súmula editada por essa C. CSRF não distingue entre os fatos geradores anteriores e posteriores a 2007. O texto é claro e expresso acerca da impossibilidade de cobrança simultânea da multa isolada e de ofício; diante disso, resta demonstrada a improcedência dos argumentos da Fazenda Nacional, devendo ser mantido o V. Acórdão na parte que cancelou a multa isolada, tendo em vista a impossibilidade de concomitância com a multa de ofício e de exigência após o encerramento do período. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE Em seu recurso especial, a contribuinte também afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, mas nesse caso a divergência diz respeito à manutenção das exigências decorrentes da glosa de despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referentes a períodos anteriores. A contribuinte apresenta os seguintes argumentos: A DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL o acórdão recorrido posicionase no sentido de que é vedado deduzir em determinado exercício (no caso, no anocalendário de 2007) o montante de JCP de períodos anteriores (no caso, dos anoscalendário de 2002 e 2003), sob pena de violação ao regime de competência, em que pese o fato de a Recorrente ter comprovado que observou os limites previstos na legislação. Além disso, afirma que os JCP têm natureza de despesa financeira para fins fiscais; contudo, esse entendimento diverge da interpretação dada para a questão pela C. 1ª Turma da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento desse E. CARF, no Acórdão n° 1401000.902 (doc. n° 6), bem como pela C. 1ª turma Especial da Primeira Seção de Julgamento desse E. CARF, no Acórdão 1801001.128 (doc. n° 7), em que foi reconhecido o direito do contribuinte de deduzir da apuração o lucro real os juros sobre capital próprio de anos anteriores (pagos ou creditados posteriormente); Fl. 1892DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 15 14 os acórdãos paradigmas deram interpretação diversa acerca do direito do contribuinte de deliberar sobre o pagamento de JCP gerados em períodos passados e, especialmente, sobre o direito à dedução dos valores pagos, desde que respeitem os limites estabelecidos em lei no ano em que estão sendo pagos; nos Acórdãos paradigmas, ao contrário do voto vencedor do V. Acórdão recorrido, esse E. CARF afirma que não há qualquer vedação legal ao pagamento e creditamento de JCP de anos anteriores, sendo que, somente com tal deliberação, tais valores tornamse despesa efetiva e, portanto, dedutíveis para fins de IRPJ/CSL. Em verdade, consignam que a decisão sobre o momento da deliberação e do pagamento dos JCP é faculdade da empresa, a depender de suas condições financeiras; demonstrada, assim, a divergência jurisprudencial, confiramse as razões que ensejam a reforma parcial do V. Acórdão recorrido; OS MOTIVOS DETERMINANTES DA REFORMA PARCIAL DO V. ACÓRDÃO RECORRIDO IV.1. DIREITO À DEDUTIBILIDADE DOS JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO DE EXERCÍCIOS ANTERIORES (A) NATUREZA JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO como disposto no caput do artigo 9º da Lei n° 9.249/95, o cálculo dos JCP a serem pagos ou creditados deve ser feito mediante a aplicação da TJLP sobre as contas de patrimônio líquido da sociedade, com os ajustes devidos. Tais ajustes, nos termos da Instrução Normativa n° 11/96, referemse aos valores que devem ser excluídos das contas de patrimônio líquido para fins do cálculo do JCP; segundo o §1° do artigo 9º da Lei n° 9.249/95, o efetivo pagamento ou crédito dos JCP está condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos JCP, ou de lucros acumulados e reserva de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os JCP a serem pagos ou creditados; adicionalmente, nos termos do parágrafo 7º do mesmo dispositivo, o valor do JCP pago ou creditado pela pessoa jurídica poderá ser imputado ao valor do dividendo obrigatório; esses contornos societários do pagamento de JCP permitem considerar que a natureza jurídica dos JCP é equiparável à dos dividendos, hipótese em que o artigo 9º da Lei n° 9.249/95 teria meramente instituído tratamento fiscal específico para o pagamento de tais valores; essa também é a posição oficialmente manifestada pela Comissão de Valores Mobiliários ("CVM"), contida na Deliberação n° 207, de 13.12.1996 ("Deliberação n° 207/96'"), segundo a qual, para fins societários e contábeis, os JCP têm natureza de dividendos, o que foi desconsiderado pelo voto vencedor do V. Acórdão recorrido; nos termos da Deliberação n° 207/96, a remuneração do capital próprio, paga/creditada aos acionistas (i) configura distribuição de resultado e não despesa; (ii) deve ser contabilizada diretamente à conta de lucros acumulados (sem afetar o resultado do exercício); e Fl. 1893DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 16 15 (iii) deve ser detalhadamente descrita em notas explicativas às demonstrações financeiras e às informações trimestrais; para fins fiscais, os valores pagos a título de JCP devem ser registrados em contrapartida a despesas financeiras da sociedade, mesmo quando sejam imputados aos dividendos (artigo 30 da IN n° 11/96); em que pese a determinação do artigo 30 da IN n° 11/96, que impõe que o pagamento de JCP seja registrado como despesa financeira, o fato de que, para fins societários, o pagamento de JCP se equipara ao pagamento de dividendos já demonstra que o pagamento de JCP pode ser feito em relação a exercícios anteriores. Confirase o teor do artigo 202 da Lei n° 6.404, de 15.12.1976 ("Lei das S.A."); do dispositivo acima, percebese que uma sociedade poderia deixar de distribuir dividendos obrigatórios se sua situação financeira assim o justificasse, sendo que os lucros não distribuídos em um determinado exercício poderiam sêlos nos exercícios subseqüentes; aplicandose o mesmo raciocínio para o pagamento de JCP, resulta que, para fins societários, não há dúvidas de que os JCP, tal como os dividendos, podem efetivamente ser pagos em relação aos exercícios anteriores; o voto vencedor sustenta a existência de um suposto regime especial e opcional sem justificar os motivos pelos quais a natureza jurídica dos JCP diferem da natureza dos dividendos. De fato, não cabe ao interprete da legislação tributária o papel de definir a natureza jurídica dos institutos de direito privado, sob pena de ofensa ao disposto no artigo 110 do CTN; no caso em questão, da análise das normas que disciplinam o pagamento de JCP, não há nenhuma diferença substancial desse instituto em comparação com a distribuição de dividendos que justifique a existência de um alegado regime especial de tributação. Em síntese, como muito bem consignado pela CVM na Deliberação 207/96, tais institutos possuem a mesma natureza jurídica; (B) TRATAMENTO TRIBUTÁRIOS DOS JCP: REGIME DE COMPETÊNCIA o artigo 29 da IN n° 11/96, ao regulamentar o artigo 9º da Lei n° 9.249/95 e o tratamento fiscal aplicável ao pagamento de JCP, determinou a observância do regime de competência; a interpretação dada pelo voto vencedor do V. Acórdão recorrido é de que somente podem ser dedutíveis valores decorrentes de despesa paga ou incorrida no próprio anocalendário de 2007 e nos limites legalmente estabelecidos naquele período. Ou seja, como os JCP foram gerados em 2002 e 2003, tais valores deveriam ter sido pagos e deduzidos como despesas naquele ano. Ora, tal entendimento não merece prosperar pois a despesa apenas se materializa com o seu pagamento ou creditamento; com efeito, a observância do regime de competência para fins de dedutibilidade dos JCP da base de cálculo do IRPJ e da CSLL referese ao momento do efetivo nascimento da obrigação legal de pagar ou creditar valores de JCP em favor dos acionistas, Fl. 1894DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 17 16 sendo que a legislação tributária não obriga que tais valores sejam pagos ou creditados no ano em que foram gerados; portanto, no momento em que ocorrer a deliberação societária de pagamento de JCP e seu efetivo pagamento, nasce o direito à dedutibilidade dos valores pagos. No caso dos autos, restou comprovado que em 2007 ocorreu deliberação e efetivo pagamento de JCP, razão pela qual, em observância ao regime de competência, neste ato surgiu o direito da Recorrente à sua dedução. É a aplicação pura da regra de competência; isso porque, em linhas gerais, a aplicação do regime de competência no reconhecimento das receitas se dá a partir do momento em que nasce o direito de recebêlas, enquanto que as despesas são computadas para efeito de sua dedutibilidade a partir do momento em que nasce a sua obrigação legal de pagálas; dessa forma, não há que se falar em aplicação do regime de competência ao pagamento de JCP enquanto efetivamente não tenha ocorrido deliberação/pagamento; equivocase o voto vencedor do V. Acórdão recorrido quando ressalta que a indedutibilidade do pagamento dos JCP relativos a períodos pretéritos decorre das próprias disposições do artigo 9º, §1°, da Lei n°. 9.249/95 (fl. 1.206). Ora, o artigo 9º, §1°, da Lei n°. 9.249/95 permite a dedução fiscal a partir do momento em que a obrigação for cumprida no âmbito do direito privado (momento da efetivação do pagamento ou crédito dos JCP em conta individualizada do sócio ou acionista), não vedando, sob hipótese alguma, a dedução de valores que não foram pagos ou creditados em períodos anteriores; na ausência de norma impeditiva (limite temporal para pagamento de JCP a sócios ou acionistas) é legal o pagamento de JCP gerados em anos anteriores somente a partir da deliberação de seu pagamento, sendo possível considerar os pagamentos realizados nessa situação como despesas financeiras incorridas (in casu, no ano de 2007) e, portanto, dedutíveis para fins de tributação do IRPJ e da CSL; amparada pelos princípios da livre iniciativa e da autonomia da vontade, os JCP de anos anteriores podem ser pagos/creditados em qualquer momento, independente do encerramento do exercício em que foram gerados; de fato, o limite legal considerado pela Recorrente referese ao somatório dos limites de JCP que poderiam ser deduzidos como despesas nos anos de 2002, 2003 e 2007, uma vez que a deliberação societária ocorrida em 2007 levou em consideração também os valores relativos aos anos anteriores (2002 e 2003), passando somente neste momento (2007) a constituir uma despesa dedutível para todos os fins tributários. Ainda que a Recorrente considerasse somente o lucro líquido de 2007 (superior a R$ 1 bilhão) para fins de cálculo do limite, seria suficiente para a dedução realizada considerando os valores de JCP; ou seja, em se tratando de JCP, a Lei n° 9.249/95 apenas condicionou a dedutibilidade como despesa ao momento da deliberação/pagamento do valor correspondente (que ocorreu no ano de 2007, in casu), não havendo qualquer vedação legal para utilização dos JCP gerados em períodos pretéritos. E, da análise do disposto no artigo 9º, §1°, da Lei n°. 9.249/95, não há também qualquer possibilidade de se estabelecer como limite de dedutibilidade somente os JCP gerados no ano de 2007, como pretende o voto vencedor; Fl. 1895DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 18 17 esse raciocínio ignora o fato de que é primordial no cálculo do limite de dedutilibilidade também a TJLP e PL dos anos de 2002 e 2003, uma vez que, embora os JCP tenham sido gerados nesses anos, somente com as deliberações societárias ocorridas em 2007 tais valores tornaramse obrigação da empresa e direito dos acionistas, afetando o resultado; por fim, justamente em face dos princípios da livre iniciativa e autonomia da vontade, tornase absolutamente sem valor o argumento do V. Acórdão no sentido de que a Recorrente teria deixado de contabilizar os JCP dos anos de 2002 e 2003 nestes respectivos anos, porque contribuiria para o aumento do saldo de prejuízo fiscal, cujo aproveitamento é limitado a 30%. Ou seja, o V. Acórdão ora recorrido assevera expressamente que tal decisão empresarial da Recorrente teria como único objetivo burlar a trava de 30%; a política de pagamento de JCP adotada é decisão que cabe unicamente à empresa detentora de tais juros, no caso a Recorrente, que tem a faculdade de pagar tais juros no momento em que entender oportuno. As DD. Autoridades Fiscais não têm a prerrogativa de definir o momento em que tais juros deveriam ser pagos, sob pena de interferir nos negócios dos seus contribuintes, em situações não vedadas pela legislação; o entendimento preconizado pelo V. Acórdão recorrido obrigaria as empresas a promoverem o creditamento dos juros a seus acionistas no mesmo exercício em que apurado o lucro, impondo ao contribuinte, de forma oblíqua, a época em que se deveria dar o exercício da prerrogativa concedida pela Lei n° 6.404/1976 e, por conseqüência, impedindo o pleno exercício do princípio da livre iniciativa e da autonomia da vontade. Tal imposição obviamente não encontra respaldo na legislação atualmente vigente, conforme reconhecido pela jurisprudência judicial e administrativa, conforme será demonstrado a seguir; de acordo com o Superior Tribunal de Justiça ("STJ"), o artigo 9º da Lei n° 9.249/95 prevê o pagamento de juros sobre capital próprio como uma faculdade do contribuinte, jamais determinando o seu pagamento ou o momento no qual esse deve se dar (Recurso Especial n° 2008/02353467); esse entendimento também é reiteradamente reproduzido por esse E. CARF, que também se posiciona no sentido de que o pagamento de JCP próprio é faculdade da pessoa jurídica (Acórdãos n°130200.465 e nº 130200.044); resta claro que a dedutibilidade de valores de JCP somente se materializa no momento em que tais valores se tornam efetivamente deliberados pela pessoa jurídica, o que só ocorreu no ano de 2007, quando a Recorrente aprovou o pagamento de JCP nas Reuniões do Conselho de Administração realizadas naquele ano (deliberações societárias datadas de 31/05/2007, 29/06/2007, 31/07/2007, 31/08/2007 e 31/10/2007); apenas para fins de argumentação, em não sendo reconhecido o direito à dedução no momento do pagamento, deve ao menos ser reconhecido o direito da Recorrente à dedução destes valores de JCP, pagos em 2007, no exercíciofinanceiro em que foram gerados, recompondose os efeitos nos exercícios seguintes, o que trará resultado semelhante; ou recalculado o valor de IRPJ e CSL ora exigido em razão do aumento do imposto e, conseqüentemente, do aumento dos prejuízos fiscais e bases negativas que a Recorrente teria direito à utilização (30% do lucro real); (C) A INTERPRETAÇÃO DADA AO ARTIGO 29 DA IN 11/96: OFENSA AO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE Fl. 1896DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 19 18 como se isso não bastasse, a interpretação adotada pelo voto vencedor do V. Acórdão recorrido não se sustenta na medida em que esbarra no princípio da legalidade, ou seja, se a IN 11/96 estiver inovando a ponto de não permitir a dedução na base de cálculo do IRPJ e da CSL referente aos JCP pagos de anos anteriores então o artigo 29 da referida Instrução Normativa é ilegal, pois não encontra respaldo em nenhum normativo com força de lei e, portanto, deve ser afastado; de fato, as Instruções Normativas, como normas complementares e de caráter secundário, não podem inovar na ordem jurídica. Essa característica é inerente às normas de caráter primário, como, por exemplo, as leis. Como ato normativo secundário, as Instruções Normativas somente podem regular o que já foi disciplinado pela lei; conforme já mencionado, a redação do artigo 9º da Lei n° 9.249/95 é clara ao estabelecer que o contribuinte poderá deduzir os valores pagos ou creditados de JCP nas condições ali detalhadas. Ressaltase que, ao estabelecer essa faculdade, a Lei n°. 9.249/95 não condicionou essa dedutibilidade a que os JCP pagos se referissem ao próprio período em relação ao qual foram calculados; nada obstava, portanto, que o pagamento de JCP pela Recorrente fosse feito em relação a exercícios anteriores, desde que o cálculo de JCP em relação a esses períodos pretéritos fosse realizado de modo a respeitar os limites de dedutibilidade vigentes em cada um desses exercícios, as respectivas contas de patrimônio líquido e a variação pro rata dia da TJLP em cada um dos respectivos períodos, o que efetivamente foi cumprido pela Recorrente; ademais, ao contrário do que afirmado pelo voto vencedor do V. acórdão recorrido, a interpretação dada ao artigo 29 da IN n° 11/96 afronta o princípio da legalidade. Ora, não se pode permitir que o Fisco Federal interprete a legislação como melhor entender, em completo desrespeito ao disposto no artigo 9º da Lei n° 9.249/95. Houve clara distorção ao conteúdo do princípio de competência; o artigo 29 da IN n° 11/96 ao dispor que os JCP são dedutíveis de acordo com o regime de competência, corrobora o entendimento da Recorrente, uma vez que consigna que a despesa deve ser reconhecida no período do pagamento ou crédito, pois somente nesse momento nasce a obrigação a ele relativa. Em outras palavras, os JCP serão dedutíveis no período em que este for deliberado e pago aos acionistas, em respeito ao princípio da competência; o Acórdão n° 10196.751 (doc. n° 10), da Primeira Câmara do então Primeiro Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF"), de 29.5.2008, reconheceu expressamente: (i) a possibilidade de pagamento de JCP relativo a períodos anteriores, para fins societários e fiscais; e (ii) consagrou o entendimento de que o regime de competência de que trata o artigo 29 da IN n° 11/96 somente se aplica ao pagamento ou crédito de JCP que já tenha sido objeto de deliberação societária, não se prestando a restringir o pagamento e a dedutibilidade de JCP em relação a períodos anteriores; a exigência do artigo 29 da IN n°. 11/96 quanto ao regime de competência deve ser entendida como necessária somente no momento do efetivo nascimento da obrigação legal de a pessoa jurídica pagar ou creditar valores de JCP em favor do titular, sócio ou acionista, ou seja, quando ocorrer a deliberação societária nesse sentido. Essa é a interpretação Fl. 1897DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 20 19 correta da norma em questão, no entender da Recorrente. Este entendimento tem sido reiteradamente (docs. 11 a 12) adotado por esse E. CARF; IV.2. A ABUSIVIDADE DA MULTA DE OFÍCIO E OS JUROS APLICADOS muito embora a Recorrente já tenha demonstrado de forma incontestável a inconsistência do crédito tributário exigido nestes autos, caso esse E.CARF entenda por bem mantêlo, o que se admite apenas para argumentar, a Recorrente considera que há exagero cometido na exigência de uma multa de ofício de 75% sobre o pretenso débito em questão; no caso destes autos, a Recorrente demonstrou que agiu em conformidade com a legislação societária e fiscal em vigor, de forma que não seria justo atribuirlhe uma penalidade de 75% sobre o valor do suposto crédito tributário ora discutido, que ultrapassa os limites da razoabilidade e proporcionalidade, devendo ser prontamente reduzida; (E) A IMPOSSIBILIDADE DE INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA a par das razões acima expostas, cumpre à Recorrente demonstrar ainda a impossibilidade da incidência de juros de mora sobre o valor da multa lançada. Como se sabe, após a lavratura deste Auto de Infração, a multa aplicada passa a ser mensalmente atualizada com base na taxa de juros SELIC; essa atualização é realizada pelas D. Autoridades Fiscais com amparo não na lei, mas no Parecer MF n° 28, de 2.4.1998, emitido pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação ("COSIT"); ocorre, contudo, que o artigo 61 da Lei n.° 9.430/96 utilizado como base legal pela COSIT para sustentar a incidência de juros sobre multas de ofício trata tão somente da incidência de juros sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, não havendo qualquer menção às multas de ofício aplicadas pela Receita Federal do Brasil; foi justamente por tal motivo, isto é, ausência de base legal para atualização das multas de ofício, que o CARF já pacificou o entendimento de que tais multas não são atualizáveis (Acórdão n° 10196.607); por fim, importa ressaltar que essa C. Câmara Superior de Recursos Fiscais, no julgamento do Recurso de Divergência n° 202131351 (Processo n° 18471.001680/200430 Sessão de 6.5.2008) pacificou, no âmbito federal, a questão acerca da ilegalidade da incidência dos juros moratórios (seja a Taxa SELIC ou o percentual de 1% ao mês) sobre a multa de ofício. Dessa forma, resta evidente a impossibilidade de cobrança de juros sobre a multa aplicada no presente caso; CONCLUSÃO E O PEDIDO a Recorrente requer se dignem Vossas Senhorias conhecer e julgar integralmente procedente o presente Recurso Especial, para que, reformandose parcialmente o V. Acórdão n° 1402001.489, reconhecer o direito da Recorrente à dedução para apuração do lucro real para fins do IRPJ e CSL do anocalendário de 2007dos JCP de anos anteriores (anos Fl. 1898DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 21 20 calendário de 2002 e 2003), que foram pagos no ano de 2007, mediante deliberação societária, nos termos do artigo 9º, § 1º, da Lei n° 9.249/95 e da IN n° 11/96. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da contribuinte, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 08/03/2016, admitiu o recurso com base na seguinte análise sobre a divergência suscitada: [...] A contribuinte alega em seu recurso especial que houve divergência de interpretação da legislação tributária quanto à glosa de despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referente a períodos anteriores. No que toca à admissibilidade do recurso especial, a contribuinte desenvolve os seguintes argumentos: cumpre informar que, nos presentes autos, restou atendido o requisito do prequestionamento da matéria objeto de discussão, em conformidade com o artigo 67, § 3°, do RICARF; nesse sentido, confiramse trechos do recurso voluntário e do voto que orientou o acórdão recorrido (trechos transcritos); restando, assim, devidamente demonstrado o prequestionamento da matéria objeto do presente recurso especial, a recorrente passa a demonstrar, nos itens abaixo, a divergência jurisprudencial que enseja o conhecimento e integral provimento do presente recurso especial; o voto vencedor do V. Acórdão recorrido posicionase no sentido de que é vedado deduzir em determinado exercício (no caso, no anocalendário de 2007) o montante de JCP de períodos anteriores (no caso, dos anos calendário de 2002 e 2003), sob pena de violação ao regime de competência, em que pese o fato de a recorrente ter comprovado que observou os limites previstos na legislação. Além disso, afirma que os JCP têm natureza de despesa financeira para fins fiscais; contudo, esse entendimento diverge da interpretação dada para a questão pela C. 1ª Turma da 4ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento desse E. CARF, no Acórdão n° 1401000.902 (doc. n° 6), bem como pela C. 1ª turma Especial da Primeira Seção de Julgamento desse E. CARF, no Acórdão nº 1801001.128 (doc. n° 7), em que foi reconhecido o direito do contribuinte de deduzir da apuração o lucro real os juros sobre capital próprio de anos anteriores (pagos ou creditados posteriormente): Acórdão paradigma n° 14001000.902 EMENTA JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO DEDUTIBILIDADE LIMITE TEMPORAL O período de competência, para efeito de dedutibilidade dos juros sobre capital próprio da base de cálculo do imposto de renda, é aquele em que há deliberação de órgão ou pessoa competente sobre o seu pagamento ou crédito. Inclusive, a remuneração do capital próprio pode tomar por base o valor existente em períodos pretéritos, desde que respeitado os critérios e limites de Fl. 1899DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 22 21 dedutibilidade previstos em lei na data da deliberação do pagamento ou creditamento. Acórdão paradigma n° 1801001.128 EMENTA (...) DESPESAS DE JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE DE ANOS PASSADOS. POSSIBILIDADE. No caso dos juros sobre capital próprio a pessoa jurídica se torna devedora e o sócio ou acionista pode exigir o pagamento do valor respectivo apenas após a deliberação da sociedade decidindo efetuar o pagamento, fixando os montantes respectivos e determinando o momento em que tal pagamento ocorrerá. Assim, o período de competência no qual o montante dos juros deve ser registrado como despesa financeira da sociedade, é aquele em que há a deliberação determinando o pagamento dos juros. para demonstrar, analiticamente, a divergência de entendimento existente entre o acórdão recorrido e os paradigmas, a contribuinte contrapõe trechos dos votos que orientaram essas decisões (votos transcritos); nos Acórdãos paradigmas, ao contrário do voto vencedor do acórdão recorrido, esse E. CARF afirma que não há qualquer vedação legal ao pagamento e creditamento de JCP de anos anteriores, sendo que, somente com tal deliberação, tais valores tornamse despesa efetiva e, portanto, dedutíveis para fins de IRPJ/CSLL. Em verdade, consignam que a decisão sobre o momento da deliberação e do pagamento dos JCP é faculdade da empresa, a depender de suas condições financeiras; demonstrada, assim, a divergência jurisprudencial. Vêse que a matéria objeto do recurso especial atende ao requisito do prequestionamento, e as ementas acima transcritas, por si só, são suficientes para a comprovação da alegada divergência. Enquanto o acórdão recorrido não admitiu a dedutibilidade de Juros sobre o Capital Próprio (JCP) de períodos anteriores, os acórdãos paradigmas, em situação equivalente, admitiram a dedução de JCP de períodos anteriores para fins de apuração de IRPJ e CSLL. Desse modo, cabe DAR SEGUIMENTO ao recurso especial da contribuinte. CONTRARRAZÕES DA PGFN Em 11/03/2016, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que admitiu o recurso especial da contribuinte, e em 18/03/2016 o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: DAS RAZÕES PARA MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO Fl. 1900DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 23 22 A) JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO (JCP) – IMPOSSIBILIDADE DE EFETUAR A DEDUÇÃO DE VALORES DECORRENTES DE EXERCÍCIOS ANTERIORES. A.1.) NATUREZA JURÍDICA DOS JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO a recorrente defende que os juros sobre o capital próprio têm natureza jurídica de dividendos e, por essa razão, devese admitir a aplicação do artigo 202, §§ 4º e 5º da Lei nº 6.404/76, que autoriza o pagamento em exercício diverso da apuração do lucro; não obstante renomados tributaristas, como Alberto Xavier e Modesto Carvalhosa defenderem a posição adotada pela empresa, a Receita Federal e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) conferem aos juros sobre o capital próprio a natureza jurídica de despesa financeira; Ricardo Mariz de Oliveira, ao analisar a celeuma, escreveu que a natureza jurídica de qualquer objeto é dada pelo regime jurídico que o direito lhe atribui, e assim também ocorre com os juros (juros de Remuneração do Capital Próprio, Revista de Direito Tributário Atual nº 15. São Paulo: Dialética, 1998, p. 114); com efeito, a IN SRF nº 11/96, no artigo 29, §3º, trata essa modalidade de remuneração dos sócios como despesa financeira e determina que a pessoa jurídica beneficiária efetue o registro dos valores como receita financeira. A mesma conclusão pode ser extraída do Decreto nº 5.442/2005; o STJ, por sua vez, já manifestou o seu entendimento em diversas ocasiões, podendo ser sintetizado pelo seguinte acórdão: TRIBUTÁRIO. COFINS. PIS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO QUE A PESSOA JURÍDICA INVESTE EM OUTRA EMPRESA. INCIDÊNCIA. 1. Os juros recebidos de capital próprio investido pela sociedade empresarial em outra empresa constituem receitas financeiras. 2. Juros de capital próprio investido não se confundem com dividendos. Entidade com configurações jurídicas e efeitos não assemelhados. Regime jurídico diferenciado a eles praticado. 3. As Leis ns. 10.637, de 2002, e 10.883, de 2003, determinam, expressamente, os acontecimentos negociais que não compõem a base de cálculo da Cofins e PIS. Inexiste previsão excluindo a receita dos juros sobre o capital próprio da referida base de cálculo. 4. Impossibilidade do Poder Judiciário criar situação de nãoincidência tributária por interpretação analógica da lei. Obediência a princípio da legalidade. 5. Os juros sobre o capital próprio tem por finalidade remunerar o capital do investidor. São calculados sobre as contas do patrimônio líquido da pessoa jurídica. Os dividendos representam parcela do lucro distribuído pela empresa aos seus sócios. Entidades que, pelas Fl. 1901DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 24 23 suas próprias características, não se confundem a que recebem tratamento tributário diferenciado. 6. Os juros recebidos por capital próprio empregado em outra empresa integram a receita bruta do favorecido. Incide sobre eles Cofins e PIS. 7. Recurso especial nãoprovido. (Resp 952.566 / SC – Relator Ministro JOSÉ DELGADO – Primeira Turma – DJ 25/02/2008) sobre o assunto temse, ainda, a doutrina de Fábio Ulhoa Coelho: Em primeiro lugar, a existência de norma legal autorizativa do seu cômputo, no montante correspondente aos dividendos obrigatórios (o art. 9º, § 7º da Lei n° 9.249/95), a indicar que o legislador atribui aos juros natureza diversa da de dividendos. Claro, pois, se os juros sobre o capital fossem espécie de dividendos, não haveria necessidade do dispositivo em questão; eles já estariam, por definição, incluídos entre os obrigatórios. Aliás, somente se pode imputar a determinada categoria contábil o que é estranho a ela (Curso de Direito Comercial. Direito de Empresa. Volume II. São Paulo: Saraiva, 2009, pág. 354). de fato, não se pode olvidar que a legislação brasileira distanciou os juros sobre o capital próprio dos dividendos, conferindo a eles um regime jurídico próprio de juros. No intuito de confirmar o tratamento distinto de cada um dos institutos, basta verificar que a Lei nº 9.249/95 determinou a tributação na fonte dos juros sobre o capital próprio (alíquota de 15%), ao mesmo tempo em que conferiu isenção aos dividendos; ademais, o STJ, órgão responsável pela interpretação das leis brasileiras, confirmou que os juros sobre o capital próprio devem ser tratados como despesa financeira. Nas palavras do Ministro Herman Benjamin, os juros sobre o capital próprio correspondem a remuneração de capital – e não a lucro ou dividendo – e, por isso, constituem receita financeira tributável pelo PIS e COFINS (AgRg no Ag n° 1.330.134/SP. Segunda Turma. DJe 03/02/2011); pelas razões expostas, não se sustenta a defesa da contribuinte quando pede a aplicação do artigo 202, §§ 4º e 5º da Lei nº 6.404/76. Tal raciocínio somente seria possível se confirmada a equiparação dos juros sobre o capital próprio aos dividendos. Porém, esse entendimento está em descompasso com o regime jurídico conferido pela legislação brasileira e com o entendimento do STJ, razão pela qual não pode ser admitido; por outro lado, ainda que os juros sobre o capital próprio e os dividendos pudessem ser equiparados, o que se admite apenas para argumentar, cumpre ressaltar que o artigo 202, §§ 4º e 5º da Lei n° 6.404/76 permite o pagamento posterior dos dividendos obrigatórios apenas quando os órgãos da administração informarem à assembléiageral ordinária ser ele incompatível com a situação financeira da companhia; nos autos, não foi apresentada a recomendação da administração de que o pagamento de remuneração aos sócios estava inviabilizado nos anos de 2002 e 2003 em razão de dificuldades financeiras da empresa, nem mesmo existe deliberação da assembléia nesse Fl. 1902DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 25 24 sentido. O não cumprimento dos requisitos trazidos pelo artigo 202, §§ 4º e 5º da Lei n° 6.404/76 é suficiente para afastar a sua aplicação ao presente processo; A.2.) REQUISITOS E LIMITES PARA PAGAMENTO DE JCP – DA NÃO DELIBERAÇÃO, NO MOMENTO OPORTUNO, SOBRE O PAGAMENTO DOS JCP NOS LIMITES AUTORIZADOS PELA LEI – ATO JURÍDICO PERFEITO. o artigo 9º da Lei 9249/95 dispõe que a pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos de apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da taxa TJLP; o §1º do artigo em comento estabelece que o efetivo pagamento dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados; o §8º do artigo ainda traz mais uma regra sobre o cálculo do montante de juros dedutíveis: Para os fins de cálculo da remuneração prevista neste artigo, não será considerado o valor de reserva de reavaliação de bens ou direitos da pessoa jurídica, exceto se esta for adicionada na determinação da base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido; aplicandose os parâmetros indicados pela legislação, a fiscalização constatou que o montante máximo dedutível a título de remuneração do capital próprio a ser observado pela recorrente no anocalendário de 2007 seria de R$ 11.687.317,99. O valor foi calculado mediante aplicação da TJLP somente sobre as contas de patrimônio líquido do ano calendário de 2007, e confrontado com os lucros ou reservas do período. Entretanto, a DIPJ da empresa indica deduções no valor de R$ 410.000.000,00, excedendo o mencionado limite; a recorrente alega que todos os limites previstos na legislação fiscal foram respeitados, mediante a aplicação da TJLP sobre as contas de patrimônio líquido não só do anocalendário de 2007, mas também de 2002 e 2003. Diz, também, que para cada um dos períodos tinha lucro ou reserva de lucro suficiente para o pagamento da despesa. Por fim, afirma não existir óbice para o pagamento e dedução acumulada de juros sobre o capital próprio, tomando como parâmetro o patrimônio líquido de exercícios anteriores, nos quais não houve a dedutibilidade da referida despesa; o procedimento defendido pela empresa não pode ser admitido, conforme demonstrado a seguir; o pagamento dos juros sobre o capital próprio não se confunde com as regras para sua dedução. Nas palavras de Edmar Oliveira Andrade Filho: uma coisa é a dedutibilidade; outra, completamente diferente, é a possibilidade de pagamento (Imposto de Renda das Empresas, 5ª edição, São Paulo: Atlas, 2008, pág. 265); ilustrando a colocação, o doutrinador diz que se o contribuinte pretender pagar juros sobre o capital e não tiver lucros e reservas de lucros em montante igual ou superior ao valor dos juros a serem pagos ou creditados, não poderá deduzir os respectivos valores; Fl. 1903DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 26 25 Modesto Carvalhosa confirma que se a companhia não tiver lucro no exercício nem reservas de lucro, o pagamento de juros a título de dividendos não terá benefício fiscal (dedutibilidade) (Comentários à Lei de Sociedades Anônimas. Vol. 1. 6ª edição. São Paulo: Saraiva, 2011); o pagamento de JCP é uma faculdade conferida aos acionistas, e decorre de princípios como a livre iniciativa e a autonomia privada, dependendo apenas de decisão formal deles próprios, por meio de deliberação tomada em assembléia. A pessoa jurídica, com base nos princípios mencionados, tem liberdade e autonomia para decidir o melhor momento e a forma para remunerar o capital dos sócios. Poderá, inclusive, optar pela taxa de rentabilidade que julgar mais adequada. A dedutibilidade, porém, estará sempre sujeita às regras trazidas pela Lei nº 9.249/95; os sócios, durante as assembléias, devem deliberar sobre as contas e resultados econômicos do período, estabelecendo, ainda, o modo de sua remuneração. É nesse momento que deverão decidir sobre o pagamento de juros sobre o capital próprio; a deliberação tomada em assembléia pode ser classificada como um negócio jurídico plurilateral. Negócio jurídico, no conceito desenvolvido por Antonio Junqueira de Azevedo (Negócio Jurídico: existência, validade e eficácia, 4ª edição, Saraiva, 2002) é: “todo fato jurídico consistente na declaração de vontade, a que o ordenamento jurídico atribui os efeitos designados como queridos, respeitados os pressupostos de existência, validade e eficácia impostos pela norma jurídica que sobre ele incide”. Plurilateral, por se tratar de negócio que envolve a composição de mais de duas vontades paralelamente manifestadas por diferentes partes; nos termos do artigo 1072 do Código Civil, §5º, as deliberações tomadas de conformidade com a lei e o contrato vinculam todos os sócios, ainda que ausentes ou dissidentes. O artigo 48 do mesmo Código ainda traz uma regra geral aplicável a todas as pessoas jurídicas: Art. 48. Se a pessoa jurídica tiver administração coletiva, as decisões se tomarão pela maioria de votos dos presentes, salvo se o ato constitutivo dispuser de modo diverso. Parágrafo único. Decaí em três anos o direito de anular as decisões a que se refere este artigo, quando violarem a lei ou estatuto, ou forem eivadas de erro, dolo, simulação ou fraude. significa, então, que as deliberações tomadas em assembléia pelos acionistas não podem ser simplesmente revogadas ou modificadas a qualquer tempo. Na qualidade de negócio jurídico tutelado pelo Direito, a anulação da manifestação de vontade externada na reunião somente pode ocorrer se ficar comprovado erro, dolo, fraude ou simulação, conforme art. 171 e seguintes do Código Civil; no presente caso, quanto aos exercícios sociais pretéritos (2002 e 2003), é certo que já houve a realização de assembléia dos sócios, na qual foi externada a vontade social sobre a destinação dos lucros e a aprovação das demonstrações financeiras. Se a assembléia, em determinado ano, resolveu não remunerar os sócios por meio de juros sobre o capital próprio ou determinou o pagamento abaixo do limite dedutível, significa dizer que a própria empresa renunciou a tal direito. Temse, então, ato jurídico perfeito, estando apto a produzir todos os efeitos; Fl. 1904DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 27 26 ocorre que os acionistas, em 2007, determinaram o pagamento de JCP acima do montante autorizado para fins de dedução. No intuito de se esquivarem de tal limite e deduzirem todo o valor, usam argumento de que o excesso decorre de limites não utilizados em anos anteriores (2002 a 2003); não existe óbice para a assembléia, em exercício posterior, deliberar sobre a remuneração do capital dos sócios na forma que melhor lhe aprouver. Como já foi visto, os critérios trazidos pela Lei n° 9.249/95 dizem respeito apenas aos efeitos fiscais, ou seja, a dedução do lucro real para fins de apuração do imposto de renda da pessoa jurídica. Logo, a empresa pode determinar o pagamento de juros sobre o capital próprio até mesmo acima dos limites trazidos pela Lei n° 9.249/95. Tratase de um direito exercido com base nos princípios da livre iniciativa e da autonomia privada; porém, a parcela dedutível deve sempre obedecer aos requisitos indicados na legislação. Um dos critérios trazidos pela norma tem natureza quantitativa, a parcela dedutível limitase ao maior valor entre: a) 50% do lucro líquido do período de apuração antes da dedução desses juros, após a dedução da CSLL e antes da provisão para o IRPJ, ou b) 50% do somatório dos lucros acumulados e reservas de lucros; os limites em questão bem demonstram que o JCP é pago de acordo com o lucro apurado ao final do exercício social correspondente. Ao assim dispor, a lei quis impedir que todo o lucro do período fosse distribuído na forma de JCP, impedindo a tributação. Sendo assim, se a empresa, como no caso dos autos, está pretendendo deliberar JCP sobre exercícios passados (2002 e 2003), é certo que o lucro do respectivo período já teve a sua destinação, não estando mais disponível para fins de pagamento na forma pretendida. E se já foi dada destinação ao lucro dos exercícios encerrados, devese respeitar a vontade social externada na assembléia, não podendo ser modificada a qualquer tempo, como se ela não tivesse ocorrido; e mais, a remuneração é calculada sobre as contas do patrimônio líquido, limitada à variação pro rata dia da TJLP. Por óbvio, na apuração do montante dedutível para o anocalendário, a TJLP deve ser aplicada apenas quanto ao PL do respectivo período, e não quanto a exercícios anteriores, sob pena de se tornar inócuo o limite trazido pela Lei; a deliberação acerca da destinação dos lucros referentes aos anos pretéritos é um ato jurídico perfeito. Cabe à empresa apenas cumprir as determinações constantes da assembléia, onde houve a aprovação das demonstrações financeiras e ficou decidido sobre o tratamento a ser dado ao lucro apurado no período. Eventual modificação dependeria de alteração do balanço e a prova de algum vício no tocante à manifestação de vontade. Como já houve a destinação do lucro do período, não pode a empresa simplesmente ignorar a deliberação e nos exercícios seguintes determinar o pagamento de JCP; A.3.) OBSERVÂNCIA DO REGIME DE COMPETÊNCIA – LEGALIDADE DO ARTIGO 29 DA IN SRF 11/96. outro ponto que não pode deixar de ser analisado diz respeito à observância do regime de competência, por ser regra geral, bem como critério básico para registro das operações da pessoa jurídica na contabilidade societária e fiscal, no termos do art. 177 da Lei 6.404/76; o artigo 29 da IN SRF 11/96 ratifica que a despesa de juros sobre o capital próprio deve observar o regime de competência. Tal norma não é ilegal, pois tem como Fl. 1905DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 28 27 fundamento de validade o artigo 177 da Lei n° 6.404/76 transcrito acima, bem como o artigo 6º do DecretoLei n° 1.598/77, segundo o qual Lucro real é o lucro líquido do exercício ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas pela legislação tributária. Portanto, o ato infralegal não transborda os limites da lei, ao contrário, repete o que já foi acolhido pela norma tributária; o conceito de competência decorre da necessidade de enquadrar as demonstrações financeiras aos fatos econômicos e financeiros ocorridos nos espaço de tempo a que elas reportam; não é possível trazer para o presente a dedução de juros calculados sobre contas do patrimônio líquido de exercícios passados. Para tanto, era necessária a tempestiva manifestação da sociedade. Se não ocorreu, a dedução do períodobase continuará atrelada aos critérios trazidos pela Lei nº 9.249/95; nesse sentido também são as conclusões de Edmar Oliveira de Andrade Filho (<http://www.fiscosoft.com.br/a/2fac/irpjecslljurossobreocapitalpropriocalculado sobreamovimentacaodopatrimonioliquidoosfatoseaconsultaedmaroliveiraandrade filho>, acesso em 13/12/11, às 16h02min.): fundamentados em todo o acima exposto, concluímos que: a) por força do disposto no art. 6º do Decretolei nº 1.598/77, todas as mutações patrimoniais devem ser reconhecidas segundo o regime de competência. A Lei nº 9.249/95 e a Lei nº 9.430/96, não revogaram de forma expressa ou tácita o art. 6º do Decretolei nº 1.598/77, de modo que o encargo denominado "juro sobre o capital social" se submete para fins de dedutibilidade ao regime de competência; b) o período de competência dos juros sobre o capital é aquele em que há deliberação de órgão ou pessoa competente sobre o pagamento ou crédito dos mesmos. Assim, enquanto não houver o ato jurídico que determine a obrigação de pagar os juros não existe a despesa ou o encargo respectivo e não há que se cogitar de dedutibilidade de algo ainda inexistente; c) a aferição das condições e limites de dedutibilidade do encargo relativo aos juros sobre o capital deverá ser feita no período em que ocorrer a deliberação de seu pagamento ou crédito, de forma incondicionada. De fato, é neste nesse período que o encargo existe do ponto de vista jurídico e a aferição de sua dedutibilidade para fins fiscais será feita de acordo com as condições vigentes neste mesmo período; e d) é impossível, do ponto de vista lógico e jurídico, a imputação, a exercícios passados, dos efeitos produzidos por uma decisão societária atual porque o Balanço, depois de aprovado pelos sócios ou acionistas, constitui ato jurídico perfeito e que só pode ser validamente modificado se demonstrada a anterior ocorrência de erro, dolo ou simulação. Em face do exposto cabe referir que não existe amparo legal para sustentar a dedutibilidade do montante dos juros sobre o capital que vier a ser declarado, pago ou creditado e que se reporte a exercícios anteriores, salvo se os resultados pudessem ser retificados em razão de erro, dolo ou fraude. Todavia, isto não impede que a empresa decida remunerar o capital Fl. 1906DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 29 28 tomando por base o valor existente em anos anteriores, mas, se isto ocorrer, a dedutibilidade será aferida com base nos critérios e limites previstos em lei na data da deliberação do pagamento ou crédito. A.4.) JURISPRUDÊNCIA CONTRÁRIA À TESE DEFENDIDA PELA EMPRESA. corroborando a adoção do regime de competência para o presente caso, é válido transcrever trecho do voto vencedor do ilustre Conselheiro Marcelo Cuba Netto, proferido no acórdão 120100.348 (transcrição contida nas contrarrazões); existem outros julgados do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais que também são contrários à tese defendida pela empresa (ementas transcritas); importante destacar que o TRF da 4ª Região, em sessão realizada em 15 de janeiro de 2013, acabou por rejeitar a dedução acumulada de juros sobre o capital próprio. A ementa do acórdão tem a seguinte redação (APELAÇÃO CÍVEL Nº 5005427 55.2012.404.7005/PR): TRIBUTÁRIO. JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO. REGIME DE COMPETÊNCIA. LIMITE DE DEDUÇÃO. ART. 6º, DECRETOLEI Nº 1.598/77. LEIS Nº 9.249/95 E 9.430/96. COMPATIBILIDADE. 1. Segundo o art. 6º do Decretolei nº 1.598/77, todas as variações patrimoniais devem ser reconhecidas segundo o regime de competência. As Leis nº 9.249/95 e 9.430/96, não revogaram o art. 6º do Decretolei nº 1.598/77. Portanto, o encargo denominado juro sobre o capital próprio está submetido ao regime de competência. 2. O período de competência dos juros sobre o capital é aquele em que há deliberação de órgão ou pessoa competente sobre o pagamento ou crédito dos mesmos. Por isso, enquanto não houver o ato jurídico que determine a obrigação de pagar os juros, não existe a despesa ou o encargo respectivo e não há que se falar em dedutibilidade de algo inexistente. 3. A verificação das condições e limites de dedutibilidade do encargo relativo aos juros sobre o capital deve ser feita no período em que ocorrer a deliberação de seu pagamento ou crédito, porquanto, segundo ensinamento doutrinário, apresentase "impossível, do ponto de vista lógico e jurídico, a imputação, a exercícios passados, dos efeitos produzidos por uma decisão societária atual porque o Balanço, depois de aprovado pelos sócios ou acionistas, constitui ato jurídico perfeito e que só pode ser validamente modificado se demonstrada a anterior ocorrência de erro, dolo ou simulação" (cf. Edmar de Oliveira Andrade Filho). 4. Tendo o contribuinte, ao proceder a dedução dos juros sobre o capital próprio superado os limites legalmente previstos para esse fim, legítimo se apresenta o ato fiscal que promove a glosa do excesso, fazendo incidir sobre ele os tributos devidos. 5. Sentença mantida. Fl. 1907DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 30 29 o Relator do acórdão, Desembargador Otávio Roberto Pamplona, afasta a aplicação do artigo 202, §§ 4º e 5º da Lei nº 6.404/76, ao fundamento de que os juros sobre o capital próprio não se confundem com os dividendos. Constou no inteiro teor do voto o seguinte: Além disso, cabe observar que os juros sobre o capital próprio não possuem a mesma natureza jurídica de dividendos não distribuídos no respectivo exercício social. Os juros sobre o capital próprio têm natureza de benefício fiscal pelo qual a lei tributária autoriza a dedução do lucro líquido do exercício, para fins de apuração do lucro real, dos valores pagos ou creditados a título de juros de remuneração do capital investido na empresa, traduzindose em mecanismo de política econômica para estimular a aplicação de recursos próprios no empreendimento, em detrimento de recursos de terceiros. a jurisprudência transcrita acima confirma a legalidade do lançamento, razão pela qual não há censuras a impor ao acórdão recorrido quanto a essa matéria; desse modo, deve ser mantido o acórdão atacado, no ponto em que foi objeto de insurgência pelo contribuinte, negandose provimento ao respectivo recurso especial. É o relatório. Fl. 1908DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 31 30 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço dos recursos especiais, porque eles preenchem os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto lançamento a título de IRPJ e CSLL apurados em relação ao ajuste anual do anocalendário de 2007 (Lucro Real). As exigências decorreram da glosa de despesas com pagamento de juros sobre capital próprio (JCP) referentes a períodos anteriores. A dedução excessiva das referidas despesas também resultou em recolhimento a menor das estimativas mensais dos referidos tributos, o que ensejou o lançamento de multa isolada for falta/insuficiência de recolhimento de estimativas. A decisão de segunda instância administrativa (acórdão ora recorrido), entre outras questões, entendeu que era correta a glosa de despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referentes a períodos anteriores, e manteve as exigências de IRPJ/CSLL. Contudo, cancelou a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais desses tributos, apontando o problema da concomitância da multa isolada com a multa de ofício que incidiu sobre o tributo devido no ajuste anual. O recurso especial da PGFN busca restabelecer o lançamento da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ/CSLL. E o recurso especial da contribuinte pede que seja reconhecido "o direito da Recorrente à dedução para apuração do lucro real para fins do IRPJ e CSL do anocalendário de 2007 dos JCP de anos anteriores (anoscalendário de 2002 e 2003), que foram pagos no ano de 2007, mediante deliberação societária, nos termos do artigo 9º, § 1º, da Lei n° 9.249/95 e da IN n° 11/96". O exame da matéria que é objeto do recurso especial da contribuinte (JCP de períodos anteriores) deve preceder o julgamento da multa isolada, porque o que for decidido para aquela matéria pode ter implicações diretas na multa. É que se for afastada a glosa das despesas com JCP, deixa de haver falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais, e a multa isolada é automaticamente cancelada. Em razão disso, inicio o julgamento pelo recurso especial da contribuinte. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE O recurso especial da contribuinte aponta divergência jurisprudencial em relação à parte da decisão que manteve a glosa das despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referente a períodos anteriores. Fl. 1909DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 32 31 Não deixo de observar que na parte final do recurso especial, a contribuinte suscita questões sobre a "abusividade da multa de ofício aplicada" e a "impossibilidade de incidência de juros sobre a multa", repetindo exatamente o mesmo texto que havia apresentado na fase processual anterior (recurso voluntário). Contudo, toda a argumentação sobre a admissibilidade do recurso especial, sobre a caracterização da divergência jurisprudencial (com cotejo analítico de decisões, etc.), e o próprio conteúdo do "pedido" apresentado, não deixam dúvidas de que o recurso especial da contribuinte tem por objeto apenas a divergência sobre a glosa das despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referente a períodos anteriores. O dispositivo legal que dá ensejo à referida divergência jurisprudencial é o art. 9º, caput e §1º, da Lei nº 9.249, de 26/12/1995. Transcrevoo integralmente: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (Redação dada pela Lei nº 9.430, de 1996) § 2º Os juros ficarão sujeitos à incidência do imposto de renda na fonte à alíquota de quinze por cento, na data do pagamento ou crédito ao beneficiário. § 3º O imposto retido na fonte será considerado: I antecipação do devido na declaração de rendimentos, no caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real; II tributação definitiva, no caso de beneficiário pessoa física ou pessoa jurídica não tributada com base no lucro real, inclusive isenta, ressalvado o disposto no § 4º; ... § 5º No caso de beneficiário sociedade civil de prestação de serviços, submetida ao regime de tributação de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.397, de 21 de dezembro de 1987, o imposto poderá ser compensado com o retido por ocasião do pagamento dos rendimentos aos sócios beneficiários. § 6º No caso de beneficiário pessoa jurídica tributada com base no lucro real, o imposto de que trata o § 2º poderá ainda ser compensado com o retido por ocasião do pagamento ou crédito de juros, a título de remuneração de capital próprio, a seu titular, sócios ou acionistas. § 7º O valor dos juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderá ser imputado ao valor dos Fl. 1910DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 33 32 dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo do disposto no § 2º. § 8º Para os fins de cálculo da remuneração prevista neste artigo, não será considerado o valor de reserva de reavaliação de bens ou direitos da pessoa jurídica, exceto se esta for adicionada na determinação da base de cálculo do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido. Há inúmeros julgados do CARF relativos à questão em apreço, tanto em um sentido (favorável a recorrente) quanto em outro (desfavorável a ela). Não pretendo aqui esgotar as diversas facetas da polêmica; mas apenas, além de apresentar minha visão, tratar de alguns pontos que entendo essenciais nas discussões. Entendo que não assiste razão à recorrente, pelos motivos que passo a expor. DA NATUREZA JURÍDICA DOS JCPS A contribuinte alega que a natureza jurídica dos JCP é equiparável à dos dividendos, e que o artigo 9º da Lei n° 9.249/95 teria meramente instituído tratamento fiscal específico para o pagamento de tais valores; que de acordo com a Deliberação CVM n° 207/1996, para fins societários e contábeis, os JCP têm natureza de dividendos; que nos termos da referida deliberação, a remuneração do capital próprio, paga/creditada aos acionistas, configura distribuição de resultado e não despesa; que os JCP, tal como os dividendos, podem efetivamente ser pagos em relação aos exercícios anteriores; e que o voto que orientou o acórdão recorrido sustenta a existência de um suposto regime especial e opcional sem justificar os motivos pelos quais a natureza jurídica dos JCP diferem da natureza dos dividendos. É importante apontar algumas características essenciais sobre os JCPs. Cito inicialmente duas características essenciais da natureza jurídica dos Juros sobre Capital Próprio: a) a primeira é que visam à REMUNERAÇÃO DOS SÓCIOS; e b) a segunda é que são JUROS (como o próprio nome os qualificam). Constatase, com isso, que as quantias que os sócios recebem a título de remuneração do capital próprio não podem se confundir com o patrimônio da entidade. Assim, para estar de acordo com a real natureza jurídica, os JCPs somente podem ser entendidos como elementos que não venham a se integrar ao patrimônio da sociedade (consistindo numa rubrica redutora do mesmo), ou seja, não podem estar em contas redutoras dos lucros acumulados, das reservas de lucros ou de outras contas do patrimônio líquido. Portanto, na apuração do lucro líquido do exercício, os valores destinados aos sócios como remuneração do capital devem compor o lucro contábil da entidade; o que implica, necessariamente, em reconhecêlos como integrantes do resultado do exercício da sociedade, ou, seja, assumindo a natureza de DESPESA, não se admitindo que sejam incorridos apenas no momento em que sejam decididas as destinações dos lucros. Entender diferentemente seria negar validade ao princípio da entidade, que veda confundir o patrimônio dos sócios com o patrimônio da sociedade, bem como prever o enriquecimento dos sócios em detrimento da empresa. Confirase o que diz a Resolução nº 750, de 29/12/1993, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), sobre o princípio da entidade: CAPÍTULO I DOS PRINCÍPIOS E DE SUA OBSERVÂNCIA Fl. 1911DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 34 33 Art. 1º Constituem PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE CONTABILIDADE (PFC) os enunciados por esta Resolução. §1º A observância dos Princípios Fundamentais de Contabilidade é obrigatória no exercício da profissão e constitui condição de legitimidade das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC). §2º Na aplicação dos Princípios Fundamentais de Contabilidade há situações concretas e a essência das transações deve prevalecer sobre seus aspectos formais. CAPÍTULO II DA CONCEITUAÇÃO, DA AMPLITUDE E DA ENUMERAÇÃO ... SEÇÃO I O PRINCÍPIO DA ENTIDADE Art. 4º O Princípio da ENTIDADE reconhece o Patrimônio como objeto da Contabilidade e afirma a autonomia patrimonial, a necessidade da diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, independentemente de pertencer a uma pessoa, um conjunto de pessoas, uma sociedade ou instituição de qualquer natureza ou finalidade, com ou sem fins lucrativos. Por conseqüência, nesta acepção, o Patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição. Parágrafo único – O PATRIMÔNIO pertence à ENTIDADE, mas a recíproca não é verdadeira. A soma ou agregação contábil de patrimônios autônomos não resulta em nova ENTIDADE, mas numa unidade de natureza econômicocontábil. Deste Princípio Fundamental da Contabilidade (PFC) societária saltam conceitos como de autonomia patrimonial, de diferenciação de um Patrimônio particular no universo dos patrimônios existentes, além da evidente e contundente conseqüência: "o patrimônio não se confunde com aqueles dos seus sócios ou proprietários, no caso de sociedade ou instituição". Assim, para que esse PFC seja observado, é de rigor que o incorrimento dos JCPs não se dê na integração do patrimônio da sociedade; devendo, os Juros sobre Capital Próprio, inevitavelmente, transitar pelo resultado da sociedade como despesa. O CFC, considerando a conveniência de um maior esclarecimento sobre o conteúdo e abrangência dos PFCs, emitiu a Resolução nº 774, de 16/12/94, dando interpretação à Resolução CFC nº 750/93, por meio de um apêndice. Sobre o princípio da entidade foi melhor detalhada a questão da autonomia patrimonial: 2.1.1 – A autonomia patrimonial O cerne do Princípio da ENTIDADE está na autonomia do patrimônio a ela pertencente. O Princípio em exame afirma que o patrimônio deve revestirse do atributo de autonomia em relação a todos os outros Patrimônios existentes, pertencendo a uma Entidade, no sentido de sujeito suscetível à aquisição de direitos e obrigações. A autonomia tem por corolário o fato de que o patrimônio de uma Entidade jamais pode confundir se com aqueles dos seus sócios ou proprietários. Por conseqüência, a Fl. 1912DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 35 34 Entidade poderá ser desde uma pessoa física, ou qualquer tipo de sociedade, instituição ou mesmo conjuntos de pessoas, tais como: famílias; empresas; governos, nas diferentes esferas do poder; sociedades beneficentes, religiosa, culturais, esportivas, de lazer, técnicas; sociedades cooperativas; fundos de investimento e outras modalidades afins. No caso de sociedades, não importa que sejam sociedades de fato ou que estejam revestidas de forma jurídica, embora esta última circunstância seja a mais usual. O Patrimônio, na sua condição de objeto da Contabilidade, é, no mínimo, aquele juridicamente formalizado como pertencente à Entidade, com ajustes quantitativos e qualitativos realizados em consonância com os princípios da própria Contabilidade. A garantia jurídica da propriedade, embora por vezes suscite interrogações de parte daqueles que não situam a autonomia patrimonial no cerne do Princípio da Entidade, é indissociável desse princípio, pois é a única forma de caracterização do direito ao exercício de poder sobre o mesmo Patrimônio, válida perante terceiros. Cumpre ressaltar que, sem autonomia patrimonial fundada na propriedade, os demais Princípios Fundamentais perdem o seu sentido, pois passariam a referirse a um universo de limites imprecisos. A autonomia patrimonial apresenta sentido unívoco. Por conseqüência, o patrimônio pode ser decomposto em partes segundo os mais variados critérios, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Mas nenhuma classificação, mesmo que dirigida sob ótica setorial, resultará em novas Entidades. Carece, pois, de sentido, a idéia de que as divisões ou departamentos de uma Entidade possam constituir novas Entidades, ou “microentidades”, precisamente por que sempre lhes faltará o atributo da autonomia. A única circunstância em que poderá surgir nova Entidade, será aquela em que a propriedade de parte do patrimônio de uma Entidade, for transferida para outra unidade, eventualmente até criada naquele momento. Mas, no caso, teremos um novo patrimônio autônomo, pertencente a outra Entidade. Na contabilidade aplicada, especialmente nas áreas de custos e de orçamento, trabalhase, muitas vezes, com controles divisionais, que podem ser extraordinariamente úteis, porém não significam a criação de novas Entidades, precisamente pela ausência de autonomia patrimonial. Da interpretação autêntica do princípio da entidade, percebese que o cerne deste está na autonomia patrimonial, que está indissociavelmente ligado à garantia jurídica da propriedade, como "única forma de caracterização do direito ao exercício de poder sobre o mesmo patrimônio, válida perante terceiros". Daí se conclui que terceiros (a exemplo dos sócios) não podem dispor livremente (fora das formas jurídicas concebidas para a correta disposição) do patrimônio da sociedade, que detém autonomia patrimonial e garantia jurídica de sua propriedade. Fl. 1913DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 36 35 Portanto, para que haja o respeito à autonomia patrimonial da sociedade e de forma a respeitar o seu direito de propriedade, os JCPs devem passar pelo resultado da sociedade no momento do reconhecimento da despesa do exercício, e não serem incorridos a partir do seu patrimônio já formado. Desse raciocínio, verifico mais uma característica essencial da natureza jurídica do JCPs: transitam pelo resultado por serem despesas, sendo deduzidas para formação1 do lucro líquido do exercício. Ademais, essa característica está de acordo com o fato dos Juros sobre Capital Próprio serem Juros, pois os outros tipo de juros sempre são despesas para quem os deve. Esta característica já foi sabiamente identificada no Acórdão do Processo nº 13888.721267/201290, da lavra da Conselheira Edeli Pereira Bessa: Assim, embora os juros sobre o capital próprio apresentem alguma semelhança com o tratamento societário conferido aos dividendos, consoante alegado pela contribuinte em sua impugnação, há uma diferença essencial entre eles: os juros sobre o capital próprio representam o custo do capital investido pelos sócios e, portanto, despesa da pessoa jurídica, ao passo que os dividendos correspondem a distribuição do resultado. Como despesa, conceitualmente os juros sobre o capital próprio antecedem a apuração do lucro contábil. O crédito ou pagamento futuro de juros sobre o capital próprio, portanto, exige o seu prévio provisionamento, de modo a reduzir o lucro do período. Se desta forma não se procede, o resultado do período, majorado pela ausência daquela dedução, passa a ter o status de lucro a ser destinado nos termos do art. 192 da Lei nº 6.404/76. Ainda que os limites legais de dedutibilidade tenham em conta as reservas de lucros e lucros acumulados, a fixação de tais limites tem por objetivo apenas evitar a descapitalização da pessoa jurídica com a remuneração dos sócios, e não evidencia, por si só, que valores já destinados a reservas de lucros e lucros acumulados possam ter sua natureza revertida, por deliberação futura, de lucro para despesa. Vejase que a referida provisão, com vistas a reduzir o lucro do período ao qual competiriam os juros, não resulta em despesa dedutível na medida em que a legislação exige deliberação e individualização do pagamento ou crédito dos juros sobre o capital próprio. Mas é essencial para evitar que tais valores integrem o lucro e sejam destinados a outro fim. Em suma, cabe à sociedade decidir como remunerar o capital investido pelos sócios: por meio de juros ou de lucros. E esta decisão deve ser tomada antes da destinação do lucro líquido do exercício, na forma do art. 192 da Lei nº 6.404/76. Ultrapassado este momento, sem o prévio provisionamento dos juros, a deliberação de seu pagamento futuro, associada ao crédito ou pagamento individualizado, não é suficiente para constituir, neste segundo momento, despesa dedutível na apuração do IRPJ e da CSLL, como defende a recorrente. Ainda que não seja causa do fato dos JCPs serem despesas, mas conseqüência disso, o que concorda com a realidade dos outros tipos de juros, constatase que, para aqueles que recebem JCPs, estes são considerados receitas e assim tributados. 1 Todos os interessados na escrituração da sociedade, sejam os clientes, os fornecedores, os sócios/acionistas, a própria sociedade, tem direito a evidenciação desse fato. Fl. 1914DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 37 36 Invocando a Deliberação CVM nº 207/1996, a contribuinte alega que os JCP têm natureza de dividendos, e que a remuneração do capital próprio, paga/creditada aos acionistas, configura distribuição de resultado e não despesa. O inciso I da citada Deliberação CVM estabelece o seguinte: I Os juros pagos ou creditados pelas companhias abertas, a título de remuneração do capital próprio, na forma do artigo 9º da Lei nº 9.249/95, devem ser contabilizados diretamente à conta de Lucros Acumulados, sem afetar o resultado do exercício. Da ementa da referida Deliberação, percebese que esta surgiu para dar tratamento contábil à norma fiscal, como ela mesma anuncia: "Dispõe sobre a contabilização dos juros sobre o capital próprio previstos na Lei nº 9.249/95". O inciso I da Deliberação não tem o condão de modificar a natureza jurídica dos JCP, tanto é que o próprio inciso é bem claro ao prescrever: "devem ser contabilizados". Tratase de norma contábil, de determinação para o modo de proceder aos registros contábeis, nada mais. Esse inciso não disse que os JCPs não são despesa. Pelo contrário, só o fato dessa norma existir é sinal evidente de que, em sua ausência, a contabilização ocorreria através de conta de resultado (despesa). Ao dizer "sem afetar o resultado do exercício", a Deliberação está enunciando que a contabilização deve ocorrer de modo diverso ao que originalmente ocorreria. Não se trata de uma norma declaratória de conteúdo, antes pois é uma norma que institui uma conduta, qual seja, a conduta de fazer dessa forma (contabilizar diretamente à conta de Lucros Acumulados sem transitar pelo resultado) e não daquela forma (contabilizar como despesa financeira transitando pelo resultado). Ao instituir a conduta que pretende impor, acaba por revelar a conduta que deseja evitar. E ao se refletir sobre a conduta que deseja evitar, tornase evidente que, na ótica do próprio legislador (o colegiado da CVM), os JCP são despesas. Ademais, a própria Deliberação CVM admite a contabilização dos JCPs como despesa, senão vejamos os incisos: VII, VIII e IX: VII O disposto nesta Deliberação aplicase, exclusivamente, às demonstrações financeiras elaboradas na forma dos artigos 176 e 177 da Lei nº 6.404/76, não implicando alteração ou interpretação das disposições de natureza tributária. VIII Caso a companhia opte, para fins de atendimento às disposições tributárias, por contabilizar os juros sobre o capital próprio pagos/creditados ou recebidos/auferidos como despesa ou receita financeira, deverá proceder à reversão desses valores, nos registros mercantis, de forma a que o lucro líquido ou o prejuízo do exercício seja apurado nos termos desta Deliberação. IX A reversão, de que trata o item anterior, poderá ser evidenciada na última linha da demonstração do resultado antes do saldo da conta do lucro líquido ou prejuízo do exercício. Fl. 1915DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 38 37 Não é preciso ir muito longe para encontrar o que prevê o inciso VIII: "caso a companhia opte, para fins de atendimento às disposições tributárias, por contabilizar os juros sobre o capital próprio pagos/creditados ... como despesa ... financeira, ...". E onde estão as disposições tributárias que conduzem a conduta do inciso VIII? Na IN SRF nº 11/1996, conforme os dispositivos abaixo: Art. 29. Para efeito de apuração do lucro real, observado o regime de competência, poderão ser deduzidos os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a § 1º À opção da pessoa jurídica, o valor dos juros a que se refere este artigo poderá ser incorporado ao capital social ou mantido em conta de reserva destinada a aumento de capital. ... § 3º O valor do juros pagos ou creditados, ainda que capitalizados, não poderá exceder, para efeitos de dedutibilidade como despesa financeira, a cinqüenta por cento de um dos seguintes valores: a) do lucro líquido correspondente ao períodobase do pagamento ou crédito dos juros, antes da provisão para o imposto de renda e da dedução dos referidos juros; ou b) dos saldos de lucros acumulados de períodos anteriores. ... Art. 30. O valor dos juros pagos ou creditados pela pessoa jurídica, a título de remuneração do capital próprio, poderá ser imputado ao valor dos dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo da incidência do imposto de renda na fonte. Parágrafo único. Para efeito de dedutibilidade na determinação do lucro real, os juros pagos ou creditados, ainda que imputados aos dividendos ou quando exercida a opção de que trata o § 1º do artigo anterior, deverão ser registrados em contrapartida de despesas financeiras. Assim, na existência de disposições tributárias, é forçoso atender a conduta dos incisos VIII e IX, em detrimento da conduta do inciso I, que acabou por não ter aplicação prática, por estar em vigor concomitantemente com a IN SRF nº 11/1996. Uma interpretação sistemática da Deliberação CVM nº 207/1996, deixa claro que o objetivo do seu inciso I não foi, mais uma vez, dizer que os JCP não são despesa, mas sim tornar a informação dessas despesas bastante evidente (o inciso IX se utilizou do termo "evidenciada") na demonstração para os sócios, de forma que esses tivessem uma visão facilitada dos valores de JCP (a posição junto a conta de Lucros Acumulados é bastante estratégica), ao invés de terem que consultar as despesas da sociedade e, no meio de todas as outras despesas, localizarem esses valores. Tudo isso apenas confirma o acerto na consideração dos JCP como despesas, despesas financeiras, despesas com pagamento de juros. Um corolário imediato da característica essencial dos Juros sobre Capital Próprio SEREM JUROS é que: para haverem juros, há de haver empréstimo ou financiamento Fl. 1916DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 39 38 de algo. E esse algo, no caso dos JCP, é o capital dos sócios, ou seja, há de haver "empréstimo" do capital dos sócios. Digo isso porque é comum as abordagens sobre esse tema fazerem analogia entre os Juros sobre Capital Próprio (pago aos sócios) e os juros pagos a terceiros por empréstimos contraídos pela empresa. Essa analogia faz sentido na medida em que: a integralização do capital da pessoa jurídica se dá pela transferência de capital dos sócios para a empresa; a empresa realiza suas atividades com esse capital dos sócios que foi para ela transferido/disponibilizado; o patrimônio líquido da pessoa jurídica representa "dívida" desta para com os sócios (por isso, aliás, o PL figura na coluna do passivo). Mas a "dívida" que motiva o pagamento de JCP também guarda diferenças com as dívidas que fundamentam o pagamento de juros por empréstimos contraídos com terceiros, especialmente no que diz respeito aos índices de remuneração do capital "emprestado" e às condições para a sua dedutibilidade, que são fixadas em lei e não em um contrato de empréstimo tomado, por exemplo, junto a uma instituição financeira. De acordo com o art. 9º da Lei nº 9.249/1995, o índice de remuneração do capital admitido para fins de apuração do lucro real é a Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP definida especificamente para o período em que o capital dos sócios ficou à disposição da empresa, ou cinco por cento ao ano (o que for menor). Vale registrar que a TJLP é definida por períodos trimestrais, e que o dispositivo legal acima referido estabelece que tanto essa taxa quanto os cinco por cento ao ano devem ser aplicados "pro rata die", ou seja, proporcionalmente aos dias em que o capital dos sócios ficou em poder da empresa. A aplicação de uma taxa de juros que é definida para um determinado período de um determinado ano, e seu rateio proporcional ao número de dias que o capital dos sócios ficou em poder da empresa, configuram importante referencial para a identificação do período a que corresponde a despesa de juros, e, conseqüentemente, para o registro dessa despesa pelo regime de competência, que é a matéria examinada adiante. DO TRATAMENTO SOCIETÁRIO DAS DESPESAS (DE JCP). Pois bem, uma vez sedimentado que os JCP transitam pelo resultado como despesas, há que perquirir qual o tratamento específico dado pela legislação a essas despesas. Consultandose a legislação societária, constatase que, de fato, não há nenhum tipo de tratamento específico às despesas de JCPs. Em assim sendo, frente a esse vazio normativo da legislação comercial, concluo que as despesas de JCP entram nas regras gerais de tratamento de despesas. Como bem sabido, despesa é um item do resultado do exercício. Apurado o resultado do exercício a partir das receitas e das despesas, encerramse as receitas e as despesas, as contas contábeis onde são registradas são zeradas ao final do exercício. Não existe a possibilidade de uma conta de despesa ou de receita conservar seus saldos para exercícios futuros. Em outros termos, apurado o resultado, o que era receita deixa de sêlo e também o que era despesa deixa de sêlo. Fl. 1917DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 40 39 Apenas as contas patrimoniais tem influencia de um ano para outro, as contas de resultado de um exercício não podem influenciar anos subseqüentes, é um pilar essencial que as contas de resultado iniciamse e extinguemse dentro de um mesmo exercício. É o que se deduz do art. 187 da Lei nº 6.404, de 15/12/1976, que dispõe sobre as Sociedades por Ações (S.A.): Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: I a receita bruta das vendas e serviços, as deduções das vendas, os abatimentos e os impostos; II a receita líquida das vendas e serviços, o custo das mercadorias e serviços vendidos e o lucro bruto; III as despesas com as vendas, as despesas financeiras, deduzidas das receitas, as despesas gerais e administrativas, e outras despesas operacionais; IV o lucro ou prejuízo operacional, as receitas e despesas não operacionais; (Redação dada pela Lei nº 9.249, de 1995) V o resultado do exercício antes do Imposto sobre a Renda e a provisão para o imposto; VI as participações de debêntures, empregados, administradores e partes beneficiárias, e as contribuições para instituições ou fundos de assistência ou previdência de empregados; VII o lucro ou prejuízo líquido do exercício e o seu montante por ação do capital social. § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. Uma despesa, para ser deduzida do resultado societário de outro exercício, necessita de autorização legal nesse sentido que venha a ser uma exceção ao §1º do art. 187 da Lei das S.A. O conceito de exercício é precisamente definido pela legislação societária e, conforme o art. 175 da Lei das S.A., bem delimitado temporalmente (tendo duração de um ano), sem possibilidade de alteração desse período (exceto nos casos especiais relacionado no parágrafo único deste mesmo artigo); apenas a data de término pode ser alterada. SEÇÃO I Exercício Social Art. 175. O exercício social terá duração de 1 (um) ano e a data do término será fixada no estatuto. Parágrafo único. Na constituição da companhia e nos casos de alteração estatutária o exercício social poderá ter duração diversa. Fl. 1918DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 41 40 Ademais, o conceito de exercício é tão caro para a legislação societária que os próprios conceitos de resultado e de lucro líquido estão sobre eles assentados, é o que se infere da leitura dos arts. 176, 189 e 191 da Lei nº 6.404/1976. DO REGIME DE COMPETÊNCIA A Lei das Sociedades por Ações estabeleceu como regra de observância obrigatória o regime de competência, através de seu art. 177, a seguir transcrito: Escrituração Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicála em nota e ressaltar esses efeitos. ... Dessa imposição legal, verificase que as mutações patrimoniais da sociedade estão vinculadas ao regime de competência. Essa é a regra geral da Lei das S.A., e não é somente a regra geral, é a regra para a totalidade dos casos; pois, na legislação societária, não foi normatizada nenhuma exceção. E, onde não há exceção, na ausência de disposição expressa em contrário, a regra se aplica. Como não foi criada para as despesas de Juros com Capital Próprio nenhuma exceção própria ao regime de competência, daí então se conclui que elas estão submetidas a esse regime. Não há necessidade de disposição expressa na Lei das S.A. que preveja especificamente para as despesas de JCPs que elas devam atender ao regime de competência. Quando se fala em regime de competência, um outro conceito é interno a este, qual seja, o conceito de exercício social (tratado no tópico anterior). Assim regime de competência depende de exercício social, ou seja, é função deste; em outras palavras, mudou se o exercício social, mudouse o regime de competência; não se pode, portanto, construir um conceito de regime de competência dissociado de exercício social. Ademais, regime de competência é um instituto jurídico tradicional, de definição bem precisa e sobre o qual a legislação fiscal pôde estruturar a tributação no tempo. Confirase as disposições do art. 9º da Resolução CFC nº 750/93: SEÇÃO VI O PRINCÍPIO DA COMPETÊNCIA Art. 9º As receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, sempre simultaneamente quando se correlacionarem, independentemente de recebimento ou pagamento. § 1º O Princípio da COMPETÊNCIA determina quando as alterações no ativo ou no passivo resultam em aumento ou diminuição no patrimônio Fl. 1919DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 42 41 líquido, estabelecendo diretrizes para classificação das mutações patrimoniais, resultantes da observância do Princípio da OPORTUNIDADE. § 2º O reconhecimento simultâneo das receitas e despesas, quando correlatas, é conseqüência natural do respeito ao período em que ocorrer sua geração. (...) O regime de competência apresenta o seguinte elemento chave: o correlacionamento simultâneo entre as receitas e as despesas (também entendido como princípio do confronto das despesas com as receitas e com os períodos contábeis). A concretização do regime de competência para as despesas consiste no reconhecimento das despesas no momento em que incorridas, não estando relacionado (sendo o reconhecimento independente) com recebimentos ou pagamentos. Sobre essa realidade não preciso muito discorrer, sendo suficiente a lição da FIPECAFI2, em seu Manual3: 3.1.5.4 O PRINCÍPIO DO CONFRONTO DAS DESPESAS COM AS RECEITAS E COM OS PERÍODOS CONTÁBEIS ENUNCIADO: "Toda despesa diretamente delineável com as receitas reconhecidas em determinado período, com as mesmas deverá ser confrontada; os consumos ou sacrifícios de ativos (atuais ou futuros), realizados em determinado período e que não puderam ser associados à receita do período nem às dos períodos futuros, deverão ser descarregados como despesa do período em que ocorrerem..." É importante notar que a base do confronto não está relacionada ao montante dos recursos efetivamente recebido em dinheiro ou pago, no período, mas às receitas reconhecidas (ganhas), nas bases já mencionadas, e às despesas incorridas (consumidas) no período. Assim, podemos consumir ativos pagos no mesmo período ou adquiridos em períodos anteriores. Pode ocorrer o caso de sacrifícios de ativos, no esforço de propiciar receita, cujos desembolsos efetivos somente irão ocorrer em outro exercício, ou de se incorrer em despesas a serem desembolsadas posteriormente (sacrifício de ativo no futuro, ativo esse que pode nem existir hoje). Todas as despesas e perdas ocorridas em determinado período deverão ser confrontadas com as receitas reconhecidas nesse mesmo período ou a ele atribuídas, havendo alguns casos especiais: a) os gastos de períodos em que a entidade é total ou parcialmente préoperacional. São normalmente ativados para amortização como despesa a partir do exercício em que a entidade, ou a parte do ativo, começar a gerar receitas; b) a parcela dos gastos dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento que superar o montante necessário para manter o 2 FIPECAFI = Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras, FEA/USP. 3 Manual de Contabilidade das Sociedades por Ações (aplicável às demais sociedades). IUDÍCIBUS, Sérgio; MARTINS, Eliseu; GELBCKE, Ernesto Rubens. São Paulo: Editora Atlas S.A. 6a Edição, pgs. 64 e 65. Fl. 1920DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 43 42 setor em funcionamento, independentemente do número de projetos em execução. (Esses últimos gastos incluem os salários fixos dos pesquisadores e as depreciações dos equipamentos permanentes.) Todo o gasto incremental necessário para determinado projeto poderá ser ativado e, quando o projeto iniciar a geração de receitas, amortizado contra as receitas. Os gastos diferidos que não vierem a gerar receitas deverão ter seus valores específicos descarregados como perda no período em que se caracterizar a impossibilidade da geração de receita ou o fracasso ou desmobilização do projeto. Os gastos com propaganda e promoção de venda, mesmo institucional, deverão ser considerados como despesas dos períodos em que ocorrerem. Somente um motivo muito forte e preponderante pode fazer com que um gasto deixe de ser considerado como despesa do período, ou através do confronto direto com a receita ou com o período. Se somos conservadores no reconhecimento da receita, devemos sêlo, em sentido oposto, com a atribuição de despesas. Os juros e encargos financeiros decorrentes da obtenção de recursos para construção ou financiamento de ativos de longo prazo de maturação ou construção somente poderão ser ativados durante o período pré operacional. Entretanto, seu montante deverá ser contabilizado em conta específica de ativo a ser amortizada a partir do exercício em que o ativo entrar em operação. As demais despesas financeiras serão apropriadas aos períodos em que foram incorridas. Alguns pontos devem ficar bastante sedimentados, quais sejam: a) a base de confronto não está relacionada aos recursos pagos; b) as despesas financeiras devem ser apropriadas no período em que incorridas, excetuado os casos de despesas préoperacionais (aqui inaplicável); e c) somente situações extremamente especiais (como as mencionadas na lição, entre as quais não se enquadra o presente processo), autorizase a quebra da consideração da despesa do período através do confronto direto com a receita do período. Bem fixadas essas premissas, a aplicação ao caso concreto leva a constatar que as despesas de Juros com Capital Próprio devem ser confrontadas com as receitas que formam o lucro do período, ou seja, tem que estar correlacionadas com as receitas obtidas no período que se deu a utilização do capital dos sócios, no período em que esse capital permaneceu investido na sociedade. Assim, andou bem o voto vencedor do Acórdão nº 120100.348, de 11/11/2010, da lavra do Conselheiro Marcelo Cuba Netto, ao dizer: a pessoa jurídica deverá reconhecer a despesa ao longo do tempo em que empregado o capital objeto da remuneração. Também acertado o voto condutor do Acórdão n° 1201000.857, do mesmo Conselheiro citado, de 10/09/2013: a despesa com juros deve ser apropriada nos mesmos períodos em que a pessoa jurídica empregou o capital no desenvolvimento de suas atividades. Fl. 1921DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 44 43 Daí então se conclui que o incorrimento da despesa deve se dar no exercício das receitas (geradas pelo uso do capital) que vão formar o resultado do mesmo exercício; que, em sendo positivo, será chamado de lucro líquido daquele exercício. Sendo certo que as despesas devem estar correlacionadas com as receitas do mesmo exercício, questionase: o que as despesas de JCPs de um exercício têm a ver com as receitas do exercício anterior, ou com as receitas do exercício de dois, três, quatro ou cinco anos anteriores? Pareceme que nada. De fato, as despesas de JCP só guardam alguma correlação com as receitas que formam o lucro líquido do mesmo exercício, pois é neste período que o capital próprio foi empregado para geração de receitas (e, conseqüentemente, do lucro) daquele exercício. Portanto, eventual data da assembléia que determine pagamento de JCP não consegue atender ao regime de competência, primeiro porque se utilizou do principal fator que este regime teve o cuidado de absolutamente afastar (qual seja, o pagamento); depois porque a data de assembléia não representa duração de utilização, pela sociedade, do capital que lhe foi disponibilizado pelos sócios; e, por fim, esta data não é tempo de geração de receitas, para fins de confrontação. Não é correto entender que o incorrimento da despesa é o momento do pagamento (seja o determinado no estatuto ou contrato social, seja na data da assembléia que delibere sobre pagamento, seja na data da decisão da administração no silêncio destes). Nada mais contrário ao regime de competência, no qual o tempo do pagamento é totalmente irrelevante para o reconhecimento das despesas. Sabendose que o incorrimento da despesa se dá no exercício da aplicação do capital investido pelos sócios/acionista na sociedade (no tempo em que a empresa faz usufruto desse capital), ou ainda, que o incorrimento da despesas num exercício se opera quando há correlação com as receitas de igual exercício; é elementar ver que a data de AG que delibere sobre pagamento de JCPs não tem o condão de modificar a data do incorrimento das despesas de JCPs. Não obstante tudo o que se disse, é muito importante deixar claro que é possível fazer incorrer as despesas de JCP de um exercício relativamente ao capital disponibilizado naquele exercício e não efetuar pagamento algum a título de JCPs (assim não haverá lançamento do caixa/banco contra despesas). Neste caso, o que deve ser feito é a constituição da OBRIGAÇÃO/DÍVIDA DE PAGAR JCPs, que formará uma dívida da sociedade para com os sócios (sendo registrada no passivo), de forma que esse DEVER da empresa fique evidenciado. Isso está perfeitamente de acordo com o regime de competência. O tempo da constituição da obrigação de pagar juros é simultâneo ao do incorrimento das despesas, pois essa obrigação é a contrapartida contábil (para atender o método das partidas dobradas) do registro das despesas incorridas. E essa obrigação pode ser conservada ao longo de vários exercícios (ou seja, num exercício poderá haver passivos de JCPs de exercícios anteriores), sem que se aponte qualquer inobservância ao regime de competência; de forma que, quando se der o pagamento, satisfeita será a dívida, sem qualquer vinculação com as despesas de JCPs incorridas no eventual exercício em que houver o pagamento. Fl. 1922DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 45 44 Esses fatos serão relevantes mais à frente, para a interpretação da norma fiscal: o art. 9º da Lei nº 9.249/95. DA EXISTÊNCIA, OU NÃO, DO DIREITO DE FAZER INCORRER EM EXERCÍCIOS SUBSEQÜENTES DESPESAS DE EXERCÍCIOS ANTERIORES NÃO INCORRIDAS Analiso agora se as despesas de JCP que deixaram de ser incorridas em exercícios anteriores, que deixaram de ir ao resultado destes exercícios, podem ser incorridas em exercícios posteriores. Ou ainda, se a sociedade adquiriu, frente à legislação societária, o direito de deduzir, do lucro líquido, a despesa incorrida com a manutenção do capital dos sócios na sociedade em anos anteriores (embora não tenha deliberado sobre isso no momento adequado). Como visto no tópico anterior, as despesas de JCP, por não serem exceção ao regime de competência, são despesas padrão: devem ser levadas ao resultado quando incorridas (ao tempo em que o sócio disponibilizou o capital para a empresa) e independem do pagamento para sua dedução na contabilidade societária. Assim, a despesa é incorrida pela manutenção do capital dos sócios na empresa durante o exercício em que o resultado é apurado. Se a despesa for incorrida em exercício diferente ao do qual o capital vinculado a essa despesa esteve disponibilizado, então essa despesa não estará mais vinculada ao capital do exercício anterior, mas sim ao capital do exercício em curso; havendo, portanto, flagrante desrespeito à regra do confronto, e, conseqüentemente, ao regime de competência. O direito de fazer incorrer despesa na lei societária é determinado no tempo do art. 175 da Lei das S.A., ou seja, no exercício, assim não existe direito de fazer incorrer despesa de exercícios anteriores (art. 187, III e IV e §1º b). Na observância do regime de competência, também não há direito de postergação de despesa para exercícios seguintes. Ademais, as despesas de exercícios anteriores que deveriam ter lá tido seu incorrimento não podem ser incorridas em exercícios futuros, conforme vedação do art. 186, §1º, da Lei nº 6.404/1976: Art. 186. ... ... § 1º Como ajustes de exercícios anteriores serão considerados apenas os decorrentes de efeitos da mudança de critério contábil, ou da retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, e que não possam ser atribuídos a fatos subseqüentes. ... Portanto, o que ocorreu nos autos não foi mudança de critério contábil e também não foi retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, e que não possam ser atribuídos a fatos subseqüentes. Fl. 1923DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 46 45 Pelo exposto, concluo que não há direito algum4 de fazer incorrer em exercícios subseqüentes despesas de exercícios anteriores não incorridas, ou seja, inexiste direito da sociedade a deduzir do lucro líquido do ano despesas de JCP que deixaram de ser incorridas em anos anteriores, tanto por contrariedade ao art. 177 (regime de competência) como por não se enquadrar no art. 186, §1º, e no art. 187, III e IV e §1ºb, todos da Lei nº 6.404/1976 (Lei das S.A). O art. 192 da Lei das S.A. também auxilia na compreensão do problema: Proposta de Destinação do Lucro Art. 192. Juntamente com as demonstrações financeiras do exercício, os órgãos da administração da companhia apresentarão à assembléiageral ordinária, observado o disposto nos artigos 193 a 203 e no estatuto, proposta sobre a destinação a ser dada ao lucro líquido do exercício. A destinação do lucro é uma decisão submetida à assembléia de sócios/acionistas do exercício. E estes devem estar atentos aos itens de custos e despesas que acabam por reduzirem os seus lucros. Daí porque talvez a Lei das S.A. tenha sido tão restritiva no seu art. 186, §1º, em razão da seriedade que envolve a apuração do lucro líquido do exercício, com a conseqüente destinação dos lucros, impactando todos os exercícios futuros. Uma despesa que deixe de ser incorrida em um exercício e que pretensamente venha a ser ratificada em outro exercício pode acabar por reduzir o lucro de um quadro de sócios/acionistas diferente do quadro de sócios/acionistas do exercício em que a despesa não foi considerada, prejudicando uns em detrimento dos outros; e, inevitavelmente, influenciando o valor das ações. Esta consideração apenas não seria válida se a estrutura societária se mantivesse intacta durante os cinco anos ou mais, o que é muito improvável em se tratando de sociedade de capital aberto, ainda mais que a norma em debate é de aplicação aos mais diferentes setores da economia. E isso evidencia mais um problema para a tese de que "despesas" que poderiam/deveriam ter reduzido o lucro dos anoscalendário de 2002 e 2003 (se tivessem efetivamente existido naquela época) sejam computadas como tal no anocalendário de 2007. DA INTERPRETAÇÃO DO ART. 9º DA LEI Nº 9.429/95 O art. 9º da Lei nº 9.429/95 não modifica nada que esteja assentado na legislação comercial/societária, pelo contrário, ele deve ser interpretado de forma a se harmonizar com os princípios e regras gerais dessa legislação. A referida norma legal apenas concedeu autorização de dedutibilidade do lucro real das despesas incorridas5 e pagas, não concedeu esse tratamento para despesas pagas e não incorridas (como é o caso de despesas que deixaram de ser incorridas no exercício anterior, que poderiam ser despesas no exercício anterior; mas, nesse exercício, não são despesas, nem conservam a capacidade de serem incorridas). 4 O direito somente é adquirido se estiver de acordo com ordenamento jurídico, o que não se deu. 5 Porque se não forem incorridas sequer despesas serão. Fl. 1924DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 47 46 Na óptica da analogia que se fez com os empréstimos de modo geral como fundamento para pagamento de juros, a empresa não está limitada a deduzir, do lucro líquido do exercício, qualquer valor de despesas de JCP. Ou seja, para a legislação societária, não há qualquer restrição de quantidade, daí porque o capital pode ser disponibilizado para a empresa a taxas maiores do que a TJLP. Já no âmbito fiscal não se pode dizer o mesmo. As despesas de JCP do exercício devem observar conjuntamente os limites do caput e do §1º do art. 9º da Lei nº 9.429/95 e o excesso dessas despesas devem ser estornadas, em obediência ao art. 6º, §2º "a", do DecretoLei nº 1.598, de 26/12/1977. Conforme visto nos parágrafos anteriores, os JCPs podem passar de um exercício para o outro, desde que devidamente incorrida e escriturada a despesa dos JCPs no exercício em que o capital dos sócios foi utilizado pela empresa, e devidamente escriturada (no passivo) e constituída a corresponde obrigação/dívida de pagálos. Foi visto que essa forma de agir não contraria o regime de competência. A dúvida surge em relação a saber se este procedimento prejudica a norma do ponto de vista fiscal, o que demanda análise. A expressão utilizada pelo art. 9º da Lei nº 9.429/95 não foi "despesa de juros pagos ou creditados", foi apenas "juros pagos ou creditados"; assim, não se pode limitar esse artigo de forma a permitir apenas a dedução de despesas incorridas no exercício e pagas no mesmo exercício. Portanto, os "juros" devem ser entendidos como "despesa de juros" e "obrigações/dívidas6 de juros". Assim, podese falar em direito em relação a descontar juros pagos, seja pagamento das despesas de JCPs do exercício, seja satisfação pelo pagamento da dívida de pagar JCPs que tiveram suas despesas incorridas em exercícios anteriores. Esse segunda hipótese não impossibilita a dedução da despesa. O contribuinte alega inexistir restrição temporal neste artigo. Não há, propriamente, restrição temporal, há restrição material, explico: para que os JCP sejam pagos, é necessário que os JCP a serem pagos existam; caso contrário estarseia pagando outra coisa indedutível que não JCP (como foi o caso que resultou na autuação em julgamento). Ou ainda, há de existirem as despesas de JCPs do exercício (que serão pagas no exercício, o que dispensa a necessidade da constituir obrigação de pagar) ou existir obrigação de pagar JCPs para serem satisfeitas pelo pagamento, obrigação esta constituída em razão das despesas de juros relativas a exercícios anteriores não terem sido pagas nos exercícios em que incorridas. Não obstante, ainda que a norma fiscal não vede a dedução do lucro real dos valores pagos para extinguir a dívida de pagar JCPs de exercícios anteriores, também o montante pago daí originado está submetido aos dois limites (o do caput e o do §1º) do art. 9º da Lei nº 9.429/95. Ademais, tendo em vista serem os limites direcionados para os "juros" (assim entendido o gênero, dos quais as despesas e as obrigações seriam espécies), então este limite deve ser compartilhado (ou seja, os valores devem ser somados) entre o total das despesas pagas de JCPs do exercício e o total dos pagamentos para quitar as dívidas de pagar JCPs de exercício anteriores, estando o excesso submetido ao art. 6º, §2º, "a", do DecretoLei nº 1.598/1977. 6 Ou juros a pagar. Fl. 1925DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 48 47 No caso dos autos, não haviam obrigações/dívidas (ausência de passivo), da sociedade, de pagar JCPs vinculadas a despesas de JCPs incorridas em exercícios anteriores, estas dívidas inexistiam, em virtude de não terem sido constituídas pela falta do incorrimento, nos exercícios anteriores, das despesas de JCPs, resultando em desobediência do art. 177 (regime de competência) e do art. 186, §1º, da Lei das S.A. Assim, o que foi estornado sequer pode ser chamado de Juros sobre Capital Próprio (pois não era baixa de passivo de JCP, nem tampouco despesas de JCP já que essas somente as incorridas no exercício). Finalmente, registro que não entendo ser adequado tratar a questão sob a perspectiva de que houve renúncia ou decadência de direito pelo contribuinte. Tendo em vista que tanto a renúncia quanto a decadência tratam de formas que impedem o exercício de um direito: esta por implicar na caducidade do direito por perda do prazo de sua duração e aquela por perda do direito pela manifestação de não exercêlo, entendo por bem tratálas em conjunto. No âmbito tributário, a meu ver, o que ocorreu foi ausência de atendimento de requisito para gozo de benefício fiscal, mas não de ordem temporal e sim material: não existiam JCP para serem pagos! Deuse a situação de ausência de juros (seja por ausência de despesa já que a despesa só pode ser do exercício; seja por ausência de conversão da obrigação de pagar JCP). Ou seja, não houve o incorrimento da despesa com JCP e a conseqüente constituição da obrigação de pagar os JCP, o que permitiria, no caso de pagamento ou crédito, o enquadramento ao benefício fiscal de dedutibilidade do lucro real. O que foi pago, embora tenha sido denominado de "à título de JCP" não corresponde à satisfação (por meio de pagamento ou crédito) de obrigações com despesas incorridas de JCP. Portanto, não há que se cogitar de renúncia no âmbito tributário, se não atendo aos requisitos para usufruto de um benefício fiscal, isso não implica em concluir que estou renunciando ao mesmo, implica em concluir que sequer tenho a capacidade de renunciá lo; ou, que se o fizer, essa renúncia não produz efeito algum, pois de que adianta renunciar a algo que não obteria ainda que não houvesse renunciado. Ainda que fosse caso de aplicação dos institutos jurídicos da renúncia ou da decadência, esta seria no âmbito societário e não no âmbito fiscal; seria, assim, renúncia/perda de prazo de fazer incorrer a despesa de JCP na lei societária, ou ainda, do direito de deduzir do lucro líquido (e não do lucro real) essa despesa incorrida em exercícios anteriores. Ocorre que o pressuposto lógico para aplicação dos institutos da renúncia e também da decadência é haver a existência de algum direito. O problema é que não há direito dos sócios de exigir os juros sobre o capital próprio, tampouco há obrigação da sociedade, quando da ausência da deliberação de fazêlos incorrer. A simples manutenção do capital na empresa não pode ser presumida como intenção de receber JCPs e não constitui uma obrigação da sociedade de remunerar os sócios através de JCP; o mero fato da permanência do capital dos sócios na empresa não pode, na ausência de ficções legais (a exemplo de presunção) ou de manifestação de vontade, ser juridicamente associado a uma forma específica de remuneração do capital. Fl. 1926DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 49 48 Caso se aceite a existência do "direito" de fazer incorrer em exercícios subseqüentes despesas de exercícios anteriores não incorridas (pois não houve renuncia, já que não houve manifestação de vontade em não fazer, e nem decadência, já que não há prazo que fulmine esse direito), aí sim a discussão teria algum sentido. Mas já se verificou que esse direito não existe, pois somente poderia se sustentar se as prescrições da própria legislação societária tivessem sido observadas e não haver aplicação de nenhuma das suas vedações. Como se viu anteriormente, o art. 177, o art. 186, §1º, e o art. 187, III e IV e §1º, "b", da Lei das S.A. não foram respeitados, a sociedade não observou o regime de competência (ausência de correlação despesareceita/capital), bem como se encaixou na vedação das possibilidades de ajustes extemporâneos. Aqui, a situação é de não cumprimento de obrigação: ao não fazer da forma correta, surge a vedação de fazer. Não é que o regime de competência disponha sobre prazo decadencial do direito de deduzir do lucro líquido despesas incorridas em anos anteriores ou permita essa dedução, desde que esse direito não seja renunciado. Na verdade, o regime de competência simplesmente não permite7 a dedução do lucro líquido de despesas incorridas em anos anteriores, ou seja, esse direito sequer existe, ainda mais quando não há autorização para fazer incorrer a despesa. Como esse assunto já foi suficientemente explorado em tópicos anteriores, entendo não ser preciso dizer mais. Concluo, portanto, que, na ausência de direito a deduzir do lucro líquido despesas de JCP incorridas em anos anteriores, simplesmente não há que se falar nos institutos jurídicos da renúncia ou da decadência, por falta do pressuposto básico dos mesmos. Apenas para encerrar a discussão, analiso qual o direito que nasce com a deliberação decorrente da assembléia geral relativa ao pagamento ou crédito de JCP. Certamente dessa deliberação nasce um direito para os sócios de receber os valores a eles creditados, bem como nasce um dever para a sociedade de pagálos ou creditá los. Mas como esses valores não podem corresponder a conversão de obrigações anteriores de JCP, já que não houve incorrimento de despesas de JCP nos anos anteriores, resta apenas a alternativa de reclassificar o que está denominado de pagamento a título de JCP, para registro de algum tipo de direito da sociedade para com os sócios, distribuição de dividendos, etc. Diante de todo o exposto, NEGO provimento ao Recurso Especial interposto pela contribuinte. 7 Exceto os decorrentes de efeitos da mudança de critério contábil, ou da retificação de erro imputável a determinado exercício anterior, e que não possam ser atribuídos a fatos subseqüentes. Fl. 1927DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 50 49 RECURSO ESPECIAL DA PGFN Mantida a glosa das despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referentes a períodos anteriores, o que confirma os recolhimentos a menor das estimativas mensais de IRPJ/CSLL, cabe analisar agora o recurso especial da PGFN. Como já relatado, a PGFN suscita divergência jurisprudencial em relação à parte da decisão que cancelou a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL. A contribuinte, em sede de contrarrazões, apresenta uma preliminar de não conhecimento do recurso. Invocando o artigo 67, § 3º, do RICARF, a alegação é de que o recurso especial estaria confrontando decisão que adotou entendimento de súmula do CARF, no caso, a Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. De acordo com a contribuinte, este seria o caso dos autos, porque na redação da Súmula n° 105 não há qualquer distinção para os fatos geradores ocorridos após as alterações trazidas pela Lei n°11.488/2007. A preliminar é improcedente. A referida alteração legislativa introduzida pela Lei nº 11.488/2007 buscou justamente resolver o problema que constava no texto original da Lei nº 9.430/1996, e fez com que a multa isolada passasse a incidir "sobre o valor do pagamento mensal" e não mais "sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição". A redação antiga da lei era o que justificava as decisões que cancelavam a multa isolada sob alegação de concomitância, porque as bases da multa isolada por falta de estimativa mensal e da multa de ofício por falta de tributo no ajuste anual eram as mesmas ("a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"). Era esse o contexto normativo e jurisprudencial que motivou a edição da referida Súmula nº 105. A mudança implementada não abarcou apenas aspectos formais de redação. A multa em questão, que era prevista no §1º, inciso IV, do art. 44 da Lei nº 9.430/1996, passou a constar do inciso II, alínea "b", do art. 44 da mesma lei. O percentual da multa, que era de 75%, foi alterado para 50%. E o aspecto principal, como já destacado, é que a base para a incidência da multa isolada passou a ser "o valor do pagamento mensal". A referida súmula teve até o cuidado de fazer referência explícita ao dispositivo antigo da Lei 9.430/1996 ("multa isolada ... lançada com fundamento no art. 44 §1º, Fl. 1928DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 51 50 inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996"), porque é apenas no contexto da redação desse dispositivo que ela se aplica. Realmente, a Súmula CARF nº 105 não é aplicável para fatos ocorridos a partir de 01/01/2007, quando passaram a produzir efeitos as alterações introduzidas pela MP nº 351/2007, que foi convertida na Lei nº 11.488/2007. Como o recurso especial da PGFN trata de multa isolada for falta/ insuficiência de recolhimento de estimativas no anocalendário de 2007, não é correto o entendimento de que o recurso estaria contrariando o entendimento da Súmula CARF nº 105. Assim, a Preliminar de não conhecimento deve ser rejeitada. Quanto ao mérito, considero oportuno reproduzir os fundamentos do voto que orientou um dos paradigmas apresentados pela PGFN (Acórdão nº 1802001.408), em que foi negado provimento a recurso voluntário do contribuinte que pedia o cancelamento da multa isolada: Voto Vencedor Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, Redator designado. Em que pesem as razões de decidir do eminente relator, peço vênia para dele divergir quanto à multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas mensais. A previsão dessa penalidade está contida no art. 44 da Lei 9.430/1996, com as alterações introduzidas pela Lei 11.488/2007, já vigentes à época dos fatos: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I – (...) II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) a) (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) Ao determinar que a multa isolada será aplicada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente”, a norma legal evidencia aspectos importantes. Primeiramente, a clareza do texto não admite outra leitura, senão a de que a referida multa será aplicada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa (...)”. Não há espaço para outra Fl. 1929DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 52 51 interpretação, a menos que se admita o afastamento de norma legal vigente, tarefa que não compete à Administração Tributária. Além disso, a hermenêutica jurídica ensina que se deve preferir a inteligência dos textos que torne viável o seu objetivo, ao invés da que os reduza à inutilidade. Nesse caso, um entendimento contrário (de que essa multa não incidira em caso de prejuízo ...) implicaria na supressão ou inutilidade de todo o adendo estabelecido na alínea “b” acima transcrita (ainda que tenha sido apurado prejuízo ...). Vêse também que o texto diz “ainda que tenha sido apurado prejuízo ....” e não “ainda que venha a ser apurado prejuízo...”, numa clara indicação de que a multa deve ser aplicada mesmo com o período já encerrado, e não apenas no ano em curso. Tais aspectos não deixam nenhuma dúvida de que as estimativas mensais configuram obrigações autônomas, que não se confundem com a obrigação tributária decorrente do fato gerador anual, em 31 de dezembro. Sua natureza jurídica, inclusive, a faz destoar totalmente do padrão traçado pelo art. 113 do CTN (que trata das obrigações tributárias), pois ela é uma obrigação que surge antes da ocorrência do fato gerador do tributo. Seu pagamento, por outro lado, nada extingue, gerando apenas um registro contábil de crédito a favor do contribuinte, a ser aproveitado no futuro. Além disso, nos termos do art. 44 da Lei 9.430/96, essa obrigação subsiste mesmo que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL. Ou seja, existe ainda que não haja tributo devido no ajuste. Com mais razão, portanto, ela deve existir quando há tributo devido ao final do ano, e é esse o nosso caso. Realmente não há entre as estimativas e o tributo devido no final do ano uma relação de meio e fim, ou de parte e todo (porque a estimativa é devida mesmo que não haja tributo devido no ajuste), e, sendo assim, a multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Ainda que assim não fosse, caberia assinalar que não há no Direito Tributário algo semelhante ao Princípio da Consunção (Absorção) do Direito Penal, o que também afasta os argumentos sobre a concomitância de multas. Finalmente, é preciso ressaltar que não há um regime de tributação de IRPJ/ CSLL em que o contribuinte apure o tributo anualmente e o recolha somente no ajuste, com vencimento no último dia útil do mês de março do ano subseqüente. O que há é um regime de apuração anual (opcional) no qual o contribuinte fica obrigado a realizar recolhimentos mensais no decorrer do ano, por meio de estimativas, ressalvada a possibilidade de suspender ou reduzir estes recolhimentos mensais mediante a elaboração de balancetes cumulativos de suspensão ou redução desta obrigação. Fosse o caso de um tributo com fato gerador instantâneo, ocorrido em 31 de dezembro, e com vencimento no mês de março subseqüente, todo o Fl. 1930DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 53 52 problema relativo ao descumprimento da obrigação estaria resolvido (compensado) pela multa normal de 75%, prevista no inciso I do art. 44 da Lei 9.430/1996, com as suas devidas majorações, quando cabíveis. Mas tratandose de tributo com fato gerador complexivo, como é o caso do IRPJ e da CSLL, em que a opção pela apuração anual impõe também a obrigação de recolhimentos mensais (as chamadas “antecipações”), a multa de 75%, embora puna o descumprimento da obrigação vencida em março do ano seguinte (ajuste anual), não resolve todos os problemas, porque ela não compensa o atraso no ingresso dos recursos, que deveriam ter sido recolhidos ao longo do próprio ano. O prejuízo sofrido pelos cofres públicos em relação ao atraso nas “antecipações” ficaria a descoberto, não fosse a multa isolada em questão, que está prevista justamente para preencher esta lacuna, dando eficácia ao regime de apuração anual com estimativas mensais. Se não houvesse essa multa isolada, nenhum contribuinte faria recolhimento de estimativas mensais, deixando para recolher todo o tributo de uma só vez, e somente no ajuste, em março do ano seguinte. Vejo com bastante clareza que a multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente. Com efeito, estamos diante de penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em concomitância de multas. Nestes termos, também em relação à multa isolada, nego provimento ao recurso voluntário. Em sede de contrarrazões, a contribuinte alega, em resumo: que uma única conduta refletiu nas diferenças mensais e na diferença anual apurada pela fiscalização; que não se pode aplicar duas penalidades nesse caso, pois se trata de uma única conduta; que não teria cabimento a exigência da multa isolada, pois esta somente pode ser exigida quando não existe valor de principal a ser exigido (hipótese de prejuízo fiscal/base negativa de CSLL ou de já se ter recolhido o tributo); que quando houver tributo a ser pago no ajuste, a lei é clara ao estabelecer que a multa punitiva deverá ser cobrada juntamente com o valor do principal; e que esse é o entendimento que se extrai da Lei n° 9.430/96 e que foi expressado no art. 15 da Instrução Normativa SRF n° 93, de 1997. Inicio o exame dessas alegações esclarecendo que o art. 15 da IN SRF n° 93/1997 não endossa o entendimento defendido pela contribuinte. Esse dispositivo apenas esclarece que no curso do anocalendário não será realizado lançamento para exigência de estimativas não recolhidas, e que, nesse caso, o lançamento "restringirseá à multa de ofício sobre os valores não recolhidos". Fl. 1931DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 54 53 No mesmo passo, o art. 16 da citada IN, ao tratar das diferenças apuradas após o término do anocalendário, estabelece: Art. 16. Verificada a falta de pagamento do imposto por estimativa, após o término do anocalendário, o lançamento de ofício abrangerá: I a multa de ofício sobre os valores devidos por estimativa e não recolhidos; II o imposto devido com base no lucro real apurado em 31 de dezembro, caso não recolhido, acrescido de multa de ofício e juros de mora contados do vencimento da quota única do imposto. (g.n.) A Instrução Normativa, no caso de o lançamento ser realizado após o término do anocalendário, determina claramente a exigência das duas multas. Da multa sobre as estimativas não recolhidas e da multa que acompanha o tributo apurado no ajuste anual. O que a legislação esclarece é apenas que não será realizado lançamento de ofício para exigência da própria estimativa que deixou de ser recolhida. A exigência do tributo em si (a chamada "rubrica principal") é sempre feita com base na apuração de ajuste anual. Contudo, a aplicação das duas penalidades mencionadas acima é perfeitamente possível, uma vez que elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos. O voto acima transcrito elucida com clareza esses aspectos. A contribuinte, ao deduzir despesas em excesso no curso do anocalendário de 2007, acarretou dois prejuízos aos cofres públicos. Um deles, é de não ter recolhido integralmente, em 31/03/2008, o tributo devido no ajuste anual (o que justifica a multa de ofício exigida juntamente com o tributo lançado em 30/05/2012). Antes disso, porém, já havia outro prejuízo, na medida em que valores já deveriam ter ingressado nos cofres públicos no curso do próprio ano de 2007, via recolhimento de estimativas mensais (o que justifica a multa isolada por falta das "antecipações"). Não é aceitável o argumento de que a multa isolada somente pode ser exigida quando não existe valor de principal a ser exigido, na hipótese de prejuízo fiscal/base negativa de CSLL, ou de já se ter recolhido o tributo. Ora, se a multa isolada deve ser aplicada "ainda" que não haja tributo devido no ajuste (em razão de prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, conforme o texto da lei), com mais razão ela deve ser exigida se há tributo devido ao final do ano, e ainda não quitado. A noção de justiça força essa conclusão, e o fato de a lei utilizar a expressão "ainda", a endossa. Não seria razoável punir por falta de "antecipações" aquele que nada deveu no ajuste anual, e exonerar dessa penalidade aquele que era realmente devedor de tributo. Fl. 1932DF CARF MF Processo nº 10805.721654/201219 Acórdão n.º 9101002.699 CSRFT1 Fl. 55 54 Para concluir, transcrevo a ementa de um recente precedente desta 1ª Turma da CSRF, orientado por voto da Conselheira Adriana Gomes Rêgo, que aborda com grande maestria os inúmeros aspectos relacionados a essa matéria, e que também reforça o que já se disse sobre a preliminar e as questões de mérito acima examinadas: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008, 2009 MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO. A alteração legislativa promovida pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44, da Lei nº 9.430, de 1996, deixa clara a possibilidade de aplicação de duas penalidades em caso de lançamento de ofício frente a sujeito passivo optante pela apuração anual do lucro tributável. A redação alterada é direta e impositiva ao firmar que "serão aplicadas as seguintes multas". A lei ainda estabelece a exigência isolada da multa sobre o valor do pagamento mensal ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base negativa no anocalendário correspondente. No caso em apreço, não tem aplicação a Súmula CARF nº 105, eis que a penalidade isolada foi exigida após alterações promovidas pela Medida Provisória nº 351, de 2007, no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. Nestes termos, voto no sentido de restabelecer a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas. Resumindo, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso especial da contribuinte, mantendo a glosa das despesas com pagamento de juros sobre capital próprio referentes a períodos anteriores; e de DAR provimento ao recurso especial da PGFN, para fins de restabelecer o lançamento da multa isolada por falta de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL no anocalendário de 2007. (documento assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1933DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.724685/2015-06
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed May 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário:2007,2008
RECURSO INTEMPESTIVO. PEREMPÇÃO. NÃO CONHECIMENTO.
Demonstrada nos autos a intempestividade do recurso voluntário, não se conhece das razões de mérito, por perempção.
Numero da decisão: 1402-002.426
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, conhecer do recurso apenas no que se refere à arguição de tempestividade para negar-lhe provimento e atestar a perempção. Vencidos os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei que votaram por conhecer do recurso voluntário em relação à arguição de decadência, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (presidente). Ausente justificadamente o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira.
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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PEREMPÇÃO. NÃO CONHECIMENTO. Demonstrada nos autos a intempestividade do recurso voluntário, não se conhece das razões de mérito, por perempção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, conhecer do recurso apenas no que se refere à arguição de tempestividade para negarlhe provimento e atestar a perempção. Vencidos os Conselheiros Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei que votaram por conhecer do recurso voluntário em relação à arguição de decadência, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 46 85 /2 01 5- 06 Fl. 1374DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.375 2 Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (presidente). Ausente justificadamente o Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira. Fl. 1375DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.376 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte acima identificada em face de decisão exarada pela 5ª Turma da DRJ/RJO em sessão de 23 de fevereiro de 2016 (fls. 769/796)1, que julgou improcedente a impugnação apresentada e manteve os lançamentos perpetrados pelo Fisco. Os autos de infração de IRPJ e CSLL ora em discussão foram assim lavrados (fls. 1396/1443): a) IRPJ b) CSLL DA ACUSAÇÃO FISCAL 1 A numeração referida das fls., quando não houver indicação contrária, é sempre a digital Fl. 1376DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.377 4 Segundo o TVF (fls. 303/330), as irregularidades estão assim descritas, conforme bem resumido pela decisão recorrida: “O presente processo tem origem nos autos de infração de fls. 331/339 e 341/347, lavrados pela DRF/RJ I, dos quais a interessada acima identificada foi cientificada em 25/09/2013, conforme faz prova o termo de ciência de lançamentos, fls. 385/386, consubstanciando exigência do imposto sobre a renda da pessoa jurídica no valor de R$ 79.978.082,14 e da contribuição social sobre o lucro líquido, R$ 28.809.389,57; acrescidos da multa de ofício no percentual de 75% e dos juros moratórios. 2. O autuante, no auto de infração, fl. 332, descreve, em síntese, que apurou falta de adição ao lucro líquido do exercício de lucros auferidos no exterior, na determinação do lucro real, nos valores de R$ 137.214.641,77 e R$ 182.889.686,75, referentes aos fatos geradores de 31/12/2007 e 31/12/2008. O lançamento está alicerçado no art. 3º da Lei nº 9.249/95, art. 394 do RIR e MP nº 2.15835/2001. 3. Com o objetivo de comprovar os lançamentos efetuados, o autuante juntou aos autos o termo de verificação fiscal, fls. 303/329, termos e os documentos, fls. 2/302. Em síntese, descrevo as informações constantes do termo de verificação citado: 3.1. o contribuinte auferiu lucro no exterior não computados como adição ao lucro líquido, das empresas Brascuba Cigarrilos, em Cuba, e Yolanda Nederlands BV, Holanda, nos anoscalendário de 2007 e 2008, nos valores registrados em fl. 304, resultando na lavratura de auto de infração, processo nº 11052.000688/201019; 3.2. após a impugnação apresentada, a 5ª Turma da DRJ/RJO acordou pela nulidade do auto de infração; 3.3. a União, por intermédio da Procuradoria da Fazenda Nacional e da DRJ declararam a nulidade por vício formal; 3.4. em consequência, foi emitido novo MPF, com termo de início de fiscalização datado de 29/08/2014; 3.5. foi solicitado a documentação referente ao lucro auferido no exterior; 3.6. da análise da documentação, constatou as seguintes irregularidades: 3.6.1. em relação à controlada Brascuba: o contribuinte não incluiu os lucros na data do balanço em que foram apurados, consoante determinação do art. 74 da MP nº 2.15835/2001. Este inclui no ano seguinte, isto é, os lucros de 2007 e 2008 foram oferecidos em 2008 e 2009, respectivamente; 3.6.2. da Yolanda Nederlands os lucros foram integralmente reconhecidos na contabilidade da autuada, através do resultado de Fl. 1377DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.378 5 equivalência patrimonial, todavia, não foram adicionados ao lucro líquido, para determinação do lucro real. 3.7. dos tratados internacionais e da disponibilização dos lucros: referente aos lucros da controlada na Holanda, o contribuinte deixou de oferecer à tributação, por entender que estaria resguardado pelo art. VII do Tratado celebradoentre o Brasil e o Reino dos Países Baixos para evitar a dupla tributação, mas os lucros auferidos no exterior se enquadram no art. X que permite a tributação pelo Brasil. Considera que os lucros no exterior são dividendos previstos no item 3 do art. 10 do Tratado, sendo, por força do art. 74 da MP nº 2.158/2001, considerados pagos no momento que foram apurados no balanço, na proporção da participação societária; 3.8. a tributação dos lucros da empresa na Holanda não contraria o art. VII do Tratado BrasilReino dos países baixos; 3.9. a base lançada está registrada e demonstrada em fls. 329/409. 4. Este lançamento decorreu do julgamento da 5ª Turma da DRJ/RJO que acordou pela nulidade dos lançamentos, fls. 876/892 do processo nº 11052.000688/201019, Acórdão n.º 37.216, de 12/05/2011, mantido pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, fls. 910/918”. DA IMPUGNAÇÃO (fls. 394/409) Ainda lançando mão do relatório da decisão contestada, reproduzo a síntese da impugnação apresentada junto à Turma Julgadora de 1º Piso: “5.1. Como preliminar, argüiu: a anulação do anterior auto de infração se deu por vício material, ausência de motivação e de enquadramento legal para a acusação, o que inclusive teria prejudicado o pleno exercício do direito á defesa (violação do art. 10, III e IV da Decreto nº 70.235/72). Se fosse vicio formal como alegado, o CSRF o teria superado e decidido a questão no mérito, como fez questão de manifestar o Ilmo. Conselheiro Relator na sessão de julgamento e em seu voto; houve o transito em julgado administrativo, sendo que a própria d. Procuradora da Fazenda Nacional, concordando com os termos das decisões administrativas, não interpôs recurso para a Câmara Superior contra o Acórdão nº 1301001.314 proferido pelo CARF; a motivação do lançamento é alterada nesse novo lançamento, que traz a descrição do suposto fato gerador (i.e. que houve apuração de lucros pela Netherlands e Brascuba, não disponibilizados à impugnante) e, dessa vez, vem fundamentando no art. 74 da MP 2.15835/2001, que obrigaria a tributação automática desses lucros, independentemente de sua efetiva disponibilização; Fl. 1378DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.379 6 a pretensão fiscal com essa nova autuação foi “corrigir” os vícios materiais, vício de motivação, estando extinto o suposto crédito tributário pela decadência, nos termos dos arts. 150, §4º, e 156. V do CTN, pois são fatos geradores de 2007 e 2008. Ressalta que mesmo na hipótese do art. 173 do CTN estaria extinto o direita ao lançamento; em decisão unânime, não recorrida, o E. CARF, decidiu não se tratar de mero formalismo o defeito do ato. Tratouse de defeito em sua estrutura material. E o fez, confirmando decisão da DRJ; tal decisão do CARF evidência a contrariedade do lançamento com o art. 142 do CTN; cita a Solução de Consulta Interna nº 8 de 08/03/2013, considerando que a própria RFB reconhece que erro no processo de subsunção dos fatos a regra matriz de incidência é de natureza material; o próprio TVF reconhece que o lançamento anterior encontravase fundamentado em incorreta descrição dos fatos, o que gerava uma completa ausência de motivação e que os dispositivos legais não correspondiam à infração. Assim, o TVF reconhece o vício material; que todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados de sua procuradora citada em fl. 409 5.2. No mérito, aduziu: 5.2.1. quanto aos lucros auferidos pela Netherlands: o método de equivalência é neutro para fins fiscais, não podendo ser utilizado como método de tributação; no caso concreto deve ser reconhecida a prevalência do tratado para se evitar a bitributação celebrado entre o Brasil e a Holanda sobre disposto no art. 74 da MP 2.15835/2001, nos termos do art. 98 do CTN; O art. 7º do TDT BrasilHolanda dispõe”os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributados nesse Estado”, assim, temse que a proteção em questão não impede apenas que as empresas sediadas no exterior sejam alcançadas por tributos brasileiros, mas sim protege, da tributação pelo Brasil, os lucros auferidos pela Netherlands, como riqueza econômica, de uma forma objetiva; deve ser afastado o entendimento do dividendo ficto, aplicandose o art. 10 do TDT BrasilHolanda, pois são dividendos pagos, ou seja, efetivamente distribuídos e passíveis de tributação, dentre os quais não se enquadra os dividendos fictos criados pelo art. 74 da MP nº 2158 35/2001; também não se enquadraria no conceito de Regime de Transparência Fiscal ou de CFC pois a regra não satisfaz os pressupostos definidos pela OCDE para a aplicação desse tipo de regime, na medida em que essa modalidade de norma tem como característica principal a sua aplicação somente quando presentes condutas abusivas de contribuintes investidores em países exteriores com o objetivo de afastar a tributação Fl. 1379DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.380 7 sobre lucros auferidos no exterior, o que não corresponde ao presente caso; 5.2.2. quanto aos lucros auferidos pela Brascuba. os lucros auferidos foram adicionados às bases de cálculo e tributados no ano em que disponibilizados, anoscalendário de 2008 e 2009, como comprovam os documentos já apresentados no curso da fiscalização e que também seguem anexados (doc. 9 a 12), o que demonstra que o crédito tributário que ora se pretende exigir está extinto nos termos do art. 156, I do CTN e que a pretensão da sua exigência representa bis in idem e evidencia enriquecimento ilícito da Fazenda; a divergência quanto ao momento de adição dos lucros não poderia implicar em exigência de tributos, somente a atualização monetária nos termos do art. 273 do RIR/99 e do Parecer Normativo 2/96; a aplicação do art. 273 não é discricionária. O lançamento integral tornao imprestável, não passível de retificação, sob pena de alteração do critério jurídico, em patente violação ao art. 146 do CTN, sendo imperioso o seu cancelamento; ainda ressalta que ao quantificar a matéria tributável supostamente devida, deixou de realizar a compensação do imposto recolhido pela Brascuba às autoridades cubanas, nos termos do art. 26 da Lei nº 9.249/96, e ainda utilizou taxa de câmbio errada para conversão dos lucros pois não utilizou a taxa para venda no dia das demonstrações financeiras,como determina o art, 25,§4º da Lei nº 9.429/95, o que só corrobora a precariedade da presente cobrança; não pode cobrar juros de mora sobre multa e ofício, nos termos do art. 61, §3º da Lei nº 9.430/96; conclui pela improcedência do lançamento”. DA DECISÃO RECORRIDA (fls. 2023/2053) Analisando o litígio, a 5ª Turma da DRJ/RJO considerou procedentes os lançamentos, mantendo a autuação, em Acórdão assim ementado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008 VICIO DE FORMA. AUSÊNCIA DE ELEMENTO CONSTITUTIVO OBRIGATÓRIO. AUSÊNCIA DO VÍCIO MATERIAL. A ausência de elemento constitutivo obrigatório para o lançamento gera a nulidade deste por vício de forma, não estando presente o vício material quando o lançamento está devidamente descrito. DECADÊNCIA. NOVA DECISÃO. VÍCIO DE FORMA. AUSÊNCIA. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue se após 5 (cinco) anos contados da data em que se tornar definitiva a Fl. 1380DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.381 8 decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 LUCRO NO EXTERIOR. CONTROLADA. EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. ADIÇÃO AO LUCRO REAL. Os lucros auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. LUCRO NO EXTERIOR. POSTERGAÇÃO. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTO RECOLHIDO. A inexatidão quanto ao período de reconhecimento de lucro somente constitui fundamento para lançamento por postergação caso tenha ocorrido pagamento no período onde o lucro foi reconhecido. Caso contrário, cabível será o lançamento do lucro não incluído no lucro real. LUCRO AUFERIDO NO EXTERIOR. COMPENSAÇÃO DO IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR. Cabe ao contribuinte a cabal comprovação do imposto recolhido, apresentando todos os elementos que dêem convicção, nos termos da legislação tributária, do efetivo recolhimento do imposto. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Anocalendário: 2007, 2008 CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO. DECORRÊNCIA. O lançamento decorrente segue o resultado do principal, em razão de sua estreita relação de causa e efeito. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido DO RECURSO VOLUNTÁRIO A recorrente foi cientificada do R. decisum em 16/03/2016 (fls. 802/803/805), pelo decurso do prazo de 15 dias após a disponibilização, em sua Caixa Postal eletrônica, dos arquivos relativos à decisão recorrida, fluindo a partir do dia seguinte, 17 de março de 2016, quintafeira, o trintídio legal para interposição do recurso voluntário, vencendo, pois, tal prazo, em 15/04/2016, uma sextafeira. Na sua longa peça recursal, a recorrente centra sua defesa em quatro frentes principais, a saber: a) antecipadamente a qualquer matéria fática ou de direito, argui “tempestividade” do recurso voluntário, sobre a qual discorre exaustivamente; b) preliminar de decadência, fruto do reconhecimento de que os lançamentos aqui presentes, como reflexo do procedimento fiscal formalizado no Fl. 1381DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.382 9 Processo nº 11052.000688/201019, na qual a recorrente é parte e que teve os lançamentos cancelados com decretação de nulidade dos atos por vício (no entendimento da recorrente, vicio material, no do Fisco, vício formal); c) no mérito, a correção de seu procedimentos em relação aos lucros disponibilizados por coligadas (Cuba) e controlada (Países Baixos) no exterior; d) inaplicabilidade da imposição de juros sobre a multa de mora. DA TEMPESTIVIDADE Acerca da tempestividade, noticia que tomou ciência em 16/06/2016 (quinta feira) da intimação do resultado da decisão da DRJ (Ac. 1279.680), motivo pelo qual, nos termos do artigo 33 do PAF e 73 do Decreto nº 7.574/2011, o RV seria tempestivo. Salienta que, “embora o referido Acórdão tenha sido disponibilizados em sua Caixa Postal do eCAC em 01.03.2016”, somente teria, “efetivamente”, tomado ciência do teor da intimação e consequentemente da decisão da DRJ em “16.06.2016, conforme atesta o Termo e Abertura de Documento” (...), “motivo pelo qual não se pode alegar que a Recorrente teria sido intimada do Acórdão em data anterior a 16.06.2016”. Clama pelos princípios da ampla defesa e do contraditório, diz que os atos públicos têm que ter publicidade, reportase às formas de intimação previstas no PAF (pessoalmente, via postal, por meio eletrônico e edital), pontua que cabe ao contribuinte definir seu domicílio tributário e que só na falta de eleição pelo sujeito passivo é que a Administração poderá fazêlo de ofício, comenta sobre o artigo 23, do PAF, diz que a intimação eletrônica só surgiu a partir de 2011 pelo DTE, que, “em um primeiro momento não aderiu a essa forma de intimação”, e que somente em março de 2014, “se viu obrigada” a se cadastrar no DTE para que pudesse dar continuidade às suas operações, como no caso de utilização do Siscomex. (destaques no original). Literalmente escreve (fls. 821 – negritado no original): “Pois bem. Assim, consoante demonstrado, temse que para a regular intimação das partes nos processos administrativos fiscais, o artigo 127 do CTN e o artigo 23 do Decreto 70.235/72 determinam que cabe ao contribuinte indicar o domicílio no qual receberá intimações”. Diz ainda que “ciente das falhas ocorridas na intimação eletrônica (...) requereu expressamente (...) que as decisões proferidas no presente Processo Administrativo fossem encaminhadas diretamente para sua patrona (...) com endereço (...)” (destaques no original). Sustenta ser nula a intimação da decisão de 1º grau em razão de não ter sido a intimação do resultado “encaminhada ao domicílio tributário eleito pela Recorrente”, o que constituiria flagrante violação ao devido processo legal, ampla defesa e contraditório. Mais, que em razão destes fatos, “só teve ciência da decisão em 16/06/2016 (data da primeira leitura) e não na data que supostamente a decisão teria sido encaminhada ao seu DTE” (negrito no original). Fl. 1382DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.383 10 Cita e transcreve decisões judiciais e administrativas, sustenta que a Portaria nº 259/2006 da SRF, artigo 1º, § 3º, “jamais foi informada que o presente processo teria intimações eletrônicas, conforme determina o referido dispositivo”. Acosta mais jurisprudência e conclui o tópico (fls. 827/828): “Por fim, caso os Ilustres Julgadores entendam que não seria o caso de a intimação ter sido encaminhada à patrona da Recorrente, o que se admite apenas a título argumentativo, ainda assim a intimação é nula, pois, diante da ausência de ciência da intimação pela Recorrente, deveria ter sido efetuada a intimação por edital. (...) Por todo o exposto, a Recorrente entende que resta demonstrada a patente nulidade da intimação da decisão de 1ª instância, haja vista que: (i) não foi encaminhada para o domicílio eleito ela Recorrente, nem tampouco (ii) a Recorrente foi informada de que seria intimada eletronicamente dos atos relativos ao presente processo tal como determina o artigo 1º, § 3º da Portaria nº 259/2006; e, ainda, (iii) deveria ter sido, em última hipótese, realizada a sua intimação por meio de edital nos termos do § 1º do artigo 23 do Decreto nº 70.235/72. Assim, por essas razões deve ser considerada como data da ciência o dia 16.06.2016, que foi a data na qual a Recorrente teve conhecimento da decisão de primeira instância. Por essa razão, protocolado nesta data, é tempestivo o recurso”. DA DECADÊNCIA. DA NULIDADE DOS LANÇAMENTOS EM OUTRO PROCESSO Sobre o assunto diz que os lançamentos contidos no processo nº 11052.000688/201019, na qual a recorrente é parte e que teve os lançamentos cancelados, foram assim fulminados, com decretação de nulidade, por vício material e não vício formal, como quer o Fisco. Discorre longamente sobre tais institutos, diz que o vício material não permite o refazimento dos lançamentos, como no caso do vício formal e que, por isso, teria havido a decadência. SOBRE OS LUCROS NO EXTERIOR Disserta exaustivamente sobre a matéria, assenta que os lucros de sua controlada nos Países Baixos não estaria sujeito à tributação no Brasil, por força do Tratado entre os dois países e que, se devido, o imposto só poderia ser exigido naquele território. Acerca da coligada em Cuba informa que os lucros, à razão de 50% (sua participação acionária) foram tributados quando disponibilizados, no caso, em 2008 e 2009, pelo que o crédito tributário estaria extinto e, quando muito, poderia o Fisco exigir a diferença relativa à “atualização monetária e multa incidente sobre o tributo devido, nos termos do que determina o art. 273 do RIR/1999 e o Parecer Normativo 2/96” (fls. 861). Além disso, destaca que tais lucros foram integralmente submetidos à tributação, “sem que fosse realizada qualquer compensação nos termos do artigo 26 da Lei nº 9.249/1996, em flagrante ilegalidade” (fls. 867). DOS JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Fl. 1383DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.384 11 Entende não ser devido tal encargo e cita decisões do CARF. É o relatório do essencial, em apertada síntese. Fl. 1384DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.385 12 Voto Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Duas prejudiciais de mérito se mostram presentes neste processo, exigindo sua apreciação pelo Colegiado precedentemente a qualquer outra análise. São elas: i) intempestividade do recurso voluntário; ii) definir se a nulidade decretada no processo nº 11052.000688/201019, da mesma contribuinte e que permitiram o refazimento dos lançamentos aqui tratados teve como motivação “vício formal” como alegado pelo Fisco e acolhido pela decisão recorrida, por isso, válido o novel procedimento fiscal, ou se trataria de “vício material”, como sustentado pela recorrente, motivo pelo qual teria ocorrido a decadência suscitada pela interessada. Como a primeira antecede a segunda e esta só teria sequência se vencida aquela, princípio pela análise da possível “intempestividade” do recurso voluntário. A respeito, a legislação vigente à época dos fatos previa: Ø Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 (com negrito acrescido): Art. 23. Farseá a intimação: I pessoal, pelo autor do procedimento ou por agente do órgão preparador, na repartição ou fora dela, provada com a assinatura do sujeito passivo, seu mandatário ou preposto, ou, no caso de recusa, com declaração escrita de quem o intimar; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) II por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ou via, com prova de recebimento no domicílio tributário eleito pelo sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) III por meio eletrônico, com prova de recebimento, mediante: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) a) envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) b) registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. (Incluída pela Lei nº 11.196, de 2005) § 1o Quando resultar improfícuo um dos meios previstos no caput deste artigo ou quando o sujeito passivo tiver sua Fl. 1385DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.386 13 inscrição declarada inapta perante o cadastro fiscal, a intimação poderá ser feita por edital publicado: (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) I no endereço da administração tributária na internet; (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) II em dependência, franqueada ao público, do órgão encarregado da intimação; ou (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) III uma única vez, em órgão da imprensa oficial local. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 2° Considerase feita a intimação: I na data da ciência do intimado ou da declaração de quem fizer a intimação, se pessoal; II no caso do inciso II do caput deste artigo, na data do recebimento ou, se omitida, quinze dias após a data da expedição da intimação; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) III se por meio eletrônico: (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea a; ou (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) c) na data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo; (Incluída pela Lei nº 12.844, de 2013) IV 15 (quinze) dias após a publicação do edital, se este for o meio utilizado. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 3o Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência. (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) § 4o Para fins de intimação, considerase domicílio tributário do sujeito passivo: (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) I o endereço postal por ele fornecido, para fins cadastrais, à administração tributária; e (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) Fl. 1386DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.387 14 II o endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, desde que autorizado pelo sujeito passivo. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 5o O endereço eletrônico de que trata este artigo somente será implementado com expresso consentimento do sujeito passivo, e a administração tributária informarlheá as normas e condições de sua utilização e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 6o As alterações efetuadas por este artigo serão disciplinadas em ato da administração tributária. (Incluído pela Lei nº 11.196, de 2005) § 7o a 9º (omissis) Em atos normativos e regulamentadores deste dispositivo, a administração tributária se manifestou, valendo destacar pela sua relevância a Portaria SRF nº 259, de 13 de março de 2006 e a Portaria MF nº 527, de 09 de novembro de 2010, impondo vêlas (com destaques acrescidos): Ø Portaria SRF nº 259, de 13 de março de 2006 Dispõe sobre a prática de atos e termos processuais, de forma eletrônica, no âmbito da Secretaria da Receita Federal. O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL, no uso das atribuições que lhe conferem os incisos III e IV do art. 230 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal aprovado pela Portaria MF nº 30, de 25 de fevereiro de 2005, e tendo em vista o disposto nos arts. 2º e 23 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, com a redação do art. 113 da Lei nº 11.196, de 21 de novembro de 2005, resolve: Art. 1º O encaminhamento, de forma eletrônica, de atos e termos processuais pelo sujeito passivo ou pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) será realizado conforme o disposto nesta Portaria. § 1º Os atos e termos processuais praticados de forma eletrônica, bem como os documentos apresentados em papel, digitalizados pela RFB, comporão processo eletrônico (e processo). § 2º Os documentos produzidos eletronicamente e juntados aos processos digitais com garantia da origem e de seu signatário serão considerados originais para todos os efeitos legais. § 3º Para efeito do disposto no caput, a RFB informará ao sujeito passivo o processo no qual será permitida a prática de atos de forma eletrônica. Art. 2º A impugnação, o recurso e os demais atos e termos processuais produzidos eletronicamente deverão ser assinados mediante utilização de certificado digital emitido no âmbito da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICPBrasil) e serão Fl. 1387DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.388 15 enviados à RFB por meio do Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte (eCAC), disponível na Internet, no endereço http://www.receita.fazenda.gov. br. § 1º A comprovação do envio dos documentos darseá de forma eletrônica, mediante recibo. § 2º O teor e a integridade dos arquivos enviados, bem assim a observância dos prazos, é de inteira responsabilidade do sujeito passivo. § 3º A utilização de meio eletrônico desobrigará o sujeito passivo de protocolar os documentos em papel na RFB. § 4º Os meios de prova que não puderem ser apresentados em forma eletrônica serão protocolados em unidade da RFB. § 5º Os comprovantes originais de deduções, os livros obrigatórios de escrituração comercial e fiscal e os comprovantes dos lançamentos neles efetuados serão conservados até que ocorra a prescrição dos créditos tributários decorrentes das operações a que se refiram. Art. 3º A impugnação, o recurso e os documentos que os instruem serão protocolados de forma eletrônica, considerandose como data de protocolo a data e hora de recebimento dos dados pelo e CAC. § 1º O recebimento pelo eCAC será efetuado das 8 às 20 horas, horário de Brasília. § 2º Para efeito do disposto no caput e no § 1º, o horário estará sincronizado em conformidade com o disposto na Resolução nº 16, de 10 de junho de 2002, do Comitê Gestor da ICPBrasil. § 3º A tempestividade da impugnação ou do recurso será aferida pela data e hora referida no caput. Art. 4º A intimação por meio eletrônico, com prova de recebimento, será efetuada pela RFB mediante: I envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou II registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. § 1º Para efeito do disposto no inciso I, considerase domicílio tributário do sujeito passivo a Caixa Postal a ele atribuída pela administração tributária e disponibilizada no e CAC, desde que o sujeito passivo expressamente o autorize. § 2º A autorização a que se refere o § 1º darseá mediante envio pelo sujeito passivo à RFB de Termo de Opção, por meio do eCAC, sendolhe informadas as normas e condições de utilização e manutenção de seu endereço eletrônico. Fl. 1388DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.389 16 § 3º A intimação mediante registro em meio magnético ou equivalente será efetuada nos casos de aplicação de penalidade pela entrega de declaração após o prazo estabelecido na legislação. § 4º Após concluída a transmissão da declaração do sujeito passivo à RFB, o aplicativo por ele utilizado para gerar a declaração exibirá o recibo de entrega e a intimação a que se refere o § 3º, bem como possibilitará sua impressão. Art. 5º Na hipótese de intimação por meio de edital eletrônico, este será publicado no endereço da administração tributária na Internet. Art. 6º Considerase feita a intimação por meio eletrônico, 15 (quinze) dias contados da data: I registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo, no caso do inciso I do art. 4º; II registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo, no caso do inciso II do art. 4º; ou III de publicação do edital, se este for o meio utilizado. Art. 7º e 8º (omissis). Ø Portaria MF nº 527, de 09 de novembro de 2010 O MINISTRO DE ESTADO DA FAZENDA INTERINO, no uso da atribuição que lhe confere o parágrafo único, inciso II, do art. 87 da Constituição da República Federativa do Brasil e tendo em vista o disposto nos artigos 2º e 23 do Decreto No 70.235, de 6 de março de 1972, e na Medida Provisória No 2.2002, de 24 de agosto de 2001, resolve: Art. 1º A elaboração e o encaminhamento de atos e termos processuais em forma eletrônica serão realizados, no âmbito do Ministério da Fazenda (MF), conforme o disposto nesta Portaria. § 1º A elaboração de documento digital, o processo de digitalização de documentos originais constantes de suporte analógico e o processo de armazenamento dos documentos digitalizados correspondentes deverão ser realizados de forma a manter a integridade, a autenticidade, a interoperabilidade e, quando necessário, a confidencialidade do documento digitalizado, com o emprego de certificado digital emitido no âmbito da InfraEstrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP Brasil), nos termos da Medida Provisória No 2.2002, de 2001. § 2º Os atos e termos processuais praticados em forma eletrônica, bem como os documentos apresentados em papel, digitalizados pelo MF, desde que devidamente observado o parágrafo anterior, comporão processo eletrônico, doravante denominado de eprocesso. Fl. 1389DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.390 17 § 3º Os documentos originais serão conservados pelo seu detentor até que ocorra a prescrição da pretensão de discutir a validade do documento em juízo. § 4º Os documentos produzidos eletronicamente desde seu nascedouro e juntados aos processos digitais com garantia da origem e de seu signatário, observados os termos desta Portaria, serão considerados originais para todos os efeitos legais. § 5º O documento digitalizado, objeto de conversão, será considerado cópia autenticada para todos os efeitos legais. § 6º Impugnada a validade da cópia mencionada no parágrafo anterior, mediante alegação motivada, fundamentada e comprovada de adulteração antes ou durante o processo de digitalização, deverá ser instaurado incidente, preferencialmente em meio eletrônico, para a verificação da autenticidade do documento objeto de controvérsia. Art. 2º A impugnação, o recurso e os demais atos e termos processuais produzidos eletronicamente, inclusive quando se tratar de Procedimento Administrativo Fiscal (PAF), deverão ser assinados eletronicamente, autenticados com emprego de certificado digital emitido no âmbito da ICPBrasil e enviados ao órgão competente por meio de centro virtual disponível na Internet. § 1º Alternativamente à hipótese descrita no caput, poderá o interessado se cadastrar perante um dos órgãos do MF, oportunidade em que lhe serão fornecidos os meios para que possa enviar eletronicamente os atos e termos processuais, conforme regulamento. § 2º A comprovação do envio de petições e de documentos na forma prevista no caput e no § 1º darseá mediante recibo eletrônico emitido pelo órgão competente. § 3º Inexistindo o centro virtual previsto no caput, as petições e os documentos que couberem aos interessados deverão ser entregues à unidade competente do MF em arquivo contido em mídia eletrônica, assinado eletronicamente e autenticado com emprego de certificado digital emitido no âmbito da ICPBrasil. § 4º Verificada a regularidade da entrega prevista no parágrafo anterior, será emitido protocolo de recebimento ao apresentante. § 5º O teor e a integridade dos arquivos entregues, bem assim a observância dos prazos, são de inteira responsabilidade dos interessados. § 6º A utilização de qualquer dos meios previstos nos dispositivos anteriores desobrigará o interessado de protocolar os documentos em papel nos órgãos do MF. Fl. 1390DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.391 18 § 7º Caso o sujeito passivo, na hipótese do § 3º, não optar por entregar os atos processuais que lhe couberem em arquivo contido em mídia eletrônica, deverá protocolálos em papel, apresentando, juntamente com os originais, cópia de cada um dos documentos a serem protocolados. § 8º Os originais a que se refere o parágrafo anterior deverão ser devolvidos ao sujeito passivo, imediatamente após o protocolo e a realização das medidas impostas em regulamento, caso sejam necessárias. § 9º As cópias apresentadas pelo sujeito passivo poderão ser destruídas pela Administração imediatamente após o processo de digitalização previsto nesta Portaria. § 10. Os meios de prova que não puderem ser apresentados em forma eletrônica serão protocolados na unidade competente do órgão do MF, na forma dos §§ 7º, 8º e 9º. § 11. A Administração poderá exigir no curso do processo, a seu critério, o original de documento que tenha sido apresentado pelo sujeito passivo. Art. 3º Será considerada como data de protocolo da impugnação, do recurso e dos documentos apresentados eletronicamente a data e hora de recebimento dos dados pelo centro virtual dos órgãos do MF disponível na Internet. § 1º O recebimento pelo centro virtual a que se refere o caput será efetuado das 8 às 20 horas, horário de Brasília. § 2º A tempestividade da impugnação ou do recurso será aferida pela data e hora referida no caput. Art. 4º A intimação por meio eletrônico, com prova de recebimento, será efetuada pelo órgão competente do MF mediante: I envio ao domicílio tributário do sujeito passivo; ou II registro em meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo. § 1º Para efeito do disposto no inciso I, considerase domicílio tributário do sujeito passivo a caixa postal a ele atribuída pela Administração Tributária e disponibilizada no centro virtual na Internet, desde que o sujeito passivo expressamente autorize. § 2º A autorização a que se refere o § 1º darseá mediante envio pelo sujeito passivo aos órgãos competentes do MF de Termo de Opção, por meio do centro virtual, sendolhe informadas as normas e condições de utilização e manutenção de seu endereço eletrônico. Fl. 1391DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.392 19 § 3º Inexistindo a autorização prevista no § 1º e não sendo realizada a intimação nos termos do inciso II do caput, o órgão do MF deverá realizála por via postal, telegráfica ou por qualquer outro meio ao endereço do sujeito passivo, com prova de recebimento, conservandose o comprovante de entrega em meio físico, após a sua respectiva digitalização e juntada ao processo eletrônico, observado o disposto no § 3º do art. 1º desta Portaria. § 4º Resultandose improfícuo qualquer dos meios de intimação previstos nos parágrafos anteriores, a intimação poderá ser feita por meio de edital publicado no endereço eletrônico do órgão do MF na Internet. Art. 5º A intimação mediante registro em meio magnético ou equivalente será efetuada nos casos de aplicação de penalidade pela entrega de declaração após o prazo estabelecido na legislação. Parágrafo único. Após concluída a transmissão da declaração do sujeito passivo à Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), o aplicativo utilizado para gerar a declaração emitirá o recibo de entrega e a intimação a que se refere o caput, bem como possibilitará sua impressão. Art. 6º Considerase feita a intimação por meio eletrônico, 15 (quinze) dias contados: I da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo, nos casos do inciso I do art. 4º; II da data registrada no meio magnético ou equivalente utilizado pelo sujeito passivo, nos casos do inciso II do art. 4º; ou III após a publicação do edital, se este for o meio utilizado. Art. 7º a 9º (omissis). Naquilo que é pertinente ao deslinde da refrega, a leitura conjugada do texto legal, representado pelo Decreto nº 70.235/1972, com os atos normativos que complementam a matéria permite concluir que a intimação será efetuada de forma “eletrônica” (PAF – art. 23, III), com prova de “recebimento”, dirigida “ao domicílio tributário do contribuinte” (ibidem, letra “a”) e que a intimação será considerada realizada “se por meio eletrônico”, em “quinze dias da data do registro do comprovante de entrega no citado domicílio tributário” (§ 2º, III, “a”, do mesmo artigo), considerandose “domicílio”, para os fins aqui tratados, “o endereço fornecido pelo sujeito passivo ou a ele atribuído pela Administração” (§ 4º, I e II, mesmo artigo). Pois bem, segundo comprovadamente consta dos autos, a Administração Tributária corretamente atendeu aos ditames dos citados dispositivos, intimando o sujeito passivo do resultado do julgamento da DRJ/RJO mediante a disponibilização do Acórdão ora recorrido no seu domicílio tributário eletrônico (DTE), conforme fls. 802/803/805, abaixo reproduzidas: Fl. 1392DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.393 20 Fls. 802: Fls. 803: Fls. 805: Neste cenário, induvidoso reconhecer que, disponibilizado o arquivo com a decisão da DRJ no DTE da recorrente em 01/03/2016 e passados quinze dias desta inserção, a Fl. 1393DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.394 21 contribuinte foi considerada legalmente intimada em 16/03/2016, a teor do disposto no artigo 23, § 2º, III, “a”, do PAF2, tendo em vista que não exerceu a opção prevista na letra “b” do mesmo inciso3. Consequentemente, em 15 de abril de 2016, dia útil, venceu o trintídio legal para interposição do recurso voluntário ao CARF, pelo que, sem nenhuma dúvida, a intempestividade restou configurada, sendo absolutamente irrelevante que em 16/06/2016 tenha havido a “abertura dos arquivos digitais” pela recorrente, data que só teria significado se observada a opção prevista na parte final da alínea “b” do inciso III, do § 2º, do art. 23, do PAF, já antes transcrito. Destaquese que todos os fatos até aqui relatados foram objeto de expresso reconhecimento pela própria recorrente na redação de seu recurso especial. De outra parte, não me sensibilizo com os argumentos da recorrente em seu recurso voluntário quando, buscando justificar a perda do prazo para interposição do recurso, tenta deslocar o prazo de intimação para a data em que procedeu a abertura dos arquivos digitais e fulminar a intimação eletrônica que, sabidamente, tem fundamento legal. Igualmente irrelevantes, embora respeitáveis, as decisões administrativas e judiciais acostadas pela defesa posto que não vinculantes ao processo aqui tratado, só fazendo coisa julgada entre as partes nelas envolvidas, o que não é o caso da recorrente. Ademais, há precedente recente desta Turma em sentido oposto ao entendimento da recorrente (Acórdão nº 1402002.334 – sessão de 05/10/2016 – Rel. Leonardo de Andrade Couto – unânime). Do mesmo modo, a argumentação de que as intimações deveriam ser enviadas ao patrono da contribuinte não tem suporte legal, inexistindo uma linha sequer no PAF que assim determine. Ao contrário, nos termos do art. 23 do Decreto nº 70.235/1972, é prevista intimação do sujeito passivo apenas no domicílio tributário, assim considerado o do endereço postal, eletrônico ou de fax, fornecido e eleito pelo próprio contribuinte, para fins cadastrais, à Secretaria da Receita Federal. Pelo exposto, voto por conhecer em parte do recurso voluntário exclusivamente para atestar a intempestividade e, como decorrência, NÃO CONHECER das razões de mérito. 2 § 2° Considerase feita a intimação: (...) III se por meio eletrônico: (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) a) 15 (quinze) dias contados da data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário do sujeito passivo; (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) Fl. 1394DF CARF MF Processo nº 12448.724685/201506 Acórdão n.º 1402002.426 S1C4T2 Fl. 1.395 22 É como voto. Brasília (DF), em 22 de março de 2017. (documento assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone – Relator 3 b) na data em que o sujeito passivo efetuar consulta no endereço eletrônico a ele atribuído pela administração tributária, se ocorrida antes do prazo previsto na alínea a; ou (Redação dada pela Lei nº 12.844, de 2013) Fl. 1395DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10218.720086/2007-83
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR
Exercício: 2003
LAPSO MANIFESTO.
Os erros decorrentes de lapso manifesto na formalização do voto são
possíveis de correção em sede de embargos de declaração
Numero da decisão: 2201-003.390
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os embargos propostos pelo Conselheiro Marcelo Vasconcelos de Almeida, para, sanando o Acórdão nº 2201-003.026, alterar a data da Sessão de Julgamento para 12 de abril de
2016.
Nome do relator: Carlos Alberto do Amaral Azeredo
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Os erros decorrentes de lapso manifesto na formalização do voto são possíveis de correção em sede de embargos de declaração. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os embargos propostos pelo Conselheiro Marcelo Vasconcelos de Almeida, para, sanando o Acórdão nº 2201-003.026, alterar a data da Sessão de Julgamento para 12 de abril de 2016. Carlos Henrique de Oliveira - Presidente. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator. EDITADO EM: 01/02/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Tratam-se de embargos de declaração (fl. 135) interpostos pelo Conselheiro Relator Marcelo Vasconcelos de Almeida que, ao formalizar o Acórdão nº 2201-003.026 (fls. CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária janeiro de 2017 janeiro de 2017 IMPOSTO TERRITORIAL RURAL IMPOSTO TERRITORIAL RURAL CONSELHEIRO MARCELO VASCONCELOS DE ALMEIDA CONSELHEIRO MARCELO VASCONCELOS DE ALMEIDA JOÃO SOARES ROCHA JOÃO SOARES ROCHA AA Fl. 139DF CARF MF 2 124/134), fez constar no campo “Sessão de” do cabeçalho do acórdão, indevidamente, a data de 12/03/2016, ao passo que a efetivação do julgamento, na verdade, ocorrera em 12/04/2016. Em 19 de maio de 2016, o Sr. Presidente da 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção, concordando com os termos do despacho de admissibilidade acostado às folhas 136/137, admite os embargos e determina a inclusão do processo em Pauta de Julgamento para correção de erro material devido a lapso manifesto, em cumprimento aos arts. 67 e 76 do Decreto nº 7.574/2011. É o relatório necessário. Voto Conselheiro CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO Inicialmente, expresso minha concordância com os pressupostos de admissibilidade contidos no despacho de fls. 136/137. Alega o embargante em fl. 135: Ao formalizar o referido acórdão este Relator fez constar no campo “Sessão de” do cabeçalho do acórdão, indevidamente, a data de 12/03/2016. O julgamento, na verdade, realizou-se na data de 12/04/2016. Requer a submissão do Acórdão embargado a nova apreciação pelo colegiado, objetivando a correção do vício apontado, asseverando que: O equívoco no cabeçalho do Acórdão nº 2201-003.025 configura, a meu ver, verdadeiro erro material, assim entendido aquele erro evidente, claro, reconhecido primu ictu oculi (à primeira vista), também corrigido pela via dos embargos, mediante requerimento de Conselheiro do Colegiado prolator da decisão, nos termos do caput do art. 66 c/c art. 65, § 1º, I, ambos do Anexo II do Regimento Interno do CARF - RICARF. Analisando as informações contidas no sítio do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais na Internet, constata-se que as Sessões de Julgamento das Turmas Ordinárias da 2ª Seção, em março de 2016, ocorreram entre os dias 08 a 10, enquanto as Sessões de abril de 2016 ocorreram entre os dias 12 a 14. Já a pauta disponibilizada no mesmo sítio não deixa dúvidas de que o presente processo foi julgado pelo colegiado em 12 de abril de 2016, integrando o item 7 da pauta publicada no DOU nº 60, de 30 de março de 2016, com retificação publicada no DOU nº 63, de 04 de abril de 2016. Assim, resta evidente o erro material apontado pelo embargante. Conclusão: Fl. 140DF CARF MF Processo nº 10218.720086/2007-83 Acórdão n.º 2201-003.390 S2-C2T1 Fl. 140 3 Diante do exposto, voto por conhecer e acolher os embargos propostos pelo Conselheiro Marcelo Vasconcelos de Almeida, para, sanando o Acórdão nº 2201-003.026 (fls. 124/134), alterar a data da Sessão de Julgamento para 12 de abril de 2016. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator Fl. 141DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10530.726844/2011-19
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 10 00:00:00 UTC 2016
Data da publicação: Mon Apr 03 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2009
COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO FISCAL E BASE NEGATIVA.
O valor apurado a título de lucro real decorrente de receitas não operacionais, deve ser compensado com o prejuízo fiscal acumulado (não operacional)
DESPESAS COM INDENIZAÇÃO. DESPESAS NÃO OPERACIONAIS.
O fato de ter sido obrigada a pagar valores por força de decisão judicial não modifica a natureza das despesas quando decorrentes de mera liberalidade (acordo firmado entre acionistas)
GANHO DE CAPITAL. VENDA DE ÁREA RESIDUAL
Numero da decisão: 1401-001.693
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, Por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso de ofício e, quanto ao recurso voluntário, AFASTARAM as preliminares e, no mérito, por maioria de votos, NEGAR provimento. Vencidas as Conselheiras Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Lívia De Carli Germano em relação a glosa de Despesas com o pagamento de valores às pessoas físicas (herdeiras).
Antonio Bezerra Neto - Presidente.
Aurora Tomazini de Carvalho - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Presidente Antonio Bezerra Neto, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Ricardo Marozzi Gregorio, Marcos de Aguiar Villas Boas, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa e Aurora Tomazini de Carvalho.
Nome do relator: AURORA TOMAZINI DE CARVALHO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Exercício: 2009 COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO FISCAL E BASE NEGATIVA. O valor apurado a título de lucro real decorrente de receitas não operacionais, deve ser compensado com o prejuízo fiscal acumulado (não operacional) DESPESAS COM INDENIZAÇÃO. DESPESAS NÃO OPERACIONAIS. O fato de ter sido obrigada a pagar valores por força de decisão judicial não modifica a natureza das despesas quando decorrentes de mera liberalidade (acordo firmado entre acionistas) GANHO DE CAPITAL. VENDA DE ÁREA RESIDUAL
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso de ofício e, quanto ao recurso voluntário, AFASTARAM as preliminares e, no mérito, por maioria de votos, NEGAR provimento. Vencidas as Conselheiras Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Lívia De Carli Germano em relação a glosa de Despesas com o pagamento de valores às pessoas físicas (herdeiras). Antonio Bezerra Neto - Presidente. Aurora Tomazini de Carvalho - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Presidente Antonio Bezerra Neto, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Ricardo Marozzi Gregorio, Marcos de Aguiar Villas Boas, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa e Aurora Tomazini de Carvalho.
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Recorrente Sertaneja Empresa Agro Pastoril S/A Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2009 COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE PREJUÍZO FISCAL E BASE NEGATIVA. O valor apurado a título de lucro real decorrente de receitas não operacionais, deve ser compensado com o prejuízo fiscal acumulado (não operacional) DESPESAS COM INDENIZAÇÃO. DESPESAS NÃO OPERACIONAIS. O fato de ter sido obrigada a pagar valores por força de decisão judicial não modifica a natureza das despesas quando decorrentes de mera liberalidade (acordo firmado entre acionistas) GANHO DE CAPITAL. VENDA DE ÁREA RESIDUAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Por unanimidade de votos, NEGAR provimento ao recurso de ofício e, quanto ao recurso voluntário, AFASTARAM as preliminares e, no mérito, por maioria de votos, NEGAR provimento. Vencidas as Conselheiras Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin e Lívia De Carli Germano em relação a glosa de Despesas com o pagamento de valores às pessoas físicas (herdeiras). Antonio Bezerra Neto Presidente. Aurora Tomazini de Carvalho Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros: Presidente Antonio Bezerra Neto, Guilherme Adolfo dos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 68 44 /2 01 1- 19 Fl. 928DF CARF MF 2 Santos Mendes, Ricardo Marozzi Gregorio, Marcos de Aguiar Villas Boas, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa e Aurora Tomazini de Carvalho. Relatório O presente processo administrativo teve origem na lavratura de 2 (dois) Autos de Infração (fls. 466/490) em face da Recorrente Sertaneja Empresa Agro Pastoril S/A para exigir valores a título de Imposto sobre a Renda Pessoa Jurídica – IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL relativos ao anocalendário de 2009. As infrações imputadas ao contribuinte foram as seguintes: Infração 1: dedução indevida de despesas não necessárias Infração 2: dedução indevida de valores pagos a pessoas físicas vinculadas Infração 3: omissão de receitas Infração 4: compensação indevida de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa No Termo de Verificação Fiscal (fls. 491/518) a Fiscalização descreve, de forma pormenorizada, as infrações imputadas ao Contribuinte. Tais razões podem ser assim sintetizadas: Infração 1: No ano de 1989 os acionistas majoritários do Contribuinte formalizaram um acordo no qual estipularam que o lucro da venda de um imóvel da empresa (Fazenda Bananal) seria dividido entre eles (ou seus herdeiros), independentemente da participação acionária que cada um possuísse. Este acordo não foi cumprido de modo que dois acionistas (Antônio Henrique de Souza Moreira e Espólio de Eduardo Catalão) recorreram ao Poder Judiciário para receber as quantias acordadas. Como resultado deste processo judicial, o Contribuinte foi obrigado a pagar aos acionistas prejudicados o montante de R$ 41.088.000,00. Tal valor foi escriturado a título de “Despesas com Indenizações” e tal quantia foi deduzida como despesa operacional decorrente da atividade rural. A fiscalização concluiu o seguinte: (i) tal despesa não é operacional, por não ser necessária à atividade da empresa nem à manutenção da fonte produtora; (ii) despesa decorrente de um acordo entre particulares não poderia ser deduzida da base de cálculo do IRPJ e da CSLL; e Infração 2: Fl. 929DF CARF MF Processo nº 10530.726844/201119 Acórdão n.º 1401001.693 S1C4T1 Fl. 11 3 Conforme mencionado no item anterior, o Contribuinte foi obrigado a pagar determinados valores a dois de seus acionistas por conta do processo judicial ajuizado para garantir o cumprimento de acordo por eles firmado com outro acionista majoritário. Outras duas acionistas majoritárias da empresa – Zizette Balbino de Carvalho e Solange Maria Balbino de Carvalho – herdeiras do acionista Antônio Balbino de Carvalho Filho, também tinham direito a receber parte do lucro da venda do imóvel mencionado no acordo firmado. Por conta disso, a elas foi pago o montante de R$ 33.617.454,55, o qual também foi escriturado como “Despesa com Indenizações” e deduzido como despesa operacional decorrente da atividade rural. De acordo com a Fiscalização, por tratarse de valor pago a acionistas, não poderia ser considerado como despesa com indenização, mas sim como participação no resultado da empresa (distribuição de lucro). Essas participações não podem ser deduzidas do lucro real, nos termos do art. 303 do RIR/99. Infração 3: A fazenda Bananal foi dividia em 4 partes. Área referente a estas partes foram objeto de alienação (802ha) e permuta (2.800ha). O valor total da operação (permuta + alienação) foi de R$ 536.850,00. Por meio da documentação apresentada, verificou a Fiscalização que o valor referente à permuta foi de R$ 350.000,00. A diferença de R$ 186.850,00, portanto, se referia à alienação. Tomando como referência o número de hectares objeto da permuta (2.800) e o valor referente a esta operação (R$ 350.000,00), chegouse ao valor de R$ 125,00 a título de preço de custo por hectare: Os hectares alienados, portanto, têm como preço de custo o montante de R$ 100.250,00 (802ha X 125,00). Neste contexto, e tendo em vista que foi contabilizado o montante de R$ 186.850,00, apurouse ganho de capital no valor de R$ 86.600,00. Além disso, o contribuinte alienou 624,2272ha, área remanescente de uma alienação efetuada em 1998. Em 1998 foi considerado o valor de R$ 197,80 por hectare. Com suporte neste montante, o Fisco constatou que o valor de aquisição dessa área alienada (624,2272ha) corresponde ao montante de R$ 123.472,14. O contribuinte, porém, baixou como valor da aquisição o montante de R$ 345.000,00. Foi assim, apurado ganho de capital no valor de R$ 221.527,86. Infração 4: Inicialmente, em razão da consideração das despesas tidas como indenizatórias, o sujeito passivo deduziu os seguintes valores a título de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa na atividade rural os seguintes montantes: (i) Prejuízo fiscal: R$ 75.222.999,45 Fl. 930DF CARF MF 4 (ii) Base negativa: R$ 75.222.999,45 Porém, com a glosa das despesas com indenizações, o prejuízo fiscal e a base negativa foram reduzidos para os seguintes montantes: (i) Prejuízo fiscal (após glosa): R$ 1.787.143,98 (ii) Base negativa (após glosa): R$ 1.446.593,98 Apurouse, assim, uma compensação indevida de prejuízo fiscal no valor de R$ 73.435.855,47 e de base negativa no valor de R$ 73.776.405,47. Regularmente intimado, o contribuinte apresentou impugnação (fls. 525/549), na qual alegou o seguinte: (i) Relativamente à infração 1, alegou que as despesas com indenizações são necessárias, pois: (i.1) se trata de despesa não dispensável diante de ordem judicial e perfeitamente normal no decorrer de suas atividades (querela judicial com terceiros); (i.2) foi realizada para evitar que a terra objeto da lide, indispensável para o exercício de sua atividade, fosse expropriada judicialmente para pagar os valores devidos no processo judicial. Ademais, defendeu que a receita auferida com a venda do imóvel tem que ser anulada pelas despesas mencionadas, sob pena de se tributar o patrimônio da Impugnante; (ii) Relativamente à infração 2, alegou que somente as gratificações e participações no resultado pagas a dirigentes e administradores são indedutíveis (art. 303 do RIR), o que não é o caso de Zizette Balbino Carvalho Ferreira e Solange Maria Balbino de Carvalho, as quais receberam os valores mencionados exclusivamente na qualidade de herdeiras e sucessoras de Antonio Balbino de Carvalho Filho; (iii) No que diz respeito à infração 3, defendeu o seguinte: (iii.1) área permutada de 3.602 hectares: não houve ganho de capital e, ademais, as operações ocorreram no período de 1998/2002, de modo que foram alcançadas pela decadência; (iii.2) área vendida de 5.235,02 hectares: o valor baixado pelo contribuinte corresponde ao montante integral do imóvel, não apenas aos 624,23ha mencionados pela fiscalização. Nada foi dito, em específico, sobre a infração 4 (decorrente das infrações 1 e 2). Em 26/04/2012, a 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Salvador/BA decidiu julgar a impugnação procedente em parte. Examinando o acórdão de fls. 832/862, verificase que foi acolhida a alegação de decadência, no que diz respeito ao ganho de capital auferido na alienação/permuta da área de 3.602 hectares. Além disso, concluiu que a Fiscalização deveria ter garantido o direito do contribuinte à compensação do prejuízo fiscal e da base de cálculo negativa dentro do limite legal de 30% (trinta por cento). Por tratarse de decisão que exonerou, ainda que parcialmente, o sujeito passivo do pagamento do tributo e respectivos encargos, contra ela foi interposto recurso de ofício nos termos do art. 34, I, do Decreto nº 70.235/72. Regularmente intimada, a empresa autuada apresentou também recurso voluntário no qual repete as alegações de mérito suscitadas na impugnação, acrescentando que a decisão de 1ª instância seria nula porque deixou de manifestarse sobre pontos relevantes para o deslinde da controvérsia e inovou o lançamento. Fl. 931DF CARF MF Processo nº 10530.726844/201119 Acórdão n.º 1401001.693 S1C4T1 Fl. 12 5 Voto Aurora Tomazini de Carvalho Conselheira Relatora Recurso de Ofício O Recuso de Ofício preenche os requisitos de admissibilidade e dele conheço. Dois são os pontos objeto deste apelo: (i) decadência no que diz respeito ao ganho de capital auferido na alienação/permuta da área de 3.602 hectares; e (ii) direito do contribuinte à compensação do prejuízo fiscal e da base de cálculo negativa dentro do limite legal de 30% (trinta por cento). As matérias serão examinadas separadamente. 1.1. Decadência No que diz respeito à decadência, andou bem a decisão de 1ª instância ao reconhecer o transcurso do prazo decadencial para lançamento do IRPJ e da CSLL relativamente ao ganho de capital auferido na alienação/permuta da referida área. Os documentos que consubstanciam a referida alienação estão juntados às fls. 793 a 813. São eles: (i) Promessa de Permuta de Bens Imóveis e Outras Avenças – área 2.800 ha – datada de 27/11/1998; (ii) Aditivo ao Contrato de Promessa de Permuta de Bens Imóveis e Outras Avenças – área 202 ha – datado de 10/12/1998; (iii) Promessa de Compra e Venda de Imóvel Rural e Outras Avenças – área 200 ha – datada de 12/12/1998; e (iv) Promessa de Compra e Venda de Imóvel Rural e Outras Avenças – área 400 ha – datada de 03/05/1999. Os referidos instrumentos contratuais, por sua vez, estabelecem que o prazo máximo para a efetivação das contraprestações se daria no ano de 2002. Ao examinar o Aviso de Recebimento juntado à fl. 519, verificase que o sujeito passivo foi cientificado da lavratura do Auto de Infração no dia 21/12/2011. Tomando tais datas como referência, fica claro que, independentemente do prazo decadencial que se considere aplicável – cinco anos a contar do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN) ou cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte ao da ocorrência deste fato (art. 173, I, do CTN) –, não há dúvida de que já havia transcorrido esse prazo quando da constituição do crédito tributário mediante notificação ao sujeito passivo. Por esta razão, nego provimento ao recurso de ofício neste ponto. Fl. 932DF CARF MF 6 1.2. Da compensação dos prejuízos e da base de cálculo negativa até o limite de 30% Como bem destacou a autoridade julgadora de 1ª instância, consta nos autos que, antes da realização do lançamento, a empresa autuada dispunha do valor de R$ 5.555.981,18 (cinco milhões, quinhentos e cinquenta e cinco mil, novecentos e oitenta e um reais e dezoito centavos) a título de “Saldo de Prejuízo Fiscal Acumulado” (prejuízo não operacional). A Fiscalização, porém, utilizou apenas o valor de R$ 308.127,86 (trezentos e oito mil, cento e vinte e sete reais e oitenta e seis centavos) na recomposição de ofício do lucro real tributável, apesar de ter encontrado de “Lucro Real Ajustado Antes da Compensação de Prejuízo Fiscal” o valor de R$ 73.743.983,33 (setenta e três milhões, setecentos e quarenta e tres mil e novecentos e oitenta reais e trinta e três centavos). Ora, a legislação é clara ao dispor que os prejuízos não operacionais podem ser compensados com os lucros da mesma natureza, com observância do limite de 30%. RIR/99 Art. 510. O prejuízo fiscal apurado a partir do encerramento do anocalendário de 1995 poderá ser compensado, cumulativamente com os prejuízos fiscais apurados até 31 de dezembro de 1994, com o lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas neste Decreto, observado o limite máximo, para compensação, de trinta por cento do referido lucro líquido ajustado (Lei nº 9.065, de 1995, art. 15). Art. 511. Os prejuízos não operacionais, apurados pelas pessoas jurídicas, a partir de 1º de janeiro de 1996, somente poderão ser compensados com lucros da mesma natureza, observado o limite previsto no caput do art. 510. Diante disso, impõese a compensação do prejuízo fiscal acumulado em sua integralidade. Afinal, o valor apurado a título de lucro real, decorrente de receitas não operacionais, deve ser compensado com o prejuízo fiscal acumulado (não operacional). O mesmo se pode dizer relativamente à base de cálculo negativa. Como bem assinalou a autoridade julgadora de 1ª instância: No que diz respeito à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido – CSLL ora lançada, da mesma forma que no lançamento do IRPJ, constatase a existência de “Saldo de Base de Cálculo Negativa de Períodos Anteriores”, “Atividades em Geral”, no montante de R$ 7.431.139,41, passível de ser utilizada na compensação com a Base de Cálculo da CSLL, entretanto a Fiscalização quando do lançamento só utilizou da referida Base Negativa, apenas o valor de R$ 308.127,86, enquanto, como já aqui visto, o limite legal é de 30% do Lucro Líquido Ajustado (art. 16, da Lei n° 9.065/1995), que, tendo por base o Lucro Ajustado apurado de ofício no Auto de Infração de R$ 74.084.533,33, teríamos de limite o valor de R$ 22.225.360,00 (R$ 74.084.533,33), valor este mais do que suficiente para suportar a utilização do referido “Saldo de Base de Cálculo Negativa de Períodos Anteriores”, no montante de R$ 7.431.139,41. Fl. 933DF CARF MF Processo nº 10530.726844/201119 Acórdão n.º 1401001.693 S1C4T1 Fl. 13 7 Por estas razões, nego provimento ao recurso de ofício também neste ponto. Recurso Voluntário O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, pelo que deve ser conhecido. Além da alegação preliminar de nulidade da decisão recorrida, o recurso possui quatro questões controversas, que serão analisadas separadamente: (i) possibilidade de dedução de despesas com indenizações; (ii) dedução de despesas com o pagamento de valores a sócios da pessoa jurídica; (iii) omissão de receitas por ausência de declaração de ganho de capital; e (iv) compensação indevida de prejuízos e base negativa relativos à atividade rural. 2.1. Preliminar de nulidade da decisão recorrida Alega a Recorrente, em preliminar, que a decisão recorrida seria nula, uma vez que não foram apreciados todos os documentos apresentados com a impugnação. Apesar dos argumentos de defesa, a análise da decisão de primeira instância nos leva a concluir de forma diversa. Com efeito, ao analisarmos a decisão recorrida, podemos verificar que o voto condutor foi bastante minucioso na sua análise ao ponto de destacar tópicos, não só para temas, mas para cada uma das razões apresentadas na impugnação administrativa. Ademais, verificase que todas as provas apresentadas pela Recorrente, quando da sua defesa, foram devidamente consideradas no julgamento. O único problema é que, diferentemente do que foi defendido pelo sujeito passivo, entendeu a Autoridade Julgadora que tais provas não seriam suficientes para elidir o trabalho fiscal. Isso, no entanto, não é motivo para que seja declarada a nulidade da decisão. Afinal, a autoridade julgadora é livre, na apreciação das provas, para formar sua convicção, conforme prescrito no art. 30 do Decreto nº 70.235/72. Diante disso, voto pelo não acolhimento da preliminar suscitada. 2.2. Das despesas com indenizações Conforme já assinalado, no ano de 1989 os acionistas majoritários do Contribuinte formalizaram um acordo do qual estipularam que o lucro da venda de um imóvel da empresa seria dividido entre eles (ou seus herdeiros), independentemente da participação acionária que cada um possuísse. Este acordo não foi cumprido por um dos acionistas, de modo que dois outros acionistas (Antônio Henrique de Souza Moreira e Espólio de Eduardo Catalão) recorreram ao Poder Judiciário para receber as quantias acordadas. Como resultado deste processo judicial, o Contribuinte foi obrigado a pagar aos acionistas prejudicados o montante de R$ 41.088.000,00. Tal valor foi escriturado a título de “Despesas com Indenizações” e tal quantia foi deduzida como despesa operacional decorrente da atividade rural. Fl. 934DF CARF MF 8 Em suas razões recursais, alega o sujeito passivo que referidas despesas são necessárias ao exercício de sua atividade porque: (i.1) se trata de despesa não dispensável diante de ordem judicial e perfeitamente normal no decorrer de suas atividades (querela judicial com terceiros); e (i.2) foi realizada para evitar que a terra objeto da lide, indispensável para o exercício de sua atividade, fosse expropriada judicialmente para pagar os valores devidos no processo judicial. Não lhe assiste razão. O Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999 (Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999), ao tratar da dedutibilidade de despesas na apuração do IRPJ pelo Lucro Real, define, em seu art. 299, as despesas operacionais nos seguintes termos: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). Como se percebe, para ser considerada operacional – e, portanto, ser dedutível – a despesa deve ser necessária e usual ou normal nos tipos de transações, operações ou atividades da empresa. Nas palavras de Bulhões Pereira: Despesa normal é a costumeira ou ordinária no tipo de negócios do contribuinte. O requisito legal não é que seja usualmente paga pelo contribuinte: pode ser excepcional ou esporádica na experiência do contribuinte, desde que possa ser considerada como usual ou normal do tipo de seus negócios, operações ou atividades. A dedutibilidade da despesa, portanto, está condicionada ao preenchimento dos seguintes requisitos: (i) Ser necessária para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da pessoa jurídica; (ii) Ser usual ou normal ao tipo de transações, operações ou atividades da empresa; e (iii) Estar devidamente comprovada por meio de documentação idônea. No presente caso, os dois primeiros requisitos não foram observados. A Recorrente, como já mencionado, tenta justificar a necessidade e a normalidade das referidas despesas pelo fato de decorrerem de uma condenação em processo judicial. O fato, porém, de ter sido obrigada a pagar estes valores por força de decisão judicial não desnatura sua natureza: tratase de despesas decorrentes de mera liberalidade. Quando, por exemplo, o sujeito passivo propõe medida judicial para discutir a cobrança de determinado tributo e o Poder Judiciário, ao final, decide pela legitimidade da exigência, obrigando a recolher valores aos cofres públicos, não se altera a natureza dessa Fl. 935DF CARF MF Processo nº 10530.726844/201119 Acórdão n.º 1401001.693 S1C4T1 Fl. 14 9 despesa: tratase de despesa com o pagamento de tributos, ainda que, para ocorrer o efetivo pagamento, tenha sido necessária a intervenção do judiciário. O mesmo se verifica no caso concreto. O Poder Judiciário, ao decidir pelo dever de pagar referidos valores, o fez com fundamento no acordo formalizado pelos acionistas, ou seja, a norma que fundamenta a imputação deste dever é o acordo. Como consequência, os valores pagos não são outra coisa senão despesas decorrentes de um acordo formalizado por mera liberalidade dos sócios, que nenhuma relação possui com as atividades exercidas pela Recorrente. Não é possível, portanto, qualificar tais despesas como necessárias e, portanto, dedutíveis para fins de apuração do tributo devido. É certo, por outro lado, que não procede a alegação da Recorrente no sentido de que, por terem sido glosadas as despesas, também deveriam ter sido glosadas as correspondentes “receitas” com a venda dos imóveis que motivaram o pagamento dos referidos valores. Afinal, os ganhos com a alienação de bens do ativo permanente devem ser computados na determinação do lucro real por força de expressa disposição legal: RIR/99 Art. 418. Serão classificados como ganhos ou perdas de capital, e computados na determinação do lucro real, os resultados na alienação, na desapropriação, na baixa por perecimento, extinção, desgaste, obsolescência ou exaustão, ou na liquidação de bens do ativo permanente (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31). § 1º Ressalvadas as disposições especiais, a determinação do ganho ou perda de capital terá por base o valor contábil do bem, assim entendido o que estiver registrado na escrituração do contribuinte e diminuído, se for o caso, da depreciação, amortização ou exaustão acumulada (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 31, § 1º). § 2º O saldo das quotas de depreciação acelerada incentivada, registradas no LALUR, será adicionado ao lucro líquido do período de apuração em que ocorrer a baixa. Por tais razões, nego provimento ao Recurso Voluntário neste ponto. 2.3. Despesas com o pagamento de valores a sócios da pessoa jurídica Em cumprimento ao acordo executado judicialmente por seus sócios, a Recorrente foi obrigada a pagar, ainda, valores a outras duas acionistas majoritárias da empresa – Zizette Balbino de Carvalho e Solange Maria Balbino de Carvalho – herdeiras do acionista Antônio Balbino de Carvalho Filho. De acordo com a Fiscalização, por tratarse de valor pago a acionistas, não poderia ser considerado como despesa com indenização, mas sim como participação no resultado da empresa (distribuição de lucro). Essas participações, por outro lado, não podem ser deduzidas do lucro real, nos termos do art. 303 do RIR/99. Fl. 936DF CARF MF 10 A Recorrente, por sua vez, defende que somente as gratificações e participações no resultado pagas a dirigentes e administradores são indedutíveis (art. 303 do RIR), o que não é o caso dos valores pagos a Zizette Balbino Carvalho Ferreira e Solange Maria Balbino de Carvalho. Isso porque receberam os valores mencionados exclusivamente na qualidade de herdeiras e sucessoras de Antonio Balbino de Carvalho Filho, o qual tinha direito a estes montantes em razão do acordo firmado com os demais acionistas. Tem razão a Recorrente quando afirma que os valores pagos às referidas acionistas não podem ser considerados como participação no resultado da empresa. Estes valores foram recebidos em decorrência do acordo anteriormente firmado entre seu pai e demais acionistas para repartir parte do lucro da venda de um dos imóveis da empresa. Isso, porém, não torna tal despesa dedutível para fins de apuração do lucro real. Conforme destaquei no item precedente, as despesas incorridas para cumprimento do referido acordo não têm qualquer relação com a atividade da Recorrente e, por isso, não podem ser consideradas operacionais. Impõese, assim, o não provimento do recurso também neste ponto. 2.4. Omissão de receitas – ganho de capital Consta do Termo de Verificação Fiscal que o contribuinte alienou 624,2272ha, área remanescente de uma alienação efetuada em 1998. Em 1998 foi considerado o valor de R$ 197,80 por hectare (4.610,79ha alienados pelo valor de R$ 912.000,00). Com suporte neste montante, o Fisco constatou que o valor de aquisição dessa área alienada (624,2272ha) corresponde ao montante de R$ 123.472,14. O contribuinte, porém, baixou como valor da aquisição o montante de R$ 345.000,00. Foi assim, apurado ganho de capital no valor de R$ 221.527,86. De acordo com a Recorrente, o valor baixado – R$ 345.000,00 – corresponde ao valor total do imóvel, ou seja, a toda a área alienada, não apenas ao remanescente. Portanto, não se poderia falar em ganho de capital, mas sim em prejuízo. Para chegar a esta conclusão, a Recorrente faz o seguinte raciocínio: (i) Custo de aquisição da área total: R$ 1.035.472,14 (considerando o valor de R$ 197,80 por hectare); (ii) Valor baixado: R$ 345.000,00. Ocorre que, como bem destacou a própria Recorrente, o valor escriturado como custo de aquisição foi o montante de R$ 345.000,00. O valor de R$ 1.035.472,14 diz respeito, isso sim, ao valor total da venda do imóvel, considerando o montante de R$ 197,80 por hectare, como alega a fiscalização. Não resta dúvida, portanto, de que ocorreu ganho de capital na venda da área remanescente, sendo procedente a autuação também neste ponto. 2.5. Compensação indevida de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa da atividade rural Fl. 937DF CARF MF Processo nº 10530.726844/201119 Acórdão n.º 1401001.693 S1C4T1 Fl. 15 11 Inicialmente, o sujeito passivo deduziu os seguintes valores a título de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa na atividade rural os seguintes montantes: (iii) Prejuízo fiscal: R$ 75.222.999,45 (iv) Base negativa: R$ 75.222.999,45 Porém, com a glosa das despesas com indenizações, o prejuízo fiscal e a base negativa da atividade rural foram reduzidos para os seguintes montantes: (iii) Prejuízo fiscal (após glosa): R$ 1.787.143,98 (iv) Base negativa (após glosa): R$ 1.446.593,98 Apurouse, assim, uma compensação indevida de prejuízo fiscal no valor de R$ 73.435.855,47 e de base negativa no valor de R$ 73.776.405,47. Como se percebe, a presente infração decorre das infrações 1 e 2. Tendo em vista que as duas primeiras infrações foram mantidas neste voto, mantenho também a autuação decorrente da infração 4. Conclusão Por tudo o que foi exposto, voto pelo NÃO PROVIMENTO do Recurso de Ofício e, no que diz respeito ao Recurso Voluntário, dele conheço e afasto as preliminares alegadas para, no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO. Sala de Sessões, 10 de agosto de 2016. (documento assinado digitalmente) Aurora Tomazini de Carvalho Relatora Fl. 938DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10140.720026/2007-10
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Mar 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2005
Ementa:
ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. LAUDO TÉCNICO.
O Laudo de Avaliação, emitido por profissional habilitado, atenda aos requisitos das Normas da ABNT, demonstrando, de maneira inequívoca, o valor fundiário do imóvel, a preço de mercado, e esteja acompanhado da necessária Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) é prova suficiente para dedução da Área de Preservação Permanente.
VTN. LAUDO. COMPROVAÇÃO.
A apresentação de Laudo Técnico elaborado por profissional habilitado, atendendo os requisitos das Normas da ABNT e acompanhado da necessária Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) é suficiente para reduzir o VTN para o valor identificado in concreto pela avaliação técnica.
Numero da decisão: 2202-003.699
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar a glosa da área de preservação permanente e para utilizar o VTN/ha informado no Laudo de Avaliação (R$ 449,43), vencido o Conselheiro Martin da Silva Gesto, que deu provimento integral ao recurso. Os Conselheiros Marcio Henrique Sales Parada e Rosemary Figueiroa Augusto votaram pelas conclusões.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente.
(ASSINADO DIGITALMENTE)
Dilson Jatahy Fonseca Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: DILSON JATAHY FONSECA NETO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar a glosa da área de preservação permanente e para utilizar o VTN/ha informado no Laudo de Avaliação (R$ 449,43), vencido o Conselheiro Martin da Silva Gesto, que deu provimento integral ao recurso. Os Conselheiros Marcio Henrique Sales Parada e Rosemary Figueiroa Augusto votaram pelas conclusões. (ASSINADO DIGITALMENTE) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente. (ASSINADO DIGITALMENTE) Dilson Jatahy Fonseca Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada.
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LAUDO TÉCNICO. O Laudo de Avaliação, emitido por profissional habilitado, atenda aos requisitos das Normas da ABNT, demonstrando, de maneira inequívoca, o valor fundiário do imóvel, a preço de mercado, e esteja acompanhado da necessária Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) é prova suficiente para dedução da Área de Preservação Permanente. VTN. LAUDO. COMPROVAÇÃO. A apresentação de Laudo Técnico elaborado por profissional habilitado, atendendo os requisitos das Normas da ABNT e acompanhado da necessária Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) é suficiente para reduzir o VTN para o valor identificado in concreto pela avaliação técnica. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para afastar a glosa da área de preservação permanente e para utilizar o VTN/ha informado no Laudo de Avaliação (R$ 449,43), vencido o Conselheiro Martin da Silva Gesto, que deu provimento integral ao recurso. Os Conselheiros Marcio Henrique Sales Parada e Rosemary Figueiroa Augusto votaram pelas conclusões. (ASSINADO DIGITALMENTE) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 14 0. 72 00 26 /2 00 7- 10 Fl. 960DF CARF MF 2 (ASSINADO DIGITALMENTE) Dilson Jatahy Fonseca Neto Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosemary Figueiroa Augusto, Martin da Silva Gesto, Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada. Relatório Tratase, em breves linhas, recurso voluntário contra decisão da DRJ que manteve de auto de infração lavrado em desfavor da Contribuinte para constituir diferença de ITR pela glosa de área de preservação permanente e pela não comprovação do VTN. Feito o resumo da lide, passo ao relatório pormenorizado dos autos. Foi lavrada em 20/09/2006 Notificação de Lançamento de ITR suplementar, da qual a Contribuinte foi intimada em 25/09/2006 (fl. 456). Esta apresentou Impugnação em 25/10/2006 (fls. 458/478 e docs. anexos fls. 479/567). Acontece que, em 14/03/2007, o Delegado da Receita Federal cancelou a primeira Notificação de Lançamento, por meio de Despacho Decisório com o seguinte conteúdo: "O DELEGADO DA RECEITA FEDERA, abaixo identificado, no uso de suas atribuições e tendo em vista o disposto nos arts. 15, inciso III, e 149, inciso I, da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional combinado com o art. 59, I do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, resolve cancelar a Notificação de Lançamento nº 01401/00014/2006 lavrada em 20/09/2006, referente ao Imposto sobre a Propriedade Rural ITR, exercício 2005, em virtude de erro de identificação da autoridade tributária relacionada no documento. Resolve, ainda, efetuar o lançamento constante da Notificação de Lançamento em anexo, que substitui integralmente a Notificação anteriormente enviada." fl. 569 Foi lavrada, então, nova Notificação de Lançamento (fls. 416/419) para constituir ITR suplementar no valor de R$ 3.465.478,18, além de juros de mora e multa de ofício. Foram identificadas como infrações a (1) não comprovação da área declara de preservação permanente e (2) a não comprovação, por meio de laudo de avaliação de imóvel, do VTN declarado. Ainda conforme a Notificação: "Área de preservação permanente: Contribuinte apresentou laudo técnico em que foi apurado o total de 777,02 ha como de preservação permanente caracterizadas como áreas de faixa ao longo de córregos e rios, de acordo com o disposto no Art. 2º da Lei 4771/65 e Lei 7.803/89. Considerou uma área de 19.138,48 Fl. 961DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 961 3 ha como de preservação permanente por ser área de vazantes, úmidas, lagoas e nascentes intermitentes. Estas características não encontram guarida na Lei 4771/65 e Lei 7.803/89 para serem consideradas áreas de preservação permanente. Pelo exposto, está sendo desconsiderado o valor declarado a esse título. Valoração da Terra Nua: Laudo de Avaliação de Imóvel Rural, apresentado pelo contribuinte, foi elaborado de forma a não atender o que está preconizado na norma ABNT NBR 14635 3:2004, mais precisamente quanto ao item 9.2.3.5 que exige no mínimo cinco dados de mercado efetivamente utilziados. A quantidade de amostras coletadas foi em número de 07, porém ao sanear as mesmas, resultaram 3 amostras efetivamente utilizadas, não oferecendo condições para atingir o grau de fundamentação II exigido para apuração do VTN. A média do VTN/ha apurada utilizando as 7 amostras foi de R$ 449,43, enquanto a média saneada com 3 amostras foi de 404,50/ha. Assim o Valor da Terra NUa por Hectare Declarado foi substituído pelo Valor da Terra Nua por Hectare constante no SIPT (Sistema de Preços de Terras da Secretaria da Receita Federal), conforme art. 14 da Lei 9393/96." fl. 417 Foi juntado aos autos um "Termo de Informação da Notificação de Lançamento" (fl. 570), esclarecendo que a Notificação original (de 2006) tinha constituído o processo nº 10768.720162/200643. Com o seu cancelamento, foi refeita a notificação de lançamento, constituindo novo processo, este que ora se leva a julgamento (nº 10140.720026/200710). Intimada em 11/04/2007 (fl. 422), a Contribuinte apresentou Impugnação em 14/05/2007 (fls. 425/430 e docs. anexos fls. 431/448). A DRF, por sua vez, lavrou Termo de Revelia (fl. 575) em 22/08/2007, com efeitos a partir de 14/05/2007, esclarecendo que o prazo para a impugnação findou sem qualquer contestação do lançamento, de sorte que a Contribuinte teria sido revel. Em 02/07/2007 foram apensados a esses autos o processo nº 10768.720162/200643 (fl. 449). Em 29/08/2007 foi lavrado o Parecer SACAT nº 831/2007 (fls. 577/580), e em 21/11/2007 o Parecer SACAT nº 1.009/2007 (fls. 599/600). Nestes, a DRF analisou os pedidos formulados na Impugnação e em Petição de inconformidade (fls. 585/597) esta contestando o primeiro Parecer , ao fundamento de que, sendo intempestiva a Impugnação, não era possível enviála à DRJ. Em qualquer caso, a DRF manteve o lançamento. Diante dessa situação, a Contribuinte propôs Mandado de Segurança com pedido liminar para que fosse determinado o envio da Impugnação à DRJ, independente da análise da tempestividade. Em primeira leitura, o pedido liminar foi negado (fls. 608/610) mas, diante de Embargos de Declaração da Contribuinte, o poder judiciário revisou sua posição, concedendo a liminar (fls. 740/743). Enfim, chegando à DRJ, foi proferido o acórdão nº 0418.163, de 17/07/2009 (fls. 751/760), que restou assim ementado: Fl. 962DF CARF MF 4 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2005 ÁREAS ISENTAS. TRIBUTAÇÃO. Para a exclusão da tributação sobre áreas de preservação permanente e reserva legal é necessária a comprovação da existência efetiva dessas áreas no imóvel rural e cumprimento de exigências legais. VALOR DA TERRA NUA. A base de cálculo do imposto será o valor da terra nua apurado pela fiscalização, como previsto em Lei, se não existir comprovação que justifique reconhecer valor menor. Lançamento Procedente Intimada em 23/09/2009 (fl. 767), a Contribuinte interpôs Recurso Voluntário em 20/10/2009 (fls. 768/781 e docs. anexos fls. 782/783), argumentando, em síntese: · Que o art. 10, §7º, da Lei nº 9.393/1996 dispensa a Contribuinte da comprovação da existência das áreas de reserva legal e de preservação permanente, cabendo ao fisco a prova da sua inexistência; · Que as áreas de reserva legal e de preservação permanente estão identificadas no Laudo Técnico acostado aos autos; · Que existe nos autos documento protocolado no IBAMA em 2001 dando conta da existência da área de preservação permanente de 19.915,5 ha, como declarado pela Contribuinte; · Que, nos termos do art. 10, §7º, da Lei nº 9.393/1996 e do art. 9º do Decreto nº 70.235/1972, cabe ao Fisco comprovar a inveracidade das informações declaradas, mas que inexistem nos autos provas de que as áreas de reserva legal e de preservação permanente não existem; · Que o art. 9º do Decreto nº 70.235/1972 e os arts. 8º e 14 da Lei nº 9.393/1996 atribuem ao fisco o ônus de provar a inveracidade do VTN declarado pela Contribuinte; · Que não foi desconstituída a autoavaliação procedida pela Contribuinte, mas que a autoridade lançadora apenas desclassificou o Laudo Técnico por desrespeitar as formas da ABNT. · Em outras palavras, que não há nos autos provas de fraude ou subavaliações; · Que os valores utilizados como comparativo no Laudo Técnico são válidos, vez que, mesmo estando em outro município (Corumbá), as propriedades estão localizadas no Pantanal Sulmatogrossense e, portanto, têm preços equivalentes; Fl. 963DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 962 5 · Que a Súmula nº 3 do 3º CC descreve o ônus probandi na vigência da Lei nº 8.847/1994, mas que na vigência da Lei nº 9.393/1996, o art. 8º, §2º, atribui ao proprietário do imóvel o dever de declarar o VTN, mas o art. 14 atribui ao fisco provar a irregularidade ou subavaliação; e · Pede que seja determinada a realização de perícia técnica, caso o Laudo Técnico apresentado pela Contribuinte não seja aceito. Chegando ao CARF, foi proferida a Resolução nº 2202000.457, de 12/03/2013 (fls. 811/815), que determinou a conversão do processo em diligência para que fosse juntado aos autos o extrato com as informações constantes no SIPT, que não se encontra nos autos. Em 04/06/2013 foi lavrado novo Termo de Apensação, registrando a juntada a estes autos do processo nº 10768.720162/200643. Foi juntada aos autos em 02/08/2013 (fl. 836) consulta ao SIPT (fl. 835), realizada em 01/08/2013, registrando o VTN em 2005, no município de Miranda em R$ 810,28. Intimada da realização da diligência, a Contribuinte apresentou Manifestação em 08/11/2013 (fls. 916/926 e docs. anexos fls. 927/937), na qual volta a ratificar seus argumentos de (1) que estão provadas as áreas de reserva legal e de preservação ambiental; (2) que não há provas pelo fisco de que as áreas não existem; (3) que não há provas de subavaliação, prestação de informações inexatas, incorretas ou frauduletas que justifiquem a utilização dos dados constantes no sistema da SRF; e (4) que o extrato juntado não informações que possam munilo de credibilidade. Registrase que foram lavrados "Termos de Desentranhamento" (fls. 822 e 833) registrando a exclusão das fls. 1/206, 207/412, 618/673, 674/729 e 817/821. É o relatório. Voto Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de validade. Contudo, é imperioso esclarecer que o pedido de perícia deve ser tido como não formulado, nos termos do art. 16, §1º, do Decreto nº 70.235/1972, uma vez que não atende aos requisitos mínimos do inciso IV do caput do mesmo comando legal. Portanto, conheço apenas parcialmente do Recurso Voluntário. Da Área de Preservação Permanente: Conforme a autoridade lançadora, a Contribuinte não comprovou a isenção da área declarada a título de preservação permanente no imóvel rural, conforme o art. 10, §1º e Fl. 964DF CARF MF 6 inciso II, 'a', da Lei nº 9.393/1996. Mais, que a área de 19.138,48 ha declarada como de preservação permanente por ser área de vazante, úmida, lagoas e nascentes intermitentes não está amparada pelas Leis nº 4.771/1965 e nº 7.802/1989. Aceitou, entretanto, a área de 777 ha registrada em parecer técnico apresentado pela Contribuinte. O lançamento foi mantido pela DRJ ao argumento de que o art. 10, §7º, da Lei nº 9.393/1996 não dispensa a Contribuinte de comprovar os dados declarados de forma definitiva, mas apenas dispensao de fazêlo se não for intimado pela Receita Federal. Também, que há exigência do ADA consta do art. 17O, §1º, Lei nº 6.938/1981. Ainda, acompanhando o mesmo entendimento da autoridade lançadora, que as áreas incluídas como de Preservação Ambiental em razão de estarem na área do Pantanal não encontram amparo na legislação. Tanto na Impugnação quanto no Recurso Voluntário, a Contribuinte defendeu que cabia ao Fisco comprovar a inexistência das área declaradas. Outrossim, que a Contribuinte comprovou a área de preservação permanente por diversas formas. Também, que as áreas indicadas encontram guarida na legislação aplicável, posto que compostas de áreas alagadas e de várzea, inclusive apresentando outras provas além do Laudo Técnico. Pois bem. Em primeiro lugar, não pode prevalecer o argumento do Contribuinte em relação ao art. 10, §7º, da Lei nº 9.393/1996. Tratandose de parágrafo, sua interpretação deve ser atinente ao comando do caput. Assim, se é verdade que esse comando legal ora revogado dispensava a Contribuinte da comprovação prévia da existência de reserva legal e de área de preservação ambiental, tal dispensa só se aplica porquanto se trata de tributo sujeito ao lançamento por homologação. Portanto, impraticável exigir que a Contribuinte, que apura e paga o tributo, ficasse sujeita à prévia comprovação dos dados utilizados. Por outro lado, exatamente por se tratar de tributo sujeito ao lançamento por homologação, a fazenda nacional tem o poderdever de fiscalizar o lançamento, averiguando se a apuração foi adequada. Se estiver, então o lançamento será homologado, se não estiver, então deve ocorrer o lançamento de ofício. É nesse contexto, quando há fiscalização, que o Contribuinte deve comprovar os dados utilizados. Superada a tese do Contribuinte, tampouco pode prevalecer o fundamento esposado pela DRJ de que a ADA é indispensável para a comprovação da área de preservação ambiental. É necessário admitir que existem inúmeros precedentes deste e.CARF inclusive da CSRF que exigem a apresentação de ADA para que seja considerada dedutível as áreas de preservação permanente e de reserva legal. Por outro lado, não é pequena a corrente que defende que o ADA pode ser substituído por outros documentos probatórios. Em primeiro lugar, apontase a existência de inúmeros precedentes do STJ; por todos: TRIBUTÁRIO. ITR. ISENÇÃO. ATO DECLARATÓRIO AMBIENTAL (ADA). PRESCINDIBILIDADE. PRECEDENTES. ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO NA MATRÍCULA DO IMÓVEL. NECESSIDADE. 1. A jurisprudência do STJ firmouse no sentido de que "é desnecessário apresentar o Ato Declaratório Ambiental ADA para que se reconheça o direito à isenção do ITR, mormente quando essa exigência estava prevista Fl. 965DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 963 7 apenas em instrução normativa da Receita Federal (IN SRF 67/97)" (AgRg no REsp 1.310.972/RS, Rel. Min. Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 5/6/2012, DJe 15/6/2012). 2. Quando se trata de "área de reserva legal", as Turmas da Primeira Seção firmaram entendimento no sentido de que é imprescindível a averbação da referida área na matrícula do imóvel para o gozo do benefício isencional vinculado ao ITR. 3. Concluir que se trata de área de preservação permanente, e não de área de reserva legal, não é possível, uma vez que a fase de análise de provas pertence às instâncias ordinárias, pois, examinar em recurso especial matérias fáticoprobatórias encontra óbice da Súmula 7 desta Corte. Agravo regimental improvido. (AgRg nos EDcl no AREsp 510.529/PR, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, SEGUNDA TURMA, julgado em 23/09/2014, DJe 06/10/2014) Nesse sentido, também, recente decisão da CSRF julgada à unanimidade (acórdão nº 9202004.386, de 25/08/2016): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Anocalendário: 2005 ITR.. ÁREA DE UTILIZAÇÃO LIMITADA RESERVA LEGAL. CERTIDÃO DE REGISTRO OU CÓPIA DA MATRÍCULA DO IMÓVEL COM AVERBAÇÃO DA ÁREA DE RESERVA LEGAL; DATA ANTERIOR AO FATO GERADOR ATO CONSTITUTIVO. A averbação no registro de imóveis da área eleita pelo proprietário/possuidor é ato constitutivo da área de reserva legal; portanto, somente após a sua prática é que o sujeito passivo poderá suprimila da base de cálculo para apuração do ITR, independentemente da apresentação do ADA. Recurso Especial do Procurador Negado: No corpo do voto o i.Relator amiudou seus fundamentos, explicando o art. 10 da Lei nº 9.393/1996 e o art. 17O da Lei nº 6.938/1981 da seguinte forma: "Percebese que a apresentação do ADA pelo contribuinte ao IBAMA ou órgão conveniado – até que haja uma vistoria pelo órgão competente e a ratificação ou retificação das declarações ali contidas – restringese a informações prestadas pelo próprio contribuinte ao órgão ambiental acerca da existência de áreas que possuem algum interesse ecológico. Tenho que o § 1º do art. 17O instituiu a obrigatoriedade apenas para situações em que o benefício de redução do ITR ocorra com base no ADA, ou seja, depende do reconhecimento ou declaração por ato do Poder Público. Fl. 966DF CARF MF 8 Quanto aos documentos necessários para comprovação da ARL área de Reserva Legal podemos concluir que a própria Administração Pública entende que o ADA tem efeito meramente declaratório, não sendo o único documento comprobatório da área de preservação permanente, podendo ser levando em conta, dentre outros, ∙ Certidão de registro ou cópia da matrícula do imóvel com averbação da Área de Reserva Legal, que especifique e discrimine a área de interesse ambiental. (...) Nestes termos, conforme descrito no acórdão recorrido, restando comprovada a averbação em data anterior ao fato gerador, devem ser computadas as áreas de reserva legal 37.500/ ha , excluindoas desse modo, da área tributável do ITR no exercício em exame, posto ser esse instrumento capaz de constituir, independente da apresentação do ADA. Esse só se faria exigível caso foi o instrumento adotado pelo sujeito passivo como elemento único e suficiente para comprovar a área descrita na DITR." (grifos no original) Pois bem. Seguindo a linha esposada no acórdão unânime da CSRF, entendo que o ADA é dispensável, se o Contribuinte trouxer aos autos outras provas que demonstrem, estreme de dúvidas, a existência da área de reserva legal e da área de preservação permanente. In casu, a Contribuinte trouxe aos autos ADA (fl. 495) protocolado em 2001, antes do anocalendário referente ao qual foi lavrado o lançamento, no qual registrou uma área total de 19.915,5 ha de Área de Preservação Ambiental. No mesmo sentido, conforme o Laudo Técnico de Avaliação (fls. 497/537), o imóvel tem efetivamente 19.915,5 ha de área de preservação permanente: "1. Áreas de preservação permanente existentes numa faixa de 30.00 metros de cada lado dos cursos d'áqua (Córrego Boné, Córrego Touro Morto. Córrego Latrina e Cabeceiras sem denominação) existentes dentro da propriedade e numa faixa de 100.00 metros existente ao longo do Rio Aquidauana (largura do Rio varia de 100.00 a 140.00 metros): Área considerada (01): 777,02 hectares. 2. Áreas de preservação permanente existentes ao redor de nascentes ou olho d'áqua ainda que intermitentes com raio mínimo de 50.00 metros e ao redor de lagoas (permanentes e sazonais), corixos e vazante. As áreas de preservação permanente considerada abrange nascentes intermitentes, lagoas e principalmente área de vazantes, que são áreas úmidas que recebem grande quantidade de água e que está próxima ao Rio Aquidauana (está definida na planta de uso do solo parte integrante deste laudo técnico). Dessa forma essas áreas áreas consideradas de preservação permanente não estão cercadas pois economicamente ou operacionalmente se torna inviável devido a extensão da área. Fl. 967DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 964 9 A área considerada de preservação permanente está localizada no Pantanal baixo com áreas permanentemente alagadas e que está próxima ao Rio Aquidauana. Área considerada (02): 19.138,48 hectares. Dê acordo com o artigo 2° da Lei 4.771/65 (redação dada pela Lei 7.803/89) as áreas de preservação permanente existente e consideradas (01+02) para o imóvel é de 19.915.50 hectares." fls. 517/518; (grifos no original). Acontece que, de posse desse Laudo, a autoridade lançadora aceitou apenas a área identificada como (01), mas não a (2), ao argumento de que esta não se adequa às regras da Lei nº 4.771/1965, com alterações dasdas pela Lei nº 7.803/1989. Remontando à Lei, então vigente, é conveniente transcrever o seguinte comando legal: Art. 2° Consideramse de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios ou de qualquer curso d'água desde o seu nível mais alto em faixa marginal cuja largura mínima será: (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 1 de 30 (trinta) metros para os cursos d'água de menos de 10 (dez) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 2 de 50 (cinquenta) metros para os cursos d'água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 3 de 100 (cem) metros para os cursos d'água que tenham de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 4 de 200 (duzentos) metros para os cursos d'água que tenham de 200 (duzentos) a 600 (seiscentos) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) 5 de 500 (quinhentos) metros para os cursos d'água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros; (Incluído pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; c) nas nascentes, ainda que intermitentes e nos chamados "olhos d'água", qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 (cinquenta) metros de largura; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) d) no topo de morros, montes, montanhas e serras; Fl. 968DF CARF MF 10 e) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; f) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues; g) nas bordas dos tabuleiros ou chapadas, a partir da linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais; (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) h) em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, qualquer que seja a vegetação. (Redação dada pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) i) nas áreas metropolitanas definidas em lei. (Incluído pela Lei nº 6.535, de 1978) (Vide Lei nº 7.803 de 18.7.1989) Parágrafo único. No caso de áreas urbanas, assim entendidas as compreendidas nos perímetros urbanos definidos por lei municipal, e nas regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, em todo o território abrangido, obervarseá o disposto nos respectivos planos diretores e leis de uso do solo, respeitados os princípios e limites a que se refere este artigo. (Incluído pela Lei nº 7.803 de 18.7.1989) Ora, conforme a descrição feita no Laudo Técnico de Avaliação, o imóvel parece se adequar ao comando legal descrito no art. 2º da Lei nº 4.771/1965, então vigente: "A área considerada de preservação permanente está localizada no Pantanal baixo com áreas permanentemente alagadas e que está próxima ao Rio Aquidauana." Frisase: a autoridade lançadora em momento algum questionou a tecnicidade do laudo em relação à identificação das áreas do imóvel. Pelo contrário, aceitou a área de 777,02 ha identificada pelo mesmo laudo. Apenas, em relação à área de 19.138,48 ha, entendeu que não se adequava à legislação. É interessante anotar que este e.CARF já reconheceu que a área do Pantanal MatoGrossense se enquadrada como Área de Preservação Permanente: Acórdão CARF nº 2202002.539, de 20/11/2013 INCLUSÃO DE ÁREA DE PANTANAL MATOGROSSENSE COMO ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE. As áreas localizadas dentro da área do Pantanal Mato Grossense enquadramse como Àreas de Preservação Permanente. Precedentes. Acórdão 3ª CC nº 30333.280, de 21/06/2006 ITR/1.998. Tendo sido trazido aos Autos documentos hábeis, revestidos das formalidades legais, que comprovam ser a utilização das terras da propriedade a informada pelo recorrente, e restando comprovado que esta parte da propriedade é . constituída por planícies alagáveis e estando impedida sua exploração, pois igualmente inserida no ecossisterna do pantanal matogrossense, é de se reformar o lançamento como efetivado pela fiscalização, para que seja dado provimento ao Recurso. Fl. 969DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 965 11 Acórdão 3ª CC nº 30333.277, de 21/06/2006: ITR/1997. Auto de infração lavrado por glosa da área de preservação permanente por falta do ADA e de parte e reserva legal por falta de comprovação da área efetiva para fins de isenção do ITR. Não estão sujeitas à prévia comprovação por parte do declarante, conforme dispõe o art. 10, parágrafo 1º, da Lei nº 9.393/96. Restou comprovado mediante documentos hábeis e idôneos a existência da área de preservação permanente desde época do fato gerador. As áreas da propriedade são constituídas por planícies alagáveis e inseridas no pantanal matogrossense, considerado de preservação permanente/reserva legal. Área excedente de reserva legal não comprovada. Em suma, ante à inexistência de dúvidas quanto à natureza e às características físicas do imóvel rural, e uma vez que se reconhece que as áreas assim descritas enquadramse na definição de área de preservação permanente, é necessário afastar a glosa realizada pela autoridade lançadora, para recompor a área de não incidência conforme declarado pela Contribuinte. Do VTN: Conforme a autoridade lançadora, o Laudo de Avaliação de Imóvel Rural apresentado não respeitou as normas da ABNT, razão pela qual foi desconsiderado. Nesse sentido, arbitrou o VTN com base nas informações disponíveis no SIPT. A DRJ manteve o lançamento explicando que a utilização dos valores constantes no SIPT são válidos, desde que a Contribuinte, devidamente intimada, não apresente elementos suficientes para comprovar o valor declarado. Em relação ao laudo técnico apresentado, não apenas ratificou o entendimento da autoridade lançadora de que não cumpre os requisitos da ABNT como também apontou que os parâmetros utilizados são de outro município, e que a Contribuinte não apresentou laudo técnico substitutivo, sanando os obstáculos indicados. A Contribuinte, por sua vez, defendeu que o valor declarado no VTN é válidos, porquanto reflete o preço de mercado. Também apontou que a Fazenda Pública não logrou desqualificar as informações lançadas pela Contribuinte, e que o valor utilizado é genérico e sem critérios de particularidade em relação ao imóvel. Pois bem. Preliminarmente, é importante anotar que esse processo já foi convertido em diligência, pela Resolução CARF nº 2202000.457, de 12/02/2013 (fls. 811/815) para que a autoridade lançadora instruísse os autos com o extrato SIPT. Em decorrência dessa resolução, foi juntado aos autos o extrato SIPT de 01/08/2013, referente ao exercício de 2005 (fl. 835), no qual se registra o VTN DITR em R$ 810,28, sem destrinchar os valores em razão da aptidão agrícola. Consta dos autos, entretanto, extrato do SIPT extraído em 16/07/2009 (fl. 750), também referente ao mesmo exercício de 2005, no qual se alcança o mesmo VTN DITR de R$ 810,28, mas no qual é possível identificar o VTN Médio por aptidão agrícola. Fl. 970DF CARF MF 12 Mais: a Legislação é clara em permitir a utilização dos dados disponíveis nos sistemas da Receita Federal sempre que for constatada subavaliação ou informações incorretas (art. 14 da Lei nº 9.393/1996). Tal arbitramento independe de comprovação de fraude, bastando demonstrar que o valor declarado não merece fé. De mais a mais, as informações disponíveis no sistema da Receita devem ser especializadas em função da Localização, da Aptidão Agrícola etc. (nos termos do art. 12 da Lei nº 8.629/1993). Nesse caminho, não há vício ab ovo na utilização dos dados existentes no SIPT, porquanto preenchidos os requisitos legais. A questão se limita, portanto, à análise da eventual comprovação do VTN declarado pela Contribuinte. É possível à Contribuinte comprovar a base de cálculo apurada por meio da apresentação de Laudo Técnico de Avaliação, como tentou fazer, desde que o Laudo preencha os requisitos estabelecidos pela ABNT. Essa é a jurisprudência: Acórdão CARF nº 2402004.870, de 27/01/2016: VTN. INEXISTÊNCIA DE LAUDO APTO A INFIRMAR O ARBITRAMENTO REALIZADO COM BASE NA APTIDÃO AGRÍCOLA DO IMÓVEL. Para fins de revisar o VTN arbitrado pela autoridade lançadora com base na aptidão agrícola do imóvel, deve ser apresentado laudo de avaliação que atenda aos requisitos da NBR 14.6533 da ABNT. Acórdão CARF nº 2201002.839, de 29/01/2016: VALOR DA TERRA NUA. ARBITRAMENTO. PROVA MEDIANTE LAUDO TÉCNICO DE AVALIAÇÃO. REQUISITOS. Para fazer prova do valor da terra nua o laudo de avaliação deve ser expedido por profissional qualificado e que atenda aos padrões técnicos recomendados pela ABNT. Sem esses requisitos, o laudo não tem força probante para infirmar o valor apurado pelo Fisco com base no SIPT. Acórdão CARF nº 2202003.381, de 10/05/2016: VALOR DA TERRA NUA VTN. SUBAVALIAÇÃO. ARBITRAMENTO. Correto o arbitramento promovido pela Autoridade fiscal quando não for apresentado Laudo de Avaliação, emitido por profissional habilitado, atenda aos requisitos das Normas da ABNT, demonstrando, de maneira inequívoca, o valor fundiário do imóvel, a preço de mercado, e esteja acompanhado da necessária Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) Nesse sentido, necessário se faz analisar o Laudo Técnico de Avaliação apresentado pela Contribuinte, para verificar se é hábil e idôneo a comprovar o VTN declarado: · A autoridade lançadora desconsiderou o Laudo ao argumento de que este não atendeu o quanto estabelecido no item 9.2.3.5 da norma ABNT NBR nº 14.6353:2004, que exige um mínimo de cinco dados de mercado efetivamente utilizados; segundo esclareceu, das sete amostras coletadas, apenas três foram efetivamente utilizadas. Fl. 971DF CARF MF Processo nº 10140.720026/200710 Acórdão n.º 2202003.699 S2C2T2 Fl. 966 13 · A DRJ tentou esclarecer essa glosa, apontando que a despeito de não ser necessário detalhar as causas que levaram à não aceitação do laudo as amostrar foram coletadas de imóveis em Corumbá/MS, enquanto o imóvel rural objeto do presente lançamento está em Miranda/MS. · Segundo a Contribuinte, entretanto, o simples fato de que as amostras estarem em outro município, não é suficiente para desqualificálas, visto que ambos os municípios encontramse na mesma região, tendo as mesmas características do Pantanal Sulmatogrossense¸de forma que tem preços equivalentes. A título de esclarecimento, a norma ABNT NBR nº 14.6353:2004, que exige, no item 9.2.3.5: 9.2.3.5 É obrigatório nos graus II e III o seguinte: a) a apresentação de fórmulas e parâmetros utilizados; b) no mínimo cinco dados de mercado efetivamente utilizados; c) a apresentação de informações relativas a todos os dados amostrais e variáveis utilizados na modelagem; d) que, no caso da utilização de fatores de homogeneização, o intervalo admissível de ajuste para cada fator e para o conjunto de fatores esteja compreendido entre 0,80 e 1,20. Enfim, a verdade é que a Notificação de Lançamento foi demasiado abstrata ao desconsiderar o Laudo Técnico de Avaliação: simplesmente afirmou que não preenchia os requisitos da ABNT porquanto quatro das sete amostras apresentadas deveriam ser desconsideradas. Referiuse, apenas, a "saneamento" das amostras. Quais foram as causas que levaram à desconsideração das outras quatro amostras quando desse "saneamento"? Não é possível identificálas. Se é impossível identificar a causa da glosa, então há cerceamento do direito de defesa da Contribuinte, sendo, por si só, motivo suficiente para desconsiderar a conclusão da autoridade lançadora. Ainda que se considerasse a fundamentação da DRJ que é inovação em relação à Notificação a verdade é que o simples fato de que as amostras referemse a outro município não é motivo suficiente para desconsiderálas. Inclusive, as amostras foram tomadas em relação a três municípios: Corumbá, Aquidauna e Miranda, todos se encontram na região do Pantanal, conforme atesta o próprio sistema de Cadastro Rural1: 223 — Quais os municípios que formam o Pantanal mato grossense e sulmatogrossense? Pertencem ao Pantanal matogrossense e sulmatogrossense: 1 CADASTRO RURAL, disponível em: http://www.cadastrorural.gov.br/perguntasfrequentes/itr/regioes/223 2014quaisosmunicipiosqueformamopantanalmatogrossenseesulmatogrossense, acessado em 27/01/2017 Fl. 972DF CARF MF 14 I No estado do Mato Grosso, os seguintes municípios: Barão de Melgaço, Cáceres, Curvelândia, Itiquira, Nossa Senhora do Livramento, Poconé e Santo Antônio do Leverger; II No estado do Mato Grosso do Sul, os seguintes municípios: Anastácio, Aquidauana, Bela Vista, Bodoquena, Bonito, Caracol, Corguinho, Corumbá, Coxim, Ladário, Miranda, Porto Murtinho, Rio Negro, Rio Verde de Mato Grosso e Sonora. O que é mais, compulsando o referido Laudo Técnico de Avaliação, percebe se que o mesmo apresenta todos os cálculos, fórmulas e parâmetros necessários, que há ART (fl. 543), que das sete amostras, cinco têm o fato de homogeinização entre 0,8 e 1,20 (fl. 537) etc. Por todas essas razões, entendo ser necessário dar provimento ao Recurso Voluntário nesse ponto, para aceitar o Laudo Técnico de Avaliação apresentado, aplicando o VTN de R$ 449,43/ha apurado no Laudo apresentado pela Contribuinte. Dispositivo: Diante de tudo quanto exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário para afastar a glosa da área de preservação permanente e para aplicar o VTN de R$ 449,43/ha apurado no Laudo Técnico apresentado pela Contribuinte. (ASSINADO DIGITALMENTE) Dilson Jatahy Fonseca Neto Relator Fl. 973DF CARF MF
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