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Numero do processo: 36378.001471/2002-74
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2001
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. AMPLIAÇÃO. CASOS PENDENTES.
Para fins de conhecimento de Recurso de Ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação pelo CARF, independentemente do valor que vigorava à época da interposição do recurso (Súmula CARF nº 103).
DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. AUTO DE INFRAÇÃO ASSOCIADO A NFLD. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32-A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35-A, penalidade única combinando as duas condutas. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.205
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento parcial, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. Votaram pelas conclusões as conselheiras Patrícia da Silva e Ana Paula Fernandes.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2001 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. AMPLIAÇÃO. CASOS PENDENTES. Para fins de conhecimento de Recurso de Ofício, aplica-se o limite de alçada vigente na data de sua apreciação pelo CARF, independentemente do valor que vigorava à época da interposição do recurso (Súmula CARF nº 103). DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. AUTO DE INFRAÇÃO ASSOCIADO A NFLD. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32-A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35-A, penalidade única combinando as duas condutas. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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RECURSO DE OFÍCIO. LIMITE DE ALÇADA. AMPLIAÇÃO. CASOS PENDENTES. Para fins de conhecimento de Recurso de Ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação pelo CARF, independentemente do valor que vigorava à época da interposição do recurso (Súmula CARF nº 103). DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. AUTO DE INFRAÇÃO ASSOCIADO A NFLD. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento parcial, para que a retroatividade AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 36 37 8. 00 14 71 /2 00 2- 74 Fl. 308DF CARF MF 2 benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. Votaram pelas conclusões as conselheiras Patrícia da Silva e Ana Paula Fernandes. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Auto de Infração, tendo em vista que a empresa apresentou GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias. Consta do Relatório Fiscal da Infração que a GFIP foi apresentada sem a correta indicação de todos os pagamentos efetuados a contribuintes autônomos prestadores de serviços, efetuados a título de prêmio de seguro de vida em grupo e abono salarial. Em sessão plenária de 07/06/2011, foi julgado o Recurso de Ofício e Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2402001.788 (efls. 1 a 7), assim ementado: “ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/01/1999 a 31/12/2001 RECURSO DE OFÍCIO. VALOR DE ALÇADA. PORTARIA MF. 03/2008 DA SRP. O recurso de ofício somente será conhecido quando o valor do crédito tributário exonerado em favor do contribuinte for superior ao valor de alçada determinado na Portaria n. 03/2008 do Ministério da Fazenda. SUPERVENIÊNCIA DA LEI 11.941/09. FUNDAMENTO LEGAL A SER UTILIZADO PARA O CÁLCULO DA MULTA MAIS BENÉFICA APLICADA AO CONTRIBUINTE. ART. 32A DA LEI 8.212/91. Em razão da superveniência da Lei 11.941/09, uma vez verificado que o contribuinte apresentou Guias de Recolhimento de FGTS e Informações a Previdência Social GFIP com informações inexatas acerca dos fatos geradores de contribuições previdenciárias, deve ser considerado, para fins de recálculo da multa a ser aplicada, o disposto no art. 32A da Lei 8.212/91. Fl. 309DF CARF MF Processo nº 36378.001471/200274 Acórdão n.º 9202006.205 CSRFT2 Fl. 308 3 Recurso de Ofício não Conhecido e Recurso Voluntário Provido em Parte.” A decisão foi assim registrada: "Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário para redução da multa aplicada, nos termos do artigo 32A da Lei n° 8.212/91, caso mais benéfica, e em não conhecer do recurso de ofício.” O processo foi recebido na PGFN em 26/07/2011 (carimbo aposto à Relação de Movimentação de fls. de efls. 192) e, em 24/08/2011, o Sr. Procurador tomou ciência do acórdão (efls. 191). Em 29/08/2011( Relação de Movimentação de efls. 193), foi interposto o Recurso Especial de efls. 194 a 204. O Recurso Especial está fundamentado no art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009, e visa rediscutir as seguintes matérias: conhecimento do Recurso de Ofício; e retroatividade benigna, em face das penalidades previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. Ao Recurso Especial foi dado seguimento, conforme Despacho nº 2400 462/2011, de 20/09/2011 (efls. 241 a 244). Em seu apelo, a Fazenda Nacional apresenta os seguintes argumentos, em síntese: quanto ao limite de alçada aplicável ao Recurso de Ofício, entende que deve ser aplicado o valor vigente no momento da interposição do Recurso de Ofício, ou seja, à época da decisão de Primeira Instância; no que tange à retroatividade benigna, a Fazenda Nacional pede que, na execução do julgado, se verifique qual a norma mais benéfica: se a soma das duas multas anteriores (art. 35, II, e art. 32, IV, da norma revogada) ou a multa do art. 35A da MP 449/2008. Cientificada do acórdão, do Recurso Especial da Procuradoria e do despacho que lhe deu seguimento em 17/02/2012 (AR Aviso de Recebimento de efls. 251), a Contribuinte, em 07/03/2012 (carimbo aposto às efls 253), ofereceu as Contrarrazões de efls. 253 a 261, contendo os seguintes argumentos, em resumo: Do não conhecimento do recurso de ofício: valor de alçada previsto na Portaria MF nº 375, de 2001 a Fazenda Nacional pede seja aplicado o entendimento consagrado no acórdão paradigma, para que a admissão do Recurso de Ofício seja realizado com base no valor de alçada previsto na legislação vigente à época da interposição do recurso e não com base no valor de alçada que vigorava no momento do julgamento do recurso; Fl. 310DF CARF MF 4 ocorre que, numa ou noutra hipótese, o Recurso de Ofício não seria mesmo cabível, já que à época da interposição do recurso vigia a Portaria MF nº 375, de 2001, que previa o valor de alçada de R$ 500.00,00, superior, portanto, ao valor do crédito exonerado pela Delegacia de Julgamento; nos termos do acórdão recorrido, "(...) quanto ao recurso de ofício, verifico da análise dos autos que a multa relevada totaliza o valor de R$ 345.077,29 (trezentos e quarenta e cinco mil setenta e sete reais e vinte e nove centavos) (...)", montante inferior ao patamar fixado na Portaria MF n° 375, de 2001 (R$ 500.000,00) e na Portaria nº 03, de 2008 (R$ 1.000.000,00), logo não há que se cogitar do conhecimento do Recurso de Ofício, conforme declarado no acórdão recorrido. Da inaplicabilidade da multa do art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1991 a sanção imposta à Contribuinte teve como base legal o art. 32, § 5º, da Lei n° 8.212, de 1991 (na redação que lhe foi conferida pela Lei nº 9.528, de 1997); referido dispositivo foi expressamente revogado pela Lei nº 11.941, de 2009, que em substituição introduziu o art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, que prevê a aplicação da multa pelo descumprimento de obrigação acessória vinculada à apresentação e preenchimento de GFIP; assim, o descumprimento da obrigação acessória nele prevista enseja a aplicação de multa isolada, que goza de autonomia em relação às demais multas previstas na legislação e deve, ainda, ser encarada como norma especial aplicável apenas às infrações pertinentes ao descumprimento de obrigações acessórias relativas à GFIP; a outra norma inserida pela Lei n° 11.941, de 2009, foi o art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1991, que estipula a penalidade aplicável nas hipóteses em que há o lançamento de ofício das contribuições sociais; uma análise desatenta dos dispositivos acima poderia levar o intérprete à conclusão de que o disposto no art. 35A se aplica quando houver, cumulativamente, o descumprimento de obrigações acessórias vinculadas à GFIP e o lançamento de ofício das contribuições sociais; entretanto, para a correta solução da controvérsia, fazse necessário um estudo sistêmico da legislação em comento, bem como a apreensão da real natureza jurídica das penalidades previstas, respectivamente, nos arts. 32A e 35A; inicialmente, importante destacar que a multa estipulada no art. 32A, aplicada pelo descumprimento de obrigações acessória concernente ao correto preenchimento e entrega da GFIP, é totalmente autônoma da obrigação principal, tanto assim que o inc. II, do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, admite a aplicação da multa isolada, ainda que a contribuição tenha sido integralmente recolhida; ademais, a penalidade em comento possui outras especificidades que comprovam sua autonomia em relação às demais, entre elas: (i) o art. 32A somente se aplica quando há erro ou ausência de uma espécie de declaração, a Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social GFIP; (ii) é facultado ao sujeito passivo entregar a declaração após o prazo legal; (iii) é possível corrigila ou suprir omissões antes de algum procedimento de oficio que resultaria em autuação; (iv) há desvinculação da obrigação de prestar declaração em relação ao recolhimento da contribuição previdenciária; Fl. 311DF CARF MF Processo nº 36378.001471/200274 Acórdão n.º 9202006.205 CSRFT2 Fl. 309 5 o art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996 (aplicável por força do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991), por outro lado, prevê a penalidade de multa para a infração consistente na falta de pagamento do tributo; a própria base de incidência da multa é a diferença apurada entre o que deveria ter sido recolhido/declarado e o que foi pago/declarado pelo contribuinte, de modo que até mesmo por ausência de base imponível, não há como a multa ser aplicada quando há apenas falta de cumprimento da obrigação acessória; ademais, o art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, é específico para as incorreções e omissões no preenchimento da GFIP, enquanto o art. 44, da Lei nº 9.430, de 199, é regra geral, aplicável quando há erro no preenchimento de declarações diversas e, em sendo assim, deve prevalecer a norma especial, que, naquilo que estabelece, derroga a norma geral; atento a esta diferença fundamental entre a natureza jurídica das penalidades supramencionadas, este E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já proferiu inúmeras decisões que confirmam o entendimento da Recorrida (cita jurisprudência do CARF); demonstrada a inaplicabilidade da regra contida no art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1991 ao caso dos autos (descumprimento de obrigação acessória), vale tecer algumas considerações acerca da sistemática adotada pelo Fisco; conforme consta expressamente no Recurso Especial (fls. 195 a 205), a retroatividade benéfica deve ser analisada comparandose, de um lado, a antiga multa de mora prevista no art. 35, II, da Lei nº 8.212, de 1991, cumulada com a multa isolada, também revogada, prevista no § 5º, do art. 32, do mesmo diploma legal e o resultado obtido com a aplicação destas duas penalidades deveria, então, ser comparado com a multa prevista no art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1991; vejase, porém, que a pretensão do Fisco é no sentido de aplicar, a fatos geradores anteriores à entrada em vigor da MP nº 499, de 2008, a multa de ofício prevista neste veículo normativo; a penalidade anteriormente prevista na Lei n° 8.212, de 1991, era apenas a multa de mora, aplicada à Contribuinte na NFLD em que se discutia o descumprimento da obrigação principal (recolhimento do tributo), e nesta Notificação de Débito, portanto, foi lançada a multa outrora prevista no art. 35, II, da Lei n° 8.212/91, que sofria variações conforme o prazo decorrido desde o vencimento do tributo até seu pagamento e em razão do crédito ter sido incluído em Notificação Fiscal de Lançamento; diante do exposto, vêse que a pretensão da Fazenda Nacional de ver aplicado o art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1996, à hipótese dos autos não encontra fundamento jurídico, haja vista que a sistemática por ela adotada pretende cumular penalidades referentes a infrações distintas, como se fossem uma coisa única; sendo assim, a comparação a ser feita para verificar qual penalidade é a mais benéfica deve basearse, tão somente, na multa prevista no § 5º, do art. 32, da Lei nº 8.212, de 1996 (já revogado) versus a multa inserta no art. 32A, após o advento da MP nº 499, de 2008; Fl. 312DF CARF MF 6 Ao final, o Contribuinte pede que seja confirmado o decidido no acórdão recorrido, determinandose o recálculo da multa nos parâmetros do 32A, da Lei nº 8.2112, de 1991. Voto Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. As matérias suscitadas são: conhecimento do Recurso de Ofício; e retroatividade benigna, em face das penalidades previstas na Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações promovidas pela MP 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009. Quanto à primeira Matéria, tratase de Recurso de Ofício com base no art. 366, inciso I, "a", do regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de 1999, na redação dada pelo Decreto nº 6.032, de 2007. Entretanto, quando do julgamento deste Recurso de Ofício pelo CARF, já se encontrava em vigor a Portaria MF nº 03, de 2008, que estabeleceu o limite de alçada de R$ 1.000.000,00. Como o crédito exonerado pela Delegacia em Belo Horizonte da Secretaria da Previdência Social não atingiu este patamar, o Recurso de Ofício não foi conhecido. Com efeito, no presente caso, verificase que foi interposto Recurso de Oficio ao CRPS, em face da exoneração de crédito tributário correspondente a multa no valor de R$ 345.077,29 (fls. 121 a 130), superior ao limite de alçada de R$ 200.000,00, estabelecido no art. 1º, inciso II, da Portaria MPS nº 158, de 2007. Ocorre que, em 07/01/2008, foi publicada a Portaria MF nº 03, de 03/01/2008, ampliando o limite de alçada para Recurso de Oficio, nos seguintes termos: “Art.1º O Presidente de Turma de Julgamento da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ) recorrerá de oficio sempre que a decisão exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa, em valor total superior a R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais). Parágrafo único. O valor da exoneração de que trata o caput deverá ser verificado por processo. Art. 2º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação. Art. 3º Fica revogada a Portaria MF nº 375, de 7 de dezembro de 2001” A matéria em discussão já se encontra sumulada, conforme a seguir: Súmula CARF nº 103 : Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Fl. 313DF CARF MF Processo nº 36378.001471/200274 Acórdão n.º 9202006.205 CSRFT2 Fl. 310 7 Assim, o entendimento aplicado no acórdão recorrido, no sentido de não conhecer do Recurso de Ofício, encontrase em perfeita consonância com a súmula acima, de sorte que ao Recurso Especial da Fazenda Nacional deve ser negado provimento. Quanto à retroatividade benigna, tratase de Auto de Infração, tendo em vista que a empresa apresentou GFIP com dados não correspondentes aos fatos geradores de todas as contribuições previdenciárias. Consta do Relatório Fiscal da Infração que a GFIP foi apresentada sem a correta indicação de todos os pagamentos efetuados a contribuintes autônomos prestadores de serviços, efetuados a título de prêmio de seguro de vida em grupo e abono salarial. O Auto de Infração ora analisado está associado a NFLD Notificação Fiscal de Lançamento de Débito, conforme destacado na DecisãoNotificação de fls. 121 a 130, de sorte que o presente processo ficou sobrestado até que fossem definitivamente julgadas as NFLD´s nas quais foram lançadas as obrigações principais correlatas. O resultado do julgamento de referidas NFLD´s consta da citada decisão, por meio da qual se depreende que todas as rubricas lançadas no presente Auto de Infração foram mantidas, por meio de julgamento administrativo transitado em julgado. Na decisão recorrida, foi determinada a aplicação da multa do artigo 32A, da Lei n° 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, caso esta seja mais benéfica à Contribuinte. Os artigos da Lei nº 8.212, de 1991, com as alterações da Lei nº 9.528, de 1997, que orientavam o Auto de Infração e a NFLD tinham a seguinte redação: “Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) IV informar mensalmente ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, por intermédio de documento a ser definido em regulamento, dados relacionados aos fatos geradores de contribuição previdenciárias e outras informações de interesse do INSS. (...) § 5º A apresentação do documento com dados não correspondentes aos fatos geradores sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente à multa de cem por cento do valor devido relativo à contribuição não declarada, limitada aos valores previstos no parágrafo anterior. (...) Art. 35. Para os fatos geradores ocorridos a partir de 1º e abril de 1997, sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa de mora, que não poderá ser relevada, nos seguintes termos: (...) Fl. 314DF CARF MF 8 II. para pagamento de créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento: a) doze por cento, em até quinze dias do recebimento da notificação; b) quinze por cento, após o 15º dia do recebimento da notificação; c)vinte por cento, após apresentação de recurso desde que antecedido de defesa, sendo ambos tempestivos, até quinze dias da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social – CRP; d) vinte e cinco por cento, após o 15º dia da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS, enquanto não inscrito em Dívida Ativa.” Assim, no caso em apreço, considerandose que houve exigência por meio de Auto de Infração (descumprimento de obrigação acessória, objeto do presente processo) e de NFLD (descumprimento de obrigação principal), foram aplicadas duas multas, no contexto de lançamento de ofício. Com efeito, o entendimento desta CSRF é no sentido de que, embora a antiga redação dos artigos 32 e 35 da Lei nº 8.212, de 1991, não contivesse a expressão “lançamento de ofício”, o fato de as penalidades serem exigidas por meio de Auto de Infração e NFLD não deixa dúvidas acerca da natureza material de multas de ofício. Resta perquirir se as alterações posteriores à autuação, implementadas pela Lei nº 11.941, de 2009, representariam a exigência de penalidade mais benéfica ao Contribuinte, hipótese que autorizaria a sua aplicação retroativa, a teor do art. 106, II, do CTN. Para tanto, porém, é necessário que se estabeleça a exata correlação entre as multas anteriormente previstas e aquelas estabelecidas pela Lei nº 11.941, de 2009, a ver se efetivamente seria o caso, e em que condições aplicarseia a retroatividade benigna. As alterações promovidas pela Lei nº 11.941, de 2009, nos artigos 32 e 35, da Lei nº 8.212, de 1991, no sentido de uniformizar os procedimentos de constituição e exigência dos créditos tributários, previdenciários e não previdenciários, são as seguintes: “Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) IV – declarar à Secretaria da Receita Federal do Brasil e ao Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS, na forma, prazo e condições estabelecidos por esses órgãos, dados relacionados a fatos geradores, base de cálculo e valores devidos da contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS ou do Conselho Curador do FGTS; (...) § 2o A declaração de que trata o inciso IV do caput deste artigo constitui instrumento hábil e suficiente para a exigência do crédito tributário, e suas informações comporão a base de dados para fins de cálculo e concessão dos benefícios previdenciários. (...) Fl. 315DF CARF MF Processo nº 36378.001471/200274 Acórdão n.º 9202006.205 CSRFT2 Fl. 311 9 Art. 32A.O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitar seá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. (...) Art. 35. Os débitos com a União decorrentes das contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições instituídas a título de substituição e das contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, não pagos nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora e juros de mora, nos termos do art. 61 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no9.430, de 27 de dezembro de 1996. E o art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, por sua vez, assim estabelece: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (grifei) Destarte, resta claro que, com o advento da Lei nº 11.941, de 2009, o lançamento de ofício, envolvendo a exigência de contribuições previdenciárias, bem como a verificação de declaração inexata do respectivo fato gerador em GFIP, como ocorreu no presente caso, sujeita o Contribuinte a uma única multa, no percentual de 75%, sobre a totalidade ou diferença da contribuição, prevista no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996. Com efeito, a interpretação sistemática da legislação tributária não admite a instituição, em um mesmo ordenamento jurídico, de duas penalidades para a mesma conduta, o que autoriza a interpretação no sentido de que as penalidades previstas no art. 32A não são aplicáveis às situações em que se verifica a falta de declaração/declaração inexata, combinada com a falta de recolhimento da contribuição previdenciária, eis que tal conduta está claramente tipificada no art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996. Fl. 316DF CARF MF 10 Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional e, no mérito, doulhe provimento parcial, determinando que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 317DF CARF MF
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Numero do processo: 10480.722213/2014-06
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 13 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2011
DECADÊNCIA. FALTA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. Diante da ausência de pagamento antecipado, ainda que parcial, a decadência rege-se pelo art. 173, I, do CTN.
IOF. OPERAÇÕES DE CRÉDITO. COLIGADAS. O art. 13 da Lei nº 9.779/99, amparado no art. 63, I e art. 66 do CTN, prescreve a incidência do IOF sobre as operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, conforme as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. Não há óbice na tributação pelo IOF das pessoas jurídicas não financeiras, sendo de nenhum valor a afirmação de que o mútuo celebrado entre empresas coligadas e os contratos de assunção de dívida destinam-se apenas a fins empresariais,sem caráter especulativo.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-004.074
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
José Henrique Mauri - Presidente.
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora.
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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FALTA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. Diante da ausência de pagamento antecipado, ainda que parcial, a decadência regese pelo art. 173, I, do CTN. IOF. OPERAÇÕES DE CRÉDITO. COLIGADAS. O art. 13 da Lei nº 9.779/99, amparado no art. 63, I e art. 66 do CTN, prescreve a incidência do IOF sobre as operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, conforme as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. Não há óbice na tributação pelo IOF das pessoas jurídicas não financeiras, sendo de nenhum valor a afirmação de que o mútuo celebrado entre empresas coligadas e os contratos de assunção de dívida destinamse apenas a fins empresariais,sem caráter especulativo. Recurso Voluntário negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. José Henrique Mauri Presidente. Semíramis de Oliveira Duro Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 48 0. 72 22 13 /2 01 4- 06 Fl. 916DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 917 2 Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Marcos Roberto da Silva (suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Tratase de auto de infração constituído para a cobrança de IOF decorrente de operações de mútuo entre empresas relacionadas e de contratos de assunção de dívidas, nos quais o contribuinte figura como credor, acrescido de multa de ofício (75%) e juros de mora, totalizando o crédito tributário de R$ 12.664.641,32. Após análise de arquivos digitais constantes no SPED, a fiscalização identificou que o grupo de contas “121060000 – VALORES A RECEBER” (integrante do ativo) apresentou um saldo inicial devedor de R$ 198.704.572,83 no anocalendário de 2009 e manteve esse mesmo saldo até o final do anocalendário de 2010. Por isso, a empresa foi intimada a entregar os documentos que justificassem os créditos perante os tomadores de recursos financeiros: Entendeu a fiscalização que houve a ocorrência do fato gerador do IOF nas operações com base em contratos de mútuo firmados entre a Recorrente e as empresas listadas acima. A motivação do lançamento está descrita no Relatório Fiscal (efls. 737743), do qual se extrai os seguintes trechos: 01 – IMPOSTO SOBRE OPERAÇÃO DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGURO OU RELATIVAS A TÍTULO OU VALORES MOBILIÁRIOS – IOF FALTA DE RECOLHIMENTO DO IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES E CRÉDITO, CÂMBIO E SEGURO OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS. Analisamos a contabilidade da fiscalizada constante do SPEED e verificamos que o grupo de contas 121060000 VALORES A RECEBER apresentava um saldo inicial em 2009 no valor de R$ 198.704.572,83 e que, durante todo período de 01.01.09 a 31.12.10, esse grupo de contas não apresentou alteração. Fl. 917DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 918 3 Tendo em vista esses fatos, intimamos a fiscalizada através do Termo de Constatação e Intimação Fiscal, de 17.1.0.13, a entregar a documentação relativa aos respectivos créditos. Através da sua Resposta, de 23.10.13, a fiscalizada alegou que esses fatos já estariam alcançados pela prescrição. Diante dessa alegação, através do Termo de Constatação e Intimação Fiscal, de 05.11.13, lembramos à fiscalizada que, segundo a legislação de regência, se fazia necessário analisar os termos dos ajustes firmados a fim de se verificar se o respectivo valor do principal havia sido definido e a intimamos a entregar a documentação correspondente. Através da sua Resposta, de 12.11.13, a fiscalizada entregou 3 (três) cópias simples de contratos de assunção de dívida, nos quais constavam a pessoa jurídica NASSAU ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES LTDA como devedora. Em relação aos demais devedores, limitouse a afirmar que "...remontam a períodos anteriores a 2006, cujas operações foram tempestivamente registradas nos Livros Diários e Razões que se encontram a disposição da fiscalização para os exames julgados necessários..." Posteriormente, através da sua Resposta, de 25.11.13, a fiscalizada entregou cópia simples de mais 1 (um) contrato de assunção de dívida, através do qual assumia a posição de devedora. (...) Continuando nossas verificações e entendendo que o instituto da assunção de dívida não extingue a relação jurídica obrigacional anterior, mas, sim, representa uma continuidade do anteriormente pactuado, pois se limita apenas à substituição de uma pessoa por outra no polo passivo, intimamos a fiscalizada a entregar os originais dos contratos que haviam sido firmados com os devedores substituídos, através do Termo de Constatação e Intimação Fiscal, de 27.01.14. Quanto a esta intimação, a fiscalizada, através de sua correspondência, sem data, entregue neste órgão federal, em 06.02.14, solicitou prorrogação em 30 (trinta) dias do prazo para atendimento, momento no qual concedemos 20 (vinte) dias. (...) Vejamos o que dispõe o Decreto n° 6.307/07, que regulamenta o imposto sobre operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários IOF: (...) Como visto acima, conforme o art. 7, inciso I, alínea quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado belo mutuário, a base de cálculo do IOF será o somatório dos saldos devedores diários apurados no último dia de cada mês. Ressaltese que esse é o caso apurado nesta ação fiscal, uma vez que à fiscalizada foram dadas várias oportunidades de demonstrar o valor principal dos vários mútuos por ela concedidos, mas ela não o fez. Verificase também que o art. 1º da IN RFB n° 907/09 não deixa margem à duvidas, ao dispor que o IOF será calculado em função do prazo pelo o qual o recurso permaneceu à disposição do tomador. Ou seja, nos casos de mútuo sem valor principal definido, enquanto o recurso permanecer com o mutuário estará ocorrendo o fato gerador do IOF. Os argumentos da impugnação da empresa podem ser sintetizados nesses termos: Fl. 918DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 919 4 1 Houve decadência, uma vez que os saldos das contas referidas no lançamento existem materialmente e formalmente contabilizados sem alterações, há mais de dez anos. Para comprovar tal assertiva, junta as cópias das folhas do Livro Razão dos anos de 1996, 1998 e 1999 (docs. 36 a 48) e também a Planilha (doc. 49) que demonstram a posição de cada saldo, em relação às empresas relacionadas. Assim, as operações de assunção de dívida e de mútuo que, individualizadas por cada contrato, se expressam nos saldos citados, datam de mais de dez anos, recaindo, pois, na situação de decadência do crédito tributário. 2 Não realizou operações financeiras sujeitas ao IOF, mas sim a) assunção de dívida e b) empréstimo de dinheiro, e que, em ambos os casos, há definição do valor entregue ou creditado ao devedor/mutuário, com determinação de prazo de carência e da data de vencimento da dívida, sem previsão contratual de renovação (anexou contratos de mútuos e de assunção de dívida). Não exerce atividade empresarial que tenha por objeto a prática de operações financeiras cujo exercício depende de prévia autorização governamental (Lei n° 4.595/64, art. 18). 3 Ainda que houvesse incidência do IOF sobre assunção de dívida e mútuo, realizados entre a autuada e suas coligadas, as bases de cálculo e alíquota aplicadas no auto de infração estariam incorretas, uma vez que não se tratam de operações em que não tenha ocorrido identificação do respectivo valor. E, ainda, não se referem às operações que sejam renováveis no futuro. 4 A multa de ofício aplicada é inconstitucional, por nítido caráter confiscatório. 5 Pede sobrestamento do processo até decisão final do STF no RE 590.1866/RS (o qual, em sede de repercussão geral, discute a constitucionalidade, ou não, da incidência de IOF nos contratos de mútuo onde não participem instituições financeiras). A 1ª Turma da DRJ/BEL, acórdão nº 0131.968, julgou improcedente a impugnação, mantendo a exigência integralmente, conforme sintetiza a ementa, a seguir reproduzida: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. São improfícuos os julgados administrativos trazidos pelo sujeito passivo, pois tais decisões não constituem normas complementares do Direito Tributário, já que foram proferidas por órgãos colegiados sem, entretanto, uma lei que lhes atribuísse eficácia normativa, na forma do art. 100, II, do Código Tributário Nacional. DECISÕES JUDICIAIS. EFEITOS. As decisões judiciais, com efeito inter partes, não podem ser aplicadas a outros casos. DECADÊNCIA. O prazo decadencial para o lançamento sujeito a homologação do pagamento é de 5 (cinco) anos contados da ocorrência do fato gerador. Para que se opere este prazo decadencial mister que o contribuinte tenha efetuado recolhimento, ainda que parcial, do tributo e, ainda, não tenha agido com dolo, fraude ou simulação. Caso contrário, contase o Fl. 919DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 920 5 lustro do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ser efetuado. IMPOSTO SOBRE OPERAÇÃO DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGURO OU RELATIVAS A TÍTULO OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF FALTA DE RECOLHIMENTO DO IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES E CRÉDITO, CÂMBIO E SEGURO OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS. CABÍVEL A TRIBUTAÇÃO. As provas apresentadas não foram suficientes e/ou adequadas para eximir a Fiscalizada da exação fiscal, ou seja, quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, a base de cálculo do IOF será o somatório dos saldos devedores diários apurados no último dia de cada mês. LANÇAMENTO DE OFÍCIO EFEITO CONFISCATÓRIO. Não há de se cogitar da materialização das hipóteses de confisco e de ofensa ao Princípio da Capacidade Contributiva quando os lançamentos se pautaram nos pressupostos jurídicos, declarados no enquadramento legal, e fáticos, esses coadunados com o conteúdo econômico das operações comerciais do contribuinte. Inconformada, a empresa apresentou seu tempestivo recurso voluntário, efls. 885903, requerendo a improcedência do lançamento, ratificando as mesmas razões de sua impugnação. Não juntou novos documentos. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais pressupostos legais de admissibilidade, dele, portanto, tomo conhecimento. Decadência O IOF sujeitase ao lançamento por homologação e, por isso, deve ser aplicada a regra geral do art. 150, §4° do CTN. Todavia, a decadência do direito de constituir o crédito tributário é regida pela regra geral do art. 150, §4°, do CTN, apenas quando o contribuinte tiver realizado o respectivo pagamento parcial antecipado. Por conseguinte, como não houve pagamento antecipado de IOF pela Recorrente, sequer parcial, é afastada a aplicação do art. 150, §4º, primeira parte, do CTN, fazendo incidir o art. 173, I, do mesmo diploma legal. Fl. 920DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 921 6 Nesse sentido, o STJ já se pronunciou no REsp 973.733/SC, Rel. Min. Luiz Fux, DJ 18/09/2009. Assim, a decadência deve ter como termo inicial, o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Neste caso, o prazo decadencial teve como termo inicial a data de 01/01/2010, para os fatos geradores ocorridos ao longo do anocalendário 2009, que são os fatos mais antigos da autuação, e como termo final a data de 31/12/2014. A notificação ao sujeito passivo se deu em 07/03/2014. Observase que não houve a alegada decadência. Portanto, nego provimento à preliminar de decadência arguida pelo contribuinte. Incidência de IOF nas operações de mútuo entre coligadas Defende a Recorrente que não exerce atividade empresarial que tenha por objeto a prática de operações financeiras, pois na condição de pessoa jurídica que exerce atividade de prestação de serviço, integrante de grupo econômico que também não realiza operações financeiras, fez mútuo com empresas coligadas para viabilização de fluxo de caixa. Entretanto, é lícita a incidência de IOF sobre as operações de mútuo, já que este não se restringe à esfera das instituições financeiras, como se demonstra a seguir. O CTN definiu os fatos geradores e os contribuintes do IOF, nos seus art. 63 e 66, nos seguintes termos: Art. 63. O imposto, de competência da União, sobre operações de crédito, câmbio e seguro, e sobre operações relativas a títulos e valores mobiliários tem como fato gerador: I quanto às operações de crédito, a sua efetivação pela entrega total ou parcial do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado; Art. 66. Contribuinte do imposto é qualquer das partes na operação tributada, como dispuser a lei. O art. 13 da Lei nº 9.779/99, amparado no art. 63, I e art. 66 do CTN, determinou a incidência do IOF sobre as operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física, conforme as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras, verbis: Art. 13. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas ou entre pessoa jurídica e pessoa física sujeitamse à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. Fl. 921DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 922 7 §1º. Considerase ocorrido o fato gerador do IOF, na hipótese deste artigo, na data da concessão do crédito. §2º. Responsável pela cobrança e recolhimento do IOF de que trata este artigo é a pessoa jurídica que conceder o crédito. §3º. O imposto cobrado na hipótese deste artigo deverá ser recolhido até o terceiro dia útil da semana subseqüente à da ocorrência do fato gerador. Decorre da leitura dos dispositivos supracitados que as operações de mútuo celebradas por pessoas jurídicas, sejam instituições financeiras ou não, subsomemse ao fato gerador insculpido no inciso I do art. 63 do CTN. O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADI nº 1.763 (DJ 26/9/2003), fixou o entendimento de que "o âmbito constitucional de incidência possível do IOF sobre operações de crédito não se restringe às praticadas por instituições financeiras". Dessa forma, não existe óbice à cobrança de IOF das pessoas jurídicas não financeiras, sobre o mútuo celebrado entre empresas coligadas para fins apenas empresariais e, portanto, sem caráter especulativo. Nesse sentido: Acórdão nº 3403003.410, 4ª Câmara / 3ª Turma Ordinária, julg. 12/11/2014 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF Anocalendário: 2004 OPERAÇÕES DE CRÉDITO. MÚTUO DE RECURSOS FINANCEIROS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS COLIGADAS. As operações de crédito correspondentes a mútuo de recursos financeiros entre pessoas jurídicas coligadas sujeitamse à incidência do IOF segundo as mesmas normas aplicáveis às operações de financiamento e empréstimos praticadas pelas instituições financeiras. E ainda, os acórdãos nº 3403003.112, 3401002.490, 3302002.264 e 3302 000.616. O art. 1º do Ato Declaratório Interpretativo nº 30/1999 dispõe que o IOF (art. 13, da Lei nº 9.779/1999), incide somente sobre operações de mútuo que tenham por objeto recursos em dinheiro, disponibilizados sob qualquer forma, e quando o mutuante for pessoa jurídica. Então, para a incidência do IOF sobre as operações de mútuo de que trata o comando legal mencionado, importa apenas a entrega ou disponibilização do recurso financeiro pela pessoa jurídica mutuante, pouco importando a forma pela qual ela se dê: conta corrente ou outros. Fl. 922DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 923 8 Para a incidência do IOF, de acordo com o art. 13 da Lei nº 9.779/99, importa verificar tão somente se estão presentes, no caso concreto, as características essenciais do mútuo, sendo irrelevantes aspectos formais mediante os quais a operação se materializa, bem como a natureza de vinculação entre as partes (coligadas). Logo, uma vez identificados os atributos inerentes ao mútuo (art. 586 do Código Civil), a operação deve sujeitarse a incidência do imposto. Ressaltese que é irrelevante a nomenclatura contratual adotada – mútuo ou assunção de dívida – para se cogitar da incidência ou não do imposto, sendo determinante para isso que, essencialmente, se trate de operação de crédito correspondente a mútuo. Por fim, quanto ao pedido de sobrestamento do julgamento até deslinde do RE 590.1866, tal pleito não encontra amparo no RICARF. Base de Cálculo e Alíquota do IOF Crédito Alega a Recorrente, ao contestar a base de cálculo e a alíquota, que cada assunção de dívida, cada mútuo, referese a uma única operação de assunção/mútuo, com identificação do valor e determinação de prazo de vencimento da obrigação. Assim, não se trata de operação incerta quanto ao valor e data de vencimento, que esteja submetida a constante renovação. E, por se tratar de única operação que, em cada contrato, se perfez com a assunção de dívida/entrega ou crédito do dinheiro à devedora/mutuária, então não há cabimento da quantificação do IOF com base em saldos de contas contábeis, com a aplicação de alíquota de 0,0041% diária, mais adicional de 0,38%, pois esses percentuais só seriam aplicáveis às operações em que não há definição do valor principal e que se constituam em operações financeiras renováveis. Entende que os contratos de mútuo e assunção de dívida acostados aos autos são suficientes para a comprovação de que a base de cálculo do IOF deveria ser construída em função de cada valor entregue ou creditado ao mutuáriodevedor. Quanto à alíquota, defende que é aquela aplicada no momento do fato gerador e, como o fato gerador do IOF se dá na data da concessão do créditoassunção de dívida, então, nos termos do art. 1° da Lei n° 8.894/1994, a alíquota para as operações que não se renovam, consiste em 1,5% sobre o respectivo valor. Entendo que não há reparos na sistemática de cálculo do auto de infração, diante da ausência de definição do valor principal, deve a base de cálculo ser construída a partir do somatório dos saldos devedores diários apurados no último dia de cada mês. Isso porque, o Decreto nº 6.306/07 prescreveu que a base de cálculo IOF nas operações de empréstimo de valor indefinido é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês (art. 7º, I, “a”), e de empréstimo com valor definido e pagamentos parcelados, o valor principal de cada parcela de pagamento (art. 7º, I, “b”). Fl. 923DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 924 9 Dito de outra forma, o art. 7º e incisos do Decreto é a sustentação legal para a construção da base de cálculo como o somatório dos saldos devedores diários apurados no último dia de cada mês, bem como as alíquotas correspondentes: Art. 7° A base de cálculo e respectiva alíquota reduzida do IOF são (Lei no 8.894, de 1994, art. 1o, parágrafo único, e Lei no 5.172, de 1966, art. 64, inciso I): I na operação de empréstimo, sob qualquer modalidade, inclusive abertura de crédito: a) quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, inclusive por estar contratualmente prevista a reutilização do crédito, até o termo final da operação, a base de cálculo é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês, inclusive na prorrogação ou renovação: 1. mutuário pessoa jurídica: 0,0041%; 2. mutuário pessoa física: 0,0082%; (Redação dada pelo Decreto nº 8.392, de 2015) b) quando ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, a base de cálculo é o principal entregue ou colocado à sua disposição, ou quando previsto mais de um pagamento, o valor do principal de cada uma das parcelas: 1. mutuário pessoa jurídica: 0,0041% ao dia; 2. mutuário pessoa física: 0,0082% ao dia; (Redação dada pelo Decreto nº 8.392, de 2015) Observase que os contratos juntados pela Recorrente não atingiram o volume de crédito escriturado no SPED, além disso o IOF incide em função do prazo pelo qual o recurso financeiro permaneceu à disposição do mutuário. Logo, os mútuos permaneceram à disposição do tomador do crédito, nos termos do art. 63, I, CTN: Art. 63. O imposto, de competência da União, sobre operações de crédito, câmbio e seguro, e sobre operações relativas a títulos e valores mobiliários tem como fato gerador: I quanto às operações de crédito, a sua efetivação pela entrega total ou parcial do montante ou do valor que constitua o objeto da obrigação, ou sua colocação à disposição do interessado; No mesmo sentido, a Solução de Consulta Interna nº 1 – Cosit, de 25 de janeiro de 2016: Fl. 924DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 925 10 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF A base de cálculo do IOF, quando não ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, inclusive por estar contratualmente prevista a reutilização do crédito, até o termo final da operação, é o somatório dos saldos devedores diários apurado no último dia de cada mês, inclusive na prorrogação ou renovação ou, quando ficar definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário, a base de cálculo é o principal entregue ou colocado à sua disposição, ou quando previsto mais de um pagamento, o valor do principal de cada uma das parcelas. Vale a mesma regra para mútuos entre pessoas jurídicas não financeiras, ou entre pessoas jurídicas e pessoas físicas. Dispositivos Legais: Decreto nº 6.306, de 14 de dezembro de 2007 Regulamento do IOF RIOF/2007, arts. 3º, 7º; Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, art. 13. Em suma, não há reparos a serem feitos na decisão de piso, uma vez que os instrumentos de assunção de dívida e os instrumentos de contrato de mútuo não são suficientes para elidir o quantum escriturado no SPED da empresa, ou seja, não ficou definido o valor do principal a ser utilizado pelo mutuário nesses contratos. Por fim, quanto à alegação de que os saldos das contas foram formados há mais de 10 anos, tal não se sustenta diante de operações de crédito decorrentes de registros ou lançamentos contábeis, em que não é possível identificar o valor a ser utilizado pelo tomador crédito e o prazo, permanecendo o saldo do crédito com a interligada sujeito ao IOF. Confiscatoriedade da multa de ofício Sustenta a Recorrente que a multa aplicada de 75% tem caráter manifestamente abusivo, desproporcional e confiscatório. O artigo 44, I, da Lei nº 9.430/96 prevê a aplicação de multa no percentual de 75% do imposto devido e não recolhido. É exatamente o caso em comento. Todos os traços da multa aplicada estão previstos em lei, atendendo ao princípio da legalidade, nos termos dos artigos 5º, II e 37, caput da Constituição e artigo 97 do CTN. Cumpre salientar ainda que, de acordo com o parágrafo único do art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. Dessa forma, constatada a ausência de recolhimentos, a autoridade fiscal não só está autorizada como, por dever funcional, está obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa pertinente. Fl. 925DF CARF MF Processo nº 10480.722213/201406 Acórdão n.º 3301004.074 S3C3T1 Fl. 926 11 A caracterização da multa como efeito confiscatório implica em análise de constitucionalidade, o que também encontra óbice na Súmula CARF nº 1. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 926DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.721820/2013-90
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da confusão patrimonial a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição.
Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a confusão patrimonial, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço.
Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2007, 2008, 2009
TRIBUTAÇÃO REFLEXA
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Numero da decisão: 9101-003.132
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Por unanimidade de votos, acordam em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Luis Flávio Neto - Relator
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da confusão patrimonial a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a confusão patrimonial, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Por unanimidade de votos, acordam em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Luis Flávio Neto - Relator (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo - Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício).
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AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da “confusão patrimonial” a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na “mais valia” do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a “confusão patrimonial”, advinda do processo de incorporação, não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2007, 2008, 2009 TRIBUTAÇÃO REFLEXA Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razões que ensejem tratamento diverso, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 18 20 /2 01 3- 90 Fl. 1764DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.765 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Por unanimidade de votos, acordam em determinar o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Luis Flávio Neto Relator (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente em exercício). Relatório Tratase de recurso especial interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional (doravante “PFN” ou “recorrente”), em que é recorrida HOLCIM BRASIL S/A (doravante “contribuinte” ou “recorrida”), em face do acórdão nº 1301001.950 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela 1a Turma Ordinária, 1a Câmara, desta 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O auto de infração foi lavrado para a exigência de IRPJ e CSLL referentes aos exercícios de 2008, 2009 e 2010, em razão da glosa da amortização de ágio, com a incidência de multa de ofício qualificada (150%). O caso envolve a aquisição de investimento e com pagamento de ágio na empresa brasileira Companhia Cimento Portland Paraíso (doravante “Portland”), com a utilização de capital originalmente estrangeiro, proveniente de Holderfin BV. A glosa do ágio em discussão foi apurado em face de duas operações específicas, em que foram adquiridas ações da ora recorrida (Holcim Brasil S/A) então detidas por pessoas físicas anteriormente controladoras da Portland. Fl. 1765DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.766 3 O acórdão recorrido apresenta a exposição dos fatos presentes no caso (efls. 1643 e seg.), in verbis: “Em ação fiscal empreendida junto ao contribuinte acima identificado, originada pelo MPF no 08.1.9000201200498, foram lavrados Autos de Infração de IRPJ Imposto de Renda Pessoa Jurídica e de CSLL – Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, resultantes da glosa de despesas de amortização de ágio na aquisição de investimento, nos períodosbase de 2007, 2008 e 2009. [...] A matéria tributável do anocalendário de 2007, de R$ 22.116.438,62, foi integralmente compensada com prejuízos (fl. 1.245) e bases negativas de CSLL do próprio período (fl. 1.260). A matéria tributável do anocalendário de 2008, de R$ 22.116.438,62, foi integralmente compensada com prejuízos (fl. 1.246) e bases negativas de CSLL do próprio período (fl. 1.261). A matéria tributável do anocalendário de 2009 foi parcialmente compensada com prejuízos e bases negativas do período e com prejuízos e bases negativas de períodos anteriores, conforme demonstrativos de fls. 1.247 e 1.262, tendo a parcela não compensada resultado na constituição de ofício de crédito tributário, conforme abaixo discriminado: [...] TERMO DE VERIFICAÇÃO FISCAL Conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 1.232/1.241, foram constatadas duas irregularidades: I. EXCLUSÃO INDEVIDA. A contribuinte excluiu indevidamente o total de R$ 3.117.207,00 na apuração do seu Lucro Real no período; II. AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. A autoridade fiscal considerou indevida a dedução de R$ 22.396.138,56 efetuada na linha 47 da Ficha 7A de suas DIPJ relativas aos anoscalendários 2007, 2008 e 2009, a título de amortização de ágio, após analisar os eventos abaixo descritos: Em 17/07/96, o Grupo Econômico multinacional HOLCIM adquire 95,94% das ações da Companhia CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, CNPJ no 33.160.318/000199, da seguinte forma: compra integral da Santa Rosalia Participações, a qual detinha 63,53% da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, pelo valor de US$ 207,1 milhões em moeda nacional; aquisição de 32,41% da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO diretamente das pessoas físicas “Irmãs Pereira da Silva”, pelo valor de US$ 86 milhões, pagos mediante a entrega de 537.520 ações ordinárias da HOLCIM BRASIL S/A, as quais correspondiam a 12,17% de seu capital social. Na mesma data, 17/07/1996, foi celebrado o “Acordo de Acionistas e Contrato de Opção” entre as Irmãs Pereira da Silva, a controladora da HOLCIM BRASIL S/A (Holderfin BV, sociedade holandesa) e uma outra empresa do grupo (Holderbank Financière Glaris Ltd., empresa suíça), para estipular direito de preferência à Holderbank Financière Glaris Ltd na compra das ações da HOLCIM BRASIL S/A detidas pelas Irmãs Pereira da Silva e, ainda, o direito da Holderbank Financière Glaris Ltd. ou de qualquer afiliada adquirir, em 31/05/2001, todas aquelas ações remanescentes; Em 30/06/2000, as Irmãs Pereira da Silva vendem à Holderfin BV 134.380 ações da HOLCIM BRASIL S/A pelo valor de R$ 38.748.375,00; Em 18/12/2000 a Holderfin BV integraliza essas 134.380 ações da HOLCIM BRASIL S/A em aumento de capital da empresa PARAÍSO PARTICIPAÇÕES Fl. 1766DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.767 4 LTDA., CNPJ no 02.564.317/000186 (conforme 2a. alteração contratual desta empresa). Esta operação foi registrada somente após 12/07/2001, ou seja, necessariamente, após a segunda recompra; Em 02/07/2001 a Holderbank Financière Glaris Ltd., através de sua filiada PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., exerce o seu direito de compra e adquire as 403.140 ações restantes que as "Irmãs Pereira da Silva" possuíam da HOLCIM BRASIL S/A, pelo valor de R$ 199.926.063,46; Ainda em 02/07/2001, a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., desdobra o seu Investimento na HOLCIM BRASIL S/A, composto por 537.520 ações, em custo de aquisição no valor de R$ 17.510.052,24 e ágio no valor R$ 221.164.386,22, totalizando os R$ 238.674.438,46 pagos em 30/06/2000 e em 02/07/2001; Em 20/12/2001 é aprovada a incorporação da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. pela HOLCIM BRASIL S/A a qual, a partir do anocalendário de 2002, vem amortizando o valor do ágio gerado na operação a razão de 10% ao ano. Conforme artigo 385 do RIR/99, regulado pelo artigo 391 do mesmo diploma legal, a amortização do ágio ou do deságio pago na aquisição de participação societária, via de regra, não possui efeito tributário; A contribuinte criou artificialmente as condições estabelecidas pelo legislador para se enquadrar na única exceção permitida à referida regra, que se dá quando a pessoa jurídica que adquiriu participação societária com ágio absorve patrimônio desta (ou tem seu patrimônio absorvido por esta, nos termos do § 6o, inciso II do art. 386, do RIR/99), através de incorporação, fusão ou cisão. A intenção do Grupo Holcim foi a aquisição da Companhia de Cimento Portland Paraíso; jamais a de ter as Irmãs Pereira da Silva como acionistas da HOLCIM BRASIL S/A, sendo que a transferência de ações desta para aquelas se deram apenas como forma de viabilizar a aquisição da Companhia de Cimento Portland Paraíso, conforme evidenciado pelo Acordo de Acionistas celebrado entre as partes que, por sua vez, previa direito de preferência para a reaquisição daquelas ações; A recompra das ações da HOLCIM BRASIL S/A se deu por dois caminhos diversos: (I) no primeiro procedimento, a Holderfin BV adquiriu diretamente da família Pereira da Silva, pelo valor de R$ 38.748.375,00, 134.380 ações da HOLCIM BRASIL, ou seja, parte do que havia sido transferido às vendedoras na ocasião da compra da Cimento Portland Paraíso; (ii) no segundo, a Holderfin BV integralizou o valor da compra na empresa veículo PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. para que, no mesmo dia, essa empresa veículo adquirisse o restante das ações da HOLCIM BRASIL S/A. que estavam sob titularidade das Irmãs Pereira da Silva; O segundo caminho percorrido na recompra da HOLCIM BRASIL S/A, embora mais complexo e oneroso do que o primeiro, foi utilizado com o objetivo de aproveitar o benefício fiscal previsto no art. 386, inciso III, c/c o inciso II do § 6o do mesmo artigo; Para isso, utilizou uma empresa veículo denominada PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA, que teve como única função receber os recursos da investidora real e adquirir a participação na investida (travestindose assim em investidora), para logo após ser incorporada pela investida. Posteriormente, a HOLCIM BRASIL S/A incorporou a empresa veículo, fazendo com que as ações daquela retornassem ao domínio da Holderfin BV; Da multa qualificada. A fiscalização concluiu que a operação montada pelo Grupo Econômico HOLCIM, a qual envolveu a utilização da empresa veículo PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., não teve motivação econômica ou negocial e teve por único propósito receber o ágio pago pela empresa estrangeira Holderfin BV, Fl. 1767DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.768 5 na aquisição de 12, 17% do capital social do contribuinte para posteriormente amortiza lo. A conduta da fiscalizada, em conluio com as demais empresas do grupo, enquadrase no previsto no artigo 44, inciso I, § 1o, da Lei no 9.430/96, vez que configurada a hipótese prevista no artigo 73 da Lei no 4.502, de 1964. Dos saldos de prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL Conforme SAPLI, as autuações devem incidir sobre os saldos de prejuízos e bases negativas de CSLL acumulados em 2007 abaixo: (...)” A Turma a quo deu provimento ao recurso do contribuinte, proferindo decisão assim ementada (efls. 1.643 e seg.): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2008, 2009, 2010 ÁGIO. TRANSFERÊNCIA. USO DE EMPRESA VEÍCULO. LEGITIMIDADE. Não é ilícita a conduta do investidor estrangeiro que prefere, primeiro, constituir uma subsidiária no Brasil para que essa, depois, adquira os investimentos que a matriz no exterior deseja. O mesmo ocorre se o investidor estrangeiro adquirir diretamente o investimento no Brasil e, a seguir, promover aumento de capital na subsidiária no Brasil, integralizando o com os investimentos previamente adquiridos. Em qualquer caso, se houve o pagamento de ágio na aquisição dos investimentos, esse ágio estará registrado na subsidiária no Brasil. Não se pode qualificar como ilícito ou fraude a opcã̧o por um caminho facultado pela legislaca̧õ, ainda que a adoção de tal caminho tenha por objetivo a economia tributária. Nas condicõ̧es aqui descritas, o mero uso de “empresa veículo” é insuficiente para a caracterização de fraude. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2008, 2009, 2010 REGISTRO CONTÁBIL DO ÁGIO EM 2001. AMORTIZAÇÃO E EFEITOS FISCAIS EM 2007, 2008 E 2009. ALEGAÇÃO DE ALTERAÇÃO DO ÁGIO CONTABILIZADO. INOCORRÊNCIA. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. As operações societárias que ensejaram a formação do ágio e seu registro contábil ocorreram em 2001. Não obstante, seus efeitos tributários ocorreram ao longo dos anos subsequentes, sempre no momento em que a contribuinte promoveu a amortização e consequente redução do resultado tributável pelo IRPJ e pela CSLL. Especificamente, neste processo se discute essa redução ocorrida nos anoscalendário 2007, 2008 e 2009. O lançamento se deu diante do entendimento do Fisco de que tais reduções seriam indedutíveis e, portanto, deveriam ter sido adicionadas às bases de cálculo daqueles tributos. Em momento algum se alterou o ágio contabilizado, mas tão somente pretende o Fisco que sua amortização não produza efeitos tributários. Diante disso, descabe cogitar da ocorrência de decadência. A PFN interpôs recurso especial, arguindo, em síntese (efls. 1.659 e seg.): “Resumindo, o Colegiado a quo, diante de hipótese em que a compra e venda realizada com sobrepreco̧ – originadora da despesa do ágio, entendeu ser legítima a dedução do ágio da base de cálculo do IRPJ e da CSLL realizada pela autuada, mesmo não tendo esta efetuado qualquer desembolso financeiro e ainda valendose de empresa veículo na operação. Assim, não obstante o decidido no acórdão recorrido (possibilidade de amortização do ágio decorrente da incorporação da “empresa veículo” Paraíso Participacõ̧es Ltda. pela investida Holcim Brasil S/A), em sentido oposto, decidiu a 1a Turma da 1a Câmara da 1a Seção de Julgamento, no emblemático “caso SANTANDER”, Acórdão no 1101000.961, diante de similitude fática, Fl. 1768DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.769 6 reconheceu que a dedutibilidade do ágio só pode ser reconhecida quando houver a confusão patrimonial entre a investida e a real investidora, conforme ementa a seguir transcrita na íntegra: (...) O entendimento vergastado no acórdão recorrido diverge do posicionamento firmado no Acórdão paradigma no 1101000.961, proferido pela 1a Turma Ordinária da 1a Cam̂ara da 1a Seção do CARF, quando admite a amortização do ágio sem a “confusão patrimonial” necessária entre a empresa investida e a real investidora, baseado no propósito negocial exibido pela empresa veículo. Dessa forma, o ponto crucial da divergência reside justamente quanto a ̀ confusão patrimonial. Pois, enquanto a decisão recorrida entendeu legítima a situação de uma “empresa veículo”, criada especialmente para permitir a aquisição de um investimento, o paradigma, diversamente, entendeu que esse requisito é inafastável, independentemente da análise do propósito.” O despacho de admissibilidade deu integral seguimento ao recurso especial interposto (efls. 1.710 e seg.). O contribuinte apresentou contrarrazões ao recurso especial do contribuinte (efls. 1.724 e seg.), pugnando, preliminarmente, pela “inadmisibilidade do recurso especial em relaçaõ à segunda operação geradora do ágio autuado” e, no mérito, pela manutenção do acórdão recorrido. Concluise, com isso, o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, Relator. CONHECIMENTO Em suas contrarrazões, requer o contribuinte a “inadmisibilidade do recurso especial em relação à segunda operaçaõ geradora do ágio autuado”. Embora as operações societárias do caso concreto estejam relacionadas com a aquisição de investimento na empresa Portland, o ágio objeto de glosa foi apurado em face de duas operações distintas, em que foram adquiridas ações da ora recorrida (Holcim Brasil S/A). O acórdão a quo bem delimitou essas duas operações que originaram, em momentos distintos, a apuração de ágio pela Paraíso Participações, bem como identificou como causa comum para a glosa da dedutibilidade de ambas, tanto pela fiscalização como pela DRJ, o entendimento de que a “real adquirente” teria sido a empresa Holderfin BV, a qual não teria, ela própria, se envolvido em nenhum dos fenômenos societários de absorção patrimonial. É o que se observa do trecho a seguir, in verbis: “Vale a pena relembrar: o ágio restou registrado na Paraíso Participacõ̧es Ltda. em duas operações distintas. Na primeira, a Holderfin BV (no exterior) adquiriu as acões com pagamento de ágio; promoveu aumento de capital na Paraíso Participações Ltda., e Fl. 1769DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.770 7 integralizou esse aumento de capital com as ações que detinha na Holcim Brasil S/A. Com isso, o ágio foi “trasnferido” da Holderfin BV para a Paraíso Participacõ̧es Ltda. Na segunda, a Holderfin BV (no exterior) aumentou o capital na Paraíso Participacõ̧es Ltda., com integralização em moeda. Na mesma data, a Paraíso Participacõ̧esadquiriu ações da Holcim Brasil S/A por valor acima do valor patrimonial, registrando contabilmente o ágio na operação.” Ao delimitar as duas operações envolvidas no caso, o acórdão a quo explicitou que em ambas há um núcleo comum, que teria motivado tanto a autuação fiscal como a decisão proferida pela DRJ: a utilização de empresa veículo, o que impossibilitaria a confusão patrimonial com a real adquirente. Destacamse as seguintes passagens do acórdão a quo: “Fica evidenciado, então, o que me parece o ponto central da discussão: a legitimidade, ou não, da utilização da empresa Paraíso Participações Ltda., tida pelo Fisco e pela Turma Julgadora em primeira instância como empresa veículo, ou seja, pessoa jurídica criada artificialmente com o único propósito de criar as condições exigidas pela lei para a amortizaçaõ fiscal do ágio. (...) O Fisco (e também a decisão de primeira instan̂cia) considerou que, em ambas as operações, quem efetivamente arcou com o pagamento do ágio teria sido a Holderfin BV, não obstante esse ágio estar registrado contabilmente na Paraíso Participacõ̧es. Aquela empresa (Holderfin BV) seria a real investidora. Daí, com a incorporação da Paraíso Participações pela Holcim Brasil, não teria ocorrido a confusão patrimonial entre investida e investidora, condicã̧o para o aproveitamento fiscal do ágio.” Para a interposição do recurso especial, a PFN apresentou dois acórdãos paradigmas, que serviriam para demonstrar divergência de interpretação quanto ao acórdão recorrido, sublinhandose os seguintes trechos de seu apelo, in verbis: “O entendimento vergastado no acórdão recorrido diverge do posicionamento firmado no Acórdão paradigma no 1101000.961, proferido pela 1a Turma Ordinária da 1a Cam̂ara da 1a Seção do CARF, quando admite a amortização do ágio sem a “confusão patrimonial” necessária entre a empresa investida e a real investidora, baseado no propósito negocial exibido pela empresa veículo. Dessa forma, o ponto crucial da divergência reside justamente quanto a ̀ confusão patrimonial. Pois, enquanto a decisão recorrida entendeu legítima a situação de uma “empresa veículo”, criada especialmente para permitir a aquisição de um investimento, o paradigma, diversamente, entendeu que esse requisito é inafastável, independentemente da análise do propósito. (...) Não houve, por parte do paradigma, a indicação de quaisquer excecõ̧es, sendo categórica quanto à vedação do procedimento levado a cabo pela autuada. Isto é, segundo as conclusões do paradigma, a vedaca̧õ se aplicaria mesmo para as privatizações ou para casos nos quais a operaçaõ decorresse de atos praticados no exterior ou por pessoas jurídicas domiciliadas fora do Brasil. Registrese, por oportuno, que as ponderações constantes no voto condutor do acórdão recorrido acerca do momento de geraca̧õ e extinção de ágio em nada alteram a questão de fundo, que é uma só: se é possível (ou não) que empresa que não efetuou qualquer desembolso financeiro deduza da base de cálculo do IRPJ e da CSLL despesa de ágio, ainda que para tanto utilize a constituicã̧o de empresa veículo.” Fl. 1770DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.771 8 O contribuinte requer a “inadmisibilidade do recurso especial em relaçaõ à segunda operacã̧o geradora do ágio autuado”, pois ambos os acórdãos paradigmas trataram da hipótese em que a empresa veículo teria recebido investimento já adquirido com ágio, o que apresentaria similitude fática com a primeira operação discutida no presente processo, mas não em relação à segunda. “In casu (segunda acusação fiscal), a compra das ações representou despesa própria da controlada brasileira (Paraíso Participações Ltda.), onde o ágio surgiu pela vez primeira, ao contrário do que ocorreu no paradigma – o qual se identifica apenas com primeira acusação fiscal lançada contra a Recorrida”. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou o cumprimento dos requisitos para a interposição do recurso especial de divergência interposto, razão pela qual não merece reparo. O cotejo analítico do primeiro acórdão paradigma, n. 1101000.961, evidencia que, naquele caso, adotouse a tese da utilização de empresa veículo que impossibilitaria a confusão patrimonial com a “real adquirente”, o que coincide com a questão nuclear do lançamento tributário e também aquela centralmente enfrentada pelo acórdão recorrido. Não se pode negar que a situação fática analisada no acórdão n. 1101000.961 tratava especificamente da transferência de investimento adquirido por uma empresa estrangeira a uma empresa brasileira, o que apresenta semelhança com a segunda operação de aquisição de investimento analisada nos presentes autos. Destacase o seguinte trecho do aludido acórdão paradigma: “Claro está que as empresas envolvidas na incorporação devem ser, necessariamente, a adquirente da participação societária com ágio e a investida adquirida. Em que pese a lei não vede a transferência consoante antes demonstrado, este procedimento não extingue, na real adquirente, a parcela do investimento correspondente ao ágio, de modo que ao final dos procedimentos realizados, com a incorporação da empresa veículo pela investida, a propriedade da participação societária adquirida com ágio subsiste no patrimônio da investidora, diversamente do que cogita a lei”. No entanto, também não se pode negar que foi determinante ao acórdão n. 1101000.961 uma questão fática precedente, atinente ao não envolvimento, na operação de absorção patrimonial, da empresa que, em última instância, teria suportado o sacrifício para a aquisição do investimento em uma companhia brasileira. Merecem destaque os seguintes trechos do referido acórdão paradigma em questão: “A autoridade lançadora demonstra no Termo de Verificação Fiscal, às fls. 395/398, que o investimento inicial de R$ 9,6 bilhões feito pelo Santander Hispano, para aquisicã̧o do Banespa, permaneceu sob sua titularidade indireta, ao final representado por investimento na controlada Banco Santander S/A, que posteriormente incorporou o Banespa. Portanto, o requisito legal de extinção do investimento não se verificou, subsistindo ativas a investidora e a investida, e por conseqüência os valores representativos do ágio no patrimônio da sociedade espanhola. Em tais condições, as amortizações promovidas pelas empresas brasileiras são indedutíveis porque não representam despesas próprias, mas sim despesas da adquirente original do investimento, que subsiste ativa. As operações societárias realizadas, visando internalizar o valor equivalente ao ágio pago pela empresa espanhola, e criar uma incorporação para supostamente atender ao requisito do art. 7o da Lei n. 9.532/97, revelam que a contribuinte buscou, Fl. 1771DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.772 9 apenas, uma vantagem tributária, sem alterar o controle societário da investida no Brasil. (...) Na medida em que somente a empresa espanhola detinha as condições necessárias para a aquisicã̧o, a impossibilidade de aproveitamento do ágio era uma desvantagem a ser considerada na decisão empresarial, não podendo ser posteriormente brandida com fundamento na igualdade entre os licitantes.” Nesses termos, a solução adotada pelo acórdão n. 1101000.961 seria eficaz para a solução das duas operações analisadas nos presentes autos. Afinal, se adotada a premissa de que “as amortizações promovidas pelas empresas brasileiras são indedutíveis porque não representam despesas próprias, mas sim despesas da adquirente original do investimento, que subsiste ativa”, o que traduz a tese do “real adquirente”, então nem a primeira operação (em que a empresa holandesa HOLDERFIN BV adquiriu as ações da HOLCIM BRASIL e as integralizou na empresa veículo PARAÍSO) e nem a segunda operação em que se apurou ágio (em que a empresa holandesa HOLDERFIN BV integralizou previamente o capital na empresa veículo PARAÍSO para que esta adquirisse mais ações da HOLCIM BRASIL) seriam hábeis a ensejar a dedutibilidade fiscal da amortização do ágio em questão. Pelo exposto, considerando que o acórdão n. 1101000.961 indicado como paradigma já seria capaz de evidenciar a divergência jurisprudencial e cumpridos os demais requisitos regimentais, voto por conhecer o recurso especial da PFN. MÉRITO A palavra “ágio” conduz à ideia de um sobrepreço que se paga por algo, um valor superior àquele seria o parâmetro esperado.1 O ágio analisado no presente processo administrativo se refere à aquisição de participação acionária relevante em empresas (investidas) por outras empresas (investidoras). Nesse caso, o legislador reconheceu como justificativa negocial para o pagamento de ágio a expectativa de rentabilidade futura da empresa investida, o valor de mercado de bens do ativo empresa investida superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, o fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. No caso concreto, uma pessoa jurídica adquiriu participação societária relevante em outra pessoa jurídica (investimento), com o pagamento de um sobrepreço (ágio) justificado pela expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Está em questão, neste julgamento, a legitimidade da amortização fiscal do aludido ágio levada realizada pelo contribuinte. 1. A identificação do ágio pelo Método de Equivalência Patrimonial (“MEP) Quando uma pessoa jurídica possui participação societária relevante em outra pessoa jurídica (controlada ou coligada), deve refletir em sua contabilidade tal investimento avaliandoo conforme o método da equivalência patrimonial (doravante “MEP”). Por sua vez, “ágios” e “deságios” são itens evidenciados nas demonstrações contábeis pelo MEP: a companhia deve evidenciar que parte do investimento mantido em sua controlada ou coligada 1 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 13 e seg. Fl. 1772DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.773 10 não se justifica pelo valor patrimonial desta, mas sim por uma ágio despendido quando de sua aquisição, considerando o fundamento pelo pagamento deste2. Nos idos de 1976, a Lei 6.404 (“Lei das SAs”) regulou a adoção do MEP, especialmente em seu art. 248: “Art. 248. No balanço patrimonial da companhia, os investimentos relevantes (artigo 247, parágrafo único) em sociedades coligadas sobre cuja administração tenha influência, ou de que participe com 20% (vinte por cento) ou mais do capital social, e em sociedades controladas, serão avaliados pelo valor de patrimônio líquido, de acordo com as seguintes normas: (…)” A legislação brasileira passou a prever que as pessoas jurídicas que detenham investimentos em controladas ou coligadas devem, ao realizar sua escrituração pelo MEP, desdobrar o custo destas: (i) no valor do patrimônio líquido existente no momento da aquisição da respectiva empresa investida e; (ii) no ágio ou deságio eventualmente suportado para a aludida aquisição: Decretolei n. 1.598/77 Art. 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. Avaliação do Investimento no Balanço Art 21 Em cada balanço o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no artigo 248 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e as seguintes normas: I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até 2 meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda. II se os critérios contábeis adotados pela coligada ou controlada e pelo contribuinte não forem uniformes, o contribuinte deverá fazer no balanço ou balancete da coligada ou controlada os ajustes necessários para eliminar as 2 Após a Lei 12.943/2014, que se aplica a período posterior ao dos presentes autos, o ágio por expectativa de rentabilidade futura se tornou residual ao valor justo dos ativos da investida. Fl. 1773DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.774 11 diferenças relevantes decorrentes da diversidade de critérios; III o balanço ou balancete da coligada ou controlada levantado em data anterior à do balanço do contribuinte deverá ser ajustado para registrar os efeitos relevantes de fatos extraordinários ocorridos no período; IV o prazo de 2 meses de que trata o item I aplicase aos balanços ou balancetes de verificação das sociedades, de que trata o § 4º do artigo 20, de que a coligada ou controlada participe, direta ou indiretamente. V o valor do investimento do contribuinte será determinado mediante a aplicação, sobre o valor de patrimônio líquido ajustado de acordo com os números anteriores, da porcentagem da participação do contribuinte na coligada ou controlada. Notese que, para fins meramente contábeis e sem consequências tributárias, na empresa investidora, o ágio (ou deságio) lançado no ativo permanente, na conta de investimento, como ativo diferido, deveria ser deverá ser amortizado mediante débito ou crédito ao seu lucro líquido. Na empresa investida, por sua vez, o ágio componente do preço de emissão de ações, lançado como reserva de capital, não está sujeito à amortização e não afeta de modo algum o resultado.3 Ainda contabilmente, vale observar que o desdobramento do referido ágio também poderia ser observado sob a perspectiva da pessoa jurídica investida, embora tais registros contábeis não apresentem qualquer importância para a questão em análise. Supondo se que uma pessoa jurídica (investidora) realizasse aumento de capital com sobrepreço em uma outra empresa (investida), referido ágio seria escriturado em conta do ativo, de investimento. Já as demonstrações financeiras da investida, em tese, deveriam evidenciar o ágio em questão em conta de reserva de capital4. A referida escrituração contábil do ágio pela investida não possui necessária relevância para a análise em tela, pois não há comunicação necessária com os lançamentos contábeis realizados pela empresa investidora. Por essa razão, em nenhum momento a legislação que rege a matéria se volta aos valores contabilizados como ágio pela empresa investida, sendo relevante, apenas, a conta de investimento presente nas demonstrações financeiras da empresa investidora. A apuração ou mesmo amortização contábil do aludido ágio por expectativa de rentabilidade futura, escriturados pela empresa investidora em função do MEP, sempre permaneceram neutros para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. No que é mais relevante ao presente caso, prescreve o Decretolei 1.598/77: Art. 25 As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o artigo 20 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no artigo 33. Conforme será evidenciado a seguir, as consequências tributárias apenas surgiriam com a realização do investimento, com a apuração do ganho (ou perda) de capital prescrita pelo art. 33 do Decretolei 1.598/77, ou com a amortização do ágio à fração 1/60 ao mês, decorrente da implementação da fórmula operacional básica prescrita pelo art. 7o da Lei n. 9.532/97. 3 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 461. 4 Podese supor, ainda, a hipótese em que uma pessoa jurídica investidora adquira os investimentos em uma outra pessoa jurídica, adquirindo as suas ações diretamente das mãos de seus antigos detentores. Caso seja pago ágio nessa operação, tais valores sequer viriam a ser escriturados pela empresa investida. Fl. 1774DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.775 12 2. A evolução da legislação e do tratamento jurídicotributário do “ágio”. Os lançamentos tributários atinentes ao caso concreto se reportam ao período compreendido entre os exercícios de 2008, 2009 e 2010. A posição cronológica dos fatos em tela é relevante para que possamos identificar os regramentos jurídicos aplicáveis, diante alterações legislativas sobre a matéria. No período que antecedeu a Lei n. 12.973/2014, vigorou no sistema jurídico brasileiro dois regimes distintos relacionados ao ágio, dedicados a funções bastante distintas: um regime contábil e outro regime tributário.5 Embora possuíssem pontos em comum, eram evidentes os seus distanciamentos. Sob a perspectiva do Direito tributário, as três grandes reformas atinentes ao ágio se deram em 1977, 1997 e 2014, como será brevemente explicitado abaixo. Já sob a ótica do Direito contábil, é possível identificar apenas dois períodos, um anterior e outro posterior à Lei 11.638/2007. Notese que essa lei introduziu alterações marcantes à matéria contábil, com a convergência das normas brasileiras aos padrões internacionais, mas não afetou em nada a apuração do ágio para fins fiscais.6 Nos subtópicos a seguir, com a necessária ênfase ao que importa para a solução do caso concreto, o tratamento tributário do ágio nos marcos temporais de 1977, 1997 e 2014 serão analisados com paralelos à contabilidade, de forma a evidenciar a comunicação e os distanciamentos dessas searas. 2.1. A legislação do período pré1997. Conforme se expos acima, a apuração do ágio conforme os arts. 20 e 21 do Decretolei 1.598/77 jamais apresentou consequências tributárias imediatas. É realmente possível dizer que a amortização contábil das despesas de ágio sempre permaneceu neutra para fins tributários nas diversas alterações legislativas atinentes à matéria. Até 1997, a única consequência tributária para o ágio por expectativa de rentabilidade futura, apurado na contabilidade da empresa investidora pela adoção MEP, se daria apenas em caso de futura realização do investimento (por exemplo, futura venda da empresa investida). Foi o que prescreveu o art. 33 do Decretolei 1.598/77: Investimento Avaliado pelo Valor de Patrimônio Líquido Art. 33 O valor contábil, para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 20), será a soma algébrica dos seguintes valores: I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido 5 Nesse sentido, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo; PEREIRA, Roberto Codorniz Leite. O ágio interno na jurisprudência do CARF e a (des)proporcionalidade do art. 22 da Lei n. 12.973/2014, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 355. 6 Nesse sentido, vide: DIAS, Karem Jureidini; LAVEZ, Raphael Assef. “Ágio interno” e “empresaveículo” na jurisprudência do CARF: um estudo acerca da importância dos padrões legais na realização da igualdade tributária, in Análise de casos sobre o aproveitamento de ágio: IRPJ e CSL à luz da jurisprudência do CARF (Coord.: PEIXOTO, Marcelo Magalhães; FARO, Maurício Pereira). São Paulo : MP, 2016, p. 328. Fl. 1775DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.776 13 amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados, nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real. III ágio ou deságio na aquisição do investimento com fundamento nas letras b e c do § 2º do artigo 20, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte IV provisão para perdas (art. 32) que tiver sido computada na determinação do lucro real. § 1º Os valores de que tratam os itens II a IV serão corrigidos monetariamente. § 2º Serão computados na determinação do lucro real: a) como ganho de capital, o acréscimo do valor de patrimônio líquido decorrente de aumento na porcentagem de participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, resultante de modificação do capital social desta com diluição da participação dos demais sócios; b) como perda de capital, a diminuição do valor de patrimônio líquido decorrente de redução na porcentagem da participação do contribuinte no capital social da coligada ou controlada, em virtude de modificação no capital social desta com diluição da participação do contribuinte. Dessa forma, desde a década de 70 até 1997, o ágio suportado pela investidora com fundamento em expectativa de rentabilidade futura teria relevância para fins tributários apenas no momento de eventual e posterior realização do investimento, com a redução proporcional da base de cálculo do ganho de capital então apurado. Em tal momento, tais despesas poderiam ser aproveitadas integralmente na apuração do ganho (ou perda) de capital, sem qualquer fracionamento. Essa possibilidade de aproveitamento fiscal integral do ágio pago conduziu a debates em torno de situações consideradas abusivas, à certa insegurança jurídica e, finalmente, à alteração de sua sistemática pela edição da Lei n. 9.532, de 10.12.1997 2.2. A legislação que perdurou entre 1997 e 2014 (aplicável ao caso sob julgamento). Com edição da Lei n. 9.532/97, o legislador ordinário alterou sensivelmente as consequências fiscais do ágio por expectativa de rentabilidade futura. A partir de então, passou a ser possível o aproveitamento do ágio à fração 1/60 ao mês, desde o momento em que o ágio escriturado pela investidora viesse a ser confrontado, em um mesmo acervo patrimonial, com os lucros advindos da empresa investida que justificaram o pagamento desse sobrepreço por expectativa de rentabilidade futura. A possibilidade de amortização das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, da forma prescrita pela Lei n. 9.532/97, depende do cumprimento de uma fórmula operacional básica, que pressupõe o fenômeno societário da absorção patrimonial, com a reunião (por incorporação, fusão ou cisão) do patrimônio da pessoa jurídica investidora com a pessoa jurídica investida, a fim de que o aludido ágio registrado naquela seja emparelhado com os lucros gerados por esta. Concretizada a absorção patrimonial exigida pelo legislador, o ágio apurado em aquisição precedente pode ser amortizado, com a redução da base de cálculo do IRPJ e da CSL, no mínimo em 60 meses, nos balanços levantados após a ocorrência de um desses eventos, ainda que a incorporada ou cindida seja a investidora (incorporação reversa). É o que se observa dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97: Fl. 1776DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.777 14 Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração7; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anos calendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão. § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar: a) o ágio, em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; b) o deságio, em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II do caput: a) será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; b) poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese da alínea "b" do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos e contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente. § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito. 7 Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998. Fl. 1777DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.778 15 Art. 8º. O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. Há quem aponte que os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 veiculariam beneficio fiscal8. Para LUCIANO AMARO, tratarseia de “estímulo a investimento na aquisição de empresas privadas com perspectivas de crescimento de rentabilidade, como incentivo à geração de riqueza, de empregos e, como consequência, de incrementar a própria arrecadação tributária”. Ainda que tais efeitos indutores possam ser observados em alguns casos, parece mais correto compreender que os arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 enunciam mera norma de dedutibilidade para apuração do IRPJ e da CSL, que inclusive limita quantitativamente a amortização do ágio em questão à fração 1/60 ao mês (ao contrário de “ampliar”, ao que seria um benefício), antes consumada em um único ato9. De benefício fiscal não se trata. O legislador simplesmente impõe que o sobrepreço em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Tratase de norma que regula a amortização fiscal de despesas com ágio por meio de uma fórmula operacional básica, bem como limita quantitativamente o exercício de tal direito à fração 1/60 ao mês. Ainda que não seja determinante para a interpretação da norma em apreço, a exposição de motivos da Lei n. 9.532/97 é ilustrativa, in verbis10: “11. O art. 8o estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já conhecidos ‘planejamentos tributários’, vêm utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo”. A exposição de motivos reafirma algo que está claro no texto legislado: o legislador não pretendeu restringir o legítimo aproveitamento do ágio por expectativa de rentabilidade futura, mas sim regular a sua fruição aos casos em que realmente ocorra 8 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 714. 9 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresaveículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. 10 Notese apenas que o projeto de lei faz referência ao dispositivo numerado como “8o”, mas, na redação aprovada, foi veiculado pelo art. “7o” e “8o”. Fl. 1778DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.779 16 aquisição de investimento relevante em pessoa jurídica com efetivo sobrepreço. A decisão do legislador foi segregar situações em que há correta apuração do ágio por expectativa de rentabilidade futura de outras que, por corresponderem a operações fictícias, realmente não poderiam ser tratadas da mesma forma. Se algum “benefício” foi pretendido em 1997 pelo legislador ordinário, este consistiu no estabelecimento de ambiente de segurança jurídica para a realização de aquisições de empresas privadas brasileiras. Em franco plano econômico de desestatização aclamado pelo governo, seguido de período de intenso movimento econômico e investimentos em empresas brasileiras (“M&A”), seria relevante aos investidores ter ambiente jurídico seguro, com uma objetiva fórmula operacional básica a ser seguida. As discussões existentes sobre o ágio até 1997 poderiam fragilizar o ambiente de confiança jurídica e econômica com inevitável inibição de investimentos, o que foi remediado pelo legislador ordinário com a edição da Lei n. 9.532/97. Em relação ao processo de desestatização – que é o caso dos autos –, o legislador achou por bem reafirmar a legitimidade de restruturações societárias realizadas após a aquisição das empresas privatizadas, como se observa da Lei n. 9.491/97: “Art. 4º. As desestatizações serão executadas mediante as seguintes modalidades operacionais: I alienação de participação societária, inclusive de controle acionário, preferencialmente mediante a pulverização de ações; II abertura de capital; III aumento de capital, com renúncia ou cessão, total ou parcial, de direitos de subscrição; IV alienação, arrendamento, locação, comodato ou cessão de bens e instalações; V dissolução de sociedades ou desativação parcial de seus empreendimentos, com a conseqüente alienação de seus ativos; VI concessão, permissão ou autorização de serviços públicos. § 1º A transformação, a incorporação, a fusão ou a cisão de sociedades e a criação de subsidiárias integrais poderão ser utilizadas a fim de viabilizar a implementação da modalidade operacional escolhida.” (grifos acrescidos) No entanto, o presente julgamento, ocorrido aproximadamente 20 anos após a enunciação da Lei n. 9.532/97 e da 9.491/97, demonstra que a sua aplicação tem gerado uma série de outras incertezas. E, permissa vênia, a interpretação adotada pela fiscalização na lavratura do auto de infração em tela demonstra que uma enorme insegurança jurídica – justamente o contrário do pretendido com a Lei n. 9.532/97 – está sendo imposta à contribuinte, o que não deve prosperar. 2.3. Período pós 2014: alterações trazidas pela Lei n. 12.973 ao reconhecimento e aproveitamento fiscal do ágio. Desde a edição da Lei n. 12.973/2014, o tratamento fiscal do ágio sofreu algumas modificações, mas mantevese em boa medida incólume. Notese que, em 2014, o legislador mais uma vez manifestou a sua decisão sobre a apuração e o aproveitamento do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. O legislador teve a oportunidade para aprimorar o sistema jurídico de forma a reduzir o Fl. 1779DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.780 17 contencioso com nova regulamentação quanto às exigências para a amortização do ágio. Tal decisão legislativa restou bastante aclarada em relação a discussões como a demonstração do valor do ágio por expectativa de rentabilidade futura (agora a lei exige a elaboração de um laudo específico e em determinado prazo, o que não existia anteriormente)11 e a validade do “ágio interno” (agora a lei veda a apuração de ágio na aquisição de investimento relevante realizada entre partes dependentes, o que não existia anteriormente)12. O silêncio do legislador, na reforma de 2014, em relação a temas igualmente contenciosos, como o da transferência de investimento com ágio analisado nos presentes autos, pode ser compreendido como inexistência de oposição às possíveis restruturações societárias periféricas que os particulares realizem. Referido silêncio evidencia o reconhecimento do legislador quanto de autoorganização garantido ao particular (liberdades econômicas), de forma a não haver nenhuma sanção no que concerne ao aproveitamento do ágio legitimamente apurado na operação originária de aquisição de investimento. Tratase de um silêncio eloquente. 3. A norma de dedutibilidade fiscal das despesas de amortização de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Caso se adote o sentido estrito da expressão “planejamento tributário” 13, a questão do ágio estará fora de sua matéria. Ocorre que a regra expressa pelos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97 situa a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, em termos estritos, entre as “economias de opção” ou “opções fiscais”14. Nas chamadas opções fiscais, o sistema jurídico tributário oferece ao contribuinte mais de uma sistemática para que submeta os seus signos de riqueza à tributação: é garantida ao contribuinte a liberdade para optar pelo caminho que lhe parecer mais adequado, seja por praticidade ou por lhe proporcionar menor ônus tributário. 11 Com as alterações introduzidas pela Lei n. 12.973/2014, o art. 20 do Decretolei 1.598/76 passou a contar com o seguinte dispositivo: “§ 3o O valor de que trata o inciso II do caput deverá ser baseado em laudo elaborado por perito independente que deverá ser protocolado na Secretaria da Receita Federal do Brasil ou cujo sumário deverá ser registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos, até o último dia útil do 13o (décimo terceiro) mês subsequente ao da aquisição da participação”. 12 Vide Lei n. 12.973/2014 prevê, art. 22: “Art. 22. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detinha participação societária adquirida com ágio por rentabilidade futura (goodwill) decorrente da aquisição de participação societária entre partes não dependentes, apurado segundo o disposto no inciso III do caput do art. 20 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, poderá excluir para fins de apuração do lucro real dos períodos de apuração subsequentes o saldo do referido ágio existente na contabilidade na data da aquisição da participação societária, à razão de 1/60 (um sessenta avos), no máximo, para cada mês do período de apuração.”. 13 Em meio às muitas divergências que o tema suscita na doutrina nacional, alguns autores incluem no conceito de planejamento tributário a utilização de opções fiscais e de normas tributárias indutoras, já que o contribuinte, ao praticar os referidos atos, certamente teria realizado prévio estudo, planejandoos. Nesse sentido, vide: ANDRADE FILHO, Edmar Oliveira. Planejamento tributário. São Paulo : Saraiva, 2009, p. 02. Outros, por sua vez, as excluem “do âmbito do planejamento, pois correspondem a escolhas que o ordenamento positivo coloca à disposição do contribuinte, abrindo expressamente a possibilidade de escolha” Nesse sentido, vide: GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 100. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso de livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 240. 14 No mesmo sentido, vide: FAJERSZTAJN, Bruno; COVIELLO FILHO, Paulo. “Transferência” de ágio por meio da chamada empresaveículo. Reflexões sobre o tema à luz da lógica e da finalidade dos arts. 7 e 8 da Lei n. 9.532/1997, in Revista Dialética de Direito Tributário n. 231. São Paulo : Dialética, 2014, p. 25 e seg. Fl. 1780DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.781 18 Explorando o exemplo da DIRPF15, com opção pela sistemática simplificada ou completa, verificase que o legislador prescreveu ao contribuinte uma fórmula procedimental básica a ser seguida pela pessoa física: no programa de computador fornecido pela Receita Federal, o contribuinte deve pura e simplesmente optar pelo modelo simplificado ou completo. O programa de computador calcula para o contribuinte qual opção lhe trará o menor custo de IRPF e, caso se opte pelo modelo mais oneroso, o sistema não prossegue até que o contribuinte confirme estar certo de que realmente irá optar por pagar mais (mensagem semelhante não aparece caso o contribuinte opte pelo caminho mais natural de poupar despesas tributárias). Neste exemplo, não estaria o contribuinte realizando um “planejamento tributário”, mas algo não apenas tolerado como regulado e incentivado pelo legislador: “opções fiscais” ou “economias de opção”. Ocorre que, com o objetivo de permitir expressamente a amortização fiscal do ágio por expectativa de rentabilidade futura, o legislador tributário também forneceu a fórmula procedimental básica a ser seguida para o aproveitamento de uma opção fiscal. Analiticamente, nos termos da Lei n. 9.532/97, a hipótese de incidência da norma que atribui consequências tributárias ao ágio incorrido por expectativa de rentabilidade futura requer a presença de fatores essenciais, que podem ser organizados da seguinte forma: Aquisição de investimento, por quaisquer das formas em Direito admitidas, com contraprestação de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura; Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição; Demonstração da expectativa de rentabilidade futura em que se funda o ágio; Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial da investida e ágio ou deságio incorrido pelo MEP; Absorção da pessoa jurídica com expectativa de rentabilidade futura (empresa investida) pela pessoa jurídica que registrou o ágio (empresa investidora), ou viceversa (incorporação reversa), possibilitando que amortização do ágio se processe contra os lucros da empresa investida (cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição); Exclusão de até 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo. A norma em questão prescreve que, na hipótese de aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, com a correta adoção do MEP para apuração pela investidora do patrimônio líquido da investida e do correspondente ágio, acompanhada da fórmula operacional básica estipulada em lei para a reunião do ágio apurado e dos lucros futuros correspondentes, então a consequência jurídicotributária deverá ser a amortização da fração de 1/60 por mês do ágio por expectativa de rentabilidade futura. Nesse cenário, para que o contribuinte faça jus à dedutibilidade do ágio, deve preencher os referidos critérios legais prescritos na citada fórmula operacional básica. Por sua vez, para que a fiscalização tributária logre êxito na glosa de despesas de ágio excluídas da base de cálculo do tributo, deverá demonstrar a simulação ou outras formas de não cumprimento de algum desses requisitos pelo legislador. 15 DIRPF Declaração de Imposto de Renda da Pessoa Física. Fl. 1781DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.782 19 3.1. Aquisição de investimento relevante com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. O art. 7o da Lei n. 9.532/97 estabelece um marco originário para a apuração do ágio potencialmente dedutível da base de cálculo do IRPJ e da CSL: o momento da aquisição de investimento com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura. Essa operação é que será determinante para a apuração do ágio que, caso cumprida fórmula operacional básica prescrita pelo legislador, dará ensejo à amortização fiscal. Assim, é requisito essencial da norma analisada que seja realizada, por pessoa jurídica, uma operação (real, obviamente) de aquisição de investimento em outra pessoa jurídica, na qual haja contraprestação pela investidora de um sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura por parte da investida. 3.2. Demonstração da expectativa de rentabilidade futura em que se funda o ágio. O art. 20, § 3º, do Decretolei 1.598/77 (redação anterior à Lei 12.973.2014), prescreve que o ágio, com justificativa no valor de mercado dos bens do ativo ou na expectativa de rentabilidade futura da investida, “deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração”. Quando se investiga o Decretolei 1.598/77, a Lei 6.404, a Lei 9.532/97 e o Decreto 3.000/99 (antes das alterações introduzidas pela Lei n. 12.973), há uma constatação comum: nenhum desses enunciados prescritivos requer qualquer forma específica de demonstração do ágio apurado pela pessoa jurídica investidora, no momento da aquisição, por expectativa de rentabilidade futura da pessoa jurídica investida. O meio de prova a ser adotado pelo contribuinte, então, deve estar circunscritos àqueles permitidos ou não vedados pelo Direito, mas ao seu critério e conveniência.16 O sentido de “demonstração”, adotado pelo art. 20, §§ 2º e 3º do Decretolei nº 1.598/1977, é amplo e não indica com precisão o meio de prova que deveria ser utilizado, exigindo apenas que fossem demonstrados o lançamento e seus fundamentos. 3.3. Fluxo financeiro ou sacrifícios econômicos envolvidos na operação de aquisição. A Lei nº 9.532/97, em seu art. 7º, apenas faz referência à “participação societária adquirida com ágio ou deságio”, sem especificar a forma como deve ser implementada tal aquisição. A maneira mais obvia de aquisição seria o pagamento em moeda, embora seja muito comum que aquisições desse tipo ocorram, por exemplo, por meio de integralização de ações. O legislador não restringiu qualquer dessas possibilidades. Pelo contrário, o legislador utilizou de termos amplos o suficiente para abarcar aquisições realizadas por quaisquer formas de contraprestação: o pressuposto de aplicação da norma é a aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação 16 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 465. Fl. 1782DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.783 20 com ágio, o que pressupõe a existência de fluxo financeiro ou quaisquer outras formas de sacrifícios econômicos envolvidos na operação. Do legado do Conselheiro MARCOS SHIGUEO TAKATA17, observase que “esse preço, repitase, pode darse em ‘moeda’ diversa a dinheiro, como ações emitidas pela companhia incorporadora de ações, como já descrito, no caso de incorporação de ações”. 3.4. Desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e ágio por expectativa de rentabilidade futura. A legislação brasileira dispõe sobre pessoas jurídicas obrigadas à adoção do MEP para refletir em suas demonstrações contábeis o valor do investimento mantido em sociedades coligadas ou controladas pelo valor do patrimônio liquido destas. Por sua vez, também há pessoas jurídicas que, embora não possuam a priori tal obrigação, tornamse igualmente obrigadas a adotar o MEP em situações específicas. No caso, a norma que se obtém da análise do art. 7o c/c o art. 8o da Lei 9.532/97 torna obrigatória a avaliação do investimento pelo MEP a toda pessoa jurídica que realizar aquisição, por qualquer forma jurídica, na qual exista contraprestação com ágio. O contribuinte que realizar a referida aquisição de investimento deverá, por ocasião desse evento, desdobrar o custo de aquisição em: (i) valor do patrimônio líquido da empresa investida verificado no momento de sua aquisição e; (ii) ágio por expectativa de rentabilidade futura incorrido na referida aquisição. Há determinação peremptória para que o contribuinte realize tal segregação, de tal forma que não lhe é dado seguir por outro caminho caso pretenda amortizar as fiscalmente tais despesas.18 A decomposição do investimento nesses dois elementos é mandatória (norma societária), apenas sendo facultativa a amortização do ágio para fins fiscais (IRPJ e CSL) na proporção máxima de 1/60. Tratandose de deságio, por sua vez, as suas consequências fiscais são naturalmente cogentes. 19 3.5. A amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Analiticamente, enquanto os fatores anteriores e o seguinte compõem a hipótese de incidência da norma de amortização do ágio, o presente elemento integra o seu consequente normativo. No entanto, para que se compreenda a razão do legislador exigir a absorção patrimonial analisada a seguir (incorporação, fusão ou cisão), é essencial compreender como o emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa adquirida 17 TAKATA, Marcos Shigueo. Ágio Interno sem Causa ou “Artificial” e Ágio Interno com Causa ou Real – Distinções necessárias, in Controvérsias jurídicocontábeis (aproximações e distanciamentos), vol. 3 (Coord.: MOSQUERA, Roberto Quiroga; BROEDEL, Alexsandro. São Paulo : Dialética, 2012, p. 211212. 18 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4578. 19 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4578. Fl. 1783DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.784 21 com o ágio incorrido pela sua aquisição interfere na efetiva dedutibilidade do ágio (consequente normativo). A regra de amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura não traz ao contribuinte um benefício fiscal pela criação de “créditos presumidos” ou “fictícios”. O legislador simplesmente recorresse um sobrepreço efetivamente incorrido e impõe que este seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. Ao conceber a amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura como mera norma de dedutibilidade em conformidade com o conceito de renda tributável, o legislador, então, prescreveu o necessário emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa adquirida com o ágio incorrido pela sua aquisição. O legislador se baseou no “princípio do emparelhamento das receitas e despesas”, que é decorrência do princípio da competência, aplicável como regra geral para a apuração do IRPJ e da CSL20. Mais do que ter se baseado, é possível afirmar que o legislador tributário, ao tutelar a amortização fiscal do ágio, se manteve coerente com o regime de competência e com as normas que o regulam no Direito societário. Notese o que prescreve o art. 177 da Lei n. 6.404/76: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. (grifos acrescidos) O legislador foi enfático, pois entre os “princípios de contabilidade geralmente aceitos” ou “princípios fundamentais da de contabilidade”21 está justamente o princípio da competência, do qual decorre o “princípio do emparelhamento das receitas e despesas”. A adoção de tais princípios contábeis como regra geral para a apuração do resultado das companhias também foi prescrita de forma expressa no art. 187 da Lei n. 6.404/76: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. A Resolução CFC n. 750/93 também exprimiu ser decorrência necessária do princípio da competência a adoção do método (ou “princípio”) do confronto das receitas e despesas, como se observa do art. 9o da aludida norma contábil: Art. 9º. As receitas e as despesas devem ser incluídas na apuração do resultado do período em que ocorrerem, sempre simultaneamente quando se correlacionarem, independentemente de recebimento ou pagamento. § 1º O Princípio da COMPETÊNCIA determina quando as alterações no ativo ou no passivo resultam em aumento ou diminuição no patrimônio líquido, 20 Há exceções ao princípio da competência, cabendo ao legislador ordinário optar entre este e o regime de caixa. Mas, aqui, aplicase a regra geral do regime de competencia. 21 Vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Fundamentos do imposto de renda. São Paulo : Quartier Latin, 2008, p. 1038 e seg. Fl. 1784DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.785 22 estabelecendo diretrizes para classificação das mutações patrimoniais, resultantes da observância do Princípio da OPORTUNIDADE. § 2º O reconhecimento simultâneo das receitas e despesas, quando correlatas, é conseqüência natural do respeito ao período em que ocorrer sua geração. Com as alterações introduzidas pela Resolução CFC n. 1.282/10, o aludido dispositivo passou a constar com outra redação, sem alterar em nada o princípio do emparelhamento das receitas e despesas. Como nem poderia ser diferente, a norma contábil reafirma o método do emparelhamento de receitas e despesas como pressuposto para a concretização do princípio da competência: Art. 9º. O Princípio da Competência determina que os efeitos das transações e outros eventos sejam reconhecidos nos períodos a que se referem, independentemente do recebimento ou pagamento. Parágrafo único. O Princípio da Competência pressupõe a simultaneidade da confrontação de receitas e de despesas correlatas. No caso da amortização fiscal das despesas de ágio por expectativa de rentabilidade futura, o referido método (ou princípio) contábil é vivificado sob a premissa de que “despesas antecipadas devem ser ‘guardadas’ (ativadas) até que se verifiquem as receitas que lhe são correspondentes.”22, o que condiz com a observância do princípio da competência e do emparelhamento de receitas e despesas: a amortização do ágio deve se processar contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. A questão técnica imediatamente surgida ao legislador foi identificar, nas normas societárias e contábeis brasileiras, formas possíveis para operar o aludido emparelhamento dos lucros efetivamente gerados pela empresa investida com o ágio apurado pela investidora quando de sua aquisição. Afinal, a despesa com o ágio por expectativa de rentabilidade futura se encontraria em um entidade (empresa investidora), enquanto que as receitas que ocasionariam a geração dos lucros futuros seriam gerados por outra entidade (empresa investida). Em alguns países, a exemplo dos Estados Unidos, em que o princípio da entidade é tratado de forma diversa e há a consolidação dos demonstrativos contábeis da controladora e de suas subsidiárias, é comum verificarse o que se chama de “push down accounting”. Por meio desse, em hipótese, com a consolidação dos balanços da controladora e de suas subsidiárias, as despesas de ágio apuradas por aquela seriam trazidos para baixo e confrontados com lucros gerados por esta. Se o legislador tributário brasileiro estivesse imerso em tal tradição jurídica, certamente não teria qualquer desafio para implementar um permissivo legal à amortização do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura: em razão da consolidação dos balanços e do “push down accounting”, haveria comunicação natural das despesas com o ágio e as receitas cuja expectativa de geração futura justificou a sua assunção. No Brasil, no entanto, não há correspondente ao chamado “push down accounting”, com uma tradição societária e contábil firme no princípio da entidade. O problema se mostrou evidente: como possibilitar que a empresa investidora amortize o ágio 22 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 1501. Fl. 1785DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.786 23 fundado em expectativa de rentabilidade futura, deduzindoo dos aludidos lucros quando se concretizarem, se estes (ágio e lucro) se encontram em entidades distintas (controladora e controlada)? Assim, com base nas normas societárias e contábeis brasileiras, coube ao legislador tributário estabelecer uma fórmula operacional básica apta a emparelhar o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. 3.6. Absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio (investida) pela pessoa jurídica detentora do investimento adquirido com ágio (ou viceversa). O art. 7o, caput, da Lei n. 9.532/97, requer que o particular realize operações societárias que conduzam à absorção da pessoa jurídica a que se refira o ágio (investida) pela pessoa jurídica detentora do investimento adquirido com ágio (ou viceversa), notadamente incorporações, fusões ou cisões. É necessário compreender que o legislador não buscou induzir a concentração de atividades empresariais em uma única empresa por meio das normas do art. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97. Não há vestígios de discussões legislativas nesse sentido, não há indicações de tal jaez no texto legislação e também não se concebe plausividade nessa diretriz. A fórmula operacional básica prescrita pelo legislador atendeu a quesitos técnicos muito claros, que nada tem a ver com a indução da concentração de atividades empresariais em uma única empresa, quais sejam: os lucros gerados pela pessoa jurídica investida devem ser confrontados com a fração de amortização do ágio apurado pela empresa (coerência do legislador com tradicional método do emparelhamento de receitas e despesas para a apuração do IRPJ e CSL). como não há no sistema jurídico brasileiro norma de consolidação de balanços que conduza ao “push down accounting”, o legislador tributário prescreveu ao contribuinte a necessidade de reunião das pessoas jurídicas investidora e investida (absorção patrimonial), por meio de incorporação, fusão ou cisão. O legislador não buscou induzir a concentração de empresas pura e simplesmente, como se isso fosse um valor a ser alcançado pela sociedade. Caso a tradição jurídica brasileira consagrasse norma geral da consolidação de balanços, o referido “push down accounting” tornaria prescindível o fenômeno da absorção para a reunião patrimonial das empresas investida e investidora, pois a adoção deste método faria com que a empresa investida trouxesse para si (“para baixo”) as despesas de ágio apurado pela empresa investidora. A exigência normativa, portanto, reside simplesmente em uma necessidade técnica de reunião (i) do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com (ii) o acervo patrimonial em que estão registrados os sacrifícios do investimento realizado, com a segregação, pelo MEP, dos valores atinentes ao ágio e ao valor patrimonial da investida identificado quando de sua aquisição. A exigência do legislador consiste simplesmente no emparelhamento de receitas e despesas, o que se dá com “‘a realização’ do investimento, Fl. 1786DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.787 24 mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento”23. Esse fator da fórmula operacional básica é bem descrito por LUCIANO AMARO24, quando identifica que “o que autorizará a amortização do ágio é a operação de incorporação (ou fusão ou cisão) que implique a “confusão” na mesma entidade (investidora ou investida, ou terceira empresa resultante de fusão de ambas) do investimento societário e do acervo da investida que justificou o ágio pago na aquisição desse investimento”. Conclui esse professor, acertadamente, que a “lei não criou obstáculos. Pelo contrário, afastouos expressamente” 25. Para que a junção em uma mesma entidade do fluxo futuro de renda (gerado pelo acervo da investida) com as despesas de ágio para a aquisição do investimento (contabilizado na empresa investidora), a norma prevê amplas formas jurídicas, contemplando incorporações, fusões ou mesmo cisões. Assim, considerando que uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de sobre preço (ágio) justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma conduz a situações como: se a empresa investidora (“X”) incorporar a empresa investida (“Y”), esta deixaria de existir, passando a existir apenas aquela (“X”) com a sucessão universal de todos os direitos e obrigações desta (“Y”). Assim, das receitas da então empresa investida (“Y”) poderiam ser deduzidas, no limite de 1/60 mensais, as despesas de amortização de ágio apuradas pela investidora (“X”). O mesmo se daria com a incorporação reversa, na hipótese da empresa investida (“Y”) incorporar a investidora (“X”), por permissivo expresso do art. 8o, “b” da Lei n. 9.532/97. se a empresa investidora (“X”) for cindida, resultando na criação de nova empresa (“X2”) com o investimento detido na investida (“Y”) e, posteriormente, incorporar esta, a empresa investida (“Y”) deixará de existir, passando a existir apenas cindida (“X2”). Devido à sucessão universal de todos os direitos e obrigações, as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser amortizadas, no limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X2”). A cisão parcial seguida da incorporação reversa também seria possível, por permissivo expresso do art. 8o, “b” da Lei n. 9.532/97. se a empresa investidora (“X”) e a investida (“Y”) forem fusionadas, deixando de existir para dar lugar ao nascimento da empresa fundida (“Z”), a qual receberá por sucessão universal todos os direitos e obrigações daquelas (“X” e “Y”), as receitas da então empresa investida (“Y”) poderão ser amortizadas, no limite de 1/60 mensais, com as despesas de ágio apuradas pela investidora (“X”). 23 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. 24 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 719. 25 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 718. Fl. 1787DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.788 25 Nesse seguir, a mens legis ou ratio legis das regras em análise se torna evidente: o ágio decorrente da aquisição deverá ser amortizado do lucro obtida pela empresa adquirida, o que demanda comunicação entre ambas ou seja, “absorção”. É dizer: para que o objetivo da norma seja alcançado (qual seja, a amortização do ágio), o meio selecionado como requisito essencial foi a reunião, “absorção” das pessoas jurídicas investidora e investida. Permitamme a transcrição das acertadas ponderações de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA26, emitidas em trabalho acadêmico: “Destarte, para que esse objetivo legal seja atingido, é necessário trazer o lucro para dentro da pessoa jurídica que tenha adquirido a participação societária com a expectativa de rentabilidade da mesma, ou levar o ágio ou deságio para dentro da pessoa jurídica produtora do resultado esperado, o que se faz por incorporação ou cisão de uma delas e absorção pela outra. Ou, ainda, o mesmo objetivo pode ser alcançado levandose o ágio ou deságio e o lucro para dentro de uma nova pessoa jurídica, o que se faz por fusão das duas pessoas jurídicas, que ficam absorvidas pela nova. Em suma, no contexto dos arts. 7o e 8o é essencial que haja absorção de patrimônio por via de incorporação, fusão ou cisão, de maneira a reunir ágio ou deságio e lucro numa única pessoa jurídica. É por isso mesmo – por ser acontecimento inerente ao tratamento objetivado pela lei – que a reunião das pessoas jurídicas é coisa natural e não deve ser vista com a desconfiança que tem caracterizado alguns procedimento fiscais, a qual é totalmente descabida quando efetivamente tenha ocorrido uma aquisição com ágio, eis que o passo subsequente inevitável, previsto na lei, é a incorporação, fusão ou cisão das pessoas jurídicas investidora e investida.” É importante observar que as operações referidas nos arts. 7o e 8o da Lei 9.532/97 não devem ser consideradas fora de seu contexto. Assim, se uma empresa (“X”) adquire investimento relevante de outra empresa (“Y”), com o pagamento de ágio justificado por expectativa de rentabilidade futura, a norma fiscal não autoriza a amortização do referido ágio, por exemplo, se a empresa investidora (“X”) for incorporada por uma terceira empresa (“Z”). Nesse caso, a referida empresa incorporadora (“Z”), por sucessão universal de todos os direitos e obrigações, passaria a deter o investimento da empresa cuja expectativa de rentabilidade futura justificou o pagamento de ágio (“Y”). Ocorre a transferência do investimento e do respectivo ágio é indiferente sob a perspectiva tributária, isto é, nem é vedado e nem gera o direito à amortização. Apenas se a aludida incorporadora (“Z”), por exemplo, incorporar, ser incorporada ou realizar fusão com a empresa investida (“Y”), é que estaria autorizada a amortização fiscal do ágio em questão.27 É correta, então, a afirmação de RICARDO MARIZ DE OLIVEIRA28, de que “a condição legal de reunião das pessoas jurídicas não é simplesmente formal, vazia de conteúdo racional, pois a absorção, seja por via de fusão ou de incorporação ou de cisão, é verdadeiramente necessária para que se possa dar a reunião do ágio ou deságio e do lucro numa única pessoa jurídica.” A precisão dessa assertiva é confirmada com o requisito analisado no 26 Nesse sentido, vide: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Revista Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4590. 27 Nesse sentido, vide: AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715720. 28 OLIVEIRA, Ricardo Mariz de. Os motivos e os fundamentos econômicos dos ágios e deságios na aquisição de investimentos, na perspectiva da legislação tributária, in Direito tributário atual Vol. 23. São Paulo: Dialética, 2009, p. 4590. Fl. 1788DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.789 26 subtópico anterior, qual seja: o legislador impõe que o ágio em questão seja processado contra os lucros da empresa investida, cuja expectativa de lucratividade tenha dado causa ao ágio quando de sua aquisição. 4. Elementos que são indiferentes e não interferem na amortização fiscal do ágio. Os elementos analisados no tópico acima são, por prescrição legal, fundamentais para a legítima dedutibilidade de despesas com amortização fiscal de ágio (fórmula operacional básica). Há, contudo, fatores não apresentam qualquer relevância para a aplicação ou não da norma dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, de forma que não podem interferir no presente julgamento, em especial: (i) operações societárias periféricas, que não realizem o encontro dos acervos patrimoniais da investidora e da investida, são indiferentes e neutras para fins de amortização fiscal do ágio; (ii) motivos extratributários suficientes. 4.1. Reorganizações societárias que não realizem o encontro dos acervos patrimoniais da investidora e da investida: operações periféricas que não conduzem à absorção patrimonial requerida pela Lei n. 9.532/97. A Lei n. 9.532/97 estabeleceu uma fórmula operacional básica, segundo a qual, por meio de determinados atos societários, deverá haver a reunião do acervo patrimonial cuja rentabilidade futura justificou o ágio com o acervo patrimonial em que se localiza o investimento realizado com o respectivo ágio: receitas e despesas devem ser emparelhadas, com “‘a realização’ do investimento, mediante operação que integre, numa mesma entidade, a investidora e o acervo objeto do investimento”29. Ocorre que muitas outras operações podem ser realizadas no ínterim entre a aquisição de investimento com ágio e a absorção desta pela empresa investidora (ou viceversa), o que exige que se compreenda qual a relevância tributária de tais operações intermediárias, periféricas, adjacentes. Em especial, a tese sustentada pela PFN exige que este Tribunal adote uma das seguintes interpretações: 1a) As reorganizações societárias que não ocasionem o encontro da entidade investida e da que detém o investimento são indiferentes e neutras para fins fiscais: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2a) As reorganizações societárias em questão fazem com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. 29 AMARO, Luciano. Amortização fiscal do ágio por rentabilidade futura, in Direito, Economia e Política: Ives Gandra, 80 anos do humanista. São Paulo : Ed. IASP, 2015, p. 715. Fl. 1789DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.790 27 Compreendo que essas operações societárias periféricas, que não possibilitam o encontro dos acervos patrimoniais da investidora e da investida, são indiferentes e neutras para fins de amortização fiscal do ágio. Para o caso em exame nos presentes autos, interessa analisar com mais detalhes a questão da “empresaveículo”. Com paralelo nas “conduit companies”, a expressão acolhida na pragmática do CARF pode, em si, dar ensejo a confusões, pois pode abarcar situações distintas e encontrar justificativa por razões variadas, atinentes a fatores de mercado, regulatórios, societários ou mesmo exclusivamente tributários. Salvo hipótese de fraude, a utilização de “empresaveículo” não gera qualquer efeito tributário, isto é, não altera o potencial de amortização deste em caso de posterior operação de fusão, incorporação ou cisão que ocasione o encontro patrimonial requerido pelo legislador. Por isso é correto afirmar que tais operações são neutras, não alterando a esfera de direitos dos contribuintes ou do fisco no que concerne a efetiva amortização do ágio. A Lei n. 9.532/97 não veda, expressa ou implicitamente, a prática de tais operações intermediárias, que são indiferentes ao legislador, gozando daquilo que TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR.30 classifica de “permissão fraca”. Ensina o Professor que: “Permissões, no entanto, não resultam apenas de um preceito expresso, mas também da ausência de norma, do que decorre a chamada liberdade negativa. A permissão por ausência de norma (livre por não estar proibido nem ser obrigado) chamase permissão fraca. Já a permissão que resulta da norma se chama permissão forte, que aponta para a liberdade no sentido positivo.” De fato, não há disposição expressa na Lei n. 9.532/97 que vede expressamente a realização de reorganizações societárias periféricas e intermediárias ao evento de absorção eleito para ensejar a amortização do ágio por expectativa de rentabilidade futura, a exemplo da constituição de empresaveículo. O que há é uma tese sobre uma “interpretação” da Lei n. 9.532/97, pela qual a PFN sustenta a perda da possibilidade de amortização do ágio em face de reorganizações societárias com empresasveículo. Como não há disposição expressa nesse sentido que dê ensejo a argumentos contundentes apoiados em interpretação literal, é necessário investigar se uma interpretação sistemática, teleológica ou mesmo histórica apoiariam tal tese. De início, não se pode jamais perder de vista que, na receita procedimental básica prescrita pelo legislador para que o contribuinte opte (economia de opção) pela amortização fiscal do ágio em aquisição oneroso de investimento, a chamada empresa veículo funciona como instrumento para o emparelhamento das receitas (da empresa investida) com as despesas da amortização do ágio (apurados pela empresa investidora), o que, afinal, pressupõe alguma forma de “push down accounting”. Daí a assertiva de VICTOR BORGES POLIZELLI31: 30 FERRAZ JUNIOR, Tercio Sampaio. Da compensação de prejuízos fiscais ou da trava de 30%, in Revista Fórum de Direito Tributário ‑ RFDT, ano 10, n. 60. Belo Horizonte, 2012. 31 POLIZELLI, Victor Borges. Caso ALE Combustíveis: distinção entre ágio com fundamento em “fundo de comércio” ou “rentabilidade futura” e a utilização de empresa veículo e propósito negocial, in Planejamento Tributário: Análise de Casos, volume 2 (Coord.: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e). São Paulo : MP Editora, 2014, p. 1578. Fl. 1790DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.791 28 “Enfatizase: a ‘empresa veículo’ foi legalmente criada pela Lei n. 9.532/1997 como condição para o carregamento do ágio para baixo, para a empresa investida”. Além disso, parece fora de dúvida que, ausente manifestação clara e expressa do legislador para a limitação de liberdades fundamentais, qualquer interpretação que conduza a tal limitação deverá ser avaliada a partir das normas constitucionais que tutelam a liberdade que se pretende restringir. Na ausência de tal manifestação expressa de forma clara pelo legislador, a análise sistemática do ordenamento demanda, antes de tudo, verificar se a interpretação em questão contraria liberdade constitucional de empresa, de investimento, de organização e de contratação, me parece ser dever do julgador administrativo evitála. A razoabilidade dessa tese deve enfrentar esse teste fatal. A tese em questão evidencia duas interpretações antagônicas do art. 25 da Lei n. 9.532/97: 1a) A utilização de empresaveículo é indiferente ou mesmo goza de permissão do sistema jurídico: por esta, não há ampliação ou redução de qualquer direito à amortização de ágio por parte do contribuinte e nem o Estado amplia ou reduz a sua esfera de direitos em relação à amortização de tais despesas; 2a) A utilização de empresaveículo faz com que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura, ainda que este tenha sido legitimamente apurado: por esta, há restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da participação do Estado no patrimônio privado. É premissa inafastável que a atividade arrecadatória do Estado deve observar todo o repertório de direitos assegurados às pessoas físicas e jurídicas, o que evidentemente inclui as liberdades econômicas. Desrespeitado esse limite, a tributação perde legitimidade. E, no Brasil, a Ordem Econômica é amparada por normas constitucionais32 geralmente suscitadas para fundamentar o direito do contribuinte à autoorganização de suas atividades sem a interferência do fisco: a garantia à livre iniciativa e à livre concorrência. 32 EROS ROBERTO GRAU apresenta longo repertório de princípios econômicos prestigiados pela Constituição Federal: “Cumpre neles identificar, pois, os princípios que conformam a interpretação de que se cuida. Assim, enunciandoos, teremos: — a dignidade da pessoa humana como fundamento da República Federativa do Brasil (art. 1a, III) e como fim da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa como fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, IV) e — valorização do trabalho humano e livre iniciativa — como fundamentos da ordem econômica (mundo do ser) (art. 170, caput); — a construção de uma sociedade livre, justa e solidária como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, I); — o garantir o desenvolvimento nacional como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, II); — a erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais como um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º, III) — a redução das desigualdades regionais e sociais também como princípio da ordem econômica (art. 170, VII); — a liberdade de associação profissional ou sindical (art. 8º); — a garantia do direito de greve (art. 9º); — a sujeição da ordem econômica (mundo do ser) aos ditames da justiça social (art. 170, caput); — a soberania nacional, a propriedade e a função social da propriedade, a livre concorrência, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente, a redução das desigualdades regionais e sociais, a busca do pleno emprego e o tratamento favorecido para as empresas brasileiras de capital nacional de pequeno porte, todos princípios enunciados nos incisos do art. 170; Além desses, outros, definidos como princípios gerais não positivados — isto é, não expressamente enunciados em normas constitucionais explícitas — são descobertos na ordem econômica da Constituição de 1988. Aí, particularmente, aqueles aos quais dão concreção as regras contidas nos arts. 7º e 201 e 202 do texto constitucional. (GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 194) Fl. 1791DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.792 29 A livre iniciativa foi erigida como fundamento da ordem econômica pelo caput do art. 170 da Constituição Federal33. Como observa EROS ROBERTO GRAU34, a livre iniciativa assume uma dupla feição, protegendo ao capital e ao trabalho. Na explicação de TERCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR35, tratase de mandamento para que o Estado atue de forma negativa, no sentido de não interferir na expansão da criatividade do indivíduo e, ainda, positiva, de atuação para a valorização do trabalho humano. A esse propósito, leciona esse professor: “Não há, pois, propriamente, um sentido absoluto e ilimitado na livre iniciativa, que por isso não exclui a atividade normativa e reguladora do Estado. Mas há ilimitação no sentido de principiar a atividade econômica, de espontaneidade humana na produção de algo novo, de começar algo que não estava antes. Esta espontaneidade, base da produção da riqueza, é o fator estrutural que não pode ser negado pelo Estado. Se, ao fazêlo, o Estado a bloqueia e impede, não está intervindo, no sentido de normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”. A autonomia privada decorre do princípio da livre iniciativa, atribuindo aos particulares o direito à liberdade contratual, isto é, de livremente celebrar ou não um contrato (liberdade de celebração), bem como de eleger o tipo contratual mais adequado (liberdade de seleção do tipo contratual) e de preencher o seu conteúdo de acordo com os seus interesses (liberdade de fixação do conteúdo do contrato ou de estipulação).36 Garantese, por esse princípio, a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação37. A liberdade contratual, que garante ao particular a faculdade de contratar ou não contratar, de escolher como e com quem estabelecer uma relação contratual e, por óbvio, de decidir qual o conteúdo dos contratos, decorre da autonomia privada.38 TULIO ROSEMBUJ39 observa que a liberdade da empresa não se esgota no exercício da liberdade contratual, no exercício do direito de propriedade ou na atividade de produção de bens de terceiros no 33 BRASIL, CF/88, Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I soberania nacional; II propriedade privada; III função social da propriedade; IV livre concorrência; V defesa do consumidor; VI defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII redução das desigualdades regionais e sociais; VIII busca do pleno emprego; IX tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. 34 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 212213. Conforme o autor: “não pode ser reduzida, meramente, à feição que assume como liberdade econômica, empresarial (isto é, da empresa, expressão do dinamismo dos bens de produção); pela mesma razão não se pode nela, livre iniciativa, visualizar tãosomente, apenas, uma afirmação do capitalismo”. 35 APUD GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 206207. 36 Cf. BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226240. No mesmo sentido, TÔRRES, Heleno Taveira. O conceito constitucional de autonomia privada como poder normativo dos particulares e os limites da intervenção estatal, in Direito e poder: nas instituições e nos valores do público e do privado contemporâneos. Heleno Taveira Torres (coordenador). Barueri : Manole, 2005, p. 567. 37 Cf. BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 38 Tais figuras, inclusive, podem inclusive com vir a confundirse. Conforme BOULOS, Daniel M. Abuso do Direito no novo Código Civil. São Paulo: Editora Método 2006, p. 226227. 39 ROSEMBUJ, Tulio. El fraude de lei, la simulación y el abuso de las formas em el derecho tributario. Barcelona : Marcial Pons. 1999, p. 57. Fl. 1792DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.793 30 mercado livre: tratase da garantia de se poder combinar fatores de produção e de utilizar de riqueza para produzir nova riqueza. Já o princípio da livre concorrência pode ser compreendido como garantia de oportunidades iguais a todos os agentes do mercado, de tal forma que o particular possui a faculdade de conquistar a clientela por seus próprios méritos e na expectativa de que sejam premiados os eficientes e excluídos os ineficientes, embora seja vedada a detenção do mercado e a prática de concorrência desleal. A livre concorrência tem como pressuposto a livre iniciativa e induz à distribuição de recursos a preços mais baixos ao consumidor. Não se exige, contudo, identidade de condições entre os partícipes do mercado, que, respeitados os limites prescritos pelo Direito econômico, podem se valer de todas as suas forças para conquistar a clientela40. Notese que nenhuma dessas liberdades é absoluta. As liberdades econômicas, segundo EROS GRAU41, nem mesmo em sua formulação original (Édito de Turgot, de 1776) pretendiam a omissão total do Estado. Em trabalho publicado em 1969, LUIGI FERRI42 já apontava que: “El problema de la autonomia es ante de todo um problema de limites, y de limites que son siempre el reflejo de normas juridicas, a falta de las cuales el mismo problema no podría siquiera plantearse a menos que se quiera identificar la autonomia com la liberdad natural o moral del hombre”. O que se coloca em questão é a necessidade de manifestação expressa e clara do legislador para a restrição de tal liberdade ou, ao menos, a existência de razoabilidade na interpretação conduzida pela administração fiscal que conduza à tal restrição. Afinal, como ensina TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR43, a “intervenção que possa afetar a liberdade deve, antes de tudo, estar pautada por regras claras e públicas, que permitam ao indivíduo planejar seu curso de vida, ciente das consequências jurídicas de seus atos.” Resta evidenciado, então, que, a ausência de decisão clara do agente competente (Poder Legislativo) é realmente fator suficiente afastar restrição à liberdade de autoorganização consubstanciada na penalização de operações societárias intermediárias, como é o caso da constituição de empresasveículo. Por maior que seja o esforço dialético, uma investigação sistemática, com o cotejo analítico das aludidas normas constitucionais, torna evidente não ser razoável a interpretação que, à revelia de lei em sentido estrito nesse sentido, conclua que as reorganizações societárias intermediárias ao encontro patrimonial da entidade investida com o investimento faz que pereça o direito à amortização de ágio por expectativa de rentabilidade futura legitimamente apurado. Se há limites ao exercício da liberdade, também há limites à sua restrição, pois “a liberdade pode ser disciplinada, mas não pode ser eliminada”44. A exigência de congelamento completo da estrutura societária do grupo empresarial, sob pena de perda do 40 Cf. GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 210. 41 GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo : Malheiros, 2007, p. 203. 42 FERRI, Luigi. La autonomia privada. Madri : Editora Revista de Derecho Privado, 1969, p. 45. 43 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. 44 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 195. Fl. 1793DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.794 31 direito à potencial amortização do ágio legitimamente apurado, sem dúvida consiste em uma liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação. Em linha com o quanto exposto acima, se uma liberdade econômica é bloqueada, ainda que por via obtusa, o Estado deixa de “normar e regular, mas está dirigindo e, com isso, substituindose a ela na estrutura fundamental do mercado”, o que é consentâneo com a Constituição. Ocorre que a liberdade de empresa, que pressupõe a livre contratação e autoorganização colocam em xeque a tese ora em análise, pela qual uma operação válida perante o Direito privado e que não traz qualquer “prejuízo” ao erário, seria sancionada com o perecimento do direito à amortização fiscal das despesas de ágio garantida pela Lei n. 9.532/97. Afinal, porque seria válida interpretação que conduz à manifesta desigualdade tributária, autorizando a amortização do ágio a algumas empresas, mas negandoa para outras? O exemplo dos fundos de previdência é muito ilustrativo, pois geralmente há normas regulatórias que não permitem a absorção das empresas investidas ou, ainda, que sejam absorvidas por estas. Porque seria legítimo restringir o direito à livre iniciativa e de contratar de tais entidades, com a vedação à utilização de empresas veículo que pudesse adquirir o investimento e após realizar os procedimentos societários necessários à amortização do ágio? Ou, com olhos ao princípio da livre concorrência, porque tais fundos deveriam ser submetidos a condições desiguais, com o cerceamento de seu direito à amortização do ágio? Tal consideração não se aplica apenas quando empresa adquirente do investimento seja um fundo de previdência, instituição bancaria ou outras entidades com normas regulatórias próprias. A interpretação proposta pela PFN imputaria à mais comum das empresas desigualdade em relação a outras que se encontrem em situação semelhante, o que redundaria em inevitável vilipendio do princípio da livre concorrência. Para que reste evidenciada a seriedade de tal constatação, suponhase que três grupos empresariais do mesmo seguimento econômico concorram por uma mesma fatia do mercado e todos realizaram recentes aquisições de participação relevante em controladas e coligadas: “Empresa A”: Nacional. Adquire os investimentos em outras pessoas jurídicas nacionais e posteriormente os incorpora; “Empresa B”: Nacional. Por motivos gerenciais, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta); “Empresa C”: Estrangeira. Por motivos gerenciais e também para viabilizar a posterior amortização fiscal do ágio, decide constituir uma empresa veículo para a aquisição de investimento e a posterior incorporação da investida (ou ser incorporada por esta). “Empresa D”: Estrangeira. Por motivos gerenciais e também para viabilizar a posterior amortização fiscal do ágio, após a aquisição de investimento com ágio em epresa brsileira, decide constituir uma empresa brasileira para deter o Fl. 1794DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.795 32 investimento investimento e a posteriormente proceer a incorporação da investida (ou ser incorporada por esta). Se a interpretação sustentada pela PFN for levada a termo, apenas a empresa “A” estaria livre para se valer da opção fiscal outorgada pela Lei n. 9.532/97 e amortizar o ágio à fração de 1/60 ao mês. Tanto as empresa “B”, “C” e “D” seriam privadas da possibilidade de se valer da economia de opção em questão. O tratamento desigual e o desiquilíbrio concorrencial evidenciados nesse exemplo hipotético denunciam a desproporcionalidade e ausência de razoabilidade dessa interpretação que restringe direitos à revelia de lei que lhe dê suporte. A desigualdade perpetrada por essa interpretação se mostra mais discriminatória, no exemplo acima, em relação às empresa “C” e “D”. Tratandose de empresa estrangeira, não se poderia cogitar que incorporasse diretamente a empresa brasileira investida ou, ainda, que fosse incorporada por esta. A isonomia entre esta empresa e as demais concorrentes de mercado apenas se verificaria se, por exemplo, a “Empresa C” constituísse uma pessoa jurídica no Brasil (empresaveículo), na qual pudesse integralizar capital suficiente para a aquisição do investimento para, após, executar a fórmula prescrita pelo legislador. A restrição ao direito do contribuinte à amortização de despesas com ágio, com a consequente ampliação da maior participação do Estado no patrimônio privado, encontra como obstáculo a liberdade de empresa, de investimento, de organização e de contratação, torna defesa à administração fiscal ingerências às lícitas decisões empresariais. Ausente lei em sentido estrito, sob pena de arbitrariedade, não pode a administração fiscal se opor às aludidas reorganizações societárias, especialmente quando tal ato conduza, por si só, à maior tributação do patrimônio privado. 4.2. Propósitos negociais e extratributários nas operações fiscalizadas. A existência de propósitos unicamente fiscais como locomotiva para o exercício de liberdades econômicas tem polarizado a doutrina brasileira. De um lado, por exemplo, PAULO AYRES BARRETO45, leciona que o contribuinte possui o direito de gerir as suas atividades com o menor ônus fiscal possível, desde que aja de forma lícita, ou seja, sem a prática de atos qualificados como ilícitos, simulados ou fraudulentos. Para esse professor, a tese que defende a desqualificação dos negócios realizados exclusivamente para a redução da carga tributária conduziria à obrigação de o contribuinte sempre ter de escolher a forma mais onerosa em termos fiscais para a sua atividade.46 Em outra direção, por exemplo, MARCO AURÉLIO GRECO47 sustenta que “a atitude do Fisco no sentido de desqualificar e requalificar os negócios privados somente poderá ocorrer se puder demonstrar de forma inequívoca que o ato foi abusivo porque sua única ou principal finalidade foi conduzir a um menor pagamento de imposto”. No caso dos autos, a discussão ganha novas cores. Afinal, o legislador tributário prescreveu, por meio dos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97, uma receita 45 BARRETO, Paulo Ayres. Elisão tributária limites normativos. Tese apresentada ao concurso à livre docência do Departamento de Direito Econômico e Financeiro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2008, p. 128129. 46 BARRETO, Paulo Ayres. Imposto sobre a renda e preços de transferência. São Paulo : Dialética, 2001, p. 127. 47 GRECO, Marco Aurélio. Planejamento tributário. São Paulo : Dialética, 2008, p. 200. Fl. 1795DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.796 33 operacional básica que deve ser seguida pelo contribuinte, que exige basicamente que sejam realizadas reestruturações societárias por razões exclusivamente tributárias: possibilitar a amortização do ágio. Tratandose de economia de opção, o legislador abre caminhos diversos ao contribuinte, entre os quais este poderá escolher aquele que melhor lhe aprouver e assumidamente interessado na carga fiscal que lhe seja menos onerosa. Assim como uma pessoa física não precisa demonstrar por quais razões deseja adotar o modelo “simplificado” ou “completo” para sua DIRPF, a investidora e investida não precisam demonstrar quaisquer razões extratributárias para que procedam a absorção patrimonial necessária à operacionalizar a amortização fiscal do ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura. Uma operação realizada por determinado particular, que trilha um caminho aberto por lei que prescreve opções fiscais, encontrase legitimada imediatamente pelo legislador ordinário. Nesse caso, é impróprio inquirir do particular qualquer outra justificativa, sob pena de subjugarse a competência do Poder Legislativo. Se o legislador outorgou uma economia de opção às empresas que adquiram investimento em controladas ou coligadas com ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, prescrevendo uma fórmula operacional básica para a implementação dessa opção fiscal, então aqueles que estiverem dispostos a implementar uma incorporação, fusão ou cisão (absorção patrimonial) estarão suficientemente legitimados pelo agente competente (Poder Legislativo) a fazêlo ainda que exclusivamente para a implementação dessa condição. Se por qualquer motivo determinada empresa (investidora), que tenha adquirido investimento relevante em outra pessoa jurídica (investida) com sobrepreço fundado em expectativa de rentabilidade futura, restar impossibilitada ou encontrar obstáculos para absorver o patrimônio da empresa investida (ou viceversa), poderá, ainda que imbuída única e exclusivamente no propósito de se valer da economia de opção e aproveitar a amortização fiscal do ágio, realizar as restruturações societárias necessárias para desobstruir o seu caminho. Se a constituição de uma outra subsidiária para lhe transferir o investimento for a solução, a operação estará suficientemente justificada pelo propósito de viabilizar a fórmula operacional básica prescrita pelos arts. 7o e 8o da Lei 9.532/97, não lhe sendo exigida a demonstração de qualquer outro propósito extratributário. Não há, nessa hipótese, qualquer óbice no Direito privado ou no Direito tributária para a realização da referida restruturação societária e transferência do investimento com ágio. De fato, o legislador tributário estabeleceu uma fórmula operacional básica para que fossem emparelhados o ágio escriturado pela investidora com os efetivos lucros gerados pela empresa investida, cuja expectativa tenha dado causa ao ágio apurado quando de sua aquisição. O propósito da realização das operações de absorção patrimonial é justamente cumprir com a necessidade técnica do emparelhamento de receitas e despesas observada pelo legislador para possibilitar a amortização do ágio. 5. Âmbito de competência administrativa e inexistência de norma geral de reação a planejamentos tributários subjetivamente reputados “abusivos”. Para que julguemos adequadamente o presente caso, é preciso ter claro o âmbito de competência administrativa (da fiscalização e dos Conselheiros deste Tribunal) para declarar inoponíveis os efeitos jurídicos de planejamentos tributários reputados como “abusivos”. Fl. 1796DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.797 34 Diante da inexistência de simulação, de qualquer vedação legal aos atos praticados pelo contribuinte, bem como do cumprimento de todos os requisitos legais exigidos para a apuração e amortização fiscal do ágio, a administração fiscal, com base no Direito vigente à época dos fatos, possuía competência para realizar a glosa objeto deste processo administrativo, mediante a desconsideração dos efeitos jurídicos que defluiriam de um planejamento tributário subjetivamente reputado como “abusivo” pelo agente fiscal? Longe de ser uma questão meramente teórica, o tema requer atenção à estrutura de separação dos poderes que rege o sistema jurídico brasileiro. Decisão que desconsidere esse fator atentará contra valor que corresponde a uma das poucas cláusula pétreas da Constituição Federal. É preciso ter claro, então, se a administração fiscal possui ou não competência para considerar inoponível as operações realizadas pelo contribuinte, à revelia de decisão do Poder Legislativo ou do Poder Judiciário nesse sentido. Não se trata de questão reclusa ao Direito brasileiro. Geralmente, há nos ordenamentos jurídicos estrangeiros normas gerais (general anti avoindance rules – GAAR) ou normas específicas (specific anti avoindance rules – SAAR) para a reação aos planejamentos tributários considerados abusivos. As normas gerais de reação ao planejamento tributário se prestam a alcançar algumas ou todas as espécies tributárias, com a prescrição de critérios para a identificação do abuso. Já as normas específicas incluem no âmbito de incidência da norma tributária, casuisticamente, situações que a experiência tenha demonstrado serem utilizadas pelo contribuinte como substitutas não tributadas ou ainda menos onerosas e que, por decisão do legislador, devem ser submetidas àquela tributação mais onerosa. Dos sistemas jurídicos estrangeiros percebese, ainda, influxo dos Poderes Legislativo e Judiciário na edificação de normas jurídicas de delimitação da intolerância a planejamentos tributários qualificados como abusivos. Países com tradição no civil law, em que normas de reação ao abuso no planejamento tributário são prescritas pelo Legislador, encontram no Poder Judiciário um agente competente para aperfeiçoar o conceito de “abuso”, como ilustram alguns exemplos. Na Alemanha, embora o legislador tenha tutelado ativamente a norma de reação ao abuso de formas, o Poder Judiciário tem sido decisivo no estabelecimento de testes para a delimitação do conceito de “abuso” (vide evoluções normativas claras ocorridas em 1919, 1931, 1977 e 2007). Na França, berço da teoria da intolerância ao abuso do direito, o Legislador tem sido igualmente ativo, embora o Poder Judiciário também tenha sido decisivo para a evolução da GAAR vigente naquele país, como se observa do conhecido caso JANFIN48, cuja decisão foi recentemente acolhida pelo legislador francês (vide evoluções normativas claras ocorridas em 1940, 1963, 1987 e 2008). Por sua vez, sistemas jurídicos com tradição anglosaxonica (commom law), em tese, teriam como característica a competência do Poder Judiciário para enunciar GAAR ou SAAR, pelo método dos precedentes judiciais. Contudo, mesmo em sistemas com essa tradição jurídica, essa competência também pode ser exercida pelo Poder Legislativo. Como exemplo, nos EUA, em que a doutrina do propósito negocial foi edificada de forma fragmentada e casuística nos variados tribunais espalhados pelo território norteamericano, o Poder Legislativo, em 2008 (“Obama Care”), decidiu delimitar e uniformizar o conceito de “abuso” que deveria ser obedecido pela administração fiscal. A revisão desses sistemas jurídicos estrangeiros pode contribuir ao menos com dois elementos importantes para o julgamento do presente caso. Primeiro, a variedade de 48FRANÇA. Corte de Cassação. Caso Sté Janfin, n. 260050, 2006. Fl. 1797DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.798 35 normas, procedimentos e critérios para a delimitação do conceito de “abuso” nesses países demonstra ser correta a assertiva de que cada Estado possui o seu próprio hidrômetro de intolerância ao planejamento tributário, tendo em vista as suas peculiares tradições, necessidades e experiências. Segundo, como a legalidade em matéria tributária está entre os princípios geralmente aceitos pelas nações civilizadas, os sistemas jurídicos estrangeiros citados têm em comum a exigência de lei, em sentido estrito, para a edificação de normas de reação ao planejamento tributário abusivo, com a possibilidade de certa atuação Poder Judiciário na enunciação normativa. Contudo, em nenhum desses sistemas estrangeiros foi outorgada à administração fiscal a competência para estabelecer, à revelia de decisão vinculante do Poder Legislativo ou do Poder Judiciário, critérios próprios para a identificação do que seja “abuso” e das consequências dai decorrente. No entanto, dogmas do Direito estrangeiro não podem ser importados acriticamente na aplicação do Direito pátrio, o que exige que se investigue as normas brasileiras que tutelam a matéria. A Constituição Federal brasileira de 1988 traz consigo um sistema tributário peculiar: ao contrário de muitos outros ordenamentos, prescreve de forma analítica e detalhada princípios, arquétipos e regramentos para o Direito tributário49. Não seria de se estranhar que o Legislador Constitucional houvesse se preocupado com o controle do planejamento tributário, prescrevendo dispositivo com o objetivo de tutelar a matéria. Em tese, essa questão pode ser relevante ao julgador administrativo, sem prejuízo da Súmula n. 2 do CARF. Se houvesse uma norma constitucional de aplicação imediata, com limites objetivos ao planejamento tributário, a fiscalização poderia encontrar fundamento na Constituição Federal para a desconsideração de planejamentos tributários considerados abusivos. O peculiar detalhismo da Constituição brasileira, contudo, não chegou ao ponto da previsão de uma norma geral de reação a planejamentos tributários considerados abusivos, mas estabeleceu que compete ao legislador complementar regular a matéria por meio de norma geral (“GAAR”) e, ao legislador ordinário, a competência para prescrever normas específicas (“SAAR”). Normas constitucionais relevantes para a matéria, especialmente aquelas que asseguram o Direito à livre iniciativa, à livre concorrência, à legalidade, à segurança jurídica, à igualdade, à solidariedade e à observância da capacidade contributiva na eleição legal do fato gerador, obrigam que se reconheçam premissas importantes, como: i) não se sustentam, no Brasil, teses sobre o “Direito de não pagar tributos” e nem sobre o “Dever fundamental de pagar tributos”, já que vige o dever de contribuir com tributos validamente prescritos em lei; ii) a norma constitucional se limita a atribuir competência ao legislador para regular a liberdade do contribuinte à realização de seus planejamentos tributários, mas não possui eficácia para legitimar, de forma imediata, a reação da Administração tributária a situações consideradas abusivas; iii) para a reação ao abuso, deve ser enunciada lei complementar de reação a planejamentos tributários realizados conforme determinado padrão não tolerado, a qual encontraria limites materiais nos nas normas constitucionais analisados. 49 Nesse sentido, vide: CARRAZZA, Roque Antonio. Curso de direito constitucional tributário. São Paulo : Ed. Malheiros, 2000. p. 269 e seg. Fl. 1798DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.799 36 Vale também observar que, embora o Brasil tenha raízes no civil law, a adoção da cultura dos precedentes (decisões com repercussão geral ou em sede de ADI, no âmbito do STF, ou recursos repetitivos, no âmbito do STJ) faz com que caminhemos para uma sistema híbrido, com traços do commom law, em que o Poder Judiciário possui competência para enunciar regras vinculantes. No entanto, até o momento, o Poder Judiciário brasileiro, não tem interferido para o delineamento de uma norma geral de intolerância ao planejamento tributário, remanescendo, sobre a matéria, a feição mais tradicional do civil law. Tampouco há decisões judiciais vinculantes específicas sobre o objeto do presente recurso especial, que reputem alguma forma de amortização fiscal de ágio como abusiva. Ocorre que, em conformidade com o art. 146 da Constituição Federal, compete ao legislador complementar decidir se haverá uma norma geral de reação a planejamentos tributários e, nesse caso, qual o critério para a identificação das hipóteses as quais o fisco não deverá tolerar (hidrômetro da intolerância). Esse legislador complementar, no ordenamento tributário vigente, enunciou apenas norma de reação à simulação (CTN, arts. 149, VII e 116, parágrafo único), deixando ao legislador ordinário a tarefa de estabelecer o procedimento especial para que se descortinem os casos de dissimulação. Nesse cenário, embora muito se discuta o assunto, o legislador complementar brasileiro sempre limitou os poderes da administração fiscal para desconsiderar atos praticados pelo contribuinte, restringindoos para tornar inoponíveis apenas atos “simulados”. Não há a outorga, pelo legislador competente (lei complementar) para que a administração fiscal considere inoponível atos que não possam ser qualificados como “simulados”. Isso significa que o legislador competente não considera o conceito de “simulação”, tal como prescrito pelo Direito civil, tão estreito a ponto de permitir atos que não deveriam ser tolerados, nem tão amplo a ponto de permitir arbitrariedades por parte do fisco. O legislador tributário complementar, desde e edição do CTN (anos 60) até hoje, considera suficiente a intolerância da administração fiscal à prática de atos simulados, reconhecendose a legitimidade das demais práticas. Merece destaque que a única revisão dos limites estabelecidos originalmente pelo CTN ocorreu em 2001, com a introdução de parágrafo único ao art. 116 por meio da Lei Complementar n. 105. Tratase de revisão extremamente tímida, com hipótese de incidência já contemplada pelo art. 149, já que a dissimulação corresponde à simulação relativa. Além disso, a norma introduzida no parágrafo único do art. 116 do CTN é de eficácia contida, pois depende de lei ordinária para lhe dar operacionalidade. Mesmo após quinze da introdução do referido dispositivo pela Lei Complementar n. 105, nenhuma lei ordinária foi aprovada nesse sentido no âmbito federal. Mesmo o legislador ordinário, portanto, possui competência apenas para regular o procedimento especial que deve ser seguido pela administração fiscal para a desconsideração de atos dissimulados (CTN, art. 116, parágrafo único). A competência para a tutela de questões inerentes à norma geral lhe foram atribuídas pelo legislador complementar de forma restrita, apenas a fim de que regule o procedimento especial de aplicação do parágrafo único do art. 116 do CTN. Não compete ao legislador ordinário, desse modo, prescrever outras hipóteses à norma geral de intolerância ao planejamento tributário. O legislador ordinário também possui competência para enunciar normas específicas de controle de planejamentos tributários (SAAR). No caso, jamais foi enunciada Fl. 1799DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.800 37 qualquer regra que impusesse restrições fiscais às transferência das participações societárias adquiridas com ágio. Nesse cenário, retornase à questão: qual a competência da administração fiscal e, ainda, dos Conselheiros do CARF, para desconsiderar os efeitos jurídicos de atos praticados pelo contribuinte e que tenham como consequência a redução ou o diferimento do ônus fiscal? A resposta parece ser clara: a administração fiscal apenas pode considerar inoponíveis atos simulados. Como não há lei que outorgue à administração fiscal a competência para a desconsideração dos efeitos jurídicos que defluiriam de atos que não possam ser qualificados como simulados, não é suficiente que a fiscalização subjetivamente repute um determinado planejamento tributário como “abusivo”. Nos lindes da competência de quem foi nomeado para o exercício dessa função pelo Poder Executivo, portanto, cabeme julgar como correta a glosa de despesas de amortização de ágio nas hipóteses em que a administração fiscal tenha cumprido o seu ônus probatório de demonstrar a ocorrência de atos simulados pelo contribuinte, engendrados com o dolo de evadir tributos, o que enseja a qualificação da multa para 150% e todas as demais consequências. Com a mesma carga mandatória, cabenos julgar como indevida, por ilegalidade, a glosa de despesas com amortização de ágio nas hipóteses em que não restar demonstrada a ocorrência de atos simulados, fraudulentos, conduzidos com o dolo de evadir tributos. 6. Aplicação das normas jurídicas ao caso concreto. O núcleo do recurso especial ora em análise consiste em saber se, sob a perspectiva tributária, há óbices para que investidores estrangeiros (HOLDERFIN BV) se valham de empresa brasileira, considerada “empresa veículo” (PARAÍSO), seja para lhe integralizar o capital necessário às aquisições de investimento em outras empresas nacionais ou, ainda, para lhes transferir o investimento já adquirido em empresas nacionais. Boa parte da tese sustentada pela PFN apresenta uma consequência que não pode ser ignorada: aquisições realizadas com capital originalmente estrangeiro, ainda que integralizado em pessoa jurídica brasileira regularmente constituída, jamais poderiam gerar ágio passível de amortização para fins fiscais. Ocorre que: se investidores estrangeiros, ao adquirir diretamente investimento em empresa brasileira, com efetivo pagamento de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, não podem eles próprios executar a fórmula prescrita nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97; se investidores estrangeiros não podem constituir uma pessoa jurídica no Brasil, integralizandoa capital para adquirir investimento em outra empresa brasileira, com efetivo pagamento de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura e, então, executar a fórmula prescrita nos arts. 7o e 8o da Lei n. 9.532/97; então investimentos estrangeiros realizados no Brasil, ainda que suportem o efetivo pagamento de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, jamais poderiam ser amortizados para fins fiscais. Fl. 1800DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.801 38 Compreendo que o presente caso não envolve o chamado “ágio interno” ou “ágio em si mesmo”. No presente caso, o ágio em discussão foi apurado em duas operações distintas. Em nenhuma dela é controverso que houve aquisição de investimento de terceiro independente, com efetivo fluxo pagamento do preço (e do sobrepreço). Tais aspectos não foram questionados pela fiscalização, que também não questionou a demonstração do sobrepreço incorrido. Também não se questiona se houve o efetivo desdobramento do custo de aquisição em valor de equivalência patrimonial e o ágio por expectativa de rentabilidade futura, bem como a amortização fiscal do ágio se processou contra os lucros das empresas investidas (HOLCIM BRASIL). O aludido emparelhamento do ágio apurado com os lucros em questão foi possibilitada por absorção da empresa investidora (PARAÍSO PARTICIPAÇÕES) pela empresa investida (HOLCIM BRASIL). Houve, por fim, a exclusão de até 1/60 do ágio ao mês na apuração da base de cálculo do tributo. O fundamento do auto de infração foi a motivação do contribuinte para a utilização da empresa veículo Paraíso Participações, concluindose a esta tornaria inoponível ao fisco o ágio em questão. É o que se verifica da fundamentação do lançamento presente no TVF, insertas após a transcrição dos arts. 385 e 391 do RIR/99. Em relação a isso, o acórdão recorrido assim decidiu, in verbis: “O acórdão recorrido, na busca de ordenar a discussão, divide a análise em dois blocos de eventos societários, o que me parece adequado. No primeiro bloco (i), que diz respeito ao pagamento do ágio na (re) compra das ações da HOLCIM BRASIL S.A., se analisa a acusação fiscal de que o Grupo Holcim jamais teria tido a intençaõ de ter as Irmãs Pereira da Silva em seu quadro societário. Essa acusação foi afastada em primeira instan̂cia, confirase: A autoridade fiscal afirmou que o Grupo Holcim jamais teve a intenca̧õ de ter as antigas controladoras da Companhia de CIMENTO PORTLAND PARAÍSO (as “Irmãs Pereira da Silva”) como acionistas da HOLCIM BRASIL S/A., o que só teria ocorrido para viabilizar a aquisição daquela Companhia. Porém, as negociações empresariais entre partes independentes envolvem, naturalmente, uma troca de interesses, presentes a cada uma das partes um sacrifício e um benefício, os quais correspondem ao benefício e ao sacrifício da outra parte. Assim, em princípio, não se mostra irregular o fato de o ingresso das Irmãs Pereira da Silva no grupo (sacrifício do grupo Holcim) ter ocorrido para viabilizar a aquisição da CIMENTO PORTLAND PARAÍSO (benefício do grupo Holcim) e sua incorporaçaõ ao grupo em janeiro de 1997. Objetivamente, se a saída e posterior retorno das ações da HOLCIM BRASIL S/A fossem desconsideradas, forçoso concluir que o valor pago às Irmãs Pereira da Silva pelo Grupo HOLCIM, por ocasião da “recompra” daquelas ações, teria sido, na realidade, para pagamento da aquisição, pelo mesmo grupo HOLCIM, dos 32% que as Irmãs Pereira da Silva detinham sobre a Companhia de Cimento PORTLAND PARAÍSO. Fl. 1801DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.802 39 Entretanto, além da distância temporal – as ações da Cia CIMENTO PORTLAND foram transferidas ao Grupo HOLCIM em 1996 e os pagamentos relativos ao “ágio” foram efetuados em 2000 e 2001 – não há nos autos elementos que comprovem a eventual suspeita de que os valores pagos às Irmãs Pereira da Silva não se vinculam à (re) aquisição das acõ̧es da HOLCIM BRASIL S/A. Ressaltese que o interesse legítimo do Grupo Holcim na aquisição dessa companhia (Cia CIMENTO PORTLAND PARAÍSO) não foi questionada pela fiscalização. Ressaltese, mais ainda, que a holding PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., cujo propósito negocial foi rechaçado pela fiscalização, não tem relação com o GRUPO PARAÍSO, integrado pela Cia. CIMENTO PORTLAND PARAÍSO, empresa operacional que foi incorporada ao Grupo Holcim em janeiro de 1997, muito antes da criaca̧õ da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. (maio de 1998). [...] Comungo da conclusão, quanto a esse aspecto. Não vejo como afirmar que operações societárias realizadas ao longo de cinco anos, nas condicõ̧es aqui descritas, possam revelar que não tenha havido intencã̧o de ter as Irmãs Pereira da Silva como sócias da Holcim Brasil S.A. Relevante, ainda, a afirmação da recorrente de que, quando celebrado o acordo de acionistas que previa o pagamento de parte do preço através da conferência de 12% das ações da Holcim Brasil (em 1996) o benefício fiscal da amortização do ágio, ora discutido, sequer existia (somente foi introduzido no mundo jurídico com a lei no 9.532, em dezembro de 1997). A Turma Julgadora em primeira instan̂cia, mesmo considerando legítima a formação do ágio, considerou que as condições em que esse ágio veio a se tornar dedutível pela ora recorrente não seria legítima. Confirase o seguinte excerto do voto condutor do acórdão recorrido: Mesmo que legítimo o ágio pago, a pretendida amortização fiscal do ágio depende da legitimidade da opção da impugnante pela aquisição da participação societária em poder da família Pereira da Silva através da holding Paraíso Participações. Fica evidenciado, então, o que me parece o ponto central da discussão: a legitimidade, ou não, da utilização da empresa Paraíso Participacõ̧es Ltda., tida pelo Fisco e pela Turma Julgadora em primeira instância como empresa veículo, ou seja, pessoa jurídica criada artificialmente com o único propósito de criar as condições exigidas pela lei para a amortizaçaõ fiscal do ágio. Vale a pena relembrar: o ágio restou registrado na Paraíso Participações Ltda. em duas operações distintas. Na primeira, a Holderfin BV (no exterior) adquiriu as acões com pagamento de ágio; promoveu aumento de capital na Paraíso Participações Ltda., e integralizou esse aumento de capital com as ações que detinha na Holcim Brasil S/A. Com isso, o ágio foi “trasnferido” da Holderfin BV para a Paraíso Participacõ̧es Ltda. Na segunda, a Holderfin BV (no exterior) aumentou o capital na Paraíso Participacõ̧es Ltda., com integralização em moeda. Na mesma data, a Paraíso Participacõ̧es adquiriu ações da Holcim Brasil S/A por valor acima do valor patrimonial, registrando contabilmente o ágio na operação. Fl. 1802DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.803 40 O Fisco (e também a decisão de primeira instância) considerou que, em ambas as operações, quem efetivamente arcou com o pagamento do ágio teria sido a Holderfin BV, não obstante esse ágio estar registrado contabilmente na Paraíso Participacõ̧es. Aquela empresa (Holderfin BV) seria a real investidora. Daí, com a incorporacã̧o da Paraíso Participações pela Holcim Brasil, não teria ocorrido a confusão patrimonial entre investida e investidora, condição para o aproveitamento fiscal do ágio. Com a devida vênia, devo divergir. Em outras oportunidades, tenho me manifestado no sentido da ausen̂cia de vedaçaõ ao procedimento descrito acima (segunda operacã̧o), em que uma empresa no exterior, em vez de adquirir diretamente a participaca̧õ societária em empresa nacional, constitui inicialmente uma outra empresa no Brasil, aporta recursos a esta última e, com esses recursos, adquire a desejada participação societária. Com idênticos fundamentos entendo admissível também a primeira operação, em que a integralização do aumento de capital se faz com a participação societária previamente adquirida com ágio. Em qualquer caso, não se questiona que, a princípio, o “real investidor” é a empresa situada no estrangeiro, desde que foi ela quem arcou com os recursos financeiros para a aquisicã̧o da participaca̧õ societária no país. No entanto, considero legítima sua opção de valerse de outra empresa para tanto, ainda que essa outra empresa venha a ter duraçaõ efêmera. Nessa situação, aquele antes denominado “real investidor” deve passar a ser identificado como ”investidor inicial”, posto que o investimento terá sido legitimamente transferido para um novo investidor. E é aí que ocorre a confusão patrimonial entre investidor e investida, exigida pela lei para a amortização fiscal do ágio. Observo, finalmente, que a situaçaõ de uma “empresa veículo”, criada especialmente para permitir a aquisição de um investimento, é facilmente verificada nas operações de privatização. Há mesmo consenso de que os arts. 7o e 8o da Lei no 9.532/1997 foram editados com o objetivo de facilitar o processo de privatizaçaõ de empresas estatais, permitindo às empresas investidoras recuperar parte do investimento mediante a reducã̧o da carga tributária, o que, como contrapartida, permitiria que os valores oferecidos ao Estado na aquisição das empresas estatais fossem maiores. Isso, sem prejuízo dos ativos intangíveis das estatais privatizadas. Vários foram os casos de amortização de ágio no processo de privatização analisados por este CARF, sendo as conclusões no sentido de sua legitimidade, não obstante o uso de “empresas veículo”. Pois bem. Não me parece que se possa limitar o uso de tais empresas exclusivamente ao contexto das privatizações. O texto legal não traz qualquer limitaçaõ nesse sentido, estabelecendo tão somente as condições objetivas para a amortização fiscal do ágio. Pareceme exagerado qualificar como ilícito ou fraude a opção por um caminho facultado pela legislação, ainda que a adoção de tal caminho tenha por objetivo a economia tributária.” Compreendo assistir razão ao acórdão recorrido. Não se pode deixar de observar que a norma de dedutibilidade das despesas de ágio, prescrita pelos arts. 7 e 8 Lei n. 9.532/97, não discrimina o capital originalmente estrangeiro que venha a ser integralizado em empresas brasileiras para a aquisição de investimentos em outras empresas nacionais. Também não há impedimento, sob a perspectiva da legislação fiscal aplicável à matéria, para que seja integralizado a empresa brasileira Fl. 1803DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.804 41 investimento em outra empresa nacional, efetivamente adquirido por sua controladora estrangeira com pagamento de sobrepreço justificado em expectativa de rentabilidade futura. Como se expôs acima, se algum “benefício” foi pretendido em 1997 pelo legislador ordinário, este consistiu no estabelecimento de ambiente de segurança jurídica para a realização de aquisições de empresas privadas brasileiras. Se concluirmos, no caso em análise, que investidores estrangeiros sequer podem constituir uma pessoa jurídica no Brasil, integralizandolhe capital para adquirir investimento em outra empresa brasileira com efetivo pagamento de ágio fundado em expectativa de rentabilidade futura, permissa venia, agravaremos o ambiente de insegurança jurídica e desconfiança no sistema jurídico brasileiro, com inevitáveis danos ao País. Por restar vencido quanto ao entendimento exposto neste voto, compreendo que deve haver o retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. Por todo o exposto, voto para CONHECER e, no mérito, para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial. Por restar vencido quanto ao mérito, voto pelo retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Fl. 1804DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.805 42 Voto Vencedor Conselheiro Rafael Vidal de Araujo Redator Designado Em que pesem as razões de decidir do eminente relator, peço vênia para dele divergir quanto à amortização de ágio. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do DecretoLei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13 de maio de 2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras “a” e “b” do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos também prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Fl. 1805DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.806 43 Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): : I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; [...]. Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). [...]. Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). [...]. O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Fl. 1806DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.807 44 Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a “mais valia”. Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à “mais valia” for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese às transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. Fl. 1807DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.808 45 A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura, no recente Acórdão nº 9101002.301: “Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal Fl. 1808DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.809 46 situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 199750, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos “planejamentos tributários”, vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI51 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio 50 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 51 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo: Dialética, 2012, p. 66 e segs. Fl. 1809DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.810 47 seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista52 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 199753: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. [...]. Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização.” 52 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 53 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 1810DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.811 48 Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602, de 1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem, em seguida, incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação “às avessas”, não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; Fl. 1811DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.812 49 II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. § 1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 1º). § 2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. § 3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 3º): I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. § 4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 4º). § 5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, § 5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; Fl. 1812DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.813 50 II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. § 7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no § 2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do § 2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: “Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 54. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. 54 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 1813DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.814 51 E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado “transferido” para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim Fl. 1814DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.815 52 sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI55, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que, para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. 55 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 1815DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.816 53 Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial.” Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a “original” ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa, ou ainda de incorporação “às avessas”. A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo § 6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu § 6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da “mais valia” (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à “mais valia”. Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a “mais valia” porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da “confusão patrimonial”. Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica Fl. 1816DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.817 54 que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa onde investiu (incorporação “às avessas”). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da “confusão patrimonial”, não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que houve desembolso de valores por ocasião da aquisição, pela HOLDERFIN BV, seja diretamente, seja por intermédio da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., das ações da HOLCIM BRASIL S/A. Destas operações, resultou o registro de ágio no valor de R$ 221.164.386,22 (R$ 238.674.438,46 pagos pela aquisição das ações R$ 17.510.052,24 de valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial). Ocorre que tal ágio foi registrado na contabilidade da empresa holandesa. Fosse a HOLDERFIN BV uma pessoa jurídica sediada no Brasil, submetida à legislação tributária brasileira, ela poderia fazer jus à dedutibilidade das despesas de amortização do ágio de R$ 221.164.386,22 se viesse a incorporar a HOLCIM BRASIL S/A e atendesse também às demais condições exigidas legalmente. Como não havia essa possibilidade, o grupo HOLCIM promoveu a “internalização” do ágio em território brasileiro, por meio da integralização de aumento do capital social da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. Foi realizada a entrega das ações da HOLCIM BRASIL S/A pela HOLDERFIN BV, pelos exatos valores que constavam da contabilidade da empresa holandesa. Além disso, a HOLDERFIN BV aumentou o capital na PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA., de modo que esta, no mesmo dia, adquirisse ações da HOLCIM BRASIL S/A por valor acima do valor patrimonial, registrando contabilmente o ágio na operaçaõ. Assim, a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. passou a possuir, em sua contabilidade, o ágio de R$ 221.164.386,22 associado às ações da HOLCIM BRASIL S/A, registradas por R$ 17.510.052,24. Conforme já foi narrado, a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. foi incorporada pela HOLCIM BRASIL S/A. Julgando fazer jus ao direito de deduzir as despesas decorrentes da amortização do ágio com base nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997 (e nos arts. 385 e 386 do RIR/1999), a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. passou a reduzir seu lucro líquido. Posteriormente, com a incorporação da PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. pelo recorrido, este continuou a utilizar o saldo remanescente do ágio para reduzir suas bases tributáveis. Fl. 1817DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.818 55 Ocorre que nem a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. nem o recorrido poderiam ter utilizado o ágio registrado originalmente na HOLDERFIN BV para fins de deduzir as despesas decorrentes de sua amortização. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. Como não foi a PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. que desembolsou o valor que deu origem ao ágio contábil, restou desatendido o aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999. Como o próprio recorrido reconhece, o numerário que foi pago, direta e indiretamente, pela aquisição das ações da HOLCIM BRASIL S/A saiu dos cofres da HOLDERFIN BV. A PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA. foi incorporada pela HOLCIM BRASIL S/A. Esta, julgando que estaria configurada a “confusão patrimonial” entre o ágio e o investimento que lhe deu causa, passou a aproveitar as despesas da amortização do ágio para fins tributários. Ocorre que tal “confusão patrimonial”, principal manifestação do aspecto material necessário à efetiva incidência da norma tributária prevista no art. 386 do RIR/1999, deve obrigatoriamente se dar entre a investida e a investidora originária, real. Por investidora originária, entendese aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição da participação societária. Ou seja, no caso sob análise, só existe uma real investidora: a HOLDERFIN BV. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a empresa participante da “confusão patrimonial” tenha arcado com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio que se exige diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. No caso dos presentes autos, não se verificou a prática de tal “sacrifício patrimonial” pela PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA ou pelo recorrido. Sendo assim, a amortização operada pelo recorrido não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou seja por ela incorporada. No caso dos autos, a investidora originária não participou de “confusão patrimonial” alguma. Além disso, o ágio registrado na PARAÍSO PARTICIPAÇÕES LTDA decorreu de operação meramente contábil, sem efetiva circulação de riquezas e realizada entre empresas que integram um mesmo grupo econômico. Ainda que se analise a situação debatida nos autos sob outro enfoque, a conclusão alcançada continua sendo pela impossibilidade de utilização tributária do ágio pelo recorrido. Tal aproveitamento tributário do ágio consiste, como já foi dito por diversas vezes, na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fl. 1818DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.819 56 Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: “Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Fl. 1819DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.820 57 Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos à amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e, em questão de dias ou meses, são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes.” Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como a encontrada nos presentes autos, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Diante de todo o exposto, relativamente ao pedido de reconhecimento da legitimidade da amortização de despesas de ágio nos moldes pretendidos, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso especial da Fazenda Nacional. Como consequência, devem os autos retornar ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões constantes do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1820DF CARF MF Processo nº 19515.721820/201390 Acórdão n.º 9101003.132 CSRFT1 Fl. 1.821 58 Fl. 1821DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13822.000031/2005-51
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/02/2004 a 31/03/2004
CRÉDITOS. FASE AGRÍCOLA DO PROCESSO PRODUTIVO. REGIME NÃO CUMULATIVO.
Os gastos realizados na fase agrícola da agroindústria não geram créditos de PIS/COFINS apurados no regime não cumulativo.
Recurso Especial do Contribuinte Negado.
Numero da decisão: 9303-005.805
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento integral e o conselheiro Demes Brito que lhe deu provimento parcial, para excluir o frete no transporte de pessoal e itens do ativo permanente. Votou pelas conclusões o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Jorge Olmiro Lock Freire, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Valcir Gassen.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CONCEITO DE INSUMO. Recorrente CLEALCO AÇÚCAR E ÁLCOOL S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/02/2004 a 31/03/2004 CRÉDITOS. FASE AGRÍCOLA DO PROCESSO PRODUTIVO. REGIME NÃO CUMULATIVO. Os gastos realizados na fase agrícola da agroindústria não geram créditos de PIS/COFINS apurados no regime não cumulativo. Recurso Especial do Contribuinte Negado. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama e Vanessa Marini Cecconello, que lhe deram provimento integral e o conselheiro Demes Brito que lhe deu provimento parcial, para excluir o frete no transporte de pessoal e itens do ativo permanente. Votou pelas conclusões o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Jorge Olmiro Lock Freire, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Valcir Gassen. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 82 2. 00 00 31 /2 00 5- 51 Fl. 722DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 3401002.973, de 18/03/2015, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Terceira Seção do CARF, que possui a seguinte ementa, transcrita na parte de interesse: (...) ARGUIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. COMPETÊNCIA. A arguição de inconstitucionalidade não pode ser oponível na esfera administrativa, por transbordar os limites de sua competência o julgamento da matéria, do ponto de vista constitucional. CRÉDITOS A DESCONTAR. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. DESPESAS DE DEPRECIAÇÃO. Apenas os bens integrantes do Ativo Imobilizado, adquiridos posteriormente a 01/05/2004 e diretamente ligados ao processo produtivo da empresa podem gerar despesas de depreciação que dão direito ao creditamento na apuração do PIS e da Cofins. DESPESAS, CUSTOS E ENCARGOS COMUNS VINCULADOS A RECEITAS SUJEITAS À INCIDÊNCIA CUMULATIVA E NÃO CUMULATIVA. RATEIO PROPORCIONAL. NECESSIDADE. No caso da existência de despesas, custos e encargos comuns vinculadas a receitas sujeitas à incidência cumulativa e não cumulativa, não havendo sistema contabilidade de custos integrada e coordenada com a escrituração, necessário se faz a apropriação por meio de rateio proporcional, nos termos do disposto no § 8º, do art. 3º, da Lei nº 10.637, de 2002. Intimada da decisão, a contribuinte apresentou embargos de declaração, os quais, todavia, não foram admitidos. Irresignada, interpôs recurso especial suscitando divergência em relação às seguintes matérias: a) quanto ao que constitui o seu processo produtivo para identificação dos gastos que dão direito a crédito da contribuição não cumulativa; e b) quanto ao conceito de insumo. Alega divergência com relação ao que decidido nos Acórdãos nº 3402002.396, 3402 002.605 e 9903003.069 (primeiro tema) e 320200.226 (segundo tema). Por intermédio do despacho de admissibilidade do Presidente da Quarta Câmara da Terceira Seção do CARF, foi dado seguimento ao recurso. Intimada, a PFN apresentou contrarrazões ao recurso. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator Fl. 723DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 4 3 O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.802, de 17/10/2017, proferido no julgamento do processo 13822.000009/200773, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.802): "Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial interposto pela contribuinte deve ser conhecido. Malgrado o recurso especial pretenda discutir dois temas – o processo produtivo da Recorrente e o conceito de insumo –, no fundo está a debater apenas o último, uma vez que, a depender da definição que se venha a emprestar ao termo "insumo" adotado na legislação do PIS/Cofins não cumulativos os gastos realizados em etapa anterior à produção do produto final – vale dizer, aquela anterior à industrialização propriamente dita – pode vir ou não a ser assim considerados (como insumos!), de modo que ensejaria, no primeiro caso, a apropriação de créditos sobre eles incidentes (p. ex., os gastos realizados na etapa agrícola, portanto, anterior à industrialização). A própria ementa do Acórdão paradigma de nº 3402002.605 comprova esse fato: NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. INSUMOS. CONCEITO. Insumos, para fins de creditamento da Contribuição Social não cumulativa, são todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade empresária, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. As Leis de Regência da não cumulatividade atribuem o direito de crédito em relação ao custo de bens e serviços aplicados na "produção ou fabricação" de bens destinados à venda, inexistindo amparo legal para secção do processo produtivo da sociedade empresária agroindustrial em cultivo de matériaprima para consumo próprio e em industrialização propriamente dita, a fim de expurgar do cálculo do crédito os custos incorridos na fase agrícola da produção. Os custos incorridos com bens e serviços aplicados na floresta de eucaliptos guardam relação de pertinência e essencialidade com o processo produtivo da pasta de celulose e configuram custo de produção, razão pela qual integram a base de cálculo do crédito das contribuições nãocumulativas. (g.n.) Feita essa breve introdução, vemos que, de fato, enquanto o acórdão recorrido consubstanciou o entendimento de que o termo "insumo" não pode ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gere despesa necessária para a atividade da empresa, mas apenas aqueles bens e serviços que, adquiridos de pessoa jurídica, sejam efetivamente aplicados ou consumidos na produção de açúcar e álcool (os produtos fabricados pela Recorrente), o Acórdão paradigma de nº 320200.226, em divergência, adotou conceito bem mais largo, a conhecida tese do IRPJ. Contudo, a despeito de conhecido o recurso, vemos que o acórdão recorrido não merece reparos. Fl. 724DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 5 4 No regime não cumulativo do PIS/Cofins, os créditos a que tem direito a pessoa jurídica estão elencados no art. 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, que, no ponto, apresentam redação bastante semelhante. Na Lei nº 10.833, de 2003, é a seguinte: Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) a) no inciso III do § 3o do art. 1o desta Lei; e (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) (Produção de efeitos) b) nos §§ 1o e 1oA do art. 2o desta Lei; (Redação dada pela lei nº 11.787, de 2008) II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da Tipi; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) IV aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa; V valor das contraprestações de operações de arrendamento mercantil de pessoa jurídica, exceto de optante pelo Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte SIMPLES; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) VI máquinas, equipamentos e outros bens incorporados ao ativo imobilizado, adquiridos ou fabricados para locação a terceiros, ou para utilização na produção de bens destinados à venda ou na prestação de serviços; (Redação dada pela Lei nº 11.196, de 2005) VII edificações e benfeitorias em imóveis próprios ou de terceiros, utilizados nas atividades da empresa; VIII bens recebidos em devolução cuja receita de venda tenha integrado faturamento do mês ou de mês anterior, e tributada conforme o disposto nesta Lei; IX armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor. X valetransporte, valerefeição ou valealimentação, fardamento ou uniforme fornecidos aos empregados por pessoa jurídica que explore as atividades de prestação de serviços de limpeza, conservação e manutenção. (Incluído pela Lei nº 11.898, de 2009) XI bens incorporados ao ativo intangível, adquiridos para utilização na produção de bens destinados a venda ou na prestação de serviços. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (g.n.) Fl. 725DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 6 5 Não há, nos diplomas legais referidos, qualquer dispositivo conceituando o termo “insumo”, tampouco atribuindo a sua definição àquela adotada pela legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, o que só o legislador infralegal fez ao editar as Instruções Normativas RFB n.º 247, de 2002, e 404, de 2004. Aqui também reproduziremos apenas uma delas, uma vez que idênticas na parte que nos interessa: IN SRF nº 247, de 2002: Art. 66 A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep não cumulativo pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: (...) § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: I – utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) as matériasprimas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II – utilizados na prestação de serviços: a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. Daí a controvérsia que se instaurou no âmbito do Contencioso Administrativo, uma vez que muitos contribuintes passaram a emprestar ao termo “insumo” significado muito mais elástico do que aquele aparentemente conferido pelas normas infralegais que regulamentaram as Leis n.ºs 10.637, de 2002, e 10.833, de 2003, e cuja origem é, evidentemente, a legislação do IPI, mas apenas quanto a uma parte dos créditos – aqueles bens fisicamente ligados ao produto final (alínea “a” do inciso I do § 5º do art. 66, supra) –, já que os serviços, dada a impossibilidade de ligação física, encontramse autorizados em alínea diversa (alínea “b”). O cerne da questão, portanto, está em definir o conceito de insumo para fins de creditamento do PIS e da Cofins: se este se apresenta numa perspectiva muito ampla, em ordem a abarcar, como querem alguns, todo ou qualquer custo ou despesa operacional da pessoa jurídica (tese do IRPJ), ou se, como pretendem outros, apresentase de modo mais restritivo, mais próximo ao que ocorre na legislação do IPI. Há, ainda, uma posição intermédia, aceitando o creditamento sobre tudo que for pertinente ou necessário na produção ou na prestação de serviço. De todo modo, entendemos que, no presente caso, não cabe conceituar o termo "insumo" a ponto de alcançar etapas anteriores à efetiva produção do açúcar e do álcool. Um pesticida, por exemplo, não é – nem jamais poderia ser! – insumo na industrialização do açúcar, uma vez que, fosse nele empregado, o inutilizaria completamente para o consumo. O legislador deixou cristalino, na Exposição de Motivos da Medida Provisória – MP n.º 135, de 30/10/2003, posteriormente convertida na Lei n.º 10.833, de 2003, que um dos Fl. 726DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 7 6 principais motivos para o estabelecimento do regime não cumulativo na apuração do PIS e da Cofins foi combater a verticalização artificial das empresas, a fim de que as diversas etapas da fabricação de um produto ou da prestação de um serviço pudesse ser realizado por empresas diversas, de sorte a gerar condições para o crescimento da economia. Vejam: 1.1. O principal objetivo das medidas ora propostas é o de estimular a eficiência econômica, gerando condições para um crescimento mais acelerado da economia brasileira nos próximos anos. Neste sentido, a instituição da Cofins nãocumulativa visa corrigir distorções relevantes decorrentes da cobrança cumulativa do tributo, como por exemplo a indução a uma verticalização artificial das empresas, em detrimento da distribuição da produção por um número maior de empresas mais eficientes – em particular empresas de pequeno e médio porte, que usualmente são mais intensivas em mão de obra. Assim, considerar como insumos todos os gastos realizados da etapa agrícola da produção do açúcar e do álcool, como pretende a Recorrente, é admitir que, no referido conceito, estejam todos os “insumos dos insumos". Explicitamente, não foi esta a intenção do legislador. Diverso, contudo, é, a nosso juízo, o caso, por exemplo, de uma mineradora, cuja atividade, a mineração, consiste no processo de extração de minerais da terra. Ainda que posteriormente à retirada do minério algum beneficiamento seja por ela mesma realizado, como, por exemplo, a fragmentação da pedra, dando origem à conhecida "brita", a verdade é que há, neste caso, um todo indissociável, não se podendo cindir a retirada do minério do solo, para o efeito de determinar o que é ou não é insumo, sob pena de descaracterizar a própria atividade realizada pela mineradora, uma vez que, no exemplo, a quebra da pedra não tem existência autônoma em relação à sua retirada do solo. Não é caso da Recorrente, porém. As usinas de açúcar e álcool, como se sabe, são estabelecimentos agroindustriais que produzem, a partir da cana, o açúcar, o melaço, a aguardente e o álcool. Além de sua fabricação própria, costumam adquirir a cana de outros estabelecimentos produtores. Pelos motivos aqui adotados (existência autônoma da atividade industrial propriamente dita), a aquisição de cana gera, sim, o direito à apropriação dos créditos correspondentes, não, contudo, os gastos realizados, pela própria Recorrente, no plantio e colheita da cana de açúcar. Podese até achar inconveniente, mas é assim que a lei é. No caso específico, foram os seguintes os itens glosados (apenas os referidos no recurso especial e na ordem em que elencados), glosa com a qual, pelas razões antes explicitadas, concordamos: a) Material Intermediário – Serviços de Manutenção: partes e peças de veículos, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas, recauchutagem e aquisição de pneus, manutenção de veículos, locação de veículos para uso administrativo, obras de recuperação de rodovias, etc.; b) Frete no transporte de pessoal e itens do ativo permanente. À falta de maiores informações, entendemos que os bens do ativo permanente são aqueles empregados na fase agrícola, tal como indica um dos paradigmas trazidos no recurso (Acórdão nº 3402002.605). Nesse contexto, não há o direito ao crédito, conforme, a contrario sensu, indica o inciso VI do art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003 (inciso VI do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002). Ante o exposto, conheço do recurso especial interposto pela contribuinte e, no mérito, negolhe provimento." Fl. 727DF CARF MF Processo nº 13822.000031/200551 Acórdão n.º 9303005.805 CSRFT3 Fl. 8 7 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial foi conhecido e, no mérito, o colegiado negoulhe provimento. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 728DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10920.002474/2010-48
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jan 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/04/2007 a 31/08/2009
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.198
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em Exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 00 24 74 /2 01 0- 48 Fl. 219DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocado) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de Auto de Infração, DEBCAD: 37.256.8181, lavrado contra o contribuinte identificado acima, consolidado em 19/07/2010, no valor de R$ 1.389.316,53 (hum milhão, trezentos e oitenta e nove mil, trezentos e dezesseis reais e cinqüenta e três centavos), já acrescidos de juros de mora, da multa de mora e da multa de ofício de 75%, resultante da aplicação do instituto da retroatividade benéfica previsto no art. 106 do CTN, relativo às contribuições devidas à seguridade social, referente às contribuições correspondentes à parte dos segurados empregados e contribuintes individuais, não retidas e tampouco recolhidas aos cofres públicos, em época própria, incidentes sobre a remuneração paga, devida ou creditada aos segurados empregados e contribuintes individuais, a serviço da autuada, no período de 04/2007 a 08/2009, constantes das folhas de pagamentos, não declaradas em GFIP. Consta do Relatório Fiscal, que os recolhimentos efetuados pelo sujeito passivo, antes do procedimento fiscal, foram apropriados, prioritariamente, para o abatimento das contribuições declaradas em GFIP, as quais não se incluem no presente lançamento, sendo o saldo, quando existente, abatido dos valores constantes do auto de infração em apreço. Os valores considerados constam demonstrados no Relatório de Apropriação de Documentos – RDA. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Florianópolis/SC julgado a impugnação improcedente, mantendo o crédito tributário em sua integralidade. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 15/05/2012, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2301002.780 (fls. 134/140), com o seguinte resultado: "Acordam os membros do colegiado, I) Por maioria de votos: a) em dar provimento parcial ao recurso para aplicar nas penalidades por descumprimento da obrigação acessória, até 11/2008, anteriores a 12/2008 o resultado mais benéfico, quando comparado o determinado no art. 32A, com os §§ do art. 32; da Lei 8.212/1991, nos termos do voto do Relator. Vencidos Bernadete de Oliveira Barros e Marcelo Oliveira, que votaram em negar provimento ao recurso nesta questão; b) em manter a aplicação da multa na obrigação principal, nos termos do voto do Relator. Vencido o Conselheiro Mauro José Silva, que votou pelo afastamento desta multa, até 11/2008; c) em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, até 11/2008. para que seja aplicada a multa referente a obrigação Fl. 220DF CARF MF Processo nº 10920.002474/201048 Acórdão n.º 9202006.198 CSRFT2 Fl. 3 3 principal o previsto no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente, nos termos do voto do Relator. Vencidos os Conselheiros Bernadete de Oliveira Barros e Marcelo Oliveira, que votaram em manter a multa aplicada; II) Por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso nas demais alegações da Recorrente, nos termos do voto do Relator”. O acórdão encontrase assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/04/2007 a 31/08/2009 CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. ALEGAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. NÃO CONHECIMENTO PARCIAL. TAXA SELIC. APLICÁVEL. APLICAÇÃO DA MULTA MAIS BENÉFICA. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. As contribuições sociais previdenciárias estão sujeitas à multa de mora, na hipótese de recolhimento em atraso, devendo observar o disposto na nova redação dada ao artigo 35, da Lei 8.212/91, combinado com o art. 61 da Lei nº 9.430/1996. Recurso Voluntário Provido em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional em 13/03/2013 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional interpôs, tempestivamente, em 25/03/2013, o presente Recurso Especial (fls.141/162). Em seu recurso visa a reforma do acórdão recorrido em relação às seguintes matérias: a) preclusão quanto à matéria relativa à multa aplicada; e b) cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte. Ao Recurso Especial da Fazenda Nacional foi dado seguimento parcial, em relação ao item b cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte, conforme Despacho s/nº, da 3ª Câmara, de 11/06/2015 (fls. 192/199) e Despacho s/nº, da CSRF, de 12/06/2015 (fls. 200/201), respectivamente, Exame e Reexame de Admissibilidade de Recurso Especial da Fazenda Nacional. O recorrente, em suas alegações em relação ao item b – cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte, requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação do art. 35, caput, da Lei nº 8.212/91 (na atual redação conferida pela Lei nº 11.941/2009), em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a multa anterior (art. 35, II, da norma revogada) ou a do art. 35A da Lei nº 8.212/91. Fl. 221DF CARF MF 4 Cientificado do Acórdão nº 2301002.780, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN, em 22/02/2017, o contribuinte não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 222DF CARF MF Processo nº 10920.002474/201048 Acórdão n.º 9202006.198 CSRFT2 Fl. 4 5 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora. Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido, conforme Despacho de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial, fls. 192. Assim, não havendo qualquer questionamento acerca do conhecimento e concordando com os termos do despacho proferido, passo a apreciar o mérito da questão. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: Fl. 223DF CARF MF 6 AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35 A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Fl. 224DF CARF MF Processo nº 10920.002474/201048 Acórdão n.º 9202006.198 CSRFT2 Fl. 5 7 Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de não apresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Fl. 225DF CARF MF 8 Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Fl. 226DF CARF MF Processo nº 10920.002474/201048 Acórdão n.º 9202006.198 CSRFT2 Fl. 6 9 Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Fl. 227DF CARF MF 10 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Fl. 228DF CARF MF Processo nº 10920.002474/201048 Acórdão n.º 9202006.198 CSRFT2 Fl. 7 11 § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35 A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, assim como lançado. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Fl. 229DF CARF MF
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Numero do processo: 10805.721766/2011-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 23 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1401-000.482
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: LUIZ RODRIGO DE OLIVEIRA BARBOSA
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Livia De Carli Germano, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Abel Nunes de Oliveira Neto, Daniel Ribeiro Silva e José Roberto Adelino da Silva. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 08 05 .7 21 76 6/ 20 11 -8 1 Fl. 2660DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.661 2 RELATÓRIO Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de decisão proferida pela 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo 1 (DRJ/SP1), que, por meio do Acórdão 1638.901, de 16 de maio de 2012, julgou improcedente a impugnação apresentada pela empresa, mantendo na íntegra o lançamento fiscal. Reproduzo, por bem delineado, o relatório constante no acórdão da DRJ/SP1: (início da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) Cuidam os autos de veicular exigências relativas ao Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no importe total de R$ 17.690.731,65, então computados juros de mora até 31/08/2011 (lavratura havida em 06/09/2011, com ciência em 14/09/2011), bem que multa de ofício no patamar de 75%. Referidas exigências foram formalizadas segundo a sistemática do Lucro Real anual, com referência ao anocalendário de 2006, e sob o fundamento de falta de adição ao Lucro Líquido (no caso, R$ 23.370.737,70) de parcela de custos relativos a bens, direitos e/ou serviços adquiridos no exterior de pessoa vinculada, isto por inobservância da legislação atinente ao controle de Preços de Transferência (art. 18 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996; por tudo, vide fls. 1.677/1.689). Relevante dizer, ainda que em Relatório, que o Contribuinte responde por exigências de mesmíssima natureza – IRPJ e CSLL decorrentes de adições ao Lucro Líquido à conta da sistemática de Preços de Transferência – nos autos sob nº 16643.000385/201060 e nº 10805.721765/201136, mas agora por obra e arte de ajustes assim procedidos ao Lucro Líquido respeitante aos anoscalendário de 2005 e 2006, respectivamente, da pessoa jurídica Delphi Diesel Systems do Brasil Ltda., inscrita no CNPJ sob nº 49.871.155/000192, incorporada pelo Contribuinte em fins do anocalendário de 2007. Todos os procedimentos, autos sob nº 10805.721766/201181, nº 16643.000385/201060 e nº 10805.721765/201136, recebem, por oportuno, atenção na corrente sessão de julgamento. Mas, em retorno aos presentes autos, o contexto pode ser apanhado com mais detalhe e proveito a partir do “TERMO DE CONSTATAÇÃO E ENCERRAMENTO” de fls. 1.668/1.676 (destaques do original): Cálculos dos preços de transferência – Método PRL 2 Nas aquisições efetuadas pela empresa, sujeitas às regras de preços de transferência, a Contribuinte adotou, para a maior parte dos produtos, o método do Preço de Revenda Menos Lucro com margem de 60% PRL 60%, utilizandose, no entanto, da sistemática prevista na Instrução Normativa SRF nº 32/2001, embora na época da ocorrência do fato gerador do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro líquido, vigesse a metodologia estabelecida pela Instrução Normativa SRF nº 243/2002. 4 As razões que levaram a empresa a optar por tal procedimento foram esposadas no Mandados de Segurança nº 2007.61.00.0315183. 5 Na ação mandamental impetrada pela DELPHI não houve sentença, apenas decisão denegatória do pedido de liminar, seguida de solicitação de desistência da ação, que foi homologada pela Justiça Federal em 11/12/2008, extinguindo o processo sem análise do mérito. Fl. 2661DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.662 3 [...]9 O texto legal [referese ao art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação determinada pelo art. 2º da Lei nº 9.959, de 27 de janeiro de 2000] é bastante claro. Ao prescrever o cálculo da margem bruta de lucro, determina que seja considerado 60% sobre o valor líquido de revenda, portanto, daquela parcela que foi importada e, posteriormente, revendida. É extremamente importante notar que o art. 2º da Lei 9.959/2000 nunca estabeleceu que fosse considerado “60% sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto menos o valor agregado no País”. [...]11 É fundamental perceber que a forma de cálculo, baseada na margem de lucro de 60% sobre o valor líquido de venda do produto fabricado, foi estabelecida administrativamente pela SRF e é procedimento distinto do que foi determinado no texto da Lei, ou seja, margem de 60% do preço líquido de revenda da mercadoria ou insumo importado. 12 A regulamentação trazida pela IN SRF nº 243/2002 deixou de ir além da lei, como cabe a uma boa norma administrativa. Tratase de uma sistemática de apuração dos preços e margens fundamentada no valor de revenda dos bens importados, conforme o exigido pela Lei. 14 Apuramos que alguns produtos importados foram revendidos diretamente e também utilizados na produção de outros bens. Nesses casos, ao refazermos os cálculos, conformandoos aos procedimentos previstos na IN nº 243/2002, obtivemos o preço parâmetro pela ponderação entre os preços parâmetros resultantes da aplicação das metodologias do método PRL com margem de 20% e de 60%. [...]25 Considerandose que o Método PRL é definido “como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos”, decorre a conclusão lógica de que, nos casos em que parte da importação de determinado bem se destinar à produção e parte à revenda direta, há que se proceder à ponderação de acordo com as quantidades revendidas, utilizandose a margem de 20%, ou à produção, com a observância da margem de 60%, em atenção à distinção prevista nos itens 1 e 2 da alínea “d” do inciso II do artigo 18 da Lei nº 9.430/96. 26 Idêntica metodologia foi aplicada na apuração do preço médio ponderado do PRL, relatada nos itens anteriores, nos casos em que determinado insumo importado é aplicado na produção de diversos bens finais, podendo gerar preços parâmetros distintos para cada bem final envolvido. 27 Notamos, ainda, que a empresa não considerou os valores relativos à quantidade e a valor do estoque inicial na apuração do preço praticado. 28 A IN SRF nº 243/2002 é clara ao determinar, em seu artigo 12, §3º, que as mercadorias constantes no estoque no início do período, valorado pelo custo de importação, devem ser adicionadas às compras do ano sob análise para que se chegue ao preço a ser comparado com o preço parâmetro, proveniente das vendas do período. 29 Diferentemente dos outros dois métodos transacionais previstos na legislação de preços de transferência, destinados à avaliação de bens, Fl. 2662DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.663 4 serviços ou direitos adquiridos de pessoas vinculadas, nos quais os preços parâmetro e praticado devem ser construídos no período da importação ou aquisição, no PRL, a averiguação da ocorrência ou não da transferência de lucro para o exterior, em consonância com os pressupostos da legislação pátria, darseá no momento da revenda dos itens comprados do exterior. [...]Cálculos dos preços de transferência – Método PIC. 32 Para alguns produtos, a empresa preferiu adotar o método dos preços independentes comparados – PIC, já que dispunha de produtos idênticos adquiridos de partes não relacionadas. 33 De todos os produtos submetidos à avaliação pelo PIC, encontramos diferença tributável entre o preço praticado e o respectivo preço parâmetro apenas nos itens cujas memórias de cálculo integram este Termo de Constatação. 34 Devemos esclarecer que nos cálculos efetuados pela DELPHI foram tomadas todas as compras de empresa vinculadas, independentemente do período de aquisição. Retificamos a apuração, fazendo constar apenas as importações de 2006 e, na hipótese de sua inexistência, consideramos os dados de anos anteriores, de forma a atender ao disposto no artigo 11 da IN SRF 243/2002: Art. 11. Não sendo possível identificar operações de compra e venda no mesmo período a que se referirem os preços sob investigação, a comparação poderá ser feita com preços praticados em operações efetuadas em períodos anteriores ou posteriores, desde que ajustados por eventuais variações nas taxas de câmbio das moedas de referência, ocorridas entre a data de uma e de outra operação. 35 Isto posto, recalculamos os preços de transferência em consonância com a metodologia estipulada na Instrução Normativa nº 243/2002, apurando os valores constantes das planilhas que integram este Termo e cujo resumo apresentamos no anexo I. Do todo teve ciência o Contribuinte, como já se adiantou, em 14/09/2011, vindo a colacionar sua insurgência em 13/10/2011 (fls. 2.072/2.114). Argumenta: 1. Que não obstante se discutir no Mandado de Segurança sob nº 2007.61.00.0315183 a própria legalidade da Instrução Normativa SRF nº 243, de 11 de novembro de 2002, suporte da presente autuação, o fato é que naquela sede não se chegou a assentar juízo meritório algum, isso em função de desistência da própria impetração, ao que se seguiu, ainda antes do início dos trabalhos de Fiscalização, a respectiva sentença homologatória. Outrossim, na presente insurgência vão pontos não considerados na referida espécie judicial. Nessa ordem de ideias, “não ocorreu qualquer renúncia à esfera administrativa em razão do ajuizamento do Mandado de Segurança Delphi”. 2. Ainda na mesma temática, acresce que ele, Contribuinte, Delphi Automotive Systems do Brasil Ltda., inscrito no CNPJ sob nº 00.857.758/000140, incorporou a pessoa jurídica Delphi Diesel Systems do Brasil Ltda., inscrita no CNPJ sob nº 49.871.155/000192, isso em 29/12/2007. Ocorre que esta última disputava, até então, a mesma questão atinente à suposta ilegalidade da Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002, agora nos autos do Mandado de Segurança sob nº 2007.61.00.0340487. Mas, Fl. 2663DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.664 5 diferentemente da sorte havida pelo Contribuinte nos autos do Mandado de Segurança sob nº 2007.61.00.0315183, teve a incorporada a emissão de provimento judicial favorável ao seu ponto de vista já em sede de apelação, conforme julgado em Acórdão produzido pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região (sobre tal aguardase o processamento de recursos especial e extraordinário opostos pela Fazenda Nacional). Assim se registra a consideração para dizer, em adianto, que nem mesmo sob tal circunstância haverseia de ter, sob dimensão que seja, prejudicado o prosseguimento do presente feito administrativo, já que “a situação de fato e de direito levadas ao Poder Judiciário no Mandado de Segurança Diesel estão relacionadas apenas às operações da empresa Diesel e assim, em princípio, não deveriam aproveitar ou prejudicar as operações realizadas pela Delphi no período de 2006”. 3. O art. 12, §§ 11 e 12 da IN SRF nº 243, de 2002, concorreriam para uma verdadeira distorção do estritamente fixado no art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996, na redação determinada pelo art. 2º da Lei nº 9.959, de 2000, com o que ilegal a normatização trazida na citada Instrução Normativa. Equivocados, por isso, os cálculos da Fiscalização pautados na Instrução Normativa impugnada. Nesse passo, pondera sobre a possibilidade de a instância administrativa dizer da ilegalidade de atos tais. 37. Essa diferença no ajuste tributável afeta diretamente a base de cálculo de IRPJ e CSLL. É nítido, pois, que a IN nº 243/02 extrapolou sua competência, que é de norma meramente regulamentar e interpretativa, e que, portanto como norma ilegal, não deveria ser adotada pela Requerente em prejuízo do cumprimento de determinação da Lei n° 9.430/96. [...]46. Superada a questão da impossibilidade deste E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais analisar a falta de fundamento legal da IN 243/2002, [...] (destacouse) 4. No particular, a IN SRF nº 243, de 2002, seria ilegal porque teria expungido da equação pertinente ao cálculo do preço parâmetro a variável que responde por “valor agregado”, observado seja que dita variável é expressamente referida na letra do item “1” da alínea “d” do inciso II do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996. Nesta última, a variável “valor agregado” participaria do cômputo da margem de lucro de 60%, justamente quando na posição de subtraendo do valor líquido de revenda do produto final acabado, após o que aplicado seria o percentual presumido de 60%. Já na citada Instrução Normativa nada disso seria previsto. Ainda nesse tópico, a ilegalidade também sobreviria do uso – pela Instrução Normativa em comento – d’uma regra de proporção não alvitrada na Lei em referência. No caso, o quociente entre [1] o custo do bem, direito ou serviço importado e [2] o custo do produto final acabado, percentual assim obtido e aplicado sobre o preço líquido de revenda daquele produto. Tudo, enfim, concorrendo para um aumento de base tributável e isso por meio de Instrução Normativa, em confronto, pois, com o preceituado pelo art. 97 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, Código Tributário Nacional – CTN. 5. A própria Medida Provisória nº 478, de 29 de dezembro de 2009, enfim não convertida em Lei, particularmente ao tencionar modificar o art. 18, inciso II, da Lei nº 9.430, de 1996 (trata do Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL), quando trouxe em seu corpo texto quase que equivalente àquele prestigiado na criticada Instrução Normativa SRF nº 243, de 2002 (art. 12, §§ 11 e 12 da mencionada Instrução Normativa), seria revelador da necessidade de Lei para veicular tal rearranjo na metodologia de cálculo do preço parâmetro. Fl. 2664DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.665 6 6. Pertinente aos cálculos mesmos levados a cabo pela Fiscalização, entende descabida a ponderação havida entre o Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL com margem de lucro de 60% (Lei nº 9.430, de 1996, art. 18, inciso II, mas considerado, entre os itens da sua alínea “d”, o de nº 1 – nomeiese PRL60%) e o Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL com margem de lucro de 20% (mesma Lei, mesmos artigo e inciso, mas considerado, entre os itens de sua alínea “d”, o de nº 2; nomeiese PRL20%). 7. Para efeito de cômputo do preço praticado (preço/custo de aquisição) dos itens então sujeitos ao controle pelo Método do Preço de Revenda menos Lucro – PRL, não se poderia nele incluir as rubricas de despesas com seguros, fretes e tributos incidentes na operação, certo que determinados estes últimos em face de terceiro não vinculado ao Contribuinte. Mais, não poderia a Fiscalização deixar de considerar no cômputo da quantidade de cada item que, enfim, se acreditou merecedor de ajustes em seus custos de importação (para efeito de limitação da respectiva dedutibilidade no cálculo do IRPJ e da CSLL), os estoques finais deles, assim formados em 31/12/2006. 101. Nesse sentido, a D. Fiscalização entendeu que o "preço praticado" sujeito a ajuste seria o preço CIF de importação, independentemente de os valores relativos a fretes e seguros internacionais terem sido pagos a terceiros não vinculados e, portanto, serem custos e despesas fora do alcance da legislação brasileira de preços de transferência. [...]105. Outra inconsistência notada no cálculo da D. Fiscalização para apuração do preço médio de aquisição foi a não desconsideração do saldo final, ou seja, a não subtração dos insumos e produtos que foram importados em 2006, mas não consumidos naquele ano calendário. 8. Agora, com respeito à retificação procedida pela Fiscalização nos ajustes feitos pelo Contribuinte quando do uso do Método dos Preços Independentes Comparados – PIC (art. 18, inciso I, da Lei nº 9.430, de 1996), ponderase que tal retificação, sobre considerar apenas as importações havidas no curso do anocalendário de 2006, seria descabida em face da própria redação do art. 11 da IN SRF nº 243, de 2002. 109. Por fim, não se sustenta o argumento da D. Fiscalização no sentido de que é equivocado efetuar os cálculos do preço parâmetro por meio do método PIC usar como referência todas as compras efetuadas com empresas vinculadas em outros períodos de aquisição, pois que o próprio artigo 11 da IN 243/02 citado no Termo de Constatação e Encerramento Parcial determina que a comparação pode ser feita com períodos anteriores ou posteriores, caso não se identifique operações de compra e venda no mesmo período. 9. Ainda se equivocara a Fiscalização ao considerar que o Contribuinte, sponte propria, só teria levado a ajuste, a título de adição ao seu Lucro Líquido, o importe de R$ 34.740,49, quando o certo é que foi levado a dito ajuste o monte de R$ 493.098,29, exatamente como constaria na DIPJ referente ao anocalendário de 2006. 110. A Requerente, na ficha 34, linha 50, de sua Declaração de Informações (DIPJ) efetuou ajustes relativos a preços de transferência no montante de R$ 493.098,29, tendo como base a Lei n° 9.430/96. 111. No entanto, a D. Autoridade Fiscal, em seus demonstrativos, somente considera um ajuste de R$ 34.740,49 com relação a todos os produtos englobados na linha 50 da ficha 34 da DIPJ. A diferença de Fl. 2665DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.666 7 R$ 458.357,80 não foi considerada pela D. Fiscalização no cálculo de seus ajustes. 10. A multa de ofício, no patamar em que exigida, configuraria verdadeira hipótese de confisco, com imediata ofensa ao disposto no art. 150, inciso IV, da Constituição. 11. Inconstitucional seria o uso da taxa Sistema Especial de Liquidação e Custódia – Selic para efeito de cálculo dos juros de mora. Ainda nesse ponto, sobre eventual má sorte no presente processado, a título de resguardo futuro, já pondera sobre a impossibilidade de incidência de juros de mora (no caso, estimada pela taxa em comento) sobre a multa de ofício, isso quando se vir na circunstância de solver o total do débito aqui constituído. 118. Ainda que os juros de mora incidam apenas sobre o valor dos tributos lançados, a Requerente, para assegurar que diante de um futuro resultado desfavorável a atualização do débito não será feita com a incidência de juros pela taxa SELIC sobre a multa aplicada, vem esclarecer o quanto segue. 119. A multa configura penalidade e não tem natureza tributária. Assim sendo, não há razão para ser aplicada a taxa de juros SELIC sobre o seu valor. É evidente que a multa de ofício não pode ser aumentada pela aplicação de taxa de juros, sob pena de ser caracterizado o agravamento da sanção, o que é inaceitável! (término da transcrição do relatório do acórdão da DRJ) Em julgamento, a 1ª Turma da DRJ/SP1, por meio do Acórdão 1638.901, de 16 de maio de 2012, julgou improcedente a impugnação da recorrente, conforme a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Ano calendário: 2006 PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL60%. AJUSTE, IN SRF nº 243, de 2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. PRECEDENTES DO CARF. Descabe a argüição de ilegalidade na IN SRF nº 243/2002 cuja metodologia busca proporcionalizar o preço parâmetro ao bem importado aplicado na produção. Assim, a margem de lucro não é calculada sobre a diferença entre o preço líquido de venda do produto final e o valor agregado no País, mas sobre a participação do insumo importado no preço de venda do produto final, o que viabiliza a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior exatidão, em consonância ao objetivo do método PRL 60 e à finalidade do controle dos preços de transferência (Acórdão nº 110100610, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, de 23 de novembro de 2011). Tal é a inteligência hodierna do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF sobre a regra de proporcionalização prevista no art. 12, § 11, da IN SRF nº 243, de 11 de novembro de 2002. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PRATICADO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS. Fl. 2666DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.667 8 Na apuração dos preços praticados segundo o Método PRL, deve se incluir o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador, e os tributos incidentes na importação. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. PREÇO PARÂMETRO. ESTOQUES FINAIS. Na apuração dos preçosparâmetro segundo o Método PRL não há previsão de se considerar, como elemento redutor da quantidade do produto adquirido/importado enfim sujeito a ajuste, o importe registrado em estoque final. Tal possibilidade se abre, sem dúvida, com a Normativa SRF nº 243, de 2002, mas apenas sob o viés contábil. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PONDERAÇÃO. Na hipótese de um mesmo bem importado ser aplicado na produção de mais de um produto, o preço parâmetro final será a média ponderada dos valores encontrados mediante a aplicação do PRL com margem 60%. O mesmo caso um bem importado ser parcialmente aplicado em processo produtivo e parcialmente revendido, oportunidade em que a ponderação se dará entre os resultados apurados segundo o PRL com margem de 20% e aqueles outros computados segundo o PRL com margem de 60%. Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2006 INCONSTITUCIONALIDADE. RECONHECIMENTO NO ÂMBITO ADMINISTRATIVO. Cumpre à Administração Tributária aplicar a Lei de ofício. Por outra, em nível administrativo, não se afasta a aplicação de Lei, não se declara a sua inconstitucionalidade. Entendimento já consolidado, inclusive, no enunciado nº 02 da Súmula do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2006 JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao do vencimento. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Conforme informações constantes na Resolução nº 1401000.381, de 02/02/2016, exarada por esta turma ordinária (efls. 2582 a 2587), "A ciência da decisão recorrida foi processada por meio eletrônico, tendo sido disponibilizada na caixa postal do contribuinte em 06/06/2012 e configurada a ciência em 21/06/2012 (cf. Termo de Ciência por Decurso de Prazo às fls. 2324)". Como a empresa apresentou recurso voluntário na data de 24/08/2012, foi lavrado Termo de Perempção (efls. 2325), em que se afirmou a intempestividade do recurso. Fl. 2667DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.668 9 No recurso voluntário, a empresa alega o que segue, sobre a questão da tempestividade: ao entrar no site da RFB na internet, em 06/08/2012, foi surpreendida com uma mensagem de que as informações disponíveis perante aquele órgão seriam insuficientes para a emissão/renovação de certidão positiva com efeitos de negativa; ao acessar o portal eCAC foi novamente surpreendida ao verificar que dois processos (incluindo o presente), até então pendentes de decisão de primeira instância, constavam em situação irregular (cobrança); no dia seguinte, compareceu à Agência da RFB em São Caetano do Sul onde soube que havia sido intimado do resultado dos julgamentos pela via eletrônica (contudo, a empresa nunca fez opção por receber notificações por meio eletrônico); foi, então, instruída a acessar os arquivos correspondentes no link “Processo Digital” no portal eCAC e constatou que tais arquivos nunca foram abertos pela recorrente e, quando tentou o acesso para tomar conhecimento das decisões e imprimi las, se deparou com a informação de que a página não estava disponível (fora do ar), sendo que essa situação permaneceu inalterada até o dia 15/08/2012; no intuito de solucionar a questão, ainda no dia 07/08/2012, requereu vista aos processos para obtenção de cópias, as quais lhe foram efetivamente disponibilizadas em 10/08/2012; o documento denominado “Termo de Abertura de Documento” (fls. 2330) atesta, de forma incontestável, que a recorrente somente teve ciência da decisão de primeira instância em 07/08/2012; a suposta ocorrência de ciência digital é inválida e não atende às diretrizes das Portarias SRF nº 259/06 e RFB nº 574/09, que dispõem expressamente que a intimação por meio digital é opcional e se opera necessariamente mediante entrega de recibo ao contribuinte; ademais, devese destacar que a recorrente havia conseguido renovar sua certidão em 03/08/2012, assim, se os débitos estivessem com cobrança em aberto já nessa data, não seria possível a renovação da certidão; se é verdade que a empresa havia feito a opção pela ciência digital, todas as intimações relacionadas a seus processos deveriam ser enviadas nessa forma, contudo, isso não é o que se verifica, pois a intimação relativa ao processo nº 16651.000175/200786, que trata da mesma matéria, se deu por meio físico em 03/08/2012; portanto, resta claro que não houve opção por ciência digital e que, no presente processo, considerar a data da efetiva ciência, em 07/08/2012 (como consta no Termo de Abertura de Documento) ou em 10/08/2012 (quando lhe foram disponibilizadas as cópias), é suficiente para tornar o recurso tempestivo. Desta forma, esta turma do CARF baixou o processo em diligência requerendo o seguinte: Diante do exposto e considerando que a análise da tempestividade é condição necessária ao conhecimento do recurso e questão prejudicial ao julgamento do mérito, proponho a conversão do presente julgamento em diligência para que a unidade de origem: Fl. 2668DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.669 10 a) junte, se houver, cópia do Termo de Opção previsto no § 2º do artigo 4º da Portaria SRF nº 259/06, com as alterações promovidas pela Portaria RFB nº 574/09; b) pronunciese sobre a autoria e, se cabível, os efeitos pretendidos com a lavratura do “Termo de Abertura de Documento” estranhamente anexado às fls. 2330 do processo. Em resposta à diligência, a autoridade fiscal consignou o seguinte (efls. 2617 e 2618): Diante do exposto e conforme informações obtidas do setor competente informamos que: Somente a partir de 08/07/2013 as informações sobre opção do DTE estão disponibilizadas na caixa postal, portanto não há como recuperar, para o período em questão, o Termo de Opção previsto no §2º do artigo 4º da Portaria SRF nº 259/06, com as alterações promovidas pela Portaria RFB nº 574/09; • Outros processos também tiveram seus comunicados enviados eletronicamente no mesmo ano calendário do processo em questão; • Não foi encontrada outorga de procuração para acesso ao eCac no ano calendário de 2012; • A opção pelo DTE (domicílio tributário eletrônico) é facultativa, sendo possível a opção e o cancelamento desta a qualquer tempo; • Quando a anexação tem como responsável o sistema “eprocesso” significa que a anexação foi automática sem intervenção de qualquer servidor. Ante o exposto, proponho ciência da conclusão da diligência ao interessado. Cientificada da conclusão da diligência, a recorrente apresentou manifestação em que aduz ter a fiscalização confirmado que a ciência do acórdão da DRJ não havia se dado via eletrônica, razão pela qual pugna pela admissibilidade do recurso voluntário. Processo nº 16643.000385/201060 situação similar Não obstante a resposta da fiscalização, trago fato novo por mim verificado. É que, em desfavor da recorrente, houve outro processo de lançamento de auto de infração processo nº 16643.000385/201060 em que a empresa também foi cientificada, do acórdão da DRJ, por meio eletrônico. Diferentemente do caso aqui em discussão, em resposta à referida diligência proposta pela turma do CARF, com fins de verificação da adesão pela empresa ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE), a delegacia de controle confirmou que a empresa havia aderido ao DTE, vejase: Fl. 2669DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.670 11 Fl. 2670DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.671 12 Fl. 2671DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.672 13 Fl. 2672DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.673 14 Vejase na imagem imediatamente acima que o Acesso #1, efetuado pela empresa na data de 24/02/2012, teve como objeto a adesão ao domicílio eletrônico: "(...) Opção pelo domicílio eletrônico Início 24/2/2012 14:05:26 Fim 24/2/2012 14:07:50 (...)" A partir do resultado da diligência do processo nº 16643.000385/201060, a turma do CARF não conheceu do recurso voluntário daquele processo, por ser intempestivo (e fls 905 a 924 do processo nº 16643.000385/201060), vejase: Assunto: Processo Administrativo Fiscal Anocalendário: 2005 RECURSO VOLUNTÁRIO PEREMPÇÃO. Não se conhece das razões de recurso voluntário que tenha sido apresentado após o decurso do prazo determinado no art. 33 do Decreto n° 70.235/72. Posteriormente, a recorrente apresentou recurso especial ao CARF (naquele processo), que não foi admitido no seu pedido inicial despacho de admissibilidade (efls. 1083 a 1085 do processo nº 16643.000385/201060) , tampouco em seu pedido de reconsideração da decisão inicial reexame de despacho de admissibilidade (efls. 1086 e 1087 do processo nº 16643.000385/201060). Desta forma, o processo nº 16643.000385/201060 transitou em julgado desfavoravelmente ao pedido da recorrente. No CARF, este processo (10805.721766/201181) foi distribuído, cabendo a mim sua relatoria. É o Relatório. VOTO Como visto, o resultado da diligência deste processo difere da diligência do processo nº 16643.000385/201060, que também tem como sujeito passivo a empresa recorrente. Fl. 2673DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.674 15 No processo nº 16643.000385/201060, a diligência efetuada pela delegacia de Santo André confirmou, a partir de informações apresentadas pelo SERPRO, que a empresa aderiu ao Domicílio Tributário Eletrônico (DTE). Desta forma, no referido processo 16643.000385/201060, o Recurso Voluntário foi considerado intempestivo. Além disso, o Recurso Especial apresentado pela empresa no citado processo nº 16643.000385/201060 não foi admitido pelo CARF, mesmo após pedido de reexame, o que afastou o pedido de tempestividade do recurso voluntário. Desta forma, para que seja mantida uma coerência em relação a um fato apurado sobre mesma pessoa jurídica, entendo que devo me servir da chamada "prova emprestada", que consta no processo nº 16643.000385/201060. No art. 369 do Código de Processo Civil, que se aplica subsidiariamente ao processo administrativo fiscal, está prescrito que "As partes têm o direito de empregar todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na convicção do juiz". Esta também é a conclusão exposta no artigo abaixo1: No Direito Tributário, a chamada "prova emprestada" pode ser analisada sob duas perspectivas: prova emprestada processual e prova emprestada tributária. A "prova emprestada" processual tem o sentido daquele já utilizado pelo Processo Civil, qual seja, provas produzidas em outro processo envolvendo as mesmas partes. Alertam os professores Marinoni e Arenhart2 que não basta o translado da prova, "A legitimidade da prova emprestada depende da efetividade do princípio do contraditório. A Prova pode ser transladada de um processo a outro desde que as partes do processo para o qual a prova deve ser transladada tenham participado adequadamente em contraditório do processo em que a prova foi produzida originariamente." Encontramos no Decreto n. 70.235/72, que regulamenta o processo administrativo tributário federal, menção à prova emprestada processual. Vejamos: Art. 30. Os laudos ou pareceres do Laboratório Nacional de Análises, do Instituto Nacional de Tecnologia e de outros órgãos federais congêneres serão adotados nos aspectos técnicos de sua competência, salvo se comprovada a improcedência desses laudos ou pareceres. (...) § 3º Atribuirseá eficácia aos laudos e pareceres técnicos sobre produtos, exarados em outros processos administrativos fiscais e transladados mediante certidão de inteiro teor ou cópia fiel, nos seguintes casos: (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) 1 extraído do site: https://jus.com.br/artigos/13998/aprovaemprestadanodireitotributario 2 MARINONI, Luiz Guilherme, Sérgio Cruz Arenhart. Manual do Processo de conhecimento. 5. Ed. rev. Atual. e Ampl. – São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. P. 292 Fl. 2674DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.675 16 a) quando tratarem de produtos originários do mesmo fabricante, com igual denominação, marca e especificação; (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) b) quando tratarem de máquinas, aparelhos, equipamentos, veículos e outros produtos complexos de fabricação em série, do mesmo fabricante, com iguais especificações, marca e modelo. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Preocupados com a forma que a prova emprestada processual possa ser recebida no novo processo, os professores Marinoni e Arenhart3 destacam que ela não pode ser recebida com a mesma valoração obtida no processo que foi originariamente produzida. "As circunstâncias do segundo processo, as particularidades do empréstimo e mesmo a variação na efetivação do contraditório, podem impor valoração diferente à prova, caso comparada com a força que lhe foi atribuída no primeiro processo.". Longe de figurar meras assertivas, vejamos o tratamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF4 do Ministério da Fazenda na análise da prova emprestada processual no processo administrativo tributário federal. Pedimos vênia para transcrever parte do acórdão de n.º 30239.123, sessão de 6 de novembro de 2007, de relatoria do Conselheiro Marcelo Ribeiro Nogueira: Assim, em busca da verdade material que, digase, serve tanto para a manutenção quanto para o afastamento de uma autuação entendo que tal prova pode ser aproveitada no âmbito administrativo tributário. Entretanto, para que a prova emprestada seja tomada como fundamento para uma decisão, devese franquear à outra parte o direito de se manifestar sobre o seu teor, para não se configure cerceamento de seu direito de defesa. Desta forma, proponho que o processo seja baixado em diligência para que a unidade de origem informe o que segue: 1) Anexe ao processo o(s) documento(s) de comprovação da adesão da recorrente ao domicílio tributário eletrônico, que já consta no processo nº 16643.000385/2010 60. Encerramento da Diligência 2) Ao final da diligência, favor intimar a empresa sobre o teor do documento, para que se manifeste no prazo de 30 (trinta) dias contados da ciência do resultado da diligência, nos termos do art. 44 da Lei nº 9.784/1999. 3 Op. Cit. P. 294 4 O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, foi criado pela Medida Provisória nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, e instalado pelo Excelentíssimo Senhor Ministro de Estado da Fazenda em 15/2/2009, mediante Portaria MF nº 41, de 2009, unificando os Conselhos de Contribuintes do Ministério da Fazenda e a Câmara Superior de Recursos Fiscais Fl. 2675DF CARF MF Processo nº 10805.721766/201181 Resolução nº 1401000.482 S1C4T1 Fl. 2.676 17 3) Após, favor encaminhar este processo a esta turma do CARF, para o prosseguimento do julgamento deste processo administrativo fiscal. É como voto! (assinado digitalmente) Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa Fl. 2676DF CARF MF
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Numero do processo: 12269.004175/2009-71
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 27 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2007
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.853
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 26 9. 00 41 75 /2 00 9- 71 Fl. 272DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 273DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 274DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 275DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 276DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 277DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 278DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 279DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 280DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 281DF CARF MF Processo nº 12269.004175/200971 Acórdão n.º 9202005.853 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 282DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.726059/2011-50
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2009
CONTRIBUIÇÕES DEVIDAS À SEGURIDADE SOCIAL. ART. 33 DA LEI 8212/91. COMPETÊNCIA DO AUDITOR FISCAL DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. INEXISTÊNCIA DE PRESUNÇÃO LEGAL. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. REGRA ESPECÍFICA.
1. O art. 33 da Lei 8212/91 não estabelece qualquer presunção de pagamentos sem causa ou a beneficiários não identificados como pagamentos de remunerações a contribuintes individuais. Estabelece, sim, a competência do auditor fiscal da Receita Federal do Brasil para lançar as contribuições devidas à seguridade social, inclusive em caso de recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação de forma deficiente.
2. A falta de comprovação das causas e dos beneficiários dos pagamentos permite a aplicação da presunção legal do art. 674 do Regulamento do Imposto de Renda, para viabilizar a incidência do IRRF, mas não da presunção criada pela própria fiscalização.
3. Apenas as transferências de numerários em favor dos administradores da recorrente podem ser tomadas como pagamentos de pró-labore, vez que a própria Lei 8212/91 os caracteriza como contribuintes individuais e porque o sujeito passivo não comprovou a que título elas teriam ocorrido.
Numero da decisão: 2402-006.027
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para excluir da autuação os levantamentos BB, BB2 e BR. Vencidos os Conselheiros Ronnie Soares Anderson, Mauricio Nogueira Righet e Mário Pereira de Pinho Filho que davam provimento em menor extensão.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
João Victor Ribeiro Aldinucci - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Theodoro Vicente Agostinho, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Fernanda Melo Leal.
Nome do relator: JOAO VICTOR RIBEIRO ALDINUCCI
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ART. 33 DA LEI 8212/91. COMPETÊNCIA DO AUDITOR FISCAL DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL. INEXISTÊNCIA DE PRESUNÇÃO LEGAL. PAGAMENTOS SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIOS NÃO IDENTIFICADOS. REGRA ESPECÍFICA. 1. O art. 33 da Lei 8212/91 não estabelece qualquer presunção de pagamentos sem causa ou a beneficiários não identificados como pagamentos de remunerações a contribuintes individuais. Estabelece, sim, a competência do auditor fiscal da Receita Federal do Brasil para lançar as contribuições devidas à seguridade social, inclusive em caso de recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação de forma deficiente. 2. A falta de comprovação das causas e dos beneficiários dos pagamentos permite a aplicação da presunção legal do art. 674 do Regulamento do Imposto de Renda, para viabilizar a incidência do IRRF, mas não da presunção criada pela própria fiscalização. 3. Apenas as transferências de numerários em favor dos administradores da recorrente podem ser tomadas como pagamentos de prólabore, vez que a própria Lei 8212/91 os caracteriza como contribuintes individuais e porque o sujeito passivo não comprovou a que título elas teriam ocorrido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 72 60 59 /2 01 1- 50 Fl. 1034DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para excluir da autuação os levantamentos BB, BB2 e BR. Vencidos os Conselheiros Ronnie Soares Anderson, Mauricio Nogueira Righet e Mário Pereira de Pinho Filho que davam provimento em menor extensão. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, João Victor Ribeiro Aldinucci, Luis Henrique Dias Lima, Theodoro Vicente Agostinho, Mauricio Nogueira Righetti, Jamed Abdul Nasser Feitoza e Fernanda Melo Leal. Fl. 1035DF CARF MF Processo nº 10980.726059/201150 Acórdão n.º 2402006.027 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório A fiscalização lavrou os seguintes Auto de Infração (AI) DEBCAD em face do sujeito passivo: a) DEBCAD 51.002.4777, relativo à falta de recolhimento das contribuições devidas à seguridade social, parte patronal, incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados contribuintes individuais; b) DEBCAD 51.002.4785, relativo à falta de recolhimento das contribuições devidas à seguridade social, parte segurados, incidentes sobre as remunerações pagas aos segurados contribuintes individuais e não retidas. Segundo o relatório fiscal da infração: [...] demos início ao procedimento fiscal [...] solicitando, como de praxe, todos os documentos, arquivos digitais e livros fiscais obrigatórios, assim como os extratos bancários das contas movimentadas pelo contribuinte supracitado [...]. Vencido o prazo inicial [...] o contribuinte, na mesma data requereu a dilação de prazo de mais de 30 dias, sendo então concedido mais 20 (vinte) dias de prazo para apresentação da referida documentação. [...] já vencido o prazo concedido, o contribuinte apresentou parte da documentação [...], faltando assim os demais elementos básicos para verificação dos registros dos negócios da empresa, como folhas de pagamento e livros diário, seja em meio papel ou apresentados nos respectivos arquivos digitais obrigatórios, que digase de passagem, não foram apresentados até a presente data. Observamos que o contribuinte apresentou extratos bancários fora do prazo inicialmente concedido, quando já havíamos requisitado aos bancos responsáveis os extratos bancários da empresa. [...] No decorrer da auditoria fiscal, lavramos também os Termos de Intimação Fiscal [...] requisitando a comprovação dos diversos pagamentos, bem como a identificação dos seus respectivos beneficiários [...]. Até a presente data nenhuma informação foi apresentada, bem como não houve qualquer justificativa [...]. [...] diante da não apresentação pelo contribuinte de parte dos documentos solicitados, inclusive seus livros contábeis e folhas de pagamento, não restou outra maneira que não fosse a aplicação do critério legal previsto para a presente situação, com a adoção da aferição indireta das bases de cálculo e correspondentes contribuinte devidas, conforme previsto no parágrafo 3º do art. 33 da Lei nº 8.212, [...]. [...] Tendo os extratos bancários [...] como documentos efetivos para a análise dos possíveis fatos geradores ocorridos e, Fl. 1036DF CARF MF 4 considerando que no período analisado os segurados contribuintes individuais essenciais para o desenvolvimento dos trabalhos face o tipo de atividade da empresa que é a comercialização de franquias, prestação de serviços de instalação, manutenção e assistência técnica aos fraqueados, agenciamento e treinamento de mãodeobra não constavam em nenhuma das declarações de GFIPs [...]e, ainda, que os lançamentos efetuados nos extratos bancários segregavam através de históricos específicos os lançamentos a créditos dos segurados empregados decorrentes de folha de pagamento ou os créditos eram efetuados aos segurados empregados individualmente, passamos então a eliminálos da análise, pois a suas remunerações e contribuições já haviam sido informados em GFIP pelo contribuinte ora autuado, ficando assim somente os valores creditados a beneficiários pessoas físicas (profissionais autônomos e diretores) e pessoas jurídicas. Após efetuados os diversos filtros e no intuito de esclarecer todas as dúvidas em relação aos lançamentos, lavramos os Termos de Intimação Fiscal [...] devidamente acompanhados das planilhas contendo lodos os créditos efetuados a terceiros que entendíamos que poderiam se tratar de fatos geradores de contribuição providenciaria, considerando que a maioria dos históricos não era conclusivo e em muitos casos não identificavam seus beneficiários. A empresa, apesar de intimada, vencidos os prazos concedidos não juntou nenhuma documentação até a presente data, bem como sequer justificou a sua não apresentação. Em função disto e com fundamento no parágrafo 3o do artigo 33 da Lei 8212 [...], passamos a considerar os valores planilhados como base de cálculo da contribuição previdenciária, entendendo trataremse de remuneração paga a contribuintes individuais, pela prestação de serviços de profissionais liberais, e remunerações indiretas pagas aos administradores da empresa (prólabore indireto), para efeito de cálculo das contribuições patronais e dos segurados devidas relativamente a estes fatos geradores. Com relação à contribuição dos contribuintes individuais, normalmente limitada ao teto máximo fixado na legislação, não sendo possível a identificação de todos os beneficiários dos pagamentos, foi calculada aplicandose a alíquota de 11% sobre as bases de cálculo totais obtidas a partir dos extratos bancários. Portanto, os levantamentos estão baseados nas planilhas anexas, referentes aos pagamentos efetuados a contribuintes individuais profissionais liberais ( LEVANTAMENTOS: BB; BB2 e BR ); e pagamentos a contribuintes individuais — Pro labore de Administradores ( LEVANTAMENTO PB; PB2 E PR ) tendo como origem os extratos bancários de contas corrente no Banco do Brasil S/A [...]. A contribuinte apresentou sua impugnação tempestivamente (cujos fundamentos são idênticos aos do seu recurso voluntário), a qual foi julgada improcedente pela DRJ em decisão assim ementada: CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. LANÇAMENTO POR ARBITRAMENTO. AUTORIZAÇÃO LEGAL. Fl. 1037DF CARF MF Processo nº 10980.726059/201150 Acórdão n.º 2402006.027 S2C4T2 Fl. 4 5 Tendo a conduta da própria autuada obrigado a fiscalização a adotar o lançamento por arbitramento, não se cogita em ilegal inversão do ônus da prova ou em ausência de liquidez e certeza, em face da expressa autorização legal do art. 33, § 3°, da Lei n° 8.212, de 1991, e do art. 148 da Lei n° 5.172, de 1966. Intimada da decisão em 06/08/2013 (fl. 816), através de aviso de recebimento, a contribuinte interpôs recurso voluntário em 05/09/2013 (fls. 818 e seguintes), no qual reafirmou as seguintes teses de defesa: a) da inexistência de previsão legal para presumir saída de recurso como pagamento de salário; b) da prova em sentido contrário. O julgamento do recurso foi convertido em diligência (fls. 839 e seguintes), para que a Delegacia de origem se manifestasse sobre os documentos mencionados. A unidade de origem se manifestou nos seguintes termos: 1.4. Quanto ao primeiro questionamento da 4ª Câmara/2ª Turma do CARF, fls. 886 do presente processo, “... e o fiscal autuante se manifeste se os documentos juntados à petição de fls. (i) são relativos transferência de valores em contacorrente da recorrente que vieram a ser considerados no lançamento como fatos geradores das contribuições previdenciárias lançadas,...”, concluiuse que os valores dos documentos apresentados pela empresa estão, sim, entre as transferências bancárias em conta corrente, cujos valores foram considerados bases de cálculo das contribuições lançadas. Na tabela do Anexo I desta Informação Fiscal, colunas “A” a “G”, estão as informações relacionadas aos quinze documentos da amostra e nas colunas “H” a “L”, estão indicados quais os números dos autos de infração que abrangem as referidas contribuições, o número do processo, os respectivos códigos de levantamento e as competências a que os valores estão atrelados. 1.4.1.Ressalvase que embora os valores dos documentos da amostra sejam os mesmos de algumas das transferências bancárias que, entre outras, fizeram parte das planilhas anexas aos autos de infração, somente os documentos de fls. 851 a 863, 868 a 869, 872 a 877, todas do presente processo, são claros quanto aos motivos das transferências. Assim, somente estes documentos justificam a exclusão de seus valores das bases de cálculo dos autos de infração de nºs 51.002.4777 e 51.002.478 5, integrantes do presente processo. Não foi possível a conclusão do motivo das transferências bancárias atreladas aos demais documentos da amostra. 1.5. Quanto ao segundo questionamento da 4ª Câmara/2ª Turma do CARF, fls. 843 do presente processo, “...bem como, para que informe ainda, se (ii) constam do lançamento transferências originadas de sua contacorrente destinadas a pessoas jurídicas e que foram considerados como fatos geradores das Fl. 1038DF CARF MF 6 contribuições previdenciárias, listando quais foram os pagamentos.”, houve necessidade de se intimar a empresa para que apresentasse esclarecimentos e documentos adicionais – Termo de Intimação Fiscal de 16/02/2016, cópia em anexo salientandose que na primeira fiscalização, a empresa não havia apresentado qualquer documento quando intimada. 1.5.1.Sem considerar as transferências bancárias atreladas aos documentos da amostra apresentada, as demais transferências objeto dos autos de infração do Processo nº 10980 726.058/201113 abrangem destinatários pessoas físicas e pessoas jurídicas. 1.5.2.Primeiramente esta fiscalização, com base nas informações dos destinatários das transferências, quando existentes, separou somente aquelas que eram destinadas a pessoas físicas, ou seja, indicação somente de nome, ou de nome com número de CPF. Com relação aos outros repasses, não foi possível se concluir se foram destinados a pessoas jurídicas ou a pessoas físicas. Desta forma, os documentos que serviram de base as transferências bancárias foram solicitados através das tabelas do Anexo I e do Anexo II do Termo de Intimação Fiscal de 16/02/2016, a primeira relacionada a valores que a primeira fiscalização considerou como pagamento a contribuintes individuais e a segunda, como pagamento de prólabore. Ainda assim, as transferências em relação às quais foi possível identificar destinatários pessoas físicas, foram objeto da tabela do Anexo III da Intimação Fiscal, visando esclarecimentos quanto aos motivos dos repasses, ou seja, se ensejariam ou não a exclusão de seus valores das bases de cálculo dos autos de infração. 1.5.3.O envio postal do Termo de Intimação Fiscal para o atual endereço da empresa não foi possível [...]. Como a empresa não foi localizada para intimação postal, ela foi intimada para tomar conhecimento da Resolução e da Informação Fiscal por edital. Sem contrarrazões. É o relatório. Fl. 1039DF CARF MF Processo nº 10980.726059/201150 Acórdão n.º 2402006.027 S2C4T2 Fl. 5 7 Voto Conselheiro João Victor Ribeiro Aldinucci Relator 1 Conhecimento O recurso voluntário é tempestivo e estão presentes os demais requisitos de admissibilidade, devendo, portanto, ser conhecido. 2 Da inexistência de presunção legal A recorrente basicamente alega que não haveria fundamento legal para considerar as saídas de recursos de sua conta bancária como fato gerador de contribuição. No presente caso, o sujeito passivo foi reiteradamente intimado para apresentar documentos, tais como arquivos digitais, extratos bancários, livros contábeis, folhas de pagamento, etc, sem que tenha respondido as intimações de forma satisfatória. No entender da fiscalização, tal omissão ensejaria a aplicação do art. 33 da Lei 8212/91, de forma a se considerar as saídas de recursos da conta bancária como pagamentos efetuados a contribuintes individuais. Tais montantes foram segregados em dois levantamentos específicos: (i) profissionais liberais em geral e (ii) administradores; e houve a lavratura dos presentes autos de infração. Ocorre que o art. 33 não estabelece qualquer presunção de pagamentos sem causa ou a beneficiários não identificados como pagamentos de remunerações a contribuintes individuais. Estabelece, sim, a competência do auditor fiscal da Receita Federal do Brasil para lançar as contribuições devidas à seguridade social, inclusive em caso de recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação de forma deficiente. Tal lançamento deverá estar lastreado na comprovação mínima de sua causalidade, demonstrandose, exemplificativamente, a existência de indícios da prestação de serviços por trabalhadores em favor ou por conta do sujeito passivo. A mera saída de recursos da conta bancária, sem qualquer identificação dos beneficiários e das suas causas, não pode ser considerada como pagamento de remuneração a contribuintes individuais, e nem o art. 33 da Lei 8212 cria qualquer presunção nesse sentido, como equivocadamente aludido pela fiscalização. A legislação tributária contém determinadas presunções, a exemplo daquela estabelecida no art. 42 da Lei 9430/96, segundo a qual se considera omissão de receita ou de rendimento a existência de depósitos bancários sem comprovação de origem. Nessa hipótese, passase do fato conhecido (depósitos bancários sem comprovação da origem) para o fato presumido (omissão de receitas ou rendimentos), havendo, Fl. 1040DF CARF MF 8 outrossim, clara relação de causa e efeito entre o fato conhecido e a hipótese de incidência presumida. Significa dizer que é totalmente razoável admitir que um depósito bancário na contra do contribuinte sem a correspondente justificação de sua origem seja tratado como rendimento omitido, o mesmo não se podendo afirmar quanto ao caso in concreto, em que as simples saídas de recursos foram tomadas como pagamentos de remunerações, sem ao menos se poder identificar, quanto a um dos levantamentos, sequer a categoria dos beneficiários dos pagamentos. A fragilidade da acusação é ainda mais grave quando se considera que o próprio relatório fiscal, e posteriormente a informação colhida em sede de diligência, expressamente afirmou que entre os valores considerados havia adimplementos efetuados em favor de pessoas jurídicas, que por razões legais não podem ser categorizadas como contribuintes individuais. Insistase que o art. 33 não introduz no ordenamento jurídico qualquer tipo de presunção quanto ao fato gerador, mas apenas estabelece norma de competência para a realização do lançamento, o qual, por via de consequência, deve demonstrar minimamente a ocorrência do fato jurídico tributário no mundo fenomênico. Ainda como exemplo, tomese o caso do § 2º do art. 229 do Regulamento da Previdência Social, de acordo com o qual o auditor fiscal poderá desconsiderar o vínculo negocial e efetuar o enquadramento como segurado empregado, caso constate que o segurado contratado, sob qualquer denominação, preenche as condições referidas no inc. I do caput do art. 9º. Nessa hipótese, legitimamente amparada no art. 33 da Lei 8212, temse a plena caracterização de todos os requisitos da relação empregatícia, a ensejar a desconsideração do vínculo negocial e o enquadramento do trabalhador contratado como segurado empregado. Isto é, nesse exemplo, a fiscalização tem o dever de demonstrar a efetiva ocorrência do fato gerador. Neste caso concreto, contudo, a fiscalização pretendeu criar um regime presuntivo não estabelecido legalmente, aplicando aos fatos uma norma que não lhe é aplicável. Como sabido, a existência de pagamento sem causa ou a beneficiário não identificado enseja a aplicação do art. 674 do Regulamento do Imposto do Renda. O seu § 1º estabelece, para o sujeito passivo, o ônus de comprovar, mediante documentação hábil e idônea, os beneficiários dos pagamentos realizados, assim como as suas causas subjacentes. Em não havendo comprovação, tais pagamentos são tributados exclusivamente na fonte, à alíquota de 35%. Entre outras razões, a norma se justifica porque tais valores poderiam ser atinentes a prólabore, prestação de serviços, entre outros, que estariam sujeitos à retenção do IR na fonte e até mesmo à incidência de contribuições previdenciárias. Ademais, em razão da falta de identificação do beneficiário do rendimento, o Fisco se vê impedido de alcançálo de forma direta, impondose a tributação na pessoa da fonte pagadora. Nas hipóteses do § 1º, ainda pode persistir dúvida sobre a natureza do rendimento, sendo justificável a tributação. Fl. 1041DF CARF MF Processo nº 10980.726059/201150 Acórdão n.º 2402006.027 S2C4T2 Fl. 6 9 A falta de comprovação, portanto, permite a aplicação da presunção legal do art. 674, para viabilizar a incidência do IRRF, mas não da presunção criada pela própria fiscalização. Noutro giro, o ônus decorre de expressa previsão legal, mas não do alvitre do agente fazendário, o qual tem a obrigação de aplicar a lei ao caso concreto, por força do princípio da legalidade. Apenas as transferências de numerários em favor dos administradores da recorrente podem ser tomadas como pagamentos de prólabore, vez que a própria Lei 8212/91 os caracteriza como contribuintes individuais e porque o sujeito passivo não comprovou a que título elas teriam ocorrido. Nesse tocante (transferências em favor dos administradores), não se trata de criar qualquer tipo de presunção, mas sim de passar de um fato conhecido (as transferências) para outro fato obviamente decorrente (o pagamento da remuneração), a atrair a hipótese de incidência. Por outro lado, tais saídas de recursos estão contempladas em levantamento específico (LEVANTAMENTO PB; PB2 E PR), não subsistindo qualquer prejuízo quanto a liquidez. Em resumo, devem ser excluídos da autuação os LEVANTAMENTOS BB, BB2 e BR. 3 Conclusão Diante do exposto, votase no sentido de CONHECER e DAR PARCIAL provimento ao recurso voluntário, para excluir da autuação os LEVANTAMENTOS BB, BB2 e BR. (assinado digitalmente) João Victor Ribeiro Aldinucci Fl. 1042DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.721150/2014-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2010 a 30/11/2012
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA.
Não se acolhem os embargos declaratórios quando o acórdão recorrido decidiu respeitando os limites das infrações apontadas pelo agente lançador como fundamento para a constituição do crédito tributário.
Numero da decisão: 2401-005.142
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer dos embargos declaratórios, na parte admitida pelo presidente da Turma, e, no mérito, negar-lhes provimento, por inexistência do vício apontado pela Fazenda Nacional.
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Presidente em Exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Virgílio Cansino Gil. Ausente justificadamente a Conselheira Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: CLEBERSON ALEX FRIESS
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CONTRADIÇÃO. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. Não se acolhem os embargos declaratórios quando o acórdão recorrido decidiu respeitando os limites das infrações apontadas pelo agente lançador como fundamento para a constituição do crédito tributário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer dos embargos declaratórios, na parte admitida pelo presidente da Turma, e, no mérito, negarlhes provimento, por inexistência do vício apontado pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Presidente em Exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Virgílio Cansino Gil. Ausente justificadamente a Conselheira Miriam Denise Xavier. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 11 50 /2 01 4- 11 Fl. 1352DF CARF MF Processo nº 16327.721150/201411 Acórdão n.º 2401005.142 S2C4T1 Fl. 1.353 2 Relatório Cuidamse de embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional, às fls. 1.334/1.337, contra o Acórdão nº 2401004.795, de minha relatoria, julgado na sessão do dia 10 de maio de 2017, o qual está juntado às fls. 1.290/1.332. 2. Alega a embargante a existência de contradição e/ou omissão, a seguir resumidas: (i) contradição quanto à exclusão do crédito tributário vinculado à Participação nos Lucros ou Resultados paga no âmbito das Convenções Coletivas de Trabalho celebradas nos anos de 2009 a 2012; (ii) omissão na apreciação das regras claras e objetivas nos instrumentos de negociação coletiva, dada a utilização de critérios subjetivos pelas partes; e (iii) omissão no exame do atendimento pelas Convenções Coletivas de Trabalho à periodicidade legal prevista na Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000. 3. Os autos digitais foram enviados à Procuradoria da Fazenda Nacional em 23/06/2017, que interpôs os embargos de declaração em 21/07/2017 (fls. 1.333 e 1.338). 4. Os aclaratórios foram parcialmente admitidos por meio de despacho da presidente da Turma, Conselheira Miriam Denise Xavier Lazarini, tão somente quanto à contradição, com determinação para inclusão em pauta de julgamento, com vistas à devida apreciação pelo colegiado (fls. 1.341/1.349). É o relatório. Fl. 1353DF CARF MF Processo nº 16327.721150/201411 Acórdão n.º 2401005.142 S2C4T1 Fl. 1.354 3 Voto Conselheiro Cleberson Alex Friess Relator 5. Cingese a análise dos embargos opostos pela Fazenda Nacional à alegação de existência de contradição no julgado, na medida em que os demais vícios apontados no recurso pela embargante foram rejeitados, em caráter definitivo, pela Presidente da Turma (fls. 1.341/1.349). 6. Na parte devolvida a exame do colegiado, uma vez preenchidos os requisitos de admissibilidade dos embargos de declaração, passo à avaliação de mérito (art. 65, § 1º, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015). 1 7. Pois bem. Não há contradição no acórdão recorrido. A exclusão da base de cálculo das contribuições lançadas no tocante aos Pagamentos de Participação nos Lucros ou Resultados efetuados no âmbito das Convenções Coletivas de Trabalho (2009 a 2012) respeitou os limites descritos pelo agente fiscal para a motivação do lançamento de ofício. 8. No Relatório que compõe o Acórdão nº 2401004.795 tomei o cuidado de delimitar as infrações apontadas pelo agente fazendário para justificação do lançamento de ofício em nome do sujeito passivo, a partir do conteúdo do Termo de Verificação Fiscal, acostado às fls. 607/666. 8.1 Segundo consta no documento, a autoridade fiscal identificou problemas específicos e gerais no Programa de Participação nos Lucros ou Resultados implementado pelo Banco Itaucard S/A, os quais resultaram na inobservância da Lei nº 10.101, de 2000 (item 6, às fls. 1.296). 8.2 Em relação às Convenções Coletivas de Trabalho, a acusação fiscal apontou as seguintes infrações: (i) pagamentos realizados com base em mais de um instrumento de negociação; e (ii) falta de proporcionalidade dos pagamentos recebidos pelos segurados empregados. Em nenhum momento, a falta de negociação prévia ficou consignada no Termo de Verificação Fiscal (item 6.2, às fls. 1.296/1.297). 8.3 A acusação fiscal relacionada à assinatura dos instrumentos de negociação coletiva em data posterior ao início do período de aferição restringiuse aos Planos Próprios (item 6.1, às fls. 1.296). 9. Após o exame minucioso das questões controvertidas do recurso voluntário, relativas à Participação nos Lucros ou Resultados dos segurados empregados, elaborei, com o propósito de tornar mais fácil a percepção das conclusões do voto, um quadro sintético (item 95, fls. 1.317). 1 Tempestividade, conforme §§ 3º, 5º e 6º do art. 7º da Portaria MF nº 527, de 9 de novembro de 2010. Fl. 1354DF CARF MF Processo nº 16327.721150/201411 Acórdão n.º 2401005.142 S2C4T1 Fl. 1.355 4 9.1 Nesse quadro, conforme deixei registrado no aludido parágrafo do voto, reproduzi a totalidade das infrações imputadas pela autoridade fiscal em contraste com o meu entendimento a respeito do descumprimento ou não dos requisitos estabelecidos na Lei nº 10.101, de 2000. 9.2 No tocante à falta de negociação prévia nas Convenções Coletivas de Trabalho, o campo de comparação está assinalado com o sinal gráfico "", eis que não foi objeto do Termo de Verificação Fiscal. 9.3 Para melhor entendimento do explicado acima, copio o aludido quadro do Acórdão nº 2401004.795: (...) 95. No quadro abaixo, com a finalidade de proporcionar maior clareza ao resultado final da minha avaliação sobre a Participação nos Lucros ou Resultados, paga aos segurados empregados, reproduzo a totalidade das infrações imputadas pela autoridade lançadora, as quais restaram mantidas pelo acórdão de primeira instância, acompanhado das conclusões deste voto quanto ao descumprimento ou não dos requisitos previstos na Lei nº 10.101, de 2000, para fins de manutenção da exigência fiscal: (GRIFEI) 10. Por todo o exposto, a alegação da Procuradoria da Fazenda Nacional da assinatura em datas próximas ao final exercício a que se referem as Convenções Coletivas de Trabalho dos anos de 2009 a 2012, caracterizando o descumprimento do critério de negociação prévia, não constituiu fundamento para o lançamento fiscal, razão pela qual tampouco foi examinada no julgamento do recurso voluntário. 11. Como cediço, não cabe ao julgador administrativo extrapolar as infrações apontadas pela autoridade lançadora, para manter o auto de infração. Análise do Relator: o requisito foi descumprido? Infração (segundo a acusação fiscal, nos termos da Lei nº 10.101, de 2000) CCT "Planos Próprios" (ACT) Pagamento com base em mais um instrumento de negociação (art. 2º, I e II e art. 3º, § 2º) NÃO NÃO Falta de proporcionalidade dos pagamentos entre os empregados (art. 3º, "caput") NÃO NÃO Revisão dos acordos celebrados (art. 2º, § 1º) NÃO Existência de um valor mínimo a ser pago (art. 1º) NÃO Inexistência de regras claras e objetivas (art. 2º, § 1º) NÃO Falta de negociação prévia (art. 2º, "caput", e § 1º) SIM. ACT 2011 e ACT 2012 Fl. 1355DF CARF MF Processo nº 16327.721150/201411 Acórdão n.º 2401005.142 S2C4T1 Fl. 1.356 5 12. De mais a mais, é inevitável chamar a atenção para que as Convenções Coletivas de Trabalho não correspondem à vigência do ano civil, mas sim produzem efeitos no período compreendido entre setembro do ano da assinatura e o mês de agosto do ano seguinte (fls. 435/470). 13. Tendo em conta o votocondutor do acórdão embargado afastou todas as infrações específicas indicadas pela autoridade fiscal com respeito às Convenções Coletivas de Trabalho, a conclusão inarredável do voto foi a exclusão da respectiva base de cálculo do lançamento tributário. 14. À vista disso, não se verifica contradição no julgado, nem mesmo omissão quanto ao ponto específico questionado pela embargante, levando, portanto, à rejeição dos embargos declaratórios opostos pela Fazenda Nacional. Conclusão Ante o exposto, CONHEÇO parcialmente dos embargos declaratórios, nos limites admitidos pelo despacho da Presidente da Turma, e, no mérito, NEGO PROVIMENTO aos aclaratórios opostos pela Fazenda Nacional, dada a inexistência do vício de contradição no Acórdão nº 2401004.795. É como voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 1356DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 17933.720247/2013-41
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Jan 26 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 1001-000.216
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa- Presidente.
(assinado digitalmente)
José Roberto Adelino da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva
Nome do relator: JOSE ROBERTO ADELINO DA SILVA
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, Lizandro Rodrigues de Sousa e José Roberto Adelino da Silva Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 17 93 3. 72 02 47 /2 01 3- 41 Fl. 44DF CARF MF 2 Tratase Recurso Voluntário contra o acórdão, número 0436.463 da 2ª Turma da DRJ/CGE12, o qual indeferiu a Manifestação de Inconformidade contra Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional, face à existência de débitos inscritos em Dívida Ativa da União, sem exigibilidade suspensa, consoante o artigo 17, inciso V, da Lei Complementar nº 123, de 2006. A ora recorrente apresentou uma impugnação ao referido termo. cuja decisão da DRJ foi contrária à manifestação de inconformidade, a qual reproduzido o voto: Relatório A contribuinte acima qualificada teve o seu pedido de inclusão no Simples Nacional indeferido tendo em vista a existência dos débitos previdenciários relativos às competências 04/2011 a 13/2011 e 01/2012 a 11/2012, cuja exigibilidade não estava suspensa, nos termos da Lei Complementar nº 123, de 14/12/2006, art. 17, V, conforme Termo deIndeferimento da Opção pelo Simples Nacional com data de registro em 25/02/2013 (fls. 0405). Apresentou manifestação de inconformidade em 20/03/2013 (fls. 02), alegando, em síntese, que os débitos junto à Receita Federal constante do relatório de pendências foram todos quitados, conforme a anexa certidão negativa. Por fim, requereu seu enquadramento no Simples Nacional. Juntou cópias de documentos de fls. 03 e seguintes. É o relatório. Voto A manifestação de inconformidade é tempestiva e dela conheço. A interessada argumentou que os débitos que ensejaram o Termo de Indeferimento haviam sido recolhidos, mas não trouxe nenhuma comprovação. A Certidão Conjunta Negativa de débitos relativos a tributos federais e à dívida ativa da União emitida em 14/01/2013 (fls. 07) referese a outros débitos de tributos federais (IRPJ, CSLL, etc.) e não a débitos previdenciários, cuja certidão específica é a Certidão Negativa ou Certidão Positiva com Efeitos de Negativa de débitos relativos às contribuições previdenciárias e às de terceiros. Por sua vez, a autoridade local juntou a CCOR – Consulta ContaCorrente do Estabelecimento de 03/05/2013 (fls. 2328), onde se verifica que os débitos referidos não foram recolhidos. Nesse sentido, expediu o despacho de encaminhamento (fls. 29) informando a inexistência de recolhimentos e de parcelamento dos débitos motivadores doTermo de Indeferimento. Conclusão. Em face do exposto e considerando tudo mais que dos autos consta, julgo improcedente a manifestação de inconformidade e mantenho o Termo de Indeferimento de Opção ao Simples Nacional por seus próprios fundamentos. Fl. 45DF CARF MF Processo nº 17933.720247/201341 Acórdão n.º 1001000.216 S1C0T1 Fl. 3 3 Voto Conselheiro José Roberto Adelino da Silva Relator Inconformada, a recorrente apresentou o Recurso Voluntário, tempestivo, que apresenta os pressupostos de admissibilidade e, portanto, dele eu conheço. A recorrente não trouxe nenhum fato novo que pudesse modificar a decisão de primeira instância. Portanto, entendo não assistir razão a recorrente e, consequentemente, acompanho a DRJ em sua irretocável decisão e nego provimento ao recurso voluntário, sem crédito tributário em litígio. É como voto. (assinado digitalmente) José Roberto Adelino da Silva Fl. 46DF CARF MF
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