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Numero do processo: 10680.720570/2007-46
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2017
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL - ITR
Exercício: 2005
OMISSÃO. NULIDADE
Constatada que a omissão apontada em sede de embargos macula
integralmente a validade do ato, ´deve-se reconhecer sua nulidade para que outro seja emitido na boa e devida forma.
Numero da decisão: 2201-003.379
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os embargos propostos pelo Procuradoria da Fazenda Nacional para, sanando a omissão apontada, declarar a nulidade do Acórdão nº 2101-000.694, nos termos ao art. 61 do Decreto 70.235/72, para que outra decisão seja emitida por este Colegiado, na boa e devida forma. Vencidos os Conselheiros Dione Jesabel Wasilewski e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim e Daniel Melo Mendes Bezerra que votaram contra a realização de novo julgamento.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO
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NULIDADE Constatada que a omissão apontada em sede de embargos macula integralmente a validade do ato, ´deve-se reconhecer sua nulidade para que outro seja emitido na boa e devida forma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer e acolher os embargos propostos pelo Procuradoria da Fazenda Nacional para, sanando a omissão apontada, declarar a nulidade do Acórdão nº 2101-000.694, nos termos ao art. 61 do Decreto 70.235/72, para que outra decisão seja emitida por este Colegiado, na boa e devida forma. Vencidos os Conselheiros Dione Jesabel Wasilewski e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim e Daniel Melo Mendes Bezerra que votaram contra a realização de novo julgamento. Realizou sustentação oral pelo Contribuinte a Drª. Isabela Rodrigues Teixeira Alves Klein, OAB/RJ nº 189.038. Carlos Henrique de Oliveira - Presidente. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator. EDITADO EM: 03/02/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira (Presidente), Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra, Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária janeiro de 2017 janeiro de 2017 IMPOSTO TERRITORIAL RURAL IMPOSTO TERRITORIAL RURAL FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL MINERAÇÕES BRASILEIRAS REUNIDAS SA MBR MINERAÇÕES BRASILEIRAS REUNIDAS SA MBR AA Fl. 414DF CARF MF 2 Relatório Tratam-se de embargos de declaração propostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2101-000.694, fl. 361/366, exarado pela 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que restou assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2005 ÁREA DE RESERVA LEGAL. AVERBAÇÃO NO REGISTRO DE IMÓVEIS ANTES DA OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. NECESSIDADE. Para ser possível a dedução da área de Reserva Legal da base de cálculo do ITR, basta sua averbação à margem da inscrição de matrícula do imóvel, no registro de imóveis competente, antes da ocorrência do fato gerador do tributo. Hipótese em que a averbação ocorreu antes da ocorrência do fato gerador Cientificada do Acórdão, a Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou embargos de declaração formalizado pela petição de fl. 368. Aduz a representação da Fazenda: No entender da União (Fazenda Nacional) há grave violação aos direitos das partes objeto do presente processo administrativo fiscal. Explique-se. Ocorre que o acórdão embargado foi omisso sobre os fundamentos que ensejaram o provimento parcial do Recurso Voluntário, conforme transcrição integral do voto condutor, nestes termos: “Faço notar que: a) o presente Redator não participava deste Colegiado à época do julgamento do Recurso e da conseqüente prolação do Acórdão aqui formalizado; b) Não se obteve sucesso na tentativa de obtenção das razões de decidir adotadas, seja pelo Conselheiro Relator em seu voto vencido, seja pela Conselheira designada para fins de redação do voto vencedor, ambos os quais não mais compõem o presente Colegiado. Destarte, me limito, na presente formalização, a reproduzir o decisum constante em ata. Assim, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso para excluir da base de cálculo do ITR a área de Reserva Legal de 239,4 hectares, averbada à efl. 161. É como voto.” Fl. 415DF CARF MF Processo nº 10680.720570/2007-46 Acórdão n.º 2201-003.379 S2-C2T1 Fl. 414 3 Como visto, o ilustre Relator Ad-Hoc designado não apontou fundamento algum que respalde a conclusão do julgado.... Após apresentar as considerações e fundamentos legais que julgou pertinentes, requereu a retificação do Acórdão embargado para nele fazer constar as razões de convencimento da Turma Julgadora. Em 14 de setembro de 2015, a Sra. Presidente da 2ª Câmara da 2ª Seção do CARF, concordando com os termos do despacho de admissibilidade acostado às folhas 375/376, admite os embargos. E o relatório necessário Voto Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Inicialmente, expresso minha concordância com os pressupostos de admissibilidade contidos no despacho de fls. 375/376. A análise perfunctória do Acórdão embargado, em particular do teor do seu voto, restrito a apenas um parágrafo, fl. 366, evidencia sem qualquer dúvida que a decisão em questão não enumerou as conclusões e fundamentos legais que ampararam o decidido. É fato que foi apontada a causa para tal, que seria a designação de Redator que não participava do Colegiado na época da decisão, contudo, a circunstância não supre o conteúdo mínimo necessário para que a decisão pudesse ser compreendida por todos os interessados. Por serem indispensáveis, entendo oportuno destacar alguns preceitos que tratam do tema: Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. Art. 31. A decisão conterá relatório resumido do processo, fundamentos legais, conclusão e ordem de intimação, devendo referir-se, expressamente, a todos os autos de infração e notificações de lançamento objeto do processo, bem como às razões de defesa suscitadas pelo impugnante contra todas as exigências. (...) Art. 59. São nulos: I - os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II - os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. Fl. 416DF CARF MF 4 § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. (Incluído pela Lei nº 8.748, de 1993) Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Art. 61. A nulidade será declarada pela autoridade competente para praticar o ato ou julgar a sua legitimidade. A Lei nº 9.784/99 estabelece em seu artigo 2º que a Administração Pública obedecerá, dentre outros, o princípio da motivação e, em seu art. 38, prevê que os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e da decisão. A questão da motivação toma caráter de tamanha importância que a lei citada no parágrafo precedente dedica ao tema um capítulo exclusivo (XII), determinando, em seu art. 50, inciso V, que os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos quando decidam recursos administrativos. Por sua vez, a Lei nº 4.717/1965 (Lei da Ação Popular), ao tratar da anulação de atos lesivos ao patrimônio público, permite, em seu art. 2º, uma análise comparativa entre os diferentes elementos que compõe o ato administrativo (competência, forma, objeto, motivo e finalidade): “Art. 2º São nulos os atos lesivos ao patrimônio das entidades mencionadas no artigo anterior, nos casos de: a) incompetência; b) vício de forma; c) ilegalidade do objeto; d) inexistência dos motivos; e) desvio de finalidade. Parágrafo único. Para a conceituação dos casos de nulidade observar-se-ão as seguintes normas: a) a incompetência fica caracterizada quando o ato não se incluir nas atribuições legais do agente que o praticou; b) o vício de forma consiste na omissão ou na observância incompleta ou irregular de formalidades indispensáveis à existência ou seriedade do ato; c) a ilegalidade do objeto ocorre quando o resultado do ato importa em violação de lei, regulamento ou outro ato normativo; Fl. 417DF CARF MF Processo nº 10680.720570/2007-46 Acórdão n.º 2201-003.379 S2-C2T1 Fl. 415 5 d) a inexistência dos motivos se verifica quando a matéria de fato ou de direito, em que se fundamenta o ato, é materialmente inexistente ou juridicamente inadequada ao resultado obtido; e) o desvio de finalidade se verifica quando o agente pratica o ato visando a fim diverso daquele previsto, explícita ou implicitamente, na regra de competência.” (grifos acrescidos) No caso em comento, não vislumbro uma simples omissão passível de saneamento mediante embargos de declaração. O que identifico é uma indiscutível ausência de motivação do Acórdão, que resulta em claro cerceamento do direito de defesa das partes envolvidas, que sem saber o que levou à decisão, não terão como produzir provas que pudessem lastrear seus supostos direitos, o que configura afronta ao direito ao contraditório e à ampla defesa, expressamente elencados na Constituição Federal (art. 5º, inciso LV). Conclusão: Desta forma, considerando as razões e fundamentos legais acima expostos, voto por conhecer e acolher os embargos propostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional para, sanando a omissão apontada, declarar, de ofício, a nulidade do Acórdão nº 2101-000.694, nos termos ao art. 61 do Decreto 70.235/72, para que outra decisão seja emitida por este Colegiado, na boa e devida forma. Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator Fl. 418DF CARF MF
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Numero do processo: 10935.005578/2010-45
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2007, 2008
NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA.
Comprovada a regularidade do procedimento fiscal, porque atendeu aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, bem como os requisitos do art. 10 do Decreto n° 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade do lançamento.
AUTORIDADE FISCAL DE JURISDIÇÃO DIVERSA DO DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO DO CONTRIBUINTE. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 27.
"É valido o lançamento formalizado por Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo" (Súmula CARF nº 27).
CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Se o autuado revela conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, rebatendo-as, uma a uma, de forma meticulosa, mediante extensa e substanciosa impugnação, abrangendo não só questão preliminar como também razões de mérito, descabe a proposição de cerceamento do direito de defesa.
ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA SALARIAL.
Os valores fixos e mensais pagos pelo clube ao contribuinte, jogador de futebol, através de empresa constituída para esse fim, não pode ser considerado como retribuição pelo direito de uso de imagem de forma a não integrar os rendimentos tributáveis do contribuinte, se constatado que a remuneração paga pela licença seja mera contrapartida do trabalho do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda na pessoa física sobre tais rendimentos.
ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO AUTÔNOMO E INDEPENDENTE DO CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA CIVIL. APLICAÇÃO DO ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005.
Quando demonstrado que se trata de um contrato eminentemente civil, por ser autônomo e independente do contrato desportivo firmado entre o atleta e o clube que detêm seus direitos federativos, é possível a tributação dos rendimentos na pessoa jurídica detentora dos direitos de uso da imagem do atleta, com base no art. 129 da Lei nº 11.196/2005.
GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE DIREITOS ECONÔMICOS DE ATLETA.
Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins.
RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA.
Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio.
Numero da decisão: 2202-003.682
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Quanto ao mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para: a) excluir da base de cálculo do ano-calendário 2007 o valor de R$65.692,00, relativo à infração de omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas jurídicas; e b) compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ALGE, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto e Junia Roberta Gouveia Sampaio, que deram provimento integral ao recurso; e Dilson Jatahy Fonseca Neto, que deu provimento parcial em maior extensão para manter a tributação apenas sobre a omissão de rendimentos decorrente do ganho de capital. Os Conselheiros Dilson Jatahy Fonseca Neto e Martin da Silva Gesto informaram que irão apresentar declaração de voto.
Assinado digitalmente
MARCO AURÉLIO DE OLIVEIRA BARBOSA - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada, Rosemary Figueiroa Augusto, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2007, 2008 NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. Comprovada a regularidade do procedimento fiscal, porque atendeu aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, bem como os requisitos do art. 10 do Decreto n° 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade do lançamento. AUTORIDADE FISCAL DE JURISDIÇÃO DIVERSA DO DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO DO CONTRIBUINTE. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 27. "É valido o lançamento formalizado por Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo" (Súmula CARF nº 27). CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Se o autuado revela conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, rebatendo-as, uma a uma, de forma meticulosa, mediante extensa e substanciosa impugnação, abrangendo não só questão preliminar como também razões de mérito, descabe a proposição de cerceamento do direito de defesa. ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA SALARIAL. Os valores fixos e mensais pagos pelo clube ao contribuinte, jogador de futebol, através de empresa constituída para esse fim, não pode ser considerado como retribuição pelo direito de uso de imagem de forma a não integrar os rendimentos tributáveis do contribuinte, se constatado que a remuneração paga pela licença seja mera contrapartida do trabalho do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda na pessoa física sobre tais rendimentos. ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO AUTÔNOMO E INDEPENDENTE DO CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA CIVIL. APLICAÇÃO DO ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. Quando demonstrado que se trata de um contrato eminentemente civil, por ser autônomo e independente do contrato desportivo firmado entre o atleta e o clube que detêm seus direitos federativos, é possível a tributação dos rendimentos na pessoa jurídica detentora dos direitos de uso da imagem do atleta, com base no art. 129 da Lei nº 11.196/2005. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE DIREITOS ECONÔMICOS DE ATLETA. Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Quanto ao mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para: a) excluir da base de cálculo do ano-calendário 2007 o valor de R$65.692,00, relativo à infração de omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas jurídicas; e b) compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ALGE, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto e Junia Roberta Gouveia Sampaio, que deram provimento integral ao recurso; e Dilson Jatahy Fonseca Neto, que deu provimento parcial em maior extensão para manter a tributação apenas sobre a omissão de rendimentos decorrente do ganho de capital. Os Conselheiros Dilson Jatahy Fonseca Neto e Martin da Silva Gesto informaram que irão apresentar declaração de voto. Assinado digitalmente MARCO AURÉLIO DE OLIVEIRA BARBOSA - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada, Rosemary Figueiroa Augusto, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto.
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INOCORRÊNCIA. Comprovada a regularidade do procedimento fiscal, porque atendeu aos preceitos estabelecidos no art. 142 do CTN, bem como os requisitos do art. 10 do Decreto n° 70.235/1972, não há que se cogitar em nulidade do lançamento. AUTORIDADE FISCAL DE JURISDIÇÃO DIVERSA DO DOMICÍLIO TRIBUTÁRIO DO CONTRIBUINTE. NULIDADE DO LANÇAMENTO. INOCORRÊNCIA. SÚMULA CARF Nº 27. "É valido o lançamento formalizado por AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo" (Súmula CARF nº 27). CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Se o autuado revela conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, rebatendoas, uma a uma, de forma meticulosa, mediante extensa e substanciosa impugnação, abrangendo não só questão preliminar como também razões de mérito, descabe a proposição de cerceamento do direito de defesa. ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA SALARIAL. Os valores fixos e mensais pagos pelo clube ao contribuinte, jogador de futebol, através de empresa constituída para esse fim, não pode ser considerado como retribuição pelo direito de uso de imagem de forma a não integrar os rendimentos tributáveis do contribuinte, se constatado que a remuneração paga pela licença seja mera contrapartida do trabalho do atleta, incidindo, no caso, o imposto de renda na pessoa física sobre tais rendimentos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 93 5. 00 55 78 /2 01 0- 45 Fl. 464DF CARF MF 2 ATLETA PROFISSIONAL DE FUTEBOL. DIREITO DE USO DE IMAGEM. CONTRATO AUTÔNOMO E INDEPENDENTE DO CONTRATO DESPORTIVO. NATUREZA CIVIL. APLICAÇÃO DO ART. 129 DA LEI Nº 11.196/2005. Quando demonstrado que se trata de um contrato eminentemente civil, por ser autônomo e independente do contrato desportivo firmado entre o atleta e o clube que detêm seus direitos federativos, é possível a tributação dos rendimentos na pessoa jurídica detentora dos direitos de uso da imagem do atleta, com base no art. 129 da Lei nº 11.196/2005. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE DIREITOS ECONÔMICOS DE ATLETA. Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar as preliminares. Quanto ao mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para: a) excluir da base de cálculo do anocalendário 2007 o valor de R$65.692,00, relativo à infração de omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas jurídicas; e b) compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ALGE, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto e Junia Roberta Gouveia Sampaio, que deram provimento integral ao recurso; e Dilson Jatahy Fonseca Neto, que deu provimento parcial em maior extensão para manter a tributação apenas sobre a omissão de rendimentos decorrente do ganho de capital. Os Conselheiros Dilson Jatahy Fonseca Neto e Martin da Silva Gesto informaram que irão apresentar declaração de voto. Assinado digitalmente MARCO AURÉLIO DE OLIVEIRA BARBOSA Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Cecília Dutra Pillar, Márcio Henrique Sales Parada, Rosemary Fl. 465DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 465 3 Figueiroa Augusto, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio e Martin da Silva Gesto. Relatório Reproduzo o relatório do acórdão da Sétima Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba (PR) DRJ/CTA , que bem sintetiza os fatos ocorridos até a decisão de primeira instância. Tratase de auto de infração lavrado em virtude de o contribuinte acima identificado ter incorrido nas seguintes infrações tributárias: I Omissão de rendimentos recebidos das pessoas jurídicas Sport Club Internacional e Nike do Brasil, decorrente de cessão de direitos de imagem ocorridas nos anoscalendário 2006 e 2007 nas importâncias respectivas de R$258.013,31 e de R$85.668,71. Consta do “Termo de constatação fiscal” que a ação fiscal foi iniciada na empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda para verificar a sua regularidade perante fisco. Durante os trabalhos, a autoridade lançadora constatou que a citada empresa registrava com se dela fosse rendimentos recebidos por seu sócio, Alexandre Rodrigues da Silva, atleta profissional, também conhecido como Alexandre Pato. Foram contabilizados pela empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda valores pagos pelas empresas Sport Club Internacional e Nike do Brasil referentes a exploração dos direito de imagem de Alexandre Pato. Segunda a fiscalização, os citados rendimentos não podem ser atribuídos à pessoa jurídica, visto estarem relacionados a compromissos profissionais de natureza personalíssima, exercidos de forma exclusiva pela pessoa de seu sócio, ora contribuinte. II Omissão de rendimentos decorrente do ganho de capital, na importância de R$15.936.000,00, decorrente da cessão de direitos federativos e contratuais relativos ao jogador Alexandre Pato realizada entre o Sport Club Internacional e o A. C. Milan S.P.A em outubro/2007. Segunda a autoridade lançadora, embora o Internacional tenha realizado o depósito na conta corrente da empresa ALGE, a receita pertence a Alexandre Pato, pois foi ele quem firmou, sem qualquer interferência da ALGE, o acordo de parceria econômica com o clube Internacional relativo a transferência definitiva do atleta para o clube Milan. Destaca que o valor Fl. 466DF CARF MF 4 recebido deve ser classificado como ganho de capital por se tratar de cessão de “direitos” e não de prestação de serviços. O crédito tributário perfaz o montante de R$5.116.828,46, assim considerado o valor do imposto suplementar (R$2.496.858,73), multa de ofício (R$1.872.644,79) e juros de mora (R$747.323,94). Intimado, o contribuinte apresentou defesa tempestiva, alegando, preliminarmente, que é nula a autuação e a consequente reclassificação dos rendimentos, em virtude de o Fisco ter desconsiderado a personalidade jurídica da empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda sem autorização judicial, conforme exigido pelo art.50 do Código Civil. Acrescenta que é inaplicável o art.116 do CTN, visto que a sua regulamentação depende de lei. Para reforçar seu entendimento, transcreve doutrina de Alexandre de Moraes que apregoa que somente o Poder Judiciário pode dissolver uma associação quando a finalidade buscada por esta for ilícita. Em sede ainda de preliminar, requereu a nulidade do lançamento, tendo em vista que o procedimento fiscal se desenvolveu sem a intimação de seu procurador indicado em sua declaração de saída definitiva do país. Aduz que por se encontrar na condição de nãoresidente, o preparo deveria ter sido realizado pela DRF de Brasília, nos termos da Portaria MF nº125/2009 c/c art.24 do Decreto 70.235/72, motivo pela qual o lançamento encontrase neste ponto igualmente viciado. No mérito, alega que a empresa ALGE desde sua constituição, ocorrida em 10/03/2006, é detentora dos direito de imagem e de representação do jogador Alexandre Pato, razão pela qual nos anos de 2006 licenciou ao clube Internacional e a Nike European Operations Netherlandes B.V. tais direitos. Afirma que nada impede que o próprio atleta ou a pessoa jurídica por ele constituída possa licenciar a cessão de sua imagem, voz, nome ou apelido a terceiros. Destaca que a empresa ALGE é quem cuida de todos os interesses profissionais do atleta, como firmar contratos, organizar a agenda profissional do atleta, estudar as proposta contratuais e explorar economicamente a imagem do jogador em proveito da empresa de que participa. Aduz que outras atividades como a de cirurgião plástico e advogado palestrante, por exemplo, só podem ser realizadas pelo próprio profissional escolhido, contudo as receitas obtidas são das pessoas jurídicas que participam como sócios. Conclui, desse modo, que a situação dos autos é exatamente idêntica, razão pela qual não deve prosperar o lançamento. Segue defendendo que as sociedades são garantidas pela Constituição Federal, em seu art.5º, inciso XVII, ao assegurar a todos a plena liberdade de associação para fins lícitos. Conclui que inexiste qualquer impedimento de que os rendimentos Fl. 467DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 466 5 decorrentes da exploração de imagem de um dos sócios seja tributado na pessoa jurídica de que participa. Aponta que os rendimentos tributados como ganho de capital deveriam ter sido tratados como rendimentos isentos (art. 43, I e II, do CTN), por corresponderem a indenização motivada por rescisão do contrato de trabalho conforme firmado no item I, Parágrafo único do Termo de Compromisso 165/FUT/2006 (fls.173174) e não como ganho de capital. Desse modo, mostra se equivocado a classificação feita pelo auditor fiscal como se ganho de capital fosse. Segue afirmando que a receita decorrente de pagamento da cláusula penal por rescisão de contrato, decorrente da transferência do jogador para o clube estrangeiro, foi corretamente contabilizada pela pessoa jurídica, pois esta era detentora, com exclusividade, dos direito negociais do contrato de Alexandre Pato (fls.175). Afirma que não existe embasamento legal para reclassificar os rendimentos como sendo obtidos pela pessoa física. É certo, segunda a defesa, que os enquadramentos legais mencionados na autuação possibilitam a tributação dos rendimentos na pessoa física, mas, obviamente, quando o beneficiário não exerça a opção de constituir sociedade. No caso, o contribuinte constituiu empresa, portanto, nesta deve ser tributada os rendimentos obtidos. Argumenta que quem decide se os serviços serão prestados pela própria pessoa física ou em nome de sociedade civil são os contratantes e contratados e não o Fisco. Ressalta que o valor pago a título de lucro pela ALGE Promoções e Eventos Ltda., ao sócio Geraldo Rodrigues da Silva, de R$ 3.737.393,46 (fl. 240) referente a negociação do jogador para o exterior, deveria ter sido deduzida dos rendimentos ditos omitidos, tributados na pessoa física de Alexandre Rodrigues da Silva; Prossegue considerando que a escrituração da empresa da ALGE Promoções e Eventos Ltda. deveria ser considerada "Livro Caixa" e utilizada nos termos determinado pelo art. 75 do RIR/99, pois todos os gastos efetuados são estritamente relacionados aos rendimentos reclassificados. Aponta que o mesmo o fundamento adotado pela fiscalização para compensar o IRRF dos rendimentos considerados omitidos deve ser adotado para determinar a compensação dos demais tributos recolhidos pela ALGE com o imposto lançado no Auto de Infração. Ao final, como base nas razões expostas, pediu a improcedência ou a revisão do lançamento. É o relatório. Fl. 468DF CARF MF 6 A DRJ/CTA, por unanimidade de votos, julgou improcedente a impugnação, cuja decisão foi consubstanciada no Acórdão nº 0635.807, assim ementado. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006, 2007 DIREITO CONSTITUCIONAL À AMPLA DEFESA. PROCESSO ADMINISTRATIVO. IMPUGNAÇÃO. O direito constitucional propriamente dito à ampla defesa somente é oportunizado após a formalização do lançamento tributário, com a aberturada do processo administrativo, por meio da impugnação do contribuinte. AUTO DE INFRAÇÃO. LAVRATURA. SERVIDOR DE JURISDIÇÃO DIVERSA. VALIDADE. A lavratura do auto de infração é válida mesmo que formalizados por servidor competente de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo. FORMALIDADES DO LANÇAMENTO. CERCEAMENTO DE DEFESA. Inexiste cerceamento de defesa, quando presentes no lançamento todas as informações que possibilitem ao sujeito passivo compreender a sua exata extensão. IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. COMPETÊNCIA. AUTORIDADE LANÇADORA. Compete à autoridade administrativa identificar o sujeito passivo da obrigação tributária. CONTRIBUINTES DISTINTOS. COMPENSAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. É vedado a compensação de impostos recolhidos por um contribuinte em favor de outro. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado da decisão em 19/03/2012, por via postal, (A.R. à fl. 362), o contribuinte, por meio de procurador legalmente habilitado, interpôs recurso voluntário em 16/04/2012 (fls. 366 a 411), no qual defende os seguintes argumentos, em resumo: Preliminares Em que pese a tentativa dos julgadores de primeira instância de mascarar a ilegalidade cometida na formalização do Auto de Infração, o procedimento fiscal é nulo, pois o lançamento decorreu da desconsideração, não confessada pelo Fisco, da personalidade jurídica da empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda., CNPJ 07.956.891/000101, legalmente constituída e em regular operação; considerandose o efeito jurídico conhecido como "frutos da árvore envenenada", ficam contaminados todos os efeitos decorrentes, especialmente a pretendida Fl. 469DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 467 7 tributação, na pessoa física de um dos sócios, dos rendimentos auferidos, recebidos, contabilizados e tributados na ALGE; a ilegal desconsideração ofendeu frontalmente o disposto no art. 50 do Código Civil, que prescreve, de forma clara e contundente, os procedimentos para a desconsideração da pessoa jurídica, destacandose a autorização judicial para tanto; a decisão recorrida, para suprir a reclamada ausência de amparo legal para o procedimento, abonou o lançamento, apontando como base legal o art. 142 do CTN, mesmo que este sequer estivesse relacionado no Auto de Infração como "enquadramento legal do lançamento"; tal decisão no mínimo caracteriza uma tentativa de aperfeiçoamento do lançamento pelo julgador de primeiro grau, o que também é vedado pelas normas que regulam a matéria; caso os nobres Conselheiros apóiem o entendimento do Acórdão recorrido, de que o procedimento fiscal não pode ser caracterizado como uma "desconsideração da personalidade jurídica", mas representa uma mera reclassificação de rendimentos, ainda assim o lançamento é nulo, pois tal expediente não possui embasamento legal, uma vez que a empresa ALGE foi legalmente constituída para exercer as atividades que desenvolve, auferindo, portanto, também legalmente, as receitas que contabilizou e tributou; o art. 129 da Lei n° 11.196/2005 pôs termo a uma antiga discussão, no caso, favoravelmente ao Recorrente, pois define a liberdade de constituir sociedades mesmo no caso de determinadas prestações de serviços geralmente tidas como "de natureza personalíssima"; segundo a "justificação" de encaminhamento à mesa do Senado da emenda à MP n° 252/05 PLV 23/05, subscrita por dezenas de Senadores, a qual se converteu no art. 129 da Lei n° 11.196/2005, tratase de norma interpretativa, específica para nortear o Fisco; quanto aos enquadramentos mencionados no auto de infração, é certo que possibilitam a tributação dos rendimentos na pessoa física, mas, obviamente, quando o beneficiário não exerce a opção de constituir sociedade; mesmo que os serviços ora em controvérsia tivessem sido prestados através de firma individual, ainda assim não seria aceitável a pretensão fiscal de não admitir sua tributação nas pessoas jurídicas, tendo em vista a revogação do art. 150, § 2º, II, do CTN, pelo art. 1º da Lei n° 154/1.947; se o serviço pode ser legalmente prestado por firma individual (tributada como pessoa jurídica), muito mais irrepreensível é a prestação sob o manto de sociedade limitada, condição que jamais mereceu qualquer restrição legal quanto à tributação como pessoa jurídica; quem define se os serviços serão prestados em nome individual ou em nome de uma sociedade civil, ou mesmo explorados empresarialmente por intermédio de sociedades mercantis, são o contratante e o contratado, e não o Fisco; Fl. 470DF CARF MF 8 segundo o disposto no art. 142 do CTN, a constituição do crédito tributário, dentre outros requisitos exigidos, deve informar, precisamente, os fatos autuados, bem como essas são as determinações do art. 10 do Decreto n° 70.235/72; considerando que o procedimento fiscal, com amparo do Acórdão recorrido, confunde e obstaculiza a defesa do Recorrente, ofendendo o princípio do devido processo legal, o lançamento deve ser considerado nulo, nos termos do disposto no art. 59, inciso II, do Decreto n° 70.235/72; o procedimento fiscal se desenvolveu sem a intimação de seu procurador indicado em sua declaração de saída definitiva do país; por se encontrar na condição de nãoresidente, o preparo deveria ter sido realizado pela DRF de Brasília, nos termos da Portaria MF nº 125/2009 c/c art. 24 do Decreto 70.235/72, motivo pela qual o lançamento encontrase neste ponto igualmente viciado; as intimações e as notificações, por remetidas a endereço que não é o do domicílio, não podem ser consideradas como efetivadas. Mérito Ilegalidade da reclassificação para a pessoa física do sócio a controvérsia cingese a rendimentos auferidos, recebidos e originariamente tributados pela ALGE Promoções e Eventos Ltda., mas imputados pelo Fisco à pessoa física de sócio da citada empresa, o ora recorrente; os mencionados rendimentos têm as seguintes origens: um primeiro grupo de rendimentos reclassificados corresponde a rendimentos obtidos pela ALGE, pagos pelo Sport Club Internacional e pela Nike do Brasil Comércio e Participações Ltda., pela exploração do uso da imagem, nome e apelido de Alexandre Pato, cujos direitos foram por este licenciados à ALGE; um segundo rendimento auferido pela ALGE, equivocadamente reclassificado pelo Fisco para a pessoa física como ganho de capital, decorre de rendimento derivado da cláusula penal por rompimento de contrato de trabalho, cujos direitos foram cedidos por Alexandre Ro drigues da Silva à ALGE, que administra a carreira do atleta. Dos Rendimentos Legalmente Tributados na ALGE Exploração do Direito de Uso de Imagem É público e notório que o atleta profissional de futebol Alexandre Rodrigues da Silva, ao menos até meados de 2007, prestava serviços de jogador de futebol ao SPORT CLUB INTERNACIONAL; lá percebia um salário mensal de R$ 15.000,00, conforme contrato firmado em 30 de outubro de 2006, cujos rendimentos não são objeto desta controvérsia fiscal, pois foram devidamente e tempestivamente tributados em suas Declarações de Ajuste Anual; além do salário, por sua cláusula 4a, o INTERNACIONAL ainda comprometeuse a adquirir, com exclusividade, da ALGE, detentora do direito de exploração dos direitos negociais e de representação, a licença de uso da imagem, voz, nome profissional e/ou apelido esportivo de Alexandre Pato, e, simultaneamente, a ALGE comprometeuse a licenciar ao Internacional tais direitos; Fl. 471DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 468 9 o pacto inicial de licenciamento do direito de exploração do uso de imagem foi formalizado e detalhado por outro contrato, firmado em 01 de janeiro de 2007, específico, no qual o Internacional obrigouse a pagar à ALGE, pela licença de exploração do uso de imagem, o valor total de R$ 18.000,00, dividido em 36 parcelas mensais de R$ 500,00; posteriormente, em 1º de maio de 2007, o valor global foi reajustado para R$ 336.000,00, pagáveis em 32 prestações mensais, de R$ 10.500,00 cada uma; um contrato similar foi pactuado entre a ALGE e a NIKE European Operations Netherlands B.V., o que rendeu à primeira, em 2007, o valor de R$ 65.692,00; esses rendimentos foram recebidos pela ALGE mediante a regular emissão de Nota Fiscal de Prestação de Serviços, e foram por ela contabilizados e tributados; o Acórdão recorrido não se debruçou sobre a questão arguída na Impugnação, de que não foi o "direito personalíssimo" que foi transmitido, mas sim o direito de exploração deste "direito personalíssimo", pois o recorrente não está cedendo à empresa ALGE a própria imagem (bem inalienável), mas o exercício da exploração dos direitos que lhe são conexos, o que é perfeitamente possível nos termos do art. 129 da Lei n° 11.196/2005, o qual admite a tributação dos rendimentos, por pessoa jurídica, mesmo que derivem da exploração de direitos de caráter personalíssimo; é possível imaginar que o Sr. Geraldo Rodrigues da Silva, pai de Alexandre Pato e sócio da ALGE, ou qualquer outro funcionário designado pela ALGE, planejem a carreira do sócio atleta, garimpem contratos para explorar economicamente a "imagem" do sócio famoso, organizem sua agenda, façam suas reservas de hotel, adquiram suas passagens aéreas, contratem os seguranças para acompanhálo, elaborem os contratos de comparecimento a eventos, procurem exibilo cada vez mais na mídia, respondam milhares de correspondências que recebe, estudem as centenas de propostas que recebe para participação em eventos de merchandising, enfim, cuidem de todo o necessário para que o recorrente aproveite ao máximo as oportunidades para a exploração econômica de sua imagem, em proveito da empresa de que participa; os rendimentos derivados da exploração da imagem de um dos sócios da sociedade licenciada para tais fins, de fato pertencem à pessoa jurídica, o que é perfeitamente legal, uma vez que inexiste fundamentação, na legislação tributária, a determinar que os rendimentos em foco sejam tributados, exclusivamente, na pessoa física de um dos sócios. Dos Rendimentos Tributados na ALGE Cláusula Penal por Rompi mento de Contrato O segundo rendimento contabilizado e tributado na ALGE Promoções e Eventos Ltda., questionado pelo Fisco, decorre de cláusula penal ou cláusula compensatória desportiva, que tem sua fundamentação legal no art. 28 da Lei n° 9.615, de 24 de março de 1998 (Lei Pelé); foi recebido por ocasião da rescisão do contrato de trabalho entre Alexandre Pato e o Sport Club Internacional, no valor R$ 15.936.000,00, ocasião em que foi canalizado à pessoa jurídica da ALGE por ser ela quem administra a carreira do atleta, cuidando, especial mente, de todos os detalhes que envolvem seus contratos de trabalho e as eventuais rescisões ou resilições; Fl. 472DF CARF MF 10 a cláusula penal foi pactuada no Termo de Compromisso de fl. 173, no item 3, em seu parágrafo único, e foi paga, por devida, conforme registrado no Termo de Quitação e Resilição de Termo de Compromisso n° 265/FUT/06 e Outras Avenças, item "1"; o valor dessa remuneração, depois de deduzida a parcela repassada à empresa "World of Football", foi devidamente contabilizado no livro Diário da ALGE, em 23/08/2007, segundo confirma o próprio autuante. Tal valor também foi submetido à tributação do IRPJ e da CSLL, pela ALGE, na sistemática do Lucro Presumido, mediante a aplicação do percentual de presunção de 32%; é improcedente o lançamento no tocante ao valor de R$ 15.936.000,00, por ser ilegal a reclassificação dos rendimentos da pessoa jurídica para a pessoa física; caso a reclassificação prospere, não pode persistir a tributação na pessoa física, como ganho de capital, pois o rendimento não provém da venda de bem ou direito; apenas a título de argumentação, se o rendimento de R$ 15.936.000,00 de fato pertence à pessoa física e nela deva ser tributado, o IRPF precisa ser apurado pela tabela progressiva na declaração de aiuste anual e não de forma definitiva pela alíquota fixa de 15%, destinada à tributação de ganhos de capital na venda de bens ou direitos; é possível conjecturar que a tributação, como ganho de capital, tenha sido extraída pelo autuante de alguma jurisprudência relacionada à época da vigência de legislação, isto é, a Lei n° 6.354/76, que previa no meio futebolístico profissional um direito negociável pelo detentor, denominado de "passe", a qual foi revogada pela Lei n° 9.615/98, conhecida como Lei Pelé; com a promulgação da Lei Pelé, não mais existe um direito negociável que possa gerar ganho de capital, a exemplo do que ocorria na época da vigência da "Lei do Passe", que permitia a compra e a venda, por seu proprietário, do passe do atleta; a Lei Pelé prevê a pactuação, no contrato de trabalho, de cláusula penal (art. 28), para assegurar que o atleta, ante uma oferta remuneratória mais atraente de outra entidade desportiva, rompa o contrato e passe a prestar serviços nesta outra entidade; essa cláusula também protegia o atleta ante um rompimento unilateral do contrato por iniciativa do clube contratante, pois a jurisprudência reconheceu a dúbia redação do art. 28 como "bilateral"; embora essa fosse a regulamentação da época em que ocorreu a rescisão do contrato de trabalho entre Alexandre Pato e o Internacional, hoje a Lei 9.615/98, com as alterações e inclusões da Lei n° 12.395/2011 (Lei Maguito Vilela), prevê, em substituição à cláusula penal, outras figuras com objetivos similares: (a) a cláusula indenizatória desportiva, devida exclusivamente à entidade desportiva (inc. I do art. 28); (b) a cláusula compensatória desportiva, devida ao atleta (inc. II do art. 28); essa nova previsão legal, na prática, já foi adotada por ocasião da rescisão em comento, pactuada no contrato, que gerou o rendimento de R$ 15.936.000,00 e que foi indevidamente tributado como ganho de capital; conforme se infere do contrato, mesmo porque há tempos a Lei do Passe já havia sido extinta, não poderia o Internacional vender os direitos federativos ao Milan, como equivocadamente entendeu o Autuante; Fl. 473DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 469 11 o que justifica o rendimento em tela, em termos singelos e claros, é a concordância de Alexandre Pato de trocar de emprego, cuja retribuição pecuniária, no jargão popular, é denominada de "luvas" e tem natureza salarial; segundo a legislação que rege a matéria o art. 28 da Lei n° 9.615/98 tratase de cláusula penal, ou mesmo de cláusula compensatória desportiva, conforme a nova redação do art. 28, inc. II, introduzida pela Lei n° 12.395/2011, de natureza trabalhista; ad argumentandum tantum, mesmo que os rendimentos considerados omitidos pela pessoa física do Recorrente fossem também nela tributáveis e mesmo ressalvando a indevida tributação como ganho de capital do valor de R$ 15.936.000,00, ainda assim a exação não poderia prosperar, pois o valor do imposto não está corretamente quantificado, porquanto o valor pago a título de lucro, pela ALGE Promoções e Eventos Ltda. ao sócio Geraldo Rodrigues da Silva, de R$ 3.737.393,46, deveria reduzir os rendimentos ditos omitidos e tributados neste processo na pessoa física. Da Compensação dos Tributos Pagos Admitindo, por hipótese, que venha a ser entendida como correta a tributação na pessoa física, deve ser determinada a dedução dos demais tributos pagos pela ALGE, antes da aplicação da multa de ofício e dos juros de mora, uma vez que a totalidade dos rendimentos tributados no recorrente corresponde aos já tributados na empresa ALGE (IN SRF 900/2008, art. 2o e 6o). Cita julgados do CARF. Ao final, requer: seja dada procedência às razões preliminares: (a) por ilegal a desconsideração da personalidade jurídica; (b) por legal a constituição da ALGE e a tributação dos rendimentos por ela declarados; (c) por caracterizado o cerceamento de defesa. em relação ao mérito, sejam acolhidas as arguições, pois: (a) demonstrase serem passíveis de tributação na pessoa jurídica da ALGE os rendimentos autuados neste processo; (b) evidenciase ser ilegal a tributação na pessoa física do sócio Alexandre, como ganho de capital, dos rendimentos relacionados ao rompimento de contrato; (c) comprovamse erros na quantificação na base de cálculo tributada; (d) sejam deduzidos da autuação, caso persista valor exigível, os tributos pagos pela pessoa jurídica. A Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN) apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário, com os seguintes argumentos (fls. 433 a 462): não se vislumbra o descumprimento de nenhum dos requisitos do art. 59 do Decreto nº 70.235/72, não havendo nenhuma nulidade na autuação nem na decisão de primeiro grau; a partir da leitura das cláusulas contratuais entre o Recorrente e o clube Internacional, concluise que a relação era de natureza empregatícia, cujo objeto principal era o vínculo empregatício entre o jogador de futebol e o clube, o qual iria adquirir o direito de exploração de imagem do jogador junto à empresa detentora de tais direitos, a ALGE Promoções; Fl. 474DF CARF MF 12 Pelas cláusulas do contrato firmado pelo clube Internacional e a empresa ALGE, fica patente a presença de subordinação do atleta ao clube, visto que o jogador deve atender a uma série de exigências e compromissos diretamente relacionados às atividades do Internacional, como a necessidade de utilizar o uniforme oficial do clube ou qualquer outro que seja dos patrocinadores do clube (atribuição típica de um empregado). Também chama a atenção a forma de remuneração, que ocorria de forma sistemática, mensal e com valores fixos, além do prazo de vigência coincidir com a duração do contrato de trabalho e haver previsão de exclusividade de renovação pelo clube; resta evidente a existência de uma relação típica de trabalho, com a presença dos elementos da relação empregatícia: pessoalidade, nãoeventualidade, onerosidade e subordinação; a ALGE promoções emitiu notas fiscais, de forma sistemática, para atestar a prestação de um serviço que sequer constava do seu objeto social, o qual não possuía, durante quase todo o período objeto da fiscalização, a exploração de direito de imagem de atletas; esse contexto deixa claro que os valores contabilizados pela ALGE Promoções pertenciam ao jogador (Recorrente), sendo a empresa uma pessoa jurídica interposta, cujo único propósito era transformar os rendimentos pagos em contrapartida a essa relação empregatícia em receitas de uma pessoa jurídica, com o objetivo de proporcionar um regime tributário mais benéfico ao contribuinte, que deixaria de se submeter à alíquota de até 27,5% do IRPF, para ingressar no vantajoso regime do lucro presumido, no qual tributase apenas 8% da receita auferida a uma alíquota de 32%; a norma prevista no art. 31 da Lei nº 9.615/98 corrobora esse entendimento ao tratar especificamente da definição de salário na prática desportiva, abrangendo as gratificações, os prêmios e demais verbas inclusas no contrato de trabalho; o art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não tem o escopo de autorizar e legalizar toda e qualquer prestação de serviço, permitindo que as empresas utilizem indiscriminadamente essa forma de contratação; a lei veio para confirmar a legalidade da contratação de prestadores de serviço, desde que o trabalho não seja realizado na forma do artigo 3º da CLT, pois uma vez caracterizada uma relação de emprego nada muda; as razões do veto ao parágrafo único do art. 129 demonstram a preocupação em se preservar a competência da Fiscalização para lançar os tributos sempre que verificada a existência de trabalho prestado por contribuinte segurado obrigatório; o veto teve como objetivo resguardar a legislação tributária e previdenciária quando configurado o fato gerador definido em lei e impediu que que a relação de emprego somente fosse reconhecida por meio de sentença judicial trabalhista com trânsito em julgado; A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho corrobora o entendimento de que o artigo 129 da Lei 11.196, de 2005, não teve o condão de legalizar toda e qualquer prestação de serviço por meio de pessoa jurídica, ficando a salvo a relação de emprego; não merece reparos os fundamentos trazidos pela DRJ em relação à transferência do jogador (fiscalizado) ao clube italiano Milan, uma vez que a parcela de 50% sobre os direitos federativos e contratuais pertenciam ao fiscalizado, sendo dele o proveito econômico obtido da transação efetuada; Fl. 475DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 470 13 resta evidente que o fato gerador do ganho de capital, proveniente da transferência do jogador para o Milan, concretizouse no contribuinte fiscalizado, de modo que nenhum ato posterior teria o condão de alterar a relação jurídico tributária estabelecida; o contribuinte tenta desqualificar a tributação imposta pela Fiscalização sob o argumento de que a cláusula penal teria natureza indenizatória, porém, a penalidade é imposta para compensar o prejuízo que uma das partes sofreu com o negócio jurídico, razão pela qual não faz sentido que o valor da cláusula penal ultrapasse o do objeto do contrato; essa característica essencial da cláusula penal não foi reproduzida no art. 28 da Lei nº 9.615, de 1998. Neste dispositivo legal, verificase a possibilidade de o clube de futebol estipular cláusula penal consideravelmente superior ao valor da obrigação principal – que seria o contrato de trabalho firmado com os atletas que atuem pelo clube. Isso implica dizer que a cláusula penal, nessa hipótese, proporcionará ao clube de futebol efetivo ganho patrimonial, e não a recomposição de patrimônio; para que determinado rendimento seja considerado indenizatório, é imprescindível que esteja presente a noção de recomposição de patrimônio; no caso dos autos, a caracterização como verba indenizatória fica ainda mais complicada, quando se considera que o clube conferiu ao próprio jogador uma parcela da “indenização”. Se a cláusula penal serve para indenizar o clube, em caso de ruptura do contrato de trabalho pelo atleta, por qual motivo o clube repassaria ao atleta uma parcela da recomposição do “dano” provocado pelo próprio atleta? os seguintes elementos indicam a legitimidade e legalidade da exigência de IRPF sobre os valores recebidos pelo atleta fiscalizado, em decorrência da sua transferência para o clube estrangeiro Milan: (a) o termo de compromisso firmado com o Internacional atribuiu, ao jogador 50% dos direitos econômicos relacionados aos direitos federativos do atleta; (b) na data da realização do negócio de transferência, o direito aos 50% do proveito econômico da transação pertencia ao referido jogador; (c) a denominada cláusula penal, prevista no art. 28 da Lei nº 9.615, de 1998, foi conferida às entidades de prática desportiva como sucedâneo ao “direito de passe” do atleta; (d) a cláusula penal não ostenta natureza indenizatória, uma vez que não possui a necessária limitação em relação ao valor da obrigação principal. não merece prosperar a pretensão do Contribuinte de abater da exigência os recolhimento de imposto de renda feitos pela empresa ALGE, pois não há previsão legal nesse sentido; é indispensável a apresentação das PER/DCOMPs para ser possível a compensação, cabendo à autoridade administrativa competente homologar a compensação declarada. Ao final, requer a PFN que seja negado provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo Contribuinte. É o relatório. Voto Fl. 476DF CARF MF 14 O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Tratase de lançamento de ofício em face do contribuinte ALEXANDRE RODRIGUES DA SILVA, em virtude das seguintes infrações tributárias: I Omissão de rendimentos recebidos das pessoas jurídicas Sport Club Internacional e Nike do Brasil, decorrente de cessão de direitos de imagem, nos anos calendário 2006 e 2007, nas importâncias respectivas de R$258.013,31 e de R$85.668,71. II Omissão de rendimentos referente ao ganho de capital, na importância de R$15.936.000,00, decorrente da cessão de direitos federativos e contratuais relativos ao contribuinte, realizada entre o Sport Club Internacional e o A. C. Milan S.P.A. em outubro/2007. O crédito tributário lançado é de R$5.116.828,46, sendo R$2.496.858,73 de imposto suplementar, R$1.872.644,79 de multa de ofício e R$747.323,94 de juros de mora calculados até 31/08/2010. PRELIMINARES Embora o Recorrente tenha feito várias alegações como preliminares, várias delas são na realidade matérias que se confundem com o mérito, tais como o questionamento da desconsideração da pessoa jurídica, a aplicação do art. 129 da Lei nº 11.196/2005, a legalidade da prestação do serviço por sociedade civil e sua atividade regular, as quais serão apreciadas oportunamente. Quanto às preliminares em si, o Recorrente aduz que a descrição dos fatos feita pela Fiscalização foi ambígua, com evidente cerceamento de defesa, tendo o acórdão recorrido se esquivado dessas alegações, o que ofende o princípio do devido processo legal, devendo ser considerado nulo o procedimento fiscal. Alega nulidade, uma vez que o procedimento fiscal se desenvolveu sem a intimação de seu procurador indicado em sua declaração de saída definitiva do país e, por se encontrar na condição de nãoresidente, o preparo deveria ter sido realizado pela DRF de Brasília, nos termos da Portaria MF nº 125/2009 c/c art. 24 do Decreto 70.235/72. Argumenta, ainda, que as intimações e as notificações foram remetidas a endereço diverso do seu domicílio, não podendo ser consideradas como efetivadas, tornando nulo o lançamento fiscal. Não lhe assiste razão, porquanto todos os requisitos previstos no art. 10 do Decreto nº 70.235/1972, que regulamenta o Processo Administrativo Fiscal (PAF), foram observados quando da sua lavratura. “Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I – A qualificação do autuado; II – O local, a data e a hora da lavratura; III – A descrição do fato; Fl. 477DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 471 15 IV – A disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V – A determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias.” Também não se identificou violação das disposições contidas no artigo 59 do Decreto nº 70.235/72, com as alterações introduzidas pela Lei nº 8.748, de 09 de dezembro de 1993. Art. 59. São nulos: I – os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II – os despachos e decisões proferidas por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. § 2º Na declaração de nulidade, a autoridade dirá os atos alcançados, e determinará as providências necessárias ao prosseguimento ou solução do processo. § 3º Quando puder decidir do mérito a favor do sujeito passivo a quem aproveitaria a declaração de nulidade, a autoridade julgadora não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (Redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993) O Auto de Infração foi lavrado por servidor competente, o sujeito passivo foi devidamente qualificado, foram mencionados os dispositivos legais infringidos e as penalidades aplicáveis, foram discriminados os valores da exigência fiscal, assim como o conteúdo da autuação está especificado no Termo de Verificação Fiscal. Em resumo, encontramse satisfeitos todos os requisitos legais. Observase que foi concedido ao sujeito passivo o mais amplo direito de defesa. Ele apresentou impugnação ao Auto de Infração, exercendo o seu direito ao contraditório, perfeitamente amparado pelo Decreto n.º 70.235/72 (PAF), tendo revelado conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, as quais rebateu, uma a uma, de forma meticulosa, mediante extensa e substanciosa impugnação, abrangendo não só questões preliminares como também razões de mérito. O acórdão recorrido abordou, de forma clara e exaustiva, todas as argumentações feitas na impugnação, não cabendo razão ao Recorrente quando afirma que a decisão preferiu esquivarse das alegações trazidas na impugnação. Todos os pontos foram devidamente enfrentados pelo voto condutor. O Recorrente pugna, ainda, pela nulidade devido à falta de intimação do seu procurador e pela remessa das intimações e notificações a endereço diverso do seu domicílio. É de se ressaltar que a fase contenciosa do processo administrativo somente é iniciada a partir da impugnação efetuada pelo contribuinte, nos termos do artigo 14 do Decreto n.º 70.235/72 (PAF): "A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento". Fl. 478DF CARF MF 16 No presente caso, as informações foram obtidas, de forma lícita, junto às empresas ALGE e Sport Club Internacional, e o procurador do contribuinte foi devidamente cientificado do Auto de Infração, tendo inclusive impugnado a exigência, de forma pormenorizada, não havendo, portanto, nenhuma nulidade no procedimento fiscal. A alegação do Recorrente de que o procedimento fiscal deveria ter sido realizado pela DRF/Brasília, em razão de sua condição de nãoresidente, também não procede, pois a Lei 10.593/2002, que trata das atribuições do Auditor Fiscal, não impõe qualquer limitação para o exercício fiscalizatório, em termos de jurisdição. Assim disciplina o Decreto n.º 70.235/72 (PAF): Art. 9º A exigência de crédito tributário, a retificação de prejuízo fiscal e a aplicação de penalidade isolada serão formalizadas em autos de infração ou notificação de lançamento, distintos para cada imposto, contribuição ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. [...] § 2º Os procedimentos de que tratam este artigo e o art. 7º, serão válidos, mesmo que formalizados por servidor competente de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo. Nesse sentido a Súmula CARF nº 27: "É valido o lançamento formalizado por AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil de jurisdição diversa da do domicílio tributário do sujeito passivo". Dessa forma, rejeito as preliminares suscitadas. MÉRITO Personalidade jurídica da empresa ALGE Alega o Recorrente que o lançamento é nulo, pois decorreu da desconsideração, não confessada pelo Fisco, da personalidade jurídica da empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda., CNPJ 07.956.891/000101, legalmente constituída e em regular operação. Assim, defende que, considerandose o efeito jurídico conhecido como "frutos da árvore envenenada", ficariam contaminados todos os efeitos decorrentes, especialmente a pretendida tributação na pessoa física de um dos sócios, dos rendimentos auferidos, recebidos, contabilizados e tributados na pessoa jurídica. Argúi que a ilegal desconsideração ofendeu frontalmente o disposto no art. 50 do Código Civil, que prescreve, de forma clara e contundente, os procedimentos para a desconsideração da pessoa jurídica, destacandose a autorização judicial para tanto. No entanto, o Auto de Infração não desconsiderou a personalidade jurídica da empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda. Na realidade, conforme se verifica pelo Termo de Verificação Fiscal, o entendimento da autoridade fiscal foi no sentido de que o produto auferido em razão dos contratos firmados pela pessoa jurídica ALGE e os contratantes eram rendimentos da pessoa física, sócio da empresa e ora Recorrente. Por essa razão, procedeuse à lavratura do competente Auto de Infração, imputando ao contribuinte fiscalizado a infração de Fl. 479DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 472 17 omissão de rendimentos, de modo a assegurar a correta tributação dos rendimentos recebidos em função dos referidos contratos. Não houve em nenhum momento a alegada desconsideração da personalidade jurídica da ALGE. A empresa permaneceu com sua personalidade intacta. O que ocorreu foi o entendimento de que os rendimentos que originalmente foram oferecidos à tributação na pessoa jurídica eram, de fato, rendimentos do sócio da referida empresa. Logo, não há que se falar em desconsideração da personalidade jurídica da empresa ALGE. Exploração do direito de uso de imagem Aduz o Recorrente que o art. 129 da Lei n° 11.196/2005 pôs termo a uma antiga discussão, no caso, favoravelmente a ele, pois define a liberdade de constituir sociedades mesmo no caso de determinadas prestações de serviços geralmente tidas como "de natureza personalíssima", a qual é uma norma interpretativa, específica para nortear o Fisco. Sustenta que, se o serviço pode ser legalmente prestado por firma individual, muito mais irrepreensível é a prestação sob o manto de sociedade limitada, condição que jamais mereceu qualquer restrição legal quanto à tributação como pessoa jurídica, bem como quem define se os serviços serão prestados em nome individual ou em nome de uma sociedade civil, ou mesmo explorados empresarialmente por intermédio de sociedades mercantis, são o contratante e o contratado, e não o Fisco. Argumenta que o procedimento dos sócios da ALGE foi irretocável, uma vez que constituíram legalmente a empresa, contrataram os serviços e fizeram com que ela cumprisse rigorosamente todas as determinações legais, comerciais e tributárias, tais como: emissão regular de Nota Fiscal de Prestação de Serviços, contabilização dos rendimentos e sua tributação, assim como entrega das declarações. A Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN) defende que a relação entre o Sport Club Internacional e o atleta, ora Recorrente, era típica de trabalho, com a presença dos elementos da relação empregatícia: pessoalidade, nãoeventualidade, onerosidade e subordinação. Sustenta a PFN que os valores contabilizados pela ALGE Promoções pertenciam ao jogador, sendo a empresa uma pessoa jurídica interposta, cujo único propósito era transformar os rendimentos pagos em contrapartida a essa relação empregatícia em receitas de uma pessoa jurídica, com o objetivo de proporcionar um regime tributário mais benéfico ao contribuinte. A PFN alega, ainda, que o art. 129 da Lei nº 11.196/2005 não tem o escopo de autorizar e legalizar toda e qualquer prestação de serviço, permitindo que as empresas utilizem indiscriminadamente essa forma de contratação, pois a lei veio para confirmar a legalidade da contratação de prestadores de serviço, desde que o trabalho não seja realizado na forma do artigo 3º da CLT. Com o advento da Lei nº 11.196/2005, notadamente o art. 129, a partir de 1º de janeiro de 2006 foi introduzido tratamento tributário novo aos rendimentos oriundos de prestação de serviços personalíssimos executada por meio de pessoas jurídicas, não havendo, em princípio, qualquer proibição ou vedação para a contratação de pessoas jurídicas para a prestação de tais serviços. Fl. 480DF CARF MF 18 Art. 129. Para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tãosomente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 Código Civil. O referido artigo inovou no ordenamento jurídico, pois até então a legislação tributária acerca do imposto de renda nunca deixou dúvidas que rendimentos provenientes da exploração do serviço individualmente prestado por um atleta, ou seja, serviço personalíssimo, seria tributado na pessoa física prestadora do serviço, mesmo que os serviços fossem contratados e ajustados por meio de uma pessoa jurídica. Nunca houve dúvidas que salários e rendimentos provenientes de serviços personalíssimos seriam tributados na pessoa física, tendo como única exceção a sociedade civil de profissão legalmente regulamentada, o que não é o presente caso. Esse entendimento sobre a possibilidade de os rendimentos oriundos de prestação de serviços personalíssimos serem tributados pelas pessoas jurídicas é reforçado pela leitura da Medida Provisória MP nº 690/2015, que pretendeu alterar as regras de tributação das receitas das pessoas jurídicas provenientes da exploração do direito de uso de imagem. Art. 8º A Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações: “Art. 25. ....................................................................... § 6º As receitas decorrentes da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular ou o sócio da pessoa jurídica devem ser adicionadas à base de cálculo sem a aplicação dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 1995.” (NR) “Art. 27. ....................................................................... § 8º As receitas decorrentes da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular ou o sócio da pessoa jurídica devem ser adicionadas à base de cálculo sem a aplicação dos percentuais de que trata o art. 16 da Lei nº 9.249, de 1995.” (NR) “Art. 29. ...................................................................... Parágrafo único. As receitas decorrentes da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular ou o sócio da pessoa jurídica devem ser adicionadas à base de cálculo sem a aplicação dos percentuais de que trata o art. 20 da Lei nº 9.249, de 1995.” Os artigos 25 e 27 da Lei nº 9.430/96 referemse à tributação da pessoas jurídicas pelo lucro presumido e pelo lucro arbitrado, respectivamente, enquanto o art. 29 diz respeito à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Vejamos a exposição de motivos da MP nesse ponto: 6. O segundo ponto deste projeto diz respeito à tributação incidente sobre a cessão de direitos patrimoniais de autor ou de Fl. 481DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 473 19 imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular ou o sócio da pessoa jurídica. Atualmente, diversos profissionais constituem pessoas jurídicas para o recebimento dos rendimentos de cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz (personalíssimos). Esses rendimentos podem estar sujeitos ao percentual de presunção quando a empresa opta pela tributação com base no lucro presumido. 7. Especificamente em relação à presunção do lucro, ao aplicar o percentual de presunção (32%) aos rendimentos recebidos a título de cessão de tais direitos, presumese que o restante do rendimento (68%) foi consumido na geração deste rendimento, o que não representa a realidade nas atividades personalíssimas. 8. Tais atividades não demandam estruturas físicas e profissionais bancadas pelo profissional que cede os direitos autorais, a imagem, nome, marca ou voz para a realização das tarefas, permanecendo tal estrutura custeada pelo contratante de seus serviços. 9. Portanto, as receitas auferidas em decorrência dessas atividades não requerem aplicação de percentual de redução de lucro presumido, já que não se presumem despesas decorrentes de seu exercício. 10. Sempre é bom lembrar que a tributação pela sistemática do lucro presumido é opcional, permanecendo como regra a tributação pelo lucro real, onde todas as despesas podem ser deduzidas na apuração da base de cálculo do IRPJ. 11. Ademais, , tais atividades, de cunho personalíssimo, possuem remuneração que se enquadram economicamente como verdadeiros rendimentos de trabalho e não de capital. 12. O art. 8º altera os arts. 25, 27 e 29 da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, buscando mitigar a diferença existente entre a tributação da remuneração de cunho personalíssimo como rendimento de pessoa física e como renda da pessoa jurídica pelo lucro presumido ou pelo lucro arbitrado. Embora o art. 8º da MP nº 690/2015 tenha sido vetado quando da sua conversão em lei, a sua propositura veio demonstrar a possibilidade de tributação na pessoa jurídica das atividades de cunho personalíssimo. A opção pela tributação na pessoa jurídica relativa à remuneração decorrente de cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem já existia para as empresas individuais de responsabilidade limitada EIRELI , criadas pela Lei nº 12.441/2011, que introduziu o art. 980A na Lei nº 10.406/2002 (Código Civil). Art. 980A – [...] 5º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a remuneração decorrente da Fl. 482DF CARF MF 20 cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica, vinculados à atividade profissional. Sobre esse assunto, transcrevo abaixo excerto do voto vencedor do ilustre Conselheiro Giovanni Christian Nunes Campos, no Acórdão nº 10617.147, de 05/11/2008. Inicialmente, se havia alguma dúvida quanto à possibilidade de cessão de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de pessoa física para pessoa jurídica, mesmo que a primeira seja sócia da segunda, tal dúvida dissipouse inteiramente com a Lei nº 12.441/2011, que incluiu o art. 980A do Código Civil, permitindo a transferência de tais direitos para a nova empresa individual de responsabilidade limitada. Ora, se pode ocorrer a transferência para a empresa individual, com muito mais razão para a sociedade simples ou empresária, no vigente Estatuto Civil, ou para as sociedades comerciais ou civis de profissão regulamentada, tipologia societária do Estatuto decaído. Eis a nova dicção do art. 980A do Código Civil, com a redação dada pela Lei nº 12.441/2011: [...] Apesar da alteração acima ter sido efetuada no Código Civil vigente, devese reconhecer que não há qualquer óbice a impedir a atribuição dos direitos já referidos à sociedade comercial ou civil de profissão regulamentada do Código de 1916, até porque a proteção aos direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de pessoa física tem sede no art. 5º, XXVII (aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar), XXVIII, “a” (são assegurados, nos termos da lei: a) a proteção às participações individuais em obras coletivas e à reprodução da imagem e voz humanas, inclusive nas atividades desportivas), da Constituição da República, não se podendo dizer que o art. 980A, § 5º, do Código Civil tenha criado um instituto de cessão de direito não existente anteriormente, ou seja, considerando a constitucionalização do direito civil, forçoso entender que a possibilidade de cessão dos direitos citados existe, pelo menos, desde o advento da Constituição de 1988. Assim, não resta dúvida quanto à possibilidade de cessão para a pessoa jurídica de direitos patrimoniais de autor ou de imagem, nome, marca ou voz de pessoa física. Entretanto, o artigo 129 da Lei nº 11.196/2005 deve ser interpretado sistematicamente com as demais normas do ordenamento jurídico brasileiro, não possuindo o condão de afastar o reconhecimento do vínculo de emprego entre o trabalhador – contratado sob o manto de pessoa jurídica – e o empregador. Para que essa forma de contratação seja considerada e gere efeitos, tornase necessário que a constituição da pessoa jurídica prestadora de serviços seja verdadeira e efetiva, o que no presente caso não ocorreu, pelo menos no tocante ao contrato com o clube Internacional, conforme veremos a seguir. A imagem como bem jurídico teve seu direito tutelado pela Constituição Federal, no art. 5º, inciso X, bem como no Código Civil de 2002, art. 20, e possui algumas características peculiares. Além de direito personalíssimo, é absoluto oponível erga omnes , indisponível não pode se dissociar do corpo humano , indissociável impossível não associá Fl. 483DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 474 21 la àquela pessoa e imprescritível inexistindo prazo legal para defendêlo em Juízo , podendo ser objeto de contrato entre pessoas físicas e jurídicas. Em relação a atletas e, em especial a jogadores de futebol, há grande dissenso na doutrina quando se discute qual seria a natureza jurídica das verbas pagas a título de direito de uso da imagem. Há quem entenda que a cessão do direito de imagem só existe em virtude da profissão de atleta, ou seja, os clubes ou seus patrocinadores celebram com o jogador ou com uma pessoa jurídica por ele constituída um contrato pelo qual irão divulgar a imagem do atleta, inclusive vinculandoa à venda de produtos. Assim, como o referido contrato é celebrado somente em função da relação de emprego entre o clube e o atleta, não haveria dúvida de que o pagamento efetuado em razão do direito de imagem tem natureza salarial e assim deve ser tributado. Por outro lado, existe um entendimento de que o contrato de cessão de direito do uso de imagem, por ser autônomo, paralelo e inconfundível com o contrato desportivo, integra um direito da personalidade do atleta e pode ser cedido, tendo finalidade distinta do salário. Entendo que a distinção entre as finalidades dos contratos de cessão de direito de imagem somente pode ser aferida no caso concreto e uma indagação a ser feita, de crucial importância para o deslinde da questão, é se o contrato de direito de uso de imagem é autônomo em relação ao contrato de trabalho. Sendo positiva a resposta, é possível que se esteja diante de um contrato de natureza civil e os rendimentos dele provenientes não integram a remuneração do atleta, a depender de outras variáveis a serem analisadas caso a caso. De modo contrário, não havendo autonomia entre o contrato de direito de uso de imagem e o contrato de trabalho, o que se tem é um contrato simulado, com a intenção de mascarar a real remuneração do esportista, com especial interesse na sonegação de tributos, tanto pelo contratante como pelo contratado. No caso em exame, é necessário se analisar separadamente os contratos firmados pela empresa ALGE, tendo como objeto a exploração do direito de imagem: o primeiro tendo como contratante o Sport Club Internacional e o segundo celebrado com a NIKE European Operations Netherlands B.V. CONTRATO COM O SPORT CLUB INTERNACIONAL Foi firmado em 1º/01/2007 Instrumento Particular de Licença de Uso de Imagem, Voz, Nome Profissional e Apelido Esportivo de Atleta Profissional de Futebol, entre o Sport Club Internacional e a empresa ALGE Promoções e Eventos Ltda,. tendo como anuente o Contribuinte fiscalizado, Alexandre Rodrigues da Silva Alexandre Pato (fls. 183 a 185). O objeto desse contrato era o uso da imagem, voz, nome profissional do anuente e o valor total estabelecido foi de R$18.000,00, divididos em 36 parcelas mensais de R$500,00 cada, além da participação da empresa sobre todos os contratos que o clube celebrar, referentes à exploração do licenciamento de utilização individual da imagem do atleta anuente, no percentual de 20%. A vigência foi de 1º/01/2007 a 31/12/2009. Fl. 484DF CARF MF 22 Em 1º/05/2007, o contrato foi aditivado e o seu valor total foi aumentado para R$336.000,00, divididos em 32 parcelas de R$10.500,00 cada, sendo que haviam sido pagas apenas duas parcelas com o valor anterior (fls. 186 e 187). Na claúsula 2.2, ficou estabelecido que na hipótese de rescisão ou suspensão do contrato desportivo do anuente (fiscalizado) com o clube contratante (Internacional), as parcelas vincendas não seriam mais exigíveis. 2.2. Na hipótese de resilição antecipada deste instrumento, rescisão ou suspensão do contrato desportivo do ANUENTE com o CONTRATANTE, as parcelas vincendas descritas na presente cláusula não serão mais exigíveis. Com o Sport Club Internacional, o fiscalizado celebrou um contrato de trabalho, com vigência entre 1º/01/2007 a 31/12/2009, com salário mensal de R$ 15.000,00, com o compromisso do clube contratante de adquirir, com exclusividade, da empresa detentora dos direitos negociais e de representação para licença dos direitos de uso de imagem, voz, nome profissional e/ou apelido esportivo do atleta, e esta a licenciar ao primeiro, os direitos de uso de imagem, voz, nome profissional e/ou apelido esportivo do atleta. A empresa detentora de tais direitos era a ALGE. Notese que o prazo do contrato sobre os direitos de imagem, entre o clube Internacional e a empresa ALGE, coincide com o prazo do contrato de trabalho firmado pelo jogador e o clube. Percebese, portanto, que não há uma autonomia entre o contrato de trabalho, firmado pelo Contribuinte com o clube Internacional, e o contrato de licenciamento dos direitos de sua imagem, celebrado entre o clube e a empresa ALGE, detentora desses direitos, tanto pela coincidência dos prazos de vigência, como pela previsão de rescisão do contrato dos direitos de imagem quando ocorrer o distrato do contrato de trabalho desportivo e também pelo compromisso assumido pelo clube de adquirir, com exclusividade, junto à empresa ALGE, os direitos de imagem do atleta. Dessa forma, podese concluir que, de fato, havia uma vinculação entre o contrato de trabalho e a exploração econômica do direito de imagem do sujeito passivo, cujo contrato foi firmado entre o clube Internacional e a empresa ALGE, da qual o contribuinte fiscalizado é sócio juntamente com seu genitor, tendo como objetivo a redução da tributação do imposto sobre a renda da pessoa física, no caso do Recorrente, e a redução de outros encargos legais, em relação ao clube esportivo. A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho (TST) é farta no sentido de que a verba paga pelo clube ao atleta profissional a título de cessão do uso do direito de imagem possui natureza remuneratória, ligada diretamente ao contrato de trabalho, porque decorre fundamentalmente do desempenho de suas atividades na entidade desportiva. É o que se depreende dos seguintes julgados: [...] RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELO RECLAMANTE. DIREITO DE IMAGEM. NATUREZA SALARIAL. INTEGRAÇÃO À REMUNERAÇÃO. Nos termos do atual entendimento jurisprudencial desta Corte superior, é salarial a renda auferida pelo atleta profissional de futebol a título de direito de imagem, por tratarse de verba paga por força do contrato de emprego. Precedentes. Recurso de revista conhecido e provido. [...] (RR880058.2004.5.04.0028, 1ª Turma, Rel. Desembargador Convocado José Maria Quadros de Alencar, DJ de 8/11/2013. Fl. 485DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 475 23 RECURSO DE REVISTA DIREITO DE IMAGEM NATUREZA JURÍDICA INTEGRAÇÃO À REMUNERAÇÃO. A renda auferida pelo atleta profissional de futebol pelo uso de sua imagem por parte do clube que o emprega possui natureza salarial e deve ser integrada à sua remuneração para todos os fins. Isso porque constitui uma das formas de remunerar o jogador pela participação nos eventos desportivos disputados pela referida entidade, decorrendo, pois, do trabalho desenvolvido pelo empregado. Precedentes deste Tribunal. Recurso de revista conhecido e provido. (RR60800 81.2007.5.04.0011, 1ª Turma, Rel. Min. Vieira de Mello Filho, DJ de 13/5/2011). [...] DIREITO DE IMAGEM. NATUREZA JURÍDICA. O Tribunal Regional declarou que o direito de imagem detém evidente natureza trabalhista, que lhe é inerente, em se tratando de pagamento oriundo da relação empregatícia. Sob tal premissa, a Corte de origem decidiu negar provimento ao recurso ordinário interposto pelo Reclamado e manter a sentença na parte em que se reconheceu a natureza remuneratória do direito de imagem e se impôs condenação ao pagamento de diferenças a esse título. No recurso de revista, o Reclamado afirma que o direito de imagem possui caráter indenizatório, porque foi pactuado em contrato civil, totalmente alheio ao contrato de trabalho. Esta Corte Superior tem decidido que a verba paga pela entidade desportiva ao atleta a título de cessão do uso do direito de imagem possui natureza remuneratória, porque a imagem do atleta decorre diretamente do desempenho de suas atividades profissionais. Portanto, a decisão recorrida está de acordo com a jurisprudência desta Corte Superior e não merece reforma. Recurso de revista de que se conhece, ante a demonstração de divergência jurisprudencial, e a que se nega provimento, no mérito. (RR716100 50.2008.5.09.0028, 4ª Turma, Rel. Min. Fernando Eizo Ono, DJ de 15/3/2013) [...] DIFERENÇAS SALARIAIS. DIREITO DE IMAGEM. NATUREZA JURÍDICA DA PARCELA. O eg. TRT considerou que a parcela paga como contraprestação pelo uso da imagem do reclamante, de forma fixa, mensal e no decorrer do contrato de trabalho, detém natureza jurídica salarial, razão por que deve integrar a remuneração do autor. Não se trata, no caso dos autos, de ofensa ao direito de imagem garantido constitucionalmente, passível de reparação moral e material, mas de remuneração pela utilização da imagem do autor, em razão do contrato de trabalho firmado entre as partes. Conquanto decorra de direito personalíssimo de natureza civil, no caso concreto a parcela está ligada diretamente do contrato de trabalho e remunera o profissional pela participação em partidas disputadas em favor do clube reclamado. Portanto, a parcela detém natureza salarial, devendo integrar a remuneração para todos os fins. Precedentes. Recurso de revista conhecido e desprovido. [...] (RR99047.2011.5.09.0028, 6ª Turma, Rel. Min. Aloysio Corrêa da Veiga, DJ de 13/12/2013) Fl. 486DF CARF MF 24 AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. 1. VÍNCULO DE EMPREGO CONFIGURADO. PROFISSIONAL CONTRATADO MEDIANTE PEJOTIZAÇÃO (LEI Nº 11.196/2005, ART. 129). ELEMENTOS DA RELAÇÃO DE EMPREGO EVIDENCIADOS. PREVALÊNCIA DA RELAÇÃO EMPREGATÍCIA. A relação empregatícia é a principal fórmula de conexão de trabalhadores ao sistema socioeconômico existente, sendo, desse modo, presumida sua existência, desde que incontroversa a prestação de serviços (Súmula 212, TST). A Constituição da República, a propósito, elogia e estimula a relação empregatícia, ao reportar a ela, direta ou indiretamente, várias dezenas de princípios, regras e institutos jurídicos. Em consequência, possuem caráter manifestamente excetivo fórmulas alternativas de prestação de serviços a alguém por pessoas naturais, como, ilustrativamente, contratos de estágio, vínculos autônomos ou eventuais, relações cooperativadas, além da fórmula apelidada de pejotização. Em qualquer desses casos além de outros , estando presentes os elementos da relação de emprego, esta prepondera, impõese e deve ser cumprida. No caso da fórmula do art. 129 da Lei nº 11.196, de 2005, somente prevalecerá se o profissional pejotizado tratarse de efetivo trabalhador autônomo ou eventual, não prevalecendo a figura jurídica como mero simulacro ou artifício para impedir a aplicação da Constituição da República, do Direito do Trabalho e dos direitos sociais e individuais fundamentais trabalhistas. Trabalhando a Obreira cotidianamente no estabelecimento empresarial e em viagens a serviço, com todos os elementos fáticojurídicos da relação empregatícia, deve o vínculo de emprego ser reconhecido (art. 2º, caput, e 3º, caput, CLT), com todos os seus consectários pertinentes. Notese que o TRT deixa claro, a propósito, a presença da subordinação jurídica em todas as suas três dimensões (uma só já bastaria, como se sabe), ou seja, a tradicional, a objetiva e a estrutural. 2. VÍNCULO EMPREGATÍCIO RECONHECIDO EM JUÍZO. FÉRIAS EM DOBRO. DECISÃO DENEGATÓRIA. MANUTENÇÃO. É devido o pagamento em dobro das férias vencidas, ainda que o vínculo de emprego somente tenha sido reconhecido em Juízo (exegese do art. 137 da CLT). Precedentes. Sendo assim, não há como assegurar o processamento do recurso de revista quando o agravo de instrumento interposto não desconstitui os fundamentos da decisão denegatória, que subsiste por seus próprios fundamentos. Agravo de instrumento desprovido. (AIRR 639 35.2010.5.02.0083, 3ª Turma, Relator Ministro: Mauricio Godinho Delgado, Data de Publicação: 21/06/2013). No voto vencedor do Recurso Ordinário nº 0004920082.2009.5.01.0009, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região (Acórdão publicado em 29/07/2011), cuja decisão foi mantida pelo TST, o Desembargador Jorge F. Gonçalves da Fonte assim se pronunciou sobre essa matéria: [...] A prática de pagamento de salários por fora é uma característica negativa desse ramo profissional. As agremiações desportivas que difundem a maior paixão nacional remuneram seus atletas com altos salários e, com raras exceções, esquecem se de aprovisionar recursos para honrar seus compromissos sociais e tributários, isto sem levar em consideração os Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 476 25 constantes atrasos no pagamento dos próprios salários dos jogadores. Criouse, então, esse sofisma de direito de imagem, entabulado em instrumento normalmente firmado por empresa constituída pelos respectivos atletas, indiscutível pacto adjeto do contrato de trabalho, que , em resumo, era proveitoso para as duas partes. O clube entende que fica imune aos encargos sociais, mormente em relação ao FGTS que deixa de incidir sobre a cessão do direito de imagem, enquanto que o jogador, sob o abrigo de uma pessoa jurídica, recebe significativa vantagem no que tange ao imposto de renda, com alíquota mais baixa comparada ao percentual atribuído a qualquer pessoa física que aufere rendimentos por seu trabalho.[...] Assim, entendo que os valores recebidos pela empresa ALGE do clube Internacional, a título de direitos de imagem do atleta Alexandre Rodrigues da Silva constituíamse, na realidade, em uma complementação da remuneração da força de trabalho do jogador em prol da agremiação desportiva. Face ao exposto, deve ser mantida a tributação na pessoa física do fiscalizado, em relação aos valores pagos pelo Sport Club Internacional decorrentes do contrato de cessão do direito de imagem, conforme apurado pela autoridade fiscal. CONTRATO COM A NIKE Quanto ao contrato celebrado entre a NIKE European Operations Netherlands B.V. e a ALGE Promoções Ltda., entendo que se enquadra como um verdadeiro contrato de exploração econômica do direito de imagem, possuindo natureza eminentemente civil. Esse contrato foi firmado em 20/11/2007 e tinha como objeto (i) a utilização do nome, imagem e outros atributos do jogador; (ii) os serviços pessoais do jogador e seus conhecimentos sobre futebol, e (iii) o endosso do jogador à marca e uso dos seus produtos; tendo como prazo o período entre 1º/06/2008 e 31/08/2018 (fls. 101 a 127). Pela análise do contrato, concluise que ele é autônomo e independe do contrato desportivo avençado entre o atleta e o clube que detêm seus direitos federativos, do mesmo modo que estabelece como obrigações atividades de cessão de uso de imagem. Observase, pela cláusula B, transcrita abaixo, que a remuneração do atleta tem como base a categoria do clube de futebol no qual ele tenha registro, o que significa que não está vinculado a nenhum contrato específico com determinado clube. REMUNERAÇÃO BASE: A NIKE pagará uma Remuneração Base anual ao COMPANHIA conforme apresentada na Anexo A, que tem como base na categoria do clube de futebol na qual ele tenha registro (sujeito aos Parágrafos 9 e 10 dos Termos Padrão), devendo o referido pagamento ser feito em duas parcelas iguais anuais até 30 de abril e no 31 octubre (sic) de cada Ano Contratual. No último dia de cada Ano Contratual, a NIKE calculará a Remuneração Base que deveria ter sido paga à COMPANHIA com relação àquele determinado Ano Contratual, de acordo com Anexo A e nos termos do parágrafo 9 dos Termos Padrão, sendo que quaisquer quantias pagas a maior ou a menor deverão ser descontadas ou compensadas na parcela seguinte. [...] Fl. 488DF CARF MF 26 Considerando, assim, o disposto no artigo 129 da Lei nº 11.196/2005, é possível a tributação na pessoa jurídica dos valores recebidos da NIKE em função desse contrato, razão pela qual deve ser reduzido da base de cálculo o valor de R$65.692,00, no ano calendário 2007, referente a essa infração. Ganho de capital na transferência para outro clube O Recorrente defende que o valor recebido decorrente da transferência do atleta para o exterior, no total de R$15.936.000,00, é isento e não constitui ganho de capital, visto que se trata de pagamento da cláusula penal por rescisão de contrato ou cláusula compensatória desportiva, com fundamentação na Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé), tendo sido corretamente contabilizado pela ALGE Promoções e Eventos Ltda. no seu livro Diário, pois ela era detentora, com exclusividade, dos direito negociais do contrato de Alexandre Pato. Argumenta que é ilegal a reclassificação para a pessoa física e, mesmo que seja tributado na pessoa física, a apuração deve ser feita pela tabela progressiva na declaração de ajuste anual, porquanto foi decorrente de cláusula penal e não de direito negociável, haja visto que, com a promulgação da Lei Pelé, esse direito não mais existia, tendo sido revogado. Alega que a Lei Pelé, em seu art. 28, prevê a pactuação, no contrato de trabalho, de cláusula penal, para assegurar que o atleta, ante uma oferta remuneratória mais atraente de outra entidade desportiva, rompa o contrato e passe a prestar serviços nesta outra entidade. Afirma que essa cláusula também protegia o atleta ante um rompimento unilateral do contrato por iniciativa do clube contratante, pois a jurisprudência reconheceu como bilateral a dúbia redação do art. 28. Acrescenta que, embora essa fosse a regulamentação da época em que ocorreu a rescisão do contrato de trabalho entre ele e o Internacional, hoje a Lei 9.615/98, com as alterações e inclusões da Lei n° 12.395/2011 (Lei Maguito Vilela), prevê, em substituição à cláusula penal, outras figuras com objetivos similares: (a) a cláusula indenizatória desportiva, devida exclusivamente à entidade desportiva (inc. I do art. 28); (b) a cláusula compensatória desportiva, devida ao atleta (inc. II do art. 28), sendo que essa nova previsão legal já foi adotada por ocasião da rescisão em questão, o que gerou o rendimento de R$15.936.000,00. Aduz que o Internacional não poderia vender os seus direitos federativos ao Milan, uma vez que a Lei do Passe havia sido extinta e, portanto, o que justifica tal rendimento é a sua concordância em trocar de emprego, cuja retribuição pecuniária é chamada de "luvas" no jargão popular e tem natureza salarial. Em suas contrarrazões ao Recurso Voluntário, a PFN sustenta que o fato gerador do ganho de capital, proveniente da transferência do jogador para o Milan, concretizouse no contribuinte fiscalizado, de modo que nenhum ato posterior teria o condão de alterar a relação jurídica tributária estabelecida. Assevera a PFN que não há como caracterizar a verba recebida como indenizatória, pois ocorreu um efetivo ganho patrimonial, bastante superior ao valor da obrigação principal (contrato de trabalho). Essa matéria diz respeito aos direitos econômicos de atletas, que tem gerado uma série de controvérsias, tanto no Direito Tributário como no Direito Trabalhista e no Direito Empresarial. Cabe inicialmente conceituar o que são direitos econômicos dos atletas, os quais são distintos dos direitos federativos. O "Direito Federativo” é o direito do clube em Fl. 489DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 477 27 registrar o atleta na Federação como vinculado a ele e nasce da celebração do contrato de trabalho entre o clube e o atleta, sendo acessório a esse contrato. Por sua vez, quando terminado ou rescindido o contrato de trabalho, extinguese também o chamado direito federativo, por estar diretamente vinculado ao contrato laboral. Já os direitos econômicos representam a receita gerada com a transferência do atleta e originamse da cessão onerosa, temporária ou definitiva, do direito federativo. É comum no cenário atual que os direitos econômicos sejam negociados com os chamados investidores, que adquirem um percentual desses direitos sobre um atleta, para revendêlos posteriormente. No presente caso, observase que em 30/10/2006 o jogador Alexandre Pato e o clube Internacional firmaram um Termo de Compromisso (fls. 179 a 181), pelo qual ficou definido que os direitos econômicos de uma eventual venda dos seus direitos contratuais para o exterior seriam divididos entre eles, em partes iguais (cláusula 6). O Sport Club Internacional negociou, em 03/08/2007, com o clube de futebol italiano Milan, a transferência definitiva do jogador (Contribuinte fiscalizado) pela importância de US$32.835.000,00. Nessa mesma data, porém após a assinatura do referido contrato (conforme se verifica pelo item "b" das preliminares do Termo de Quitação), o jogador, por meio do Termo de Quitação de fl. 211 (item “d” das preliminares do referido Termo), cedeu à empresa ALGE todo e qualquer valor recebido em razão da parceria econômica firmada no termo de compromisso entre ele e o Sport Club Internacional. Assim, em 23/08/2007, o Internacional depositou na conta bancária da ALGE o valor de R$19.920.000,00, dos quais R$3.984.000,00 foram repassados para a empresa "World of Football", por sua intermediação no negócio. Verificase que o contrato de parceria econômica com o clube Internacional, sobre a cessão de direitos contratuais, foi firmado pelo jogador Alexandre Pato, ora Recorrente, e não pela empresa ALGE, que não participou em nenhum momento da transação. Não houve nenhuma prestação de serviço por parte da ALGE para o Milan ou para o Internacional que justificasse o pagamento efetuado. O valor efetivamente recebido pela transação foi na verdade destinado ao jogador Alexandre Rodrigues da Silva (Alexandre Pato), ora Recorrente, que é quem realmente firmou compromisso com o clube para ter direito a 50% do valor da venda de seus direitos para um clube do exterior. O fato de ele, fiscalizado, ter cedido todo o proveito econômico advindo de sua transferência para o Milan à empresa de que participa como sócio, não altera o sujeito passivo da obrigação tributária, pois assim dispõe o Código Tributário Nacional (CTN): Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento de tributo ou penalidade pecuniária. Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz se: I contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador; Fl. 490DF CARF MF 28 II responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de disposição expressa de lei. [...] Art. 123. Salvo disposições de lei em contrário, as convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, para modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. O Recorrente alega que o valor recebido seria isento e não ganho de capital, visto que se trata de pagamento da cláusula penal por rescisão de contrato ou cláusula compensatória desportiva, com fundamentação na Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé), pois a jurisprudência reconheceu a referida cláusula prevista no art. 28 como bilateral. Contudo, essa cláusula penal tinha o objetivo de proteger o clube contratante para os casos de rescisão contratual por parte do jogador, com vistas a indenizar o empregador pelo investimento feito no desenvolvimento profissional do atleta e não o inverso. E é nesse sentido que ela foi estabelecida no parágrafo único da cláusula 3 do Termo de Compromisso 165/FUT/2006 (fls.179/180), firmado entre o Contribuinte e o Internacional, verbis. 3. As partes ajustam que o ATLETA receberá a titulo de salário, a partir de 1° de novembro 11/11 de 2006, o valor mensal de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), vencíveis de acordo com a legislação trabalhista vigente, que será mantido durante a vigência do novo contrato de trabalho a ser firmado, previsto na cláusula 2 do presente instrumento. Parágrafo Único: As partes desde já fixam a cláusula penal para descumprimento ou rompimento do contrato de trabalho por parte do atleta, na hipótese de transferência internacional, no valor equivalente em reais a U$ 20.000.000,00 (vinte milhões de dólares americanos). (grifei) E, ao contrário do que afirma o Recorrente, esse é o entendimento jurisprudencial do Tribunal Superior do Trabalho, conforme decisões abaixo. RECURSO DE REVISTA DO RECLAMANTE ATLETA PROFISSIONAL CONTRATO DE TRABALHO DESPORTIVO CLÁUSULA PENAL OBRIGAÇÃO IMPOSTA APENAS AO ATLETA PROFISSIONAL PELO ROMPIMENTO ANTECIPADO DO PACTO LABORAL. O caput do art. 28 da Lei nº 9.615/98, em sua redação original, ao estabelecer a cláusula penal para os casos de descumprimento, rompimento ou rescisão contratual, dirigese somente ao atleta profissional. Tal penalidade não se aplica às hipóteses de rescisão indireta ou voluntária e antecipada do contrato de trabalho por iniciativa do empregador. Recurso de revista do reclamante não conhecido. (RR172341.2010.5.12.0003, 7ª Turma, Rel. Min. Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, DEJT 05/05/2014) CLÁUSULA PENAL. LEI N.º 9.615/98. RESCISÃO ANTECIPADA DO CONTRATO POR INICIATIVA DA ENTIDADE DE PRÁTICA DESPORTIVA, ANTERIORMENTE À EDIÇÃO DA LEI N.º 12.395/2011. PENALIDADE OPONÍVEL APENAS AO ATLETA. A colenda SBDII desta Corte superior, Fl. 491DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 478 29 interpretando o conteúdo da Lei n.º 9.615/98, em especial o disposto nos seus artigos 28, 31 e 33, com a redação vigente anteriormente às alterações introduzidas pela Lei n.º 12.395/2011, consagrou entendimento, hoje pacificado, no sentido de que a cláusula penal prevista no artigo 28 é oponível exclusivamente ao atleta profissional. Precedentes. Recurso de revista não conhecido. (RR13430009.2006.5.08.0011, 1ª Turma, Rel. Min. Lelio Bentes Corrêa, DEJT 15/04/2014) RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. ACÓRDÃO EMBARGADO PUBLICADO SOB A ÉGIDE DA LEI 11.496/2007. CLÁUSULA PENAL. LEI PELÉ. RESCISÃO ANTECIPADA DO CONTRATO POR INICIATIVA DA ENTIDADE DESPORTIVA. INTERPRETAÇÃO SISTÊMICA DA NORMA. Esta Subseção I Especializada em Dissídios Individuais do TST já se debruçou sobre a matéria, cuja relevância e complexidade exigiram percuciente estudo, decidindo no sentido de que a cláusula penal, prevista no art. 28 da Lei 9615/1998, se destina a indenizar a entidade desportiva, em caso de extinção contratual por iniciativa do empregado, em razão do investimento feito no atleta. Na hipótese de rescisão antecipada do contrato, por parte do empregador, cabe ao atleta a multa rescisória referida no art. 31 do mesmo diploma legal, na forma estabelecida no art. 479 da CLT. Precedentes da SDI I/TST. Recurso de embargos conhecido e não provido. (TSTE RR19050095.2007.5.12.0041, SBDI1, Rel. Min. Rosa Maria Weber, DEJT de 23/9/2011). Assim, não procede a alegação do Recorrente de que se tratava de um recebimento em virtude de cláusula penal, com caráter indenizatório, estando correta a apuração feita pela autoridade fiscal ao tributar como ganho de capital na alienação de direitos. Outrossim, não tem sentido considerar como indenizatório um valor que excede em muito o valor da obrigação o contrato de trabalho , gerando tanto ao clube como ao atleta efetivo ganho patrimonial. Para que determinado rendimento seja considerado indenizatório, é imprescindível que esteja presente a noção de recomposição de patrimônio, o que, evidentemente, não é o caso presente. A tributação do ganho de capital tem como fundamento legal os seguintes artigos do Regulamento do Imposto de Renda RIR/99. Art. 117. Está sujeita ao pagamento do imposto de que trata este Título a pessoa física que auferir ganhos de capital na alienação de bens ou direitos de qualquer natureza (Lei nº 7.713, de 1988, arts. 2º e 3º, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21). [...] § 2º Os ganhos serão apurados no mês em que forem auferidos e tributados em separado, não integrando a base de cálculo do imposto na declaração de rendimentos, e o valor do imposto pago não poderá ser deduzido do devido na declaração (Lei nº 8.134, de 1990, art. 18, § 2º, e Lei nº 8.981, de 1995, art. 21, § 2º). Fl. 492DF CARF MF 30 [...] § 4º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 3º). § 5º A tributação independe da localização dos bens ou direitos, observado o disposto no art. 997. [...] Art. 138. O ganho de capital será determinado pela diferença positiva, entre o valor de alienação e o custo de aquisição, apurado nos termos dos arts. 123 a 137 (Lei nº 7.713, de 1988, art. 3º, § 2º, Lei nº 8.383, de 1991, art. 2º, § 7º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 17). [...] Art. 142. O ganho de capital apurado conforme arts. 119 e 138, observado o disposto no art. 139, está sujeito ao pagamento do imposto, à alíquota de quinze por cento (Lei nº 8.134, de 1990, art. 18, inciso I, Lei nº 8.981, de 1995, art. 21, e Lei nº 9.532, de 1997, art. 23, § 1º). Parágrafo único. O imposto apurado na forma deste Capítulo deverá ser pago no prazo previsto no art. 852. Observase, portanto, que está correta a apuração efetuada pela Fiscalização da tributação do ganho de capital auferido pelo jogador fiscalizado, ora Recorrente. A título de argumentação, o Recorrente defende que, mesmo que esses rendimentos fossem tributados com ganho de capital, o valor do imposto não foi corretamente quantificado, uma vez que o valor de R$3.737.393,46, pago a título de lucro, pela ALGE, ao sócio Geraldo Rodrigues da Silva, deveria ser deduzido. Não merece acolhida essa pretensão, uma vez que o ganho de capital é apurado pela diferença entre o valor de alienação e o custo de aquisição e esses valores pagos ao sócio não fazem parte do custo de aquisição. Ademais, não se trata de rendimentos recebidos pela pessoa jurídica, não havendo, portanto, previsão legal para se deduzir da base de cálculo do imposto os valores pagos pela empresa a sócios a título de lucro distribuído, nem quaisquer despesas relativas à pessoa jurídica. Por essas razões, deve ser mantida a exigência na pessoa física autuada, em relação a esse recebimento obtido em função de sua transferência para o clube italiano Milan. Compensação dos impostos pagos pela pessoa jurídica A PFN opõese à pretensão do Contribuinte de abater da exigência os recolhimentos de imposto de renda feitos pela empresa ALGE, por não haver previsão legal nesse sentido e alegando ser indispensável a apresentação dos pedidos de compensação por meio de PER/DCOMPs. Fl. 493DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 479 31 No que concerne ao pedido de compensação, entendo que assiste razão ao Recorrente, uma vez que não seria razoável reclassificar as receitas da empresa para rendimentos da pessoa física e obrigar que a empresa solicite uma restituição ou uma compensação posterior, sofrendo o ônus de eventual decadência do direito creditório e principalmente da exigência da multa de ofício lançada no presente processo, quando já se sabe que houve pagamento parcial dos tributos sobre tais rendimentos, ora reclassificados. Nesse sentido, temos as seguintes decisões deste Conselho: RECLASSIFICAÇÃO DE RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DE PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DE TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração de crédito tributário os valores arrecadados sob o código de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. (Acórdão nº 2102002.441, data de publicação: 11/03/2013, rel. Núbia Matos Moura). RECLASSIFICAÇÃO DA RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DA PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA. Devem ser compensados na apuração do crédito tributário os valores arrecadados sob os códigos de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de ofício. (Acórdão nº 2801002.280, data de publicação: 21/10/2012, rel. Tânia Maria Paschoalin). IRPF RECLASSIFICAÇÃO DA RECEITA TRIBUTADA NA PESSOA JURÍDICA PARA RENDIMENTOS DA PESSOA FÍSICA. COMPENSAÇÃO DOS TRIBUTOS PAGOS NA PESSOA JURÍDICA Devem ser compensados na apuração do crédito tributário os valores arrecadados sob os códigos de tributos exigidos da pessoa jurídica, cuja receita foi desclassificada e convertida em rendimentos de pessoa física, base de cálculo do lançamento de oficio. (Acórdão nº 2202 00252, data de publicação: 23/09/2009, rel. Antonio Lopo Martinez). Cabe aqui transcrever excerto do voto da ilustre Conselheira Núbia Matos Moura sobre o assunto, no Acórdão nº 2102002.441: Já no que diz respeito à alegação da defesa de que a autoridade fiscal deveria ter compensado com o crédito tributário apurado os tributos recolhidos pela Mercury (item 5), temse que embora se reconheça que a pessoa jurídica Mercury e o seu sócio majoritário sejam pessoas distintas, não se pode desconsiderar o fato de que quando a autoridade fiscal afirma que os valores lançados como receitas da pessoa jurídica são rendimentos da pessoa física, está reconhecendo que os tributos recolhidos pela pessoa jurídica sobre essas mesmas receitas eram indevidos. Ou seja, está reconhecendo que parte do tributo que o Fisco deveria Fl. 494DF CARF MF 32 receber foi efetivamente pago, ainda que por outra entidade ou com outra denominação. A hipótese aventada de a pessoa jurídica pleitear a restituição do indébito não é razoável, posto que tal solução – pedido de restituição – impõe à pessoa jurídica o ônus de, ao pleitear a restituição dos tributos e contribuições pagos, reconhecer que o Auto de Infração estaria correto, contra suas próprias convicções e principalmente em razão da incidência da multa de ofício sobre a totalidade do imposto apurado no Auto de Infração que, de uma forma ou de outra, já foi recolhido. Nestes termos, deve ser feita a compensação dos tributos e contribuições pagos pela Mercury com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Sendo assim, deve ser feita a compensação dos tributos e contribuições efetivamente pagos pela empresa ALGE, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento parcial ao recurso para: a) excluir da base de cálculo do anocalendário 2007 o valor de R$65.692,00, relativo à infração "Omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas jurídicas"; e b) compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ALGE, relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício. Assinado digitalmente MARCO AURÉLIO DE OLIVEIRA BARBOSA Relator DECLARAÇÃO DE VOTO Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto A despeito do bem fundamentado voto apresentado pelo i.Relator, e com a devida vênia, venho discordar de algumas das fundamentações e conclusões ali esposadas, especificamente com relação aos valores pagos pelo SPORT CLUB INTERNACIONAL a título de cessão de direito de imagem. No tocante ao ganho de capital, tendo analisado a documentação juntada aos autos, é imperioso concluir na mesma linha esposada pelo i.Relator. A verdade é que a tese defendida pelo Contribuinte é plausível e se escora na legislação de regência, especialmente na interpretação dada ao art. 28 da Lei nº 9.615/1998. Efetivamente, esse comando legal estabelecia a exigência de inclusão no contrato de trabalho Fl. 495DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 480 33 de uma cláusula penal que permitisse a rescisão unilateral. A Lei nº 12.395/2011 alterou a redação, esmiuçando as hipóteses dessa cláusula penal. O que é mais: a legislação vigente à época dos fatos era dúbia, não estando clara se a cláusula penal era para ambos os lados ou apenas em defesa do time ou do atleta; a legislação alterada após os fatos é mais clara, estabelecendo hipóteses de cláusulas em defesa de ambos os lados. Registrase que a cláusula em defesa do jogador permite multa compensatória de até 400 (quatrocentos) salários algo em torno de R$ 6 milhões. Contudo, o fato concreto ora analisado divergiu da tese adotada pelo Contribuinte: o valor pago pelo Milan não era referente à cláusula penal pela rescisão do contrato na forma do art. 28, mas sim a cessão de que se refere o art. 40, §§1º e 2º (este com a redação dada pela Lei nº 10.672/2003) da mesma Lei nº 9.615/1998 (tratase de "Contrato tendo como objeto a transferência a titulo definitivo (...) do jogador" fl. 188). Essa cessão do atleta, verdadeira hipótese de cessão de contrato, poderia ser gratuita ou onerosa, como foi o caso. No caso concreto, não houve rescisão do contrato de trabalho entre o Contribuinte e o "Internacional"; houve cessão desse contrato, tendo como cedente o "Internacional", cessionário o "Milan", cedido o contrato de trabalho e anuente o jogador. Caracterizase, efetivamente, pela continuidade (inexistência de ruptura) da relação, que só pode ocorrer com a anuência da outra parte do contrato. Difere, portanto, da cláusula penal, na qual o vínculo é rompido à revelia da vontade da outra contratante. Em suma, não se trata de indenização ou mesmo de compensação, mas de verdadeira compra de um direito (qual seja, o direito de figurar como parte de um contrato). Enfim, tratandose de pagamento pela alienação de um direito, está sujeito à tributação pelo ganho de capital. Quando à possibilidade de alienar esse direito descrito acima, novamente tem razão o Contribuinte na tese, mas não no fato. O jogador e o "Internacional" haviam estabelecido que eventuais ganhos provenientes de transferências seriam repartidos entre ambos, à participação de 50% do valor líquido para cada. Tratandose de um direito não personalíssimo, poderia sim ter sido transferido para a ALGE, como argumenta a defesa. Contudo, no "Termo de Quitação e Resilição de Termo de Compromisso nº 265/FUT/06 e outras Avenças" (fls.211/214) Contribuinte transfere não o direito a participar na eventual e futura alienação do contrato, mas sim os valores já percebidos, apenas não liquidados. É o que se percebe do referido "Termo": "b) Considerando que o INTERNACIONAL e o A.C. MILAN S.P.A., com a anuência do ATLETA, de comum acordo, em 03 de agosto de 2007, firmaram o instrumento particular de cessão definitiva dos direitos federativos e contratuais do ATLETA; c) Considerando que foi auferido benefício econômico com a cessão definitiva supra mencionada; d) Considerando que o ATLETA cede, neste ato, de forma definitiva e irrevogável, à empresa ANUENTE, e esta, por sua vez, aceita no presente ato, sem opor qualquer óbice, todo e qualquer valor decorrente da incidência da parceria econômica existente em virtude do termo de compromisso nº 265/FUT/06;" fl. 211; Ora, o Contribuinte poderia ter cedido à ALGE, em qualquer momento antes, o direito de participar nos valores pagos pela cessão do contrato. Contudo, deixou para Fl. 496DF CARF MF 34 transferir, após a ocorrência da alienação, os valores decorrentes do negócio, e não o direito de realizar o negócio em si mesmo. Em suma, tratase de ganho de capital, nos termos do art. 40, §2º, da Lei nº 9.615/1998, com redação da Lei nº 10.672/2003, que efetivamente foi auferida pelo Contribuinte e, posteriormente, cedido à ALGE. Irrepreensível a conclusão da autoridade lançadora. Direito de Imagem com o time "Internacional": Preliminarmente, devo ressaltar a minha divergência do i.Relator posto que não conheço proibição no ordenamento, precedente à entrada em vigor da Lei nº 11.196/2005, que impedisse a exploração de serviços personalíssimos por meio de pessoa jurídica. Nesse sentido, filiome à corrente que aceita o art. 129 da referida Lei como interpretativo, direcionado à delimitação da atuação do Estadoarrecadador. Corrente, inclusive, que lastreou a edição da supracitada norma, conforme a justificativa da emenda à MP nº 252/2005: "Os princípios da valorização do trabalho humano e da livre iniciativa previstos no art. 170 da Constituição Federal asseguram a todos os cidadãos o poder de empreender e organizar seus próprios negócios. O crescimento da demanda por serviços de natureza intelectual em nossa economia requer a edição de norma interpretativa que norteie a atuação dos agentes da Administração e as atividades dos prestadores de serviços intelectuais, esclarecendo eventuais controvérsias sobre a matéria." Tratase, entretanto, de questão de menor relevância no julgamento ora realizado, haja vista que o fato gerador já ocorreu na vigência da referida Lei. Pois bem. Tem razão o i.Relator, quando afirma que o art. 129 da Lei nº 11.196/2005 deve ser interpretado sistematicamente com as demais normas do ordenamento jurídico pátrio, assim como devem ser interpretadas todas as normas. Nesse sentido, efetivamente, é imperiosa a análise cuidadosa da chamada "pejotização", e da relação, muitas vezes tênue, entre a prestação de serviço e a relação empregatícia. Esse não é, contudo, o caso dos autos. Preliminarmente, a verdade é que a autoridade lançadora apresentou a seguinte infração: "001 RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS OMISSÃO DE RENDIMENTOS DO TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS Omissão de rendimentos recebidos da pessoa jurídica SPORT CLUB INTERNACIONAO, decorrente do contrato de cessão do direito de imagem, conforme demonstrado no Termo de Constatação Fiscal lavrado nesta data e que faz parte integrante do presente Auto de Infração e nos extratos das DIRFs apresentadas pela fonte pagadora e juntados ao processo decorrente." fls. 270 Fl. 497DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 481 35 Em outras palavras, a infração imputada foi de que o Contribuinte omitiu "rendimentos (...) decorrentes de contrato de cessão de direito de imagem". A autoridade lançadora foi clara em afirmar que os valores referiamse a pagamentos pela cessão do direito de imagem. Jamais apontou uma confusão em relação a esses valores e os valores pagos a título de salário ou contraprestação pela trabalho decorrente da relação empregatícia. Pelo contrário, foi cristalino em identificar, no Termo de Constatação Fiscal, que haviam dois contratos inconfundíveis entre as partes: "11. Estes compromissos representam o que se costuma chamar de "trabalho personalissimo". Ao contrário de quando se contrata um escritório jurídico ou contábil, em que os serviços poderão ser feitos por qualquer profissional técnica e legalmente habilitados, sejam eles sócios ou meros empregados do escritório, ou ainda, quando se vai numa oficina mecânica e qualquer mecânico qualificado pode fazer o serviço que desejamos, neste caso, os serviços contratados poderiam ser prestados única e exclusivamente por uma pessoa: o "ANUENTE", no caso do contrato com o INTERNACIONAL e o "JOGADOR", no caso do contrato com a NIKE. E, nos dois casos, esta pessoa é ALEXANDRE PATO. Ou alguém pode imaginar o Sr. Geraldo Rodrigues da Silva, pai de ALEXANDRE PATO e sócio majoritário da ALGE, ou qualquer outro funcionário designado pela ALGE, comparecendo a um evento promovido pelo INTERNACIONAL ou pela NIKE no lugar de ALEXANDRE PATO, posando para fotos com fds e dando autógrafos e entrevistas? 12. E notese que nem estamos falando em jogar futebol. Afinal, ALEXANDRE PATO mantinha outro contrato com o INTERNACIONAL, para esta finalidade. Mas, no contrato de exploração de imagem, a presença pessoal de ALEXANDRE PATO é condição básica da existência dos contratos firmados com o INTERNACIONAL e com a NIKE." fl. 252 (grifei). Em suma, a acusação fiscal foi de que os valores (1) eram referentes à cessão do direito de imagem, (2) que esse contrato só podia ser realizado pela pessoa física, posto que personalíssimo, e (3) que não se confunde com a relação empregatícia. Tendo recebido os autos, a PGFN apresentou Contrarrazões ao Recurso Voluntário argumentando pela manutenção do lançamento. Especificamente em relação aos valores pagos pelo SPORT CLUBE INTERNACIONAL, a PGFN fez longo arrazoado sobre a natureza empregatícia do vínculo entre o Contribuinte e o time futebolístico, apontando que os valores pagos a título de salário eram baixos e que os valores pagos sob a rubrica de cessão de direitos de imagem só podiam configurar complementação da remuneração, porém variável. Ainda, buscou reforçar a sua tese argumentando pela presença das características básicas da relação empregatícia no contrato de cessão do direito de imagem (pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação). As Contrarrazões claramente inovaram o lançamento, trazendo um novo fundamento para justificar a "transposição" do rendimento da pessoa jurídica para a pessoa física. O voto do i.Relator, em que pese muito bem fundamentado, encontrase equivocado exatamente por esposar esse argumento inovador, não apenas inexistente como verdadeiramente contrário aos fundamentos do lançamento. Fl. 498DF CARF MF 36 Portanto, entendo que é inovação concluir que os valores pagos pelo SPORT CLUBE INTERNACIONAL configuramse remuneração pela força de trabalho do jogador em prol da agremiação desportiva. Inovação essa que é vedada no PAF, sob pena de nulidade da decisão por preterição do direito de defesa (art. 59, II, do Decreto nº 70.235/1972). No mesmo sentido de que não é possível inovar durante o PAF: Acórdão CARF nº 2202003.340, de 13/04/2016: DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO. INOVAÇÃO NA MOTIVAÇÃO. Não é admissível que o julgamento de primeira instância fundamente a manutenção da glosa de despesas médicas por motivos de fato e de direito não mencionados na autuação. Acórdão CARF nº 2301004.707, de 14/06/2016: INOVAÇÃO NA DECISÃO RECORRIDA. CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE. A decisão deve enfrentar integral e somente as acusações constantes da acusação contida no lançamento, quanto ao descumprimento de obrigação tributária principal. Novas acusações trazidas somente na decisão de primeira instância, é motivo de nulidade na parte inovada, devido ao cerceamento de defesa. Acórdão CARF nº 3201002.165, de 17/05/2016: DESPACHO DECISÓRIO. ALTERAÇÃO DE FUNDAMENTOS JURÍDICOS PELA DRJ. IMPOSSIBILIDADE. A autoridade administrativa julgadora não pode inovar o ato administrativo tributário em julgamento, alterando os critérios jurídicos que o nortearam. Acórdão CARF nº 1302001.725, de 08/12/2015: UTILIZAÇÃO DE CREDITÓRIO EM DUPLICIDADE. CONCLUSÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. INOVAÇÃO. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA O acórdão recorrido é inválido na parte em que, depois de superar a preliminar, adentra ao mérito e inova em questão não apontada pela fiscalização: utilização de crédito em duplicidade, caracterizando cerceamento de defesa pela supressão de uma das possibilidades de recurso a que o sujeito passivo teria direito. Nesse sentido, inexistindo esse argumento (de que se trata de remuneração pelo trabalho) no lançamento, entendo que deve ser aplicado a esses valores a mesma conclusão alcançada pelo i.Relator em relação aos valores pagos pela NIKE, i.e., que é sim possível a exploração dos direitos de imagem por meio de pessoa jurídica. Outrossim, ad argumentandum tantum, ainda que a autoridade lançadora tivesse qualificado esses rendimentos como provenientes da relação empregatícia o que não fez , entendo que tal tese tampouco pode prevalecer no caso concreto. A verdade é que a Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé), que estabelece as regras gerais do desporto, trata em diversas ocasiões sobre o direito de imagem; em mais de uma Fl. 499DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 482 37 dessas oportunidades, apresenta a cessão de tais direitos em cumulação ao vínculo empregatício, deixando claro que eles não se confundem: Art. 31. A entidade de prática desportiva empregadora que estiver com pagamento de salário ou de contrato de direito de imagem de atleta profissional em atraso, no todo ou em parte, por período igual ou superior a três meses, terá o contrato especial de trabalho desportivo daquele atleta rescindido, ficando o atleta livre para transferirse para qualquer outra entidade de prática desportiva de mesma modalidade, nacional ou internacional, e exigir a cláusula compensatória desportiva e os haveres devidos. (Redação dada pela Lei nº 13.155, de 2015) (...) Art. 87A. O direito ao uso da imagem do atleta pode ser por ele cedido ou explorado, mediante ajuste contratual de natureza civil e com fixação de direitos, deveres e condições inconfundíveis com o contrato especial de trabalho desportivo. (Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011). Parágrafo único. Quando houver, por parte do atleta, a cessão de direitos ao uso de sua imagem para a entidade de prática desportiva detentora do contrato especial de trabalho desportivo, o valor correspondente ao uso da imagem não poderá ultrapassar 40% (quarenta por cento) da remuneração total paga ao atleta, composta pela soma do salário e dos valores pagos pelo direito ao uso da imagem. (Incluído pela Lei nº 13.155, de 2015) Em outras palavras, reconhece a Lei que a entidade desportiva empregadora (in casu, o Internacional) pode cumular o salário com pagamentos referentes a direito de imagem, valores esses que não se confundem. Se é verdade que esses comandos só foram alcançados pelas Leis nº 12.395/2011 e nº 13.155/2015, também é verdade que essas Leis não criaram a permissão para a cumulação, elas apenas a reconheceram. A alteração do art. 31 serviu apenas para ampliar a proteção ao atleta: antes, ele tinha direito à cumulação de salário e de pagamentos referentes ao direito de imagem, mas apenas o atraso em relação àquele (salário), dava ao atleta o direito de rescindir o contrato; atualmente, devido à ampliação da proteção ao atleta, ele também pode rescindir o contrato de trabalho caso o time esteja atrasado em relação aos pagamentos dos direitos de imagem. Podese argumentar que essa previsão apenas reforça a tese de que os pagamentos referentes ao direito de imagem são decorrentes da prestação do serviço empregatício, posto que, inclusive, permite a rescisão do contrato de trabalho em caso de mora. Acontece que, nos termos do art. 110 do CTN, a Lei Tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance dos institutos, conceitos e formas do direito privado; se a Lei não pode fazêlo, com ainda mais razão concluo que não pode a autoridade lançadora, nem estes julgadores, alterarem o conteúdo das relações privadas com base meramente em interpretação. Nesses termos, quando o direito privado permite que duas pessoas firmem mais de um negócio entre si especificamente um contrato de trabalho e um contrato de exploração de direitos de Fl. 500DF CARF MF 38 imagem então não pode a autoridade lançadora desconsiderar um deles ao simples argumento de que está abarcado pelo outro negócio jurídico. Já a inclusão do art. 87A serviu para esclarecer que os valores pagos a título de direito de imagem não se confundem com rendimentos decorrentes de contrato especial de trabalho desportivo. Reforçase, assim, o quanto explanado anteriormente. Ora, se é possível um empregador firmar contrato de exploração de direitos de imagem com um empregado (vide comando supratranscrito), com ainda mais razão é necessário concluir que pode firmar um contrato da mesma natureza com outrem. Mais, ainda que o rendimento fosse da pessoa física o que não se observa in casu não é possível afirmar que se trata de rendimentos decorrentes do trabalho, como concluiu o lançamento, mas sim decorrentes da exploração do direito de imagem, como expressamente permite a legislação. Mais, a Lei nº 9.615/1998 ainda prevê os atletas perceberem valores referentes aos seus direitos de imagem mesmo decorrentes da sua participação nos espetáculos ou eventos desportivos. Efetivamente, o art. 42 da Lei, tanto na redação original vigente à época dos fatos geradores quanto na redação alterada pela Lei nº 12.395/2011, garantem ao atletas o direito de receber uma porcentagem dos valores pagos às entidades desportivas pela concessão do direito de transmitir as imagens do espetáculo ou eventos desportivos (direito de arena). É, em outras palavras, um rendimento decorrente da exploração do direito de imagem do atleta que advém da própria atividade empregatícia, in casu, e que nem por isso se confunde com salário. Não é sem razão a conclusão do i.Relator de que inexiste autonomia entre o contrato de cessão do direito de imagem do Contribuinte para o "Internacional" e o contrato de trabalho. Efetivamente, são contratos vinculados, sendo aquele (contrato de cessão do direito de imagem) acessório a este (contrato de trabalho). Essa é, inclusive, a conclusão alcançada pelo STJ: CONFLITO DE COMPETÊNCIA. Clube esportivo. Jogador de futebol. Contrato de trabalho. Contrato de imagem. Celebrados contratos coligados, para prestação de serviço como atleta e para uso da imagem, o contrato principal é o de trabalho, portanto, a demanda surgida entre as partes deve ser resolvida na Justiça do Trabalho. Conflito conhecido e declarada a competência da Justiça Trabalhista. (CC 34.504/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, Rel. p/ Acórdão Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 12/03/2003, DJ 16/06/2003, p. 256) Nem por isso, contudo, podese afirmar que existe confusão entre os contratos. Os vínculos são diversos: de um lado, o contrato de cessão de direito de imagem tem natureza civil (como bem apontou o art. 87A, da Lei nº 9.615/1998) e tem por objeto a exploração do direito personalíssimo de imagem; de outro lado, o contrato de trabalho nem natureza trabalhista e tem por objeto a criação de um vinculo empregatício. Inclusive, o precedente do STJ citado chega à mesma conclusão, razão pela qual transcreve o brilhante voto da relatora: Inexiste divergência entre os juízes suscitados acerca da autonomia entre o contrato de trabalho desportivo e o negócio jurídico de licenciamento de imagem. Fl. 501DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 483 39 Pretende o suscitante firmar a controvérsia em torno das obrigações tidas e assumidas no Contrato de Cessão de Uso de Imagem como se fossem de cunho trabalhista, que, a rigor, sequer necessitariam de expressa previsão em contrato autônomo, a teor do disposto no artigo 42 da Lei 9.615, de 24/03/98, que disciplina o chamado direito de arena. Ocorre que esta questão não foi objeto de análise seja pelo juízo cível, seja pelo juízo trabalhista. A controvérsia fulcrase, pois, no exame da vinculação dos contratos trabalhista e de licenciamento de imagem tãosomente em razão do aspecto temporal, ou seja, se vigente, tem ele o condão de interferir no primeiro já findo, atando o jogador à agremiação desportiva, ao ponto de não mais poder contratar com qualquer outra no prazo de duração da cessão. Notese que nestes termos foi formulado o pedido do presente conflito, não havendo qualquer solicitação no sentido de conectar o contrato de cessão de imagem ao laboral para fins de perceber os ganhos daquele oriundos na qualidade de verbas salariais. Delimitada a quaestio iuris, importa ponderar que, no caso, o contrato de cessão de direito de uso de imagem do atleta excede o chamado direito de arena (o direito de autorizar a fixação, transmissão ou retransmissão de imagem de espetáculo desportivo de que participe de exploração da entidade de prática desportiva) e confere exclusividade de uso comercial de sua imagem, voz, nome e ou apelido desportivo, até mesmo para filmes comerciais e promocionais, outdoors, anúncios, etc., tem natureza civil. Não envolve relação de direito do trabalho. Conseqüentemente, refoge à competência da Justiça Trabalhista apreciar a lide oriunda do contrato de licenciamento de imagem, ainda que entre as partes contratantes se encontre ao lado da pessoa jurídica, o atleta de futebol profissional como Anuente. É que o dissídio não se configura entre trabalhador e empregador, sob a dependência deste e mediante salário. Importante, contudo, registrar a prática denunciada por Álvaro Melo Filho, no Suplemento ao Comentário, quando examina o art. 29, § 3º, I e II, da Lei Pelé, in Novo Regime Jurídico do Desporto: Comentários à Lei 9.615 e suas alterações, quando afirma que: "luvas, prêmios e outros adicionais auferidos pelo atleta em razão do contrato de trabalho desportivo profissional sejam computados para o cálculo das indenizações. Excluemse, contudo, desse "montante" os ganhos oriundos de contrato de cessão de direito de imagem, de natureza civil, firmado, geralmente, com pessoa jurídica criada pelo atleta, numa estratégia de elisão fiscal". (...) Fl. 502DF CARF MF 40 "no caso de o atleta receber parte dos salários com lastro em contrato de cessão do direito de imagem, há uma significativa redução dos tributos e contribuições previdenciárias incidentes, mas tais valores não se enquadram no "montante da remuneração anual" para fins de cálculo das indenizações de formação e promoção." Iniludivelmente, essa "estratégia" realiza uma união de contratos, coligados por dependência unilateral, mas sua junção não implica em cumulação de competências absolutas, sujeitas a jurisdição diversas. É que segundo o escólio de Orlando Gomes, in Contratos, pág. 104/5, 24ª Edição, Editora Forense, no título Contratos Mistos e Coligados "A união com dependência unilateral verificase quando não há reciprocidade. Um só dos contratos é que depende do outro, tal coligação requer a subordinação de um contrato a outro, na sua existência e validade. Os contratos permanecem, no entanto, individualizados. (...) Em qualquer das suas formas, a coligação dos contratos não enseja as dificuldade que os contratos mistos provocam quanto ao direito aplicável, porque os contratos coligados não perdem a individualidade, aplicandoselhes o conjunto de regras próprias do tipo a que se ajustam." (...) Como se infere da análise de algumas cláusulas contratuais, o contrato de cessão de direito de imagem só revela interesse ao Clube enquanto o atleta estiver jogando pelo time. Assim, dando o jogador ensejo a rescisão unilateral do contrato por pactuar contrato de trabalho com outro Clube Desportista, ferindo a exclusividade dantes conferida ao Sport Club Corinthians Paulista (cláusula 6ª do contrato de licenciamento de imagem), iniludível que a questão se resolve a título de inadimplemento por culpa contratual. Registrase que a relatora restou vencida: tendo identificado a existência de dois contratos vinculados mas inconfundíveis, entendeu pela inexistência de conflito de competência. O acórdão, entretanto, foi pela existência do conflito de competência. Nem por isso, a fundamentação foi diferente. Efetivamente, o voto do i.Min. Ruy Rosado de Aguiar foi no sentido de: Portanto, no caso, com os contratos que estão sendo objeto dessas discussões judiciais, com tais cláusulas, seria mais conveniente que isso fosse visto pelo juiz do contrato principal, que é o Juiz do Trabalho, em cujo foro começou a primeira ação. Não desconheço a fundamentação da eminente Ministra Relatora quanto à natureza civil desse segundo contrato, mas me parece que estamos decidindo, aqui, apenas o problema da competência, a qual pode ser atribuída ao juiz do contrato principal. Daí por que, data venia, estaria em conhecer do Fl. 503DF CARF MF Processo nº 10935.005578/201045 Acórdão n.º 2202003.682 S2C2T2 Fl. 484 41 conflito e definir como competente, para resolver tais questões, a Justiça do Trabalho. Também o i.Min. Ari Pargendler reconheceu a existência de dois contratos diversos, votando pela existência do conflito de competência pelo fato de que um (o contrato de cessão do direito de imagem) era acessório ao outro (contrato de trabalho): Manifesto o conflito de competência, ele deve ser resolvido a partir da premissa de que a cessão de imagem constituiu um acessório do contrato de trabalho, nada importando que o prazo daquela seja maior do que o deste circunstância que só põe em relevo a subordinação de Luís Mário Miranda da Silva naquela avença. Em outras palavras, todos reconheceram que os contratos são diversos, têm natureza própria e existem de forma individualizada, ainda que estejam vinculados e um seja acessório do outro. Entendo ser essa a melhor forma de observar: tratamse de contratos apartados um com natureza civil e outro trabalhista que estão vinculados por uma relação de acessoriedade, não de confusão. O contrato de cessão do direito de imagem só tem interesse para as partes (time e jogador) enquanto estiverem vinculados pelo contrato de trabalho; não há que se imaginar que o jogador, já trabalhando para outro time, continue usando as marcas e fazendo propaganda para o time pretérito; igualmente, não é lógico que um time faça marketing de um jogador que já não compõe os seus quadros. In casu, que o Contribuinte apenas completou 18 anos em 02/09/2007, i.e., quase um mês depois de ser transferido para o Milan. Nesse sentido, a maior parte do tempo que jogou pelo "Internacional", o fez nos times de base, não como profissional. Argumenta a PGFN que o salário do jogador, estipulado em R$ 15.000,00 era baixo para o renome do jogador, e que os valores pagos a título de cessão de direitos de imagem certamente serviram para complementar a remuneração "digna" de uma "promessa do futebol". Não custa lembrar que o primeiro contrato de cessão de direitos de imagem contratado para viger por 36 meses tinha o valor total de R$ 18.000,00, ou seja, R$ 500,00 por mês. Não é crível que, ante um salário de R$ 15.000,00, a complementação em R$ 500,00 por mês seria incentivo relevante para a manutenção ou não do contrato. Mais, conforme dados da CBF, no início de 2016, mais de 80% dos jogadores profissionais de futebol recebem salários de até R$ 1.000,00 por mês. Quando se eleva o salário para o limite de até R$ 5.000,00, alcançase a mais de 96% do universo dos jogadores profissionais1. Portanto, um salário de R$ 15.000,00 por mês, para um jogador profissional por maiores que fossem as expectativas em 2007 não era algo indigno, como parece querer fazer crer a PGFN. É verdade que o valor acordado pelos direitos de imagem foram alterados poucos meses depois, passando para o agora sim relevante, em comparação montante de R$ 10.500,00 por mês. Há nos autos algum indício, afirmação ou mesmo sugestão de que esse aumento já estivesse préacordado? Não. A que se deveu esse aumento? À meteórica fama adquirida pelo jovem jogador. Ora, o Código Civil de 2002 estabelece em seus arts. 478 e 1 CONFEDERAÇÃO BRASÍLEIRA DE FUTEBOL (CBF), Raiox do futebol: salário dos jogadores, disponível em: http://www.cbf.com.br/noticias/acbf/raioxdofutebolsalariodosjogadores#.WJr3GW8rKM8, acessado em 31/01/2017. Fl. 504DF CARF MF 42 especialmente 479 a possibilidade de renegociação de contratos de execução continuada ou diferida, como é o caso, quando acontecimentos extraordinários e imprevisíveis levarem a uma excessiva onerosidade para em desfavor de uma das partes. É o caso presente, em que o jogador se tornou mais famoso do que se poderia prever. Enfim, seja porque não há no lançamento a qualificação do rendimento pago pelo Internacional como remuneração do vínculo empregatício, seja porque efetivamente não tem essa natureza inclusive por determinação legal , entendo que os valores pagos pelo "Internacional" a título de cessão de direitos de imagem têm a mesma natureza dos valores pela NIKE e, portanto, deve igualmente ser excluído da base de cálculo, vez que pertencentes à pessoa jurídica. Assinado digitalmente Dilson Jatahy Fonseca Neto Fl. 505DF CARF MF
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Numero do processo: 13683.000124/2003-56
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Mar 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Apr 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas de Administração Tributária
Período de apuração: 14/05/2003 a 31/05/2003
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA.
A autoridade administrativa tem cinco anos para homologar a compensação declarada pelo sujeito passivo, sob pena de que a homologação ocorra em face do fato extintivo previsto no art. 74, § 5º da Lei nº 9.430/96. Esta regra aplica-se inclusive para as DCOMP apresentadas antes da vigência da MP nº 135, de 30/10/2003.
Numero da decisão: 9303-004.701
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal (relator), Júlio César Alves Ramos e Rodrigo da Costa Possas, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado).
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Andrada Marcio Canuto Natal - Relator.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício).
Nome do relator: ANDRADA MARCIO CANUTO NATAL
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HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. A autoridade administrativa tem cinco anos para homologar a compensação declarada pelo sujeito passivo, sob pena de que a homologação ocorra em face do fato extintivo previsto no art. 74, § 5º da Lei nº 9.430/96. Esta regra aplicase inclusive para as DCOMP apresentadas antes da vigência da MP nº 135, de 30/10/2003. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal (relator), Júlio César Alves Ramos e Rodrigo da Costa Possas, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado). (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Andrada Marcio Canuto Natal Relator. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Júlio César Alves Ramos, Tatiana Midori Migiyama, Andrada Márcio Canuto Natal, Demes Brito, Érika Costa AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 68 3. 00 01 24 /2 00 3- 56 Fl. 324DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 3 2 Camargos Autran, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Fl. 325DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 4 3 Relatório Adoto o relatório do Acórdão nº 380301.972, de 2/9/2011, efls. 137/140, por meio do qual a 3ª Turma Especial da 3ª Seção de Julgamento do CARF julgou procedente Recurso Voluntário da contribuinte, para descrever os fatos até aquela fase processual, observando que a indicação de folhas naquele relatório se refere ao processo papel. CÉRAMUS BAHIA S/A PRODUTOS CERÂMICOS apresentou, em 14/05/2003, a Declaração de Compensação de fls. 01, acompanhada, às fls. 02, do documento intitulado "Créditos decorrentes de decisão judicial", com o objetivo de compensar os débitos apontados ás fls. 01, no valor total de R$ 73.829,68, com créditos de terceiros, pertencentes à empresa Nitriflex SA Indústria e Comércio, CNPJ nº 42.147.496/000170, oriundo da ação judicial nº 99.00.60542, da 4ª Vara Federal de São João de Meriti/RJ, sem informação relativa ao trânsito em julgado da decisão favorável, conforme formulário de fls. 02. Instruem os autos, às fls.14/22, cópias de peças da Apelação em Mandado de Segurança nº 40852 e dos Embargos de Declaração em Embargos de Declaração na Apelação em Mandado de Segurança nº 40852, Processo nº 2001.02.01.0352326, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, no Rio de Janeiro/RJ, que revelam a existência de decisão judicial, autorizando o estabelecimento de Nitriflex S A Indústria e Comércio a compensar créditos, sem a restrição, julgada ilegal, da Instrução Normativa SRF nº 41, de 7 de abril de 2000. A DRFNova Iguaçu acolheu os termos do Parecer 248/2008, fls. 33 a 35, e não homologou a compensação, Despacho Decisório fl. 36. Sobreveio reclamação, fls. 43 a 70, conhecida como Manifestação de Inconformidade pela 3ª Turma da DRJ/JFA, que, nada obstante, julgoua improcedente, mantendo intacto o Despacho Decisório da DRFNIU. O Acórdão da DRJ/JFA, nº 0922.347, de 29 de janeiro de 2009, fls. 83 a 91, teve ementa vazada nos seguintes termos: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 14/05/2003 a 31/05/2003 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE TERCEIRO IMPOSSIBILIDADE. Os formulários correspondentes às "Declarações de Compensação" apresentados a partir de 1º de outubro de 2002, de débitos do sujeito passivo com crédito de terceiros, esbarram em inequívoca disposição legal MP 66, de 2002, convertida na Lei n° 10.637, de 2002 impeditiva de compensações da espécie. É descabida a pretensão de legitimar compensações de débitos do requerente, com créditos de terceiros, declaradas após 1º de outubro de 2002, pretensão essa fundada em decisão judicial proferida anteriormente àquela data, que afastou a vedação, outrora existente, em instrução normativa. Fl. 326DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 5 4 Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 14/05/2003 a 31/05/2003 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. DOUTRINA E JURISPRUDÊNCIA. 1. Não cabe apreciar questões relativas a ofensa a princípios constitucionais, tais como da legalidade, da nãocumulatividade ou da irretroatividade de lei competindo, no âmbito administrativo, tão somente aplicar o direito tributário positivado. 2. A doutrina trazida ao processo, não é texto normativo não ensejando, pois, subordinação administrativa. 3. A jurisprudência administrativa e judicial colacionadas não possuem legalmente eficácia normativa, não se constituindo em normas gerais de direito tributário. Compensação não Homologada Cuidase agora de recurso voluntário interposto contra a decisão da DRJ/JFA 3ª Turma. O arrazoado de fls. 97 a 118, após resumo dos fatos relacionados com a lide, controverte as seguintes questões: a) A homologação tácita da compensação pelo decurso de 5 (cinco) anos sem a homologação expressa do fisco; b) a regularidade de compensação de débitos da recorrente com crédito da empresa NITRIFLEX S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO, reconhecida por decisão judicial transitada em julgado anteriormente à data em que entrou em vigor a vedação introduzida pela Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002; c) a irretroatividade da nova redação do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, que só entrou em vigor 01/10/2002, não podendo afetar créditos desde então gerados, e que mesmo que se emprestasse vigor à MP nº 66, de 2002, somente créditos gerados a partir de 29/08/2002 poderiam ser afetados pela novel regra, não alcançando, portanto, o direito creditório em tela, anteriores àquela data (08/1988 até 07/1998; d) a cogência da jurisprudência e da doutrina referidas, que não deixariam duvidas acerca da procedência das alegações da recorrente. Conclui pedindo a homologação da compensação. O Acórdão de Recurso Voluntário nº 380301.972 possui a seguinte ementa: "Assunto: Normas de Administração Tributária Período de apuração: 14/05/2003 a 31/05/2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO DE DÉBITO COM CRÉDITO DE TERCEIRO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. OCORRÊNCIA. Fl. 327DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 6 5 DComp formulada em 14/05/2003 queda tacitamente homologada em 14/05/2008, antes da lavratura do Despacho Decisório que expressamente não a homologou." Contra esta decisão a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial de divergência, fls. 145/146 do eprocesso, sustentando que a decisão divergiu do Acórdão nº. 20311.648 quanto à aplicação do prazo de cinco anos para homologação da compensação, previsto no art. 74, § 5º, da Lei nº 9.430, de 1996, aos pedidos protocolados antes de 31/10/2003, data da publicação da MP nº 135, de 2003. Cópia de inteiro teor do acórdão paradigma nº 20311.648 foi juntada às folhas 166/177 do eprocesso. Por meio do Despacho de Exame de Admissibilidade nº 330000.472, de 8/11/2013, fls. 188/190 do eprocesso, o Recurso Especial foi admitido. A contribuinte foi intimada do Acórdão nº 380301.972, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do despacho de exame de admissibilidade em 24/10/2014, fl. 196 do e processo, e apresentou contrarrazões em 5/11/2004, fls. 201/213, acompanhadas de cópias de documentos às folhas 214/316, alegando que: i) o Recurso Especial não deve ser conhecido porque não trouxe demonstração analítica da divergência jurisprudencial, com a transcrição dos trechos dos acórdãos que configurem o dissídio, a evidenciar a similitude fática entre os casos apontados e a divergência de interpretações; ii) se conhecido o Recurso Especial, a decisão recorrida deve ser mantida; iii) alternativamente, se reformada a decisão, sob o entendimento de que não houve homologação tácita, que se declare a prescrição do direito de a Fazenda Nacional cobrar os débitos abarcados neste processo. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, Relator. 1. Preliminar de nãoconhecimento do Recurso Especial. A divergência jurisprudencial, que pode dar ensejo à interposição de Recurso Especial à CSRF, caracterizase quando, em situações semelhantes, são adotadas soluções divergentes por Colegiados diferentes, em face do mesmo arcabouço normativo. O Recurso Especial da Fazenda Nacional, instruído com cópia de inteiro teor do acórdão paradigma, demonstra analiticamente a divergência suscitada, com transcrições das ementas dos acórdãos recorrido e paradigma, referências a seus votos condutores, bem como transcrições do voto condutor da decisão paradigma e de declaração de voto desta mesma decisão. Fl. 328DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 7 6 A exigência de demonstração da divergência não implica que se tenham que justapor, lado a lado, as assertivas dos votos condutores dos acórdãos recorrido e paradigma. Concordando com o despacho de admissibilidade, ficou comprovada e demonstrada a divergência jurisprudencial alegada, assim como foram atendidos os demais pressupostos de admissibilidade, devendo o recurso especial ser conhecido. Passase à discussão da matéria em relação a qual foi comprovada e demonstrada a divergência de interpretação da norma tributária: a homologação tácita. 2. Homologação tácita Esta questão não é nova no âmbito dos julgamentos administrativos no CARF, e esta Turma já se posicionou, por maioria de votos, favorável ao entendimento de que a criação do prazo de cinco anos para homologação de compensação somente alcança as compensações efetuadas a partir da entrada em vigor da Medida Provisória nº 135, de 30/10/2003 (D.O.U. 30/10/2003, ed. extra), convertida na Lei nº 10.833, de 2003, conforme Acórdãos nºs. 9303003.300, de 25/3/2015, e 9303004.390, de 9/11/2016, logo, qualquer pedido de compensação examinado e cientificado à contribuinte antes de 30/10/2008 não pode ser considerado tacitamente homologado. No Acórdão nº 9303004.390, em que fui designado para redigir o voto vencedor, adotei como fundamento o voto do Conselheiro Henrique Pinheiro Torres, proferido no julgamento do PAF 13502.000589/200398, que tinha como interessada a própria Ceramus Bahia SA Produtos Cerâmicos, tratava do mesmo assunto deste processo e referiase ao período de apuração de 18/6/2003 a 30/6/2003, enquanto este processo trata do período de apuração de 14/05/2003 a 31/05/2003. No processo 13502.000589/200398 da Ceramus Bahia S/A Produtos Cerâmicos, conforme voto do Acórdão nº 9303003.300, fl. 428 daquele PAF, os pedidos de compensação foram examinados pela Unidade da RFB antes de 30/10/2008. O mesmo ocorreu no processo ora em julgamento, conforme Parecer e Despacho Decisório da DRFNova Iguaçu de 30/5/2008, às fls. 38/41 do eprocesso, e intimação da decisão de nãohomologação da compensação, que ocorreu em 16/7/2008, conforme Aviso de RecebimentoAR à folha 47 do eprocesso. Assim, com as licenças de praxe e homenagens ao Conselheiro Henrique Pinheiro Torres, adoto como fundamentos deste voto as razões de decidir do voto condutor do Acórdão 9303003.300, que passo a transcrever: "(...) A teor do relatado, a matéria devolvida ao Colegiado cingese à questão decidir se as compensação realizadas pelo sujeito passivo, à data da decisão da autoridade preparadora, encontravamse homologadas tacitamente. O colegiado recorrido entendeu que, na data em que fora prolatado o despacho decisório já se havia exaurido o prazo da homologação previsto no § 5º do art. 74 da lei nº 9.430/96, com a redação dada pelo art. 17 da Medida Provisória nº 135, de 30/10/2003, convertida na Lei 10.833/2003. Fl. 329DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 8 7 O Regime jurídico das compensações relativas a tributos administrados pela Receita Federal é regido pelo Art. 74 da Lei 9.430/1996 e suas alterações, dentre essas, ganha destaque a introduzida pelo art. 49 da Lei 10.637, de 30/12/2002, resultado da conversão em Lei da Medida Provisória nº 66, de 29/08/2002. A grande alteração trazida por essa MP foi a que previu que a declaração de compensação extinguiria, antecipadamente, o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação1. Outra mudança que merece ser citada foi a do §4º desse mesmo artigo2, que transformou os pedidos de compensação, pendentes de apreciação pela autoridade administrativa, em declarações de compensação, desde o seu protocolo. Posteriormente, o art. 17 da Medida Provisória 135, de 30/10/2003, convertida na Lei 10.833, de 29/12/2003, introduziu novas alterações no art. 74 da Lei 9.430/1996, dentre as quais destacase o § 5° 3, que fixa prazo de cinco anos, contados da data da entrega da declaração, para a homologação da compensação declarada. Diante desse quadro de alterações na legislação, a pergunta a ser feita é: essas mudanças na legislação de regência, alcança os pedidos de compensação protocolados sob o auspícios da legislação anterior? No caso da transformação de pedidos de compensação em declaração de compensação, dúvida não há, pois a Lei expressamente faz essa transformação. Todavia, no tocante à criação do prazo de homologação, essa alteração alcança apenas as compensações efetuadas a partir da vigência do dispositivo legal que introduziu tal prazo no ordenamento jurídico, ou seja, a partir de 30 de outubro de 2003, data em que foi editada a Medida Provisória 135, convertida na Lei 10.833/2003. As normas de Direito Processual e o Direito Intertemporal Os processos instaurados na vigência da lei nova não oferecem maiores dificuldades, pois serão por ela disciplinados. Tampouco há dificuldade de entender os efeitos da lei nova sobre processos findos, que estão acobertados pelo manto da coisa julgada. Todavia, o mesmo não se pode dizer da situação em que, no curso do processo, haja alteração da lei processual, pois não há na legislação processual qualquer regulamentação de como e em que fase processual irá ocorrer a incidência da nova lei. Três teorias tentaram solucionar o problema. Teoria da unidade processual. Os adeptos dessa teoria consideram o processo como um todo, uma unidade, desdobrado em atos diversos. Essa característica unitária faria com que o processo fosse regido por uma única lei, a nova ou a velha. Mas como, em 4regra, a lei não retroage, a lei antiga deve se impor, de modo a evitar a retroação da nova, que acarretaria prejuízo dos atos já praticados até a sua vigência. 1 § 2º A compensação declarada à Secretaria da Receita Federal extingue o crédito tributário, sob condição resolutória de sua ulterior homologação. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 2002) 2 § 4º Os pedidos de compensação pendentes de apreciação pela autoridade administrativa serão considerados declaração de compensação, desde o seu protocolo, para os efeitos previstos neste artigo.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) 3 § 5o O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) 4 Regra geral, a lei produz efeitos para frentes, à exceção da lei penal mais benéfica e da que for meramente interpretativa. Fl. 330DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 9 8 Teoria das fases processuais. Essa corrente, ao contrário da anterior, defende que o processo seria constituído de fases autônomas (postulatória, instrutória e de julgamento), cada uma disciplinada pela lei vigente ao seu tempo. Teoria do isolamento dos atos processuais. Segundo os defensores dessa corrente, a lei nova não alcançaria os atos processuais já praticados, nem seus efeitos, aplicandose apenas aos atos que vierem a ser praticados após sua vigência, sem limitações quanto às fases processuais. Em síntese, por essa teoria, a lei nova, em relação ao processo pendente, confere eficácia aos atos processuais já realizados e passa a disciplinar os demais a partir de sua vigência, respeitando o ato jurídico perfeito (acabado) e o direito adquirido de praticar um ato processual iniciado e ainda pendente. Na linha desse raciocínio, temse que se um processo foi iniciado sob a égide de uma lei processual e, em seu curso, nova lei foi publicada, o ato praticado sob os auspícios da lei antiga terá validade, sob pena de se vulnerar os princípios do direito adquirido e do ato jurídico perfeito, cláusulas pétreas presentes na Carta Política da República. Não se pode olvidar, ainda, alguns princípios norteadores do sistema processual brasileiro, tais como o Princípio da Imediatividade, o Princípio da Irretroatividade da Norma Processual, e o Princípio do Tempus Regit Actum. Pelo primeiro, entendese que, uma vez vigente, a norma passa a valer para todos os processos pendentes e futuros a partir de então, como previsto no 5art. 1.211 do CPC; já pelo segundo, o da irretroatividade da lei processual, temse a impossibilidade da norma processual nova alcançar ato processual praticado sob o abrigo da lei antiga, por força do primado constitucional da defesa do direito adquirido e da proteção aos efeitos do ato jurídico perfeito, e, finalmente, pelo terceiro, que nada mais é do que a síntese dos dois primeiros, impõese a observância dos atos praticados sob a égide da lei revogada, bem como dos seus efeitos, vedandose a retroação da lei nova. Sob esse prisma, a lei em vigor na data da protocolização do pedido de compensação, ou da entrega da declaração de compensação, rege todo o processo. Hoje, encontrase apascentado, na doutrina e na jurisprudência, o entendimento de que o sistema processual brasileiro abraçou a Teoria do Isolamento dos Atos Processuais, segundo a qual, os atos processuais são realizados durante o curso normal do processo e, uma vez inserida nova norma processual ao ordenamento jurídico, em relação a processo pendente, essa novel legislação regerá apenas os atos que ainda deverão ser praticados. Esse isolamento dos atos processuais garante que a lei nova não alcançará os efeitos produzidos por atos já realizados até aquela fase do processo, por ato préexistente à nova lei. É por demais óbvio que para os processos iniciados após a vigência da norma nova, não há que se falar em isolamento, e todos os atos do processo, desde o início, serão regidos por essa nova legislação. Sobre o tema, Galeno Lacerda6, ensina que a lei nova "não pode atingir situações processuais já constituídas ou extintas sob o império da lei antiga, isto é, não pode ferir os respectivos direitos processuais adquiridos. O princípio 5 Art. 1.211. Este Código regerá o processo civil em todo o território brasileiro. Ao entrar em vigor, suas disposições aplicarseão desde logo aos processos pendentes 6 O novo direito processual civil e os feitos pendentes, Rio de Janeiro, Forense, 1974, p. 13. Fl. 331DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 10 9 constitucional de amparo a esses direitos possui, aqui, também, plena e integral vigência". Cândido Dinamarco Rangel, um dos maiores expoente da Teoria Geral do Processo, ensina que a lei nova processual não tem aplicação imediata nas situações seguintes: quando atingir o próprio direito de ação, de modo a impor ao sujeito novas competências ou priválo dos meios antes postos a sua disposição para a obtenção da tutela jurisdicional; quando retirar a proteção jurisdicional antes outorgada à determinada pretensão, excluindo ou comprometendo radicalmente a possibilidade do exame desta, de modo a tornar impossível ou particularmente difícil a tutela anteriormente prometida; quando seu objetivo é criar novas impossibilidades jurídicas; quando haja redução da possibilidade de ampla defesa, quando crie novas competências ou tornem irrelevantes as já existentes. De outro lado, o Código Tributário Nacional, em seu art. 106, traz, numerus clausus, as situações em que a lei tem efeitos pretéritos, quais sejam: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. A situação tratada nos autos não se enquadra em nenhuma das hipóteses enumeradas no artigo transcrito linhas acima, o que leva à conclusão inexorável que a alteração legislativa que introduziu o prazo de homologação tácita da compensação tributária não retroage para alcançar os pedidos efetuados anteriormente à vigência dos dispositivos veiculadores desse prazo. Por último, registro o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça sobre a lei aplicável à compensação. PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. TRIBUTÁRIO. COMPENSAÇÃO. 1. Inexiste contradição em acórdão que lança premissas harmônicas com as conclusões adotadas. Fl. 332DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 11 10 2. A jurisprudência atual da 1ª Seção é no sentido de que a compensação tributária há de regerse pela lei vigente no momento em que o contribuinte a aciona. 3. No caso, a compensação estava vinculada aos ditames da Lei nº 9430 de 1996, que exigia requerimento prévio ao órgão arrecadador. 4. Embargos rejeitados. (EDcl no AgRg no REsp 701865/MG EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL 2004/01596046, Rel Ministro JOSÉ DELGADO DJ 22/05/2006 p. 152). Diante do exposto, a conclusão inexorável é a de que a homologação tácita, por decurso de prazo, introduzida no ordenamento jurídico das compensações alcança os pedidos convertidos em Dcomp, mas apenas no sentido de que o prazo introduzido pela MP 135, de 30 de outubro de 2003, contase a partir dessa data, não havendo possibilidade de ser aplicado retroativamente. Aplicandose tal entendimento ao caso concreto, não há homologação tácita para nenhum dos pedidos ora em apreço, uma vez que todos foram examinados antes de 29 de outubro de 2008. Com essas considerações, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional para afastar a homologação tácita das compensações sob exame, e determinar o retorno dos autos ao Colegiado recorrido para que examine as demais questões acerca dessas compensações. (...)" As conclusões constantes do voto transcrito são perfeitamente aplicáveis ao presente caso. 3. Prescrição. Apesar de não se tratar de matéria para a qual tenha sido demonstrada e comprovada divergência, mesmo porque sequer foi prequestionada nestes autos, para que não se alegue omissão neste acórdão, tendo em vista que o art. 53 da Lei nº 11.941, de 27/5/2009, dispõe que a prescrição de créditos tributários pode ser reconhecida de ofício pela autoridade administrativa e que a contribuinte asseverou que se não for reconhecida a homologação tácita pela nãoaplicação da Lei nº 10.833, de 2003, às suas compensações, deverseá declarar a prescrição em relação aos débitos compensados, pois não se aplicaria ao caso o rito do PAF, o que implicaria que o prazo de cinco anos para exigência dos tributos terseia esgotado, destaquese o seguinte. Não se está assentando que a Lei nº 10.833, de 2003, não se aplica ao caso, mas sim que o prazo de homologação instituído por meio da MP nº 135, de 2003, convertida na Lei nº 10.833, de 2003, alcança apenas as compensações efetuadas a partir da vigência desta medida provisória, 30/10/2003. Foi afirmado no voto condutor do Acórdão nº 9303003.300, cujas razões de decidir são adotadas como fundamento deste voto, que a transformação de pedido de Fl. 333DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 12 11 compensação pendente de apreciação em declaração de compensação foi expressamente determinada pela lei (art. 74, §4º, da Lei nº 10.637, de 2002, conversão da MP nº 66, de 2002). Logo, não há qualquer repercussão deste entendimento na possibilidade de aplicação do rito previsto no Decreto nº 70.235, de 1972, ou no fato de que houve interposição de recurso administrativo, causa de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, conforme art. 151, III, do CTN. Uma vez que foi interposto recurso administrativo, que não houve decisão administrativa definitiva e que não se aplica aos processos administrativos fiscais a prescrição intercorrente7, então, não começou a contar o prazo para que a Fazenda Pública iniciasse ação para sua cobrança judicial, previsto no art. 174 do CTN. Por isto e considerando as razões que nos levam a concluir pela não ocorrência da homologação tácita, no presente caso, não há nada que justifique o reconhecimento de ofício da prescrição pela autoridade administrativa. Conclusão. Pelo exposto, especialmente, por entender que a todos os pedidos de compensação apreciados antes de 30 de outubro de 2008 não se aplica o prazo homologatório, previsto na Lei nº 10.833, de 2003, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional para declarar que não estavam homologadas tacitamente as compensações apresentadas no presente processo. Como a decisão de piso não adentrou no mérito do recurso voluntário apresentado pelo contribuinte, o presente processo deve retornar à instância a quo, para decidir sobre as demais questões não apreciadas. (assinado digitalmente) Andrada Márcio Canuto Natal 7 Súmula CARF nº 11: Não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal. Fl. 334DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 13 12 Voto Vencedor Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza Redator designado. Discordamos do il. Relator. Entendemos existirem equívocos intransponíveis nos fundamentos adotados no voto condutor do acórdão que embasa a sua decisão e que nela foi transcrita. O PRIMEIRO: A homologação tácita das compensações é matéria de direito material – corpo de normas que disciplinam as relações jurídicas entre as pessoas, entre as pessoas e seus bens etc –, não de direito adjetivo, o qual se destina a determinar o modo pelo qual se dá o exercício da jurisdição, as ações que cabem ao demandante e como se dão as defesas do demandado. Portanto, todo o arrazoado que se sustenta nesta premissa é, a nosso juízo, equivocado e nada resolve a matéria a ser dirimida. O SEGUNDO: O Art. 106 do CTN é norma cuja finalidade é dar segurança jurídica ao contribuinte, estabelecendo limites ao exercício da atividade legiferante do Estado (em total consonância com o que disciplina a própria Constituição Federal). Disciplina, também, a retroatividade benigna, a fim de que não se penalize diferentemente contribuintes diversos que cometeram a mesma falta. Não vemos como aplicálo para disciplinar os efeitos intertemporais das inovações legislativas quanto à homologação tácita das compensações. O TERCEIRO: O aresto do STJ citado no mesmo acórdão versa, tão somente, sobre o direito à compensação – modo de extinção de uma relação jurídica obrigacional mediante o confronto de créditos e débitos do Fisco e do contribuinte, que, no entendimento nele plasmado, regese pela legislação vigente à época em que requerida (ver o item 3 do aresto). Dele não se pode concluir que o prazo de cinco anos para que se dê a homologação tácita estabelecida na Lei nº 10.833, de 2003, só operaria efeitos futuros, ou seja, quanto às DCOMPs apresentadas somente depois do início de sua vigência, notadamente porque, se assim fosse, o legislador o teria dito expressamente. A propósito: por que, afinal, transformar os pedidos de compensação apresentados antes da Medida Provisória MP nº 135, de 2002, se não fosse para lhes aplicar toda a disciplina da novel Declaração de Compensação DCOMP? Por fim, o entendimento que ora vimos de expor é o mesmo adotado pela própria RFB, como se pode observar da ementa da Solução de Consulta Interna Cosit nº 1, de 04/01/2006: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Homologação tácita de compensação objeto de pedido de compensação convertido em declaração de compensação. PEDIDO DE COMPENSAÇÃO CONVERTIDO EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PRAZO DE CINCO ANOS PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA DA COMPENSAÇÃO. Fl. 335DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 14 13 INEXISTÊNCIA DE HOMOLOGAÇÃO TÁCITA PARA PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO NÃO CONVERTIDOS EM DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. OBRIGATORIEDADE DE EXAME DO PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. CABIMENTO DE MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE CONTRA O NÃO RECONHECIMENTO DO CRÉDITO OBJETO DO PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. O prazo para a homologação de compensação requerida à Secretaria da Receita Federal tem sua contagem iniciada na data do protocolo do pedido de compensação convertido em declaração de compensação. Será considerada tacitamente homologada, mediante despacho proferido pela autoridade competente da Secretaria da Receita Federal, a compensação objeto de pedido de compensação convertido em declaração de compensação que não seja objeto de despacho decisório proferido no prazo de cinco anos, contado da data do protocolo do pedido, independentemente da procedência e do montante do crédito. Não foram convertidos em declaração de compensação os pedidos de compensação de créditos de terceiros, “crédito prêmio” instituído pelo art. 1º do DecretoLei nº 491, de 1969, título público, crédito decorrente de decisão judicial não transitada em julgado e crédito que não se refira a tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. Os pedidos de compensação não convertidos em Declaração de Compensação não estão sujeitos à homologação tácita e devem ser deferidos ou indeferidos pela autoridade competente da Secretaria da Receita Federal. Na hipótese de pedido de compensação convertido em declaração de compensação, a autoridade competente da Secretaria da Receita Federal, após reconhecer a homologação tácita da compensação declarada, deve se posicionar quanto à procedência e ao montante do crédito do sujeito passivo para com a União. Quando o crédito for reconhecido e tiver valor superior ao total do débito objeto da compensação tacitamente homologada, a autoridade competente da Secretaria da Receita Federal deverá promover a restituição do saldo creditório remanescente que foi objeto de pedido de restituição, desde que inexistam outros débitos a serem compensados com o referido crédito. Ainda que haja o reconhecimento da homologação tácita da compensação pela autoridade competente da Secretaria da Receita Federal, é cabível a apresentação de manifestação de inconformidade contra o nãoreconhecimento do direito creditório quando o crédito informado pelo sujeito passivo em seu pedido de compensação convertido em declaração de compensação não for integralmente reconhecido. Fl. 336DF CARF MF Processo nº 13683.000124/200356 Acórdão n.º 9303004.701 CSRFT3 Fl. 15 14 A DRJ, ao apreciar manifestação de inconformidade contra o nãoreconhecimento do crédito objeto do pedido de restituição cumulado com pedido de compensação, pode reconhecer o exato valor do crédito do sujeito passivo para com a União, bem como o exato valor do débito compensado. DISPOSITIVOS LEGAIS: Decretolei nº 491, de 1969, art. 1º; Decreto nº 70.235, de 1972, art. 59; Lei nº 8.748, de 1993, arts. 2º e 3º, inciso I, este com a redação determinada pelo art. 28 da Lei nº 10.522, de 2002; Lei nº 9.430, de 1996, art. 74, com a redação determinada pelo art. 49 da Lei nº 10.637, de 2002 e pelo art. 17 da Lei nº 10.833, de 2003; Instrução Normativa SRF nº 460, de 2004, arts. 48, 69 e 70. Ante o exposto, sendo apenas esta a matéria debatida no recurso especial, nego lhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 337DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.008990/2001-97
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Apr 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 1998
IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. JULGAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL.
Nos casos de rendimentos recebidos acumuladamente, deve o imposto de renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543-B do CPC, não prosperando, assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento.
Numero da decisão: 2402-005.723
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso, rejeitar a preliminar e, no mérito, por maioria de votos, em cancelar o lançamento. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira e Mário Pereira de Pinho Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Ronnie Soares Anderson.
(assinado digitalmente)
Mario Pereira de Pinho Filho Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Túlio Teotônio de Melo Pereira - Relator
(assinado digitalmente)
Ronnie Soares Anderson - Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Mario Pereira de Pinho Filho, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
Nome do relator: TULIO TEOTONIO DE MELO PEREIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso, rejeitar a preliminar e, no mérito, por maioria de votos, em cancelar o lançamento. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira e Mário Pereira de Pinho Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Ronnie Soares Anderson. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Túlio Teotônio de Melo Pereira - Relator (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson - Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Mario Pereira de Pinho Filho, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild.
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RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. FORMA DE TRIBUTAÇÃO. JULGAMENTO DO STF EM REPERCUSSÃO GERAL. Nos casos de rendimentos recebidos acumuladamente, deve o imposto de renda ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406 realizado sob o rito do art. 543B do CPC, não prosperando, assim, lançamento constituído em desacordo com tal entendimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 00 89 90 /2 00 1- 97 Fl. 359DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso, rejeitar a preliminar e, no mérito, por maioria de votos, em cancelar o lançamento. Vencidos os Conselheiros Túlio Teotônio de Melo Pereira e Mário Pereira de Pinho Filho. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Ronnie Soares Anderson. (assinado digitalmente) Mario Pereira de Pinho Filho – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Túlio Teotônio de Melo Pereira Relator (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Ronnie Soares Anderson, Mario Pereira de Pinho Filho, Túlio Teotônio de Melo Pereira, Jamed Abdul Nasser Feitoza, João Victor Ribeiro Aldinucci e Bianca Felicia Rothschild. Fl. 360DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório Tratase de recurso voluntário cujo julgamento foi convertido em diligência, conforme resolução de fls. 227/231, na qual o feito foi assim relatado: O recurso voluntário em exame pretende a reforma do Acórdão DRJ/POA n° 7.246, de 06/01/2006 (fls. 119/135), que, por unanimidade de votos, julgou procedente em parte a exigência tributária. A infração indicada no lançamento e os argumentos de defesa suscitados pelo contribuinte foram sumariados pela pelo Órgão julgador a quo, nos seguintes termos: "Mediante Auto de Infração de fl. 58, Demonstrativos e Descrição dos Fatos às fls. 59 a 62 e 99 a 100, exigese do contribuinte acima qualificado o recolhimento da importância de R$ 486.569,64, calculados até julho de 2001, em virtude da constatação de infringências a dispositivos legais, referente ao anocalendário de 1997, descritas a seguir. A autoridade lançadora detectou omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, decorrentes de trabalho com vínculo empregatício. Referente a acerto no valor dos rendimentos tributáveis, recebidos de Ação Judicial no processo n° 1763.014/819 Pirelli Cabos SA CNPJ: 61.150.751/0001 89, no valor de RS 828.000,00. Enquadramento Legal: arts. 1o a 3o, e parágrafos, e art. 6o da Lei n° 7.713/1988; arts. 1o a 3o da Lei n° 8.134/1990; arts. 1o, 3o, 5o, 6o, 11 e 32 da Lei n° 9.250/1995 e arts. 43 e 44 do Decreto n° 3.000/1999 RIR/99 (fl. 60); Foi identificada dedução indevida a titulo de livro caixa. Glosa do valor de R$ 27.720,19, informados na declaração de ajuste anual como livrocaixa, mas o valor referese a despesas com honorários advocatícios. Enquadramento Legal: art. 6o, incisos I a III e parágrafos da Lei n° 8.134/1990 e no art. 8o, inciso II, alínea "g", da Lei n° 9.250/1995 (fl. 60); A autoridade lançadora detectou ainda dedução indevida de imposto de renda retido na fonte, no valor de R$ 12.261,15, informados na declaração de ajuste anual como IRRF, mas sem comprovação. Enquadramento Legal: artigo 12, inciso V da Lei n° 9.250/1995 (fl. 12). O contribuinte apresentou impugnação, de fls. 01 a 28, não concordando com o Auto de infração, solicitando insubsistência integral do lançamento com base nas considerações enumeradas a seguir: O contribuinte argumenta que o processo trabalhista, movido contra a empresa Pirelli, encerrouse por Acordo, homologado Fl. 361DF CARF MF 4 por autoridade judiciária, tendo recebido o valor de R$ 1.200.000,00, conforme cálculo do perito contábil, fl. 01; Lista as parcelas salariais, valor R$ 50.304,60, tributáveis, e as parcelas indenizatórias, não tributáveis, R$ 1.149.695,40, fl. 01; Em relação à infração de glosa da dedução de despesa em livro caixa, no valor de R$ 27.720,19, o impugnante não se opõe, reconhecendo ter sido indevido o registro e uma vez computado integralmente pelo fisco como honorários advocatícios não merece maiores considerações, fls. 04 e 05; Referente ao imposto de renda retido na fonte, argumenta que a empresa Pirelli inicialmente informou o valor de R$ 12.261,15, recolhendo, no entanto, o valor de R$ 21.488,83, entendendo que sempre caberá o cômputo desse valor na apuração do imposto sobre a renda, fls. 05, 21 e 22; O impugnante hostiliza o Auto de Infração, na tributação dos rendimentos classificados pelo perito contábil como parcelas indenizatórias. Argumenta que ofereceu à tributação em sua DIRPF/2000 o valor de R$ 50.304,60, classificado como parcela salarial, sendo os demais rendimentos informados como isentos, fls. 06 e 07; Alega que o período objeto do litígio iniciouse em 01 de novembro de 1969 e encerrouse em 30 de junho de 1980, argumentando não ser optante do FGTS, não restando dúvidas ser a "indenização" enquadrada no inciso XX do art. 39 do RIR/99. Cita jurisprudência judicial, fls. 07 e 08; Contrapõese também à tributação da parcela indenizatória a título de quilômetro rodado, argumentando que tratase de reembolso e não renda. Invoca o Princípio da Igualdade à indenização de transporte, quando paga pela União aos servidores públicos, fls. 08 a 09; Ainda contrapõese à tributação da parcela indenizatória a título de férias indenizadas e não gozadas, argumentando que tal indenização não é alcançada pelo imposto de renda. Cita Jurisprudência Judicial e Administrativa, fls. 09 a 11; Por fim, opõese à tributação dos juros de mora, argumentando que o acessório segue o principal e que os juros são tributados exclusivamente na fonte e não integram a declaração de ajuste anual, fls. 11, 12, 22 a 24; Levanta o impugnante a responsabilidade da fonte pagadora pelo imposto, ficando o contribuinte somente responsável pelo ajuste na declaração anual. Cita jurisprudência do Conselho de Contribuintes e o Dr. Alfredo Augusto Becker, abordando a substituição tributária, concluindo que a exigência deve ser lavrada contra a empresa reclamada, fls. 12 a 21; Em princípio, com o único fim de argumentação, o contribuinte entende que deveria ser computado o Imposto retido pela fonte pagadora, como antecipação, no valor de RS 21.488,83, mesmo que recolhido intempestivamente, fls. 21 a 22; Fl. 362DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 4 5 Opõese à utilização da taxa SELIC, considerandoa elevada e superior à taxa máxima anual de 12%, limitada pelo §3° do art. 192 da CF, fl. 24; O contribuinte entende ser inexigível os acréscimos legais, pois informou os rendimentos em sua declaração de acordo com a classificação ditada pelo perito judicial, homologada pela Justiça do Trabalho, não se enquadrando tal fato em inexatidão material, fl. 25; O impugnante trata da cumulatividade dos rendimentos, solicitando que seja calculado o imposto correspondente ano a ano, fls. 26 e 27. Por fim, pede a insubsistência integral do lançamento, resumindo os principais tópicos impugnados e arguidos, como sucintamente descrevemos anteriormente, fls. 27 e 28." Ao apreciar o litígio, o Órgão julgador de primeiro grau entendeu que as "parcelas indenizatórias" são rendimentos de natureza tributável, excluindo porém do lançamento a matéria referente às férias indenizadas, no valor de RS 43.628,65, e compensando o imposto de renda retido na fonte no valor de R$ 21.488,83. A ementa a seguir transcrita resume o entendimento manifestado no Acórdão recorrido: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 1998 Ementa: OMISSÃO DE RENDIMENTOS DO TRABALHO COM VÍNCULO EMPREGATÍCIO RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA É de se manter a tributação de rendimentos recebidos acumuladamente, de natureza tributável, auferidos pelo contribuinte e não oferecidos à tributação na declaração de ajuste anual. IMPOSTO DE RENDA RETIDO NA FONTE Tendo sido comprovada a retenção do IRRF pela Pessoa Jurídica pagadora dos rendimentos referentes à Reclamatória Trabalhista, pode o contribuinte pleiteálo em sua declaração de ajuste anual. FÉRIAS INDENIZADAS. Matéria subtraída da apreciação pelas Delegacias da Receita Federal de Julgamento pelo ADISRF no 005/2005. MULTA DE OFICIO Estando o contribuinte sob procedimento fiscal a multa a ser aplicada é a de oficio. TAXA SELIC APLICABILIDADE Sobre os créditos tributários vencidos e não pagos a partir de abril de ¡995, incidem juros de mora equivalentes à taxa SELIC para títulos federais. Lançamento Procedente em Parte Fl. 363DF CARF MF 6 Em sua peça recursal (fls. 139/167), o autuado repisa as mesmas questões suscitadas perante o Órgão julgador a quo, na parte que lhe foi desfavorável. Arrolamento de bens controlado no processo de n° 11080.002048/200719, conforme despacho à fl. 210. O julgamento foi convertido em diligência, conforme resolução de fls. 227/231, para o órgão preparador juntar peças da reclamatória trabalhista. Os documentos foram juntados às fls. 235/354, e os autos devolvidos para julgamento. É o relatório. Fl. 364DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 5 7 Voto Vencido Conselheiro Túlio Teotônio de Melo Pereira Relator Da admissibilidade do recurso Os requisitos de admissibilidade do recurso voluntário foram examinados por ocasião da conversão do julgamento em diligência. Tendo sido conhecido o recurso, passamos diretamente ao exame das preliminares e do mérito. Da responsabilidade da fonte pagadora O sujeito passivo reafirma, no recurso, os argumentos veiculados na impugnação, acusando a nulidade do procedimento, em razão de erro na identificação do sujeito passivo. A questão, entretanto, foi bem decidida pelo acórdão a quo, que não merece reforma. Ali restou consignado tratar, a espécie, de imposto retido como antecipação, e não de retenção exclusiva na fonte. A legislação determina que os rendimentos devem ser oferecidos à tributação na declaração de ajuste anual, razão por que, após a data da declaração, o crédito tributário deve ser constituído em nome do contribuinte. De resto, a jurisprudência deste Conselho já foi pacificada neste sentido, atraindo a aplicação da súmula CARF no 12, assim enunciada: Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. Rejeitase, portanto, a preliminar. Da tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente Por consistir em matéria prejudicial de mérito, deve ser abordada em primeiro plano. O regime de tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente, na época dos fatos geradores, era estabelecida pelo art. 12 da Lei no 7.713/1988 nos seguintes termos: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total Fl. 365DF CARF MF 8 dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Como se observa, a disciplina legal era de que a incidência do imposto de renda se dava no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos. No entanto, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal caminhou em outro sentido, decidindo que, nesse caso específico, a tributação com base no regime de caixa (mês do recebimento), violaria os princípios da isonomia e da capacidade contributiva, visto que os contribuintes que recebem seus rendimentos acumuladamente sofreriam carga tributária maior que aqueles que receberam as verbas no período próprio. O tributo deveria, portanto, observar a renda auferida mês a mês pelo segurado. Nesse sentido já vinha decidindo o STJ, desde o julgamento do REsp 1.118.429∕SP (Rel. Min. Herman Benjamin, DJe de 14.5.2010), processado sob a sistemática de que trata o art. 543C do CPC, que assim decidiu: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA. 1. O Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ. 2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do art.543C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008. (REsp 1118429/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 24/03/2010, DJe 14/05/2010) A matéria foi solucionada definitivamente pelo STF por ocasião do julgamento do RE 614.406, com repercussão geral e trânsito em julgado, que decidiu pela inconstitucionalidade, sem redução de texto, da regra do art. 12 da Lei nº 7.713/88, no tocante aos rendimentos recebidos acumuladamente decorrentes de remuneração, vantagem pecuniária, proventos e benefícios previdenciários, mormente para afastar o regime de caixa e determinar a incidência mensal para o cálculo do imposto de renda correspondente à tabela progressiva vigente no período mensal em que apurado o rendimento percebido a menor (regime de competência). A ementa do acórdão foi redigida como segue: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. (RE 614406, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 23/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe233 DIVULG 26112014 PUBLIC 27 112014) Fl. 366DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 6 9 Do julgamento, restou enunciada a seguinte tese para o tema "68 Incidência do imposto de renda de pessoa física sobre rendimentos percebidos acumuladamente": O Imposto de Renda incidente sobre verbas recebidas acumuladamente deve observar o regime de competência, aplicável a alíquota correspondente ao valor recebido mês a mês, e não a relativa ao total satisfeito de uma única vez. Obs: Redação da tese aprovada nos termos do item 2 da Ata da 12ª Sessão Administrativa doNo tema 68 Incidência do imposto de renda de pessoa física sobre rendimentos percebidos acumuladamente STF, realizada em 09/12/2015. De acordo com o §2º do art. 62 do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF no 343/2015, tais decisões judiciais devem ser reproduzidas nos julgamentos realizados no âmbito deste Colegiado. Vejamos: Art. 62. (...) §2o As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. No caso sob exame, temse rendimentos recebidos acumuladamente pelo sujeito passivo, decorrentes de reclamatória trabalhista, que, no auto de infração, foram tributados pelo total, na data do recebimento, nos termos do art. 12 da Lei no 7.713/1988. Nesta matéria, entendo que, em face das decisões judiciais mencionadas, impõese que o tributo seja recalculado, levando em consideração as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, e não no mês do seu recebimento. Acrescento que tanto nos acórdãos proferidos pelo Supremo Tribunal Federal1, quanto nos acórdãos proferidos pelo Superior Tribunal de Justiça2, não se observa determinação para cancelamento dos lançamentos, mas somente a ordem para o recálculo do tributo. Ademais, embora os rendimentos acumulados recebidos em atraso devam submeterse à aplicação das alíquotas que seriam incidentes se os rendimentos tivessem sido pagos ao tempo correto, o crédito tributário deve ser lançado na época do efetivo recebimento dos valores. Logo, não há que se cogitar da necessidade de novo lançamento em competências diversas, mas temse a revisão do lançamento decorrente de decisão judicial. 1 Vide (ARE 848281 AgR, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 12/05/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe100 DIVULG 27052015 PUBLIC 28052015) e (ARE 817409 AgR, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Primeira Turma, julgado em 07/04/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe075 DIVULG 22042015 PUBLIC 23042015). 2 Vide: AgRg no REsp 1462576/RS; REsp 1420607/RS; AgRg no AgRg no REsp 1332443/PR; AgRg no REsp 1316357/RS; AgRg no Ag 1339770/SC. Fl. 367DF CARF MF 10 Desse modo, assiste razão ao contribuinte ao requerer que os cálculos sejam refeitos, de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Da indenização por tempo de serviço Questiona o recorrente a incidência do imposto sobre a parcela intitulada "indenização por tempo de serviço". Antes da conversão do julgamento em diligência, as peças do processo judicial trabalhista trazidas aos autos não permitiam concluir a natureza jurídica da parcela contestada. Analisando as peças da reclamatória trabalhista trazidas aos autos após a diligência, observase que: (a) na petição inicial (fls. 236/240) o reclamante argüi a sua estabilidade decenal e requer a reintegração no emprego; (b) na sentença (fls. 245/253 ), restou reconhecida a estabilidade decenal e foi determinada a reintegração do reclamante no emprego; (c) no acórdão (fls. 271/279), determinouse a conversão da reintegração no pagamento da indenização por tempo de serviço na forma dos arts. 496 e 497 da CLT, observado o disposto no Enunciado no 28 do TST; (d) consoante laudo pericial (fls. 297/314) a indenização por tempo de serviço, foi calculada em R$ 264.279,90, com juros de R$ 13.214,00 (fl. 312). O laudo foi homologado judicialmente (fl. 317). Assim, da análise das peças da reclamatória trabalhista, constatase que a parcela em questão corresponde a indenização por tempo de serviço na forma dos arts. 496 e 497 da CLT. No curso da execução, os litigantes chegaram à composição da lide, conforme acordo (fls. 352/353) homologado judicialmente (fl. 351). Pela composição dos cálculos acordados (fl 354), a indenização por tempo de serviço foi de R$ 576.992,27. No tocante à isenção do imposto de renda, assim reza o art. 6o da Lei no 7.713/1988: Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguinte rendimentos percebidos por pessoas físicas: (...) V a indenização e o aviso prévio pagos por despedida ou rescisão de contrato de trabalho, até o limite garantido por lei, bem como o montante recebido pelos empregados e diretores, ou respectivos beneficiários, referente aos depósitos, juros e correção monetária creditados em contas vinculadas, nos termos da legislação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço; (grifouse) Fl. 368DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 7 11 De acordo com o dispositivo transcrito, é isenta a indenização por despedida ou rescisão de contrato de trabalho, somente até o limite garantido por lei. Logo, o que ultrapassar ao limite garantido por lei, submetese à tributação do imposto de renda. No caso, a indenização garantida pelos arts. 496 e 497 da CLT totalizou R$ R$ 264.279,90, conforme apurado pelo perito técnico judicial. O que excede a este valor, foi pago por liberalidade do empregador e não é alcançado pela regra de isenção, devendo ser tributado pelo imposto de renda. Assim, assiste razão em parte ao recorrente na matéria, devendo ser tributado, em relação à indenização por tempo de serviço, somente a diferença no valor de R$ 312.712,37 (R$ 576.992,27 R$ 264.279,90). Da verba "quilômetro rodado" O recorrente argumenta que é indenizatória a parcela paga a título de quilômetro rodado, que corresponde a reembolso e não renda. Na sentença trabalhista (f. 248), restou consignado que o Autuado laborava com veículo próprio, fato este não contestado pelo reclamado. Além disso, constatou a previsão normativa de pagamento da remuneração por quilômetro rodado. O fato gerador do imposto de renda é a aquisição de disponibilidade de renda, sendo pressuposto para a incidência desse tributo, que a renda ou provento de qualquer natureza auferido pelo contribuinte constitua um acréscimo patrimonial. Um plus, portanto. Inexistindo acréscimo patrimonial, não se pode cogitar da incidência do imposto sobre a renda. Entendimento diverso afrontaria princípios basilares do direito tributário, dentre eles a capacidade contributiva e a proibição do confisco. Na espécie, a verba paga a título de quilômetro rodado tem o objetivo de instrumentalizar o cumprimento do contrato de trabalho, reembolsando as despesas com combustíveis e gasto com a manutenção pelo uso de veículo próprio para o desempenho de funções de vendedor ou representante comercial. Assim, não configura um acréscimo patrimonial do trabalhador, mas uma indenização pelo uso do veículo próprio, pelo que não se submete à incidência do imposto de renda. Nesse sentido, entendo que a verba não constitui aquisição de renda ou proventos, mas a reposição do patrimônio gasto pelo empregado no cumprimento do seu mister. Logo, a verba não poderia ser incluída na base de cálculo do IR. Recurso provido na matéria, para excluir da base de cálculo a verba quilômetro rodado. Dos juros contidos na base de cálculo Em sua peça recursal, o sujeito passivo reclama da tributação dos juros recebidos em decorrência da decisão judicial. Fl. 369DF CARF MF 12 A tributação pelo imposto sobre a renda dos juros moratórios e correção monetária recebidos na reclamatória trabalhista, encontra fundamento nos §§ 1° e 4° do art. 3° da Lei n° 7.713/1988, e no parágrafo único do art. 16 da Lei n° 4.506/1964, abaixo reproduzidos: Lei n° 7.713/1988 Art. 3° O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9° a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1° Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. (...) § 4° A tributação independe da denominação dos rendimentos, títulos ou direitos, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem dos bens produtores da renda, e da forma de percepção das rendas ou proventos, bastando, para a incidência do imposto, o benefício do contribuinte por qualquer forma e a qualquer título. Lei n°4.506/1964 Art. 16. Serão classificados como rendimentos do trabalho assalariado tôdas as espécies de remuneração por trabalho ou serviços prestados no exercício dos empregos, cargos ou funções referidos no artigo 5° do Decretolei número 5.844, de 27 de setembro de 1943, e no art. 16 da Lei número 4.357, de 16 de julho de 1964, tais como: (...) Parágrafo único. Serão também classificados como rendimentos de trabalho assalariado os juros de mora e quaisquer outras indenizações pelo atraso no pagamento das remunerações previstas neste artigo. (grifouse) No tocante aos rendimentos recebidos acumuladamente, a lei somente exclui da incidência o valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento. Nesse sentido, o Regulamento do Imposto de Renda/1999 (RIR) estabeleceu que, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá sobre o total dos rendimentos recebidos acumuladamente, inclusive juros e atualização monetária: Art. 56. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá no mês do recebimento, sobre o total dos rendimentos, inclusive juros e atualização monetária. Parágrafo único. Para os efeitos deste artigo, poderá ser deduzido o valor das despesas com ação judicial necessárias ao recebimento dos rendimentos, inclusive com advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Na matéria, de notarse contudo a decisão do STJ no julgamento do Recurso Especial (REsp) n° 1.227.133/RS, de 28/09/2011, na sistemática do recurso repetitivo, redator Fl. 370DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 8 13 para o acórdão Ministro César Asfor Rocha, na qual se assentou que sobre os juros moratórios legais, vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial, não há incidência do imposto sobre a renda. A ementa do julgado, após julgamento dos embargos de declaração, restou assim redigida: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. ERRO MATERIAL NA EMENTA DO ACÓRDÃO EMBARGADO. Havendo erro material na ementa do acórdão embargado, devese acolher os declaratórios nessa parte, para que aquela melhor reflita o entendimento prevalente, bem como o objeto específico do recurso especial, passando a ter a seguinte redação : "RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. JUROS DE MORA LEGAIS. NATUREZA INDENIZATÓRIA. VERBAS TRABALHISTAS. NÃO INCIDÊNCIA OU ISENÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA. Não incide imposto de renda sobre os juros moratórios legais vinculados a verbas trabalhistas reconhecidas em decisão judicial. Recurso especial, julgado sob o rito do art. 543C do CPC, improvido." Embargos de declaração acolhidos parcialmente. Acontece que a decisão foi melhor explicitada no REsp n° 1.089.720/RS, julgado em 10/10/2012, de relatoria do Ministro Mauro Campbell Marques, que levando em consideração o decidido no REsp n° 1.227.133/RS, aclarou e sintetizou a posição da 1.ª Seção do STJ quanto às regras de isenção dos juros moratórios. Seguem transcritos excertos da ementa: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA N. 284/STF. IMPOSTO DE RENDA DA PESSOA FÍSICA IRPF. REGRA GERAL DE INCIDÊNCIA SOBRE JUROS DE MORA. PRESERVAÇÃO DA TESE JULGADA NO RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA RESP. N. 1.227.133 RS NO SENTIDO DA ISENÇÃO DO IR SOBRE OS JUROS DE MORA PAGOS NO CONTEXTO DE PERDA DO EMPREGO. ADOÇÃO DE FORMA CUMULATIVA DA TESE DO ACCESSORIUM SEQUITUR SUUM PRINCIPALE PARA ISENTAR DO IR OS JUROS DE MORA INCIDENTES SOBRE VERBA ISENTA OU FORA DO CAMPO DE INCIDÊNCIA DO IR. (...) 2. Regra geral: incide o IRPF sobre os juros de mora, a teor do art. 16, caput e parágrafo único, da Lei n. 4.506/64, inclusive quando reconhecidos em reclamatórias trabalhistas, apesar de sua natureza indenizatória reconhecida pelo mesmo dispositivo Fl. 371DF CARF MF 14 legal (matéria ainda não pacificada em recurso representativo da controvérsia). 3. Primeira exceção: são isentos de IRPF os juros de mora quando pagos no contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho, em reclamatórias trabalhistas ou não. Isto é, quando o trabalhador perde o emprego, os juros de mora incidentes sobre as verbas remuneratórias ou indenizatórias que lhe são pagas são isentos de imposto de renda. A isenção é circunstancial para proteger o trabalhador em uma situação sócioeconômica desfavorável (perda do emprego), daí a incidência do art. 6°, V, da Lei n. 7.713/88. Nesse sentido, quando reconhecidos em reclamatória trabalhista, não basta haver a ação trabalhista, é preciso que a reclamatória se refira também às verbas decorrentes da perda do emprego, sejam indenizatórias, sejam remuneratórias (matéria já pacificada no recurso representativo da controvérsia REsp. n.° 1.227.133 RS, Primeira Seção, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Rel .p/acórdão Min. Cesar Asfor Rocha, julgado em 28.9.2011). 3.1. Nem todas as reclamatórias trabalhistas discutem verbas de despedida ou rescisão de contrato de trabalho, ali podem ser discutidas outras verbas ou haver o contexto de continuidade do vínculo empregatício. A discussão exclusiva de verbas dissociadas do fim do vínculo empregatício exclui a incidência do art. 6°, inciso V, da Lei n. 7.713/88. 3.2. O fator determinante para ocorrer a isenção do art. 6°, inciso V, da Lei n. 7.713/88 é haver a perda do emprego e a fixação das verbas respectivas, em juízo ou fora dele. Ocorrendo isso, a isenção abarca tanto os juros incidentes sobre as verbas indenizatórias e remuneratórias quanto os juros incidentes sobre as verbas não isentas. 4. Segunda exceção: são isentos do imposto de renda os juros de mora incidentes sobre verba principal isenta ou fora do campo de incidência do IR, mesmo quando pagos fora do contexto de despedida ou rescisão do contrato de trabalho (circunstância em que não há perda do emprego), consoante a regra do "accessorium sequitur suum principale ". Na espécie, temse juros de mora recebidos acumuladamente em reclamatória trabalhista. Do exame das peças do processo judicial, já constatouse que decorreu da despedida do empregado, que reclamou, incialmente, a reintegração. Logo, sabendo que as verbas foram recebidas em decorrência da perda do emprego pelo reclamante, temse que os juros se enquadram na isenção prevista no art. 6°, V, da Lei n. 7.713/88, conforme decidido pelo STJ. Por todo o exposto, assiste razão ao recorrente na matéria, pelo que deve ser excluído, da base de cálculo, os valor dos juros recebidos na ação judicial. Da multa de ofício Fl. 372DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 9 15 O sujeito passivo pleiteia a exclusão da multa de ofício, por aplicação do art. 100 do CTN, argumentando que a declaração de ajuste foi preenchida com base nos dados constantes do processo judicial trabalhista. Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: I os atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas; II as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa; III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; IV os convênios que entre si celebrem a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Sem razão o recurso na matéria. É certo que o parágrafo único do art. 100 do CTN exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo, nos casos em que o contribuinte age em observância às normas complementares nele previstas. No entanto, o processo judicial trabalhista não se insere no conceito de normas complementares estabelecido pelo art. 100 do CTN, pelo que não pode fundamentar o pedido do recurso. Tendo sido aplicada em estrita obediência ao art. 44, inciso I, da Lei no 9.430/1996, deve ser mantida a multa de ofício. Dos juros pela taxa SELIC Consoante registrado no auto de infração (fl. 58), os juros de mora decorrem do comando do §3o, do art. 61, da Lei no 9.430/1996: Art. 5º O imposto de renda devido, apurado na forma do art. 1º, será pago em quota única, até o último dia útil do mês subseqüente ao do encerramento do período de apuração. § 1º (...) § 3º As quotas do imposto serão acrescidas de juros equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC, para títulos federais, acumulada mensalmente, calculados a partir do primeiro dia do segundo mês subseqüente Fl. 373DF CARF MF 16 ao do encerramento do período de apuração até o último dia do mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês do pagamento. (...) Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) § 1º (...) § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. A autoridade administrativa está vinculada à aplicação da lei, não podendo furtarse ao dever, sob pena de responsabilidade. Nessa matéria, também já está consolidada a jurisprudência deste Conselho, conforme enunciado na súmula CARF no 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Rejeitase, assim, o recurso na matéria. Conclusão Diante do exposto, voto no sentido de conhecer do recurso e, no mérito, dar lhe provimento parcial para: 1. revisar o valor da base de cálculo relativa a indenização por tempo de serviço para o valor de R$ 312.712,37; 2. excluir da base de cálculo os valores pagos a título de quilômetro rodado; 3. excluir da base de cálculo o valor dos juros recebidos na ação judicial; 4. recalcular o imposto de renda devido sobre os rendimentos recebidos acumuladamente, de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos. (assinado digitalmente) Túlio Teotônio de Melo Pereira Fl. 374DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 10 17 Voto Vencedor Conselheiro Ronnie Soares Anderson Redator designado Não obstante os articulados argumentos do D. Relator, e as suas diligentes conclusões acerca das matérias tratadas, tenho entendimento divergente no que concerne ao tratamento dos rendimentos recebidos acumuladamente em casos similares. Observo que se trata de matéria prévia às demais versadas no recurso, pois atendido o pleito do contribuinte voltado à desconstituição do lançamento, desnecessária a abordagem da natureza dos diversos componentes da autuação. Nessa toada, para o exame do mérito do litígio cabe trazer o regramento da tributação desse tipo de rendimentos, dado à época dos fatos pelo art. 12 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização Essa opção do legislador, no sentido de que os rendimentos recebidos acumuladamente fossem tributados pelo regime de caixa, foi objeto de questionamento judicial por parte dos contribuintes por diversas razões, dentre as quais se destaca a possibilidade de a incidência de uma só vez, do imposto de renda sobre o somatório das prestações mensais devidas, causar violação aos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, visto que se tivessem os beneficiários recebidos na época própria, poderiam estar dentro dos limites de legais de isenção do tributo. Estando a discussão desde 2005 na esfera do Superior Tribunal de Justiça (STJ), este, em sua missão constitucional de uniformizar a interpretação da lei federal, submeteu o tema ao rito previsto no art. 543C do Código de Processo Civil (CPC), ensejando a prolação da seguinte decisão no REsp nº 1.118.429/SP, julgado pela 1ª Seção (Relator Min. Herman Benjamin, DJe de 14/5/2010), cuja ementa transcrevo: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA. 1. O Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ. Fl. 375DF CARF MF 18 2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do art.543C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008. Por força do § 2º do art. 62 do RICARF (Regimento Interno do CARF, Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015), tornouse obrigatória a reprodução dessa decisão no julgamento dos recursos na esfera do CARF. Persistiu dissenso no âmbito das Turmas componentes da 2ª Seção do CARF, contudo, no tocante à aplicação dessa decisão em recurso repetitivo nos litígios envolvendo lançamentos realizados com base no art. 12 da Lei nº 7.713/88. Em linhas gerais e apertada síntese, podese dividir os entendimentos divergentes em duas vertentes principais, sendo que a primeira concedia parcial provimento aos recursos interpostos contra tais lançamentos, determinando que fossem aplicadas aos rendimentos recebidos acumuladamente as tabelas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido originalmente pagos. Já a segunda corrente entendia que tal aplicação implicaria em alteração substancial do critério jurídico adotado no lançamento, o qual, consequentemente, deveria ser cancelado devido à não observância da norma fixada pelo STJ em recurso repetitivo, dando provimento integral ao recurso voluntário. Entrementes, e paralelamente, a controvérsia acerca da incidência do imposto de renda sobre os rendimentos recebidos acumuladamente assumiu contornos constitucionais, com o reconhecimento de sua repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 20/10/2010, no decorrer de julgamento da questão de ordem em agravo regimental no Recurso Extraordinário (RE) nº 614.406/RS, face à declaração da inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 levada a efeito pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em sede de controle difuso. Expliquese que na Arguição de Inconstitucionalidade nº 2002.72.05.000434 0/SC, a Corte Especial daquele e. Tribunal declarou em 22/10/2009 a "inconstitucionalidade sem redução de texto ou interpretação conforme a Constituição" do art. 12 da Lei nº 7.718/88, "no tocante aos rendimentos recebidos acumuladamente decorrentes de remuneração, vantagem pecuniária, proventos e benefícios previdenciários, como na situação vertente, recebidos a menor pelo contribuinte em cada mêscompetência e cujo recolhimento de alíquota prevista em lei se dê mês a mês ou em menor período". Interposto então o RE nº 614.406/RS pela União para afastar a aplicação dessa declaração de inconstitucionalidade em dado caso sob litígio (cujo processo de origem foi a ação ordinária de nº 2008.71.13.00016588/RS), formouse com base nesse leading case o Tema 368 "Incidência do imposto de renda de pessoa física sobre rendimentos percebido acumuladamente" de repercussão geral, o qual foi submetido ao rito regrado pelo art. 543B do CPC . O julgamento do recurso representativo da controvérsia restou findo em 23/10/2014, sendo que o Tribunal Pleno, por maioria, decidiu a matéria negando provimento ao recurso e exarando acórdão cuja ementa foi assim redigida: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Fl. 376DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 11 19 (RE 614406, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 23/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe233 DIVULG 26112014 PUBLIC 27 112014) No Informativo STF de nº 764, referente ao período compreendido entre 20 e 24 de outubro de 20103, consta o seguinte resumo da conclusão da votação em apreço: IRPF e valores recebidos acumuladamente 4 É inconstitucional o art. 12 da Lei 7.713/1988 (“No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá, no mês do recebimento ou crédito, sobre o total dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessárias ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização”). Com base nessa orientação, em conclusão de julgamento e por maioria, o Plenário negou provimento a recurso extraordinário em que se discutia a constitucionalidade da referida norma — v. Informativo 628. O Tribunal afirmou que o sistema não poderia apenar o contribuinte duas vezes. Esse fenômeno ocorreria, já que o contribuinte, ao não receber as parcelas na época própria, deveria ingressar em juízo e, ao fazêlo, seria posteriormente tributado com uma alíquota superior de imposto de renda em virtude da junção do que percebido. Isso porque a exação em foco teria como fato gerador a disponibilidade econômica e jurídica da renda. A novel Lei 12.350/2010, embora não fizesse alusão expressa ao regime de competência, teria implicado a adoção desse regime mediante inserção de cálculos que direcionariam à consideração do que apontara como “épocas próprias”, tendo em conta o surgimento, em si, da disponibilidade econômica. Desse modo, transgredira os princípios da isonomia e da capacidade contributiva, de forma a configurar confisco e majoração de alíquota do imposto de renda. Vencida a Ministra Ellen Gracie, que dava provimento ao recurso por reputar constitucional o dispositivo questionado. Considerava que o preceito em foco não violaria o princípio da capacidade contributiva. Enfatizava que o regime de caixa seria o que melhor aferiria a possibilidade de contribuir, uma vez que exigiria o pagamento do imposto à luz dos rendimentos efetivamente percebidos, independentemente do momento em que surgido o direito a eles.RE 614406/RS, rel. orig. Min. Ellen Gracie, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, 23.10.2014. (RE614406) Merecem transcrição, também, os seguintes excertos do voto condutor de lavra do Ministro Marco Aurélio e dos debates então verificados, cuja leitura permite melhor esclarecer o posicionamento do STF sobre o tema: Qual é a consequência de se entender de modo diverso do que assentado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região? Haverá, como ressaltado pela doutrina, principalmente a partir de 2003, transgressão ao princípio da isonomia. Aqueles que receberam os valores nas épocas próprias ficaram sujeitos a certa alíquota. O contribuinte que viu resistida a satisfação do direito e teve que ingressar em Juízo será apenado, alfim, mediante a incidência de alíquota maior. Mais do que isso, tem se o envolvimento da capacidade contributiva, porque não é dado aferila, tendo em conta o que apontei como disponibilidade financeira, que diz respeito à posse, mas o 3 Disponível em: <http://www.stf.jus.br//arquivo/informativo/documento/informativo764.htm>. Acesso em 30/01/2015. Fl. 377DF CARF MF 20 estado jurídico notado à época em que o contribuinte teve jus à parcela sujeita ao Imposto de Renda. O desprezo a esses dois princípios conduziria a verdadeiro confisco e, diria, à majoração da alíquota do Imposto de Renda. (...) O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Por isso, no caso, desprovejo o recurso, assentando a inconstitucionalidade do artigo 12 – não do 12A, que resultou da medida provisória, da conversão em lei –, no que conferida interpretação alusiva à junção do que alcançado pelo contribuinte, considerados os vários exercícios. Mantenho o acórdão. O SENHOR MINISTRO CEZAR PELUSO (PRESIDENTE) Nega provimento? O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Porque, de outro modo, o contribuinte – como disse – será apenado, quer dizer, o devedor não satisfaz a parcela, compeleo a entrar em Juízo e, posteriormente, cobra o imposto pela alíquota maior. (grifei) O acórdão em comento transitou em julgado em 9/12/2014, sem interposição de recurso por qualquer das partes, ou atribuição de modulação aos efeitos dessa decisão. Destarte, restou assim consolidado o entendimento de que a incidência do imposto de renda pessoa física sobre verbas recebidas acumuladamente deve considerar as datas e as alíquotas vigentes na época em que a verba deveria ter sido paga, em respeito aos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, firmandose, por conseguinte, a inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 quanto a esse aspecto. Nos termos do inciso I do § 6º do art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, não se aplica a vedação aos órgãos de julgamento administrativo fiscal ao afastamento de lei sob o fundamento de inconstitucionalidade, nos casos de lei que tenha sido declarada inconstitucional por decisão plenária definitiva do STF no mesmo passo, temse o disposto no art. 62 do RICARF. Cumpre observar, por oportuno, que as decisões do STF exaradas nos moldes do art. 543B do CPC possuem o caráter de palavra final e definitiva daquele tribunal sobre as questões jurídica nelas objetivamente decididas, conforme já alertava, com propriedade, o Parecer PGFN/CRJ nº 492, de 30 de março de 2011. E, nesse contexto, o § 2º do art. 62 do RICARF contém a seguinte regra: § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. Por conseguinte, a decisão definitiva de mérito proferida pelo Tribunal Pleno do STF sob a sistemática prevista pelo art. 543B do CPC deverá ser reproduzida por este colegiado no julgamento do presente recurso voluntário. E essa reprodução da decisão, salvo melhor juízo, significa aplicação da norma jurídica geral, consolidada no julgamento da repercussão geral, no caso em exame. Fl. 378DF CARF MF Processo nº 11080.008990/200197 Acórdão n.º 2402005.723 S2C4T2 Fl. 12 21 No caso concreto, a Notificação de Lançamento vergastada foi amparada na prescrição contida no art. 12 da Lei nº 7.713/88, não havendo sido realizado o cálculo do imposto de renda consideradas as tabelas e alíquotas relativas aos períodos a que se referiam as parcelas devidas, mas sim as do anocalendário em que foram efetivamente percebidos os valores em questão. Então, não ocorreu apenas uma mera desconformidade superficial ou diminuta entre a base de cálculo apurada e a correta, passível de correção ou ajuste mediante o expurgo do excesso eventualmente constatado, a ser efetuado pela administração tributária. Diversamente, o consequente normativo da regra matriz de incidência tributária foi inequivocamente desatendido no seu aspecto quantitativo, visto que tanto a base de cálculo quanto as alíquotas aplicadas para o cômputo do imposto devido afastaramse em sua essência do entendimento sufragado pelo STF para situações do gênero, acarretando em elevado e significativo gravame tributário a afligir a capacidade contributiva do sujeito passivo. Ainda que não seja o caso de se cogitar de nulidade, ao menos nos termos regrados pelo art. 59 do Decreto nº 70.235/72, visto ter sido o lançamento realizado por autoridade competente, com o devido respeito ao direito de defesa, não se vislumbra a possibilidade de seu aproveitamento ou recálculo, já que evidenciado flagrante grau de descompasso entre suas facetas constitutivas e a decisão do STF acerca do tema, do que se conclui não deve ele prosperar, impondose seu cancelamento. Importa observar alguns aspectos adicionais da situação, como fecho desta fundamentação. Primeiramente, vale anotar que sob o mecanismo de repercussão geral, a suprema corte não gera uma disposição, necessariamente, que se pronuncie acerca da constitucionalidade de uma norma jurídica, à semelhança do que ocorre quando atua no controle concentrado da leis, mas sim julga o mérito de uma determinada questão em controle difuso, em decisão que atinge uma série de processos que versem sobre tal tema. Sob essa ótica, o enunciado da ementa do "leading case" não prescinde de conter uma prescrição explícita declarando uma norma, parcialmente ou no todo, inconstitucional, porém veicula conclusão definitiva daquele tribunal sobre a matéria controversa, gerando previsibilidade no direito aplicável às contendas travadas em outras esferas judiciais ou administrativas. À ocasião, o caso versava justamente sobre a declaração de inconstitucionalidade do art. 12 da Lei nº 7.713/88 levada a efeito pelo TRF da 4ª Região, a qual, não obstante o recurso da União, quedou mantida por razões de mérito, como evidencia a fundamentação da decisão do STF. Salvo melhor juízo, se essa Corte decidiu no RE nº 614.406 que tal declaração do Tribunal Regional era perfeitamente harmônica com o texto constitucional, firmouse então entendimento quanto à inconstitucionalidade daquela norma. Lembrese que a ementa do acórdão sintetiza as conclusões do Colegiado, não podendo ser lida abstraindose das razões do julgamento. Também merece ser registrado que não caberia ao STF tecer considerações, nas disposições conclusivas do julgamento, acerca dos efeitos da decisão então acordada sobre Fl. 379DF CARF MF 22 eventuais autuações do Fisco realizadas com base na malfadada norma, visto que o exame travado naquela seara deuse, reiterese, debruçado sobre declaração de inconstitucionalidade exarada no TRF da 4ª Região, direito em tese, e não, por exemplo, à luz de ação anulatória de débito fiscal ou lide similar. Além disso, cabe frisar que a eventual inexistência de prejuízo consequente à realização de recálculo do lançamento não serve de escusa para a sua manutenção, quando revelada sua desconformidade com o ordenamento constitucional. Tal conclusão persevera, ainda que tal conhecimento não fosse facultado à autoridade fiscal, quando da autuação. Ante o exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário, para fins de cancelar a exigência. (assinado digitalmente) Ronnie Soares Anderson Fl. 380DF CARF MF
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Numero do processo: 15983.000212/2006-41
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2000, 2001, 2002, 2003, 2004
OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM COMPROVADA. INSUBSISTÊNCIA DA EXIGÊNCIA.
A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta corrente ou de investimento.
Tendo a Recorrente se desincumbido de seu ônus probatório, demonstrando que os recursos questionados foram depositados por seus clientes para pagamentos de suas próprias despesas com importação e exportação em razão do sua atividade ligada à assessoria em comércio exterior, cancela-se a exigência correspondente.
LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL. PIS. COFINS
A solução dada ao litígio principal, relativa ao IRPJ, aplica-se, no que couber, aos lançamentos decorrentes, quando não houver fatos ou argumentos a ensejar decisão diversa.
Recurso Voluntário Provido.
Recurso de Ofício Prejudicado.
Numero da decisão: 1402-002.353
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário e considerar prejudicado o recurso de ofício, nos termos do relatório e voto que passam a integrar este julgado.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM COMPROVADA. INSUBSISTÊNCIA DA EXIGÊNCIA. A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta corrente ou de investimento. Tendo a Recorrente se desincumbido de seu ônus probatório, demonstrando que os recursos questionados foram depositados por seus clientes para pagamentos de suas próprias despesas com importação e exportação em razão do sua atividade ligada à assessoria em comércio exterior, cancelase a exigência correspondente. LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL. PIS. COFINS A solução dada ao litígio principal, relativa ao IRPJ, aplicase, no que couber, aos lançamentos decorrentes, quando não houver fatos ou argumentos a ensejar decisão diversa. Recurso Voluntário Provido. Recurso de Ofício Prejudicado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 3. 00 02 12 /2 00 6- 41 Fl. 8918DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.919 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário e considerar prejudicado o recurso de ofício, nos termos do relatório e voto que passam a integrar este julgado. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. Fl. 8919DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.920 3 Relatório IMPORTA ASSESSORIA EM COMÉRCIO EXTERIOR LTDA recorre a este Conselho em face do acórdão nº 1233.739 proferido pela 4ª Turma da DRJ no Rio de Janeiro – DRJ/RJOI que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235, de 1972 (PAF). O Presidente da 4ª Turma da DRJ no Rio de Janeiro – DRJ/RJOI recorre de ofício a este Conselho, com fulcro no art. 34 do Decreto nº 70.235, de 1972, c/c , art. 1º da Portaria MF nº 3, de 03/01/2008, haja vista que na apreciação da impugnação essa foi julgada procedente em parte, exonerando o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa em valor total superior a R$ 1.000.000,00. Por bem retratar o litígio, adoto o relatório da decisão recorrida, complementandoo ao final: I – DA AUTUAÇÃO Contra a interessada acima qualificada, foi lavrado auto de infração relativo ao Imposto de Renda de Pessoa Jurídica –IRPJ e, por decorrência, autos de infração reflexos, todos abaixo relacionados, por meio dos quais foram exigidos os créditos tributários a seguir discriminados, acrescidos de multa de 75%, na forma do art. 44, I, da Lei nº 9.430, de 27/12/1996 e de juros de mora. TRIBUTO ou CONTRIBUIÇÃO AUTO de fls. VALOR DO TRIBUTO OU CONTRIBUIÇÃO EXIGIDO em REAIS VALOR TOTAL EXIGIDO em REAIS Imposto de Renda Pessoa Jurídica 04/27 11.374.896,47 26.381.479,25 Contribuição Social 28/51 2.002.857,51 4.459.068,52 Programa de Integração Social 52/69 757.105,43 1.767.824,78 Contribuição p/ Financiamento S. Social 70/86 3.494.333,85 8.159.195,88 TOTAL DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO DO PROCESSO EM R$ 40.767.568,43 Os trabalhos de fiscalização foram determinados pelo MPF nº 0810600/00401/05 e, de acordo com a descrição dos fatos contida no auto relativo ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica (fls.05/13), os lucros dos trimestres de 2000 a 2004 foram arbitrados tendo em vista que a interessada, sujeita à tributação com base no Lucro Real, não possui escrituração na forma das leis comerciais e fiscais e, mesmo intimada a apresentála, não logrou atender a essa intimação. A base legal para o arbitramento é o art. 530, inciso I, do RIR/1999. São indicadas na referida descrição as seguintes infrações: 01 DEPÓSITOS BANCÁRIOS NÃO CONTABILIZADOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA Valor apurado da movimentação financeira da interessada, através dos extratos bancários por ela fornecidos à fiscalização, nos seguintes bancos: Fl. 8920DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.921 4 Banco Unibanco agência/conta corrente nº 368202.0205; Banco Itaú agência/conta corrente nº 360386130; Banco Itaú agência/conta corrente nº 021766266; Banco Sudameris Brasil nº 683896.30001 Banco Boa Vista agência/conta corrente nº 09506332000; Banco BCN/Bradesco agência/conta corrente nº 385825730; Banco Bradesco agência/conta corrente nº 0451061968; Banco Bradesco agência/conta corrente nº 3263.8615285; e Banco do Brasil agência/conta corrente nº 3146106941. Valores tributáveis relacionados às fls.05/08. O Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal contém as informações complementares e faz parte integrante do auto. Enquadramento Legal: Arts. 27, inciso I, e 42 da Lei nº 9.430/1996; Arts.532 e 537 do RIR/1999. 02 RECEITAS OPERACIONAIS (ATIVIDADE NÃO IMOBILIÁRIA) PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS GERAIS Valor apurado nos Livros Registro de Prestação de Serviços, o qual está sendo considerado como Rendas Conhecidas da atividade desenvolvida pela interessada. Valores tributáveis relacionados às fls.08/11. Enquadramento Legal: Art.532 do RIR/1999. 03 RENDIMENTOS DE APLICAÇÃO FINANCEIRA DE RENDA FIXA Valor das Rendas Financeiras apuradas das aplicações nominais e de renda fixa, nos Bancos Unibanco e Itaú, nos anos calendário de 2003 e 2004, conforme demonstrativo anexo ao Termo de Verificação e Constatação Fiscal. Valores tributáveis relacionados às fls.12/13. Enquadramento Legal: Art.536 do RIR/1999. RELATIVAMENTE ÀS DEMAIS AUTUAÇÕES, TEMOS: Contribuição Social Valores relativos à : 01 CSLL SOBRE O LUCRO ARBITRADO Valor apurado nos Livros Registro de Prestação de Serviços, o qual está sendo considerado como Rendas Conhecidas da atividade desenvolvida pela interessada; e 02 DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA Fl. 8921DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.922 5 Valor apurado da movimentação financeira da interessada, através dos extratos bancários por ela fornecidos à fiscalização, nos mesmos bancos já relacionados. Enquadramento Legal: Art. 2º e seus parágrafos da Lei nº 7.689, de 15/12/1988; Art. 19, 20 e 24 da Lei nº 9.249/1995; e Art. 29, inc. II, da Lei nº 9.430/1996; Art.6º da Medida provisória nº 1.858/99 e reedições; Art.22 da Lei nº 10.684/2003 Contribuição para o Programa de Integração Social e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social 01 FALTA/ INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DO PIS E FALTA/ INSUFICIÊNCIA DE RECOLHIMENTO DA COFINS Valor das Rendas Financeiras apuradas das aplicações nominais e de renda fixa, nos Bancos Unibanco e Itaú, nos anos calendário de 2003 e 2004, conforme demonstrativo anexo ao Termo de Verificação e Constatação Fiscal, parte integrante deste. 02 PIS e COFINS SOBRE OMISSÃO DE RECEITAS Valor mensais apurados da movimentação financeira da interessada, através dos extratos bancários por ela fornecidos à fiscalização, nos mesmos bancos já relacionados. Enquadramentos Legais às fls.54, 57, 72 e 75 II DA DESCRIÇÃO DOS FATOS O Termo de Verificação e Constatação de Ação Fiscal contém o seguinte relato (fls.151/154) Antecedentes : (Of. n°44825/030418/03CART/DELEFAZ/5R/DPF/SP, INQ. POLICIAL N° 2 0418/03). Desdobramento: Auto apreensão mercadoria estrangeira, internada no país por terceiros, relacionando o fiscalizado nos fatos. Entradas pelo Porto de Vitória/ES. Desembaraço: documentação irregular, é relato. Requisição de documentos e informações de interesse fiscal l) Iniciada a ação fiscal, com a lavratura do competente Termo de Inicio de Ação Fiscal, para o contribuinte acima identificado, doravante, referido na sequência do relatório, como "Sujeito Passivo" foi ele regularmente intimado em 26/04/2004, a apresentar os livros comerciais e fiscais, devidamente registrados e autenticados nos órgãos competentes do comércio, referente aos anoscalendário de 1999 a 2004, mais outros documentos principalmente bancários, e da movimentação financeira de contas correntes e de aplicações, dos períodos em exame. Tal procedimento de fiscalização estava amparada pelo MPF n° 08.1.06.2004000841 2) Recebida parte da documentação solicitada, foi o sujeito passivo reintimado a complementar a documentação requisitada. Com a evolução dos trabalhos fiscais, após a entrega de outros documentos faltantes, da primeira remessa de papeis, ficou patente que o sujeito passivo não escritura regularmente suas operações nos livros determinados na legislação fiscal. Pois foi entregue para a Fl. 8922DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.923 6 fiscalização somente Livros Registros da Prestação de Serviços, deixando de apresentar, portanto os Livro Diário e/ou Livro Caixa com lançamento de todas as operações efetuadas pela fiscalizada. 3) Na seqüência do curso da ação fiscalizadora, em 04/11/2005, intimamos o sujeito passivo, deixando lhe claro que, caso não apresentasse a escrituração fiscal completa, mais o restante dos extratos bancários, em caso de lançamento de ofício, ficaria sujeito ao agravamento em 50% das multas a que se referem os incisos I e II do caput do artigo 44 da Lei n° 9.430/96. 4) De posse dos documentos solicitados e fornecidos pelo sujeito passivo, exceto o Livro Diário/Caixa e Razão, mais extratos de 07(sete) bancos, apuramos a "Movimentação Financeira" a crédito do contribuinte nos seguintes bancos: UNIBANCO UNIÃO DE BANCOS BRASILEIORS S/A, CNPJ N° 33.700.394/000140; BANCO ITAÚ S/A, CNPJ Nº 60.701.190/000104; BANCO BRADESCO S/A, CNPJ Nº 60.746.948/000112; BANCO BOA VISTA INTERATLANTICO S/A, CNPJ Nº 33.485.541/000106; BANCO BNC S/A, CNPJ.Nº 60.898.723/000181; BANCO SANTANDER BRASIL S/A, CNPJ Nº 61.472.676/000172; BANCO DO BRASIL S/A, CNPJ. N° 00.000.000/000191, com levantamento também, das rendas de prestação de serviços da matriz e filiais, conforme quadro I, em anexo. 5) Apuradas as rendas da prestação de serviços, escrituradas nos Livros Prestação, tratamos esta, como renda conhecida. Passamos a analisar e apurar a "movimentação financeira a crédito da empresa fiscalizada", utilizando os extratos dos bancos acima relacionados. Fim destas apurações, constatamos que tais créditos não estão escriturados. Foi então ele regularmente intimado para apresentar os livros fiscais devidamente escriturados com prazo determinado, conforme determina as leis fiscais. Porem, não atendido nosso, apresentou o Livro Diário escriturado com partidas mensais, imprestáveis para apuração de lucros, pois também não incluiu todas as operações com bancos. Diante de tais fatos, formulamos à Supervisão Pedido de Arbitramento do Lucro do fiscalizado, com base nos artigo 47, inciso II "a" e III da Lei n° 8.981/95, e, artigo 529 e 530 do RIR/99. 6) Mas, devido a inconversão da Medida Provisória n° 258, de 21 de julho de 2005, em lei, .... 7) Para dar continuidade à ação fiscal ........Cumprindo o que determina o artigo 7º, § 2º, do Decreto nº 70.235/72, e considerando a designação de outro AFRF para continuidade dos trabalhos fiscais, em 27/12/2005, foi o sujeito passivo cientificado da continuação dos procedimentos fiscais, através do TERMO DE CIÊNCIA E CONTINUIDADE DE PROCEDIMEBNTO FISCAL 8) Face o que determina o artigo 7º, § 2º, do Decreto nº 70.235/72, em 23/02/2006 e 20/06/2006, foi o sujeito passivo cientificado, respectivamente, através do Termo de Prosseguimento de Ação Fiscal. 9 ) ARBITRAMENTO DO LUCRO Considerações Finais: Desta forma, tendo em vista aos fatos apurados e considerando que o sujeito passivo, não apresentou escrituração contábil completa, consistente assentada em livros próprios autenticados pelos órgãos do comércio, com lançamentos em ordem cronológica, de todas as operações desenvolvidas pela empresa, que possibilitasse apurar o lucro real e/ou Presumido, conforme prescreve os artigos 251, 258, 259, 260 e 516 do Decreto n° 3.000/99. Razão pela qual, para encerramento da presente ação fiscal, estamos nesta data procedendo Arbitramento lucro, com base os artigos n° 529 e 530 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000, de 29 de março de 1599, (base legal, Lei n° 8.981/95, art. 47, e Lei 9.430/96), referente aos Exercícios de 2001; 2002, 2003, 2004 e 2005, Anos calendário 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004, tomando como base os QUADROS DEMONSTRATIVOS ANEXOS I. II e III. formam os Demonstrativos que especificam as rendas de Prestação de Serviços, da Movimentação Financeira e das Rendas de Aplicações Financeiras apuradas a crédito, nos 07(sete) bancos relacionados, nos respectivos períodos acima mencionados. As quais são partes integrantes do presente TERMO DE VERIFICAÇÃO E CONSTATAÇÃO DE INFRAÇÃO FISCAL. 10) ...... 11) ....... 12) Cabe salientarmos que, todas as operações bancárias de transferências entre agências foram verificadas e solicitadas informações da fiscalizada para que opinasse a respeito, para que pudéssemos excluir aquelas efetuadas entre contas do fiscalizado e assim foi feito. As que perduram nos quadros demonstrativos são transações efetuadas entre bancos e contas de clientes, para banco e contas do sujeito passivo, referente a agências de bancos da capital/SP. 13) Documentos Pertencentes ao sujeito Passivo. Fl. 8923DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.924 7 Todos os documentos, ou seja, os livros Registros de Prestação de Serviços, Cópias das DCTF, cópias de extratos bancários, bem como todo e qualquer outros documentos originais pertencente à fiscalizada foram devolvidos, nesta data, 29/06/2006. Observação: Os mencionados Anexos I, II e III encontramse às fls.155/199 e 202/391. III DA IMPUGNAÇÃO AO LANÇAMENTO DO IRPJ Regularmente cientificada em 30/06/2006 (fls.04, 28, 52, 70 e 154), a interessada apresentou, em 28/07/2006, impugnações aos autos de infração de IRPJ (fls.2.712/2.743, vol.XIV), da COFINS (fls.3.388/3.397, vol.XVII), do PIS (fls.3.420/3429, vol.XVII) e da Contribuição Social (fls.3.451/3460, vol.XVII). Instruem as impugnações extratos dos livros Diário nºs 02 a 07 e os livros Caixa correspondentes (fls. 2.995 a 3387, vols.XVI e XVII). A impugnação referente ao lançamento do IRPJ contém, em síntese, os argumentos a seguir expostos, subdivididos em tópicos: I Dos Fatos a) em 26/04/2004 teve ciência da instauração de procedimento fiscal, sendolhe exigida, na oportunidade, a apresentação de livros, notas fiscais, comprovantes de pagamento de tributos federais, declarações de rendimentos (IRPJ) e atos constitutivos, além dos livros fiscais, conforme Termo juntado à fl.2.674, cuja fl.02 foi omitida dos autos, sendo ora juntada aos mesmos (doc.26); b) não obstante ter exibido os documentos exigidos, o AFRF, em face da grande quantidade de papéis existentes na matriz e na filiais, contentouse em apreender o Livro de Prestação de Serviços e as declarações de renda dos períodos fiscalizados, prometendo analisar in loco os demais documentos; c) em várias oportunidades, o AFRF retornou para renovar o MPF, ou fazer novas intimações, conforme Termos relacionados às fls.2.714/2.715; d) por um desses termos foi cientificada da substituição do AFRF responsável pelo prosseguimento da fiscalização; e) no dia 29/06/2006, após decorridos quase dois anos do início da ação fiscal, sem ter sido procedido qualquer exame da sua contabilidade, sem ter sido realizada perícia contábil, sem ter sido procedida verificação dos livros Diário/Caixa e fiscais, em lançamentos, registros ou assentos, nem examinado quaisquer contas, balanços ou documentos, tomou ciência dos quatro autos de infração lavrados; e f) pela descrição dos fatos constantes do auto de infração, verificase que o AFRF autuante não tinha pretensão de fazer auditoria fiscal nos documentos, apresentando na justificativa de arbitramento acusações lacônicas, sem narração detalhada dos fatos fiscais, conforme se observa no Pedido de Arbitramento (fl.2.687). II Da Nulidade do Processo Fiscal por Vício Formal Fl. 8924DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.925 8 Quanto a este item, o argumento é de que o procedimento fiscal não guarda conformidade com as normas que regem os atos administrativos vinculados e regrados, como sói acontecer com a atividade lançadora ou de constituição de crédito tributário (CTN 141, 142; CF/1888, art.5º caput, 1ª parte e incisos II e LV, art.150, IV, c/c o art.34, § 1º, das Disposições Transitórias). Em síntese, são apontadas as seguintes falhas: a) os autos de infração foram lavrados fora do seu estabelecimento, retirando, assim, toda a eficácia do procedimento fiscal, já que foi descumprido preceito determinado pelo art.10 do Decreto nº 70.235/1972; b) não foi efetuado qualquer exame na escrituração comercial e fiscal ou parafiscal que se encontrava em ordem e em dia na forma exigida pela Lei; c) também não foi utilizada a prerrogativa de exame dos livros e documentos fora do estabelecimento, como facultado pelo art.915 do RIR/1999, pois, se assim tivessem agido, teriam a obrigação de lavrar termo escrito de retenção pela autoridade fiscal; d) não foi lavrado qualquer Termo de Verificação, como também foram omitidas do processo, parcial ou totalmente, peças dos MPF que deveriam ser anexadas aos autos, como determina o art.8º, do Decreto nº 70.235/1972, como por exemplo, os MPF datados de 26/04/2004 (falta a 2ª fl. doc. 26, fl.2.830), 16/06/2004 (não consta dos autos doc.27, fl.2.831), 05/07/2004 (falta a 2ª fl., doc.28, fl.2.832) e 24/06/2005 (não consta dos autos doc.28A, fl.2.834); e) não foi efetuada a necessária e indispensável perícia contábil nos livros e documentos e nem foi pedido qualquer esclarecimento em relação às irreais diferenças encontradas, sendo descumpridos, dessa forma, os mandamentos dos arts.911 e 927; f) a fiscalização limitouse a examinar notas fiscais, Livro de Prestação de Serviços e extratos bancários para a lavratura dos autos, não tendo, no período de 26/04/2004 a 29/06/2006, solicitado qualquer esclarecimento, nem procedido a qualquer verificação contábil ou exame de livros, registros, documentos, embora do termo de Início de Fiscalização (fl.2.674 dos autos), tenham exigido sua apresentação; e g) os procedimentos adotados afrontam o princípio do art.5º, LV, da CF, que assegura o contraditório e a ampla defesa nos processos administrativos em geral. É também argumentado que a criação de receitas imaginárias, cujo montante foi arbitrado sobre a movimentação bancária, constitui ofensa frontal à CF, art.145, § 1º, já que se trata de empresa prestadora de serviços, de pequeno porte, que não pode suportar a exigência de tributo vultoso e indevido, além de ofensa direta ao art.150, pois a exigência de tributo indevido constituise em confisco. II Da Decadência Fl. 8925DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.926 9 a) o lançamento em lide inclui fatos geradores ocorridos no ano de 2000; entretanto, esse crédito não foi regularmente constituído, visto que seu lançamento ultrapassou o interregno decadencial de cinco anos; b) com efeito, da ocorrência do fato gerador do tributo nos meses de janeiro de 2000 e maio de 2001, até a data efetiva em que foi lavrado o auto de infração, 29/06/2006, foram decorridos mais de cinco anos; c) é absolutamente tranqüilo o entendimento de que o IRPJ passou a ser tributo sujeito ao lançamento pela modalidade de homologação (inclusive os lançamentos reflexos: IRF, PIS, COFINS e CSLL) e, em conseqüência, o início da contagem do prazo decadencial é a ocorrência do fato gerador do tributo, conforme previsto no § 4º, art.150, do Código Tributário Nacional (CTN); e d) tal entendimento é unânime na nossa doutrina, conforme texto reproduzido às fls.2.725/2.726 e, também está pacificado na Jurisprudência, conforme Acórdãos do Primeiro Conselho de Contibuintes, reproduzidos às fls.2.728/2.730. IV Do Mérito Da Atividade da Interessada a) seu empreendimento sempre objetivou a exploração do ramo de despachos aduaneiros e, durante a longa trajetória empresarial, o instrumento contratual sofreu alterações em suas regras para adequação do fim econômico, jurídico e social da empresa; b) em 10 de dezembro de 1999, para atender o mercado e a clientela, a sociedade alterou sua atividade para exercer tão somente o transporte de carga em geral e a prestação de serviços de assessoria no comércio exterior, tanto que alterou sua denominação social para Importa Assessoria em Comércio Exterior Ltda; c) a última alteração contratual verificouse em 29/05/2006, sem contudo descaracterizar a atividade de despachante aduaneiro; d) assim, é uma empresa de despachos aduaneiros, sendo a principal função do despachante aduaneiro a da formulação da Declaração Aduaneira; e e) os despachantes aduaneiros preparam e assinam os documentos que servem de base ao despacho aduaneiro, na importação e na exportação, verificando o enquadramento tarifário da mercadoria respectiva e providenciando o pagamento de imposto de importação e de imposto sobre produtos industrializados, bem como do imposto sobre circulação de mercadorias, do frete marítimo rodoviário, etc. Do Desprezo da Contabilidade Fl. 8926DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.927 10 a) em nenhum momento declarou que não mantinha contabilidade regular e em dia, ou que não possuía livros Diário/Caixa e demais documentos; b) o que ocorreu, na realidade, é que, durante quase dois anos os AFRF nada examinaram; c) é de se imaginar que o AFRF que substituiu o 1º fiscal já veio com o objetivo de desprezar a contabilidade. Senão, vejamos: em 27/12/2005, recebeu o Termo de Ciência e Continuidade de Procedimento Fiscal com a informação da substituição do AFRF responsável pela fiscalização; entretanto, em 23/12/2005, quatro dias antes, o novo responsável já entrara com Pedido de Arbitramento, alegando falta de documentos, livros, etc; e a conclusão da ação fiscal, na forma solicitada no Ofício FM: 2005004018, estava prevista para o fim do mês de dezembro de 2005 (fl.2.687); d) o procedimento adotado pelo autuante deve ser caracterizado como arbitrário e imotivado, pois desprezou todos os registros e documentos existentes, talvez pelo grande volume documental existente; e e) a amostragem apresentada às fls. 2.733/2.738 demonstra que o arbitramento não guarda conformidade com as normas gerais de contabilidade, nem com os princípios gerais que regulam os lançamentos. Do Regime de Tributação e Percentual Aplicável à Receita Bruta para Obtenção do Lucro Presumido a) nos últimos cinco anos foram apresentadas DIPJ pelo regime tributário do Lucro Presumido; e b) para efeito de tributação e enquadramento dos percentuais aplicáveis tem como principal receita a prestação de serviços de despachante aduaneiro (docs.29/33). Do Arbitramento de Lucro – Depósitos Bancários e da Multa Confiscatória a) possui não somente Diário/Caixa (docs. inclusos), como também toda a documentação demonstrando que a grande maioria dos depósitos bancários não lhe pertence, sendo meros adiantamentos de clientes para pagamento dos Despachos Aduaneiros; b) o autuante não se mostrou interessado em esclarecer qual a sua atividade e o porque da movimentação bancária; c) a desclassificação da escrita para efeito de arbitramento de lucro na apuração do imposto de renda é sempre medida in extremis, que somente tem eficácia se o contribuinte não tiver livros, documentos de receitas e despesas que permitam apurar o lucro sujeito à tributação; Fl. 8927DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.928 11 d) assim, no presente caso, é nulo o arbitramento do lucro através da desclassificação da escrita; e) ainda que não existissem os livros fiscais, é defeso à fiscalização lançar tributos com apoio somente em extratos bancários; f) a jurisprudência do Conselho de Contribuintes é clara sobre o assunto, conforme Acórdãos reproduzidos às fls. 2.740/2.741; e g) a multa de 75% sobre os valores arbitrados, além de totalmente indevida, constitui confisco tributário, vedado pelo art.150, IV, da CF. Finalizando, a interessada requer, com amparo no art.17 e seu parágrafo único do Decreto nº 70.235/1972, e dentro do princípio do contraditório assegurado pela Constituição Federal, seja deferida a produção de prova pericialcontábil, necessária para provar suas argumentações, nomeando sua perita contábil e apresentando os quesitos a serem respondidos (fls.2.741/2.742). IV DA IMPUGNAÇÃO AOS LANÇAMENTOS DAS CONTRIBUIÇÕES Relativamente aos lançamentos da Contribuição Social, do PIS e da COFINS a interessada se reporta às razões de fato e de direito elencadas na defesa apresentada em relação ao lançamento de IRPJ. Finalizando, a interessada requer, com base e apoio nas Súmulas 346 e 473 do STF, sejam as impugnações julgadas procedentes, excluindo das exigências os períodos abaixo discriminados, uma vez que os referidos créditos tributários encontramse extintos, conforme dispõe o § V, do art. 156, do CTN: Contribuição Social Períodos de 03/2000 a 05/2001 PIS e COFINS Períodos de 01/2000 a 05/2001 V DA DILIGÊNCIA EFETUADA Com base em análise preliminar desta relatora (Informação de fls.3.493/3.496), a Sra. Presidente desta 4ª Turma de Julgamento da DRJ/RJO1 não acolheu o pedido de perícia formulado pela interessada e converteu o julgamento em diligência, a fim de que, em face das argumentações e dos documentos apresentados por ocasião da impugnação, fossem respondidas, pelo AFRF autuante, as questões propostas às fls.3.494/3.495 (vol.XVIII). Na oportunidade, foi, também, indicado que, caso ficasse demonstrado que a interessada não possuía livro Diário/Caixa escriturado dia a dia, com toda a movimentação financeira, inclusive bancária, ou pudesse ser demonstrada a sua recusa na apresentação de sua escrituração, fosse efetuada Intimação para a interessada comprovar, para o período de 01/07/2001 a 31/12/2004, a origem dos depósitos efetuados em suas contas bancárias, conforme relacionado no Anexo III do Termo de Verificação e Constatação de Infração Fiscal, integrante dos autos de infração lavrados (fls.160/176), efetuandose, após, levantamento detalhado dos dados, a fim de que o processo fosse saneado. Em atenção à Diligência determinada, o AFRFB designado (fl.3.497, vol.XVIII) lavrou Termos de Intimação à interessada, datados de Fl. 8928DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.929 12 10/07/2008 (fls.3498/3499), 03/01/2009 (fl.3.774), respondidos em, respectivamente, 11/08/2008 (fls.3500/3.502 e docs. de fls.3.503/3.773) e 20/02/2009 (fls. 3775/3777 e docs.de fls.3.778/3.789). Com o objetivo de verificação dos Termos de Autenticação, datados de 24/09/2002, 18/07/2003, 07/05/2004, 06/04/2005 e 06/09/2005, das folhas dos Termos de Abertura dos Livros Diário de nºs 00003 a 00008 e de outros livros contábeis e fiscais da interessada, caso existissem, o AFRFB designado lavrou também Termo de Intimação Fiscal à Junta Comercial do Estado de São Paulo (fl.3790), reiterado pelo Ofício DRF/Santos/Sefis nº 333, de 29/09/2008 (fl.3.805) e pelo Ofício nº 358/2008, de 21/10/2008 (fls.3.807/3.808), ambos emitidos pelo Sr. Chefe da Fiscalização/DRFB/Sts/SP. Em resposta, a Junta Comercial expediu a “Certidão Específica de Livros” (fl.3.812), instruída com os documentos de fls.3.813/3.819). Encerrando, o AFRFB lavrou o TERMO DE DILIGÊNCIA RELATÓRIO CONCLUSIVO (fls.3.831/3846 vol.XIX) respondendo os quesitos constantes da Diligência determinada por esta DRJ/RJO1 (fls.3.494/3.495, vol.XVIII). O conteúdo de algumas respostas é, em síntese, o seguinte: a) Tendo em vista que o Termo de Intimação Fiscal de 04/11/2005 (fl.2.676, vol.XIV) é bem específico ao solicitar, no prazo de 5 (cinco) dias, a apresentação dos Livros Diário, devidamente registrados (autenticados) nos órgãos competentes do comércio, Livros Razão/ Caixa, com lançamentos diários, fundamentados em documentos hábeis e idôneos referentes aos anoscalendário de 1999 a 2004, perguntase: 1) Qual a resposta dada pela interessada a essa Intimação? Não houve resposta. A fiscalizada tomou ciência da Intimação através do sócio Sr. Guilherme Tedesco, no entanto alegava que a escrita fiscal da empresa era feita na filial de São Paulo, mas que iria encaminhar a intimação para o contador responsável para atendimento a fim de que fosse providenciada a entrega. Não providenciou. No curso dos trabalhos, o responsável pela parte contábil da interessada esteve na DRF/STS/SP e alegou que precisava de mais tempo para preparar a documentação fiscal nos moldes que lhe fora solicitado. Sempre que era feito contato pelo telefone com o contador da interessada, a resposta era que os documentos estavam sendo providenciados. Fl. 8929DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.930 13 2) Os Livros Diário nºs 02 a 07 e os livros Caixa correspondentes (fls.2.995 a 3.387, vols.XVI e XVII), cujos extratos instruem a impugnação, foram apresentados à fiscalização nessa oportunidade? Não. Toda a documentação apresentada foi juntada a este processo (volumes I a XIV, e até às fls. 2.694). Reafirmo que foram apresentados, no curso da ação fiscal, tão somente Livros Registros de Prestações de Serviços e Livros Caixa, com lançamentos de partidas e saldos mensais, bem como Livros Razão, registrando, também saldos mensais de Bancos. 3) Em caso afirmativo de 2), quais as falhas contábeis existentes nos lançamentos insertos nos mencionados livros, que justificam a sua não aceitação? Prejudicada, pois os livros não foram apresentados. Apesar de tais livros fiscais e documentos não terem sido apresentados no curso da fiscalização e do fato de terse constatado que estes mesmos livros não se encontram registrados no Órgão de Comércio, segue um breve comentário sobre a escrituração dos citados livros, juntados ao processo (fls.2.996/3.341), a qual apresenta características que a tornam imprestável, conforme passo a comentar: a) Diversos lançamentos são feitos a débito e a crédito da conta “Adiantamentos por conta de DI”, sem que haja a devida discriminação das operações e respectivos clientes, impossibilitando a verificação da origem dos créditos bancários, bem como a destinação dos cheques emitidos; e b) No último dia de cada mês, a interessada faz lançamentos a débito de uma conta bancária e a crédito da conta “Prestação de Serviços” com o histórico de “Rec.Vendas/Serv.”, tais lançamentos sintéticos, além de não vincularem os pagamentos aos respectivos clientes, não encontram respaldo nos extratos, pois na data dos lançamentos escriturados não existem créditos bancários correspondentes 4) Em caso negativo de 2), há registro escrito desse não atendimento, além do que consta no Pedido de Arbitramento, do qual a interessada não foi cientificada? Fl. 8930DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.931 14 Não. O registro do não atendimento está fundado em provas, tais como os reiterados pedidos dos mesmos documentos, relacionados nas intimações (fls. 2.672/2.688), sendo que alguns recebidos pessoalmente por um dos responsáveis da empresa fiscalizada. b) Houve iniciativa, por parte da interessada, de apresentar a documentação exigida após expirar o prazo de 5 (cinco) dias para atendimento da Intimação de 04/11/2005, uma vez que o procedimento fiscal prosseguiu por mais alguns meses, com a lavratura, inclusive, de outros três Termos (os quais não mencionam os livros em causa – fls.2.677, 2.686 e 2.688)? Não. Nas diversas vezes que foram feitos contatos do contador com a DRF/STS/SP, a maioria das vezes foi por telefone, para pedir alongamento do prazo, falava em 01 (um) ano para atendimento das exigências fiscais, mas nunca feitas por escrito, pois alegava que se o fizesse por escrito correria o risco de perder o emprego, mesmo sendo alertado de que o não atendimento às intimações poderia resultar em arbitramento do lucro. c) ...... d) A interessada foi cientificada de que a não apresentação dos livros e documentos solicitados acarretaria o arbitramento dos lucros? Não. A fiscalização julgou desnecessário, pois a interessada já tinha sido alertada por diversas vezes. “Todavia, é de se mencionar que o arbitramento é procedimento extremo que se toma em razão da inexistência de escrituração contábil e fiscal regular e, de acordo com as normas contábeis geralmente aceitas e que portanto, não sendo compartilhada com o fiscalizado, é feita nos termos dos dispositivos prescritos nos arts.529 e 530”. e) Há qualquer outra observação ou informação a ser dada? Fl. 8931DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.932 15 Sim, o contribuinte efetuou juntada na impugnação, às fls.2.712 e seguintes (volumes XIV e XV). A partir do volume XVI apresentou cópias parciais dos seguintes livros: Livro Diário/Caixa de 2000 (Livro Diário nº 00002) fls.2.996 a 3.003 do vol.XVI; Cópias de Livro Caixa/2000 fls. 3.026, 3.034, 3.043, 3.052, 3.060, 3.061, 3.077 e 3.078 do vol.XVI; Livro Diário/Caixa de 2001 (Livro Diário nº 00003) fls.3.080 a 3.087 do vol.XVI; Cópias de Livro Caixa/2001 fls. 3.101, 3.147, 3.155, 3.169, 3.180, 3.188 e 3.205 do vol.XVI; Livro Diário/Caixa de 2002 (Livro Diário nº 00004) fls.3.209 a 3.216 do vol.XVII; Cópias de Livro Caixa/2002 fls. 3.230, 3.239, 3.251, 3.252, 3.263, e 3.271 do vol. XVII; Livros Diário 05/06/Caixa de 2003 (Livro Diário nº 00005) fls.3.272, 3.273 a 3.280 do vol.XVII; Livro Diário 06/2003 (Livro Diário nº 00006) fls.3.281 a 3.288 do vol.XVII; Cópias de Livro Caixa/2003 fls. 3.310, 3.311, 3.323, 3.324 do vol XVII; Livros Diário 07 e 08/Caixa de 2004 (Livro Diário nº 00007) fls. 3.325, 3326 a 3.333 do vol.XVII; Livro Diário 08/2004 (Livro Diário nº 00008) fls.3.334 a 3.341 do vol.XVII; e Cópias de Livro Caixa/2004 fls. 3.351, 3365, 3.374, 3.387, 3.741, 3.742, 3.743 do volume XVII. “Considerando que no curso da ação fiscal o contribuinte não apresentou a documentação requisitada, solicitando reiteradas vezes prazos para aprontála e tendo em vista que Fl. 8932DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.933 16 as cópias da documentação indicam datas de registro anteriores ao início da fiscalização ou no período em que a mesma ocorreu, contradizendo os argumentos do contribuinte, e, ainda, o fato de ter apresentado cópias parciais, levoume a intimar o contribuinte a apresentar os Livros Diários originais. Com esse fato, da citada apresentação causounos estranheza o fato dos Livros apresentados terem sido confeccionados na mesma época (folhas novas não amareladas aparentando não terem sido manuseadas). Para atender às questões formuladas pelo órgão julgador (fls.09/12) foi a empresa fiscalizada intimada a apresentar a documentação comprobatória daquilo que afirma existir. Foram então apresentados os Livros Diários originais, que até esta data não existiam – Intimação de 10/07/2008 (fl.3.498/3.499). Apresentados os Livros Diários, abaixo relacionados:” RELAÇÃO DE LIVROS APRESENTADOS PELA FISCALIZADA IMPORTA Diário nº 02 de 2000 autenticado em 13/04/2001 fls. 2.996 a 3.003 Diário nº 03 de 2001 autenticado em 24/09/2002 fls. 3.080 a 3.087 Diário nº 04 de 2002 autenticado em 18/07/2003 fls. 3.209 a 3.216 Diário nº 05 de 2003 autenticado em 07/05/2004 fls. 3.281 a 3.288 Diário nº 06 de 2004 autenticado em 07/05/2004 fls. 3.281 a 3.288 Diário nº 07 de 2005 autenticado em 06/04/2005 fls. 3.326 a 3.333 Diário nº 08 de 2006 autenticado em 09/06/2005 fls. 3.334 a 3.341 Tendo surgido desconfiança quanto aos números da autenticação dos livros apresentados, foi efetuada diligência junto à Junta Comercial do Estado de São Paulo. Em resposta, foi encaminhada a Ficha Cadastral e Certidão Específica de Livros da empresa Importa Assessoria em Comércio Exterior Ltda, com a informação dos registros dos Fl. 8933DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.934 17 livros da empresa autenticados na referida Junta Comercial, conforme Quadro da Secretaria da Fazenda, Junta Comercial do Estado de São Paulo, Registro de Livros, Fichas e Microfichas (Pesquisa por NIRE) abaixo: Quadro de Registro de Livros Diário Existentes na JUCESP Empresa: Importa Assessoria Comércio Exterior Ltda Nº Registro Data Espécie Nº de Ordem L/F/M NIRE 7958 02/02/2007 Diário 9 0 L 35202076007 29264 10/03/2006 Diário 6 0 L 35202076007 91605 18/06/2004 Diário Geral 4 0 L 35202076007 91606 08/06/2004 Diário Geral 5 0 L 35202076007 91607 08/06/2004 Diário Geral 2 0 L 35202076007 91610 08/06/2004 Diário 3 0 L 35202076007 91611 08/06/2004 Diário 1 0 L 35202076007 145213 19/08/2008 Diário 11 0 L 35202076007 Ante esses dados, verificase que a numeração dos livros fiscais apresentados pela fiscalizada não constam na relação de livros certificados pela JUCESP, o que leva a crer, em tese, tratarse de fraude documental, tornandoos imprestáveis para o fim a que se destinam. Esses fatos configuram, em tese, crime contra a ordem tributária , prevista no inciso I, do art.2º, da Lei nº 8.137/90. Assim, diante dos elementos de prova foi formulada REPRESENTAÇÃO FISCAL PARA FINS PENAIS, cujo Processo Fiscal nº 15983.000.498/200916 (fls.3.824/3830) acompanhado dos elementos de provas, para cumprimento do disposto no art.1º do Decreto nº 2.730, de 19 de agosto de 1998. Nos termos da determinação acima, “doc.3.495 in fine” (volume XVIII), a fiscalizada foi intimada a apresentar a comprovação, para o período de 01/07/2001 a 31/12/2004, referente à origem dos depósitos efetuados em contas Fl. 8934DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.935 18 correntes bancárias, conforme relacionados no Anexo III, do Termo de Verificação e Constatação de Infração Fiscal, conforme cópias anexas (fls.3.498, também do vol. XVIII). Em 11 de agosto de 2008, a interessada, através de seu advogado apresentou os documentos de fls.3500 a 3.743; “A requerente possui livros e documentos que comprovam a origem da movimentação financeira. Assim, resta claro que o ônus probatório do fato tributado é do fisco, que deve, de forma direta e não por intermédio de presunção simples, provar a existência do fato indiciário, sob pena de nulidade, por ausência de prova do lançamento de ofício”. Anexo a esta declaração o contribuinte juntou cópias das planilhas feitas pela fiscalização no momento da autuação, sendo estas já existentes no processo e cópias de alguns documentos. Entretanto não vinculou tais documentos aos créditos bancários. Em 03 de janeiro de 2009, foi lavrada nova intimação (fls.3.744), na qual foi solicitada a vinculação de tais documentos aos respectivos créditos bancários. Em resposta, a interessada apresentou os documentos de fls. 3.745/3756, onde alega que o pedido “data vênia” é equivocado e que tais fatos já haviam sido motivo de esclarecimento na petição protocolada em 11/08/2008, através da qual foram juntados documentos que provam, ainda que por amostragem, a forma administrativa/jurídica/tributária adotada pela empresa. Alega, ainda, que 90% (noventa por cento) da documentação da empresa encontrase na filial de São Paulo e que existe impossibilidade de apresentálos à fiscalização devido à grande quantidade. Fl. 8935DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.936 19 Dessa forma, considerandose que os elementos apresentados pela interessada não comprovaram de forma satisfatória a origem da movimentação financeira, já que não foi apresentada correlação entre os créditos bancários e a respectiva escrituração, a autuação deve permanecer inalterada. Conforme relatado pelo ARFRB, foi lavrada a Representação Fiscal para Fins Penais, sendo que, na oportunidade, foram retidos os Livros Diário nºs 02/2000, 03/2001, 04/2001, 05 e 06/2003 e 07 e 08/2004, através do Termo de Retenção de Livros e Documentos (fl.3.823). Ainda em atenção à Diligência determinada por esta DRJ/RJO1, o AFRFB designado (fl.3.497) deu ciência à interessada do seu Relatório Conclusivo, abrindo o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação da interessada, que, em síntese, argumentou que (fls.3.849/3.852, vol.XIX): a) em resposta ao Termo de Intimação, datado de 10/07/2008, fornecera ao auditor fiscal livros Caixa e Relatório de Movimentação Financeira, relatório este que foi enviado com anotações e informações sobre a origem de cada lançamento (indicação de fls.e nº do Livro Caixa) em que poderia ser encontrado o lançamento, inclusive, algumas fichas de movimentação financeira de alguns clientes, tudo, para que pudesse entender o processo que adota; b) nas referidas fichas constaram em anexo a movimentação contábil do cliente, tais como: valor, banco em que ocorreu o depósito, pagamentos de tributos como IPI, II, ICMS, Cofins, Pis, transporte, despesas de fretes de carga, taxa Siscomex, Taxa DAS e cobrança da comissão, juntamente com a Nota Fiscal de Serviços; c) além dos documentos fornecidos por amostragem, colocara à disposição do Fisco o restante dos documentos arquivados na empresa; d) sem complementar o MPF relativo à Diligência de que se trata, o AFRFB, sem observar as regras relativas aos procedimentos fiscais, por telefone, exigira a entrega dos Livros Diários/Razão de todos os exercícios questionados, o que foi feito, conforme protocolo de 26/08/2008; e) quanto à Intimação de 11/02/2009, apresentara petição, alegando que o pedido era equivocado, uma vez que já juntara os documentos solicitados, demonstrando a forma administrativa/jurídica que adota e, que, dado o grande volume de documentos e o fato de a documentação encontrarse na filial em São Paulo, precisaria do prazo de Fl. 8936DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.937 20 90 (noventa) dias para relacionar e protocolar a totalidade dos documentos; e f) ainda no curso do procedimento fiscal e sem a emissão do competente MPFD, foi exigida a apresentação do Livro Diário nº 2, o que foi feito, conforme protocolo de 14/07/200 (sic); Quanto ao conteúdo do Termo de Diligência e Relatório Conclusivo, a interessada observou, em síntese, que (fls.3.853/3.864): a) faltou ao Fisco coletar, através dos documentos e outros indícios, as provas necessárias para caracterizar a omissão de receitas; b) com efeito, seria fácil provar que os valores constantes dos extratos bancários não pertencem à requerente, e sim aos clientes; bastaria que fosse analisado o prontuário de cada cliente e verificados os adiantamentos de valores (depósitos bancários); c) a atividade de despachante não é matéria desconhecida da fiscalização; todas as empresas procedem da mesma forma, ou seja, para a liberação da carga (serviços de despacho) os clientes adiantam valores de impostos/taxas/custa/transportes, etc.; d) quanto aos livros comerciais solicitados no Termo de Intimação de 04/11/2005, bastava a requerente entregar, como fez, o Livro Caixa, a teor do que dispõe a Lei nº 8.981/1995, em seu art, 45, I e II e Ato Declaratório Normativo Cosit nº 35/1994, pois como optante pelo Lucro Presumido nos períodos fiscalizados, estava dispensada da escrituração contábil do Diário; e) por óbvio que a Intimação de 04/11/2005 não foi respondida, em razão da intempestiva substituição do AFRFB que iniciara a fiscalização e que não mais voltou à empresa (nem em Santos e nem em São Paulo); f) na sequência dos trabalhos, o novo AFRFB lavrou alguns termos, e, sem realizar qualquer fiscalização, baseandose em presunção arbitrou os lucros com base em depósitos bancários; g) os livros comerciais foram entregues, e, ao contrário do que afirma o AFRFB os documentos de fls.2.296 a 3.341 estão revestidos dos requisitos extrínsecos e intrínsecos preceituados em Lei: são lançamentos sem rasuras ou indícios de adulteração e efetuados em ordem cronológica (dia, mês e ano), constando cada lançamento, seja a débito ou a crédito, todos os dados necessários à apuração da origem dos eventos (depósitos e pagamentos); h) os lançamentos do último dia do mês correspondem ao acerto que é feito ao final do trabalho, sendo emitida Nota Fiscal de Serviços e verificado se há diferença a receber ou a devolver; i) é necessário afirmar, mais uma vez, que não houve falta de atendimento às intimações, pois foram apresentados declaração de rendimentos, livros fiscais e Livro Caixa, Fl. 8937DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.938 21 extratos bancários e demais documentos, conforme comprovam as fls. 2.674/2.686 e 2.688; e j) não foi intimada e nem notificada de que seria autuada por arbitramento de lucro, “nem antes e nem depois da autuação”. Quanto à Representação Fiscal para Fins Penais a interessada argumenta que: a) os fatos caracterizadores do ilícito contidos na representação, data vênia, não correspondem à realidade; b) sempre agiu de boa fé, tanto é que ofertou todos os livros e documentos, independentemente de Intimação ou Termo; c) a Diligência foi encaminhada ao auditor fiscal Adriano Ferrari (que procedeu o arbitramento) e depois distribuído, sem qualquer justificativa ao AFRFB Sebastião Luiz Moreira; ora o Sr. Sebastião havia sido substituído, durante os trabalhos de fiscalização, conforme consta do Termo de fl. 2.677; portanto, foge à competência do ilustre auditor analisar o referido processo e, também, requerer qualquer procedimento de representação; e d) a ilação contida na Representação de que se trata deve ser provada não através de numeração inexistente (alegada pelo auditor), mas com profundeza para buscar o agente que praticou algum ato omissivo ou comissivo, que se busque resultado concreto, ou seja, a existência do fato e sua autoria, a materialidade, se deixou de pagar tributo. Finalizando, a interessada requer, em síntese, seja: a) considerado o Termo de Diligência e Relatório Conclusivo inconsistente; e b) concedido o direito pleno e amplo assegurado pela Constituição Federal, para contestação da Representação Fiscal para Fins Penais. A turma julgadora a quo julgou a impugnação parcialmente procedente. O crédito tributário exonerado referese: a) decadência (ciência do lançamento em 30/06/2006): em razão da existência de pagamento antecipado o crédito tributário de IRPJ e de CSLL dos quatro trimestres de 2000 e dos primeiro e segundos trimestres de 2001, e, em relação ao PIS e a Cofins: 1º) relativamente aos períodos em que foram localizados pagamentos, a contagem, assim como para o IRPJ e a Contribuição Social, processase de conformidade com o art. 150, parágrafo 4º, do CTN, ou seja, o prazo decadencial é de cinco anos contados a partir da ocorrência do fato gerador. Assim, os períodos de jan/2000 a jun/2001 (com exceção de julho/2000) estão alcançados pela decadência; 2º) a contagem relativa ao período de julho/2000 se processa de acordo com o art.173, I, do CTN; Fl. 8938DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.939 22 3º) a exigência relativa ao fato gerador de 30/07/2000 poderia ter sido efetuada no próprio exercício de 2000. Assim, a contagem do prazo decadencial iniciase em 01/01/2001, encerrandose em 31/12/2005; portanto, esse período também foi alcançado pela decadência. Em face do exposto, tornase indevida a cobrança do IRPJ e das contribuições em foco, para os períodos de apuração abaixo relacionados, em face da decadência: · IRPJ e Contribuição Social 31/03, 30/06, 30/09 e 31/12/2000, e 30/03 e 30/06/2001; e · PIS e COFINS: jan/2000 a junho/2001 b) aproveitamento dos pagamentos de IRPJ e de CSLL efetuados sob a forma de Lucro Presumido. A Recorrente apresentou recurso voluntário tempestivamente reforçando seus argumentos já aduzidos em impugnação. Por meio da Resolução nº 1402000.139 (sessão de 11 de setembro de 2012 – Relator Conselheiro Antônio José Praga de Souza), esse colegiado converteu o julgamento em diligência, nos seguintes termos: Tratase exigência fiscal por omissão de receitas calcada em depósitos bancários de origem não comprovada, tendo a fiscalização arbitrado o lucro da empresa, que havia optado pela sistemática do lucro presumido. O contribuinte alega desde a auditoria fiscal que os depósitos em suas contas bancárias, objeto da tributação, referem em sua maioria a valores repassados pelos clientes para pagamento de tributos e outros custos das importações realizadas por seus clientes. A alegação é factível e pode ser comprovada mediante verificação das saídas dessas contas (pagamentos). Todavia, entendo que o trabalho deve ser feito pela fiscalização, haja vista que no momento em que o contribuinte apresentar a documentação será possível verificar eventuais inconsistências e intimar o contribuinte a esclarecêlas. Diante do exposto, voto no sentido de converter o julgamento em diligência para que a Fiscalização identifique as principais saídas de recursos dessas contas correntes (pagamentos), por amostragem, e intime o contribuinte a apresentar provas de tais valores se referem a quitação de débitos de seus clientes, no prazo de 30 dias. Fica a cargo e critério da Fiscalização efetuar outros procedimentos, concernentes ao escopo da diligência, que entender cabíveis. Ao final, a Fiscalização deverá elaborar relatório consubstanciado, e intimar a contribuinte para, caso deseje, se manifestar no prazo de 30 dias. Fl. 8939DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.940 23 Por meio do Relatório de Conclusão de Diligência Fiscal de fls. 8.8558.881, a autoridade fiscal responsável descreveu o resultado da diligência realizada, cientificando o contribuinte e abrindolhe prazo para sua manifestação. A Recorrente manifestouse por meio do expediente de fls. 8.8908.894, requerendo o cancelamento integral da exigência ante as próprias conclusões do Relatório de Conclusão de Diligência Fiscal. É o relatório. Fl. 8940DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.941 24 Voto Conselheiro FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO, Relator. 1 ADMISSIBILIDADE O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais pressupostos para sua admissibilidade. Dele, portanto, tomo conhecimento. 2 RESUMO DA LIDE Tratase de lançamentos de IRPJ, CSLL, PIS e Cofins relativos à omissão de receita apurada com base em depósitos bancários de origem não comprovada (art. 42 da Lei nº 9.430/96). Segundo a Recorrente os valores depositados em suas contas por seus clientes não se referem, em sua totalidade, a seus rendimentos, pois, na realidade, a maior parte desses recursos referese a valores para pagamentos de tributos incidentes sobre importações, armazenagem de cargas, frete de carga, taxa Siscomex, entre outros valores relativos a importações realizadas pela Recorrente por conta e ordem de seus clientes. O presente processo já foi alvo de análise por parte desta turma julgadora, ainda que em composição bastante distinta da atual e com relatoria de conselheiro que não mais compõe este colegiado. Na ocasião, converteuse o feito em julgamento para que a Recorrente pudesse demonstrar, como realizado em alguns casos em seu recurso voluntário, que seus argumentos estariam embasados em documentação que comprovaria sua tese. 3 MÉRITO A Recorrente é acusada de omissão de receita, caracterizada pela falta de comprovação da origem dos depósitos/créditos efetuados em suas contas bancária, tendo por base legal o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, que assim dispõe: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Tal dispositivo legal estabeleceu uma presunção de omissão de receitas, autorizando a exigência de imposto de renda e de contribuições correspondentes, sempre que o titular da conta bancária, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. Fl. 8941DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.942 25 A inversão legal do ônus da prova é perfeitamente aceita por nosso ordenamento jurídico, estando regulada também no artigo 334, inciso IV, da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973 (Código de Processo Civil – CPC), aplicado subsidiariamente ao Decreto nº 70.235/1972 no Processo Administrativo Fiscal: Art. 334. Não dependem de prova os fatos: (...) IV – em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade. A Lei nº 5.172, de 1966 (Código Tributário Nacional CTN), recepcionada pela nova Constituição, consoante artigo 34, § 5º, do Ato das Disposições Transitórias, define, em seus artigos 43, 44 e 45, o fato gerador, a base de cálculo e os contribuintes do imposto sobre a renda e proventos de qualquer natureza. De acordo com o artigo 44, a tributação do imposto de renda não se dá só sobre rendimentos reais, mas, também, sobre rendimentos arbitrados ou presumidos por sinais indicativos de sua existência e montantes. Esses artigos assim dispõem: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Art. 44. A base de cálculo do imposto é o montante real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos tributáveis. Art. 45. Contribuinte do imposto é o titular da disponibilidade a que se refere o artigo 43, sem prejuízo de atribuir a lei essa condição ao possuidor, a qualquer título, dos bens produtores de renda ou dos proventos tributáveis. Parágrafo único. A lei pode atribuir à fonte pagadora da renda ou dos proventos tributáveis a condição de responsável pelo imposto cuja retenção e recolhimento lhe caibam. A presunção em favor do Fisco transfere ao contribuinte o ônus de elidir a imputação, mediante a comprovação, no caso, da origem dos recursos utilizados para efetuar os depósitos bancários. Tratase, afinal, de presunção relativa, passível de prova em contrário. É função do Fisco, entre outras, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento e intimar o titular da conta bancária a apresentar os documentos, informações e esclarecimentos, com vistas à verificação da ocorrência de omissão de receitas de que trata o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Contudo, a comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações é obrigação do contribuinte. Fl. 8942DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.943 26 No caso concreto, conforme requerido em resolução proferida por este mesmo colegiado, a Recorrente foi intimada a comprovar, com documentação hábil e idônea, a origem dos valores depositados/creditados nas suas contas corrente, de modo a evidenciar o que alegara e comprovara em algumas operações: que a maior parte desses recursos referiase a valores para pagamentos de tributos incidentes sobre importações, armazenagem de cargas, frete de carga, taxa Siscomex, entre outros valores relativos a importações realizadas pela Recorrente por conta e ordem de seus clientes. Realizada a diligência, a autoridade fiscal responsável por sua execução elaborou o minucioso Relatório de Conclusão de Diligência Fiscal de fls. 8.8558.881 (e planilhas de fls. 8.8538.854), examinando mais de 5.000 documentos disponibilizados pela Recorrente e assim concluiu (fl. 8.880): Assim, estamos concluindo à presente diligência fiscal, na qual foi constatada, para os documentos verificados por amostragem o liame entre os depósitos em contas correntes bancárias e as despesas de importações pagas pelos clientes da fiscalizada. Diante de tal conclusão da autoridade fiscal, considero que a presunção de omissão de receita não se sustenta, uma vez que a Recorrente se desincumbiu de seu ônus probatório mediante a comprovação de que, com exceção dos valores cobrados pelos serviços prestados (e devidamente oferecidos à tributação), o excedente de depósitos bancários questionados pelo Fisco referiase a valores depositados por clientes da Recorrente para pagamentos de tributos incidentes sobre importações, armazenagem de cargas, frete de carga, taxa Siscomex, licenciamento para exportação e demais custos envolvidos nas operações de comércio exterior, haja vista a própria atividade desenvolvida pela Recorrente. Desse modo, entendo que o recurso deva ser provido, cancelandose integralmente a exigência. Exonerado o lançamento quanto ao IRPJ, é de se exonerar também as exigências reflexas de CSLL, PIS e Cofins, ante a íntima relação de causa e efeito. Sendo o mérito favorável ao contribuinte, deixo de me pronunciar sobre as questões preliminares em razão do disposto no § 3º do art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Por fim, como o crédito tributário exonerado pela decisão de primeira instância diz respeito a mesma infração, considero prejudicado o recurso de ofício. Fl. 8943DF CARF MF Processo nº 15983.000212/200641 Acórdão n.º 1402002.353 S1C4T2 Fl. 8.944 27 4 CONCLUSÃO Ante o exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário e considerar prejudicado o recurso de ofício. (assinado digitalmente) FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO – Relator Fl. 8944DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13839.904312/2009-20
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Mar 22 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Data do fato gerador: 03/04/2002
RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS
Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Data do fato gerador: 03/04/2002
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS.
O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como pára-brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classifica-se na posição 7007 da TIPI.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 03/04/2002
NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA
Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3301-003.180
Decisão:
ACORDAM os membros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Data do fato gerador: 03/04/2002 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. Assunto: Classificação de Mercadorias Data do fato gerador: 03/04/2002 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como pára-brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classifica-se na posição 7007 da TIPI. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 03/04/2002 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : ACORDAM os membros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 7; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1623; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C3T1 Fl. 2 1 1 S3C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13839.904312/200920 Recurso nº 1 Voluntário Acórdão nº 3301003.180 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 20 de fevereiro de 2017 Matéria IPI. COMPENSAÇÃO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. Recorrente VITROTEC VIDROS DE SEGURANÇA LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 03/04/2002 RESTITUIÇÃO. COMPENSAÇÃO. PER/DCOMP. CRÉDITO LÍQUIDO E CERTO. COMPROVAÇÃO. ÔNUS Nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Data do fato gerador: 03/04/2002 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. O produto denominado vidros de segurança não emoldurados utilizados como párabrisas e nas janelas dos veículos automóveis, classificase na posição 7007 da TIPI. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 03/04/2002 NULIDADE. CERCEAMENTO DE DEFESA Não padece de nulidade o despacho decisório, proferido por autoridade competente, contra o qual o contribuinte pode exercer o contraditório e a ampla defesa, onde constam os requisitos exigidos nas normas pertinentes ao processo administrativo fiscal. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 90 43 12 /2 00 9- 20 Fl. 58DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 3 2 ACORDAM os membros da 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Luiz Augusto do Couto Chagas (Presidente), José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Trata o presente de Recurso Voluntário contra o Acórdão 1429.692, exarado pela 2ª Turma da DRJ/RPO em face de Despacho Decisório que denegou restituição pleiteada e, conseqüentemente, não homologou as compensações declaradas. A recorrente formalizou PER/DComp objetivando a compensação de pretensa diferença recolhida a maior relativa ao IPI. A fiscalização, a partir das características do DARF discriminado no PER/DComp, constatou que o crédito alegado como indevidamente pago foi integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. O interessado apresentou manifestação de inconformidade tempestiva, onde alegou, em sede preliminar, que a fundamentação legal genérica do Despacho Decisório implicou cerceamento do seu direito de defesa. No mérito, sustentou que o direito à restituição decorre de recolhimento a maior de IPI face a erro de classificação de seus produtos (vidros não emoldurados destinados exclusivamente para serem utilizados no párabrisas e nas janelas dos veículos automotores das posições 8701 a 8705). Os mesmos foram classificados na posição 7007 (Vidros de Segurança), com alíquota de 15% de IPI, quando o correto, segundo motivos, julgados e princípio da seletividade, deveria ser na posição 8708 da TIPI (partes e acessórios dos veículos automóveis das posições 8701 a 8705), com alíquota de 5%. Ao analisar a Manifestação de Inconformidade, a DRJ/RPO julgoua IMPROCEDENTE, nos termos do Acórdão 1429.692, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: 03/04/2002 NULIDADE. DESPACHO DECISÓRIO. Somente são nulos os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com comprovada preterição do direito de defesa. Fl. 59DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 4 3 RESTITUIÇÃO. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. VIDROS DE SEGURANÇA APLICADOS EM VEÍCULOS AUTOMÓVEIS. Inexiste erro de classificação fiscal se contribuinte lançou nos documentos fiscais e recolheu com a respectiva alíquota os vidros, utilizados como pára brisas e nas janelas dos veículos automóveis, classificados na posição 7007 da TIPI. Conseqüentemente, inexiste recolhimento indevido ou maior que o devido que se enquadre como crédito líquido e certo contra a Fazenda Nacional. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Inconformado o contribuinte apresentou Recurso Voluntário replicando as alegações da Manifestação de Inconformidade. É o relatório, em sua essência. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.171, de 20 de fevereiro de 2017, proferido no julgamento do processo 13839.904308/200961, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.171): "O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos para sua admissibilidade. Dele tomo conhecimento. As indicações de folhas no presente voto, não havendo informação contrária, referemse à numeração constante no eprocesso. 1 Da Preliminar de Nulidade A recorrente alega que houve preterição do direito de defesa, ensejando a nulidade do despacho Decisório, por indicação inespecífica de dispositivo legal, nos seguintes termos: No despacho decisório que não homologou a compensação em tela constam como enquadramento legal: "Artigo 165 e 170, da Lei n°5.172 (CTN); Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. " Fl. 60DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 5 4 Ocorre que os artigos contém parágrafos e incisos QUE NÃO FORAM DEVIDAMENTE ESPECIFICADOS, o que resultou na impossibilidade de a recorrente identificar qual deles fundamenta a decisão não homologatória da compensação, ou seja, EVIDENCIASE INDICAÇÃO INESPECÍFICA QUE CARACTERIZA FORMALIZAÇÃO INCORRETA, em flagrante contrariedade ao que dispõe a legislação que rege a matéria e que prevê a indicação clara e precisa dos dispositivos legais supostamente infringidos , o que não ocorreu no caso. Tal fato resulta em flagrante prejuízo à defesa do contribuinte, resultando em vício insanável que enseja a nulidade do despacho decisório". Não vislumbro nos autos qualquer preterição do direito de defesa. O Acórdão recorrido não merece reparos, nesse pormenor. O despacho Decisório encontrase suficientemente fundamentado e o enquadramento legal está adequado aos fatos apurados. Não há, na espécie, motivo para que a autoridade fiscal indicasse os incisos ou alíneas em que se subdividiam os artigos elencados. Andou bem o julgador de primeira instância, vejamos parte dos fundamentos de seu voto que: [...] "Contudo, o que constato é que, para um pedido genérico lastreado num DARF, regularmente utilizado, para a integral quitação de débitos, mormente por inexistir qualquer retificação do DARF e da DCTF, nenhuma outra capitulação legal seria possível, aliás, creio que foi até exaustiva no caso, pois, bastaria citar o artigo 171 do CTN, ou seja, que a compensação só se faz com créditos líquidos e certos contra a Fazenda Nacional." [...] O excerto acima transcrito é suficientemente didático. Não há coerência lógica nos argumentos trazidos pela recorrente, senão o intuito de dar sobrevida ao litígio. Com o exposto, não se verifica qualquer cerceamento do direito de defesa, tampouco algum ato ou fato que ampare, ainda que de longe, a nulidade do Despacho Decisório. 2 Do Mérito O cerne do litígio está centrado da [in]existência do crédito disponível para restituição, submetido à PER/DComp, i.é., [in]existência de pagamento a maior de IPI por parte do contribuinte. A fiscalização, em procedimento de análise de PER/DComp, detectou que o crédito alegado como indevidamente pago fora integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. O recorrente, por sua vez, alega que efetuou recolhimento de IPI a maior em face de equívoco na classificação fiscal de vidros não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores das posições 8701 a 8705 da Fl. 61DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 6 5 TIPI. Originariamente efetuou os recolhimento do IPI com base na posição da TIPI 7007, alíquota de 15%, conquanto, no seu entender, deveria ter recolhido com base na posição 8708, alíquota de 5%. Sustenta que tem o direito de classificar os vidros não emoldurados nas subposições 8708.29.19 ou 8708.29.99 da TIPI. Tece comentários sobre a metodologia do sistema de classificação fiscal e procura demonstrar a correção da classificação utilizada. Adentra em comentários acerca do princípio da seletividade do IPI sustentando que os princípios constitucionais devem ser considerados prioritariamente para fim de classificar um produto na TIPI, em detrimento às regras do Sistema harmonizado. Em resumo temos que o recorrente sustenta que cometeu erro na classificação de vidros não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores, de sua fabricação e, como conseqüência, recolheu IPI a maior. É nessa matéria, classificação fiscal, que se limita a peça recursal. Outrossim, a exigência fiscal emerge da constatação por parte da fiscalização de que o crédito alegado como indevidamente pago fora integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para a compensação pretendida. Essa é a matéria posta originariamente pela fiscalização. Sobre ela nada falou o recorrente. Apressome a afirmar: ainda que o recorrente tenha êxito quanto a classificação por ele pretendida, fazse necessária a comprovação de que eventual pagamento a maior do IPI fora devidamente escriturado, bem assim que as obrigações acessórias tenham sido alteradas para contemplar os valores efetivamente devido do tributo, tornadoo liquido e certo. Portanto temos dois pontos a serem apreciados: (i) a liquidez e certeza do crédito alegadamente pago a maior e (ii) a correta classificação do produto. 2.1 A LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO ALEGADAMENTE PAGO A MAIOR É notoriamente sabido que, nos processos derivados de pedidos de restituição, compensação ou ressarcimento, a comprovação dos créditos ensejadores incumbe ao postulante, que deve carrear aos autos os elementos probatórios correspondentes, capaz de demonstrar a liquidez e certeza do pagamento indevido. Essa é a dicção do art. 373, inciso I, do Código de Processo Civil – CPC, aplicado subsidiariamente ao processo administrativo fiscal Decreto nº 70.235/72 (PAF): Art. 373 O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; [...] Disso não se desincumbiu o contribuinte. Do compulsar dos autos não se vislumbra nenhum elemento apresentado pela recorrente que tenha o condão de afastar as alegações da fiscalização que alicerçaram a negativa relativa ao pedido de restituição. Fl. 62DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 7 6 Noutra esteira, a fiscalização demonstrou que, relativamente ao crédito que se pretende ser indevido, há débitos a ele originariamente vinculados, portanto não disponíveis para restituição e, conseqüentemente, não servindo para custear compensação. Dessarte, depreendese que os valores de IPI que o recorrente pretende considerar indevidamente recolhidos para fins de fruição de restituição não se encontram devidamente comprovados, portanto não revestidos de certeza e liquidez. 2.2 A CORRETA CLASSIFICAÇÃO DO PRODUTO Passo a apreciar a classificação fiscal adotada pelo contribuinte para o produto vidro não emoldurados destinados para uso nos párabrisas e janelas de veículos automotores. Ressaltese que a classificação fiscal, no caso concreto, não influenciará diretamente na decisão quanto ao direito à restituição, posto que, isoladamente, eventual erro na classificação não é suficiente para dotar de liquidez e certeza o crédito pago a maior,. O recorrente sustenta que tem o direito de classificar os vidros não emoldurados nas subposições 8708.29.19 ou 8708.29.99 da TIPI. Tece comentários sobre a metodologia do sistema de classificação fiscal e procura demonstrar a correção da classificação utilizada. Adentra em comentários acerca do princípio da seletividade do IPI sustentando que os princípios constitucionais devem ser considerados prioritariamente para fim de classificar um produto na TIPI, em detrimento às regras do Sistema harmonizado. O Julgador a quo, em seu voto, constante do Acórdão recorrido, fundamenta exaustivamente as razões para descaracterizar a pretensa classificação dos vidros na posição 8708 e a necessária e correta classificação na posição 7007. vejamos excerto do voto: [...] Quanto ao mérito, nenhuma razão assiste ao interessado, sendo que a classificação fiscal do produto em questão já é pacificada na Receita Federal do Brasil desde 1998, quando, mediante o DEC SRRF 8ª RF nº 155/98, publicado no DOU em 06/08/98, classificou na posição 7007 da TIPI os vidros a serem utilizados como párabrisas e nas janelas dos veículos automóveis. [...] Não vislumbro razão para o aprofundamento da análise da presente matéria, a uma, pelo brilhante voto constante do Acórdão recorrido, não merecendo reparos, a duas, em face da publicação da Solução de Consulta do Centro de Classificação de Mercadorias da RFB, SC 56/2014, 1ª Turma, com a qual concordo e a utilizo como fundamento de minha decisão. Sua ementa é suficientemente esclarecedora: 7007.21.00 Vidro de segurança não emoldurado, formado por folhas contracoladas (vidro laminado), de espessuras que variam de 1 mm até mais de 6,5 mm, acompanhado de guarnição de borracha para vedação, destinado a uso como parabrisa de automóveis SC 296/2015 1ª Turma Fl. 63DF CARF MF Processo nº 13839.904312/200920 Acórdão n.º 3301003.180 S3C3T1 Fl. 8 7 Como se vê o produto denominado vidro de segurança não emoldurado, destinado a uso como parabrisa de automóveis tem definida e consolidada sua classificação fiscal na posição 7007. Dispositivo Ante o exposto, considerando que (i) os créditos de IPI que se pretende considerar indevidamente recolhidos para fins de fruição de restituição, não se encontram devidamente comprovados, portanto não revestidos de certeza e liquidez e que (ii) o produto denominado vidro de segurança não emoldurado, destinado a uso como parabrisa de automóveis deve ser classificado fiscal na posição 7007, da TIPI, voto por NEGAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, negase provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 64DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10840.004103/2008-76
Turma: Terceira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 03 00:00:00 UTC 2011
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano calendário:2004
OMISSÃO NA ENTREGA DA DCTF. OPÇÃO SIMPLES FEDERAL.
Comprovada a omissão na entrega da DCTF sujeita se o contribuinte às penalidades da lei de regência, não confirmada a condição de optante pelo SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96).
ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano calendário:2004
PEDIDO DE INCLUSÃO RETROATIVA. NOVA DISCUSSÃO.
Não é possível nova apreciação das razões acerca do pedido de inclusão retroativa ao SIMPLES FEDERAL, quando o mérito da matéria já foi objeto de exame em processo específico definitivamente julgado no âmbito administrativo.
Numero da decisão: 1803-001.002
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar
provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado.
Nome do relator: Walter Adolfo Maresch
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ementa_s : OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano calendário:2004 OMISSÃO NA ENTREGA DA DCTF. OPÇÃO SIMPLES FEDERAL. Comprovada a omissão na entrega da DCTF sujeita se o contribuinte às penalidades da lei de regência, não confirmada a condição de optante pelo SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96). ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Ano calendário:2004 PEDIDO DE INCLUSÃO RETROATIVA. NOVA DISCUSSÃO. Não é possível nova apreciação das razões acerca do pedido de inclusão retroativa ao SIMPLES FEDERAL, quando o mérito da matéria já foi objeto de exame em processo específico definitivamente julgado no âmbito administrativo.
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OPÇÃO SIMPLES FEDERAL. Comprovada a omissão na entrega da DCTF sujeitase o contribuinte às penalidades da lei de regência, não confirmada a condição de optante pelo SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96). ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2004 PEDIDO DE INCLUSÃO RETROATIVA. NOVA DISCUSSÃO. Não é possível nova apreciação das razões acerca do pedido de inclusão retroativa ao SIMPLES FEDERAL, quando o mérito da matéria já foi objeto de exame em processo específico definitivamente julgado no âmbito administrativo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Selene Ferreira De Moraes Presidente. (assinado digitalmente) Walter Adolfo Maresch Relator. Fl. 47DF CARF MF Emitido em 09/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 09/08/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 10840.004103/200876 Acórdão n.º 18031.002 S1TE03 Fl. 42 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Selene Ferreira de Moraes (Presidente), Sérgio Rodrigues Mendes, Walter Adolfo Maresch, Sérgio Luiz Bezerra Presta e Meigan Sack Rodrigues. Fl. 48DF CARF MF Emitido em 09/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 09/08/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 10840.004103/200876 Acórdão n.º 18031.002 S1TE03 Fl. 43 3 Relatório VIBROMAQ EQUIPAMENTOS INDUSTRIAIS LTDA, pessoa jurídica já qualificada nestes autos, inconformada com a decisão proferida pela DRJ RIBEIRÃO PRETO (SP), interpõe recurso voluntário a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, objetivando a reforma da decisão. Adoto o relatório da DRJ por bem retratar os fatos. Versa o presente processo sobre notificação de lançamento (fl. 15), mediante a qual é exigido da contribuinte acima identificada crédito tributário relativo A multa por atraso na entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários (DCTF), relativa ao 4° trimestre do anocalendário de 2004, no valor de R$ 500,00. Ciente do lançamento, a contribuinte ingressou com impugnação (fls. 1/10) na qual solicita o cancelamento da exigência tributária, sob alegação de que não apresentou a referida declaração porque se encontrava devidamente inscrita no Simples, razão pela qual não fica obrigada a apresentação da referida declaração. Defendeu a legalidade de sua inclusão no Simples. A DRJ RIBEIRÃO PRETO/SP, através do acórdão 1426.471, de 15 de outubro de 2009 (fls. 19/20), julgou procedente o lançamento, ementando assim a decisão: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2004 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO. É devida a multa no caso de entrega da declaração fora do prazo estabelecido. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Ciente da decisão em 25/11/2009, conforme Aviso de Recebimento – AR (fl. 22v), apresentou o recurso voluntário em 17/12/2009 fls. 23/37, onde reitera os argumentos da inicial de que tem direito à inclusão retroativa no SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96) em virtude da atividade exercida, sendo inconstitucional a cobrança por ferir o princípio da irretroatividade da lei tributária. É o relatório. Fl. 49DF CARF MF Emitido em 09/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 09/08/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 10840.004103/200876 Acórdão n.º 18031.002 S1TE03 Fl. 44 4 Voto Conselheiro Walter Adolfo Maresch O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais para sua admissibilidade, dele conheço. Trata o presente processo de auto de infração emitido eletronicamente por atraso na entrega da DCTF do 4º Trimestre de 2004. Alega a recorrente em síntese: a) Que tem direito à inclusão retroativa, pois sua atividade não se assemelha à de engenheiro conforme equivocadamente foi considerada pela Receita Federal, sendo inconstitucional a cobrança por ferir o princípio da irretroatividade da lei tributária; b) Que se encontra pendente de decisão administrativa definitiva o processo que analisa o pedido de inclusão retroativa no qual demonstra que não realiza atividade vedada. Não assiste razão à interessada. Com efeito, conforme se observa dos elementos contidos nos autos, a empresa foi objeto de intimação para apresentação de DCTF’s de diversos períodos, ocasião em que formulou pedido para inclusão retroativa (fl. 39) desde a data de início de suas atividades – 18/05/2001. O pedido de inclusão retroativa foi formalizado no processo administrativo nº 10840.001896/200367 tendo sido rejeitado em todas as instâncias administrativas com fundamento no exercício de atividade vedada (assemelhada a engenheiro). No âmbito do então Terceiro Conselhos de Contribuintes, foi exarado o Acórdão 30238.460, de 28/02/2007 da 2ª Câmara, com o seguinte teor: Assunto: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte Simples Anocalendário: 2001 Ementa: EXCLUSÃO DO SIMPLES. É vedada a opção pelo Simples para as pessoas jurídicas que prestam serviços de assistência técnica nas áreas de caldeiraria e mecânica industriais. RECURSO VOLUNTÁRIO NEGADO. Conforme extrato do sistema COMPROT constante à fl. 18 deste processo, verificase que o processo administrativo contendo o pedido de inclusão retroativa já se encontra arquivado desde 18/04/2009, sendo, portanto definitiva a decisão. Fl. 50DF CARF MF Emitido em 09/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 09/08/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH Processo nº 10840.004103/200876 Acórdão n.º 18031.002 S1TE03 Fl. 45 5 Destarte, sendo definitiva a decisão de não inclusão retroativa e sendo defeso nova apreciação por parte deste colegiado julgador, quanto ao mérito da negativa de ingresso no SIMPLES FEDERAL (Lei nº 9.317/96), não há como acolher as alegações da recorrente. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Walter Adolfo Maresch Relator Fl. 51DF CARF MF Emitido em 09/08/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARESCH Assinado digitalmente em 09/08/2011 por SELENE FERREIRA DE MORAES, 09/08/2011 por WALTER ADOLFO MARE SCH
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Numero do processo: 10980.900020/2012-91
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 15/05/2003
BASE DE CÁLCULO PIS/PASEP E COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS SOBRE VENDAS DEVIDO NA CONDIÇÃO DE CONTRIBUINTE. IMPOSSIBILIDADE.
A parcela relativa ao ICMS, devido sobre operações de venda na condição de contribuinte, inclui-se na base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins.
Recurso Voluntário Negado.
Direito Creditório Não Reconhecido.
Numero da decisão: 3302-003.561
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado, que dava provimento.
(assinado digitalmente)
Ricardo Paulo Rosa - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ricardo Paulo Rosa, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Paulo Guilherme Déroulède e Lenisa Rodrigues Prado.
Nome do relator: RICARDO PAULO ROSA
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BASE DE CÁLCULO. ICMS. Recorrente BEBIDAS NOVA GERAÇÃO LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 15/05/2003 BASE DE CÁLCULO PIS/PASEP E COFINS. EXCLUSÃO DO ICMS SOBRE VENDAS DEVIDO NA CONDIÇÃO DE CONTRIBUINTE. IMPOSSIBILIDADE. A parcela relativa ao ICMS, devido sobre operações de venda na condição de contribuinte, incluise na base de cálculo do PIS/Pasep e da Cofins. Recurso Voluntário Negado. Direito Creditório Não Reconhecido. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado, que dava provimento. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Ricardo Paulo Rosa, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Domingos de Sá Filho, Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Paulo Guilherme Déroulède e Lenisa Rodrigues Prado. Relatório Tratase de Pedido de Restituição cujo direito creditório é oriundo de recolhimento informado como indevido ou a maior que o devido a título de Cofins, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 90 00 20 /2 01 2- 91 Fl. 47DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 3 2 A Delegacia da Receita Federal de jurisdição do contribuinte emitiu despacho decisório eletrônico indeferindo a restituição pleiteada, sob o argumento de que o pagamento foi utilizado na quitação integral de débito(s) do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. Após ser intimada, a Contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade que foi julgada improcedente por intermédio do Acórdão 06045.787. Em síntese, entendeu a DRJ que não existe previsão legal para excluir o ICMS da base de cálculo das contribuições, do que resultou mantido o indeferimento do pleito de restituição. Inconformada, a Recorrente interpôs recurso voluntário pugnando pelo reconhecimento de seu direito creditório. O principal argumento da defesa é o de que o ICMS não pode ser considerado como faturamento da empresa, não podendo, desta forma, compor a base de cálculo das contribuições. É o relatório. Voto Conselheiro Ricardo Paulo Rosa, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302003.520, de 26 de janeiro de 2017, proferido no julgamento do processo 10875.906543/201249, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão, na parte aplicável ao presente caso (Acórdão 3302003.520): "O recurso atende aos pressupostos de admissibilidade e dele tomo conhecimento. No que tange à exclusão do ICMS devido nas operações de venda, na condição de contribuinte, o §2º do artigo 3º da Lei nº 9.718/1998 estabeleceu as hipóteses de exclusão da base de cálculo das contribuições, à época dos fatos: § 2º Para fins de determinação da base de cálculo das contribuições a que se refere o art. 2º, excluemse da receita bruta: I as vendas canceladas, os descontos incondicionais concedidos, o Imposto sobre Produtos Industrializados IPI e o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação ICMS, quando cobrado pelo vendedor dos bens ou prestador dos serviços na condição de substituto tributário; II as reversões de provisões e recuperações de créditos baixados como perda, que não representem ingresso de novas receitas, o resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor do patrimônio líquido e os lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, Fl. 48DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 4 3 que tenham sido computados como receita; (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) III os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica, observadas normas regulamentadoras expedidas pelo Poder Executivo; (Vide Medida Provisória nº 1.99118, de 2000) (Revogado pela Medida Provisória nº 2.15835, de 2001) IV a receita decorrente da venda de bens do ativo permanente. Verificase no inciso I, que o ICMS incidente nas operações na condição de contribuinte (próprio) não foi elencado como parcela a ser excluída da base de cálculo. Juridicamente e contabilmente, o ICMS compõe a receita de venda e consiste em redutor da receita bruta. A legislação, ao longo do tempo, dispôs sobre a receita bruta, sempre indicando que os impostos incidentes sobre a venda a compunham. Assim, citamse o artigo 12 do Decretolei nº 1.598/1977, o artigo 187 da Lei nº 6.404, o artigo 31 da Lei nº 8.981/1995, bem como a IN SRF nº 51/1978: Decretolei nº 1.598/1977: Art 12 A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens nas operações de conta própria e o preço dos serviços prestados. Art. 12. A receita bruta compreende: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I o produto da venda de bens nas operações de conta própria; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II o preço da prestação de serviços em geral; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) III o resultado auferido nas operações de conta alheia; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) IV as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º A receita líquida de vendas e serviços será a receita bruta diminuída das vendas canceladas, dos descontos concedidos incondicionalmente e dos impostos incidentes sobre vendas. § 1o A receita líquida será a receita bruta diminuída de: (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I devoluções e vendas canceladas; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II descontos concedidos incondicionalmente; (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) III tributos sobre ela incidentes; e (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) IV valores decorrentes do ajuste a valor presente, de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976, das operações vinculadas à receita bruta. (Incluído pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Lei nº 6.404/1976: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: I a receita bruta das vendas e serviços, as deduções das vendas, os abatimentos e os impostos; Fl. 49DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 5 4 II a receita líquida das vendas e serviços, o custo das mercadorias e serviços vendidos e o lucro bruto; IN SRF nº 51/1978: 1. A receita bruta das vendas e serviços compreende o produto da venda de bens, nas operações de conta própria, e o preço dos serviços prestados (artigo 12 do Decretolei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977). 2. Na receita bruta não se incluem os impostos nãocumulativos cobrados do comprador ou contratante impostos nãocumulativos cobrados do comprador ou contratante (imposto sobre produtos industrializados e imposto único sobre minerais do País) e do qual o vendedor dos bens ou prestador dos serviços seja mero depositário. Imposto não cumulativo é aquele em que se abate, em cada operação, o montante de imposto cobrado nas anteriores. 3. Igualmente não se computam no custo de aquisição das mercadorias para revenda e das matériasprimas os impostos mencionados no item anterior, que devam ser recuperados. 4. A receita líquida de vendas e serviços é a receita bruta da vendas e serviços, diminuídas (a) das vendas canceladas, (b) dos descontos e abatimentos concedidos incondicionalmente e (c) dos impostos incidentes sobre as vendas. 4.1 Vendas canceladas correspondentes a anulação de valores registrados como receita bruta de vendas e serviços; eventuais perdas ou ganhos decorrentes de cancelamento de venda, ou de rescisão contratual, não devem afetar a receita líquida de vendas e serviços, mas serão computados nos resultados operacionais. 4.2 Descontos incondicionais são parcelas redutoras do preço de vendas, quando constarem da nota fiscal de venda dos bens ou da fatura de serviços e não dependerem de evento posterior à emissão desses documentos. 4.3 Para os efeitos desta Instrução Normativa reputamse incidentes sobre as vendas os impostos que guardam proporcionalmente com o preço da venda ou dos serviços, mesmo que o respectivo montante integra a base de cálculo, tais como o imposto de circulação de mercadorias, o imposto sobre serviços de qualquer natureza, o imposto de exportação, o imposto único sobre energia elétrica, o imposto único sobre combustíveis e lubrificantes etc. Neste sentido o STJ publicou as súmulas 69 e 94, cujos enunciados dispõem: Súmula n. 68 : "A parcela relativa ao ICM incluise na base de cálculo do PIS". Súmula n. 94: "A parcela relativa ao ICMS incluise na base de cálculo do FINSOCIAL". É de se concluir que a legislação inclui o ICMS incidente sobre as vendas no conceito de receita bruta, excluindoo apenas do conceito de receita líquida. Sobre o tema, há decisões recentes do STJ entendendo pela inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições, como o AgRg no REsp 1576424 / RS, de 10/03/2016, cuja ementa transcrevese: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA SUBSTITUTIVA. ARTS. 7º e 8º DA LEI Nº 12.546/2011. BASE DE CÁLCULO. RECEITA BRUTA. INCLUSÃO DO ICMS. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO, MUTATIS Fl. 50DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 6 5 MUTANDIS, DA ORIENTAÇÃO FIRMADA NO RESP Nº 1.330.737/SP, REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA RELATIVA À INCLUSÃO DO ISSQN NA BASE DE CÁLCULO DO PIS/PASEP E DA COFINS NA SISTEMÁTICA NÃOCUMULATIVA. 1. A possibilidade de inclusão, na receita bruta, de parcela relativa a tributo recolhido a título próprio foi pacificada, por maioria, pela Primeira Seção desta Corte em 10.6.2015, quando da conclusão do julgamento do recurso representativo da controvérsia REsp nº 1.330.737/SP, de relatoria do Ministro Og Fernandes, ocasião em que se concluiu que o ISSQN integra o conceito maior de receita bruta, base de cálculo do PIS/Pasep e da COFINS. 2. As razões que fundamentam o supracitado recurso especial representativo de controvérsia se aplicam, mutatis mutandis, à inclusão das parcelas relativas ao ICMS na base de cálculo da contribuição substitutiva prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 12.546/2011. Precedente: REsp nº 1.528.604, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 17.9.2015. 3. A contribuição substitutiva prevista nos arts. 7º e 8º da Lei nº 12.546/2011, da mesma forma que as contribuições ao PIS/Pasep e à COFINS na sistemática não cumulativa previstas nas Leis n.s 10.637/2002 e 10.833/2003, adotou conceito amplo de receita bruta, o que afasta a aplicação ao caso em tela do precedente firmado no RE n. 240.785/MG (STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 08.10.2014), eis que o referido julgado da Suprema Corte tratou das contribuições ao PIS/Pasep e COFINS regidas pela Lei n. 9.718/98, sob a sistemática cumulativa que adotou, à época, um conceito restrito de faturamento. Precedente. 4. Agravo regimental não provido. Ressaltase que a inclusão do ISS na base de cálculo das contribuições foi considerada legítima e julgada sob a sistemática de recursos repetitivos no REsp 1.330.737/SP, em 10/06/2015, que possuiu a seguinte ementa: TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C DO CPC E RESOLUÇÃO STJ N. 8/2008. PRESTADOR DE SERVIÇO. PIS E COFINS. INCLUSÃO DO ISSQN NO CONCEITO DE RECEITA OU FATURAMENTO. POSSIBILIDADE. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO DOS ARTS. 109 E 110 DO CTN. 1. Para efeitos de aplicação do disposto no art. 543C do CPC, e levando em consideração o entendimento consolidado por esta Corte Superior de Justiça, firmase compreensão no sentido de que o valor suportado pelo beneficiário do serviço, nele incluindo a quantia referente ao ISSQN, compõe o conceito de receita ou faturamento para fins de adequação à hipótese de incidência do PIS e da COFINS. 2. A orientação das Turmas que compõem a Primeira Seção deste Tribunal Superior consolidouse no sentido de que "o valor do ISSQN integra o conceito de receita bruta, assim entendida como a totalidade das receitas auferidas com o exercício da atividade econômica, de modo que não pode ser dedutível da base de cálculo do PIS e da COFINS" (REsp 1.145.611/PR, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, DJe 8/9/2010; AgRg no REsp 1.197.712/RJ, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, DJe 9/6/2011; AgRg nos EDcl no REsp 1.218.448/RS, Rel. Ministro Arnaldo Esteves Lima, Primeira Turma, DJe 24/8/2011; AgRg no AREsp 157.345/SE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, DJe 2/8/2012; AgRg no AREsp 166.149/CE, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 28/08/2012, DJe 4/9/2012; EDcl no AgRg no Fl. 51DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 7 6 REsp 1.233.741/PR, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 7/3/2013, DJe 18/3/2013; AgRg no AREsp 75.356/SC, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 15/10/2013, DJe 21/10/2013). 3. Nas atividades de prestação de serviço, o conceito de receita e faturamento para fins de incidência do PIS e da COFINS deve levar em consideração o valor auferido pelo prestador do serviço, ou seja, valor desembolsado pelo beneficiário da prestação; e não o fato de o prestador do serviço utilizar parte do valor recebido pela prestação do serviço para pagar o ISSQN Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza. Isso por uma razão muito simples: o consumidor (beneficiário do serviço) não é contribuinte do ISSQN. 4. O fato de constar em nota fiscal informação no sentido de que o valor com o qual arcará o destinatário do serviço compreende quantia correspondente ao valor do ISSQN não torna o consumidor contribuinte desse tributo a ponto de se acolher a principal alegação das recorrentes, qual seja, de que o ISSQN não constituiu receita porque, em tese, diz respeito apenas a uma importância que não lhe pertence (e sim ao município competente), mas que transita em sua contabilidade sem representar, entretanto, acréscimo patrimonial. 5. Admitir essa tese seria o mesmo que considerar o consumidor como sujeito passivo de direito do tributo (contribuinte de direito) e a sociedade empresária, por sua vez, apenas uma simples espécie de "substituto tributário", cuja responsabilidade consistiria unicamente em recolher aos cofres públicos a exação devida por terceiro, no caso o consumidor. Não é isso que se tem sob o ponto de vista jurídico, pois o consumidor não é contribuinte (sujeito passivo de direito da relação jurídicotributária). 6. O consumidor acaba suportando o valor do tributo em razão de uma política do sistema tributário nacional que permite a repercussão do ônus tributário ao beneficiário do serviço, e não porque aquele (consumidor) figura no polo passivo da relação jurídicotributária como sujeito passivo de direito. 7. A hipótese dos autos não se confunde com aquela em que se tem a chamada responsabilidade tributária por substituição, em que determinada entidade, por força de lei, figura no polo passivo de uma relação jurídico tributária obrigacional, cuja prestação (o dever) consiste em reter o tributo devido pelo substituído para, posteriormente, repassar a quantia correspondente aos cofres públicos. Se fosse essa a hipótese (substituição tributária), é certo que a quantia recebida pelo contribuinte do PIS e da COFINS a título de ISSQN não integraria o conceito de faturamento. No mesmo sentido se o ônus referente ao ISSQN não fosse transferido ao consumidor do serviço. Nesse caso, não haveria dúvida de que o valor referente ao ISSQN não corresponderia a receita ou faturamento, já que faticamente suportado pelo contribuinte de direito, qual seja, o prestador do serviço. 8. Inexistência, portanto, de ofensa aos arts. 109 e 110 do CTN, na medida em que a consideração do valor correspondente ao ISSQN na base de cálculo do PIS e da COFINS não desnatura a definição de receita ou faturamento para fins de incidência de referidas contribuições. 9. Recurso especial a que se nega provimento. De fato, as mesmas razões utilizadas no repetitivo acima são aplicáveis na análise da inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins, o que restou Fl. 52DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 8 7 configurado no julgamento do REsp nº 1.144.469, em 10/08/2016, sob a sistemática de recursos repetitivos, embora não possa ser aplicado pelo artigo 62 do RICARF, pois que ainda não transitado em julgado. A certidão deste julgamento constante no site do Superior Tribunal de Justiça traz o seguinte teor: AUTUAÇÃO RECORRENTE : FAZENDA NACIONAL ADVOGADO : PROCURADORIAGERAL DA FAZENDA NACIONAL RECORRENTE: HUBNER COMPONENTES E SISTEMAS AUTOMOTIVOS LTDA ADVOGADOS: ANETE MAIR MACIEL MEDEIROS HENRIQUE GAEDE E OUTRO(S) RECORRIDO : OS MESMOS ASSUNTO: DIREITO TRIBUTÁRIO Crédito Tributário Base de Cálculo CERTIDÃO Certifico que a egrégia PRIMEIRA SEÇÃO, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão: "Prosseguindo no julgamento, a Seção, por unanimidade, deu provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional e, por maioria, vencidos os Srs. Ministros Relator e Regina Helena Costa, negou provimento ao recurso especial da empresa recorrente, nos termos do voto do Sr. Ministro Mauro Campbell Marques, que lavrará o acórdão." Votaram com o Sr. Ministro Mauro Campbell Marques os Srs. Ministros Benedito Gonçalves, Assusete Magalhães, Sérgio Kukina, Gurgel de Faria, Diva Malerbi (Desembargadora convocada do TRF da 3a. Região) e Humberto Martins. Quanto à jurisprudência do STF, não obstante o RE 240.785 ter sido julgado favorável à tese defendida pela recorrente, não há, ainda, posicionamento definitivo no STF, uma vez que o RE 574.906 RG/PR, sob repercussão geral, ainda não foi julgado. Assim, enquanto não julgado o recurso extraordinário sob repercussão geral, devese prestigiar a legislação vigente que considera o ICMS das operações próprias como componente do preço de venda. Neste mesmo sentido, é a posição pacífica deste Conselho, como decidido no Acórdão nº 9303003549, de 17/03/2016, cuja ementa transcrevese: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2006 Cofins. Base de Cálculo. Exclusão ICMS. Por se tratar de imposto próprio, que não comporta a transferência do encargo, a parcela relativa ao ICMS incluise na base de cálculo das contribuições ao PIS e à COFINS. Precedentes do STJ (Súmulas n°s 68 e 94). Às autoridades administrativas e tribunais que não dispõem de função legislativa não podem conceder, ainda que sob fundamento de isonomia, benefícios de exclusão da base de cálculo do crédito tributário em favor daqueles a quem o legislador não contemplou com a vantagem A mesma conclusão se estende à Contribuição ao PIS. (...) Por todo o exposto, voto para negar provimento ao recurso voluntário." Fl. 53DF CARF MF Processo nº 10980.900020/201291 Acórdão n.º 3302003.561 S3C3T2 Fl. 9 8 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ricardo Paulo Rosa Fl. 54DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.004165/2010-69
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue May 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2006
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. CONTA CONJUNTAR. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DE CO-TITULAR. SÚMULA CARF Nº 29.
Todos os co-titulares da conta bancária devem ser intimados para comprovar a origem dos depósitos nela efetuados, na fase que precede à lavratura do auto de infração com base na presunção legal de omissão de receitas ou rendimentos, sob pena de nulidade do lançamento.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS DE VALORES EM CONTAS DE MESMA TITULARIDADE.
Se comprovado pelo contribuinte que houve transferência de mesma titularidade, deve o valor do depósito bancário decorrente desta transferência ser excluído da relação de depósitos de origem não comprovada.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS IGUAIS OU INFERIORES A R$ 12.000,00, CUJO SOMATÓRIO NÃO ULTRAPASSE R$ 80.000,00 NO ANO-CALENDÁRIO. SÚMULA CARF Nº 61.
Súmula CARF nº 61: Os depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 (doze mil reais), cujo somatório não ultrapasse R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) no ano-calendário, não podem ser considerados na presunção da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no caso de pessoa física.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. LEVANTAMENTO DE DEPÓSITOS JUDICIAIS POR ADVOGADO.
É necessário distinguir os depósitos judiciais levantados em nome do contribuinte daqueles levantados em nome do co-titular da conta bancária, atribuindo ao primeiro a responsabilidade apenas pela omissão de rendimentos relacionadas aos depósitos por ele levantados e não repassados aos clientes.
Sendo o depósito judicial levantado por advogado e tendo este demonstrado que efetivamente repassou o valor posteriormente a seu cliente, deve o valor repassado ser excluído da relação de omissão de rendimentos.
SIGILO BANCÁRIO. EXAME DE EXTRATOS. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL.
Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial.
Havendo procedimento de ofício instaurado, a prestação, por parte das instituições financeiras, de informações solicitadas pelos órgãos fiscais tributários do Ministério da Fazenda, não constitui quebra do sigilo bancário, mas tão-somente sua transferência para o Fisco.
ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS.
Para os fatos geradores ocorridos a partir do ano-calendário 1997, a Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
OMISSÃO DE RENDIMENTOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO.
Constitui rendimentos do advogado, sujeitos à tributação pelo imposto de renda na declaração de ajuste anual, a diferença entre os depósitos judiciais por ele levantados em ação trabalhista na qual atuou como procurador e os valores repassados a seus clientes.
IRPF. MULTAS ISOLADA E DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. MESMA BASE DE CÁLCULO. INAPLICABILIDADE.
Improcedente a exigência de multa isolada com base na falta de recolhimento do Imposto Sobre a Renda de Pessoa Física IRPF devido a título de carnê-leão, quando cumulada com a multa de ofício decorrente da apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas físicas, uma vez possuírem bases de cálculo idênticas.
ÔNUS DA PROVA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. IMPROCEDÊNCIA.
Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, não tendo ele se desincumbindo deste ônus. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelam-se insuficientes para comprovar os fatos alegados.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. APLICABILIDADE.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic.
Numero da decisão: 2202-003.690
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, quanto ao recurso de ofício: por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Quanto ao recurso voluntário: por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares; no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a multa isolada por aplicação concomitante com multa de oficio; vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto (Relator) e Junia Roberta Gouveia Sampaio, que deram provimento parcial em maior extensão para também afastar os juros de mora sobre a multa de ofício. Foi designado o Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa para redigir o voto vencedor, na parte em que foi vencido o Relator.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Martin da Silva Gesto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Martin da Silva Gesto, Márcio Henrique Sales Parada, Rosemary Figueiroa Augusto, Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Cecília Dutra Pillar e Dilson Jatahy Fonseca Neto.
Nome do relator: MARTIN DA SILVA GESTO
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CONTA CONJUNTAR. NECESSIDADE DE INTIMAÇÃO DE COTITULAR. SÚMULA CARF Nº 29. Todos os cotitulares da conta bancária devem ser intimados para comprovar a origem dos depósitos nela efetuados, na fase que precede à lavratura do auto de infração com base na presunção legal de omissão de receitas ou rendimentos, sob pena de nulidade do lançamento. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. TRANSFERÊNCIAS DE VALORES EM CONTAS DE MESMA TITULARIDADE. Se comprovado pelo contribuinte que houve transferência de mesma titularidade, deve o valor do depósito bancário decorrente desta transferência ser excluído da relação de depósitos de origem não comprovada. DEPÓSITOS BANCÁRIOS IGUAIS OU INFERIORES A R$ 12.000,00, CUJO SOMATÓRIO NÃO ULTRAPASSE R$ 80.000,00 NO ANO CALENDÁRIO. SÚMULA CARF Nº 61. Súmula CARF nº 61: Os depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 (doze mil reais), cujo somatório não ultrapasse R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) no anocalendário, não podem ser considerados na presunção da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no caso de pessoa física. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. LEVANTAMENTO DE DEPÓSITOS JUDICIAIS POR ADVOGADO. É necessário distinguir os depósitos judiciais levantados em nome do contribuinte daqueles levantados em nome do cotitular da conta bancária, atribuindo ao primeiro a responsabilidade apenas pela omissão de rendimentos relacionadas aos depósitos por ele levantados e não repassados aos clientes. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 41 65 /2 01 0- 69 Fl. 861DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 862 2 Sendo o depósito judicial levantado por advogado e tendo este demonstrado que efetivamente repassou o valor posteriormente a seu cliente, deve o valor repassado ser excluído da relação de omissão de rendimentos. SIGILO BANCÁRIO. EXAME DE EXTRATOS. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. Válida é a prova consistente em informações bancárias requisitadas em absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, sendo desnecessária prévia autorização judicial. Havendo procedimento de ofício instaurado, a prestação, por parte das instituições financeiras, de informações solicitadas pelos órgãos fiscais tributários do Ministério da Fazenda, não constitui quebra do sigilo bancário, mas tãosomente sua transferência para o Fisco. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FALTA DE COMPROVAÇÃO. PRESUNÇÃO LEGAL DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Para os fatos geradores ocorridos a partir do anocalendário 1997, a Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DE TRABALHO SEM VÍNCULO EMPREGATÍCIO. Constitui rendimentos do advogado, sujeitos à tributação pelo imposto de renda na declaração de ajuste anual, a diferença entre os depósitos judiciais por ele levantados em ação trabalhista na qual atuou como procurador e os valores repassados a seus clientes. IRPF. MULTAS ISOLADA E DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. MESMA BASE DE CÁLCULO. INAPLICABILIDADE. Improcedente a exigência de multa isolada com base na falta de recolhimento do Imposto Sobre a Renda de Pessoa Física IRPF devido a título de carnê leão, quando cumulada com a multa de ofício decorrente da apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas físicas, uma vez possuírem bases de cálculo idênticas. ÔNUS DA PROVA. FATO CONSTITUTIVO DO DIREITO. INCUMBÊNCIA DO INTERESSADO. IMPROCEDÊNCIA. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, não tendo ele se desincumbindo deste ônus. Simples alegações desacompanhadas dos meios de prova que as justifiquem revelamse insuficientes para comprovar os fatos alegados. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. APLICABILIDADE. Fl. 862DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 863 3 A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, quanto ao recurso de ofício: por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Quanto ao recurso voluntário: por unanimidade de votos, rejeitar as preliminares; no mérito, por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para cancelar a multa isolada por aplicação concomitante com multa de oficio; vencidos os Conselheiros Martin da Silva Gesto (Relator) e Junia Roberta Gouveia Sampaio, que deram provimento parcial em maior extensão para também afastar os juros de mora sobre a multa de ofício. Foi designado o Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa para redigir o voto vencedor, na parte em que foi vencido o Relator. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa (Presidente), Martin da Silva Gesto, Márcio Henrique Sales Parada, Rosemary Figueiroa Augusto, Júnia Roberta Gouveia Sampaio, Cecília Dutra Pillar e Dilson Jatahy Fonseca Neto. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto nos autos do processo nº 19515.004165/201069, em face do acórdão nº 1643.535, julgado pela 15ª. Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo I (DRJ/SP1) no qual os membros daquele colegiado entenderam por julgar procedente em parte a impugnação apresentada pelo contribuinte. Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da DRJ de origem, que assim os relatou: DO LANÇAMENTO Versa este processo sobre a exigência de crédito tributário relativa ao Imposto de Renda Pessoa Física, anocalendário 2005, conforme auto de infração de fls. 280/285 e demonstrativos de fls. 274/279. Foi lançado o imposto no valor de R$ 864.815,62, acrescido de juros de mora de R$ 432.926,69 (calculados até 30/11/2010) e de multa de ofício proporcional no valor de R$ 1.297.223,43. Foi lançada, ainda, a multa isolada de R$ 289.365,93. O valor total do crédito tributário é R$ 2.884.311,67. Fl. 863DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 864 4 Trata a autuação de: 1) omissão de rendimentos de trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas físicas; 2) omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários com origem não comprovada; e 3) multas isoladas por falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnêleão. O enquadramento legal é informado às fls. 279 e 282/285 . A descrição dos fatos é apresentada no Termo de Constatação Fiscal, às fls. 239/247, acompanhado dos anexos de fls. 248/273. Ressalto que, tendo o processo sido digitalizado, houve a remuneração automática de todas as folhas, sendo essa nova numeração a citada neste Acórdão. DA IMPUGNAÇÃO O autuado tomou ciência do auto de infração em 14/12/2010, conforme ARs de fls. 287/290, e apresentou, em 12/01/2011, por meio de mandatário (procuração às fls. 324/327), a impugnação de fls. 300/322, acompanhada dos documentos de fls. 324/414, abaixo resumida. Preliminarmente 1) Da nulidade do procedimento de fiscalização Conforme se verifica do Termo de Constatação Fiscal datado de 10/12/2010, o impugnante foi intimado a justificar os depósitos efetuados em seis contas bancárias, a saber: as de número 7589591, 7558345 e 7593199 mantidas na agência 03841 do Banco Nossa Caixa S/A ("Nossa Caixa"), as de número 035636 2 e 61690501 mantidas na agência 024801 do Banco Banespa S/A ("Banespa"), e a de número 229897 mantida na agência 3740 do Banco Itaú S/A ("Itaú"). Entretanto, as contas de número 758.9591 e 759.3199 eram mantidas em cotitularidade, conforme bem demonstram os extratos obtidos pela fiscalização, os quais indicam tratarse de contas "e/ou". Desse modo, considerando que as contas correntes n°s 7589591 e 7593199 eram mantidas em conjunto com outras pessoas e que a autoridade fiscal, durante todo o procedimento de fiscalização, não intimou essas pessoas a se manifestarem sobre o trabalho que estava em andamento, requerse seja o presente lançamento julgado nulo, pois afronta claramente o artigo 142 do CTN, o artigo 42, § 6° da Lei n° 9.430/96 e a Súmula n° 29 do CARF. 2) Da impossibilidade de violação do sigilo bancário Inicialmente, esclarece o impugnante que, apesar de atender prontamente a fiscalização, fornecendolhe toda documentação que lhe era solicitada, ainda assim o seu sigilo bancário foi violado. O argumento utilizado para tanto foi a suposta caracterização de embaraço à fiscalização, uma vez que o impugnante não apresentou a integralidade dos documentos Fl. 864DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 865 5 solicitados, o que teria tornado a requisição de informações "indispensável". A fundamentação legal para tal procedimento seria a Lei n° 9.430/1996 e o Decreto n° 3.724/2001. No entanto, de acordo com o sistema constitucional vigente, a entidade encarregada de realizar o juízo de valor quanto à "indispensabilidade" da devassa do sigilo bancário é o Poder Judiciário e ninguém mais. O ato administrativo de "quebra" do sigilo de contribuinte sob fiscalização efetuado isoladamente, sem a devida autorização do Poder Judiciário, ainda que realizado sob a égide da legislação mencionada, não deve ser admitido por atentar frontalmente contra garantias individuais do contribuinte esculpidas na Constituição Federal. Dentre as garantias individuais previstas no artigo 5° da Lei Maior, vislumbramse os incisos X e XII, que asseguram a inviolabilidade da intimidade, da vida privada e do sigilo de correspondência, comunicação telefônica e quaisquer formas de dados, os quais somente podem ser violados mediante ordem judicial. Para a devida proteção desses direitos, impera o preceito de que não só os legisladores complementar e ordinário, mas também o próprio legislador constituinte estão absolutamente proibidos de formular normas, conforme artigo 60, § 4°, inciso IV, da Constituição Federal: "Não será objeto de deliberação proposta de emenda tendente a abolir (...) os direitos e garantias individuais". Assim sendo, muito embora tenha sido veiculado no bojo das normas infraconstitucionais em debate, o poder legal delegado à autoridade fiscal para a obtenção direta de dados perante as instituições financeiras relativos ao contribuinte sob fiscalização configura inconcebível subversão dos valores protegidos pelo Direito. Vejase nesse sentido a recente decisão do STF em julgamento do Recurso Extraordinário Criminal de n° 215301/CE, conforme se transcreve à fl. 306. O entendimento predominante no STF a respeito das poucas e excepcionais alternativas existentes no texto constitucional para violação do sigilo bancário é claramente demonstrado no voto do Sr. Ministro Maurício Corrêa, em julgamento do Mandado de Segurança n° 21.7294, cujos trechos relevantes são apresentados às fls. 306/307. Mais recentemente, o Plenário do STF, no julgamento do RE n° 389.808, em 15/12/2010, confirmou mais uma vez o entendimento de que o acesso às informações bancárias pela Receita Federal não pode ser feita sem autorização judicial. Dessa forma, a quebra de sigilo bancário é exceção aos direitos e garantias individuais a ser permitida judicialmente em alguns casos, mas não em razão de mero ato administrativo produzido em meio a procedimento de fiscalização, tendo em vista inexistir previsão constitucional que equipare a autoridade administrativa ao Poder Judiciário. Ainda que admitido tal Fl. 865DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 866 6 procedimento em lei, não deve ser permitida a sua aplicação em face da incompatibilidade com o texto constitucional. Por consequência, o auto de infração contestado deve ser considerado nulo. Do mérito Quanto ao mérito, passa o impugnante a indicar a justificativa dos depósitos apontados no auto de infração. 1) Da inexistência de omissão de rendimentos e impossibilidade de tributação por ficção Não se pode conceber que a norma introduzida pelo artigo 42 da Lei n° 9.430/1996 tenha realmente partido de uma observação apurada da realidade dos fatos para, ao final, concluir que os valores creditados em conta bancária seriam suficientes para "presumir" que teriam sido gerados rendimentos tributáveis pelo imposto de renda. Não há uma correlação natural entre os eventos relativos a "receber depósitos bancários" e a "omissão de rendimentos" que constituam fato gerador do imposto de renda de pessoa física. A observação dos fatos ocorridos no passado revela exatamente o contrário, ou seja, que os depósitos bancários, individualmente, não são suficientes para comprovar a existência do fato gerador do imposto de renda. Com efeito, na história pretérita dos lançamentos de imposto de renda com base em depósitos bancários, ao menos no que se refere aos processos que chegaram à apreciação da Câmara Superior de Recursos Fiscais, os depósitos bancários foram considerados meros elementos indiciários da ocorrência do fato gerador e que exigiam complementação mediante a produção de outros elementos de prova. Os acórdãos reproduzidos à fl. 310 representam entendimento reiterado da Receita Federal e também do Tribunal Administrativo a respeito deste assunto. O impugnante solicita ainda a atenção para a importância da orientação pragmática gerada no âmbito do Poder Judiciário e que resultou na formulação da Súmula n° 182 do extinto Tribunal Federal de Recursos: "É ilegítimo o lançamento do Imposto de Renda arbitrado com base apenas em extratos ou depósitos bancários. " Por conseguinte, se o mecanismo criado pelo artigo 42 da Lei n° 9.430/1996 não derivou da apreciação realística dos fatos para fins de se estabelecer seguramente o nexo causal entre o fato conhecido e o fato desconhecido, então não se trata de uma presunção legal, mas sim de uma ficção jurídica. Ocorre que, à luz do princípio da legalidade estrita (CF, art. 150, I), elevado à categoria de direito e garantia individual (CF, artigo 5°, § 2°) e, portanto, protegido enquanto cláusula pétrea, Fl. 866DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 867 7 não pode haver exigência do cumprimento de obrigação tributária baseada meramente em ficções jurídicas. Desse modo, o auto de infração em debate deve ser considerado totalmente nulo por inferir a conclusão de omissão de rendimentos e exigir o recolhimento de imposto sobre fato gerador não devidamente provado, deduzido simplesmente a partir de método precário, com emprego indevido de ficção jurídica. 2) Da comprovação dos depósitos 2.1) Infração 1: omissão de rendimentos de trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoa física Tal como esclarecido durante o procedimento de fiscalização, durante o ano de 2005 o impugnante recebeu diversos valores do Poder Judiciário referentes a ações judiciais nas quais era o representante legal dos autores dos feitos. Assim, grande parte dos depósitos relacionados nos extratos diz respeito às movimentações correspondentes ao recebimento e repasse de valores aos seus clientes de ações judiciais. Tanto é assim que esses recebimentos e consequentes repasses foram comprovados durante a fiscalização. Entretanto, a documentação apresentada naquela oportunidade parece ter sido desconsiderada pela autoridade fiscal. Isso porque, quando da apuração dos montantes supostamente omitidos vários desses repasses foram injustificadamente desconsiderados, conforme se demonstrará adiante. Além disso, fazse mister salientar que grande parte dos valores sem origem justificada se refere a quantias que estão "à disposição" de clientes, os quais até o momento não foram localizados para que a transferência dos valores fosse realizada. Assim, considerando a impossibilidade de se repassar tais valores, é totalmente justificável que essas quantias fiquem depositadas na conta do impugnante para posterior repasse aos beneficiários de direito. Para comprovar a existência de quantias desconsideradas e também de quantias que se encontram "à disposição" dos clientes, o impugnante apresenta planilha anexa contendo esses valores. Note, contudo, que em vista do tempo transcorrido desde o recebimento dessas quantias e da grande quantidade de depósitos listados pela fiscalização (em número superior a 200), não foi possível obter toda a documentação apropriada no prazo de 30 dias estabelecidos para a apresentação da impugnação. Assim, o impugnante esclarece que ainda está buscando perante os bancos os documentos necessários para comprovar tais recebimentos. Fl. 867DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 868 8 Por esse motivo, requer o impugnante seja deferida a posterior juntada dos documentos relativos aos demais depósitos efetuados nessas contas bancárias, nos termos do art. 38 da Lei n° 9.784/1999, pois esse trabalho está sendo realizado em conjunto com as instituições financeiras e os terceiros envolvidos. 2.2) Infração 2: omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada De acordo com a fiscalização, o impugnante não conseguiu comprovar a origem de todos os créditos constantes nas seguintes contas correntes: (i) 758.9591, 759.3199 e 755.8245 (Banco Nossa Caixa S/A); (ii) 22.9897 (Banco Itaú S/A); (iii) 035.6362 (Banco Banespa S/A). Contudo, fazse mister observar que as primeiras duas contas correntes (758.9591 e 759.3199) não são de titularidade exclusiva do impugnante, existindo cotitulares, que, conforme mencionado anteriormente, não foram intimados para participar do procedimento fiscalizatório. Assim sendo, os lançamentos efetuados com base nessas contas devem ser integralmente desconsiderados. Além disso, o lançamento efetuado pela fiscalização considerou, indevidamente, valores referentes a transferências entre contas de mesma titularidade e também transferências oriundas das referidas contas (758.9591 e 755.8245). Todos esses créditos também devem ser desconsiderados para efeito de apuração da base de cálculo do imposto devido, sob pena de contrariar o comando do artigo 42, §3°, I da Lei n° 9.430/1996 e também de se promover cobrança em duplicidade. Adicionalmente, é importante destacar que existe um crédito na conta corrente n° 755.8245 do Banco Nossa Caixa S/A no valor de R$ 25.916,11 que se refere a um reembolso de despesa médica creditado pela Unimed. Embora o impugnante não possua mais o extrato dos reembolsos efetuados pela Unimed durante o ano de 2005, foi solicitada a emissão de novo extrato para comprovar a origem do crédito. Nesse contexto, resta evidente que o lançamento deve ser corrigido para excluir do cálculo os créditos efetuados nas contas em cotitularidade, os valores transferidos entre contas de mesma titularidade e o valor referente ao reembolso da Unimed. Tendo isso em vista, apresentase planilha anexa na qual constam os referidos créditos que devem ser excluídos da autuação. Portanto, percebese que, após a exclusão dos créditos com origem devidamente comprovada, não resta nenhum valor a ser oferecido à tributação. Isso porque, conforme se observa da Declaração de Ajuste Anual (DIRPF) referente ao ano calendário de 2005, os valores de honorários creditados em suas contas correntes de uso pessoal são condizentes com o montante Fl. 868DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 869 9 de honorários declarado como rendimentos tributáveis (R$ 892.144,82). A propósito este é também um erro inescusável do presente auto de infração: o contribuinte informou em sua DIRPF R$ 892.144,82 de honorários advocatícios recebidos em 2005 das fontes pagadoras (i) Departamento de Águas e Energia Elétrica, (ii) 13a Vara da Fazenda Pública, (iii) Departamento de Estradas e Rodagem, e (iv) honorários recebidos de pessoas físicas, sendo que tais valores obviamente foram recebidos por meio de crédito em conta bancária do contribuinte. Assim, ao checar as contas bancárias do impugnante deveria a autoridade fiscalizadora se preocupar em localizar tais montantes e excluí los do valor de base de cálculo da autuação, sob pena de cobrança em duplicidade. No entanto, a fiscalização fez exatamente o contrário: somou tais rendimentos à base da autuação! Tal falha não pode ser admitida e deve ser expurgada da autuação. 2.3) Do erro na identificação do sujeito passivo Importante observar que a fiscalização incorreu em erro quando da identificação do sujeito passivo no que se refere às contas correntes n°s 758.9591 e 759.3199, ambas da Nossa Caixa. Isso porque, as referidas contas sempre foram movimentadas pela sociedade de advogados constituída pelo impugnante e seu sócio, cotitular das contas em questão. Tal sociedade de advogados fora constituída em 1° de julho de 2004, quando o impugnante e seu sócio decidiram abrir o escritório de Maia e Oliveira Filho Advogados, visando à prestação de serviços advocatícios. Naquela oportunidade, eles abriram as duas contas bancárias supracitadas para realizar as movimentações bancárias da sociedade em comum então constituída. É possível comprovar a utilização de tais contas bancárias pela sociedade por meio dos extratos colacionados aos autos. Isso porque resta evidente que: (i) os levantamentos de precatórios e RPVs, transações oriundas do exercício da atividade econômica de um escritório de advocacia, eram efetuados por meio da conta corrente n° 758.9591; (ii) as despesas administrativas do escritório (pagamento de tributos, guias judiciais e demais contas, por exemplo) eram feitas por meio da conta corrente n° 759.3199. Assim sendo, se as contas correntes n°s 758.9591 e 759.3199 eram movimentadas pela sociedade no exercício de atividade econômica de natureza comercial e com finalidade de lucro, os depósitos bancários nelas efetuados não podem ser atribuídos ao impugnante, sob pena de se incorrer em erro na identificação do sujeito passivo. Nesse sentido, se manifesta a jurisprudência do Conselho de Contribuintes (atual CARF), conforme transcrição às fls. 313/314. Fl. 869DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 870 10 Adicionalmente, atribuir ao impugnante a titularidade dos depósitos efetuados nas contas acima mencionadas também afronta ao art. 42, § 5°, da Lei n° 9.430/96: "Art. 42(...) § 5° Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento." O objetivo do dispositivo acima é justamente atingir o titular efetivo das contas bancárias, evitando que uma mera formalidade, caracterizada pela identificação de determinada pessoa no cadastro de uma conta corrente, resultasse na formulação de exigência contra indivíduos que não têm nenhuma relação com o fato gerador da obrigação tributária. Ou seja, a intenção do legislador é tributar quem de fato manifestar capacidade contributiva, isto é, capacidade econômica para arcar com o ônus tributário. Portanto, a presunção de que trata o art. 42 da Lei n° 9.430/96 deveria ter sido imposta à pessoa que movimentava efetivamente a conta bancária, e não à pessoa que está simplesmente indicada nos dados cadastrais, sem nenhuma responsabilidade e vinculação com os valores ali movimentados. No caso em apreço, os extratos bancários e os demais documentos apresentados não deixam dúvidas quanto ao fato de que as contas correntes n°s 758.9591 e 759.3199 eram movimentadas efetivamente pela sociedade, razão pela qual não deve ser atribuída ao impugnante a responsabilidade sobre os depósitos bancários efetuados nessa conta. Portanto, requerse seja declarada nula essa parte do lançamento, em razão do evidente erro na identificação do sujeito passivo da obrigação tributária. 3) Da multa isolada De acordo com a fiscalização, os rendimentos recebidos de pessoas físicas e informados na Declaração de Ajuste Anual (ano base 2005) do impugnante deveriam ter sido oferecidos à tributação mensal por meio do carnêleão, razão pela qual a fiscalização aplicou multa isolada de 50% sobre tais valores. Entretanto, a fiscalização foi além e também aplicou a multa isolada de 50% sobre os valores supostamente omitidos pelo impugnante, os quais também foram objeto da multa de ofício de 150%. Ou seja, no presente caso houve aplicação da multa de ofício de 150% cumulada com a multa isolada de 50%. Tal aplicação cumulada pode ser observada nos seguintes meses: (i) Fl. 870DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 871 11 maio; (ii) julho; (iii) agosto; (iv) setembro; (v) novembro; e (vi) dezembro, conforme se demonstra nas planilhas de fl. 315. Note, portanto, que a fiscalização aplicou a multa isolada e a multa de ofício sobre a mesma base de cálculo, procedimento reiteradamente vedado pelo CARF. Tanto é assim que a Câmara Superior de Recursos Fiscais do referido Conselho já proferiu acórdão nesse sentido, consoante se reproduz à fl. 316. Assim, resta evidente a impossibilidade de se aplicar duas penalidades sobre a mesma infração, razão pela qual a aplicação da multa isolada de 50% cumulada com a multa de ofício de 150% nos períodos em questão não merece prosperar, sob pena de violação ao princípio da consunção. 4) Da inaplicabilidade da multa de 150% A fiscalização entendeu que o impugnante omitiu informações do Fisco com evidente intuito de fraude. Entretanto, em nenhum momento comprovou que o impugnante praticou alguma das condutas previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/1964, sendo as suas alegações meramente especulativas. Importante lembrar que a comprovação da existência de uma das condutas mencionadas acima é conditio sine qua non para aplicação da multa de ofício de 150%. Esse entendimento foi pacificado no CARF, o qual já expediu as Súmulas n° 14 e n° 25 sobre o assunto. Dessa maneira, considerando que a fiscalização não comprovou a ocorrência de alguma das hipóteses previstas nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502/64, a multa de ofício deve ser reduzida pela metade, ou seja, para 75%. 5) Da não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício Como se sabe, nos casos de lançamento de ofício formalizado por auto de infração, os juros de mora, calculados pela taxa Selic, vêm sendo exigidos também sobre o valor da multa lançada de ofício, sob a justificativa de que essa penalidade se enquadra no conceito de “crédito tributário” de que trata o art. 161 do CTN. Todavia, a inclusão da multa de ofício no conceito de “crédito tributário” está equivocada. Dada a importância da obrigação acessória na atividade de arrecadação, a penalidade pecuniária aplicável em razão do seu descumprimento se transforma em obrigação principal (art. 113, § 3°, do CTN), tendo essa "conversão" a finalidade de permitir que o ente arrecadador responsável exija o seu cumprimento por parte dos contribuintes. Ora, se, de acordo com o CTN, apenas a penalidade pecuniária decorrente do descumprimento da obrigação acessória é que se converte em obrigação principal, somente essa penalidade se insere no conceito de crédito tributário de que trata o art. 139 do Fl. 871DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 872 12 CTN: O crédito tributário decorre de obrigação principal e tem a mesma natureza desta.” Primeiro porque os deveres administrativos vinculados aos fatos geradores dos tributos constituem verdadeiras obrigações tributárias independentes das principais, sendo a penalidade aplicável necessária para exigir dos contribuintes o seu cumprimento. Segundo porque, em se tratando de questões relacionadas à obrigação e ao crédito tributário, somente lei complementar pode dispor sobre seu conceito e aplicação, conforme art. 146, inciso III , "b", da CF/88. Uma vez que o CTN foi recepcionado pela CF/88 com status de Lei Complementar, se essa norma previu a conversão em obrigação principal apenas das penalidades originadas do descumprimento de obrigações acessórias, somente tais penalidades constituem crédito tributário passível de cobrança por meio do lançamento. Tal conclusão é de extrema importância no tocante à base de incidência dos juros de mora, uma vez que o art. 161 do CTN é expresso no sentido de que apenas o “crédito” não pago no vencimento é que é acrescido de juros de mora. Assim, considerando (i) que apenas as penalidades por descumprimento de obrigações acessórias se convertem em obrigação principal e (ii) que apenas a obrigação principal constitui crédito tributário, não é difícil concluir que somente as penalidades por descumprimento de obrigações acessórias são acrescidas de juros de mora se não forem pagas no prazo legalmente estabelecido. Isso significa que as multas aplicadas nos lançamentos de ofício (nos termos do art. 44 da Lei n° 9.430/96), por não decorrerem do descumprimento de obrigações acessórias, não constituem crédito tributário. A consequência disso é que tais multas não sofrem a incidência dos juros de mora, já que o art. 161 do CTN é expresso no sentido de que apenas o “crédito tributário” não pago no vencimento é que é acrescido de juros de mora. Determina, ainda, o art. 161 do CTN que os juros de mora serão aplicados ao crédito tributário não pago “sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis”, numa clara demonstração de que o crédito tributário e a penalidade de ofício são medidas distintas. Aliás, se as multas de ofício integrassem o conceito de crédito tributário, não existiria motivo para o próprio CTN ressalvar que a aplicação dos juros não prejudica a imposição de penalidade. DAS DILIGÊNCIAS Da primeira diligência Fl. 872DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 873 13 Em vista da alegação da defesa de que a fiscalização desconsiderou o fato de duas das contas bancárias investigadas serem mantidas em conjunto com terceiros – contas n° 759.3199 e 758.9591, ambas da agência 03841 do Banco Nossa Caixa S.A. –, o processo foi encaminhado à DERAT/SP (fls. 418/419), para intimar o impugnante a: a) apresentar documentos emitidos pelo Banco Nossa Caixa S.A. que comprovem que essas contas eram mantidas em conjunto com terceiros; e b) informar o número da inscrição no CNPJ do escritório de advocacia do qual afirma ter sido sócio no anocalendário 2005 e ao qual atribui a responsabilidade pela movimentação dessas duas contas bancárias, bem como apresentar os documentos probatórios da constituição da sociedade. Feita a intimação (fls. 420/425), sobreveio a resposta de fls. 426/428, acompanhada dos documentos de fls. 429/500, cujo teor principal se transcreve abaixo. Para a comprovação de que as contas bancárias eram mantidas em cotitularidade, o impugnante colaciona aos autos (fls. 429/434) declaração emitida pelo Banco do Brasil S.A., bem como outros documentos que comprovam que as contas bancárias supracitadas, abertas em outubro de 2004 e encerradas em 21 de novembro de 2006, sempre foram mantidas em conjunto com o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia. Já com relação ao número do CNPJ do escritório de advocacia, o impugnante informa que a sociedade de advogados formada em conjunto com o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia nunca teve seus atos constitutivos levados a registro, ou seja, era uma sociedade em comum (ou sociedade de fato), forma societária regulada pelo artigo 986 e seguintes do Código Civil. Isso ocorreu em razão da breve existência da sociedade, encerrada em 10/09/2006, conforme se observa do Contrato de Extinção de Sociedade de Fato de Advogados ora anexado (fls. 435/454). Importante mencionar que, independentemente da sociedade ter se encerrado na referida data, é inquestionável a sua existência durante o período compreendido entre julho de 2004 e setembro de 2006, pois resta evidente que o impugnante e o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia uniram forças para exercer atividade econômica, contribuindo ambos, inclusive com parte de seu patrimônio, para a aquisição de imóveis localizados na Rua Dr. Rodrigo Silva, onde as atividades comerciais foram desenvolvidas, conforme se observa das anexas escrituras de compra e venda (fls. 455/485). Ademais, o impugnante anexa (fls. 486/500) cópia exemplificativa de petição inicial distribuída em 12/09/2005 perante a 4a Vara da Fazenda Pública e também carta enviada a um cliente, os quais comprovam que o impugnante e o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia exerciam a advocacia em conjunto durante o período em questão sob a denominação de Maia e Oliveira Filho Advogados. Fl. 873DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 874 14 Tendo isso em vista, resta evidente o erro na identificação do sujeito passivo mencionado na impugnação. Outro não é o entendimento do CARF, que entende que, provada a existência da sociedade de fato, ela deve figurar no polo passivo da obrigação tributária, conforme ementas de fls. 427/428. No mesmo sentido orienta o Parecer Normativo CST n° 122/1974, emitido pelo Coordenador do Sistema de Tributação. Pelo que se pode observar do trecho transcrito à fl. 428, o Parecer Normativo deixa claro que, em caso de exploração conjunta (social) da atividade econômica, a sociedade resultante sociedade de fato) deve ser tributada como pessoa jurídica. Da segunda diligência Posteriormente, o processo foi novamente baixado em diligência (fls. 502/506), com o fim de intimar o impugnante a: a) apresentar os documentos que comprovem de forma inequívoca a efetivação dos repasses transcritos às fls. 503/505; b) esclarecer, para os casos em que informou a natureza “Repasses honorários”, a razão de tais repasses e o vínculo dos beneficiários com as ações judiciais correspondentes; e c) relacionar os créditos bancários que compuseram os honorários advocatícios informados na declaração de ajuste anual do ano calendário 2005, exercício 2006, e apresentar os documentos probatórios pertinentes. Feita a intimação (fls. 508/509), o impugnante apresentou a resposta de fls. 510/513, à qual anexou os documentos de fls. 514/683, complementada pela petição de fl. 684 e pelo documento de fl. 685. Eis o resumo da resposta. No que pertine à comprovação dos repasses, o impugnante reafirma que as contas correntes listas na intimação eram exatamente as mesmas mantidas em cotitularidade com o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia e que se destinavam exclusivamente ao uso pela sociedade de advocacia Maia e Oliveira Filho Advogados. Tendo tal sociedade sido desfeita em 2006, cada um de seus sócios levou consigo parte dos processo judiciais de responsabilidade da sociedade de advocacia. Tais fatos dificultam o fornecimento de documentos pelo impugnante, pois a fiscalização deveria ter sido dirigida ao sujeito passivo correto (a sociedade de fato de advocacia), ou, quando menos, deveria se voltar aos dois sócios, cotitulares da conta, sob pena de nulidade. De todo modo, após insistentes solicitações ao banco, o impugnante informa que localizou as cópias de cheques e TEDs que comprovam os repasses efetuados, nos termos da tabela de fl. 511. No que pertine aos valores com status AG. BANCO, o impugnante esclarece que, por um lapso, o banco não conseguiu fornecer a documentação em tempo hábil (fl. 676), razão pela Fl. 874DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 875 15 qual requer a dilação de prazo para sua apresentação em mais trinta dias. Já com relação à documentação não localizada, o impugnante reforça que a impossibilidade de localização se deu em virtude dos repasses relativos aos clientes em questão serem de responsabilidade exclusiva do cotitular da conta corrente, Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia. Tanto é que em determinados casos é possível observar que o levantamento dos valores perante o Poder Judiciário foi feito por ele. Citase, exemplificativamente, o crédito de R$ 74.816,64 (fls. 679/683). Importante destacar ainda que, apesar de existirem Mandados de Levantamento Judicial expedidos em nome do impugnante, o repasse desses valores aos clientes foi dividido quando da extinção da sociedade de fato, sendo os repasses cuja documentação não foi localizada também de responsabilidade do cotitular, razão pela qual as autoridades fiscais também deveriam ter intimado o Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia para apresentar a documentação em questão. Como se sabe, a necessidade de intimação de todos os co titulares da conta bancária é requisito incontroverso para a legalidade do lançamento, conforme art. 42, § 6°, da Lei n° 9.430/96 e Súmula n° 29 do CARF. Com relação aos honorários advocatícios recebidos de pessoas jurídicas e pessoas físicas declarados na DIRPF 2006, no montante de R$ 892.144,82, o impugnante informa que a desconsideração de tais valores quando do procedimento de fiscalização evidencia mais um erro inescusável da autuação em questão, que demonstra a ausência de técnica e cuidado do agente fiscal no trabalho que originou o presente processo administrativo. Deste modo, tendo em vista que tal apuração poderia ter sido feita pelo fiscal que lavrou a autuação quando do seu trabalho de fiscalização, pois ele possuía todos os meios para efetuar a verificação, requer sejam expurgados tais valores da presente autuação. A DRJ de origem entendeu pela procedência em parte da impugnação apresentada pelo contribuinte, nos seguintes termos: Por todo o exposto, voto no sentido de acolher parcialmente as preliminares arguidas e, no mérito, julgar PARCIALMENTE PROCEDENTE A IMPUGNAÇÃO, MANTENDO PARCIALMENTE o crédito tributário lançado, conforme demonstrativos abaixo. Fl. 875DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 876 16 Inconformado, o contribuinte apresentou recurso voluntário às fls. 734/768, onde são reiterados os argumentos já lançados em impugnação quanto ao que foi vencido. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Martin da Silva Gesto Relator RECURSO DE OFÍCIO O recurso de ofício reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. A) Depósitos bancários em conta conjunta. Intimação de cotitular. A DRJ de origem apresenta o seguinte relatório em seu acórdão: Conforme se verifica do Termo de Constatação Fiscal datado de 10/12/2010, o impugnante foi intimado a justificar os depósitos efetuados em seis contas bancárias, a saber: as de número 7589591, 7558345 e 7593199 mantidas na agência 03841 do Banco Nossa Caixa S/A ("Nossa Caixa"), as de número 035636 2 e 61690501 mantidas na agência 024801 do Banco Banespa S/A ("Banespa"), e a de número 229897 mantida na agência 3740 do Banco Itaú S/A ("Itaú"). Entretanto, as contas de número 758.9591 e 759.3199 eram mantidas em cotitularidade, conforme bem demonstram os extratos obtidos pela fiscalização, os quais indicam tratarse de contas "e/ou". Desse modo, considerando que as contas correntes n°s 7589591 e 7593199 eram mantidas em conjunto com outras pessoas e que a autoridade fiscal, durante todo o procedimento de Fl. 876DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 877 17 fiscalização, não intimou essas pessoas a se manifestarem sobre o trabalho que estava em andamento, requerse seja o presente lançamento julgado nulo, pois afronta claramente o artigo 142 do CTN, o artigo 42, § 6° da Lei n° 9.430/96 e a Súmula n° 29 do CARF O voto foi no sentido de "acolher parcialmente a preliminar de nulidade ora em análise, uma vez que o vício do lançamento diz respeito apenas à impossibilidade de se presumir a omissão de rendimentos com relação aos depósitos bancários com origem não comprovada efetuados nas contas n° 758.9591 e 759.3199 da Agência 03841 do Banco Nossa Caixa. Tal nulidade não alcança o crédito tributário relacionado às demais contas bancárias nem às demais infrações tributárias. " Compreendeuse que como os Srs. Fabiano Miguel de Oliveira Filho e Fernando Antônio Mangueira Maia apresentaram declarações em separado no exercício 2006, a fiscalização, para poder invocar a presunção de omissão de rendimentos relativa aos depósitos sem comprovação de origem efetuados nas contas mantidas em conjunto, deveria ter intimado ambos os titulares para justificar a origem dos depósitos. No entanto, o Sr. Fernando Antonio não foi intimado. Diante disto, excluise o valor total dos depósitos a serem excluídos, em razão do acolhimento parcial da preliminar de nulidade alegada pelo contribuinte em impugnação, o valor R$ 549.291,39, conforme relação de fls. 702 destes autos. Tal entendimento está em conformidade com a Súmula nº 29 do CARF, que assim dispõe: Súmula CARF nº 29: Todos os cotitulares da conta bancária devem ser intimados para comprovar a origem dos depósitos nela efetuados, na fase que precede à lavratura do auto de infração com base na presunção legal de omissão de receitas ou rendimentos, sob pena de nulidade do lançamento. Por tais razões, não merece provimento o recurso de ofício quanto a esta matéria. B) Comprovação de origem dos depósitos bancários B.1) Transferências de mesma titularidade Alegou o contribuinte em impugnação que a fiscalização também deixou de excluir diversos depósitos referentes a transferências entre contas de mesma titularidade. Os depósitos que o contribuinte pretende excluir por esse motivo estão igualmente relacionados nas planilhas de fls. 411/414 e reproduzidos no quadro abaixo: Fl. 877DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 878 18 Ao pesquisar nos diversos extratos bancários juntados aos autos, compreendeu a DRJ de origem que, na data de cada um desses créditos, há um débito em idêntico valor em alguma outra conta do contribuinte, conforme quadro abaixo. Assim, diante da coincidência entre datas e valores dos créditos e dos débitos em contas de mesma titularidade, entendeu a DRJ que os depósitos acima relacionados, no valor total de R$ 46.499,99, devem ser excluídos da relação dos depósitos com origem não comprovada, nos termos do art. 42, § 3°, I, da Lei n° 9.430/1996. Entendo acertada a referida decisão, pois não há como manter lançamentos em duplicidade. Se comprovado pelo contribuinte que houve transferência de mesma titularidade, deve o valor do depósito bancário decorrente desta transferência ser excluído da relação de depósitos de origem não comprovada. Portanto, não prospera o recurso de ofício também em relação a este ponto. B.2) Depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00, cujo somatório não ultrapasse R$ 80.000,00 no anocalendário Após a exclusão de depósitos oriundos de transferência de mesma titularidade e daqueles cuja titularidade era conjunta, onde deixouse de intimar o cotitular, restaram os seguintes depósitos não comprovados: Entendeu a DRJ de origem pela análise do quadro acima nos mostra, todavia, que a soma dos créditos de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 é igual a R$ 38.508,44, que é inferior a limite de R$ 80.000,00 estabelecido no art. 42, § 3°, II, da Lei n° 9.430/1996, com as alterações introduzidas pelo art. 4º da Lei nº 9.481/1997. Fl. 878DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 879 19 Por tais razões, compreendeu a DRJ que tais créditos, portanto, devem ser excluídos da relação de depósitos bancários com origem não comprovada, que fica, assim, reduzida aos seguintes depósitos: O entendimento exarado pela DRJ de origem está em perfeito consonância com a Súmula nº 61 do CARF que assim dispõe: Súmula CARF nº 61: Os depósitos bancários iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 (doze mil reais), cujo somatório não ultrapasse R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) no anocalendário, não podem ser considerados na presunção da omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, no caso de pessoa física. Deste modo, não prospera o recurso de ofício quanto a este ponto, também. B.3) Da omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas físicas A DRJ de origem assim se manifestou sobre esta matéria: Diversos créditos feitos nas contas correntes n° 758.9591 e 759.3199 da Agência 03841 do Banco Nossa Caixa tiveram sua origem considerada comprovada pela fiscalização, por corresponderem a levantamentos de depósitos judiciais em ações trabalhistas nas quais o impugnante atuou como advogado. Todavia, como, segundo a fiscalização, ele não comprovou o repasse dos valores devidos a diversos de seus clientes, a fiscalização os considerou como omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas físicas, conforme detalhado na Planilha A, às fls. 254/270. Já vimos, no tópico anterior, que se deve afastar a alegação da defesa de que houve erro na identificação do sujeito passivo. Não se pode igualmente dar guarida à pretensão de que, para a validade do lançamento, se deveria, também com relação à infração em análise, intimar o cotitular da conta, Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia. Ora, as disposições do § 6° do art. 42 da Lei n° 9.430/1996 dizem respeito ao lançamento de créditos tributários relativos a depósitos bancários com origem não comprovada. O mesmo se diga da Súmula n° 29 do CARF mencionada pelo contribuinte. Não é este o caso. A infração que ora se discute é a omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício. E, ainda que tal infração tenha sido apurada mediante o confronto de alguns créditos em contas Fl. 879DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 880 20 correntes e dos repasses feitos aos clientes do impugnante, é preciso lembrar que a origem desses créditos é conhecida, sendo eles provenientes do levantamento de depósitos judiciais. Ora, não havendo dúvidas quanto à origem dos créditos, e não se tratando de lançamento com base na presunção legal de que trata o art. 42 da Lei n° 9.430/1996, não se pode invocar as disposições do § 6° desse artigo. No entanto, tem razão o impugnante ao afirmar que os levantamentos de alguns depósitos judiciais considerados pela fiscalização não foram feitos por ele, mas pelo outro titular da conta. Desta forma, é necessário distinguir os depósitos judiciais levantados em nome do impugnante (Sr. Fabiano Miguel de Oliveira Filho) daqueles levantados em nome do Sr. Fernando Antônio Mangueira Maia, e atribuir ao primeiro a responsabilidade apenas pela omissão de rendimentos relacionadas aos depósitos por ele levantados e não repassados aos clientes. Os depósitos levantados em nome de Fernando Antônio Mangueira Maia e os correspondentes valores sem comprovação de repasse, de acordo com a fiscalização, estão relacionados no quadro abaixo: Portanto, afastase de plano a imputação de omissão de rendimentos pelo Sr. Fabiano Miguel de Oliveira Filho nos valores de R$ 81.132,49 e R$ 74.816,64, relativos aos meses de julho e dezembro de 2005, respectivamente, os quais totalizam R$ 155.949,13. Entendo ser acertada a decisão que desconsiderou como omissão de rendimentos os levantamentos de depósitos judiciais que não foram feitos pelo contribuinte, mas pelo outro titular da conta. Deste modo, os depósitos levantados em nome de Fernando Antônio Mangueira Maia e os correspondentes valores sem comprovação de repasse devem ser afastados da relação de omissão de rendimentos. É necessário distinguir os depósitos judiciais levantados em nome do contribuinte daqueles levantados em nome do cotitular da conta bancária, atribuindo ao primeiro a responsabilidade apenas pela omissão de rendimentos relacionadas aos depósitos por ele levantados e não repassados aos clientes. Assim, não prospera o recurso de ofício quanto a este ponto, também. B.4) Levantamento de depósitos judiciais Por fim, há a questão da imputação de omissão de rendimentos relacionados aos levantamentos de depósitos judiciais em que o próprio contribuinte figura como Fl. 880DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 881 21 procurador. A relação desses depósitos e os valores apurados pela fiscalização são apresentados nos quadros a seguir: A DRJ de origem considerou que sendo tais valores decorrentes da atividade do contribuinte como advogado, constituem eles rendimentos deste último sujeitos à tributação na declaração de ajuste anual, entendendo como comprovados os repasses realizados pelo contribuinte a seus clientes. Assim, pela decisão da DRJ, ficouse com o seguinte quadro relativo à omissão de rendimentos do trabalho relacionadas ao levantamento dos depósitos judiciais: Fl. 881DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 882 22 Entendo que sendo o depósito judicial levantado por advogado e tendo este demonstrado que efetivamente repassou o valor posteriormente a seu cliente, deve o valor repassado ser excluído da relação de omissão de rendimentos. Portanto, não merece acolhimento o recurso de ofício quanto a esta matéria. RECURSO VOLUNTÁRIO O recurso voluntário foi apresentado dentro do prazo legal, reunindo, ainda, os demais requisitos de admissibilidade. Portanto, dele conheço. Preliminares 1. Sigilo bancário Alega a Recorrente que a Fiscalização violou a sua garantia constitucional de inviolabilidade da vida privada, no curso da ação fiscal, ao providenciar a quebra do sigilo bancário do Impugnante, haja vista que somente o Poder Judiciário teria competência para determinar a quebra do sigilo bancário. Ocorre que o Plenário do Supremo Tribunal Federal concluiu na sessão de 24.02.2016 o julgamento conjunto de cinco processos (ADIs 2397 2386, 2389, 2390, 2397 e 2406) que questionavam dispositivos da Lei Complementar nº 105/2001, que permitem à Receita Federal receber dados bancários de contribuintes fornecidos diretamente pelos bancos, sem prévia autorização judicial. No referido julgado, por maioria de votos prevaleceu o entendimento de que a norma não resulta em quebra de sigilo bancário, mas sim em transferência de sigilo da órbita bancária para a fiscal, ambas protegidas contra o acesso de terceiros. A transferência de informações é feita dos bancos ao Fisco, que tem o dever de preservar o sigilo dos dados, portanto não há ofensa à Constituição Federal. Além disso, o CARF não possui competência para analisar e decidir sobre matéria constitucional, conforme súmula vigente, de utilização obrigatória, conforme Regimento Interno deste Conselho: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Por tais razões, rejeitase a preliminar suscitada pela contribuinte. 2. Alegações de inconstitucionalidade Conforme acima mencionado, nos termos da Súmula CARF nº 02,o CARF não possui competência para analisar e decidir sobre matéria constitucional, conforme súmula Fl. 882DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 883 23 vigente, de utilização obrigatória, conforme Regimento Interno deste Conselho. Por tais razões, rejeitase a preliminar suscitada pela contribuinte. Mérito I. Depósitos bancários Depósitos bancários com origem não comprovada: R$ 462.023,05 A exigência fiscal em exame decorre de expressa previsão legal, pela qual existe uma presunção em favor do Fisco, que fica dispensado de provar o fato que originou a omissão de rendimentos, cabendo ao contribuinte elidir a imputação, comprovando a origem dos recursos. Estabelece o art. 42 da Lei nº 9.430/1996 que: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2° Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: 1 os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$12.000,00 (doze mil Reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$80.000,00 (oitenta mil Reais). § 4° Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. Conforme previsão do art. 42 da Lei nº 9.430/96, é necessário comprovar individualizadamente a origem dos recursos, identificandoos como decorrentes de renda já oferecida à tributação ou como rendimentos isentos/não tributáveis. Fl. 883DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 884 24 Tratase, portanto, de ônus exclusivo da contribuinte, a quem cabe comprovar, de maneira inequívoca, a origem dos valores que transitaram por sua conta bancária, não sendo bastante alegações e indícios de prova. Os documentos anexados em impugnação não são suficientes para provar de maneira inequívoca os valores que circularam em conta bancária da contribuinte já foram tributados, a exceção dos já excluídos do lançamento pela DRJ. Assim, persistiu sem comprovação de origem os seguintes depósitos: Ocorre que é necessário comprovar individualizadamente depósito por depósito, demonstrando a origem do recurso, de modo a comprovar, se for o caso, que os valores que ingressaram na conta do contribuinte possuem origem. E que a origem já foi tributada ou que, por alguma fundamentação, seria rendimento isento, não tributável ou sujeito a alguma tributação específica. Assim, não sendo provado o fato constitutivo do direito alegado pelo contribuinte, com fundamento no artigo 373 do CPC/2015 e artigo 36 da Lei n° 9.784/99, devese manter sem reparos o acórdão recorrido. Ocorre que temos que no processo administrativo fiscal, tal qual no processo civil, o ônus de provar a veracidade do que afirma é do interessado, in casu, do contribuinte ora recorrente. Neste sentido, prevê a Lei n° 9.784/99 em seu art. 36: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no artigo 37 desta Lei. Portanto, não comprovada a origem dos depósitos bancários, deve ser mantido o lançamento. Especificamente, quanto ao pedido de exclusão da base de cálculo do imposto dos valores de honorários advocatícios declarados na DIRPF 2006, o recorrente alega que informou, na DIRPF 2006 (fls. 61/66), R$ 892.144,82 de honorários advocatícios recebidos das fontes pagadoras Departamento de Águas e Energia Elétrica, 13a Vara da Fazenda Pública e Departamento de Estradas e Rodagem, bem como de pessoas físicas. Acrescenta que tais valores certamente foram recebidos por meio de crédito em conta bancária do contribuinte, razão pela qual deveria a autoridade fiscal localizar tais créditos e excluílos da base de cálculo da autuação, sob pena de cobrança em duplicidade. Entendeu a DRJ que ainda que se admita que os honorários advocatícios declarados tenham sido recebidos por meio de depósitos bancários nas contas investigadas, não teria como afirmar que os créditos foram efetuados nas contas correntes de uso exclusivo do recorrente, e não nas contas conjuntas, cujos depósitos, como vimos na análise das questões preliminares, já foram todos excluídos pela DRJ. Fl. 884DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 885 25 Ademais, os depósitos cuja origem permanece não comprovada atinge o montante de R$ 462.023,05, valor esse bem inferior aos R$ 892.144,82 que o recorrente pretende excluir. Assim, se parte dos rendimentos declarados pelo recorrente foram recebidos por meio de alguns dos depósitos bancários acima relacionados como sendo de origem não comprovada, cabe a ele apresentar prova disso, uma vez que, nos extratos bancários apresentados, não há nenhuma evidência disso. II. Da omissão de rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício recebidos de pessoas físicas Rendimentos do trabalho sem vínculo empregatício: R$ 1.558.859,57 A DRJ afastou de plano a imputação de omissão de rendimentos pelo Sr. Fabiano Miguel de Oliveira Filho nos valores de R$ 81.132,49 e R$ 74.816,64, relativos aos meses de julho e dezembro de 2005, respectivamente, os quais totalizam R$ 155.949,13. Resta, ainda, a discussão acerca da imputação de omissão de rendimentos relacionados aos levantamentos de depósitos judiciais em que o próprio impugnante figura como procurador. A DRJ considerou que houve omissão de rendimento quanto ao levantamento dos seguintes depósitos judiciais: Assim, entendo como correta a autuação que considerou que sendo tais valores decorrentes da atividade do contribuinte como advogado, constituem eles rendimentos deste último sujeitos à tributação na declaração de ajuste anual. O contribuinte não conseguiu, em recurso voluntário, apresentar prova hábil e idônea para afastar o lançamento por omissão de rendimento, logo, deve ser mantido o lançamento. Conforme já referido, não sendo provado o fato constitutivo do direito alegado pelo contribuinte, com fundamento no artigo 373 do CPC/2015 e artigo 36 da Lei n° 9.784/99, devese manter sem reparos o acórdão recorrido. Ocorre que temos que no processo administrativo fiscal, tal qual no processo civil, o ônus de provar a veracidade do que afirma é do interessado, in casu, do contribuinte ora recorrente. III. Multa isolada. Concomitância com multa de ofício. De início, importa referir que o exercício objeto do lançamento é o do ano de 2006, sendo, portanto a referida multa isolada aplicada antes da entrada em vigor da Lei nº 11.488/07. Fl. 885DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 886 26 Pois bem. Quanto a questão da multa isolada, aplicada no percentual de 50%, calculada com base no art. 44, §1º, alínea "a", da Lei nº 9.430/96. Insurgese o contribuinte pela impossibilidade de concomitância com a multa de ofício, aplicada com base no art. 44, § 1º, inciso I, da Lei nº 9.430/96, nos percentuais de 75% e 150%. Em concomitância, a seguinte multa isolada aplicada foi igualmente aplicada sobre a mesma base de cálculo. Acrescento que esta matéria encontrase inclusive com jurisprudência neste sentido da 2a. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme ementa de acórdão abaixo: IRPF. MULTAS ISOLADA E DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. MESMA BASE DE CÁLCULO. INAPLICABILIDADE. Improcedente a exigência de multa isolada com base na falta de recolhimento do Imposto Sobre a Renda de Pessoa Física IRPF devido a título de carnêleão, quando cumulada com a multa de ofício decorrente da apuração de omissão de rendimentos recebidos de pessoas físicas, uma vez possuírem bases de cálculo idênticas. (Câmara Superior de Recursos Fiscais, Segunda Turma, Acórdão n° 920200.883, sessão de 11/05/2010). Ainda, mais recentemente, a 2a. Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais se manifestou no mesmo sentido: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2001 MULTA ISOLADA E DE OFÍCIO. CONCOMITÂNCIA. BASE DE CÁLCULO IDÊNTICA. Em se tratando de lançamento de oficio, somente deve ser aplicada a multa de oficio vinculada ao imposto devido, descabendo o lançamento cumulativo da multa isolada pela falta de recolhimento do IRPF devido a título de carnêleão, pois as bases de cálculo das penalidades são as mesmas. Recurso especial negado. (Câmara Superior de Recursos Fiscais, Segunda Turma, Acórdão 9202003.552, sessão de 28/01/2015) Deste modo, entendo por cancelar a multa isolada por aplicação concomitante com multa de oficio. IV. Juros de mora sobre a multa de ofício Discorda a recorrente da aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício, os quais pede, caso não seja cancelado o crédito tributário, sejam excluídos. Fl. 886DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 887 27 Este Conselho já apreciou a presente matéria, no Acórdão nº 110200.060 (julgado na sessão de 28/08/2009), a Conselheira Sandra Maria Faroni, bem sintetiza o argumentação que permite a conclusão não incidência dos juros sobre a multa de ofício, vejamos: “A obrigação tributária pode ser principal, consistindo em obrigação de dar (pagar tributo ou multa) e acessória, obrigação de fazer (deveres instrumentais). De acordo com o art. 139 do CTN, o crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Portanto, compreendemse no crédito tributário o valor do tributo e o valor da multa. O Decretolei n° 1.736/79 determinou a incidência dos juros de mora sobre o "valor originário" , definindo como "valor originário" o débito, excluídas apenas as parcelas relativas a correção monetária, juros de mora, multa de mora e encargo do DL 1.025/69. Ou seja, não previu a exclusão da multa de oficio. O art. 161 do CTN determina que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, ressalvando apenas a pendência de consulta formulada dentro do prazo legal para pagamento do crédito. Seu § 1° determina que, se a lei não dispuser de forma diversa, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. No caso de multa por lançamento de oficio, seu vencimento é no prazo de 30 dias contados da ciência do auto de infração. Assim, o valor da multa lançada, se não pago no prazo de impugnação, sujeitase aos juros de mora. Além dos artigos 2° e 3° do DL 1.736/79, tratam dos juros de mora os seguintes dispositivos de leis ordinárias: Lei 8.383/91, art. 59; Lei 8.981/95, art. 13; Lei 9.430/96, art. 5°, § 3°, art. 43, parágrafo único e art. 61, § 3°, Lei n° 10.522/2002, (cuja origem foi a MP 1.62131/98), arts. 29 e 30. O artigo 61 da Lei 9.430/96 regula a incidência de acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 01 de janeiro de 1997, não alcançando, pois, a multa por lançamento de oficio, uma vez que: (a) a multa não decorre do tributo, mas do descumprimento do dever legal de pagálo; (b) entendimento contrário implicaria concluir que sobre a multa de oficio incide a multa de mora. O artigo 30 da Lei 10.522/2002 determina a submissão, a partir de 10 de janeiro de 1997, a juros de mora calculados segundo a Selic, dos débitos cujos fatos geradores tenham ocorrido até 31 de dezembro de 1994 e que não tenham sido objeto de parcelamento, e dos créditos inscritos na Dívida Ativa da União. Em síntese, em se tratando de débitos de tributos cujos fatos geradores ocorreram a partir de 1° de janeiro de 1995 só há Fl. 887DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 888 28 dispositivo legal autorizando a cobrança de juros de mora à taxa SELIC sobre multa no caso de multa lançada isoladamente; não porém quando ocorrer a formalização da exigência do tributo acrescida da multa proporcional. Nesse caso, só podem incidir juros de mora à taxa de 1%, a partir do trigésimo dia da ciência do auto de infração, conforme previsto no § 1° do art. 161 do CTN.” A fim de demonstrar o entendimento majoritário do CARF no sentido acima exposto, colaciono a ementa de diversos julgados: JUROS DE MORA. CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TAXA SELIC. É cabível, no lançamento de oficio, a cobrança de juros de mora sobre o tributo ou contribuição, calculados com base na variação acumulada da Taxa Selic. Referidos juros não incidem sobre a multa de oficio lançada juntamente com o tributo ou contribuição, decorrente de fatos geradores ocorridos a partir de 1/01/1997, por absoluta falta de previsão legal. (Acórdão 20216.397, sessão de 14.07.2005). JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFICIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa aplicada. (Acórdão 101 96.008, sessão de 1/03/2007). INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Não incidem os juros com base na taxa Selic sobre a multa de oficio, vez que o artigo 61 da Lei n.° 9.430/96 apenas impõe sua incidência sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições. Igualmente não incidem os juros previstos no artigo 161 do CTN sobre a multa de oficio.(Acórdão 10196.607, sessão de 06/03/2008). Inclusive há decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme se verifica pelo Acórdão 910100.722 (1a. Turma da CSRF), julgado na sessão de 8 de novembro de 2010, de relatoria da Conselheira Karem Jureidini Dias: RECURSO ESPECIAL – CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional quando inexiste similitude fática entre o acórdão paradigma e o acórdão recorrido. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa ofício aplicada. A fundamentação do referido acórdão da 1a. Turma da CSRF é de que a regra veiculada pelo art. 61 da Lei n.° 9.430/96 referese à incidência de acréscimos moratórios sobre ‘débitos decorrentes de tributos e contribuições’, sendo certo que a penalidade pecuniária não decorre de tributo ou contribuição, mas do descumprimento do dever legal de declarálo e/ou pagálo, de onde se extrai a conclusão de ser inaplicável os juros de mora a taxa Selic sobre a multa de oficio. Assim, a conclusão é de que a taxa SELIC só incidirá sobre multas isoladas, aplicadas nos termos do art. 43 da Lei nº 9.430/97. Fl. 888DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 889 29 Por tais razões, afasto a incidência dos juros aplicáveis sobre a multa de ofício. Conclusão Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício. Quanto ao recurso voluntário, rejeito as preliminares e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário, para: a) cancelar a multa isolada por aplicação concomitante com multa de oficio; e b) afastar o juros de mora sobre a multa de ofício. (assinado digitalmente) Martin da Silva Gesto Relator Voto Vencedor Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Redator designado Em que pese o bem fundamentado voto do ilustre Conselheiro Martin da Silva Gesto, peço vênia para divergir, tão somente em relação aos juros de mora sobre a multa de ofício. Sobre essa questão, entendo que o §3º do art. 61 da Lei nº 9.430/1996, ao se referir aos juros incidentes sobre os débitos para com a União, incluiu o tributo e a multa de ofício, pois a multa também é um débito com a Fazenda Pública. Art.61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) §1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. §2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. (Vide Lei nº 9.716, de 1998) Nesse sentido é o entendimento da Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme ementas abaixo: Fl. 889DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 890 30 JUROS DE MORA COM BASE NA TAXA SELIC SOBRE A MULTA DE OFÍCIO APLICABILIDADE. O art. 161 do Código Tributário Nacional – CTN autoriza a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício, isto porque a multa de ofício integra o “crédito” a que se refere o caput do artigo. É legítima a incidência de juros sobre a multa de ofício, sendo que tais juros devem ser calculados pela variação da SELIC. Precedentes do Tribunal Regional da 4ª Região. Recurso Especial Negado. (Acórdão nº 9202001.806, data de publicação: 29/11/2011, relator: Gustavo Lian Haddad, redator designado: Elias Sampaio Freire). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão nº 910101.191, data de publicação: 17/10/2011, relatora: Karem Jureidini Dias, redator designado: Claudemir Rodrigues Malaquias). JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. (Acórdão nº 9101000.539, data de publicação: 02/07/2014, relator: Valmir Sandri, redatora designada: Viviane Vidal Wagner). No âmbito do Poder Judiciário, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem firmado entendido de que são devidos os juros de mora sobre a multa de ofício, conforme se depreende das ementas abaixo: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMA QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.” (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min. Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. (grifei) (AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/12) TRIBUTÁRIO. MULTA PECUNIÁRIA. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA. LEGITIMIDADE. Fl. 890DF CARF MF Processo nº 19515.004165/201069 Acórdão n.º 2202003.690 S2C2T2 Fl. 891 31 1. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. 2. Recurso especial provido. (grifei) (REsp nº 1.129.990PR, Rel. Ministro Castro Meira, julgado em 1º/09/2009). Portanto, é de se subsistir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso de ofício e, quanto ao recurso voluntário, rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento parcial ao recurso voluntário, para cancelar a multa isolada por aplicação concomitante com a multa de oficio. Assinado digitalmente Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Redator designado Fl. 891DF CARF MF
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Numero do processo: 13830.722552/2013-74
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Apr 20 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Data do fato gerador: 11/08/2009, 10/04/2012
MULTA POR DIFERENÇA ENTRE PREÇO DECLARADO E PREÇO EFETIVAMENTE PRATICADO EM IMPORTAÇÃO. APLICAÇÃO. DESNECESSIDADE DE CARACTERIZAR O FATO COMO FRAUDE, SONEGAÇÃO OU CONLUIO.
Na aplicação da multa de 100% (cem por cento) sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado, prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, é indiferente se houve fraude, sonegação ou conluio.
Assunto: Classificação de Mercadorias
Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012
MULTA DE 1% (UM POR CENTO) POR CLASSIFICAÇÃO INCORRETA.
É devida a multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro da mercadoria prevista no artigo 84 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, quando a mercadoria for classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria.
MULTA DE 1% (UM POR CENTO) POR OMISSÃO OU INCORREÇÃO DE INFORMAÇÃO NAS DECLARAÇÕES DE IMPORTAÇÃO. ARTIGO 69, § 2º, DA LEI Nº 10.833/03. ARTIGO 711 DO REGULAMENTO ADUANEIRO.
É devida a multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, por ausência de informação do produtor/fabricante e respectivo endereço nas Declarações, informação necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado, nos termos do artigo 69, § 2º, da Lei nº 10.833/03.
Numero da decisão: 3401-003.430
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, vencido o Conselheiro Augusto Fiel Jorge d'Oliveira (relator), que afastava a aplicação da multa prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória no 2.158-35/2001, sendo designado para redigir o voto vencedor em relação à matéria o Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira. O Colegiado reconheceu, por unanimidade, de ofício, que deve ser excluída da base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEP-importação e da COFINS-importação a parcela referente ao ICMS e ao valor das próprias contribuições.
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA - Relator.
ELOY EROS DA SILVA NOGUEIRA - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Hélcio Lafetá Reis, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA
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EPP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 11/08/2009, 10/04/2012 MULTA POR DIFERENÇA ENTRE PREÇO DECLARADO E PREÇO EFETIVAMENTE PRATICADO EM IMPORTAÇÃO. APLICAÇÃO. DESNECESSIDADE DE CARACTERIZAR O FATO COMO FRAUDE, SONEGAÇÃO OU CONLUIO. Na aplicação da multa de 100% (cem por cento) sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado, prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, é indiferente se houve fraude, sonegação ou conluio. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 MULTA DE 1% (UM POR CENTO) POR CLASSIFICAÇÃO INCORRETA. É devida a multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro da mercadoria prevista no artigo 84 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, quando a mercadoria for “classificada incorretamente na Nomenclatura Comum do Mercosul, nas nomenclaturas complementares ou em outros detalhamentos instituídos para a identificação da mercadoria”. MULTA DE 1% (UM POR CENTO) POR OMISSÃO OU INCORREÇÃO DE INFORMAÇÃO NAS DECLARAÇÕES DE IMPORTAÇÃO. ARTIGO 69, § 2º, DA LEI Nº 10.833/03. ARTIGO 711 DO REGULAMENTO ADUANEIRO. É devida a multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, por ausência de informação do produtor/fabricante e respectivo endereço nas Declarações, informação necessária à determinação do procedimento de controle aduaneiro apropriado, nos termos do artigo 69, § 2º, da Lei nº 10.833/03. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 0. 72 25 52 /2 01 3- 74 Fl. 948DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, negar provimento ao Recurso Voluntário apresentado, vencido o Conselheiro Augusto Fiel Jorge d'Oliveira (relator), que afastava a aplicação da multa prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória no 2.15835/2001, sendo designado para redigir o voto vencedor em relação à matéria o Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira. O Colegiado reconheceu, por unanimidade, de ofício, que deve ser excluída da base de cálculo da Contribuição para o PIS/PASEPimportação e da COFINSimportação a parcela referente ao ICMS e ao valor das próprias contribuições. ROSALDO TREVISAN Presidente. AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA Relator. ELOY EROS DA SILVA NOGUEIRA Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Hélcio Lafetá Reis, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Eloy Eros da Silva Nogueira, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Rodolfo Tsuboi e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório O processo ora em julgamento decorre de Fiscalização, no bojo da qual foram constatadas as seguintes infrações: "Declaração Inexata do Valor da Mercadoria (Valor de Transação Incorreto); Omissão ou Prestação Inexata de Informação de Natureza AdministrativoTributária ou Comercial; e Mercadoria Classificada Incorretamente na NCM – Nomenclatura Comum Do Mercosul". Em conseqüência, foram lançadas "as diferenças de tributos apuradas acrescidas de multa de ofício e juros, a multa regulamentar de 1% sobre o Valor Aduaneiro, e a multa de 100% sobre a diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado". (fls. 659) Com relação à declaração inexata do valor da mercadoria, a Fiscalização constatou que nas operações de importação realizadas pelo contribuinte diretamente com o fornecedor de produtos de informática estrangeiro denominado Corsair não havia discrepância de preço, se comparadas com operações de importação realizadas por outros contribuintes nacionais com esse mesmo fornecedor. Porém, a partir de determinada operação de importação, registrada em 12/01/2010, sob a Declaração de Importação nº 10/00586725, o contribuinte passou a adquirir mercadorias de outro fornecedor no exterior, denominado Atas. A partir de então, os preços Fl. 949DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 949 3 declarados passaram a ser significativamente menores que os declarados por outros importadores. Segundo o Relatório Fiscal, às fls. 669: "Constatamos que a diferença entre os preços declarados pela INF SITE e os declarados por outros importadores são, na grande maioria dos casos, SUPERIORES A 100% (CEM POR CENTO), atingindo o patamar máximo de 382,78%. A INF SITE importou da ATAS basicamente produtos de informática, tais como: placamãe, placa de memória, fonte de alimentação, cooler, monitor, placa de vídeo, gabinete e mouse. Ao fornecer esses produtos a preços tão vantajosos, seria natural que a ATAS ampliasse seu rol de clientes no Brasil, mas não foi isso que aconteceu. Não encontramos nenhum outro contribuinte nacional que tenha importado esses mesmos produtos da ATAS". Com isso, a Fiscalização realizou análises adicionais sobre os preços das mercadorias importadas pelo contribuinte e, em 10/05/2012, compareceu ao estabelecimento do contribuinte, para dar início a ação fiscal, intimando o contribuinte a apresentar documentos e esclarecimentos sobre as operações de importação sob análise (fls. 0204). O contribuinte apresentou resposta na petição de fls. 1920 dos autos, merecendo destaque os seguintes questionamentos e respostas, além de consideração feita pela Fiscalização a respeito: "14 Contrato de Compra e Venda com o exportador estrangeiro relativo às mercadorias importadas por meio das DIs relacionadas. RESPOSTA: “Referente ao item 14 – Contrato de Compra e Venda com o exportador, a empresa não possui estes documentos. Nas operações não existiam contratos formais de compra e venda. As tratativas negociais eram feitas por meio de telefonemas, ou em tempo real com programas de comunicação (MSN ou Skype). Além do que, algumas das negociações eram realizadas por meio de empresas intermediárias responsáveis por buscar o melhor preço, produtos junto das empresas fabricantes ou fornecedores”. 15 Correspondências trocadas com o exportador estrangeiro relativas às negociações das mercadorias importadas por meio das DIs relacionadas (para verificação, por exemplo, de existência de descontos). RESPOSTA: “Referente ao item 15 – Correspondências trocadas com o exportador, não temos estes documentos. Não há troca de correspondência. A empresa nunca recebeu catálogos, folders ou qualquer outro meio de divulgação de produtos. Tais eram procurados via internet ou então eram indicados por pessoas que trabalham no mesmo ramo de atividade”. Nesse ponto frisamos que a ATAS sequer possui site de vendas na internet, algo incomum para os ditames do comércio atual. Outro ponto a se destacar é o fato de não haver troca de correspondências com o exportador. A INF SITE Fl. 950DF CARF MF 4 também não informou quem seriam essas “pessoas” que indicavam os produtos. 16 Lista oficial de preços do Exportador estrangeiro. RESPOSTA: “Referente ao item 16 – Lista Oficial de preços do exportador: não temos este documento. As cotações eram feitas via internet e também por meio de empresas intermediárias que se responsabilizam por fazer as cotações em diversas empresas no exterior. Assim o fechamento do preço se dava por menor preço das mercadorias encontradas. Era a empresa intermediária que entrava em contato com o exportador, negociava os preços, forma de pagamento e depois os repassava para a empresa”. (fls. 673) Após, o contribuinte foi intimado novamente, em termo em que a Fiscalização faz "algumas considerações, inclusive a de que outros importadores declaravam valores três vezes maiores que suas importações", e solicita esclarecimentos (fls. 492 a 494), tendo a resposta sido apresentada conforme fls. 495496. Abaixo, destaco novamente os questionamentos e respostas que me parecem mais relevantes: 1 Existe vinculação entre as empresas INF SITE e ATAS? Havendo vinculação, tal fato afetou o preço das mercadorias? RESPOSTA:“Não, a não ser, relação comercial.” 7 Existe entre a INF SITE e a ATAS algum contrato de fornecimento? Abrangendo quais mercadorias? RESPOSTA:“Não existe contrato formal firmado. A empresa ATAS atende as solicitações à medida dos pedidos feitos pela Infsite”. 8 As importações foram mediadas, no Brasil ou no exterior, por algum agente ou corretor? Caso positivo, EXPLICAR DETALHADAMENTE como opera este agente ou corretor, COMO são fixadas as comissões ou corretagens, e QUEM as pagou. RESPOSTA: “Não há agente comissionado.” 7 Houve nas importações de mercadorias da ATAS algum benefício de desconto? De quanto? Qual a razão? RESPOSTA: “Não houve benefício concedido. Os preços foram estipulados pela empresa ATAS e pagos pela Infsite”. 9 Como foram negociados os valores de cada importação (por email, fax, telefone, etc)? RESPOSTA: “As negociações foram mantidas pela internet por meio dos programas chamados Skype ou MSN, por meio de digitação ou conferência”. Fl. 951DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 950 5 10 Apresentar documentos/correspondências/elementos que embasaram as negociações de valores de cada processo de importação. RESPOSTA: “Em razão do tipo de negociação explicada no item anterior, os documentos solicitados inexistem. Informa que os valores pagos estão registrados nas DI’s, bem como, relacionados nos contratos de câmbio.” 11 Esclarecer/justificar as razões para que os valores declarados nas suas importações, ONDE O EXPORTADOR É A EMPRESA ATAS, sejam tão inferiores às importações de MERCADORIAS IDÊNTICAS, ADQUIRIDAS DO MESMO PAÍS DE EXPORTAÇÃO, efetuadas por outros importadores nacionais de outros fornecedores. RESPOSTA: “A empresa Infsite não sabe informar. Tal solicitação deve ser feita junto ao exportador, pois a Infsite desconhece os mecanismos internos da empresa ATAS, como por exemplo, compra em grande quantidade; aquisição direta do fabricante, compra de ponta de estoque, enfim, várias formas.” b) Apresentar os documentos de exportação das mercadorias no exterior (Declaração de Exportação registrada na Aduana do país exportador), relativamente às Declarações de Importação constantes do Termo de Início do Procedimento Fiscal. Lembramos que tais documentos JÁ FORAM ANTERIORMENTE SOLICITADOS no Termo de Início do Procedimento Fiscal datado de 07/05/12, E REITERADOS por meio do Termo de Intimação Fiscal nº 0002, datado de 18/09/12. RESPOSTA: “A empresa já diligenciou junto ao exportador para obter os documentos referidos neste item. Ocorre que, foi informado para a empresa que serão enviados documentos relativos aos últimos 12 meses, pois a empresa exportadora, segundo informações de seu funcionário, não está obrigada a guardar documentos superiores a esta data.” (fls. 674676) Nessa etapa, a Fiscalização chegou a algumas conclusões mais firmes sobre o valor declarado nas operações de importação do contribuinte, emitindo uma última notificação para dar ciência ao contribuinte de suas conclusões, oportunizando, ainda, uma derradeira chance de apresentação de documentos e informações para fundamentar o valor por ele adotado. O contribuinte, todavia, quedouse inerte. Nos termos do Relatório Fiscal: "Diante dos vários indícios e questionamentos o importador não logrou, em nenhum momento, apresentar documentação complementar ou esclarecimentos que demonstrassem, de forma inequívoca, que o preço por ele declarado corresponde a uma transação comercial normal não influenciado por vinculações, condições ou contraprestações, nem viciada por fraude, levando a fiscalização a concluir que os preços declarados não merecem fé. Seguindo os princípios estabelecidos no Acordo, emitimos a Notificação (fls. 502 a 503) cientificando a INF SITE de que o valor de transação declarado Fl. 952DF CARF MF 6 não foi aceito, facultandolhe a apresentação de documentos/esclarecimentos adicionais que pudessem, eventualmente, reverter essa tese. Contudo, decorrido o prazo estabelecido na Notificação, a INF SITE não se manifestou". (fls. 680) Diante disso, a Fiscalização concluiu por não aceitar o valor aduaneiro declarado pelo contribuinte, elencando às fls. 680681 dos autos os fundamentos que levaram a essa decisão: "1 quando importados diretamente da CORSAIR, que é também fabricante de vários produtos, os preços declarados pela INF SITE se mostraram compatíveis com o de outros importadores nacionais; 2 a partir do momento em que passou a importar da ATAS, os preços declarados apresentaram discrepâncias injustificadas em relação aos preços declarados por outros importadores nacionais para mercadorias idênticas; 3 a INF SITE declarou que não houve nenhum benefício de desconto nas negociações que justificasse preços tão baixos; 4 a INF SITE declarou não possuir contrato de compra e venda e nem correspondências trocadas com o exportador que embasaram as negociações de valores dos processos de importação; 5 perguntado no Termo de Intimação Fiscal nº 0003 se as importações foram mediadas por algum agente ou corretor, respondeu que NÃO (fls. 495 a 496). No entanto, em resposta aos itens 14 e 16 (fls. 19 a 20) do Termo de Início do Procedimento Fiscal, afirmou que “Além do que, algumas das negociações eram realizadas por meio de empresas intermediárias responsáveis por buscar o melhor preço, produtos junto das empresas fabricantes ou fornecedores” e que “As cotações eram feitas via internet e também por meio de empresas intermediárias que se responsabilizam por fazer as cotações em diversas empresas no exterior. Assim o fechamento do preço se dava por menor preço das mercadorias encontradas. Era a empresa intermediária que entrava em contato com o exportador, negociava os preços, forma de pagamento e depois os repassava para a empresa.” 6 as Export Declaration relativas aos últimos 12 meses, que declarou que seriam enviadas, nunca foram apresentadas à fiscalização; 7 nenhum outro contribuinte nacional importou da ATAS produtos de informática dos tipos importados pela INF SITE, apesar de os preços da ATAS serem bem convidativos; 8 a ATAS sequer possui endereço na internet para divulgação de seus produtos, algo incomum e raro em tempos de globalização, especialmente tratandose de empresa que realiza exportações, colocando sob suspeição as operações envolvendo essa empresa; 9 a diferença entre os preços declarados pela INF SITE e os de outros importadores nacionais chegam, na grande maioria dos casos, a mais de 100%, atingindo o patamar máximo de 382,78%, sem qualquer justificativa plausível para tamanha discrepância; Fl. 953DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 951 7 10 não se trata de inversão do ônus da prova, pois conforme disposto no próprio AVA, a administração aduaneira tem o direito de se assegurar da exatidão do valor aduaneiro declarado quando houver dúvidas fundamentadas, cabendo ao importador a comprovação desse valor, seja por meio de esclarecimentos, seja apresentando documentação complementar de cunho comercial". Nessa etapa, atentem i. Conselheiros para o rumo que a Fiscalização tomou, pois será relevante para a análise que será realizada mais a frente. Em razão da nãoaceitação do valor declarado nas operações de importação pelos fundamentos que acabam de ser expostos, a Fiscalização apurou um novo preço das mercadorias, com base no Acordo de Valoração Aduaneira, conforme a seguir: "1 descaracterizado o valor de transação declarado (1º método), foi utilizado o método subseqüente, qual seja, o valor de transação de mercadorias idênticas; 2 consoante o disposto no parágrafo 3 do Artigo 2 do Acordo, quando encontrado mais de um preço de mercadorias idênticas, o mais baixo deles foi adotado; 3 Para cada produto foi construída uma tabela indicando a Declaração da INF SITE e as Declarações que serviram de paradigmas na apuração do NOVO PREÇO UNITÁRIO; 4 o NOVO Valor Aduaneiro de cada adição foi determinado da seguinte forma: Valor Aduaneiro declarado + (NOVO Preço Unitário apurado – Preço Unitário declarado) x quantidade; 5 A apuração do NOVO Preço Unitário foi efetuada analisando cada Declaração de Importação isoladamente, produto por produto;" Com isso, elaborou a tabela de fls. 771 e seguintes, com a coluna "novo valor aduaneiro", que serviu de base de cálculo para o Imposto de Importação ("II"), e a coluna "Diferença Apurada", que serviu de base para a aplicação da multa de 100% (cem por cento) sobre a diferença entre o valor declarado e o efetivamente praticado, lançados no Auto de Infração lavrado ao final da Fiscalização. Além da nova apuração do valor aduaneiro, a Fiscalização verificou que o contribuinte omitiu ou prestou de forma incorreta o nome fabricante, em determinadas Declarações de Importação. De acordo com o Relatório Fiscal: "A ATAS, informada como fabricante, é na realidade uma empresa comercial, e não produz as mercadorias por ela exportadas. Os nomes dos reais fabricantes das mercadorias foram obtidos em pesquisas realizadas na internet. Ressaltamos que a procura pelos reais fabricantes não era de todo necessária, uma vez que a simples declaração incorreta do fabricante, ou sua omissão, já é suficiente para caracterizar a infração". Outra infração apontada pela Fiscalização foi a incorreta classificação fiscal de três tipos de mercadorias importadas pelo contribuinte, "fontes de alimentação", "placas mãe" e "placas de memória", em determinadas operações de importação. Fl. 954DF CARF MF 8 Conforme consta no auto de infração lavrado, às fls. 508: "O importador INF SITE, por meio das Declarações de Importação abaixo relacionadas submeteu a despacho as seguintes mercadorias: Fontes de Alimentação, classificandoas nos códigos 8473.30.42, 8473.50.90 e 8504.31.11; Placasmãe, classificandoas no código 8473.30.42; e Placas de Memória, classificandoas no código 8504.31.11. Ocorre que tais mercadorias devem ser classificadas da seguinte maneira: as Fontes de Alimentação, no código 8504.40.90; as Placasmãe, no código 8473.30.41; e as Placas de Memória, no código 8473.30.42". Em decorrência das infrações narradas, como já adiantado, foram lançadas: (i) as diferenças dos tributos incidentes na importação, II, Imposto sobre Produtos Industrializados vinculado à importação ("IPIImportação"), Contribuição para o Programa de Integração Social vinculado à importação ("PISImportação"), Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social vinculado à importação ("COFINSImportação"), acrescidos de multa de ofício no percentual de 75% (setenta e cinco por cento); (ii) multa pela declaração inexata do valor da mercadoria, com fundamento legal no artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, além do artigo 703 do Regulamento Aduaneiro (Decreto nº 6.759/2009, "RA") e Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 17/2004; (iii) multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, nas Declarações de Importação em que não há ou há informação incorreta do produtor/fabricante, com fundamento legal no artigo 84, da Medida Provisória nº 2.15835/2001 combinado com artigo 69, parágrafos 1º e 2º, inciso I, da Lei nº 10.833/03; (iv) multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, por erro de classificação fiscal, com fundamento legal no inciso I, do art. 84, da Medida Provisória nº 2.15835/2001; e (v) multa de 100% (cem por cento) sobre a diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado, com fundamento legal no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória no 2.15835/2001. Em 10/12/2013, conforme fls. 805, o contribuinte foi cientificado do lançamento, que trata de fatos geradores ocorridos entre 11/08/2009 a 10/04/2012, apresentando em 09/01/2014 Impugnação, que foi julgada improcedente, na sessão do dia 16/09/2014, pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Recife ("DRJ"), em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Confisco. Vedação Constitucional A vedação ao confisco prevista na CF é dirigida ao legislador. Tal princípio orienta a produção da norma legal, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar à obrigação tributária a conotação de confisco. Uma vez positivada a norma, é dever da autoridade administrativa fiscal aplicála, sem espaço para exercer qualquer discricionariedade, e independentemente dos efeitos que se produzam, por ser o lançamento uma atividade vinculada. É de se presumir, contudo, que a lei aprovada nos moldes constitucionais tenha estabelecido multas dentro dos limites constitucionais confirmados pelos crivos dos Poderes Legislativo e Executivo. Fl. 955DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 952 9 Subfaturamento. Fraude. Multa administrativa. Na ocorrência de infração administrativa ao controle das importações, nos termos do art. 88, parágrafo único, da MP nº 2.15835, de 2001, e art. 633, inc. I, do Regulamento Aduaneiro, de 2002, cabe a aplicação da multa de 100% sobre a diferença entre o preço declarado e o preço arbitrado. Cálculo de Juro à Taxa Selic. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios dos débitos para com a Fazenda Nacional são equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia Selic para títulos federais, acumulados mensalmente para fatos geradores ocorridos a partir de 01.01.95. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Classificação incorreta na NCM. Multa proporcional ao valor aduaneiro. Fonte de Alimentação, Placa Mãe e Placa de Memória classificamse nos códigos NCM/TEC e NBM/TIPI 8504.40.90, 8473.30.41 e 8473.30.42, respectivamente, de acordo com as Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) nºs 1 e 6 e Regra Geral Complementar (RGC) nº 1. A classificação incorreta das mercadorias na NCM enseja a cobrança da multa de 1% sobre o seu valor aduaneiro. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Fraude no preço praticado na importação. Majoração da base de cálculo. Reclassificação das mercadorias. Elevação da alíquota do II. Diferença do II a recolher. Multa de ofício. No caso de fraude, em que não for possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo do tributo será determinada mediante arbitramento do preço das mercadorias, com base no critério previsto no art. 88, inc. I, da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 preço de exportação para o Brasil, de mercadoria idêntica ou similar. Na hipótese de reclassificação das mercadorias submetidas ao arbitramento, aplicarseão as alíquotas do II correspondentes aos códigos para os quais elas foram redirecionadas, devendo ser recolhida a diferença desse tributo, acrescida de multa de ofício. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Data do fato gerador: Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Fl. 956DF CARF MF 10 Fraude no preço praticado na importação. Majoração da base de cálculo. Reclassificação das mercadorias. Diferença do tributo a recolher. Multa de ofício. No caso de fraude, em que não for possível a apuração dos preços efetivamente praticados nas importações, a base de cálculo do tributo será determinada mediante arbitramento do preço das mercadorias, com base no critério previsto no art. 88, inc. I, da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 preço de exportação para o Brasil, de mercadoria idêntica ou similar. Na hipótese de reclassificação das mercadorias submetidas ao arbitramento, aplicarseão as alíquotas do IPI correspondentes aos códigos para os quais elas foram reposicionadas, devendo ser recolhida a diferença desse tributo, acrescida de multa de ofício. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Fraude no preço praticado na importação. Majoração da base de cálculo. Reclassificação das mercadorias. Diferença da Contribuição Social a recolher. Multa de ofício. Alterada a base de cálculo dos tributos e reclassificadas as mercadorias, deverá ser recolhida a diferença do PIS/Pasep, acrescida de multa de ofício. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Fraude no preço praticado nas importações. Majoração da base de cálculo. Reclassificação das mercadorias. Diferença da Contribuição Social a recolher. Multa de ofício. Período de apuração: 11/08/2009 a 10/04/2012 Alterada a base de cálculo dos tributos e reclassificadas as mercadorias, deverá ser recolhida a diferença do PIS/Pasep, acrescida de multa de ofício". O contribuinte, ora Recorrente, tomou ciência dessa decisão em 15/10/2014, conforme documento de fls. 914, e apresentou tempestivo Recurso Voluntário no dia 14/11/2014, conforme fls. 915, pelo qual pede a extinção do lançamento tributário, pelos seguintes motivos: (i) a fiscalização teria se valido de presunções para realizar o lançamento e, em se tratando de direito administrativo, não se admitiria a presunção e a inversão do ônus da prova; não teria restado comprovado o fato jurídico tributário; caberia à Fiscalização comprovar a divergência entre a "Export Declaration" e a Declaração de Importação e não ao contribuinte; a interpretação correta seria que a "Export Declaration" seria a prova cabal que deve ser apresentada pelo Fisco de que o contribuinte efetivamente subvalorizou as mercadorias importadas; (ii) haveria ofensa ao princípio da verdade material, pois o Fiscal não teria obtido sucesso na demonstração de suas alegações, pois não teria conseguido comprovar que os valores declarados pelo contribuinte nas Declarações de Importação configurou omissão de informação ou subvaloração; (iii) ofensa ao princípio da moralidade; (iv) existiria vício insanável no lançamento tributário, (v) inconstitucionalidade das multas aplicadas, nos percentuais de 100% (cem por cento), e de 75% (setenta e cinco por cento), por terem caráter confiscatório; (vi) haveria ofensa ao princípio da isonomia na cominação da multa de 1% (um Fl. 957DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 953 11 por cento) sobre o valor aduaneiro, em razão de omissão ou prestação de informação incorreta; e (vii) seria inaplicável a taxa SELIC sobre os débitos tributários. Em seguida, os autos do processo foram remetidos ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF") e distribuídos à minha relatoria, em sessão ocorrida no dia 17/03/2016. É o relatório. Voto Vencido Ementa do Voto Vencido: "DISTINÇÃO ENTRE SUBVALORAÇÃO E SUBFATURAMENTO. No curso do procedimento de Fiscalização, a autoridade aduaneira poderá entender que há apenas uma subvaloração nas operações de importação, com atribuição diferente do real, hipótese na qual, deverá apurar um novo valor aduaneiro, para cobrança dos tributos devidos, adotando para tanto as normas dispostas no Acordo de Valoração Aduaneira, conforme previsto no artigo 84 do RA. Na hipótese em que a autoridade aduaneira entender que está diante de uma conduta mais grave por parte do importador e que, nas operações de importação fiscalizadas, há fraude e/ou simulação, com a prática de atos que importem subfaturamento ou que configurem dano ao erário, como a ocorrência de interposição fraudulenta, deverá caracterizar a ocorrência da infração, que poderá levar, no caso de dano ao erário, à aplicação de pena de perdimento, e no caso de subfaturamento, à aplicação de multa de 100% (cem por cento) do valor da diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado na importação, quando a prova colhida na Fiscalização permitir que se chegue a esse valor, ou na sua impossibilidade, entre o preço declarado e o que for apurado, não com base no artigo 84 do RA, mas por arbitramento, pelo disposto no artigo 86 do RA. O Acordo de Valoração Aduaneira não foi idealizado para aplicação em operações fraudulentas, que tem tratamento específico pela legislação de cada país, encontrandose, no Brasil, disciplinada no artigo 86 do RA. SUBVALORAÇÃO. SUBFATURAMENTO. MULTA DE 100% (CEM POR CENTO) PREVISTA NO ARTIGO 88 DA MEDIDA PROVISÓRIA Nº 2.15835/2001 Nos termos do caput do artigo 88 e de seu parágrafo único, nos casos de fraude, sonegação ou conluio, duas hipóteses podem ocorrer: (i) a Fiscalização poderá obter todos os elementos de prova para determinar o preço efetivamente praticado na operação de importação (quando, por exemplo, é capaz de levantar correspondências, contratos, provas de pagamentos, em que demonstre o preço efetivamente praticado, diverso do declarado às autoridades aduaneiras); ou (ii) a Fiscalização logra juntar Fl. 958DF CARF MF 12 documentação suficiente para provar a fraude, porém, não detém elementos suficientes para se chegar ao preço efetivamente praticado, hipótese na qual deverá arbitrar o preço da mercadoria. Nessas duas hipóteses, posto que configurada fraude, sonegação ou conluio, deve ser cominada a penalidade prevista no parágrafo único, tenha o preço sido arbitrado ou não. Esse, portanto, o sentido de se mencionar que a base de cálculo da penalidade, além da diferença “entre o preço declarado e o preço arbitrado”, será a diferença “entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado”, conforme o caso. A penalidade prevista no artigo 88 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 é aplicável apenas quando ficar caracterizada a fraude ideológica que permite a prática do subfaturamento, sendo descabida nos casos de subvaloração". Conselheiro Augusto Fiel Jorge d' Oliveira O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. Da nova apuração dos valores declarados na operação de importação Subvaloração e Subfaturamento Nas operações de importação, o valor aduaneiro da mercadoria é base de cálculo do II e também do IPIImportação, PISImportação, COFINSImportação e ICMS, sendo obtido a partir das normas previstas no Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio GATT 1994. Esse Acordo prevê 6 (seis) diferentes métodos para a apuração do valor aduaneiro. Deve ser adotado preferencialmente o valor aduaneiro previsto no Artigo 1, que “será o valor da transação, isto é, o preço efetivamente pago ou a pagar pelas mercadorias, em uma venda para exportação para o país de importação, ajustado de acordo com as disposições do Artigo 8”. Porém, caso não seja possível a aplicação do preferencial valor da transação, o Acordo determina que o valor aduaneiro seja apurado pelos 6 (seis) métodos substitutivos previstos nos Artigos 2º, 3º, 4º, 5º, 6º e 7º do Acordo, de forma sucessiva, até que se chegue ao primeiro método capaz de determinar o valor aduaneiro. Quando o importador declara um valor aduaneiro inferior ao valor aduaneiro declarado em outras operações de importação de mercadorias idênticas ou similares, realizadas por ele ou por outros importadores, tal fato não levará necessariamente a não aceitação do valor aduaneiro pela autoridade aduaneira do país de importação, mas, por outro lado, não impede que a autoridade aduaneira tome medidas para verificação da veracidade e exatidão de quaisquer elementos envolvidos na operação de importação. Nesse sentido, é a orientação da Opinião Consultiva nº 2.1 do Comitê Técnico de Valor Aduaneiro, da Organização Mundial de Aduanas (“OMA”), que consta no Anexo Único da Instrução Normativa SRF nº 18/2003: “OPINIÃO CONSULTIVA 2.1 ACEITABILIDADE DE UM PREÇO INFERIOR AOS PREÇOS CORRENTES DE MERCADO PARA MERCADORIAS IDÊNTICAS 1. Foi formulada a questão acerca da Fl. 959DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 954 13 aceitabilidade de um preço inferior aos preços correntes de mercadorias idênticas quando da aplicação do Artigo 1 do Acordo sobre a Implementação do Artigo VII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio. 2. O Comitê Técnico de Valoração Aduaneira examinou esta questão e concluiu que o simples fato de um preço ser inferior aos preços correntes de mercado para mercadorias idênticas não poderia ser motivo para sua rejeição para os fins do Artigo 1, sem prejuízo, no entanto, do estabelecido no Artigo 17 do Acordo”. (grifos nossos) Por oportuno, o Artigo 17 do Acordo estabelece que: “Nenhuma disposição deste Acordo poderá ser interpretada como restrição ou questionamento dos direitos que têm as administrações aduaneiras de se assegurarem da veracidade ou exatidão de qualquer afirmação, documento ou declaração apresentados para fins de valoração aduaneira”. Assim, no Brasil, o RA prevê em seu artigo 76 que: “Art. 76. Toda mercadoria submetida a despacho de importação está sujeita ao controle do correspondente valor aduaneiro. Parágrafo único. O controle a que se refere o caput consiste na verificação da conformidade do valor aduaneiro declarado pelo importador com as regras estabelecidas no Acordo de Valoração Aduaneira”. Nesse procedimento de controle, a autoridade aduaneira abre a oportunidade de o importador apresentar documentos e informações que justifiquem o valor de transação declarado, sendo certo que cabe ao importador, nos termos do artigo 18 do RA, a manutenção, pelo prazo decadencial, de uma série de documentos relativos às operações que realiza. É ler: “Art. 18. O importador, o exportador ou o adquirente de mercadoria importada por sua conta e ordem têm a obrigação de manter, em boa guarda e ordem, os documentos relativos às transações que realizarem, pelo prazo decadencial estabelecido na legislação tributária a que estão submetidos, e de apresentálos à fiscalização aduaneira quando exigidos (Lei nº 10.833, de 2003, art. 70, caput): § 1o Os documentos de que trata o caput compreendem os documentos de instrução das declarações aduaneiras, a correspondência comercial, incluídos os documentos de negociação e cotação de preços, os instrumentos de contrato comercial, financeiro e cambial, de transporte e seguro das mercadorias, os registros contábeis e os correspondentes documentos fiscais, bem como outros que a Secretaria da Receita Federal do Brasil venha a exigir em ato normativo (Lei no 10.833, de 2003, art. 70, § 1o)”. Dessa maneira, caso o importador (i) não apresente qualquer documento e/ou informação relevante ou (ii) tal documento/informação seja insuficiente para amparar as operações realizadas e a autoridade aduaneira entenda que existem motivos para duvidar do valor declarado, ela poderá decidir pela não aceitação do valor aduaneiro considerado pelo importador, o que deve ser feito de forma fundamentada, com as explicações e provas pertinentes, seguindo o disposto no artigo 82 do RA, in verbis: “Art. 82. A autoridade aduaneira poderá decidir, com base em parecer fundamentado, pela impossibilidade da aplicação do método do valor de transação quando (Acordo de Valoração Aduaneira, Artigo 17, aprovado pelo Fl. 960DF CARF MF 14 Decreto Legislativo no 30, de 1994, e promulgado pelo Decreto nº 1.355, de 1994): I houver motivos para duvidar da veracidade ou exatidão dos dados ou documentos apresentados como prova de uma declaração de valor; e II as explicações, documentos ou provas complementares apresentados pelo importador, para justificar o valor declarado, não forem suficientes para esclarecer a dúvida existente. Parágrafo único. Nos casos previstos no caput, a autoridade aduaneira poderá solicitar informações à administração aduaneira do país exportador, inclusive o fornecimento do valor declarado na exportação da mercadoria”. Nessa hipótese, uma vez não sendo aceito o valor aduaneiro declarado pelo importador, duas possibilidades se abrem para a autoridade aduaneira, no curso da Fiscalização. Pelo trabalho realizado até então, intimações ao importador, respostas do importador com documentos e informações sobre as operações de importação realizadas, comparação entre os valores aduaneiros declarados nas operações de importação do contribuinte fiscalizado com outras operações de importação, do mesmo contribuinte ou de outros contribuintes, dentre outras atividades no curso da fiscalização, poderá a autoridade aduaneira entender que há apenas uma subvaloração nas operações de importação, com atribuição de valor diferente do real, hipótese na qual, deverá apurar um novo valor aduaneiro, para cobrança dos tributos devidos, adotando para tanto as normas dispostas no Acordo de Valoração Aduaneira, conforme previsto no artigo 84 do RA, abaixo: “Art. 84. O valor aduaneiro será apurado com base em método substitutivo ao valor de transação, no caso de descumprimento de obrigação referida no caput do art. 18, se relativo aos documentos comprobatórios da relação comercial ou aos respectivos registros contábeis, quando houver dúvida sobre o valor aduaneiro declarado (Lei nº 10.833, de 2003, art. 70, inciso I, alínea “a”)”. Por outro lado, a autoridade aduaneira poderá entender que está diante de uma conduta mais grave por parte do importador e que, nas operações de importação fiscalizadas, há fraude e/ou simulação, com a prática de atos que importem subfaturamento ou que configurem dano ao erário, como a ocorrência de interposição fraudulenta. Nesse caso, deverá caracterizar a ocorrência da infração, que poderá levar, no caso de dano ao erário, à aplicação de pena de perdimento, e no caso de subfaturamento, à aplicação de multa de 100% (cem por cento) do valor da diferença entre o preço declarado e o efetivamente praticado na importação, quando a prova colhida na Fiscalização permitir que se chegue a esse valor, ou na sua impossibilidade, entre o preço declarado e o que for apurado, não com base no artigo 84 do RA, mas por arbitramento, pelo disposto no artigo 86 do RA, a seguir: “Art. 86. A base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria nas seguintes hipóteses: Fl. 961DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 955 15 I fraude, sonegação ou conluio, quando não for possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 88, caput); e II descumprimento de obrigação referida no caput do art. 18, se relativo aos documentos obrigatórios de instrução das declarações aduaneiras, quando existir dúvida sobre o preço efetivamente praticado (Lei nº 10.833, de 2003, art. 70, inciso II, alínea “a”). Parágrafo único. O arbitramento de que trata o caput será realizado com base em um dos seguintes critérios, observada a ordem seqüencial (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 88, caput; e Lei nº 10.833, de 2003, art. 70, inciso II, alínea “a”): I preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar; ou II preço no mercado internacional, apurado: a) em cotação de bolsa de mercadoria ou em publicação especializada; b) mediante método substitutivo ao do valor de transação, observado ainda o princípio da razoabilidade; ou c) mediante laudo expedido por entidade ou técnico especializado”. Isso porque, o Acordo de Valoração Aduaneira não foi idealizado para aplicação em operações fraudulentas. Nesse tipo de operação, não há que se falar em valor aduaneiro de mercadoria, pois cada país estabelece em sua legislação o tratamento a ser dado e a forma de determinação do valor a ser considerado para a mercadoria importada, para fins de cobrança dos tributos. No Brasil, a forma de apuração desses valores se encontra no supracitado artigo 86 do RA. Por esse motivo, a Instrução Normativa SRF nº 327/2003, que estabelece normas e procedimentos para a declaração e o controle do valor aduaneiro de mercadoria importada, afirma em seu artigo 38: “Art. 38. O disposto nesta norma não se aplica aos casos em que se verifique elemento indiciário de fraude, sonegação ou conluio, envolvendo o valor aduaneiro declarado, hipótese em que serão adotados, pela autoridade aduaneira da unidade da SRF que identificar o fato, os procedimentos especiais de controle aduaneiro previstos na legislação específica”. Análise do caso concreto Esse, portanto, o motivo para o destaque no Relatório a respeito do rumo que tomou a Fiscalização. Como se verifica do exame do Relatório Fiscal, após a Fiscalização não aceitar o valor aduaneiro declarado pelo ora Recorrente e apresentar a decisão fundamentada a que faz referência o artigo 82 do RA, ela procedeu à nova apuração de um “valor aduaneiro” seguindo exatamente as normas do Acordo de Valoração Aduaneira. Fl. 962DF CARF MF 16 Para que não restem dúvidas, transcrevo abaixo trecho em que a Fiscalização explicita a forma de apuração do novo valor aduaneiro, às fls. 681682 dos autos: “O Acordo de Valoração prevê que os seis métodos de valoração deverão ser utilizados na seqüência, ou seja, somente na impossibilidade de aplicação do 1º método é que se aplica o 2º, e assim sucessivamente, ressalvando apenas que é facultada ao importador a inversão da ordem de aplicação do 4º e 5º métodos. Pelo Acordo, quando o valor aduaneiro não puder ser determinado de acordo com as disposições do Artigo 1, deveria normalmente haver um processo de consultas entre a administração aduaneira e o importador, com o objetivo de estabelecer uma base de valoração de acordo com o disposto nos Artigos 2 (mercadorias idênticas) ou 3 (mercadorias similares). (...) Como os Artigos 2 e 3 do Acordo somente se aplicam a mercadorias produzidas no mesmo país que as mercadorias objeto de valoração, emitimos o Termo de Intimação Fiscal nº 0004 (fls. 497 a 499) a fim de que o importador informasse o real país de origem dessas mercadorias. A resposta foi que essas mercadorias foram produzidas na CHINA e TAIWAN (fls. 500 a 501). Descaracterizado o valor de transação declarado, aplicamos o 2º método de valoração, ou seja, o valor de transação de mercadorias idênticas. Na aplicação desse método, as mercadorias importadas e as que servirem de paradigmas devem, necessariamente, ter a mesma origem. Esta foi basicamente a razão pela qual emitimos o Termo de Intimação Fiscal nº 0004. Pelo disposto no parágrafo 3 do Artigo 2 do Acordo, quando encontrado mais de um preço de mercadorias idênticas, o mais baixo deles foi utilizado na determinação do valor aduaneiro das mercadorias importadas. Antes da apuração do NOVO PREÇO UNITÁRIO, e consequentemente do Valor Aduaneiro, são necessários alguns esclarecimentos:” E assim realizou a nova apuração dos valores aduaneiros para cada Declaração de Importação, conforme as tabelas que se encontram no Relatório Fiscal às fls. 683 e seguintes. Tratase, dessa maneira, de lançamento decorrente de subvaloração e não de subfaturamento. Apesar disso, na lavratura do Auto de Infração (fls. 523 dos autos), estão apontados como fundamento legal, além do artigo 86, da Medida Provisória nº 2.15835/2001, que corresponde ao artigo 84 do RA, que trata da apuração do valor aduaneiro nos casos de subvaloração, os artigos 88, da Medida Provisória nº 2.15835/2001, e o artigo 70, inciso II, alínea "b", item 2, da Lei nº 10.833/2003, que correspondem ao artigo 86 do RA e tratam do arbitramento do preço, nas hipóteses de fraude e descumprimento do artigo 18 do RA em relação a documento obrigatório, procedimento que não foi feito na Fiscalização. Na decisão recorrida, a nova apuração do valor aduaneiro das mercadorias importadas pela Recorrente foi mantida, em razão da falta de demonstração pela Recorrente de que os valores por ela declarados mereceriam fé, seguindo a decisão recorrida o equívoco, a Fl. 963DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 956 17 meu ver, do fundamento legal apontado no lançamento, ao entender que a “nova apuração” seria, na realidade, um arbitramento, realizado com fundamento no artigo 88, inciso I, da Medida Provisória nº 2.15835/2001. Vejam abaixo: “Diante dos inúmeros indícios e questionamentos, o importador não logrou, em nenhum momento, durante a investigação e nem em suas razões de defesa, apresentar documentação complementar ou esclarecimentos que demonstrassem, de forma inequívoca, que o preço por ele declarado correspondeu a uma transação comercial normal, não influenciado por vinculações, condições ou contraprestações, nem viciada por fraude, levando à conclusão de que os preços declarados não merecem fé. Ressaltese, ainda, que, cientificada a Inf. Site de que o valor de transação declarado não fora aceito, tendolhe sido facultada a apresentação de documentos/esclarecimentos adicionais que pudessem, eventualmente, reverter essa tese, a empresa não se manifestou, na fase de apuração fiscal e, muito menos, no presente contencioso. Não tendo sido possível a apuração dos preços efetivamente praticados nas importações e comprovada a fraude pela fiscalização, a base de cálculo dos tributos foi determinada mediante arbitramento dos preços das mercadorias, de acordo com o critério previsto no art. 88, inc. I, da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001 (preço de exportação para o Brasil de mercadorias idênticas ou similares)” A Recorrente, por sua vez, alega que a fiscalização teria se valido de presunções para realizar o lançamento, não podendo se admitir a inversão do ônus da prova. Além disso, a Fiscalização não teria demonstrado a ocorrência do fato gerador. Com isso, haveria violação ao princípio da verdade material, pois o Fiscal não teria obtido sucesso na demonstração de suas alegações, pois não teria conseguido comprovar que os valores declarados pelo contribuinte nas Declarações de Importação configuraram omissão de informação ou subvaloração. Quanto à não apresentação da "Export Declaration", a Recorrente afirma que caberia à Fiscalização comprovar a divergência entre a "Export Declaration" e a Declaração de Importação e que para provar a subvaloração das mercadorias esse documento deveria ser apresentado pelo Fisco. Nesse ponto, com razão a decisão recorrida. No que se refere às presunções, a Fiscalização não partiu de um fato conhecido para presumir a ocorrência de um fato desconhecido. O procedimento de apuração de novo valor aduaneiro se inicia quando a autoridade aduaneira verifica que os preços declarados são inferiores aos preços declarados em outras operações, com mercadorias idênticas ou similares. Nesse caso, comparando operações realizadas pelo próprio Recorrente com mercadorias idênticas, mas com outro exportador, foi constatado que o valor declarado era significativamente inferior. O mesmo ocorreu pela comparação com operação de importação de mercadorias idênticas realizadas por outros contribuintes, nos quais se encontrou diferenças de até 300% (trezentos por cento). Fl. 964DF CARF MF 18 Portanto, a Fiscalização não se utilizou de presunções para iniciar o procedimento, mas da análise do cotejo entre as declarações de importação apresentadas pelo Recorrente e as declarações apresentadas pelo próprio Recorrente e outros contribuintes para aquelas mesmas mercadorias. Além disso, para que a autoridade aduaneira não aceite o método do valor da transação, é preciso que existam motivos para se duvidar da veracidade e exatidão do preço praticados e que as explicações e documentos apresentados pelo contribuinte não sejam suficientes par esclarecer a dúvida. E esses pressupostos foram perfeitamente preenchidos no presente caso. Diante de uma dúvida legítima da autoridade aduaneira, a Recorrente não apresentou nenhum documento, informação ou explicação que pudesse justificar o preço praticado. Não conseguiu levantar um único elemento de prova sequer para esse fim, alegando que não existia contrato, correspondência, email, nada que pudesse ser apresentado, pois as tratativas eram todas feitas todas na forma não escrita. Além disso, apresentou informações contraditórias, pois ora havia conhecido o exportador por indicação de intermediários do mercado, mas, por outro lado, afirmava que não havia agente comissionado, nem podia indicar quem eram essas pessoas. E tal ausência de justificativa perdurou na fase contenciosa, pois não é trazido pela Recorrente nenhum elemento que justifique o valor aduaneiro praticado e o porquê da divergência entre os valores por ela declarados e os levantados pelo Fisco. Ademais, não é impugnada a forma de apuração do novo valor aduaneiro pela Fiscalização, a correção quanto à escolha do método substitutivo, se foi aplicado corretamente, se as bases de dados utilizadas são cabíveis, enfim, quanto aos novos valores apresentados, não há qualquer contestação por parte da Recorrente. Nesse cenário, tendo sido realizado o procedimento de valoração aduaneira pela Fiscalização dentro das prescrições legais e não havendo qualquer insurgência quanto ao método e cálculo dos novos valores aduaneiros encontrados, não merecem prosperar os argumentos da Recorrente, motivo pelo qual entendo que deve ser mantido o lançamento, na parte que apurou diferença entre os valores declarados e o novo valor aduaneiro apurado na Fiscalização. Da Multa de 100% (cem por cento) prevista no artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 Além disso, foi lançada a multa prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 (artigo 703 do RA), que tem a seguinte redação: “Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei no 9.430, de 1996, e dos acréscimos legais cabíveis”. (grifos nossos) Apoiase o lançamento no entendimento do Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 17/2004, que afirma que a aplicação da multa independe da caracterização de fraude, sonegação ou conluio. A Recorrente alega a inconstitucionalidade dessa penalidade, por ter caráter confiscatório, que foi mantida pela decisão recorrida, novamente, partindo da premissa de que se estaria diante de um caso de caracterização de fraude, nos termos a seguir: Fl. 965DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 957 19 “Cabe a aplicação dessa multa, uma vez que se caracterizou a previsão contida no art. 88 e parágrafo único da Medida Provisória nº 2.15835/2001: (...) O novo valor aduaneiro apurado foi determinado por arbitramento tendo sido utilizados o preço de exportação para o Brasil de mercadoria idêntica/similar, conforme exaustivamente mostrado no Relatório Fiscal e neste Voto”. No que se refere à alegação da Recorrente, oportuno destacar a Súmula CARF nº 02, pela qual: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária”. Não obstante, em se tratando de lançamento decorrente de subvaloração em que não foi caracterizada fraude, não há que se falar na aplicação da multa do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, que é reservada aos casos de subfaturamento. Portanto, incorreto o seu lançamento, assim como o entendimento que consta no Ato Declaratório Interpretativo SRF nº 17/2004, que lhe dá amparo. Reconhecese que a forma como tal penalidade veio disposta no RA dificulta, em princípio, o trabalho do exegeta, pois o enquanto ao caput do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 deu origem ao artigo 86, inciso I, do RA, o seu parágrafo único veio a se fixar centenas de dispositivos adiante, no artigo 703 do RA, ainda, com suaves alterações de redação que, contudo, provocam acentuados efeitos para fins de interpretação. Assim, a leitura isolada do 703 do RA (“Art. 703. Nas hipóteses em que o preço declarado for diferente do arbitrado na forma do art. 86 ou do efetivamente praticado, aplicase a multa de cem por cento sobre a diferença (...)” poderia levar à interpretação de que tal penalidade se aplica no caso de fraude, sonegação ou conluio relativas ao subfaturamento previsto no caput, quando se aplicaria a multa calculada sobre a diferença entre o preço declarado e o preço arbitrado, e também em outras situações, mesmo sem fraude, pela diferença entre o preço declarado e efetivamente praticado. Com isso, admitirseia a aplicação da penalidade no caso ora analisado, de lançamento decorrente de mera subvaloração, em que há atribuição de valor diferente do real, mera declaração inexata, considerando o preço efetivamente praticado como aquele encontrado após a nova apuração do valor aduaneiro, seguindo as normas do Acordo de Valoração Aduaneira. Contudo, essa interpretação não se sustenta, eis que realizada a partir de norma regulamentar, como visto, recortada da Lei e separada do artigo que complementava, com mudança em seu sentido. A respeito da a importância da interpretação das normas, levando em consideração o lugar em que se encontra o texto, Carlos Maximiliano já advertia: “Devese presumir ser a epígrafe oportuno, expressiva, regular; na falta de argumento sólido em contrário, admitese que apenas compreende o objeto exato da norma, e, portanto, serve para deduzir o sentido e alcance desta” 1. Não por outro motivo, o Decreto nº 4.176/2002, que estabelece normas e diretrizes para elaboração de atos normativos de competência do Executivo Federal, determina que, para obtenção de ordem lógica no texto, devese “expressar por meio dos parágrafos os 1 “Hermenêutica e Aplicação do Direito”. Rio de Janeiro. Forense. 2008. P. 217. Fl. 966DF CARF MF 20 aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo e as exceções à regra por este estabelecida”. Assim, enquanto que o caput traz o assunto sobre o qual versa a norma, os parágrafos, incisos e alíneas gravitam em torno dele, contendo os parágrafos subdivisões do assunto do caput, complementando ou explicando o seu enunciado, trazendo exceções à regra geral nele estabelecida, mas sempre servindo para a compreensão do seu sentido e alcance. Dessa maneira, não se pode interpretar o caput de um artigo dissociado de seus parágrafos ou incisos, nem interpretar o parágrafo de forma isolada, sob pena de se chegar a conclusões totalmente alheias ao sentido e alcance da norma. Impende, por conseguinte, para a apropriada leitura da norma, destacar a redação do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.158 35/2001, in verbis: “Art. 88. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos seguintes critérios, observada a ordem seqüencial: (...) Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, (...)”. A meu ver, a norma que se extrai da leitura do caput do artigo 88 e de seu parágrafo único é no sentido de que, nos casos de fraude, sonegação ou conluio, duas hipóteses podem ocorrer: (i) a Fiscalização poderá obter todos os elementos de prova para determinar o preço efetivamente praticado na operação de importação (quando, por exemplo, é capaz de levantar correspondências, contratos, provas de pagamentos, em que demonstre o preço efetivamente praticado, diverso do declarado às autoridades aduaneiras); (ii) a Fiscalização logra juntar documentação suficiente para provar a fraude, porém, não detém elementos suficientes para se chegar ao preço efetivamente praticado, hipótese na qual deverá arbitrar o preço da mercadoria. E, nessas duas hipóteses, posto que configurada fraude, sonegação ou conluio, deve ser cominada a penalidade prevista no parágrafo único, tenha o preço sido arbitrado ou não. Esse, portanto, o sentido de se mencionar que a base de cálculo da penalidade, além da diferença “entre o preço declarado e o preço arbitrado”, será a diferença “entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado”, conforme o caso. Desse modo, a penalidade prevista no artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001 é aplicável apenas quando ficar caracterizada a fraude ideológica que permite a prática do subfaturamento, mas não nos casos de subvaloração na declaração de mercadoria, como sói ocorrer no presente caso. Ante o exposto, voto pela improcedência do lançamento nessa parte. Classificação Fiscal das Mercadorias Importadas Com relação à classificação fiscal, por ocasião da apresentação da Impugnação, a ora Recorrente já havia deixado de impugnar a matéria, como observado pela decisão recorrida às fls. 868 dos autos: "Intimada, a empresa ingressou, tempestivamente, com a sua impugnação, às fls. 808 a 838, apresentando preliminares e argüições genéricas tão somente em relação ao arbitramento da base de cálculo, em razão da fraude apurada pela Fl. 967DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 958 21 fiscalização, não impugnando, todavia, a reclassificação na NCM/NBM/TEC/TIPI dos bens de informática importados, a ela juntando a documentação de fls. 839 a 850 (constituição da empresa)". Apesar disso, a decisão recorrida superou esse óbice ao conhecimento da matéria, afirmando: "Preliminarmente há que esclarecer que, embora a defendente nenhuma alegação tenha feito no tocante à cobrança da diferença de tributos, em decorrência da reclassificação das mercadorias, é necessário discorrer sobre a matéria, de modo que fique clara e comprovada a incorreta classificação dos bens de informática, na NCM/TEC e na NBM/TIPI, adotada pelo importador, até porque ele defendeuse da aplicação da multa de ofício sobre a diferença do II, IPI e Contribuições Sociais, decorrentes da reclassificação dos bens, assim como da multa de 1% sobre o seu valor aduaneiro, em razão de sua classificação errada na NCM". (grifos nossos) Ocorre que, apesar de a DRJ ter mantido a totalidade do lançamento, nesse ponto, inclusive, e a Recorrente afirmar em seu Recurso que “contesta todos os tributos e as multas envolvidas na presente autuação”, a Recorrente novamente não contestou a reclassificação fiscal efetivada pelo lançamento, motivo pelo qual, nos termos do artigo 17 do Decreto nº 70.235/1972, a matéria deve ser considerada não impugnada, encontrandose preclusa e definitivamente decidida em âmbito administrativo. Das Multas de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro No lançamento, há ainda a aplicação de multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, por erro de classificação fiscal, com fundamento legal no inciso I, do art. 84, da Medida Provisória nº 2.15835/2001, e de multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro, nas Declarações de Importação em que não há ou há informação incorreta do produtor/fabricante, com fundamento legal no artigo 84, da Medida Provisória nº 2.158 35/2001 combinado com artigo 69, parágrafos 1º e 2º, inciso I, da Lei nº 10.833/03. A Recorrente alega que haveria ofensa ao princípio da isonomia na cominação da multa de 1% (um por cento) sobre o valor aduaneiro. Para tanto, dá o exemplo em que duas empresas realizam operações de importação com valores diferentes e prestam informações inexatas. Nessa hipótese, alega que “duas empresas ao cometerem a mesma conduta (...) estão sendo penalizadas de forma desigual”. A alegação da Recorrente esbarra novamente na Súmula CARF nº 02, pois, para reconhecer a violação ao princípio da isonomia, necessariamente esse Colegiado haveria que reconhecer que os dispositivos que tratam dessas penalidades padecem de inconstitucionalidade. De qualquer maneira, não se sustentaria a alegação da Recorrente, pois tais penalidades, na realidade, prestigiam o princípio da isonomia, que poderia ser violado caso se tratasse de uma penalidade em valor fixo. Na realidade, no exemplo da Recorrente, as condutas não são iguais. Para fins de prevenir e desestimular uma conduta prejudicial ao controle aduaneiro, aquele contribuinte que realiza operações de importação de um bem de R$400.000,00 (quatrocentos mil reais) não é igual ao que realiza uma operação de importação de um bem no valor de R$90.000,00 (noventa mil reais). Assim, as penalidades tratam os desiguais de maneira desigual, na exata medida de sua desigualdade. Fl. 968DF CARF MF 22 No presente caso, uma vez ocorridas as hipóteses abstratamente previstas nas normas como ensejadoras da aplicação das penalidades, qual seja, a classificação incorreta de mercadoria e prestação incorreta de informação a respeito do fabricante, e não tendo as penalidades sido aplicadas de forma cumulativa, devem as mesmas ser mantidas, como decidido em primeira instância administrativa. Da multa de ofício de 75% (setenta e cinco por cento) Com relação à multa de ofício, a Recorrente defende a sua inconstitucionalidade, afirmando que tem caráter confiscatório, alegação que não pode ser conhecida por esse Colegiado, em razão do disposto na Súmula CARF nº 02. Por esse motivo, entendo que deve ser mantida a multa, aplicada de acordo com o seu fundamento legal, artigo 44, inciso I, da Lei nº 9.430/1996. Da Aplicação da Taxa SELIC A Recorrente ainda alega que seria inaplicável a taxa SELIC sobre os débitos tributários. Novamente, a alegação levantada pela Recorrente encontra obstáculo em entendimento sumulado do CARF, desta vez, em razão da Súmula CARF nº 4, que afirma: “A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais”. Diante disso, rejeito a alegação da Recorrente. Das demais alegações da Recorrente A Recorrente ainda discorre sobre a ocorrência de ofensa ao princípio da moralidade e de que existiria vício insanável no lançamento tributário. Entretanto, apesar do arrazoado em tese sobre tais matérias, não houve a aplicação de tais alegações ao caso concreto, com a indicação e demonstração dos motivos pelos quais haveria ofensa ao princípio da moralidade e vício no lançamento no caso específico dos autos, motivo pelo qual entendo que tais argumentos devem ser rejeitados. Considerações Finais Após a apreciação das matérias de defesa apresentadas pela Recorrente, entendo pertinente tratar de uma questão superveniente ao lançamento, porém, anterior à interposição do Recurso Voluntário. Conforme se verifica às fls. 794795 dos autos, a Fiscalização lançou os valores a título de PISImportação e COFINSImportação, tomando a base de cálculo considerada na redação anterior do artigo 7º, inciso I, da Lei nº 10.865/2004 e Instrução Normativa SRF nº 572/2005. Todavia, o Plenário do Supremo Tribunal Federal ("STF"), em 20/03/2013, reconheceu a inconstitucionalidade da inclusão do ICMS e do valor das próprias contribuições na base de cálculo do do PISImportação e do COFINSImportação, prevista no artigo 7º, inciso I, da Lei nº 10.865/2004, em acórdão que possui a seguinte ementa: "Tributário. Recurso extraordinário. Repercussão geral. PIS/COFINS – importação. Lei nº 10.865/04. Vedação de bis in idem. Não ocorrência. Fl. 969DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 959 23 Suporte direto da contribuição do importador (arts. 149, II, e 195, IV, da CF e art. 149, § 2º, III, da CF, acrescido pela EC 33/01). Alíquota específica ou ad valorem. Valor aduaneiro acrescido do valor do ICMS e das próprias contribuições. Inconstitucionalidade. Isonomia. Ausência de afronta. (...) 5. A referência ao valor aduaneiro no art. 149, § 2º, III, a , da CF implicou utilização de expressão com sentido técnico inequívoco, porquanto já era utilizada pela legislação tributária para indicar a base de cálculo do Imposto sobre a Importação. 6. A Lei 10.865/04, ao instituir o PIS/PASEP Importação e a COFINS Importação, não alargou propriamente o conceito de valor aduaneiro, de modo que passasse a abranger, para fins de apuração de tais contribuições, outras grandezas nele não contidas. O que fez foi desconsiderar a imposição constitucional de que as contribuições sociais sobre a importação que tenham alíquota ad valorem sejam calculadas com base no valor aduaneiro, extrapolando a norma do art. 149, § 2º, III, a, da Constituição Federal. (...) 9. Inconstitucionalidade da seguinte parte do art. 7º, inciso I, da Lei 10.865/04: “acrescido do valor do Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestação de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação – ICMS incidente no desembaraço aduaneiro e do valor das próprias contribuições , por violação do art. 149, § 2º, III, a, da CF, acrescido pela EC 33/01. 10. Recurso extraordinário a que se nega provimento". (RE 559937, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Relator(a) p/ Acórdão: Min. DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 20/03/2013, REPERCUSSÃO GERAL) (grifos nossos) Contra essa decisão, a Fazenda Nacional ainda opôs Embargos de Declaração para modulação dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade, não acolhidos, por ausência de excepcionalidade, por decisão do dia 17/09/2014, cuja ementa está assim redigida: "1. A modulação dos efeitos da declaração de inconstitucionalidade é medida extrema que somente se justifica se estiver indicado e comprovado gravíssimo risco irreversível à ordem social. As razões recursais não contém indicação concreta, nem específica, desse risco. 2. Modular os efeitos no caso dos autos importaria em negar ao contribuinte o próprio direito de repetir o indébito de valores que eventualmente tenham sido recolhidos. 3. A segurança jurídica está na proclamação do resultado dos julgamentos tal como formalizada, dandose primazia à Constituição Federal". Esse processo, que teve a repercussão geral reconhecida no Recurso Extraordinário nº 559607 RG, teve a decisão transitada em julgado no dia 29/10/2014, passando a vincular os julgamentos deste colegiado, por força art. 62, § 2º do Anexo II do Regimento Interno do CARF. Além disso, houve alteração legislativa refletindo o posicionamento externado pelo STF na matéria, com a edição da Lei nº 12.865/2013, que modificou a redação do artigo 7º, inciso I, da Lei nº 10.865/2004, que atualmente prevê que a base de cálculo das contribuições é tãosomente "o valor aduaneiro". Diante do exposto, tratando de lançamento de valores que foram reconhecidos como inconstitucionais, proponho a esse Colegiado reconhecer, de ofício, a exclusão do ICMS e das próprias contribuições da base de cálculo dos valores lançados a título de PISImportação e COFINSImportação. Fl. 970DF CARF MF 24 Conclusão Por todo o exposto, dou provimento parcial ao Recurso Voluntário interposto, para afastar a multa lançada de 100% (cem por cento) prevista no artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, reconhecendo de ofício a exclusão do ICMS e das próprias contribuições da base de cálculo dos valores lançados a título de PISImportação e COFINS Importação. Augusto Fiel Jorge d' Oliveira Relator Fl. 971DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 960 25 Voto Vencedor Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira redator designado. Peço extrema vênia perante o relator deste processo, o mui ilustre Conselheiro Augusto Jorge Fiel d'Oliveira, para apresentar as considerações a seguir alinhavadas, que divergem de sua proposta, conforme consta de seu fundamentado e bem elaborado voto. Pretendo registrar aqui, de forma objetiva, o entendimento, adotado pela maioria deste Colegiado nesta sessão com relação à manutenção da multa administrativa aduaneira de 100% sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, prevista no parágrafo único do artigo 88 da MP 2.15835, de 2001: "Art. 88. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos seguintes critérios, observada a ordem seqüencial: preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar; preço no mercado internacional, apurado: a) em cotação de bolsa de mercadoria ou em publicação especializada; b)de acordo com o método previsto no Artigo 7 do Acordo para Implementação do Artigo VII do GATT/1994, aprovado pelo Decreto Legislativo no 30, de 15 de dezembro de 1994, e promulgado pelo Decreto no 1.355, de 30 de dezembro de 1994, observados os dados disponíveis e o princípio da razoabilidade; ou c)mediante laudo expedido por entidade ou técnico especializado. Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei no 9.430, de 1996, e dos acréscimos legais cabíveis". O Ilustre relator entendeu que: (1º) essa multa somente deve ser aplicada quando se caracterize subfaturamento, e o fato apurado pela autoridade fiscal categorizase como subvaloração; e (2º) o significado e a aplicação dessa multa dependem da leitura conjunta apenas do parágrafo onde ela é definida e do caput do artigo que alberga este parágrafo. Respeitosamente, firmouse na sessão interpretação divergente da proposta pelo relator, em relação a estes dois aspectos. E esforçarmeei para, resumidamente, expôla. Fl. 972DF CARF MF 26 Primeiramente, a dúvida se a multa em questão seria exigível somente diante da caracterização de fraude foi afastada há muitos anos. O Ato Declaratório Interpretativo SRF n. 17 de 2004, veio sintetizar positivamente a resposta a essa dúvida, naquela ocasião esclarecida pelos hermeneutas e os próprios responsáveis pela redação do texto legal. Em meu ponto de vista essa dúvida deixou de merecer atenção ao longo dos anos, pois, apesar dos recorrentes casos de autuações com discussão de valor aduaneiro e preço declarado em importações, pela ausência ou raridade desse questionamento nos julgados, ficamos com a convicção de que ele havia deixado de compor argumentação dos contraditórios. Uma simples busca nas decisões do CARF demonstra que o 'preço declarado' diferente do 'preço efetivamente praticado' é considerado subfaturamento, tenha ou não sido aplicado o procedimento de Valoração Aduaneira, tenha sido ou não caracterizada a fraude; e sobre essa diferença entre o preço declarado e o real incidirá a multa administrativa específica com alíquota de 100%. VALOR ADUANEIRO. SUBFATURAMENTO. Os fatos apontados e as provas coligidas pela fiscalização são contundentes. Implicam a conclusão de que ocorreu subfaturamento dos preços de mercadorias e remessa de divisas de forma ilícita ao exterior em pagamento de tais importações. (Acórdão n. 3402003.772, 24/01/2017, Relator Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire). SUBFATURAMENTO NA IMPORTAÇÃO. Provado o subfaturamento do bem importado, devem ser cobrados os tributos incidentes sobre a parcela do valor não declarado, com os devidos acréscimos de mora e a multa prevista em lei. (Acórdão n. 3402003.773, 27/01/2017, Relator Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire). SUSPEITA DE SUBFATURAMENTO. MULTA. DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DOS TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. Caso haja motivos para duvidar da veracidade ou exatidão dos dados ou documentos apresentados como prova de uma declaração de valor (e o fato de as matérias constitutivas terem valor inferior ao produto final nos soa como suficiente para demonstrar a dúvida, se devidamente fundamentada a verificação), a autoridade aduaneira poderá decidir, com base em parecer fundamentado, pela impossibilidade de aplicação do primeiro método (valor de transação, obtido a partir da fatura comercial, com os ajustes previstos no AVAGATT). Tal dúvida, disciplinada no artigo 82 do Regulamento Aduaneiro, que demanda parecer fundamentado, não se confunde com a situação externada no artigo 86 do mesmo regulamento, que trata de "arbitramento" do preço da mercadoria em caso de fraude, sonegação ou conluio (e tratada o art. 88 da Medida Provisória no 2.15835/ 2001). Seja caso de dúvida disciplinado do artigo 82 do Regulamento Aduaneiro, ou de fraude, sonegação ou conluio, tratado no art. 86 do mesmo regulamento, deve a fiscalização buscar inicialmente caminho compatível com o segundo e com o terceiro métodos de valoração aduaneira, tentando identificar importações de mercadoria idêntica (e, em sua ausência, similar), no mesmo período aproximado, com o mesmo nível comercial, exportada do mesmo país, documentando detalhadamente de que forma chegou à(s) declaração(ões) a ser(em) utilizada(s) como paradigma, e como esta(s) já foi(foram) objeto de Fl. 973DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 961 27 valoração. (Acórdão n. 3401003.259; Relator Conselheiro Rosaldo Trevisan, unânime, 28/09/2016). Por essas razões podemos concluir que não encontra eco ou sustentação na jurisprudência a visão do ilustre relator de que a diferença entre subvaloração e subfaturamento seja fundamental para decidir a incidência ou não da multa em questão. A imputação referente à matéria, no relatório fiscal, é intitulada, logo à primeira página, e no item IV.1 do relatório, de “Declaração inexata do valor da mercadoria (valor de transação incorreto)”. Ao final do item IV.1.1 (“Descaracterização do preço declarado”), a fiscalização informou que, em face do ali exposto, restou descaracterizado do valor de transação declarado, procedendose à “determinação do novo valor aduaneiro consoante os princípios do Acordo de Valoração Aduaneira”. E, no tópico seguinte do relatório fiscal (item IV 1.2 – “Apuração do novo preço unitário das mercadorias”), chega a fiscalização, conforme tabelas constantes de tal tópico, a um novo preço (e consequentemente, a um novo valor de transação) com fundamento no segundo método de valoração aduaneira (mercadorias idênticas). A DRJ entendeu que as menções da fiscalização ao segundo método de valoração aduaneira seriam, em verdade, arbitramentos de preço com fundamento no inciso I do art. 88 da MP n. 2.15835/2001, que remete a mercadorias idênticas, em procedimento que recorda em tudo o segundo método de valoração aduaneira. Veremos que tal entendimento não afeta, em substância, as conclusões a respeito do tema, visto que tanto a diferença entre o preço declarado e efetivamente praticado quanto a diferença entre o preço declarado e o arbitrado são igualmente punidas com a mesma multa de 100%, prevista no parágrafo único do art. 88 da MP n. 2.15835/2001. No aspecto fático e probatório, destaquese, sequer houve discordância no colegiado, por ocasião do julgamento, no CARF. O próprio relator, em observação que gozou da unânime acolhida do colegiado, manifestou que: ... a Recorrente não apresentou nenhum documento, informação ou explicação que pudesse justificar o preço praticado. Não conseguiu levantar um único elemento de prova sequer para esse fim, alegando que não existia contrato, correspondência, email, nada que pudesse ser apresentado, pois as tratativas eram todas feitas todas na forma não escrita. Além disso, apresentou informações contraditórias, pois ora havia conhecido o exportador por indicação de intermediários do mercado, mas, por outro lado, afirmava que não havia agente comissionado, nem podia indicar quem eram essas pessoas. E tal ausência de justificativa perdurou na fase contenciosa, pois não é trazido pela Recorrente nenhum elemento que justifique o valor aduaneiro praticado e o porquê da divergência entre os valores por ela declarados e os levantados pelo Fisco. Ademais, não é impugnada a forma de apuração do novo valor aduaneiro pela Fiscalização, a correção quanto à escolha do método substitutivo, se foi aplicado corretamente, se as bases de dados utilizadas são cabíveis, enfim, quanto aos novos valores apresentados, não há qualquer contestação por parte da Recorrente.” Fl. 974DF CARF MF 28 Restou comprovado, assim, pelo arrazoado da fiscalização e pelas citadas tabelas, que trataram de cada declaração de importação, que o preço declarado difere do efetivamente praticado, apurado pela fiscalização (para mercadorias idênticas). E a multa em análise, enfatizese, trata de diferença entre preço declarado e efetivamente praticado, ou entre o preço declarado e o arbitrado, como se grifa abaixo, em nova transcrição do dispositivo referente à multa, na norma de ordem legal (parágrafo único do art. 88 da MP n. 2.158 35/2001): “Parágrafo único. Aplicase a multa administrativa de cem por cento sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado na importação ou entre o preço declarado e o preço arbitrado, sem prejuízo da exigência dos impostos, da multa de ofício prevista no art. 44 da Lei no 9.430, de 1996, e dos acréscimos legais cabíveis". (grifo nosso) Vejase que a multa se aplica a duas situações alternativas: diferenças entre o preço declarado e o efetivamente praticado ou entre o preço declarado e o arbitrado. E observese, agora, que o caput do mesmo art. 88 da MP n. 2.15835/2001, trata apenas do arbitramento, quando não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado, nos casos de fraude, sonegação ou conluio: “Art. 88. No caso de fraude, sonegação ou conluio, em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado na importação, a base de cálculo dos tributos e demais direitos incidentes será determinada mediante arbitramento do preço da mercadoria, em conformidade com um dos seguintes critérios, observada a ordem sequencial: I preço de exportação para o País, de mercadoria idêntica ou similar; (...)” (grifo nosso) Assim, por óbvio, a multa do parágrafo único trata de algo mais do que o previsto no caput (as diferenças entre o preço declarado e o efetivamente praticado, apurado pela fiscalização). Se foi possível à fiscalização chegar ao preço efetivamente praticado, inaplicável o caput do art. 88 (que trata, como grifado, de arbitramento do preço nas situações em que não seja possível a apuração do preço efetivamente praticado). Ora, no caso em análise tal apuração, segundo a fiscalização, foi possível, e sequer foi contestada pela recorrente. Chegou, então, a fiscalização, em procedimento regular, ao preço efetivamente praticado (ou, segundo a visão da DRJ, chegou a fiscalização ao preço arbitrado, seguindo o art. 88, I da MP n. 2.15835/2001). Assim, aproveitamonos das mesmas menções que faz o relator a Carlos Maximiliano, em sua célebre obra sobre hermenêutica, para chegar a conclusão oposta, na leitura do parágrafo único do art. 88 da MP n. 2.15835/2001, pois devese expurgar das hipóteses passíveis de interpretação de um dispositivo normativo aquelas que levem a absurdo lógico. E vincular o parágrafo único do art. 88 apenas ao texto do caput contraria o próprio texto do parágrafo único, que remete a duas situações, uma delas indubitavelmente excluída do texto do caput (hipóteses em que for possível apurar o preço efetivamente praticado). Daí ter o Regulamento Aduaneiro apartado geograficamente as situações, sem deturpar o comando legal, mas apenas trazendoo a uma interpretação possível e logicamente coerente com os ditames da lei. Fl. 975DF CARF MF Processo nº 13830.722552/201374 Acórdão n.º 3401003.430 S3C4T1 Fl. 962 29 Nesse sentido, entendo que, na aplicação da multa de 100% (cem por cento) sobre a diferença entre o preço declarado e o preço efetivamente praticado, prevista no parágrafo único do artigo 88 da Medida Provisória nº 2.15835/2001, é indiferente se houve fraude, sonegação ou conluio. Tal posicionamento, que se resume à leitura do contexto em que inserido o parágrafo único do art. 88 da MP nº 2.15835/2001, norteou a divergência em relação ao voto do relator, majoritariamente acolhida pelo colegiado. Assim, como o relator, entendemos que merece prosperar o lançamento em relação às diferenças apuradas pela fiscalização, encontradas em relação a mercadorias idênticas, mas, em dissonância como relator, entendemos que isso constitui fundamento para aplicação, ao caso, da multa prevista no parágrafo único do art. 88 da MP nº 2.15835/2001. Portanto, por todas essas razões, a maioria do Colegiado decidiu por manter a aplicação e exigência da multa em tela neste caso. Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira redator designado. Fl. 976DF CARF MF
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