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Numero do processo: 10940.002319/2005-26
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 24 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Tue Feb 26 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/10/2004 a 31/10/2004
PIS/PASEP EXPORTAÇÃO. INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. DIREITO A CRÉDITO. DESPESAS INCORRIDAS COM SERVIÇOS DE DESPACHANTE ADUANEIRO. IMPOSSIBILIDADE.
Despesas incorridas com serviços de despachante aduaneiro por não serem utilizados no processo produtivo do Contribuinte e nem serem essenciais ou obrigatórios à atividade de comércio exterior, não geram créditos de PIS/Pasep Exportação no regime não cumulativo, por absoluta falta de previsão legal.
Numero da decisão: 3001-000.728
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Marcos Roberto da Silva e Renato Vieira de Ávila que lhe deram provimento parcial. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Orlando Rutigliani Berri.
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Redator Designado
(assinado digitalmente)
Marcos Roberto da Silva - Redator Designado Ad Hoc
(assinado digitalmente)
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Presidente a época da Sessão de Julgamento), Renato Vieira de Avila, Marcos Roberto da Silva e Francisco Martins Leite Cavalcante. Atuou como redator (Ad Hoc) o Conselheiro Marcos Roberto da Silva, Presidente da Turma por ocasião da formalização do presente voto, tendo em vista que o relator original, que já teve seu voto coletado em janeiro/2019, não mais compõe o colegiado, conforme Portaria SE/ME no 380, de 15/02/2019.
Nome do relator: RENATO VIEIRA DE AVILA
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INCIDÊNCIA NÃO CUMULATIVA. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE E RELEVÂNCIA. DIREITO A CRÉDITO. DESPESAS INCORRIDAS COM SERVIÇOS DE DESPACHANTE ADUANEIRO. IMPOSSIBILIDADE. Despesas incorridas com serviços de despachante aduaneiro por não serem utilizados no processo produtivo do Contribuinte e nem serem essenciais ou obrigatórios à atividade de comércio exterior, não geram créditos de PIS/Pasep Exportação no regime não cumulativo, por absoluta falta de previsão legal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em negar provimento ao Recurso Voluntário, vencidos os conselheiros Marcos Roberto da Silva e Renato Vieira de Ávila que lhe deram provimento parcial. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Orlando Rutigliani Berri. Orlando Rutigliani Berri Presidente e Redator Designado (assinado digitalmente) Marcos Roberto da Silva Redator Designado Ad Hoc (assinado digitalmente) Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri (Presidente a época da Sessão de Julgamento), Renato Vieira de Avila, Marcos Roberto da Silva e Francisco Martins Leite Cavalcante. Atuou como redator (Ad Hoc) o Conselheiro Marcos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 94 0. 00 23 19 /2 00 5- 26 Fl. 827DF CARF MF 2 Roberto da Silva, Presidente da Turma por ocasião da formalização do presente voto, tendo em vista que o relator original, que já teve seu voto coletado em janeiro/2019, não mais compõe o colegiado, conforme Portaria SE/ME no 380, de 15/02/2019. Relatório (cf. relatório constante na pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original aos demais conselheiros) Pedido de Compensação Tratase de pedido de compensação de créditos de PIS/Pasep exportação de incidência não cumulativa, relativo ao 3º trimestre do ano calendário de 2004, no valor de R$ 3.033,53 (três mil e trinta e três reais e cinquenta e três centavos). Antes que houvesse a análise e o despacho decisório, a contribuinte apresentou outro pedido de compensação em meio físico à fl. 73, no valor de R$ 2.915,11. Ambos são referentes ao 3º trimestre de 2004, sendo, por isso, analisados conjuntamente. O montante total perfaz o valor de R$ 5.948,64. Intimação Fiscal nº 172/2006 Foi dado inicio à diligência na contribuinte para realizar verificação para fins de homologação de compensação de créditos de PIS/Pasep (Lei n° 10.637/2002) do 3º e do 4º trimestre de 2004, onde o mesmo foi intimado para regularizar a apresentar ou disponibilizar, no prazo de 20 dias, inúmeros documentos relativos ao período mencionado. Intimação Fiscal nº 237/2006 Posteriormente, a contribuinte foi intimada novamente para prestar esclarecimentos, e juntar documentos que comprovassem o direito creditório a compensar, no prazo de 20 dias. Intimação Fiscal nº 192/2007 Novamente, houve intimação para apresentação de documentos faltantes. Despacho Decisório A autoridade fiscal afirma que é lícito o aproveitamento via compensação de créditos de insumos vinculados a operações de venda efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência da contribuição para o PIS/Pasep exportação, como é o caso da contribuinte que fabrica, importa e distribui papel imune, destacando tal possibilidade a partir de 09 de agosto de 2004, de modo que os créditos anteriores a esse período devem ser glosados. Fl. 828DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 3 3 Após a análise da documentação apresentada, o presente despacho decisório concluiu pela existência do direito creditório no valor de R$ 5.117,84, portanto, deferiu parcialmente o pedido da contribuinte. Manifestação de Inconformidade Em sede de sua manifestação de inconformidade, a recorrente alega, em suma, que houve equívoco na conclusão da autoridade fiscal, havendo direito à compensação integral dos créditos de PIS/Pasep exportação. Bens utilizados como insumos A contribuinte aduz ter direito ao creditamento sobre todas as mercadorias adquiridas como insumo para suas atividades, reputando equivocada a desconsideração da autoridade fazendária de alguns produtos exclusivamente pelos códigos CFOPs, devendose explicitar quais as notas fiscais não se enquadrariam em insumos e, portanto, desqualificariam o direito creditório. Ademais, também se manifestou contra a exclusão dos valores de correção monetárias do montante a compensar. Despesas com energia elétrica A manifestante argumenta que tem direito à inclusão dos gastos com multas, taxas municipais de iluminação pública e outros serviços públicos cobrados em conjunto com as despesas com energia elétrica pelo fato de que seriam despesas acessórias obrigatórias, de modo que seguiriam o principal, qual seja, o custo com energia elétrica, conferindolhe direito creditório também nesse ponto. Despesas com despachantes A empresa também se insurge contra a glosa de créditos provenientes de despesas com despachantes, alegando que as mesmas estariam atreladas aos gastos com fretes e armazenagem e que seriam considerados como insumos para a consecução das atividades da pessoa jurídica, ensejando o direito de créditos compensáveis. DRJ/RJOII A manifestação de inconformidade foi julgada e recebeu a seguinte ementa: Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão nº 1320.920 – 5ª Turma da DRJ/RJOII Sessão de 14 de agosto de 2008 Fl. 829DF CARF MF 4 Interessado NORSKE SKOG PISA LTDA. CNPJ/CPF 31.985.633/000120 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/10/2004 a 31/12/2004 PIS/Pasep. CRÉDITOS A DESCONTAR. INCIDÊNCIA NÃOCUMULATIVA. COMPENSAÇÃO Quando não comprovada a respectiva aquisição/fornecimento, é cabível a glosa de valores que serviram de base de cálculo dos créditos a descontar, a título de bens e serviços utilizados como insumos. Não há previsão legal para o desconto de créditos decorrentes das despesas de atualização ou correção monetária sobre o fornecimento de bens utilizados como insumos na fabricação de produtos próprios, ainda que prevista contratualmente. Somente se permite o desconto de créditos em relação à energia elétrica consumida nos estabelecimentos da pessoa jurídica, não se incluindo em citados gastos as despesas com taxa de iluminação pública, multas por atraso no pagamento da energia faturada e outros serviços diversos. Não dá direito a crédito o gasto com serviços de despachante, por não corresponderem a insumo para a produção nem a outra hipótese legal de crédito. PIS/PASEP. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS OPONÍVEIS À COMPENSAÇÃO. ELEMENTOS DE PROVA. AUSÊNCIA DE APRESENTAÇÃO. A prova deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual, por força do artigo 16, §4º, do Decreto nº 70.235/72, de aplicação subsidiária aos processos de restituição/compensação. Solicitação Indeferida. O relatório, por bem retratar a realidade fática dos autos, merece ser transcrito. 1 Trata o presente processo das declarações de compensação (Dcomp) de fl. 02 e fl. 36 (esta última Dcomp, originada do processo n° 10940.002318/200581, posteriormente anexado à fl. 68 ao processo principal n° 10940.002319/200526, anteriormente referenciado), por intermédio das quais se declara a existência de créditos da Contribuição para o Programa de Integração Social — PIS/Pasep — exportação (total do crédito a compensar, respectivamente, de R$ 3.033,53 e R$ 2.915,11, para os meses de outubro e novembro de 2004), referentes ao 4° trimestre de 2004, conforme expresso nos Demonstrativos de "Crédito da Contribuição para o PIS/Pasep Exportação" de fl. 03 e de fl. 37, a serem compensados com débitos relativos à multa por atraso na entrega de DCTF, considerada vencidas em 29/05/2005. Fl. 830DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 4 5 2 Inicialmente, a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Ponta Grossa/PR (DRF/PTG/PR) exarou o Despacho Decisório nº 411/2007 (fls. 205/211), reconhecendo apenas parcialmente (valor total: R$ 5.117,84) o direito creditório pleiteado pelo interessado, e homologando também parcialmente até o limite do crédito reconhecido, a compensação efetuada mediante as declarações de compensação de fl. 02 e fl. 36, sob os seguintes fundamentos: • Como ambas as declarações (Dcomp) se referem a um único tipo de crédito e ao mesmo trimestre, os processos foram juntados por anexação (fl. 68), em 06/07/2007, para que a análise do crédito do trimestre fosse realizada em conjunto; • O interessado apurou créditos da contribuição para o PIS/Pasep, lastreado nos arts. 2°, 3°, e 5°, da Lei n° 10.637, de 30/12/2002, pelos quais, tratandose de créditos apurados segundo a incidência não cumulativa da contribuição, vinculados a operações de exportação, para as quais não incide o PIS/Pasep, podese compensar os créditos assim acumulados; • Também deve ser observado que o contribuinte fabrica, importa e distribui papel imune, conforme comprovado pela situação vigente de seu Registro Especial — Papel Imune junto à RFB, conforme fl. 197; • Não se constatou divergências entre a proporção de créditos de mercado interno e exportações, usada pelo contribuinte no Dacon (fls. 11/26) e a calculada através da relação de notas de saída apresentada em resposta ao item 2 da Intimação n° 172/06 (fls. 69 a 72), e, assim, temse que a proporção das exportações no mês de outubro é de 1,20%; 1,06% no mês de novembro; não houve exportações declaradas para o mês de dezembro; • Intimado às fls. 69 a 72 a apresentar esclarecimentos e documentação do crédito pleiteado, o contribuinte apresentou relação, em meio digital, de notas fiscais de entrada que dão origem ao crédito objeto das Dcomp's em análise; • Considerandose, dentre essas notas fiscais, aquelas relacionadas com Códigos Fiscais de Operações e Prestações — CF0Ps — referentes a bens utilizados como insumos, temse que o mês de novembro teve discriminadas notas que somam o montante de R$ 4.363.400,85 de base de cálculo de contribuições, que está aquém daquela informada nas linhas 2 das fichas 04 e 06 do DACON, pelo que a diferença, no valor de R$ 192.365,76 na base de cálculo para o mês de novembro deverá ser objeto de glosa; • Foi também realizada amostragem das notas fiscais relacionadas a bens utilizados como insumos, conforme Intimação n° 192/07 (fls. 141/148), a partir da qual se constatou que estavam relacionadas como geradoras de crédito as notas de n's 2589, 2594, 2601, 2604 e 2608 (fls. 158/162), que se referem a parcelas de uma complementação de contrato de compra junto à Norske Skog Florestal Ltda.; • Conforme discriminado na nota à fl. 158, os valores discriminados nas notas fiscais citadas no item acima se referem à "correção monetária", e, como a correção monetária/complementação em questão tem caráter meramente financeiro/monetário, não implicando realmente em maior aquisição de insumos, concluise pela glosa das notas acima relacionadas, glosandose da base de cálculo, desta forma, os valores de R$ 35.485,94 para os meses de outubro, novembro e dezembro; Fl. 831DF CARF MF 6 • Já com relação à rubrica "Serviços Utilizados como Insumos", temse que o interessado apresentou, em resposta ao item 1 da Intimação n° 172/06 (fls. 69/72), relação de notas fiscais de entrada, após o que se verificou que as notas relacionadas com os CF0Ps referentes a prestação de serviços, estavam registradas no Dacon sob a rubrica "Despesas de Armazenagem de Mercadoria e Frete na Operação de Venda", e que, as operações efetivamente referentes aos créditos das linhas 3 das Fichas 04 e 06 do Dacon foram relacionadas em separado, em outra planilha eletrônica entregue em resposta à mesma intimação; • Não sendo suficientes as informações descriminadas na planilha referente a serviços, foi lavrada Intimação n° 237/06 (fls. 126/128), que, em seus itens 1 e 2 solicita maiores esclarecimentos a respeito dos serviços que geraram crédito para o contribuinte no período sob análise; • Em resposta, o interessado apresentou planilhas às fls. 135/137, as quais discriminam como se deu o cálculo dos créditos advindos dos serviços utilizados como insumos, sendo que os dados informados nessas tabelas forma confirmados tanto pelas informações prestadas anteriormente pelo contribuinte (planilha eletrônica de "serviços de colheita de madeira/páteo de madeira") quanto por sua escrituração fiscal; • Dessa forma, concluise que foram confirmadas aquisições de serviços que dão direito a crédito nos montantes de R$ 1.646.650,38, R$ 1.163.337,84 e R$ 1.323.478,43, para os meses de outubro, novembro e dezembro, respectivamente, sendo que, como os valores informados nessa rubrica no Dacon foram, pela ordem, R$ 1.724.300,57, R$ 1.231.073,30 e R$ 1.669.734,34, constatase a diferença de R$ 77.650,19, R$ 67.735,46 e R$ 346.255,91, respectivamente; • O interessado atribui todo o valor confirmado ao mercado interno, conforme totalização no registro "Linha 03 — Serviços Utilizados como Insumos (Dacon)" das tabelas às fls. 135/137, e, dessa forma, a glosa da base de cálculo para o mercado interno é aquela reconhecida pelo próprio contribuinte nas tabelas apresentadas, sendo o restante do valor da diferença explicitada no parágrafo anterior referente à exportação; • Realizada amostragem quanto às notas fiscais de serviços utilizados como insumos, através da Intimação n° 192/07 (fls. 141/148), não se constataram outras divergências, pelo que se glosa da base de cálculo apenas as diferenças apuradas nas tabelas às fls. 198/199; • Já em relação aos créditos advindos das despesas de energia elétrica, conforme inciso IX do art. 30 da Lei n° 10.637/2002, foi apresentada, para tanto, em resposta à Intimação n° 172/06 (fls. 69/72), relação de notas, sendo que, a partir dessa relação (fls.163/164), foram realizadas amostragens através das intimações IN 237/06 (fls. 126/128) e 192/07 (fls. 141/148), e, ao se analisar tais notas, percebese que o interessado, na apuração dos créditos pleiteados, incluiu na base de cálculo multas, taxas municipais de iluminação pública e outros serviços diversos, sendo que os créditos surgem da energia elétrica consumida no estabelecimento e não de outros custos e despesas relacionadas a esse consumo, que não devem ser incluídos no cálculo do crédito, sendo, portanto, objeto de glosa (fls.198/199); • Dessa forma, através de análise conjunta com o Livro Razão do contribuinte, verificouse que, no mês de outubro, as despesas de energia elétrica que servem como base de cálculo para os créditos foram de R$ 5.192.286,41, contra R$ 6.736.442,07, declarados no DACON; no mês de novembro, o contribuinte comprovou despesas dessa natureza no montante de R$ 6.682.471,13, maior que os R$ 6.146.098,18, Fl. 832DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 5 7 anteriormente declarados; já no mês de dezembro, as despesas comprovadas somaram R$ 6.195.436,19, em oposição aos R$ 6.281.240,61, declarados em Dacon; • Quanto às despesas de armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, informadas no DACON, o contribuinte apresentou, em resposta ao item 5 da Intimação n° 172/06 (fls. 69/72), tabelas às fls. 123/125, acompanhadas de cópias do Livro Razão, demonstrando os serviços de armazenagem e de frete nas operações de venda, que geram crédito conforme inciso IX do art. 3°, e inciso II do art. 15, ambos da Lei n° 10.833, de 29/12/2003; • Verificouse que os valores que compõem os créditos dessa rubrica estão de acordo com as contas apresentadas no Livro, e, com o intuito de comprovar as operações descritas no Razão, foi feita amostragem de notas fiscais conforme o item 3 da Intimação n° 237/06 (fls. 126/128), a partir da qual, não havendo incongruências, fica confirmado o crédito relativo às operações de frete e armazenagem, conforme pleiteado; • Entretanto, percebese às fls. 124/125, que o contribuinte incluiu no cálculo dos créditos dos meses de novembro e dezembro, nessa mesma rubrica, as despesas com despachantes, bem como outras despesas comerciais, que não têm natureza de frete e armazenagem, e, tampouco, configuramse como insumo, não possuindo, portanto, base legal para aproveitamento de créditos de contribuições, pelo que, dessa forma, são glosados os montantes de R$ 87.058,02 e R$ 83.877,25, respectivamente, da base de cálculo dos créditos da contribuição para o PIS/Pasep para os meses de novembro e dezembro; • Em resposta ao item 5 da Intimação n° 237/06 (fls. 126/128), o interessado apresentou cópias de notas fiscais de entrada acompanhadas de seus respectivos comprovantes de importação, bem como demonstrativos relativos às contribuições pagas na importação, já apresentadas anteriormente, anexadas às fls. 89, 90, 103, 104, 116 e 117, a partir dos quais observouse que há divergências entre o montante de crédito pleiteado e aquele comprovado através das importações de celulose e sobressalentes nos meses de novembro e dezembro; • Não havendo, entretanto, proporção de mercado externo para o mês de dezembro, analisase no presente processo apenas a divergência observada no mês de novembro; • Foram indicados, à fl. 104, para a Declaração de Importação n° 04/11882192, uma base de cálculo e um valor de contribuição para o PIS/Pasep de, respectivamente, R$ 459.331,52 e R$ 7.578,97, valores esses que coincidem com os informados no Dacon e, conseqüentemente, com o crédito pleiteado pelo contribuinte; • Todavia, foi anexada, à fl. 139, planilha de cálculo com o intuito de verificar o real montante do crédito, de acordo com a Instrução Normativa (IN) SRF n° 436, de 27/07/2004, vigente à época, e, assim, chegouse ao valor de R$ 456.300,93 de base de cálculo e de R$ 7.528,97 de contribuição para o PIS/Pasep, resultando em uma glosa no montante de R$ 50,00; • Considerandose todo o exposto, bem como as tabelas confeccionadas às fls. 138/140, representando a apuração de crédito nas importações, a planilha demonstrativa de glosas às fls. 198/199 e a tabela de resultado à fl. 202, as quais resumem as glosas efetivadas, na forma anteriormente mencionada, e a apuração dos Fl. 833DF CARF MF 8 créditos do PIS/Pasep a descontar (quando houve glosas, procedeuse à distribuição dos valores glosados na proporção de créditos de mercado interno e exportações, segundo os percentuais anteriormente discriminados, salvo quando houve manifestação da autoridade local dispondo de forma diversa), decidese reconhecer o direito creditório do interessado, no montante de R$ 5.117,84, homologandose as compensações pleiteadas neste processo, até o limite do crédito reconhecido, destacandose que os débitos objeto de compensação estão sendo controlados nos processos administrativos n's 10940.001949/200583 e 10940.001952/200505, que tratam de multa por atraso na entrega de DCTF. 3 Cientificado da decisão da autoridade administrativa local acima mencionada em 06/09/2007, conforme se observa no Aviso de Recebimento (AR) de fl. 212, o contribuinte, irresignado, apresentou, em 09/10/2007, a Manifestação de Inconformidade de fls. 216/225 e demais documentos a ela anexados às fls. 226/243 (procuração, fl. 226; cópia de Contrato Social, de atas e da 9. Alteração de Contrato Social, fls. 227/242; cópia de carteira de identificação profissional do procurador da empresa, expedido pela OAB/PR, fl. 243), alegando, em síntese, que: a) Em relação aos créditos decorrentes da aquisição de bens utilizados como insumos, é flagrante a ausência de motivação da decisão recorrida, não se podendo admitir a glosa de créditos de PIS/COFINS exclusivamente por conta dos CF0Ps utilizados pela impugnante, já que, como se sabe, estes códigos são utilizados apenas como facilitadores da atividade de fiscalização, e, assim, seria imprescindível que fossem indicados expressamente quais os CF0Ps cujas operações não foram consideradas aquisições de insumos, até mesmo porque a impugnante não tem como verificar com exatidão qual foi o critério adotado pela fiscalização para selecionar quais códigos dão ou não direito a crédito e como demonstrar o equívoco da glosa; b) Sem a indicação precisa dos CF0Ps desconsiderados, a autuação é nula de pleno direito, pois não há norma estabelecendo que determinados Códigos possam ou não dar direito a crédito; c) Em segundo lugar, também se tendo em vista que estes Códigos servem apenas de orientação e auxílio, não podem ser simplesmente adotados de forma plana para considerar determinado gasto como gerador ou não do crédito, sendo imprescindível que a autoridade fiscalizadora analise concretamente as operações para, sob o viés da verdade real, concluir pela possibilidade ou não da geração de créditos, mencionandose, nesse aspecto, decisão do E. Conselho de Contribuintes nos autos do processo n° 10540.000237/9841 (Recurso 114038; Acórdão 20308073); d) A autoridade fiscal apenas analisou e desconsiderou as aquisições de bens que supostamente não seriam insumos, porém, as mesmas divergências que provocariam a glosa para a redução dos créditos utilizados para compensação, também provocariam o aumento em outras situações, ou, em outras palavras, caso adotado os critérios da fiscalização, se no exercício indicado haveria diminuição do crédito, em outras oportunidades haveria o aumento dos créditos a serem utilizados, porém, somente foi considerada a diminuição e não o aumento; e) E, quanto à glosa dos valores pagos a título de complementação de valor de contrato de compra junto à Norske Skog Florestal, relativos à correção monetária, é absolutamente evidente a ilegalidade do procedimento, já que, como se sabe, a correção nada mais é do que a atualização monetária de determinado valor para anulação dos efeitos da desvalorização da moeda; f) Tratase de acessório que não altera nem acrescenta nada ao valor principal, servindo apenas para manutenção da equivalência deste valor em função da inflação Fl. 834DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 6 9 constatada no período, e, portanto, não há efetivamente alteração que possa ser considerada de natureza financeira, como referido na decisão recorrida; g) Portanto, a complementação de valores pagos em função da incidência da correção monetária não retira deste pagamento a capacidade de gerar créditos de PIS/COFINS, verificandose, destarte, a ilegalidade da glosa determinada para as despesas com bens utilizados como insumos; h) Relativamente aos serviços utilizados como insumos, constou na decisão que haveria controvérsia relativamente aos valores declarados no Dacon e aqueles valores informados pela impugnante no curso do procedimento administrativo, porém, quando a impugnante foi intimada a se manifestar e a provar os fundamentos de seus créditos, realmente apresentou levantamentos que não correspondiam exatamente aos valores informados no Dacon; i) Essas divergências se justificam, seja em função de serviços que acabaram não sendo incluídos nas listagens apresentadas à fiscalização, seja em função de valores que acabaram sendo lançados em outros períodos, em função de divergências do momento do pagamento; j) A impugnante não nega a legitimidade da glosa em situações como a indicada, em que efetivamente se constate que as declarações fiscais (no caso, o Dacon) não correspondam com exatidão à realidade contábil e fiscal, porém, considerandose o número de vezes que a autoridade fiscal requereu esclarecimentos e novos documentos, impunhase que houvesse expressamente solicitado esclarecimentos em relação à divergência apontada, o que, inclusive, poderia acarretar na necessidade de retificação do Dacon apresentado no período; k) Essa postura representaria a valorização do princípio da ampla defesa e do contraditório na esfera administrativa, do princípio da razoabilidade e da eficiência, e, com efeito, se constatado (e a impugnante já está fazendo este levantamento) que o Dacon efetivamente estava correto, pela localização de outros serviços não considerados nas planilhas encaminhadas no curso do procedimento administrativo, o resultado será que a decisão ora recorrida terá que ser revista; 1) Por outro lado, se confirmado que as tabelas elaboradas estão corretas, a conclusão será pela retificação do Dacon, solução que a autoridade que apreciou o pedido de compensação sequer cogitou, não se tendo adotado o melhor procedimento jurídico, pelo que, seja como for, na pior das hipóteses, impõese a cassação da decisão recorrida para que a impugnante possa ao menos apresentar as explicações pertinentes; m) É claro o equívoco da decisão, na parte da mesma que glosou uma parcela das despesas com energia elétrica, pela inclusão na base de cálculo dos créditos pleiteados de multas, taxas municipais de iluminação de outros serviços diversos, já que a energia elétrica não é um bem ou serviço de natureza comum, tratandose, sim, de serviço público prestado sob regime de direito público, de maneira que há severa regulamentação dos montantes que podem ser cobrados; n) Nesse contexto, os "acessórios" cobrados juntamente com as faturas de energia elétrica são de pagamento obrigatório em virtude das normas aplicáveis a esses serviços; são cobranças ligadas de forma umbilical à própria energia elétrica consumida, devendo, sim, dar direito à tomada de créditos; Fl. 835DF CARF MF 10 o) É a mesma situação dos tributos destacados em aquisições de insumos, não havendo dúvidas de que estes "acessórios" fazem parte efetivamente do custo de aquisição, de maneira que dão direito a crédito, devendose nestas situações seguir se o brocado jurídico "o acessório segue a sorte do principal", motivos pelos quais a glosa determinada pela fiscalização deve ser revista; p) Também não procede a glosa de despesas realizadas com despachantes, uma vez que estas são despesas necessárias e umbilicalmente ligadas às despesas realizadas com fretes e armazenagem; q) Ainda que a Lei não preveja expressamente a tomada de créditos em relação a essas despesas especificamente consideradas, tais serviços são parte indissociável dos serviços de frete e armazenagem, de maneira que a única interpretação que atinge à finalidade prevista na Lei é a que reconhece a possibilidade da tomada de créditos sobre tais pagamentos; r) Por outro lado, nos dias atuais, não se pode deixar de reconhecer a importância dos despachantes nas atividades correntes das empresas, sendo esse um serviço necessário e indispensável para a perfeita consecução dos objetivos empresariais de uma pessoa jurídica, sendo que, se utilizado por analogia a um conceito do Regulamento do Imposto de Renda, não há dúvida de que estes gastos são indispensáveis para a manutenção da fonte produtiva; s) Se utilizados exclusivamente os termos das normas que regulam os créditos de PIS/COF1NS, não parece haver dúvidas de que estes serviços podem ser considerados como insumo na produção dos produtos industrializados pela impugnante, e, por estes motivos, também a glosa relativa a estes gastos deve ser revista; t) Ante o exposto, requer a impugnante seja recebida a sua impugnação por inconformidade e, ao final, provida integralmente para o fim de ser declarada a homologação da compensação que foi objeto do procedimento administrativo de n° 10940.002319/200526. 4 À fl. 242, tendo em vista o contido na Portaria RFB n° 340, de 22/02/2008, que transferiu a competência para julgamento dos processos relacionados em seu Anexo II, da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento de Curitiba (DRJ/CTBA) para a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro II (DRJ/RJ02), o presente processo foi encaminhado a esta DRJ/RJ02, para julgamento. A DRJ esclareceu que a glosa dos créditos acumulado deuse em relação à sua utilização através de compensação e/ou ressarcimento, permanecendo a possibilidade de uso dos mesmos mediante desconto das contribuições devidas, via escrituração fiscal, tendo mantido o mesmo entendimento da autoridade fazendário em seu despacho decisório. Entendeu também que a autoridade fiscal não efetuou a glosa de créditos exclusivamente com base nos códigos CFOPs, conforme mencionado pela impugnante, mas que o que houve foi a desconsideração dos insumos adquiridos no período anterior a 09 de agosto de 2004, os quais não geraram direito a crédito de PIS/Pasep exportação por compensação/ressarcimento. Ainda, considerou correta a glosa dos créditos advindos das multas por atraso no pagamento da fatura de energia elétrica, da contribuição para a iluminação pública e outros Fl. 836DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 7 11 gastos cobrados em conjunto nas contas de energia elétrica, tendo em vista tais despesas não poderem ser consideras como insumos. Por fim, a DRJ manteve a glosa de créditos de despesas com despachante, argumentando que não se encaixam na literalidade do direito creditório decorrente da outorga de isenção em relação aos gastos com armazenagem e frete e também por não haver relação com mercadorias destinadas à revenda, não podendo, assim, resultar em créditos de PIS/Pasep exportação. Isso posto, considerou improcedente a manifestação de inconformidade, mantendo o despacho decisório. Recurso Voluntário Após relatar brevemente os eventos fáticos transcorridos, a recorrente repete os argumentos trazidos na manifestação de inconformidade, quais sejam: Bens utilizados como insumos A recorrente defende ter direito ao creditamento sobre todas as mercadorias adquiridas como insumo para suas atividades, reputando equivocada a desconsideração da autoridade fazendária de alguns produtos exclusivamente pelos códigos CFOPs, devendose explicitar quais as notas fiscais não se enquadrariam em insumos e, portanto, desqualificariam o direito creditório. Ademais, também se manifestou contra a exclusão dos valores de correção monetárias do montante a compensar. Despesas com energia elétrica A recorrente argumenta que tem direito à inclusão dos gastos com multas, taxas municipais de iluminação pública e outros serviços públicos cobrados em conjunto com as despesas com energia elétrica pelo fato de que seriam despesas acessórias obrigatórias, de modo que seguiriam o principal, qual seja, o custo com energia elétrica, conferindolhe direito creditório também nesse ponto. Despesas com despachantes A empresa também se insurge contra a glosa de créditos provenientes de despesas com despachantes, alegando que as mesmas estariam atreladas aos gastos com fretes e armazenagem e que seriam considerados como insumos para a consecução das atividades da pessoa jurídica, ensejando o direito de créditos compensáveis. Compensação dos créditos anteriores a 09 de agosto de 2004 Alega a recorrente que possui direito a integralidade da compensação pleiteada, inclusive com relação aos créditos constituídos anteriormente ao dia 09 de agosto de 2004, por força do princípio da não cumulatividade aplicável ao PIS/Pasep exportação no presente caso, bem como pelas normas gerais aplicáveis à compensação. É o relatório. Fl. 837DF CARF MF 12 Voto Vencido Conselheiro Marcos Roberto da Silva, Redator Ad Hoc O voto a seguir reproduzido entre aspas é de lavra do Conselheiro Renato Vieira de Ávila, relator original do processo, que, conforme Portaria SE/ME no 380, de 15/02/2019, teve o mandato extinto antes da formalização do resultado do presente julgamento. O texto do voto, in verbis, foi retirado da pasta da sessão de julgamento, repositório oficial do CARF, onde foi disponibilizado pelo relator original, ainda em janeiro de 2019, aos demais conselheiros. “Tratase de recurso voluntário interposto em face de decisão que julgou parcialmente improcedente o Pedido de Compensação de PIS/Pasep exportação de incidência não cumulativa. Admissibilidade do Recurso A contribuinte teve ciência do acórdão de manifestação de inconformidade em 26.09.2008, conforme Aviso de Recebimento AR, fl. 675, nos termos do inciso II do parágrafo 2º do artigo 23 do Decreto 70.235 de 06.03.1972 (PAF), iniciandose a contagem do prazo para apresentação de recurso no dia útil subsequente, conforme artigo 5º, também do PAF. Art. 5º Os prazos serão contínuos, excluindose na sua contagem o dia do início e incluindose o do vencimento. Parágrafo único. Os prazos só se iniciam ou vencem no dia de expediente normal no órgão em que corra o processo ou deva ser praticado o ato. Verificase, pois, que a recorrente apresentou o competente Recurso Voluntário em 28.10.2008, conforme comprova o carimbo da DRF CURITIBA, logo, o recurso apresentado é tempestivo ao prazo legal estabelecido no artigo 56 do PAF: Art. 56. Cabe recurso voluntário, com efeito suspensivo, de decisão de primeira instância, dentro de trinta dias contados da ciência. Por fim, observo que, em conformidade com o art. 23B do Anexo II da Portaria MF n° 343 de 2015 (Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF), este colegiado é competente para apreciar o feito, tendo em vista que o valor do litígio está dentro do limite estabelecido pelo dispositivo. DOS FATOS Fl. 838DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 8 13 Tratase de pedido de compensação de créditos de PIS/Pasep exportação de incidência não cumulativa, relativo ao 3º trimestre do ano calendário de 2004, no valor de R$ 3.033,53 (três mil e trinta e três reais e cinquenta e três centavos). Antes que houvesse a análise e o despacho decisório, a contribuinte apresentou outro pedido de compensação em meio físico à fl. 73, no valor de R$ 2.915,11. Ambos são referentes ao 3º trimestre de 2004, sendo, por isso, analisados conjuntamente. O montante total perfaz o valor de R$ 5.948,64. O pedido está lastreado no aproveitamento via compensação de créditos de insumos vinculados a operações de venda efetuadas com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência do PIS/Pasep exportação, como é o caso da contribuinte que fabrica, importa e distribui papel imune. O direito creditório foi reconhecido parcialmente pelos órgãos “a quo”, que deferiram o direito creditório no valor de R$ 5.117,84, portanto, deferiu parcialmente o pedido da contribuinte. MÉRITO Compensação dos créditos anteriores a 09 de agosto de 2004 Glosa Mantida por Ausência de Previsão legal A pretensão do contribuinte, compensar inclusive os créditos constituídos anteriormente ao dia 09 de agosto de 2004, por entender aplicável sob força do princípio da não cumulatividade aplicável à COFINS no presente caso, bem como pelas normas gerais aplicáveis à compensação. Entretanto, esbarra sua pretensão na determinação legal prevista no parágrafo único do artigo 16 da Lei 11.116/05, conforme apregoa a decisão de primeira instância: c) Ato subseqüente, a Lei n° 11.116/2005 reconheceu o direito ao ressarcimento e/ou compensação no caso de acúmulo de créditos, mesmo para os valores que já estavam acumulados, e, relativamente ao período entre 09/08/2004 e a data em que a norma entrou em vigor, foi estabelecida a permissão para o ressarcimento em dinheiro ou compensação; d) Quanto ao período anterior, não foi estabelecido nada na norma, restringindo o aproveitamento via compensação, e, se parece certo que o contribuinte não pode obter o ressarcimento em dinheiro dos créditos surgidos antes da data em questão, parece igualmente certo que os valores acumulados possam ser utilizados através de compensação, até por aplicação de outros dispositivos previstos nas Leis e, especialmente nos regulamentos aplicáveis, citandose, nesse contexto, o disposto nos artigos 21 e 22 da IN SRF n° 460, de 18/10/2004, aplicável à época em que os pedidos foram protocolados; Fundamento Legal Invocado 11.116/05 Fl. 839DF CARF MF 14 "Art. 16. O saldo credor da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins apurados na forma do art. 3º das Leis nºs 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, e do art. 15 da Lei nº 10.865, de 30 de abril de 2004, acumulado ao final de cada trimestre do ano calendário em virtude do disposto no art. 17 da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004, poderá ser objeto de: I compensação com débitos próprios, vencidos ou vincendos, relativos a tributos e contribuições administradas pela Secretaria da Receita Federal, observada a legislação específíca aplicável à matéria; ou II pedido de ressarcimento em dinheiro, observada a legislação específica aplicável à matéria. Parágrafo único. Relativamente ao saldo credor acumulado a partir de 9 de agosto de 2004 até o último trimestrecalendário anterior ao de publicação desta lei, a compensação ou pedido de ressarcimento poderá ser efetuado a partir da promulgação desta lei." IN 460/04 Art. 22. Os créditos a que se referem os incisos I e II do caput do art. 21, acumulados ao final de cada trimestre do anocalendário, poderão ser objeto de ressarcimento § 1º Relativamente ao inciso II do caput do art. 21, o pedido de ressarcimento referente ao saldo credor acumulado a partir de 9 de agosto de 2004 até o final do primeiro trimestrecalendário de 2005 poderá ser efetuado a partir de 19 de maio de 2005. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 563, de 23 de agosto de 2005) § Glosa sob fundamento o CFOP Glosa mantida por Ausência de Comprovação Do voto condutor do venerando aresto verificase que a glosa sobre os insumos não se deu única e exclusivamente pela confrontação do CFOP, mas sim, pela ausência de provas, no caso as notas fiscais, diligentemente solicitadas pela fiscalização ao longo do procedimento, e não entregues, até o momento oportuno, pela recorrente. Deste modo, o motivo da glosa se deu por insuficiência probatória, e, por isso, deve ser mantida. 11 Aduz o interessado no sentido do alegado, inicialmente, a impossibilidade de se "admitir a glosa de créditos de PIS/COFFNS exclusivamente por conta dos CEOPs" (Códigos Fiscais de Operações e Prestações) utilizados nos documentos fiscais emitidos. Ainda no entendimento do interessado, tais Códigos serviriam apenas de orientação e auxilio, nunca podendo ser adotados para se considerar determinado gasto como gerador ou não do crédito, além do que "seda imprescindível que fossem indicados expressamente quais os CF0Ps cujas operações não foram consideradas aquisições de insumos", 12 Em primeiro lugar salientese, a partir da leitura atenta da decisão atacada, que a glosa promovida pela autoridade local na fauna acima comentada absolutamente não decorreu por conta, exclusivamente, dos Códigos CEOPs apontados nas notas fiscais do interessado, Os CF0Ps foram mencionados no despacho decisório pela citada autoridade apenas Fl. 840DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 9 15 para segregar os bens e mercadorias adquiridos de outras compras que daqueles (bens e mercadorias) não cuidem, ou seja, para fazer uma triagem das aquisições que possam ser consideradas a titulo de bens utilizados como insumos de outras aquisições diversas. Até mesmo porque não faria o menor sentido em se considerar na apuração dos créditos a descontar aquisições outras que não se enquadrem na situação de bens (mercadorias) utilizados corno instamos, ou mesmo que refiram a créditos que devam ser considerados em outras rubricas, tais como armazenagem, fretes, energia elétrica, serviços, etc. 13 Assim, para afastar a glosa em questão, não bastaria ao interessado simplesmente alegar no vazio, afirmando, de modo vago, que seria necessária a discriminação dos CEOPs que foram considerados pela decisão recorrida. Ao contrário, deveria o contribuinte carrear ao processo os documentos (notas) fiscais que comprovassem aquisições de bens utilizados como insumos, no montante que ele entende que deva ser considerado na apuração dos créditos a descontar, já que a fiscalização demonstrou perfeitamente nos autos ter feito as interpelações necessárias, por via das intimações consecutivamente lavradas, solicitando a relação das notas fiscais de entradas relativas às aquisições de insumos (cf, intimação n° 172/2006, fls. 69/72), para chegar ao valor por ela (fiscalização) admitido como passível de consideração na apuração dos créditos a descontar na rubrica de "bens utilizados como insumos". 14 Como o interessado assim não procedeu, ou seja, como não foram trazidos ao processo, juntamente com a impugração, elementos que comprovassem eventual equívoco no valor considerado pela fiscalização como passível de desconto, cabivel a manutenção da glosa no valor de R$ 192.365,76, na apuração da base de cálculo de créditos a descontar, a titulo de bens utilizados como insumos, glosa essa assim como todas as demais levadas a efeito pela autoridade local discriminada DESPACHANTE ADUANEIRO Glosa revertida por tratarse de insumo enquadrado como Relevante e Essencial A respeito do serviço de despachante aduaneiro, importa analisar, inicialmente, o contrato social da requerente, acostado em fls. 215, mais especificamente em sua cláusula segunda, que demonstra estar sua atividade social voltada, também, à importação e exportação de papeis A Sociedade tem por objeto: (i) a industrialização, importação e exportação de papel de imprensa, papeis para impressão e outros tipos de papel co'm conteúdo no sitio da receita federal O despachante aduaneiro e seus ajudantes podem praticar em nome dos seus representados os atos relacionados com o despacho aduaneiro de bens ou de mercadorias, inclusive bagagem de viajante , transportados por qualquer via, na importação ou na exportação. Fl. 841DF CARF MF 16 A principal função do despachante aduaneiro é a formulação da declaração aduaneira de importação ou de exportação, que nada mais é que a proposição da destinação a ser dada aos bens submetidos ao controle aduaneiro, indicando o regime aduaneiro a aplicar às mercadorias e comunicando os elementos exigidos pela Aduana para aplicação desse regime. A verificação da mercadoria, para sua identificação ou quantificação, quando necessária, exceto em casos excepcionais, é realizada na presença do importador ou de seu representante, nesse caso, o despachante aduaneiro, podendo este recebêla após o seu desembaraço. Para que o despachante aduaneiro possa atuar como representante de uma empresa para a prática dos atos relacionados com o despacho aduaneiro, ele deve, primeiramente, ser credenciado no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) pelo responsável legal pela pessoa jurídica, o qual também já deverá ter providenciado sua habilitação para utilizar o Siscomex . Com a atividade regulamentada pela IN 1.209/11 e IN 1.273/12, estabelecendo requisitos e procedimentos para o exercício das profissões de despachante aduaneiro e de ajudante de despachante aduaneiro, demonstra a importância desta tomada de serviço para o desempenho das funções de despachante aduaneiro. Entendo estar dentro do conceito de serviço, portanto, previsto na Lei 10.833/03, em seu artigo 3.º, conforme sua utilização no precedente abaixo: Acórdão nº 9303005.623 CONCEITO DE INSUMO. O termo “insumo” utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracterizase como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais. No caso julgado, são exemplos de insumos: a) serviço de limpeza e passagem (remoção de minério para permitir a passagem de veículos extratores de caulim); b) serviço de locação de equipamentos para a extração do minério; c) serviço de decapeamento (retirada de vegetação e solo); d) serviço de lavra (extração do minério da natureza); e, finalmente, e) Óleo diesel (utilizado nos caminhões para transporte de caulim). Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte. Adicionase excerto do voto condutor, no sentido de compreender o conceito de essencialidade Acórdão de nº 930101.741 Em minha opinião, o texto do artigo 3º da Lei 10.637/2002, bem assim da Lei 10.833/2003, não poderia ser mais específico ao regrar os créditos Fl. 842DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 10 17 suscetíveis de abatimento pelo contribuinte. É evidente que não se tem como enumerar todos os eventos capazes de gerar crédito, mas diante do que dispõe a lei para identificar se o dispêndio é suscetível de abatimento, se o mesmo se consubstancia em insumo, basta verificar se o mesmo corresponde a resposta afirmativa da seguinte indagação: o dispêndio é indispensável à produção de bens ou à prestação de serviços geradores de receitas tributáveis pelo PIS ou pela COFINS não cumulativos? Se sim, o direito de crédito do contribuinte, a meu ver, é inquestionável. Ora, uma simples leitura do artigo 3º da Lei 10.637/2002 é suficiente para verificar que o legislador não restringiu a apropriação de créditos de PIS/Pasep aos parâmetros adotados no creditamento de IPI. No inciso II desse artigo, como asseverou o insigne conselheiro, o legislador incluiu no conceito de insumos os serviços contratados pela pessoa jurídica. 14. Analisandose detalhadamente as regras constantes dos atos transcritos acima e das decisões da RFB acerca da matéria, podese asseverar, em termos mais explícitos, que somente geram direito à apuração de créditos da não cumulatividade da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins a aquisição de insumos utilizados ou consumidos na produção de bens que sejam destinados à venda e de serviços prestados a terceiros, e que, para este fim, somente podem ser considerados insumo: b) serviços que vertem sua utilidade diretamente na produção de bens ou na prestação de serviços, o que geralmente ocorre: b.1) pela aplicação do serviço sobre o bem ou pessoa beneficiados pela prestação de serviço; b.2) pela prestação paralela de serviços que reunidos formam a prestação de serviço final disponibilizada ao público externo (como subcontratação de serviços, etc); c) serviços de manutenção de máquinas, equipamentos ou veículos utilizados diretamente na produção de bens ou na prestação de serviços. (g.n.) A respeito do critério para verificação da essencialidade, conforme transcrito a seguir, respondaa positivamente, haja vista, nas operações, como a da recorrente, que, dentre outras tantas como industrialização e comercialização, necessita, contratar serviços especializados para lidar com a complexa burocracia aduaneira, sob pena de inviabilizar sua operação, caso deva verticalizar a execução de seus préstimos. basta verificar se o mesmo corresponde a resposta afirmativa da seguinte indagação: o dispêndio é indispensável à produção de bens ou à prestação de serviços geradores de receitas tributáveis pelo PIS ou pela COFINS não cumulativos? Se sim, o direito de crédito do contribuinte, a meu ver, é inquestionável. Acórdão nº 9303005.941 Fl. 843DF CARF MF 18 PIS NÃO CUMULATIVO. CONCEITO DE INSUMO. CRITÉRIO DA ESSENCIALIDADE. DIREITO A CRÉDITO. DESPESAS COM O DESCARREGAMENTO DE MERCADORIAS NO PORTO E SEU TRANSPORTE ATÉ A UNIDADE FABRIL POR TUBOVIA. DESPESAS DE ARMAZENAGEM E FRETES NA OPERAÇÃO DE VENDA. POSSIBILIDADE. De acordo com artigo 3º da Lei nº 10.833/03, que é o mesmo do inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.637/02, que trata do PIS, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária, portanto, capaz de gerar créditos de PIS não cumulativo sobre despesas com o descarregamento de mercadorias no porto e seu transporte até a unidade fabril por tubovia, despesas de armazenagem e fretes na operação de venda. Desta forma, entendo que a glosa sobre os valores pagos a título de despachante aduaneiro, para empresa que contenha em seu objeto social, a atividade de importação e exportação, deve ser revertida, vez que serviço tomado demonstrase essencial e relevante. Fundamento Legal Invocado Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços Multa por atraso e encargos ADJETOS DE ENERGIA ELÉTRICA Glosa mantida por ausência de Previsão Legal Os valores creditados a título de multas, taxas municipais de iluminação pública e outros serviços públicos cobrados em conjunto com as despesas com energia elétrica não podem ser considerados por absoluta ausência de previsão legal para o procedimento. Fundamento legal Invocado Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: III energia elétrica e energia térmica, inclusive sob a forma de vapor, consumidas nos estabelecimentos da pessoa jurídica; Conclusão Diante do exposto, conheço totalmente do Recurso para darlhe parcial provimento para reverter, apenas, a glosa relativa ao Despachantes Aduaneiros, mantendo as glosas relativas multas, taxa de iluminação e adjetos, por falta de previsão legal; a Glosa de insumos, não apenas sob fundamento do CFOP, mas por ausência de comprovação via apresentação das notas fiscais; e, por fim, manter a glosa dos créditos anteriores a 09 de agosto de 2004, também por Ausência de Previsão legal” (assinado digitalmente) Marcos Roberto da Silva (Ad Hoc) Fl. 844DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 11 19 Voto Vencedor Conselheiro Orlando Rutigliani Berri Redator Designado Preâmbulo Com a devida licença aos argumentos do I. Conselheiro Relator e concessa venia aos meus pares que entenderam em sentido contrário, esclareço que o presente cingese a divergência de entendimento com relação ao conceito de insumo para fins de creditamento da contribuição para o PIS/Pasep Exportação de incidência não cumulativa, especificamente sobre gastos com a contratação de despachante aduaneiro. Entendem os conselheiros Renato Vieira de Avila (Relator) e Marcos Roberto da Silva ser passíveis de creditamento o dispêndio incorrido pelo contribuinte relativamente à contratação de serviços de despachante aduaneiro, para atuar em operações no mercado exterior. Dos fundamentos da decisão recorrida A decisão recorrida, na parte que importa ao presente Voto Vencedor gastos com a contratação de despachante aduaneiro, fundamentou a manutenção da glosa, efetuada pela autoridade fiscal, nos seguintes termos, verbis: (...) 33 Por último, o interessado insurgese contra a glosa promovida pelo despacho decisório nº 414/2007 (fls. 205/211), na base de cálculo dos créditos a descontar da contribuição para o PIS/Pasep para os meses de novembro e dezembro de 2004, dos valores, respectivamente, de R$ 87.058,02 e R$ 83.877,25, a título de despesas com despachantes, incluídas pelo contribuinte de forma indevida, segundo a unidade local na apuração dos créditos a descontar nos referidos meses na rubrica de despesas de armazenagem de mercadorias e frete nas operações de venda. O interessado, em contraposição, afirma, em linhas gerais, que "as despesas para pagamento de despachantes são despesas necessárias e umbilicalmente ligadas às despesas realizadas com fretes e armazenagem", não havendo dúvidas de que tais serviços (de despachante) sejam necessários para a perfeita consecução dos objetivos empresariais de uma pessoa jurídica, e indispensáveis para a manutenção da fonte produtiva, podendo, portanto, ser considerados como insumo na fabricação dos produtos industrializados pelo interessado. 34 A esse respeito, vale trazer a contexto o que dispõe a Lei nº 10.833/2003: (...) Fl. 845DF CARF MF 20 35 Como se observa, o art. 3º, IX, da Lei nº 10.833/03, acima transcrito, possibilita o aproveitamento de créditos exclusivamente em fruição das despesas com armazenagem de mercadoria e frete, nunca devendo ser estendido a despesas de natureza diversa, tais como os gastos com despachantes, ainda que se comprove que ditas despesas com despachantes possuam relação ou decorram daquelas incorridas com a armazenagem de mercadoria e fretes, o que também, vale dizer, não se demonstrou na manifestação de inconformidade apresentada. Cabe salientar, ainda nesse sentido, o que dispõe o art. 111 do Código Tributário Nacional CTN (Lei nº 5.172/1966): (...) 36 Como no presente caso, visto que a utilização ou aproveitamento do crédito a descontar resultará em redução da contribuição devida, há que se observar o principio da interpretação literal acima transcrito. Assim sendo, na apuração da contribuição para o PIS/Pasep nãocumulativa é facultado deduzir somente os créditos expressamente relacionados em lei, não sendo cabível uma interpretação extensiva. Nesses termos, os créditos a descontar são aqueles vinculados a despesas estritamente de armazenagem e frete, não se podendo estendê los a eventuais despesas daqueles decorrentes. 37 Além disso, ainda da leitura atenta do art. 3º, IX, da Lei nº 10.833/03, anteriormente colacionado, verificase que o aproveitamento de créditos em função das despesas com armazenagem de mercadoria e frete encontrase vinculado exclusivamente aos casos de que tratam os incisos 1 e 11 do mesmo dispositivo, ou seja, a armazenagem e o frete que ensejam o aproveitamento de créditos devem se referir a bens adquiridos para revenda, ou, ainda, a bens e serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e/ou fabricação de produtos. 38 Portanto, seja porque as despesas com serviços de despachantes não têm a natureza estrita de armazenagem de mercadoria ou de frete, seja porque tais serviços (de despachante) não possuem nenhuma relação com os bens adquiridos para revenda ou com os bens/serviços utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda tal como, eventualmente, pode ocorrer com as despesas de frete e armazenagem, os quais, quando tratam efetivamente do frete e da armazenagem de bens adquiridos para revenda ou utilizados no processo produtivo, ensejam, ai sim, a apuração dos créditos correspondentes nunca se poderia pretender a reversão da glosa, promovida pela autoridade local, na base de cálculo dos créditos a descontar, dos gastos com contratação de serviços de despachante. 39 Tal conclusão pode ser confirmada também a partir do conceito de insumos, conforme regulamentação da IN SRF nº 247/2002, alterada pelas IN SRF nºs 358/2003 e 464/2004, conceito esse que se refere a insumos como sendo aqueles consumidos ou aplicados diretamente na fabricação dos bens e Fl. 846DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 12 21 produtos destinados à venda ou utilizados na prestação de serviços, conforme se observa na transcrição a seguir do referido ato normativo: (...) 40 Desta forma, observase que há condição imposta para o aproveitamento dos créditos sobre insumos, não podendo o termo "insumo" ser interpretado como todo e qualquer bem ou serviço que gera despesa necessária para as atividades da empresa mas tãosomente aqueles bens e serviços que, adquiridos de pessoa jurídica e não incorporados ao ativo imobilizado da empresa adquirente, sejam efetivamente aplicados ou consumidos na fabricação ou produção de bens destinados à venda ou utilizados na prestação de serviço. 41 A legislação citada, portanto, não contempla a possibilidade de descontar créditos decorrentes de serviços de despachante, conforme efetuado pelo interessado. Assim, devem ser consideradas corretas as glosas efetuadas pela autoridade administrativa relativa a despesas que não se enquadram no conceito de insumo fixado pela legislação. Mantémse, portanto, a glosa promovida e o conseqüente indeferimento da utilização, via compensação, dos créditos da contribuição para o PIS/Pasep, supostamente decorrentes dos gastos com serviços de despachante. (...) Da divergência de entendimento entre o expresso no voto vencido e no presente voto vencedor Relativamente ao tema DESPACHANTE ADUANEIRO o nobre relator do voto vencedor, em apertada síntese, entende que devese reverter a glosa em comento por tratarse de insumo enquadrado como Relevante e Essencial, esclarece que o contrato social da requerente, acostado em fls. 215, mais especificamente em sua cláusula segunda, que demonstra estar sua atividade social voltada, também, à importação e exportação de papeis. Neste sentido, fundamenta que referida atividade regulamentada pela IN 1.209/11 e IN 1.273/12, estabelecendo requisitos e procedimentos para o exercício das profissões de despachante aduaneiro e de ajudante de despachante aduaneiro, demonstra a importância desta tomada de serviço para o desempenho das funções de despachante aduaneiro. Para ao final concluir que tal dispêndio está inserido no conceito de serviço, portanto, previsto na Lei 10.833/03, em seu artigo 3.º. Ouso discordar do referido entendimento, explicito. Com efeito, insumos, tal como definido e para os fins a que se propõe o artigo 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e art. 3º da Lei nº 10.833, de 2003, são apenas as mercadorias, bens e serviços que, assim como no comércio, estejam diretamente vinculados à operação na qual se realiza o negócio da empresa. Na atividade comercial, sendo o negócio a venda dos bens no mesmo estado em que foram comprados, o direito ao crédito restringese ao gasto na aquisição para revenda. Na indústria, uma vez que a transformação é intrínseca à Fl. 847DF CARF MF 22 atividade, o conceito abrange tudo aquilo que é diretamente essencial a produção do produto final, conceito igualmente válido para as empresas que atuam na prestação de serviços. Somente a partir desta lógica é que os créditos admitidos na indústria e na prestação de serviços observarão o mesmo nível de restrição determinado para os créditos admitidos no comércio. Como bem sabemos, a presente matéria insumos foi levada ao poder judiciário e, em recente decisão o Superior Tribunal de Justiça STJ sob julgamento no rito do art. 543C do CPC/1973 (arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015), estabeleceu conceito de insumo tomando como diretrizes os critérios da essencialidade e/ou relevância, ocasião em que a Ministra Regina Helena Costa, reiterou os conceitos do que já vínhamos decidindo, definiu como conceito a essencialidade e relevância. Vejamos: Essencialidade considerase o item do qual dependa, intrínseca e fundamentalmente, o produto ou o serviço, constituindo elemento estrutural e inseparável do processo produtivo ou da execução do serviço, ou, quando menos, a sua falta lhes prive de qualidade, quantidade e/ou suficiência; Relevância considerada como critério definidor de insumo, é identificável no item cuja finalidade, embora não indispensável à elaboração do próprio produto ou à prestação do serviço, integre o processo de produção, seja pelas singularidades de cada cadeia produtiva (v.g., o papel da água na fabricação de fogos de artifício difere daquele desempenhado na agroindústria), seja por imposição legal (v.g., equipamento de proteção individual EPI), distanciandose, nessa medida, da acepção de pertinência, caracterizada, nos termos propostos, pelo emprego da aquisição na produção ou na execução do serviço. Analisando a quaestio, como dito em linhas acima, consigno meu entendimento intermediário sobre o conceito de insumos no Sistema de Apuração Não Cumulativo das Contribuições, de modo que o conceito adotado não pode ser restritivo quanto o determinado pela Fazenda, mas também não tão amplo como aquele freqüentemente defendido pelos Contribuintes. Neste sentido, o fato de o Contribuinte exercer também a atividade relacionada ao comércio exterior, conforme salientado pelo Relator do Voto Vencido, não guarda qualquer relação com seu processo produtivo gastos com despachante aduaneiro, tais dispêndios, conforme salientarei em seguida, não são essenciais atividade por ele exercida, até porque não há dispositivo legal que permita tal creditamento, como bem apontou o acórdão recorrido. Sem embargo, o termo "insumo" utilizado pelo legislador para fins de creditamento do PIS/Pasep e da Cofins, apresenta um campo maior do que o MP, PI e ME, relacionados ao IPI. Considero que tal abrangência não é tão flexível como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e despesas necessárias à atividade da empresa. Por outro lado, para que se mantenha o equilíbrio impositivo, os insumos devem estar relacionados diretamente com a produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este produto não entre em contato direto com os bens produzidos. Fl. 848DF CARF MF Processo nº 10940.002319/200526 Acórdão n.º 3001000.728 S3C0T1 Fl. 13 23 Neste mesmo diapasão, o inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833, de 2003, permite a utilização do crédito das contribuições não cumulativa nas hipóteses que enumera, que como tratase de assunto comezinho, me abstenho de reproduzir. Destarte, o conteúdo contido no inciso II, do art. 3º, da Lei nº 10.833, de 2003, pode ser interpretado de modo ampliativo, desde que o bem ou serviço seja essencial a atividade empresária. In caso, gastos com despachante aduaneiro não são essenciais atividade empresária do presente Contribuinte. Isto porque a legislação não impõemlhe a obrigatoriedade de contratar referido profissional para que possa empreenderse nas atividades inerentes as de comércio exterior. Pelo contrário, a regra geral determina que ou o próprio desembaraça sua mercadoria, ou então isso deve necessariamente ser feito por despachante. Assim, no caso de pessoa jurídica esta pode ser representada por funcionário com carteira assinada, por dirigente ou por sócio, sempre com procuração do responsável legal pela empresa. A exceção fica para os casos de as mercadorias amparadas pelo Regime de Tributação Simplificada, ou seja, as remessas postais e expressas até o valor de USD 3.000, podem ser desembaraçadas pelo próprio transportador, respectivamente os Correios ou as empresas de courier. Portanto, a escolha de terceirizar o serviço para despachantes aduaneiros é uma opção e não uma exigência legal do Estado brasileiro. Enfim, poderíamos argumentar, se fosse o foro adequado, sobre os prós e os contras da contratação desses serviços, mas certo é que tal tratase apenas de uma alternativa, jamais de uma obrigação legal. Para fins de breve esclarecimento, temos que o art. 4º do Decreto nº 646, de 9 de setembro de 1992, norma matriz do assunto em tela, dispões que o interessado, pessoa física ou jurídica, somente pode exercer atividades relacionadas com o despacho aduaneiro: 1. por intermédio do despachante aduaneiro; 2. pessoalmente, se pessoa física; 3. se pessoa jurídica, também mediante: a. dirigente; b. empregado; c. empregado de empresa coligada ou controlada, tal como definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; d. funcionário ou servidor especificamente designado, no caso de órgão da administração pública, missão diplomática ou representação de organização internacional. Fl. 849DF CARF MF 24 Conseqüentemente, são todas essas pessoas que podem ser credenciadas como representantes do interessado para atuar em seu nome no Siscomex e não somente o despachante aduaneiro e seus ajudantes podem praticar em nome dos seus representados os atos relacionados com o despacho aduaneiro de bens ou de mercadorias, inclusive bagagem de viajante, transportados por qualquer via, na importação ou na exportação. De modo que tais dispêndios não geram créditos das contribuições para o PIS/Pasep e Cofins no regime não cumulativo, por ausência de previsão legal. Desta feita, também por estas razões, entendo incabível no caso sob exame a pretendida reversão da respectiva glosa, conforme pretendeu o Ilmo. Relator do Voto Vencido. É como penso. Da conclusão Do exposto, no que concerne à matéria sobre apreço, voto por negar provimento ao recurso voluntário interposto, para manter, nos exatos termos da decisão recorrida. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 850DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10907.721646/2013-05
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jan 23 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Data do fato gerador: 11/04/2012
NULIDADE ACÓRDÃO RECORRIDO. OCORRÊNCIA. NÃO DECRETAÇÃO DA NULIDADE. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO § 2º DO ART. 282 DO CPC.
Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade, o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta.
PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICABILIDADE.
Aplica-se o Princípio da Retroatividade Benigna aos casos não definitivamente julgados, quando a legislação deixe de definir o ato como infração, de acordo com o art. 106, II, "a", do CTN.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3002-000.508
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Larissa Nunes Girard - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto da Silva Esteves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DA SILVA ESTEVES
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Data do fato gerador: 11/04/2012 NULIDADE ACÓRDÃO RECORRIDO. OCORRÊNCIA. NÃO DECRETAÇÃO DA NULIDADE. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO § 2º DO ART. 282 DO CPC. Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade, o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprir-lhe a falta. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICABILIDADE. Aplica-se o Princípio da Retroatividade Benigna aos casos não definitivamente julgados, quando a legislação deixe de definir o ato como infração, de acordo com o art. 106, II, "a", do CTN. Recurso Voluntário Provido.
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OCORRÊNCIA. NÃO DECRETAÇÃO DA NULIDADE. POSSIBILIDADE. APLICAÇÃO § 2º DO ART. 282 DO CPC. Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade, o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICABILIDADE. Aplicase o Princípio da Retroatividade Benigna aos casos não definitivamente julgados, quando a legislação deixe de definir o ato como infração, de acordo com o art. 106, II, "a", do CTN. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Larissa Nunes Girard Presidente. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 90 7. 72 16 46 /2 01 3- 05 Fl. 132DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 133 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Larissa Nunes Girard (Presidente), Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Alan Tavora Nem e Carlos Alberto da Silva Esteves. Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra o Acórdão 1294.858 da DRJ/RJO, que manteve integralmente o Crédito Tributário lançado pelo Auto de Infração, que exige da contribuinte a multa pelo atraso na prestação de informações sobre veículo ou carga nele transportada, penalidade prevista no art. 107, inciso IV, alínea "e", do DecretoLei nº 37, de 1966, cuja redação foi alterada pela Lei 10.833, de 2003. No caso concreto, foi impingida a referida multa por ter a recorrente pedido a retificação dos dados informados após a atracação do navio vindo do exterior. Inconformada com a autuação, a contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento no Rio de Janeiro, por Acórdão (fl. 72/76) que restou dispensado de ementa, de acordo com a Portaria RFB nº 2.724/2017. Em seqüência, irresignada com a referida decisão, a contribuinte interpôs Recurso Voluntário (fl. 86/90), basicamente, tecendo argumentos interpretativos sobre a Solução de Consulta Cosit nº 2, de 2016 e também trazendo a alegação de falta de prejuízo ao Fisco. É o relatório, em síntese. Voto Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves Relator O Crédito Tributário contestado no presente processo encontrase dentro do limite de alçada das Turmas Extraordinárias, conforme disposto no art. 23B do RICARF. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. Fl. 133DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 134 3 A questão cingese na autuação fiscal por ter a recorrente, supostamente, deixado de prestar a devida informação, no prazo legal, dos dados de desconsolidação da carga chegada ao Porto de Paranagua em 29/03/2012 (atracação), pois o registro do pedido de retificação das informações do CE ocorreu somente em 11/04/2012 (fl. 05), ou seja, após o prazo máximo de 48h antes da atracação do navio, conforme o disposto no art. 22, III, da Instrução Normativa RFB nº 800/2007. Desta forma, ficando sujeita a penalidade prevista na alínea "e" do inciso IV do art. 107 do DecretoLei nº 37/1966, com a redação dada pela Lei nº 10.833/2003: Art. 107. Aplicamse ainda as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 29.12.2003) . Iomissis ..................................................................................................... IV de R$ 5.000,00 (cinco mil reais): (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 29.12.2003) . a) omissis ....................................................................................................... e) por deixar de prestar informação sobre veículo ou carga nele transportada, ou sobre as operações que execute, na forma e no prazo estabelecidos pela Secretaria da Receita Federal, aplicada à empresa de transporte internacional, inclusive a prestadora de serviços de transporte internacional expresso portaaporta, ou ao agente de carga; Primeiramente, há que se registrar que, da confrontação do teor da Manifestação de Inconformidade com o voto condutor do Acórdão recorrido, constatase que ocorreu discrepância entre a realidade fática do presente processo e a situação tratada no voto. Com efeito, como já relatado, enquanto a principal alegação da contribuinte se refere a ter apenas retificado os dados tempestivamente informados, a análise realizada pela relatora daquele Acórdão considerou diversa situação e não adentrou no específico argumento trazido pela ora recorrente. Assim, o Acórdão recorrido se afasta da matéria a ser analisada na peça recursal, tendo, de fato, não a enfrentado. Dessa forma, não há como negar que, por ter se baseado em situação diversa da realidade fática dos autos, a motivação esposada no Acórdão recorrido encontrase eivada de vício. Embora a nulidade do Acórdão recorrido não tenha sido argüida pela recorrente, considerando tratarse de matéria de ordem pública, esta pode ser reconhecida de ofício pela autoridade julgadora de segunda instância. Contudo, por outro lado, conforme o disposto no § 2º, do art. 282, do Código de Processo Civil, abaixo transcrito, o julgador não pronunciará a nulidade, quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveitaria a decretação da nulidade: Fl. 134DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 135 4 Art. 282. Ao pronunciar a nulidade, o juiz declarará que atos são atingidos e ordenará as providências necessárias a fim de que sejam repetidos ou retificados. § 1o O ato não será repetido nem sua falta será suprida quando não prejudicar a parte. § 2o Quando puder decidir o mérito a favor da parte a quem aproveite a decretação da nulidade, o juiz não a pronunciará nem mandará repetir o ato ou suprirlhe a falta. (grifo nosso) Assim sendo, deixo de reconhecer a nulidade do Acórdão recorrido por aplicação do disposto no § 2º, do art. 282, do Código de Processo Civil. Continuando na análise da peça recursal, verificase que a recorrente alegou que sua atitude não gerou nenhum dano ao erário público e à fiscalização aduaneira. Assevera, ainda, que a alteração dos dados informados ocorreu sem intenção, que agiu sempre de boa fé e que os impostos incidentes foram recolhidos, conseqüentemente, segundo ela, não teria ocorrido nenhum tipo de dificuldade seja para a fiscalização, seja para apuração de créditos destinados ao erário. Quanto a essas argumentações, não assiste razão a recorrente. Vale lembrar que, conforme o § 2º do art. 94, do DecretoLei 37/1966, a responsabilidade da ora recorrente por seu ato, descumprimento do prazo para prestar as informações sobre a desconsolidação da carga, independia da sua intenção e da extensão dos efeitos causados por ele: Art.94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato. (grifo nosso) Com efeito, a simples mora no cumprimento da obrigação acessória de prestar as devidas informações sobre a desconsolidação da carga infringe o disposto na Fl. 135DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 136 5 legislação e, ademais, prejudica o controle aduaneiro, pois impede a adequada preparação da atividade fiscalizatória e, por conseqüência, também prejudica os interesses nacionais, conforme o disposto no art. 237 da Constituição Federal: Art. 237. A fiscalização e o controle sobre o comércio exterior, essenciais à defesa dos interesses fazendários nacionais, serão exercidos pelo Ministério da Fazenda. Outra argumentação trazida pela recorrente em seu Recurso Voluntário referese a uma suposta falta de tipicidade em sua conduta, pois os dados da carga foram prestados no tempo devido, tendo sido apenas realizado um pedido de retificação desses dados após a chegada da embarcação, contudo, o pedido de retificação não se amoldaria ao tipo previsto na legislação. Esse argumento não traz melhor sorte à contribuinte. Em realidade, à época dos fatos, vigia o § 1º, do art. 45 da Instrução Normativa SRF º 800/2007: Art. 45. O transportador, o depositário e o operador portuário estão sujeitos à penalidade prevista nas alíneas "e" ou "f" do inciso IV do art. 107 do DecretoLei no 37, de 1966, e quando for o caso, a prevista no art. 76 da Lei no 10.833, de 2003, pela não prestação das informações na forma, prazo e condições estabelecidos nesta Instrução Normativa. § 1o Configurase também prestação de informação fora do prazo a alteração efetuada pelo transportador na informação dos manifestos e CE entre o prazo mínimo estabelecido nesta Instrução Normativa, observadas as rotas e prazos de exceção, e a atracação da embarcação. ......................................................................................................... (grifo nosso) Dessa forma, percebese que, de acordo com o citado dispositivo, a alteração das informações já apresentadas, retificação, realizada após o prazo inicial, também se subsumia à tipificação contida na alínea "e" do inciso IV do artigo 107 do DecretoLei nº 37/1966, com a redação dada pelo artigo 77 da Lei nº 10.833/2003. Além disso, a recorrente traz à luz o disposto na Solução de Consulta Interna Cosit nº 2, de 2016, que corroboraria seu entendimento de que a mera retificação de informações já prestadas não ensejaria a aplicação da multa tratada nos presentes autos. Quanto às conclusões alcançadas pela SCI Cosit nº 2, reproduzse sua ementa: Fl. 136DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 137 6 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. CONTROLE ADUANEIRO DAS IMPORTAÇÕES. INFRAÇÃO. MULTA DE NATUREZA ADMINISTRATIVOTRIBUTÁRIA. A multa estabelecida no art. 107, inciso IV, alíneas “e” e “f” do DecretoLei nº 37, de 18 de novembro de 1966, com a redação dada pela Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003, é aplicável para cada informação não prestada ou prestada em desacordo com a forma ou prazo estabelecidos na Instrução Normativa RFB nº 800, de 27 de dezembro de 2007. As alterações ou retificações das informações já prestadas anteriormente pelos intervenientes não configuram prestação de informação fora do prazo, não sendo cabível, portanto, a aplicação da citada multa.Dispositivos Legais: DecretoLei nº 37, de 18 de novembro de 1966; Instrução Normativa RFB nº 800, de 27 de dezembro de 2007. Em que pese a alegação da recorrente estar corretamente embasada na SCI Cosit nº 2, a meu sentir, as Soluções de Consulta Interna da Receita Federal do Brasil não se configuram normas complementares em Direito Tributário, tais quais aquelas previstas no disposto do art. 100, inciso I, do Código Tributário Nacional e, portanto, não tem o condão de revogar, explicita ou implicitamente, às disposições contidas em Instruções Normativas, estas sim, normas complementares. Entretanto, há que se considerar que, com o advento da Instrução Normativa RFB nº 1.473/2014, o art. 45 da IN RFB 800/07 foi revogado e, por conseqüência, a partir de então, o pedido de retificação dos dados informados passou a não configurar mais hipótese de aplicação da multa prevista na alínea "e" do inciso IV do artigo 107 do DecretoLei nº 37/1966. Por outro lado, temos que o Princípio da Retroatividade Benigna encontrase esculpido no art. 106, do Código Tributário Nacional: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifo nosso) Fl. 137DF CARF MF Processo nº 10907.721646/201305 Acórdão n.º 3002000.508 S3C0T2 Fl. 138 7 É cediço que deve ser adotada a legislação que se encontrava em vigor na data da ocorrência da infração. Não obstante, em se tratando de penalidade pelo cometimento de infração, devese observar o Princípio da Retroatividade Benigna, quando a conduta tida como indevida deixar de ser tratada como infração ou, ainda, na hipótese da penalidade imposta ser reduzida, caso que o menor valor passaria a ser o devido. Cumpre esclarecer que, no caso ora analisado, isto é, o de alteração das informações prestadas pelo agente após o prazo mínimo estabelecido na legislação, a imposição fiscal se sustentava, tão somente, no art. 45, § 1º da IN 800/2007. Sem entrarmos na discussão sobre a legalidade desse dispositivo infralegal, ao estender aos casos de retificação o disposto no art. 107, IV, "e", do DecretoLei nº 37/1966, há que se reconhecer que, uma vez tendo sido formalmente revogado aquele dispositivo, não há como se sustentar a imposição desta penalidade aos processos não definitivamente julgados, por aplicação do Princípio da Retroatividade Benigna. Por todo o exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Voluntário, exonerando na integra o Crédito Tributário lançado. (assinado digitalmente) Carlos Alberto da Silva Esteves Fl. 138DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16306.720835/2013-16
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 22 00:00:00 UTC 2019
Data da publicação: Wed Feb 13 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 1301-000.648
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora.
(Assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente.
(Assinado digitalmente)
Giovana Pereira de Paiva Leite - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild, e Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Relatório
Nome do relator: GIOVANA PEREIRA DE PAIVA LEITE
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Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, nos termos do voto da relatora. (Assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente. (Assinado digitalmente) Giovana Pereira de Paiva Leite Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto, Bianca Felícia Rothschild, e Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Trata o presente processo de Pedido de RestituiçãoPER protocolado através da Per/Dcomp 03504.94689.180412.1.2.020429 (fls. 07/28), no qual a Recorrente requereu RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 63 06 .7 20 83 5/ 20 13 -1 6 Fl. 1909DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.910 2 restituição no valor original total de R$ 1.702.824,74, referente a Saldo Negativo de IRPJ do anocalendário 2010. O saldo negativo é formado por retenções na fonte que totalizam R$ 1.772.129,87. O Despacho Decisório (fls. 331337) reconheceu a existência de saldo negativo de IRPJ AC 2010 no valor de R$ 1.353.075,01 e concluiu pelo reconhecimento parcial do pedido de restituição, nos seguintes termos: ∙ O contribuinte apurou IRPJ devido no valor de R$ 69.305,13 (Alíquota de 15%: R$ 57.359,71 + Adicional: R$ 14.239,81 – P.A.T.: R$ 2.294,39) Linhas 1, 2 e 4– fl. 46); ∙ Foi utilizada na apuração de IRPJ do exercício o montante de R$ 1.772.129,87, conforme declarado na ficha 12A da DIPJ 2011 AC 2010 (fl. 46). De acordo com consulta ao sistema Portal DIRF (fls. 166/330), foi comprovado IRRF, declarado pelas fontes pagadoras, insuficiente para comprovar o montante utilizado pelo contribuinte na apuração do IRPJ do exercício. Ademais, as receitas correspondentes às fontes comprovadas não foram totalmente oferecidas à tributação, conforme ficha 07A da DIPJ 2011 AC 2010 à fl. 36 e detalhamento a seguir. ∙ Ocorre que as Receitas Financeiras correspondentes totalizaram R$ 61.095,45, tendo sido oferecido à tributação R$ 230.511,92, podendo o IRRF comprovado ser inteiramente validado. Por outro lado, as Receitas de Serviço correspondentes totalizaram R$ 79.523.239,50, tendo sido oferecido à tributação R$ 66.920.459,25. Assim sendo, o IRRF só poderá ser validado em montante proporcional ao valor oferecido à tributação (66.920.459,25/79.523.239,50). ∙ Recalculando os valores comprovados, a partir das considerações acima, teremos o montante final que deve ser utilizado na apuração do IRPJ do exercício, que é de R$ 1.422.380,14: Fl. 1910DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.911 3 ∙ Portanto, detalhando o cálculo da apuração do IRPJ do anocalendário 2010, teremos: Cientificado em 04/06/2013, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade (fls. 340/363). Da Manifestação de Inconformidade A DRJ julgou a manifestação procedente em parte por entender que cabia razão ao contribuinte, posto que a autoridade fiscal contabilizou em duplicidade receitas auferidas por uma mesma nota fiscal; e que levandose em consideração o reconhecimento de receitas de serviços no valor de R$ 66.920.459,25, além das demais receitas financeira tributadas, o montante de IRRF dedutível, passível de reconhecimento, era de R$ 1.687.978,16. E o acórdão da DRJ apresenta suas conclusões nos seguintes termos: Considerandose a apuração de IR a pagar de R$ 69.305,13 e dedução de fonte de R$ 1.687.978,16, o saldo negativo para o anocalendário de 2010 totaliza R$ 1.618.673,03. Em razão de reconhecimento de direito creditório de R$ 1.353.075,01 em decisão administrativa, o valor a ser deferido é de R$ 265.598,02 (R$ 1.618.673,03 R$ 1.353.075,01). Reproduzse a ementa do acórdão da DRJ: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 SALDO NEGATIVO DE IMPOSTO APURADO NA DECLARAÇÃO. Constitui crédito a compensar ou restituir o saldo negativo de IRPJ apurado em declaração de rendimentos, desde que ainda não tenha sido compensado ou restituído. Do Recurso Voluntário Ainda inconformada com a decisão da DRJ, em 17/03/2016, a empresa apresentou Recurso Voluntário (fls. 15281545), conforme carimbo de protocolo aposto na primeira página da peça. Consta que a Recorrente foi cientificada do acórdão da DRJ em 09/05/2016, através do seu Domicílio Tributário Eletrônico DTE, conforme Termo de Ciência por Abertura de Mensagem (fl.1689). Todavia, a Recorrente declara que já havia tomado ciência da decisão em 16/02/2016, quando teve acesso eletrônico ao presente processo (fl.1529). Nesse sentido, Fl. 1911DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.912 4 apresentou petição (fls. 16911694) requerendo a análise e provimento do recurso já anexado aos autos. Inicialmente a Recorrente faz um breve relatório e delimita o saldo negativo do IRPJ AC 2010 não reconhecido no valor de R$ 84.151,71 como o objeto do recurso. Esse valor corresponde à diferença entre o valor dos créditos comprovados pela autoridade fiscal (R$ 1.687.978,16) e aqueles registrados pela Recorrente na DIPJ 2012/ano calendário 2011 (R$ 1.772.129,87). Em relação a esse valor remanescente (R$ 84.151,71), a Recorrente alega que trata única e exclusivamente de exame das provas. Argumenta que após realizar uma minuciosa conciliação entre os tributos retidos no período em comparação com aqueles comprovados pela autoridade fiscal (R$ 1.687.978,16), encontrou uma expressiva diferença que justificaria quase que integralmente a diferença não reconhecida pela autoridade julgadora. A Recorrente se baseou em dados do Sistema eCAC anexados às fls. 16191639. Após a apresentação do recurso voluntário, apresentou várias petições solicitando a apreciação do pleito uma vez transcorrido o prazo de 360 dias que a administração pública teria para apreciar os pedidos que lhe são submetidos. Não tendo sido atendido o pleito da Recorrente, ingressou com mandado de segurança, no qual foi deferida parcialmente a liminar para determinar à autoridade impetrada que analisasse os processos citados no prazo de 30 dias. É o relatório. Voto Conselheira Giovana Pereira de Paiva Leite, Relatora. Da Tempestividade A Recorrente informa que tomou ciência do acórdão da DRJ em 16/02/2016. Consta ciência formal em 09/05/2016. Por conseguinte, reconheço a tempestividade do recurso interposto em 17/03/2016. O recurso atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Do Mérito Primeiramente, fazse mister esclarecer o objeto da discussão. A Recorrente bem resumiu o valor remanescente objeto de recurso, no quadro abaixo: Fl. 1912DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.913 5 Este valor (R$ 84.151,71) corresponde exatamente à diferença entre a retenção na fonte informada pela Recorrente em seu Pedido de Restituição/PER (R$ 1.772.129,87) e o valor comprovado pela autoridade fiscal no sistema da DIRF (R$ 1.687.978,16). A decisão de piso reconheceu que a autoridade fiscal contabilizou uma parte da receita de serviços em duplicidade, nos seguintes termos (fls. 15241525): A autoridade fiscal reconheceu parcialmente a dedução do IRRF incidente sobre a receita de serviços reduzindo o saldo negativo da contribuinte. A interessada alega que as diferenças apontadas pela autoridade fiscal em relação às receitas de serviços decorrem em parte pela duplicidade no informe de rendimentos de receitas auferidas nos códigos 1708 e 5952, uma vez que se referem a apenas uma operação vinculada a apenas uma nota fiscal. Reforça que a referida DUPLICIDADE foi o que resultou na conclusão da d. autoridade fiscal de que a Recorrente teria deixado de oferecer à tributação o montante de receita de serviços equivalente a R$ 12.602.780,25, que corresponde à diferença entre os R$ 79.523.239,50 apurados no Despacho Decisório combatido e os R$ 66.920.459,25. Esses rendimentos, adicionados aos outros de código de receita distintos (tais como 6190 e 5987) totalizam exatamente o valor de R$ 66.920.459,25, que foi tributado pela Recorrente como receita de serviços e informado em sua DIPJ 2011, conforme, inclusive reconhecido pela dd. autoridade fiscal. A contribuinte apresentou documentação visando a comprovação das receitas tributadas no montante de R$ 66.920.459,25. A autoridade reconheceu em seu Despacho Decisório o mesmo valor defendido pela contribuinte em relação às receitas tributadas da DIPJ/2011. O montante de R$ 79.523.239,50 de receitas de serviços inclui as receitas de códigos 1708 (R$ 28.522.903,50), 6190 (R$ 28.700.663,57), 5952 (R$ 21.918.659,97) e 5987 (R$ 381.012,46). Portanto, neste sentido cabe à razão à contribuinte o montante de R$ 79.523.239,50 incluir as receitas dos códigos 5952 e 5987. Levandose em consideração o reconhecimento de receitas de serviços de R$ 66.920.459,25, além das demais receitas tributadas, o montante de IRRF dedutível, passível de reconhecimento, é de R$ 1.687.978,16, conforme discriminado a seguir: Fl. 1913DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.914 6 Após restar esclarecido que parte da receita de serviços correspondente às retenções havia sido contabilizada em duplicidade, a Recorrente procurou demonstrar a procedência dos valores remanescentes indicados para compor o saldo negativo de IRPJ. De antemão, temos que a procedência do Pedido de Restituição e o reconhecimento do direito creditório depende da comprovação da existência do saldo negativo do IRPJ no AC 2010, formado por retenções na fonte. Em relação a dedução do IRRF para fins de apuração de saldo negativo são necessárias duas condições: 1) que a receita correspondente à retenção tenha sido oferecida à tributação nos termos do inciso III do §4º, do art. 2º da Lei nº 9.430/96 e 2) a comprovação da efetiva retenção de acordo com art. 55 da Lei nº 7.450/85, c/c art. 943, §2º, do Decreto nº 3.000/99 (RIR/99), abaixo transcritos: Lei 9.430/96 Art.2º A pessoa jurídica sujeita a tributação com base no lucro real poderá optar pela pagamento do imposto, em cada mês, determinado sobre base de cálculo estimada, mediante a aplicação, sobre a receita bruta auferida mensalmente, dos percentuais de que trata o art. 15 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, observado o disposto nos §§1º e 2º do art. 29 e nos arts. 30 a 32, 34 e 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, com as alterações da Lei nº 9.065, de 20 de junho de 1995. (Regulamento) (...) §4º Para efeito de determinação do saldo de imposto a pagar ou a ser compensado, a pessoa jurídica poderá deduzir do imposto devido o valor: III do imposto de renda pago ou retido na fonte, incidente sobre receitas computadas na determinação do lucro real; Lei 7450/85 Art 55 O imposto de renda retido na fonte sobre quaisquer rendimentos somente poderá ser compensado na declaração de pessoa física ou jurídica, se o contribuinte possuir comprovante de retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora dos rendimentos. RIR/99 Fl. 1914DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.915 7 Art.943. A Secretaria da Receita Federal poderá instituir formulário próprio para prestação das informações de que tratam os arts. 941 e 942 (DecretoLei nº 2.124, de 1984, art. 3º, parágrafo único). (...) §2º O imposto retido na fonte sobre quaisquer rendimentos ou ganhos de capital somente poderá ser compensado na declaração de pessoa física ou jurídica, quando for o caso, se o contribuinte possuir comprovante da retenção emitido em seu nome pela fonte pagadora, ressalvado o disposto nos §§1º e 2º do art. 7º, e no §1º do art. 8º (Lei nº 7.450, de 1985, art. 55).(grifei) Apesar da norma condicionar a dedutibilidade da retenção à apresentação do comprovante de retenção emitido pela fonte pagadora, entendo que outros documentos podem ser aceitos para demonstrar a efetiva retenção dos valores. Para comprovar a diferença de retenções no valor de R$ 84.151,71 não confirmadas pela autoridade fiscal, a Recorrente declara que realizou uma conciliação entre os tributos retidos no período em comparação com aqueles comprovados pela autoridade fiscal e encontrou uma expressiva diferença que justificaria quase que integralmente a diferença não reconhecida pela autoridade julgadora. Alega que verificou diferença em relação aos códigos 1708, 6190, 6256 e 3280, sendo que os dois últimos sequer foram considerados pelo Fisco. Afirma que as informações extraídas do próprio sistema da RFB apontam para o montante total de R$ 1.751.654,65, enquanto as d. autoridades fazendárias apresentam valor inferior, na ordem de R$ 1.675.917,11 e apresentou as seguintes tabelas: Em seguida, a Recorrente apresenta outra tabela, que demonstra como foram apurados os valores retidos na fonte a título de IRPJ, da qual reproduzo um pequeno excerto: (...) Fl. 1915DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.916 8 Em relação ao fato de que a autoridade fiscal não levou em consideração os códigos de arrecadação 6256 e 3280, é preciso observar que a Recorrente não informou essas retenções em seu Pedido de Restituição (fls. 728). A Recorrente apresentou as retenções efetuadas sob o código de arrecadação 6190. Este código se refere à retenção dos quatro tributos, IRPJ, CSLL, Cofins e PIS. Para efeito de cálculo da retenção do IRPJ, deve ser feito o rateio na proporção de 4,80/9,65 do valor efetivamente recolhido. Caso os valores recolhidos sejam inferiores a 9,65%, o rateio deverá ser proporcional aos quatro tributos (IRPJ = 4,80%, CSLL = 1,00%, PIS = 0,65% e Cofins = 3,00%), e não imputado integralmente para o IRPJ. Em relação à diferença de R$ 8.414,17, a Recorrente argumenta que não foram oferecidas as condições necessárias para um exame mais profundo do montante, uma vez que as d. autoridades julgadoras não disponibilizaram as informações completas dos créditos homologados (e.g.: omissão da razão social e CNPJ das fontes pagadoras, respectivos rendimentos, tributos retidos, etc). Nesse sentido, tendo em vista que a Recorrente fez juntar novos documentos, não analisados anteriormente pela Unidade de Origem, qual seja, o comprovante de retenção, por fonte pagadora do Sistema Dirf (fls. 1619 e ss); que afirma que os valores constantes desse comprovante divergem daqueles apurados pela autoridade fiscal, e que não consta do processo os documentos em que o Fisco se baseou para apurar os valores retidos, voto no sentido de converter o julgamento em diligência para a Unidade de Origem: Verificar se existe a diferença alegada pela Recorrente, entre os valores apurados por ele e aqueles constantes do acórdão da DRJ, e qual seria o valor desta diferença, levando em consideração os valores informados no Pedido de Restituição e o devido rateio do código de arrecadação 6190; Caso exista diferença, verificar se a receita correspondente às retenções foram oferecidas à tributação, segundo regime de competência; Se necessário intimar o contribuinte para apresentar outros documentos que entender necessários (Ex: ECD completa, DRE, etc) ou mesmo intimar a fonte pagadora; Anexar aos autos os documentos que fundamentarem a diligência, para permitir a ampla defesa do contribuinte; Apresentar relatório conclusivo e dar ciência ao contribuinte do relatório da diligência para que, no prazo de 30 dias, o mesmo possa se manifestar conforme determinação constante do art.35 do Decreto nº 7574/2011. Fl. 1916DF CARF MF Processo nº 16306.720835/201316 Resolução nº 1301000.648 S1C3T1 Fl. 1.917 9 Diante de todo o acima exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e por converter o julgamento em diligência. (Assinado digitalmente) Giovana Pereira de Paiva Leite Fl. 1917DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10730.005184/2007-98
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 10 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2005
DEDUÇÃO DE DESPESAS MÉDICAS. COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE.
São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda - RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo ano-calendário da obrigação tributária.
Numero da decisão: 2001-000.983
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Jorge Henrique Backes - Presidente
(assinado digitalmente)
Fernanda Melo Leal - Relatora.
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: FERNANDA MELO LEAL
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COMPROVAÇÃO. DEDUTIBILIDADE. São dedutíveis na declaração de ajuste anual, a título de despesas com médicos e planos de saúde, os pagamentos comprovados mediante documentos hábeis e idôneos, dentro dos limites previstos na lei. Inteligência do art. 80 do Decreto 3.000/1999 (Regulamento do Imposto de Renda RIR). A dedução de despesas médicas na declaração de ajuste anual do contribuinte está condicionada à comprovação hábil e idônea no mesmo anocalendário da obrigação tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Presidente (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal Relatora. Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernanda Melo Leal, Jorge Henrique Backes, Jose Alfredo Duarte Filho e Jose Ricardo Moreira. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 73 0. 00 51 84 /2 00 7- 98 Fl. 105DF CARF MF 2 Relatório Contra o contribuinte acima identificado foi emitida Notificação de Lançamento, relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, exercício de 2005, anocalendário de 2004, que lhe exige o recolhimento de um crédito tributário no montante de R$ 21.354,38. Foi constatada a seguinte irregularidade, conforme a Descrição dos Fatos, às fls. 6/7: dedução indevida de despesas médicas, especialmente pela falta de comprovação do efetivo pagamento, dedução indevida com dependentes. O interessado foi cientificado da notificação e apresentou impugnação argumentando que o valor referese a despesas médicas do próprio contribuinte, e que foram pagas em espécie ou cheques, e junta toda documentação para comprovar o quanto alegado. Com relação ao dependente, junta cópia da certidão de nascimento comprovando a sua paternidade. A DRJ Brasilia, na análise da peça impugnatória, manifestou seu entendimento no sentido de que a com relação a despesa com dependente, deve ser restabelecida, eis que devidamente comprovada pelo contribuinte. Com relação as despesas médicas, foi parcialmente restabelecida, mantendo a glosa no valor de R$25.300,00 (a despesa médica com o Fernando Luiz Duarte não continha a especificação do beneficiário, e as despesas com a profissional Cheila Maria Almeida e Patrícia Luise não tinha nenhum comprovante). Em sede de Recurso Voluntário, junta o contribuinte a declaração do dr Fernando Luiz comprovando que o próprio Recorrente era o beneficiário e o recibo completo da despesa com a sr Cheila Maria Almeida. Não questiona a despesa com a sra Patricia Luise, no valor de R$3.700,00, motivo pelo qual não faz mais parte da controvérsia e análise neste acórdão. É o relatório. Voto Conselheira Fernanda Melo Leal Relatora. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Mérito Glosa de despesas médicas Nos termos do artigo 8°, inciso II, alínea "a", da Lei 9.250/1995, com a redação vigente ao tempo dos fatos ora analisados, são dedutíveis da base de cálculo do imposto de renda pessoa física as despesas a título de despesas médicas, psicológicas e dentárias, quando os pagamentos são especificados e comprovados. Lei 9.250/1995: Art. 8°. A base de cálculo do imposto devido no anocalendário será a diferença entre as somas: Fl. 106DF CARF MF Processo nº 10730.005184/200798 Acórdão n.º 2001000.983 S2C0T1 Fl. 3 3 I de todos os rendimentos percebidos durante o anocalendário, exceto os isentos, os nãotributáveis, os tributáveis exclusivamente na fonte e os sujeitos à tributação definitiva; II das deduções relativas: a) aos pagamentos efetuados, no anocalendário, a médicos, dentistas, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e hospitais, bem como as despesas com exames laboratoriais, serviços radiológicos, aparelhos ortopédicos e próteses ortopédicas e dentárias. (...) § 2º O disposto na alínea ‘a’ do inciso II: (...) II restringese aos pagamentos feitos pelo contribuinte, relativos ao seu próprio tratamento e ao de seus dependentes; III limitase a pagamentos especificados e comprovados, com indicação do nome, endereço e número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro de Pessoas Jurídicas de quem recebeu, podendo, na falta de documentação, ser feita indicação do cheque nominativo pelo qual foi efetuado o pagamento.” O Recorrente apresentou recibos que geraram dúvidas na autoridade fiscal. Apresentou diversas documentações e teve uma grande parte das suas despesas devidamente restabelecidas, restando glosa apenas de despesa médica com 3 profissionais acima mencionados . No entanto, em sede de Recurso Voluntário junta o contribuinte documentação adicional comprovando a existência da despesa de R$ 21.100,00 para Fernando Luiz Duarte de Almeida e R$ 500,00 para Cheila Maria Almeida Herman°. No caso concreto, demonstrase, ao longo do processo, que a autoridade fiscal ficou com certas dúvidas acerca da existência de tais despesas. No entanto o contribuinte, ora Recorrente, demonstrou boa fé e disponibilidade para esclarecer as duvidas e comprovar a existência das despesas. Neste diapasão, merece trazer à baila o princípio pela busca da verdade material. Sabemos que o processo administrativo sempre busca a descoberta da verdade material relativa aos fatos tributários. Tal princípio decorre do princípio da legalidade e, também, do princípio da igualdade. Busca, incessantemente, o convencimento da verdade que, hipoteticamente, esteja mais aproxima da realidade dos fatos. De acordo com o princípio são considerados todos os fatos e provas novos e lícitos, ainda que não tragam benefícios à Fazenda Pública ou que não tenham sido declarados. Essa verdade é apurada no julgamento dos processos, de acordo com a análise de documentos, oitiva das testemunhas, análise de perícias técnicas e, ainda, na investigação dos fatos. Através das provas, buscase a realidade dos fatos, desprezandose as presunções tributárias ou outros procedimentos que atentem apenas à verdade formal dos fatos. Neste sentido, deve a administração promover de oficio as investigações necessárias à elucidação da verdade material para que a partir dela, seja possível prolatar uma sentença justa. Fl. 107DF CARF MF 4 A verdade material é fundamentada no interesse público, logo, precisa respeitar a harmonia dos demais princípios do direito positivo. É possível, também, a busca e análise da verdade material, para melhorar a decisão sancionatória em fase revisional, mesmo porque no Direito Administrativo não podemos falar em coisa julgada material administrativa. A apresentação de provas e uma análise nos ditames do princípio da verdade material estão intrinsecamente relacionadas no processo administrativo, pois a verdade material apresentará a versão legítima dos fatos, independente da impressão que as partes tenham daquela. A prova há de ser considerada em toda a sua extensão, assegurando todas as garantias e prerrogativas constitucionais possíveis do contribuinte no Brasil, sempre observando os termos especificados pela lei tributária. A jurisdição administrativa tem uma dinâmica processual muito diferente do Poder Judiciário, portanto, quando nos depararmos com um Processo Administrativo Tributário, não se deve deixar de analisálo sob a égide do princípio da verdade material e da informalidade. No que se refere às provas, é necessário que sejam perquiridas à luz da verdade material, independente da intenção das partes, pois somente desta forma será possível garantir o um julgamento justo, desprovido de parcialidades. Somase ao mencionado princípio também o festejado princípio constitucional da celeridade processual, positivado no ordenamento jurídico no artigo 5º, inciso LXXVIII da Constituição Federal, o qual determina que os processos devem desenvolverse em tempo razoável, de modo a garantir a utilidade do resultado alcançado ao final da demanda. Ratifico, ademais, a necessidade de fundamento pela autoridade fiscal, dos fatos e do direito que consubstancia o lançamento. Tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. Assim sendo, com fulcro nos festejados princípios supracitados, e baseando se na prova documental do Recorrente, bem como sua postura colaborativa e visivelmente de boa fé, entendo, que deve ser dado provimento ao Recurso Voluntário para serem acatadas as despesas médicas anteriormente glosadas e que foram objeto de questionamento pelo contribuinte. Por fim, reitero que no que se refere a despesa médica no valor de R$ 3.700,00 para Patrícia Luise Scabell , esta não foi objeto do Recurso Voluntário, motivo pelo qual tal parcela restou incontroversa e nem foi objeto de análise neste acórdão. CONCLUSÃO: Diante tudo o quanto exposto, voto no sentido de, CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para acatar as despesas médicas glosadas anteriormente, quais sejam de R$ 21.100,00 para Fernando Luiz Duarte de Almeida e R$ 500,00 para Cheila Maria Almeida Herman°. (assinado digitalmente) Fernanda Melo Leal. Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10730.005184/200798 Acórdão n.º 2001000.983 S2C0T1 Fl. 4 5 Fl. 109DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.967242/2012-12
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jan 14 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2005
Pagamento Indevido. Direito de Crédito. ônus da Prova.
Nos pedidos de restituição e nos casos de declaração de compensação, o ônus da prova do indébito é do contribuinte.
Numero da decisão: 1301-003.521
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplica-se o decidido no julgamento do processo 10880.967241/2012-78, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Fernando Brasil de Oliveira Pinto - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente), Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felícia Rothschild.
Nome do relator: FERNANDO BRASIL DE OLIVEIRA PINTO
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DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. Nos pedidos de restituição e nos casos de declaração de compensação, o ônus da prova do indébito é do contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos. Portanto, aplicase o decidido no julgamento do processo 10880.967241/201278, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto (Presidente), Roberto Silva Júnior, José Eduardo Dornelas Souza, Nelso Kichel, Carlos Augusto Daniel Neto, Giovana Pereira de Paiva Leite, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e Bianca Felícia Rothschild. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 96 72 42 /2 01 2- 12 Fl. 72DF CARF MF Processo nº 10880.967242/201212 Acórdão n.º 1301003.521 S1C3T1 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face de acórdão de primeira instancia que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade da contribuinte para manter na íntegra o Despacho Decisório que não homologou as compensações pleiteadas em razão dos créditos da contribuintes já terem sido integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados na DCOMP. A autoridade de primeira instancia julgou improcedente a manifestação de inconformidade da contribuinte. Cientificado da decisão de primeira instancia, o contribuinte apresentou, recurso voluntário, repisando os argumentos levantados em sede de impugnação. É o relatório. Voto Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1301003.511, de 22/11/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.967241/2012 78, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1301003.511): "Configuramse os requisitos de admissibilidade do Recurso Voluntário apresentada pelo sujeito passivo, visto que protocolizada no prazo legal. Reafirma a Recorrente que a DCTF (retificadora) apresentada ao Fisco Federal evidencia que o débito no importe de R$ 56.740,18 (código 2089) estava em aberto, ou seja, denunciado e não pago, não havendo em DCTF nenhum DARF vinculado a tal ocorrência. Referido débito, faria, ainda, parte de um parcelamento extraordinário junto à própria RFB, lei 11.941/09. Ressaltese que a retificação da DCTF, ou de qualquer outra declaração pelo próprio contribuinte, depois de ter sido intimado do despacho decisório, não serve como prova do pretenso direito creditório. Nesse sentido é o Parecer Normativo Cosit nº 2/2015 e a jurisprudência do CARF. Fl. 73DF CARF MF Processo nº 10880.967242/201212 Acórdão n.º 1301003.521 S1C3T1 Fl. 4 3 Na situação em análise, além de a retificação da DCTF ser posterior à intimação do despacho decisório, não há no recurso sequer a descrição do fato de que teria se originado o crédito pretendido. A regra básica, em matéria de prova, é a de que aquele que alega o fato tem o ônus de proválo. Portanto, se no auto de infração o ônus da prova é da autoridade fiscal, nos pedidos de restituição e nas compensações o ônus de provar o indébito é daquele que bate às portas do Fisco, reivindicando o direito. Por último, cabe dizer que, no caso em exame, a solução da controvérsia passa ao largo das supostas diferenças entre processo e procedimento. Pelo exposto, voto por conhecer do recurso, para, no mérito, negarlhe provimento." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Fl. 74DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11073.000080/2006-60
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Dec 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 11 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2005
IRPF. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543-B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizando-se as tabelas e alíquotas do imposto vigentes a cada mês de referência (regime de competência), não constituindo nulidade o fato de ter sido anteriormente calculado com base no regime de caixa.
Numero da decisão: 9202-007.460
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa.
(Assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em exercício
(Assinado digitalmente)
Ana Paula Fernandes Relatora
(Assinado digitalmente)
Pedro Paulo Pereira Barbosa Redator designado
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: ANA PAULA FERNANDES
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RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE. REGIME DE COMPETÊNCIA. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. Consoante decidido pelo STF através da sistemática estabelecida pelo art. 543B do CPC no âmbito do RE 614.406/RS, o IRPF sobre os rendimentos recebidos acumuladamente deve ser calculado utilizandose as tabelas e alíquotas do imposto vigentes a cada mês de referência (regime de competência), não constituindo nulidade o fato de ter sido anteriormente calculado com base no regime de caixa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões do recurso voluntário, vencidas as conselheiras Ana Paula Fernandes (relatora) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Pedro Paulo Pereira Barbosa. (Assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo – Presidente em exercício (Assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes – Relatora (Assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 07 3. 00 00 80 /2 00 6- 60 Fl. 151DF CARF MF 2 Pedro Paulo Pereira Barbosa – Redator designado Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patrícia da Silva, Pedro Paulo Pereira Barbosa, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo (Presidente em Exercício). Relatório O presente Recurso Especial trata de pedido de análise de divergência motivado pela Fazenda Nacional face ao acórdão 2202002.957, proferido pela 2ª Turma / 2ª Câmara / 2ª Seção de Julgamento. Tratase de Notificação de Lançamento n° 2005/610410026672028, lavrada após revisão da sua Declaração de Ajuste Anual, exercício de 2005, anocalendário de 2004, na qual foi constatada omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas na quantia de R$ 109.285,36. Na apuração do imposto devido foi compensado o imposto retido na fonte (IRRF) sobre os rendimentos omitidos no valor de R$ 17.092,31. Exigese do contribuinte o crédito tributário total de R$ 12.079,68 conforme auto de infração de folhas 5 a 7, assim discriminado: R$ 6.101,16 de Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar; R$ 4.575,87 de Multa de Oficio (75%); e R$ 1.402,65 de Juros de Mora. O Contribuinte apresentou a impugnação, às fls. 01/04. A DRJ/SDR, às fls. 62/68, julgou pela improcedência da impugnação apresentada, mantendo o crédito tributário na forma originalmente lançado. O Contribuinte apresentou Recurso Voluntário às fls. 72/105. A 2ª Turma Ordinária da 2ª Câmara de Julgamento da 2ª Seção de Julgamento, às fls. 118/127, DEU PROVIMENTO ao Recurso Voluntário, declarado nulo o Auto de Infração, ficando dispensada a análise da natureza jurídica das verbas recebidas pelo contribuinte. A Decisão restou assim ementada: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2005 RRA – APLICAÇÃO DE ALÍQUOTAS VIGENTES A ÉPOCA EM QUE OS VALORES DEVERIAM TER SIDO ADIMPLIDOS NECESSIDADE – STF – RE 614.406/RS ART. 62A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF APLICAÇÃO. O RE 614.406/RS, julgado sob o rito do art. 543B do CPC, consolidou o entendimento de que a aplicação irrestrita do regime previsto na norma do art. 12 da Lei nº 7.713/88 implica em tratamento desigual aos contribuintes. Assim, ainda que seja aplicado o regime de caixa aos rendimentos recebidos acumuladamente pelas pessoas físicas, o dimensionamento da obrigação tributária deve observar o critério quantitativo Fl. 152DF CARF MF Processo nº 11073.000080/200660 Acórdão n.º 9202007.460 CSRFT2 Fl. 10 3 (base de cálculo e alíquota) dos anoscalendários em que os valores deveriam ter sido recebidos, sob pena de violação aos princípios constitucionais da isonomia, da capacidade contributiva e da proporcionalidade. O art. 62A do Regimento Interno do CARF torna compulsória a aplicação deste entendimento. LANÇAMENTO AMPARADO NO ART. 12 DA LEI Nº 7.713/88 NULIDADE ALTERAÇÃO DOS CRITÉRIOS JURÍDICOS IMPOSSIBILIDADE. O lançamento amparado na interpretação jurídica do art. 12 da Lei nº 7.713/88, fulminado pelo STF deve ser considerado nulo. Não compete ao CARF refazer o lançamento, substituindo a administração na eleição do fundamento jurídico, alíquota e base de cálculo aplicáveis. A necessidade de substituição desses elementos implica cabalmente na invalidade do lançamento. Recurso voluntário provido. Às fls. 130/135, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial, arguindo, divergência jurisprudencial acerca das seguintes matérias: IRPF – Rendimentos recebidos acumuladamente – forma de tributação. A Câmara a quo, no acórdão recorrido, expressou entendimento segundo o qual a exigência deve ser cancelada, pois entende que o imposto de renda deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que deveriam ter sido pagos, sob pena de violação dos princípios da isonomia e da capacidade contributiva, consoante assentado pelo STF no julgamento do RE nº 614.406. De outro lado, o paradigma entende que deve haver a aplicação das tabelas e alíquotas vigentes à época do adimplemento, devendo ser recalculado. Ao realizar o Exame de Admissibilidade do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, às fls. 144/145, a 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento, DEU SEGUIMENTO ao recurso, concluindo restar demonstrada a divergência de interpretação em relação à seguinte matéria: IRPF – Rendimentos recebidos acumuladamente – forma de tributação. Cientificado à fl. 147, o Contribuinte mantevese inerte, vindo os autos conclusos para julgamento. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Ana Paula Fernandes Relatora O Recurso Especial interposto pela Fazenda é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto, merece ser conhecido. Tratase de Notificação de Lançamento n° 2005/610410026672028, lavrada após revisão da sua Declaração de Ajuste Anual, exercício de 2005, anocalendário de 2004, na qual foi constatada omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas na quantia de R$ Fl. 153DF CARF MF 4 109.285,36. Na apuração do imposto devido foi compensado o imposto retido na fonte (IRRF) sobre os rendimentos omitidos no valor de R$ 17.092,31. Exigese do contribuinte o crédito tributário total de R$ 12.079,68 conforme auto de infração de folhas 5 a 7, assim discriminado: R$ 6.101,16 de Imposto de Renda Pessoa Física Suplementar; R$ 4.575,87 de Multa de Oficio (75%); e R$ 1.402,65 de Juros de Mora. O Acórdão recorrido deu provimento ao Recurso Ordinário. O Recurso Especial, apresentado pela Fazenda Nacional trouxe para análise a seguinte divergência: IRPF – Rendimentos recebidos acumuladamente – forma de tributação. Na decisão recorrida, deuse provimento ao recurso do Contribuinte, para cancelar o lançamento, devido à impossibilidade de refazimento do lançamento na atual fase processual. Da análise do tema, observo que não assiste razão a Fazenda Nacional, pois o referido lançamento não pode prosperar. Isso porque o art. 12 da Lei nº 7.713/88 teve sua constitucionalidade afastada. O referido dispositivo legal que era utilizado para a cobrança do IRPF incidente sobre rendimentos recebidos de forma acumulada, através da aplicação da alíquota vigente no momento do pagamento sobre o total recebido, teve sua inconstitucionalidade reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário nª 614.406/RS, o qual foi submetido à sistemática da Repercussão Geral prevista no artigo 543B do Código de Processo Civil, vejamos: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. (RE 614406, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 23/10/2014 ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe233 DIVULG 26112014 PUBLIC 27112014) De acordo com a referida decisão, transitada em julgado em 09/12/2014, ainda que seja aplicado o regime de caixa aos rendimentos recebidos acumuladamente pelas pessoas físicas (nascimento da obrigação tributária), é necessário, sob pena de violação aos princípios constitucionais da isonomia, da capacidade contributiva e da proporcionalidade, que o dimensionamento da obrigação tributária observe o critério quantitativo (base de cálculo e alíquota) dos anos calendários em que os valores deveriam ter sido recebidos, e não o foram. Assim, considerando que o lançamento foi amparado na interpretação jurídica de dispositivo legal, que foi declarado inconstitucional pelo STF, é de se reconhecer que deve ser cancelado, visto que, que utilizou fundamento legal inválido. Em face ao exposto, conheço do Recurso Especial da Fazenda Nacional para no mérito negarlhe provimento. Fl. 154DF CARF MF Processo nº 11073.000080/200660 Acórdão n.º 9202007.460 CSRFT2 Fl. 11 5 É como voto. (assinado digitalmente) Ana Paula Fernandes Voto Vencedor Pedro Paulo Pereira Barbosa – Redator designado Como bem relatado, a matéria em discussão cingese ao exame da possibilidade de recálculo do tributo devido, originalmente lançado com base no regime de caixa, em sede de contencioso administrativo, ante as decisões do STJ, no REsp 1.118.429/SP, e do STF, no RE 614.406/RS, que firmaram o entendimento de que, no caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o Imposto de Renda da Pessoa Física – IRPF deve ser calculado considerandose as bases de cálculo e alíquotas conforme as competências a que se referem os rendimentos. A sucessão dos fatos relevantes é a seguinte: 1) Em 19/09/2006 foi lavrada a Notificação de Lançamento objeto do presente processo; 2) Em 24/03/2010 o Superior Tribunal de Justiça – STJ proferiu o Acórdão no REsp. nº 1.118.429/SP, com a seguinte ementa: TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AÇÃO REVISIONAL DE BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO. PARCELAS ATRASADAS RECEBIDAS DE FORMA ACUMULADA. 1. O Imposto de Renda incidente sobre os benefícios pagos acumuladamente deve ser calculado de acordo com as tabelas e alíquotas vigentes à época em que os valores deveriam ter sido adimplidos, observando a renda auferida mês a mês pelo segurado. Não é legítima a cobrança de IR com parâmetro no montante global pago extemporaneamente. Precedentes do STJ. 2. Recurso Especial não provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC e do art. 8º da Resolução STJ 8/2008. Fl. 155DF CARF MF 6 3) Em 23/10/2014 o Supremo Tribunal Federal proferiu decisão no RE nº 614.406, assim ementado: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. 4) Em 21/01/2015 foi proferido o acórdão de recurso voluntário, cuja decisão foi assim registrada: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa e Antonio Lopo Martinez, que proviam parcialmente recurso. Entendeu a Relatora, corroborando o entendimento esposado pelo acórdão recorrido, por manter a decisão quanto à improcedência do lançamento, por entender não ser possível o recálculo do imposto. Apesar das bem articuladas razões da Relatora, divirjo desse entendimento. Com a devida vênia, penso que essa conclusão parte de premissa equivocada: a de que a atividade de julgamento administrativo deve se limitar a confirmar ou infirmar o lançamento na sua totalidade, sem a possibilidade de alteração deste, numa interpretação, a meu juízo, isolada e superficial do artigo 142 do CTN. Essa conclusão simplesmente ignora o comando dos artigos 145 e 146 do mesmo CTN os quais vale ressaltar, integram o capítulo II do Código sob o título “Constituição do Crédito Tributário”, que têm a seguinte redação: Art. 145. O lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I – Impugnação do sujeito passivo; II – Recurso de ofício; III – Iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previsto no artigo 149. (Destaquei) Art. 146. A modificação introduzida, de oficio ou em consequência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fatos geradores ocorridos posteriormente à sua introdução. Ora, se o lançamento pode ser alterado nos casos de impugnação do sujeito passivo, tal alteração somente pode ser realizada pela autoridade julgadora administrativa, limitada essa alterabilidade, em relação a um mesmo sujeito passivo, apenas pela impossibilidade de introdução de novos critérios jurídicos. Digase, a propósito, que a alterabilidade do lançamento nos casos de sua inconformidade parcial com as normas do direito positivo, é amplamente reconhecida pela doutrina, com lastro exatamente na interpretação dos artigos 145, 146 e 149 do CTN. Paulo de Barros Carvalho, por exemplo, diz sobre o ponto: Fl. 156DF CARF MF Processo nº 11073.000080/200660 Acórdão n.º 9202007.460 CSRFT2 Fl. 12 7 Por alterabilidade do lançamento não devemos nos cingir tão só às circunstâncias da nulidade absoluta ou da nulidade relativa (anulabilidade). Ocasiões há em que o lançamento sofre alterações que agravam a exigência anteriormente formalizada. No quadro das condições estipuladas, o direito positivo brasileiro assegura ao interessado o direito de impugnar a pretensão tributária consubstanciada no ato de lançamento. E o Código Tributário Nacional contempla a matéria da alterabilidade, estatuindo, no art. 145, que o lançamento regularmente notificado ao sujeito passivo só pode ser alterado em virtude de: I) impugnação do sujeito passivo; II) recurso de ofício; III) iniciativa de ofício da autoridade administrativa, nos casos previstos no art. 149 [...].(CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário – 23 ed. – São Paulo : Saraiva, 2011. p. 497/498) Também Eurico Marcos Diniz de Santi, corroborando o mesmo entendimento, assim se manifesta sobre a alterabilidade do lançamento: A alterabilidade do atonorma de lançamento podese dar pela edição de outro atonorma que lhe substitua, invalidando implicitamente o atonorma anterior, ou podese dar mediante a expressa invalidação do atonorma anteriormente praticado. Pressupõe, portanto, competência administrativa para rever o atonorma, o que implica de outra parte, a competência para invalidálo. Estas normas de competência são aquelas que determinam, de forma genérica e abstrata, quais os supostos e as correspectivas consequências para se proceder a invalidação do atonorma de lançamento. Como o assunto requer certa precisão de conceito e de linguagem, convencionaremos denominar como regramatriz de invalidação do atonorma de lançamento às normas de competência para editar atonorma administrativo invalidador. A regramatriz de invalidação do atonorma de lançamento, regra de estrutura, defluem, no Código Tributário Nacional, dos arts. 145, 146 e 149. (SANTI, Eurico Marco Diniz. 2 ed. – São Paulo : Max Limonad, 2001. p. 255) No caso sob análise, o lançamento referese a rendimentos recebidos acumuladamente em decorrência de decisão em processo judicial trabalhista, tendo sido o imposto apurado em conformidade com a norma em vigor à época da autuação – art. 12, da Lei nº 7.713, de 1988 – que previa que o imposto seria devido no mês do recebimento. Confirase: Lei nº 7.713, de 1988: Art. 12. No caso de rendimentos recebidos acumuladamente, o imposto incidirá no mês do recebimento ou crédito, sobre a totalidade dos rendimentos, diminuídos do valor das despesas com ação judicial necessários ao seu recebimento, inclusive de advogados, se tiverem sido pagas pelo contribuinte, sem indenização. Fl. 157DF CARF MF 8 Tal dispositivo estabelecia apenas um dos critérios de apuração do imposto devido, com implicação direta no valor deste: com base no regime de caixa. Tanto é assim que o STJ, ao interpretar o dispositivo, e o STF, ao declarar sua inconstitucionalidade, em momento algum afirmaram a não incidência do imposto. E se é assim, o efeito vinculante de tais decisões aos órgãos julgadores administrativos não impõe, em absoluto, a necessidade de declaração da nulidade do lançamento, mas apenas de afastar o critério segundo o qual o imposto deve ser apurado segundo o regime de caixa. Como referido acima, o art. 145, I, do CTN, combinado com as normas que regem o processo administrativo fiscal, confere aos órgãos julgadores administrativos, quando provocados pela impugnação do sujeito passivo, competência para promover a necessária alteração do lançamento quando, dando razão ao sujeito passivo, entender que o mesmo está em desconformidade com as normas de incidência. E, com ainda mais razão, quando a decisão deste órgão administrativo está vinculada a algum comando que imponha uma específica interpretação, como neste caso. No presente caso, vale repisar, a controvérsia cingiase à definição do critério de apuração, se com base no regime de caixa ou no regime de competência. Diante da afirmação de que o procedimento adotado pela fiscalização, que apurou o imposto com base no regime de caixa, foi irregular, compete à autoridade julgadora, no dizer de Eurico De Santi, alterar o atonorma de lançamento mediante a edição de outro atonorma. Nada que justifique, em casos como este, em que há apenas desconformidade parcial do ato com os requisitos instituídos pelo Direito Positivo, e quando esta for sanável mediante correção, a nulidade do lançamento. Realizar essa correção é um dos misteres da autoridade julgadora administrativa. Por tudo o que foi dito acima, o cancelamento total do lançamento por suposta violação ao art. 142 do CTN carece de consistência jurídica. A um, porque o art. 142 do CTN descreve o procedimento do lançamento e não os seus requisitos de validade; a dois, porque o art. 145, I do próprio CTN prevê a hipótese de alterabilidade do lançamento pela autoridade julgadora administrativa, o que tem como pressuposto lógico a possibilidade da imperfeição do lançamento realizado pela autoridade lançadora. Ante esses pressupostos, a afirmação da impossibilidade de se alterar o lançamento em razão de as decisões dos tribunais superiores impactarem no critério quantitativo não se sustenta. Por fim, ressalto que a posição ora esposada, com estes e outros fundamentos, tem prevalecido neste Colegiado. Cito, como exemplo, os Acórdãos nºs. 9202004.518, Sessão de 26/10/2016, 9202005.357, Sessão de 25/04/2017, 9202006.415, Sessão de 29/01/2018 e 9202006.706, Sessão de 18/04/2018. Como, em razão do cancelamento da exigência pelo Colegiado a quo, ora afastada, restaram matérias pendentes de apreciação, é imperioso que os autos retornem à instância de piso para apreciação dessas matérias. Conclusão Diante do exposto, voto por conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, DARLHE PROVIMENTO para que seja recalculado o imposto devido mediante aplicação das tabelas progressivas e alíquotas vigentes à época da aquisição dos rendimentos (regime de competência), com retorno dos autos à instância à quo para apreciação das demais questões do recurso voluntário Fl. 158DF CARF MF Processo nº 11073.000080/200660 Acórdão n.º 9202007.460 CSRFT2 Fl. 13 9 (assinado digitalmente) Pedro Paulo Pereira Barbosa Fl. 159DF CARF MF
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Numero do processo: 12585.000106/2011-20
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 27 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Feb 04 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA.
Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Ressarcimento no prazo de 5 anos. O art. 150, § 4º, do CTN regulamenta o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir lançamento com pedido de ressarcimento. O artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento.
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS/COFINS INCIDENTE SOBRE PRODUTOS SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. COMERCIANTE REVENDEDOR. VEDAÇÃO EXPRESSA. INDEFERIMENTO.
Há vedação legal expressa ao creditamento das contribuições ao PIS e Cofins sobre a compra de veículos automotores para revenda, nos termos do art. 3º, inciso I, alínea b, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3302-006.179
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em lhe negar provimento. Vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède que conhecia integralmente do recurso e lhe negava provimento.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente).
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2006 a 31/03/2006 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Ressarcimento no prazo de 5 anos. O art. 150, § 4º, do CTN regulamenta o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir lançamento com pedido de ressarcimento. O artigo 74 da Lei nº 9.430/1996 cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS/COFINS INCIDENTE SOBRE PRODUTOS SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. COMERCIANTE REVENDEDOR. VEDAÇÃO EXPRESSA. INDEFERIMENTO. Há vedação legal expressa ao creditamento das contribuições ao PIS e Cofins sobre a compra de veículos automotores para revenda, nos termos do art. 3º, inciso I, alínea “b”, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em lhe negar provimento. Vencido o Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède que conhecia integralmente do recurso e lhe negava provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 58 5. 00 01 06 /2 01 1- 20 Fl. 181DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Gilson Macedo Rosenburg Filho, Walker Araujo, Corintho Oliveira Machado, José Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Raphael Madeira Abad, Rodolfo Tsuboi (Suplente Convocado) e Paulo Guilherme Deroulede (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto contra decisão de primeira instância que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade apresentada, mantendo a decisão da repartição de origem de indeferimento do ressarcimento de créditos da contribuição não cumulativa (PIS/Cofins), tendo como fundamento a existência de vedação legal expressa (§ 1º do artigo 2º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003), que incluem, nos seus incisos III e IV, quando adquiridos para revenda, as máquinas, veículos e autopeças. Segundo a Fiscalização, o art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, devia ser entendido no sentido de que os créditos que podiam ser mantidos eram aqueles que existissem caso a receita à qual eram vinculados não fosse tributada à alíquota zero, inexistindo lógica na manutenção de crédito que a lei vedava desde a sua definição, em função da vedação expressa contida no artigo 3º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003. Ainda de acordo com a autoridade fiscal, à semelhança da substituição tributária, a tributação monofásica aplicada a certos produtos – dentre os quais os veículos e autopeças – fazia incidir toda a carga tributária das contribuições na pessoa jurídica fabricante ou no importador, atribuindo alíquota zero aos elos subsequentes do ciclo de venda do produto (atacadistas e varejistas), sendo que a concessão de crédito a estes últimos viria a distorcer a tributação, anulando o aumento da carga tributaria paga pela pessoa jurídica fabricante ou pelo importador. Em sua Manifestação de Inconformidade, o contribuinte arguiu que existia norma que possibilitava o creditamento, este intrínseco à não cumulatividade, em conformidade com o art. 17 da Lei nº 11.033/2004. Por outro lado, argumentou o então Manifestante ser desnecessário o enfrentamento do mérito, uma vez que Despacho Decisório havia sidolhe cientificado após o limite temporal de 5 anos contados da data de protocolização do pedido. A Delegacia de Julgamento (DRJ), por meio do acórdão nº 16064.028, julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, considerando que, tratandose de pedido de ressarcimento, não havia que se falar em prazo de cinco anos para sua análise, inexistindo hipótese de reconhecimento tácito do crédito. Cientificado da decisão de primeira instância, o contribuinte interpôs Recurso Voluntário, repisando os argumentos de defesa encetados na Manifestação de Inconformidade. É o relatório. Fl. 182DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 4 3 Voto Paulo Guilherme Déroulède, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF 343, de 9 de junho de 2015, aplicandose, portanto, ao presente litígio o decidido no Acórdão nº 3302006.167, de 27/11/2018, proferida no julgamento do processo nº 12585.000094/201133, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 3302006.167): O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele tomo conhecimento. Conforme exposto anteriormente, a Recorrente trouxe em sede recursal os seguintes argumentos de defesa: a. existe norma que possibilita o creditamento, afinal é intrínseco à não cumulatividade o creditamento, como ficou comprovado com o art. 17 da Lei nº 11.033/04; b. mas não será necessário nem estender esse mérito, já que o Despacho Decisório não pode prevalecer já que cientificado após o limite temporal, como se passa a demonstrar. Referida matéria já foi objeto de análise por esta antiga turma nos autos do PA nº 19515.721292/201379 (acórdão nº 3302005.274), onde restou decido por afastar o direito de tomar crédito em relação as aquisições para revenda de máquinas, veículos e autopeças sujeitos à incidência monofásica, bem como afastar a incidência do instituto da homologação tácita para os pedidos de restituição/ressarcimento, cujas razões adoto como causa de decidir: Da inexistência de homologação tácita Quanto à suposta homologação tácita objeto dos pedidos de ressarcimento, urge esclarecer que o § 5º do art. 74 da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003, trata do prazo para homologação da compensação declarada, inexistindo na legislação prazo quanto à homologação tácita de pedido de ressarcimento, que aliás, não é o caso dos autos. Rejeitase assim a preliminar arguida. MÉRITO Quanto ao mérito, destacamse a seguir os excertos do TVF: Inicialmente, vale esclarecer que o interessado é pessoa jurídica revendedora de veículos e autopeças, mercadorias sujeitas à incidência monofásica, e incide, portanto, na vedação contida no art. 3º, I, b c/c o art. 2º, § 1º, III e IV das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, que impedem a apuração de créditos na aquisição, para revenda, das máquinas, veículos e autopeças especificadas na Lei nº 10.485, de 2002. Fl. 183DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 5 4 3. A despeito da vedação supracitada, o contribuinte apura créditos calculados sobre máquinas, veículos e autopeças tendo em vista a disposição contida no artigo 17 da Lei nº 11.033, de 2004, que autoriza a manutenção dos créditos vinculados às vendas com suspensão, isenção, alíquota zero e não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS. (...) A par da tributação concentrada, estipulada aos fabricantes e importadores de veículos e autopeças, o § 2º do artigo 3º da Lei nº 10.485, de 2002, atribui a incidência de alíquota zero para a receita de venda dos mesmos veículos e autopeças, quando apurada por comerciantes atacadistas e varejistas. “Art.3º ... § 2º Ficam reduzidas a 0% (zero por cento) as alíquotas da contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, relativamente à receita bruta auferida por comerciante atacadista ou varejista, com a venda dos produtos de que trata: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) I o caput deste artigo; e (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) II o caput do art. 1o desta Lei, exceto quando auferida pelas pessoas jurídicas a que se refere o art. 17, § 5o, da Medida Provisória no 2.18949, de 23 de agosto de 2001.” (Redação dada pela Lei nº 10.925, de 2004) (g.n.)” 15. Em suma, para as máquinas, veículos e autopeças relacionados na Lei nº 10.485, de 2002, vigora o regime de incidência monofásica da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, com concentração da tributação nos respectivos fabricantes e importadores dessas mercadorias e com incidência de alíquota zero para as receitas apuradas, por comerciantes atacadistas e varejistas, com as vendas das mesmas. (...) Dentre as hipóteses para as quais há vedação legal expressa para a apuração de créditos, estão as citadas no § 1º do artigo 2º das Leis nº 10.637, de 2002, e nº 10.833, de 2003, que incluem, nos seus incisos III e IV, quando adquiridos para revenda, as máquinas, veículos e autopeças supracitados. “Art. 3o Do valor apurado na forma do art. 2o a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) b) nos §§ 1o e 1oA do art. 2o desta Lei; (Redação dada pela lei nº 11.787, de 2008)” (g.n.) Art. 2°, § 1o (...) III no art. 1o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, e alterações posteriores, no caso de venda de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da TIPI; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) IV no inciso II do art. 3o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, no caso de vendas, para comerciante atacadista ou varejista ou para consumidores, das autopeças relacionadas nos Anexos I e II da mesma Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004)” (g.n.) (...) Fl. 184DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 6 5 19. Nesse sentido, não ensejam apuração de créditos da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS, as aquisições, para a revenda, de máquinas e veículos classificados nos códigos da TIPI supracitados e de autopeças relacionadas nos Anexos I e II da Lei nº 10.485, de 2002. Estando bem delineada a espécie normativa que fundamenta a questão e objetivamente abordada pela decisão de piso, reproduzemse os fundamentos, como razão de decidir, com escopo no 1artigo 50, § 1º da Lei 9.784, de 1999, a seguir destacados: Quanto ao mérito, digase que a alegação da impugnante de que existiria norma que possibilitaria a constituição dos créditos glosados está fundamentada, como bem disse o Despacho Decisório, em uma interpretação equivocada do art. 17 da Lei nº 11.033, de 21 de dezembro de 2004: Art. 17. As vendas efetuadas com suspensão, isenção, alíquota 0 (zero) ou não incidência da Contribuição para o PIS/PASEP e da COFINS não impedem a manutenção, pelo vendedor, dos créditos vinculados a essas operações. Esse artigo apenas afirma que podem ser mantidos os créditos porventura existentes vinculados a operações com suspensão, isenção, alíquota zero ou não incidência. No presente caso não existe crédito a ser mantido, pouco importando, pois, que a operação de venda da contribuinte tenha sido com alíquota zero. E o crédito não existe porque, como também deixa claro o Despacho Decisório, há vedação legal para a sua apuração no caso de veículos e autopeças submetidos à sistemática monofásica:(grifei). Lei nº 10.637, de 2002: Art. 2º Para determinação do valor da contribuição para o PIS/Pasep aplicarseá, sobre a base de cálculo apurada conforme o disposto no art. 1º, a alíquota de 1,65% (um inteiro e sessenta e cinco centésimos). § 1º Excetuase do disposto no caput a receita bruta auferida pelos produtores ou importadores, que devem aplicar as alíquotas previstas: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) III no art. 1º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, e alterações posteriores, no caso de venda de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da TIPI; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) IV no inciso II do art. 3º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, no caso de vendas, para comerciante atacadista ou varejista ou para consumidores, das autopeças relacionadas nos Anexos I e II da mesma Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) b) no § 1º do art. 2º desta Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) [destaques acrescidos] Lei nº 10.833, de 2003: Fl. 185DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 7 6 Art. 2º Para determinação do valor da COFINS aplicarseá, sobre a base de cálculo apurada conforme o disposto no art. 1º, a alíquota de 7,6% (sete inteiros e seis décimos por cento). § 1º Excetuase do disposto no caput deste artigo a receita bruta auferida pelos produtores ou importadores, que devem aplicar as alíquotas previstas: (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) III no art. 1º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, e alterações posteriores, no caso de venda de máquinas e veículos classificados nos códigos 84.29, 8432.40.00, 84.32.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5, 87.01, 87.02, 87.03, 87.04, 87.05 e 87.06, da TIPI; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) IV no inciso II do art. 3º da Lei nº 10.485, de 3 de julho de 2002, no caso de vendas, para comerciante atacadista ou varejista ou para consumidores, das autopeças relacionadas nos Anexos I e II da mesma Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) (...) Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: (...) I bens adquiridos para revenda, exceto em relação às mercadorias e aos produtos referidos: (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004) b) no § 1º do art. 2º desta Lei; (Incluído pela Lei nº 10.865, de 2004) [destaques acrescidos] Assim, em virtude da vedação determinada pelo art. 3º, inciso I, alínea b, da Lei nº 10.637, de 2002, e pelo art. 3º, inciso I, alínea b, da Lei nº 10.833, de 2003, a contribuinte não podia apurar nenhum crédito decorrente da aquisição de veículos e autopeças submetidos à sistemática monofásica e, portanto, não há sentido em invocar a permissão do art. 17 da Lei nº 11.033, de 2004, já que não há crédito a ser mantido. Com isso, concluise novamente pela correção do procedimento fiscal ao lavrar os lançamentos de ofício para formalizar as glosas dos créditos, devendo a contribuinte retificálos em suas declarações.(grifei). No mesmo sentido são as decisões proferidas nos acórdãos nº 3302 005.447 e 3302005.447, envolvendo o crédito nas aquisições de produtos sujeitos ao regime de tributação monofásica e a homologação tácita, respectivamente: COMPENSAÇÃO. CRÉDITO DE PIS/PASEP INCIDENTE SOBRE PRODUTOS SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO MONOFÁSICA. COMERCIANTE REVENDEDOR. VEDAÇÃO EXPRESSA. INDEFERIMENTO. Há vedação legal expressa ao creditamento das contribuições ao PIS e a COFINS sobre a compra de veículos automotores para revenda, nos termos do art. 3º, inciso I, alínea “b”, das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, não se podendo reconhecer credito que afronte tal vedação. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA. Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Restituição no prazo de 5 anos. O Fl. 186DF CARF MF Processo nº 12585.000106/201120 Acórdão n.º 3302006.179 S3C3T2 Fl. 8 7 art. 150, § 4º do CTN, cuida de regulamentar o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir o lançamento com o Pedido de Restituição. O artigo 74 da Lei nº 9.430/96, cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento. Em relação ao prazo de 360 (trezentos e sessenta) dias para conclusão do procedimento administrativo, previsto no artigo 24, da Lei nº 11.457/07, constatase que referida matéria não foi suscitada na impugnação, ensejando, assim, a aplicação do artigo 17, do Decreto nº 70.235/72, a saber: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (Redação dada pela Lei nº 9.532, de 1997) (Produção de efeito) Diante do exposto, voto em conhecer parcialmente do recurso voluntário e, na parte conhecida, em negar provimento ao recurso voluntário. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o colegiado decidiu conhecer em parte o recurso voluntário e, na parte conhecida, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 187DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15374.901465/2009-55
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jan 10 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/05/2004 a 31/05/2004
DOCUMENTO CONSULTA POSTAGEM DOS CORREIOS. AVISO DE RECEBIMENTO. DISCREPÂNCIA. PREVALÊNCIA DO AVISO DE RECEBIMENTO. ASSINATURA DO RECEBEDOR.
Em caso de discrepância entre a data de entrega constante do documento intitulado Consulta Postagem, dos correios, e a que figura no Aviso de Recebimento, deve prevalecer esta, onde consta, inequivocamente, a assinatura do recebedor, no domicílio tributário do contribuinte.
ERRO DE JULGAMENTO. PREMISSA EQUIVOCADA. NULIDADE.
É nulo o julgamento que, partindo de premissa equivocada (no caso, a data de ciência do despacho decisório, induzido por documento que a própria unidade preparadora, quando provocada, reconhece como incorreto), cerceia o direito de defesa, ao não conhecer de peça recursal tempestivamente apresentada.
Numero da decisão: 3401-005.737
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para anular a decisão de piso, por preterição do direito de defesa.
(assinado digitalmente)
Rosaldo Trevisan Presidente e Relator.
Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes.
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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(nova denominação de REPSOL YPF BRASIL S.A.) Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/05/2004 a 31/05/2004 DOCUMENTO “CONSULTA POSTAGEM” DOS CORREIOS. AVISO DE RECEBIMENTO. DISCREPÂNCIA. PREVALÊNCIA DO AVISO DE RECEBIMENTO. ASSINATURA DO RECEBEDOR. Em caso de discrepância entre a data de entrega constante do documento intitulado “Consulta Postagem”, dos correios, e a que figura no Aviso de Recebimento, deve prevalecer esta, onde consta, inequivocamente, a assinatura do recebedor, no domicílio tributário do contribuinte. ERRO DE JULGAMENTO. PREMISSA EQUIVOCADA. NULIDADE. É nulo o julgamento que, partindo de premissa equivocada (no caso, a data de ciência do despacho decisório, induzido por documento que a própria unidade preparadora, quando provocada, reconhece como incorreto), cerceia o direito de defesa, ao não conhecer de peça recursal tempestivamente apresentada. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para anular a decisão de piso, por preterição do direito de defesa. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan – Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 90 14 65 /2 00 9- 55 Fl. 1476DF CARF MF 2 Participaram do presente julgamento os conselheiros Rosaldo Trevisan (presidente), Tiago Guerra Machado, Lázaro Antonio Souza Soares, Carlos Henrique Seixas Pantarolli, Cássio Schappo, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). Ausente justificadamente a Conselheira Mara Cristina Sifuentes. Relatório Versa o presente sobre o Pedido de Restituição/Declaração de Compensação (PER/DCOMP – de final 0800) de fls. 3 a 71, transmitido em 07/01/2005, invocando crédito de Contribuição para o PIS/PASEP referente a pagamento considerado indevido, de maio de 2004, efetuado em 15/06/2004, no valor de R$ 436.940,63, utilizando R$ 128.848,69 em compensação. No Despacho Decisório Eletrônico de fl. 8, datado de 18/02/2009, o pedido é negado, sob a motivação e que “[a] partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP (...) foram localizados um ou mais pagamentos (...) integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP”. Às fls. 9 a 12, consta Manifestação de Inconformidade, com protocolo de 06/04/2009, na qual a empresa informa que registrou equivocadamente na DCTF débito relativo a Contribuição para o PIS/PASEP, referente a maio de 2004, mas em tal período não apurou saldos de PIS a pagar, anexando memórias de cálculo da apuração do PIS (fl. 35), ficha 21 da DIPJ (fl. 36), e DARF de pagamento da quanta considerada indevida (fl. 37). Informa ainda que retificou a DCTF em 19/03/2009 (retificadora à fl. 38). A partir do documento de fl. 40 (consulta postagem por AR 821045463), que informa como data de entrega 04/03/2009, a unidade preparadora atesta a intempestividade da manifestação de inconformidade (fl. 42). A decisão de primeira instância (fls. 85 a 87), proferida em 31/01/2014, foi, unanimemente, pelo não conhecimento da manifestação de inconformidade, apresentada intempestivamente. Ciente do acórdão de piso em 05/01/2015 (fl. 93), a empresa solicitou, em 19/01/2015 (fl. 94), a juntada do Recurso Voluntário de fls. 95 a 106, no qual sustenta que: (a) a manifestação de inconformidade era tempestiva, e as telas impressas de sistemas da própria RFB não são documentos hábeis para se provar a data da intimação dos contribuintes, mas sim os Avisos de Recebimento, como tem entendido o CARF; (b) em nome da verdade material, tem o direito de corrigir o erro de fato em seu pedido, pelo que junta os documentos de fls. 107 a 1471: planilha de apuração da Contribuição para o PIS/PASEP de maio de 2004, balanço, razão de cada conta de receita/faturamento e cópias do Livro Diário, para comprovar que, apesar de ter mais créditos que débitos em maio de 2004, efetuou o pagamento de DARF, no valor de R$ 436.940,63, e preencheu errado a DCTF (e o PER/DCOMP) no segundo trimestre de 2004 com o débito de R$ 75.830,39; e (c) alternativamente, demandase a conversão em diligência, “...com o objetivo de comprovar a existência do crédito”. 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Fl. 1477DF CARF MF Processo nº 15374.901465/200955 Acórdão n.º 3401005.737 S3C4T1 Fl. 1.477 3 Em 21/01/2015, juntase o correspondente AR aos autos, comprovando que a data de ciência do despacho decisório era, de fato, 05/03/2009. Ainda em 21/01/2005, a unidade preparadora informa que o recurso apresentado é reconhecido como tempestivo e enviado ao CARF (fl. 1444), sendo distribuído a este relator, por sorteio, em junho de 2018. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, Relator O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade e, portanto, dele se conhece. Argumentase, preliminarmente, no recurso voluntário, que a decisão de piso partiu da premissa equivocada de que a ciência do despacho decisório seria 04/03/2009, ao tomar em conta o documento de fl. 40, que se reproduz abaixo, como comprovante de ciência: Tal documento constitui registro de controle dos correios, e não permite, de forma inequívoca, atestar o efetivo recebimento da correspondência. São recorrentes, neste tribunal administrativo, casos em que a data indicada como “de entrega” não se confirma, ao ser confrontada com a que consta do AR. É exatamente o que acontece nestes autos, tendo a própria unidade preparadora da RFB trazido, ainda que posteriormente à decisão de piso (em outros processos Fl. 1478DF CARF MF 4 do mesmo sujeito passivo julgados nesta sessão, como o de n. 15374.901464/200919, a retificação foi feita antes da decisão de piso), o AR referente à postagem (fl. 1474), onde se percebe que a data de entrega é 05/03/2009: Notese que o documento tem o mesmo código daquele consultado nos correios (AR 821045463), e que a própria unidade preparadora da RFB atesta o equívoco (fl. 1475): Resta, a nosso ver, patente o equívoco na premissa adotada pela DRJ ao não conhecer da peça recursal. Deveria o julgador de piso, para não obstaculizar o direito de defesa, ao menos certificarse da data constante em “consulta postagem” do sistema dos correios, na ausência do documento que inequivocamente o atesta (AR). Pelo exposto, ainda na análise da preliminar apontada em sede recursal, reconheço a nulidade da decisão de piso, que, partindo de premissa equivocada (no caso, a data de ciência do despacho decisório, induzido por documento que a própria unidade preparadora, quando provocada, reconhece como incorreto), cerceia o direito de defesa ao não conhecer de peça recursal tempestivamente apresentada, demandando a aplicação do disposto no art. 59, I do Decreto no 70.235/1972. Ademais, a análise inaugural do mérito por este colegiado poderia suscitar a ocorrência de supressão de instância, reclamando nova análise do tema pelo tribunal administrativo de piso. Deve, então, ser proferida nova decisão de piso, prosseguindo, regularmente, a partir daí, o contencioso administrativo. Fl. 1479DF CARF MF Processo nº 15374.901465/200955 Acórdão n.º 3401005.737 S3C4T1 Fl. 1.478 5 Pelo exposto, voto no sentido de dar parcial provimento ao recurso, para anular a decisão de piso, por preterição do direito de defesa. (assinado digitalmente) Rosaldo Trevisan Fl. 1480DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10600.720035/2014-67
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Feb 20 00:00:00 UTC 2019
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011, 2012
PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO.
O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica.
APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO.
São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão).
DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO.
A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade.
DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS.
Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica.
CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO.
A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica.
AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE.
Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial.
CSLL. DECORRÊNCIA.
Aplica-se à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável.
Numero da decisão: 9101-003.733
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do art. 24 da LINDB, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Viviane Vidal Wagner, que não conheceram. Acordam, ainda, por maioria de votos, quanto ao mérito do art. 24 da LINDB, em não aplicá-lo ao caso concreto, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que entendeu que aplicava em tese e que, como pressuposto para aplicá-lo ao caso concreto, haveria necessidade de abrir vista à PGFN para analisar os acórdãos trazidos aos autos pelo contribuinte. Votaram pelas conclusões os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, e Rafael Vidal de Araújo, que não o aplicavam em tese, e o conselheiro Demetrius Nichele Macei, que aplicava em tese, mas não ao caso concreto em razão de irretroatividade. Por unanimidade de votos, acordam em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento nos seguintes termos: (i) em relação ao ágio, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento; e (ii) em relação à concomitância da multa, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor em relação ao ágio o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Demetrius Nichele Macei - Redator Ad Hoc
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011, 2012 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICO-TRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do Decreto-Lei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e trata-se de instituto jurídico-tributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformam-se em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constitui-se em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontra-se submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendo-se aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram-se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Deve-se consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolida-se cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, toma-se o momento em que o contribuinte aproveita-se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. CSLL. DECORRÊNCIA. Aplica-se à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do art. 24 da LINDB, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Viviane Vidal Wagner, que não conheceram. Acordam, ainda, por maioria de votos, quanto ao mérito do art. 24 da LINDB, em não aplicá-lo ao caso concreto, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que entendeu que aplicava em tese e que, como pressuposto para aplicá-lo ao caso concreto, haveria necessidade de abrir vista à PGFN para analisar os acórdãos trazidos aos autos pelo contribuinte. Votaram pelas conclusões os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, e Rafael Vidal de Araújo, que não o aplicavam em tese, e o conselheiro Demetrius Nichele Macei, que aplicava em tese, mas não ao caso concreto em razão de irretroatividade. Por unanimidade de votos, acordam em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento nos seguintes termos: (i) em relação ao ágio, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento; e (ii) em relação à concomitância da multa, por maioria de votos, acordam em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor em relação ao ágio o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei - Redator Ad Hoc (assinado digitalmente) André Mendes de Moura - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício).
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 PREMISSA. INSTITUTO JURÍDICOTRIBUTÁRIO. O conceito do ágio é disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, e tratase de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. APROVEITAMENTO DO ÁGIO. INVESTIDORA E INVESTIDA. EVENTOS. SEPARAÇÃO. UNIÃO. São dois os eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). DESPESAS. AMORTIZAÇÃO. ÁGIO. A amortização, a qual se submete o ágio para o seu aproveitamento, constituise em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99, submetendose aos testes de necessidade, usualidade e normalidade. DESPESAS. FATOS ESPONTÂNEOS. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Não há como estender os atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. CONDIÇÕES PARA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. TESTES DE VERIFICAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 60 0. 72 00 35 /2 01 4- 67 Fl. 2194DF CARF MF 2 A cognição para verificar se a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência dos arts. 385 e 386 do RIR/99, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos encontram se atendidos, como arquivamento da demonstração de rentabilidade futura do investimento e efetivo pagamento na aquisição, e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes e reorganizações societárias com substância econômica. AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA. INVESTIDOR E INVESTIDA. MESMA UNIVERSALIDADE. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997 se dirigem às pessoas jurídicas (1) real sociedade investidora, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura, decidiu pela aquisição e desembolsou originariamente os recursos, e (2) pessoa jurídica investida. Devese consumar a confusão de patrimônio entre essas duas pessoas jurídicas, ou seja, o lucro e o investimento que lhe deu causa passam a se comunicar diretamente. Compartilhando do mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual os lucros auferidos pelo investimento passam a ser tributados precisamente pela pessoa jurídica que adquiriu o ativo com mais valia (ágio). Enfim, tomase o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, para se aperfeiçoar o lançamento fiscal com base no regime de tributação aplicável ao caso e estabelecer o termo inicial para contagem do prazo decadencial. CSLL. DECORRÊNCIA. Aplicase à CSLL o decidido no IRPJ, vez que compartilham o mesmo suporte fático e matéria tributável. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do art. 24 da LINDB, vencidos os conselheiros André Mendes de Moura, Flávio Franco Corrêa e Viviane Vidal Wagner, que não conheceram. Acordam, ainda, por maioria de votos, quanto ao mérito do art. 24 da LINDB, em não aplicálo ao caso concreto, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que entendeu que aplicava em tese e que, como pressuposto para aplicálo ao caso concreto, haveria necessidade de abrir vista à PGFN para analisar os acórdãos trazidos aos autos pelo contribuinte. Votaram pelas conclusões os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Viviane Vidal Wagner, e Rafael Vidal de Araújo, que não o aplicavam em tese, e o conselheiro Demetrius Nichele Macei, que aplicava em tese, mas não ao caso concreto em razão de irretroatividade. Por unanimidade de votos, acordam em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento nos seguintes termos: (i) em relação ao ágio, por voto de qualidade, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Gerson Macedo Guerra (relator), Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento; e (ii) em relação à concomitância da multa, por maioria de votos, acordam em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Demetrius Nichele Macei, que lhe deram provimento. Designado para redigir o voto vencedor em relação ao ágio o conselheiro André Mendes de Moura. Manifestaram intenção de apresentar declaração de voto os conselheiros André Mendes Moura, Flávio Franco Corrêa, Luís Flávio Neto, Demetrius Nichele Macei e Rafael Vidal de Araújo. Fl. 2195DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.195 3 (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei Redator Ad Hoc (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Flávio Franco Corrêa, Luis Flávio Neto, Viviane Vidal Wagner, Gerson Macedo Guerra, Demetrius Nichele Macei, Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Fl. 2196DF CARF MF 4 Relatório Inicialmente esclareço que fui nomeado redator ad hoc para formalização de acórdão relatado pelo Conselheiro Gerson Macedo Guerra. O relatório a seguir reproduzido foi apresentado pelo Relator em sessão de julgamento: Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pelo Contribuinte em epígrafe contra Acórdão nº 1402002.492, onde se entendeu que não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a investidora real transferiu recursos a uma "empresa veículo" com a específica finalidade de sua aplicação na aquisição de participação societária em outra empresa e se a "confusão patrimonial" advinda do processo de incorporação não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. No procedimento fiscal questionouse a aquisição da holding controladora da Contribuinte em questão (EMESA), por sociedade estrangeira, através de empresa brasileira. A operação questionada pela fiscalização, conforme descrito no TVF foi composta pelas seguintes etapas: (i) Transferência do controle da EMESA para outra holding também controlada pelo antigo controlador (aqui chamada SN) desse modo ficaram como sócios da EMESA a FN, com 90% e a pessoa física Cristiano Monteiro Parreiras ( adiante CMP), com 10%; (ii) cessão de 100% das quotas detidas no capital da SN Mineração para a pessoa jurídica Ferrous Resources do Brasil Ltda (adiante FRB); cedendo ainda uma parcela simbólica à pessoa física Sr. André Simão Osório de Barros. Tudo, no âmbito do “contrato de compra e venda de quotas da SN” (anexos); firmado entre os sócios controladores da SN Mineração (família Monteiro Parreiras) e a adquirente estrangeira Ferrous Resources Limited (ou FRL – Ilha de Man) (iii) Na medida em que arcava com o ônus financeiro decorrente da aquisição do controle acionário da empresa (“residente”) SN Mineração, o adquirente estrangeiro integralizava quotas de capital numa pessoa jurídica (“local”), constituída concomitantemente à operação no caso, a Cia Ferrous Resources do Brasil Ltda (doravante, FRB); (iv) Cisão da FRB, seguida de incorporação da parte cindida e da controladora SN pela EMESA, com posterior amortização do ágio. No entendimento a aquisição do controle acionário da empresa SN Mineração deixara latente que, num primeiro momento, a Cia FRB viuse utilizada como mera "extensão de caixa” daquela que, efetivamente, promovera e custeara toda a operação ou seja, a controladora estrangeira FRL. Para a fiscalização houve utilização da entidade “local” para honrar compromissos assumidos pelo investidor estrangeiro junto ao alienante residente, por meio do referido contrato de compra e venda de quotas da SN. Com isso, segregouse aqui um pretenso Fl. 2197DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.196 5 ágio suportado no exterior, no que se atribuíra à Cia FRB a condição de pseudo investidora (“residente”). E que, associado á aludida combinação de negócios entre partes vinculadas, viu se transformado em vultosa dedução fiscal, na forma suscitada pela ora fiscalizada. Impugnado o lançamento, a DRJ manteve integralmente o crédito tributário. Diante disso, foi aviado o competente Recurso Voluntário. No julgamento de tal recurso, entendeu a Turma que a fim de dar ares de legalidade à operação de modo a indicar que a formação do ágio teria cumprido os requisitos legais estabelecidos, utilizouse de uma sociedade veículo criada no Brasil, no caso, FRB. Para o relator do voto vencedor a artificialidade da operação está no passo intermediário utilizado pela Recorrente a fim de que o ágio pudesse ser amortizado no Brasil, qual seja: a criação de empresa veículo, FRB, para aquisição do investimento em SN/EMESA. Sobre tal entendimento, assim se manifesta o relator: Salientase que sem a utilização da denominada “empresas veículo” (FRB) não haveria amortização do ágio, pois tais valores deveriam compor o custo do investimento de FRL no exterior, conforme já abordado. Nesse contexto, é de pouco relevo se a “empresa veículo” efetivamente operava, ou se sua existência foi efêmera. O importante para a caracterização como conduit company foi a sua interposição no negócio, em si, alterando os efeitos tributários da real operação realizada, no caso, o investimento realizado por FRL na aquisição do investimento em SN/EMESA. Simplesmente por sua interposição em negócio jurídico, foi capaz de causar efeitos tributários, não em si mesma, mas na pessoa jurídica que efetivamente ocupava um dos polos da operação negocial perpetrada. Conforme se observa, os pontos destacados por Greco ressaltam aos olhos no caso concreto, pois as operações perpetradas pela Recorrente foram estruturadas em sequência, sem qualquer propósito negocial que não seja a mera economia tributária. Ou seja, utilizouse de sociedade de passagem a fim de que a mais valia na aquisição de ações contabilizada como ágio e que deveria compor o custo do investimento de FRL, situada no exterior , após imediata incorporação reversa entre investida (SN/EMESA) e investidora (FRB empresa veículo), se transformasse em despesa dedutível na Recorrente. Vale a transcrição da ementa da referida decisão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011, 2012 ÁGIO. AMORTIZAÇÃO.DECADÊNCIA.INEXISTÊNCIA. A obrigação tributária e, conseqüentemente, o início do prazo para o Fisco constituir o crédito tributário por meio do lançamento surge apenas com a ocorrência do fato gerador, ou seja, no caso em tela, com o início da amortização do ágio. Antes das amortizações não poderia a fiscalização questionar a Fl. 2198DF CARF MF 6 formação do ágio ou a sua transferência para a contribuinte, pois tais fatos não tinham, até então, reflexos fiscais, pois não representavam fatos geradores de obrigações tributárias. Alegação de decadência rejeitada. ÁGIO ORIUNDO DE AQUISIÇÃO COM USO DE RECURSOS FINANCEIROS DE OUTREM.AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer que participe da "confusão patrimonial" a pessoa jurídica investidora real, ou seja, aquela que efetivamente acreditou na "mais valia" do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição. Não é possível o aproveitamento tributário do ágio se a investidora real transferiu recursos a uma "empresa veículo" com a específica finalidade de sua aplicação na aquisição de participação societária em outra empresa e se a "confusão patrimonial" advinda do processo de incorporação não envolve a pessoa jurídica que efetivamente desembolsou os valores que propiciaram o surgimento do ágio, ainda que a operação que o originou tenha sido celebrada entre terceiros independentes e com efetivo pagamento do preço. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. MULTA DE OFÍCIO PELA FALTA OU INSUFICIÊNCIA DE TRIBUTO. MATERIALIDADES DISTINTAS. NOVA REDAÇÃO DADA PELA MP 351/2007. A partir do advento da MP 351/2007, convertida na Lei 11.488/2007, a multa isolada passa a incidir sobre o valor não recolhido da estimativa mensal independentemente do valor do tributo devido ao final do ano, cuja falta ou insuficiência, se apurada, estaria sujeita à incidência da multa de ofício. São duas materialidades distintas, uma referese ao ressarcimento ao Estado pela não entrada de recursos no tempo determinado e a outra pelo não oferecimento à tributação de valores que estariam sujeitos à mesma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a arguição de decadência. No mérito, negar provimento ao recurso voluntário: i) por maioria de votos quanto ao mérito da exigência. Vencidos os Conselheiros Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Caio Cesar Nader Quintella que votaram por darlhe provimento integral. O Conselheiro Demetrius Nichele Macei votou pelas conclusões; e: ii) por voto de qualidade quanto à multa isolada. Vencidos os Conselheiros Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Caio Cesar Nader Quintella e Demetrius Nichele Macei que votaram por cancelar essa penalidade. Designado o Conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto para redigir o voto vencedor. Fl. 2199DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.197 7 Cientificado da decisão o Contribuinte, tempestivamente, apresentou Recurso Especial de divergência, objetivando discutir (i) a impossibilidade de utilização do teste de propósito negocial, (ii) o requisito da confusão patrimonial entre o “real” investidor e a sociedade investida, (iii) impossibilidade de se cumular a multa isolada pela falta de recolhimento das estimativas e a multa de ofício. O Recurso do Contribuinte foi integralmente conhecido pelo despacho de admissibilidade. Regularmente intimada da decisão e do recurso do Contribuinte, a Fazenda apresentou contrarrazões, requerendo o não conhecimento do recurso e, caso conhecido, seu não provimento. É o relatório. Fl. 2200DF CARF MF 8 Voto Vencido Conselheiro Demetrius Nichele Macei, Redator Ad Hoc Conforme exposto no relatório supra, fui designado redator ad hoc para formalizar o presente acórdão, utilizando relatório e voto apresentados pela Relator em sessão de julgamento. Nestes termos, o conteúdo do voto a seguir transcrito corresponde ao voto proferido pelo Conselheiro Gerson Macedo Guerra: PRELIMINAR LINDB Na sustentação oral realizada pelo patrono do Contribuinte, foi suscitada a aplicação ao presente caso do artigo 24, da Lei de introdução às normas de direito brasileiro LINDB, que possui a seguinte redação: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) De acordo com tal norma, ao PAF, em minha leitura, importa focar na seguinte regra: a revisão na esfera administrativa, quanto à validade de processo levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas Em minha leitura do parágrafo único do citado artigo, no âmbito do PAF consideramse orientações gerais as interpretações e especificações em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária. Antes de adentrar no pedido do Contribuinte é importante lembrar que jurisprudência é o movimento decisório constante e uniforme dos tribunais sobre determinado ponto do Direito. Logo, jurisprudência majoritária compreende um conjunto de decisões uniformes dos Tribunais, proveniente de uma aplicação uniforme de um mesmo conjunto de normas a casos semelhantes. Mas a questão que se põe é: qual percentual poderia ser considerado para fins de caracterização da jurisprudência majoritária? Esse parâmetro não foi determinado pelo legislador, deixando então a questão aos aplicadores do direito. Fl. 2201DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.198 9 Nesse contexto, em minha concepção, o adjetivo majoritária me faz pensar ser um percentual alto. Eu utilizaria até mesmo o pleonasmo grande maioria (pessoalmente, mais de 90%). Mas não é só. Essa jurisprudência não pode ser medida apenas pelo número de decisões, devese também levar em consideração as Turmas, Varas, Tribunais, etc que estão decidindo no mesmo sentido. E além disso a questão temporal também é relevante. Portanto, em minha concepção, no âmbito do CARF, mais especificamente no âmbito da 1ª Seção só seria majoritária jurisprudência se houvesse pelo menos 90% das Turmas de julgamento decidindo no mesmo sentido. Precisamos ter cuidado com termos tão abertos, pois correse o risco de tratar como jurisprudência majoritária decisões que caminham em certa direção, mas que sozinhas não representam a maioria das Turmas de um Tribunal administrativo, ou Judicial, por exemplo. Nesse contexto, e lembrando da máxima em processo no sentido de que a prova cabe a quem alega, quem suscita a aplicação da norma deve trazer estudo minucioso a demonstrar a existência da jurisprudência majoritária. No presente caso, contudo, não foi demonstrada a existência da dita jurisprudência majoritária a corroborar o pedido do Contribuinte. Logo, nego provimento ao pedido. CONHECIMENTO Diante o questionamento da admissibilidade do recurso pela Fazenda, fazse importante sua análise. Para o não conhecimento do recurso, alega a Fazenda que "muito embora o r. despacho tenha entendido que a divergência jurisprudencial foi demonstrada, verificase que na realidade o recorrente não demonstrou a similitude dos casos concretos cotejados de forma a provar que, embora pudessem ter entendido no mesmo sentido, os Colegiados divergiram quanto às teses jurídicas adotadas. Pois bem. O Contribuinte inicia a demonstração do cabimento de seu recurso delimitando as normas cuja interpretação dada pela Turma a quo foi divergente da interpretação dada por outras Turmas, no seguinte sentido: Cabe apenas salientar que a discussão foi bem compreendida pelo acórdão recorrido, que emitiu juízo de valor equivocado quanto aos seguintes dispositivos: a) art. 7º, III, da Lei n° 9.532/97 e a (im)possibilidade de utilização do teste de propósito negocial; Fl. 2202DF CARF MF 10 b) art. 7º, III, da Lei n° 9.532/97 e o requisito de confusão patrimonial entre o “real” investidor e a sociedade investida; c) art. 44, II, da Lei n° 9.430/96 e a impossibilidade de se cumular a multa isolada pela falta de recolhimento das estimativas e a multa de ofício. Mais adiante, para demonstrar a divergência, o Contribuinte apresenta um acórdão paradigma por tema acima elencado. Para a demonstração da primeira divergência foi trazido o acórdão 1302 001.150, que trata de situação fática em que investidor estrangeiro aporta capital em saciedade no Brasil, para que essa, posteriormente, adquirisse ações com ágio. Essa situação fica muito clara já na ementa do referido acórdão, nos seguintes termos: “GLOSA DA AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. INDEVIDA. SIMULAÇÃO. NÃO CARACTERIZADA. Deve ser afastada a imputação de simulação, quando não demonstrado o pacto simulatório. O fato de o investidor no exterior ter preferido aportar capital em uma subsidiária brasileira, para que essa depois adquirisse as ações da recorrente com ágio não se constitui em conduta simulada, pois, diante de dois caminhos lícitos, não estaria obrigado a optar pelo mais oneroso tributariamente, ou seja, aquele em que ele adquirisse diretamente as ações com ágio e depois não pudesse realizar o evento (incorporação, fusão ou cisão) que lhe permitisse recuperar o custo sem alienar o investimento. A dedutibilidade da amortização do ágio fundamentado em expectativa de rentabilidade futura, após a incorporação da controladora pela controlada, encontra expressa previsão legal nos arts. 7º e 8º da Lei 9.532/97.” Além disso, no decorrer de sua peça recursal o contribuinte traz diversos pontos do acórdão paradigma que se assemelham ao caso em julgamento. Com relação ao segundo tema debatido, o Contribuinte apresenta como paradigma o acórdão 1302001.182, onde se concluiu não ser ilícita a conduta do investidor estrangeiro que prefere, primeiro, constituir uma subsidiária no Brasil, para que essa, depois, adquira os investimentos que a matriz no exterior deseja, nos seguintes termos: “DESPESA COM AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. GLOSA INDEVIDA. Não restando demonstrados a simulação, o abuso de direito e a fraude à lei na geração do ágio, como sustentava a Fiscalização, há que se cancelar a glosa da despesa. Não é ilícita a conduta do investidor estrangeiro que prefere, primeiro, constituir uma subsidiária no Brasil, para que essa, depois, adquira os investimentos que a matriz no exterior deseja. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Tratandose da mesma situação fática e do mesmo conjunto probatório, a decisão prolatada no lançamento do IRPJ é aplicável, mutatis mutandis, ao lançamento da CSLL.” O seguinte trecho do acórdão paradigma evidencia a similitude fática: Fl. 2203DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.199 11 “Até agora, notase que a autoridade fiscal nega em verdade o permissivo legal criado pelos art. 7º e 8º da Lei 9.532/97, ou seja, estamos diante de uma situação em que foi efetivamente pago o ágio (não se trata de planejamento com base no art. 36 da Lei 10.637/02), no qual um investidor estrangeiro (DELMEY) aporta capital em uma empresa (DUFRY BRASIL), a qual adquire ações de outra empresa com ágio (BRASIF) e, a seguir, esta incorpora aquela.” Tal como no caso do primeiro paradigma, a situação fática tratada no acórdão 1302001.182 é deveras semelhante à situação dos presentes autos. Muito embora na peça recursal o Contribuinte tenha preferido trazer a divergência por tópicos específicos, entendo que ambos tratam da possibilidade de amortização fiscal de ágio na hipótese em que investidores estrangeiros utilizamse de sociedades brasileiras para aquisição de participações societárias no Brasil, que posteriormente incorporam a adquirida ou são por ela incorporadas. Logo, entendo restar sim demonstrada a similitude fática e divergência de entendimentos. Da mesma forma ocorreu com a discussão acerca da matéria multa isolada. Além da falta de demosntração da similitude fática, alega a Fazenda falta de interesse de agir do Contribuinte, pois o conhecimento do recurso em relação às matérias indicadas nos itens 1 e 2 não é suficiente para alterar a conclusão da decisão recorrida, pois não atacou todos os fundamentos, suficientes por si só, para a manutenção do julgado tal qual proferido. Sobre essa alegação, importante destacar que a divergência não se dá em relação aos argumentos utilizados, mas em relação à posição da Turma em relação à uma determinada matéria. Vale dizer, um argumento pode ser suficiente para uma Turma decidir em uma direção oposta à decisão de outra Turma que possua dez argumentos para decidir numa determinada decisão. Foi o que ficou demonstrado nos presentes autos, quando se trouxe como paradigmas duas decisões que aceitaram a dedutibilidade do ágio, uma pela não aplicação da tese do propósito negocial e outra pela admissão de empresa interposta como real adquirente, enquanto a decisão recorrida afasta estas duas teses e outras. Nesse contexto, conheço integralmente do recurso do Contribuinte. MÉRITO POSSIBILIDADE DE AMORTIZAÇÃO FISCAL DO ÁGIO EM OPERAÇÕES COM EMPRESA VEÍCULO No entender da Turma a quo a grande razão a justificar a invalidação da amortização fiscal do ágio realizada pelo Contribuinte em questão foi a ausência de propósito negocial na criação de empresa holding, cujo único objetivo de nascimento foi de servir como Fl. 2204DF CARF MF 12 meio para cumprimento de requisito legal para aproveitamento fiscal do ágio, mediante incorporação de sociedades. Penso que não assiste razão à fiscalização nessa interpretação dos fatos e das normas em análise. Em minha concepção o instituto doutrinário chamado propósito negocial vem sendo indiscrimidamente utilizado pelas fiscalizações, sem se observar os pormenores de cada situação. O propósito negocial, cuja discussão no Brasil foi inicialmente atribuída ao Professor Marco Aurélio Greco, teve seus contornos delimitados, com o fito de tratar qualquer operação que tivesse como objetivo principal a economia de tributos como inoponível ao fisco, admitindose a desconsideração de seus efeitos tributários e a consequente cobrança dos tributos. Penso que essa posição deve ser vista com ressalvas, principalmente ao se considerar que essa teoria é oriunda de países da comon law. Um exemplo clássico que entendo que essa doutrina deve ser reavaliada é no caso de operações societárias que admitem a utilização fiscal do ágio. A possibilidade de amortização fiscal do ágio gerado por rentabilidade futura, após absorção de patrimônio de uma sociedade por outra, mediante incorporação, fusão ou cisão, inclusive da investidora (chamada operação reversa), surgiu em nosso ordenamento jurídico com o advento da Lei 9.532/97, artigos 7º e 8º, abaixo transcritos: Art. 7º A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: (Vide Medida Provisória nº 135, de 30.10.2003) I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "a" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "c" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2° do art. 20 do Decretolei n° 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (Redação dada pela Lei nº 9.718, de 1998) IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata a alínea "b" do § 2º do art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados durante os cinco anoscalendários subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de 1/60 Fl. 2205DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.200 13 (um sessenta avos), no mínimo, para cada mês do período de apuração. Art. 8º O disposto no artigo anterior aplicase, inclusive, quando: a) o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor de patrimônio líquido; b) a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. A Lei 9.532/97 veio ao mundo jurídico num contexto histórico de privatizações ocorridas no país. Como amplamente divulgado na época em que publicada a norma, o objetivo da permissão contida em seu inciso III, de amortização do ágio gerado com base em rentabilidade futura, era o de incentivar a aquisição de empresas públicas e sociedades de economia mista pelos investidores privados. Logo, no cálculo do retorno de seu investimento, no âmbito de sua análise de viabilidade, os investidores já contavam com o benefício fiscal. E nesse contexto, tal norma é tida como indutora de comportamentos dos contribuintes, na medida em que incentivou as operações de aquisições de empresas públicas, bem como as aquisições de participações em âmbito privado, tanto por investidores não residentes, que se interessaram enormemente por um mercado em recente abertura, como por investidores residentes no Brasil. E é aí que a teoria do propósito negocial deve ser vista sobre outro ângulo, afinal, como um investidor não residente poderia se valer de tal incentivo, sem se fazer presente no país através de uma sociedade aqui residente? Como sociedades nacionais reguladas por órgãos específicos poderiam usufruir do incentivo diante de proibição legal de incorporação de sociedades com outras atividades? Ora, excluir a possibilidade dessas pessoas e possibilitar outras a terem benefício fiscal seria ferir a isonomia. Logo, essas e outras sociedades tiveram que planejar a forma como seria possível investir no país e aproveitar o incentivo da amortização do ágio, nas mesmas condições que sociedades nacionais sem restrições territoriais ou regulatórias. Foi nesse contexto que investidores estrangeiros se utilizaram de sociedades holdings, que lhes permitia organizar a etapa pré aquisição, bem como posteriormente se valer do incentivo de amortização fiscal do ágio. Tais sociedades foram informalmente denominadas "empresas veículo". Mas a questão que se põe é: a criação de empresas holdings para organização de investimentos e utilização de incentivos fiscais é um ato de evasão fiscal ou é lícita a economia fiscal mediante planejamento realizado previamente à ocorrência do fato gerador do tributo e estimulado por norma legal? Em minha concepção, mesmo dentro da teoria do propósito negocial a economia de tributos é permitida, desde que realizada mediante atos e negócios lícitos. E para mim não há qualquer ilicitude em se criar uma sociedade, efetuar sua capitalização, adquirir Fl. 2206DF CARF MF 14 participação societária de terceiros e, posteriormente realizar as operações societárias induzidas pela lei para se obter a economia de tributos. Economia de tributos é sim algo legitimamente objetivado pelos empresários, que buscam a maximização de lucros em seus negócios, desde que obtida mediante atos e negócios lícitos. Frisese, no presente caso o negócio jurídico pretendido, qual seja a aquisição de participação societária de fato ocorreu, ou seja, não há que se falar em simulação, seja ela absoluta, seja ela relativa. Sobre a legitimidade da utilização de "empresas veículos" para fins de amortização de ágio sábias foram as palavras do Conselheiro Marcelo Cuba Netto, proferidas no acórdão 1201001.267, que abaixo tomo a liberdade de transcrever: São, como visto acima, duas as razões pelas quais o auditor se convenceu da ilegalidade do aproveitamento do ágio pela fiscalizada: (i) falta de propósito negocial, e; (ii) emprego de empresa veículo. Quanto à falta de propósito negocial, há que se distinguir dentre as operações levadas a efeito pelos interessados, aquelas que tiveram por objetivo ocultar o ganho de capital auferido pelos alienantes, daquelas cujo objeto foi a transferência do ágio para a autuada. As primeiras não interessam ao presente processo, e são objeto do PA nº 10380.726.493/201018, que trata do ganho de capital. As últimas foram realizadas com o propósito do aproveitamento do ágio na aquisição da participação societária, e estão amparadas na interpretação que esta Turma vem emprestando aos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, qual seja, a de que a finalidade daquelas normas é incentivar a absorção do patrimônio de empresas nacionais por outras, sejam nacionais, sejam estrangeiras. Em outras palavras, o propósito negocial foi exatamente o aproveitamento do ágio, propósito esse amparado pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Repare que a abusividade do planejamento tributário pode ter como característica (desde que não seja a única) justamente a ausência de propósito negocial. Entretanto, quando exista uma norma jurídica incentivando, sob o ponto de vista fiscal, a realização de um negócio jurídico, seria absurdo imaginarse que além do propósito de economia fiscal deveria haver também algum outro propósito. Esse é exatamente o caso dos presentes autos. Em relação ao emprego da chamada "empresa veículo" cumpre destacar que tal expressão tem sido utilizada pela fiscalização de uma maneira pejorativa, no sentido de um "mal em si mesmo". No entanto, como é cediço, não é possível sustentarse uma autuação fiscal lastreada na simples acusação de emprego de "empresa veículo", até porque o simples emprego de "empresa veículo" não é tipificado como infração à legislação tributária. Fl. 2207DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.201 15 Caberia então à fiscalização apontar a relação entre o emprego da "empresa veículo" e a prática de alguma infração à legislação tributária. E, no caso dos autos, como o autor da ação fiscal não se desincumbiu de seu ônus, isso já seria razão suficiente para afastarse, de pronto, a autuação. Todavia, tendo em vista que existem algumas decisões do CARF mantendo a glosa da amortização do ágio justamente pelo emprego de "empresa veículo" (vide, por exemplo, o Acórdão 1101001.113), entendo cabível o exame da matéria. Em breve síntese, aqueles que defendem a impossibilidade do aproveitamento do ágio nestas condições sustentam que o emprego de empresa veículo, que ao fim incorpora ou é incorporada pela investida, “oculta” o verdadeiro investidor, qual seja, aquele que fornece os recursos para que a empresa veículo faça o investimento. Desse modo, dizem eles, não há incorporação entre o “verdadeiro investidor” e a investida, sendo portanto inaplicável os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997. Pois bem, quanto a este argumento devese ter em conta que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram originalmente criados com a finalidade de incentivo à aquisição de empresas públicas ou sociedades de economia mista por particulares, no âmbito do chamado Programa Nacional de Desestatização (Lei nº 9.491/97). E uma vez que pessoas físicas ou jurídicas estrangeiras têm direito a adquirir até 100% das ações ou quotas da empresa nacional objeto de desestatização (vide art. 12 da referida Lei nº 9.491/97), é de se perguntar: como poderia um investidor estrangeiro se beneficiar dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 senão por meio da constituição e capitalização de uma pessoa jurídica nacional que fizesse o investimento na empresa objeto da desestatização? Esse foi, de fato, o caminho adotado pelos investidores estrangeiros (vide também caso Celpe, Acórdão nº 120100.689). Ocorre que, de acordo com a teoria da "empresa veículo", ora sob exame, nem assim os investidores estrangeiros poderiam se beneficiar dos disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois a pessoa jurídica nacional por eles constituída e capitalizada não seria considerada o "verdadeiro investidor" na empresa objeto de desestatização. Na mesma situação de impossibilidade de aproveitamento do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 estaria, por exemplo, um grupo de pessoas físicas nacionais que desejasse adquirir as ações ou quotas de uma empresa objeto de desestatização. Se fizessem o investimento diretamente, as pessoas físicas não poderiam se beneficiar das referidas normas (por óbvio, pessoa física não incorpora nem é incorporada por pessoa jurídica). Fl. 2208DF CARF MF 16 A solução seria, novamente, a constituição e capitalização de uma pessoa jurídica justamente para que esta fizesse o investimento. Entretanto, de acordo com a aludida teoria da "empresa veículo", nem assim a pessoa jurídica criada pelo grupo de pessoas físicas poderia se beneficiar do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois não seria considerada o "verdadeiro investidor" na empresa objeto de desestatização. Também em idêntica situação de impossibilidade de aproveitamento do disposto arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 estariam as pessoas jurídicas nacionais que em razão de vedação contida em norma legal ou infralegal estejam impedidas de exercer atividades econômicas diversas daquelas previstas naquelas normas. Seria o caso, por exemplo, de um banco comercial adquirir as ações ou quotas de uma concessionária de energia elétrica. Tal aquisição é possível, desde que autorizada pelo Banco Central. O que não é juridicamente possível é a absorção do patrimônio da concessionária pelo banco comercial (ou viceversa) uma vez que o Banco Central proíbe que os bancos comercias exerçam atividades distintas daquelas previstas em Regulamento. A solução, mais uma vez, seria o banco comercial constituir e capitalizar uma pessoa jurídica a fim de que esta adquira as ações ou quotas da empresa objeto de desestatização. Ocorre que, segundo a mencionada teoria da "empresa veículo", nem assim a pessoa jurídica criada pelo banco comercial poderia se beneficiar do disposto nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 pois não seria considerada o "verdadeiro investidor". Os exemplos acima, que a outros poderiam se somar, demonstram que a propalada teoria da "empresa veículo" aplicada aos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ensejaria uma interpretação restritiva dessas normas no tocante à idéia de "verdadeiro investidor". Todavia, a interpretação restritiva, tal como as demais espécies interpretativas, não é fruto da vontade do intérprete. Ao contrário, deve ser juridicamente fundamentada. No caso dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 tal interpretação restritiva reduziria significativamente as hipóteses de aproveitamento fiscal da amortização do ágio ali prevista, algo que vai de encontro (e não ao encontro) à finalidade do Programa Nacional de Desestatização, o qual, como dito antes, incentiva a aquisição de empresas públicas ou sociedades de economia mista por particulares. Em outras palavras, a teoria da "empresa veículo" defendida por alguns é frontalmente contrária à finalidade para à qual foram criados os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, daí porque não pode ser acolhida. E sendo lícito, e, até mesmo legalmente incentivado, o planejamento tributário realizado através da criação de empresas intermediárias para a aquisição de participações societárias não se pode falar que os requisitos legais não foram cumpridos, notadamente a confusão patrimonial com o real adquirente. Ora, nesse caso o real adquirente é a sociedade brasileira criada. Logo o requisito pessoal da norma está, sim, satisfeito. Fl. 2209DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.202 17 Por tais razões, entendo que o ágio gerado no presente caso o foi de forma legítima. Nesse contexto, voto por negar provimento ao do contribuinte quanto a esse tema. Como a multa isolada foi aplicada pela amortização do ágio, entendo que deve ser ela também cancelada. Caso vencido, quanto à matéria amortização do ágio, sobre a matéria multa isolada, mantenho a decisão recorrida, pelos seus próprios fundamentos. Nesse contexto, dou parcial provimento ao recurso do Contribuinte. É o que se reproduz do voto do Relator original. (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei Fl. 2210DF CARF MF 18 Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator designado. Não obstante o substancioso voto o I. conselheiro, peço vênia para discordar em relação ao mérito, na matéria relativa a despesa de amortização de ágio. Para a devida apreciação, propõese, inicialmente, discorrer sobre uma análise histórica e sistêmica sobre o tema, para depois tratar do caso concreto. 1. Conceito e Contexto Histórico Podese entender o ágio como um sobrepreço pago sobre o valor de um ativo (mercadoria, investimento, dentre outros). Tratandose de investimento decorrente de uma participação societária em uma empresa, em brevíssima síntese, o ágio é formado quando uma primeira pessoa jurídica adquire de uma segunda pessoa jurídica um investimento em valor superior ao seu valor patrimonial. O investimento em questão são ações de uma terceira pessoa jurídica, que são avaliadas pelo método contábil da equivalência patrimonial. Ou seja, a empresa A detém ações da empresa B, avaliadas patrimonialmente em 60 unidades. A empresa C adquire, junto à empresa A, as ações da empresa B, por 100 unidades. A empresa C é a investidora e a empresa B é a investida. Fato é que emergem dois critérios para a apuração do ágio. Adotandose os padrões da ciência contábil, apesar das ações estarem avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, deveriam ainda ser objeto de majoração, ao ser considerar, primeiro, se o valor de mercado dos ativos tangíveis seria superior ao contabilizado. Assim, supondose que, apesar do patrimônio ter sido avaliado em 60 unidades, o valor de mercado seria de 70 unidades, considerase para fins de apuração 70 unidades. Segundo, caso se constate a presença de ativos intangíveis sem reconhecimento contábil no valor de 12 unidades, temse, ao final, que o ágio, denominado goodwill, seria a diferença entre o valor pago (100 unidades) e o valor de mercado mais intangíveis (60 + 10 + 12 = 82 unidades). Ou seja, o ágio passível de aproveitamento pela empresa C, decorrente da aquisição da empresa B, mediante atendimento de condições legais, seria no valor de 18 unidades. Ocorre que o legislador, ao editar o DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, resolveu adotar um conceito jurídico para o ágio próprio para fins tributários. Isso porque positivou no art. 20 do mencionado decretolei que o denominado ágio poderia ter três fundamentos econômicos, baseados: (1) no sobrepreço dos ativos; e/ou (2) na expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido e/ou (3) no fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, posteriormente, os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, autorizaram a amortização do ágio nos casos (1) e (2), mediante atendimento de determinadas condições. Na medida em que a lei não determinou nenhum critério para a utilização dos fundamentos econômicos, consolidouse a prática de se adotar, em praticamente todas as Fl. 2211DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.203 19 operações de transformação societária, o reconhecimento do ágio amparado exclusivamente no caso (2): expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. O ágio passou a ser simplesmente a diferença entre o custo de aquisição e o valor patrimonial do investimento. Assim, voltando ao exemplo, a empresa C, investidora, ao adquirir ações da empresa investida B avaliadas patrimonialmente em 60 unidades, pelo valor de 100 unidades, poderia justificar o sobrepreço de 40 unidades integralmente com base no fundamento econômico de expectativa de rentabilidade futura do investimento adquirido. Na realidade, a legislação tributária ampliou o conceito do goodwill. E como darseia o aproveitamento do ágio? Em duas situações. Na primeira, quando a empresa C realizasse o investimento, por exemplo, ao alienar a empresa B para uma outra pessoa jurídica. Assim, se vendesse a empresa B para a empresa D por 150 unidades, apuraria um ganho de 50 unidades. Isso porque, ao patrimônio líquido da empresa alienada, de 60 unidades, seria adicionado o ágio de 40 unidades. Assim, a base de cálculo para apuração do ganho de capital seria a diferença entre 150 e 100 unidades, perfazendo 50 unidades. Na segunda, no caso de a empresa C (investidora) e a empresa B (investida) promoverem uma transformação societária (incorporação, fusão ou cisão), de modo em que passem a integrar uma mesma universalidade. Por exemplo, a empresa B incorpora a empresa C, ou, a empresa C incorpora a empresa B. Nesse caso, o valor de ágio de 40 unidades poderia passar a ser amortizado, para fins fiscais, no prazo de sessenta meses, resultando em uma redução na base de cálculo do IRPJ e CSLL a pagar. Naturalmente, no Brasil, em relação ao ágio, a contabilidade empresarial pautouse pelas diretrizes da contabilidade fiscal, até a edição da Lei nº 11.638, de 2007. O novo diploma norteouse pela busca de uma adequação aos padrões internacionais para a contabilidade, adotando, principalmente, como diretrizes a busca da primazia da essência sobre a forma e a orientação por princípios sobrepondose a um conjunto de regras detalhadas baseadas em aspectos de ordem escritural 1. Nesse contexto, houve um realinhamento das normas contábeis no Brasil, e por consequência do conceito do goodwill. Em síntese, ágio contábil passa (melhor dizendo, volta) a ser a diferença entre o valor da aquisição e o valor patrimonial justo dos ativos (patrimônio líquido ajustado pelo valor justo dos ativos e passivos). E recentemente, por meio da Lei nº 12.973, de 13/05/2014, o legislador promoveu uma aproximação do conceito jurídicotributário do ágio com o conceito contábil da Lei nº 11.638, de 2007, além de novas regras para o seu aproveitamento, que não são objeto de análise do presente voto. Enfim, resta evidente que o conceito do ágio tratado para o caso concreto, disciplinado pelo art. 20 do DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977 e os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 10/12/1997, alinhase a um conceito jurídico determinado pela legislação tributária. 1 IUDÍCIBUS, Sérgio de. Manual de contabilidade das sociedades por ações: (aplicável às demais sociedades), 1ª ed. São Paulo : Editora Atlas, 2008, p. 31. Fl. 2212DF CARF MF 20 Tratase, portanto, de instituto jurídicotributário, premissa para a sua análise sob uma perspectiva histórica e sistêmica. 2. Aproveitamento do Ágio. Hipóteses Apesar de já ter sido apreciado singelamente no tópico anterior, o destino que pode ser dado ao ágio contabilizado pela empresa investidora merece uma análise mais detalhada. Há que se observar, inicialmente, como o art. 219 da Lei nº 6.404, de 1.976 trata das hipóteses de extinção da pessoa jurídica: Art. 219. Extinguese a companhia: I pelo encerramento da liquidação; II pela incorporação ou fusão, e pela cisão com versão de todo o patrimônio em outras sociedades. E, ao se tratar de ágio, vale destacar, mais uma vez, os dois sujeitos, as duas partes envolvidas na sua criação: a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida, sendo a investidora é aquela que adquiriu a investida, com sobrepreço. Não por acaso, são dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). Podese dizer que os eventos (1) e (2) guardam correlação, respectivamente, com os incisos I e II da lei que dispõe sobre as Sociedades por Ações. 3. Aproveitamento do Ágio. Separação de Investidora e Investida No primeiro evento, tratase de situação no qual a investidora aliena o investimento para uma terceira empresa. Nesse caso, o ágio passa a integrar o valor patrimonial do investimento para fins de apuração do ganho de capital e, assim, reduz a base de cálculo do IRPJ e da CSLL. A situação é tratada pelo DecretoLei nº 1.598, de 27/12/1977, arts. 391 e 426 do RIR/99: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). (...) Fl. 2213DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.204 21 Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. (...) (grifei) Assim, o aproveitamento do ágio ocorre no momento em que o investimento que lhe deu causa foi objeto de alienação ou liquidação. 4. Aproveitamento do Ágio. Encontro entre Investidora e Investida Já o segundo evento aplicase quando a investidora e a investida transformaremse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). O ágio pode se tornar uma despesa de amortização, desde que preenchidos os requisitos da legislação e no contexto de uma transformação societária envolvendo a investidora e a investida. Contudo, sobre o assunto, há evolução legislativa que merece ser apresentada. Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, Fl. 2214DF CARF MF 22 observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada períodobase a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão 2. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 1997 3, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, 2 Ver Acórdão nº 1101000.841, da 1ª Turma Ordinária da 1ª Câmara do CARF, da relatora Edeli Pereira Bessa., p. 15. 3 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 2215DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.205 23 mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI4 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista 5 que trabalhou na edição da MP 1.602, de 1997: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na 4 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. 5 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18024, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 2216DF CARF MF 24 empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.602, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização. E qual foram as novidades trazidas pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997? Primeiro, há que se contextualizar a disciplina do método de equivalência patrimonial (MEP). Isso porque o ágio aplicase apenas em investimentos sociedades coligadas e controladas avaliado pelo MEP, conforme previsto no art. 384 do RIR/99. O método tem como principal característica permitir uma atualização dos valores dos investimentos em coligadas ou controladas com base na variação do patrimônio líquido das investidas. As variações no patrimônio líquido da pessoa jurídica investida passam a ser refletidas na investidora pelo MEP. Contudo, os aumentos no valor do patrimônio líquido da sociedade investida não são computados na determinação do lucro real da investidora. Vale transcrever os dispositivos dos arts. 387, 388 e 389 do RIR/99 que discorrem sobre o procedimento de contabilização a ser adotado pela investidora. Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, Fl. 2217DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.206 25 mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) Resta nítida a separação dos patrimônios entre investidora e investida, inclusive as repercussões sobre os resultados de cada um. A investida, pessoa jurídica independente, em razão de sua atividade econômica, apura rendimentos que, naturalmente, são por ela tributados. Por sua vez, na medida em que a investida aumenta seu patrimônio líquido em razão de resultados positivos, por meio do MEP há uma repercussão na contabilidade da investidora, para refletir o acréscimo patrimonial realizado. A conta de ativos em investimentos é debitada na investidora, e, por sua vez, a contrapartida, apesar de creditada como receita, é excluída na apuração do Lucro Real. Com certeza, não faria sentido tributar os lucros na investida, e em seguida tributar o aumento do patrimônio líquido na investidora, que ocorreu precisamente por conta dos lucros auferidos pela investida. E esclarece o art. 385 do RIR/99 que se a pessoa jurídica adquirir um investimento avaliado pelo MEP por valor superior ou inferior ao contabilizado no patrimônio líquido, deverá desdobrar o custo da aquisição em (1) valor do patrimônio líquido na época da aquisição e (2) ágio ou deságio. Para a devida transparência na mais valia (ou menor valia) do investimento, o registro contábil deve ocorrer em contas diferentes: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; Fl. 2218DF CARF MF 26 III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). (grifei) Como se pode observar, a formação do ágio não ocorre espontaneamente. Pelo contrário, deve ser motivado, e indicado o seu fundamento econômico, que deve se amparar em pelo menos um dos três critérios estabelecidos no § 2º do art. 385 do RIR/99, (1) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade, (2) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros (3) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. E, conforme já dito, por ser a motivação adotada pela quase totalidade das empresas, todos os holofotes dirigemse ao fundamento econômico com base em expectativa de rentabilidade futura da empresa adquirida. Tratase precisamente de lucros esperados a serem auferidos pela controlada ou coligada, em um futuro determinado. Por isso o adquirente (futuro controlador) se propõe a desembolsar pelo investimento um valor superior ao daquele contabilizado no patrimônio líquido da vendedora. Por sua vez, tal expectativa deve ser lastreada em demonstração devidamente arquivada como comprovante de escrituração, conforme previsto no § 3º do art. 385 do RIR/99. E, finalmente, passamos a apreciar os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, consolidados no art. 386 do RIR/99. Como já dito, em eventos de transformação societária, quando investidora absorve o patrimônio da investida (ou vice versa), adquirido com ágio ou deságio, em razão de cisão, fusão ou incorporação, resolveu o legislador disciplinar a situação: Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do § 2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do § 2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os Fl. 2219DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.207 27 cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração.(...) (grifei) Fica evidente que os arts. 385 e 386 do RIR/99 guardam conexão indissociável, constituindose em norma tributária permissiva do aproveitamento do ágio nos casos de incorporação, fusão ou cisão envolvendo o investimento objeto da mais valia. 5. Amortização. Despesa. Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99 6. 6 Art. 324. Poderá ser computada, como custo ou encargo, em cada período de apuração, a importância correspondente à recuperação do capital aplicado, ou dos recursos aplicados em despesas que contribuam para a formação do resultado de mais de um período de apuração (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, e DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 15, § 1º). § 1º Em qualquer hipótese, o montante acumulado das quotas de amortização não poderá ultrapassar o custo de aquisição do bem ou direito, ou o valor das despesas (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 2º). § 2º Somente serão admitidas as amortizações de custos ou despesas que observem as condições estabelecidas neste Decreto (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 5º). Fl. 2220DF CARF MF 28 Percebese que a despesa de amortização de ágio constituise em espécie do gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. 6. Despesa Em Face de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos á amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especialmente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, envolvendo aportes de substanciais recursos para, em questão de dias ou meses, serem objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione um situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. A pessoa jurídica recebe tratamento diferenciado no sistema de tributação (com diferentes opções para apurar seus resultados) porque, essencialmente, tem um efeito § 3º Se a existência ou o exercício do direito, ou a utilização do bem, terminar antes da amortização integral de seu custo, o saldo não amortizado constituirá encargo no período de apuração em que se extinguir o direito ou terminar a utilização do bem (Lei nº 4.506, de 1964, art. 58, § 4º). § 4º Somente será permitida a amortização de bens e direitos intrinsecamente relacionados com a produção ou comercialização dos bens e serviços (Lei nº 9.249, de 1995, art. 13, inciso III). Fl. 2221DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.208 29 multiplicador para a sociedade. A pessoa jurídica emprega pessoas, contrata fornecedores, movimenta a economia, multiplica os agentes de produção, e por isso dispõe de bases de cálculo e alíquotas diferentes das aplicadas para a pessoa física. Ora, as pessoas jurídicas devem fabricar produtos, e não despesas fictícias. Admitindose uma construção artificial do suporte fático, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes. 7. Hipótese de Incidência Prevista Para a Amortização Realizada análise do ágio sob perspectiva do gênero despesa, cabe prosseguir com a apreciação da legislação específica que trata de sua amortização. Vale recapitular os dois eventos em que a investidora pode se aproveitar do ágio contabilizado: (1) a investidora deixa de ser a detentora do investimento, ao alienar a participação da pessoa jurídica adquirida (investida) com ágio; (2) a investidora e a investida transformamse em uma só universalidade (em eventos de cisão, transformação e fusão). E repetir que estamos, agora, tratando da segunda situação. Cenário que se encontra disposto nos arts. 7º e 8º da Lei n° 9.532, de 1997, e nos arts. 385 e 386 do RIR/99, do qual transcrevo apenas os fragmentos de maior interesse para o debate: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Fl. 2222DF CARF MF 30 § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): (...) III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do § 2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; (...) (grifei) Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 7. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo 7 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 2223DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.209 31 empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoase o encontro de contas entre o real investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI8, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, 8 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 2224DF CARF MF 32 investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveita se da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Registrese que a consumação do aspecto temporal não se confunde com o termo inicial do prazo decadencial. Isso porque, partindose da construção da norma conforme operação no qual "Se A é, B deveser", onde a primeira parte é o antecedente, e a segunda é o consequente, a consumação da hipótese de incidência localizase no antecedente. Ou seja, "Se A é", indica que a hipótese de incidência, no caso concreto, mediante aperfeiçoamento dos aspectos pessoal, material e temporal, concretizouse em sua plenitude. Assim, passase para a etapa seguinte, o consequente ("B deveser"), no qual se aplica o regime de tributação a que encontra submetido o contribuinte (lucro real trimestral ou anual), efetuase o lançamento fiscal com base na repercussão que as glosas despesas de ágio indevidamente amortizadas tiveram na apuração da base de cálculo, e, por consequência, determinase o termo inicial para contagem do prazo decadencial. 8. Consolidação Considerandose tudo o que já foi escrito, entendo que a cognição para a amortização do ágio passa por verificar, primeiro, se os fatos se amoldam à hipótese de incidência, segundo, se requisitos de ordem formal estabelecidos pela norma encontramse atendidos e, terceiro, se as condições do negócio atenderam os padrões normais de mercado. Fl. 2225DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.210 33 A primeira verificação parece óbvia, mas, diante de todo o exposto até o momento, observase que a discussão mais relevante inserese precisamente neste momento, situado antes da subsunção do fato à norma. Falase insistentemente se haveria impedimento para se admitir a construção de fatos que buscam se amoldar à hipótese de incidência de norma de despesa. O ponto é que, independente da genialidade da construção empreendida, da reorganização societária arquitetada e consumada, a investidora originária prevista pela norma não perderá a condição de investidora originária. Quem viabilizou a aquisição? De onde vieram os recursos de fato? Quem efetuou os estudos de viabilidade econômica da investida? Quem tomou a decisão de adquirir um investimento com sobrepreço? Respondo: a investidora originária. Ainda que a pessoa jurídica A, investidora originária, para viabilizar a aquisição da pessoa jurídica B, investida, tenha (1) "transferido" o ágio para a pessoa jurídica C, ou (2) efetuado aportes financeiros (dinheiro, mútuo) para a pessoa jurídica C, a pessoa jurídica A não perderá a condição de investidora originária. Podese dizer que, de acordo com as regras contábeis, em decorrência de reorganizações societárias empreendidas, o ágio legitimamente passou a integrar o patrimônio da pessoa jurídica C, que por sua vez foi incorporada pela pessoa jurídica B (investida). Ocorre que a absorção patrimonial envolvendo a pessoa jurídica C e a pessoa jurídica B não tem qualificação jurídica para fins tributários. Isso porque se trata de operação que não se enquadra na hipótese de incidência da norma, que elege, quanto ao aspecto pessoal, a pessoa jurídica A (investidora originária) e a pessoa jurídica B (investida), e quanto ao aspecto material, o encontro de contas entre a despesa incorrida pela pessoa jurídica A (investidora originária que efetivamente incorreu no esforço para adquirir o investimento com sobrepreço) e as receitas auferidas pela pessoa jurídica B (investida). Mostrase insustentável, portanto, ignorar todo um contexto histórico e sistêmico da norma permissiva de aproveitamento do ágio, despesa operacional, para que se autorize "pinçar" os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, promover uma interpretação isolada, blindada em uma bolha contábil, e se construir uma tese no qual se permita que fatos construídos artificialmente possam alterar a hipótese de incidência de norma tributária. Caso superada a primeira verificação, cabe prosseguir com a segunda verificação, relativa a aspectos de ordem formal, qual seja, se a demonstração que o contribuinte arquivar como comprovante de escrituração prevista no art. 20, § 3º do Decreto Lei nº 1.598, de 27/12/1977 (1) existe e (2) se mostra apta a justificar o fundamento econômico do ágio. Há que se verificar também (3) se ocorreu, efetivamente, o pagamento pelo investimento. Enfim, referese a terceira verificação a constatar se toda a operação ocorreu dentro de padrões normais de mercado, com atuação de agentes independentes, distante de situações que possam indicar ocorrência de negociações eivadas de ilicitude, que poderiam guardar repercussão, inclusive, na esfera penal, como nos crimes contra a ordem tributária previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 1990. 9. Sobre o Caso Concreto Fl. 2226DF CARF MF 34 Feitas as considerações, passo a analisar o caso concreto. Tratase de operação envolvendo a aquisição do investimento EMESA, controlado pela SN, por parte da FRL (sede no exterior), controladora da FRB, com sobrepreço (ágio). Os fatos sob apreciação, em breve síntese, são os seguintes: A FRL constitui, em 2007, a pessoa jurídica FRB. A FRB firma contrato de compra e venda da SN (controladora da EMESA) em novembro de 2007; A FRB recebe aportes de sua controladora, FRL, para viabilizar a aquisição da SN; A FRB efetua a aquisição da controladora SN e, por consequência, da EMESA, e registra o ágio decorrente da aquisição do investimento com sobrepreço; Em 2009, ocorre a cisão parcial da FRB, sendo vertida a parte no qual detinha o investimento SN; A EMESA incorpora a SN, e na sequência, a EMESA incorpora a parte vertida da FRB, que detinha o registro do ágio; A EMESA passa a amortizar a despesa de ágio, por entender ter se consumado a hipótese de incidência prevista na legislação. São os fatos. Diante de todo o escrito no presente voto, a operação em análise não passa pela primeira verificação (vide item 8 do voto). Quanto ao aspecto pessoal, cabe verificar quem é efetivamente a pessoa jurídica investidora e a pessoa jurídica investida. A pessoa jurídica investidora é a FRL, que efetuou o aporte de recursos para aquisição do investimento EMESA com pagamento de sobrepreço, por ter sido realizado em valor superior ao do patrimônio líquido. É incontestável que foi a FRL a empresa que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, coordenou e comandou os estudos de rentabilidade futura do investimento a ser adquirido e desembolsou os recursos para a aquisição (vide item 7 do voto). Por sua vez, a pessoa jurídica investida foi a empresa EMESA. Ocorre que os eventos de incorporação deramse entre a EMESA e SN, e entre EMESA e FRB, ou seja, sem a presença da real investidora, o FRL. O fato de a pessoa jurídica FRB ter recebido o aporte de recursos do investidor FRL não lhe confere, na acepção do dispositivo normativo em análise, em nenhum momento, a condição de investidora. Nesse sentido, o aproveitamento da despesa de amortização de ágio promovido pela Contribuinte deuse sem respaldo legal, vez que não se consumou a hipótese de incidência prevista nos arts. 7º e 8·da Lei nº 9.532, de 1997. Fl. 2227DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.211 35 Por si só, tal aspecto já se mostra suficiente para restabelecer a glosa de despesa de amortização do ágio. Irretocáveis as constatações do Termo de Verificação Fiscal, descritos pela decisão recorrida: Segundo consta à fl. 10 do Termo de Verificação Fiscal Consoante ata de reunião do dia 30/10/2009, a Cia FRB (então, no papel de “controladora formal” da SN Mineração) autorizara a “incorporação” desta, por parte da ora fiscalizada (EMESA). Ou seja, a empresa SN Mineração (que até então controlava a Cia EMESA) fora absorvida pela própria controlada. No mesmo ato, aprovarase o Laudo de Avaliação do patrimônio liquido da Cia incorporada (SN Mineração), datado de 21/10/2009. Tudo isso, no contexto do documento intitulado “Protocolo de Cisão Parcial e Incorporação” (anexos) lavrado no dia 01/10/2009. Documento que formalizara a referida “combinação de negócios”; envolvendo, assim, a incorporação (pela EMESA) da sua então controladora (SN Mineração); concomitantemente ao registro formal de outra operação no caso, a absorção “direta” (pela própria EMESA) de parcela cindida do patrimônio contábil da Cia FRB. No que a parte cindida representava a participação societária detida sobre a SN Mineração, ou seja, o dito investimento sobre o qual se segregara o ágio em 2007. Para a autoridade fiscal autuante, as operações levadas a efeito, em realidade, nada mais eram do que “investimento externo na empresa residente SN Mineração; tendo, como protagonista, a empresa estrangeira Ferrous Resources Limited (FRL) – que promovera a operação e a arcara com o ônus financeiro dela decorrente”. Às fls. 42 e 43 do Termo de Verificação Fiscal, assevera ainda que o [...] contrato de compra e venda de quotas da SN, e respectivos “aditamentos” ajustados entre a adquirente estrangeira (Ferrous Ltd) e a alienante local”, e que de fato “a Cia estrangeira (Ferrous Ltd) fora quem (de fato) promovera, custeara e suportara o ônus decorrente da aquisição do controle acionário da empresa SN Mineração, tendo, naquela oportunidade, apenas contabilizado a aquisição em nome de uma pessoa jurídica “local” (FRB), que se vira constituída ao tempo da operação; e cujas quotas de capital foram subscritas e/ou integralizadas à medida que a investidora estrangeira firmava e/ou realizava os “compromissos” contratuais”. Aduz ainda que dos US$ 58,4 milhões pagos na aquisição do investimento US$ 16 milhões foram desembolsados diretamente no exterior, tendo esses valores sido contabilizados no “passivo” de RFB como dívidas contraídas junto a FRL (fl. 50 do Termo de Verificação Fiscal), concluindo que “[...] deparase, desta feita, com uma contraprestação monetária, também atribuída como realizada no exterior, cujo custo (ônus) financeiro fora diretamente suportado pelo adquirente ‘de fato’ (Ferrous Ltd). Ou seja, ainda que nitidamente suportado por ente distinto do Fl. 2228DF CARF MF 36 adquirente formalizado na operação (Cia FRB), tal dispêndio servira, no entanto, para compor a segregação contábil do ágio em tela, como se o custo de tal contraprestação tivesse sido suportado pela Cia ‘local’ a quem o efetivo adquirente atribuíra o papel de ‘investidor’”. É incontestável que as operações societárias engendradas, em sequência, no qual a EMESA incorpora a SN, e ato contínuo, incorpora a FRB, que era a empresa no qual havia sido efetuado o registro do ágio, tiveram como objetivo deliberado buscar o enquadramento na hipótese de incidência que autoriza a dedutibilidade da despesa. Vale observar o gráfico elaborado pela recorrente: Ocorre que, conforme demonstrado, a empresa investidora não foi a FRB, mas sim a sua controladora no exterior, a FRL, com sede no exterior, que efetivou os aportes financeiros necessários para a aquisição do investimento. Tal fato é confirmado pela própria Contribuinte no recurso especial: Em 2007, após intensa negociação, a FRB adquiriu 100% da participação societária da SN por R$ 198.730.445,34. Como confirmado pelo quadro constante do TVF (fl. 50), os pagamentos foram efetivamente realizados nas seguintes datas e valores: (...) Fl. 2229DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.212 37 Evidentemente, para que a FRB pudesse arcar com a parte financeira da negociação, a sua controladora (FRL) realizou os aportes, posteriormente convertidos em capital social da FRB. Em decorrência da aquisição da participação societária, a FRB contabilizou ágio fundamentado em rentabilidade futura. Constatase, com nitidez, a construção artificial do suporte fático, para que se pudesse amoldar à hipótese de incidência de despesa de amortização do ágio (item 6 do voto). Portanto, voto no sentido de negar provimento ao recurso especial da Contribuinte. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 2230DF CARF MF 38 Declaração de Voto Conselheiro Luís Flávio Neto O patrono do contribuinte suscita que o art. 24 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB (DecretoLei nº 4.657/1942), introduzido pela Lei nº 13.655/2018, determinaria o cancelamento da exigência fiscal discussão Alega o contribuinte que, à época da prática dos atos pertinentes à autuação fiscal, o seu agir seria convergente com jurisprudência majoritária do CARF, com a incidência da aludida norma veiculada pelo art. 24 da LINDB. Apresenta, ainda, levantamento jurisprudencial que supostamente evidenciaria a existência de decisões majoritárias considerando válidas operações muito semelhantes às praticadas. Tratase de enunciado prescritivo recentemente sancionado e a sociedade vem discutindo intensamente o seu conteúdo normativo e a sua eficácia para questões tributárias. Há, então, um primeiro passo a ser percorrido antes de adentrarse (ou não) na análise quanto à incidência da norma do art. 24 da LINDB ao caso ora sob julgamento: a delimitação da norma geral e abstrata veiculada pelo enunciado em questão. Contudo, para que se possa compreender os efeitos do art. 24 da LINDB, é preciso ter claro qual regime jurídico assistia o contribuinte antes de sua introdução pela Lei nº 13.655/2018. Dessa forma, organizo a presente declaração de voto da seguinte forma: 1. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018; 2. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF após a Lei nº 13.655/2018; 3. A aplicação do regime jurídico de proteção na confiança da jurisprudência do CARF ao caso concreto. 1. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018 O tema sob análise está intimamente relacionado à concepção de justiça fiscal, pois coloca em debate questões nucleares ao sistema tributário ideal, atinentes à segurança jurídica, à proteção da confiança, à boafé objetiva e à moralidade pública. Tratase do princípio da não surpresa no Direito Tributário, que requer, entre outras coisas, a proteção da confiança em entendimentos emanados da administração fiscal. A ideia central é que o contribuinte, ao pautar os seus atos em determinadas modalidades de atos da administração fiscal, potencialmente capazes de lhe gerar legítimas expectativas de cumprimento, não tenha a sua confiança arbitrariamente frustrada, com a imposição incerta de prejuízo surpresa. Do contrário, como adverte HUMBERTO ÁVILA9, “o seu investimento, em vez de orientado e respeitado pelo Direito, transformarseia em jogo de azar”. 9 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 48795. Fl. 2231DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.213 39 Antes de adentrarse no regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF existente antes da edição da Lei nº 13.655/2018, é relevante compreender a dimensão e a eficácia da proibição de comportamentos contraditórios em outros ramos do Direito, notadamente no Direito privado e administrativo. A incursão é útil para que se possa ter claro como tal princípio encontrase enraizado no ordenamento pátrio vigente. 1.1. Nemo potest venire contra factum proprium no Direito privado e administrativo. A investigação no âmbito do Direito privado e do Direito administrativo demonstra que a repulsa à perpetração de desvantagens derivadas de comportamentos contraditórios pressupõe: (i) o “factum proprium”, consubstanciado na conduta de uma das partes (“A”), dotada de algumas especificidades; (ii) a legítima expectativa da outra parte (“B”), cuja confiança seja protegida pelo Direito; (iii) o comportamento contraditório daquela primeira (“A”); (iv) capaz de gerar um dano a esta segunda (“B”).10 O princípio nemo potest venire contra factum proprium não foi homenageado com cláusulas gerais expressas nas codificações brasileiras do Direito privado. No Código Civil de 2002, há apenas a tutela de comportamentos contraditórios em temas que, ainda que fundamentais, são aplicáveis a situações específicas11. Não obstante, sob a égide do princípio da boafé objetiva e da proteção da confiança, não é novidade para os Tribunais brasileiros a existência e eficácia de norma geral de repulsa à obtenção de vantagens derivadas de comportamentos contraditórios. Já nos idos 1978, o Supremo Tribunal Federal (“STF”), ao decidir questão relacionada ao regime de bens decorrente de matrimonio contraído no exterior, adotou como argumento de decisão a “infração ao princípio geral de direito segundo o qual não pode a parte ‘venire contra factum proprium’”12. O levantamento dos julgamentos sobre a matéria demonstra que os Tribunais de diversas regiões do país têm enfrentado com considerável intensidade questões em que o princípio nemo potest venire contra factum proprium se mostra determinante. Entre estes, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (“TJDFT”) fornece exemplos interessantes, com o reconhecimento da vedação a comportamentos inesperados de uma das partes da relação jurídica, com surpresa e prejuízos à outra parte13. Em suas decisões, este Tribunal tem afirmado que a “vedação do comportamento contraditório (venire contra factum proprium) é decorrente do princípio da boafé objetiva e visa impedir que uma das partes, após ter gerado uma expectativa na outra, aja de forma incoerente com a conduta anterior”14, ou, ainda, que a “proibição do venire contra factum proprium ou teoria dos atos próprios visa proteger a parte 10 Vide, nesse sentido: SCHREIBER, Anderson. A proibição de comportamento contraditório: tutela da confiança e venire contra factum proprium. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2007, p. 284285. 11 Vide: Código Civil. Arts. 174, 475, 476 e 477. 12 BRASIL. STF. RE 86787, Relator Min. Leitão de Abreu, Segunda Turma, julgado em 20.10.1978, DJ 04.05.1979. 13Vide: Pesquisa temática de jurisprudência no sitio do TJDFT na internet. www.tjdft.jus.br/institucional/jurisprudencia/jurisprudenciae...dotjdft1/principiosdocdc/principiovenirecontrafactum proprium , acesso em 27.06.2016. 14 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 930746, 20150020147372AGI, Relator: MARIA DE FATIMA RAFAEL DE AGUIAR, 3ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 16/03/2016, Publicado no DJE: 07/04/2016. Fl. 2232DF CARF MF 40 contra aquele que deseja exercer um status jurídico em contradição com um comportamento assumido anteriormente”15. Ao tratar da cobrança de taxas decorrentes do estabelecimento de propriedade condominial, o TJDFT consignou que “há de se ter em mente que a ninguém é dado se beneficiar da sua própria torpeza (‘venire contra factum proprium’)”. 16 Em outro caso, ao analisar punições pelo atraso na entrega do imóvel pronto e acabado por empresa construtora, o TJDF concluiu que “a tentativa de eximirse de obrigação imposta pela própria ré em contrato de adesão ofende os princípios da probidade e da boafé, que os contratantes são obrigados a guardar durante a execução e conclusão do contrato (CC 422), e incorre em comportamento contraditório (venire contra factum proprium), proibido pelo ordenamento jurídico”.17 Como se pode observar, as decisões em questão, que combatem danos perpetrados por comportamentos contraditórios, em geral buscam fundamento jurídico nos princípios da segurança jurídica, probidade e boafé objetiva, com respaldo na tradicional doutrina do Direito privado. A boafé pode ser analisada sob duas perspectivas: objetiva e subjetiva. A boafé subjetiva corresponderia a um estado psicológico, em que o sujeito não teria conhecimento de transgressões (crença de não ofensa ao Direito), colocandose em discussão convicções do indivíduo. Por sua vez, pela perspectiva da boafé objetiva, a questão seria outra: o comportamento do sujeito se conformaria a imperativos éticos, com a adoção de modelos de conduta social? Enquanto o Código Civil de 1916 prestigiou a boafé subjetiva, o novo Código adotou como constante a sua modalidade objetiva, com destaque aos arts. 113 e 422 do Código Civil18, este último veiculando verdadeira cláusula geral da boafé19. Esse arcabouço jurídico torna a norma “nemo potest venire contra factum proprium”, ainda que implícito nas codificações, cogente no âmbito do Direito privado. E isso é de grande relevância ao presente estudo: a existência de dispositivos positivados no Código Civil, para a tutela de comportamentos contraditórios específicos, não prejudica a existência ou eficácia jurídica dessa norma, que permanece a irradiar efeitos sobre as hipóteses não contempladas pelas referidas regras positivadas. Tal como se dá no âmbito do Direito privado, são caros ao Direito administrativo os princípios da segurança jurídica, da boafé, da proteção da confiança e da moralidade pública.20 Acrescese, contudo, que há mandamento constitucional a ser considerado. O art. 37 da Constituição Federal determina que a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedeçam aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. ARRUDA ALVIM21 suscita que “esta alusão à moralidade, que consta do texto constitucional, 15 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 928319, 20140111993895APC, Relator: ALFEU MACHADO, Revisor: ROMULO DE ARAUJO MENDES, 1ª Turma Cível, Data de Julgamento: 16/03/2016, Publicado no DJE: 13/04/2016. 16 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 926744, 20150710112775APC, Relator: ANA MARIA DUARTE AMARANTE BRITO, 6ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 02/03/2016, Publicado no DJE: 17/03/2016. 17 BRASIL. TJDFT. Acórdão n. 923696, 20150310113102APC, Relator: SERGIO XAVIER DE SOUZA ROCHA, Revisor: JAMES EDUARDO DA CRUZ DE MORAES OLIVEIRA, 4ª TURMA CÍVEL, Data de Julgamento: 24/02/2016, Publicado no DJE: 13/04/2016. 18 Merecem menção, ainda, os arts 4o, III, e art. 51, IV, do Código de Defesa do Consumidor. 19 Vide: RUBINSTEIN, Flávio. BoaFé Objetiva no Direito Financeiro e Tributário Série Doutrina Tributária Vol. III São Paulo: Quartier Latin, 2010, p. 5051. 20 Nesse sentido, vide: FACCI. Lucio Picanço. A proibição de comportamento contraditório no âmbito da administração pública: a tutela da confiança nas relações jurídicoadministrativas. Disponível em http://www.agu.gov.br/page/download/index/id/7450652, acesso em 28.06.2016. 21 ALVIM, Arruda. Juiz federal. Lista tríplice. Alegada inobservância do art. 93, II, da Constituição Federal. Revista de direito Constitucional e Internacional, vol. 36, Jul – Set/2001, p. p. 288 – 306. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 288 – 306. Fl. 2233DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.214 41 parece justificarse na medida em que o venire contra factum proprium tem, igualmente, como a moral, substância ética”. Ao menos dois julgados do e. Superior Tribunal de Justiça (“STJ”) são emblemáticos na evidenciação de que essa norma geral da proibição de comportamentos contraditórios tem cogência no âmbito do Direito administrativo. No primeiro deles22, o Tribunal concluiu que não seria permitido à Fazenda Pública, “décadas após a venda do imóvel realizada por funcionário de alto escalão em nome da Administração, vir a juízo pleitear a nulidade dos títulos”, sob o fundamento de que, se mácula havia no título, “essa foi causada pelo próprio poder público, o qual não pode invocar o suposto equívoco do seu secretário de Estado, para prejudicar aquele que legitimamente adquiriu a propriedade, pagando para tanto”. Em um segundo julgado23, o STJ fez referência à teoria dos atos próprios, para condenar o comportamento contraditório da administração pública. O Tribunal analisou caso em que um município celebrou contrato de promessa de compra e venda de lote de sua propriedade, mas suscitou como causa de anulação do negócio um vício na regularização do loteamento, que havia sido promovido pela própria municipalidade. Em seus fundamentos, adotou o Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR como fundamento de decidir, in verbis: “Sabese que o princípio da boafé deve ser atendido também pela administração pública, e até com mais razão por ela, e o seu comportamento nas relações com os cidadãos pode ser controlado pela teoria dos atos próprios, que não lhe permite voltar sobre os próprios passos depois de estabelecer relações em cuja seriedade os cidadãos confiaram.” A proibição de contradição em relação aos atos próprios da administração pública corresponde a uma das consequências jurídicas que defluem da boafé enquanto núcleo de princípios como da moralidade administrativa e da segurança jurídica. Essa perspectiva é bem apresentada por PAULO MODESTO24, que suscita o dever do “sujeito titular de direitos ou prerrogativas públicas de respeitar a aparência criada por sua própria conduta anterior nas relações jurídicas subsequentes, ressalvando a confiança gerada em terceiros, regra fundamental para a estabilidade e segurança no tráfego jurídico”. O administrado, por conseguinte, não pode ser punido caso o agente administrativo vier a “emitir novo ato em contradição manifesta com o sentido objetivo dos seus atos anteriores, ferindo o dever de coerência para com o outro sujeito da relação sem apresentar justificação razoável”. Há, com isso, reciprocidade à presunção de legitimidade e legalidade de que gozam os atos administrativos. Se estes devem ser considerados a priori como legítimos e conforme o melhor direito (presunção relativa), os contribuintes têm razões evidentes para seguilos até que sejam desconstituídos ou reformados. Como uma via de mão dupla, deve haver proteção às condutas condizentes com a interpretação administrativa. 1.2. Nemo potest venire contra factum proprium no Direito tributário 22 BRASIL. STJ. REsp 47.015/SP, Rel. Ministro ADHEMAR MACIEL, SEGUNDA TURMA, julgado em 16.10.1997, DJ 09.12.1997. 23 BRASIL. STJ. REsp 141.879/SP, Rel. Ministro RUY ROSADO DE AGUIAR, QUARTA TURMA, julgado em 17.03.1998, DJ 22/06/1998. 24 Nesse sentido, vide: MODESTO, Paulo. Controle jurídico do comportamento ético da administração pública no brasil. Revista de Direito administrativo. Rio de Janeiro, 209, jul./set. 1997, p. 7678. Fl. 2234DF CARF MF 42 Ao mesmo tempo em que a certeza do Direito é fundamental, “a interpretação é inesgotável, o que importa reconhecer que os processos de geração de sentido continuam, incessantemente”25. De um mesmo texto legislado, interpretações variadas podem dar origem a normas jurídicas diferentes. Não são raras as vezes que compreensões antagônicas são sustentadas por parte do fisco e do contribuinte. No âmbito do Direito tributário, o relacionamento entre a administração pública e o particular ganha cores ainda mais vivas, posto que rotineiro e, nos dias atuais, de intensidade elevada. Nesse ambiente, é essencial que o cidadãocontribuinte tenha condições de pautarse de boafé na forma como a administração fiscal interpreta e aplica reiteradamente uma certa norma jurídica para, assim, organizar as suas atividades e os seus investimentos, sem o risco de vir a ser tributado de forma mais severa ou mesmo punido caso adote tais diretrizes. A passagem do status de súdito para cidadão racional garante ao indivíduo o direito à previsibilidade de seus atos, de tal forma que, ao conhecer a perspectiva do fisco sobre o Direito posto, seja possível ter segurança jurídica quanto às consequências que devem ser experimentadas a partir das condutas praticadas. Quando o fisco emite um ato administrativo, tornando transparente a sua interpretação quanto à mais correta aplicação do Direito a uma determinada situação, instalase um farol em meio à tempestade de incertezas em que muitas vezes navegam os particulares: o contribuinte passa a ter a legítima expectativa quanto à forma como a outra parte da relação jurídicotributária deverá atuar. Sob um ponto de vista pragmático, tais atos administrativos, dotados de presunção de legitimidade, têm o potencial de induzir grande parte da coletividade a adotar igual interpretação sem maiores questionamentos. Aplicamse, também no Direito tributário, os mesmos princípios suscitados acima, na análise de outros ramos do Direito, traduzidos em uma norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco. O elevado grau de complexidade do Direito tributário brasileiro, contraposto ao direito fundamental à segurança jurídica, exige que se atribua relevância às interpretações manifestadas pela administração tributária, com a proteção da legítima confiança do contribuinte e a consequente proibição de comportamentos contraditórios pela administração fiscal. A validade, a vigência e a eficácia das normas tributárias, como bem suscita HUMBERTO ÁVILA26, devem ser investigadas sob “perspectiva que conjugue equilibradamente o modo, o ritmo e a intensidade do exercício dos direitos fundamentais com o modo, o ritmo e a intensidade da atuação estatal”. A segurança jurídica, nessa condição de princípiocondição, torna essencial a preservação da confiança e da nãosurpresa quanto aos atos administrativos: “o Estado não pode nem se afastar injustificadamente das suas próprias posições, nem pode deixar de atribuir tratamento uniforme a todos os cidadãos”, afinal, “como os atos administrativos se revestem de força normativa, também a confiança daqueles que acreditaram na sua aparência de legitimidade deve ser protegida”, leciona ÁVILA. A segurança jurídica, na feliz colocação de LEANDRO PAULSEN27, representa “valor supremo” do Estado Democrático, como “qualidade daquilo que está livre de perigo, livre de risco, protegido, acautelado, garantido, do que se pode ter certeza ou, ainda, daquilo 25 CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de direito tributário. São Paulo : Saraiva, 2000, prefácio à 13a edição. 26 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 486; 491; 765. 27 PAULSEN, Leandro. Curso de direito tributário completo. 4 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2012, p. 98 e seg. Fl. 2235DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.215 43 em que se pode ter confiança, convicção”, encontrando dimensões variadas, entre as quais a “confiança no tráfego jurídico”, que prescreveria a proteção da boafé e da aparência. A tutela da boafé e da legítima confiança, com a consequente proibição de comportamentos contraditórios da administração fiscal, também encontra fundamento no princípio da legalidade, cuja proteção se estende àqueles que utilizam o Direito como fundamento para o direcionamento de livre arbítrio que lhes é inerente.28 Leciona SACHA CALMON NAVARRO COELHO29 que, “dado que ninguém está obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa a não ser em virtude de lei, a segurança jurídica a que faz jus o contribuinte entronca diretamente com a tese ou princípio da ‘proteção da confiança’.” Assim como ocorre em outras searas, não se poder dizer que a norma nemo potest venire contra factum proprium seja novidade na jurisprudência tributária. Uma decisão emblemática sobre o tema foi proferida pelo STF30 nos anos 90. No caso, em um período de inflação galopante, uma determinada empresa formalizou consulta a um fisco estadual, questionando o momento correto para a apuração e recolhimento do ICMS. Ao receber a solução da consulta, com a ressalva de que a sua não obediência daria ensejo a autuação fiscal, o particular passou a obedecêla sem questionamentos. Tempos depois, ao perceber que concorrentes adotavam entendimento diverso e que isso lhes imprimia substancial vantagem financeira, realizou nova consulta ao fisco, sendo surpreendido com diametral mudança de entendimento por parte deste. O contribuinte, então, ajuizou ação judicial para ser indenizado pelos danos causados por comportamentos contraditórios da administração, que ofenderiam a proteção à confiança e à boafé. A Suprema Corte brasileira decidiu que “a relação jurídica Estado/contribuinte há de repousar, sempre, na confiança mútua, devendo ambos atuarem com responsabilidade, fieis ao ordenamento jurídico em vigor”. Com fundamento na proteção da confiança e da boafé, o Estado foi condenado a indenizar os prejuízos causados. O relator, Ministro Marco Aurélio, destacou ter o contribuinte “demonstrado inegável confiança no fisco e, portanto, havendo adotado postura de absoluta boafé”. O e. STJ31, por meio de recurso especial representativo de recursos repetitivos, determinou a aplicação da referida norma para a proteção da expectativa do contribuinte à adesão a parcelamentos tributários. Conforme a decisão da Corte, “o titular do direito subjetivo que se desvia do sentido teleológico (finalidade ou função social) da norma que lhe ampara (excedendo aos limites do razoável) e, após ter produzido em outrem uma determinada expectativa, contradiz seu próprio comportamento”, ofende “a máxima nemo potest venire contra factum proprium”. Notese que, à semelhança das outras searas jurídicas analisadas, a norma geral de proibição de comportamentos contraditórios tem sido aplicada pelo Poder Judiciário como válida, vigente e eficaz no Direito tributário, muitas vezes independentemente de positivação quanto a situações específicas. 28 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica no Direito Tributário – entre permanência, mudança e realização. Tese apresentada no concurso de professor titular de Direito Tributário da Universidade de São Paulo. São Paulo : USP, 2009, p. 48795. 29 COELHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro, 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 397 e seg. 30 BRASIL. STF. RE 131741, Relator Min. MARCO AURÉLIO, SEGUNDA TURMA, julgado em 09.04.1996, DJ 24.05.1996. 31 BRASIL. STJ. REsp 1143216/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 24.03.2010, DJe 09.04.2010. Fl. 2236DF CARF MF 44 Há, contudo, algumas regras positivadas para tutela de algumas hipóteses de comportamentos contraditórios da administração fiscal. Em especial, o art. 100 do Código Tributário Nacional (“CTN”), legitimado pela Constituição como fonte primária apta a veicular normas gerais de Direito tributário, prescreve a exclusão de “penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo” caso o contribuinte obedeça a normas complementares consubstanciadas em atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas (inciso I), decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa, a que a lei atribua eficácia normativa (inciso II), em práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas (inciso III) ou, ainda, em convênios que entre si celebrem os entes federados (inciso IV).32 Décadas atrás, tomando como exemplo as circulares, portarias, instruções e ordens de serviço, RUBENS GOMES DE SOUSA33, um dos mais notórios idealizadores do CTN, lecionava tratarse de fontes secundárias do Direito tributário que, “definindo o ponto de vista da administração pública, ajudam a entender o sentido e o alcance da lei, devendo ser levados em consideração pelo juiz para esse efeito, e podendo ser invocados em sua defesa pelos particulares, quando tenham agido de acordo com eles, ou quando os funcionários pretendam agir diversamente e em prejuízo do particular”. Independentemente da roupagem que lhes sejam atribuídos (portaria, instrução normativa, “perguntas e respostas”, ato declaratório, solução de consulta etc.), atos administrativos vocacionados à informação da coletividade quanto à interpretação fazendária geram legítimas expectativas de cumprimento na esfera de direitos de cada contribuinte. Em face desse status jurídico, o particular poder clamar por segurança jurídica e reclamar a proteção da boafé e da confiança no caso de comportamento contraditório por parte do fisco (norma geral de não autuação de condutas condizentes a tais atos). Em relação a atos dessa natureza, parece clara a incidência do art. 100 do CTN. Até que os contribuintes sejam devidamente conscientizados quanto à alteração de interpretação da administração fiscal, aqueles que adotarem a interpretação manifestada não poderão ser punidos ou cobrados de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo. Algumas observações são fundamentais quanto aos enunciados prescritivos do art. 100 do CTN. A norma em questão tem como escopo uma porção limitada de hipóteses, com caráter não exaustivo e com a possibilidade de uma situação subsumirse a mais de um de seus incisos. Em comum, nos incisos do art. 100 do CTN, o legislador elegeu como critério de discrímen atos administrativos não direcionados especificamente ao contribuinte, mas com potencialidade de criar na coletividade a expectativa de cumprimento da norma tributária de determinada maneira, com a imposição de tributos e acessórios de forma contraditória com seu próprio entendimento. Importante gama de situações, portanto, está fora do escopo do art. 100 do CTN, o que é um dado muito relevante. Ocorre que, assim como se dá no âmbito do Direito privado, em que previsões específicas no Código Civil não impedem a fruição do princípio 32 Vide: MANNINO, Enrico Estefan; ZEITUNE, Daniel Duque Estrada. Nãotributação da variação cambial positiva pelo PIS e Cofins – observância às práticas reiteradas da Fazenda Pública – proibição ao comportamento próprio contraditório – venire contra factum proprium”. In: Revista Dialética de Direito Tributário v. 99. São Paulo: Dialética, 2003, p. 124132. 33 SOUSA, Rubens Gomes de. Compêndio de Legislação Tributária. Rio de Janeiro: Edições Financeiras S.A., 1964, p. 5152. Fl. 2237DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.216 45 nemo potest venire contra factum proprium às situações não abrangidas por estas, uma série de hipóteses que não estejam sob o escopo do art. 100 do CTN podem gozar, por eficácia direta de princípios jurídicos, da proteção da norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco. Também é preciso ter claro que o art. 100 do CTN não prescreve um privilégio aos contribuintes. Essa visão poderia transmitir uma falsa ideia de benevolência opcional consentida pelo legislador, ofuscando a norma geral de proibição de comportamentos contraditórios que, conforme se verifica, encontra fundamento de validade imediatamente em princípios como segurança jurídica, boafé, proteção da confiança e moralidade pública. Na verdade, o art. 100 do CTN, ao regular as hipóteses sob o seu escopo, restringe a eficácia normativa dessa norma geral. Esse caráter restritivo é evidenciado por seu parágrafo único, que protege o particular apenas contra a imposição de “penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo”, mas permite a cobrança do débito principal. Não fosse a tutela expressa de tais hipóteses pelo legislador, o venire contra factum proprium poderia ser diretamente reclamado pelo contribuinte para a discussão inclusive do tributo (principal). No acórdão n. 930301.355, ao reconhecer que uma determinada decisão administrativa teria induzido o contribuinte à adoção de uma classificação fiscal para certas mercadorias importadas e, assim, à apuração dos tributos de importação com alíquotas reduzidas, a CSRF compreendeu incabível tanto a imposição de penalidades quanto a própria cobrança dos tributos (débito principal). A aludida decisão restou assim ementada: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 14/01/1998, 17/12/1999 CLASSIFICAÇÃO FISCAL. CONTRIBUINTE. ENTENDIMENTO FIXADO PELA PRÓPRIA FISCALIZAÇÃO EM OUTRO AUTO DE INFRAÇÃO. INCIDÊNCIA DO ARTIGO 100, PARÁGRAFO ÚNICO DO CTN. PROIBIÇÃO DO VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM. Não procede a autuação, com base em errônea classificação fiscal de produto importado pelo contribuinte, quando esta classificação se baseia em entendimento fixado pela própria fiscalização em outra autuação, relativa ao mesmo produto. Incidência do principio da proibição do "venire contra factum proprium", que veda que as partes, numa da relação jurídica, adote comportamentos contraditórios. Recurso Especial do Procurador Negado. CARF. 3ª Turma da CSRF. Acórdão nº 930301.355. Sessão de 02.02.2011. A decisão em questão tem o mérito de evidenciar a carga normativa dos princípios da segurança jurídica, da confiança e da boafé, com a eficácia da norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do fisco a hipóteses não contempladas pelos arts. 100 ou 112 do CTN e, portanto, não sujeitas às restrições prescritas em seus enunciados. Em situações como essa, embora o art. 146 do CTN autorize alterações de ofício nos critérios jurídicos em relação a períodos de apuração diversos, o sistema jurídico excepciona a hipótese em que o contribuinte evidencie ter adotado como norte uma determinada interpretação com base no critério jurídico anteriormente manifestado pela autoridade administrativa. Fl. 2238DF CARF MF 46 Notese que, embora o art. 146 do CTN se refira à autoridade administrativa “no exercício do lançamento”, também decisões adotadas pelo CARF estão submetidas ao seu comando, como já lecionava Aliomar Baleeiro, ao afirmar que, “embora o Código não se refira especificamente à hipótese, o art. 146 é inteiramente aplicável, pois, em uma decisão dessa natureza, os critérios jurídicos de julgamento são ainda mais certos e definidos, configurando precedente intransponível, a nortear o comportamento da Fazenda e do contribuinte para o futuro”. Por fim, merece especial destaque a decisão recentemente proferida pelo e. STF, na sessão de 24.04.2018, no julgamento do Segundo Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo 951.533 – ES, em que analisouse, diretamente com base no princípio da segurança jurídica, quais os efeitos da mudança brusca da jurisprudência, compreendendose que “o princípio da segurança jurídica, no entanto, impede a aplicação da nova orientação ao caso concreto”. Colhemse os seguintes fundamentos do voto vencedor proferido pelo i. Ministro Dias Toffoli34, in verbis: “Com a devida vênia, entendo que a tese de número 2, acima identificada, merece ser acolhida com base diretamente no princípio da segurança jurídica. Vejamos. Conforme consta dos autos, até o julgamento do EREsp nº 435.835/SC, acórdão publicado em 4/6/07, o STJ entendia que o prazo prescricional relativo à pretensão de restituição de tributo declarado inconstitucional tinha início a partir da data da declaração de inconstitucionalidade da exação pelo Supremo Tribunal Federal ou da resolução do Senado Federal. Com o julgamento daqueles embargos de divergência, a Corte Superior mudou sua jurisprudência, passando a consignar que, independentemente de declaração de inconstitucionalidade, deveria prevalecer, para efeito de fixação do prazo prescricional, a tese conhecida como “cinco mais cinco”, isto é, no caso de tributos sujeitos a homologação, cinco anos contados a partir do fato gerador mais cinco anos contados da data da homologação tácita. Em face disso, interpôsse o recurso extraordinário sob a alegação de afronta ao princípio da segurança jurídica, uma vez que a mudança jurisprudencial não teria sido acompanhada de qualquer espécie de regra de adaptação, passando a ser aplicada, de imediato, não só às ações movidas após o referido julgamento, mas também àquelas que já haviam sido ajuizadas, respeitandose o prazo prescricional anteriormente consolidado. Desse modo, por força unicamente daquela guinada jurisprudencial, diversos contribuintes que já haviam ingressado em juízo e contavam com decisões favoráveis nas instâncias ordinárias – observandose o prazo prescricional anterior – teriam visto suas pretensões ser automaticamente fulminadas, apesar de nunca terem ficado inertes. A parte ora recorrente é um desses contribuintes. Resta saber se seria possível a Corte, em sede de recurso extraordinário, conceder, com base diretamente no princípio da segurança jurídica (confiança no tráfego jurídico e acesso à Justiça), espécie de provimento que, ao cabo, resulte em modulação temporal dos efeitos da decisão proferida pelo STJ no julgamento dos embargos de divergência. Para o Relator, isso não seria admissível, em razão, notadamente, de dois motivos: a) não existiria direito absoluto à manutenção de jurisprudência, “de sorte a obrigar o EstadoJuiz a manter seus posicionamentos eternamente estáveis”, especialmente quando se leva em conta que aquele entendimento anterior do STJ não estava sedimentado em enunciado de súmula nem havia sido proferido segundo a sistemática dos recursos repetitivos; b) seria necessário o reexame do conjunto fático 34 Fonte: Conjur. Fl. 2239DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.217 47 e probatório constante dos autos, o que é vedado, de acordo com a Súmula nº 279 da Corte. Com a devida vênia, entendo que esses argumentos, embora sejam geralmente aplicáveis aos apelos extremos em que se discute a modulação de efeitos de decisão proferida por instâncias inferiores, não o são ao caso em tela. É importante ter em mente que não se pleiteia, por meio da tese ora em discussão, a manutenção ad eternum do entendimento prevalecente na Corte Superior anteriormente ao julgamento daquele caso paradigmático (EREsp nº 435.835/SC). O que se requer é que, com base diretamente no princípio da segurança jurídica, a mudança brusca da jurisprudência acerca do prazo prescricional não alcance a presente ação, a qual estava em curso na data do julgamento ou da publicação do acórdão (4/6/07), questão constitucional passível de análise em sede de recurso extraordinário. (...) Pois bem. No caso, verificase que o Tribunal Regional Federal da 2ª Região superou a arguição de prescrição, aplicando o entendimento então consolidado no STJ de que o prazo prescricional para se postular a repetição de indébito no caso concreto somente teria início com a declaração de inconstitucionalidade da norma pelo Supremo Tribunal Federal. Em seguida, aquele Tribunal adentrou no mérito para assentar que o Decretolei nº 2.295/86 se revelara, desde sua edição, incompatível com a Emenda Constitucional nº 01/69, devendo os recolhimentos realizados e comprovados nos autos ser restituídos, na medida em que a cobrança não tinha suporte legal. Vale também destacar, no tocante ao mérito da discussão, que o tributo questionado na ação foi declarado inconstitucional pelo Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE nº 408.830/ES, Relator o Ministro Carlos Velloso, sessão de 15/4/04, DJ de 4/6/04: “CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÃO. I.B.C. CAFÉ: EXPORTAÇÃO: COTA DE CONTRIBUIÇÃO. D.L. 2.295, DE 21.11.86, ARTIGOS 3º E 4º. C.F./1967, ART. 21, § 2º, I; C.F., 1988, ART. 149. I. Não recepção, pela C.F./88, da cota de contribuição nas exportações de café: D.L. 2.295/86, arts. 3º e 4º. Precedentes do S.T.F. II. Inconstitucionalidade da cota de contribuição do I.B.C. D.L. 2.295/86, arts. 2º e 4º frente à C.F./67, art. 21, I, ex vi do disposto no inciso I do § 2º do mesmo art. 21. III. R.E. conhecido e improvido” (RE nº 408.830/ES, Tribunal Pleno, Relator o Ministro Carlos Velloso, DJ de 4/6/04). Por fim, observo que a matéria devolvida ao Superior Tribunal de Justiça pelo recurso especial interposto referiuse exclusivamente à questão do termo inicial do prazo prescricional. Foi nesses termos estritos que o Superior Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso especial, assentando a tese de que a prescrição do direito de pleitear a restituição/compensação relativamente aos tributos sujeitos a lançamento por homologação ocorrerá após expirado o prazo de cinco anos contados a partir do fato gerador, acrescido de mais cinco anos da data da homologação tácita (tese dos dez anos). O princípio da segurança jurídica, no entanto, impede a aplicação da nova orientação ao caso concreto.” Fl. 2240DF CARF MF 48 É forçoso concluir, portanto, que mesmo antes da edição da Lei nº 13.655/2018 já vigia normas cogentes de proteção da confiança na jurisprudência tributária. A jurisprudência do CARF naturalmente não está imune a norma. 1.3. No âmbito federal, qual norma de proteção da confiança do contribuinte na jurisprudência do CARF existia antes da Lei nº 13.655/2018? As normas de âmbito constitucional ou aquelas veiculadas por lei complementar (Constituição Federal, art. 146) têm o potencial de estabelecer “normas gerais em matéria tributária”, no sentido de que são vocacionadas à tutela de relações no âmbito dos Municípios, Estados, Distrito Federal e União. Por sua vez, cada ente federado detém a competência para estabelecer critérios próprios para vivificar o princípio da não surpresa com relação ao seu âmbito de atuação fiscal. Na ausência de lei complementar sobre a matéria, cada ente federado é competente para regular a matéria, com o exercício de “competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades”, mas a “superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia da lei” em questão, “no que lhe for contrário” (Constituição Federal, art. 24, inciso I, § 1º, § 2º, § 3º e § 4º). Por sua vez, caso exista lei complementar sobre o tema, ainda assim cada ente federado possuirá competência para legislação sobre a matéria, seja para atribuir maior efetividade aos mesmos critérios adotados em normas gerais ou, ainda, para estabelecer padrões ainda mais elevados de proteção da confiança que aqueles previstos em normas gerais. Assim, a enunciação leis ordinárias representa declaração expressa de qual grau de proteção à confiança é reconhecida pelo respectivo ente federado como mandatória independentemente de questionamentos. Nesse cenário, para o julgamento do caso concreto, é preciso verificar qual a interação entre as aludidas normas gerais, aplicáveis indistintamente a todos os entes federados, e aquelas com eficácia apenas sobre as relações jurídicotributárias de âmbito federal, por decorrerem de veículos normativos editados pela própria União para regular o seu âmbito de atuação fiscal. Entre situações dessa natureza, é possível cogitar, por exemplo, soluções de consultas formuladas pelo contribuinte ou, ainda, decisões em processos administrativos de que este seja parte. As consultas fiscais, na bem formulada explicação de JOSÉ SOUTO MAIOR BORGES35, têm justificativa no “estado de incerteza objetiva”, do qual decorreria “instabilidade incompatível com o valor constitucional da segurança jurídica”, asseguradas pelo direito à segurança nas relações entre fisco e contribuinte, instrumentalizado pelo direito de petição garantido pela Constituição Federal, art. 5º, XXXIV, “a”. Embora possa haver controvérsia quanto à obrigatoriedade de o contribuinte observar a solução da consulta a ele endereçada36, parece indiscutível a vinculação da administração fiscal perante o aludido consulente. Indiscutível, ainda, é a possibilidade de a administração fiscal rever o entendimento esposado 35 BORGES, José Souto Maior. Sobre a preclusão da faculdade de rever resposta prócontribuinte em consulta fiscal e descabimento de recurso pela Administração fiscal. Revista Dialética de Direito Tributário v. 154. São Paulo: Dialética, 2008, p. 78. 36 Sobre a questão, vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Algumas reflexões sobre a consulta em matéria fiscal. Revista Direito Tributário Atual v. 14, São Paulo: Resenha Tributária/IBDT, 1995, p. 1314. BORGES, José Souto Maior. Sobre a preclusão da faculdade de rever resposta prócontribuinte em consulta fiscal e descabimento de recurso pela Administração fiscal. Revista Dialética de Direito Tributário v. 154. São Paulo: Dialética, 2008, p. 77. Fl. 2241DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.218 49 em soluções de consulta, devendo respeitar, contudo, a forma legal requerida e, ainda, proibição à retroatividade e à frustração de legítima expectativa de cumprimento37. No âmbito da União, a legislação tributária federal38 reconhece a possibilidade de alteração do entendimento manifestado pela administração em consulta de particular quanto à classificação fiscal ou à aplicação da legislação tributária e aduaneira a uma determinada hipótese fática, prescrevendo as respectivas consequências jurídicas. Notese que, cumprindo com o que requer princípios como segurança jurídica, boafé, proteção da confiança e moralidade pública, o legislador federal expressamente obriga que se mantenha o entendimento manifestado pela administração fiscal até a data da notificação do contribuinte quanto à nova compreensão quanto à classificação fiscal mais adequada à mercadoria em questão (irretroatividade).39 No caso de solução de consulta atinente à aplicação da legislação tributária e aduaneira, o legislador igualmente preserva a expectativa de direitos do contribuinte gerada pela manifestação original da administração fiscal, mas possibilita que nova interpretação passe a surtir efeitos tanto a partir da ciência ao consulente como da sua publicação pela imprensa oficial, o que exige maiores atenções.40 Interessa notar que, quer seja por força dos princípios analisados, quer seja por normas atualmente prescritas pelo legislador ordinário (âmbito federal), o nemo potest venire contra factum proprium vincula a administração fiscal que responde a solução de consulta, com a proteção do contribuinte contra prejuízo surpresa que lhe seja imposto por comportamentos contraditórios de autoridades administrativas. Mas são as decisões do CARF que ora demandam maior atenção. Em geral, atos administrativos individualizados, como decisões do CARF direcionadas a um determinado contribuinte, não apresentam a priori eficácia perante terceiros. Não obstante, fatores especialmente relacionados com a constância e/ou hierarquia destes atos são potencialmente capazes de criar legítimas expectativas de cumprimento em toda coletividade. Assim, decisões do CARF enunciadas com constante convergência ou, ainda, pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (“CSRF”), cuja função é justamente a uniformização jurisprudencial. Decisões dessa natureza geram inegáveis expectativas de como a administração fiscal aplica o Direito tributário, pois apresentam elevada eloquência para a transmissão de mensagem à sociedade que, de boafé, poderá compreender como agir para estar em conformidade com as exigências da administração fiscal. Mostrase mandatória, portanto, a garantia do nemo potest venire contra factum proprium. Nesse seguir, atos administrativos de caráter individualizado, mas com potencial de gerar expectativas de cumprimento na coletividade, podem ser qualificadas sob o escopo dos incisos II e/ou III do art. 100, bem como do art. 112, ambos do CTN. Notese que os aludidos incisos não apresentam hipóteses hermeticamente fechadas, podendose cogitar da aplicação de um ou mais deles para a tutela de uma mesma situação. O art. 100, III, do CTN, atribui o status de norma complementar aos “critérios costumeiramente adotados pela administração tributária, relativamente à forma de 37 Vide: SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo : Saraiva, 2011, p. 116. 38 Vide: Lei n. 9.430/96, Decreto n. 70.235/72 e Decreto n. 7.574/2011. 39 Vide: Lei n. 9.430/96, art. 50, Decreto n. 7.574/2011, art. 99. 40 Vide: Lei n. 9.430/96, art. 48, Decreto n. 7.574/2011, art. 100. Fl. 2242DF CARF MF 50 aplicação do Direito Tributário”41. Para que as decisões sob exame se enquadrem nessa moldura, deve haver razoável constância decisória (reiteração de precedentes) capaz de criar expectativa de cumprimento na coletividade. Registrese, então, ser bastante controversa como seria aferível a aludida constância decisória, o que pode explicar a baixa eficácia concreta da norma, bem como justificar as providências adotadas pela União para atribuir maior concretude à proteção da confiança do contribuinte. Notese, ainda, que o art. 927 do novo Código de Processo Civil42 (“Novo CPC”) reconhece a importância de decisões individuais para a criação de legítimas expectativas de cumprimento em toda coletividade, com a determinação para que os tribunais deem publicidade a seus precedentes, organizandoos por questão jurídica decidida e divulgandoos, preferencialmente, na internet. Já conforme prescreve o art. 926 do Novo CPC, os tribunais devem uniformizar a jurisprudência e mantêla estável, íntegra e coerente, inclusive com a edição de súmulas. Sob pena de ofensa a esse enunciado prescritivo, é preciso adotar como pressuposto que decisões proferidas por uma instância uniformizadora da interpretação do tribunal administrativo, como é o caso da CSRF, serão repetidas em casos semelhantes, com a manutenção da jurisprudência estável, íntegra e coerente. As legítimas expectativas de estabilidade, integridade e coerência, geradas a partir do pronunciamento uniformizador de um tribunal administrativo, devem gozar, portanto, da proteção do Direito contra comportamentos contraditórios de autoridades fiscais. Notese que o art. 112 do CTN obriga que o intérprete considere fatores como “natureza”, “circunstâncias materiais do fato” e “punibilidade”. Em caso de “dúvida” que circunde os referidos fatores, a norma que prevê penalidades deve ser aplicada “da maneira mais favorável ao acusado”. Não se pode negar que a constância de precedentes de um tribunal administrativo, ou decisão do seu órgão máximo de julgamento, sejam geradoras por excelência de expectativas de cumprimento ou, ao menos, de dúvidas razoáveis por parte dos contribuintes. Tais decisões, produzidas para o controle da legalidade dos lançamentos tributários, tão logo se tornam públicas, passam a influenciar a tomada de decisões do mais cauteloso dos contribuintes. O particular que, de boafé, se preocupar em ser diligente e cumprir com todos os seus deveres perante o fisco brasileiro, sem dúvida precisará contar com o auxílio de um consultor tributário (“compliance cost”), que terá como parte fundamental de seu trabalho verificar diligentemente como a administração fiscal, especialmente por seus órgãos decisórios, aplica os enunciados legais que influenciam o caso sob a sua análise. Há um relacionamento interessante entre os arts. 100 e 112 do CTN. Se, por um lado, o art. 112 deixa em aberto quais critérios podem ser utilizados para que o aplicador verifique se há a “dúvida” que lhe obriga a interpretar a penalidade da forma mais favorável ao acusado, por outro, o art. 100 do CTN não exclui das decisões administrativas colegiadas a serventia de se prestarem à aferição da referida “dúvida” e da razoabilidade da conduta adotada pelo contribuinte. Notese que o legislador complementar exige que exista “dúvida”, o que não é afastada simplesmente pela existência de uma decisão isolada divergente de uma série constante de decisões em um sentido convergente. Novamente registrese ser bastante controversa como seria aferível a aludida “dúvida”, o que pode explicar a baixa eficácia concreta também da norma do art. 112 do CTN, bem como pode justificar providências adotadas pela União para atribuir maior concretude à proteção da confiança do contribuinte. 41 GRAU, Eros Roberto. Conceito de tributo e fontes do direito tributário. São Paulo: IBDT, 1975, p. 56. 42 Lei n. 13.105/2015. Fl. 2243DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.219 51 Adotandose o CARF como exemplo, um julgado de suas Turmas Ordinárias, que destoe de uma série constante de decisões, terá inclusive um papel importante no processo de estabilização do Direito tributário. Tal decisão divergente enseja a atuação da CSRF para a uniformização da jurisprudência administrativa e, diante de sua decisão uniformizadora, a sociedade poderá compreender com mais certeza quais condutas são (ou têm sido) legitimadas pela administração fiscal, como um aceno de segurança jurídica àqueles que seguirem o mesmo caminho. Nesse seguir, caso o contribuinte trilhe o sentido indicado por uma constância de decisões de um tribunal administrativo ou, ainda, enunciadas por seu órgão máximo de julgamento, o ordenamento jurídico lhe garante alguma proteção. Caso aquele tribunal administrativo posteriormente altere o seu padrão de entendimento sobre o tema em questão, então será preciso reconhecer que haveria, na vigência do entendimento pretérito, ao menos a “dúvida” requerida pelo art. 112 do CTN. Por sua vez, de forma ainda mais específica, o art. 100, II, do CTN, erigiu “as decisões dos órgãos singulares ou coletivos de jurisdição administrativa” com status de normas complementares, desde que a lei lhes atribua “eficácia normativa”. Confirmando essa hipótese, o art. 76, II, “a”, da Lei n. 4.502/64, atribui eficácia normativa a determinadas decisões de tribunais administrativos para afastar a aplicação de penalidades aos contribuintes que lhe adotarem como diretriz para a condução de seus atos, tornando explícita a incidência da norma do art. 100, II, do CTN. O legislador ordinário, contudo, estabeleceu critérios e consequências próprias à norma geral de proibição de comportamentos contraditórios. Por meio do art. 76, II, “a”, da Lei n. 4.502/64, o legislador ordinário se satisfez com uma única decisão da CSRF como requisito para a demonstração da razoabilidade da conduta do acusado capaz de lhe garantir proteção jurídica contra comportamentos contraditórios da administração fiscal (“decisão irrecorrível de última instância administrativa, proferida em processo fiscal”). Não se exigiu constância de entendimento do CARF, pois o legislador adotou o singular (“decisão irrecorrível”) para fazer referência àquilo que serviria de escusa à aplicação de penalidade, enfatizando que o contribuinte não necessita ser parte do procedimento administrativo que deu origem à decisão paradigmática (“seja ou não parte o interessado”). A Lei n. 4.502/64, art. 76, II, “a”, assim, apenas declara a garantia do nemo potest venire contra factum proprium, com caráter meramente pedagógico ou didático43. Contudo, em comparação com o CTN, ao tornar imprestável a pluralidade das decisões convergentes, satisfazendose apenas uma decisão da CSRF, o legislador ordinário, pode ser considerado restritivo, pois a constância de decisões de Turmas Ordinárias já poderia ser suficiente para a incidência da norma do art. 100 do CTN. 43 Há no sistema jurídico normas cuja função é meramente pedagógica, declaratória, didática. Tais normas não são, em absoluto, imprescindíveis, já que não lhes cabe mais do que repisar de forma mais clara e eficaz à sociedade algum mandamento já existente no ordenando jurídico. A importância de normas gerais e abstratas meramente pedagógicas pode estar relacionada com a necessidade de se lembrar aos aplicadores do Direito a sua cogência, de modo que, quanto menor a eficácia social das normas do sistema jurídico, mais pertinência pode vir a ter enunciados prescritivos meramente pedagógicos, didáticos. Fl. 2244DF CARF MF 52 São, contudo, controvertidas algumas questões sobre a eficácia da Lei n. 4.502/64, art. 76, II, “a”, a exemplo de sua aplicação restrita ao IPI ou, ainda, de sua vigência no sistema jurídico atual.44 Somese a todo esse arcabouço jurídico enunciado pela União para a tutela de sua própria seara de atuação a Lei n. 9.784/1999, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, cujo art. 2º assim dispõe: Art. 2. A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (...) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação. Nesse cenário, fica mais claro que, mesmo antes da edição da Lei nº 13.655/2018 já vigia normas cogentes de proteção da confiança na jurisprudência tributária, especialmente aquela produzida no âmbito do CARF. 2. O regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF após a Lei nº 13.655/2018. Diante da possibilidade da competência detida pela União (tal como ocorre em relação aos demais entes federados), está em questão se o art. 24 da LINDB, introduzido pela Lei nº 13.655/2018, (i) seria ou não aplicável ao processo administrativo fiscal e; (ii) caso aplicável, qual seria o seu conteúdo normativo em face de processos sob julgamento neste Tribunal. Para solução da primeira questão, é salutar verificar que, de todos os dispositivos introduzidos Lei nº 13.655/2018 à LINDB, apenas o art. 22 parece não ser aplicável ao à matéria tributária, por expressa disposição legal. Ocorre que o aludido dispositivo trata expressamente apenas da interpretação de normas sobre gestão pública. Por sua vez, os demais dispositivos parecem irradiar efeitos mais amplos, inclusive com eficácia sobre o processo administrativo fiscal. Afinal, é possível afirmar que, ao se decidir com base em valores jurídicos abstratos, os Conselheiros do CARF não precisam considerar as consequências práticas da decisão ou, ainda, motivála com a necessidade e adequação da medida (art. 20)? Ao decretar a invalidação de determinado ato, os Conselheiros do CARF não devem indicar de modo expresso suas consequências jurídicas e administrativas (art. 21)? O CARF, antes de enunciar o seu atual regimento interno, procedeu prévia consulta pública, oportunizando a apresentação de uma série de sugestões advindas de diversos setores da sociedade: não estaria este Tribunal justamente vivificando as normas da LINDB (art. 29)? 44 Entre as questões geralmente suscitadas, destacamse: Haveria proporcionalidade na suposta distinção do legislador, em tutelar exclusivamente as relações jurídicotributárias atinentes ao IPI? A não reprodução desse dispositivo no Regulamento do IPI evidencia a sua revogação? Fl. 2245DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.220 53 Portanto, permissa vênia, parece ser bastante preocupante negar a priori a aplicação das normas introduzidas pela Lei nº 13.655/2018 ao processo administrativo tributário. Qual seria, então, o conteúdo normativo desses dispositivos em face de processos sob julgamento neste Tribunal? Não se pode interpretar os arts. 23 e 24 da LINDB de forma isolada, desconectados do sistema jurídico em que deverão ser aplicados. A regra em análise encontra raízes “nemo potest venire contra factum proprium” que, no âmbito do Direito tributário brasileiro, é sucedânea dos princípios da segurança jurídica, proteção da confiança, boafé e proibição de comportamentos contraditórios. Em especial, dois enunciados prescritivos introduzidos pela Lei nº 13.655/2018 à LINDB devem ser considerados para a presente decisão: Art. 23. A decisão administrativa, controladora ou judicial que estabelecer interpretação ou orientação nova sobre norma de conteúdo indeterminado, impondo novo dever ou novo condicionamento de direito, deverá prever regime de transição quando indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais. Parágrafo único. (VETADO). Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Conforme dispõe o art. 23, a decisão administrativa que estabelecer interpretação ou orientação nova, impondo ônus mais elevado do que aquele que seria exigido a partir da interpretação anteriormente mantida pelo Tribunal, “deverá prever regime de transição quando indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais”. Tratase, assim como se dá com o art. 24 da LINDB, de regramento de busca estabelecer critérios mínimos de segurança jurídica no Direito brasileiro. De certo modo, algumas decisões adotadas por este Colegiado da CSRF têm aplicado o conteúdo normativo do art. 23 da LINDB antes mesmo de sua introdução, a exemplo do acórdão n. 9101002.940. No caso, para o cálculo de ajustes de preços de transferência, até 2001, a inclusão de frete e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e dos tributos não recuperáveis, devidos na importação, foi interpretada pela administração fiscal como uma opção e não um dever do contribuinte. Nesse julgamento, compreendeu a maioria da 1ª Turma da CSRF que a alteração de interpretação anteriormente adotada pela administração fiscal e esposada pela IN SRF 38/97, objeto de revisão pela IN SRF 32/2001, deveria respeitar como critério de transição mínimo o princípio da anterioridade, ainda que a sua aplicação geralmente seja relacionada apenas à criação ou majoração de novos tributos por meio de lei. Fl. 2246DF CARF MF 54 O art. 23 da LINDB tem o mérito de afastar quaisquer dúvidas quanto ao acerto da referida decisão deste Colegiado, que adotou “medida indispensável para que o novo dever ou condicionamento de direito seja cumprido de modo proporcional, equânime e eficiente e sem prejuízo aos interesses gerais”. Afinal, é interesse geral que os atos administrativos, como a instruções normativas, que veiculam orientações quanto à forma como a administração fiscal aplicará a lei tributária, gozem de confiança mínima por parte dos administrados; não seria conforme o princípio da eficiência administrativa que tais atos pudessem ser alterados repentinamente, gerando situações não equânimes e desproporcionais, dentro de um mesmo exercício fiscal, para contribuintes que se encontram em situação semelhante. Caso a citada decisão proferida pelo acórdão n. 9101002.940 viesse a se torna Súmula do CARF com efeito vinculante a toda a administração fiscal, teríamos um exemplo de eficácia plena da norma do art. 23 da LINDB. Por sua vez, enquanto o art. 23 da LINDB busca tutelar as relações jurídicas surgidas após a alteração de determinados entendimentos pela autoridade administrativa com função decisória, o art. 24 do aludido Diploma se volta para situações ocorridas antes da referida alteração interpretativa. Tais normas, portanto, se complementam. Assim, conforme o art. 24 da LINDB, a análise, pelo CARF, da validade e das consequências tributárias de um determinado ato, deve levar em conta as orientações gerais da época em que este foi praticado, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, que se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Por “orientação geral” compreendese as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, a exemplo de soluções de consulta da COSIT, prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público (por exemplo, “perguntas e respostas”, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada) ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária. É essencial notar que a abstração do art. 24 da LINDB permite que este abarque variedade considerável de hipóteses. Assim, uma primeira sequência de atos tutelados pela LINDB pode ser assim esquematizado: 1. Ato do particular praticado no mercado e com possíveis conotações econômicas; 2. Ato do particular de constituição do crédito tributário em decorrência do ato praticado (“1”) com a interpretação influenciada por jurisprudência majoritária do CARF ou por outras orientações capazes de gerar legítimas expectativas de cumprimento (por exemplo, soluções de consulta da COSIT, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada etc.); 3. Lançamento de ofício em desacordo com a jurisprudência à época em os atos foram realizados pelo particular; 4. Ato de revisão na esfera administrativa pelo CARF. Possível aplicação da proteção da confiança prescrita pela LINDB. Entre outras sequências de atos possíveis, essa merece destaque, por ser justamente alegada pelo contribuinte no presente caso. Compreendo, portanto, possível, em tese, a aplicação da norma de proteção da confiança veiculada pela LINDB ao caso concreto. Digo “em tese” tendo em vista a necessidade de verificação da existência de jurisprudência majoritária do CARF quanto à Fl. 2247DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.221 55 matéria em litígio à época em que atos foram praticados, o que será tratado no tópico “3”, a seguir. 2.1. Entendimentos quanto à não aplicação do art. 24 da LINDB no âmbito do CARF. Nesses primeiros momentos em que a Lei nº 13.655/2018 vem a lume, algumas respeitáveis posições vêm sendo apresentadas para afastar a aplicação da LINDB no âmbito do CARF. Em especial, aparentemente a interpretação estritamente literal tem levado a esse entendimento, permissa máxima vênia, equivocado. A análise gramatical do art. 24 da LINDB pode colocar em dúvida o sentido de “ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa”, especialmente se o alcance adjetivo “administrativa” alcançaria apenas a “norma” ou se afetaria os demais substantivos, inclusive “ato”. Dizse que a relevância da dúvida reside no fato de que o ato do contribuinte de constituição do crédito tributário não teria natureza de “ato administrativo”. Assim, ainda que o referido lançamento tributário realizado pelo contribuinte houvesse seguido estritamente a orientações gerais consubstanciadas em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou ainda em prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público, o aludido “ato” não gozaria da proteção conferida pelo art. 24 da LINDB. Entre outros possíveis exercícios gramaticais que poderiam intentados, a aludida posição prefere aquela que conduz à interpretação mais restritiva da proteção da confiança veiculada pela norma em questão. Aparentemente, adotandose esse entendimento, o art. 24 da LINDB apenas seria aplicável nas hipóteses de atos administrativos, inclusive de lançamento tributário, praticados integralmente por agentes administrativos, sem qualquer participação do particular. Lançamentos de ofício (CTN, art. 149), realizados em face da não homologação de lançamentos realizados pelo particular (CTN, art. 150), estariam fora do âmbito de incidência do art. 24 da LINDB. Vide, por exemplo, acórdão n. 1301003.284, com destaque ao seguinte trecho de sua ementa: QUESTÃO DE ORDEM. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. ARTIGO 24 DA LINDB. APLICABILIDADE. A LINDB é norma válida, vigente e eficaz, cuja aplicação depende, sobremaneira, da adequação do caso concreto às suas previsões normativas, cabendo ao CARF aplicála nos casos cabíveis. Entretanto, o art. 24 da LINDB não se aplica no caso de revisão de ato de particular, constitutivo do crédito tributário, no contexto do lançamento por homologação, por ser cabível apenas nas hipóteses em que o ato revisado tem natureza administrativa. Dizse, ainda, que não se pode interpretar o parágrafo único do art. 24 da LINDB ignorandose o seu caput. Assim, conjugandose uma interpretação gramatical restritiva atribuída ao caput do aludido dispositivo, o comando e os critérios contidos no parágrafo único desse dispositivo tornarseiam inaplicáveis aos casos submetidos a este Tribunal. Com o devido respeito e com a abertura ao diálogo que, penso eu, devem permanentemente presidir a mente daqueles que se dedicam à árdua tarefa de interpretar o Fl. 2248DF CARF MF 56 Direito tributário brasileiro, divirjo dos aludidos entendimentos. Compreendo que, entre outras, algumas questões não podem ser esquecidas ao se interpretar o disposto no art. 24 da LINDB: como a jurisprudência do STJ consolidou o entendimento de que o ato do contribuinte faz as vezes do “ato” requerido pelo art. 142 do CTN para a constituição do crédito tributário (“2.2.1”, a seguir); a interpretação sistemática do dispositivo (“2.2.2”, a seguir) e; o regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018, que restou aprimorado por esta (“1.3”, acima). 2.1.1. A jurisprudência do STJ quanto ao lançamento tributário com a participação do particular. Conforme visto acima, uma das possíveis interpretações restritivas do art. 24 da LINDB parte do entendimento de que aludido dispositivo apenas incidiria sobre “atos administrativos”, o que não alcançaria lançamentos tributários que contassem com a participação de particulares. Ainda que esta seja uma das construções gramaticais possível em face da literalidade do art. 24 da LINDB, não me parece que seja a mais acertada. O e. STJ dedicou décadas de discussão quanto à interpretação mais adequada a ser atribuída ao art. 142 do CTN, que possui a seguinte redação: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional. A interpretação literal do art. 142 do CTN poderia conduzir ao entendimento de que exclusivamente agente da administração fiscal seriam competentes para a constituição do crédito tributário. Atos do particular, como a apresentação de declarações com a apuração do tributo, não seriam hábeis à constituição do crédito tributário pelo lançamento. No entanto, compreendeuse que a aludida interpretação não encontraria guarida no ordenamento tributário brasileiro. Coube ao e. STJ atribuir aos enunciados prescritivos do CTN organicidade normativa compreendendo o particular como agente colaborativo e protagonista na atividade de constituição do crédito tributário conduzida pela autoridade administrativa. O e. STJ editou a Súmula n. 436, com a seguinte redação: A entrega de declaração pelo contribuinte reconhecendo débito fiscal constitui o crédito tributário, dispensada qualquer outra providência por parte do fisco. (Súmula 436, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 14/04/2010, DJe 13/05/2010) O núcleo dessa orientação jurisprudencial consiste justamente em reconhecer que, a despeito do art. 142 do CTN, o contribuinte é sujeito ativo na atividade – de natureza eminentemente administrativa – de constituição do crédito tributário, “dispensada qualquer outra providência por parte do fisco”. O aludido núcleo tem pulverizado consequências normativas sobre uma série de questões, como por exemplo a expedição de certidões positivas ou negativas de débitos tributários ou contagem de prazos de prescrição. Fl. 2249DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.222 57 Nesse sentido, vale observar os acórdãos do REsp 1143094/SP e do REsp 1123557/RS, ambos afetados pelo regime dos recursos repetitivos: PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. VERIFICAÇÃO DE DIVERGÊNCIAS ENTRE VALORES DECLARADOS NA GFIP E VALORES RECOLHIDOS (PAGAMENTO A MENOR). TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO (CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA). DESNECESSIDADE DE LANÇAMENTO DE OFÍCIO SUPLETIVO. CRÉDITO TRIBUTÁRIO CONSTITUÍDO POR ATO DE FORMALIZAÇÃO PRATICADO PELO CONTRIBUINTE (DECLARAÇÃO). RECUSA AO FORNECIMENTO DE CERTIDÃO NEGATIVA DE DÉBITO (CND) OU DE CERTIDÃO POSITIVA COM EFEITOS DE NEGATIVA (CPEN). POSSIBILIDADE. 1. A entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando a Fazenda Pública de qualquer outra providência conducente à formalização do valor declarado (Precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 2. A Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP) foi definida pelo Decreto 2.803/98 (revogado pelo Decreto 3.048/99), consistindo em declaração que compreende os dados da empresa e dos trabalhadores, os fatos geradores de contribuições previdenciárias e valores devidos ao INSS, bem como as remunerações dos trabalhadores e valor a ser recolhido a título de FGTS. As informações prestadas na GFIP servem como base de cálculo das contribuições arrecadadas pelo INSS. 3. Portanto, a GFIP é um dos modos de constituição do créditos devidos à Seguridade Social, consoante se dessume da leitura do artigo 33, § 7º, da Lei 8.212/91 (com a redação dada pela Lei 9.528/97), segundo o qual "o crédito da seguridade social é constituído por meio de notificação de débito, autodeinfração, confissão ou documento declaratório de valores devidos e não recolhidos apresentado pelo contribuinte". 4. Deveras, a relação jurídica tributária inaugurase com a ocorrência do fato jurídico tributário, sendo certo que, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, a exigibilidade do crédito tributário se perfectibiliza com a mera declaração efetuada pelo contribuinte, não se condicionando a ato prévio de lançamento administrativo, razão pela qual, em caso de nãopagamento ou pagamento parcial do tributo declarado, afigurase legítima a recusa de expedição da Certidão Negativa ou Positiva com Efeitos de Negativa (Precedente da Primeira Seção submetido ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 1.123.557/RS, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 25.11.2009). 5. Doutrina abalizada preleciona que: " GFIP. Apresentada declaração sobre as contribuições previdenciárias devidas, resta formalizada a existência do crédito tributário, não tendo mais, o contribuinte inadimplente, direito à certidão negativa. Divergências de GFIP. Ocorre a chamada 'divergência de GFIP/GPS' quando o montante pago através de GPS não corresponde ao montante declarado na GFIP. Valores declarados como devidos nas GFIPs e impagos ou pagos apenas parcialmente, ensejam a certificação da existência do débito quanto ao saldo. Há o que certificar. Efetivamente, remanescendo saldo devedor, consideraseo em aberto, impedindo a obtenção de certidão negativa de débito. Em tendo ocorrido compensação de valores retidos em notas fiscais, impende que o contribuinte faça constar tal informação da GFIP, que tem campo próprio para retenção sobre nota fiscal/fatura. Não informando, o débito estará declarado e em Fl. 2250DF CARF MF 58 aberto, não ensejando a obtenção de certidão negativa." (Leandro Paulsen, in "Direito Tributário Constituição e Código Tributário à Luz da Doutrina e da Jurisprudência", Ed. Livraria do Advogado e Escola Superior da Magistratura Federal do Rio Grande do Sul, 10ª ed., 2008, Porto Alegre, pág. 1.264). 6. In casu, restou assente, no Tribunal de origem, que: No caso dos autos, a negativa da autoridade coatora decorreu da existência de divergência de GFIP?s, o que, ao contrário do afirmado pela impetrante, caracteriza a existência de crédito tributário da Fazenda Pública, fator impeditivo à expedição da Certidão Negativa de Débitos. (...) Nessa esteira, depreendese que o crédito tributário derivado de documento declaratório prescinde de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte para que se considere constituído, uma vez que a declaração do sujeito passivo equivale ao lançamento, tornando o crédito tributário formalizado e imediatamente exigível. A Guia de Recolhimento de Fundo de Garantia e Informações à Previdência Social GFIP é documento fiscal declaratório, do qual devem constar todos os dados essenciais à identificação do valor do tributo relativo ao exercício competente. Assim, a GFIP é suficiente à constituição do crédito tributário e, na hipótese de ausência de pagamento do tributo declarado ou pagamento a menor, enseja a inscrição em dívida ativa, independentemente de prévia notificação ou instauração de procedimento administrativo fiscal. (...) Também não faz jus o apelado à Certidão Positiva de Débito com efeitos de Negativa prevista no artigo 206 do CTN, considerando que embora cabível nos casos em que há crédito tributário constituído e exigível, este deverá estar com a exigibilidade suspensa de acordo com qualquer das hipóteses elencadas nos artigos 151 e 155 do CTN, ou em cobrança executiva, devidamente garantido por penhora, o que não restou demonstrado no presente caso." 7. Consequentemente, revelase legítima a recusa da autoridade impetrada em expedir certidão negativa de débito (CND) ou de certidão positiva com efeitos de negativa (CPEN) quando a autoridade tributária verifica a ocorrência de pagamento a menor, em virtude da existência de divergências entre os valores declarados na Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (GFIP) e os valores efetivamente recolhidos mediante guia de pagamento (GP) (Precedentes do STJ: AgRg no Ag 1.179.233/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 03.11.2009, DJe 13.11.2009; AgRg no REsp 1.070.969/SP, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 12.05.2009, DJe 25.05.2009; REsp 842.444/PR, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 09.09.2008, DJe 07.10.2008; AgRg no Ag 937.706/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 06.03.2008, DJe 04.03.2009; e AgRg nos EAg 670.326/PR, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em 14.06.2006, DJ 01.08.2006). 8. Hipótese que não se identifica com a alegação de mero descumprimento da obrigação acessória de informar, mensalmente, ao INSS, dados relacionados aos fatos geradores da contribuição previdenciária (artigo 32, IV e § 10, da Lei 8.212/91). 9. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1143094/SP, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 09/12/2009, DJe 01/02/2010) TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO, DECLARADO E NÃO PAGO PELO CONTRIBUINTE. NASCIMENTO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO. CERTIDÃO POSITIVA COM EFEITOS DE NEGATIVA DE DÉBITO. IMPOSSIBILIDADE. Fl. 2251DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.223 59 1. A entrega da Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF constitui o crédito tributário, dispensando a Fazenda Pública de qualquer outra providência, habilitandoa ajuizar a execução fiscal. 2. Consequentemente, nos tributos sujeitos a lançamento por homologação, o crédito tributário nasce, por força de lei, com o fato gerador, e sua exigibilidade não se condiciona a ato prévio levado a efeito pela autoridade fazendária, perfazendose com a mera declaração efetuada pelo contribuinte, razão pela qual, em caso do não pagamento do tributo declarado, afigurase legítima a recusa de expedição da Certidão Negativa ou Positiva com Efeitos de Negativa. (Precedentes: AgRg no REsp 1070969/SP, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, julgado em 12/05/2009, DJe 25/05/2009; REsp 1131051/SP, Rel. Ministra ELIANA CALMON, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/10/2009, DJe 19/10/2009; AgRg no Ag 937.706/MG, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/03/2008, DJe 04/03/2009; REsp 1050947/MG, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 13/05/2008, DJe 21/05/2008; REsp 603.448/PE, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/11/2006, DJ 04/12/2006; REsp 651.985/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19/04/2005, DJ 16/05/2005) 3. Ao revés, declarado o débito e efetuado o pagamento, ainda que a menor, não se afigura legítima a recusa de expedição de CND antes da apuração prévia, pela autoridade fazendária, do montante a ser recolhido. Isto porque, conforme dispõe a legislação tributária, o valor remanescente, não declarado nem pago pelo contribuinte, deve ser objeto de lançamento supletivo de ofício. 4. Outrossim, quando suspensa a exigibilidade do crédito tributário, em razão da pendência de recurso administrativo contestando os débitos lançados, também não resta caracterizada causa impeditiva à emissão da Certidão de Regularidade Fiscal, porquanto somente quando do exaurimento da instância administrativa é que se configura a constituição definitiva do crédito fiscal. 5. In casu, em que apresentada a DCTF ao Fisco, por parte do contribuinte, confessando a existência de débito, e não tendo sido efetuado o correspondente pagamento, interditase legitimamente a expedição da Certidão pleiteada. Sob esse enfoque, correto o voto condutor do acórdão recorrido, in verbis: "No caso dos autos, há referências de que existem créditos tributários impagos a justificar a negativa da Certidão (fls. 329/376). O débito decorreria de diferenças apontadas entre os valores declarados pela impetrante na DCTF e os valores por ela recolhidos, justificando, portanto, a recusa da Fazenda em expedir a CND." 6. Recurso Especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. (REsp 1123557/RS, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 25/11/2009, DJe 18/12/2009) Assim, ainda que, entre os possíveis exercícios gramaticais que podem intentados, adotese a interpretação que se restringe a eficácia do art. 24 da LINDB apenas aos “atos administrativos”, o “procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente” indubitavelmente inclui hipóteses em que há participação do contribuinte. 2.1.2. A interpretação sistemática do art. 24 da LINDB. Fl. 2252DF CARF MF 60 A consideração da jurisprudência do e. STJ quanto aos lançamentos tributários realizados com a participação do contribuinte constitui um exercício de interpretação sistemática, na busca de organicidade do sistema. Mas outros exercícios igualmente vocacionados a essa busca também são úteis à interpretação do art. 24 da LINDB. É relevante considerar que já havia, no ordenamento brasileiro, normas de proteção do contribuinte que se baseava na jurisprudência mesmo antes da Lei nº 13.655/2018, o que que restou aprimorado por esta. A decisão recentemente proferida pelo e. STF, na sessão de 24.04.2018, no julgamento do Segundo Ag.Reg. no Recurso Extraordinário com Agravo 951.533 – ES assim demonstra. Nesse contexto, a LINDB tem o mérito de introduzir critérios mais objetivos para a identificação das hipóteses em que o sistema jurídico pátrio não tolera a perpetração de desvantagens derivadas de comportamentos contraditórios da administração fiscal, pressupondo: (i) o “factum proprium”, consubstanciado na conduta da administração fiscal, inclusive por meio do CARF, dotada de algumas especificidades; (ii) a legítima expectativa do contribuinte, cuja confiança é protegida pelo Direito; (iii) o comportamento contraditório da administração fiscal, consubstanciado na alteração de interpretação quanto às mesmas normas e fatos semelhantes; (iv) capaz de gerar um dano ao particular. Também é relevante considerar a interpretação conjunta do caput do art. 24 da LINDB com o seu parágrafo único. É certo que não se pode interpretar o parágrafo único do art. 24 da LINDB ignorandose o seu caput. Entretanto, é igualmente certo que não se pode atribuir ao caput desse dispositivo interpretação que torne sem eficácia o seu parágrafo único: ao se referir a “prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público”, o legislador busca preservar direitos do particular orientado por interpretações da administração fiscal (especialmente acórdãos do CARF) quanto estas se tornam de “conhecimento público”. Há práticas administrativas, ainda que reiteradas, que jamais se tornam de “conhecimento público”, restando reclusas ao conhecimento daqueles que tem o privilégio de vivenciar a rotina do serviço público: a norma do art. 24 da LINDB não se aplica a tais hipóteses. Ao tratar de normas de Direito Público – a justificativa do projeto de lei deixa isso claro – naturalmente a aplicação de normas tributárias, que se encontram nessa seara, devem analisadas com vistas aos referidos dispositivos da LINDB. Tratase de um pacto social da sociedade com o Poder Público e a sua relativização decorrente de interpretação excessivamente restritiva pareceme bastante preocupante. 2.2. O momento de aplicação da norma veiculada pelos arts. 23 e 24 da LINDB. Uma última questão foi considerada pelo Colegiado no julgamento para o qual a presente declaração de voto é apresentada: ainda que a proteção da confiança dos particulares estabelecida pela LINDB seja aplicável aos julgamentos do CARF, a aludida norma apenas alcançaria entendimentos favoráveis firmados a partir da sua edição, pois esta não poderia “retroagir” a proteção de contribuintes que, no passado, conduziram as suas atividades induzidos pela jurisprudência então reinante. Permissa vênia, penso que o aludido raciocínio não encontra respaldo nas normas em análise. O comando normativo se dirige ao julgador, que deverá aplicála no momento em que o caso lhe é apresentado para julgamento. Fl. 2253DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.224 61 As disposições da LINDB sob análise fazem surgir o tema da irretroatividade justamente para impedir que novas interpretações do CARF (ou melhor, posteriores à ocorrência do fato gerador) possam ser aplicadas de forma contraditória à orientação geral observada pelo particular quando decidiu agir da forma como agiu. Tratase, portanto, da proibição da retroatividade de novas interpretações administrativas mais severas e onerosas ao contribuinte que aquelas existentes quando da prática de seus atos. 3. A aplicação do regime jurídico de proteção na confiança da jurisprudência do CARF ao caso concreto. Conforme exposto, lêse do art. 24 da LINDB que a revisão, pelo CARF, da validade e consequências tributárias um determinado ato, deve levar em conta as orientações gerais da época em que este foi praticado, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Por “orientação geral” compreendese as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, a exemplo de soluções de consulta da COSIT, prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público (por exemplo, “perguntas e respostas”, soluções de consultas a contribuintes específicos proferidas de forma reiterada) ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária. A norma busca tutelar não apenas atos praticados diretamente pela administração pública, mas também atos praticados pelo contribuinte perante a administração pública. Tratase de interpretação não apenas possível, mas consentânea inclusive com o regime jurídico de proteção da confiança na jurisprudência do CARF antes da Lei nº 13.655/2018, que restou aprimorado por esta, que estabelece critérios mais objetivos para a aplicação. No caso concreto, compreendo que a norma do art. 24 da LINDB pode ser aplicada se restar caracterizada a existência de jurisprudência administrativa majoritária e convergente com os atos à época em que foram praticados. Tendo em vista que o contribuinte apresentou petição nos autos com uma relação de decisões que supostamente seriam capazes de evidenciar o cumprimento também desse requisito, compreendo necessária a concessão de prazo à PFN para que se manifeste a respeito, em homenagem aos princípios do contraditório e da ampla defesa. (assinado digitalmente) Luís Flávio Neto Declaração de Voto Conselheiro Demetrius Nichele Macei. A presente declaração de voto se presta a esclarecer posicionamento deste conselheiro quanto a aplicabilidade do artigo 24, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro LINDB. Fl. 2254DF CARF MF 62 Introdutoriamente, temse que o artigo 24 foi acrescentado ao DecretoLei nº 4.657/1942, em abril de 2018, pela Lei nº 13.655/2018, focado na segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público. Por se tratar de recente mudança legislativa, reproduzo abaixo o mencionado dispositivo legal: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. (Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Antes mesmo de sua publicação o dispositivo legal sob análise já vinha levantando dúvidas no meio jurídico quanto ao seu cabimento e alcance. Com a publicação da Lei nº 13.655/2018, as dúvidas antes eminentemente teóricas, ganharam séria pertinência pelos efeitos práticos possíveis da aplicação do artigo 24. Justamente pelo ineditismo desta matéria, não há precedentes para analisar tal objeto, razão pela qual entendo ser fundamental, neste momento, a interpretação do dispositivo na mesma trilha axiológica de sua criação ou seja: a Segurança Jurídica. Partindose, então, deste pressuposto, penso que, em tese, o artigo 24, da LINDB, se aplica sim ao processo administrativo fiscal. O processo administrativo tributário é, antes de tudo, processo administrativo. Não havendo regra expressa em sentido diverso, ou norma especial que possa ser antinômica ao texto do artigo 24, não vejo como excetuar. O caput do artigo 24 define expressamente quais são as esferas em que a revisão de validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa poderá ocorrer, são elas: administrativa, controladora ou judicial. Disto, ainda mais se considerarmos que se trata de artigo previsto em Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, ou seja, regras mínimas que devem ser observadas por todo o ordenamento jurídico, temse que o artigo 24 deverá ser aplicado sim no processo administrativo fiscal, cujo ato a ser revisado é o lançamento tributário, considerado aquele realizado exclusivamente pela autoridade administrativa. Não desconheço recente manifestação em meio jornalístico do professor Floriando de Azevedo Marques, que juntamente com o professor Carlos Ari Sundfeld, sobre as alterações na LINDB, afirmando que sua aplicação ao processo fiscal é mandatória. 45 Com todo o respeito aos ilustres juristas, não creio que a "interpretação autêntica" seja a mais adequada para a solução da questão, mesmo sendo, sem dúvida, algo a considerar. Quanto a alegação de que as novas alterações seriam destinadas apenas aos gestores da Administração Pública, temos, por exemplo, os artigos 20 e 21, da Lei nº 13.655/2018, que nos traduzem conteúdo mais amplo. Vejase: 45:https://www.jota.info/tributoseempresas/tributario/lindbflorianoentrevistacarf06082018 – acesso em setembro/2018. Fl. 2255DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.225 63 "Art. 20. Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão. Parágrafo único. A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas." "Art. 21. A decisão que, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, decretar a invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa deverá indicar de modo expresso suas consequências jurídicas e administrativas. Parágrafo único. A decisão a que se refere o caput deste artigo deverá, quando for o caso, indicar as condições para que a regularização ocorra de modo proporcional e equânime e sem prejuízo aos interesses gerais, não se podendo impor aos sujeitos atingidos ônus ou perdas que, em função das peculiaridades do caso, sejam anormais ou excessivos." Ora, tais artigos normatizam as tomadas de decisão também nas esferas administrativa, controladora e judicial, e notese que em todas estas previsões o legislador preferiu não especificar por ramo tais esferas, sendo este mais um motivo pelo qual entendo ser correta a aplicação do artigo 24 na esfera administrativa fiscal, haja vista a dicção genérica dos dispositivos legais quanto às esferas que devem garantir a segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público. Por coerência, se os artigos da Lei nº 13.655/2018 se aplicam ao gênero – administrativo, controlador, judicial – também deverão ser aplicados às espécies, no caso, fiscal. Mais especificamente, quanto ao artigo 24, esta lógica se intensifica, pois quem pratica o ato de revisão do ato do lançamento fiscal é justamente a autoridade administrativa e judicial julgadora. No que compete ao CARF, inclusive, o que quase sempre está em jogo é a validade ou não do auto de infração, materialização do lançamento fiscal. Adicionese a tal argumento, o fato de que toda e qualquer matéria no Direito Tributário ser de ordem pública, ou seja, o intuito louvável da nova lei de assegurar a segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito público, indubitavelmente abarca a esfera administrativa fiscal, pois se trata de indispensável esferas que cria e aplica o direito público ao caso concreto. Diante, do exposto, ainda que sucintamente, declaro que, em tese, é plenamente cabível a aplicação do artigo 24, da LINDB, ao processo administrativo fiscal. Contudo, entendo não ser possível a aplicação do retromencionado dispositivo ao presente processo, em razão da do “princípio da irretroatividade das leis”. Clarifico. Percebase que o artigo 24 só passou a ter vigência com a publicação da Lei nº 13.655/2018, que se deu em abril de 2018, isto quer dizer que qualquer pleito embasado neste dispositivo legal anterior a abril de 2018, não deverá ser considerado pela autoridade administrativa, tampouco pela judicial, porque tal atitude violaria princípio de direito intertemporal. Fl. 2256DF CARF MF 64 Mesmo não havendo dispositivo expresso na Constituição, a doutrina nos auxilia em muito quanto a definição do princípio da irretroatividade das leis, como, por exemplo, a lição de Ricardo Freire Soares, explicando que o princípio da irretroatividade das leis e atos normativos resulta de dois importantes princípios de direito intertemporal, quais sejam: o princípio da seguranca̧ jurídica, com a preservação das situações já consolidadas sob a vigência da normatividade jurídica anterior, e o princípio de que o tempo rege o ato (tempus regit actum). Segundo o autor: “No sistema jurídico brasileiro, desponta a irretroatividade como a regra geral em matéria de direito intertemporal. Tal entendimento deflui tanto do art. 5o, XXXVI, da Constituicã̧o Federal de 1988 – ao estabelecer que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada – quanto do art. 6o da Lei de Introducã̧o às Normas do Direito Brasileiro, ao preceituar que a lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada.” Existem exceções a esta regra, por exemplo, no Direito Penal, em que, por força constitucional, a lei penal não retroagirá, exceto para beneficiar o réu."46 Reforça tal ensinamento a posição de Hugo de Brito Machado, em artigo denominado “A irretroatividade da lei tributária como garantia do contribuinte”. Confirase: “A irretroatividade é da essen̂cia do Direito, e assim podemos afirmar que o princípio da irretroatividade das leis é tão antigo quanto a própria civilizaçaõ, e sempre o encontramos reconhecido por todos os povos em todos os tempos. Entretanto, como nada é absoluto, a irretroatividade deve comportar exceções. A exceçaõ, que é a retroatividade, há de conviver com a regra, que é a irretroatividade, de forma a viabilizarem, ambas, o objetivo essencial do Direito, que é a limitacã̧o do poder. Especialmente do poder estatal. Assim é que, nas relações entre o particular e o Estado, a retroatividade só pode ser admitida quando favoreça o primeiro, ou, em outras palavras, quando fortaleça o instrumento limitador do poder.” 47 Nesta medida, a irretroatividade das leis mesmo não expressa é regra que deflui naturalmente do nosso sistema constitucional. E mesmo não sendo absoluta, para que ocorra a retroatividade, a meu ver, isso também depende de manifestação expressa do legislador ou deve enquadrarse diretamente nas exceções, também expressamente previstas, como o caso, por exemplo, do artigo 106 do Código Tributário Nacional CTN. A propósito, a LIDNB não "criou", por assim dizer, o principio da Segurança Jurídica. Ele já integra o ordenamento há mais de século. Para ilustrar: em matéria tributária, temos o inciso III, do artigo 100 do CTN, que independentemente de lei expressa, prevê que a autoridade administrativa deve considerar como norma cogente as práticas reiteradas da administração pública, para os casos em que, por exemplo, o contribuinte agiu conforme a legislação vigente à época dos fatos... o que obriga a fiscalização federal no momento de realizar o lançamento tributário. 46 SOARES, Ricardo Freire. Elementos de teoria geral do direito. 4ª edição. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 6061 47 COÊLHO, Sacha Calmon (coord.). Segurança Jurídica. São Paulo: Forense, 04/2013. p.233. Fl. 2257DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.226 65 Há mecanismos disponíveis no ordenamento jurídico que viabilizam o cumprimento da Segurança Juridica, diuturnamente discutidos no âmbito deste E. Conselho. Por outro lado, não seria justo nem razoável que se exija do agente da administração que realizou o lançamento de ofício há anos o dever de observar, num exercício de "futurologia", os estritos termos do recém publicado artigo 24 da LIDNB. Ou seja, devemos interpretar a legalidade do lançamento de acordo com os princípios e regras vigentes à época de sua realização que, por sua vez, irradiarão efeitos para o contexto da época da ocorrência dos fatos geradores. Entendo finalmente que o debate terá inicio justamente agora, para os lançamentos tributários posteriores a abril de 2018, em que a fiscalização terá de interpretar e aplicar (ou deixar de aplicar) o artigo 24 da LINDB. Tal interpretação naturalmente passará pelo crivo das instâncias julgadoras, administrativas e judiciais. As controvérsias administrativas, se existirem, e se forem divergentes entre as turmas ordinárias do CARF, serão então submetidas a este E. Conselho. É diante de tais constatações que não se deve aplicar a Lei nº 13.655/2018 para o caso concreto, devendo seus efeitos operarem de modo prospectivo, ou seja, somente para os lançamentos tributários que ocorrerem partir de abril de 2018, o que não é o caso sob análise. É a declaração. (assinado digitalmente) Demetrius Nichele Macei Declaração de voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo. CONHECIMENTO DO ART. 24 DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO Quanto ao conhecimento acompanhei a relatora pelas razões que se seguem. Dois, entre outros, são os requisitos imprescindíveis para conhecimento de uma matéria em sede de especial: 1) prequestionamento; 2) existência de acórdão paradigma decidindo de forma diversa ao recorrido. A Lei nº 13.655, de 25 de abril de 2018, foi publicada em 26 de abril de 2018. Então, antes disso seria impossível trazêla aos autos. Ganham relevo então duas datas: a data da interposição do recurso e a data do acórdão recorrido. Para as decisões recorridas anteriores à 26 de abril de 2018, podese dispensar o prequestionamento da matéria. Para os recursos interpostos antes de 26 de abril de 2018, também podese dispensar a existência de acórdão paradigma. Fl. 2258DF CARF MF 66 Assim, a matéria deve ser conhecida. MÉRITO DO ART. 24 DA LEI DE INTRODUÇÃO ÀS NORMAS DO DIREITO BRASILEIRO Quanto ao mérito acompanhei a relatora apenas pelas conclusões (que o art. 24 da LINDB) não se aplica; entretanto, enquanto ela entendeu por não aplicalo ao caso concreto, eu não o aplico em tese. Fiz uma extensa pesquisa nos tribunais do país: STJ, STF, TCU, TCE’s, os cinco TRF’s, e, ainda, pesquisei por meio do site jusbrasil.com.br a jurisprudência destes mesmos tribunais e também dos TJ’s de todos os estados do país. Mas, como a matéria é muito recente, praticamente quase nada se encontra. Quando se fala em LINDB, a referência é, 99% dos casos, sobre os seus artigos 2º até o 6º. Com referência ao artigo 24, de fato, localizei somente os seguintes casos: no TCU (1 caso): TC 014.919/20109 no TJ/SP (2 casos): Apelação nº 105861023.2016.8.26.0053 e Apelação nº 102306030.2017.8.26.0053 TRF/4 (1 caso): Agravo de Instrumento nº 502621631.2018.4.04.0000/PR Na decisão do TRF/4, que trata de agravo do contribuinte Arcelormittal contra decisão que indeferiu o pedido de antecipação de tutela na ação ordinária, que diz respeito a um PAF (nº 10980.722071/201276, envolvendo amortização de ágio com investimento de empresa estrangeira em “holdingveículo” brasileira), o art. 24 da LINDB é citado apenas no relatório, como um dos argumentos do agravante (Arcelormittal). Entretanto, apesar de a decisão negar provimento ao agravo, na fundamentação do voto não é feita referência alguma sequer ao art. 24. E, no caso do TJ/SP, as duas decisões são absolutamente idênticas entre si, mesmo apelante etc, tanto que seus números são sucessivos (Voto nº 12.331 e Voto nº 12.332). Mais adiante comento sobre as decisões do TCU, do TJ/SP, e do TRF/4. Além destas decisões, temos ainda os dois casos do CARF, (Acórdão 9202 006.996 e Resolução 9101000.058), além de seis outras Resoluções que localizei (duas da turma 1301, e quatro da turma 1402), todas decididas por unanimidade, para dar ciência à PGFN para se manifestar sobre o art. 24, ou seja, nos mesmos termos da Resolução 9101 000.058, sem nada de relevante a acrescentar. 1. Comentários gerais sobre a questão de mérito. Transcrevese abaixo o artigo 24 da LINDB, nela incluído pela Lei nº 13.655/2018: “Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Fl. 2259DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.227 67 Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público.” Observase que a norma tem como objeto a “revisão ... quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa”, sendo vedado que tal “revisão” leve a que “se declarem inválidas situações plenamente constituídas”. Nada obstante a inusual redação do dispositivo, cuja terminologia empregada tem sido objeto das mais variadas críticas (as quais, contudo, não cabe aqui relatar), é possível interpretar que dita “revisão” possa ser compreendida como a decisão, monocrática ou colegiada, a ser proferida no âmbito de qualquer uma das três esferas nele mencionadas (administrativa, controladora ou judicial). Justamente por abranger todas as três mencionadas esferas, não há que se falar, a priori, em inaplicabilidade das suas disposições ao CARF, visto ser este um órgão colegiado decisório administrativo. Neste aspecto, portanto, concebese que a dita “revisão” poderia, ao menos em tese, ser procedida pelo CARF, quando do julgamento de processo administrativo fiscal. Entretanto, o pressuposto para a eventual aplicação, in concreto, do dispositivo legal, pelo CARF, é justamente o fato de se estar diante de algum ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, cuja validade, consoante nos informa o próprio dispositivo, ora estaria sendo questionada (revisada), no âmbito da decisão administrativa a ser proferida. O uso do termo “revisão”, aliás, somente faz sentido se considerado o pressuposto de que tal ato, contrato, ajuste, processo, ou norma, já tivesse a sua validade anteriormente reconhecida, ou, ao menos, presumida. Caso contrário, não há sentido algum em se falar em revisão quanto à sua validade. Ora, tal atributo (validade) é inerente justamente às manifestações exaradas pela Administração, as quais, como se sabe, se presumem válidas, até prova em contrário. Analisando os termos empregados no texto legal, de pronto verificase que não há possibilidade alguma de o CARF estar sendo contemplado no dispositivo com relação a normas administrativas, por exemplo. Isto porque é sabido que não é atribuição do CARF declarar a invalidade de norma emanada pela Administração. O CARF, aliás, sequer é competente para esta finalidade, sendo tal competência restrita ao Poder Judiciário. Da mesma forma, facilmente se rejeita a aplicabilidade do dispositivo em questão, ao CARF, no que diz respeito a qualquer procedimento que pudesse implicar a “revisão” de ajuste administrativo. Tratase de termo absolutamente estranho às atribuições e competências do CARF. Restaria apenas, então, analisar a possibilidade de sua aplicação ao CARF em se tratando de ato ou contrato administrativo ou de processo administrativo. Analisemos inicialmente o ato administrativo, nele englobando também o contrato administrativo. Fl. 2260DF CARF MF 68 De acordo com a vetusta definição dada por Hely Lopes Meirelles48, ato administrativo é “toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria.” Quando bilaterais, tais atos constituem os chamados contratos administrativos. Os elementos, ou requisitos, do ato administrativo são: competência (sujeito competente), forma, objeto, motivo e finalidade. A ausência de qualquer um desses elementos torna o ato inválido, e, bem assim, incapaz de produzir os seus efeitos. Ainda na dicção do saudoso mestre, um dos atributos do ato administrativo é a sua presunção de legitimidade. É esta presunção de legitimidade que “autoriza a imediata execução ou operatividade dos atos administrativos, mesmo que arguidos de vícios ou defeitos que os levem à invalidade”49. Os atos administrativos, portanto, gozam da presunção de validade, até a eventual prova em contrário. Tal entendimento, aliás, é pacífico na doutrina e jurisprudência pátrias, dispensando maiores considerações. Apenas a título exemplificativo, segue ementa de duas decisões do STF a respeito do tema (um acórdão em RE e uma decisão monocrática em ACO): “Ementa: Mandado de Segurança. Prova. Presunção de legitimidade dos atos da administração, até prova em contrário. Aspectos particulares do caso. Não caracterizada negativa de vigência do art. 209 do Código de Processo Civil. Dissídio jurisprudencial não comprovado. Recurso não conhecido.” (RE nº 75.567/SP, Relator Min. Djaci Falcão, julgado em 20.11.1973, disponível em http://stf.jus.br) “Como se sabe, os atos administrativos gozam da presunção de legitimidade e veracidade. Dessa forma, reputase válido o procedimento discriminatório adotado pela União quando aquele que o inquina de invalidade não demonstra de que forma a conduta da Administração teria sido desempenhada fora dos limites admitidos em direito. A respeito da presunção de validade e veracidade dos atos administrativos, vejase o seguinte trecho elaborado por Lucas Rocha Furtado: “A importância da presunção de legitimidade está ligada à consequência que dela decorre. Quando se afirma que o ato administrativo se presume legítimo, significa que tanto os administradores públicos quanto os particulares afetados pelo ato devem darlhe cumprimento. […] [a] legitimidade se mantém até que seja afastada por decisão judicial ou pela própria administração pública.” (FURTADO, Lucas Rocha. Curso de Direito Administrativo, 4ª edição, revista e atualizada. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 216). (ACO nº 480, Relator Min. Luiz Fux, julgado em 11.05.2015, publicado no DJe em 13.05.2015, disponível em http://stf.jus.br) Neste diapasão, passase a tentar vislumbrar algumas situações em que se poderia cogitar da aplicação do art. 24 da LINDB ao CARF. Inicialmente, considerese a possibilidade de o ato administrativo objeto da “revisão” quanto à sua validade, de que trata o caput, seja o lançamento de ofício efetuado. Cediço que o lançamento está definido no artigo 142 do Código Tributário Nacional como um procedimento administrativo. Entretanto, não são poucos os autores que definem o lançamento como um ato administrativo, uma vez que possui todos os elementos que o caracterizam (sujeito competente, forma, objeto, motivo e finalidade). 48 MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo Brasileiro, 20ª Ed., Malheiros, São Paulo: 1995, pág. 133. 49 MEIRELLES, pág. 141. Fl. 2261DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.228 69 Aliomar Baleeiro50, por exemplo, entende que o lançamento é um ato praticado pelo Fisco. Diz ele que o lançamento é “o ato, ou a série de atos, de competência vinculada, praticado por agente competente do Fisco para verificar a realização do fato gerador em relação a determinado contribuinte, apurando qualitativa e quantitativamente o valor da matéria tributável, segundo a base de cálculo, e, em consequência, liquidando o quantum do tributo a ser cobrado”. Na jurisprudência, igualmente, encontramse referências ao lançamento como uma espécie de ato administrativo. Neste sentido, por exemplo, o seguinte precedente do STJ: “TRIBUTÁRIO. LANÇAMENTO FISCAL. REQUISITOS DO AUTO DE INFRAÇÃO E ÔNUS DA PROVA. O lançamento fiscal, espécie de ato administrativo, goza de presunção de legitimidade; essa circunstância, todavia, não dispensa a Fazenda Pública de; demonstrar, no correspondente Auto de Infração, a metodologia seguida para o arbitramento do imposto exigência que nada tem a ver com a inversão, do ônus da prova, resultando da natureza do lançamento fiscal, que deve ser motivado. Recurso Especial não conhecido.” (REsp. nº 48.516SP, Relator Min. Ari Pargendler, julgado em 23.09.1997, DJ 13.10.1997) grifouse “8. O Tribunal a quo julgou a lide com base nos seguintes fundamentos (fl. 139, eSTJ): “Analisando os autos, observo que fora lavrado o Auto de Infração nº 0307703, que autuou a Autora por causa da remessa de mercadorias com utilização de nota fiscal inidônea, sendo a infração enquadrada no artigo 188 do RICMS, aplicando a penalidade prevista na Lei 3.796/96. De acordo com a parca documentação juntada e o mínimo de prova produzida, não se vislumbra lastro probatório competente para ilidir ato administrativo vinculado, no caso, Auto de Infração, o qual possui presunção de legitimidade e veracidade, tributos estes pertinentes aos atos administrativos. A empresa autora limitouse a apenas (...)” (REsp. nº 1.697.908SE, Relator Min. Herman Benjamin, julgado em 17.10.2017, DJe 23.10.2017) grifouse Pois bem. Superadas eventuais divergências doutrinárias, e considerandose, então o lançamento de ofício como um ato administrativo, ao qual estaria fazendo referência o art. 24 da LINDB, a leitura do comando contido no caput deste dispositivo legal levaria a uma situação em tudo prejudicial ao administrado, isto se, conforme dito, se considerar que o art. 24 da LINDB seria aplicável a tal hipótese, no âmbito dos julgamentos do CARF. De fato. Se considerado o lançamento de ofício como sendo o ato administrativo objeto da “revisão” quanto à sua validade, então o dispositivo estaria a vedar que, por força de mudança posterior de “orientação geral” (tal qual definida no seu parágrafo único), o CARF viesse a declarar inválida a “situação plenamente constituída” por meio daquele ato (o lançamento). Uma vez mais: o lançamento (ato administrativo a ser “revisado” pelo CARF quanto à sua validade) não poderia, nos termos do art. 24, ser declarado inválido com base em mudança posterior (ao lançamento) de “orientação geral”. Salta aos olhos a total inadequação do art. 24 da LINDB a esta hipótese (lançamento de ofício como sendo o ato administrativo a ser objeto de “revisão” pelo CARF). Dito de outra forma, simplesmente não há como conformar o dispositivo a esta hipótese, a proposição simplesmente não faz sentido algum. Isto sem olvidar ainda que o lançamento de ofício, de qualquer sorte, e por certo, não constitui “plenamente” (aqui entendido como “definitivamente”) situação alguma. 50 BALEEIRO, Aliomar. Direito tributário brasileiro. 10ª ed., Rio de Janeiro: Forense,1996. Fl. 2262DF CARF MF 70 Invertendo um pouco o raciocínio, considerese agora outro tipo de ato administrativo, um que vise a reconhecer um direito do administrado (ao contrário do lançamento, que visa a impor uma obrigação ao administrado), e tentese conformar a aplicação do art. 24 da LINDB ao julgamento do CARF, nesta hipótese, considerando ser este (o ato de reconhecimento do direito) o ato administrativo a ser objeto de “revisão”. Por exemplo, considerese a expedição de um ato administrativo que tenha formalmente reconhecido a isenção de determinado contribuinte a certo tributo. Sabese que, em caso de verificação, a posteriori, da falta de preenchimento das condições, pelo beneficiário, ou do descumprimento, por ele, dos requisitos previstos na lei ou contrato para a concessão do benefício, o crédito tributário devido pode ser cobrado, consoante as disposições dos arts. 176, 179 e 155, do CTN. Mas estas hipóteses de descumprimento das condições ou requisitos aqui mencionadas, e retratadas no CTN, nada tem a ver com a invalidade (nulidade) daquele ato administrativo de concessão do benefício. Aliás, o lançamento de ofício em questão é efetuado, quando o caso, sem que seja declarada a nulidade daquele ato. Portanto, nesta hipótese, não seria igualmente o CARF a autoridade “revisora” da validade daquele ato concessivo. O CARF, quando muito, estará “revisando” a validade do ato administrativo de lançamento, e não a validade do ato concessivo do benefício, matéria esta que refoge inteiramente à sua competência. Nem mesmo nas hipóteses em que o reconhecimento do direito do administrado vem inserido no bojo do próprio ato administrativo a ser objeto de “revisão” pelo CARF, dentro de um processo administrativo fiscal, é possível vislumbrarse a aplicação do art. 24 da LINDB. Explicando: considerese as hipóteses de reconhecimento do direito do contribuinte à restituição de tributos, e/ou do direito à compensação, que constam ordinariamente em despachos decisórios das unidades administrativas, despachos estes os quais seriam então, eventualmente, “revistos” pelo CARF. Ora, cediço que nestes processos (restituição/compensação de tributos), toda a parte do despacho decisório, ou mesmo da decisão de primeira instância, em que é reconhecido o direito do contribuinte à restituição ou compensação, simplesmente não é objeto de recurso de ofício. Tratase de matéria que simplesmente não pode, portanto, ser objeto de apreciação (“revisão”) pelo CARF. O CARF somente será chamado a “revisar”, se o caso, a parte do despacho decisório em que não foi reconhecido o direito e em que se pode, então, estar a cobrar algum tributo devido. Nesta hipótese, valem aqui as mesmas observações feitas quanto ao lançamento de ofício: ou se conclui que a pretensão de aplicação do art. 24 da LINDB à hipótese seria de todo prejudicial ao administrado, ou, noutro giro, se conclui, como aqui se propugna, que este dispositivo não possui aplicação tampouco a esta hipótese. Uma vez mais, portanto, salta aos olhos a total inadequação do art. 24 da LINDB também a esta hipótese (ato administrativo de reconhecimento de direito do administrado como o ato a ser objeto de “revisão” pelo CARF). Com algum esforço, é possível vislumbrar alguma situação envolvendo um ato administrativo de reconhecimento de direito do administrado, em que o CARF poderia, ao menos em tese, e sensibilizado pelo art. 24 da LINDB, proferir uma decisão favorável ao sujeito passivo. Fl. 2263DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.229 71 Vejamos. Retornese ao caso do contribuinte que teve reconhecido, pela administração, o seu direito à isenção de determinado tributo, e considerese uma hipótese que não se refira à falta de preenchimento das condições e/ou ao descumprimento, pelo beneficiário, dos requisitos legais ou contratuais, situações estas já contempladas no CTN. Ou seja, considerese uma situação em que a própria Administração, por motivos diversos dos aqui mencionados, decida pela nulidade daquele seu ato administrativo concessivo do benefício. A esta declaração de nulidade daquele ato, com efeitos ex tunc, poderia, eventualmente, seguirse um lançamento de ofício cobrando do contribuinte o tributo considerado devido, em face da inexistência da mencionada isenção. Nesta hipótese, portanto, é possível vislumbrar que, na defesa administrativa contra este lançamento de ofício (inclusive perante o CARF, portanto), seja arguido pelo sujeito passivo que deveriam ter sido levadas em conta pela Administração, quando da invalidação do ato concessivo da isenção, as “orientações gerais” da época (mencionadas no parágrafo único do art. 24, e.g., a jurisprudência ou a prática administrativa reiterada) relativas a situações semelhantes ou tais quais aquela em que se encontrava o sujeito passivo. Pois bem. Supondose que o sujeito passivo logre êxito em sua demonstração de que as referidas “orientações gerais” da época lhe asseguravam o direito ao benefício, podese conceber uma situação em que o CARF, portanto, em consideração ao quanto disposto no art. 24 da LINDB, concluísse pelo cancelamento do auto de infração lavrado. Interessante observar, contudo, que, no exemplo acima mencionado, era a própria Administração quem, ao “revisar” a validade do ato concessivo do benefício, deveria ter observado o art. 24 da LINDB, e, se o caso, evitado de declarar a sua nulidade, considerando que aquele ato teria “plenamente constituído” uma situação de isenção. O CARF, conforme dito, não é o órgão “revisor” da validade daquele ato concessivo do benefício, e nem tampouco do ato que declarou a nulidade do ato concessivo. E, ademais, na “revisão” do ato administrativo de lançamento de ofício, tampouco seria o caso de o CARF declarar a nulidade (invalidade) deste ato (o próprio lançamento), senão apenas de decidir — em consideração ao quanto disposto no art. 24 da LINDB e às provas eventualmente feitas pelo contribuinte neste sentido — pelo cancelamento do auto de infração lavrado. Resta patente, portanto, a enorme dificuldade de se tentar vislumbrar hipóteses em que o CARF seria chamado a aplicar o art. 24 da LINDB aos processos administrativos fiscais em litígio. Noutra vertente de interpretação quanto ao comando contido no art. 24 da LINDB, advogam alguns que o próprio lançamento de ofício seria, na verdade, o ato de “revisão” administrativa quanto à validade de, por exemplo, um outro ato (este praticado pelo particular), sendo que o dispositivo proclamaria a vedação a que o lançamento de ofício, nesta “revisão” do ato praticado pelo particular, declarasse a invalidade da “situação plenamente constituída” por aquele ato do particular. Tratase, com todas as vênias, de uma construção extremamente engenhosa, e completamente desprovida de sentido. Fl. 2264DF CARF MF 72 O lançamento, de acordo com o art. 142 do CTN, é o “procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível”. Simplesmente não há como considerar o lançamento como ato de “revisão” da validade de atos praticados por particulares. Tratarseia de uma definição de lançamento até hoje não encontrada em nenhuma obra doutrinária séria a se dedicar à este tema. Nem o lançamento (e nem o CARF, ao julgar o lançamento), revisam atos dos particulares ou declaram inválidas “situações plenamente constituídas”. No lançamento fiscal (assim como o CARF, no julgamento), a autoridade, quando muito, averigua se os atos praticados pelo particular revelam substância econômica ou propósito negocial próprios, ou se foram praticados atos/contratos puramente formais, se configuram simulação ou ofensa velada à norma tributária de regência (fraude à lei fiscal), tudo com vistas a estabelecer as consequências tributárias advindas daqueles atos. Mas isto é feito sem que seja declarada a nulidade dos atos praticados, mesmo porque a competência para tal finalidade, sabese, é exclusiva do Poder Judiciário. Além da completa inadequação do conceito de lançamento à idéia de “revisão” de atos, para eventualmente declarar a sua invalidade, ou, ainda, a invalidade de alguma “situação plenamente constituída” por meio daquele ato (seja qual for o entendimento que se queira dar a tal expressão), fato é que os defensores de tal esdrúxula proposta desconsideram, ainda, a redação do próprio texto legal, que insere o vocábulo “administrativa” logo após as expressões nele mencionadas (“ato, contrato, ajuste, processo ou norma”). Alguém poderia objetar que a palavra “administrativa” concorda, gramaticalmente, apenas com o vocábulo “norma”, mas não com os demais. Pois bem. Apesar da deficiente redação do dispositivo legal, neste aspecto, simplesmente não faz sentido algum imaginar que administrativa seria apenas a norma. Fosse assim e teríamos, então, a situação em que o art. 24 aplicarseia indistintamente à revisão de todo e qualquer ato, contrato, ajuste, ou processo, independente de ser uma ato da administração ou do particular, mas que, com relação às normas, aplicarseia somente às administrativas, mas não às normas legais, por exemplo. Impossível não se detectar aí uma contradição lógica, em que, por um lado, se amplia enormemente o âmbito de aplicação do dispositivo, ao mesmo tempo em que, por outro, se o restringe a uma espécie específica de norma. E tudo isto ainda sem se deixar de observar a inadequação de alguns dos vocábulos ali mencionados a atos que não envolvam a Administração, mas tão somente particulares (ajuste, por exemplo). Muito mais sensato, portanto, é concluir que o dispositivo em questão diz respeito a atos administrativos, contratos administrativos, ajustes administrativos, processos administrativos, e normas administrativas. Aliás, outra evidência de que a palavra “administrativa”, no dispositivo em questão, está vinculada a todos os vocábulos que lhe antecedem, encontrase, por exemplo, no Fl. 2265DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.230 73 artigo 25 da LINDB, o qual foi vetado quando da conversão do projeto de lei na Lei nº 13.655/2018. Transcrevese, a seguir, o seu teor, seguido da mensagem de veto presidencial51: Art. 25 do DecretoLei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942, acrescido pelo art. 1º do projeto “Art. 25. Quando necessário por razões de segurança jurídica de interesse geral, o ente poderá propor ação declaratória de validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, cuja sentença fará coisa julgada com eficácia erga omnes. § 1º A ação de que trata o caput deste artigo será processada conforme o rito aplicável à ação civil pública. § 2º O Ministério Público será citado para a ação, podendo absterse, contestar ou aderir ao pedido. § 3º A declaração de validade poderá abranger a adequação e a economicidade dos preços ou valores previstos no ato, contrato ou ajuste.” Razões do veto “A ação declaratória preconizada pelo dispositivo, cuja sentença terá eficácia para todos, inclusive podendo dispor a respeito de preço e valores, poderá acarretar em excessiva demanda judicial injustificada, tendo em vista a abrangência de cabimento para a impetração da ação por ‘razões de segurança jurídica de interesse geral’ o que, na prática, poderá contribuir para maior insegurança jurídica. Ademais, há omissão quanto à eficácia de decisões administrativas ou de controle anteriores à impetração da ação declaratória de validade, uma vez que a atuação judicial pode se tornar instrumento para a mera protelação ou modificação dessas deliberações, representando, também, violação ao Princípio Constitucional da Independência e Harmonia entre os Poderes.” Vejase que o dispositivo propunha possibilidade de o ente público vir a propor uma ação declaratória de validade exatamente daquelas mesmas coisas (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). Percebase que a redação é idêntica àquela adotada no artigo 24. Considerandose a máxima obviedade de que somente caberia ao ente público propor uma ação declaratória de validade com relação aos seus próprios atos, e não aos atos de terceiros, assoma com absoluta clareza a impossibilidade de se dissociar a palavra “administrativa” dos vocábulos que lhe antecedem, nada obstante a já, conforme dito, deficiente redação do dispositivo legal. E, quando considerado que a dita “revisão” a que se refere o caput do artigo 24 há que incidir sobre atos, contratos, ajustes, processos, ou normas, emanados pela própria Administração ou celebrados com a sua participação, então resta inescapável a conclusão pela total impossibilidade de que o lançamento de ofício possa ser considerado como o ato veiculador da “revisão” que é mencionado no dispositivo. Isto porque o lançamento, conforme cediço, não é instrumento apto a “revisar” a validade de tais manifestações da própria Administração. 51 disponível em http://www.planalto.gov.br Fl. 2266DF CARF MF 74 Portanto, por qualquer ótica que se analise o dispositivo, revelase extremamente difícil, ou mesmo impossível, conformálo ao tipo de situações que se apresentam para julgamento no CARF. A enorme dificuldade que se encontra ao se tentar vislumbrar hipóteses em que o CARF seria chamado a aplicar o art. 24 da LINDB aos processos administrativos fiscais em litígio traz consigo a questão de se tentar determinar, então, para quais situações, afinal, foi concebido o art. 24 da LINDB. Pois bem. Na verdade, não apenas o art. 24, mas todos os artigos inseridos na LINDB pela Lei nº 13.655/2018 refletem o declarado propósito do projeto de lei apresentado pelo senador Antonio Anastasia, que é fruto da pesquisa feita pelos professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto, e publicada na obra “Contratações Públicas e Seu Controle”, dedicada exclusivamente a este tema. Neste sentido, confirase a justificativa apresentada pelo senador Anastasia no Projeto de Lei do Senado nº 349, de 201552: “Como fruto da consolidação da democracia e da crescente institucionalização do Poder Público, o Brasil desenvolveu, com o passar dos anos, ampla legislação administrativa que regula o funcionamento, a atuação dos mais diversos órgãos do Estado, bem como viabiliza o controle externo e interno do seu desempenho. Ocorre que, quanto mais se avança na produção dessa legislação, mais se retrocede em termos de segurança jurídica. O aumento de regras sobre processos e controle da administração têm provocado aumento da incerteza e da imprevisibilidade e esse efeito deletério pode colocar em risco os ganhos de estabilidade institucional. Em razão disso, os professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano de Azevedo Marques Neto elaboraram projeto de lei, que ora é acolhido, fruto de projetos de pesquisa mais amplos desenvolvidos por pesquisadores da Sociedade Brasileira de Direito Público em parceria com a Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas. O resultado desse trabalho foi publicado na obra “Contratações Públicas e Seu Controle”, pela Editora Malheiros, ano 2013.” (grifouse) E, ainda, mais adiante: “Conforme esclareceram os referidos professores, o projeto em apreço propõe medidas para neutralizar importantes fatores de distorção da atividade jurídico decisória pública. São eles: O alto grau de indeterminação de grande parte das normas públicas; A relativa incerteza, inerente ao Direito, quanto ao verdadeiro conteúdo de cada norma; A tendência à superficialidade na formação do juízo sobre complexas questões jurídicopúblicas; A dificuldade de o Poder Público obter cumprimento voluntário e rápido de obrigação por terceiros, contribuindo para a inefetividade das políticas públicas; A instabilidade dos atos jurídicos públicos, pelo isco potencial de invalidação posterior, nas várias instâncias de controle. 52 disponível em https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias//materia/134033 Fl. 2267DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.231 75 Os efeitos negativos indiretos da exigência de que as decisões e controles venham de processos (que demoram, custam e podem postergar cumprimento de obrigações); O modo autoritário como, na quase totalidade dos casos, são concebidas e editadas normas pela Administração Pública. (SUNDFELD, Carlos Ari. MARQUES NETO, Floriano de Azevedo. Contratações Públicas e Seu Controle. 2013: Malheiros, p. 278) Com efeito, as diretrizes propostas pelos ilustres professores Carlos Ari Sundfeld e Floriano Marques Neto podem ser assim resumidas: Consagram alguns novos princípios gerais a serem observados pelas autoridades nas decisões baseadas em normas indeterminadas (arts. 20 e 21); Conferem aos particulares o direito à transição adequada quando da criação de novas situações jurídicas passivas (art. 22); Estabelecem o regime jurídico para negociação entre autoridades públicas e particulares (art. 23); Criam a ação civil pública declaratória de validade, com efeito erga omnes, para dar estabilidade a atos, contratos, ajustes, processos e normas administrativas (art. 24); Impedem a invalidação de atos em geral por mudança de orientação (art. 25); Disciplinam os efeitos da invalidação de atos em geral, para tornálos mais justos (art. 26); Impedem a responsabilização injusta de autoridade em caso de revisão de suas decisões (art. 27); Impõem a consulta pública obrigatória para a edição de regulamentos administrativos (art. 28); e: Determinam a compensação, dentro dos processos, de benefícios ou prejuízos injustos gerados para os envolvidos (art. 29) (SUNDFELD, Carlos Ari. MARQUES NETO, Floriano de Azevedo. Contratações Públicas e Seu Controle. 2013: Malheiros, p. 280)” (grifouse) Resta claro, portanto, qual é o âmbito de aplicação do art. 24 em questão. É direcionado a órgão ou autoridade (administrativa, controladora, ou judicial) que tenha por finalidade revisar a validade (legitimidade) do ato administrativo, ou do contrato administrativo, ou do ajuste celebrado com a Administração, ou do processo administrativo, ou, por fim, das normas administrativas. Em total sintonia com o contexto dentro do qual foi gestada a Lei nº 13.655/2018, bem assim com a sua redação, é possível constatar situações em que o artigo 24 possui aplicação, sem maior dificuldade de compreensão e/ou necessidade de se recorrer a raciocínios extremamente engenhosos (e assaz enganosos). O art. 24 da LINDB possui aplicação no caso de estar o órgão ou autoridade decisória (administrativa, controladora, ou judicial) diante de um ato administrativo que tenha gerado uma situação consolidada em favor do administrado, tais como, por exemplo, quando a Fl. 2268DF CARF MF 76 Administração emite uma licença de funcionamento, ou assina um contrato com o particular, ou autoriza um pagamento, ou edita uma instrução normativa. Nestes casos é que o art. 24 da LINDB veda que a “mudança posterior de orientação geral” sobre a validade daqueles atos afete (invalide) a situação plenamente constituída (consolidada) que a própria Administração gerou, com relação àquele administrado. Este é, com clareza e nitidez, o espectro de aplicação do art. 24 da LINDB. Vejase como a sua redação se encaixa com perfeição à hipótese, sem a necessidade de raciocínios complexos, inovadores, e absolutamente descolados das finalidades às quais a lei se destina. Resumindo o quanto aqui se expôs, temse, portanto, que o único ponto em que se poderia considerar o CARF como órgão inserido nas disposições deste artigo seria na hipótese de se tratar o lançamento de ofício como o ato administrativo passível de “revisão” quanto à sua validade. E isto porque é tão somente este o ato administrativo que cabe ao CARF “revisar” quanto à validade. O CARF, conforme dito, seguramente não se constitui em instância “revisora” de qualquer uma das outras coisas mencionadas no dispositivo (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). E, por fim, ocorre ainda que, mesmo considerandose o CARF como instância de “revisão” do lançamento de ofício, o comando estabelecido no dispositivo em questão tampouco faz sentido algum, conforme ao norte já demonstrado. Por todos os motivos expostos é que se entende que o art. 24 da LINDB não possui aplicação, concretamente, aos julgamentos realizados no âmbito do CARF. A tentativa de pugnar pela aplicação do art. 24 da LINDB aos julgamentos no CARF, em especial aos processos que tratam de complexos planejamentos tributários desenvolvidos exclusivamente pelos particulares, é fruto tão somente da engenhosidade do raciocínio empregado por quem o defende, na tentativa de fazer conformar, a fórceps, o dispositivo legal em questão a uma situação que nele não se encaixa. Ademais, o desenvolvimento da presente declaração de voto está totalmente de acordo com o Direito, partindo inicialmente da redação do texto legal, interpretandoo às situações reais, e depois utilizando os contextos sistemáticos e históricos como vetores de interpretação. Não se trata simplesmente de advogar a “imunidade” do CARF a tal dispositivo, como de forma rasa (e, porque não dizer, desrespeitosa) se manifestou, por exemplo, um dos autores da proposta que deu origem à Lei nº 13.655/2018. Afirmou o digno professor que o entendimento externado pelo CARF, de que o artigo 24 da LINDB seria aplicável apenas à administração pública, e não aos processos administrativos fiscais, seria “a coisa mais despropositada que eu já ouvi em relação à Lei” e que “se essa norma se aplica ao processo administrativo, porque a imunidade [do CARF]?” Conforme visto, não é que o CARF seja “imune” a um dispositivo inserido na lei de introdução às normas do direito brasileiro (o que o torna, a priori, aplicável em todas as esferas decisórias) e, ademais, no qual ainda expressamente consta ser ele aplicável às “esferas administrativa, controladora ou judicial”. Tratase sim, conforme visto, de total inadequação da redação do dispositivo às situações que são objeto de julgamento pelo CARF. Apenas isto. Fl. 2269DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.232 77 No mesmo sentido do quanto aqui exposto, colhese, por exemplo, a seguinte manifestação do Juiz Federal e Doutor em Direito pela Universidade de Salamanca (Espanha) Andrei Pitten Velloso, em artigo recentemente publicado53: “Em que pesem as opiniões contrárias, o artigo 24 não é pertinente às operações de planejamento tributário. Isso porque versa sobre a revisão da validade de atos administrativos, ao passo que as operações de planejamento tributário são consubstanciadas por atos dos contribuintes, cuja validade não é, em geral, questionada: controvertese apenas acerca da sua oponibilidade ao Fisco.” (grifouse) Encerro, com isto, minhas considerações gerais sobre o tema, votando no sentido de não aplicar, em tese, o art. 24 da LINDB ao processo administrativo fiscal. 2. Passo a comentar as decisões encontradas no TRF4, TCU, TJSP, CARF, e algumas manifestações nestes processos. 2.1. Sobre o Agravo de Instrumento nº 502621631.2018.4.04.0000/PR, no TRF4: Este caso, conforme visto, seria interessante, porque o caso tratava, na origem de processo fiscal (PAF nº 10980.722071/201276), no qual foi discutida a amortização de ágio com investimento de empresa estrangeira feito em uma “holdingveículo” brasileira (empresa Arcelormittal, acórdão nº 9101003.060). O impetrante, no caso, aduzia o argumento de que “o artigo 24, da LINDB, determina a análise do cenário jurisprudencial à época da lavratura do AIIm pela Receita Federal”. Ou seja, de que seria o auto de infração o ato “revisor” do ato praticado pelo contribuinte. O magistrado, contudo, ao negar provimento ao agravo, disse apenas que “Não é inequívoca a prova do direito alegado, não lhe outorgando verossimilhança”, nada mencionando especificamente acerca do art. 24 da LINDB. 2.2. Sobre o TC 014.919/20109, no TCU: Tratase de embargos de declaração contra o Acórdão 768/2018Plenário, que, entre outras coisas, determinou a “instauração de quatro processos apartados de tomada de contas especial (...) com vistas à quantificação dos débitos e identificação dos responsáveis pelos indícios de dano ao erário apurados nos Contratos 007/2008, 008/2008, 009/2009 e 010/2010, relativos aos lotes 1 a 4 de construção do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro”. Portanto, uma situação envolvendo contratos públicos, ou seja, exatamente o tipo de situação considerado na elaboração do malfadado projeto de lei... Neste caso, um dos interessados, nos embargos ao acórdão, arguiu a aplicação do art. 24 da LINDB. Interessante observar que o administrado, pela sua manifestação, também entende que o art. 24 diz respeito à revisão de atos emanados da Administração, exatamente conforme aqui proposto. Confirase: 53 Mudança retroativa de jurisprudência e segurança jurídica: as repercussões das inovações da LINDB nas decisões relativas a operações de planejamento tributário. 03/07/2018. Artigo disponível em http://www.cartaforense.com.br Fl. 2270DF CARF MF 78 “Nesse sentido, cumpre trazer o artigo 24, recém introduzido na LINDB, o qual condiciona a revisão de determinado conteúdo emanado pela esfera administrativa à manutenção de orientação expressa anteriormente.” (grifou se) Para refutar a aplicação do art. 24 da LINDB ao caso concreto analisado pelo TCU nos embargos, o relator, Ministro Benjamin Zymler, argumentou, em síntese, o seguinte. Primeiro, que a decisão objeto dos embargos (o Acórdão 768/2018Plenário) foi proferida antes da publicação da Lei nº 13.655/2018, assim, não caberia se falar em nulidade do acórdão por conta de legislação superveniente. Em segundo, porque, ainda que o acórdão tivesse sido exarado após (na decisão, o relator equivocadamente escreve antes) a edição da Lei nº 13.655/2018, ele não seria nulo, “visto que o julgado não apresentou nenhuma mudança jurisprudencial sobre o tema em questão”. Afirma o relator, na sequência, o seguinte: “25. Há décadas a jurisprudência desta Corte de Contas considera irregular a celebração de contratos administrativos por preços superiores aos de mercado 26. O fato é que as condições praticadas nos ajustes auditados têm sido questionadas desde a época da fiscalização, em 2010. Como ressaltado na decisão recorrida, o Tribunal determinou solução provisória a respeito da adoção de preços de indenização de jazida, no valor de R$ 5,84/m3, a ser adotado enquanto não fosse concluído o estudo determinado (Acórdão 3.451/2012Plenário). Jamais os valores contratuais tiveram sua regularidade reconhecida pela TCU. 27. Também não se pode atribuir ao caso em análise as caraterísticas de um ato jurídico perfeito ou de uma situação plenamente constituída. Nesse sentido, cito trecho do voto condutor do Acórdão 1.304/2017Plenário, de minha relatoria: 54. Dispõe a Carta Magna que a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, o que nos leva e perquirir se realmente uma decisão condenatória do TCU poderia obrigar o particular ressarcir o erário em vista de superfaturamento por preços excessivos observado no contrato. 55. Ocorre que um contrato eivado por sobrepreço não é um ato jurídico perfeito, assim entendido como aquele já realizado, acabado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou, satisfazendo todos os requisitos formais para gerar a plenitude dos seus efeitos. 56. Dentre outras causas elencadas no art. 166 do Código Civil, considerase nulo o negócio jurídico quando for ilícito o seu objeto; o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito; não revestir a forma prescrita em lei; for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade; tiver por objetivo fraudar lei imperativa; e a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibirlhe a prática, sem cominar sanção. O objeto do negócio jurídico administrativo é a contratação segundo os preceitos da Lei 8.666/1993. Por isso, o contrato com sobre preço afigurase ilícito, na medida em que não se adequa à Lei. 57. Nesse sentido, é oportuno colacionar diversos dispositivos legais que caracterizam como ilícito a contratação pela Administração Pública por preço superior ao de mercado, a começar pela própria lei 8.666/1993, em seu art. 96: (...)” Fl. 2271DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.233 79 Verificase, portanto, que o TCU considera o artigo 24 aplicável ao tipo de processo lá discutido (o que confere, também, com as nossas considerações feitas), nada obstante o TCU tenha, no caso concreto, rejeitado a conformação dos fatos à hipótese prevista no artigo. 2.3. Sobre a Apelação nº 105861023.2016.8.26.0053, no TJSP: Tratase, no caso, de vantagem funcional de natureza indenizatória (Auxílio saúde) que era conferida aos funcionários da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, sem que fosse necessária a efetiva comprovação da realização dos gastos. Esta desnecessidade de comprovação estava estabelecida no Ato nº 12/2012 da Mesa então vigentes. Contudo, os Atos nº 18/2013 e nº 20/2014 passaram a exigir tal comprovação, e daí começaram a exigir dos funcionários a comprovação dos gastos ocorridos naqueles anos em que não havia tal obrigatoriedade. Aqui houve, pelo TJ, a aplicação direta das disposições do art. 24 da LINDB, justamente para considerar como situações plenamente constituídas aquelas em que os funcionários, confiantes nas disposições de ato administrativo anterior, não possuíam mais (ou nunca possuíram) os comprovantes daqueles gastos. Transcrevese abaixo o parágrafo do voto em que a aplicação do art. 24 da LINDB ao caso é analisada: “No caso em apreço, é possível divisar que os pagamentos efetuados correspondem a atos administrativos produzidos de acordo com as exigências normativas de então, que geraram efeitos favoráveis aos servidores, e que tem por objeto presumido a organização da vida financeira básica que se relaciona com a estabilidade jurídica e tranquilidade existencial, tudo a recomendar, em nome da concretização da segurança jurídica e da legítima confiança, o respeito às situações plenamente constituídas a que se refere o art. 24 da LINDB.” (grifouse) Verificase, portanto, que o TJSP aplicou o art. 24 da LINDB precisamente em uma situação de natureza tal qual aquela em que, nas considerações aqui ao norte feitas, entendemos aplicável o dispositivo. Ou seja, no caso de uma “situação plenamente constituída” por força e obra de um ato administrativo que a gerou. 2.4. Sobre a Manifestação da PGFN no caso relativo à Resolução nº 9101000.058 As considerações da PGFN, em linhas gerais, não destoam das aqui feitas, nada obstante algumas coisas aqui trazidas não constem da manifestação da PGFN, e vice versa. A PGFN destaca o viés do projeto de lei (controle das contratações públicas) e também defende que o art. 24 se dirige “à revisão de ato, processo ou norma emanados da própria Administração, bem como de contrato ou ajuste entabulados entre a Administração e o particular”. Tal como aqui feito. Também afirma que o lançamento não configura procedimento de “revisão”, “não sendo de seu escopo revisar atos nem declarar inválida qualquer situação prévia plenamente constituída”, mas tão somente apurar as consequências tributárias advindas daqueles atos. Tal como aqui feito. Fl. 2272DF CARF MF 80 Ao enfrentar o argumento da parte contrária, de que o lançamento pudesse ser o ato veiculador da “revisão” prevista no art. 24, a PGFN acrescenta um argumento, não feito nas considerações gerais aqui ao norte, de que o dispositivo violaria a previsão constitucional de que tal matéria (lançamento) somente poderia ser veiculada por lei complementar. A PGFN fez dois “algoritmos” que me pareceram úteis, que são bastante procedentes e que estão em linha com as considerações gerais feitas anteriores. O primeiro, para sintetizar a que tipo de situação se aplica o art. 24: “Noutras palavras, o dispositivo abrange a seguinte situação: 1 – A Administração praticou um ato, firmou um contrato ou ajuste, estabeleceu um processo ou publicou uma norma, seguindo orientação então vigente; 2 – Este ato, contrato, ajuste, processo ou norma gerou uma situação plenamente constituída em favor do administrado; 3 – A Administração altera sua orientação sobre a validade do ato, contrato, ajuste, processo ou norma, por ela praticado, procedendo à sua revisão; 4 – A revisão levará em conta a orientação anterior, sob a qual o ato da Administração foi praticado, evitando declarar a invalidade daquelas situações plenamente constituídas em consequência daquele ato.” Este algoritmo reflete com precisão a situação tratada na Apelação do TJSP (auxílio saúde). O segundo algoritmo, para sintetizar o absurdo da argumentação de que seria o lançamento o ato de “revisão” dos atos de particulares: “Segundo essa interpretação, a norma se prestaria a reger a seguinte situação: 1 – A Administração praticou um lançamento, seguindo orientação então vigente; 2 – Este ato de lançamento gerou uma situação plenamente constituída (?); 3 – A Administração (órgão julgador da impugnação/recurso) altera sua orientação sobre a validade do lançamento (?), procedendo à sua revisão; 4 – A revisão levará em conta a orientação anterior, sob a qual o lançamento foi praticado, evitando declarar a invalidade daquelas situações plenamente constituídas (?).” Por fim, a PGFN aborda ainda mais outra interpretação do dispositivo que, conforme informa, teria sido feita no âmbito do CARF: a de que a validade do lançamento estaria vinculada à jurisprudência existente à época dos fatos fiscalizados, e não à época em que praticado o ato objeto de revisão (no caso, o próprio lançamento). Ou seja, a decisão que “revisa” o lançamento, no CARF, teria de levar em conta o “direito do contribuinte de não ser autuado à luz das orientações gerais porventura existentes à época em que praticados os fatos fiscalizados”. Fl. 2273DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.234 81 Neste aspecto, a PGFN, além de destacar que a interpretação proposta está “completamente dissociada do texto legal”, diz que isto equivale a afirmar que “a Lei 13.655/2018 estaria conferindo ‘eficácia normativa’ à jurisprudência majoritária anterior, enquadrandoa no CTN como norma tributária complementar (art. 100, II)”, o que seria um total despropósito, porque, neste caso, as ditas “orientações gerais” estariam vinculando a atuação do próprio auditor autuante, e, ademais, indevidamente engessando o órgão julgador, pois este “jamais poderia contrariar a jurisprudência que o antecedeu no julgamento de determinada matéria”. São considerações bastante interessantes, que vão além daquelas nos comentários gerais. 2.5. Sobre o caso HELIO LANIADO (Acórdão nº 9202006.996) Neste caso, o art. 24 foi trazido como questão de ordem, por conselheira presente à sessão, quando faltava, aparentemente, apenas um único voto a ser proferido. Nada obstante o acórdão registre que a questão de ordem não foi conhecida, fato é que ela foi analisada, e bastante, no bojo do voto, tendo a aplicação do art. 24 sido rejeitada por dois fundamentos: (i) pelo estágio em que se encontrava o processo (uma única linha sobre o assunto); e (ii) pela absoluta inaplicabilidade da Lei nº 13.655, de 2018, à atividade judicante do CARF (todo o restante da fundamentação). Em síntese, defendeu acertadamente a relatora, a Dra. Maria Helena Cotta Cardozo, que a lei é de natureza essencialmente administrativa e voltada aos órgãos de controle (CGU, TCU, CADE, etc), citando como reforço a Nota Técnica Conjunta nº 1/2018, do Ministério Público Federal (que solicitava o veto integral ao projeto, ressaltese, embora apenas alguns específicos dispositivos tenham, ao final, sido vetados). Assim, sustenta que a aplicação desta lei ao CARF, quando muito, “restringirseia às suas atividades essencialmente administrativas, afetas à sua SecretariaExecutiva, quanto a eventuais contratos, convênios e atos congêneres, inerentes ao próprio funcionamento do Órgão”. E que, não sendo o CARF um “órgão de controle”, não há como aplicar a lei ao CARF. Adicionadas essas considerações quanto à parca jurisprudência existente até o momento, que são úteis para uma melhor compreensão da aplicabilidade do artigo em discussão, reafirmo as considerações anteriores. Ressalto ainda que, na data do presente julgamento (11/09/2018), já havia sido publicado o Acórdão nº 1301003.284, mas não tive tempo de aprofundálo, pois publicado na data de ontem (10/09/2018). Assim, em resumo, voto no sentido de NÃO APLICAR, EM TESE, O ART. 24 DA LINDB ao processo administrativo fiscal. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 2274DF CARF MF 82 Declaração de voto Conselheiro Flávio Franco Corrêa O artigo 24 da LINDB, inserido pela Lei nº 13.655/2018, tem o seguinte teor: "Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas.(Incluído pela Lei nº 13.655, de 2018) Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público." Entende o contribuinte que a Fiscalização não poderia autuálo, por ter seguido jurisprudência da época do ato, que qualifica como jurisprudência administrativa majoritária para fins de enquadramento legal como "orientações gerais". O dispositivo se refere à "validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado". Com efeito, o pagamento antecipado extingue o crédito tributário, ainda que sob condição resolutória. Enquanto pendente a condição resolutória, o efeito extintivo do pagamento deve ser reconhecido. Não fosse assim, o artigo 3º da Lei Complementar nº 118/2005 não teria estabelecido que a extinção do crédito tributário, para efeitos de interpretação do artigo 168, inciso I, do CTN, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, ocorre no momento do pagamento antecipado. Faço essa alusão ao pagamento do contribuinte para desvendar se a expressão "ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado" protege o contribuinte, por ter optado por certas práticas com o intento de obter efeitos tributários favoráveis, em sintonia com o que diz corresponder à jurisprudência administrativa da ocasião. Em declaração de voto no acórdão nº 1301003.284, o Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto muito apropriadamente esclarece essa dúvida: "Causa maior dúvida, entretanto, o alcance de "ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa", em razão de uma peculiaridade gramatical da língua portuguesa. A perplexidade reside, precisamente, no alcance semântico do adjetivo "administrativa", se em relação apenas a "norma", ou se afeta os demais substantivos. Tratase de um caso especial de concordância nominal, no qual o adjetivo é posposto aos substantivos, em que a regra culta autoriza que o adjetivo concorde, em gênero e número, com o substantivo mais próximo ou com todos eles (assumindo a forma Fl. 2275DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.235 83 masculino plural, se houver substantivos de ambos os gêneros). Por exemplo, são gramaticalmente corretas e de idêntico significado as frases: A noiva exigiu o vestido e a maquiagem perfeita para o casamento. A noiva exigiu a maquiagem e o vestido perfeito para o casamento. A noiva exigiu o vestido e a maquiagem perfeitos para o casamento. A despeito da regra, a utilização do adjetivo flexionado em número, concordando com todos os substantivos, traz um evidente ganho de clareza, afastando dúvidas sobre o alcance dele a todos ou apenas ao último termo. A relevância da dúvida é patente, pois o ato do contribuinte, em cumprimento da obrigação de apuração do crédito tributário, não tem natureza de ato administrativo (diferentemente do lançamento tributário, realizado exclusivamente por autoridade administrativa, nos termos do art. 142 do CTN3) em sendo o adjetivo "administrativa" referente exclusivamente a "norma", então tanto o ato administrativo quanto o privado estariam abrangidos pelo dispositivo, caso contrário, apenas os atos administrativos, como o lançamento, estariam sujeitos à vedação de revisão. Em caso de dúvidas na interpretação, a própria LINDB nos dá diretrizes, em seu art. 5º, ao determinar que "Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum." com isso, não se quer dizer que a intenção do legislador mens legislatoris deve se sobrepor ao texto legal e seu sentido próprio adquirido dentro do sistema jurídico, mas sim que, em caso de dúvida sobre este sentido, o recurso à finalidade que se pretendia alcançar é admitida para esclarecer o conteúdo e alcance da norma. Em 2015, o Senado Federal editou obra denominada "Segurança Jurídica e Qualidade das Decisões Públicas: desafios de uma sociedade democrática", que compilou estudos sobre o Projeto de Lei nº 349/2015, posteriormente convertido na Lei nº 13.655/2018. Neste trabalho, diversos professores que participaram na elaboração do projeto de lei apresentaram as razões para os dispositivos, sendo digno de nota trecho da autoria dos Professores Floriano Azevedo e Egon Bockmann: O projeto de lei apresentado ao Senador Antonio Anastasia para atualizar a Lei de Introdução traz algumas boas indicações de como lidar com a atual realidade. Ao invés de perseguir um positivismo fechado e fora do tempo, a iniciativa propõe a inclusão de uma série de artigos à Lei de Introdução das Normas ao Direito Brasileiro, voltadas a balizar a interpretação e aplicação do direito público. Sem tolher a atuação dos órgãos administrativos, jurisdicionais ou de Fl. 2276DF CARF MF 84 controle, o projeto coloca parâmetros de estabilidade e previsibilidade às relações com a Administração Pública. Nesse sentido, os autores deixa [sic] claro que a lei busca regular o tratamento de atos, contratos, ajustes, processos e normas administrativos, que tenham sido constituídos levando se em conta a orientação geral vigente na época, como forma de resguardálos do controle posterior por novos critérios ou novas interpretações. Isso fica claro em outros artigos da mesma obra, como este da lavra de Marçal Justen Filho: A ação visa o exame de ato administrativo concreto, nas suas diversas manifestações. Assim, poderá versar sobre ato administrativo unilateral ou bilateral. Poderá envolver inclusive aspecto específico de ato administrativo, tal como o preço ou quaisquer outros valores contemplados para constituir despesa ou receita da Administração Pública. Mais enfático ainda é Egon Bockmann: O artigo 26 determina que as decisões (administrativas, controladoras e/ou judiciais isto é, todos os atos de aplicação do Direito) que porventura invalidem atos e negócios jurídicos administrativos pretéritos (ato, contrato, ajuste, processo ou norma pouco importa o nome) tenham de levar em consideração seus efeitos futuros. Assim, parece haver entre todos os autores que participaram da elaboração da lei um alinhamento no sentido do alcance do art. 24 da LINDB apenas aos atos administrativos, e não a quaisquer atos privados, ainda que relevantes na relação entre Administração Pública e o cidadãocontribuinte. Esse ponto foi expressamente afirmado pelo Prof. Carlos Ari Sundfeld, um dos autores da lei, nos seguintes termos: O art. 24 proíbe que a administração tributária dê aplicação retroativa a nova interpretação sobre a legislação tributária, de modo que nenhuma REVISÃO DE VALIDADE DE ATO SINGULAR DA AUTORIDADE (o lançamento, por exemplo) pode ser feita por mudança da orientação geral a respeito. Aliás, como se sabe, a proibição da irretroatividade da nova interpretação vai além dos simples casos de invalidação de atos administrativos, pois está prevista em termos amplos na Lei Federal de Processo Administrativo (art. 2º, parágrafo único, XIII) e no Código Tributário (art. 100, II, III e parágrafo único, e art. 146) Por mais que o ato apuração do tributo seja do contribuinte em relação à Receita Federal, que deverá homologálo, isso não o torna um ato administrativo, cuja definição clássica de Hely Lopes Meirelles já acentuava seus caracteres: "Ato administrativo é toda manifestação unilateral de vontade da Administração Pública que, agindo nessa qualidade, tenha por fim imediato adquirir, resguardar, transferir, modificar, extinguir e declarar direitos, ou impor obrigações aos administrados ou a si própria". Fl. 2277DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.236 85 A leitura do caput do art. 24 da LINDB deixa claro que a sua aplicação pressupõe a existência de pelo menos três atos (em sentido lato) distintos: Ato 01 "Ato administrativo." Ato 02 "Ato de revisão na esfera administrativa" . Ato 03 " Ato de aplicação do art. 24 da LINDB, para anular o Ato 02". Essa é a estrutura de aplicação do art. 24 é a revisão da revisão. Mas antes disso, fica absolutamente claro que o primeiro ato, revisado pelo ato 02 e reestabelecido pelo ato 03, precisa ser necessariamente um ato administrativo. No lançamento por homologação, o Ato 01 é um ato do particular de declaração do fato gerador e apuração do tributo devido, dotado de natureza constitutiva do crédito tributário, e o Ato 02 será a revisão feita pela Administração Tributária, com eventual lançamento, pretendendo o Contribuinte que o Ato 03 seja realizado através do processo administrativo tributário (DRJ, CARF e CSRF). Como se vê, essa estrutura claramente não é compatível com a literalidade do art. 24 da LINDB, por se tratar de ato particular, e não ato administrativo." A brilhante elucidação do Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto vai ao encontro da posição que já defendi, em manifestações orais nas sessões de julgamento nesta Câmara Superior, quando expressei que o substantivo "revisão", que inicia o artigo 24 da LINDB introduzido pela Lei nº 13.655/2018, significa um segundo olhar sobre o que já foi visto. Isso implica que seja o mesmo ato antes visto e regularmente aprovado. Segundo o artigo 24 da LINDB, essa aprovação não pode ser posteriormente revista à luz de orientações posteriores, pois coloca em risco a segurança jurídica. Contribuintes têm vindo a esta Câmara para pleitear que não seja revisto o que sequer foi visto antes. O ato cujos efeitos tributários são examinados neste momento não foi objeto de anterior aprovação pela Administração Tributária. Aliás, se já houvesse sido aprovado, teria a proteção da coisa administrativa definitivamente julgada, nos termos do artigo 42 do Decreto nº 70.235/1972, ou das decisões administrativas com eficácia vinculante, em consonância com o artigo 146 c/c artigo 100, inciso II, ambos do CTN. Portanto, o artigo 24 da LINDB não diz respeito ao ato de espontânea subsunção à lei realizado pelo contribuinte. Este ato, além de ser privado, não foi precedentemente examinado. Por essa razão, entendo que o artigo 24 da LINDB não se aplica ao contribuinte que pleiteia sua proteção com a alegação de realizara a espontânea subsunção à lei tributária, em consonância com a interpretação que prevalecia na jurisprudência da época. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Fl. 2278DF CARF MF 86 Declaração de voto Conselheiro André Mendes de Moura. Sobre a matéria LINDB, votei com o I. relator pelas conclusões. Apresento meus fundamentos para a decisão. Foram empreendidos debates bastante substanciosos a respeito da aplicação do art. 24, do DecretoLei nº 4.657, de 1942 (LINDB), com redação dada pela Lei nº 13.655, de 2018), ao processo administrativo tributário, na esfera federal. Transcrevo o dispositivo em questão: Art. 24. A revisão, nas esferas administrativa, controladora ou judicial, quanto à validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa cuja produção já se houver completado levará em conta as orientações gerais da época, sendo vedado que, com base em mudança posterior de orientação geral, se declarem inválidas situações plenamente constituídas. Parágrafo único. Consideramse orientações gerais as interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral ou em jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, e ainda as adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. A tese seria no sentido de que a validade do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa (cuja produção estiver completada) deve levar em conta as orientações gerais da época em que se concretizou o fato com repercussão administrativa/jurídica. As orientações gerais abrangem (1) interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, ou (2) jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou (3) aquelas adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público. Assim, não caberia eventual revisão do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, caso não atendidos os requisitos expostos. Nesse contexto, no âmbito do CARF, no julgamento dos processos administrativos tributários federais, o Colegiado estaria vinculado ao art. 24 da LINDB, ao apreciar as matérias devolvidas em sede recursal. Caso a matéria em litígio trate de discutir sobre validade de ato/contrato/ajuste/processo/norma, e a interpretação da legislação tributária empregada pela parte processual esteja em consonância com as orientações gerais (interpretações e especificações contidas em atos públicos de caráter geral, ou jurisprudência judicial ou administrativa majoritária, ou aquelas adotadas por prática administrativa reiterada e de amplo conhecimento público) vigentes à época em que se deu a construção do suporte fático que teve como consequência jurídica o lançamento fiscal, estaria o CARF submetido estritamente ao dispositivo da LINDB. Tal entendimento não encontra sustentação no contencioso administrativo tributário federal. Isso porque o art. 24 da LINDB trata da revisão do ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa. Fl. 2279DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.237 87 Ocorre que a atividade judicante, ao exercer a missão de resolver o litígio posto pela parte, não realiza a revisão, mas sim o reexame da matéria apresentada para discussão. A revisão envolve cognição ampla e sem restrições da matéria, seja qual for a sua natureza (ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa). A título de exemplo, no âmbito tributário, o Código Tributário Nacional (CTN) trata da revisão de ofício do ato de lançamento, no art. 149: Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: I quando a lei assim o determine; II quando a declaração não seja prestada, por quem de direito, no prazo e na forma da legislação tributária; III quando a pessoa legalmente obrigada, embora tenha prestado declaração nos termos do inciso anterior, deixe de atender, no prazo e na forma da legislação tributária, a pedido de esclarecimento formulado pela autoridade administrativa, recusese a prestálo ou não o preste satisfatoriamente, a juízo daquela autoridade; IV quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória; V quando se comprove omissão ou inexatidão, por parte da pessoa legalmente obrigada, no exercício da atividade a que se refere o artigo seguinte; VI quando se comprove ação ou omissão do sujeito passivo, ou de terceiro legalmente obrigado, que dê lugar à aplicação de penalidade pecuniária; VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; VIII quando deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado por ocasião do lançamento anterior; IX quando se comprove que, no lançamento anterior, ocorreu fraude ou falta funcional da autoridade que o efetuou, ou omissão, pela mesma autoridade, de ato ou formalidade especial. Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. O que se observa é que, para a revisão do ato, não se fala em limites apresentados pela parte, no sentido de restringir a análise. A revisão pode dispor sobre o ato em sua plenitude. Pode envolver em um refazimento completo do ato, ou um refazimento parcial. A revisão pode ser de ordem quantitativa ou qualitativa. O ato original realizado pela parte (por exemplo, lançamento por homologação), pode ser revisado pelo Estado, por meio do Fl. 2280DF CARF MF 88 lançamento de ofício, em sua integralidade. O ato de lançamento original, por homologação, efetuado pela parte, pode ter previsto uma hipótese de incidência, e o ato da lançamento revisional pode dispor sobre várias hipóteses de incidência. A revisão é ampla, e uma vez atendidos requisitos normativos (como os dispostos nos incisos I a IX do art. 149 do CTN), passa a encontrar limites apenas de ordem temporal, nos prazos extintivos de direito previstos na legislação. Não é o que ocorre a partir do momento em que se instaura a fase contenciosa, disposta no art. 25 do DecretoLei nº 70.235, de 1972 (PAF): Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (...) (Grifei) O julgamento submetese a normas próprias de direito processual. Assim, deparase o julgador com limites de cognição para apreciar o litígio. Só se encontra sob a competência da atividade judicante a matéria que é devolvida para apreciação por uma das partes, que se encontra irresignada com a situação apresentada e busca satisfazer sua pretensão resistida. Não cabe a revisão integral de todo o auto de infração, mas apenas a apreciação das matérias que foram contestadas pela parte. Se o lançamento de ofício, objeto de contestação pela parte, tipifica as infrações A, B e C, e a impugnação apresentada protesta apenas sobre a infração A, a apreciação do juiz fica restrita à infração A. Caso a atividade judicante exercesse a atividade de revisão, poderia o juiz se debruçar sobre todo o lançamento de ofício, para apreciar as infrações A, B e C, independente da manifestação da parte irresignada sobre as infrações B e C. Mas não é o caso. Foram estabelecidas normas próprias de natureza processual, precisamente para delimitar com precisão a insatisfação da parte e buscar a solução do litígio com a maior celeridade possível, e evitar discussões fora do contexto do objeto da contenda. Foram construídos institutos de ordem processual, para dispor com clareza sobre a atividade de decidir e seu escopo. Nesse contexto, o julgamento operase em face da matéria devolvida, ou seja, apenas sobre matéria que foi objeto de protesto pela parte. Assim, não se pode dizer que se concretiza uma revisão do ato, que envolve uma apreciação ampla e irrestrita. O que se produz é o reexame, que consiste na apreciação sobre a matéria devolvida. Nesse contexto, no âmbito do contencioso administrativo tributário federal, o PAF tratou de dispor sobre a abrangência do litígio, para delimitar com precisão as fronteiras do reexame na atividade judicante exercida no âmbito administrativo. Transcrevo os arts. 17 e 21: Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. (...) Fl. 2281DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.238 89 Art. 21. Não sendo cumprida nem impugnada a exigência, a autoridade preparadora declarará a revelia, permanecendo o processo no órgão preparador, pelo prazo de trinta dias, para cobrança amigável. § 1º No caso de impugnação parcial, não cumprida a exigência relativa à parte não litigiosa do crédito, o órgão preparador, antes da remessa dos autos a julgamento, providenciará a formação de autos apartados para a imediata cobrança da parte não contestada, consignando essa circunstância no processo original. Ora, caso o contencioso administrativo do PAF entendesse que o contencioso administrativo fiscal exerceria a atividade de revisão, não teria razão a existência dos dispositivos. Bastaria a parte apresentar impugnação protestando sobre matéria A, para que o julgador pudesse se pronunciar sobre matéria B e C, situação no qual estaria realizando a revisão do lançamento de ofício, ato que não encontra limites na apreciação. Contudo, permitese ao julgador apenas a apreciação da matéria devolvida em impugnação. Inclusive, dispõe o art. 21 do PAF que, em relação à matéria não impugnada, será providenciada a cobrança da parte não contestada. Tratase de matéria preclusa. Ou seja, matéria que não pode ser mais objeto de reexame. Por sua vez, dispõe o PAF que o julgamento em sede recursal é realizado, inicialmente, pelas Turmas Ordinárias do CARF, mediante apreciação de recurso de ofício (reexame necessário, submetido a limite de alçada de exoneração de crédito tributário, art. 3454) e voluntário, nos termos do art. 25, inciso II 55. E, na mesma medida que na primeira instância, a apreciação dos recursos em sede recursal também é restrita à matéria devolvida, conforme dispõe sobre o recurso voluntário, o art. 33 do PAF: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos trinta dias seguintes à ciência da decisão. (Grifei) Sendo a interposição de recurso voluntário parcial, a apreciação em sede recursal versará apenas sobre a matéria devolvida para discussão. 54 Art. 34. A autoridade de primeira instância recorrerá de ofício sempre que a decisão: I exonerar o sujeito passivo do pagamento de tributo e encargos de multa de valor total (lançamento principal e decorrentes) a ser fixado em ato do Ministro de Estado da Fazenda. II deixar de aplicar pena de perda de mercadorias ou outros bens cominada à infração denunciada na formalização da exigência. (...) 55 Art. 25. O julgamento do processo de exigência de tributos ou contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal compete: (...) II – em segunda instância, ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão colegiado, paritário, integrante da estrutura do Ministério da Fazenda, com atribuição de julgar recursos de ofício e voluntários de decisão de primeira instância, bem como recursos de natureza especial. (...) Fl. 2282DF CARF MF 90 A interposição de recurso especial, para a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), também encontra limites processuais específicos, devendo restar demonstrada a divergência na interpretação da legislação tributária entre decisões de diferentes turmas de julgamento, conforme disposto no art. 37 do PAF e no regimento interno do órgão, e delimitando estritamente os limites da apreciação por parte do Colegiado: Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. (...) § 2º Caberá recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, no prazo de 15 (quinze) dias da ciência do acórdão ao interessado: I – (VETADO) (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) II – de decisão que der à lei tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra Câmara, turma de Câmara, turma especial ou a própria Câmara Superior de Recursos Fiscais. (Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009) Ainda há o requisito do prequestionamento, previsto no Regimento Interno do CARF 56 (RICARF), Anexo II: Art. 67 (...) § 5º O recurso especial interposto pelo contribuinte somente terá seguimento quanto à matéria prequestionada, cabendo sua demonstração, com precisa indicação, nas peças processuais. Sobre o assunto já se manifestou o presente Colegiado, ocasião em que não foi apreciada questão relativa a decadência porque não foi prequestionada, nos termos do Acórdão nº 9101003.439, da sessão de 7 de fevereiro de 201857, assim ementado: AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE. REQUISITO PARA ADMISSIBILIDADE. NÃO CONHECIMENTO. O recurso especial interposto pelo contribuinte somente terá seguimento quanto à matéria prequestionada, cabendo sua demonstração, com precisa indicação, nas peças processuais. Requisito de admissibilidade previsto no Regimento Interno do CARF, tanto no vigente (Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, 56 O RICARF tem amparo no art. 37 do PAF: Art. 37. O julgamento no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais farseá conforme dispuser o regimento interno. 57 Decisão proferida por maioria de votos, conforme resultado: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em não conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Daniele Souto Rodrigues Amadio, que conheceram do recurso. Votou pelas conclusões a conselheira Cristiane Silva Costa. (...) Participaram do presente julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo. Fl. 2283DF CARF MF Processo nº 10600.720035/201467 Acórdão n.º 9101003.733 CSRFT1 Fl. 2.239 91 Anexo II, art. 67, § 5º) quanto no anterior (Portaria nº 256, de 22/06/2009, Anexo II, art. 67, § 3º). Precedentes no STJ no sentido de que o prequestionamento é necessário inclusive no caso de matéria de ordem pública (AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.553.221 SP, AgInt nos EDcl no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 932.947 SP e RCD no AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 938.531 SP). Recurso não conhecido. Como se pode observar, para que a matéria tenha seguimento deve atender aos requisitos de admissibilidade previstos na norma processual. Não se admite ressuscitar matérias que já se encontram preclusas. Caso se entendesse que o julgamento exerceria a atividade de revisão, restariam esvaziados os institutos construídos no sentido de se delimitar o objeto de exame na fase litigiosa. Não haveria que se falar em preclusão, matéria não impugnada, cobrança de matéria não contestada, devolução parcial, divergência, prequestionamento, dentre outros. Ora, resta evidente que a atividade exercida pelos órgãos do contencioso administrativo tributário federal, consiste em reexaminar a matéria devolvida, e não efetuar uma revisão no lançamento de ofício em sua integralidade. Nesse contexto, o art. 25 do PAF, ao dispor sobre o julgamento, trata do exercício de reexame, e não de revisão o processo. Portanto, considerando que a atividade judicante, inclusive no âmbito do contencioso administrativo fiscal federal, consiste em efetuar o reexame da matéria devolvida, e não a revisão de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, firmo convicção no sentido da inaplicabilidade do art. 24 da LINDB aos julgamentos realizados pelo CARF. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 2284DF CARF MF
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Numero do processo: 13629.720012/2015-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Dec 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jan 11 00:00:00 UTC 2019
Numero da decisão: 3402-001.679
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Presidente
(assinado digitalmente)
Maria Aparecida Martins de Paula - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente, justificadamente, a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz, substituída pelo conselheiro Renato Vieira de Ávila.
Nome do relator: MARIA APARECIDA MARTINS DE PAULA
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Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento do recurso em diligência, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Presidente (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Waldir Navarro Bezerra, Rodrigo Mineiro Fernandes, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Sousa Bispo, Renato Vieira de Ávila (Suplente convocado) e Cynthia Elena de Campos. Ausente, justificadamente, a conselheira Thais de Laurentiis Galkowicz, substituída pelo conselheiro Renato Vieira de Ávila. Relatório Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento em Ribeirão Preto que julgou improcedente a impugnação da contribuinte. Versa o processo sobre auto de infração para a exigência de IPI, referente aos períodos de apuração de junho de 2010 a junho de 2014, no valor de R$94.148.073,54, em face de glosas de créditos indevido do imposto sobre materiais refratários, sob os seguintes fundamentos, conforme consta no Relatório Fiscal: RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 36 29 .7 20 01 2/ 20 15 -1 1 Fl. 1758DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.759 2 Os materiais refratários são tijolos, placas, massas e concretos feitos de material muito resistente ao calor. Nos processos siderúrgicos, revestem internamente as panelas e canais onde passa o ferro ou aço líquidos, por causa das altíssimas temperaturas. Os refratários são partes de máquinas, sendo elementos que compõem os fornos, convertedores e recipientes semelhantes. Eles protegem e são imprescindíveis para o equipamento, sendo, portanto, classificáveis no ativo imobilizado, nos termos da Norma Brasileira de Contabilidade NBC TG 27 (R1), §8. Tais itens, independentemente da durabilidade ou do valor, devem ser ativados. Os insumos que devam ser classificados no ativo imobilizado não geram direito ao crédito de IPI, nos termos do art. 25 da Lei nº 4.502/64. Os materiais refratários não podem também gerar crédito de IPI, por serem partes e peças de máquinas, e ainda, por não se assemelharem aos produtos intermediários, conforme desenvolvimento argumentativo do Parecer Normativo CST 65/79. A autuada impugnou o lançamento, alegando, em síntese: i) o auto de infração está alicerçado em presunção de que os materiais refratários correspondem a partes de máquinas, ou seja, a partes de ativos imobilizados; ii) há de se aplicar ao caso concreto o art. 112 do CTN; iii) seu posicionamento está amparado por Parecer do INT; iv) na ação declaratória nº 001482538.2010.8.26.0053, o TJ/SP reconheceu o direito ao crédito de ICMS sobre a aquisição de materiais refratários; v) existe coisa julgada sobre a possibilidade jurídica do crédito de IPI sobre materiais refratários; e vi) o AuditorFiscal se estribou em presunções e na errônea interpretação de pronunciamentos contábeis (NBC TG 27 R1 e CPC nº 27). Foi realizada de diligência no sentido de distinguir os itens que teriam vida útil superior a um ano, a qual foi cumprida. Após, a Delegacia de Julgamento proferiu decisão, não acolhendo as razões de defesa da impugnante, sob os seguintes fundamentos principais: As compras para o ativo permanente, mesmo que sujeitas ao imposto, não dão direito ao crédito do IPI, por expressa disposição legal (art. 147, I da Lei nº 4.502, de 1964). Também o crédito não deve ser contabilizado quando os produtos adquiridos não fizerem parte do “processo de industrialização”. O conceito de “ativo permanente” deve ser analisado em consonância com a legislação contábil e, a apropriação de seu custo/despesa, com o disposto no regulamento do Imposto de Renda, artigo 301 e §§, aprovado pelo Decreto nº 3.000/99 e PN nº 100/78. Não merece reparo o entendimento da autoridade fiscal quando inclui os materiais refratários no conceito de bens do ativo imobilizado, segundo a NBC TG 27 (R1), de 2013. De acordo com a legislação do IPI, para o direito ao creditamento, os bens adquiridos devem ter a essência de matériasprimas ou de produtos intermediários, ou seja, exercerem na operação de industrialização função análoga a destes (caso que excluem as ferramentas, partes e peças), devem entrar em "contato físico" com o produto em fabricação ou com a matériaprima e serem consumidos nesse processo. Além disto, esse consumo/desgaste deve ser indispensável ao processo produtivo e não reflexo, isto é, circunstância acidental, ou, mais apropriadamente, incidental. Para o direito ao crédito, os bens adquiridos terão que se enquadrar em algum daqueles insumos citados no artigo 147 da Lei nº 4.502, de 1964, e nos PN CST nºs 65/1979, 260/1971 e 181/1974. As partes e peças destinamse à manutenção do parque produtivo da indústria, das máquinas que vão produzir o produto industrializado e que não podem ser confundidas com o próprio processo produtivo e o produto final a ser obtido. Para o desgaste dessas partes e peças existe a depreciação contábil ou o custo operacional, fato que as exclui do crédito de IPI. Fl. 1759DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.760 3 Os materiais refratários utilizados no forno na fusão da carga metálica no processo de aciaria, para que as chapas de aço e as sucatas não percam suas propriedades, igualmente não geram direito a creditamento do IPI. Para tais materiais, se tem parecer normativo específico indicando a não possibilidade de creditamento (PN CST nº 260/71). Não há nenhuma dúvida acerca da impossibilidade do creditamento do imposto e, por consequência, da aplicação do art. 112 do CTN. A interessada foi cientificada dessa decisão em 18/05/2016, tendo apresentado recurso voluntário em 16/06/2016, sob os seguintes argumentos, conforme síntese por ela própria efetuada: (a) Não merece prosperar o argumento de que os materiais refratários enquadramse no conceito de bens do ativo imobilizado. Nesse aspecto, destacase que não houve análise da prova produzida após a baixa dos autos em diligência, que demonstra que a quase totalidade dos refratários possuem prazo de vida útil inferior a 12 (doze) meses, sendo contraditória a determinação de realização de diligência seguida da aparente adoção do entendimento de que as informações requeridas são irrelevantes; (b) O Acórdão Recorrido e o Auto de Infração contrariam o posicionamento vinculante da Solução de Consulta COSIT nº 16/2013 que determina a análise do prazo de vida útil das partes e peças para fins de enquadramento como bens do ativo imobilizado; (c) Ainda que desconsiderada a referida vinculação funcional do i. Auditor Fiscal aos atos da COSIT, de acordo com a doutrina contábil, os materiais refratários objeto da glosa de crédito de IPI sequer podem ser equiparados com "sobressalentes, peças de reposição, ferramentas e equipamentos de uso interno", para fins de aplicação da norma contábil que fundamentou o lançamento (item 8 do Pronunciamento Técnico CPC 27). (d) Mesmo que admitida tal classificação realizada pelo i. Auditor Fiscal, que nem ao menos procurou definir o conteúdo semântico de tais expressões (sobressalentes, peças de reposição etc.), o que se admite só por argumentar, está comprovado nos autos, inclusive por meio de prova técnica, que os materiais em questão exercem funções próprias e independentes dos equipamentos nos quais eles são empregados (e.g., troca de valor, proteção das camadas externas de revestimentos etc.), o que, por si só, também impede a contabilização dos refratários analisados como bens do ativo imobilizado; (e) O Acórdão recorrido pretendeu alterar o critério jurídico para o lançamento, contrariamente ao disposto no art. 146 do Código Tributário Nacional ("CTN"), quando também sustentou que os materiais refratários não possuiriam "contato físico" com o produto em fabricação (fls. 12), critério este que foi expressamente considerado como irrelevante pelo i. Auditor Fiscal; (f) O direito de crédito de IPI sobre os materiais refratários deve ser autonomamente reconhecido no caso concreto, pelo atendimento aos requisitos da legislação de regência, devidamente comprovados por provas técnicas juntadas aos autos; (g) Não houve análise da coisa julgada alegada em sede de Impugnação, relativa aos materiais refratários utilizados pela "Aciaria"; e (h) Deixouse de analisar a alegada aplicação do art. 112 do CTN ao casoem análise, especialmente no que tange às penalidades. É o relatório. Fl. 1760DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.761 4 Voto Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula, Relatora Atendidos aos requisitos de admissibilidade tomase conhecimento do recurso voluntário. Sobre o direito aos créditos básicos de IPI, assim dispõe o art. 226, I do Regulamento do IPI de 2010: Art. 226. Os estabelecimentos industriais e os que lhes são equiparados poderão creditarse (Lei nº 4.502, de 1964, art. 25): I do imposto relativo a matériaprima, produto intermediário e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente; (...) O Parecer Normativo CST nº 65/79, transcrito abaixo, que é um ato normativo expedido por uma autoridade administrativa, nos termos do art. 100, I do CTN, auxilia na determinação do conteúdo e alcance do art. 226, I do RIPI/20101, acerca de quais seriam os insumos que ensejam aproveitamento de créditos do IPI: Parecer Normativo CST nº 65/79 (DOU de 6/11/79) Imposto sobre Produtos Industrializados. 4.18.01.00 Crédito do imposto Matériasprimas, Produtos Intermediários e Material de Embalagem. A partir da vigência do RIPI/79, ex vi do inciso I de seu art. 66, geram direito ao crédito ali referido, além dos que se integram ao produto final (matériasprimas e produtos intermediários stricto sensu, e material de embalagem), quaisquer outros bens, desde que não contabilizados pelo contribuinte em seu Ativo Permanente, que sofram, em função de ação exercida diretamente sobre o produto em fabricação, alterações tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas. Inadmissível a retroação de tal entendimento aos fatos ocorridos na vigência do RIPI/72 que continuam a se subsumir ao exposto no PN CST nº 181/74. 1 Em estudo o inciso I do artigo 66 do Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados, aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI/79). 2 O artigo 25 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, com a redação que lhe foi dada pela alteração 8ª do artigo 2º do Decretolei nº 34, de 18 de novembro de 1966, repetida “ipsis verbis” pelo artigo 1º do Decretolei nº 1.136, de 7 de setembro de 1970, dispõe: ‘Art. 25 A importância a recolher será o montante do imposto relativo aos produtos saídos do estabelecimento, em cada mês, diminuindo do montante do imposto relativo aos produtos nele entrados no mesmo período, obedecidas as especificações e normas que o regulamento estabelecer’. Como se vê, tratase de norma não autoaplicável, de vez que ficou atribuído ao regulamento especificar os produtos entrados que geram o direito à subtração do montante de IPI a recolher. 1 Dispunham no mesmo sentido os arts. 66, I do RIPI/79; 82, I do RIPI/82; 147, I do RIPI/98 e 164, I do RIPI/2002. Fl. 1761DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.762 5 3 Diante disto, ressaltese serem ‘ex nunc’ os efeitos decorrentes da entrada em vigência do inciso I do artigo 66 do RIPI/79, ou seja, usando da atribuição que lhe foi conferida em lei, o novo Regulamento estabeleceu as normas e especificações que a partir daquela data passaram a reger a matéria, não se tratando, como há quem entenda, de disposição interpretativa e, por via de conseqüência, retroativa, somente sendo, portanto, aplicável a norma em análise, a seguir transcrita, aos fatos ocorridos a partir da vigência do RIPI/79: ‘Art. 66 Os estabelecimentos industriais e os que lhes são equiparados, poderão creditarse (Lei nº 4.502/64 arts. 25 a 30 e Decretolei nº 3.466, art. 2º, alt. 8ª): I do imposto relativo a matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente.’ 4 Notese que o dispositivo está subdividido em duas partes, a primeira referindose às matériasprimas, aos produtos intermediários e ao material de embalagem; a segunda relacionada às matériasprimas e aos produtos intermediários que, embora não se integrando ao novo produto, sejam consumidos no processo de industrialização. 4.1 Observese, ainda, que enquanto na primeira parte da norma ‘matérias primas’ e ‘produtos intermediários’ são empregados ‘stricto sensu’, a segunda usa tais expressões em seu sentido lato: quaisquer bens que, embora não se integrando ao produto em fabricação se consumam na operação de industrialização. 4.2 Assim, somente geram direito ao crédito os produtos que se integrem ao novo produto fabricado e os que, embora não se integrando, sejam consumidos no processo de fabricação, ficando definitivamente excluídos aqueles que não se integrem nem sejam consumidos na operação de industrialização. 5 No que diz respeito à primeira parte da norma, que se refere a matériasprimas e produtos intermediários ‘stricto sensu’, ou seja, bem dos quais, através de quaisquer das operações de industrialização enumeradas no Regulamento, resulta diretamente um novo produto, tais como, exemplificadamente, a madeira com relação a um móvel ou o papel com referência a um livro, nada há que se comentar de vez que o direito ao crédito, diferentemente do que ocorre com os referidos na segunda parte, além de não se vincular a qualquer requisito, não sofreu alteração com relação aos dispositivos constantes dos regulamentos anteriores. 6 Todavia, relativamente aos produtos referidos na segunda parte, matériasprimas e produtos intermediários entendidos em sentido amplo, ou seja, aqueles que embora não sofram as referidas operações são nelas utilizados, se consumindo em virtude do contato físico com o produto em fabricação, tais como lixas, lâminas de serra e catalisadores, além da ressalva de não gerarem o direito se compreendidos no ativo permanente, exigese uma série de considerações. 6.1 Há quem entenda, tendo em vista tal ressalva (não gerarem direito ao crédito os produtos compreendidos entre os bens do ativo permanente), que automaticamente gerariam o direito ao crédito os produtos não inseridos naquele grupo de contas, ou seja, que a norma em questão teria adotado como critério distintivo, para efeito de admitir ou não o crédito, o tratamento contábil emprestado ao bem. 6.2 Entretanto, uma simples exegese lógica do dispositivo já demonstra a improcedência do argumento, uma vez que, consoante regra fundamental de lógica formal, de uma premissa negativa (os produtos ativados permanentemente não geram o direito) somente concluise por uma negativa, não podendo, portanto, em função de tal premissa, ser afirmativa a conclusão, ou seja, no caso, a de que os bens não ativados permanentemente geram o direito de crédito. (...) Fl. 1762DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.763 6 10 Resumese, portanto, o problema na determinação do que se deve entender como produtos ‘que embora não se integrando no novo produto, forem consumidos, no processo de industrialização’, para efeito de reconhecimento ou não do direito ao crédito. 10.1 Como o texto fala em ‘incluindose entre as matérias primas e os produtos intermediários’, é evidente que tais bens hão de guardar semelhança com as matérias primas e os produtos intermediários ‘stricto sensu’, semelhança esta que reside no fato de exercerem na operação de industrialização função análoga a destes, ou seja, se consumirem em decorrência de um contato físico, ou melhor dizendo, de uma ação diretamente exercida sobre o produto de fabricação, ou por este diretamente sofrida. 10.2 A expressão ‘consumidos’ sobretudo levandose em conta que as restrições ‘imediata e integralmente’, constantes do dispositivo correspondente do Regulamento anterior, foram omitidas, há de ser entendida em sentido amplo, abrangendo, exemplificativamente, o desgaste, o desbaste, o dano e a perda de propriedades físicas ou químicas, desde que decorrentes de ação direta do insumo sobre o produto em fabricação, ou deste sobre o insumo. 10.3 Passam, portanto, a fazer jus ao crédito, distintamente do que ocorria em face da norma anterior, as ferramentas manuais e as intermutáveis, bem como quaisquer outros bens que, não sendo partes nem peças de máquinas, independentemente de suas qualificações tecnológicas, se enquadrem no que ficou exposto na parte final do subitem 10.1 (se consumirem em decorrência de um contato físico, ou melhor dizendo, de uma ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, ou por este diretamente sofrida). 10.4 Notese, ainda, que a expressão “compreendidos no Ativo Permanente” deve ser entendida faticamente, isto é, a inclusão ou não dos bens, pelo contribuinte, naquele grupo de contas deve ser juris tantum aceita como legítima, somente passível de impugnação para fins de reconhecimento, ou não, do direito ao crédito quando em desrespeito aos princípios contábeis geralmente aceitos. 11 Em resumo, geram o direito ao crédito, alem dos que se integram ao produto final (matériasprimas e produtos intermediários, “stricto senso”, material de embalagens), quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função de ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação; ou viceversa, proveniente de ação exercida diretamente pelo bem em industrialização, desde que não devam, em face dos princípios contábeis geralmente aceitos, ser incluídos no ativo permanente. [grifos e negritos desta Relatora] Ao que se observa do Parecer Normativo CST nº 65/79, a partir da vigência do RIPI/1979, o conceito de insumo para fins de creditamento do IPI foi alterado, não se exigindo mais que o consumo se desse "imediata e integralmente"2 no processo de industrialização, ou seja, o consumo do bem pode se dar após vários ciclos produtivos; e de outra parte, impedindo o creditamento aos bens classificados no Ativo Permanente. 3 2 RIPI/72, vigente anteriormente: Art. 32. Os estabelecimentos industriais e os que lhes são equiparados poderão creditarse do imposto; I Relativo a matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, importados ou de fabricação nacional, recebidos para emprego na industrialização de produtos tributados, por estabelecimento industrial ou pelo estabelecimento a que se refere o inciso III do § 1º do artigo 3º, compreendidos, entre as matériasprimas e produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando no novo produto, forem consumidos, imediata e integralmente, no processo de industrialização; (...) 3 Em face da alteração das normas relativas ao direito de creditamento, deixase aqui de mencionar os Pareceres Normativos CST n°s 260/1971 e 181/1974, referidos na decisão recorrida, eis que foram proferidos anteriormente Fl. 1763DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.764 7 A decisão proferida no Resp 1.075.508/SC, submetido à sistemática de que trata o artigo 543C do CPC/73, cujos termos vincula este Colegiado, acolhe a tese, veiculada pelo Parecer Normativo CST nº 65/79, do contato físico e do desgaste direto em contraposição ao desgaste apenas indireto, tendo sido assim ementada: EMENTA PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. CREDITAMENTO. AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO E AO USO E CONSUMO. IMPOSSIBILIDADE. RATIO ESSENDI DOS DECRETOS 4.544/2002 E 2.637/98. 1. A aquisição de bens que integram o ativo permanente da empresa ou de insumos que não se incorporam ao produto final ou cujo desgaste não ocorra de forma imediata e integral durante o processo de industrialização não gera direito a creditamento de IPI, consoante a ratio essendi do artigo 164, I, do Decreto 4.544/2002 (Precedentes das Turmas de Direito Público: AgRg no REsp 1.082.522/SP, Rel.Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 16.12.2008, DJe 04.02.2009; AgRg no REsp 1.063.630/RJ, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 16.09.2008, DJe 29.09.2008; REsp 886.249/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 18.09.2007, DJ 15.10.2007; REsp 608.181/SC, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 06.10.2005, DJ 27.03.2006; e REsp 497.187/SC, Rel. Ministro Franciulli Netto, Segunda Turma, julgado em 17.06.2003, DJ 08.09.2003). 2. Deveras, o artigo 164, I, do Decreto 4.544/2002 (assim como o artigo 147, I, do revogado Decreto 2.637/98), determina que os estabelecimentos industriais (e os que lhes são equiparados), entre outras hipóteses, podem creditarse do imposto relativo a matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose ‘aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente’. 3. In casu, consoante assente na instância ordinária, cuidase de estabelecimento industrial que adquire produtos ‘que não são consumidos no processo de industrialização (...), mas que são componentes do maquinário (bem do ativo permanente) que sofrem o desgaste indireto no processo produtivo e cujo preço já integra a planilha de custos do produto final’, razão pela qual não há direito ao creditamento do IPI. 4. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. [negritei] No caso, a fiscalização sustentou as glosas de créditos nas aquisições de materiais refratários nos seguintes pontos: i) classificação no ativo imobilizado; ii) são partes e peças de máquinas e iii) o não enquadramento no conceito de assemelhados a produtos intermediários para fins de creditamento de IPI (Parecer Normativo CST nº 65/79), conforme resumo constante no Relatório Fiscal: à vigência do RIPI/79 e, não tendo sido localizado o inteiro teor desses atos normativos, não se pode verificar se ainda vige os pressupostos de suas conclusões. Fl. 1764DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.765 8 Ao se analisar a planilha das fls. 1598/1693 (doc. nº 08 da diligência da DRJ), verificase que os materiais refratários objeto das glosas são os mais variados itens, essencialmente: argamassa, blocos, cadinhos, caixa de refrigeração, cimento, concreto, lanças, luvas, manilhas, massas, placas, plugs, potes, refratário aluminoso moldado, tampas, tampões, tijolos e válvulas. Relativamente a prova técnica, consta nos autos: a) Laudo Técnico elaborado pela empresa Mining Math (fls. 1507/1589), no qual foi detalhada a participação dos itens glosados destes autos em cada etapa do processo industrial e seus tempos de vida útil, bem como foi informado que: (...) (...) (...) b) Parecer do INT (Instituto Nacional de Tecnologia), produzido no âmbito do processo nº 0768161467/68 (fls. 1192/1195), que afirma que "tijolos e peças refratárias consumidas nos altos fornos, nos convertores, nas panelas, nas placas de lingotamento, etc.", entre outros, são "produtos intermediários", bem como que: c) Perícia judicial, elaborada pelo Sr. José Zarif Neto, acerca do processo produtivo da unidade da recorrente em São Paulo e da classificação dos materiais refratários como produtos intermediários no âmbito do ICMS na Ação Declaratória nº 0014825 38.2010.8.26.0053, movida contra o Estado de São Paulo. Não obstante isso, entendo que falta ainda a comprovação técnica de algumas questões específicas do presente processo para a devida formação de convicção por parte desta Relatora e do Colegiado, no que concerne à verificação da contabilização adequada para os Fl. 1765DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.766 9 referidos itens e do enquadramento no conceito de "produtos intermediários" ou assemelhados nos estritos termos do Parecer Normativo CST nº 65/79. Assim, em face de todo o exposto, voto no sentido de determinar a realização de diligência, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235/72 e dos arts. 35 a 37 e 63 do Decreto nº 7.574/2011, para que a Unidade de Origem intime a recorrente a, dentro de prazo razoável: a) Apresentar Certidão de Objeto e Pé da Ação Declaratória nº 2444/1972, para a qual alega a recorrente que teria coisa julgada a seu favor relativamente aos créditos sobre os refratários utilizados na fabricação do aço (Aciaria); b) Apresentar Parecer ou Laudo Técnico, preferencialmente elaborado pelo Instituto Nacional de Tecnologia ou por outros órgãos federais congêneres, no qual seja informado o que se segue: b.1) Quais itens dos materiais refratários objeto das glosas poderiam ser qualificados como "partes e peças de máquinas"? b.2) Sob o aspecto técnico (não contábil), esses materiais, ou parte deles, poderiam ser qualificados no processo produtivo da recorrente como "Sobressalentes, peças de reposição, ferramentas e equipamentos de uso interno", referidos na Norma Brasileira de Contabilidade NBC TG 27 (R1), de 11 de dezembro de 2013, item 84? b.3) Para cada item glosado, descreva como ocorre o "desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas" dentro do seu tempo de vida útil, em especial, se o consumo ou inutilização do material refratário é decorrente do contato direto com o produto em fabricação (vide Parecer Normativo CST nº 65/79). Nesse ponto, é importante que se especifique a causa real do desgaste de cada material refratário, se decorre naturalmente pelo seu mero uso normal no processo industrial ou se decorre efetivamente do contato com o produto sob industrialização. c) Apresentar Laudo ou Parecer Pericial Contábil, preferencialmente, elaborado por reconhecida Instituição nessa área do conhecimento, no qual seja demonstrado: c.1) as contas em que a contribuinte registra os materiais refratários glosados em sua contabilidade, em especial, se estão incluídos em contas do Ativo permanente; c.2) quais são as regras e princípios contábeis eram aplicáveis ao caso na época; c.3) se os referidos registros da contribuinte para os materiais refratários respeitam as regras e os princípios geralmente aceitos em contabilidade (vide item 10.4 do Parecer Normativo CST nº 65/795); c.4) A Norma 4 NBC TG 27 (R1), de 11 de dezembro de 2013: (...) 8. Sobressalentes, peças de reposição, ferramentas e equipamentos de uso interno são classificados como ativo imobilizado quando a entidade espera usálos por mais de um período. Da mesma forma, se puderem ser utilizados somente em conexão com itens do ativo imobilizado, também são contabilizados como ativo imobilizado. (...) 5 Parecer Normativo CST nº 65/79: (...) 10.4 Notese, ainda, que a expressão "compreendidos no ativo permanente" deve ser entendida faticamente, isto é, a inclusão ou não dos bens, pelo contribuinte, naquele grupo de contas deve ser "juris tantum" aceita como legítima, somente passível de impugnação para fins de reconhecimento, ou não, do direito ao crédito quando em desrespeito aos princípios contábeis geralmente aceitos. (...) Fl. 1766DF CARF MF Processo nº 13629.720012/201511 Resolução nº 3402001.679 S3C4T2 Fl. 1.767 10 Brasileira de Contabilidade NBC TG 27 (R1), de 11 de dezembro de 2013, item 8, seria aplicável para a contabilização dos itens glosados e de que forma? Após, solicitase a elaboração de Relatório Conclusivo com a manifestação da fiscalização acerca dos fatos, provas e fundamentos trazidos aos autos na diligência. E, por fim, depois da intimar a recorrente do resultado da diligência, concedendolhe o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, nos termos do art. 35 do Decreto nº 7.574/2011, devolva o processo a este Colegiado para prosseguimento. (assinado digitalmente) Maria Aparecida Martins de Paula Fl. 1767DF CARF MF
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