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Numero do processo: 13603.905781/2012-25
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2007
COFINS. DCOMP. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. TRATAMENTO MASSIVO x ANÁLISE HUMANA. AUSÊNCIA/EXISTÊNCIA DE RETIFICAÇÃO DE DCTF. VERDADE MATERIAL.
Nos processos referentes a despachos decisórios eletrônicos, deve o julgador (elemento humano) ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF.
Numero da decisão: 3401-003.940
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário apresentado, acolhendo a informação prestada em diligência.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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DCOMP. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. TRATAMENTO MASSIVO x ANÁLISE HUMANA. AUSÊNCIA/EXISTÊNCIA DE RETIFICAÇÃO DE DCTF. VERDADE MATERIAL. Nos processos referentes a despachos decisórios eletrônicos, deve o julgador (elemento humano) ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário apresentado, acolhendo a informação prestada em diligência. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 90 57 81 /2 01 2- 25 Fl. 287DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente sobre PER/DCOMP utilizando créditos de COFINS, no valor total de R$ 28.679,09. Por meio de Despacho Decisório Eletrônico, a compensação não foi homologada, visto que o pagamento foi localizado, mas integralmente utilizado na quitação de débitos do contribuinte. Cientificada da decisão de piso, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, basicamente, que: (a) o crédito se refere a COFINSimportação de serviços recolhida indevidamente, e que a informação de que o valor foi utilizado integralmente para quitar débito da empresa se deve a ter sido originalmente informado em DCTF valor igual ao total do recolhimento; (b) que foi retificada a DCTF, após o despacho decisório, sendo que o valor não era devido por tratarse de remessa ao exterior em pagamento de licença de uso de marca, a título de royalties, não caracterizando contrapartida de serviços provenientes do exterior, conforme Solução de Consulta RFB no 263/2011; e (c) a DCTF retificadora não foi recepcionada pela RFB tendo em vista ter se esgotado o prazo de cinco anos para a apresentação. A decisão de primeira instância foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob o fundamento de carência probatória a cargo do postulante, que não apresenta contrato que discrimine os royalties dos serviços técnicos e de assistência técnica, de forma individualizada, e de que a prazo para retificação de DCTF já havia se esgotado quando da apresentação de declaração retificadora pela empresa. Após ciência da decisão da DRJ, a empresa apresenta tempestivamente Recurso Voluntário, afirmando que: (a) celebrou contrato exclusivamente referente a licenciamento para uso de marcas, não envolvendo a importação de quaisquer serviços conexos, e que em 52 despachos decisórios distintos, a autoridade administrativa não homologou as compensações, por simples cotejo com DCTF, e que a DRJ manteve a decisão sob os fundamentos de ausência de apresentação de contrato e de retificação extemporânea de DCTF; (b) há necessidade de reunião dos 52 processos conexos para julgamento conjunto; (c) deve o CARF receber de ofício a DCTF retificadora, em nome da verdade material; e (d) o crédito foi documentalmente comprovado, figurando no contrato celebrado, anexado aos autos, que o objeto é exclusivamente o licenciamento de uso de marcas, sem quaisquer serviços conexos, aplicandose ao caso o entendimento externado na Solução de Divergência no 11, da COSIT, como tem entendido o CARF em casos materialmente e faticamente idênticos (Acórdão no 3801001.813). No CARF, o julgamento foi convertido em diligência por meio da Resolução no 3803000.492, para que a autoridade local da RFB informasse “...acerca dos valores devidos pela recorrente na data de transmissão da DComp, bem assim se o valor reconhecido a título de direito creditório (original ou atualizado) é o bastante para solver os débitos existentes nessa data, mediante o confrontamento de valores ou, informar acerca da diferença encontrada” (sic). Em resposta a fiscalização informa que o pagamento objeto do direito creditório não se encontra disponível, uma vez que utilizado para quitação de débito declarado em DCTF, e que, relativamente ao confronto de valores, restou demonstrado “... ser bastante o valor do pagamento pleiteado nestes autos para extinção do débito declarado pela Fl. 288DF CARF MF Processo nº 13603.905781/201225 Acórdão n.º 3401003.940 S3C4T1 Fl. 276 3 contribuinte por meio de compensação”, não havendo necessidade de se dar ciência ao contribuinte da informação. O processo foi a mim distribuído, mediante sorteio, em maio de 2017. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O cumprimento dos requisitos formais de admissibilidade já foi verificado na conversão em diligência, passandose, então, aqui, à análise de mérito. De fato, não se tem dúvidas de que, ao tempo da análise massiva, por sistema informatizado, das DCOMP apresentadas, os débitos declarados em DCTF correspondiam aos pagamentos efetuados, ainda que estes fossem eventualmente indevidos. Daí os despachos decisórios eletrônicos, limitados a cotejamento entre dados declarados em DCOMP e DCTF, e pagamentos efetuados com DARF, terem sido pelo indeferimento. No entanto, também não se tem dúvidas de que a empresa já entendia, na data de protocolo dos PER/DCOMP, serem indevidos os pagamentos efetuados, independente de ter ou não retificado as respectivas DCTF. Não há que se falar, assim, em decurso de prazo para repetir o indébito, visto que os PER/DCOMP foram transmitidos dentro do prazo regular para repetição. Após o indeferimento eletrônico da compensação é que a empresa esclarece que a DCTF foi preenchida erroneamente, tentando retificála (sem sucesso em função de trava temporal no sistema informatizado), e explica que o indébito decorre de serem os pagamentos referentes a COFINSserviços incabíveis pelo fato de se estar tratando, no caso, exclusivamente de licenciamento de uso de marcas, sem quaisquer serviços conexos. No presente processo, como em todos nos quais o despacho decisório é eletrônico, a fundamentação não tem como antecedente uma operação individualizada de análise por parte do Fisco, mas sim um tratamento massivo de informações. Esse tratamento massivo é efetivo quando as informações prestadas nas declarações do contribuinte são consistentes. Se há uma declaração do contribuinte (v.g. DCTF) indicando determinado valor, e ele efetivamente recolheu tal valor, o sistema certamente indicará que o pagamento foi localizado, tendo sido integralmente utilizado para quitar débitos do contribuinte. Houvesse o contribuinte retificado a DCTF anteriormente ao despacho decisório eletrônico, reduzindo o valor a recolher a título da contribuição, provavelmente não estaríamos diante de um contencioso gerado em tratamento massivo. A detecção da irregularidade na forma massiva, em processos como o presente, começa, assim, com a falha do contribuinte, ao não retificar a DCTF, corrigindo o valor a recolher, tornandoo diferente do (inferior ao) efetivamente pago. Esse erro (ausência de retificação da DCTF) provavelmente seria percebido se a análise inicial empreendida no despacho decisório fosse individualizada/manual (humana). Fl. 289DF CARF MF 4 Assim, diante dos despachos decisórios eletrônicos, é na manifestação de inconformidade que o contribuinte é chamado a detalhar a origem de seu crédito, reunindo a documentação necessária a provar a sua liquidez e certeza. Enquanto na solicitação eletrônica de compensação bastava um preenchimento de formulário DCOMP (e o sistema informatizado checaria eventuais inconsistências), na manifestação de inconformidade é preciso fazer efetiva prova documental da liquidez e da certeza do crédito. E isso muitas vezes não é assimilado pelo sujeito passivo, que acaba utilizando a manifestação de inconformidade tãosomente para indicar porque entende ser o valor indevido, sem amparo documental justificativo (ou com amparo documental deficiente). O julgador de primeira instância também tem um papel especial diante de despachos decisórios eletrônicos, porque efetuará a primeira análise humana do processo, devendo assegurar a prevalência da verdade material. Não pode o julgador (humano) atuar como a máquina, simplesmente cotejando o valor declarado em DCTF com o pago, pois tem o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Nesse contexto, relevante passa a ser a questão probatória no julgamento da manifestação de inconformidade, pois incumbe ao postulante da compensação a prova da existência e da liquidez do crédito. Configurase, assim, uma das três situações a seguir: (a) efetuada a prova, cabível a compensação (mesmo diante da ausência de DCTF retificadora, como tem reiteradamente decidido este CARF); (b) não havendo na manifestação de inconformidade a apresentação de documentos que atestem um mínimo de liquidez e certeza no direito creditório, incabível acatarse o pleito; e, por fim, (c) havendo elementos que apontem para a procedência do alegado, mas que suscitem dúvida do julgador quanto a algum aspecto relativo à existência ou à liquidez do crédito, cabível seria a baixa em diligência para sanála (destacandose que não se presta a diligência a suprir deficiência probatória a cargo do postulante). Em sede de recurso voluntário, igualmente estreito é o leque de opções. E agregase um limitador adicional: a impossibilidade de inovação probatória, fora das hipóteses de que trata o art. 16, § 4o do Decreto no 70.235/1972. No presente processo, o julgador de primeira instância não motiva o indeferimento somente na ausência de retificação da DCTF, mas também na ausência de prova do alegado, por não apresentação de contrato. Diante da ausência de amparo documental para a compensação pleiteada, chegase à situação descrita acima como “b”. Contudo, no julgamento inicial efetuado por este CARF, que resultou na baixa em diligência, concluiuse pela ocorrência da situação “c”, diante dos documentos apresentados em sede de recurso voluntário. Entendeu assim, este colegiado, naquele julgamento, que o comando do art. 16, § 4o do Decreto no 70.235/1972 seria inaplicável ao caso, e que diante da verossimilhança em relação a alegações e documentos apresentados, a unidade local deveria se manifestar. E a informação da unidade local da RFB, em sede de diligência, atesta que os valores recolhidos são suficientes para saldar os débitos indicados em DCOMP, entendendo a fiscalização, inclusive que, diante do exposto, não haveria necessidade de se dar ciência ao contribuinte da informação, apesar de ainda estarem os pagamentos alocados à DCTF original. Resta pouco, assim, a discutir no presente processo, visto que o único obstáculo que remanesce é a ausência de retificação da DCTF, ainda que comprovado o direito Fl. 290DF CARF MF Processo nº 13603.905781/201225 Acórdão n.º 3401003.940 S3C4T1 Fl. 277 5 de crédito, como se atesta na conversão em diligência, mediante o respectivo contrato, acompanhado da invoice correspondente. Atribuir à retificação formal de DCTF importância superior à comprovação do efetivo direito de crédito é típico das máquinas, na análise massiva, mas não do julgador, humano, que deve ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Como atesta a Solução de Divergência COSIT no 11/2011: “Não haverá incidência da CofinsImportação sobre o valor pago a título de Royalties, se o contrato discriminar os valores dos Royalties, dos serviços técnicos e da assistência técnica de forma individualizada. Neste caso, a contribuição sobre a importação incidirá apenas sobre os valores dos serviços conexos contratados. Porém, se o contrato não for suficientemente claro para individualizar estes componentes, o valor total deverá ser considerado referente a serviços e sofrer a incidência da mencionada contribuição.” (grifo nosso) E a cópia do contrato de licença apresentada e analisada, e de seus adendos, atesta que o contrato se refere “exclusivamente a licenciamento de uso de marcas”, não tratando de serviços. Assim, é indevida a COFINS, não havendo qualquer manifestação em sentido contrário pela própria unidade diligenciante. Aliás, efetivamente apreciou turma especial do CARF assunto idêntico, no Acórdão no 3801001.813, de 23/04/2013, acordando unanimemente pela não incidência de COFINSserviços em caso de contrato de “knowhow” que não engloba prestação de serviços: “CONTRATO DE “KNOW HOW”. REMESSAS AO EXTERIOR RELATIVAS A ROYALTIES E DIREITOS PELO USO DE MARCAS E TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO E TECNOLOGIA. NÃO INCIDÊNCIA DA COFINS IMPORTAÇÃO. Uma vez discriminados os valores dos Royalties dos demais serviços, de forma individualizada, não incidirá a COFINSImportação.” Há ainda outros precedentes recentes e unânimes deste tribunal, no mesmo sentido, e com características adicionais em comum com o presente processo: “NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Não é nulo o despacho decisório que se fundamenta no cotejo entre documentos apontados como origem do crédito (DARF) e nas declarações apresentadas que demonstram o direito creditório (DCTF). APRESENTAÇÃO DE DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE. DEMONSTRAÇÃO DE INDÍCIO DE PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO ANTERIORMENTE AO DESPACHO DECISÓRIO. VERDADE MATERIAL. Indícios de provas apresentadas anteriormente à prolação do despacho decisório que denegou a homologação da compensação, consubstanciados na apresentação de DARF de pagamento e DCTF retificadora, ratificam os argumentos do contribuinte Fl. 291DF CARF MF 6 quanto ao seu direito creditório. Inexiste norma que condiciona a apresentação de declaração de compensação à prévia retificação de DCTF, bem como ausente comando legal impeditivo de sua retificação enquanto não decidida a homologação da declaração. ROYALTIES. REMUNERAÇÃO EXCLUSIVA PELO USO DE LICENÇA E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA. INEXISTÊNCIA DE SERVIÇOS CONEXOS. NÃO INCIDÊNCIA DE PIS/COFINSIMPORTAÇÃO. A disponibilização de "informações técnicas" e "assistência técnica", por intermédio de entrega de dados e outros documentos pela licenciadora estrangeira, para utilização na fabricação de produtos licenciados no País, não configura prestação de serviços conexos ao licenciamento para efeitos de incidência de Contribuições para o PIS/Pasepimportação e Cofinsimportação. À luz do contrato de licenciamento e dos efetivos pagamentos realizados ao exterior, não incidem as Contribuições para o PIS/Pasepimportação e Cofins importação, pois tais pagamentos, cujos cálculos baseiamse nas vendas líquidas de produtos licenciados, referemse, exclusivamente, à remuneração contratual pela transferência de tecnologia, com natureza jurídica de royalties. (grifo nosso) (Acórdãos no 3201002.404 a 420, Rel. Cons. Windereley Morais pereira, sessão de 28 set. 2016) Deve, então, ser acolhido o pleito da empresa, removido o derradeiro obstáculo indevido ao reconhecimento do direito creditício e à compensação. Resta, por fim, tecer comentários sobre o pleito da recorrente para análise conjunta dos 52 processos referentes a suas DCOMP, visto que este relator recebeu, em sorteio, apenas 44 dos referidos processos. Em nome da verdade material, efetuei consulta ao sistema eprocessos, sobre a situação dos oito processos restantes, verificando o que se resume na tabela abaixo: N. do processo Situação atual Observações 13603.905762/201207 CARF – “Distribuir/Sortear” (indevidamente) Julgamento convertido em diligência, nas mesmas circunstâncias do presente, mas ainda não enviado à unidade local, para diligência, tendo em vista necessidade de saneamento (erro na anexação do arquivo contendo a Resolução de conversão em diligência). 13603.905764/201298 Idem Idem 13603.905772/201234 Idem Idem 13603.905785/201211 Idem Idem 13603.905790/201216 Idem Idem Fl. 292DF CARF MF Processo nº 13603.905781/201225 Acórdão n.º 3401003.940 S3C4T1 Fl. 278 7 13603.905775/201278 CARF – SEDIS/GECAP – Verificar Processo Processo sequer apreciado pelo CARF ainda, nem para converter o julgamento em diligência. 13603.905793/201250 Idem Idem 13603.905794/201202 Idem Idem Assim, há efetivamente apenas 44 processos maduros para julgamento, visto que os 8 restantes, por falhas processuais (5 deles com juntada incorreta de arquivos e 3 com pendência de verificação de procedimentos pelo setor competente do CARF) acabaram não chegando à unidade local, para realização da diligência. E os 44 processos, prontos para julgamento, serão efetivamente julgados conjuntamente, nesta sessão. Pelo exposto, e acolhendo a informação prestada em sede de diligência, voto por dar provimento ao recurso voluntário apresentado. Rosaldo Trevisan Fl. 293DF CARF MF
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Numero do processo: 10183.902994/2008-19
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 05/12/2000
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. TRIBUTOS REGULARMENTE DECLARADOS EM DCTF. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
Nos termos da Súmula 360/STJ, e dos REsp n. 962.379/RS e n. 1.149.022/SP, ambos na sistemática do art. 543-C do antigo CPC (artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados (v.g. em DCTF), mas pagos a destempo.
Numero da decisão: 3401-003.861
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Ausente ocasionalmente o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Data do fato gerador: 05/12/2000 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. TRIBUTOS REGULARMENTE DECLARADOS EM DCTF. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. Nos termos da Súmula 360/STJ, e dos REsp n. 962.379/RS e n. 1.149.022/SP, ambos na sistemática do art. 543-C do antigo CPC (artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados (v.g. em DCTF), mas pagos a destempo.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Ausente ocasionalmente o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
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INAPLICABILIDADE. TRIBUTOS REGULARMENTE DECLARADOS EM DCTF. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. Nos termos da Súmula 360/STJ, e dos REsp n. 962.379/RS e n. 1.149.022/SP, ambos na sistemática do art. 543C do antigo CPC (artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados (v.g. em DCTF), mas pagos a destempo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. Ausente ocasionalmente o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 90 29 94 /2 00 8- 19 Fl. 144DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente sobre o Pedido de Ressarcimento (retificador), cumulado com Declaração de Compensação (PER/DCOMP), de fls. 2 a 61, transmitido em 16/04/2008, demandando créditos de COFINS referentes a pagamento indevido efetuado em 05/12/2000, no valor original de R$ 10.078,82, utilizados para compensar débitos de Contribuição para o PIS/PASEP de agosto e setembro de 2003. No Despacho Decisório Eletrônico de fl. 7, informouse que o pagamento localizado havia sido utilizado para saldar outros débitos da empresa, não restando montante disponível para as compensações. Ciente da decisão da unidade local da RFB em 16/10/2008 (fl. 8), a empresa apresenta Manifestação de Inconformidade em 31/10/2008 (fls. 10 a 28), na qual alega, em síntese, que: (a) o crédito utilizado pela empresa é decorrente de multa moratória indevida, por ser decorrente de recolhimento espontâneo em atraso; e (b) a jurisprudência é pacífica no sentido de não ser devida a multa de mora em procedimentos espontâneos. A decisão de primeira instância, proferida em 17/12/2010 (fls. 55/56) foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob o fundamento de que a multa de mora decorre de imposição legal (Lei no 9.430/1996), que não pode ser afastada pelo julgador administrativo, ainda que haja alegação de inconstitucionalidade. Após ciência da decisão da DRJ, em 21/01/2011 (AR de fl. 59), a empresa apresenta o Recurso Voluntário de fls. 63 a 92, em 11/02/2011, reiterando os argumentos expressos na manifestação de inconformidade, agregando jurisprudência em seu favor. No CARF, o julgamento foi convertido em diligência, de forma unânime, pela Resolução no 3401000.331 (fls. 119 a 122), para que a unidade local da RFB confirmasse se os juros referentes ao recolhimento, em atraso, da COFINS, com vencimento em julho de 2000 foram integralmente recolhidos; e se a COFINS com vencimento no mês de julho de 2000 foi declarada em DCTF, e em qual data, intimandose a empresa a respeito do resultado da diligência. Na Informação Fiscal de fls. 128/129, narrase que a empresa apresentou somente uma DCTF, em 12/08/2000 (fl. 124), e que o débito de COFINS foi confessado no valor originário de R$ 50.394,14 (fl. 125). No regresso ao CARF, o julgamento foi novamente convertido em diligência, também de forma unânime, pela Resolução no 3401000.871 (fls. 132/133), para que a empresa fosse intimada a eventualmente se manifestar sobre o resultado da diligência, como determinado na primeira conversão. Intimada a empresa em 19/01/2015 (conforme termo de fl. 138), não houve manifestação, retornando os autos ao CARF em 20/07/2016 (fl. 143). Em 22/07/2016 o processo foi a mim distribuído, por sorteio, visto que o relator original não mais compunha o colegiado. O processo não foi indicado para pauta nos meses novembro e dezembro de 2016, por estarem as sessões suspensas por determinação do 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Fl. 145DF CARF MF Processo nº 10183.902994/200819 Acórdão n.º 3401003.861 S3C4T1 Fl. 145 3 CARF. O processo, derradeiramente, não foi indicado para o mês de janeiro de 2017, por ser a pauta mera reprodução da referente ao mês de outubro de 2016, que também teve a sessão suspensa por determinação do CARF. Em fevereiro, março e abril o processo foi indicado para pauta, mas não pautado, em função do excesso de número de processos a julgar. Em maio de 2017, por fim, o processo foi retirado de pauta por falta de tempo hábil para julgamento. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O cumprimento dos requisitos formais de admissibilidade já foi verificado na conversão em diligência, passandose, então, aqui, à análise de mérito. Há apenas uma discussão no presente processo, referente à incidência de multa de mora em recolhimentos espontâneos. E, sobre a matéria, já se posicionou o Superior Tribunal de Justiça (STJ), na sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C do antigo CPC, artigo 1036 do novo Código de Processo Civil), afirmando que a apresentação de DCTF ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do fisco: “TRIBUTÁRIO. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE E PAGO COM ATRASO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. SÚMULA 360/STJ. 1. Nos termos da Súmula 360/STJ, “O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo”. É que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais – DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo estabelecido. 2. Recurso especial desprovido. Recurso sujeito ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/08.” (grifo nosso) 2 Adicionese ainda outro precedente do STJ sobre o tema, em caráter complementar, igualmente na sistemática dos recursos repetitivos (REsp no 1.149.022/SP): 2 STJ, REsp n. 962.379RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, unânime, 22.out.2008. Fl. 146DF CARF MF 4 “PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IRPJ E CSLL. TRIBUTOS SUJEITOS A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. DECLARAÇÃO PARCIAL DE DÉBITO TRIBUTÁRIO ACOMPANHADO DO PAGAMENTO INTEGRAL. POSTERIOR RETIFICAÇÃO DA DIFERENÇA A MAIOR COM A RESPECTIVA QUITAÇÃO. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. EXCLUSÃO DA MULTA MORATÓRIA. CABIMENTO. 1. A denúncia espontânea resta configurada na hipótese em que o contribuinte, após efetuar a declaração parcial do débito tributário (sujeito a lançamento por homologação) acompanhado do respectivo pagamento integral, retificaa (antes de qualquer procedimento da Administração Tributária), noticiando a existência de diferença a maior, cuja quitação se dá concomitantemente. 2. Deveras, a denúncia espontânea não resta caracterizada, com a consequente exclusão da multa moratória, nos casos de tributos sujeitos a lançamento por homologação declarados pelo contribuinte e recolhidos fora do prazo de vencimento, à vista ou parceladamente, ainda que anteriormente a qualquer procedimento do Fisco (Súmula 360/STJ) (Precedentes da Primeira Seção submetidos ao rito do artigo 543C, do CPC: REsp 886.462/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008; e REsp 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.10.2008, DJe 28.10.2008). 3. É que “a declaração do contribuinte elide a necessidade da constituição formal do crédito, podendo este ser imediatamente inscrito em dívida ativa, tornandose exigível, independentemente de qualquer procedimento administrativo ou de notificação ao contribuinte” (REsp 850.423/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado em 28.11.2007, DJ 07.02.2008). 4. Destarte, quando o contribuinte procede à retificação do valor declarado a menor (integralmente recolhido), elide a necessidade de o Fisco constituir o crédito tributário atinente à parte não declarada (e quitada à época da retificação), razão pela qual aplicável o benefício previsto no artigo 138, do CTN. (...) 7. Outrossim, forçoso consignar que a sanção premial contida no instituto da denúncia espontânea exclui as penalidades pecuniárias, ou seja, as multas de caráter eminentemente punitivo, nas quais se incluem as multas moratórias, decorrentes da impontualidade do contribuinte. 8. Recurso especial provido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008.” 3 (grifo nosso) 3 STJ, REsp n. 1.149.022SP, Rel. Min. Luiz Fux, unânime, 9.jun.2010. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10183.902994/200819 Acórdão n.º 3401003.861 S3C4T1 Fl. 146 5 E as decisões do STJ na sistemática dos recursos repetitivos são de acolhida obrigatória por este tribunal administrativo, por força do art. 62 do Regimento Interno do CARF (em verdade, depois da Lei no 12.844/2013, que deu nova redação ao art. 19, V e § 5o da Lei no 10.522/2002, passaram a ser de acolhida obrigatória por toda a RFB). Há, inclusive, Súmula do STJ, relacionada ao primeiro precedente do STJ aqui citado, afirmando que “o benefício da denúncia espontânea não se aplica aos tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo” (Súmula no 360/STJ). No presente caso, foi apresentada DCTF em 12/08/2000 (fl. 124): No que se refere à COFINS relativa ao mês de junho de 2000, a DCTF informa ter sido o débito pago com DARF de R$ 50.394,14 (fl. 125): Como a data de vencimento era 14/07/2000, e o pagamento foi efetuado somente em 05/12/2000, com multa de mora (R$ 10.078,82) e juros de mora (R$ 3.094,20), os sistema SIEF registrou a quitação, da seguinte forma (fl. 127): Assim, é inequívoco que o débito estava declarado em DCTF, e que foi pago a destempo, aplicandose ao caso a citada Súmula STJ e os precedentes julgados na sistemática dos recursos repetitivos, que vinculam este tribunal administrativo. Não há, então, que se falar em denúncia espontânea, no presente caso, não remetendo o presente contencioso ao artigo 138 do Código Tributário Nacional, como demandava a recorrente. E, por consequência, inexiste crédito resultante de pagamento indevido. Pelo exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário apresentado. Fl. 148DF CARF MF 6 Rosaldo Trevisan Fl. 149DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.001469/2007-13
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002
CONCOMITÂNCIA. PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL. SÚMULA CARF Nº 01. A teor da Súmula CARF nº 01, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial.
LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS. INSTRUMENTOS LEGAIS. AUTO DE INFRAÇÃO OU NOTIFICAÇÃO LANÇAMENTO. Os artigos 10 e 11 do Decreto nº. 70.235/72 tratam, respectivamente, dos requisitos a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, sendo ambos instrumentos legais para o lançamento de créditos tributários.
DECADÊNCIA. PRAZO. Para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplica-se a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contando-se o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado.
MULTA CONFISCATÓRIA. CONSTITUCIONALIDADE. ÂMBITO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. De acordo com a Súmula Carf nº 02, o CARF não tem competência para declarar a inconstitucionalidade de atos normativos fora das hipóteses previstas no art. 62 do Regimento Interno.
JUROS DE MORA. APLICABILIDADE DA TAXA SELIC. Sobre os débitos tributários para com a União, não pagos nos prazos previstos em lei, aplicamse juros de mora calculados, a partir de abril de 1995, com base na taxa SELIC.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.634
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por conhecer parcialmente do recurso voluntário e na parte conhecida negar provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
1.0 = *:*
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camara_s : Quarta Câmara
ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 CONCOMITÂNCIA. PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL. SÚMULA CARF Nº 01. A teor da Súmula CARF nº 01, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS. INSTRUMENTOS LEGAIS. AUTO DE INFRAÇÃO OU NOTIFICAÇÃO LANÇAMENTO. Os artigos 10 e 11 do Decreto nº. 70.235/72 tratam, respectivamente, dos requisitos a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, sendo ambos instrumentos legais para o lançamento de créditos tributários. DECADÊNCIA. PRAZO. Para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplica-se a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contando-se o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. MULTA CONFISCATÓRIA. CONSTITUCIONALIDADE. ÂMBITO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. De acordo com a Súmula Carf nº 02, o CARF não tem competência para declarar a inconstitucionalidade de atos normativos fora das hipóteses previstas no art. 62 do Regimento Interno. JUROS DE MORA. APLICABILIDADE DA TAXA SELIC. Sobre os débitos tributários para com a União, não pagos nos prazos previstos em lei, aplicamse juros de mora calculados, a partir de abril de 1995, com base na taxa SELIC. Recurso Voluntário Negado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por conhecer parcialmente do recurso voluntário e na parte conhecida negar provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra - Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 10; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2098; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T2 Fl. 353 1 352 S3C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 13971.001469/200713 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3402004.634 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 27 de setembro de 2017 Matéria PIS Auto de Infração Recorrente COOPERATIVA DE CRÉDITO DOS MÉDICOS E DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DE BLUMENAU Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 CONCOMITÂNCIA. PROPOSITURA DE AÇÃO JUDICIAL. SÚMULA CARF Nº 01. A teor da Súmula CARF nº 01, importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. LANÇAMENTO. CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS. INSTRUMENTOS LEGAIS. AUTO DE INFRAÇÃO OU NOTIFICAÇÃO LANÇAMENTO. Os artigos 10 e 11 do Decreto nº. 70.235/72 tratam, respectivamente, dos requisitos a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, sendo ambos instrumentos legais para o lançamento de créditos tributários. DECADÊNCIA. PRAZO. Para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. MULTA CONFISCATÓRIA. CONSTITUCIONALIDADE. ÂMBITO ADMINISTRATIVO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. De acordo com a Súmula Carf nº 02, o CARF não tem competência para declarar a inconstitucionalidade de atos normativos fora das hipóteses previstas no art. 62 do Regimento Interno. JUROS DE MORA. APLICABILIDADE DA TAXA SELIC. Sobre os débitos tributários para com a União, não pagos nos prazos previstos em lei, aplicamse juros de mora calculados, a partir de abril de 1995, com base na taxa SELIC. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 00 14 69 /2 00 7- 13 Fl. 353DF CARF MF 2 Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por conhecer parcialmente do recurso voluntário e na parte conhecida negar provimento, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Contra a empresa COOPERATIVA DE CRÉDITO DOS MÉDICOS E DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE DE BLUMENAU Cooperativa, foi lavrado Auto de Infração formalizando a exigência de PIS, com intimação para recolhimento no valor de R$ 59.947,69, referente a fatos geradores entre 01/2002 e 12/2002. Nesse valor se encontra acrescido a multa e os juros moratórios. Consta do Termo de Verificação de Infração que foi interposto o Mandado de Segurança sob o nº. 2002.72.05.0049826, da 3ª Vara da Justiça Federal de Blumenau/SC, objetivando a suspensão e declaração de inexigibilidade da cobrança do PIS. Em sentença proferida no dia 11/12/2002, foi denegada a segurança, reconhecendo a constitucionalidade dos dispositivos questionados. Foi interposto recurso junto ao TRF4, em que a Recorrente obteve decisão favorável no sentido de reconhecer a não incidência sobre os atos cooperativos. O processo se encontra atualmente na fase de Recurso Extraordinário por parte da União Federal. Conforme o Termo de Verificação de Infração TVI PIS (fls. 115/124), as Cooperativas de crédito são contribuintes com base no faturamento (receita bruta), com as exclusões e deduções específicas contidas no parágrafo 5º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, regulamentado pelos artigos 10 e 26 do Decreto nº 4.524, de 2002, e normatizado pelo art. 27 da Instrução Normativa SRF nº 247, de 2002, vigente à época das contribuições. A apuração da base de cálculo foi feita através da análise da ficha 19C da DIPJ Cálculo da Contribuição para o PIS, onde foi verificado que a Recorrente, mensalmente, zerava a base de cálculo de acordo com valores a título de “Outras Exclusões” (quadro demonstrativo mensal à fl. 122), que, segundo alegação da própria Recorrente em resposta ao Termo de Intimação Fiscal 2007.037/005, se referiam à soma de despesas administrativas, aprovisionamentos e ajustes patrimoniais, outras despesas operacionais e sobras resultantes de atos cooperativos. Como tais exclusões não são permitidas, de acordo com a legislação, os respectivos valores foram revertidos para a base de cálculo das contribuições. Fl. 354DF CARF MF Processo nº 13971.001469/200713 Acórdão n.º 3402004.634 S3C4T2 Fl. 354 3 Em sua Impugnação, em síntese, a Recorrente aborda, inicialmente, que a natureza jurídica das sociedades cooperativas e, particularmente, a natureza jurídica das cooperativas de créditos. Faz ainda uma longa explanação sobre a natureza do ato cooperativo e acerca das despesas e prejuízos das cooperativas para alegar que realiza somente atos cooperativos, que estes não geram faturamento ou receita que possam ser utilizados pela sociedade, e que, desta forma, não há base imponível para as contribuições. Argumenta que as sociedades cooperativas prestam serviços aos associados (cooperados), que não há faturamento nem receita, não há como objeto a formação de lucro, e que o prejuízo ou despesas são adimplidos proporcionalmente aos seus associados. Aduz suas razões, sob os seguintes fundamentos, em resumo que: que cabe exclusivamente à Lei Complementar dispor sobre as sociedades cooperativas, de acordo com o art. 146, inciso III, da Constituição Federal de 1988; não há incidência do PIS e da Cofins nas sociedades cooperativas, seja pela inconstitucionalidade da Lei nº. 9.718/98, por afrontar o texto constitucional do §4º., do art. 195; do inciso I, do art. 154; e, especialmente por afrontar o art. 146, III, ‘c’, que reserva à Lei Complementar o adequado tratamento tributário às sociedades cooperativas; ou, ainda, pela ilegalidade e inconstitucionalidade da Medida Provisória nº. 1.99112/ 1999 (e reedições sob o nº. 1.858/1999) através do seu art. 15; a inexistência de fato imponível da PIS em relação aos atos cooperativos” (IV), alega que, como cooperativa que é, presta serviço aos seus associados e seu objetivo é fomentar as atividades do cooperado via assistência creditícia (traz entendimentos jurisprudenciais do Superior Tribunal de Justiça STJ e do Supremo Tribunal Federal STF); Quanto a "Autuação Fiscal e Notificação de Lançamento”, alega, em síntese, que é impossível lançar imposto em auto de infração; que é a multa que se lança em auto de infração; requer a desconsideração dos valores lançados a título de multa e dos juros de mora; sob o tópico “Da decadência dos períodos anteriores à março de 2002", alega que a notificação foi emitida no mês de março de 2007, já tendo ocorrido o prazo decadencial em relação aos lançamentos anteriores a março de 2002 e no item “Inaplicabilidade da Selic”, alega, em suma, que é inadmissível a aplicação desta taxa sobre os débitos fiscais, considerando as limitações constitucionais e legais vigentes. Por fim, que a multa de 75% configurase como confiscatória, o que é vedado no nosso ordenamento jurídico. No entanto, os argumentos aduzidos pela Recorrente, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão DRF/FNS nº 0729.464, de 29/06/2012, abaixo transcrito (fls. 238/246): ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 OPÇÃO PELA VIA JUDICIAL. EFEITOS. A propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda, de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou posteriormente ao procedimento administrativo, importa a renúncia às instâncias administrativas no que se refere ao mesmo objeto do processo judicial e do processo administrativo, tendo este prosseguimento normal no que se relaciona à matéria diferenciada LANÇAMENTO DE CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS. INSTRUMENTOS LEGAIS. Os artigos 10 e 11 do Decreto nº. Fl. 355DF CARF MF 4 70.235/72 tratam, respectivamente, dos requisitos a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, sendo ambos instrumentos legais para o lançamento de créditos tributários. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2002 a 31/12/2002 JUROS DE MORA. APLICABILIDADE DA TAXA SELIC. Sobre os débitos tributários para com a União, não pagos nos prazos previstos em lei, aplicamse juros de mora calculados, a partir de abril de 1995, com base na taxa SELIC. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. DECADÊNCIA. PRAZO. Para fins de cômputo do prazo de decadência, não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do art. 173, inc. I do CTN, pouco importando se houve ou não declaração, contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. Impugnação Improcedente / Crédito Tributário Mantido Em 14/08/2012 (fl. 260) a empresa foi devidamente cientificada e não resignada com a recorrida decisão, em 14/09/2012 (fl. 261), interpôs o presente recurso voluntário, (fls. 261/337), no qual repisa os argumentos de sua impugnação, que em resumo, conclui com as seguintes solicitações: requer que seja este Recurso recebido como tempestivo e declarado o seu efeito suspensivo; que seja declarado nulo o julgamento a quo, determinando sua remessa aquela instância, para ver enfrentadas as matérias não analisadas, sob pena de cerceamento de defesa; requer que seja reformada a decisão a quo, pelos seguintes motivos: a) tendo em a inexistência de fato imponível do PIS sob os atos cooperativos (tanto pela ilegalidade e inconstitucionalidade da rubrica do PIS sob as sociedades cooperativas); b) tendo em vista que os valores anteriores a março de 2002, já terem sido atingidos pela decadência; c) tendo em vista a aplicação de multa confiscatória, o que é vedado em nosso ordenamento jurídico; d) tendo em vista a diferenciação entre Auto de Infração e Notificação Fiscal, e a impossibilidade de concentração de ambos em um único procedimento ou sua confusão; e) tendo em vista a inaplicabilidade dos juros de mora antes de decisão final em processo regular administrativo irrecorrível e sua inscrição em dívida ativa, que não respeitou a forma legal; Fl. 356DF CARF MF Processo nº 13971.001469/200713 Acórdão n.º 3402004.634 S3C4T2 Fl. 355 5 f) tendo em vista a inaplicabilidade da taxa de juros que tem por base o índice da SELIC, que não corresponde à forma do sistema constitucional tributário; Ao final, requer com base em todo o exposto, o cancelamento da "Notificação Fiscal" ora guerreada, total ou parcialmente. Esse é o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator. 1. Da admissibilidade dos recursos O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido. 2. Objeto da lide Trata o presente processo, da base de cálculo dos créditos tributários em razão da aplicação da Lei nº 9.718/98, da Medida Provisória nº 1.8586, de 1999, e suas reedições (culminando na MP nº 2.15835, de 2001), a qual revogou expressamente, a partir de 30 de junho de 1999, a isenção do PIS e da Cofins quanto aos atos cooperativos próprios das finalidades das cooperativas, prevista no art. 6º, inciso I, da Lei Complementar nº. 70, de 1991. Em resumo, questionase, a legalidade da incidência da contribuição do PIS sobre os atos cooperativos, além da ampliação da base de cálculo das contribuições. 3. Do Mandado de Segurança nº 2000.72.00.0049826 Compulsando os autos, verificase que parte do que é discutido pela Recorrente foi alegado nos autos do Mandado de Segurança nº. 2000.72.00.0049826, da 3ª Vara Federal de Blumenau/SC, a qual ainda não transitou em julgado em razão da interposição de Recurso Extraordinário junto ao STF. Como bem asseverado pela decisão recorrida, conforme a inicial desse processo (constante dos autos às fls. 40/53), a Recorrente suscita a ilegalidade e inconstitucionalidade da Lei nº. 9.718/98 e da Medida Provisória nº. 1.99112/ 99 (e reedições anteriores sob o nº. 1.858/99). Questiona, em suma, a legalidade da incidência das contribuições sobre os atos cooperativos, além da ampliação da base de cálculo das contribuições. Consta do TVI (Termo de Verificação de Infração), que as cooperativas de crédito são contribuintes com base na totalidade das receitas auferidas. Desta forma, lançou o total dos valores contidos na linha Faturamento/Receita Bruta (Ficha 19C) da DIPJ, com as exclusões e deduções específicas contidas no parágrafo 5º. do art. 3º.da Lei nº. 9.718/98, regulamentado pelos artigos 10 e 26 do Decreto nº. 4.524/02, e normatizado pelo art. 27 da Instrução Normativa SRF nº. 247/02, vigente à época das contribuições lançadas (PIS). Desta forma, verificase a concomitância de instâncias (Administrativa e Judicial|) no que se refere às alegações tratadas nos itens “Da previsão da Constituição Federal Fl. 357DF CARF MF 6 de 1988 às Sociedades Cooperativas”, “PIS”, e “Inexistência de fato imponível do PIS em relação aos atos cooperativos” deste Processo Administrativo Fiscal, pois nestes tópicos a Recorrente traz os mesmos argumentos expendidos na Ação Judicial mencionada. Posto isto, conforme determina o § 2º do art. 1º do Decretolei nº 1.737/1979 que a "propositura, pelo contribuinte, de ação anulatória ou declaratória da nulidade do crédito da Fazenda Nacional importa em renúncia ao direito de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso interposto" e também o art. 38 da Lei nº 6.830/80 traz disposição semelhante em relação às ações judiciais de mandado de segurança, repetição do indébito ou anulatória do ato declarativo da dívida. Nessa linha, o CARF aprovou o enunciado de Súmula CARF nº 01, publicada no DOU de 22/12/2009, no seguinte sentido; "Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial". O art. 87 do Decreto nº 7.574, de 29 de setembro de 2011, regulamentou a matéria no mesmo sentido: Art. 87. A existência ou propositura, pelo sujeito passivo, de ação judicial com o mesmo objeto do lançamento importa em renúncia ou em desistência ao litígio nas instâncias administrativas (Lei no 6.830, de 1980, art. 38, parágrafo único). Parágrafo único. O curso do processo administrativo, quando houver matéria distinta da constante do processo judicial, terá prosseguimento em relação à matéria diferenciada. E, ainda por meio do Parecer Normativo COSIT nº 7, de 08/2014, as unidades da RFB foram orientadas a não conhecerem dos recursos interpostos pelos contribuintes, naqueles casos em que o objeto e as causas de pedir forem idênticas àquelas postas à apreciação da Justiça, antes ou posterior à autuação. Operase, neste caso, uma renúncia tácita do contribuinte ao recurso administrativo. Desta forma, não se conhece aqui das razões da Recorrente quanto à base de cálculo dos créditos tributários em razão da aplicação da Lei nº 9.718/98, da Medida Provisória nº 1.8586, de 29 de junho de 1999, e suas reedições (culminando na MP nº 2.15835, de 2001), a qual revogou expressamente, a partir de 30 de junho de 1999, a isenção do PIS e da Cofins quanto aos atos cooperativos próprios das finalidades das cooperativas, prevista no art. 6º, inciso I, da Lei Complementar nº. 70, de 1991. 4. Das demais matérias diferentes do objeto da Ação Judicial Por outro lado, quando diferentes os objetos do processo judicial e do processo administrativo, este terá prosseguimento normal no que se relaciona à matéria diferenciada. Desta forma, passase à análise dos demais itens do recurso. 5. Da decadência dos períodos anteriores à março de 2002 Aduz a Recorrente em seu recurso que, "(...) Necessário também a reforma do julgamento de primeira grau administrativo, pois nos valores lançados na Notificação Fiscal, existem alguns que se encontram alcançados pela decadência, valores que devem ser Fl. 358DF CARF MF Processo nº 13971.001469/200713 Acórdão n.º 3402004.634 S3C4T2 Fl. 356 7 desconsiderados". Alega que já teria ocorrido o prazo decadencial em relação aos lançamentos efetuados anteriormente a março de 2002. A questão do prazo decadencial para constituição das contribuições destinadas a financiar a seguridade social foi disciplinada pelo artigo 45 da Lei nº 8.212/1991, que dispõe sobre a organização da Seguridade Social. Ocorre que, em sessão de 12 de junho de 2008, o Tribunal Pleno do Supremo Tribunal Federal editou o enunciado da Súmula Vinculante nº 8, que foi publicada no Diário Oficial da União, em 20 de junho de 2008. A partir de então, para fins do cômputo do prazo decadencial, cabível a adoção do entendimento de que: tendo havido pagamento antecipado (sujeito, portanto, à homologação), aplicase a regra do § 4º do art. 150 do CTN; não tendo havido qualquer pagamento, aplicase a regra do art. 173, I, do CTN, pouco importando se houve ou não declaração. Portanto, inexistindo qualquer pagamento das contribuições sociais devidas, o direito da Fazenda lançar o correspondente crédito tributário decai em cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o crédito poderia ter sido constituído. No caso em concreto, a ciência dos autos ocorreu em 09/07/2007, em relação a lançamentos das competências 01/2002 a 12/2002. A Recorrente não traz qualquer documento de arrecadação do PIS sobre o faturamento no período. Aplicase, portanto, a regra decadencial do artigo 173, I, do CTN para os meses de janeiro a dezembro de 2002. Portanto, não há que se falar em decadência dos lançamentos para as contribuições devidas: para o fato gerador mais antigo, ocorrido em 01/01/2002, a contagem do prazo decadencial iniciou em 01/01/2003 e expirou em 31/12/2007; a ciência dos autos de infração ocorreu em 09/07/2007, não ultrapassando o prazo para o lançamento das contribuições. Portanto, não há que se falar em decadência em relação aos lançamentos efetuados anteriormente a março de 2002. 6. Da Autuação Fiscal e Notificação de Lançamento A Recorrente alega que é impossível lançar imposto em Auto de Infração e que é a multa que se lança em Auto de Infração; que não há nos autos discussão de qualquer infração, somente apuração do valor decorrente de incidência tributária a contribuinte; que, por este motivo, os valores dos impostos lançados devem ser excluídos. Sobre essa questão e as seguintes deste voto, adoto todos os fundamentos da decisão recorrida, que tenho por boa e conforme a lei (forte no art. 50, § 1º, da Lei no 9.784, de 1991), que faço algumas adaptações pontuais. Em que pese o argumento da Recorrente, o art. 142 do CTN aborda a competência da autoridade administrativa para constituir o crédito tributário através do lançamento. Conforme o art. 9º.do Decreto nº. 70.235/72, a exigência do crédito tributário será formalizada em auto de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada imposto, contribuição ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Os artigos 10 e 11 do Decreto nº. 70.235/72 tratam, respectivamente, dos requisitos a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, tais como a qualificação do Fl. 359DF CARF MF 8 autuado, a descrição do fato, a determinação da exigência, a disposição infringida, a penalidade, etc. Tais dispositivos tiveram por objetivo fixar os procedimentos formais a serem observados no auto de infração e na notificação de lançamento, instrumentos os quais, ao final e ao cabo, tem por objetivo a exigência de créditos tributários. É por demais evidente que tanto os autos de infração quanto as notificações de lançamento constituem instrumentos hábeis para a constituição de créditos tributários. A única distinção entre tais instrumentos, conforme se observa nos artigos 10 e 11 do referido Decreto, reside em que os autos de infração são lavrados por autoridades fiscais (em atividades de fiscalização externa e interna), enquanto as notificações são expedidas pelo órgão responsável pela administração tributária. Assim, a aplicação do direito material pelo Fisco está presente no ato de lançamento através do auto de infração impugnado, praticado de forma ordenada e com observância dos direitos da Recorrente, motivo pelo qual não há que acatar o seu pleito. 7. Da incidência dos Juros de Mora antes da Decisão Administrativa final A Recorrente alega que, estando a exigibilidade do crédito suspensa, não há que falar em mora. Requer o expurgo dos juros e que não incidam quaisquer valores a este título até que se consolide os valores pleiteados pelo fisco, no final do processo administrativo regular. No entanto, não há como atender ao pleito da Recorrente. Em relação aos acréscimos moratórios, o Código Tributário Nacional (CTN), em seu art. 161, outorga à lei a faculdade de estipular os juros de mora incidentes sobre os créditos não integralmente pagos no vencimento, estabelecendo o parágrafo 1º desse artigo, que os juros serão calculados à taxa de 1% ao mês, se a lei não fixar outra taxa. Portanto, nos termos do CTN, ocorrendo a falta de pagamento integral, seja qual for o motivo, os respectivos juros serão devidos. Esse entendimento já se encontra pacificado pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) no Acórdão nº 0104.444. Igualmente, nesse sentido dispõe a Súmula nº 5 do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), orientando que: Súmula CARF nº 5: São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral. Desta forma, o dispositivo legal constante do auto de infração, acerca do enquadramento legal dos juros de mora, está em perfeita harmonia com a norma complementar. 8. Da Inaplicabilidade da Selic A Recorrente alega, em suma, que é inadmissível a aplicação da taxa SELIC sobre os débitos fiscais, considerando as limitações constitucionais e legais vigentes. Fl. 360DF CARF MF Processo nº 13971.001469/200713 Acórdão n.º 3402004.634 S3C4T2 Fl. 357 9 No que tange aos argumentos da impugnante de que a taxa SELIC seria inaplicável no presente lançamento, cabe observar que a sua utilização está expressamente prevista no artigo 13 da Lei nº 9.065/95, abaixo reproduzido: “Art. 13. A partir de 1º de abril de 1995, os juros de que tratam a alínea c do parágrafo único do art. 14 da Lei nº 8.847, de 28 de janeiro de 1994, com a redação dada pelo art. 6º da Lei nº 8.850, de 28 de janeiro de 1994, e pelo art. 90 da Lei nº 8.981, de 1995, o art. 84, inciso I, e o art. 91, parágrafo único, alínea a 2, da Lei nº 8.981, de 1995, serão equivalentes à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia SELIC para títulos federais, acumulada mensalmente.” (Grifei). A corroborar a legislação exposta, trazse à colação a Súmula CARF nº 4: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Portanto, deve ser mantida a exigência dos juros moratórios calculados com base na taxa SELIC. 9. Da alegada multa confiscatória Argumenta em seu recurso que, "(...) Por fim, verificase que a multa de 75% aplicada se configura como confiscatória, o que é expressamente vedado em nosso ordenamento. Destarte, mister sair do plano da demonstração dos valores e explicitar o entendimento dos tribunais e doutrinadores no repúdio contra a multa aplicada com caráter confiscatório". Quanto à multa, a qual a contribuinte atribui o efeito de confiscatória, digase apenas que se encontra legalmente prevista no art. 44, inciso I, da Lei n°. 9.430/96, sendo que foi regularmente aplicada pela autoridade fiscalizadora, o que faz com que a única forma de se afastar a imposição da penalidade na situação posta pela contribuinte seja a da via da declaração da ilegalidade ou inconstitucionalidade daquele dispositivo legal, coisa que, à evidência, não pode este juízo administrativo fazer. O artigo 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, alterado pelo artigo 25 da Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, assim dispõe: Art 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. Como se vê, tratase de matéria que, como se sabe, não pode ser apreciada no âmbito administrativo, consoante entendimento consolidado na Súmula CARF nº 2, segundo o qual o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não tem competência para a declaração de inconstitucionalidade de atos normativos fora das hipóteses do art. 62 do Regimento Interno: Súmula Carf nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Fl. 361DF CARF MF 10 Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. 10. Do pedido de efeito suspensivo Uma vez que é efeito automático do Recurso Voluntário a suspensão da exigibilidade do crédito lançado, por força do art. 151, inciso III, do CTN, e do art. 33 do Decreto nº 70.235/72, descabe qualquer providência desse Órgão Julgador quanto ao pedido levado a efeito pela Recorrente nesse sentido. 11. Dispositivo Em conformidade com o acima exposto, voto da seguinte forma: (i) por não conhecer do recurso voluntário, quanto à matéria levada à apreciação do Poder Judiciário, ou seja, quanto às alegações de ilegalidade e inconstitucionalidade dos dispositivos legais que embasam a base de cálculo das contribuições lançada pelo fisco; e (ii) no que se refere às matérias não tratadas no âmbito judicial, nego provimento ao recurso voluntário. É como voto. (assinatura digital) Waldir Navarro Bezerra Relator. Fl. 362DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.721847/2015-22
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 06 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2014
MOLÉSTIA GRAVE. ISENÇÃO. TERMO INICIAL. LAUDO MÉDICO
A isenção a que fazem jus os portadores de moléstia grave aplicam-se aos rendimentos recebidos a partir da data em que a doença for contraída, quando identificada no laudo pericial, emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão ou da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial.
Numero da decisão: 2401-004.965
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e, no mérito, dar-lhe provimento para considerar a isenção a partir da competência 04/13.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente
(assinado digitalmente)
Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
Nome do relator: LUCIANA MATOS PEREIRA BARBOSA
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2014 MOLÉSTIA GRAVE. ISENÇÃO. TERMO INICIAL. LAUDO MÉDICO A isenção a que fazem jus os portadores de moléstia grave aplicam-se aos rendimentos recebidos a partir da data em que a doença for contraída, quando identificada no laudo pericial, emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão ou da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e, no mérito, dar-lhe provimento para considerar a isenção a partir da competência 04/13. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
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ISENÇÃO. TERMO INICIAL. LAUDO MÉDICO A isenção a que fazem jus os portadores de moléstia grave aplicamse aos rendimentos recebidos a partir da data em que a doença for contraída, quando identificada no laudo pericial, emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a aposentadoria, reforma ou pensão ou da data em que a doença foi contraída, quando identificada no laudo pericial. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 72 18 47 /2 01 5- 22 Fl. 111DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso e, no mérito, darlhe provimento para considerar a isenção a partir da competência 04/13. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini – Presidente (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. Fl. 112DF CARF MF Processo nº 11516.721847/201522 Acórdão n.º 2401004.965 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório Contra o contribuinte acima identificado, foi lavrada, em 28/04/2015 a Notificação de Lançamento (fl. 28), relativo ao Imposto de Renda Pessoa Física, do ano calendário de 2013, alterando o valor da restituição do IRPF/2014 apurado de R$ 41.751,00, para R$ 22.614,17, de acordo com o demonstrativo de apuração do imposto devido. De conformidade com a Descrição dos Fatos e enquadramento legal, fls. 29, constatouse omissão de rendimentos do valor de R$ 73.326,28, com base nas informações dos documentos apresentados. A fiscalização concluiu que: “Conforme documentos apresentados o contribuinte é portador de moléstia grave a partir de 02/09/2013 e dessa forma são tributáveis os rendimentos recebidos até o mês de agosto de 2013, os quais totalizam R$ 146.652,56, ora alterado.” O contribuinte foi cientificado do lançamento por aviso de recebimento postal, em 06/05/2015 (fl. 40), e apresentou impugnação em 06/06/2015 (fls. 02/03), por intermédio de sua representante legal (fl.4), com as seguintes considerações: “1 – Em data de 30 de abril de 2014 foi entregue a Declaração do Imposto de Renda Pessoa Física, referente ao Ano Calendário 2013, informando os proventos da aposentadoria, referente aos meses de maio a dezembro de 2013, no quadro rendimentos isentos e não tributáveis, linha 07 – Pensão, Proventos de Aposentadoria ou Reforma por Moléstia Grave ou Aposentadoria ou Reforma por Acidente em Serviço. 2 – Tal lançamento foi efetuado baseado na conclusão do processo de pedido de isenção de imposto de renda por moléstia grave, encaminhado junto à fonte pagadora da aposentadoria, onde diz na folha 11, que segue anexa, o seguinte: “Notese que a Assembleia abstémse de compensar períodos pretéritos, o que não prejudica o servidor pugnar, com os instrumentos de que dispõe – ressarcimento ou ajustamento – o direito que lhe é reconhecido a contar de 30 de abril de 2013.” 3 – Ocorre, porém, que apesar da doença está sendo investigada já à algum tempo, e após alguns diagnósticos equivocados, foi confirmada com o exame de RESSONÂNCIA MAGNÉTICA, conforme consta no laudo emitido em 15 de junho de 2013, e assinado eletronicamente pelo Dr. Alexandre Studzinski de Souza, CRM 7553, que segue anexo. Diante do exposto acima, e pelas provas apresentadas, solicito a restituição do imposto de renda retido na fonte dos proventos da aposentadoria recebidos nos meses de junho/2013, julho/2013, agosto/2013 e do 13º salário, conforme contra cheques, que seguem, anexos.” Fl. 113DF CARF MF 4 A 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Recife (PE) julgou improcedente a impugnação (Acórdão 1150.904 – fls. 86/90), nos seguintes termos: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2014 OMISSÃO DE RENDIMENTOS Somente são isentos do imposto de renda os proventos de aposentadoria, reforma ou pensão e deve ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, a partir do mês da emissão do laudo pericial, que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a concessão da aposentadoria, reforma ou pensão e a data em que a doença for contraída, quando identificada no laudo pericial. ISENÇÃO. INTERPRETAÇÃO LITERAL. Interpretase literalmente a legislação tributária que disponha sobre outorga de isenção, restringindose, esse entendimento, no caso de rendimentos oriundos de ação trabalhista, às situações expressamente previstas em lei. Impugnação Improcedente” Posteriormente, dentro do lapso temporal legal, foi interposto Recurso Voluntário (fls. 97/98), nos seguintes termos: “1 – Em data de 07 de agosto de 2015 foi exarado acórdão nº 1150.804, pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento, considerando improcedente a impugnação apresentada pelo contribuinte, tendo sido mantida na íntegra a Notificação de Lançamento, de modo a permanecer como reconhecido o valor a restituir de R$ 22.614,17, conforme demonstrado no instrumento de autuação, o qual foi creditado em favor do contribuinte em 15/05/2015, com os devidos acréscimos legais. 2 – O Acórdão, no item 6.1, certifica que o Auditor Fiscal procedeu corretamente, emitindo a Notificação de Lançamento, para inclusão dos rendimentos tributáveis dos meses de junho a agosto, pois somente a partir da data constante do laudo médico, que no presente caso 02/09/2013, que os proventos de aposentadoria estão isentos do imposto de renda. 3 – Ressalta ainda, que somente o perito médico poderá modificar a data de isenção do imposto de renda. 4 – A Gerência de perícia médica do Estado de Santa Catarina, em termo de inspeção de saúde do requerente, concluiu que o mesmo apresenta doença CID F 01 (alienação mental), fazendo jus à ISENÇÃO DE IMPOSTO DE RENDA NA FONTE, bem como ISENÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. 5 – Acrescentese que tal data, setembro de 2013, devese em função da declaração do Dr Alberto Stoppe Júnior, médico Fl. 114DF CARF MF Processo nº 11516.721847/201522 Acórdão n.º 2401004.965 S2C4T1 Fl. 4 5 Psiquiatra geriátrico, responsável pelo tratamento do ora requerente. 6 – O referido médico, ao ser questionado pela procuradora do requerente, confirmou que a doença (Demência Vascular) já o acometia desde 01/04/2013, conforme declaração em anexo. 7 – Em função desta declaração, a Gerência de Perícia Médica do Estado de Santa Catarina, emitiu novo Termo de Inspeção de Saúde, confirmando o direito do requerente a ser restituído do imposto de renda a partir do mês de abril de 2013 (Documento em anexo). Diante do exposto acima, e pelas provas apresentadas, solicito a restituição do imposto de renda retido na fonte dos proventos da aposentadoria recebidos nos meses de abril, maio, junho, julho, agosto e 13º, não ressarcidos no processo 11516.721.847/2015 22, conforme contra cheques que seguem, anexo.” É o relatório. Fl. 115DF CARF MF 6 Voto Conselheira Luciana Matos Pereira Barbosa Relatora Pressupostos De Admissibilidade O Recorrente foi cientificado da r. decisão em debate no dia 18/08/2015, conforme fl. 95, e o presente Recurso Voluntário foi apresentado, TEMPESTIVAMENTE, no dia 14/09/2015 (fls. 97/98). Do mérito Conforme se observa dos autos, o Recorrente pleiteia a restituição do imposto de renda retido na fonte dos proventos da aposentadoria recebidos nos meses de abril, maio, junho, julho, agosto e 13º salário do ano de 2013 em razão de estar acometido por moléstia grave. No presente caso, conforme Termo de Inspeção de Saúde emitido pela Gerência de Perícia Médica do Estado de Santa Catarina (fl.12), o Recorrente fora diagnosticado, em 13 de dezembro de 2013 portador de alienação mental (CID F 01), fazendo jus à isenção de imposto de renda na fonte e isenção previdenciária, desde 02/09/2013. O Acórdão a quo corroborou o entendimento adotado pela fiscalização tributária nos seguintes termos: “6.1 Diante dos termos do documento acima transcrito, o Auditor Fiscal precedeu corretamente, emitindo a Notificação de Lançamento, para inclusão dos rendimentos tributáveis dos meses de junho a agosto, pois somente a partir da data constante do laudo médico, que no presente caso 02/09/2013, que os proventos de aposentadoria estão isentos do imposto de renda, conforme se observa da legislação acima transcrita.” (fl.89) Em seguida acrescentou: “7. No que diz respeito a ressonância magnética alegada como documento que comprovaria a isenção a partir de junho, data da realização do exame, 15/06/2013, presumese que o referido documento foi apresentado quando do pedido de isenção formalizado em 02 de setembro de 2013. Ressalta se que somente, o perito médico poderá modificar a data de as isenção, de 02/09/2013, para junho de 2013.” (grifei) Valendose do argumento acima grifado, o Recorrente, por intermédio de sua procuradora regularmente constituída (fl.99), trouxe aos autos, já em sede recursal, um novo Termo de Inspeção de Saúde emitido pela Gerência de Perícia Médica do Estado de Santa Catarina (fl.101), cuja data de isenção é a partir do 1º de abril de 2013, e a validade é permanente. Ainda, verificase que o novo laudo está assinado pelos mesmos peritos do laudo anterior (fl.12). A isenção do imposto de renda sobre proventos da aposentadora está prevista na Lei nº 7.713, de 1998, artigo 6º, inciso XIV, com redação dada pela Lei nº 11.052, de 2004, a saber: Fl. 116DF CARF MF Processo nº 11516.721847/201522 Acórdão n.º 2401004.965 S2C4T1 Fl. 5 7 “Art. 6º Ficam isentos do imposto de renda os seguinte rendimentos percebidos por pessoas físicas: [...] XIV – os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, hepatopatia grave, estados avançados da doença de Paget (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma”; Ainda em relação à isenção acima referida, a Lei nº 9.250, de 1995, no artigo 30 e §§ estabeleceu a forma do seu reconhecimento. Recordese: “Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º O serviço médico oficial fixará o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 2º Na relação das moléstias a que se refere o inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, fica incluída a fibrose cística (mucoviscidose) Instrução Normativa SRF nº 15, de 2001: Art. 5º Estão isentos ou não se sujeitam ao imposto de renda os seguintes rendimentos: XII proventos de aposentadoria ou reforma motivadas por acidente em serviço e recebidos pelos portadores de moléstia ( ...) § 1º A concessão das isenções de que tratam os incisos XII e XXXV, solicitada a partir de 1º de janeiro de 1996, só pode ser deferida se a doença houver sido reconhecida mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. § 2º As isenções a que se referem os incisos XII e XXXV aplicamse aos rendimentos recebidos a partir: I do mês da concessão da aposentadoria, reforma ou pensão, quando a doença for preexistente; Fl. 117DF CARF MF 8 II do mês da emissão do laudo pericial, emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, que reconhecer a moléstia, se esta for contraída após a concessão da aposentadoria, reforma ou pensão; III da data em que a doença for contraída, quando identificada no laudo pericial.”. Portanto, a isenção dos rendimentos dependem da comprovação que eles sejam decorrentes de aposentadoria ou reforma; que a doença esteja arrolada no inciso XIV, artigo 6º da Lei nº 7.713/88 e que o interessado apresente laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, fixando o prazo de validade e a data de início da incapacidade provocada pela doença. No caso presente, sobretudo em virtude do novo laudo anexado aos autos, tenho que o Recurso Voluntário comporta provimento, devendo, portanto, ser aplicada a isenção do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e a dedução da contribuição previdenciária, a partir do 1º de abril de 2013, conforme laudo pericial de fl. 101. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso voluntário, para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, para o fim de ser aplicada a isenção do Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) e a dedução da contribuição previdenciária, a partir do 1º de abril de 2013, conforme laudo pericial de fl. 101. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Matos Pereira Barbosa. Fl. 118DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12466.720330/2011-98
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Data do fato gerador: 01/10/2009, 15/01/2010
MODALIDADES DE IMPORTAÇÃO. CONCEITO LEGAL. DIVERGÊNCIA ENTRE OPERAÇÃO DECLARADA E PRATICADA. DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. MULTA POR CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO.
Na importação direta, o importador é o próprio adquirente dos bens importados, realizando a importação com recursos próprios e por seu próprio risco. Na importação por conta e ordem de terceiros, o importador presta apenas serviços (de logística, aduaneiros, cotação de preços, intermediação) para o adquirente, que é a pessoa de onde provém os recursos para a realização da importação. Na importação para a revenda a encomendante predeterminado, o importador estabelece uma relação de comissão com adquirente, disciplinada pelo artigo 696 e seguintes do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), pela qual o importador é comissário e o adquirente é o comitente, entrando o importador na operação de importação com recursos próprios e se comprometendo a revender os bens importados ao adquirente.
Existe um conceito legal para cada modalidade de importação, o que resulta em considerar a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro como uma importação por conta e ordem deste, nos termos do artigo 27 da Lei nº 10.637/2002, e a manter a caracterização de uma importação para a revenda a encomendante predeterminado, na hipótese de haver participação do encomendante predeterminado nas operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior, por força do artigo 11, parágrafo 3º, da Lei nº 11.281/2006.
Na hipótese de divergência entre a operação de importação declarada e a operação de importação efetivamente realizada, havendo ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, configura-se o dano ao erário, punido com pena de perdimento das mercadorias, penalidade convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida. (artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76).
INFRAÇÃO DE OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. ARTIGO 23 DO DECRETO LEI Nº 1455/76. CARACTERIZAÇÃO.
O tipo infracional previsto no artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76 não é a mera ocultação do sujeito passivo nas operações de comércio exterior, mas a ocultação realizada "mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros", de modo que, para a caracterização da infração, deve ser identificado o dolo e a infração deve ser grave em substância e não uma infração meramente formal.
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA COMPROVADA.
A interposição fraudulenta pode ser presumida, na hipótese de não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados para a realização da importação, ou comprovada, na existência de um conjunto de provas que demonstrem a ocorrência de fraude ou simulação com o intuito de interpor determinada pessoa entre o real adquirente e as autoridades fiscais, para que a primeira permaneça oculta aos olhos da fiscalização.
INFRAÇÃO DE OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. ARTIGO 23, INCISO V, DO DECRETO LEI Nº 1455/76. DEMONSTRAÇÃO. PROVA.
Na hipótese de "interposição fraudulenta comprovada", o ônus probatório da ocorrência de "ocultação mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros" é do Fisco, que deve levantar um conjunto de elementos de prova que demonstrem que as condutas imputadas aos intervenientes das operações de comércio exterior se enquadram no tipo infracional previsto no artigo 23, inciso V, do Decreto nº 1.455/1976.
Numero da decisão: 3401-003.981
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos voluntários apresentados, e em não conhecer do recurso de ofício.
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
AUGUSTO FIEL JORGE D'OLIVEIRA - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d' Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araujo Branco.
Nome do relator: AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA
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E OUTROS Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Data do fato gerador: 01/10/2009, 15/01/2010 MODALIDADES DE IMPORTAÇÃO. CONCEITO LEGAL. DIVERGÊNCIA ENTRE OPERAÇÃO DECLARADA E PRATICADA. DANO AO ERÁRIO. OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. MULTA POR CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO. Na importação direta, o importador é o próprio adquirente dos bens importados, realizando a importação com recursos próprios e por seu próprio risco. Na importação por conta e ordem de terceiros, o importador presta apenas serviços (de logística, aduaneiros, cotação de preços, intermediação) para o adquirente, que é a pessoa de onde provém os recursos para a realização da importação. Na importação para a revenda a encomendante predeterminado, o importador estabelece uma relação de comissão com adquirente, disciplinada pelo artigo 696 e seguintes do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), pela qual o importador é comissário e o adquirente é o comitente, entrando o importador na operação de importação com recursos próprios e se comprometendo a revender os bens importados ao adquirente. Existe um conceito legal para cada modalidade de importação, o que resulta em considerar a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro como uma importação por conta e ordem deste, nos termos do artigo 27 da Lei nº 10.637/2002, e a manter a caracterização de uma importação para a revenda a encomendante predeterminado, na hipótese de haver participação do encomendante predeterminado nas operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior, por força do artigo 11, parágrafo 3º, da Lei nº 11.281/2006. Na hipótese de divergência entre a operação de importação declarada e a operação de importação efetivamente realizada, havendo ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 46 6. 72 03 30 /2 01 1- 98 Fl. 6557DF CARF MF 2 mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros, configurase o dano ao erário, punido com pena de perdimento das mercadorias, penalidade convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida. (artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76). INFRAÇÃO DE OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. ARTIGO 23 DO DECRETO LEI Nº 1455/76. CARACTERIZAÇÃO. O tipo infracional previsto no artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76 não é a mera ocultação do sujeito passivo nas operações de comércio exterior, mas a ocultação realizada "mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros", de modo que, para a caracterização da infração, deve ser identificado o dolo e a infração deve ser grave em substância e não uma infração meramente formal. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA COMPROVADA. A interposição fraudulenta pode ser presumida, na hipótese de não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados para a realização da importação, ou comprovada, na existência de um conjunto de provas que demonstrem a ocorrência de fraude ou simulação com o intuito de interpor determinada pessoa entre o real adquirente e as autoridades fiscais, para que a primeira permaneça oculta aos olhos da fiscalização. INFRAÇÃO DE OCULTAÇÃO MEDIANTE FRAUDE OU SIMULAÇÃO, INCLUSIVE A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. ARTIGO 23, INCISO V, DO DECRETO LEI Nº 1455/76. DEMONSTRAÇÃO. PROVA. Na hipótese de "interposição fraudulenta comprovada", o ônus probatório da ocorrência de "ocultação mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros" é do Fisco, que deve levantar um conjunto de elementos de prova que demonstrem que as condutas imputadas aos intervenientes das operações de comércio exterior se enquadram no tipo infracional previsto no artigo 23, inciso V, do Decreto nº 1.455/1976. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento aos recursos voluntários apresentados, e em não conhecer do recurso de ofício. ROSALDO TREVISAN Presidente. AUGUSTO FIEL JORGE D'OLIVEIRA Relator. Fl. 6558DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.558 3 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d' Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araujo Branco. Relatório O processo administrativo ora em julgamento decorre da lavratura de Auto de Infração para lançamento, no valor de R$1.299.219,66, de "pena de perdimento da mercadoria, convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida", com base no artigo 23, inciso V, parágrafo 3º, do Decreto nº 1.455/1976, e artigo 105, inciso VI, do Decreto nº 37/1966, por (i) ocultação dos verdadeiros encomendantes das mercadorias e (ii) uso de documento falso no despacho aduaneiro, em operações de importação, declaradas como realizadas na modalidade "importação por encomenda", tendo como importador a Target Trading S.A ("Target") e como encomendante a Neo Importação e Exportação e Distribuição Ltda. ("Neo"). Na "descrição dos fatos e enquadramento legal" que acompanha o Auto de Infração, a Fiscalização narra que instaurou procedimento em face da Neo e, analisando um conjunto de operações de importação registradas sob 23 (vinte e três) Declarações de Importação, no qual se as operações de importação que deram origem ao presente lançamento se incluem, identificou infrações de interposição fraudulenta de terceiros mediante cessão de nome e uso de documento falso no despacho aduaneiro de importação, que ensejam a aplicação tanto da penalidade de pena de perdimento de mercadorias quanto da multa por cessão de nome. Dessa maneira, a Fiscalização informa que lavrou vários Autos de Infração, segregados de acordo com as infrações e os responsáveis solidários identificados, sendo que o Auto de Infração que deu origem ao presente processo é relativo à Declaração de Importação abaixo identificada, tem como sujeito passivo a Target, e aponta como responsáveis solidários a Neo, o Sr. Marcelo Gonçalves Araújo ("Sr. Marcelo Araújo") e a VentLar Indústria e Comércio Ltda. ("Ventlar"), indicando o Termo de Sujeição Passiva e a "descrição dos fatos e enquadramento legal" que acompanha o Auto de Infração como fundamento legal o artigo 124, do CTN, e o artigo 95, inciso I e VI, do Decreto nº 37/1966. Número das Declarações de Importação Data de Registro 0913363752 01/10/09 1000825401 15/01/10 A conclusão a que a Fiscalização chegou é que "restou comprovado que a NEO figurou como encomendante nas Declarações de Importação investigadas, porém as mercadorias eram predestinadas a outros interessados, os verdadeiros encomendantes das mercadorias, inclusive mediante contratos previamente firmados e prestação de garantias". Para tanto, a Fiscalização levantou os seguintes elementos: Fl. 6559DF CARF MF 4 (i) capacidade econômica e financeira da Neo: no curso de despacho aduaneiro de determinadas Declarações de Importação, a Auditora Fiscal identificou que a encomendante Neo, apesar de ter sido habilitada na modalidade simplificada, que não exige verificação de capacidade econômica e financeira, já havia atuado como encomendante em importações no valor total de USD 14.000.000,00, no período de apenas 6 (seis) meses, o que motivou a instauração de procedimento especial de combate à interposição fraudulenta previsto na Instrução Normativa nº 228/2002; nesse procedimento, verificouse que o capital social original da Neo, de R$100.000,00, foi aumentado para R$5.858.044,00, mediante a integralização de um ativo de propriedade da sócia majoritária da sociedade, TIMELOG LOGISTICA S.A. ("TIMELOG"), representado pelo imóvel onde estão estabelecidas tanto a TIMELOG quanto a NEO, que são empresas do mesmo grupo econômico; porém, a Neo não teria conseguido demonstrar a efetiva transferência da propriedade do bem imóvel à sociedade, pelo registro do instrumento que lhe conferiu o domínio no competente cartório de registro de imóveis, conforme artigo 1.227, do Novo Código Civil; além disso, afirmou a Fiscalização que "há de se considerar ainda que tal aumento de capital social, além de não ter sido ainda comprovada a efetiva transferência, não aumentou a capacidade financeira da NEO, por tratarse de ativo imobilizado que encontra limitações em sua liquidez, alienação e dação em garantia"; a Fiscalização ainda teria constatado que não haveria registro na contabilidade da empresa de quaisquer empréstimos e financiamentos com os quais a Neo poderia dispor para realizar as operações de importação; nesse tópico, afirma a Fiscalização que "em termos de transferência de recursos financeiros dos sócios para a empresa, o valor corresponderia a R$ 105.450,88, que a NEO comprovou apenas após reintimação (...) Foram registradas, apenas de julho de 2009 até março de 2010 (8 meses), declarações de importações onde a NEO figurou como encomendante no total de R$ 31.653.286,95"; (ii) pedido de habilitação ordinária pela Neo, desistência e prestação de informações erradas: a Fiscalização expõe que a Neo protocolou em 28/01/2009 pedido de Habilitação Ordinária na Alfândega do Porto de Vitória, pelo processo administrativo nº 12466.000254/201010, instruindo tal pedido com o o Anexo IB do ADE Coana Nº 3/2006, devidamente preenchido e assinado pelos representantes legais e pelo contador da empresa, e Balanço Patrimonial, que atestavam que o Patrimônio Líquido da sociedade era de R$12.201.650,36; no curso desse processo de habilitação, a Neo foi intimada a apresentar arquivos digitais da contabilidade, bem como outros documentos e atualizar seus dados cadastrais perante o CNPJ, pedindo dilação do prazo, que foi deferido, porém, apesar da dilação de prazo, não atendeu à intimação, nem prestou nem buscou informação em relação ao processo; independentemente do não atendimento à intimação, o pedido de habilitação foi indeferido, pois a Fiscalização, com base na escrituração contábil digital da empresa, verificou que o patrimônio líquida sociedade era, na realidade, de R$ 5.624.003,53; diante disso, concluiu a Fiscalização que "resta claramente evidenciada a prática da NEO de prestar para a Administração Aduaneira informações incorretas, visando ostentar uma capacidade econômica e financeira superior a real, esquivandose do adequado controle aduaneiro e dissimulando os indícios que seu real objetivo é atuar de forma irregular para terceiros interessados, ocultos nas operações"; (iii) incentivos fiscais estaduais: a Fiscalização expõe os benefícios fiscais previstos nas legislações dos Estados do Espírito Santo e Santa Catarina e afirma que "a TARGET tem seu custo incidente no desembaraço aduaneiro reduzido, sendo esse seu maior atrativo para empresas que desejam nacionalizar mercadorias, pois se beneficiam dessa redução de custos"; (iv) riscos e custos das operações: A Fiscalização conclui que "os custos referentes ao desembaraço aduaneiro e tributos sobre o comércio exterior teriam sido suportados pela TARGET, que apresentou documentação (...) referente ao crédito usualmente Fl. 6560DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.559 5 obtido perante instituições bancárias. Quanto à comercialização no mercado interno os riscos foram suportados pelos clientes da NEO, através de adiantamentos, fianças bancárias e notas promissórias, tudo no bojo de contratos firmados objetivando fornecimento contínuo de mercadorias de procedência estrangeira"; entende que há um vazio na posição que a Neo alega ocupar na cadeia comercial, de distribuidora, pois seria difícil de acreditar que os clientes da Neo, grandes distribuidores de aço no país, com grande capacidade econômica e que adquirem grandes quantidades diretamente das siderúrgicas, buscariam um "concorrente" de capacidade econômica inferior que nem a Neo, para comprar aço no mercado interno, entendendo que deveriam buscar a Target para promover a nacionalização do aço estrangeiro; a Fiscalização afirma que a Neo não possui quadro societário diferenciado e autonomia gerencial, mas os gestores de outras empresas do grupo detêm poderes de administração sobre ela, destacando a existência de um instrumento público de mandato concedendo poderes aos diretores da Target para administrar a Neo; pela análise dos contratos realizada pela Fiscalização, "a NEO praticamente não tinha responsabilidade quanto a prazo de entrega, situação totalmente incomum para uma venda no mercado interno, e que indica na verdade uma prestação de serviço, por parte do grupo da TARGET, para nacionalização de mercadorias onde as condições que determinam o prazo de entrega estão de fato sob controle do cliente final"; e (v) adiantamento de clientes da Neo: no curso do trabalho fiscal, a Neo apresentou um relatório detalhando o fluxo de caixa da empresa, elaborado por empresa de auditoria independente; esse trabalhou chegou a algumas conclusões, dentre elas, que "nas operações comerciais apresentadas no demonstrativo anexo, a Sociedade apresentou fluxo de caixa positivo em decorrência dos pagamentos efetuados aos fornecedores ocorrer posteriormente ao recebimento das vendas aos seus clientes"; a Fiscalização afirma que "a NEO recebeu enorme montante em adiantamentos de seus clientes" e apresenta tabela que mostra que a data de recebimento dos valores ocorria, em geral, meses antes, da data de emissão da primeira nota fiscal relativa ao recebimento; assim, a Fiscalização entende que a Neo teria sido constituída com desvio de finalidade, apontando que "a TARGET não pode receber adiantamentos de seus clientes, sob pena de configurar operação por conta e ordem, segundo a presunção legal do art. 27 da Lei 10.637/2002. Sendo assim, a NEO recebe os adiantamentos em seu lugar como garantia para as operações na modalidade por encomenda, porém é uma empresa do mesmo grupo, sem autonomia ou segregação de propósitos, portanto tratase de uma simulação para ocultar os verdadeiros encomendantes das mercadorias"; além disso, assevera que "não há razão para que ocorra pagamento (de sinal) por uma mercadoria que não é sua, que ainda não comprou e sequer foi emitida a nota fiscal, salvo se a operação se tratar de uma encomenda para entrega futura". No que se refere especificamente às declarações de importação deste processo, a Fiscalização ainda acrescenta os elementos a seguir, conforme item 7 da "descrição dos fatos e enquadramento legal" que acompanha o Auto de Infração. (i) as mercadorias importadas foram BOBINAS DE AÇO LAMINADO A QUENTE, produzidas por SIDOR C.A., da Venezuela, e exportadas pela STEELCOM S.A.M., de Mônaco; (ii) "As mercadorias foram destinadas diretamente do Porto de Vitória para a VENTLAR, pois se trata de carga na ordem de muitas toneladas, as notas fiscais da TARGET e da NEO foram emitidas no mesmo dia, e constou no campo transportador o mesmo veículo (PLACA DO VEÍCULO)"; e Fl. 6561DF CARF MF 6 (iii) "A importação respaldada pela DI Nº 09/13363752 foi realizada mediante adiantamento de recursos recebidos pela NEO no valor de R$ 148.320,00 (fls 5079 a 5080), para o pedido VEN 01 (fls 5081), coincidente em especificações, quantidades e prazo de entrega dos produtos. O valor do adiantamento realizado coincide com o valor do sinal exigido no pedido (30%). No caso da DI Nº 10/00825401, a mercadoria foi retida conforme determina a IN 228/2002, o contribuinte não apresentou garantia, e só foram desembaraçadas em 02/07/10 por determinação judicial. A maior parte da mercadoria foi destinada à VENT LAR e a importação foi realizada para o pedido NEO12/09A (fls 5123), que consta nos dados complementares da DI e nas observações das notas fiscais da TARGET, e as quantidades e especificações estão condizentes. Sendo assim, na ocorrência do fato gerador do Imposto de Importação, toda a mercadoria era predestinada a VENTLAR, e só foi dado destino diverso para menos de ¼ da mercadoria devido ao período de retenção no despacho aduaneiro". Após a ciência do lançamento, tanto o sujeito passivo como responsáveis solidários apresentaram Impugnações, que foram julgadas procedentes em parte pela 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza, Ceará ("DRJ"), na sessão de julgamento do dia 16/04/2014, em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 01/10/2009, 15/01/2010 AUSÊNCIA DE MPF. ALEGAÇÃO DE NULIDADE. INOCORRÊNCIA A competência para o lançamento tributário, que detém o AuditorFiscal da Receita Federal do Brasil, tem origem na lei. O Mandado de Procedimento Fiscal é apenas um instrumento gerencial de controle administrativo da atividade fiscal, que tem também como função oferecer segurança ao sujeito passivo, ao lhe fornecer informações sobre o procedimento fiscal contra ele instaurado e possibilitarlhe confirmar a extensão da ação fiscal e se está sendo executada por servidores da Administração Tributária e por determinação desta. PRINCÍPIO DA LIVRE INICIATIVA. CERCEAMENTO. INOCORRÊNCIA. As empresas são livres para criarem e se organizarem da forma que melhor lhes convier. Por sua vez, a administração pública e seus agentes estão obrigados a agirem nos estritos limites do que dispõe a Lei. Não pode a fiscalização desconsiderar as próprias evidências coletadas no procedimento fiscal e deixar de aplicar a penalidade quando há dispositivos legais que lhe dêem suporte, independente da forma como se organizam as empresas. PROVAS INDICIÁRIAS. CONJUNTO DE ELEMENTOS/INDÍCIOS. OCORRÊNCIA. A comprovação material de uma dada situação fática pode ser feita, em regra, por uma de duas vias: ou por uma prova única, direta, concludente por si só; ou por um conjunto de elementos/indícios que, se isoladamente nada atestam, agrupados têm o condão de estabelecer a certeza daquela matéria de fato. SOLIDARIEDADE PASSIVA. INFRAÇÃO. FALTA DE COMPROVAÇÃO DE VINCULAÇÃO COM A INFRAÇÃO. Fl. 6562DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.560 7 Para caracterizar a responsabilidade tributária nos termos do art. 95 do Decretolei 37/66 é necessário comprovar a vinculação entre o apontado como responsável tributário e a infração ocorrida. ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Data do fato gerador: 01/10/2009, 15/01/2010 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. SIMULAÇÃO. OCORRÊNCIA. A não comprovação da origem, transferência e disponibilidade de recursos para arcar com os compromissos resultantes das operações de comércio exterior em uma importação formalmente declarada como para revenda a encomendante predeterminado caracteriza a interposição fraudulenta e resulta na infração de dano ao erário prevista no art. 23 do DecretoLei nº 1.455/76". A decisão recorrida exonerou o Sr. Marcelo Araújo da responsabilidade solidária a ele atribuída, considerando improcedentes as demais impugnações, para manter o crédito tributário exigido. Considerando o valor da multa exonerada, de R$1.299.219,66, o disposto no artigo 34, inciso I, do Decreto nº 70.235/1972, no artigo 1º da Portaria MF nº 03/2008, vigente à época da decisão, seria o caso de interposição de recurso de ofício mediante declaração da própria decisão, conforme artigo 34, parágrafo 1º, do Decreto nº 70.235/1972, o que não ocorreu. De qualquer maneira, com fundamento no artigo 34, parágrafo 2º, do Decreto nº 70.235/1972, que prevê a possibilidade de a autoridade julgadora cumprir essa formalidade, caso percebido que o recurso deixou de ser interposto quando deveria sêlo, mesmo ausente a declaração da decisão recorrida, o recurso de ofício será considerado como devidamente interposto, para fins de revisão da sujeição passiva do Sr. Marcelo Araújo, adiantandose, neste relatório, que o valor exonerado está abaixo do atualmente previsto pela Portaria MF nº 63/2007, motivo pelo qual se aplicará a Súmula CARF nº 1031, para o não conhecimento do Recurso de Ofício. Dessa decisão, a Target foi cientificada no dia 05/06/2014, conforme documento de fls. 6254 e apresentou tempestivo Recurso Voluntário no dia 03/07/2014, conforme documento de fls. 63376338, pelo qual pede o cancelamento do Auto de Infração, pelos seguintes motivos: (i) a Neo não é uma empresa de fachada e possui capacidade econômica para atuar como encomendante das mercadorias importadas; (ii) "o Fisco conhecia as referidas operações quando respondeu à consulta formulada pela Neo acerca da forma como ela iria atuar nessas operações de importação por encomenda e não se opôs a elas"; (iii) não houve repasse de benefícios fiscais de ICMS da Target à Neo nem da Neo a seus clientes; (iv) o Fisco aplicou de maneira equivocada as cláusulas dos contratos celebrados entre Target e Neo e Neo e seus clientes; (v) não cabe ao Fisco interferir na liberdade de exercício da atividade econômica da Neo, pois haveria violação ao princípio da livre iniciativa; (vi) não houve simulação ou fraude; (vii) o fundamento adotado pelo acórdão recorrido implicaria alteração do critério jurídico, vedado pelo artigo 146, do CTN; e (viii) não seria aplicável a 1 Súmula CARF nº 103: Para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância. Fl. 6563DF CARF MF 8 pena de perdimento, por não ter ocorrido interposição fraudulenta e porque falso ideológico, segundo a Target, a acusação fiscal, não resultar em tal penalidade. Já a Neo foi cientificada no dia 07/07/2014, conforme documento de fls. 6259, e apresentou tempestivo Recurso Voluntário no dia 21/07/2014, conforme documento de fls. 6431, no qual requer o cancelamento do lançamento, com base nos mesmos motivos defendidos pela Target mais a alegação de que não seria admissível a cumulação da multa de conversão da pena de perdimento com a multa por cessão de nome em relação a ela, por já estar respondendo por essa última penalidade em outro processo. Por sua vez, a Ventlar foi cientificada no dia 06/06/2014, conforme documento de fls. 6256 e apresentou tempestivo Recurso Voluntário no dia 27/06/2014, conforme documento de fls. 6277, pelo qual pede a improcedência do Auto de Infração, sob as seguintes alegações: (i) nulidade da decisão recorrida, por ter deixado de apreciar argumentos da Ventlar; (ii) nulidade do lançamento, por não ter sido a Ventlar intimada por Mandado de Procedimento Fiscal e por constar no Termo de Sujeição Passiva apenas o artigo 124 do CTN, sem qualquer indicação dos incisos em que fundamentava a imposição de responsabilidade; e (iii) as mercadorias teriam sido adquiridas de forma regular, tendo a Ventlar praticado uma compra e venda no mercado interno. Em seguida, os autos foram remetidos ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF") e distribuídos à minha relatoria. É o relatório. Voto Conselheiro AUGUSTO FIEL JORGE D'OLIVEIRA Recurso de Ofício Como adiantado no Relatório, haveria de constar na decisão recorrida declaração de interposição de Recurso de Ofício, tendo em vista a exoneração do Sr. Marcelo Araújo da responsabilidade solidária a ele atribuída, no valor de R$1.299.219,66, tendo em vista o disposto no artigo 34, inciso I, do Decreto nº 70.235/1972, e no artigo 1º da Portaria MF nº 03/2008, vigente à época da decisão. De qualquer maneira, com fundamento no artigo 34, parágrafo 2º, do Decreto nº 70.235/1972, que prevê a possibilidade de a autoridade julgadora cumprir essa formalidade, caso percebido que o recurso deixou de ser interposto quando deveria sêlo, mesmo ausente a declaração da decisão recorrida, o recurso de ofício será considerado como devidamente interposto, para fins de revisão da sujeição passiva do Sr. Marcelo Araújo. Todavia, como o valor exonerado está abaixo do atualmente previsto pela Portaria MF nº 63/2007, considerando o entendimento firmado pela Súmula CARF nº 103, pela qual "para fins de conhecimento de recurso de ofício, aplicase o limite de alçada vigente na data de sua apreciação em segunda instância", deixo de conhecer o Recurso de Ofício. Recursos Voluntários Os Recursos Voluntários interpostos são tempestivos e preenchem os demais requisitos para sua admissibilidade, portanto, devem ser conhecidos. Fl. 6564DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.561 9 Interposição Fraudulenta de Terceiros A questão que é colocada ao Colegiado diz respeito à aplicação de multa por conversão da pena de perdimento, sob a acusação de que as intervenientes em operações de importação praticaram infração aduaneira que é considerada dano ao Erário, com fundamento legal no artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76, in verbis: “Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (...) “§ 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972”. (grifos nossos) A partir da leitura desses dispositivos, percebese que a infração de dano ao erário decorrente da prática de ocultação do sujeito passivo ou real adquirente pode ser aferida de duas maneiras, de forma presumida ou comprovada. Na hipótese de nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados para a realização da importação, presumese que tenha havido uma interposição fraudulenta de terceiros, pois, a ausência de recursos por parte do importador para a realização da operação é um elemento eleito pela Lei como suficiente para considerar que os recursos utilizados tiveram origem em terceiro, que não apareceu perante os controles aduaneiros, a caracterizar a interposição ilegal. Não sendo esse o caso, poderão as autoridades aduaneiras, com base em outros elementos, formar um conjunto de provas que demonstrem a ocorrência de fraude ou simulação com o intuito de interpor determinada pessoa entre o real adquirente e as autoridades fiscais, para que a primeira permaneça oculta aos olhos da fiscalização. Nesse ponto, importante observar que o tipo infracional não é a mera ocultação do sujeito passivo nas operações de comércio exterior, mas a ocultação realizada "mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros". Dessa maneira, para que reste caracterizada a interposição fraudulenta ensejadora da pena de perdimento ou de sua multa substitutiva, é essencial que esteja presente na operação de comércio exterior os elementos de fraude ou simulação. Em decorrência, também é essencial Fl. 6565DF CARF MF 10 que seja fixada a compreensão a ser dada a tais conceitos, antes de se avançar na análise da matéria. Para contextualizar, é de se observar que, na legislação tributária, há referência ao termo "dolo, fraude ou simulação" em diversos dispositivos (como, por exemplo, artigo 149, inciso VII, artigo 150, parágrafo 4º, artigo 154, parágrafo único, artigo 180, inciso I, artigo 208, caput, todos do CTN). Quanto ao "dolo", é enumerado pelo Código Civil, em conjunto com o erro ou ignorância, coação, estado de perigo, lesão e fraude contra credores, como um dos defeitos do negócio jurídico, vícios que geram a anulabilidade do negócio jurídico, nos termos do artigo 171, inciso II, do Código Civil. Já o Código Penal, em seu artigo 18, define o crime doloso, como aquele praticado "quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzilo". Na doutrina de Maria Rita Ferragut, "conceituase por dolo a vontade consciente de praticar uma conduta típica, ou seja, de realizar os elementos constantes do tipo legal. É a prática de ilícito por agente que possuía o animus de realizálo, não obstante soubesse que o ordenamento jurídico rechaçava tal comportamento. Diferenciase da culpa em função da previsibilidade do resultado"2. Por sua vez, a "fraude" possui definição específica no artigo 72 da Lei nº 4.502/1964, in verbis: "Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento"(grifos nossos). Contudo, por se tratar a ocultação prevista no artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76 de uma infração de natureza aduaneira e não tributária, o Conselheiro Rosaldo Trevisan afirma: "(...) na interposição fraudulenta a “fraude” não se confunde, necessariamente, com aquela definida na legislação tributária (artigo 72 da Lei no 4.502/1964), embora seja freqüente que a interposição tenha também impactos tributários. A interposição fraudulenta trata da fraude como gênero (como qualquer norma infracional não tributária), e não somente da fraude definida na legislação tributária – espécie, e pode ser caracterizada por fraude ou também por simulação (instituto sequer definido especificamente na Lei nº 4.502/1964)". (Acórdão nº 3401003.892, de 26/07/2017) Por outro lado, há aqueles que defendem a aplicabilidade do conceito previsto no artigo 72 da Lei nº 4.502/1964, tendo em vista que inclui também ação ou omissão tendente a modificar as características essenciais da obrigação tributária, no caso, o aspecto pessoal referente ao sujeito passivo das obrigações relativas à operação de comércio exterior. Nesse sentido, transcrevo trecho de sentença proferida pela Juíza Federal Vera Lúcia Feil Ponciano, citada e mantida no julgamento da Apelação Cível nº 5036257 19.2012.4.04.7000/PR3: "Verificase que a caracterização de tais condutas, desde que praticadas mediante fraude ou simulação, como hipótese de aplicação da pena de perdimento da mercadoria importada, decorre de disposição legal. Assim, a conduta reprimida, por meio da drástica pena de perdimento, é a fraude, o artifício malicioso para a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, 'inclusive a interposição fraudulenta de terceiros'. Evidente que a infração deve ser grave em sua substância, e não sob o aspecto meramente formal.(...) A ação ou omissão na ocultação do sujeito passivo atinge, excluindo ou modificando, a obrigação tributária em uma dos aspectos essenciais da hipótese de incidência, qual seja, o aspecto pessoal. Ocorre, nessa situação, 2 "Responsabilidade tributária e o Código Civil de 2002". Editora Noeses. São Paulo. 2005. p. 108109. 3 Relatora: Maria de Fátima Freitas Labarrère; 1ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Data: 03/08/2016 Fl. 6566DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.562 11 simulação tributária por transferência subjetiva, afetandose o critério pessoal da regra matriz de incidência, que permite identificar o sujeito passivo"(grifos nossos). Por último, a simulação é prevista no Código Civil (Lei nº 10.406/2002) como causa de invalidade do negócio jurídico, elencando o artigo 167, parágrafo 1º, as hipóteses em que se verifica. A maior parte da doutrina define a simulação como a divergência entre a vontade real das partes envolvidas e a vontade declarada. Conforme afirmado por Alberto Xavier4: “Tratase de um caso de divergência entre a vontade e a declaração, procedente do acordo entre o declarante e declaratário e determinada pelo intuito de enganar terceiros. Os seus elementos essenciais são pois: (i) a intencionalidade da divergência entre a vontade e a declaração (ii) o acordo simulatório (pactum simulationis) (iii) o intuito de enganar terceiros.” Diante de tais conceitos, quando o artigo 23 do Decreto Lei nº 1455/76 traz a infração de dano ao erário, resultante de ocultação do sujeito passivo em operação de comércio exterior, exigindo que seja aquela realizada "mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros", podese afirmar que um primeiro elemento a ser identificado é o dolo, pois sem ele, não haveria fraude ação ou omissão dolosa nem simulação que tem entre os seus elementos essenciais o intuito de enganar a Fazenda Pública. Logo, para a caracterização da infração, deve se verificar a vontade, o animus, dos agentes em enganar a Fazenda Pública e ocultar o sujeito passivo mesmo sabendo que tal conduta é contrária a Lei, com o objetivo de conseguir uma vantagem indevida em detrimento do controle aduaneiro. Além disso, essa infração deve ser uma infração grave em substância e não uma infração meramente formal. Ao analisar todo o histórico da legislação que trata dessa infração, o Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira, no Acórdão nº 3401003.253, de 27/09/2016, expôs seu entendimento no sentido de que as normas que tratam dessa infração "se alinham a uma busca de combater a lavagem de dinheiro, através do combate à fraude e à simulação. A Aduana, antes desse período, já tinha, na sua missão institucional mundial, o combate à prática desleal e à fraude, mas houve um substancial impulso nesses últimos anos". E continua, "desse conjunto de iniciativas, no âmbito do comércio exterior, resultaram a valorização do controle aduaneiro em geral e, especificamente, a eleição do conhecimento da origem, disponibilidade e destinação dos recursos usados nas importações e exportações como elemento tático de investigação". (grifos nossos) Assim, a partir dessa perspectiva na interpretação e aplicação das normas que tratam da infração de interposição fraudulenta, o Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira observou que: "Não constitui elemento essencial do tipo a ocultação do real interessado na operação. A ocultação deve ter sido perpetrada mediante fraude ou simulação, ou interposição fraudulenta. Não constitui elemento essencial do tipo a falta de informação do real interessado na operação nas declarações prestadas à autoridade aduaneira. É 4 Direito Tributário e Empresarial: pareceres. Rio de Janeiro. Forense. 1982. p. 25. Fl. 6567DF CARF MF 12 necessário que essa falta de informação se caracterize como falsa declaração, no propósito de ocultar, usando de fraude ou simulação. A Lei criou as figuras da 'importação por conta e ordem' e da 'importação por encomenda', o que concorre para balancear as necessidades dos atores na operações de importação com as do controle aduaneiro. Essas figuras receberam normas que as disciplinam. A observação dessas normas pelos importadores atende o controle aduaneiro. Mas a desobediência dessas normas não constitui elemento essencial do tipo, embora o descumprimento das normas seja característica da infração". (grifos nossos) Logo, em linha com o acima exposto, não compartilho do entendimento daqueles que defendem que a mera falta de informação dos reais adquirentes nos documentos prestados às autoridades aduaneiras seria, por si só, a própria simulação ou a fraude, em prejuízo ao controle aduaneiro, a caracterizar a infração. Em tais casos, não basta à Fiscalização apenas afirmar que a simulação é a indicação errada do sujeito passivo nos documentos de controle aduaneiro, devendo levantar um conjunto de elementos que façam prova do dolo dos agentes envolvidos e do intuito de enganar a Fazenda Pública, para obtenção de uma vantagem e imposição de um prejuízo ao controle aduaneiro. Por oportuno, pelo afastamento da aplicação da pena de perdimento em razão de aspectos formais, destaco manifestação do Desembargador Antônio Albino Ramos de Oliveira, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região: "O que se reprime, através da drástica pena de perdimento, é a fraude, o artifício malicioso para a ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, "inclusive a interposição fraudulenta de terceiros". Evidente que a infração deve ser grave em sua substância, e não sob o aspecto meramente formal. No caso concreto, porém, a despeito do esforço desenvolvido pela autoridade autuante, não vejo no procedimento da agravante qualquer objetivo fraudulento ou malicioso. Não atino onde esteja o dano ao erário, a justificar o confisco do equipamento importado"5. Modalidades de Importação Antes de passar ao exame do caso concreto, impende ainda tecer algumas observações sobre as modalidades de importação, pois, a depender das características da operação declarada e da operação efetivamente ocorrida, em conjunto com os requisitos já expostos, poderá ficar configurado o dano ao erário, sujeitando os infratores às penalidades daí decorrentes. A legislação aduaneira prevê três modalidades de importação: (i) na importação direta, o importador é o próprio adquirente dos bens importados, realizando a importação com recursos próprios e por seu próprio risco; (ii) na importação por conta e ordem de terceiros, o importador presta apenas serviços (de logística, aduaneiros, cotação de preços, intermediação) para o adquirente, que é a pessoa de onde provém os recursos para a realização da importação; e (iii) na importação para revenda a encomendante predeterminado ("importação por encomenda"), o importador estabelece uma relação de comissão com adquirente, disciplinada pelo artigo 696 e seguintes do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), pela qual o importador é comissário e o adquirente é o comitente, entrando o importador na operação de importação com recursos próprios e se comprometendo a revender os bens importados ao adquirente6. 5 Agravo de Instrumento nº 2005.04.01.0462051 / 046205157.2005.4.04.0000; publicado em 11/01/2006. 6 Acórdão nº 3401003.174, de 17/05/2016. Fl. 6568DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.563 13 Essas características de cada modalidade são obtidas a partir dos preceitos legais sobre a matéria. Logo, o que há é um conceito legal para cada modalidade de importação. Além disso, devese ressaltar que as leis que tratam da "importação por conta e ordem" e da "importação para revenda a encomendante predeterminado" outorgaram à Receita Federal a competência para estabelecer os requisitos e condições para a qualificação de determinada operação em uma dessas modalidades, para fins de reconhecimento do tratamento tributário próprio a tais operações, além de definição de atribuição de responsabilidade tributária. É ler os artigos abaixo: Medida Provisória nº 2.15835/2001: "Art. 80. A Secretaria da Receita Federal poderá: I estabelecer requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora por conta e ordem de terceiro; e I estabelecer requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora ou exportadora por conta e ordem de terceiro; e (Redação dada pela Lei nº 12.995, de 2014)" (grifos nossos) ***** Lei nº 11.281/2006: “Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. § 1o A Secretaria da Receita Federal: I estabelecerá os requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica importadora na forma do caput deste artigo"; (grifos nossos) Nesse contexto, com relação à modalidade de importação por conta e ordem, destaquese o artigo 27 da Lei nº 10.637/2002, que prevê que "a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos de terceiro presumese por conta e ordem deste" e a Instrução Normativa nº 225/2002, que traz os requisitos e condições para a atuação de pessoa jurídica em operações por conta e ordem de terceiros. Já no que diz respeito à "importação para revenda a encomendante predeterminado", merece destaque uma alteração legislativa ocorrida logo após a edição dos seus dispositivos de regência, trazida pelo artigo 18 da Lei nº 11.452/2007, que acrescentou o parágrafo 3º ao artigo 11 da Lei nº 11.281/2006, conforme abaixo: "Art. 18. O art. 11 da Lei no 11.281, de 20 de fevereiro de 2006, passa a vigorar acrescido do seguinte § 3º: “Art. 11. (...) § 3º Considerase promovida na forma do caput deste artigo a importação realizada com recursos próprios da pessoa jurídica importadora, participando ou não o encomendante das operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior.” (NR) Fl. 6569DF CARF MF 14 A respeito desse dispositivo, o Conselheiro Rosaldo Trevisan, em recente acórdão, afirmou: "O referido artigo 11 da Lei recebeu um § 3o, em 2007, acrescentado pela Lei no 11.452, de modo a “pacificar a interpretação dada pela administração tributária federal às operações de importação de que trata o art. 11” (conforme parecer do relator, Deputado Neucimar Fraga/PLES, na conversão da MP no 328/2006 na Lei no 11.452, disponível em (...): [segue transcrição do dispositivo] Por certo que tal dispositivo foi inserido pelo parlamentar capixaba em prol das empresas daquela região que atuam com os benefícios do FUNDAP, para aclarar que as importações por encomenda não se descaracterizam pelo simples fato de haver participação do encomendante nas operações comerciais, mitigando autuações frequentes da RFB, à época, com entendimento diverso. Assim, é irrelevante, por si, a ligação entre a exportadora e a encomendante, ou a participação desta ou daquela na fixação de preços. Aliás, o artigo 14 da Lei no 11.281/2011, em sua redação original, afirma que são aplicáveis ao importador e ao encomendante as regras sobre preços de transferência, já prevendo eventual vinculação entre partes, e que esta não descaracterizaria, por si, a modalidade de importação por encomenda". (Acórdão nº 3401003.908, de 27/07/2017) Dessa maneira, não se exige para a caracterização de uma "importação para revenda a encomendante predeterminado" que o importador seja o responsável exclusivo pelas tratativas e ajustes com o exportador e, de outro lado, a participação do encomendante predeterminado nas operações comerciais relativas à aquisição dos produtos no exterior não afasta a caracterização da operação nessa modalidade, o que, inclusive, acabou por rechaçar alguns conceitos de "importação para revenda a encomendante predeterminado" antes defendidos na doutrina e por parte dos operadores de direito. Com isso, como já afirmado, o conceito de "importação para revenda a encomendante predeterminado" deve ser buscado e é aquele definido pela Lei. Nesse sentido, uma vez que a Lei deixou claro o papel do importador por encomenda na operação de aquisição do produto do exterior e outorgou à Receita Federal a competência para estabelecer os requisitos e condições para a atuação da pessoa jurídica importadora nessa modalidade de importação, verificase que o que é importante para a qualificação nessa modalidade é que o importador utilize recursos próprios, pois, como determina a Instrução Normativa nº 634/2006: "Artigo 1º (...) Parágrafo único. Não se considera importação por encomenda a operação realizada com recursos do encomendante, ainda que parcialmente". Assim, na hipótese em que a importadora não utiliza recursos próprios, a operação passaria ser considerada como operação por conta e ordem de terceiros, por força do disposto no artigo 11, parágrafo 2º, da Lei nº 11.281/2006, in verbis: "Art. 11. A importação promovida por pessoa jurídica importadora que adquire mercadorias no exterior para revenda a encomendante predeterminado não configura importação por conta e ordem de terceiros. (...) § 2o A operação de comércio exterior realizada em desacordo com os requisitos e condições estabelecidos na forma do § 1o deste artigo presumese por conta e ordem de terceiros, para fins de aplicação do disposto nos arts. 77 a 81 da Medida Provisória no 2.15835, de 24 de agosto de 2001". Fl. 6570DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.564 15 Como se vê, apesar de existir um conjunto de elementos para se verificar a ocorrência de interposição fraudulenta, pela leitura da legislação que instituiu a infração e considerando o histórico na qual está inserida, de medidas que visam combater a lavagem de dinheiro, através do combate à fraude e à simulação, o ponto sensível e que merece atenção é a origem dos recursos aplicados nas operações de comércio exterior, o que, a meu ver, até conduz a uma preponderância desse elemento frente a outros, que se traduz em uma importante baliza para a qualificação de determinada operação em uma ou outra modalidade. Do exame do caso concreto Operação Declarada e Acusação Fiscal Nos lançamentos de multa por conversão da pena de perdimento que decorrem da imputação da prática de "interposição fraudulenta", é necessário que se tenha claro qual a operação declarada pelos partícipes da infração e a operação que as autoridades aduaneiras entendem ter efetivamente ocorrido. Isso porque, os elementos trazidos da Fiscalização para qualificar uma operação em uma modalidade diversa da que foi declarada às autoridades dependerá, por óbvio, do conhecimento de que modalidade diversa foi essa. Assim, determinados elementos que seriam importantes para demonstrar a ocorrência de uma ocultação mediante fraude ou simulação em uma operação entendida pela Fiscalização como uma operação por conta e ordem podem não ser importantes para demonstração da infração em uma operação entendida como uma operação de importação por encomenda. E o inverso também é verdadeiro. Para ilustrar, se a Fiscalização entende que determinada operação declarada como importação por conta própria por A seguida de uma revenda no mercado interno para B, na realidade, se tratava de uma operação por conta e ordem, poderá levantar provas que demonstrem que foi B e não A que participou dos entendimentos comerciais relativos à aquisição dos produtos no exterior. Agora, se a acusação é de que houve, na realidade, uma operação de importação por encomenda, essa mesma prova não tem qualquer pertinência, pois não desqualificaria a operação nessa modalidade, tendo em vista o disposto no parágrafo 3º do artigo 11 da Lei nº 11.281/2006. Esta, portanto, a importância de se conhecer exatamente a operação declarada e a operação entendida como ocorrida pela Fiscalização. Nesse ponto, é certo que a Fiscalização, ao lavrar o Auto de Infração e o respectivo Relatório Fiscal, deve individualizar a conduta das partes envolvidas e apontar, de maneira clara, explícita/precisa e congruente a acusação que dá origem à cominação da penalidade (artigo 10, incisos II, III e IV, do Decreto nº 70.235/1972; artigo 50, parágrafo 1º, da Lei nº 9.784/1999). Quanto mais gravosa a penalidade imputada, mais cuidado deve ter a autoridade fiscaladuaneira ao apresentar as razões de fato e de direito que a fundamentam. Não podem ser admitidas acusações abertas, genéricas, sob pena de violação ao direito à ampla defesa e ao contraditório (artigo 5º, LV, da Carta da República), com as nulidades daí decorrentes (artigo 59, inciso II, do Decreto nº 70.235/1972), além disso, a acusação deve ser clara, explícita/precisa e congruente, para evidenciar o critério jurídico adotado pela autoridade no exercício do lançamento, que não poderá ser modificado ao longo do processo administrativo, como prevê o artigo 146, do CTN. Seguindo a autoridade lançadora tais requisitos legais, a lide estará delimitada, o que permitirá às partes o exercício de seu direito de defesa de forma adequada e Fl. 6571DF CARF MF 16 aos julgadores a correta apreciação da controvérsia, com a aplicação da legislação ao caso concreto que lhes é submetido. No presente caso, de acordo com o que foi declarado nas informações prestadas às autoridades aduaneiras, e como defendem as Recorrentes ao longo do processo, as operações de importação teriam ocorrido na modalidade de "importação por encomenda", na qual a trading company Target teria atuado como importadora e a Neo como encomendante predeterminado e, em seguida, a Neo teria realizado outra revenda no mercado interno aos seus clientes. Assim, teriam ocorrido, na realidade, três operações distintas: (i) operação de importação entre Target e o exportador localizado no exterior; (ii) após a nacionalização das mercadorias, uma revenda no mercado interno entre Target ao encomendante predeterminado Neo; e (iii) por último, outra revenda no mercado interno entre a Neo e um dos seus clientes. Nesse caso, como visto acima, para a caracterização da operação na modalidade declarada, os recursos para a realização das operações de importação deveriam necessariamente ser da Target, sendo ela a responsável pelo risco da operação. Todavia, as autoridades lançadoras entendem que a operação declarada às autoridades aduaneiras não corresponde a que efetivamente ocorreu. Pela análise do Relatório Fiscal, percebese certa incongruência na exposição dos elementos que caracterizariam a infração aduaneira, que deixam até uma dúvida inicial para o caminho que irá seguir a acusação do lançamento, ora apontando para uma acusação de que, na realidade e em contrariedade ao que fora informado às autoridades fiscais, teria ocorrido uma importação por conta e ordem quando menciona, por exemplo, que Target e Neo seriam meras prestadoras de serviços de nacionalização , ora apontando para uma acusação de prática de importação por encomenda, em que o encomendante predeterminado não seria a Neo, como informado às autoridades aduaneiras, mas sim os clientes da Neo. De qualquer maneira, uma leitura mais acurada do Relatório permite que sejam afastadas eventuais dúvidas e que se conclua que a acusação fiscal é de que a operação praticada se deu na modalidade "importação por encomenda", mas tendo como encomendante os clientes da Neo. No Relatório Fiscal, há algumas referências no sentido de que o entendimento da Fiscalização é de que teria ocorrido, de fato, uma "importação por encomenda", como se verifica nos trechos a seguir, em que, inclusive, a Fiscalização reconhece que os recursos para pagamento das operações de importação, ou seja, o risco da operação de importação, era da Target, em linha com o que se espera de uma "importação por encomenda": "Na presente ação fiscal, como será demonstrado no decorrer deste relatório, restou comprovado que a NEO figurou como encomendante nas Declarações de Importação investigadas, porém as mercadorias eram predestinadas a outros interessados, os verdadeiros encomendantes das mercadorias, inclusive mediante contratos previamente firmados e prestação de garantias". (Item 2 do Relatório Fiscal) ***** "Os custos referentes ao desembaraço aduaneiro e tributos sobre o comércio exterior teriam sido suportados pela TARGET, que apresentou documentação Fl. 6572DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.565 17 (fls 2555 a 2598) referente ao crédito usualmente obtido perante instituições bancárias". (Item 6 do Relatório Fiscal) (grifos nossos) Essa conclusão ganha mais força pela afirmação da Fiscalização, no sentido de que os elementos por ela colhidos revelariam uma "prestação de serviços de desembaraço aduaneiro, nos moldes do que há alguns anos se consideraria uma importação por conta e ordem, e que só não é possível nos dias atuais por força da presunção legal do § 3º, Art. 11, da Lei nº 11.281/2006, incluído pela Lei nº 11.452/2007". Além disso, a corroborar nosso entendimento quanto ao conteúdo da acusação fiscal, cabe destacar a seguinte afirmação da Fiscalização, na qual deixa claro a operação efetivamente praticada, aos seus olhos, pelos Recorrentes, e o principal motivo para a prática de tal operação: "Diante do exposto, resta claro que, nas importações investigadas na presente ação fiscal, o Sr. Marcelo Araújo e os clientes da STEELCOM, estes últimos os verdadeiros encomendantes das mercadorias, valeramse da TARGET e da NEO para providenciar a nacionalização, portanto, não buscaram a TARGET/NEO para comprar no mercado interno, mas para promover importações por encomenda. Dessa forma puderam, mediante simulação, tirar proveito da redução de custos proporcionada por benefícios fiscais do ICMS". (Item 6 do Relatório Fiscal) (grifos nossos) Mas o que afasta de vez a trilha, por vezes, titubeante seguida pelo Relatório Fiscal é o enquadramento legal apresentado para dar fundamento à sujeição passiva, que é descrito nos itens 7 e 9 do Relatório Fiscal, e aponta os artigos 106 e 603 do Regulamento Aduaneiro (Decreto nº 6.759/2009), que tratam de responsabilidade solidária em relação a tributos e responsabilidade por infração, de forma expressa, para os casos de "importação por encomenda", com se verifica a seguir: "Art. 106. É responsável solidário: (...) IV o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora (DecretoLei no 37, de 1966, art. 32, parágrafo único, alínea “d”, com a redação dada pela Lei no 11.281, de 2006, art. 12); (...) Art. 603. Respondem pela infração (DecretoLei no 37, de 1966, art. 95): (...) VI conjunta ou isoladamente, o importador e o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora (DecretoLei no 37, de 1966, art. 95, inciso VI, com a redação dada pela Lei no 11.281, de 2006, art. 12)". Com essas considerações, podese concluir que a acusação fiscal é de que as Recorrentes praticaram, na realidade, uma "importação por encomenda", que teve como encomendante predeterminado não a Neo, mas sim os seus clientes. Segundo a Fiscalização, haveria um vazio na posição ocupada pela Neo na cadeia comercial, a Neo não teria autonomia ou segregação de propósitos em relação a Target, portanto, tais empresas, do mesmo, grupo, agiriam em conjunto, sendo o papel efetivo da Neo apenas o de ceder o seu nome nos documentos de importação, para que aparecesse no lugar da reais encomendantes, a saber, as clientes da Neo. O objetivo principal apontado pela Fiscalização: a obtenção de benefícios fiscais de ICMS. Fl. 6573DF CARF MF 18 Nesse contexto, seguindo a linha adotada pela Fiscalização, a relação comercial existente, de revenda de mercadorias no mercado interno, após a realização de importação por encomenda, não seria entre a Neo e seus clientes, mas sim uma relação direta entre os clientes da Neo e a Target, sendo necessário, portanto, o levantamento de provas nesse sentido. Análise dos elementos levantados pela Fiscalização Como relatado, a Fiscalização levantou os seguintes elementos para dar subsídio à acusação que consta no Auto de Infração para lançamento da multa por conversão da pena de perdimento: (i) capacidade econômica e financeira da Neo; (ii) pedido de habilitação ordinária pela Neo, desistência e prestação de informações erradas; (iii) incentivos fiscais estaduais; (iv) riscos e custos das operações; e (v) adiantamento de clientes da Neo. No cotejo entre os elementos levantados e a acusação realizada, de que teria ocorrido uma "importação por encomenda" em que o encomendante predeterminado eram os clientes da Neo e não a Neo, como informado às autoridades aduaneiras, existem elementos que, de plano, não se prestam a tal finalidade, enquanto que outros merecem maior exame, para que se verifique a demonstração ou não do enquadramento na infração descrita no lançamento. Quanto à tentativa da Neo de, possuindo uma habilitação simplificada para operações de comércio exterior, almejar uma habilitação ordinária, a Fiscalização expõe que a prestação de informações erradas seguida da desistência e do indeferimento do pedido evidenciaria “a prática da NEO de prestar para a Administração Aduaneira informações incorretas, visando ostentar uma capacidade econômica e financeira superior a real, esquivandose do adequado controle aduaneiro e dissimulando os indícios que seu real objetivo é atuar de forma irregular para terceiros interessados, ocultos nas operações". Contudo, a Neo não pode ser acusada de se esquivar do adequado controle aduaneiro, em razão de ter apresentado um pedido de habilitação em uma modalidade que permite a realização de operações de maior vulto no comércio exterior. A prestação de informações erradas e a desistência do pedido no curso do procedimento devem ter como efeito justamente o efeito que tiveram, qual seja, o indeferimento do pedido, não podendo a Fiscalização tentar atribuir um nexo de causalidade entre eventos nos quais tal nexo inexiste, pois da desistência de um pedido de habilitação ordinária não se chega à conclusão de que a Neo presta deliberadamente informações equivocadas em operações de importação por ela realizadas, para prejudicar o controle aduaneiro. De igual modo, não prospera o elemento levantado que diz respeito aos incentivos fiscais estaduais, que, inclusive, são apontados pela Fiscalização como o maior objetivo de toda a estrutura comercial performada pela Neo, Target e os clientes da Neo. Segundo a Fiscalização, em razão dos benefícios fiscais previstos nas legislações dos Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, "a TARGET tem seu custo incidente no desembaraço aduaneiro reduzido, sendo esse seu maior atrativo para empresas que desejam nacionalizar mercadorias, pois se beneficiam dessa redução de custos". Esse elemento trazido pela Fiscalização faria todo o sentido se a acusação fosse de que os Recorrentes realizaram uma operação por conta e ordem de terceiros, tendo em vista a interpretação do artigo 155, parágrafo 2º, inciso IX, alínea “a”, da Carta da República, para fixação do sujeito ativo do ICMS incidente na operação de importação, no sentido de que: “O sujeito ativo da relação jurídicotributária do ICMS é o Estado onde estiver situado o domicílio ou o estabelecimento do destinatário jurídico da mercadoria (alínea "a" do inciso IX Fl. 6574DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.566 19 do § 2o do art. 155 da Carta de Outubro); pouco importando se o desembaraço aduaneiro ocorreu por meio de ente federativo diverso” 7. Isso porque, nos casos em que é declarada uma operação de importação por conta própria, realizada a partir de um Estado com benefício fiscal, mas, na realidade há uma operação de importação por conta e ordem, em favor de um real adquirente localizado em Estado sem benefício fiscal, a ocultação do real adquirente permite, de forma ilegal, a fixação do sujeito ativo e do sujeito passivo do ICMS no Estado que outorga benefícios de carga tributária de ICMS reduzida nas operações de importação. E esse benefício pode acabar sendo transferido para o real adquirente na operação subseqüente, de “venda no mercado interno”. Todavia, no presente caso, não se vislumbra essa vantagem, pois as diferenças entre a operação declarada ao Fisco e aquela que é exposta como efetivamente ocorrida na acusação fiscal não implicam qualquer modificação nem no sujeito passivo nem no sujeito ativo do ICMS. Percebam que na operação declarada, de importação sob encomenda, a Target é a importadora e a Neo a encomendante predeterminada, sendo devido, portanto, o ICMS, com os benefícios porventura aplicáveis, aos Estados em que localizados o estabelecimento importador da Target, Espírito Santo ou Santa Catarina. Já a operação apontada pela Fiscalização como ocorrida continua sendo uma importação sob encomenda, com a diferença apenas no encomendante predeterminado que, segundo a Fiscalização não seria a Neo, mas sim os clientes da Neo. Nesse cenário, não há qualquer modificação quanto aos sujeitos passivo e ativo do ICMS na operação de importação, que continuariam a ser a Target e os Estados do Espírito Santo e de Santa Catarina, respectivamente. Logo, é desprovida de qualquer fundamento a constatação de que o objetivo central da utilização da Neo como interposta pessoa teria como objetivo a busca por incentivos fiscais de ICMS. Essa constatação só se sustentaria, caso a acusação estivesse lastreada em provas de que a operação efetiva, realizada entre os atores da importação, fosse de importação por conta e ordem. Contudo, é a própria Fiscalização quem afirma que a operação efetivamente realizada foi de importação por encomenda e que a Target é quem arcou com os recursos para o pagamento das operações de importação, o que denotaria a sua conformidade com o que determina a Lei para a utilização dessa modalidade. Portanto, também esse elemento não condiz com a acusação desenvolvida no lançamento. Com relação à capacidade econômica e financeira da Neo, a Instrução Normativa SRF nº 634/2006 prevê em seu artigo 5º, parágrafo único, que: “Art. 5º O importador por encomenda e o encomendante ficarão sujeitos à exigência de garantia para autorização da entrega ou desembaraço aduaneiro de mercadorias, quando o valor das importações for incompatível com o capital social ou patrimônio líquido do importador ou do encomendante. Parágrafo único. Os intervenientes referidos no caput estarão sujeitos a procedimento especial de fiscalização, nos termos da Instrução Normativa SRF nº 228, de 21 de outubro de 2002, diante de indícios de incompatibilidade entre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira citada”. 7 RE 299079, Relator(a): Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma, julgado em 30/06/2004. Fl. 6575DF CARF MF 20 Por sua vez, a Instrução Normativa SRF nº 228/2002 determina que, durante o procedimento de fiscalização, a empresa será intimada a comprovar informações relativas (i) ao seu efetivo funcionamento e condição de real adquirente ou vendedor de mercadorias, e (ii) “a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações” (artigo 4º, incisos I e II, da IN SRF nº 228/2002). E, para efeitos de prova do item (ii), nos termos do artigo 6º da referida Instrução Normativa, podem ser apresentados registros e demonstrações contábeis, documentos referentes a integralização do capital social, transmissão de propriedade de bens e direitos que lhe pertenciam e do recebimento do correspondente preço e financiamento de terceiros, dentre outros documentos que se prestem a comprovar a capacidade econômica e financeira. Nesse contexto, a Fiscalização entendeu que a Neo não disporia de capacidade para realizar as operações na condição de encomendante predeterminado, pois não haveria registro na contabilidade da empresa de quaisquer empréstimos e financiamentos e o capital social da empresa seria de valor reduzido, tendo em conta a constatação, pela Fiscalização, de que a integralização de capital por transferência de direitos sobre bem imóvel à titularidade da Neo não havia sido devidamente registrada no Registro de Imóveis competente. Contra essa acusação, as Recorrentes Neo e Target defendem que a capacidade econômica e financeira da Neo decorre de suas disponibilidades de caixa, que têm origem em fluxo de caixa positivo da Neo, em razão de sua estrutura comercial, pela qual a empresa paga seus fornecedores a prazo, em média 120 dias, e recebe de seus clientes à vista, acostando para fins de demonstração um laudo elaborado por auditoria independente, antes do encerramento da ação fiscal e, portanto, antes da lavratura do Auto de Infração. No Relatório Fiscal, a autoridade lançadora expõe as conclusões do laudo elaborado pela auditoria independente, que efetivamente em sua conclusão 5 atesta que “nas operações comerciais apresentadas no demonstrativo anexo, a Sociedade apresentou fluxo de caixa positivo em decorrência dos pagamentos efetuados aos fornecedores ocorrer posteriormente ao recebimento das vendas aos seus clientes”. Porém, a Fiscalização despreza a validade de tal laudo para comprovar o que se propõe, ao afirmar que “de início, já se pode concluir que tal relatório não é capaz de comprovar capacidade econômica e financeira, por não considerar as demais despesas e receitas, operacionais ou nãooperacionais”. (grifos nossos) Na realidade, o que prejudicaria a capacidade econômica e financeira da Neo seria a ausência de consideração de despesas, não de receitas, que só viriam a agregar tal capacidade. E, ao se levar em conta a estrutura da Neo, tal como informado em documentos apresentados à Receita, possuindo a Neo apenas 7 (sete) funcionários espalhados por pequenos escritórios em três cidades distintas, comparada com o volume de sua operação comercial, na casa dos milhões de reais, constatase que tais despesas operacionais e não operacionais não são, em tese, potenciais centros de drenagem de capacidade econômica e financeira da empresa. De qualquer modo, em se tratando de lançamento, caberia a Fiscalização, após o recebimento de relevante prova em contrário às suas conclusões, a partir dos registros e demonstrações contábeis da Neo, aprofundar a análise até então realizada para provar a ausência de capacidade, o que não feito, limitandose a Fiscalização a apontar o reduzido capital social e a ausência de empréstimos. O primeiro, como se sabe, é mera rubrica contábil, parada no tempo, que indica o montante de capital aportado pelos sócios ou acionistas na sociedade naquele Fl. 6576DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.567 21 momento específico, não servindo para demonstrar a capacidade econômica e financeira da sociedade ao longo do tempo, em razão da dinâmica de entradas e saídas de capital no desenvolvimento do objetivo social. Assim, uma sociedade com capital social baixo pode aplicálo em produto inovador, gerar receitas e possuir um caixa muitas vezes o valor de seu capital social, o que denotará uma alta capacidade econômica e financeira. Por outro lado, pode uma sociedade ter um capital de milhões de reais, subscrito ao longo de décadas, mas se encontrar em um setor no qual a concorrência é acirrada e auferir resultados negativos ao longo dos anos, culminado em um caixa sem qualquer liquidez e dívidas com terceiros altíssimas, o que denotará uma baixíssima capacidade econômica e financeira. No primeiro exemplo, há capital social baixo e alta capacidade econômica e financeira. No segundo, há capital social elevado e baixa capacidade econômica e financeira. Logo, a indicação, por si só, de capital social reduzido não conduz à conclusão pretendida pela Fiscalização. Já a indicação de que a Neo não possuiria empréstimos não é forte para justificar sua ausência de capacidade, pois tal capacidade pode ser evidenciada de outras formas que não só o capital de sócios e de terceiros, não tendo a Fiscalização aprofundado o exame desse ponto, mesmo após apresentação de laudo pela Neo, o que me permite concluir que não restou comprovada a alegada incapacidade econômica e financeira. Outro elemento que sustenta a tese acusatória é que haveria adiantamentos de recursos de clientes em favor da Neo, adiantamentos estes que correspondiam ao valor de sinal exigido pelo Neo, que variava entre 20% (vinte por cento) e 30% (trinta por cento), mas que sequer foram imputados em relação a todas as operações de importação, como as arroladas e discutidas nos processos administrativos nº 12466.720324/201131, 12466.720345/201156, 12466.720326/201120 e 12466.720340/201123. De acordo com a Fiscalização, "a TARGET não pode receber adiantamentos de seus clientes, sob pena de configurar operação por conta e ordem, segundo a presunção legal do art. 27 da Lei 10.637/2002. Sendo assim, a NEO recebe os adiantamentos em seu lugar como garantia para as operações na modalidade por encomenda, porém é uma empresa do mesmo grupo, sem autonomia ou segregação de propósitos, portanto tratase de uma simulação para ocultar os verdadeiros encomendantes das mercadorias"; além disso, assevera que "não há razão para que ocorra pagamento (de sinal) por uma mercadoria que não é sua, que ainda não comprou e sequer foi emitida a nota fiscal, salvo se a operação se tratar de uma encomenda para entrega futura". Como exposto acima, a origem dos recursos aplicados nas operações de comércio exterior é elemento importantíssimo a ser examinado para a verificação da modalidade efetivamente adotada pelos intervenientes das operações de comércio exterior e para fins de enquadramento de determinada operação como uma interposição fraudulenta, considerando todo o histórico da legislação e o aperfeiçoamento do controle aduaneiro, com vistas ao combate à lavagem de dinheiro, fraude e simulação. Assim, o adiantamento de recursos para o importador na modalidade por conta própria ou por encomenda é elemento suficiente para descaracterizar a natureza dessas operações, com as conseqüências daí derivadas. Desse modo, o que se combate e deseja evitar é a transferência de recursos para o importador. No presente caso, o elemento consistente no adiantamento de recursos é apresentado sob um viés diferente, pois não se está diante de um adiantamento de recursos para o importador, a ser aplicado na operação de importação, mas sim de um adiantamento de recursos em uma operação interna, de revenda de mercadorias de um encomendante Fl. 6577DF CARF MF 22 predeterminado ao seu cliente no país, o que, a priori, seria admitido, dentro de uma política comercial de exigência de sinal, com vistas a obter uma garantia, ainda que parcial, do pagamento do preço e a mitigar os riscos de inadimplência. Portanto, o adiantamento de recursos tem conotações diversas, se verificado em operações de importação ou no mercado interno. De qualquer maneira, nesse contexto, o adiantamento de recursos poderia ser alegado para, em conjunto com outros elementos, corroborar uma acusação de que a Neo, informada como encomendante predeterminado, não disporia de recursos próprios e estaria apenas se interpondo entre o importador por conta e ordem e o cliente no país, que, assim, deveria constar perante as autoridades aduaneiras como encomendante predeterminado. Porém, a Fiscalização utiliza esse elemento para dar mais uma justificativa para a acusação realizada: a Neo teria sido interposta entre a Target e os reais encomendantes predeterminados, que seriam os clientes da Neo, justamente para possibilitar um adiantamento de recursos para a operação de importação. Sem a interposição da Neo, essa operação seria qualificada como uma importação por conta e ordem. Daí a interposição da Neo entre a Target e os clientes da Neo. Contudo, esse raciocínio não se sustenta. Primeiro, porque essa afirmação deveria ser provada não apenas com a transferência de recursos entre os clientes da Neo para a Neo, mas também com a comprovação da segunda perna dessa operação, de uma suposta transferência de recursos da Neo para a Target, o que não ocorre na ação fiscal. Segundo, porque é contrária às próprias constatações da Fiscalização. Apesar da colocação de tal acusação, é a própria Fiscalização que dá subsídios para a sua contestação, ao defender no lançamento que a operação efetivamente ocorrida foi uma importação por encomenda tendo como encomendante predeterminado os clientes da Neo e não a acusação de que seria uma importação por conta e ordem , deixando claro, de forma expressa, que as despesas relativas às operações de importação foram arcadas pela Target, quando afirma: "Os custos referentes ao desembaraço aduaneiro e tributos sobre o comércio exterior teriam sido suportados pela TARGET, que apresentou documentação (fls 2555 a 2598) referente ao crédito usualmente obtido perante instituições bancárias". (Item 6 do Relatório Fiscal) (grifos nossos) A Fiscalização ainda apresenta um último elemento para qualificar os clientes da Neo como os reais encomendantes, no lugar da própria Neo, ao expor que os riscos e custos das operações seriam assumidos pelos clientes da Neo, havendo um vazio na posição que a Neo alega ocupar na cadeia comercial, de distribuidora, pois seria difícil de acreditar que os clientes da Neo, grandes distribuidores de aço no país, com grande capacidade econômica e que adquirem grandes quantidades diretamente das siderúrgicas, buscariam um "concorrente" de capacidade econômica inferior que nem a Neo, para comprar aço no mercado interno, entendendo que deveriam buscar a Target para promover a nacionalização do aço estrangeiro. Para tanto, narra o resultado de diligência no representante do exportador estrangeiro de aço, que atuava no país na função de intermediador de negócios (artigos 722 e seguintes do Código Civil) e celebrou contratos de corretagem nãoexclusiva para obtenção de clientes tanto para a Target quanto para a Neo. A conclusão a que chegou a Fiscalização é que “tentase fazer crer que nas operações com a NEO a comissão seria por uma mera venda, e não pela obtenção de um adquirente/encomendante”, a partir da constatação de que não faria sentido a empresa corretora “(1) atuar como corretora para a NEO na venda de aço Fl. 6578DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.568 23 anteriormente importado pela TARGET; (2) ter atuado nessas mesmas importações como representante STEELCOM; (3) atuar como representante STEELCOM também para os “clientes” da NEO”. Quanto a esse ponto, as Recorrentes defendem a segregação de atividades entre a Neo e a Target, expondo que a segunda é uma empresa sólida, fundada em 1997 e que conta com 57 funcionários, possuidora de clientes de grande porte dos mais variados segmentos da economia e que teria recolhido aos cofres públicos em torno de R$1.000.000.000,00 (um bilhão de reais) nos 10 anos anteriores à autuação, enquanto que a primeira foi constituída no ano de 2009, com o objetivo de captar uma oportunidade de mercado, para atuar como distribuidora de mercadorias no mercado interno, principalmente aço e seus produtos, em razão da diferença entre o preço praticado àquela época no mercado interno pelas siderúrgicas nacionais, muito mais elevado que o praticado e que podia ser obtido no mercado internacional. Além disso, as Recorrentes expõem que as operações foram realizadas com a prática de margem de lucro, compatíveis com as observadas em seu mercado de atuação. A meu ver, esse é principal ponto levantado pela Fiscalização para a fundamentar a acusação de que os clientes da Neo e não a Neo seriam os encomendantes predeterminados. Se o exportador já tinha seus contatos comerciais para a venda de aço no país, em princípio, parece ser mais vantajoso realizar esse fornecimento diretamente e não buscar um distribuidor para realizar a venda internacional e depois aproximar esse mesmo distribuidor de contatos comerciais compradores do aço. Nesse caso, realmente, o encomendante predeterminado seria o cliente da Neo, não sobrando lugar para a Neo na cadeia comercial. Por outro lado, é possível que os compradores de aço no país, acostumados a obter esse fornecimento ao longo de anos das principais siderúrgicas nacionais, por meio de operações de compra e venda no mercado interno, não desejassem se aventurar no terreno complexo e, para aqueles que não o conhecem, perigoso, das operações de comércio exterior, mesmo que pudessem obter preços mais vantajosos do insumo no mercado internacional. Assim, nenhum fornecimento se concretizaria e de nada adiantaria ter aço mais barato no mercado internacional e potenciais compradores desse produto, salvo se alguma empresa estivesse disposta a assumir o risco de comprar o insumo no mercado internacional e, com a mercadoria já nacionalizada, ofertar no mercado interno, em concorrência com os grandes grupos siderúrgicos nacionais. Nesse caso, o papel de distribuidora da Neo faria sentido na cadeia comercial, não podendo ser considerada uma mera interposta. De qualquer modo, não há no lançamento qualquer informação a respeito das margens praticadas entre a Target e a Neo e entre a Neo e seus clientes, a fim de corroborar o efetivo papel da Neo, no contexto das operações realizadas. Em operações de interposição fraudulenta, normalmente, o que se encontra é a pessoa interposta como mera repassadora das mercadorias importadas ao real adquirente, sem apurar qualquer margem de lucro ou com margens de lucro baixíssimas. No presente caso, a Fiscalização não faz qualquer prova nesse sentido, existindo ainda laudo apresentado pelas Recorrentes, segundo o qual tais operações teriam se dado com margem de lucro condizente com o mercado de atuação. Em lançamentos para cominação de multa por conversão de pena de perdimento, em razão da prática de infração de interposição fraudulenta, o ônus da prova é do Fl. 6579DF CARF MF 24 Fisco, que deve provar de maneira cabal as suas acusações. Nesse sentido, é o entendimento da Terceira Seção do CARF, conforme julgado a seguir transcrito: “Não pode o fisco, diante de casos que classifica como “interposição fraudulenta”, olvidarse de produzir elementos probatórios conclusivos. Devem os elementos de prova não somente insinuar que tenha havido nas operações um prévio acordo doloso, mas comprovar as condutas imputadas, o que não se vê no presente processo. (...) Nas autuações referentes ocultação comprovada (que não se alicerçam na presunção estabelecida no §2º do art. 23 DecretoLei nº 1.455/1976), o ônus probatório da ocorrência de fraude ou simulação (inclusive a interposição fraudulenta) é do fisco, que deve carrear aos autos elementos que atestem a ocorrência da conduta tal qual tipificada em lei”. (Acórdão nº 3403.002.842; Sessão do dia 25/03/2014; Relator: Rosaldo Trevisan) Além dessa deficiência probatória, ainda nesse tópico que trata da estrutura comercial em que inserida a Neo, importante destacar a informação trazida pelas Recorrentes e omitida do Relatório Fiscal, de que a Neo apresentou Consulta à Administração, nos termos da Instrução Normativa RFB nº 740/2007, para obter o entendimento formal da Receita Federal sobre a legitimidade das operações que pretendia realizar, na qual a Neo expôs os motivos para sua constituição, a relação comercial entre ela e a Target, a sua posição na cadeia comercial, juntando, inclusive, modelos dos contratos entre a Neo e a Target e a entre a Neo e seus clientes. Todavia, essa consulta foi declarada ineficaz, sob o entendimento de que a Neo não teria apontada dúvida objetiva a respeito da legislação federal, tendo demonstrado perfeita compreensão da sistemática da importação por encomenda. Apesar de se reconhecer que a consulta declarada ineficaz não produz quaisquer efeitos vinculativos entre contribuinte e a Administração, a sua propositura indica o desejo da Neo de revelar e não esconder as operações que pretendia praticar, na busca de uma chancela da Administração Pública quanto à sua conformidade em relação à legislação vigente. Por todo o exposto, já caminhando para a conclusão, nesse quadro fático, considerando que o principal motivo apontado pela Fiscalização para a realização da alegada fraude não se mostrou procedente, por ser indiferente a influência de benefícios fiscais de ICMS na operação declarada e na operação entendida pela Fiscalização como realizada, e levando em conta ainda a existência de processo de consulta com a exposição de uma estrutura comercial revelada pela Neo e que posteriormente veio a ser atacada pelo Fisco, acredito que não tenha restado demonstrado pela Fiscalização a ocorrência de uma ocultação realizada mediante fraude ou simulação. Não foi comprovado, de maneira cabal, que os envolvidos na operação (clientes da Neo, Neo e Target) tenham agido de forma dolosa para prestar informação incorreta quanto ao real encomendante, na busca de uma vantagem indevida, em prejuízo ao controle aduaneiro. Na realidade, a principal vantagem apontada pela Fiscalização, utilização de benefícios fiscais de ICMS, simplesmente não subsiste frente à operação acobertada, segundo a acusação fiscal. Por último, impendese registrar e ressaltar que a análise aqui realizada e as conclusões alcançadas não estão, de forma alguma, a chancelar, a concordar ou a Fl. 6580DF CARF MF Processo nº 12466.720330/201198 Acórdão n.º 3401003.981 S3C4T1 Fl. 6.569 25 reconhecer como em conformidade com o ordenamento jurídico o modelo de negócios, assim como as estrutura contratual e comercial adotadas pela Target, Neo e clientes da Neo nas operações de importação que deram origem ao presente lançamento, mas está a se afirmar e a concluir que o lançamento é improcedente, por carência probatória por parte da Fiscalização, tendo em vista que a Fiscalização não foi capaz de demonstrar a contento, pelo levantamento de um conjunto de elementos de prova satisfatórios, que as condutas imputadas aos intervenientes das operações de comércio exterior se enquadravam no tipo infracional previsto no artigo 23, inciso V, parágrafo 3º, do Decreto nº 1.455/1976. Diante da não demonstração da acusação de "ocultação (...) mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros", de igual modo, deve ser julgada improcedente a segunda acusação da Fiscalização, de uso de documento falso no despacho aduaneiro, com fundamento no artigo 105, inciso VI, do Decreto nº 37/1966, pois, se não há comprovação de que houve ocultação, em decorrência, também não há comprovação de que os documentos utilizados no despacho aduaneiro tenham sido falsificados ou adulterados. Conclusão Por essas razões, proponho ao Colegiado conhecer e dar provimento aos Recursos Voluntários interpostos, para determinar o cancelamento do lançamento, e não conhecer do recurso de ofício. É como voto. AUGUSTO FIEL JORGE D'OLIVEIRA Relator Fl. 6581DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11516.001441/2008-09
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 13 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010
GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DATA DA AQUISIÇÃO.
Até que seja decretada sua invalidade por ação própria, considera-se como data da aquisição do imóvel aquela constante de escritura de tabelião lavrada e devidamente anotada no Cartório de Registro de Imóveis.
GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO. PERCENTUAL DE REDUÇÃO.
O Direito de Construção recebido como contrapartida à alienação de imóvel por desapropriação constitui bem que cuja natureza não se confunde com a do imóvel alienado.
OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. JUROS.
Os valores relativos a atualização monetária apurados na alienação a prazo de bens e direitos devem ser considerados na apuração do ganho de capital. Já os juros incidentes sobre as mesmas parcelas não compõem o ganho da capital, tributando-se no ajuste anual.
Numero da decisão: 2201-003.894
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar arguida. Por maioria de votos, no mérito, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Vencido o Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira, que dava provimento em maior extensão.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto do Amaral Azeredo - Relator.
EDITADO EM: 24/09/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: CARLOS ALBERTO DO AMARAL AZEREDO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2010 GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DATA DA AQUISIÇÃO. Até que seja decretada sua invalidade por ação própria, considera-se como data da aquisição do imóvel aquela constante de escritura de tabelião lavrada e devidamente anotada no Cartório de Registro de Imóveis. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO. PERCENTUAL DE REDUÇÃO. O Direito de Construção recebido como contrapartida à alienação de imóvel por desapropriação constitui bem que cuja natureza não se confunde com a do imóvel alienado. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. JUROS. Os valores relativos a atualização monetária apurados na alienação a prazo de bens e direitos devem ser considerados na apuração do ganho de capital. Já os juros incidentes sobre as mesmas parcelas não compõem o ganho da capital, tributando-se no ajuste anual.
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ALIENAÇÃO DE IMÓVEL. DATA DA AQUISIÇÃO. Até que seja decretada sua invalidade por ação própria, considerase como data da aquisição do imóvel aquela constante de escritura de tabelião lavrada e devidamente anotada no Cartório de Registro de Imóveis. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO. PERCENTUAL DE REDUÇÃO. O Direito de Construção recebido como contrapartida à alienação de imóvel por desapropriação constitui bem que cuja natureza não se confunde com a do imóvel alienado. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. JUROS. Os valores relativos a atualização monetária apurados na alienação a prazo de bens e direitos devem ser considerados na apuração do ganho de capital. Já os juros incidentes sobre as mesmas parcelas não compõem o ganho da capital, tributandose no ajuste anual. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos em rejeitar a preliminar arguida. Por maioria de votos, no mérito, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, nos termos do voto do Relator. Vencido o Conselheiro Carlos Henrique de Oliveira, que dava provimento em maior extensão. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 00 14 41 /2 00 8- 09 Fl. 860DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator. EDITADO EM: 24/09/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecilia Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório O presente processo trata de Auto de Infração de Imposto sobre a Renda da Pessoa Física, fl. 678 a 689, pelo qual a Autoridade Administrativa lançou crédito tributário consolidado conforme resumo abaixo: CRÉDITO TRIBUTÁRIO LANÇADO Imposto 407.741,02 Juros de Mora (calculado até 10/2011) 153.473,18 Multa Proporcional (75%) 305.805,71 TOTAL 867.019,91 Analisando as informações contidas na Descrição dos Fatos de fl. 05 a 08, constatase que, na Ação Fiscal, foram identificadas as seguintes infrações à legislação tributária: I Omissão de rendimentos do trabalho com vínculo empregatício recebidos de pessoas jurídicas; II Omissão de rendimentos de alugueis recebidos de pessoas jurídicas; III Omissão de rendimentos (juros e outros acréscimos) recebidos de pessoas jurídicas; IV Omissão de rendimentos de alugueis recebidos de pessoas físicas (sujeitos ao carnêleão); V Omissão de ganhos de capital na alienação de bens e direitos adquiridos em reais. No Termo de Verificação Fiscal de fl. 664 a 677, constam os motivos de convencimento da Autoridade lançadora. Contudo, tendo em vista que o contribuinte impugnou apenas parcialmente a exigência, conforme fl. 803, limitase o presente relato às constatações fiscais relativas à questão em litígio. Fatos relativos à omissão de rendimentos decorrentes de juros e outros acréscimos recebidos de pessoa jurídica (item III acima); que o contribuinte foi intimado a apresentar cópias de documentos relacionados a diversas operações de alienação de bens e direitos; que foram identificadas as seguintes alienações: Fl. 861DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 861 3 1) à ACCR Construções Ltda, alienação de 3.800m² de "direito de "construir", em 13/01/2003 pagos em quatro parcelas (meses de janeiro a abril de 2003) 2) Ao Cesusc Complexo de Ensino superior de Santa Catarina Ltda, alienação de área de 100.000m², pagos conforme parcelamento descrito em fl. 570/571; que não foram tributados os valores recebidos das empresas ACCR Construções Ltda e Cesusc Complexo de Ensino superior de Santa Catarina Ltda, a título de juros e outros acréscimos incidentes sobre o pagamento de parcelas decorrentes da alienação a prazo de bens e direitos; que na apuração da citada omissão, foi lançado a débito o valor declarado no ajuste anual de 2004 tendo como origem a Cesusc; Fatos relativos à omissão de ganhos de capital na alienação de bens e direitos adquiridos em reais 1) Alienação de "direito de construir": 1.1 Alienação de 3.800m² de "direito de construir" para a ACCR Construções Ltda, em 13/01/2003, pelo valor de alienação de R$ 144.000,00 e custo de aquisição de R$ 2.978,75; 1.1.1) que o ganho de capital apurado foi de R$ 141.021,30, diferido em quatro parcelas; 1.2) Alienação de 813,86m² de "direito de construir" para o Residencial Solar do Mar, em 24/04/2003, pelo valor de alienação de R$ 34.182,00 e custo de aquisição de R$ 637,97; 1.2.1) que o ganho de capital apurado foi de R$ 33.544,03; 1.3) Alienação de 943,00m² de "direito de construir" para Cagema Construtora e Incorporadora Ltda, em 22/05/2003, pelo valor de alienação de R$ 39.606,00 e custo de aquisição de R$ 38.866,20; Obs: o custo de aquisição considerado foi determinado a partir do custo proporcional do terreno que teve uma parcela trocada por tal "direito de construir" em relação ao valor constante da declaração de ajuste de 2000. 2) Alienação de terreno de 80.000m²: 2.1) Alienação de 9/10 (nove décimos) de terreno com 80.000m² localizado na Costeira, em Florianópolis/SC, em 04/10/2005, para Bistek Supermercados, pelo valor de 2.148.750,00, com ganho de capital de .R$ 2.013.750,00, reduzido para R$ 1.720.7950,75. 2.2) Que os citados 9/10 do terreno foram adquiridos em 2002 da irmã do contribuinte. Já o restante (1/10), teria sido adquirido pelo autuado em 1961, não estando sujeito a apuração de tributo incidente sobre o ganho de capital. Fl. 862DF CARF MF 4 Ciente do lançamento em 25 de março de 2008, conforme AR de fl. 693, inconformado, o contribuinte apresentou, em 24 de abril de 2008, a impugnação de fl. 697 a 708, em que estrutura sua defesa nos seguintes tópicos: I Da alienação de 9/10 do terreno de 80.000m²: Sustenta a improcedência do lançamento sob o argumento de que teria adquirido tal propriedade no ano de 1959, apresentando documentos e fatos que entende comprovar tal afirmação. Afirma que, nesta época, residia em São Paulo e encontravase em processo de desquite de sua exmulher, e que, com intuito de evitar desdobramentos imprevisíveis, concluiu a transação com a determinação de que os vendedores escriturassem a parcela então disponível para compra e venda (9/10) em nome de sua irmã, Janice Brincas, pessoa de sua inteira confiança, solteira e sem filhos. Que decorridos alguns anos, por sua conta e ordem, sua irmã procedeu a doação da nua propriedade do imóvel para os filhos do recorrente (sobrinhos da proprietária formal), com usufruto vitalício em favor deste (Jairo). Afirma que o citado imóvel foi registrado na Prefeitura Municipal de Florianópolis em seu nome há mais de 20 anos, tendo promovido a sua locação desde 1986. Ademais, afirma que doou parte do imóvel para o Município de Florianópolis em 1998 e que vem informando a propriedade em sua declaração de ajuste há mais de 27 anos. II Da decadência do direito Afirma que lança em sua Declaração de Bens e Direitos desde 1981 e que, sendo assim, o ganho apurado deve ficar restrito ao período posterior ao lançamento do imóvel em sua declaração. III Da omissão de rendimentos (juros e outros acréscimos) recebidos de pessoas jurídicas. Alienação de bens e direitos com reajuste de parcelas, não submetida a tributação. Afirma que os imóveis envolvidos na transação foram adquiridos em 1964 e 1967 e que, adotandose a norma expressa no art. 18 da lei 8.023/1990, não há base imponível para qualquer exação, tanto que o fisco nada exigiu a título de ganho de capital com as aludidas vendas. Sustenta que, se a tributação sobre o principal não é exigível, por maior razão também não seria sobre os acessórios dele decorrentes. Por fim, alega que tais valores deveriam ser submetidos às regras relativas à apuração de IR sobre ganho de capital (15%) e não os 27,5% exigidos no lançamento. IV) Omissão de ganho de capital na alienação de "direitos de construir": Alega que tais direitos derivam de ato de coerção unilateral perpetrado pelo Poder Público Municipal que, ao desapropriar parte de um de seus imóveis, o indenizou com a entrega desse papeis. Aduz que estes títulos não seriam alcançados por tributação, seja por configurarem indenização, seja por serem relativos a imóveis adquiridos em 1964 e 1967. Fl. 863DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 862 5 Debruçada sobre os termos da Impugnação, a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis/SC, julgou a impugnação improcedente, fl. 811 a 820, lastreada nas razões que podem ser assim resumidas: Da decadência ganho de capital na alienação de 9/10 do terreno localizado na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis/SC, em 04/10/2005 fl. 814: O impugnante alega decadência do direito do fisco de lançar a omissão de ganho de capital, pois há mais de 27 anos vinha declarando o imóvel. Defende que o ganho apurado deve ficar restrito ao período posterior ao lançamento do imóvel nas declarações de ajuste. Aqui afastase a alegação de decadência. Primeiro, por ser esta totalmente impertinente haja vista o fato gerador da tributação de que aqui se trata, no caso ganho de capital, somente ocorrer no momento da alienação do imóvel por um preço maior do que o de aquisição; este ganho é o fato gerador do imposto, o qual foi omitido pelo contribuinte. E em segundo, o fato gerador do imposto lançado, no caso ganho de capital, ocorreu em 04/10/2005, portanto, à data da ciência do lançamento ao contribuinte, em 25/03/2008 (fl. 602), não havia expirado o prazo (cinco anos do fato gerador, art. 150 do CTN) para o fisco efetuar o lançamento, o que somente ocorreria em 04/10/2010 (...). Da omissão de ganho de capital na alienação de 9/10 do terreno localizado na Costeira do Pirajubaé fl. 815 (...)Em que pesem os argumentos de defesa, fato é que, conforme relata a autoridade fiscal, os registros e procurações apresentados pelo contribuinte demonstram que este adquiriu 1/10 do terreno em questão em 1961 (fl. 131 a 134 e 457) e 9/10 do mesmo • terreno em 06/12/2001, por meio da escritura pública à folha 671, registro à folha 461, onde consta como vendedora do dito imóvel sua irmã, Janice Brincas, a qual o adquiriu em 1959. (...) Por fim mencionese que, como bem coloca a autoridade fiscal, o fato de o terreno constar das DIRPF do contribuinte anteriores a 2003 não é prova da propriedade da integralidade do terreno, até porque não há menção quanto à data de aquisição. E que, ao contrário do que pretende o contribuinte, sua DIRPF por si só não faz prova das informações que dela constam; seu efeito é declaratório, devendo, os fatos nela postos, ser comprovados através de documentos hábeis e idôneos. Assim, ante a fé pública da qual se reveste uma Escritura Pública de Compra e Venda, os documentos trazidos pelo impugnante não consistem de provas hábeis e suficientes a afastar a presunção relativa de veracidade dos fatos que dela constam. Fl. 864DF CARF MF 6 Da omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas a titulo de juros e outros acréscimos, decorrentes da alienação de bens e direitos com reajuste de parcelas fl. 816 Assim, de pronto há que se dizer que são inócuos os argumentos de defesa, pois tais rendimentos ao serem excluídos do valor de alienação do imóvel, por expressa previsão legal, não se submetem a tributação própria ao ganho de capital e sim a regra geral aplicável a rendimentos de qualquer natureza, devendo ser tributados à medida de seu recebimento, na fonte, quando a alienação for para pessoa jurídica, ou mediante o recolhimento mensal obrigatório (CarnêLeão) se alienado para pessoa física, devendo, ainda, ser informado pelo contribuinte na Declaração de Ajuste Anual. Da omissão de ganho de capital na alienação de "direito de construir" fl. 817 (...) Em análise aos argumentos de defesa, vêse que o impugnante não contesta os ganhos de capital apurados, nos moldes e valores em que o foram pela autoridade fiscal. 0 impugnante, em verdade, limitase a tentar afastar a tributação imposta com base no argumento de que não haveria incidência de imposto de renda sobre os ganhos identificados em face de o bem alienado lhe ter sido dado a titulo de indenização por desapropriação, de terrenos de sua propriedade, estes que foram adquiridos em 1964 e 1967. Resta claro que equivocase o impugnante no objeto de sua contestação. Destarte, o ganho objeto do lançamento são os decorrentes das operações de alienação de "direito de construir", ocorridas em 2003, e não a alienação do imóvel (parte do terreno) para a Prefeitura Municipal de Florianópolis, por meio de doação onerosa, ocorrida em 1999. (...) ... não obstante a natureza e as feições da operação, o contribuinte passou a legitimo proprietário de um bem, que foi incorporado a seu patrimônio, e que posteriormente por ele foi alienado em uma outra transação, ocorrida em 2003, desta independente para todos os efeitos, a qual consiste do objeto do lançamento em apreço. Ciente do Acórdão da DRJ em 18/12/2009, conforme AR de fl. 823, ainda inconformado, o contribuinte apresentou, tempestivamente, o recurso voluntário de fl. 825 a 842, em que reitera os argumentos já expressos em sede de impugnação e acrescenta argumentos relacionados à obrigação de empresas compradoras de reter o imposto de renda devido.. É o relatório necessário. Voto Conselheiro Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator Por ser tempestivo e por preencher as demais condições de admissibilidade, conheço do Recurso Voluntário. Fl. 865DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 863 7 Inicialmente, o contribuinte busca demonstrar genericamente os motivos que entende justificar a reforma do Acórdão da DRJ, o qual classifica contrário ao Regulamento do Imposto de Renda, incompatível com as provas dos autos e ofensivo ao Princípio da Legalidade, características que o tornariam nulo. Da decadência do direito. O recorrente afirma que, sob o argumento de que o ganho de capital somente ocorre no momento da alienação do imóvel por um preço maior do que o de aquisição, que neste caso teria acontecido em outubro de 2005, a decisão recorrida teria afastado a decadência e apreciou o mérito da exação fiscal. Entende que tal conclusão labora em flagrante equívoco, pois o que merece relevância não é a data da venda do imóvel e sim a sua data de aquisição, já que é a partir dela que será obtida a base de cálculo da imposição fiscal, afirmando que, mesmo que não prospere a data da alegada aquisição (1959), pelo menos deveria ser considerada a data inicial de 1961, já que seria o ano em que recebeu procuração dos antigos proprietários para gerir o imóvel. Alega que, na apreciação da decadência, devese considerar uma dessas datas, a partir da qual há de ser contado o prazo para apurar o eventual valor do ganho do capital. Contesta o fato do Fisco não ter se insurgido contra a apropriação do bem em sua declaração, tampouco contra as receitas dele decorrentes, que foram submetidas à tributação. Que, se o Fisco aceitou como válida a transferência legal via outorga de procuração ocorrida em 1961, a despeito da transferência de fato ter ocorrido em 1959, é evidente que essa data deve servir de parâmetro para se apurar o ganho de capital, adotandose a tabela do art. 139 do RIR/99, o que atesta a inexistência de base imponível, pois, a partir daí, inicia o prazo estabelecido no art. 150, § 4º do CTN. Afirma que, em sua declaração de 1981 exteriorizou o direito da propriedade que se iniciou em 1959 e que a partir daí, do lançamento na declaração, é que começou a fluir o prazo para o fisco se insurgir contra a irregularidade do seu lançamento. Diante dos argumentos recursais, embora o contribuinte continue suas argumentações sobre a ocorrência do que chama de "decadência", é desnecessário continuar a tratálos neste tema, pois está claro que equivocase a defesa ao confundir critério para cálculo do tributo com matéria relacionada ao direito de constituição do crédito tributário pela Fazenda Pública. Veja que o próprio fundamento utilizado pelo recorrente para concluir pela inexistência de base imponível (art. 139 do RIR/99) não está relacionado a prazo decadencial, mas à forma de apuração do ganho de capital, prevendo percentuais fixos de redução deste a serem aplicados nas alienações de imóveis adquiridos até 1988. Em respeito ao esforço argumentativo do contribuinte, importante destacar que, nos termos do art. 43 da Lei 5.172/66 (CTN), o Imposto sobre a Renda tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica de renda ou proventos de qualquer natureza. Por sua vez, a Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, dispõe: Fl. 866DF CARF MF 8 Art. 2º O imposto de renda das pessoas físicas será devido, mensalmente, à medida em que os rendimentos e ganhos de capital forem percebidos. Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, decorrentes de alienação de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de transmissão do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. Portanto, como bem destacou a Autoridade recorrida, o imposto sobre a renda é devido nas alienações de bens e direitos e incide sobre a diferença positiva entre o valor da transmissão e o custo de aquisição do bem alienado. Ou seja, no momento da alienação de um bem por um preço superior ao de sua aquisição, ocorre o fato gerador do tributo, surgindo, nos termos do § 1º do art. 113 do CTN, a obrigação tributária. Com isso, estão presentes os requisitos necessários à constituição do crédito tributário, que poderá advir de ação espontânea do contribuinte, lançamento por homologação, ou de ato da Administração, lançamento de ofício. É inconteste que, no caso do imposto de renda incidente sobre o ganho de capital na alienação de bens e direitos, a legislação impõe ao sujeito passivo o dever de prestar informações sobre matérias de fato indispensáveis ao lançamento e ainda determina a antecipação do pagamento do tributo devido sem prévio exame da autoridade administrativa. Exercida tal atividade pelo contribuinte, ou há um ato expresso da Autoridade a homologando, ou, caso esta não se manifeste no prazo de cinco anos contado da ocorrência do fato gerador, há homologação tácita, ou o lançamento é efetuado ou revisto de ofício, tudo nos termos dos art. 147, 149 e art. 150 do CTN. Assim, excetuadose a comprovação da ocorrência de dolo, fraude ou simulação, nos casos de lançamento por homologação em que haja a antecipação do pagamento, a contagem do prazo de cinco anos para que o Fisco exerça o direito de constituir o crédito tributário iniciase com a ocorrência do fato gerador, prazo este que, se expirado, dá Fl. 867DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 864 9 ensejo à extinção do crédito tributário pela decadência (perda do direito de lançar), conforme art.156, incido V, também do Código Tributário Nacional. Portanto, no caso em tela, a decadência ou a perda do direito de lançar tem seu marco inicial de contagem de prazo relacionado diretamente à ocorrência do fato gerador e não ao momento em que restou configurada a aquisição do imóvel alienado ou sua informação em declaração de rendimentos. A questão relacionada ao momento da aquisição de um bem é sim relevante para apuração do tributo devido, evidenciando matéria vinculada ao mérito da exigência e deverá ser mais adiante tratada, mas não se confunde com inicio de contagem de prazo decadencial, que configura tema preliminar. Por outro lado, não há previsão legal de homologação de informações prestadas pelos contribuintes em suas declarações de bens e direitos. O que se homologa expressa ou tacitamente, como visto, é o lançamento. A Receita Federal do Brasil não se presta a aferir a regularidade documental ou fática de tudo que os contribuintes declaram integrar o seu patrimônio, mas faz o acompanhamento de sua evolução, em particular para identificar eventuais infrações à legislação tributária que possam ter mascarado a ocorrência de um fato gerador e que dê ensejo a constituição de créditos tributários devidos. Portanto, ocorrida a alienação do bem em outubro de 2005, tendo o crédito tributário sido constituído com a ciência do lançamento ocorrida em março de 2008, não há que se falar em decadência. Assim, corretas as conclusões da decisão recorrida sobre este tema. Da Alienação de 9/10 (nove décimos) do terreno com 80.000,00 m2 localizado na Costeira em FlorianópolisSC, em 04.10.2005, para Bistek Supermercados. O recorrente inicia seus argumentos externando sua convicção de que teria demonstrado à exaustão que o imóvel alienado, muito embora escriturado em nome de sua irmã, Sra. Janice Brincas, seria de sua propriedade desde 1959, tendo exercido a posse sem qualquer oposição. Como argumento secundário, busca amparo no Código Civil para afirmar que aquele que usar e gozar de um bem por mais de 15 anos adquire sua propriedade plena. Apresenta algumas reflexões sobre evidencias de sua condição de dono ao firmar contratos de locação ao longo de 40 anos, ao declarar o imóvel e os rendimentos decorrentes dessas locações e ao pagar encargos fiscais relacionados (IPTU e IR). Asseverando que, se o imóvel não pertencia ao recorrente, é indevida a tributação da renda dos aluguéis. De outro prisma, se o fisco mantevese silente, é porque admitiu correta a tributação e a exteriorização da propriedade. Aduz que o imóvel está devidamente declarado há pelo menos 27 anos, sem qualquer oposição do fisco, que sempre chancelou sem ressalvas suas informações. Questiona: se a Sra. Janice fosse proprietária do aludido imóvel, porque não teria declarado tal propriedade ou mesmo os rendimentos havidos das locações? Responde: porque o imóvel nunca lhe pertenceu. Fl. 868DF CARF MF 10 Alega que, em prevalecendo o entendimento da decisão combatida, a doação de parte do imóvel feita ao Município de Florianópolis é um ato nulo e a indenização paga é um enriquecimento sem causa. Que os fatos que deram ensejo à imposição fiscal devem ser analisados em seu conjunto, não se admitindo interpretação isolada da documentação colacionada. Afirma que, no período de 1959, residia em São Paulo e encontravase em processo de separação judicial de sua exmulher, razões que se constituíram nas causas que levaram à aquisição do imóvel por interposta pessoa. Conclui que, ao vender o imóvel, nada mais fez do que exercer os poderes de legitimo possuidor e proprietário de bem adquirido por interposta pessoa em 1959 e que os fatos se sobrepõem ao direito explicitado na escritura pública de venda do imóvel ocorrida em 2002, inclusive por conta da informação lá contida de que o valor da venda já estaria pago desde fevereiro de 1970. Em síntese, são estas os argumentos recursais. De plano, ressaltese que, mesmo que suscitadas pelo recurso, não serão tratados pelo presente voto fatos que escapam à lide em curso. Por exemplo, não será discutida eventual infração à legislação tributária cometida pela Sra. Janice Brincas, tampouco a regularidade de atos da municipalidade, já que são temas que devem ou deveriam ser tratados autonomamente e no foro adequado, não emprestando efeitos à presente demanda. Analisando as informações contidas nos autos, notase que o contribuinte informou, em sua Declaração de Rendimentos relativa ao exercício de 2006, a venda do imóvel em comento, fl. 45, sem que tenha sido demonstrada a apuração de eventual ganho de capital. Intimado, apresentou as informações contidas no item 13 de fl. 55, em que se afirma a suposta aquisição do bem em 1961 e sua manutenção em nomes de terceiros, até que, em 2002, sentiu a necessidade de organizar o patrimônio pessoal e resolveu efetivar a transferência da propriedade. Informou, ainda, não ter encontrado os contratos que sustentaram a aquisição originária, mas que identificou outros elementos que permitem asseverar tal fato. Em fl. 137, consta instrumento público lavrado em 22 de maio de 1961, em que Osmar Azevedo de Mattos e sua esposa, Sra.Celina Costa de Mattos nomeiam o ora recorrente como seu procurador, conferindo poderes para ceder e transferir os direitos hereditário que possuem em conjunto com Janice Brincas e outros em um terreno situado na costeira da Pirajubaé, direitos hereditários estes havidos por sucessão de João Cipriano da Costa e sua Mulher. Em fl. 139, consta instrumento público, lavrado em 25 de maio de 1961, em que Ives de Arruda e sua esposa, Sra. Maury da Costa Arruda, e Mauro da Costa e sua esposa, Sra. Maria Paiva da Costa, nomeiam o ora recorrente como procurador, conferindo poderes para ceder e transferir os direitos hereditários que possuem em conjunto com Janice Brincas e outros relativos aos mesmo bem citado no parágrafo precedente. Em fl. 141 a 143, consta contrato particular de compra e venda em que o interessado e sua esposa ajustaram a alienação da propriedade em tela à Bistek Supermercado Ltda, pelo preço de R$ 2.387.500,00. Em fl. 144 a 147, consta Certidão em que se verifica que a transação imobiliária em tela, já devidamente quitada, foi objeto de escritura pública lavrada em 04 de outubro de 2005 (cópia da escritura consta de fl. 592/594). Fl. 869DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 865 11 Em fl. 521, consta extrato da Matrícula 49998, emitida pelo Cartório do 2º Ofício do Registro de Imóveis, em que se pode constatar o registro da aquisição, em 29/10/1959, de 9/10 da propriedade, incluindo benfeitorias, pela Sra. Janice Brincas, pelo valor de Cr$ 80.000,00, conforme Escritura de compra e venda lavrada em abril de 1959. No mesmo documento, consta registro levado a termo em 19/02/2002, em que o recorrente adquire a tal propriedade, conforme Escritura de compra e venda datada de 06/12/2001. No documento de fl. 530, constatase que o imóvel em tela deu origem a uma nova Matrícula que, após agregar parcela da referida propriedade ainda decorrente de carta de adjudicação, registrou a aquisição da propriedade pela Bistek Supermercado Ltda. O Termo de Verificação Fiscal, em fl 666, aponta que o Agente Fiscal considerou os documentos contidos em 515 a 521 (eprocesso), e que estes, cotejados com os instrumentos de procuração citado alhures, foram suficientes para formar sua convicção de que 1/10 da propriedade alienada já pertencia ao recorrente desde 1961. Além disso, que os demais 9/10 pertenciam à Sra. Janice Brincas. Juntamente com a impugnação, o contribuinte apresenta escritura pública em que se confirma a aquisição de parcela do propriedade pela Sra. Janice, em 1959, fl. 733 a 735. Em fl. 740 consta Escritura Pública de cessão e transferência de herança em que a Sra. Janice Brincas, declarandose legítima possuidora de um terreno e duas casas situadas na costeira de Pirajubaé, cede todos os direitos aos filhos do requerente, Paulo, Sérgio e Maria Cristina Marcondes Brincas, bem assim aos que vierem a nascer da união de seus pais (Jairo Brincas e sua esposa, Maria Eloah Marcondes Siqueira dos Reis), reservando aos pais o usufruto dos imóveis cedidos. Junta, ainda, carnê de IPTU, fl. 743 /744; contratos de locação de casas, aparentemente firmados a partir da década de 1986, fl. 745 e ss; instrumentos relativos a doação onerosa de parcela da propriedade para construção de rua, que gerou obrigações à municipalidade e a particulares proprietários de imóveis vizinhos beneficiados com a construção do acesso, fl. 755 a 759. Em fl. 768/770 juntou Escritura pública em que a Sra. Janice Brincas vendeu ao Sr. Jairo, os 9/10 do imóvel de sua propriedade, ao preço de R$ 135.000,00, com destaque que tais valores seriam para fins fiscais, já que o preço teria sido pago em fevereiro de 1970; junta, ainda, documentos relativos à aquisição da parte já reconhecida pela fiscalização como tendo sido adquirida em 1961. Como se pode notar do emaranhado de informações acima, tratamse de argumentos que rememoram antigos costumes de formalização de negócios sem o devido cuidado com o seu registro. Embora reconheçase ao contribuinte a propriedade de 10% do imóvel, que se constitui de uma área de 80.000m², desde 1961, o que, sobre tal parcela, afasta a incidência de tributação sobre o eventual ganho de capital auferido, em razão da aplicação redução prevista no art. 18 da lei 7.713/88, pretende o recorrente que tal benesse tributária seja estendida a toda a área da propriedade, muito embora os documentos formais apresentados evidenciem que os outros 90% do bem teriam sido adquiridos em 2002, de sua irmã, Sra. Janice Brincas. Fl. 870DF CARF MF 12 O relato apresentado pela defesa, tanto na impugnação quanto no recurso, é explicito ao atribuir o registro de propriedade em uma interposta pessoa, com intuito de evitar "desdobramentos imprevisíveis" decorrentes de uma dissolução de sociedade conjugal. A conduta relatada pelo contribuinte estimula uma reflexão sobre tais desdobramentos imprevisíveis e sobre os inúmeros casos em que medidas semelhantes objetivam vantagens a um cônjuge em prejuízo do outro. Aparentemente, a preocupação com tais desdobramentos persistiu com o passar dos anos, é o que se depreende de uma mal explicada cessão e transferência de herança da Sra. Janice para os filhos do Sr. Jairo, sejam os já nascidos ou os que viriam a nascer da União com a sua atual esposa. Ainda que tivesse cedido tais direitos, em momento posterior, mais uma vez, a Sra. Janice os aliena diretamente ao recorrente. Não obstante, o que de fato interessa à demanda em curso, é constatar se há elementos que indiquem que a aquisição da propriedade, de fato, ocorreu na data de sua formalização por instrumento público ou se já teria ocorrido desde 1959. Como já dito no curso do voto em relação ao tema anterior, a Receita Federal do Brasil não se presta a aferir a regularidade documental ou fática de tudo que os contribuintes declaram integrar o seu patrimônio, mas faz o acompanhamento de sua evolução, em particular para identificar eventuais infrações à legislação tributária que possam ter mascarado a ocorrência de um fato gerador e que dê ensejo a constituição, de ofício, de créditos tributários devidos. Assim, o fato do contribuinte ter declarado o imóvel como sendo de sua propriedade desde 1981, em nada contribui para fixação da efetiva data de aquisição a ser utilizada no cálculo de eventual tributo incidente sobre o ganho de capital. Tampouco o oferecimento à tributação de rendimentos de alugueis originados de tal bem, em particular neste caso em que o recorrente já detinha uma fração do imóvel, que continha em seu interior algumas benfeitorias, não havendo nos autos informações relativas a exploração econômica por parte dos demais proprietários. Quanto à doação onerosa à Prefeitura, da mesma forma, a área doada é irrisória mesmo que se considerasse um plano equivalente à propriedade já detida desde 1961 pelo autuado (8.000m²=10% x 80.000m²), restando o fato de ter ocorrido tal operação insuficiente para atestar que o Sr. Jairo Brincas fosse o efetivo proprietário integral do bem. Ademais, como dito alhures, não se busca no presente voto avaliar a regularidade dos atos da municipalidade, muito embora seria inimaginável o Município participar de tal acerto sem se prender a aspectos formais sobre os títulos de propriedade então formalmente vigentes. Em relação ao fato de que consta da escritura de aquisição lavrada em 2002 uma referencia ao pagamento do preço em fevereiro de 1970, não muda muita coisa neste cenário, pois não há qualquer indicação sobre como e porquê foi assim efetuado. Não foram juntados aos autos quaisquer documentos do ano de 1970 que pudessem corroborar a alegação de aquisição anterior da parcela do bem detida pela Sra. Janice. Quanto ao argumento de que aquele que possuir como seu imóvel por quinze anos adquirelhe a propriedade, poderia até ser um elemento em favor do contribuinte, mas demandaria, neste caso, declaração por sentença judicial, nos termos do art. 1.238 da Lei 10.406/2002 Código Civil. O mesmo Código Civil prevê, ainda: Fl. 871DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 866 13 Art. 215. A escritura pública, lavrada em notas de tabelião, é documento dotado de fé pública, fazendo prova plena. (...) Art. 1.227. Os direitos reais sobre imóveis constituídos, ou transmitidos por atos entre vivos, só se adquirem com o registro no Cartório de Registro de Imóveis dos referidos títulos (arts. 1.245 a 1.247), salvo os casos expressos neste Código. (...) Art. 1.245. Transferese entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. § 1º Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel. § 2º Enquanto não se promover, por meio de ação própria, a decretação de invalidade do registro, e o respectivo cancelamento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel. Portanto, tendo em vista que há nos autos Escritura Publica lavrada em notas de tabelião, devidamente anotada pelo Cartório de Registro de Imóveis, sem qualquer indicação de que tenha sido objeto de ação própria que decretou a invalidade do seu registro, não há como excluir a validade da propriedade da Sra. Janice Brincas, desde o ano em que adquiriu o imóvel em comento, até a sua alienação ao recorrente no ano de 2001. Tampouco há como se afastar a fé pública que reveste a Escritura de compra e venda lavrada em 06/12/2001 e devidamente anotada no Registro Geral de Imóveis em 06/02/2002, quando da aquisição pelo ora recorrente dos 90% da propriedades que pertenciam à Sra. Janice Brincas. Portanto, nesta matéria, não merece reparos a decisão recorrida. Da omissão de rendimentos (juros e outros acréscimos) recebidos de pessoas jurídicas. Alienação de bens e direitos com reajuste de parcelas, não submetida a tributação. Afirma recorrente que inexiste a omissão de receitas imputada pelo Fisco, afirmando que decorrem de alienação de imóveis adquiridos em 1964 e 1967, o que imporia a aplicação do redutor prescrito no art. 179 do RIR/99. Alega que a ação fiscal não apurou ganho de capital nas operações de venda de tais imóveis e que nem o Auditor nem a decisão recorrida dimensionaram a exata extensão da base de cálculo da imposição fiscal, tendo ambos se limitado a dizer que se trata de juros e outros acréscimos, quando o correto seria o fisco identificar e segregar os juros dos outros acréscimos, já que parte dos valores são relativos a correção monetária, que não seria alcançado pela tributação, por não corresponder a acréscimo patrimonial. Afirma que não se aplica ao caso em tela os preceitos do § 3º do art. 19 da IN SRF nº 84/2001, pois as verbas recebidas não teriam conotação de reajuste e, ainda que aplicável, competiria às pessoas jurídicas adquirentes a retenção do tributo e os valores recebidos deveriam ser considerados como líquidos. Fl. 872DF CARF MF 14 Elencadas as razões da defesa, temse que, sobre a questão da responsabilidade da fonte pagadora, o contribuinte apresenta suas razões, interpreta a legislação e aponta precedentes administrativos. Contudo, tratase de tema sobre a qual este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais já se manifestou, uniforme e reiteradamente, tendo sido editada Súmula, de observância obrigatória, nos termos do art. 72 do RICARF, cujo teor destaco abaixo: Súmula CARF nº 12: Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção. Em relação à incidência ou não de tributação sobre os valore recebidos a título de juros e outros acréscimos, a Decisão recorrida rejeitou os argumentos expressos na impugnação, basicamente, por conta do que está previsto no § 3º, do art. 19, da IN SRF nº 84/2001: § 3o Os valores recebidos a título de reajuste, no caso de pagamento parcelado, qualquer que seja sua designação, a exemplo de juros e reajuste de parcelas, não compõem o valor de alienação, devendo ser tributados à medida de seu recebimento, na fonte ou mediante o recolhimento mensal obrigatório (Carnê Leão), quando a alienação for para pessoa jurídica ou para pessoa física, respectivamente, e na Declaração de Ajuste Anual. Vejamos o que prevê o Regulamento do Imposto de Renda, Decreto nº 3000/1999: Art. 72. Para fins de incidência do imposto, o valor da atualização monetária dos rendimentos acompanha a natureza do principal, ressalvadas as situações específicas previstas neste Decreto. (...) Art. 123. Considerase valor de alienação (Lei nº 7.713, de 1988, art. 19 e parágrafo único): (...) § 6º Os juros recebidos não compõem o valor de alienação, devendo ser tributados na forma dos arts. 106 e 620, conforme o caso. (...) Art. 140. Nas alienações a prazo, o ganho de capital deverá ser apurado como venda à vista e tributado na proporção das parcelas recebidas em cada mês, considerandose a respectiva atualização monetária, se houver Pelo que se depreende, embora inconteste que a atualização monetária esteja, como regra, sujeita a tributação, o tratamento e ela dispensado, em particular no que se relaciona ao ganho de capital, não é o mesmo do juros. No caso em tela, os valores que serviram de base ao lançamento, conforme fl. 672, decorrem de parcelas relativas a venda de imóveis à ACCR e ao Cesusc. Analisando os instrumentos de fl. 86/86, 89/92, 723/724 e 727/731, que tratam da operação de venda à Cesusc, podese concluir que as parcelas do preço negociadas foram corrigidas pelo IGPM e sofreram incidência de juros de mora à proporção de 1% ao mês. Fl. 873DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 867 15 Por sua vez, o instrumento relativo à operação com a ACCR, fl. 559/560, evidencia que as parcelas sofreram apenas correção pelo CUB, Custo Unitário Básico. Desta forma, há que se considerar o equívoco do lançamento ao submeter os valores relativos a atualização monetária ao mesmo tratamento devido aos juros recebidos, razão pela qual entendo procedentes em parte os argumentos da defesa, devendose afastar integralmente a omissão dos rendimentos apurada em relação aos pagamentos efetuados pela ACCR Construções Ltda. Já em relação à omissão de rendimentos apurada sobre os pagamentos recebidos da Cesusc Complexo de ensino Superior de Santa Catarina Ltda, esta deverá ser recalculada, devendose afastar a tributação sobre os valores recebidos a título de atualização monetária, mas manter a incidência fiscal sobre a parcela que corresponder a juros. Omissão de ganho de capital, na alienação de Bens e direitos em reais. — alienação dos direitos de construir. Sustenta o recorrente que, em 1999, teve parte de seu patrimônio expropriado pelo Município de Florianópolis, sendo indenizado não em dinheiro, mas por instrumento que lhe conferia o direito de construir igual metragem (19.671,53m²). Afirma que tal operação não gerou rendimentos, tampouco ganho de capital. Ocorre que o Fisco constituiu crédito tributário na operação de venda desses direitos, como se fosse fato novo, o que não se pode admitir, seja porque a operação de 1999 decorre da ato unilateral, onde não foi possível fixar preço, não tendo característica de alienação; seja porque não se confunde alienação com expropriação; seja porque tal expropriação não tem o poder de alterar ou extinguir os direitos assegurados ao longo da aquisição, ocorrida em 1964 e 1967. Alega que o direito à redução do ganho de capital de que trata o art. 139 do RIR/99 também se constitui patrimônio do recorrente e deve ser preservado, afirmando que a natureza jurídica da metragem recebida tem característica eminentemente indenizatória e não remuneratória. Afirma que, desde a aquisição do imóvel, sempre teve a sua disposição o "direito de construir" e colaciona entendimento doutrinário e judicial sobre o caráter de reposição patrimonial do quantum recebido pelo titular da propriedade expropriada. São estas os argumentos recursais. O "direito de construir" alienado, ao contrário do que afirma o recorrente, não é algo que já pertencesse ao seu patrimônio desde a aquisição do imóvel. Tratase, na verdade, de um direito que confere ao seu titular a prerrogativa de construir acima dos limites definidos pelo Plano Diretor para sua localidade. Ou seja, o que já pertencia ao recorrente era o direito de construir definido pela municipalidade para a área em que se situava a propriedade. Ao receber o benefício, o proprietário passou a ter um potencial construtivo de sua propriedade ampliado, neste caso, na ordem de 19.671,53m². A Lei 7.713/88 estabelece, no § 3º do art. 3º, prevê: § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem alienação, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua Fl. 874DF CARF MF 16 aquisição, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. A análise dos Decretos inseridos nos autos a partir de fl. 107 não deixa dúvidas de que parte da propriedade do recorrente foi desapropriada. Portanto, tratase de uma operação que, para fins de apuração de ganho de capital, é considerada pela legislação como alienação. Não obstante, o bem recebido em troca não guarda relação com o bem desapropriado, já que o eventual ganho de capital é apurado na alienação (desapropriação), sendo neste ato considerados e usufruídos eventuais benefícios fiscais decorrentes de redução de ganho para fins de tributação. O que se tem é que são duas operações distintas. Uma decorrente da alienação por desapropriação de um bem imóvel e outra decorrente da alienação de um direito ("direito de construir"). A natureza indenizatória suscitada pela defesa está atrelada ao que se recebe pela desapropriação e não acompanhará o bem recebido em contrapartida por toda a eternidade. Se assim fosse, poderíamos imaginar que a alienação de um bem imóvel com redução de 100% do ganho de capital auferido daria ensejo ao surgimento de um outro bem ou direito qualquer que carregaria as benesses relacionadas à tributação sobre o ganho de capital na alienação de bens imóveis. Portanto, não tendo o contribuinte apresentado qualquer questionamento quanto ao custo de aquisição considerado pela Fiscalização para apuração do ganho de capital na alienação do direito recebido em contrapartida à desapropriação de parte de sua propriedade, não há mais nada a ser considerado no presente voto, restando improcedentes os argumentos recursais. Conclusão Por tudo que consta nos autos, bem assim nas razões e fundamentos legais acima expostos, dou provimento parcial ao Recurso Voluntário para determinar o recálculo do lançamento relativo à omissão de rendimentos (juros e outros acréscimos) recebidos de pessoas jurídicas. Alienação de bens e direitos com reajuste de parcelas, não submetida a tributação, excluindose a omissão apurada em relação a todos os pagamentos efetuados pela ACCR Construções Ltda e, em relação aos pagamentos efetuados pela Cesusc Complexo de ensino Superior de Santa Catarina Ltda, devese excluir a parcela dos pagamentos que se refere à atualização pelo IGPM, mantendose a exigência fiscal sobre a parcela que corresponder a juros. Carlos Alberto do Amaral Azeredo Relator Fl. 875DF CARF MF Processo nº 11516.001441/200809 Acórdão n.º 2201003.894 S2C2T1 Fl. 868 17 Fl. 876DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13737.000744/2005-84
Turma: Segunda Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue May 24 00:00:00 UTC 2011
Ementa: Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples. Ano calendário: 2000 Ementa: NULIDADE DE ATO ADMINISTRATIVO - É nulo o despacho decisório que nega a inclusão da pessoa jurídica no Simples limitando-se a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa.
Numero da decisão: 1802-000.889
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para anular o Despacho Decisório, devolvendo-se os autos à DRF de origem, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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ementa_s : Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples. Ano calendário: 2000 Ementa: NULIDADE DE ATO ADMINISTRATIVO - É nulo o despacho decisório que nega a inclusão da pessoa jurídica no Simples limitando-se a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa.
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Ano calendário: 2000 Ementa: NULIDADE DE ATO ADMINISTRATIVO É nulo o despacho decisório que nega a inclusão da pessoa jurídica no Simples limitandose a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para anular o Despacho Decisório, devolvendose os autos à DRF de origem, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (documento assinado digitalmente) Ester Marques Lins De Sousa – Presidente e Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, José De Oliveira Ferraz Corrêa, Marco Antonio Nunes Castilho, Nelso Kichel, André Almeida Blanco e Marcelo de Assis Guerra. Fl. 1DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA 2 Relatório Por economia processual e bem descrever a lide adoto o Relatório da decisão recorrida (fl.136) que a seguir transcrevo: Trata o presente processo de manifestação de inconformidade de fls. 74/77, apresentada pela interessada em face do Despacho Decisório de f1.62, proferido no âmbito da DRF/Niterói, por meio do qual ela teve indeferido seu pedido de inclusão retroativa no Simples. Nos termos do referido despacho de fl. 62, a Autoridade Fiscal da DRF/Niterói fundamentou o indeferimento do pedido por não constar a opção pelo Simples em nenhum dos sistemas da Receita Federal e na existência de débitos inscritos em Dívida Ativa, nos termos do art. 9° da Lei n°9.317/96. Em sua manifestação de inconformidade (fls. 74/77), acompanhada dos documentos de fls. 78/133, a interessada alega, em síntese que: 1. De forma inequívoca, pela apresentação das declarações simplificadas (fls. 03/17) e nos comprovantes de pagamentos de DARF Simples (fls.80/130), fez a opção pelo regime de tributação pelo Simples; 2. Ocorreu um erro de fato no momento do preenchimento da FCPJ, tendo sido solicitada a reinclusão no Simples, visto que foram atendidas as condições exigidas (fl. 133); 3. Em conseqüência do desenquadramento da interessada ocorrida em 2004, a Secretaria da Receita Federal não recepcionou a declaração simplificada referente ao ano calendário de 2003; 4. Por um erro de gestão contábil e inexperiência para situações desse tipo, a interessada entregou as DCTF desde 2000 e a DIPJ 2004 pelo regime de Lucro Presumido; 5. No ano calendário de 2003, a interessada recolheu seus tributos pelo regime simplificado utilizando o código 6106, motivo pelo qual gerou uma série de débitos junto ao setor de arrecadação, ocasionando a inscrição em Dívida Ativa, com débitos de IRPJ, CSLL, COFINS, PIS e multa na entrega em atraso de DCTF; 6. Todas as inscrições são resultantes de débitos que decorreram de erro de interpretação em virtude do desenquadramento da interessada do regime simplificado, os quais estão sendo questionados no presente processo. Fl. 2DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 13737.000744/200584 Acórdão n.º 180200.889 S1TE02 Fl. 2 3 A 1ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ/Rio de Janeiro/RJOI), decidiu pelo indeferimento da solicitação do Contribuinte mediante o Acórdão nº 1219.504, de 12/06/2008 (fls.135/137), assim ementado: ASSUNTO: SISTEMA INTEGRADO DE PAGAMENTO DE IMPOSTOS E CONTRIBUIÇÕES DAS MICROEMPRESAS E DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE SIMPLES Anocalendário: 2000,2001,2002,2003 SIMPLES. PENDÊNCIAS JUNTO A PGFN. A existência de débitos inscritos em Dívida Ativa impede a opção pelo Simples. A empresa foi cientificada da decisão acima, em 03/10/2008, no Termo de Intimação (fl.140), e, interpôs o recurso voluntário ao Conselho de Contribuintes atual Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, em 04/11/2008, fl.142/154, preliminarmente alegando a tempestividade e em seguida os seguintes argumentos, em síntese: DA FALTA DE OPORTUNIDADE PARA AMPLA DEFESA E CONTRADITÓRIO A recorrente alega que o Fisco ao inscrever os débitos em dívida ativa fundados no inadimplemento em tributos que compõem o SIMPLES, instituído pela Lei n° 9.317, de 1996, deixou de comunicar a decisão de indeferimento exarada em março de 2004, em processo administrativo de iniciativa da ora recorrente, protocolado sob o n° 13737.000108/200471 que não reconheceu o direito de a recorrente ter confirmada a validade de sua opção pelo SIMPLES FEDERAL. Aduz que dessa forma há um "elo perdido", provocado pela falta de sua notificação regular, que confundiu a própria recorrente na providência a tomar, reconduzindo a questão nesse processo, cuja decisão é objeto do presente recurso. A recorrente enfatiza que Hamilton de Assis, a pessoa física que recebeu a intimação postal em 05.04.2004,fl.193, não é sócio, administrador ou pertence ao quadro funcional da contribuinte, ora recorrente, nem lhe presta serviços ocasionais. A edificação que guarnece a sede da MICROCENTER não comporta funcionários de portaria, estabelecida em local desprovido de organização condominial, o que inibe qualquer conclusão de retenção indevida ou extravio por ação ou omissão de eventuais responsáveis pela portaria. Portanto, a falta de comunicação surge a seqüência de atos procedimentais cujo processamento, posteriormente, deu ensejo à inscrição na dívida ativa da União do suposto crédito tributário devido pela ora recorrente. DA INCLUSÃO NO SIMPLES COMO ATO JURÍDICO PERFEITO CONFIRMADOR DO DIREITO ADQUIRIDO DA RECORRENTE A recorrente afirma que preenchia os requisitos para o reconhecimento da juridicidade de sua opção em submeterse ao SIMPLES FEDERAL, pois, a conservação de atividade de manutenção de equipamentos (não raras vezes utilizada para agregar à venda de microcomputadores), desprovida de knowhow específico da produção intelectual de analista ou programador segundo a orientação do próprio sujeito ativo já seria suficiente, por si só, para, em exame da verdade material, afastar qualquer controvérsia eficaz sobre a certeza da Fl. 3DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA 4 válida opção da recorrente, ao adotar o regime do SIMPLES FEDERAL e passar a recolher tributos federais pela formatação da Lei n° 9.317, de 1996. A recorrente transcreve jurisprudência administrativa às fls.148/149 para fortalecer seus argumentos no sentido de que os “Serviços de instalação, manutenção e reparação de máquinas de escritório e de informática”, objeto social da empresa, não necessitam de profissional com atividade regulamentada. Portanto, usufruía regularmente do SIMPLES FEDERAI, nos exercícios que se seguiram à opção até a inatividade, oferecendo as declarações simplificadas. Argúi a recorrente que, o ato administrativo que consolidou a exclusão da MICROCENTER do regime especial de tributação próprio das microempresas (SIMPLES FEDERAL), e operou lançamento de impostos e penalidades em regime diverso do apropriado às microempresas optantes, com posterior inscrição na dívida ativa da União, encontrase eivado de vício insanável que contamina, e torna ilícita, a respectiva inscrição. Sob o título de “A CONSIDERAÇÃO DO PAGAMENTO E O ENRIQUECIMENTO DO FISCO”, a recorrente aduz que, caso não haja reconhecimento, por esse Egrégio Conselho de Contribuintes, do vício de informação que contamina os atos posteriores (item acima), nem da notória condição qualitativa e quantitativa que ostenta a recorrente para lograr o regime simplificado da Lei n° 9.317, de 1996, a ela ilicitamente recusado, ainda caberá o direito à compensação ou restituição, à escolha da contribuinte, sob pena de enriquecimento sem causa do Fisco. Finalmente, a recorrente requer o provimento do presente recurso para RECONHECER o direito subjetivo da MICROCENTER a ter promovido regularmente o recolhimento tributário pelo regime do SIMPLES FEDERAL, Lei n° 9.317, de 1996, e DETERMINAR a COMPENSAÇÃO dos recolhimentos tributários já realizados nos exercícios fiscais em que houve a opção pelo SIMPLES FEDERAL, sob pena de enriquecimento sem causa do FISCO FEDERAL. É o relatório. Fl. 4DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 13737.000744/200584 Acórdão n.º 180200.889 S1TE02 Fl. 3 5 Voto Conselheira Relatora Ester Marques Lins de Sousa O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72, dele conheço. Compulsandose os autos, constatase a partir das fls.155, cópia do processo nº 13737.000108/200471, acima mencionado, com despacho decisório às fls.190/191, no qual a autoridade administrativa indefere o pleito de opção do contribuinte ao SIMPLES, com a seguinte motivação, verbis: Tratase de solicitação de inclusão de ofício no SIMPLES com efeitos retroativos em virtude de ter o contribuinte efetuado os recolhimentos pelo sistemática do SIMPLES; apresentado as declarações do IRPJ pelo PJ SIMPLES, alegando que possui, desde o inicio, todos os requisitos para o enquadramento no simples. Entretanto, verificase que o contribuinte em epigrafe está sujeito às vedações estabelecidas no art. 9º da Lei n° 9317/96 para opção pelo .SIMPLES, face o seu objeto social, qual seja “prestação de serviços de Manutenção em microcomputadores e Periféricos”, conforme contrato social às fls.14/16; corroborado pelo:CNAE n° 72508 às fls.34... Assim sendo é de se indeferir o pedido de inclusão retroativa no SIMPLES. Já o Despacho Decisório de fl.62 proferido no presente processo (13737.000744/2005 84), a autoridade administrativa da DRF/Niterói fundamentou o indeferimento do pedido em outros termos, a saber: A demanda sob análise consiste em pedido do contribuinte para inclusão no SIMPLES de forma retroativa. Primeiramente, devese ressalvar que a inclusão no SIMPLES é ato que depende de manifestação de vontade cuja forma é determinada em lei, qual seja, a alteração cadastral por meio da FCPJ (art. 8°, § 1°, da Lei n° 9.317/96). Malgrado o contribuinte informar que efetuou a sua opção, não constam dos sistemas nenhuma opção realizada. Fl. 5DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA 6 Outrossim, ao se realizar a simulação determinada pela Nota Técnica CORAT/CODAC/DIPEJ/N° 044, verificase que o contribuinte possui nove inscrições em dívida ativa. Este fato impede a inclusão da empresa no regime de tributação simplificado nos termo do art. 9°, da Lei 9317/96. No tocante ao objeto social da recorrente o entendimento desse Conselho Administrativo encontrase expresso na súmula 57, verbis: Súmula CARF nº 57: A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Depreendese do último despacho decisório uma revisão implícita do ato administrativo anterior, haja vista não haver constado a vedação em face do objeto social, qual seja “prestação de serviços de Manutenção em microcomputadores e Periféricos”. Dessa forma qualquer débito inscrito em dívida ativa decorrente do primeiro despacho decisório merece também ser revisto de ofício. Observo que o contribuinte apresentou as declarações simplificadas (fls. 03/17) e comprovantes de arrecadação – código 6106 DARF Simples (fls.88/130), relativos ao período de apuração de junho/2000 a dezembro/2003 o que denota a opção pelo regime de tributação pelo Simples nos termos do Ato Declaratório Interpretativo SRF no 16, de 2 de outubro de 2002 (fl.132). Examinandose o último despacho decisório (fl.62) de que tratam os presentes autos, NÃO consta a indicação dos débitos inscritos em dívida ativa que impedem a inclusão da empresa no regime de tributação simplificado nos termo do art. 9°, da Lei 9317/96. A conclusão que se extrai da Súmula CARF nº 22 é que a omissão desse quilate enseja a nulidade do ato administrativo, vejamos: Súmula CARF nº 22: É nulo o ato declaratório de exclusão do Simples que se limite a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União ou do INSS, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa Portanto, de forma análoga, há de se concluir que também é nulo o despacho decisório que nega a inclusão da pessoa jurídica no Simples limitandose a consignar a existência de pendências perante a Dívida Ativa da União, sem a indicação dos débitos inscritos cuja exigibilidade não esteja suspensa. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso voluntário para anular o Despacho Decisório em comento e seus consectários, encaminhando se os autos à Delegacia da Receita Federal do Brasil em Niterói/ RJ para que seja proferido novo ato administrativo, na boa e devida forma. (documento assinado digitalmente) Ester Marques Lins De Sousa Fl. 6DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Processo nº 13737.000744/200584 Acórdão n.º 180200.889 S1TE02 Fl. 4 7 Fl. 7DF CARF MF Emitido em 01/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA Assinado digitalmente em 29/05/2011 por ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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Numero do processo: 10314.724206/2015-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jun 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Aug 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Importação - II
Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA E COMPROVADA. DIFERENÇA.
Quanto a forma de comprovação, a interposição fraudulenta de terceiros na operação de importação classifica-se em comprovada (ou direta) ou presumida (ou indireta). A interposição fraudulenta comprovada é aquela em que há a comprovação da pessoa jurídica acobertada, enquanto que a interposição fraudulenta presumida é aquela em que não há identificação da pessoa jurídica ocultada pelo pessoa jurídica importadora que não comprova a origem, a disponibilidade e a transferência lícita dos recursos empregados na operação de importação.
DANO AO ERÁRIO. CARACTERIZAÇÃO POR DISPOSIÇÃO LEGAL. COMPROVADA A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. OCORRÊNCIA.
Caracteriza dano ao erário a importação de mercadoria com a ocultação do real comprador, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014
DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INFRAÇÕES. DA SUJEIÇÃO PASSIVA.
Respondem de forma conjunta ou isoladamente, o importador e o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por conta e ordem deste, por intermédio de pessoa jurídica importadora, não cabendo benefício de ordem.
Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014
AUTO DE INFRAÇÃO. ADEQUADA DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade, por cerceamento do direito de defesa ou falta de motivação, o auto de infração em que há precisa descrição dos fatos e adequado e correto enquadramento legal.
DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. FUNDAMENTO JURÍDICO IDÊNTICO AO AUTUAÇÃO. NULIDADE POR MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de nulidade, por mudança de critério jurídico, a decisão de primeira instância que adotou o mesmo fundamento jurídico registrado na autuação.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.441
Decisão: Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento aos recursos voluntários, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado que dava provimento aos recursos e os Conselheiros José Fernandes do Nascimento e José Renato Pereira de Deus, que acolhiam a preliminar de ilegitimidade passiva da JM. Designada a Conselheira Maria do Socorro Ferreira Aguiar para redigir o voto vencedor quanto à legitimidade passiva da JM e o Conselheiro José Fernandes do Nascimento para redigir o voto vencedor quanto às demais matérias.
[assinado digitalmente]
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
[assinado digitalmente]
Lenisa Rodrigues Prado - Relatora
[Assinado digitalmente]
Maria do Socorro Ferreira Aguiar - Redatora designada
[Assinado digitalmente]
José Fernandes do Nascimento - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, José Renato Pereira de Deus, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araújo.
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA PRESUMIDA E COMPROVADA. DIFERENÇA. Quanto a forma de comprovação, a interposição fraudulenta de terceiros na operação de importação classificase em comprovada (ou direta) ou presumida (ou indireta). A interposição fraudulenta comprovada é aquela em que há a comprovação da pessoa jurídica acobertada, enquanto que a interposição fraudulenta presumida é aquela em que não há identificação da pessoa jurídica ocultada pelo pessoa jurídica importadora que não comprova a origem, a disponibilidade e a transferência lícita dos recursos empregados na operação de importação. DANO AO ERÁRIO. CARACTERIZAÇÃO POR DISPOSIÇÃO LEGAL. COMPROVADA A INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. OCORRÊNCIA. Caracteriza dano ao erário a importação de mercadoria com a ocultação do real comprador, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014 DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA POR INFRAÇÕES. DA SUJEIÇÃO PASSIVA. Respondem de forma conjunta ou isoladamente, o importador e o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por conta e ordem deste, por intermédio de pessoa jurídica importadora, não cabendo benefício de ordem. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 09/05/2012 a 26/05/2014 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 42 06 /2 01 5- 33 Fl. 5141DF CARF MF 2 AUTO DE INFRAÇÃO. ADEQUADA DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL. DECLARAÇÃO DE NULIDADE. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, por cerceamento do direito de defesa ou falta de motivação, o auto de infração em que há precisa descrição dos fatos e adequado e correto enquadramento legal. DECISÃO DE PRIMEIRA INSTÂNCIA. FUNDAMENTO JURÍDICO IDÊNTICO AO AUTUAÇÃO. NULIDADE POR MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de nulidade, por mudança de critério jurídico, a decisão de primeira instância que adotou o mesmo fundamento jurídico registrado na autuação. Recurso Voluntário Negado. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em negar provimento aos recursos voluntários, vencida a Conselheira Lenisa Rodrigues Prado que dava provimento aos recursos e os Conselheiros José Fernandes do Nascimento e José Renato Pereira de Deus, que acolhiam a preliminar de ilegitimidade passiva da JM. Designada a Conselheira Maria do Socorro Ferreira Aguiar para redigir o voto vencedor quanto à legitimidade passiva da JM e o Conselheiro José Fernandes do Nascimento para redigir o voto vencedor quanto às demais matérias. [assinado digitalmente] Paulo Guilherme Déroulède Presidente. [assinado digitalmente] Lenisa Rodrigues Prado Relatora [Assinado digitalmente] Maria do Socorro Ferreira Aguiar Redatora designada [Assinado digitalmente] José Fernandes do Nascimento Redator designado Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, José Fernandes do Nascimento, José Renato Pereira de Deus, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo e Walker Araújo. Relatório Fl. 5142DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.142 3 Tratase de auto de infração lavrado em desfavor das ora recorrentes em decorrência da constatação que a contribuinte JM Soluções Exportação e Importação Ltda não seria a real adquirente das mercadorias por ela importadas, e que atuaria como interposta pessoa em operações de comércio exterior em favor da contribuinte Pearson Education do Brasil S.A.. Diante dos fatos apontados pela autoridade fiscal, foi imposta a multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas em substituição a pena de perdimento, o que corresponde ao montante de R$ 27.982.327,60. Tomo de empréstimo o relatório apresentado na oportunidade do julgamento da impugnação da contribuinte: "O presente procedimento originouse do resultado do procedimento especial de fiscalização aduaneira regido pela IN SRF n° 228/2002 que concluiu que a empresa JM SOLUÇÕES EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO LTDA CNPJ 08.045.610/000113, praticava interposição fraudulenta com objetivo de ocultar o real adquirente das mercadorias importadas em seu nome, sendo comprovado que a real adquirente é a empresa MULTI BRASIL, que foi sucedida pela PEARSON. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3°, do Decreto Lei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. A empresa PEARSON EDUCATION DO BRASIL S.A. foi cientificada do Auto de Infração por via eletrônica, em 15/10/2015 (fls. 1.886). A empresa JM SOLUCÕES EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO LTDA foi cientificada do Auto de Infração, via Aviso de Recebimento, em 16/10/2015" (fls. 1.886). A empresa PEARSON EDUCATION DO BRASIL S.A. protocolizou impugnação, tempestivamente em 13/11/2015, na forma do artigo 56 do Decreto n° 7.574/2011, de fls. 1.893 à 1.952, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. O impugnante em sua defesa alegou os seguintes pontos: (i) A arguição de nulidade do lançamento pela ausência da subsunção do fato à norma; (ii) A arguição de real existência e funcionamento da empresa JM soluções no endereço cadastral da receita Federal; (iii) A arguição de capacidade econômicofinanceira da JM SOLUÇÕES atestado pela Receita Federal; (iv) A dinâmica da operação: origem e aplicação dos recursos, regularidade das operações e inocorrência de fraude; Fl. 5143DF CARF MF 4 (v) A arguição de demonstração da origem dos recursos utilizados pela JM SOLUÇÕES; (vi) A arguição de inexistência de fraude ou simulação e da ausência de sua caracterização; (vii) A arguição de inexistência da tipificação da conduta da impugnante; (viii) A arguição de inexistência de dano ao Erário. * DO PEDIDO As razões fáticas e jurídicas apresentadas nesta peça defensória levam à indubitável e cristalina conclusão de que não pode prevalecer o Auto de Infração lavrado em face da Impugnante para imposição da multa de perdimento de bens. Assim é que, com fundamento em todos os dispositivos legais e constitucionais invocados na presente Impugnação, bem assim nos princípios nesta peça referenciados, requer a Impugnante: Seja declarada a NULIDADE do presente Auto de Infração, uma vez que não especificou a conduta dolosa da Impugnante que levaria à tipificação da ocultação na operação de importação. Caso não seja acolhida a preliminar de nulidade, o que se admite para argumentar, que seja dado INTEGRAL PROVIMENTO à presente Impugnação para cancelar o Auto de Infração e, conseqüentemente, a multa alternativa à pena de perdimento de bens aplicada contra a Impugnante. Por fim, a Impugnante requer o direito de provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente a juntada de novos documentos, caso seja necessário. A empresa JM SOLUÇÕES EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO LTDA protocolizou impugnação, tempestivamente em 13/11/2015, na forma do artigo 56 do Decreto n° 7.574/2011, de fls. 2.987 à 3.056. O impugnante em sua defesa alegou os seguintes pontos: A argüição de impossibilidade da indicação da ora impugnante 'JM SOLUÇÕES' como responsável solidária por já ter sofrido a punição prevista no artigo 33 da Lei n. 11.488/2007; * DO PEDIDO Fl. 5144DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.143 5 As razões fáticas e jurídicas apresentadas nesta peça defensória levam à indubitável e cristalina conclusão de que não pode prevalecer o Auto de Infração lavrado em face da Impugnante para imposição da multa de perdimento de bens. Assim é que, com fundamento em todos os dispositivos legais e constitucionais invocados na presente Impugnação, bem assim nos princípios nesta peça referenciados, requer a Impugnante: Seja excluída do pólo passivo da presente autuação, em virtude de já ter sido punida com a penalidade específica do 33 da Lei n.° 11.488/2007 em outro processo administrativo, relativa às importação ocorridas entre maio/2012 e maio/2014, para as quais teria figurado como interposta pessoa; Seja declarada a NULIDADE do presente Auto de Infração, uma vez que não especificou a conduta dolosa da Impugnante e da devedora principal que levaria à tipificação da ocultação na operação de importação; Caso não a Impugnante excluída do pólo passivo ou não seja acolhida a preliminar de nulidade, o que se admite para argumentar, que seja dado INTEGRAL PROVIMENTO à presente Impugnação para cancelar o Auto de Infração e, consequentemente, a multa alternativa à pena de perdimento de bens aplicada contra a Impugnante. Por fim, a Impugnante requer o direito de provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente a juntada de novos documentos, caso seja necessário. A 23ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em São Paulo decidiu baixar os presentes autos em diligência, através da Resolução n° 16.000.611, de 15 de dezembro de 2015, indagando à autoridade preparadora o seguinte: * Quanto a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação Os documentos juntados à impugnação da empresa JM SOLUÇÕES (em particular os Documentos do anexo 10) são suficientes para a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? Fl. 5145DF CARF MF 6 Os documentos juntados à impugnação da empresa JM SOLUÇÕES (em particular os Documentos do anexo 10) demonstram o regular trânsito dos recursos pela conta corrente da empresa para adimplir o FECHAMENTO DO CÂMBIO nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? O aporte de R$ 7.000.000,00 feito por sua sócia VCCL PARTICIPAÇÕES está regularmente contabilizado e esse montante se prestou a adimplir a primeira importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 5.572.375,50? a. Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? 4. O saldo desses recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados ao resultado positivo auferido na revenda dos produtos da primeira importação, adimpliram a segunda importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 4.246.878,92? a. Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? 5. O saldo dos recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados aos resultados positivos auferidos na revenda dos produtos da primeira e segunda importações, adimpliram a terceira importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 3.668.983,64 a. Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? 6. Para as demais analises referentes aos documentos juntados à impugnação da empresa JM SOLUÇÕES (em particular os Documentos do anexo 10) faça as considerações que julgar necessário. * Quanto ao Processo Administrativo N.° 10314.727.979/201491: Fl. 5146DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.144 7 A infração por "ocultação do sujeito passivo", tipificada no inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, que pauta a exigência do presente Auto de Infração, é concomitante com a infração por "cessão de nome", infração tipificada no artigo 33 da Lei n° 11.488/2007, pois o importador de direito (interposta pessoa) CEDE O NOME para o importador de fato (sujeito passivo oculto). Se a autoridade preparadora entende que existiu prática de interposição fraudulenta de terceiros, na forma do inciso V, do artigo 23 do Decreto Lei n° 1.455/76, por força do dever de ofício deve proceder o lançamento da multa referente a infração por "cessão de nome" tipificada no artigo 33 da Lei n° 11.488/2007. A reunião dos dois processos é fundamental, por força do instituto da CONEXÃO, previsto no artigo do Código Processo Civil de uso subsidiário ao Decreto n° 70.235/72 a fim de se evitar decisões de MÉRITO conflitantes. Procede a afirmação de que o Processo Administrativo N.° 10314.727.979/201491 é referente à infração por "cessão de nome" tipificada no artigo 33 da Lei n° 11.488/2007 e guarda relação com a presente ação fiscal? Em caso positivo, informar a sua situação e sua localização. Se o processo ainda estiver junto à autoridade preparadora, que esse seja remetido à 23a Turma da Delegacia Regional de Julgamento em São Paulo. Findada a instrução, intimouse a parte interessada, por via eletrônica em 25/05/2016, (folhas 4.327) concedido o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, em atenção ao art. 28 da Lei No. 9.784/99 c/c art. 35, Parágrafo único do Decreto 7.574/2011. A parte interessada se manifestou no sentido de reforçar as alegações já apresentadas na impugnação. É assinalado que a parte interessada, em 18/07/2016, apresentou Opinião Técnica elaborada pela EY que responde, a partir dos elementos probatórios constantes do processo, positivamente a todos os questionamentos suscitados pela DRJ no tocante ao trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação". A instância de origem julgou improcedente a impugnação apresentada pela ora recorrente, em acórdão que resultou na seguinte ementa: Fl. 5147DF CARF MF 8 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 05/05/2009 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastálo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Irresignada, as contribuintes interpuseram recursos voluntários, o que ensejou a subida dos autos do processo a este Conselho. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Lenisa Rodrigues Prado, Relatora A contribuinte Pearson Education do Brasil S.A. foi intimada sobre os termos insertos no acórdão proferido pela instância de origem em 10/08/20161, e interpôs o tempestivamente o recurso voluntário em 05/09/2016 (fls. 4521/4592), conforme atesta o Termo de Solicitação de Juntada (fl.4520). A empresa J M Solução Exportação e Importação foi intimada sobre o teor do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamentos em São Paulo em 17/08/2016 (Aviso de Recebimento Postal à folha 4508, e protocolizou o seu recurso voluntário (fls.4799/4884) em 08/09/2016, conforme consta no Termo de Análise de Solicitação de Juntada à folha 5015 dos autos eletrônicos. 1 Termo de Abertura de Documento acostado à folha 4515, e a mesma data está registrada no Termo de Ciência por Abertura de Mensagem, à folha 4517. Fl. 5148DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.145 9 Presentes os pressupostos extrínsecos de admissibilidade dos recursos, passo a examinálos. 1. RECURSO VOLUNTÁRIO APRESENTADO PELA PEARSON EDUCATION DO BRASIL S.A. A recorrente esclarece que a autuação fiscal foi contra si lavrada e, solidariamente, também foi processada e apenada a contribuinte JM Soluções Exportação e Importação, pois, de acordo com os fundamentos apresentados pela autoridade fiscal, a JM Soluções teria ocultado a Multi Brasil Franqueadora e Participações Ltda (a quem a Pearson Education sucedeu através de incorporação). A recorrente Pearson informa que no ano de 2014 adquiriu a empresa VCCL Participações S.A., passando a deter o controle acionário do grupo Multi Brasil que é composto por escolas de idioma e cursos profissionalizantes como a Wizard, Yázigi, Skill, Microlins, dentre outras. Um dos atributos que diferenciam as suas escolas de outras no mercado brasileiro é a disponibilização para seus franqueados de dispositivos óticos para a leitura dos textos contidos nos livros didáticos utilizados pelos alunos da rede. Para promover a importação desses aparelhos a recorrente2 optou por adquirir a JM Soluções no ano de 2011, que é pessoa jurídica que já tinha o propósito promover operações de comércio exterior (e, por tal motivo, já detinha o registro e habilitação no Siscomex, bem como todos os demais requisitos legais). Com a aquisição da JM Soluções, esta foi posicionada como a empresa importadora do grupo. Com efeito, visando a consecução regular de sua finalidade, a JM Soluções promoveu, entre maio de 2012 e maio de 2014 as importações, tanto na modalidade por encomenda, como na modalidade por conta e ordem, das canetas leitoras e cartões utilizados pela Pearson em suas atividades de ensino. Os produtos foram importados pela Recorrente por intermédio da importadora Komport. Os produtos foram, após o desembaraço aduaneiro, adquiridos pela Multi Brasil (atual Pearson), não existindo nenhuma irregularidade nessa operação. A JM Soluções e a Multi Brasil tinham como quotistas a mesma pessoa jurídica VCCL Participações e faziam parte do mesmo grupo empresarial (antigo Grupo Multi Brasil) e realizavam as operações comerciais de venda e compra das mercadorias importadas pela JM Soluções. Desse modo, nas palavras da Recorrente, não há como prosperar a alegada ocultação. Esclarece ainda que: "Não há dúvida, inclusive é fato incontroverso trazido pelo próprio Agente Fiscal, de que a JM Soluções e a Multi Brasil eram pessoas jurídicas 'irmãs' com a mesma composição acionária. De fato, a empresa VCCL Participações detinha 100% do capital acionário da JM Soluções e 100% da Multi Brasil à época das operações de importação, conforme atestado no relatório fiscal da autuação. Conforme comprovado pela 2 À época dos fatos a controladora VCCL Participações S.A. foi quem promoveu a negociação de compra da empresa JM Soluções. Fl. 5149DF CARF MF 10 Recorrente em sua Impugnação, a ligação societária existente entre as empresas (mesmo quotista) sempre esteve aberta para o conhecimento do Fisco, nunca tendo sido ocultada, pois devidamente registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo, conforme Ficha Cadastral anexa (doc. 6 impugnação). Portanto, a JM Soluções e a Recorrente, à época Multi Brasil, tinham como quotistas a mesma pessoa jurídica (VCCL Participações, adquirida pela Recorrente em 2014), faziam parte do mesmo grupo empresarial (antigo Grupo Multi Brasil) e realizavam operações comerciais de venda e compra das mercadorias importadas pela JM Soluções (...) Importante destacar que dentro da autonomia privada o Grupo se estruturou para ter uma empresa para fazer as importações a JM e, no caso, essa empresa não poderia vender diretamente as canetas para a rede franqueada, porque a rede franqueada mantinha contratos de franquia com a empresa MULTI. Assim, na estrutura do Grupo, havia uma empresa importadora (dentre as outras empresas que compunham o Grupo) e tal forma de composição, de forma alguma, pode ser considerada ilícita não oponível ao Fisco". Apresentados os esclarecimentos, passou a tecer considerações sobre seus argumentos de defesa. 1.1. PRELIMINARES. 1.1.1.NULIDADE DO LANÇAMENTO PELA AUSÊNCIA DA SUBSUNÇÃO DO FATO À NORMA INADEQUADA FUNDAMENTAÇÃO LEGAL. A recorrente sustenta que a imprecisão no enquadramento e a ausência de comprovação da fraude ou simulação supostamente praticadas é causa de nulidade por violação aos Princípios constitucionais do Contraditório e da Ampla Defesa. A nulidade da autuação fiscal está, de acordo com a contribuinte, no fato de ter sido a ela atribuída a prática do ilícito descrito no inciso V do art. 23 do Decreto Lei n. 1.455/19763, onde está descrita a infração da interposição fraudulenta direta, porém não há a indicação de atos que configurem fraude ou dolo por parte da recorrente. E a motivação apresentada pela autoridade é inadequada, já que: "alegou a fiscalização em seu relatório fiscal que a origem dos recursos da JM Soluções vem dos aportes de sua quotista VCCL e que a JM não comprovou a origem dos recursos que foram utilizados para realização das operações de importação ocorridas entre maio de 2012 e maio de 2014 o que ensejaria a interposição fraudulenta pelo modo presumido". A contribuinte sintetiza a lógica apresentada para demonstrar a nulidade da autuação da seguinte maneira: 3 Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Fl. 5150DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.146 11 "I. Ausência de enquadramento legal pelo Agente Fiscal, na medida em que não especificou se a alegada conduta da interposição fraudulenta foi realizada de forma presumida ou direta. Essa ausência de tipificação configura o cerceamento de defesa na medida em que o Contribuinte não teve ciência da conduta tida como típica bem como do eventual critério objetivo que ensejou a interposição do Agente de que a Recorrente agiu com fraude, dolo ou simulação. II. Há incorreção no cotejo entre a norma tributária (hipótese de incidência) com o fato jurídico tributário". A recorrente afirma, ainda, que o fato da instância de origem ter convertido o julgamento da impugnação em diligência reforça tal alegação, já que o motivo para tal providência foi a necessidade de se afastar a hipótese de interposição fraudulenta na modalidade presumida, o que foi efetivamente alegada no lançamento. Por esses motivos a recorrente afirma que o lançamento deveria ter sido declarado nulo pela DRJ, já que inexiste a indispensável especificação da conduta típica, o que resulta em preterimento ao direito de defesa, o que viola o art. 59 do Decreto n. 70.235/19724. Eu concordo com a alegação da contribuinte, porque a fundamentação inserta no auto de infração é no sentido de conformar a prática da interposição fraudulenta direta, mas, percebese a pretensão da autoridade preparadora em descaracterizar a fiscalização para tipificar a conduta da recorrente como interposição fraudulenta presumida. Tal esforço importa em evidente cerceamento de direito de defesa e resulta na hipótese prevista no art. 59 do Decreto n. 70.235/1972. Apesar de reconhecer a nulidade, ultrapasso esse momento para avaliar o mérito do recurso voluntário. 1.1.2. NULIDADE DA DECISÃO DA DRJ POR ALTERAÇÃO DO CRITÉRIO JURÍDICO DO LANÇAMENTO. A recorrente alega que os termos contidos na decisão proferida pela instância de origem demonstram que aqueles julgadores empenharamse para demonstrar que "as operações realizadas pela Recorrente visavam ocultar o real adquirente das mercadorias, sem que tal alegação tivesse constatado expressamente do lançamento". Aduz que: "(...) o Acórdão Recorrido alterou o critério jurídico do lançamento, em função da diligência realizada que afastou a tipificação da interposição fraudulenta pela forma presumida e, em razão do parecer fiscal que pretendeu 'consertar' o lançamento indicando diversas supostas condutas que poderiam tipificar o dolo. 4 Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º A nulidade de qualquer ato só prejudica os posteriores que dele diretamente dependam ou sejam conseqüência. Fl. 5151DF CARF MF 12 A diligência resultou da necessidade de complementação de informações, à vista da juntada, pela Recorrente, de uma série de documentos que comprovam a regularidade das operações de importação/aquisições de mercadorias. Ocorre que ao examinar os quesitos elaborados pela C. Turma de Julgamento, a autoridade preparadora exorbitou dos objetivos da diligência, pois apresentou respostas que ultrapassaram o escopo das perguntas elaboradas pela DTJ". E conclui que ao acatar o que fora alegado pela autoridade preparadora na resposta a diligência determinada, a turma julgadora alterou o critério jurídico do lançamento que não descreveu a conduta típica dolosa supostamente praticada pela Recorrente. Tal vício, de acordo com a recorrente, contamina a decisão proferida pela DRJ resultando em sua nulidade, o que enseja a devolução dos autos para aquele tribunal, para que novo julgamento seja proferido. 1.2. MÉRITO 1.2.1.DAS EQUIVOCADAS PREMISSAS DA AUTUAÇÃO: A recorrente apresenta os principais desacertos da autuação fiscal e os fatos que fundamentam a sua opinião. Trago, de forma sucinta, os principais argumentos e esclarecimentos: 1.2.1.1. DA REAL EXISTÊNCIA E FUNCIONAMENTO DA JM SOLUÇÕES NO ENDEREÇO CADASTRAL DA RECEITA FEDERAL. Equívoco: "A JM Soluções não demonstrou que está localizada no endereço informado à Receita Federal (foi identificada a empresa 'Multi Holding Educação') e que realmente está em pleno funcionamento e, por isso, o CNPJ da empresa (...) foi declarado INAPTO". Esclarecimentos: A Recorrente acostou a impugnação fotos e documentos que confirmam que a JM Soluções rotineiramente utiliza o imóvel informado em seu cadastro. Apesar de ter sido comprovada a regularidade e veracidade das informações contidas em seu cadastro, foi declarada inapta (de acordo com a IN SRF 228/2002). A declaração de inaptidão do CNPJ da JM Soluções é objeto de mandado de segurança5 impetrado na esfera judicial ainda não decidido definitivamente. Informa que recentemente a Receita Federal encaminhou, através de Aviso de Recebimento Postal, intimação sobre o acórdão recorrido e que retornou válido, demonstrando que a própria autoridade reconhece válido e legítimo o endereço da contribuinte. 1.2.1.2. DA CAPACIDADE ECONÔMICOFINANCEIRA DA JM SOLUÇÕES ATESTADO PELA RECEITA FEDERAL EM TERMO DE DILIGÊNCIA FISCAL. Equívoco: "A origem dos recursos da JM Soluções vem dos aportes de sua quotista VCCL de tal modo que numa equivocada conclusão, a fiscalização entendeu que a JM Soluções não 5 Mandado de Segurança n. 000946267.2015.4.036100, que tramita perante a 7ª Vara Federal Cível da Capital. A recorrente esclarece que também estão presentes neste writ as provas que são passíveis de desconstituir a declaração, tais como: (i) intimações de despacho endereçados à JM Soluções no mesmo endereço que consta no CNPJ após a declaração de inaptidão, onde, se demonstra o paradoxo entre as intimações fiscais endereçadas ao único endereço da JM sendo este o mesmo local onde supostamente a empresa não foi encontrada e que motivou a declaração de inaptidão; (ii) despacho da Receita Federal deferindo o aumento do limite do RADAR da JM, comprovando, que o próprio ente reconhece a existência da empresa e sua regularidade na prática de operações de comércio exterior; e (iii) fotos do local demonstrando a existência da JM em espaço compartilhado com as empresas do grupo "Multi Holding", atualmente sucedida pela Pearson. Fl. 5152DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.147 13 comprovou a origem dos recursos que foram utilizados para realização das operações de importação ocorridas entre maio de 2012 e maio de 2014". Esclarecimentos: Houve a comprovação a origem dos recursos financeiros utilizados pela JM Soluções nas operações de importação, conforme reconhece o auditor fiscal em seu relatório, bem como está demonstrado no Relatório Técnico Pericial produzido por auditoria independente e acostado aos autos. São os fatos que corroboram a defesa da contribuinte: * Aporte de capital no montante de R$ 7.000.000,00 feito por sua sócia VCCL Participações antes da realização da primeira importação (doc. 10b da Impugnação); * Com os recursos desse aporte, foi feita a primeira importação de bens junto à empresa Komport no valor total de R$ 5.572.375, 50, os quais foram revendidos à Multi Brasil pelo valor de R$ 6.292.539,36 (doc. 10c da Impugnação); * Com o saldo dos recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados ao resultado positivo auferido na revenda dos produtos da primeira importação, foi feita a segunda importação de bens junto à empresa KOMPORT pelo valor de R$ 4.246.878,92, os quais foram revendidos à Multi Brasil pelo valor de R$ 5.650.812,50 (doc. 10d da Impugnação); * Com o saldo dos recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados aos resultados positivos auferidos na revenda dos produtos da primeira e segunda importações, foi feita a terceira importação de bens junto à empresa Komport no valor total de R$ 3.668.983,64, os quais foram revendidos à Multi Brasil pelo valor de R$ 4.298.102,58 (doc. 10e da Impugnação). * E com essa dinâmica ocorreram as demais operações de importação e subseqüente revenda. Esse ciclo foi interrompido com a decretação de inaptidão do CNPJ da JM Soluções e, até esse momento de ruptura, o saldo positivo era de R$ 10.395.159,39 (docs. 10 e 10a da Impugnação). Esclarece, ainda, que as informações apresentadas em resposta a Resolução n. 16.000.611 (15/12/2015) repisam todos os esclarecimentos aqui transcritos. A crítica feita pela recorrente é que, ao apresentar as respostas aos quesitos da diligência ordenada, a autoridade preparadora dedica "13 páginas do seu Parecer para justificar que o fundamento da autuação seria o da interposição fraudulenta na modalidade direta, qual seja, aquela que em que necessariamente, devese provar a fraude ou a simulação". 1.2.1.3. DA INEXISTÊNCIA DA TIPIFICAÇÃO DA CONDUTA ATRIBUÍDA À RECORRENTE. Equívoco: "Teria sido incluída, nas Declarações de Importação relativas às mercadorias importadas por encomenda da JM Soluções, a falsa informação sobre a encomendante, pois, na verdade, o real destinatário das importações seria a Multi Brasil." Esclarecimentos: Não há qualquer falsidade nas informações registradas nas Declarações de Importação, já que o real destinatário das mercadorias é a JM Soluções. A autoridade fiscal, sequer a turma julgadora na origem, conseguiram apresentar elementos que comprovassem o dolo na operação de importação regularmente executada pela JM Soluções. Afirma: Fl. 5153DF CARF MF 14 "Ocorre que, a JM Soluções nunca funcionou com o intuito de servir de interposta pessoa, de forma fraudulenta e orientada a ocultar a Recorrente, nas operações de importação de mercadorias destinadas à Multi Brasil, incorporada pela Recorrente. Para a conformação do 'intuito de fraude', como inclusive já foi alegado em sede de preliminar, essencial se faz a presença de determinados requisitos: é necessário o exato enquadramento em qualquer das condutas tipificadas na Lei n. 4.502/64, e, além disso, deve restar provado o dolo na conduta do agente, elemento este que consta de todas as descrições dos artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502/64. Enfim, patente a impossibilidade de enquadramento da Recorrente nas condutas pela Lei n. 4.502/64, daí porque se faz imperiosa a decretação da insubsistência da pena de perdimento dos bens adquiridos da empresa JM Soluções e revendidos à Recorrente entre os anos de 2012 a 2014. (...) Ademais, é tão confuso o argumento do Acórdão, que pode até mesmo ser adotado, para concluir que o caso concreto não está tipificada a conduta prevista no inciso V do artigo 23 do DecretoLei n. 1.455/1976 porque não foi constatado um liame 'doloso' entre a JM Soluções e a Multi (atual Pearson)" 1.2.1.4. GRUPO ECONÔMICO E A ALEGAÇÃO DA OCULTAÇÃO. DOIS ELEMENTOS CONTRADITÓRIOS PARA A CONFIGURAÇÃO DA INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. Equívoco: "A empresa Multi Brasil é a real adquirente das mercadorias nas operações de importação (sujeito passivo oculto), e a sua ocultação é realizada, de forma intencional, com o fim de que esta deixe de recolher o IPI sobre o valor integral das vendas aos seus franqueados e não se submeta à fiscalização e controle aduaneiro". Esclarecimentos: O fato da JM Soluções vender os produtos importados para a Multi Brasil não é motivo apto a comprovar a simulação pretendida, "até porque não faria qualquer sentido operacional que a empresa importadora do Grupo realizasse a venda direta das mercadorias aos franqueados, mas sim a empresa franqueadora (Multi Brasil) a fim de evitar que o faturamento fosse cindido em várias empresas". 1.2.1.5. DA IMPROCEDÊNCIA DAS ALEGAÇÕES FISCAIS E DA DRJ QUANTO À EXISTÊNCIA DE FRAUDE OU SIMULAÇÃO. Equívoco: "Os argumentos fiscais, em tese (e apesar do quanto alegado em sede de preliminar), em conjunto com a decisão da DRJ direcionaram a presente autuação para a fundamentação da infração descrita no caput do inciso V do artigo 23 do DecretoLei n. 1.455/1976, que é relativa à modalidade direta de interposição fraudulenta". Esclarecimentos: A autoridade preparadora, ao responder a diligência ordenada, pretendeu criar um contexto de fraude não apresentado no auto de infração para manter a autuação. No entanto, não há provas nos autos sobre a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, que são elementos essenciais para a manutenção da exigência. Fl. 5154DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.148 15 E esclarece, mais uma vez, que: "A Recorrente nunca pretendeu se ocultar nas operações de importação realizadas entre a importadora Komport e a encomendante JM Soluções mediante interposição fraudulenta desta última, pois todas as suas operações sempre foram: ostensivas, regulares, legítimas, e declaradas ao Fisco, e as obrigações principais e acessórias devidamente cumpridas e todos os seus atos sempre foram pautados na boafé. Não houve a utilização de laranjas ou empresas de fachada ou fantasmas, ao contrário, são elas parte de um mesmo grupo econômico, com sua controladora comum, verdadeiras empresas irmãs, cada uma com sua atividade e devidamente organizadas e autônomas em relação aos recursos financeiros para o legítimo exercício de seus respectivos objetos sociais". 1.2.1.6. DA INEXISTÊNCIA DA "QUEBRA DA CADEIA DO IPI". Equívoco: "O Agente Fiscal alega que um dos motivos da 'ocultação do real adquirente' seria que a ora Recorrente, com esta operação, teria um ganho pela 'quebra da cadeia do IPI (...) a única prova apresentada pela fiscalização (...) foi a alegação de que a 'JM recebe as mercadorias da Komport por valores muito próximos daqueles 'vendidos' à Multi Brasil, trabalhando com uma margem de lucro baixíssima, inexistente no mercado' e que isso faria com que a Recorrente reduzisse o valor do IPI". Esclarecimentos: Em nenhum momento a autoridade fiscal demonstra que os percentuais de margem aplicados na venda das mercadorias à Recorrente estariam em desacordo com as práticas de mercado. Aliás, a própria fiscalização reconhece que a margem de lucro praticada pela JM Soluções é muito próxima daquela estabelecida na legislação para apuração do IRPJ com base no lucro presumido. 2. RECURSO VOLUNTÁRIO APRESENTADO PELA JM SOLUÇÕES EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO LTDA. O recurso interposto pela JM Soluções reproduz, em sua maior parte, as razões de defesa apresentadas pela recorrente Pearson Education do Brasil S.A. A única diferença é que neste apelo existe a preliminar que abaixo apresento. 2.1. DA IMPOSSIBILIDADE DA INDICAÇÃO DA ORA RECORRENTE JM SOLUÇÕES COMO RESPONSÁVEL SOLIDÁRIA POR JÁ TER SOFRIDO A PUNIÇÃO PREVISTA NO ART. 33 DA LEI N. 11.488/2007. A Recorrente noticia que foi autuada solidariamente nos autos sob julgamento com fundamento na regra do inciso I do artigo 124 do Código Tributário Nacional e nos artigos 94 e 95 do DecretoLei n. 37/1966 que, nas palavras da autoridade fiscal, seriam suficientes para delimitar as responsabilidades do importador e do adquirente/ encomendante pelas infrações aduaneiras. Porém, a Recorrente já informou na sua impugnação que sofreu autuação anterior (Processo Administrativo n. 10314.727979/201491) com base nas mesmas operações de importação ocorridas no período de maio/2012 a maio/2014, oportunidade em Fl. 5155DF CARF MF 16 que lhe foi exigida a cobrança de multa de 10% sobre as operações que teriam sido por ela acobertadas, com base no art. 33 da Lei n. 11.488/2007. Naquela autuação, também lhe foi imputada a prática de interposição fraudulenta nas operações de importação das mercadorias revendidas à Multi Brasil. Diante desses fatos, a Recorrente sustenta que: "Assim sendo, notase que a penalidade atribuída à Recorrente por meio do presente Auto de Infração e referendada pelo Acórdão da DRJ, não pode coexistir com a penalidade específica no artigo 33 da Lei n. 11.488/2007, implicando a sua inclusão no pólo passivo do lançamento da multa objeto desta autuação em flagrante bis in idem, uma vez que a Recorrente já foi autuada anteriormente com imposição da multa pelos mesmos fatos e, inclusive, decidiu liquidar o valor da multa exigido". Entendo que o recurso da JM, por estar intimamente ligado com as razões de mérito da defendidos pela Pearson, deverá seguir a mesma sorte daquele recurso. VOTO Com efeito, a penalização pretendida pela autoridade fiscal é esclarecida pelas ultimações apresentadas no Relatório Fiscal6 , expressas nos seguintes termos: "Assim, por ocultar os reais adquirentes em suas importações, ficou a JM sujeita a multa prevista no art. 33 da Lei n. 11.488 em 15 de junho de 2007, conforme Auto de Infração cosntante do PAF 10314727.979/201491" (fl. 68) "Tendo em vista o término do procedimento especial de fiscalização com base na IN SRF 228/2002 concluindo que a empresa JM cedeu seu nome para as operações de importação da empresa MULTI BRASIL, foi iniciado em 23/01/2015 procedimento fiscal, mediante a abertura do Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Fiscalização (TDPFF) n. 08177002015000165 (Anexo 23 TDPFF MULTI BRASIL) com vistas a aplicar a pena de perdimento ou a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida, relativamente às importações efetuadas de forma irregular (ocultação do sujeito passivo) no período compreendido entre maio de 2012 e maio de 2014, tendo em vista o disposto no art. 23, § 1º do Decreto Lei n. 1.455/76: Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. 6 Relatório Fiscal acostado às folhas 6/94. Fl. 5156DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.149 17 § 1º. O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias." (fls. 68/69) "9. CONCLUSÃO Com base na análise dos documentos supracitados e nas inconsistências encontradas, foi confeccionado o presente Relatório Fiscal, parte integrante do Auto de Infração, tendo em vista a conclusão de que a JM ocultou o sujeito passivo real beneficiário das operações de comércio exterior acima identificadas, ficando, portanto, a empresa PEARSON, sucessora da MULTI BRASIL, real adquirente das mercadorias importadas pela JM, sujeita à multa prevista no § 3º, do art. 23 do DecretoLei n. 1.455/76, sendo a JM solidarizada no crédito tributário apurado" (fl. 94 grifos nossos). Apesar de silente quanto a identificação específica do dispositivo normativo que fundamenta a pretensão fiscal, da leitura dos trechos do relatório fiscal acima, concluo que este é o art. 33 da Lei n. 11.488/2007: Art. 33. A pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários fica sujeita a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, não podendo ser inferior a R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Parágrafo único. À hipótese prevista no caput deste artigo não se aplica o disposto no art. 81 da Lei n. 9.430, de 27 de dezembro de 1996. A prática ilícita denominada de interposição fraudulenta, em sua faceta conhecida como cessão de nome, pressupõe que tanto o importador quanto o real adquirente atuem conjuntamente, com a efetiva ação pelos participantes. Requer, para a perfeita submissão da conduta fiscalizada ao tipo do ilícito tributário punível, que o coparticipe tenha agido com o conhecimento, aprovação e efetiva participação no negócio fraudulento. Isso porque é indispensável a existência e comprovação do dolo específico para dissimular. E essa interpretação encontra guarida na letra do inciso V do artigo 95 do DecretoLei n. 37/19667. Esse dispositivo propõe a imposição de sanções àqueles que isolada ou conjuntamente pratiquem atos visando dissimular a realidade das operações. E, na hipótese dos autos, o auditor fiscal não logrou êxito em comprovar a existência de provas que identifiquem as operações fiscalizadas com o dístico de ilícito tributário. Passo a aduzir os motivos da minha conclusão. O auditor reconhece que, à época dos fatos sob investigação, integravam o quadro societário da recorrente JM Soluções a VCCL Participações S.A. (que detinha de 99,9% 7 Art. 95. Respondem pela infração: V conjunta ou isoladamente, o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. Fl. 5157DF CARF MF 18 das quotas) e a Pearson Education do Brasil S.A. (detentora de 0,1% das quotas)(fl. 41). Também confirma que: "Só esses fatos já nos levavam a crer que a empresa JM foi adquirida em 2011 pelo GRUPO MULTI BRASIL para que esta empresa servisse do braço importador do grupo, tendo em vista que a JM já encontravase habilitada no radar e já tinha realizado algumas poucas importações de lousas digitais, roteadores e HD externo. Na entrevista concedida em 11/09/2014 pelos representantes da JM, esta suspeita foi confirmada, tendo em vista que eles afirmaram, dentre outras coisas, que a JM foi adquirida pelo grupo MULTI BRASIL em 2011 para realizar importações para o grupo, já que as empresas principais não possuíam autorização para importar (RADAR), por falta de alvará" (fl. 42). Neste ponto, a constatação da autoridade se alinha perfeitamente às alegações das recorrentes, para quem: "Não há dúvida, inclusive é fato incontroverso trazido pelo próprio Agente Fiscal, de que a JM Soluções e a Multi Brasil eram pessoas jurídicas 'irmãs' com a mesma composição acionária. De fato, a empresa VCCL Participações detinha 100% do capital acionário da JM Soluções e 100% da Multi Brasil à época das operações de importação, conforme atestado no relatório fiscal da autuação. Conforme comprovado pela Recorrente em sua Impugnação, a ligação societária existente entre as empresas (mesmo quotista) sempre esteve aberta para o conhecimento do Fisco, nunca tendo sido ocultada, pois devidamente registrada na Junta Comercial do Estado de São Paulo, conforme Ficha Cadastral anexa (doc. 6 impugnação). Portanto, a JM Soluções e a Recorrente, à época Multi Brasil, tinham como quotistas a mesma pessoa jurídica (VCCL Participações, adquirida pela Recorrente em 2014), faziam parte do mesmo grupo empresarial (antigo Grupo Multi Brasil) e realizavam operações comerciais de venda e compra das mercadorias importadas pela JM Soluções". Este fato incontroverso remete ao segundo aspecto essencial para a solução do embate que nos defrontamos. A autoridade fiscal reconhece que a recorrente detinha capital suficiente para promover as importações fiscalizadas e que este espeque financeiro foi originado pelo aumento de capital realizado pela sua sócia quotista, VCCL. Segue trecho do relatório fiscal: "O aumento de capital social de R$ 100.000,00 para R$ 7.000.000,00 em 16/03/2012 foi justificado pela empresa através da entrega de comprovantes de transferências de recursos financeiros da VCCL à JM (Anexo 10 Resposta ao Termo de Intimação 262/2014). Na contabilidade da empresa, pudemos identificar alguns desses depósitos, sendo estes descritos como 'empréstimos/financiamentos a curto prazo'. Esses depósitos Fl. 5158DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.150 19 ocorreram no mesmo dia em que a JM efetuou o pagamento das importações à empresa KOMPORT (Anexo 11 Livros Fiscais). Com isso, fica evidente que os recursos utilizados pela JM para pagamento de suas importações foram provenientes da VCCL, empresa que também detinha na época 100% do capital social da MULTI BRASIL, a qual foram destinadas todas as mercadorias importadas, como veremos adiante" (fls. 44/45). E é no mesmo sentido o esclarecimento apresentado pela autoridade preparadora, ao responder a diligência determinada: "A documentação apresentada pela empresa comprova a disponibilidade e a transferência dos recursos utilizados nas importações, tendo em vista que através dos depósitos realizados pela VCCL na conta corrente da JM (justificados através de empréstimos posteriormente convertidos em aumento de capital), a JM pôde efetuar os pagamentos devidos à KOMPORT através de sua própria conta corrente" . Na importação direta, o destinatário da mercadoria é o próprio importador que a utilizará para consumo próprio ou para revenda, possuindo a característica de não haver um destinatário prédeterminado e atualmente normatizada pela IN SRF nº 680/2006. O excerto abaixo extraído do artigo publicado na obra “Tributação Aduaneira à luz da jurisprudência do CARF” 8 esclarece: “I.1. Importação por conta própria A importação por conta própria é a tradicional modalidade de importação. É aquela modalidade de importação em que o importador adquire a mercadoria do exportador no exterior, fecha o câmbio em nome próprio, com recursos próprios, paga os tributos e a utiliza ou a venda no mercado interno para diversos compradores” As Declarações de Importação acostadas aos autos (vide, por exemplo, àquela de folhas 416/418) registram que as operações são importações diretas, de acordo com o trecho acima transcrito, pois foram promovidas pela JM que adquiriu os produtos no exterior da empresa Komport. Não há nos autos nenhuma prova sequer menção por parte do agente autuante que a JM já conhecia o comprador final dos produtos no mercado nacional. Também não há provas que atestem o adiantamento de recursos para a realização dessas operações. Outro aspecto que poderia em uma leitura mais superficial do resultado da fiscalização justificar a autuação pretendida é a respeito do domicílio fiscal da contribuinte JM. O auditor fiscal, em um primeiro momento, encaminhou o Termo de Intimação Fiscal n. 251/2014 ao endereço cadastrado da contribuinte, mas o Aviso de Recebimento Postal retornou com a informação de que o destinatário é desconhecido no local. Por esse motivo, foi formalizada a Representação Fiscal objeto do Processo n. 10314.724158/201401 para declaração de inaptidão da recorrente. 8 Tributação Aduaneira: à luz da jurisprudência do CARF Conselho Administrativo de Recursos Fiscais/Ana Clarissa M. dos Santos Araújo...[et al.]; coordenação Marcelo Magalhães Peixoto,Ângela Sartori, Luiz Roberto Domingo. 1º ed. São Paulo; MP Editora, 2013. Artigo: "Dano ao Erário pela Ocultação Mediante Fraude a Interposição Fraudulenta de Terceiros nas Operações de Comércio Exetrior", página 53. Fl. 5159DF CARF MF 20 Posteriormente a contribuinte naquele momento já declarada inapta esclarece que pertence ao grupo Multi Brasil e, por este motivo, ocupa o mesmo espaço físico e que as informações prestadas pelo gerente predial eram equivocadas, já que ele não sabia que a empresa integra o mencionado grupo. Afirmou que utiliza diariamente o imóvel para conduzir com suas atribuições empresariais. Naquela oportunidade apresentou o contrato de locação do imóvel. Estão nos autos do processo, ainda, (i) o despacho emitido pela Receita Federal deferindo o aumento do limite do RADAR da JM, o que comprova que a Administração Tributária reconhece a existência da contribuinte (doc. 5 da impugnação); (ii) as fotos do edifício onde a JM compartilha salas com as demais empresas do Grupo Multi Brasil; e (iii) a própria intimação endereçada à JM sobre o teor do acórdão recorrido (Aviso de Recebimento Postal). Diante das provas existentes, não paira dúvidas sobre a existência e domicílio da recorrente. Outro ponto que merece avaliação é a argumentação sobre a reduzida margem de lucro praticada pela recorrente, que seria um indício da prática contra ela imputada9. A margem de lucro auferida pela recorrente foi apresentada pela autoridade fiscal no quadro abaixo reproduzido: DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO NF SAÍDA KOMPORT NF SAÍDA JM N° DESEMBARAÇO QTDE VALOR ADUANEIRO N° EMISSÃO QTDE VALOR N° EMISSÃO QTDE VALOR MARGEM 12/0849145‐0 10/05/2012 138649 10/05/2012 12/0858639‐6 11/05/2012 88.943,00 3.230.999,24 138727 14/05/2012 88.943,00 5.572.375,50 12 18/05/2012 88.943,00 5.471.773,36 2% 12/0859270‐1 11/05/2012 138726 14/05/2012 12/1287706‐5 16/07/2012 62.500,00 2.362.952,18 144303 17/07/2012 62.500,00 4.246.878,92 13 26/07/2012 62.500,00 4.913.750,00 16% 12/1655018‐4 06/09/2012 99.585,00 2.105.533,73 146510 11/09/2012 99.585,00 3.668.983,64 15 20/09/2012 99.585,00 3.737.480,50 2% 13/0029561‐0 07/01/2013 16.100,00 634.345,53 152788 09/01/2013 16.100,00 1.054.617,71 16 10/01/2013 16.100,00 1.093.673,00 4% 17 18/01/2013 13/0066129‐3 11/01/2013 312.820,00 2.333.729,88 153102 14/01/2013 312.820,00 3.942.250,80 18 21/01/2013 312.813,00 4.087.941,66 4% 13/0538161‐2 21/03/2013 23.330,00 451.497,44 156498 22/03/2013 23.330,00 770.087,40 21 28/03/2013 23.330,00 802.933,40 4% 13/0775333‐9 24/04/2013 2.315,00 83.059,86 158384 25/04/2013 2.315,00 141.557,61 22 28/05/2013 2.315,00 152.440,00 8% 13/1182458‐0 20/06/2013 8.000,00 153.490,53 160412 20/06/2013 8.000,00 255.930,99 23 28/06/2013 8.000,00 266.400,00 4% 13/1239538‐0 27/06/2013 96.882,00 3.375.822,69 160789 28/06/2013 96.882,00 5.534.466,48 24 04/07/2013 96.882,00 5.794.012,80 5% 13/1365461‐4 16/07/2013 81.344,00 3.549.948,96 161732 17/07/2013 81.344,00 5.834.563,59 25 26/07/2013 81.344,00 6.100.800,00 5% 13/1561575‐6 13/08/2013 7.513,00 4.400,09 163685 13/08/2013 7.513,00 13.173,20 26 16/08/2013 7.513,00 14.274,70 8% 13/1846379‐5 19/09/2013 15.300,00 658.639,98 166022 20/09/2013 15.300,00 1.101.489,12 27 30/09/2013 15.300,00 1.178.100,00 7% 13/2250570‐7 22/11/2013 69.969,00 3.061.421,61 169499 22/11/2013 69.969,00 5.105.906,62 28 29/11/2013 69.969,00 5.387.613,00 6% 29 20/02/2014 14/0237580‐0 05/02/2014 18.339,00 135.138,09 173305 06/02/2014 18.339,00 239.140,57 30 25/02/2014 18.339,00 254.678,40 6% 14/0718646‐0 15/04/2014 30.115,00 1.221.971,79 176793 15/04/2014 30.115,00 1.921.826,04 31 28/04/2014 30.115,00 2.056.795,00 7% 32 04/06/2014 14/0990220‐1 26/05/2014 122.931,00 5.167.325,45 178387 27/05/2014 122.931,00 7.998.227,37 33 04/06/2014 122.931,00 8.482.239,00 6% De acordo com as informações apresentadas na tabela acima, a recorrente auferiu 5,75% de lucro, em média, sobre as operações de importação por ela realizadas e objeto da fiscalização. Tal lucratividade, ao contrário do que sustenta o fiscal, não é inexistente ou baixíssima. E tal alegação só poderia ser considerada se acompanhada de dados econômicos que demonstrassem qual a prática do mercado. Desacompanhada de parâmetros, a arrazoado tornase vazio. Acrescese a isso o fato da própria fiscalização ter comprovado que os valores cobrados pelas mercadorias importadas efetivamente cobrem todos os custos das operações, o que demonstra que as tratativas investigadas não resultaram em prejuízo para a recorrente. 9 Nas palavras do auditor fiscal: "Notamos que a JM declara um faturamento muito próximo dos valores do custo das mercadorias importadas (valor aduaneiro mais os tributos recolhidos), mais um indício de que a empresa prestase somente a ceder seu nome para realizar as importações" Fl. 5160DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.151 21 Ademais, a contribuinte é parte integrante de um grupo econômico, o que significa que a sua importância não está limitada a lucratividade percebida em cada operação de importação, mas também pela sua eficiência e confiabilidade. Sobre essa argumentação, valhome das elucidações apresentadas pelo Cons. Carlos Augusto Daniel Neto10: "A respeito da diferença de valor entre a nota fiscal de entrada e a nota de saída, o fiscal alegou que 'com uma margem de menos de 2%, a empresa importadora não paga nem as despesas que ocorrem após o desembaraço da mercadoria, como frete interno, pagamento de armazenagem, honorários de despachante aduaneiro, etc', mas não fez questão de juntar qualquer elemento probatório que pudesse demonstrar a impossibilidade fática ou negocial da margem de lucro aplicada. As partes tem liberdade para estipular as margens que entenderem adequadas para o negócio, e como a própria Recorrente afirmou, foi um negócio realizado com condições vantajosas. Tratase de situação totalmente diferente daquela usualmente verificada em processos de interposição fraudulenta na qual não há qualquer diferença entre o valor da entrada e o valor de saída".(grifos nossos) É importante conhecer o precedente do Superior Tribunal de Justiça no qual confirmase que a baixa lucratividade não é, e nem pode ser, fundamento válido para a decretação de interposição fraudulenta. A propósito, segue ementa: PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AGRAVO REGIMENTAL. ART. 535, II, DO CPC. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. ART. 1º DA LEI 12.016/09. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO. SÚMULA 7/STJ. 1. O aresto recorrido afirmou, expressamente, que a baixa lucratividade da empresa revendedora e o fato de a importadora e a revendedora possuírem sócio em comum não são suficientes para caracterizar a interposição fraudulenta, apta a revelar dano ao erário e autorizar a aplicação da pena de perdimento. Violação do art. 535, II, do CPC rejeitada. (AgRg no REsp 1327809/PR, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 25/09/2012, DJe 04/10/2012 grifos nossos) Mais uma vez registro que não há nos autos : (i) provas que indiquem a participação da Pearson Education na operação de importação sob fiscalização; 10 Publicadas no Acórdão n. 3402003.770, lavrado na sessão de julgamentos de 24/01/2017 pela 2ª Turma da 4ª Câmara desta 3ª Seção. Fl. 5161DF CARF MF 22 (ii) o fiscal não questionou a empresa JM sobre a existência de estoque, ou depósito físico dos produtos importados. (iii) prova que todos os produtos importados pela JM foram remetidos à Pearson. Considerando as reflexões apresentadas, entendo que não há nos autos indícios suficientes para a decretação da interposição fraudulenta seja ela presumida ou direta pretendida pela autoridade fiscal. A contribuinte demonstrou que as operações fiscalizadas estavam devidamente acobertadas pelo lastro financeiro demonstrado pela contribuinte. Por sua vez, a fiscalização não apresentou provas que pudessem (des)construir o conhecido tripé "origem/disponibilidade/transferência", sequer a participação efetiva da Pearson Education do Brasil nas operações de importação fiscalizadas. Por esse motivo, entendo que a autuação fiscal é nula, já que atribui a prática do ilícito descrito no inciso V do art. 23 do Decreto Lei n. 1.455/197611 (interposição fraudulenta direta), mas é desacompanhada da indicação de atos e das provas que configurem fraude ou dolo por parte da recorrente. Diante do exposto, conheço dos recursos voluntários, e doulhes provimento. (assinado digitalmente) Lenisa Rodrigues Prado 11 Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Voto Vencedor Conselheira Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Redatora Designada: Inicialmente cabe esclarecer com a devida vênia, que a divergência a seguir explicitada cingese à legitimidade passiva da empresa JM Soluções Exportação e Importação Ltda, doravante JM, na presente autuação, conforme fundamentos a seguir dispostos. DA CARACTERIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Nesse sentido, é importante assinalar a motivação da autuação para arrolar ao pólo passivo a empresa JM, conforme excertos do Relatório Fiscal, de fls.06/94: Com base na análise dos documentos supracitados e nas inconsistências encontradas, foi confeccionado o presente Relatório Fiscal, parte integrante do Auto de Infração, tendo em vista a conclusão de que a JM ocultou o sujeito passivo real beneficiário das operações de comércio exterior acima identificadas, ficando, portanto, a empresa PEARSON, sucessora da MULTI BRASIL, real adquirente das mercadorias importadas pela JM, sujeita à multa prevista no §3°, art. 23 do DecretoLei Fl. 5162DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.152 23 nº 1.455/76, sendo a JM solidarizada no crédito tributário apurado.(grifei). Para a análise pretendida, tornase necessário repisar, em breve síntese, os fatos apurados pela fiscalização, no tocante à participação da JM na infração objeto da presente lide, conforme destacados no Relatório Fiscal, de fls.06/94, com vistas à melhor cognição da matéria, uma vez que a análise meritória não faz parte da presente fundamentação. De acordo com o que consta dos sistemas da RFB, a JM começou suas atividades de comércio exterior em 2009 importando por conta própria lousas digitais, roteadores e HD externo. A partir de 2012, meses após ser adquirida por empresas do GRUPO MULTI BRASIL (VCCL PARTICIPAÇÕES S/A e VCM PARTICIPAÇÕES LTDA) a JM começou a utilizar se da importadora KOMPORT COMERCIAL IMPORTADORA S.A., CNPJ 07409820/000180 para realizar importações em quantidades bastante elevadas. Essas operações foram por conta e ordem da JM, que foi apontada como adquirente das mercadorias nas Declarações de Importações registradas pela KOMPORT, conforme quadro resumo abaixo:(grifei). Fl. 5163DF CARF MF 24 Esclarece ainda a fiscalização: O aumento de capital social de R$ 100.000,00 pra R$ 7.000.000,00 em 16/03/2012 foi justificado pela empresa através da entrega de comprovantes de transferência de recursos financeiros da VCCL à JM (Anexo 10 Resposta ao Termo de Intimação 262/2014): Em síntese, demonstra a fiscalização, no Relatório Fiscal, de fls.06/94: a) Quanto aos aspectos operacionais da JM, que: i) Dados obtidos através do sistema GFIP Web apontam que a JM não possui empregados.Ela apresentou a última GFIP, sem movimento, aos 12/09/2011, correspondente à competência 08/2007, sendo que A ausência de funcionários demonstra sua total incapacidade operacional, levandose em conta o grande volume de importações realizadas a partir de maio/2012. (grifei) ii) A JM recusouse a entregar a fiscalização a maior parte dos documentos necessários para análise de sua regular operação no comércio exterior; Fl. 5164DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.153 25 iii) Representantes da JM não conseguiram indicar ao menos um funcionário que trabalhasse na empresa. Não havia nenhum funcionário registrado; iv) Em entrevista conduzida por esta fiscalização, representantes da empresa assumiram que JM foi adquirida pelo GRUPO MULTI BRASIL em 2011 para realizar importações para o grupo, já que a empresa MULTI BRASIL, não era habilitada no Siscomex.. Na época da aquisição, a JM já se encontrava habilitada no RADAR e já tinha realizado algumas poucas importações de lousas digitais, roteadores e HD externo; b) Quanto ao modus operandi: i) Na contabilidade da empresa, pudemos identificar alguns desses depósitos, sendo estes descritos como “empréstimos/financiamentos a curto prazo”. Esses depósitos ocorreram no mesmo dia em que a JM efetuou o pagamento das importações à empresa KOMPORT (Anexo 11 – Livros Fiscais):(grifei) (...) ii) ... fica evidente que os recursos utilizados pela JM para pagamento de suas importações foram provenientes da VCCL, empresa que também detinha na época 100% do capital social da MULTI BRASIL, a qual foram destinadas todas as mercadorias importadas, como veremos adiante. iii) As mercadorias importadas pela JM consistem em canetas leitoras, cartões magnéticos e lousas interativas digitais, dispostas nos capítulos 84 e 85 da NCM, todos relacionados à material didático utilizado em escolas de idioma, que são franqueadas do GRUPO MULTI BRASIL, quais sejam: Wizard, Yázigi, Skill, Alps, Quatrum, Microlins, SOS Computadores, Bit Company e People. iv) A partir de 2012, 82% dos produtos importados em termos de valor declarado foram descritos como WIZPEN, utilizados pela escola de idioma WIZARD em seus cursos de idioma e mais de 15% foram descritos ENGLISH PEN, utilizados pelas escolas de idioma SKILL e YÁZIGI: v) A análise das informações declaradas na DIPJ 2014, referente ao ano calendário de 2013, demonstra que a empresa trabalha com uma margem de lucro baixíssima; vi) A JM declarava um faturamento muito próximo dos valores do custo das mercadorias importadas (valor aduaneiro mais os tributos aduaneiros recolhidos) sendo as receitas praticamente todas destinadas para pagamento das mercadorias importadas, dos impostos e dos custos operacionais, não se caracterizando como uma empresa comercial; vii) A KOMPORT informava à Receita Federal o nome da empresa JM, indicando que a real adquirente das mercadorias Fl. 5165DF CARF MF 26 seria a JM, quando na verdade tratavamse de operações por encomenda da MULTI BRASIL, conforme definido no tópico 3 Modalidades de Importação e Outras Considerações. c) Quanto ao fluxo das mercadorias importadas pela JM. i) A análise das notas fiscais de venda das mercadorias importadas (notas fiscais de saída da JM extraídas do Sped NF e) juntamente com os dados das importações da JM, obtidas através do extrator DW Aduaneiro, demonstram: a) que o desembaraço das importações pela KOMPORT (trading utilizada para realizar as importações) e a “venda” das mercadorias importadas da JM para a MULTI BRASIL ocorrem sempre em um espaço de tempo muito pequeno e em quantidades idênticas as importadas, ou seja, TODAS as mercadorias importadas são “vendidas” a MULTI BRASIL poucos dias depois do desembaraço, não havendo vendas para outros clientes; (grifei). b) ...que as mercadorias importadas pela KOMPORT por conta e ordem da JM seriam na realidade por conta e ordem da MULTI BRASIL, ficando claro que a MULTI BRASIL é a real adquirente das mercadorias importadas por conta e ordem da JM. Transcrevese a seguir excerto de uma DI, demonstrando a forma de registro da empresa JM nas Declarações de Importação de fls.04/05, no período de maio de 2012 a maio de 2014: Fl. 5166DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.154 27 Conclui ainda a fiscalização na análise comparativa entre o valor aduaneiro das mercadorias importadas pela KOMPORT por conta e ordem da JM e os preços praticados pela KOMPORT na destinação dessas mercadorias à JM, bem como os praticados pela JM na “venda” para a MULTI BRASIL, conforme demonstrativo abaixo reproduzido, que: ... a JM recebe as mercadorias da KOMPORT por valores muito próximos daqueles “vendidos” à MULTI BRASIL, trabalhando com uma margem de lucro baixíssima, inexistente no mercado. Isso indica claramente que a JM não se trata de uma empresa comercial. A razão de sua existência é se interpor nas operações de importação da MULTI BRASIL para que esta deixe de recolher o IPI sobre o valor integral de venda aos seus franqueados.(grifei) Observa também a fiscalização, notadamente quanto às provas destacadas às fls.45/67: Pelas tabelas acima fica claro que no momento do registro da importação, a JM já tinha conhecimento que as mercadorias se destinariam a MULTI BRASIL, pois tratamse de produtos específicos para a empresa e que são revendidos a ela poucos dias depois do desembaraço das importações nas mesmas quantidades que foram importadas, o que demonstra, s.m.j., que a empresa real adquirente das mercadorias importadas pela KOMPORT é a MULTI BRASIL e não a JM.(grifei). Fl. 5167DF CARF MF 28 Pontua ainda a fiscalização que [Com a ocultação, a MULTI BRASIL pretendia afastar obrigações tributárias principais e acessórias, como não figurar como contribuinte "equiparado a industrial" e evitar a incidência do IPI nas operações subsequentes à importação, além de não precisar se submeter a procedimentos fiscais de habilitação para atuar no comércio exterior.](grifei) Diante dos fatos narrados de forma analítica no Relatório Fiscal assinalado, restou demonstrado que a importadora KOMPORT COMERCIAL IMPORTADORA S.A., submeteu a despacho aduaneiro as Declarações de Importação de fls.04/05, no período de maio de 2012 a maio de 2014, declarando como adquirente das mercadorias a empresa JM Soluções Exportação e Importação Ltda, quando o efetivo adquirente, segundo a fiscalização, responsável pela compra internacional e pelo aporte de recursos financeiros foi o grupo MULTI BRASIL, sucedida pela PEARSON, oculta perante as autoridades aduaneiras, nas operações de importação respectivas, como adquirente no mercado interno, de forma predeterminada das referidas mercadorias, situação fática contrária às disposições legais quanto às modalidades indiretas de importação, ficando assim caracterizada a prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros, nos moldes do inciso V, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455, de 1976, como abordado na parte meritória do voto condutor com relação à matéria em destaque. Com efeito, prevê a Instrução Normativa SRF nº 228 de 21/10/2002: Art. 13. A prestação de informação ou a apresentação de documentos que não traduzam a realidade das operações comerciais ou dos verdadeiros vínculos das pessoas com a empresa caracteriza simulação e falsidade ideológica ou material dos documentos de instrução das declarações aduaneiras, sujeitando os responsáveis às sanções penais cabíveis, nos termos do Código Penal (Decreto lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940) ou da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, além da aplicação da pena de perdimento das mercadorias, nos termos do art. 105 do Decretolei nº 37, de 18 de novembro de 1966.(grifei). Nesse mister, tendo em vista as normas de regência da matéria, precipuamente quanto às duas formas de terceirização das operações de comércio exterior que são reconhecidas e regulamentadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB), a Importação por Conta e Ordem de Terceiro e a Importação por Encomenda, escorreitamente analisadas no citado relatório fiscal e da análise fática das operações de importação de que trata o presente processo, verificase que as informações prestadas na Declaração de Importação, documento principal do despacho aduaneiro (art. 551 do Regulamento Aduaneiro/2009), quanto ao interveniente JM, não correspondem à realidade dos fatos, visto que pelo suporte probatório acostado aos autos pela fiscalização ficou demonstrado que o importador de fato, ou adquirente da mercadoria, aquele que efetivamente promoveu a operação de importação, não era a empresa JM. Demonstrou portanto a fiscalização que um encadeamento de ações de natureza simulatória tiveram o intuito de dissimular a verdadeira operação e consequentemente o real adquirente/encomendante da mercadoria, pressuposto fático que se subsume ao tipo legal disposto no artigo 23, inciso V, §§ 1º e 3º, do DecretoLei nº 1.455, de 1976, com redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002, DA RESPONSABILIDADE POR INFRAÇÕES Fl. 5168DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.155 29 Repisado o suporte fático da autuação, analisarseá a responsabilidade por infrações no contexto normativo da lei aduaneira. Observese que com a ordem jurídica inaugurada pela Constituição de 1988, por força do artigo 237 verificase que a fiscalização e o controle sobre o comércio exterior sob a competência do Ministério da Fazenda têm sido objeto de regramento específico, sobressaindose no ordenamento jurídico pátrio um arcabouço normativo destinado a disciplinar as operações de comércio exterior que pela natureza eminentemente regulatória, situase além do disciplinamento no âmbito do Direito Tributário para alcançar sobretudo o controle das operações de comércio exterior em seu aspecto multidiscipliar merecendo destaque a legislação aduaneira que trata das infrações aduaneiras e das penalidades a elas aplicáveis, no âmbito do controle aduaneiro. Nesse mister, é digno de nota o excerto da ementa do acórdão do TRF/4ª Região: “O Direito Aduaneiro não se resume a um conjunto de disposições pertinentes ao controle de exigências fiscais. Possui normas próprias, que merecem interpretação específica e que não se exaurem nas disposições tributárias típicas (previstas na CF e no CTN)” Apelação em Mandado de Segurança nº 2003.70.08.0000335/PR, segunda Turma, Rel. Des. Dirceu de Almeida Soares, DJU de 16/02/2005)”. Com relação ao tema, a lei aduaneira definiu as relações entre os coobrigados no caso de infrações conforme a seguir indicado: DecretoLei nº 37, de 1966: Art.94 Constitui infração toda ação ou omissão, voluntária ou involuntária, que importe inobservância, por parte da pessoa natural ou jurídica, de norma estabelecida neste DecretoLei, no seu regulamento ou em ato administrativo de caráter normativo destinado a completálos. § 1º O regulamento e demais atos administrativos não poderão estabelecer ou disciplinar obrigação, nem definir infração ou cominar penalidade que estejam autorizadas ou previstas em lei. § 2º Salvo disposição expressa em contrário, a responsabilidade por infração independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato.(grifei). Art.95 Respondem pela infração: I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática, ou dela se beneficie; II conjunta ou isoladamente, o proprietário e o consignatário do veículo, quanto à que decorrer do exercício de atividade própria do veículo, ou de ação ou omissão de seus tripulantes; III o comandante ou condutor de veículo nos casos do inciso anterior, quando o veículo proceder do exterior sem estar Fl. 5169DF CARF MF 30 consignada a pessoa natural ou jurídica estabelecida no ponto de destino; (...) V conjunta ou isoladamente, o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso da importação realizada por sua conta e ordem, por intermédio de pessoa jurídica importadora. VI conjunta ou isoladamente, o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora.(grifei). Dispõe o Regulamento Aduaneiro/2009: Art. 674. Respondem pela infração (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 95): I conjunta ou isoladamente, quem quer que, de qualquer forma, concorra para sua prática ou dela se beneficie; (...); V conjunta ou isoladamente, o importador e o adquirente de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por conta e ordem deste, por intermédio de pessoa jurídica importadora (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 95, inciso V, com a redação dada pela Medida Provisória no 2.15835, de 2001, art. 78); e VI conjunta ou isoladamente, o importador e o encomendante predeterminado que adquire mercadoria de procedência estrangeira de pessoa jurídica importadora (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 95, inciso VI, com a redação dada pela Lei no 11.281, de 2006, art. 12). (grifei). Parágrafo único. Para fins de aplicação do disposto no inciso V, presumese por conta e ordem de terceiro a operação de comércio exterior realizada mediante utilização de recursos deste, ou em desacordo com os requisitos e condições estabelecidos na forma da alínea “b” do inciso I do § 1o do art. 106 (Lei nº 10.637, de 2002, art. 27; e Lei nº 11.281, de 2006, art. 11, § 2º). Cabe destacar os seguintes excertos do auto de infração com relação à responsabilidade pelo crédito tributário: Com base na análise dos documentos supracitados e nas inconsistências encontradas, foi confeccionado o presente Relatório Fiscal, parte integrante do Auto de Infração, tendo em vista a conclusão de que a JM ocultou o sujeito passivo real beneficiário das operações de comércio exterior acima identificadas, ficando, portanto, a empresa PEARSON, sucessora da MULTI BRASIL, real adquirente das mercadorias importadas pela JM, sujeita à multa prevista no §3°, art. 23 do DecretoLei nº 1.455/76, sendo a JM solidarizada no crédito tributário apurado. Fl. 5170DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.156 31 Dessa forma, à vista de toda a legislação acerca da importação por conta e ordem de terceiros (ou por encomenda), respondem por infrações tanto o importador quanto o real adquirente (ou encomendante), sem benefício de ordem, motivo pelo o qual, no presente Auto de Infração, incluímos a JM no pólo passivo solidário da obrigação tributária aqui apurada.(grifos do original). Notase que a responsabilidade por infrações prevista no do art. 95, inciso I, do art. 95, do Decreto no 37/66, afeta todos aqueles que concorreram ou que se beneficiaram com a prática da infração e nos incisos V e VI, alcança especificamente, de forma conjunta ou isolada, o importador e o adquirente/encomendante de mercadoria de procedência estrangeira, no caso de importação realizada por conta e ordem deste, por intermédio de pessoa jurídica importadora, como é o caso dos autos, demonstrado de forma plena no Relatório, cujos recortes fáticos pertinentes, foram destacados no presente voto. Ante os fatos evidenciados no já referido Relatório Fiscal e no suporte probatório da autuação, inferese no tocante à responsabilidade solidária da empresa JM, que restou claramente demonstrado que a mesma concorreu diretamente para a prática do ilícito constatado e sobejamente identificado nos presentes autos, atuando como a ADQUIRENTE OSTENSIVA de forma simulada, na medida em que restou comprovado pelo vasto conjunto probatório do presente processo que a suposta adquirente, não promoveu efetivamente a importação das mercadoria objeto da exigência em análise. Notese que o instituto da solidariedade não está afeto apenas à co responsabilidade quanto ao pagamento do tributo mas também com relação ao vínculo obrigacional entre os coobrigados responsáveis pela prestação pecuniária decorrente do cometimento de infrações, conforme definido em lei como acima exposto. Assim, caracterizada a responsabilidade solidária da empresa JM visto que restou demonstrada a forma de participação desta no cometimento do ilícito praticado, resta igualmente configurado o vínculo de responsabilidade quanto à infração já demonstrada. Inferese portanto, que agiu com acerto a fiscalização, ao arrolar ao pólo passivo da autuação a empresa JM Soluções Exportação e Importação Ltda como responsável solidária pela infração objeto da presente lide. DA INEXISTÊNCIA DE “BIS IN IDEM" Esclareçase inicialmente que o instituto do “bis in idem” ocorre no Direito Tributário quando o mesmo ente tributante cobra um tributo do mesmo contribuinte e sobre o mesmo fato gerador mais de uma vez, situação não verificada nos autos ora em exame. O recorrente em sua peça de defesa traz à colação referido instituto, destacando que em sua Impugnação esclareceu que já sofreu autuação anterior com base nas mesmas operações de importação (ocorridas entre maio de 2012 e maio de 2014) e que lhe foi exigida no Auto de Infração, objeto do processo administrativo n.º 10314.727.979/201491, a cobrança da multa de 10% sobre as operações de importação, por cessão de nome, não cabendo a aplicação, pelos mesmos fatos, da multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, conforme previsto no art. 23, inciso V e § 3º, do DecretoLei nº 1.455, de 1976. Na realidade, pugna o recorrente pela não cumulatividade das multas acima referidas. Fl. 5171DF CARF MF 32 Nesse diapasão, da análise sistemática da legislação aduaneira, inferese que a aplicação das duas penalidades suscitadas na defesa está plenamente abrigada na ordem jurídica vigente, visto que o ato de ceder o nome para acobertar o real adquirente, em uma operação de importação tem o condão de configurar o cometimento de duas infrações, cujas hipóteses normativas estão amparadas respectivamente pelos seguintes dispositivos legais, o art. 23, inciso V, do DecretoLei nº 1.455, de 1976, com as alterações da Lei nº 10.637, de 2002 e o art. 33 da Lei 11.488, de 2007, estando assim em consonância com art. 99, caput do DecretoLei nº 37, de 1966 (art. 679 do Regulamento Aduaneiro, de 2009). Da interpretação da norma contida no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 2007 inferese que esta traz uma nova penalidade com suporte fático de incidência diferente do contido na norma do artigo 23,V, do DecretoLei nº 1.455, de 1976. Tratamse assim de núcleos infracionais distintos, aplicandose a cada um a penalidade que lhe é cominada. Observese que o art. 727, § 3º, do Regulamento Aduaneiro, Decreto nº 6.759, de 2009, explicitou a título interpretativo, que a multa de 10% do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome não prejudica a pena de perdimento das mercadorias importadas ou exportadas. Art.727. Aplicase a multa de dez por cento do valor da operação à pessoa jurídica que ceder seu nome, inclusive mediante a disponibilização de documentos próprios, para a realização de operações de comércio exterior de terceiros com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários (Lei n º 11.488, de 2007, art. 33, caput ). [...} § 3º A multa de que trata o caput não prejudica a aplicação da pena de perdimento às mercadorias na importação ou na exportação. ( Redação dada pelo Decreto nº 7.213, de 15 de junho de 2010 ) O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, a respeito da matéria em lide assim decidiu no Acórdão nº 310200.662, de 24/5/2010, abaixo ementado: “REFLEXO DO ART. 33 DA LEI Nº 11.488, DE 2007, SOBRE O INCISO V DO ART. 23 DO DECRETOLEI Nº 1.475, DE 1976. AUSÊNCIA. O art. 33 da Lei nº 11.488, de 2007 não produz qualquer reflexo sobre a imposição da pena de perdimento ou multa substitutiva à hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação. Jurisprudência.” Citase também a ementa do acórdão CARF nº 3201000.826, 22/11/2011: “RECURSO DE OFÍCIO. APLICAÇÃO CUMULATIVA DAS MULTAS PREVISTAS NO ARTIGO 23, § 3º, DO DECRETOLEI Nº 1.455/1976 E ARTIGO 33 DA LEI Nº 11.488/2007. A aplicação da multa prevista no artigo 33 da Lei nº 11.48/07 não autoriza, per si, o afastamento da responsabilidade do Fl. 5172DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.157 33 importador pela multa substitutiva prevista no parágrafo terceiro do artigo 23 do DecretoLei nº 1.455/76.” Incabível assim a arguição de “bis in idem" suscitada na defesa. É importante porém destacar que os fundamentos acima quanto à análise da suposta não cumulatividade das referidas multas prendese tão somente à interpretação da legislação, ante à suposta antinomia entre a aplicação da multa prevista no artigo 33 da Lei nº 11.48, de 2007 e a multa substitutiva prevista no §3º do artigo 23 do DecretoLei nº 1.455, de 1976, sem qualquer apreciação quanto ao suporte fático autuado no processo administrativo n.º 10314.727.979/201491, ante à legislação suscitada. Em virtude dos fundamentos acima expostos, amparados na instrução probatória acostada aos autos pela fiscalização, VOTO MANTER NO PÓLO PASSIVO DA AUTUAÇÃO a empresa JM Soluções Exportação e Importação Ltda. [Assinado digitalmente] Maria do Socorro Ferreira Aguiar Redatora designada Voto Vencedor 2 Conselheiro José Fernandes do Nascimento, Redator Designado. Em que pese o brilhantismo do voto proferido pela nobre Relatora, este Conselheiro pedelhe vênia para apresentar razões de decidir e fundamentos dissonantes, que acatados pela maioria do Colegiado. Previamente, cabe esclarecer que, nos recursos voluntários colacionados aos autos (fls. 4521 e ss. e 4799 e ss.), as recorrentes JM SOLUÇÕES EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO LTDA., doravante denominado de JM, e PEARSON EDUCATION DO BRASIL S/A., doravante denominado de PEARSON, sucessora da pessoa jurídica MULTI BRASIL FRANQUEADORA E PARTICIPACÕES LTDA, doravante denominada MULTI BRASIL, alegaram questões preliminares e de mérito. Em sede de preliminar, as recorrentes alegaram em comum (i) a nulidade do lançamento pela ausência da subsunção do fato à norma e inadequada fundamentação legal; e (ii) a nulidade da decisão recorrida por alteração do critério jurídico do lançamento. Ainda em preliminar, a JM alegou impossibilidade da sua inclusão no polo passivo como responsável solidária, por já ter sofrido a punição prevista no artigo 33 da Lei 11.488/2007. Essa questão não será aqui analisada, posto que, embora tenha votado favoravelmente a tese da recorrente, este Redator restou vencido pela maioria do Colegiado. Em decorrência, essa última questão foi objeto de apreciação no brilhante e bem fundamento voto vencedor proferido pela nobre Conselheiro Maria do Socorro Ferreira Aguiar. No mérito, as recorrentes alegaram a insubsistência da autuação, com base nos seguintes argumentos: a) as premissas da autuação eram equivocadas, b) as recorrentes Fl. 5173DF CARF MF 34 tinham real existência e funcionamento; c) as recorrentes tinham capacidade econômico financeira atestado pela Receita Federal; d) não havia tipificação da conduta atribuída às recorrentes; e) a existência do grupo econômico e a alegação de ocultação eram dois elementos contraditórios para a configuração da interposição fraudulenta; f) as alegações fiscais e da DRJ quanto à existência de fraude ou simulação eram improcedentes; g) não houve “quebra da cadeia do IPI”; e h) inexistência de dano ao erário. I Das Preliminares de Nulidade Em preliminar, as recorrentes alegaram em comum (i) a nulidade do lançamento pela ausência da subsunção do fato à norma e inadequada fundamentação legal e (ii) a nulidade da decisão recorrida por alteração do critério jurídico do lançamento. Da nulidade da autuação. Segundo as recorrentes a autuação era nula, em razão da imprecisão no enquadramento legal e na ausência de comprovação da fraude ou simulação. Ainda segundo as recorrentes, autoridade fiscal não havia especificado a conduta dolosa das recorrentes, que levaria à tipificação da ocultação na operação de importação e à pena de perdimento de bens, nos termos do artigo 23, V, e §§ 1º e 2º, do Decretolei 1.455/76, com redação dada pelo artigo 59 da Lei 10.637/2002. Em relação ao enquadramento legal da infração imputada às recorrentes, diferentemente do que alegou a recorrente, no item 5 (fls. 68/72) da Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal integrante do questionado auto de infração, a autoridade fiscal, correta e precisamente, especificou o enquadramento legal da infração e respectiva da penalidade aplicada, acertadamente, no art. 23, V, §§ 1º e 3º, do Decretolei 1.455/1976, com as novas redações, a seguir transcritos: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: [...] V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...] § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...] § 3º As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972. (Redação dada pela Lei nº 12.350, de 2010) [...] Fl. 5174DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.158 35 Portanto, diferentemente do que afirmou as recorrentes, a infração cometida pela recorrente não foi enquadrada no § 2º do art. 23 do Decretolei 1.455/1976, que trata da interposição fraudulenta presumida, por falta de comprovação da origem lícita dos recursos empregados nas operações de importação. Ao contrário do alegado, o referido enquadramento legal foi corretamente feito art. 23, V, §§ 1º e 3º, do Decretolei 1.455/1976, que trata da interposição fraudulenta comprovada ou direta. E essa modalidade de interposição revelase quando autoridade fiscal identifica e comprova a presença do real adquirente das mercadorias importadas. No caso, os fatos relatados e comprovados pela fiscalização demonstram que a recorrente JM interpôsse entre a importadora KOMPORT COMERCIAL IMPORTADORA S/A., doravante denominada KOMPORT, e a recorrente PEARSON (sucessora da MULTI BRASIL), a real adquirente da mercadoria. Em outras palavras, a fiscalização descobriu e identificou a real adquirente das mercadorias importadas intencional ocultada nas correspondentes DI. Assim, se não era interposição fraudulenta presumida, os pedidos de esclarecimentos sobre a comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação, formulados pela Turma de Julgamento a quo, por meio da Resolução nº 16.000.611, de 15 de dezembro de 2015 (fls. 4072/4091), com a devida vênia, eram prescindíveis para o deslinde da controvérsia. No entanto, as informações prestadas pela autoridade fiscal revelaramse relevantes para reafirmar os fatos relatados no auto de infração de que a infração de interposição fraudulenta cometida pelas recorrentes era tipo comprovada e assim esclareceu a tentativa das recorrentes no sentido de demonstrar que a infração que lhes fora imputadas era de interposição fraudulenta presumida e não comprovada. Por meio do Termo de Diligência Fiscal de fls. 4183/4218, em consonância com o entendimento aqui esposado, a autoridade fiscal diligente esclareceu que se tratava de interposição fraudulenta comprovada e não presumida. Nesse sentido, a autoridade fiscal reafirmou que “esta fiscalização não autuou a fiscalizada por falta de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação da empresa”, porque os recursos para as operações de comércio exterior da JM eram “provenientes de empresas pertencentes do próprio grupo a qual pertence, o GRUPO MULTI BRASIL”. E com acerto concluiu a autoridade fiscal diligente que as operações de importação foram enquadradas “no inciso V do art. 23 do DecretoLei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, pela ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação. [...] E para a infração de ocultação do sujeito passivo, mediante fraude ou simulação, considerada como dano ao Erário, o § 1º e 3º do mesmo artigo definem a pena de perdimento da mercadoria ou a multa equivalente ao seu valor aduaneiro”. E asseverou, peremptoriamente, no trecho a seguir transcrito, que a infração objeto da presente autuação não foi a interposição fraudulenta presumida, como insinuara as recorrentes, mas interposição fraudulenta comprovada: No entanto, é importantíssimo repisar que esta fiscalização não autuou a JM pela presunção de interposição fraudulenta de qual trata o § 2º do art. 23 do DecretoLei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, como a impugnação da empresa insinua: Em seguida, nas demais respostas aos quesitos formulados pelo Colegiado julgador de primeira instância, a autoridade fiscal diligente, de forma coerente e congruente, Fl. 5175DF CARF MF 36 confirmou que fora comprovada a origem dos recursos utilizados nas operações de importação, o que, certamente, afastava qualquer dúvida ou insinuação no sentido de que a infração cometida pelas recorrentes fora de interposição fraudulenta presumida e não a comprovada ou direta, como denominado pelas recorrentes. Para melhor compreensão do teor das referidas respostas, seguem transcritos os excertos mais relevantes, colhidos do citado Termo: 1.2. Os documentos juntados à impugnação da empresa JM SOLUÇÕES (em particular os Documentos do anexo 10) demonstram o regular trânsito dos recursos pela conta corrente da empresa para adimplir o FECHAMENTO DO CÂMBIO nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? RESPOSTA: Sim, através dos depósitos realizados pela VCCL na conta corrente da JM (justificados através de empréstimos posteriormente convertidos em aumento de capital), a JM pôde efetuar os pagamentos devidos à KOMPORT através de sua própria conta corrente. Via de regra, cabia a KOMPORT (trading prestadora de serviços de importação) realizar o fechamento de câmbio para pagamento dos exportadores. 1.3. O aporte de R$ 7.000.000,00 feito por sua sócia VCCL PARTICIPAÇÕES está regularmente contabilizado e esse montante se prestou a adimplir a primeira importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 5.572.375,50? RESPOSTA: Sim, o aporte de R$ 7.000.000,00 efetuado pela VCCL PARTICIPAÇÕES foi contabilizado num primeiro momento como sendo “empréstimos/financiamentos a curto prazo”. Após isso, os recursos foram transferidos para a conta AFAC –Fl. 4199 SP SAO PAULO DELEX Adiantamento Futuro Aumento de Capital. Através destes recursos, a JM pagou o valor da primeira importação à empresa KOMPORT. [...] a) Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? RESPOSTA: Sim, os recursos foram contabilizados e atendem ao trinômio de origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas importações em análise. No entanto, cabe ressaltar mais uma vez que esta fiscalização não efetuou a autuação por falta de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação da empresa. Fl. 5176DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.159 37 [...] 1.4. O saldo desses recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados ao resultado positivo auferido na revenda dos produtos da primeira importação, adimpliram a segunda importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 4.246.878,92? RESPOSTA: Sim, o saldo dos recursos aportados juntamente com os recursos auferidos com a “venda” para a MULTI BBRASIL da primeira importação adimpliram a segunda importação junto à KOMPORT. [...] a) Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? RESPOSTA: Sim, a transação foi contabilizada e atende ao trinômio de origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação em análise. No entanto, cabe ressaltar mais uma vez que esta fiscalização não efetuou a autuação por falta de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação da empresa. O esquema arquitetado pelo grupo foi montado com operações de financiamento e recebimentos de modo que a empresa pudesse comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos, tendo em vista que o grupo já havia sido fiscalizado e autuado pela RFB por esquema semelhante, como veremos no item 1.6. 1.5. O saldo dos recursos aportados e não consumidos na primeira importação somados aos resultados positivos auferidos na revenda dos produtos da primeira e segunda importações, adimpliram a terceira importação de bens junto à empresa KOMPORT no valor total de R$ 3.668.983,64 RESPOSTA: Sim, o saldo dos recursos aportados juntamente com os recursos auferidos com a “venda” para a MULTI BBRASIL da primeira e segunda importações adimpliram a terceira importação junto à KOMPORT. [...] Fl. 5177DF CARF MF 38 a) Essa transação está devidamente contabilizada e demonstrada nos extratos bancários da empresa JM SOLUÇÕES, de modo a atender o preceito do trinômio origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação em análise pela presente ação fiscal? RESPOSTA: Sim, a transação foi contabilizada e atende ao trinômio de origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação em análise. No entanto, cabe ressaltar mais uma vez que esta fiscalização não efetuou a autuação por falta de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de importação da empresa. O esquema arquitetado pelo grupo foi montado com operações de financiamento e recebimentos de modo que a empresa pudesse comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos, tendo em vista que o grupo já havia sido fiscalizado e autuado pela RFB por esquema semelhante, como veremos no item 1.6. 1.6. Para as demais analises referentes aos documentos juntados à impugnação da empresa JM SOLUÇÕES (em particular os Documentos do anexo 10) faça as considerações que julgar necessário. RESPOSTA: Apesar de todos os elementos apresentados no item 1.1 que demonstram cabalmente a ocultação da MULTI BRASIL pela JM, mediante fraude ou simulação, esta fiscalização gostaria de ressaltar que a MULTI BRASIL tem um histórico de prática de ocultação de real adquirente. O Auto de Infração constante do PAF nº 11829.720.042/2013 76, lavrado pela Alfândega do Aeroporto Internacional de Viracopos em 17/12/2013, revela que esquema semelhante ao praticado entre a JM e a MULTI BRASIL também foi praticado entre C.D.V. EXPORTAÇÃO, IMPORTAÇÃO E COMÉRCIO LTDA – EPP, CNPJ 05.109.438/000126 e MULTI BRASIL, como vemos nos trechos abaixo transcritos do Auto de Infração: [...] Em julgamento da impugnação apresentada pela MULTI BRASIL ao Auto de Infração constante do PAF nº 11829.720.042/201376, lavrado pela Alfândega do Aeroporto Internacional de Viracopos em 17/12/2013, a 11ª Turma da DRJ/SPO, através do Acórdão 1668.037, manteve a totalidade do credito tributário lançado, no valor de R$ 4.687.535,19, para a interessada e o responsável solidário: [...] Fl. 5178DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.160 39 Como podemos depreender dos trechos transcritos acima, o esquema fraudulento de importações praticado pela MULTI BRASIL e JM foi a continuação do esquema que vinha sendo praticado entre a MULTI BRASIL e a C.D.V.. Logo após a Alfândega do Aeroporto Internacional de Viracopos iniciar fiscalização na C.D.V. (fevereiro de 2012), a MULTI BRASI começo a utilizarse de empresa JM para realizar suas importações fraudulentas (maio de 2012). Já tendo conhecimento dos elementos que foram usados como prova para caracterizar interposição fraudulenta no comércio exterior, tendo em vista a fiscalização conduzida pela Alfândega do Aeroporto Internacional de Viracopos na C.D.V. e na MULTI BRASIL, a JM e MULTI BRASIL aperfeiçoaram o esquema já praticado anteriormente, utilizandose, por exemplo, da capitalização da empresa JM ao invés de adiantamentos. [...] (grifos dos originais) Assim, com base na descrição dos fatos que integra o auto de infração, corroborado pelos oportunos e relevantes esclarecimentos prestados pela autoridade fiscal diligente, resta fulminada a tentativa dos recorrentes de distorcer os fatos e falsamente atribuir a fiscalização a alegação de que a “JM não comprovou a origem dos recursos que foram utilizados para realização das operações de importação ocorridas entre maio de 2012 e maio de 2014”. Pela mesma razão, também não procede a alegação de nulidade da autuação, sob o argumento de que não fora especificada a forma da suposta interposição fraudulenta cometida pelas recorrentes, ou seja, “se no modo presumido ou se no modo direto” (ou comprovada); assim como, a alegação de que não fora especificada a conduta infracionária. Por dizerem respeito ao mérito da lide, em homenagem a objetividade e a concisão, esses pontos, serão abordados em pormenor seguir, na análise das questões meritórias. Enfim, os recorrentes alegaram ainda que, caso admitido que o lançamento teria tipificado a conduta pelo modo direto (ou de modo comprovado, como aqui se denomina), não fora indicado o dolo ou a fraude cometida pelos recorrentes. Ora, negar que não houve dolo ou fraude, no caso em tela, conflita com os fatos comprovados nos autos, dentre os quais, a deliberada e intencional ocultação da real adquirente dos produtos (a recorrente PEARSON), mediante simulação da aparente operação de importação por conta e ordem ou por encomenda da recorrente JM, com o claro propósito de dissimular a real operação de importação por conta e ordem ou encomenda da compradora exclusiva PEARSON, indevidamente oculta nos documentos de importação, conforme expressamente relatado no excerto extraído do relatório fiscal, a seguir transcrito: Pelas tabelas acima fica claro que no momento do registro da importação, a JM já tinha conhecimento que as mercadorias se destinariam a MULTI BRASIL, pois tratamse de produtos específicos para a empresa e que são revendidos a ela poucos dias depois do desembaraço das importações nas mesmas quantidades que foram importadas, o que demonstra, s.m.j., que Fl. 5179DF CARF MF 40 a empresa real adquirente das mercadorias importadas pela KOMPORT é a MULTI BRASIL e não a JM. Há na Declaração de Importação DI, campo próprio (“adquirente”) para que, no momento do registro da declaração, seja informado o adquirente da mercadoria importada. No entanto, a KOMPORT informava à Receita Federal o nome da empresa JM, indicando que a real adquirente das mercadorias seria a JM, quando na verdade tratavamse de operações por encomenda da MULTI BRASIL, conforme definido no tópico 3 Modalidades de Importação e Outras Considerações. (grifos não originais). Ademais, a indevida quebra da cadeia do IPI, que resultou no não pagamento de vultosos valores desse imposto, induvidosamente, é outro fato que reforça a existência dolo nas condutas praticadas pelas recorrentes. Ainda serve de reforço à existência de conduta dolosa das recorrentes, o fato de o presente esquema de fraude representar mera continuação do esquema fraudulento anterior praticado entre a MULTI BRASIL e a CDV, objeto do auto de infração encartado no processo nº 11829.720.042/201376, cujo valor da multa aplicada foi liquidado, após desistência do recurso voluntário interposto. E o atual esquema fraudulenta representa uma sofisticação do esquema anterior, Naquele a MULTI BRASIL forneceu os recursos financeiros para a importadora CDV, configurando importação por sua conta e ordem, porém foi omitida nos documentos de importação. Já neste, como forma de dificultar a descoberta da operação simulada, entre MULTI BRASIL e a importadora KOMPORT foi interposta a JM, com o evidente propósito de dificultar a descoberta da real adquirente, a MULTI BRASIL. Assim, fica demonstrado que, ao contrário do que alegaram as recorrentes, o enquadramento legal da infração foi correta e precisamente realizado, o que afasta o alegado cerceamento do direito de defesa. Se a recorrente não compreendeu ou não quis compreender o expresso enquadramento legal, mencionado duas vezes no curso da descrição dos fatos (item 5 e subitem 6.1.1), essa circunstância não representa motivo suficiente para declaração da nulidade do lançamento. Também houve expressa descrição das condutas infracionárias imputadas as recorrentes, que subsumem perfeitamente ao tipo da infração por interposição fraudulenta comprovada ou direta. Por todas essas razões, rejeitase a alegada preliminar de nulidade da autuação. Da nulidade da decisão recorrida. As recorrentes alegaram nulidade do acórdão recorrido, sob o argumento de que a Colegiado julgador a quo alterou o critério jurídico do lançamento, em função da diligência realizada, que afastou a tipificação da interposição fraudulenta pela forma presumida e, em razão do parecer fiscal, que pretendeu “consertar” o lançamento indicando diversas supostas condutas que poderiam tipificar o dolo, tentou demonstrar a prática da interposição fraudulenta direta ou comprovada. No tópico precedente, ficou demonstrado que, não é verdade que fiscalização tentou consertar o lançamento. No referido termo de diligência, a autoridade fiscal apenas reafirmou os fatos que já se encontravam relatados com precisão e clareza na descrição dos fatos integrante do auto de infração. De fato, a leitura da peça inaugural revela que a autoridade fiscal já havia consignado uma extensa relação de fatos comprobatórios de que as recorrentes Fl. 5180DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.161 41 agiram com o claro propósito de simular uma operação de importação por conta e ordem da JM e dissimular a real operação de importação por conta e ordem da PEARSON (MULTI BRASIL), a real adquirente das mercadorias, mediante a ocultação intencional e deliberada desta última nos documentos que ampararam as correspondentes operações de importação. Apesar de ter alegado em várias passagens de suas peças defensivas, que a infração que lhes fora imputada seria a interposição fraudulenta presumida ou indireta e não a interposição fraudulenta comprovada ou direta, a recorrente não indicou e tampouco transcreveu quaisquer fragmento de texto contido no minucioso e extenso relatório fiscal, em que a autoridade fiscal tenha mencionado ou descrito a mencionada modalidade de interposição. E não o fez porque não existe tal menção em numa parte do referido relatório. Ao contrário do asseverado pelas recorrentes, consta do citado relatório fiscal, em várias passagens, expressa menção a comprovação da origem lícita dos recursos utilizados nas referidas operações de importação. A título de exemplo, citase o elucidativo excerto extraído do citado relatório fiscal, que segue transcrito: No entanto, mesmo diante da recusa em entregar a maioria da documentação solicitada, esta fiscalização prosseguiu com a análise das operações de comércio exterior da empresa, utilizandose das informações contidas nos sistemas da RFB e dos poucos documentos entregues a esta fiscalização, e pode concluir que os recursos para as operações de comércio exterior da JM são provenientes de empresas pertencentes do próprio grupo a qual pertence, o GRUPO MULTI BRASIL, como veremos adiante. Essa informação é a prova inequívoca de que as respostas apresentadas no referido termo de diligência fiscal apenas confirmaram o que fora relatado na descrição dos fatos do questionado auto de infração, portanto, sem alegada inovação alegada pelas recorrentes. A leitura correta da descrição dos fatos revela que as recorrentes, de fato, simularam um operação por conta e ordem ou por encomenda da JM, com o evidente propósito de dissimular a real operação de importação por encomenda da PEARSON (MULTI BRASIL), que foi proposital e intencionalmente omitida nos documentos das operações de importação, com o nítido propósito de evitar a incidência do IPI nas operações de revenda do produto no mercado para as pessoas jurídicas franqueadas, bem como não se submeter a procedimentos fiscais de habilitação para atuar no comércio exterior, conforme asseverado no trecho do relatório fiscal, a seguir transcrito: Com a ocultação, a MULTI BRASIL pretendia afastar obrigações tributárias principais e acessórias, como não figurar como contribuinte "equiparado a industrial" e evitar a incidência do IPI nas operações subsequentes à importação, além de não precisar se submeter a procedimentos fiscais de habilitação para atuar no comércio exterior. Ressaltese ainda que, em consonância com a descrição dos fatos infracionais apresentada no questionado auto de infração, em duas oportunidades, especificamente nos itens 5 e 6.1.1 do relatório fiscal, constatase o expresso registro do enquadramento legal da infração no art. 23, V, §§ 1º e 3º, do Decretolei 1.455/1976, que trata da interposição fraudulenta comprovada ou direta. De outro modo, em consulta ao referido documento, não foi encontrada Fl. 5181DF CARF MF 42 qualquer referência ao § 2º do citado preceito legal, que define a interposição fraudulenta presumida, como mencionado pelas recorrentes. Com base nessas considerações, resta demonstrado que, ao contrário do alegado, a decisão recorrida não alterou o critério jurídico da autuação, ao contrário, decidiu em perfeita consonância com os fundamentos fáticos e jurídicos que motivaram a autuação, o que confirma a improcedência da preliminar de nulidade da referida decisão, que se rejeita. II Das Questões de Mérito No mérito, o cerne controvérsia reside em saber se a recorrente PEARSON (ou MULTI BRASIL) (i) foi a real adquirente do produto importada e (ii) na condição de real adquirente, se ela foi ocultada dolosamente dos documentos que amparam as operações de importação e, por decorrência, do conhecimento das autoridades incumbidas do controle aduaneiro das importações, conduta configuradora da infração de interposição fraudulenta comprovada (ou direta, a terminologia preferida pelas recorrentes), sancionada com a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria importada, nos termos do art. 23, V, e §§ 1º e 3º, anteriormente transcritos. Inicialmente, em razão da forte controvérsia sobre a modalidade de interposição fraudulenta, cabe fazer a distinção, quanto a forma de comprovação, entre a interposição fraudulenta comprovada e a presumida, que se encontram definidas, respectivamente, no inciso V e no § 2º art. 23 do Decretolei 1.455/1976, a seguir reproduzidos: Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: [...] V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...] § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a nãocomprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. (Incluído pela Lei nº 10.637, de 30.12.2002) [...] Segundo o referido critério de classificação, o que diferencia uma modalidade de interposição fraudulenta da outra é a forma de comprovação da infração. A materialização da primeira exige que o sujeito passivo, o real vendedor, comprador ou responsável pela operação oculto seja encontrado e apresentado pela autoridade fiscal, enquanto que a materialização da segunda se perfaz com a mera “não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados” na operação de comércio exterior. Em outras palavras, a primeira modalidade exige que a pessoa oculta seja identificada, ao passo que a segunda se contenta com a mera presunção da pessoa oculta. E tem mais, a presunção da segunda não se limita a existência da pessoa oculta, ela também presume a existência da “fraude ou simulação, inclusive a interposição Fl. 5182DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.162 43 fraudulenta de terceiros”, o que não ocorre na primeira, que depende tanto da descoberta e apresentação da pessoa oculta, quanto da comprovação de que ocultação deuse “fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros”. No mesmo sentido, tem se manifestado a jurisprudência deste Conselho. A título de exemplo, segue transcrito o enunciado da ementa do acórdão nº 3401003.892: ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Data do fato gerador: 15/04/2010 [...] INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. PRESUMIDA E COMPROVADA. A interposição, em uma operação de comércio exterior, pode ser comprovada ou presumida. A interposição comprovada é caracterizada por um acobertamento no qual se sabe quem é o acobertante e quem é o acobertado. A penalidade de perdimento afeta materialmente o acobertado (em que pese possa a responsabilidade ser conjunta, conforme o art. 95 do DecretoLei no 37/1966), embora a multa por acobertamento (Lei no 11.488/2007) afete somente o acobertante, e justamente pelo fato de “acobertar”. A interposição presumida é aquela na qual se identifica que a empresa que está importando não o faz para ela própria, pois não consegue comprovar a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos empregados na operação. Assim, com base em presunção legalmente estabelecida (art. 23, § 2o do DecretoLei no 1.455/1976), configurase a interposição e aplicase o perdimento, além da declaração de inaptidão da empresa, com base no art. 81, § 1º da Lei no 9.430/1996, com a redação dada pela Lei no 10.637/2002. 12 Assim, se a imposição da penalidade em apreço foi motivada pelo prática da interposição fraudulenta comprovada, como anteriormente demonstrado, certamente, a manutenção da presente autuação depende da demonstração de que a real adquirente da mercadoria, a recorrente PEARSON, foi ocultada dos documentos da operação, especialmente das DI, mediante interposição fraudulenta da recorrente JM. Para essa finalidades, revelase imprescindível a análise em conjunto dos principais fatos indiciários, apresentados pela fiscalização no item 4 do relatório fiscal, de que: a) a recorrente JM não foi localizada no seu endereço cadastral. No referido endereço, existia uma sala fechada, utilizada pela pessoa jurídica “Multi Holding Educação”. Segundo o gerente predial do edifício, a sala era usada para eventos e palestras pela MULTI BRASIL. Várias intimações encaminhas para a referida pessoa jurídica retornaram com a indicação de “desconhecido”; 12 BRASIL. CARF. TERCEIRA SEÇÃO. QUARTA CÂMARA. PRIMEIRA TURMA ORDINÁRIA. Rel. Rosaldo Trevisan. Ac. 3401003.892, de 26 de julho de 2017. Fl. 5183DF CARF MF 44 b) a recorrente JM recusouse a entregar a fiscalização a maior parte dos documentos necessários para análise de sua regular operação no comércio exterior. Seus representantes não conseguiram indicar ao menos um funcionário que nela trabalhasse e foi confirmado que nela não havia nenhum funcionário registrado; c) em entrevista realizada pela fiscalização, representantes da recorrente JM afirmaram que a citada pessoa jurídica foi adquirida pelo GRUPO MULTI BRASIL em 2011, para realizar importações para o grupo, já que as empresas principais não possuíam autorização para importar (RADAR), por falta de alvará. Na época da aquisição, a JM já se encontrava habilitada no RADAR e já tinha realizado algumas poucas importações de lousas digitais, roteadores e HD externo; d) as mercadorias importadas pela JM consistem em canetas leitoras, cartões magnéticos e lousas interativas digitais, dispostas nos capítulos 84 e 85 da NCM, todos relacionados à material didático utilizado em escolas de idioma, que são franqueadas do GRUPO MULTI BRASIL, quais sejam: Wizard, Yázigi, Skill, Alps, Quatrum, Microlins, SOS Computadores, Bit Company e People; e) as próprias descrições das mercadorias na Declarações de Importações (DI) da JM já indicavam que as mercadorias seriam para as escolas de idiomas franqueadas do GRUPO MULTI BRASIL. Em torno de 82% dos produtos importados em termos de valor declarado foram descritos como “WIZPEN”, utilizados pela escola de idioma WIZARD em seus cursos de idioma; f) a JM declarava um faturamento muito próximo dos valores do custo das mercadorias importadas (valor aduaneiro mais os tributos aduaneiros recolhidos) e trabalhava com uma margem de lucro baixíssima, sendo as receitas praticamente todas destinadas para pagamento das mercadorias importadas, dos impostos e dos custos operacionais, não se caracterizando como uma empresa comercial; g) a análise das notas fiscais de venda das mercadorias importadas juntamente com os dados das importações da JM registrados no Siscomex demonstraram que o desembaraço das importações pela KOMPORT (trading utilizada para realizar as importações) e a “venda” das mercadorias importadas da JM para a MULTI BRASIL ocorrem sempre em um espaço de tempo muito pequeno e em quantidades idênticas as importadas, ou seja, todas as mercadorias importadas eram “vendidas” a MULTI BRASIL poucos dias depois do desembaraço, não havendo vendas para outros clientes; h) a MULTI BRASIL não recolhera o IPI devido nas operações de venda subsequentes realizadas para os seus franqueados. A valoração desses fatos indiciários em conjunto leva a inexorável conclusão de que Grupo PEARSON comprou a recorrente JM, com o claro e único propósito de utilizála nas importações dos materiais educacionais utilizados e revendidos pelo Grupo sem o recolhimento do IPI sobre o real preço de revenda dos produtos aos franqueados. O fato de a recorrente PEARSON ser compradora exclusiva e os produtos terem sido envidados imediata e diretamente à real adquirente são evidências claras da prática da infração de interposição fraudulenta imputadas as recorrentes. Com efeito, a excepcional coincidência de datas e valores entre os pagamentos/recebimentos/empréstimos entre as empresas do Grupo representa forte indício de que a empresa JM não tinha outra função que não fosse a servir de importadora do Grupo, que lhe abastecera dos recursos financeiros necessários e suficientes apenas para efetuar os Fl. 5184DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.163 45 pagamentos dos encargos financeiros decorrentes das operações de importação. E toda essa engenharia operacional tinha único propósito: evitar equiparação da real adquirente a contribuinte do IPI e, por conseguinte, a incidência do IPI na segunda operação interna de revenda para os franqueados, realizada pela da empresa Grupo, no caso, a recorrente PEARSON. No quadro abaixo, extraído do relatório de diligência fiscal, visualizase com clareza como era realizada a “quebra da cadeia de incidência do IPI” nas mencionadas operações de importação: A ilustração acima revela que a ocultação da recorrente PEARSON/MULTI BRASIL visava e conseguiu evitar, de forma simulada, a incidência do IPI sobre o valor da quarta operação de venda, justamente aquela que tinha o valor da base de cálculo mais expressivo. Para demonstrar a grandeza dos números e o elevado ganho financeiro obtido pelo Grupo PEARSON com a mera ocultação do real adquirente das mercadorias importadas pela JM, com base em todas as notas fiscais emitidas pela JM e pela MULTI BRASIL no período de maio de 2012 a dezembro de 2014, a fiscalização elaborou a Tabela de fls. 4194/4195, em que apresentada os preços médios unitários de venda da JM para MULTI BRASIL (PEARSON) e desta para os seus franqueados e as diferenças elevadas de preço praticadas entre a terceira e a quarta operação de venda, majoradas entre o percentual mínimo de 108% e máximo de 447%. E ao transferir a maior a parte da majoração dos preços para última operação, posta fora do campo de incidência do IPI, recorrente PEARSON, artificialmente, fraudou a cobrança do referido imposto. Os dados apresentados revelam que o preço médio praticado pela MULTI BRASIL nas vendas aos seus franqueados é muito superior ao praticado na suposta “venda” da JM para a MULTI BRASIL. E com a ocultação da recorrente MULTI BRASIL (PEARSON), sobre essa diferença de preço, nenhum valor de IPI foi considerado devido ou recolhido. O que evidencia que a mera interposição da JM nas operações de importação eximiu a recorrente MULTI BRASIL (PEARSON) do recolhimento do IPI do que o devido na última operação de Fl. 5185DF CARF MF 46 venda, o que teria ocorrida, caso ela tivesse sido declarada como a real adquirente das mercadorias importadas. Para ilustrar a elevada discrepância de preços e o significativo ganho financeiro obtido pela recorrente PEARSON com a interposição fraudulenta da JM, a autoridade fiscal apresentou o exemplo que transcrito: Para exemplificar, utilizaremos o caso das mercadorias descritas como “WIZPEN TOTS ANUAL KIT”. Elas foram “vendidas” pela JM para a MULTI BRASIL por um preço médio unitário de R$ 69,00. Sobre este preço, foi recolhido IPI a uma alíquota de 15%. A MULTI BRASIL, por sua vez, vendeu essa mesma mercadoria aos seus franqueados por R$ 130,68, sem recolher nada de IPI, deixando, assim, de recolher a alíquota de 15% sobre a diferença de preço praticada (R$ 130,68 – R$ 69,00 = R$ 61,68). Ou seja, apenas em uma unidade desta mercadoria foram sonegados R$ 9,25 de IPI (15% de R$ 61,68). E com base nos dados de todas as operações, a autoridade fiscal concluiu o seguinte, in verbis: Como estamos falando no montante de R$ 28.530.277,05 importados pela JM e repassados para a MULTI BRASIL comercializar a preços bem superiores aos seus franqueados, sem o devido recolhimento de IPI, o volume de IPI sonegado foi enorme! A excepcional coincidência de datas e valores entre os pagamentos/recebimentos/empréstimos entre as empresas do Grupo represente outro forte indício de que a empresa JM não tinha outra função que não fosse a função de emprestar o seu nome para que as importações do Grupo fosse registradas em seu nome, inclusive sendo abastecida dos recursos financeiros, fornecidos por empresas do Grupo, destinados exclusivamente para efetuar os pagamentos de todos os encargos vinculados às operações de importação. Por essas razões, outra conclusão não era possível, senão a de que as recorrentes uniramse e planejaram o referenciado esquema de fraude tributária, mediante interposição fraudulenta da recorrente JM, com o único e nítido propósito de ocultar a real adquirente exclusiva das mercadorias importadas, a recorrente PEARSON. A simulação da operação de importação por conta e ordem ou por encomenda da JM restou claramente demonstrada. Da mesma forma, o propósito de ocultar a recorrente PEARSON ficou devidamente evidenciado, mediante a dissimulação da operação por encomenda exclusiva da recorrente PEARSON. Na presente caso, se excluída a recorrente JM das operações de importação por conta e ordem ou por encomenda simuladas e colocada no seu lugar a recorrente PEARSON, ficariam evidenciadas, simultaneamente, a real operação de importação encomenda da PEARSON dissimulada e a simulação da operação de venda no mercado interno entre JM e a PEARSON. Em outras palavras, com exclusão da JM, restam reveladas as únicas operações reais: (i) a operação de importação por encomenda da PEARSON e (ii) a operação de venda no mercado interno da PEARSON para as franqueadas. Assim, resta demonstrada interposição fraudulenta da JM e a indevida ocultação da PEARSON. Além da comprovação da interposição fraudulenta, o referido conjunto de fatos imputados às recorrentes também evidencia a existência do dolo ou seja a intenção consciente e deliberada das recorrentes de fraudar o controle aduaneiro e o recolhimento do IPI devido na operação de revenda para os franqueados. Ressaltase, novamente, a quarta operação Fl. 5186DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.164 47 de venda só teve um propósito: fraudar o pagamento do IPI devido sobre a diferença de preço entre as duas últimas operações de venda. A título exemplificativo, em relação ao produto “WIZPEN TOTS ANUAL KIT”, as notas fiscais de fls. 4196/4198 ilustram bem a diferença de preços praticadas entre as duas operações e, em decorrência, os elevados valores do IPI que, fraudulentamente, deixaram de ser devidos recolhidos aos cofres da União. Ainda confirma o dolo das recorrentes o fato de o presente esquema de fraude representar uma mera continuação, porém, de forma mais sofisticada, do esquema fraudulento anteriormente praticado entre a MULTI BRASIL e a pessoa jurídica CDV, que resultou no auto de infração encartado no processo nº 11829.720.042/201376, que, após desistência do recurso voluntário interposto, a recorrente PEARSON concordou com a autuação e efetuo o pagamento integral da multa aplicada. Da análise das alegações relevantes das recorrentes. Nos recursos em apreço, as recorrentes alegaram que as operações realizadas pela recorrente JM foram lícitas e não visaram prejudicar o Fisco ou o controle aduaneiro, o que é desmentido pelos fatos relatados e comprovados pela fiscalização. Diferentemente alegado, noticiam os autos que, por meio da intencional e planejada ocultação da real adquirente dos produtos importados, as recorrentes burlaram o controle aduaneiro e fraudaram o pagamento do IPI devido nas operações de venda dos produtos ao seus franqueados. As recorrentes alegaram que a JM sempre existira e que existia de fato e de direito, desenvolvendo atividade específica e compatível com seu objeto, dentro de um Grupo econômico. No entanto, os fatos comprovados nos autos revelam que a recorrente JM fora adquirida pelo Grupo MULTI para servir de interposta pessoa da PEARSON na importação simulada por conta e ordem ou por encomenda, com o único propósito de (i) ocultar a real adquirente dos produtos importados e assim dissimular a real operação de importação por encomenda exclusiva da recorrente PEARSON, e (ii) fraudar o controle aduaneiro e o pagamento do IPI devido na real operação de venda no mercado interno. Quanto a alegação de que não “restou demonstrada, descrita, caracterizada e capitulada legalmente, pela fiscalização, a fraude ou simulação, bem como o intuito doloso da MULTI BRASIL de se ocultar para se esquivar do controle aduaneiro e ilidir o recolhimento de tributos”, os argumentos anteriormente apresentados são suficientes para demonstrar o contrário. Em relação às alegações sobre a teoria do “domínio do fato” do Direito Penal, este Redator entende que não tem relevância para o deslinde da controvérsia, porque não foi com base nessa teoria que a autuação foi fundamentada, portanto, tratase de questão estranha aos motivos da autuação, o que dispensa manifestação a respeito. Em relação capacidade econômicofinanceira da JM e a origem dos recursos financeiros por ela utilizados não existe controvérsia nos autos, uma vez que a própria fiscalização comprovou a origem dos recursos financeiros utilizados pela referida pessoa Fl. 5187DF CARF MF 48 jurídica no custeio das operações de importação, conforme explicitado nos excertos anteriormente transcritos, extraídos tanto do relatório integrante do auto infração, quanto do relatório da diligência fiscal, que ratificou as informações a respeito apresentadas no relatório da autuação. No que tange a inexistência de tipificação das condutas atribuídas às recorrentes, especialmente, as condutas fraudulentas, ou a inexistência do dolo específico, os argumentos anteriormente apresentados são suficientes para demonstrar o contrário o alegado. As recorrentes alegaram que as operações realizadas por cada uma delas, a parte de não estarem proibidas legalmente, coincidiam, na forma e no conteúdo, com as operações pretendidas. Para as recorrentes, não houve a estruturação de uma operação para ocultar outra. Tudo foi devidamente reportado ao fisco por meio do cumprimento das obrigações principais e acessórias. Sem razão as recorrentes. Os fatos comprovados nos autos revelam que as recorrentes simularam a operações de importação por conta e ordem ou encomenda da recorrente JM, com o único propósito de dissimular a real operação de importação por encomenda da real adquirente dos produtos importados, a recorrente PEARSON, mediante a ocultação desta última nas DI das respectivas operações de importação. E ao assim proceder as recorrentes fraudaram o controle aduaneiro e o pagamento do IPI, conforme anteriormente demonstrado. Portanto, não é verdade que não houve estruturação de operação para ocultar outra operação, pois, os fatos demonstram que a aparente operação de importação por conta e ordem ou encomenda da JM foram feitas com o único propósito de acobertar a real operação de importação por conta e ordem ou encomenda da PEARSON, já que esta não dispunha de autorização no SiscomexRadar, para figurar como importadora por conta e ordem ou por encomenda. Aliás, apurou a fiscalização, por meio de entrevistas com os representantes da JM, que esta pessoa jurídica foi adquirida pelo Grupo MULTI BRASIL, em 2011, para realizar importações para o Grupo, já que as empresas principais não possuíam autorização no SiscomexRadar para importar, o que representa motivo suficiente para a caracterização da burla ao controle aduaneiro, o que conflita com a afirmação de que tudo fora feito as claras, do cumprimento das obrigações principais e acessórias. No caso, como justificar que não houve cumprimento de obrigação tributária principal, se por meio da referida ocultação a recorrente PEARSON deixou de recolher elevados valores de IPI, mediante a quebra artificial da cadeia de incidência do referido imposto. E nesses dois fatos está a resposta para a indagação da recorrente sobre “que sentido teria ‘ocultar’ uma empresa por meio da ‘interposição’ de outra, sendo ambas as empresas pertencentes ao mesmo grupo, tendo como controladora a mesma entidade jurídica?”, ou seja, evitar o controle aduaneiro e o pagamento do IPI na operação de revenda aos franqueados. As recorrentes ainda alegaram que a imputação de “quebra da cadeia do IPI” fora feita sem qualquer embasamento. Segundo as recorrentes, em vista da quantidade de operações e valores envolvidos, a média de 5,75% de margem de lucro nas operações de venda JM para MULTI BRASIL não era “baixíssima” ou “inexistente”, ao contrário, “conforme provado pelos documentos ora acostados e pelo Relatório TécnicoPericial, a JM SOLUÇÕES Fl. 5188DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.165 49 jamais teve prejuízo com estas operações, e, ao final, teve um resultado positivo, da ordem de R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais)”. A análise do Relatório de Procedimentos da lavra da pessoa jurídica ValorUp Auditores Independentes (fls. 2215/2216) limitouse a confrontação dos valores das compras à importadora KOMPORT e das revendas à MULTI BRASIL das mercadorias importadas e a confirmação de que as referidas operações discriminadas no Anexo I (fls. 2226 e ss.) estavam “refletidos na escrituração contábil da Empresa”. Assim, o referido Relatório apenas confirmou fatos incontroversos e que não foram questionados pela fiscalização. Ora, se objetivo da recorrente era demonstrar que a margem bruta praticada na operação de venda da JM para MULTI BRASIL era normal ela teria que ter feito comparações com outras operações de venda realizadas com pessoas não vinculadas ou relacionadas, o que não ocorreu. Além disso, de acordo com a planilha de fls. 2217/2225, o saldo final fluxo de caixa das operações de R$ 10.395.159,39, inclui o valor R$ 7.000.000,00, proveniente da integralização de capital (fl. 2234). De fato, no período, o saldo de capital do confronto entre os valores das compras da KOMPORT, no total de R$ 47.626.512,86, e os valores das vendas à MULTI BRASIL, no total de R$ 51.003.545,26, apenas confirma a irrisória margem bruta de venda da recorrente JM em torno de 7%. Ademais, a recorrente não apresentou qualquer demonstrativo que comprovasse que essa insignificante margem de bruta de venda era suficiente para cobrir os demais custos e despesas da JM. Assim, se comparada com margem bruta de venda da MULTI BRASIL para os seus franqueados, variável entre o percentual mínimo de 108% e o máximo de 447%, as provas apresentadas pela recorrente apenas confirmam a tese da fiscalização de que a omissão da MULTI BRASIL nos documentos de importação representou apenas tosco artifício para evitar a quebra de incidência e o pagamento do IPI nas operações de venda da MULTI BRASIL para os franqueados. Em outras palavras, os preços de venda da JM para MULTI BRASIL revelam que, contrariando as práticas usuais de mercado, a recorrente JM revendeu os produtos importados à recorrente PEARSON com margem baixíssima de lucro. E logo em seguida, a recorrente PEARSON revendia os mesmos produtos por margem altíssima de lucro aos seus franqueados. E qual a justificativa para esse repentino e abrupto aumento de preço? Inequivocamente, evitar o pagamento do IPI devido na operação de venda interna pelo real importador por conta e ordem ou encomenda para os seus franqueados. Ou seja, a ocultação dolosa da recorrente PEARSON nas correspondentes DI teve objetivo claro, retirarlhe, simultaneamente, a condição de importador por conta e ordem ou por encomenda e a condição de contribuinte do IPI, cujo efeito direto e imediato fraudar o recolhimento do imposto sobre o valor integral de venda aos seus franqueados. E se houve a ocultação da real adquirente e prática da infração de interposição fraudulenta, conseqüentemente, restou caracterizado o dano a erário, que as recorrentes alegaram não existir, com base no seguinte argumento: Ainda que exista uma vertente jurisprudencial administrativa e doutrinária que aponte a desnecessidade de, para os casos de interposição fraudulenta, ser indicado o dano ao erário, é certo que há jurisprudência administrativa no sentido desta Fl. 5189DF CARF MF 50 necessidade e jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça na mesma linha. Pois bem! No julgamento da lide, a corrente que prevaleceu e se consagrou vencedora foi a que defendeu o entendimento de que, uma vez comprova a prática da infração de interposição fraudulenta, definida no inciso V do art. 23 do Decretolei 1.455/197, por decorrência, o dano ao erário também se encontra configurado, nos termos do caput do referido artigo. Cabe ressaltar que, embora o entendimento apresentado pela recorrente, tenha sido defendido pela nobre Relatora, ela não foi acompanhado pelos demais membros do Colegiado. Também por adotar a tese das recorrentes, os argumentos apresentados no voto condutor do acórdão nº 3402002.362, parcialmente transcritos nos recursos em apreço, são inconciliáveis com o entendimento deste Redator e da maioria vencedora do Colegiado. Reafirmase que a maioria do Colegiado adotou o entendimento de que, por expressa determinação do caput do art. 23 do Decretolei 1.455/1976, considerase dano ao erário, punível com a pena de perdimento das mercadorias, a ocultação do real adquirente das mercadorias importadas, mediante fraude ou simulação, conforme definido no inciso V do citado artigo. E como a referida infração restou demonstrada nos autos, o dano erário, inequivocamente, também restou configurado. E os feitos imediatos e aparentes do dano ao erário decorrente da ocultação do real adquirente da mercadoria importada, mediante a interposição fraudulenta terceiros, refletemse, principalmente, na burla ao controle aduaneiro e na fraude tributária, cuja face que aparece com maior visibilidade, induvidosamente, é a quebra da cadeia de incidência do IPI. Entretanto, de modo geral, há outras consequências nocivas resultantes do dano erário caracterizado pela prática da infração de interposição fraudulenta de terceiros, a exemplo das que foram relacionadas no voto condutor do julgado recorrido, a seguir transcritas: A burla aos controles aduaneiros pode causar: • impedir que uma determinada empresa (adquirente) seja submetida ao procedimento de habilitação; • impedir a equiparação, do real adquirente, à condição de estabelecimento industrial, contribuinte do IPI; • impedir a aplicação das restrições e determinações previstas na legislação de "valor aduaneiro" e de "preços de transferência"; . • impedir o conhecimento da verdadeira origem dos recursos; • impedir atribuir ao adquirente a condição de responsável solidário pelos tributos incidentes na importação; • impedir o devido registro contábil da propriedade dos bens, incluindo a composição de custos destes bens; • propiciar o aproveitamento indevido de incentivos fiscais estaduais (ICMS), a chamada "guerra fiscal' entre os Estados da federação que, muitas vezes, apenas fomenta a criação , ou simulação de enpresas com o fim único de se obter tais vantagens; Fl. 5190DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.166 51 • impedir o efetivo controle aduaneiro e fiscal; No caso específico da modalidade Importação por “conta e ordem” ainda podem ser listadas as seguintes burlas aos controles aduaneiros: • A não vinculação do adquirente ao Importação por “conta e ordem”, no Siscomex, via Declaração de Importação; • A não apresentação do adquirente, para fins da vinculação, de requerimento à unidade aduaneira da Receita Federal do Brasil com jurisdição sobre o seu estabelecimento matriz, indicando: I nome empresarial e número de inscrição do importador no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ); e II – apresentação de cópia do contrato firmado entre as partes para a prestação dos serviços. • A não habilitação do adquirente no RADAR; • A não informação pelo Importação por “conta e ordem", do número de inscrição do adquirente no CNPJ em campo próprio da Declaração de Importação; • A exigência de garantia para autorização da entrega ou desembaraço aduaneiro de mercadorias, por parte do adquirente quando o valor das importações for incompatível com o capital social ou patrimônio líquido deste; [...] E ainda traz outros efeitos: Blindar o patrimônio do real adquirente/encomendante: No caso de eventual lançamento tributário decorrente das operações, o real importador se beneficia de certa “imunidade” no âmbito patrimonial (cobrança de tributos e multa) e penal (conduta criminosa), uma vez que, aos olhos do Fisco, somente é conhecida a identidade da interposta pessoa. Quebra da cadeia de incidência do IPI: Por ordenamento constitucional, o IPI é um tributo de incidência nãocumulativa, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores (art. 153, § 3º, inciso II, da CF/88). [...] Sonegação de PIS/PASEP e COFINS nãocumulativos: Em uma importação por intermédio de terceiros, o importador é contribuinte do PIS/PASEP e COFINS nãocumulativos sobre a receita bruta auferida (no caso da importação por encomenda) ou sobre o valor dos serviços prestados (no caso de importação por conta e ordem), consoante o artigo 12 do Decreto nº 4.524/02. Fl. 5191DF CARF MF 52 Lavagem de dinheiro e ocultação de bens e valores: Por lavagem de dinheiro entendese o procedimento utilizado para disfarçar a origem de bens e valores obtidos ilegalmente. No caso da ocultação mediante fraude ou simulação, abrese brecha para a utilização de recursos de origem desconhecida no pagamento das importações. Fruição indevida pelo importador oculto ( adquirente ) do benefício do ICMS. Esse ponto em destaque ganha abrupta relevância quando a interposta pessoa se localiza em Estado da Federação que proporciona benefícios fiscais relacionados a incidência do ICMS. [...] (grifos dos originais). No caso, os efeitos do dano erário por ocultação da real adquirente, relatados e comprovados pela fiscalização, encontramse materializados (i) na evidente burla ao controle aduaneiro, mediante a simulação da operação de importação por conta e ordem ou encomenda da JM e a consequente a ocultação da real adquirente exclusiva, a recorrente PEARSON, e (ii) na fraude tributária, sob forma de não incidência do IPI na operação de revenda das mercadorias importadas aos franqueados, mediante a quebra artificial da cadeia do IPI. No mesmo sentido, recentemente, tem se manifestado as demais Turmas deste Conselho. A título ilustrativo, seguem os transcritos os enunciados das ementas dos seguintes julgados: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO II Data do fato gerador: 05/01/2010, 26/07/2010, 23/09/2010, 22/11/2010, 17/01/2011, 25/01/2011, 15/03/2011. SIMULAÇÃO. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MULTA EQUIVALENTE. Caracteriza dano ao Erário a importação de mercadoria com ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. Aplicase a multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria na importação, quando essa não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, por ocasião da apuração da infração por dano ao Erário. Recurso Voluntário Negado13 ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2009, 2010, 2011, 2012, 2013 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. MERCADORIA NÃO LOCALIZADA OU CONSUMIDA. MULTA EQUIVALENTE AO VALOR ADUANEIRO. PROCEDÊNCIA. 13 BRASIL. CARF. TERCEIRA SEÇÃO. QUARTA CÂMARA. SEGUNDA TURMA ORDINÁRA. Rel Maria Aparecida Martins de Paula. Ac. 3402004.281, de 28 jun. 2017. Fl. 5192DF CARF MF Processo nº 10314.724206/201533 Acórdão n.º 3302004.441 S3C3T2 Fl. 5.167 53 Considerase dano ao Erário, punível com a pena de perdimento, a infração relativa a mercadorias estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. A pena de perdimento convertese em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida. 14 Em relação a esse último julgado, merece destaque o seguinte excerto extraído do voto do Relator do julgado: Entendese inócua a discussão sobre a existência ou a comprovação de efetivo dano ao Erário, visto que decorre do texto da própria lei: DecretoLei nº 1.455/1976 : “Art 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: ...”, elencando incisos, cujas infrações ali relacionadas considerase dano ao Erário, punível com perdimento. Discutese a subsunção dos fatos às normas contidas nos referidos incisos, v.g., no inciso V, onde o núcleo do tipo infracional reside na conduta dolosa de ocultar, mediante fraude ou simulação, tornandose necessário que esses elementos sejam provados ou presumidos, a depender da modalidade da interposição fraudulenta identificada. Da mesma forma entendeu a maioria dos integrantes deste Colegiado ao rechaçar os argumentos apresentados pela nobre, que encampou a tese defendido pelas recorrentes. III Da Conclusão. Por todo o exposto, com a vênia da nobre Relatora, votase por NEGAR PROVIMENTO ao recurso, para manter na íntegra a decisão recorrida. (assinado digitalmente) José Fernandes do Nascimento 14 BRASIL. CARF. TERCEIRA SEÇÃO. QUARTA CÂMARA. PRIMEIRA TURMA ORDINÁRA. Rel. Fenelon Moscoso de Almeida. Red. Rosaldo Trevisan. Ac. 3401003.811, de 27 jun. 2017. Fl. 5193DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10830.002842/93-96
Turma: Segunda Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Mon Apr 12 00:00:00 UTC 1999
Ementa: TRANSPORTE EM NAVIO DE BANDEIRA BRASILEIRA - A isenção do I.P.I. com base na Lei n.° 8.191/91 e Decreto 151/91, não está condicionada ao transporte de mercadoria em navio de bandeira brasileira.
Numero da decisão: CSRF/03-03.028
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado.
Nome do relator: Nilton Luiz Bartoli
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CÂMARA DO 3° CONSELHO DE CONTRIBUINTES Interessada : FAZENDA NACIONAL Sessão de : 12 DE ABRIL DE 1999 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 TRANSPORTE EM NAVIO DE BANDEIRA BRASILEIRA - A isenção do I.P.I. com base na Lei n.° 8.191/91 e Decreto 151/91, não está condicionada ao transporte de mercadoria em navio de bandeira brasileira. Vistos e Relatados e discutidos presentes autos de recurso interposto por PABREU E CIA INDUSTRIAL DE TECIDOS. ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por unanimidade de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. fr IGUES IDIR)I--ESSrDNEP-Nr"T"E _R----- NILTO/N LUIZ BART/OLI RELATOR FORMALIZADO EM: — Participaram, ainda, do presente julgamento os Conselheiros: CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES, MOACYR ELOY DE MEDEIROS, FAUSTO DE FREITAS E CASTRO NETO, HENRIQUE PRADO MEGDA, UBALDO CAMPELLO NETO e JOÃO HOLANDA COSTA. (Ausente justificadamente o Conselheiro Fausto de Freitas e Castro Neto). Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 Recorrente : PABREU CIA INDUSTRIAL DE TECIDOS Interessada : FAZENDA NACIONAL RELATÓRIO O presente feito alçou, para julgamento, a esta E. Câmara Superior de Recursos Fiscais em decorrência de Recurso Especial Divergente interposto pela recorrente contra Acórdão proferido pela E. Segunda Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, que, em síntese, julgou parcialmente provido o recurso, por maioria de votos, entendendo que a mercadoria importada, não preencheu todos os requisitos legais para usufruir do favor governamental e mais não cumpriu com as determinações estipuladas nos Decretos Leis n.° 666/69 e 687/69 visto que o transporte foi realizado em navio de bandeira japonesa sem a apresentação do documento liberatório, excluindo assim a penalidade do art.364, inciso II, do RIPI. Originariamente, a questão, os fatos e peças assim se postam no processo: A Recorrente submeteu à importação mercadorias estrangeiras pleiteando o benefício do IPI amparado pela Lei 8191/91, regulamentado pelo Decreto 151/91. O AFTN ao efetuar a Revisão Aduaneira da D.I n.° 002878 registrada em 28.06.91 constatou que o benefício da isenção do IPI foi utilizado indevidamente, descumprindo os Decretos Leis 666/69 e 687/69 e ressaltando que o transporte das mercadorias, foi realizado em navio de bandeira JAPONESA sem a apresentação do documento liberatório. Constituindo assim o crédito total de 21.858,77 UFIR, sendo 5.368,99 referentes a multa do IPI art. 364, II do RIPI. . _ 2 Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 Intimado da autuação, a Recorrente apresentou, tempestivamente, impugnação (fls. 14/17), argumentando, em síntese, que: (1) o A .1 deve ser cancelado imediatamente por conter nulidade. (ii) o primeiro aspecto refere-se ao enquadramento da infração gerando erro de direito, pois o art. 134 do Decreto n.° 91.030/85 trata exclusivamente do II não podendo aplicar-se ao caso em questão de IPI (iii) anexo ao A. I. foi apresentado o quadro demonstrativo com cálculos de juros de mora de Cr$ 25.888.986,08 totalizando sem qualquer explicação ou demonstração o valor de Cr$ 315.434.452,19 referentes a juros de mora; (iv) relativamente ao mérito entende a Autuada que ao ser estabelecida a isenção genérica do IPI para máquinas e equipamentos, até 31.03.91 o legislador não criou qualquer condição para a fruição desse benefício; (v) ressalta ainda seu inconformismo com a multa de 100% sobre o valor da mercadoria já que a isenção foi reconhecida pela própria autoridade encarregada de fazer cumprir a legislação. Em julgamento de primeiro grau, decidiu a autoridade oficiante julgar procedente a ação fiscal e improcedentes as razões de impugnação, pois o citado art.134 do Decreto n.° 91.030/85 embora desvinculado do IPI não invalida a ação fiscal, por não ser este a base do auto. Quanto a isenção e baseado no art.111 do CTN deve ser interpretado literalmente e para ser concedido tem que preencher os requisitos estabelecidos pelos Decretos 666/69 e 687/69, o que não ocorreu e mais, foi usufruído indevidamente o benefício portanto deve ser revogado os termos do R.A e cabível a penalidade do art.364, inciso II do RIPI. Intimado da decisão o Interessado aparelhou recurso (fls. 39/45) tempestivo, para o E. Terceiro Conselho de Contribuintes, e alegou resumidamente que: (i) o IPI não está vinculado (ii) a importação efetuada não usufruiu de qualquer favor - governamental 3 Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 (iii) ressalta ainda que não há nada relacionado entre os Decretos Lei n.° 37/66, 91.030/85 e o Decreto n.° 687/69 com a isenção concedida pela Lei 8.191/91. (iv) o processo instaurado contra o contribuinte está exclusivamente baseado no caso afirmativo das letras precedentes "a isenção concedida por uma Lei emanada do poder Legislativo poderá ser interpretada como um favor governamental, ou concedida pelo governo?" Remetido à Instância Superior, foi o processo distribuído à E. Segunda Câmara, oficiando como Relator o Ilustre Conselheiro ANTENOR DE BARROS LEITE FILHO que assim como a maioria dos conselheiros deu provimento parcial ao recurso excluindo a penalidade prevista no art.364, inciso II do RIPI. O voto vencedor expõe que a nulidade do Auto de Infração não pode ser acolhida embasada na afirmação de que o IPI não está vinculado e mais ainda sob a alegação de que os juros de mora não estavam esclarecidos devidamente. Pacífico é o entendimento que quando se fala em isenção de tributos na importação inclui-se automaticamente o IPI devido no despacho, esclarece ainda que o IPI vinculado não só existe como é duplamente vinculado a importação através da base de cálculo, primeiro pelo valor da mercadoria e depois pelo próprio valor do 1.1 que lhe é acrescido. O entendimento da exigência do transporte em navio de bandeira nacional é predominante no entendimento dos tribunais e do STF nos casos de isenção de tributos na importação. A multa não aprece adequada por se tratar de bem a ser incorporado no ativo da empresa e não transferido mediante nota fiscal. Face à intimação da decisão de 2a instância (fls. 72/73), o Interessado apresentou seu Recurso Especial de Divergência com documentos 4 Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 e a decisão divergente (fls. 75/86), conforme estatuído pela Portaria 539 de 17.07.92 fundamentada no art.30, inciso II, e art. 31 e seu parágrafo 10 motivando o cabimento do Recurso face a divergência do acórdão proferido 302-33.505 com o acórdão n.° 303-28.266, sessão de 06.07.95, da Eg. Terceira Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, O acórdão divergente trazido à colação, justificou o acolhimento do presente Recurso, emergindo a necessidade de harmonizar, pacificando de vez a jurisprudência do E. Terceiro Conselho de Contribuintes, eis que existem decisões conflitantes para processos tributários administrativos de idêntico teor. A Fazenda Nacional, através de seu procurador, ofereceu suas contra-razões ratificando os termos do v. acórdão recorrido e explicando que a razão do indeferimento do favor governamental ocorreu por não Ter preenchido todos os requisitos necessários para sua concessão inclusive e principalmente a obrigatoriedade do transporte em navio de bandeira nacional ou ainda bandeira de países que mantenham acordo de Governo de divisão de carga com o Brasil ou ainda navios de terceira bandeira desde que autorizados pela SUNAMAM mediante liberação de carga. Ressalta ainda que os argumentos apresentados pela defesa não procedem pois já foram bastante refutados pela autoridade singular e pela Câmara Julgadora, assim pede para que seja negado provimento ao recurso especial de divergência. É o Relatório. 5 Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 VOTO CONSELHEIRO NILTON LUIZ BARTOLI - RELATOR Esta E. Câmara Superior já se manifestou sobre a matéria aqui tratada. Dessa forma por ter o mesmo entendimento que o ilustre conselheiro Moacyr Eloy de Medeiros, adoto na íntegra seu voto prolatado no Acórdão CSRF/03-02.666 de 25 de agosto de 1998. " A matéria deste auto, advém do pedido de repetição de indébito (restituição) formulado pela recorrida, relativo ao recolhimento indevido do IPI, quando da importação de equipamento isento, sob a égide da Lei n.° 8.191/91, alterada pela Lei n.° 8.643/93 e Decreto n.° 151/91. A exigência do tributo, pelo órgão julgador, se baseou no Decreto 91.030/85, no Capítulo X que trata de "Proteção a Bandeira Brasileira" nos artigos 217, inciso III, § 2°, e 218. inciso III, que assim dispõe: "Artigo 217 - Respeitando o princípio da reciprocidade de tratamento, é obrigatório o transporte: III - em navio de bandeira brasileira, de qualquer outra mercadoria a ser beneficiada com isenção ou redução do imposto (Decreto-lei n.° 666/69, art. 2°)" "Art. 218 - O descumprimento do disposto no artigo anterior: II - quanto ao inciso III, importará na perda do benefício de isenção de tributos." Ora, dispõe o Decreto-lei n.° 666/69: - "Art. 2° - Será feito, obrigatoriamente, em navio de bandeira brasileira, respeitando o princípio da 6 Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 reciprocidade, o transporte de mercadorias importadas com quaisquer favores governamentais". "Art. 6° - Entendem-se por favores governamentais os benefícios de ordem fiscal ou cambial concedidos pelo Governo Federal". Aliás, como muito bem lembrou o ilustre Conselheiro relator Sérgio Silveira Melo, a lei fala em mercadorias importadas com favores governamentais, devendo-se entender, assim, que os favores (no caso, benefícios fiscais) estejam relacionados à importação. Ademais, o art. I, da Parte 1, do Acordo do Gatt, estabelece o princípio de que as normas tributárias não podem criar desigualdades de ocorrência com o produto importado, bem com em contrapartida, não podem prejudicar as condições de concorrência ao produto nacional. Entendo, ainda, que como o fato gerador do IPI vinculado ao 1.1. ocorre somente por ocasião do desembaraço aduaneiro, neste instante o produto estrangeiro já estará ingressando na massa de riqueza do País, porque já nacionalizado e despachado para consumo. Em tais circunstâncias não se lhe pode negar isenção concedida por lei emanada do Congresso Nacional e apenas sancionada pelo Poder Executivo, eis que, na realidade, não estamos diante de "benefício de ordem fiscal concedido pelo Poder Executivo" e, sim, diante de isenção concedida pelo governo federal. Ora, a isenção de IPI de que se trata é genérica, beneficia qualquer empresa, e se dirige às máquinas e equipamentos relacionados no Decreto n.° 151/91, quer sejam nacionais ou importados. Dessa forma, entendo, assim, que o gozo da isenção pelo importador não se subordina ao transporte obrigatório em navio de bandeira brasileira." Parece pois, que a norma legal contida na Lei 8.191/91, concede isenção do I.P.I. condicionada a outros requisitos de caráter geral, enquanto a exigência do Decreto-lei 666/69 está dirigida e limitada apenas ao Imposto de Importação. 7 n Processo n° : 10830.002842/93-96 Acórdão n° : CSRF/03-03.028 Labora, ainda, em abono desse raciocínio, o fato de que o Decreto-lei 666 foi editado em 1969, e a lei que concede isenção do I.P.I., em exame, é de 1991, reiterada pela n.° 8.643/93 e sucessivas prorrogações através de inúmeras medidas provisórias, que culminaram com a publicação da Lei n.° 9000/95, relevando anotar, que em nenhum desses textos posteriores, freqüentemente reeditados, há qualquer alusão a exigência de transporte em navio de bandeira brasileira de mercadoria importada, para gozo da isenção do I.P.I., embora pudesse fazê-lo, se esse fosse seu objetivo. Em face do exposto, conheço do recurso de divergência para no mérito dar-lhe provimento. Sala das Sessões, Brasília, 12 de abril de 1999 NILTON LUIZ BARTOLI 8 Page 1 _0000200.PDF Page 1 _0000300.PDF Page 1 _0000400.PDF Page 1 _0000500.PDF Page 1 _0000600.PDF Page 1 _0000700.PDF Page 1 _0000800.PDF Page 1
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Numero do processo: 10980.931325/2011-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do fato gerador: 31/03/2006
ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS/COFINS. COMPOSIÇÃO.
O ICMS compõe a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, integrante, portanto, do conceito de receita bruta.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.556
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Lenisa Prado, Charles Pereira Nunes e José Renato Pereira de Deus.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Rodrigues Prado.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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PIS/COFINS. INCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DAS CONTRIBUIÇÕES. Recorrente VS SUPRIMENTOS PARA COMUNICAÇÃO VISUAL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 31/03/2006 ICMS. BASE DE CÁLCULO. PIS/COFINS. COMPOSIÇÃO. O ICMS compõe a base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS, integrante, portanto, do conceito de receita bruta. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Lenisa Prado, Charles Pereira Nunes e José Renato Pereira de Deus. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Rodrigues Prado. Relatório Trata o presente processo de Pedido de Restituição/Declaração de Compensação (PERDCOMP) eletrônico por meio da qual a contribuinte objetivava quitar débitos tributários/solicitar restituição de valor utilizandose de créditos de COFINS, que teria sido indevidamente recolhido. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 93 13 25 /2 01 1- 64 Fl. 50DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 3 2 A justificativa apresentada pela autoridade fiscal para não homologar a compensação/indeferir o pedido de restituição foi que o DARF discriminado na PERDCOMP havia sido integralmente utilizado para quitação de débitos da contribuinte. Cientificada sobre o teor do despacho decisório, a contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, na qual alega que o pedido de compensação/restituição referese a créditos decorrentes de pagamentos a maior de PIS/Pasep e Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. A manifestação de inconformidade foi julgada improcedente pela instância de origem, nos termos do Acórdão 02057.482. Irresignada a contribuinte interpôs recurso voluntário, o que motivou a subida dos autos a este Conselho. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.500, de 25 de julho de 2017, proferido no julgamento do processo 10980.900996/201183, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.500) 1: "Em que pese as razões arroladas pela ilustre Relatora, peço licença para divergir dos fundamentos e do resultado dado ao presente o processo administrativo. Conforme relatado anteriormente, alega a Recorrente que os créditos são decorrentes de pagamentos a maior da Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. Cita e pede aplicação dos RE´s 240.7852/MS e 574.706. Para dirimir a controvérsia sobre a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS e, afastar a aplicação da decisão proferida pela Suprema Corte ao presente caso, empresto e adoto como fundamento as razões de decidir da i. Conselheira Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza, nos autos do processo administrativo nº 10283.902818/201235 (acórdão 3302004.158): 1 Deixo de transcrever o voto vencido, que pode ser facilmente consultado no Acórdão paradigma, mantendo apenas o entendimento predominante da Turma expresso no voto vencedor. Fl. 51DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 4 3 A controvérsia cingese sobre a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da contribuição para o PIS/Pasep e da COFINS. A situação que permeia os tribunais na atualidade é de dois posicionamentos conflitantes quanto à inclusão ou não do tributo na base de cálculo do PIS e da COFINS. O Superior Tribunal de Justiça no REsp 1144469/PR, em sistema de recursos repetitivos assim decidiu: RECURSO ESPECIAL DO PARTICULAR: TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. PIS/PASEP E COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITA OU FATURAMENTO. INCLUSÃO DO ICMS. 1. A Constituição Federal de 1988 somente veda expressamente a inclusão de um imposto na base de cálculo de um outro no art. 155, §2º, XI, ao tratar do ICMS, quanto estabelece que este tributo: "XI não compreenderá, em sua base de cálculo, o montante do imposto sobre produtos industrializados, quando a operação, realizada entre contribuintes e relativa a produto destinado à industrialização ou à comercialização, configure fato gerador dos dois impostos". 2. A contrario sensu é permitida a incidência de tributo sobre tributo nos casos diversos daquele estabelecido na exceção, já tendo sido reconhecida jurisprudencialmente, entre outros casos, a incidência: 2.1. Do ICMS sobre o próprio ICMS: repercussão geral no RE n. 582.461 / SP, STF, Tribunal Pleno, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 18.05.2011. 2.2. Das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS sobre as próprias contribuições ao PIS/PASEP e COFINS: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 976.836 RS, STJ, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 25.8.2010. 2.3. Do IRPJ e da CSLL sobre a própria CSLL: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.113.159 AM, STJ, Primeira Seção, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 11.11.2009. 2.4. Do IPI sobre o ICMS: REsp. n. 675.663 PR, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 24.08.2010; REsp. Nº 610.908 PR, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 20.9.2005, AgRg no REsp.Nº 462.262 SC, STJ, Segunda Turma, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 20.11.2007. 2.5. Das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS sobre o ISSQN: recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.330.737 SP, Primeira Seção, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 10.06.2015. 3. Desse modo, o ordenamento jurídico pátrio comporta, em regra, a incidência de tributos sobre o valor a ser pago a título de outros tributos ou do mesmo tributo. Ou seja, é legítima a incidência de tributo sobre tributo ou imposto sobre imposto, Fl. 52DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 5 4 salvo determinação constitucional ou legal expressa em sentido contrário, não havendo aí qualquer violação, a priori, ao princípio da capacidade contributiva. 4. Consoante o disposto no art. 12 e §1º, do DecretoLei n. 1.598/77, o ISSQN e o ICMS devidos pela empresa prestadora de serviços na condição de contribuinte de direito fazem parte de sua receita bruta e, quando dela excluídos, a nova rubrica que se tem é a receita líquida. 5. Situação que não pode ser confundida com aquela outra decorrente da retenção e recolhimento do ISSQN e do ICMS pela empresa a título de substituição tributária (ISSQNST e ICMSST). Nesse outro caso, a empresa não é a contribuinte, o contribuinte é o próximo na cadeia, o substituído. Quando é assim, a própria legislação tributária prevê que tais valores são meros ingressos na contabilidade da empresa que se torna apenas depositária de tributo que será entregue ao Fisco, consoante o art. 279 do RIR/99. 6. Na tributação sobre as vendas, o fato de haver ou não discriminação na fatura do valor suportado pelo vendedor a título de tributação decorre apenas da necessidade de se informar ou não ao Fisco, ou ao adquirente, o valor do tributo embutido no preço pago. Essa necessidade somente surgiu quando os diversos ordenamentos jurídicos passaram a adotar o lançamento por homologação (informação ao Fisco) e/ou o princípio da não cumulatividade (informação ao Fisco e ao adquirente), sob a técnica específica de dedução de imposto sobre imposto (imposto pago sobre imposto devido ou "tax on tax"). 7. Tal é o que acontece com o ICMS, onde autolançamento pelo contribuinte na nota fiscal existe apenas para permitir ao Fisco efetivar a fiscalização a posteriori, dentro da sistemática do lançamento por homologação e permitir ao contribuinte contabilizar o crédito de imposto que irá utilizar para calcular o saldo do tributo devido dentro do princípio da não cumulatividade sob a técnica de dedução de imposto sobre imposto. Não se trata em momento algum de exclusão do valor do tributo do preço da mercadoria ou serviço. 8. Desse modo, firmase para efeito de recurso repetitivo a tese de que: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendo se à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações". 9. Tema que já foi objeto de quatro súmulas produzidas pelo extinto Tribunal Federal de Recursos TFR e por este Superior Tribunal de Justiça STJ: Súmula n. 191/TFR: "É compatível a exigência da contribuição para o PIS com o imposto único sobre combustíveis e lubrificantes". Súmula n. 258/TFR: "Incluise na Fl. 53DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 6 5 base de cálculo do PIS a parcela relativa ao ICM". Súmula n. 68/STJ: "A parcela relativa ao ICM incluise na base de cálculo do PIS". Súmula n. 94/STJ: "A parcela relativa ao ICMS inclui se na base de cálculo do FINSOCIAL". 10. Tema que já foi objeto também do recurso representativo da controvérsia REsp. n. 1.330.737 SP (Primeira Seção, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 10.06.2015) que decidiu matéria idêntica para o ISSQN e cujos fundamentos determinantes devem ser respeitados por esta Seção por dever de coerência na prestação jurisdicional previsto no art. 926, do CPC/2015. 11. Ante o exposto, DIVIRJO do relator para NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial do PARTICULAR e reconhecer a legalidade da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS. RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL: TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. PIS/PASEP E COFINS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DOS VALORES COMPUTADOS COMO RECEITAS QUE TENHAM SIDO TRANSFERIDOS PARA OUTRAS PESSOAS JURÍDICAS. ART. 3º, § 2º, III, DA LEI Nº 9.718/98. NORMA DE EFICÁCIA LIMITADA. NÃO APLICABILIDADE. 12. A Corte Especial deste STJ já firmou o entendimento de que a restrição legislativa do artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9.718/98 ao conceito de faturamento (exclusão dos valores computados como receitas que tenham sido transferidos para outras pessoas jurídicas) não teve eficácia no mundo jurídico já que dependia de regulamentação administrativa e, antes da publicação dessa regulamentação, foi revogado pela Medida Provisória n. 2.158 35, de 2001. Precedentes: AgRg nos EREsp. n. 529.034/RS, Corte Especial, Rel. Min. José Delgado, julgado em 07.06.2006; AgRg no Ag 596.818/PR, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJ de 28/02/2005; EDcl no AREsp 797544 / SP, Primeira Turma, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 14.12.2015, AgRg no Ag 544.104/PR, Rel. Min. Humberto Martins, Segunda Turma, DJ 28.8.2006; AgRg nos EDcl no Ag 706.635/RS, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, DJ 28.8.2006; AgRg no Ag 727.679/SC, Rel. Min. José Delgado, Primeira Turma, DJ 8.6.2006; AgRg no Ag 544.118/TO, Rel. Min. Franciulli Netto, Segunda Turma, DJ 2.5.2005; REsp 438.797/RS, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, DJ 3.5.2004; e REsp 445.452/RS, Rel. Min. José Delgado, Primeira Turma, DJ 10.3.2003. 13. Tese firmada para efeito de recurso representativo da controvérsia: "O artigo 3º, § 2º, III, da Lei n.º 9718/98 não teve eficácia jurídica, de modo que integram o faturamento e também o conceito maior de receita bruta, base de cálculo das contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, os valores que, computados como receita, tenham sido transferidos para outra pessoa jurídica". Fl. 54DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 7 6 14. Ante o exposto, ACOMPANHO o relator para DAR PROVIMENTO ao recurso especial da FAZENDA NACIONAL. (REsp 1144469/PR; Relator: Napoleão Nunes Maia Filho; Relator para o acórdão: Mauro Campbell Maques) (grifos não constam no original) Já o Supremo Tribunal Federal, no RE 574.706RG/PR, julgou, no dia 15.03.2017, no sentido de que: O Tribunal, por maioria e nos termos do voto da Relatora, Ministra Cármen Lúcia (Presidente), apreciando o tema 69 da repercussão geral, deu provimento ao recurso extraordinário e fixou a seguinte tese: "O ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da Cofins". Vencidos os Ministros Edson Fachin, Roberto Barroso, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Nesta assentada o Ministro Dias Toffoli aditou seu voto. Plenário, 15.3.2017. (grifos não constam do original) No âmbito do regimento interno deste Egrégio Tribunal Administrativo, existe previsão normativa em seu artigo 62, anexo II, sobre a obrigatoriedade de se observar os precedentes em sistema de repetitivos e/ou repercussão geral na análise dos casos: RICARF Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: (...) II que fundamente crédito tributário objeto de: (...) b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei n º 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) O RICARF prevê o requisito da decisão definitiva para a obrigatoriedade da aplicação do precedente, no caso em análise, o REsp 1.144.469/PR transitou em julgado em 10.03.2017 e o RE 574.706RG/PR ainda espera a modulação de seus efeitos, não havendo, portanto, trânsito em julgado. Logo, devese Fl. 55DF CARF MF Processo nº 10980.931325/201164 Acórdão n.º 3302004.556 S3C3T2 Fl. 8 7 observar a decisão, já transitada em julgado, do Superior Tribunal de Justiça. Em razão da obrigatoriedade por parte do conselheiro em aplicar o RICARF, acima exposto, os argumentos da Recorrente de desnecessidade de previsão legal para a exclusão do ICMS por respeito ao princípio da capacidade contributiva e da impossibilidade de considerar o ICMS como parte integrante do faturamento ficam, desde já, encontramse fundamentados com a aplicação do precedente obrigatório. Portanto, em conformidade com o REsp 1.144.469/PR, que firmou para efeito de recurso repetitivo a tese de que: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendose à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações", é negado provimento ao recurso voluntário. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o litígio resumese ao direito a créditos decorrente de pagamentos a maior de PIS/Pasep e Cofins, em razão da inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Fl. 56DF CARF MF
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