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Numero do processo: 10860.721166/2012-39
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 30/04/2007 a 31/12/2007
DECADÊNCIA. PRAZO. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS E DÉBITOS DE IPI NA ESCRITA FISCAL. EQUIVALE A PAGAMENTO. ARTIGOS 150, PARÁGRAFO 4º E ARTIGO 173, INCISO I, DO CTN. ARTIGO 124, INCISO III, DO DECRETO Nº 4.544/2002 (RIPI/2002).
Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação.
Para fins de IPI, ganha destaque o artigo 124, inciso III, do RIPI/2002, pelo qual considera-se pagamento a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher, hipótese que atrai a aplicação do prazo decadencial previsto no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN.
Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 30/04/2007 a 31/12/2007
IPI. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA, PRODUTO INTERMEDIÁRIO E EMBALAGENS ISENTOS. ZONA FRANCA DE MANAUS. DIREITO DE CRÉDITO. INEXISTÊNCIA.
A sistemática de apuração não cumulativa do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, ressalvada a previsão em lei, tem como pressuposto a exigência do tributo na etapa imediatamente anterior, para abatimento com o valor devido na operação seguinte, não bastando a mera incidência jurídica, de forma tal que as aquisições isentas de matérias-primas, produtos intermediários e materiais de embalagem, mesmo que oriundas da Zona Franca de Manaus, não garantem crédito de IPI, por ausência de previsão legal específica.
AUDITORIA DE ESTOQUE. QUEBRAS E PERDAS. PERCENTUAL. ARTIGOS 448 E 449 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO CST Nº 45/77.
No procedimento de auditoria de estoque para verificação da correção no que tange ao pagamento do IPI, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, para fins de comparação com a quantidade de produtos registrados pelo contribuinte como produzidos em seus livros fiscais, utilizando-se, para tanto, de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção.
Caso sejam encontradas diferenças, é possível ao contribuinte justificá-las, com base nas quebras/perdas normalmente existentes tanto em relação a (i) insumos, como (ii) processo produtivo e (iii) estoques de produtos acabados, conforme Parecer Normativo CST nº 45/77.
SISTEMA EQUIVALENTE AO REGISTRO DE ENTRADAS E REGISTRO DE CONTROLE DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE. ARTIGO 388 DO RIPI/2002. LÍNGUA ESTRANGEIRA (INGLESA). AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO PREJUÍZO À PERFEITA APURAÇÃO DO ESTOQUE PERMANENTE.
Pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos.
Não merece prosperar a acusação genérica de que o sistema de controle alternativo utilizado pelo contribuinte não é adequado e hábil ao controle de mercadorias, em razão de adotar língua estrangeira, devendo haver demonstração concreta de dificuldades na fiscalização.
INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN.
A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN.
Numero da decisão: 3401-003.872
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para: (a1) reconhecer a decadência em relação aos créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 04/07/2007; e (a2) manter o lançamento relativo aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da recorrente, e a multa de ofício em relação ao lançamento remanescente; (b) por maioria de votos, para: (b1) manter o lançamento, no que se refere a créditos decorrentes de aquisições da Zona Franca de Manaus, vencido o relator e os Conselheiros André Henrique Lemos e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco; (b2) afastar o lançamento, decorrente de glosa de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela recorrente, vencidos o Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida; e (b3) excluir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designados para redigir votos vencedores os Conselheiros Robson José Bayerl, em relação a aquisições da Zona Franca de Manaus, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente.
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA - Relator.
ROBSON JOSÉ BAYERL - Redator designado.
LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA
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PRAZO. COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS E DÉBITOS DE IPI NA ESCRITA FISCAL. EQUIVALE A PAGAMENTO. ARTIGOS 150, PARÁGRAFO 4º E ARTIGO 173, INCISO I, DO CTN. ARTIGO 124, INCISO III, DO DECRETO Nº 4.544/2002 (RIPI/2002). Nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação. Para fins de IPI, ganha destaque o artigo 124, inciso III, do RIPI/2002, pelo qual considerase pagamento a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher, hipótese que atrai a aplicação do prazo decadencial previsto no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 30/04/2007 a 31/12/2007 IPI. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE MATÉRIAPRIMA, PRODUTO INTERMEDIÁRIO E EMBALAGENS ISENTOS. ZONA FRANCA DE MANAUS. DIREITO DE CRÉDITO. INEXISTÊNCIA. A sistemática de apuração não cumulativa do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, ressalvada a previsão em lei, tem como pressuposto a exigência do tributo na etapa imediatamente anterior, para abatimento com o valor devido na operação seguinte, não bastando a mera incidência jurídica, de forma tal que as aquisições isentas de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, mesmo que oriundas da Zona AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 0. 72 11 66 /2 01 2- 39 Fl. 2763DF CARF MF 2 Franca de Manaus, não garantem crédito de IPI, por ausência de previsão legal específica. AUDITORIA DE ESTOQUE. QUEBRAS E PERDAS. PERCENTUAL. ARTIGOS 448 E 449 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO CST Nº 45/77. No procedimento de auditoria de estoque para verificação da correção no que tange ao pagamento do IPI, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, para fins de comparação com a quantidade de produtos registrados pelo contribuinte como produzidos em seus livros fiscais, utilizandose, para tanto, de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção. Caso sejam encontradas diferenças, é possível ao contribuinte justificálas, com base nas quebras/perdas normalmente existentes tanto em relação a (i) insumos, como (ii) processo produtivo e (iii) estoques de produtos acabados, conforme Parecer Normativo CST nº 45/77. SISTEMA EQUIVALENTE AO REGISTRO DE ENTRADAS E REGISTRO DE CONTROLE DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE. ARTIGO 388 DO RIPI/2002. LÍNGUA ESTRANGEIRA (INGLESA). AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO PREJUÍZO À PERFEITA APURAÇÃO DO ESTOQUE PERMANENTE. Pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos. Não merece prosperar a acusação genérica de que o sistema de controle alternativo utilizado pelo contribuinte não é adequado e hábil ao controle de mercadorias, em razão de adotar língua estrangeira, devendo haver demonstração concreta de dificuldades na fiscalização. INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN. A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao Recurso Voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para: (a1) reconhecer a decadência em relação aos créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 04/07/2007; e (a2) manter o lançamento relativo aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da recorrente, e a multa de ofício em relação ao lançamento remanescente; (b) por maioria de votos, para: (b1) manter o lançamento, no que se refere a Fl. 2764DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.764 3 créditos decorrentes de aquisições da Zona Franca de Manaus, vencido o relator e os Conselheiros André Henrique Lemos e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco; (b2) afastar o lançamento, decorrente de glosa de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela recorrente, vencidos o Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida; e (b3) excluir a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, vencidos os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designados para redigir votos vencedores os Conselheiros Robson José Bayerl, em relação a aquisições da Zona Franca de Manaus, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente. ROSALDO TREVISAN Presidente. AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA Relator. ROBSON JOSÉ BAYERL Redator designado. LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório O processo administrativo ora em julgamento decorre da lavratura de Auto de Infração (fls. 0217), em 03/07/2012, do qual o contribuinte foi cientificado no dia seguinte, 04/07/2012 (conforme fls. 17), para cobrança de crédito tributário no valor de R$4.367.153,61 (quatro milhões, trezentos e sessenta e sete mil, cento e cinqüenta e três reais e sessenta e um centavos), a título de Multa de Imposto sobre Produtos Industrializados ("IPI") por não lançamento do imposto e por glosa de créditos indevidos, com fundamento no artigo 80, caput, da Lei nº 4.502/1964, com redação dada pelo artigo 13 da Medida Provisória nº 351/2007 ou Fl. 2765DF CARF MF 4 pelo artigo 13 da Lei nº 11.488/2007, a depender da data dos fatos geradores, ocorridos entre 30/04/2007 e 31/12/2007. De acordo com o Auto de Infração e o Relatório Fiscal de fls. 18 e seguintes a ele anexado, na auditoria de pedidos de ressarcimento de saldo credor de IPI do contribuinte, a Fiscalização verificou a ocorrência de quatro tipos de irregularidades: (i) nos períodos de apuração entre 30/04/2007 a 31/12/2007, "a fiscalizada não emitiu nota fiscal, com destaque de IPI, quando apurou falta de mercadorias em seu estoque"; (ii) nos períodos de apuração entre 31/07/2007 a 31/12/2007, o contribuinte teria dado saída a produto com emissão de nota fiscal com destaque insuficiente do IPI, por deixar de observar normas legais que tratam do valor tributável mínimo; (iii) nos períodos de apuração entre 30/04/2007 a 31/12/2007, o contribuinte teria escriturado créditos que seriam indevidos/ilegítimos, de duas naturezas diferentes: "créditos de IPI hipotético advindos de aquisições de mercadorias isentas oriundas da Zona Franca de Manaus" e "créditos de IPI relativos a insumos que não tiveram uso produtivo ajustes registrados sob o código CN02"; e (iv) nos períodos de apuração entre 30/04/2007 a 31/12/2007, "o estabelecimento industrial se utilizou, indevidamente, de créditos relativos a devoluções de vendas/revendas e, retornos de produtos sem possuir registro hábil que os legitimasse". A constatação de tais irregularidades deu origem somente à aplicação de multa e não ao lançamento de IPI, em razão da existência de saldo credor nos livros da contribuinte. A primeira irregularidade tem relação com valores registrados no código CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente, que se destinava a registrar divergências numéricas no estoque de insumos da Recorrente, quando a Recorrente promovia contagem do estoque e verificava a falta, ou seja, quantidade reais inferiores às quantidades escrituradas. Nessa hipótese, a Fiscalização defende que deveria a Recorrente emitir nota fiscal, com lançamento do IPI, com base no artigo 123, alínea "o", do Regulamento do IPI de 2002 e Parecer Normativo CST nº 569/71. Já em relação à segunda irregularidade apontada, saídas de produtos com insuficiência de destaque de IPI, a Fiscalização justifica o lançamento e a recomposição da base de cálculo, nos termos a seguir: "(...) a norma estipula exatamente o oposto do procedimento da LG. A norma determina como deve ser formada a base de cálculo, exatamente para que a mesma não seja, artificialmente, deprimida e, por conseguinte, o destaque do tributo não seja reduzido por razões exógenas ao fato gerador. Tendo isso em vista, contrariamente ao esposado por LG, as saídas aqui tratadas devem ter suas bases de cálculo recompostas, adequandoas ao que estabelece a legislação do IPI. Fl. 2766DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.765 5 (...) O entendimento é que, se saída tributada, não é legitimo a base de cálculo do tributo ser constituída com valor menor do que o custo de produção do produto. Ou, que seja válido LG transferir valor a título gratuito, não oferecendo valor à tributação. Repetindo porque importante registrar: as retificações que constam deste Auto tão só consideraram as parcelas "custo/LG" e, tributos (PIS/Cofins/ICMS). Ou seja, não incluíram nenhuma outra parcela que compôs as saídas com margens positivas, tais como, lucro, despesas, etc, parcelas estas previstas no ato normativo o que é visível com as margens positiva em percentuais substantivos". No que se refere à terceira irregularidade, escrituração de créditos indevidos/ilegítimos, a Fiscalização glosou (i) créditos decorrentes de aquisições de produtos com saída isenta da Zona Franca de Manaus, afirmando que tal creditamento não encontraria amparo legal, pois só as aquisições de produtos que tiveram pagamento de IPI em sua saída é que poderiam gerar esse crédito, indicando os artigos 163 e 164 do Regulamento do IPI de 2002; e (ii) créditos referentes a "ajustes registrados sob o código CN02". O código CN02 é utilizado em relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente para registro de "saída de materiais em almoxarifado para reposição dos materiais rejeitados no processo de produção, ou seja, transferência dos almoxarifados de peças extras para substituir peças que apresentaram problemas durante o processo de produção". Como afirma a Fiscalização, após diversos termos de intimação e respostas da Recorrente, eram registrados sob o código CN02 insumos com defeito de fabricação e insumos referentes a quebra/perda no processo produtivo. Nesse item da autuação, a Fiscalização afirma que os insumos com defeito de fabricação deveriam ser objeto de devolução de compras com o correspondente estorno do IPI registrado quando da sua entrada, com fundamento no artigo 193, inciso VI, do Regulamento do IPI de 2002. Já com relação aos insumos relativos a quebras/perdas no processo produtivo, levando em consideração que a Recorrente informou não saber distinguir no código CN02 o que era insumo com defeito de fabricação e o que era insumo relacionado a quebra/perda no processo produtivo, a Fiscalização afirma ser impossível saber o índice, percentual de quebras/perdas de seu processo produtivo, que a Recorrente não possui nenhum laudo hábil para justificar eventuais quebras/perdas, o que afastaria a possibilidade de aplicação do artigo 449 do Regulamento do IPI. Por último, com relação à quarta irregularidade, créditos indevidos pela inexistência de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou seu equivalente, a Fiscalização lastreia a acusação nos seguintes motivos. A Fiscalização reconhece que há direito de crédito relativo a produtos tributados recebidos em devolução, porém, "condicionado à comprovação inequívoca de que a mercadoria retornou entrou nos estoques do Contribuinte e, teve, posteriormente, saída tributada", com base nos artigos 167 e 169 do Regulamento do IPI de 2002 e artigo 30 da Lei nº 4.502/1964. Fl. 2767DF CARF MF 6 Porém, deixou de reconhecer os créditos registrados pela Recorrente, por entender que a Recorrente não possuía um controle hábil para tanto, tendo a Fiscalização apontado como fundamento para a sua conclusão única e exclusivamente o fato de o controle utilizado pela Recorrente adotar como idioma o inglês e não o português, conforme a seguir: "Um controle, hábil, portanto, deve propiciar, de forma inquestionável, cristalina, o exato momento do retorno aos estoques e, o exato momento da nova saída do estabelecimento. E, o tributo envolvido na operação. Conforme registrado em Termo, o pretendido registro equivalente ao Livro regulamentar está exemplificado em Anexo 4. Em idioma inglês, como se vê. A questão, assim, é elementar: é cabível, juridicamente, legalmente, documento em língua que não a pátria, ser hábil para comprovar o cumprimento de norma administrativa tributária? Ser válido, legítimo para documentar a lisura de créditos por devolução de vendas/revendas, como no caso ora relato? De acordo com nosso ordenamento jurídico, não. Sem dúvida, não. Tanto assim que tal exigência constou no Código Civil de 1916 e, como não poderia deixar de ser, consta do novel Código Civil, em seu artigo 224, a seguir: (...) Enfatizese, então, que LG não possui nem o Registro regulamentar nem mesmo algo que se aproxime de seu equivalente, pelo menos, não em idioma nacional, leiase, em português. Em sendo assim, enquanto este idioma for o de uso forçado no território nacional, LG não possui controle hábil de fluxo de mercadorias em seu estabelecimento taubateano" Contra o lançamento, o contribuinte apresentou a Impugnação, julgada improcedente, em 05/11/2013, pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém PA ("DRJ"), em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 30/04/2007 a 31/12/2007 PAF. ATO NORMATIVO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de dispositivos que integram a legislação tributária. IPI. DECADÊNCIA. FALTA DE PAGAMENTO. REGRA GERAL. O prazo para a Fazenda Pública constituir o crédito tributário relativo ao IPI é de cinco anos e regese pelo disposto no Código Tributário Nacional. Assim, na hipótese em que há recolhimento parcial antecipado, o lustro decadencial tem início na data de ocorrência do fato gerador, na forma do artigo 150, § 4°, do Estatuto Tributário. De outro lado, não havendo qualquer pagamento, aplicase a regra do artigo 173, inciso I, do mesmo diploma, Fl. 2768DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.766 7 contandose o prazo do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. IPI. CRÉDITOS. DEVOLUÇÕES OU RETORNOS. É permitido ao estabelecimento industrial creditarse do imposto relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, desde que mantenha escrituração e controles que lhe permitam comprovar sua condição de detentor de tal direito. IPI. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES DESONERADAS. O princípio da nãocumulatividade do IPI é implementado por meio da escrita fiscal, com crédito do valor do imposto efetivamente pago na operação anterior e débito do valor devido nas operações posteriores. Assim, o direito ao crédito do IPI condicionase a que as aquisições de insumos utilizados no processo de industrialização tenham sido efetivamente oneradas pelo imposto. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL. REGRA GERAL. Como regra geral, o valor tributável dos produtos nacionais e dos produtos de procedência estrangeira é o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, vedada a dedução de descontos, diferenças ou abatimentos concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. IPI. INSUMOS INUTILIZADOS OU DETERIORADOS. CRÉDITOS. ESTORNO. Deve ser anulado, mediante estorno na escrita fiscal, o crédito do IPI relativo a insumos que hajam sido furtados ou roubados, inutilizados ou deteriorados. IPI. DESTAQUE. FALTAS HAVIDAS NOS ESTOQUES. Apurada a falta no estoque de produtos, o contribuinte deve proceder ao pagamento do imposto sobre a totalidade dos bens faltantes, efetuando o seu destaque em nota fiscal especialmente emitida para esse fim, no momento da verificação da falta. IPI. FALTA DE LANÇAMENTO EM NOTA FISCAL. MULTA. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do IPI na respectiva nota fiscal, sujeita o contribuinte à multa de ofício de setenta e cinco por cento do valor do imposto que deixou de ser lançado. JUROS DE MORA. DÉBITOS DECORRENTES DE TRIBUTOS. INCIDÊNCIA. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Receita Federal do Brasil, quando não pagos no prazo, sofrerão a incidência de juros de mora calculados com base na taxa Selic". Fl. 2769DF CARF MF 8 O contribuinte, ora Recorrente, foi cientificado dessa decisão em 22/11/2013, sextafeira, conforme documento de fls. 2170, apresentando tempestivo Recurso Voluntário, em 23/12/2013 (fls. 2172), no qual requer a reforma ou nulidade da decisão recorrida e o cancelamento do Auto de Infração, com base nos seguintes argumentos: (i) decadência parcial do crédito tributário; (ii) a Recorrente alega que possuiria sistema permanente de controle de estoques alternativo ao Registro de Controle da Produção e Estoque apto a demonstrar de forma quantitativa a movimentação de estoques; nesse tópico, ainda pede que seja reconhecida a nulidade da decisão recorrida, pois ao apreciar a matéria, justifica o lançamento por motivos adicionais e estranhos ao que teria sido apontado no Auto de Infração; (iii) não haveria restrições ao crédito de IPI decorrente de aquisições de insumos provenientes da Zona Franca de Manaus, "especialmente por se tratar de produtos oriundos de uma área incentivada, protegida pela Constituição Federal"; (iv) a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001, além disso, a Recorrente defende os preços praticados e afirma que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistisse preço corrente no mercado atacadista; (v) seria regular o procedimento de contabilização em relação aos insumos nos códigos CN02 e CN06; (vi) seria inaplicável a multa de 75% (setenta e cinco por cento) em caso de existência de saldo credor; e (vii) seria ilegal a incidência da taxa SELIC sobre a multa de ofício. Em seguida, os autos foram remetidos ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF") e distribuídos à minha relatoria. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento, para que o Colegiado aprecie as matérias a seguir. Decadência em lançamentos de IPI O CTN estabelece como regra geral que o início da contagem do prazo é o primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, segundo dispõe o artigo 173, inciso I1. Porém, no que se refere aos tributos sujeitos ao lançamento por homologação, prevalece a regra especial esculpida no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN2, nos quais o prazo para a contagem da decadência tem início com a ocorrência do fato gerador. 1 Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extinguese após 5 (cinco) anos, contados: I do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; 2 Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. (...) § 4º Se a lei não fixar prazo a homologação, será ele de cinco anos, a contar da ocorrência do fato gerador; expirado esse prazo sem que a Fazenda Pública se tenha pronunciado, considerase homologado o lançamento e definitivamente extinto o crédito, salvo se comprovada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. Fl. 2770DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.767 9 A partir da leitura desses dispositivos, a jurisprudência firmada pelo Superior Tribunal de Justiça ("STJ") e seguida por esse Tribunal Administrativo é no sentido de que, nos tributos sujeitos ao lançamento por homologação deve ser aplicado o prazo do artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, quando o contribuinte efetua algum pagamento, e o prazo previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, na inexistência de pagamento ou na hipótese de dolo, fraude ou simulação. Porém, nos casos que envolvem o IPI, merece ainda destaque o artigo 124 do Regulamento do IPI (Decreto nº 4.544/2002), que prevê: "Art. 124. Os atos de iniciativa do sujeito passivo, no lançamento por homologação, aperfeiçoamse com o pagamento do imposto ou com a compensação do mesmo, nos termos dos arts. 207 e 208 e efetuados antes de qualquer procedimento de ofício da autoridade administrativa (Lei nº 5.172, de 1966, art. 150 e § 1º, Lei nº 9.430, de 1996, arts. 73 e 74, e Medida Provisória nº 66, de 2002, art. 49). Parágrafo único. Considerase pagamento: I o recolhimento do saldo devedor, após serem deduzidos os créditos admitidos dos débitos, no período de apuração do imposto; II o recolhimento do imposto não sujeito a apuração por períodos, haja ou não créditos a deduzir; ou III a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher". Seguindo esse tecido normativo, a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, de forma não unânime, afirmou que “a dedução dos débitos, no período de apuração do imposto, dos créditos admitidos, sem resultar saldo a recolher considerase pagamento, para efeito de contagem de prazo decadencial para lançamento tributário". (Processo nº 19515.002386/200454; Acórdão nº 9303003.299; 3ª Turma; Sessão de 24/03/2015; Relator: Joel Miyazaki; Voto Vencedor: Júlio Cesar Alves Ramos) Assim, no presente caso, com fundamento no artigo 150, parágrafo 4º, do CTN, e artigo 124, inciso III, do Decreto nº 4.544/2002, considerando que o contribuinte tomou ciência do lançamento em 04/07/2012, devem ser cancelados todos os créditos tributários cujo fato gerador ocorreu antes de 04/07/2007. Lançamentos relativos aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente A Fiscalização não concordou com o tratamento fiscal que a Recorrente deu a valores lançados em relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente, nos códigos CN02 e CN06. No código CN02, a Recorrente registrava a quantidade de insumos com defeito de fabricação e insumos substituídos em razão de quebra/perda no processo produtivo, porém, segundo informou no curso da Fiscalização, não sabia precisar o que exatamente se enquadrava em um caso ou em outro. Fl. 2771DF CARF MF 10 Com relação a esses valores, a Fiscalização entendeu que deveria ocorrer o estorno do IPI registrado quando da sua entrada, com fundamento no artigo 193, inciso VI, do Regulamento do IPI de 2002. Destacou ainda, em relação às quebras/perdas no processo produtivo, que não se aplicava o artigo 449 do Regulamento de IPI, pois, no caso concreto, era impossível o conhecimento do percentual de quebras/perdas de seu processo produtivo, tanto em razão de a Recorrente não dispor dessa informação, quanto pela ausência de um laudo hábil a justificar tais quebras/perdas. Já no código CN06 foram registrados valores relativos à diferença entre a quantidade real de insumo existente no estoque e a quantidade escriturada. Nessa hipótese, a Fiscalização defende que deveria a Recorrente emitir nota fiscal, com lançamento do IPI, com base no artigo 123, alínea "o", do Regulamento do IPI de 2002 e Parecer Normativo CST nº 569/71. Em sua defesa, a Recorrente inicialmente desenvolve a tese que de que tais valores compõe o custo dos produtos industrializados a que dá saída e, dessa forma, já se submetem à tributação pelo IPI, não havendo que se falar em estorno de crédito em relação aos valores registrados no código CN02 e destaque de imposto em relação ao código CN06. Em seguida, apresenta os seguintes argumentos: (i) deveria ser considerado o percentual de quebras no processo produtivo da Recorrente, em torno de 0,50% (meio por cento) dos insumos adquiridos, o que seria razoável para aquela indústria; (ii) no que se refere ao lançamento de valores registrados no código CN02, não havendo a devolução, não há que se falar em estorno de crédito; e (iii) no que diz respeito à infração relacionado ao código CN06, não poderia haver exigência de emissão de nota fiscal com destaque de imposto, pois a Recorrente não praticou a venda do insumo, mas, no máximo, glosa do crédito da aquisição de insumo. No presente caso, a Fiscalização realizou algo próximo a uma auditoria de estoque, cujo procedimento estava previsto, à época dos fatos geradores nos artigos 448 e 449 do Regulamento do IPI de 2002, abaixo transcritos: “Art. 448. Constituem elementos subsidiários, para o cálculo da produção, e correspondente pagamento do imposto, dos estabelecimentos industriais, o valor e quantidade das matériasprimas, produtos intermediários e embalagens adquiridos e empregados na industrialização e acondicionamento dos produtos, o valor das despesas gerais efetivamente feitas, o da mãode obra empregada e o dos demais componentes do custo de produção, assim como as variações dos estoques de matériasprimas, produtos intermediários e embalagens (Lei nº 4.502, de 1964, art. 108). § 1º Apurada qualquer falta no confronto da produção resultante do cálculo dos elementos constantes desse artigo com a registrada pelo estabelecimento, exigirseá o imposto correspondente, o qual, no caso de fabricante de produtos sujeitos a alíquotas e preços diversos, será calculado com base nas alíquotas e preços mais elevados, quando não for possível fazer a separação pelos elementos da escrita do estabelecimento. (Incluído pelo Decreto nº 4.859, de 14.10.2003) § 2º Apuradas, também, receitas cuja origem não seja comprovada, considerarseão provenientes de vendas não registradas e sobre elas será exigido o imposto, mediante adoção do critério estabelecido no § 1º. (Incluído pelo Decreto nº 4.859, de 14.10.2003) Fl. 2772DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.768 11 Art. 449. As quebras alegadas pelo contribuinte, nos estoques ou no processo de industrialização, para justificar diferenças apuradas pela fiscalização, serão submetidas ao órgão técnico competente, para que se pronuncie, mediante laudo, sempre que, a juízo de autoridade julgadora, não forem convenientemente comprovadas ou excederem os limites normalmente admissíveis para o caso (Lei nº 4.502, de 1964, art. 58, § 1º)”. (grifos nossos) Como se verifica, no procedimento de auditoria de estoque, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, a fim de comparar com a quantidade de produtos produzidos tal como é registrada pelo contribuinte em seus livros fiscais, para verificar a correção no que tange ao pagamento do IPI. Para tanto se utiliza de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção. Assim, por exemplo, fixada a premissa de que para a produção de 10 automóveis é necessária a aquisição de 15.000 parafusos e o emprego de 18 funcionários na linha de produção, na hipótese de a indústria registrar a produção de 10 automóveis, porém, tiver adquirido 20.000 parafusos e contar com 24 funcionários na linha de produção, a Fiscalização, salvo a existência de uma justificativa razoável, poderá chegar à conclusão, obviamente com a adição de mais elementos subsidiários do que os utilizados nesse singelo exemplo, de que a produção da indústria, na realidade, foi de 13 carros, devendo lançar a diferença de imposto, nos termos do parágrafo 1º, do artigo 448, do Regulamento do IPI. Todavia, o contribuinte poderá justificar as diferenças encontradas, com base nas quebras normalmente existentes seja no estoque seja no processo de fabricação. Desse modo, se existir uma justificativa razoável para que ocorra quebra no estoque de insumo em determinado percentual, a aquisição de insumo a maior, nesse mesmo percentual ficaria justificada, pela constatação de que o excesso não se integra a produto não oferecido à tributação, mas acaba quebrando no próprio estoque. Por outro lado, pode ser que existam motivos para quebra no processo de produção, de modo que a indústria adquira uma quantidade de insumos que não corresponderia, em tese, à quantidade de produtos fabricados, mas que se justifica por conta desse percentual de quebra ou perda durante o processo produtivo. Essas justificativas são apresentadas seguindo o disposto no artigo 449 do Regulamento do IPI, que tem como base legal o artigo 58, parágrafo único, da Lei nº 4.502/1964. Enquanto o dispositivo legal versa sobre um ajuste de estoque realizado pelo próprio contribuinte, dentro de um percentual de tolerância de quebra/perda, previamente estabelecido pela autoridade fiscal para ele, o dispositivo regulamentar trata da auditoria de estoque realizada pela Fiscalização, motivo pelo qual, deve ser interpretado dentro desse contexto. Nesse sentido, o artigo 449 do Regulamento do IPI prevê que cabe ao contribuinte alegar a quebra – e, a quem alega, também cabe provar , contudo, se os percentuais de quebra/perda excederem os limites normais daquele processo industrial ou houver dúvidas em relação à prova apresentada, a autoridade julgadora – e não a autoridade lançadora – submeterá a questão para que órgão técnico competente emita laudo a respeito. Em linha com o que determina o artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972, acredito que a remessa da questão dos percentuais de quebra/perda no processo produtivo para trabalho técnico é uma faculdade e não uma obrigação da autoridade julgadora que, portanto, deverá fazêlo quando entender necessário. Fl. 2773DF CARF MF 12 Sobre a matéria, impende citar o Parecer Normativo CST nº 45/77 que, apesar de editado sob égide de Regulamento do IPI anterior ao que regulava os fatos geradores objeto do lançamento, esclarece que as quebras/perdas podem se relacionar tanto aos insumos quanto aos estoques de produtos acabados e que, uma vez admitido o percentual de quebra/perda, os créditos escriturados na aquisição de tais insumos devem ser mantidos, conforme a seguir: “1 A admissibilidade de quebras de estoque para produtos acabados estendese às quebras de estoque de insumos, obedecidas as mesmas condições estabelecidas no Regulamento. (...) 5 Como no regime do Decreto nº 70.162/72 controlamse não apenas os estoques de produtos acabados, como também os estoques de insumos, no Registro de Controle da Produção e do Estoque (art. 157, § 4º, itens VI e VII), é de admitiremse, por analogia do artigo 189 do mesmo Regulamento, as quebras de "estoque" de insumos, em casos excepcionais, previamente justificados e aprovados em processo. Retifiquese, neste aspecto, o item 3 do PN nº 351/71, que estende a norma do artigo 189 citado às quebras de insumos "no processo" de industrialização. (...) 7 Resta determinar se deve ou não ser estornado o crédito fiscal correspondente aos insumos perdidos, por quebra decorrente do próprio processo industrial. (...) Desta forma, é de concluirse que se o insumo passa pelo processo fabril e nele se perde, sob a forma de aparas, resíduos, evaporação, etc., ou se inutiliza inteiramente, em decorrência de deficiências inerentes ao processo, tais como falhas do equipamento, rompimento de embalagens e semelhantes, ocorre a hipótese de o insumo ter sido "consumido" no processo de industrialização. Deve, portanto, no caso, ser mantido o crédito fiscal correspondente a esses insumos”. Entretanto, no caso ora em análise, a Fiscalização não precisou efetivamente realizar um trabalho mais elaborado de auditoria de estoque, aproveitandose de informações existentes em relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente, no código CN02, os valores relativos às quebras e perdas, nos quais devem se incluir os valores referentes a produtos com defeito de fabricação de fornecedores estrangeiros, não devolvidos, no que se concorda com o argumento exposto pela Recorrente nesse sentido, e no código CN06, a diferença entre o estoque real e o registrado, que por constar em registro diverso e separado, assumese seja relativo aos valores que excedam os valores normais de quebras/perdas de estoque e processo produtivo, observados pela Recorrente. Assim, não precisou a Fiscalização buscar elementos e realizar cálculos para obtenção de produção, pois já tinha disponível os valores de divergência entre os insumos efetivamente utilizados na produção e insumos que não o foram, seja por quebra/perda seja por outras razões. É bem verdade que poderia, a partir da divergência da quantidade de insumo, exigir o imposto, com base no valor do produto industrializado, nos termos do 448, parágrafo 1º, do Regulamento do IPI de 2002, porém, limitouse a exigir o imposto, com base em valor menor, no valor do próprio insumo. Fl. 2774DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.769 13 Com as informações relativas aos valores registrados sob o código CN02, a Fiscalização ainda intimou a Recorrente por diversas vezes, pedindo expressamente um laudo que justificasse o percentual de quebras/perdas ali registrado, porém, a Recorrente respondeu o seguinte: Termo de 28/06/2010: “a) a Fiscalizada, no momento, não pode informar acerca da existência de laudo ou estudo que ampare o não estorno de IPI em razão dos valores registrados no código supra citado; b) através dos controles fiscais/contábeis da Empresa não é possível determinar se os valores registrados sob o código em tela são oriundos de quebra, perda, devolução par ao estoque por defeito do insumo, substituição de insumos na linha, etc; Termo de 28/03/2011: “a) não existe documentação comprobatória que esclareça os motivos dos valores que compõem o código em tela – se quebra/perda ou rejeição pelo controle de qualidade de insumo importado; ambos os casos estão agrupados indistintamente sob o código CN02”; Apenas após iniciado o contencioso é que a Recorrente trouxe maiores explicações, ao expor que o percentual de quebras no processo produtivo da Recorrente girava em torno de 0,50% (meio por cento) dos insumos adquiridos, apresentando para tanto apenas uma planilha, acostada como Doc. 05 da Impugnação e do Recurso Voluntário, em que compara os valores registrados nas rubricas em discussão, CN02 e CN06, com os valores registrados na rubrica CN01 ("Consumido na Produção"), e que este valor seria razoável para aquela indústria. Contudo, em que pese o percentual de quebras/perdas apontado pela Recorrente ser baixo e parecer realmente bastante razoável, mesmo após a carência probatória decidida em primeiro grau, a Recorrente não trouxe provas adicionais para acompanhar as suas alegações, sejam documentos contábeis que demonstrassem os valores expostos como registrados na rubrica CN01, seja um estudo mais aprofundado, seja um laudo emitido por profissional com conhecimento especializado na indústria em questão que pudesse chancelar e confirmar a alegada realidade dessa indústria. Nesse cenário, entendo que não merece reparos a decisão recorrida, que entendeu que a Recorrente não se desincumbiu do ônus probatório quanto ao percentual de quebras/perdas em sua indústria, deixando que atender ao disposto no artigo 16, inciso III, do Decreto nº 70.235/1972. Portanto, deve ser mantido o lançamento referente ao estorno do IPI registrado na entrada de tais insumos, pois, ainda que não se exija a anulação do crédito de insumo que não foi devolvido, há que se anular o crédito de insumo inutilizado ou deteriorado, quando ausente a comprovação de que está inserido em percentual aceitável de quebra/perda. No que se refere ao código CN06, como exposto, em razão da existência de diferença entre as quantidades reais e escrituradas de estoque, devese reconhecer que a Fl. 2775DF CARF MF 14 aquisição não se enquadra na hipótese do artigo 164, inciso I, do Regulamento do IPI de 2002, nem mesmo em insumos que "forem consumidos no processo de industrialização", por estarem registrados em conta diversa à conta destinada às quebras/perdas de insumos e, ainda que estivessem em conta específica para registro desses valores, não poderia se admitir a manutenção do crédito, em razão da ausência de demonstração da normalidade e razoabilidade do percentual de quebra/perda encontrado. Dessa maneira, com fundamento no artigo 123, inciso I, alíneas "o" combinada com "u", do Regulamento do IPI de 2002, há de se manter a exigência do imposto. Base de Cálculo do IPI – Valor Tributável Mínimo O CTN, em seu artigo 47, inciso II, alíneas “a” e “b”, prevê que a base de cálculo do IPI nas saídas de produtos industrializados será: “a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente”. Como se verifica, o legislador complementar estabeleceu um parâmetro mínimo para a base de cálculo apenas na impossibilidade de se determinar o valor da operação, quando deveria se adotar o preço corrente no mercado atacadista. A Lei nº 4.502/1964 sofreu várias alterações ao longo dos anos e, atualmente, prevê regras para a fixação da base de cálculo que vão além dos contornos previstos no CTN. No artigo 14 existe a previsão do valor tributável para as operações de importação e para as saídas de produtos nacionais e no artigo 15 constam os parâmetros para o estabelecimento de um piso nas mais diversas situações, devendo as regras gerais do artigos 14 serem observadas em conjunto com as regras específicas do artigo 15. Assim, ficando restrito aos dispositivos relacionados ao lançamento ora analisado, quando o artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, quanto aos produtos nacionais, determina que constitui valor tributável “o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial” e que “§ 1º. O valor da operação compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário”, tal dispositivo não pode ser lido de forma isolada, mas em conjunto com as regras do artigo 15 da Lei nº 4.502/1964. Com isso, caso esteja a se tratar de “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, há ainda que se observar o disposto no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que afirma que o valor tributável não poderá ser inferior “ao custo do produto, acrescido das margens de lucro normal da empresa fabricante e do revendedor e, ainda, das demais parcelas que deverão ser adicionadas ao preço da operação”. Logo, se a norma do artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, expressa que o valor da operação compreende o preço do produto mais frete e demais despesas e na situação específica prevista no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, o valor tributável mínimo deve corresponder ao custo do produto mais margem de lucro mais frete e despesas, podese concluir que, quando o preço do produto for inferior ao seu custo, uma leitura conjunta das normas gerais e especiais levará à aplicação da norma especial, que determina um valor tributável mínimo, aplicando a norma geral para as demais operações nas quais o preço da operação não bate o piso estabelecido pela Lei. Fl. 2776DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.770 15 No Regulamento do IPI vigente à época dos fatos geradores, o valor tributável do IPI e o valor tributável mínimo estão tratados nos artigos 131 ao 138. Diante desse tecido normativo, considerando o disposto no artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Constituição, que diz que cabe a Lei Complementar a definição da base de cálculo dos tributos, muitos defendem a inconstitucionalidade do valor tributável mínimo, nos termos colocados na legislação ordinária, por contrariar o que prevê o artigo 47, inciso II, do CTN. Conforme defende a doutrina, “o valor tributário fixado nas leis e decretos mencionados afronta basilares princípios de nosso ordenamento e garantias dos contribuintes, pois não atende ao disposto na Constituição, já que trata de forma incompatível com a base de cálculo indicada na lei complementar (parâmetro formal) e permite que o IPI incida sobre valores que não necessariamente refletem o conteúdo das operações jurídicas praticadas com produtos industrializados (única base de cálculo possível para este imposto). O único parâmetro existente para uma base de cálculo diferente do efetivo valor da operação com produto industrializado, como estabelece o CTN, é o preço corrente no mercado atacadista (só adotado na ausência do primeiro) e não poderia o legislador ordinário e menos ainda o poder executivo estabelecerem base presumida, seja de percentual do preço de varejo ou a que trata do custo de fabricação do produto, com outros acréscimos” 3. Com base nesse mesmo raciocínio, o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade do artigo 14, inciso II, parágrafo 2º, da Lei nº 4.502/1964, que afirmava a inclusão na base de cálculo do IPI dos valores relativos aos descontos incondicionais, dispositivo que teve sua eficácia suspensa recentemente, pela Resolução do Senado Federal nº 01/2017. Vejam abaixo a ementa da decisão: “IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS – BASE DE CÁLCULO – INCLUSÃO – ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 – INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL – LEI COMPLEMENTAR – EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional”. (RE 567935, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 04/09/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe216 DIVULG 03112014 PUBLIC 04112014) Porém, penso que não cabe a esse Colegiado adentrar nessa discussão, tendo em vista o que determina a Súmula CARF nº 02, nem sendo possível, a meu ver e de forma diversa do que foi decidido no Acórdão nº 3302003.361, da 2ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, em sessão de 27/09/2016, aplicar diretamente o que restou decidido no RE nº 567.935 no presente caso, pois, apesar de ambos tratarem da base de cálculo do IPI, a discussão aqui é diversa. Desse modo, nesse julgamento, os dispositivos da Lei Federal que tratam da matéria devem ser tidos como válidos e eficazes. 3 “IPI – Questões Fundamentais”. IPI. Base de Cálculo e Valor tributável mínimo. Renata Correia. MP Editora. São Paulo. 2008. p. 143 Fl. 2777DF CARF MF 16 No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grandeza custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor”. Realmente, preço e custo não se confundem e, olhando apenas para o fundamento legal relacionado ao preâmbulo da IN, o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, parece que a Instrução Normativa teria extrapolado o seu poder regulamentar, ao estabelecer um valor tributável mínimo sem relação com o preço do produto, mas vinculado ao custo de fabricação. Porém, embora não indique expressamente, a Instrução Normativa tem amparo legal, pois regulamenta não apenas aquele dispositivo, mas os dispositivos da Lei nº 4.502/1964 que tratam da base de cálculo do IPI, incluindo o artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que trata do valor tributável mínimo, a partir do custo de fabricação do produto. E, como já exposto, tais dispositivos não podem ser lidos de maneira isolada, mas em conjunto e harmonia, sendo certo que, em se tratando de operação com “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, a norma que determina que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, deve ser lida como determinando que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, salvo quando inferior ao custo do produto mais margens de lucro normal da empresa fabricante, hipótese em que se aplica esse último critério de determinação da base de cálculo. Outro argumento da Recorrente é pela legitimidade dos preços por ela praticados, defendendo que o sistema jurídico permitiria a flutuação dos preços, de acordo com as negociações realizadas, e que definição de preço é uma decisão gerencial, a partir de dados de mercado e do que os concorrentes estão fazendo. Com relação a esse argumento, não há como discordar da Recorrente. Ninguém melhor que a Recorrente, conhecedora de seu mercado de atuação, para fixar e determinar o preço nas operações de compra e venda com a sua clientela. Desde que o preço seja certo, justo e verdadeiro, está presente o preço, um dos elementos da compra e venda, que deve ser aceita como legítima. É de se reconhecer também que, em sua atuação no mercado, Fl. 2778DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.771 17 por vezes, por questões mercadológicas, a Recorrente possa vender seus produtos por preço bem inferior ao custo de aquisição do principal insumo. Mas o que se questiona no lançamento em julgamento não é o preço, livremente pactuado entre as partes e que deve ser tido como legítimo. O que se questiona é a base de cálculo adotada para as operações relacionadas no lançamento. A Fiscalização em nenhum momento questiona o preço estabelecido pela Recorrente e seus clientes. O que se questiona é a base de cálculo adotada. Portanto, embora se concorde com as considerações da Recorrente quanto à formação de seu preço, tais considerações não são capazes de afastar o lançamento realizado. Por último, a Recorrente defende que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistisse preço corrente no mercado atacadista, afirmando existir uma ordem de aplicação para métodos de determinação da base de cálculo no artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI. Com efeito, para fins do artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI, os métodos previstos nos incisos I e II do artigo 137 devem ser aplicados se inexistir preço corrente no mercado atacadista. Contudo, tais normas se referem às hipóteses previstas no artigo 136, inciso I, referente a operação realizadas “quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência” e no artigo 136, inciso II, referente a operações realizadas “quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo”, situações que não guardam relação com o presente lançamento, tendo a Fiscalização, a meu ver, no presente caso, aplicado a regra prevista no artigo 136, inciso III. Pelo exposto, deve ser mantido o lançamento na parte que versa sobre saídas de produtos por valor abaixo do valor tributável mínimo. Direito de crédito de IPI decorrente da aquisição de insumos isentos de fornecedores localizados na Zona Franca de Manaus A questão que se coloca nesses autos é se, à luz do ordenamento jurídico vigente, a Recorrente faz jus ao direito de crédito de IPI decorrente de operações de aquisição de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus. Impende esclarecer que não há qualquer questionamento quanto à isenção fruída pelos fornecedores da Recorrente, tendo a Fiscalização se voltado apenas contra o direito de crédito de IPI escriturado pela Recorrente, de modo que a discussão se cinge a esse último aspecto. A Constituição da República prevê, em seu artigo 153, parágrafo 3, inciso II, que o IPI será "será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores" (grifos nossos). Já com relação ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e sobre prestações de Serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação ("ICMS"), a não cumulatividade encontra assento constitucional no artigo 155, parágrafo 2º, inciso I, da Constituição da República, que determina que o ICMS "será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada Fl. 2779DF CARF MF 18 operação relativa à circulação de mercadorias ou prestação de serviços com o montante cobrado nas anteriores pelo mesmo ou outro Estado ou pelo Distrito Federal" (grifos nossos). Porém, em relação ao ICMS, de forma diversa do que ocorre com o IPI, há uma ressalva expressa ao direito de crédito em relação à isenção, pois, de acordo com o artigo 155, parágrafo 2º, inciso II, da Constituição da República, "II a isenção ou nãoincidência, salvo determinação em contrário da legislação: a) não implicará crédito para compensação com o montante devido nas operações ou prestações seguintes; b) acarretará a anulação do crédito relativo às operações anteriores". Essa ressalva vem de antes da Constituição de 1988, mais precisamente, decorre da Emenda Constitucional nº 23/1983, conhecida como "Emenda Passos Porto", e alterou unicamente a disciplina de créditos e débitos do ICMS, para transformar o que era regra direito de crédito nas aquisições isentas em exceção, mantendo incólume a disciplina de créditos e débitos referente ao IPI. Nas palavras do Ministro Marco Aurélio: "Deuse a transformação da regra em exceção, como disse: a isenção ou a não incidência implicará crédito e estou modificando a ordem das expressões "não implicará" é a regra "crédito de imposto para abatimento daquele incidente nas operações seguintes, salvo determinação em contrário da legislação". O crédito, portanto, tãosomente no tocante ao ICM, só poderia decorrer de disposição legal. Houve modificação, em si, quanto ao IPI? Não. O IPI continuou com o mesmo tratamento que conduziu esta Corte a assentar uma jurisprudência tranquilíssima no sentido do direito ao crédito. Não houve mudança. A Emenda Constitucional nº 23 apenas alterou o preceito da Carta então em vigor que regulava o ICM"4. Como se verifica, existia uma jurisprudência firme, no sentido de que a aquisição de insumo isento gerava direito de crédito de IPI, com fundamento direto no princípio constitucional da nãocumulatividade do IPI, previsto no artigo 153, parágrafo 3º inciso II, da Constituição da República, considerando ainda que o legislador constituinte quando pretendeu ressalvar esse direito em relação à isenção, o teria feito de forma expressa, como se deu em relação ao ICMS. Entretanto, no ano de 2007, houve uma guinada no entendimento do Supremo Tribunal Federal ("STF"), por ocasião dos Recursos Extraordinários nº 353.657/PR e nº 370.682/SC, passando o STF a não reconhecer o direito de crédito de IPI não somente nas aquisições isentas, mas também nas aquisições sujeitas à alíquota zero e não tributadas, conforme ementas de julgados a seguir: "IPI INSUMO ALÍQUOTA ZERO AUSÊNCIA DE DIREITO AO CREDITAMENTO. Conforme disposto no inciso II do § 3º do artigo 153 da Constituição Federal, observase o princípio da nãocumulatividade compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores, ante o que não se pode cogitar de direito a crédito quando o insumo entra na indústria considerada a alíquota zero. (...) (RE 353.657, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, DJe 7.3.2008) ***** 4 RE 212.4842. Data de Julgamento: 05/03/98. Fl. 2780DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.772 19 "Recurso extraordinário. Tributário. 2. IPI. Crédito Presumido. Insumos sujeitos à alíquota zero ou não tributados. Inexistência. 3. Os princípios da nãocumulatividade e da seletividade não ensejam direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 4. Recurso extraordinário provido". (RE 370682, Rel. Min. Ilmar Galvão, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, DJe 19.12.2007) Essa jurisprudência foi reafirmada no ano de 2015, em processo de relatoria do Ministro Gilmar Mendes, em que foi reconhecida a repercussão geral do tema, em decisão que possui a ementa a seguir: "Recurso extraordinário. Repercussão geral. 2. Tributário. Aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 3. Creditamento de IPI. Impossibilidade. 4. Os princípios da não cumulatividade e da seletividade, previstos no art. 153, § 3º, I e II, da Constituição Federal, não asseguram direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Precedentes. 5. Recurso não provido. Reafirmação de jurisprudência". (RE 398365 RG, Relator: Min. Gilmar Mendes, julgado em 27/08/2015) Com base nesse entendimento do STF, a Fazenda Nacional defende a impossibilidade de os contribuintes escriturarem crédito de IPI em decorrência de aquisições isentas de insumos provenientes da Zona Franca de Manaus. Segundo a Fazenda, tal como decidido pelo STF, o princípio constitucional da não cumulatividade não albergaria o direito de crédito em aquisições isentas, sendo necessário para o surgimento do direito de crédito que a operação anterior esteja sujeita ao efetivo pagamento do IPI. Portanto, a ausência de direito de crédito nas aquisições isentas da Zona Franca de Manaus teria como fundamento o artigo 153, parágrafo 3, inciso II, da Constituição da República. Além disso, os defensores dessa corrente, muitas vezes, apontam o artigo 150, parágrafo 6ª, da Constituição da República5, como um fundamento adicional para não se reconhecer o direito de crédito em tais situações, pois esse dispositivo constitucional exigiria lei específica para a concessão do direito de crédito. No CARF, o entendimento quanto à matéria também vacilou, ao longo dos anos, seguindo as oscilações ocorridas no âmbito do Poder Judiciário. No ano passado, a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais teve a oportunidade de apreciar novamente a matéria, firmando o entendimento, por maioria de votos, favorável à tese da Fazenda Nacional, em decisão que possui a seguinte ementa: Ementa: "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 5 Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) § 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no art. 155, § 2.º, XII, g. Fl. 2781DF CARF MF 20 IPI. CRÉDITOS DE PRODUTOS ISENTOS. AMAZÔNIA OCIDENTAL. ZFM. IMPOSSIBILIDADE. Em regra, é inadmissível, por total ausência de previsão legal, a apropriação, na escrita fiscal do sujeito passivo, de créditos do imposto alusivos a insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. A apropriação de crédito ficto ou presumido de IPI depende de autorização de lei específica a teor do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF, o que não acontece no caso dos produtos adquiridos da ZFM e da Amazônia Ocidental, uma vez que não satisfizeram as condições estabelecidas no art. 82, inc. III do RIPI/2002". (Acórdão nº 9303004.205; Sessão de 09/08/2016; Relatora: Vanessa Marini Cecconello; Redator Designado: Andrada Márcio Canuto) Trecho do Voto Vencedor: "Como a sistemática da nãocumulatividade não dá direito à apropriação de crédito de IPI em entradas de insumos não tributados por tal imposto, este creditamento só poderá ser admitido quando autorizado por lei específica, pois a Constituição Federal proíbe expressamente a concessão de crédito presumido ou ficto, sem lei que autorize, conforme dispõe o §6º do art. 150 da CF, situação que se harmoniza com a opção do constituinte pelo sistema de crédito para efetivação do princípio da nãocumulatividade. (...) Desta forma, para que haja o direito ao crédito de IPI na aquisição de insumos desonerados, a título de crédito presumido, fazse necessário lei específica nesse sentido. Por esta razão que, o Regulamento de IPI de 2002, em seu art. 175, estabeleceu o benefício de creditamento ficto de IPI, como se devido fosse, nas aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, de fornecedores situados na Zona Franca de Manaus, apenas quando da ocorrência de isenção prevista no inciso III do art. 82 do RIPI/2002". Contudo, a situação jurídica da Zona Franca de Manaus é peculiar, de modo que não se pode olhar para as aquisições de insumos isentos daquela região do país e de seus efeitos, no que dizem respeito à tributação do IPI, da mesmo forma que se olha para as demais aquisições isentas de insumos. Tanto é assim que o Ministro Marco Aurélio deixou claro, no julgamento dos Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário nº 566.819 que naquele recurso não se estava em jogo situação jurídica regida "por legislação especial acerca da Zona Franca de Manaus", a indicar que, não se poderia aplicar diretamente, sem um detido exame de todos os nuances envolvidos, a tese firmada pelo STF quanto à generalidade dos casos de aquisições isentas às aquisições isentas da Zona Franca de Manaus. Como bem observado em seu Voto, nos debates ocorridos em sessão de julgamento, após o Ministro Marco Aurélio fazer essa ressalva, também a Ministra Cármen Lúcia admitiu, dizendo "o caso da Zona Franca, por exemplo, que aí é outra coisa". Aliás, os precedentes do STF que firmaram a tese pela ausência de direito à crédito de IPI nas aquisições de insumos isentos não tinham como origem fornecedores localizados na Zona Franca de Manaus. Fl. 2782DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.773 21 Portanto, é inegável a particularidade existente quanto ao regime jurídico das aquisições de insumos isentos daquela região, para efeito de direito de crédito de IPI, o que decorre da realidade histórica, geográfica, econômica e social da Região Norte do país, que desde a Constituição de 1946 (artigo 199) merece atenção especial dos Poderes Legislativo e Executivo, com vistas ao seu desenvolvimento, proteção e integração ao território nacional. Em 1953, foi editada a Lei nº 1.806/1953, que dispôs sobre o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, criou a superintendência da sua execução e deu outras providências. Após, veio a Lei nº 3.173/1957, que cria uma zona franca na cidade de Manaus. Em seguida, a Lei nº 5.173/1966, que tratou do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, extinguiu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e criou a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Finalmente, foi editado o DecretoLei nº 288/1967, que regula a Zona Franca de Manaus e, em seu artigo 9º, confere a isenção de IPI da qual se discute a possibilidade de gerar direito de crédito para o adquirente, nos seguintes termos: "Art. 9° Estão isentas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) todas as mercadorias produzidas na Zona Franca de Manaus, quer se destinem ao seu consumo interno, quer à comercialização em qualquer ponto do Território Nacional". Essa isenção, e aqui começa a distinção que é necessária ser feita, não é uma isenção de natureza fiscal, portanto, não é regida diretamente pelo artigo 176 e seguintes do Código Tributário Nacional. É uma isenção de natureza extrafiscal que tem como fundamento de validade o artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, in verbis: "Art. 43. Para efeitos administrativos, a União poderá articular sua ação em um mesmo complexo geoeconômico e social, visando a seu desenvolvimento e à redução das desigualdades regionais. § 1º Lei complementar disporá sobre: I as condições para integração de regiões em desenvolvimento; II a composição dos organismos regionais que executarão, na forma da lei, os planos regionais, integrantes dos planos nacionais de desenvolvimento econômico e social, aprovados juntamente com estes. § 2º Os incentivos regionais compreenderão, além de outros, na forma da lei: (...) III isenções, reduções ou diferimento temporário de tributos federais devidos por pessoas físicas ou jurídicas". (grifos nossos) Na realidade, tratase de uma isenção de incentivo regional que tem matriz na própria Constituição, não se sujeitando, portanto, ao requisito de estar prevista em lei específica, tal como determina o artigo 150, parágrafo 6º, da Constituição da República. É da própria Constituição que essa isenção emana, com o objetivo de efetivar os objetivos fundamentais da República, listados no artigo 3º, da Constituição6. 6 Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I construir uma sociedade livre, justa e solidária; II garantir o desenvolvimento nacional; III erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir Fl. 2783DF CARF MF 22 Além disso, o regime jurídico aplicável à Zona Franca de Manaus foi expressamente recepcionado pela Constituição de 1988, que no artigo 40 do ADCT afirma: "Art. 40. É mantida a Zona Franca de Manaus, com suas características de área livre de comércio, de exportação e importação, e de incentivos fiscais, pelo prazo de vinte e cinco anos, a partir da promulgação da Constituição. Parágrafo único. Somente por lei federal podem ser modificados os critérios que disciplinaram ou venham a disciplinar a aprovação dos projetos na Zona Franca de Manaus". E, depois, as Emendas Constitucionais de nº 42/2003 e 83/2014, incluíram os artigos 92 e 92A, para ampliar o prazo previsto no artigo 40 do ADCT, primeiro, por mais 10 (dez) anos, e depois, por mais 50 (cinquenta) anos, o que resulta na manutenção da Zona Franca até o ano de 2073. Sobre esse ponto, a Ministra Carmen Lúcia já teve a oportunidade de afirmar: "Para preservar o projeto desenvolvimentista concebido sob a vigência da ordem de 1967 para a região setentrional do país, o poder constituinte originário tornou expressa a manutenção, por tempo determinado, da disciplina jurídica existente, afirmando a finalidade de apoio ou fomento para a criação de um centro industrial, comercial e agropecuário na região da Zona Franca de Manaus. O quadro normativo préconstitucional de incentivo fiscal à Zona Franca de Manaus foi alçada à estatura constitucional pelo art. 40 do ADCT, adquirindo, por força dessa regra transitória, natureza de imunidade tributária". (ADI nº 310; julgada em 19/02/2014) Portanto, a isenção e demais benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus possuem estatura constitucional, com fundamento de validade nos artigos 43, parágrafo 2º, III, da Constituição da República e artigos 40, 92 e 92A, do ADCT. Agora, com relação à isenção de IPI, a sua particularidade reside justamente na necessidade de estar acompanhada do direito de crédito do adquirente para que tenha efetividade, devendose, portanto, fazer a distinção e afastar a aplicação da jurisprudência que se firmou para a generalidade dos casos. Como mencionado, o objetivo da isenção é extrafiscal, no sentido de estimular a instalação de um pólo industrial na região, ocupála para garantir a segurança nacional e a proteção da Floresta Amazônica e de toda a sua biodiversidade, gerar desenvolvimento econômico e social na região, diminuir a pobreza e fazer a integração dessa região com o restante do país. Porém, nesse caso, se a isenção não andar junta, de mãos dadas, com o direito de crédito, perdese o benefício almejado. A única forma da isenção ser efetiva é acompanhada do direito de crédito. Para ilustrar, peço vênia para tomar emprestado o exemplo singelo, porém, interessante, levantado pelo Ministro Luís Roberto Barroso, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 592.891, que será novamente mencionado adiante. A situação hipotética colocada é a seguinte: uma indústria em São Paulo, capital, tem a opção de comprar ordinariamente um determinado insumo que custa sem o IPI $100. De um fornecedor localizado em Santo André, SP, incide IPI no valor de $20, o que resulta em um custo total de R$120, com a possibilidade de crédito de $20. Portanto, um custo efetivo de $100. Já o as desigualdades sociais e regionais; IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Fl. 2784DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.774 23 fornecedor localizado na Zona Franca de Manaus está beneficiado pela isenção, portanto, $0 (zero) a título de IPI. Admitindose que a isenção não gera direito de crédito ao adquirente, os dois fornecedores ofertariam o insumo a um mesmo custo à indústria de São Paulo, capital, pelo valor de $100, sendo a única vantagem de se comprar na Zona Franca de Manaus um diferimento no desembolso do IPI. Enquanto ao se comprar do fornecedor de Santo André, SP, a indústria deverá desembolsar o IPI de forma imediata, na compra de fornecedor da Zona Franca de Manaus, a indústria só teria que fazer o desembolso na operação seguinte. A pergunta que deve ser feita é se esse mero diferimento seria incentivo suficiente para que se adquira insumos na Zona Franca de Manaus ou para que determinada empresa se instale na Zona Franca e tenha condições de oferecer com competitividade seus produtos no mercado. A resposta é não. Nesse cenário, as empresas localizadas na Zona Franca de Manaus perdem, por completo, qualquer atratividade, levando em consideração que elas já largam em desvantagem e nunca conseguiriam ter o mesmo preço sem IPI de uma empresa localizada, por exemplo, em Santo André, SP, em razão de custos de logística, como frete e seguros no transporte. Enquanto a distância entre Manaus e São Paulo, capital, gira em torno de 4.000km, a depender do trajeto, a distância entre Santo André e São Paulo, capital, é de 20km. Mas não é só. A distância do mercado consumidor é apenas uma entre as diversas dificuldades enfrentadas por aqueles que empreendem naquela região, existindo inúmeros desafios a serem enfrentados na instalação e desenvolvimento de um projeto industrial naquela parte do país, como dificuldades para obtenção de mãodeobra especializada, de fornecedores de bens e serviços etc. Por todas essas dificuldades e tendo em vista os objetivos fundamentais da República, arrolados no artigo 3º, da Constituição, é que um plano de desenvolvimento para a região foi concebido, vem sendo pensado, aprimorado e implementado por todas essas décadas. Portanto, a isenção sem que venha acompanhada do direito de crédito, perde se, por completo, e o direito de crédito existe justamente para, em conjunto com outros incentivos, anular esse custo de logística e tentar colocar as empresas lá localizadas em grau de competitividade com empresas localizadas em outros lugares do país. Não por outro motivo, o Ministro Marco Aurélio, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 212.4842, afirmou: “não podemos confundir isenção com diferimento, nem agasalhar uma óptica que importe reconhecerse a possibilidade de o Estado dar com uma das mãos e retirar com a outra”. Nessa linha de entendimento, oportuno citar o alentado voto do Juiz Federal Roberto Jeuken, no julgamento da Apelação em Mandado de Segurança nº 1999.61.00.014490 0, pela 3ª Turma do Tribunal Regional da 3ª Região: “De fato, as isenções de produtos oriundos das chamadas zonas livre de comércio, qualificamse como um incentivo regional assegurado diretamente no corpo da lei maior, conforme se depreende da análise do art. 43 e § 2º, não obstante a necessidade da lei instituidora, inclusive porque a opção poderá se dar em face dos outros benefícios assegurados no mesmo preceptivo, esmaecendose, portanto as objeções que pudessem ser opostas em face do art. 150, § 6° da mesma, na redação conferida pela EC. 03, de 17.03.93. Fl. 2785DF CARF MF 24 Não se cuida portanto de desoneração emergida da vontade discricionária do legislador ordinário, com fundamento direto nas raias do art. 176 do CTN, onde a previsão do art. 150 § 6º opera seus efeitos e sim de outorga derivada daquele assento constitucional, desde a promulgação do vigente ordenamento, revestindose assim de igual estatura e de maior antigüidade em relação a exigência contida neste outro cânone magno.(...) Portanto, poderá ser afirmado que a migração destas isenções para o âmbito da lei maior, confere as mesmas, relevo superior ao já desfrutado no âmbito do parágrafo único do artigo 176 do CTN, onde dotada de características especiais, frente as demais normas isentivas, fundadas no seu caput.. Tal peculiaridade coloca estas desonerações de caráter regional, por força daquele preceito, no mesmo patamar constitucional da incumulatividade, em ordem a que a desconsideração dos créditos dela advindos, substanciaria a prática de dar com uma mão e tirar com a outra (voto do Ministro Marco Aurélio no RE 212.484), não admitida no Excelso Pretório. (...) Contudo, naqueles casos onde a outorga deita lastro no art. 43 da lei maior, a atuação legislativa processase no patamar da própria Constituição, e em sede privativa da União, a qual tem dentre suas elevadas funções, a de promover a unidade nacional através do desenvolvimento regional. Portanto, neste contexto, o direito ao crédito emerge das próprias finalidades que estão subjacentes a este especial atuar, proporcionando a efetividade do benefício. De sorte que, no caso, o direito ao crédito é o discrímen que qualifica a utilização destes créditos e não aquele direito fundado tão somente na primeira parte do inciso II do art. 153, §3º (será nãocumulativo) então erigido ao patamar de um princípio absoluto, intocável e balizador da compensação que efetivarseá ao em olvido a técnica indicada na mesma sede e no mesmo dispositivo, porém considerada como de uma categoria, mera regra de aplicação de um princípio maior, a ser ajustada consoante farto entendimento doutrinário pátrio, para contemplar crédito de imposto e não imposto pago. Portanto, no caso daquelas isenções concedidas as empresas situadas na Zona Franca de Manaus, a exemplo do que também ocorreria nas chamadas Zonas Livres de Comércio, é preciso ter presente que a desoneração tem objetivos de desenvolvimento regional, colaborando de molde a baratear a aquisição dos insumos, e a obtenção de preço final mais competitivo, nos produtos resultantes do processo de industrialização, na medida em que o adquirente não precisa pagar o valor do imposto. De fato, se as empresas, adquirindo o produto intermediário a preços mais vantajosos, não pudessem creditarse do montante que seria devido à título de IPI, que se erigia no diferencial que motivara a aquisição de empresa situada em local distante, se tomado em conta as regiões sul e sudeste, por certo ela acabaria mudando de fornecedor, tendo em vista outras indústrias do mesmo ramo, situadas na mesma região, barateando o transporte. Portanto, a finalidade buscada com a isenção, barateamento do custo de produção, restaria frustrado e aquelas empresas lá situadas, que fizeram Fl. 2786DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.775 25 elevados investimentos para iniciar a produção em locais que no muito das vezes, além de distantes, são inóspitos e não possuem mão de obra qualificada, não iriam adiante”. (grifos nossos) Verificase, por conseguinte, que a isenção deve estar acompanhada do direito de crédito, sob pena de se tornar inócua, não atingindo as finalidades para as quais foi instituída, tornando letra morta todo o regime jurídico cuidadosamente editado com esse objetivo e os dispositivos constitucionais que o recepcionaram e lhe deram vida longa até 2076. Além disso, nesse caso, a não aceitação do direito de crédito implica a transformação da figura da isenção e uma figura de mero diferimento que, muito embora seja uma espécie de benefício fiscal, não foi aquele escolhido pelo legislador para o atingimento do fim por ele pretendido. Observem que o legislador possui, nos termos do artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, três instrumentos para atingir o desenvolvimento e reduzir as desigualdades regionais: a isenção, a redução de tributos e o diferimento de tributos. Ao ter escolhido a isenção, que é o maior incentivo possível e adequado ao atingimento dos fins almejados, não se pode interpretar a sua aplicação, de um modo que a torne ineficaz, esvaziada, com a mesma força de um benefício de diferimento que é uma mera alteração no prazo de pagamento do tributo ou na data de ocorrência do fato gerador , justamente o menor incentivo, a arma de menor calibre, dentre os que poderia o legislador se utilizar. E o único modo de a isenção ser plena, na sistemática própria do IPI, é que venha acompanhada do respectivo direito de crédito. Portanto, ante o exposto, podese concluir que: (i) a isenção do artigo 9º DecretoLei nº 288/1967 se qualifica como uma isenção para incentivo regional e tem fundamento direto no artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, sendo recepcionada na ordem constitucional vigente, conforme artigos 40, 92 e 92A, do ADCT; (ii) não tem como fundamento legal, dessa forma, no artigo 176 e seguintes do CTN, não se sujeitando, assim, ao disposto no artigo 150, parágrafo 6º, da Constituição da República; (iii) nesse caso, a outorga de isenção para incentivo regional só é eficaz e produzirá os efeitos pretendidos, atingindo os fins para os quais foi concebida, se acompanhada do direito de crédito, que não tem como fundamento o princípio da não cumulatividade previsto no artigo 153, parágrafo 3º, inciso II, da Constituição da República, mas encontra fundamento de validade de igual estatura, qual seja, o no artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, considerandose ainda a especial posição que ocupa a Zona Franca de Manaus e seu regimento jurídico no ordenamento jurídico pátrio. Por fim, cabe ressaltar que esse entendimento está em linha com as manifestações do Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário nº 566.819, no qual a Ministra Relatora Rosa Weber já proferiu seu voto, reconhecendo o direito de crédito nas aquisições de insumos isentos provenientes da Zona Franca de Manaus, sendo seguida pelos Ministros Edson Fachin e Luís Roberto Barroso. Todavia, o julgamento foi interrompido com um pedido de vistas do Ministro Teori Zavascki, que expôs que seu entendimento até o início do julgamento era pelo não reconhecimento do direito de crédito, mas que, diante dos debates, havia pensado ser mais prudente pedir vistas para aprofundar seus estudos sobre a matéria. A grande preocupação que o Ministro Teori Zavascki externou dizia respeito ao fundamento para amparar o direito de crédito, já que o direito de crédito no caso não possuía assento no princípio da não cumulatividade, artigo 153, parágrafo 3º, inciso II, da Constituição da República, sendo certo Fl. 2787DF CARF MF 26 que o artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, prevê apenas a isenção e não a isenção acompanhada pelo direito de crédito. Com relação a esse ponto, na linha do que já se expôs, acredito que o direito de crédito tenha fundamento no próprio artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República e artigo 9º, do DecretoLei nº 288/1967, pois essa isenção, para ser efetiva e atingir o seu objetivo de incentivo regional, deve obrigatoriamente estar acompanhada do direito de crédito. Por esse motivo, quando, anos mais tarde, o legislador tratou de projetos específicos para produção de “produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária” e outorgou a isenção na saída dos produtos da Zona Franca de Manaus, ele deixou claro que aquela isenção era acompanhada do direito de crédito (artigo 6, caput, e parágrafo 1º, do Decreto nº 1.435/1975), não havendo razões para se impor tratamento diferenciado para um e outro caso. Além disso, à época da edição da legislação que inseriu a isenção que está a se tratar, o entendimento era firme no sentido de que, ao determinar a isenção em uma operação, a operação seguinte fruiria direito de crédito de IPI, pois, como lembrado pelo Ministro Marco Aurélio no julgamento do RE nº 212.4842, até determinado momento, a "jurisprudência tranquilíssima no sentido do direito ao crédito". Assim, o emprego de uma interpretação histórica, levando em conta a intenção original do legislador e a norma que se extraía da legislação à época e que foi considerada por aqueles que se instalaram na região setentrional, também levaria a essa conclusão. Ademais, o direito de crédito guarda ainda fundamento nos artigos que alçaram o regime jurídico da Zona Franca de Manaus à estatura constitucional, artigos 40, 92 e 92A do ADCT, que indicam e garantem uma proteção e irredutibilidade de direitos que visem o desenvolvimento e proteção da Zona Franca de Manaus. Pelo exposto, entendo que o Recorrente tem direito de crédito de IPI sobre as aquisições de insumos isentas oriundas da Zona Franca de Manaus, motivo pelo qual o Auto de Infração deve ser cancelado nessa parte. Créditos por Devolução ou Retorno de produtos e sistema equivalente ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque Nesse tópico da autuação, a Fiscalização reconhece que há direito de crédito relativo a produtos tributados recebidos em devolução, porém, "condicionado à comprovação inequívoca de que a mercadoria retornou entrou nos estoques do Contribuinte e, teve, posteriormente, saída tributada", na esteira do procedimento e requisitos previstos no artigo 167 e seguintes do Regulamento do IPI de 2002. Porém, a Fiscalização glosou tais créditos, sob o entendimento de que a Recorrente não teria atendido a um dos requisitos desse procedimento, o previsto no artigo 169, inciso II, b, do Regulamento do IPI de 2002, abaixo transcrito: “Art. 169. O direito ao crédito do imposto ficará condicionado ao cumprimento das seguintes exigências ( Lei nº 4.502, de 1964, art. 27, § 4º): (...) II pelo estabelecimento que receber o produto em devolução: (...) b) escrituração das notas fiscais recebidas, nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388”; (grifos nossos) Fl. 2788DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.776 27 De acordo com a Fiscalização, a Recorrente não disporia de sistema alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque que fosse adequado e hábil ao controle de mercadorias, tal como determina o artigo 388 do Regulamento do IPI, in verbis: “Art. 388. O estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, e o comercial atacadista, que possuir controle quantitativo de produtos que permita perfeita apuração do estoque permanente, poderá optar pela utilização desse controle, em substituição ao livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, observado o seguinte: I o estabelecimento fica obrigado a apresentar, quando solicitado, aos Fiscos Federal e Estadual, o controle substitutivo; II para a obtenção de dados destinados ao preenchimento do documento de prestação de informações, o estabelecimento industrial, ou a ele equiparado, poderá adaptar, aos seus modelos, colunas para indicação do valor do produto e do imposto, tanto na entrada quanto na saída; e III o formulário adotado fica dispensado de prévia autenticação”. (grifos nossos) Isso porque o sistema de controle da Recorrente adotava o inglês e não o português como língua. Ressaltese que esse foi o único motivo apontado pela Fiscalização para não aceitar o sistema adotado pela Recorrente e, por consequência, glosar os créditos escriturados, como se verifica do trecho do Termo de Verificação Fiscal, já transcrito linhas acima, no relatório deste Acórdão. Por sua vez, o acórdão recorrido manteve o lançamento nessa parte, pelos seguintes fundamentos: “Logo, o direito ao creditamento em questão não decorre imediatamente do registro isolado, no Livro de Registro de Entradas, do retorno dos produtos ao estabelecimento industrial. E, quanto ao documento em língua inglesa denominado “Stock History”, mesmo quando afastados os óbices normativos e a perplexidade diante da manutenção e exibição à Administração Tributária Brasileira, pelo contribuinte, de registros que não se encontram grafados em vernáculo, verificase que o referido documento (como se vê às fls. 111/112, v.g.) não exibe, induvidosamente, os mesmos elementos do livro a que pretende substituir e nem representa um controle quantitativo de produtos que permita a perfeita apuração do estoque permanente e de seu fluxo, o mesmo se dando em relação às folhas avulsas (“fichas”) cujos exemplares acompanham a impugnação, as quais não são impressas com os mesmos elementos do livro substituído, não são numeradas tipograficamente e muito menos exibem autenticação do Fisco Estadual ou da Junta Comercial (conforme consta às fls. 2040/2041 e 2045/2046, v.g.), não podendo ser reputadas, à evidência, como “sistema de controle” do fluxo de envio e retorno de mercadorias”. Diante dos termos da decisão recorrida, a Recorrente pede que seja reconhecida a sua nulidade, pois ao apreciar a matéria, mantém o lançamento apresentando motivos adicionais e estranhos ao que teria sido apontado no Auto de Infração. Além disso, a Fl. 2789DF CARF MF 28 Recorrente defende que possuiria sistema permanente de controle de estoques alternativo ao Registro de Controle da Produção e Estoque apto a demonstrar de forma quantitativa a movimentação de estoques. Para tanto, acosta aos autos documento intitulado “Termo de Constatação” elaborado por firma de auditoria independente que atesta que examinou minuciosamente o sistema utilizado pela Recorrente no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2009 e que tal sistema “possibilita a apuração quantitativa permanente do estoque e de seu fluxo, bem como possibilitam o rastreamento e controle quantitativo das suas saídas (vendas e/ou revenda de mercadoria e devoluções de venda de mercadoria”. Além disso, aduz a Recorrente que as informações em “língua inglesa” são mínimas e não são fundamentais para a compreensão das informações apresentadas, tendo em vista que o objeto de análise consiste na correlação entre números, datas e códigos de identificação de cada produto. Quanto ao pedido de nulidade, há que se concordar com a Recorrente quando alega que a decisão recorrida acaba mantendo a autuação por outros fundamentos que não os expostos para fundamentar o lançamento. Se acusação do lançamento é que o controle alternativo utilizado pela Recorrente é imprestável, pois o sistema de controle quantitativo de produtos adota como idioma o inglês, deve a autoridade julgadora decidir nos limites da acusação, a partir da qual a lide foi instaurada. Desse modo, não pode a autoridade julgadora manter o lançamento, sob o argumento de que aceita o idioma inglês no controle alternativo, porém, o sistema ainda assim é imprestável, não atende ao artigo 388 do Regulamento do IPI, pois os registros nele feitos não têm como observar os requisitos previstos para o Registro de Controle da Produção e do Estoque que pretende substituir, em violação ao disposto nos artigos 383 a 386, do Regulamento do IPI. Tal julgamento levaria a uma alteração no critério jurídico do lançamento, vedada pelo artigo 146, do CTN. Entretanto, o pedido deve ser rejeitado, tendo em vista que, diferente do que alega a Recorrente, a decisão recorrida não tangencia a apreciação quanto à possibilidade de utilização de idioma estrangeiro no sistema de controle alternativo, mas, a meu ver, afasta essa hipótese, apesar de dar mais ênfase na manutenção do lançamento a fundamentos inovadores e adicionais ao que foi apresentado na autuação. Com relação à utilização de língua estrangeira em sistemas do contribuinte que devem atender também aos propósitos de fiscalização da Receita Federal, o CARF já decidiu que "a forma de apresentação dos registros e arquivos em meio magnético a que estão obrigadas as pessoas jurídicas por força do disposto no artigo 11 da Lei 8.218/91 é aquela definida no ADE COFIS nº 15/2001, que, como se viu, não faz qualquer referência à língua em que as mercadorias devem ser descritas", em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Exercício: 2005 ARQUIVOS DIGITAIS. DADOS EM IDIOMA ESTRANGEIRO. CONTEÚDO DAS INFORMAÇÕES PRESTADAS. INFRAÇÃO QUANTO À FORMA. INOCORRÊNCIA. Os arquivos digitais e sistemas das pessoas jurídicas que utilizam sistema de processamento eletrônico de dados devem observar, quanto à forma, as disposições contidas no ADE COFIS nº 15/2001. O fato de as informações Fl. 2790DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.777 29 estarem em língua estrangeira não constitui infração pelo não atendimento da forma de apresentação dos registros e respectivos arquivos. Recurso de Ofício Negado" (Acórdão nº 3102001.641; 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária; Sessão de 23/10/2012; Relator: Conselheiro Ricardo Paulo Rosa Relator; decisão unânime) No caso específico do sistema de controle alternativo aqui discutido, o CARF também já teve a oportunidade de examinar a sua adequação às normas de regência, em processo da própria Recorrente que tratava de pedido de ressarcimento de IPI do período de apuração relativo ao quarto trimestre de 2006, quando, conforme “Termo de Constatação” acostado pela Recorrente, o sistema adotado era o mesmo que o adotado no período do lançamento ora em julgamento. Na sessão de julgamento do dia 14/10/2014, a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara afastou a glosa de créditos em razão de o sistema utilizar a língua inglesa, pelas seguintes razões, expostas no voto do Conselheiro Relator Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto: “A recorrente apresenta inúmeros elementos, com telas do sistema e descrições do funcionamento do mesmo, que demonstram que o seu sistema de controle estaria apto para comprovar o seu direito creditório. A fiscalização, contudo, não aceitou o sistema pois o mesmo utilizaria o idioma inglês, o que o tornaria inábil para este fim. Neste ponto, verificando os documentos trazidos aos autos, constatase que o sistema foi desenvolvido na língua inglesa. Não se trata, contudo, de um documento complexo, redigido em uma língua obscura, mas sim de um software que, assim como tantos outros, utiliza o idioma inglês. Verificase ainda que as informações dos documentos fiscais são apresentadas conforme constam nestes documentos, e que por meio dele é possível a apuração do estoque permanente, o que permite a análise da veracidade dos créditos pleiteados. Desta forma, constatado que a recorrente possui sistema de controle quantitativo de produtos que permite a apuração do seu estoque permanente, não se mostra correta a glosa de seus créditos referentes a estornos de saídas em razão de retorno à produção própria e revendas referentes aos CFOPs 1.201/2.201/2/1.202/2.202/1.949/2.949, devendo a autoridade fiscal verificar a regularidade dos créditos pleiteados pela recorrente por meio da análise dos dados contidos no sistema por ela utilizado”. (grifos nossos) (Acórdão nº 3201001.767; decisão unânime) Ao se examinar as telas do sistema juntadas pela Recorrente em seu Recurso Voluntário, verificase que são pertinentes as conclusões a que chegou a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara, no Acórdão nº 3201001.767: não se trata de um documento complexo, mas sim de um software que possui sua versão na língua inglesa. Fl. 2791DF CARF MF 30 Além disso, pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos. Nesse sentido, impende destacar que a Fiscalização em nenhum momento apresenta uma dificuldade concreta na leitura do sistema da Recorrente, fazendo uma acusação genérica de impossibilidade de aceitação do sistema, por utilizar a língua inglesa, deixando, portanto, de apontar, de forma direta de que modo a língua inglesa impede a "perfeita apuração do estoque permanente". Aliás, conforme “Termo de Constatação” elaborado por firma de auditoria independente, os códigos CN02 e CN06 são algumas das codificações utilizadas no sistema de controle alternativo da Recorrente. E, para realizar o lançamento dos valores ali registrados, a Fiscalização não teve qualquer problema de compreensão, aceitando o sistema como se apresentava e tomando como verdadeiros os valores ali registrados. Assim, não se pode aceitar como válido um sistema para realizar o lançamento de crédito tributário e, no momento seguinte, rejeitar o direito de crédito da Recorrente, sob o argumento que o mesmo sistema é imprestável. Ante o exposto, considerando que o lançamento tem como fundamento exclusivo a adoção da língua inglesa e que não restou demonstrado pela Fiscalização que tal particularidade impede que o sistema “permita perfeita apuração do estoque permanente”, proponho ao Colegiado cancelar o lançamento nesse ponto. Multa de 75% (setenta e cinco por cento) prevista no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964 A Recorrente pede o afastamento da penalidade cominada, prevista no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, sob a alegação de que seria inaplicável em razão da existência de saldo credor e, portanto, da ausência de valores devidos pela Recorrente à Fazenda Pública. Prevê o no artigo 80, inciso I, da Lei nº 4.502/1964: “Art. 80. A falta de lançamento do valor, total ou parcial, do imposto sobre produtos industrializados na respectiva nota fiscal, a falta de recolhimento do imposto lançado ou o recolhimento após vencido o prazo, sem o acréscimo de multa moratória, sujeitará o contribuinte às seguintes multas de ofício: I setenta e cinco por cento do valor do imposto que deixou de ser lançado ou recolhido ou que houver sido recolhido após o vencimento do prazo sem o acréscimo de multa moratória”. Com isso, percebese que a penalidade é devida em 3 (três) hipóteses: (i) falta de lançamento do IPI na nota fiscal; (ii) falta de recolhimento do IPI lançado na nota fiscal; e (iii) recolhimento do IPI após o prazo sem o acréscimo de multa moratória. Assim, embora em duas hipóteses se exija que o penalizado seja devedor da Fazenda Pública para aplicação da penalidade nas situações em que há falta de recolhimento ou recolhimento em atraso sem a multa moratória , há hipótese de sujeição à penalidade que independe dessa condição, quando o contribuinte apenas deixa de lançar o IPI devido, que é Fl. 2792DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.778 31 justamente o caso dos autos, em que entendeu a Fiscalização que as irregularidades implicariam o lançamento de IPI na nota fiscal, em montante superior ao efetivamente lançado, ainda que sem o recolhimento do IPI, em razão da existência de saldo credor. Nesse sentido, já decidiu essa Turma de Julgamento, na sua composição anterior, em acórdão de lavra do Conselheiro Odassi Guerzoni Filho que, na parte que trata dessa matéria, foi assim ementado: "MULTA DE OFÍCIO APLICADA PELA FALTA DE LANÇAMENTO DO IPI. EXISTÊNCIA DE SALDO CREDOR. IRRELEVÂNCIA. A multa do art. 80, da Lei n° 4.502, de 1964, é aplicada nas situações em que o contribuinte, estando obrigado, deixa de destacar o IPI na saída de seus produtos, independentemente da existência de saldo credor capaz de acobertar o exsurgimento de débitos do imposto". (Acórdão n. 3401 01.014; Sessão de 30/09/2010). Portanto, enquadrandose a situação da Recorrente na hipótese prevista em abstrato na norma para a aplicação do lançamento, correta a manutenção da multa de 75% (setenta e cinco por cento), sobre o valor do IPI que deixou de ser recolhido. Ilegalidade da incidência da SELIC sobre a Multa de Ofício Por fim, pede a Recorrente o afastamento da taxa SELIC sobre a multa de ofício aplicada, em razão do disposto no artigo 61 da Lei no 9.430/1996, in verbis: “Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que ocorrer o seu pagamento. § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento. § 3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento”. A questão que se coloca é se a expressão “débitos” incluiria também a multa de ofício e, com isso, além do tributo lançado, aplicarseia a taxa SELIC para atualização da multa de ofício. A respeito do tema, destaco a seguir julgado proferido pela 3ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Terceira Seção do CARF, no qual o Relator, Conselheiro Rosaldo Trevisan, após fazer uma detida análise da legislação de regência, conclui pela inaplicabilidade da taxa SELIC sobre a multa de ofício, por ausência de previsão legal. É ler: “Segue se então, para o art. 161 do Código Tributário Nacional, que dispõe:(...) As multas são inequivocamente penalidades. Assim, restaria ilógica a leitura de que a expressão créditos ao início do caput abarca as penalidades. Tal exegese equivaleria a sustentar que: “os tributos e multas cabíveis não Fl. 2793DF CARF MF 32 integralmente pagos no vencimento serão acrescidos de juros, sem prejuízos da aplicação das multas cabíveis”. A Lei nº 9.430/1996, por sua vez, dispõe, em seu art. 61, que: (...) Novamente ilógico interpretar que a expressão “débitos” ao início do caput abarca as multas de ofício. Se abarcasse, sobre elas deveria incidir a multa de mora, conforme o final do comando do caput. Mais recentemente tratouse do tema nos arts. 29 e 30 da Lei nº 10.522/2002: (...) Vejase que ainda não se aclara a questão, pois se trata da aplicação de juros sobre os “débitos” referidos no art. 29, e a expressão designada para a apuração posterior a 1997 é “créditos”. Bem parece que o legislador confundiu os termos, e quis empregar débito por crédito (e viceversa), mas tal raciocício, ancorado em uma entre duas leituras possíveis do dispositivo, revelase insuficiente para impor o ônus ao contribuinte. Não se tem dúvidas que o valor das multas também deveria ser atualizado, sob pena de a penalidade tornarse pouco efetiva ou até inócua ao fim do processo. Mas o legislador não estabeleceu expressamente isso. Pela carência de base legal, então, entendese pelo não cabimento da aplicação de juros de mora sobre a multa de ofício, na linha que já vem sendo adotada por esta Turma”. (Processo no 10580.725551/201111; Sessão de 27/07/2013; Relator: Rosaldo Trevisan) Além das razões expostas no julgado em questão, acrescento que a ausência de previsão legal de aplicação de juros de mora sobre multa de ofício decorre da própria natureza desses encargos. Enquanto a multa de ofício constitui uma sanção que tem por finalidade penalizar o devedor pelo inadimplemento da obrigação de pagar o tributo, os juros de mora têm por objetivo indenizar o credor pelo atraso no cumprimento da obrigação de pagar o tributo por devido dentro do prazo estabelecido por Lei. Dessa maneira, tendo os juros de mora e a multa de ofício naturezas distintas, não cabe aplicar juros de mora sobre a multa de ofício, sob pena de se atribuir à multa de ofício um caráter indenizatório que a mesma não possui. O valor da multa de ofício não serve para indenizar o Estadocredor pelo atraso na prestação do tributo, serve para penalizar o contribuinte que deixou de pagar tributo. Com isso, o valor da multa de ofício não pode ser majorado em função do tempo que perdurar a mora do contribuinte devedor, com juros compensatórios da mora, por ausência de previsão e em razão da sua própria natureza. Pelas razões expostas, entendo inaplicável a taxa SELIC sobre a multa de ofício, motivo pelo qual dou provimento ao recurso voluntário interposto quanto a essa matéria. Conclusão Pelo exposto, proponho ao Colegiado conhecer e dar provimento parcial ao Recurso Voluntário interposto, para: Fl. 2794DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.779 33 (i) cancelar todos os créditos tributários cujos fatos geradores ocorreram antes de 04/07/2007, pelo reconhecimento da decadência; (ii) manter o lançamento relativo aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente; (iii) manter o lançamento na parte que versa sobre saídas de produtos por valor abaixo do valor tributável mínimo; (iv) reconhecer o direito de crédito de IPI decorrente da aquisição de insumos isentos de fornecedores localizados na Zona Franca de Manaus, determinando o cancelamento do lançamento nessa parte; (v) cancelar o crédito tributário decorrente de glosa de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela Recorrente; (vi) manter a multa de ofício aplicada e afastar a aplicação da SELIC sobre a multa de ofício. É como voto. AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA Relator Fl. 2795DF CARF MF 34 Voto Vencedor Conselheiro Robson José Bayerl, Redator designado Com relação ao exame do direito de crédito de IPI pelas aquisições isentas de matériasprimas, materiais intermediários e de embalagem da Zona Franca de Manaus – ZFM, temse que a não cumulatividade do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI vem fixada no art. 153, § 3º, II da CF/88, como princípio vetor do tributo, nos seguintes termos: “Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: I importação de produtos estrangeiros; II exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados; III renda e proventos de qualquer natureza; IV produtos industrializados; V operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; VI propriedade territorial rural; VII grandes fortunas, nos termos de lei complementar. § 1º É facultado ao Poder Executivo, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei, alterar as alíquotas dos impostos enumerados nos incisos I, II, IV e V. (...) § 3º O imposto previsto no inciso IV: I será seletivo, em função da essencialidade do produto; II será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores; III não incidirá sobre produtos industrializados destinados ao exterior. IV terá reduzido seu impacto sobre a aquisição de bens de capital pelo contribuinte do imposto, na forma da lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)” (destaquei) Como se observa do preceptivo em destaque, a apuração não cumulativa do IPI, que ora interessa, se dá pelo abatimento do valor cobrado nas aquisições e o valor devido pela saída do produto tributado, de modo que é pressuposto inarredável para o direito ao creditamento, na etapa seguinte do ciclo produtivo, que tenha havido cobrança de imposto na etapa imediatamente anterior e não a mera incidência tributária. Neste sentido a redação do art. 49 do Código Tributário Nacional: Fl. 2796DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.780 35 “Art. 49. O imposto é nãocumulativo, dispondo a lei de forma que o montante devido resulte da diferença a maior, em determinado período, entre o imposto referente aos produtos saídos do estabelecimento e o pago relativamente aos produtos nele entrados. Parágrafo único. O saldo verificado, em determinado período, em favor do contribuinte transferese para o período ou períodos seguintes.” A própria norma legal impositiva do imposto em comento, Lei nº 4.502/64, de maneira transversa, sinaliza nessa direção, quando determina que seja estornado o crédito do imposto relativo aos insumos empregados na fabricação de produtos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero, nestes termos: “Art. 25. A importância a recolher será o montante do imposto relativo aos produtos saídos do estabelecimento, em cada mês, diminuído do montante do imposto relativo aos produtos nele entrados, no mesmo período, obedecidas as especificações e normas que o regulamento estabelecer. (Redação dada pelo DecretoLei nº 1.136, de 1970) § 1º O direito de dedução só é aplicável aos casos em que os produtos entrados se destinem à comercialização, industrialização ou acondicionamento e desde que os mesmos produtos ou os que resultarem do processo industrial sejam tributados na saída do estabelecimento. (Redação dada pelo DecretoLei nº 1.136, de 1970) § 2º (Revogado pelo DecretoLei nº 2.433, de 1988) § 3º. O Regulamento disporá sobre a anulação do crédito ou o restabelecimento do débito correspondente ao imposto deduzido, nos casos em que os produtos adquiridos saiam do estabelecimento com isenção do tributo ou os resultantes da industrialização estejam sujeitos à alíquota zero, não estejam tributados ou gozem de isenção, ainda que esta seja decorrente de uma operação no mercado interno equiparada a exportação, ressalvados os casos expressamente contemplados em lei. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989)” Com efeito, se se deveria estornar o crédito efetivo pela aquisição tributada de matériaprima, produto intermediário e material embalagem aplicados na industrialização de produtos que não sofriam a incidência do tributo, lato senso, com mais razão ainda na hipótese em que a própria aquisição do insumo já ocorresse de forma desonerada do imposto, raciocínio não prejudicado pelo advento do art. 11 da Lei nº 9.779/99. Como se observa dos textos legais, é condição sine qua non para aproveitamento dos créditos de IPI, pela sistemática de apuração não cumulativa, a efetiva cobrança do imposto na aquisição, aqui entendida na acepção de exigir, fazer com que seja pago, e não simplesmente que incida a norma tributária, de modo que a isenção, a não tributação ou a sujeição à alíquota zero, não garantem direito de crédito pela sistemática não cumulativa de apuração do IPI. Essa é a orientação contemporânea do Supremo Tribunal Federal, fixada no RE 398.365/RS, e também no CARF, como exposto no voto vencido, a partir da análise histórica da jurisprudência pátria acerca do tema. Fl. 2797DF CARF MF 36 Abro um parêntese apenas para dissentir da afirmação que era firme a jurisprudência do STF, desde a promulgação da CF/88, no sentido de admitir o crédito presumido pelas aquisições isentas de IPI, ante a inexistência de vedação constitucional semelhante àquela prevista para o ICMS (art. 155, § 2º, II, “a”), ao passo que esse entendimento somente se sedimentou com a decisão prolatada no RE 212.484/RS, em 05/03/98. Tocante à apropriação do crédito presumido de IPI pelas aquisições de insumos, isentas, provenientes da ZFM, especificamente, a questão está afetada à sistemática da repercussão geral no RE 592.891/SP, porém, pendente de decisão de mérito. Portanto, inexiste qualquer precedente judicial, com força vinculante, que submeta este tribunal administrativo a conferir o direito de crédito em debate, a teor do art. 62 do RICARF/15 (Portaria MF 343/2015) e 26A do Decreto nº 70.235/72. Respeitante ao exame históricoeconômico da criação da ZFM engendrado pelo i. Relator, como fundamento para o reconhecimento do direito de crédito, entendo que as razões ali arroladas não são suficientes para garantir o pretendido creditamento, uma vez que não há, na legislação de regência daquela área, qualquer dispositivo que estipule o direito vindicado. Consoante art. 150, § 6º da CF/88, qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só pode ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias taxativamente enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, de sorte que o reconhecimento do crédito ficto pelas aquisições de insumos isentas da ZFM, a meu sentir, viola o texto constitucional. Mesmo a alegação de pretensa extrafiscalidade da isenção sub examine não se apresenta como fundamento ao deferimento do crédito, isto porque a envergadura constitucional da ZFM, como elemento catalisador do desenvolvimento econômico e social da região amazônica, não arrima essa conclusão, porquanto os incentivos fiscais criados pelo DL 288/67 e legislação correlata, como instrumentos para alcance daquele objetivo, não elencam esse crédito presumido (ou ficto, como preferem alguns) dentre eles. Com efeito, quando assim o quis, o legislador textualmente implementou crédito dessa natureza, como ocorreu no art. 6º, § 1º do DecretoLei nº 1.435/75, verbis: “Art 6º Ficam isentos do Imposto sobre Produtos Industrializados os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na área definida pelo § 4º do art. 1º do Decretolei nº 291, de 28 de fevereiro de 1967. § 1º Os produtos a que se refere o ‘caput’ deste artigo gerarão crédito do Imposto sobre Produtos Industrializados, calculado como se devido fosse, sempre que empregados como matériasprimas, produtos intermediários ou materiais de embalagem, na industrialização, em qualquer ponto do território nacional, de produtos efetivamente sujeitos ao pagamento do referido imposto. § 2º Os incentivos fiscais previstos neste artigo aplicamse, exclusivamente, aos produtos elaborados por estabelecimentos industriais cujos projetos tenham sido aprovados pela SUFRAMA.” Fl. 2798DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.781 37 Outrossim, não se pode olvidar que os benefícios fiscais da ZFM não se limitam à isenção do IPI pelas saídas de produtos industrializados para outros ponto do território nacional, mas se estendem à isenção pelas aquisições de insumos, por parte de empresas localizadas na ZFM, de qualquer parte do território nacional ou mesmo do exterior, com garantia de isenção, também, do Imposto de Importação respectivo. Essas medidas necessariamente redundam em desoneração tributária de toda a cadeia produtiva, com claros ganhos de produtividade para empresas instaladas na área de abrangência da ZFM, daí porque a análise de cunho econômico não pode ser, com o devido respeito, simplista, como no exemplo proposto pelo voto vencido, sem considerar todas as demais variáveis. Outrossim, aspectos de natureza econômica, ao menos em sede contenciosa administrativa, não servem de sustentáculo à concessão do crédito postulado. Mesmo porque, se enveredarmos por essa trilha, algumas situações reais constatadas causariam espécie e obnubilariam o pretenso direito creditório arguido, como se verifica, p.e., nesse mesmo processo, relativo a pedido de ressarcimento, onde a apropriação de créditos pelas aquisições isentas da ZFM resultou em elevação do saldo credor apurado e requerido, de maneira que a União foi instada a devolver, sob forma de ressarcimento, valores que nunca adentraram os cofres públicos. Ou seja, pretendese o ressarcimento ou devolução do que nunca foi pago, por força da isenção, o que, a meu sentir, carece de lógica jurídica. Demais disso, os ganhos decorrentes desses incentivos regionais poderiam ser qualificados também como financeiros, pela ótica da ausência de desembolso por parte dos adquirentes, acarretada pela desoneração, dos tributos incidentes diretamente sobre as aquisições. Por esse ângulo, perde força o argumento de necessidade de reconhecimento do direito de crédito como forma de não equiparálo a mero diferimento, como anotado no voto vencido, isso porque, a análise conjuntural exige a avaliação de todas as variantes econômicas, aí incluída a integralidade dos incentivos da ZFM, e não apenas a isenção do IPI pelas saídas de produtos industrializados, isoladamente. Não se pode perder de vista, ainda, que o princípio da seletividade interfere nessa equação, ao estabelecer alíquotas distintas para os produtos, em função da sua essencialidade, ao invés de uma alíquota linear ou única, o que resulta na possibilidade de, em certa etapa do ciclo produtivo, posterior àquela beneficiada com isenção, que incida uma alíquota menor que as etapas anteriores ou até mesmo uma alíquota zero, profligando qualquer possibilidade de se verificar diferimento do tributo. Noutro giro, reconhecer o crédito presumido/ficto pelas aquisições isentas de matériaprima, produto intermediário e embalagens da ZFM equivale, por via oblíqua, a investir o julgador administrativo em legislador ordinário, ao passo que, como enfadonhamente repetido, não existe qualquer dispositivo que, explícita ou implicitamente, confira o direito de crédito ora altercado, seja pela leitura do art. 43, § 2º da CF/88, seja pelos arts. 40, 92 e 92A do ADCT. Fl. 2799DF CARF MF 38 Por esse motivo, compartilho a mesma perspectiva do saudoso Min. Teori Albino Zavascki, citado pelo i. Relator, segundo o qual, mesmo tomando o art. 43, § 2º da CF/88 como lastro constitucional para as vantagens fiscais atribuídas à ZFM, de modo a pretensamente afastar o art. 153, § 3º e sua regulação ordinária do princípio da não cumulatividade, o seu texto prevê tãosomente que os incentivos regionais compreenderão, dentre outros, isenções, reduções ou diferimento de tributos, nada mencionando sobre créditos presumidos ou fictos. Notese que a própria dicção do sobredito artigo, consubstanciado na expressão “dentre outros”, conduziria à possibilidade de criação do indigitado direito de crédito, ao estabelecer que os incentivos regionais não se limitam àqueles catalogados, todavia é mister do legislador ordinário a sua implementação, não do julgador administrativo. Em apertada síntese: a apropriação de créditos pelas aquisições isentas de insumos da Zona Franca de Manaus carece de respaldo legal, devendo ser mantida a glosa realizada pelas autoridades fiscais. Com essas considerações, voto por negar provimento ao direito de creditamento de IPI por aquisições isentas, mesmo que originárias da Zona Franca de Manaus – ZFM. Robson José Bayerl Fl. 2800DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.782 39 Voto Vencedor Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 1. Com as vênias de estilo, em que pese o, como de costume, bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, apresento voto divergente, no sentido de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, conforme se passa a expor. I. VALOR TRIBUTÁRIO MÍNIMO 2. Como se sabe, em conformidade com o art. 46 do Código Tributário Nacional,7 o imposto sobre produtos industrializados, previsto no inciso IV do art. 153 da Constituição de 1988, 8 tem, como fato gerador: (i) o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; (ii) a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51 da norma;9 e (iii) a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. O art. 51 do diploma em referência, por sua vez, determina que a contribuinte do imposto é o industrial (ou equiparado) e o comerciante de produtos sujeitos ao IPI que os forneça a industriais ou equiparados. Da simples leitura de tais dispositivos, é possível se concluir, e.g., que a venda de distribuidora para consumidor final não se convola como fato gerador do imposto. 3. Uma vez definida a sua materialidade, depreendese da leitura do art. 4710 a base de cálculo do IPI correspondente em uma operação de saída do produto interno: (i) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria, ou (ii) na falta dele, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente. Nos termos do quanto preceituado pelo art. 190 do Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI),11 7 Código Tributário Nacional Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: I o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; III a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a natureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo. 8 Constituição da República de 1988 Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: (...) IV. Produtos industrializados. 9 Código Tributário Nacional Art. 51. Contribuinte do imposto é: I o importador ou quem a lei a ele equiparar; II o industrial ou quem a lei a ele equiparar; III o comerciante de produtos sujeitos ao imposto, que os forneça aos contribuintes definidos no inciso anterior; IV o arrematante de produtos apreendidos ou abandonados, levados a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase contribuinte autônomo qualquer estabelecimento de importador, industrial, comerciante ou arrematante. 10 Código Tributário Nacional Art. 47. A base de cálculo do imposto é: I no caso do inciso I do artigo anterior, o preço normal, como definido no inciso II do artigo 20, acrescido do montante: a) do imposto sobre a importação; b) das taxas exigidas para entrada do produto no País; c) dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; II no caso do inciso II do artigo anterior: a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente; III no caso do inciso III do artigo anterior, o preço da arrematação. 11 Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1o O valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. § 2o Será também considerado como cobrado ou debitado pelo contribuinte, ao comprador ou destinatário, para efeitos do disposto no § 1o, o valor do frete, quando o transporte for realizado ou cobrado por firma controladora ou controlada do estabelecimento Fl. 2801DF CARF MF 40 constitui "valor tributável" dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, assim entendido como o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. 4. O art. 195 do RIPI/2010, por seu turno, de forma a ecoar o preceptivo normativo do alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional, dispõe a respeito da necessidade de um valor mínimo tributável no caso de produto destinado a outro estabelecimento do próprio remetente: o preço corrente no mercado atacadista da praça do próprio remetente, cf. inciso I do art. 15 da Lei nº 4.502/1964 e art. 2º do DecretoLei no 34/1966, conforme abaixo se transcreve: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. 5. Para a caracterização da relação de interdependência, por sua vez, necessária a configuração de ao menos uma das hipóteses previstas no art. 612 do RIPI/2010: (i) participação, direta ou indireta, de mais de 15% no capital social; (ii) comungarem de ao menos um diretor ou sócio com funções de gerência; (iii) quando uma tiver vendido/consignado à outra no ano anterior mais de 20% de seus produtos com exclusividade territorial ou mais de 50% em qualquer hipótese; (iv) quando uma delas for a única adquirente de um ou mais produtos da outra; (v) quando uma vender à outra produto que tenha fabricado ou importado por meio de contrato de participação ou semelhante, conforme disposição a seguir trasladada: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Firmas Interdependentes Art. 612. Considerarseão interdependentes duas firmas: I. quando uma delas tiver participação na outra de quinze por cento ou mais do capital social, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges, se a participação societária for de pessoa física; II. quando, de ambas, uma mesma pessoa fizer parte, na qualidade de diretor, ou sócio com funções de gerência, ainda que exercidas sob outra denominação; III. quando uma tiver vendido ou consignado à outra, no ano anterior, mais de vinte por cento no caso de distribuição com exclusividade em determinada área do território nacional, e mais de cinquenta por cento, nos demais casos, do volume das vendas dos produtos tributados, de sua fabricação ou importação; IV. quando uma delas, por qualquer forma ou título, for a única adquirente, de um ou de mais de um dos produtos industrializados ou importados pela outra, ainda quando a exclusividade se refira à padronagem, marca ou tipo do produto; ou V. quando uma vender à outra, mediante contrato de participação ou ajuste semelhante, produto tributado que tenha fabricado ou importado. Parágrafo único. Não caracteriza a interdependência referida nos incisos III e IV a venda de matériasprimas e produtos intermediários, destinados exclusivamente à industrialização de produtos do comprador. contribuinte ou por firma com a qual este tenha relação de interdependência, mesmo quando o frete seja subcontratado. § 3o Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. § 4o Nas saídas de produtos a título de consignação mercantil, o valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II do caput, será o preço de venda do consignatário, estabelecido pelo consignante Fl. 2802DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.783 41 6. Uma vez configurada a situação de interdependência, deve o aplicador se voltar, necessariamente, ao preço corrente da praça do remetente, por expresso desígnio da alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional conjugada com o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Duas são as questões que merecem, a partir de então, maior reflexão: em primeiro lugar, o sentido de "preço corrente" e, em segundo lugar, o sentido de "praça". Diante da dúvida sobre se o preço corrente da localidade seria aquele praticado pelo remetente, considerado de maneira individual e apartado do restante da praça, ou se, para o cálculo, deveria a autoridade fiscal considerar todo o mercado local, a Coordenação do Sistema de Tributação editou o Parecer Normativo CST nº 44/1981, que entendeu pela necessidade de consideração do universo das vendas realizadas na localidade, de modo a utilizar, como sinônimo de "praça", a "cidade".12 Assim, para se encontrar o "preço corrente", necessário se levar em consideração a média ponderada do preço praticado pelos estabelecimentos da cidade do remetente: Parecer Normativo CST nº 44/1981 Imposto Sobre Produtos Industrializados 4.16.04.02 Valor Tributável Mínimo Remessas Para Interdependentes "1. Indagase, para encontro do limite mínimo do valor tributável do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), na hipótese prevista no artigo 46, inciso I, letra a , do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979 (RIPI), qual a extensão do entendimento da expressão "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". (...). 3. A base da norma que se examina, originariamente, foi o disposto no inciso I do artigo 15 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, verbis: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou, na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto for remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42). 4. No texto transcrito observase que a regra de apuração do valor tributável destacava a hipótese de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, podendo ser entendida como o preço praticado pelo próprio remetente. 4.1 A alteração 5ª do artigo 2º do DecretoLei nº 34, de 18 de novembro de 1966, deu nova redação ao inciso transcrito, e excluiu a possibilidade daquele entendimento, definindo que: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: 12 Sentido utilizado também no Recurso Extraordinário nº 71.253/PR, proferido pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal em 21/05/1973, de relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque. Ementa: "ICM. REMESSA PARA OUTRO ESTADO. INCIDÊNCIA SOBRE O VALOR DA MERCADORIA NA PRAÇA DO REMETENTE. DESNECESSIDADE, EM CERTOS CASOS, DE PROCESSO REGULAR PARA O ARBITRAMENTO DESSE PREÇO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO CONHECIDO". Fl. 2803DF CARF MF 42 I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro, incluído no artigo 42 e seu parágrafo único. 5. A norma superveniente determina, pois, ser "o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente..." a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente no mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. 8. Quando não puder ser conhecido, por inexistente, o preço corrente no mercado atacadista relativo a qualquer produto, o comando legal a ser seguido encontrase no artigo 46, § 6º (parte final), combinado com o disposto no parágrafo único do artigo 44 do já mencionado Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979" (seleção e grifos nossos). 7. No ano seguinte à edição do Parecer Normativo CST nº 44/1981, com o objetivo de elucidar o vocábulo "produto" (item 6.1), bem como no sentido de esclarecer o cálculo da média ponderada, foi editado o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Em perfeita consonância com o repertório normativo analisado até o presente momento, o ato dispôs que, para fins de determinação do valor tributável mínimo, devem ser consideradas "as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI". Assim, deve a autoridade autuante fazer com que participe do cálculo da média ponderada não apenas os valores praticados pelos remetentes da praça, como também pelos seus interdependentes (que estejam também na mesma praça e caso existam , evidentemente, sob pena de contradição com o texto do art. 195 do RIPI/2010 e do Parecer Normativo CST nº 44/1981), conforme abaixo se reproduz: Ato Declaratório Normativo CST nº 5, de 04/05/1982 O Coordenador do Sistema de Tributação, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa SRF nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o Parecer CST/DET nº 892/82: Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal e demais interessados, que o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, Fl. 2804DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.784 43 tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do art. 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI). Declara, igualmente, que, do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do art. 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o art. 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. 8. Aventouse, a partir de então, para fins de apuração do "preço corrente", hipótese em que, no mercado atacadista a que essa regra se refere, existir um único distribuidor, sendo este interdependente do estabelecimento industrial fabricante do produto cujo valor tributável mínimo se pretenda determinar. A Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit), por meio da Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011,13 solicitou à CoordenaçãoGeral de Tributação (Cosit) orientação relativa à possibilidade da aplicação da regra de fixação de valor tributável mínimo determinada pelo inciso I do art. 195 do RIPI/2010 neste caso específico, o que conduziu à edição da Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012, no sentido de que, em tais casos, o preço corrente "(...) corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do produto", em conformidade com o trecho abaixo transcrito: Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012 "(...) 9. (...) existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. 9.1. Agora, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. 13 Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011 realizada pela Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit): "(...) quando uma distribuidora é a única vendedora no mercado atacadista do país ou da região do fabricante, os preços por ela praticados devem ser utilizados para determinação do valor tributável mínimo referido no artigo 195, inciso I, do RIPI/2010? Ou, em função do que consta no trecho acima transcrito do Parecer Normativo CST nº 44/81, deve se entender que a regra do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010 só pode ser aplicada nos casos em que o mercado atacadista seja composto por mais de um vendedor?". Fl. 2805DF CARF MF 44 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Conclusão 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto" (seleção e grifos nossos). 9. Assim, para fins de determinação do preço mínimo, deve a autoridade autuante: (i) verificar a existência de relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, nos termos do art. 612 do RIPI/2010; (ii) caso configurada tal relação, deverá verificar se a contribuinte obedeceu, por sua vez, à regra do valor tributável mínimo, assim entendido como o "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", em conformidade com o art. 195 do RIPI/2010 obtido por meio da média ponderada dos preços das "vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI".14 Para tal finalidade, deverá, ainda: (ii.a) considerar como "produto" aquela mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, e (ii.b) considerar o termo "praça" como município, cidade, local ou freguesia do estabelecimento do remetente, preceptivos do Parecer Normativo CST nº 44/1981 e do Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Por fim, caso constate que (iii) a parte interdependente é o único fornecedor/distribuidor da praça do remetente ("mercado monopolista local"), o valor tributável mínimo aplicável será a média ponderada dos preços praticados por este distribuidor único para aquele produto. 10. Divergência passaria a existir, observese a latere, diante da completa ausência de mercado atacadista onde está localizado o estabelecimento remetente, situação enfrentada pelo Acórdão CARF nº 3403002.285, proferido em sessão de 26/06/2013, sob a relatoria do Conselheiro Antônio Carlos Atulim,15 no qual o colegiado entendeu, vencidos os Conselheiros Rosaldo Trevisan e Alexandre Kern, pela necessidade de se considerar, como valor mínimo tributável, apenas os custos de fabricação e demais despesas incorridas com os produtos. Em sentido oposto, é possível se apontar a situação específica verificada no Acórdão CARF nº 3201001.204, proferido em sessão de 25/02/2013, de Relatoria do Conselheiro Luciano Lopes de Almeida Moraes, referenciado nas contrarrazões da Procuradoria da Fazenda Nacional, em que, diante da inexistência de outros atacadistas na praça do remetente, foram utilizados os preços das notas de saída das distribuidoras registrase, no entanto, que tal 14 Em outras palavras, o "mercado atacadista" da praça do remetente (art. 195 RIPI/2010) é composto pelas vendas do mesmo produto "efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente [estes, caso existam], no atacado, na mesma localidade" (Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982). 15 Acórdão CARF nº 3403002.285 Ementa: "VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos". Fl. 2806DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.785 45 precedente, além de isolado, foi decidido, no mérito, por voto de qualidade e de maneira contrária à regra geral determinada pela legislação do IPI. 11. Cabe observar que, com o advento do Decreto nº 8.393, de 28/01/2015, que entrou em vigor na data da sua publicação, restou revogado o Decreto nº 1.217/1994,16 de modo a incluir, com supedâneo no art. 8º da Lei nº 7.798/1989, produtos correspondentes ao códigos TIPI 3303 a 3307 (3303.00.10, 3305.30.00, 3304.10.00, 3305.90.00, 3304.20, 3307.10.00, 3304.30.00, 3307.30.00, 3304.9, 3307.4, 3305.20.00, e 3307.90.00) no Anexo III da lei em referência, que dispõe da seguinte forma: Lei nº 7.798/1989 Art. 7º. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos atacadistas que adquirirem os produtos relacionados no Anexo III [entre os quais, cosméticos], de estabelecimentos industriais ou dos seguintes estabelecimentos equiparados a industrial: (...) III. estabelecimentos comerciais de produtos cuja industrialização haja sido realizada por outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, mediante a remessa, por eles efetuadas, de matériasprimas, produtos intermediários, embalagens, recipientes, moldes, matrizes ou modelos. (...) § 1º. O disposto neste artigo aplicase nas hipóteses em que adquirente e remetente sejam empresas interdependentes, controladoras, controladas ou coligadas (Lei nº 6.404, art. 243, §§ 1º e 2º) ou interligadas. (...) Art. 8º. Para fins do disposto no artigo anterior, fica o Poder Executivo autorizado a excluir produto ou grupo de produtos cuja permanência se torne irrelevante para arrecadação do imposto, ou a incluir outros cuja alíquota seja igual ou superior a quinze por cento" (seleção, grifos e colchetes nossos). 12. Assim, ao se equiparar o atacadista a estabelecimento industrial (quando vier a adquirir, e.g., produtos cosméticos de indústria ou equiparado que fizer parte do mesmo grupo empresarial), na qualidade de novel contribuinte do IPI, promovese substanciosa alteração da lógica tributária da operação, no sentido de se criar regra específica antielisiva por meio de alteração na TIPI que tem como efeito a expansão do aspecto pessoal do imposto para pessoas que antes não se sujeitavam a tal materialidade. Aquela contribuinte que organizar os seus negócios de modo a dividilos entre industrial e atacadista, poderá continuar a fazêlo sem se sujeitar a uma tributação maior, pois o distribuidor passará a se creditar do valor de IPI sobre os produtos entrados em seu estabelecimento por meio de compensação em conta gráfica. 13. Em que pese a medida ser em tudo elogiável, portanto, do ponto de vista de buscar uma forma de equalização de mercado, cabe se registrar, em sede de excursus, até mesmo em proveito da cronologia normativa que ora se estabelece, que a forma contramajoritária eleita para instituíla tem sido posta sob vergasta: (i) primeiro, porque, por meio de decreto presidencial, terseia criado tributo onde antes não havia para todo o setor de cosméticos. De fato, o art. 97 do Código Tributário Nacional explicita em minúcias o conteúdo e a expressão da legalidade: "(...) o consequente normativo, isto é o an e o quantum debeatur, 16 Decreto nº 1.217/1994 Art. 1º Ficam excluídos do Anexo III à Lei nº 7.798, de 10 de julho de 1989, os produtos classificados nos códigos 3301.90.03, 3303, 3304, 3305, 3306 e 3307, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, aprovada pelo Decreto nº 97.410, de 23 de dezembro de 1988. Fl. 2807DF CARF MF 46 representados pela definição do sujeito passivo, da base de cálculo e da alíquota, todos devem ser previstos na própria lei",17 ponto sobre o qual já escrevemos, e.g., no Acórdão CARF nº 3401003.216, de minha relatoria, proferido em sessão de 23/08/2016: a autorização franqueada pela lei, no caso, o art. 8º da Lei nº 7.798/1989, acima transcrito, para que determinados produtos sejam acrescentados à TIPI, tratase de permissivo de mitigação excessivamente pretensioso, pois encontra obstáculo na norma de estatura complementar. Possível seria a redução ou a dispensa do tributo por meio de norma executiva, como, aliás, fizera o Decreto nº 1.217/1994, mas jamais o aumento ou criação de tributo novo, uma vez que "(...) o princípio da legalidade não tolera um aumento de tributo sem lei que o estabeleça".18 Em (ii) segundo lugar, a iniciativa do Poder Executivo contrariou o texto expresso do art. 4º da Lei nº 7.798/1989, ao determinar que o IPI incidente sobre produtos nacionais, salvo no caso de industrialização por encomenda, deve ser recolhido uma única vez: ou (ii.a) na saída do estabelecimento industrial, ou (ii.b) na saída do estabelecimento a ele equiparado: Lei nº 7.798/1989 Art. 4º Os produtos sujeitos aos regimes de que trata esta Lei pagarão o imposto uma única vez (...) a) os nacionais, na saída do estabelecimento industrial ou do estabelecimento equiparado a industrial; b) os estrangeiros, por ocasião do desembaraço aduaneiro. 14. O art. 47 do Código Tributário Nacional é expresso ao se referir ao preço "o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente". Em igual sentido, de maneira igualmente expressa, o inciso I do art. 195 do Decreto nº 7212/2010 (RIPI), ao tratar do valor tributável mínimo, referese ao "ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". Uníssonos e uniconcordes, como não poderiam deixar de ser, o Parecer Normativo CST nº 44/1981 e o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982, cujo trecho a seguir se transcreve: "deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente". Harmoniosa com tal determinação legal também a Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012: "o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único". A fixação da "regra do remetente" encontrou ressonância, ainda, na jurisprudência deste Conselho.19 15. Em igual sentido, a posição deste Conselho, conforme se denota da leitura do Acórdão CARF nº 20218.215, proferido em 14/08/2007, de relatoria da Conselheira Maria Teresa Martinez López, que negou provimento a recurso de ofício por unanimidade de votos, redigido com a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 Ementa: BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. 17 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 7ª edição, 2017, p. 314. 18 Idem, p. 316: "Isso inclui a proibição de se restabelecer uma tributação, mesmo que a redução se tenha dado por ato do próprio Executivo, por delegação legal. Uma coisa é a lei autorizar o Executivo a reduzir a tributação. Não implicará, entretanto, a possibilidade de aumentar a carga tributária sem decisão específica do legislador". 19 Acórdão CARF nº 20216475, proferido em sessão de 09/08/2005, sob a relatoria da Conselheira Maria Cristina Roza da Costa. Ementa: "IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. INTERDEPENDÊNCIA. Aplicase o disposto no inciso I, letra “a”, c/c § 5º do art. 68 do RIPI/82, com a interpretação dada pelo ADN CST nº 5/82, quando ocorrer interdependência entre fabricante e adquirente nos termos do art. 394, inciso IV, do RIPI/82. Recurso provido". Fl. 2808DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.786 47 Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. 16. Transcrevese, ainda, por pertinente, trecho do voto do caso, em tudo semelhante ao presente: "O que se verifica dos autos é que, ignorando a determinação legal acima exposta, a fiscalização arbitrou a base de cálculo do IPI tomando o valor de revenda do adquirente interdependente. O art. 123 do RIP1/98 é claro ao estabelecer que quando ficar caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos do remetente e do adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, que equivale ao preço médio praticado na localidade, não podendo ser considerado como o praticado pelo adquirente" (seleção e grifos nossos). 17. Necessária menção deve ser feita, ainda, ao Acórdão CARF nº 204 02706 (Processo Administrativo nº 16175.000298/200517), proferido em sessão de 15/08/2007, de relatoria da Conselheira Nayra Bastos Manatta, por unanimidade de votos, que tratou especificamente da determinação da base de cálculo mínima do IPI: "(...) limitouse, a fiscalização, a tomar como valor tributável mínimo o valor de revenda do adquirente interdependente como base de cálculo do remetente. Tal procedimento não encontra qualquer respaldo legal" (seleção e grifos nossos), tendo sido lavrada a seguinte ementa: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim se proceder por inexistir vendas do produto na mesma praça da remetente, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando o custo de fabricação do produto, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação. As vendas realizadas pela empresa adquirente do produto, localizada em outra praça, não se prestam para cálculo do valor mínimo tributável, se consideradas isoladamente. 18. Por fim, em igual sentido, o Acórdão CARF nº 340100.768, proferido em sessão de 25/05/2010, de relatoria do Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda, proferido por unanimidade de votos: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. Fl. 2809DF CARF MF 48 No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. 19. Por derradeiro, durante as pesquisas realizadas para a elaboração do presente voto, deparouse este Relator com a informação de que tramita, no Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 1.559/2015, com o seguinte teor: "Art. 1º Esta Lei tem por objetivo, para os fins previstos na Lei nº 502 de 30 de novembro de 1.964, definir “praça” como a cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Art. 2º O artigo 15 da Lei nº 4.502 de 30 de novembro de 1.964, passa a vigorar acrescida do seguinte parágrafo único: “Art. 15.......................................................................................... Parágrafo único. O termo praça, tratado neste artigo, se refere à cidade onde está situada a remetente.” (NR) Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação" (seleção e grifos nossos). 20. Transcrevese, abaixo, trecho da justificativa do projeto de lei em comento: "A lei do IPI fala em preço tributável mínimo, quando da venda de produtos para empresas interdependentes. Ocorre que o Fisco Federal vem distorcendo o conceito da praça, vindo a expandilo de forma totalmente arbitrário e sem critério. Dessa forma, vários contribuintes são autuados sob a alegação de que não seguiram o preço mínimo tributável, pois, na visão fiscal, o preço de venda deveria considerar os preços praticados em outras cidades. Ou seja, os contribuintes estão vivendo um clima de total insegurança jurídica, já que o fisco federal não acolhe o conceito de praça hoje consagrado, o qual diz ser a cidade onde está o remetente. Dessa forma, e para evitar a insegurança jurídica trazida pela interpretação da lei fiscal, necessário deixar pacificado o entendimento corrente, que diz que praça corresponde à cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Isto posto, acreditado estar aperfeiçoando o regime jurídico pátrio que trata da matéria, conto com o apoio dos pares na rápida aprovação da presente proposição. Sala das Sessões, em 14 de maio de 2015" (seleção e grifos nossos). 21. O projeto de lei, com regime ordinário de tramitação, foi aprovado por unanimidade, em 11/11/2015, pela Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados e aguarda, desde 29/12/2016, designação de relator na Comissão de Fl. 2810DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.787 49 Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Casa Legislativa. Recortase, abaixo, trecho do relatório de aprovação do projeto pela Comissão de Finanças e Tributação: "A proposição em epígrafe (...) pretende modificar o art. 15 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, que dispõe sobre o Imposto sobre Produtos Industrializados, no que se refere à fixação do menor valor tributário aceito pela administração fiscal, no caso de remessas a outro estabelecimento da empresa ou de terceiro (3º) ou ainda que opere exclusivamente em venda a varejo, para determinar que o termo “praça” seja definido como a cidade onde está situado o estabelecimento remetente. Alega o autor que o fisco federal tem expandido o conceito “praça”, de forma arbitrária e sem critério, promovendo insegurança jurídica e lavrando autuações indevidas, com base em preços praticados em outras cidades. Sujeita à apreciação conclusiva das Comissões em regime de tramitação ordinária, e ao exame de mérito, previstos no artigo 54, inciso II, e no artigo. 24, inciso II, do Regimento Interno desta Casa. O projeto de lei em tela não recebeu emendas no prazo regimental junto à Comissão de Finanças e Tributação. Quando a determinação do valor tributável para efeito de cálculo dos preços praticados no mercado atacadista da praça do remetente, será considerado o universo das vendas realizadas naquela localidade (...). Demais normas tributárias citadas como o ADN nº 5, de 1982, ao determinar o cálculo da média ponderada para a apuração do valor tributário mínimo, bem como o Parecer CST nº 3313, de 1982, também voltado para o cálculo da média ponderada, fixam que deverão ser consideradas as vendas do produto, efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente, no atacado, sob determinadas condições, na mesma localidade. Não obstante a matéria já se achar plenamente esclarecida não está definida em lei de forma explícita. Isto posto, com vistas a permitir a correta adoção da lei, prevenindo excessos interpretativos, consideramos oportuna a inclusão do dispositivo proposto" (seleção e grifos nossos). 22. Em que pese se tratar de dispositivo de lege ferenda, o que inviabiliza em absoluto o seu uso como fonte formal, não há de se ignorar o trâmite da matéria como vetor argumentativo de interesse e, por outro lado, a medida, consentânea com a jurisprudência deste Conselho, como se demonstrou, de fato possibilitaria maior grau de segurança jurídica à atividade do lançamento, tendo como efeito a desejável redução da matéria contenciosa, a redução do estoque de processos judiciais e administrativos e, logo, a maior celeridade na prestação jurisdicional. Cabe destacar, ademais, que o Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial nº 1.190.037/SP, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão, ao tratar do prazo prescricional do cheque, definiu "praça" como "município"20. E não poderia ser de outra forma, 20 Recurso Especial nº 1.190.037/SP Trecho da ementa: "4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a Fl. 2811DF CARF MF 50 pois a alínea 'a' do inciso I e 'b' do inciso II do art. 11 da Lei Complementar nº 95/1998, que trata da elaboração, a redação, a alteração e a consolidação das leis, determina que o legislador, com o objetivo de obter clareza, deve usar as palavras e expressões em seu sentido comum, e expressar as mesmas idéias de preferência sempre pelas mesmas palavras. Por este motivo é que o sentido de praça como algo distinto de "município" somente poderia ser alterado por meio de preceptivo normativo editado especificamente com esta finalidade. 23. Feitas tais considerações, observase que a opção da contribuinte pela "(...) criação da fábrica como uma empresa inscrita em CNPJ diferente",21 implica, como recordam Carlos Eduardo Toro, Fernando Aurelio Zilveti e Bianca Britto, a observância de "(...) um valor mínimo determinado pela legislação do IPI", mas desde que observados os requisitos de sua aferição. Recordese: ainda que a decisão empresarial da contribuinte constitua vera imoralidade ao aplicador, a eventual ausência de propósito negocial de uma determinada estrutura societária é indiferente ao direito na esfera federal, e não pode ser utilizada como fundamento para a desconsideração de negócios jurídicos22. Desta forma, fosse a acusação de subfaturamento, e.g., tocaria à autoridade fiscal a demonstração da prática dos preços diferenciados para, em seguida, proceder à aplicação do art. 148 do Código Tributário Nacional, de forma a arbitrar o valor ou preço dos bens. 24. Não se ignora, portanto, que muitas empresas, notadamente do ramo de cosméticos, mas não somente, adotem tal estrutura também devido a outros aspectos não pertinentes à legislação do IPI, seja por razões tributárias ou extratributárias, como, para permanecer apenas na análise da tributação federal, a arquitetura fiscal desenhada pelo próprio governo federal para a cobrança do PIS e da Cofins.23 A concentração da incidência traduzida pela cobrança monofásica sobre a saída do importador ou do industrial, conforme previsto, e.g., na Lei nº 10.147/2000, ao onerar o produtor com a carga de toda a cadeia de consumo, tem por efeito deslocar a agregação de valor ao momento seguinte, da distribuição, o que é plenamente aceitável, como restou sedimentado no Acórdão CARF nº 3403002519, proferido em sessão contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora". 21 ZILVETI, Fernando Aurelio, TORO, Carlos Eduardo, e BRITTO, Bianca. "Operações do setor industrial aspectos tributários", In: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Curso de direito tributário e finanças públicas do fato à norma, da realidade ao conceito jurídico. São Paulo: Editora Saraiva Selo Direito GV, 2009, pp. 969 a 978. 22 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Argumentação tributária de lógica substancial. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2016, p. 176: "A disposição da presença de propósito negocial no elemento de refutação permite a sua consideração como um elemento protetivo que, uma vez comprovado, elide a hipótese de simulação ou abuso (...) como tal instituto é indiferente ao direito positivo (...) não é capaz o intérprete autêntico, no campo do direito, de colocar a sua vontade sobre o ordenamento, sob o risco de malferir a legalidade e, consequentemente, a validade da decisão". 23 ANDRADE, José Maria Arruda de. "É fundamental repensar política econômica que se vale de tributos". In: Revista Consultor Jurídico (Conjur) Coluna "Estado da Economia", 17/04/2016, disponível em: <http://www.conjur.com.br/2016abr17/estadoeconomiapoliticaeconomicavaletributos repensada?imprimir=1>, último acesso em 04/06/2017. Em recente artigo sobre o tema, o autor se volta ao momento posterior à instituição do regime nãocumulativo do PIS e da Cofins: "(...) mais do que a não cumulatividade, o resultado foi arrecadatório, com a criação de categorias econômicas com distintas e variadas cargas (isso sem contar a concomitância com regimes distintos: o cumulativo e o concentrado e monofásico, por exemplo). A progressão de anos e governos só tornou mais agudo o afastamento aos ideais de uma praticabilidade nos termos expostos no início. Logo foram criados inúmeros regimes especiais para determinadas cadeias produtivas, isenções (gastos tributários indiretos) para determinados produtos, acúmulo (ou “empoçamento”) de créditos em algumas operações; regimes de monetização de créditos para alguns e até mesmo “fast track" para os setores que conseguiam convencer o governo de sua importância. Em pouco tempo, encontramos setores que não só não contribuem com essas duas contribuições sociais, como, de fato, acabam por receber recursos do governo para saldar outros tributos com aquilo que não pagaram diretamente" (seleção e grifos nossos). Fl. 2812DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.788 51 de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti.24 Necessário se aceitar, nas palavras de Gerson Augusto da Silva, que "(...) a política fiscal constitui, pois, uma das políticas econômicas de tipo instrumental. Sua racionalidade se define no plano da eficácia operacional".25 Assim, não há de aceitar reprovação sobre opção de estrutura negocial do jurisdicionado que advém, em grande parte, como se percebe, das intervenções tributárias promovidas pelo próprio Estado na condução de sua política fiscal. II. ANÁLISE DA APLICAÇÃO DA IN Nº 82/2001 AO PRESENTE CASO 25. Considerou a autoridade fiscal que as saídas de produtos manufaturados a partir de telas de cristal líquido foram importadas com insuficiência de destaque de IPI, uma vez que a contribuinte teria se valido de base de cálculo abaixo do custo de aquisição ou de fabricação do produto, ou abaixo de sua soma com o valor devido a título de ICMS, PIS e Cofins, em ofensa ao art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com fundamento no art. 131 do RIPI/2002, conforme se recorta do bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge D'Oliveira o seguinte trecho: "No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grande custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor'" (seleção nossa, grifos do original). 24 Acórdão CARF nº 3403002.519, proferido em sessão de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti, que assevera, com correção, que a criação da empresa industrial, separada da empresa distribuidora, foi "(...) induzida pelos efeitos econômicos da política fiscal, que, sobreonerando o setor produtivo, compeliu os produtores a atuarem também na atividade de revenda/distribuição". 25 SILVA, Gerson Augusto. Estudos de Política Fiscal. Brasília/DF: Ministério da Fazenda Escola de Administração Fazendária (ESAF), Coleção Gerson Augusto da Silva, 1983, p. 59. Fl. 2813DF CARF MF 52 26. Assim, da leitura do relatório fiscal, denotase que se exigiu da contribuinte recorrente a aplicação de vero "valor tributável mínimo", diverso do valor de venda, com fundamento no art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com a seguinte redação: Instrução Normativa SRF nº 82/2001 Art. 1º Os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor (g.n.). 27. A norma regulamentar expedida pela então Secretaria da Receita Federal determinou a aplicação de um "preço mínimo" consistente na soma dos seguintes montantes: (i) custo de fabricação; (ii) custo financeiro; (iii) custo de venda; (iv) custo de administração; (v) custo de publicidade; e (vi) lucro normalmente praticado pelo vendedor. De fato, ao se cotejar tal preceptivo com o art. 131 do RIPI/2002, não se encontra convergência entre os textos: Decreto nº 4.544, de 26/12/2002 (RIPI/2002) Art. 131. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I. dos produtos de procedência estrangeira: a) o valor que servir ou que serviria de base para o cálculo dos tributos aduaneiros, por ocasião do despacho de importação, acrescido do montante desses tributos e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; b) o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento equiparado a industrial; e II. dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1º O valor da operação referido nos incisos I, alínea b e II, compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário (g.n.). 28. Assim, o que se estatui no RIPI/2002 é o (i) preço do produto acrescido do (ii) valor do frete e (iii) das despesas acessórias, do que decorre a conclusão de que a Instrução Normativa em apreço extrapolou o conceito apontado pelo regulamento e, portanto, pelo próprio legislador. Isto porque, em primeiro lugar, o art. 131, ecoando o inciso III e § 1º do art. 14 da Lei nº 4.502/1964, aponta para a regra geral de composição da base de cálculo do imposto diante da inexistência de norma específica, tendo a contribuinte adotado, conforme se percebe a partir da análise dos documentos trazidos ao presente processo administrativo, justamente o preço constante das notas fiscais, acrescido de frete e despesas acessórias, para alcançar o IPI lançado em conta gráfica. Não poderia ser diferente, pois o preço nem sempre corresponderá à soma de custo e lucro normalmente praticado, e tampouco consta, na acusação fiscal, a alegação de subfaturamento, carecendo de competência a autoridade recursal para reestruturar os critérios jurídicos do lançamento, sob pena de violação não apenas do art. 146 do Código Tributário Nacional, mas do próprio primado de segurança jurídica que deve orientar a relação fiscocontribuinte. Assim, há de se estabelecer que nem sempre a realização de venda com "margens negativas" será vedada pelo ordenamento para fins de tributação pelo IPI, da mesma forma que a constatação de prejuízo fiscal não tem por implicação a fraude ao imposto de renda, sendo plausível e sobretudo verossímil a oscilação de Fl. 2814DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.789 53 preços no segmento dos eletroeletrônicos, como ocorre no presente caso. Em todo caso, em nenhum momento a autoridade fiscal envida esforços no sentido de demonstrar a violação, por parte da contribuinte, da base de cálculo prevista no art. 131 do RIPI/2002: a recorrente, por outro lado, é hábil e oportuna ao demonstrar que manteve o preço de venda dos produtos acima do preço de aquisição dos insumos para a sua produção. 29. Em complemento, cumpre esclarecer que diversa é a norma insculpida no art. 15 da Lei nº 4.502/1964 ao estabelecer a regra aplicável para fins de apuração do valor tributável mínimo que, como se sabe, apenas será acionada caso atendidos os seus requisitos ou predicados mínimos, como, v.g., a demonstração da relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, ou de transferência para estabelecimento do mesmo titular, ou saídas para comerciante autônomo para venda direta ao consumidor, o que, de todo modo, não foi feito durante o procedimento fiscal. Assim, por um lado, o art. 14 da lei de 1964, da mesma forma que o art. 131 pelo RIPI/2002, como se demonstrou mais acima, não se presta a fundamentar a Instrução Normativa. E, ainda que se busque auxílio no art. 15, igualmente será cancelado o auto de infração em virtude de carência probatória, pois não comprovados os requisitos autorizadores da aplicação do VTM. Na realidade, na medida em que o art. 131 do RIPI estabelece um "valor tributável" composto por preço, frete e despesas acessórias, a Instrução Normativa nº 82/2001, ao estabelecer que o preço "(...) não poderá ser inferior a (...)" acaba por criar um valor tributável mínimo não previsto pelo seriado normativo que deu conta da matéria, de forma a inovar o ordenamento e, ao fazêlo, incorrer em ilegalidade. Recordese, em segundo lugar, que, ao menos no caso brasileiro, a aplicação do direito deve ser feita de acordo com regras de competência em razão da matéria, o que não é novo ao âmbito da aplicação: tal raciocínio possibilitou ao Supremo Tribunal Federal descortinar a existência, e.g., de leis complementares "materialmente ordinárias", como se teve notícia, em 2008, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 377.4573/PR (“Cofins incidente sobre sociedades civil de profissões regulamentadas”). Assim, os regulamentos, tais como o Regulamento Aduaneiro (R.A.), o Regulamento do Imposto de Renda (RIR), o Regulamento do IPI (RIPI), o Regulamento do IOF (RIOF), o Regulamento do ITR (RITR), o Regulamento da contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins, o Regulamento do Processo Administrativo Federal (RPAF) ou o Regulamento da CPMF têm, como fundamento de validade não o fundamento geral dos decretos executivos presidenciais, mas, na condição de reunião de leis federais (aprovadas pelo Congresso Nacional), o art. 13 da Lei Complementar nº 95/1998: Lei Complementar nº 95/1998 – Art. 13. As leis federais serão reunidas em codificações e consolidações, integradas por volumes contendo matérias conexas ou afins, constituindo em seu todo a Consolidação da Legislação Federal. § 1º A consolidação consistirá na integração de todas as leis pertinentes a determinada matéria num único diploma legal, revogandose formalmente as leis incorporadas à consolidação, sem modificação do alcance nem interrupção da força normativa dos dispositivos consolidados. 30. Assim, a redação de um decreto deve preservar o conteúdo normativo original dos dispositivos consolidados, tornandoos unicamente orgânicos e sistematizados. Não é diverso o objetivo do Decreto nº 4.544/2002 (RIPI) que, por seu turno, Fl. 2815DF CARF MF 54 deve se valer das especificações da TIPI e das Instruções Normativas: especificações, esclareçase, que não podem evidentemente se chocar com aquelas do regulamento, que consolida posição majoritária, em detrimento, e.g., da TIPI, que veicula disposição executiva, regulamentar ou administrativa. Neste sentido, a tarefa dos Regulamentos encontra fundamento na própria ordem constitucional, cujo art. 59, que se volta a tratar do processo legislativo, determina, em seu parágrafo único, que a lei complementar deverá dispor sobre a consolidação das leis, tarefa que, como se viu, coube à Lei Complementar nº 95/1998. Logo, aquilo que inicialmente mereceria tratamento indistinto na forma de "decretos", nomen iuris generalizante, revela natureza jurídica diversa, pois, em que pese o idêntico rótulo, como se sabe desde a publicação da clássica obra de 1975 de autoria de José Souto Maior Borges26, devem tais instrumentos ser separados ratione materiae. O regulamento, portanto, ao expressar força de lei, sob os auspícios da disciplina integrativa veiculada pela norma complementar de fundamento constitucional, afasta as regras regulamentares naquilo em que forem contrárias às suas disposições. Desta feita, descabe à Administração fixar norma a seu talante ou alvedrio à revelia de disposição específica de norma consolidante (RIPI), o que derrui a Instrução Normativa SRF nº 82/2001 de fundamento ou lastro positivo e, conseqüentemente, de validade jurídica no ordenamento. Assim, voto por conhecer e, no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto para a finalidade de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Redator Designado 26 BORGES, José Souto Maior. Lei Complementar Tributária, São Paulo: Editora RT, 1975. Fl. 2816DF CARF MF Processo nº 10860.721166/201239 Acórdão n.º 3401003.872 S3C4T1 Fl. 2.790 55 Declaração de Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, A necessidade de expressar, em declaração de voto, os fundamentos que utilizei para divergir do voto do relator, no que se refere ao chamado “valor tributável mínimo”, surgiu da leitura do voto vencedor, quando do recebimento da formalização. Daí a não indicação no resultado do julgamento de tal circunstância. No referido resultado, constou: “... por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida.” (grifo nosso) Designado o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco para redigir o voto vencedor em relação ao tema, percebo que, em tal voto, os fundamentos externados não coincidem com os que adotei na votação, apesar de estarem também abrangidos pela expressão “carência de fundamento da autuação”. E isso se deve, fundamentalmente, à ambiguidade de tal expressão. Enquanto o redator designado entendeu que a “carência de fundamento da autuação” se referia à ilegalidade da Instrução Normativa SRF no 82/2001, entendo que se refere à ausência de motivação para aplicação, ao caso, de um valor tributável mínimo, sem os requisitos apresentados no próprio voto do redator designado, à margem da discussão sobre a legalidade ou não da referida norma infralegal. Em síntese, ainda que entenda legal a referida Instrução Normativa, não verifico, no lançamento, justificativa para sua aplicação ao caso concreto, em face do contexto em que emitida a norma infralegal (em disciplina a outro comando infralegal, presente no art. 118, § 1o do RIPI/1998, que, por seu turno, encontra fundamento legal no artigo 14, § 1o da Lei no 4.502/1964, acrescentado pelo art. 27 do DecretoLei no 1.593/1977, na redação dada pelo art. 15 da Lei no 7.798/1989), nem para a aplicação do art. 15 da mesma Lei no 4.502/1964 (apenas citado no auto de infração), sem qualquer aprofundamento dos requisitos necessários a tal aplicação pela fiscalização. Registro aqui, assim, para que não reste ambígua ou obscura a decisão, que a conclusão à qual chego é idêntica à alcançada pelo redator designado: há carência de fundamento na autuação, que adota injustificadamente, no caso, a Instrução Normativa SRF no 82/2001. Mas, ao contrário do redator designado, não entendo tal IN como ilegal, mas, simplesmente, como não aplicável ao caso concreto, diante dos elementos e da motivação apresentados pela fiscalização. Fl. 2817DF CARF MF 56 Não merece nenhuma apara, assim, o resultado do julgamento. No entanto, da ementa (que deve refletir o posicionamento majoritário do colegiado) deve ser expurgada qualquer menção a eventual ilegalidade da referida IN. Rosaldo Trevisan Fl. 2818DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.721331/2012-86
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2008
DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE.
As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101-002.180, 9101-002.181, 9101-002.182, 9101-003.064, 9101-003.065, 9101-003.066 e 9101-003.067.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA.
A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96.
Numero da decisão: 9101-003.215
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício).
Nome do relator: ANDRE MENDES DE MOURA
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 15; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2063; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 672 1 671 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16327.721331/201286 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9101003.215 – 1ª Turma Sessão de 8 de novembro de 2017 Matéria IRPJ JUROS SOBRE CAPITAL PRÓPRIO Recorrente CIA ITAU DE CAPITALIZAÇÃO Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 DESPESAS. JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. PERÍODOS ANTERIORES. REGIME DE COMPETÊNCIA. INDEDUTIBILIDADE. As despesas com juros sobre o capital próprio (JCP) se submetem às regras gerais de contabilização de despesas, obedecendo o regime de competência: somente podem incorrer no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram se produzem, formando o resultado daquele exercício. Não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Precedentes recentes na 1ª Turma da CSRF. Acórdãos nº 9101 002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101003.065, 9101 003.066 e 9101003.067. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. A multa de ofício, penalidade pecuniária, compõe a obrigação tributária principal, e, por conseguinte, integra o crédito tributário, que se encontra submetido à incidência de juros moratórios, após o seu vencimento, em consonância com os artigos 113, 139 e 161, do CTN, e 61, § 3º, da Lei 9.430/96. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro Demetrius Nichele Macei. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 13 31 /2 01 2- 86 Fl. 672DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 673 2 (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente em exercício (assinado digitalmente) André Mendes de Moura – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Demetrius Nichele Macei (em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Relatório Tratase de Recurso Especial (efls. 472/528) interposto por CIA ITAU DE CAPITALIZAÇÃO ("Contribuinte") em face da decisão proferida no Acórdão nº 1401 001.653 (efls. 450/462), pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 09/06/2016, no qual foi negado provimento ao recurso voluntário. Resumo Processual A autuação fiscal (efls. 208/244), relativa ao anocalendário de 2008, discorre sobre glosa de despesas decorrentes do pagamento de juros sobre capital próprio (JCP). Foram lavrados autos de infração de IRPJ e CSLL. A Contribuinte apresentou impugnação (efls. 277/310), que foi julgada improcedente (efls. 367/385) pela primeira instância (DRJ). Irresignada, a Contribuinte interpôs recurso voluntário (efls. 391/435). A segunda instância (Turma Ordinária do CARF) negou provimento ao recurso (efls. 450/462). Foi interposto pela Contribuinte recurso especial (efls. 472/528), que foi admitido pelo despacho de exame de admissibilidade de efl. 617/639, para devolver as matérias (1) glosa de despesas relativas a pagamento de juros sobre capital próprio e (2) incidência de juros de mora sobre multa de ofício. Foram apresentadas contrarrazões pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional ("PGFN") às efls. 641/665. A seguir, maiores detalhes sobre a fase contenciosa. Da Fase Contenciosa. Fl. 673DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 674 3 A contribuinte apresentou impugnação que foi julgada improcedente pela 10ª Turma da DRJ/São Paulo I, nos termos do Acórdão nº 1649.975, da sessão de 29/08/2013, conforme ementa a seguir. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. DEDUTIBILIDADE. REGIME DE COMPETÊNCIA. A contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por se tratar de opção do contribuinte. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008 PRINCÍPIO DA LEGALIDADE. VIOLAÇÃO. INOCORRÊNCIA. Verificandose o estrito cumprimento das disposições legalmente expressas, não há que se alegar violação ao princípio da legalidade. As discussões sobre constitucionalidade ou legalidade de leis exorbitam a competência das autoridades administrativas, às quais cumpre aplicar as determinações da legislação em vigor. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2008 JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A multa de ofício, sendo parte integrante do crédito tributário, está sujeita à incidência dos juros de mora a partir do primeiro dia do mês subsequente ao do vencimento. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2008 LANÇAMENTO REFLEXO. DECORRÊNCIA. Aplicase ao lançamento reflexo o mesmo tratamento dispensado ao lançamento do imposto de renda, em razão da relação de causa e de efeito que os vincula. Assim, o decidido em relação ao IRPJ aplicase à CSLL. A Contribuinte interpôs recurso voluntário, que foi julgado pela 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da Primeira Seção, na sessão de 09/06/2016. Decidiuse no sentido de negar provimento ao recurso, por meio do Acórdão nº 1401001.653, nos termos da ementa a seguir. Fl. 674DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 675 4 ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO. A dedução de juros a título de remuneração do capital próprio está limitada, dentre outros aspectos, à variação da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP verificada no período ao qual se referem os lucros destinados. Inadmissível, portanto, a dedução posterior de juros sobre capital próprio tendo por referência a variação da TJLP em períodos passados. SELIC Conforme dicção da Súmula 1º CC nº 4: “A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais”. JUROS SOBRE MULTA Sobre a multa de oficio devem incidir juros a taxa Selic, após o seu vencimento, em razão da aplicação combinada dos artigos 43 e 61 da Lei n° 9.430/96. Na sequência, a Contribuinte interpôs recurso especial. Discorre sobre a legalidade do procedimento adotado pela empresa, amparado pelo art. 9º da Lei nº 9.249, de 1995, citando jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (1ª Turma, Resp nº 1.086.752PR) e dos TRF da 3ª, 4ª e 5º Regiões. Entende que o dispositivo legal e os artigos 347, 668 e 691, §9º do RIR/99 predicam que (a) o pagamento dos juros é opção da empresa; (b) dessa opção, a pessoa jurídica poderá deduzir, para efeito de IRPJ e CSLL, os juros pagos ou creditados, calculados sobre as contas de patrimônio líquido, limitados à variação prorata dia da TJLP; (c) o efetivo pagamento ou crédito está condicionado à existência de lucros do exercício ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior a duas vezes o valor dos juros a serem pagos ou creditados; (d) o IRF de 15% é devido na data do pagamento ou crédito sendo considerado tributação exclusiva no caso beneficiário pessoa física ou pessoa jurídica isenta, e a antecipação do devido na declaração no caso de beneficiários pessoa jurídica tributadas com base no lucro real, presumido ou arbitrado; poderá ser compensado com o retido na fonte por empresa tributada com base no lucro real que pagar ou creditar JCP a seu titular, sócios ou acionistas; os juros pagos ou creditados poderão ser imputados ao valor de dividendos de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 1976 sem prejuízo da tributação de 15% e para o cálculo dos juros não será considerado o valor da reserva de reavaliação de bens e direitos da pessoa jurídica salvo se for adicionada na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Nesse contexto, aduz que a legislação teria previsto apenas as consequência fiscais do pagamento ou crédito de JCP (tributação na fonte de 15% na data do pagamento ou crédito e dedução da despesa respectiva da base de cálculo do IRPJ e CSLL), não tendo cuidado de permissões ou vedações desse pagamento, tampouco da época em que deveriam ou poderiam ser deliberados, creditados ou pagos. Ou seja, tratarseia de critério da empresa decidir sobre o momento. Por isso, teria a empresa a liberdade para deliberar, no futuro, sobre o pagamento de valores relativos a juros sobre o capital que poderia ter deliberado em exercícios passados. No que diz respeito ao regime de competência, encontrase ligado ao conceito de despesa Fl. 675DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 676 5 incorrida. E, no caso em tela, a pessoa jurídica se torna devedora do sócio ou acionista somente após a deliberação da sociedade decidindo efetuar o pagamento. Assim, o momento em que o valor dos juros deve ser registrado como despesa financeira é justamente aquele em que há a deliberação determinando do pagamento do JCP, no caso dos autos, em 2008. Assim, tendo a Contribuinte deliberado, em 2008, efetuar o pagamento dos JCP tomando por base os patrimônios líquidos de 2007, dentro das condições exigidas pela Lei nº 9.249, de 1995, a despesa correspondente ao pagamento desses juros somente surgiu no anocalendário de 2008. Por isso a previsão da IN SRF nº 11, de 1996, no sentido de que a despesa relativa ao JCP deve ser reconhecida no período em que for deliberado o seu crédito ou pagamento, pois apenas nesse momento é que nasce a obrigação a eles relativa. E, ainda que se pudesse admitir a glosa da despesa, o fato implicaria em mera postergação, ou seja, jamais poderia ter sido objeto de lançamento sem a prova de que o ato da empresa provocou prejuízo ao Fisco, inteligência do PN Cosit nº 57, de 1979. Menciona jurisprudência administrativa para ratificar entendimento de que a glosa de despesas não seria cabível e discorre que precedente da 1ª Turma da CSRF (Acórdão nº 9101002.180) teria incorrido em equívocos, e convida a uma reflexão do art. 73 da Lei nº 12.973, de 2014. Protesta sobre a incidência de juros moratórios sobre o valor da multa de ofício. Requer pela admissibilidade e provimento do recurso para reforma do acórdão recorrido ou, pelo menos, pelo afastamento da incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. O recurso foi admitido por despacho de exame de admissibilidade (efls. 939/961). A PGFN apresentou contrarrazões, no qual requer pela manutenção da decisão recorrida. Discorre que a não deliberação, no momento oportuno, sobre o pagamento dos JCP nos limites autorizados pela lei implicam em renúncia ao direito da Contribuinte. Entende que a conduta da empresa teria revelado um descumprimento aos requisitos legais, vez que ela aplicou a TJLP sobre exercícios passados (2004 a 2007), mas observou tãosomente o lucro do exercício de 2008, ano de deliberação e pagamento do JCP, para verificar o limite dedutível. Aduz que se a assembléia de acionistas, em determinado ano, resolveu não remunerar os sócios por meio de juros sobre o capital próprio ou determinou o pagamento abaixo do limite dedutível, significa dizer que a própria empresa renunciou a tal direito. Menciona jurisprudência administrativa para ratificar seu entendimento. Aduz que a observância do regime de competência é regra geral a ser seguida no registro das operações da pessoa jurídica na contabilidade societária e fiscal. Nesse contexto, o art. 29 da IN SRF nº 11, de 1996, ratifica que a despesa de JCP deve observar o regime de competência. Sobre a matéria juros de mora sobre multa de ofício, entende que sua supressão incorreria em expressa afronta ao § 1º do art. 161 do CTN e à finalidade do ordenamento tributário. Requer que o recurso especial da Contribuinte tenha o provimento negado. É o relatório. Voto Conselheiro André Mendes de Moura, Relator. Fl. 676DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 677 6 Sobre a admissibilidade, adoto as razões do Despacho de Exame de Admissibilidade de efls. 617/639, com fulcro no art. 50, § 1º da Lei nº 9.784, de 1999 1, que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal, para conhecer do Recurso Especial da Contribuinte. Passo ao exame do mérito. As matérias devolvidas para o Colegiado consistem (1) na possibilidade de se deduzir pagamentos de juros sobre capital próprio decorrentes de exercícios anteriores ao ano em que realizada a deliberação, e (2) incidência de juros de mora sobre multa de ofício, cada qual tratada em tópico específico. I. Juros sobre Capital Próprio Dedutibilidade de Pagamento/Creditamento O assunto já foi enfrentado pelo Colegiado, em recentes julgamentos. Vale citar os Acórdãos nº 9101002.180, 9101002.181, 9101002.182, 9101003.064, 9101 003.065, 9101003.066 e 9101003.067 (os últimos quatro na sessão de setembro de 2017). Transcrevo o voto da Conselheira Adriana Gomes Rego, proferido no Acórdão nº 9101003.066, cujos fundamentos adoto como razões para decidir. Juros sobre Capital Próprio Períodos Anteriores A discussão cingese à possibilidade de a pessoa jurídica deduzir, na apuração das bases de cálculo do IRPJ e da CSLL de determinado anocalendário, tão somente os juros sobre o capital próprio (JCP) calculados sobre os valores das contas do patrimônio líquido no exercício social correspondente ao anocalendário em questão (entendimento da Fiscalização) ou também em relação a exercícios sociais anteriores (entendimento da Contribuinte). (...) Como resta evidente pelos próprios precedentes trazidos pela Fazenda e pela Contribuinte, a matéria não se encontra pacificada no âmbito do CARF. As decisões mais recentes desta 1ª Turma da CSRF, no entanto, vão no sentido da indedutibilidade dos JCP em relação a períodos pretéritos. Com efeito, na sessão de 20 de janeiro de 2016, foram prolatados três acórdãos (de nºs 9101 002.180, 9101002.181 e 9101002.182), todos de relatoria do Conselheiro Rafael Vidal de Araújo nessa linha. Em todas essas votações, meu voto acompanhou o Relator, por entender que: a) os Juros sobre o Capital Próprio representam uma remuneração dos sócios pelo capital investido; 1 Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: (...) V decidam recursos administrativos; (...) § 1º A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato. Fl. 677DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 678 7 b) por serem juros pagos pelas pessoas jurídicas a seus sócios, têm a natureza contábil de despesas (contrapartida das receitas advindas do uso desse capital); c) por serem uma despesa, transitam pelo resultado; e d) por transitarem pelo resultado, não podem ser pagos ou creditados após o encerramento do período. Já na sessão de 1º de março de 2016, um processo de minha relatoria foi a julgamento, tendo esta Turma decidido que não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores (acórdão nº 9101002.248). Nesse contexto, trazse para o presente caso os argumentos expendidos na decisão em questão, dirimidas eventuais diferenças. Em primeiro lugar, registrese presente o fato de que a Lei nº 9.249/1995 visou estimular o investimento de capital nas empresas e desestimular o financiamento das atividades operacionais, mediante empréstimos, que caracterizavam uma subcapitalização. Constatase, também, que a lei não mencionou o momento em que tais juros devem ser pagos. Contudo, vislumbrase isso desnecessário, porque se a norma estabelece limites para fins de dedução do lucro real, é porque estamos falando de uma despesa contábil, que tem limites de dedutibilidade para fins de lucro real. Por oportuno, transcrevese trecho do acórdão nº 1102000.934, de 8 de outubro de 2013, da lavra do exConselheiro José Evande Carvalho Araújo: Contudo, pareceme evidente que, quando a lei permite que se deduza, para efeitos da apuração do lucro real, os JCP calculados pela aplicação pro rata dia da taxa TJLP sobre os valores das contas do patrimônio líquido, está se limitando o cálculo para o mesmo período da apuração do lucro real. Apesar de a doutrina afirmar que a natureza jurídica dos juros sobre o capital próprio é a de distribuição sui generis de lucro, não há dúvidas de que a lei fiscal lhes dá o tratamento de despesa financeira. E como despesa financeira, só podem ser apropriados no período a que competirem. Não é razoável se entender que a lei permitiu implicitamente a dedução de uma despesa calculada com base no patrimônio de períodos anteriores. Isso seria o mesmo que admitir, por exemplo, a dedução de juros sobre um empréstimo relativos ao ano calendário anterior. (Grifei) Antes da deliberação para o pagamento dos JCP não há que se falar em direito subjetivo dos sócios ao seu recebimento, nem em despesa incorrida. De Fl. 678DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 679 8 fato, a despesa só surge após deliberação acerca do pagamento ou do creditamento dos juros e da sua correspondente contabilização. Correto o Ilustre relator do acórdão recorrido quando afirma que para os exercícios pretéritos, não tendo havido pagamento da despesa ou apropriação da obrigação para pagar aos sócios em conta de passivo, não há que se falar em despesa incorrida. Todavia, resta equivocado quando declara ser descabida menção à inobservância do regime de competência, posto que não houve despesa incorrida. Há inobservância ao regime de competência quando em 2010, a contribuinte apropria uma despesa, cujos fatos geradores ocorreram entre 1998 a 2009. Neste sentido, trago à colação a lição de Hiromi Higuchi (HIGUCHI, Hiromi. Imposto de Renda das Empresas: Interpretação e Prática. 38ª ed. São Paulo: IR Publicações, 2013. p. 127.): Alguns tributaristas entendem que os juros sobre o capital próprio são dedutíveis na determinação do lucro real, ainda que não contabilizados no período base correspondente, desde que escriturados como exclusão no LALUR e sejam contabilizados no períodobase seguinte como ajuste de exercício anterior. Entendemos que a contabilização no períodobase correspondente é condição para a dedutibilidade dos juros sobre o capital próprio por tratarse de opção do contribuinte. Sem o exercício da opção de contabilizar os juros não há despesa incorrida. É diferente de juros calculados sobre o empréstimo de terceiro porque neste há despesa incorrida, ainda que os juros sejam contabilizados só no pagamento. (Grifei) E também os ensinamentos de Edmar Oliveira Andrade Filho 2: Se em determinado exercício social passado não foram pagos ou creditados juros sobre o capital e se demonstrações contábeis já tiverem sido aprovadas pelos acionistas é lícito inferir que eles deliberaram pelo não pagamento ou crédito dos juros. Se as pessoas que detinham competência para deliberar sobre o pagamento dos juros não o fizeram e aprovaram as demonstrações financeiras sem que tal obrigação fosse considerada, parece fora de dúvida que elas renunciaram à faculdade prevista em lei. Em decorrência dessa renúncia e considerando demonstrações contábeis, depois de aprovadas pelos sócios ou acionistas são consideradas "ato jurídico 2 (Disponível em <http://www.fiscosoft.com.br/a/2fac/irpjecslljurossobreocapitalpropriocalculadosobrea movimentacaodopatrimonioliquidoosfatoseaconsultaedmaroliveiraandradefilho>, acesso em 10/07/2017, às 15h58min ) Fl. 679DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 680 9 perfeito", impõese a conclusão de que elas só podem ser modificadas em caso de erro, dolo ou simulação. Portanto, lógica e juridicamente, não há como imputar a exercícios passados os efeitos de deliberação societária (sujeita a uma disciplina jurídica específica) tomada no presente. Essa imputação só poderá ocorrer se o Balanço vier a ser retificado por determinação dos sócios ou acionistas, mas tal retificação só poderia ser juridicamente justificada se demonstrada a anterior ocorrência de erro, dolo ou simulação. E é aqui que reside a questão: o momento que em o valor dos juros é imputado ao resultado do exercício. Como após a apuração do lucro, não há que se falar mais em pagamento ou reconhecimento da obrigação referentes às despesas de juros sobre o capital próprio, relativamente aos anoscalendário de 1998 a 2009, não se poderia mais pagar juros sobre capital próprio; daí porque o “períodobase correspondente”, como dito, necessariamente precisa ser o de apuração do lucro. No presente processo, em relação aos anoscalendário 1998 a 2009, para os quais a deliberação para pagamento de JCP só ocorreu em dezembro de 2010, e não foi constituída a obrigação de pagar os JCP correspondentes nos AC 1998 a 2009, não há que se falar em dessas despesas incorridas. Poderseia argumentar que a lei autoriza o cálculo de JCP sobre os lucros acumulados de anos anteriores; contudo, a menção aos lucros acumulados trazida pela Lei nº 9.249, de 1995, diz respeito tão somente a um dos limites para fins de dedutibilidade do lucro real, senão vejamos: Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo TJLP. § 1º O efetivo pagamento ou crédito dos juros fica condicionado à existência de lucros, computados antes da dedução dos juros, ou de lucros acumulados e reservas de lucros, em montante igual ou superior ao valor de duas vezes os juros a serem pagos ou creditados. (Redação dada pela Lei nº 9.430, de 1996) (Grifei) Neste sentido também entendeu a Conselheira Edeli Pereira Bessa, por meio do Acórdão nº 1101000.904, de 12 de junho de 2013: Esclareçase, ainda, que o fato de a remuneração do capital próprio por meio de juros atribuídos aos sócios ter seus limites estabelecidos, também, em função do montante de lucros acumulados no momento da deliberação, não significa que o cálculo dos juros podem considerar períodos de apuração Fl. 680DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 681 10 anteriores, cujos resultados integram aquele saldo acumulado, mas apenas que os juros incorridos no período de referência podem ser pagos ainda que superem o resultado do exercício correspondente, desde que haja saldo em conta de lucros acumulados que suportem este pagamento. Inadmissível, assim, a redução dos lucros apurados no anocalendário 2005 em razão de juros decorrentes da utilização de capital próprio em período de apuração distinto daquele ao qual se refere os lucros que se pretendeu destinar à remuneração de capital. (Grifei) Além disso, o fato de o Conselho de Administração deliberar em dezembro/2010 acerca do pagamento de juros sobre o capital, que poderia ter sido deliberado em exercícios passados, não tem o condão de subverter o regime de competência e tornar dedutível despesa não incorrida a seu tempo. É dizer, não tendo a despesa com JCP incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzi la na apuração do lucro real de exercício posterior. A imputação dessa despesa só poderia ser efetivada com retificação do balanço, e esta retificação só tem previsão nas hipóteses de ocorrência de erro, dolo ou simulação, o que não é o caso. Para se considerar a despesa como efetivamente incorrida, são necessários dois requisitos: i) a deliberação acerca do pagamento ou creditamento dos JCP e ii) a devida contabilização do pagamento da despesa ou da apropriação da obrigação em conta de passivo. Dessa forma, a deliberação em reunião do Conselho de Administração para creditar aos sócios JCP incidentes sobre patrimônio líquido de exercícios anteriores (1998 a 2009) não tem validade para fins fiscais, pois se refere a despesas que não foram incorridas naqueles exercícios. Não se discute que a deliberação, nos termos do art. 37 do Estatuto Social da autuada, é uma faculdade. O ponto é que essa faculdade precisa ser exercida no momento da apuração do lucro, por se estar tratando de uma despesa da pessoa jurídica. É uma faculdade do Conselho de Administração deliberar sobre pagamento de JCP em 2010, poderia não têlo feito. Mas ao decidir fazer uso desta faculdade, a deliberação só pode abranger o pagamento de JCP sobre o patrimônio líquido existente ao final do anocalendário de 2010, não podendo criar despesas para períodos de apuração já encerrados. De fato, a análise dos requisitos de dedutibilidade não pode ficar restrita à possibilidade de pagamento posterior dos juros do capital próprio, sob pena de se concluir, equivocadamente, que a legislação estipulou o regime de caixa para seu reconhecimento. Se a lei silencia, o regime a ser adotado é o de competência, estabelecido no art.177 da Lei nº 6.404/76 como regra geral, verbis: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis Fl. 681DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 682 11 uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. § 1º As demonstrações financeiras do exercício em que houver modificação de métodos ou critérios contábeis, de efeitos relevantes, deverão indicála em nota e ressaltar esses efeitos. (Grifei) Ou seja, a Lei nº 6.404/76 adotou o regime de competência como regra geral, devendo o regime de caixa ser aplicado excepcionalmente, para isso, deve estar previsto expressamente em lei. Nesse mesmo sentido, a citada lei, em seu art.187, que trata da demonstração do Resultado do Exercício, vincula as despesas, custos e encargos às receitas correspondentes do mesmo exercício, verbis: Art. 187. A demonstração do resultado do exercício discriminará: (...) § 1º Na determinação do resultado do exercício serão computados: a) as receitas e os rendimentos ganhos no período, independentemente da sua realização em moeda; e b) os custos, despesas, encargos e perdas, pagos ou incorridos, correspondentes a essas receitas e rendimentos. Temse ainda a Instrução Normativa SRF nº 11/96, que em seu artigo 29 disciplina a possibilidade de dedução de juros sobre capital próprio, e ratifica a interpretação da Lei nº 6.404/76, verbis: Juros Sobre Capital Próprio Art. 29. Para efeito de apuração do lucro real, observado o regime de competência, poderão ser deduzidos os juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração de capital próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pró rata dia, da Taxa de Juros de Longo Prazo – TJLP. (Grifei) A contribuinte invoca o mesmo normativo (art.29 da IN SRF nº 11/96) para declarar que respeitou o regime de competência, na medida em que só se pode cogitar da existência da despesa relativa ao JCP no momento em que o pagamento se torna obrigatório para a pessoa jurídica, e que essa obrigatoriedade só surgiu após a deliberação do Conselho de Administração em dezembro de 2010. Conforme já mencionado, tal entendimento não tem cabimento, uma vez que a inobservância ao regime de competência decorre do fato de a contribuinte tentar apropriar despesas, em descompasso com as receitas geradas com o uso do capital que os JCP remuneram. A matéria também se encontra regulamentada na IN SRF nº 41/98, nos seguintes termos: Fl. 682DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 683 12 Art. 1º Para efeito do disposto no art. 9º da Lei Nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995, considerase creditado, individualizadamente, o valor dos juros sobre o capital próprio, quando a despesa for registrada, na escrituração contábil da pessoa jurídica, em contrapartida a conta ou subconta de seu passivo exigível, representativa de direito de crédito do sócio ou acionista da sociedade ou do titular da empresa individual. (Grifei) O normativo acima esclarece que é possível o pagamento posterior de juros sobre capital próprio, mas desde que a despesa tenha sido reconhecida e devidamente registrada no anocalendário correspondente ao que foi utilizado para cômputo do JCP, em contrapartida à conta do passivo, que represente a obrigação perante os sócios para pagamento futuro. No caso em tela, a contribuinte manteve uma planilha de JCP acumulados à margem da contabilidade da empresa. (...) Resta claro, assim, que a legislação adota como regra geral o regime de competência para o registro das mutações patrimoniais e das receitas e despesas. As exceções devem vir explícitas na lei. Contudo, a Lei nº 9.249/95 não tratou de excepcionar a regra geral, razão pela qual seria um contrassenso, calcular os JCP com base no patrimônio líquido de um determinado anocalendário, e apropriar essa despesa em um anocalendário distinto daquele que serviu como parâmetro para o cálculo dos JCP. Antes, é preciso compreender os juros sobre capital próprio como destinação do lucro formado a partir da aplicação do capital dos sócios, e uma destinação opcional, em substituição à distribuição de lucros, consoante expressa o art. 9º, §7º da Lei nº 9.249/95, ao permitir que o valor dos JCP seja "imputado ao valor dos dividendos" obrigatórios, "de que trata o art. 202 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, sem prejuízo" da retenção na fonte prevista no §2º daquele dispositivo. Ressaltese que o caput do art. 9º permite a dedução, para efeitos da apuração do lucro real, dos juros pagos ou creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital próprio. Por óbvio que o capital próprio a ser remunerado por juros ao final de cada ano é o capital dos sócios ou acionistas naquele anocalendário. Esse aspecto da legislação precisa ser observado, porque leva ao seguinte questionamento: ocorrendo a deliberação acerca do pagamento de JCP em 2010, referente a anoscalendários anteriores (1998 a 2009), os sócios/acionistas que receberam a remuneração dos juros foram individualizadamente aqueles constantes do quadro societário/acionistas de 1998 a 2009? Ou foram os sócios/acionistas existentes em 2010? Poderia a Conselho de Administração em 2010 rever as decisões tomadas pelos sócios/acionistas anteriores? Observese, portanto, que se a contribuinte delibera em 2010 o pagamento de JCP dos anoscalendários 1998 a 2009, os sócios a serem remunerados deveriam ser aqueles constantes do quadro societário nos respectivos anoscalendários sobre o qual se calcula os JCP, não os sócios existentes em 2010, sob pena de não se estar a remunerar o capital próprio, mas o capital de outrem. Certamente não é isso o que acontece. O Conselho de Administração não ia decidir, Fl. 683DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 684 13 no presente, remunerar sócios/acionistas que não mais fazem parte da sociedade, quando poderia remunerar os sócios/acionistas atuais através de dividendos. Remunerar os sócios atuais com juros sobre um capital de anos calendários pretéritos, seria desvirtuar completamente o instituto do juros sobre capital próprio, pois estarseia a remunerar um capital que pertencia a outrem, logo, não haveria remuneração de capital próprio dos sócios. Por todo exposto, temse que as despesas com JCP somente podem incorrer, no mesmo exercício social em que as receitas correlacionadas (geradas com o uso do capital que os JCP remuneram) se produzem, formando o resultado daquele exercício. Ressalto que despesas incorridas são aquelas efetivamente pagas ou apropriadas contabilmente como obrigação em conta de passivo. Não tendo incorrido no exercício correspondente, não se pode deduzilas na apuração do lucro real de exercício posterior. É dizer, não se admite a dedução de JCP calculados sobre as contas do patrimônio líquido de exercícios anteriores. Em relação ao decidido pela 1ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, também se manifestou com clareza o Acórdão nº 9101003.066: Quanto ao precedente do Superior Tribunal de Justiça STJ trazido pela Contribuinte em contrarrazões [REsp nº 1.086.752PR (2008/01933882), 1ª Turma, Rel. Ministro Francisco Falcão, DJ 11/03/2009], observase que não se trata de decisão definitiva de mérito proferida pelo STJ na sistemática dos recursos repetitivos (art. 543C da Lei nº 5.869, de 1973 CPC). Não se aplica, portanto, o comando de vinculação de decisões veiculado no art. 62, § 2º, do Anexo II do Regimento Interno deste CARF, aprovado pela Portaria nº 343, de 9 de junho de 2015. Acrescentese que este REsp nº 1.086.752 do STJ é um precedente isolado, não havendo outros no mesmo sentido. Além do que, seu entendimento contraria frontalmente o art.177 da Lei nº 6.404/76, que estabelece a regra geral do regime de competência. Colacionase um excerto do RESP, que demonstra tal contradição: II A legislação não impõe que a dedução dos juros sobre capital próprio deva ser feita no mesmo exercício financeiro em que realizado o lucro da empresa. Ao contrário, permite que ela ocorra em anocalendário futuro, quando efetivamente ocorrer a realização do pagamento. III Tal conduta se dá em consonância com o regime de caixa, em que haverá permissão da efetivação dos dividendos quando esses foram de fato despendidos, não importando a época em que ocorrer, mesmo que seja em exercício distinto ao da apuração. (Grifei) Logo, data venia, resta equivocado o entendimento consignado neste RESP, e talvez por esta razão, não se encontrem outros julgados neste sentido. Fl. 684DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 685 14 Resta evidente, portanto, a impossibilidade de, no anocalendário de 2008, deduzirse de despesas relativas a pagamentos de JCP atinentes aos anoscalendários pretéritos. Tampouco há que se falar em postergação, vez que a despesa deixa de ser dedutível porque não observou o período de competência e também porque não foi reconhecida nas correspondentes assembléias dos acionistas realizada nos anos anteriores a 2008. E, não tendo sido objeto de reconhecimento no momento correto (2004 a 2007), conforme previsto na legislação, não há que se falar em antecipação de despesa. Da mesma maneira, a partir do momento em que foi reconhecida em um momento posterior (2008), sem previsão legal, consumouse uma despesa indevida, desprovida de dedutibilidade, que provocou a redução da base de cálculo do IRPJ e CSLL, razão pela qual se mostra imperiosa a glosa do dispêndio. Nesse contexto, sem reparos o procedimento da autoridade fiscal, ao glosar despesa de juros sobre capital próprio cujo pagamento referese a períodos pretéritos, vez que não goza de dedutibilidade. Cabe, assim, ser negado provimento ao recurso. II. Juros de Mora sobre Multa de Ofício. Sobre o assunto, vale transcrever, inicialmente, o artigo 113, do CTN, que predica que o objeto da obrigação tributária principal é o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. (grifei) § 2º (...) Por sua vez, o crédito tributário decorre da obrigação principal, conforme o artigo 139 do CTN: Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. A penalidade pecuniária tem base no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996, materializada na multa de ofício aplicada sobre o tributo. E, como se pode observar a penalidade pecuniária, decorrente da infração, compõe a obrigação tributária principal e, por conseguinte, integra o crédito tributário. Por sua vez, o CTN, ao discorrer sobre o pagamento, informa que devem incidir juros sobre o crédito tributário não integralmente adimplido no vencimento, verbis: Fl. 685DF CARF MF Processo nº 16327.721331/201286 Acórdão n.º 9101003.215 CSRFT1 Fl. 686 15 Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. (grifei) § 1º (...) E a correção estipulada pelo mencionado art. 161, a partir da Lei nº 9.065, de 1995, segue a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais, questão já pacificada pela Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Verificase, assim que tanto tributo quanto a multa de ofício estão sujeitos à atualização prevista no art. 161 do CTN, mediante aplicação da taxa SELIC. Portanto, cabe ser negado provimento ao recurso. III. Conclusão. Diante do exposto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso especial da Contribuinte. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 686DF CARF MF
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Numero do processo: 10140.000145/2005-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Ano-calendário: 1994, 1995, 1996, 1997
CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO NÃO COMPROVADA. COMPENSAÇÃO NEGADA
Não deve ser homologada a compensação, quando não restarem comprovadas as certeza e liquidez do crédito.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.067
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
José Henrique Mauri - Presidente.
Marcelo Costa Marques d'Oliveira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jose Henrique Mauri, Semiramis de Oliveira Duro, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Valcir Gassen, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Marcos Roberto da Silva.
Nome do relator: MARCELO COSTA MARQUES D OLIVEIRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 1994, 1995, 1996, 1997 CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO NÃO COMPROVADA. COMPENSAÇÃO NEGADA Não deve ser homologada a compensação, quando não restarem comprovadas as certeza e liquidez do crédito. Recurso Voluntário Negado Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. José Henrique Mauri Presidente. Marcelo Costa Marques d'Oliveira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Jose Henrique Mauri, Semiramis de Oliveira Duro, Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Valcir Gassen, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões e Marcos Roberto da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 14 0. 00 01 45 /2 00 5- 82 Fl. 247DF CARF MF Processo nº 10140.000145/200582 Acórdão n.º 3301004.067 S3C3T1 Fl. 248 2 Relatório O contribuinte apresentou Declarações de Compensação (DCOMP) para liquidar débitos de COFINS do período de agosto a novembro de 2002 com créditos de PIS, originados no processo n° 10140.002417/200406 (Pedido de Restituição PER) e derivados de pagamentos indevidos ocorridos no período de setembro de 1994 a janeiro de 1997. O PER foi indeferido (Despacho decisório, fls. 94 a 96) e, consequentemente, os DCOMP não homologados (Despacho Decisório, fls. 99 a 101). No processo n° 10140.002417/200406 (PER), a fiscalização entendeu que havia expirado o prazo para pleitear a restituição. O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, julgada improcedente. Interpôs recurso voluntário, porém também sem êxito. Contudo, obteve decisão favorável em recurso especial `a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), cujo Acórdão n° 9303002.335 (fls. 225 a 230) foi assim ementado: "ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/08/1994 a 31/12/1996 PIS. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO/COMPENSAÇÃO. PRESCRIÇÃO. O prazo para repetição de indébito, para pedidos efetuados até 08 de junho de 2005, era de 10 anos, contados da ocorrência do fato gerador do tributo pago indevidamente ou a maior que o devido (tese dos 5 + 5), a partir de 9 de junho de 2005, com o vigência do art. 3º da Lei complementar n° 118/2005, esse prazo passou a ser de 5 anos, contados da extinção do crédito pelo pagamento efetuado. Para restituição/compensação de créditos relativos a fatos geradores ocorridos entre setembro de 1994 e dezembro de 1996, cujo pedido foi protocolado até 08 de junho de 2005, aplicavase o prazo decenal tese dos 5 + 5. Recurso Especial do Contribuinte Provido" A CSRF, então, determinou o retorno do processo à DRJ, para julgamento das demais questões de mérito. A DRJ, por sua vez, converteu o julgamento em diligência, para que a unidade preparadora confirmasse a legitimidade do crédito. Entretanto, apesar de intimado e reintimado, o contribuinte não apresentou a documentação solicitada. Com isso, o processo n° 10140.002417/200406 (PER) retornou à DRJ, que proferiu a seguinte decisão, por meio do Acórdão n° 0436.183 (fls. 238 a 241): "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Anocalendário: 1994, 1995, 1996 Fl. 248DF CARF MF Processo nº 10140.000145/200582 Acórdão n.º 3301004.067 S3C3T1 Fl. 249 3 DIREITO CREDITÓRIO. RESTITUIÇÃO. PROVA DO PAGAMENTO INDEVIDO. O direito à restituição do indébito tributário depende da prova de que houve efetivo pagamento e de que o valor pago é superior ao devido. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido" O contribuinte não recorreu da decisão acima, pelo que deve ser considerada como definitiva na esfera administrativa. Volto ao presente processo, cujo n° é 10140.000145/200582, em que se discute exclusivamente as declarações de compensação (DCOMP), lastreadas no crédito originado no acima tratado processo n° 10140.002417/200406. Por meio de Despacho Decisório (fls. 99 a 101), a fiscalização não homologou a compensação (DCOMP), pois o PER no qual se baseava não fora homologado. O contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, assim resumida na decisão de primeira instância: "A requerente impugnou a decisão alegando que, embora no processo administrativo n° 10140.002417/200406 o crédito tenha sido preliminarmente indeferido com base na decadência, esta não ocorreu no que concerne à pretensão de obter restituição dos valores pagos a título de COFINS. Afirmou ela que restituição é um direito subjetivo a uma prestação e, por isso, está sujeita à prescrição e não à decadência, como entendeu a autoridade administrativa. A compensação, sim, sendo um direito potestativo, estaria sujeita à decadência. Entretanto, tal efeito depende de lei que o preveja, não se admitindo a decadência nem por presunção, nem por analogia. Aduziu que o prazo para pleitear restituição de valores pagos indevidamente em relação a tributo sujeito a lançamento por homologação é, nos termos do art. 168 do Código Tributário Nacional, de cinco anos contados da extinção do crédito tributário, o que se dá com a homologação expressa ou, como ocorre na maioria dos casos, com a homologação tácita. Porém, nas hipóteses de lei inconstitucional, o termo de início será a data da declaração de inconstitucionalidade. Sustentou ainda que a compensação objeto do presente processo não se confunde com aquela de que cuida o art. 170 do CTN, uma vez que esta é norma dirigida à autoridade administrativa e abrange créditos líquidos e certos, de qualquer natureza, do contribuinte contra a Fazenda. Ao contrário, as compensações do art. 66 da Lei n° 8.383/1991 se referem a valores pagos indevidamente a título de tributo, sendo a norma autorizadora da compensação voltada para o contribuinte e aplicável a tributos sujeitos a lançamento por homologação. A restituição e a conseqüente compensação teriam fundamento no disposto no art. 150, §§ 1° e 4°, art. 165 e art. 168, inciso I, todos do CTN. Pugnou, ao final, pela homologação das compensações e pela restituição dos créditos pleiteados no processo administrativo n° 10140.002417/200406." Fl. 249DF CARF MF Processo nº 10140.000145/200582 Acórdão n.º 3301004.067 S3C3T1 Fl. 250 4 Em 22/02/08, a DRJ em Campo Grande (MS) julgou a manifestação de inconformidade improcedente e o Acórdão n° 0413.644 (fls. 164 a 168) foi assim ementado: "ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 PIS/PASEP Anocalendário: 1994, 1995, 1996 COMPENSAÇÃO. EXISTÊNCIA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO. Não pode ser homologada a declaração de compensação cujo crédito não se apresenta revestido de certeza e liquidez. Compensação não Homologada" Inconformado, o contribuinte interpôs recurso voluntário (fls. 172 a 179), aduzindo, em suma, que: não teria ocorrido a decadência do crédito; a Autoridade Administrativa tinha o dever de intimar o contribuinte a comprovar a legitimidade dos créditos e não simplesmente indeferir a restituição, em função de suposta decadência; e é nulo o procedimento de cobrança de tributos não regularmente constituídos, porém apenas em decorrência de inclusão em DCTF ou compensações não homologadas. Este colegiado, por três vezes, converteu o julgamento em diligência, determinando o sobrestamento do feito até a prolação da decisão administrativa definitiva no processo n° 10140.002416/200453: i) por meio da Resolução n° 280300.006 (fls. 208 a 212), de 01/06/09, em função de à época o processo n° 10140.002417/200406 (PER) estar pendente de exame pelo CARF; ii) por meio da Resolução n° 3801000.218 (fls. 1 a 3), de 08/08/11, no momento em que o processo n° 10140.002417/200406 (PER) encontravase em grau de recurso especial à CSRF; e iii) por meio da Resolução n° 3801000.796 (fls. 233 a 235), de 20/08/2014, quando o processo n° 10140.002417/200406 (PER) aguardava reexame pela DRJ, após ter sido àquela instância devolvido pela CSRF. Conforme acima mencionado, no presente momento, já foi proferida decisão administrativa definitiva no processo n° 10140.002417/200406 (PER): a DRJ julgou improcedente o pedido de restituição (Acórdão 0436.183) e o contribuinte não interpôs recurso voluntário. Diante disto, a contenda em questão retornou ao CARF. Foi distribuído para este relator e incluído na pauta para julgamento nesta reunião. É o relatório. Fl. 250DF CARF MF Processo nº 10140.000145/200582 Acórdão n.º 3301004.067 S3C3T1 Fl. 251 5 Voto O recurso voluntário preenche os requisitos legais de admissibilidade,pelo que deve ser conhecido. Conforme relatado, o processo versa sobre a não homologação dos Pedidos de Compensação (DCOMP), lastreados em supostos créditos de PIS, derivados de pagamentos indevidos ocorridos no período de setembro de 1994 a janeiro de 1997. Estes créditos foram objetos de Pedido de Restituição (PER) e formaram o processo n° 10140.002417/200406. Ocorre que, em sede deste processo n° 10140.002417/200406, foi proferida decisão administrativa definitiva, negando o direito aos créditos. Diante deste fato, tornase insubsistente os DCOMP e, por conseguinte, absolutamente desnecessária a apreciação dos argumentos de defesa contidos no recurso voluntário. Portanto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. É como voto. Fl. 251DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13839.720477/2011-65
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 14 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007
DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE.
Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
Numero da decisão: 2001-000.017
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira que lhe negou provimento.
(assinado digitalmente)
JORGE HENRIQUE BACKES - Presidente e Relator
Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente), Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira, Fernanda Melo Leal, a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária.
Nome do relator: JORGE HENRIQUE BACKES
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Ano-calendário: 2007 DESPESAS MÉDICAS. RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) JORGE HENRIQUE BACKES - Presidente e Relator Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente), Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira, Fernanda Melo Leal, a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária.
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RECIBOS GLOSADOS SEM QUE TENHAM SIDO APONTADOS INDÍCIOS DE SUA INIDONEIDADE. Os recibos de despesas médicas não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, mas a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve ser acompanhada de indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. Na ausência de indicações desabonadoras, os recibos comprovam despesas médicas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário, vencido o conselheiro José Ricardo Moreira que lhe negou provimento. (assinado digitalmente) JORGE HENRIQUE BACKES Presidente e Relator Participaram das sessões virtuais não presenciais os conselheiros Jorge Henrique Backes (Presidente), Jose Alfredo Duarte Filho, Jose Ricardo Moreira, Fernanda Melo Leal, a fim de ser realizada a presente Sessão Ordinária. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 72 04 77 /2 01 1- 65 Fl. 81DF CARF MF 2 Tratase de Notificação de Lançamento relativa à Imposto de Renda Pessoa Física, glosa de Despesas Médicas, do anocalendário de 2008. A seguir indicamos páginas de peças importantes no presente processo: Acórdão de Impugnação (fl. 2 e seg.); Recurso Voluntário (fl. 56 e seg.); Documentos declarações dos profissionais confirmando recibos (fl. 9 e seg.); Fundamentos do lançamento (fl. 47). A Ementa do Acórdão de Impugnação foi prolatada nos seguintes termos: DESPESAS MÉDICAS. Devem ser mantidas as glosas das despesas informadas na Declaração de Ajuste Anual não comprovadas por meio de documentação hábil e idônea, ou quando não comprovado o efetivo pagamento das despesas. Os fundamentos do lançamento, que se encontram na Notificação de Lançamento, foram os seguintes: DESCRIÇÃO DOS FATOS E ENQUADRAMENTO LEGAL Glosa do valor de R$ 17.680,00, indevidamente deduzido a título de Despesas Médicas, por falta de comprovação, ou por falta de previsão legal para sua dedução. Em resposta à intimação, alegou que já havia efetuado a entrega dos documentos (...) e não comprovou o efetivo pagamento dos serviços prestados. Desta forma foram glosados os seguintes valores, por falta de comprovação do efetivo pagamento. Destacamos abaixo algumas passagens do Recurso Voluntário apresentado pelo contribuinte, e acórdãos citados, onde se alega que os recibos são idôneos, que não há indicação no lançamento de elementos de irregularidades neles. Portanto, á vista da jurisprudência, e principalmente à vista da legislação, a comprovação da despesa médica é feita através de documento com a indicação do nome, endereço e CPF/CNPJ.de quem a recebeu, não sendo licito exigirse qualquer outro documento, especialmente aqui.no caso onde não se questionou os recibos, já que contém eles todos os elementos legais necessários,' mas tão somente a comprovação do' efetivo pagamento, daí porque requerse o provimento deste recurso administrativo para considerar correto os pagamentos, excluindoos da glosa, determinandose, por conseqüência, o cancelamento dos lançamentos feitos. Voto Conselheiro Relator, Jorge Henrique Backes Verificada a tempestividade do recurso voluntário, dele conheço e passo à sua análise. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 13839.720477/201165 Acórdão n.º 2001000.017 S2C0T1 Fl. 3 3 Os recibos não tem valor absoluto para comprovação de despesas médicas, podendo ser solicitados outros elementos de prova, tanto do serviço como do pagamento. Mesmo que não sejam apresentados outros elementos de comprovação, a recusa a sua aceitação, pela autoridade fiscal, deve estar fundamentada. Como se trata do documento normal de comprovação, para que sejam glosados devem ser apontados indícios consistentes que indiquem sua inidoneidade. No caso, não foram solicitados outros elementos de prova de maneira objetiva, e como fundamento para lançar apenas foi afirmado que recibos não comprovam despesas médicas e que esses recibos não atendem ao art. 80 do RIR/99. Assim, na ausência de indicações desabonadoras, na falta de fundamentação na recusa, os recibos comprovam despesas médicas. Não deixo de fazer aqui uma fundamentação do entendimento expresso acima, pois a falta de fundamentação é a matéria em discussão. Muitas vezes a autoridade fiscal baseia a recusa a deduções no art.73 do Decreto nº 3.000, de 1999, que assim dispôs: Art. 73. Todas as deduções estão sujeitas a comprovação ou justificação, a juízo da autoridade lançadora (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 3º). § 1º Se forem pleiteadas deduções exageradas em relação aos rendimentos declarados, ou se tais deduções não forem cabíveis, poderão ser glosadas sem a audiência do contribuinte (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 11, § 4º). Tal artigo indica que determinados documentos não fazem prova absoluta, podendo ser solicitados elementos adicionais de comprovação. No entanto, isso não significa que o juízo, o fundamento da autoridade, dos fatos e do direito, não necessite ser apresentado. E tal obrigação, a motivação na edição dos atos administrativos, encontrase tanto em dispositivos de lei, como veremos na Lei nº 9.784, de 1999, como talvez de maneira mais importante em disposições gerais em respeito ao Estado Democrático de Direito e aos princípios da moralidade, transparência, contraditório e controle jurisdicional. O lançamento pode até ocorrer sem pedido de esclarecimentos ou de prévia intimação ao contribuinte, como consta inclusive em súmula do CARF: Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. No entanto, a recusa não pode prescindir de justificativa, inclusive porque deduções elevadas podem estar completamente dentro da lei e do direito do contribuinte. Trazendose um pouco de doutrina percebese claramente a necessidade da motivação. Diz Celso Antônio Bandeira de Mello, em relação aos atos discricionários: “A motivação deve ser prévia ou contemporânea à expedição do ato. (…) Naqueloutros, todavia, em que existe discricionariedade administrativa ou em que a prática do ato vinculado depende de Fl. 83DF CARF MF 4 apurada apreciação e sopesamento dos fatos e das regras jurídicas em causa, é imprescindível motivação detalhada. [...] E Maria Sylvia Zanella Di Pietro, sobre a motivação expressase assim:: “O princípio da motivação exige que a Administração Pública indique os fundamentos de fato e de direito de suas decisões. Ele está consagrado pela doutrina e pela jurisprudência, não havendo mais espaço para as velhas doutrinas que discutiam se a sua obrigatoriedade alcançava só os atos vinculados ou só os atos discricionários, ou se estava presente em ambas as categorias. A sua obrigatoriedade se justifica em qualquer tipo de ato, porque se trata de formalidade necessária para permitir o controle de legalidade dos atos administrativos.” Passagem do francês Jèze, trazida por Hely Lopes Meirelles: descreve com clareza a necessidade da motivação do ato administrativo: “Para se ter a certeza de que os agentes públicos exercem a sua função movidos apenas por motivos de interesse público da esfera de sua competência, leis e regulamentos recentes multiplicam os casos em que os funcionários, ao executarem um ato jurídico, devem expor expressamente os motivos que o determinaram. É a obrigação de motivar. O simples fato de não haver o agente público exposto os motivos de seu ato bastará para tornálo irregular; o ato não motivado, quando o devia ser, presumese não ter sido executado com toda a ponderação desejável, nem ter tido em vista um interesse público da esfera de sua competência funcional. E além de princípios e doutrinas, também a lei , como antes aventado, dispõe sobre a obrigação de motivar. A Lei nº 9.784/1999 que regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal em seu artigo 50, dispõe: “Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, quando: I – neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses; II – imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções; III – decidam processos administrativos de concurso ou seleção pública; IV – dispensem ou declarem a inexigibilidade de processo licitatório; V – decidam recursos administrativos; VI – decorram de reexame de ofício; VII – deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais; VIII– importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato administrativo.” Fl. 84DF CARF MF Processo nº 13839.720477/201165 Acórdão n.º 2001000.017 S2C0T1 Fl. 4 5 Esse artigo da lei não faz diferenciação entre atos vinculados ou discricionários. Todos os atos que se encaixam nas situações dos supracitados incisos, sejam vinculados ou discricionários, devem compulsoriamente ser motivados. A amplitude e o imenso alcance desse artigo sobre os atos administrativos não deixa nenhum resquício de incerteza ou de dúvida: a regra ampla e geral é a obrigatoriedade de motivação dos atos administrativos. E como princípio, de maneira não menos importante, vejase o que diz sobre a matéria o art. 2º da mesma Lei 9.784, de 1999: “Art. 2º A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência. Parágrafo único. Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios de: (…) VII indicação dos pressupostos de fato e de direito que determinarem a decisão; VIII – observância das formalidades essenciais à garantia dos direitos dos administrados; IX adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados; X garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações finais, à produção de provas e à interposição de recursos, nos processos de que possam resultar sanções e nas situações de litígio; (…) XIII interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de nova interpretação”. Assim, na ausência de fundamentação plausível para a recusa de documentos usuais de comprovação é indevida a glosa de despesas médicas. Conclusão Em razão do exposto, voto pelo provimento ao recurso voluntário. É como voto. (assinado digitalmente) Jorge Henrique Backes Relator Fl. 85DF CARF MF 6 Fl. 86DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.936395/2009-12
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Oct 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Nov 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006
IPI. DIREITO CREDITÓRIO. CERTEZA E LIQUIDEZ.
A restituição e/ou compensação de indébito fiscal com créditos tributários está condicionada à comprovação da certeza e liquidez do respectivo indébito.
RESSARCIMENTO. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INSUFICIENTE.
Estando o valor do direito creditório disponível para compensação na data da transmissão do PER/DCOMP corretamente demonstrado nos anexos ao despacho decisório e, posteriormente explicitado, de forma inclusive didática, no voto condutor do acórdão recorrido; e, constatado que os documentos acostados ao recurso voluntário são exatamente aqueles em que fundamentou a autoridade fiscal que concluiu pela existência apenas parcial de saldo credor de IPI informado pelo contribuinte, bem assim os juntados na manifestação de inconformidade, não há como prevalecer a pretensão recursal quanto a existência de saldo credor de IPI suficiente para compensar os débitos declarados a título de PIS/Pasep e/ou Cofins.
Numero da decisão: 3001-000.024
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 IPI. DIREITO CREDITÓRIO. CERTEZA E LIQUIDEZ. A restituição e/ou compensação de indébito fiscal com créditos tributários está condicionada à comprovação da certeza e liquidez do respectivo indébito. RESSARCIMENTO. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INSUFICIENTE. Estando o valor do direito creditório disponível para compensação na data da transmissão do PER/DCOMP corretamente demonstrado nos anexos ao despacho decisório e, posteriormente explicitado, de forma inclusive didática, no voto condutor do acórdão recorrido; e, constatado que os documentos acostados ao recurso voluntário são exatamente aqueles em que fundamentou a autoridade fiscal que concluiu pela existência apenas parcial de saldo credor de IPI informado pelo contribuinte, bem assim os juntados na manifestação de inconformidade, não há como prevalecer a pretensão recursal quanto a existência de saldo credor de IPI suficiente para compensar os débitos declarados a título de PIS/Pasep e/ou Cofins.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 IPI. DIREITO CREDITÓRIO. CERTEZA E LIQUIDEZ. A restituição e/ou compensação de indébito fiscal com créditos tributários está condicionada à comprovação da certeza e liquidez do respectivo indébito. RESSARCIMENTO. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INSUFICIENTE. Estando o valor do direito creditório disponível para compensação na data da transmissão do PER/DCOMP corretamente demonstrado nos anexos ao despacho decisório e, posteriormente explicitado, de forma inclusive didática, no voto condutor do acórdão recorrido; e, constatado que os documentos acostados ao recurso voluntário são exatamente aqueles em que fundamentou a autoridade fiscal que concluiu pela existência apenas parcial de saldo credor de IPI informado pelo contribuinte, bem assim os juntados na manifestação de inconformidade, não há como prevalecer a pretensão recursal quanto a existência de saldo credor de IPI suficiente para compensar os débitos declarados a título de PIS/Pasep e/ou Cofins. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 93 63 95 /2 00 9- 12 Fl. 236DF CARF MF 2 Relatório Cuidase de recurso voluntário (fls. 122 a 234) interposto contra o Acórdão 1140.624, da 6ª Turma Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Recife/PE DRJ/REC (fls. 114 a 119), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pelo recorrente (fls. 63 a 68), mantendo, por conseguinte, a decisão exarada pela autoridade administrativa na repartição de origem. Do Pedido de Ressarcimento O requerente, por meio dos "Pedido de Ressarcimento ou Restituição / Declaração de Compensação" PER/DCOMP 35151.03155.181008.1.1.010675, transmitido em 18.10.2008, e o PER/DCOMP 29906.25423.201008.1.3.016730, transmitido em 20.10.2008, solicitou o ressarcimento do IPI, referente ao 2º trimestrecalendário do ano de 2006, para compensar com o PIS NãoCumulativo, referente ao período de apuração de 09/2008, com vencimento em 20.10.2008 (fls. 11 a 61). Do Despacho Decisório Em face do referido pedido, foi exarado o despacho decisório Número de Rastreamento 850214840 (fls. 03 a 09): (...) 3FUNDAMENTAÇÃO, DECISÃO E ENQUADRAMENTO LEGAL Analisadas as informações prestadas no PER/DCOMP e período de apuração acima identificados, constatouse o seguinte: Valor do crédito solicitado/utilizado: R$ 6.127,34 Valor do crédito reconhecido: R$ 413,47 0 valor do crédito reconhecido foi inferior ao solicitado/utilizado em razão do(s) seguinte(s) motivo(s): Constatação de que o saldo credor passível de ressarcimento inferior ao valor pleiteado. Utilização integral ou parcial, na escrita fiscal, do saldo credor passível de ressarcimento do trimestre em períodos subseqüentes, até a data da apresentação do PER/DCOMP. O crédito reconhecido foi Insuficiente para compensar Integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual: HOMOLOGO PARCIALMENTE a compensação declarada no PER/DCOMP 29906.25423.201008.1.3.016730 Não há valor a ser restituído/ressarcido para o(s) pedido(s) de restituição/ressarcimento apresentado(s) no(s) PER/DCOMP: 35151.03155.181008.1.1.010675 Fl. 237DF CARF MF Processo nº 10880.936395/200912 Acórdão n.º 3001000.024 S3C0T1 Fl. 237 3 Valor devedor consolidado correspondente aos débitos Indevidamente compensados, para pagamento até 30/10/2009. PRINCIPAL MULTA JUROS 5.713,87 1.142,77 603,38 Para informações complementares da análise de crédito, identificação dos PER/DCOMP objeto da análise, detalhamento da compensação efetuada, verificação de valores devedores e emissão de DARF, consultar www.receita.fazenda.gov.br , opção Empresa ou Cidadão, Todos os Serviços, assunto "Restituição...Compensação", Item PER/DCOMP, Despacho Decisório. Enquadramento Legal: Art. 11 da Lei nº 9.779/99; art. 164, inciso I, do Decreto nº 4.544/2002 (RIPI). Art. 74 da Lei 9.430, de 27 de dezembro de 1996. (...) Da Manifestação de Inconformidade Diante da decisão supra, o contribuinte apresentou, em 04.12.2009, manifestação de inconformidade para aduzir, em apertada síntese, que o valor do crédito acumulado no trimestrecalendário em questão é suficiente para atender à compensação declarada e, por conseguinte, para autorizar a homologação pelo órgão fazendário (RFB). Junta os seguintes documentos (fls. 69 a 111): (1) alteração e consolidação contratual da sociedade; (2) instrumento de procuração outorgada pelo sócio da sociedade; (3) cédula de identidade de estrangeiro do sócio da sociedade; (4) identidade do procurador; despacho decisório; (5) pedido de ressarcimento; (6) declaração de compensação; e (7) registro de apuração de IPI. Por considerar que existe o crédito no montante informado, invoca a improcedência do indeferimento de seu pleito, razão pela qual requereu a homologação da compensação declarada em PER/DCOMP. Da Decisão de 1ª Instância Sobreveio a decisão contida no voto condutor do acórdão vergastado, exarado pela 6ª Turma da DRJ/REC, da Sessão realizada de 24 de abril de 2013, que por unanimidade de votos, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, mantendo a decisão proferida pela autoridade administrativa na repartição de origem, cuja ementa transcrevo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2006 a 30/06/2006 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INSUFICIENTE. HOMOLOGAÇÃO PARCIAL. O valor do direito creditório disponível para compensação na data da transmissão do PER/DCOMP em foco foi corretamente Fl. 238DF CARF MF 4 demonstrado nos anexos ao despacho decisório. A alegação de que o saldo credor referenciado seria superior ao valor reconhecido pela RFB não pode ser sustentada pelo teor da manifestação de inconformidade e documentos anexos. Mantém se a decisão exarada pela repartição fiscal de origem. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Do Recurso Voluntário Irresignado ainda com o feito, o requerente interpôs recurso voluntário, que veio a reprisar, em suma, os mesmos argumentos apresentados na manifestação de inconformidade. Os trechos a seguir transcritos confirmam essa identidade, vejamos: (...) Trata o caso em tela da hipótese de créditos escriturais de IPI relativos a aquisição de matériasprimas, material de embalagem e produtos intermediários relacionados diretamente com o produto final comprovados através dos documentos anexos (Registro de Apuração do IPI) relativo ao período apurado do crédito compensado. Apesar do constante no despacho decisório referente ao presente processo, verificase dos documentos anexados (Registro de Apuração de IPI) demonstram haver créditos acumulados suficientes para fazer frente aos débitos compensados. Os créditos estão registrados no livro de apuração do IPI conforme se verifica dos documentos juntados. (LIVRO_REGISTRO_APURACAO_IPI) A autoridade administrativa fiscal constatou que, até a data da apresentação do PER/DCOMP em tela, a interessada já utilizara parcialmente, na sua escrita fiscal, o saldo credor passível de ressarcimento relativo ao trimestre especificado no PER/DCOMP, utilizandoo para quitar outros débitos em períodos mensais subseqüentes ao trimestre referenciado no PER/DCOMP. Assim, o Despacho Decisório recorrido apontou o crédito remanescente reconhecido em valor insuficiente para compensar integralmente os débitos declarados e, por isso, foi homologada apenas parcialmente a compensação declarada no PER/DCOMP. A razão não merece acolhimento à alegação supra. (...) O valor passível de ressarcimento no trimestrecalendário em tela foi gerado após abatimento dos débitos do IPI mensal e suficiente para compensar devidamente, os débitos das Contribuições Sociais do PIS e da COFINS até a data de transmissão do PER/DCOMP como se comprovará a seguir. (...) Em relação ao apontamento feito pelo Ilustre Agente Fiscal de Rendas que, a utilização se daria também por transmissão de outras compensações via PER/DCOMP em meses posterior a data efetivada da primeira compensação, não deve prosperar, Fl. 239DF CARF MF Processo nº 10880.936395/200912 Acórdão n.º 3001000.024 S3C0T1 Fl. 238 5 haja vista a documentação digital comprobatória juntada que demonstra claramente que a recorrente somente efetivou compensação até o mês 11/2008 nada mais do que isto!! Arquivo magnético (DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA) (...) Não obstante, a fim de se comprovar que o saldo credor passível de ressarcimento apurado no segundo trimestre de 2006 não foi utilizado na escrituração fiscal e tão pouco em outros PER/DCOMP, mas devidamente estornado (folhas de número 46 e 50 do LRAIPI) nos meses de 10/08 e 11/08 o montante de R$ 78.647,67, solicitado na data de transmissão. (vide LIVRO_REGISTRO_APURACAO_IPI) (...) A empresa contribuinte apurou saldo credor de IPI acumulado no trimestre calendário conforme artigo 11 da Lei 9.779/99 e IN SRF 33/99. (...) Assim, no presente caso houve total obediência à regras da lei n. 9.779/99 e à Instrução Normativa 33/99 eis que os créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) havidos no trimestre calendário e que foram escriturados na forma da legislação específica e que diante disto foram utilizados pelo estabelecimento que os escriturou na dedução, em sua escrita fiscal, dos débitos fiscais compensados em PER/DCOMP. Apenas para frisar, como pode ser verificado do Registro de Apuração de IPI anexo, ao final do trimestrecalendário, foram verificados créditos do IPI passíveis de ressarcimento, assim, requerer à SRF o ressarcimento de referidos créditos em nome do estabelecimento mediante utilização do "Pedido de Ressarcimento de Créditos do IPI" anexo e utilizouos para compensação de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. Os créditos estão registrados no livro de apuração do IPI conforme se verifica dos documentos juntados. (LIVRO_REGISTRO_APURACAO_IPI) (...) III. DO PEDIDO À vista do exposto, demonstrada a insubsistência e improcedência do indeferimento de seu pleito, requer que seja acolhida o presente recurso voluntário com a homologação da compensação declarada em PER/DCOMP diante da existência de crédito. DOCUMENTOS JUNTADOS 1. DOCUMENTAÇÃO COMPROBATÓRIA 2. LIVRO_REGISTRO_APURACAO_IPI Fl. 240DF CARF MF 6 3. PEDIDO RESTITUICAO RESSARCIMENTO 001 4. PEDIDO RESTITUICAO RESSARCIMENTO 002 Relativamente ao "Livro Registro de Apuração do IPI Modelo P8", foram juntados os registros de apuração referentes aos meses de Abril de 2006 a Dezembro de 2008. Quanto aos Recibos de Entrega das Declarações de Compensação DComp, foram juntadas a (1) Declaração 29906.25423.201008.1.3.016730, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de PIS/PASEP, no valor de R$ 6.127,34 (transmitida em 20.10.2008); (2) Declaração 4062.81245.201008.1.3.014018, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de PIS/Pasep e Cofins, no valor de R$ 7.436,32 (transmitida em 20.10.2008); (3) Declaração 16309.44189.201008.1.3.011581, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 6.297,66 (transmitida em 20.10.2008); (4) Declaração 0953.36888.201008.1.3.012055, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 5.773,61 (transmitida em 20.10.2008); (5) Declaração 2424.37807.201008.1.3.014403, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 5.109,02 (transmitida em 20.10.2008); (6) Declaração 13546.42469.201008.1.3.014828, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 7.899,30 (transmitida em 20.10.2008); (7) Declaração 22095.33340.201008.1.3.010740, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 5.535,00 (transmitida em 20.10.2008); (8) Declaração 26453.16454.201008.1.3.016206, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 507,35 (transmitida em 20.10.2008); (9) Declaração 30382.01631.191108.1.3.01 9490, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de PIS/Pasep e Cofins, no valor de R$ 6.456.48 (transmitida em data não legível); (10) Declaração 00922.87519.191108.1.3.012145, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 12.735,48 (transmitida em 19.11.2008); e (11) Declaração 07128.75878.191108.1.3.019676, que trata do ressarcimento do crédito de IPI, utilizado para compensar o débito de Cofins, no valor de R$ 14.590,11 (transmitida em 19.11.2008). Em relação aos Recibos de Entrega dos Pedidos de Ressarcimento PER, foram juntados o (1) Pedido 40793.65653.181008.1.1.010177, retificado pelo Pedido 02087.88403.191008.1.5.012729, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 7.436,32 (transmitido em 19.10.2008); (2) Pedido 14101.10637.181008.1.1.016573, retificado pelo Pedido 01015.60880.191008.1.5.014520, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 6.297,66 (transmitido em 19.10.2008); (3) Pedido 31610.50773.181008.1.1.015430, retificado pelo Pedido 07594.62437.191008.1.5.017247, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 5.773,61 (transmitido em 19.10.2008); (4) Pedido 28558.73480.181008.1.1.012411, retificado pelo Pedido 09663.67026.191008.1.5.010729, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 5.109,02 (transmitido em 19.10.2008); (5) Pedido 42631.47982.181008.1.1.01 5240, retificado pelo Pedido 04878.82484.191008.1.5.018809, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 7.899,30 (transmitido em 19.10.2008); (6) Pedido 29431.70429.181008.1.1.011607, retificado pelo Pedido 25281.11300.191008.1.5.012741, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 5.535,00 (transmitido em 19.10.2008); (7) Pedido 30183.98453.181008.1.1.016717, retificado pelo Pedido 36170.63409.191008.1.5.01 3443, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 6.963,83 (transmitido em 19.10.2008); (8) Pedido 11173.65519.181008.1.1.013415, retificado pelo Pedido 01285.25079.191008.1.5.011313, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 12.735,48 (transmitido em 19.10.2008); e (9) Pedido 1585.03017.181008.1.1.014039, retificado pelo Fl. 241DF CARF MF Processo nº 10880.936395/200912 Acórdão n.º 3001000.024 S3C0T1 Fl. 239 7 Pedido 39262.71941.191008.1.5.013723, que trata do ressarcimento de IPI no valor de R$ 14.590,11 (transmitido em 19.10.2008). É o relatório. Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da Admissibilidade O recurso voluntário, conforme se depreende do carimbo aposto na petição em análise, foi protocolado na CAC/Paulista, em 20.06.2013 (quintafeira). A ciência da decisão de 1º (primeiro) grau, conforme carimbo aposto no Aviso de Recebimento "AR" CDD Veleiro São Paulo SPM (fl. 121), ocorreu em 27.05.2013 (segundafeira). Portanto, nos termos do artigo 73 do Decreto 7.574 de 29.09.2011, combinado com o artigo 33 do Decreto 70.235 de 06.03.1972, é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação; de modo que conheço da peça recursal. Prolegômeno O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelos parágrafos 1º e 2º do artigo 47 do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343 de 09.06.2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3001000.033 de 27 de outubro de 2017, proferido no julgamento do processo 10880.940320/200936, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3001000.033): "Do Mérito Em face da manutenção integral dos fundamentos do despacho decisório, efetuada pela 6ª Turma da DRJREC, quando da prolação do acórdão recorrido, o litígio posto à apreciação desta Turma de Julgamento, restringese em se determinar se os elementos de prova coligidos aos autos, com a apresentação do recurso voluntário, são hábeis e suficientes para infirmar a conclusão contida no voto condutor do acórdão vergastado, que referendou a decisão exarada pela autoridade administrativa na repartição de origem, ocasião em que homologou parcialmente a compensação declarada através do PER/DCOMP especificado, e com isto, reconhecer o direito creditório alegado pelo recorrente, confirmando a existência do saldo credor de IPI requerido, com relação ao trimestre/ano indicado no PER/DCOMP, utilizado para quitar débitos de tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil. É inconteste que a presente contenda não se refere a uma possível discussão sobre a natureza do crédito de IPI, relativo a aquisição de matériasprimas, material de embalagem e produtos intermediários relacionados ao produto final. Fl. 242DF CARF MF 8 Da mesma forma, não está se discutindo se o recorrente apurou saldo credor de IPI em desconformidade com a legislação de regência aplicável ao caso sob exame, notadamente as gravadas no artigo 11 da Lei 9.779 de 19.01.1999 e IN/SRF 33 de 04.03.1999. Posto que em nenhum momento discutiuse o direito ao aproveitamento de saldo credor de IPI, que resultou de aquisições de matériaprima, materiais intermediários e materiais de embalagem aplicados na industrialização. A celeuma está em saber se, com as informações disponíveis nos sistemas de controle da RFB, complementadas com a documentação apresentada pelo recorrente, o saldo credor do IPI, referente ao trimestre informado, é no montante indicado no PER/DCOMP transmitido na data da compensação pretendida ou se parte deste saldo já fora utilizado na compensação de outros débitos, por meio de outros PER/DCOMP, em meses subseqüentes ao trimestre em que foi apurado o saldo credor considerado. Já se viu que a documentação coligida aos autos neste momento processual é a mesma que havia sido apresentada nas fases inquisitorial e recursal antecedentes. Neste sentido, valhome da instrutiva análise contida no voto condutor do acórdão recorrido, o qual, desde já peço licença para reproduzir alguns trechos, para evidenciar que a interpretação dada pelo recorrente, quanto ao suposto saldo credor não se sustenta, vejamos o que importa destacar: (...) O despacho decisório recorrido e seus anexos explicitam a conclusão obtida a partir da análise fiscal procedida. Explicita se naqueles anexos ao despacho decisório, que o valor do remanescente saldo credor referenciado ao trimestre especificado no PER/DCOMP, efetivamente disponível para ressarcimento ou compensação é em valor inferior ao pretendido, identificando ambos os valores. Ao contrário do que alega a d. manifestante, a razão para a conclusão da autoridade fiscal foi devidamente explicitada nos anexos ao despacho decisório, tudo cientificado à interessada. Os anexos ao despacho decisório se formam a partir de um extrato do “Sistema de Controle de Créditos (SCC) PER/DCOMP Despacho Decisório Análise de Crédito”, o qual foi desdobrado nos seguintes quatro (04) demonstrativos: (1º) Demonstrativo de Créditos e Débitos (Ressarcimento de IPI), (...); (2º) Demonstrativo de Apuração do Saldo Credor Ressarcível, (...); (3º) Demonstrativo de Apuração após o período do ressarcimento. (...) (4º) Demonstrativo do Crédito Reconhecido para cada PER/DCOMP (...). No caso concreto, foi plenamente garantido o exercício do contraditório e da ampla defesa. Ademais, os fundamentos utilizados pela fiscalização, que serviram de base ao despacho decisório recorrido, foram devidamente cientificados ao Fl. 243DF CARF MF Processo nº 10880.936395/200912 Acórdão n.º 3001000.024 S3C0T1 Fl. 240 9 contribuinte, conforme documentos anexos, e estão consoantes com o entendimento oficial. No entanto, a interessada, ora manifestante, apesar de alegar possuir crédito suficiente para a compensação pretendida, não foi capaz de contraditar a informação fiscal de que houve compensação de outros débitos, atestados em outros PER/DCOMP relacionados no terceiro demonstrativo dentre os anexados ao despacho decisório, fatos que determinaram a redução do saldo credor ressarcível referente ao trimestre referenciado no PER/DCOMP. (...) O despacho decisório, cuja conclusão foi corroborada pelo voto condutor do acórdão recorrido, teve como fundamento as informações prestadas pela própria empresa. Com referência ao crédito e compensação já parcialmente negados, não há mais espontaneidade da empresa, o que não dispensa a apresentação das declarações com as informações que entende corretas. A manifestação de inconformidade (primeiro) e o recurso voluntário (por fim) era a oportunidade para a empresa fornecer a devida comprovação do direito creditório e/ou do erro em que se fundou a declaração transmitida. O artigo 170 do CTN (Lei 5.172 de 25.10.1966) fixa pressuposto nuclear a ser atendido pelo contribuinte a fim de que possa ser corroborada a compensação pela Fazenda Nacional: que seus créditos estejam revestidos de liquidez e certeza. As alegações devem ser comprovadas com documentos hábeis e suficientes, nos termos dos artigos 15 e 16 do Decreto 70.235 de 06.03.1972 (aplicável tanto a impugnação e a manifestação de inconformidade, quanto a recurso, por força dos §§ 9º a 11 do artigo 74 da Lei 9.430 de 27.12.1996), cabendo ao interessado apresentar as provas necessárias para confirmar sua defesa: Art. 15. A impugnação, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar, será apresentada ao órgão preparador no prazo de 30 (trinta) dias, contados da data em que for feita a intimação da exigência. (...) Art. 16. A impugnação mencionará: I a autoridade julgadora a quem é dirigida; II a qualificação do impugnante; III os motivos de fato e de direito em que se fundamenta, os pontos de discordância e as razões e provas que possuir (Redação dada pelo art. 1.º da Lei n.º 8.748/93). Para o reconhecimento de direito creditório contra a Fazenda Nacional, nos termos em que pretendido pelo interessado, necessário que demonstrasse que sua escrita contábilfiscal infirmasse a conclusão contida no acórdão recorrido, na medida em que não representasse a expressão a verdade. No entanto, no presente processo, nenhuma prova nova, Fl. 244DF CARF MF 10 que comprovasse o montante do saldo credor de IPI, para fins do ressarcimento pretendido, foi apresentada. Noutros termos, a documentação acostada ao presente recurso é a mesma que instruiu a declaração transmitida eletronicamente e a manifestação de inconformidade, qual seja o "LIVRO REGISTRO DE APURAÇÃO DO IPI MODELO P8", cujos registros não contradizem as informações contidas no “Sistema de Controle de Créditos (SCC) PER/DCOMP Despacho Decisório Análise de Crédito”. Não se pode acolher a argumentação de que o saldo credor de IPI requerido, com relação ao trimestre/ano indicado no PER/DCOMP, foi suficiente para quitar débitos de tributos administrados pela RFB, conforme pretende o interessado. Não é possível reconhecer o direito se o contribuinte não traz documentação fidedigna apta a provar o direito alegado, pois é ônus exclusivo deste, provar o que alega, nos termos do artigo 373, do Código de Processo Civil CPC/2015 (Lei 13.105 de 16.03.2015.), abaixo transcrito: Art. 373. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. § 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído. § 2º A decisão prevista no § 1º deste artigo não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil. § 3º A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das partes, salvo quando: I recair sobre direito indisponível da parte; II tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito. § 4º A convenção de que trata o § 3º pode ser celebrada antes ou durante o processo. Quanto à decisão recorrida, só seria cabível a sua reforma em julgamento com a comprovação taxativa e incontestável do erro em que se fundou a declaração original e do indébito apurado, o que, como exaustivamente evidenciado, não é o caso dos presentes autos. Da Conclusão Por todo o exposto, conheço do recurso voluntário e negolhe provimento." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos parágrafos 1º e 2º do artigo 47 do Anexo II do RICARF (Portaria MF 343 de 09.06.2015), nego provimento ao recurso voluntário. Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10880.936395/200912 Acórdão n.º 3001000.024 S3C0T1 Fl. 241 11 (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 246DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.100781/2009-40
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 19 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Dec 01 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/10/2008 a 31/12/2008
CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. CONCEITO DE INSUMO.
O termo insumo utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracteriza-se como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais.
No caso julgado, são exemplos de insumos os gastos realizados com os equipamentos de proteção individual.
Recurso Especial do Procurador Provido em Parte.
Numero da decisão: 9303-005.608
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento parcial, para excluir o creditamento sobre os gastos realizados com o tratamento de resíduos industriais, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/10/2008 a 31/12/2008 CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. CONCEITO DE INSUMO. O termo insumo utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracteriza-se como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais. No caso julgado, são exemplos de insumos os gastos realizados com os equipamentos de proteção individual. Recurso Especial do Procurador Provido em Parte.
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CONCEITO DE INSUMO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado H. KUNTZLER & CIA. LTDA. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/10/2008 a 31/12/2008 CONTRIBUIÇÕES NÃO CUMULATIVAS. CONCEITO DE INSUMO. O termo “insumo” utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracterizase como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais. No caso julgado, são exemplos de insumos os gastos realizados com os equipamentos de proteção individual. Recurso Especial do Procurador Provido em Parte. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento parcial, para excluir o creditamento sobre os gastos realizados com o tratamento de resíduos industriais, vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran) e Vanessa Marini Cecconello, que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 10 07 81 /2 00 9- 40 Fl. 307DF CARF MF Processo nº 11065.100781/200940 Acórdão n.º 9303005.608 CSRFT3 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas, Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza, Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas, Valcir Gassen e Vanessa Marini Cecconello. Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto tempestivamente pela Procuradoria da Fazenda Nacional PFN contra o Acórdão nº 3102001.603, que deu provimento parcial ao recurso voluntário para: · reconhecer o direito de crédito das contribuições sobre as aquisições de equipamentos de proteção individual; · reconhecer o direito de crédito das contribuições sobre os gastos incorridos com o tratamento de resíduos industriais. No recurso especial, a PFN insurgese contra o reconhecimento do direito de crédito sobre os itens acima identificados. Seu principal argumento é o de que tais insumos não foram diretamente utilizados na fabricação do produto, não podendo, desta forma, originar créditos da contribuição. O recurso especial da Fazenda Nacional foi admitido mediante despacho do Presidente da Câmara competente e a contribuinte apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.601, de 19/09/2017, proferido no julgamento do processo 11065.003652/200581, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.601): "Presentes os demais requisitos de admissibilidade, entendemos que o recurso especial interposto pela PFN deve ser conhecido. Com efeito, enquanto o acórdão recorrido aplicou o conceito intermediário de insumos, de molde a permitir o creditamento sobre alguns gastos realizados pela contribuinte, o segundo paradigma, o Acórdão de nº 20219.127, aplicou o conceito mais estrito, nos moldes em que adotado nos atos normativos expedidos pela RFB. Conhecido, passamos à análise do mérito do litígio. Fl. 308DF CARF MF Processo nº 11065.100781/200940 Acórdão n.º 9303005.608 CSRFT3 Fl. 4 3 Depois de longos debates, passamos a adotar, para o conceito de insumos do PIS/Cofins no regime da não cumulatividade, o entendimento hoje majoritário que, entre outras decisões, se encontra encartado no voto proferido pelo il. Conselheiro Henrique Pinheiro Torres, nos autos do processo administrativo n.º 11065.101271/200647 (Acórdão 3ª Turma/CSRF nº 930301.035, sessão de 23/10/2010), daí por que passamos a transcrever os seus fundamentos e adotálos como razão de decidir. Eilos: A questão que se apresenta a debate diz respeito à possibilidade ou não de se apropriar como crédito de PIS/Pasep dos valores relativos a custos com combustíveis, lubrificantes e com a remoção de resíduos industriais. O deslinde está em se definir o alcance do termo insumo, trazido no inciso II do art. 3º da Lei 10.637/2002. A Secretaria da Receita Federal do Brasil estendeu o alcance do termo insumo, previsto na legislação do IPI (o conceito trazido no Parecer Normativo CST n° 65/79), para o PIS/Pasep e a para a Cofins não cumulativos. A meu sentir, o alcance dado ao termo insumo, pela legislação do IPI não é o mesmo que foi dado pela legislação dessas contribuições. No âmbito desse imposto, o conceito de insumo restringese ao de matériaprima, produto intermediário e de material de embalagem, já na seara das contribuições, houve um alargamento, que inclui até prestação de serviços, o que demonstra que o conceito de insumo aplicado na legislação do IPI não tem o mesmo alcance do aplicado nessas contribuições. Neste ponto, socorro me dos sempre precisos ensinamentos do Conselheiro Júlio Cesar Alves Ramos, em minuta de voto referente ao Processo n° 13974.000199/200361, que, com as honras costumeiras, transcrevo excerto linhas abaixo: Destarte, aplicada a legislação do ao caso concreto, tudo o que restaria seria a confirmação da decisão recorrida. Isso a meu ver, porém, não basta. É que, definitivamente, não considero que se deva adotar o conceito de industrialização aplicável ao IPI, assim como tampouco considero assimilável a restritiva noção de matérias primas, produtos intermediários e material de embalagem lá prevista para o estabelecimento do conceito de ‘insumos’ aqui referido. A primeira e mais óbvia razão está na completa ausência de remissão àquela legislação na Lei 10.637. Em segundo lugar, ao usar a expressão ‘insumos’, claramente estava o legislador do PIS ampliando aquele conceito, tanto que ai incluiu ‘serviços’, de nenhum modo enquadráveis como matérias primas, produtos intermediários ou material de embalagem. Ora, uma simples leitura do artigo 3º da Lei 10.637/2002 é suficiente para verificar que o legislador não restringiu a apropriação de créditos de PIS/Pasep aos parâmetros adotados no creditamento de IPI. No inciso II desse artigo, como asseverou o insigne conselheiro, o legislador incluiu no conceito de insumos os serviços contratados pela pessoa jurídica. Esse dispositivo legal também considerou como insumo combustíveis e lubrificantes, o que, no âmbito do IPI, seria um verdadeiro sacrilégio. Mas as diferenças não param aí, nos incisos seguintes, permitiuse o creditamento de aluguéis de prédios, máquinas e equipamentos, pagos a pessoa jurídica, utilizados nas atividades da empresa, máquinas e equipamentos adquiridos para utilização na fabricação de produtos destinados à venda, bem como a outros bens incorporados ao ativo imobilizado etc. Isso denota que o legislador não quis restringir o creditamento do PIS/Pasep as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e ou material de embalagens (alcance de insumos na legislação do IPI) utilizados, diretamente, na produção industrial, ao contrário, ampliou de modo a considerar insumos como sendo os gastos gerais que a pessoa jurídica precisa incorrer na produção de bens ou serviços por ela realizada. Fl. 309DF CARF MF Processo nº 11065.100781/200940 Acórdão n.º 9303005.608 CSRFT3 Fl. 5 4 Vejamos o dispositivo citado: [...]As condições para fruição dos créditos acima mencionados encontramse reguladas nos parágrafos desse artigo. Voltando ao caso dos autos, os gastos com aquisição de combustíveis e com lubrificantes, junto à pessoa jurídica domiciliada no pais, bem como as despesas havidas com a remoção de resíduos industriais, pagas a pessoa jurídica nacional prestadora de serviços, geram direito a créditos de PIS/Pasep, nos termos do art. 3º transcrito linhas acima. Com essas considerações, voto no sentido de negar provimento ao recurso apresentado pela Fazenda Nacional. (grifamos) Passemos ao caso concreto. A Câmara baixa reconheceu o crédito de PIS/Cofins sobre os gastos com o tratamento de resíduos industriais e com os equipamentos de proteção individual. A contribuinte dedicase à atividade de fabricação de calçados. Para tanto, sustenta ser obrigada, por lei, a fazer tratamento de seus resíduos industriais, o que faz através da contratação de empresa especializada. Ora, o fato de ser obrigada, por lei, a fazer o adequado tratamento de seus resíduos industriais – muitas outras obrigações legais têm as pessoas jurídicas, nem por isso podem se enquadrar como insumos –, não acarreta, por consequência lógica inarredável, o creditamento sobre os gastos assim realizados. Ainda que não se aplique, no conceito de insumos, o próprio da legislação do IPI, não se pode adotar, como regra, aquele que alcance gastos só efetuados após a conclusão do processo produtivo, dado que não aplicados ou consumidos na produção ou na fabricação de seus produtos. Insumo, é até desnecessário enfatizar, só pode ser, como regra, aquilo que vem antes, não depois de concluído o processo. Contudo, concordamos, pelos motivos que aqui vimos de adotar, que os gastos realizados na aquisição de equipamentos de proteção individual sejam considerados insumos para o efeito da legislação do PIS/Cofins não cumulativo, conforme esta mesma Turma recentemente decidiu: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 31/03/2002 a 31/01/2005 COFINS. NÃO CUMULATIVIDADE. CRÉDITOS. Inseremse no conceito de insumos, para fins de créditos da não cumulatividade do PIS e da Cofins, os bens consumidos diretamente na prestação de serviços, nos termos dos art. 3º, inc. II das Leis 10.637/2002 e 10.833/2003. No caso uniformes e materiais de segurança de uso obrigatório na prestação dos serviços, são bens que se consomem gradualmente com o tempo na prestação dos serviços executados pelo contribuinte. (CSRF/3ª Turma, rel. Conselheiro Andrada Márcio Canuto Natal, Acórdão nº 9303005.192, de 17/05/2017). Ante o exposto, conheço do recurso especial e, no mérito, doulhe parcial provimento, a fim de excluir o creditamento apenas sobre os gastos realizados com o tratamento de resíduos industriais." Fl. 310DF CARF MF Processo nº 11065.100781/200940 Acórdão n.º 9303005.608 CSRFT3 Fl. 6 5 A declaração de voto apresentada pela Conselheira Vanessa Marini Cecconello não foi transcrita neste voto, pois o entendimento defendido foi vencido na votação, não se aplicando à solução do litígios deste processo (entendimento no sentido de reconhecer o direito de crédito das contribuições sobre os gastos incorridos com o tratamento de resíduos industriais, em razão de atender ao critério da necessidade/essencialidade com o processo produtivo). Todavia, a declaração de voto consta, na sua íntegra, do acórdão do processo paradigma. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento parcial, a fim de excluir o creditamento apenas sobre os gastos realizados com o tratamento de resíduos industriais. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 311DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10240.000511/2004-94
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Oct 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 1999
MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DIAC. BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO.
Por falta de previsão legal para a imposição de multa por atraso na entrega da DIAC sobre o valor lançado de oficio, tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR informado na declaração.
Numero da decisão: 9202-006.046
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício.
(assinado digitalmente)
Patrícia da Silva - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício).
Nome do relator: PATRICIA DA SILVA
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BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO. Por falta de previsão legal para a imposição de multa por atraso na entrega da DIAC sobre o valor lançado de oficio, tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR informado na declaração. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Júnior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 24 0. 00 05 11 /2 00 4- 94 Fl. 138DF CARF MF 2 Tratase de Recurso Especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais – CSRF, contra o Acórdão nº 2201002.256, de 19/09/2013, prolatado pela 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara da 2ª Seção de Julgamento do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF (efls. 74/77), assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 1999 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DIAC. BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO. Por falta de previsão legal para a imposição de multa por atraso na entrega da DIAC sobre o valor lançado de oficio, tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR informado na declaração. O processo foi encaminhado à PGFN em 11/10/2013 (Despacho de Encaminhamento de efls. 79). De acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010, a intimação presumida da Fazenda Nacional ocorre 30 dias após esta data. O apelo suscita a seguinte matéria: base de cálculo da multa por atraso na entrega da Declaração do ITR. Para demonstrar a divergência, a Fazenda Nacional indica como paradigma o Acórdão 30333.334. Adotando o relatório do acórdão recorrido esclareço que: Trata o presente processo de lançamento de ofício relativo à multa no atraso na entrega da Declaração do Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural ITR, exercício 1999, consubstanciado no Auto de Infração (fl. 04), pela qual se exige o pagamento do crédito tributário total no valor de R$ 57.331,12, relativo ao imóvel rural denominado “Fazenda Escalerita”, localizado no Município de Candeias do Jamari RO. Cientificado do lançamento, o interessado apresentou tempestivamente Impugnação, alegando, em síntese: 1) que o valor da multa aplicada é oriundo de “suposto e imaginado imposto de ITR pelo fisco federal na importância de R$ 409.508,40”, que este débito é objeto de processo administrativo junto ao Conselho de Contribuintes; 2) que referida multa é acessória e deve seguir o principal, ou seja, o valor do ITR que está sendo discutido administrativamente; 3) que somente será devida a penalidade se a administração “ganhar” o processo em trâmite, caso contrário, seria devida apenas o equivalente a R$ 50,00, nos termos da Lei. 9.393/1996. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Recife (fls. 26/28) proferiu acórdão julgando o lançamento procedente, pois restou comprovada a entrega da DITR/1999 fora do prazo. E, quanto à alegação de que o acessório segue o principal, entendeu que não merece prosperar uma vez que o processo principal (10240.000872/200350), após contestado pelo contribuinte, teve lançamento mantido pela DRJ de Recife. Fl. 139DF CARF MF Processo nº 10240.000511/200494 Acórdão n.º 9202006.046 CSRFT2 Fl. 139 3 Intimado da decisão de primeira instância, Aldo Alberto Castanheira Silva apresenta Recurso Voluntário em 25/04/2011 (fls. 35/43), sustentando, essencialmente, os mesmos argumentos defendidos em sua Impugnação. O processo em apreço foi incluído em pauta dia 13 de novembro de 2008 e os membros da 1ª Câmara do 3º Conselho de Contribuintes do Ministério da Fazenda, por unanimidade de votos, resolveram converter o julgamento em diligência. Transcreve o teor da Resolução nº 3012.082: Consigne que em 10.07.2008, esta Câmara teve a oportunidade de apreciar a questão através do recurso voluntário n° 136.847, referente ao processo administrativo n° 10240.000872/200350, que teve o julgamento convertido em diligência para a repartição de origem. No meu entendimento, a questão trazida no presente processo está necessariamente vinculada à decisão do processo principal, posto que somente será verificada a base de cálculo para aplicação da multa ora discutida quando do trânsito em julgado da decisão administrativa daquele processo. Isto posto, voto para que os presentes autos sejam apensados ao processo n° 10240.000872/200350 cuja matéria é imprescindível para apreciação e resolução do processo ora analisado. Intimado do presente Recurso, quedouse silente o Contribuinte. É o relatório. Voto Conselheira Patrícia da Silva Relatora Da delimitação da lide: Tratase, exclusivamente de Recurso quanto à base de cálculo da multa por apresentação intempestiva de DITR. Do conhecimento: O recurso atende os requisitos de admissibilidade. Do mérito: Entendo irrepreensíveis as razões do acórdão a quo, pelo que colaciono: O contribuinte apresentou DITR, referente ao exercício 1999, em 27/11/2000, ou seja, com 14 meses de atraso. Assim, a multa lançada foi calculada aplicandose o percentual de 14% sobre o Fl. 140DF CARF MF 4 imposto devido apurado de ofício (R$ 409.508,40), objeto de discussão no Processo de n° 10240000872/200350. De início, cumpre reproduzir os artigos 7° e 9° da Lei n° 9.393/1996, que tratam da entrega extemporânea do DIAC e do DIAT, respectivamente: Art. 7° No caso de apresentação espontânea do DIAC fora do prazo do prazo estabelecido pela Secretaria da receita Federal, será cobrada multa de 1% (um por cento) ao mês ou fração sobre o imposto devido não inferior a R$ 50,00 (cinqüenta reais), sem prejuízo da multa e dos juros de mora pela falta ou insuficiência de recolhimento do imposto ou quota. (...) Art. 9° A entrega do DIAT fora do prazo estabelecido sujeitará o contribuinte à multa de que trata o art. 7°, sem prejuízo da multa e dos juros de mora pela falta ou insuficiência de recolhimento do imposto ou quota. Do exposto, verificase que a lei determinou que no caso de apresentação espontânea do DIAC fora do prazo, a base de cálculo da multa por atraso na entrega da declaração será calculada sobre o imposto devido apurado pelo contribuinte, não inferior a R$ 50,00. Com efeito, sem previsão expressa em lei, não pode a autoridade fiscal calcular a multa por atraso na entrega da DIAC, tendo por base o imposto devido por meio de lançamento de ofício. “Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR Exercício: 2001 MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DIAC. BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO. Por falta de previsão legal para a imposição de multa por atraso na entrega da DIAC sobre o valor lançado de ofício, tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR devido, informado na declaração.” (Acórdão CSRF nº 920200.280, de 22/09/2009) “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 1999 NULIDADE DA DECISÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INDEFERIMENTO DO PEDIDO PARA REALIZAÇÃO DE PERÍCIA. A realização de perícia não é direito subjetivo da defesa e não se presta à produção de prova que deveria ter sido juntada pelo sujeito passivo para contrapor à acusação fiscal. A autoridade julgadora de primeira instância determinará a sua realização se entender que tal medida é necessária para a apreciação das provas apresentadas, cuja compreensão exija conhecimento técnico especializado, fora do seu campo de atuação. O Fl. 141DF CARF MF Processo nº 10240.000511/200494 Acórdão n.º 9202006.046 CSRFT2 Fl. 140 5 indeferimento fundamentado para a sua realização descaracteriza o alegado cerceamento do direito de defesa. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO. BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO. PENALIDADE MÍNIMA. Falta previsão legal para a imposição da multa por atraso na entrega da DIAC/DIAT sobre o valor lançado de ofício. Tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR devido apurado na declaração intempestiva, sobre a qual incidirá o percentual de 1% (um por cento) ao mês ou fração, não podendo ser inferior a R$ 50,00 (cinqüenta reais). Recurso Voluntário Provido em Parte.”(Acórdão nº 210101.847, de 18/09/2012) “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2000 ITR. ILEGITIMIDADE PASSIVA , SUJEITO PASSIVO. São contribuintes do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural ITR o proprietário do imóvel, o titular de seu domínio útil, ou o seu possuidor a qualquer título. Assim, está enquadrado no pólo passivo da relação tributária como contribuinte do Imposto Territorial Rural a pessoa física ou jurídica que tenha registro de terras em seu nome, enquanto não cancelado o registro imobiliário, nos termos da Lei de Registros Públicos. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA DIAC. BASE DE CÁLCULO. VALOR DECLARADO. PENALIDADE MÍNIMA. Por falta de previsão legal para a imposição de multa por atraso na entrega de DIAC/DIAT sobre o valor lançado de oficio, tal multa tem por base de cálculo o valor do ITR devido, informado na declaração, devendo ser respeitado o valor mínimo de penalidade, R$50,00. Preliminar rejeitada. Recurso parcialmente provido.” (Acórdão nº 220201.760, de 15/05/2012) Assim, é irrelevante para o julgamento dessa lide o resultado do julgamento do Auto de Infração referente ao processo administrativo nº 10240.000871/200313. A multa em questão está prevista nos arts. 7o e 9o da Lei nº 9.393, de 1996, que assim dispõe: “Art. 7º No caso de apresentação espontânea do DIAC fora do prazo estabelecido pela Secretaria da Receita Federal, será cobrada multa de 1% (um por cento) ao mês ou fração sobre o Fl. 142DF CARF MF 6 imposto devido não inferior a R$ 50,00 (cinqüenta reais), sem prejuízo da multa e dos juros de mora pela falta ou insuficiência de recolhimento do imposto ou quota. (...) Art. 9º A entrega do DIAT fora do prazo estabelecido sujeitará o contribuinte à multa de que trata o art. 7º, sem prejuízo da multa e dos juros de mora pela falta ou insuficiência de recolhimento do imposto ou quota.” No mesmo sentido dispõe o artigo 4º da Instrução Normativa SRF nº 88, de 1999: “Art. 4º A apresentação da DITR fora do prazo estabelecido sujeitará o contribuinte à multa de: I 1% (um por cento) ao mês ou fração, incidente sobre o imposto devido, não podendo seu valor ser inferior a R$ 50,00 (cinqüenta reais), tratandose de imóveis sujeitos à apuração do ITR; II R$ 50, 00 (cinqüenta reais), nos casos de imóveis imunes ou isentos do ITR. Parágrafo único. A multa será lançada de oficio.” Diante do exposto voto por DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso para que a multa por atraso na entrega da declaração seja calculada com base no imposto apurado na DITR, respeitado o valor mínimo de R$ 50,00. Outrossim, NEGO provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Patrícia da Silva Fl. 143DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10183.004447/96-35
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Feb 01 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI
Exercício: 1995
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE NÃO CONTRIBUINTES.
0 incentivo corresponde a um crédito que é presumido, cujo valor deflui de fórmula estabelecida pela lei, a qual considera que é possível ter havido sucessivas incidências das duas contribuições, mas que, por se tratar de presunção "juris et de jure" não exige nem admite prova ou contraprova de incidências ou não incidências, seja pelo Fisco, seja pelo contribuinte. Os
valores correspondentes as aquisições de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem de não contribuintes do PIS e da Cofins (pessoas físicas e cooperativas) podem compor a base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei n° 9 363/96. Não cabe ao intérprete fazer distinção nos casos em que a lei não o fez.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-001.335
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em dar
provimento ao recurso especial.
Nome do relator: Judith Amaral Marcondes Armando
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C io Marcos Cândido - Pre idente Substituto - Juditl do 1Amara1 Marcondes Armando - Relatora CSRF-T3 Fl. 900 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo no 10183.004447/96 -35 Recurso n" 220.133 Especial do Contribuinte Acórdão n" 9303 -01.335 — 3' Turma Sessão de 01 de fevereiro de 2011 Matéria 11 3 1 - CRÉDITO PRESUMIDO Recorrente CEVAL CENTRO OESTE S/A Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS - IPI Exercício: 1995 CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÕES DE NÃO CONTRIBUINTES. 0 incentivo corresponde a um crédito que é presumido, cujo valor deflui de fórmula estabelecida pela lei, a qual considera que é possível ter havido sucessivas incidências das duas contribuições, mas que, por se tratar de presunção "juris et de jure" não exige nem admite prova ou contraprova de incidências ou não incidências, seja pelo Fisco, seja pelo contribuinte. Os valores correspondentes as aquisições de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem de não contribuintes do PIS e da Cofins (pessoas fisicas e cooperativas) podem compor a base de cálculo do crédito presumido de que trata a Lei n° 9 363/96. Não cabe ao intérprete fazer distinção nos casos em que a lei não o fez. Recurso Especial do Contribuinte Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Participaram do presente julgamento os Conselheiros Susy Gomes I lolfmann, Judith do Amaral Marcondes Armando, Gilson Macedo Rosenburg Filho, Leonardo Slade Manzan, Henrique Pinheiro Torres, Rodrigo Cardozo Miranda, Rodrigo da Costa Pôssas, Nanci Gama. Maria Teresa Martinez Lopez e Caio Marcos Cândido. Relatório Por hem descrever os fatos adoto o Relatório do acórdão recorrido: Trata-se tie recurs() voluntcirio (lis. 710/739, vol. II) contra o Acórdão DRI/JFA n" 8.790, de 09/12/2004, constante de jl.s. 686/705 (vol. II), exarado pela 3' Turma da DR.! em Juiz de Fora MG, que, por zmanimidade de votos, houve por bem imieferir ci manifestação de inconformidade de jl. 641/667, mantendo Despacho Decisório Saort/DRF/CBA de fl. 631 (vol. II) e respectivo Parecer de fls. 628/630 c/a DRF em Cuiabá MT, que, re.spectivantente, deferiram parcialmente (pkiteado: RS 6.892,579,28; glosado: RS 4.562.245,85; deferido: RS 2.330.333,43) o pedido de ressarcimento de crédito presumido de IPI cie fl. 01 (vol. I, no valor de R$ 6.892,579,28 Portaria MF n" 129/95), relativo ao period() c/c janeiro ci dezembro de 1995, para, a final (sic), reconhecer ii ora recorrente o direito ao crédito de RS 2.330.333,43, bem como para homologar parciahnente, até este valor, as compensações requeridas (lis. 2, 428/434, 688, e 711/712), observado o disposto na IN SRF n" 460/2004. Nas infitrmações que prestou em razão das diligências rectlizacias (Hs. 477/481, vol. I) a cl. Fiscalização explicita os motivos da glosa c/c) credito no valor total de RS 1.029.278,47, justificanalo-a, nos seguintes termos: "No exercício das fim cães tic Auditor-Fiscal da Receita Federal e dando cumprimento ao devacho de IT 15 verso do processo n° 10183.004447/9635, coin observação chts normas conticias na Portaria-MF n° 129/95 e IN-SRF n° 128/96, artigo 4°, inciso I, compareci cio estabelecimento do contribuinte ac ima identificado, onde a vista de livros, documentos e demais eknientos, realizei as diligências pertinentes que resultaram no Termo tie ifs. 373 a 376. Contudo, no curso du fiscalização atinente a FM 001/99, foram constatadas irregularidades que Velll alterar o valor do Crédito Presumido anteriormente calcuical° pela . fiscalizctção, passcutdo de RS 2.431.626,34, para RS 2.330.333,43, como demonstrado a seguir, devendo-se, portc117/0, desconsicierar o conte fido do Termo acima cittalo. Preliminarmente fica registrado que toclos os valores mencionados referem-se aos meses de abril a ckzembro c/c 1.995, posto que ct Medida Provisória 948/95 tornou insubsistentes os atos praticados com base na Medida Provisória 905/95. I. QUANTO A RECEITA OPERACIONAL BRUTA. 2 CSRF-T3 Fl. 901 4—• Processo no 10183.004447/96-35 Acórdão n.° 9303-01.335 0 valor anual indicado a fi. 19 corresponde ao registrado nos livros comerciais e fiscais do contribuinte. QUANTO A RECEITA DE EXPORTAÇÃ O. Igualmente foi verificado que o valor indicado a .fl. 19 tem correspondência com a escrituração comercial e fiscal do contribuinte. Outrossim, verificou-se, por amostragem, a efetivação das operações e suas liquidações posteriores, comprovadas por documentação hábil e idônea e pesquisas no sistema SISCOMEX Foi verificado, também, que o contribuinte não excluiu do valor das exportações, as operações relativas a produto não-tributável (soja em grãos), cujo ajuste de cálculo foi efetuado na .fl. 476. A exportação de produto não-tributável deve ter seu efeito anulado no cálculo do Crédito Presumido, pois não sendo considerado produto industrializado, posto que nenhum insumo a titulo de matéria-prima, material de embalagem ou produto intermediário, conforme definido na legislação do IPI, foi empregado nesse produto, o mesmo exclui-se do campo de incidência desse imposto desde o seu surgimento até a venda antes de qualquer processo de industrialização descrito no artigo 3" do RIPI/82 (Decreto n" 87.981/82) e atualmente, no artigo 4° do RIPI/98 (Decreto n" 2.637/98), porquanto não existe lógica legal ou teórica que justifique crédito fiscal de imposto que não incidiu sobre o produto, além do fato de que o ressarcimento aqui mencionado, em ultima análise, refere-se its contribuições PIS E COFINS. Ora, se não houve emprego de insumos e a renúncia fiscal refere-se exatamente a incidência das citadas contribuições sobre insumos aplicados no processo produtivo de produtos a serem exportados, não há o que ressarcir sobre a parcela de exportação relativa a produtos não-tributáveis pela legislação do IPI. QUANTO As AQUISIÇÕES DE INS UMOS. Procedeu-se a verificação dos valores que compõem as aquisições de matérias-primas, materiais de embalagens e produtos intermediários no período correspondente ao pedido de ressarcimento, iniciado a partir de abril de 1.995, ficando comprovado o que segue. a) Que, por amostragem, a escrituração comercial e fiscal e liquidação das dividas com fornecedores DEMONSTRAM REGULARIDADE PARCIAL das operações, bem assim que as aquisições em foco coincidem com a definição de matéria-prima, material de embalagem e produto intermediário, conforme entendimento exarado através do PN-CST n" 65/79. b) Que parte significativa das aquisições de matérias-primas e efetuada junto a produtores rurais pessoas .fisicas e 3 cooperativas, como demonstra-se as fls. 200 a 222, não contribuintes do PIS-Faturamento e da COFINS, o que altera substanciabnente o valor do cálculo do ressarcimento pleiteado. Acerca dessas aquisições, a leitura do artigo 1° da MP 948/95 não possibilita entendimento, diverso ou extensivo, além do que '0 produtor-exportador de mercadorias nacionais fará jus ao crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares n" 7, de 07 de setembro de 1.970, 8, de 03 de dezembro de 1.970, e 70, de 30 de dezembro de 1.991, INCIDENTES SOBRE AS RESPECTIVAS AQUISIÇÕES, no mercado interno, de matérias-primas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. ' (DESTAQUEI). Em não havendo incidência das contribuições do PIS e COFINS sobre as aquisições de insumos utilizados no processo produtivo, os valores dessas aquisições devem ser expurgados do calculo do Crédito Presumido. A MP 948/95, assim como os atos administrativos que regulamentaram a matéria, não fazem menção a possibilidade de que aquisições de insumos que não tenham n sido onerados indiretamente pelas pré-citadas contribuições, em etapas anteriores, devam permanecer na base de cálculo do valor a ser ressarcido. 0 que a legislação reza, em síntese, é que o cálculo deve ser efetuado sobre as aquisições que sofreram incidência daquelas contribuições. Ademais, a matéria-prima no presente caso é soja em grilos. As aquisições efetuadas de pessoas flsicas e cooperativas não são oneradas pelas contribuições em tela. Poder-se-ia aventar a hipótese de que houve tal incidência sobre os insumos do tipo .fertilizantes, herbicidas, sementes, etc., utilizados na lavoura de soja, componentes do custo do produto agrícola e, hipoteticamente, adquiridos de pessoas jurídicas, inferindo que naquelas etapas (preparo do solo, plantio, colheita, etc) houve incidência das contribuições sobre os tais insumos agrícolas. No entanto, o percentual de 5,37% visa a ressarcir tão-somente a incidência das contribuições 'em cascata', que ocorre a cada faturamento sucessivo de UM MESMO PRODUTO. Tanto é que o próprio cálculo desse percentual isso demonstra, sendo vejamos: 2% COF1NS + 0,65% PIS = 2,65%; 2,65% + 2,65% + 0,07% =- 5,37%. Fazendo a prova matemática temos que: Vr. do produto R$ 100,00: (x) 2,65% R$ 2,65; (= total na primeira nota fiscal R$ 102,65); vr. do produto R$ 102,65; (02,65% R$ 2,72; (=) total na segunda nota fiscal R$ 105,37; 4 CSRF-T3 Fl. 902 4- Processo n 0 10183.004447/96-35 Acórdão n.° 9303-01.335 Houve urn acréscimo de R$ 5,37 entre o valor inicial do produto e o valor final, no segundo .faturamento, que corresponde a exatos 5,37%. Veja-se que, supostamente, os insumos utilizados na produção de produtos exportados foram onerados pelo menos duas vezes seqüenciais pelas aliquotas integrais do PIS e da COFINS. No caso da soja em grãos adquirida de pessoas fisicas e cooperativas não houve incidência dessas alíquotas sequer uma vez. Já na soja em grãos adquirida de pessoas jurídicas agroindustriais, contribuintes do PIS-Faturamento e COF1NS, observa-se a incidência das aliquotas apenas uma vez, o que já e uma vantagem adicional para o contribuinte que pleiteia o ressarcimento, por permissão casual da legislação aplicável. Noutro exemplo, se as aquisições de embalagem junto a pessoas jurídicas contribuintes do PIS e da COF INS, cuja incidência recai sobre o valor da nota fiscal desse insumo, fossem efetuadas não do produtor original pessoa jurídica, mas sim de comerciante varejista ou atacadista, ficaria caracterizada a incidência 'em cascata', ou seja, na saída do estabelecimento industrial para o comerciante, e na saída do comerciante para o produtor-exportador (2,65% + 2,65%, como demonstrado acima). No caso de aquisições efetuadas junto a pessoas físicas e cooperativas, a incidência de tais contribuições ocorreu em etapas longínquas e sobre parte indeterminado, pela legislação, do valor total do produto final, no caso a soja, o que permite concluir que se, e somente se, HOUVESSE um percentual para o calculo do ressarcimento sobre essas aquisições, sem dúvida nenhuma seria muito menor que 5,37%. Finalizando, a aceitação de que as aquisições de insumos provenientes de fornecedores não contribuintes do PIS- Faturamento e da COFINS componham o cálculo do ressarcimento com aplicação do percentual ora citado, importa em - lesar os cofres públicos. - em que o Poder Executivo, por meio de Instâncias Julgadoras, esteja criando condição não prevista em lei, visando beneficiar pessoas naturais ou jurídicas, desrespeitando o principio constitucional da estrita legalidade; - em desrespeitar normas gerais de Direito Público, que prevêem o efeito vinculante a lei, nos atos praticados pela administração pública. c) Que o contribuinte utilizou-se de documentação tributariamente ineficaz, cujo valor indica-se a fl. 476 sob o titulo 'Ineficazes', sendo relacionados individualmente a fl. 474. Como provado no processo 10183.000791/0077, do qual o contribuinte tomou ciência, o mesmo. tinha conhecimento dessa 5 irregularidade, sendo conivente para acobertar operações efetuadas por terceiros, provavelmente pessoas físicas. As notas fiscais foram emitidas pela empresa Comercial Agropecuária Vertical Ltda., declarada inapta conforme Ato Declaratório de fl. 475, ficando provado no correspondente processo, ali mencionado, que as atividades de tal empresa nunca existiram, sendo utilizado o seu registro como pessoa jurídica somente para acobertar operações de vendas efetuadas por terceiros, provavelmente, repito, produtores rurais pessoas fisicas. Em tese, tendo o contribuinte comprovado a entrada e pagamento das notas fiscais em foco, a fiscalização não poderia glosar tais valores da base de cálculo do crédito presumido, nos termos do art. 15, parágrafb 5°, da IN-SRF 66/97, pois presumida estaria a boa fé. Entretanto, a tese da boa fé foi desmontada nos autos do processo retromencionado, conforme cópia do respectivo Auto de Infração. Dessa forma, conclui-se como válida a glosa dos documentos ineficazes. d) Que o contribuinte utilizou-se da prática de emitir notas fiscais de entradas (art. 256 do RIPI/82), cujo valor está indicado a fl. 476 sob o titulo 'Inidõneos'; para justificar a aquisição matéria-prima (soja em grãos, adquirida de pessoas jurídica obrigadas a emissão de nota fiscal, conforme listagem delis. 45 a 473, e que não cumpriram esse mando legal. A nota fiscal de entrada emitida fora das hipóteses prevista no artigo acima citado é considerada documento inidôneo, conforme preceitua o art. 231, inciso I, do RIPI/82, o que implica em sua exclusão da base de cálculo do Crédito Presumido; primeiro, por tratar de documento inábil para escrituração do crédito, de acordo com os arts. 97, inciso V, e 99, ambos também do RIPI/82; segundo porque as contribuições a que se refere o crédito, PRESUME-SE, não foram recolhidas aos cofres públicos, posto que as empresas fornecedoras NAO ENTREGARAM ao contribuinte as notas fiscais de saídas, não sendo, portanto, cabível o seu ressarcimento, posto que o preço dos produtos não trouxe na sua formação os encargos do PIS e da COFINS, em que pese o prep da soja nacional acompanhar as cotações internacionais. 4. QUANTO AO VALOR DO CREDITO PRESUMIDO. O cálculo apresentado pelo contribuinte contempla o período de janeiro a dezembro de 1.995, sendo que o primeiro trimestre desse ano não tem base legal que permita a apuração do crédito. Assim procedendo, apurou o valor de R$ 6.892.162,97 (seis milhões, oitocentos e noventa e dois mil, quinhentos e setenta e nove reais e vinte e oito centavos), como vê-se a fl. 01. No entanto, considerando o exposto nos tópicos 2 e 3, o valor final decorrente da Ação Fiscal sobre o pedido de ressarcimento em analise, aponta que o contribuinte faz jus ao valor de R$ 2.330.333,43 (dois milhões, trezentos e trinta mil, trezentos e 6 Processo n° 10183.004447/96-35 CSRF-T3 Acórdão n.° 9303-01.335 Fl. 903 trinta e três reais e quarenta e três centavos), conforme demonstrado a fl. 476." Por seu turno, a r. Decisão de fls. 686/705 (vol. II), exarada pela 32 Turma da Dl?] em Juiz de Fora - MG, indeferiu a manifestação de inconformidade de fls. 641/667, mantendo o Despacho Decisório Saort/DRF/CBA de fl. 631 (vol. II) e respectivo Parecer de fls. 628/630 da DRF em Cuiabá - MT, aos fundamentos sintetizados na seguinte ementa: "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Exercício: 1995 Ementa: AQUISIÇÕES DE PESSOAS FÍSICAS - É entendimento pacifico desta Turma de Julgamento que as aquisições oriundas de pessoas fisicas, por não sofrerem incidência das contribuições PIS e COFINS, não devem compor a base de calculo do crédito presumido instituído pela Medida Provisória n"948/95. VENDA DE PRODUTOS NÃO TRIBUTADOS (NT) - as vencias para o mercado externo de produtos que estão fora do campo de incidência do IPI não se incorporam ao total da receita de exportação considerada para determinação do coeficiente a sei' aplicado sobre a base de cálculo do incentivo. NOTAS FISCAIS INIDÕNEAS - A concessão do beneficio .fiscal do crédito premio exige que se identifique com precisão o emissor das notas fiscais de compra, o que não ocorre quando estas são tomadas por inidõneas em decorrência de processo administrativo que comprovou a inexistência de fato da empresa vendedora. FALTA DE EMISSÃO DA NOTA FISCAL POR PARTE DO FORNECEDOR - A concessão do beneficio fiscal do crédito prêmio exige que se identifique com precisão o emissor das notas fiscais de compra, o que não ocorre quando o fornecedor das mercadorias deixa de emitir a respectiva nota fiscal de venda. CORREÇÃO MONETÁRIA/TAXA SELIC - a correção monetária de valores relativos ao ressarcimento em espécie de créditos do IPI escriturados a titulo de incentivo ,fiscal, bem como a incidência de juros SELIC conforme o requerido subordinam-se et existência de expressa previsão legal Solicitação Indeferida". Nas razões de recurso voluntário (fls. 791/818, vol. III) oportunamente apresentadas a ora recorrente sustenta a insubsistência da r. decisão recorrida, tendo em vista que a redução no valor de seu crédito presumido seria conseqüência de interpretação restritiva da legislação (Lei n" 9.363/96 e Portaria MF n° 129/97), razão pela qual seriam legítimos os créditos presumidos de 1PI nas aquisições de produtos não tributados pelo IPI, assim como aquelas feitas por pessoas fisicas e cooperativas, assim como energia elétrica, conforme já assentado na jurisprudência administrativa que cita; b) que teria ainda havido erro na base de cálculo do crédito presumido 7 glosado pela d. Fiscalização quando exclui o I" trimestre de 2005, quando é certo que a própria Portaria n" 129/95 determina que o crédito presumido será apurado anualmente, com base nos dados do balanço encerrado em 31/12; e c) relativamente ás aquisições acobertadas por NFs iniclôneas, alega que desconhecia a situação particular dos fornecedores data das aquisições e, mesmo que quisesse tomar conhecimento, estava impedida pelo sigilo fiscal, fazendo jus ao crédito conforme a jurisprudência citada. É o Relatório. A Camara a quo deu parcial provimento ao recurso voluntário. O acórdão foi assim ementado: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados — IPI Exercício: 1995 Ementa: IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. CÁLCULO. RECEITA OPERACIONAL BRUTA. RECEITA DE EXPORTAÇÃ 0 DE PRODUTO NT. EXCLUSÃ O. Para fins de cálculo do crédito presumido do IPI, não integra a receita operacional bruta e nem a receita de exportação o valor da receita de exportação de produtos NT. CRÉDITO PRESUMIDO. INS UMOS ADQUIRIDOS DE PESSOAS FÍSICAS. Referindo-se a lei a contribuições "incidentes" sobre as "respectivas" aquisições, somente se admite, para efeito de cálculo do crédito presumido do IPI, as aquisições sobre as quais efetivamente incidiu o PIS e a Cofins e que foram suportadas pelo produtor/exportador que pretende se beneficiar do crédito. AQUISIÇÃO DE INS UMOS. NOTAS FISCAIS INIDÔNEAS. A falta de comprovação de efetiva aquisição e pagamento de insumos enseja exclusão dos mesmos do calculo do crédito presumido do 1PI, mormente se a empresa fornecedora foi declarada iniclônea. NOTA FISCAL DE AQUISIÇÃO DE INS UMOS. FALTA. Inexistindo a respectiva nota fiscal de aquisição de insumos feita junto a pessoas jurídicas, documento obrigatório e necessário ao lançamento dos impostos e contribuições, não há como considerar tais insumos no cálculo do crédito presumido do IPI. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. JUROS SELIC. Por falta de previsão legal, não é possível efetuar o ressarcimento de créditos do IPI, decorrente de incentivo, com a atualização monetária, inclusive pela taxa Selic. Recurso provido em parte. 8 Processo n° 10183.004447/96-35 CSRF-T3 Acórdão n.° 9303-01.335 Fl. 904 0 sujeito passivo dissentiu da decisão que lhe foi desfavorável e apresentou recurso especial, fls. 775/857, por meio do qual requereu a reforma do acórdão ora fustigado. 0 recurso foi admitido pelo Presidente da Quarta Camara da Terceira Seção de Julgamento do CARF, por meio de despacho As fls. 875/879. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou contrarrazões As fls. 887/898. o Relatório. Voto Conselheira Judith do Amaral Marcondes Armando, Relatora Aprecio o Recurso Especial de divergência, do sujeito passivo, admitido conforme despacho de fls. 875 a 879, cujo teor coincide com minha apreciação. A lide que teve segmento versa sobre a inclusão na base de cálculo do crédito presumido do IPI, do valor de aquisições realizadas junto a pessoas fisicas e cooperativas. Quanto A matéria, adoto meu voto proferido em outras lides semelhantes. Transcrevo-o: CRÉDITO PRESUMIDO DO IPI. INSUMOS ADMITIDOS NO CÁLCULO. AQUISIÇÕES A PESSOAS FISICAS E COOPERATIVAS. As aquisições de insumos feitas a pessoas físicas, as cooperativas, se incluem na base de cálculo do crédito presumido do IPI, desde que consumidos no processo produtivo, nos termos da legislação do IPI. A Lei 9.363, de 13 de dezembro de 1996 criou o crédito presumido de IPI. Entendo que o crédito presumido do IPI é uma arquitetura conceitual que permitiu ao legislador desonerar parte dos tributos incidentes em produto final exportável, no caso, expressamente, parte das contribuições ao PIS e COFINS, determinando que o pagamento do crédito presumido, na forma estabelecida na lei fosse correspondente a urn direito de crédito de IPI. Na realidade, tal crédito deve ser inscrito na classe dos incentivos gerais da caixa verde, da Organização Mundial do Comércio: incentivo ao comércio. Veja-se bem de não confundirmos incentivo ao comércio com incentivo fiscal. Por outro lado, se justifica ante o principio de que não se exportam tributos. Nesse sentido, busca o Estado o desenvolvimento do comércio, de forma generalizada, ampla e leal, fazendo com que a economia brasileira, como um todo, possa ser beneficiada pela sua melhor inserção no mercado internacional. 9 E essa melhor inserção, de forma justa e leal, não pode ser outra, para um membro da Organização Mundial do Comércio, que a exclusão dos tributos do custo das mercadorias, uma vez que, como já dito, não se exportam tributos. Observe-se que a lei que instituiu o crédito presumido não fala em ajuda ou doação, em incentivo ou beneficio tributário. um crédito de IPI, ainda que presumido por razões operacionais do Estado, conforme se pode ver na Exposição de Motivos que acompanhou a proposta de lei: Permitir a desoneração fiscal da COFINS e PIS/PASEP incidente sobre insumos, objetivando possibilitar a redução dos custos e o aumento da competitividade dos produtos brasileiros exportados, dentro da premissa básica da diretriz política do setor, de que não se deve exportar tributos.... i Assim, deve estar lançado na conta do IPI, naturalmente, tal como dispõe a Lei, podendo ser utilizado para deduzir parte do IPI débito, ou para compensar débitos de outros tributos, ou ainda ser restituído em espécie. Vendo tal entrada de recursos como ingressos compensatórios da desoneração feita pelo exportador a priori, atua o Estado como promotor do desenvolvimento, tendo o cuidado de não se valer de valores inexplicáveis, tais como prêmios A. exportação, ou outros beneficios e incentivos tributários. Ao agir o Estado, como facilitador de negócios de exportação pela via do não repasse de tributos ao consumidor internacional, não esbarra nos incentivos proibidos pela Organização Mundial do Comércio, e, não influi em outras contas do patrimônio da empresa, para que não se confunda o crédito dado ao exportador com uma transferência indireta de recursos do Estado para o contribuinte. Com toda essa introdução, feita com intuito de mostrar com clareza minha percepção do que seja crédito presumido do IPI, resta claro que entendo o ressarcimento solicitado pela empresa, nas bases em que o fez, considerando que seus insumos foram utilizados na produção que exportou, cabível. Nos termos da Lei 9.363, de 1996, art. 2°, a base de cálculo do crédito presumido é obtido pela a partir da relação entre receita de exportação e receita operacional bruta, resultado sobre o qual se aplica 5, 37%. A Lei não fez qualquer exclusão, a exposição de motivos, que sinaliza o espirito da lei também não fez. Portanto, não se pode, pela via da interpretação, apequenar o alcance da restituição dos impostos pagos internamente, que foi a proposta do legislador no caso da criação do crédito de IPI. Tenho me deparado com a mitologia grega em meus estudos de hermenêutica. Hermes, um dos deuses mais populares da antiguidade clássica, tinha como um de seus atributos interpretar o LOGOS.( a palavra escrita ou falada). Mas, mesmo na mitologia, Logos-filho tem uma certa subordinação ao Logos-Pai. Assim, a metáfora me conduz ao axioma de que a palavra de Hermes não pode, ou melhor, não deve, se contrapor ao Logos. Também considerando a hierarquia das normas, a infralegal não pode modificar o espirito da legal, pode dar-lhe exeqiiibilidade, completar sem modificar o conteúdo ou o alcance. 10 Processo n° 10183.004447/96-35 CSRF-T3 AcórdAo n.° 9303-01.335 Fl. 9T Nessa esteira, a base de cálculo do crédito presumido é o valor total das aquisições de matérias-primas, materiais de embalagens e outros insumos, aplicados no processo produtivo direto de bens exportáveis. Judith ral arc ff o des Armando \ Fr"
score : 1.0
Numero do processo: 10880.950255/2008-76
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Feb 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002
PER/DCOMP. SALDO CREDOR DO PERÍODO ANTERIOR. NÃO PASSÍVEL DE RESSARCIMENTO.
O saldo credor do período anterior ao período de apuração, deve ser igual ao saldo credor apurado ao final do trimestre-calendário imediatamente anterior, ajustado pelos valores dos créditos reconhecidos em PERD/COMP de trimestres anteriores. O saldo credor inicial não é passível de ressarcimento.
DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INDISPENSABILIDADE.
É indispensável que o contribuinte demonstre os fatos que alega ou do erro em que se funde. Não havendo tal constatação, por meio de prova hábil e inconteste, os créditos que alega possuir são tido por ilíquido e incerto, não tendo o condão de infirmar a insuficiência de saldo, cujos créditos constam declarados nos sistemas informatizados da RFB, para fins de quitar, integral ou parcialmente, os débitos informados em PERD/COMP.
Numero da decisão: 3001-000.172
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo.
Nome do relator: ORLANDO RUTIGLIANI BERRI
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 PER/DCOMP. SALDO CREDOR DO PERÍODO ANTERIOR. NÃO PASSÍVEL DE RESSARCIMENTO. O saldo credor do período anterior ao período de apuração, deve ser igual ao saldo credor apurado ao final do trimestre-calendário imediatamente anterior, ajustado pelos valores dos créditos reconhecidos em PERD/COMP de trimestres anteriores. O saldo credor inicial não é passível de ressarcimento. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INDISPENSABILIDADE. É indispensável que o contribuinte demonstre os fatos que alega ou do erro em que se funde. Não havendo tal constatação, por meio de prova hábil e inconteste, os créditos que alega possuir são tido por ilíquido e incerto, não tendo o condão de infirmar a insuficiência de saldo, cujos créditos constam declarados nos sistemas informatizados da RFB, para fins de quitar, integral ou parcialmente, os débitos informados em PERD/COMP.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 PER/DCOMP. SALDO CREDOR DO PERÍODO ANTERIOR. NÃO PASSÍVEL DE RESSARCIMENTO. O saldo credor do período anterior ao período de apuração, deve ser igual ao saldo credor apurado ao final do trimestrecalendário imediatamente anterior, ajustado pelos valores dos créditos reconhecidos em PERD/COMP de trimestres anteriores. O saldo credor inicial não é passível de ressarcimento. DIREITO DE CRÉDITO. ÔNUS DA PROVA. INDISPENSABILIDADE. É indispensável que o contribuinte demonstre os fatos que alega ou do erro em que se funde. Não havendo tal constatação, por meio de prova hábil e inconteste, os créditos que alega possuir são tido por ilíquido e incerto, não tendo o condão de infirmar a insuficiência de saldo, cujos créditos constam declarados nos sistemas informatizados da RFB, para fins de quitar, integral ou parcialmente, os débitos informados em PERD/COMP. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Cleber Magalhães, Renato Vieira de Avila e Cássio Schappo. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 95 02 55 /2 00 8- 76 Fl. 137DF CARF MF 2 Cuidase de recurso voluntário (fls. 112 a 121) interposto contra o Acórdão 1055.148, da 3ª Turma Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Porto Alegre/RS DRJ/POA, na sessão de julgamento realizada em 21.05.2015 (fls. 104 a 107), que julgou improcedente a manifestação de inconformidade. Dos fatos Por bem sintetizar os fatos e com vista a elucidação do caso e a economia processual, adoto o relatório da decisão recorrida, que transcrevo em seguida: A menção a numeração das folhas diz respeito à versão digitalizada do processo. Tratase de manifestação de inconformidade ante o Despacho Decisório eletrônico da fl. 3, emitido em 24/11/2008 pelo Delegado da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo/SP, que deferiu parcialmente o pedido de ressarcimento do saldo credor do IPI referente ao 4º trimestre de 2002, objeto do PER/DCOMP nº 14237.21256.130204.1.3.019386, reconhecendo o valor de R$ 1.902,23 do total solicitado/utilizado de R$ 25.872,61. Conforme o DDe, o valor do crédito reconhecido foi inferior ao solicitado/utilizado em razão dos seguintes motivos: ocorrência de glosa de créditos considerados indevidos e constatação de que o saldo credor passível de ressarcimento é inferior ao valor pleiteado. Ainda, segundo o DDe, o crédito reconhecido foi insuficiente para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual foi homologada parcialmente a compensação declarada no PER/DCOMP: 14237.21256.130204.1.3.019386 e não homologada a compensação declarada no PER/DCOMP 18205.82309.080304.1.3.013406. Tais particularidades estão explicitadas nos demonstrativos de análise do crédito das fls. 6 a 8. Irresignada a manifestante, por meio do arrazoado das fls. 74 a 82, firmado por seus procuradores habilitados nos autos, vem expor as razões de sua inconformidade conforme resumido a seguir. Diz que de acordo com o Registro de Apuração do IPI da empresa, cuja informação foi corretamente registrada no PER/DCOMP, o valor do Saldo Credor do Período Anterior é de R$ 344.966,56, o que não confere e nada se assemelha aos R$ 6.710,33 que consta no Demonstrativo de Apuração do Saldo Credor Ressarcível, aduzindo que se caso considerado o saldo correto, o valor do saldo credor deveria perfazer a quantia pleiteada, que é de direito do contribuinte. Argumenta que partindo de um saldo cujo valor não condiz com a realidade dos livros fiscais do contribuinte, o valor do saldo credor obviamente não será o mesmo que o calculado pelo programa PER/DCOMP. Alega que desta forma, o ato administrativo da Receita Federal definido pelo Despacho Decisório é carente de motivação, não Fl. 138DF CARF MF Processo nº 10880.950255/200876 Acórdão n.º 3001000.172 S3C0T1 Fl. 138 3 possuindo portanto, fundamentação para justificálo, e conseqüentemente, carente de validade. Informa que o valor de R$ 25.872,61, pleiteado, foi calculado pelo próprio programa PER/DCOMP quando do momento do preenchimento da declaração, sendo que todas as informações lá inseridas espelham a realidade da empresa. Esclarece que o saldo credor em dezembro de 2003, conforme informado no PER/DCOMP era de R$ 380.713,13, assim, a empresa possuía, à época, saldo credor de IPI para compensação. Encerra requerendo que seja acolhida a manifestação de inconformidade, anulando o despacho decisório, deferindo em sua totalidade as compensações realizadas. É o relatório. Da decisão de 1ª instância Após a manifestação de inconformidade sobreveio, então, o acórdão da 3ª Turma da DRJ/POA, com decisão improcedente ao contribuinte, cuja ementa colacionase: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 PER/DCOMP. SALDO CREDOR DO PERÍODO ANTERIOR. NÃO RESSARCÍVEL. O saldo credor do período anterior para o primeiro período de apuração, será igual ao saldo credor apurado ao final do trimestrecalendário anterior, ajustado pelos valores dos créditos reconhecidos em PERD/COMP de trimestres anteriores. Esse saldo (saldo credor inicial) não é passível de ressarcimento. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2002 a 31/12/2002 MATÉRIA NÃO CONTESTADA. DEFINITIVIDADE. Considerase não impugnada, a matéria não expressamente contestada, tornandose definitiva na esfera administrativa. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Do Recurso Voluntário Irresignado ainda com o feito, o contribuinte interpôs recurso voluntário, onde repisa a argumentação da sua manifestação de inconformidade. É o que evidencia, sem margem para dúvida, seu item 3 "Do Pedido", que transcrevese: III DO PEDIDO Fl. 139DF CARF MF 4 No mérito, requer seja reformada a r. decisão proferida, HOMOLOGANDOSE AS COMPENSAÇÕES em sua totalidade acima mencionadas, considerando: I. O desrespeito ao princípio de motivação do ato administrativo, consubstanciada na ausência de fundamentação que esclareça o porquê da redução do saldo credor pleiteado; II. Que o próprio sistema do PER/DCOMP calcula saldo credor ressarcível do período; e III . Que o saldo credor no 3º trimestre de setembro de 2002 é de R$ 344.966,56 e não de R$ 6.710,33, como considerou a Receita Federal. É o relatório. Voto Conselheiro Orlando Rutigliani Berri, Relator Da Admissibilidade O sujeito passivo recorrente foi cientificado do acórdão vergastado em 22.10.2015 (terçafeira), ocasião em que acessou o acórdão de manifestação de inconformidade, pela abertura dos arquivos digitais correspondentes no link Processo Digital, no Portal eCAC, através da opção "Consulta Comunicados/Intimações ou Consulta Processos", que já se encontravam disponibilizados desde 28.09.2015 na sua "Caixa Postal", é o que depreendese do "Termo de Abertura de Documento Comunicado" de fl. 110. Em 18.11.2015 (quartafeira) é registrada a solicitação de juntada do recurso voluntário, conforme informa o "Termo de Análise de Solicitação de Juntada" acostado à fl. 135. Na hipótese dos autos, em face da legislação processual aplicável (Decreto 70.235 de 1972) e do disposto no RICARF de 2015, termo ad quem para a apresentação do recurso voluntário é 19.11.2015 (quintafeira). Portanto, o referido recurso voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação; de modo que dele conheço. Do Mérito De antemão esclareço que em face da clareza dos argumentos tecidos pelo relator do voto condutor do acórdão recorrido, utilizados para justificar o indeferimento do pleito, peço licença para reproduzilos naquilo que importa ao presente exame, em prestígio à objetividade, após sintetizar os argumentos já tecidos na fase recursal anterior. Da ausência de fundamentação O contribuinte reafirma que o Despacho Decisório Nº de Rastreamento 808269594 carece de motivação e, por conseguinte, de validade, pois não foi fundamentado. Quanto a este ponto o acórdão recorrido manifestouse nos seguintes termos: Fl. 140DF CARF MF Processo nº 10880.950255/200876 Acórdão n.º 3001000.172 S3C0T1 Fl. 139 5 Não procede a alegação da manifestante de que o ato administrativo carece de fundamento pois está pormenorizado no Demonstrativo de Apuração do Saldo Credor Ressarcível (fl. 6) que o saldo credor do período anterior (coluna “b”) “Para o primeiro período de apuração, será igual ao Saldo Credor apurado ao final do trimestrecalendário anterior, ajustado pelos valores dos créditos reconhecidos em PERDCOMP de trimestres anteriores. Esse saldo (saldo credor inicial) não é passível de ressarcimento”. Do saldo credor passível de ser ressarcido O contribuinte reafirma também que o valor de R$ 25.872,61, pleiteado, foi calculado pelo próprio programa PER/DCOMP, e que o saldo credor em DEZ/2003 era de R$ 380.713,13. Evidenciando que a empresa possuía saldo credor de IPI para compensação quando do preenchimento da respectiva declaração. Quanto a este ponto o acórdão recorrido manifestouse nos seguintes termos: Registrese que a primeira etapa da verificação da legitimidade do valor pleiteado pelo contribuinte consiste no cálculo do saldo credor passível de ressarcimento apurado ao fim do trimestrecalendário a que se refere o pedido, ao que se segue outra etapa, consistente em analisar se os créditos passíveis de ressarcimento apurados ao fim do trimestrecalendário a que se refere o pedido (saldo credor passível de ressarcimento), se mantêm na escrita até o período imediatamente anterior ao da transmissão do PER/DCOMP (devese verificar se os créditos apurados ao fim do trimestrecalendário foram utilizados para abater débitos informados no PER/DCOMP, ou apurados pela fiscalização). (...) A insurgente alega, no entanto sem fazer prova, ou seja, cópia de sua escrituração fiscal, que o saldo credor do período anterior corresponde a um valor superior ao calculado pelo Sistema de Controle de Créditos e Compensações (SCC) da Receita Federal do Brasil. O despacho decisório, conforme inclusive atesta o contribuinte, objetivamente atesta que o pagamento informado como indevido ou a maior foi integralmente utilizado para a quitação de débitos do contribuinte e que não sobrou crédito disponível para compensação do débito informado no PER/DCOMP originalmente transmitido. É fato inconteste também que a autoridade competente da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Administração Tributária em São Paulo/SP baseouse em dados constantes dos sistemas informatizados da RFB, alimentados por informações prestadas pelo próprio contribuinte, que resultou na conclusão de que o crédito reconhecido foi insuficiente para compensar integralmente os débitos informados pelo sujeito passivo, razão pela qual foi homologada parcialmente a compensação declarada no PER/DCOMP 14237.21256.130204.1.3.019386 e não homologada a compensação declarada no PER/DCOMP 18205.82309.080304.1.3.013406. Portanto, não se ter por provado o fato constitutivo do direito de crédito alegado, devese, com fundamento nos artigos 170 do CTN, considerar correto o despacho decisório que não homologou a compensação declarada. Fl. 141DF CARF MF 6 Neste passo, igualmente, concluo que o contribuinte, uma vez mais, deixou transcorrer a oportunidade de produzir provas que sustentassem suas alegações, cujo ônus que lhe competia, na medida em que no processo administrativo fiscal, tal qual ocorre no processo civil, o ônus de provar a veracidade do que afirma é do interessado, é o que prevê o artigo 36 da Lei 9.784 de 29.01.1099: Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no artigo 37 desta Lei. Em igual sentido, são os termos do artigo 333 do CPC (Lei 5.869 de 11.01.1973, reproduzido no artigo 373 da Lei 13.105 de 16.03.2015 Novo CPC): Art. 333. O ônus da prova incumbe: I ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito; II ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. Desta feita, pela não comprovação da existência do pleiteado direito creditório, entendo que deve ser negado provimento ao presente recurso voluntário, mantendo se, nos seus exatos termos, a decisão que indeferiu sua manifestação de inconformidade. Da Conclusão Por todo o exposto, conheço do recurso voluntário e negolhe provimento. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Fl. 142DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 18470.721577/2015-72
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Nov 09 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Dec 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2015
SIMPLES NACIONAL. DÉBITO EXTINTO APÓS REVISÃO DE INSCRIÇÃO EM DÍVIDA ATIVA APÓS RETIFICAÇÃO DE PAGAMENTO. INEXISTÊNCIA DE ÓBICE À OPÇÃO.
Comprovado que, após retificação de DARF, o débito inscrito em dívida ativa já havia sido extinto por pagamento, quando da opção pelo Simples Nacional, inexiste óbice a essa opção.
Numero da decisão: 1001-000.186
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Lizandro Rodrigues de Sousa - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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ementa_s : Assunto: Simples Nacional Ano-calendário: 2015 SIMPLES NACIONAL. DÉBITO EXTINTO APÓS REVISÃO DE INSCRIÇÃO EM DÍVIDA ATIVA APÓS RETIFICAÇÃO DE PAGAMENTO. INEXISTÊNCIA DE ÓBICE À OPÇÃO. Comprovado que, após retificação de DARF, o débito inscrito em dívida ativa já havia sido extinto por pagamento, quando da opção pelo Simples Nacional, inexiste óbice a essa opção.
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OPÇÃO. Recorrente FASHION FLORES CORRETORA DE SEGUROS LTDA ME Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2015 SIMPLES NACIONAL. DÉBITO EXTINTO APÓS REVISÃO DE INSCRIÇÃO EM DÍVIDA ATIVA APÓS RETIFICAÇÃO DE PAGAMENTO. INEXISTÊNCIA DE ÓBICE À OPÇÃO. Comprovado que, após retificação de DARF, o débito inscrito em dívida ativa já havia sido extinto por pagamento, quando da opção pelo Simples Nacional, inexiste óbice a essa opção. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Lizandro Rodrigues de Sousa Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 72 15 77 /2 01 5- 72 Fl. 56DF CARF MF Processo nº 18470.721577/201572 Acórdão n.º 1001000.186 S1C0T1 Fl. 57 2 Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 4ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Brasília (DF), mediante o Acórdão nº 0368.813, de 02/07/2015 (efls. 35/40), objetivando a reforma do referido julgado. Em 05/01/2015, a empresa fez a opção pelo Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte – Simples Nacional, que foi indeferida, mediante o “Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional”, de 10/02/2015 (efl. 11), sob o fundamento de que a pessoa jurídica incorreu, naquele momento, se encontrava na situação impeditiva de Débito inscrito em Dívida Ativa da União (ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional – PGFN) a título de Contribuição Social (código 1804), nº de inscrição 7061301979093, Processo nº 18470.505617/201379; o qual não se encontrava com a exigibilidade suspensa. A interessada apresentou manifestação de inconformidade contra o indeferimento da sua opção pelo Simples Nacional, onde alegou, em síntese, que para regularização do débito fez um pedido de revisão de débitos inscritos em Dívida Ativa da União e apresenta documentos visando fazer prova. A DRJ considerou procedente o Termo de Indeferimento de Opção ao Simples Nacional, com o fundamento de que "o pedido de revisão de débitos inscritos em Dívida Ativa da União não tem o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário" e proferiu acórdão com a seguinte ementa: ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2015 OPÇÃO. EXISTÊNCIA DE DÉBITOS. INDEFERIMENTO. É cabível o indeferimento da opção pelo Simples Nacional formulado pelas pessoas jurídicas que tenham débitos, sem exigibilidades suspensas, junto ao INSS ou, junto às Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, na data limite estipulada para formular a opção. Manifestação de Inconformidade Improcedente Ciente da decisão de primeira instância em 07/09/2015, conforme Edital Eletrônico à efl. 46, a Recorrente apresentou recurso voluntário em 17/09/2015 (efl. 48), conforme carimbo aposto à efl. 48. É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator Fl. 57DF CARF MF Processo nº 18470.721577/201572 Acórdão n.º 1001000.186 S1C0T1 Fl. 58 3 O recurso é tempestivo, atende aos demais requisitos de admissibilidade e dele conheço. Gira a lide sobre o indeferimento do pedido de inclusão no Simples Nacional, em virtude dos referidos débitos não pagos no prazo legal, ou cuja exigibilidade não estava suspensa. A base legal do indeferimento foi o art. 17, inciso V, da Lei Complementar 123/2006, verbis: Art. 17. Não poderão recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou a empresa de pequeno porte: V que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa; (grifo não consta do original) Nesse particular, mediante o art 6º, §§1º e 2º, da Resolução CGSN nº 94/2011, o Comitê Gestor de Tributação das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (CGSN), assim dispôs sobre a forma de ingresso no regime especial: DA OPÇÃO PELO SIMPLES NACIONAL Art. 6º A opção pelo Simples Nacional darseá por meio do Portal do Simples Nacional na internet, sendo irretratável para todo o anocalendário. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, caput) § 1º A opção de que trata o caput deverá ser realizada no mês de janeiro, até seu último dia útil, produzindo efeitos a partir do primeiro dia do anocalendário da opção, ressalvado o disposto no § 5º. (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, § 2º) § 2º Enquanto não vencido o prazo para solicitação da opção o contribuinte poderá: (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 16, caput) I regularizar eventuais pendências impeditivas ao ingresso no Simples Nacional, sujeitandose ao indeferimento da opção caso não as regularize até o término desse prazo; (grifos não pertencem ao original) No recurso interposto, a recorrente repete os argumentos apresentados em sede de primeira instância, ou seja, que a inscrição na Dívida Ativa da União não é procedente, tendo em vista que todos os débitos já se encontravam devidamente pagos antes da data da inscrição e que constam no sistema da receita federal. Anexa os comprovantes de pagamentos e tela de "Consulta da Inscrição" emitida pela PGFN (efls. 52 a 54). Procede a irresignação da Recorrente. Em que pese, a correta posição do acórdão da DRJ, de que o pedido de revisão de débitos inscritos em Dívida Ativa da União, feito em 15/05/2014, não ter o condão de suspender a exigibilidade do crédito tributário, nos termos que dispõe o artigo 151 da Lei nº 5.172 de 1966 (Código Tributário Nacional), a recorrente anexou de Consulta da Inscrição Fl. 58DF CARF MF Processo nº 18470.721577/201572 Acórdão n.º 1001000.186 S1C0T1 Fl. 59 4 emitida pela PGFN, na qual consta que o motivo da extinção foi a retificação de pagamentos pela Receita Federal e menciona despacho emitido no dossiê 10010014180071578, cujas informações, no que interessam ao presente, são transcritas a seguir: Informações Gerais da Inscrição (efl. 50) Motivo da Extinção: RETIFICACAO DE PGTO ANTERIOR PELA SRFB. CF DESP EPROC DOSSIE 10010014180071578. (...) Informações de ocorrências (efl. 54) Data Descrição 22/09/2016 OCORRÊNCIA: EXTINCAO POR SITUACAO : EXTINTA POR DECISAO ADMINISTRATIVA ORGAO DE ORIGEM A SER DEV OU ARQ Com os esclarecimentos prestados pela Recorrente e com as informações acima transcritas, obtidas do sistema da PGFN, em "Consulta da Inscrição", fica esclarecido o porquê da existência da inscrição em Dívida Ativa, bem como ter ocorrido a aparente demora do seu cancelamento, na qual, equivocadamente, se fundamentou a decisão recorrida. Dessa forma, comprovado que os débitos, que constavam como não suspensos no prazo limite para a opção ao Simples Nacional, já haviam sido pagos (outubro de 2013) antes do limite para opção pelo Simples Nacional, portanto, inexiste óbice a essa opção. Em face do exposto, e considerando tudo o mais que dos autos consta, voto no sentido de dar provimento ao recurso, para reconhecer o direito da Recorrente de usufruir o benefício do Simples Nacional a partir de 01/01/2015. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 59DF CARF MF
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