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Numero do processo: 10510.722235/2012-00
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Mar 26 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007
RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO
As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado.
GLOSAS DE DESPESAS INDEDUTÍVEIS OU NÃO COMPROVADAS.
São dedutívies na determinação tanto do lucro real como da base de cálculo da CSLL as despesas operacionais necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora.
Além de necessárias, para serem dedutíveis devem ser efetivas e comprovadas por meio de documentação fiscal hábil e idônea.
Ressalvadas situações especiais, a apropriação das despesas pagas ou incorridas deve ser feita, segundo o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento.
DILIGÊNCIAS REALIZADAS.
Realizadas as diligências solicitadas, a Fiscalização afirmou a sua forte convicção que as despesas são necessárias, usuais e normais, retificou o seu entendimento anterior e deixou de glosar qualquer despesa por não atendimento ao requisito legal da necessidade, usualidade e normalidade.
O trabalho da ação fiscal foi revisto para acatar, parcialmente, os argumentos apresentados pelo sujeito passivo, mormente quando amparados em novos elementos probantes.
DESPESAS COM JUROS PAGOS ÀS EMPRESAS SÓCIAS. OPERAÇÕES DE MÚTUO.
Não podem ser deduzidas as despesas relativas a juros decorrentes de empréstimos contraídos com pessoas jurídicas sócias (mutuantes) e devidos pelo sujeito passivo (mutuário) quando não comprovada a forma de quitação do correspondente passivo.
CSLL. DECORRÊNCIA.
O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplica-se, mutatis mutandis, à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova.
Numero da decisão: 1402-002.819
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício; manter a responsabilidade solidária dos coobrigados e dar provimento parcial ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada para excluir da base tributável o valor de R$ 2.876.473,44; correspondente às despesas com equipamentos de manutenção.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Leonardo Luis Pagano Gonçalves - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Julio Lima Souza Martins, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: LEONARDO LUIS PAGANO GONCALVES
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ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. GLOSAS DE DESPESAS INDEDUTÍVEIS OU NÃO COMPROVADAS. São dedutívies na determinação tanto do lucro real como da base de cálculo da CSLL as despesas operacionais necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. Além de necessárias, para serem dedutíveis devem ser efetivas e comprovadas por meio de documentação fiscal hábil e idônea. Ressalvadas situações especiais, a apropriação das despesas pagas ou incorridas deve ser feita, segundo o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento. DILIGÊNCIAS REALIZADAS. Realizadas as diligências solicitadas, a Fiscalização afirmou a sua forte convicção que as despesas são necessárias, usuais e normais, retificou o seu entendimento anterior e deixou de glosar qualquer despesa por não atendimento ao requisito legal da necessidade, usualidade e normalidade. O trabalho da ação fiscal foi revisto para acatar, parcialmente, os argumentos apresentados pelo sujeito passivo, mormente quando amparados em novos elementos probantes. DESPESAS COM JUROS PAGOS ÀS EMPRESAS SÓCIAS. OPERAÇÕES DE MÚTUO. Não podem ser deduzidas as despesas relativas a juros decorrentes de empréstimos contraídos com pessoas jurídicas sócias (mutuantes) e devidos pelo sujeito passivo (mutuário) quando não comprovada a forma de quitação do correspondente passivo. CSLL. DECORRÊNCIA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 51 0. 72 22 35 /2 01 2- 00 Fl. 10362DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.363 2 O decidido quanto ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica aplicase, mutatis mutandis, à tributação decorrente dos mesmos fatos e elementos de prova. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício; manter a responsabilidade solidária dos coobrigados e dar provimento parcial ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada para excluir da base tributável o valor de R$ 2.876.473,44; correspondente às despesas com equipamentos de manutenção. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Julio Lima Souza Martins, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Sousa, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto. Relatório Trata o presente de Recurso de Ofício (fls.9219) e de Recurso Voluntário (fl.9244/9296) ambos interpostos face v. acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Belo Horizonte (fls.9151/9219) que decidiu cancelar parcialmente as exigências perpetradas no Auto de Infração de fls. 2/17 e Termo de Verificação Fiscal fls. 1618/1634. Fl. 10363DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.364 3 Segundo o Relatório Fiscal, o Auto de Infração trata da seguinte matéria: Para a engenharia de detalhamento, construção, montagem, testes e condicionamento da obra do Gasoduto CatúPilar, Malha Nordeste II que integra o Projeto Malhas da Petrobrás, associaramse as empresas Toyo, Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, formando a NEDL – CONSTRUÇÕES DE DUTOS DO NORDESTE LTDA., uma Sociedade de Propósito Especifico, formada por meio de Acordo de Empreendimento Conjunto (Joint Venture Agreement JV) fls. 1855/1912, que é a empresa responsável pela execução completa destas atividades. Diante das recorrentes quedas na arrecadação ocorridas na empresa NEDL Construções de Dutos do Nordeste Ltda, CNPJ 06.190.355/000177, iniciouse procedimento de diligência fiscal, através de Mandado de Procedimento Fiscal n º 0520100.2009.00552, efetuado pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Aracaju/SE, cujo Relatório de Diligência foi encaminhado para a Equipe Regional de Seleção e Programação dos Maiores Contribuintes – EPMAC – da 5ª Região Fiscal. A Epmac da 5ª RF, acatando algumas das sugestões contidas no Relatório de Diligência, propôs a abertura de ação fiscal em nome do sujeito passivo a fim de averiguar o correto registro de custos, despesas na contabilidade e informados na DIPJ. Ato contínuo, foi emitido no dia 30 de agosto de 2011, Termo de Intimação por meio do qual foi solicitado o Livro Razão contendo as informações sobre os valores relativos ao custo e despesas, informado ainda, que seriam solicitados, em data futura, os documentos comprobatórios de tais dispêndios, tais como contrato de prestação de serviços, contrato de mútuo, contrato de aluguéis, dentre outros, além dos documentos que comprovem seu efetivo pagamento. No dia 11 de outubro de 2011, o sujeito passivo atendeu ao que foi solicitado e apresentou os registros contábeis dos custos e despesas informados na DIPJ, constante do Termo de Intimação. Na medida em que os documentos comprobatórios foram apresentados, procedeuse à análise individual de cada um pela Fiscalização. No entanto, devido à grande quantidade de registros e de documentos correlatos, a Fiscalização decidiu fazer um “corte” de valor na ordem de R$ 10.000,00 (dez mil reais). Portanto, somente foram solicitados documentos comprobatórios para a despesa igual ou superior a esse valor. De posse da documentação apresentada, foram elaborados pela Fiscalização Demonstrativos contendo as contas contábeis das despesas deduzidas do lucro real. Esses Demonstrativos foram enviados ao sujeito passivo, sempre em forma de anexo de Termo de Intimação, para que ele apresentasse agora os documentos comprobatórios dos registros contábeis, além de documentos que comprovem seu efetivo pagamento. Fl. 10364DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.365 4 Após análise individual de cada documento apresentado, confrontandoo com o registro contábil, de acordo com o Agente Fiscal, verificouse que muitos valores registrados como despesas ou custos eram indedutíveis e por tal motivo, foram glosados da apuração do lucro real. Resumidamente, de um total de R$ 106.102.495,36, podemos dividir este valor em R$ 105.781.323,84 referente à despesas não comprovadas ou indedutíveis, R$ 170.336,14 de multa por infração fiscal indedutível, R$ 14.128,91 de multa de trânsito indedutível e R$ 136.706,47 relativo a despesa com congraçamentos e brindes. Dentro deste crédito glosado de R$ 105.781.323,83, temos os valores pagos à titulo de juros incorridos sobre empréstimos contraídos junta as empresas sócias, que a Fiscalização considerou como despesas indedutíveis . No dia 31 de maio de 2012, foram lavrados Autos de Infração relativos a IRPJ e CSLL exigindo crédito tributário do anocalendário de 2007, com multa de ofício e juros de mora. O Auto de Infração foi dividido nos seguintes pontos principais: 1 Custos e despesas operacionais, onde se analisou segundo a Fiscalização as despesas não necessárias, despesas não comprovadas e despesas indedutíveis. 2 Planejamento Tributário, com a desclassificação do contrato de mútuo, considerando as operações de empréstimos contraídos com as sócias, elisão tributária, incorrendo em abuso de direito, glosando os juros incorridos sobre empréstimos contraídos junto às empresas sócias. Foram efetuadas glosas na conta de “juros passivos” e na conta de “variação cambial passiva”, por entender o Agente Fiscal que os empréstimos efetuados pelas pessoas jurídicas que fazem parte da NEDL na verdade são aportes de capital, portanto, não são dedutíveis os juros pagos, bem como as variações monetárias passivas, essas oriundas da empresa Toyo, situada no exterior e que também faz parte da sociedade. Segundo a Fiscalização, para gerir uma obra do porte do Gasoduto Catú Pilar, seriam necessários valores iniciais muito acima dos dois milhões do contrato social e por isso ao longo dos períodos seguintes, a NEDL contraiu “empréstimos” junto aos sócios quotistas em quase quatrocentos milhões de reais, por meio de mútuo, o que dá a entender que esses valores que capitalizaram a NEDL são, em verdade, aportes de capitais e não empréstimos como pretenderam as empresas sócias; logo são indedutíveis os valores pagos a título de juros sobre os empréstimos contraídos pela Recorrente, bem como as variações cambiais passivas, relativas aos empréstimos contraídos com a empresa Toyo, esta sediada no exterior. Foram também arrolados como responsáveis solidários nos termos do artigo 124, inciso I do CTN as empresas Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão. Fl. 10365DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.366 5 Segundo a fiscalização, a empresa Toyo Engineering Corporation não foi arrolada como sujeito passivo solidário por ser sediada no exterior e não possuir personalidade jurídica no Brasil. Histórico processual: Após a lavratura do Auto de Infração, a Recorrente e os coobrigados ofereceram impugnação em uma única peça (fls. 1639/1747), todos sendo representados pelos mesmos patronos, juntando documentos aos autos de fls. 1748/6801. Em seguida a Recorrente apresentou petição complementando sua impugnação e juntando mais documentos as fls. 6807/8459. Ato continuo, a DRJ decidiu converter o julgamento em diligencia para que a autoridade fiscalizadora se manifestasse sobre os documentos juntados aos autos com a impugnação e com a petição complementar, conforme texto abaixo extraído da Resolução de fls. 8461/8498. "Tendo em vista a legislação fiscal que envolve a apuração de resultado, no caso de contratos a longo prazo, bem como quanto aos requisitos legais para o reconhecimento de custo ou despesa dedutível e diante da documentação e argumentos apresentados pela defesa (especificadamente para conta contábil cujo custo/despesa foi glosado), fica patente a necessidade de diligências, para que o Fisco reveja o seu trabalho como um todo, notadamente para: (i) quanto às glosas dos dispêndios que envolvem matéria técnica (serviços de engenharia para consecução do gasoduto, consultoria técnica envolvida na obra, locação de máquinas e equipamentos em geral utilizados, etc.), não se pode prescindir de provas ou perícias técnicas ou laudos técnicos, para comprovar a efetividade do serviço prestado; nesse sentido, a autoridade fiscal, sempre que entender necessário para comprovação da efetividade dos serviços prestados deve buscar a produção de tal prova ou solicitar que o contribuinte a providencie ou forneça as que lastrearam as medições efetuadas no curso da obra (como entender melhor ou adequado, caso a caso). (ii) quanto aos dispêndios de consultoria não técnica (área comercial, gerencial, administrativa, etc.) e aos demais serviços (segurança, informática, limpeza, etc.), a autoridade fiscal deve solicitar os elementos que entender necessários para atestar que tais serviços foram efetivamente prestados ou, caso contrário, justificar ou fundamentar, individualmente, o porquê desconsidera a documentação apresentada por não corresponder a serviços efetivamente prestados ou por ser abusivo o valor do gasto registrado contabilmente como despesa. Fl. 10366DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.367 6 (iii) quanto a contratos ou demais documentos redigidos em língua estrangeira, o contribuinte dever ser instado a apresentá los devidamente traduzidos por “tradutor juramentado”. (iv) quanto às glosas dos dispêndios cujo motivo foi a falta de documentação probatória, a autoridade fiscal deve analisar a documentação trazida aos autos pela defesa, solicitar as que faltarem ou trazer aos autos os elementos que entender necessários, para fundamentar, em cada caso, o porquê desconsidera os documentos fiscais existentes, no sentido que não são nem hábeis nem idôneos para comprovar a correspondente despesa nem podem lastrear o respectivo registro contábil feito pelo contribuinte; por outro lado, salientese que, em qualquer caso, a falta de documentação hábil e idônea justifica plenamente a glosa da correspondente despesa, que por esse motivo se torna indevidamente deduzida na determinação do lucro tributável. (v) quanto às glosas dos dispêndios considerados, nos termos da legislação fiscal não necessários, nem usuais ou normais para a manutenção da atividade produtiva do contribuinte, a autoridade fiscal (em cada caso) deve posicionarse acerca dos argumentos e provas trazidos aos autos pela defesa, justificando ou fundamentando (em cada caso), quando ainda entender que determinada despesa não atende ao requisito legal da necessidade, usualidade e normalidade. (vi) quanto às glosas dos dispêndios cujo motivo foi a não comprovação do correspondente pagamento, como se viu, a resposta à pergunta de número “006” (lucro real), do “Perguntas e Respostas 2013” (site da RFB), delineia muito bem a questão, no sentido que “ressalvadas situações especais, a apropriação das despesas pagas ou incorridas deve ser feita, segundo o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento”; no caso concreto, é crível que o contribuinte tenha se utilizado bastante da conta contábil de “fornecedores”, para registrar suas compras de mercadorias ou serviços, a prazo; por outro lado, certamente o pagamento acontecerá, ainda que meses após (essa é a praxe comercial); contudo, a inexistência total de pagamento, caso a caso, não deixa de ser sopesada como um elemento a mais para justificar ou comprovar que a despesa de fato não existiu (no entanto, cada situação deve ser analisada individualmente). (vii) e, finalmente, observase que alguns pontos específicos contidos na impugnação apresentada merecem uma análise à parte da autoridade fiscal, quais sejam, os tratados nos seguintes parágrafos da impugnação: “177”, “221”, “265”, “266”, “268”, “276”, “305”, “327” e “329”. Assim sendo, nos termos do art. 18, do Decreto nº 70.235, de 1972, proponho o retorno do presente processo à DRF de origem para que sejam realizadas diligências, no intuito que o trabalho fiscal seja complementado e revisto como um todo. Fl. 10367DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.368 7 O resultado das diligências solicitadas deve constar de relatório circunstanciado, que indique quais (i) despesas deduzidas devem ser admitidas como dedutíveis, nos termos da legislação fiscal, (ii) por conseguinte, acaso haja alterações, as bases de cálculo modificadas e (iii) respectivos valores devidos do IRPJ e CSLL a serem mantidos no presente lançamento, dandose dele ciência ao contribuinte, com reabertura do prazo de 30 (trinta) dias para que, em querendo, apresente novas razões de defesa. Após efetuado o procedimento acima solicitado, com a juntada da impugnação do contribuinte, se houver, os autos devem retornar a esta DRJ para julgamento." Em resposta a diligencia determinada e após a analise da documentação, a Fiscalização apresentou Relatório de Diligência (fls.8551/8562), acolhendo parcialmente os pleito do sujeito passivo, reduzindo o valor do Auto de Infração de R$ 106.102.495,36 para R$ 17.352.920,14 conforme demonstrativos descritos no corpo do próprio relatório. Basicamente, se pode dividir este valor mantido de R$ 17.352.920,14 em dois pontos principais, o de R$ 4.575.476,35 relativo a glosa de despesas não comprovadas ou não dedutíveis e R$ 12.777.443,79 referente a despesas indedutíveis com juros sobre empréstimos contraídos com as empresas sócias da Recorrida. O sujeito passivo, se manifesta novamente nos autos por meio de três petições de fls. 8566/9147 onde junta mais documentos em relação as despesas não aceitas pela Autoridade Autuante. Em seguida os autos foram encaminhados para a DRJ, que proferiu v. acórdão acolhendo a manifestação da Fiscalização nos termos do Relatório de Diligência, e reconhecendo à mais, mediante analise dos documentos apresentados pela Recorrida, o valor de R$ 1.639.249,16 relativo a glosa de despesas não comprovadas ou não dedutíveis, mantendo o restante das exigências no valor de R$ 15.713.670,98. O valor mantido, no importe de R$ 15.713.670,98 pode ser dividido em entre dois pontos, o primeiro de R$ 12.777.443,79 relativo aos juros advindo dos empréstimos e o segundo, R$ 2.936.227,19 referente a glosa de despesas não comprovadas ou não dedutíveis. Em relação a este restante das glosa de despesas não comprovadas ou não dedutíveis que foram mantidas, o v. acórdão deixou consignado que não às reconheceu devido a falta de coincidência de valores e da necessidade de esclarecimentos complementares no sentido de fortalecer a convicção de que a documentação apresentada está apta para atestar a despesa glosada, cuja oportunidade de fazêlo foi dada no curso das diligências realizadas. (fls. 9213). Em relação aos juros advindos dos empréstimos, o v. acórdão entendeu que no caso vertente, o cerne da questão é que o Fisco fundamentou a autuação na realização de um planejamento tributário abusivo (ilícito). Fl. 10368DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.369 8 Pela ótica posta pelo Fisco, a questão é esclarecer como ocorreu a quitação da dívida assumida pelo contribuinte em favor das suas sócias, em razão de juros cobrados decorrentes de operações de mútuos. Frente a este ponto, entendeu ser relevante o fato de que não restou comprovado nos autos qual foi a forma de quitação do correspondente passivo assumido em contrapartida a esses encargos deduzidos na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, a título de juros e variação cambial. No mais, afastou a preliminar de nulidade, o pedido de perícia, manteve a responsabilidade dos coobrigados pelo crédito exigido, e interpôs Recurso de Ofício em relação a parte do AI cancelado, registrando a seguinte ementa do v. acórdão recorrido: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007 PRELIMINAR DE NULIDADE. Há de se rejeitar a preliminar de nulidade quando o lançamento obedeceu todos os requisitos legais necessários a essa atividade, inclusive tendo sido amplamente garantida a ampla defesa do sujeito passivo. RESPONSABILIDADE PELO CRÉDITO TRIBUTÁRIO As pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador são solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado. GLOSAS DE DESPESAS INDEDUTÍVEIS OU NÃO COMPROVADAS. São dedutívies na determinação tanto do lucro real como da base de cálculo da CSLL as despesas operacionais necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora. Além de necessárias, para serem dedutíveis devem ser efetivas e comprovadas por meio de documentação fiscal hábil e idônea. Ressalvadas situações especiais, a apropriação das despesas pagas ou incorridas deve ser feita, segundo o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento. DILIGÊNCIAS REALIZADAS. Realizadas as diligências solicitadas, a Fiscalização afirmou a sua forte convicção que as despesas são necessárias, usuais e normais, retificou o seu entendimento anterior e deixou de glosar qualquer despesa por não atendimento ao requisito legal da necessidade, usualidade e normalidade. Fl. 10369DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.370 9 O trabalho da ação fiscal foi revisto para acatar, parcialmente, os argumentos apresentados pelo sujeito passivo, mormente quando amparados em novos elementos probantes. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. DESPESAS COM JUROS PAGOS ÀS EMPRESAS SÓCIAS. OPERAÇÕES DE MÚTUO. Revestese do caráter de planejamento tributário abusivo em prejuízo à Fazenda Pública, a dedução de juros decorrentes de empréstimos contraídos com as pessoas jurídicas sócias (mutuantes), contabilizados como despesas e devidos pelo sujeito passivo (mutuário) que não comprova, nos autos, a forma de quitação do correspondente passivo. LANÇAMENTO REFLEXO. CSLL. Por decorrência, o mesmo procedimento adotado para o lançamento principal do IRPJ estendese à CSLL. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte" Inconformada com o v. acórdão, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário (fls.9244/9296), requerendo inicialmente que o Recurso de Ofício seja julgado improvido, repisando praticamente as mesmas alegações feitas na impugnação, incluindo um item às fls. 22/40 do recurso, relativo as despesas não comprovadas e ou não dedutíveis que foram mantidas, onde alega que os julgadores "a quo" não analisaram corretamente as provas de fls. 8566/99147 e explica de forma mais detalhada as divergências apontados na decisão que fundamentaram o não reconhecimento de tais despesas. Ato contínuo, a D. Procuradoria da Fazenda Nacional apresenta contrarazões as fls.9474/9492, requerendo o provimento do Recurso de Ofício e o não provimento do Recurso Voluntário. Aduz em apertada síntese, que o Recurso Voluntário inovou o lançamento e trouxe fatos novos ao explicar as divergência apontadas no v. acórdão recorrido sobre os documentos que comprovariam as despesas, que os documentos apresentados após a impugnação não podem ser aceitos como provas, que deve ser mantida a responsabilidade solidária dos coobrigados. Em seguida, esta C. Turma Julgadora decidiu converter o julgamento do Recurso Voluntário em diligência para que a autoridade autuante analisasse os documentos constantes nos autos com as explicações constantes na peça recursal, nos seguintes termos: Inicialmente passo a analisar os créditos mantidos no importe de R$ 2.936.227,19, relativos aos custos e despesas operacionais que o v. acórdão considerou não comprovadas, para depois analisar o restante das matérias postas a lide. Fl. 10370DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.371 10 O v. acórdão "a quo" (fls.9213) manteve ao valor restante de R$ 2.936.227,19 apenas por entender que havia divergência nos documentos apresentados aos autos pela Recorrente. "Analisada a documentação apresentada, foram aceitas como comprovadas somente as despesas quando verificada, principalmente, a coincidência de valor entre a glosa e documento fiscal anexado. De modo geral, não se aceitou nenhum documento apresentado em razão da falta de coincidência de valores e da necessidade de esclarecimentos complementares no sentido de fortalecer a convicção de que a documentação apresentada está apta para atestar a despesa glosada, cuja oportunidade de fazêlo foi dada no curso das diligências realizadas." (fl. 9213 do v. acórdão recorrido). Após a leitura das explicações descritas no Recurso Voluntário (fls. 22/40 do recurso) e de compulsar os documentos de fls.8566/9147, entendo que o requerimento da Recorrente deve ser acolhido. Ao confrontar os documentos dos autos seguindo as explicações dispostas na peça recursal (fls.22/40), pude constatar que tais despesas restariam sim comprovadas e por isso poderiam ser dedutíveis. As divergências apontadas no acórdão recorrido entre os documentos de fls. 8566/9147 que impediram de conhecer o restante das despesas como comprovadas e dedutíveis, foram muito bem explicadas no corpo do Recurso Voluntário; mais especificamente às fls.22/40 da peça recursal. Neste esteira, para manter a lógica do entendimento exposto pelo Agente Fiscal em seu Relatório de Diligência, bem como a dos D. Julgadores da DRJ e após minha analise, por meio do confronto dos documentos constantes nos autos com as explicações disposta na peça recursal, entendo que o presente julgamento deve ser convertido em diligência para que a Autoridade Fiscal se manifeste sobre a documentação acima apontada confrontando as explicações postas nas fls. 22/40 do Recurso Voluntário. Ante o exposto e por tudo que consta nos autos, proponho converter o julgamento em diligencia para que se analise os documentos de fls. 8566/9147 confrontando as explicações postas nas fls. 22/40 do Recurso Voluntário. A fiscalização elaborou relatório de diligência de fls. 9740/9754, acolhendo parcialmente os argumentos e documentos apresentados pela Recorrente nos autos, conforme quadro abaixo colacionado. 47. Por tudo que foi exposto e após análise dos documentos de folhas 8566/9147, confrontandoos com as explicações contidas no Recurso Voluntário, especialmente as contidas nas folhas de nº 9265/9283 do processo, entendo que o requerimento do sujeito passivo deve ser acolhido parcialmente para aceitar os seguintes valores em suas respectivas contas contábeis: [...]fl. 15 do relatório. Valor R$ 1.118.473,43. Fl. 10371DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.372 11 Em seguida, após o prazo para manifestação sobre o resultado da diligência, a Recorrente apresentou petição de fls. 10201/10205 onde alega que o Relatório de Diligência contém alguns equívocos. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves Relator Fl. 10372DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.373 12 Inicialmente, cumpre ressaltar que foi feita compensação com prejuízo no auto de infração, motivo pelo qual, o valor discutido será maior do que o constante no lançamento de ofício. Do Recurso de Ofício: Conforme Relatório de Diligência de fls.8551/8562 e o decidido no v. acórdão (fls.9115/9219), a matéria cancelada e recorrida por meio de Recurso de Ofício, trata exclusivamente de se comprovar os fatos por meio de provas documentais, o que foi feito pela Recorrida ao juntar documentos em sede de impugnação de fls.1748/6801, a petição complementar de fls. 6807/8459 e a manifestação em resposta a diligência de fls. 8566/9147. Os documentos foram analisados tanto pela Autoridade Autuante, como pelos D. Julgadores da DRJ, que entenderam restar devidamente comprovadas e legitimas as despesas relativas aos créditos cancelados. Após compulsar os autos, também acompanho o entendimento do D. Agente Fiscal e dos MM. Julgadores da DRJ, no sentido de que restaram comprovadas e dedutíveis da determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL as despesas operacionais necessárias a atividade e a manutenção da empresa. Tais despesas necessárias e efetivas, foram comprovadas por meio de documentação fiscal hábil e idônea, podendo assim serem deduzidas. Ademais, conforme muito bem analisado no Relatório de Diligência, a apropriação destas despesas pagas ou incorridas devem ser feitas de acordo com o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento, o que restou comprovado nos autos que ocorreu. Assim, em relação a matéria relativa ao Recurso de Ofício, abaixo indicada, entendo que o v. acórdão deve ser mantido em sua totalidade. Vejamos as matérias que foram analisadas no Recurso de Ofício. 1 cancelamento da glosa dos "serviços prestados por PJ" indicados na Ficha 4A (fl. 10 do Relatório de Diligência de fls. 8551/8562) e das despesas com locação indicadas na Ficha 5A Despesas Operacionais (fl. 11 do Relatório de Diligência de fls. 8551/8562). 2 redução dos "Outros Custos" da Ficha 4A, no importe de R$ 45.733.638,51 para apenas o valor R$ 3.083.229,88 e das "Outras Despesas Operacionais" da Ficha 5A de R$ 6.924.204,75 para R$ 964.019,40, ambas indicadas na fl. 10 do Relatório de Diligência de fls. 8551/8562. 3 cancelamento das "Outras despesas operacionais" da Ficha 6A, relativas a juros passivos, tarifas bancárias/IOF. (em relação a este ponto, a diligência manteve apenas a glosa relativa a juros sobre empréstimos no importe de R$ 12.777.443,79, que será analisado no Recurso Voluntário). Fl. 10373DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.374 13 4 no v. acórdão também foram excluídos os valores das glosas relativos a Locação de Equipamento de Produção 1.171.287,49, das Peças para Reparação e Manutenção 25.130,00, do Material de Segurança 51.440,00 e dos Serviços Prestados por Pessoa Jurídica R$ 391.391,67, restando o valor para ser analisado em sede de Recurso Voluntário de R$ 2.876.473,44. (fl. 67 e itens 4.1 e 4.2 do v. acórdão e fl. 9217/9218 dos autos). Desta forma, conheço o Recurso de Ofício e nego provimento, devendo ser mantido v. acórdão "a quo" em relação aos créditos cancelados do Auto de Infração. Do Recurso Voluntário: Inicialmente passo a analisar os créditos mantidos no importe de R$ 2.876.473,44, relativos aos custos e despesas operacionais que o v. acórdão considerou não comprovadas, para depois analisar as despesas com juros advindos de empréstimos com os sócios. Em uma primeira análise dos autos esta C. Turma Ordinária decidiu converter o julgamento em diligência para que a Unidade Autuante analisasse os documentos de fls. 8566/9147, juntamente com as explicações fornecidas pela Recorrente em seu Recurso Voluntário às fls. 22/40. Em resposta a diligência determinada por esta C. Turma Julgadora (fls. 9726/9734), a fiscalização (Agente Autuante) elaborou Relatório de Diligência (fls. 9740/9754) reconhecendo como comprovada a parcela de R$ 1.118.473,43, mantendo o restante. O Relatório de Diligência reconheceu valores relativos a glosa das contas Seguros, mais alguns relativos a Serviços Prestados por Pessoas Jurídicas, da conta de Material de Segurança, conta de Peças de Manutenção e de Reposição e a conta de Telefones. (fl. 15 do Relatório). Entretanto, apesar de a Resolução que converteu o julgamento em diligência determinar que a Unidade Autuante analisasse os documentos de fls. 8566/9147, juntamente com os fundamentos postos nas fls. 22/40 do Recurso Voluntário, em relação as despesas com equipamentos de produção o Relatório de Diligência não apresentou nenhuma fundamentação. Tais despesas com equipamentos de produção encontramse registradas na Conta Contábil 3.1.1.01.05, explicadas às fls. 31/40 do recurso e lastreadas com os documentos de numero 42/80 de fls. 8851/9147 dos autos, denominados nos andamentos do processo como "Manifestação Referente a Diligência Fiscal". Os documentos são comprovantes de transferência (transferência eletrônica TED) bancarias expedidos pelo Banco do Brasil e notas fiscais de prestação de serviços, Boletim de Medição onde consta a descrição dos equipamentos alugados sem a inclusão do custo da mão de obra e recibos de quitação. Ao analisar os documentos constantes nos autos relativos as estas despesas com as explicações constantes nas fls. 31/40 do recurso e tendo em vista que o Relatório de Diligência deixou de apontar fundamentos para manutenção ou cancelamento do glosa, Fl. 10374DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.375 14 entendo que tais créditos relativos a despesas com Equipamentos de Manutenção devem ser excluídos da exigência fiscal prevista no Auto de Infração. Sendo assim, cancelo a glosa no valor de 2.876.473,44 e passo a analisar a glosa relativa aos juros incorridos de empréstimos. Dos R$ 12.777.443,79 relativos as despesas com juros incorridos de empréstimos com os sócios da Recorrente: A Recorrente alega que a operação de mútuo que gerou o crédito não contrariou a legislação da época, respeitando as regras de Distribuição Disfarçada de Lucros DDL, a regra de preços de transferência e a de subrogação vigentes à época. Para este tópico, entendo ser importante registrar que o Relatório Fiscal do Auto de Infração não utilizou como fundamentação para desqualificar as operações de mútuo e considerálas como se fossem aportes de capitais, a hipótese de que a Recorrente desrespeitou tais regras de pagamento de despesas e juros. Deste forma, entendo que neste parte o v. acórdão recorrido deve ser mantido em seus termos. Para melhor esclarecer, transcrevo abaixo a parte do acórdão recorrido que tratou deste ponto. "Primeiramente, no que toca aos argumentos expostos pela defesa, no intuito de demonstrar que as operações de empréstimos desconsideradas não ferem às restrições legais existentes (regras de “DDL”, de preços de transferência e de subcapitalização), digase que, segundo consta do Relatório Fiscal, tais regras não foram invocadas como fundamento pela Fiscalização para tratar as referidas operações de mútuos como se fossem meros aportes de capitais. Portanto, nessa questão, ainda que não se possa deixar de dar razão aos argumentos postos na defesa, esses não podem influenciar o deslinde da controvérsia, na medida em que não se ligam ao cerne da fundamentação utilizada para atuar, qual seja, a consideração de que houve abuso de direito, vedado pela lei civil, em prejuízo à Fazenda Nacional." Portanto, essas alegações da Recorrente não podem influenciar o deslinde da controvérsia, na medida em que não se ligam ao cerne da fundamentação utilizada para glosar os créditos. Da leitura do Relatório Fiscal, se pode extrair que a D. Fiscalização considerou que ocorreu abuso de direito, utilizandose de planejamento tributário, gerando assim prejuízo à Fazenda Nacional. A Recorrente alega também, que seria inaplicável a fundamentação legal nos termos do artigo 116 do CTN para desconsiderar a operação de empréstimo. Fl. 10375DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.376 15 Da mesma forma, entendo que a Recorrente não tem razão em relação a esta alegação, pois o Relatório Fiscal utilizou o artigo 116 do CTN dentro do contexto para explicar de forma exemplificativa a aplicação da principal fundamentação para lavrar o Auto de Infração, que reside na constatação de planejamento tributário e de abuso de direito nos termos do Código Civil. Desta forma, entendo que está alegação da Recorrente não merece prosperar. A Recorrente também aduz que no presente caso, como a apropriação de receitas e despesas devem seguir o regime de competência, a dedutibilidade de tais despesas pressupõe que sejam incorridas no período base, independentemente do seu efetivo pagamento. Ocorre que a Fiscalização não questionou este ponto, o que foi perguntado pela Autoridade Autuante foi a forma pela qual ocorreu a quitação do suposto contrato de mútuo que gerou os juros deduzidos na determinação do lucro real e da base de calculo da CSLL a titulo de juros e variação cambial. A Recorrente, não conseguiu responder tal questionamento e não apresentou nos autos nenhuma prova de qual foi a forma utilizada para quitar os empréstimos. Por tal motivo, a Fiscalização entendeu que as operações de mútuo eram na verdade aportes de capitais, desqualificando as operações e glosando os juros deduzidos a título de despesa. Desta forma, entendo que nesta parte o v. acórdão deve ser mantido e para evitar repetições transcrevo abaixo a parte relativa a dedução dos juros advindos de empréstimos para fundamentar meu voto. "A Fiscalização glosou a importância de R$12.777.443,79 relativa a juros sobre empréstimos obtidos com partes relacionadas. O fundamento dessa autuação reside basicamente na desconsideração das operações de mútuos efetuados pelas sócias quotistas da NEDL que não seriam senão aportes de capital. Para o Fisco, o que ocorreu foi um planejamento tributário ilícito (simulado), na medida em que ao capitalizar a NEDL por meio de mútuos, isso permitiu a dedução (indevida) na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL dos juros sobre os “empréstimos” contraídos. O Fisco defende que houve abuso de direito (vedado pela lei civil), porque essas operações (empréstimos contraídos com as sócias) foram efetuadas com o objetivo único e exclusivo de deduzir juros e a despesa de variação cambial passiva; sustentou ainda que a NEDL não comprovou o efetivo pagamento ou a transferência dos recursos. Fundamentalmente, a Impugnante construiu a sua defesa salientando que (a) tais operações de mútuos não feriram as restrições legais existentes, atinentes (i) à regra de Distribuição Disfarçada de Lucros (“DDL” – art. 464, VI, do RIR/1999), (ii) à regra de preços de transferência, na redação vigente em 2012 Fl. 10376DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.377 16 (art. 22, §4º, da Lei 9.430/1996 vide MP 563, de 2012, e Lei 12.715, de 2012) e (iii) às regras de subcapitalização vigentes a partir de 01.01.2010, em obediência ao princípio constitucional da anterioridade (vide arts. 24 e 25, da MP nº 472, de 15.12.2009, convertida Lei 12.249, de 11.06.2010); e (b) a apropriação de receitas e despesas deve seguir o regime de competência e a dedutibilidade das despesas pressupõe que sejam incorridas no período base (independentemente do seu efetivo pagamento); e (c) a inaplicabilidade da fundamentação legal utilizada para desconsiderar as operações de empréstimos (art. 116 do CTN, inocorrência de simulação e de abuso de direito). Primeiramente, no que toca aos argumentos expostos pela defesa, no intuito de demonstrar que as operações de empréstimos desconsideradas não ferem às restrições legais existentes (regras de “DDL”, de preços de transferência e de subcapitalização), digase que, segundo consta do Relatório Fiscal, tais regras não foram invocadas como fundamento pela Fiscalização para tratar as referidas operações de mútuos como se fossem meros aportes de capitais. Portanto, nessa questão, ainda que não se possa deixar de dar razão aos argumentos postos na defesa, esses não podem influenciar o deslinde da controvérsia, na medida em que não se ligam ao cerne da fundamentação utilizada para atuar, qual seja, a consideração de que houve abuso de direito, vedado pela lei civil, em prejuízo à Fazenda Nacional. Quanto ao art. 116 do CTN, digase que foi mencionado no Relatório Fiscal dentro do contexto posto pelo Fisco de que não se pode admitir o planejamento tributário engendrado pela Impugnante. O fundamento da autuação, nessa parte, reside essencialmente no Código Civil, art. 187, que veda o abuso de direito, nos seguintes termos: [...] Por sua vez, como já se viu, a dedutibilidade das despesas necessárias, está prevista no art. 299 do RIR/99, verbis: [...] Ainda, no RIR/1999, especificamente quanto à despesa de juros, prescreve o art. 374: [...] Assim, combinando os transcritos dispositivos legais, os juros pagos ou incorridos são dedutíveis, como despesa operacional, desde que necessários. Nesse sentido, são necessárias as despesas de juros pagos ou incorridos que remunerem capitais emprestados para manter as fontes de receitas da pessoa jurídica. Os capitais recebidos em mútuo devem ser utilizados na realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa. Fl. 10377DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.378 17 E, como regra geral, não há vedação na lei para a dedutibilidade de juros pagos ou incorridos decorrentes de empréstimos de pessoas ligadas (como sócios), salvo na situação prevista no parágrafo único do art. 374, do RIR/1999, o qual veda a dedução de juros pagos a pessoa controlada ou coligada domiciliada no exterior, quando existam lucros não disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil. No caso vertente, é inequívoco que os recursos captados pela NEDL de suas sócias nas operações de empréstimos desconsideradas na presente autuação foram empregados na execução do referido gasoduto. A própria Fiscalização deixa isso bem evidente, quando sustenta que os empréstimos nada mais foram que aportes de capitais. No entanto, também a questão da necessidade ou desnecessidade dos referidos dispêndios contabilizados como despesas de juros incorridos pela Impugnante não foi o fundamento da autuação. De outro lado, como salientou a própria defesa: “afirmam as Autoridades Fiscais que a NEDL não comprovou o efetivo pagamento ou transferência dos recursos”. Como já se viu, no que toca simplesmente à questão de o pagamento de despesas ser condição de dedutibilidade (o que também se aplica às despesas com juros), tal ponto foi abundantemente abordado no item (vi) da Resolução 2.001.717 (documentação já citada): (vi) quanto às glosas dos dispêndios cujo motivo foi a não comprovação do correspondente pagamento, como se viu, a resposta à pergunta de número “006” (lucro real), do “Perguntas e Respostas 2013” (site da RFB), delineia muito bem a questão, no sentido que “ressalvadas situações especais, a apropriação das despesas pagas ou incorridas deve ser feita, segundo o regime de competência, independentemente da época de seu efetivo pagamento”; (...); contudo, a inexistência total de pagamento, caso a caso, não deixa de ser sopesada como um elemento a mais para justificar ou comprovar que a despesa de fato não existiu (no entanto, cada situação deve ser analisada individualmente).(O sublinhado não consta do original) Assim sendo, o pagamento de despesas, por si só, não é condição dedutibilidade. Entretanto, no caso vertente, o cerne da questão é outro, à medida que o Fisco fundamentou a autuação na realização de um planejamento tributário abusivo (ilícito). Ocorre que, dentro desta ótica (posta pelo Fisco), a questão é esclarecer como ocorreu a quitação da dívida assumida pelo contribuinte em favor das suas sócias em razão de juros cobrados decorrentes de operações de mútuos . Relevante, então, é o fato de que não restou comprovado nos autos qual foi a forma de quitação do correspondente passivo assumido em contrapartida a esses encargos deduzidos na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, a título de juros e variação cambial. Tal quitação se deu por meio de compensação, instituto previsto no Código Civil de 2002 (arts. 368 a 380)? A regra básica é (art. Fl. 10378DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.379 18 368), no sentido de que “se duas pessoas forem ao mesmo tempo credor e devedor uma da outra, as duas obrigações extinguemse, até onde se compensarem”. Ou ainda, a NEDL efetuou o pagamento de despesas por conta e ordem das sócias, como forma de quitação desse passivo? E quais teriam sido os procedimentos e registros contábeis adotados tanto do lado da Impugnante como das suas sócias? Ou tal passivo permanece em aberto? Em suma, revestese do caráter de planejamento tributário abusivo a dedução de juros decorrentes de empréstimos contraídos com as pessoas jurídicas sócias (mutuantes), contabilizados como despesas e devidos pelo sujeito passivo (mutuário) que não comprova, nos autos, a forma de quitação do correspondente passivo. Vale dizer, a defesa não esclareceu qual teria sido a forma de quitação do referido passivo, ponto esse que permanece em aberto nos autos. Tal fato, por si só, convertesse em um forte indício no sentido que houve planejamento tributário abusivo, em prejuízo à Fazenda Pública. Feitas essas considerações, mantémse, nessa parte, integralmente a glosa procedida pela Fiscalização." Desta forma, face argumentos acima expostos, entendo que a glosa relativa as despesas de juros incorridos de contratos de mútuo devem ser mantidas, assim como a parte do v. acórdão que tratou desta matéria. Da responsabilidade dos sócios nos termos do artigo 124, inciso I do CTN: Apesar da Recorrente alegar em sede de preliminar de seu Recurso Voluntário a exclusão dos sócios do pólo passivo como responsáveis solidários, para manter a lógica de meu julgamento, analiso agora este ponto. O Relatório Fiscal fundamentou a inclusão dos sócios da Recorrente como responsáveis solidários nos termos do artigo 124, inciso I do CTN da seguinte forma: "A solidariedade tributária consiste na possibilidade de a Fazenda poder exigir o tributo de mais de uma pessoa vinculada ao fato gerador. Embora o natural devedor do tributo seja o contribuinte, em face de sua vinculação pessoal e direta com a materialidade do tributo, podem existir outras pessoas a ele vinculadas, e que tenham interesse no respectivo ônus. O dispositivo legal sobre solidariedade da obrigação tributária que será aplicada na presente ação fiscal é o inciso I, do art. 124, do Código Tributário Nacional, assim transcrito: Fl. 10379DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.380 19 [...] Nessa ação fiscal, formalmente, a NEDL – Construções de Dutos do Nordeste Ltda., sujeito passivo dessa ação fiscal, foi constituída sob a natureza de sociedade empresária limitada, tendo como sócias as empresas, conforme Instrumento Particular de Constituição daquela empresa (Contrato Social): Toyo Engineering Corporation [...] Construções e Comércio Camargo Corrêa S/A., [...] Construtora Andrade Gutierrez S/A., [...] Construtora Queiroz Galvão S/A., [...] Ainda segundo o Contrato Social, “o objeto social da empresa é gerenciar a execução de gasodutos e oleodutos referentes ao Projeto Malha do Nordeste II, incluindo os projetos de engenharia relacionados à sua construção; gerenciar os serviços necessários à execução dos gasodutos e oleodutos; prestar serviços de assessoria e consultoria ligados a tais gasodutos e oleodutos, incluindo as fases de estudo de viabilidade, construção, operação e atividades afins; executar a construção destes gasodutos e oleodutos; fornecer materiais, bens e serviços ligados ao gerenciamento, execução e construção destes gasodutos e oleodutos, através da aquisição, locação ou outras formas.” Não obstante constar no Contrato Social que a empresa terá tempo de duração indeterminado, analisando seu objeto, acima transcrito, verificase que sua duração real, de fato, é a mesma duração da conclusão do Projeto Malha do Nordeste II. Tanto isso é verdade que atualmente a NEDL não existe fisicamente, de fato. Existe apenas no mundo jurídico para responder por suas obrigações trabalhistas, previdenciárias, tributárias, etc. A NEDL foi formada por aquelas quatro empresas para a execução do Projeto Malha do Nordeste II, e que durante o período fiscalizado (2007 e 2008), conforme o Contrato Social, toda a administração da sociedade coube a uma diretoria, inicialmente composta de até oito membros indicados pelas empresas sócias, restando patente o interesse comum das sócias nas situações que constituíram os fatos geradores do crédito tributário lançados na presente ação fiscal. Assim, à luz do inciso I, do art. 124, do Código Tributário Nacional, acima transcrito, serão arrolados como sujeitos passivos solidários as empresas Construções e Comércio Camargo Corrêa S/A., Construtora Andrade Gutierrez S/A. e Construtora Queiroz Galvão S/A.. Fl. 10380DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.381 20 A empresa Toyo Engineering Corporation não será arrolada como sujeito passivo solidário por ser sediada no exterior e não possuir personalidade jurídica no Brasil." Notese que a Fiscalização tem como seu principal argumento para responsabilizar solidariamente as empresas sócias, o fato de a Recorrente ter sido uma sociedade de propósito específico ou Acordo de Empreendimento Conjunto Joint Venture Agreement , que se extinguiria com a conclusão da obra do Gasoduto, bem como pelo fato de no momento da autuação a empresa não existir mais fisicamente, apenas no mundo jurídico. Se analisarmos todo o contexto fático dos autos, podemos notar que as empresas sócias que compunham a sociedade de propósito específico, atuaram em conjunto na operação de "empréstimo" (agora considerada como operação de aporte), que acabou acarretando na infração a lei tributária. Também não resta dúvida de que é no momento do lançamento de ofício que todos os responsáveis pelo crédito tributário devem ser identificados com precisão, nos termos do artigo 142 do CTN. Desta forma, entendo correta a responsabilização solidária dos sócios da Recorrente nos termos do artigo 124, inciso I do CTN, devendo ser mantida esta parte do v. acórdão recorrido. No mais, utilizo os fundamentos da acórdão " a quo" para motivar a conclusão do meu voto. "No Relatório Fiscal RF, no item da Sujeição Passiva Solidária o Fisco relata o porquê adotou tal medida e quais os fundamentos e bases legais que a ancoram. Na impugnação apresentada, tal medida levada a cabo pela Fiscalização foi rebatida. Quanto aos aspectos legais da imputação de responsabilidade pelo crédito tributário, primeiramente ressaltese que, de acordo com o RF, as pessoas jurídicas arroladas como responsáveis solidárias pelo crédito tributário lançado o foram com fundamento na disposição do art. 124, I CTN, que assim prescreve: [...] Em conformidade com os fatos relatados neste voto, extraídos do RF, estáse diante de um caso típico de responsabilidade solidária passiva, fundamentado no art. 124, I do CTN. É fato incontroverso nos autos que a constituição da NEDL teve por base o Joint Venture Agreement (Acordo de Empreendimento Conjunto) firmado entre a TOYO, a CCC, a CAG e a CQG com o fim exclusivo de se associar para conjuntamente e individualmente construir e executar o Gasoduto CatúPilar, Malha Nordeste II, integrante do Projeto Malhas da Petrobrás, que é composto por uma linhatronco com 26” de diâmetro e Fl. 10381DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.382 21 441 Km de extensão e dois ramais de 14” de diâmetro, que totalizam 56 Km. Tal fato, por si só, já caracteriza o interesse comum de que trata o transcrito inciso I, do art. 124, do CTN. É evidente que houve a formação de um megaempreendimento com a comunhão de bens materiais, financeiros e de “known how” (conhecimento tecnologia) para a consecução dessa grande obra civil. Ou seja, o que se comprova, no caso vertente, é que o Joint Venture Agreement formado tinha interesse comum na situação que constitui o fato gerador dos tributos ora lançados, dado que conjugou empresas, capacitadas técnica e economicamente no intuito único e exclusivo de levar adiante a referida mega obra civil. Para tanto, houve sem sombras de dúvidas a comunhão de interesses e de bens (materiais e imateriais) das referidas empresas sócias desse empreendimento. De acordo com a defesa, a atribuição de responsabilidade tributária se deu sem obediência ao princípio da legalidade. Todavia, tal alegação não prospera, haja vista que o art. 124, I, do CTN, dá guarida, “in casu”, à atribuição de responsabilidade tributária levada a cabo pela Fiscalização. É oportuno valerse das lições de Luciano Amaro (págs. 294 e 295 da obra “Direito Tributário Brasileiro”): [...] Como se depreende do texto destacado acima, identificada a hipótese de incidência prevista no inciso I do art. 124 do CTN – existência de pessoas com interesse comum na situação que deu azo ao fato gerador – é inadequado aventarse a necessidade de disposição expressa de lei para caracterizála, uma vez que o próprio dispositivo legal citado já a fundamenta. A defesa sustenta que na responsabilidade tributária prevista no art. 124, I, do CTN, não basta o fato de as empresas pertencerem ao mesmo grupo econômico. Todavia, o ponto não é esse, na medida em que as empresas sócias desse empreendimento são independentes entre si, não relacionadas (pelo menos não se tem notícia nos autos que sejam empresas ligadas, nos termos da lei, formem ou pertençam a um grupo econômico). O fato contundente que fundamenta a imputação de responsabilidade levada a cabo pela Fiscalização com base no mencionado dispositivo legal é, como já se disse, a formação do aludido Joint Venture Agreement. Enfim, ficam com base no art. 124, I, do CTN, solidariamente responsáveis pelo crédito tributário lançado, as empresas CCC, AG e QG, devidamente identificadas nos correspondentes de Sujeição Passiva Solidária (documentação já citada)." Do pedido de perícia: Fl. 10382DF CARF MF Processo nº 10510.722235/201200 Acórdão n.º 1402002.819 S1C4T2 Fl. 10.383 22 Conforme histórico processual, não há que se falar em pedido posterior de juntada de provas ou de conversão do julgamento em diligência para que se analise novamente os fatos e provas dos autos. Em relação ao pedido de perícia, entendo que não merece ser acolhido, tendo em vista a exaustiva prestação jurisdicional ao analisar os fatos e provas dos autos. Desta forma, como entendo ser desnecessária a perícia requerida pela Recorrente, nos termos do artigo 18 do Decreto 70.235/72 nego provimento ao pleito da Recorrente. Ante o exposto e por tudo que consta processado nos autos, conheço do Recurso de Oficio e voto no sentido de negar provimento, e também conheço do Recurso Voluntário e dou parcial provimento para cancelar a exigência dos créditos relativos as despesas não comprovadas no importe de R$ 2.876.473,44, mantendo o restante da glosa no importe de R$ 12.777.443,79 da decisão “a quo” em seus termos. (assinado digitalmente) Leonardo Luis Pagano Gonçalves Fl. 10383DF CARF MF
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Numero do processo: 12448.727315/2013-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Data do fato gerador: 18/09/2008, 17/10/2008
IRPF. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ISENÇÃO. DECRETO-LEI 1.510/76. DIREITO ADQUIRIDO.
Em respeito ao instituto constitucional do direito adquirido, ganho auferido sobre operação de alienação de participação societária, mesmo que ocorrida após a revogação do Decreto-Lei que instituiu a isenção de IRPF, faz jus a tal benefício se as condições para a sua concessão foram cumpridas antes da vigência da legislação posterior que transformou a isenção em hipótese de incidência.
Numero da decisão: 2201-004.305
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Dione Jesabel Wasilewski.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim - Relator.
EDITADO EM: 15/03/2018
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: RODRIGO MONTEIRO LOUREIRO AMORIM
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GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ISENÇÃO. DECRETOLEI 1.510/76. DIREITO ADQUIRIDO. Em respeito ao instituto constitucional do direito adquirido, ganho auferido sobre operação de alienação de participação societária, mesmo que ocorrida após a revogação do DecretoLei que instituiu a isenção de IRPF, faz jus a tal benefício se as condições para a sua concessão foram cumpridas antes da vigência da legislação posterior que transformou a isenção em hipótese de incidência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. Votaram pelas conclusões os Conselheiros Carlos Alberto do Amaral Azeredo e Dione Jesabel Wasilewski. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim Relator. EDITADO EM: 15/03/2018 AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 72 73 15 /2 01 3- 51 Fl. 1042DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.043 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, José Alfredo Duarte Filho, Douglas Kakazu Kushiyama, Marcelo Milton da Silva Risso, Dione Jesabel Wasilewski, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. Relatório Cuidase de Recurso Voluntário de fls. 696/725, interposto contra decisão da DRJ em Porto Alegre/RS, de fls. 537/553, a qual julgou procedente o lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Física – IRPF de fls. 68/73, lavrado em 06/08/2013, relativo a fatos geradores ocorridos em 18/09/2008 e 17/10/2008, com ciência do RECORRENTE em 09/08/2013 (fl. 78). O crédito tributário objeto do presente processo administrativo foi apurado no valor de R$ 2.260.226,14, já inclusos juros de mora (até o mês da lavratura) e multa proporcional de 10%. O auto de infração tem por objeto a omissão de ganhos de capital, por parte de GILDA BARROSO ROMANO, auferidos na alienação de ações correspondentes a 16,76% da participação no capital social da CASA DE SAÚDE SANTA LUCIA, conforme Termo de Constatação e Verificação Fiscal. De acordo com o Termo de Constatação e Verificação Fiscal, acostado às fls. 58/66, o auditor fiscal considerou a responsabilidade tributária decorrente do art. 131, II, do CTN e constatou que são pessoalmente responsáveis, pelo crédito tributário apurado, o ora RECORRENTE e os seus 04 irmãos, na qualidade de herdeiros de sua mão GILDA BARROSO ROMANO. Afirma que os herdeiros receberam da mãe, a título de adiantamento de legítima, a doação total de R$ 10.000.000,00, sendo R$ 2.000.000,00 para cada herdeiro., Assim, seriam pessoalmente responsáveis pelo crédito tributário, até o limite do quinhão recebido (R$ 2.000.000,00), cada um dos herdeiros donatários abaixo: A autoridade lançadora destacou que, conforme Instrumento Particular de Promessa de Cessão e Transferência de Direitos Hereditários, de Cessão e Transferência de Ações, Renúncia de Direitos e Ações e Outras Avenças, datado de 18/09/2008 (fls. 10/32), e a Escritura Definitiva referente às mesmas operações, datada de 17/10/2008 (fls. 34/51), houve a cessão, pela Sra. GILDA BARROSO ROMANO, das ações representativas de 16,76% do capital social da CASA DE SAÚDE SANTA LUCIA, pelo valor de R$ 10.000.000,00. E, de acordo com a Escritura Pública, os direitos creditórios decorrentes da cessão das ações foram doados, na qualidade de antecipação de legítima, em partes iguais, aos filhos, únicos herdeiros da doadora. Fl. 1043DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.044 3 Neste sentido, a autoridade fiscal apontou que a cessão das ações sujeitase à apuração dos ganhos de capital. Assim, consoante a declaração de ajuste da Sra. GILDA, apurou o custo de aquisição de R$ 245.328,00 e constatou que o ganho de capital foi de R$ 9.754.672,00 (97,54% da venda). Recorreu à cláusula 1.2 da Escritura Definitiva para verificar a data do fato gerador, conforme abaixo: Sobre o pagamento mediante notas promissórias, verificou que a cláusula 1.6 da Escritura Definitiva previa que todas elas foram emitidas em caráter pro soluto. Discorreu sobre a diferença entre as cláusulas pro soluto e pro solvendo para concluir que os pagamentos mediante títulos emitidos em caráter pro soluto são considerados à vista. Assim, definiu que as datas e correspondentes valores recebidos foram os seguintes: Sendo assim, apurou o valor do imposto, conforme abaixo: Sobre a responsabilidade tributária dos herdeiros, discorreu o seguinte: (...) Fl. 1044DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.045 4 Neste sentido, considerando a inexistência de espólio, o auto de infração foi lavrado em nome do RECORRENTE, com a responsabilidade pessoal de todos os demais herdeiros donatários, nos termos do art. 23, I, do RIR/99: “Art. 23. São pessoalmente responsáveis: I o sucessor a qualquer título e o cônjuge meeiro, pelo tributo devido pelo de cujus até a data da partilha ou adjudicação, limitada esta responsabilidade ao montante do quinhão, do legado, da herança ou da meação; II o espólio, pelo tributo devido pelo de cujus até a data da abertura da sucessão. § 1º Quando se apurar, pela abertura da sucessão, que o de cujus não apresentou declaração de exercícios anteriores, ou o fez com omissão de rendimentos até a abertura da sucessão, cobrarseá do espólio o imposto respectivo, acrescido de juros moratórios e da multa de mora prevista no art. 964, I, "b", observado, quando for o caso, o disposto no art. 874 (Decreto Lei nº 5.844, de 1943, art. 49).” A multa foi lavrada no percentual de 10% em razão do disposto no art. 964, I, “b”, do RIR/99: “Art. 964. Serão aplicadas as seguintes penalidades: I multa de mora: (...) b) de dez por cento sobre o imposto apurado pelo espólio, nos casos do § 1º do art. 23 (DecretoLei nº 5.844, de 1943, art. 49);” O RECORRENTE apresentou sua Impugnação de fls. 94/122 em 02/07/2013. Neste ponto, adoto trecho do relatório contido no acórdão proferido pela DRJ, por bem resumir a matéria de defesa apresentada: “(...) Nessa peça o interessado alega, em síntese: a) que foi apresentada tempestivamente; Fl. 1045DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.046 5 b) que, com a apresentação tempestiva da impugnação, é assegurada a suspensão da exigibilidade do crédito tributário, de acordo com o art. 151, III, do CTN; c) que o valor transferido pela mãe do contribuinte foi tributado como doação quando desta, tendo sido recolhido o imposto estadual, o ITCMD; d) que as ações que foram alienadas pela genitora do interessado teriam sido adquiridas sob a égide do DecretoLei nº 1.510/1976 e que, como ela ficou com as ações por mais de cinco (5) anos, a operação seria isenta de ganhos de capital – haveria direito adquirido à isenção (cita ementas de decisões judiciais e administrativas); e) que a fiscalização atribuiu aos herdeiros o imposto que teria sido devido em vida pela sua genitora e que, de acordo com a Certidão de Óbito (fl. 57), sua genitora teria falecido sem deixar bens a inventariar, mas que isso não seria a realidade; f) que como a sua mãe havia falecido após o fato gerador dos tributos, os herdeiros não seriam responsáveis pelas dívidas, mas sim o espólio (cita jurisprudência); g) que a fiscalização cometeu um erro ao afirmar que os herdeiros seriam responsáveis diretos pelas obrigações tributárias remanescentes do de cujus por nenhum dos filhos ter aberto o inventário; h) que a afirmação de “não haver espólio” seria errônea e discorre sobre a diferença entre espólio, “conjunto de bens, direitos e obrigações da pessoa falecida” e inventário, que, de acordo com o impugnante, “é o processo físico – judicial ou extrajudicial – em que apura e partilha os bens do espólio entre os herdeiros”; i) que a cláusula pro soluto não refletiria a realidade do negócio entre a família e a Amil, pois haveria um conjunto de exigências previsto no negócio que, assim, teria, na realidade, natureza de pro solvendo. Pede pelo reconhecimento da isenção pleiteada na impugnação e, se essa não for reconhecida, que seja admitido que houve erro na identificação do sujeito passivo, que seria o espólio e não os herdeiros. Adicionalmente, pede que seja reconhecida a natureza pro solvendo das notas promissórias, uma vez que os valores poderiam sofrer ajustes vinculados a condições contratuais e que esse fato afastaria a obrigatoriedade do recolhimento antecipado do tributo. Assim, o Auto de Infração serie nulo de pleno direito e a autuação deveria ser anulada.” Os demais responsáveis tributários apresentaram defesas às fls. 208/236, 345/356, 406/417 e 476/487 em que, praticamente, reiteram as alagações de defesa do RECORRENTE. Fl. 1046DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.047 6 Quando do julgamento do caso, a DRJ em São Paulo/SP julgou procedente o lançamento (fls. 533/553). Transcrevo abaixo a ementa do acórdão proferido na ocasião: “ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2008 PRELIMINAR DE NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO. NORMAS PROCESSUAIS. NULIDADE. Comprovado que o procedimento fiscal foi regularmente efetuado, não se apresentando nos autos as causas apontadas no art. 59 do Decreto nº 70.235/72, e que o auto de infração observou todos os requisitos previstos na legislação, não há que se cogitar em nulidade processual, nem em nulidade do lançamento, enquanto ato administrativo. Preliminar rejeitada. GANHO DE CAPITAL. PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ALIENAÇÃO. ISENÇÃO. DIREITO ADQUIRIDO. A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, nos termos do art. 178 do Código Tributário Nacional, pode ser revogada ou modificada a qualquer tempo, sem que gere direito adquirido ao contribuinte. As vendas de ações efetuadas por pessoas físicas após 1º de janeiro de 1989 estão sujeitas ao imposto de renda sobre o lucro auferido, ainda que, na data da alienação, a participação societária já conte com mais de cinco anos no domínio do alienante. Inaplicável a isenção contida no artigo. 4º do Decretolei nº 1.510, de 1976, por se encontrar revogada no momento da ocorrência do fato gerador. MOMENTO DE OCORRÊNCIA DO FATO GERADOR. APLICAÇÃO DE LEI VIGENTE. O lançamento reportase à data da ocorrência do fato gerador da obrigação e regese pela lei então vigente, ainda que posteriormente modificada ou revogada. CLAUSULA PRO SOLUTO. VENDA À VISTA. A opção pela cláusula pro soluto implica considerar o pagamento como tendo sido efetuado à vista. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido” Do Recurso Voluntário O RECORRENTE, devidamente intimado da decisão da DRJ em 20/04/2016, conforme AR de fl. 693, apresentou o recurso voluntário de fls. 696/725 em 18/05/2016. Fl. 1047DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.048 7 Em suas razões, reiterou os argumentos da Impugnação. Os demais responsáveis apresentaram recurso acostado às fls. 576/599, 614/637, 652/675 e 749/778, também com os mesmos fundamentos da impugnação. Da Diligência Solicitada Quando da apreciação do apelo apresentado pelo RECORRENTE, esta Turma julgadora resolveu converter o julgamento em diligência para que o RECORRENTE fosse intimado “a comprovar que a participação societária alienada em 2008 por sua genitora foi, de fato, a mesma participação totalmente adquirida em 1947, como alega em suas razões”, conforme Resolução nº 2201000.295 (fls. 810/816). O RECORRENTE e demais responsáveis foram intimados em 07/11/2017. No dia 17/11/2017 foi apresentada a petição de fls. 840/845 acompanhada dos documentos de fls. 846/893, além da petição de fls. 1007/1008 acompanhada dos documentos de fls. 1009/1034. Este recurso voluntário compôs lote sorteado para este relator em Sessão Pública. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim Relator O recurso voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos legais, razões por que dele conheço. PRELIMINAR Nulidade O RECORRENTE apresenta pedido genérico de nulidade do auto de infração, “por sua manifesta injuridicidade”. Em toda matéria de defesa apresentada, requereu a nulidade do auto, inclusive quando discutiu questões de mérito, como isenção e momento do fato gerador do ganho de capital em razão do pagamento mediante notas promissórias em caráter pro soluto. O único tema que poderia gerar uma nulidade seria a suposta ilegitimidade passiva das partes. No entanto, conforme adiante explanado, a responsabilidade tributária atribuída ao RECORRENTE e demais herdeiros foi correta, não havendo que se falar em qualquer nulidade. Fl. 1048DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.049 8 Conforme amplamente exposto e reconhecido pelo RECORRENTE, a fiscalização atribuiu aos herdeiros o imposto que teria sido devido em vida pela sua genitora, Sra. GILDA. Ela faleceu em 2012 e, conforme exposto no TVF, não deixou bens a inventariar. Discorreu sobre a diferenciação entre espólio e inventário e concluiu que o espólio nasce automaticamente com a instalação da sucessão. Com isso, questiona a afirmação da autoridade lançadora de que inexistiria espólio. Afirmou que ainda não existe o inventário, mas o espólio passou a existir a partir do falecimento da sua genitora. Confrontou a informação prestada por médico plantonista no atestado de óbito, no sentido de que não haviam bens a inventariar. Com isso, concluiu que o espólio deveria ser o responsável pelos tributos até a data da abertura da sucessão, conforme art. 131, III, do CTN, jamais os sucessores. Cita jurisprudência. No entanto, não compartilho do entendimento do RECORRENTE. Vejamos o que determina o art. 131 do CTN: “Art. 131. São pessoalmente responsáveis: I o adquirente ou remitente, pelos tributos relativos aos bens adquiridos ou remidos; II o sucessor a qualquer título e o cônjuge meeiro, pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da partilha ou adjudicação, limitada esta responsabilidade ao montante do quinhão do legado ou da meação; III o espólio, pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da abertura da sucessão.” Resta claro que o espólio é responsável pelos tributos devidos até a data da abertura da sucessão e o sucessor é responsável pelos tributos devidos a data da partilha ou adjudicação. Em primeiro lugar, chamo atenção para o fato de que o inciso II acima transcrito prevê que o sucessor é responsável pelos tributos devidos pelo de cujus até a data da partilha ou adjudicação. Ou seja, a norma não diz que o sucessor é responsável pelos tributos devidos no intervalo de tempo entre a abertura da sucessão e a data da partilha ou adjudicação. Sendo assim, a responsabilidade tributária dos sucessores pode, muito bem, atingir fato ocorrido antes da abertura da sucessão. No caso dos autos, o ganho de capital auferido com a alienação da participação societária da Sra. Gilda já havia sido transmitido aos herdeiros, em partes iguais para cada um, como forma de antecipação de legítima. Ou seja, o objeto sobre o qual recaiu o imposto apurado pela fiscalização já foi transmitido aos herdeiros, não necessitando aguardar eventual abertura de sucessão e posterior partilha de bens para se chegar a tal conclusão. A própria jurisprudência citada pelo RECORRENTE (abaixo transcrita) vai neste mesmo sentido, na medida em que os sucessores ora responsabilizados não são “herdeiros em potencial”, mas sim pessoas já conhecidas que herdaram (em antecipação de legítima) o fruto da alienação da participação societária da Sra. Gilda, sobre o qual recaiu o imposto apurado no presente processo: Fl. 1049DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.050 9 DIREITO TRIBUTÁRIO. IPTU. PRESCRIÇÃO. SUMÁRIO REDIRECIONAMENTO DA EXECUÇÃO CONTRA A SUCESSÃO (POSSÍVEIS HERDEIROS DO BEM IMÓVEL GERADOR DO IMPOSTO) DE CONTRIBUINTE FALECIDO: DESCABIMENTO À VISTA DO DISPOSTO NO ART. 131 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL, QUE EXIGE, NUM PRIMEIRO MOMENTO, O REDIRECIONAMENTO CONTRA O ESPÓLIO. (...). 4. Ademais, com o falecimento do "contribuinte", " o que não foi observado nos presentes autos '; o lançamento do IPTU e taxas correlatas, inclusive o eventual rechrecionamento da execução respectiva, necessariamente devem ser levados a efeito, até a conclusão do inventário, CONTRA O SEU "ESPÓLIO", E JAMAIS CONTRA A SUA "SUCESSÃO" (herdeiros ou sucessores em potencial, que somente com a partilha ou adjudicação dos bens restarão definidos como contribuinte s ou responsáveis tributários). Aplicação do art 131 do CTIV, incisos II e III. DECISÃO: RECURSO DESPROVIDO. UNÂNIME. (Apelação Cível No 70020974713, Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Roque Joaquim Volkweiss, Julgado em 26/03/2008) Para que esperar eventual abertura de sucessão quando esta não irá alterar a transmissão dos valores aos herdeiros realizada a título de antecipação de legítima? Em suma: o bem tributado já foi transmitido aos herdeiros e nenhum processo de inventário que, por ventura, venha a existir alterará a sucessão realizada. Sendo assim, o caso se encaixa perfeitamente no art. 131, II, do CTN. Portanto, não enxergo a nulidade apontada pelo RECORRENTE. MÉRITO Do direito adquirido à isenção de IRPF em alienação de participação societária O RECORRENTE defende que a sua genitora, Sra. Gilda, possuía direito adquirido à isenção de Imposto de Renda da Pessoa Física – IRPF sobre os lucros auferidos em operação de alienação de participação societária ocorrida em 2008. Para tanto, alega que sua genitora era acionista fundadora da tradicional Casa de Saúde Santa Lúcia e subscreveu as ações das quais detinha no ano de 1947, ano de fundação da companhia. Desta forma, afirma fazer jus ao benefício fiscal pois, quando da alienação das 8.265.200 ações em 2008, já havia cumprido o requisito exigido pelo DecretoLei nº 1.510/76 (permanecer por pelo menos 05 anos com a participação societária) quando este fora revogado pela Lei n° 7.713/88. Antes de mais nada, fazse mister enfatizar que o DecretoLei 1.510/76, ao passo que incluía a operação de alienação de participações societárias no rol de fatos geradores do IRPF em seu artigo 1º, listava as situações em que tal imposto não incidiria já no art. 4º. Dentre estas últimas hipóteses, estava incluído o caso de alienação ocorrida após decorrido o período de 05 (cinco) anos entre a aquisição ou subscrição e a efetivação da venda. Fl. 1050DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.051 10 “Art 1º O lucro auferido por pessoas físicas na alienação de quaisquer participações societárias está sujeito à incidência do imposto de renda, na cédula “H” da declaração de rendimentos. (...) Art 4º Não incidirá o imposto de que trata o artigo 1º: (...) d) nas alienações efetivadas após decorrido o período de cinco anos da data da subscrição ou aquisição da participação.” Estes dispositivos, contudo, foram revogados com a promulgação da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, a qual determina a tributação pelo imposto de renda de “rendimentos e ganhos de capital percebidos a partir de 1º de janeiro de 1989”. Assim, em razão da diligência solicitada, o RECORRENTE e demais responsáveis solidários foram intimados a comprovar que a participação societária alienada pela Sra. Gilda em 2008 atendia aos requisitos da isenção fiscal do DecretoLei nº 1.510/76 antes de sua revogação pela Lei n° 7.713/88. Ou seja, que a participação alienada em 2008 foi aquela mesma adquirida em 1947. Em atendimento ao solicitado, o RECORRENTE apresentou a petição de fls. 840/845 em que afirma o seguinte: · A Sra. Gilda é acionista fundadora da tradicional e sexagenária Casa de Saúde Santa Lúcia e subscreveu as ações das quais detinha no ano de 1947, ano da fundação da Companhia, conforme Boletim de Subscrição das Ações quando da Fundação da Casa de Saúde Santa Lúcia, em 20/06/1947 (fls. 846/850); · A fim de comprovar a participação societária da Sra. Gilda em 31/12/1983, acostou aso autos as Atas de Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária de 27 de maio de 1983 (fls. 852/861) e a seguinte, de 14 de junho de 1984 (fls. 862/873), onde, em ambas, a participação societária da genitora dos RECORRENTES é exatamente a mesma, qual seja 8.576.568 ações ordinárias e 16.648.632 ações preferenciais (total de 25.225.200 ações). · Para comprovar a manutenção das mencionadas ações no patrimônio da Sra. Gilda até a data da alienação (em 2008), acostou aos autos todas as listas de presenças de acionistas (de 1985 em diante) onde em todas, a genitora dos RECORRENTES figura como acionista e detentora das ações alienadas em 2008 à AMIL (fls. 874/893). · Colacionou trecho da declaração de bens e direitos da Sra. Gilda indicando que foram alienadas 8.285.200 ações em 2008. Assim, concluiu que a sua genitora nunca adquiriu novas ações, e as que alienou em 2008 estiveram “em seu patrimônio pelo menos desde 31/12/1983 (muito antes, inclusive) e de lá nunca saíram, até a alienação havida em 2008”. Fl. 1051DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.052 11 Após analisar a documentação acostada aos autos, entendo que assiste razão ao RECORRENTE, conforme adiante fundamento. Quando da revogação do DecretoLei 1.510/76 e seu benefício de isenção, a genitora do RECORRENTE já havia cumprido a condição exigida para a sua concessão: a manutenção das cotas de participação societária em seu patrimônio pelo período de cinco anos. Isso porque a participação societária da genitora do RECORRENTE foi adquirida até 31/12/1983, enquanto que à lei revogadora só foi publicada em 23/12/1988, com vigência a partir de 1º de janeiro de 1989. Mediante análise do DOC. 02 apresentado pelo RECORRENTE, verificase que a Sra. Gilda possuía, em 31/12/1983, um total de 25.225.200 ações da Casa de Saúde Santa Lúcia (fls. 855 e 865). Por sua vez, nas listas de presenças de acionistas de 1985 em diante, consta que a Sra. Gilda permaneceu com o mesmo número de ações até março/2000, quando sua participação foi reduzida para 8.285.200 (fl. 888). E foi justamente esta quantidade de ações que foi alienada para a AMIL em 2008. Ou seja, essas 8.285.200 ações foram, inequivocadamente, adquiridas até 31/12/1983, pois resta patente nos autos que a totalidade da participação societária da Sra. Gilda foi por ela adquirida até 31/12/1983, não havendo outras aquisições até a data de alienação em 2008. Nesse sentido, já havendo a contribuinte atendido o requisito objetivo estabelecido para a concessão da isenção, é certo que possui o direito adquirido para fazer gozo desta quando entender melhor para si, independente da superveniência de Lei que revogue tal benefício. É que a própria Constituição Federal de 1988, em nome da segurança jurídica, impediu a modificação de direito adquirido por lei posterior, mais precisamente no artigo 5º, inciso XXXVI. Confirase: “XXXVI a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada;” A possibilidade de aplicação de uma norma mesmo após a sua revogação, dá se o nome de “ultratividade”. Sobre a ultratividade em matéria de direito adquirido, vale destacar a lição do professor Roque Antônio Carraza (1999, p. 555): “Em remate, convém assinalarmos que o direito adquirido e o ato jurídico perfeito mais do que imunes ao efeito retroativo da lei nova, impedem que esta, de algum modo, os desconstitua. (...) “Neste sentido, o direito adquirido e o ato jurídico perfeito asseguram a ultratividade da lei velha, que continuará a disciplinar as situações que sob sua égide se consumara, mesmo depois da entrada em vigor da lei nova. Tudo em homenagem ao princípio da segurança jurídica.” (grifos acrescidos) Em se tratando diretamente de matéria tributária, mais especificamente com relação às isenções, o direito adquirido é disciplinado pelo Código Tributário Nacional – CTN. De acordo com o art. 178 deste código, as isenções podem ser revogadas ou modificadas por Fl. 1052DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.053 12 lei, exceto quando estas forem concedidas mediantes determinados requisitos ou condições, as chamadas isenções condicionadas. “Art. 178 – A isenção, salvo se concedida por prazo certo e em função de determinadas condições, pode ser revogada ou modificada por lei, a qualquer tempo, observado o disposto no inciso III do art. 104.” Depreendese, a partir da leitura deste dispositivo, que o contribuinte passa a ter direito adquirido a uma isenção condicionada a partir do momento em que cumpre as exigências legais para tanto. Além de que, como demonstrado anteriormente, esse direito não se esvazia com a eventual revogação póstera da norma concedente do referido benefício. O doutrinador Aurélio Pitanga Seixas (1999, p. 164) demonstra possuir o mesmo entendimento acerca da interpretação do art. 178 do CTN quando leciona sobre o direito adquirido nas hipóteses de isenção condicionada: “No plano normativo, como já visto, toda e qualquer norma jurídica pode ser revogada, em qualquer tempo, mesmo que contenha um prazo certo de vigência. Não pode, nem existe qualquer dispositivo constitucional neste sentido, vedando a um legislador de uma determinada legislatura, revogar normas isencionais instituídas em legislações anteriores. Portanto, a lei, a norma isencional, pode ser revogada, sempre e a qualquer tempo. Como já foi examinado em capítulo anterior, se a pessoa isenta já cumpriu os requisitos e exigências fixados na norma isencional, passa a ter direito adquirido ao gozo do favor fiscal, cuja duração dependerá do tributo e do eventual prazo concedido pelo legislador.” (grifos acrescidos) Ademais, entendo que a condição imposta para o gozo da isenção de IRPF no caso em análise – a manutenção das ações no patrimônio do contribuinte por cinco anos – é dotada de onerosidade. É que a conservação da propriedade de ações por um prazo de cinco anos configura uma condição onerosa, vez que se tratam de bens negociáveis cujo valor sofre com as inflexões e intempéries do mercado. Além disso, estava implícito no ditame normativo do DecretoLei 1.510/76 que, para usufruir da isenção, deveria o contribuinte renunciar a qualquer oportunidade de negociação das cotas nos cinco anos subsequentes a sua aquisição ou subscrição. Ele deveria privarse, então, de obter lucro imediato e certo caso optasse por desfrutar de um benefício maior – a alienação isenta de IRPF – porém incerta. É nesse exato sentido que se posiciona o ilustre doutrinador José Souto Maior Borges (2006, p. 7980): “Ao contrário, nas isenções condicionais, a lei estabelece as condições e os requisitos para a sua concessão. Tais condições e requisitos ordinariamente exigem do titular da isenção, como Fl. 1053DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.054 13 pondera Carlos Maximiliano, esforço dispendioso, obra cara, imobilização de capitais próprios ou tomados a juros. Se nessas circunstâncias fosse juridicamente possível a cessão de plano da fruição do benefício fiscal, restabelecido total ou parcialmente, o ônus da tributação, ninguém arriscaria a seu futuro financeiro; ninguém acudiria aos acenos do Estado, através da legislação de incentivos fiscais, particularmente em matéria de isenções. A qualquer tempo, poderse ia dar a ruptura do equilíbrio financeiro do investimento privado, com a superveniência da lei revogadora.” (grifos acrescidos) Outrossim, mostrase necessário ressaltar que a jurisprudência dos tribunais superiores demonstra a concordância destes com o entendimento de que há a configuração de direito adquirido às isenções condicionadas. O Egrégio Supremo Tribunal Federal – STF, inclusive, editou a súmula nº 544, na qual posicionouse expressamente pela configuração de direito adquirido: “Súmula 544. Isenções tributárias concedidas, sob condição onerosa, não podem ser livremente suprimidas.” Doutro lado, o Superior Tribunal de Justiça – STJ possui inúmeras decisões no sentido de considerar isentas de tributação pelo imposto de renda operações de alienação de participações societárias adquiridas sob a égide do DecretoLei 1.510/76, mesmo que a transação tenha ocorrido após a entrada em vigor da Lei nº 7.1713/88. Esse posicionamento, vale ressaltar, foi reafirmado em recente decisão do STJ, datada de 02 de maio de 2017, proferida nos autos do Agravo Interno no Recurso Especial 1.647.630/SP. Confirase, abaixo, esta decisão bem como decisões análogas: PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. VIOLAÇÃO AO ART. 535 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 1973. INOCORRÊNCIA. IMPOSTO SOBRE A RENDA. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. ISENÇÃO. DECRETOLEI N. 1.510/76. NECESSIDADE DE IMPLEMENTO DAS CONDIÇÕES ANTES DA REVOGAÇÃO. TRANSMISSÃO DO DIREITO AOS SUCESSORES DO TITULAR ANTERIOR DO BENEFÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. ISENÇÃO ATRELADA À TITULARIDADE DAS AÇÕES POR CINCO ANOS. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. I Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado. Assim sendo, in casu, aplicase o Código de Processo Civil de 2015. II A Corte de origem apreciou todas as questões relevantes apresentadas com fundamentos suficientes, mediante apreciação da disciplina normativa e cotejo ao posicionamento Fl. 1054DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.055 14 jurisprudencial aplicável à hipótese. Inexistência de omissão, contradição ou obscuridade. III O acórdão adotou entendimento consolidado nesta Corte segundo o qual a isenção de Imposto sobre a Renda concedida pelo art. 4º, d, do DecretoLei n. 1.510/76, pode ser aplicada às alienações ocorridas após a sua revogação pelo art. 58 da Lei n. 7.713/88, desde que já implementada a condição da isenção antes da revogação, não sendo, ainda, transmissível ao sucessor do titular anterior o direito ao benefício. IV O recurso especial, interposto pelas alíneas a e/ou c do inciso III do art. 105 da Constituição da República, não merece prosperar quando o acórdão recorrido encontrase em sintonia com a jurisprudência desta Corte, a teor da Súmula n. 83/STJ. V Os Agravantes não apresentam, no agravo, argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. VI Agravo Interno improvido. (STJ AgInt no REsp 1647630 SP 2017/00034220. Relatora: Ministra REGINA HELENA COSTA, Data de Julgamento, 02/05/2017, Data dePublicação: 10/05/2017) – Grifos acrescidos AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DERENDA. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. DECRETOLEI N.1.510/1976. A Primeira Seção do STJ fixou o entendimento de que é isento do Imposto de Renda o ganho de capital decorrente da alienação de ações societárias após 5 (cinco) anos da respectiva aquisição, ainda que transacionadas após a vigência da Lei n. 7.713/1988, conforme previsão do DecretoLei n. 1.510/1976.Agravo regimental improvido. (STJ – AgRg no Ag: 1425917 AL 2011/01966926, Relator: Ministro CESAR ASFOR ROCHA, Data de Julgamento:01/12/2011, Data de Publicação: DJe 07/12/2011) DIREITO TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. ALIENAÇÃO DE AÇÕESSOCIETÁRIAS. ISENÇÃO CONDICIONADA OU ONEROSA. DECRETOLEI1.510/1976. REVOGAÇÃO PELA LEI 7.713/1988. DIREITO ADQUIRIDO AOBENEFÍCIO FISCAL. 1. A discussão nos autos consiste na caracterização ou não de direito adquirido de isenção de Imposto de Renda sobre lucro auferido na alienação de ações societárias, isenção esta instituída pelo DecretoLei 1.510/1976 e revogada pela Lei 7.713/1988, tendo em vista que a venda das ações ocorreu em janeiro de 2007, ou seja, após a revogação. Fl. 1055DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.056 15 2. A legislação em regência (arts. 1º e 4º, d, do Decreto Lei1.510/76) concede isenção de Imposto de Renda sobre lucro auferido por pessoa física em virtude de venda de ações mediante o cumprimento de determinado requisito (condição), qual seja, o de a alienação ocorrer somente após decorridos cinco anos da subscrição ou da aquisição da participação societária. Tratase, portanto, de isenção sob condição onerosa. 3. A isenção onerosa ou condicionada não pode ser revogada ou modificada por lei. Acerca do tema, o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula 544, que dispõe: "Isenções tributárias concedidas, sob condição onerosa, não podem ser livremente suprimidas". 4. Em minuciosa leitura do art. 4º, d, do DecretoLei 1.510/1976, constatase que o referido dispositivo legal estabelecia isenção do Imposto de Renda sobre lucro auferido por pessoa física pela venda de ações, se a alienação ocorresse após cinco anos da subscrição ou da aquisição da participação societária. 5. In casu, o contribuinte cumpriu os requisitos para o gozo da isenção do Imposto de Renda, nos termos da referida lei, antes mesmo da revogação da norma, tendo direito adquirido ao benefício fiscal. 6. A Primeira Seção passou a adotar orientação em sentido contrário à que foi acolhida pelo Tribunal local, entendendo ser isento do Imposto de Renda o ganho de capital decorrente da alienação de ações societárias após cinco anos da respectiva aquisição, ainda que transacionadas após a vigência da Lei 7.713/1988, conforme previsão do DecretoLei 1.510/1976.7. Agravo Regimental não provido. (STJ – AgRg no AgRg no REsp 1137701 RS 2009/00823207. Relator: Ministro HERMAN BENJAMIN, Data de Julgamento: 23/08/2011, Data da Publicação: DJe 08/09/2011) Por fim, cumpre demonstrar que este próprio Conselho Administrativo de Recursos – CARF possui acórdãos que reconhecem o direito adquirido à isenção requerida pelo RECORRENTE: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006 IRPF. PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. AQUISIÇÃO SOBRE OS EFEITOS. A HIPÓTESE DE NÃO INCIDÊNCIA PREVISTOS NO ART. 4°, ALÍNEA "d" DO DECRETOLEI 1510/76 DIREITO ADQUIRIDO A ALIENAÇÃO SEM TRIBUTAÇÃO MESMO NA VIGÊNCIA DE LEGISLAÇÃO POSTERIOR ESTABELECENDO A HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA (LEI 7.713/88). Se a pessoa física titular da participação societária, sob a égide do art. 4°, "d", do DecretoLei 1.510/76, subsequentemente ao período de 5 (cinco) anos da aquisição da participação, alienou Fl. 1056DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.057 16 a, ainda que legislação posterior ao decurso do prazo de 5 (cinco) anos tenha transformado a hipótese de não incidência em hipótese de incidência, não torna aquela alienação tributável, prevalecendo, sob o manto constitucional do direito adquirido o regime tributário completado na vigência da legislação anterior que afastava qualquer hipótese de tributação. Recurso Provido (CARF. Acórdão n. 2102002.967 no Processo n. 16048.000047/200822. Relatora: ALICE GRECCHI, Data da Sessão: 13/05/2014) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2000, 2001 IRPF PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS AQUISIÇÃO SOBRE OS EFEITOS DA HIPÓTESE DE NÃO INCIDÊNCIA PREVISTOS NO ART. 4°, ALÍNEA "d" DO DECRETOLEI 1510/76 DIREITO ADQUIRIDO A ALIENAÇÃO SEM TRIBUTAÇÃO MESMO NA VIGÊNCIA DE LEGISLAÇÃO POSTERIOR ESTABELECENDO A HIPÓTESE DE INCIDÊNCIA (LEI 7713/88) Se a pessoa física titular da participação societária, sob a égide do art. 4°, "d", do DecretoLei 1.510/76, subsequentemente ao período de 5 (cinco) anos da aquisição da participação, alienou a, ainda que legislação posterior ao decurso do prazo de 5 (cinco) anos tenha transformado a hipótese de não incidência em hipótese de incidência, não torna aquela alienação tributável, prevalecendo, sob o manto constitucional do direito adquirido o regime tributário completado na vigência da legislação anterior que afastava qualquer hipótese de tributação. Recurso provido. (CARF – Acórdão n. 2202002.468 no Processo n. 11831.002650/200112. Relator: ANTONIO LOPO MARTINEZ) Ante o exposto, resta claro que a genitora do RECORRENTE possuía direito adquirido à isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física incidente sobre o ganho de capital auferido pela alienação de participação societária, vez que atendeu a condição imposta pelo art. 4º, alínea “d” do DecretoLei 1.510/76 antes mesmo de sua revogação pela Lei n. 7.713/88. Sendo assim, o valor fruto da venda da participação societária era isento do imposto de renda quando foi transmitido aos herdeiros sucessores como antecipação de legítima. Portanto, não deve subsistir o lançamento, haja vista que tem por objeto a apuração de imposto de renda sobre o ganho de capital decorrente da venda de participação societária que era de propriedade da genitora do RECORRENTE antes de 31/12/1983 (05 anos Fl. 1057DF CARF MF Processo nº 12448.727315/201351 Acórdão n.º 2201004.305 S2C2T1 Fl. 1.058 17 da revogação do art. 4º do DecretoLei 1.510/76), não merecendo prosperar a tributação em razão da isenção prevista pelo art. 4º, alínea “d”, do DecretoLei 1.510/76. CONCLUSÃO Em razão do exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário, para reconhecer o direito à isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física incidente sobre alienação de participação societária, ocorrida no ano de 2008, vez que a genitora do RECORRENTE possui direito adquirido à isenção instituída no art. 4º, alínea “d”, do Decreto Lei 1.510/7676. (assinado digitalmente) Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim Relator Fl. 1058DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.725247/2015-16
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Apr 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012
LANÇAMENTO. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ART. 146 DO CTN. PRÁTICAS REITERADAS. NÃO OCORRÊNCIA.
A alteração de critério jurídico que impede a lavratura de outro Auto de Infração (art. 146 do CTN), diz respeito a um mesmo lançamento e não a lançamentos diversos, como aduzido neste caso. Não se pode considerar que o posicionamento adotado por uma autoridade fiscal em procedimento de fiscalização tenha o condão de caracterizar essa prática reiterada, de modo a possibilitar a exclusão de penalidade.
VERDADE MATERIAL. CONJUNTO PROBATÓRIO ROBUSTO. LIVRE CONVICÇÃO DO JULGADOR. JULGAMENTO. NEGATIVA DE PERÍCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA Em sede de fiscalização, o objetivo da produção de provas é formar a convicção do julgador no âmbito do processo administrativo fiscal (Decreto nº 70.235/72, art. 29). Entendendo a autoridade julgadora que o conjunto probatório possibilita a compreensão do caso, bem como a análise fática e material do quanto nele ocorrido, deve-se proceder ao julgamento. O requerimento do contribuinte para a realização de perícia somente será determinado pela autoridade julgadora quando esta entendê-la necessária, podendo indeferi-lo quando entendê-la prescindível (Decreto nº 70.235/72, art. 18), não ocorrendo cerceamento de defesa a sua negativa.
CRÉDITO . INSUMOS. NÃO ENQUADRAMENTO
Somente geram direito ao crédito do imposto os materiais que se enquadrem no conceito jurídico de insumo, ou seja, aqueles que se desgastem ou sejam consumidos mediante contato físico direto com o produto em fabricação.
ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL.
No art. 6º do Decreto-Lei nº 1.435/75 entende-se por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do Decreto-Lei n. 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66).
ISENÇÃO. CRÉDITOS. IPI. ZONA FRANCA DE MANAUS.
Não existe amparo legal para a tomada de créditos fictos de IPI em relação a insumos adquiridos com a isenção prevista no art. 9º do Decreto-Lei nº 288/67.
CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS DE CONCENTRADOS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como kit ou concentrado para refrigerantes constitui-se de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matérias-primas e produtos intermediários que só se tornam efetivamente uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses kits deverá ser classificado no código próprio da TIPI.
SUFRAMA. BENEFICIO FISCAL. COMPETÊNCIA. CLASSIFICAÇÃO FISCAL DA MERCADORIA. Nos atos de sua competência, a SUFRAMA pode tratar os "kits" de concentrados para produção de refrigerantes como se fossem uma mercadoria única, o que não afeta a validade desses atos para os objetivos propostos, porém este tratamento não prevalece para fins de isenção e de Classificação Fiscal da mercadoria (enquadramento na TIPI).
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.988
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter a glosa dos créditos relativos aos produtos intermediários e a glosa dos insumos adquiridos fora da Amazônia Ocidental. A Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne votou pelas conclusões neste ultimo ponto; e, pelo voto de qualidade, em negar provimento quanto ao tópico da Classificação Fiscal dos "kits" de concentrados para produção de refrigerantes. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto, que irá apresentar declaração de voto.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
(assinado digitalmente)
Waldir Navarro Bezerra - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: WALDIR NAVARRO BEZERRA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 LANÇAMENTO. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. ART. 146 DO CTN. PRÁTICAS REITERADAS. NÃO OCORRÊNCIA. A alteração de critério jurídico que impede a lavratura de outro Auto de Infração (art. 146 do CTN), diz respeito a um mesmo lançamento e não a lançamentos diversos, como aduzido neste caso. Não se pode considerar que o posicionamento adotado por uma autoridade fiscal em procedimento de fiscalização tenha o condão de caracterizar essa prática reiterada, de modo a possibilitar a exclusão de penalidade. VERDADE MATERIAL. CONJUNTO PROBATÓRIO ROBUSTO. LIVRE CONVICÇÃO DO JULGADOR. JULGAMENTO. NEGATIVA DE PERÍCIA. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA Em sede de fiscalização, o objetivo da produção de provas é formar a convicção do julgador no âmbito do processo administrativo fiscal (Decreto nº 70.235/72, art. 29). Entendendo a autoridade julgadora que o conjunto probatório possibilita a compreensão do caso, bem como a análise fática e material do quanto nele ocorrido, devese proceder ao julgamento. O requerimento do contribuinte para a realização de perícia somente será determinado pela autoridade julgadora quando esta entendêla necessária, podendo indeferilo quando entendêla prescindível (Decreto nº 70.235/72, art. 18), não ocorrendo cerceamento de defesa a sua negativa. CRÉDITO . INSUMOS. NÃO ENQUADRAMENTO Somente geram direito ao crédito do imposto os materiais que se enquadrem no conceito jurídico de insumo, ou seja, aqueles que se desgastem ou sejam consumidos mediante contato físico direto com o produto em fabricação. ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. No art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75 entendese por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 72 52 47 /2 01 5- 16 Fl. 8495DF CARF MF 2 área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do Decreto Lei n. 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66). ISENÇÃO. CRÉDITOS. IPI. ZONA FRANCA DE MANAUS. Não existe amparo legal para a tomada de créditos fictos de IPI em relação a insumos adquiridos com a isenção prevista no art. 9º do DecretoLei nº 288/67. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. KITS DE CONCENTRADOS PARA PRODUÇÃO DE REFRIGERANTES. Nas hipóteses em que a mercadoria descrita como “kit ou concentrado para refrigerantes” constituise de um conjunto cujas partes consistem em diferentes matériasprimas e produtos intermediários que só se tornam efetivamente uma preparação composta para elaboração de bebidas em decorrência de nova etapa de industrialização ocorrida no estabelecimento adquirente, cada um dos componentes desses “kits” deverá ser classificado no código próprio da TIPI. SUFRAMA. BENEFICIO FISCAL. COMPETÊNCIA. CLASSIFICAÇÃO FISCAL DA MERCADORIA. Nos atos de sua competência, a SUFRAMA pode tratar os "kits" de concentrados para produção de refrigerantes como se fossem uma mercadoria única, o que não afeta a validade desses atos para os objetivos propostos, porém este tratamento não prevalece para fins de isenção e de Classificação Fiscal da mercadoria (enquadramento na TIPI). Recurso Voluntário Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário, para manter a glosa dos créditos relativos aos produtos intermediários e a glosa dos insumos adquiridos fora da Amazônia Ocidental. A Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne votou pelas conclusões neste ultimo ponto; e, pelo voto de qualidade, em negar provimento quanto ao tópico da Classificação Fiscal dos "kits" de concentrados para produção de refrigerantes. Vencidos os Conselheiros Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto, que irá apresentar declaração de voto. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. (assinado digitalmente) Waldir Navarro Bezerra Relator. Participaram da sessão de julgamento os seguintes Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Pedro Sousa Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais de Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório Fl. 8496DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.487 3 Trata o presente processo de Auto de Infração (fls. 7.256/7.258) lavrado contra a empresa AMBEV S/A (CNPJ 07.526.557/000533, localizada no município de Jaguariúna/SP doravante denominada de AMBEV), para a exigência de crédito tributário relativo ao Imposto Sobre Produtos Industrializados IPI, referente ao período de apuração (PA) compreendido entre janeiro de 2011 a dezembro de 2012, implicando a exigência fiscal no valor de R$ 231.337.100,63, o qual compreende principal, multa e juros. Conforme consta do Relatório Fiscal (anexo ao Auto de Infração às fls. 7.258/7.380), recai sobre a Recorrente as seguintes acusações fiscais distintas, as quais podem ser assim sumarizadas: (i) Créditos referentes a todos os produtos adquiridos da ZFM, por entender que o art. 225 do RIPI/2010, daria esse direito. Por sua vez, a autoridade fiscal entendeu de modo diverso, tendo em vista que o princípio da não cumulatividade não permite o creditamento em aquisições isentas; (ii) Crédito presumido do IPI, nas aquisições de produtos isentos, elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, cujos projetos tenham sido aprovados pelo Conselho de Administração da SUFRAMA (CAS), conforme ditam os artigos 95, inciso III, e 237 do RIPI/2010. A fiscalização efetuou diligência junto aos fornecedores, assim concluindo: (ii.a) No caso do fornecedor PepsiCola da Amazônia, a fiscalização afirma que o concentrado fornecido tem como insumo o corante caramelo e não a matéria prima regional. Esta última é insumo em etapa anterior, no caso a fabricação do corante pela empresa DD Williamson do Brasil S/A. Além disso, o açúcar utilizado pela DD Williamson até junho de 2011 era oriundo do Mato Grosso e não da Amazônia Ocidental; (ii.b) Segundo a autoridade fiscal, a fornecedora Arosuco informou que no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2011 os concentrados de sabores que não os de guaraná não continham em sua composição extratos vegetais de produção regional, requisito necessário para aproveitamento dos créditos. Para o ano de 2012, a Arosuco informou que nos concentrados de outros sabores, que não o guaraná, era utilizada matériaprima extrativa vegetal de produção regional, listou os fornecedores, as matériasprimas, e apresentou cópias de notas fiscais destas matériasprimas. A fiscalização constatou de imediato que oito desses fornecedores estão fora da Amazônia Ocidental. Com relação aos demais, atestou que se tratam de produtos que já passaram por processos de industrialização, sendo que alguns são itens importados pelos fornecedores; (ii.c) Com relação à Ravibrás, a própria empresa informou não são utilizadas matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional; (ii.d) No caso da fornecedora Valfilm, na fabricação do “filme stretch” o óleo de dendê não é matéria prima extrativa vegetal, sendo, na verdade, um produto já industrializado, que passa por um processo de industrialização complexo, desde a colheita do fruto (dendê ou palma, como também é conhecido), até a obtenção do óleo propriamente dito. Ato seguinte, aduz que mesmo se existisse o direito ao crédito do IPI para os dois casos acima (i e ii), ainda assim o crédito presumido apurado seria nulo, por erro nas Fl. 8497DF CARF MF 4 alíquotas aplicadas para a sua apuração. Referese ao enquadramento dos concentrados ou “kits” fornecidos pela PepsiCola e Arosuco no Ex01, do código 2106.90.10, entendendo estar incorreto essa classificação pelo fato de eles não se caracterizarem como preparações compostas. Conforme apurado pelo Fisco, os produtos que a Pepsi ou a Arosuco chamam de “concentrado” ou “kit” são na realidade conjuntos de matériasprimas e produtos intermediários, que saíram dos seus estabelecimentos embalados separadamente, em bombonas, ou sacos, na forma líquida (Flavours ou aromas) ou sólida (sais). A fiscalização acrescenta que: “(...) Na verdade o concentrado apenas é produzido já na etapa de fabricação dos refrigerantes ou do Gatorade, nas linhas de produção da AMBEV, quando ao xarope simples, previamente obtido pela adição dos sais à água, são adicionados os aromas (flavours), quando, aí sim, é obtido o concentrado.” Lembra o Fisco que, segundo afirmação do Gerente de Fábrica da AMBEV, esse processo citado no item acima não poderia ser feito previamente, nos estabelecimentos industriais da Pepsi ou da Arosuco, porque as misturas para cada produto tem dosagens e sequências diferentes, e se o concentrado já viesse pronto, o volume do produto seria maior. Desta forma, efetuada a classificação correta, entende a fiscalização que esta se daria no código NCM 2106.90.90: "Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições Outras Outras", tributado à alíquota 0 (zero) do IPI, motivo pelo qual não haveria crédito a ser calculado. Por fim, com referência aos créditos relativos a material intermediário da produção, assim argumento o Fisco: “(...) Com relação aos créditos escriturados a título de Materiais Intermediários da Produção ART 164, Inciso I, Decreto 4.544/02, pelas planilhas apresentadas pela AMBEV, verificamos que, dentre os materiais listados destacamse principalmente parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc. Estes materiais não dão direito ao crédito de IPI para a AMBEV, por não se enquadrarem no conceito de matériaprima ou produto intermediário para a fabricação de cervejas, refrigerantes e isotônicos.” Por bem descrever os fatos, adoto o Relatório objeto da decisão recorrida, a seguir transcrito (trechos considerados mais relevantes) fls. 8.346/8.368: "(...) Cientificada em 22.12.2015, a interessada apresentou, tempestivamente, em 21.01.2016, impugnação (fls. 7722/7753) na qual inicialmente requer a nulidade do lançamento, por entender que em autos de infração lavrados anteriormente as autoridades responsáveis efetuaram glosas de créditos apropriados nas aquisições pela Impugnante, unicamente pelo não atendimento aos requisitos do art. 6o do DL n. 1.435/75, em virtude do local de origem dos insumos empregados pelos fornecedores, não tendo havido discordância quanto ao enquadramento dos "kits" para a fabricação de bebidas, tendo sido aceitos, para fins de crédito de IPI, inclusive os insumos utilizados a partir de matériasprimas regionais previamente processadas, fato que caracterizaria uma expressa homologação dos procedimentos da empresa. Acrescenta: Fl. 8498DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.488 5 “Diante desse contexto, a lavratura do presente AIIM, no que concerne a tais mercadorias, somente poderia ocorrer se tivesse havido a prévia expedição de norma de caráter geral (ato normativo) ou individual (notificação fiscal) comunicando a Impugnante que as autoridades fazendárias passaram a proceder de modo diverso do que vinham adotando, o que, todavia, não se verificou. Somente com isso seria válida a modificação do critério jurídico adotado no exercício da atividade fiscalização, aplicandose aos fatos geradores ocorridos a partir de então. Se, apesar do alerta, o contribuinte continuasse promovendo as operações questionadas, justificar seia a autuação (sem prejuízo, obviamente, da discussão do mérito da exigência). O que não se pode admitir é a lavratura de auto de infração em relação a fatos ocorridos antes que o contribuinte tivesse qualquer notícia a respeito da discordância fazendária quanto à classificação fiscal das mercadorias em causa, como se deu no caso concreto, pois tal procedimento viola o princípio da segurança jurídica, na acepção do art. 146 do Código Tributário Nacional. (...). Portanto, padecendo a exigência fiscal de retroatividade vedada pelo ordenamento, como evidenciado pelo art. 146 do Código Tributário Nacional, deve ela ser cancelada em sua integralidade. Até porque a aceitação expressa do tratamento fiscal conferido pela Impugnante às mercadorias autuadas, em diversos lançamentos prévios, caracteriza prática reiteradamente adotada pela Administração Tributária e, nessa qualidade, norma complementar à legislação tributária (art. 100, III, do CTN), cuja observância obrigatória. Tendo a Impugnante agido em conformidade com tais práticas, será de rigor, no mínimo, o afastamento o afastamento da multa, dos juros e da correção monetária exigidos. (...)” 8. No mérito, aduz: “...1.1.1 Improcedência das glosas de créditos relativos aos itens adquiridos junto à PEPSI à AROSUCO (ano de 2012) e à VALFILM. (...) . a) Correta interpretação do art. 6º do DL n. 1.435/75. Aplicação do benefício em relação aos produtos adquiridos. O art. 6º do DL n. 1.435/75 confere isenção do IPI aos produtos que especifica, além de crédito presumido do imposto aos respectivos adquirentes, ‘sempre que’ esses produtos sejam destinados à utilização como insumos na industrialização de outros que sejam efetivamente tributados, como se verifica: Fl. 8499DF CARF MF 6 (...) . A lógica do benefício é cristalina: (a) fomentar diretamente a indústria na área ocidental da região, restringindo a isenção e o crédito presumido aos produtos fabricados por estabelecimentos localizados na Amazônia Ocidental; e (b) estimular indiretamente as atividades agrícolas e extrativas em toda a Amazônia, com o aumento da demanda para abastecimento de fábricas naquela área menor, através da exigência de utilização de matérias primas "regionais", em consonância com o interesse geopolítico de estimular a ocupação e desenvolvimento da Região Amazônica. (a.l.) Possibilidade de utilização de matériaprima regional in natura ou processada. Contradição interna do Auto de Infração. A peça fiscal equivocase ao interpretar a expressão "elaborados com matériasprimas" no sentido de que o benefício fiscal em questão somente seria aplicável àquelas mercadorias em cuja produção tenham sido empregados materiais agrícolas ou extrativos in natura. O termo matériaprima designa um conceito amplo, compreensivo de "toda matéria aplicada na produção de uma nova espécie, pela transformação dela em outra, não importando que já se mostre em um produto não originário da natureza" . Esse conceito desdobrase em duas categorias, a saber, "a matériaprima bruta, que é a provinda diretamente da natureza, e... a matériaprima representada por um produto originado de outras matériasprimas " . (...). (a.2.) Matériaprima regional é aquela proveniente da Amazônia Legal. De outro lado, também se equivoca o r. Auditor Fiscal ao afirmar que a expressão ‘de produção regional’, empregada pelo art. 6º do DL n. 1.435/75, teria o sentido de que o benefício somente seria aplicável às mercadorias fabricadas com matériasprimas agrícolas ou extrativas vegetais oriundas da Amazônia Ocidental. (...). A interpretação sistemática dos dispositivos transcritos revela que o incentivo de que trata do DL n. 1.435/75 contempla dois critérios geográficos (espaciais) distintos: 1º)industrialização dos produtos por estabelecimentos localizados na "área" da Amazônia Ocidental; 2o) elaboração de tais produtos com matérias primas agrícolas e extrativas vegetais da ‘região’ da Amazônia, delimitada pelo art. 2o da Lei n. 5.173/1966 c/c art. 45 da Lei Complementar n. 31/1977, corresponde à chamada ‘Amazônia Legal’ e compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão (parte oeste do meridiano de 44°), Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. ......... Fl. 8500DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.489 7 Portanto, devem ser consideradas "de produção regional", para efeito do art. 6o do DL n. 1.435/75 e dos benefícios nele previstos, as matérias primas agrícolas ou extrativas vegetais oriundas da Amazônia Legal, e não apenas da Amazônia Ocidental, que é a área onde deve estar instalado o estabelecimento industrial, ao contrário do que entendeu o Fisco. (b) Manifestação favorável da SUFRAMA Como se não bastasse, em se tratando das mercadorias adquiridas junto a PEPSI, a própria SUFRAMA reconheceu fazerem jus ao incentivo do art. 6o do Decretolei n° 1.435/1975 os concentrados para a preparação de bebidas não alcoólicas adquiridos na forma de "kits", fabricados a partir de extrato de caramelo insumo industrializado a partir do açúcar de cana plantada no Mato Grosso. Isto é, atendendo assim ao requisito de matériaprima vegetal originária região da amazônica ("Amazônia Legal", definida no art. 2o da Lei n. 5.173/66 e art. 45 da LC n. 31/77). 1.1.2. Ilegitimidade da glosa dos créditos em face do tratamento diferenciado previsto no art. 40 do ADCT A infração alegada pela Fiscalização em relação aos créditos apropriados sobre os insumos para a fabricação de refrigerantes também é improcedente, pois o direito ao crédito do IPI sobre os produtos isentos adquiridos de estabelecimento localizados na ZFM decorre do tratamento tributário diferenciado que lhes assegura artigo 40 do ADCT. Com efeito, embora o Supremo Tribunal Federal tenha definido que as aquisições de insumos isentos do IPI, em regra, não conferem ao destinatário do produto o direito de apropriar créditos do imposto, tal entendimento não se aplica às aquisições de insumos produzidos na ZFM, conforme ressalva constante do acórdão proferido no RE 566.819/RS, sendo certo que a questão será apreciada em sede de repercussão geral reconhecida nos autos do RE n. 592.891/SP. (...). 1.2. Ilegitimidade da glosa de crédito amparada no suposto erro de classificação fiscal dos ‘kits’ adquiridos junto à PEPSI e à AROSUCO. Ainda que superadas as questões supra, não poderia prevalecer a glosa de créditos atinentes aos ‘kits’ oriundos da PEPSI e da AROSUCO ao fundamento de que teria sido equivocada a sua classificação no item 2106.90.10, ‘ex. 01’, da TIPI/NCM/SH, pois: (i) a glosa com esse fundamento é nula, por carecer de motivação fática; e, no mérito, (ii) é improcedente. Vejamos. 1.2.1. A reclassificação fiscal das mercadorias pretendida pela Fiscalização não está respaldada por laudo técnico. Motivação de fato (acervo probatório) deficiente. Violação ao art. 142 do CTN e à verdade material. Fl. 8501DF CARF MF 8 Como se verá adiante, a principal razão apontada pelas autoridades lançadoras para proceder à glosa dos créditos presumidos relativos às mercadorias oriundas da ZFM (art. 6o do DL 1.435/75) foi o suposto erro na classificação fiscal dos ‘kits’ para a fabricação de bebidas no NCM 2106.90.10, ‘ex. 01’, na qualidade de ‘preparações compostas’. Da reclassificação procedida, decorreria que as alíquotas do IPI aplicáveis seriam zero, do resultaria a inexistência de créditos passíveis de apropriação (...). 1.2.2. Improcedência da glosa de crédito amparada na alegação de que os insumos adquiridos junto à PEPSI e à AROSUCO seriam tributados à alíquota zero de IPI, por suposto erro em sua classificação no código NCM n. 2601.90.10, ‘ex. 1’. A Fiscalização sustenta que, mesmo que os insumos para fabricação de bebidas fornecidos pela PEPSI e pela AROSUCO preenchessem os requisitos constantes do DL n. 1.435/75, não existiriam créditos presumidos do imposto a serem apropriados ‘como se devido fosse’. Isso porque os mesmos não seriam classificados o código NCM n. 2601.90.10, ‘ex. 1’, mas em outros códigos, todos com alíquotas zero de IPI, de modo que eventual crédito na respectiva aquisição também seria correspondente a zero. (...). No entanto, a Fiscalização ignorou que todo esse esforço interpretativo é insuficiente para afastar o tratamento conferido a tais ‘kits’ por seus fabricantes. De fato, as notas da posição 2106, universo no qual se insere a NCM n. 2106.90.10, inclusive o respectivo ‘ex. 01’, são claras no sentido de que os ‘kits’ contendo extratos concentrados ou sabores para a preparação industrial de bebidas estão nela compreendidos. Daí ser correta a sua classificação adotada no caso. A Fiscalização fez tabula rasa da RGI/SH n° 1, que prevalece sobre as demais RGIs e é explícita no sentido de que a classificação de uma mercadoria é ‘determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas’. A simples leitura das posições transcritas revela que o código 2106.90.10 designa somente as preparações não alcoólicas que sejam destinadas especificamente à fabricação de bebidas e o seu "ex. 01", mais específico, restringese às "preparações compostas" (de uma ou mais substâncias) utilizadas "para a elaboração" de refrigerantes/refrescos (posição 22.02), com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. (expõe seu entendimento acerca da classificação fiscal dos kits) 2. Ilegitimidade da glosa de créditos atinentes a mercadorias adquiridas para utilização no processo industrial da Impugnante (matérias primas e materiais intermediários). Por fim, não procede, ainda, a glosa dos créditos relativos a "materiais intermediários da produção'", como "parafusos, Fl. 8502DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.490 9 arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc.", fundada na alegação de "não se enquadrarem no conceito de matériaprima ou produto intermediário para a fabricação de cervejas, refrigerantes e isotônicos", por não entrarem em contato físico direto ou não sofrerem/exercerem diretamente ação no produto final. É o relatório No entanto, os argumentos aduzidos pelo sujeito passivo, não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme ementa do Acórdão abaixo transcrito: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012 CRÉDITO . INSUMOS. Somente geram direito ao crédito do imposto os materiais que se enquadrem no conceito jurídico de insumo, ou seja, aqueles que se desgastem ou sejam consumidos mediante contato físico direto com o produto em fabricação. AMAZÔNIA OCIDENTAL. CRÉDITO. Por expressa disposição legal, são isentos do IPI os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na Amazônia Ocidental com projeto aprovado pela Suframa. Referidos produtos gerarão crédito do imposto, calculado como se devido fosse, sempre que empregados como matériasprimas, produtos intermediários ou materiais de embalagem, na industrialização, em qualquer ponto do território nacional, de produtos efetivamente sujeitos ao pagamento do referido imposto. Estão fora desse rol aqueles insumos que já sofreram industrialização prévia, estando incorporados a novos produtos e descaracterizados, portanto, do conceito de matériaprima extrativa vegetal de produção regional. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2015 PRÁTICAS REITERADAS. EXCLUSÃO DE PENALIDADE. As práticas reiteradas das autoridades administrativas significam uma posição firmada pela administração, antiga, reiterada e pacífica, com relação à aplicação da legislação tributária, e devem ser acatadas como boa interpretação da lei. Assim, o contribuinte que agir em conformidade com a orientação da Administração não fica sujeito a penalidades. Entretanto, não se pode considerar que o posicionamento Fl. 8503DF CARF MF 10 adotado por uma autoridade fiscal em procedimento de fiscalização tenha o condão de caracterizar essa prática reiterada, de modo a possibilitar a exclusão de penalidade. ALTERAÇÕES NO LANÇAMENTO. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. NÃO CARACTERIZAÇÃO. A modificação de critério jurídico mencionada no art. 146 do CTN vinculase a uma modificação, uma alteração na adoção de critérios legalmente estabelecidos, ou, principalmente, na mudança de interpretação dada à legislação tributária pela administração, sendo incabível incluir nesse rol a apuração de infração não detectada em fiscalizações anteriores. ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/01/2011 a 31/12/2012. MERCADORIAS. CLASSIFICAÇÃO. FABRICAÇÃO INDUSTRIAL DE BEBIDAS. Consoante art. 16 do Decreto n. 4.544, de 2002 (RIPI/2002), reproduzido pelo art. 16 do Decreto n. 7.212, de 2010 (RIPI/2010), atualmente em vigência, a classificação de mercadorias, no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), é realizada com o emprego das seis Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH), como também das duas Regras Gerais Complementares (RGC) e das Notas Complementares (NC). Assim, a classificação fiscal de determinado produto é inicialmente levada a efeito em conformidade com o texto da posição e das notas que lhe digam respeito. Uma vez classificado na posição mais adequada, passa se a classificar o produto na subposição de 1º nível (5º dígito) e, dentro desta, na subposição de 2º nível (6o dígito). O sétimo e oitavo dígitos referemse a desdobramentos atribuídos no âmbito do MERCOSUL. À luz da Tabela de Incidência do IPI (TIPI), para efeito da classificação de componentes individuais destinados à fabricação industrial de bebidas, incorreto considerálos como se mercadoria única fossem, em vista da futura preparação que eventualmente vierem a originar após deixarem a esfera da contribuinte, no lugar de individualmente atribuir a cada qual de precitados integrantes os códigos apropriados. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Regularmente notificada da decisão acima em 06/06/2016 (fl. 8.375), a Recorrente apresentou seu recurso voluntário (fls. 8.377/8.416) em 30/06/2016 (fl. 8.376), reiterando os argumentos expendidos na Impugnação, resumidamente, com as seguinte razões: (i) Requer a Nulidade do Lançamento de Ofício A razão seria que, em autos de infração lavrados anteriormente a respeito das mesmas operações (com períodos diferentes), o Fisco se detiveram na análise das mercadorias em causa, glosando os créditos apropriados nas respectivas aquisições pela Recorrente unicamente por suposto não atendimento aos requisitos do art. 6º do DL nº 1.435/75, em virtude do local de origem dos insumos empregados pelos fornecedores. Nos procedimentos fiscais anteriores, JAMAIS houve Fl. 8504DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.491 11 qualquer tipo de discordância quanto ao enquadramento dos “kits” para a fabricação de bebidas no código NCM n. 2106.90.10, “ex. 01”. E foram aceitos, para fins de geração do crédito de IPI, inclusive os insumos utilizados a partir de matériasprimas regionais previamente processadas. (ii) Do Direito aos Créditos Glosados porque as glosas efetuadas não têm respaldo nas normas que disciplinam o IPI, pelo adiante exposto: Ilegitimidade da glosa dos créditos relativos a produtos intermediários. Não prospera a alegação do Fisco e da DRJ, no sentido de que “não se admite o crédito dos produtos excluídos pela fiscalização (parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc), pois não se enquadram no conceito de MP, PI, ou ME”. Ilegitimidade da glosa dos créditos relativos aos insumos e materiais de embalagem para fabricação de refrigerantes oriundos da Zona Franca de Manaus. Houve por bem a Fiscalização glosar os créditos atinentes aos insumos para a fabricação de bebidas e materiais de embalagem, adquiridos dos fornecedores AROSUCO, PEPSI, RAVIBRÁS e VALFILM, ao amparo de duas linhas argumentativas que podem ser assim sumarizadas: (a) Os insumos isentos em questão não preenchem os requisitos elencados no art. 6º do DL n. 1.435/75, não sendo permitido à Recorrente, por tal razão, apurar crédito presumido do imposto “como se devido fosse” na operação praticada por seus fornecedores; e (b) Mesmo que preenchidos os requisitos do art. 6º do DL nº 1.435/75, não haveria direito ao crédito presumido, pois este supõe alíquotas positivas do IPI e, no caso, os insumos adquiridos junto aos fornecedores seriam tributados pela alíquota zero do imposto, e não pelas alíquotas indicadas na posição NCM 2106.90.10, “ex. 01”, indicada nas NFs. Do direito ao crédito presumido de IPI relativamente aos insumos para a fabricação de bebidas e materiais de embalagem oriundos da Zona Franca de Manaus – ZFM: Improcedência das glosas de créditos relativos aos itens adquiridos junto à PEPSI, à AROSUCO (ano de 2012) e à VALFILM, quanto: (a) Correta interpretação do art. 6º do DL n. 1.435/75: O art. 6º do DL n. 1.435/75 confere isenção do IPI aos produtos que especifica, além de crédito presumido do imposto aos respectivos adquirentes, “sempre que” esses produtos sejam destinados à utilização como insumos na industrialização de outros que sejam efetivamente tributados. (a.1.) Possibilidade de utilização de matériaprima regional in natura ou processada. Contradição interna do Auto de Infração e da decisão DRJ. (a.2.) Matériaprima regional é aquela proveniente da Amazônia Legal de outro lado, também se equivocam a Fiscalização e a DRJ, ao afirmarem que a expressão “de produção regional”, empregada pelo art. 6º do DL n. 1.435/75, teria o sentido de que o benefício somente seria aplicável às mercadorias fabricadas com matériasprimas agrícolas ou extrativas vegetais oriundas da Amazônia Ocidental. (b) Conclusão quanto ao tópico: Em suma, ao contrário do que afirmaram a Fiscalização e a DRJ, o produto, para ser alcançado pelo benefício, deve ser fabricado: (1) na Amazônia Ocidental por estabelecimentos industriais com projeto aprovado pela SUFRAMA; Fl. 8505DF CARF MF 12 e (2) com o emprego de matérias de origem vegetal provenientes da Amazônia legal, não importando in natura ou já processadas/industrializadas. (iii) Ilegitimidade da glosa dos créditos em face do tratamento diferenciado previsto no art. 40 do ADCT Também não prospera a exigência da Fiscalização, chancelada pela DRJ, decorrente da glosa dos créditos de IPI apropriados sobre concentrados para a fabricação de refrigerantes e sobre materiais de embalagem, diante do artigo 40 do ADCT17. (iv) Inexistência de erro de classificação fiscal dos “kits” adquiridos junto à PEPSI e à AROSUCO. Que não poderia prevalecer a glosa de créditos atinentes aos “kits” oriundos da PEPSI e da AROSUCO ao fundamento de que teria sido equivocada a sua classificação no item 2106.90.10, “ex. 01”, da TIPI/NCM/SH, pois: (i) a glosa com esse fundamento é nula, por carecer de motivação fática; e, no mérito, (ii) é improcedente. Nulidade parcial da decisão recorrida: Não apreciação de fundamento autônomo para o cancelamento da glosa de créditos relativos às mercadorias baseada em suposto erro na classificação dos “kits” autuados. Preliminarmente, deve ser anulada a decisão recorrida, pelo fato de que deixou de apreciar argumento autônomo apresentado, suficiente para o completo afastamento da tese defendida pelo Fisco, calcada em suposto erro de classificação fiscal dos “kits” autuados. A reclassificação fiscal das mercadorias pretendida não está respaldada por laudo técnico. Motivação de fato (acervo probatório) deficiente. Violação ao art. 142 do CTN e à verdade material. Improcedência da alegação de que os insumos adquiridos junto à PEPSI e à AROSUCO seriam tributados à alíquota zero de IPI. Em face do exposto, concluise que não houve erro de classificação fiscal nas notas de aquisição dos “kits” de concentrados e sabores destinados à fabricação de bebidas, pois: (1) o “kit” contempla uma unidade de ingredientes para a fabricação de bebidas que, pela diversidade de substâncias envolvidas, configura preparação composta; e (2) cada item do “kit”, isoladamente considerado, também configura preparação composta que confere sabor e outros traços sensoriais à bebida fabricada. Além disso, mesmo que parte dos itens devesse ser classificada em outra subposição da NCM, não haveria valor econômico individual que possibilitasse a glosa do IPI. (v) Adquirente de boafé. Direito aos créditos. Por fim, ainda que superados os argumentos expostos nos itens antecedentes, que bem demonstram a ilegalidade da autuação, seria de rigor a convalidação dos créditos apropriados em conformidade com as informações prestadas pelos fornecedores. PEDIDO Por todo o exposto, pede o provimento ao recurso, reformandose a decisão DRJ, com o consequente cancelamento da integralidade do crédito tributário exigido. Em 25/04/2017 (após a interposição do recurso voluntário em 30/06/2016), a Recorrente protocola uma Petição de fls. 8.425/8.427, em que a AMBEV S.A. (com sede no município de Jundiaí/SP) e a unidade de produção do concentrado AROSUCO Aromas e Sucos Ltda (situada em Manaus/AM), solicitou, por meio da Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologias Espaciais FUNCATE, ao Instituto Nacional de Tecnologia INT, um estudo (PARECER) sobre as características técnicas e químicas acerca dos Concentrados para Fl. 8506DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.492 13 fabricação de refrigerantes, com a finalidade de possibilitar seu correto enquadramento quanto a sua classificação fiscal, em consonância com a legislação em vigor (doc. às fls. 8.431/8.459). Diante destas circunstâncias, para evitar qualquer prejuízo ao contraditório e à ampla defesa no presente processo, em 11/09/2017, os autos foram encaminhados para que a Procuradoria da Fazenda Nacional (PGFN) se manifeste sobre os fatos novos (fl. 8.469). Em 29/09/2017, a FAZENDA NACIONAL (PGFN) apresenta sua Manifestação, conforme documento apensado às fls. 8.472/8.483. É o relatório. Voto Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, Relator 1. Admissibilidade do Recurso O presente recurso é tempestivo e atende os demais pressupostos formais de admissibilidade, razão pela qual dele tomo conhecimento. 2. Preliminares (2.a) Da alegada nulidade do Lançamento de Ofício Preliminarmente, a Recorrente alega a existência de uma nulidade no procedimento adotado pela fiscalização, motivada por mudança de critério jurídico no presente caso. Para tanto, cita que outras três ações fiscais realizadas, para requerer a nulidade do lançamento, argumentando que o direito ao aproveitamento de créditos e a classificação fiscal dos kits não teria sido contestados nas mesmas. Alega em seu recurso que, em autos de infração lavrados anteriormente a respeito das mesmas operações (com períodos diferentes), o Fisco se deteve na análise das mercadorias em causa, glosando os créditos apropriados nas respectivas aquisições pela Recorrente unicamente por suposto não atendimento aos requisitos do art. 6º do DL nº. 1.435/75, em virtude do local de origem dos insumos empregados pelos fornecedores. Nos procedimentos fiscais anteriores, JAMAIS houve qualquer tipo de discordância quanto ao enquadramento dos “kits” para a fabricação de bebidas no código NCM 2106.90.10, “ex. 01”. E foram aceitos, para fins de geração do crédito de IPI, inclusive os insumos utilizados a partir de matériasprimas regionais previamente processadas. É fato que as práticas reiteradas das autoridades administrativas significam uma posição firmada pela administração, antiga, reiterada e pacífica, com relação à aplicação da legislação tributária, e devem ser acatadas como boa interpretação da lei. Assim, o contribuinte que agir em conformidade com a orientação da Administração Tributária não fica sujeito a penalidades. Sobre o tema, assim dispõem os arts. 100 e 146 do CTN, invocados pela Recorrente: Fl. 8507DF CARF MF 14 “Art. 100. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: (...). III as práticas reiteradamente observadas pelas autoridades administrativas; (...). Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo.” Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução.” No entanto, frisese que o fato de o Fisco não haver detectado anteriormente uma determinada infração praticada pelo contribuinte não pode ser interpretado como um reconhecimento tácito da validade desta conduta, nem tampouco tomado como uma “prática reiteradamente observada pelas autoridades administrativas”, que lhe atribua foros de “norma complementar de lei”. Desta forma, não deve proceder tal preliminar. A alteração de critério jurídico que impede a lavratura de outro Auto de Infração diz respeito a um mesmo lançamento, e não a lançamentos diversos, como citado no presente caso. Em vista disso, nego provimento à preliminar apontada. (2.b). Alegada Nulidade parcial da Decisão da DRJ e da preterição direito defesa Alega a Recorrente que, "(...) Preliminarmente, deve ser anulada a decisão recorrida, pelo fato de que deixou de apreciar argumento autônomo apresentado, suficiente para o completo afastamento da tese defendida pelo Fisco, calcada em suposto erro de classificação fiscal dos “kits” autuados. (2.b.1) Da solicitação de perícia para apresentação de laudo Aduz que demonstrou, em sede de Impugnação, que o lançamento de ofício padece de nulidade, no concernente a essa parcela da exigência, já que o fato apontado como sendo o seu “motivo determinante” não contou com a prova devida, qual seja, a apresentação de Laudo Técnico (LT) que: (1) atestasse o erro imputado à classificação fiscal constante das NFs de aquisição dos referidos “kits”; e (2) indicasse como válida a classificação fiscal defendida pela fiscalização. Afirma que os argumentos acima referido, viola os arts. 31 e 59 do Decreto nº 70.235/72, que não foi apreciado pela DRJ; que tal argumento era autônomo e suficiente para o afastamento integral da tese sustentada pela Fiscalização, razão pela qual deveria ter sido minimamente enfrentado, mas não o foi. Por tal razão, a uma só penada, a DRJ preteriu o direito de defesa constitucional e legalmente assegurado à Recorrente e suprimiu instância impugnatória a que esta tinha direito, o que compromete por completo a validade do decisum proferido, no que tange ao tema em questão. Como pode ser observado, a Recorrente requereu em sede de Impugnação a realização de perícia para elaborar Laudo Técnico para que seja confirmada, com o objetivo de determinar a real natureza de cada um de seus componentes para, em função do Laudo Fl. 8508DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.493 15 expedido, verificar e se pronunciar sobre a correta reclassificação dos produtos sob discussão nestes autos. Vejase (trecho fl. 7.742): "(...) Nesse sentido, incumbia à Fiscalização não apenas ‘fotografar’ as caixas onde armazenados os ‘kits’ ou citar trechos de dicionários (!) para embasar conceitos técnicos, mas colher amostras e solicitar perícia com o objetivo de determinar a real natureza de cada um de seus componentes para, em função do laudo expedido, verificar a correta reclassificação dos produtos, fazendo, ainda, a devida juntada do documento expedido pelo órgão técnico para que pudesse ser contraditado, como preconiza a legislação aduaneira (que rege a classificação fiscal de mercadorias inclusive para fins de IPI) e em prestígio à legalidade e ao princípio da ampla defesa. Entendo não assistir razão à Recorrente. A decisão de piso, entendeu ser desnecessária e prescindível a realização de diligência/perícia com vistas à confirmação ou retificação da Classificação Fiscal dos "kits", conforme exaustivamente demonstrado no Relatório Fiscal (anexo ao Auto de Infração), posto estar encartado nos autos robusto conjunto probatório capaz de formar a convicção do julgador, senão vejamos. Conforme preceitua o artigo 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, a realização de perícia somente será determinado pela autoridade julgadora quando esta entendêla necessária, podendo indeferilo quando entendêla prescindível, na forma abaixo: “Art. 18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine.” Neste sentido, o artigo 29 do mesmo diploma normativo, confere à esta autoridade liberdade na formação da sua livre convicção, podendo determinar a realização de diligência nos casos que entendêla necessária, conforme abaixo: “Art. 29. Na apreciação da prova, a autoridade julgadora formará livremente sua convicção, podendo determinar as diligências que entender necessárias.” Ademais, na forma do quanto dispõe o artigo 28 do citado Decreto, a decisão que julgar preliminar e mérito deverá indeferir o pedido de perícia, se for o caso. Vejase: “Art. 28. Na decisão em que for julgada questão preliminar será também julgado o mérito, salvo quando incompatíveis, e dela constará o indeferimento fundamentado do pedido de diligência ou perícia, se for o caso.” Por fim e não menos importante, de acordo com o disposto no art. 16 do Decreto nº 70.235/72, a requisição de perícia pelo contribuinte na Impugnação deve ser acompanhada dos quesitos a serem analisados, bem como o nome, endereço e qualificação do profissional que exercerá a perícia. Confirase: Art. 16. A impugnação mencionará: (...) IV as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes Fl. 8509DF CARF MF 16 aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. Desta feita, como tais requisitos legais não foram observados na peça recursal, a decisão rejeitou o pedido de perícia. Assim, embasado no processo de instrução destes autos e nos fundamentos legais acima expostos, a decisão entendeu ser a perícia desnecessária e prescindível ao caso, motivo pelo qual foi desnecessário tal providência. Por fim, o pedido de diligências e/ou perícias podem ser indeferidos pelo órgão julgador quando desnecessários para a solução da lide. Os documentos necessários para fazer prova em favor do contribuinte não são supridos mediante a realização de diligências/perícias, mormente quando o próprio contribuinte dispõe de meios próprios para providenciálos. (2.b.2) Da alegada preterição do direito de defesa Verificase que o auto de infração teve sua origem em auditoria realizada pela Fiscalização da RFB, fartamente detalhada em relatório fiscal (anexo ao auto), onde consta a motivação para o lançamento e as provas que conduziram a autoridade fazendária a lavratura do auto de infração. A Recorrente foi cientificada da exigência fiscal e apresentou impugnação que foi apreciada em julgamento realizado na primeira instância. Irresignada com o resultado do julgamento da autoridade a quo, protocolou seu recurso voluntário, rebatendo as posições adotadas no acórdão recorrido, combatendo as razões de decidir daquela autoridade, portanto, as motivações para o lançamento, bem como, as do julgamento na primeira instância foram claramente identificadas. Ora, com todo este histórico de discussão administrativa, não se pode falar em cerceamento de direito de defesa ou quaisquer outros vícios no lançamento ou no julgamento da primeira instância, todo o procedimento previsto no Decreto 70.235/72 foi observado, tanto o lançamento tributário, bem como, o devido processo administrativo fiscal. Apenas para um melhor esclarecimento sobre o assunto, transcrevese o dispositivo que rege a matéria no processo administrativo fiscal. Prescreve o art. 59 do Decreto nº 70.235/72, com a nova redação dada pela Lei nº 8.748, de 1993: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. § 1º (...). Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Assim, não merece guarida a alegação de nulidade da decisão recorrida, uma vez que foram cumpridos tais requisitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Fl. 8510DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.494 17 Neste diapasão, não há qualquer nulidade a macular a presente decisão, motivo pelo qual rechaço as preliminares aventadas pela Recorrente. 2.c) Da Petição protocolada e PARECER do INT Em 25/04/2017, 10 meses após a interposição do recurso voluntário (interposto em 30/06/2016), a Recorrente apresenta a Petição de fls. 8.425/8.427, em que a AMBEV S.A. (com sede no município de Jundiaí/SP) e a unidade de produção do concentrado AROSUCO Aromas e Sucos Ltda (situada em Manaus/AM), solicitou, por meio da Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologias Espaciais FUNCATE, ao Instituto Nacional de Tecnologia INT, um estudo (PARECER) sobre as características técnicas e químicas acerca dos "Concentrados" para fabricação de refrigerantes, com a finalidade de possibilitar seu correto enquadramento quanto a sua classificação fiscal, em consonância com a legislação em vigor (doc. às fls. 8.431/8.459). Diante destas circunstâncias, para evitar qualquer prejuízo ao contraditório e à ampla defesa no presente processo, os autos foram encaminhados para que a Procuradoria da Fazenda Nacional (PGFN), se manifeste sobre os fatos novos apresentados (fl. 8.469). Em 29/09/2017, a FAZENDA NACIONAL (PGFN) apresenta sua Manifestação, conforme documento apensado às fls. 8.472/8.483, concluindo que não concorda com a juntada extemporânea de documentos, com base no art. 16, § 4º, do Decreto nº 70.235/72. Vejase: "(...) Logo, considerandose que o contribuinte foi intimado antes mesmo da lavratura do auto de infração, que teve oportunidades de juntar provas que lhe favorecessem quando da interposição das peças de insurgência (impugnação e recurso voluntário) e, ainda, que poderia ter requerido a realização de perícia caso obedecido os ditames legais, cabe concluir que não há qualquer justificativa razoável para dilatar o contencioso fiscal e subverter o princípio do devido processo legal. Isso porque a autoridade competente para apreciação de provas é a auditoria fiscal, elevando à segunda instância apenas questões já conhecidas e devidamente discutidas e não provas objeto de indevida inovação neste momento processual". "(...) Por esta razão, não há como ser permitida a juntada serôdia de documentos. Com efeito, a verdade material não pode ser elevada a tal patamar que anule por completo as regras para o correto desenvolvimento do processo administrativo, erigindo à condição de “letra morta” a norma jurídica estabelecida nos §§ 4º e 5º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972". Com referência a classificação fiscal dos "kits", a Procuradoria da Fazenda Nacional aduz que não é a questão central a ser debatida no presente feito. Apenas após ultrapassada a discussão sobre os demais pontos levantados pelo Fisco relacionados à (in)existência do crédito presumido, é que caberia a verificação sobre a correção da classificação adotada pelo contribuinte interessado em contraposição à alegação da fiscalização tributária. Fl. 8511DF CARF MF 18 3. MÉRITO Conforme relatado, este processo tratase de Auto de Infração com a exigência do IPI atinente ao período de apuração (PA) de janeiro/2011 a dezembro/2012, acrescido de multa e juros, decorrentes de: (i) Mercadorias (concentrados fabricação de bebidas e materiais de embalagem) isentas adquiridas de pessoas jurídicas estabelecidas na Zona Franca de Manaus (ZFM), pois parte delas: (a) não teria sido produzida com matériaprima oriunda da área da Amazônia Ocidental; (b) teria sido produzida com produtos resultantes do processamento de matériaprima regional (e não com matériaprima “in natura”); (c) não seria classificada na subposição 2106.90.10, “ex. 01”, da TIPI/NCM, com alíquota positiva de IPI e sim em outras posições, com alíquota zero do imposto; e (ii) Mercadorias (matérias primas e materiais intermediários) adquiridas para utilização no processo industrial da Recorrente, que no entender da fiscalização deveriam ser consideradas como materiais de “uso e consumo”. 4. Dos Créditos Glosados Entende a Recorrente que as glosas efetuadas não têm respaldo nas normas que disciplinam o IPI, pelos motivos que expõe em seu recurso voluntário, que analiso a seguir. 4.1. Glosa dos créditos relativos a produtos intermediários. Aduz a Recorrente em seu recurso que "(...) Não prospera a alegação do Fisco e da DRJ, no sentido de que “não se admite o crédito dos produtos excluídos pela fiscalização (parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc), pois não se enquadram no conceito de MP, PI, ou ME”. Informa que no RIPI/10 (art. 226, I c/c art. 610, II), assim como o revogado RIPI/02 (art. 164, I), assegura créditos em relação materiais de embalagem, matériasprimas e produtos intermediários, inclusive aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, são consumidos no processo de industrialização, desde que não façam parte do ativo permanente. Portanto, como os itens autuados constituem elementos imprescindíveis aos processos da Recorrente e são neles efetivamente consumidos (conforme Laudo Técnico juntado na Impugnação), resta claro que a glosa não procede, devendo ser reformada a decisão recorrida e cancelado o Auto de Infração. Por outro lado, a decisão recorrida concluiu que não geram direito ao crédito do IPI, os produtos: "(...) a) que não se integrem nem sejam consumidos na operação de industrialização; b) incorporados às instalações industriais, as partes, peças e acessórios de máquinas equipamentos e ferramentas, mesmo que se desgastem ou se consumam no decorrer do processo de industrialização; c) empregados na manutenção das instalações, das máquinas e equipamentos, inclusive lubrificantes e combustíveis necessários ao seu acionamento". Fl. 8512DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.495 19 Como se vê, uma das controvérsias instaurada na presente demanda diz respeito à glosa dos créditos de IPI referentes à aquisição dos seguintes bens: parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc). Tal questão já foi enfrentada por este Colegiado em caso da mesma Recorrente (AMBEV). É que se observa do bem elaborado Acórdão nº 3402003.227, da lavra da Conselheira Maria Aparecida Martins de Paula. Naquela oportunidade, por unanimidade de votos, esta turma julgadora afastou as pretensões da Recorrente nos seguintes termos: (...). No que concerne às demais glosas, de itens de manutenção e reparação de máquinas (gaxetas, mangueiras, aneis de vedação, selo mecânico, disco separador, retentor, etc.), elas foram efetuadas pela fiscalização pelo fato de os produtos adquiridos não se enquadrarem no conceito de matériaprima, produto intermediário ou material de embalagem. Não obstante a técnica da não cumulatividade do IPI tenha amparo no art. 153, §3° da Constituição Federal, esse dispositivo, por si só, não assegura o direito ao crédito do IPI sobre os produtos adquiridos, havendo a necessidade de lei ordinária, regulamento e normas complementares (art. 100 do CTN) que tragam as condições e as formas para que esse crédito possa ser aproveitado pelo contribuinte, conforme já decidido no Acórdão nº 3302002.127 – 3ª Câmara/2ª Turma Ordinária, j. 22/05/2013, Rel. Gileno Gurjão Barreto. Nesse contexto é que dispõe o art. 226, I do Regulamento do IPI/2010, e dispunha o art. 164, I do RIPI/2002, vigente à época dos fatos geradores, que os estabelecimentos industriais e os que lhe são equiparados podem creditarse do imposto relativo às matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose, entre as matériasprimas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de fabricação, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente. Também os Pareceres Normativos CST nº 65/79 e nº 181/74, que são atos normativos expedidos pelas autoridades administrativas, nos termos do art. 100, I do CTN, auxiliam na determinação do sentido e alcance das normas legais e do regulamento acerca de quais insumos ensejam aproveitamento de créditos do IPI. Com efeito, dispõem o item 11 do Parecer Normativo CST nº 65/79 e o item 13 do Parecer Normativo nº 181/74 que: [Parecer Normativo CST nº 65/79] 11. Em resumo, geram o direito ao crédito, alem dos que se integram ao produto final (matériasprimas e produtos intermediá7rios, “stricto senso”, material de embalagens), quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função de ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação; ou viceversa, proveniente de ação exercida diretamente pelo bem em industrialização, desde que não devam, em face dos princípios contábeis geralmente aceitos, ser incluídos no ativo permanente. [Parecer Normativo nº 181/1974] (...) Fl. 8513DF CARF MF 20 13. Por outro lado, ressalvados os casos de incentivos expressamente previstos em lei, não geram direito ao crédito do imposto os produtos incorporados às instalações industriais, as partes, peças e acessórios de máquinas equipamentos e ferramentas, mesmo que se desgastem ou se consumam no decorrer do processo de industrialização, bem como os produtos empregados na manutenção das instalações, das máquinas e equipamentos, inclusive lubrificantes e combustíveis necessários ao seu acionamento. Entre outros, são produtos dessa natureza: limas, rebolos, lâmina de serra, mandris, brocas, tijolos refratários usados em fornos de fusão de metais, tintas e lubrificantes empregados na manutenção de máquinas e equipamentos etc.” [grifos da Relatora] Assim, em consonância aos dispositivos e atos normativos acima mencionados, o aproveitamento do crédito de IPI relativo aos insumos que não integram o produto pressupõe o consumo, ou seja, o desgaste de forma imediata (direta) e integral do produto intermediário durante o processo de industrialização e que o produto não esteja compreendido no ativo permanente da empresa. De forma que não há como acolher a pretensão da recorrente de ter reconhecido o direito ao crédito do IPI sobre tudo aquilo que contribui para o processo produtivo. Neste mesmo sentido decidiu o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo (REsp nº 1.075.508), cujos termos vincula este colegiado consoante regra referida acima contida no Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O RECURSO ESPECIAL Nº 1.075.508 SC (2008/01532905), representativo de controvérsias, nos termos do artigo 543C do CPC, traz a seguinte ementa: EMENTA PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. CREDITAMENTO. AQUISIÇÃO DE BENS DESTINADOS AO ATIVO IMOBILIZADO E AO USO E CONSUMO. IMPOSSIBILIDADE. RATIO ESSENDI DOS DECRETOS 4.544/2002 E 2.637/98. 1. A aquisição de bens que integram o ativo permanente da empresa ou de insumos que não se incorporam ao produto final ou cujo desgaste não ocorra de forma imediata e integral durante o processo de industrialização não gera direito a creditamento de IPI, consoante a ratio essendi do artigo 164, I, do Decreto 4.544/2002 (Precedentes das Turmas de Direito Público: AgRg no REsp 1.082.522/SP, Rel.Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 16.12.2008, DJe 04.02.2009; AgRg no REsp 1.063.630/RJ, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 16.09.2008, DJe 29.09.2008; REsp 886.249/SC, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 18.09.2007, DJ 15.10.2007; REsp 608.181/SC, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 06.10.2005, DJ 27.03.2006; e REsp 497.187/SC, Rel. Ministro Franciulli Netto, Segunda Turma, julgado em 17.06.2003, DJ 08.09.2003). 2. Deveras, o artigo 164, I, do Decreto 4.544/2002 (assim como o artigo 147, I, do revogado Decreto 2.637/98), determina que os estabelecimentos industriais (e os que lhes são equiparados), entre outras hipóteses, podem creditarse do imposto relativo a matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindose ‘aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente’. 3. In casu, consoante assente na instância ordinária, cuidase de estabelecimento industrial que adquire produtos ‘que não são consumidos no processo de industrialização (...), mas que são componentes do maquinário (bem do ativo permanente) que sofrem o desgaste indireto no processo produtivo e cujo preço já Fl. 8514DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.496 21 integra a planilha de custos do produto final’, razão pela qual não há direito ao creditamento do IPI. 4. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. (...). No caso, a Recorrente não discorda que os produtos adquiridos para manutenção e reparação não tenham tido contato físico direto, nem sofreram ou exerceram diretamente ação no produto industrializado. No entanto, o desgaste geral das peças e equipamentos, decorrentes de sua utilização normal, e não por ação direta no produto em fabricação, não dá o direito ao creditamento do IPI, conforme se depreende as normas acima transcritas. De outra parte, a glosa não se deu em face de tais bens integrarem o ativo permanente, sendo desnecessária tal comprovação pelo Fisco, como sustentado pela recorrente. (grifos constantes no original, sublinha nossa)". No presente caso, há coincidência de parcela dos bens glosados e aqui debatidos daqueles que foram objeto de glosa e análise no sobredito Acórdão. Os bens abrangidos pelo referido voto são as partes, peças de máquinas, aparelhos e equipamentos. Desta forma, aqui nestes autos (como lá), para tais bens, indefiro o creditamento nos exatos termos expostos no supracitado decisório, o que faço nos termos do art. 50, § 1o da lei nº 9.784/99. Posto isto, não se admite o crédito dos produtos excluídos pelo Fisco (parafusos, arruelas, buchas, retentores, rolamentos, gaxetas, correias, mangueiras, anéis de vedação, válvulas, etc), pois não se enquadram no conceito de MP, PI, ou ME. Como foi seguido estritamente o direito a crédito relativo a MP, PI e ME adquiridos para emprego na industrialização, portanto, não há que se falar em violação ao art. 25, I, da Lei n° 4.502, de 1964. Diante do exposto, entendo correta a glosa efetuada pelo Fisco. 4.2 Dos créditos relativos aos insumos e materiais de embalagem para fabricação de refrigerantes oriundos da Zona Franca de Manaus. Glosas Houve por bem a Fiscalização glosar os créditos atinentes aos insumos para a fabricação de bebidas e materiais de embalagem, adquiridos dos fornecedores AROSUCO, PEPSI, RAVIBRÁS e VALFILM, ao amparo de duas linhas argumentativas que podem ser assim sumarizadas: (a) os insumos isentos em questão não preenchem os requisitos elencados no art. 6º do DL nº 1.435/75, não sendo permitido à Recorrente, por tal razão, apurar crédito presumido do imposto “como se devido fosse” na operação praticada por seus fornecedores; e (b) mesmo que preenchidos os requisitos do art. 6º do DL nº. 1.435/75, não haveria direito ao crédito presumido, pois este supõe alíquotas positivas do IPI e, no caso, os insumos adquiridos junto aos referidos fornecedores seriam tributados pela alíquota zero do imposto, e não pelas alíquotas da posição NCM 2106.90.10, “ex. 01”, indicada nas NFs. Fl. 8515DF CARF MF 22 5. Das glosas de créditos aquisições junto à PEPSI, à AROSUCO e à VALFILM. Alega a Recorrente que "(...) A glosa, por parte da Fiscalização, dos créditos de IPI relativos aos itens em referência decorre de interpretação equivocada dos termos contidos no art. 6º do DL nº 1.435/75 e dos correspondentes dispositivos do RIPI/10, razão pela qual não pode a exigência fiscal prevalecer". Em resumo, destaco os seguintes pontos abordados pela Recorrente a serem enfrentados neste tópico: (a) Da Correta interpretação do art. 6º do DL nº 1.435/75. Informa que o art. 6º do DL n. 1.435/75 confere isenção do IPI aos produtos que especifica, além de crédito presumido do imposto aos respectivos adquirentes, “sempre que” esses produtos sejam destinados à utilização como insumos na industrialização de outros que sejam efetivamente tributados. A simples leitura do dispositivo revela que dois são os requisitos para que um produto seja alcançado pelo benefício: (i) ser produzido por estabelecimentos com projeto aprovado pela SUFRAMA e instalados na Amazônia Ocidental, assim definida pelo art. 1º, §4º, do DL n. 291/67; e (ii) ser “elaborado com” matérias primas agrícolas e/ou extrativas “de produção regional”. (b) Possibilidade de utilização de matériaprima regional in natura ou processada. Alegada contradição interna do Auto de Infração e da decisão DRJ. Argumenta que o que importa para efeito da fruição do benefício previsto no art. 6º DL n. 1.435/75 é que a mercadoria possua, de forma direta ou indireta, conteúdo agrícola ou extrativo vegetal de origem amazônica, sendo indiferente se in natura ou previamente industrializado, diferentemente do que alegam o Fisco e a DRJ. (c) Matériaprima regional é aquela proveniente da Amazônia Legal. Aduz que a interpretação sistemática dos dispositivos transcritos revela que o incentivo de que trata do DL nº 1.435/75 ,contempla dois critérios geográficos (espaciais) distintos: (1º) industrialização dos produtos por estabelecimentos localizados na “área” da Amazônia Ocidental; (2º) elaboração de tais produtos com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais da “região” da Amazônia, delimitada pelo art. 2º da Lei n. 5.173/1966 c/c art. 45 da Lei Complementar n. 31/1977, corresponde à chamada “Amazônia Legal” e compreende os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão (parte oeste do meridiano de 44º), Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. d) Conclusão do tópico Em suma, entende que ao contrário do que afirmaram a Fiscalização e a DRJ, o produto, para ser alcançado pelo benefício, deve ser fabricado: (i) na Amazônia Ocidental por estabelecimentos industriais com projeto aprovado pela SUFRAMA; e (ii) com o emprego de matérias de origem vegetal provenientes da Amazônia legal, não importando in natura ou já processadas/industrializadas. Pois bem. Segundo alega a Recorrente, a glosa aqui debatida seria indevida, na medida em que a Recorrente teria cumprido as exigências legais estabelecidas pelo 6º do Fl. 8516DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.497 23 Decreto nº 1.435/75, c/c o estatuído no art. 95, inciso III do RIPI/2010, para o aproveitamento do crédito de IPI na hipótese de produtos isentos oriundos da ZFM. “Art 6º Ficam isentos do Imposto sobre Produtos Industrializados os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na área definida pelo § 4º do art. 1º do Decretolei nº 291, de 28 de fevereiro de 1967.” (grifei) Observase que a divergência aqui externada diz respeito ao conteúdo semântico da expressão "de produção regional". Isso porque, convém lembrar, que conforme consta dos autos, as matériasprimas em questão são "concentrados" adquiridos pela Recorrente da PepsiCola Industrial da Amazônia Ltda, os quais são fabricados a partir de corante caramelo, que, por sua vez, é fabricado a partir do açúcar de cana, produzido no Estado do Mato Grosso (MT). Vejase trecho extraído do próprio Recurso Voluntário (fl. 8.393): "(...) Esses os motivos pelos quais a SUFRAMA manifestouse no sentido de que os concentrados de “cola” da PEPSI, contendo corante caramelo fornecido por DD WILLIAMSON (indústria instalada na ZFM) fabricado a partir do açúcar (produto industrializado) de cana (matéria prima bruta) originário do Mato Grosso (Amazônia Legal), dão direito ao benefício de que trata o art. 6º do DL n. 1.435/75, como é o caso dos créditos apropriados pela Recorrente" (grifei). De fato, o que se observa no Relatório de Fiscalização é que nos casos da PEPSI e VALFILM é que os ditos “insumos regionais” (açúcar e dendê) são utilizados como matériasprimas de produtos industrializados por outras empresas. Posteriormente, tais produtos industrializados (corante caramelo e óleo de dendê) é que serão as matériasprimas utilizadas na fabricação do concentrado e do filme stretch, estes os produtos vendidos para a Recorrente. Dessa forma, não há que se falar em possibilidade de aproveitamento de créditos previstos no § 1º do art. 6º do Decretolei nº 1.435, de 1975. No caso da AROSUCO, a empresa informou que no período janeiro de 2010 a dezembro de 2011 os concentrados de sabores, que não os de guaraná, não continham em sua composição extratos vegetais de produção regional e, para o ano de 2012, informou que nos concentrados de outros sabores, que não o guaraná, era utilizada matériaprima extrativa vegetal de produção regional, listando os fornecedores, as matériasprimas, e apresentou cópias de notas fiscais destas matériasprimas. Analisando a lista, a fiscalização detectou que se tratavam oriundos de outros pontos do País e/ou industrializados. Assim, segundo a fiscalização, a matériaprima em questão não seria de produção regional, vale dizer, da Amazônia Ocidental (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia ou Roraima), diferentemente do que alega a Recorrente, para quem a expressão “regional” não se limitaria à "Amazônia Ocidental”, mas se estenderia à “Amazônia Legal”, a qual abrange o Estado do Mato Grosso. Essa matéria já foi enfrentada reiteradas vezes por esse Colegiado em casos da mesma empresa Recorrente, só que por intermédio de diferentes filiais. É o que se observa Fl. 8517DF CARF MF 24 da ementa abaixo transcrita e extraída do acórdão nº 3402002.933, de relatoria da Conselheira Thais De Laurentiis Galkowicz: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 10/01/2007 a 31/12/2009 ISENÇÃO. IPI. CRÉDITO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. No artigo 6º do DecretoLei nº 1.435/75, entendese por "matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do DecretoLei n. 291/67 (Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima), não se confundindo com a Amazônia Legal (Lei nº 5.173/66). (...). No mesmo sentido foi o acórdão n. 3402002.927, também desta Turma julgadora, de relatoria do Conselheiro Antonio Carlos Atulim, cuja ementa restou assim consignada: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Anocalendário: 2008 (...). ISENÇÃO. AMAZÔNIA OCIDENTAL. No art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75, entendese por "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", aquelas produzidas na área da Amazônia Ocidental. Nesta oportunidade, assim se manifestou o então Relator do caso a respeito desta questão: "(...) O contribuinte entende que o objetivo do DecretoLei nº 1.435/75 foi o de fomentar a expansão econômica da região com menor desenvolvimento econômico do país e de propiciar a ocupação dessa região. Por tal motivo, o termo "regional" deveria ser entendido como Amazônia Legal. A argumentação do contribuinte é improcedente. Os DecretosLeis nº 288/67 e 1.435/75 estabeleceram um tratamento fiscal privilegiado para industrializar as áreas da Zona Franca de Manaus e da Amazônia Ocidental. A industrialização dessas áreas traria o desenvolvimento econômico e como consequência a ocupação populacional daqueles territórios. Exatamente por essa razão é que o vocábulo "regional" contido no art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75 abrange apenas e tão somente as matériasprimas vegetais e extrativas produzidas na Amazônia Ocidental. No DecretoLei nº 1.435/75 o vocábulo "regional" só foi empregado uma única vez no art. 6º. Esse mesmo artigo 6º remete o leitor à área definida no § 4º do art. 1º do DecretoLei nº 291/67. O DecretoLei nº 291/67 estabeleceu incentivos para o desenvolvimento da Amazônia Ocidental da Faixa de Fronteiras abrangida pela Amazônia. E o § 4º do art. 1º do DecretoLei nº 291/67, estabelece que a Amazônia Ocidental é constituída pela área abrangida pelos Estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. Fl. 8518DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.498 25 Tendo em vista que se trata de isenção, deve incidir o comando do art. 111, II, do CTN, que determina que as normas sobre isenção devem ser interpretadas de forma literal. Se o próprio art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75 remete à delimitação de Amazônia Ocidental contida no art. 1º, § 4º, do DecretoLei nº 291/67, não há como sustentar que "regional" se refere à Amazônia Legal. O conceito de Amazônia Legal foi criado apenas para os fins da Lei nº 5.173/66 (que instituiu o plano de valorização econômica da Amazônia) e abrange praticamente a metade do território brasileiro. Tanto que o art. 2º da referida lei já inicia a definição de Amazônia Legal da seguinte forma: "A Amazônia, para os efeitos desta lei, abrange a região compreendida pelos Estados do Acre, Pará e Amazonas, pelos Territórios Federais do Amapá, Roraima e Rondônia, e ainda pelas áreas do Estado de Mato Grosso a norte do paralelo de 16º, do Estado de Goiás a norte do paralelo de 13º e do Estado do Maranhão a oeste do meridiano de 44º. (...)". Quisesse o legislador do DecretoLei nº 1.435/75 se referir à Amazônia Legal, teria remetido o leitor do art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75 à Lei nº 5.173/66 e não ao DecretoLei nº 291/67. A interpretação pretendida pelo contribuinte é inadmissível, não só em face do art. 111, II, do CTN, mas também por não ser crível que ao instituir uma isenção voltada especificamente ao desenvolvimento e à ocupação das áreas mais inóspitas do território nacional, o legislador tenha pretendido incluir no incentivo metade do território nacional, onde se localizam Estados como Mato Grosso e Goiás, verdadeiros celeiros da produção nacional de grãos. Assim, é evidente que o termo "regional" contido no art. 6º do DecretoLei nº 1.435/75 se refere às matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais produzidas na Amazônia Ocidental, tal como definida no art. 1º, § 4º, do DecretoLei nº 291/67 e não na Amazônia Legal, que é um conceito meramente político criado exclusivamente para os fins da Lei nº 5.173/66. Reforça esta interpretação o texto da exposição de motivos do DecretoLei nº 1.435/75, onde se nota claramente que sua edição teve por objetivo corrigir falhas e distorções constatadas nos benefícios concedidos à Zona Franca de Manaus e à Amazônia Ocidental. É evidente que no caso concreto não foi respeitada a condição estabelecida na Resolução CAS nº 356/2002, pois não foram empregados na fabricação do concentrado matériasprimas de produção regional, uma vez que o açúcar que deu origem ao corante caramelo foi produzido no Mato Grosso e não na Amazônia Ocidental, o que justifica a glosa dos créditos no estabelecimento adquirente para o fim de exigência do IPI. Além disso, cabe acrescentar que o açúcar produzido no Estado do Mato Grosso e o próprio corante caramelo não se enquadram no conceito de matériaprima, pois são na verdade produtos intermediários industrializados e não "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional" referidas no art. 6º do DL nº 1.435/75. A exigência legal é clara no sentido de que os produtos beneficiados pela isenção devam ser produzidos com matériasprimas vegetais provenientes de cultivo ou de extrativismo na região da Amazônia Ocidental. Fl. 8519DF CARF MF 26 A lei não se referiu a produtos intermediários, mesmo que sejam produzidos com matériasprimas extraídas ou cultivadas na região, como parece ser o entendimento da recorrente. Reforça essa interpretação a redação do § 1º do mesmo art. 6º, na parte em que estabelece que os produtos mencionados no caput gerarão crédito ficto do IPI quando forem empregados como matériasprimas, produtos intermediários ou materiais de embalagem na industrialização de produtos tributados. No âmbito do IPI, quando o legislador quer abranger os insumos em geral ele menciona as três espécies (matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem). Sendo assim, se o caput do art. 6º só mencionou "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", não há espaço para a interpretação mais alargada pretendida pela recorrente, para o fim de incluir produtos intermediários fabricados na região, ainda que esses produtos intermediários tenham sido produzidos com matériasprimas de origem vegetal. Decorre daí que não têm nenhuma valia para a pretensão da recorrente a declaração emitida pela PepsiCola Industrial do Amazonas (fl. 2114/2115); a informação de que a SUFRAMA validou Laudo Técnico de Auditoria Independente, que teria demonstrado a conformidade da fornecedora com os requisitos legais (fls. 372/380), pois a competência para fiscalizar o IPI e as respectivas isenções é da Receita Federal. Também não tem nenhuma valia para o deslinde do caso concreto as disposições da Portaria MDIC/MCT nº 842/2007, pois além desta portaria se referir ao processo produtivo básico estabelecido para produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, o açúcar supostamente produzido no Estado do Mato Grosso e o corante caramelo não podem ser enquadrados como "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", mas sim como produtos intermediários industrializados, os quais não atendem ao requisito estabelecido no art. 6º do DL nº 1.435/75. (...). (grifos constante no original) Com base em tais fundamentos e, ainda, conforme disposto no art. 50, § 1o da lei n. 9.784/99, entendo que não foram cumpridos os requisitos legais para a utilização do crédito de IPI em questão, uma vez que, como demonstrado nos autos pelo Fisco, a matéria prima empregada é egressa da Amazônia Legal e não da Amazônia Ocidental, conforme estabelece a legislação. Portanto, se o produto adquirido pela Recorrente não é aquele cuja natureza específica está contemplado na norma isencional (art. 6° do Decreto lei n° 1.435/75), não há como pretender se creditar do imposto (IPI), como se devido fosse. Portanto, os produtos adquiridos da PEPSI, AROSUCO (corante caramelo) e VALFILM (filme stretch), não faziam jus à isenção do artigo 6º do DL n° 1.435/75. 6. Dos Atos (Resoluções CAS e Pareceres Técnicos) expedidos pela SUFRAMA Sobre a questão da fruição dos benefícios fiscais (isenção), a Recorrente também argumenta que, "(...) Aliás, esse é o entendimento oficial da SUFRAMA, órgão que detém competência exclusiva para aprovar “os projetos de empresas que objetivem usufruir dos benefícios fiscais previstos... no art. 6º do DecretoLei no 1.435, de 16 de dezembro de 1975, bem como estabelecer normas, exigências, limitações e condições para a aprovação dos referidos projetos” (art. 4º, I, “c”, anexo ao Decreto n. 7.139/2010). Fl. 8520DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.499 27 Em outras palavras, a SUFRAMA reconheceu que o benefício de que trata o art. 6º do DL n. 1.435/1975 abrange: A Produtos elaborados com matérias de origem vegetal, sejam elas in natura OU já processadas; e B Produtos elaborados com materiais vegetais originários da Amazônia Legal, desde que a fabricante esteja na área da Amazônia Ocidental". E prossegue afirmando que "(...) Esses os motivos pelos quais a SUFRAMA manifestouse no sentido de que os concentrados de “cola” da PEPSI, contendo corante caramelo fornecido por DD WILLIAMSON (indústria instalada na ZFM) fabricado a partir do açúcar (produto industrializado) de cana (matéria prima bruta) originário do Mato Grosso (Amazônia Legal), dão direito ao benefício de que trata o art. 6º do DL n. 1.435/75, como é o caso dos créditos apropriados pela Recorrente. Aliás, tal orientação da SUFRAMA corroborando a ilegalidade da glosa dos créditos atinentes aos produtos da PEPSI, pode ser estendida, nos termos expostos, aos insumos adquiridos junto à AROSUCO (corante caramelo) e VALFILM (filme stretch) uma vez que a glosa dos créditos atinentes às referidas fornecedoras pautouse na mesma argumentação: o fato de tais componentes não configurarem matériaprima in natura, mas matériaprima objeto de prévio processamento. Observase que a defesa entende que esse vocábulo "regional" tem o significado e interpretação que já teria sido chancelada pela própria SUFRAMA. Corroborando neste sentido, a própria Recorrente cita Resolução SUFRAMA, Parecer Técnico de projeto e Ofício resposta (atos administrativos citados em seu recurso), que reconhece aos fornecedores do concentrado para bebidas não alcoólicas, o direito à isenção do art. 6º do Decreto Lei nº 1.435/75, condicionado a uma série de requisitos, entre os quais, "a utilização de matéria prima regional na fabricação do produto, no mínimo conforme termos do projeto aprovado." No entender da Recorrente os referidos Atos da SUFRMA, era suficiente e bastante para a aprovação do projeto para fruição do beneficio do art. 6º do DL n° 1.435/75, a utilização de açúcar e/ou álcool e/ou corante de caramelo, etc, na produção do concentrado produzidos a partir de cana de açúcar, adquiridas de produtores localizados na Amazônia Ocidental. Nesse sentido argumenta em seu recurso que, "(...) Salientese, por fim, que não pode o contribuinte de boafé ser apenado por agir em conformidade com o entendimento oficial manifestado pelos órgãos que disciplinam e jurisdicionam o incentivo em questão, no caso, o MPO/MDIC/MCT e a SUFRAMA, respectivamente. A atuação dos agentes da RFB deve, assim, ser coerente com o entendimento oficial da Administração, até porque, como visto, é a SUFRAMA que detém competência exclusiva para aprovar os projetos beneficiados com o crédito presumido e para fiscalizálos, quanto ao cumprimento dos requisitos para tanto". Como abordado pela Recorrente, é cediço que o Decreto Lei n° 1.435, de 1975, regulamentado pelo Decreto n° 7.139/2010 (art. 4º, I, c), outorgou à SUFRAMA a competência exclusiva para aprovar os projetos de empresas (PPB), que objetivem usufruir Fl. 8521DF CARF MF 28 dos benefícios fiscais previstos no art. 6° do DL n° 1.435/1975, bem como para estabelecer normas, exigências, limitações e condições para aprovação dos referidos projetos, consoante o art. 176 do CTN. Decreto n° 7.139/2010, Anexo I: "Art. 4º Ao Conselho de Administração da SUFRAMA compete: I aprovar: (...) c) os projetos de empresas que objetivem usufruir dos benefícios fiscais previstos no art. 1º e no art. 9º do DecretoLei n° 288, de 1967, e no art. 6° do DecretoLei n° 1.435, de 16 de dezembro de 1975, e estabelecer normas, exigências, limitações e condições para aprovação, fiscalização e acompanhamento dos referidos projetos; e (...)" Resolução do CAS n° 202/2006: "Art. 1º Os incentivos fiscais administrados pela SUFRAMA, concedidos a projetos industriais que objetivem a industrialização de produtos na Zona Franca de Manaus (ZFM), são os seguintes: (...) No entanto, existem outras condições a serem consideradas conjuntamente na elaboração dos concentrados de refrigerantes da empresa PEPSI (concentrados) e à AROSUCO (corante caramelo) e VALFILM (filme stretch), que como já de conhecimento, não utiliza matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, condição essencial para fruição do beneficio fiscal previsto no dispositivo legal em questão. Portanto, não resta dúvidas quanto as competências da SUFRAMA. Por outro lado, se compete à SUFRAMA administrar os incentivos relativos à Zona Franca de Manaus e à Amazônia Ocidental, cabe à Receita Federal do Brasil (RFB), órgão da Administração Fazendária, a fiscalização do IPI Imposto sobre Produtos Industrializados, conforme o estabelecido no art. 91 da Lei nº 4.502/64 e nos arts. 505 e 507 do RIPI/2010. Desse modo, ao contrário do alegado, não há impedimento algum para que a fiscalização e os órgãos administrativos de julgamento fazendários, no âmbito do processo administrativo de determinação e exigência de créditos tributários, interpretem o alcance do vocábulo "regional" contido no art. 6º do Decreto Lei nº 1.435/75, uma vez que a Resolução CAS nº 298/2007, não se pronunciou a respeito disso. É importante ressaltar que a fiscalização não desconsiderou, nem questionou, a competência da SUFRAMA para aprovar projetos de empresas que desejem usufruir dos benefícios fiscais de instituídos pelo DL nº 1.435, de 1975. Também não desconsiderou os atos dela emanados, que gozam de presunção de legitimidade, veracidade e legalidade, e permanecem válidos para os fins a que se destinam. Quanto aos Atos expedidos pela SUFRAMA e suas posições referidas no recurso, para melhor esclarecimentos sobre essa matéria, me filio as considerações feitas no voto do Acórdão nº 3402002.993, de 26/04/2016, de relatoria do Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, que faço algumas adaptações ao caso presente. "(...) Analisando o conteúdo da Resolução CAS nº 298/2007, verificase que em momento algum a SUFRAMA concedeu a isenção à Recorrente, não havendo que se falar em isenção concedida em caráter individual mediante Despacho, conforme preceitua o art. 179 do CTN. O que a Resolução CAS nº 298/2007 fez, foi aprovar o projeto industrial de atualização da RECOFARMA, com base no Parecer Técnico de Projeto nº 224/2007, para a produção de concentrado para bebidas não Fl. 8522DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.500 29 alcoólicas, com a finalidade de gozo dos incentivos previstos nos arts. 7º e 8º do DL nº 288/67 e no art. 6º do DL nº 1.435/75. Portanto, o objeto dessa Resolução não foi o reconhecimento do direito subjetivo às isenções mencionadas. O Conselho de Administração da SUFRAMA (CAS) reconheceu apenas que a empresa cumpriu os requisitos formais que a habilitam a se instalar na região para usufruir daquelas isenções, mas isso de forma alguma significa que existe um despacho administrativo que reconheceu o direito subjetivo à isenção dos produtos. Notese que a análise da ZFM no mencionado Parecer Técnico atentase à importância econômica quanto aos investimentos proposto pela empresa seu processo produtivo básico, os benefícios sociais aos trabalhadores, assim como análise dos propostos reinvestimentos de lucros na região. Ou seja, sua análise, decorrente de lei, é quanto ao aspecto do potencial de geração de renda e emprego da Zona Franca, dotandoa “de condições econômicas que permitam seu desenvolvimento, em face dos fatores locais e da grande distância, a que se encontram, os centros consumidores de seus produtos” (art. 1º do DL nº 288/1967). Assim, a Resolução da SUFRAMA nada mais significa do que um ato administrativo complexo, lastreado em Parecer Técnico, que aprova um projeto industrial. Desta forma, desde já afastase a competência daquela autarquia para conceder ou não incentivos ficais, ou mesmo fiscalizar sua escorreita aplicação, pois estes decorrem de lei, e muito menos interpretar sua aplicação ou interpretar a legislação fiscal, na qual se inserem os incentivos fiscais latu sensu, matéria reservada à Administração Tributária. O texto da Resolução CAS nº 298/2007, desautoriza a alegação da Recorrente no sentido de que se trata de uma isenção individual concedida por Despacho, conforme definido no art. 179 do CTN". Portanto, no âmbito do IPI, a competência da RFB encontrase prevista no art. 91 da Lei nº 4.502/64, combinado com o art. 2º da Lei nº 11.457/2007. E, no que se refere a competência da fiscalização do IPI, veja o que reproduz os arts. 505 e 506, do RIPI atual (Decreto nº 7.212. de 2010) grifouse: Art. 505. A fiscalização do imposto compete à Secretaria da Receita Federal do Brasil (Lei nº 5.172, de 1966, arts. 142, 194 e 196, Lei nº 4.502, de 1964, art. 91,e Lei no11.457, de 2007, art. 2o). Parágrafo único. A execução das atividades de fiscalização compete às unidades centrais, da referida Secretaria, e, nos limites de suas jurisdições, às suas unidades regionais e às demais unidades, de conformidade com as instruções expedidas pela mesma Secretaria. Art. 506. A fiscalização será exercida sobre todas as pessoas, naturais ou jurídicas, contribuintes ou não, que estiverem obrigadas ao cumprimento de disposições da legislação do imposto, bem como as que gozarem de imunidade condicionada ou de isenção (Lei nº 5.172, de 1966, arts. 142 e 194, parágrafo único, e Lei nº 4.502, de 1964, art. 94). Ainda no art. 15, III, do Decreto nº 7.482, de 2011, que aprova a estrutura regimental do Ministério da Fazenda, à RFB compete, dentre outras coisas, “interpretar e aplicar a legislação tributária, aduaneira, de custeio previdenciário e correlata, editando os atos normativos e as instruções necessárias à sua execução” (grifouse). Fl. 8523DF CARF MF 30 7. Da Portaria Interministerial MDIC/MCT n. 842/2007 Aduz a Recorrente em seu recurso que, (...) Destaquese que a SUFRAMA manifestou entendimento em estrita conformidade com o conceito de matériaprima regional constante da LEI e da Portaria Interministerial MDIC/MCT n. 842/2007. Tal orientação deve ser acolhida por esse E. CARF, pois, do contrário, seria necessário declarála ilegal. Entretanto, a anulação de ato administrativo por vício de ilegalidade há de ser feita de forma expressa e com observância do devido processo legal, não podendo órgão vinculado ao Ministério da Fazenda fazêlo por via interpretativa. Isso implicaria comportamento contraditório (contra factum proprium), vedado pelo ordenamento, em homenagem aos princípios da boafé objetiva e da confiança legítima na Administração". No meu entender, também não tem nenhuma valia para o deslinde do caso concreto as disposições da Portaria MDIC/MCT nº 842/2007, pois além desta Portaria se referir ao Processo Produtivo Básico (PPB) estabelecido para produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, o açúcar supostamente produzido no Estado do Mato Grosso (MT) e o corante caramelo, não podem ser enquadrados como "matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional", mas sim como produtos intermediários industrializados, os quais não atendem ao requisito estabelecido no art. 6º do DL nº 1.435/75. 8. Da glosa dos créditos tratamento diferenciado previsto art. 40 do ADCT. Argumenta a Recorrente que, "(...) é improcedente a glosa dos créditos relativos aos insumos isentos embalagens oriundos da ZFM, tendo em vista o tratamento constitucional conferido àquela área da Amazônia (ADCT, art. 40), devendo ser reformada a decisão DRJ e consequentemente cancelado o AIIM nesse tocante". Desta forma, não se sustenta a pretensão fiscal de estender aos bens originários da ZFM a vedação ao crédito do IPI aplicável aos produtos isentos oriundos das demais regiões do País, inclusive as mais desenvolvidas, sob pena de “esvaziar o alcance da preservação, por norma de envergadura maior, da Zona Franca de Manaus”, mediante o abandono da “região à própria sorte, o que ocorrerá caso as vantagens previstas no campo fiscal tornemse comuns a todo o Pais". O regime fiscal previsto no art. 40 do ADCT (Atos das Disposições Constitucionais Transitórias), encontrase regulado na legislação própria da área, a qual impõe as regras e vedações para usufruto do mesmo. Qualquer modificação que amplie tais direitos somente poderá ocorrer com a alteração dessa legislação ou decisão judicial que reconheça sua inconstitucionalidade, estando a autoridade administrativa limitada ao estrito cumprimento da legislação tributária. Tal matéria, inclusive, já é objeto de súmula do CARF nº 2 e encontrase inserida no art. 26A do Decreto nº 70.235, de 1972 Processo Administrativo Fiscal (PAF): “Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.” Art. 26A. No âmbito do processo administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade.”(Redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009). Fl. 8524DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.501 31 9. Do PARECER emitido pelo INT "Concentrados para fabricação de refrigerantes". Em 25/04/2017, a Recorrente protocola Petição de fls. 8.425/8.427, cujo teor tem como objetivo esclarecer os aspectos técnicos e químicas a cerca dos "Concentrados para fabricação de refrigerantes", apensando aos autos cópia do PARECER solicitado pela AMBEV ao Instituto Nacional de Tecnologia INT/FUNCATE, em conformidade com o art. 30 do Decreto 70.235/1972, de modo, no seu entender, possibilitar o enquadramento dos produtos na classificação fiscal pertinente (às fls. 8.431/8.459). Informa no documento que a juntada neste momento (25/04/2017) se justifica em virtude do princípio da verdade material (CTN, art. 142) e também por se tratar de documento novo, que só agora obtido em razão do tempo necessário à realização de todas as análises pertinentes e formalização de opinião, pelo órgão técnico federal (art. 16, §4º, do Decreto 70.235/1972). Observase no referido Parecer que foi elaborado 6 perguntas sobre as características do referido produto (concentrados, para fabricação de refrigerantes) e como se verifica no corpo da Petição da Recorrente, das respostas aos quesitos formulados, o INT concluiu que (fls. 8.426/8.427): (a) as preparações contidas no EX 01: “não se destinam a ser consumidas como bebidas, ou seja, na prática elas ainda necessitam passar por processo industrial adicional para que o produto resultante se torne apto para consumo final”; (b) as referidas preparações podem conter “a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida”; (c) “os conteúdos líquidos que integram, em bombonas, os kits de concentrados utilizados pelas Consulentes são preparações compostas, cujas composições são obtidas através da mistura de extratos e bases de frutas diversas (mix de frutas)”; (d) “os sais e ácidos que integram os kits para fabricação dos refrigerantes, são sabores concentrados e fazem parte, juntamente com os outros ingredientes, dos produtos que caracteristicamente contribuem para a determinação do sabor das bebidas”; (e) “os componentes líquidos, sais e ácidos que integram os kits de concentrados destinados à fabricação de bebidas possuem, tanto em conjunto, quanto individualmente, capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida pronta, para cada parte dos concentrados” (...). Ao final do documento a Recorrente conclui que, "(...) diante do pronunciamento do órgão técnico federal competente, resta claro que, por suas características particulares intrínsecas, os kits de concentrados adquiridos pela autuada classificamse como 'preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado', descritas no EX 01 da subposição 2106.90.10, da TIPI". No entanto, há que ser observado que o INP, tomou o cuidado de quando da conclusão de seu Parecer, elaborar a seguinte ressalva (fl. 8.458), "(...) ressaltase que tratandose de consulta sobre classificação fiscal de mercadorias, a competência de Fl. 8525DF CARF MF 32 enquadramento do produto é da Coordenação Geral do Sistema de Tributação ou das Superintendências Regionais da Receita Federal, do Ministério da Fazenda, face ao que estipula o artigo 48, parágrafo I, da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, regulamentado pela Instrução Normativa na 1.464, de 8 de maio de 2014, do Secretário da Receita Federal (DOU de 09/05/14)". Por outro lado, a Procuradoria da Fazenda Nacional, instada a manifestarse nos autos, destaca que não concorda com a juntada dos referidos documentos pelas razões seguintes: O primeiro motivo, de ordem processual, impede a juntada da referida documentação com fundamento no artigo 16, §§4º e 5º do Decreto nº 70.235/72, verbis: “Art. 16. A impugnação mencionará: (...)§ 4º A prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) b) refirase a fato ou a direito superveniente;(Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997) § 5º A juntada de documentos após a impugnação deverá ser requerida à autoridade julgadora, mediante petição em que se demonstre, com fundamentos, a ocorrência de uma das condições previstas nas alíneas do parágrafo anterior. (Incluído pela Lei nº 9.532, de 1997)” Informa a Procuradora que "na petição apresentada pelo Recorrente, não houve qualquer demonstração apta a justificar a apresentação tardia de documentos. Não houve, mencionese, a comprovação de motivo que justificasse a impossibilidade de apresentação do mesmo no momento processual oportuno. O contribuinte alega na petição, como fundamento para aceitar a juntada extemporânea dos documentos, a existência de “documento novo”. Todavia, também sob esse fundamento, a juntada do Laudo/Parecer do INT, não merece ser acatada". O segundo motivo, reproduz o texto do Informativo do STJ nº 0522, de agosto de 2013, que ao tratar sobre o significado de documento novo no âmbito do processo civil, que a parte deve demonstrar, apresentando as provas correlatas, os motivos pelos quais não apresentou o documento anteriormente. Ao final, concluiu a PGFN que, não houve durante o iter procedimental qualquer inovação ou alteração do panorama fático ou legal apto a justificar a apresentação extemporânea de documentos. O Recorrente teve todas as oportunidades durante o transcorrer do processo administrativo fiscal para fazêlo e, mesmo antes, quando do início da ação fiscal que resultou na exigência do crédito tributário. "(...) Por esta razão, não há como ser permitida a juntada serôdia de documentos. Com efeito, a verdade material não pode ser elevada a tal patamar que anule por completo as regras para o correto desenvolvimento do processo administrativo, erigindo à condição de “letra morta” a norma jurídica estabelecida nos §§ 4º e 5º do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 1972. Fl. 8526DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.502 33 No entanto, como vem decidindo este Colegiado, com base nos arts. 36 e 38 da Lei nº 9.784, de 1999 (abaixo reproduzido), e por se tratar de matéria objeto de discussão neste processo, tomo conhecimento das referidas alegações contidas na respectiva Petição bem como do referido Parecer elaborado pelo INT solicitado pela Recorrente. Art. 36. Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei. Art. 38. O interessado poderá, na fase instrutória e antes da tomada da decisão, juntar documentos e pareceres, requerer diligências e perícias, bem como aduzir alegações referentes à matéria objeto do processo. 10. Da Classificação Fiscal dos “kits” adquiridos junto à PEPSI e à AROSUCO. Aduz a Recorrente que ainda que superadas as questões acima colocadas, não poderia prevalecer a glosa de créditos atinentes aos “kits” oriundos da PEPSI e da AROSUCO ao fundamento de que teria sido equivocada a sua classificação no item 2106.90.10, “Ex. 01”, da TIPI/NCM/SH, pois: (i) a glosa com esse fundamento é nula, por carecer de motivação fática; e, no mérito, (ii) é improcedente. Por outro giro, para o Fisco (fiscalização e DRJ), os “kits” recebidos da PEPSI e da AROSUCO, não poderiam ser classificados no NCM 2106.90.10, “Ex. 01”, pelos seguintes motivos: (a) não poderem ser tratados como um só produto classificado na referida posição, diante das RGI/SH (IN 807/08) nºs 2(a) e 3(b) e da respectiva Nota Explicativa (XI), no sentido de que ela “não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo”; e (b) não constituírem “preparações compostas para fabricação de refrigerantes”, já que estas suporiam “mercadoria pronta para uso pelo adquirente”, prévio “processamento, de transformação, podendo ser uma simples mistura de ingredientes ou complementada com algo mais elaborado como cozimento”, não sendo esse o caso dos “kits”, já que é o adquirente, e não o fornecedor, que realiza tal processamento (diluição e gaseificação). 11. Da alegada Nulidade parcial da decisão (Não apreciação de fundamento autônomo) Preliminarmente a Recorrente argumenta que a matéria acima (classificação fiscal e necessidade de Laudo técnico) não foi apreciada pela DRJ e que era autônomo e suficiente para o afastamento integral da tese sustentada pela Fiscalização, razão pela qual deveria ter sido minimamente enfrentado, mas não o foi, ocasionando violação aos arts. 31 e 59 do Decreto nº 70.235/72. Por tal razão, a uma só penada, a DRJ preteriu o direito de defesa constitucional e legalmente assegurado à Recorrente e suprimiu instância impugnatória a que esta tinha direito, o que compromete por completo a validade da decisão proferida, no que tange ao tema em discussão. Vejase que essa questão já foi enfrentada quando da análise das preliminares. Embasado no processo de instrução destes autos e nos fundamentos legais lá Fl. 8527DF CARF MF 34 expostos, a decisão entendeu ser a perícia desnecessária e prescindível ao caso, motivo pelo qual foi desnecessário tal providência. Entendo que a decisão recorrida, analisou toda a questão posta nos autos e fundamentou seu voto lastreado nas Regras de Classificação de mercadorias, quais sejam: RGI/SH, RGC e NC. Vejase trecho (ementa) abaixo reproduzido: "(...) Consoante art. 16 do Decreto n. 4.544, de 2002 (RIPI/2002), reproduzido pelo art. 16 do Decreto n. 7.212, de 2010 (RIPI/2010), atualmente em vigência, a classificação de mercadorias, no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), é realizada com o emprego das seis Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH), como também das duas Regras Gerais Complementares (RGC) e das Notas Complementares (NC). Assim, a classificação fiscal de determinado produto é inicialmente levada a efeito em conformidade com o texto da posição e das notas que lhe digam respeito. Uma vez classificado na posição mais adequada, passase a classificar o produto na subposição de 1o nível (5o dígito) e, dentro desta, na subposição de 2º nível (6o dígito). O sétimo e oitavo dígitos referemse a desdobramentos atribuídos no âmbito do MERCOSUL. À luz da Tabela de Incidência do IPI (TIPI), para efeito da classificação de componentes individuais destinados à fabricação industrial de bebidas, incorreto considerálos como se mercadoria única fossem, em vista da futura preparação que eventualmente vierem a originar após deixarem a esfera da contribuinte, no lugar de individualmente atribuir a cada qual de precitados integrantes os códigos apropriados". (Grifei) Assim, como já analisado neste voto, não merece guarida a alegação de nulidade da decisão recorrida, uma vez que foram cumpridos todos os requisitos legais, não se enquadrando, portanto, em nenhum dos requisitos do citado art. 59 do Decreto nº 70.235/72. Neste diapasão, não se vislumbro qualquer nulidade a macular a presente decisão. 12. Da Reclassificação Fiscal adotada pelo Fisco Laudo técnico. Motivação, acervo probatório. Também afirma a Recorrente que deve ser reconhecida a nulidade da reclassificação fiscal promovida, uma vez que as razões apontadas pela fiscalização e pela DRJ para a glosa dos créditos presumidos relativos às mercadorias oriundas da ZFM (art. 6º do DL 1.435/75), foi o erro na classificação fiscal dos “kits” para a fabricação de bebidas no NCM 2106.90.10, “Ex. 01”, na qualidade de “preparações compostas”. Da reclassificação procedida pelo Fisco, decorreu que as alíquotas do IPI aplicáveis seriam zero, o que resultaria a inexistência de créditos passíveis de apropriação. Alega que além de partir de premissas equivocadas, o suposto “erro” não foi comprovado pelo Fisco, o que implica a nulidade do trabalho fiscal calcado neste fundamento. Para que seja válido, todo ato administrativo depende dos seguintes fatores: (a) da indicação dos motivos de fato (circunstância do mundo real que serve de suporte ao ato) e de direito (previsão legal abstrata de uma situação fática que justifica o ato) que autorizam a sua prática; e (b) da demonstração da perfeita correlação entre um e outro (subsunção do fato descrito à norma na qual se fundamenta o ato). Fl. 8528DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.503 35 Afirma que para que fosse possível afastar a classificação dos componentes dos “kits” na NCM 2106.90.10, “Ex. 01”, não bastaria demonstrar (o que nem sequer foi feito) que eles não correspondem a "concentrados". Também seria necessário comprovar (o que também não foi feito) que nenhum dos elementos dos “kits” se enquadra no conceito de sabores para a fabricação de bebidas. Pois bem. Como bem ressaltado na Manifestação da PGFN, cabe destacar que os documentos apresentados (Laudo/Parecer do INT), não são elementos essenciais do lançamento ou das razões de decidir, não influindo no deslinde da presente controvérsia. Para tanto, cabe voltar a atenção para a suma da acusação fiscal. Vejase trecho do Relatório da DRJ abaixo reproduzido: “(...) Segundo a fiscalização a empresa escriturou e aproveitou irregularmente os seguintes créditos (fls. 8348/8.349): a) Créditos referentes a todos os produtos adquiridos da ZFM, por entender que o art. 225 do RIPI daria esse direito. Por sua vez, a autoridade fiscal entendeu de modo diverso, tendo em vista que o princípio da não cumulatividade não permite o creditamento em aquisições isentas; b) Crédito presumido do IPI nas aquisições de produtos isentos, elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos industriais localizados na Amazônia Ocidental, cujos projetos tenham sido aprovados pelo Conselho de Administração da SUFRAMA, conforme ditam os artigos 95, inciso III, e 237 do RIPI/2010. A fiscalização efetuou diligência junto aos fornecedores, assim concluindo: b.1) No caso do fornecedor PepsiCola da Amazônia, afirma a fiscalização que o concentrado fornecido tem como insumo o corante caramelo e não a matéria prima regional. Esta última é insumo em etapa anterior, no caso a fabricação do corante pela empresa DD Williamson do Brasil S/A. Além disso, o açúcar utilizado pela DD Williamson até junho de 2011 era oriundo do Mato Grosso e não da Amazônia Ocidental; b.2) Segundo a autoridade fiscal, a fornecedora Arosuco informou que no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2011 os concentrados de sabores que não os de guaraná não continham em sua composição extratos vegetais de produção regional, requisito necessário para aproveitamento dos créditos. Para o ano de 2012, a Arosuco informou que nos concentrados de outros sabores, que não o guaraná, era utilizada matériaprima extrativa vegetal de produção regional, listou os fornecedores, as matériasprimas, e apresentou cópias de notas fiscais destas matériasprimas. A fiscalização constatou de imediato que oito desses fornecedores estão fora da Amazônia Ocidental. Com relação aos demais, atestou que se tratam de produtos que já passaram por processos de industrialização, sendo que alguns são itens importados pelos fornecedores. b.3) Com relação à Ravibrás, a própria empresa informou não são utilizadas matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional; b.4) No caso da fornecedora Valfilm, na fabricação do “filme stretch” o óleo de dendê não é matéria prima extrativa vegetal, sendo, na verdade, um produto já industrializado, que passa por um processo de industrialização complexo, desde a Fl. 8529DF CARF MF 36 colheita do fruto (dendê ou palma, como também é conhecido), até a obtenção do óleo propriamente dito. 2. Em seguida, aponta que mesmo se existisse o direito ao crédito do IPI para os dois casos acima, ainda assim o crédito presumido apurado seria nulo, por erro nas alíquotas aplicadas para a sua apuração. Referese ao enquadramento dos concentrados ou “kits” fornecidos pela PepsiCola e Arosuco no Ex01 do código 2106.90.10, entendendo estar incorreto essa classificação pelo fato de eles não se caracterizarem como preparações compostas. 3. Segundo a fiscalização, os produtos que a Pepsi ou a Arosuco chamam de “concentrado” ou “kit” são na realidade conjuntos de matériasprimas e produtos intermediários, que saíram dos seus estabelecimentos embalados separadamente, em bombonas, ou sacos, na forma líquida (Flavours ou aromas) ou sólida (sais). Acrescenta: “Na verdade o concentrado apenas é produzido já na etapa de fabricação dos refrigerantes ou do Gatorade, nas linhas de produção da AMBEV, quando ao xarope simples, previamente obtido pela adição dos sais à água, são adicionados os aromas (flavours), quando, aí sim, é obtido o concentrado.” 4. A autoridade fiscal lembra que segundo afirmação do Gerente de Fábrica da AMBEV, esse processo citado no item acima não poderia ser feito previamente, nos estabelecimentos industriais da Pepsi ou da Arosuco, porque as misturas para cada produto tem dosagens e sequências diferentes, e se o concentrado já viesse pronto, o volume do produto seria maior. 5. Assim, efetuada a classificação correta, entende a fiscalização que esta se daria no código 2106.90.90, Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições Outras Outras", tributado à alíquota zero do IPI, motivo pelo qual não haveria crédito a ser calculado". (Grifei) Portanto, nos termos acima destacados, resta claro que ao contrário do que entendeu a Recorrente, a discussão sobre a Classificação fiscal dos kits, a princípio, não se mostra relevante, visto que não é o ponto nodal da lide, mas um argumento de reforço apresentado pela fiscalização. Verificase também que do pronunciamento da DRJ esse posicionamento é perfeitamente detectado. Vejase trechos (fls. 8.360 e seguintes): “Créditos referentes a insumos da Zona Franca de Manaus. "(...) 22. A fiscalização glosou créditos referentes a aquisições de concentrados e materiais de embalagem oriundos da ZFM quando os mesmos não foram fabricados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional. (...). "(...) 24. Por fim, afirma que mesmo na hipótese dos produtos adquiridos não se enquadrarem no benefício do art. 6º do Decretolei nº 1.435, de 1975, haveria o direito ao crédito por força do tratamento diferenciado preconizado pelo art. 40 do ADCT. "(...) 33. De fato, o que se observa nos casos da Pepsi e Valfilm é que os ditos “insumos regionais” (açúcar e dendê) são utilizados como matériasprimas de produtos industrializados por outras empresas. Posteriormente, tais produtos industrializados (corante caramelo e óleo de dendê) é que serão as matérias primas utilizadas na fabricação do concentrado e do filme stretch, estes os produtos vendidos para a impugnante. Dessa forma, não há que se falar em possibilidade de aproveitamento de créditos previstos no § 1º do art. 6º do Decreto lei nº 1.435, de 1975. Fl. 8530DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.504 37 "(...) 34. O mesmo se aplica aos insumos utilizados pela Arosuco, os quais já receberam prévia industrialização, estando descaracterizados do conceito de matériaprima extrativa vegetal de produção regional, com o agravante de parte desses insumos serem oriundas de indústrias localizadas fora da área de exceção. (...) Classificação Fiscal dos kits "(...) 37. A Autoridade Fiscal sustenta que, mesmo na hipótese do cabimento do crédito presumido, este não poderia ser aproveitado com relação aos kits, uma vez que tais produtos estão sujeitos à alíquota zero, tendo sido incorretamente classificados no Ex01 do código 2106.90.10.” Assim, reforçase que a classificação fiscal dos kits não é a questão central a ser debatida no presente feito. Apenas após ultrapassada a discussão sobre os demais pontos levantados pelo Fisco relacionados à (in)existência do crédito presumido, é que caberia a verificação sobre a correção da classificação adotada pela Recorrente em contraposição à alegação da fiscalização fazendária. Mesmo considerando o entendimento acima exposto, porém levandose em conta as alegações efetuadas no recurso e ainda pelo conhecimento da Petição apensada aos autos (Laudo/Parecer do INT), essa matéria também será analisado junto com os tópicos seguintes. No entanto, há que se deixar claro que ao contrario do alegado pela Recorrente, não houve violação ao art. 142 do CTN e ao princípio da verdade material (necessidade de Laudo), uma vez que restou demonstrado nos autos que a classificação fiscal adotada pela fiscalização foi realizada com base em diligências efetuadas junto a empresa e não em meras elucubrações. A classificação indicada pelo Fisco foi alicerçada no exame da legislação que rege a matéria e em provas devidamente colacionadas neste processo. É cediço que o julgador não está vinculado ao laudo pericial, porque no ordenamento jurídico pátrio vigora o princípio da persuasão racional, por meio do qual o juiz aprecia livremente a prova, atendendo aos fatos e às circunstâncias constantes dos autos, indicando os motivos que lhe formaram o convencimento (CPC, art. 479). 13. Dos Insumos adquiridos (PEPSI e AROSUCO), tributados à alíquota zero de IPI. Aduz a Recorrente em seu recurso que tanto a Fiscalização como a DRJ sustentaram que, mesmo que os insumos para fabricação de bebidas fornecidos pela PEPSI e pela AROSUCO preenchessem os requisitos constantes do DL nº 1.435/75, não existiriam créditos presumidos do imposto a serem apropriados “como se devido fosse”. Isso porque os mesmos não seriam classificados o código NCM n. 2601.90.10, “Ex. 01”, mas em outros códigos, todos com alíquotas zero de IPI, de modo que eventual crédito na respectiva aquisição também seria correspondente a zero. Por outro lado, há que ser verificado dos motivos determinantes sobre esta matéria apurado no Auto de Infração (fls. 2.327/2.328) : "(...) 208) Demonstraremos agora que, mesmo que houvesse o direito ao crédito do IPI para os dois casos, o que não há, conforme já extensivamente descrito até o Fl. 8531DF CARF MF 38 momento, ainda assim o crédito presumido apurado seria nulo, por erro nas alíquotas aplicadas para a sua apuração. 209) A maior parte dos créditos do IPI escriturados pela AMBEV foram oriundos de insumos destinados à fabricação de refrigerantes ou isotônicos da linha Gatorade. 210) Estes insumos foram fornecidos por PEPSICOLA INDUSTRIAL DA AMAZÔNIA e por AROSUCO AROMAS E SUCOS. 211) A PepsiCola fornece insumos para a fabricação de refrigerantes Pepsi, 7UP, H2OH, Lipton Ice Tea, e Isotônicos da Linha Gatorade. 212) A Arosuco fornece insumos para a fabricação de refrigerantes sabor, guaraná, limão, laranja e água tônica. 213) Estes insumos são conhecidos como “concentrados” e são identificados nas notas fiscais emitidas pelos fornecedores, como um item único, denominado de concentrado ou “kit”. 214) Nas notas fiscais de saída emitidas pela Pepsi não há destaque de IPI, pois ela entende que os produtos estariam isentos do imposto com base no artigo 81, inciso II, e artigo 95, inciso III, do RIPI/2010 Regulamento do Imposto sobre Produtos Industrializados, instituído pelo Decreto nº 7.212, de 15/06/2010. 215) Nas notas emitidas pela Arosuco também não há destaque de IPI, pois ela entende que: a) Para o ano de 2011, os concentrados de sabores, que não os de guaraná, estavam isentos, com base no art. 81, inciso II, do Decreto nº 7.212/10, e os concentrados de sabor guaraná estavam isentos com base no art. 95, inciso III, do RIPI/2010; b) Para o ano de 2012, todos os concentrados estavam isentos com base no art. 95, inciso III, do RIPI/2010 (...). Grifei. No Relatório de Fiscalização resta demonstrado que está errado o enquadramento dos concentrados ou “kits”, fornecidos pela PEPSICOLA ou AROSUCO, no "Ex 01" do código 2106.90.10, pelo fato de eles não se caracterizarem como preparações compostas. A descrição do Ex 01 diz: "Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado" (grifo nosso). Ou seja, consta dos autos que a AMBEV, entende que o concentrado é uma preparação composta, ou seja, uma mercadoria única, já pronta para seu uso. Objetivando comprovar isso, em 25/04/2017, anexou aos autos o PARECER (Relatório Técnico nº 000.130/17), que foi elaborado por Engenheira Mecânica do INT Instituto Nacional de Tecnologia, conforme Petição de fls. 8.425/8.459. Afirma que os produtos que a PEPSI ou a AROSUCO chamam de "concentrado" ou “kit” são na realidade conjuntos de matériasprimas e produtos intermediários, que saíram dos seus estabelecimentos embalados separadamente, em bombonas, ou sacos, na forma líquida (flavours ou aromas) ou sólida (sais). Na verdade o Fl. 8532DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.505 39 concentrado apenas é produzido já na etapa de fabricação dos refrigerantes ou do Gatorade, nas linhas de produção da AMBEV, quando o xarope simples, previamente obtido pela adição dos sais à água, são adicionados os aromas (flavours), quando, aí sim, é obtido o concentrado. 14. Da (correta) Classificação Fiscal das Mercadorias adquiridas Aduz a Recorrente que a acusação fiscal é manifestamente improcedente, "(...) pois a Fiscalização e a DRJ fizeram tabula rasa da RGI/SH nº 1, regra basilar que antecede e prevalece sobre as demais RGIs e é explícita no sentido de que a classificação de uma mercadoria é “determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas”. Essa questão já foi enfrentada por este Colegiado em caso semelhante. É que se observa do voto vencedor elaborado no Acórdão nº 3402003.803, da lavra deste Conselheiro. Naquela oportunidade, por maioria de votos, esta Turma julgadora afastou as pretensões da Recorrente, nos termos que adoto a seguir, momento que faço algumas adaptações ao presente caso concreto. Segundo a fiscalização, o procedimento consiste na afirmação de que a Classificação Fiscal adotada pela Recorrente ("Ex 01" do código 2106.90.10) estaria equivocada, pois "preparações" deve ser entendida apenas como produtos prontos para seu uso. A Recorrente entende que diferentes ingredientes, integrantes de conjunto comercializado em embalagens individuais, deveriam ser enquadrados sob código de classificação destinado à “Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado” (2106.90.10 – Ex 1). No entanto, entendo estar equivocada a Recorrente. No caso sob análise, o fato de a PEPSI e AROSUCO optarem por entregar as “partes” que compõem os “kits de concentrados” para posterior processamento industrial que finalizará o produto (nas fábricas engarrafadoras), transformando o “concentrado” em refrigerantes ou isotônicos, não impede que a classificação do SH recaia sobre os componentes que, individualmente considerados, foram agregados na forma de “kits”. Os créditos de IPI em questão são oriundos de mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e comercializadas em conjunto, em proporções fixas, utilizadas na fabricação de bebidas como refrigerantes, refrescos, néctares, isotônicos e bebidas à base de extrato de chá. A recorrente se refere aos insumos em questão como sendo “concentrados”, termo que é tecnicamente incorreto. Tais mercadorias serão identificadas como “kits para fabricação de bebidas”, ou simplesmente “kits”. Primeiramente, como relatado pelo Fisco, citese que um dos bens de produção regional citado pela empresa PEPSI para tentar justificar o aproveitamento de créditos é o corante caramelo, matériaprima usada na elaboração de componentes de kits para refrigerantes sabor Cola. O corante caramelo é um produto industrializado (pela D.D. Willianson do Brasil Ltda), que não é resultado de processo de extração de um vegetal, e por isto não atende ao requisito previsto na legislação. Vários outros insumos relacionados nos autos (Álcool 96 Hidratado Refinado, Aromas, Ciclamato de sódio, etc) cujo emprego no Fl. 8533DF CARF MF 40 processo industrial não pode gerar direito à isenção do inciso III do art. 95 do RIPI/2010, bem como o óleo de dendê (aditivo que entra em quantidades ínfimas na fabricação de filmes plásticos para embalagem (filme stretch da VALFILM). É cediço que para fins da aplicação da isenção prevista no artigo 95, inciso III, do RIPI/2010, deve haver o emprego direto do bem extrativo no processo produtivo do contribuinte beneficiado, pois matériasprimas são por definição aqueles bens que se incorporam no processo de transformação do qual resulta a mercadoria industrializada. Dentre os insumos utilizados no processo de industrialização dos componentes de kits para refrigerantes, o único que efetivamente se caracteriza com matéria prima agrícola e extrativa vegetal é o extrato de guaraná. Muito bem, retornadose à classificação do produto (concentrado). fornecido pela PEPSI e AROSUCO. Conforme demonstrado pelo Fisco, os insumos objeto deste processo correspondem a um conjunto de matériasprimas e produtos intermediários comercializados em forma de "kits" constituídos de dois ou mais componentes, sendo que cada componente sai do estabelecimento industrial em embalagem individual. A recorrente trata tais "kits" como se fossem uma mercadoria única denominada de “concentrado”, aplicando a alíquota prevista para o "Ex 01" do código 2106.90.10 da TIPI, cujo texto está transcrito a seguir, sobre o valor registrado nas respectivas notas fiscais de compras. 2106.90.10 Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ressaltase que a alíquota da citada exceção tarifária era de 27% até 30/09/2012, passando a ser de 20% a partir de 01/10/2012. Entretanto, diversas normas da NESH (Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias) indicam que os componentes de "kits para fabricação de bebidas", não se caracterizam como uma mercadoria única. 15. Análise do item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), do SH Considerase que o fato de existir na NESH um item específico que regula os produtos aqui em discussão é suficiente, por si só, para demonstrar o erro no entendimento adotado pela AMBEV. Normalmente, diferentes matérias ou artigos, quando embalados individualmente, devem ser classificados separadamente, ainda que integrantes de uma mesma remessa. Nos termos do art. 16 do Decreto nº 7.212, de 2010, atualmente em vigência, a classificação de mercadorias no âmbito da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) é realizada com o emprego das seis Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI/SH), como também das duas Regras Gerais Complementares (RGC) e das Notas Complementares (NC). Fl. 8534DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.506 41 A regra 1ª RGI dispõe que: "Os títulos das Seções, Capítulos e Subcapítulos têm apenas valor indicativo. Para os efeitos legais, a classificação é determinada pelos textos das posições e das Notas de Seção e de Capítulo e, desde que não sejam contrárias aos textos das referidas posições e Notas..." Vejase o que dispõem as Regras Gerais Complementares: 1. (RGC1) As Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado se aplicarão, mutatis mutandis, para determinar dentro de cada posição ou subposição, o item aplicável e, dentro deste último, o subitem correspondente, entendendose que apenas são comparáveis desdobramentos regionais (itens e subitens) do mesmo nível. 2. (RGC2) As embalagens que contenham mercadorias e que sejam claramente suscetíveis de utilização repetida, mencionadas na Regra 5 b), seguirão seu próprio regime de classificação sempre que estejam submetidas aos regimes aduaneiros especiais de admissão temporária ou de exportação temporária. Caso contrário, seguirão o regime de classificação das mercadorias. Assim, o ponto de partida para classificar um produto são os textos das posições e das notas de Seção e Capítulo da TIPI. Portanto, dúvida não há que as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias (NESH), versão lusobrasileira, aprovadas pelo Decreto nº 435, de 27 de janeiro de 1992 e alterações posteriores, constituem elemento subsidiário de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das posições e subposições do SH. Neste sentido, deve se observar, em especial, o item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), transcrito a seguir, que exclui os bens destinados à fabricação de bebidas do campo de aplicação da RGI 3 b) do Sistema Harmonizado: XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo. O dispositivo acima mencionado foi incluído na NESH após análise efetuada pelo Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA) nos anos de 1985 e 1986, em resposta a consultas recebidas de países membros da organização internacional sobre a classificação de produtos com as mesmas características dos "kits para fabricação de bebidas" produzidos no Brasil. O CCA (órgão que 1994 passou a ser chamado de Organização Mundial das Aduanas – OMA) decidiu incorporar a sua decisão sobre o assunto na NESH, por meio da criação do item XI da Nota Explicativa da Regra Interpretativa 3 (b). Transcrevo a seguir trecho: Em suas sessões de outubro de 1985 (na 55ª. Sessão do Comitê de Nomenclatura e 55ª. Sessão do Comitê do Sistema Harmonizado Interino), os Comitês examinaram a classificação das bases de bebidas constituídas por diferentes componentes importados conjuntamente em proporções fixas em uma remessa. Fl. 8535DF CARF MF 42 Os Comitês concordaram com que os componentes individuais deveriam ser classificados separadamente. Os Comitês também concordaram em incorporar o conteúdo da decisão na Nota Explicativa da Regra Interpretativa 3 (b), como um exemplo da não aplicação desta Regra (...) (i) Regra Interpretativa Geral 3 (b) . Novo Item (XI). Após Item ( X ), insira o seguinte novo Item ( XI) : “ (XI) A presente Regra não se aplica a produtos constituídos por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto, mesmo estando em embalagem comum, em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo“, (Grifei) Da leitura do material, vemos que o item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b) teve por origem consultas sobre a classificação fiscal de bens com características idênticas a dos insumos adquiridos pela Recorrente, inclusive bases para elaboração de FANTA (marca produzida pelas empresas do grupo internacional CocaCola) e de um refrigerante sabor Cola. Depois de uma demorada análise, o CCA decidiu que os componentes individuais de bases para fabricação de bebidas deveriam ser classificados separadamente. O texto da análise do CCA, equivale a uma detalhada exposição de motivos para o item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), deixando claro que a criação dessa Nota teve por objetivo determinar que os componentes dos kits para fabricação de bebidas devem ser classificados separadamente nos códigos apropriados para cada um deles. O Sistema Harmonizado é cogente e foi internalizado no Brasil por meio do Decreto nº 97.409, de 22/12/1988, cujo art. 1° expressa: “Art. 1° A Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, apensa por cópia ao presente Decreto, será executada e cumprida tão inteiramente como nela se contém. ” O artigo 98 da Lei nº 5.172, de 25/10/1966 (CTN Código Tributário Nacional) dispõe que: Art. 98. Os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. O CCA decidiu incorporar a sua decisão sobre o assunto na NESH. Como a legislação brasileira não deixa dúvidas de que devem ser cumpridas as normas internacionais sobre o Sistema Harmonizado, a Nota XI da RGI 3 b) é suficiente, por si só, para afastar a possibilidade de enquadramento dos componentes dos "kits" em um código de classificação único. As empresas defendem que a definição da classificação dos "kits" deve considerar a motivação que o produto desperta em quem o adquire. No entanto, entendo que a definição de classificação fiscal deve obedecer ao que diz a legislação, não podendo ser determinada de acordo com o interesse comercial do fabricante. A seguir, passemos a analisar se os componentes de "kits", individualmente considerados, poderiam ser enquadrados no "Ex 01" ao código 2106.90.10. Fl. 8536DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.507 43 16. Do enquadramento no "Ex 01" do código 2106.90.10 Ressaltese que não há controvérsias de que os produtos fornecidos pela PEPSI e AROSUCO são iguais aos referidos pelo item XI da Nota XI da RGI 3 b). Também não há controvérsias de que para classificar um "kit" no "Ex 01" é preciso que ele seja tratado como se fosse uma mercadoria única. A divergência está no fato de que a fiscalização afirmou em seus Termos e Relatórios que o item XI determina que os componentes individuais sejam classificados separadamente, enquanto que a AMBEV deu uma interpretação completamente oposta em seu Recurso. Para que uma mercadoria se classifique no "Ex 01" do código 2106.90.10, deve apresentar as seguintes características: (a) Que seja uma preparação composta; (b) Que não seja alcoólica; (c) Que se caracterize como extrato concentrado ou sabor concentrado; (d) Que seja própria para elaboração de bebida da posição 22.02, (e) Que tenha capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado. Pois bem. No que se refere à condição citada na letra “a”, acima, esclareçase que a palavra "preparação" aplicase a mercadoria que esteja preparada, pronta para uso pelo adquirente. Não existe na legislação a hipótese de que um bem formado por componentes individuais não misturados possa ser enquadrado como uma preparação alimentícia. Cada embalagem individual (por exemplo, embalagem que contenha uma mistura de extrato de noz de cola com outros aromatizantes e com corante caramelo) forma uma preparação composta. Tais preparações, porém, não atendem às condições citadas nas letras “c” e “e”, acima. Nenhum componente dos "kits", isoladamente considerado, pode ser identificado como um extrato ou sabor concentrado. Para que ficasse caracterizado um produto chamado de "concentrado", o conteúdo das diversas partes que compõem cada "kit" deveria estar reunido numa única parte, tanto que as empresas criaram a ficção de que para fins de classificação fiscal os "kits" formam uma mercadoria única. Não se pode atribuir capacidade de diluição a nenhum componente dos kits para fabricação de bebidas. Se o conteúdo de qualquer embalagem individual fosse diluído, não apresentaria as mesmas características sensoriais e físicoquímicas da bebida que se pretende comercializar. Tratandose das preparações compostas para elaboração de bebidas da posição 22.02, não há dúvida de que o concentrado diluído deve apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para a bebida na concentração normal, tanto que uma diferença fundamental entre o Ex 01 e o Ex 02 é a "capacidade de diluição", que no primeiro é superior a "10 partes da bebida", enquanto no segundo é igual ou menor do que "10 partes da bebida". Afinal, se a preparação diluída não resultar na bebida final, não há como se definir sua capacidade de diluição em "partes da bebida por cada parte do concentrado". A Lei nº 8.918/1994, mandamento válido para qualquer bebida, foi regulamentada pelo Decreto nº 2.314/1994, posteriormente revogado pelo Decreto nº 6.871/2009. A seguir, estão transcritos artigos do Regulamento vigente que tratam de concentrados: Fl. 8537DF CARF MF 44 Art. 13. A bebida deverá conter, obrigatoriamente, a matériaprima vegetal, animal ou mineral, responsável por sua característica sensorial, excetuando o xarope e o preparado sólido para refresco. [...]. § 4º O produto concentrado, quando diluído, deverá apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para a bebida na concentração normal." (...) Art. 30. O preparado líquido ou concentrado líquido para refrigerante, quando diluído, deverá apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para o respectivo refrigerante. Assim, como nenhum componente se classifica no "Ex 01" do código 2106.90.10, resta definir o enquadramento correto para cada um deles, procedimento efetuado com base na análise das características dos ingredientes que fazem parte das embalagens individuais. Para tanto, a Solução de Consulta SRRF02/DIANA nº 5/2010, de 20/05/2010, ratificada pela Informação COANA/CECLAM nº 8/2015, de 12/03/2015, classificou da seguinte maneira os componentes de kit para preparação de bebida refrigerante, sabor laranja: a) NCM 2106.90.10 Preparação para aromatização de bebida refrigerante, com sabor laranja, constituída de água potável (70%), gomas naturais de laranja (20,44%), aromatizante sabor laranja (5,8%), corantes, ácido cítrico anidro e conservantes, em embalagem de 50kg; b) NCM 2916.31.21 Benzoato de sódio, em embalagem de 15kg, e; c) NCM 2918.14.00 Ácido cítrico anidro, em embalagem de 67kg. Além de suas embalagens individuais, os componentes do kit também se encontram acondicionados conjuntamente em uma segunda embalagem, formando um único volume. Dispositivos Legais: 1ª RGI/SH (texto das posições 2106, 2916 e 2918 e texto da nota 5C, do capítulo 29), 6ª RGI/SH (texto das subposições 2106.90, 2916.31 e 2918.14) e 1ª Regra Geral Complementar (texto do item 2916.31.2 e dos subitens 2106.90.10 e 2916.31.21), da Tarifa Externa Comum, do Mercosul, aprovada pela Resolução Camex nº 43/2006, e suas alterações, e com subsídios das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado. Observese que a Solução de Consulta, publicada no Diário Oficial da União de 04/06/2010, foi o primeiro e único ato vinculante da Administração Tributária que definiu a classificação fiscal de "kits" para fabricação de bebidas. Constatase no caso, que os componentes mais importantes dos "kits para fabricação de bebidas" são aqueles que contêm extratos e ingredientes aromatizantes específicos para a bebida a ser industrializada (por exemplo, componentes que contenham Fl. 8538DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.508 45 extrato de cola ou extrato de guaraná), devendo ser classificados no código 2106.90.10, como uma “Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas”, cuja alíquota do IPI é zero. A capacidade de diluição dos “concentrados” fornecidos pela PEPSI e AROSUCO foram "anabolizados" com ingredientes que elevaram substancialmente a capacidade de diluição nas empresas engarrafadoras, como é o caso da AMBEV. Essa preparação, não se classifica no "Ex 01" do código 2106.90.10, pois, conforme já explicado, a embalagem individual não contém todos os ingredientes necessários para caracterizar um produto chamado de “concentrado”. A impossibilidade de classificação no "Ex 01" do código 2106.90.10, decorre do fato de que no momento da ocorrência do fato gerador os componentes não estão misturados, e sim acondicionados em embalagens individuais. Desta forma, conforme posicionamento adotado no Auto de Infração, correto pelos seus próprios fundamentos, que convergem com o entendimento adotado pela CCA e do item XI da Nota Explicativa da RGI 3 b), com o objetivo de uniformizar o tratamento de produtos em idêntica situação, adotase a classificação individual dos produtos que compõem os "kits para refrigerantes", como proposto no Relatório da Fiscalização, a partir dos procedimentos realizados no curso da ação fiscal. É bom que se observe que trazer a lume o aludido debate havido no âmbito do Conselho de Cooperação Aduaneira (CCA), se deu, tão somente no intuito de corroborar entendimento adotado pelas autoridades fiscais na materialização da pretensão fazendária. Concluo que os textos dos Ex 01 e Ex 02 do código 2106.90.10, ao ser referirem a “preparações compostas”, estão tratando de bens constituídos por uma mistura de diversas substâncias. Com essas considerações, entendo correta a classificação fiscal adota pelo Fisco, cuja alíquota no período em análise é 0 (zero)%, pelo que correta a glosa dos créditos por ilegítimos. 17. Adquirente de boafé. Do direito aos créditos. Ao final a Recorrente argumenta que as notas fiscais emitidas pelas fornecedoras, atendem a todos os requisitos dos art. 407 e 413 do RIPI/2010, de forma que, na qualidade de adquirente de boafé, tem direito à manutenção do referido crédito de IPI. Cita legislação do IPI e jurisprudência do STJ quanto ao ICMS, que o creditamento com base nos fundamentos de notas fiscais idôneas é ato licito, pois não configura qualquer infração capaz de impedilo, devendo ser convalidado os créditos apropriado. Pois bem. Mesmo que se considere a improvável hipótese de que a adquirente não teria como saber que o código de classificação fiscal estava incorreto, é cabível a glosa, pois não existe previsão legal para a manutenção de créditos indevidos/ilegítimos. Caso a empresa se sinta prejudicada pelo fornecedor, deverá com ele negociar para reaver compensação por eventual prejuízos auferidos. Portanto, entendo correto o questionamento da classificação fiscal por parte do Fisco neste caso em concreto. Fl. 8539DF CARF MF 46 18. Dispositivo Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário interposto, mantendose na íntegra a decisão de piso. É como voto. Waldir Navarro Bezerra Relator (assinado digitalmente) Fl. 8540DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.509 47 Declaração de Voto Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Peço vênia ao Ilustre Relator para divergir do seu entendimento quanto a alguns pontos. Em primeiro lugar, consigno que acompanho sua abalizadas razões no que diz respeito ao direito do crédito incentivado do contribuinte às aquisições de produtos que atendessem ao art. 6º, §1º do Decreto 1.435/75, verbis: Art 6º Ficam isentos do Imposto sobre Produtos Industrializados os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na área definida pelo § 4º do art. 1º do Decretolei nº 291, de 28 de fevereiro de 1967. § 1º Os produtos a que se refere o "caput" deste artigo gerarão crédito do Imposto sobre Produtos Industrializados, calculado como se devido fosse, sempre que empregados como matérias primas, produtos intermediários ou materiais de embalagem, na industrialização, em qualquer ponto do território nacional, de produtos efetivamente sujeitos ao pagamento do referido imposto. Entretanto, como reconhecido pela própria fiscalização, uma parcela dos produtos adquiridos utilizou "extrato de guaraná", dando direito, a priori, a um crédito no valor de R$ 11.362.720,42. Todavia, pela análise feita no Tópico 6 à página 70 do TVF, considerando a classificação fiscal dos produtos adquiridos junto aos fornecedores de concentrados/kits, localizados na Zona Franca de Manaus/Amazônia Ocidental, chegouse à conclusão da não existência do direito da AMBEV à escrituração de nenhum desses créditos. Desse modo, esta declaração de voto versará sobre a questão da classificação fiscal, que de resto já possuo posição manifestada diversas vezes perante este Colegiado. Antes, todavia, há que se pontuar uma visível alteração de critério jurídico experimentada no presente caso. O Fiscal, no termo de verificação fiscal, tomou a cautela de classificar os produtos nas posições que deveriam ser enquadrados para fins de reclassificação, aduzindo o seguinte: 309) Concluise que, dentre os componentes de kits para refrigerantes e Gatorade adquiridos por Ambev, aqueles que correspondem à mistura do extrato (extrato vegetal de guaraná, líquido natural da Sukita, extrato de noz de cola ou Flavours) com outros aromatizantes/saborizantes, classificamse no subitem 2106.90.10, como uma "Preparação do tipo utilizado para elaboração de bebidas", cuja alíquota do IPI é zero. Esta preparação não se classifica no Ex 01 do subitem 2106.90.10, Fl. 8541DF CARF MF 48 pois isoladamente ela não apresenta as características de um extrato concentrado. 317) Diante desse fato, dentre os componentes fornecidos pela Pepsi e pela Arosuco, aqueles formados por uma mistura de acidulantes, conservantes e outras matérias que não o extrato vegetal de guaraná nem o líquido natural da Sukita nem Flavours, devem ser classificados no código residual 2106.90.90, reservado às "Preparações alimentícias não especificadas nem compreendidas noutras posições Outras Outras", tributado à alíquota zero do IPI. Frisese que a posição 2106 atribuída a todos os componentes do "kit" corresponde a "Preparações alimentícias". Isso contraria diretamente a linha de fundamentação adotada pela fiscalização em outros casos, a exemplo daquele julgado no Acórdão CARF nº 3402004.073, versando exatamente sobre a classificação desses produtos, nos quais o fundamento da descaracterização foi o seguinte: a) A fiscalizada alega que seu produto é uma “preparação alimentícia”, devendo ser classificada no Ex 1 da NCM 2106.90.10, código próprio para preparações compostas não alcoólicas. Entretanto, de acordo com os dicionários, a palavra "preparação” aplicase a algo que esteja preparado, pronto. Da mesma forma, a Nomenclatura do Sistema Harmonizado emprega o termo “Preparação” como uma mercadoria pronta para uso. Não é o caso do “concentrado” vendido por Recofarma, pois este é um conjunto de ingredientes, cada uma na sua embalagem individual, que não estão misturados e não estão prontos para uso. Portanto, em todos os casos que foram julgados por este Colegiado que não foram poucos, a exemplo dos diversos da VONPAR e RECOFARMA o fundamento da autuação é de que o contribuinte compraria ingredientes e não preparações. Neste caso, todavia, a própria fiscalização reconheceu que os produtos adquiridos seriam "preparações" e não ingredientes e a DRJ provavelmente não se apercebeu dessa peculiaridade da autuação, visto que manteve a mesma linha argumentativa utilizada nos outros processos administrativos que versavam sobre a classificação de "kits". Senão vejamos (fl. 8366): 46. Entende que diferentes ingredientes, integrantes de conjunto comercializado em embalagens individuais, deveriam ser enquadrados sob código de classificação destinado à preparação composta, qual seja, repitase, “Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado” (2106.90.10 – Ex 1). 47. Discordase da impugnante. 48. Incontroverso que os produtos reunidos pela autuada sob o apelido de “kit” experimentam a sobredita PREPARAÇÃO tão somente por ocasião da elaboração das bebidas em apreço, quando já deixaram a esfera da contribuinte. Permanecem, até então, ocupando, cada qual dos itens mencionados, sua Fl. 8542DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.510 49 individual embalagem, ao arrepio de qualquer espécie de mistura e ainda distantes, portanto, da condição de pronto para uso. Como se vê, ele assume que o contribuinte adquiriu ingredientes que somente se tornariam uma preparação posteriormente contrariando assim os fundamentos classificatórios adotados no TVF. Verificase, pois, uma patente nulidade da decisão em razão de alteração do critério jurídico empregado neste ponto, razão pelo qual reconheço de ofício tal nulidade. Da Classificação Fiscal Por razões de economia, reproduzirei minhas considerações versadas no Acórdão CARF nº 3402003.799, que trata de caso absolutamente idêntico. O Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias (SH) é um sistema padronizado de codificação e classificação desenvolvido e mantido pela Organização Mundial das Aduanas — OMA, da qual o Brasil faz parte (Decreto 97.409/1988 que promulgou a Convenção Internacional sobre o SH, aprovada pelo Decreto Legislativo 71/1988). Um dos compromissos assumidos como Parte Contratante dessa Convenção (art. 3º) consiste em aplicar as Regras Gerais para a Interpretação do Sistema Harmonizado, sem aditamentos nem modificações, bem como todas as Notas de Seção, de Capítulo e de Subposição e a não modificar a estrutura das Seções, dos Capítulos, das posições ou das subposições. De acordo com os arts. 16 e 17 do RIPI/2002 (art. 10 da Lei 4.502/1964), a classificação deverá ser feita de acordo com as Regras Gerais para Interpretação RGI, Regras Gerais Complementares RGC e Notas Complementares NC, todas da Nomenclatura Comum do MERCOSUL NCM, integrantes do seu texto. As Notas Explicativas do Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias NESH, do Conselho de Cooperação Aduaneira na versão luso brasileira, efetuada pelo Grupo Binacional Brasil/Portugal, e suas alterações aprovadas pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (IN RFB 807/2008), constituem elementos subsidiários de caráter fundamental para a correta interpretação do conteúdo das Posições e, bem como das Notas de Seção, Capítulo, Posições e Subposições da Nomenclatura do Sistema Harmonizado. Verificase, pois, que a discussão da classificação fiscal, neste caso, vem como um deus ex machina um artifício encontrado pelo auditor para negar o crédito pretendido pelo contribuinte. Para isso, utilizouse de uma série de premissas absolutamente equivocadas para construir, somadas a um emaranhado de disposições regulamentares que nada tem a ver com a classificação das mercadorias em análise (chegando inclusive a tratar de soluções de consulta proferidas pela Alfândega norteamericana), e por fim pincelando com diversos dispositivos do NESH (que em nada se referem ao caso específico) para justificar a conclusão de que o kit deve ser classificado parte a parte. No Laudo anexado aos autos, se verifica que os "kits de concentrados" abrangem basicamente preparações líquidas e sólidas, sendo estas últimas compostas de Ácido Cítrico, Sorbato de Sódio e Benzoato de Sódio, que vem às vezes misturados com outros sais, e em outras isolados. Fl. 8543DF CARF MF 50 Em seguida, o Fiscal desconsidera a indicação feita pelo Laudo de que se tratariam de preparações, para adotar seu próprio sentido atécnico, digase que obteve à partir de uma consulta ao dicionário Priberam, na internet, concluindo assim que "preparações" devem ser entendidos apenas como produtos prontos para uso, já tendo sido processados, enquanto no caso dos kits, os componentes são misturados no processo de elaboração da bebida final. Para fundamentar, cita a distinção entre preparações alimentícias simples e compostas, para enquadrar o caso em tela na preparação alimentícia composta homogeneizada. Pontua então uma de suas falácias: Ora, não apenas a utilização da mercadoria é relevante para fins de classificação como a própria TIPI delineia elementos teleológicos no bojo de suas classificações, especialmente na posição 2106.90.10 e seus Ex 01 e 02: 2106.90.10 Preparações dos tipos utilizados para elaboração de bebidas Ex 01 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida da posição 22.02, com capacidade de diluição superior a 10 partes da bebida para cada parte do concentrado Ex 02 Preparações compostas, não alcoólicas (extratos concentrados ou sabores concentrados), para elaboração de bebida refrigerante do Capítulo 22, com capacidade de diluição de até 10 partes da bebida para cada parte do concentrado É dizer, faz toda a diferença para fins classificatórios o fato da mercadoria receber determinada destinação ou não, para esse caso dos concentrados, como também para diversos outros. Outro exemplo banal da erronia da premissa assumida pelo Fiscal é a classificação de produtos inorgânicos não misturados, que embora sejam usualmente incluídos no capítulo 28 da TIPI, são excluídos do mesmo quando se apresentem sob formas ou acondicionamentos especiais, ou quando submetidos a tratamentos que mantenham sua constituição química, como no caso da posição 30.04 (produtos para uso terapêutico ou profilático, que se apresentem em doses ou acondicionados para venda a retalho). De qualquer forma, resta trivial que o Sistema Harmonizado privilegia a destinação da mercadoria e o papel comercial que a mesma exercerá, sobre o simples dado de sua constituição físicoquímica. Vejamos o que a NESH tem a dizer a respeito da posição indicada pelo Contribuinte: A) As preparações para utilização na alimentação humana, quer no estado em que se encontram, quer depois de tratamento (cozimento, dissolução ou ebulição em água, leite, etc.). A Nota Explicativa A referentes à classificação 2106.90 é expressa em afirmar que a preparação não perde o seu caráter enquanto tal pelo simples fato de posteriormente passar por um tratamento, mencionando especificamente a possibilidade de dissolução, que implica mistura fato este utilizado pelo fiscal como argumento para afastar a natureza de preparação. Fl. 8544DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.511 51 Ou seja, a preparação não precisa estar "pronta para uso", mas sim deve trazer os elementos que, conjuntamente e após tratamento, componham a preparação necessária para a elaboração da bebida da posição 22.02. Isso é corroborado quando se compulsa a NESH XI à RGI/SH 3, que traz exceção expressa à aplicação da regra 3 de interpretação do SH: XI) A presente Regra não se aplica às mercadorias constituídas por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), em proporções fixas, para a fabricação industrial de bebidas, por exemplo. O referido dispositivo deixa claro ao tratar de "mercadorias constituídas por diferentes componentes" que os kits de concentrado devem ser tratados como uma única mercadoria, a despeito da existência de diversas partes (em embalagem comum ou não) e em proporções fixas. Isso conduziria a uma aparente contradição com a RGI/SH 2.b, que trata da classificação de produtos misturados ou artigos compostos, remetendo expressamente à Regra 3, verbis: Qualquer referência a uma matéria em determinada posição diz respeito a essa matéria, quer em estado puro, quer misturada ou associada a outras matérias. Da mesma forma, qualquer referência a obras de uma matéria determinada abrange as obras constituídas inteira ou parcialmente por essa matéria. A classificação destes produtos misturados ou artigos compostos efetuase conforme os princípios enunciados na Regra 3. Tal contradição se dissipa, todavia, diante da NESH X à RGI/SH 2.b, que determina expressamente que: Os produtos misturados que constituam preparações mencionadas como tais, numa Nota de Seção ou de Capítulo ou nos dizeres de uma posição, devem classificarse por aplicação da Regra 1. Em razão disso, a metarregra interpretativa a ser aplicada passa a ser a RGI/SH 1, com o respaldo das Notas Explicativas mencionadas acima, autorizando o Contribuinte a tratar como uma só mercadoria o "kit de concentrado", constituído por diferentes componentes acondicionados separadamente e apresentados em conjunto (mesmo em embalagem comum), e em proporções fixas. Fica expressamente afastada pela NESH a primeira falácia do TVF. Além disso, afirma categoricamente o auditorfiscal que: Fl. 8545DF CARF MF 52 Com tal afirmativa em mente, que nos parece ser a segunda falácia, prossigamos para a Nota Explicativa B, relativa à classificação 2106.90 da NESH: B) As preparações constituídas, inteira ou parcialmente, por substâncias alimentícias que entrem na preparação de bebidas ou de alimentos destinados ao consumo humano. Incluem se, entre outras, nesta posição as preparações constituídas por misturas de produtos químicos (ÁCIDOS ORGÂNICOS, SAIS DE CÁLCIO, ETC.) com SUBSTÂNCIAS ALIMENTÍCIAS (farinhas, açúcares, leite em pó, por exemplo), para serem incorporadas em preparações alimentícias, quer como ingredientes destas preparações, quer para melhorar lhes algumas das suas características (apresentação, conservação, etc.) (ver as Considerações Gerais do Capítulo 38). E prossegue no subitem 7: 7) As preparações compostas, alcoólicas ou não (exceto as à base de substâncias odoríferas), dos tipos utilizados na fabricação de diversas bebidas não alcoólicas ou alcoólicas. Estas preparações podem ser obtidas adicionando aos extratos vegetais da posição 13.02 diversas substâncias, tais como ácido láctico, ácido tartárico, ácido cítrico, ácido fosfórico, agentes de conservação, produtos tensoativos, sucos de frutas, etc. Estas preparações contêm a totalidade ou parte dos ingredientes aromatizantes que caracterizam uma determinada bebida. Em conseqüência, a bebida em questão pode, geralmente, ser obtida pela simples diluição da preparação em água, vinho ou álcool, com ou sem adição, por exemplo, de açúcar ou de dióxido de carbono. Alguns destes produtos são preparados especialmente para consumo doméstico; SÃO TAMBÉM FREQÜENTEMENTE UTILIZADOS NA INDÚSTRIA PARA EVITAR OS TRANSPORTES DESNECESSÁRIOS DE GRANDES QUANTIDADES DE ÁGUA, DE ÁLCOOL, ETC. Tal como se apresentam, estas preparações não de destinam a ser consumidas como bebidas, o que as distingue das bebidas do Capítulo 22. Em primeiro lugar, a NESH considera expressamente que Ácido Cítrico e conservantes (Sorbato de Sódio, Benzoato de Sódio e Citrato de Sódio) fazem parte da "preparação" que se enquadra na posição indicada pelo contribuinte ela é absolutamente literal a esse respeito! E mais, ela desce à minúcia de indicar que a "preparação" pode ser enviada sem passar pela diluição, ou seja, encampando as diversas partes do "kit", para evitar os transportes desnecessários de grandes quantidades de água, de álcool, etc. Há uma preocupação expressa com uma limitação técnica, ao contrário do afirmado pela autoridade fiscalizadora. Isso não implica dizer que o auditor necessite pesquisar a realidade econômica e mercadológica para definir a classificação fiscal de todas as mercadorias, mas apenas daquelas cujas disposições do NCMSH e a respectiva NESH tragam expressas a relevância da destinação e a pertinência na consideração da limitação técnica. E mais, vejamos o subitem 12: 12) As preparações compostas para fabricação de refrescos ou refrigerantes ou de outras bebidas, constituídas por exemplo, por: (...) Fl. 8546DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.512 53 Estas preparações destinam se a ser consumidas como bebidas, por simples diluição em água ou depois de tratamento complementar. Algumas preparações deste tipo servem para se adicionar a outras preparações alimentícias. Novamente, a NESH desce ao detalhe a respeito de tal posição do NCM, para indicar que a "preparação" não perde seu caráter enquanto tal simplesmente pelo fato de sofrer diluição ou algum tipo de tratamento complementar no estabelecimento da Recorrente. Portanto, resta claro pela leitura das notas explicativas que: i) o fato do kit envolver partes sólidas e líquidas que sofreram diluição posteriormente no estabelecimento da adquirente não desnatura a sua natureza de "preparação". ii) o fato do kit ser destinado a uma empresa que produz refrigerantes é relevante para a classificação de tal mercadoria no Ex 01 da posição 2106.90. iii) os sólidos presentes no kit são produtos de conservação e ácido cítrico, todos expressamente mencionados como partes integrantes das preparações, podendo ser misturados posteriormente aos extratos, no momento da diluição. Minha convicção pessoal é de que a questão estaria definitivamente sepultada já neste ponto, pela leitura minimamente atenciosa da NESH, mas devemos prosseguir na análise do longo arrazoado fiscal. E mais, não deve causar qualquer espécie tal situação. Situação análoga é presente na classificação dos produtos químicos importados em "kits" para, após mistura, comporem os explosivos classificados na Posição 36.02 (Seção VI) do SH nesse caso, ainda que não se apresentem prontos para a utilização, se classificam na Posição por determinação da Nota 3 da Seção VI: 3) Os produtos apresentados em sortidos compostos de diversos elementos constitutivos distintos, classificáveis, no todo ou em parte, pela presente Seção e reconhecíveis como destinados, depois de misturados, a constituir um produto das Seções VI ou VII, devem classificarse na posição correspondente a este último produto, desde que esses elementos constitutivos sejam: a)Em razão do seu acondicionamento, nitidamente reconhecíveis como destinados a serem utilizados conjuntamente sem prévio reacondicionamento; b)Apresentados ao mesmo tempo; c)Reconhecíveis, dada a sua natureza ou quantidades respectivas, como complementares uns dos outros. Tratamse de critérios que só aclaram (ainda que por analogia) ainda mais os parâmetros que devem ser considerados para a classificação dos kits de concentrados, os quais são nitidamente destinados à fabricação de bebidas não alcoólicas, em utilização conjunta, enviados simultaneamente (kits) e em proporção e quantidades suficientes para a produção dos concentrados a serem diluídos. Fl. 8547DF CARF MF 54 Em seguida, o fiscal recorre a classificações fiscais do U.S. Customs and Border Protection, órgão aduaneiro dos Estados Unidos responsável pela classificação de mercadorias, para sustentar que os produtos de um kit devem ser considerados individualmente. Como se verifica no documento, o produto importado era um kit com um número exato de panquecas, hambúrgueres de salsicha e/ou de ovo para a feitura de doze sanduíches, além de embalagens e etiquetas para o sanduíche pronto. O Fiscal responsável pelo parecer acerca da questão entendeu que como as partes vinham separadas, deveriam receber suas classificações próprias, porque passariam por um processo de montagem. Todavia, parece que o auditor responsável pela lavratura deste auto de infração "esqueceu" de citar o seguinte trecho do parece estrangeiro: Na tradução juramentada, anexa ao TVF: Convenientemente, o fiscal colheu do parecer apenas o que lhe interessava, esquecendo de mencionar a exceção expressamente feita pelo autor do mesmo, na interpretação das regras de classificação fiscal. Ele tenta, insistentemente, aplicar à "preparação" as regras de classificação a produtos sujeitos a montagem (como foi feito com o caso dos sanduíches), a despeito de nada ter a ver tal classificação com o caso em tela, no qual envolve mera diluição dos componentes tratamento este expressamente previsto nas Notas Explicativas ao Sistema Harmonizado. A insistência do fiscal em justificar o injustificável fica clara com a profusão desordenada de portarias e dispositivos que cita, onde o termo "concentrado" está presente, mas que em nada tem a ver com classificação fiscal. O fato do "kit" envolver diversos produtos que serão reunidos no estabelecimento da Recorrente não altera o fato de que a legislação aduaneira determina que a sua classificação deverá ser na posição 2106.90.10, no Ex 01. Mais ainda, recorre à Lei nº 8918/1994 e ao Decreto 6.871/2009 para afirmar que o fato dos "kits de concentrados" não terem registro no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) desqualificaria o mesmo como "Preparados líquidos ou sólidos para bebidas". Ora, a mencionada lei exige o registro de bebidas junto ao MAPA. Inclusive o regulamento veiculado pelo Decreto º 6.871/09 traz uma expressa definição da mesma, para estes fins: Art.2o Para os fins deste Regulamento, considerase: Iestabelecimento de bebida: o espaço delimitado que compreende o local e a área que o circunda, onde se efetiva Fl. 8548DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.513 55 conjunto de operações e processos, que tem como finalidade a obtenção de bebida, assim como o armazenamento e transporte desta e suas matériasprimas; IIbebida: o produto de origem vegetal industrializado, destinado à ingestão humana em estado líquido, sem finalidade medicamentosa ou terapêutica; IIItambém bebida: a polpa de fruta, o xarope sem finalidade medicamentosa ou terapêutica, os preparados sólidos e líquidos para bebida, a soda e os fermentados alcoólicos de origem animal, os destilados alcoólicos de origem animal e as bebidas elaboradas com a mistura de substâncias de origem vegetal e animal; IVmatériaprima: todo produto ou substância de origem vegetal, animal ou mineral que, para ser utilizado na composição da bebida, necessita de tratamento e transformação, em conjunto ou separadamente; Vingrediente: toda substância, incluídos os aditivos, empregada na fabricação ou preparação de bebidas e que esteja presente no produto final, em sua forma original ou modificada; VIcomposição: a especificação qualitativa e quantitativa da matériaprima e dos ingredientes empregados na fabricação ou preparação da bebida; VIIaditivo: qualquer ingrediente adicionado intencionalmente à bebida, sem propósito de nutrir, com o objetivo de conservar ou modificar as características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais, durante a produção, elaboração, padronização, engarrafamento, envasamento, armazenagem, transporte ou manipulação; Entendeu o fiscal que o "kit de concentrado" se enquadraria nos "preparados sólidos e líquidos", equiparados a bebida pelo inciso II, pois tais preparados são aqueles produtos destinados ao consumidor ou varejista, para preparação de refrigerante nas máquinas em que a venda ocorre diretamente nos copos (máquinas Post Mix), através da adição de água à mistura é o que deixa claro os artigos 27 a 29 do Decreto, verbis: Art.29.Preparado líquido ou concentrado líquido para refrigerante é o produto que contiver suco ou extrato vegetal de sua origem, adicionado de água potável para o seu consumo, com ou sem açúcares. Art.30.O preparado líquido ou concentrado líquido para refrigerante, quando diluído, deverá apresentar as mesmas características fixadas nos padrões de identidade e qualidade para o respectivo refrigerante. Parágrafo único.O preparado líquido para refrigerante, quando adicionado de açúcares, deverá ter a designação adoçado, acrescido à sua denominação. Fl. 8549DF CARF MF 56 Se verifica com clareza que se tratam de preparações absolutamente diferentes. O "kit de concentrado" é vendido à indústria que produz o refrigerante, e qualifica se como um conjunto de matériasprimas e aditivos, conforme expressamente acatados pela Nota Explicativa B, relativa à classificação 2106.90 da NESH, já mencionada anteriormente. O que se verifica, pois, é a utilização por parte do fiscal, de uma terminologia eminentemente técnica para induzir à falsa ideia de que os preparados de que trata o inc. III do art. 2º do Decreto 6871/09 seriam a mesma coisa das preparações da Posição 2106.90.10 do NCMSH. Por fim, para a mais absoluta surpresa deste julgador, a decisão a quo não apenas inovou na argumentação trazida por extenso TVF, como também anexou documentos novos ao processo! Permitome citar o trecho canhestro de confessado desatino procedimental: Não obstante a clareza da citada Nota Explicativa, para enriquecimento da argumentação desenvolvida no TVF, anexei ao processo cópia da tradução juramentada da documentação do Conselho de Cooperação Aduaneira CCA (atual OMA), obtida do processo que tem por objeto o auto de infração lavrado contra a fornecedora Recofarma (11080.723817/2014 28). O documento anexo, por si, sequer deveria ser conhecido por este colegiado, por se tratar de "prova" (apenas em um sentido largamente lato) nova, produzida por sujeito incompetente para tanto e sem que fosse oportunizada o direito de defesa do contribuinte a seu respeito, em sede de Impugnação. Apenas por amor à argumentação, e por um dever de retidão, irei demonstrar que, ainda que considerado, tal documento em nada altera o desfecho do raciocínio alinhavado neste voto. A decisão recorrida, ao invocar os trabalhos preparatórios da CCA (atual OMA), que estiveram por trás da redação da NESH XI à RGI/SH 3, não está se socorrendo de interpretação autêntica! Já descrevemos o que é a interpretação autêntica em outras oportunidades, pelo que reproduzimos abaixo algumas dessas considerações: Em primeiro lugar, falar em lei interpretativa é falar em interpretação autêntica, que é aquela praticada através de toda lei ou disposição legislativa cujo conteúdo consista na determinação do significado de uma ou mais disposições legislativas anteriores (GUASTINI, Ricardo. Interpretare e Argomentare. Milano: Giuffré, 2011. P.81). (...) O caráter "autêntico" é dado a qualquer interpretação decorrente do próprio sujeito que tenha produzido o texto a ser interpretado seria como se Machado de Assis subscrevesse carta em que confirmasse a traição de Capitu, que deveria ser tomada com a interpretação autêntica da obra "Dom Casmurro". Naturalmente que ao falarmos de Direito, especialmente Direito Tributário, cujas principais regras são produzidas por um Parlamento, fica evidente o caráter ficcional dessa autenticidade (Cf. PUGIOTTO, Andrea. La legge interpretativa e i suoi Fl. 8550DF CARF MF Processo nº 10830.725247/201516 Acórdão n.º 3402004.988 S3C4T2 Fl. 8.514 57 giudici. Milano: Giuffré, 2003. P.125127) de modo que a subjetividade do legislador se revela como uma noção meramente metafórica, para não dizer ideológica, diante da possibilidade de composições absolutamente distintas desse órgão emitirem leis interpretativas. Isso demanda que substituamos o pressuposto da identidade do autor ou do órgão para a identidade de função (legislativa), que liga a força normativa dos dois atos, lei interpretada e lei interpretativa se prestando a justificar a interpretação autêntica. Portanto, a interpretação autêntica decorre de um ato legislativo de mesma natureza e hierarquia, veiculado pelo sujeito detentor da mesma função, com o objetivo de aclarar dispositivo anteriormente veiculado. Como o próprio a própria decisão coloca "O documento anexado consiste em interpretação autêntica, que decorre da análise realizada pela CCA para fins de formalização do item XI da Nota Explicativa da Regra 3 b" tratase, pois, de documento que representa trabalhos preparatórios, anteriores à redação da Nota Explicativa em comento. Salta aos olhos a impossibilidade de um trabalho preparatório ser tratado como interpretação autêntica. Em primeiro lugar, não possui natureza normativa, por não veicular qualquer comando vinculante, e sequer se qualifica como norma jurídica, para fins de hierarquização em um sistema graduado verticalmente. Em segundo lugar, o trabalho preparatório é anterior à Nota Explicativa, de modo que não poderia ser interpretação autêntica de algo que sequer existe ainda. Como qualquer ato comunicativo, a norma jurídica de desprende de seu autor no momento que é exarada, da mesma forma que a vontade do legislador e o sentido objetivo da lei não podem se confundir. Quando muito, os trabalhos preparatórios servem para auxiliar na interpretação dos dispositivos legais, em caso de dúvida, mas nunca contra a sua própria literalidade, nem para lhe agravar o conteúdo essa é a lição clássica de Karl Engisch no seu Einführung in das juristsche Denken, ao enfrentar o embate entre as escolas objetivistas e subjetivistas de interpretação. A justificação subjacente a uma determinada norma pode, sim, ser utilizada para identificar casos de sobreinclusão e subinclusão normativa aptos a serem sanados por meio de analogia ou pela técnica de dissociação no momento da aplicação, mas nunca para fins de ampliar o alcance de regras restritivas, como em matéria tributária e penal. Prosseguindo, cabe ressaltar que diversos pareceres do CCA foram internalizados e tornados vinculantes por meio de Instruções Normativas, e disponibilizados no site da RFB, mas que em nenhum deles consta o documento apresentado pelo julgador a quo. Portanto, tais atas de reuniões não são e nem podem ser tratadas como pareceres oficiais daquela organização, mas como registros históricos dos debates, tampouco tendo sido oficialmente introduzidos no sistema jurídico nacional. É dizer, nem soft law chegam a ser, porque nem Direito são. Fl. 8551DF CARF MF 58 Desse modo, devese afastar de pronto o argumento levantado pela decisão a quo pelos seguintes motivos: I) o julgador de 1ª instância não pode juntar novos documentos ao processo; II) não foi oportunizado à Recorrente o direito de se manifestar sobre esse documento na impugnação; c) tratase de inovação à fundamentação da autuação; d) o documento juntado não possui qualquer valor normativo, não tendo sido publicado oficialmente como parecer, tampouco internalizado no Direito Brasileiro. Fica clara a improcedência dos argumentos esgrimidos na autuação e na decisão a quo. Tudo isso que foi demonstrado transparece uma profunda arbitrariedade perpetrada pela fiscalização, que olvidou das regras classificatórias expressas para buscar, por meios oblíquos e subterfúgios, a glosa dos créditos. Isso fica muito mais claro por diversos momentos em que informações relevantes são voluntariamente omitidas do TVF para manter a integridade das escusas conclusões alcançadas. Corrobora esse entendimento o fato de este fundamento relacionado à classificação fiscal estar presente apenas nos casos da AMBEV, coincidentemente a empresa que detém um provimento judicial definitivo a seu favor. Tratase, pois, de uma solução arbitrária da fiscalização para conseguir autuar especificamente a AMBEV, o que se qualifica perfeitamente como um vício subjetivo de arbitrariedade e pessoalidade no ato administrativo de lançamento, maculando integralmente a validade do mesmo. Portanto, a despeito da patente nulidade apontada no início, estamos fortes nos fundamentos acima delineados quanto à concessão de provimento favorável do mérito ao sujeito passivo, razão pela qual não pronunciaremos tal nulidade no dispositivo da decisão. Conclusão Ante o exposto, voto por dar provimento parcial para reconhecer o direito de crédito relativo às aquisições de produtos compostos por extrato de guaraná. É como voto. Conselheiro Carlos Augusto Daniel Neto Fl. 8552DF CARF MF
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Numero do processo: 10530.904165/2009-64
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Mar 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2002
IRPJ. LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES.
Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, está compreendida no conceito de serviços hospitalares (art. 15, parágrafo 1º, III, "a", da Lei nº 9.249, de 1995, antes das alterações pela Lei nº 11.727, de 2008) a atividade de laboratório de análises clínicas, autorizando a incidência do percentual de 8% na apuração do lucro presumido.
Numero da decisão: 1201-002.031
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Souza - Presidente.
(assinado digitalmente)
Eva Maria Los - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Souza (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa; ausentes justificadamente José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: EVA MARIA LOS
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LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES. Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, está compreendida no conceito de serviços hospitalares (art. 15, parágrafo 1º, III, "a", da Lei nº 9.249, de 1995, antes das alterações pela Lei nº 11.727, de 2008) a atividade de laboratório de análises clínicas, autorizando a incidência do percentual de 8% na apuração do lucro presumido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Souza Presidente. (assinado digitalmente) Eva Maria Los Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Souza (Presidente), Eva Maria Los, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Fabiano Alves Penteado, Luis Henrique Marotti Toselli, Gisele Barra Bossa; ausentes justificadamente José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 90 41 65 /2 00 9- 64 Fl. 141DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o processo de Declaração de Compensação PER/DComp em que o contribuinte requer direito creditório de recolhimento indevido ou a maior de 2089 IRPJ – Lucro Presumido, para compensar débitos. 2. O Despacho Decisório não reconheceu o crédito e não homologou a compensação declarada, determinando o prosseguimento na cobrança dos débitos indevidamente compensados, acrescidos de multa e juros de mora. 3. Regularmente cientificado, o contribuinte apresentou manifestação de inconformidade, que foi julgada improcedente, no julgamento de primeira instância. 4. Cientificado, apresentou Recurso Voluntário tempestivo ao CARF, no qual informa: Em síntese, o decisum ora atacado se baseou em duas premissas básicas, quais sejam: i) a Recorrente não constituía, à época do crédito, como uma sociedade empresária; e, ii) a não apresentação de provas para a satisfação do direito da aplicação do percentual reduzido do lucro presumido, para os fins de enquadramento como "serviços hospitalares". Quanto ao primeiro argumento, não deverá prosperar pelo simples fato de que o art. 2.031 do Código Civil permitiu que as empresas constituídas sob a égide do Código Civil anterior e demais legislações esparsas pudessem realizar as devidas adaptações do seu contrato social até 11.11.2007 na redação que foi dada pela Lei 11.127/2005. No tocante ao segundo fundamento, relativamente à apresentação das provas do efetivo exercício da atividade de "serviços hospitalares", cumpre ressaltar que não era esse o cerne da questão que motivou o despacho decisório que indeferiu ou não homologou a compensação Aliás, da leitura do próprio despacho decisório se conclui que a motivação foi exclusivamente a inexistência do direito ao crédito por não ter sido identificado, tais créditos, no confronto dos débitos e créditos informados na respectiva DCTF. Ora, se a discussão se deu exclusivamente em torno da demonstração dos créditos na respectiva DCTF, não há o que se falar da necessidade da apresentação das provas acerca do exercício da atividade de "serviços hospitalares", sob pena de preclusão. Em outras palavras, em momento algum foi questionado no respectivo despacho decisório sobre o direito da Recorrente de se utilizar dos percentuais reduzidos para os fins do lucro presumido. 5. Sobre a Natureza de Sociedade Empresária, refuta que não fosse sociedade empresária à época dos fatos, segundo o Código Civil: Fl. 142DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 4 3 Já o art. 966 define o empresário como sendo aquele que exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. O parágrafo único do mesmo artigo ressalva quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Em outras palavras, quem exerce atividade intelectual em princípio, não é empresário, mas pode ser se em sua atividade estiver presente o elemento de empresa. (...) (...) A Recorrente, que possui a atividade de Laboratório de Análises Clínicas, a exerce de forma organizada e evidenciada pela circulação de serviços, necessária para a definição do conceito de "empresário", além do aspecto da mãodeobra especializada e do fator tecnológico (equipamentos modernos, muitos deles importados). A circulação dos serviços se constata também pela necessidade de contratação de diversos profissionais qualificados (bioquímicos, farmacêuticos, enfermeiros, etc.) para a perfeita prestação dos seus serviços, os sócios, ainda que sejam profissionais, não poderiam, sozinhos, dar conta da demanda de um laboratório de análises clínicas. (...) Destarte, concluise, portanto, que é descabido o argumento invocado para negar um direito líquido e certo da Recorrente, por se enquadrar, à época da constituição do crédito a seu favor, como sociedade empresária, mediante os novos conceitos instituídos pelo Novo Código Civil, ainda que seus atos constitutivos tenham sido adaptados em 09 de julho de 2004, no prazo previsto no seu artigo 2.031. 6. Sobre a Prestação dos Serviços Hospitalares, invoca INs da RFB e Solução de Consulta que protocolou: A partir da publicação da Instrução Normativa 306 SRF, de 12 32003, publicada no DOU de 342003, a administração tributaria firmou um entendimento mais abrangente para o conceito de serviços hospitalares. Isto porque, o art. 23 do referido ato normativo disciplina que para os fins previstos no art. 15, § 1.°, inciso III, alínea "a", da Lei 9.249/95 (matriz legal do lucro presumido), poderão ser considerados serviços hospitalares aqueles prestados por pessoas jurídicas, diretamente ligadas à atenção e assistência à saúde, que possuam estrutura física condizente para a execução de uma das atividades ou a combinação de uma ou mais das atribuições relacionadas na Parte II, Capítulo 2, da Portaria GM nº 1.884/94, do Ministério da Saúde. 7. Que, posteriormente a IN SRF nº 480, de 2004, com as alterações pela IN SRF nº 539, de 27 de abril de 2005, no art. 27, apresentou nova definição, que transcreve. Fl. 143DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 5 4 8. E relata que protocolou consulta, recebendo resposta positiva na Solução de Consulta 12, de 16 de fevereiro de 2007, cuja ementa transcreve: SOLUÇÃO DE CONSULTA Nº 12 de 16 de Fevereiro de 2007 ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ EMENTA: Lucro Presumido. Percentuais. Serviços Hospitalares. A pessoa jurídica que exerça a atividade de Laboratório de análises clínicas Ligada à atenção e assistência à saúde, (atribuição 4) de que trata a Parte II da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de vigilância sanitária n$ 50, de 21 de fevereiro de 2062, alterada pela RDC nº 307, de 14 de novembro de 2002, e pela RDC nº 189, de 18 de julho de 2003, somente terá sua atividade considerada como serviço hospitalar, para os efeitos do artigo 15 do Lei n9 9.249, de 1995, se atender aos requisitos normativos. Consideramse não atendidos esses requisitos quando a pessoa jurídica enquadrar se nas exceções veiculadas no parágrafo único do artigo 9 66 do Código civil e/ou no parágrafo primeiro do artigo 27 da IN SRF n& 480, de 2904. Esse entendimento aplicase retroativamente. 9. Haja vista que o Acórdão recorrido considerou prova insuficiente a Solução de Consulta supra, anexa os seguintes documentos comprobatórios: a) Contratos de Prestação de Serviços firmados com entidades contratantes de tais serviços; b) Notas Fiscais de prestação de serviços faturados para os contratantes em que comprovam a prestação de laboratório de análises clínicas e patológicas. Voto Conselheira Eva Maria Los, Relatora 10. A IN SRF nº 539, de 2005, foi revogada pela IN SRF nº 1.234, de 11 de janeiro de 2012, alterada pela IN RFB nº 1.540, de 05 de janeiro de 2015: Dos Serviços Hospitalares e Outros Serviços de Saúde Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles prestados por estabelecimentos assistenciais de saúde que dispõem de estrutura material e de pessoal destinados a atender à internação de pacientes humanos, garantir atendimento básico de diagnóstico e tratamento, com equipe clínica organizada e com prova de admissão e assistência permanente prestada por médicos, que possuam serviços de enfermagem e atendimento terapêutico direto ao paciente humano, durante 24 (vinte e quatro) horas, com disponibilidade de serviços de laboratório e radiologia, serviços de cirurgia e parto, bem como registros médicos organizados para a rápida observação e acompanhamento dos casos. Fl. 144DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 6 5 Art. 30. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, prestados pelos estabelecimentos assistenciais de saúde que desenvolvem as atividades previstas nas atribuições 1 a 4 da Resolução RDC nº 50, de 21 de fevereiro de 2002, da Anvisa (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1540, de 05 de janeiro de 2015) Parágrafo único. São também considerados serviços hospitalares, para fins desta Instrução Normativa, aqueles efetuados pelas pessoas jurídicas: I prestadoras de serviços préhospitalares, na área de urgência, realizados por meio de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) móvel instalada em ambulâncias de suporte avançado (Tipo “D”) ou em aeronave de suporte médico (Tipo “E”); e II prestadoras de serviços de emergências médicas, realizados por meio de UTI móvel, instalada em ambulâncias classificadas nos Tipos “A”, “B”, “C” e “F”, que possuam médicos e equipamentos que possibilitem oferecer ao paciente suporte avançado de vida. Art. 31. Nos pagamentos efetuados, a partir de 1º de janeiro de 2009, às pessoas jurídicas prestadoras de serviços de auxilio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que as prestadoras desses serviços sejam organizadas sob a forma de sociedade empresária e atendam às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), será devida a retenção do IR, da CSLL, da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep, no percentual de 5,85% (cinco inteiros e oitenta e cinco centésimos por cento), mediante o código 6147. 11. O contribuinte, optante pelo lucro presumido, efetuou recolhimento do IRPJ apurado mediante a aplicação do percentual de 32% sobre a receita bruta; pleiteia que efetuou recolhimento a maior, uma vez que, como sua atividade está compreendida no conceito de serviços hospitalares, o percentual correto para a apuração é o de 8%. 12. Para comprovar a atividade, anexou contratos e notas fiscais; tratamse de contratos: de 17/08/1989, prestação de serviços de análises clínicas; 29/12/1989, patologia clinica; 08/03/2001, assistência médica; 01/02/2001, serviços de laboratório nas dependências do contratante; e contratos de 2003 e 2004, de serviços de análises clínicas, assistência médica, atendimento ambulatorial e procedimentos de diagnóstico e tratamento; e as notas fiscais são de 2004, tendo como objeto "Serviços prestados em exames, Materiais de produtos consumidos", "Exames laboratoriais automatizados", "material de consumo utilizado para a realização de exames automatizados". 13. Às págs. 06/10, consta a Alteração Contratual n° 09 e Consolidação, de 09/07/2004: SEGUNDA: O objeto da sociedade é: exploração do ramo de laboratório de análises clinicas e a importação de produtos bioquímicos para laboratórios de análises clínicas. Fl. 145DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 7 6 14. Na DIPJ 2003/2002, retificadora entregue em 18/05/2009, informou Código da Natureza Jurídica: 2062 Sociedade por Cotas de Responsabilidade Limitada Empresa Privada; Código da Atividade Econômica (CNAEFiscal): 85.146/02 Atividades dos laboratórios de análises clínicas, na qual informa a totalidade da receita bruta como sujeita ao percentual de 8%. 15. Não consta a DIPJ 2003/2002 original. 16. Esses elementos atestam as atividades de laboratório de análises clínicas, e de importação de produtos bioquímicos, embora a receita informada seja referente à primeira. 1 Atividade Empresarial 17. A antiga Sociedade Civil foi substituída, no novo Código, pela Sociedade Simples (CC, art. 982). a. Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916, Código Civil, revogado. Art. 16. São pessoas jurídicas de direito privado: I. As sociedades civis, religiosas, pias, morais, científicas ou literárias, as associações de utilidade pública e as fundações. 18. Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002, Código Civil vigente desde 01/2003: Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. (...) Da Sociedade CAPÍTULO ÚNICO Disposições Gerais Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringirse à realização de um ou mais negócios determinados. Art. 982. Salvo as exceções expressas, considerase empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais. 2 Lucro Presumido. Atividades Hospitalares. 19. O CARF já sedimentou o entendimento acerca da questão: Tipo do Recurso RECURSO VOLUNTARIO Fl. 146DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 8 7 Data da Sessão 13/03/2014 Nº Acórdão 1201000.986 Decisão Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar parcial provimento ao recurso, para: negar o pedido de restituição quanto aos créditos alcançados pela decadência, ao crédito relativo ao REDARF e ao crédito compensado em /duplicidade, nos termos do voto do relator, tendo sido reconhecido o direito ao crédito referente ao reenquadramento do coeficiente de presunção do lucro presumido de 32% para 8%. Ementa(s) Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2000, 2001, 2002, 2003 IRPJ. LUCRO PRESUMIDO. ATIVIDADES HOSPITALARES. Conforme entendimento pacificado no Superior Tribunal de Justiça, restam compreendidas no conceito de serviços hospitalares (artigo15, parágrafo 1º, inciso III, alínea a, da Lei nº 9.249/95, antes das alterações da Lei nº 11.727/2008) as atividades típicas de prestação de serviços de apoio diagnóstico por imagem e laboratório de análises clínicas, permitindose quanto a estas a incidência do percentual reduzido de 8%, relativamente ao IRPJ. 20. Transcrevese o teor do voto do Acórdão CARF supra, que analisou análoga situação relativamente a laboratório de análises clínicas, uma vez que retrata o entendimento do CARF, com o qual esta Relatora concorda: "Vencidos tais argumentos, cumprenos analisar a questão central dos autos, que se consubstancia na qualificação jurídica da Recorrente, que apresentou todas os pedidos de restituição e declarações de compensação até aqui mencionados ante o entendimento de que sua atividade se enquadraria no conceito de “serviços hospitalares”, nos termos da Lei n. 9.249/95. Aliás, a mudança de entendimento somente ocorreu após o trânsito em julgado (20 de março de 2007) da ação que não lhe reconheceu o direito de isenção da COFINS, com base na Lei Complementar n. 70/91. A partir da ciência de tal decisão, conforme acórdão prolatado pelo TRF da 1ª Região, o contribuinte passou a apresentar as DIPJ e DCTF retificadoras já analisadas, bem como as declarações de compensação com os créditos a que entendia fazer jus. A base legal da tributação encontrase nos artigos 15 e 20 da Lei n. 9.249/95, com a redação vigente à época dos fatos: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. Fl. 147DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 9 8 § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; (...) Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro liquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do §1º do art 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento, (grifamos) De se notar que a legislação, para os anoscalendário sob análise, fazia clara distinção entre os serviços em geral e a prestação de serviços hospitalares. Não há dúvida, em razão da dicção normativa, que o legislador considerava que os serviços prestados pelos laboratórios eram diferentes daqueles compreendidos na expressão "serviços hospitalares", até porque em 2008 o próprio texto foi alterado para incluir, a partir do anocalendário de 2009, os serviços de laboratório na faixa de tributação de 8% do lucro presumido, conforme observamos a seguir: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de oito por cento sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto nos arts. 30 a 35 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995. § 1° Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: (...) III trinta e dois por cento, para as atividades de: a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxilio diagnóstico e terapia, patologia clinica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clinicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Sacional de Vigilância Sanitária Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11. 727, de 2008) (grifamos) Portanto, atualmente é possível que um laboratório de análises clínicas seja tributado pela alíquota de 8%, observados os critérios legais, mas isso só se concretizou a partir do advento da Lei n. 11.727/2008, com para o anocalendário de 2009. Contudo, o Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento, na sistemática do artigo 543C do Código de Processo Civil, de que mesmo antes das alterações promovidas pela Lei n° 11.727/2008, deve ser aplicada a alíquota de 8% para fins de Fl. 148DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 10 9 presunção do lucro de laboratórios de análises clínicas que se enquadram em determinados requisitos. Reproduzimos, a seguir, o paradigmático acórdão: RECURSO ESPECLAL Nº 837.913 SC (200600756635) Relator: Ministro Hamilton Carvalhido Recorrente: Centro Médico São José Ltda Recorrido: Fazenda Nacional RECLUSO ESPECIAL. TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA PESSOA JURÍDICA. ALÍQUOTA REDUZIDA ARTIGO 15, PARAGRAFO 1O, INCISO III, ALÍNEA A, DA LEI Nº 9.249/95. SERVIÇOS HOSPITALARES. APOIO DIAGNÓSTICO POR LABORATÓRIO DE ANÀLISES CLÍNICAS. 1. Restam compreendidas no conceito de "serviços hospitalares" (artigo 15, parágrafo 1o, inciso III, alínea a, da Lei n° 9.249/95, antes das alterações da Lei n° 11.727/2008) as atividades típicas de prestação de serviços de apoio diagnóstico por imagem e laboratório de análises clinicas, permitindose quanto a estas a incidência do percentual reduzido de 8% relativamente ao Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ, excluídas as simples consultas médicas ou atividades de cunho administrativo (cf. REsp. n° 1.116.399/BA, julgado sob o regime do artigo 543C do Código de Processo Civil). 2. Recurso especial provido Por força de tal decisão, e ante as características da prestação de serviços laboratoriais demonstradas pela Recorrente nos autos, em razão dos diversos contratos firmados, inclusive com entidades de natureza pública, entendo forçoso reconhecer, na esteira do que decidiu o STJ, que deve ser conferido à interessada o direito ao crédito referente ao reenquadramento do coeficiente de presunção do lucro, de 32° o para 8%. Ante o exposto, CONHEÇO do Recurso e, no mérito, DOULHE parcial provimento, para reconhecer o direito de reenquadramento da Recorrente no coeficiente de presunção do lucro de 8%." Conclusão Voto por DAR provimento ao recurso voluntário reconhecendo o direito creditório de 2089 – IRPJ Lucro Presumido recolhido a maior, até o limite da diferença entre os valores apurados com o percentual de 32% e o de 8% sobre a receita bruta da atividade de serviços de laboratório de análises clínicas. (assinado digitalmente) Eva Maria Los Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10530.904165/200964 Acórdão n.º 1201002.031 S1C2T1 Fl. 11 10 Fl. 150DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13888.910252/2009-07
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Terceira Seção
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 26 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 03 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2008 a 31/01/2008
DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO APÓS O DESPACHO DECISÓRIO.
A apresentação de DCTF retificadora, ainda que após a prolação de despacho decisório, desde que em hipótese não vedada pela legislação, substitui a original, constituindo-se em indício da certeza e liquidez do crédito tributário.
COFINS. PAGAMENTO A MAIOR. COMPROVAÇÃO DE ERRO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE.
Em pedido de compensação, é dever do contribuinte demonstrar, pormenorizadamente, a origem do crédito pleiteado. Ao se constatar a ocorrência de erro material, deve ser disponibilizado todos os documentos probatórios, para que a autoridade fiscal competente, ao examiná-los, lhe conferem liquidez e certeza do crédito pleiteado.
Numero da decisão: 3001-000.209
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com retorno dos autos à Unidade de Origem para análise dos documentos acostados no Recurso, vencidos os conselheiros Cleber Magalhães e Renato Vieira de Avila (Relator) que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cássio Schappo.
(assinado digitalmente)
Orlando Rutigliani Berri - Presidente
(assinado digitalmente)
Renato Vieira de Avila - Relator
(assinado digitalmente)
Cássio Schappo - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Renato Vieira de Avila, Cleber Magalhães e Cássio Schappo.
Nome do relator: RENATO VIEIRA DE AVILA
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POSSIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO APÓS O DESPACHO DECISÓRIO. A apresentação de DCTF retificadora, ainda que após a prolação de despacho decisório, desde que em hipótese não vedada pela legislação, substitui a original, constituindose em indício da certeza e liquidez do crédito tributário. COFINS. PAGAMENTO A MAIOR. COMPROVAÇÃO DE ERRO. ÔNUS DO CONTRIBUINTE. Em pedido de compensação, é dever do contribuinte demonstrar, pormenorizadamente, a origem do crédito pleiteado. Ao se constatar a ocorrência de erro material, deve ser disponibilizado todos os documentos probatórios, para que a autoridade fiscal competente, ao examinálos, lhe conferem liquidez e certeza do crédito pleiteado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, com retorno dos autos à Unidade de Origem para análise dos documentos acostados no Recurso, vencidos os conselheiros Cleber Magalhães e Renato Vieira de Avila (Relator) que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cássio Schappo. (assinado digitalmente) Orlando Rutigliani Berri Presidente AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 91 02 52 /2 00 9- 07 Fl. 99DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Relator (assinado digitalmente) Cássio Schappo Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Orlando Rutigliani Berri, Renato Vieira de Avila, Cleber Magalhães e Cássio Schappo. Relatório Despacho Decisório 848699481 Tratase de decisão sobre pedido de Compensação efetuado em Per/Dcomp registrada sob n.º 21217.37289.200308.1.3.040112, referente a pagamento indevido ou a maior, sendo que o limite do Crédito analisado corresponde ao valor do crédito original na data de transmissão do PaR/DCOMP no total de R$ 36.650,76. A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP, foram localizados um ou mais pagamentos, abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação dos débitos informados no PER/DCOMP, conforme imagem da tabela abaixo: Neste sentido, foi posto em cobrança o crédito tributário no valor de R$ 35.845,95 de principal, R$ 7.169,19 de multa e R$ 6.333,97 correspondente a juros. Manifestação de Inconformidade Em sua defesa, a Recorrente aduziu, sobre o DDE, que, embora tenha sido recolhido em data de 20/02/2008, a COFINS, código N° 5856, e valor de R$ 38.869,04 referente ao período de apuração de 31/01/2008, conforme constou da DCTF do 1.º Semestre de 2008, entregue em 04/09/08 e recibo n° 16.34.80.58.8338, fora, posteriormente, detectado que o valor apurado estava errado. Erro no preenchimento Em sua linha de argumentação, o valor correto seria de R$ 2.218,28, o que constaria na retificação da DCTF, entregue no dia 05/11/2009, de recibo n° 12.46.99.31.6409. DRJ/CTA A manifestação de inconformidade foi julgada com a seguinte ementa: Acórdão: 0649.378 3ª Turma ASSUNTO: NORMAS DE ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA Período de apuração: 01/01/2008 a 31/01/2008 Fl. 100DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 4 3 COMPENSAÇÃO. CRÉDITO INEXISTENTE. DCOMP. NÃO HOMOLOGAÇÃO. Comprovado nos autos que o crédito informado como suporte para a compensação foi integralmente utilizado pela contribuinte na extinção de outros débitos, não se homologam as compensações requeridas. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido O relatório do mencionado acórdão, por bem retratar a situação fática, será aproveitado conforme a transcrição a seguir: Trata o processo de manifestação de inconformidade apresentada em 06/11/2009, em face da não homologação da compensação declarada por meio do Per/Dcomp nº 21217.37289.200308.1.3.040112, nos termos do despacho decisório emitido em 07/10/2009 pela DRF Piracicaba (rastreamento nº 848699481). Na aludida Dcomp, transmitida eletronicamente em 20/03/2008, a contribuinte indicou um crédito de R$ 36.650,76 (que corresponde a uma parte do pagamento de Cofins efetuado em 20/02/2008, sob o código 5856, no valor de R$ 38.869,04) para extinguir débitos de sua responsabilidade. Segundo o despacho decisório, a compensação não foi homologada porque o crédito indicado para a compensação havia sido totalmente utilizado na extinção do débito de Cofins (5856) do período de apuração 01/2008. Na manifestação apresentada, a interessada alega que o valor correto do débito de Cofins de janeiro de 2008 é de R$ 2.218,28 e que a DCTF foi retificada em 05/11/2009, conforme recibo nº 12.46.99.31.6409. No voto, a autoridade julgadora de primeira instância firma seu entendimento no sentido de delimitar o tema a ser enfrentado, qual seja, a existência de erro na prestação de informação sobre o valor correto da COFINS relativa a Janeiro de 2008. Havia indicado R$ 38.869,04, enquanto que o correto, seria de R$ 2.218,28. Por sua vez, consultandose o sistema de controle de DCTF, vê se que, em relação ao 1º semestre de 2008, a contribuinte transmitiu três declarações (em 04/09/2008, 05/11/2009 e 13/10/2010)). Na DCTF original, transmitida em 04/09/2008, o débito de Cofins não cumulativa de janeiro foi confessado como sendo de R$ 38.869,04. Já, na DCTF retificadora de 05/11/2009 (aludida na manifestação), referido débito foi reduzido para R$ 2.218,28 (valor pleiteado). Contudo, na DCTF ativa, transmitida em 13/10/2010, o débito de Cofins não cumulativa de janeiro de 2008 foi novamente alterado, retornando para o valor de R$ 38.869,04, ou seja, para o mesmo valor considerado no despacho decisório. Fl. 101DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 5 4 Erro e meios de comprovação Após, portanto, esta constatação, de que a terceira DCTF transmitida, portanto, a DCTF ativa constar o mesmo valor do Despacho Decisório, e, acrescido ao fato de não foram apresentados quaisquer documentos capazes de comprovar o contrário, a autoridade julgadora de primeira instância não vislumbrou qualquer razão para se acolher as alegações apresentadas, concluindo: sem a comprovação de um suposto equívoco não há como considerar inválidos os valores confessados e que encontram apoio em uma declaração prestada com força de confissão de dívida (DCTF). Recurso Voluntário A Recorrente limitouse a repetir os argumentos trazidos na anterior Manifestação de Inconformidade, sendo que, neste momento processual, juntou: · memorial de cálculo demonstrando a apuração da Cofins · Guia DARF da Cofins Recolhida em 31 01 2008 · memorial de cálculo demonstrando a apuração da Cofins R$ 2.218,28 · Guia DARF da Cofins Recolhida em 31 01 2008 · Registro de suas saídas · Registro de apuração de IPI · Registro de entradas · Nota Fiscal · Extrato da DI · Balanço patrimonial Voto Vencido Conselheiro Renato Vieira de Avila Relator Tempestividade A ciência da decisão de primeira instância ocorreu mediante a entrega do Aviso de Recebimento AR registrado sob código JG 72091735 1 BR, na data de 05 de novembro de 2014, enquanto que o competente Recurso Voluntário foi protocolizado no dia 17 de novembro de 2014, sendo, portanto, tempestivo. Fl. 102DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 6 5 Mérito Falta de Demonstração de Erro Momento para a apresentação de documentos Pretende a Recorrente, através de seu Recurso Voluntário, ver reconhecida, e, por conseguinte, restar declarada por este Conselho, a ocorrência de erro, uma vez que teria recolhido o valor 20/02/2008, a COFINS, código N° 5856, e valor de R$ 38.869,04 referente ao período de apuração de 31/01/2008, conforme constou da DCTF do 1.º Semestre de 2008, entregue em 04/09/08 e recibo n° 16.34.80.58.8338, fora, posteriormente, detectado que o valor apurado estava errado. Erro no preenchimento Em sua linha de argumentação, o valor correto seria de R$ 2.218,28, o que constaria na retificação da DCTF, objeto da compensação. Origem do Crédito Pleiteado A alegação da Recorrente referese a ocorrência de erro material na apuração do tributo em tela, tendo ocorrido pagamento a maior, motivo pelo qual manejou a referenciada DCOMP, a fim de ressarcir o que considerou indevido, vez que apontou, a seu entender, a existência de crédito próprio suficiente para fomentar a compensação. Nestes autos, reparase que a autoridade em primeira instância, verificou que a Recorrente transmitiu três declarações (em 04/09/2008, 05/11/2009 e 13/10/2010)). Na DCTF original, transmitida em 04/09/2008, o débito de Cofins não cumulativa de janeiro foi confessado como sendo de R$ 38.869,04. Já, na DCTF retificadora de 05/11/2009 (aludida na manifestação), referido débito foi reduzido para R$ 2.218,28 (valor pleiteado). Contudo, na DCTF ativa, transmitida em 13/10/2010, o débito de Cofins não cumulativa de janeiro de 2008 foi novamente alterado, retornando para o valor de R$ 38.869,04, ou seja, para o mesmo valor considerado no despacho decisório. Ou seja, está devidamente constituído conforme declaração do contribuinte. A fim de demonstrar seu crédito, é dever da Recorrente apontar sua origem, de forma robusta, em documentação contábil suficiente, tanto para aferição do crédito, como de sua real ocorrência. Seguese ao julgado: Acórdão: 3202001.185 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIALCOFINS Data do fato gerador: 20/04/2007 Fl. 103DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 7 6 PEDIDO DE RESSARCIMENTO. DCTF RETIFICADORA. NECESSIDADE DA PROVA PELO CONTRIBUINTE. Nos termos dos §1º do art. 147 do CTN, para a validade da DCTF retificadora, nos casos em que a retificação importa na redução de tributo, é imprescindível a prova do erro que ensejou a necessidade da retificação. Tratandose de pedido de ressarcimento/restituição cumulado com pedido de compensação, o ônus de comprovar o direito creditório que alega é do contribuinte. Acórdão 3302002.709 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/1997 a 31/03/1997 DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. ERRO. ÔNUS DA PR OVA. O crédito tributário também resulta constituído nas hipót eses de confissão de dívida previstas pela legislação tributária, c omo é caso da DCTF. Dos meios para a Comprovação do erro material O tema presente se faz crucial para o desdobramento da questão. O cerne da discussão transita entre a exigência da autoridade fazendária na qual os erros devem ser provados com meios robustos e claros, com a definição e evidência dos fatos geradores ocorridos, e a devida construção lógico temporal entre a ocorrência do erro e a ocorrência do fato em si. Por outro lado, notase por parte do contribuinte, a pretensão em fazer valer seu suposto direito ao crédito, no presente caso, com o argumento de que errou. Não indicou, no momento apropriado, conforme se verá no item seguinte, nenhum indício da materialização do erro e o percurso percorrido para atingir o novo montante, considerado correto. Os meios de prova, aptos a comprovar a legitimidade do crédito, seriam, no entender deste julgador, a demonstração, com os documentos contábeis que permitam, em sede de contencioso administrativo, a efetiva leitura de como ocorreu apuração do tributo no valor apontado pela Recorrente. Este Conselho imputa à Recorrente, o ônus de comprovar este erro. Isto porque, a fim de aproveitar seu direito creditório, quando posto em litígio administrativo, deve assumir, plenamente, a tarefa de provar a existência do crédito. E, assumir o ônus de provar a existência do crédito, significa dizer, provar a existência da efetiva operação. Neste sentido, contratos comprovantes das operações que deram lastro aos lançamento contábeis, os seus devidos reflexos nos livros contábeis e fiscais, acompanhados de memoriais de cálculo, poderiam servir à apreciação do julgador, e demonstrar, justamente, o real acontecido. Mais substância ainda, seria trazer aos autos, os comprovantes da real ocorrência das operações negociais, como comprovantes de pagamentos e da efetiva prestação de serviço. Fl. 104DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 8 7 Neste sentido, são as manifestações deste Conselho: Acórdão: 3302002.709 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/1997 a 31/03/1997 DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. ERRO. ÔNUS DA PR OVA. Tratandose de suposto erro de fato que aponta para a inexistência do débito declarado, o contribuinte possui o ônus de prova do direito invo cado, o que, no presente caso, não ocorreu. Recurso Voluntário Negado. A mera alegação de inexistência de débito, desacompanhada dos documentos comprobatórios de sua real inexistência não é suficiente para que sejam homologadas quaisquer compensações, ou que quaisquer débitos sejam anulados. No presente caso o Recorrente não comprovou os recolhimentos efetuados por meio de documentos hábeis e idôneos, bem como de que se trata o débito inexistente. Há que se esclarecer que o Recorrente está obrigado a comprovar o erro de fato cometido ao preencher sua DCTF Complementar referente ao 1ºTrimestre de 1997, bem como que nenhum valor a título de COFINS é devido no referido período, mediante a apresentação de documentos hábeis e idôneos. Sem a comprovação de seu direito, através de tais documentos, a autoridade administrativa fica impedida de lhe proporcionar qualquer anulação de débito. Tratandose, portanto de matéria de prova, cabia ao recorrente produzila de forma satisfatória, a fim de demonstrar o seu direito Acórdão nº 3302.004.108 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS CRÉDITO TRIBUTÁRIO. ÔNUS DA PROVA. ERRO EM DECLARAÇÃO. A DCTF retificadora apresentada após o início de procedimento fiscal não têm o condão de provar suposto erro de fato que aponta para a i nexistência do débito declarado. O contribuinte possui o ônus d e prova do direito invocado mediante a apresentação de escrituração contábil e fiscal, lastreada em documentação idônea que dê suporte aos seus lançamentos. Fl. 105DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 9 8 Acórdão n° 3801000.681 — la Turma Especial ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA 0 FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004 DÉBITO TRIBUTÁRIO. CONSTITUIÇÃO. ERRO. ONUS DA PROVA. 0 crédito tributário também resulta constituído nas hipóteses de confissão de divida previstas pela legislação tributária, como é o caso da DCTF. Tratandose de suposto erro de fato que aponta para a inexistência do débito declarado, o contribuinte possui o ônus de prova do direito invocado Recurso Voluntário Negado. "Logo, a desconstituição do crédito tributário nascido com a con fissão de divida ocorrida através da DCTF dependerá de comprovação inequívoca, por meio de documentos hábeis e idôneos, de que se trata de débito inexistente. E que, para ilidir a presunção de legitimidade do crédito tributário nascido não se mostra suficiente que o contribuinte limitese a alegar erros, fazendose necessário que demonstre, por intermédio de documentação hábil e idônea, que a obrigação tributária principal é indevida. Em meu entender, a documentação trazida aos autos, em sede recurso, serviria às exigências ressaltadas nos acórdãos acima, pois demonstra a existência do crédito. · memorial de cálculo demonstrando a apuração da Cofins; · Guia DARF da Cofins Recolhida em 31 01 2008; · memorial de cálculo demonstrando a apuração da Cofins R$ 2.218,28; · Guia DARF da Cofins Recolhida em 31 01 2008 · Registro de suas saídas · Registro de apuração de IPI · Registro de entradas · Nota Fiscal · Extrato da DI · Balanço patrimonial Todavia, consoante se verá adiante, descuidouse a recorrente de observar o adequado momento processual para instrução probratória. Momento da prova Fl. 106DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 10 9 A Recorrente juntou ao seu Recurso Voluntário, a destempo portanto, documentos acima listados, não devendo ser apreciados devido à preclusão, conforme os entendimentos adiante listados. Acórdão: 3202001.185 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do fato gerador: 20/04/2007 . PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MOMENTO DA APRESENTAÇÃO DA PROVA. PRECLUSÃO. Conforme o art. 16, § 4º, do Decreto nº. 70.235/72, no processo administrativo fiscal, as provas devem ser apresentadas na impugnação, sendo admitida a juntada posterior somente nos casos excepcionais elencados naquele dispositivo legal. Recurso Voluntário negado. 3802002.108–2ªTurma Especial ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Anocalendário:2003 COMPENSAÇÃO. DESPACHO DECISÓRIO. FUNDAMENTAÇÃO. MOMENTO PARA APRESENTAÇÃO DE ESCLARECIMENTOS. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA.NULIDADE.INOCORRÊNCIA. Não enseja nulidade o despacho decisório exarado por autoridade competente e devidamente fundamentado. O momento oportuno para apresentação de esclarecimentos pelo contribuinte é o da manifestação de inconformidade que instaura a fase litigiosa do procedimento, restando afastada a ocorrência de cerceamento ao direito de defesa. Da Conclusão Ante o exposto, voto por conhecer do recurso voluntário e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Renato Vieira de Avila Voto Vencedor Fl. 107DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 11 10 Conselheiro Cássio Schappo Redator Com a devida vênia do Relator à argumentação empregada no voto, entendo que assiste parcial razão a recorrente. A recorrente buscou através de PER/DCOMP nº 21217.37289.200308.1.3.040112, transmitida na data de 20 de março de 2008, a compensação de débito de COFINS no valor de R$ 35.845,95, da competência 02/2008, em razão do recolhimento a maior que o devido na data de 20/02/2008 no valor de R$ 38.869,04 de COFINS, da competência 01/2008. Contudo, ao tomar conhecimento do Despacho Decisório desfavorável ao seu pedido, constatou que havia incorrido em erro quando da transmissão da DCTF para o período do 1º Semestre de 2008. Imediatamente, na data de 05/11/2009, transmitiu DCTF retificadora corrigindo o valor devido de COFINS para R$ 2.218,28 do período de apuração 01/2008, de forma a evidenciar o valor de seu pagamento a maior que o devido, resultando daí o crédito utilizado para a compensação requerida. A DRJ/CTA 3ª Turma, manteve a não homologação da compensação pleiteada, nos termos do despacho decisório, porque sem a comprovação de um suposto equívoco não há como considerar válidos os valores confessados e que encontram apoio em uma declaração prestada com força de confissão de dívida (DCTF). Teria o interessado apresentado uma segunda DCTF retificadora na data de 13/10/2010, onde o valor do débito da COFINS para o mês 01/2008 retornou a mesmo valor informada da DCTF original. A Recorrente, em sua manifestação recursal aponta para a ocorrência de um erro contido na DCTF retificadora do 1º Semestre de 2008, transmitida em 13/10/2008, afirmando que o valor correto da COFINS do mês 01/2008 é efetivamente R$ 2.218,28. Junta aos autos cópia da DACON, demonstrativo da apuração do PIS/COFINS não cumulativo, comprovante de recolhimento (DARF), cópia de Livros Fiscais, de forma a evidenciar a correção de seu procedimento. Me parece, apesar de dupla retificação de DCTF, diante de todos os argumentos e provas carreadas aos autos, que não foram objeto de análise pela unidade de origem, por prudência serem auditados por autoridade fiscal competente. Cito aqui julgado da 3ª Turma da CSRF no acórdão nº 9303005.396, de 25/07/2017, que analisando caso semelhante confirmaram decisão proferida no acórdão da 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção de Julgamento, no sentido de dar parcial provimento ao recurso voluntário, sendo entendimento daquele colegiado, “em síntese, que a DCTF retificadora, nas hipóteses admitidas por lei, tem os mesmos efeitos da original, podendo ser admitida para comprovação da certeza e liquidez do crédito, ainda que transmitida após a prolação do despacho decisório”. Oportuno destacar, também, parte do voto da Conselheira Relatora Vanessa Marini Cecconello (CSRF – T3), pelos seus comentários e associados ao Parecer Cosit nº 02/2015, nos orienta a dar o devido seguimento nesse julgado, “verbis”: O crédito tributário da Contribuinte e seu direito à restituição/compensação não nascem com a apresentação da DCTF retificadora, mas sim com o pagamento indevido ou a maior. Portanto, Fl. 108DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 12 11 a apresentação da DCTF retificadora não é requisito indispensável à homologação da compensação, mas a certeza e liquidez do indébito tributário devem restar comprovadas por outros meios nos autos do processo administrativo. Nesse sentido, é o Parecer Cosit nº 02/2015, de 28 de agosto de 2015, cuja ementa se deu nos seguintes termos: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. RETIFICAÇÃO DA DCTF DEPOIS DA TRANSMISSÃO DO PER/DCOMP E CIÊNCIA DO DESPACHO DECISÓRIO. POSSIBILIDADE. IMPRESCINDIBILIDADE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF PARA COMPROVAÇÃO DO PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. As informações declaradas em DCTF – original ou retificadora – que confirmam disponibilidade de direito creditório utilizado em PER/DCOMP, podem tornar o crédito apto a ser objeto de PER/DCOMP desde que não sejam diferentes das informações prestadas à RFB em outras declarações, tais como DIPJ e Dacon, por força do disposto no§ 6º do art. 9º da IN RFB nº 1.110, de 2010, sem prejuízo, no caso concreto, da competência da autoridade fiscal para analisar outras questões ou documentos com o fim de decidir sobre o indébito tributário. Não há impedimento para que a DCTF seja retificada depois de apresentado o PER/DCOMP que utiliza como crédito pagamento inteiramente alocado na DCTF original, ainda que a retificação se dê depois do indeferimento do pedido ou da não homologação da compensação, respeitadas as restrições impostas pela IN RFB nº 1.110, de 2010. Retificada a DCTF depois do despacho decisório, e apresentada manifestação de inconformidade tempestiva contra o indeferimento do PER ou contra a não homologação da DCOMP, a DRJ poderá baixar em diligência à DRF. Caso se refira apenas a erro de fato, e a revisão do despacho decisório implique o deferimento integral daquele crédito (ou homologação integral da DCOMP), cabe à DRF assim proceder. Caso haja questão de direito a ser decidida ou a revisão seja parcial, compete ao órgão julgador administrativo decidir a lide, sem prejuízo de renúncia à instância administrativa por parte do sujeito passivo. (...) Vêse que a administração tributária em questão normativa, preocupada com o assunto, já havia se posicionado sobre o tema que diz respeito à possibilidade de ocorrer DCTF retificadora para demonstrar a existência de crédito passível de compensação. Como antes dito, a liquidez e certeza do crédito tributário não se encerra com a simples DCTF retificadora, há outros indicativos a serem seguidos, por exemplo, os livros fiscais, DACON e outros demonstrativos de apuração do tributos, como parâmetros a serem utilizados para atestar o erro de declaração cometido. Nesse sentido, em respeito ao princípio constitucional do contraditório e da ampla defesa, na busca da verdade real no processo administrativo tributário, é cabível Fl. 109DF CARF MF Processo nº 13888.910252/200907 Acórdão n.º 3001000.209 S3C0T1 Fl. 13 12 oportunizar à Recorrente uma melhor análise pela unidade de origem quanto ao crédito pleiteado. Ademais, não pode o CARF suprir deficiência instrutória ainda que em sede de compensação, pois à luz do art. 10 da IN RFB nº 903/2008: "Os valores informados na DCTF serão objeto de procedimento de auditoria interna". De se observar que procedimento algum fora realizado em relação à apuração dos valores da compensação, sejam débitos ou créditos. Não podem as autoridades administrativas omitirse de analisar a materialidade dos débitos e créditos em compensação, eis que do contrário comprometem a regularidade do processo administrativo de restituição e compensação de tributos, cuja implicação é a manifesta nulidade nos termos do art. 59, II do PAF. Ante o exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, para que a unidade de origem aprecie as DCTFs retificadoras, juntamente com os demais documentos e provas carreadas aos autos e lhe confira liquidez e certeza para a realização da compensação requerida. (assinado digitalmente) Cássio Schappo Fl. 110DF CARF MF
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Numero do processo: 14485.000364/2007-83
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/11/2003 a 31/01/2007
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE.
Deve ser conhecido o Recurso Especial quando restar demonstrado, pela análise do acórdão paradigma, ter outro colegiado adotado interpretação divergente sobre uma mesma legislação tributária.
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-006.564
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patricia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: ELAINE CRISTINA MONTEIRO E SILVA VIEIRA
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/11/2003 a 31/01/2007 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Deve ser conhecido o Recurso Especial quando restar demonstrado, pela análise do acórdão paradigma, ter outro colegiado adotado interpretação divergente sobre uma mesma legislação tributária. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
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RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Deve ser conhecido o Recurso Especial quando restar demonstrado, pela análise do acórdão paradigma, ter outro colegiado adotado interpretação divergente sobre uma mesma legislação tributária. CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVETIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 14 48 5. 00 03 64 /2 00 7- 83 Fl. 368DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira – Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Patricia da Silva, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Paula Fernandes, Mário Pereira de Pinho Filho (suplente convocado), Ana Cecília Lustosa da Cruz e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório Tratase de Notificação Fiscal de Lançamento de Débito NFLD, DEBCAD: 37.113.5435, lavrado contra o contribuinte identificado acima, consolidado em 27/07/2007, no valor de R$ 8.812.483,13 (oito milhões, oitocentos e doze mil, quatrocentos e oitenta e três reais e treze centavos), compreendendo as competências de novembro/2003 a janeiro/2007, referentes à contribuição devida pelos segurados contribuintes individuais, às contribuições devidas pela empresa (FPAS c a contribuição para o financiamento dos benefícios concedidos cm razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambicntais do trabalho) e ás contribuições devidas a outras entidades (Salário Educação, INCRA, SESC e SEBRAE). Conforme foi informado no Relatório Fiscal, referidas contribuições incidiram sobre as remunerações pagas a segurados empregados e contribuintes individuais e foram declaradas pelo próprio contribuinte nas Guias de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social — GFIP's. A autuada apresentou impugnação, tendo a Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo/SP julgado o lançamento procedente, mantendo o crédito tributário em sua integralidade. Apresentado Recurso Voluntário pela autuada, os autos foram encaminhados ao CARF para julgamento do mesmo. Em sessão plenária de 18/01/2012, foi dado provimento parcial ao Recurso Voluntário, prolatandose o Acórdão nº 2301002.499 (fls. ), com o seguinte resultado: "Acordam os membros do colegiado, I) Por maioria de votos: a) em manter a aplicação da multa. Vencido o Conselheiro Mauro José da Silva, que votou pelo afastamento da multa; b) em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, para que seja aplicada a multa prevista no Art, 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente, nos termos do voto do (a) Relator (a). Vencido o Conselheiro Marcelo Oliveira, que votou em manter a multa aplicada; II) Por unanimidade de votos: a) em negar provimento ao Recurso nas demais alegações da Recorrente, nos termos do voto do (a) Relator (a)”. O acórdão encontrase assim ementado: Fl. 369DF CARF MF Processo nº 14485.000364/200783 Acórdão n.º 9202006.564 CSRFT2 Fl. 3 3 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/11/2003 a 31/01/2007 INEXISTÊNCIA DE NULIDADE. SÃO DEVIDAS AS CONTRIBUIÇÕES AO INCRA, SESC E SEBRAE. APLICAÇÃO DA TAXA SELIC. POSSIBILIDADE. É legítima a cobrança da contribuição para o INCRA das empresas urbanas, sendo inclusive desnecessária a vinculação ao sistema de previdência rural. Em relação às contribuições destinadas ao SESC e ao SENAC devidas pela prestadora de serviços há que se aplicar o entendimento exarado no Parecer CJ nº. 2.911 no qual ficou firmado o entendimento de são devidas as contribuições. O adicional destinado ao SEBRAE (Lei nº 8.029/90, na redação dada pela Lei nº 8.154/90) constitui simples majoração das alíquotas previstas no DecretoLei nº 2.318/86 (SENAI, SENAC, SESI e SESC). Os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. As contribuições sociais previdenciárias estão sujeitas à multa de mora, na hipótese de recolhimento em atraso devendo observar o disposto na nova redação dada ao artigo 35, da Lei 8.212/91, combinado com o art. 61 da Lei nº 9.430/1996. Recurso Voluntário Provido em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. O processo foi encaminhado para ciência da Fazenda Nacional em 26/07/2012 para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010. A Fazenda Nacional opôs, em 28/08/2012, portanto tempestivamente, Embargos de Declaração (fls. ) alegando omissão consubstanciada pela divergência entre o acórdão recorrido e os acórdãos proferidos pela 1ª Turma da 3ª Cãmara e Pela 1ª Turma da 4ª Câmara, ambas da 2ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Tais embargos foram rejeitados. O processo foi novamente encaminhado à Fazenda Nacional, em 19/02/2015, para cientificação em até 30 dias, nos termos da Portaria MF nº 527/2010, da rejeição dos embargos de declaração opostos por ela. A Fazenda Nacional interpôs, em 02/03/2015, portanto, tempestivamente, Recurso Especial (fls. ). Em seu recurso visa a reforma do acórdão recorrido em relação ao cálculo da multa mais benéfica ao contribuinte retroatividade benigna. Ao Recurso Especial da Fazenda Nacional foi dado seguimento, conforme Despacho s/nº, da 3ª Câmara, de 15/04/2015 (fl. ). O recorrente, em suas alegações, requer seja dado total provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido no ponto em que determinou a aplicação Fl. 370DF CARF MF 4 do art. 35 caput da Lei nº 8.212/91, em detrimento do art. 35A, do mesmo diploma legal, para que seja esposada a tese de que a autoridade preparadora deve verificar, na execução do julgado, qual norma mais benéfica: se a multa anterior (art. 35, II, da norma revogada) ou a do art. 35A da MP nº 449/2008, atualmente convertida na Lei nº 11.941/2009. Cientificado do Acórdão nº 2301002.449, do Recurso Especial da Fazenda Nacional e do Despacho de Admissibilidade admitindo o Resp da PGFN em 30/07/2015, o contribuinte interpôs, em 14/08/2015, portanto, tempestivamente, Recurso Especial (fls. ) da parte do Acórdão que lhe foi desfavorável e contrarrazões (fls. ). Ao Recurso Especial do Contribuinte foi negado seguimento conforme Despacho s/nº, da 3ª Câmara, de 27/05/2017 (fls. ) – Exame de Admissibilidade de Recurso Especial do Contribuinte. Em suas contrarrazões, o contribuinte diz que o Recurso Especial da Fazenda Nacional não deve ser admitido pois “não restou demonstrada a exata similitude de situações com soluções jurídicas diversas entre os vv. Acórdãos recorrido e paradigma”. Alega que a decisão ora em discussão, se considerarmos a manutenção da multa, foi certeira, porque não há que se falar na aplicação de dispositivo revogado, ao caso concreto, uma vez que o legislador, ao alterar o dispositivo, o fez como representante da sociedade, externando a vontade de seus eleitores; e que dessa forma, não há que se falar em aplicação da legislação revogada em detrimento do contribuinte, eleitor. Cientificado da negação de admissibilidade de seu Recurso Especial, o contribuinte não apresentou Agravo. É o relatório. Fl. 371DF CARF MF Processo nº 14485.000364/200783 Acórdão n.º 9202006.564 CSRFT2 Fl. 4 5 Voto Conselheira Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira Relatora. Pressupostos de Admissibilidade O Recurso Especial interposto é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, conforme despacho de Admissibilidade, fls. 325. Havendo questionamento acerca do conhecimento do Resp da Fazenda pela ausência de similitude, passo a apreciar a questão: Em relação ao conhecimento do processo foram colacionados os seguintes argumentos: Em suas contrarrazões, o contribuinte diz que o Recurso Especial da Fazenda Nacional não deve ser admitido pois “não restou demonstrada a exata similitude de situações com soluções jurídicas diversas entre os vv. Acórdãos recorrido e paradigma”. Alega que a decisão ora em discussão, se considerarmos a manutenção da multa, foi certeira, porque não há que se falar na aplicação de dispositivo revogado, ao caso concreto, uma vez que o legislador, ao alterar o dispositivo, o fez como representante da sociedade, externando a vontade de seus eleitores; e que dessa forma, não há que se falar em aplicação da legislação revogada em detrimento do contribuinte, eleitor. Assim como descrito no despacho de admissibilidade, entendo que a divergência resta demonstrada na medida que, se levarmos o presente caso concreto ao colegiado que proferiu o acórdão paradigma, poderseia vislumbrar decisão semelhante a lá adorada para o presente auto de infração. Senão vejamos, trecho do despacho que evidencia essa questão: Ressalta que o acórdão paradigma entendeu que, para efeito da apuração da multa mais benéfica ao contribuinte, em hipóteses como a dos presentes autos, em que se trata de lançamento por descumprimento de obrigação principal, devese comparar a multa prevista na sistemática antiga (art. 35, II, da norma revogada) com a multa indicada no novo art. 35A da Lei n° 8.212/91, introduzido pela MP n°449/2008, convertida na Lei n° 11.941/2009, e que remete ao art. 44, I, da Lei n° 9.430/96 (75%). Entende que a multa de mora prevista no novo art. 35 da Lei n. 8.212/91 não deve ser levada em consideração porque trata do pagamento em atraso de crédito que ainda não foi objeto de autuação. Mediante análise dos autos, vislumbro a similitude das situações fáticas nos acórdãos recorrido e paradigma, motivo pelo qual entendo que está configurada a divergência jurisprudencial apontada pela Fazenda Nacional. De fato, entendo comprovada a divergência no que toca ao procedimento a ser adotado para aferição da multa mais benéfica ao contribuinte, pois o Colegiado a quo não leva em consideração o art. 35A da lei nº 8.212/91. De fato, para a Turma recorrida, tratandose de auto de infração para cobrança de multa por descumprimento de obrigação principal, a comparação para fins de aplicação da retroatividade benigna deve ser feita entre as penalidades previstas no revogado art. 35, II, e no novo art. 35, ambos da Lei n. 8.212/91. Diversamente, o paradigma Fl. 372DF CARF MF 6 defende que, para aferição da penalidade mais benéfica ao contribuinte, o procedimento correto consiste em comparar a multa mora por descumprimento de obrigação principal prevista na sistemática antiga (art. 35, II), com a multa de mora atualmente prevista no art. 35 da Lei nº 8.212/91, introduzida pela MP nº 449/2008). Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Dessa forma, encaminho pelo conhecimento do Recurso Especial da Fazenda Nacional. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. Embora o recorrente entenda ter a turma a quo acertado na decisão proferida, colacionando outros argumentos para reforçar a tese, entendo que não seja a interpretação mais acertada. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. Fl. 373DF CARF MF Processo nº 14485.000364/200783 Acórdão n.º 9202006.564 CSRFT2 Fl. 5 7 A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela MP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdão nº 9202004.499 (Sessão de 29 de setembro de 2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Fl. 374DF CARF MF 8 Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Fl. 375DF CARF MF Processo nº 14485.000364/200783 Acórdão n.º 9202006.564 CSRFT2 Fl. 6 9 Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: ∙ Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou ∙ Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Fl. 376DF CARF MF 10 Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Fl. 377DF CARF MF Processo nº 14485.000364/200783 Acórdão n.º 9202006.564 CSRFT2 Fl. 7 11 Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DARLHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira. Fl. 378DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.721925/2011-87
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri Jan 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Feb 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2008
IRPF. GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. CUSTO DE AQUISIÇÃO. VALOR DE AQUISIÇÃO. COMPROVAÇÃO.
O custo de aquisição de aquisição de participações societárias é calculado tomando-se por base o valor total despendido para aquisição das ações ou quotas, comprovado mediante documentação hábil e idônea.
Numero da decisão: 2401-005.248
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso de ofício e negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Rayd Santana Ferreira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil e Rayd Santana Ferreira. Ausente os Conselheiros Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Miriam Denise Xavier.
Nome do relator: RAYD SANTANA FERREIRA
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GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. CUSTO DE AQUISIÇÃO. VALOR DE AQUISIÇÃO. COMPROVAÇÃO. O custo de aquisição de aquisição de participações societárias é calculado tomandose por base o valor total despendido para aquisição das ações ou quotas, comprovado mediante documentação hábil e idônea. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 19 25 /2 01 1- 87 Fl. 658DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso de ofício e negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Virgilio Cansino Gil e Rayd Santana Ferreira. Ausente os Conselheiros Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Miriam Denise Xavier. Fl. 659DF CARF MF Processo nº 19515.721925/201187 Acórdão n.º 2401005.248 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório ROBERTO JOSUA, contribuinte, pessoa física, já qualificado nos autos do processo administrativo em referência, teve contra si lavrado Auto de Infração concernente ao Imposto de Renda Pessoa Física IRPF, decorrente da constatação de omissão ganhos de capital na alienação de bens e direitos, em relação ao exercício 2008, conforme peça inaugural do feito, às fls. 538/543, e demais documentos que instruem o processo. Tratase de Auto de Infração, lavrado em 02/12/2011 (AR efl. 545), nos moldes da legislação de regência, contra a contribuinte acima identificada, constituindose crédito tributário no valor consignado na folha de rosto da autuação, decorrente do seguinte fato gerador: GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS. OMISSÃO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES/QUOTAS NÃO NEGOCIADAS EM BOLSA. Omissão de ganhos de capital obtidos na alienação de ações ou quotas, conforme Termo de Verificação Fiscal Relata a autoridade lançadora que o contribuinte adquiriu ações/quotas da sociedade Softway da empresa Rald e as vendeu, em 20/07/2007, à empresa Tivit Atendimentos Telefônicos S/A, mesmo sem ter havido pagamento nenhum à Rald no ano calendário de 2007. Reporta que, em decorrência da venda de ações/quotas da sociedade Softway, o fiscalizado recebeu os valores de R$ 12.927.074,87, em 20/07/2007, e R$ 231.509,63, em 08/2007. Informa que no contrato de compra e venda celebrado entre o fiscalizado (vendedor) e a Tivit (compradora), figuraram como anuentes as empresas Rald e a Softway, razão pela qual resolveu diligenciar a empresa Rald Participações e Administração S/A “no sentido de verificar a efetiva propriedade das mesmas”. Noticia que, durante o citado procedimento, verificou nos registros contábeis da Rald de 2007 dois lançamentos a débito da conta 1.2.01.01.01 – Roberto Josuá (Valores a Receber), datados de 24/06/2007, nos valores de R$ 2.441.724,04 e R$ 10.069.778,96, cujos históricos apontam para “Empresa Softway Contact Center Ass 24/06”, ressaltando que o livro diário foi registrado na Junta Comercial apenas em 05/07/2011. Já no que concerne à escrituração contábil de 2008, relata que foi lançado a crédito da conta 1.2.01.01.02 Lúcia Josuá (Valores a Receber) o valor de R$ 5.771.734,84. No entanto, segundo a fiscal, o representante da Rald garantiu que o lançamento estava incorreto, porquanto a Srª Lucia teria pago o importe de R$ 557.909,77, enquanto que o Sr. Roberto, o importe de R$ 5.213.825,07, apresentando, além de outros documentos bancários, extrato de conta bancária de titularidade de Roberto Josuá e/o Lúcia Josuá, onde consta, em 09/01/2008, uma “transferência Ctas T/Roberto Josuá – D no valor de R$ 5.213.825,07”, bem como extrato de conta depósito/investimento em nome da Rald Fl. 660DF CARF MF 4 Participações e Administração S/A, no qual está registrado, em 09/01/2008, “transf. Ctas. T/Roberto Josuá – C o valor de R$ 5.213.825,07”. Para a fiscal, no entanto, mencionados documentos apresentados apenas reafirmam que o pagamento de R$ 5.771.734,84 foi realizado pela Srª Lucia Josuá, e não pelo fiscalizado. Na ocasião, também ressalta que o livro diário da Rald foi registrado na Junta Comercial somente em 12/07/2011. Isto considerado, aliado ao fato de que nem o contribuinte nem a empresa Rald Participações e Administração Ltda. conseguiram comprovar documentalmente os respectivos pagamentos/recebimentos acordados no Termo de Compra e Venda de Ações, datado de 24/06/2007 e na ausência de elementos que possam determinar o efetivo custo de aquisição das 25.934 ações da Softway, de acordo com o § 4º do artigo 16 da Lei n° 7.713, de 22/12/1988, o custo de aquisição das referidas ações foi atribuído como zero. Logo, na apuração do ganho de capital, o valor de alienação considerado foi de R$ 13.159.185,35, enquanto o custo de aquisição foi zero, apurando ganho de capital da ordem de R$ R$ 13.159.185,35. Assinala, ainda, que, do imposto encontrado, foi abatido o valor de R$ 97.152,35, referente ao recolhimento do imposto de renda sobre o ganho de capital apurado pelo contribuinte. O contribuinte, regularmente intimado, apresentou impugnação requerendo a decretação da improcedência do feito. Por sua vez, a 6ª Turma da DRJ em Florianópolis/SC entendeu por bem julgar procedente a impugnação, exonerando o crédito tributário, por entender que restaram comprovados os pagamentos realizados pelo contribuinte da compra das ações, os considerando para efeitos do custo de aquisição, o fazendo sob a égide dos fundamentos inseridos no Acórdão nº 0737.423/2015, de efls. 642/652, sintetizados na seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007 GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÕES SOCIETÁRIAS. CUSTO DE AQUISIÇÃO. VALOR DE AQUISIÇÃO. O custo de aquisição de aquisição de participações societárias é calculado tomandose por base o valor total de aquisição das ações ou quotas, independentemente de ter havido pagamento ou não. Impugnação Procedente Crédito Tributário Exonerado Em observância ao disposto no artigo 34 do Decreto nº 70.235/72 e alterações introduzidas pelas Leis nºs 8.748/1993 e 9.532/97, c/c a Portaria MF nº 03/2008, a autoridade julgadora de primeira instância recorreu de ofício da decisão encimada, que declarou improcedente o lançamento fiscal. Fl. 661DF CARF MF Processo nº 19515.721925/201187 Acórdão n.º 2401005.248 S2C4T1 Fl. 4 5 Após regular processamento, os autos fora distribuídos a este Conselheiro, para relato e inclusão em pauta, o que fazemos nesta assentada. É o relatório. Fl. 662DF CARF MF 6 Voto Conselheiro Rayd Santana Ferreira Relator Presente o pressuposto de admissibilidade, em razão do crédito desonerado se encontrar sob o manto do limite de alçada, conheço do recurso de ofício e passo a análise da matéria posta nos autos. Após apresentação da impugnação do autuado, o lançamento fora julgado improcedente, nos termos do Acórdão nº 0737.423/2015, às efls. 642/652, da 6a Turma da DRJ em Florianópolis?SC, acima ementado, razão pela qual a autoridade julgadora de primeira instância recorreu de ofício daquele decisum, com arrimo no artigo 34, inciso I, do Decreto nº 70.235/72, c/c artigo 1º da Portaria MF nº 03/2008. Com mais especificidade, a DRJ competente, ora guerreada, em síntese, achou por bem rechaçar a pretensão fiscal, afastando o crédito tributário por considerar que restou comprovado o custo de aquisição das ações alienadas, não havendo apuração incorreta e nem omissão de ganhos de capital, adotando os seguintes fundamentos, in verbis: (...) Posto isto, considerando que as 25.934 ações vendidas da Softway foram adquiridas por R4 12.511.503,00, considero que este valor corresponde ao seu custo de aquisição. Sendo assim, o ganho de capital decorrente da alienação das ações da Softway é obtido mediante a diferença entre o valor de alienação (13.159.185,35) e o custo total de aquisição (12.511.503,00), o qual perfaz o importe de R$ 647.682,35, sobre o qual é aplicada a alíquota de 15%, produzindo um imposto de renda devido de R$ 97.152,35. Todavia, tendo em vista que o contribuinte já recolheu o imposto de renda sobre o ganho de capital no valor de R$ 97.152,35, não há valor de imposto de renda a exigir do contribuinte.(...) Como se observa dos autos, ao constituir o Ganho de Capital em relação a alienação pelo recorrente das 23.394 ações da Softway Contact Center, a ilustre autoridade lançadora entendeu por bem adotar o valor de zero como sendo o custo de aquisição, não considerando os argumentos e documentos apresentados pelo contribuinte para comprovação do custo. Conforme se verifica dos autos, o ponto nodal da demanda diz respeito ao custo de aquisição, a decisão guerreada, analisou os pagamentos de comprovação do custo de forma individual, o que, para uma melhor didática, iremos analisar da mesma forma. 1° PAGAMENTO A Turma a quo entendeu restar comprovado o importe de R$ 5.213.825,07, pois foram anexados extratos e outros documentos que comprovam tal transferência. Fl. 663DF CARF MF Processo nº 19515.721925/201187 Acórdão n.º 2401005.248 S2C4T1 Fl. 5 7 Pois bem, em relação ao primeiro pagamento, o contribuinte carreou aos autos extrato da ContaCorrente nº 002215 0001 do Banco BNP Paribas de titularidade da Rald Participações e Administração S/A, onde constam os seguintes lançamentos: Ora, como se pode ver, os ingressos de recursos na contacorrente da Rald estão identificados com o nome do transferidor dos recursos, sendo Lúcia Josuá a transferidora de R$ 557.909,77 e Roberto Josuá o transferidor do montante de R$ 5.213.825,07. Além destes, o contribuinte também conduziu aos autos outros extratos de contacorrente da Rald corroborando as informações contidas em seus extratos, estando claro o desembolso do quantum para aquisição das ações em questão. Sendo assim, sigo a linha da DRJ e considero comprovado o valor pago pelo fiscalizado à Rald Participações e Administração S/A, no montante de R$ 5.213.825,07, decorrente do contrato de compra e venda de ações da Softway Cotact Center Serviços de Teleatendimentos a Clientes S/A. 2° PAGAMENTO No que tange este pagamento, o contribuinte carreou o Instrumento Particular de Transferência de Cotas de Fundo de Investimento, de 13/12/2010, por meio do qual o Sr. Roberto Josuá cede para o alienante 518.854 quotas do fundo CSHG BALEIA FIM CP, totalizando o valor de R$ 751.000,00, em função do contrato de compra e venda de ações firmado pelas partes em 24/06/2007, conforme segue: Além do Instrumento encimado, apresenta ainda declaração da Credit Suisse HedgingGriffo Corretora de Valores S/A comprovando a transferência de 518.853,99358 cotas do fundo CSHG BALEIA FIM CP de titularidade do Sr. Roberto Josuá para a empresa Rald, conforme abaixo demonstrado: Fl. 664DF CARF MF 8 Assim como a DRJ, a meu ver, não há como descartar a citada dação em pagamento, uma vez que, embora estivesse pactuado no contrato que o pagamento aconteceria em espécie, nada impede, em aceitando o credor, que o adimplemento da obrigação se desse pela modalidade de pagamento dação em pagamento. É o que diz o art. 356 do Código Civil, ao tratar da dação em pagamento: Art. 356. O credor pode consentir em receber prestação diversa da que lhe é devida. Assim, consentindo em receber prestação diversa da que lhe é devida, não haveria necessidade aditar o contrato para prever a nova modalidade de pagamento de obrigação, conforme aduziu a autoridade lançadora. Neste diapasão, comprovado o pagamento. 3° PAGAMENTO Debruçandose sobre os autos, verificase que este pagamento ocorreu da mesma forma do acima relatado, tendo o contribuinte carreou o Instrumento Particular de Cotas de Fundo de Investimento, de 08/07/2011, por meio do qual o Sr. Roberto Josuá cede quotas do fundo CSHG BALEIA FIM CP, totalizando o valor de R$ 2.362.636,94, em função do contrato de compra e venda de ações firmado pelas partes em 24/06/2007, conforme segue: Assim como o segundo pagamento, apresenta ainda declaração da Credit Suisse HedgingGriffo Corretora de Valores S/A comprovando a transferência de 1.543.307,90 Fl. 665DF CARF MF Processo nº 19515.721925/201187 Acórdão n.º 2401005.248 S2C4T1 Fl. 6 9 cotas do fundo CSHG BALEIA FIM CP de titularidade do Sr. Roberto Josuá para a empresa Rald, conforme abaixo demonstrado: Portanto, comprovado também este pagamento. 4° PAGAMENTO No que tange este pagamento, o contribuinte alega ter sido efetuado por meio de dação por meio de quotas da Habi Patrimonial, anexando aos autos o Instrumento Particular de Cessão de Quotas e Outras Avencas, de 24/08/2011, por meio do qual ele cede 1.157.777 quotas do capital social da Habi Patrimonial para a Rald Participações e Administração S/A pelo valor de R$ 1.157.777,00, em função do contrato de compra e venda das ações da Softway. O autuado também juntou o Instrumento Particular da Segunda Alteração da Habi Patrimonial Ltda., devidamente registrada na JUCESP em 27/09/2011, por intermédio da qual se confirma a transferência das 1.157.777 quotas de titularidade de Roberto Josuá para a Rald Participação e Administração S/A, conforme abaixo: Assim, comprovase mais um pagamento. 5° PAGAMENTO Por não ter sido considerado comprovado pela decisão de piso, não iremos nos reportar a esta matéria, uma vez que não faz parte do recurso de ofício. 6° PAGAMENTO Relativamente ao sexto pagamento, o contribuinte anexa aos autos extrato de contacorrente de titularidade de Roberto Josuá e Lúcia Josuá do Banco BNP Paribas, no qual consta lançamento a débito de R$ 961.465,47, em 11/10/2011. Trouxe ainda extrato de conta Fl. 666DF CARF MF 10 corrente de titularidade da Rald Participações e Administração S/A do mesmo banco, onde consta lançamento a crédito no mesmo valor e data do antes identificados, abaixo demonstrado: Desse modo, considero comprovado também este pagamento no valor de R$ 961.465,47. Não obstante a análise dos pagamentos realizados, fazse necessário reproduzir o art. 16, §§ 3º e 4º, da IN nº 84/2001, que trata do custo de aquisição das participações societárias: § 3º Para efeito de apuração de ganho de capital na alienação de participações societárias, o custo de aquisição das ações ou quotas é apurado pela média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses títulos. § 4º O custo médio ponderado de cada ação ou quota: I é igual ao resultado da divisão do valor total de aquisição das ações ou quotas em estoque pela quantidade total de ações ou quotas em estoque, inclusive bonificadas; II multiplicado pela quantidade de ações ou quotas alienadas, constitui o custo de aquisição para efeito da apuração do ganho de capital; III multiplicado pelo número de ações ou quotas remanescente, constitui o valor do estoque desses títulos. § 5º A cada aquisição ou baixa devem ser ajustadas as quantidades em estoque e os custos total e médio ponderado, por espécie, das ações ou quotas. Observase da análise dos dispositivos colacionados que o custo de aquisição é calculado com base no custo médio de cada ação ou quota, que, por sua vez, é apurado tomandose por base "o valor total de aquisição das ações ou quotas". É de se perceber que referida instrução normativa não condiciona, em nenhum momento, a composição do custo de aquisição ao pagamento da ação ou cota; ao contrário disso, remete ao valor total de aquisição, que deve ser entendido como preço de compra das quotas ou ações, independentemente de ter sido realizado o seu pagamento. Nesse contexto, entendo que, mesmo que não tivesse sido feito nenhum pagamento, ainda, sim, comprovada a transação de compra e venda, haveria custo de aquisição, o qual seria calculado pelas regras estipuladas pelo art. 16, §§ 3º e 4º, da IN nº 84/2001. Em face dos fatos acima delineados, uma vez demonstrado que o valor apurado pela fiscalização não corresponde a realidade dos fatos, bem como a legislação de regência, concluiu a Delegacia de Julgamento por considerar como custo de aquisição o motante de R$ 12.511.503,00, conforme muito bem explicitado e fundamentado. Na esteira desse entendimento, não se pode cogitar em irregularidade na decisão levada a efeito pelo julgador de primeira instância, porquanto agiu da melhor forma, Fl. 667DF CARF MF Processo nº 19515.721925/201187 Acórdão n.º 2401005.248 S2C4T1 Fl. 7 11 com estrita observância da legislação de regência, promovendo a improcedência do crédito nos termos encimados. Em vista do exposto, estando à decisão de primeira instância em consonância com os dispositivos legais que regulam a matéria, VOTO NO SENTIDO DE CONHECER DO RECURSO DE OFÍCIO E NEGARLHE PROVIMENTO, mantendo o decisum recorrido, nesse ponto, em sua integralidade, pelas razões de fato e de direito acima ofertadas. É como voto. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Fl. 668DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.000440/2006-18
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Apr 03 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Exercício: 2001, 2002, 2003, 2004
LIMITES DA COISA JULGADA. CSLL. EFEITOS DO RESP. Nº 1.118.893/MG.
No que respeita à CSLL, ao se aplicar o REsp nº 1.118.893/MG, decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, de seguimento obrigatório pelos Conselheiros do CARF, a teor do disposto no artigo 62, § 2º, Do Anexo II do RICARF, quando da análise dos efeitos específicos da decisão transitada em julgado, há que se verificar os exatos termos dessa decisão, as normas que foram por ela cotejadas, a extensão precisa dos seus efeitos e a data da ocorrência dos fatos geradores a que se aplica. Verificado o descompasso entre a decisão que transitou em julgado e os efeitos do REsp nº 18.893/MG, descabe sua aplicação ao caso.
CSLL. LEI 7.689/1988. EFEITOS SOBRE A COISA JULGADA. PARECER PGFN 492/2011.
Mesmo antes do advento do artigo 543-B do CPC/1973, as decisões do STF em controle difuso já exibiam a tendência dessubjetivação, já ostentado um caráter objetivo e geral. Portanto, o atributo da definitividade já impregnava tais decisões, independentemente de terem sido seguidas ou não de Resolução do Senado. É o caso do acórdão proferido no julgamento do RE nº 138.284, o qual transitou em julgado em 29/09/1992, estabelecendo um precedente definitivo e objetivo que, configurando circunstância jurídica nova, ao confirmar o pronunciamento anteriormente exarado, quando do julgamento do RE nº 146.733, possui a aptidão de fazer cessar a eficácia vinculante de decisões judiciais transitadas em julgado que lhe eram contrárias.
Numero da decisão: 9101-003.507
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Re^go - Presidente.
(assinado digitalmente)
Flávio Franco Corrêa - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente).
Nome do relator: FLAVIO FRANCO CORREA
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CSLL. EFEITOS DO RESP. Nº 1.118.893/MG. No que respeita à CSLL, ao se aplicar o REsp nº 1.118.893/MG, decidido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, de seguimento obrigatório pelos Conselheiros do CARF, a teor do disposto no artigo 62, § 2º, Do Anexo II do RICARF, quando da análise dos efeitos específicos da decisão transitada em julgado, há que se verificar os exatos termos dessa decisão, as normas que foram por ela cotejadas, a extensão precisa dos seus efeitos e a data da ocorrência dos fatos geradores a que se aplica. Verificado o descompasso entre a decisão que transitou em julgado e os efeitos do REsp nº 18.893/MG, descabe sua aplicação ao caso. CSLL. LEI 7.689/1988. EFEITOS SOBRE A COISA JULGADA. PARECER PGFN 492/2011. Mesmo antes do advento do artigo 543B do CPC/1973, as decisões do STF em controle difuso já exibiam a tendência “dessubjetivação”, já ostentado um caráter objetivo e geral. Portanto, o atributo da definitividade já impregnava tais decisões, independentemente de terem sido seguidas ou não de Resolução do Senado. É o caso do acórdão proferido no julgamento do RE nº 138.284, o qual transitou em julgado em 29/09/1992, estabelecendo um precedente definitivo e objetivo que, configurando circunstância jurídica nova, ao confirmar o pronunciamento anteriormente exarado, quando do julgamento do RE nº 146.733, possui a aptidão de fazer cessar a eficácia vinculante de decisões judiciais transitadas em julgado que lhe eram contrárias. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 04 40 /2 00 6- 18 Fl. 593DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 594 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto por NOVA APART EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA em face do acórdão nº 110300.203, assim ementado: "Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Exercício: 2001, 2002, 2003, 2004 CSLL. AÇÃO JUDICIAL DISCUTINDO A CONSTITUCIONALIDADE DA LEI. N°. 7.689/88. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE INCIDENTAL, COISA JULGADA. ELISÃO DOS EFEITOS DA DECISÃO POR DECLARAÇÃO POSTERIOR DE CONSTITUCIONALIDADE PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA. Diante de manifestação definitiva do Supremo Tribunal Federal no exercício da jurisdição de controle da constitucionalidade das leis, não podem subsistir os efeitos de decisões judiciais (mesmo transitadas em julgado) de conteúdo diverso, em face dos princípios da força normativa da constituição e da supremacia cia constituição. RELAÇÃO TRIBUTÁRIA NATUREZA CONTINUADA. ALTERAÇÕES LEGISLATIVAS POSTERIORES. ALTERAÇÃO DO ESTADO DE DIREITO. APLICAÇÃO DA REGRA DO ART. 471, I, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. A submissão à regramatriz de incidência da CSLL instaura relação jurídica continuativa, cujos efeitos se projetam por período indeterminado de tempo, de modo que toda e qualquer alteração no arcabouço normativo pertinente determina modificação do conteúdo da relação jurídica, impedindo a preservação da eficácia da decisão judicial transitada em julgado. A imutabilidade da coisa julgada não se aplica às relações de trato sucessivo submetida a alterações legislativas posteriores." Os fatos verificados pela Fiscalização estão devidamente descritos em relatório da Turma a quo, assim resumidos: Fl. 594DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 595 3 "A Recorrente foi autuada por falta de pagamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) nos exercícios de 2001, 2002, 2003 e 2004, omissão justificada pela existência de decisão judicial proferida nos autos da Ação Declaratória nº 90.00049326, que, incidentalmente, declarou a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689/88 e, como corolário, firmou a inexistência de relação jurídica que adstringisse a Recorrente ao recolhimento da exação. Tendo a decisão sido confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (Remessa "Ex Officio" n° 91.01.064703) e, posteriormente, transitado em julgado, afirmou a Recorrente, em informações prestadas em resposta à intimação exarada pela autoridade lançadora, que estava desobrigada do pagamento da contribuição. Consoante se infere dos termos em que foi vertido o "Termo de Verificação" de fls. 1118, afirmou a autoridade lançadora que "a declaração de intributabilidade, no pertinente a relações jurídicas originadas dos fatos geradores que se sucedem no tempo, não pode ter o caráter de imutabilidade e de normatividade a abranger eventos futuros”, entendimento que, em face da existência de leis posteriores que reiteraram a obrigatoriedade de adimplemento da CSLL (Lei n° 8.212/91 e Lei Complementar nº 70/91) e modificaram a estrutura normativa da exação, redundou na formalização de lançamento de oficio em detrimento da Recorrente, constituindo crédito tributário correspondente às parcelas da contribuição que deixaram de ser recolhidas nos períodos de apuração considerados. Notificada do lançamento, apresentou a Recorrente impugnação (fls. 3659), reiterando a afirmação de que estava desobrigada do pagamento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido em face cio trânsito em julgado da decisão judicial que declarou a inconstitucionalidade total da Lei nº 7.689/88! De acordo com o voto condutor do acórdão recorrido, devese adotar o pronunciamento definitivo do Supremo Tribunal Federal, no exercício do controle da constitucionalidade das leis, o que implica supressão dos efeitos de decisões judiciais, ainda que transitadas em julgado, contrárias a tal pronunciamento, em decorrência dos princípios da força normativa e da supremacia da Constituição. Nesse sentido, as decisões passadas em julgado, assim como as leis, por força da normatividade e da superioridade da Constituição, podem ter sua força normativa desconstituída, quando comprovado que colidem com o texto constitucional, porquanto inexiste produção normativa (abstrata ou concreta) fora das fronteiras definidas pela Carta Política. O contribuinte foi cientificado do acórdão recorrido no dia 09/11/2016. Recurso Especial interposto em 23/11/2016. Nessa oportunidade, expôsse divergência interpretativa em relação aos acórdãos: a) nº 9101001.369 e 1301001.097, quanto ao atual entendimento do Superior Tribunal de Justiça acerca da estabilidade da coisa julgada da CSLL, a atrair a aplicação artigo 62, §2°, do Anexo II do RICARF; b) nº 1801.00.870 e 1803.01.254, quanto à impossibilidade da relativização da coisa julgada, com a apresentação da posição prevalecente da jurisprudência atual; e c) nº 130100.675 e 10191.553, quanto à impossibilidade de aplicação do artigo 471, inciso I, do antigo CPC/1973. Fl. 595DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 596 4 No apelo a esta instância, ressaltouse que o Superior Tribunal de Justiça, em sede de recurso repetitivo, quando do julgamento do Recurso Especial n° 1.118.893, afastou qualquer hipótese no sentido de que as superficiais alterações sofridas pela Lei n° 7.689/1988 teriam o condão de macular as relações jurídicas já pacificadas pela coisa julgada, como também repeliu qualquer efeito do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 15 (ADI nº 15/DF) sobre a relação jurídica estabilizada por decisão judicial transitada em julgado. Por tal perspectiva, aludiuse à obrigatoriedade de se adotar o mencionado entendimento do STJ, por força do disposto no artigo 62, § 2º, do RICARF. Advertiuse, no entanto, para o fato de que, caso o acórdão recorrido esteja correto ao afirmar que posterior decisão do Supremo Tribunal Federal em sentido contrário possui o condão de relativizar a coisa julgada, o que se alega ad argumentandum, os acórdãos paradigmas citados comprovam que o pronunciamento do STF que deve ser considerado para tal finalidade é a decisão proferida na ADI n° 15/2007, e não do RE n° 146.7339/SP, mencionado pelo acórdão recorrido. Nesse cenário, mesmo se fosse admitida tal possibilidade, ainda assim a presente autuação deve ser cancelada, porque os fatos jurídicos se referem aos anoscalendário de 2001 a 2004 e a ADI n° 15/DF transitou em julgado somente em 2007. Ademais, asseverouse que a decisão judicial que o ampara transitou em julgado em 20/02/1992, declarando a inexistência de relação jurídica, no que concerne à incidência da Lei n° 7.689/1988, sem qualquer restrição de período. Ocorre, contudo, que o acórdão recorrido manteve a autuação em apreço sob o fundamento de que a instituição de legislação superveniente (Lei n° 8.212/1991 e Lei Complementar n° 70/1991) teria disciplinado a hipótese de incidência da CSLL e, por consequência, modificado o estado de fato e de direito da relação jurídica continuativa, o que autorizaria desconsiderar o trânsito em julgado, com base no artigo 471, inciso I, do CPC/1973. Entretanto, tal decisão diverge frontalmente da jurisprudência do CARF, que tem o entendimento pacífico de que as alterações promovidas pela Lei n° 8.212/1991 e pela Lei Complementar n° 70/1991 não trouxeram nova regramatriz de incidência tributária da CSLL, mas apenas promoveram modificações nos critérios antes estabelecidos pela Lei n° 7.689/8198, o que impede o rompimento da estabilidade da coisa julgada. Ao final, consignouse que restaria evidente que o acórdão recorrido contrasta frontalmente com a interpretação dada ao deslinde dos fatos tratados nos acórdãos paradigmas acima referidos, de modo a impor o conhecimento e o provimento do presente Recurso Especial, cancelandose integralmente o crédito tributário cobrado, tutelandose o trânsito em julgado favorável ao recorrente nos autos da ação declaratória n° 90.00049326. Despacho de encaminhamento para apresentação de contrarrazões da PGFN no dia 18/01/2017, à efl. 571. Contrarrazões da PGFN apresentadas em 23/01/2017. Nessa oportunidade, aduzse o seguinte: 1) o cerne da questão em debate cingese à abrangência temporal da decisão judicial transitada em julgado, a favor do sujeito passivo, considerando a inadmissão de seus efeitos normativos, prospectivos e futuristas, tendo em vista: i. supervenientes alterações legislativas, nos aspectos formais e materiais, das regras incidentes sobre relação tributária continuativa e a relação destas alterações com a coisa julgada material; Fl. 596DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 597 5 ii. que a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689/1988, declarada como motivo da decisão judicial, requerida incidentalmente, no exercício do controle difuso, não integra o dispositivo da decisão transitada em julgado. Essa perspectiva tem o reforço do pronunciamento do Supremo Tribunal Federal, tanto em controle concentrado como em controle em via de exceção, quando se afirmou, no âmbito da Corte Suprema, a constitucionalidade da exação tributária em lume, ressalvados os artigos 8º e 9° da Lei 7.689/1988 (ADI nº 15/DF, Relator: Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE, Julgamento: 14/06/2007, Órgão Julgador: Tribunal Pleno); 2) sendo certo que a relação jurídico tributária é de trato sucessivo, o decidido no âmbito judicial não deve se sobrepor às alterações legislativas posteriores. Isso porque a imutabilidade da coisa julgada material existe sobre o pedido e sobre os fatos deduzidos na inicial, mas não sobre aqueles que exsurgiram após o julgado, pois não há que se falar em coisa julgada sobre a situação jurídica nova, ante a ausência do nexo de referibilidade e em observância à inteligência do princípio da congruência da decisão judicial com a demanda; 3) a ação judicial invocada pela recorrente não apreciou as alterações posteriores (que não integram a causa de pedir da demanda), motivo pelo qual não integram a lide. Assim, não há impedimento ao surgimento dos créditos tributários, oriundos da subsunção dos fatos geradores posteriores à decisão às hipóteses de incidência referentes à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido; 4) o STF, pelas vias do controle concentrado e difuso, afirmou a inconstitucionalidade tão somente dos artigos 8° e 9° da Lei 7.689/1988, restando por constitucional os demais dispositivos instituidores da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, tendo em vista o caráter dúplice das ações em controle concentrado; 5) segundo o esclarecido no Parecer PGFN/CRJ 975/2011, a demanda que deu origem ao REsp 1.118.893 foi de Embargos à Execução Fiscal (Processo Originário 1997.38.00.0604543/MG), em que se questionou a validade da CDA 60.6.96.00474909, referente à cobrança de CSLL, instituída pela Lei 7.689/1988, anocalendário 1991, para contribuinte que possuía sentença judicial transitada em julgado em que fora declarada a inconstitucionalidade formal e material da exação sob a égide da citada Lei 7.689/1988, e a consequente inexistência de relação jurídicotributária; 6) nos termos do REsp 1.118.893 (Relatoria do Ministro Arnaldo Esteves Lima), a Primeira Seção do STJ encampou a tese de não ter havido alteração substancial no regramento da CSLL a justificar o afastamento do decidido, na sentença transitada em julgado favorável à contribuinte; 7) ocorre que a questão discutida se restringiu ao caso concreto de contribuinte que pugnou a validade da CDA 60.6.96.00474909, referente à Fl. 597DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 598 6 cobrança de CSLL segundo a Lei 7.689/1988, no exercício de 1991, em virtude de possuir decisão transitada em julgado de reconhecimento da inconstitucionalidade de cobrança de CSLL, nos moldes da Lei 7.689/1988; 8) o alcance da decisão do REsp 1.118.893, consoante o defendido pelo sujeito passivo, não merece ser acatado, pois este não corresponde à adequada interpretação do julgado proferido na sistemática do recurso repetitivo; 9) podese concluir pela obrigatoriedade da CSLL, tendo em vista as alterações legislativas posteriores, os limites objetivos do trânsito em julgado da sentença proferida na ação ajuizada pela contribuinte, bem como em observância aos entendimentos judiciais e administrativos já consagrados, destacandose decisão proferida pelo STF favorável à constitucionalidade da instituição da CSLL, não se aplicado ao caso dos autos o decido pelo STJ em sede de recurso repetitivo, pois este é referente ao exercício de 1991, anterior a inúmeras alterações legislativas que modificaram substancialmente o regime jurídico da CSLL; 10) ao final, requerse seja negado provimento ao presente Recurso Especial, mantendose o decidido no acórdão recorrido. É o relatório. Voto Conselheiro Flávio Franco Corrêa, Relator. Na interposição do presente Recurso Especial foram atendidos os requisitos de recorribilidade. Adotando as razões do Despacho de Admissbilidade, dele conheço. De acordo com o descrito no auto de infração e no Termo de Verificação, a Fiscalização constatou que a Recorrente deixou de apurar e recolher a CSLL dos anos calendário de 2001 a 2004, infringindo os seguintes dispositivos legais: artigo 2º e §§ da Lei nº 7.689/1988; artigo 11 da Lei Complementar nº 70/1991; artigo 1º da Emenda Constitucional de Revisão nº 01/1994; artigo 57 da Lei nº 8.981/1995, com a redação dada pelo artigo 1º da Lei nº 9.065/1995; artigo 19, parágrafo único, da Lei nº 9.249/1995, alterado pelo artigo 2º da Emenda Constitucional nº 10/1996; artigos 1º e 2º da Lei nº 9.316/1996; artigo 28 da Lei nº 9.430/1996; Fl. 598DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 599 7 artigo 7º da Medida Provisória nº 1.897/1999 e reedições; artigo 6º da Medida Provisória nº 1.858/99 e reedições. Na data da ciência do auto de infração, já estava em vigor a Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, a última medida provisória da lista das reedições iniciadas com a Medida Provisória nº 1.858/99. Com efeito, a sentença proferida nos autos da ação declaratória n° 90.00049326 transitou em julgado em 20/06/1992. Embora as Leis nº 8.034/1990, 8.212/1991 e 8.383/1991 e a Lei Complementar nº 70/1991 já estivessem em vigor nessa data, outras leis, no entanto, que modificaram a Lei nº 7.689/1988, foram aprovadas no curso do devido processo legislativo após o trânsito em julgado da sentença da antedita ação declaratória n° 90.00049326, a exemplo das Leis nº 8.541/1992 (publicada em 24/12/1992), 8.981/1995 e 9.430/1996, afora a Emenda Constitucional de Revisão nº 1/1994, a Emenda Constitucional nº 10/1996 e a decisão do Supremo Tribunal Federal prolatada no julgamento da ADI nº 15/DF. Como se pode ver, a Recorrente articula sua defesa com o apoio em argumentos coletados no julgamento do REsp nº 1.118.893. Não obstante as reverências devidas ao STJ, a decisão proclamada no julgamento do precitado Recurso Especial não surte efeitos sobre o caso aqui apreciado. No intuito de expor as razões que sustentam tal entendimento, trazse à colação o que já foi assinalado com maestria pelo ilustre Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, no acórdão 9101002.530, ao julgar questão semelhante (os efeitos do REsp nº 1.118.893 sobre a decisão proferida no julgamento da apelação contra a sentença exarada nos autos do mandado de segurança nº 90.01.052797MG): “A questão que se coloca é a determinação dos efeitos do REsp. 1.118.893/MG sobre esta decisão acima transcrita. Este ponto é central, pois o argumento de que se aplicaria o REsp. 1.118.893/MG por força do art. 62, § 2º, do RICARF Anexo II, nos levaria a aceitar uma eternização da coisa julgada, seja ela qual for. Contudo, há que se considerar outros aspectos da questão, como segue. Vejase que a legislação analisada pelo STJ no REsp 1.118.893/MG (que remete a outras decisões na argumentação do relator) e que teria alterado a incidência da CSLL a partir da Lei 7.689/1988 corresponde à LC nº 70/1991 e Leis nºs 7.856/1989, 8.034/1990, 8.212/1991, 8.383/1991 e 8.541/1992 (citadas no julgado, ainda que nem todas tenham sido objeto de análise específica). Ora, considerando o teor da decisão transitada em julgado e o teor da decisão do STJ, resta claro que nenhuma das outras alterações posteriores que impactaram a CSLL, foram consideradas na decisão do STJ. Ou seja, a decisão só vale para os casos em que as leis mencionadas na decisão foram aplicadas ou utilizadas e, portanto, a superveniência legislativa que atinge a formatação da CSLL tem o condão de afastar a incidência do REsp. 1.118.893/MG, sem implicar em (sic) desobediência ao art. 62, § 2º, do RICARF Anexo II, ainda que se tenha que enfrentar a discussão de qual o grau modificativo dessas leis supervenientes àquelas mencionadas no REsp. 1.118.893/MG, no que diz respeito à afetação do fato gerador da CSLL. Ou seja, a questão se resolve de maneira simples: o art. 62, § 2º, do RICARF – Anexo II só se aplica a lançamentos feitos relativamente a períodos até 1992, data da última lei mencionada naquele julgamento. Para os lançamento feitos em relação a períodos posteriores, sob a égide de novas leis, não se aplica necessariamente o REsp. 1.118.893/MG.” Fl. 599DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 600 8 A exemplo do que se ressaltou no acórdão nº 9101002.530, cabe aduzir ao fato de que a Lei nº 7.689/1988, tanto em 1994 quanto em 1996 — anos anteriores aos anos calendário de 2001 a 2004 – foi constitucionalmente reafirmada pelas Emendas Constitucionais nº 1/1994 e 10/1996, ao recorrerem à expressão “mantidas as demais normas da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988”. Ademais, como se adiantou em linhas precedentes, após o trânsito em julgado da decisão prolatada nos autos da ação declaratória n° 90.00049326, diversas normas foram editadas antes de 2001 (primeiro anocalendário do lançamento de ofício) para tratar da CSLL: Lei nº 8.541/1992 (artigos 22, 38, 39, 40, 42 e 43), 9.249/1995 (artigos 19 e 20), 9.430/96 (artigos 28 a 30, sendo que o artigo 28 remete aos artigos 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71 da mesma Lei), 10.637/2002 (artigos 35 a 37 e 45), afora as Emendas Constitucionais nº 1/1994 e 10/1996. Desse rol, apenas a Lei nº 8.541/1992 foi abarcada pelo REsp nº 1.118.893. Vale dizer: não se pode pretender que os efeitos do REsp nº 1.118.893 sejam estendidos ao caso ora em julgamento, pois o STJ não examinou as alterações legislativas aqui relacionadas, que dizem respeito ao fato gerador da CSLL. Adicionalmente, insta salientar que o auto de infração, como já destacado, traça o enquadramento legal com base nos diplomas legais abaixo: Emenda Constitucional de Revisão nº 01/1994; Lei nº 8.981/1995; Lei nº 9.249/1995; Emenda Constitucional nº 10/1996; Lei nº 9.316/1996; Lei nº 9.430/1996; Medida Provisória nº 1.897/1999 e reedições; Medida Provisória nº 1.858/99 e reedições. Isto posto, é inevitável a percepção que os diplomas legais acima, não obstante o alicerce que emprestam ao lançamento de ofício, não são lembrados no REsp nº 1.118.893. Assim, pela perspectiva ora apontada, desacolhese a extensão dos efeitos do REsp nº 1.118.893 ao caso ora apreciado, sem descumprir o artigo 62, § 2º, do RICARF – Anexo II. No passo subsequente, é preciso trazer à baila o fato de que, no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 146.733, em 29/06/1992, o Pleno do Supremo Tribunal Federal reconheceu, em sede controle difuso, a constitucionalidade da Lei nº 7.689/1988 (com exceção do artigo 8º). Tal entendimento foi confirmado no julgamento do RE nº 138.284, também pelo Pleno do STF, em 01/07/1992, e no julgamento da ADI nº 15/DF, em 14/06/2007. Recordese que o acórdão do RE nº 138.284 transitou em julgado em 29/09/1992, sendo que, em 12/04/1995, foi publicada a Resolução do Senado Federal n º 11, de 04/04/1995, que suspendeu a execução do já referido artigo 8º da Lei nº 7.689/1988. Fl. 600DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 601 9 Em face do exposto, impõese suscitar a tendência de dessubjetivação do controle de constitucionalidade na modalidade difusa, a constituir uma mudança de paradigma, segundo revelam os seguintes exemplos, nas lembranças do Parecer PGFN nº 492/2011: “i) entendimento, manifestado pelo STF, no julgamento da ADIN nº 4071, no sentido de que a existência de prévia decisão do seu Plenário considerando constitucional determinada norma jurídica, ainda que em sede de Recurso Extraordinário (em controle difuso, portanto), torna manifestamente improcedente ADIN posteriormente ajuizada contra essa mesma norma. Tal entendimento evidencia que a natureza e a extensão dos efeitos oriundos das decisões dadas, pelo STF, em controle concentrado e em controle difuso de constitucionalidade não diferem substancialmente; do contrário, caso as decisões proferidas pelo STF em sede de controle difuso de constitucionalidade apenas vinculassem as partes da demanda concreta, a ADIN antes referida deveria ter sido conhecida e julgada improcedente, justamente a fim de conferir eficácia vinculante erga omnes ao juízo de constitucionalidade da lei analisada; (ii) aplicação do art. 27 da Lei nº 9.868/99 (que, tradicionalmente, servia como instrumento de manejo restrito ao âmbito do controle concentrado de constitucionalidade) às decisões proferidas pelo STF em sede de controle difuso, de forma a lhes modular os efeitos temporais por razões atinentes à “segurança jurídica ou de excepcional interesse social”, o que apenas parece fazer algum sentido caso se admita que a força dessas decisões extrapola o âmbito das demandas concretas por elas especificamente disciplinadas, estendendose, também, a todas as outras demandas em que se discuta a mesma questão nela debatidas; (iii) criação do instituto da repercussão geral e a sua previsão como requisito de admissibilidade dos recursos extraordinários (ex vi do art. 102, §3º, da CF/88, incluído pela Emenda Constitucional n. 45, de 30 de dezembro de 2004), de modo a permitir que apenas aqueles recursos que tratem de questões constitucionais relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa, cheguem à apreciação da Suprema Corte; (iv) já há manifestação monocrática, oriunda do STF, da lavra do Ministro GILMAR FERREIRA MENDES e acompanhada pelo Min. EROS GRAU, considerando cabível – e procedente Reclamação Constitucional ajuizada em face da desobediência, por juiz singular, de decisão proferida pela Suprema Corte nos autos do HC n. 82959/SP12 (em controle difuso, portanto), sob o fundamento de que as decisões proferidas pelo STF em sede de controle difuso de constitucionalidade ostentam eficácia vinculante erga omnes, independentemente da posterior edição de Resolução pelo Senado Federal, elaborada na forma do art. 52, X da CF/88, a qual teria apenas, hodiernamente, o condão de imprimir publicidade a tais decisões. Tratase de decisão monocrática proferida nos autos da Reclamação Constitucional nº 4.335/AC, cujo julgamento se encontra, atualmente, sobrestado em razão do pedido de vista feito pelo Ministro RICARDO LEWANDOWSKI, em 19/04/2007; (v) em outro relevante julgamento, proferido nos autos das ADIN nº 3345 e 3365, restou definido que os “motivos determinantes” subjacentes às decisões proferidas pela Suprema Corte em sede de controle difuso de constitucionalidade ostentam “efeitos vinculantes transcendentes”, de modo que sua eficácia vinculante extrapola a esfera restrita e específica das demandas individuais nas quais tais decisões são proferidas, vinculando o destino das demais que enfrentem questão jurídica semelhante.” Fl. 601DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 602 10 Perante tal panorama, mostrase irretorquível, mormente à luz da luminosa explanação do Parecer PGFN nº 492/2011, que as decisões em controle de constitucionalidade, quando proferidas pelo órgão Plenário do STF, independentemente de posterior expedição de Resolução do Senado, assumem um caráter objetivo, porquanto desprendidas do caso concreto, uma vez que a questão submetida à jurisdição da Corte Suprema é analisada em tese, ainda que incidentalmente. Por esse ângulo, o recurso extraordinário deixa de ser uma simples via de resolução de conflitos de interesses entre as partes, de caráter subjetivo, para tornarse um modo de defesa da ordem constitucional objetiva. Em suma, em tais circunstâncias, o julgamento do recurso extraordinário deve ser visto como uma atividade jurisdicional que transcende os interesses subjetivos. Como clarifica o Parecer PGFN nº 492/2011, a imutabilidade e a eficácia vinculante da decisão transitada em julgado apenas recairão sobre os desdobramentos futuros da declaração de existência (ou inexistência) da relação jurídica de direito material de trato sucessivo, enquanto permanecerem inalterados os suportes fáticos e jurídicos existentes ao tempo de sua prolação. Uma vez alteradas as circunstâncias fáticas ou jurídicas existentes no momento da prolação da sentença, esta naturalmente deixará de produzir efeitos desde então. Registrese que a alteração legislativa não é a única possibilidade de mudança no suporte jurídico existente ao tempo da prolação da decisão judicial transitada em julgado. A consolidação da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal em sentido diverso da decisão judicial transitada em julgado pode representar significativa mudança no suporte jurídico sob o qual o juízo de certeza nela contido se formou, e assim fazer cessar a eficácia vinculante dela emanada. É cediço que o advento de precedente objetivo e definitivo do STF, em controle concentrado, possui força para alterar o sistema jurídico vigente. De fato, quando o STF, no exercício sua missão institucional, reconhece a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade de um determinado dispositivo legal, o que daí resulta é a resolução definitiva acerca da aptidão, ou não, da incidência desse dispositivo. Claro que isso deverá refletirse, por consequência, nas relações jurídicas que tenham suporte no dispositivo cuja constitucionalidade fora objeto do controle concentrado. Isso porque, dada a função institucional do STF, o advento de um precedente em controle concentrado possui o condão de conferir ao dispositivo legal apreciado o atributo de uma norma definitivamente interpretada pelo órgão judicial que tem a última palavra sobre o tema. Daí que, considerando tal atributo, todas as dúvidas tornamse solucionadas em face de um juízo de certeza sobre o assunto. Por tal viés, compreendese que as decisões definitivas incorporamse ao sistema jurídico vigente, acrescentandolhe um elemento até então inexistente, que consiste no juízo de certeza acerca da constitucionalidade, ou não, de uma determinada lei, ou acerca da interpretação correta de uma determinada norma constitucional. Em outras palavras, esse juízo de certeza se prende ao próprio dispositivo legal interpretado, cuja aplicação deverá estar nele pautado. Contudo, nos dias atuais, tanto impactam o sistema jurídico vigente as decisões do STF em controle concentrado como em controle difuso, independentemente de posterior edição de Resolução do Senado prevista no artigo 52, inciso X, da Constituição da República de 1988. Mesmo antes do advento do artigo 543B do CPC/1973, as decisões do STF em controle difuso já exibiam a tendência “dessubjetivação”, já ostentado um caráter objetivo e geral. Portanto, o atributo da definitividade já impregnava tais decisões, independentemente de terem sido seguidas ou não de Resolução do Senado. Com essa visão, o Parecer PGFN nº 492/2011 manifesta que, por serem objetivos e definitivos, os precedentes do STF em controle difuso de constitucionalidade possuem força para alterar ou impactar o Fl. 602DF CARF MF Processo nº 16327.000440/200618 Acórdão n.º 9101003.507 CSRFT1 Fl. 603 11 sistema jurídico, nos seguintes termos: (i) os posteriores a 3 de maio de 2007 (lembrando que 3 de maio de 2007 corresponde à data de alteração regimental do STF, decorrente da aprovação da Lei nº 11.488/2006), seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, contanto que, nesse último caso, tenham resultado de julgamento realizado nos moldes do art. 543B do CPC; (ii) os anteriores a 3 de maio de 2007, seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, desde que, nesse último caso, tenham sido oriundos do Plenário e confirmados em julgamentos posteriores do STF. Diante disso, constatase que, com o trânsito em julgado do acórdão proferido no julgamento do RE nº 138.284, em 29/09/1992, estabeleceuse um precedente que se constituiu num parâmetro objetivo de constitucionalidade, confirmando o pronunciamento anteriormente exarado, quando do julgamento do RE nº 146.733, embora o trânsito em julgado deste último tenha ocorrido em 13/04/1993. Convém ter em mente que a autuação fiscal alcançou fatos geradores de CSLL de 2001 a 2004. Por conseguinte, antes desse interregno já havia sido emitido pelo STF um precedente objetivo e definitivo apto a afetar a coisa julgada que se consolidara em 20/02/1992. Como visto, não pode prevalecer o argumento de ocorrência de relativização da coisa julgada, já que não se retrocedeu para alcançar fatos passados antes da circunstância jurídica nova, isto é, antes do precedente objetivo e definitivo decorrente do julgamento do RE nº 138.284. Nessa linha, a decisão do STF, no julgamento da ADI nº 15/DF, apenas reafirmou o entendimento da Corte manifestado em sede de controle difuso de constitucionalidade, como se pode constatar nos acórdãos referidos em sua ementa. Concluise, pois, que a sentença transitada em julgado, proferida nos autos autos da ação declaratória n° 90.00049326, não possui eficácia sobre os fatos geradores de CSLL relatados na autuação fiscal, motivo por que deve ser mantido o lançamento de ofício. Presentes os argumentos acima colacionados, opino no sentido de negar provimento ao Recurso Especial do contribuinte. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa. Fl. 603DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10540.002127/2007-94
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Fri May 27 00:00:00 UTC 2011
Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL
Ano calendário: 2002
NULIDADE PROCESSUAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Restando provado nos autos que o contribuinte
tomou conhecimento dos fundamentos de sua exclusão do Simples, sendo-lhe franqueado o acesso às provas, não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. Os documentos probatórios das infrações e irregularidades apontadas pelo fisco devem ser acostadas no processo administrativo, inexistindo previsão legal para serem fornecidos na ciência do procedimento fiscal.
Recurso Voluntário Negado Provimento.
Numero da decisão: 1402-000.579
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Ausente momentaneamente, o Conselheiro Jaci de Assis Junior.
Nome do relator: Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira
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Recorrente ATOS SHOES LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2002 NULIDADE PROCESSUAL. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Restando provado nos autos que o contribuinte tomou conhecimento dos fundamentos de sua exclusão do Simples, sendolhe franqueado o acesso às provas, não há que se falar em cerceamento do direito de defesa. Os documentos probatórios das infrações e irregularidades apontadas pelo fisco devem ser acostadas no processo administrativo, inexistindo previsão legal para serem fornecidos na ciência do procedimento fiscal. Recurso Voluntário Negado Provimento. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Ausente momentaneamente, o Conselheiro Jaci de Assis Junior. (assinado digitalmente) Albertina Silva Santos de Lima Presidente (assinado digitalmente) Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Antônio José Praga de Souza, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Jaci de Assis Junior, Alexei Marcorin Vivan, Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira e Albertina Silva Santos de Lima. Fl. 1614DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 2 2 Relatório ATOS SHOES LTDA recorre a este Conselho contra a decisão proferida pela 4ª Turma de Julgamento da DRJ/SalvadorBA em primeira instância, que julgou procedente a exigência, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235 de 1972 (PAF). Em razão de sua pertinência, transcrevo o relatório da decisão recorrida (verbis): Trata o presente processo de exclusão da pessoa jurídica do Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – SIMPLES, conforme consta do Ato Declaratório Executivo nº 35 de 23 de novembro de 2007, a folha 01. Consta do referido ato declaratório que a pessoa jurídica em questão foi excluída do sistema simples com efeitos retroativos a 20 de junho de 2002 em razão de: (i) o titular ou sócio participar com mais de 10% do capital de outra empresa; (ii) auferir receita bruta superior a R$ 1.200.000,00 e, (iii) estar constituída por interpostas pessoas que não sejam os verdadeiros sócios ou acionistas, ou titular, no caso de empresa individual. Consta da folha 1566, conforme “AR”, que foi dada ciência ao contribuinte da referida exclusão em 13 de dezembro de 2007. Inconformado com o Ato Declaratório o contribuinte apresenta Manifestação de Inconformidade em 14 de janeiro de 2008 onde alega tão somente que houve cerceamento do direito de defesa, porque apenas lhe foi dado ciência do Ato Declaratório Executivo, (uma lauda), não lhe sendo apresentado os motivos que levaram a sua exclusão do sistema simples de tributação. A decisão recorrida está assim ementada: DIREITO DE DEFESA. CERCEAMENTO. Ficando comprovado que o sócio de fato controlador da pessoa jurídica e do grupo de “microempresas”, já tinha conhecimento de todos os elementos que deram causa ao ato declaratório de exclusão do contribuinte da sistemática de tributação pelo “Simples”, descabe o alegado cerceamento ao direito de defesa, ainda que não lhe tenha sido enviado todo o relatório fiscal. Solicitação Indeferida. Cientificada da aludida decisão, a contribuinte apresentou recurso voluntário, no qual contesta as conclusões do acórdão recorrido, nos seguintes termos (verbis): 2 DAS RAZÕES DO RECURSO DA NULIDADE POR VIOLAÇÃO DO CONTRADITÓRIO E DA AMPLA DEFESA. Fl. 1615DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 3 3 10 A Constituição Federal, ao estabelecer as garantias individuais mínimas, assegurou a todas as pessoas, indistintamente, o direito ao contraditório e a ampla defesa: "Art. 50 Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: LV aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;" CF88 (Grifos nossos) Por seu turno, o Dec. 70.235/72 dispõe que a peça inicial do processo administrativo fiscal deve obrigatoriamente conter a descrição do fato concreto que caracterizaria a falta do contribuinte, assegurando ao mesmo a possibilidade de se defender das imputações que eventualmente • lhe sejam dirigidas: Art.10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: III a descrição do fato Art.59. São nulos: II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa." Dec. 70.235/72 (Grifos Nossos) No mesmo sentido, a Lei 9.781/99: Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos, guando: I neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses;" Lei 9.784/99 (grifos nossos) Na hipótese dos autos, o ato hostilizado pretendeu a exclusão da Recorrente do SIMPLES retroagindo os seus efeitos a 01.01.2002 e dando inicio ao presente processo administrativo fiscal. Contudo, o ato impugnado revelase inidôneo para a finalidade a que se propõe, uma vez que o recorrente recebeu apenas o ato de exclusão, NÃO LHE SENDO APRESENTADOS OS MOTIVOS QUE LEVARAM A SUA EXCLUSÃO, PARA QUE PUDESSE SE DEPENDER. Totalmente improcedente os argumentos de defesa de que não seria preciso apresentar os motivos da exclusão porque a recorrente faria parte de um grupo de empresas, e que essas empresas teriam recebido os motivos da exclusão. O fato de a recorrente ser parte de um grupo de empresas grupo de empresas é acusação falsa da fiscalização, a qual a recorrente tem DIREITO de se defender, o que não foi possível, porque quando foi intimada da exclusão do SIMPLES, não ficou sabendo sequer o motivo de tal ato arbitrário. Manter um ato como o desse processo é simplesmente fechar os olhos para a nossa Carta Magna e afrontar um Estado que se diz de direito. 3 DO PEDIDO Fl. 1616DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 4 4 Por todo o exposto requer Seja cancelado o Ato Declaratório 35/2007, que excluiu a recorrente do SIMPLES, mantendoa nesse regime de tributação, tendo em vista a nulidade e improcedência da referida exclusão (...) É o relatório. Fl. 1617DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 5 5 Voto Conselheiro Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira, Relator. O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais e regimentais para sua admissibilidade, dele conheço. Tratase de recurso contra ato de exclusão do Simples, no qual o contribuinte repisa as alegações de cerceamento do direito de defesa, já enfrentadas pela decisão recorrida, conforme fundamentos abaixo transcritos: De fato, observase que no “AR” de folha 1566, consta que foi enviado ao contribuinte em questão tão somente o “ADE Nº 35 de 23/11/2007” e mais nada, o que confirma a alegação do contribuinte. Entretanto, não concordamos que tal acontecimento tenha causado, de fato, o cerceamento do direito de defesa a que alude o contribuinte pelo que passo a expor. A pessoa jurídica ATOS SHOES LTDA., faz parte de um grupo de 15 (quinze) empresas denominado “Grupo Silva Calçados”, cujas demais integrantes estão informadas no demonstrativo seguinte: Empresas que compõem o Grupo Silva Calçados C.N.P.J. Razão Social Matriz 03.930.281/000170 Conquista Calçados Ltda. Vitória da Conquista 03.084.976/000188 Vicon Calçados Ltda. Vitória da Conquista 00.341.292/000126 Casa Silva Calçados Ltda. Vitória da Conquista 01.032.576/000101 Soares e Botelho Ltda. Vitória da Conquista 05.469.892/000198 LG Calçados Ltda. Bom Jesus da Lapa 02.944.879/000155 Itapetinga Calçados Ltda. Itapetinga 05.161.053/000108 TC – Comercial Ltda. Itabuna 03.985.387/000170 Itabuna Calçados Ltda. Itabuna 04.259.716/000169 Casa Ilhéus Calçados Ltda. Ilhéus 07.177.864/000122 Calçados Jequié Ltda. Jequié 03.980.637/000180 Helen Calçados Ltda. Jequié 07.791.433/000151 Criativa Calçados Ltda. Salvador 05.109.567/000114 Atos Shoes Ltda. Vitória da Conquista 08.020.546/000116 Criativa Sul Calçados Ltda. Vitória da Conquista 42.011.528/000106 Moda Art Confecções Ltda. Vitória da Conquista Referidas empresas cadastradas na Secretaria da Receita Federal do Brasil na condição de optantes pelo Sistema Simples de tributação, foram excluídas do referido tipo de tributação favorecida, porque restou provado, conforme processos administrativos fiscais relativos as empresas Conquista Calçados Ltda., Vicon Calçados Ltda., Casa Silva Calçados Ltda., Soares e Botelho Ltda., Helen Calçados Ltda., Itapetinga Calçados Ltda., TC Comercial Ltda., Itabuna Calçados Ltda., e Ilhéus Calçados Ltda., números 10540.0021114/200715, 10540002115/200760, 10540002116200712,10540002117200759,10540002800200877,105400021192008, 10540002120200772,10540002122200761,1054000212420071,1054000212320071 que o Sr. Daniel Soares Neto era o único proprietário de todas as empresas e que, com a finalidade de preservar a condição de micro ou pequena empresa para as componentes do grupo interpôs pessoas, não sócias de fato, nos quadros sociais das mesmas. Tal procedimento resultou na exclusão, conforme consta do Ato Declaratório Executivo em destaque, tendo como infrações (i) a interposição de sócios. (ii) a Fl. 1618DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 6 6 participação de sócio com mais de 10% de capital em outra empresa e, (iii) a percepção de receita bruta em valor superior ao exigido para permanecer enquadrada no simples de R$ 1.200.000,00. Para todas estas empresas foi devidamente expedido pelo Fisco o Ato Declaratório Executivo juntamente com o Relatório de Fiscalização onde está detalhado pormenorizadamente os motivos da exclusão, fato este que é incontestável em face, inclusive, da apresentação da competente Manifestação de Inconformidade onde a Impugnante procurou rebater todas as afirmações do Fisco. Os referidos processos já foram julgados por esta Primeira Turma de Julgamento. Pois bem, no que tange as empresas: Calçados Jequié Ltda., Moda Arte Confecções Ltda., LG Calçados Ltda., Criativa Sul Calçados Ltda e Atos Shoes Ltda., o Fisco acabou por deixar de enviar, a exemplo das anteriormente citadas, o referido Relatório de Fiscalização onde dá conhecimento ao contribuinte das infrações por ele cometidas que culminou com a sua exclusão do SIMPLES, motivo que faz o contribuinte não apresentar impugnação quanto ao mérito e alegar, tão somente em preliminar, a ocorrência de cerceamento do direito de defesa. O cerceamento de defesa se dá quando ocorre uma limitação na produção de provas de uma das partes no processo, que acaba por prejudicar a parte em relação ao seu objetivo processual. Qualquer obstáculo que impeça uma das partes de se defender da forma legalmente permitida gera o cerceamento da defesa, causando a nulidade do ato e dos que se seguirem, por violar o principio constitucional do devido processo legal. No caso em exame, como dito, teve o Grupo Silva Calçados e a pessoa do seu titular, Daniel Soares Neto, o devido conhecimento das razões porque o Fisco houvera excluído todas as quinze empresas do sistema Simples de tributação, através do Relatório de Fiscalização enviado para 09 (nove) das 15 (quinze) empresas do grupo, que como se pode observar contém as mesmas caracterizações de infrações. Ou seja, as infrações foram cometidas de maneira uniforme por todas as empresas do grupo e, conforme já explicitado, consistiu na interposição de sócios ilegítimos, de maneira a fragmentar uma media ou grande empresa em micro empresas com o fito de continuar favorecido pela tributação favorecida do Dito isto, está provado que teve a impugnante o conhecimento dos motivos que levaram o Fisco a lhe excluir do Simples, seja porque as quinze empresas efetivamente formam um grupo, seja porque restou provado ser o Sr. Daniel Soares Neto o titular de todas as empresas e, até mesmo pela causa estar sendo defendida pelo mesmo patrono, o escritório de advocacia FREIRE, FRAGA & TRIGO. Entendo que o cerceamento do direito de defesa ocorre por uma circunstância de não haver a parte tomado conhecimento dos motivos das infrações que lhe atribuem o que não é o caso, pois como dito, tem o Grupo Silva, seu titular e seu patrono perfeito conhecimento das infrações apontadas pelo Fisco, podendo destarte, defenderse perfeitamente. Assim, comprovado que o sócio de fato controlador da pessoa jurídica e do grupo de “microempresas”, já tinha conhecimento de todos os elementos que deram causa ao ato declaratório de exclusão da contribuinte da sistemática de tributação pelo “Simples”, descabe o alegado cerceamento ao direito de defesa, ainda que não lhe tenha sido enviado todo o relatório fiscal. Pois bem, é certo que no presente caso deixouse se encaminhar ao contribuinte o relatório de fiscalização, de fls. 2 e seguintes, que contem uma pormenorizada descrição dos fatos. Todavia, tal qual os julgadores de 1a. instancia, formei convencimento de Fl. 1619DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE Processo nº 10540.002127/200794 Acórdão n.º 140200.579 S1C4T2 Fl. 7 7 no Ato Declaratório de exclusão do Simples encaminhado ao contribuinte, fl.1, constam elementos suficientes para orientar sua defesa. Vejamos a transcrição desse documento: Art. 1° Fica o contribuinte, a seguir identificado, consoante o apurado no processo n° 10540.002127/200794, excluído do Simples a partir 20/06/2002, pela ocorrência das situações excludentes indicadas abaixo: Nome: ATOS SHOES LTDA CNPJ: 05.109.567/000114 ' Data da opção pelo Simples: 20/06/2002 Situação excludente: 1 Titular ou sócio participe com mais de 10% do capital de outra empresa; 2 Receita bruta superior a R$ 1.200.000,00; 3 Constituição da pessoa jurídica por interpostas pessoas que não sejam os verdadeiros sócios ou acionistas, ou o titular, no caso de firma individual. Data da ocorrência: 20/06/2002 Fundamentação legal: Lei n° 9.317, de 05/12/1996, art. 9°, inciso IX; art. 12; art. 13, inciso II, alínea "a"; art. 14, inciso IV e V; art. 15, incisos II e V, § 3 0; art. 16; IN 608/2006, art. 21; art. 22, inciso II, alínea "a"; art. 23; inciso IV e V; art. 24; art 25; Lei 9.430/96, art. 42, § 1 0 e com sua redação vigente à é época da ocorrência da situação excludente.,(...) Art. 30 Poderá o contribuinte, dentro do prazo de trinta dias contados a partir da data do recebimento deste Ato, manifestar sua inconformidade, por escrito, nos termos do Decreto n° 70.235, de 07 de março de 1972, e suas alterações posteriores, relativamente à exclusão do Simples, à Delegacia da Receita Federal de Julgamento de sua Jurisdição, assegurado o contraditório e a ampla defesa. Ora, é certo que a fiscalização deve formar processo administrativo ao qual necessitam ser carreadas as provas de suas acusações e infrações imputadas ao contribuinte. Isso ocorreu no presente caso, tanto assim que o processo já contava com mais de 1.560 folhas, quando o contribuinte foi intimado para se defender. O PAF não estabelece que as provas devam ser encaminhadas ao contribuinte, e sim que o processo deve ficar a sua disposição durante o prazo de impugnação ou recurso. Consta na intimação o número do processo, que está referenciado na própria peça impugnatória (fl. 1568), portanto, o contribuinte tinha conhecimento do número do processo e que estava a sua disposição para consulta. Uma vez que o ato declaratório traz em seu bojo os motivos da exclusão, que o relatório fiscal detalhado consta do processo, do qual o contribuinte tinha conhecimento, não há que se falar em cerceamento do direito defesa. Além disso, mesmo após a decisão de 1a. instância, o contribuinte nada alegou contra o mérito de sua exclusão do Simples. Diante do exposto voto no sentido de negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira Fl. 1620DF CARF MF Emitido em 03/06/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 03/06/2011 por LEONARDO HENRIQUE MAGALHAES DE Assinado digitalmente em 03/06/2011 por ALBERTINA SILVA SANTOS DE LIMA, 03/06/2011 por LEONARDO HENR IQUE MAGALHAES DE
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Numero do processo: 19515.721469/2011-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. DECISÃO. CONTRADIÇÃO. ACOLHIMENTO.
Constatada a ocorrência de contradição na decisão do acórdão embargado, impõe-se o acolhimento dos embargos de declaração para o devido saneamento, rerratificando-se a decisão.
Numero da decisão: 2402-006.061
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos, rerratificado a decisão, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Mário Pereira de Pinho Filho - Presidente
(assinado digitalmente)
Luís Henrique Dias Lima - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Renata Toratti Cassini, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luís Henrique Dias Lima, Gregório Rechmann Júnior, João Victor Ribeiro Aldinucci e Maurício Nogueira Righetti.
Nome do relator: LUIS HENRIQUE DIAS LIMA
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DECISÃO. CONTRADIÇÃO. ACOLHIMENTO. Constatada a ocorrência de contradição na decisão do acórdão embargado, impõese o acolhimento dos embargos de declaração para o devido saneamento, rerratificandose a decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 72 14 69 /2 01 1- 75 Fl. 687DF CARF MF 2 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos, rerratificado a decisão, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Mário Pereira de Pinho Filho Presidente (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Mário Pereira de Pinho Filho, Ronnie Soares Anderson, Renata Toratti Cassini, Jamed Abdul Nasser Feitoza, Luís Henrique Dias Lima, Gregório Rechmann Júnior, João Victor Ribeiro Aldinucci e Maurício Nogueira Righetti. Fl. 688DF CARF MF Processo nº 19515.721469/201175 Acórdão n.º 2402006.061 S2C4T2 Fl. 3 3 Relatório . Tratamse de embargos de declaração de iniciativa deste membro do Colegiado, com fulcro no art. 65, § 1°, inciso I, do Anexo II do Regimento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF n. 343, de 09 de junho de 2015, e alterações posteriores, em face de contradição verificada no Acórdão n. 2402005.945, julgado em 08 de agosto de 2017 pela 2ª. Turma Ordinária da 4ª. Câmara da 2ª. Seção de Julgamento (fls. 657/678). Em síntese, no que tange aos aclaratórios, a questão concentrase no decisum nele consignado, que não retrata o que foi efetivamente decidido na sessão de julgamento. É o relatório. Fl. 689DF CARF MF 4 Voto Conselheiro Luís Henrique Dias Lima Relator. Os embargos declaração em apreço são tempestivos e atendem aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. O Acórdão n. 2402005.945 (fls. 657/678), ora embargado, assim sumarizou o seu entendimento: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Anocalendário: 2006 CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. MÉTODO DE EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. IMPOSSIBILIDADE DE MÚLTIPLO PROVEITO DO MESMO LUCRO. OMISSÃO DE GANHO DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES. DUPLICIDADE DE CAPITALIZAÇÃO DE LUCROS E RESERVAS. MAJORAÇÃO ARTIFICIAL DO CUSTO DE AQUISIÇÃO. É indevida a capitalização de lucros apurados na empresa investidora através do Método de Equivalência Patrimonial (MEP), quando este mesmo lucro permanece inalterado na empresa investida, disponível nesta como lucros e/ou reservas de lucros tanto para que se efetuem capitalizações como para retiradas pelos sócios. Constatada a majoração artificial do custo de aquisição da participação societária alienada, mediante a capitalização indevida de lucros e reservas oriundos de ganhos avaliados por equivalência patrimonial nas sociedades investidoras, devem ser expurgados os acréscimos indevidos com a conseqüente tributação do novo ganho de capital apurado. MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. DOLO. FRAUDE. SIMULAÇÃO Incabível a multa qualificada quando não restar comprovado de forma firme e estreme de dúvidas o dolo específico, fraude ou simulação do sujeito passivo no sentido de impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador, de excluir ou modificar as suas características principais. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. PROCEDÊNCIA. LEGALIDADE. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional ao valor apurado. Destarte, sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Nenhum reparo há a fazer, vez que a ementa espelha o voto do relator. Todavia, o dispositivo do Acórdão n. 2402005.945 (fls. 657/678) recebeu a seguinte redação: Fl. 690DF CARF MF Processo nº 19515.721469/201175 Acórdão n.º 2402006.061 S2C4T2 Fl. 4 5 "Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a qualificação da multa de ofício, reduzindoa ao patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Fernanda Melo Leal que acolhiam a preliminar de decadência e davam provimento ao recurso para afastar o lançamento em relação ao ganho de capital apurado; e os Conselheiros Theodoro Vicente Agostinho e Jamed Abdul Nasser Feitosa, que davam provimento ao recurso para afastar o lançamento em relação ao ganho de capital apurado. Fizeram sustentação oral, como representante do contribuinte, o Dr. Luís Cláudio Gomes Pinto, OAB/RJ nº 88.704, e, como representante da Fazenda Nacional, a Dra. Lívia da Silva Queiroz." E aqui encontrase o cerne da questão, vez que o decisum, acima reproduzido, não espelha a realidade do julgamento em apreço. Com efeito, verificase, in casu, ocorrência de contradição na decisão consignada no Acórdão n. 2402005.945 (fls. 657/678), vez que, de fato, na sessão de julgamento com data de 08 de agosto de 2017, decidiuse que: "Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a qualificação da multa de ofício, reduzindoa ao patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Fernanda Melo Leal, Theodoro Vicente Agostinho e Jamed Abdul Nasser Feitosa, que davam provimento integral ao recurso. Fizeram sustentação oral, como representante do contribuinte, o Dr. Luís Cláudio Gomes Pinto, OAB/RJ nº 88.704, e, como representante da Fazenda Nacional, a Dra. Lívia da Silva Queiroz." Diante do exposto, voto no sentido de acolher os embargos de declaração, para fins de, rerratificando a decisão, corrigir a parte dispositiva do Acórdão n. 2402005.945 (fls. 657/678), de forma a afastar a contradição ora verificada, fazendo constar a seguinte redação: Onde se lê: "Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a qualificação da multa de ofício, reduzindoa ao patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci e Fernanda Melo Leal que acolhiam a preliminar de decadência e davam provimento ao recurso para afastar o lançamento em relação ao ganho de capital apurado; e os Conselheiros Theodoro Vicente Agostinho e Jamed Abdul Nasser Feitosa, que davam provimento ao recurso para afastar o lançamento em relação ao ganho de capital apurado. Fizeram sustentação oral, como representante do contribuinte, o Dr. Luís Cláudio Gomes Pinto, OAB/RJ nº 88.704, e, como representante da Fazenda Nacional, a Dra. Lívia da Silva Queiroz." Fl. 691DF CARF MF 6 Leiase: "Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso para afastar a qualificação da multa de ofício, reduzindoa ao patamar ordinário de 75% (setenta e cinco por cento). Vencidos os Conselheiros João Victor Ribeiro Aldinucci, Fernanda Melo Leal, Theodoro Vicente Agostinho e Jamed Abdul Nasser Feitosa, que davam provimento integral ao recurso. Fizeram sustentação oral, como representante do contribuinte, o Dr. Luís Cláudio Gomes Pinto, OAB/RJ nº 88.704, e, como representante da Fazenda Nacional, a Dra. Lívia da Silva Queiroz." (assinado digitalmente) Luís Henrique Dias Lima Fl. 692DF CARF MF
score : 1.0
