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Numero do processo: 13603.905752/2012-63
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Jul 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Aug 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Ano-calendário: 2007
COFINS. DCOMP. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. TRATAMENTO MASSIVO x ANÁLISE HUMANA. AUSÊNCIA/EXISTÊNCIA DE RETIFICAÇÃO DE DCTF. VERDADE MATERIAL.
Nos processos referentes a despachos decisórios eletrônicos, deve o julgador (elemento humano) ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF.
Numero da decisão: 3401-003.915
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário apresentado, acolhendo a informação prestada em diligência.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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DCOMP. DESPACHO DECISÓRIO ELETRÔNICO. TRATAMENTO MASSIVO x ANÁLISE HUMANA. AUSÊNCIA/EXISTÊNCIA DE RETIFICAÇÃO DE DCTF. VERDADE MATERIAL. Nos processos referentes a despachos decisórios eletrônicos, deve o julgador (elemento humano) ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário apresentado, acolhendo a informação prestada em diligência. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 60 3. 90 57 52 /2 01 2- 63 Fl. 350DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente sobre PER/DCOMP utilizando créditos de COFINS, no valor total de R$ 23.275,71. Por meio de Despacho Decisório Eletrônico, a compensação não foi homologada, visto que o pagamento foi localizado, mas integralmente utilizado na quitação de débitos do contribuinte. Cientificada da decisão de piso, a empresa apresentou Manifestação de Inconformidade, alegando, basicamente, que: (a) o crédito se refere a COFINSimportação de serviços recolhida indevidamente, e que a informação de que o valor foi utilizado integralmente para quitar débito da empresa se deve a ter sido originalmente informado em DCTF valor igual ao total do recolhimento; (b) que foi retificada a DCTF, após o despacho decisório, sendo que o valor não era devido por tratarse de remessa ao exterior em pagamento de licença de uso de marca, a título de royalties, não caracterizando contrapartida de serviços provenientes do exterior, conforme Solução de Consulta RFB no 263/2011; e (c) a DCTF retificadora não foi recepcionada pela RFB tendo em vista ter se esgotado o prazo de cinco anos para a apresentação. A decisão de primeira instância foi, unanimemente, pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob o fundamento de carência probatória a cargo do postulante, que não apresenta contrato que discrimine os royalties dos serviços técnicos e de assistência técnica, de forma individualizada, e de que a prazo para retificação de DCTF já havia se esgotado quando da apresentação de declaração retificadora pela empresa. Após ciência da decisão da DRJ, a empresa apresenta tempestivamente Recurso Voluntário, afirmando que: (a) celebrou contrato exclusivamente referente a licenciamento para uso de marcas, não envolvendo a importação de quaisquer serviços conexos, e que em 52 despachos decisórios distintos, a autoridade administrativa não homologou as compensações, por simples cotejo com DCTF, e que a DRJ manteve a decisão sob os fundamentos de ausência de apresentação de contrato e de retificação extemporânea de DCTF; (b) há necessidade de reunião dos 52 processos conexos para julgamento conjunto; (c) deve o CARF receber de ofício a DCTF retificadora, em nome da verdade material; e (d) o crédito foi documentalmente comprovado, figurando no contrato celebrado, anexado aos autos, que o objeto é exclusivamente o licenciamento de uso de marcas, sem quaisquer serviços conexos, aplicandose ao caso o entendimento externado na Solução de Divergência no 11, da COSIT, como tem entendido o CARF em casos materialmente e faticamente idênticos (Acórdão no 3801001.813). No CARF, o julgamento foi convertido em diligência por meio da Resolução no 3803000.464, para que a autoridade local da RFB informasse “...acerca dos valores devidos pela recorrente na data de transmissão da DComp, bem assim se o valor reconhecido a título de direito creditório (original ou atualizado) é o bastante para solver os débitos existentes nessa data, mediante o confrontamento de valores ou, informar acerca da diferença encontrada” (sic). Em resposta a fiscalização informa que o pagamento objeto do direito creditório não se encontra disponível, uma vez que utilizado para quitação de débito declarado em DCTF, e que, relativamente ao confronto de valores, restou demonstrado “... ser bastante o valor do pagamento pleiteado nestes autos para extinção do débito declarado pela Fl. 351DF CARF MF Processo nº 13603.905752/201263 Acórdão n.º 3401003.915 S3C4T1 Fl. 339 3 contribuinte por meio de compensação”, não havendo necessidade de se dar ciência ao contribuinte da informação. O processo foi a mim distribuído, mediante sorteio, em maio de 2017. É o relatório. Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator O cumprimento dos requisitos formais de admissibilidade já foi verificado na conversão em diligência, passandose, então, aqui, à análise de mérito. De fato, não se tem dúvidas de que, ao tempo da análise massiva, por sistema informatizado, das DCOMP apresentadas, os débitos declarados em DCTF correspondiam aos pagamentos efetuados, ainda que estes fossem eventualmente indevidos. Daí os despachos decisórios eletrônicos, limitados a cotejamento entre dados declarados em DCOMP e DCTF, e pagamentos efetuados com DARF, terem sido pelo indeferimento. No entanto, também não se tem dúvidas de que a empresa já entendia, na data de protocolo dos PER/DCOMP, serem indevidos os pagamentos efetuados, independente de ter ou não retificado as respectivas DCTF. Não há que se falar, assim, em decurso de prazo para repetir o indébito, visto que os PER/DCOMP foram transmitidos dentro do prazo regular para repetição. Após o indeferimento eletrônico da compensação é que a empresa esclarece que a DCTF foi preenchida erroneamente, tentando retificála (sem sucesso em função de trava temporal no sistema informatizado), e explica que o indébito decorre de serem os pagamentos referentes a COFINSserviços incabíveis pelo fato de se estar tratando, no caso, exclusivamente de licenciamento de uso de marcas, sem quaisquer serviços conexos. No presente processo, como em todos nos quais o despacho decisório é eletrônico, a fundamentação não tem como antecedente uma operação individualizada de análise por parte do Fisco, mas sim um tratamento massivo de informações. Esse tratamento massivo é efetivo quando as informações prestadas nas declarações do contribuinte são consistentes. Se há uma declaração do contribuinte (v.g. DCTF) indicando determinado valor, e ele efetivamente recolheu tal valor, o sistema certamente indicará que o pagamento foi localizado, tendo sido integralmente utilizado para quitar débitos do contribuinte. Houvesse o contribuinte retificado a DCTF anteriormente ao despacho decisório eletrônico, reduzindo o valor a recolher a título da contribuição, provavelmente não estaríamos diante de um contencioso gerado em tratamento massivo. A detecção da irregularidade na forma massiva, em processos como o presente, começa, assim, com a falha do contribuinte, ao não retificar a DCTF, corrigindo o valor a recolher, tornandoo diferente do (inferior ao) efetivamente pago. Esse erro (ausência de retificação da DCTF) provavelmente seria percebido se a análise inicial empreendida no despacho decisório fosse individualizada/manual (humana). Fl. 352DF CARF MF 4 Assim, diante dos despachos decisórios eletrônicos, é na manifestação de inconformidade que o contribuinte é chamado a detalhar a origem de seu crédito, reunindo a documentação necessária a provar a sua liquidez e certeza. Enquanto na solicitação eletrônica de compensação bastava um preenchimento de formulário DCOMP (e o sistema informatizado checaria eventuais inconsistências), na manifestação de inconformidade é preciso fazer efetiva prova documental da liquidez e da certeza do crédito. E isso muitas vezes não é assimilado pelo sujeito passivo, que acaba utilizando a manifestação de inconformidade tãosomente para indicar porque entende ser o valor indevido, sem amparo documental justificativo (ou com amparo documental deficiente). O julgador de primeira instância também tem um papel especial diante de despachos decisórios eletrônicos, porque efetuará a primeira análise humana do processo, devendo assegurar a prevalência da verdade material. Não pode o julgador (humano) atuar como a máquina, simplesmente cotejando o valor declarado em DCTF com o pago, pois tem o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Nesse contexto, relevante passa a ser a questão probatória no julgamento da manifestação de inconformidade, pois incumbe ao postulante da compensação a prova da existência e da liquidez do crédito. Configurase, assim, uma das três situações a seguir: (a) efetuada a prova, cabível a compensação (mesmo diante da ausência de DCTF retificadora, como tem reiteradamente decidido este CARF); (b) não havendo na manifestação de inconformidade a apresentação de documentos que atestem um mínimo de liquidez e certeza no direito creditório, incabível acatarse o pleito; e, por fim, (c) havendo elementos que apontem para a procedência do alegado, mas que suscitem dúvida do julgador quanto a algum aspecto relativo à existência ou à liquidez do crédito, cabível seria a baixa em diligência para sanála (destacandose que não se presta a diligência a suprir deficiência probatória a cargo do postulante). Em sede de recurso voluntário, igualmente estreito é o leque de opções. E agregase um limitador adicional: a impossibilidade de inovação probatória, fora das hipóteses de que trata o art. 16, § 4o do Decreto no 70.235/1972. No presente processo, o julgador de primeira instância não motiva o indeferimento somente na ausência de retificação da DCTF, mas também na ausência de prova do alegado, por não apresentação de contrato. Diante da ausência de amparo documental para a compensação pleiteada, chegase à situação descrita acima como “b”. Contudo, no julgamento inicial efetuado por este CARF, que resultou na baixa em diligência, concluiuse pela ocorrência da situação “c”, diante dos documentos apresentados em sede de recurso voluntário. Entendeu assim, este colegiado, naquele julgamento, que o comando do art. 16, § 4o do Decreto no 70.235/1972 seria inaplicável ao caso, e que diante da verossimilhança em relação a alegações e documentos apresentados, a unidade local deveria se manifestar. E a informação da unidade local da RFB, em sede de diligência, atesta que os valores recolhidos são suficientes para saldar os débitos indicados em DCOMP, entendendo a fiscalização, inclusive que, diante do exposto, não haveria necessidade de se dar ciência ao contribuinte da informação, apesar de ainda estarem os pagamentos alocados à DCTF original. Resta pouco, assim, a discutir no presente processo, visto que o único obstáculo que remanesce é a ausência de retificação da DCTF, ainda que comprovado o direito Fl. 353DF CARF MF Processo nº 13603.905752/201263 Acórdão n.º 3401003.915 S3C4T1 Fl. 340 5 de crédito, como se atesta na conversão em diligência, mediante o respectivo contrato, acompanhado da invoice correspondente. Atribuir à retificação formal de DCTF importância superior à comprovação do efetivo direito de crédito é típico das máquinas, na análise massiva, mas não do julgador, humano, que deve ir além do simples cotejamento efetuado pela máquina, na análise massiva, em nome da verdade material, tendo o dever de verificar se houve realmente um recolhimento indevido/a maior, à margem da existência/ausência de retificação da DCTF. Como atesta a Solução de Divergência COSIT no 11/2011: “Não haverá incidência da CofinsImportação sobre o valor pago a título de Royalties, se o contrato discriminar os valores dos Royalties, dos serviços técnicos e da assistência técnica de forma individualizada. Neste caso, a contribuição sobre a importação incidirá apenas sobre os valores dos serviços conexos contratados. Porém, se o contrato não for suficientemente claro para individualizar estes componentes, o valor total deverá ser considerado referente a serviços e sofrer a incidência da mencionada contribuição.” (grifo nosso) E a cópia do contrato de licença apresentada e analisada, e de seus adendos, atesta que o contrato se refere “exclusivamente a licenciamento de uso de marcas”, não tratando de serviços. Assim, é indevida a COFINS, não havendo qualquer manifestação em sentido contrário pela própria unidade diligenciante. Aliás, efetivamente apreciou turma especial do CARF assunto idêntico, no Acórdão no 3801001.813, de 23/04/2013, acordando unanimemente pela não incidência de COFINSserviços em caso de contrato de “knowhow” que não engloba prestação de serviços: “CONTRATO DE “KNOW HOW”. REMESSAS AO EXTERIOR RELATIVAS A ROYALTIES E DIREITOS PELO USO DE MARCAS E TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO E TECNOLOGIA. NÃO INCIDÊNCIA DA COFINS IMPORTAÇÃO. Uma vez discriminados os valores dos Royalties dos demais serviços, de forma individualizada, não incidirá a COFINSImportação.” Há ainda outros precedentes recentes e unânimes deste tribunal, no mesmo sentido, e com características adicionais em comum com o presente processo: “NULIDADE. INEXISTÊNCIA. Não é nulo o despacho decisório que se fundamenta no cotejo entre documentos apontados como origem do crédito (DARF) e nas declarações apresentadas que demonstram o direito creditório (DCTF). APRESENTAÇÃO DE DCTF RETIFICADORA. POSSIBILIDADE. DEMONSTRAÇÃO DE INDÍCIO DE PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO ANTERIORMENTE AO DESPACHO DECISÓRIO. VERDADE MATERIAL. Indícios de provas apresentadas anteriormente à prolação do despacho decisório que denegou a homologação da compensação, consubstanciados na apresentação de DARF de pagamento e DCTF retificadora, ratificam os argumentos do contribuinte Fl. 354DF CARF MF 6 quanto ao seu direito creditório. Inexiste norma que condiciona a apresentação de declaração de compensação à prévia retificação de DCTF, bem como ausente comando legal impeditivo de sua retificação enquanto não decidida a homologação da declaração. ROYALTIES. REMUNERAÇÃO EXCLUSIVA PELO USO DE LICENÇA E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA. INEXISTÊNCIA DE SERVIÇOS CONEXOS. NÃO INCIDÊNCIA DE PIS/COFINSIMPORTAÇÃO. A disponibilização de "informações técnicas" e "assistência técnica", por intermédio de entrega de dados e outros documentos pela licenciadora estrangeira, para utilização na fabricação de produtos licenciados no País, não configura prestação de serviços conexos ao licenciamento para efeitos de incidência de Contribuições para o PIS/Pasepimportação e Cofinsimportação. À luz do contrato de licenciamento e dos efetivos pagamentos realizados ao exterior, não incidem as Contribuições para o PIS/Pasepimportação e Cofins importação, pois tais pagamentos, cujos cálculos baseiamse nas vendas líquidas de produtos licenciados, referemse, exclusivamente, à remuneração contratual pela transferência de tecnologia, com natureza jurídica de royalties. (grifo nosso) (Acórdãos no 3201002.404 a 420, Rel. Cons. Windereley Morais pereira, sessão de 28 set. 2016) Deve, então, ser acolhido o pleito da empresa, removido o derradeiro obstáculo indevido ao reconhecimento do direito creditício e à compensação. Resta, por fim, tecer comentários sobre o pleito da recorrente para análise conjunta dos 52 processos referentes a suas DCOMP, visto que este relator recebeu, em sorteio, apenas 44 dos referidos processos. Em nome da verdade material, efetuei consulta ao sistema eprocessos, sobre a situação dos oito processos restantes, verificando o que se resume na tabela abaixo: N. do processo Situação atual Observações 13603.905762/201207 CARF – “Distribuir/Sortear” (indevidamente) Julgamento convertido em diligência, nas mesmas circunstâncias do presente, mas ainda não enviado à unidade local, para diligência, tendo em vista necessidade de saneamento (erro na anexação do arquivo contendo a Resolução de conversão em diligência). 13603.905764/201298 Idem Idem 13603.905772/201234 Idem Idem 13603.905785/201211 Idem Idem 13603.905790/201216 Idem Idem Fl. 355DF CARF MF Processo nº 13603.905752/201263 Acórdão n.º 3401003.915 S3C4T1 Fl. 341 7 13603.905775/201278 CARF – SEDIS/GECAP – Verificar Processo Processo sequer apreciado pelo CARF ainda, nem para converter o julgamento em diligência. 13603.905793/201250 Idem Idem 13603.905794/201202 Idem Idem Assim, há efetivamente apenas 44 processos maduros para julgamento, visto que os 8 restantes, por falhas processuais (5 deles com juntada incorreta de arquivos e 3 com pendência de verificação de procedimentos pelo setor competente do CARF) acabaram não chegando à unidade local, para realização da diligência. E os 44 processos, prontos para julgamento, serão efetivamente julgados conjuntamente, nesta sessão. Pelo exposto, e acolhendo a informação prestada em sede de diligência, voto por dar provimento ao recurso voluntário apresentado. Rosaldo Trevisan Fl. 356DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.722263/2009-74
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES DE CABIMENTO.
Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se a turma.
Numero da decisão: 9303-005.593
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para, re-ratificar o Acórdão nº, 9303-004.648, de 15/02/2017, com efeitos infringentes, nos termos do voto do relator. Ausente, momentaneamente, a conselheira Érika Costa Camargos Autran.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES DE CABIMENTO. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciar-se a turma.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para, re-ratificar o Acórdão nº, 9303-004.648, de 15/02/2017, com efeitos infringentes, nos termos do voto do relator. Ausente, momentaneamente, a conselheira Érika Costa Camargos Autran. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran.
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. HIPÓTESES DE CABIMENTO. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer e acolher os Embargos de Declaração para, reratificar o Acórdão nº, 9303004.648, de 15/02/2017, com efeitos infringentes, nos termos do voto do relator. Ausente, momentaneamente, a conselheira Érika Costa Camargos Autran. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza – Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rodrigo da Costa Pôssas, Charles Mayer de Castro Souza, Andrada Márcio Canuto Natal, Luiz Augusto do Couto Chagas, Demes Brito, Tatiana Midori Migiyama, Vanessa Marini Cecconello e Erika Costa Camargos Autran. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 72 22 63 /2 00 9- 74 Fl. 778DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Embargos de Declaração interpostos tempestivamente pela contribuinte contra o Acórdão nº 9303004.648, 15/02/2017, proferido pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, que fora assim ementado: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 PIS. CONCEITO DE INSUMO. O termo “insumo” utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracterizase como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais. No caso julgado, são exemplos de insumos ácido sulfúrico, aditivo dispersante e serviços de remoção de resíduos industriais. FRETE. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS. Os serviços de transporte suportados pelo adquirente de bens, quando estes se qualifiquem como insumos nos termos da legislação de regência, somente geram direito ao crédito de modo indireto, mediante incorporação ao custo do bem adquirido. Recurso Especial do Procurador provido em parte Alega a Embargante que a decisão apresenta uma contradição, a saber: assentou que “...se o produto se enquadrar no conceito de insumo, sendo, de conseguinte, necessário à produção do contribuinte, o gasto com o seu transporte deverá ser incorporado ao custo do produtos transportados (...). Portanto, se o frete foi pago no transporte de produtos que sejam insumos (...)o valor assim despendido deve ser incorporado ao custo dos produtos transportados (...)", e a conclusão do voto, que findou por negar direito a tomada de créditos sobre o frete pago na aquisição de ácido sulfúrico, considerado como insumo pelo próprio relator. O exame de admissibilidade dos embargos encontrase às fls. 774/777. É o Relatório. Voto Fl. 779DF CARF MF Processo nº 10280.722263/200974 Acórdão n.º 9303005.593 CSRFT3 Fl. 779 3 Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator Com efeito, o acórdão embargado incorreu numa contradição, o que autoriza o manejo dos aclaratórios, em conformidade com o que dispõe o art. 65 do Anexo II do atual RICARF/2015. Notese que, muito embora tenhamos afirmado que os serviços de transporte suportados pelo adquirente somente geram direito ao crédito de modo indireto, mediante incorporação ao custo do bem adquirido, somente quando estes se qualifiquem como insumos, nos termos da legislação de regência (ver Solução de Consulta Cosit nº 99048, de 20 de março de 2017), não nos atentamos para o fato de que o frete pago pela Embargante se destinava unicamente ao transporte do ácido sulfúrico, o que poderia ter sido deduzido até mesmo das peculiaridades deste produto. Outra seria a solução se o frete fosse pago para o transporte de mais de um produto, uns qualificados como insumos, outros, não, hipótese em que deveria haver uma divisão proporcional do custo pelos produtos transportados. Não é o caso, porém. Ante o exposto, conheço e acolho os Embargos de Declaração, com efeitos infringentes, para conferir à Embargante o direito ao crédito sobre o frete pago na aquisição de ácido sulfúrico. A ementa do acórdão embargado passa a ser a seguinte: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/07/2006 a 30/09/2006 PIS. CONCEITO DE INSUMO. O termo “insumo” utilizado pelo legislador na apuração de créditos a serem descontados da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins denota uma abrangência maior do que MP, PI e ME relacionados ao IPI. Por outro lado, tal abrangência não é tão elástica como no caso do IRPJ, a ponto de abarcar todos os custos de produção e as despesas necessárias à atividade da empresa. Sua justa medida caracterizase como o elemento diretamente responsável pela produção dos bens ou produtos destinados à venda, ainda que este elemento não entre em contato direto com os bens produzidos, atendidas as demais exigências legais. No caso julgado, são exemplos de insumos ácido sulfúrico, aditivo dispersante e serviços de remoção de resíduos industriais. FRETE. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS. Os serviços de transporte suportados pelo adquirente de bens, quando estes se qualifiquem como insumos nos termos da legislação de regência, somente geram direito ao crédito de modo indireto, mediante incorporação ao custo do bem adquirido. No caso julgado, o frete pago para transporte do ácido sulfúrico gera direito ao crédito de PIS no regime não cumulativo. Recurso Especial do Procurador negado. É como voto. Fl. 780DF CARF MF 4 (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 781DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15374.910486/2009-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 25 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2001
COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. DESPACHO ELETRÔNICO. CRÉDITO UTILIZADO. DIVERGÊNCIA DE DIPJ E DCTF. DILIGÊNCIA. LALUR. APRESENTAÇÃO DAS ESCRITAS CONTÁBEIS E FISCAIS. DIREITO CREDITÓRIO DEMONSTRADO. HOMOLOGAÇÃO DEVIDA
O PER/DCOMP inicialmente não homologado por despacho eletrônico em virtude de inexistência de crédito passível de utilização, deve ser revisto e homologado quando, após diligência, a contribuinte apresenta livros contábeis e fiscais, por meio dos quais comprova prejuízo fiscal e pagamento indevido de estimativa mensal.
Numero da decisão: 1302-002.357
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar, e no mérito, dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente-Substituta
(assinado digitalmente)
Rogério Aparecido Gil - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Júlio Lima Souza Martins (Suplente Convocado), Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente-Substituta).
Nome do relator: ROGERIO APARECIDO GIL
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2001 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. DESPACHO ELETRÔNICO. CRÉDITO UTILIZADO. DIVERGÊNCIA DE DIPJ E DCTF. DILIGÊNCIA. LALUR. APRESENTAÇÃO DAS ESCRITAS CONTÁBEIS E FISCAIS. DIREITO CREDITÓRIO DEMONSTRADO. HOMOLOGAÇÃO DEVIDA O PER/DCOMP inicialmente não homologado por despacho eletrônico em virtude de inexistência de crédito passível de utilização, deve ser revisto e homologado quando, após diligência, a contribuinte apresenta livros contábeis e fiscais, por meio dos quais comprova prejuízo fiscal e pagamento indevido de estimativa mensal.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar, e no mérito, dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa - Presidente-Substituta (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil - Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo Guimarães da Fonseca, Júlio Lima Souza Martins (Suplente Convocado), Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Ester Marques Lins de Sousa (Presidente-Substituta).
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PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. ESTIMATIVA MENSAL. Recorrente BIORAD LABORATÓRIOS BRASIL LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2001 COMPENSAÇÃO NÃO HOMOLOGADA. DESPACHO ELETRÔNICO. CRÉDITO UTILIZADO. DIVERGÊNCIA DE DIPJ E DCTF. DILIGÊNCIA. LALUR. APRESENTAÇÃO DAS ESCRITAS CONTÁBEIS E FISCAIS. DIREITO CREDITÓRIO DEMONSTRADO. HOMOLOGAÇÃO DEVIDA O PER/DCOMP inicialmente não homologado por despacho eletrônico em virtude de inexistência de crédito passível de utilização, deve ser revisto e homologado quando, após diligência, a contribuinte apresenta livros contábeis e fiscais, por meio dos quais comprova prejuízo fiscal e pagamento indevido de estimativa mensal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em afastar a preliminar, e no mérito, dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa PresidenteSubstituta (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marcos Antônio Nepomuceno Feitosa, Paulo Henrique Silva Figueiredo, Rogério Aparecido Gil, Gustavo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 37 4. 91 04 86 /2 00 9- 61 Fl. 311DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 3 2 Guimarães da Fonseca, Júlio Lima Souza Martins (Suplente Convocado), Eduardo Morgado Rodrigues (Suplente Convocado) e Ester Marques Lins de Sousa (PresidenteSubstituta). Relatório Tratase da Resolução nº 110200.074, da extinta 2ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara, da 1ª Seção de Julgamento, determinada face ao Acórdão nº 1238.750, de 15 de julho de 2011, proferido pela 9ª Turma da DRJ do Rio de Janeiro. A DRJ relatou que o processo versava sobre o PER/DCOMP de fls. 2/7, transmitido em 12/09/2005, por meio do qual a Recorrente pretendia aproveitar crédito de pagamento indevido ou a maior de CSLL (fl. 8, cód. 2484 CSLL Demais PJ que apuram o IRPJ com base em lucro real estimativa mensal), arrecadado em 23/02/2001, no valor de R$18.794,79, na data de transmissão. O Despacho Decisório (fl. 8) não homologou a compensação declarada. Concluiuse que, o pagamento indicado no PER/DCOMP teria sido integralmente utilizado. A recorrente manifestou seu inconformismo alegando, em síntese, que: 3.1 Conforme DIPJ 2002 (fl. 30), transmitida cm 28/06/2002, apurou base de cálculo negativa naquele exercício (fl. 46). 3.2 "... não havendo lucro, obviamente não há acréscimo patrimonial a ser passível de tributação, ou seja, não há a ocorrência do fato gerador para incidência do CSLL'\ fl. 12. 3.3 "... não existiu base de cálculo para apuração do CSLL mensal, pois essa, por estimativa, foi negativa", fl. 12, (Base de cálculo da estimativa de janeiro, fl. 42). 3.4 O art. 2o da Lei 7.689/88 preceitua que "a base de cálculo da CSLL é o valor do resultado do exercício antes da provisão do imposto de renda", fl. 12. 3.5 "... inexistindo resultado positivo ao final do exercício, a imposição de um tributo baseado em lucro que não houve é ilegítimo", fl. 12. 3.6 Não existia imposto algum a ser recolhido ao erário. 3.7 A DCTF retificadora, transmitida em 10/03/2009 (fl. 149), desfaz o equívoco da vinculação do DARF ao suposto débito de CSLL referente a janeiro de 2001. No recurso voluntário, suscitou preliminar de nulidade do acórdão recorrido, sob a alegação de que este não estaria fundamentado e teria violado seu direito à ampla defesa e contraditório (por violar a prova dos autos quanto à comprovação do alegado erro praticado em DCTF originária e por deixar de provar que os créditos alegados em declaração de compensação já teriam sido utilizados para quitação de outros débitos. No mérito, reitera suas razões de impugnação, segundo as quais: (i) a Contribuinte teria comprovado a efetiva existência do crédito informado em PER/DCOMP, mediante juntada de DARF/2001, DIPJ 2002 e DCTF retificadora; e (ii) caberia à autoridade julgadora, de ofício, converter o julgamento em diligência em caso de dúvida sobre a existência Fl. 312DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 4 3 do crédito alegado, jamais “presumir pela inexistência do crédito, logo, de forma desfavorável e prejudicial ao contribuinte”. Segundo a Recorrente, em síntese, caso fossem devidamente apreciados pelo acórdão recorrido os documentos acima citados, a única conclusão possível desta análise seria o reconhecimento do direito creditório e a homologação da respectiva declaração de compensação. Diante de tais alegações, o pedido de diligência foi acolhido, concluindose que havia a necessidade de instrução do processo para adequado julgamento. Assim, propôsse a conversão do julgamento em diligência para que a DRF adotasse as seguintes providências: (i) atestar a autenticidade da DCTF retificadora trazida aos autos em face das vias originais e da documentação fiscal e contábil da Contribuinte; (ii) atestar, de forma conclusiva e justificada, mediante consulta a documentos e livros fiscais e contábeis da Contribuinte, a correção (ou não) das informações prestadas na DCTF retificadora referida nestes autos, especialmente, mas sem se limitar, à existência (ou não) de saldo de CSLL a pagar nos meses do ano calendário de 2001 que estariam sendo apontados pela RFB como impeditivos do reconhecimento do direito creditório alegado e consequente homologação da declaração de compensação; (iii) das verificações efetuadas, lavrar Relatório de Diligência circunstanciado e dele dar ciência à Contribuinte para sobre ele se manifestar, no prazo de 30 (trinta) dias. Em cumprimento, a DRF apresentou o seguinte Despacho de Diligência: Tratase de relatório de Relatório de Diligência requerido pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF (Primeira Seção de Julgamento), em Resolução no 110200.074 da 1a Câmara/2a Turma Ordinária, de 10/abr/2012. Basicamente, o CARF solicita as seguintes providências: (...) Constatamos nos sistemas da RFB que a DIPJ/2002, original/liberada, no 107942487, transmitida em 28/jun/2002, que a forma de apuração do IRPJ e da CSLL é o Lucro Real Anual. Em todos os meses de apuração das estimativas, quer sejam de IRPJ ou CSLL, a interessada utilizouse de balanços ou balancetes de suspensão ou redução que lhe permite, como o próprio nome sugere, suspender ou reduzir o pagamento do imposto, desde que demonstre que o valor do imposto devido, calculado com base no lucro real do período em curso, é igual ou inferior à soma do imposto de renda devido por estimativa, correspondente aos meses do mesmo anocalendário, anteriores àquele a que se refere o balanço ou balancete levantado. O contribuinte foi intimado, por meio do Termo de Intimação Fiscal no 48/2014, cuja ciência deuse em 24/jun/2014, a informar/fornecer o(a)(s) seguinte(s) documento(s)/justificativa(s): “ Fotocópias autenticadas de escrituração contábil, mês a mês, do ano calendário 2011 que justifique as divergências encontradas entre o informado em DIPJ/2012 e as DCTFs transmitidas, relativamente a apuração dos tributos IRPJ (cód. receita 2362) e CSLL (cód. receita 2484). Fl. 313DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 5 4 Comprovação definitiva de que a base de cálculo do IRPJ e da CSLL (mês a mês) foi negativa, a qual originou prejuízo fiscal em suas principais atividades (receita de revenda de mercadorias e receita de prestação de serviços) por todos os meses do AC de 2001. Haja visto a interessada possuir 3 filiais ATIVAS e exercer a atividade: CNAE: 4645101 Comércio atacadista de instrumentos e materiais para uso médico, cirúrgico, hospitalar e de laboratórios. Solicitase, então, como exposto acima: 1. fotocópia do Razão Analítico, em Real, detalhado, de 01/jan/2001 a 31/dez/2001, que detalhe MÊS a MÊS as receitas brutas e despesas com receitas brutas; e, 2. fotocópia do Balancete de Verificação, em Real, detalhado, de 01/jan/2001 a 31/dez/2001, que demonstre MÊS a MÊS as receitas brutas e despesas com receitas brutas.” A interessada atendeu à intimação acima citada trazendo a esta SAORT/DRF/STL/MG 12 (doze) encadernações de livros Razão Contábil contendo Razão Analítico e Balancete Analítico, referente aos períodos de janeiro a dezembro/2001. Sobre a estimativa a que se refere este relatório de diligência, CSLL PA: jan/2001, no Balancete Analítico não há referência de CSLL a pagar referente ao período, assim como informado na Ficha 16 da DIPJ/2002. Também o contribuinte não se utilizou desta estimativa (nem de outra que porventura pudesse advir no decorrer do anocalendário: meses de fev a dez/2001) para compor o ajuste anual em Saldo Negativo de CSLL ao final do fato gerador em 31/dez/2001, conforme Linha 38, da Ficha 17. TABELA 1 As DCTFs transmitidas pela Recorrente, do 1º e 2ºTrim/2001 são: Com relação às DCTFs transmitidas acima, a que contém informação do débito em comento (CSLL PA jan/2001): 1oTrim/2001, na declaração original (item 01) havia informação de débito de estimativa CSLL (cód. receita 2484). Esta foi retificada primeiramente em 15/ago/2001 (item 02), antes da ciência do Despacho Decisório eletrônico exarado pelo Sistema de Controle de Crédito – SCC relativo à DComp 15767.01140.120905.1.3.046056, cuja ciência deuse em 02/abr/2009. A segunda DCTF retificadora (item 03), Liberada/Recebida sem Erro, foi transmitida em 10/mar/2009, ou seja, também antes da ciência do despacho decisório. Tanto na primeira quanto na segunda DCTF Retificadora não há menção à apuração de débito de estimativa de CSLL. Fl. 314DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 6 5 Diante do exposto, cumprida a determinação do CARF, em razão da documentação trazida aos autos pelo contribuinte e face as DCTFs registradas nos sistemas da RFB: Dêse ciência deste Relatório de Diligência ao contribuinte, intimandoo a buscar a documentação apresentada por meio do TIF no 48. O interessado tem o prazo de 30 (trinta) dias contados a partir da ciência deste Relatório para se manifestar. Após, encaminhemse os autos novamente ao CARF/MF/DF. A Recorrente foi devidamente intimada sobre o resultado da diligência, porém, não apresentou manifestação. É o relatório. Voto Conselheiro Rogério Aparecido Gil Relator Na forma registrada na primeira oportunidade em que o caso veio a julgamento, o recurso voluntário é tempestivo e a recorrente está devidamente representada. Conheceuse do recurso. Preliminar de Nulidade A Recorrente alega que o despacho decisório que não homologou a DCOMP em questão seria nulo, por falta de fundamentação legal, bem assim pela falta de análise de DARF, DIPJ e DCTF. Verificase que, em realidade a recorrente não atendeu às intimações da DRF para a apresentação escritas contábeis, comerciais e fiscais. Limitouse a apresentar declarações acessórias, sobre as quais a DRF concluiu que não seriam suficientes para comprovar que o erro estaria na DCTF que, inicialmente, confessou débito de IRPJ e CSLL de estimativa mensal. Observase, ainda que o referido Despacho Decisório consignou os dispositivos legais e regulamentares, com base nos quais concluiu por não homologar a DCOMP em questão. Não haveria, portanto, a alegada nulidade. De qualquer forma, entendese que a conversão do julgamento inicial em diligência, concedeu à recorrente a oportunidade de demonstrar a subsistência de seu crédito relativo a pagamento indevido de IRPJ e CSLL por estimativa mensal. Nesse sentido, cabe rejeitar a preliminar de nulidade e adentrarse ao mérito para a apreciação do resultado da diligência, conforme segue. Mérito Fl. 315DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 7 6 Em conformidade com o Despacho de Diligência retro transcrito, a recorrente apresentou Livros Razão Contábil contendo Razão Analítico e Balancete Analítico, referente aos períodos de janeiro a dezembro/2001. A DRF analisou o respectivo Balancete Analítico e concluiu que não havia CSLL a pagar, referente janeiro de 2001. Certificouse, portanto, que estava correto o registro na Ficha 16 da DIPJ/2002, quanto à inexistência de imposto a pagar. No entanto, verificouse que não houve registro na Linha 38, da Ficha 17 da DIPJ, quanto ao referido valor pago indevidamente a título de estimativa mensal. Não obstante tal omissão no preenchimento da DIPJ, certificouse, também que a Recorrente não se utilizou desse pagamento nos meses subsequentes de 2001. Com relação às referidas DCTFs, a DRF verificou que, a indicada no item 1, declaração original (CSLL PA jan/2001; 1oTrim/2001), continha informação de débito de estimativa CSLL (cód. 2484). A primeira retificadora da DCTF original, deuse em 15/08/2001 (item 02 do quadro acima), antes da ciência dos Despachos Decisórios eletrônicos exarados pelo Sistema de Controle de Crédito (SCC), relativos à DComps 15767.01140.120905.1.3.046056, cuja ciência deuse em 04/04/2009. A segunda DCTF retificadora (item 03), Liberada/Recebida sem Erro, foi transmitida, em 10/03/2009, ou seja, antes da ciência do despacho decisório. Sobre as retificadoras, a DRF concluiu que, tanto na primeira quanto na segunda DCTF retificadoras, não mais havia registro sobre o referido débito de estimativa de CSLL que constava da DCTF original. Nesse sentido, confirmouse que: a) a recorrente apurou prejuízo fiscal no anocalendário de 2001, conforme balancete analítico e DIPJ 2002 (fl. 30), transmitida em 28/06/2002; b) não houve fato gerador do CSLL; e c) o pagamento do DARF de R$18.794,79, posição em 23/02/2001, constituise em pagamento indevido, passível de utilização em compensação (fl. 13). Na forma certificada pela DRF, após diligência, é devida a homologação da PER/DCOMP em questão para o reconhecimento do direito creditório da recorrente. Por todo o exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Fl. 316DF CARF MF Processo nº 15374.910486/200961 Acórdão n.º 1302002.357 S1C3T2 Fl. 8 7 Fl. 317DF CARF MF
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Numero do processo: 10925.900786/2012-31
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 20 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Sep 11 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2009
RECURSO ESPECIAL. AUSENTE A DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL E A SIMILITUDE FÁTICA. NÃO CONHECIDO.
Para que seja conhecido o recurso especial, imprescindível é a comprovação do dissenso interpretativo mediante a juntada de acórdão paradigma em que, na mesma situação fática, sobrevieram soluções jurídicas distintas, nos termos do art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - RICARF, aprovado pela Portaria nº 343/2015.
No caso dos autos, não se verifica a divergência jurisprudencial, pois há convergência de entendimentos entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas. Além disso, nos acórdãos paradigmas há substrato fático distinto daquele existente no caso em análise, razão pela qual não é possível estabelecer-se a comparação necessária para fins de comprovação do dissenso interpretativo.
Recurso Especial do Contribuinte Não Conhecido.
Numero da decisão: 9303-005.224
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. COMPROVAÇÃO. Recorrente APC DO BRASIL LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 RECURSO ESPECIAL. AUSENTE A DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL E A SIMILITUDE FÁTICA. NÃO CONHECIDO. Para que seja conhecido o recurso especial, imprescindível é a comprovação do dissenso interpretativo mediante a juntada de acórdão paradigma em que, na mesma situação fática, sobrevieram soluções jurídicas distintas, nos termos do art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria nº 343/2015. No caso dos autos, não se verifica a divergência jurisprudencial, pois há convergência de entendimentos entre os acórdãos recorrido e aqueles indicados como paradigmas. Além disso, nos acórdãos paradigmas há substrato fático distinto daquele existente no caso em análise, razão pela qual não é possível estabelecerse a comparação necessária para fins de comprovação do dissenso interpretativo. Recurso Especial do Contribuinte Não Conhecido. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 5. 90 07 86 /2 01 2- 31 Fl. 186DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte APC DO BRASIL LTDA. com fulcro nos artigos 67 e seguintes do Anexo II do então vigente Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, buscando a reforma do Acórdão nº 3802003.329 proferido pela 2ª Turma Especial da Terceira Seção de julgamento, em 22/07/2014, que negou provimento ao recurso voluntário, com ementa nos seguintes termos: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2009 PIS/COFINS. DCOMP. CRÉDITOS DECORRENTES DE DCTF NÃO RETIFICADA POR DECURSO DE PRAZO (5 ANOS). PER/DCOMP NÃO HOMOLOGADO. INADMISSIBILIDADE DA COMPENSAÇÃO EM VISTA DA NÃO DEMONSTRAÇÃO DA LIQUIDEZ E CERTEZA DO CRÉDITO ADUZIDO. A compensação, hipótese expressa de extinção do crédito tributário (art. 156 do CTN), só poderá ser autorizada se os créditos do contribuinte em relação à Fazenda Pública, vencidos ou vincendos, se revestirem dos atributos de liquidez e certeza, a teor do disposto no caput do artigo 170 do CTN. A interessada somente poderá reduzir débito declarado em DCTF se apresentar prova inequívoca da ocorrência de erro de fato no seu preenchimento. A não comprovação da certeza e da liquidez do crédito alegado impossibilita a extinção de débitos para com a Fazenda Pública mediante compensação. PIS/COFINS. DCOMP. DACON RETIFICADOR Embora o DACON seja uma fonte válida de informações para o Fisco, tomado isoladamente, ele não é prova suficiente do erro alegado, sendo incapaz de elidir o valor inicialmente declarado em DCTF. Em face da referida decisão, a Contribuinte interpôs recurso especial alegando divergência jurisprudencial quanto à obrigatoriedade de retificação da DCTF para compensação de pagamento indevido ou a maior. Para comprovar o dissenso interpretativo, colacionou os acórdãos paradigmas nºs 3302002.226 e 3102001.790. Nas razões recursais, o Sujeito Passivo sustenta, em síntese, que: (a) no ano de 2009, procedeu à revisão de seus livros de apuração do PIS e da COFINS, verificando pagamentos a maior no ano de 2006. Para aproveitar referido crédito, formalizou requerimento de compensação, procedendo à retificação dos Demonstrativos de Apuração de Contribuições Sociais DACON. No entanto, não procedeu à alteração das Declarações de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, pois transcorrido o prazo de 05 (cinco) anos, tendo requisitado a alteração de ofício; Fl. 187DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 4 3 (b) o acórdão recorrido reputa imprescindível a retificação da DCTF para análise do pedido de compensação, bem como entende que no caso dos autos houve omissão da Contribuinte na apresentação de provas demonstrando o erro nas informações prestadas na DCTF, sendo o ônus de prova quanto a tal fato inteiramente do Sujeito Passivo; (c) quanto à necessidade de retificação na DCTF para homologação do pedido de compensação, não há óbice legal à apuração do crédito do Contribuinte, mesmo que a DCTF retificadora não tenha sido transmitida e/ou seja adotada a providência após o despacho decisório; (d) o entendimento da decisão recorrida privilegia a forma em detrimento do conteúdo, objetivo contrário ao do processo administrativo e que viola o princípio do formalismo moderado insculpido no art. 2º, §único, inciso IX, da Lei nº 9.784/99; (e) no que tange à comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário pretendido restituir pela Contribuinte, aduz que, diversamente do processo judicial, na esfera do contencioso administrativo federal, a prova, em princípio, é de iniciativa do julgador, consoante art. 29 da Lei nº 9.784/99. Assim, a Contribuinte juntou aos autos os documentos que considerava hábeis para comprovar a certeza e liquidez do indébito tributário; nesse caso, entendendo o órgão julgador serem os mesmos insuficientes, providência que se impunha era a intimação da parte para apresentar outros documentos, de modo a apurar o crédito em discussão, e não simplesmente negar o pedido de compensação; (f) por fim, requer o provimento do recurso especial, determinandose o retorno dos autos à origem para apuração da liquidez e certeza do crédito do Contribuinte. Foi admitido o recurso especial do Sujeito Passivo por meio do despacho S/Nº, de 29 de junho de 2015, proferido pelo ilustre Presidente da 2ª Câmara da Terceira Seção de Julgamento em exercício à época, por entender comprovada a divergência jurisprudencial com relação à possibilidade de homologação do pedido de compensação sem a prévia retificação da DCTF e de o órgão julgador solicitar outros documentos que entendia necessários para comprovar a certeza e liquidez do crédito tributário. A Fazenda Nacional apresentou contrarrazões postulando, preliminarmente, o não conhecimento do recurso especial e, no mérito, a sua negativa de provimento. É o Relatório. Fl. 188DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 5 4 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.213, de 20/06/2017, proferido no julgamento do processo 10925.900311/201244, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.213): "Admissibilidade O recurso especial de divergência interposto pela Contribuinte é tempestivo, restando analisarse o atendimento dos demais pressupostos de admissibilidade constantes no art. 67 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015. O acórdão recorrido negou provimento ao recurso voluntário com base nos seguintes fundamentos: (a) a Contribuinte não se desincumbiu do ônus probatório para demonstrar a certeza e liquidez do indébito tributário, pois ausente a comprovação de erro ou pagamento a maior que teriam originado o indébito pretendido compensar; (b) embora não tenha transmitido a DCTF retificadora, por força do princípio da verdade material, a empresa teria direito à compensação se demonstrados os atributos de certeza e liquidez do crédito tributário, não tendo se limitado a indeferir o pedido tão somente pela inexistência da DCTF retificadora. Para elucidar a assertiva, segue a transcrição de trechos do voto proferido pelo Colegiado a quo para manter o indeferimento do pedido de compensação, in verbis: [...] Ocorre que, como já assentado pela autoridade julgadora a quo, insatisfeito, o contribuinte instaurou o presente processo com o fundamento de que o valor informado por ele em DCTF é maior do que o valor devido. Aponta a origem do erro, que como já frisado, seria a revisão de seus débitos fiscais do PIS e da COFINS no anocalendário de 2006. Porém não demonstra a sua existência, ou seja, a forma como isso foi apurado. Apenas noticia que o valor correto é aquele constante no DACON retificador transmitido em 2009 (fls. 32/51) do respectivo período e não junta cópia de documentos aos autos atestando com isso comprovar o pagamento a maior, a não ser a cópia do despacho decisório, do DARF pago, do Dacon retificador e a DCTF. (fls. 30/94). Afirma em seu recurso que “ (...) pois a certeza e a liquidez estão devidamente demonstrados através do DACON que demonstra que nada tem a pagar das guias pagas indevidamente a maior” pois com isso considera ser suficientes elementos para demonstrar os créditos apurados. O DACON trazido aos autos é retificador e verificase que foi entregue antes da ciência do despacho decisório. Fl. 189DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 6 5 Muito embora o DACON seja uma fonte válida de informações para o Fisco, tomado isoladamente, ele não é prova suficiente do erro alegado, sendo incapaz de elidir o valor inicialmente declarado em DCTF. Quando muito, a incoerência do contribuinte macula de dúvida as informações por ele prestadas, o que afasta a certeza do crédito pleiteado. Verificase, ainda, que o contribuinte tentou retificar a supracitada DCTF para adequála ao pedido em tela e aos dados do Dacon. Contudo, não obteve sucesso (a transmissão não foi concluída), uma vez que havia se esgotado o prazo (05 anos) para que a recorrente tivesse o direito de apresentar ou retificar a DCTF (fl. 48). Ressaltamos que à época vigorava a IN RFB no 1.110/2010, cujo artigo 9, § 1º, embora ressaltasse, quanto à DCTF retificadora, sua condição de “(...) mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente (...)”, prescrevia que a apresentação de retificação, dentre outras hipóteses, que tenha sido objeto de exame em procedimento de fiscalização, não produziria qualquer efeito (art. 9, § 2º, I, “c”). A mesma instrução normativa exigia também que a retificação da DCTF viesse acompanhada de retificação da DIPJ e do DACON (este efetivado) do período, conforme artigo 9, § 6º, da citada Instrução Normativa. De fato, detectado qualquer erro no preenchimento da referida declaração, o sujeito passivo tem a possibilidade de retificar sua DCTF antes que seja iniciado qualquer procedimento de fiscalização ou que decorra o prazo para a homologação do “lançamento” por ela praticado. Sendo a correção destinada a reduzir ou excluir tributo, a retificação somente será admitida se houver comprovação do erro e realizada antes da notificação do lançamento, conforme preceituado no art. 147, §1º, do Código Tributário Nacional – CTN: Art. 147 O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. §1º A retificação da declaração por iniciativa da própria declarante, quando vise a reduzir ou a excluir tributo, só é admissível mediante comprovação do erro em que se funde, e antes de notificado o lançamento (grifo nosso). Resta claro, portanto, que acarretando a redução de tributo, a admissão da retificação é condicionada à comprovação do erro cometido, cujo ônus incumbe ao interessado na aludida redução (o contribuinte que promove a retificação), sendo, no entanto, excepcionalmente admitida sua retificação após o início do procedimento revisional em privilégio ao princípio da verdade material, conforme decidido já reiteradamente por esta Eg. Turma Especial, em consonância com todo o CARF. Nesse sentido, imprescindível analisar se o contribuinte recompôs nos autos o crédito alegado, a fim de se confirmar a materialidade do crédito que ele alega ser habilitado para compensação. Visando verificar o seu direito, ao apreciar o material probante juntado pelo sujeito passivo, notase que o Recorrente, à época de sua manifestação de inconformidade, não apresentou documentação hábil a comprovar a legitimidade dos dados declarados na DCTF retificadora. Embora tenha juntado naquela Fl. 190DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 7 6 oportunidade documentos intitulados “Cópia do Despacho Decisório, DARF pago, Dacon Retificador e DCTF (retificadora não processada)”. Todavia, neste recurso nenhum novo documento foi juntado ao processo, ou seja, não foi anexado aos autos documentos comprobatórios, tais como demonstrativos de cálculos, a DIPJ retificada, cópia de Livros Fiscais, notas fiscais e dos documentos contábeis como os Livros Diário e Razão, balancete, etc). Ora, não pode ser atribuída ao julgador – até pelo momento processual, em que apenas excepcionalmente seria aceita a juntada de prova, por haver comprovação de plano da materialidade do crédito – a tarefa de conferir e comprovar à diferença desses montantes para fins da recomposição do faturamento do Recorrente. Ou seja, a recorrente não apresentou nenhuma explicação a respeito do suposto erro incorrido para justificar a recomposição de seu faturamento. Vêse que o contribuinte teve a oportunidade de juntar os documentos que julgasse relevantes e não o fez de forma satisfatória. Dessa forma, fica afastada a possibilidade de utilização da referida DCTF (retificadora) como prova no presente processo. Insta salientar que a simples tentativa de transmissão de declaração retificadora com redução do valor do débito anteriormente confessado, não é documentação hábil a legitimar a compensação efetuada, sendo necessária a juntada de prova inquestionável de que houve erro no preenchimento da DCTF e de que o valor do PIS e da COFINS era efetivamente devido. Tal se dá pelo simples fato de que o processo administrativo de revisão da compensação não faz – como não o poderia – às vezes de mero retificador de DCTF após o prazo ordinário. A retificação da DCTF pode até ser acatada pelo revisor; todavia, para que tal aconteça, é cabal que o contribuinte demonstre que faz jus a essa excepcionalidade. Vale frisar, sem embargo, que no que tange ao instituto da compensação é ônus do sujeito passivo demonstrar, mediante a apresentação de provas hábeis e idôneas, a composição e a existência do crédito pleiteado junto à Fazenda Nacional, para que sejam aferidas sua liquidez e certeza, na forma do art. 170 do CTN. Salientamos que o ônus da prova do direito é da Recorrente, a teor do disposto no artigo 333, inciso I, do CPC. Vêse que o contribuinte teve a oportunidade de juntar os documentos que julgasse relevantes e não o fez de forma satisfatória. Neste espeque, repisese que a Recorrente não acostou aos autos documentação suficiente para comprovação de que houve erro na composição da base de cálculo do PIS e da COFINS declarado na DCTF originária. Por consequência, tampouco restou comprovado o direito creditório pleiteado, posto que supostamente decorrente do erro cometido na apuração do tributo, que reduziu sua base de cálculo, nos termos da DCTF que a recorrente pretende retificar. Assim sendo, não há fundamentos para que se aceite agora a retificação extemporânea da DCTF e a homologação da compensação promovida pela Recorrente. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 8 7 Logo, tendo disposto de todas as oportunidades para comprovar seu direito creditório, e não o fazendo no momento devido, limitandose a Recorrente em trazer arguições perfunctórias e destituídas de validade jurídica para fins de apuração da liquidez e certeza do direito creditório pleiteado, e, por conseguinte, da compensação declarada, deve ser negado provimento ao Recurso Voluntário ora analisado. [...] (grifouse) Depreendese da análise do julgado, portanto, que o indeferimento do pedido de compensação não se embasou exclusivamente na ausência de transmissão de DCTF retificadora, mas também por não ter o Contribuinte provado a certeza e liquidez do indébito tributário pretendido restituir. Inclusive, destacou o Colegiado a quo ser possível a aceitação da compensação independente da retificação da DCTF, em hipóteses excepcionais, quando devidamente comprovado o crédito alegado, em vista do princípio da verdade material. Nessa esteira, o confronto do acórdão recorrido com os acórdãos paradigmas revela a inexistência de dissenso interpretativo, requisito indispensável à interposição do recurso especial de divergência. Verificase existir, entre os julgados, convergência de entendimentos, na medida em que os paradigmas apresentados compartilham do entendimento explicitado na decisão recorrida no sentido de ser imprescindível, para ser deferido o pedido de compensação, a comprovação da certeza e liquidez do crédito tributário, devendo ser apreciadas as provas trazidas aos autos e, se necessário, solicitadas outras. Além disso, em todos os julgados, paradigmas e recorrido, foi consignado que a DCTF e a DACON, retificadoras ou originais, embora sejam fontes de informação válida para o Fisco, não são documentos hábeis para comprovar por si só a certeza e liquidez do indébito pretendido ressarcir. Para elucidar a assertiva, seguem transcritas as ementas dos acórdãos paradigmas: Acórdão nº 3302002.226 Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Anocalendário: 2007 REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF E DACON. PROVA DO INDÉBITO. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF ou da DACON, que contenham erro material. A DCTF (retificadora ou original) e a DACON não fazem prova de liquidez e certeza do crédito a restituir. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, devese apreciar as provas trazidas pelo contribuinte e solicitar outras sempre que necessário. Recurso Voluntário Provido em Parte. Acórdão nº 3102001.790 CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Data do Fato Gerador: 30/11/2003 COMPENSAÇÃO DE PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. EXIGÊNCIA DE CRÉDITO LIQUÍDO E CERTO. NECESSIDADE DE APRECIAÇÃO DA PROVA DOCUMENTAL INDEPENDENTE DA RETIFICAÇÃO DA DCTF. O crédito decorrente de pagamento indevido ou a maior somente pode ser objeto de indébito tributário, quando comprovado a sua certeza e liquidez. Caso exista a apresentação de documentos que possam comprovar o direito creditório, estes Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 9 8 deverão ser analisados pelas instâncias julgadoras, independente da existência de retificação da DCTF. Recurso Voluntário Provido em Parte Inexistente, portanto, a divergência jurisprudencial a justificar a interposição e o prosseguimento do recurso especial. Além disso, conforme se verifica dos acórdãos paradigmas, naqueles autos houve a juntada de documentação comprobatória da certeza e liquidez do crédito tributário pelo contribuinte, a qual, entretanto, não foi analisada pela DRJ no julgamento das manifestações de inconformidade, tendo se embasado unicamente nos dados constantes em DCTF. Também por esta razão é que no acórdão paradigma nº 3302002.226 foi consignado competir ao julgador analisar a prova trazida aos autos pelo Sujeito Passivo e, se entender necessário outros elementos para o seu convencimento, intimálo a apresentar no processo. Seguem excertos dos acórdãos paradigmas para ilustrar a assertiva: Acórdão nº 3302002.226 [...] Considerado cientificado dessa decisão em 22/10/2009, bem como da cobrança dos débitos confessados na Dcomp, o sujeito passivo apresentou em 23/11/2009, manifestação de inconformidade à fl. 2 a 6, acrescida de documentação anexa. A contribuinte alega que houve inúmeros erros na consolidação dos dados da apuração da contribuição, o que teria originado o crédito pleiteado. Retificou a Dacon do período para demonstrar o valor que seria realmente devido. Anexa cópias das declarações retificadas. Ao final, requer: a) Caso não haja satisfeita com as provas juntadas a esta, solicitar procedimento fiscalizatório para confirmalas, voltando a vosso crivo com o objetivo de confirmar as compensações e cassando o despacho decisório; b) Ou satisfeito com os documentos ora anexados confirmar as compensações cassando o despacho decisório. [...] Ora, como tenho me manifestado em diversas ocasiões, no âmbito do processo administrativo impera o princípio da verdade material, que obriga a autoridade administrativa a analisar exaustivamente os fatos alegados pelos contribuintes, solicitando inclusive diligencias e apresentação de novas provas das alegações existentes no processo administrativo fiscal. A existência de informação na DCTF ou na DACON, em nada altera a existência ou não do pagamento a maior, ainda mais quando se tratarem a DCTF e a DACON, de instrumentos de controle da própria Receita Federal. [...] Acórdão nº 3102001.790 [...] Cientificada da decisão, a empresa interpôs recurso voluntário, repisando as alegações apresentadas na impugnação, reafirmando que não utilizou o seu direito de crédito quando da apuração do PIS, estando correto os valores informados na declaração de compensação, anexando ao recurso, cópias do livro Razão, Livro Diário e planilha de cálculo. Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10925.900786/201231 Acórdão n.º 9303005.224 CSRFT3 Fl. 10 9 [...] Ressalto que a apresentação genérica de argumentos, alegando simplesmente ilegalidade no procedimento fiscal, sem apontar fatos concretos ou quaisquer provas que indiquem erro na decisão prolatada pelo Fisco, não pode prosperar, visto que, a produção de provas é obrigação de quem contesta e não da autoridade julgadora. O fato que estamos discutindo na presente lide é se foram apresentadas provas e se estas são suficientes para a comprovação das alegações constantes do Recurso. [...] Diante do exposto, entendo que o mérito do direito creditório deva ser analisado e tendo em vista que a autoridade de piso não se manifestou sobre esta matéria, voto no sentido de determinar o retorno dos autos a autoridade a quo para que seja realizado novo julgamento apreciando o mérito do direito creditório pleiteado pela Recorrente a luz dos documentos apresentados. No caso dos autos, por sua vez, a Recorrente não logrou êxito em demonstrar, mediante a devida produção de provas nas oportunidades que teve para se manifestar no processo, a certeza e liquidez do indébito tributário, o que resultou no indeferimento de sua pretensão pelos julgadores. Portanto, não foi apenas o fato de não ter apresentado a DCTF retificadora que fulminou a sua pretensão, mas também não ter se desincumbido da apresentação de provas, as quais seriam consideradas à luz do princípio da verdade material, norteadora do processo administrativo fiscal. Assim, não merece ter prosseguimento o recurso especial da Contribuinte, tendo em vista: a ausência de divergência jurisprudencial e a inexistência de similitude fática entre os julgados paradigmas e o acórdão recorrido. Diante do exposto, não se conhece do recurso especial da Contribuinte. " Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, não conheço do recurso especial da Contribuinte. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10730.720228/2010-17
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 09 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR
Exercício: 2006
ITR. ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E RESERVA LEGAL. COMPROVAÇÃO.
Embora o §7º, do artigo 10, da Lei n. 9.363/96, dispense o contribuinte da comprovação da referida área quando da entrega da declaração do ITR, não o dispensa de, uma vez sob procedimento administrativo de fiscalização, comprovar as informações contidas em sua declaração por meio dos documentos hábeis previstos na legislação de regência da matéria.
Numero da decisão: 2202-004.147
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente.
(Assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Rosy Adriane da Silva Dias, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Waltir de Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E RESERVA LEGAL. COMPROVAÇÃO. Embora o §7º, do artigo 10, da Lei n. 9.363/96, dispense o contribuinte da comprovação da referida área quando da entrega da declaração do ITR, não o dispensa de, uma vez sob procedimento administrativo de fiscalização, comprovar as informações contidas em sua declaração por meio dos documentos hábeis previstos na legislação de regência da matéria. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Rosy Adriane da Silva Dias, Fábia Marcília Ferreira Campelo, Waltir de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 73 0. 72 02 28 /2 01 0- 17 Fl. 158DF CARF MF 2 Carvalho, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Virgílio Cansino Gil. Relatório Por bem descrever os fatos, adoto o Relatório da Resolução nº 2101.000.164: O contribuinte apresentou recurso voluntário contra o acórdão 0349.004 da 1a. Turma da DRJ/BSB que manteve o auto de infração de ITR para o exercício 2006, relativamente ao imóvel FAZENDA BRASIL (NIRF 3.331.8727), com área total declarada de 1936,0 ha., localizada no município de Cachoeiras de MacacuRJ O referido acórdão manteve o crédito tributário tendo em vista que o contribuinte não apresentou documentação comprobatória das alegações relativas à reserva legal e área de preservação permanente. No recurso voluntário repisa os mesmos argumentos apresentados na impugnação sem, contudo, trazer documentação comprobatória aos autos. A área declarada para o NIRF 3.331.8728, denominada Fazenda Brasil, tem 1.936 ha. sendo 1.935 de área de preservação permanente, pois está inteiramente dentro do Parque Estadual dos Três Picos, conforme Decreto 31343/2006. O restante, 1 ha. é de reserva legal. Informa que declarou a ADA para o exercício 2006 em nome da pessoa física cuja área, está localizada totalmente dentro do Parque Estadual dos Três Picos e, por isso, isenta do ITR/2006. O referido ADA para o exercício 2006 não consta dos autos do processo. No processo foram anexados os documentos a seguir. ADA exercício 2008 (fls. 44) para o imóvel Fazenda Brasil, protocolo do IBAMA n. 10833330009222, transmitido em 01/08/2008; Este imóvel foi declarado com 19.360,00 ha, definidos como reserva legal. ADA exercício 2009 (fls. 47), número do recibo 10933330244480, transmitido em 28/12/2009, imóvel registrado na RFB sob n. 33318727. Não foi declarada a área, nem a localização do imóvel. ADA exercício 2010 (fls. 46) –número do recibo 11033330504170, imóvel registrado na RFB sob n. 33318727. O imóvel foi declarado com 1936ha de área de preservação permanente e 1 há com mineração. Também neste documento foi Fl. 159DF CARF MF Processo nº 10730.720228/201017 Acórdão n.º 2202004.147 S2C2T2 Fl. 159 3 informada a localização geográfica da sede, sendo Latitude 22o26’ 57 8’ ‘S, e Longitude 42o 36’ 45,6 ‘ W. Cópias de diário oficial do Estado Rio de Janeiro que cria o Parque Estadual dos Três picos e do decreto estadual 31343/2002. Laudo agronômico para fins de recadastramento de propriedade rural junto ao INCRA (fls. 33). Cadastro técnico federal– certificado de regularidade – IBAMA – permitindo o uso de Recursos Naturais para atividade agrícola e pecuária.(fls. 45) Declaração da Prefeitura Municipal de Cachoeiras de Macacu de que as fazendas Reunidas Joaquim e Piedade e Fazenda Brasil encontrase em área de preservação permanente, datado de 2003.(fls. 32) Apesar de ter sido tratado no acórdão recorrido, o contribuinte insurgese novamente contra a aplicação da multa de 75%, por ser improcedente o lançamento. Menciona os dispositivos legais que garantiriam a isenção do ITR na propriedade sob análise, a saber, art. 104 da lei 8171/91, par. 1o. art. 10 da lei 9393/96, decreto 4382/02. Argumenta com decisões do Conselho de Contribuintes sobre a desnecessidade do ADA para o reconhecimento da exoneração. Cita também decisões das Cortes superiores que corroborariam o entendimento da desnecessidade de ADA para isenção de ITR nas áreas de preservação permanente. Embasa o pedido no Decreto Estadual do Estado do Rio de Janeiro n. 31343/2002 que criou o Parque Estadual dos Três Picos. Solicita que seja declarado insubsistente o crédito tributário e que seja cancelada a Notificação de Lançamento n. 07102/00006/2010, tendo em vista que a área declarada em sua declaração de ITR é de preservação permanente, sendo, portanto, isenta to imposto. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento de Brasília (DF) negou provimento à impugnação em decisão cuja ementa é a seguinte (fls. 64 eprocesso): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2006 DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE, DE RESERVA LEGAL E DE INTERESSE ECOLÓGICO. Essas áreas ambientais, para serem excluídas do ITR, devem ser reconhecidas como de interesse ambiental pelo IBAMA ou ter requerido em tempo hábil o respectivo ADA, além da averbação Fl. 160DF CARF MF 4 tempestiva da área de reserva legal e do ato específico emitido por órgão competente, para a área localizada dentro de Parque Estadual. DO VTN ARBITRADO MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considerase matéria não impugnada o arbitramento do Valor da Terra Nua VTN para o ITR/2005, efetuado com base no SIPT, por não ter sido expressamente contestado nos autos, nos termos da legislação processual vigente. DA MULTA DE OFÍCIO LANÇADA. Apurado imposto suplementar em procedimento de fiscalização, no caso de informação incorreta na declaração do ITR ou de subavaliação do VTN, cabe exigilo juntamente com a multa aplicada aos demais tributos. Intimado da referida decisão (AR fls. 75), o contribuinte apresentou o Recurso Voluntário de fls. 78/85, no qual reiterou as alegações suscitadas quando da Impugnação. Em 16 de julho de 2004, a 1ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara da 2ª Seção, emitiu a Resolução 2101000.164, por meio da qual converteu o julgamento em diligência, nos termos do voto do Conselheiro Eduardo Souza Leão que assim dispôs: Nesse sentido, para evitar qualquer injustiça, em respeito ao princípio da verdade material, que predomina no processo administrativo, onde se busca descobrir a ocorrência ou não do fato gerador, assim como a real base de cálculo do imposto, pois o que está em jogo é a legitimidade da tributação, voto no sentido de converter o julgado em diligência a ser realizada pela Repartição de origem, para que: sejam intimados os Cartórios de Registro de Imóvel porventura existentes no Município de Cachoeiras de Macacu, no Estado do Rio de Janeiro, para que informem, por meio de certidão, todos os registros ocorridos relativamente ao imóvel denominado "FAZENDA BRASIL", com NIRF nº 3.331.8727, em especial quanto à sua localização no Parque Estadual dos Três Picos; seja oficiado o INCRA, por meio da sua Superintendência Regional no Estado do Rio de Janeiro, para que informe os dados contidos referente ao imóvel denominado “FAZENDA BRASIL”, com NIRF nº 3.331.8727, em especial quanto à sua localização no Parque Estadual dos Três Picos; seja oficiado o IBAMA, por meio da sua Superintendência no Estado do Rio de Janeiro, para que informe os dados contidos referente ao imóvel denominado “FAZENDA BRASIL”, com NIRF nº 3.331.8727, relativo à sua localização no Parque Estadual dos Três Picos, quanto à apresentação de Ato Declaratório Ambiental no ano de 2005, e em especial sobre as áreas identificadas como de preservação permanente e de reserva legal, existentes no referido imóvel. Em resposta o Cartório do 1º Ofício de Cachoeiras de Macau RJ enviou a Certidão de fls. 135/136, na qual não consta averbação de qualquer área de preservação Fl. 161DF CARF MF Processo nº 10730.720228/201017 Acórdão n.º 2202004.147 S2C2T2 Fl. 160 5 permanente. O INCRA informou, às fls. 150, que "não consta cadastrado no Sistema Nacional de Cadastro de Imóveis Rurais (SNCR) o nome do imóvel FAZENDA REUNIDA SÃO JOÃO JOAQUIM E PIDADE, localizada no município de Cachoeiras de Macacú. Por fim, o IBAMA, embora intimado, mais de uma vez, não apresentou resposta. O contribuinte foi intimado (AR fls. 152) para se manifestar sobre o resultado das diligência por (Intimação nº 382/2015) e não apresentou resposta. É relatório. Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual, dele conheço Conforme mencionado no relatório, a matéria objeto do presente recurso é de natureza eminentemente fática. Tratase da comprovação da área da preservação permanente declarada pelo contribuinte em sua Declaração de ITR. De acordo com a declaração de fls. 34, emitida pela Secretaria Municipal de Turismo, Meio Ambiente e Urbanismo do Município de Cachoeiras de Macacu, é possível constatar que a Fazenda Reunidas São Joaquim e Piedade e Fazenda Brasil encontrase em área de preservação permanente. Tal documento, todavia, não especifica qual a área da Fazenda está sujeita à preservação permanente. Sendo assim, pelo teor do mencionado documento, não é possível verificar se a área sujeita à preservação seria a área total do imóvel ou mesmo a área declarada pelo Recorrente em sua DITR. Da mesma forma, nenhum dos outros documentos trazidos pelo Recorrente demonstra que a área de preservação permanente coincide com aquela constante da sua declaração. Exatamente por isso a 1ª Turma Ordinária, da 1ª Câmara da 2ª Seção entendeu por bem baixar o processo em diligência para que a mencionada prova fosse corroborada pelos Cartórios de Registro de Imóveis, INCRA e IBAMA. Todavia, da certidão emitida pelo cartório não consta qualquer averbação no imóvel a título de preservação permanente ou reserva legal. O INCRA, por sua vez, declarou que o imóvel em questão não consta de seus cadastrados. E, por fim, o IBAMA, embora intimado, mais de uma vez, não atendeu a diligência. É importante ressaltar que o Recorrente foi intimado da decisão do CARF que converteu o processo em diligência, bem como do resultado da diligência. Todavia, não apresentou qualquer manifestação ou prova no sentido de esclarecer os pontos suscitados na diligência. Fl. 162DF CARF MF 6 Embora o §7º, do artigo 10, da Lei n. 9.363/96, dispense o contribuinte da comprovação da referida área quando da entrega da declaração do ITR, não o dispensa de, uma vez sob procedimento administrativo de fiscalização, comprovar as informações contidas em sua declaração por meio dos documentos hábeis previstos na legislação de regência da matéria. Enfim, a dispensa de prévia comprovação não pode ser entendida para afastar a necessidade de o contribuinte, quando assim exigido pela autoridade fiscal, comprovar o cumprimento de exigências legais previstas para justificar as áreas ambientais que se pretende para fins de exclusão do cálculo do ITR, previstas na lei ambiental (Código Florestal) e legislação tributária (Lei 9.393/96 e Decreto nº 4.382/2002 – RITR). Em face do exposto, entendo que não restou suficientemente comprovada a existência das áreas de preservação permanente e reserva legal objeto da glosa, motivo pelo qual, nego provimento ao recurso voluntário. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 163DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10980.937856/2011-61
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 02 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Data do Fato Gerador: 12/04/2001
BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE DO ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. TRIBUTAÇÃO DA RECEITA FINANCEIRA. IMPOSSIBILIDADE.
Uma vez declarado inconstitucional o alargamento da base de cálculo do PIS e da Cofins, por decisão definitiva do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em regime de repercussão geral, o valor da receita financeira não integra a base de cálculo da contribuição, por não integrar o faturamento da pessoa jurídica não financeira.
PAGAMENTO INDEVIDO. NÃO COMPROVADO O RECEBIMENTO DE RECEITA FINANCEIRA. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. IMPOSSIBILIDADE.
Não é passível de reconhecimento o direito creditório se não provado, com documento hábil e idôneo, o recebimento da receita financeira sobre a qual foi apurada a parcela do PIS e da Cofins alegada como indevida.
COMPENSAÇÃO. CRÉDITO NÃO COMPROVADO. HOMOLOGAÇÃO DO PROCEDIMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
Se não comprovadas a certeza e liquidez do crédito utilizado no procedimento compensatório mantém-se a não homologação da compensação declarada por ausência de crédito.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3302-004.487
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente e Relator
Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus.
Nome do relator: PAULO GUILHERME DEROULEDE
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conteudo_txt : Metadados => date: 2017-09-21T18:32:14Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2017-09-21T18:32:14Z; Last-Modified: 2017-09-21T18:32:14Z; dcterms:modified: 2017-09-21T18:32:14Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2017-09-21T18:32:14Z; pdf:docinfo:creator_tool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2017-09-21T18:32:14Z; meta:save-date: 2017-09-21T18:32:14Z; pdf:encrypted: true; modified: 2017-09-21T18:32:14Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2017-09-21T18:32:14Z; created: 2017-09-21T18:32:14Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; Creation-Date: 2017-09-21T18:32:14Z; pdf:charsPerPage: 1711; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2017-09-21T18:32:14Z | Conteúdo => S3C3T2 Fl. 2 1 1 S3C3T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10980.937856/201161 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3302004.487 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 25 de julho de 2017 Matéria PIS. COFINS. COMPENSAÇÃO. ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. PROVA DO DIREITO CREDITÓRIO. Recorrente P.G.SCHMIDT & CIA. LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Data do Fato Gerador: 12/04/2001 BASE DE CÁLCULO. FATURAMENTO. INCONSTITUCIONALIDADE DO ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. TRIBUTAÇÃO DA RECEITA FINANCEIRA. IMPOSSIBILIDADE. Uma vez declarado inconstitucional o alargamento da base de cálculo do PIS e da Cofins, por decisão definitiva do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em regime de repercussão geral, o valor da receita financeira não integra a base de cálculo da contribuição, por não integrar o faturamento da pessoa jurídica não financeira. PAGAMENTO INDEVIDO. NÃO COMPROVADO O RECEBIMENTO DE RECEITA FINANCEIRA. RECONHECIMENTO DO DIREITO CREDITÓRIO. IMPOSSIBILIDADE. Não é passível de reconhecimento o direito creditório se não provado, com documento hábil e idôneo, o recebimento da receita financeira sobre a qual foi apurada a parcela do PIS e da Cofins alegada como indevida. COMPENSAÇÃO. CRÉDITO NÃO COMPROVADO. HOMOLOGAÇÃO DO PROCEDIMENTO. IMPOSSIBILIDADE. Se não comprovadas a certeza e liquidez do crédito utilizado no procedimento compensatório mantémse a não homologação da compensação declarada por ausência de crédito. Recurso Voluntário Negado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 98 0. 93 78 56 /2 01 1- 61 Fl. 46DF CARF MF Processo nº 10980.937856/201161 Acórdão n.º 3302004.487 S3C3T2 Fl. 3 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente e Relator Participaram do julgamento os Conselheiros Paulo Guilherme Déroulède, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, Walker Araujo, José Fernandes do Nascimento, Lenisa Rodrigues Prado, Charles Pereira Nunes, Sarah Maria Linhares de Araújo Paes de Souza e José Renato Pereira de Deus. Relatório Tratase de compensação, formalizada por meio de Declaração de Compensação (DComp) em que a contribuinte informou a utilização de indébito de Cofins cumulativa (código 2172), para adimplir débitos de tributos diversos. Foi emitido despacho decisório de não homologação da compensação, seja em razão de o Darf discriminado na DComp encontrarse totalmente utilizado para quitação de débito da contribuinte, não restando saldo de crédito disponível para a compensação dos débitos informados na citada DComp ou não ter sido localizado nos sistemas da Receita Federal. Em sede de manifestação de inconformidade, a recorrente alegou que o crédito utilizado era decorrente da ampliação da base cálculo, determinada pelo § 1º do art. 3º da Lei 9.718/1998, que fora declarada inconstitucional pelo STF no julgamento do RE 357.950; que aproveitou o referido crédito nos termos do art. 74 da Lei 9.430/1996; que apresentou demonstrativo da origem do crédito e afirmou que estava amparada pelo art. 170 do CTN; citou e transcreveu jurisprudência administrativa e judicial; ressaltou o contido no art. 165 do CTN; insistiu no direito à restituição; e, ao final, pediu a homologação da compensação. Sobreveio a decisão de primeira instância em que, por unanimidade de votos, a manifestação de inconformidade foi julgada improcedente e mantida a não homologação da compensação declarada, com base nos fundamentos expressos no Acórdão 06046.180. A contribuinte foi cientificada da referida decisão e apresentou, tempestivamente, o recurso voluntário constante nos autos, em que reafirmou as razões de defesa aduzidas na manifestação de inconformidade. É o relatório. Voto Conselheiro Paulo Guilherme Déroulède, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3302004.481, de Fl. 47DF CARF MF Processo nº 10980.937856/201161 Acórdão n.º 3302004.487 S3C3T2 Fl. 4 3 25 de julho de 2017, proferido no julgamento do processo 10980.924260/200986, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3302004.481): "O recurso é tempestivo, trata de matéria da competência deste Colegiado e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deve ser conhecido. A controvérsia gira em torno da não homologação da compensação declarada, por inexistência do direito creditório informado. De fato, noticia o Despacho Decisório de fls. 2/4, que, embora localizado nos sistema da RFB, o Darf informado pela recorrente na Declaração de Compensação (DComp) de fls. 5/8, o pagamento nele discriminado fora integralmente utilizado para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para compensação em apreço. Por meio da manifestação de inconformidade de fls. 9/14, a recorrente alegou que a parcela do pagamento utilizado na compensação correspondia a parcela do pagamento da Cofins do mês de fevereiro de 2001, calculada sobre o valor das receitas financeiras recebidas no mês, incluído indevidamente na base de cálculo da contribuição, em razão da decisão do STF que declarara inconstitucional o art. 3º, § 1º, da Lei 9.718/1998. A questão jurídica, atinente ao ilegal alargamento da base de cálculo, já se encontra superada no âmbito deste Conselho desde o trânsito em julgado da decisão plenária do STF, proferida no âmbito do julgamento da questão de ordem suscitada no RE nº 585.235/RG, realizado sob o regime de repercussão geral, estabelecido no art. 543B do CPC, cujo enunciado da ementa restou a assim redigido, in verbis: EMENTA: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.9.2006; REs nos 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006) Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (RE 585235, Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, julgado em 10/09/2008, DJe227 28/11/2008) – Grifos não originais. Com o trânsito de julgado da referida decisão, em cumprimento ao disposto no art. 62, § 2º, da Portaria MF 343/2015, que aprovou Regimento Interno deste Conselho (RICARF/2015), os fundamentos do referido julgado são de adoção obrigatória por todos membros deste Conselho, logo, aqui adotase o teor da respectiva decisão, para afastar o alargamento da base de cálculo das referidas contribuições, previsto no art. 3º, § 1º, da Lei 9.718/1998. Entretanto, embora reconhecido como indevido o alargamento da base de cálculo das referidas contribuições, o que, induvidosamente, inclui as receitas financeiras auferidas no período de apuração em referência, a Fl. 48DF CARF MF Processo nº 10980.937856/201161 Acórdão n.º 3302004.487 S3C3T2 Fl. 5 4 recorrente não dignou trazer aos autos prova de que de que auferira o valor da receita financeira alegado. De fato, na fase de manifestação de inconformidade, a recorrente não apresentou nenhum elemento probatório que confirmasse o recebimento das referidas receitas financeiras e tampouco que tenha incluído o correspondente valor na base de cálculo da contribuição recolhida no mês. Somente com a apresentação da peça recursal em apreço, a recorrente trouxe à colação dos autos o demonstrativo de fls. 44/45, em que discriminado os valores das receitas financeiras, auferidas nos meses de fevereiro de 2001 a dezembro de 2003, bem como os supostos valores originais e atualizados da Cofins indevida, apurados nos citados meses. E com vista à comprovação do valor da receita financeira auferida no mencionado mês, em vez de apresentar cópia das folhas do livro contábil obrigatório (o livro diário), devidamente autenticado no Registro Público de Empresas Mercantis, acompanhado das cópias dos extratos bancários das correspondentes operações financeiras, conforme exige os arts. 1.179 a 1811 da Lei 10.406/2002 (Código Civil de 2002), a recorrente limitouse a apresentar uma folha com os valores de suposta Demonstração de Resultado do mês de fevereiro. A copia do suposto documento não foi extraída do livro Diário e tampouco assinado por profissional da área contábil legalmente habilitado e pelo representante da recorrente, conforme exige o art. 1.184 do Código Civil de 2002, a seguir transcrito: Art. 1.184. No Diário serão lançadas, com individuação, clareza e caracterização do documento respectivo, dia a dia, por escrita direta ou reprodução, todas as operações relativas ao exercício da empresa. § 1º Admitese a escrituração resumida do Diário, com totais que não excedam o período de trinta dias, relativamente a contas cujas operações sejam numerosas ou realizadas fora da sede do estabelecimento, desde que utilizados livros auxiliares regularmente autenticados, para registro individualizado, e conservados os documentos que permitam a sua perfeita verificação. § 2º Serão lançados no Diário o balanço patrimonial e o de resultado econômico, devendo ambos ser assinados por técnico 1 "Art. 1.179. O empresário e a sociedade empresária são obrigados a seguir um sistema de contabilidade, mecanizado ou não, com base na escrituração uniforme de seus livros, em correspondência com a documentação respectiva, e a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. § 1º Salvo o disposto no art. 1.180, o número e a espécie de livros ficam a critério dos interessados. § 2º É dispensado das exigências deste artigo o pequeno empresário a que se refere o art. 970. Art. 1.180. Além dos demais livros exigidos por lei, é indispensável o Diário, que pode ser substituído por fichas no caso de escrituração mecanizada ou eletrônica. Parágrafo único. A adoção de fichas não dispensa o uso de livro apropriado para o lançamento do balanço patrimonial e do de resultado econômico. Art. 1.181. Salvo disposição especial de lei, os livros obrigatórios e, se for o caso, as fichas, antes de postos em uso, devem ser autenticados no Registro Público de Empresas Mercantis. Parágrafo único. A autenticação não se fará sem que esteja inscrito o empresário, ou a sociedade empresária, que poderá fazer autenticar livros não obrigatórios." Fl. 49DF CARF MF Processo nº 10980.937856/201161 Acórdão n.º 3302004.487 S3C3T2 Fl. 6 5 em Ciências Contábeis legalmente habilitado e pelo empresário ou sociedade empresária. (grifos não originais) Assim, como se trata de documento sem autenticidade, sequer assinado por representante legal da recorrente e profissional habilitado, induvidosamente, ele não serve como meio de prova do recebimento dos valores das referidas receitas financeiras discriminados pela recorrente no citado demonstrativo. Além disso, o citado documento não foi apresentado com a manifestação de inconformidade, conforme exige o art. 15 do Decreto 70.235/1972. Assim, ainda que revestisse de meio de prova adequada, o que se admite apenas para argumentar, por força da preclusão determinada no art. 16, § 4º, do citado Decreto, o referido documento não poderia ser admitido como elemento de prova na atual fase processual. Enfim, cabe ainda consignar que, no processo de compensação, a parte autora é o contribuinte que realizou o procedimento compensatório, portanto, nos termos do art. 373, I, da Lei 13.105/2015 (Código Processo Civil), que, na ausência de norma específica, aplicase subsidiariamente ao processo administrativo fiscal (art. 152 do CPC), o ônus de provar a certeza e liquidez do crédito utilizado na compensação em apreço era da incumbência da recorrente. No entanto, nas duas oportunidades em que compareceu aos autos, ela omitiu se de apresentar prova adequada que demonstrasse a existência do direito creditório informado. No mesmo sentido, o art. 36 da Lei 9.784/1999, que dispõe sobre o processo administrativo federal, atribui ao autor do feito ou do pedido o ônus da prova constitutiva do seu direito. Logo, uma vez demonstrado que o ônus da prova da existência do crédito compensado era da recorrente, porém, como ela não se incumbiu dessa função deve arcar com as consequências decorrentes da sua omissão. Por todo o exposto, votase por NEGAR PROVIMENTO ao recurso, para manter na íntegra a decisão recorrida." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o recurso voluntário também foi apresentado tempestivamente e a Recorrente não logrou comprovar o crédito que alega fazer jus, decorrentes de pagamentos a maior de PIS/Pasep e Cofins. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède 2 "Art. 15. Na ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e subsidiariamente." Fl. 50DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.722491/2015-08
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010
CRÉDITO INCENTIVADO. GLOSA DE CRÉDITOS. MATÉRIA-PRIMA. CARACTERIZAÇÃO. PARECER NORMATIVO CST. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA.
A condição imposta no dispositivo legal que cuida do incentivo fiscal, conforme art. 6º, do DL nº 1.435/76, é que se trate de matéria-prima, no caso, agrícola e extrativa vegetal, de produção regional, podendo, portanto, a expressão ser entendida em ambos sentidos, estrito ou amplo. Tratando-se de insumo que age diretamente sobre o produto em fabricação, atende aos limites estabelecidos pelo poder regulamentador normativo da Administração Tributária, mostrando-se correto o seu enquadramento no conceito de matéria-prima em sentido amplo, nos termos da interpretação dada pelo Parecer Normativo CST nº 65/79. Cumprir a determinação de interpretação literal disposta no art. 111, do CTN, não significa dar um alcance menor à norma concessiva do beneficio fiscal para restringir/afastar conceito admitido por norma complementar da legislação tributária.
Numero da decisão: 3401-003.997
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício.
Rosaldo Trevisan - Presidente.
Leonardo Ogassawara De Araújo Branco - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, Augusto Fiel Jorge DOliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (Vice-Presidente).
Nome do relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAUJO BRANCO
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GLOSA DE CRÉDITOS. MATÉRIAPRIMA. CARACTERIZAÇÃO. PARECER NORMATIVO CST. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. A condição imposta no dispositivo legal que cuida do incentivo fiscal, conforme art. 6º, do DL nº 1.435/76, é que se trate de matériaprima, no caso, agrícola e extrativa vegetal, de produção regional, podendo, portanto, a expressão ser entendida em ambos sentidos, estrito ou amplo. Tratandose de “insumo” que age diretamente sobre o produto em fabricação, atende aos limites estabelecidos pelo poder regulamentador normativo da Administração Tributária, mostrandose correto o seu enquadramento no conceito de matériaprima em sentido amplo, nos termos da interpretação dada pelo Parecer Normativo CST nº 65/79. Cumprir a determinação de interpretação literal disposta no art. 111, do CTN, não significa dar um alcance menor à norma concessiva do beneficio fiscal para restringir/afastar conceito admitido por norma complementar da legislação tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício. ROSALDO TREVISAN Presidente. LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 72 24 91 /2 01 5- 08 Fl. 589DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 590 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson Jose Bayerl, Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (VicePresidente). Relatório 1. Tratase do auto de infração, situado às fls. 02 a 20, lavrado com a finalidade de formalizar a exigência de IPI, referente ao período de apuração compreendido entre 01/2011 e 12/2012, no valor histórico de R$ 42.953.879,61. 2. De acordo o relatório da ação fiscal, situado às fls. 24 a 35, a autoridade fiscal lavrou o auto em virtude de a contribuinte se utilizar indevidamente de créditos básicos nas entradas de insumos provenientes da Zona Franca de Manaus, uma vez que os produtos isentos, utilizados pela contribuinte para creditamento como se devido fosse o IPI, não encontram respaldo legal, tendo realizado, ainda, em função da constatação da existência de saldo credor de IPI, a reconstituição da escrita fiscal da contribuinte autuada. 3. Em 05/08/2015, a contribuinte foi cientificada mediante envio postal, em conformidade com o aviso de recebimento situado à fl. 406, tendo apresentado impugnação, situada às fls. 415 a 435, na qual alegou, em síntese: (i) a legitimidade do crédito do IPI indevidamente glosado, uma vez que se trata de insumo que contém matériaprima agrícola e extrativa vegetal cultivada na Amazônia Ocidental; (ii) ser integrante do Grupo Valgroup, que se dedica à industrialização e comércio de embalagens plásticas rígidas e flexíveis, sendo que a Valfilm Amazônia, estabelecida no Pólo Industrial de Manaus dedicase à produção de filmes flexíveis, utilizandose; (iii) a fornecedora das películas de polietileno [a Valfilm Amazônia] está localizada na Zona Franca de Manaus e possui projeto aprovado pela Suframa; utiliza como matériaprima nos insumos vendidos à Impugnante com isenção o óleo de dendê; (iv) as razões indicadas pela Fiscalização para a glosa dos créditos do IPI calculado à alíquota de 15% (conforme NCM 3920.10.99 da TIPI) sobre a película de polietileno adquirida com isenção de fornecedor localizado na Zona Franca de Manaus e utilizada como matéria prima na fabricação das embalagens plásticas pela Impugnante – o percentual reduzido de participação do óleo de dendê (2%) na composição final da película de matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional, o que garante ao adquirente [no caso a impugnante] o direito de aproveitamento do crédito do imposto como se devido fosse, na forma do art. 6º do DL 1.435/76 e dos art. 95III e 237 do RIPI/2010 no processo industrial da película de polietileno o óleo de dendê, mediante celebração de contrato de parceria com a Embrapa e participação em todas as etapas de cultivo e extração do óleo polietileno e, a mera função de aditivo no processo de industrialização do mencionado produto, o exclui do conceito de matériaprima – são imprestáveis para afastarem o benefício fiscal do IPI; (v) o fato de um produto apresentar na sua composição uma matériaprima principal não retira dos demais elementos que a ele se integram em menores proporções a característica de matériaprima, pois todos eles passam a fazer parte do novo produto após o processo industrial; (vi) no caso presente, em que o produto final analisado é a película de polietileno (utilizada pela contribuinte como matériaprima na industrialização de embalagens plásticas), não há dúvida de que a matériaprima principal é a resina, mas, o óleo de dendê, embora tenha uma participação menos relevante na composição do produto final, também deve ser considerada Fl. 590DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 591 3 matériaprima, pois é essencial para a forma final do produto, sendo incorporada ao mesmo, na forma do Laudo Técnico apresentado; (vii) tanto a Fiscalização da RFB quanto as DRJ e o CARF têm reiteradamente reconhecido a legitimidade do crédito do IPI aos adquirentes em relação às películas de polietileno fornecidas pela Valfilm Amazônia, a exemplo do Acórdão CARF nº 3201001.873, de 24/02/2015 ; e do Acórdão CARF nº 3403003.324, de 15/10/2014; (viii) o produto fabricado pela Valfilm Amazônia com utilização do óleo de dendê fornecido à Impugnante e por ele utilizado como matériaprima na elaboração do seu produto (embalagens plásticas) confere ao adquirente o direito de crédito do IPI como se devido fosse, uma vez que atende aos requisitos legais, quais sejam, terem sido industrializados por empresa cadastrada na SUFRAMA e possuir em sua composição matériaprima vegetal cultivada regionalmente; tornase a glosa, portanto indevida; e (xix) não fossem por esses motivos, também é legítima a apropriação dos créditos advindos de operações isentas, por força do art. 9º do DL 288/97 e art.. 81II, do RIPI/2010, com fornecedor localizado a Zona Franca de Manaus independentemente de sua composição, em atenção ao princípio da nãocumulatividade e ao caráter de incentivo regional, nos termos do RE nº 592.891/SP, cujo julgamento final, em rito de Repercussão Geral, norteará o posicionamento de toda a jurisprudência. 4. Em 17/12/2015, a 3ª Turma da Delegacia Regional do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG) proferiu o Acórdão DRJ nº 0958.735, situado às fls. 539 a 559, sob a relatoria da AuditoraFiscal Ana Zulmira Chaves Souza, em que se decidiu, por maioria de votos, acolher a impugnação e considerar improcedente o auto de infração lavrado, exonerando integralmente o crédito tributário, nos termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 CRÉDITO INCENTIVADO. GLOSA DE CRÉDITOS. MATÉRIAPRIMA. CARACTERIZAÇÃO. PARECER NORMATIVO CST. NORMA COMPLEMENTAR DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. A condição imposta no dispositivo legal que cuida do incentivo fiscal [art. 6º, do DL nº 1.435/76] é que se trate de matériaprima [no caso, agrícola e extrativa vegetal, de produção regional], podendo, portanto, a expressão ser entendida em ambos sentidos, estrito ou amplo. Tratandose de “insumo” que age diretamente sobre o produto em fabricação, atende aos limites estabelecidos pelo poder regulamentador normativo da Administração Tributária, mostrandose correto o seu enquadramento no conceito de matériaprima em sentido amplo, nos termos da interpretação dada pelo Parecer Normativo CST nº 65/79. Cumprir a determinação de interpretação literal disposta no art. 111, do CTN, não significa dar um alcance menor à norma concessiva do beneficio fiscal para restringir/afastar conceito admitido por norma complementar da legislação tributária. 5. Diante da exoneração parcial do crédito tributário, o acórdão foi submetido à apreciação deste Conselho por recurso de ofício, de acordo com o art. 34 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, e alterações introduzidas pela Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de1997, e Portaria MF nº 3, de 3 de janeiro de 2008. Fl. 591DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 592 4 6. Em 20/05/2016, a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional protocolou razões ao recurso de ofício, situada às fls. 573 a 587, requerendo o provimento ao recurso de ofício. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 7. O recurso de ofício preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. 8. Depreendese da leitura dos autos que a contribuinte é integrante do GRUPO VALGROUP, que se dedica à industrialização e comércio de embalagens plásticas rígidas e flexíveis, sendo que a VALFILM AMAZÔNIA, também integrante do grupo, estabelecida no Pólo Industrial de Manaus, dedicase à produção de filmes flexíveis, utilizando no processo industrial da película de polietileno o óleo de dendê, mediante celebração de contrato de parceria com a EMBRAPA e participação em todas as etapas de cultivo e extração do óleo. 9. Assim, a VALFILM AMAZÔNIA, na condição de fornecedora das películas de polietileno, está localizada na Zona Franca de Manaus e possui projeto aprovado pela SUFRAMA. Utiliza, ainda, como matériaprima nos insumos vendidos à contribuinte autuada, ora recorrente, com isenção do óleo de dendê, matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional, o que garante à recorrente adquirente o direito de aproveitamento do crédito do imposto como se devido fosse, na forma do art. 6º do DecretoLei nº 1.435/76 e dos art. 95III e 237 do RIPI/2010. 10. Denotase, do relatório fiscal reduzido a termo, tratarse de matéria incontroversa o fato de a película de polietileno, adquirida com isenção, consubstanciarse em MP, PI ou ME no processo de industrialização do filme strech, material de embalagem de produto sujeito ao IPI. 11. Necessário, assim, passarse à análise do preenchimento das condições prescritas pelo inciso III do art. 195 do RIPI/2010: (i) tratarse de produto elaborado com matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional; (ii) estar o estabelecimento industrial fornecedor/fabricante localizado na Amazônia Ocidental; e (iii) a existência de projeto regularmente aprovado pelo Conselho de Administração da SUFRAMA. 12. Matéria igualmente incontroversa é aquela respeitante aos itens (ii) e (iii) acima: a contribuinte não apenas se encontra localizada na Zona Franca de Manaus e, portanto, na Amazônia Ocidental, conforme concluiu a autoridade fiscal a partir do cotejo de seus documentos constitutivos com as informações obtidas em diligência realizada na sede da Fl. 592DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 593 5 fornecedora, como o produto também possui projeto aprovado pela SUFRAMA1. Resta, portanto, a análise do item (i) sobre a utilização de matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional na elaboração do produto, pela fornecedora. 13. O entendimento da autoridade fiscal pode ser sintetizado nos seguintes itens: "(...) tratase do óleo de dendê a alegada matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional utilizada pela fornecedora Valfilm Amazônia no processo produtivo da película de polietileno utilizada pela autuada, a Valfilm MG, como matériaprima na elaboração do seu produto, o filme strech; o incentivo fiscal que garante a isenção ao produto saído da Valfilm Amazônia e o creditamento do IPI como se devido fosse à Valfilm MG exige que a fornecedora utilize no seu produto matériaprima agrícola e extrativa; a legislação tributária que trata de incentivo fiscal ser interpretada literalmente, nos termos do art. 111, do CTN; o texto legal que confere o incentivo utiliza o termo matériaprima; o RIPI não apresenta definição do que seja matériaprima, devendo, portanto, tal significado ser buscado no sentido comum da palavra, definido no Dicionário Eletrônico Aurélio como “a substância bruta principal e essencial com que é fabricada alguma coisa”; o óleo de dendê não pode ser considerado matériaprima na elaboração da película de polietileno, por duas razões: i) a base desse produto é a resina termoplástica, sendo esta, portanto, a sua matériaprima; ii) o óleo de dendê representa apenas 2% (dois por cento) da composição da película, e constitui um aditivo e, portanto, insumo coadjuvante no seu processo produtivo" (seleção e grifos nossos). 14. A argumentação expendida pela contribuinte em sua impugnação é no sentido de que o fato de um produto apresentar na sua composição uma matériaprima principal não retira dos demais elementos que a ele se integram em menores proporções a característica de matériaprima, pois todos passariam a fazer parte do novo produto após o processo industrial. Não obstante, no caso em apreço, em que o produto final é a película de polietileno utilizada pela contribuinte como matériaprima na industrialização de embalagens plásticas, não restaria dúvida de que a matériaprima principal é a resina, mas o óleo de dendê, embora tenha uma participação menos relevante na composição do produto final, deve ser considerado igualmente uma matériaprima, tendo em vista ser essencial para a forma final do produto, ao qual se incorpora, nos termos da descrição de laudo técnico tempestivamente apresentado. 15. Correta a decisão a quo, portanto, ao se aperceber que a contenda se limita unicamente "(...) ao conceito de matériaprima na legislação do IPI e na definição se o óleo de dendê constitui ou não matériaprima utilizada pela fornecedora Valfilm Amazônia no processo produtivo da película de polietileno consumida pela autuada Valfilm MG no processo produtivo do filme strech e geradora do crédito incentivado". Assim, há de se pontuar, em primeiro lugar, que, conforme explicita a decisão recorrida: 1 Cf. Resolução nº 154, de 19/06/2008, do CAS/SUFRAMA, bem como o Paarecer Técnico de Projeto nº 125/2008 da Suframa. Fl. 593DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 594 6 "Inicialmente é de se mencionar que o entendimento que a Administração Tributária historicamente tem manifestado por intermédio de seus atos normativos acerca do tema se dá em direção oposta àquela defendida pela Autoridade Fiscal. Citese a propósito o Parecer Normativo CST nº 65/79 que, embora se refira ao dispositivo regulamentar que cuida do crédito básico, é altamente esclarecedor da definição dos termos “matériaprima e produto intermediário" (seleção e grifos nossos). 16. Recortase, para que não restem dúvidas, o trecho pertinente do Parecer Normativo CST nº 65/79 em referência: 5. No que diz respeito à primeira parte da norma, que se refere a matérias primas e produtos intermediários stricto sensu, ou seja, bens dos quais, através de quaisquer das operações de industrialização enumeradas no Regulamento, resulta diretamente um novo produto, tais como, exemplificativamente, a madeira com relação a um móvel ou o papel com referência a um livro, nada há que se comentar de vez que o direito ao crédito, diferentemente do que ocorre com os referidos na segunda parte, além de não se vincular a qualquer requisito, não sofreu alteração com relação aos dispositivos constantes dos regulamentos anteriores. 6. Todavia, relativamente aos produtos referidos na segunda parte, matérias primas e produtos intermediários entendidos em sentido amplo, ou seja, aqueles que embora não sofram as referidas operações são nelas utilizados, se consumindo em virtude de contato físico com o produto em fabricação, tais como lixas, lâminas de serra e catalisadores, além da ressalva de não gerarem o direito se compreendidos no ativo permanente, exigese uma série de considerações. [...]10.1. Como o texto fala em "incluindose entre as matériasprimas e os produtos intermediários", é evidente que tais bens hão de guardar semelhança com as matériasprimas e os produtos intermediários stricto sensu, semelhança esta que reside no fato de exercerem na operação de industrialização função análoga a destes, ou seja, se consumirem em decorrência de um contato físico, ou melhor dizendo, de uma ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, ou por este diretamente sofrida. 10.2. A expressão "consumidos", sobretudo levandose em conta que as restrições "imediata e integralmente", constantes do dispositivo correspondente do Regulamento anterior, foram omitidas, há de ser entendida em sentido amplo, abrangendo, exemplificativamente, o desgaste, o desbaste, o dano e a perda de propriedades físicas ou químicas, desde que decorrentes de ação direta do insumo sobre o produto em fabricação, ou deste sobre o insumo" (seleção e grifos nossos). Fl. 594DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 595 7 17. Assim, voltouse o entendimento da Administração à definição de matériaprima e produto intermediário “stricto sensu”: aqueles bens a partir dos quais, por meio de quaisquer operações de industrialização (cf. art. 4º do RIPI/2010) resulta diretamente um novo produto. A matériaprima e produto intermediário, quando definidos em sentido amplo, por outro lado, vêm a contemplar aqueles produtos que, embora não sofram as operações de industrialização que resultariam diretamente no surgimento de um novo produto, são nelas utilizados e consumidos em virtude de contato físico com o produto em fabricação. Neste sentido: "Os itens 10.1 e 10.2 são ainda mais explícitos e específicos ao consignar a necessidade da existência de semelhança das matériasprimas e produtos intermediários em sentido amplo com as MP e PI “stricto sensu”, semelhança esta caracterizada pela função exercida por aquelas na operação de industrialização de modo análogo à das MP “strico sensu”, se consumindo em decorrência de um contato físico ou de uma ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação ou por ele diretamente sofrida. O consumo deve ser entendido como o desgaste, o dano e a perda de propriedades físicas ou químicas em razão da ação do insumo [MP em sentido amplo] sobre o produto em fabricação ou deste sobre o insumo" (seleção e grifos nossos). 18. A análise da adequação ou não, do óleo de dendê, à expressão “matériaprima” no sentido do preceptivo normativo do art. 6º do DecretoLei nº 1.435/76, com a regulamentação dada no art. 95 do RIPI/2010 deve se valer das informações elucidadas pelo Parecer Técnico de Projeto nº 125/2008, situado às fls. 289 a 299, emitido pela Superintendência Adjunta de Projetos da SUFRAMA, e utilizado como fundamento para a edição da Resolução nº 154/2008, do CAS/SUFRAMA: Fl. 595DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 596 8 19. A partir de tais premissas, passa a decisão recorrida a realizar as seguintes e precisas considerações: "Depreendese, daí, que a participação do óleo de dendê ocorre na etapa inicial do processo produtivo [etapa 2 da descrição retro], depois de ser acrescentado às demais matériasprimas, que são misturadas e homogeneizadas em equipamento próprio, resultando numa mistura que a seguir, na etapa 3, alimentará as extrusoras que processam o produto. Segundo consta do Parecer Técnico “na indústria de plástico o óleo vegetal, no caso deste projeto o de dendê regional, é utilizado como veículo de pigmentos para tingimento de plásticos, além de ser excelente amaciante, lubrificante e plastificante”, acrescentando, ainda, que “na VALFILM, a função do óleo no processo da empresa é realizar a umectação da mistura para que todos os componentes formem um aglomerado, promovendo uma capa externa aos grãos de resina”. E o Relatório Fiscal acrescenta que “na literatura técnica que trata dos aditivos para resinas termoplásticas eles são definidos como substâncias adicionadas em pequenas quantidades para modificar determinada propriedade do termoplástico ao qual é adicionado”. Fl. 596DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 597 9 Assim, clara está a participação do óleo de dendê no processo produtivo da película de polietileno e o perfeito enquadramento no conceito de matéria prima em sentido amplo, nos termos do PN CST nº 65/79, haja vista que exerce função análoga à da matériaprima “stricto sensu” na operação de industrialização, se consumindo no processo produtivo mediante ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação. Ele [o óleo de dendê] age diretamente sobre o produto em fabricação [modificam determinada propriedade do termoplástico ao qual é adicionado, conforme consta do Relatório Fiscal]; realiza a umectação da mistura para que todos os componentes formem um aglomerado, nos termos do Parecer Técnico], atendendo, portanto, aos limites legitimamente estabelecidos pelo poder regulamentador normativo da Administração Tributária. E como o art. 6º do DL 1.435/76 [art. 95III do RIPI/2010] referese unicamente à expressão “matériaprima”, não é demais concluir que a referida expressão, para efeitos da legislação tributária, possa ser entendida em qualquer sentido, seja estrito ou amplo, nos termos da interpretação dada pelo PN CST nº 65/792. A condição imposta é que se trate de matéria prima [no caso, agrícola e extrativa vegetal, de produção regional]. Destaquese que estamos tratando aqui de matéria tributária. Sendo assim, a definição de matériaprima que se coaduna com a sistemática de apuração do IPI é aquela manifestada na legislação tributária atinente ao imposto, no caso, o mencionado Parecer Normativo, norma complementar da legislação tributária. “O papel das normas complementares da legislação tributária é o de explicitar o conteúdo das leis, de sorte a uniformizar a sua interpretação por parte da Administração Tributária. As normas complementares do direito tributário são de grande valia porquanto empreendem exegese uniforme a ser obedecida pelos agentes administrativos fiscais”. (Hugo de Brito Machado Segundo. Código Tributário Nacional; 4a. Ed., SP; Atlas, 2014, pág. 219). E não se alegue que o PN 65/79 ao manifestar o entendimento da autoridade administrativa tributária no sentido retro exposto feriu os artigos 1093 e 1104, do CTN, pois apenas cuidou de estabelecer o alcance da expressão “matériaprima” na legislação do IPI, não alterando definição, conteúdo e alcance de institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados para definir ou limitar competência tributária. (...). Assim, o afastamento do conceito semântico ou comum para a expressão “matériaprima” para adoção do conceito para fins tributários, especificamente no que diz respeito ao IPI, dado pelo Parecer Normativo nº 65/79, não resulta, no entendimento desta Julgadora, descumprimento do art. 111, do CTN. O direito de crédito, no caso presente, continua sendo analisado tomandose por parâmetro a expressão “matériaprima” consignada no dispositivo legal atinente ao incentivo fiscal. Cuidouse, tão somente, de verificar a interpretação dada ao referido termo, pela autoridade tributária administrativa, para efeitos tributários, admitido na legislação aplicável ao IPI. Cumprir a determinação de interpretação literal da legislação tributária dada pelo art. 111, do CTN, não significa dar um Fl. 597DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 598 10 alcance menor à norma concessiva do benefício fiscal [interpretação restritiva] para restringir o conceito admitido pela legislação tributária. Restringir tal conceito implica restrição indevida na aplicação do incentivo fiscal, além de descumprir ato normativo ao qual esta Julgadora está vinculada. (...) Nestes termos é de se tomar por IMPROCEDENTES AS GLOSAS DOS CRÉDITOS do IPI calculado como se devido fosse sobre a entrada de películas plásticas [de polietileno] utilizadas como matériaprima na industrialização do filme plástico [filme strech] pela autuada, uma vez que cumpridos, pelo fornecedor do insumo [a Valfilm Amazônia], os requisitos inseridos no art. 6º do DL nº 1.435/75 [regulamentado pelo art. 95III do RIPI/2010], quais sejam: i) utilizar na elaboração do produto [a película plástica] matériaprima agrícola e extrativa vegetal de produção regional [no caso, o óleo de dendê]; ii) localizarse o industrial fornecedor do insumo na Amazônia Ocidental; iii) possuir o industrial fornecedor projeto aprovado pela SUFRAMA. Consequentemente, deve ser restabelecida a apuração original realizada pelo contribuinte na escrita fiscal consignada nos RAIPI de fls. 180/268 e consolidada, pelo AFRFB autuante na planilha de fls. 15/16 (...). Por fim, constituindose o presente lançamento na exigência dos exatos valores dos créditos glosados [no período de 01 a 12/2011, em que houve apuração de saldo devedor na escrita original do contribuinte] ou da diferença entre os valores dos créditos glosados e o saldo credor originalmente apurado no RAIPI [período compreendido entre 01 e 12/2012], uma vez restabelecidos os créditos glosados e considerandose que os saldos devedores originalmente apurados na escrita fiscal encontramse devidamente declarados em DCTF, nenhum valor resta a ser exigido de ofício relativamente ao período em análise. A propósito das demais alegações de defesa, despicienda se torna a sua análise. Ante o exposto, VOTO pela IMPROCEDÊNCIA DA GLOSA DOS CRÉDITOS E, CONSEQUENTEMENTE, DO LANÇAMENTO consubstanciado no auto de infração de fls. 02/20, eximindose o contribuinte do crédito tributário nele exigido" (seleção e grifos nossos). 20. Este, ademais, o sentido do Acórdão CARF nº3402004.284, publicado em 28/06/2017, de relatoria da Conselheira Maysa de Sá Pittondo Deligne, que decidiu, vencido o Conselheiro Waldir Navarro Bezerra, que não apresentou declaração de voto, pela improcedência do recurso de ofício, em conformidade com a ementa abaixo transcrita: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 30/04/2011 a 31/12/2012 CRÉDITOS. MANUTENÇÃO. INSUMOS ORIGINÁRIOS DA ZFM. REQUISITOS OBRIGATÓRIOS. Fl. 598DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 599 11 A manutenção do crédito de que trata o art. 6º, § 1º, do DecretoLei nº 1.435/75 é aplicável desde que: a) o produto tenha sido elaborado com matérias primas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional; b) o produto tenha sido adquirido de estabelecimento industrial localizado na Amazônia Ocidental e cujo projeto (PPB) tenha sido aprovado pelo Conselho de administração da SUFRAMA; e c) o produto seja empregado pelo industrial adquirente como matéria prima, produto intermediário ou material de embalagem, na industrialização de produtos sujeitos ao IPI. Inexistente qualquer exigência normativa quanto a quantidade de cada insumo na composição do produto fabricado, como pretendido pela fiscalização. Recurso de Ofício Negado. 21. Ainda que contra o acórdão em referência tenham sido opostos embargos de declaração pela Procuradoria da Fazenda Nacional, denotase com bastante clareza o posicionamento da 2ª Turma desta 4ª Câmara no sentido do entendimento do presente voto. 22. Assim, não tendo as partes apresentado novos argumentos ou razões de defesa perante esta segunda instância administrativa, propõese a confirmação e adoção da decisão recorrida, nos termos da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprovou o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (RICARF), com a alteração da Portaria MF nº 329, de 04/06/2017, que acrescentou o § 3º ao art. 57 da norma regimental: Portaria MF nº 343, de 09/06/2015 (RICARF) Art. 57. Em cada sessão de julgamento será observada a seguinte ordem: I verificação do quorum regimental; II deliberação sobre matéria de expediente; e III relatório, debate e votação dos recursos constantes da pauta. § 1º A ementa, relatório e voto deverão ser disponibilizados exclusivamente aos conselheiros do colegiado, previamente ao início de cada sessão de julgamento correspondente, em meio eletrônico. § 2º Os processos para os quais o relator não apresentar, no prazo e forma estabelecidos no § 1º, a ementa, o relatório e o voto, serão retirados de pauta pelo presidente, que fará constar o fato em ata § 3º A exigência do § 1º pode ser atendida com a transcrição da decisão de primeira instância, se o relator registrar que as partes não apresentaram novas razões de defesa perante a segunda instância e propuser a confirmação e adoção da decisão recorrida" (seleção e grifos nossos). Fl. 599DF CARF MF Processo nº 11065.722491/201508 Acórdão n.º 3401003.997 S3C4T1 Fl. 600 12 Assim, voto por conhecer e, no mérito, negar provimento ao recurso de ofício, mantendo a decisão recorrida pelos seus próprios fundamentos. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Relator Fl. 600DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 12448.732449/2014-74
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed May 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2010
NULIDADE. IMPROCEDÊNCIA.
Tendo sido o lançamento efetuado com observância dos pressupostos legais e não havendo prova de violação das disposições contidas no artigo 142 do CTN e artigos 10 e 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, não há que se falar em nulidade do lançamento em questão.
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ
SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO. TRIBUTAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS.
Na forma do artigo 392, do RIR/1999, serão computadas na determinação do lucro operacional as subvenções correntes para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais. Mantidos pelo sujeito passivo tais valores à margem da tributação, cabível o lançamento de ofício realizado pelo Fisco a título de omissão de receitas.
DESPESAS. NÃO COMPROVAÇÃO. GLOSA
Além da previsão do artigo 299, do RIR/1999, de que as despesas sejam usuais, normais e necessárias às atividades da pessoa jurídica, é imprescindível que sejam lastreadas em documentação hábil e idônea, conforme disposto no artigo 923, do mesmo diploma regulamentar. Não logrando comprovar o contribuinte os registros de despesas efetuados em sua escrituração com referida documentação, irrepreensível a glosa perpetrada pelo Fisco
ARBITRAMENTO.
Fragilizada a escrituração, o regime do Lucro Real se esvai, por faltar-lhe suporte, implicando em se assumir o remédio do artigo 530, do RIR/1999 e apurar o IRPJ pela sistemática do Lucro Arbitrado.
Procedimento fiscal que se pautou pela correta observância das normas legais reguladoras da matéria, mais ainda porque o arbitramento não é penalidade, mas simples meio de apuração do lucro.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2010
RESPONSABILIDADE. RELAÇÃO SOCIETÁRIA. GRUPO EMPRESARIAL. ART. 124 INCISO I CTN. INADEQUAÇÃO.
A norma contida no art. 124, inciso I, do CTN não é própria e adequada para a responsabilização objetiva de sócios e empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.
O interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele societário e econômico, finalístico e consequencial, que o grupo e seus titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica.
Para a ocorrência da responsabilidade solidária prevista na norma é necessária a demonstração comprovada da participação direta e conjunta das pessoas apontadas como responsáveis na realização do fato gerador, revestindo-se de copartícipes da infração apurada.
MULTA AGRAVADA.
O agravamento da penalidade só se mostra possível quando presentes (ou ausentes) atos do fiscalizado no sentido de tolher ou obstruir o procedimento fiscal de forma contumaz. Tendo o contribuinte, de uma forma ou outra, integral ou parcialmente, na data fixada ou após esta, apresentado o que lhe foi exigido e contribuido para que a execução fiscal se desenrolasse e chegasse ao final, descabe o agravamento
MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. REQUISITOS.
Tendo sido disponibilizados ao Fisco todos os documentos, dados e registros contábeis relativos à matéria objeto da infração imputada como omissão de receitas, não restou configurada a tentativa de impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais ou impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento, de modo que incabível a exasperação da multa de ofício, mais não fosse, pelos próprios dizeres da Súmula CARF nº 14.
Assim, não comprovado o evidente intuito de fraude, reduz-se a multa de ofício ao patamar de 75%.
Numero da decisão: 1402-002.511
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade em rejeitar a arguição de nulidade do lançamento por utilização indevida do arbitramento. Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. Por maioria de votos, dar provimento ao recurso do coobrigado para excluí-lo da relação jurídico-tributária. Vencidos os Conselheiros Paulo Mateus Ciccone e Fernando Brasil de Oliveira Pinto que votaram para negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Designado o Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
LEONARDO DE ANDRADE COUTO - Presidente
(assinado digitalmente)
Paulo Mateus Ciccone - Relator
(assinado digitalmente)
Caio Cesar Nader Quintella Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (presidente),
Nome do relator: PAULO MATEUS CICCONE
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IMPROCEDÊNCIA. Tendo sido o lançamento efetuado com observância dos pressupostos legais e não havendo prova de violação das disposições contidas no artigo 142 do CTN e artigos 10 e 59 do Decreto nº 70.235, de 1972, não há que se falar em nulidade do lançamento em questão. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ SUBVENÇÃO PARA CUSTEIO. TRIBUTAÇÃO. OMISSÃO DE RECEITAS. Na forma do artigo 392, do RIR/1999, serão computadas na determinação do lucro operacional as subvenções correntes para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais. Mantidos pelo sujeito passivo tais valores à margem da tributação, cabível o lançamento de ofício realizado pelo Fisco a título de omissão de receitas. DESPESAS. NÃO COMPROVAÇÃO. GLOSA Além da previsão do artigo 299, do RIR/1999, de que as despesas sejam usuais, normais e necessárias às atividades da pessoa jurídica, é imprescindível que sejam lastreadas em documentação hábil e idônea, conforme disposto no artigo 923, do mesmo diploma regulamentar. Não logrando comprovar o contribuinte os registros de despesas efetuados em sua escrituração com referida documentação, irrepreensível a glosa perpetrada pelo Fisco ARBITRAMENTO. Fragilizada a escrituração, o regime do Lucro Real se esvai, por faltarlhe suporte, implicando em se assumir o remédio do artigo 530, do RIR/1999 e apurar o IRPJ pela sistemática do Lucro Arbitrado. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 12 44 8. 73 24 49 /2 01 4- 74 Fl. 3966DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.967 2 Procedimento fiscal que se pautou pela correta observância das normas legais reguladoras da matéria, mais ainda porque o arbitramento não é penalidade, mas simples meio de apuração do lucro. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2010 RESPONSABILIDADE. RELAÇÃO SOCIETÁRIA. GRUPO EMPRESARIAL. ART. 124 INCISO I CTN. INADEQUAÇÃO. A norma contida no art. 124, inciso I, do CTN não é própria e adequada para a responsabilização objetiva de sócios e empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. O interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele societário e econômico, finalístico e consequencial, que o grupo e seus titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica. Para a ocorrência da responsabilidade solidária prevista na norma é necessária a demonstração comprovada da participação direta e conjunta das pessoas apontadas como responsáveis na realização do fato gerador, revestindose de copartícipes da infração apurada. MULTA AGRAVADA. O agravamento da penalidade só se mostra possível quando presentes (ou ausentes) atos do fiscalizado no sentido de tolher ou obstruir o procedimento fiscal de forma contumaz. Tendo o contribuinte, de uma forma ou outra, integral ou parcialmente, na data fixada ou após esta, apresentado o que lhe foi exigido e contribuido para que a execução fiscal se desenrolasse e chegasse ao final, descabe o agravamento MULTA DE OFÍCIO. QUALIFICAÇÃO. REQUISITOS. Tendo sido disponibilizados ao Fisco todos os documentos, dados e registros contábeis relativos à matéria objeto da infração imputada como omissão de receitas, não restou configurada a tentativa de “impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais ou impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”, de modo que incabível a exasperação da multa de ofício, mais não fosse, pelos próprios dizeres da Súmula CARF nº 14. Assim, não comprovado o evidente intuito de fraude, reduzse a multa de ofício ao patamar de 75%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 3967DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.968 3 Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade em rejeitar a arguição de nulidade do lançamento por utilização indevida do arbitramento. Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício e dar provimento parcial ao recurso voluntário da pessoa jurídica autuada para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. Por maioria de votos, dar provimento ao recurso do coobrigado para excluílo da relação jurídicotributária. Vencidos os Conselheiros Paulo Mateus Ciccone e Fernando Brasil de Oliveira Pinto que votaram para negar provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Designado o Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) LEONARDO DE ANDRADE COUTO Presidente (assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Relator (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella – Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (presidente), Fl. 3968DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.969 4 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela contribuinte acima identificada em face de decisão exarada pela 1ª Turma da DRJ/CTA em sessão de 23 de novembro de 2015, que julgou parcialmente procedente a impugnação apresentada e manteve parte dos lançamentos perpetrados pelo Fisco e de Recurso de Ofício manejado pelo Presidente da mencionada Turma pelo fato de haver exoneração de crédito tributário acima do limite de alçada (R$ 1.000.000,00) previsto, na época, pela Portaria MF nº 3, de 03 de janeiro de 2008 (fls. 3493/3584). Segundo o extenso e detalhado TVF (fls. 54/129), a fiscalizada atuava no ramo da exploração do petróleo, gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos e tinha como composição societária a seguinte configuração, com ressalva de que a controladora situavase em Bermudas: Na sequência, o TVF informa que a atual condição dos negócios da empresa fiscalizada é de inatividade, embora no cadastro CNPJ apareça como ativa, mas apenas, formalmente, pois a mesma encontrase inoperante. Dessa forma, ainda no dizer do Fisco, não efetuou pagamentos de impostos e/ou contribuições federais, como contribuinte, no período de 2010 a 2014. Nessa linha, relata o Agente Fiscal, constatouse “que a empresa não dispõe de patrimônio capaz de dar cobertura ao crédito tributário, ora em constituição, o que é corroborado ante o exame da DIPJ do Ex. 2014, anobase 2013, que aponta ausência de receitas, patrimônio e empregados, além da própria afirmação da Fiscalizada,...” (Termo nº 13/2014) de que, “a empresa não se encontra ativa já há algum tempo, de forma que não existem ativos contabilizados”. Acerca do segmento empresarial da autuada, o TVF disserta que, em face de experiências anteriores em casos semelhantes fiscalizados pela Receita Federal, é possível inferir que: “a visualização do modus operandi das empresas, inserindose entre elas a ora Fiscalizada, com vistas a reduzir artificialmente o montante dos tributos e contribuições federais incidentes sobre suas atividades operacionais. Nesse espectro, foram observadas, com frequência, nas DIPJ dessas empresas que desempenham atividades de apoio à extração de petróleo e gás natural, e com contratos firmados perante a PETRÓLEO BRASILEIRO S/A PETROBRAS, informações de prejuízos consecutivos, ano após ano, sem que, contudo, deixem elas de operar, saldar dívidas, honrar compromissos de pagamentos, suportar seus custos operacionais e não operacionais, além do que, as instalações e edificações das sedes são, sem exceção, novas e de ótima qualidade estrutural, com visível cuidado de conservação e manutenção, contando com um quadro de funcionários e/ou contratados bem remunerado. Esses fatos espelham um cenário típico de plena viabilidade econômica e grande expectativa de lucro relativamente às atividades desenvolvidas”. Para sustentar seu relato, o Fisco, partindo das informações prestadas pelo sujeito passivo em suas DIPJ, elaborou o seguinte quadro: Fl. 3969DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.970 5 A partir desde números conclui que a autuada, em face dos resultados negativos continuados ao longo de vários períodos, só consegue sobreviver em razão do seguinte esquema: a) “Empresa estrangeira do grupo econômico, interessada em prestar, para a PETROBRAS, em território nacional, serviços vinculados à exploração na área de petróleo, cria uma empresa no Brasil, sobre a qual detém o controle acionário”; b) “A PETROBRAS firma, então, dois contratos distintos: um denominado de afretamento, com a empresa estrangeira, integrante do grupo econômico, locadora da unidade/plataforma equipada com as sondas de perfuração, aqui representada pela SCORPION NEDERLANDSE B. V. (com sede em Amsterdã/Holanda; o outro contrato, denominado de serviços de prospecção, perfuração, avaliação, completação e “workover”, com a empresa criada no Brasil, aqui representada pela Fiscalizada, para a prestação de serviços, que prevê pagamentos de pequena parte da soma dos valores pagos nos dois contratos mencionados”; c) “Do preço global de ambos os instrumentos, o contrato de afretamento envolve a maior parcela dos recursos, variável em cada caso. No caso vertente, a SCORPION NEDERLANDSE B. V. foi contemplada com pouco mais de 90% da soma do preço global dois contratos firmados, enquanto que o contrato firmado com a empresa do Grupo SCORPION, sediada no Brasil, previa pagamentos dos remanescentes 10%”; d) “A partir dos elementos obtidos, depreendeuse que, na prática, a execução dos contratos é simultânea, havendo cláusulas, em ambos os instrumentos, de relação solidária entre a Fiscalizada e a empresa estrangeira, no tocante às obrigações assumidas perante a PETROBRAS. De fato, a análise dos contratos revela que o teor de ambos é muito parecido, mormente quanto aos anexos (detalhamento da execução), o que redundou em confusão de obrigações, podendo a PETROBRAS, na realidade, exigirlhes, de qualquer das partes, sem necessariamente qualquer benefício de ordem, o cumprimento nos termos avençados”; e) “A única e real motivação para a PETROBRAS assim proceder, ou seja, seccionar em duas partes (contratos) o que poderia perfeitamente se fazer em apenas uma, encontra eco na questão tributária envolvida nas operações praticadas. Isso porque o envio da parcela substancial dos recursos (90%) para o exterior asseguraria economia fiscal, visto que, de acordo com exegese relativa ao art. 1º, inciso I, da Lei n° 9.481/97, capitaneada pela estatal brasileira, tais valores remetidos ao exterior estariam sob o alcance de alíquota zero, o que obstaria a retenção na fonte de imposto de renda para receitas de afretamento de embarcações marítimas. De ressaltar que tal entendimento afigurase controverso, posto que enfrenta a PETROBRAS resistência hercúlea, por parte do fisco, nos processos de contencioso administrativo que versam sobre a matéria. Embora o mérito dessa questão aqui não tenha objeto, o entendimento acolhido pela estatal vem revelar a que origem do procedimento por ela adotado na celebração de contratos congêneres subordinase a tais razões de direito”; f) “Verificase que, uma vez criada enorme defasagem entre os valores dos serviços de perfuração a serem prestados e o afretamento da embarcação, cumpre à empresa estrangeira do Grupo SCORPION subvencionar/reembolsar valores à Fiscalizada, para cobrirlhe os Fl. 3970DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.971 6 custos e despesas, vale dizer, para efeito de custeio operacional, pois de outra forma a fiscalizada não sobreviveria sem o apelo à falência ou concordata. As remessas de recursos são feitas, no caso em epígrafe, periodicamente (praticamente mensalmente), através de transferências bancárias de contas no exterior, de titularidade da sócia majoritária supra qualificada (SCORPION INTERNATIONAL LTD), para contas em bancos no Brasil, pertencentes à Fiscalizada, para que esta possa se manter regularmente em atividade. Tais operações de aporte estão comprovadas através dos diversos contratos de câmbio, devidamente registradas contabilmente sob as vestes de EMPRÉSTIMOS”. E prosseguiu: “os custos da empresa (30 milhões) superam, abundantemente, a receita bruta total da empresa (20 milhões), produzindo um prejuízo primário (12 milhões), ao invés de lucro bruto, e que essa inversão é fato recorrente, ano após ano, enseja considerar a existência de desconformidades anômalas. Por esta razão, a Fiscalizada recolheu zero em tributos e contribuições federais, desde 2010 até 2014, na qualidade de contribuinte (IRPJ, CSLL, Pis, Cofins, etc), só efetuando pagamentos na posição de responsável pelos tributos retidos de terceiros ou quando vinculados à importação”. Após estas considerações preliminares, a Autoridade Fiscal, depois de apontar as dificuldades em conseguir dar início à fiscalização porque não teria sido localizada, na suposta sede da empresa (endereço constante do CNPJ Av. Presidente Wilson, 231, Sala 2602 Parte – Centro – Rio de Janeiro/RJ, “nenhuma pessoa ou instalação da Fiscalizada, buscou se informações a respeito e, mediante contato telefônico obtido, a representante legal foi abordada na suposta sede então em funcionamento, no endereço sito à Av. República do Chile, 230 Sala 2101 Centro – Rio de Janeiro/RJ. Neste mesmo local está situada a sede da empresa SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA, CNPJ nº 09.521.059/000108, que opera no mesmo ramo de atividade da Fiscalizada”, descreveu o procedimento fiscal e apontou as irregularidades apuradas, abaixo resumidas: > Omissão de receitas – subvenções de custeio: a contribuinte “... vive diante de um cenário econômico acentuadamente adverso, de prejuízos consecutivos, desde o início de suas atividades. Esse cenário desfavorável é provocado, precipuamente, pela partição desproporcional, em dois contratos com o mesmo contratante (PETROBRAS), através do mecanismo engendrado e posto em execução...”. No entanto, prossegue o Fisco, “... tal adversidade é apenas aparente, pois a Fiscalizada conta com aportes de recursos que sua sócia controladora promove sob as vestes de ‘Empréstimos’. Tais aportes têm, na verdade material dos fatos, a natureza de subvenções para custeio ou operação, tributável, de conformidade com a legislação vigente ao tempo em que ocorreram os fatos geradores, e estão comprovadas através dos diversos contratos de cambio, devidamente contabilizados”. Ressalta que o afretamento, contratado com a SCORPION NEDERLANDSE B. V., representa mais de 90% do total do contrato e o remanescente (relativos aos serviços de perfuração) fica a cargo da contribuinte, montante insuficiente para fazer frente a seus custos, de modo que o aporte sistemático da controladora, supostamente via empréstimos, se faz imprescindível. Descreve pormenorizadamente as operações, registra a inexistência de qualquer pagamento do “empréstimo” havido pela controladora a seu favor, conforme palavras da própria fiscalizada (“cumprenos esclarecer que nesse tocante o empréstimo não foi quitado até o presente momento, de forma que não há documentação correlata”), afirma que a contribuinte foi intimado a apresentar os contratos de “mútuo” que dariam suporte às suas alegações e que não atendeu ao requisitado, limitandose a expor que “importante esclarecer que várias documentações correlatas e referentes a esses empréstimos já foram disponibilizadas, tais como ROF, notas promissórias e outros. Aliás, aproveitamos para mandar outras Notas promissórias, devidamente registradas, e referentes aos empréstimos. Assim, muito embora entendemos (sic) que os Fl. 3971DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.972 7 contratos em si somente retificam (sic) as transações financeiras ocorridas e chanceladas pelos bancos, tais já foram requeridos para os responsáveis por sua elaboração e registro. Ainda aguardamos o envio dos mesmos. Caso não estejam traduzidos e/ou consularizados, o providenciaremos para entrega à presente fiscalização”, que “até o fim da presente ação fiscal, a contribuinte não apresentou o referido contrato” e que, assim, resta claro que “os mútuos sob análise estão a descoberto, desde essa data, pois não houve pagamento de qualquer parcela, seja do principal, seja de juros, estes quando previsto”. Por consequência, assevera o condutor do feito, “... estamos diante de um caso de dissimulação, pois a Fiscalizada é formalmente partícipe de negócio jurídico de mútuo, quando, na realidade, sabendo que tudo se realiza ficticiamente e que não irá quitar empréstimo algum (até por falta de capacidade financeira para tal), vem auferindo, ao longo do tempo frequentes subvenções. Cumpre, pois, desqualificar o negócio simulado para revelar o que estava encoberto, de conformidade com os preceitos da lei tributária”. Os valores foram resumidos na planilha abaixo, de lavra do Fisco, lançados de ofício como receitas não operacionais omitidas: O AI (fls. 7) confirma os números apontados. A segunda irregularidade informada pelo Fisco diz respeito à não comprovação de diversas despesas operacionais. Em síntese, aponta a Autoridade Fiscal, ter intimado a fiscalizada a apresentar contratos, notas fiscais e comprovantes de pagamentos de diversos itens de despesas, especificamente das contas agrupadas nos seguintes anexos: Anexo 1 (Conta 411301001_Outros Materiais Diretos); Anexo 2 (Conta 413302003_Assessoria); Anexo 3 (Conta 413302020_Outros Serviços PJ); Anexo 4 (Conta 413302999_Outros Serviços PJ); Anexo 5 (Conta 413901003_Materiais Auxiliares de Consumo); Anexo 6 (Conta 413901007_Lanches e Refeições) e Anexo 7 (Conta 512901031_Despesas c/ Importação/Exportação, e que, mesmo diante do largo prazo concedido, tais documentos não vieram aos autos ou vieram de forma insuficiente. Diz ter havido, ainda, retardamento ou negligência no atendimento ao requisitado pelo Fisco (o que levou ao agravamento da multa de ofício), que “a Fiscalizada não se interessou em descrever a mecânica de suas operações e como eram contabilizadas”; que “tampouco nada disponibilizou em referência aos pagamentos supostamente feitos aos mesmos. Em Fl. 3972DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.973 8 relação aos contratos com esses fornecedores, alegou que extraviou alguns deles quando da transferência de sede da empresa, de Vitória para o Rio de Janeiro”; que “a ausência ou ocultação dos instrumentos contratuais depõe contra a robustez dos lançamentos contábeis registrados, que devem estar lastreados com documentação hábil e idônea”, e que, “mesmo após uma última tentativa por parte do Auditor Fiscal de obter os documentos, a Fiscalizada informou que somente agora – decorridos mais de dez meses da primeira intimação, e após sucessivas prorrogações e reintimações – ela, Fiscalizada, reportouse à instituição financeira para obter os extratos bancários que viriam a comprovar os pagamentos efetuados aos fornecedores, solicitando prazo adicional para a apresentação de tais elementos (anexou email). Nada mencionou em relação aos contratos com fornecedores faltantes (para os quais já tinha alegado extravio de parte deles) e nem em relação às notas fiscais ainda pendentes. Ocorre que transcorrido o prazo de prorrogação (vinte dias) requerido na resposta ao Termo nº 12/2014 (encaminhada em 11/09/2014), cujo final ocorreu em 06/10/2014, a Fiscalizada, novamente, deixou de apresentar os comprovantes de liquidação das operações com seus fornecedores constantes dos Anexos do Termo nº 05/2014”. Concluindo restar “caracterizada a pouca disposição da Fiscalizada em comprovar os dispêndios que reduziram a base de cálculo do imposto de renda e contribuição social, através dos contratos, notas fiscais e comprovantes de pagamentos, bem como falta de adequados esclarecimentos quanto à finalidade das contas contábeis, não resta alternativa a esta Fiscalização senão proceder a glosa da maior parte dos custos e despesas indicados nos Anexos de 1 a 7, do Termo nº 05/2013. Não se deve olvidar que a Fiscalizada teve a seu dispor praticamente um ano para aperfeiçoar suas comprovações, sem que isso tenha se verificado satisfatoriamente”. Sequencialmente detalha as contas de despesas que restariam sem comprovação e que resumiu em quadro próprio. Motivação para o Arbitramento Em razão do cenário encontrado, o Agente Fiscal entendeu se estar diante de escrituração imprestável para os fins a que se propõe, qual seja, refletir a correta posição da azienda, por ferir princípios básicos da ciência contábil e afetar a apuração dos resultados e dos tributos que têm, na contabilidade, a sua base estrutural. Nas palavras literais do Auditor: “as apurações levadas a efeito indicam a necessidade de desconsideração da opção feita pelo sujeito passivo, conquanto sua contabilidade revela vícios considerados insanáveis, que a tornam imprestável para fins de apuração do lucro real”, o que impõe a utilização do remédio prescrito no artigo 530, do RIR/1999, ou seja, o arbitramento. A seguir desfila os argumentos que entende levar ao arbitramento: Imprestabilidade da escrituração Sustenta que a glosa dos custos e despesas, aliada à não contabilização correta dos valores aportados por sua controladora desfigurou a escrituração e a tornou imprestável, conforme quadro que elaborou. Diz mais o condutor do feito: “o total sujeito à glosa, no montante de R$ 23.897.690,31, corresponde a 62,5% do total dos custos e despesas operacionais (incluindo as despesas financeiras). Num caso como este, o procedimento de arbitramento se impõe como medida necessária e impostergável, não dispondo o fisco, na espécie, da possibilidade de qualquer juízo de valor, conveniência ou oportunidade, por se caracterizar a medida em apreço em ato vinculado aos ditames legais”; que, “o que deve prevalecer é a forma de tributação que mais representa o lucro Fl. 3973DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.974 9 efetivamente auferido pela Fiscalizada e aquela que se harmoniza com a legislação tributária, o que não passa necessariamente pelo critério quantitativo do crédito tributário apurado. Se mantivéssemos a opção pelo lucro real, estaríamos tributando aquilo que, sabidamente, não representa renda”. Inexistência ou falta de apresentação de documentos A respeito, informa que a contribuinte “deixou de apresentar, ou apresentou de forma incompleta, a documentação que daria suporte aos registros contábeis por ela efetuados. Em determinados momentos, chegou mesmo a avaliar a conveniência ou não da disponibilização de documentos requisitados pela Fiscalização, usurpando desta a prerrogativa que detém, por força de lei, tecendo, por vezes, considerações descabidas quanto à necessidade de apresentação de elementos para fins de comprovação dos fatos geradores em exame. Isso ocorreu em relação ao contrato de mútuo, exaustivamente solicitado, sem que ao final deste procedimento o mesmo viesse a ser apresentado em sua versão original, junto com a tradução oficial e selos consulares exigíveis. Bem se sabe, que o contrato em apreço deveria (se é que ele existe) prever cláusulas referentes aos juros a serem praticados, bem como as variações cambiais dele decorrentes. A apresentação dos documentos elaborados perante à autoridade monetária (ROF’s, contratos de câmbio) embora indique as supostas condições do mútuo, não substitui, por si só, o contrato original”. Além disso, ainda no dizer do Fisco, “a apuração do lucro real também ficou comprometida ante a falta de exibição de diversas notas fiscais, dos contratos com fornecedores e de diversos comprovantes de liquidação financeira com tais fornecedores, como fartamente explicitado no item atinente à glosa de custos. Todos os itens faltantes estão bem especificados nos anexos ao presente termo. Em uma de suas respostas, a Fiscalizada afirmou que havia extraviado parte de seus contratos com fornecedores. A respeito do extravio de livros e documentos contábeis, o art. 264, § 1º, do RIR/99, dispõe que constitui obrigação da pessoa jurídica a promover a publicação, em jornal de grande circulação do local de seu estabelecimento, aviso concernente ao fato. Não houve comprovação a esse respeito, como solicitado no Termo nº 13/2014. Convém rememorar que a Fiscalizada contou com um prazo acentuadamente elástico (um ano) para cumprir a obrigação de comprovar o que lhe fora formalmente e legalmente requisitado, através do item 02, do Termo nº 05/2013, e as reintimações dele derivadas”, além de não ter apresentado “a relação do pessoal contratado para lhe prestar os serviços vinculados às suas obrigações contratuais”. Escrituração Contábil Digital sem validade jurídica perante terceiros Com relação à ECD (Escrituração Contábil Digital), a contribuinte “foi intimada a solucionar a situação inconsistente de sua escrituração contábil digital, de acordo com o Termo nº 02/2013, no prazo de 45 (quarenta e cinco) dias – prazo regulado pelo art. 57 da MP nº 2.15835, então vigente , tendo sido formalmente advertida de que, naquela circunstância, a validade jurídica de sua escrituração contábil encontravase comprometida, cabendolhe acompanhar o processo de autenticação, perante a Junta Comercial, do novo arquivo a ser apresentado, sob pena de em caso extremo de desídia quanto às providências de sua alçada, adoção de arbitramento do lucro para o ano auditado”. Depois de apontar que “se é verdade que a exigência da JUCEES (1º arquivo) pareça impertinente, não menos verdade é o fato de que a Fiscalizada negligenciou o processo de autenticação da ECD, não apenas no decorrer da ação fiscal, mas bem anteriormente, quando da entrega do arquivo, em 20/06/2011. Isso porque ela, Fiscalizada, dispunha de 30 (trinta) dias, como preconiza o art. 13, § 1º, acima transcrito, para cumprimento das exigências formuladas, após a ciência da notificação, datada de 23/09/2011, que lhe foi encaminhada pela JUCEES. Desde aquela ocasião, nenhuma providência foi tomada”, ressalta o Fisco que esta irregularidade, de per si, “não se constitui em motivação autônoma para o arbitramento”, mas, neste caso, Fl. 3974DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.975 10 subsidiariamente, em razão dos demais aspectos envolvidos, o fato “corrobora a adoção do mesmo, pelas razões expostas” (TVF – fls. 101). Na forma do relatado, o Fisco procedeu aos lançamentos, na sistemática do arbitramento, dos valores apontados como “subvenção” (já antes tratado) e das demais receitas anteriormente declaradas pelo regime do lucro real. Sobre os lançamentos citados incidiram no primeiro caso multa de ofício qualificada (por fraude) e agravada (por desatendimento às intimações) e, no segundo (acima), foi agravada a penalidade pelo mesmo motivo de não atendimento às requisições fiscais. Em relação ao PIS e à COFINS, o Agente assentou que o lançamento de ofício “deve estar restrito às receitas de subvenção omitidas, uma vez que, no Lucro Arbitrado, o regime para as referidas contribuições é o cumulativo (alíquotas de 0,65% e 3%, respectivamente). Considerando que nas receitas da atividade (tabela acima) foi verificada a ocorrência de retenções pelas fontes pagadoras (PETROBRAS e ANADARKO EXPLORAÇÃO E PRODUÇÃO DE PETROLEO E GÁS NATURAL LTDA), as únicas clientes da Fiscalizada em 2010, em relação a todas as notas, o efeito da autuação das duas contribuições para esta infração anulase pela compensação devida. Subsiste, portanto, o lançamento de PIS e COFINS apenas quanto à omissão de receitas de subvenção”. Houve também imputação de responsabilidade solidária à SEADRILL SERVICOS DE PETROLEO LTDA, CNPJ nº 09.521.059/000108, com base no art. 124 do CTN, o qual dispõe sobre as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal, conforme amplamente descrito no TVF, especificamente negócios em comum, endereços idênticos, inatividade da fiscalizada, mesmo controle administrativo, absorção do grupo econômico Scorpion pela Seadrill, processo no CADE tratando deste fato, empregados da autuada migrando para a responsável solidária ou compartilhando tarefas, tudo conforme bem resumido pelo Fisco no fechamento do TVF: “a existência do grupo econômico pressupõe a existência de pelo menos uma relação de coordenação entre os entes coligados, de forma que resulte numa orientação empresarial comum. Tornase relevante que as atividades exercidas tenham algum grau de complementaridade, a fim de possibilitar a maximização no uso dos recursos. É exatamente isso que vislumbramos no caso concreto, quando o Grupo SEADRILL absorve o grupo SCORPION, abocanhando uma fatia mais expressiva no segmento das sondas jackup”. “Quando as empresas do grupo econômico caracterizado passam a praticar ações que fazem gestar a obrigação tributária, decorre daí a solidariedade de que trata o já citado art. 124, I, do CTN. É necessário haver uma combinação de recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos com a participação, direta ou indireta, em atividades ou empreendimentos comuns para o efeito tributário em comento. Esta é exegese do ‘interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal’, expresso na matriz legal. E isso ficou bem caracterizado diante dos diversos vínculos acima expostos, especialmente o controle absoluto dos ativos (sondas de perfuração), antes pertencentes ao Fl. 3975DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.976 11 Grupo SCORPION e que, a partir de 2010, passaram para o grupo integrado pela RESPONSÁVEL SOLIDÁRIA”. Contrapondose ao trabalho fiscal, a autuada interpôs extensa impugnação (fls. 3046/3142) e juntou documentos, aduzindo, preliminarmente, nulidade por duplo vício de motivação, quais sejam: rejeição ao modelo Petrobras e omissão do contrato com Anadarko e, no mérito, a correção de seu procedimento, a inexistência das irregularidades apontadas pelo Fisco, a atendimento às intimações, a ilegalidade da glosa de custos e despesas, a indevida imputação como subvenção a valores que se refeririam a empréstimos, a ilegal adoção de arbitramento em detrimento ao regime do lucro real que adota. Também refuta a imputação de responsabilização solidária feita à Seadrill e rebate a qualificação e agravamento da multa de ofício. Submetidos os autos à apreciação da 1ª Turma da DRJ/Curitiba, os lançamentos foram mantidos em sua integralidade, apenas com desoneração do agravamento da multa de ofício, em decisão assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2010 ERRO DE IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. Descabe a alegação de erro de identificação do sujeito passivo quando as receitas omitidas deveriam compor o faturamento da empresa prestadora de serviços, no caso a autuada. PROCESSO ADMINISTRATIVO. NULIDADE. As causas de nulidade são aquelas previstas na legislação do processo administrativo em geral e do processo administrativo fiscal. Não tendo ocorrido nenhuma das hipóteses lá previstas, não há que se falar em nulidade. PEDIDO DE DILIGÊNCIA. IMPROCEDÊNCIA. Deve ser considerado improcedente o pedido de diligência que tem como objetivo a formação de prova a qual a contribuinte poderia ter apresentado durante a ação fiscal ou ainda juntamente com a impugnação. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 VERDADE MATERIAL. Tendo sido demonstrado que recursos oriundos do exterior, travestidos de empréstimos, eram na realidade subvenções para operação ou custeio, tais recursos devem sofrer tributação como receitas omitidas. OMISSÃO DE RECEITAS. Verificada a omissão de receita, a autoridade tributária determinará o valor do imposto e do adicional, além das contribuições reflexas. DESPESAS. COMPROVAÇÃO INSUFICIENTE. As operações praticadas por uma empresa com reflexos tributários devem estar lastreadas em documentação hábil e idônea, de forma a Fl. 3976DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.977 12 justificar, no caso de despesas, a necessidade e utilidade para as atividades da empresa. A simples contabilização das despesas não faz prova a favor do contribuinte. A contabilidade faz prova a seu favor quando se reveste das qualidades para tal, ou seja, quando a documentação comprobatória, os lançamentos contábeis, a coerência das datas, e o fluxo financeiro, em conjunto, estão em harmonia com o fato econômicocontábil. ARBITRAMENTO DO LUCRO. Tendo sido caracterizada uma das hipóteses prevista no art. 530 do RIR/1999, é plenamente cabível o arbitramento do lucro. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. PIS. COFINS. O decidido quanto à infração que além de implicar o lançamento de IRPJ provoca os lançamentos da contribuição para o Programa de Integração Social (Pis), da Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) também se aplica a estes outros lançamentos naquilo em que for cabível. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2010 MULTA AGRAVADA. Não tendo sido caracterizado a falta de apresentação de esclarecimentos por parte da contribuinte, ou ainda qualquer outra das hipóteses do art. 44, § 2º, da Lei nº 9.430/1996, não cabe o agravamento da multa. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA AGRAVADA. Nas relações jurídicas é conhecido o fenômeno da simulação, onde se pretende dar a aparência de um negócio jurídico contrário à realidade, destinado a provocar uma ilusão no público, seja por não existir negócio de fato, seja por existir um negócio diferente daquele que se aparenta. Comprovada a simulação, cabe o agravamento da penalidade. JURISPRUDÊNCIA ADMINISTRATIVA. ABRANGÊNCIA. Decisões proferidas pelo Conselho de Contribuintes não vinculam os integrantes das turmas de julgamento das Delegacias da Receita Federal de Julgamento, aplicamse ao próprio processo julgado e apenas servem como referência, seja para o contribuinte ou para o Fisco, conforme o caso. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. INTERESSE COMUM. Atribuise a responsabilidade tributária, nos termos do art. 124, inc. I do CTN, a outra pessoa jurídica, quando resta comprovado que a mesma exercia ingerência administrativa e operacional sobre a contribuinte fiscalizada através de empregados e diretor/administrador. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Fl. 3977DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.978 13 DOS RECURSOS VOLUNTÁRIOS Cientificados do R. decisum em 07/12/2015 (fls. 3597), a recorrente e o sujeito passivo solidário interpuseram Recursos Voluntários em 05/01/2016 (fls. 3601/3618 e 3755/3820, respectivamente), basicamente reiterando os termos das impugnações, rebatendo o trabalho fiscal e contestando a decisão recorrida naquilo que manteve os lançamentos e a responsabilização solidária. É o relatório do essencial, em apertada síntese. Fl. 3978DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.979 14 Voto Vencido Conselheiro Paulo Mateus Ciccone Relator Os Recursos Voluntários são tempestivos, a representação dos interessados está corretamente formalizada e os demais pressupostos exigidos para admissibilidade foram atendidos, de modo que os recebo e deles conheço. Já o Recurso de Ofício preenche os requisitos para sua provocação pela presidência da Turma Julgadora de 1º Piso, inclusive em relação ao novo limite de alçada fixado pela Portaria MF nº 63, de 2017 (R$ 2.500.000,00), de modo que igualmente o recebo e dele conheço. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Prefacialmente, há que se observar que a matéria objeto dos presentes autos tem frequência regular neste Tribunal administrativotributário federal de 2ª Instância, inclusive nesta 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Sejul (ver julgamento recente Ac. nº 1402002.362, de 24/01/2017, relatoria do Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves) de modo que plenamente do conhecimento dos meus pares. Apenas como exercício de memória, relembrese tratarse de operações envolvendo a Petrobrás e duas empresas, uma estrangeira, interessada em prestar serviços à estatal vinculados à exploração na área de petróleo e no território nacional, e outra, criada por esta mesma sociedade estrangeira e com sede no Brasil, e sobre a qual detém o controle acionário, isto tudo com a confecção de dois contratos distintos: um denominado de afretamento, com a empresa estrangeira, integrante do grupo econômico, locadora da unidade/plataforma equipada com as sondas de perfuração, no caso concreto representada pela SCORPION NEDERLANDSE B. V. (com sede em Amsterdã/Holanda) e outro, denominado de serviços de prospecção, perfuração, avaliação, completação e “workover”, que é firmado com a empresa criada no Brasil e aqui representada pela Fiscalizada, para a prestação de serviços, com previsão de pagamentos de pequena parte da soma dos valores pagos nos dois contratos mencionados. No jargão do setor, “split contract”. Neste cenário, ainda no apontamento acusatório do Fisco, restaria confirmado que, do preço global de ambos os instrumentos, o contrato de afretamento envolve a maior parcela dos recursos, sendo variável em cada caso. No caso vertente, a SCORPION NEDERLANDSE B. V. foi contemplada com pouco mais de 90% da soma do preço global dois contratos firmados, enquanto que o contrato firmado com a empresa do Grupo SCORPION, sediada no Brasil, previa pagamentos dos remanescentes 10%. Consoante dizeres do Fisco, neste caso, como em outros já fiscalizados e julgados, a execução dos contratos é simultânea, havendo cláusulas, em ambos os instrumentos, de relação solidária entre a Fiscalizada e a empresa estrangeira, no tocante às obrigações assumidas perante a PETROBRAS. Ainda na visão do Fisco, a análise dos contratos revela que o teor de ambos é muito parecido, mormente quanto aos anexos Fl. 3979DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.980 15 (detalhamento da execução), o que redundou em confusão de obrigações, podendo a PETROBRAS, na realidade, exigirlhes, de qualquer das partes, sem necessariamente qualquer benefício de ordem, o cumprimento nos termos avençados. Ainda neste contexto, diz o Fisco, “a única e real motivação para a PETROBRAS assim proceder, ou seja, seccionar em duas partes (contratos) o que poderia perfeitamente se fazer em apenas uma, encontra eco na questão tributária envolvida nas operações praticadas. Isso porque o envio da parcela substancial dos recursos (90%) para o exterior asseguraria economia fiscal, visto que, de acordo com exegese relativa ao art. 1º, inciso I, da Lei n° 9.481/97, capitaneada pela estatal brasileira, tais valores remetidos ao exterior estariam sob o alcance de alíquota zero, o que obstaria a retenção na fonte de imposto de renda para receitas de afretamento de embarcações marítimas. De ressaltar que tal entendimento afigurase controverso, posto que enfrenta a PETROBRAS resistência hercúlea, por parte do fisco, nos processos de contencioso administrativo que versam sobre a matéria. Embora o mérito dessa questão aqui não tenha objeto, o entendimento acolhido pela estatal vem revelar a que origem do procedimento por ela adotado na celebração de contratos congêneres subordinase a tais razões de direito”; De outro lado, naquilo que interessa sob o ângulo tributário neste processo, ao receber apenas 10% dos valores como receita e assumir a maior parte dos encargos, custos e despesas, a empresa sediada no Brasil, controlada da empresa de afretamento, apresenta resultados constantes e sequenciais de prejuízos, exigindo da controladora aportes financeiros regulares de forma a evitar a inadimplência e quebra da subsidiária integral, valores tratados pela autuada como empréstimos, com o que não concorda a Fiscalização da Receita Federal. DOS RECURSOS – VOLUNTÁRIO E DE OFÍCIO Postas estas premissas, passo à análise dos dois recursos voluntários (do contribuinte e do sujeito passivo solidário), bem como do recurso de ofício interposto pela DRJ. Antes de adentrar ao mérito, aprecio e rejeito as preliminares de nulidade arguidas pela recorrentecontribuinte, não vislumbrando, como alegado, “rejeição ao modelo Petrobrás”, nem desconsideração ao contrato firmado pela autuada com a Anadarko Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural Ltda, o que levaria à nulidade por cerceamento de defesa, por ser “contraditório e pouco claro ao analisar somente o contrato com a Petrobrás”. Ao revés, as longas e bem concatenadas peças de defesa apresentadas em todas as fases recursais e a farta documentação acostada aos autos mostram que o recorrente teve pleno conhecimento da imputação fiscal e pôde exercer seu constitucional e lídimo direito de defesa de forma absolutamente transparente e sem nenhum óbice ou impedimento. Na mesma linha, não consigo ver em que ponto o direito de defesa do contribuinte teria sido cerceado em função da possível falta de análise por parte da Autoridade Fiscal do contrato com a Anadarko Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural Ltda. Na verdade, o presente processo nada tem a ver com a Anadarko, mas, sim, tem como centro e ponto investigativo, as operações relativas aos serviços prestados pela fiscalizada junto à Petrobras, tendo em vista tudo o que antes já se relatou, não havendo nenhuma menção ou injunção relativa a outros procedimentos, contratos ou operações. Mais a mais, os rígidos preceitos dos artigos 10 e 59 do PAF, bem como do artigo 142 do CTN não só não foram ofendidos como restaram INTEGRALMENTE cumpridos, pelo que nenhum reparo há que se fazer ao trabalho do Fisco. Fl. 3980DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.981 16 Preliminares rejeitadas. Passo ao mérito. DA INFRAÇÃO DE OMISSÃO DE RECEITAS SUBVENÇÃO Como apontado pela Fiscalização, a recorrente Scorpion apresentou resultados negativos por períodos sucessivos, ou seja, as receitas geradas e que foram declaradas em DIPJ mostraramse insuficientes para absorver os encargos, custos e despesas presentes em sua atividade empresarial, como mostra o quadro abaixo: Observese em destaque, o resultado final (prejuízo) de cada um destes períodos: Indesmentível (pois foram dados obtidos junto à própria recorrente) que em seis anos (de 2008 a 2013) a recorrente, para uma receita operacional e não operacional de R$ 74.297.305,67, enfrentou custos/despesas da ordem de R$ 240.545.484,80 (em números absolutos estes suplantaram em mais de 166 milhões de reais as receitas), significando que para cada real de renda obtido foram despendidos mais de 3 reais a título de encargos. Tratase, sem dúvida, de situação fora dos padrões normais do empreendedorismo capitalista, posto que, sabidamente, despesas (genericamente conceituadas) fazem parte do cotidiano das empresas e representam o esforço monetário necessário para a obtenção de receitas e, consequentemente, de lucros. Isto é pacífico. Em outro dizer, consoante leciona o professor Sérgio de Iudícibus, com a cátedra que lhe é peculiar, despesa “representa a utilização ou o consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas podendo referirse a gastos efetuados no passado, no presente ou que serão realizados no futuro”. 1 O mesmo Sérgio de Iudícibus, José Carlos Marion e Elias Pereira, in “Dicionário de Termos de Contabilidade”, Atlas – SP – 2ª Ed., conceituam que “despesa, em sentido restrito, representa a utilização ou consumo de bens e serviços no processo de produzir receitas. O que caracteriza a despesa é o fato de ela tratar de expirações de fatores de serviços, direta ou indiretamente relacionados com a produção ou a venda do produto (serviço) da entidade”. Em síntese, como dito, inexistem dúvidas de que a despesa é a concretização do esforço, em termos monetários, para a geração da receita, reduzindo o patrimônio da empresa, com a perspectiva, com uma promessa latente de geração futura ou 1 IUDÍCIBUS, Sergio de. Teoria da Contabilidade. 9. ed. São Paulo: Atlas, 2009. Fl. 3981DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.982 17 imediata de receita que deve, por definição, suplantar as despesas e assim gerar a parcela do lucro. Neste contexto de regime de livre iniciativa, qualquer empreendimento que tenha fins lucrativos deve apresentar receitas que suplantem os encargos, sob pena de se tornar viável e impossível sua continuidade, levando à quebra se tal situação for mantida ao longo de períodos sucessivos, quadro indiscutivelmente estampado nestes autos. Ora, neste contexto, somente com medidas alternativas, a inadimplência da recorrente não se exteriorizaria no intervalo de 2008 a 2013 e remédio buscado foram os aportes financeiros feitos, ininterrupta e sucessivamente por sua controladora, SCORPION INTERNATIONAL LTD., que no caso do ano em foco pelo Fisco (2010) teve a seguinte movimentação: Em contraparte, as receitas declaradas pela recorrente especificamente DIPJ no anocalendário de 2010 (conf. DIPJ) somaram R$ 20.570.207,34, insuficientes para possibilitar a geração de lucros, como mostra o quadro abaixo: Instada a informar a que título os R$ 20.878.000,00 aportados pela controladora foram tratados na empresa brasileira, a recorrente esclareceu tratarse de “empréstimos”. Fl. 3982DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.983 18 Pois bem, que “empréstimos” podem ser feitos entre quaisquer agentes econômicos, ainda mais quando mantida relação de interdependência, inexistem dúvidas. O ponto chave, porém, é que tais “empréstimos” têm parâmetros que devem ser seguidos e observados, sob pena de desvirtuamento do instituto, dentre eles, contratos de mútuo, previsão de pagamento e quitação do débito. Ocorre que, no caso tratado, ainda que estes aportes tenham sido feitos ao longo de todo o período de 2008 a 2013, especialmente, no que interessa, 2010, nenhum valor, até o fechamento da ação fiscal em 2014, tinha sido pago pela possível “mutuária”, no caso a recorrente, ainda que tenha informado a previsão de que o vencimento do empréstimo darseia em 2011. Situação muito bem observada pela decisão recorrida (fls. 3565): “Vejase que os repasses ocorridos desde 2008 até 2010 tinham como vencimento a data de 31/12/2011. Entretanto, até, pelo menos, 26/03/2014 (data da resposta ao Termo nº 09 – folha 366) a contribuinte não havia efetuado nenhum pagamento relativo à quitação do suposto empréstimo. Também sequer esclareceu o motivo de estar inadimplente”. Mais ainda, de se salientar que em 2014 – quando da conclusão do procedimento fiscalizatório – a recorrente já se encontrava na condição de inativa, como descrito no TVF: “a empresa não dispõe de patrimônio capaz de dar cobertura ao crédito tributário, ora em constituição, o que é corroborado ante o exame da DIPJ do Ex. 2014, anobase 2013, que aponta ausência de receitas, patrimônio e empregados, além da própria afirmação da Fiscalizada (Termo nº 13/2014): “Cumpre esclarecer que a empresa não se encontra ativa já há algum tempo, de forma que não existem ativos contabilizados”. Neste cenário, se nenhum pagamento havia sido feito até 2014 e a recorrente já se encontrava inativa neste ano, é óbvio e evidente que a possibilidade de pagamento do “empréstimo” praticamente se esvaiu, quadro agravado ainda mais quando se constata que em seis anos de atividade, não tendo a empresa gerado receitas suficientes sequer para cobrir seus custos, dificilmente teria condições e recursos para quitar citados “empréstimos”. Dentro destas condições – comprovadas – vejo que a conclusão do Fisco de que citados valores aportados tiveram característica de verdadeiras subvenções, se mostra robustecida. De fato, se é certo que possa haver envio de valores de uma controladora para sua controlada a título de aporte de capital, empréstimos ou qualquer outra nomenclatura que se adote, não é menos certo que estas operações devem ser suportadas por documentos e dentro de um contexto fático coerente. Ora, que sentido faria uma empresa, ainda que controladora daquela a quem os aportes foram dirigidos, continuar a injetar valores substanciais (que claramente tiveram por fito fazer frente aos encargos lançados contra a sua controlada) durante anos e sem que tenha recebido um centavo sequer de juros quanto mais de capital? Fl. 3983DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.984 19 A resposta talvez passe pela alegação da defesa em sua peça recursal quando literalmente assenta (RV – fls. 3784): Mais ainda: Ou seja, na visão da recorrente, o “grupo” a que ela pertence poderia, a seu bel entendimento, definir em qual empresa se daria o lucro e qual delas seria deficitária. Este argumento poderia até ser aceito não houvesse algumas variáveis bastante interessantes envolvidas nas operações: i) a legislação brasileira prever tratamento tributário beneficiado e diferenciado ao chamado “afretamento”, no caso, contratado com a empresa estrangeira; ii) o fato da referida empresa situarse em “paraíso fiscal”; iii) o contumaz e sucessivo modus operandi altamente conveniente perante a legislação tributária brasileira – de carregar custos/despesas na empresa prestadora de serviços (recorrente) suprindoa com aportes regulares para que pudesse adimplir tais encargos, sob o título de “empréstimos”, nunca quitados e deixar a esmagadora parcela da receita (90%) ser alocada na empresa estrangeira, a título de pagamento de afretamento, mais benéfico sob o ângulo da tributação no Brasil. Com perspicácia, o tema foi abordado e muito bem sintetizado pelo I. Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves, no voto condutor do Acórdão antes referido: “A empresa estrangeira, afretadora da plataforma, é controladora direta da empresa (...) (.com mais de 99% de participação societária); ambas possuem os mesmos dirigentes, que assinam todos os contratos e aditivos realizados com a PETROBRÁS. Os contratos firmados com a PETROBRÁS seguem um padrão de contratação estabelecido pela empresa e que se repete com inúmeros outros prestadores de serviço da petroleira. Nesse tipo de contratação, a empresa estrangeira firma com a PETROBRÁS dois contratos distintos: um de afretamento de embarcações/plataformas, firmado com a empresa controladora no exterior, e outro com a empresa sediada no Brasil, responsável pela prestação de serviços de perfuração, avaliação etc. O primeiro contrato, de afretamento, representa cerca de 80% do somatório dos valores envolvidos; já o segundo, de prestação de serviços, importa no complemento, ou seja, cerca de 20% do total contratado. Fl. 3984DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.985 20 A empresa (...) tem operado, sistematicamente, no prejuízo, ano após ano, mantendose apenas graças a aportes financeiros de sua controladora no exterior (ingressos esses contabilizados como empréstimos). Em 2007 esse empréstimos importaram em R$25.159.290,00. O direcionamento ao exterior da maior parte dos valores contratados, é isento do pagamento do imposto de renda retido na fonte, haja vista que em tais operações (afretamento de embarcações) a alíquota é zero, por força do disposto no art. 12, inciso I, da Lei nº 9.481/97. Além do mais, a controladora no exterior, para onde é direcionada a maior parte dos valores contratados, está localizada em paraíso fiscal”. Em contraponto, a recorrente fixa posição na linha de inexistir irregularidade em seu procedimento. Vejase (RV – fls. 3786): Como dito, é vero que isto possa ocorrer, porém não é menos verdadeiro que estes “empréstimos” devem ter suporte documental, prazo de vencimento e – principalmente – sejam quitados. Nada disso se vê nos autos. Em face de todas estas nuances, não me sensibilizo com as alegações da recorrente de que teriam sido comprovadas as internações no Brasil via documentos do BACEN (o que só prova a internação dos valores, como, aliás, não poderia deixar de ser, e não a finalidade do aporte), nem a tentativa de transferir à Fiscalização a responsabilidade de consultar a Serasa, entidade que tem cunho eminentemente relacionado ao mercado financeiro e não à área tributária. Por todos estes fatos, caberia à recorrente não se limitar à tese argumentativa, mas, sim, acostar aos autos provas inquestionáveis das operações, o que não se vê. Ademais, a própria recorrente reconhece não possuir tais documentos comprobatórios. Vejase (RV – fls. 3786): Fl. 3985DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.986 21 O fato de a Fiscalização “reconhecer o esforço” da recorrente para apresentar os documentos, “tanto assim que afastou o agravamento da multa de ofício”, ao revés de aproveitar à interessada só ratifica a inexistência de tais documentos, ou seja, se tais documentos existem, não foram apresentados “apesar do esforço” que a maior interessada em apresentálos possa ter envidado. Assim, não comprovado o “empréstimo” no montante de R$ 20.878.000,00 em 2010, entendo como correto o posicionamento da Fiscalização em considerar tais aportes como subvenções de custeio, na forma prescrita pelo artigo 392, do RIR/19992, pois é exatamente disso que se trata, impondo sua submissão à tributação. DA GLOSA DE DESPESAS A segunda irregularidade informada pelo Fisco diz respeito à não comprovação de diversas despesas operacionais. Em síntese, aponta a Autoridade Fiscal, ter intimado a fiscalizada a apresentar contratos, notas fiscais e comprovantes de pagamentos de diversos itens de despesas, especificamente das contas agrupadas nos seguintes anexos: Anexo 1 (Conta 411301001_Outros Materiais Diretos); Anexo 2 (Conta 413302003_Assessoria); Anexo 3 (Conta 413302020_Outros Serviços PJ); Anexo 4 (Conta 413302999_Outros Serviços PJ); Anexo 5 (Conta 413901003_Materiais Auxiliares de Consumo); Anexo 6 (Conta 413901007_Lanches e Refeições) e Anexo 7 (Conta 512901031_Despesas c/ Importação/Exportação, e que, mesmo diante do largo prazo concedido, tais documentos não vieram aos autos ou vieram de forma insuficiente. Diz ter havido, ainda, retardamento ou negligência no atendimento ao requisitado pelo Fisco (o que levou ao agravamento da multa de ofício), que “a Fiscalizada não se interessou em descrever a mecânica de suas operações e como eram contabilizadas”, que “tampouco nada disponibilizou em referência aos pagamentos supostamente feitos aos mesmos. Em relação aos contratos com esses fornecedores, alegou que extraviou alguns deles quando da transferência de sede da empresa, de Vitória para o Rio de Janeiro”; que “a ausência ou ocultação dos instrumentos contratuais depõe contra a robustez dos lançamentos contábeis registrados, que devem estar lastreados com documentação hábil e idônea”, e que, “mesmo após uma última tentativa por parte do Auditor Fiscal de obter os documentos, a Fiscalizada informou que somente agora – decorridos mais de dez meses da primeira intimação, e após sucessivas prorrogações e reintimações – ela, Fiscalizada, reportouse à instituição financeira para obter os extratos bancários que viriam a comprovar os pagamentos efetuados aos fornecedores, solicitando prazo adicional para a apresentação de tais elementos (anexou email). Nada mencionou em relação aos contratos com fornecedores faltantes (para os quais já tinha alegado extravio de parte deles) e nem em relação às 2 Art. 392. Serão computadas na determinação do lucro operacional: I as subvenções correntes para custeio ou operação, recebidas de pessoas jurídicas de direito público ou privado, ou de pessoas naturais (Lei nº 4.506, de 1964, art. 44, inciso IV); Fl. 3986DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.987 22 notas fiscais ainda pendentes. Ocorre que transcorrido o prazo de prorrogação (vinte dias) requerido na resposta ao Termo nº 12/2014 (encaminhada em 11/09/2014), cujo final ocorreu em 06/10/2014, a Fiscalizada, novamente, deixou de apresentar os comprovantes de liquidação das operações com seus fornecedores constantes dos Anexos do Termo nº 05/2014”. Na defesa, a recorrente alega sumariamente ter havido arbitrariedade do Fisco ao desconsiderar a mesma documentação que aceitara em outros casos, em outros, ter exigido documentação básica completa (contrato, nota fiscal, comprovante de liquidação) e em situações congêneres só parte deste mesmo rol, em outros, ainda, ter usado de rigor excessivo exigindo documentos impertinentes, etc. (RV – fls. 3791/3792). Pois bem, é curial que uma pessoa jurídica, optante pelo LUCRO REAL, deve manter a sua escrituração com observância das leis comerciais e fiscais, abrangendo todas suas operações (art. 251 do RIR, de 1999): Art. 259. A pessoa jurídica tributada com base no lucro real deverá manter, em boa ordem e segundo as normas contábeis recomendadas, Livro Razão ou fichas utilizados para resumir e totalizar, por conta ou subconta, os lançamentos efetuados no Diário, mantidas as demais exigências e condições previstas na legislação (Lei nº 8.218, de 1991, art. 14, e Lei nº 8.383, de 1991, art. 62). Da mesma forma, não basta a contabilidade registrar lançamentos, é imprescindível que os registros tenham suporte documental, conforme artigo 264, do RIR/1999: Art. 264. A pessoa jurídica é obrigada a conservar em ordem, enquanto não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, os livros, documentos e papéis relativos a sua atividade, ou que se refiram a atos ou operações que modifiquem ou possam vir a modificar sua situação patrimonial (DecretoLei nº 486, de 1969, art. 4º). (...) § 3º Os comprovantes da escrituração da pessoa jurídica, relativos a fatos que repercutam em lançamentos contábeis de exercícios futuros, serão conservados até que se opere a decadência do direito de a Fazenda Pública constituir os créditos tributários relativos a esses exercícios (Lei nº 9.430, de 1996, art. 37). Ora, ainda que a recorrente tenha feito profunda dissertação sobre o tema, arguindo que gastos podem ser comprovados “por todos os meios de prova admitidos pelo ordenamento jurídico”, voltado a se referir ao Relatório da Serasa e trazido decisões sobre o tema que entende lhe ser aproveitável, a verdade é que, conforme suas literais palavras, “de fato, a RECORRENTE não conseguiu levantar a documentação solicitada pela fiscalização a fim de comprovar as despesas” (RV – fls. 3795). Os valores objeto de glosa e respectivas contas são os seguintes: Fl. 3987DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.988 23 Neste eito, sem necessidade de maiores digressões, incomprovados os registros escriturais, a glosa das despesas se impunha, não se olvidando que a contabilidade só faz prova a favor do sujeito passivo quando os seus lançamentos estiverem suportados por documentos hábeis, conforme expressa determinação do artigo 923, do RIR/1999: Da Prova Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º, § 1º). Por consequência, não vejo correções a fazer ao trabalho fiscal, mantido neste aspecto. DO ARBITRAMENTO Em razão do deslocamento dos valores de “empréstimo” para “receita omitida” (R$ 20.878.000,00) e da glosa das despesas (R$ 23.897.690,31), o Fisco interpretou que a contabilidade da recorrente deixou de ter qualquer substância, revelandose imprestável para fins de apuração do “lucro real”, base imponível do IRPJ e CSLL, após os ajustes do lucro líquido. De fato, a DRE da recorrente antes e após os citados ajustes (receita omitida e glosa de despesas), aponta diferença brutal, justificando sua decretação de imprestabilidade. Vejase: Fl. 3988DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.989 24 Releva notar, neste cenário, que a comparação entre as receitas declaradas pela recorrente mostra uma distorção superior a 100%, ou seja, teria havido omissão de R$ 20.878.000,00 para uma receita total R$ 41.448.207,34 (R$ 20.570.207,34 + R$ 20.878.000,00), ou, em números relativos, a receita informada corresponderia a 49,63% da efetivamente auferida (menos de 50%, portanto). Do mesmo modo em relação aos custos/despesas glosados por falta de comprovação: para um total de R$ 38.211.388,03 foram desconsiderados pelo Fisco R$ 23.897.690,31, ou 62,54%. Ora, ao se modificar radicalmente os montantes de receitas e despesas, com parcelas altamente significativas, restou totalmente subvertida a própria essência do resultado contábil apresentado, desprovendoo da necessária confiabilidade que dele se espera, impedindo, naquilo que é pertinente aos autos, sua adoção para fins de apuração do lucro líquido e consequentemente das bases imponíveis de IRPJ e de CSLL. Neste sentido, norma expressa do RIR/1999 (base legal – art. 9º, do Decreto lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1.977): Art. 276. A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita à verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova, observado o disposto no art. 922 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º). Fragilizada a escrituração, o regime do Lucro Real se esvai, por faltarlhe suporte, implicando em se assumir o remédio do artigo 530, do mesmo diploma regulamentar: Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do anocalendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): Fl. 3989DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.990 25 II a escrituração a que estiver obrigado o contribuinte revelar evidentes indícios de fraudes ou contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para: (...) b) determinar o lucro real; A recorrente reage contra este procedimento questionando (RV – fls. 3807): “onde estão os indícios de fraude contábil? O que fez de sua escrituração viciada, errônea, deficientes quando todos os documentos de suporte foram apresentados?” Mais: “conforme esclarecido em sede de impugnação, o contribuinte não deixou de apresentar nenhuma informação que fosse capital ao regular deslinde da fiscalização”. Para completar: “muito ao contrário, a todo o momento preocupouse em apresentar as informações requisitadas ainda que através de outros documentos quando na falta daqueles requisitados”. (destaques não são do original). E concluir: Ora, a falta de lastro na escrituração leva à sua desconsideração. É inevitável. Neste sentido, os reclamos da recorrente se mostram fragilizados diante dos fatos concretos presentes nos autos: i) a contabilização no passivo de valores que têm características de receita (subvenção), e, ii) mais de 62% de despesas ou custos que se mostraram incomprovados com documentação hábil e idônea, ainda que a contribuinte tenha alegado ter procurado substituíla por outros documentos. Mais a mais, não se perca de foco, que a legislação comercial das sociedades por ações (Lei nº 6.404/1976, com alterações), aplicável às demais sociedades por força do Decretolei nº 1.598/1977, pontua: Art. 177. A escrituração da companhia será mantida em registros permanentes, com obediência aos preceitos da legislação comercial e desta Lei e aos princípios de contabilidade geralmente aceitos, devendo observar métodos ou critérios contábeis uniformes no tempo e registrar as mutações patrimoniais segundo o regime de competência. Pelo alinhavado, induvidoso que tais dispêndios têm que estar suportados por documentos hábeis, idôneos e contemporâneos aos fatos, de forma a permitir que as despesas sejam alocadas em contrapartida à receita e componham o resultado final de uma Fl. 3990DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.991 26 sociedade, exigência que aparece não apenas na legislação fiscal3, mas do mesmo modo na regulação contábil imposta pelo Conselho Federal de Contabilidade mediante a RESOLUÇÃO CFC N.º 1.330/2011 (DOU de 22.03.2011), assim redigida no que interessa: Documentação contábil 26. Documentação contábil é aquela que comprova os fatos que originam lançamentos na escrituração da entidade e compreende todos os documentos, livros, papéis, registros e outras peças, de origem interna ou externa, que apóiam ou componham a escrituração. 27. A documentação contábil é hábil quando revestida das características intrínsecas ou extrínsecas essenciais, definidas na legislação, na técnicacontábil ou aceitas pelos “usos e costumes”. 28. Os documentos em papel podem ser digitalizados e armazenados em meio magnético, desde que assinados pelo responsável pela entidade e pelo profissional da contabilidade regularmente habilitado, devendo ser submetidos ao registro público competente. No mesmo sentir, a jurisprudência: ASSUNTO: ESCRITURAÇÃO. FORÇA PROBANTE. A escrituração contábil mantida com observância das disposições legais somente faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados se forem comprovados por documentos hábeis e idôneos, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. (Acórdão CARF nº 1402 000.290 – 09/11/2010 – Relator Antonio José Praga de Souza) Aliese ao cenário retratado o fato de a escrituração contábil digital (ECD) da recorrente não atender, à época, os requisitos exigidos para este sistema de registro. Tal fato, é verdade, de per si não levaria à desclassificação dos meios contábeis, mas, como alertado pelo Agente Fiscal, no quadro em se inseriu, foi um fator a mais que levou a que se ignorasse a contabilidade do sujeito passivo, especialmente porque, no linguajar do Fisco, às diversas intimações e reintimações para que procedesse à regularização, só vieram “respostas evasivas no sentido de estar contatando escritórios de advocacia para impetração de mandado de segurança. De concreto, nada foi providenciado”. 3 Decretolei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977 Art 9º A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita a verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos da sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova. § 1º A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. Fl. 3991DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.992 27 De todo o modo, ainda que na impugnação ou neste recurso voluntário a contribuinte possa ter comprovado algum valor (v. decisão recorrida – fls. 3569 – “assim, apesar do reconhecimento da comprovação de três itens de despesas do Anexo II, no total de R$ 80.988,00, tal situação não influencia a conclusão da Autoridade Fiscal, tendo em vista a sua insignificância”), a conclusão continua intocável – o montante da glosa em sua quase totalidade permaneceu incólume. Por fim, embora de amplo conhecimento, não de deve esquecer que “arbitramento” não é uma penalização, como parece pretender fazer entender a recorrente (RV – fls. 3808)4 e, muito menos, um instrumento de tortura de que disporia a Autoridade Fiscal para massacrar os contribuintes. Ao contrário, é remédio com previsão legal e de adoção inclinável pelo Fisco quando a escrituração da pessoa jurídica, sujeita ao Lucro Real, não atender aos ditames que legislação impõe para assunção deste regime de apuração. Neste trilho, a jurisprudência administrativa da Câmara Superior de Recursos Fiscais – CARF – órgão colegiado administrativo de julgamento em instância definitiva: “ARBITRAMENTO NÃO É PENALIDADE – O arbitramento não possui caráter de penalidade; é simples meio de apuração do lucro” (Ac. CSRF/010.123/81). Por tudo o que se expôs e o que consta dos autos, mantenho o arbitramento. DA MULTA QUALIFICADA Conforme redação do TVF, a multa de ofício, aplicada sobre as parcela considerada “receita omitida” pelo deslocamento dos valores entendidos pelo Fisco como “subvenção de custeio” e não “empréstimos”, como assumido pela recorrente, sofreu exasperação sendo elevada de 75% para 150%. No posicionamento fiscal (TVF – fls. 103) teriam ficado explicitadas, “no curso das apurações, as evidências materiais da prática delituosa, em tese, praticada pelos representantes da fiscalizada, com vistas à diminuição indevida dos tributos administrados pela RFB, o que, nos termos do art. 44, § 1º, da Lei nº 9.430/96, norteia a imposição de multa de ofício qualificada no percentual de 150% sobre a diferença de imposto devido decorrente da infração capitulada como omissão de receitas de subvenção de custeio ou operação. Esta qualificação deve ser aplicada sem prejuízo do agravamento acima aludido, o que enseja, sobre a referida infração, a aplicação do percentual de 225%, na forma como dispõe o art. 44, § 2º, da Lei nº 9.430/96”, e que, “cumpre frisar, a qualificação da multa de ofício tem lugar nas hipóteses de dolo, fraude ou simulação, nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, e, conforme relatado no item 4.2.6 acima, ficou caracterizada a simulação fraudulenta relativamente à infração em comento (Omissão de Subvenção Aportes Financeiros)”. (negrito no original). Definem os artículos invocados pelo Fisco: Lei nº 9.430, de 1996: 4 “A demanda fiscal (...) para comprovação das despesas (...) já encobria a pretensão do recurso ao arbitramento, pois só com o mesmo é que se poderia chegar à formulação de exigência de pagamento de principal de IRPJH e CSLL. Esse interesse arrecadatório é despudoradamente afirmado no TVF...” Fl. 3992DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.993 28 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Vide Lei nº 10.892, de 2004) (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) Lei nº 4.502, de 1964 Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. Apreciando o tema, a decisão recorrida fixou (fls. – 3574): “...entendo que o fato de a contribuinte ter simulado o recebimento de empréstimos, que na realidade eram receitas (vide tópico “Da Caracterização dos Empréstimos como Subvenção” – parágrafos 333 a 364) leva à constatação de que ocorreu, pelo menos, sonegação e fraude. 401. Vejase que a obtenção de recursos travestidos de empréstimos não tinha outro motivo senão a complementação da receita recebida pela empresa a fim de financiar a atividade de perfuração, operação esta que ficou com apenas 10% do montante contratado pela Petrobras, o qual se mostrou insuficiente para custear os serviços pelos quais se comprometeu. 402. Outrossim, não há nos autos notícia de que a contribuinte tenha solicitado à Petrobras um aditivo contratual para que o seu Fl. 3993DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.994 29 percentual de participação fosse aumentado de forma a equilibrar suas contas (receitas versus despesas) e gerar um mínimo de rentabilidade. 403. Entendo que a ação dolosa da empresa se revela na argumentação da fiscalizada de que o seu prejuízo pode ter sido compensado por um lucro apurado na empresa estrangeira o que leva à conclusão de que houve o deslocamento da base tributável, artifício do qual a contribuinte teve participação ativa. 404. Assim, tal modus operandi reflete a intenção da contribuinte de, no mínimo, retardar o conhecimento e a própria ocorrência do fato gerador por parte da autoridade administrativa federal, sendo inequívoca a subsunção ao tipo normativo de sonegação e fraude, acima descrito”. Concordo com a decisão recorrida quando assenta que “a obtenção de recursos travestidos de empréstimos não tinha outro motivo senão a complementação da receita recebida pela empresa a fim de financiar a atividade de perfuração, operação esta que ficou com apenas 10% do montante contratado pela Petrobras, o qual se mostrou insuficiente para custear os serviços pelos quais se comprometeu”, mas discordo – como discordo do condutor do feito – de que “o fato de a contribuinte ter simulado o recebimento de empréstimos, que na realidade eram receitas (vide tópico “Da Caracterização dos Empréstimos como Subvenção” – parágrafos 333 a 364) leva à constatação de que ocorreu, pelo menos, sonegação e fraude”. Entendo que, sim, os valores carreados ao longo de uma determinada linha do tempo da controladora no exterior para a controlada no Brasil e aqui contabilizados como “empréstimos” tinham – na verdade e como apontado pelo Fisco – características de autêntica receita, no caso, em forma de subvenção de custeio, por isso, tributada. Tanto assim é que encaminhei meu voto neste sentido. Todavia, não faço a leitura feita pela Autoridade Fiscal e pela decisão recorrida de que haveria a presença de sonegação, fraude ou conluio (qual delas, afinal o Fisco cita os três artigos da Lei nº 4.502/1964, indistintamente e o Acórdão de 1º Piso aciona os dois artículos iniciais, deixando a interpretação vaga e ao sabor de quem a aprecia). Vale exprimir, ou se está diante de sonegação, pelos motivos “x” e “y”, ou se está diante de fraude, pelas razões “w” e “z”, ou frente a conluio, em face de “tal” e “qual” ocorrência, não sendo plausível, ainda mais quando há imputação penal, de que tais acusações fiquem imprecisas. Mas, mais que isso, o que me leva a pensar que, apesar de entender ter havido a omissão de receita pelo deslocamento indevido de valores que deveriam figurar no resultado e figuraram no passivo da recorrente (empréstimo), a qualificação da multa não se sustenta é o fato de que os valores figuravam na contabilidade da autuada, havia registro de sua tramitação pelo BACEN e todos os demais elementos poderiam e puderam ser obtidos pelo Fisco, não me parecendo aflorar um cenário no qual se buscou “impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais ou impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido a evitar ou diferir o seu pagamento”. Fl. 3994DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.995 30 Ao contrário, repito, os dados estavam disponíveis à Fiscalização. Se, como ocorreu, o seu registro figurou indevidamente no passivo quando deveria ser tratado como receita, tal procedimento pode ser atribuído – dentro do princípio da boafé, a uma ação equivocada da contribuinte. Claro que tal “equívoco” poderia ter cunho doloso, mas aí já se trata de presunção e, sabese, fraude não se presume. Há ainda a posição firmada na Súmula CARF nº 14, que não pode ser ignorada: Súmula CARF nº 14: A simples apuração de omissão de receita ou de rendimentos, por si só, não autoriza a qualificação da multa de ofício, sendo necessária a comprovação do evidente intuito de fraude do sujeito passivo. Assim por não entender comprovado o “evidente intuito de fraude”, reformo a decisão recorrida neste aspecto e reduzo a multa de ofício lançada de 150% para 75%, relativamente à infração nº 0001 – Omissão de Receitas – Receita Operacional Omitida. DO RECURSO DE OFÍCIO E DA MULTA AGRAVADA Sobre os valores lançados, a Fiscalização impôs ainda o “agravamento” da multa de ofício em 50%, percentual aplicado inclusive sobre a penalidade eventualmente já qualificada. A decisão recorrida afastou o agravamento por entender que a penalização se dá apenas nos casos de “não atendimento pelo sujeito passivo, no prazo marcado, de intimação para prestar esclarecimentos, apresentar arquivos ou sistemas (previstos nos arts. 11 a 13 da Lei nº 8.218/1991) ou apresentar documentação técnica de que trata o art. 38 da Lei nº 9.430/1996. Não há menção à falta de apresentação de documentos”. (Ac. – fls. 3572). Concordo com tais argumentos e acrescento que, no meu pensar, o agravamento da penalidade só se mostra possível quando presentes (ou ausentes) atos do fiscalizado no sentido de tolher ou obstruir o procedimento fiscal de forma contumaz, o que não parece ter sido o caso dos autos, já que, de uma forma ou outra, integral ou parcialmente, na data fixada ou após esta, a contribuinte apresentou o que lhe foi exigido e contribuiu para que a execução fiscal se desenrolasse e chegasse ao final, tanto que os lançamentos puderam ser perpetrados sem embaraço aparente. Ratifico, assim, a decisão recorrida, NEGO PROVIMENTO ao recurso de ofício e torno sem efeito o agravamento da multa em 50%. DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA Diz o TVF (fls. 103/104): “Ao longo de todo o procedimento fiscal, como já bem caracterizado, a Fiscalização deparouse com uma postura impertinente, assumida deliberadamente pelos representantes da Fiscalizada, pautada pela leniência, impontualidade e o pouco sentido do dever de diligência perante a Administração Tributária, retardando, injustificadamente, a ação fiscal, deixando de cumprir, inclusive, os compromissos assumidos perante a Fiscalização. Tal atitude encontra explicação na atual condição dos negócios da Fiscalizada, posto que, na realidade, a Fl. 3995DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.996 31 empresa não se encontra operacionalmente ativa, conforme relatado no subitem 2.2 deste termo. Por tudo isso, entendese o porquê da pouca importância conferida pela Fiscalizada ao procedimento fiscal a que estava submetida, pois ainda que viesse a ser apurado eventual crédito tributário, o que por ora se confirma, a Administração Tributária veria frustrada a satisfação de seus direitos na qualidade de credor. Ocorre, porém, que pudemos identificar circunstâncias concretas que indicam a existência de responsabilidade tributária da empresa SEADRILL SERVICOS DE PETROLEO LTDA, CNPJ nº 09.521.059/000108, que ostenta a qualidade de sujeito passivo solidário, conforme se depreende do respectivo Termo de Sujeição Passiva, que integra os autos do processo de cobrança”. A empresa Seadrill, de seu lado, defendese (RV fls. 3601/3618) rechaçando peremptoriamente a imputação e afirmando que, “inobstante se tratar de empresas que passaram a integrar o mesmo Grupo, é certo que à data da apresentação da proposta para celebração do contrato de prestação de serviços com, a PETROBRÁS, 07.01.2008, a FISCALIZADA não estava subordinada ao Grupo SEADRILL”. Mais, que “não poderia ser considerada submetida ao controle desse último Grupo ao longo da execução do contrato nos anos de 2008, 2009 e até 27 de maio de 2010 (data a partir da qual 50,11% das ações da SCORPION OFFSHORE LTD. Passaram a ser detidas pelo Grupo SEADRILL”. Passa pela legislação, doutrina e jurisprudência, contesta a indicação do artigo 124, I, do CTN, conclama a independência das pessoas jurídicas e requer sua exclusão do pólo passivo. Como sabido, o artigo 124, I, do Códex prescreve serem solidariamente obrigadas as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal. No caso tratado, por muito bem analisar o tema e por com ela concordar, adoto a manifestação do I. Relator de 1º Grau (fls. 3577/3583) e a transcrevo na íntegra, assumindo sua posição como se minha fosse e como razões decidir neste aspecto: “...entendo que o art. 124, I, do CTN é aplicável ao presente caso, em face de SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA, por esta ter interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, tendo em vista os seguintes fatos: • Filiais com o mesmo endereço e telefone: a filial da fiscalizada de CNPJ 09.024.591/000454, criada em 04/08/2010, está constituída no mesmo endereço e possui o mesmo telefone de contato que a filial da responsável solidária de CNPJ 09.521.059/000361, criada em 04/06/2009, conforme consultas colacionadas abaixo: (...) • Nomeação da mesma pessoa para o cargo de diretor: em 19/08/2010 (fl. 2755) foi nomeado diretor da fiscalizada o Sr. Eduardo Navarro Antonello (CPF: 246.931.74874) – (fl. 2751), que Fl. 3996DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.997 32 permaneceu nessa função até 30/07/2014 (fls. 2485 e 2487). Em data muito próxima (24/09/2010) o Sr. Eduardo também se tornou administrador da responsável solidária (fl. 2436). • Empregados que tinham vínculo com a contribuinte e com a responsável solidária: o documento de folha 1933, utilizado para comprovar o pagamento de despesa, demonstra a checagem de documentos efetuada, em 08/09/2010, por “Fran Konart”, qualificada como “Accounts Payble Coordinator” ou Coordenadora de Pagamentos da responsável solidária, veja: A Fiscalização ao consultar as DIRF’s de 2010 a 2012 da SEADRILL, apurou que se tratava de FRANCISLEINE KONART, CPF nº 078.222.10769. Confirmando a informação apurada pela Autoridade Fiscal, consulta ao sistema GFIP demonstra que a referida pessoa era empregada da responsável solidária desde 01/01/2009, veja: Da mesma forma, constatouse que outros empregados, apesar de estarem registrados na Ficha de Registro de Empregados da fiscalizada (fls. 2643, 2644, 2647, 2652, 2660 e 2669 a 2672), constavam da DIRF e da GFIP da responsável solidária: Fl. 3997DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.998 33 Considerando o anocalendário objeto da fiscalização (2010), entendo que os três primeiros empregados (Anderson, Fernando e Flávio) são os que mais interessam ao tema da responsabilidade solidária, pois são empregados da empresa Seadrill desde o ano de 2009. Nesse sentido, seguem consultas à DIRF e à GFIP sobre os mesmos: (...) Em primeiro lugar ressaltese que as constatações acima elencadas não foram contestadas pela responsável solidária (Seadrill) em sua impugnação. Em segundo lugar esclareçase que as consultas relativas à GFIP foram efetuadas a fim de confirmarem o que foi apurado pela Autoridade Fiscal em suas consultas à DIRF. Dito isso, entendo que as constatações descritas acima deixam claro o interesse comum entre a empresa SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA e a fiscalizada. Nesse sentido, verifico que, ao contrário do que foi exposto pela impugnante, o controle e/ou a ingerência administrativa/operacional da empresa Seadrill sobre a empresa Scorpion vem de muito antes das tratativas de aquisição de controle de suas controladoras no exterior. Sendo mais específico, esse controle e/ou ingerência vem desde, pelo menos, março de 2009. Adoto esta data pelo motivo de que, mesmo antes de qualquer formalidade relativa à aquisição do grupo Scorpion pelo grupo Seadrill, mais precisamente em 01/03/2009, a fiscalizada admitiu em seu quadro de empregados o Sr. Anderson Vieria Rodrigues na função de assistente de sondador júnior, conforme documento de folha 2671, para trabalhar na plataforma Offshore Defender (utilizada no contrato com a Petrobras). Apesar disso, em consultas na DIRF e na GFIP constatouse que o referido profissional recebeu rendimentos, teve o desconto previdenciário e o recolhimento de FGTS pela responsável solidária SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA. Ou seja, há uma clara confusão de interesses entre as duas empresas. Ocorre a mesma situação com os profissionais Fernando Antonio Pereira (admitido em 15/07/2009, na função de rádio operador sênior) e Flávio Carneiro da Silva (admitido em 03/08/2009, na função de almoxarife sênior). Registrese que, de acordo com pesquisas no sistema GFIP, os referidos empregados permaneceram vinculados à responsável solidária até, pelo menos, dezembro de 2011. Tais fatos não se coadunam com o trâmite normal/regular de contratação de empregados, conforme a CLT. Se um empregado é registrado por uma empresa (Scorpion) em sua ficha de empregados é ela que deve remunerar e recolher os tributos retidos e o FGTS. Fl. 3998DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 3.999 34 O que transparece é que a empresa Seadrill assumiu despesas de pessoal que, na realidade, eram de responsabilidade da fiscalizada. Aqui resta clara a ingerência operacional da responsável solidária sobre a fiscalizada. Além disso, foi constatada a situação da Sra. Francisleine Konart, a qual foi contratada pela responsável solidária em 01/01/2009, para exercer função na área administrativa/financeira, que aparece como autorizadora de pagamentos a serem efetuados pela contribuinte (vide folha 1933). Aqui resta clara a ingerência administrativa/financeira daempresa Seadrill sobre a fiscalizada. Há também a constatação de que o telefone de uma das filiais da empresa SCORPION é o mesmo que o de uma das filiais da empresa SEADRILL. 433. Ainda na área administrativa/operacional destaquese também a nomeação do Sr. Eduardo Navarro Antonello para o cargo de diretor/administrador das duas empresas, a partir de setembro de 2010, o que confirma a ingerência administrativa/financeira da responsável solidária sobre a contribuinte. Todas essas constatações revelam o interesse comum da empresa SEADRILL em relação à fiscalizada, pois, haviam empregados, tanto na área operacional como na área administrativa, e um diretor/administrador, os quais representavam seus interesses na empresa SCORPION SERVIÇOS OFFSHORE LTDA desde, pelo menos, março de 2009. Assim, apesar de formalmente distintas no Brasil, vejo que a responsável solidária veio, a partir de 2009, paulatinamente impondo seus interesses perante a fiscalizada. Tal situação consolidouse no decorrer no ano de 2010 com a aquisição do grupo Scorpion (controlador estrangeiro da fiscalizada) pelo grupo Seadrill (controlador estrangeiro da responsável solidária). Uma empresa que tem o poder de influenciar outra da forma que foi exposto, tem poder também para direcionar as decisões e atitudes que tiveram como intenção a não apuração e o não recolhimento dos tributos federais lançados no presente auto, em outras palavras, a vontade da pessoa jurídica SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA tornouse a vontade da fiscalizada SCORPION SERVIÇOS OFFSHORE LTDA. Assim, entendo que a responsabilidade solidária de SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA deve ser mantida”. Concluindo, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso de ofício e, em relação ao recurso voluntário, rejeito as preliminares de nulidade e cerceamento de defesa e, no mérito, DOU PROVIMENTO PARCIAL para cancelar a qualificação da multa de ofício, reduzindoa ao patamar de 75%. No mais. mantenho da decisão recorrida, com os ajustes efetuados no final do Acórdão da DRJ (fls. 3584). Fl. 3999DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 4.000 35 É como voto. Brasília (DF), em 17 de maio de 2017. (documento assinado digitalmente) Paulo Mateus Ciccone Fl. 4000DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 4.001 36 Voto Vencedor Conselheiro Caio Cesar Nader Quintella, Redator Designado. Com a devida vênia, ouso discordar do entendimento adotado pelo I. Conselheiro Relator, Paulo Mateus Ciccone, em seu profundo e preciso voto, especificamente em relação à responsabilização solidária da empresa SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA. Como se observa do Termo de Sujeição Passiva Solidária (fls. 2303 a 2404), os fatos apurados e comprovados para justificar a invocação e a aplicação do art. 124, inciso I, do CTN não se subsumem à norma de responsabilização solidária lá contida. Nesse sentido, em suma, o que se comprovou na verdade foi uma clara relação de controle, dentro de um inegável ambiente de grupo empresarial e digase até apontouse para supostos indícios de confusão (não devidamente explorada, demonstrada e comprovada). A existência da maioria dos vínculos mencionados pela Fiscalização pode se justificar pela aquisição de controle ocorrida entre as empresas e sua gestão concentrada. Ainda que outros elementos possam sugerir uma eventual ocorrência de irregularidades civis e comerciais, não constituem fundamentação adequada e conjunto probatório bastante para a aplicação do art. 124, inciso I, do CTN. Observese o argumento final e a derradeira fundamentação do N. Autoridade Fiscal: De acordo com esse prestimoso ensinamento, a existência do grupo econômico pressupõe a existência de pelo menos uma relação de coordenação entre os entes coligados, de forma que resulte numa orientação empresarial comum. Tornase relevante que as atividades exercidas tenham algum grau de complementaridade, a fim de possibilitar a maximização no uso dos recursos. É exatamente isso que vislumbramos no caso concreto, quando o Grupo SEADRILL absorve o grupo SCORPION, abocanhando uma fatia mais expressiva no segmento das sondas jackup. Fl. 4001DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 4.002 37 Quando as empresas do grupo econômico caracterizado passam a praticar ações que fazem gestar a obrigação tributária, decorre daí a solidariedade de que trata o já citado art. 124, I, do CTN. É necessário haver uma combinação de recursos ou esforços para a realização dos respectivos objetos com a participação, direta ou indireta, em atividades ou empreendimentos comuns para o efeito tributário em comento. Esta é exegese do “interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal”, expresso na matriz legal. E isso ficou bem caracterizado diante dos diversos vínculos acima expostos, especialmente o controle absoluto dos ativos (sondas de perfuração), antes pertencentes ao Grupo SCORPION e que, a partir de 2010, passaram para o grupo integrado pela RESPONSÁVEL SOLIDÁRIA. (destacamos) Como mencionado, tal conjunto de argumentos e provas estão distantes da real demonstração exigida para configurar a hipótese de responsabilidade veiculada pela norma acionada. Primeiro, temos que a relação societária, seja de controle, coligação ou de formação de grupo empresarial, não compõe motivação objetiva para ensejar solidariedade obrigacional tributária. Tal manobra acabaria por desconsiderar, indevida e ilegalmente, a personalidade jurídica. É cediço que, para ocorrer a responsabilização solidária prevista no art. 124 do CTN é necessária a constatação e a prova da participação conjunta de pessoas, como referido na sua redação, quando da ocorrência do fato gerador, devendo serem estas diretos copartícipes das infrações percebidas pelo Fisco. Nesse sentido, confirase a ementa do Acórdão proferido no AgRg no REsp 1535048/PR, pela 1ª Turma do E. Superior Tribunal de Justiça, de relatoria do Exmo. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, publicado em 21/09/2015: TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DE TERCEIROS. ALEGAÇÃO DE GRUPO ECONÔMICO. IMPOSSIBILIDADE DE REDIRECIONAMENTO DA EXECUÇÃO FISCAL CONTRA EMPRESAS CONSTITUÍDAS APÓS O FATO GERADOR DO TRIBUTO DE OUTRA EMPRESA, DITA INTEGRANTE DO MESMO GRUPO ECONÔMICO. AGRAVOS REGIMENTAIS A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. A teor do art. 124, I do CTN e de acordo com a doutrina justributarista nacional mais autorizada, não se apura Fl. 4002DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 4.003 38 responsabilidade tributária de quem não participou da elaboração do fato gerador do tributo, não sendo bastante para a definição de tal liame jurídico obrigacional a eventual integração interempresarial abrangendo duas ou mais empresas da mesma atividade econômica ou de atividades econômicas distintas, aliás não demonstradas, neste caso. Precedente: AgRg no AREsp 429.923/SP, Rel. Min. HUMBERTO MARTINS, 2T, DJe 16.12.2013. 2. Da mesma forma, ainda que se admita que as empresas integram grupo econômico, não se tem isso como bastante para fundar a solidariedade no pagamento de tributo devido por uma delas, ao ponto de se exigir seu adimplemento por qualquer delas. Precedentes: AgRg no AREsp 603.177/RS, Rel. Min. BENEDITO GONÇALVES, 1T, DJe 27.3.2015; AgRg no REsp. 1.433.631/PE, Rel. Min. HUMBERTO MARTINS, 2T, DJe 13.3.2015. 3. Agravos Regimentais da FAZENDA NACIONAL e LEMOS DANOVA ENGENHARIA E EMPREENDIMENTOS LTDA ME a que se nega provimento. Como se observa dos autos, não houve a prova adequada da participação direta da empresa responsabilizada na realização dos fatos gerados colhidos pelo Fisco, adotando linha argumentativa diversa. Ao seu turno, o interesse comum a que se refere o dispositivo não é aquele societário e econômico, finalístico e consequencial, que o grupo e os seus titulares naturalmente têm na exploração dos negócios mercantis pela pessoa jurídica. Confirase o Acórdão nº 2301004.163, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 2ª Seção deste E. CARF, de relatoria do I. Conselheiro Natanael Vieira dos Santos e voto vencedor do I. Conselheiro Adriano Gonzáles Silvério, publicado em 19/02/2015: GRUPO ECONÔMICO. CARACTERIZAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA. CONSTITUIÇÃO DO FATO GERADOR POR UMA SÓ EMPRESA. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS E RESULTADOS. LEI 10.101/2000. Sempre que uma ou mais empresas, tendo embora, cada uma delas, personalidade jurídica, própria estiverem sob a direção, controle ou administração de outra haverá a constituição de um grupo econômico. O fato de haver pessoas jurídicas que pertençam ao mesmo grupo econômico, por si só, não enseja a responsabilidade solidária, na forma prevista no art.124 do CTN. Fl. 4003DF CARF MF Processo nº 12448.732449/201474 Acórdão n.º 1402002.511 S1C4T2 Fl. 4.004 39 Somente existirá a responsabilidade tributária solidária entre empresas de um mesmo grupo econômico quando todas agirem em conjunto para a configuração do fato gerador, não bastando o mero interesse econômico na consecução da referida situação. (...) Diante do exposto, por entender ser indevida a responsabilização solidária promovida, voto por dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para cancelar o Termo de Sujeição Passiva Solidária, excluindo a empresa SEADRILL SERVIÇOS DE PETRÓLEO LTDA da demanda. (assinado digitalmente) Caio Cesar Nader Quintella Fl. 4004DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.912068/2012-66
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 15 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 27/10/2011
RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO.
Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009.
Recurso Voluntário negado.
Numero da decisão: 3301-003.782
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DO COUTO CHAGAS
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas - Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2017-08-11T19:30:17Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.5; xmp:CreatorTool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2017-08-11T19:30:17Z; Last-Modified: 2017-08-11T19:30:17Z; dcterms:modified: 2017-08-11T19:30:17Z; dc:format: application/pdf; version=1.5; Last-Save-Date: 2017-08-11T19:30:17Z; pdf:docinfo:creator_tool: pdfsam-console (Ver. 2.4.0e); access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2017-08-11T19:30:17Z; meta:save-date: 2017-08-11T19:30:17Z; pdf:encrypted: true; modified: 2017-08-11T19:30:17Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2017-08-11T19:30:17Z; created: 2017-08-11T19:30:17Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 9; Creation-Date: 2017-08-11T19:30:17Z; pdf:charsPerPage: 1798; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2017-08-11T19:30:17Z | Conteúdo => S3C3T1 Fl. 2 1 1 S3C3T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10830.912068/201266 Recurso nº 1 Voluntário Acórdão nº 3301003.782 – 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 27 de junho de 2017 Matéria Restituição. Ausência de certeza e liquidez do crédito pleiteado. Recorrente FUNDAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA UNICAMP FUNCAMP Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 27/10/2011 RESTITUIÇÃO. IMUNIDADE. AUSÊNCIA DE CERTEZA E LIQUIDEZ DO CRÉDITO PLEITEADO. Para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez. No presente caso, não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Recurso Voluntário negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros José Henrique Mauri, Marcelo Costa Marques d´Oliveira, Liziane Angelotti Meira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Antônio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Semíramis de Oliveira Duro, Valcir Gassen e Luiz Augusto do Couto Chagas. Relatório Tratase de manifestação de inconformidade contra Despacho Decisório eletrônico que indeferiu Pedido de Restituição Eletrônico PER referente a alegado crédito de AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 91 20 68 /2 01 2- 66 Fl. 191DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 3 2 pagamento indevido ou a maior efetuado por meio do DARF, código de receita 8301 (PIS – Folha de Pagamento). Segundo o Despacho Decisório, o DARF informado no PER foi integralmente utilizado na quitação do respectivo débito, não restando crédito disponível para restituição. Em sua manifestação de inconformidade a interessada argumentou, em resumo, que o pagamento indevido decorre de sua condição de imune às contribuições sociais, nos termos dos art. 150, inciso VI, alínea “c”, art. 195, § 7º, c/c art. 205, art. 6º, art. 203, inciso III, art. 145, § 1º, art. 146, II, todos da Constituição Federal, e do art. 14 do CTN. Discorre sobre sua condição de imune. Requer que seja declarada como Entidade Beneficente de Assistência Social. Ao analisar o caso, a DRJ em Juiz de Fora (MG), entendeu por julgar improcedente a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 09051.809, com base primordialmente nos seguintes fundamentos: (i) a imunidade das contribuições sociais está sujeita às exigências estabelecidas pela Lei 12.101/2009; (ii) a Recorrente não possui CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social); (iii) o PIS não está abrangido pela imunidade estabelecida no art. 195, § 7º da Constituição Federal; e (iv) a Recorrente está sujeita ao PIS sobre a Folha de Salários e não sobre o Faturamento. Intimado da decisão e insatisfeito com o seu conteúdo, o contribuinte interpôs, tempestivamente, Recurso Voluntário através do qual alegou, resumidamente: (i) que o STF já teria pacificado seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, que teve repercussão geral reconhecida; (ii) que a Recorrente atende a todos os requisitos da Lei 12.101/2009 para fins de usufruto da imunidade, conforme comprovado no pedido de emissão do CEBAS protocolizado (trata sobre cada um dos requisitos); (iii) que a emissão do CEBAS é um ato administrativo vinculado, constituindo obrigação legal uma vez constatado o atendimento dos requisitos legais para gozo da imunidade; (iv) que a emissão do CEBAS tem caráter declaratório, sendolhe conferidos efeitos retroativos. Requer, ao final, que seja dado provimento ao seu recurso, para fins de deferir o pedido de restituição, por se tratar de instituição imune às contribuições previdenciárias. É o relatório. Voto Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301003.674, de 27 de junho de 2017, proferido no julgamento do processo 10830.900254/201333, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301003.674): Fl. 192DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 4 3 "O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Consoante acima narrado, tratase de Pedido de Restituição Eletrônico PER nº 23871.62072.130912.1.2.040241 referente a alegado crédito de pagamento indevido ou a maior da contribuição previdenciária sobre a folha de salários a cargo do empregador, efetuado por meio do DARF no valor original de R$ 42.011,75. Como é cediço, para fins de concessão de pedido de restituição e/ou compensação de indébito fiscal, é imprescindível que o crédito tributário pleiteado esteja munido de certeza e liquidez, cuja comprovação deve ser efetuada pelo contribuinte. No caso concreto ora analisado, portanto, há de se verificar se o crédito tributário alegado pelo contribuinte encontrase revestido de tais características, sem as quais o pleito não pode ser deferido. Alega o contribuinte que o seu pleito decorre do seu direito seria líquido e certo ao gozo da imunidade. A DRJ, por seu turno, entendeu de forma diversa, conforme se extrai da passagem do voto a seguir transcrita: A imunidade relativa às pessoas jurídicas que prestam assistência social está prevista nos seguintes dispositivos constitucionais: Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: [...] VI instituir impostos sobre:(Vide Emenda Constitucional nº 3, de 1993) a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; b) templos de qualquer culto; c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei; d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão. [...] Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais: [...] § 7º São isentas de contribuição para a seguridade social as entidades beneficentes de assistência social que atendam às exigências estabelecidas em lei. A imunidade prevista no artigo 150 acima transcrito é especifica para impostos não abrangendo às contribuições sociais. Portanto, não alcança o PIS/PASEP –Folha de Salários. A imunidade prevista no artigo 195, § 7º, é específica para contribuições para seguridade social e depende da caracterização da entidade como beneficente Fl. 193DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 5 4 de assistência social que atenda às exigências estabelecidas em lei, entre elas a certificação de que trata a Lei 12.101/2009, conforme dispositivos transcritos a seguir: Art. 1o A certificação das entidades beneficentes de assistência social e a isenção de contribuições para a seguridade social serão concedidas às pessoas III do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, quanto às entidades de assistência social. (...) Art. 29. A entidade beneficente certificada na forma do Capítulo II fará jus à isenção do pagamento das contribuições de que tratam os arts. 22 e 23 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, desde que atenda, cumulativamente, aos seguintes requisitos (grifo não original) Com base nos atos acima transcritos, que vinculam este colegiado de 1ª instância administrativa, a contribuinte, por não ser detentora do certificado de entidade beneficente de assistência social, não faz jus à imunidade prevista no artigo 195, § 7º, da CF/88, por descumprir exigência contida em lei. Com lastro no artigo 21 supra, não compete à RFB decidir sobre a concessão de certificados de entidade beneficente de assistência social, não tendo força vinculante as decisões judiciais e o posicionamento da doutrina mencionados pela defesa. De modo que, o pedido, para que seja declarada como Entidade Beneficente da Assistência Social, com força substitutiva do registro e da certificação de que trata o art. 21 da Lei nº 12.101/2009, não pode ser atendido no âmbito desse colegiado. A contribuinte impetrou o mandado de segurança nº 2007.61.05.0129681, junto à 2ª Vara Federal de Campinas, que atualmente tramita no TRF 3º Região, com sentença proferida reconhecendo o direito à imunidade prevista no art. 195, 7º, da CF/88, no tocante à Cofins, desde que cumpridos os requisitos do art. 14 do CTN e os deveres instrumentais acessórios estabelecidos pela legislação fiscal. Portanto, mantida a exigência do certificado de entidade beneficente de assistência social para gozo da imunidade prevista no artigo 195, 7º, da CF/88. Concordo com a conclusão a que chegou a DRJ no trecho acima, por entender que não restou comprovada a certeza e liquidez do crédito pleiteado pelo contribuinte. Embora a Recorrente tenha protocolizado pedido de emissão do CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social) desde 18/12/2013, é certo que este pedido ainda não foi deferido, encontrandose atualmente na situação de "encaminhado". E sendo esta emissão um requisito essencial ao gozo da imunidade pleiteada, nos termos do que determina a Lei nº 12.101/2009, não há como se entender que o crédito tributário objeto da presente demanda seja líquido e certo. Notese que o art. 29 da referida lei dispõe que fará jus à isenção a entidade beneficente certificada. Ademais, como bem destacou a DRJ em sua decisão, a análise quanto ao atendimento dos requisitos dispostos na Lei n. 12.101/2009 e a consequente concessão do Fl. 194DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 6 5 CEBAS não é de competência da Receita Federal do Brasil, ou mesmo deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Nesse contexto, ainda que o ato administrativo de concessão do CEBAS seja plenamente vinculado, e que os seus efeitos sejam declaratórios, conferindolhe aplicação retroativa, tais fatores não afastam a necessidade de que haja a análise quanto a tal pleito por parte da autoridade competente. Sendo assim, não há como se deferir o pleito do contribuinte de restituição apresentado, por faltarlhe certeza e liquidez. De outro norte, importante ainda que se analise o segundo fundamento da decisão recorrida, que assim dispôs: Ainda que a contribuinte fosse detentora de tal certificado, o entendimento da administração tributária é que o PIS/PASEP não está abrangido pelo artigo 195 da Carta Magna, sendo devido o seu recolhimento na forma da lei. No caso vertente, o crédito pretendido decorre de pagamento de PIS/PASEP – Folha de Salários. Cabe, então, observar o disposto no art. 13 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001: Art. 13. A contribuição para o PIS/PASEP será determinada com base na folha de salários, à alíquota de um por cento, pelas seguintes entidades: I templos de qualquer culto; II partidos políticos; III instituições de educação e de assistência social a que se refere o art. 12 da Lei no 9.532, de 10 de dezembro de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, a que se refere o art. 15 da Lei no 9.532, de 1997; V sindicatos, federações e confederações; VI serviços sociais autônomos, criados ou autorizados por lei; VII conselhos de fiscalização de profissões regulamentadas; jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos, reconhecidas como entidades beneficentes de assistência social com a finalidade de prestação de serviços nas áreas de assistência social, saúde ou educação, e que atendam ao disposto nesta Lei. (...) Art. 21. A análise e decisão dos requerimentos de concessão ou de renovação dos certificados das entidades beneficentes de assistência social serão apreciadas no âmbito dos seguintes Ministérios: I da Saúde, quanto às entidades da área de saúde; II da Educação, quanto às entidades educacionais; e VIII fundações de direito privado e fundações públicas instituídas ou mantidas pelo Poder Público; IX condomínios de proprietários de imóveis residenciais ou comerciais; e Fl. 195DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 7 6 X a Organização das Cooperativas Brasileiras OCB e as Organizações Estaduais de Cooperativas previstas no art. 105 e seu § 1o da Lei no 5.764, de 16 de dezembro de 1971. [...].” [Grifei]. Por sua vez, os mencionados arts. 12 e 15 da Lei nº 9.532, de 1997, assim dispõem1: Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c", da Constituição, considerase imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos. (Vide artigos 1º e 2º da Mpv 2.18949, de 2001) (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º Não estão abrangidos pela imunidade os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável. § 2º Para o gozo da imunidade, as instituições a que se refere este artigo, estão obrigadas a atender aos seguintes requisitos: [...] Art. 15. Consideramse isentas as instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos. (Vide Medida Provisória nº 215835, de 2001) § 1º A isenção a que se refere este artigo aplicase, exclusivamente, em relação ao imposto de renda da pessoa jurídica e à contribuição social sobre o lucro líquido, observado o disposto no parágrafo subseqüente. [...] § 3º Às instituições isentas aplicamse as disposições do art. 12, § 2°, alíneas "a" a "e" e § 3° e dos arts. 13 e 14. Nesse sentido, o Decreto nº 4.527, de 17 de dezembro de 2002, ao regulamentar a Contribuição para o PIS/Pasep e a Cofins, devidas pelas pessoas jurídicas de direito privado em geral, assim dispõe: Art. 9º São contribuintes do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários as seguintes entidades (Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13): [...] III instituições de educação e de assistência social que preencham as condições e requisitos do art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997; IV instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural, científico e as associações, que preencham as condições e requisitos do art. 15 da Lei nº 9.532, de 1997; [...] Fl. 196DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 8 7 Art. 46. As entidades relacionadas no art. 9º deste Decreto (Constituição Federal, art. 195, § 7º , e Medida Provisória nº 2.15835, de 2001, art. 13, art. 14, inciso X, e art. 17): I não contribuem para o PIS/Pasep incidente sobre o faturamento; e [...] Art. 50. A base de cálculo do PIS/Pasep incidente sobre a folha de salários mensal, das entidades relacionadas no art. 9º, corresponde à remuneração paga, devida ou creditada a empregados. [...].” [Grifei]. Portanto, considerando as normas legais supracitadas e que a contribuinte se declara imune em razão da atividade por ela exercida (atividades de apoio à educação – exceto caixas escolares), não há incidência da contribuição para o PIS/Pasep sobre o faturamento. Entretanto, é devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88. Assim, diante da ausência de certeza do crédito pleiteado, voto por considerar improcedente a manifestação de inconformidade, ratificando o Despacho Decisório que indeferiu a restituição pretendida. Sobre este ponto, o contribuinte alegou em seu recurso voluntário que o STF já pacificou seu entendimento quanto à submissão do PIS à imunidade tributária das contribuições previdenciárias fixada pelo art. 195, parágrafo 7º da Constituição Federal, conforme acórdão proferido no RE 636.941/RS, publicado em 04/04/2014, que teve repercussão geral reconhecida. Da análise do referido julgado, extraise que o STF chegou à seguinte conclusão: A pessoa jurídica para fazer jus à imunidade do art. 195, § 7º, CF/88, com relação às contribuições sociais, deve atender aos requisitos previstos nos artigos 9º e 14, do CTN, bem como no art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98 e Lei nº 12.101/2009, nos pontos onde não tiveram sua vigência suspensa liminarmente pelo STF nos autos da ADIN 2.2085. As entidades beneficentes de assistência social, como consequência, não se submetem ao regime tributário disposto no art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e no art. 13, IV, da MP nº 2.15835/2001, aplicáveis somente àquelas outras entidades (instituições de caráter filantrópico, recreativo, cultural e científico e as associações civis que prestem os serviços para os quais houverem sido instituídas e os coloquem à disposição do grupo de pessoas a que se destinam, sem fins lucrativos) que não preencherem os requisitos do art. 55, da Lei nº 8.212/91, ou da legislação superveniente sobre a matéria, posto não abarcadas pela imunidade constitucional. A inaplicabilidade do art. 2º, II, da Lei nº 9.715/98, e do art. 13, IV, da MP º 2.15835/2001, às entidades que preenchem os requisitos do art. 55 da Lei nº 8.212/91, e legislação superveniente, não decorre do vício da inconstitucionalidade desses dispositivos legais, mas da imunidade em relação à contribuição ao PIS como técnica de interpretação conforme à Constituição. Fl. 197DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 9 8 Ou seja, o STF concluiu que as entidades beneficentes de assistência social não se submetem ao regime tributário disposto no art. 13, IV da MP n. 2.15835/2001, por fazerem jus à imunidade do art. 150, § 7º, da CF/88. E como restou conferida à tese ali assentada repercussão geral e eficácia erga omnes e ex tunc, tal entendimento deverá ser observado por este Conselho, por força do que dispõe o Regimento Interno deste Conselho, in verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 1º O disposto no caput não se aplica aos casos de tratado, acordo internacional, lei ou ato normativo: I que já tenha sido declarado inconstitucional por decisão definitiva plenária do Supremo Tribunal Federal; (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) II que fundamente crédito tributário objeto de: a) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, nos termos do art. 103A da Constituição Federal; b) Decisão do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos do art. 543B ou 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), na forma disciplinada pela Administração Tributária; b) Decisão definitiva do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, em sede de julgamento realizado nos termos dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, na forma disciplinada pela Administração Tributária; (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) (...). § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverãoser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Com base no entendimento do STF expresso no RE 636.941/RS, há de se reconhecer, portanto, a insubsistência da conclusão constante da decisão recorrida no sentido de seria "devida a contribuição para o PIS/Pasep calculada sobre a folha de salários, conforme definido no art. 13 da MP nº 2.15835, de 2001, independentemente de sua imunidade decorrer do disposto no artigo 150 ou 195 da CF/88". Contudo, para que se possa concluir pela aplicação do julgado do STF ao caso vertente, seria necessário verificar se a Recorrente se enquadra como entidade beneficente de assistência social e se atende os requisitos legais dispostos na legislação pertinente. Ocorre que, consoante anteriormente apontado, o pedido de concessão da CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social), um dos requisitos para o gozo da imunidade, ainda não foi deferido pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, a Fl. 198DF CARF MF Processo nº 10830.912068/201266 Acórdão n.º 3301003.782 S3C3T1 Fl. 10 9 quem compete analisar o atendimento dos requisitos dispostos na legislação pertinente (art. 14 do CTN, art. 55, da Lei nº 8.212/91, alterada pelas Lei nº 9.732/98, e Lei nº 12.101/2009). É válido destacar, inclusive, que o STF, ao julgar o RE 636.941/RS tratou expressamente desta certificação, concluindo que "a definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade". É o que se infere da passagem a seguir transcrita, extraída do voto do Ministro Luiz Fux, relator do mencionado RE: Pela análise da legislação, percebese que se tem consagrado requisitos específicos mais rígidos para o reconhecimento da imunidade das entidades de assistência social (art. 195, § 7º, CF/88), se comparados com os critérios para a fruição da imunidade dos impostos (art. 150, VI, c, CF/88). Ilustrativamente, menciono aqueles exigidos para a emissão do Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social – CEBAS, veiculados originariamente pelo art. 55 da Lei nº 8.212/91, ora regulados pela Lei nº 12. 101/2009. A definição dos limites objetivos ou materiais, bem como dos aspectos subjetivos ou formais, atende aos princípios da proporcionalidade e razoabilidade, não implicando significativa restrição do alcance do dispositivo interpretado, qual seja, o conceito de imunidade, e de redução das garantias dos contribuintes. Com efeito, a jurisprudência da Suprema Corte indicia a possibilidade de lei ordinária regulamentar os requisitos e normas sobre a constituição e o funcionamento das entidades de educação ou assistência (aspectos subjetivos ou formais). Diante do acima exposto, voto no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário interposto pelo contribuinte, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado." Da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo não logrou o contribuinte comprovar que faria jus à imunidade alegada, em razão da ausência da Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (CEBAS), requisito este essencial ao gozo da imunidade, nos termos do que determina o art. 29 da Lei 12.101/2009. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário, mantendo o indeferimento do pedido de restituição, conforme fundamentos acima expostos, em razão da não comprovação da certeza e liquidez do crédito pleiteado. (assinado digitalmente) Luiz Augusto do Couto Chagas Fl. 199DF CARF MF
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Numero do processo: 10983.720259/2015-01
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 26 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3302-000.581
Decisão: Na Reunião de março/2017, por maioria de votos, foi afastada a preliminar de imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa
Prado, Relatora, designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1 do voto). Também na Reunião de março/2017, por unanimidade de votos, foi afasta a preliminar de vício procedimental pelo fato de a Fiscalização ter instaurada o procedimento por meio de Mandado de Procedimento Fiscal e não Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal. Decreto n. 8.303/2014 (item 1.2 do voto). Na reunião de abril/2017,
por unanimidade de votos, o julgamento foi convertido em diligência para ciência dos responsáveis solidários,
especificados no acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Na reunião de abril de 2017 fez sustentação oral a Dra. Gabrielle Castro Briggemann - OAB 29.091/SC.
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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decisao_txt : Na Reunião de março/2017, por maioria de votos, foi afastada a preliminar de imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora, designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1 do voto). Também na Reunião de março/2017, por unanimidade de votos, foi afasta a preliminar de vício procedimental pelo fato de a Fiscalização ter instaurada o procedimento por meio de Mandado de Procedimento Fiscal e não Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal. Decreto n. 8.303/2014 (item 1.2 do voto). Na reunião de abril/2017, por unanimidade de votos, o julgamento foi convertido em diligência para ciência dos responsáveis solidários, especificados no acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Na reunião de abril de 2017 fez sustentação oral a Dra. Gabrielle Castro Briggemann - OAB 29.091/SC.
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Também na Reunião de março/2017, por unanimidade de votos, foi afasta a preliminar de vício procedimental pelo fato de a Fiscalização ter instaurada o procedimento por meio de Mandado de Procedimento Fiscal e não Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal. Decreto n. 8.303/2014 (item 1.2 do voto). Na reunião de abril/2017, por unanimidade de votos, o julgamento foi convertido em diligência para ciência dos responsáveis solidários, especificados no acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Na reunião de abril de 2017 fez sustentação oral a Dra. Gabrielle Castro Briggemann - OAB 29.091/SC. (assinatura digital) Ricardo Paulo Rosa - Presidente (assinatura digital) Lenisa Rodrigues Prado - Relatora (assinatura digital) Walker Araújo - Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ricardo Paulo Rosa (Presidente), Walker Araújo, Paulo Ricardo Paulo Rosa, Paulo Guilherme Dérouledè, Domingos de Sá Filho, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar e Lenisa Prado. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 83 .7 20 25 9/ 20 15 -0 1 RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 83 .7 20 25 9/ 20 15 -0 1 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Imposto sobre a Importação - II Imposto sobre a Importação - II OPEN MARKET COMÉRCIO EXTERIOR LTDA OPEN MARKET COMÉRCIO EXTERIOR LTDA FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL Na Reunião de março/2017, por maioria de votos, foi afastada a preliminar de Na Reunião de março/2017, por maioria de votos, foi afastada a preliminar de imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 imprescindibilidade de instauração do procedimento de fiscalização estabelecido na IN 228/02 para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa para exigência da multa de conversão da pena de perdimento, vencida a Conselheira Lenisa Prado, Relatora, designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1 Prado, Relatora, designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Walker Araújo (item 1.1 do votdo vot Fl. 998DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 999 2 A questão tem início na fiscalização promovida sobre as Declarações de Importação registradas pela contribuinte Open Market Comércio Exterior no ano de 201. A Autoridade Fiscal concluiu que a Open Market (ora recorrente) não era a adquirente dos produtos importados; a real beneficiária das importações seria a contribuinte Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, solidária nos autos de infração sob julgamento porque teria permanecida oculta ao longo do processo de importação. Por muito bem retratar os fatos narrados nos autos, transcrevo os trechos essenciais constantes do relatório apresentado na sessão de julgamento da impugnação: "A fiscalização apurou que a empresa em epígrafe não é a real adquirente das mercadorias importadas e que a mesma operava como interposta pessoa em comércio exterior, praticando assim infração à legislação aplicável à matéria com previsão de pena de perdimento às mercadorias transacionadas. A fiscalizada OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA, registrou durante o período fiscalizado as Declarações de Importação relacionadas às folhas 11 do processo digital. Ao final da ação fiscal restou caracterizado que o real adquirente e beneficiário destas importações foi a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, responsável solidário no Auto de Infração. Face ao que determina o art. 23, inciso V, c/c o §3°, do Decreto-Lei n° 1.455, de 07 de abril de 1976, foi lavrado o presente Auto de Infração para a aplicação de multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias importadas pela impossibilidade de apreensão de tais mercadorias. A empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA foi cientificada, por via eletrônica, em 05/03/2015 ( folhas 710). A empresa OPEN MARKET COMERCIO EXTERIOR LTDA protocolizou impugnação, tempestivamente em 02/04/2015, na forma do artigo 56 do Decreto n° 7.574/2011, de fls. 719 à 759, instaurando assim a fase litigiosa do procedimento. Foi alegado que: DO AUTO DE INFRAÇÃO NULO 120121 -PAF 10983 -721.728/2012-58 Em 10/08/2012, a Autoridade Fiscal motivou o lançamento em suposto "dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador da mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta, prática punível com a pena de perdimento das mercadorias. No entendimento da Autoridade Fiscal, a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, que teria permanecido oculta, seria a encomendante das mercadorias objeto da DI acima citada, e o motivo para tal ocultação seria o fato dessa empresa não possuir habilitação no S1SCOMEX, para operar no comércio exterior. O lançamento foi devidamente impugnado pelo contribuinte, em 13/09/2012 e pelo responsável solidário, em 14/11/2012. Em julgamento administrativo de 1ª Instância ocorrido em 12/09/2013, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE deu provimento às impugnações e exonerou o crédito tributário exigido, tendo em vista a ocorrência da nulidade por vício material no lançamento, ante a Fl. 999DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1000 3 ausência de análise contábil e financeira das operações que demonstrassem a origem ilícita dos recursos aplicados. Sem recursos, o Processo Administrativo 10983.720728/2012-58 foi encerrado e arquivado. * O AUTO DE INFRAÇÃO ORA IMPUGNADO (2015) PAF 10983-720.259/2015-01 A Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC instaurou procedimento fiscal de diligência, conforme Mandado de Procedimento Fiscal - Diligência (MPF-D) n. 0925200-2014-00036-7. Em cumprimento à intimação, a Impugnante apresentou, de pronto, os documentos contábeis no formato físico, tendo, posteriormente, os apresentado no formato digital e padronizado exigido pela Receita Federal do Brasil. Quanto aos documentos financeiros, a Impugnante solicitou prorrogação de prazo, porquanto teriam os mesmos de ser confeccionados pelas Instituições Financeiras em uma padronagem específica exigida pela Receita Federal do Brasil, o que impedia o imediato cumprimento da apresentação. Não obstante, foram estes, também, devidamente apresentados e/ou justificados à Autoridade Autuante. Encerradas as diligências, a Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC instaurou, em 16/01/2015, procedimento fiscal de fiscalização, conforme Mandado de Procedimento Fiscal — Fiscalização (MPF-F) n. 0925200-2015-00005-0. Não obstante a regularidade das operações perpetradas pela Impugnante, a mesma teve, novamente, contra si, pela Inspetoria da Receita Federal do Brasil em Florianópolis/SC, auto de infração lavrado. O referido auto de infração lançou o mesmo crédito tributário objeto da decretação de nulidade por acórdão da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Fortaleza/CE, contando, ainda, com os mesmos fatos e fundamentação legal. A Autoridade Fiscal motivou o lançamento em suposto 'dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador da mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', prática punível com a pena de perdimento das mercadorias que no caso de seu substitui-se pelo lançamento de ofício de 100% do Valor Aduaneiro das mesmas. Tal como no auto anulado, a Autoridade Fiscal entendeu que a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, que teria permanecido oculta, seria a encomendante das mercadorias objeto das Dl acima citadas, e o motivo para tal ocultação seria o fato dessa empresa não possuir habilitação no SISCOMEX, para operar no comércio exterior. Conquanto de posse de inúmeros documentos contábeis e financeiros da Impugnante e da empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, a Autoridade Autuante limitou-se a basear o relatório fiscal nos seguintes indícios: proximidade entre as datas de desembaraço, entrada e saída das mercadorias; possível inexistência de conhecimentos de transporte que comprovassem a remessa da mercadoria da Impugnante para a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda. Impende mencionar que não foi carreado ao novo auto de infração a análise contábil e financeira ou qualquer narrativa acerca da origem, disponibilidade e transferência dos recursos, muito embora sua falta tenha sido apontada como vício material no lançamento anulado. A comprovação da suposta infração deu-se pelos mesmos indícios levantados na autuação anterior. Fl. 1000DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1001 4 Em que pesem os argumentos expostos pela fiscalização, o Auto de Infração e o lançamento da penalidade pecuniária não merecem subsistir, pois permanece eivado de vícios que determinam a sua nulidade — materiais e formais; bem como porque, no mérito, a importação realizada não configura importação por encomenda de terceiros, e sim importação direta da Impugnante. A Autoridade Fiscal não se desincumbiu do ônus de provar as suas alegações e não houve efetivo dano ao erário, sendo descabida a aplicação da pena de perdimento da mercadoria (e a sua conversão em multa equivalente ao valor aduaneiro), tudo consoante razões de fato e de direito que se passa a expor. PRELIMINARMENTE * DO VÍCIO MATERIAL NÃO CORRIGIDO O presente auto de infração foi lavrado em substituição a lançamento nulo de credito tributário ocorrido em 2012 acerca dos mesmos fatos ora fiscalizados. A nulidade decretada pela Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Fortaleza - acórdão 08-26.658 - decorreu de vício material pela ausência de análise contábil e financeira das operação de comercio exterior, necessária à conclusão sobre a origem dos recursos empregados nas importações e sobre a natureza da participação dos agentes nas operação de importação. Desta feita, percebe-se que foi determinante para a decretação da nulidade do lançamento realizado em 2012, relativo aos mesmos fatos objeto da autuação ora impugnada, o fato de a Autoridade Autuante não ter realizado ou exposto a análise contábil e financeira detalhando a relação das partes e dos recursos empregados, sem o que, o lançamento esvaziou-se, pois restou apoiado em meros indícios. Não obstante a decretação da nulidade pela ocorrência do vício material, o Órgão Julgador ressalvou o direito do Fisco em lavrar novo auto abrangendo os mesmos fatos fiscalizados — não atingidos pela decadência. E, de fato, novo auto de infração foi lavrado. Todavia, permanece este eivado com o mesmo vício material apontado no passado, posto que a necessária análise contábil e financeira que motivou a decretação da nulidade não foi, novamente, apresentada, muito embora a autuação seja idêntica àquela que restou anulada. A Autoridade Autuante, após discorrer genericamente sobre as modalidades de importação, procedimento fiscal, ocultação do real comprador, bem como sobre a fiscalização anterior, anulada, e sobre os fatos apurados na presente fiscalização, encerra o relatório fiscal com a constituição de crédito tributário, dispondo expressamente que o lançamento dá-se em decorrência de suposto 'dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta'. Ou seja, pelas mesmas razões do auto anterior, anulado. Note-se, ademais, que as provas carreadas ao novo auto são as mesmas norteadoras daquele anulado, dentre as quais não se incluiu a análise contábil e financeira, balizadora da decretação de nulidade no passado. No entanto, é evidente que quando o Órgão Julgador ressalvou a lavratura de novo auto de infração, com relação aos fatos não decaídos, tinha se por pressuposto básico que o novo ato considerasse o vício apontado no julgamento anterior, corrigindo-o. sob pena de receber o mesmo tratamento dado ao lançamento precedente. Logo, a identidade das autuações (anulada e nova), atrelada à ausência de correção do vício material que no passado ocasionou a nulidade do lançamento, contaminam, de per si, o auto de infração ora impugnado, cujo destino não deve ser diferente: a decretação da nulidade. em respeito à desejável estabilidade dos critérios utilizados pela administração para a interpretação dos textos legais, à confiança e à segurança jurídica! Fl. 1001DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1002 5 Julgar causas idênticas de forma desigual acarreta imensurável insegurança jurídica, desconfiança e imprevisibilidade na ordem administrativa operante, principalmente considerando que as alterações inseridas no novo auto prestaram-se tão-somente a adaptar o relatório fiscal às informações atualizadas dos procedimentos fiscais de diligência e de fiscalização realizados a posteriori do lançamento anulado e dar conta da decretação de nulidade do auto anterior. Diante do exposto e estando o presente auto de infração vinculado ao julgamento do acórdão 08-26.658, em especial ao vício material lá apontado e aqui não corrigido, a decretação da nulidade pela mesma razão é medida que se impõe, face à desejável estabilidade dos critérios utilizados pela administração para a interpretação dos textos legais, hem como aos princípios da confiança e segurança jurídica. * A FALTA DO PROCEDIMENTO ESPECIAL DE FISCALIZAÇÃO PREVISTO NA INSTRUÇÃO NORMATIVA RF N° 228/2002 Nota-se do relatório fiscal que a Autoridade Autuante lançou o presente crédito tributário por suposto 'Dano ao Erário causado pela ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta'. Sendo assim, deparando-se a fiscalização com a suspeita da prática, em tese, do ilícito tipificado no inciso V do artigo 23 do Decreto-Lei n° 1.455/76 ('ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros'), impõe-se, por determinação legal, a instauração do procedimento de que trata a Instrução Normativa SRF n 228/2002 (procedimento especial de verificação da origem dos recursos aplicados em operações de comércio exterior e combate à interposição fraudulenta de pessoas). Note-se que, uma vez revelados os indícios referidos pela legislação, a instauração do procedimento especial de fiscalização é obrigatória ('ficarão sujeitas'), com a finalidade de proceder a uma verificação aprofundada dos fatos, não se tratando, pois, de uma faculdade da Autoridade Fiscalizadora. Instaurado o procedimento especial de fiscalização, oportuniza-se ao contribuinte fiscalizado demonstrar a regularidade das suas operações de comércio exterior, mediante intimação para comprovar: o seu efetivo funcionamento e a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, mediante o comparecimento de sócio com poder de gerência ou diretor, acompanhado da pessoa responsável pelas transações internacionais e comerciais; e a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações (artigo 4o da Instrução Normativa SRF n°228/2002). Nessa linha, cumpre ressaltar o disposto no caput do artigo 11 da Instrução Normativa SRF n° 228/2002, que só permite aplicar a pena de perdimento das mercadorias com fundamento no inciso V do artigo 23 do Decreto-Lei n° 1.455/1976 depois de concluído o procedimento especial de fiscalização. No caso em apreço não houve a prévia instauração do procedimento especial de fiscalização previsto na Instrução Normativa SRF n° 228/2002 restando a Impugnante cerceada no seu direito ao contraditório e à ampla defesa, o que determina a nulidade do lançamento. É certo que, se a Autoridade Fiscal tivesse instaurado o procedimento especial de fiscalização, de modo a exaurir a verificação fiscal, não haveria autuação, pois, consoante será demonstrado ao longo desta Impugnação Administrativa, não se configurou simulação, dano ao erário, tampouco interposição fraudulenta, já que não havia o menor interesse ou vantagem na ocultação de quem quer que fosse. * DA FALTA DE INTIMAÇÃO PARA APRESENTAÇÃO DAS MERCADORIAS SUJEITAS A PENA DE PERDIMENTO Embora conste no processo administrativo fiscal prova da Fl. 1002DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1003 6 intimação realizada à Impugnante para apresentar as mercadorias, o mesmo não ocorre quanto à empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda., não obstante a Autoridade Autuante tenha a intimado para outras inúmeras providências, como a apresentação de extratos, notas fiscais, comprovantes de pagamentos, dentre outros. Ou seja, conquanto a fiscalização soubesse da revenda das mercadorias no mercado interno para a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, pois estava de posse das notas fiscais de saída e, embora esta empresa tenha sido igualmente fiscalizada e responsabilizada solidariamente à infração, não foi a mesma intimada a apresentar as mercadorias ou indicar sua localização. Ao menos, não foi feita prova de tal intimação no processo administrativo fiscal. Desta feita, sem que tenham se esgotado as tentativas de localização das mercadorias, ante a intimação das pessoas jurídicas fiscalizadas, aguardando-se suas respectivas respostas dando conta da revenda ou o consumo dos bens (ou inércia), não há que se falar em aplicação da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias. Feitas tais considerações e verificada existência de vício material pela falta de intimação para apresentação das mercadorias sujeitas à pena de perdimento, aplicando-se de imediato a multa substitutiva, há que ser declarada a nulidade do auto de infração, até porque, se o Fisco houvesse intimado a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda e esta ainda estivesse de posse das mercadorias fiscalizadas, os efeitos da autuação seriam totalmente distintos, seja em seus aspectos materiais, seja nos processuais. * DO VÍCIO NA FORMAÇÃO DO PROCEDIMENTO FISCAL DE FISCALIZAÇÃO Consoante exposto nos fatos, o presente auto de infração emanou da procedimento fiscal de fiscalização materializado no Mandado de Procedimento Fiscal — Fiscalização (MPF-F) n. 0925200-2015-00005-0, instaurado em 16/01/2015. Ocorre que o referido procedimento não observou a forma legal prevista na legislação de regência. É que a partir de 4 de setembro de 2014, os procedimentos fiscais devem ser instaurados por meio de Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal — TDPF, e não mais através de Mandado de Procedimento Fiscal. Desta feita, o procedimento fiscal de fiscalização instaurado em face da Impugnante em 16/01/2015. por meio de MPF, não possui a forma legal prevista pela legislação, posto que naquela data a figura do MPF já havia sido excluída do ordenamento jurídico, substituída por forma distinta. Ante o exposto e tendo em vista que o presente auto de infração é proveniente de ato administrativo que não observou a forma legal prevista na legislação, deve ser o mesmo anulado. DO MÉRITO * A INFRAÇÃO IMPUTADA À IMPUGNANTE A mera ocultação de sujeitos sem prova de fraude ou simulação poderia, no máximo, configurar inexatidão de declaração, punível com multa de 1% (um por cento), disposta no art. 711, inciso III c/c § 1°, do Regulamento Aduaneiro. É de extrema relevância esta distinção, uma vez que nas atividades comerciais um dos principais valores de uma companhia são os seus segredos de negócio, ou trade secrets, os quais, exatamente pelo seu grau de confidencialidade e por serem desconhecidos do público em geral, lhe confere vantagens econômicas legais sobre a concorrência, fornecedores e clientes. O mais protegido trade secret de uma companhia é certamente sua lista de clientes e de fornecedores, pessoas sem as quais o negócio se toma inviável. Como os trade secrets são insuscetíveis de registro em Órgãos próprios, pois não se enquadram nos conceitos das Leis de Propriedade Intelectual e Industrial, resta às companhias mantê- Fl. 1003DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1004 7 los reservados e inacessíveis do público em geral, mas, principalmente, da concorrência, dos fornecedores e dos clientes. Logicamente que se o fornecedor conhecer a lista de clientes da companhia, lhe será mais vantajoso economicamente a feitura de negócios diretamente com estes, eliminando-se um elo da cadeia e aplicando maiores ganhos. O mesmo se daria se os clientes da companhia conhecessem seus fornecedores — não precisariam mais do intermédio desta, podendo trabalhar com margens mais vantajosas. A fraude pressupõe dolo representado pela vontade de impedir ou atrasar o fato gerador tributário, para obtenção de vantagem pelo agente, seja para evitar o pagamento do tributo, seja para atrasá-lo. Em outras palavras, só há fraude no âmbito tributário se o sujeito passivo,intencionou não pagar tributo, pagar menos tributo ou retardar o pagamento do tributo, por meio de ação ou omissão dolosa acoimada de fraudulenta. A simulação está legalmente definida no § 1° do art. 167 do Código Civil, mostrando-se presente nos negócios jurídicos que 'I - aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas as quais realmente se conferem, ou transmitem; II -contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III - os instrumentos particulares forem antedatados, ou pós-datados'. Mero procedimento imperfeito praticado (de acordo, entretanto, com a realidade comercial vivida entre as partes), sem que reste evidente a intenção consciente de locupletamento, não se configura como fraude ou simulação. Ou seja, deve estar presente, de forma clara e insofismável, o elemento finálistico e de conexão: a intenção deliberada e dolosa de enganar terceiro. Cabe breve ressalva à parte final do inciso V do art. 23 do Decreto- Lei 1.455/76 que trata da interposição fraudulenta como uma das formas possíveis de ocultação mediante fraude ou simulação, com foco nos recursos aplicados no comércio exterior (e reais detentores dos recursos). A interposição fraudulenta tipifica conduta dolosa lesiva ao Estado Aduaneiro concernente na não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Se restar demonstrado que o Importador não detinha capacidade econômica, financeira e operacional para adquirir mercadorias estrangeiras, arcar com o custo da compra internacional e dos tributos, sendo financiado por um terceiro oculto, cuja ocultação é necessária para encobrir crime(s) antecedentes (s), como sonegação, lavagem de dinheiro e/ou descaminho, por exemplo, fica demonstrada a hipótese de interposição fraudulenta comprovada. Na interposição fraudulenta comprovada, o Fisco tem conhecimento de quem é o importador ostensivo e quem é o terceiro oculto, amparando-se pelos documentos contábeis e financeiros dos sujeitos, os quais evidenciam que (i) a origem dos recursos era do terceiro oculto; (ii) que o importador ostensivo não detinha disponibilidade sobre tais recursos e; (iii) que a transferência dos mesmos para o exterior/exportador foi promovida pelo terceiro oculto. A legislação previu, ainda, a hipótese de interposição fraudulenta presumida, conforme disposição contida no § 2º do art. 23 do Decreto-Lei 1.455/76, quando, embora o Fisco não saiba quem é o terceiro oculto, o importador ostensivo não consegue comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. Ou seja, para a caracterização de interposição fraudulenta de pessoas no comércio exterior, há de ser assegurado ao contribuinte procedimento especial de fiscalização, onde o mesmo, Fl. 1004DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1005 8 ciente que o objeto da fiscalização é o recurso aplicado na importação, tem a oportunidade de comprovar a regularidade da operação. No caso concreto dos autos, a Autoridade Autuante motivou o lançamento do crédito tributário e a lavratura do auto de infração ora impugnado no 'Dano ao Erário causado peto ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', prática punível com a pena de perdimento das mercadorias que no caso de seu consumo substitui-se pelo lançamento de ofício de 100% do Valor Aduaneiro das mesmas. Percebe-se que a Autoridade Autuante não inseriu o uso de fraude na descrição infração, ou seja, descartou a ocorrência de conduta da fraudulenta por parte da Impugnante e, como conseqüência lógica, descartou, também, a hipótese de supressão ou redução de tributo na operação de comércio exterior. Em que pesem os argumentos da Autoridade Autuante na tentativa de demonstrar a alegada 'ocultação do real comprador de mercadoria estrangeira mediante simulação e interposição fraudulenta', verificar-se-á que as provas trazidas no auto de infração não são suficientes para caracterizar os elementos do tipo penal da infração imputada à Impugnante, porquanto não existem provas lúcidas e concretas de efetiva ocultação, tal como inexiste prova ou qualquer outra indicação de simulação, dolo e má-fé. Ademais, quanto à suposta interposição fraudulenta, além de não se ter respeitado procedimento especial de fiscalização previsto na legislação, como já alegado nas preliminares, a Autoridade Autuante não logrou êxito em comprovar que irregularidade nos recursos empregados nas operações de comércio exterior. * DA FALTA DE PROVAS DA OCULTAÇÃO / DA REGULARIDADE DA IMPORTAÇÃO POR CONTA PRÓPRIA Consoante exposto nos fatos, a Autoridade Autuante concluiu que a Impugnante teria ocultado a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda. Ignorando toda a relação comercial existente entre a Impugnante, seus fornecedores e clientes, entendeu a digníssima fiscalização que as importações tratavam-se de uma encomenda de terceiros, e não de uma importação direta da Impugnante, como declarado ao Fisco. Ocorre que a conclusão da Autoridade Fiscal encontra-se totalmente equivocada, decorrendo de interpretação distorcida da operação efetivamente praticada e declarada. É inquestionável que todos os contatos com o fornecedor foram sempre feitos pela Impugnante, que negociava preço, descontos, prazo, dentre outras condições comerciais. Fornecedor este prospectado exclusivamente pela Impugnante, desconhecido da empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, a qual desconhecia, igualmente, os preços praticados na compra e venda internacional e, por conseguinte, a margem de lucro operada pela Impugnante. Dito isso, cumpre destacar que o auto de infração elenca três razões isoladas a fundamentar a aplicação da pesada penalidade, com repercussões, inclusive, na esfera penal: (i) proximidade entre as datas de desembaraço, entrada e saída das mercadorias; (ii) possível inexistência de conhecimentos de transporte que comprovassem a remessa da mercadoria da Impugnante para a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, e; (iii) falta de habilitação desta última empresa nos sistemas da Receita Federal do Brasil para operar no comércio exterior ( item 6.3, fls. 20 a 23 do auto de infração). Ora, não parece coerente que uma questão de expropriação do patrimônio do particular em virtude de uma acusação de fraude e simulação, como é o caso do presente processo, seja baseada em indícios, como é o caso das três 'razões' fundamentadoras do auto, sem o mínimo suporte de provas. Para tanto, outros elementos devem ser, obrigatoriamente, considerados. Fl. 1005DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1006 9 De qualquer forma, os próprios indícios apresentados pela Autoridade Autuante demonstram fragilidade e incerteza quanto ao correto pronunciamento fiscal. Relembre-se que a legislação civil exalta que o conhecimento de embarque constitui efetiva prova da propriedade das mercadorias, o que é reconhecido pela própria Receita Federal do Brasil. Isto é, a partir da data de embarque de mercadorias adquiridas através do INCOTERM FCA, as mesmas são de propriedade do importador, que legalmente as adquiriu e sem qualquer ordem anterior. Investido nesta qualidade, pode, ele, exercer todos os direitos de propriedade; ainda que as mercadorias estejam em trânsito (transit time). Sendo assim, tão logo transferida a propriedade dos bens, que, no caso de compra internacional promovida pelo INCOTERM FCA, ocorre quando a mercadoria é entregue ao transportador contratado pelo importador, pode este último, a partir deste momento, dispor da coisa como lhe aprouver, no exercício dos direitos civis da propriedade. No caso dos autos, impende salientar que o embarque, ou seja a efetiva transferência de propriedade da carga para a Impugnante, ocorreu em data anterior (quase um mês antes) à venda das mercadorias no mercado interno, conforme se constata no Conhecimento de Embarque anexado ao processo administrativo pela Autoridade Autuante. A proximidade das datas de entrada e saída das mercadorias importadas no estabelecimento da Impugnante não caracteriza, necessariamente, a existência de encomenda prévia, porquanto só se admite a encomenda antes da aquisição junto ao fornecedor, e não antes do desembaraço. Ao contrário do que faz crer a Autoridade Autuante, a venda pulverizada nunca foi indicativo de operação mercantil desvinculada de ordem ou encomenda. O vendedor, na qualidade de proprietário dos bens, pode vender um lote integral ou parcial de mercadorias, sem que isso prove ordem ou encomenda anterior. Não bastasse, há de se destacar, ainda, algumas peculiaridades do caso concreto. Constata-se que a margem de lucro praticada pela Impugnante na venda das mercadorias à empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda foi de 23,45% (vinte e três vírgula quarenta e cinco por cento). E que apesar de a importação através da modalidade encomenda não se tratar de uma prestação de serviços (assim compreendida no sentido literal), mas de efetiva operação mercantil de venda de mercadorias, o pagamento do encomendante ao importador normalmente se dá através de uma 'comissão' em percentual equivalente ao valor (FOB ou CIF) das mercadorias, semelhante à contraprestação/remuneração de um serviço. Conquanto não exista um percentual padrão/único, sabe-se que não costuma atingir mais de 5% (cinco por cento) do valor da mercadoria/operação, até porque se a contratação de importador terceiro acrescer demais o valor da mercadoria a terceirização não será economicamente viável tampouco vantajosa. Considerando o exposto neste tópico, resta evidente que a Impugnante adquiriu diretamente as mercadorias do exportador, suportando os bônus e os ônus de uma importação por conta própria, inexistindo um adquirente pré-determinado para os bens ou mesmo ocultação de quem quer que seja, sendo que nada foi comprovado em sentido contrário. * DA FALTA DE PROVAS DA SIMULAÇÃO. DO DOLO E DA MÁ-FÉ No caso em enfoque, equivale dizer que a não identificação da empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda haveria de ser dada através de artifício doloso, utilizado pela Fl. 1006DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1007 10 Impugnante e pela ocultada visando alguma vantagem, um possível ganho tributário, ou, ainda, acobertando uma operação revestida de ilicitude, o que de fato configuraria o dano ao Erário, justificando a pena de perdimento às mercadorias. Se considerado que a vantagem buscada pelas partes seria a ocultação de uma delas do controle aduaneiro, para se 'esquivar' da habilitação nos sistemas da Receita Federal para operar no comércio exterior, como alegou a Autoridade Autuante ('Por meio desse artifício, o verdadeiro adquirente das mercadorias importadas em nome da fiscalizada, pretende afastar obrigações tributárias principais e acessórias, entre elas não se submeter a procedimentos fiscais de habilitação para atuar no comércio exterior (v. item 1, fl. 8 do auto de infração), é evidente que a mesma Autoridade deve indicar as razões pelas quais uma das partes recearia sofrer tal controle, como por exemplo, o fato de a mesma não possuir capacidade econômica, não possuir capital integralizado, ser empresa de fachada, ter sócios ocultos, ou qualquer outra caracterizadora de irregularidade fiscal). De fato, não se identifica referebilidade entre o que a Autoridade Autuante afirma (ocultação mediante simulação e interposição fraudulenta) e as evidências da ocorrência do fato imputado. Em outras palavras, não é possível verificar no relato fiscal quais seriam as evidências ou documentos que o levaram a concluir que a Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda teria motivos para não se submeter aos procedimentos de habilitação para atuar no comércio exterior como adquirente. Ademais disso, destaque-se que a Autoridade Autuante não cogitou outras 'vantagens' que a Impugnante e a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda buscavam ao encobrir uma a outra, como sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, etc.. E nem teria como, pois não existem elementos nos inúmeros documentos contábeis e financeiras das empresas (de posse da Autoridade Autuante) para fundamentar qualquer irregularidade. Não basta apenas ocultar o sujeito passivo, mas há de se fazer mediante fraude ou simulação, que pode se dar por qualquer meio (o legislador não o predeterminou), inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. E, para enquadrar-se determinado fato nos conceitos de fraude ou simulação, deve-se observar, rigorosamente, o âmbito de alcance e aplicabilidade dos institutos. A Impugnante e a empresa o apresentaram ao Fisco sua escrituração contábil regular, mantida com a observância das disposições legais, bem como todos os aspectos contábeis e financeiros da operação engedrada entre as partes. Cabia ao Fisco apontar, com base nestes mesmos documentos, em que momento ocorreu a fraude, a simulação e o dolo dos agentes. Não pode o Fisco, diante de casos que classifica como 'interposição fraudulenta', olvidar-se de produzir elementos probatórios conclusivos. Devem os elementos de prova não somente insinuar que tenha havido nas operações um prévio acordo doloso, mas comprovar as condutas imputadas, o que não se vê no presente processo. Portanto, é obrigação do Fisco comprovar os fatos que embasaram o lançamento tributário, que não pode ser baseado apenas em presunções e/ou indícios, incapazes de determinar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. Ocorre que, no caso em apreço, a fiscalização aduaneira não logrou infirmar a legalidade e a regularidade da operação de comércio exterior praticada pela Impugnante, calcando o Auto de Infração em meras presunções e indícios divorciados de provas das acusações fiscais, de modo que o lançamento não merece subsistir. Com efeito, para concluir que a impugnante teria ocultado a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, a qual seria a encomendante das Fl. 1007DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1008 11 mercadorias objeto das Dl fiscalizadas, a Autoridade Fiscal amparou-se em meras ilações/conjecturas, furtando-se ao ônus da prova que lhe incumbia. Finalmente, urge esclarecer que a inobservância do ônus da prova pela Autoridade Fiscal ganha particular relevo no caso sob análise, eis que a infração prevista no inciso V do artigo 23 do Decreto-Lei n° 1.455/1976 (dano ao erário por ocultação do sujeito passivo) pressupõe a fraude ou simulação, eis que descartada a hipótese de interposição fraudulenta presumida prevista no § 2" do mesmo dispositivo, posto que o referido parágrafo não constou na capitulação da infração na autuação. * DESPROPORCIONALIDADE E DESARRAZOABILIDADE DA PENA DE PERDIMENTO A própria Autoridade Autuante descartou a possibilidade de supressão ou redução de tributo na operação de comércio exterior quando consignou que a suposta infração não foi realizada mediante fraude, mas tão-somente simulação. Além dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade que devem nortear a Administração Pública em todos os seus atos, resta violado no caso em apreço também o princípio do não confisco em matéria tributária. A restrição da aplicação da pena de perdimento da mercadoria aos casos em que houver efetivo dano ao erário decorre também da própria garantia individual fundamental do direito de propriedade, insculpida no artigo 5º, caput e inciso XXII, da Constituição Federal. Em verdade, tem se verificado uma certa banalização da pena de perdimento pela fiscalização aduaneira, um verdadeiro desvio de curso na aplicação da norma, vez que, atualmente, qualquer indício de proximidade ente o importador e seus clientes no mercado interno cai na vala comum da interposição fraudulenta" ou "ocultação dos reais intervenientes da operação", com a apreensão e desapropriação das mercadorias da empresa, todas suscetíveis a interpretação. Não é possível aplicar indiscriminadamente a legislação, sem ter em conta a sua finalidade específica, como forma de arrecadar mais, lançando-se penalidades confiscatórias em hipóteses que estão fora do campo das práticas que a legislação buscou coibir. Desse modo, inexistindo qualquer prova de fraude, simulação e de dolo, bem como inexistindo qualquer vantagem econômica ou fiscal, o lançamento baseado na infração capitulada no art. 23, V do Decreto-Lei 1.455/76 não possui base para subsistir. * DA RELEVAÇÃO DA PENA DE PERDIMENTO Subsidiariamente, para o caso de os argumentos expostos nos itens anteriores não serem acolhidos, o que realmente não se espera, admitindo-se apenas por cautela, cumpre lembrar que o artigo 737 do Regulamento Aduaneiro (Decreto n° 6.759/2009) prevê a relevação da pena de perdimento nos casos em que a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento de tributos federais, como ocorre no caso sob análise. Verificado no caso em apreço que não há intuito doloso, eis que a impugnante e a empresa Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda. não auferiram qualquer espécie de vantagem tributária com a operação realizada, é plenamente cabível a relevação da pena de perdimento, aplicando-se em seu lugar a multa referida no artigo 712 do mesmo diploma. Portanto, se a conclusão das autoridades julgadoras for pela existência de irregularidade na operação de importação realizada por meio da Declaração de Importação fiscalizada, o que se admite apenas para fins de argumentação, é medida que se impõe a relevação da pena de perdimento (e, conseqüentemente, da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria), já que não ocorreu falta ou insuficiência de recolhimento de tributos federais, bem como não houve intuito doloso, substituindo-se a penalidade aplicada pela multa correspondente a 1 % (um por cento) do valor aduaneiro da mercadoria. Fl. 1008DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1009 12 * DA PENALIDADE ESPECÍFICA E MENOS ONEROSA Subsidiariamente, para o caso de os argumentos expostos nos itens anteriores não serem acolhidos, o que se admite apenas a título de argumentação, deve-se destacar que o ordenamento jurídico prevê a penalidade específica a ser aplicada ao importador que realiza operação com ocultação de terceiros. Desta feita, a penalidade aplicada à Impugnante, caso constatada a efetiva prática de infração, o que não se espera, deve ser reduzida para o patamar de 10%, porquanto com o advento da Lei 11.488/2007, esta passou a ser a norma menos onerosa para o contribuinte, amoldando-se, a situação e o pleito, à disposição contida na alínea c, do inciso II do art. 106 do Código Tributário Nacional. Em se tratando de dispositivos legais que tipificam uma única conduta — "ocultação" de intervenientes do comércio exterior - fica evidenciado o conflito de normas, uma prevista no Decreto-Lei 1.455/76 (art. 23, V) e a outra na Lei 11.488/07 (art. 33), fazendo-se necessária a observância do princípio da especialidade, o qual impõe a prevalência da norma especial em detrimento da geral. Não bastassem os argumentos baseados do princípio da penalidade menos onerosa, e na mais específica, cabe rememorar que o art. 100 do Decreto-Lei 37/66 é bastante claro ao impor nas infrações praticadas por mais de uma pessoa, a cada qual deve ser aplicada sua específica penalidade prevista na legislação. Não cabe, portanto, sob a alegação de responsabilidade solidária, penalizar o importador com a penalidade prevista para o adquirente. Portanto, se na interposição fraudulenta (e ocultação mediante fraude ou simulação) exige-se a presença de mais de uma pessoa - uma ostensiva e outra oculta-; se a legislação prevê uma penalidade para o responsável pela operação, o sujeito que beneficiou-se ocultamento, e outra penalidade para o que facilitou a ocultação, faz-se mister aplicar o art. 100 do Decreto-Lei 37/66 e separar as pessoas e suas penalidades. * DOS REQUERIMENTOS Ante o exposto, requer o recebimento e o processamento da presente Impugnação para que seja declarado nulo o Auto de Infração pelas razões acima expostas, especialmente: I. pela falta de correção de vício material apontado em julgamento de lançamento de penalidade sobre fatos idênticos ao dos autos, por não ter sido oportunizado à Impugnante fazer prova da regularidade da origem, disponibilidade e transferência dos recursos, bem como do vínculo com a pessoa seguinte da cadeia de circulação, procedimento assegurado na IN SRF 228/02; pela falta de intimação do responsável solidário para a apresentação das mercadorias sujeitas à pena de perdimento, antes de ser o perdimento substituído pela multa de 100%; por vício formal no procedimento fiscal de fiscalização, que desrespeitou forma prevista em norma legal e infralegal. Na remota hipótese de interpretar-se que os vícios da autuação não o contaminam de absoluta nulidade, o que se admite apenas a título de argumentação, requer-se seja o mesmo julgado improcedente e desconstituído o crédito tributário, pelas inúmeras razões expostas acima, quais sejam, de forma resumida: I. pela regularidade da importação por conta própria; II. pela falta de provas de encomenda de terceiros; pelo fato de todo o auto de infração basear-se em frágeis indícios isolados; III. pela ausência de prova de simulação ou fraude, bem como da existência de dolo; Fl. 1009DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1010 13 IV. pela ausência de dano ao Erário; V. pela inexistência de vantagens econômicas ou fiscais em suposta ocultação, e; VI. pela desproporcionalidade e desarrazoabilidade da pena de perdimento. Na remota possibilidade de os argumentos de mérito não serem acolhidos, requer-se, a relevação da pena de perdimento, com a aplicação de multa limitada ao percentual de 1% (um por cento), posto que a os fatos narrados na autuação não resultaram e insuficiência de recolhimento de tributos federais. Subsidiariamente, requer-se a aplicação de pena máxima de 10% (dez por cento), prevista especificamente para o importador ostensivo. A Impugnante requer, ainda, que lhe seja assegurada a produção de todos os meios de prova admitidos em Direito, inclusive a posterior juntada de documentos porventura não localizados dentro do prazo legal, na forma do artigo 17 do Decreto n° 70.235/1972. A empresa Open Market foi cientificada, via eletrônica, em 5/03/2015 ( folhas 710). É o Relatório". A Delegacia da Receita Federal do Brasil negou provimento a impugnação apresentada pelo contribuinte, em julgamento que recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A IMPORTAÇÃO - II Data do fato gerador: 07/12/2010 Dano ao Erário por infração de ocultação do verdadeiro interessado nas importações, mediante o uso de interposta pessoa. Pena de perdimento das mercadorias, comutada em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria. O objetivo pretendido pelos interessados atentou contra a legislação do comércio exterior por ocultar o real adquirente das mercadorias estrangeiras e consequentemente afastá-lo de toda e qualquer obrigação cível ou penal decorrente do ingresso de tais mercadorias no país. A atuação da empresa interposta em importação tem regramento próprio, devendo observar os ditames da legislação sob o risco de configuração de prática efetiva da interposição fraudulenta de terceiros. A aplicação da pena de perdimento não deriva da sonegação de tributos, muito embora tal fato possa se constatar como efeito subsidiário, mas da burla aos controles aduaneiros, já que é o objetivo traçado pela Receita Federal do Brasil possuir controle absoluto sobre o destino de todos os bens importados por empresas nacionais. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Conforme atesta a certidão acostada à folha 949 dos autos, considera-se intimado o contribuinte Open Market Comércio Exterior Ltda sobre o teor do acórdão proferido pela instância de origem em 19/9/2015, ante o transcurso do prazo da disponibilização do documento na caixa postal do contribuinte Portal e-CAC (Centro Virtual de Atendimento ao Contribuinte). Fl. 1010DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1011 14 Interposto tempestivamente o recurso voluntário em 7/10/2015 (fl.996), os autos do processo administrativo em tela ascenderam a este Conselho. É o relatório. Em seu recurso voluntário a contribuinte alega, em preliminar, que a autuação padece de vício material insanável, já que existindo apenas indícios de suposta prática delitiva, deveria ter sido instaurado o procedimento especial de fiscalização definido na IN SRF n. 228/2002, para que a origem dos recursos empregados nas importações fossem analisadas e delimitadas as condutas dos agentes das operações. Não atendidos os requisitos específicos do procedimento especial de investigação, é nula a autuação. O recorrente sustenta que a identidade das autuações (a lavrada em 2012 e a que se submete a julgamento), atrelada a ausência de correção do vício material apontado (que ocasionou a decretação de nulidade da autuação passada) ensejam a uniformização das decisões, sob pena de se ferir a confiança e segurança jurídica. Nas palavras da recorrente: "Julgar causas idênticas de forma desigual acarreta imensurável insegurança jurídica, desconfiança e imprevisibilidade na ordem administrativa operante, principalmente considerando que as alterações inseridas no novo auto prestaram-se tão-somente a (i) adaptar o relatório fiscal às informações atualizadas dos procedimentos fiscais de diligência e de fiscalização realizados a posteriori do lançamento anulado; (ii) para dar conta da decretação de nulidade do auto anterior, e; (iii) para justificar a discordância à anulação". A contribuinte requer a anulação da autuação no que se refere a incidência da multa substitutiva equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias, diante do fato que a empresa Tubozan Indústria Plástica Ltda. não foi intimada a apresentar as mercadorias sujeitas à pena de perdimento. A recorrente alega que o procedimento de fiscalização instaurado em 16/01/2015 não deveria ter sido inaugurado pelo Mandado de Procedimento Fiscal, mas sim pelo Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal (TDPF), conforme determina o Decreto n. 8.303/2014 e regulamentado pela Portaria RFB n. 1.687/2014, que dispõe: "Art. 2º (Port. RFB 1.687/2014) Os procedimentos fiscais relativos a tributos e ao controle aduaneiro de comércio exterior administrativo pela RFB serão instaurados e executados pelos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil, na forma do art. 7º do Decreto n. 70.235/1972, observada a emissão de: I - Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Fiscalização (TDPF-F), para instauração de procedimento de fiscalização; II - Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Diligência (TDPF-D), para realizaçaõ de diligência; e III - Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal Especial (TDFP- E), para prevenção de risco de subtração de prova. Art. 4º. Os procedimentos fiscais serão instaurados após sua distribuição por meio de instrumento administrativo específico Fl. 1011DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1012 15 denominado Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal (TDPF), previsto no art. 2º do Decreto n. 3.724, de 10 de janeiro de 2001". Quanto ao mérito, a recorrente repisa o argumento que a letra do art. 23, V do Decreto-Lei n. 1.455/1976 impõe a decretação de pena pela infração que ocorre quando o real importador (ou real adquirente) oculta-se propositalmente da fiscalização aduaneira através da facilitação de um importador ostensivo, utilizando-se de meio fraudulento ou simulação. Na hipótese dos autos não existe comprovação de dolo, sequer há provas sobre a obtenção de vantagens indevidas em razão da ocultação do real importador. Em suas palavras: "77. Diante do expostos, afirmar que a interposição fraudulenta foi praticada na via efetiva ou direta, com a imputação da infração e respectiva penalidade, significa que o Fisco detém provas inequívocas da ocultação e do dolo (exigível na fraude ou simulação - elementos nucleares do tipo infracional), posto que através desta modalidade de apuração o cometimento da infração não é presumível. (...) 82. No entanto, não é exatamente esta a realidade probatória do auto de infração recorrido, em que se verifica a adoção de fundamentos questionáveis para justificar o fim pretendido pela Autoridade Fiscal - aplicação de multa substitutiva de 100%, sem o necessário respaldo probatório". A Fiscalização adota a interpretação que a importação tem início no registro da Declaração de Importação. Sobre esse tema, a contribuinte se insurge, pois entende que a operação de importação é composta por várias etapas que precedem o registro, sendo a Declaração de Importação apenas o momento do lançamento do Imposto de Importação. Na opinião da recorrente, a questão temporal para a apuração da infração pela qual foi autuada é irrelevante, porque este aspecto isolado não atesta a ocultação por simulação fraudulenta. O fator apto a determinar punível a conduta da contribuinte está relacionado ao risco empresarial da operação de importação, uma vez que a norma prevista no art. 23 do Decreto Lei n. 1.455/76 presume ocorrida a infração quando não há comprovação de origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Daí conclui que: "106. Logicamente que, se não há aporte de capital na operação pelo importador ostensivo, a concretização de qualquer dos fatores de risco não lhe será prejudicial, mas sim a quem efetivamente aportou o recurso na operação". Sustenta que a partir da data de embarque de mercadorias adquiridas através da INCOTERM FCA, as mesmas são de propriedade do importador, que legalmente as adquiriu e sem qualquer ordem ou encomenda anterior. Investido nesta qualidade, pode, ele, exercer todos os direitos de propriedade, ainda que as mercadorias estejam em trânsito (transit time) e ainda não tenham sido efetivamente nacionalizadas. Por esse motivo a recorrente aduz que as provas angariadas pela Autoridade Fiscal não são suficientes para demonstrar a efetiva ocultação, pois indicam condutas compatíveis com o ordenamento jurídico e asseguradas pelo direito de propriedade. Fl. 1012DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1013 16 A recorrente pondera que não há nos autos qualquer esclarecimento sobre os motivos pelos quais a empresa Tubozan Indústria Plástica Ltda. não pudesse se habilitar no SISCOMEX, motivo que esclareceria a interposição fraudulenta alegada. A ausência desses esclarecimentos torna inválida a autuação. A resposta da recorrente sobre esse tópico foi: "137. A empresa Tubozan Indústria Plástica Ltda não possuía habilitação no SISCOMEX pela razão única de não operar no comércio exterior, pois adquiria mercadorias de fornecedores brasileiros, o que é plenamente compatível com o ordenamento jurídico". E continua a prestar os seguintes esclarecimentos: "143. Conquanto sejam nulos os fundamentos inovadores do auto de infração, mas com o intuito de evitar a perpetração do argumento, ressaltamos que a empresa Tubozan Indústria Plástica Ltda é industrial, o que inviabiliza a alegada quebra na cadeia do IPI. O tributo incidiu na (i) entrada da importação - por equiparação industrial; (ii) na saída da Recorrente - por equiparação a industrial (mas em vias de ser extinto, ante os recentes julgados de não incidência de IPI na saída de produtos importados) e, (iii) na saída da Tubozan (se é que foi dado saída) - não por equiparação, mas por ser propriamente empresa industrial, tal como incidiria se esta figurasse como adquirente, quando se equipararia a industrial (momento em que o julgador a quo alega ter sido quebrada a cadeia)". A linha de argumentação subsidiária da contribuinte é pela aplicação do art. 737 do Regulamento Aduaneiro (Decreto n. 6.759/2009) que prevê a relevação da pena de perdimento nos casos em que a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento dos tributos federais. Traz a conhecimento precedentes lavrados na esfera judicial que determinam, em situações análogas às dos autos, a substituição da pena de perdimento pela multa correspondente a 1% sobre o valor aduaneiro da mercadoria. Requer, por fim, a cominação de penalidade específica para o importador ostensivo, nos moldes previstos no art. 33 da Lei n. 11.488/2007, cancelando-se a sanção prevista no art. 23, V, do Decreto-Lei n. 1.455/76. Passamos a avaliar os argumentos contidos no recurso voluntário sob julgamento. 1. PRELIMINARES 1.1. VÍCIO INSANÁVEL. PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO ESPECÍFICO - IN SRF 228/2002 A recorrente se insurge contra a autuação fiscal sofrida, arrimada no art. 23, inciso V, parágrafo 3º do Decreto-Lei n. 1.455/1976, com a redação conferida pelo art. 59 da Lei n. 10.637.2002 e art. 73 da Lei n. 10.833/2003, os quais transcrevo: Art. 23. Consideram-se dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: V - estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador Fl. 1013DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1014 17 ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 2º Presume-se interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não-comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º. As infrações previstas no caput serão punidas com multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria, na importação, ou ao preço constante da respectiva nota fiscal ou documento equivalente, na exportação, quando a mercadoria não for localizada, ou tiver sido consumida ou revendida, observados o rito e as competências estabelecidos no Decreto n. 70.235/1972. A norma transcrita espelha a existência de duas presunções, que são: a) presunção de dano ao erário, já que consta no caput do artigo transcrito que presume-se a existência de dano ao erário o simples fato de haver a interposição fraudulenta por meio de ocultação do real adquirente da mercadoria importada ou exportada, e; b) a presunção da interposição fraudulenta, esta presumida quando não comprovada a origem, a disponibilidade e a transferência dos recursos utilizados nas operações de mercado exterior. Portanto, para que haja dano ao erário, basta a ocultação do real adquirente, que necessariamente deve se concretizar mediante fraude ou simulação, ou então, também presumir-se-á dano ao erário a interposição fraudulenta, admitida nas hipóteses em que não se consegue comprovar a origem, disponibilidade e transferência dos valores necessários para as operações 1 . Na hipótese dos autos, estamos diante da imputação da prática do ilícito consistente na ocultação do real adquirente das mercadorias importadas, mediante fraude ou simulação. Para que tal presunção passe do plano da investigação e possa, acertadamente, resultar na sanção imposta ao contribuinte, é necessário que o acervo probatório - este de responsabilidade da Autoridade Fiscal Autuante - indiquem que efetivamente o real adquirente das mercadorias não seja aquele indicado nos registros próprios das operações de importação. Esta turma de julgamentos acolhe o entendimento que a "Instrução Normativa n. 228/2002 é um procedimento investigatório para a obtenção de provas para comprovação de eventual interposição fraudulenta de pessoas" 2 . O referido procedimento especial de fiscalização tem por escopo constatar a eventual ocorrência de fraude nas importações, pelos indícios de incompatibilidade entre os valores transacionados e capacidade econômica do importador, com a eventual culminação da pena de perdimento, ou do lançamento da multa substitutiva de perda, nos casos de impossibilidade de localização das mercadorias ou o seu consumo. 1 Neste ponto concordamos com a interpretação apresentada pelo Cons. João Carlos Cassuli Júnior, na oportunidade do julgamento do Processo Administrativo n. 10925.721819/2013-69, que resultou no Acórdão n. 3402-002.560. 2 Definição contida no Acórdão n. 3302-003.506, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 13971.722501/2011-76, julgado por esta 2ª Turma da 3ª Câmara da 3ª Seção em 24/01/2017. Fl. 1014DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1015 18 Por este motivo, me distancio da conclusão adotada pela instância de origem, que limita a importância do Procedimento Especial de Fiscalização nos seguintes contornos: "O procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n. 228/2002 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação". Em que pese a conclusão da instância de origem ter sido adotada pela unanimidade dos julgadores, entendo que não é possível assentir com a premissa que um Procedimento de Fiscalização tenha por objetivo imediato a retenção de mercadorias, e não a busca pela verdade material dos fatos que resultaram na importação ou exportação dos produtos. A IN SRF 228/2002, além de indicar os deveres da Autoridade Fiscal, também condiciona o acervo probatório mínimo para a efetiva condenação dos investigados. A saber: Art. 4º. Durante o procedimento especial de fiscalização, a empresa será intimada a comprovar as seguintes informações, no prazo de 20 (vinte) dias: I - o seu efetivo funcionamento e a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, mediante o comparecimento de sócio com poder de gerência ou diretor, acompanhado da pessoa responsável pelas transações internacionais e comerciais; e II - a origem lícita, a disponibilidade e a efetiva transferência, se for o caso, dos recursos necessários à prática das operações. § 1º Os elementos de prova deverão ser apresentados à unidade da SRF de fiscalização aduaneira com jurisdição sobre o domicílio fiscal do estabelecimento matriz da empresa. (...) Parágrafo único. Para fins de comprovar a condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias, as pessoas que comparecerem à SRF deverão demonstrar, ainda, que possuem conhecimento dos detalhes das operações em curso e poder decisório para sua realização, bem assim relacionar os nomes das pessoas de contato junto aos fornecedores estrangeiros, indicando os respectivos números de telefone, faz ou endereço eletrônico. Art. 6º - Para efeito de cumprimento do disposto no inciso II do caput do art. 4º, além dos registros e demonstrações contáveis, poderão ser apresentados, dentre outros, elementos de prova de: I - integralização do capital social; II - transmissão de propriedade de bens e direitos que lhe pertenciam e do recebimento do correspondente preço; III - financiamento de terceiros, por meio de instrumento de contrato de financiamento ou empréstimo, contendo: Fl. 1015DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1016 19 a) identificação dos participantes da operação: devedor, fornecedor, financiador, garantidor e assemelhados; b) descrição das condições de financiamento: prazo de pagamento do principal, juros e encargos, margem adicional, valor de garantia, respectivos valores-base para cálculo, e parcelas não financiadas e; c) forma de prestação e identificação dos bens oferecidos em garantia. Da leitura dos artigos e incisos, percebe-se que a intenção do criador da Instrução Normativa n. 228/2002 é garantir a constitucionalidade de um procedimento de fiscalização, tendo em vista os preceitos constitucionais da ampla defesa e a indispensável conclusão que só se pode apenar alguém mediante a existência de provas da prática do ilícito punível. E essa interpretação é reforçada pela recente edição da IN 1.678/2016, que atesta que o objetivo da IN 228/2002 é fiscalizar operações de comércio exterior que apresente indícios de interposição fraudulenta, pela incompatibilidade dos volumes transacionados com a capacidade financeira e econômica dos agentes. A instrução normativa de 2016 determina que a autuação deve ser calcada em motivação específica - portanto, amparada por provas - e não permite mais a motivação genérica admitida na instrução de 2002. São observações que faço sobre o que até agora foi exposto: (i) a IN SRF 228/2002 regulamenta a metodologia específica a ser observada pela Autoridade Fiscal na investigação de ocorrência de interposição fraudulenta de pessoas nas operações de comércio exterior; (ii) nesta norma também estão indicadas as provas indispensáveis para a eventual condenação da contribuinte, e que; (iii) a contribuinte foi autuada pela prática de interposição fraudulenta, porém sem ter sido submetida ao Procedimento Especial de Fiscalização. Entendo que tal condenação não deve prevalecer, diante da ausência das provas indicadas como essenciais pela IN SRF 228/2002. Essa falha da Autoridade Fiscal leva a indissociável conclusão que há perecimento ao direito a ampla defesa (inciso LV, do artigo 5ª da Constituição Federal de 1988), bem como afastou-se do primado da seara administrativa que é a busca pela verdade material. Existem outras questões relacionadas ao procedimento de fiscalização realizado pela Autoridade Fiscal que serão abordadas no mérito da contenda. 1.2. VÍCIO PROCEDIMENTAL. FISCALIZAÇÃO INSTAURADA POR MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL E NÃO TERMO DE DISTRIBUIÇÃO DE PROCEDIMENTO FISCAL. DECRETO N. 8.303/2014. PORTARIA RFB N. 1.687/2014. Em que pese a lógica perfilhada pela contribuinte que ensejou a conclusão acima, entendo que não merece destaque. Isso porque a lavratura sob julgamento não foi resultado do Procedimento Especial de Fiscalização, como já tratado no tópico anterior. Fl. 1016DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1017 20 E a utilização indispensável do Termo de Distribuição de Procedimento Fiscal de Fiscalização (TDPF-F) de que trata a Portaria RFB n. 1.687/2014, é previsto no art. 3º da IN SRF 228/2002. Assim, por não ter sido adotado o procedimento previsto na IN SRF 228/2002, não é possível exigir-se a utilização de um instrumento próprio daquela forma de investigação. 1.3. INEXISTÊNCIA DE INTIMAÇÃO VÁLIDA PARA APLICAR A MULTA SUBSTITUTIVA DA PENA DE PERDIMENTO. A instância de origem considerou que: "A adequada interpretação do § 3º do artigo 23 do Decreto Lei n. 1.455/1976 deve ser aquela que preste efetividade à norma: intimar o importador/exportador para que o apresente, ou pelo menos que indique a localização do bem apenado com o perdimento, já que é quem tem ou teve sua posse, além de ser responsável direto ou indireto pela irregularidade na operações de comércio exterior". Há, nos autos, o Termo de Intimação n. 005/2012 (fls. 499/500), endereçado a Open Market Comércio Exterior, para que esta apresente em 20 dias (i) as mercadorias importadas através das Declarações de Importação contidas na tabela lá reproduzida, ou: (ii) na impossibilidade de entrega destas mercadorias, por qualquer motivo, que apresente declaração por escrito dos motivos que justifiquem esta falta. Em resposta (fls. 501) a ora recorrente esclarece que não é possível entregar as mercadorias, porque já haviam sido vendidas no mercado interno. Tal resposta é um resultado lógico de toda defesa promovida pela contribuinte: que importou os produtos e, assim que esses foram desembaraçados, os vendeu para a contribuinte Tubozan Indústria Plástica Ltda e, por esse motivo, não detém mais a posse dos produtos importados. E, seguindo esta linha de raciocínio, entendo que o procedimento de desembaraço aduaneiro é uma etapa do controle aduaneiro, que resulta na nacionalização do produto, sendo possível a venda desses produtos ainda dentro do recinto alfandegário. Com bem colocado pelo Cons. Cassuli; "A partir do desembaraço a mercadoria, que já é do importador, passa a ser nacionalizada e pode ser entregue ao seu dono, que passa a ter também a sua posse direta e a respectiva propriedade, que se operou pela tradição da coisa adquirida" 3 . Assim, não há como se exigir que a importadora - Open Market - pudesse apresentar as mercadorias por ela importadas mas entregue a quem as adquiriu no mercado interno. Se tal conclusão pudesse ser admitida, chegar-se-ia a inevitável "exigência do impossível", já que a recorrente não detém a posse dos objetos desde o momento em que as vendeu. A inexistência de intimação destinada a Tubozan Indústria Plástica Ltda. macula a autuação fiscal porque, apesar de presumir que esta é a real encomendante dos produtos importados, o Fiscal não a intima para apresentar as mercadorias, o que impossibilita a apresentação das mesmas e defesa da contribuinte contra a sanção a que foi apenada. 3 Acórdão n. 3402-002.560, já citado. Fl. 1017DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1018 21 Entendo, por esse motivo, que é de rigor o cancelamento da multa equivalente ao valor aduaneiro, prevista no § 3º do art. 23 do Decreto-Lei n. 1.455/1976. * SOBRE A AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO A VIDRADOS BS INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MATERIAIS PARA CERÂMICA LTDA. Da leitura das folhas 947/948 dos autos eletrônicos constata-se que somente a contribuinte Open Market Comércio Exterior Ltda. foi intimada sobre o teor do acórdão proferido no julgamento da impugnação apresentada. Compulsando os autos do processo, percebe-se que a contribuinte Vidrados BS Indústria e Comércio de Materiais para Cerâmica Ltda, apesar de ter sido apontada pela autoridade fiscal como responsável solidária pela prática de interposição fraudulenta presumida, não foi intimada sobre o teor do acórdão proferido pela Delegacia da Receita Federal de Julgamentos em São Paulo. Considerando que a falta de intimação sobre a decisão tomada pela instância de origem acarreta dano significativo para a defesa da responsável solidária, bem como resulta em evidente cerceamento ao direito de defesa (preconizado nos inciso LV, art. 5º da Constituição Federal), entendo que este julgamento deve ser convertido em diligência para que os autos sejam devolvidos para a instância de origem, e que lá seja emitida a competente intimação, de modo a sanar a nulidade constatada. (assinatura digital) Lenisa Rodrigues Prado - Relatora Voto Vencedor Conselheiro Walker Araújo - Redator designado. Em que pese as razões arroladas pela ilustre Relatora, peço licença para divergir quanto a necessidade de instauração do procedimento da IN 228/2002 (item 1.1). Isto porque, o escopo da IN 228 é o combate à interposição fraudulenta antes do desembaraço ou da entrega da mercadoria, devendo ser prestada garantia ou retida a mercadoria, nos termos do artigo 7º da IN. Deste modo, o procedimento especial não é pressuposto de fiscalização em revisão aduaneira, mas sim antes da entrega da mercadoria importada ao destinatário. Essa matéria já foi objeto de análise nos autos do processo 13971.722501/2011-76 (acórdão 3302- 003.506), cuja ementa segue abaixo: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2006, 2007 DECADÊNCIA. OCORRÊNCIA PARCIAL. PENALIDADES. Verifica-se que o art. 753, do Decreto nº 6.759/2009, prevê o prazo de cinco anos a contar da data da ocorrência da infração para impor penalidade. PROCEDIMENTO ESPECIAL DE FISCALIZAÇÃO. IN SRF 228/2002. AUSÊNCIA DE NECESSIDADE.Quando todas as provas já estão presentes para a elaboração do auto de infração, não há necessidade do procedimento especial. Fl. 1018DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1019 22 Assunto: Normas de Administração Tributária Ano-calendário: 2006, 2007 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. Quando há envio de depósitos para fechamentos de câmbio, e-mails e outras provas robustas, fica configurada a interposição fraudulenta de terceiros nas operações de importação. SUBFATURAMENTO/ SUPERFATURAMENTO. O subfaturamento e o superfaturamento ocorre quando os preços declarados nas faturas comerciais não consubstanciam a realidade, sendo que elas passaram por falsificações e há provas, nesse sentido, como a existência de carimbos de fornecedores, e-mails, notas de débito e de crédito. MULTA PROPORCIONAL AGRAVADA. DOLO. EXISTÊNCIA. O dolo de sonegação fica configurado quando expressamente provado por uma série de provas cabais. Assunto: Imposto sobre a Importação - II Ano-calendário: 2006, 2007 MULTA REGULAMENTAR DO IPI. VALOR COMERCIAL DA MERCADORIA. AFASTAMENTO. Afasta-se a multa regulamentar do IPI, equivalente ao valor comercial da mercadoria, quando houver no Regulamento Aduaneiro - Decreto 6.759/09- multa com tipificação mais específica. No caso concreto, é o dispositivo que prevê a multa contida no § 1º, do inciso XXII, do artigo 689 do Regulamento, tipificada como infração por dano ao erário, por interposição fraudulenta No mais, adoto como fundamento as razões já explicitadas no acórdão recorrido (vide abaixo), no sentido de que "o procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n° 228/02 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação": Para o adequado deslinde da questão colocada, é propício uma outra explanação sobre o conceito do procedimento especial de fiscalização normatizado pela IN SRF nº 228/02 e os seus efeitos. Como visto, o objeto de investigação do procedimento especial de fiscalização é a empresa - e as operações de comércio exterior por ela realizadas - que revelar indícios de incompatibilidade entre os volumes por ela transacionados no comércio exterior e a sua capacidade econômico-financeira. Destarte, se a fiscalização aduaneira detecta indícios de incompatibilidadentre os volumes transacionados no comércio exterior e a capacidade econômica e financeira da empresa importadora ou outros indícios ou incongruências, o procedimento a ser instaurado é o procedimento especial de fiscalização, implicando na retenção de todos os despachos aduaneiros de importação efetuados pela empresa. O inicio do procedimento especial de fiscalização então é registrado no Sistema de Rastreamento de Atuação de Intervenientes Aduaneiros- RADAR para que todas as unidades aduaneiras tenham ciência disso e procedam com a retenção de todo e qualquer desembaraço aduaneiro da empresa a partir desse registro, condicionando o desembaraço ou a entrega das mercadorias na importação à prestação de garantia, até a conclusão do procedimento especial. Cabe destacar que, no que tange à aplicação do procedimento especial de fiscalização (IN SRF n° 228/02), o foco da fiscalização é a prevenção quanto à possível ocorrência de ocultação dolosa do sujeito passivo oculto responsável pela importação. Para tanto, as repartições aduaneiras poderão determinar a submissão da empresa importadora a esse procedimento, em face de premissas claramente definidas, tais como: Fl. 1019DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1020 23 - Cessar imediatamente a atuação das pessoas jurídicas que se utilizam dessa prática irregular, de modo a impedir que os bens, direitos, ou valores oriundos da prática dos crimes relacionados à lavagem de dinheiro venham a se tornar lícitos, por meio de operações de comércio exterior. Esse procedimento possibilitará a reunião dos demais elementos de prova com maior profundidade em momento posterior (inclusive, pela Polícia Federal) ao serem tratados sob o enfoque penal; e - Como não é possível definir o universo dos delitos encobertos pela ação de interpostas pessoas, pune-se o meio de execução (paralisação da operação de importação e empresa), sempre no intuito de atingir o maior número possível de infratores, conforme o fundamento descrito no item acima. Esse é o escopo do procedimento especial de fiscalização. Um instrumento legal à disposição da fiscalização aduaneira para repressão de operações de importação oriundas da prática de interposição fraudulenta de terceiros. As intimações à empresa importadora feitas no âmbito do procedimento especial de fiscalização tem por objetivo confirmar ou não às suspeitas da fiscalização aduaneira quanto a existência de prática de interposição fraudulenta de terceiros que tem o dever de combater. Entendendo que essas irregularidades são presentes, por força do artigo 11 da IN SRF nº 228/02, será proposta a pena de perdimento: Art. 11. Concluído o procedimento especial, aplicar-se-á a pena de perdimento das mercadorias objeto das operações correspondentes, nos termos do art. 23, V do Decreto-lei nº 1.455, de 7 de abril de 1976, na hipótese de: I - ocultação do verdadeiro responsável pelas operações, caso descaracterizadaa condição de real adquirente ou vendedor das mercadorias; II - interposição fraudulenta, nos termos do § 2º do art. 23 do Decreto-lei nº 1.455, de 1976, com a redação dada pela Medida Provisória nº 66, de 29 de agosto de 2002, em decorrência da não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados, inclusive na hipótese do art. 10. Parágrafo único. Nas hipóteses previstas nos incisos I e II do caput, será ainda instaurado procedimento para declaração de inaptidão da inscrição da empresa no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). (Grifo Nosso) A incidência da pena de perdimento e posterior substituição pela incidência da multa equivalente ao valor aduaneiro não está atrelada ao prazo do procedimento especial de fiscalização. Pelo contrário, só ocorrem após sua conclusão, a luz do artigo 11 da IN SRF nº 228/02. Proposta a pena de perdimento e a sua consequente substituição pela multa equivalente ao valor aduaneiro, na forma do §3º, do artigo 23, do Decreto Lei n° 1.455/76 – procedimento que será explanado alhures -, a exigência do crédito tributário seguirá o rito do Decreto nº 7.574, de 29/09/2011 ( que substituiu o Decreto n.º 70.235/72). Essa explanação foi necessária para evidenciar também que o prazo estabelecido no artigo 9º da IN SRF nº 228/02 – noventa dias – diz respeito à conclusão do procedimento especial de fiscalização, e não ao rito da propositura da pena de perdimento em decorrência de determinação expressa do artigo 11 da IN SRF nº 228/02. Fl. 1020DF CARF MF Processo nº 10983.720259/2015-01 Resolução nº 3302-000.581 S3-C3T2 Fl. 1021 24 Assim, a ação da fiscalização aduaneira responsável pela aplicação do procedimento especial de fiscalização (IN SRF n° 228/02) tem por fulcro a retenção de despacho aduaneiro de importação sob suspeita de prática de interposição fraudulenta de terceiros. Caso as suspeitas da fiscalização se confirmem, a Instrução Normativa n° 228/02 disciplina o modo de agir com vistas à aplicação da pena de perdimento, conforme o artigo 11 acima transcrito Por conseguinte, o procedimento especial de fiscalização escorado na Instrução Normativa n° 228/02 não é pressuposto para uma autuação fiscal e sim um instrumento para a retenção de mercadorias ao longo do despacho aduaneiro de importação. Atrelar a presente ação fiscal – que por si só já trouxe elementos próprios para a lavratura do Auto de Infração – à realização da Instrução Normativa n° 228/02 é desconhecer o real propósito desse instituto. Por tais motivos, nega-se a preliminar suscitada no tópico "1.1" . É como voto. (assinado digitalmente) Walker Araujo - Redator designado. Fl. 1021DF CARF MF
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