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Numero do processo: 10183.001641/98-01
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Fri Feb 02 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/01/1997 a 30/03/1997
CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÃO DE INSUMOS PERANTE PESSOAS FÍSICAS. POSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STJ.
A restrição imposta pela IN/SRF nº 23/97 para fins de fruição de crédito presumido do IPI é indevida, sendo legítimo o creditamento também na hipótese de aquisição de insumos de pessoas físicas. Precedente do Superior Tribunal de Justiça - STJ retratado no REsp nº 993.164 (MG), julgado sob o rito de recursos repetitivos, o que vincula o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais a sua observância, conforme estatuído art. 62, §2° do RICARF.
Numero da decisão: 3201-003.413
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário.
Winderley Morais Pereira - Presidente.
Leonardo Vinicius Toledo de Andrade - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade.
Nome do relator: LEONARDO VINICIUS TOLEDO DE ANDRADE
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AQUISIÇÃO DE INSUMOS PERANTE PESSOAS FÍSICAS. POSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STJ. A restrição imposta pela IN/SRF nº 23/97 para fins de fruição de crédito presumido do IPI é indevida, sendo legítimo o creditamento também na hipótese de aquisição de insumos de pessoas físicas. Precedente do Superior Tribunal de Justiça STJ retratado no REsp nº 993.164 (MG), julgado sob o rito de recursos repetitivos, o que vincula o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais a sua observância, conforme estatuído art. 62, §2° do RICARF. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário. Winderley Morais Pereira Presidente. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Tatiana Josefovicz Belisário, Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Leonardo Vinicius Toledo de Andrade. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 18 3. 00 16 41 /9 8- 01 Fl. 743DF CARF MF 2 Relatório Por retratar com fidelidade os fatos, adoto, com os devidos acréscimos, o relatório produzido em primeira instância, o qual está consignado nos seguintes termos: "Em julgamento o pedido de ressarcimento de crédito presumido de fIs. 01, datado de 23/04/98 e fundado nos termos da Portaria MF if 38/97. O valor inicial solicitado, R$ 1.929.487,02, que abrangia todo o ano de 1997, foi corrigido após análise da DCP de fls.l 18 e anuência da contribuinte para o montante de R$ 575.928,69, representativo do saldo líquido posicionado em 31 de março daquele ano. O Despacho Decisório DRFCUIABÁ/MT n° 500/2000 (fls.290/293) decidiu acerca do pedido da forma seguinte: "(...) ... os insumos utilizados no processo produtivo que foram adquiridos diretamente de produtor pessoa física não compoõem a base de cálculo do benefício instituído pela Lei n° 9.363/96, fato que justifica a glosa do crédito, efetuada no Termo de Verificação Fiscal de fls.284/288. Cabe ressaltar que as contribuições sociais PIS/PASEP/COFINS somente devidas pelas pessoas jurídicas, nos termos do art. 1° da Lei Complementar 70/91, dos arts.l" e 3° da Lei Complementar 7/70 e do art.2° da Lei n° 9.715, de 25 de novembro de 1998, e incidem quando da venda ou faturamento dos produtos, ou seja, se o ato legal em comento se reporta às contribuições incidentes sobre as respectivas aquisições, obviamente se aplica aos insumos que, adquiridos de terceiros, a elas estivessem sujeitos. Ora, não são contribuintes do PIS/PASEP ou da COFINS as pessoas físicas, assim, não havendo incidência sobre as aquisições, não há o que se ressarcir ao adquirente. Da mesma forma, as aquisições de insumos de Cooperativas de Produtores não devem compor a base de cálculo do incentivo. As cooperativas são formadas com o objetivo de comercializar ao produção de seus associados, que a elas é entregue [sicj. As operações realizadas entre as cooperativas e seus associados não são atos mercantis, não implicando compra e venda de produtos, conforme determina o art.79, parágrafo único, da Lei n° 5.761 de 16/12/1971, assim sendo, tais operações não sofrem a incidência das contribuições para o PIS e COFINS. (...) O valor do crédito presumido a ressarcir é aquele calculado por esta delegacia, conforme Termo de Verificação Fiscal de fls. 284/288, no qual constam para o 1° trimestre de 1997 as seguintes conclusões: Fl. 744DF CARF MF Processo nº 10183.001641/9801 Acórdão n.º 3201003.413 S3C2T1 Fl. 3 3 Valor do Ressarcimento líquido: R$49.825,70. Valor Glosado: R$ 526.102,99. Estes valores e todos os demais constantes deste Despacho Decisório e os métodos utilizados pela fiscalização para a apuração dos mesmos encontramse detalhados nos demonstrativos de fls.245/249, elaborados com base em balancetes de verificação, notas fiscais de compra e outros documentos fiscais apresentados pela Interessada. (...) Isto posto, Defiro o pedido da interessada para: a. reconhecer parcialmente o crédito presumido de IPI (..) no montante de RS 49.825,70; b. determinar a utilização deste crédito para compensar de oficio débitos por ventura existentes, cumprindo o disposto ... c. autorizar o ressarcimento em espécie de saldo remanescente, se houver, na forma da Instrução Normativa Conjunta SRF/STN n° 117/89." Insurgiuse a Interessada por meio da manifestação de inconformidade de fls.353/360, que pode assim ser sumariada: "Houve por bem o ilustre delegado da Receita Federal em Cuiabá/MT, de reconhecer parcialmente o crédito postulado pela Impugnante, no montante de RS 49.825,70. Sustenta a DRF/Cuiabá que devem ser excluídos da base de cálculo do incentivo o valor relativo aos insumos adquiridos de pessoas físicas e de cooperativas. Observese que a decisão "a quo" está criando restrição que não prevista pela legislação pertinente. (...) E de concluirse, pois, que se trata de imt estímido (sic) à exportação, num esforço governamental ao incremento das vendas do País ao exterior, amenizando assim o chamado "custo Brasil", que tanto entrave tem causado aos produtos brasileiros em competição no estrangeiro. Fica também demonstrado que as restrições impostas pela decisão impugnada não encontram abrigo na legislação pertinente. Se a lei, preocupada com o equilíbrio da balança cambial, criou um estímulo às exportações sem estabelecer as restrições impostas pela decisão impugnada, não cabe à DRFCUIABÁ criar as referidas restrições, sob pena de a decisão ser ilegal e não produzir qualquer efeito no mundo jurídico. " Fl. 745DF CARF MF 4 O litígio inaugurado pela Contribuinte foi decidido por meio do Acórdão DRJ/JFA n° 3.307, de 3 de abril de 2003, que assim foi ementado: "IMPUGNAÇÃO NÃO CONHECIDA Deixese de tomar conhecimento de impugnação emanada por empresa a qual não é a sucessora dos direitos e obrigações da contribuinte requerente originalmente do pedido de ressarcimento de crédito presumido do IPI objeto deste processo, nos termos do art.227, da Lei n° 6.404/76, e artigo 132 do CTN, especificamente. " Inconformada com o teor da decisão da DRJ/JFA, recorreu a Interessada ao Conselho de Contribuintes, que assim se pronunciou (Acórdão 20218.805, de 11 de março de 2008 (fls.620/626) relator Antônio Zomer): "Desta forma, restando comprovado que a recorrente é a sucessora legal da empresa detentora dos créditos objeto do litígio, para que não haja supressão de instância, voto no sentido de se anular o Acórdão DRJ/.JFA n° 3.307, de 03/04/2003, para que a impugnação seja conhecida e o mérito do pleito apreciado em primeira instância. " Às fls.297 do presente processo e 01 do processo apenso n°l0183.001155/9966 encontramse dois pedidos de compensação de crédito com débito de terceiros, nos quais está indicado o crédito objeto deste voto como lastro de legitimação do procedimento compensatório." A decisão recorrida apresenta e seguinte ementa: "Assunto : Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/1997 a 30/03/1997 IPI. CRÉDITO PRESUMIDO. AQUISIÇÃO DE PESSOAS FÍSICAS. IMPOSSIBILIDADE A base de cálculo do crédito presumido será determinada mediante a aplicação, sobre o valor total das aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem destinados a utilização no processo produtivo, sobre as quais tenha incidido as contribuições de que tratam as Leis Complementares n°s 07, de 07 de setembro de 1970, 08, de 03 de dezembro de 1970, e 70, de 30 de dezembro de 1991. DRJ. PEDIDOS DE COMPENSAÇÃO. COMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO. Os pedidos de compensação não convertidos em declarações de compensação nos termos do parágrafo 4° do artigo 74 da Lei n° 9.430/96 não admitem insurgência em relação aos despachos decisórios denegatórios pela via recursal do Processo Administrativo Fiscal PAF." O recurso voluntário foi interposto de forma hábil e tempestiva, contendo, em breve síntese, os seguintes argumentos: Fl. 746DF CARF MF Processo nº 10183.001641/9801 Acórdão n.º 3201003.413 S3C2T1 Fl. 4 5 (i) o direito ao crédito presumido do IPI para o ressarcimento de PIS e COFINS é assegurado pela Lei 9363/1996, sem restrições; (ii) quis o legislador estimular as exportações, com a redução de custos e aumento da competitividade dos produtos brasileiros; (iii) que não é lícito que a Instrução Normativa IN/SRF 23/97 restrinja incentivo estabelecido por lei; (iv) a lei fixa a base de cálculo do crédito presumido, a qual será determinada mediante aplicação, sobre o valor total das aquisições (art. 2° da Lei 9363/1996), sem qualquer exclusão; (v) ao condicionar a inclusão dos insumos na base de cálculo do crédito presumido às aquisições efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas ao PIS e a COFINS, a IN SRF 23/97 extrapolou o conteúdo da Lei 9363/1996; (vi) cita jurisprudência administrativa e judicial; (vii) que se os insumos, embora não integrandose ao produto novo, forem consumidos no processo de industrialização, são considerados pela legislação do IPI como matériasprimas e produtos intermediários; (viii) que o segundo pedido de compensação deve ser conhecido, pois enquadrase na regra de transição determinada pelo § 4°, do art. 74 da Lei 10637/2002, e (ix) se a recorrente está debatendo a questão do indeferimento parcial do pedido, a questão encontrase pendente e passível de conhecimento mediante o processo administrativo fiscal; Pugna a recorrente ao final o provimento do recurso. É o relatório. Voto Conselheiro Leonardo Vinicius Toledo de Andrade A matéria em apreço foi pacificada pelo Superior Tribunal de Justiça STJ, por ocasião do julgamento do Recurso Especial REsp nº 993.164, o qual foi julgado, à época, sob a sistemática do art. 543C do Código de Processo Civil. Além disso a questão é objeto da Súmula nº 494 da Corte Superior. Assim, por se tratar a matéria já consolidada em sede de recurso repetitivo e sumulada, vincula este Colegiado Administrativo, de acordo com o que preconiza o § 2º do art. 62 do Anexo II do atual Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343/2015. Fl. 747DF CARF MF 6 A decisão proferida em dito Recurso Especial está ementada nos seguintes termos: "PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. IPI. CRÉDITO PRESUMIDO PARA RESSARCIMENTO DO VALOR DO PIS/PASEP E DA COFINS. EMPRESAS PRODUTORAS E EXPORTADORAS DE MERCADORIAS NACIONAIS. LEI 9.363/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF 23/97. CONDICIONAMENTO DO INCENTIVO FISCAL AOS INSUMOS ADQUIRIDOS DE FORNECEDORES SUJEITOS À TRIBUTAÇÃO PELO PIS E PELA COFINS. EXORBITÂNCIA DOS LIMITES IMPOSTOS PELA LEI ORDINÁRIA. SÚMULA VINCULANTE 10/STF. OBSERVÂNCIA. INSTRUÇÃO NORMATIVA (ATO NORMATIVO SECUNDÁRIO). CORREÇÃO MONETÁRIA. INCIDÊNCIA. EXERCÍCIO DO DIREITO DE CRÉDITO POSTERGADO PELO FISCO. NÃO CARACTERIZAÇÃO DE CRÉDITO ESCRITURAL. TAXA SELIC. APLICAÇÃO. VIOLAÇÃO DO ARTIGO 535, DO CPC. INOCORRÊNCIA. 1. O crédito presumido de IPI, instituído pela Lei 9.363/96, não poderia ter sua aplicação restringida por força da Instrução Normativa SRF 23/97, ato normativo secundário, que não pode inovar no ordenamento jurídico, subordinandose aos limites do texto legal. 2. A Lei 9.363/96 instituiu crédito presumido de IPI para ressarcimento do valor do PIS/PASEP e COFINS, ao dispor que: "Art. 1º A empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais fará jus a crédito presumido do Imposto sobre Produtos Industrializados, como ressarcimento das contribuições de que tratam as Leis Complementares nos 7, de 7 de setembro de 1970, 8, de 3 de dezembro de 1970, e de dezembro de 1991, incidentes sobre as respectivas aquisições, no mercado interno, de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, para utilização no processo produtivo. (...) 5. Nesse segmento, o Secretário da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 23/97 (revogada, sem interrupção de sua força normativa, pela Instrução Normativa 313/2003, também revogada, nos mesmos termos, pela Instrução Normativa 419/2004), assim preceituando: "Art. 2º Fará jus ao crédito presumido a que se refere o artigo anterior a empresa produtora e exportadora de mercadorias nacionais. (...) § 2º O crédito presumido relativo a produtos oriundos da atividade rural, conforme definida no art. 2º da Lei nº 8.023, de 12 de abril de 1990, utilizados como matériaprima, produto intermediário ou embalagem, na produção bens exportados, será calculado, exclusivamente, em relação às aquisições, efetuadas de pessoas jurídicas, sujeitas às contribuições PIS/PASEP e COFINS." Fl. 748DF CARF MF Processo nº 10183.001641/9801 Acórdão n.º 3201003.413 S3C2T1 Fl. 5 7 6. Com efeito, o § 2º, do artigo 2º, da Instrução Normativa SRF 23/97, restringiu a dedução do crédito presumido do IPI (instituído pela Lei 9.363/96), no que concerne às empresas produtoras e exportadoras de produtos oriundos de atividade rural, às aquisições, no mercado interno, efetuadas de pessoas jurídicas sujeitas às contribuições destinadas ao PIS/PASEP e à COFINS. 7. Como de sabença, a validade das instruções normativas (atos normativos secundários) pressupõe a estrita observância dos limites impostos pelos atos normativos primários a que se subordinam (leis, tratados, convenções internacionais, etc.), sendo certo que, se vierem a positivar em seu texto uma exegese que possa irromper a hierarquia normativa sobrejacente, viciar seão de ilegalidade e não de inconstitucionalidade (Precedentes do Supremo Tribunal Federal: ADI 531 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 11.12.1991, DJ 03.04.1992; e ADI 365 AgR, Rel. Ministro Celso de Mello, Tribunal Pleno, julgado em 07.11.1990, DJ 15.03.1991). 8. Conseqüentemente, sobressai a "ilegalidade" da instrução normativa que extrapolou os limites impostos pela Lei 9.363/96, ao excluir, da base de cálculo do benefício do crédito presumido do IPI, as aquisições (relativamente aos produtos oriundos de atividade rural) de matériaprima e de insumos de fornecedores não sujeito à tributação pelo PIS/PASEP e pela COFINS (Precedentes das Turmas de Direito Público: REsp 849287/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 19.08.2010, DJe 28.09.2010; AgRg no REsp 913433/ES, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 04.06.2009, DJe 25.06.2009; REsp 1109034/PR, Rel.Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, julgado em 16.04.2009, DJe 06.05.2009; REsp 1008021/CE, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 01.04.2008, DJe 11.04.2008; REsp 767.617/CE, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em 12.12.2006, DJ 15.02.2007; REsp 617733/CE, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Turma, julgado em 03.08.2006, DJ 24.08.2006; e REsp 586392/RN, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 19.10.2004, DJ 06.12.2004). (...) 16. Recurso especial da Fazenda Nacional desprovido. 17. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008." (REsp 993.164/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 13/12/2010, DJe 17/12/2010) A Súmula 494 do Superior Tribunal de Justiça assim dispõe: "O benefício fiscal do ressarcimento do crédito presumido do IPI relativo às exportações incide mesmo quando as matérias primas ou os insumos sejam adquiridos de pessoa física ou jurídica não contribuinte do PIS/PASEP." Fl. 749DF CARF MF 8 A título ilustrativo, consignamse recentes decisões proferidas pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF sobre o tema: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2000 a 31/12/2000 CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÃO DE INSUMOS PERANTE PESSOAS FÍSICAS. POSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STJ. A restrição imposta pela IN/SRF nº 23/97 para fins de fruição de crédito presumido do IPI é indevida, sendo admissível o creditamento também na hipótese de aquisição de insumos de pessoas físicas. Precedente do STJ retratado no REsp nº 993.164 (MG), julgado sob o rito de recursos repetitivos, apto, portanto, para vincular este Tribunal Administrativo, nos termos do art. 62, §2° do RICARF. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. PRODUTOS COM NOTAÇÃO NT NA TIPI. IMPOSSIBILIDADE. Não tem direito ao crédito presumido de IPI, de que trata a Lei nº 9.363/96, as aquisições de insumos utilizados na exportação de produtos com notação "NT" na Tabela do IPI TIPI. CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. OPOSIÇÃO ILEGÍTIMA DO FISCO. TAXA SELIC. POSSIBILIDADE. As decisões do Superior Tribunal de Justiça, em sede recursos repetitivos, por força do § 2º do art. 62 do Regimento Interno do CARF, devem ser observadas no Julgamento deste Tribunal Administrativo. Constatada a oposição ilegítima do fisco em negar direito a ressarcimento de crédito presumido do IPI, em decorrência de reversão de entendimento pelas instâncias julgadoras administrativas, autoriza a incidência da taxa Selic sobre os valores do ressarcimento que não foram devolvidos em face do óbice estatal." (Processo 13974.000065/200341; Acórdão 9303005.259; Conselheiro Relator Andrada Márcio Canuto Natal; Sessão de 20/06/2017) "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003 Ementa: CRÉDITO PRESUMIDO DE IPI. AQUISIÇÃO DE INSUMOS PERANTE PESSOAS FÍSICAS. POSSIBILIDADE DE APROVEITAMENTO DO CRÉDITO. PRECEDENTE VINCULATIVO DO STJ A restrição imposta pela IN/SRF n. 23/97 para fins de fruição de crédito presumido do IPI é indevida, sendo admissível o creditamento também na hipótese de aquisição de insumos de pessoas físicas e/ou cooperativas. Fl. 750DF CARF MF Processo nº 10183.001641/9801 Acórdão n.º 3201003.413 S3C2T1 Fl. 6 9 Precedente do STJ retratado no REsp n. 993.164, julgado sob o rito de recursos repetitivos, apto, portanto, para vincular este Tribunal Administrativo, nos termos do art. 62, §2° do RICARF." (Processo 10480.007762/200396; Acórdão 3402003.664; Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro; Sessão de 13/12/2016) Diante do exposto, dou provimento ao recurso. Leonardo Vinicius Toledo de Andrade Relator Fl. 751DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.013911/2007-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Apr 04 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/02/1999 a 28/02/1999
CESSÃO DE MÃO-DE-OBRA. RETENÇÃO DE 11%.
A empresa tomadora de serviços executados mediante cessão de mão-de-obra é obrigada a reter e recolher, em nome da contratada, 11% do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, a teor do art. 31 da Lei 8.212/91, na redação da Lei nº 9.711/99.
Numero da decisão: 2401-005.319
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e, no mérito, negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier - Presidente
(assinado digitalmente)
Rayd Santana Ferreira - Relator
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Rayd Santana Ferreira.
Nome do relator: RAYD SANTANA FERREIRA
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RETENÇÃO DE 11%. A empresa tomadora de serviços executados mediante cessão de mãodeobra é obrigada a reter e recolher, em nome da contratada, 11% do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços, a teor do art. 31 da Lei 8.212/91, na redação da Lei nº 9.711/99. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 01 39 11 /2 00 7- 51 Fl. 197DF CARF MF 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do recurso e, no mérito, negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Presidente (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Relator Participaram do presente julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier, Cleberson Alex Friess, Andrea Viana Arrais Egypto, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho e Rayd Santana Ferreira. Fl. 198DF CARF MF Processo nº 10580.013911/200751 Acórdão n.º 2401005.319 S2C4T1 Fl. 3 3 Relatório COMPANHIA DE ELETRICIDADE DO ESTADO DA BAHIA COELBA, contribuinte, pessoa jurídica de direito privado, já qualificada nos autos do processo em referência, recorre a este Conselho da decisão da 7a Turma da DRJ em Salvador/BA, Acórdão nº 1518.918/2009, às efls. 160/165, que julgou procedente o lançamento fiscal, referentes à retenção de 11% sobre o valor bruto dos serviços realizados mediante cessão de mãodeobra contida em notas fiscais de serviços prestado a recorrente, em relação a competência 02/1999, conforme Relatório Fiscal, às efls. 62/65 e demais documentos que instruem o processo. Os valores apurados decorrem da aplicação do percentual de 11% (onze por cento), à título de retenção, sobre o valor bruto dos serviços realizados e constantes das notas fiscais/faturas ou recibos, visto a não apresentação das GPS quitadas por parte da notificada, obrigada ao recolhimento na condição de tomadora dos serviços, observandose os procedimentos estabelecidos no art. 219, do Decreto n.° 3.048/99. A base de cálculo foi apurada de acordo com os percentuais estabelecidos na Seção III, Capítulo II, da Instrução Normativa IN SS/DC n° 070, de 10 de maio de 2002. A Seção de Análise de Defesas e Recursos, à época integrante da Secretaria da Receita Previdenciária, requereu (fl. 70) ao Serviço de Fiscalização manifestação acerca do equívoco cometido pelos auditores fiscais na identificação do sujeito passivo. Em resposta ao referido pedido de diligência (fls. 81/83), os Auditores Fiscais retificaram a denominação do sujeito passivo, retirando a expressão “e outro”, e fizeram juntada do contrato de fornecimento de obras e serviços n.° 0309007/980. Reaberto o prazo de defesa ao contribuinte (fl. 120). Inconformada com a Decisão recorrida a contribuinte apresentou Recurso Voluntário, às efls. 172/180, procurando demonstrar sua improcedência, desenvolvendo em síntese as seguintes razões. Após breve relato das fases processuais, bem como dos fatos que permeiam o lançamento, alega a existência do litisconsórcio necessário por solidariedade, isso porque, somente diante da incapacidade de comprovação do recolhimento pela prestadora, e, conseqüentemente, da confirmação da existência de débito, é que poderia se cogitar em imputação de responsabilidade solidária à COELBA, a qual se funda exclusivamente, ressalte se, no inadimplemento aferido. Contudo, o que se vê, no caso em tela, é que a autuação deveuse ao simples fato de não dispor, a recorrente, no momento da fiscalização, das cópias de guia de recolhimento, o que, por absurdo, entendeu o Autuante, seria definitivo para comprovar que não teria havido o recolhimento. No entanto, tal documentação fora apresentada, devendo ser cancelado o lançamento por violação à ampla defesa. Fl. 199DF CARF MF 4 Argumenta também que a fiscalização restringiuse a autuar a tomadora dos referidos serviços, lançando sobre ela o ônus de arcar com a referida obrigação, antes mesmo de que fosse averiguado o seu cumprimento por quem a lei prevê como principal obrigada, qual seja a empresa prestadora dos serviços. Desta forma, reitera a recorrente o seu requerimento para que sejam examinados os documentos já, e mais uma vez, colacionados, que demonstram o efetivo recolhimento das contribuições, porque a configuração da coresponsabilidade somente se dará na inadimplência do principal obrigado, deixando de ocorrer em virtude da inexistência de débito do mesmo, hipótese essa que se enquadra na presente situação. Sendo assim, uma vez que a solidariedade do dono da obra (tomador) se dá em virtude da inadimplência da prestadora de serviço, não havendo débito, não há que se falar em inadimplência como sequer, por conseqüência, em responsabilidade nela fundada. Diante da inequívoca comprovação do recolhimento, que se deu nos autos com a juntada das folhas de pagamento, GFlP, GRPS ou GPS, não subsiste o débito imputado, e, portanto, não há que se falar em responsabilidade já que esta está diretamente vinculada a eventual inadimplência da prestadora, o que, definitivamente, não corresponde ao caso em concreto. Por fim, requer o conhecimento e provimento do seu recurso, para decretar a anulação do lançamento, tornandoo sem efeito e, no mérito, a sua absoluta improcedência. Não houve apresentação de contrarrazões. É o relatório. Fl. 200DF CARF MF Processo nº 10580.013911/200751 Acórdão n.º 2401005.319 S2C4T1 Fl. 4 5 Voto Conselheiro Rayd Santana Ferreira Relator Presente o pressuposto de admissibilidade, por ser tempestivo, conheço do recurso voluntário. RETENÇÃO DE 11% PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS CESSÃO DE MÃO DE OBRA Da análise da notificação, especificamente no que atina aos aspectos formais, verificase o cumprimento dos requisitos essenciais previstos no art. 243, do Decreto n.° 3.048/99. Ressaltase que a presente lavratura fiscal referese ao descumprimento de obrigação principal, mais precisamente as contribuições previdenciárias, atinentes à retenção de 11% (onze por cento) sobre o valor bruto dos serviços realizados mediante cessão de mão de obra, constantes de nota fiscal, fatura ou recibo, previstos no art. 31, da Lei n.° 8.212/91, para a competência 02/1999. Em se tratando de contratação de serviços mediante cessão de mão de obra é clara a legislação vigente à época, acerca da responsabilidade do contratante em reter 11% do valor da nota fiscal, recolhendo o fruto da retenção no CNPJ da empresa contratada. O instituto da retenção de 11% está previsto no art. 31 da Lei n° 8.212/1991, com redação conferida pela Lei n ° 9.711/1998, nestas palavras: Art. 31. A empresa contratante de serviços executados mediante cessão de mãodeobra, inclusive em regime de trabalho temporário, deverá reter onze por cento do valor bruto da nota fiscal ou fatura de prestação de serviços e recolher a importância retida até o dia dois do mês subseqüente ao da emissão da respectiva nota fiscal ou fatura, em nome da empresa cedente da mãodeobra, observado o disposto no § 5º do art. 33. (Redação dada pela MP nº 1.66315, de 22/10/98 e convertida no art. 23 da Lei nº 9.711, de 20/11/98). Vigência a partir de 01/02/99, conforme o art. 29 da Lei nº 9.711/98 Cumpre registrar que o presente lançamento não se refere à responsabilidade solidária e sim ao dever de retenção de 11% que o sujeito passivo deveria ter efetuado em razão da contratação de serviços executados mediante cessão de mãodeobra, conforme legislação encimada. Pelas informações trazidas no relatório fiscal, bem como pelo que restou demonstrado na informação fiscal, não foram efetuados os devidos destaques na notas, nem tão pouco cumpriu a recorrente a obrigação de reter e recolher as contribuições previdenciárias correspondentes. Fl. 201DF CARF MF 6 Desse modo, a recorrente deveria ter retido o valor de 11% sobre o valor bruto da nota fiscal/fatura, observados os limites de deduções e recolher a importância até o dia dois do mês subseqüente à emissão da respectiva nota fiscal/fatura. De acordo com o previsto no art. 33, § 5º da Lei n° 8.212/1991, o desconto sempre se presume feito oportuna e regularmente pela empresa, sendo a responsabilidade direta de quem tinha o dever de realizálo. Art. 33 (...). §5º O desconto de contribuição e de consignação legalmente autorizadas sempre se presume feito oportuna e regularmente pela empresa a isso obrigada, não lhe sendo lícito alegar omissão para se eximir do recolhimento, ficando diretamente responsável pela importância que deixou de receber ou arrecadou em desacordo com o disposto nesta Lei. Apesar da recorrente alegar recolhimento pela prestadora de serviço, não comprova sua alegação, haja vista que os Auditores Fiscais notificantes atestam (fi. 116) que a guia apresentada (fl. 66) não tem nenhuma referência à contratante dos serviços e não é de retenção, mas guia normal da contratada. Ademais, a tomadora, no caso a impugnante, é a responsável legal em reter e recolher as contribuições devidas. Como já dito, o tomador que deixou de fazer a retenção de importância que antecipa em nome do prestador é obrigado ao recolhimento do valor correspondente, já que a obrigação é presumida nos termos do § 5° do art. 33 da Lei n.° 8.212/91. No caso da retenção de 11% não há que se falar em solidariedade, tampouco em benefício de ordem, pois o comando legal impôs a responsabilidade à tomadora de serviços, assim como o fez em relação ao desconto dos segurados empregados. Essa é uma presunção legal absoluta que milita em favor da fiscalização previdenciária. Os serviços passíveis de retenção estão previstos no parágrafo 4° do art. 31 da Lei 8.212/91, combinado com o art. 219 do Regulamento da Previdência Social RPS, aprovado pelo Decreto 3.048/99, in verbís: Lei n° 8.2I2/91 Art.31(...) § 4° Enquadramse na situação prevista no parágrafo anterior, além de outros estabelecidos em regulamento, os seguintes serviços: (Redação dada pela Lei n” 9. 711, de 20.11.98) I limpeza, conservação e zeladoria; (Incluído pela Lei n” 9.711, de 20.11.98) II vigilância e segurança; (Incluído pela Lei n° 9. 711, de 20.11.98) III empreitada de mãodeobra; (Incluído pela Lei n" 9.711, de 20.11.98) IV contratação de trabalho temporário na forma da Lei n° 6.019, de 3 de janeiro de 1974. (Incluído pela Lei n" 9.711, de 20.11.98) Decreto n.° 3 048/99 Fl. 202DF CARF MF Processo nº 10580.013911/200751 Acórdão n.º 2401005.319 S2C4T1 Fl. 5 7 Art.219 (..). §2° Enquadramse na situação prevista no caput os seguintes serviços realizados mediante cessão de mãodeobra: I limpeza, conservação e zeladoria; II vigilância e segurança; III construção civil; IV serviços rurais; V digitação e preparação de dados para processamento; VI acabamento, embalagem e acondicionamento de produtos; VII cobrança; VIII coleta e reciclagem de lixo e resíduos; IX copa e hotelaria; X corte e ligação de serviços públicos; XI distribuição; XII treinamento e ensino; XIII entrega de contas e documentos; XIV ligação e leitura de medidores; XV manutenção de instalações, de máquinas e de equipamentos; XVI montagem; XIX operaçao de transporte de cargas e passageiros; XIX operação de transporte de passageiros, inclusive nos casos de concessão ou subconcessão; (Redação dada pelo Decreto n” 4. 729, de 2003) XX portaria, recepção e ascensorista; XXI recepção, triagem e movimentação de materiais; XXII promoçao de vendas e eventos; XXIII secretaria e expediente; XXIVsaúde; e XXV telefonia, inclusive telemarketing.(grtfos nossos) Portanto, como outra atitude não poderia ser adotada por parte dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil, pois, a atividade tributária, relação jurídica e não simples Fl. 203DF CARF MF 8 relação de poder, nos moldes do Estado Democrático de Direito, é vinculada ao princípio da legalidade. Por todo o exposto, estando a Notificação de Lançamento sub examine em consonância com as normas legais que regulamentam a matéria, VOTO NO SENTIDO DE CONHECER DO RECURSO VOLUNTÁRIO, para no mérito, NEGARLHE PROVIMENTO, pelas razões de fato e de direito acima esposadas. É como voto. (assinado digitalmente) Rayd Santana Ferreira Fl. 204DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 15563.000308/2006-51
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 16 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Thu Feb 15 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3302-000.444
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em declinar da competência em favor da 1ª Seção de Julgamento, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
WALBER JOSÉ DA SILVA - Presidente.
(assinado digitalmente)
ALEXANDRE GOMES - Relator.
EDITADO EM: 29/10/2014
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Walber José da Silva (Presidente), Paulo Guilherme Deroulede, Fabiola Cassiano Keramidas, Maria da Conceição Arnaldo Jacó, Alexandre Gomes (Relator) e Gileno Gurjão Barreto.
RELATÓRIO
Nome do relator: Não se aplica
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LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em declinar da competência em favor da 1ª Seção de Julgamento, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) WALBER JOSÉ DA SILVA Presidente. (assinado digitalmente) ALEXANDRE GOMES Relator. EDITADO EM: 29/10/2014 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Walber José da Silva (Presidente), Paulo Guilherme Deroulede, Fabiola Cassiano Keramidas, Maria da Conceição Arnaldo Jacó, Alexandre Gomes (Relator) e Gileno Gurjão Barreto. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 55 63 .0 00 30 8/ 20 06 -5 1 Fl. 1463DF CARF MF Processo nº 15563.000308/200651 Resolução nº 3302000.444 S3C3T2 Fl. 11 2 RELATÓRIO Por bem retratar a matéria tratada no presente processo, transcrevo o relatório produzido pela DRJ de Juiz de Fora/MG: As infrações identificadas pelo autuante são as seguintes: Saída de produtos com insuficiência de lançamento do imposto; Compensação indevida em declaração prestada pelo sujeito passivo; IPI declarado com suspensão/a menor; Diferença apurada entre o valor escriturado e declarado/pago; Receita não comprovada. Sobre as infrações supra assim as descreveu o Termo de Verificação Fiscal de fls. 1121 a 1150: A infração 1 a fiscalizada emitiu notas fiscais com IPI lançado a menor. Como todos os cigarros vendidos por meio das notas fisvais relacionadas pertencem à classe I, o IPI devido em cada uma delas é calculado multiplicandose a quantidade de vintenas por a,469. A Infração 2 nos livros de sua contabilidade constam lançamentos que tratam da compensação do IPI a recolher com valores correspondentes a apólices da Divida Publica. nas DCTFs citou como números dos processo judiciais os números 2006.100021/6020, 20013.5000006/8982, e como medida judicial informou a existência de tutela antecipada até o 2º Decêndio/jan/2004 e a partir daí informou outros. as ações nos processos judiciais citados nenhuma medida liminar em vigor. a suspensão da exigibilidade do crédito tributário através de processo judicial só é possível se houver concessão de medida liminar em mandado de segurança, conforme determina o art. 151 do CTN. o contribuinte não poderia utilizarse das apólices da dívida publica para compensar tributos e contribuições federais já que existe proibição legal expressa. Com essas praticas o contribuinte, dolosamente, eximiuse do pagamento do tributo. desse modo, fica sujeito à aplicação da penalidade constante do inciso II do art. 44 da Lei nº 9.430/96. Infração 3 a fiscalizada declarou em DCTF vários valores como estando com exigibilidade suspensa. Fl. 1464DF CARF MF Processo nº 15563.000308/200651 Resolução nº 3302000.444 S3C3T2 Fl. 12 3 nos livros de sua contabilidade constam lançamentos, que tratam da compesnação do IPI a recolher com valores correspondentes a apólices da divida publica. foram constatadas diferenças entre os valores constantes do Livro de Apuração do IPI e os declarados em DCTF. (...) agindo como agiu, a fiscalizada compensou contabilmente débitos de IPI com créditos da divida publica e declarou coma União constando e DCTF como estando com a exigibilidade suspensa sem amparo de medida judicial. os valores foram tributados no auto de infração conforme valores de saldo devedor constante dos livros de registro de apuração do IPI. Infração 4 o contribuinte não apresentou DCTF e nem recolheu os valores devidos de IPI nos meses de janeiro a outubro do ano calendario 2006. Infração 5 os livros Razão dos anos calendário de 2004 e 2005 apresentam saldos credores na conta caixa 10032 de sua contabilidade. a fiscalizada asseverou que os saldos de caixa representam os pagamentos realizados durante o mês de referência , sendo que os recebimentos em espécie ou em cheques foram totalizados em um único lançamento realizado no último dia de cada mês. a fiscalizada, apesar de afirmar que entregou documentos comprobatórios de movimentação do caixa, não entregou qualquer documento que comprovasse as origens de recurso ingressos no caixa, tanto que não existe qualquer termo de retenção. Deste modo a única prova de que esta fiscalização dispõe são os assentamentos registrados em sua contabilidade a existência de saldo credor e considerada omissão de recieta por presunção legal. Em sua impugnação a Recorrente alega, em síntese: a) CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA DA IMPUGNANTE Alega que procurou por varias vezes, antes mesmo da lavratura do auto de infração, a DRF de Nova Iguaçu para postular cópia do processo de fiscalização e não obteve êxito. Afirma ter tido acesso ao processo somente em 12/01/2007 muito embora a ciência do auto de infração tenha ocorrido em 19/12/2006. Por conta deste fatos aduz ter sido prejudicado com claro cerceamento do seu direito defesa. b) VÍCIOS DO MPF E DAS SUAS PRORROGAÇÕES O MPF foi objeto de varias prorrogações mediante registro eletrônico. Alega que foram praticados atos de ofício no período compreendido entre a emissão da primeira prorrogação e a ciência do impugnante em afronta ao § 2º do art. 13 c/c art.20 da Portaria SRF nº 3.007/01. Por este motivo seria nulo o lançamento efetuado. Fl. 1465DF CARF MF Processo nº 15563.000308/200651 Resolução nº 3302000.444 S3C3T2 Fl. 13 4 c) IMPOSSIBILIDADE DA COBRANÇA DO VALOR DO PRINCIPAL LANÇADO, DA MULTA DE OFÍCIO E DA MULTA ISOLADA Registra que as compensações efetuadas na escrita fiscal e informadas em DCTF dispensam o lançamento de ofício, uma vez que a DCTF importa em confissão de divida o que possibilita a imediata cobrança dos débitos informados e compensados. Afasta a aplicação do § 12, letra C, do art. 74 da Lei nº 9.430/96 uma vez que a compensação efetuada é escritural, ou seja, não foi efetuada por meio de perdcomp. d) INDEVIDA QUALIFICAÇÃO DA MULTA Requer seja afastada a majoração da multa em função da não comprovação do evidente intuito de fraude exigido pelo disposto no inciso II, do art. 44 da Lei nº 9.430/96. e) IMPOSSIBILIDADE DA APLICAÇÃO DA MULTA ISOLADA E DA MULTA DE OFÍCIO CONCOMITANTEMENTE. Entende que é confiscatória a exigência concomitante da multa isolada e de oficio, por afronta ao disposto no art. 150, IV, da CF/88. A par dos argumentos lançados na manifestação de inconformidade apresentada, a DRJ entendeu por bem indeferir a solicitação em decisão que assim ficou ementada: Fl. 1466DF CARF MF Processo nº 15563.000308/200651 Resolução nº 3302000.444 S3C3T2 Fl. 14 5 Contra esta decisão foi apresentado Recurso onde são reprisados os argumentos lançados na manifestação de inconformidade apresentada. É o relatório. VOTO Conselheiro ALEXANDRE GOMES O presente Recurso Voluntário é tempestivo, preenche os demais requisitos de admissibilidade, e por isso dele tomo conhecimento. Conforme se depreende do relatório produzido pela autoridade fiscal que promoveu o presente lançamento, entre as infrações apontas encontrase a alegação de existência de omissão de receita nos seguintes termos: Os livros Razão dos anos calendário de 2004 e 2005 apresentam saldos credores na conta caixa 10032 de sua contabilidade. (...) A fiscalizada asseverou que os saldos de caixa representam os pagamentos realizados durante o mês de referência , sendo que os recebimentos em espécie ou em cheques foram totalizados em um único lançamento realizado no último dia de cada mês. (...) A fiscalizada, apesar de afirmar que entregou documentos comprobatórios de movimentação do caixa, não entregou qualquer documento que comprovasse as origens de recurso ingressos no caixa, tanto que não existe qualquer termo de retenção. Deste modo a única prova de que esta fiscalização dispõe são os assentamentos registrados em sua contabilidade (...) A existência de saldo credor é considerada omissão de receita por presunção legal conforme consta do inciso I do artigo 281 do Decreto nº 3.000/99 de 26.03.99 (Regularmente do Imposto da Renda – RIR/99). Fl. 1467DF CARF MF Processo nº 15563.000308/200651 Resolução nº 3302000.444 S3C3T2 Fl. 15 6 Como se vislumbra, tratase de lançamento reflexo de infrações à legislação do IRPJ, sendo aplicável a espécie o que determina o art. 2º do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, que assim prescreve: Art. 2° À Primeira Seção cabe processar e julgar recursos de ofício e voluntário de decisão de primeira instância que versem sobre aplicação da legislação de: IV demais tributos e o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), quando procedimentos conexos, decorrentes ou reflexos, assim compreendidos os referentes às exigências que estejam lastreadas em fatos cuja apuração serviu para configurar a prática de infração à legislação pertinente à tributação do IRPJ: 1 Neste norte, entendo que o presente processo deva ser encaminhado a 1ª Seção do CARF, órgão competente para julgar os processos conexos, decorrentes ou reflexos de infrações a legislação do IRPJ. É como voto. (assinado digitalmente) ALEXANDRE GOMES Relator 1 alterações introduzidas pela Port. MF nº 586, de 21 de dezembro de 2010–DOU de 22.12.2010 Fl. 1468DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10314.728735/2014-25
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
ARBITRAMENTO DO LUCRO.
O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de apresentar à autoridade fiscal os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal. Porém, a simples falta de autenticação da Escrituração Contábil Digital (EAD) nas Juntas Comerciais não dá causa ao arbitramento de lucros.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
CSLL - Decorrendo a exigência da CSLL do mesmo fato que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada, a mesma decisão proferida para o imposto de renda em face da estreita relação de causa e efeito.
PIS e Cofins - Diante da improcedência do arbitramento do lucro, considera-se indevida a apuração do PIS e da Cofins pelo regime cumulativo, já que a regra de apuração pelo lucro real enseja o cálculo do PIS e da Cofins pelo regime não cumulativo, conforme legislação vigente.
Numero da decisão: 1201-001.970
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora.
(assinado digitalmente)
Ester Marques Lins de Sousa - Presidente e Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Luis Henrique Marotti Toselli. Ausentes justificadamente os conselheiros: José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima.
Nome do relator: ESTER MARQUES LINS DE SOUSA
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O lucro da pessoa jurídica será arbitrado quando o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de apresentar à autoridade fiscal os livros e documentos da escrituração comercial e fiscal. Porém, a simples falta de autenticação da Escrituração Contábil Digital (EAD) nas Juntas Comerciais não dá causa ao arbitramento de lucros. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL Decorrendo a exigência da CSLL do mesmo fato que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada, a mesma decisão proferida para o imposto de renda em face da estreita relação de causa e efeito. PIS e Cofins Diante da improcedência do arbitramento do lucro, considera se indevida a apuração do PIS e da Cofins pelo regime cumulativo, já que a regra de apuração pelo lucro real enseja o cálculo do PIS e da Cofins pelo regime não cumulativo, conforme legislação vigente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em DAR provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da relatora. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Presidente e Relatora. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 31 4. 72 87 35 /2 01 4- 25 Fl. 2722DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Ester Marques Lins de Sousa, Eva Maria Los, Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Gisele Barra Bossa e Luis Henrique Marotti Toselli. Ausentes justificadamente os conselheiros: José Carlos de Assis Guimarães e Rafael Gasparello Lima. Relatório Versa o presente processo sobre autos de infração de Imposto de Renda Pessoa Jurídica IRPJ, no valor total de R$ 4.258.513,78, Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL, no valor total de R$ 1.939.712,63, Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins, no valor total de R$ 5.410.371,75, Contribuição para PIS/PASEP, no valor total de R$ 1.172.247,21, acrescidos de multa de 75%, e juros de mora calculados até 01/2015, referentes ao ano calendário de 2010. Por economia processual e considerar pertinente adoto o relatório da decisão recorrida (efls.2.629/2.646) que a seguir transcrevo: 1. Tratase de Autos de Infração por meio dos quais a Autoridade Administrativa constituiu créditos tributários vinculados ao IRPJ, CSLL e PIS/PASEP e COFINS do ano de 2010. Afirma o AuditorFiscal responsável que: a) 23/09/2013 Termo de Início de Fiscalização emitido com requisição de que o contribuinte confirmasse a opção pela forma de tributação do lucro para o anobase de 2010 e, também, que efetuasse a entrega/envio dos arquivos digitais da Escrituração Contábil Digital (Sped Contábil),que o mesmo ainda não havia efetuado. Esse termo foi em 26/09/2013, iniciandose assim a ação fiscal; b) 19/11/2013 Não atendidas as exigências iniciais, foram reiteradas em nova intimação e, em resposta, o contribuinte apresentou declaração confirmando a opção pelo lucro real trimestral para o anobase de 2010 e também efetuou o envio do arquivo da Escrituração Contábil Digital (Sped Contábil) em 10/02/2014, código hash B7FDD59AA324BBBDFB384924062E7C639044C4B9, conforme protocolo. c) 20/02/2014 – intimação para que contribuinte apresentasse arquivos digitais de notas fiscais previstos na IN SRF 86/2001 combinado com o ADE COFIS 25/2010, além de arquivo digital em formato txt contendo o resumo dos livros de entrada e saída, em leiaute especificado (ciência, registrada em AR, em 24/02/2014 com atendimento pelo contribuinte); d) Setembro de 2014 o arquivo do Sped Contábil, transmitido em 10/02/2014, ainda não se encontrava autenticado pela Junta ComercialJUCESP e continha apenas parte das receitas auferidas no ano (pouco mais de 10%), situação esta constatada e confirmada pessoalmente pelo contador da empresa, sr. Marco Antonio Ercolin, razão pela qual, em 18/09/2014, Termo de Intimação foi encaminhado ao contribuinte via postal com AR Fl. 2723DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.693 3 e recebido pelo mesmo em 19/09/2014, solicitando a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP, com prazo de 20 dias; e) 23/10/2014 – contribuinte é reintimado, com prazo de dez dias, a apresentar a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP; f) 25/11/2014 o contribuinte transmitiu novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior. Porém, o mesmo encontravase sem autenticação da JUCESP até o encerramento do procedimento fiscal; g) Em contato telefônico, com o sr. Marco Antonio Ercolin, foi informado que o contribuinte poderia, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, apresentar o Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP; h) 30/12/2014 contribuinte protocolizou declaração informando que, devido às festas de final de ano e férias coletivas, só poderia atender o solicitado após o dia 12/01/2015; i) 20/01/2015 o contribuinte entregou cópia digitalizada em formato “pdf” do Livro Diário de 2010, porém sem o devido registro/autenticação da JUCESP; DECLARAÇÕES ENTREGUES PELO CONTRIBUINTE j) DIPJ e DACONs do anocalendário de 2010 apresentadas sem qualquer valor declarado (“zeradas”), registrando opção pelo Lucro Real Trimestral, RECEITAS AUFERIDAS k) Dados extraídos dos arquivos de notas fiscais eletrônicas (NFe) emitidas pelo contribuinte (planilha ANEXO I), apontam que a receita bruta total do ano de 2010 foi de R$ 82.700.050,77; 3. Com base na narrativa de fatos anteriormente tratada, a Autoridade Administrativa que presidiu o procedimento fiscal conclui que os registros contábeis apresentados não observam os comandos dos arts. 251 e 258 do Decreto nº 3.000/99. 4. Diante disto, a autoridade lançadora, registrou a impossibilidade de verificar e comprovar a apuração pelo lucro real, conforme previsto no artigo 276 do RIR/99. Como conseqüência, entendeu pelo cabimento da apuração do lucro por arbitramento, conforme previsto no artigo 530, inciso I, do RIR/99. Fl. 2724DF CARF MF 4 5. Registra o TVF que, conforme disposto no art. 532 do RIR/99, quando conhecida a receita bruta, que no presente caso é a receita de vendas extraída dos arquivos de notas fiscais eletrônicas (NFe) emitidas pelo contribuinte (planilha ANEXO I), o lucro arbitrado será determinado pela aplicação dos percentuais fixados no art. 519 e seus parágrafos, acrescidos de vinte por cento, sobre essa receita bruta. 6. Em razão dos fatos narrados, a autoridade lançadora constituiu, de ofício, o crédito tributário com base nos seguintes valores mensais de receita bruta: 7. Os valores apurados do IRPJ pelo lucro arbitrado e, por tributação reflexa, também da CSLL, referemse ao ano calendário de 2010. Tendo em vista que o contribuinte entregou os DACONs do ano de 2010 “zerados”, destacando o TVF que, conforme disposto no art. 8º da Lei nº 10637/2002 e no art. 10 da Lei nº 10833/2003, as contribuições devidas ao PIS/PASEP e COFINS devem ser calculadas pelo regime cumulativo, incidentes sobre a receita bruta. Fl. 2725DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.694 5 8. Em oposição ao entendimento firmado pela Autoridade Administrativa que constitui os créditos anteriormente mencionados, a contribuinte apresentou impugnação na qual alega: a) (...) a exigência do IRPJ no Lucro Arbitrado no presente caso é totalmente equivocada e ilegal. Isso porque, para fins de arbitramento do lucro, somente é admitido nas hipóteses de (1) a escrituração não estiver na forma das leis comerciais e fiscais, e ainda (2) quando ocorrer a impossibilidade de apuração do lucro real da empresa. b) A Recorrente mantém toda a escrituração na forma das normas comerciais e fiscais, bem como atendeu integralmente as solicitações do Auditor Fiscal, fornecendo todos os documentos e informações requisitadas, possibilitando assim, a apuração do Lucro Real. c) por entender que ausência de autenticação do ECD pela JUCESP consiste em descumprimento da legislação comercial (art. 530, I do RIR), o Auditor Fiscal desconsiderou a ECD para aplicar o regime de Lucro Arbitrado. d) o CERNE DA QUESTÀO é definir se a simples ausência de autenticação do ECD pela JUCESP, procedimento ainda em trâmite perante a Junta Comercial e iniciado antes da lavratura do AI. é fundamento razoável e suficiente para aplicar o Lucro Arbitrado; e) A ausência de autenticação do ECD pela JUCESP não configura descumprimento da legislação comercial e fiscal previstos no artigo 530, inciso I do RIR. Diante da instituição do ambiente SPED, a referida autenticação da ECD pela JUCESP é uma conseqüência do próprio procedimento de transmissão da ECD, não havendo um ato próprio ou específico que o Contribuinte poderia deixar de realizar. f) Com a transmissão da ECD para o ambiente SPED, os Contribuintes atendem e cumprem com todo os atos para o registro da escrituração, não havendo atos a serem tomados posteriormente. Dessa maneira, realizada a transmissão da ECD, é insubsistente a alegação descumprimento da legislação comercial e fiscal pela ausência de autenticação pela Junta Comercial. g) Ainda que a ausência de autenticação da ECD pela JUCESP possa ser considerada como descumprimento da legislação comercial e fiscal, tal "infração" não pode ser atribuída à Recorrente por não decorrer de ato próprio, mas sim, de inércia pela Junta Comercial. h) Uma vez transmitida a ECD ao sistema SPED, cabe à JUCESP efetivar a autenticação dos arquivos digitais, nos termos da IN DNRC nº 107/2008, de tal maneira que a ausência da referida autenticação decorre exclusivamente por conta da inércia da JUCESP. Fl. 2726DF CARF MF 6 i) Ainda que se possa (i)considerar a ausência de autenticação da ECD pela JUCESP como descumprimento à legislação comercial e fiscal nos termos do artigo 530, inciso I do RIR, bem como (ii) atribuir à Recorrente a responsabilidade pelo descumprimento da citada legislação, a simples ausência da autenticação da ECD pela JUCESP não é suficiente para amparar a aplicação da apuração do Lucro Arbitrado. j) Para fins de aplicar o Lucro Arbitrado, a jurisprudência do CARF já se posicionou no sentido de que somente é passível na hipótese de impossibilidade de apuração do lucro real. k) Tendo em vista que a autenticação da ECD consiste em um ato estritamente formal para atribuir (definir) validade à escrituração apresentada pelas empresas, a sua ausência não afeta o teor e/ou os valores informados e transmitidos na ECD pela Recorrente. l) Vale lembrar que não é competência da JUCESP analisar valores, auditar ou determinar alteração da escrituração contábil, de modo que não tem o efeito de anular ou modificar os lançamentos da escrituração a (i)simples ausência da autenticação da ECD por inércia da JUCESP; ou, embora não seja o caso, (ii) o indeferimento da autenticação pela JUCESP, neste último caso, totalmente sanável com a correção da inconsistência formal da ECD. m) conforme se constata no Termo de Verificação Fiscal,em atendimento à fiscalização, a Recorrente apresentou e transmitiu os seguintes documentos, conforme se constata no Termo de Verificação Fiscal: a) Em 10/02/2014: i. Esclareceu e confirmação sobre o regime de apuração adotado; ii. Transmissão da ECD (Sped Contábil) b) Em 14/07/2014: i. Apresentou os arquivos digitais das Notas Fiscais previstos na IN SRF 86/2001 e ADE COFIS 25/2010 ii. Apresentou os arquivos digitais do resumo dos Livros de Entrada e Saída, em layout específico e exigido pela Fiscalização c) Em 25/11/2014: i. Transmissão de nova ECD em substituição ao anterior, transmitida em 10/02/2014. (Doc. 02) d) Em 20/01/2015: i. Em atendimento a uma solicitação via contato telefônico, como bem destacou o Termo de Verificação Fiscal, a Recorrente apresentou a cópia do Livro Diário em arquivo digital formato .PDF. Fl. 2727DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.695 7 n) (..) causa mais estranheza ainda, a afirmação do Auditor Fiscal de que a cópia do Livro Diário teria sido solicitada de forma impressa!! Ora, a Recorrente nunca deixou de prestar esclarecimentos ou apresentar os documentos solicitados. A entrega do Livro Diário, em atendimento ao citado contato telefônico.cumpriu com todas as orientações do próprio Auditor Fiscal, tanto no conteúdo quanto na forma efetivamente apresentada. o) Ocorre que a norma prevista no artigo 530, inciso I do RIR não acompanhou a atualização dos procedimentos eletrônicos existentes, especificamente os procedimentos em ambiente SPED, no qual toda a escrituração é entregue em arquivos eletrônicos à própria Receita Federal. [...] Atualmente, com o sistema SPED no qual toda a contabilidade é transmitida e disponibilizada para vários órgãos, não faz sentido algum a exigência da autenticidade da Escrituração Digital, dado que a transmissão já exige a assinatura digital dos Contribuintes, conferindo autoria, autenticidade, integridade e validade jurídica. Por tal razão, a Receita Federal emitiu a INRFB nº 1420/2013 disciplinando a matéria: Art. 2a A ECD compreenderá a versão digital dos seguintes livros: I livro Diário e seus auxiliares, se houver; II livro Razão e seus auxiliares, se houver; III livro Balancetes Diários, Balanços e fichas de lançamento comprobatórias dos assentamentos neles transcritos. Parágrafo único. Os livros contábeis e documentos de que trata o caput deverão ser assinados digitalmente, utilizandose de certificado de segurança mínima tipo A3, emitido por entidade credenciada pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICPBrasil), a fim de garantir a autoria, a autenticidade, a integridade e a validade jurídica do documento digital. (...) Art. 4a A ECD deverá ser submetida ao Programa Validador e Assinador (PVA), especificamente desenvolvido para tal fim, a ser disponibilizado na página da RFB na Internet, no endereço www.receita.fazenda.gov.br/sped, contendo, no mínimo, as seguintes funcionalidades: I validação do arquivo digital da escrituração; II assinatura digital; III visualização da escrituração; IV transmissão para o Sped; e Fl. 2728DF CARF MF 8 V consulta à situação da escrituração. (Destaque Nosso) p) Tanto é assim, a dissonância entre a legislação ultrapassada com a realidade dos procedimentos da RFB, que basta constatar no Termo de Verificação Fiscal que o Auditor Fiscal, para fortalecer seus argumentos, amparouse no artigo 258, §4Q do RIR, que estabelece a obrigatoriedade dos Livros FÍSICO serem encadernados, numerados, etc. e de serem SUBMETIDAS autenticaçâo no órgão competente do Registro de Comércio. [...] Ora, o artigo 258 do RIR não apenas confirma a dissonância entre a escrituração física e a escrituração no sistema SPED, como ainda demonstra que os Livros devem ser SUBMETIDOS à autenticação Não há obrigatoriedade da conclusão da AUTENTICAÇÃO! De qualquer maneira, como a legislação não caminhou na mesma velocidade que os procedimentos e a tecnologia da RFB via SPED, para suprir a exigência normativa da autenticidade da ECD, no momento da transmissão da ECD ocorre também a transmissão de requerimento para que a JUCESP proceda a autenticação da ECD em outras palavras, tratase de um procedimento realizado simultaneamente com a transmissão da própria ECD para o sistema SPED. Ou seja, mesmo que a exigência de autenticação não faça sentido diante do atual sistema SPED, para preencher a lacuna entre o disposto na legislação e os procedimentos eletrônicos atuais, ao fazer a transmissão da ECD para o SPED, também há a transmissão do requerimento para a JUCESP realizar a autenticação. ASSIM, É INSUBSISTENTE O ARGUMENTO DE QUE A AUSÊNCIA DE AUTENTICAÇÃO DA ECD CONFIGURA UMA DESOBEDIÊNCIA À LEGISLAÇÃO COMERCIAL E FISCAL, POIS A SUA FALTA DECORRE EXCLUSIVAMENTE DA INÉRCIA/DEMORA DA JUCESP EM CONCLUIR O PROCEDIMENTO. DESSE MODO, DESDE QUE TRANSMITIDA A ECD, NÀO HÁ DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO COMERCIAL E FISCAL POR FALTA DE AUTENTICAÇÃO PELA JUCESP. q) Ressaltese, ainda, que após a transmissão da ECD ao sistema SPED, não há meios dos contribuintes interferirem ou acelerarem o processo de autenticação, devendo aguardar os procedimentos e conclusões da Juntas Comerciais. Todo esse procedimento está disciplinado na INSTRUÇÃO NORMATIVA DNRC na 107/2008, emitido pelo Departamento Nacional de Registro do Comércio ("DNRC"), órgão federal vinculado à Secretaria de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, onde uma de suas competências é regulamentar e uniformizar os procedimentos relativos Juntas Comerciais (...) r) Em resumo, os contribuintes transmitem a ECD para o ambiente SPED através do software oficial denominado Programa Validador e Assinador ("PVA"), momento em que, simultaneamente, também há a transmissão do "requerimento" Fl. 2729DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.696 9 destinado à Junta Comercial correspondente. (Artigos 17 e 18 acima mencionados) Posteriormente, o ambiente SPED disponibiliza às Juntas Comerciais os arquivos transmitidos que, através do software fornecido pelo DNRC, analisa e realiza a autenticação da ECD e demais dados de sua competência. (Artigos 19 e 20 acima mencionado) Apenas para não pairarem dúvidas, o próprio site da JUCESP esclarece sobre os procedimentos de autenticação dos Livros Contábeis digitais, conforme as informações obtidas no link http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/sped.php s) Reforçase ainda, o fato de que não há ato ou procedimento que a Recorrente possam adotar para obter a autenticação da ECD, pois todo o procedimento é de exclusividade da JUCESP, que deve buscar as informações no sistema SPED. Somente cabe à Recorrente (e demais Contribuintes) aguardarem a conclusão da análise pela Juntas Comerciais, razão pelo qual é ilegal qualquer atribuição ou imputação de descumprimento da legislação pela ausência da autenticação da ECD pela JUCESP. Vale relembrar que.para obedecer ao disposto o artigo 258, §4 do RIR, basta que os Livros sejam SUBMETIDOS à autenticação no órgão competente do Registro de Comércio, não sendo necessário a Conclusão da Autenticação t) Há que ressaltar, como dito, que a autenticação pela transmissão da ECD é garantida através da assinatura digital exigida pelo PVA, o que por si só é suficiente para suprir a função da autenticação da ECD pela JUCESP. PORTANTO, A AUSÊNCIA DE AUTENTICAÇÃO DA ECD PELA JUCESP NÃO CONFIGURA DESCUMPRIMENTO DAS LEIS COMERCIAIS OU FISCAIS PARA FINS LÊ APLICAÇÃO DO LUCRO ARBITRADO, O QUE TORNA O PRESENTE AI TOTALMENTE INSUBSISTENTE. u) Ainda que a ausência de autenticação da ECD pela JUCESP possa ser considerada como descumprimento da legislação comercial e fiscal, o que se considera apenas como hipótese, tal "infração" não pode ser atribuída à Recorrente por não decorrer de ato próprio, mas sim, de inércia pela Junta Comercial. Uma vez transmitida a ECD ao sistema SPED, cabe à JUCESP efetivar a autenticação dos arquivos digitais, nos termos da IN DNRC ne 107/2008, de tal maneira que a ausência da referida autenticação decorre exclusivamente por conta da inércia da JUCESP Ora, se no momento do AI a Recorrente adotara todos os procedimentos e atos exigidos pela legislação, de modo que a ausência de autenticação da ECD decorre exclusivamente em Fl. 2730DF CARF MF 10 razão de ato alheio, ou seja, da JUCESP, não se pode imputar à Recorrente o descumprimento da legislação. Conforme se constata no Termo de Verificação Fiscal, em atendimento à fiscalização, em 25/11/2014 a Recorrente transmitiu novo arquivo da ECD para o sistema SPED (código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830), em substituição ao arquivo anterior. Como previsto nas normas supra citadas, a partir dessa data de transmissão, o arquivo da ECD fica à disposição da JUCESP para ser analisado e proceder a autenticação. Assim, desde 25/11/2014, com a transmissão da ECD substitutiva, a o arquivo ECD já encontravase em trâmite para análise e autenticação pela JUCESP, ou seja, em momento muito anterior a lavratura do AI, que somente ocorreu em 01/2015. Tal fato é simplesmente comprovado através de documento emitido pelo próprio SPED que informa a situação do arquivo da ECD. Conforme documento emitido erro, constatase que o Livro Digital foi recebido, porém caberia à Junta Comercial buscar as informações no SPED para autenticálo (Doc. 03): O livro digital foi recebido pelo Sped Contábil, porém ainda não foi encaminhado para a Junta Comercial. Cabe à Junta Comercial buscar as informações no sítio do Sped para autenticar o livro, a menos que a Junta Comercial tenha desenvolvido aplicativo próprio que permita a automatização do procedimento v) (...) que o próprio sistema Sped informa que (i) o procedimento para autenticar cabe à Junta Comercial; e (ii) cujos procedimentos são definidos e desenvolvidos pela própria Junta Comercial. Portanto, efetuada a transmissão da ECD, resta à Recorrente tão somente aguardar a Junta Comercial adotar seus procedimentos internos e concluir a autenticação da ECD.É que se constata no documento emitido em 19/02/2015. no qual há a atualização do status da análise da ECD pela Junta Comercial (Doc. 04). A escrituração encontrase na base de dados do SPED e será processada pela Junta Comercial O fato é que, mesmo após transcorridos mais de 2 (dois) meses da data de transmissão do arquivo da ECD ao SPED, sem que a JUCESP tenha analisada e/ou autenticado o arquivo da ECD, tal ausência da referida autenticação não pode ser atribuída à Recorrente, muito menos, utilizar tal fato como argumento para justificar o Lucro Arbitrado. PORTANTO, AINDA QUE A AUSÊNCIA DE AUTENTICAÇÃO DA ECD PELA JUCESP POSSA SER CONSIDERADA COMO DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO NOS TERMOS DO ARTIGO 530, INCISO I DO RIR, NÃO SE PODE ATRIBUIR TAL "INFRAÇÃO" À RECORRENTE, POIS A FALTA DA REFERIDA AUTENTICAÇÃO DA ECD DECORRE EXCLUSIVAMENTE POR INÉRCIA DA JUCESP EM Fl. 2731DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.697 11 CONCLUIR O PROCEDIMENTO, RESSALTANDO NOVAMENTE, PROCEDIMENTO INICIADO ANTERIORMENTE A LAVRATURA DO AUTO DE INFRAÇÃO. w) Por fim, ainda que (l)a ausência de autenticação da ECD pela JUCESP possa ser considerada como descumprimento da legislação comercial e fiscal, nos termos do artigo 530, inciso I do RIR, e ainda, (2) que tal descumprimento possa ser atribuída à Recorrente, fato é que a simples ausência da autenticação da ECD pela JUCESP não é suficiente para desconsiderar toda a escrituração e aplicar o Lucro Arbitrado. A sistemática de Lucro Arbitrado não pode ser adotada de forma discricionária a toda e qualquer situação fática, por parte do Fisco. A viabilidade de sua utilização somente é possível em situações peculiares e excepcionais, quando restar comprovado a impossibilidade de aferição direta do Lucro Real, como por exemplo, na negativa injustificada do contribuinte em fornecer os elementos e documentos solicitados pelo Agente Fiscal. Nesse sentido, a jurisprudência do CARF posicionou entendimento de que o arbitramento deve ser entendido como "forma excepcional" de tributação, devendo ser aplicado somente em casos de omissões contábeis ou erros graves que impeçam a determinação do Lucro Real. x) (...) tendo em vista que a autenticação da ECD consiste em um ato estritamente formal à ECD transmitida, a sua ausência não afeta o teor e/ou os valores informados pela Recorrente, permitindo à fiscalização a devida apuração do Lucro Real. Tampouco é subsistente a alegação de que a autenticação da ECD pela JUCESP teria a finalidade de atribuir validade à escrituração, tal como era feito com os Livros Físicos. Isso porque, conforme se depreende da IN RFB na 1420/2013, a ECD é transmitida ao sistema SPED utilizandose de assinaturas digitais, utilizandose de certificado de segurança criptografados e emitidos por entidades credenciadas, garantindo a AUTORIA, a AUTENTICIDADE, a INTEGRALIDADE e a VALIDADE JURÍDICA da escrituração y) Ora, se o Auditor Fiscal não confia na escrituração apresentada, deveria confrontála com os documentos físicos, tais como as Notas Fiscais, inclusive cujos Livros de Apuração de Entrada e Saída foram entregues e utilizados para aferir a Receita do Lucro Arbitrado. Questionase se a ECD possuía informação divergente daquelas contidas nos Livros de Entrada e Saída? Nem mesmo isso o Auditor Fiscal deuse o trabalho de verificar e certificar. Preferiu o mais fácil: desconsiderar a ECD e apurar o Lucro Arbitrado, ainda que o lançamento seja em valores astronômicos que podem causar o fim da atividade da Recorrente. Fl. 2732DF CARF MF 12 Portanto, em vista da disparidade e incoerência do presente AI ao (I) imputar arbitramento de lucro diante de ECD não autenticada pela Jucesp (fora do escopo do contribuinte), (II) infligir descumprimento de lei em patente caso de inércia da Jucesp e (III) atribuir apuração por Lucro Arbitrado em manifesto confronto com a jurisprudência do CARF, totalmente ilegal e insubsistente as infrações imputadas à Impugnante que não fez nada mais do que o estritamente estabelecido em lei e solicitado pelo próprio Auditor Fiscal. 9. Nos termos anteriormente expostos pede o recebimento de sua impugnação, para que seja processada e ao final julgada procedente para anular o auto de infração. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento (1ª Turma/ DRJ/Curitiba/PR) julgou improcedente a impugnação em decisão proferida no Acórdão nº 0657.788, de 13 de março de 2017, assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 ESCRITURAÇÃO. FORÇA PROBANTE Apenas a escrituração contábil mantida com observância das disposições legais somente faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados se forem comprovados por documentos hábeis e idôneos, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais. OMISSÃO SISTEMÁTICA DE RECEITAS. INIDONEIDADE DA ESCRITURAÇÃO. ARBITRAMENTO. Ainda que autenticada no Registro do Comércio, é inidônea a escrituração que sistematicamente deixa de registrar a maioria das operações do contribuinte e os resultados apurados em suas atividades, impondose, na hipótese, o arbitramento do lucro para todos os efeitos tributários. LANÇAMENTO REFLEXO. CSLL. PIS/PASEP e COFINS Aplicamse aos lançamentos reflexos os mesmos fundamentos do IRPJ, no que couber. O contribuinte cientificado da mencionada decisão em 10/04/2017, conforme Termo de ciência, efl.2661, interpôs recurso ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, em 09/05/2017, fls.2665/2683, conforme Termo de Análise de Juntada, fls.2663. A Recorrente, no essencial, repisa os argumentos trazidos na impugnação , e, na peça recursal argúi inovação, pela DRJ, na motivação e fundamentação do lançamento, na medida em que valida o Auto de Infração por suposta escrituração parcial das operações, enquanto o argumento utilizado pelo AFRFB para o arbitramento do lucro consiste na ausência de autenticação pela Junta Comercial, diante de ECD não autenticada pela Jucesp. É o relatório. Voto Fl. 2733DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.698 13 Conselheira Ester Marques Lins de Sousa Relatora O recurso voluntário apresentado é tempestivo e preenche os requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/72. Dele conheço. No auto de infração em que se exige o IRPJ, o autuante descreve a situação ocasionada pelo contribuinte que fundamenta o arbitramento do lucro, verbis: Razão do arbitramento no(s) período(s): 03/2010, 06/2010, 09/2010 e 12/2010 Arbitramento do lucro que se faz tendo em vista que o contribuinte, sujeito a tributação com base no Lucro Real, não possui escrituração na forma das leis comerciais e fiscais. Fato Gerador Valor Apurado (R$) Multa (%) (...) Enquadramento Legal Fatos geradores ocorridos entre 01/01/2010 e 31/12/2010: art. 3º da Lei nº 9.249/95. Arts. 532 do RIR/99 Fazem parte do presente auto de infração todos os termos, demonstrativos, anexos e documentos nele mencionados. Os fatos que justificaram o arbitramento do lucro constam do Termo de Verificação Fiscal (TVF), do qual se extrai os seguintes excertos que também constam do relatório acima: A – DA DESCRIÇÃO DOS FATOS Em 23/09/2013 emitimos o Termo de Início de Fiscalização, onde foi solicitado que o contribuinte confirmasse a opção pela forma de tributação do lucro para o anobase de 2010 e, também, que efetuasse a entrega/envio dos arquivos digitais da Escrituração Contábil Digital (Sped Contábil), que o mesmo ainda não havia efetuado. Esse termo foi encaminhado via postal com AR ao endereço da empresa constante no cadastro da RFB, tendo sido recebido pela mesma em 26/09/2013, iniciandose assim, para todos os efeitos, a ação fiscal. Em 19/11/2013, emitimos Termo de Intimação, encaminhado ao contribuinte via postal com AR e recebido pelo mesmo em 22/11/2013, solicitando novamente os elementos já solicitados no Termo de Início, uma vez que o mesmo ainda não havia sido atendido. Em resposta, o contribuinte apresentou declaração confirmando a opção pelo lucro real trimestral para o ano base de 2010 e também efetuou o envio do arquivo da Escrituração Contábil Fl. 2734DF CARF MF 14 Digital (Sped Contábil) em 10/02/2014, código hash B7FDD59AA324BBBDFB384924062E7C639044C4B9, conforme protocolo. Em 20/02/2014, emitimos Termo de Ciência e Intimação, encaminhado ao contribuinte via postal com AR e recebido pelo mesmo em 24/02/2014, solicitando os arquivos digitais de notas fiscais previstos na IN SRF 86/2001 combinado com o ADE COFIS 25/2010, além de arquivo digital em formato txt contendo o resumo dos livros de entrada e saída, em leiaute especificado. Em resposta o contribuinte apresentou os arquivos solicitados. Tendo em vista que o arquivo do Sped Contábil transmitido em 10/02/2014 ainda não se encontrava autenticado pela Junta ComercialJUCESP e, também, que o mesmo não estava correto, pois só continha parte das receitas auferidas no ano (pouco mais de 10%), situação esta constatada e confirmada pessoalmente pelo contador da empresa, sr. Marco Antonio Ercolin, emitimos em 18/09/2014 um Termo de Intimação, encaminhado ao contribuinte via postal com AR e recebido pelo mesmo em 19/09/2014, solicitando a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP, com prazo de 20 dias. Em 21/10/2014, como não havia sido atendido o termo anterior, emitimos novo Termo de Intimação, encaminhado ao contribuinte por via postal com AR e recebido pelo mesmo em 23/10/2014, intimandoo novamente e definitivamente, com prazo de dez dias, a apresentar a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP. Em 25/11/2014 o contribuinte transmitiu novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior. Porém, o mesmo ainda encontrase sem autenticação da JUCESP até a presente data. Em contato telefônico com o sr. Marco Antonio Ercolin, informamos que o contribuinte poderia, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, apresentar o Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP. Em 30/12/2014 o contribuinte protocolizou declaração informando que, devido às festas de final de ano e férias coletivas, só poderia atender o solicitado após o dia 12/01/2015. Em 20/01/2015 o contribuinte entregou cópia digitalizada em formato “pdf” do Livro Diário de 2010, porém sem o devido registro/autenticação da JUCESP. Durante a análise da documentação apresentada, no transcorrer do procedimento fiscal, foram emitidos outros Termos, em atendimento ao artigo 7º, § 2º, do Decreto nº 70235/72, enviados ao contribuinte por via postal, com AR. ... Fl. 2735DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.699 15 DO REGIME DE TRIBUTAÇÃO Conforme opção do contribuinte na DIPJ (que foi entregue zerada) e confirmada em declaração entregue a esta fiscalização, o regime de apuração do IRPJ do anocalendário de 2010 seria pelo lucro real trimestral. Entretanto, o contribuinte não apresentou, até esta data, uma Escrituração Contábil Digital devidamente autenticada pela JUCESP e a que foi apresentada de forma impressa/digitalizada também não possui o devido registro/autenticação da JUCESP, conforme determinam os artigos 251 e 258 do Decreto 3000/99 (RIR/99): (...) Sendo assim, não foi possível efetuar a verificação e comprovação da apuração pelo lucro real, conforme previsto no artigo 276 do RIR/99. Como conseqüência, cabe a apuração do lucro por arbitramento, conforme previsto no artigo 530, inciso I, do RIR/99: Art. 530. O imposto, devido trimestralmente, no decorrer do ano calendário, será determinado com base nos critérios do lucro arbitrado, quando (Lei nº 8.981, de 1995, art. 47, e Lei nº 9.430, de 1996, art. 1º): I o contribuinte, obrigado à tributação com base no lucro real, não mantiver escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, ou deixar de elaborar as demonstrações financeiras exigidas pela legislação fiscal; ..... B – DA AUDITORIA DAS DECLARAÇÕES ENTREGUES PELO CONTRIBUINTE O contribuinte entregou/transmitiu a DIPJ e as DACONs do anocalendário de 2010 sem qualquer valor declarado, ou seja, “zeradas”. No caso da DIPJ, a opção para a tributação do lucro foi pelo lucro real trimestral, confirmada pela declaração mencionada acima. DAS RECEITAS AUFERIDAS Conforme dados extraídos dos arquivos de notas fiscais eletrônicas (NFe) emitidas pelo contribuinte (planilha ANEXO I), a receita bruta total do ano de 2010 foi de R$ 82.700.050,77. Na impugnação, a autuada, no essencial, insurgese contra o arbitramento do lucro diante de ECD não autenticada pela Jucesp (fora do escopo do contribuinte), e não concorda que lhe seja imputado descumprimento de lei em razão de patente caso de inércia da Jucesp. Fl. 2736DF CARF MF 16 Argúi que a autenticação da ECD consiste em um ato estritamente formal à ECD transmitida; a sua ausência não afeta o teor e/ou os valores informados pela Recorrente, permitindo à fiscalização a devida apuração do Lucro Real. Argumenta que, se o Auditor Fiscal não confia na escrituração apresentada, via ECD transmitida, deveria confrontála com os documentos físicos, tais como as Notas Fiscais, inclusive cujos Livros de Apuração de Entrada e Saída que foram entregues e utilizados para aferir a Receita do Lucro Arbitrado. Conclui que, caso, a ausência de autenticação da ECD pela JUCESP possa ser considerada como descumprimento da legislação comercial e fiscal, nos termos do artigo 530, inciso I do RIR, e ainda, que tal descumprimento possa ser atribuída à Recorrente, fato é que a simples ausência da autenticação da ECD pela JUCESP não é suficiente para desconsiderar toda a escrituração e aplicar o Lucro Arbitrado. Registrese que é dever da autoridade fiscal apurar o lucro com base no arbitramento sempre que presentes as hipóteses legais, consubstanciadas no artigo 530 do Decreto n. 3000/99. Depreendese da descrição do Auto de Infração e do TVF, acima transcritos que, o entendimento do autuante é no sentido de que o contribuinte, sujeito a tributação com base no Lucro Real, não possuía escrituração na forma das leis comerciais e fiscais, pelo fato de haver transmitido arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, mas ainda, sem autenticação da JUCESP. E, por tal motivo a autoridade fiscal conclui que, os registros contábeis apresentados não observam os comandos dos artigos 251 e 258 do Decreto nº 3.000/99 (RIR/99); impossibilitam verificar e comprovar a apuração pelo lucro real, conforme previsto no artigo 276 do RIR/99, e, como conseqüência, entendeu pelo cabimento da apuração do lucro por arbitramento, com fundamento no artigo 530, inciso I, do RIR/99. Os mencionados arts.251 e 276 do RIR/99, assim dispõem: Art. 251. A pessoa jurídica sujeita à tributação com base no lucro real deve manter escrituração com observância das leis comerciais e fiscais (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 7º). Parágrafo único. A escrituração deverá abranger todas as operações do contribuinte, os resultados apurados em suas atividades no território nacional, bem como os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior (Lei nº 2.354, de 29 de novembro de 1954, art. 2º, e Lei nº 9.249, de 1995, art. 25) ... Art.276.A determinação do lucro real pelo contribuinte está sujeita à verificação pela autoridade tributária, com base no exame de livros e documentos de sua escrituração, na escrituração de outros contribuintes, em informação ou esclarecimentos do contribuinte ou de terceiros, ou em qualquer outro elemento de prova, observado o disposto no art. 922 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 9º).. Fl. 2737DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.700 17 É sabido que, segundo prescreve o art. 44 do Código Tributário Nacional (CTN), o lucro, como base de cálculo do IRPJ, pode ser apurado pelo seu montante real, arbitrado ou presumido. Assim, ocorrido o fato gerador da obrigação tributária e na impossibilidade de apurarse o montante real ou presumido, o lucro, para efeito de tributação, deve ser arbitrado. Isso porque, à luz do art. 142 do mesmo CTN, o Fisco, ao constituir o crédito tributário pelo lançamento em atividade vinculada e obrigatória, está obrigado a determinar a matéria tributável e calcular o montante devido do tributo. Com efeito, no presente caso, para o autuante afastar o lucro real, não basta simplesmente informar que, não foi possível efetuar a verificação e comprovação da apuração pelo lucro real, isto porque, o lucro arbitrado, ao ser utilizado devese demonstrar que há impossibilidade da real apuração do lucro, seja por deficiência das informações do contribuinte, receitas e custos/despesas divergentes, fatos relevantes não contabilizados, livro fiscal obrigatório (Lalur) insuficientemente preenchido, seriam provas de que não há condições de se obter o verdadeiro Lucro real do ano de 2010, e assim, justificaria a utilização do arbitramento do lucro para se obter a base de cálculo dos tributos devidos. O pressuposto para o arbitramento da renda tributável, é a omissão do sujeito passivo no que tange à escrituração contábil e demonstrações financeiras, aos esclarecimentos ou documentos que devem ser utilizados para o cálculo do tributo, bem como se houver ausência de dados que possibilitem apurar a base de cálculo real do imposto de renda. Pelos fatos descritos no TVF pelo autuante, não se pode concluir pela falta de condições de obter com precisão o lucro real, pois, não consta que tenha havido verificação da exatidão ou não dos dados contidos nas demonstrações financeiras, exame dos registros contábeis (escrituração dos livros contábeis) e dos documentos que deram origem a eles, tampouco constatado vícios no novo arquivo da Escrituração Contábil Digital (ECD) transmitida para o Sped Contábil em 25/11/2014, que levaram a autoridade fiscal a arbitrar o lucro do ano calendário de 2010, já que tinha à sua disposição a (ECD) apresentada pelo contribuinte, ainda que sem a formalidade extrínseca (autenticação da JUCESP) conforme descrito no referenciado TVF, vejamos: Em resposta o contribuinte apresentou os arquivos solicitados. Tendo em vista que o arquivo do Sped Contábil transmitido em 10/02/2014 ainda não se encontrava autenticado pela Junta ComercialJUCESP e, também, que o mesmo não estava correto, pois só continha parte das receitas auferidas no ano (pouco mais de 10%), situação esta constatada e confirmada pessoalmente pelo contador da empresa, sr. Marco Antonio Ercolin, emitimos em 18/09/2014 um Termo de Intimação, encaminhado ao contribuinte via postal com AR e recebido pelo mesmo em 19/09/2014, solicitando a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP, com prazo de 20 dias. ... Em 25/11/2014 o contribuinte transmitiu novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, Fl. 2738DF CARF MF 18 código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior. Porém, o mesmo ainda encontrase sem autenticação da JUCESP até a presente data. Em contato telefônico com o sr. Marco Antonio Ercolin, informamos que o contribuinte poderia, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, apresentar o Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP. Em 30/12/2014 o contribuinte protocolizou declaração informando que, devido às festas de final de ano e férias coletivas, só poderia atender o solicitado após o dia 12/01/2015. Em 20/01/2015 o contribuinte entregou cópia digitalizada em formato “pdf” do Livro Diário de 2010, porém sem o devido registro/autenticação da JUCESP. Gizse ainda que, consoante o TVF, a autoridade lançadora constituiu, de ofício, o crédito tributário com base nos valores mensais de receita bruta, extraídos dos arquivos de notas fiscais eletrônicas (NFe) emitidas pelo contribuinte (planilha ANEXO I), cujos dados informam que a receita bruta total do ano de 2010 foi de R$ 82.700.050,77. Todavia, a configurar o arbitramento do lucro, não faz nenhuma referência no TVF que tal receita não esteja escriturada no novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior. Ressaltese que aqui não se discute a omissão de receita já que, segundo o TVF a DIPJ/2011 do contribuinte fora apresentada "zerada", mas tãosó o arbitramento do lucro. Mas esse fato também não pode por si só conduzir ao arbitramento, porque tal situação não se encontra albergada pelo artigo 530 do RIR/99. Sobre a Escrituração Contábil Digital (Sped Contábil), o Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, assim dispõe: Art.1oFica instituído o Sistema Público de Escrituração Digital Sped. Art.2oO Sped é instrumento que unifica as atividades de recepção, validação, armazenamento e autenticação de livros e documentos que integram a escrituração comercial e fiscal dos empresários e das sociedades empresárias, mediante fluxo único, computadorizado, de informações. Art.2oO Sped é instrumento que unifica as atividades de recepção, validação, armazenamento e autenticação de livros e documentos que integram a escrituração contábil e fiscal dos empresários e das pessoas jurídicas, inclusive imunes ou isentas, mediante fluxo único, computadorizado, de informações.(Redação dada pelo Decreto nº 7.979, de 2013) §1oOs livros e documentos de que trata o caput serão emitidos em forma eletrônica, observado o disposto na Medida Provisória no2.2002, de 24 de agosto de 2001. §2oO disposto no caput não dispensa o empresário e a sociedade empresária de manter sob sua guarda e responsabilidade os Fl. 2739DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.701 19 livros e documentos na forma e prazos previstos na legislação aplicável. §2oO disposto no caput não dispensa o empresário e as pessoas jurídicas, inclusive imunes ou isentas, de manter sob sua guarda e responsabilidade os livros e documentos na forma e prazos previstos na legislação aplicável.(Redação dada pelo Decreto nº 7.979, de 2013) ... Art.7oO Sped manterá, ainda, funcionalidades de uso exclusivo dos órgãos de registro para as atividades de autenticação de livros mercantis. Art.8oA Secretaria da Receita Federal e os órgãos a que se refere o inciso III do art. 3oexpedirão, em suas respectivas áreas de atuação, normas complementares ao cumprimento do disposto neste Decreto. ... De acordo com o artigo 3º da IN RFB 787,de 2007, a Escrituração Contábil Digital (ECD) tornouse obrigatória a partir de 01/01/2008 às pessoas sujeitas à tributação com base no lucro real. Nesse passo, é de se notar, incabível a autoridade fiscal permitir ao contribuinte, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, apresentar o Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP, como descrito no TVF, porque tal permissão contraria a predita Instrução Normativa. No sentido de afastar a contestação da Recorrente e sustentar o arbitramento adotado pelo autuante, o voto condutor da decisão de 1ª instância o faz com escora nos seguintes fundamentos: Autenticação da ECD pela Junta Comercial 13. De plano, impende sobrelevar que as autuações lavradas contra a empresa impugnante estão em plena harmonia com a legislação vigente ao tempo da lavratura (27/01/2015 – fl. 2473). 14. A argumentação da autuada tem como núcleo, sob diversos argumentos, a tese de que a ausência de autenticação de sua ECD não configuraria qualquer irregularidade, mas isso não pode ser aceito de modo algum. 15. A autenticação digital, contrariamente ao afirmado, era uma dos objetivos centrais do Sistema Público de Escrituração Digital – Sped, conforme se verifica do teor do arts. 2º e 7º do Decreto nº 6.022/2007, in verbis: Art. 2o O Sped é instrumento que unifica as atividades de recepção, validação, armazenamento e autenticação de livros e documentos que integram a escrituração contábil e fiscal dos empresários e das pessoas jurídicas, inclusive imunes ou isentas, Fl. 2740DF CARF MF 20 mediante fluxo único, computadorizado, de informações. (Redação dada pelo Decreto nº 7.979, de 2013) [...] Art. 7o O Sped manterá, ainda, funcionalidades de uso exclusivo dos órgãos de registro para as atividades de autenticação de livros mercantis. 16. Em 2011, ano em que a autuada deveria ter apresentado a ECD relativa ao anocalendário de 2010, a matéria em comento era ainda regulada pela IN/RFB nº 787/2007: INSTRUÇÃO NORMATIVA RFB Nº 787, DE 19 DE NOVEMBRO DE 2007 (Publicado(a) no DOU de 20/11/2007, seção , pág. 49) Institui a Escrituração Contábil Digital. (Revogado(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1420, de 19 de dezembro de 2013) O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL, no uso da atribuição que lhe confere o inciso III do art. 224 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF nº 95, de 30 de abril de 2007, e tendo em vista o disposto nos arts. 1.179 a 1.189 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, no art. 11 da Lei nº 8.218, de 29 de agosto de 1991, com a redação dada pelo art. 72 da Medida Provisória nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, no art. 16 da Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, nos arts. 10 e 11 da Medida Provisória nº 2.2002, de 24 de agosto de 2001, e no Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, resolve: Art. 1º Fica instituída a Escrituração Contábil Digital (ECD), para fins fiscais e previdenciários, de acordo com o disposto nesta Instrução Normativa. Parágrafo único. A ECD deverá ser transmitida, pelas pessoas jurídicas a ela obrigadas, ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped),instituído pelo Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, e será considerada válida após a confirmação de recebimento do arquivo que a contém e, quando for o caso, após a autenticação pelos órgãos de registro. Art. 2º A ECD compreenderá a versão digital dos seguintes livros: I livro Diário e seus auxiliares, se houver; II livro Razão e seus auxiliares, se houver; III livro Balancetes Diários, Balanços e fichas de lançamento comprobatórias dos assentamentos neles transcritos. Parágrafo único. Os livros contábeis e documentos de que trata o caput deverão ser assinados digitalmente, utilizandose de certificado de segurança mínima tipo A3, emitido por entidade credenciada pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira Fl. 2741DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.702 21 (ICPBrasil), a fim de garantir a autoria, a autenticidade, a integridade e a validade jurídica do documento digital. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 926, de 11 de março de 2009) Art. 3º Ficam obrigadas a adotar a ECD, nos termos do art. 2º do Decreto nº 6.022, de 2007: [....] II em relação aos fatos contábeis ocorridos a partir de 1º de janeiro de 2009, as demais sociedades empresárias sujeitas à tributação do Imposto de Renda com base no Lucro Real. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 926, de 11 de março de 2009) 17. A IN/RFB 1.420/2013 somente passa a divergir do regramento anterior em 2016, observese: INSTRUÇÃO NORMATIVA RFB Nº 1420, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2013 (Publicado(a) no DOU de 20/12/2013, seção 1, pág. 37) Dispõe sobre a Escrituração Contábil Digital (ECD). O SECRETÁRIO DA RECEITA FEDERAL DO BRASIL, no uso das atribuições que lhe conferem os incisos III e XXVI do art. 280 do Regimento Interno da Secretaria da Receita Federal do Brasil, aprovado pela Portaria MF nº 203, de 14 de maio de 2012, e tendo em vista o disposto no art. 16 da Lei nº 9.779, de 19 de janeiro de 1999, resolve: Art. 1º Fica instituída a Escrituração Contábil Digital (ECD), para fins fiscais e previdenciários, de acordo com o disposto nesta Instrução Normativa. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1486, de 13 de agosto de 2014) Art. 1º Fica instituída a Escrituração Contábil Digital (ECD), de acordo com o disposto nesta Instrução Normativa. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 1º A ECD deverá ser transmitida, pelas pessoas jurídicas obrigadas a adotála, ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), instituído pelo Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, e será considerada válida após a confirmação de recebimento do arquivo que a contém. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 2º A autenticação da ECD será comprovada pelo recibo de entrega emitido pelo Sped. Fl. 2742DF CARF MF 22 (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 3º A autenticação dos documentos de empresas de qualquer porte realizada por meio do Sped dispensa qualquer outra. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 4º Ficam dispensados de autenticação os livros da escrituração contábil das pessoas jurídicas não sujeitas a registro em Juntas Comerciais. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) 18. As alterações normativas de 2016 decorrem da edição do Decreto nº 8.683, de 25 de fevereiro de 2016. De acordo com o texto do Decreto, a autenticação de livros contábeis das empresas poderá ser feita por meio do Sistema Público de Escrituração Digital Sped de que trata o Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, mediante a apresentação de escrituração contábil digital. 19. A autenticação dos livros contábeis digitais será comprovada pelo recibo de entrega emitido pelo Sped. 20. São considerados autenticados os livros contábeis transmitidos pelas empresas ao Sistema Público de Escrituração Digital Sped, de que trata o Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, até a data de publicação deste Decreto, ainda que não analisados pela Junta Comercial, mediante a apresentação da escrituração contábil digital. Esta regra não se aplica aos livros contábeis digitais das empresas transmitidos ao Sped quando tiver havido indeferimento ou solicitação de providências pelas Juntas Comerciais até a data de publicação deste Decreto. 21. Impende a transcrição do texto regulamentar em comento: DECRETO nº 8.683, DE 25 DE FEVEREIRO DE 2016 Altera o Decreto nº 1.800, de 30 de janeiro de 1996, que regulamenta a Lei nº 8.934, de 18 de novembro de 1994, e dá outras providências. A PRESIDENTA DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, caput, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto nos arts. 39A e 39B da Lei nº 8.934, de 18 de novembro de 1994, e no art.1.181 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, Art. 1º O Decreto nº 1.800, de 30 de janeiro de 1996, passa a vigorar com as seguintes alterações: "Art. 78A. A autenticação de livros contábeis das empresas poderá ser feita por meio do Sistema Público de Escrituração Digital Sped de que trata o Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, mediante a apresentação de escrituração contábil digital. § 1º A autenticação dos livros contábeis digitais será comprovada pelo recibo de entrega emitido pelo Sped. Fl. 2743DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.703 23 § 2º A autenticação prevista neste artigo dispensa a autenticação de que trata o art. 39 da Lei nº 8.934, de 18 de novembro de 1994, nos termos do art. 39A da referida Lei."(NR) Art. 2º Para fins do disposto no art. 78A do Decreto nº 1.800, de 1996, são considerados autenticados os livros contábeis transmitidos pelas empresas ao Sistema Público de Escrituração Digital Sped, de que trata o Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, até a data de publicação deste Decreto, ainda que não analisados pela Junta Comercial, mediante a apresentação da escrituração contábil digital. Parágrafo único. O disposto no caput não se aplica aos livros contábeis digitais das empresas transmitidos ao Sped quando tiver havido indeferimento ou solicitação de providências pelas Juntas Comerciais até a data de publicação deste Decreto. Art. 3º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 25 de fevereiro de 2016 22. Ora, o raciocínio que se extrai da edição do decreto é autoevidente. Até 25 de fevereiro de 2016, a autenticação da ECD perante as Juntas Comerciais era obrigatória e para afastar tal exigência manifestouse a Presidência da República por meio de decreto, no desempenho de suas funções constitucionais. 23. Portanto, a conclusão sobre a autenticação, da Autoridade Administrativa que presidiu o procedimento fiscal e o formalizou, por meio do lançamento, está correta e em plena harmonia com o regramento aplicável à época da lavratura (27/01/2015). De fato, em 27/01/2015, data da lavratura do auto de infração, ainda não se encontrava em vigor o mencionado DECRETO nº 8.683, DE 25 DE FEVEREIRO DE 2016 que altera o Decreto nº 1.800, de 30 de janeiro de 1996, que regulamenta a Lei nº 8.934, de 18 de novembro de 1994, que dispõe sobre o Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins. Em conformidade com os atos normativos, acima transcritos, expedidos pela Receita Federal, mesmo antes da vigência do predito Decreto de 2016, verificase que a ECD compreende a versão digital dos livros contábeis, e, sua validade jurídica decorre de que sejam esses livros contábeis, em formato digital, assinados digitalmente, utilizandose de certificado de segurança mínima tipo A3, emitido por entidade credenciada pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICPBrasil), a fim de garantir a autoria, a autenticidade, a integridade e a validade jurídica do documento digital, vejamos: " Art. 2º A ECD compreenderá a versão digital dos seguintes livros: I livro Diário e seus auxiliares, se houver; II livro Razão e seus auxiliares, se houver; Fl. 2744DF CARF MF 24 III livro Balancetes Diários, Balanços e fichas de lançamento comprobatórias dos assentamentos neles transcritos. Parágrafo único. Os livros contábeis e documentos de que trata o caput deverão ser assinados digitalmente, utilizandose de certificado de segurança mínima tipo A3, emitido por entidade credenciada pela Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICPBrasil), a fim de garantir a autoria, a autenticidade, a integridade e a validade jurídica do documento digital." De acordo com Moacyr Amaral Santos, autenticidade é a “certeza de que o documento provém do autor nele indicado” (SANTOS, Moacyr Amaral. Primeiras linhas de direito processual civil, São Paulo: Saraiva, 2004. p. 386). Já a integridade do documento consiste em se ter certeza de que o mesmo não foi alterado, corrompido, durante o seu envio e recebimento. À obviedade, a ECD para ser considerada válida deverá ser transmitida, pelas pessoas jurídicas a ela obrigadas, ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped),instituído pelo Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, após a confirmação de recebimento do arquivo que a contém. Como se vê, não andaram bem os atos normativos expedidos pela RFB ao restringir a validade da ECD, a "autenticação pelos órgãos de registro". A prova do equívoco de tal entendimento está ínsita no DECRETO nº 8.683, DE 25 DE FEVEREIRO DE 2016 ao reconhecer e dispor que: são considerados autenticados os livros contábeis transmitidos pelas empresas ao Sistema Público de Escrituração Digital Sped, ainda que não analisados pela Junta Comercial, mediante a apresentação da escrituração contábil digital, salvo quando tiver havido indeferimento ou solicitação de providências pelas Juntas Comerciais até a data de publicação deste Decreto. Não consta dos autos que após a transmissão (em 25/11/2014 pelo contribuinte) do novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior, tenha havido indeferimento ou solicitação de providências pelas Juntas Comerciais. Portanto, a ECD do Recorrente está sob o amparo do mencionado Decreto. De todo modo, as últimas instruções normativas expedidas pela RFB que tratam da matéria em comento prescrevem que a ECD "será considerada válida após a confirmação de recebimento do arquivo que a contém", tal como no Decreto nº 8.683, de 2016. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1486, de 13 de agosto de 2014) Art. 1º Fica instituída a Escrituração Contábil Digital (ECD), de acordo com o disposto nesta Instrução Normativa. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 1º A ECD deverá ser transmitida, pelas pessoas jurídicas obrigadas a adotála, ao Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), instituído pelo Decreto nº 6.022, de 22 de janeiro de 2007, e será considerada válida após a confirmação de recebimento do arquivo que a contém. Fl. 2745DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.704 25 (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 2º A autenticação da ECD será comprovada pelo recibo de entrega emitido pelo Sped. (Redação dada pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) § 3º A autenticação dos documentos de empresas de qualquer porte realizada por meio do Sped dispensa qualquer outra. (Incluído(a) pelo(a) Instrução Normativa RFB nº 1660, de 15 de setembro de 2016) De qualquer modo, nenhum desses atos normativos prevêem que a falta de autenticação de livros ou ainda a ausência de autenticação da ECD perante as Juntas Comerciais poderia dar ensejo ao arbitramento do lucro. Vale exalçar que, o regramento aplicável para fins do arbitramento do lucro, decorre de comando normativo expresso no artigo 47 da Lei nº 8981, de 1995 que dá suporte legal ao art.530 do RIR/99, adotado como fundamento à lavratura do auto de infração (27/01/2015), e não se vislumbra nenhum comando legal expresso que se amolde aos fatos narrados nos autos no sentido de que a ausência de autenticação de livros comerciais dá ensejo ao arbitramento do lucro. É sabido que, não é da natureza das leis descer aos detalhes de pontos específicos, razão pela qual dentre as funções do decreto, a principal é a de regulamentar a lei, de modo a criar os meios necessários para fiel execução da lei, sem, contudo, contrariar qualquer das disposições dela ou inovar o Direito. E assim, o DECRETO nº 8.683, DE 25 DE FEVEREIRO DE 2016 finalmente cumprindo a sua função explicita que a autenticação da ECD será comprovada pelo recibo de entrega emitido pelo Sped. Por oportuno transcrevo a seguinte ementa de julgado que se amolda perfeitamente ao que se discute nos presentes autos: TRF3 APELAÇÃO CÍVEL AC 35336 SP 97.03.0353363 (TRF3) Data de publicação: 09/10/2002 Ementa:TRIBUTÁRIO. ANULATÓRIA DE LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA.FALTA DE AUTENTICAÇÃO EM LIVROS. AUSÊNCIA DE DECLARAÇÃO DE RENDA. PREJUÍZO COMPROVADO EM PERÍCIA JUDICIAL. ARBITRAMENTO DO LUCRO. NÃO CABIMENTO. SÓCIO. LANÇAMENTO REFLEXO. INSUBSISTÊNCIA. 1 O arbitramento do lucro é ato extremado que só pode ocorrer em face da real impossibilidade de apuração do lucro real do empreendimento. 2 O lançamento tributário efetuado mediante o arbitramento do lucro goza de relativa presunção, pode, portanto, ser revisto na esfera judicial. 3 Elididas as circunstâncias que alicerçaram o arbitramento, mediante perícia judicial comprovando a idoneidade dos elementos contábeis e a situação de prejuízo experimentada pelo Fl. 2746DF CARF MF 26 contribuinte, não pode prevalecer o ato extremado praticado pela Administração, pois o tributo deriva da lei e não da vontade dos sujeitos da relação tributária. 4 A ausência de autenticação nos livros diários, por si só, não é suficiente para o arbitramento do lucro, vez que não especificada no art. 399 do Decreto nº 85.450/80. 5 A ausência de declaração de renda também não representa causa suficiente para ensejar o arbitramento do lucro, pois, além de não estar prevista no art. 399 do Decreto nº 85.450/80, recebe tratamento diferenciado no referido diploma legal. 6 Afastado o arbitramento de lucro imposto à empresa, via de consequência, não subsiste a tributação reflexa imposta aos sócios do empreendimento. 7 Recursos providos. Grifei O Recorrente, em sede recursal, argúi inovação, pela DRJ, na motivação e fundamentação do lançamento, na medida em que valida o Auto de Infração por suposta escrituração parcial das operações, enquanto o argumento utilizado pelo AFRFB para o arbitramento do lucro consiste na ausência de autenticação pela Junta Comercial, diante de ECD não autenticada pela Jucesp. Sob o tópico "Escrituração e arbitramento do lucro", a DRJ sustenta que: 29. Dos fatos narrados no TVF salta à vista que a primeira versão da contabilidade da autuada, relativa ao anocalendário de 2010, tenha sido transmitida e submetida à autenticação somente em fevereiro de 2014, pois a norma aplicável determinava que a entrega da ECD deveria ocorrer até o último dia útil do mês de julho do ano seguinte ao anocalendário a que se refira a escrituração, assim deveria ter sido entregue, no caso concreto, até o final de julho de 2011 (art . 5º da IN/RFB 787/2007, vigente ao tempo dos fatos). 30. Em suma, uma empresa que fatura mais de R$ 82 milhões de reais, em 2010, pelo porte, certamente não poderia funcionar sem um controle contábil, circunstância óbvia que somada a entrega de suas declarações zeradas, evidencia o intuito deliberado de impedir que o Fisco tivesse conhecimento dos valores que movimentava em seus negócios, pois não estamos falando de algumas operações que eventualmente não foram declaradas, mas sim da totalidade do faturamento, sendo inegável a intenção de eludir as obrigações tributárias correspondentes, bem como a máfé de tal manobra. 31. Outro aspecto a sobrelevar é que os registros contábeis transcritos pela autuada para a ECD, em fevereiro de 2014, deveriam refletir a realidade de suas operações, mas novamente, como consta do TVF, a autuada apostou na hipótese de se esquivar de suas responsabilidades quando informou pouco mais de 10% de suas operações, sendo inequívoca a inidoneidade de sua contabilidade, mesmo que estivesse autenticada pela Junta Comercial. 32. O descrito também lança luz sobre a questão da autenticação da contabilidade pela Junta Comercial, pois tal procedimento sempre teve por efeito delimitar no tempo a feitura da contabilidade, ou seja, com a autenticação dos termos de Fl. 2747DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.705 27 abertura e encerramento dos livros não seria mais possível produzir outras versões da contabilidade, algo que vemos no caso concreto, pois a autuada transmitiu uma versão de sua ECD em fevereiro de 2014 e outra em outubro do mesmo ano. 33. Diante dos esclarecimentos anteriores, considerando os efeitos do Decreto 8.683/2016, é lógico que apenas o teor das operações registradas na primeira ECD transmitida deveria e deve ser considerado para qualquer decisão da autoridade lançadora ou julgadora. É o mínimo de segurança possível, que se não observado torna inviável a fiscalização tributária, fazendo tabula rasa dos efeitos do art. 196 do CTN, pois acolher a hipótese da produção de diversas versões da escrituração implicaria abrir o caminho para que qualquer empresa gerasse uma contabilidade para seus fins de controle interno e outra distinta, apenas para afastar a fiscalização da realidade de seus negócios. 34. Para espancar qualquer dúvida quanto à máfé que orientou o comportamento da autuada impende lembrar que ela não alega e também não traz qualquer prova de recolhimentos, mesmo que em atraso, referentes as suas atividades no ano calendário de 2010. Para ilustrar a questão, cabe colacionar a seguinte consulta relativa à ausência de pagamentos: ... Entendo que as ponderações feitas pela DRJ poderiam ter sido levadas a efeito pelo autuante, caso houvesse tomado a decisão de autuar quando constatado que o primeiro arquivo do Sped Contábil transmitido em 10/02/2014, "não estava correto, pois só continha parte das receitas auferidas no ano (pouco mais de 10%)" Todavia, em vez de autuar, a autoridade fiscal optou por emitir: em 18/09/2014 um Termo de Intimação, encaminhado ao contribuinte via postal com AR e recebido pelo mesmo em 19/09/2014, solicitando a Escrituração Contábil Digital do ano de 2010 devidamente autenticada pela JUCESP, com prazo de 20 dias. E tem mais, de acordo com o TVF: Em 25/11/2014 o contribuinte transmitiu novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior. Porém, o mesmo ainda encontrase sem autenticação da JUCESP até a presente data. Em contato telefônico com o sr. Marco Antonio Ercolin, informamos que o contribuinte poderia, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, apresentar o Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP. Em 30/12/2014 o contribuinte protocolizou declaração informando que, devido às festas de final de ano e férias coletivas, só poderia atender o solicitado após o dia 12/01/2015. Fl. 2748DF CARF MF 28 Em 20/01/2015 o contribuinte entregou cópia digitalizada em formato “pdf” do Livro Diário de 2010, porém sem o devido registro/autenticação da JUCESP. Depreendese que, a autoridade fiscal fixouse tanto no aspecto formal "da autenticação" que esqueceu dos aspectos materiais/essencias da contabilidade ao ponto de sequer tratar do conteúdo do novo arquivo da Escrituração Contábil DigitalECD para o Sped Contábil, código hash BAF848A6A24FFB572EFEB68A812BC3FE1055B830, em substituição ao anterior, para constatar ou não possíveis irregularidade ou imprestabilidade da ECD. Outro inusitado procedimento do autuante foi, discricionariamente, orientar pela apresentação do Livro Diário do ano de 2010 de forma impressa, desde que estivesse devidamente registrado/autenticado pela JUCESP, em vez da ECD autenticada pela JUCESP, visto que a Escrituração Contábil Digital (ECD) tornouse obrigatória a partir de 01/01/2008. A DRJ questiona a ECD, relativa ao anocalendário de 2010, pelo fato de ter sido transmitida e submetida à autenticação somente em fevereiro de 2014, pois a norma aplicável determinava que a entrega da ECD deveria ocorrer até o último dia útil do mês de julho do ano seguinte ao anocalendário a que se refira a escrituração, assim deveria ter sido entregue, no caso concreto, até o final de julho de 2011 (art . 5º da IN/RFB 787/2007, vigente ao tempo dos fatos). Tal fundamento também não serve para o arbitramento do lucro mas sim para exigência de multa por descumprimento de obrigação acessória. O que não ocorreu. Finalmente conclui a decisão recorrida: À luz dos fatos narrados no TVF e dos dispositivos regulamentares invocados pela autoridade lançadora resta evidente que não assiste razão à defesa, pois a imprestabilidade de sua escrituração não se prende apenas a ausência de autenticação pelo Registro do Comércio, mas também a ampla omissão de receitas, circunstância suficiente para a incidência do previsto no art. 530, I, e 532 do RIR/99. Como dito acima, o Recorrente, argúi que a DRJ inova, na motivação e fundamentação do lançamento. A razão está com o Recorrente, pois, não consta do auto de infração e TVF que o autuante para arbitrar o lucro do contribuinte tenha considerado imprestável a sua escrituração, ou seja, a hipótese descrita no item II do art.530 do RIR/99. Disso não cogitou o autuante, até porque como frisado acima, toda a escrituração contábil do recorrente fora ignorada pelo fiscal em razão da irregularidade formal da "falta de autenticação da ECD pela JUCESP", pelo que adotou o Arbitramento do Lucro com base no artigo 530, inciso I do RIR. Com efeito, não cabe a autoridade julgadora alterar os fundamentos da autuação para aperfeiçoar o lançamento tributário. Indubitavelmente, o contribuinte, intimado, apresentou a escrita contábil digital (EAD), e, a mera falta de autenticação pela JUCESP, não dá ensejo ao arbitramento do lucro, uma vez que o autuante não demonstrou outro vício com impedimento da perfeita e adequada apuração do lucro real. Fl. 2749DF CARF MF Processo nº 10314.728735/201425 Acórdão n.º 1201001.970 S1C2T1 Fl. 2.706 29 Assim, tendo em vista que restou comprovada a existência da escrituração contábil EAD, apenas, sem a formalização do seu registro na Junta Comercial, não justificando a desclassificação da escrita que somente se legitima na ausência de elementos concretos que permitam a apuração do lucro real da empresa, não tem fundamento o arbitramento do lucro, sendo improcedente o auto de infração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ). LANÇAMENTOS REFLEXOS CSLL Decorrendo a exigência da mesma imputação que fundamentou o lançamento do IRPJ, deve ser adotada a mesma decisão proferida para o imposto de renda, na medida em que não há fatos ou argumentos novos a ensejar conclusão diversa. PIS e Cofins Como exposto acima, os autos de infração do IRPJ e da CSLL foram considerados improcedentes em razão da falta de fundamento ao arbitramento do lucro. Assim, preservando a coerência com o decidido no presente voto, entendo que há reparo quanto aos lançamentos dessas contribuições sociais, pois, a apuração do PIS e da Cofins pelo regime cumulativo foi indevida, já que a regra de apuração pelo lucro real enseja o cálculo do Pis e da Cofins pelo regime não cumulativo. Conforme dispõe o art. 10, II, da Lei nº 10.833, de 2003 (Cofins) e o art.8º, II, da Lei nº 10.637, de 2002 (PIS), o regime cumulativo somente é aplicável para pessoas tributadas pelo lucro presumido ou arbitrado. Para o lucro real, é o regime não cumulativo. Assim, diante da apuração destas contribuições, pelo regime cumulativo (lucro arbitrado) já que o correto seria pelo regime não cumulativo (lucro real), são improcedentes as autuações do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Ester Marques Lins de Sousa Fl. 2750DF CARF MF
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Numero do processo: 10660.002229/2005-81
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Feb 28 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/04/2005 a 30/06/2005
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO. SANEAMENTO POSSÍVEL.
Havendo contradição entre os fundamentos e a conclusão do voto condutor do acórdão embargado, deve o tribunal administrativo, a analise dos embargos, buscar interpretação que torne coerente e lógica a decisão adotada, se possível, de modo a evitar o simples rejulgamento das matérias contenciosas.
Numero da decisão: 3401-004.405
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração, para reconhecer terem sido anuladas ambas as decisões proferidas pela DRJ, que deve, em novo julgamento, apreciar a manifestação de inconformidade constante no presente processo, seguindo-se o rito do Decreto no 70.235/1972.
ROSALDO TREVISAN Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Renato Vieira de Ávila (suplente), Marcos Roberto da Silva (suplente), Cássio Schappo (suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente).
Nome do relator: ROSALDO TREVISAN
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CONTRADIÇÃO. SANEAMENTO POSSÍVEL. Havendo contradição entre os fundamentos e a conclusão do voto condutor do acórdão embargado, deve o tribunal administrativo, a analise dos embargos, buscar interpretação que torne coerente e lógica a decisão adotada, se possível, de modo a evitar o simples rejulgamento das matérias contenciosas. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração, para reconhecer terem sido anuladas ambas as decisões proferidas pela DRJ, que deve, em novo julgamento, apreciar a manifestação de inconformidade constante no presente processo, seguindose o rito do Decreto no 70.235/1972. ROSALDO TREVISAN – Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Robson José Bayerl, André Henrique Lemos, Mara Cristina Sifuentes, Renato Vieira de Ávila (suplente), Marcos Roberto da Silva (suplente), Cássio Schappo (suplente) e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente). AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 66 0. 00 22 29 /2 00 5- 81 Fl. 285DF CARF MF 2 Relatório Versa o presente sobre embargos de declaração (fls. 261 a 270)1 opostos pela Procuradoria da Fazenda Nacional, em relação ao Acórdão nº 3401002.724 (fls. 253 a 257), que anulou a decisão de primeira instância, e foi assim ementado: NULIDADE. É nulo a decisão administrativa quando falta obediência as formalidades do processo administrativo fiscal. (Rel. Cons. Ângela Sartori, unânime, sessão de 18.set.2014) Alega a Fazenda que os dispositivos legais invocados no voto da relatora (art. 142 do Código Tributário Nacional e arts. 9 a 11 do Decreto no 70.235/1972), sobre lançamento, são impertinentes ao caso, que trata de pedido de ressarcimento, o que culmina em obscuridade, e que houve ainda omissão no acórdão, que deixou de analisar o afastamento do disposto no art. 53 da Lei no 9.784/1999, e o entendimento de tribunais superiores. No exame de admissibilidade de fls. 274 a 279, acolheuse apenas a análise da existência de obscuridade (entendida como com tradição), visto que a defesa sequer trata especificamente em sua peça recursal do art. 53 da Lei no 9.784/1999, e dos entendimentos de tribunais superiores. No CARF, o processo foi a mim distribuído, por sorteio, em julho de 2017. Em janeiro de 2018, o processo foi pautado e retirado de pauta por falta de tempo hábil para julgamento. É o relatório. 1 Todos os números de folhas indicados nesta decisão são baseados na numeração eletrônica da versão digital do processo (eprocessos). Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, relator Tendo os pressupostos para admissibilidade dos embargos já sido avaliados no despacho de fls. 274 a 279, passase diretamente à análise da contradição apontada, tratada pela embargante como obscuridade. Na admissibilidade dos embargos, restou patente a contradição entre os fundamentos do voto condutor (que remetem a dispositivos que tratam de lançamento) e suas conclusões (que se prestam a processo de pedido de ressarcimento), como esclarecido à fl. 276: Nada obstante, aquilo que o embargante considerou obscuro, tratase, em realidade, de flagrante contradição. A propósito, cumpre gizar que a contradição que “autoriza os embargos de declaração é aquela interna ao acórdão, verificada entre a fundamentação do julgado e a sua conclusão, ...” (STJ, REsp 322056). É o que se constata ao longo de todo o voto da decisão embargada, que, em sua fundamentação, articula a Fl. 286DF CARF MF Processo nº 10660.002229/200581 Acórdão n.º 3401004.405 S3C4T1 Fl. 286 3 interpretação de dispositivos legais atinentes a processos de determinação e exigência de crédito tributário (de iniciativa do Fisco), para então, à guisa de conclusão, anular decisão prolatada em sede de processo que cuida de pedido de ressarcimento e declaração de compensação (de iniciativa do contribuinte). Vejamos o voto condutor do acórdão embargado (fls. 255/256), que será, pela pouca extensão, integralmente transcrito a seguir (à exceção do texto normativo invocado): É preciso esclarecer. Logo de início, que não se está, aqui, a discutir o mérito da decisão, mas apenas a contradição entre seus fundamentos e a conclusão. Pelo exposto, é cristalino que a relatora partiu do pressuposto de que estava a analisar lançamento tributário, inclusive invocando os dispositivos legais a ele atinentes. Mas é contraditório e paradoxal não só que utilize o voto tal fundamento para concluir que seria nula a decisão da DRJ (e não o eventual lançamento), mas que trate desses temas em um processo relativo a pedido de restituição. Claro, assim, que o voto condutor contém flagrante contradição entre fundamentos e conclusão, que precisa ser sanada por este colegiado. Para tanto, retomese o rumo do contencioso, em sintético relatório. Fl. 287DF CARF MF 4 Na análise da Declaração de Compensação de fls. 2 e 3, apresentada em 29/07/2005, referente a créditos de COFINS nãocumulativa, no valor de R$ 863.251,98 (de R$ 909.909,40 indicados como disponíveis), a fiscalização intimou a empresa a apresentar documentos, concluindo, no Termo de Verificação Fiscal de fls. 98 a 102, que o crédito presumido apurado foi de apenas R$ 71.155,71, dispondo ainda que poderiam ser objeto de compensação com o mesmo tributo créditos básicos de R$ 18.954,85, vedado seu ressarcimento. O referido termo amparou o parecer de fls. 107 e 108, que se prestou ainda aos processos no 10660.001828/200599 e 10660.001826/200599 (lançamentos de ofício de IRPJ e Contribuição Social sobre o Lucro LíquidoCSLL), apensos, no qual se entendeu pela possibilidade de compensação dos R$ 71.155,71 com parte dos débitos do processo no 10660.001828/200599, e fundamentou o despacho decisório de fl. 109, que endossou seu teor, destacando que os saldos devedores remanescentes das compensações, nos processos apensos, deveria ser objeto de cartacobrança. Cientificada do despacho, do parecer e das cartascobrança em 01/10/2008 (fl. 115), a empresa apresentou manifestação de inconformidade em 31/10/2008 (fls. 117 a 137), alegando, em síntese, que a fiscalização: (a) considerou os insumos adquiridos de pessoas jurídicas, incluída aí as sociedades cooperativas (que são pessoas jurídicas, e são tributadas nas operações em questão), como “crédito presumido” (ao contrário do que prevê a legislação de regência); (b) vedou a compensação do crédito presumido com outros tributos administrados pela RFB, afora a COFINS, impedindo ainda o ressarcimento de créditos básicos relativos a despesas de frete e armazenagem, ao argumento de que somente poderiam ser objeto de compensação (sendo a IN SRF no 660/2006, utilizada como fundamento para a vedação, incompatível com os arts. 8o, 9o e 15 da Lei no 10.925/2004); (c) não analisou o argumento constante da Linha “C” do pedido; e (d) aplicou multa indevida e confiscatória de 75% do valor do principal pelo simples fato de não homologar as compensações. Em 18/12/2008 foi proferida a decisão de primeira instância (fls. 148 a 151), na qual, por unanimidade, acordou o colegiado que: (a) as aquisições de insumos efetuadas de sociedades cooperativas geram créditos como as das demais pessoas jurídicas, devendo ser reconhecido o crédito referente a tais aquisições, no processo; e (b) a vedação de compensação e ou/ressarcimento de crédito presumido decorre da Lei no 10.925/2004, sendo que a IN no 660/2006 apenas regulamentou tal vedação. Nos dizeres do julgador de piso (fl. 150): Fl. 288DF CARF MF Processo nº 10660.002229/200581 Acórdão n.º 3401004.405 S3C4T1 Fl. 287 5 Após a decisão da DRJ, a unidade local efetuou cálculos que resultaram (fl. 160) na apuração de direito creditório complementar de R$ 682.438,90, resultando na extinção total dos débitos do processo no 10660.001828/200599, e parcial do processo no 10660.001826/200599, conforme extratos de fls. 153 a 156. Ciente da decisão de piso em 04/03/2009 (fl. 162), a empresa interpôs recurso voluntário em 02/04/2009 (fls. 164 a 175), reiterando as razões expostas em sua manifestação anterior, especificamente no que se refere à incompatibilidade entre a IN SRF no 660/2006 e a Lei no 10.925/2004 e à inaplicabilidade e confiscatoriedade da multa. Em 14/07/2009, a DRJ solicitou o processo por email, ao CARF, informando que reformaria os acórdãos (fl. 178): Após devolução, a DRJ proferiu nova decisão de primeira instância, em 13/08/2009 (fls. 180 a 190), anulando a anterior, entendendo ter havido erro (e invocando o artigo 53 da Lei no 9.784/1999), e que a situação em análise remete ao art. 8o da Lei no 10.925/2004, que trata de crédito presumido, quando use (ainda que indevidamente) o benefício estabelecido no art. 9o da mesma lei, e crédito básico, quando não seja usado o benefício, chegando aos seguintes montantes (fls. 189/190): Após a nova decisão de piso, a unidade preparadora refaz os cálculos (fls. 191 a 194), apurando que restou saldo devedor em ambos os processos apensos. Ciente da nova decisão em 09/02/2010, a empresa apresentou recurso voluntário em 11/03/2010 (fls. 200 a 220), argumentando que: (a) houve preclusão e violação à coisa julgada, pela DRJ, pois a matéria não estava sujeita a recurso de ofício e já havia sido julgada, sendo definitiva e irretratável a decisão favorável à recorrente, conforme art. 42, parágrafo único, do Decreto no 70.235/1972, sendo equivocada a invocação do art. 53 da Lei no 9.784/1999 (de aplicação apenas subsidiária no processo administrativo fiscal); e (b) a utilização indevida do benefício previsto no art. 9o da Lei no 10.925/2004 não pode servir de fundamento para considerar os insumos adquiridos como geradores de créditos presumidos, pois, se a suspensão foi indevida os tributos correspondentes devem ser exigidos, como já o foram, da empresa, por exemplo, no processo administrativo no 10660.002089/200894 (fls. Fl. 289DF CARF MF 6 221 a 240) e no 10660.000734/200591 (fls. 242 a 251). No mais, reitera as alegações de incompatibilidade entre a IN SRF no 660/2006 e a Lei no 10.925/2004 e à inaplicabilidade e confiscatoriedade da multa. Eis a breve síntese da jornada no presente processo, cabendo destacar que os dois processos apensos podem ser resumidos da seguinte forma: (a) processo no 10660.001828/200599: auto de infração de CSLL (fls. 2 a 9), no montante de R$ 120.858,79 (acrescido de multaR$ 90.644,09 e jurosR$ 73.796,37, totalizando R$ 285.299,25), por glosa de valores compensados na DIPJ a título de base de cálculo negativa de períodos anteriores, sendo a DCOMP de fl. 18 apresentada com a pretensão de extinção do crédito; e (b) processo no 10660.001826/200599: auto de infração de IRPJ (fls. 4 a 9), no montante de R$ 311.718,89 (acrescido de multaR$ 233.789,16 e jurosR$ 190.335,55, totalizando R$ 735.843,60), por glosa de valores compensados na DIPJ a título de prejuízos fiscais em períodos anteriores, sendo a DCOMP de fl. 22 apresentada com a pretensão de extinção do crédito. A DCOMP citada em ambos os processos, e analisada nestes autos, endossa o alegado: Ao que parece, o acórdão embargado confundiu os lançamentos (que sequer estão em julgamento, e nem poderiam estar, por serem as matérias de competência de outra Seção deste CARF) com o tema submetido ao colegiado neste processo: demanda de compensação visando a extinguir, com crédito de COFINS, os débitos constantes nos processos apensos (no 10660.001828/200599 e no 10660.001826/200599), esses sim versando sobre lançamento de IRPJ e CSLL. Assim, são impertinentes as menções a confiscatoriedade ou não aplicabilidade de multa suscitadas pela defesa, que também confunde o objeto do processo, visto que tais matérias deveriam ter sido discutidas em contencioso específico, oportunamente. O que se tem nestes autos é mera discussão sobre a existência e a disponibilidade de créditos para utilizar na amortização daquelas autuações. Ou seja, o presente processo discute crédito, e não os débitos de autuações distintas, para as quais sequer houve contencioso específico. Esclarecido isso, fica ainda mais flagrante a contradição entre os argumentos do voto condutor do acórdão embargado e suas conclusões, posto que foca a fundamentação em tema que sequer é objeto do contencioso, sendo tal fundamentação utilizada para concluir que seriam nulas ambas as decisões de piso, paradoxalmente por não se revestirem das formalidades atinentes ao lançamento. No entanto, e ainda no intuito de não rejulgar o processo, mas apenas sanar a contradição encontrada, buscamos ver no voto condutor do acórdão embargado vestígios outros (que não “deficiências de lançamento”) pelos quais poderiam ter sido anuladas ambas as decisões de piso. Fl. 290DF CARF MF Processo nº 10660.002229/200581 Acórdão n.º 3401004.405 S3C4T1 Fl. 288 7 Quando o relator do acórdão embargado afirma (fl. 255) que “a falha diz respeito ao descumprimento de exigências procedimentais a serem atendidas”, na nova decisão da DRJ, “comprometendo as formalidades exigidas no processo administrativo fiscal”, parece ter entendido que restou maculada a nova decisão por ofensa ao rito estabelecido especificamente para o processo administrativo fiscal (no caso, os arts. 42 e 45): “Art. 42. São definitivas as decisões: I de primeira instância esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; II de segunda instância de que não caiba recurso ou, se cabível, quando decorrido o prazo sem sua interposição; III de instância especial. Parágrafo único. Serão também definitivas as decisões de primeira instância na parte que não for objeto de recurso voluntário ou não estiver sujeita a recurso de ofício. (...) Art. 45. No caso de decisão definitiva favorável ao sujeito passivo, cumpre à autoridade preparadora exonerálo, de ofício, dos gravames decorrentes do litígio.” (grifo nosso) E são exatamente esses os artigos invocados ao final da decisão (fl. 256, aqui já transcrito), ao lado do art. 146 do Código Tributário Nacional (que trata de alteração de critério jurídico): Assim, entendemos que restou clara a razão da anulação da segunda decisão de piso, estampada, mormente, nos citados arts. 42 e 45 do Decreto no 70.235/1972, tendo as demais normas citadas apenas aplicação subsidiária (na ausência de disposição específica sobre o tema na norma legal que rege o processo administrativo fiscal). Quanto à primeira decisão de piso, que, destaquese, já havia sido objeto de anulação pela segunda, as razões para a anulação são mais amplas e gerais, mencionando a relatora do acórdão embargado os artigos 113, 114, 139 e 142 do Código Tributário Nacional, além da Lei no 4.717/1965, que rege a ação popular (para anulação ou declaração de nulidade de atos lesivos ao patrimônio da União, v.g.), entendendo aquele relator haver “vício de forma” (destacando o teor do parágrafo único, “b”, do artigo 2o, da citada lei). Fl. 291DF CARF MF 8 Ademais, tivesse o relator anulado a segunda decisão da DRJ e preservado os efeitos da primeira, o julgamento deveria ter prosseguido, o que não ocorreu. Assim, temos que a anulação da primeira decisão, unanimemente acordada no CARF (no acórdão embargado), além de preservar medida já tomada no processo, devolve ao julgador de piso a análise da matéria, tendo em vista a inexistência de previsão para embargos por erros na decisão de piso. Tal alternativa não constitui violação aos citados arts. 42 e 45 do Decreto no 70.235/1972, pois a instância superior tem a plena possibilidade jurídica de anular a decisão de piso, como o fez no caso em análise. Portanto, a única leitura possível e coerente do voto condutor do acórdão embargado, e que não implica efetivo rejulgamento, é a de que ambas as decisões da DRJ foram anuladas, permitindo a reanálise da manifestação de inconformidade pela instância de piso, com novo julgamento e reabertura de prazo para interposição de eventual novo recurso voluntário, com possibilidade de retorno posterior do processo a este CARF. Pelo exposto, voto por acolher os embargos de declaração, para reconhecer terem sido anuladas ambas as decisões proferidas pela DRJ, que deve, em novo julgamento, apreciar a manifestação de inconformidade constante no presente processo, seguindose o rito do Decreto no 70.235/1972. Rosaldo Trevisan Fl. 292DF CARF MF Processo nº 10660.002229/200581 Acórdão n.º 3401004.405 S3C4T1 Fl. 289 9 Fl. 293DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13971.722502/2015-44
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 25 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Mar 13 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2011
NULIDADE. INOCORRÊNCIA.
Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando ocorrida extrapolação de prazo da fiscalização.
CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA.
Não há que se falar em cerceamento do direito de defesa quando ausente no MPF previsão de fiscalização de CSLL vez que autoridade fiscalizadora possui competência atribuída por lei, ademais, os termos e demonstrativos integrantes das autuações oferecem à Impugnante todas as informações relevantes para sua defesa, o que resta confirmado através de impugnação na qual demonstra conhecer plenamente os fatos que lhe foram imputados.
INCONSTITUCIONALIDADE. QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. INOCORRÊNCIA.
Verificado que o procedimento adotado pela fiscalização encontra fundamento na Lei Complementar nº 105/01 e no Decreto nº 3.724/01, não há de ser cogitada quebra de sigilo bancário pela fiscalização.
OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM NÃO COMPROVADA.
A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta corrente ou de investimento.
OMISSÃO DE RECEITAS. DETERMINAÇÃO DO IMPOSTO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO.
Verificada a omissão de receita, o imposto a ser lançado de ofício deve ser determinado de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período base a que corresponder a omissão.
LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL. PIS. COFINS
A solução dada ao litígio principal, relativo ao IRPJ, aplica-se, no que couber, aos lançamentos reflexos, quando não houver fatos ou argumentos a ensejar decisão diversa.
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303002.400.
INTUITO DE FRAUDE. MULTA QUALIFICADA.APLICAÇÃO.
Incabível a aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento), a qual deve ser reduzida para 75% (setenta e cinco por cento) pela falta de recolhimento do imposto apurada em procedimento de ofício, se a contribuinte, antes do procedimento de ofício, deu conhecimento à autoridade tributária das circunstâncias materiais da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, o que afasta a figura do dolo e o evidente intuito de fraude.
RESPONSABILIDADE. SOLIDARIEDADE. ARTS. 124, I e 135 DO CTN.
Correta a inclusão, como responsável tributário, à pessoa física que, agindo na condição de mandatário, preposto, diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica de direito privado pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude.
Numero da decisão: 1402-002.822
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos: i) dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Souza que votou por manter a penalidade no percentual aplicado; e ii) manter a responsabilidade dos coobrigados. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves e Leonardo de Andrade Couto que votaram por excluí-lo da relação jurídico-tributária.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente.
(assinado digitalmente)
Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Júlio Lima Souza Martins, Leonardo Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Souza, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente).
Nome do relator: LUCAS BEVILACQUA CABIANCA VIEIRA
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INOCORRÊNCIA. Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando ocorrida extrapolação de prazo da fiscalização. CERCEAMENTO DE DEFESA. INOCORRÊNCIA. Não há que se falar em cerceamento do direito de defesa quando ausente no MPF previsão de fiscalização de CSLL vez que autoridade fiscalizadora possui competência atribuída por lei, ademais, os termos e demonstrativos integrantes das autuações oferecem à Impugnante todas as informações relevantes para sua defesa, o que resta confirmado através de impugnação na qual demonstra conhecer plenamente os fatos que lhe foram imputados. INCONSTITUCIONALIDADE. QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. INOCORRÊNCIA. Verificado que o procedimento adotado pela fiscalização encontra fundamento na Lei Complementar nº 105/01 e no Decreto nº 3.724/01, não há de ser cogitada quebra de sigilo bancário pela fiscalização. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS E VALORES CREDITADOS EM CONTA BANCÁRIA. ORIGEM NÃO COMPROVADA. A Lei nº 9.430/96, em seu art. 42, estabeleceu a presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta corrente ou de investimento. OMISSÃO DE RECEITAS. DETERMINAÇÃO DO IMPOSTO. REGIME DE TRIBUTAÇÃO. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 97 1. 72 25 02 /2 01 5- 44 Fl. 915DF CARF MF 2 Verificada a omissão de receita, o imposto a ser lançado de ofício deve ser determinado de acordo com o regime de tributação a que estiver submetida a pessoa jurídica no período base a que corresponder a omissão. LANÇAMENTOS REFLEXOS. CSLL. PIS. COFINS A solução dada ao litígio principal, relativo ao IRPJ, aplicase, no que couber, aos lançamentos reflexos, quando não houver fatos ou argumentos a ensejar decisão diversa. JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa SELIC. Precedentes das três turmas da Câmara Superior Acórdãos 9101001.863, 9202003.150 e 9303002.400. INTUITO DE FRAUDE. MULTA QUALIFICADA.APLICAÇÃO. Incabível a aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento), a qual deve ser reduzida para 75% (setenta e cinco por cento) pela falta de recolhimento do imposto apurada em procedimento de ofício, se a contribuinte, antes do procedimento de ofício, deu conhecimento à autoridade tributária das circunstâncias materiais da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, o que afasta a figura do dolo e o evidente intuito de fraude. RESPONSABILIDADE. SOLIDARIEDADE. ARTS. 124, I e 135 DO CTN. Correta a inclusão, como responsável tributário, à pessoa física que, agindo na condição de mandatário, preposto, diretor, gerente ou representante de pessoa jurídica de direito privado pratique condutas que caracterizem infração à lei ou excesso de poderes, como sonegação fiscal e fraude. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos: i) dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa de ofício ao percentual de 75%. Vencido o Conselheiro Lizandro Rodrigues de Souza que votou por manter a penalidade no percentual aplicado; e ii) manter a responsabilidade dos coobrigados. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Leonardo Luis Pagano Gonçalves e Leonardo de Andrade Couto que votaram por excluílo da relação jurídicotributária. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente. (assinado digitalmente) Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Júlio Lima Souza Martins, Leonardo Leonardo Luis Pagano Gonçalves, Lizandro Rodrigues de Souza, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Relatório Fl. 916DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.112 3 REDLOG Representações EIRELI, optante pelo regime de tributação do lucro real, interpõe o presente Recurso Voluntário diante de decisão proferida pela Delegacia de Julgamento Regional de Belo Horizonte, em 30 de junho de 2016, que julgou improcedente Impugnação do contribuinte à Autos de Infração lavrados de IRPJ, CSLL, PIS e COFINS, ano calendário 2011, dada omissão de receitas ante depósitos bancários de origem não comprovada que aliado a imprestabilidade da escrituração contábil da sociedade empresária de causa à lançamento arbitrado com imposição de multa qualificada e responsabilização solidária do sócio; o acórdão restou assim ementado: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica – IRPJ Ano Calendário: 2011 ARBITRAMENTO DE LUCRO CABIMENTO Sujeitase ao arbitramento de lucro, o contribuinte cuja escrituração contiver vícios, erros ou deficiências que a tornem imprestável para determinar o lucro real. LICITUDE DA PROVA. EXTRATOS BANCÁRIOS. Os extratos bancários obtidos pela autoridade fiscal no exercício regular de suas atribuições, por meio de intimação feita diretamente ao contribuinte fiscalizado, constituem prova lícita, e o procedimento assim realizado não configura quebra de Sigilo Bancário. OMISSÃO DE RECEITAS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. A Lei nº 9.430/1996, no seu art. 42, estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente, sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. Os contribuintes cujo lucro for arbitrado não poderão adotar o regime não cumulativo para a determinação do montante devido de contribuição para o PIS e a COFINS. Esta sempre incide sobre o faturamento e em nenhuma hipótese é admitida a dedução do custo incorrido na aquisição ou na produção dos produtos ou mercadorias vendidas. CERCEAMENTO DE DEFESA – CARACTERIZAÇÃO. Somente cabe declarar a nulidade do lançamento por cerceamento de defesa, se ficar comprovado que o pleno exercício do direito de defesa pelo sujeito passivo, tiver sido tolhido em virtude de ato da autoridade administrativa. Fl. 917DF CARF MF 4 SUJEIÇÃO PASSIVA SOLIDÁRIA. São solidariamente responsáveis pelo crédito tributário apurado os diretores, gerentes ou representantes da pessoa jurídica de direito privado pelas obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos. MULTA QUALIFICADA. O percentual da multa de ofício será duplicado quando comprovadas as circunstâncias previstas em lei como caracterizadoras de infração qualificada. MULTA. CARÁTER CONFISCATÓRIO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicar a multa, nos moldes da legislação que a instituiu. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL. PRAZO DE VALIDADE. PRORROGAÇÃO. Os atos que determinam o início do procedimento fiscal valerão pelo prazo de sessenta dias, prorrogável, sucessivamente, por igual período e tantas vezes quantas necessárias, com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos. LANÇAMENTOS DECORRENTES CSLL PIS COFINS O decidido para o lançamento de IRPJ estendese aos lançamentos que com ele compartilham o mesmo fundamento factual, salvo se houver razão de ordem jurídica que lhes recomende tratamento diverso. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Em face da decisão acima transcrita a contribuinte interpôs recurso voluntário no qual manifesta sua irresignação com a manutenção do crédito tributário argumentando preliminarmente o seguinte: a extrapolação do prazo de fiscalização com violação do art.7º, §§1º e 2º do Decreto n.70.235/1972 (item 2.1) e a irregular autuação lavrada em matéria de CSLL na medida em que o MPF contemplava tão apenas IRPJ e PIS e COFINS (item 2.2). No mérito argumenta em suma a ilegalidade da quebra do sigilo bancário (item 3.1), a improcedência do lançamento por arbitramento (item 3.2), a violação ao art.43 do CTN ante a tributação de receitas que não representam renda (item 3.3), a ausência do reconhecimento de créditos como insumo (item 3.4) e a ausência de fundamento legal para imposição de multa qualificada (item 4). Ante a responsabilização solidária do sócio foi interposto também recurso voluntário pelo mesmo argumentando em suma a ausência de causa autorizativa (arts. 124, I e 135, III, CTN) para sua inclusão no pólo passivo da obrigação devendo respeitarse o princípio da autonomia patrimonial que vigora entre pessoa jurídica e natural. Por vislumbrar a necessidade de diligência elucidatória este colegiado deliberou em sessão de 17 de fevereiro de 2017 por converter o julgamento dos presentes autos em diligência para que a autoridade fiscalizadora procedesse a apuração discriminada do que Fl. 918DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.113 5 de fato consistia renda sujeita a tributação com nova oportunidade para que a autuada trouxesses aos autos documentos aptos a demonstrar o que era renda e o que era mero ingresso a ser repassado a concessionária dos serviços de telefonia celular. Procedida intimação da recorrente para que instruísse os autos com documentos comprobatórios da discriminação das receitas correspondentes à prestação de serviços foram juntados aos autos os seguintes documentos: a) resposta à intimação b) Demonstrativo de Apuração IRPJ2011 c) Demonstrativo de Apuração CSLL2011 d) Demonstrativo de Apuração PIS 2011 e) Demonstrativo de Apuração COFINS 2011 f) Demonstrativo de Valores Recebidos Operadoras g) Notas fiscais. A partir das Notas Fiscais (NFs) apresentadas apresentou a recorrente novo cálculo para apuração do lucro arbitrado considerando como receita de prestação de serviços (operação de intermediação, o desconto recebido nas NFs de compra de créditos digitais das operadoras. Da análise das informações prestadas e documentos colacionados aos autos a autoridade fiscal alcançou a seguinte conclusão: Fl. 919DF CARF MF 6 Em breves linhas esse é o relatório. Voto Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira 1. DA ADMISSIBILIDADE: O Recurso Voluntário aviado é tempestivo e assinado por procurador com procuração nos autos, portanto, merece ser processado. 2. PRELIMINARES: Preliminarmente, sustenta o recorrente que a autoridade fiscalizadora extrapolou o prazo de fiscalização com violação do art.7º, §§1º e 2º do Decreto n.70.235/1972 (item 2.1). Sustenta, também, a recorrente a irregularidade da autuação lavrada em matéria de CSLL na medida em que o MPF contemplava tão apenas IRPJ e PIS e COFINS (item 2.2). Fl. 920DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.114 7 Ainda em sede de preliminar tem como nula a autuação considerando por ilegítima a suposta quebra do sigilo bancário como expediente fiscalizatório; questões todas enfrentadas a seguir: 2.1 Nulidade eventual ante extrapolação prazo: O prazo fixado no MPF tem por propósito impingir eficiência à Administração Tributária de modo que eventual extrapolação não justificada pode culminar em responsabilização administrativa do agente da fiscalização não maculando jamais a higidez do auto de infração lavrado. 2.2 (Ir)regularidade autuação CSLL Lavrado o auto principal deverão ser também formalizadas as exigências decorrentes de CSLL, dada a intima relação de causa e efeitos que as vincula. Transladase as autuações reflexas a mesma orientação decisória adotada quanto ao lançamento matriz; o que não demanda previsão expressa no MPF dado que a competência da autoridade fiscalizadora decorre da lei e não do MPF. 2.3 Suposta "quebra" sigilo bancário: No entendimento da Recorrente, a autuação seria nula em razão dos dados terem sido obtidos por quebra do sigilo bancário sem a necessária autorização judicial mesmo após o advento da LC n° 105/01. Vale relembrar que o Egrégio Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade do art. 6 da Lei Complementar n. 105/01 nos autos do RE n. 601.314SP com repercussão geral, o que vincula este tribunal administrativo nos termos do art. 62, §2º do RICARF. E ainda que assim não o fosse, nos termos do caput do art. 62 do RICARF e da Súmula 2 do CARF, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, como muito bem fundamentado na DRJ. Por este motivo deixo de conhecer dos argumentos lançados contra a constitucionalidade do art. 6 da Lei Complementar 105/01 e do Decreto n. 3724/01, e que poderiam acarretar na ilicitude das provas juntadas aos autos. Ademais, temse que todos os argumentos suscitados pela recorrente sucumbem no mérito diante do reconhecimento da Constitucionalidade pelo E. Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 601.314, com repercussão geral, de relatoria do Ministro Ricardo Lewandowski, em acórdão que restou assim ementado: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL. DIREITO TRIBUTÁRIO. DIREITO AO SIGILO BANCÁRIO. DEVER DE PAGAR IMPOSTOS. REQUISIÇÃO DE INFORMAÇÃO DA RECEITA FEDERAL ÀS INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS. ART. 6º DA LEI COMPLEMENTAR 105/01. MECANISMOS FISCALIZATÓRIOS. APURAÇÃO DE CRÉDITOS RELATIVOS A TRIBUTOS DISTINTOS DA CPMF. PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE DA NORMA TRIBUTÁRIA. LEI 10.174/01. 1. O litígio constitucional posto se traduz em um confronto entre o direito ao sigilo bancário e o dever de pagar tributos, ambos referidos a um mesmo cidadão e de caráter constituinte no que se refere à comunidade política, à luz da finalidade precípua da tributação de realizar a igualdade em seu duplo compromisso, a autonomia individual e o autogoverno coletivo. 2. Do ponto de vista da autonomia individual, o sigilo bancário é uma das expressões do direito de personalidade que se traduz em ter suas atividades e informações bancárias livres de ingerências ou ofensas, qualificadas como arbitrárias ou ilegais, de quem quer que seja, inclusive do Fl. 921DF CARF MF 8 Estado ou da própria instituição financeira. 3. Entendese que a igualdade é satisfeita no plano do autogoverno coletivo por meio do pagamento de tributos, na medida da capacidade contributiva do contribuinte, por sua vez vinculado a um Estado soberano comprometido com a satisfação das necessidades coletivas de seu Povo. 4. Verificase que o Poder Legislativo não desbordou dos parâmetros constitucionais, ao exercer sua relativa liberdade de conformação da ordem jurídica, na medida em que estabeleceu requisitos objetivos para a requisição de informação pela Administração Tributária às instituições financeiras, assim como manteve o sigilo dos dados a respeito das transações financeiras do contribuinte, observandose um translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal. 5. A alteração na ordem jurídica promovida pela Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, uma vez que aquela se encerra na atribuição de competência administrativa à Secretaria da Receita Federal, o que evidencia o caráter instrumental da norma em questão. Aplicase, portanto, o artigo 144, §1º, do Código Tributário Nacional. 6. Fixação de tese em relação ao item “a” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “O art. 6º da Lei Complementar 105/01 não ofende o direito ao sigilo bancário, pois realiza a igualdade em relação aos cidadãos, por meio do princípio da capacidade contributiva, bem como estabelece requisitos objetivos e o translado do dever de sigilo da esfera bancária para a fiscal”. 7. Fixação de tese em relação ao item “b” do Tema 225 da sistemática da repercussão geral: “A Lei 10.174/01 não atrai a aplicação do princípio da irretroatividade das leis tributárias, tendo em vista o caráter instrumental da norma, nos termos do artigo 144, §1º, do CTN”. 8. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (RE 601314, Relator(a): Min. EDSON FACHIN, Tribunal Pleno, julgado em 24/02/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe198 DIVULG 15092016 PUBLIC 16092016) Diante do exposto não conheço dos argumentos de (in)constitucionalidade veiculados pelo recorrente, e porventura, ultrapassada tal questão julgoos improcedentes diante da posição firmada pelo STF. 3. MÉRITO: Insubsistentes as questões preliminares trazidas pela recorrente temse que no mérito questiona a possível falta de amparo legal para presunção de omissão de receita de depósitos bancários, de forma generalizada, obrigando o contribuinte a proceder a uma auto fiscalização ante à inversão do ônus da prova trazido pela presunção legal. 3.1 Omissão de receitas por depósitos bancários origem não comprovada: Em resumo, baseado no fato de que a escrituração da Recorrente não refletia a vultosa movimentação financeira em suas contas bancárias, procedeu a autoridade autuante ao arbitramento de lucros. Em sede de Impugnação, bem como do Recurso Voluntário, a recorrente discorreu longamente sobre o tema, no entanto, faltou o principal: a comprovação das origens dos recursos que permitiram fossem carreados às suas contas bancárias, mantidas junto a instituições financeiras e os valores apontados pelo Fisco. Fl. 922DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.115 9 Os lançamentos relativos aos anoscalendário de 2011 tiveram sustentáculo na movimentação bancária da autuada que apresentou substanciais valores lançados a crédito das contas por ela mantidas em diversas instituições financeiras e para os quais, devidamente intimada a comprovar suas origens, na forma prevista na legislação vigente não logrou êxito. Durante o procedimento fiscalizatório a fiscalizada teve sucessivas oportunidades para que justificasse os créditos ocorridos em suas contas bancárias, ou seja, as origens de tais recursos, não logrando êxito em sua comprovação. Oportuna se faz a transcrição da doutrina de Maria Rita Ferragut (in Presunções no Direito Tributário, Dialética, São Paulo, 2001) a lecionar que uma prova indireta condutora da mesma ‘probabilidade fática’ da prova direta, in verbis: “Assim, tem a Administração Pública o deverpoder de investigar livremente a verdade material diante do caso concreto, analisando todos os elementos necessários à formação de sua convicção acerca da existência e conteúdo do fato jurídico, já que é uma constatação a prática de atos simulatórios por parte do contribuinte, visando diminuir ou anular o encargo fiscal. E essa liberdade pressupõe o direito de considerar fatos conhecidos não expressamente previstos como indiciários de outros fatos, cujos eventos são desconhecidos de forma direta. A presunção homini de forma alguma significa que a tributação ocorrerá em mera verossimilhança, probabilidade ou verdade material aproximada. Pelo contrário, veiculará conclusão provável do ponto de vista fático, mas certa do jurídico. Por isso, resta uma vez mais observar que também a prova direta levanos à certeza jurídica e à probabilidade fática, já que não relata com certeza absoluta o evento, inatingível. Detém, apenas, maior probabilidade do fato corresponder à realidade sensível.” A mesma autora no artigo ‘Evasão Fiscal: o parágrafo único do artigo 116 do CTN e os limites de sua aplicação’ (in Revista Dialética de Direito Tributário n.º 67, Dialética, São Paulo) assim esclarece: “As presunções assumem vital importância quando se trata de produzir provas indiretas acerca de atos praticados mediante dolo, fraude, simulação, dissimulação e máfé geral, tendo em vista que, nessas circunstâncias, o sujeito pratica o ilícito de forma a dificultar em demasia a produção de provas diretas. Os indícios, por essa razão, convertemse em elementos fundamentais para a identificação de fatos propositadamente ocultados para se evitar a incidência normativa”. A prova indiciária é pacificamente admitida como já decidido pelo CARF: Fl. 923DF CARF MF 10 Primeira Turma/Quarta Câmara/Primeira Seção de Julgamento Data da Sessão 25/01/2011 Relator(a) ANTONIO BEZERRA NETO Nº Acórdão 1401000.405 ASSUNTO: PROVA INDICIÁRIA A prova indiciária é meio idôneo admitido em Direito, quando a sua formação está apoiada em uma concatenação lógica de fatos, que se constituem em indícios precisos, “econômicos” e convergentes Nessas circunstâncias cumpre ao fisco tão somente provar o indício, como, de fato, foi feito. A relação de causalidade, entre ele e a infração imputada, é estabelecida pela própria lei, o que torna lícita a inversão do ônus da prova e a conseqüente exigência atribuída ao contribuinte de demonstrar que tais valores não são provenientes de receitas omitidas, mantidas à margem da escrituração regular ou em poder dos sócios. No presente caso, o procedimento fiscal avançou por vários meses, tempo mais que suficiente para que a fiscalizada promovesse a entrega do que foi requisitado pelo Fisco (documentos que comprovassem as origens dos recursos que permitiram a movimentação bancária estampada), o que não ocorreu. Entendo assistir razão à Fiscalização. A decisão recorrida analisou a questão com maestria, devendo ser mantida, a teor do disposto no art. 50, § 1º, da Lei nº 9.784, de 1999, pelos seus próprios fundamentos. 3.2. Ausência de fundamento para multa qualificada Incabível a aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinqüenta por cento), a qual deve ser reduzida para 75% (setenta e cinco por cento) pela falta de recolhimento do imposto apurada em procedimento de ofício, se a contribuinte, antes do procedimento de ofício, deu conhecimento à autoridade tributária das circunstâncias materiais da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, o que afasta a figura do dolo e o evidente intuito de fraude. Nesse sentido, pelo afastamento da multa qualificada, oportuno verificar o o que já decidido por esta Turma nos autos do PA n. 10825.723097/201496, Acórdão n. 1402 002.745, de relatoria do Conselheiro DEMETRIUS NICHELE MACEI, cuja transcrição da ementa faz se por oportuna: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 2009 NULIDADES. OMISSÃO DE RECEITAS. ERRO DE CAPITULAÇÃO. ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO. VÍCIO NA INTIMAÇÃO. NÃO CABIMENTO. Sendo lavrado auto de infração com correto enquadramento legal relacionado a omissão de receitas, atendendo a todos os requisitos exigidos pela legislação fiscal, não há que prosperar a alegação de erro de capitulação, recaindo, neste caso, ônus da prova sobre o contribuinte. Menos cabível a alegação de erro na identificação do sujeito passivo quando suficientemente comprovado nos autos que a conta bancária fiscalizada pertence ao sujeito passivo autuado. Não há vício na intimação quando o Fisco formaliza tal ato respeitando todos os trâmites legais. SIGILO BANCÁRIO. OMISSÕES DE RECEITAS. ACESSO LEGITIMADO. As informações bancárias obtidas pela fiscalização por intermédio da requisição de movimentação financeira junto a instituição financeira são idôneas e protegidas pelo sigilo fiscal. A Lei Complementar nº 105/2001 legitima o fornecimento de informações relacionadas ao sujeito passivo sob fiscalização, quando a autoridade Fl. 924DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.116 11 fiscal entender que o exame de tais informações é indispensável para o deslinde da controvérsia,afastando, portanto, a alegação de quebra de sigilo bancário. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA PASSIVA SOLIDÁRIA. SÓCIOS ADMINISTRADORES. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO DOLO EVIDENTE. Não basta para caracterizar a responsabilidade tributária solidária dos sócios, que estes meramente estejam exercendo função sócioadministrativa na pessoa jurídica autuada. O dolo evidente de infringir a lei ou estatuto empresarial deve restar robustamente comprovado nos autos para que tal responsabilização surta efeitos justos. DECADÊNCIA. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. PAGAMENTO. NÃO IDENTIFICADO. NÃO INCIDÊNCIA. Tratandose justamente de lançamento de "Omissão de Receita", não podendo ser identificados nos autos prova de pagamento do tributo exigido, ainda que parcial, não é possível a aplicação do artigo 150, §4º, do CTN. Sendo cabível a contagem decadencial proporcionada pelo artigo 173, do mesmo diploma fiscal. MULTA QUALIFICADA. MULTA AGRAVADA. NÃO CABIMENTO. Não comprovado o dolo evidente capaz de ensejar a qualificação da multa por intermédio de fraude, sonegação ou conluio, tampouco havendo embaraço a fiscalização, não devem prosperar a qualificação e agravamento da multa. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. TAXA SELIC. CABIMENTO. A incidência da taxa de juros SELIC sobre os juros moratórios que recaem sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal é legítima. Pautase o afirmado pela Súmula CARF nº 4. Ressaltese que, quanto à alegação de que não haveria incidência de juros sobre a multa de ofício, tal fato não decorre da autuação, mas sim do vencimento da multa, por ocasião do não pagamento voluntário do valor resultante do auto de infração, no seu respectivo vencimento, momento em que se iniciará o computo de juros sobre a multa. Portanto, deve procederse a exoneração da qualificadora reduzindose a multa ao patamar de 75%. 4. Recurso Voluntário Sujeição Passiva Solidária (arts.124, I c/c 135, CTN): Em função da atribuição de responsabilidade solidária a Valnor Dias insurgese o recorrente contra sua inserção no pólo passivo da lide, na posição de “sujeito passivo solidário”, na forma do artigo 135, III, do CTN. Relembrando, o objeto principal dos autos foram lançamentos de “omissão de receitas” por depósitos bancários de origem não comprovada, infração tipificada em lei, presunção que a autuada não conseguiu elidir. Com isso, ainda segundo o raciocínio da Autoridade Fiscal, tal fato não poderia ter ocorrido sem o concurso dos sócios e administradores da empresa recorrente, o que implicaria na sujeição passiva solidária imputada. De seu turno argumenta o recorrente a inaplicabilidade do art. 135 prevê como pessoalmente responsável no inciso III, os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, os quais só respondem pelos créditos tributários que resultem exclusivamente de atos praticados com excesso de poderes ou infração à lei, contrato social ou estatutos. Dispõe o artigo 135, III, do Estatuto Tributário, assumido pelo Fisco para a inserção dos sócios e administradores da pessoa jurídica no pólo passivo da lide: Fl. 925DF CARF MF 12 Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: (...) III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Sem maiores aprofundamentos, fácil de se ver que as situações estampadas, ainda que se referindo a “responsabilidade de terceiros”, têm características diferentes, a primeira tratando de atos ou omissões das pessoas ali referidas, e o art. 135, naquilo que interessa, punindo atos realizados com “infração à lei” e praticados por aqueles que tinham os poderes de gestão da empresa (diretores, gerentes ou representantes). Vejase, a lei não fala, no caso do art. 135, em “sócios”, mas, sim, em “administradores”, embora no que tange à recorrente pessoa jurídica isso não tenha maior relevância, já que todos os seus sócios eram, ao mesmo tempo, seus administradores. Ora, inimaginável se possa aceitar que o administrador da recorrente EIRELI não tinha conhecimento ou participara da infração a lei e ao contrato social ao promover confusão patrimonial, até porque, nunca é demais lembrar, ainda que a pessoa jurídica possa ter “vida própria” e “existência real” (teorias da “Realidade Objetiva” e “Realidade Técnica”), ou que, “sendo sujeito de direito, vale dizer, sendo uma pessoa, será dotada de personalidade e possuirá todos os direitos e obrigações semelhantes a uma pessoa natural ou física”1, posições que se contrapõem à conceituação de Savigny, para o qual a pessoa jurídica é uma mera “ficção”, o fato inconteste – é que quem toma decisões nas empresas são pessoas humanas investidas de poderes para tal e o fazem de acordo com os preceitos que norteiam as companhias das quais participam ou administram. Assim, argumentos como levantados pelos recorrentes de que “a solidariedade do sócio pela dívida da sociedade só se manifesta quando comprovado que, no exercício de sua administração, praticou os atos eivados das irregularidades enumeradas no art. 135 do CTN”, mostramse desconexos e até atuam contra que os alegou, em face da evidente comprovação da ocorrência justamente dos “atos eivados de irregularidades” que procura a defesa minimizar. Igualmente, sem sustentação a argumentação de que a Fiscalização não teria apontado fatos concretos e não haveria vinculação do sócio com os fatos geradores, porque, como exaustivamente visto, o que se tem é infração à lei praticada por “administrador” e não por sócio (embora, no caso, as duas figuras jurídicas se fundam em uma só). Do mesmo modo, a decisão do STJ citada pelos recorrentes em nada os aproveita, ao contrário, só confirma a correção do procedimento do Fisco (“que, em recente julgamento, a 1ª Turma do STJ esclareceu sobre a responsabilidade do sócio pelas obrigações tributárias da pessoa jurídica (art. 137, III, do CTN): (...) III – O CTN , no inciso III do art. 135, impõe responsabilidade, não ao sócio, mas ao gerente, diretor ou equivalente. Assim sóciogerente é responsável, não por ser sócio, mas por haver exercido a gerência”). Ora, é exatamente disto que se trata nos autos: responsabilidade por atos praticados como gerente (administrador). A propósito, manifestação do STJ: “A responsabilidade tributária (cujo principal escopo é facilitar o cumprimento da prestação pecuniária devida ao Fisco) tanto pode advir da prática de atos ilícitos 1 DOWER, Nelson Godoy Bassil. Curso moderno de direito civil: Parte geral, São Paulo: Nelpa, 1976, v1, p 51. Fl. 926DF CARF MF Processo nº 13971.722502/201544 Acórdão n.º 1402002.822 S1C4T2 Fl. 1.117 13 (artigos 134, 135 e 137, do CTN), como também da realização de atos lícitos (artigos 129 ao 133, do CTN), sendo certo, contudo, que a sua instituição reclama o atendimento dos requisitos impostos pelo Codex Tributário, quais sejam: (i) a existência de previsão legal; (ii) a consideração do regime jurídico do contribuinte para fins de aferição da prestação pecuniária devida; e (iii) a existência de "vínculo jurídico entre o contribuinte e o responsável que permita a este cumprir sua função de auxiliar do Fisco no recebimento da dívida do contribuinte, sem ter seu patrimônio comprometido" (Octávio Bulcão Nascimento, in "Curso de Especialização em Direito Tributário: Estudos Analíticos em Homenagem a Paulo de Barros Carvalho", Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2007, pág. 818) (REsp 719350 / SC. Primeira Turma. Ministro Relator: Luiz Fux. DJe: 21/02/2011)”. Portanto, por tudo o que se expôs e o que consta dos autos, induvidoso que a evasão de milhões de reais só seria possível de ocorrer com a ação o administrador que, inquestionavelmente, concentrava amplos e totais poderes de administrar a sociedade, na forma de seu Contrato Social. Deste modo, VOTO POR MANTER a responsabilização apontada pelo Fisco em relação ao sujeito passivo. Diante de todo o exposto voto por julgar parcialmente procedente o Recurso Voluntário interposto para tão apenas afastar a qualificadora. É como voto. Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator Fl. 927DF CARF MF
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Numero do processo: 16327.002828/2001-49
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Mar 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 1996, 1997, 1998
RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. REQUISITOS.
Deve-se conhecer do Recurso Especial quando atendidos os requisitos do artigo 67, caput e parágrafos, e 68, caput, do Anexo II do RICARF.
Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1996, 1997, 1998
LUCRO INFLACIONÁRIO. DECADÊNCIA. EXPURGO DA REALIZAÇÃO OBRIGATÓRIA.
Devem ser expurgados do saldo do lucro inflacionário a realizar valores que deveriam ter sido adicionados ao resultado tributável há mais de cinco anos e não o foram. Se este expurgo não foi efetuado, o IRPJ e a CSLL calculados sobre o lucro inflacionário estão incorretos, porque apurados sob a influência de parcelas do lucro inflacionário já atingidas pela decadência.
Numero da decisão: 9101-003.276
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo (relator) e André Mendes de Moura, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo (relator), André Mendes de Moura e Rodrigo da Costa Possas, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Flávio Franco Corrêa. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Possas Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo Relator
(assinado digitalmente)
Flávio Franco Corrêa Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício), Jose Eduardo Dornelas Souza. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego.
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Ano-calendário: 1996, 1997, 1998 RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. REQUISITOS. Deve-se conhecer do Recurso Especial quando atendidos os requisitos do artigo 67, caput e parágrafos, e 68, caput, do Anexo II do RICARF. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 1996, 1997, 1998 LUCRO INFLACIONÁRIO. DECADÊNCIA. EXPURGO DA REALIZAÇÃO OBRIGATÓRIA. Devem ser expurgados do saldo do lucro inflacionário a realizar valores que deveriam ter sido adicionados ao resultado tributável há mais de cinco anos e não o foram. Se este expurgo não foi efetuado, o IRPJ e a CSLL calculados sobre o lucro inflacionário estão incorretos, porque apurados sob a influência de parcelas do lucro inflacionário já atingidas pela decadência.
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conteudo_txt : Metadados => date: 2018-02-12T23:13:40Z; pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; dcterms:created: 2018-02-12T23:13:30Z; Last-Modified: 2018-02-12T23:13:40Z; dcterms:modified: 2018-02-12T23:13:40Z; dc:format: application/pdf; version=1.4; xmpMM:DocumentID: uuid:7f568531-a0f6-436e-93f0-8dd8fece455e; Last-Save-Date: 2018-02-12T23:13:40Z; access_permission:fill_in_form: true; pdf:docinfo:modified: 2018-02-12T23:13:40Z; meta:save-date: 2018-02-12T23:13:40Z; pdf:encrypted: true; modified: 2018-02-12T23:13:40Z; Content-Type: application/pdf; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; meta:creation-date: 2018-02-12T23:13:30Z; created: 2018-02-12T23:13:30Z; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 22; Creation-Date: 2018-02-12T23:13:30Z; pdf:charsPerPage: 1965; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; pdf:docinfo:created: 2018-02-12T23:13:30Z | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 589 1 588 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 16327.002828/200149 Recurso nº Especial do Contribuinte Acórdão nº 9101003.276 – 1ª Turma Sessão de 06 de dezembro de 2017 Matéria LUCRO INFLACIONÁRIO DECADÊNCIA Recorrente BANCO SANTANDER BRASIL S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1996, 1997, 1998 RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. REQUISITOS. Devese conhecer do Recurso Especial quando atendidos os requisitos do artigo 67, caput e parágrafos, e 68, caput, do Anexo II do RICARF. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1996, 1997, 1998 LUCRO INFLACIONÁRIO. DECADÊNCIA. EXPURGO DA REALIZAÇÃO OBRIGATÓRIA. Devem ser expurgados do saldo do lucro inflacionário a realizar valores que deveriam ter sido adicionados ao resultado tributável há mais de cinco anos e não o foram. Se este expurgo não foi efetuado, o IRPJ e a CSLL calculados sobre o lucro inflacionário estão incorretos, porque apurados sob a influência de parcelas do lucro inflacionário já atingidas pela decadência. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo (relator) e André Mendes de Moura, que não conheceram do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar lhe provimento, vencidos os conselheiros Rafael Vidal de Araújo (relator), André Mendes de Moura e Rodrigo da Costa Possas, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Flávio Franco Corrêa. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 28 28 /2 00 1- 49 Fl. 589DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 590 2 Rodrigo da Costa Possas – Presidente em exercício (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo – Relator (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa – Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Gerson Macedo Guerra, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício), Jose Eduardo Dornelas Souza. Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Adriana Gomes Rego. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pela contribuinte acima identificada, fundamentado atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), em que se alega divergência de interpretação da legislação tributária quanto ao que foi decidido sobre a tributação de lucro inflacionário, relativamente à contagem da decadência. A recorrente insurgise contra o Acórdão nº 10323.671, de 05/02/2009, por meio do qual a antiga Terceira Câmara do Primeiro Conselho de Contribuintes, por maioria de votos, entre outras questões, rejeitou a preliminar de decadência suscitada pela contribuinte na fase de recurso voluntário. O acórdão recorrido contém a ementa e a parte dispositiva descritas abaixo: EMENTA: IRPJ — PRAZO DECADENCIAL — LUCRO INFLACIONÁRIO — REALIZAÇÃO — O início da contagem do prazo decadencial sobre o lucro inflacionário deve ser feita a partir do exercício em que deve ser tributada a sua realização e não de sua apuração. IRPJ LUCRO INFLACIONÁRIO — REALIZAÇÃO O diferimento do lucro inflacionário é uma faculdade, assim como o valor a tributar em cada período pode ser maior que o mínimo exigido. A simples falta ou diferença de correção monetária na apuração do lucro inflacionário, constante no Lalur do contribuinte, em determinado período, não constitui nenhuma infração naquele momento, ensejando apenas a tributação em períodos subseqüentes do saldo remanescente não quitado, motivo pelo qual não deve ser usada como marco inicial da contagem do prazo decadencial. IRPJ. BASE DE CÁLCULO. Para a adequada apuração da base de cálculo do imposto lançado é imprescindível a compensação pela Fiscalização de prejuízos fiscais de períodos anteriores, observados os limites impostos pela legislação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 590DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 591 3 ACORDAM os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar a preliminar de decadência, vencidos os Conselheiros Antonio Carlos Guidoni Filho (Relator), Alexandre Barbosa Jaguaribe e Régis Magalhães Soares Queiroz. No mérito, por maioria, dar provimento parcial ao recurso, para reduzir a base de cálculo, vencida a Conselheira Adriana Gomes Rêgo. Designado para redigir o voto vencedor no tocante à decadência, o Conselheiro Antonio Bezerra Neto. O Conselheiro Carlos Pelá declarouse impedido, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado No recurso especial, a contribuinte afirma que o acórdão recorrido deu à legislação tributária interpretação divergente da que foi dada em outros processos, relativamente à matéria acima mencionada. Para o processamento do recurso, ela desenvolve os argumentos descritos abaixo: DOS FATOS tratase de Procedimento Administrativo (PA) instaurado por meio da lavratura de Autos de Infração (Ais) de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) sobre (i) alegada diferença de correção monetária do lucro inflacionário realizado em 1987; e (ii) suposta omissão de receitas; para ambas as infrações alegadas, o período autuado abrangeria os anos calendário de 1996, 1997 e 1998, valendo observar que, especificamente quanto ao lucro inflacionário, a adoção de tal interregno decorreria da tentativa do Sr. Fiscal de esquivarse da clara decadência operada em relação ao período em que de fato teria ocorrido a suposta infração: 1987; DO CABIMENTO DESTE RECURSO POR CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS AUTORIZADORES a C. Turma a quo, por maioria devotos, afastou o argumento de decadência total e manteve a autuação sobre lucro inflacionário, mas adotando a premissa equivocada de que a autuação versaria sobre lucro inflacionário diferido para o anocalendário de 1995 e não realizado, o que impactaria sobre o IRPJ e a CSLL devidos no período autuado (1996 a 1998); porém, a autuação em disputa não recai sobre lucro inflacionário diferido para 1995, mas sobre suposta diferença de correção monetária de lucro inflacionário realizado em 1987; ao julgar situação fática análoga, a C. CSRF asseverou ser decadente o lançamento de eventuais diferenças, seja de correção monetária, seja de lucro inflacionário, quando além do quinquênio legal contado do período em que realizado o respectivo saldo de lucro inflacionário (Doc. 03). Vejase a ementa: "ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 1997, 1998, 1999. LUCRO INFLACIONÁRIO REALIZAÇÃO INTEGRAL DECADÊNCIA. Conforme enuncia a Súmula CARF n° 10, o prazo decadencial de constituição do crédito tributário relativo ao lucro inflacionário diferido é contado do período em que foi realizado ou em que, em face da legislação de regência, deveria ter sido realizado. A tributação Fl. 591DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 592 4 favorecida veiculada pelo art. 31, V, da Lei n° 8.541/1992 não admite realização parcial, devendo incidir sobre o saldo integral do lucro inflacionário acumulado e do saldo credor da diferença de correção monetária complementar IPC/BTNF. O ano calendário em que foi exercida a opção pela tributação favorecida, mediante pagamento do imposto correspondente em quota única, representa o período em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado o saldo integral do lucro inflacionário diferido e do saldo credor da diferença IPC/BTNF. Eventuais diferenças só poderiam ser exigidas pelo fisco dentro do quinquênio legal previsto para realização do lançamento tributário, em conformidade com o art. 150, § 4º, do CTN." (Acórdão CSRF n° 9101002.001, de 21/08/2014, Relator(a): Valmir Sandri) no mesmo sentido, a extinta C. 7ª Câmara do 1º Conselho de Contribuintes reconheceu a decadência operada sobre autuação lavrada mais de 5 (cinco) anos após o átimo da realização do lucro inflacionário (Doc. 04), como se depreende da ementa abaixo transcrita: "IRPJ LUCRO INFLACIONÁRIO REALIZAÇÃO INTEGRAL DECADÊNCIA. O termo inicial para contagem do prazo de decadência do direito do fisco de formalizar exigências decorrentes de realização a menor do lucro inflacionário diferido é o período em que se deu o oferecimento com ofensa à Lei. Se faltou correção monetária na realização integral do lucro inflacionário, inequivocamente manifestada na Declaração de Rendimentos, o fisco deveria ter agido nos cinco anos que se seguiram à realização integral informada em 1991. IRPJ LUCRO INFLACIONÁRIO FALTA DE APLICAÇÃO DA DIFERENÇA IPC/BTNF AO SALDO EM 31.12.89 DECADÊNCIA. O índice que representa o diferencial entre o IPC e o BTNF deveria ser aplicado ao saldo de lucro inflacionário existente em 31.12.89. A realização do valor assim resultante era exigível a partir do anocalendário de 1993, portanto, a falta dessa correção autoriza o fisco a exigila como integrante do saldo a realizar em 31.12.95. IRPJ/CSLL DIFERENÇA DE CORREÇÃO MONETÁRIA IPC/BTNF/90 DECADÊNCIA RECÁLCULO PELO FISCO. Na contagem do prazo decadencial para exigências tributárias decorrentes de erros cometidos na interpretação das regras aplicáveis à correção determinada pela Lei n° 8.200/91, devese levar em conta o início do cômputo na apuração do lucro real dos efeitos da correção complementar. Assim, apurado saldo devedor, cada parcela excluída, a partir do ano calendário de 1993, tem, na data da exclusão, o início da contagem do prazo fatal. Em caso de saldo credor, o início do prazo decadencial se dá a partir do momento em que o contribuinte opta por diferir seu valor, e a cada parcela realizada a partir de 1993. No caso, o contribuinte nada diferiu a título de correção monetária complementar de 1990 porque sustenta apuração de saldo devedor. Por isso, não pode o fisco recalcular, Fl. 592DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 593 5 integralmente, a correção monetária da diferença entre o IPC e o BTNF, no ano de 2000. IRPJ PREJUÍZOS FISCAIS LIMITAÇÃO Não se conhece no mérito da matéria submetida à tutela judicial. IRPJ MULTA ISOLADA A falta de recolhimento das estimativas mensais, sem que o contribuinte prove, por balanços ou balancetes mensais, que a suspensão se deu pela apuração de prejuízos fiscais no curso dos anos calendário de 1997 e 1998.." (Acórdão CC n° 10707.934, de 23/02/2005, Relator(a): Luiz Martins Valero) em adição, destacase o cabimento do presente recurso inclusive à luz da Súmula CARF n° 10, eis que, como assentado nos v. Acórdãos Paradigmas, eventuais diferenças de correção monetária na realização de lucro inflacionário somente podem ser exigidas dentro do quinquênio legal previsto no art. 150, §4°, do CTN; a seguir, passase a demonstrar o dissídio jurisprudencial na matéria, que viabiliza a interposição e o provimento deste recurso, bem como o mérito da discussão, clamandose para que os entendimentos firmados nos v. Acórdãos Paradigmas sejam aplicados neste caso, cancelandose integralmente as autuações; DA DECADÊNCIA OPERADA IN CASU DO DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL a identidade fática entre o presente caso e os v Acórdãos Paradigmas está evidenciada no quadro abaixo: [...]; é patente a identidade fática entre os casos, pois, em todos, discutese o termo inicial do prazo decadencial para autuação de IRPJ e CSLL sobre diferença de correção monetária na realização de saldo de lucro inflacionário; porém, apesar da identidade dos fatos, foram aplicadas interpretações divergentes: [...]; resta demonstrado, portanto, o dissídio jurisprudencial quanto ao termo inicial do prazo decadencial para que a D. Autoridade Fiscal autuasse parcela relativa à diferença de correção monetária na realização integral do saldo de lucro inflacionário acumulado; MÉRITO a Recorrente realizou integralmente o saldo de lucro inflacionário objeto de autuação ao final do anocalendário de 1987, sendo que o lançamento em debate decorre de divergência quanto à correção monetária, conforme verificado no v. Acórdão Recorrido, in verbis: [...]; notese que a efetiva realização do saldo de lucro inflacionário em 1987 foi devidamente informada ao Fisco, tanto que o próprio Sr. AuditorFiscal que lavrou a autuação Fl. 593DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 594 6 a reconheceu, pelo que, o lançamento de eventual diferença deveria ocorrer dentro do prazo de 5 (cinco) anos — i.e., 31/12/1992, sob pena de operarse a decadência; aplicandose a contagem do prazo decadencial prescrita no art. 150, §4°, do CTN, verificase que o fato gerador ocorrido ao fim do anocalendário de 1987 foi atingido pela decadência, uma vez que o prazo de 5 (cinco) anos para lançamento de eventuais diferenças apuradas teria findado até 31/12/1992, enquanto que os Ais em tela foram cientificados à Recorrente em 19/12/2001; ad argumentandum, também pelo art. 173, I, do CTN, operouse a decadência dos lançamentos, eis que o lustro se esgotaria 31/12/1993; por tais razões, forçoso que seja reconhecido que o lançamento em testilha encontrase atingido pela decadência, nos termos do art. 150, §4º, do CTN, extinguindose os pretensos débitos relativos aos períodos de 1996, 1997 e 1998, uma vez que decorrentes de supostas diferenças de correção monetária na realização do lucro inflacionário acumulado ao final do anocalendário de 1987, as quais a D. Fiscalização possuía informações suficientes para identificar e, assim, lançar parcela faltante; SUBSIDIARIAMENTE: DA INOCORRÊNCIA DE FATO GERADOR DO IRPJ E DA CSLL o art. 43 do CTN elege como base tributável do IRPJ e da CSLL o acréscimo patrimonial, in verbis: [...]; por sua vez, o lucro inflacionário é uma grandeza que, a despeito de sua denominação, em nada se identifica com lucro, propriamente dito, eis que decorre de mera correção monetária de ativos, sem acrescer qualquer valor além daquele necessário a preservar o valor aquisitivo da moeda, afastando, assim, os efeitos corrosivos da inflação; diante disso, não há que se falar em acréscimo patrimonial decorrente do lucro inflacionário, motivo pelo qual o lucro inflacionário não pode ser submetido à incidência do IRPJ e da CSLL; nesse sentido, o E. Superior Tribunal de Justiça (STJ) já publicou diversos informativos de jurisprudência — i.e., publicação que divulga teses firmadas pelo Tribunal, selecionadas pela novidade em seu âmbito e pela repercussão no meio jurídico — asseverando que o IRPJ e a CSLL incidem apenas sobre o lucro real, não abrangendo o lucro inflacionário, conforme imagens retiradas do seu sítio eletrônico abaixo colacionadas: [...]; concluise, portanto, que o lucro inflacionário não é passível de tributação pelo IRPJ e pela CSLL, sendo totalmente improcedente os Ais em testilha; DO PEDIDO em vista de todo o exposto, estando comprovado o cabimento do presente Recurso Especial, pugnase para que seja conhecido e provido, reformandose o v. Acórdão Recorrido na parte em que desfavorável à ora Recorrente, para que seja dado provimento integral ao Recurso Voluntário, cancelandose integralmente a exigência em testilha. Fl. 594DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 595 7 Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da contribuinte, o Presidente da 2ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 30/11/2015, deu seguimento ao recurso com base na seguinte análise sobre a divergência suscitada: [...] Afirma a recorrente a existência de jurisprudência administrativa divergente, no sentido de ser decadente o lançamento de eventuais diferenças, seja de correção monetária, seja de lucro inflacionário, quando além do quinquênio legal contado do período em que realizado o respectivo saldo de lucro inflacionário. Para comprovar o dissenso foram colacionados, como paradigmas, o Acórdão nº 9101002.001, de 21/08/2014 (inteiro teor às fls. 523/528) e o Acórdão nº 10707.934, de 23/02/2005 (inteiro teor às fls. 529/552). Antes de analisar os paradigmas, considero conveniente transcrever alguns excertos do voto vencido e do voto condutor do acórdão recorrido (grifos não constam do original), de forma a melhor esclarecer acerca da decisão e de seus fundamentos: [...] Passo, então, a apreciar o primeiro paradigma apresentado. [...] Resumindo a situação do 1º paradigma: o Colegiado considerou como marco inicial, para fins da contagem do prazo decadencial, o ano em que o contribuinte exerceu a opção legal de realização integral do lucro inflacionário. A exigência de eventual diferença somente poderia ser feita dentro dos cinco anos, contados daquela data. Ao contrário, o acórdão recorrido, diante da insuficiência do pagamento para quitação do saldo integral do lucro inflacionário, considerou que a diferença teria sido diferida pelo contribuinte, e que a contagem do prazo decadencial deveria ser feita a partir do momento em que exigível a realização de tal diferença. Observese que a circunstância de tratarse de tentativa de realização integral do lucro inflacionário somente é mencionada no relatório e no voto vencido. Ao que se pode depreender, tal circunstância não foi relevante para a posição vencedora, mas tão somente a existência de uma diferença não quitada cuja realização foi tida por diferida. Desta forma, considero comprovada a divergência alegada, no que tange ao 1º paradigma apresentado. Passo a apreciar o segundo paradigma. [...] Resumindo: no 2º paradigma, da mesma forma que ocorreu no 1º paradigma, o Colegiado considerou como termo inicial, para fins da contagem do prazo decadencial, o ano em que o contribuinte exerceu a opção legal de realização integral do lucro inflacionário. A exigência de eventual diferença somente poderia ser feita dentro dos cinco anos, contados daquela data. Fl. 595DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 596 8 Também aqui, portanto, se encontra configurada a divergência jurisprudencial. Com essas considerações, concluise que a divergência jurisprudencial foi comprovada para ambos os paradigmas apresentados, sendo cumpridos os requisitos estabelecidos pelo art. 67 do Anexo II do RICARF. Em 10/12/2015, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que admitiu o recurso especial da contribuinte, e em 15/12/2015 o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: DA INADMISSIBILIDADE DO RECURSO ESPECIAL preliminarmente, requer a União seja inadmitido o Recurso Especial, pois a recorrente pretende ver reformado julgado que adota o entendimento que posteriormente foi consolidado em Súmula deste CARF; a decisão recorrida adotou o entendimento de que o início da contagem do prazo decadencial sobre o lucro inflacionário deve ser feita a partir do exercício em que deve ser tributada a sua realização e não de sua apuração; o entendimento do CARF sobre a matéria em questão foi pacificado pela edição da Súmula CARF nº 10, que assim dispõe: Súmula CARF nº 10: O prazo decadencial para constituição do crédito tributário relativo ao lucro inflacionário diferido é contado do período de apuração de sua efetiva realização ou do período em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado, ainda que em percentuais mínimos. conforme o disposto no §3º do art. 67 do Regimento Interno do CARF, “não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso”; pela leitura das disposições do RICARF que regulamentam o cabimento do recurso especial e estando evidente que a decisão recorrida adota entendimento consolidado por Súmula do CARF, entende a Fazenda Nacional que não pode ser conhecido o recurso especial apresentado pelo contribuinte no processo em epigrafe; DA IMPROCEDÊNCIA DAS ALEGAÇÕES DO RECORRENTE. a lei estabelece ao contribuinte a faculdade do diferimento do lucro inflacionário enquanto não realizado. Em conseqüência, durante o período em que a empresa estiver em condições de diferir a tributação, a Fazenda Nacional estará impedida da constituição do crédito tributário; portanto, sendo proibido ao Fisco o lançamento do tributo com base no lucro inflacionário antes da sua realização, não há que se falar em início do prazo decadencial enquanto não se efetivar tal realização; isto porque, o fenômeno relevante para a decadência, nestes casos, é a realização do lucro, e não a sua apuração contábil. Se a Fazenda não pode exigir o Fl. 596DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 597 9 recolhimento do tributo antes da realização do bem, não pode também efetuar nenhum lançamento cujo fulcro seja imputar ao contribuinte o descumprimento da obrigação de recolher. E não podendo a Fazenda lançar, não se pode pensar em decurso do prazo decadencial a seu desfavor; assim, o cômputo do prazo decadencial, nos casos de diferimento da tributação do lucro inflacionário, inicia tãosomente com a realização do referido lucro (seja pela realização dos bens e direitos do ativo sujeitos à correção monetária, seja pela aplicação do percentual mínimo legal, seja pela obrigatoriedade de realização integral do saldo a diferir ainda existente), uma vez que somente a partir desse momento poderia o fisco tributar o ganho dele decorrente; ora, se no caso dos presentes autos constatouse, exatamente, a falta de realização do Lucro Inflacionário existente em 31/12/1995 nos anoscalendário de 1996, 1997 e 1998, não há que se falar sequer em início do prazo decadencial e, com menos razão ainda, no seu decurso total; com efeito, sendo o lucro inflacionário um ganho não financeiro cuja tributação pode ser diferida, não há como dar início ao prazo decadencial no período em que foi ele apurado caso tenha a interessada se utilizado dessa faculdade, uma vez que a Fazenda Nacional não poderia constituir o crédito tributário correlativo enquanto a pessoa jurídica estivesse legalmente apta a diferilo; desse modo, apenas na medida em que o referido lucro inflacionário fosse sendo realizado, poderseia ser exercitado o direito de o fisco tributar o ganho dele decorrente, sendo, então, iniciada a contagem do prazo decadencial pertinente ao lançamento de ofício; sendo lançamento de ofício, para fins de contagem de prazo decadencial não se aplica o art. 150, §4°, do CTN e sim, o art. 173, I, que assim dispõe: [...]; como se vê, não há que se falar no prazo previsto no art. 150, §4º do CTN. Ao contrário, sob o amparo do art. 149, V, a Administração poderá exercer o direito de lançar de ofício, enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública na forma do art. 173 do CTN; assim, à medida que o lucro inflacionário fosse sendo realizado e não oferecido à tributação por parte do contribuinte é que a fiscalização poderia exercer o direito de constituir o crédito tributário, sendo, a partir de então, iniciada a contagem do prazo decadencial previsto no art. 173, I do CTN, independentemente, do período base em que o lucro inflacionário tenha sido originado; DO PEDIDO em face do exposto, pugna a Fazenda Nacional para que seja negado conhecimento ao recurso especial interposto pelo contribuinte; caso não seja este o entendimento sufragado, requer que, no mérito, seja negado provimento ao citado recurso. É o relatório. Fl. 597DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 598 10 Fl. 598DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 599 11 Voto Vencido Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator Não há como conhecer do recurso. O presente processo tem por objeto lançamento para a constituição de crédito tributário a título de IRPJ e CSLL sobre fatos geradores ocorridos nos anoscalendário de 1996, 1997 e 1998. A autuação de IRPJ foi motivada pela constatação de duas infrações: falta de realização do saldo de lucro inflacionário acumulado e omissão de receita. O lançamento de CSLL só envolveu a infração relativa à omissão de receita. Extraio do Termo de Verificação Fiscal as informações necessárias para a compreensão das infrações apuradas: Parâmetro 5 — Lucro Inflacionário O parâmetro 5 apontado pelo SAPLI — Demonstrativo do Lucro Inflacionário — se refere a saldo de lucro inflacionário do ano de 1986 que deveria ser realizado no ano de 1996 no mínimo em 10%, conforme Demonstrativo do SAPLI anexo a este termo. O que se verifica através do LALUR apresentado pelo contribuinte é que no ano de 1987 a atualização do saldo do lucro inflacionário não foi feita corretamente. Pelo fator de correção do saldo de 1986 para 1987 aplicado pelo SAPLI, de 4,3769, o valor do saldo do lucro inflacionário seria de Cz$ 64.940.179,00 e o valor apresentado e realizado pelo contribuinte, conforme o LALUR, foi de Cz$ 64.044.372,00. Tal diferença resultou no valor de Cz$ 895.807,00 (Moeda: Cruzado) que atualizado até 1996, resulta em R$ 1.683.082,89. [...] Mensagem 20 — Omissão de Receita O Sistema Malha apontou a omissão de receitas no valor de R$ 2.054.637,10. Tal omissão é verificada em confronto com as DIRF's (Declaração de Imposto de Retido na Fonte) constantes nos sistemas de controle da Receita Federal. [...] Fl. 599DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 600 12 As exigências fiscais foram mantidas na primeira instância administrativa. A decisão de segunda administrativa (acórdão ora recorrido), por sua vez, manteve parcialmente as exigências, fazendo alguns ajustes na base de cálculo, relativamente à compensação de prejuízos fiscais de períodos anteriores. Em sede de recurso especial, a contribuinte suscita divergência em relação à tributação do saldo de lucro inflacionário acumulado. Ela alega que a infração relativa ao lucro inflacionário ocorreu em 1987 e que, sendo assim, o crédito tributário estaria decaído, já que o lançamento somente foi realizado em 19/12/2001. A contribuinte também apresenta outros argumentos adicionais, no sentido de que o lucro inflacionário não pode caracterizar fato gerador do IRPJ, porque não configura acréscimo patrimonial. Essa matéria, entretanto, na forma como foi apresentada não pode ser objeto do recurso especial, porque a contribuinte não alegou divergência no âmbito do CARF, e também não apresentou paradigma em relação a isso. A Câmara Superior não é uma terceira instância, destinada a fazer uma revisão ampla dos argumentos não acolhidos nas fases anteriores, de modo que o objeto do recurso especial consiste apenas na matéria relativa à decadência da tributação do lucro inflacionário, para a qual a contribuinte apresentou paradigmas destinados a demonstrar a existência de divergência jurisprudencial no âmbito do CARF. Com a apresentação de contrarrazões, a PGFN alega que o recurso não pode ser conhecido, porque a decisão recorrida adotou entendimento consolidado por Súmula do CARF, no caso, a Súmula CARF nº 10: Súmula CARF nº 10: O prazo decadencial para constituição do crédito tributário relativo ao lucro inflacionário diferido é contado do período de apuração de sua efetiva realização ou do período em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado, ainda que em percentuais mínimos. A PGFN argumenta que a decisão recorrida adotou o entendimento de que o início da contagem do prazo decadencial sobre o lucro inflacionário deve ser feita a partir do exercício em que deve ser tributada a sua realização e não de sua apuração, e que, por isso, o recurso não pode ser conhecido, conforme art. 67, §3º, do RICARF: Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. [...] § 3º Não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso. De fato, o voto vencedor que orientou o acórdão recorrido afastou a decadência, consignando que "o início da contagem do prazo decadencial sobre o lucro inflacionário deve ser feita a partir do exercício em que deve ser tributada a sua realização e não de sua apuração", na linha do entendimento manifestado pela referida súmula, e isso realmente inviabiliza o conhecimento do recurso especial. Fl. 600DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 601 13 Não deixo de perceber, contudo, que o voto vencido constante do acórdão recorrido procurou empregar a mesma súmula para extrair conclusão oposta, ou seja, de que haveria decadência, enfocando, nesse caso, a segunda parte da súmula: "do período em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado, ... ". Para tanto, esse voto vencido trouxe várias decisões, semelhantes aos paradigmas ora apresentados para a caracterização da divergência jurisprudencial, mas a tese da decadência não prevaleceu no voto vencedor do acórdão recorrido, porque a situação destes autos é distinta daquelas onde a Súmula CARF nº 10 é aplicada para fins de reconhecimento de decadência (segunda parte da súmula). Aliás, esse é um outro problema para a admissibilidade do recurso especial sob exame. É que os paradigmas trataram de situações em que o contribuinte abre mão do direito ao diferimento da tributação (em troca de algum benefício), e opta pela realização integral do lucro inflacionário em um determinado momento (que é antecipado), o que não ocorreu nos presentes autos. Vale destacar que a opção prevista em lei para a realização integral do lucro inflacionário de forma antecipada e incentivada (com algum benefício fiscal, p/ ex., tributação com alíquota reduzida) nada tem a ver com o fato de o contribuinte realizar parcela maior do que ele deveria ter realizado, pensando ainda que estava realizando a totalidade de seu saldo, conforme seus controles internos, que foi o que ocorreu nos presentes autos. Nesse caso, a parcela não realizada (em razão de algum erro no controle dos saldos acumulados) continua diferida, porque não havia nada que obrigasse o contribuinte a realizála em determinado momento, de forma antecipada. Essa obrigação não surge pelo simples fato de o contribuinte pensar equivocadamente que está realizando integralmente os saldos acumulados, mormente quando ele, mesmo incorrendo em erro, realiza uma parcela maior do que aquela que estava obrigado a realizar. Ou seja, se o contribuinte não estava obrigado a realizar antecipadamente o lucro inflacionário (porque não se obrigou a isso para desfrutar de algum benefício), e se ele realizou o mínimo a que estava obrigado no período, não há que se falar em perda do direito ao diferimento dessa tributação (para o contribuinte), e nem em início de contagem do prazo decadencial (para o Fisco). Não é difícil perceber a relação entre esses dois eventos. A contagem da decadência só é iniciada porque o contribuinte perde o direito de diferir a tributação dos saldos de lucro inflacionário (e isso não ocorreu no presente caso). Nesse passo, é importante observar que o primeiro paradigma trata de situação em que o contribuinte fez opção pela tributação de todo o saldo existente de lucro inflacionário em 31/12/1992, com a alíquota reduzida de 5%, aproveitando o benefício instituído pelo art. 31 da Lei 8.541/1992. O voto que orientou o referido acórdão explicita bem as razões pelas quais a decadência foi reconhecida naquele caso: [...] Com o devido respeito, a 1ª Turma Ordinária da 4ª Câmara deixou de aplicar a Súmula CARF nº 10, que enuncia: Fl. 601DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 602 14 [...] Nos termos do entendimento sumulado, é irrelevante, para fins de contagem do prazo decadencial, o período em que o lucro inflacionário foi diferido, sendo relevante apenas o período em foi realizado ou em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado. A tributação favorecida veiculada pela Lei nº 8.451/92 não admite a realização parcial, devendo obrigatoriamente ser recolhido o tributo sobre o saldo total. No caso concreto, o período de realização do saldo integral do lucro inflacionário, por força de opção legal exercida pelo contribuinte, foi o anocalendário de 1993. Se o recolhimento se deu por valor inferior, eventuais diferenças só podem ser exigidas pela Fazenda Nacional enquanto não alcançada pela decadência. Nos termos do que enuncia a Súmula CARF nº 10, o prazo decadencial é contado do período em que, por força da opção legal exercida pelo Recorrente, o lucro inflacionário deveria ter sido realizado na sua integralidade, no caso concreto, o anocalendário de 1993. Por conseguinte, em 27 de dezembro de 2002, quando aperfeiçoado o lançamento pela ciência do sujeito passivo, encontravase o crédito extinto pela decadência. (grifos do original) Por sua vez, o segundo paradigma trata de situação semelhante à do primeiro, abordando caso de "realização integral do lucro inflacionário, inequivocamente manifestada na Declaração de Rendimentos" apresentada em 29/05/1991. Essa decisão, invocando precedentes idênticos ao primeiro paradigma, entendeu que estavam decaídas as parcelas que obrigatoriamente deveriam ter sido realizadas em 29/05/1991, e que não estavam decaídas as parcelas que não estavam incluídas entre as que deveriam ter sido realizadas obrigatoriamente em 29/05/1991. Aliás, o segundo paradigma manifesta expressamente o entendimento de que um erro cometido pelo contribuinte no controle dos saldos acumulados (mesma situação que ocorreu nos presentes autos) não pode sustentar a alegação de decadência: [...] As omissões de correção monetária se deram nos anos de 1981 e 1990 mas o descompasso só foi constatado em ação fiscal (malha fazenda) levada a efeito no ano de 2000, referida ao anocalendário de 1995. É sobejamente sabido que a correção monetária tem por função a mera recomposição de valores históricos. Assim, o saldo nominal apresentado pela empresa, no ano de 1995 deveria representar os mesmos valores diferidos e ainda não tributados no passado. Argumentar que o "erro" (a não correção) se deu nos anos de 1980 e 1990 e que o fisco deveria ter agido nos cinco anos subseqüentes para não perder seu direito é um exercício de puro sofisma. Como visto, o fisco só pode agir quando constatada realização em valores menores que os legalmente exigidos, exatamente para exigir as diferenças. Fl. 602DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 603 15 São casos em que a discussão, que à primeira vista aparenta estar relacionada a prazo decadencial, na realidade, vinculase a uma questão temporal originária de fatos que nascem ou se formam em um exercício e repercutem em vários exercícios subseqüentes. Por isso, entendo não ser sustentável o argumento de decadência nas hipóteses de omissão de correção monetária, por erro na aplicação do índice em 1981 e por falta da correção do saldo de lucro inflacionário a realizar em 31.12.89. (grifos acrescidos) E nesse aspecto o segundo paradigma é, inclusive, convergente com o acórdão recorrido, na parte em que este entende que não poderia contar a decadência a partir de 1987, quando a contribuinte aplicou o índice errado para a correção dos saldos de lucro inflacionário. O reconhecimento da decadência pelo segundo paradigma (e apenas para parte dos valores) só ocorreu porque em um determinado momento o contribuinte abriu mão do direito ao diferimento da tributação, aderindo a um regime tributário mais benéfico que impunha a realização integral do lucro inflacionário (realização antecipada obrigatória), situação que não se verifica no caso dos presentes autos. Vale reproduzir a sequência do voto que orientou o segundo paradigma: Entretanto, na Declaração de Rendimentos do anobase de 1990, exercício de 1991, antes da correção monetária complementar relativa à diferença entre o IPC e o BTNF determinada pela Lei n° 8.200, de 28.06.91, a empresa, mediante registro na Linha 11 do Quadro 06 do Anexo 2, levou, claramente, ao conhecimento da administração tributária que estava realizando integralmente (100%) o seu lucro inflacionário acumulado. Eis ai o termo inicial do prazo decadencial para que o fisco exigisse eventuais insuficiências na realização do saldo até aquela data, inclusive de correção monetária. Com efeito, naquele outro caso, o contribuinte informou em sua declaração de rendimentos referente ao anobase de 1990 que estava realizando integralmente o saldo de lucro inflacionário acumulado até então, antes mesmo de proceder à correção complementar IPC/BTNF determinada pela Lei 8.200/1991. Ou seja, o contribuinte abriu mão do diferimento da tributação, em troca de não ter que fazer a correção complementar IPC/BTNF para essa parcela dos saldos de lucro inflacionário. Com isso, a realização dessa parcela dos saldos de lucro inflacionário se tornou obrigatória, o que possibilitou o início da contagem da decadência. Ou ainda, o segundo paradigma trata de várias "rubricas" de lucro inflacionário. São vários pedaços de lucro inflacionário que vão compor no final o saldo que a fiscalização pretendeu tributar naquele processo. Mas a parte que nos interessa é a parcela referente a uma diferença apurada em relação a 1981. Fl. 603DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 604 16 Quando o legislador instituiu a correção complementar IPC/BTNF para 1990, ele consignou que as parcelas que não tivessem sido realizadas até 31/12/1990, deveriam sofrer essa correção complementar. Assim, se o contribuinte realizasse todo o saldo gerado e acumulado até 31/12/1990, não precisaria fazer essa correção complementar. Foi por isso que na DIRPJ do anobase de 1990, apresentada em 1991, constava um campo específico para o contribuinte informar que estava realizando integralmente o saldo de lucro inflacionário, antes mesmo de fazer a correção complementar IPC/BTNF. Foi isso o que ocorreu no caso do segundo paradigma. O contribuinte informou na DIRPJ que estava realizando integramente o saldo de lucro inflacionário, antes mesmo de proceder a correção complementar. Então, em relação à diferença apurada no ano de 1981, o segundo paradigma inicialmente esclarece que não contaria a decadência a partir de 1981 (e nessa parte que ele é convergente com o recorrido). Mas depois ele menciona que quando o contribuinte realiza integralmente esse saldo de 1981 em 29/05/1991 (data da entrega da DIRPJ) (o correto seria dizer 31/12/1990), teria que contar a decadência a partir daí. Ou seja, como o contribuinte informou na DIRPJ que estava realizando integralmente o saldo acumulado até então (31/12/1990), antes mesmo de fazer a correção complementar IPC/BTNF 1990 (e esse era o benefício auferido pelo contribuinte), as diferenças relacionadas a essa parcela passaram a ser exigidas a partir daí. Por isso, foi reconhecida a decadência em relação a essa parcela. O contribuinte abre mão do diferimento da tributação, e faz a realização integral dos saldos de LI em 31/12/1990, antes de fazer a correção monetária complementar IPC/BTNF sobre esses saldos. Ele troca o diferimento pela dispensa de fazer a correção complementar (benefício que consta no art. 40 do Decreto nº 332, de 91), e com isso se obriga a realizar integralmente (antecipadamente) aqueles saldos. A lógica é exatamente a mesma da realização antecipada/incentivada com base na posterior Lei 8.541/1992, mas o segundo paradigma não deixa isso muito explícito, embora aponte o tempo todo para isso. A seguinte decisão é bastante instrutiva: DELEGACIA DA RECEITA FEDERAL DE JULGAMENTO EM JUIZ DE FORA 1 º TURMA ACÓRDÃO Nº 0912482 de 14 de Fevereiro de 2006 ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ EMENTA: LUCRO INFLACIONÁRIO. DIFERENÇA IPC/BTNF. REALIZAÇÃO INTEGRAL DO SALDO EM 1990. À luz do art. 40 do Decreto nº 332/91, só cabe a apuração de diferença de correção monetária – IPC/BTNF sobre os valores registrados no Lalur desde o balanço de 1989, que constituirão adição, exclusão ou compensação a partir do períodobase de 1991. Havendo realização integral do saldo do lucro inflacionário acumulado existente em 31 de dezembro de 1989, na declaração do anobase de 1990, não procede o ajuste fiscal. Anocalendário: : 01/01/1998 a 31/12/1998 Fl. 604DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 605 17 O segundo paradigma ainda reconheceu a decadência para uma outra parcela de lucro inflacionário, que foi apurada após a Fiscalização lançar mão dos documentos contábeis e fiscais da empresa relativos ao ano de 1990 para refazer de ofício (em 2000) toda a apuração da correção monetária em relação àquele período de 1990. E é bastante evidente que essa situação não guarda nenhuma semelhante com a tratada pelo acórdão recorrido, onde o que esteve em questão foi apenas um erro na correção de valores (saldos de lucro inflacionário) apurados pela própria contribuinte. A parte inicial deste voto esclarece bem os contornos da questão sobre o lucro inflacionário no presente processo. Em 1987, a contribuinte não atualizou corretamente o saldo de lucro inflacionário por ela mesma apurado, e essa diferença, ao longo do tempo, acabou resultando num saldo ainda a realizar. Assim, não há paralelo entre o acórdão recorrido e os paradigmas, que permita a caracterização de divergência a ser sanada mediante processamento de recurso especial. As situações distintas justificam as diferentes decisões. E na parte em que o recorrido é semelhante ao segundo paradigma, as decisões são, inclusive, convergentes. Acaso vencedor, proponho a seguinte ementa: RECURSO ESPECIAL. REQUISITOS DE ADMISSIBILIDADE. 1 Não cabe recurso especial de decisão de qualquer das turmas que adote entendimento de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da CSRF ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso (RICARF, art. 67, §3º). Súmula CARF nº 10: O prazo decadencial para constituição do crédito tributário relativo ao lucro inflacionário diferido é contado do período de apuração de sua efetiva realização ou do período em que, em face da legislação, deveria ter sido realizado, ainda que em percentuais mínimos. O voto vencedor que orientou o acórdão recorrido afastou a decadência, consignando que "o início da contagem do prazo decadencial sobre o lucro inflacionário deve ser feita a partir do exercício em que deve ser tributada a sua realização e não de sua apuração", na linha do entendimento manifestado pela Súmula CARF nº 10, e isso inviabiliza o conhecimento do recurso especial. 2 A falta de comprovação de divergência também inviabiliza o processamento do recurso especial. Os paradigmas trataram de situações em que o contribuinte abre mão do direito ao diferimento da tributação (em troca de algum benefício), e opta pela realização integral do lucro inflacionário em um determinado momento (que é antecipado), o que não ocorreu nos presentes autos. A opção prevista em lei para a realização integral do lucro inflacionário de forma antecipada e incentivada (com algum benefício) nada tem a ver com o fato de o contribuinte realizar parcela maior do que ele deveria ter realizado, pensando ainda que estava realizando a totalidade de seu saldo, conforme seus controles internos, que foi o que ocorreu nos presentes autos. Não há paralelo entre o acórdão recorrido e os paradigmas, que permita a caracterização de divergência a ser sanada mediante Fl. 605DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 606 18 processamento de recurso especial. As situações distintas justificam as diferentes decisões. Desse modo, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso especial da contribuinte. Por restar vencido na preliminar de não conhecimento, passo a tratar do mérito do recurso. Como mencionado anteriormente, o objeto do recurso especial sob exame consiste apenas na matéria relativa à decadência da tributação do lucro inflacionário, para a qual a contribuinte apresentou paradigmas destinados a demonstrar a existência de divergência jurisprudencial no âmbito do CARF. Os outros argumentos adicionais apresentados pela contribuinte, no sentido de que o lucro inflacionário não pode caracterizar fato gerador do IRPJ, porque não configura acréscimo patrimonial, na forma como foram apresentados, não podem ser objeto do recurso especial, porque a contribuinte não alegou divergência no âmbito do CARF, e também não apresentou paradigmas sobre isso. A Câmara Superior realmente não é uma terceira instância, destinada a fazer uma revisão ampla dos argumentos não acolhidos nas fases anteriores. Quanto ao mérito da questão da decadência, cabe retomar as mesmas considerações feitas no exame da preliminar, quando se cotejou o recorrido com os paradigmas. Está bastante claro que a contribuinte reivindica para o presente processo o mesmo tipo de decisão proferida nos acórdãos paradigmas, mas as situações são distintas. O reconhecimento da decadência nos paradigmas ocorreu porque em um determinado momento os contribuintes abriram mão do direito ao diferimento da tributação, aderindo a um regime tributário mais benéfico que impunha a realização integral do lucro inflacionário (realização antecipada obrigatória), situação que não se verifica no caso dos presentes autos. Vale destacar novamente que a opção prevista em lei para a realização integral do lucro inflacionário de forma antecipada e incentivada (com alíquota reduzida) nada tem a ver com o fato de o contribuinte realizar parcela maior do que ele deveria ter realizado, pensando ainda que estava realizando a totalidade de seu saldo, conforme seus controles internos, que foi o que ocorreu nos presentes autos. Nesse caso, a parcela não realizada (em razão de algum erro no controle dos saldos acumulados) continua diferida, porque não havia nada que obrigasse o contribuinte a realizála em determinado momento, de forma antecipada. Essa obrigação não surge pelo simples fato de o contribuinte pensar equivocadamente que está realizando integralmente os saldos acumulados, mormente quando ele, mesmo incorrendo em erro, realiza uma parcela maior do que aquela que estava obrigado a realizar. Ou seja, se o contribuinte não estava obrigado a realizar antecipadamente o lucro inflacionário (porque não se obrigou a isso para desfrutar de algum benefício), e se ele Fl. 606DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 607 19 realizou o mínimo a que estava obrigado no período, não há que se falar em perda do direito ao diferimento da tributação da parcela ainda não realizada (para o contribuinte), e nem em início de contagem do prazo decadencial (para o Fisco). Não é difícil perceber a relação entre esses dois eventos. A contagem da decadência só é iniciada porque o contribuinte perde o direito de diferir a tributação dos saldos de lucro inflacionário (e isso não ocorreu no presente caso). A parte inicial deste voto esclarece bem o contexto dos fatos. Em 1987, a contribuinte não atualizou corretamente o saldo de lucro inflacionário, e essa diferença, ao longo do tempo, acabou resultando num saldo ainda a realizar. Em nenhum momento, ao longo do tempo, a contribuinte perdeu o direito ao diferimento da tributação do lucro inflacionário. Embora ela tenha realizado em 1987 uma parcela maior do que estava obrigada a realizar, a parcela não realizada (em razão do erro no controle dos saldos) continuou diferida, porque não havia nada que obrigasse a contribuinte a realizála em determinado momento, de forma antecipada. Se a contribuinte não optou por nenhum regime de tributação acelerada/ incentivada, se não havia nada que a obrigasse a realizar antecipadamente (em determinado período) os seus saldos de lucro inflacionário, se a contribuinte permaneceu com o direito de diferir a tributação do lucro inflacionário para as parcelas ainda não realizadas, não há como defender que a contagem da decadência deva ser antecipada, deva ser iniciada em 1987. O caso aqui é de simples aplicação da súmula CARF nº 10. A decadência deve ser contada a partir do período de realização do lucro inflacionário, e não de sua apuração. Acaso vencedor, proponho a seguinte ementa: DECADÊNCIA. LUCRO INFLACIONÁRIO. REALIZAÇÃO. A situação dos presentes autos não é aquela em que o contribuinte abre mão do direito ao diferimento da tributação (em troca de algum benefício), e opta pela realização integral do lucro inflacionário em um determinado momento (que é antecipado). A opção prevista em lei para a realização integral do lucro inflacionário de forma antecipada e incentivada (com algum benefício) nada tem a ver com o fato de o contribuinte realizar parcela maior do que ele deveria ter realizado em um determinado período, pensando ainda que estava realizando a totalidade de seu saldo, conforme seus controles internos, que foi o que ocorreu nos presentes autos. Se a contribuinte não optou por nenhum regime de tributação acelerada/incentivada, se não havia nada que a obrigasse a realizar antecipadamente (em determinado período) os seus saldos de lucro inflacionário, a tributação da parcela ainda não realizada continuou diferida no tempo. Se a contribuinte permaneceu com o direito de diferir a tributação do lucro inflacionário, não há como defender a antecipação da contagem da decadência. O caso aqui é de simples aplicação da súmula CARF nº 10. A decadência deve ser Fl. 607DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 608 20 contada a partir do período de realização do lucro inflacionário, e não de sua apuração. Diante disso, voto no sentido de NEGAR provimento ao recurso especial da contribuinte. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 608DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 609 21 Voto Vencedor Conselheiro Flávio Franco Corrêa, Redator Designado. De início, a questão relacionada ao conhecimento do Recurso Especial. Segundo o voto condutor do acórdão paradigma, diante da insuficiência do pagamento dos tributos incidentes sobre o saldo integral do lucro inflacionário, remanesceria uma diferença que teria sido diferida pelo contribuinte. Sendo assim, a contagem do prazo decadencial deveria ser iniciada a partir do momento em que exigível a realização de tal diferença. Conforme assentado no despacho de admissibilidade, "a circunstância de tratarse de tentativa de realização integral do lucro inflacionário somente é mencionada no relatório e no voto vencido. Ao que se pode depreender, tal circunstância não foi relevante para a posição vencedora, mas tão somente a existência de uma diferença não quitada cuja realização foi tida por diferida." Coerente com esse ponto de vista, o voto condutor do acórdão paradigma proclamou que "a exigência feita em 2001, referida a 19961998, deve levar em conta o saldo líquido das diferenças não exigidas a tempo, como fez o lançamento." Vale dizer que o ano calendário de origem (1987) da diferença do lucro inflacionário não teve a menor importância, para o voto condutor, e sim o anocalendário de referência (19961998), isto é, aquele em que a diferença do lucro inflacionário foi constatada não realizada, dentro do SAPLI. Por outro lado, no acórdão paradigma nº 9101002.001, afirmouse que eventuais diferenças só podem ser exigidas pela Fazenda Nacional enquanto não alcançada pela decadência, em face da apuração e do recolhimento a menor do IRPJ e da CSLL sobre o lucro inflacionário. De acordo com tal raciocínio e tendo em conta que a opção pela tributação do saldo integral do lucro inflacionário fora efetuada no anocalendário de 1993, o voto condutor deste acórdão, alinhandose com a Súmula 10 do CARF, manifestou que o prazo decadencial para o lançamento tributário calculado sobre eventuais diferenças deve ser contado desde a opção pela tributação do saldo integral, no caso, o anocalendário de 1993. Já no acórdão paradigma nº 10707.934, a autoridade julgadora considerou que "a empresa, mediante registro na Linha 11 do Quadro 06 do Anexo 2, levou, claramente, ao conhecimento da administração tributária que estava realizando integralmente (100%) o seu lucro inflacionário acumulado." Nesses termos, assegurouse que esse momento constitui "o termo inicial do prazo decadencial para que o fisco exigisse eventuais insuficiências na realização do saldo até aquela data, inclusive de correção monetária." Por conseguinte, atestase a demonstração de dissídio interpretativo, tanto pelo primeiro como pelo segundo paradigma. Uma vez observados os requisitos de recorribilidade, devese conhecer do Recurso Especial interposto pelo contribuinte. No mérito, cabe assinalar que as fichas do SAPLI, às fls. 21/24, não expõem o cálculo das parcelas de realização obrigatória do lucro inflacionário cujos lançamentos decaíram, por inércia do Fisco, após o quinquênio legal. Por exemplo, do saldo de lucro inflacionário a realizar, de CZ$ 8.206.129,00, acumulado em 31/12/1988, o mínimo de 10% Fl. 609DF CARF MF Processo nº 16327.002828/200149 Acórdão n.º 9101003.276 CSRFT1 Fl. 610 22 deveria ser realizado, na forma do artigo 23 do Decretolei nº 2.341/1987, com a redação dada pelo Decretolei nº 2.429/1988. O prazo decadencial para a tributação dessa parcela de realização obrigatória proveniente do anocalendário de 1988 decaiu ao final do ano de 1993, caso se aplique a regra do artigo 150, § 4º, do CTN, ou ao final de 1994, caso se aplique a regra do artigo 173, inciso I, do CTN. Seja como for, essa parcela de 10% atingida pela decadência deve ser excluída do saldo do lucro inflacionário a realizar, acumulado em 31/12/1988. Segue daí que a parte remanescente de 90% deve ser atualizada até 31/12/1989. Acontece que o montante atualizado do lucro inflacionário a realizar, acumulado em 31/12/1989, também estava sujeito à realização mínima obrigatória, agora no percentual de 5%, conforme artigo 23 da Lei nº 7.799/1989. A exemplo do que fora descrito para o anocalendário anterior, a tributação do percentual mínimo de 5% também é suscetível às influências da decadência, motivo por que se impõe sua exclusão do saldo do lucro inflacionário a realizar, acumulado em 31/12/1989. E assim sucessivamente, em cada um dos períodos de apuração subsequentes. Obviamente, tal raciocínio implica redução do saldo do lucro inflacionário a realizar acumulado em 31//12/1996, porquanto deveriam ter sido excluídas todas as parcelas de realização obrigatória correspondentes ao lapso temporal entre os anoscalendário de 1987 e 1994. Isso porque, como é cediço, o contribuinte tomou ciência dos lançamentos de ofício no dia 19/12/2001. Nessa situação, o prazo decadencial relativo a fatos geradores ocorridos em 31/12/1994 encerrouse em 01/01/2001, caso se aplique ao caso concreto a regra do artigo 173, inciso I, do CTN. Mas se for o caso de se aplicar à espécie a previsão normativa do artigo 150, § 4º, do CTN, deveriam ter sido excluídas todas as parcelas de realização obrigatória correspondentes ao lapso temporal entre os anoscalendário de 1987 e 1995. Tal entendimento é coerente com o voto condutor do acórdão recorrido, quando este pronuncia que é favorável ao expurgo do saldo do lucro inflacionário a realizar de valores que deveriam ter sido adicionados ao resultado tributável há mais de cinco anos e não o foram. Se este expurgo não foi efetuado, o IRPJ e a CSLL calculados sobre o lucro inflacionário estão incorretos, porque apurados sob a influência de parcelas do lucro inflacionário já atingidas pela decadência. Em face do exposto, conheço do Recurso Especial do contribuinte para dar lhe provimento. É como voto. (assinado digitalmente) Flávio Franco Corrêa Fl. 610DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10835.001699/2009-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2003
SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO
À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas.
Numero da decisão: 1401-002.212
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Ausente momentaneamente a Conselheira Lívia De Carli Germano.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Ausente momentaneamente a Conselheira Lívia De Carli Germano. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 00 16 99 /2 00 9- 11 Fl. 240DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 2 Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP apresentado pela empresa no qual solicita a compensação de pretensos créditos relativos a pagamento a maior de IRPJ/CSLL. A origem dos créditos, consoante informado pelo recorrente desde sua impugnação, baseiamse no entendimento que, sendo empresa prestadora de serviços de radiologia, estes seriam equivalentes aos serviços hospitalares prestados e, assim, ao invés de estar sujeito às alíquotas de lucro presumido no percentual de 32%, estaria submetida às alíquotas de 8% para o IRPJ e 12% para a CSLL. A compensação não foi homologada pela Delegacia de Origem com base na alegação constante no Despacho Decisório. Ou seja, os serviços prestados pela recorrente não seriam caracterizados como serviços hospitalares em função de a empresa não possuir estrutura permanente e de funcionamento ininterrupto para atendimento de casos de internação de pacientes para tratamento de saúde. Assim, os serviços por ela prestados não poderiam se submeter aos percentuais estabelecidos para os serviços hospitalares. Inconformada com a nãohomologação das compensações a empresa apresentou manifestação de inconformidade na qual argumenta que realizou consulta à SRRF, formulada sob o nº 10835.001313/200610, com vistas a esclarecer o seu enquadramento como prestadora de serviços hospitalares e argumentou que realizou a retificação de suas DIPJ, DCTF para que pudesse usufruir dos créditos. A delegacia de julgamento considerou improcedente a manifestação de inconformidade emitindo a seguinte decisão: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2003 DCOMP. CRÉDITO. INDEFERIMENTO. Pendente, nos autos, a comprovação do crédito indicado na declaração de compensação formalizada, impõese o seu indeferimento. DIREITO CREDITÓRIO. ÔNUS DA PROVA. Incumbe ao sujeito passivo a demonstração, acompanhada das provas hábeis, da composição e a existência do crédito que alega possuir junto à Fazenda Nacional para que sejam aferidas sua liquidez e certeza pela autoridade administrativa. COMPENSAÇÃO TRIBUTARIA. Apenas os créditos líquidos e certos são passíveis de compensação tributária, conforme artigo 170 do Código Tributário Nacional. Ou seja, a Delegacia de Julgamento entendeu que os créditos da empresa não estariam devidamente comprovados com a documentação apresentada pela recorrente. Inconformada com a decisão a empresa apresentou recurso voluntário no qual apresenta as seguintes alegações: Da apresentação de novos documentos. Alega que a decisão recorrida considerou que não foi comprovado que os serviços prestados referiamse apenas a serviços de Fl. 241DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 3 radiologia e radiodiagnóstico inseridos em seu objeto social. Mas que a documentação apresentada comprovaria o exercício destas atividades e, ainda, apresenta cópia do razão e declaração do contador da empresa, pelo que suscita que seja aceita a referida documentação como suficiente para caracterização dos serviços da empresa; Da realização de diligência. Entende que tendo em vista a apresentação dos novos documentos e que essa apresentação é possível em sede de recurso voluntário, haja vista que essa alegação somente foi trazida pela decisão da DRJ e, mais ainda, conforme farta jurisprudência que admite esta apresentação posterior. Do ônus da apresentação de prova impossível. Entende a empresa que a Delegacia de Julgamento pretende a formação de prova impossível visto que, mesmo que apresentasse todas as notas fiscais da empresa ainda assim não seria possível comprovar que somente realizou serviços indicados no seu objeto social. Nulidade por vícios formais. Entende que a decisão que considerou não homologadas as compensações padece de vícios, vez que indicou apenas o dispositivos que tratam da não homologação das compensações sem que exista dispositivo legal que constitua o crédito tributário. Do fato de a empresa não ser sociedade empresária e dos serviços realizados. Neste ponto apresenta farta jurisprudência deste CARF e do STJ, nos quais encontrase o entendimento de que a redução de alíquota decorre da efetiva prestação de serviços de natureza hospitalar e não do local em que se realizam, com exceção da realização de consultas. Com relação à natureza da sociedade entende que a decisão do STJ, relativa a sociedade simples e que este fato não foi impeditivo do direito, visto que a base para a sua concessão foi a natureza objetiva dos serviços realizados. Traz colações da doutrina no sentido de que a empresa se define mais pela verificação das atividades que desenvolve do que pelo seu simples registro formal. Assim eventual irregularidade seria apenas formal e não impeditiva do exercício do direito. Da natureza dos serviços prestados. Repisa os argumentos já trazidos para indicar que os serviços prestados pela sociedade são, efetivamente de radiologia e radiodiagnóstico. É o Relatório Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.211, de 22.02.2018, proferido no julgamento do processo nº 10835.901959/200941, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.211): A análise do presente processo prendese, em síntese, à verificação acerca de, em face de solução de consulta que reconheceu a possibilidade de a empresa tributar seus lucros pelas alíquotas equivalentes a 8%, poder a Receita Federal desconsiderar este direito em razão de alegar a não Fl. 242DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 4 comprovação da inscrição da empresa como sociedade empresária e do exercício de atividades que possam ser consideradas como hospitalares. Vejamos o que determina a norma relativa à aplicação das alíquotas de serviços hospitalares: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: ..... III trinta e dois por cento, para as atividades de: (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) ..... Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 205) Base de cálculo da CSLL Estimativa e Presumido Art. 20. A base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral a que se referem os arts. 2º, 25 e 27 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual Fl. 243DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 5 corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Pelo que se depreende da norma acima, a redação da norma ao tempo dos fatos geradores dos pagamentos a maior realizados apenas estabelecia a aplicação da alíquota reduzida àqueles que realizassem o exercício de serviços hospitalares. A solução de consulta em que se baseou a empresa para a apuração dos seus créditos assim dispôs sobre os requisitos a serem atendidos para fins de fruição dos benefícios da alíquota reduzida. Em contraparida, verificase a existência de Recurso Repetitivo nº 217, do STJ que, tratando do assunto, assim dispôs sobre os serviços hospitalares sujeitos à alíquota reduzida do lucro presumido. Fl. 244DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 6 Vejase que o critério apresentado pelo STJ, seguindo o critério da Lei nº 9.249/95, é simples e objetivo. São enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde independentemente do local de prestação, excluindose, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar. Inobstante, a Delegacia de Julgamento, ao analisar o caso do contribuinte baseou sua decisão nas diversas instruções normativas e atosdeclaratórios existentes a respeito da definição de serviços hospitalares para fins de aplicação da alíquota de presunção. Desta forma, fundamentou a improcedência na necessidade de o contribuinte atender a três requisitos, conforme abaixo apresentados: Ocorre, no entanto que não comungo do entendimento exposado pelo referido órgão julgador. A decisão proferida pelo STJ, aplicável ao caso dos autos, trata a norma redutora da alíquota de forma objetiva. Assim, o serviço que tenha natureza hospitalar, qual seja, diagnóstico, tratamento, internação, quer seja desenvolvido nos hospitais ou fora deles, com exceção apenas das simples consultas, devem ser considerados serviços hospitalares e, assim, estão sujeitos à alíquota reduzida estabelecida pela Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Comungam deste entendimento os seguintes julgados, inclusive desta mesma câmara em época anterior à entrada deste relator no colegiado. Acórdão nº 1401001.434 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrente Instituto Guaçuano de Orrino laringologia S/S Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2006 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO Fl. 245DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 7 À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas. Acórdão nº 1401001.433 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrentes Hemoclínica Serviços de Hemoterapia Ltda Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2006, 2007, 2008, 2009 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas, como hemoclínicas. Acórdão nº 9101001.559 – 1ª Turma Sessão de 23 de janeiro de 2013 Matéria IRPJ Exercícios 1999 a 2001 Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CAMP IMAGEM NUCLEAR S/C LTDA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1998, 1999, 2000 SERVIÇOS HOSPITALARES. SERVIÇOS DE DIAGNÓSTICOS POR IMAGEM MEDICINA NUCLEAR. LUCRO PRESUMIDO. DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COEFICIENTE DE 8%. No julgamento do Recurso Especial nº 1.116.399/BA (2009/00064810), na sistemática dos recursos especiais repetitivos, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei nº 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Do exposto, comungando do entendimento exposado pelo STJ no sentido de que a redução de alíquota tem caráter objetivo em razão do tipo de serviços prestados pela empresa. No caso dos autos, inobstante a argumentação da Decisão atacada de que não restou comprovado a prestação de serviços relacionados a hospitalares pelo contribuinte, havemos de esclarecer que a Fl. 246DF CARF MF Processo nº 10835.001699/200911 Acórdão n.º 1401002.212 S1C4T1 Fl. 0 8 Decisão da DRJ não pode inovar nos fundamentos utilizados pela Delegacia de Origem para o não reconhecimento dos créditos. Vejase que na decisão original o não reconhecimento dos créditos deveuse ao fato de a autoridade administrativa entender que a recorrente não possuía estrutura hospitalar para internação e tratamento e não pelo fato de não ter comprovado as atividades, até mesmo porque sequer foi intimada para tanto. Mais ainda, a decisão emitida na solução de consulta, corroborada pela Decisão da Delegacia de Julgamento corroborou o entendimento de que o requisito de estrutura estaria suprido pela apresentação de laudo da vigilância sanitária da jurisdição da recorrente. Assim, verificandose que o contribuinte, exercer atividades exclusivamente de radiologia e diagnóstico por imagem, atividades essas que estão incluídas no conceito de serviços de atendimento à saúde, voto no sentido de dar provimento ao recurso para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, dou provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 247DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10835.901959/2009-41
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Apr 02 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2000
SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO
À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas.
Numero da decisão: 1401-002.211
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Abel Nunes de Oliveira Neto- Relator.
Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: ABEL NUNES DE OLIVEIRA NETO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2000 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão serviços hospitalares para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente. (assinado digitalmente) Abel Nunes de Oliveira Neto- Relator. Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
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Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos dar provimento ao recurso voluntário para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Abel Nunes de Oliveira Neto Relator. Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Augusto de Souza Goncalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 5. 90 19 59 /2 00 9- 41 Fl. 177DF CARF MF 2 Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Daniel Ribeiro Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP apresentado pela empresa no qual solicita a compensação de pretensos créditos relativos a pagamento a maior de IRPJ/CSLL. A origem dos créditos, consoante informado pelo recorrente desde sua impugnação, baseiamse no entendimento que, sendo empresa prestadora de serviços de radiologia, estes seriam equivalentes aos serviços hospitalares prestados e, assim, ao invés de estar sujeito às alíquotas de lucro presumido no percentual de 32%, estaria submetida às alíquotas de 8% para o IRPJ e 12% para a CSLL. A compensação não foi homologada pela Delegacia de Origem com base na seguinte alegação: Ou seja, os serviços prestados pela recorrente não seriam caracterizados como serviços hospitalares em função de a empresa não possuir estrutura permanente e de funcionamento ininterrupto para atendimento de casos de internação de pacientes para tratamento de saúde. Assim, os serviços por ela prestados não poderiam se submeter aos percentuais estabelecidos para os serviços hospitalares. Inconformada com a nãohomologação das compensações a empresa apresentou manifestação de inconformidade na qual argumenta que realizou consulta à SRRF, formulada sob o nº 10835.001313/200610, com vistas a esclarecer o seu enquadramento como prestadora de serviços hospitalares e argumentou que realizou a retificação de suas DIPJ, DCTF para que pudesse usufruir dos créditos. A delegacia de julgamento considerou improcedente a manifestação de inconformidade emitindo a seguinte decisão: Fl. 178DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 178 3 Ou seja, a Delegacia de Julgamento entendeu que os créditos da empresa não estariam devidamente comprovados com a documentação apresentada pela recorrente. Inconformada com a decisão a empresa apresentou recurso voluntário no qual apresenta as seguintes alegações: Da apresentação de novos documentos. Alega que a decisão recorrida considerou que não foi comprovado que os serviços prestados referiamse apenas a serviços de radiologia e radiodiagnóstico inseridos em seu objeto social. Mas que a documentação apresentada comprovaria o exercício destas atividades e, ainda, apresenta cópia do razão e declaração do contador da empresa, pelo que suscita que seja aceita a referida documentação como suficiente para caracterização dos serviços da empresa; Da realização de diligência. Entende que tendo em vista a apresentação dos novos documentos e que essa apresentação é possível em sede de recurso voluntário, haja vista que essa alegação somente foi trazida pela decisão da DRJ e, mais ainda, conforme farta jurisprudência que admite esta apresentação posterior. Do ônus da apresentação de prova impossível. Entende a empresa que a Delegacia de Julgamento pretende a formação de prova impossível visto que, mesmo que apresentasse todas as notas fiscais da empresa ainda assim não seria possível comprovar que somente realizou serviços indicados no seu objeto social. Nulidade por vícios formais. Entende que a decisão que considerou não homologadas as compensações padece de vícios, vez que indicou apenas o dispositivos que tratam da não homologação das compensações sem que exista dispositivo legal que constitua o crédito tributário. Do fato de a empresa não ser sociedade empresária e dos serviços realizados. Neste ponto apresenta farta jurisprudência deste CARF e do STJ, nos quais encontrase o entendimento de que a redução de alíquota decorre da efetiva prestação de serviços de natureza hospitalar e não do local em que se realizam, com exceção da realização de consultas. Com relação à natureza da sociedade entende que a decisão do STJ, relativa a Fl. 179DF CARF MF 4 sociedade simples e que este fato não foi impeditivo do direito, visto que a base para a sua concessão foi a natureza objetiva dos serviços realizados. Traz colações da doutrina no sentido de que a empresa se define mais pela verificação das atividades que desenvolve do que pelo seu simples registro formal. Assim eventual irregularidade seria apenas formal e não impeditiva do exercício do direito. Da natureza dos serviços prestados. Repisa os argumentos já trazidos para indicar que os serviços prestados pela sociedade são, efetivamente de radiologia e radiodiagnóstico. Voto Conselheiro Abel Nunes de Oliveira Neto Relator A análise do presente processo prendese, em síntese, à verificação acerca de, em face de solução de consulta que reconheceu a possibilidade de a empresa tributar seus lucros pelas alíquotas equivalentes a 8%, poder a Receita Federal desconsiderar este direito em razão de alegar a não comprovação da inscrição da empresa como sociedade empresária e do exercício de atividades que possam ser consideradas como hospitalares. Vejamos o que determina a norma relativa à aplicação das alíquotas de serviços hospitalares: Art. 15. A base de cálculo do imposto, em cada mês, será determinada mediante a aplicação do percentual de 8% (oito por cento) sobre a receita bruta auferida mensalmente, observado o disposto no art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, sem prejuízo do disposto nos arts. 30, 32, 34 e 35 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995. (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 1º Nas seguintes atividades, o percentual de que trata este artigo será de: ................... III trinta e dois por cento, para as atividades de: (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares; a) prestação de serviços em geral, exceto a de serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatologia, medicina nuclear e análises e patologias clínicas, Fl. 180DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 179 5 desde que a prestadora destes serviços seja organizada sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa; (Redação dada pela Lei nº 11.727, de 2008) ......... Art. 20. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei no 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a trinta e dois por cento. (Redação dada Lei nº 10.684, de 2003) (Vide Medida Provisória nº 232, de 2004) (Vide Lei nº 11.119, de 205) Base de cálculo da CSLL Estimativa e Presumido Art. 20. A base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal ou trimestral a que se referem os arts. 2º, 25 e 27 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, corresponderá a 12% (doze por cento) sobre a receita bruta definida pelo art. 12 do DecretoLei no 1.598, de 26 de dezembro de 1977, auferida no período, deduzida das devoluções, vendas canceladas e dos descontos incondicionais concedidos, exceto para as pessoas jurídicas que exerçam as atividades a que se refere o inciso III do § 1o do art. 15, cujo percentual corresponderá a 32% (trinta e dois por cento). (Redação dada pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Pelo que se depreende da norma acima, a redação da norma ao tempo dos fatos geradores dos pagamentos a maior realizados apenas estabelecia a aplicação da alíquota reduzida àqueles que realizassem o exercício de serviços hospitalares. A solução de consulta em que se baseou a empresa para a apuração dos seus créditos assim dispôs sobre os requisitos a serem atendidos para fins de fruição dos benefícios da alíquota reduzida. Fl. 181DF CARF MF 6 Em contraparida, verificase a existência de Recurso Repetitivo nº 217, do STJ que, tratando do assunto, assim dispôs sobre os serviços hospitalares sujeitos à alíquota reduzida do lucro presumido. Vejase que o critério apresentado pelo STJ, seguindo o critério da Lei nº 9.249/95, é simples e objetivo. São enquadrados como serviços hospitalares os serviços de atendimento à saúde independentemente do local de prestação, excluindose, apenas, os serviços de simples consulta que não se identificam com as atividades prestadas em âmbito hospitalar. Inobstante, a Delegacia de Julgamento, ao analisar o caso do contribuinte baseou sua decisão nas diversas instruções normativas e atosdeclaratórios existentes a respeito Fl. 182DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 180 7 da definição de serviços hospitalares para fins de aplicação da alíquota de presunção. Desta forma, fundamentou a improcedência na necessidade de o contribuinte atender a três requisitos, conforme abaixo apresentados: Ocorre, no entanto que não comungo do entendimento exposado pelo referido órgão julgador. A decisão proferida pelo STJ, aplicável ao caso dos autos, trata a norma redutora da alíquota de forma objetiva. Assim, o serviço que tenha natureza hospitalar, qual seja, diagnóstico, tratamento, internação, quer seja desenvolvido nos hospitais ou fora deles, com exceção apenas das simples consultas, devem ser considerados serviços hospitalares e, assim, estão sujeitos à alíquota reduzida estabelecida pela Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Comungam deste entendimento os seguintes julgados, inclusive desta mesma câmara em época anterior à entrada deste relator no colegiado. Acórdão nº 1401001.434 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrente Instituto Guaçuano de Orrino laringologia S/S Recorrida Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2006 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser Fl. 183DF CARF MF 8 objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas por outras pessoas, como clínicas. Acórdão nº 1401001.433 – 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 09 de dezembro de 2015 Matéria Imposto de Renda Pessoa Jurídica Recorrentes Hemoclínica Serviços de Hemoterapia Ltda Fazenda Nacional ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário:2006, 2007, 2008, 2009 SERVIÇOS HOSPITALARES CARACTERIZAÇÃO À luz do entendimento fixado pelo Superior Tribunal de Justiça em sede de recurso repetitivo, a expressão “serviços hospitalares” para fins de quantificação do lucro presumido por meio do percentual mitigado de 8%, inferior àquele de 32% dispensado aos serviços em geral, deve ser objetivamente interpretado e alcança todas as atividades tipicamente promovidas em hospitais, mesmo eventualmente prestadas em ambientes externos ou por outras pessoas, como hemoclínicas. Acórdão nº 9101001.559 – 1ª Turma Sessão de 23 de janeiro de 2013 Matéria IRPJ Exercícios 1999 a 2001 Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado CAMP IMAGEM NUCLEAR S/C LTDA ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1998, 1999, 2000 SERVIÇOS HOSPITALARES. SERVIÇOS DE DIAGNÓSTICOS POR IMAGEM MEDICINA NUCLEAR. LUCRO PRESUMIDO. DETERMINAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. COEFICIENTE DE 8%. No julgamento do Recurso Especial nº 1.116.399/BA (2009/00064810), na sistemática dos recursos especiais repetitivos, o STJ decidiu que a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei nº 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Do exposto, comungando do entendimento exposado pelo STJ no sentido de que a redução de alíquota tem caráter objetivo em razão do tipo de serviços prestados pela empresa. No caso dos autos, inobstante a argumentação da Decisão atacada de que não restou comprovado a prestação de serviços relacionados a hospitalares pelo contribuinte, havemos de Fl. 184DF CARF MF Processo nº 10835.901959/200941 Acórdão n.º 1401002.211 S1C4T1 Fl. 181 9 esclarecer que a Decisão da DRJ não pode inovar nos fundamentos utilizados pela Delegacia de Origem para o não reconhecimento dos créditos. Vejase que na decisão original o não reconhecimento dos créditos deveuse ao fato de a autoridade administrativa entender que a recorrente não possuía estrutura hospitalar para internação e tratamento e não pelo fato de não ter comprovado as atividades, até mesmo porque sequer foi intimada para tanto. Mais ainda, a decisão emitida na solução de consulta, corroborada pela Decisão da Delegacia de Julgamento corroborou o entendimento de que o requisito de estrutura estaria suprido pela apresentação de laudo da vigilância sanitária da jurisdição da recorrente. Assim, verificandose que o contribuinte, exercer atividades exclusivamente de radiologia e diagnóstico por imagem, atividades essas que estão incluídas no conceito de serviços de atendimento à saúde, voto no sentido de dar provimento ao recurso para reconhecer o direito da recorrente de tributar suas receitas em relação ao IRPJ e à CSLL, pelas alíquotas reduzidas de 8% e 12% respectivamente, na forma Lei nº 9.249/95, art. 15, III, "a" e art. 20. Abel Nunes de Oliveira Neto Relator Fl. 185DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11065.001589/2004-67
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Nov 07 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 1999
INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO.
A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores.
Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considera-se prodecente a autuação fiscal quanto ao principal.
LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA
1 - Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontra-se intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes.
2 - Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando-se da tributação do ganho de capital.
2 - Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%.
Numero da decisão: 9101-003.168
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao mérito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, o conselheiro André Mendes de Moura.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora
(assinado digitalmente)
André Mendes de Moura Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 1999 INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO. A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considera-se prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA 1 - Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontra-se intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. 2 - Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando-se da tributação do ganho de capital. 2 - Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao mérito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, o conselheiro André Mendes de Moura. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 33; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2380; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT1 Fl. 1.242 1 1.241 CSRFT1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 11065.001589/200467 Recurso nº Especial do Procurador e do Contribuinte Acórdão nº 9101003.168 – 1ª Turma Sessão de 7 de novembro de 2017 Matéria ÁGIO. MULTA QUALIFICADA. Recorrentes NACIONAL ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S.A. FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1999 INTEGRALIZAÇÃO DE CAPITAL SEGUIDA DE CISÃO. ÁGIO. A situação autuada contém elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, assim, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual considerase prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. LEGALIDADE. APRECIAÇÃO INTEGRADA. PLUS NA CONDUTA. DOLO. SIMULAÇÃO. MULTA QUALIFICADA 1 Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito (civil, empresarial, dentre outros) encontrase intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 15 89 /2 00 4- 67 Fl. 1242DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.243 2 integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. 2 Transação de alienação de investimento escamoteada. Adquirente aumenta capital social do investimento, investimento é cindido no dia seguinte, a participação societária do investimento é vertida para a adquirente, e o caixa do investimento é vertido para a alienante, esquivando se da tributação do ganho de capital. 2 Afronta à legislação tributária, nos temos dos art. 149, inciso VII do CTN, art. 44, § 1º da Lei nº 9.430, de 1996 e arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964. Caracterizada a ocorrência do dolo (presença dos elementos cognitivo e volitivo), simulação, fraude e conluio, ensejando a qualificação da multa de ofício para 150%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte e, no mérito, por maioria de votos, em negarlhe provimento, vencidos os conselheiros Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, por voto de qualidade, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Daniele Souto Rodrigues Amadio (relatora), Cristiane Silva Costa, Luis Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe negaram provimento. Designado para redigir o voto vencedor, quanto ao mérito do Recurso Especial da Fazenda Nacional, o conselheiro André Mendes de Moura. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo – Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora (assinado digitalmente) André Mendes de Moura– Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Adriana Gomes Rêgo, André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luis Flávio Neto, Flávio Franco Corrêa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra. Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. Fl. 1243DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.244 3 Relatório Tratamse de Autos de Infração (Efls. 496 ss.) cientificados à contribuinte em 25.05.2004 para a exigência de IRPJ e CSLL relativos ao ano calendário 1999, juntamente com juros de mora e multa qualificada de 150%, em razão da acusação fiscal de redução indevida do lucro sujeito à tributação, em decorrência da falta de contabilização do ganho de capital apurado na alienação de investimento avaliado pelo valor do patrimônio líquido. Uma leitura mais detalhada dos fatos que originaram a autuação, sob a óptica administrativa, pode ser realizada a partir do Relatório do Trabalho Fiscal (Efls. 474 ss.), do qual se pede licença para transcrever trecho mais longo, a fim de facilitar essa compreensão. Vejase: “I. DO CONTRATO DE ASSOCIAÇÃO COM O GRUPO SONAEITA (…) a fiscalizada apresentou cópia do contrato de associação celebrado com o grupo SONAEITA, em 29/01/99 (folhas 87 a 202). Em conformidade com item 1.1 do referido contrato, o objetivo do mesmo seria disciplinar a associação da NAP com o Grupo SONAEITA visando à operação conjunta da rede de supermercados e hipermercados pertencentes aos dois grupos econômicos, a ser implementada a partir de 01/04/99. De acordo com as cláusulas 2.1 e 2.13 do contrato (folhas 91 e 96), para implementação da associação, NAP transferiria a totalidade das ações que detinha na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS S/A, doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, para a empresa Sonae Distribuição Brasil S.A, doravante denominada de SONAE. Em decorrência desta transferência o SONAE pagaria R$ 300.000.000,00 a NAP. Por outro lado, a partir da implementação da associação, a NAP passa a ter participação no capital do SONAE equivalente a 17,56%. Por esta participação, NAP pagaria R$ 120.000.000,00 ao SONAE. Ainda em relação ao contrato de associação (folhas 87 a 202), as cláusulas 2.1 e 2.2 indicam os critérios utilizados pelas partes para avaliação das participações transacionadas. Os valores acima referenciados (R$ 300.000.000,00 e R$ 120.000.000,00) foram fixados a partir das vendas brutas das lojas no ano anterior (1998) e em valores do ativo circulante e do passivo total de balanços projetados para 31/03/1999 (balanços de referência) de cada uma das empresas, conforme constante dos Anexos 2.1 (a), 2.1(b) e 2.1(c) (folhas 187 a 189). Considerando que o Contrato de Associação foi firmado em 29/01/1999 e que foi utilizado o balanço projetado de 31/03/1999 para avaliação das participações, as cláusulas 2.4 a 2.6 do Contrato de Associação (folhas 93) prevêem critérios de ajuste de preço caso os valores projetados do ativo circulante e do passivo total das empresas não se confirmassem. Cabe ainda destacar que a cláusula 2.13 do Contrato de Associação (folhas 96 a 98) estabelece o mecanismo de constituição da associação a ser utilizado para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas as partes. As etapas e Fl. 1244DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.245 4 procedimentos que levariam a esta eficiência financeira e fiscal a serem implementadas são: a) Transferência para NACIONAL SUPERMERCADOS, por NAP e Nacional Central de Distribuição de Alimentos Ltda. (doravante denominada de CDA), de todos os equipamentos necessários para a atividade de exploração do comércio varejista; Ou seja, para fins tributários, o vendedor (NAP) deveria apurar o resultado decorrente da alienação e, verificado ganho de capital na operação, computar tal resultado na apuração das bases de calculo do IRPJ e da CSLL. b) Cessão por CDA para NACIONAL SUPERMERCADOS, da efetividade da exploração de comércio varejista, através da transferência da totalidade dos estoques e de todos os empregados registrados na CDA; c) Aumento de capital de NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor total de R$ 300.000.000,00, a ser subscrito e integralizado pelo SONAE; d) Cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, imediatamente após o aumento de capital referido no item anterior, com versão do Caixa para NAP, permanecendo o SONAE com 100% da sociedade cindida; e) Aumento de capital no SONAE, no valor total de R$ 120.000.000,00, a ser subscrito e integralizado por NAP que assim passará a deter 17.56% das ações ordinárias do SONAE. Portanto, de acordo com o Contrato de Associação firmado em 29/01/1999, NAP venderia, em 01/04/1999, ao SONAE, por R$ 300.000.000,00, sua participação na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e, na mesma data, adquiriria 17,56% do capital do SONAE por R$ 120.000.000,00. Todavia, para garantir eficiência financeira e fiscal para ambas as partes, foram previstas diversos procedimentos e operações de reestruturações societárias para implementação do negócio. Para fins do presente trabalho e considerando que a empresa fiscalizada é a NAP, a operação que sera analisada é exclusivamente a operação relativa à venda da participação societária de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS por R$ 300.000.000,00. II. REFLEXO TRIBUTÁRIO DE OPERAÇÃO DE VENDA DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA Analisando a operação descrita no capitulo anterior sob o aspecto tributário verificamos, especificamente em relação à venda da participação societária na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, que seria aplicável o disposto no artigo 31 do DecretoLei n° 1.598/77 (art. 418 do RIR/99). Todavia, não foram estes os procedimentos adotados pela NAP. Ao contrário, para operacionalização do contrato de associação firmado com o grupo SONAE foram utilizadas operações de reestruturações societárias (aumento de capital social com ágio, incorporação da reserva de ágio ao capital e cisão parcial), para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas partes. Como teremos oportunidade de demonstrar na seqüência, o objetivo de NAP ao utilizer este "planejamento" foi evitar a incidência tributária a que nos referimos anteriormente (IRPJ e CSLL incidentes sobre o ganho de capital). A seguir, passaremos a descrição pormenorizada do "planejamento" adotado e dos seus reflexos tributários. III. DA SISTEMÁTICA UTILIZADA PARA IMPLEMENTAÇÃO DA NEGOCIAÇÃO E SEUS REFLEXOS TRIBUTÁRIOS Inicialmente, é importante apresentar um rápido histórico relativamente à constituição e posteriores alterações da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. Fl. 1245DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.246 5 Em conformidade com o contrato social constante das folhas 277 a 280, a empresa Nacional Supermercados Ltda., doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, CNPJ 02.701.7051000161, foi constituída em 01/07/98, com capital social de R$ 1.000,00, tendo como sócios Neri Carlos Dal Pozzo (90% do capital social) e Sandra Solange Kerecki Dal Pozzo (10% do capital social) e tendo como objetivo social o ramo de supermercados. A empresa teve os seus atos constitutivos arquivados na Junta Comercial do Rio Grande do Sul em 14/07/98. Em 01/09/98 foi firmado instrumento de alteração do contrato social de NACIONAL SUPERMERCADOS. Neste ato (folhas 281 e 282), retira se da sociedade a sócia Sandra Solange Kerecki Dal Pozzo que cede e transfere as suas cotas, no valor de R$ 100,00, para o sócio Neri Carlos Dal Pozzo. Também através desta alteração contratual é aumentando o capital social da empresa para R$ 100.000,00 e admitida como sócia a empresa Nacional Central de Distribuição de Alimentos Ltda. (CDA), a qual integraliza capital no valor de R$ 99.000,00. A alteração contratual foi arquivada na Junta Comercial em 01/10/98. Também em 01/09/98 a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS passa por transformação do tipo jurídico, passando de sociedade por cotas de responsabilidade limitada para sociedade anônima e passando a ser denominada de Nacional Supermercados SA. A ata relativamente a este evento (folhas 283 a 288) foi arquivada na Junta Comercial em 01/í0/98. Posteriormente, em 30/10/1998, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária (folhas 292 e 293) arquivada na Junta Comercial em 19/11/98, foi alterado e ampliado o objetivo social de NACIONAL SUPERMERCADOS. Na mesma data (30/10/1998), conforme Ata de Reunião de Diretoria (folhas 289 a 291) arquivada na Junta Comercial em 19/11/98, foi aprovada a abertura de 95 (noventa e cinco) filiais, nos mesmos endereços em que funcionavam lojas de sua controladora (CDA). Em 28/12/1998, conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 230 a 232), CDA vendeu a sua participação para NAP por R$ 99.000,00. Em 30/01/1999, em conformidade com a Ata da Assembléia Geral Extraordinária arquivada na Junta Comercial em 23/02/1999 (folhas 217 a 229), o capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS foi aumentado em R$ 33.076.000,00, passando de R$ 100.000,00 para R$ 33.176.000,00. As novas ações foram subscritas por CDA (R$ 13.500.000,00) e pela NAP (R$ 19.576.000,00), tendo a integralização se dado através da conferência de bens móveis e imóveis. Em 01/02/1999, conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 233 a 235) Neri Carlos Dal Pozzo vendeu a sua participação para NAP por R$ 1.000,00. Também na mesma data (01/02/1999), conforme contrato de compra e venda de ações (folhas 236 a 239), CDA vendeu a sua participação para a NAP por R$ 13.500.000,00. Portanto, a partir de 01/02/1999, a totalidade do capital social da NACIONAL SUPERMERCADOS, num montante de R$ 33.176.000,00, passa a ser de propriedade de NAP. Em 31/03/99, as 9:00 horas, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária (folhas 73 a 78), houve um aumento do capital de NACIONAL SUPERMERCADOS de R$ 33.176.000,00 para R$ 36.844.823,00. As novas ações foram integralmente subscritas pelo SONAE, tendo sido adquiridas por R$ 300.000.000,00, com ágio de R$ 296.331.177,00. Ainda em 31/03/99, as 10:00 horas, conforme Ata de Assembléia Geral Extraordinária, foi aumentando o capital social da empresa para R$ Fl. 1246DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.247 6 333.176.000,00 através da incorporação da Reserva de Ágio (R$ 296.331.177,00). Passemos a análise dos reflexos tributários destas duas operações para a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. No aumento de capital com ágio, aplicase o disposto no art. 38 do DecretoLei n° 1.598/77 (art. 442 do RIR/99). De acordo com este dispositivo legal, não serão computadas na apuração do Lucro Real as importâncias, creditadas a reservas de capital, recebidas dos subscritores de valores mobiliários a titulo de ágio na emissão de ações por prego superior ao valor nominal. Portanto, em 31/03/99, quando do recebimento do ágio e constituição de reserva de capital (reserva de ágio) no valor de R$ 296.331.177,00, não houve qualquer tributação. De igual forma, o aumento de capital com a incorporação da Reserva de Ágio também não tem reflexos tributários. Contabilmente, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS efetuou a transferência de uma conta patrimonial (Reserva de Ágio) para outra conta patrimonial (Capital Social), não afetando o lucro contábil do período. Sob o aspecto tributário, não existe previsão para tributação da Reserva de Ágio quando utilizada para aumentar o capital social. Assim, para a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS as operações efetivadas no dia 31/03/99 não tiveram qualquer repercussão do ponto de vista tributário. Para a NAP, que detinha participação societária avaliada pela equivalência patrimonial, o aumento do Patrimônio Liquido de NACIONAL SUPERMERCADOS ocorrido em 31/03/1999, resultou em aumento no valor de sua participação societária. Antes do aumento de capital, a NAP era proprietária da totalidade do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, sendo que o capital social da investida era de R$ 33.176.000,00. Após o aumento do capital social, a participação foi reduzida para 90,04%, mas o capital social da investida (NACIONAL SUPERMERCADOS) foi aumentado em R$ 300.000.000,00, passando para R$ 333.176.000,00. Portanto, mesmo com a redução da participação de NAP na investida de 100% para 90,04%, após o aumento do capital social da investida, o valor do investimento de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS passa a ser de R$ 300.000.000,00. Contabilmente, NAP registra esta mais valia do seu investimento a débito da conta de investimento (conta patrimonial) e a crédito de conta de resultado (Resultado Positivo da Equivalência Patrimonial). Todavia, para fins tributários, em conformidade com o art. 389 do RI R/99, não serão computadas na determinação do lucro real as contrapartidas de ajuste no valor do investimento. Ou seja, também para NAP, apesar de ter havido aumento no valor do investimento em NACIONAL SUPERMERCADOS para R$ 300.000.000,00, não houve qualquer tributação em 31/03/1999. Por fim, em 01/04/99, as 9:30 horas, conforme Ata das Assembléias Gerais Ordinária e Extraordinária (folhas 294 a 297) a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS foi cindida parcialmente, com versão de parcela do seu patrimônio, no valor de R$ 300.000.000,00, para NAP. Com isto, o capital remanescente da NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor de R$ 33.176.000,00, passa a pertencer integralmente ao SONAE. Do ponto de vista tributário, a cisão parcial resultou na retirada de NAP da sociedade. Fl. 1247DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.248 7 Como o investimento de NAP em NACIONAL SUPERMERCADOS já estava avaliado por R$ 300.000.000,00, não foi apurado qualquer ganho de capital tributável, tendo em vista que o valor recebido por NAP foi exatamente R$ 300.000.000,00. Assim, o resultado de todo este "planejamento" na busca da eficiência financeira e fiscal é que, em 01/04/1999, o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS e NAP se retira da sociedade recebendo os R$ 300.000.000,00 que haviam sido pagos pelo SONAE. E isto sem que NAP ou NACIONAL SUPERMERCADOS tenham sofrido qualquer tributação! Entretanto, a partir da análise dos documentos e informações que foram apresentadas pelo SONAE e pela própria fiscalizada, foi possível formar convicção de que as reestruturações societárias não passam de mera simulação para encobrir o negócio que estava sendo efetivamente realizado, qual seja, a aquisição total de NACIONAL SUPERMERCADOS por parte do SONAE. Apresentaremos, a seguir, de forma detalhada, os fatos e documentos que nos levaram a formar tal convicção. IV. AUMENTO DO CAPITAL SOCIAL DE NACIONAL SUPERMERCADOS Em 31/03/1999, as 9:00 horas, em conformidade com a Ata de Assembléia Geral Extraordinária (AGE) (folhas 73 a 78), foi deliberado o aumento de capital da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS no valor de R$ 3.668.823,00, com a emissão de 3.668.823 ações ordinárias nominativas. Referidas ações foram, na sua totalidade, subscritas pelo SONAE, por R$ 300.000.000,00. De acordo com a Ata da AGE, a integralização do capital subscrito se daria em moeda corrente nacional (folhas 75) tendo havido a integralização do capital subscrito no momento da assembléia (folhas 75). Em atendimento ao item 6 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 01, de 22/12/03, o SONAE informou que a integralização se deu da seguinte forma: a) DOC através do Banco Boavista no valor de R$ 88.500.000,00 para a conta corrente n° 1233.9 mantida por NACIONAL SUPERMERCADOS junto ao Banco ABN AMRO S.A. (folhas 272); b) DOC através do Banco Bandeirantes no valor de R$ 91.500.000,00 para a conta corrente n° 1233.9 mantida por NACIONAL SUPERMERCADOS junto ao Banco ABN AMR° S.A. (folhas 272); c) Nota Promissória, no valor de R$ 120.000.000,00, emitida pelo SONAE em 31/03/99 e com vencimento em 01/04/1999 (folhas 271). Portanto, a partir das informações e documentos apresentados pelo SONAE pode ser apontada uma inconsistência entre o ocorrido e o que consta da Ata da AGE. Na realidade, parcela dos recursos integralizados (R$ 120.000.000,00) não foi em moeda corrente nacional, mas sim através de uma Nota Promissória. Entretanto, o que mais chama a atenção é o expressivo ágio pago pelo SONAE quando da integralização de capital. Através da operação, o SONAE adquiriu 9,96% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS por R$ 300.000.000,00, com ágio total de R$ 296.331.177,00. De acordo com a Ata da AGE (folhas 75) o ágio foi pago por perspectivas de rentabilidade futura da companhia. Para justificar o expressivo ágio pago quando da aquisição da participação societária (R$ 296.331.177,00), o SONAE apresentou Laudo de Avaliação Econômica (folhas 306 a 380) elaborado pela empresa Arthur Andersen Business Consulting S/C Ltda., doravante denominada de Arthur Andersen. Fl. 1248DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.249 8 Inicialmente cabe destacar o objetivo da elaboração do referido Laudo. Conforme consta da correspondência de encaminhamento do mesmo (folhas 307) e do seu item 1.1 (folhas 311), o objetivo do trabalho foi elaborar laudo de avaliação econômica de NACIONAL SUPERMERCADOS para ser usado na identificação do fundamento econômico do ágio pago pelo SONAE quando da aquisição de 100% das ações do NACIONAL SUPERMERCADOS. O laudo em tela aponta R$ 310.555.000,00 como sendo o valor econômico total do NACIONAL SUPERMERCADOS. Considerando que de acordo com a Ata da AGE o SONAE teria adquirido somente 9,96% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, com base no Laudo de Avaliação o valor da participação adquirida corresponderia a R$ 30.913.278,00 e não aos R$ 300.000.000,00 pagos pelo SONAE. Portanto, a partir do próprio Laudo de Avaliação fica absolutamente claro que o SONAE adquiriu a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e não apenas 9,96% como quer fazer crer a Ata da AGE. Cabe ainda salientar que o referido Laudo foi elaborado após a operação de aquisição da participação societária (31/03/1999). O que nos permite chegar a tal conclusão são dois fatos: a) A data da correspondência (folhas 307) que encaminhou o Laudo (21/06/1999); b) Da Tabela 1 do Laudo (folhas 325) constam informações a respeito de fusões e aquisições do setor supermercadista no Brasil ocorridas em maio de 1999, portanto após 31/03/1999, como, por exemplo, a aquisição por parte do Carrefour de 90% da rede de supermercados PlanaItão (DF). Na realidade, conforme destacado anteriormente, a partir da leitura do contrato de associação firmado entre NAP e o grupo SONAEITA, em 29/01/1999, (folhas 87 a 202), percebese que os critérios de valorização da participação societária adquirida pelo SONAE foram os seguintes: a) Total das vendas das lojas do NACIONAL SUPERMERCADOS no ano de 1998; e b) Os valores do ativo circulante e do passivo total constante de balanços de referência elaborados por ocasião da assinatura do contrato. A partir destes critérios é que houve a definição de que seriam pagos R$ 300.000.000,00 pelo SONAE a NAP, sendo que este valor se referia à aquisição total da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS e não somente de 9,96% da empresa como quer fazer supor a Ata da AGE. Outro aspecto totalmente atípico em operações de integralização de capital e que merece ser analisando diz respeito ao ajuste de prego. Um dos critérios utilizados em janeiro de 1999 para avaliação da participação societária foi o ativo circulante e o passivo total constante de balanços de referência que projetavam a situação da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS para março de 1999. As cláusulas 2.4 a 2.6 do contrato de associação (folhas 93) firmado em 29/01/1999 estabelecem mecanismos para identificar eventuais diferenças entre estes balanços projetados e os balanços levantados em março de 1999, especificando que eventuais diferenças seriam objeto de ajuste de prego. Ou seja, como a avaliação do NACIONAL SUPERMERCADOS para fins da negociação (R$ 300.000.000,00) foi estabelecida em janeiro de 1999 com a utilização de valores do ativo circulante e do passivo total projetados para março de 1999, caso as projeções não se confirmassem haveria a necessidade de um ajuste do preço. Em atendimento ao item 5 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 05, de 08/01/2004 (folhas 387 a 392), NAP reconhece ter Fl. 1249DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.250 9 efetuado pagamentos a titulo de ajuste do preço em 30/10/1999 (folhas 398). Fosse verdadeira a operação registrada na Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78), a negociação entre o SONAE, NAP e NACIONAL SUPERMERCADOS teria se encerrado naquele mesmo dia, com a subscrição e integralização de capital no valor de R$ 300.000.000,00, não existindo a figura de futuro ajuste do preço. Mais uma vez, o que está registrado na Ata da AGE de 31/03/1999 é incompativel com os fatos efetivamente ocorridos. V. DA CISÃO PARCIAL DE NACIONAL SUPERMERCADOS De acordo com Ata das Assembléias Gerais Ordinária e Extraordinária (folhas 294 a 297), Protocolo de Cisão Parcial (folhas 79 a 81) e Justificação (folhas 82 e 83), em 01/04/1999, as 9:30 horas, NACIONAL SUPERMERCADOS foi cindida parcialmente. Através da reestruturação societária, o capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS foi reduzido em R$ 300.000.000,00, com a versão de parcela de seu patrimônio para NAP. Com a cisão parcial, NAP, que detinha 90,04% do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS, se retira da sociedade. De acordo com o item V do Protocolo de cisão parcial (folhas 80), em função da cisão, NAP recebeu de NACIONAL SUPERMERCADOS os seguintes ativos: a) Circulante — Disponível: R$ 180.000.000,00; b) Circulante — Créditos: R$ 120.000.000,00. Ainda em conformidade com o protocolo de cisão parcial (folhas 80), a parcela do patrimônio de NACIONAL SUPERMERCADOS vertida para NAP seria avaliada por peritos à respeito da mesma inconsistência (transferência dos recursos de NACIONAL SUPERMERCADOS para NAP em data anterior à cisão parcial) também foi intimado a prestart esclarecimentos o Sr. Fernando Steigleder, profissional que assinou o Laudo de Avaliação efetuado por LSM. Em atendimento a intimação, o Sr. Fernando informa que os R$ 180.000.000,00 transferidos para NAP se referem a depósitos bancários à vista que constavam do Balanço Patrimonial de NACIONAL SUPERMERCADOS em 31/03/1999 (folhas 429 a 445). Examinando o Balanço Patrimonial de NACIONAL SUPERMERCADOS levantado em 31/03/1999 (folhas 66) constatamos que isto não corresponde à realidade, tendo em vista que o saldo da conta "Caixa e Bancos" em 31/03/1999 é de R$ 3.437.765,62, bastante inferior, portanto, aos R$ 180.000.000,00 alegados pelo perito. Além disso, o extrato bancário (folhas 305) da conta n° 12339, de titularidade de NACIONAL SUPERMERCADOS no ABN AMRO BANK, indica que ao final do dia 31/03/1999, o saldo desta conta estava zerado. Portanto, o que podemos concluir é que o Laudo de Avaliação utilizado para justificar as parcelas do patrimônio de NACIONAL SUPERMERCADOS, supostamente transferidas para NAP em 01/04/1999, não merece fé por não refletir a realidade. Todavia, consideramos que toda a documentação bancária examinada (folhas 305) permite concluir que, sem qualquer dúvida, NAP recebeu em 31/03/1999 os R$ 180.000.000,00 que haviam sido pagos pelo SONAE e não em 01/04/1999 como consta dos documentos relativos cisão parcial. Assim, os documentos relativos à cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS (folhas 294 a 297), não refletem a realidade, tendo em vista que de acordo com tais documentos, a cisão parcial, com a versão de parcela de ativos de NACIONAL SUPERMERCADOS para NAP, teria ocorrido somente em 01/04/1999. Fl. 1250DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.251 10 VI. DA SIMULAÇÃO DE ATOS JURÍDICOS COM O INTUITO DE BURLAR O FISCO A partir de todos os fatos relatados anteriormente e dos documentos examinados formamos a convicção de que as operações de aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial não passaram de meras simulações para disfarçar a essência do negócio. O verdadeiro negócio entre as partes encontrase perfeitamente identificado no Contrato de Associação firmado em 29/01/1999: o SONAE adquire por R$ 300.000.000,00 a totalidade da participação que a NAP tinha em NACIONAL SUPERMERCADOS. Para encobrir o negócio que estava sendo efetivamente realizado e fugir do pagamento dos tributos incidentes foram simulados atos de natureza diversa daquela que aparentam. A respeito da conceituação de simulação, (…) A simulação pressupõe, portanto, que se procure fingir, disfarçar, mostrar o irreal como verdadeiro, dissimular a verdade. Entendemos que foi exatamente isto que aconteceu no presente caso. O aumento de capital social com ágio e a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS foram atos simulados cujo objetivo foi encobrir a efetiva venda da NAP para o SONAE da totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. Os fatos relatados e os documentos citados nos capítulos anteriores deste Relatório nos permitiram formar tal convicção. Cabe, neste momento, resgatar alguns destes fatos. A Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78) quer fazer crer que o SONAE pagou F21 300.000.000,00 para adquirir 9,96% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, quando o contrato de associação (folhas 87 a 202) firmado em 29/01/1999 e o Laudo de Avaliação Econômico (folhas 306 a 380) produzido por Artur Andersen apontam este como sendo este o valor de 100% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. O que levaria o SONAE a pagar o valor correspondente a 100% de uma companhia por apenas 9,96% do seu capital social? Consideramos que tal procedimento somente foi adotado pelo SONAE pela certeza de estar adquirindo por este valor (R$ 300.000.000,00) a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. E esta certeza decorre do contrato de associação firmado com a NAP em 29/01/1999 que lhe garantia que, após a integralização de capital com ágio, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS seria cindida parcialmente, cabendo ao SONAE o controle acionário integral de NACIONAL SUPERMERCADOS. E isto de fato ocorreu. No dia seguinte (01/04/1999), houve a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS. Em decorrência desta cisão, NAP se retira da sociedade, recebendo os R$ 300.000.000,00 pagos pelo SONAE e o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS. De que forma aceitar como verdadeiro instrumento representativo de ato jurídico que estabelece que NAP receberia, em 01/04/1999, R$ 300.000.000,00 em decorrência da cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, quando está documentalmente comprovado que parte deste valor (R$ 180.000.000,00) já havia sido repassada para NAP em 31/03/1999? Portanto, consideramos que fica inquestionavelmente demonstrado que o objetivo do negócio foi à aquisição, pelo SONAE, das atividades de varejo do NACIONAL SUPERMERCADOS, incluindo suas instalações, estoques e créditos, deduzidos as dívidas e obrigações relacionadas com estas atividades, como está definido no contrato de associação, firmado em 29/01/1999. Fl. 1251DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.252 11 O aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial do NACIONAL SUPERMERCADOS foram meros instrumentos utilizados para implementar o verdadeiro negócio com o intuito de iludir um terceiro (no caso o Fisco) e evitar o pagamento de tributos, caracterizando a simulação. VII. QUANTIFICAÇÃO DO GANHO DE CAPITAL TRIBUTÁVEL Para fins tributários, em decorrência da venda da participação societária que detinha junto ao NACIONAL SUPERMERCADOS, a fiscalizada (NAP) deveria apurar e oferecer à tributação do IRPJ e CSLL, o ganho de capital nesta operação Nos termos do §1° do art.418 do Decreto n° 3.000/99 (RIR199), o ganho de capital é apurado a partir do confronto entre o valor recebido quando da alienação do bem ou direito e o seu valor contábil. No caso da fiscalização em tela, desconsiderando as operações simuladas (aumento do capital social com ágio, incorporação da reserva de ágio ao capital social e cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS), o valor da alienação da participação societária corresponde ao valor pago pelo SONAE e recebido pela NAP em 31/03/1999: R$ 300.000.000,00. Em relação ao valor contábil da participação societária alienada, a NAP, em atendimento ao item 1 do Termo de Solicitação de Informações e Documentos n° 04, de 08/01/2004 (folhas 383), informa que este valor era de R$ 33.176.000,00. Todavia, examinando o Balanço Patrimonial levantado por NACIONAL SUPERMERCADOS em 31/03/99 (folhas 66 a 68) e desconsiderando as operações simuladas, constatamos que o Patrimônio Liquido da empresa era de R$ 33.234.184,75. Considerando que a NAP detinha a integralidade do capital social de NACIONAL SUPERMERCADOS e tratarse de investimento sujeito à equivalência patrimonial, optamos por considerar como valor contábil do investimento o valor de R$ 33.234.184,75. Portanto, o ganho de capital na operação foi de R$ 266.765.815,25 (R$ 300.000.000,00 R$ 33.234.184,75). Este ganho de capital estará sujeito à incidência de IRPJ e CSLL nos termos da legislação vigente. VIII. DA CSLL INCIDENTE SOBRE 0 GANHO DE CAPITAL (…) Assim, diante da opção de apuração da CSLL devida relativamente ao ano calendário 1999 adotada pela NAP e considerando que o ganho de capital a ser tributado ocorreu anteriormente a 01/05/1999, concluímos que não cabe a incidência do adicional de 4% para apuração da CSLL incidente sobre o ganho de capital. Outra particularidade a ser considerada no caso em tela diz respeito à possibilidade da compensação, a partir de fevereiro de 1999, de 1/3 da COFINS efetivamente paga com a CSLL devida, nos termos do disposto no art.8° da Lei n° 9.718/98. (…) Considerando que o §1° do art. 8° da Lei n° 9.718/98 estabelece que somente poderá ser objeto de compensação o valor da COFINS efetivamente paga e que os valores depositados judicialmente não caracterizam pagamento, apresentamos, na tabela abaixo, o demonstrativo da compensação a que a NAP faz jus. (…) Portanto, da CSLL devida sobre a infração objeto da presente autuação será deduzido o montante de R$ 21.842,97 referente a 1/3 da COFINS efetivamente paga. IX. DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA Fl. 1252DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.253 12 Quanto á muita a ser aplicada no lançamento de oficio, o art. 44 da Lei 9.430/96, incorporada ao art. 957 do RIR/99, estabelece: (…) Os artigos citados da Lei 4.502/64, por sua vez, determinam: "Art. 71. Sonegação é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou (…) Como já ficou amplamente demonstrado, a forma como o negócio entre a NAP e o SONAE foi formalizado demonstra de forma inequívoca a intenção de "impedir (...) o conhecimento por parte da autoridade fazendário da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária", configurandose assim a sonegação definida no art. 71 da Lei 4.502/64. Além disto, a forma dada ao negócio teve ainda o objetivo de "modificar as suas características essenciais (do fato gerador) de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento", caracterizando assim a fraude definida no art. 72 da mesma Lei. Finalmente, o conluio definido no art. 73 fica caracterizado pelo fato de todos os atos simulados terem envolvido duas empresas e seus diretores — a NAP e o SONAE. Isto sem falar nos fortes indícios de conluio também em relação aos peritos contratados para elaboração de laudos encomendados, de forma a tentar revestir a operação das formalidades legais necessárias. Fica, então, caracterizada a pratica de sonegação, fraude e conluio, aplicando se a multa qualificada determinada pelo art. 44, inciso II da Lei 9.430196, situação esta amparada por ampla jurisprudência do Conselho de Contribuintes, conforme alguns acórdãos a seguir transcritos (…) X. DE OPERAÇÕES SEMELHANTES ENVOLVENDO O GRUPO SONAE (…)” (destacouse) A contribuinte apresentou Impugnação às Efls. 510 ss. Na sequência, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Porto Alegre (Efl. 701 ss.) proferiu decisão mantendo integralmente o lançamento tributário, com a seguinte ementa: “Ementa: SIMULAÇÃO. CARACTERÍSTICAS. A simulação se caracteriza simplesmente pela divergência entre a exteriorização e a volição, isto é, exteriormente, formalmente, são praticados determinados atos, enquanto internamente, subjetivamente, os que se praticam são outros. Assim, na simulação, os atos exteriorizados são sempre desejados pelas partes; mas apenas formalmente, pois materialmente o ato praticado é outro. Portanto, para fins de caracterizar, ou não, simulação, é irrelevante terem as partes verdadeiramente manifestado publicamente vontade de formalizar determinados atos por natureza lícitos, pois tal fato em nada influi sobre o cerne da definição de simulação, que é a divergência entre exteriorização e vontade. Para que não se configure simulação, é necessário mais que isso, é necessário que as partes queiram praticar esses atos não apenas formalmente mas também materialmente. SIMULAÇÃO. MEIOS DE PROVA. Por se tratar de subjetividade, é difícil, quando não impossível, comprovála diretamente, pelo que se admite que seja provada por todos os meios admitidos em Direito, inclusive indícios e Fl. 1253DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.254 13 presunções. Os principais indícios admitidos com prova da simulação são a existência de motivo sério, a falta de execução material da vontade exteriorizada, a discrepância entre esses atos e a conduta das partes e a divergência entre a natureza e a quantidade dos bens e direitos e o preço pelo qual são negociados. LANÇAMENTO DECORRENTE. CSLL. A decisão, dada ao tributo principal aplicase aos demais lançamentos decorrentes das mesmas infrações. Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1999 Ementa: IRPJ. AUMENTO DE CAPITAL COM ÁGIO. REFLEXO NO CUSTO DA PARTICIPAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. Para que produza efeitos é indispensável que a vontade a integralização de capital com ágio seja válida e manifestada nesse ato esteja em conformidade com a vontade real das partes; demostrado, tanto por prova direta como por indícios, o descasamento entre a vontade expressa e a vontade real, há apenas simulação de aumento de capital, o que torna o ato ineficaz perante terceiros; a ineficácia do aumento de capital impede a ocorrência de resultado de equivalência patrimonial e faz aflorar um ganho de capital tributável. Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 1999 Ementa: MULTA. AGRAVAMENTO. Caracterizada a ocorrência de simulação, cabível o agravamento da multa. Lançamento Procedente” O recurso voluntário (Efls. 733 ss.) interposto pela contribuinte em face desta decisão foi julgado pela Primeira Câmara do antigo Primeiro Conselho de Contribuintes, que decidiu no Acórdão n. 10195537 (Efls. 820 ss.) darlhe parcial provimento, mantendose a exigência principal em razão do entendimento de que atos dissimulados não seriam oponíveis ao fisco, mas se reduzindo o percentual da multa qualificada em função da existência de divergentes correntes jurisprudenciais à época dos fatos acerca da validade dessa espécie de operação, configurando erro de proibição, como revela a sua ementa: “OPERAÇÃO ÁGIO — SUBSCRIÇÃO DE PARTICIPAÇÃO COM ÁGIO E SUBSEQÜENTE CISÃO — VERDADEIRA ALIENÇÃO DE PARTICIPAÇÃO — Se os atos formalmente praticados, analisados pelo seu todo, demonstram não terem as partes outro objetivo que não se livrar de uma tributação específica, e seus substratos estão alheios às finalidades dos institutos utilizados ou não correspondem a uma verdadeira vivência dos riscos envolvidos no negócio escolhido, tais atos não são oponíveis ao fisco, devendo merecer o tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz. Subscrição de participação com ágio, seguida de imediata cisão e entrega dos valores monetários referentes ao ágio, traduz verdadeira alienação de participação societária. PENALIDADE QUALIFICADA — INOCORRÊNCIA DE VERDADEIRO INTUITO DE FRAUDE — ERRO DE PROIBIÇÃO — ARTIGO 112 DO CTN — SIMULAÇÃO RELATIVA FRAUDE À LEI — Independentemente da patologia presente no negócio jurídico analisado em um planejamento tributário, se Fl. 1254DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.255 14 simulação relativa ou fraude à lei, a existência de conflitantes e respeitáveis correntes doutrinárias, bem como de precedentes jurisprudenciais contrários à nova interpretação dos fatos pelo seu verdadeiro conteúdo, e não pelo aspecto meramente formal, implica em escusável desconhecimento da ilicitude do conjunto de atos praticados, ocorrendo na espécie o erro de proibição. Pelo mesmo motivo, bem como por ter o contribuinte registrado todos os atos formais em sua escrituração, cumprindo todas as obrigações acessórias cabíveis, inclusive a entrega de declarações quando da cisão, e assim permitindo ao fisco plena possibilidade de fiscalização e qualificação dos fatos, aplicáveis as determinações do artigo 112 do CTN. Fraude à lei não se confunde com fraude criminal. Recurso provido parcialmente.” Como indica a referida ementa, a decisão dividiuse basicamente em dois pontos, primeiramente prevalecendo o voto da relatora, iniciado com a demarcação da questão no sentido de se definir a oponibilidade ou não do planejamento levado a efeito ao fisco, tendo como ponto de discrímen a artificialidade da redução da carga tributária. Destacou a relatora a proximidade temporal dos atos (uma hora entre a integralização de capital com ágio de cerca de 98% e sua incorporação ao capital, e cisão no dia subseqüente); ausência de causa econômica além da economia fiscal para o aumento de capital, que teria sido usado apenas como degrau para a objetivada alienação de participação societária e desfazimento de seus efeitos com a cisão. Adicionalmente, valendose da decisão de primeira instância, enumerou a falta de motivo sério, o descompasso entre preço e participação pretensamente adquirida e falta de execução material do contrato, concluindose que a vontade de integralizar capital não teria sido real, o conteúdo dos atos jurídicos praticados não corresponderia ao indicado nos instrumentos em que eles se formalizaram, havendo simulação, portanto. Consequentemente, desconsiderado o aumento de capital simulado, não haveria ganho de equivalência patrimonial, tampouco acréscimo no custo da participação societária, aflorando um ganho de capital tributável. O segundo ponto objeto do acórdão disse respeito à qualificação da multa, prevalecendo neste caso o voto vencedor do Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, que depois de trazer farta digressão sobre o devido enquadramento jurídico da operação autuada como simulação relativa, afastou a qualificação da multa por não perceber configurado o evidente intuito fraudulento e a própria dificuldade de caracterização do ilícito em virtude da existência de jurisprudência e posições doutrinárias em sentido favorável à contribuinte à época dos fatos, como típico erro de proibição. Em face do referido acórdão, primeiramente, a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial (Efls. 854 ss.) por contrariedade às provas dos autos e ao artigo 44, I, parágrafo primeiro da Lei n. 9.430/96, com redação da Lei n. 11.488/2007, combinado com Fl. 1255DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.256 15 o artigo 71 da Lei n. 4.502/64, tendo como objetivo restabelecer a multa qualificada, uma vez que a contribuinte teria praticado atos simulados para acobertar uma compra e venda, não havendo que se falar assim em erro de tipo ou de proibição, sabendose que estava impedindo o conhecimento do fato gerador, o que representaria um ato ilícito. Ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional foi dado seguimento por Despacho de Admissibilidade (Efls. 865 ss.), que compreendeu haver contrariedade à lei ou evidência de prova, no que se referia à redução da multa qualificada. Por seu turno, a contribuinte opôs Embargos de Declaração (Efl. 1017 ss.) arguindo omissão quanto à (i) inexistência de norma geral antielisiva, com a ausência de regulamentação do artigo 116 do Código Tributário Nacional, (ii) não aplicação dos artigos 167 e 168 do Código Civil, que atribuiriam a desconsideração do negócio jurídico ao Judiciário, bem como diante da (iii) ausência de manifestação sobre as alegações de efetiva associação entre as empresas envolvidas na autuação. A contribuinte também ofereceu contrarrazões (Efl. 1017 ss.) ao recurso fazendário requerendo fosse mantida a redução da multa qualificada, em face da inexistência do evidente intuito fraudulento pressuposto para a sua aplicação, reiterando a questão da real associação entre as mencionadas companhias. A admissibilidade dos embargos (Efl. 1017 ss.) foi realizada pela Ilustre Conselheira Sandra Maria Faroni, relatora do acórdão recorrido, que entendeu não ser o caso de submetêlos à apreciação do colegiado, com as seguintes razões, cujo trecho se transcreve porque elucidativas para a definição do alcance do recurso interposto adiante: “Como sintetizado por V.Sa., a embargante alega omissão no acórdão em relação a três pontos: (a) aplicação ou não do art. 116 do CTN; (b) falta de regulamentação do art. 116 do CTN e (c) desconsideração de associação entre a embargante e o Grupo SonaeIta. Os principais argumentos do recurso foram: (a) que o negócio, levado a efeito a partir do contrato de associação, foi verdadeiro; (b) que ocorreu negócio jurídico indireto, e não simulação; (c) que a tributação negócio jurídico indireto só seria possível se houvesse uma cláusula geral antielisiva; (c) que inexiste cláusula geral ou especial antielisiva. Naquele recurso, de que fui relatora, analisei o negócio e entendi caracterizada a simulação. Por conseguinte, descabida qualquer consideração em relação ao art. 116 do C1N, que teve por escopo criar uma possibilidade de descaracterizar negócios lícitos, praticados com o objetivo de economizar tributos, a fim de submetêlos à tributação que adviria caso os negócios tivessem sido outros, aqueles preteridos em face do planejamento tributário. O voto condutor do acórdão que orientou a decisão da maioria, de relatoria do brilhante Conselheiro Mário Junqueira Franco Júnior, divergiu apenas quanto à qualificação da multa. Apontou a existência, no caso concreto, de todos os elementos caracterizadores dos institutos da simulação relativa e da fraude à Fl. 1256DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.257 16 lei, inclinouse pela caracterização como simulação relativa, entendeu que a penalidade só seria aplicável em caso de simulação absoluta e divergiu do voto vencedor apenas quanto à qualificação da multa. Não houve omissão na análise da associação Grupo SonaeIta Ambos os votos analisaram o negócio praticado (a partir da associação): O voto vencido concluiu peremptoriamente pela caracterização de simulação. O voto vencedor, embora tenha expressado dificuldade em se manifestar peremptoriamente pela simulação relativa ou pela fraude à lei, posto que o negócio apresenta todos os elementos de ambos os institutos, inclinouse pela simulação relativa. Não acolhida a tese de negócio jurídico indireto, descabia qualquer análise quanto à aplicação ou não do art. 116 do CFN e a falta de sua regulamentação. Finalmente, é de se atentar para a jurisprudência pacífica dos tribunais, no sentido de que o julgador não tem necessidade de enfrentar todos os argumentos trazidos pela parte, desde que sua decisão esteja suficientemente fundamentada. (…) Não, vejo, salvo melhor juízo, motivos para submeter os embargos ao Colegiado.” Em face do referido acórdão, a contribuinte também interpôs Recurso Especial (Efls. 1043 ss.) buscando demonstrar divergência com relação (i) ao conceito de simulação, indicando como paradigmas “prioritários” os acórdãos n. 10609343 e 106 14483, e sustentando que estes trariam a ilicitude como elemento indispensável à configuração da simulação, diversamente do acórdão recorrido, bem como (ii) à necessidade de existência de norma geral ou especial antielisiva para que fosse possível ao fisco a desconsideração de atos tidos como simulados, como se apreogaria nos acórdãos n. 20215948 e 20177174. Na sequência, a contribuinte buscou demonstrar “o caráter real, verdadeiro e efetivo da operação praticada pela Recorrente com vistas à sua associação com o Grupo SONAE no Brasil no negócio de supermercados que, inegavelmente, teve como um dos motivos de sua escolha a menor onerosidade fiscal”, reconhecendo ser “evidente que a prática coligada de todos e cada um dos atos e negócios jurídicos acima identificados é que proporcionou ao contribuinte obter uma economia de tributos, uma vez que, se alienasse diretamente o investimento em questão à SONAE, a Recorrente teria apurado um ganho de capital tributável.” Para manterse fiel ao entendimento defendido pela contribuinte, transcrevese alguns trechos de seu recurso, observandose que não têm necessariamente continuidade de texto: · Não obstante entender a Recorrente que o recurso a tal estrutura negocial configura, no máximo, um negócio indireto (lícito e eficaz perante terceiros, inclusive o Fisco), a fiscalização insiste em retorcer o conceito de simulação (ilícita e ineficaz perante o Fisco), para fazer nele recair a operação autuada e, com isso, tributar um ganho de capital que apenas teria ocorrido caso a operação praticada pela Recorrente tivesse sido outra que não a que efetivamente se praticou. O uso da analogia é vedado pelo Código Tributário Nacional (art. 108, § 1°). · Assim, sob a imprópria alegação de simulação, o Fisco quer, na verdade, Fl. 1257DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.258 17 fazer valer a figura (inexistente no Direito brasileiro) de uma norma geral antielisiva que, caso existente (o que se admite apenas para argumentar), lhe permitiria desconsiderar atos ou negócios válidos que, muito embora realmente praticados pelos contribuintes, pudessem, isoladamente ou coligados com outros atos, proporcionar economia de tributos. · 48. É, pois, o direito da Recorrente de livre escolha dos comportamentos a adotar com vistas a perseguir uma economia lícita de tributos que lhe está sendo tolhido (...) · (i) a operação autuada é verdadeira, revestindose da natureza de uma associação pública, real e duradoura; (ii) a operação autuada é, no máximo, um negócio indireto, não tributável por inexistir cláusula geral ou especial antielisiva; (iii) o conceito de simulação consagrado pela jurisprudência do E. Conselho de Contribuintes é estrito e não permite interpretações amplas que conduzam a enquadrar no mesmo o negócio indireto; e (iv) não há sequer indícios de simulação na operação autuada. · Do todo que atrás se expôs pode concluirse que: (i) os eventos acontecidos no mundo real efetivamente guardam inteira consonância com a intenção e desejo querido e realizado pelas partes (Recorrente e SONAE), bem assim, os fatos ocorridos foram os efetivamente concretizados, sem que se vislumbre qualquer simulação; (ii) não se detectam artifícios ou operações subjacentes acobertadas pelas transações efetivamente realizadas; (iii) todas as operações e transações encontramse registradas e escrituradas na escrituração comercial e fiscal, não se vislumbrando qualquer hipótese de resistência ou ocultação de qualquer fato, pois tudo foi realizado às claras e foi com base nelas que a autoridade fiscal formou as suas conclusões subjetivas; (iv) existem e foram cumpridas, junto à Secretaria da Receita Federal e aos demais órgãos públicos e privados, todas as formalidades próprias dos atos e operações praticados; (v) os fatos encontramse devidamente respaldados nas leis civis e comerciais, tendo sido atendidos todos os requisitos necessários para que eles se realizassem, pois tratase, na verdade, de operações comerciais e societárias perfeitamente legítimas e regulares; (vi) a fiscalização não conseguiu produzir qualquer prova irrefutável de que houve manipulação de fatos ou provas, utilização de interposta pessoa ou adulteração de qualquer documento que justificasse a desconsideração dos atos jurídicos praticados pela Recorrente; (vii) inexiste qualquer vedação ou óbice à realização das operações expressas nas leis fiscais, tendo em vista que os procedimentos adotados encontram fundamento legal; (viii) os supostos indícios, sobre os quais laborou a fiscalização, não se prestam para efeitos probatórios, pois não conseguem infirmar a veracidade das operações, constituindose, apenas, em juízos subjetivos das autoridades fiscais, sem que haja qualquer disposição de lei que lhes dê guarida; (ix) o Direito Tributário e nosso ordenamento jurídico não acolhem acusações sem provas e baseadas em meros indícios, pois, além de afrontar a legalidade, violaria a própria certeza do direito e a segurança jurídica; (x) não tendo restado provada e caracterizada a declaração enganosa de vontade, Fl. 1258DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.259 18 essencial à simulação, não há como subsistir a exigência do tributo e a imposição de penalidade agravada sob o argumento de que ocorreu, in casu, negócio simulado; (xi) não basta a simples suspeita de fraude para que o negócio jurídico seja desconsiderado pela autoridade lançadora, por simulação, mister se faz provar efetivamente que o ato negociai deuse em direção contrária à norma legal, com o intuito doloso de excluir ou modificar as características essenciais do fato gerador da obrigação tributária, porquanto a simulação não se presume, precisa ser, necessariamente, provada (art. 149, do CTN). · 4.2. Procedência quanto ao mérito do Recurso Especial: 4.2.1. a operação efetuada pela Recorrente não tinha como objetivo a economia de tributos; em verdade, conforme comprovado nos autos, tratavase de operação visando a associação entre a Recorrente e o Grupo SONAE, tanto que, após os negócios realizados, a Recorrente permaneceu com considerável participação acionária na empresa SONAE DISTRIBUIÇÃO BRASIL S.A. detendo, assim, de forma indireta, participação acionária em 4.2.2. a operação realizada pela Recorrente foi um negócio verdadeiro e representou efetivamente a vontade das partes, não podendo ser classificada como simulação; 4.2.3. os alegados indícios de simulação não se sustentam diante dos argumentos apresentados; 4.2.4. o ato de integralização de capital com ágio, erroneamente considerado como simulado, não foi sequer praticado pela Recorrente; e 4.2.5. no máximo, para fins de argumentação, a operação poderia ser classificada como negócio jurídico indireto, não tributável ante a inexistência de norma (geral ou especial) antielisiva; Por fim, requer a contribuinte seja, no mínimo, parcialmente provido o presente recurso para excluir dos autos de lançamento os valores referentes à participação acionária indireta que a Recorrente passou a ter em Nacional Supermercados S.A. após a realização das operações erradamente classificadas como simuladas. O Recurso Especial da contribuinte foi recepcionado por Despacho de Admissibilidade (Efls. 1224 ss.) que iniciou demarcando que este traria como matérias “conceito de simulação e necessidade de existência de norma (geral ou específica) antielisiva para possibilitar a tributação de negócio jurídico dito indireto”, registrou que seria inviável o reexame de fatos e provas em recurso especial e assim concluiu: “Pois bem; do confronto entre o acórdão recorrido e os paradigmas formei convencimento de que há divergência de entendimento entre o acórdão recorrido e os paradigmas apresentados, especialmente quanto ao primeiro paradigma, de n°. 10614.483, que não foi objeto de recurso à CSRF.” Por fim, a Fazenda Nacional ofereceu contrarrazões (Efls. 1219 ss.), sustentando que teria sido caracterizada a simulação, devendose manter a tributação do negócio realizado, não havendo que se falar em ausência de fundamentação legal. Fl. 1259DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.260 19 Passase, então, à apreciação do recurso. Voto Vencido Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora. Conhecimento do Recurso Especial O conhecimento do Recurso Especial condicionase ao preenchimento de requisitos enumerados pelo artigo 67 do Regimento Interno deste Conselho, que exigem analiticamente a demonstração, no prazo regulamentar do recurso de 15 dias, de (1) existência de interpretação divergente dada à legislação tributária por diferentes câmaras, turma de câmaras, turma especial ou a própria CSRF; (2) legislação interpretada de forma divergente; (3) prequestionamento da matéria, com indicação precisa das peças processuais; (4) duas decisões divergentes por matéria, sendo considerados apenas os dois primeiros paradigmas no caso de apresentação de um número maior, descartandose os demais; (5) pontos específicos dos paradigmas que divirjam daqueles presentes no acórdão recorrido; além da (6) juntada de cópia do inteiro teor dos acórdãos indicados como paradigmas, da publicação em que tenha sido divulgado ou de publicação de até 2 ementas, impressas diretamente do sítio do CARF ou do Diário Oficial da União quando retirados da internet, podendo tais ementas, alternativamente, serem reproduzidas no corpo do recurso, desde que na sua integralidade. Observase que a norma ainda determina a imprestabilidade do acórdão utilizado como paradigma que, (1) na data da admissibilidade do recurso especial, contrarie (i) Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal (art. 103A da Constituição Federal); (ii) decisão judicial transitada em julgado (arts. 543B e 543C do Código de Processo Civil; (iii) Súmula ou Resolução do Pleno do CARF; ou (2) de sua interposição, tenha sido reformado na matéria que aproveitaria ao recorrente. Voltandose ao caso concreto, consideramse preenchidos os requisitos acima, nos termos dos despachos de admissibilidade, vontandose por CONHECER os dois recursos em questão. Mérito Fl. 1260DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.261 20 Ultrapassado o conhecimento dos recursos especiais, devolvese ao julgamento (i) a manutenção da exigência principal baseda na questão do conceito de simulação e necessidade de norma antielisiva e (ii) a qualificação da multa. Já me posiciono, desde já, por adoção integral do voto vencedor proferido pelo Ilustre Conselheiro Mário Junqueira Frando Junior no acórdão recorrido, que embora se referisse somente à redução da penalidade, trouxe digressão farta e subsanciosa esclarecendo a qualificação dos mesmos fatos ora analisados como simulação relativa, antes que se concluísse sobre a inexitência de intuito fraudulento. Se verificado o início do acórdão recorrido, observase que a Ilustre Conselheira Sandra Faroni fez questão de pontuar, desde o príncípio, que não estaria em questão a licitude ou ilicitude dos atos particados, mas a sua oponibilidade ao Fisco. Muito embora eu possua o entendimento de que ao administrador é dado organizar a pessoa jurídica buscando economia financeira e, assim, fiscal, não penso que esse direito – ou mesmo dever – seja ilimitado para fins de oponibilidade ao Estado, quando não se respeita a causa do negócio jurídico diante de outras normas presentes no ordenamento jurídico brasileiro que traduzem vetores nesse sentido. Vejo a presente situação contendo elementos que, malgrado não constituam ilícitos, reunidos, são capazes de demonstrar não se haver atendido a referida causa do negócio jurídico declarado, como de aumento de capital com a itenção de associação entre as empresas Nacional Administração e Participações S.A. e a SONAE, como o exíguo prazo de um dia entre o aumento de capital, a incorporação da reserva de ágio e a cisão, em que esta sociedade assumiu, ao afinal, praticamente a integralidade do negócio pretendido; a expressividade do valor do ágio de R$ 296.331.177,00 no total de R$ 300.000.000,00; o pagamento pela SONAE deste valor da totalidade do negócio, segundo o laudo de avaliação, por uma participação de cerca de 9%; para enumerar alguns fatores. Revelam, sim, ao meu ver, a possibilidade de requalificação dos fatos como efetiva integralização e incorporação da reserva de ágio para aumento do valor patrimonial, seguida de cisão, que corresponderiam a uma efetiva alienação de participações, sem tributação do ganho de capital que haveria, se realizada a compra e venda efetiva, razão pela qual, posicionandome no que tange à primeira divergência, considerase prodecente a autuação fiscal quanto ao principal. Por outro lado, agora adentrandose no recurso especial da Fazenda Nacional, também não vislumbro a possibilidade de se imputar penalidade qualificada pela operação praticada, justamente porque a própria Conselheira relatora aduz não estar trabalhando no campo da ilicitude, o que ensejou a dicussão colocada na divergência apresentada pela contribuinte. Fl. 1261DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.262 21 Mais do que isso, o Relatório de Trabalho Fiscal tratou os atos como simulação, mas não logrou demonstrar o evidente intiuito fraudulento necessário à qualificação da penalidade, cujo dolo de fazêlo é essencial. Ao meu ver, afora a insuficiência da demonstração fiscal, também não identifico dolo de fraudar ou sonegar, entendo, sim, ter havido a escolha de um caminho fiscal menos oneroso, mas que por fugir à causa do negócio jurídico, tornase inoponível ao Fisco. Dizse isso, aliás, por se tratar de operação praticada em 1999, quando a doutrina e a própria jurisprudência desse colegiado era controversa sobre a validade de operações da espécie. Como, então, imputar ilicitude à conduta da contribuinte, se nem este órgão se posicionava assim em todos os casos? Penso que não se pode imputar, desse modo, essa consciência do ilícito e dolo à contribuinte. Nesse sentido, adotase, como dito, as razões de decidir do voto vencedor do acórdão recorrido, transcrito abaixo: “VOTO VENCEDOR Conselheiro MÁRIO JUNQUEIRA FRANCO JÚNIOR, Redator Designado A questão do planejamento tributário, ou melhor, da elisão fiscal, tem provocado acirrados debates nos Conselhos de Contribuintes. Há poucos anos, o conceito conferido ao contribuinte de se autoregular era considerado como absoluto, derivado do que se convencionou chamar de princípio da legalidade estrita, o que levava à interpretação dos fatos muito mais pelo seu formalismo do que pelo seu conteúdo. Também era comum adotarse hermenêutica em face do sentido literal da norma, sem maiores avaliações do seu intuito, desprestigiandose o seu conteúdo finalístico ou teleológico. Tudo isso em prol da almejada segurança jurídica. Não são raros os pronunciamentos doutrinários e jurisprudenciais a esse respeito: (…) Hoje em dia, no entanto, mais e mais se forma a consciência da responsabilidade social do contribuinte, mormente após o advento das modificações radicais introduzidas pela Constituição Federal de 1988. O assunto tem forte matiz ideológico, porém pode e deve ser ancorado nos princípios constitucionais, que nos servem de guia na conformação dos atos praticados pelos contribuintes, vis a vis a sua liberdade de agir. A Carta Magna de 1988 traz como norte principal a vontade de contrabalançar direitos e deveres, raramente conferindo um conteúdo absoluto a qualquer direito, salvo o direito à vida. Assim é que, como exemplos, o direito à propriedade está jungido ao seu uso conforme a sua função social, enquanto o direito ao sigilo de dados e comunicações pode ser temperado pelo interesse público de investigação, desde que devidamente autorizado pelo Poder Judiciário. No campo tributário, o princípio que norteia tanto a instituição de tributos quanto a prática de atos pelo contribuinte é o da capacidade contributiva, pois Fl. 1262DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.263 22 embute aspectos de isonomia e solidariedade, dispostos nos artigos iniciais de nossa constituição. (…) Assim é que a liberdade vem de mãos dadas com a justiça e a solidariedade, impondo a todos os cidadãos e aos seus representantes, agir com responsabilidade social, fator limitador da liberdade. Por isso é que no Direito Tributário a legalidade não pode ser considerada estrita, pelo menos quando tal adjetivo vier com a acepção de que tudo é possível, desde que formalmente lícito o ato praticado. A legalidade existe e deve ser respeitada, mas no sentido da definição dos fatos geradores, pois não se vai exigir prestação pecuniária sem existir lei que tenha instituído certo tributo. Legalidade estrita não pode ter o condão de permitir atos que, embora formalmente lícitos, sejam desprovidos de propósito negociai efetivo, transgredindo o ordenamento mediante formas vazias de conteúdo, cujo único desiderato seja contornar norma impositiva tributária, fulminando o princípio da capacidade contributiva. (…) O segundo ponto a considerar é a profunda mudança no desenho do próprio texto constitucional. Esta mudança de perfil do Estado repercute, também, no âmbito da tributação, que deixa de ser vista da perspectiva do confronto entre contribuinte e Fisco — a partir do que as respectivas normas constitucionais assumem o papel de instrumentos de limitação do poder do Estado e proteções ao patrimônio do indivíduo — para ser vista como instrumento de viabilização da solidariedade no custeio do próprio Estado. Daí a necessidade contributiva ser guindada à condição de princípio geral do sistema tributário, a teor do § 1°do artigo 145 da CF. Portanto, a compreensão e a interpretação do ordenamento tributário começam, a rigor, no preâmbulo da CF/88 e desdobramse pelos princípios fundamentais, direitos e deveres individuais e coletivos até chegar ao Capítulo tributário. O sistema tributário não é o bastante em si, não existe isolado do contexto, não é o núcleo da Constituição. É parte inegavelmente relevante que encontra seu significado quando visto de fora (à luz do conjunto dos valores constitucionais) e da repercussão que a Constituição como um todo traz para este campo específico. Daí não ser absoluto o direito do contribuinte de se autoregular. Deve fazêlo tendo como contorno a capacidade contributiva, bem como o conteúdo material dos atos, e não o meramente formal. Essa linha de entendimento chega forte ao Direito Tributário, na esteira do que estabelecido nas relações privadas com a edição do novo Código Civil, pois princípios basilares do convívio em sociedade devem ser observados em nossas condutas, como o da eticidade e o da boafé objetiva, bem como privilegiando a função social do contrato. Já defendi esta posição no Acórdão 10194.741, no qual destaquei: O ordenamento jurídico tem suas bases muito mais ligadas a interpretações sistemáticas e finalísticas, a ensejar um conjunto sustentado em certa axiologia, ainda que mutável no tempo, do que a restritivas interpretações literais, que insistem em produzir a falácia de que tudo deve estar minuciosamente escrito, como se a tanto o ser humano fosse capaz. Tais interpretações restritivas, que se apóiam, indevidamente, no dito princípio da legalidade estrita e da segurança jurídica, levando ambos ao extremo e deturpando seu conteúdo, apenas fazem Fl. 1263DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.264 23 sucumbir, como num passe de mágica, a verdadeira capacidade contributiva, e eliminam, com ares de juridicidade, um dever de contribuir, inerente ao convívio em sociedade'. Para que seja lícita a economia fiscal decorrente de um conjunto de atos os mesmos devem possuir conteúdo próprio, com riscos assumidos inerente aos institutos adotados, e propósito diverso de simplesmente driblar a aplicação de norma tributária impositiva, conforme nos ensina ONOFRE ALVES BATISTA JÚNIOR, in O Planejamento Fiscal e a Interpretação no Direito Tributário, ed. Mandamentos, p.69: Para nós, em primeiro lugar, para que tivéssemos 'poupança fiscal", tornaria necessário que a hipótese resultasse de atos ou negócios lícitos, nos quais as partes, de boafé, obtivessem, racionalmente, utilidades recíprocas, sendo que o resultado não poderia ser contrário ao ordenamento jurídico tributário. A 'economia de opção', dessa forma, resultaria explicitamente da própria lei, sem atentar contra o espírito e a finalidade da norma de incidência tributária, mesmo estando fragilizada pelas deficiências da técnica legislativa. Se os atos formalmente praticados, analisados pelo seu todo, demonstram não terem as partes outro objetivo que não se livrar de uma tributação específica, e seus substratos estão alheios às finalidades dos institutos utilizados ou não correspondem a uma verdadeira vivência dos riscos envolvidos no negócio escolhido, tais atos não são oponíveis ao fisco, devendo merecer o tratamento tributário que o verdadeiro ato dissimulado produz. No caso dos autos isso é patente. Tratase de conhecido planejamento de venda de participação societária, visando afastar tributação sobre ganho de capital. Ao invés de alienação direta, recebese um novo sócio, com investimento acima do valor patrimonial, ou seja, com ágio, retirandose da sociedade incontinente o sócio mais antigo, levando consigo os valores monetários, enquanto o novo sócio permanece com as ações que originalmente pretendia adquirir. Pode ser o total da participação ou apenas parte dela, mas sempre visando escapar do ganho de capital que seda gerado na parte das ações que se pretendia alienar. Há várias formas de se implementar tal objetivo. Quando, por exemplo, as ações pertencem a pessoas físicas, normalmente conferemse as cotas em empresa de passagem (conduit company), a fim de que o ágio possa repercutir em equivalência patrimonial no novo patrimônio dos sócios. A empresa que recebe investimento com ágio, se anteriormente de responsabilidade limitada, é transformada em companhia, para que a reserva não seja tributada. Existem casos também nos quais se procede a uma "cisão branca", conferindo se ativos em uma outra empresa (drop down), sendo esta última a receptora do ágio, com subseqüente cisão. Há ainda as "cash companies", nas quais o adquirente constitui uma empresa cujo único ativo é dinheiro em caixa, permutando ações com os antigos sócios, normalmente após uma operação de separação de ativos em empresa específica, conforme antes destacado. Em todos esses exemplos, inclusive o caso dos autos, o interesse é exclusivamente de escapar à manifestação patente de capacidade contributiva, excluindo a necessária imposição da norma tributária. Não há qualquer desejo de associação verdadeira. Ou se existir, pela remanescente participação, de fato o que se quer é conferir participação maior ao adquirente daquela que ele mesmo conferiu inicialmente, em percentual sempre ínfimo, pois o restante de sua inversão se faz através de ágio, não tributável, cuja contabilização no patrimônio líquido, em conta diversa da do Fl. 1264DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.265 24 capital, beneficia a todos os antigos proprietários da empresa. Há sempre abuso na utilização do ágio como instrumental, haja vista que a não tributação dessa parcela tem como raiz a continuidade da sociedade, fomentando os negócios que lhes são próprios. No entanto, a parcela do dinheiro entregue à sociedade é sempre ato contínuo transferida ao antigo sócio, mediante cisão ou outra forma de retirada da sociedade. Toda norma tem um caráter positivo de acordo com as suas finalidades. A do ágio vem da necessidade de fomento da sociedade, pelos futuros rendimentos que esta proporcionará ao novo sócio, por isso que o valor em dinheiro entregue à empresa supera o valor patrimonial da ação adquirida. Ora, desprovido de sentido o ato de adquirir participação ínfima, com concomitante acentuado ágio, para que este valor seja retirado da empresa logo em seguida. Outro aspecto sempre presente nessas operações são as cláusulas de segurança, que evitam acabem quaisquer das partes em situação não desejada. Um primeiro sintoma dessas disposições é o fator tempo. A integralização de capital e o ágio são executados em espaço de tempo curtíssimo, senão instantaneamente, com a retirada dos antigos sócios, por cisão, permuta ou outra forma qualquer. É claro que o adquirente da companhia não quer permitir que os alienantes mantenham controle da companhia com os valores já entregues. Muitas das vezes, como no presente caso, há contratos prévios, determinando a cada uma das partes o que se irá fazer, impondolhe restrições incontornáveis à manutenção de uma verdadeira associação. Por todos esses aspectos é que considero não oponível ao fisco a forma de apresentação adotada pela contribuinte, devendo ser cobrado o tributo correspondente ao ganho de capital efetivamente existente, que traduz a verdadeira capacidade contributiva existente nos fatos apresentados. Cabe ressaltar que não se está a utilizar de analogias ou interpretações de cunho econômico. Para que essas formas de interpretações sejam aplicadas é necessário que os fatos cotejados possuam substrato econômico efetivo, com efeitos semelhantes ou idênticos. No caso, o que se está a fazer é perquirir qual o verdadeiro fato, já que não há conteúdo material pela forma apresentada, pois, como visto acima, todos os efeitos derivados da associação e do ágio conferido nunca puderam ser produzidos, seja por força contratual ou pelo mecanismo adotado na realização do negócio. Mas concluirse pela manutenção do lançamento não me parece suficiente para a qualificação da penalidade, matéria que reconheço, sujeita a sinceras controvérsias. Ocorre que podemos qualificar os atos de planejamento como os dos autos em duas figuras que implicam em dissimulação: Simulação relativa ou fraude à lei. Não havendo atos antedatados ou pósdatados, ou falsidade material nos documentos apresentados, afasto de antemão a figura da simulação absoluta, à luz do que dispunha o Código Civil de 1916, vigente à época dos fatos apontados na autuação, bem como pelos contornos das novas regras do Código Civil de 2002. A questão fica vinculada ou à dissociação da vontade externada com dissimulação, ou ao interesse restrito na obtenção do benefício tributário através do negócio jurídico querido e formalizado, porém para mero contorno de norma imperativa. A simulação relativa representa a dissimulação pura e simples de um fato. Não existe mais nada além do ato dissimulado. Fl. 1265DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.266 25 O MINISTRO MOREIRA ALVES assim define a simulação relativa, in Anais do Seminário Internacional sobre Elisão Fiscal, ESAF, Brasília, 2002, p. 64: (…) A fraude à lei, por seu turno, é um drible na norma imperativa. Exemplo clássico é citado por MARCO AURÉLIO GRECO na obra supracitada, no qual um contribuinte, impossibilitado de importar um veículo por expressa vedação legal, importa todas as peças para produzilo, pois havia permissão para importação de peças visando reposição dos veículos importados antes da vedação. O objetivo era importar um carro, e foi alcançado através de um drible no ordenamento, utilizandose de uma norma que tinha fins diversos ao pretendido pelo contribuinte, o qual era em verdade expressamente vedado. É a burla ao ordenamento; aos seus fins. (…) Também nesses casos se trata de ato ou negocio jurídico querido ou de complexo de atos ou negócios jurídicos queridos, havendo coincidência entre a vontade e a sua manifestação, ao contrário do que ocorre na simulação. Tenho dificuldades em afirmar, de forma peremptória, em qual categoria estaria um planejamento como o do caso em tela, embora me incline para a simulação relativa, pois o negócio jurídico praticado não foi desejado pelas partes. Não houve interesse na associação. Houve interesse de alienação das ações. Nos exemplos acima de fraude à lei o negócio é sempre desejado: importar peças para fazer um carro ou doar dinheiro. Entretanto, foram realizados de maneira a burlar a norma. No entanto, percebo no caso desse processo todos os elementos que compõem os institutos. Há dissimulação, falta de substância na forma escolhida, cláusulas de segurança quanto à produção de efeitos diversos dos verdadeiramente pretendidos etc. O drible na imposição tributária também está presente. Ou seja, em matéria tributária, tirante a simulação absoluta, que se externa pela falsidade material ou ideológica dos atos praticados, os vícios das patologias de fraude à lei e simulação relativa muita das vezes se confundem, podendose vislumbrar, igualmente, abuso na utilização dos institutos, pois em dissonância com as suas inerentes finalidades. Por esse motivo, devo analisar a imposição da penalidade qualificada em cada um dos vícios supramencionados, já que, no meu entender, está só seria aplicável, no momento atual, em casos de simulação absoluta. Faço uso da expressão "no momento atual", pois não posso conceber que diante de tanta divergência doutrinária e jurisprudencial acerca do ato praticado pelo contribuinte, possamos, vários anos após a sua execução, eleválo a status de crime de sonegação fiscal. Vale ressaltar que, até mesmo nos dias atuais, há correntes a defender tratarse meramente de um negócio jurídico indireto, cuja licitude é avaliada tão somente pela forma de apresentação dos atos, sem análise da existência de qualquer conteúdo ou finalidade. Cito como exemplo o Acórdão 10614.483, do ano passado: "GANHO DE CAPITAL. SIMULAÇÃO. PROVA. A ação do contribuinte de procurar reduzir a carga tributária por meio de procedimentos lícitos, legítimos e admitidos por lei releva o planejamento tributário. Para a invalidação dos atos ou negócios jurídicos realizados, cabe à autoridade fiscal a ocorrência do fato gerador ou que o contribuinte tenha usado de estratagema para revestilo Fl. 1266DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.267 26 de outra forma. Não havendo impedimento legal para a realização das doações, ainda que delas tenha resultado a redução de ganho de capital produzido pela alienação das ações recebidas, não há como qualificar a operação de simulada. A reduzida permanência das ações no patrimônio dos donatários/doadores e doadores/donatários, por si só, não autoriza a conclusão de que os atos e negócios jurídicos foram simulados. No anocalendário de 1997 não havia a incidência de imposto sobre ganho de capital produzido pela diferença entre o custo de aquisição pelo qual o bem foi doado e o valor de mercado atribuído no retorno do mesmo bem." Tratavase de doação feito pelo filho ao pai, com imediata antecipação de legítima feita pelo pai, esta por valor de mercado, possibilitando a alienação sem posterior ganho de capital. A análise feita pela colenda Sexta Câmara indica forte entendimento no sentido dos aspectos formais, pois norma antielisiva específica só foi editada posteriormente, demonstrando convicção de que o planejamento pode existir se não houver expressa vedação legal, mesmo que o imediatismo das operações pudesse extemar o intuito meramente tributário das doações realizadas. Assim, nesse ambiente de conflito doutrinário, não há dificuldades a um contribuinte em ancorar seu procedimento em precedentes jurisprudenciais, nem tampouco de obter pareceres de juristas de escol a fundamentar sua pretensão. Alicerçar o lançamento na nova doutrina da interpretação dos fatos, privilegiando a verificação da verdadeira capacidade contributiva, não pode enveredar a ação fiscal para conclamar a aplicação da penalidade qualificada. Aplicase à espécie, sem pretensões de maiores conhecimentos no campo de Direito Penal, o denominado erro de proibição, a afastar, pela razoabilidade do desconhecimento da ilicitude do ato praticado, punibilidade diversa daquela do simples retardar no recolhimento do tributo, ou seja, a multa de lançamento de ofício de 75%. O erro de proibição está assim definido por LUIZ REGIS PRADO, in Elementos de Direito Penal, vol. 1, Ed. RT, 2005, p.132: Erro sobre a ilicitude do fato (erro de proibição). "O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuíIa de um sexto a um terço art. 21, CPC). Tratase de erro que tem por objeto a proibição jurídica do fato. É dizer: o agente perde, em decorrência de erro de proibição, a compreensão da ilicitude do fato. Constitui o lado oposto da consciência do injusto: supõe erroneamente que atua de forma lícita, conforme a norma, v.g., o agente acredita que ter em depósito cocaína não é vedado. A diferença decisiva entre erro sobre os elementos do tipo e erro sobre a ilicitude do fato "não se refere à oposição fatoconceito jurídico, mas sim à diferença tooilicitude". Assim, quem se apodera de coisa alheia, que erroneamente considera sua, encontrase em erro de tipo, pois não sabe que subtrai coisa alheia; mas quem acredita ter direito de fazer justiça pelas próprias mãos e se apodera de coisa alheia (caso do credor/devedor insolvente), encontrase em erro de proibição, sobre a ilicitude de sua conduta... Percebase a justificativa que tem um contribuinte, ao pesquisar a jurisprudência vacilante e a doutrina divergente, em considerar que estava agindo licitamente. Há pouco tempo, inclusive, prevalecia o entendimento de que a adoção de formas lícitas era suficiente para garantir a economia tributária visada com a seqüência de atos, independentemente do seu tempo ou ausência de qualquer outro propósito negocial. Inaceitável a qualificação da multa, principalmente para atos praticados há Fl. 1267DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.268 27 muitos anos, quando ainda incipientes as discussões a respeito das patologias que tomam não oponível ao fisco determinado planejamento tributário. Talvez não tenha sido outra a razão da edição dos artigos 13 a 19 da MP 66/2002, que exigia apenas a penalidade moratória, após a requalificação dos fatos, conforme abaixo: (…) Tal dispositivo, infelizmente, deixou de ser convertido em regra procedimental específica para lançamentos desse tipo, o que poderia ter em muito beneficiado o relacionamento do fisco com o contribuinte, estabelecendo contraditório antecipado das razões do ato, e oportunizando o recolhimento do tributo com apenas acréscimos moratórios. Para aqueles que entendem existir fraude à lei, vale destacar que esta não se confunde com a fraude criminal, conforme novamente nos ensina MARCO AURÉLI GRECO, op. cit., pp. 223 e 230: ...podem ser identificadas duas situações distintas às quais a palavra "fraude pode se referir: 1) a fraude à lei, em que há atos lícitos e violação indireta ao ordenamento como um todo e frustração da sua imperatividade; e 2) a fraude contra o Fisco em que a conduta agride diretamente uma norma que assegura um direito ou crédito do Fisco — existente ou em curso de formação — de modo a escondêlo ou impedir seu surgimento. Se não houve intuito de enganar, esconder, iludir, mas se, pelo contrário, o contribuinte agiu de forma clara, deixando explícitos seus atos e negócios, de modo a permitir a ampla fiscalização pela autoridade fazendária, e se agiu na convicção e certeza de que seus atos tinham determinado perfil legalmente protegido — que levava ao enquadramento em regime ou previsão legal tributariamente mais favorável — não se trata de caso regulado pelo inciso II do artigo 44, mas sim de divergência de qualificação jurídica dos fatos; hipótese completamente distinta da fraude a que se refere o dispositivo. Ora, todas as operações realizadas foram devidamente informadas pelo contribuinte, com as devidas declarações e registros contábeis, inclusive a declaração da cisão realizada. O Fisco não teve qualquer dificuldade em apurar os elementos do negócio realizado, e devidamente qualificálo, para exigir o tributo devido. Esse mesmo entendimento foi esposado pela colenda Terceira Câmara, em caso do planejamento denominado "incorporação às avessas", conforme excerto do voto condutor do Acórdão 10321047/2002: Verificada a impropriedade, para efeitos fiscais, da incorporação realizada, pois contaminada por vício de simulação, fica obstada a compensação de prejuízos oriundos da empresa SUPREMA S/A, tornandose inócua a preliminar suscitada que, por isso, deve ser rejeitada. No que concerne à penalidade imposta, esta foi a cominada no art. 992, inc. II, do RIR/94, aplicável "nos casos de evidente intuito de fraude, definidos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4502, de 30 de novembro de 1964", os quais, expressamente, contemplam hipóteses de intenção dolosa do agente, a saber: "Art. 71 Soneqação é toda ação ou omissão dolosa." "Art. 72 Fraude é toda ação ou omissão dolosa.." "Art. 73 Conluio é o ajuste doloso." O comando legal que remete aos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4502/64, delimita a aplicação da multa agravada aos casos de evidente intuito de fraude. A "evidência" indicada na lei exige que o intuito de fraude aflore com tal clareza que não se possa pôr em dúvida ter havido máfé nos atos praticados, com inequívoco propósito de violar disposição legal. Fl. 1268DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.269 28 A matéria objeto destes autos compreende caso de "simulação relativa" ou "dissimulação", e a doutrina maciçamente alerta para a dificuldade de definir, com precisão, a linha fronteiriça que separa o ato elisivo do negócio dissimulado. Também é comum recomendação de cautela, por parte do intérprete e aplicador da lei, pelas dificuldades práticas de se concluir por hipótese de evasão ou elisão, pois é insuficiente o elemento temporal (antes ou depois de ocorrência do fato gerador), especialmente em casos de simulação relativa, cuja determinação vinculase, via de regra, a fatos, indícios e presunções, por isso que cada situação deve ser analisada isoladamente. Em face de tais circunstâncias, vejome diante de muitas dificuldades para caracterizar a "evidência" exigida pela lei, cumulada com o "intuito de fraude" (este de caráter manifestamente subjetivo), pelas seguintes razões: as empresas envolvidas nas operações acoimadas de simulatórias são todas sociedades anônimas, em razão do que os atos praticados impõem divulgação e registro nos órgãos públicos, o que foi feito; todas as operações estavam devidamente lançadas na escrituração comercial e fiscal, não se vislumbrando qualquer hipótese de ocultação ou resistência a fornecimento de informações ou documentos solicitados pela Fiscalização; foram cumpridas, junto à Receita Federal e demais órgãos públicos, as formalidades próprias aos atos de incorporação. O que não padece de dúvidas é a intenção do contribuinte em economizar imposto, tendo ele praticado todos os atos que entendeu válidos, na forma da lei. Se conseguiu o "desideratum" é outro aspecto da questão, mas dai a afirmarse estar configurado um "evidente" intuito de fraude há, no meu juízo, um considerável distanciamento. Em assim sendo, não se pode olvidar que o Código Tributário Nacional, em seu Livro II Normas Gerais de Direito Tributário, no capítulo IV que trata da Interpretação e Integração da Legislação Tributária, achase incluído no art. 112, que dispõe: (…) Em face das diretrizes estabelecidas pelo art. 112 do CTN, acima transcrito, e ante as circunstâncias apontadas, entendo não estar configurada a evidência do intuito de fraude, exigência legal para agravamento da penalidade, a recomendar a aplicação da multa destinada às infrações. Brilhante o raciocínio desenvolvido pelo nobre Relator do aresto apontado. De fato, em circunstância envolvendo planejamento tributário, na qual o contribuinte registra todos os seus atos, cumpre todas as obrigações acessórias, dando pleno conhecimento ao fisco de sua atividade, impertinente a aplicação da pena qualificada, pois a regra de interpretação da imposição da multa há de se amoldar ao inciso IV do artigo 112 do CTN, mormente quando existam conflitantes e respeitáveis correntes doutrinárias e precedentes jurisprudenciais. Pelo exposto, peço vênias à Conselheira Relatora, para divergir do seu brilhante voto, mas apenas quanto à qualificação da penalidade, a qual reduzo para o percentual de 75%. É como voto.” (grifouse) Por essas razões, votase por NEGAR PROVIMENTO aos recursos da contribuinte e Fazenda Nacional, mantendose a autuação quanto ao principal e a desqualificação da multa, como feito pelo acórdão recorrido. Fl. 1269DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.270 29 (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Voto Vencedor Conselheiro André Mendes de Moura, Redator Designado. Não obstante o substancioso voto da I. Relatora, manifesto minha divergência em relação ao mérito do recurso especial da PGFN, que versa sobre a qualificação da multa de ofício. A situação versa sobre a alienação de 100% das ações da NACIONAL SUPERMERCADOS (NSA), detidas pela NACIONAL ADMINISTRAÇÃO E PARTICIPAÇÕES (NAP), para ao grupo SONAE. Contudo, a operacionalização do negócio não se deu mediante operação regular entre adquirente e alienante, no qual o primeiro pago o preço para o segundo. Pelo contrário, ocorreu mediantes eventos permeados de particularidades. Vale transcrever excerto do Termo de Verificação Fiscal: Em conformidade com item 1.1 do referido contrato, o objetivo do mesmo seria disciplinar a associação da NAP com o Grupo SONAEITA visando á operação conjunta da rede de supermercados e hipermercados pertencentes aos dois grupos econômicos, a ser implementada a partir de 01/04/99. De acordo com as cláusulas 2.1 e 2.13 do contrato (folhas 91 e 96), para implementação da associação, NAP transferiria a totalidade das ações que detinha na empresa NACIONAL SUPERMERCADOS S/A, doravante denominada de NACIONAL SUPERMERCADOS, para a empresa Sonae Distribuição Brasil S.A, doravante denominada de SONAE. Em decorrência desta transferência o SONAE pagaria R$ 300.000.000,00 a NAP. Por outro lado, a partir da implementação da associação, a NAP passa a ter participação no capital do SONAE equivalente a 17,56%. Por esta participação, NAP pagaria R$ 120.000.000,00 ao SONAE. (...) Cabe ainda destacar que a cláusula 2.13 do Contrato de Associação (folhas 96 a 98) estabelece o mecanismo de constituição da associação a ser utilizado para garantir a eficiência financeira e fiscal para ambas as partes. As etapas e Fl. 1270DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.271 30 procedimentos que levariam a esta eficiência financeira e fiscal a serem implementadas são: (...) c) Aumento de capital de NACIONAL SUPERMERCADOS, no valor total de R$300.000.000,00, a ser subscrito e integralizado pelo SONAE; d) Cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, imediatamente após o aumento de capital referido no item anterior, com versão do Caixa para NAP, permanecendo o SONAE com 100% da sociedade cindida; e) Aumento de capital no SONAE, no valor total de R$ 120.000.000,00, a ser subscrito e integralizado por NAP que assim passará a deter 17.56% das ações ordinárias do SONAE. Vale verificar os contornos que foram assumidos na transação de compra e venda (NAP alienante, NSA investimento e SONAE adquirente), tudo para afastar a tributação de ganho de capital. O que se observa é que o adquirente (SONAE) aumentou o capital do investimento para R$300 milhões, na sequência houve uma cisão do investimento, no qual precisamente o caixa foi vertido para o alienante (NAP) e a participação societária foi vertida para a adquirente (NSA). Como dizer que os negócios entabulados não foram efetuados com plena consciência das partes? Transcrevo mais um excerto do Termo de Verificação Fiscal: A Ata da AGE de 31/03/1999 (folhas 73 a 78) quer fazer crer que o SONAE pagou R$300.000.000,00 para adquirir 9,96% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS, quando o contrato de associação (folhas 87 a 202) firmado em 29/0111999 e o Laudo de Avaliação Econômico (folhas 306 a 380) produzido por Artur Andersen apontam este como sendo este o valor de 100% da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. O que levaria o SONAE a pagar o valor correspondente a 100% de uma companhia por apenas 9,96% do seu capital social? Consideramos que tal procedimento somente foi adotado pelo SONAE pela certeza de estar adquirindo por este valor (R$ 300.000.000,00) a totalidade da empresa NACIONAL SUPERMERCADOS. E esta certeza decorre do contrato de associação firmado com a NAP em 29/01/1999 que lhe garantia que, após a integralização de capital com ágio, a empresa NACIONAL SUPERMERCADOS seria cindida parcialmente, cabendo ao SONAE o controle acionário integral de NACIONAL SUPERMERCADOS. E isto de fato ocorreu. No dia seguinte (01/04/1999), houve a cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS. Em Fl. 1271DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.272 31 decorrência desta cisão, NAP se retira da sociedade, recebendo os R$300.000.000,00 pagos pelo SONAE e o SONAE passa a ser o único proprietário de NACIONAL SUPERMERCADOS. De que forma aceitar como verdadeiro instrumento representativo de ato jurídico que estabelece que NAP receberia, em 01/04/1999, R$ 300.000.000,00 em decorrência da cisão parcial de NACIONAL SUPERMERCADOS, quando está documentalmente comprovado que parte deste valor (R$ 180.000.000,00) já havia sido repassada para NAP em 31/03/1999? Portanto, consideramos que fica inquestionavelmente demonstrado que o objetivo do negócio foi à aquisição, pelo SONAE, das atividades de varejo do NACIONAL SUPERMERCADOS, incluindo suas instalações, estoques e créditos, deduzidos as dividas e obrigações relacionadas com estas atividades, como está definido no contrato de associação, firmado em 29/01/1999. O aumento de capital social com ágio e a posterior cisão parcial do NACIONAL SUPERMERCADOS foram meros instrumentos utilizados para implementar o verdadeiro negócio com o intuito de iludir um terceiro (no caso o Fisco) e evitar o pagamento de tributos, caracterizando a simulação. Resta ainda mais evidente a tentativa de ser mascarar a real intenção do negócio ao verificar que a SONAE pagou o valor correspondente a 100% do investimento (NSA) por apenas 9,96% do seu capital social. Mas tal percentual era fictício, tendo em vista que no dia seguinte a NSA foi cindida, 100% da sua participação foi vertida para a SONAE, e para a alienante (NAP) foi vertido o caixa. A fratura é exposta. Já me manifestei sobre o assunto no Acõrdão nº 9101002.953, da sessão de 03 de julho de 2017. A interpretação de que as operações foram legais, transparentes, e por isso não poderiam ser opostas ao Fisco, reflete uma visão ultrapassada do ordenamento jurídico como um todo. Ora, não é porque a operação foi legal no âmbito civil, empresarial, que se reveste de uma blindagem que a torna insuscetível de análise por outros ramos do direito. Se passa a ser apreciada sob a perspectiva tributária, para ser legal, também deve atender à norma tributária. E colocar princípios como a livre liberdade negocial no topo da pirâmide dos princípios constitucionais tampouco socorre a Contribuinte. A Lei Maior tem vários princípios, que devem ser ponderados. De fato a liberdade negocial é princípio a ser respeitado, mas deve caminhar ao lado de outros princípios da Lei Maior, que zelam pela existência e manutenção do Estado. O princípio de legalidade não implica que, se o negócio foi celebrado em consonância com a lei civil e empresarial encontrase blindado dos outro ramos normativos. Fl. 1272DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.273 32 Pelo contrário, o princípio da legalidade abrange o ordenamento jurídico em sua integralidade. Para ser legal, o negócio jurídico tem que ser legal sob a ótica de todos os ramos do direito. Nessa perspectiva, a legislação tributária é clara ao contestar a ocorrência de negócios eivados de dolo, fraude ou simulação. É dispositivo positivado no art. 149, inciso VII do CTN 1. Da mesma maneira, é expressa na legislação que negócios envolvendo ocorrência de dolo ensejam qualificação da multa de ofício 2, na forma da sonegação, fraude ou conluio 3. Apreciandose o caso concreto, impossível não se deparar com o plus na conduta. Não se trata de mero descumprimento da norma. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo4, consumandose o dolo. Ora, o plus na conduta é evidente, ultrapassando o tipo objetivo da norma tributária. Não se trata de mero descumprimento do dispositivo legal. Verificase a presença dos elementos cognitivo e volitivo, consumandose o dolo, cuja definição é apresentada com clareza por CEZAR ROBERTO BITENCOURT5. Não há que se tolerar o desvirtuamento dos institutos jurídicos. Legalidade não é dizer que se o negócio jurídico é legal para um ramo do direito encontrase intocável para todo o ordenamento jurídico. Legalidade é verificar se o negócio jurídico é legal sob o âmbito 1 Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos seguintes casos: (...) VII quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo, fraude ou simulação; 2 Vide Lei nº 9.430, de 1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (...) § 1º O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) 3 Vide Lei nº 4.502, de 1964: Art . 71. Sonegação é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária: I da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais; II das condições pessoais de contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente. Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Art . 73. Conluio é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos nos arts. 71 e 72. 4 Ver BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de direito penal : parte geral, volume 1, 11ª ed. São Paulo : Saraiva, 2007, p. 269: Para a configuração do dolo exigese a consciência daquilo que esse pretende praticar. Essa consciência deve ser atual, isto é, deve estar presente no momento da ação, quando ela está sendo realizada. (...)A vontade, incondicionada, deve abranger a ação ou omissão (conduta), o resultado e o nexo causal. A vontade pressupõe a previsão, isto é, a representação, na medida em que é impossível querer algo conscientemente senão aquilo que se previu ou representou na nossa mente, pelo menos, parcialmente. 5 Fl. 1273DF CARF MF Processo nº 11065.001589/200467 Acórdão n.º 9101003.168 CSRFT1 Fl. 1.274 33 de todo o direito. Princípio da liberdade negocial não se encontra no topo da pirâmide constitucional, mas caminha ao lado do princípio da legalidade (que predica a apreciação do ordenamento jurídico de maneira integrada), e dos princípios que zelam pela manutenção do Estado, com a capacidade contribuinte e isonomia entre contribuintes. Não há reparos a fazer, portanto, no entendimento da Fiscalização, quando decidiu pela qualificação da multa de ofício, com base nos artigos 71, 72 e 73 da Lei nº 4.502, de 1964, conforme Termo de Verificação Fiscal: Como já ficou amplamente demonstrado, a forma como o negócio entre a NAP e o SONAE foi formalizado demonstra de forma inequívoca a intenção de "impedir (...) o conhecimento por parte da autoridade fazendário da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária", configurandose assim a sonegação definida no art. 71 da Lei 4.502/64. Além disto, a forma dada ao negócio teve ainda o objetivo de "modificar as suas características essenciais (do fato gerador) de modo a reduzir o montante do imposto devido ou a evitar ou diferir o seu pagamento", caracterizando assim a fraude definida no art. 72 da mesma Lei. Finalmente, o conluio definido no art. 73 fica caracterizado pelo fato de todos os atos simulados terem envolvido duas empresas e seus diretores — a NAP e o SONAE. Isto sem falar nos fortes indícios de conluio também em relação aos peritos contratados para elaboração de laudos encomendados, de forma a tentar revestir a operação das formalidades legais necessárias. Deve, nesse contexto, ser reformada a decisão recorrida, para se restabelecer a qualificação da multa de ofício (150%). Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao recurso especial da PGFN. (assinado digitalmente) André Mendes de Moura Fl. 1274DF CARF MF
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