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Numero do processo: 16327.000992/2010-11
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Mar 03 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007
ÁGIO. CONTROVÉRSIA RELACIONADA À EXPECTATIVA DE RENTABILIDADE FUTURA VERSUS AQUISIÇÃO DE CARTEIRA DE CLIENTES E FUNDO DE COMÉRCIO. AVALIAÇÃO DA PROVA NO CASO CONCRETO.
Da análise da prova depreende-se que, no caso concreto, não foram adquiridos os bens individualmente ou mesmo o conjunto de bens (fundo de comércio) das sociedades Citifundos e Citiportfolios, mas sim as próprias sociedades.
A autoridade fiscal não impugnou os elementos indicados no laudo contábil que apurou a expectativa de rentabilidade futura. Limitou-se a presumir, sem elementos de prova, que a autuada estava adquirindo a carteira de clientes e o fundo de comércio. No entanto, quando se examinam os elementos e premissas contidas no laudo verifica-se que os valores indicados por estes e pagos pela empresa autuada dizem respeito à expectativa de rentabilidade futura e não à aquisição de carteira de clientes ou fundo de comércio.
Recurso Voluntário
Numero da decisão: 1402-001.925
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencido o Conselheiro Frederico Augusto Gomes de Alencar.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto - Presidente
(assinado digitalmente)
Moisés Giacomelli Nunes da Silva - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Frederico Augusto Gomes de Alencar, Carlos Pelá, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Paulo Roberto Cortez e Leonardo de Andrade Couto.
Nome do relator: MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA
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CONTROVÉRSIA RELACIONADA À EXPECTATIVA DE RENTABILIDADE FUTURA VERSUS AQUISIÇÃO DE CARTEIRA DE CLIENTES E FUNDO DE COMÉRCIO. AVALIAÇÃO DA PROVA NO CASO CONCRETO. Da análise da prova depreendese que, no caso concreto, não foram adquiridos os bens individualmente ou mesmo o conjunto de bens (fundo de comércio) das sociedades Citifundos e Citiportfolios, mas sim as próprias sociedades. A autoridade fiscal não impugnou os elementos indicados no laudo contábil que apurou a expectativa de rentabilidade futura. Limitouse a presumir, sem elementos de prova, que a autuada estava adquirindo a carteira de clientes e o fundo de comércio. No entanto, quando se examinam os elementos e premissas contidas no laudo verificase que os valores indicados por estes e pagos pela empresa autuada dizem respeito à expectativa de rentabilidade futura e não à aquisição de carteira de clientes ou fundo de comércio. Recurso Voluntário Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencido o Conselheiro Frederico Augusto Gomes de Alencar. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 09 92 /2 01 0- 11 Fl. 2948DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 3 2 (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Moisés Giacomelli Nunes da Silva Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Frederico Augusto Gomes de Alencar, Carlos Pelá, Fernando Brasil de Oliveira Pinto, Moisés Giacomelli Nunes da Silva, Paulo Roberto Cortez e Leonardo de Andrade Couto. Relatório Tratase de lançamento feito per meio dos autos de infração de fls. 2016 e seguintes. Para efeito de relatório adoto os seguintes trechos do acórdão recorrido “in verbis”: Conforme o Termo de Verificação Fiscal (TVF) de fls. 20532074, e anexos de fls. 20752081, em fiscalização empreendida junto à contribuinte supramencionada, foram apurados os fatos descritos a seguir: 1. Início das operações do grupo Legg Mason no Brasil Em 23/06/2005, os grupos Citibank e Legg Mason celebraram contrato de operações no qual o primeiro transferia ao segundo todo seu negócio de gestão de recursos de terceiros (“asset management”). Para tanto, o Banco Citibank S/A adquiriu e transferiu, às empresas a seguir, a totalidade dos ativos e passivos relativos à administração de recursos de terceiros: · O.C.F.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (posteriormente alterada para CITIFUNDOS ASSET MANAGEMENT LTDA) CNPJ 07.437.241/000141 – “bandeira renda variável”; e · L.M.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (alterada posteriormente para CITIPORTFOLIOS ASSET MANAGEMENT LTDA) CNPJ 07.437.251/000187 – “bandeira renda fixa”. Essas duas empresas foram constituídas em 25/05/2005 com capital de R$500,00, e até a data da transferência dos ativos e passivos relativos à atividade de gestão de recursos de terceiros pelo grupo Citibank nunca tinham operado. A estrutura mundial mantida pelo grupo Legg Mason era organizada em dois segmentos: administração de ativos de renda variável (sob controle da “bandeira” Legg Mason) e administração de ativos de renda fixa (“bandeira” Western Asset). No Brasil o grupo Legg Mason não possuía negócios, até adquirir, em 30/09/2005, duas empresas “holdings”: · V.H.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (alterada posteriormente para Legg Mason Participações Ltda) CNPJ 07.437.238/000128; Fl. 2949DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 4 3 · P.D.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (posteriormente alterada para Western Asset Participações Ltda) CNPJ 07.280.105/000190. Em 28/11/2005 essas empresas holdings promoveram, mediante aporte de capital do grupo Legg Mason, aumentos de capital social visando a aquisição local das cotas, então detidas pelo sócio Banco Citibank S/A, das empresas Citifundos Asset Management (pela Legg Mason Participações Ltda) e Citiportfolios Asset Management (pela Western Asset Participações Ltda). Em 01/12/2005, quando adquiriu as cotas da Citifundos Asset Management, empresa da “bandeira renda variável”, a Legg Mason Participações Ltda pagou ao Banco Citibank S/A, conforme contrato de compra e venda de cotas (tradução às fls.12941297), o montante de R$155.394.956,57, e registrou na holding o pagamento de ágio na aquisição do investimento. De acordo com o laudo de avaliação da empresa de auditoria (fls.13721375), o patrimônio líquido da Legg Mason Participações Ltda em 01/12/2005 era de R$155.397.706,131. Em 31/12/2005 houve a incorporação reversa da empresa Legg Mason Participações Ltda (holding – controladora) pela CitiFundos Asset Management (controlada). Também em 01/12/2005 houve a aquisição das cotas da Citiportfolios Asset Management (bandeira “renda fixa”) pela Western Asset Participações Ltda (tradução do contrato de compra e venda às fls.13091312), que para tanto pagou ao Banco Citibank S/A o montante de R$41.407.638,13, e registrou o pagamento de ágio na aquisição do investimento, conforme laudo de avaliação da empresa de auditoria (fls.123821242). Em 31/12/2005 houve a incorporação da empresa Western Asset Participações Ltda (holding – controladora) pela Citi Portfolios Asset Management (controlada), cuja razão social foi alterada para Western Asset Administradora de Recursos Ltda. Com as incorporações das empresas holdings houve a transferência do ágio pago pelo Legg Mason Inc para as empresas Citifundos Asset Management Ltda e Western Asset Administradora de Recursos Ltda. Em 31/05/2006, a Western Asset Administradora de Recursos Ltda foi incorporada pela Citifundos Asset Management Ltda, havendo a transferência do ágio pago na aquisição da Citiportfolios Asset Management para a Citifundos Asset Management. Em 14/06/2006 foi alterada a razão social da Citifundos Asset Management Ltda para Western Asset Management Co. Ltda. Em 31/01/2008, a sócia Legg Mason Inc retirase da sociedade, transferindo suas cotas para Western Asset Management (Brasil) Holdings Ltda, CNPJ 09.215.259/000124, empresa na qual a Legg Mason Inc detém 99,99% de participação no capital social. Em 27/05/2008, a Western Asset Management Co. Ltda foi transformada em distribuidora de títulos e valores mobiliários, alterando sua razão social para Western Asset Management DTVM. 1 Cópia deste laudo também consta das fls. 63/68 da numeração digitalizada. 2 Numeração manuscrita que equivale à fl. 1245 da numeração digitalizaada. Fl. 2950DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 5 4 1.1 Da contabilização do ágio pago pela Legg Mason Inc nas empresas holdings O ágio pago na aquisição dos investimentos, originalmente registrado no ativo permanente – investimento nas holdings, após o processo de incorporação foi re classificado para o grupo do ativo permanente – diferido das incorporadoras. A partir de 2006, a Western Asset Management DTVM vem amortizando o ágio à razão de 1/96 avos mensalmente por período de apuração, de forma mais conservadora que a prevista nos termos do inciso II do artigo 386 do RIR/99. Segundo a forma de contabilização adotada pela contribuinte, o fundamento econômico do ágio é o valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, conforme inciso II do parágrafo 2º do artigo 385 do RIR/99. A demonstração que embasa a escrituração do ágio nos termos do art.385, § 3º, do RIR/99 é o Relatório de Avaliação EconômicoFinanceira do Citigroup Asset Management (fls.61120) que, utilizando a metodologia do fluxo de caixa para o acionista descontado a valor presente – fluxo de dividendos, projeta as operações da Citifundos e Citiportfolios no período de 01/12/2006 a 31/12/2012. As incorporações reversas realizadas na sequência da aquisição dos investimentos viabilizaram a amortização na Citifundos do ágio pago em sua própria aquisição e na da Citiportfolios. O grupo Legg Mason adquiriu o total das cotas das empresas Citifundos e Citiportfolios; entretanto, o fundamento econômico do ágio pago foi a aquisição de fundo de comércio relativo à atividade de gestão de recursos de terceiros (Citigroup Asset Management) do Banco Citibank. Como a realidade fática na qual se insere esse empreendimento negocial inviabiliza a previsão de resultados futuros de empresas coligadas, pela ausência de histórico de operação na área de gestão de recursos de terceiros, esta fiscalização procederá à glosa das despesas de amortização de ágio, considerando não comprovado o fundamento econômico do ágio pelo valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros, conforme razões a seguir. 2. Razões de direito (fundo de comércio/estabelecimento comercial) No caso da empresa Citifundos, o fundamento econômico do ágio pago foi a aquisição do fundo de comércio relativo à atividade de “asset management” do Citigroup. Ressaltese que a carteira de recebíveis cedida à Citiportfolios, único ativo transferido, representa a clientela, que não é passível de existência autônoma, estando diretamente relacionada ao fundo de comércio do CAM. Fundo de comércio é fundamento econômico distinto da expectativa de rentabilidade futura, conforme se reconhece do § 2º do art.20 do Decretolei nº 1.598/77. No direito tributário, fundo de comércio e estabelecimento comercial são sinônimos. O fundo de comércio engloba também a carteira de clientes. Fl. 2951DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 6 5 A mãodeobra utilizada na execução da atividadefim do estabelecimento comercial é tão importante quanto os bens corpóreos e incorpóreos que integram o estabelecimento, figurando como elemento do estabelecimento comercial. O art.133 do CTN referese a fundo de comércio/estabelecimento comercial como passível de alienação autônoma, sem que haja alienação de participação societária ou de bens corpóreos. O art.1.142 do Código Civil define estabelecimento comercial como “todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária”. 3. Razões de fato 3.1 Razões que permitem concluir tratarse de aquisição de fundo de comércio. Em 01/12/2005 o Citigroup transferiu à Citifundos e à Citiportfolios o fundo de comércio relativo à atividade de gestão de recursos de terceiros (CAM), conforme Contrato de Transferência de Ativos e Assunção de Passivos (fls.18541858, 1962, 19631965 e 1969 1974). Na mesma data todas as cotas dessas duas empresas foram adquiridas pelo grupo Legg Mason. 3.1.1 Bens, direitos e obrigações cedidos Os bens, direitos e obrigações cedidos à Citifundos foram: a) Ativo disponibilidades caixa contas a receber (taxas de administração de fundos de investimentos) outros créditos (adiantamento de 13º e 14º salários) bens do ativo permanente (computadores, equipamentos, móveis, equipamentos de telefonia, veículos) e ativo diferido (software, benfeitorias em imóveis de terceiros) b) Passivo outras obrigações (passivos trabalhistas a pagar) participações nos lucros/bônus E à Citiportfolios foi cedido: a) Ativo caixa e bancos contas a receber (taxa de administração de fundos de investimentos) Concluise que à Citifundos foi cedida a totalidade dos bens, direitos e obrigações dos ativos circulantes e permanentes relativos ao negócio de gestão de recursos de terceiros e parte da clientela. Esse conjunto de bens, direitos e obrigações transferidos possibilita a continuidade do exercício da atividade do CAM. Fl. 2952DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 7 6 À Citiportfolios coube somente parcela da carteira de recebíveis (clientela). Para viabilizar suas operações e o credenciamento na CVM para o exercício das atividades de administração de carteira de valores mobiliários, a Citiportfolios contratou prestação de serviços da Citifundos, a partir de 01/12/2005, relativos a (i) departamento técnico e infra estrutura, e (ii) suporte operacional. Portanto, a carteira de recebíveis vinculase diretamente ao fundo de comércio da atividade do CAM, sendo deste indissociável. Ressaltese que as empresas Citifundos e Citiportfolios nunca operaram de forma dissociada do fundo de comércio transferido pelo Citibank. 3.1.2 Funcionários Houve a transferência de quase totalidade dos funcionários do CAM do Citibank para a Citifundos, os quais continuaram a trabalhar no mesmo local e com a mesma estrutura operacional. A manutenção do ambiente e da estrutura operacional foi possível pois o CAM operava em local separado das outras atividades do Citibank desde 03/99, em cumprimento às Resoluções CMN nº 2.451/97 e 2.486/98. 3.1.3 Clientes A transferência da administração dos fundos foi formalizada por meio das atas das assembléias gerais de cotistas. As cessões dos contratos de carteiras administradas foram formalizadas por meio de termos aditivos aos contratos, assinados entre o Citibank, a Citiportfolios e cada um dos clientes. Os fundos continuaram a ser distribuídos pelo Citibank e as atividades permaneceram no mesmo local, com os mesmos elementos físicos, o que foi decisivo para a formação dessa clientela. O Citibank ainda operava diretamente junto ao público, e tudo continuava onde sempre esteve e onde a clientela estava habituada a transacionar. 3.2 Relatórios de avaliação econômicofinanceira do Citifundos e Citiportfolios Nos relatórios de avaliação econômicofinanceira do Citigroup Asset Management Citifundos e Citiportfolios (fls.62120), elaborados por empresa de consultoria em 28/11/2005, consta no item II – Descrição da Empresa (fls.72 e 103), que: O CAM foi recentemente desmembrado em duas empresas, o Citiportfolios (...) e o Citifundos (...). Uma vez que o Citifundos é uma empresa recémcriada, não dispõe de histórico próprio, de forma que a análise feita a seguir referese ao CAM como um todo.”. Assim, a análise do crescimento das receitas líquidas e patrimônio administrado pelos fundos foi baseada em dados do CAM do Grupo Citibank no período de 2002 a 2004. Esses dados foram utilizados para estimar o valor do fundo de comércio/estabelecimento comercial referente à Citifundos e à Citiportfolios. Fl. 2953DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 8 7 A possibilidade de dedução do ágio está prevista no art.386, inciso III, do RIR/99 (art.7º, inciso III, da Lei nº 9.532/97 e art.10 da Lei nº 9.718/98), para os casos de ágio cujo fundamento econômico seja expectativa por rentabilidade futura. Constatado, no decorrer da ação fiscal, que o fundamento econômico do ágio é a aquisição de fundo de comércio, efetuouse a glosa das despesas de amortização de ágio ocorridas nos anoscalendário de 2006 e 2007. 4. Base de cálculo No anocalendário 2006, a contribuinte deduziu a título de “Despesa de Amortização Local – Ágio” (fls.877, conta 818.101.098.617, compondo a linha 20 da ficha 05A “Encargos de Depreciação e Amortização”, da DIPJ), o valor de R$22.241.780,67, a ser glosado por esta fiscalização. O prejuízo fiscal apurado pela empresa foi de R$12.661.347,23, mesmo valor da base de cálculo negativa da CSLL. No anocalendário 2007, a contribuinte deduziu a título de “Despesa de Amortização Local – Ágio” (fls.875, conta 818.101.098.617, compondo a linha 20 da ficha 05A “Encargos de Depreciação e Amortização”, da DIPJ), o valor de R$24.305.824,32, a ser glosado por esta fiscalização. A empresa apurou lucro real e base de cálculo da CSLL nos montantes de R$1.808.319,84, compensando R$774.994,22 a título de prejuízo fiscal e de base de cálculo negativa da CSLL. 4.1 Da compensação indevida de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa de CSLL Com a glosa da despesa de amortização de ágio no anocalendário de 2006, o prejuízo fiscal e a base de cálculo negativa da CSLL apurados pela empresa se converterão em lucro tributável, acarretando a compensação indevida de prejuízo fiscal e da base de cálculo negativa da CSLL, do anocalendário de 2007, no montante de R$774.994,22. 5. Do lançamento Constatadas as infrações de redução indevida do lucro líquido pela dedução de “despesas de amortização de ágio” (2006 e 2007), e de compensação indevida de prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL (2007), nas empresas Western Asset Management DTVM (CNPJ 07.437.241/000187) e Western Asset Administradora de Recursos Ltda, da qual a Western Asset Management DTVM Ltda é sucessora legal por incorporação, será efetuado lançamento de IRPJ e de CSLL com juros de mora e multa de ofício, nos termos do art.957, inciso I, do RIR/99. 6. Anexo I – Histórico dos eventos societários ocorridos no ano calendário de 2005 6.1 Histórico da V.H.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (CNPJ 07.437.238/000128), futura Legg Mason Participações Ltda (empresa holding da bandeira de renda variável) 25/05/2005: constituída a empresa V.H.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda com capital social de R$500,00. Fl. 2954DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 9 8 30/09/2005: alteração da razão social da V.H.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda para Legg Mason Participações Ltda, e cessão de suas cotas para as empresas Legg Mason Inc (CNPJ 07.648.154/000133) – 99%, e Legg Mason Internacional Holding LLC (CNPJ 07.648.155/000188) – 1%. 28/11/2005: a sócia Legg Mason Inc promove aumento do capital social da Legg Mason Participações Ltda com aporte estrangeiro de R$155.988.205,00. 31/12/2005: incorporação da Legg Mason Participações Ltda (controladora) pela Citi Fundos Asset Management Ltda (controlada). 6.2 Histórico da O.C.F.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (CNPJ 07.437.241/000141), futura Citifundos Asset Management Ltda (empresa operacional da bandeira de renda variável) 25/05/2005: constituída a empresa O.C.F.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda com capital social de R$500,00. 25/08/2005: cessão das cotas da O.C.F.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda ao Banco Citibank S/A e Ricardo John Arroyo, com aumento de capital para R$10.000,00, e mudança de razão social para Citifundos Asset Management Ltda. 01/12/2005: aumento de capital da Citifundos Asset Management Ltda para R$578.000,00 e subscrição de novas cotas, com posterior cessão da totalidade das cotas à Legg Mason Participações Ltda, que passa a ser a única administradora da sociedade. 6.3 Histórico da empresa P.D.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (CNPJ 07.280.105/000190), futura Western Asset Participações Ltda 25/05/2005: constituída a empresa P.D.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda com capital social de R$500,00. 30/09/2005: alteração da razão social da P.D.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda para Western Asset Participações Ltda, e cessão de suas cotas para as empresas Legg Mason Inc e Legg Mason Internacional Holding LLC. 28/11/2005: sócia Legg Mason Inc promove aumento do capital social da Western Asset Participações Ltda com aporte estrangeiro de R$41.565.584,00. 6.4 Histórico da empresa L.M.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda (CNPJ 07.437.251/000187), futura Citiportfolios Asset Management 25/05/2005: constituída a empresa L.M.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda com capital social de R$500,00. 25/08/2005: cessão das cotas da L.M.R.S.P.E. Empreendimentos e Participações Ltda ao Banco Citibank S/A e Ricardo John Arroyo, com aumento de capital para R$10.000,00, e mudança de razão social para Citiportfolios Asset Management Ltda. 01/12/2005: alteração da razão social da Citiportfolios Asset Management Ltda para Western Asset Administradora de Recursos Ltda, cujo capital aumentou para R$1.778.000,00; Fl. 2955DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 10 9 subscrição de novas cotas com posterior cessão da totalidade das cotas à Western Asset Participações Ltda, que passa a ser a única administradora da sociedade. 31/12/2005: incorporação da empresa Western Asset Participações Ltda pela Western Asset Administradora de Recursos Ltda. 31/05/2006: incorporação da Western Asset Administradora de Recursos Ltda pela Citifundos Asset Management Ltda. 14/06/2006: alterada a razão social da Citifundos Asset Management para Western Asset Management Co. Ltda. 31/01/2008: a sócia Legg Mason Inc retirase da sociedade, transferindo suas cotas para a Western Asset Management (Brasil) Holdings Ltda (CNPJ 09.215.259/000124), antiga Saratov Participações Ltda, empresa na qual a Legg Mason Inc detém 99,99% de participação no capital social. 27/05/2008: a Western Asset Management Co. Ltda foi transformada em DTVM, com alteração de sua razão social para Western Asset Management Company DTVM Ltda. 7. Anexo II A Western Asset Administradora de Recursos Ltda, até ser incorporada em 31/05/2006 pela Citifundos Asset Management, deduziu no Lalur, sob a rubrica “Despesas de Amortização de Ágio”, o montante de R$1.362.268,80. Pelos motivos expostos neste Termo de Verificação Fiscal, essa despesa será glosada, sendo adicionada ao lucro líquido. Essa despesa também deve compor a base de cálculo da CSLL. Em 31/05/2006, o lucro real apurado na Western Asset Administradora de Recursos Ltda foi R$2.482.074,31, assim como a base de cálculo da CSLL, não havendo saldo de prejuízo fiscal, nem de base de cálculo negativa de CSLL a compensar. O lançamento será efetuado na Western Asset Management Co. DTVM, sucessor legal por incorporação, conforme valores a seguir: Despesa de amortização de ágio glosada: R$1.362.268,80 IRPJ (15%) = R$204.340,32 IRPJ(10%) = R$126.226,88 (base de cálculo: R$1.362.268,80 – R$100.000,00) IRPJ devido = R$330.567,20 CSLL (9%) = R$122.604,19 Os autos de infração (fls. 20162052) foram fundamentados nos seguintes dispositivos legais: Demonstrativo do IRPJ – fatos geradores 31/12/2006 e 31/12/2007 Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor (R$) Principal Artigos 247, 249, inciso I, 250, inciso III, 251, parágrafo único, 299, 8.641.312,98 Fl. 2956DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 11 10 385, 386, inciso II, 509 e 510 do RIR/99. Juros de Mora (até 29/10/2010) Art.6º, § 2º, da Lei nº 9.430/96. 2.684.488,91 Multa Proporcional Fatos geradores entre 01/01/97 e 21/01/2007: art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96; a partir de 15/06/2007: art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pelo art.14 da Lei nº 11.488/2007. 6.480.984,73 TOTAL 17.806.786,62 Demonstrativo do IRPJ – fato gerador 31/05/2006 Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor (R$) Principal Artigos 247, 249, inciso I, 251 e parágrafo único, 299, 385, 386, inciso II, do RIR/99. 330.567,30 Juros de Mora (até 29/10/2010) Art.61, § 3º, da Lei nº 9.430/96. 154.672,43 Multa Proporcional Art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. 247.925,47 TOTAL 733.165,20 Demonstrativo da CSLL – fatos geradores 31/12/2006 e 31/12/2007 (despesa indedutível) Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor (R$) Principal Art. 2º e §§, da Lei nº 7.689/88; art.1º da Lei nº 9.316/96 e art.28 da Lei nº 9.430/96; art.37 da Lei nº 10.637/02; artigos 385 e 386, inciso II, do RIR/99. 3.049.763,18 Juros de Mora (até 29/10/2010) Art. 28 c/c art.6º, § 2º, da Lei nº 9.430/96. 950.252,16 Multa Proporcional Fatos geradores entre 01/01/97 e 21/01/2007: art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96; a partir de 15/06/2007: art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pelo art.14 da Lei nº 11.488/2007. 2.287.322,38 TOTAL 6.287.337,72 Demonstrativo da CSLL – fato gerador 31/12/2007 (compensação indevida) Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor (R$) Principal Art. 2º e §§, da Lei nº 7.689/88; art.58 da Lei nº 8.981/95 e art.16 da Lei nº 9.065/95; art.1º da Lei nº 9.316/96 e art.37 da Lei nº 10.637/02. 69.749,47 Juros de Mora (até 29/10/2010) Art. 28 c/c art.6º, § 2º, da Lei nº 9.430/96. 19.543,80 Fl. 2957DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 12 11 Multa Proporcional Art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96 com redação dada pelo art.14 da Lei nº 11.488/2007. 52.312,10 TOTAL 141.605,37 Demonstrativo da CSLL – fato gerador 31/05/2006 Crédito Tributário Enquadramento Legal Valor (R$) Principal Art. 2º e §§, da Lei nº 7.689/88; art.28 da Lei nº 9.430/96; art.37 da Lei nº 10.637/02; artigos 385 e 386, inciso II, do RIR/99. 122.604,19 Juros de Mora (até 29/10/2010) Art. 61, § 3º, da Lei nº 9.430/96. 57.366,50 Multa Proporcional Art. 44, inciso I, da Lei nº 9.430/96. 91.953,14 TOTAL 271.923,83 DA IMPUGNAÇÃO Inconformada, a contribuinte apresentou a impugnação de fls. 20872141, acompanhada dos documentos de fls. 21422335, em síntese alegando que: 1. Da geração do ágio e das alegações da fiscalização A Legg Mason Inc adquiriu, por meio das empresas Legg Mason Participações Ltda (Legg Mason) e Western Asset Participações Ltda (Western Asset), as empresas Citifundos (impugnante) e Citiportfolios tomando por base laudos de avaliação de empresa de auditoria independente. Nessas operações houve geração de ágio, pois os valores de patrimônio líquido das empresas adquiridas eram inferiores aos que foram pagos pela Legg Mason e Western Asset. Esse ágio foi contabilizado pelas empresas adquirentes e posteriormente amortizado pela impugnante – em vista das operações societárias realizadas. 2. Do direito 2.1 Rentabilidade futura como fundamento econômico do ágio – cumprimento dos requisitos legais Segundo o § 2º do art.20 do Decretolei nº 1.598/77, reproduzido no § 2º do art.385 do RIR/99, o lançamento do ágio deve indicar um dos fundamentos econômicos ali mencionados, mas não todos eles obrigatoriamente. Tal indicação é critério de decisão único e exclusivo do adquirente, não cabendo ao fisco estabelecer o fundamento que suportou o preço pago. Caso a adquirente objetive explorar o negócio, o preço e o ágio podem ser fundamentados pela rentabilidade esperada. Fl. 2958DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 13 12 A impugnante foi adquirida com ágio fundamentado no resultado de exercícios futuros, comprovado por laudo de avaliação de empresa de auditoria, conforme o art.385, § 3º, do RIR/99, sendo autorizada, pelo art.386, III, e § 6º, do RIR/99, a amortizar o valor do ágio posteriormente à incorporação, à razão de até um sessenta avos, para cada mês do período de apuração. A fiscalização não apresentou prova de que o ágio em tela englobaria valor correspondente a fundo de comércio adquirido, tampouco qual a parcela desse montante comporia o total do custo de aquisição. A validade dos laudos elaborados pela empresa de auditoria não foi questionada pela fiscalização, que não analisou os fundamentos econômicos apontados nos laudos, e apenas afirmou, de forma genérica e abstrata, que o ágio estaria vinculado a fundo de comércio. O fisco deve provar a ocorrência do fato gerador da obrigação, e não apenas supor a existência do fato jurídicotributário, sob pena de nulidade do lançamento. 2.2 Da incorreta análise da fiscalização quanto à valoração das sociedades adquiridas da análise das sociedades empresariais e não de seus fundos de comércio O estabelecimento/fundo de comércio é um conjunto de bens cuja função é operacionalizar a atividade empresarial. O fundo de comércio integra a sociedade, que representa algo maior, sendo a conjugação de duas ou mais pessoas que unem seu capital e trabalho com objetivo de lucro. Os valores pagos pela aquisição das sociedades Citifundos e Citiportfolios não dizem respeito somente ao fundo de comércio, mas sim às sociedades gestoras das carteiras de investimento. O ágio em tela surgiu da aquisição das sociedades Citifundos e Citiportfolios, pelo que os valores dessas aquisições dizem respeito às sociedades como um todo, e não somente aos respectivos fundos de comércio como supôs a fiscalização. Ao contrário do entendimento da fiscalização, não foram adquiridos, pela Western Asset e Legg Mason, os bens individualmente ou mesmo o conjunto de bens (fundo de comércio) das sociedades Citifundos e Citiportfolios, mas sim as próprias sociedades, pelo que os valores pagos dizem respeito a uma análise das sociedades como um todo, incluindo elementos que não fazem parte do fundo de comércio, os quais compuseram a avaliação das sociedades adquiridas. O que de fato se adquiriu e pagou foram as sociedades, não sendo possível segregar ou identificar o valor pago pelo fundo de comércio nessas aquisições. 2.3 Da correta interpretação e aplicação do §2º do art. 385 do RIR/99 2.3.1 Dos fundamentos previstos no §2º do art.385 do RIR/99 O Pronunciamento Técnico 15 do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) determina em seu item 32 as formas de reconhecimento e mensuração do ágio por expectativa de rentabilidade futura ou do ganho proveniente de compra vantajosa. O fundamento previsto no inciso II do § 2º do art.385 do RIR/99 (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em precisão dos resultados dos exercícios futuros) será utilizado caso o adquirente pague, pela aquisição da adquirida, valor superior ao registrado no patrimônio líquido desta, esperando obter ganhos futuros com essa aquisição. Fl. 2959DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 14 13 O fundo de comércio representa os meios usados pelo empresário para consecução de operações vantajosas, sendo formado por elementos corpóreos e incorpóreos. Os incisos I e III do §2º do art.385 do RIR/99 fundamentam o ágio em dois elementos componentes do ativo das empresas (ativos tangíveis e intangíveis – e fundo de comércio), enquanto que o inciso II (expectativa de rentabilidade futura) indica uma forma de valoração de todos esses elementos. Sempre que uma aquisição com ágio respaldarse na expectativa de rentabilidade futura, aplicase o inciso II do §2º do art.385 do RIR/99, independente de qual elemento sustente aquela expectativa. 2.3.2 Dos fundamentos do ágio motivação O §2º, e incisos, do art.385 do RIR/99 não trazem qualquer regra para determinação do fundamento do ágio, não sendo admitidas interpretações extensivas que não estão respaldadas na legislação tributária. À contribuinte compete guardar a documentação que suportou a fundamentação, conforme §3º do art.385 do RIR/99, o que foi feito por meio dos laudos de avaliação elaborados pela empresa de auditoria. Comprovado o real motivo que guiou o pagamento do ágio nas operações em tela, não pode ser acolhido o “entendimento presuntivo” da fiscalização, devendo ser canceladas as autuações combatidas. 2.4 Do enfoque contábil quanto à regra para determinação da fundamentação econômica do ágio e quanto à expressão fundo de comércio Ainda que se alegue que a determinação da fundamentação econômica do ágio pressupõe a avaliação de cada um dos incisos do §2º do art.385 do RIR/99, desprezando a motivação e fazendo prevalecer o enfoque contábil na fundamentação do ágio, isso somente se aplica quando os elementos contemplados naqueles incisos possam ser individualizados, o que não foi demonstrado pela fiscalização. Houve redundância do §2º do art.385 do RIR/99 já que, se o fundo de comércio mencionado pelo legislador no inciso III tivesse o significado conferido pela doutrina comercial (todos os bens destinados à consecução de objetivos da sociedade empresarial), não haveria espaço para os outros incisos, pois o fundo de comércio englobaria todos os bens da sociedade, que são a base para uma análise de expectativa de rentabilidade futura. Devese, pois, buscar o sentido dado à expressão fundo de comércio. Para que um determinado bem possa ser registrado no ativo da companhia é preciso que ele seja passível de individualização. Fundo de comércio, assim, são todos os bens passíveis de individualização. O inciso II do § 2º do art.385 do RIR/99 serviria também ao registro da expectativa de rentabilidade futura dos elementos que não puderam ser individualizados na formação do fundo de comércio. A fiscalização concluiu que todos os bens que fizeram parte da aquisição compõem o fundo de comércio, sem identificar os bens individualizáveis, conferindo à expressão fundo de comércio o sentido colocado pela doutrina comercial. Fl. 2960DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 15 14 Conforme os laudos apresentados, o ágio fundamentouse na expectativa de rentabilidade futura atribuída à sociedade adquirida como um todo, sem mensurar e valorar cada um dos bens que formariam o fundo de comércio. Assim, a fiscalização não pode afirmar que todo o valor da rentabilidade futura seria atribuível ao fundo de comércio, sem antes individualizar os bens que compõem esse fundo de comércio. Ademais, adotandose o enfoque contábil, a fiscalização concluiria que a expectativa de rentabilidade futura dos bens individualizados somados, do fundo de comércio, seria inferior à expectativa calculada para a sociedade empresarial, pois há elementos que não podem ser reconhecidos contabilmente mas que compõem a rentabilidade futura (credibilidade, sinergia, e outros). A esses elementos deve ser reconhecida a expectativa de rentabilidade futura. A expressão fundo de comércio referese exclusivamente ao intangível não identificado, sem chance de negociação individualizada, fruto de sinergia entre ativos e outros fatores; referese àquilo que vai além do valor de mercado dos ativos contabilizados. Esse é também o significado conferido pela doutrina contábil ao ágio gerado por expectativa de rentabilidade futura. A Instrução CVM nº 247/96 aponta apenas dois motivos para o ágio: (i) diferença entre preços de mercado e valor contábil, e (ii) ágio por expectativa de rentabilidade futura. Os Pronunciamentos Técnicos CPC 04 e 15 também mencionam o ágio por expectativa de rentabilidade futura, sem mencionar a expressão fundo de comércio. O legislador se equivocou ao mencionar no Decreto nº 1.598/77 o fundo de comércio e expectativa de rentabilidade futura, pois mencionou o mesmo instituto contábil duas vezes. Portanto, deve ser cancelada a autuação em virtude (i) do equívoco da fiscalização ao atribuir todo o ágio da operação ao fundo de comércio, sem individualizar os bens que o compõe, ou (ii) de as expressões fundo de comércio e ágio por expectativa de rentabilidade futura serem instituto único, não prevalecendo a glosa efetuada pela fiscalização. 2.5 Do erro cometido pela fiscalização na apuração do IRPJ e CSLL A impugnante apurou valores de saldo negativo de IRPJ e CSLL no anobase de 2006 e 2007 em virtude de recolhimentos por estimativa, bem como de retenções sofridas, porém a fiscalização não considerou tais valores na recomposição das bases de cálculo do IRPJ e CSLL desses anos. Assim, não foram cumpridos os requisitos de certeza e liquidez do art.142 do CTN e dos artigos 10 e 11 do Decreto nº 70.235/72, pelo que é nulo o lançamento. 2.6 Da inexistência de previsão legal para a adição, na base de cálculo da CSLL, da despesa com a amortização de ágio considerada indedutível pela fiscalização Existem normas específicas que tratam das adições e exclusões ao lucro líquido para determinação da base de cálculo da CSLL. O que há em comum entre a CSLL e o IRPJ são apenas as mesmas regras de apuração e pagamento; porém referidos tributos não observam as mesmas regras de dedutibilidade de despesas. Portanto, deve ser cancelado o auto de infração, em razão da inexistência de previsão legal que permita a adição de despesa de amortização de ágio na base de cálculo da CSLL. Fl. 2961DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 16 15 2.7 Da impossibilidade do lançamento da multa de ofício na hipótese de responsabilidade tributária por sucessão A fiscalização glosou despesas com amortização de ágio efetuada pela Western Asset Administradora de Recursos antes de sua incorporação pela impugnante. Porém, conforme art.132 do CTN, o sucessor responde apenas pelos tributos devidos até a data da sucessão. Com relação à multa, devese averiguar o momento em que tal penalidade foi constituída, sendo transferida ao sucessor somente se lançada antes do ato sucessório. No caso, como a multa foi lançada após a incorporação, não há que se manter a cobrança da multa lançada. A autuação também não pode prevalecer em razão do caráter personalíssimo das multas, conforme já assentado pela jurisprudência judicial e administrativa sobre o tema, razão pela qual deve ser exonerada a multa de ofício. 2.8 Da ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa Os juros não poderão ser exigidos sobre a multa de ofício, por falta de previsão legal. O art.13 da Lei nº 9.065/95, que prevê a cobrança de juros Selic, remete ao art.84 da Lei nº 8.981/95, que estabelece a cobrança de juros apenas sobre tributos. A multa é penalidade pecuniária, possui natureza de sanção; não é tributo, conforme art.3º e 113 do CTN. A cobrança de juros viola o princípio da legalidade (artigos 5º, inciso II, e 37 da CF/88). O art.43 da Lei nº 9.430/96 autoriza apenas a cobrança de juros em relação à multa isolada, hipótese diversa dos autos. Ante o exposto, devem ser cancelados os juros de mora sobre a multa de ofício. O processo esteve em pauta na sessão de 07 de agosto de 2012, ocasião em que o Colegiado converteu o julgamento em diligência para que a autoridade fiscal fizesse a reconstituição da base de cálculo (considerandose eventuais prejuízos fiscais do ano e a compensação dos anos anteriores), bem como a reconstituição do saldo de imposto a pagar, aproveitando as retenções em fonte e os recolhimentos por estimativa, observandose os preceitos dos art. 7º. e seguintes da Lei 9.430/1996. O relatório da diligência consta das fls. 2.883 a 2.891 ocasião em que a autoridade fiscal, após análise, apurou que os saldos negativos de 2006 e 2007 já estão sendo objeto de aproveitamento em procedimentos de compensação e “uma vez que as retenções e as estimativas já estão sendo aproveitadas em períodos posteriores, estas não devem ser aproveitadas novamente nas bases de 2006 e 2007 (fl. 2891).” Do resultado da diligência, a recorrente manifestouse nos seguintes termos: Fl. 2962DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 17 16 .... Fl. 2963DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 18 17 É o relatório. Voto Conselheiro MOISÉS GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Relator O recurso é tempestivo, está devidamente fundamentado, foi interposto pela parte interessada que pretende ver reformada a decisão recorrida. Assim, preenche os requisitos de admissibilidade, razão pela qual dele conheço e passo ao exame do mérito. No caso dos autos, como bem observou o relatório do acórdão recorrido à fl. 2.354, “é relevante esclarecer que a autuação em questão não nega a existência do ágio, mas descaracteriza o respectivo fundamento econômico invocado pela empresa – qual seja, rentabilidade futura. “O fundamento econômico do ágio pago foi a aquisição de fundo de comércio, relativo à atividade de gestão de recursos de terceiros (CAM) do BANCO CITIBANK” (fl. 1984 e 1996). Assim, diante do fato de que não é dado a este colegiado afastarse dos motivos que determinaram a autuação (teoria dos motivos determinantes do ato administrativo)3, cabe analisar a origem do ágio em questão e se, à luz do direito vigente à época, era ou não dedutível. 3 A motivação faz parte da forma do ato, isto é, ela integra a sua essência. Se o ato deve ser motivado para ser válido, uma vez motivado, não pode a autoridade administrativa, em momento subseqüente, alterar a motivação, sob pena de nulidade. Neste sentido citase a ementa do acórdão 1402001.572, Rel. Conselheiro Moisés Fl. 2964DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 19 18 A autoridade fiscal formou convicção de que, no caso concreto, o ágio não decorreu de expectativa de rentabilidade futura e sim de alienação do fundo de comércio baseada no entendimento de que “a realidade fática na qual se insere esse empreendimento negocial inviabiliza a previsão de resultados futuros de empresas coligadas, pela ausência de histórico de operação na área de gestão de recursos de terceiros (fl. 1985). Diz, ainda, a autoridade fiscal: “a clientela não é, como se diz, um elemento do fundo, é o próprio fundo (fl. 1989); “a clientela é um fator que determina valor agregado do estabelecimento empresaril(fl. 1989); “em 1º de dezembro de 2005 o Citigroup transferiu a CITIFUNDOS e à CITIPORTFOLIO4, o fundo de comércio relativo à atividade de gestão de recursos. Nesta mesma data a totalidade das quotas dessas empresas foram adquiridas pelo Grupo Legg Mason; À CITIFUNDOS coube a totalidade dos bens, direitos e obrigações dos ativos circulantes e permanentes relativos ao negócio de gestão de recursos de terceiros e parte da clientela (fl. 1992); De forma é possível associar a este conjunto de bens, direitos e obrigações transferidos a possibilidade de continuação do exercício da atividade de CAM (fl. 1992); À CITIPORTFOLIO coube somente parcela da carteira de recebíveis (clientela). A fim de viabilizar sua operacionalidade e credenciamento junto à CVM, a partir de 1º de dezembro de 2005, a CITIFUNDOS iniciou a prestação de serviços à CITIPORTFOLIO (fl. 1992); Giacomelli, que invocando os itens 5 e 6 da ementa do RESP 1.130.546RJ, julgado sob a forma do artigo 543C, do CPC, assim se posicionou: Se o Fisco passa, em momento ulterior, a dar a um fato conhecido uma 'relevância jurídica', a qual não lhe havia dado, em momento pretérito, não será caso de apreciação de fato novo, mas de pura modificação do critério jurídico adotado no lançamento anterior, o que revelase inadmissível. A revisão do lançamento tributário por erro de fato reclama o desconhecimento de sua existência ou a impossibilidade de sua comprovação à época da constituição do crédito tributário. Ao revés, nas hipóteses de erro de direito (equívoco na valoração jurídica dos fatos), o ato administrativo de lançamento tributário revelase imodificável, máxime em virtude do princípio da proteção à confiança, encartado no artigo 146, do CTN, segundo o qual "a modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução" (Precedente RESP 1.130.546 – RJ, julgado sob a forma do artigo 543C, do CPC, de relatoria do Ministro Luiz Fux., julgado em 09/08/2010. Ver itens 5 e 6 da ementa do citado acórdão). No caso dos autos, a revisão do lançamento não se deu por fato desconhecido da autoridade fiscal, quando do lançamento. O que ocorreu foi nova qualificação jurídica a fatos já conhecidos e descritos no primeiro termo de verificação fiscal. Tal procedimento, isto é, diante dos mesmos fatos atribuir outra qualificação jurídica, está a revelar hipótese de erro de direito, situação que à luz do artigo 146 do CTN, não admite revisão do lançamento. Se o ato deve ser motivado para ser válido, uma vez motivado, não pode a autoridade administrativa, em momento subseqüente, alterar a motivação, sob pena de nulidade. Ou os motivos determinantes do ato administrativo existiam quando de sua prática e ele é válido, ou inexistiam e o ato, neste caso, é inapto a produzir efeitos no mundo jurídico. 4 CITIPORTFOLIO ASSENMANAGENT CAM. Fl. 2965DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 20 19 Pelo exposto, concluise que a carteira de recebíveis está diretamente vinculada ao fundo de comércio da atividade de CAM, sendo deste indissociável (fl. 1994); Ressaltese que as empresas CITIFUNDOS e CITIPORTFOLIO, recém criadas, nunca operaram de forma dissociada do fundo de comércio transferido pelo CITIBANK (fl. 1996). “3.2 Os relatórios de avaliação econômicofinanceira do Citigroup Asset Management (CITIFUNDOS e CITIPORTFOLIO), datados de 28 de novembro de 2005, e elaborados pela Deloitte Touche Tohmatsu Consultores Ltda são instrumentos de precificação do fundo de comércio adquirido pela LEGG MASON (fl. 1994). As fls. 06, no item II Descrição da Empresa, ambos os relatórios afirmam que: "O CAM foi recentemente desmembrado em duas empresas, o Citiportfolio, cujo produto são as carteiras administradas, contando com cerca de 70 clientes individuais, principalmente fundos de pensão; e o Citifundos, que tem como produto os fundos de investimento, contando com aproximadamente 100.000 clientes, incluindo varejo, geridas tanto exclusivamente, quanto conjuntamente. Uma vez que o Citifundos é uma empresa recémcriada, não dispõe de histórico próprio, de forma que a análise feita a seguir referese ao CAM como um todo." Assim, a análise do crescimento das receitas líquidas e patrimônio administrado pelos fundos foi baseada em dados do CAM do Grupo Citibank no período de 2002 a 2004. " Pois bem, não se discute no caso dos autos a grandeza dos valores e sim o fundamento/razão/causa que ensejou os pagamentos relacionados às sociedades Citifundos (156.312milhões), Citiportfolios , (41.652milhões), conforme laudos de avaliação de fls. 64/89, repetido às fls. 960/1004 e fls. 100/118, respectivamente. A autoridade fiscal concluiu que o valor indicado nos referidos laudos correspondem ao fundo de comércio e não a expectativa de rentabilidade futura. Neste cenário, imprescindível que se avalie o laudo como um todo, extraindo dele sua real essência, situação que não se atinge quando se fica preso a um único parágrafo. Tanto um laudo quanto o outro, além do "modulo demonstração da expectativa de resultado para os anos futuros (2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2001 e 2012", à semelhança do que consta às fls. 90 e 120 (anexo I de cada um dos laudos) e "Fluxo de Caixa Descontado (fls. 90 e 121)", correspondente aos anexos II dos respectivos laudos, contém os seguintes indicativos, que transcrevo em relação ao Citifundos, mas que também estão registrados, com os mesmos termos, no que diz respeito ao Citiportfolios: Fl. 2966DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 21 20 ... ... Os números, no que diz respeito ao Citiportfolios, encontramse às fls. 120 e 121, sendo que no que diz respeito a demonstração de resultado contém os seguintes valores, que ao meu sentir representam expectativa de resultado futuro, já que elaborados em 2005 com projeções até 2012, “in verbis”: Fl. 2967DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 22 21 As causas acima analisadas, cujos valores atribuídos foram elaborados prevendo expectativa de resultados futuros, estão a demonstrar que a importância paga não estava a remunerar a aquisição de uma carteira de clientes ou fundo de comércio, como entendeu a autoridade fiscal, mas sim expectativa de rentabilidade futura, sendo o ágio, nestas condições, passíveis de amortização, conforme previsto no artigo 20, § 2º, b, do DecretoLei 1.598, de 1977, combinado com os artigos 7º, III e 8º, b, da Lei nº 9.532, de 1997, com a redação dada pela Lei nº 9.718, de 199586. 5 6 DecretoLei nº 1.598 de 1977. ... Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição (...), e o valor de que trata o número I. ... § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; (Ver art. 7º, I da Lei 9.532); b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; (amortizável – art. 7º, III, Lei 9.532); c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. (não amortizável – art. 7º, II, Lei 9.532) Lei 9.532, de 1997. .... Art. 7º. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo 20 do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977: I deverá registrar o valor do ágio ou deságio, cujo fundamento seja o de que trata a alínea a do § 2º do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea c do § 2º do artigo 20 do Decreto Lei nº 1.598, de 1977, em contrapartida à conta de ativo permanente, não sujeita à amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata a alínea b do § 2º do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração. Fl. 2968DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO Processo nº 16327.000992/201011 Acórdão n.º 1402001.925 S1C4T2 Fl. 23 22 Em resumo, a autoridade fiscal não impugnou os elementos indicados no laudo contábil que apurou a expectativa de rentabilidade futura. Limitouse a presumir, sem elementos de prova, que a autuada estava adquirindo a carteira de clientes e o fundo de comércio. No entanto, quando se examinam os elementos e premissas contidas no laudo verificase que os valores indicados por estes e pagos pela empresa autuada dizem respeito à expectativa de rentabilidade futura e não à aquisição de carteira de clientes ou fundo de comércio. ISSO POSTO, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso. assinado digitalmente MOISÉS GIACOMELLI NUNES DA SILVA Fl. 2969DF CARF MF Impresso em 31/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente e m 18/03/2015 por MOISES GIACOMELLI NUNES DA SILVA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por LEONARDO DE ANDRADE COUTO
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Numero do processo: 19985.720089/2014-20
Turma: Segunda Turma Especial da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 11 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Fri Mar 20 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
ILEGITIMIDADE ATIVA DA UNIÃO PARA EXIGÊNCIA DE TRIBUTO QUE DEVERIA SER RETIDO NA FONTE POR ESTADO DA FEDERAÇÃO. DESCABIMENTO.
A atribuição de titularidade do produto da arrecadação do imposto de renda retido na fonte toca apenas à repartição de receitas tributárias, não repercute sobre a legitimidade da União Federal para exigir o imposto de renda sujeito ao ajuste anual.
IRPF. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE NO REGIME DE ANTECIPAÇÃO. NÃO RETENÇÃO PELA FONTE PAGADORA. RESPONSABILIDADE DO CONTRIBUINTE PELO IMPOSTO DEVIDO APÓS O TÉRMINO DO PRAZO PARA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL.
A falta de retenção pela fonte pagadora não exonera o beneficiário e titular dos rendimentos, sujeito passivo direto da obrigação tributária, de incluí-los, para fins de tributação, na Declaração de Ajuste Anual; na qual somente poderá ser deduzido o imposto retido na fonte ou o pago. Aplicação da Súmula CARF nº 12.
IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. NÃO APLICAÇÃO EM RELAÇÃO A RENDIMENTOS DO SERVIÇO ATIVO RECEBIDOS APÓS APOSENTADORIA.
A isenção de imposto de renda outorgada aos proventos de aposentadoria recebidos por portador de doença grave não se aplica ao rendimentos do período ativo, ainda que recebidos após a data da aposentadoria.
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. REPRODUÇÃO OBRIGATÓRIA DO ENTENDIMENTO PROFERIDO PELO STF NO RE 614.406/RS. Art. 62-A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF.
Em se tratando de rendimentos recebidos acumuladamente recebidos por força de ação judicial, há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Aplicação do entendimento do STF no RE614.406, julgado na sistemática do art. 543-B do Código de Processo Civil - CPC. Assim, nestes casos, embora a incidência ocorra no mês do pagamento, o cálculo do imposto deveria ter considerado os meses a que se referem os rendimentos. Julgado do STJ no regime do art. 543-C do CPC.
RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. EQUÍVOCO NA APLICAÇÃO DA LEI QUE AFETOU SUBSTANCIALMENTE O LANÇAMENTO. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR PARA REFAZER O LANÇAMENTO. CANCELAMENTO DA EXIGÊNCIA.
Ao apurar o imposto sobre rendimentos recebidos acumuladamente de uma forma reconhecida como inconstitucional pelo plenário do STF, no rito do art. 543-B do CPC, o lançamento empregou critério jurídico equivocado, o que o afetou substancialmente, pois prejudicou a quantificação da base de cálculo, a identificação das alíquotas aplicáveis e o valor do tributo devido, caracterizando-se um vício material a invalidá-lo. Não compete ao órgão de julgamento refazer o lançamento com outros critérios jurídicos, mas tão somente afastar a exigência indevida.
Recurso voluntário provido.
Numero da decisão: 2802-003.352
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário nos termos do voto do relator. Vencido o Conselheiro Jaci de Assis Júnior que dava provimento em menor extensão.
(Assinado digitalmente)
Jorge Claudio Duarte Cardoso Presidente e Relator.
EDITADO EM: 12/03/2015
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jaci de Assis Júnior, Julianna Bandeira Toscano, Ronnie Soares Anderson, Mara Eugênia Buonanno Caramico, Carlos André Ribas de Mello e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente).
Nome do relator: JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010 ILEGITIMIDADE ATIVA DA UNIÃO PARA EXIGÊNCIA DE TRIBUTO QUE DEVERIA SER RETIDO NA FONTE POR ESTADO DA FEDERAÇÃO. DESCABIMENTO. A atribuição de titularidade do produto da arrecadação do imposto de renda retido na fonte toca apenas à repartição de receitas tributárias, não repercute sobre a legitimidade da União Federal para exigir o imposto de renda sujeito ao ajuste anual. IRPF. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE NO REGIME DE ANTECIPAÇÃO. NÃO RETENÇÃO PELA FONTE PAGADORA. RESPONSABILIDADE DO CONTRIBUINTE PELO IMPOSTO DEVIDO APÓS O TÉRMINO DO PRAZO PARA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. A falta de retenção pela fonte pagadora não exonera o beneficiário e titular dos rendimentos, sujeito passivo direto da obrigação tributária, de incluí-los, para fins de tributação, na Declaração de Ajuste Anual; na qual somente poderá ser deduzido o imposto retido na fonte ou o pago. Aplicação da Súmula CARF nº 12. IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. NÃO APLICAÇÃO EM RELAÇÃO A RENDIMENTOS DO SERVIÇO ATIVO RECEBIDOS APÓS APOSENTADORIA. A isenção de imposto de renda outorgada aos proventos de aposentadoria recebidos por portador de doença grave não se aplica ao rendimentos do período ativo, ainda que recebidos após a data da aposentadoria. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. REPRODUÇÃO OBRIGATÓRIA DO ENTENDIMENTO PROFERIDO PELO STF NO RE 614.406/RS. Art. 62-A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. Em se tratando de rendimentos recebidos acumuladamente recebidos por força de ação judicial, há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Aplicação do entendimento do STF no RE614.406, julgado na sistemática do art. 543-B do Código de Processo Civil - CPC. Assim, nestes casos, embora a incidência ocorra no mês do pagamento, o cálculo do imposto deveria ter considerado os meses a que se referem os rendimentos. Julgado do STJ no regime do art. 543-C do CPC. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. EQUÍVOCO NA APLICAÇÃO DA LEI QUE AFETOU SUBSTANCIALMENTE O LANÇAMENTO. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR PARA REFAZER O LANÇAMENTO. CANCELAMENTO DA EXIGÊNCIA. Ao apurar o imposto sobre rendimentos recebidos acumuladamente de uma forma reconhecida como inconstitucional pelo plenário do STF, no rito do art. 543-B do CPC, o lançamento empregou critério jurídico equivocado, o que o afetou substancialmente, pois prejudicou a quantificação da base de cálculo, a identificação das alíquotas aplicáveis e o valor do tributo devido, caracterizando-se um vício material a invalidá-lo. Não compete ao órgão de julgamento refazer o lançamento com outros critérios jurídicos, mas tão somente afastar a exigência indevida. Recurso voluntário provido.
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DESCABIMENTO. A atribuição de titularidade do produto da arrecadação do imposto de renda retido na fonte toca apenas à repartição de receitas tributárias, não repercute sobre a legitimidade da União Federal para exigir o imposto de renda sujeito ao ajuste anual. IRPF. IMPOSTO DE RENDA NA FONTE NO REGIME DE ANTECIPAÇÃO. NÃO RETENÇÃO PELA FONTE PAGADORA. RESPONSABILIDADE DO CONTRIBUINTE PELO IMPOSTO DEVIDO APÓS O TÉRMINO DO PRAZO PARA ENTREGA DA DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. A falta de retenção pela fonte pagadora não exonera o beneficiário e titular dos rendimentos, sujeito passivo direto da obrigação tributária, de incluílos, para fins de tributação, na Declaração de Ajuste Anual; na qual somente poderá ser deduzido o imposto retido na fonte ou o pago. Aplicação da Súmula CARF nº 12. IRPF. ISENÇÃO. DOENÇA GRAVE. NÃO APLICAÇÃO EM RELAÇÃO A RENDIMENTOS DO SERVIÇO ATIVO RECEBIDOS APÓS APOSENTADORIA. A isenção de imposto de renda outorgada aos proventos de aposentadoria recebidos por portador de doença grave não se aplica ao rendimentos do período ativo, ainda que recebidos após a data da aposentadoria. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. REPRODUÇÃO AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 98 5. 72 00 89 /2 01 4- 20 Fl. 158DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO 2 OBRIGATÓRIA DO ENTENDIMENTO PROFERIDO PELO STF NO RE 614.406/RS. Art. 62A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. Em se tratando de rendimentos recebidos acumuladamente recebidos por força de ação judicial, há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Aplicação do entendimento do STF no RE614.406, julgado na sistemática do art. 543B do Código de Processo Civil CPC. Assim, nestes casos, embora a incidência ocorra no mês do pagamento, o cálculo do imposto deveria ter considerado os meses a que se referem os rendimentos. Julgado do STJ no regime do art. 543C do CPC. RENDIMENTOS RECEBIDOS ACUMULADAMENTE EM DECORRÊNCIA DE DECISÃO JUDICIAL. EQUÍVOCO NA APLICAÇÃO DA LEI QUE AFETOU SUBSTANCIALMENTE O LANÇAMENTO. INCOMPETÊNCIA DO JULGADOR PARA REFAZER O LANÇAMENTO. CANCELAMENTO DA EXIGÊNCIA. Ao apurar o imposto sobre rendimentos recebidos acumuladamente de uma forma reconhecida como inconstitucional pelo plenário do STF, no rito do art. 543B do CPC, o lançamento empregou critério jurídico equivocado, o que o afetou substancialmente, pois prejudicou a quantificação da base de cálculo, a identificação das alíquotas aplicáveis e o valor do tributo devido, caracterizandose um vício material a invalidálo. Não compete ao órgão de julgamento refazer o lançamento com outros critérios jurídicos, mas tão somente afastar a exigência indevida. Recurso voluntário provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário nos termos do voto do relator. Vencido o Conselheiro Jaci de Assis Júnior que dava provimento em menor extensão. (Assinado digitalmente) Jorge Claudio Duarte Cardoso – Presidente e Relator. EDITADO EM: 12/03/2015 Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jaci de Assis Júnior, Julianna Bandeira Toscano, Ronnie Soares Anderson, Mara Eugênia Buonanno Caramico, Carlos André Ribas de Mello e Jorge Cláudio Duarte Cardoso (Presidente). Relatório Tratase de lançamento de Imposto de Renda de Pessoa Física do exercício 2010, anocalendário 2009, decorrente de constatação de omissão de rendimentos tributáveis recebidos acumuladamente em virtude de processo judicial trabalhista, no valor de R$273.820,56 (fls. 46/50). Fl. 159DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO Processo nº 19985.720089/201420 Acórdão n.º 2802003.352 S2TE02 Fl. 159 3 Na impugnação, o contribuinte alegou que: a) o Lançamento foi realizado sem procedimento prévio de investigação junto ao contribuinte; b) não se trataria de ação trabalhista, e sim de ação ordinária em razão da qual foram obtidos pelos litigantes valores indevidamente cerceados pelo Estado do Paraná, percebidos durante período em que já estava aposentado e com a isenção devidamente concedida, por ser portador de neoplasia maligna, doença não passível de controle ou remissão; c) Ofício de 31/10/2011 informa que, a partir do mês de novembro, continuaria isento e que as parcelas anteriores ao mês de novembro poderiam ser pleiteadas junto à Receita Federal do Brasil; d) na Ação Judicial nº 27.362/91, foi solicitada e julgada procedente a isenção de Imposto de Renda relativamente ao precatório recebido; e) passou a receber os seus proventos de inatividade sem incidência da tributação; f) diante do pedido do Interessado na referida Ação Judicial nº 27.362/91, bem como o laudo pericial, o Juiz daqueles autos, ante a concordância do Estado, teria acolhido o pedido de isenção de Imposto de Renda; decisão que deve ser acatada, nos termos da Constituição Federal, em seu art. 5º, inciso XXXVI; g) a decisão judicial, tendo por base o artigo 157, inciso I, da Constituição Federal, asseguraria pertencer ao Estado o produto da arrecadação do IR incidente sobre rendimentos pagos, a qualquer título, pelo Estado, suas autarquias e fundações e a atribuição do Estado quando se trata de tributação do Imposto de Renda em aposentadoria já teria sido formalizada pelo Judiciário, nos autos de recurso representativo de controvérsia, nas ementas que o Interessado transcreve em sua impugnação; h) a partir da alteração promovida pela Portaria MF nº 586/2010 no Regimento Interno do CARF, inserindo o artigo 52A, os julgamentos de mérito, proferidos pelo STF, com repercussão geral reconhecida, e pelo STJ, em sede de recursos repetitivos, teriam passado, obrigatoriamente, a serem reproduzidos pelos Conselheiros do CARF; e i) a isenção também teria foi deferida pelo Fisco Federal no autos do Processo Administrativo nº 10980.005051/200851. A impugnação foi indeferida, em síntese, pelos fundamentos abaixo: a) um dos requisitos para a isenção alegada é que os rendimentos sejam proventos de aposentadoria; b) atendendo à intimação (fl. 91) para comprovar a natureza dos valores recebidos na Ação Judicial nº 27362/1991/TJPR, o Impugnante encaminhou cópia da decisão judicial (fls. 94/98), onde se pode identificar que o objeto da ação são os efeitos nas remunerações dos Procuradores do Estado do Paraná decorrentes do Fl. 160DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO 4 Decreto 5.764/89, portanto, parte ou a totalidade dos valores recebidos pelo Impugnante na referida ação judicial é referente a período em que estava ativo como Procurador da Procuradoria Geral do Estado, cargo no qual se aposentou em agosto de 1991; mesmo intimado a comprovar a natureza dos rendimentos recebidos o Impugnante não apresentou o detalhamento dos valores a fim de se identificar se constava parcela correspondente ao período em que estava aposentado; c) a ação judicial em comento não foi ajuizada contra a União e na Justiça federal, portanto à União não se aplicam os efeitos do reconhecimento da isenção naquela ação; e d) a previsão do inciso I do art. 157 da Constituição não afeta a competência da união de cobrar o imposto, nem de figurar no pólo passivo de ação declaratória de reconhecimento do direito à isenção. A ciência do acórdão ocorreu em 24/06/2014 e o recurso voluntário foi interposto no dia 15/07/2014 amparado nas alegações a seguir resumidas: 1. o acórdão recorrido baseiase na suposição, equivocada, de que os rendimentos não foram recebidos durante a aposentadoria e foi omisso quanto à existência de decisão da própria Receita Federal que reconhece a isenção; 2. o lançamento foi feito nos últimos dias antes de ocorrer prescrição e o recorrente não foi intimado para prestar esclarecimentos antes da lavratura do auto de infração, em ofensa aos trâmites normais do processo administrativo fiscal; 3. com amparo em laudo pericial, na concordância do Estado do Paraná e no fato de a este pertencer o produto da arrecadação do IRRF, foi concedida isenção na ação judicial, o que deve ser acatado, por força do inciso XXXVI do art. 5º da Constituição de 1988; 4. o argumento de que a União deve participar do pólo passivo nas ações em que se discute a isenção é incongruente, pois de forma reiterada e vigorosa a União declara não ações judiciais que não tem legitimidade para figurar no pólo passivo, o entendimento consagrado pelo STJ na sistemática dos recursos repetitivos deve ser reproduzido pelos Conselheiros do CARF, entendimento que consta do REsp 989419/RS; 5. os rendimentos objeto da autuação foram recebidos durante período em que o recorrente já estava aposentado em a isenção devidamente concedida; 6. o CARF reconhece o direito à isenção quando comprovada a doença grave e os rendimentos são recebidos em período em que o contribuinte está aposentado (Acórdão 20200.597, de 17/06/2010); 7. a condição de aposentado e portador de neoplasia maligna já foi reconhecida; e 8. colocase a disposição para apresentar documentação adicional porventura necessária, requerendo determinação de diligência caso se entenda necessária. Fl. 161DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO Processo nº 19985.720089/201420 Acórdão n.º 2802003.352 S2TE02 Fl. 160 5 Requereu prioridade de tramitação com base no Estatuto do Idoso. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Claudio Duarte Cardoso, Relator O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, dele devese tomar conhecimento. O procedimento de constituição do crédito tributário até a lavratura do lançamento é de natureza inquisitorial, sem que isso caracterize violação ao direito ao contraditório ou cerceamento do direito de defesa. O contraditório e a ampla defesa são assegurados com a instauração do processo contencioso, o que ocorre com a impugnação. É nesse sentido que se afirma que a impugnação inaugura a fase litigiosa do processo administrativo fiscal, a teor do art. 14 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, in verbis: Art. 14. A impugnação da exigência instaura a fase litigiosa do procedimento. O lançamento descreveu suficientemente a infração. A partir da impugnação o recorrente vem exercendo seu direito ao contraditório e ampla defesa. Fato reforçado pela intimação em que lhe foi facultada a oportunidade de apresentar documentação que comprovasse a natureza da verba recebida, bem como teve mais uma chance, com o recurso voluntário, de fazer essa prova. Não há qualquer irregularidade no processo administrativo decorrente de falta de intimação para prestar informações previamente ao lançamento. Alegação preliminar rejeitada. O litígio referese ao direito à isenção incidente sobre os rendimentos auferidos em decorrência da ação judicial nº 27362/1991. É incontroverso que, no momento do recebimento dessa verba, o recorrente estava aposentado e era portador de moléstia grave. A questão em litígio não é essa. A questão litigiosa é identificar na verba percebida se ela tem a natureza de rendimentos que o contribuinte fez jus perceber em razão do serviço ativo como procurador do Estado (tributáveis) ou se é uma verba decorrente de direitos de procurador aposentado (isentas devida à moléstia grave). O acórdão recorrido discriminou, adequadamente, essa questão, tendo ressaltado que houve uma intimação (fl. 91) para comprovar a natureza dos valores recebidos na Ação Judicial nº 27362/1991/TJPR e que o então impugnante encaminhou cópia da decisão judicial (fls. 94/98), onde se pode identificar que o objeto da ação são os efeitos nas remunerações dos Procuradores do Estado do Paraná decorrentes do Decreto 5.764/89, Fl. 162DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO 6 portanto, parte ou a totalidade dos valores recebidos pelo Impugnante na referida ação judicial é referente a período em que estava ativo como Procurador da Procuradoria Geral do Estado, cargo no qual se aposentou em agosto de 1991. Também foi assentado no acórdão combatido que, intimado a comprovar a natureza dos rendimentos recebidos, o contribuinte não apresentou o detalhamento dos valores a fim de se identificar se constava parcela correspondente ao período em que estava aposentado. O recorrente faz diversas alegações, mas nenhum enfrenta o cerne da questão. Como não foi comprovado que havia proventos no bojo da verba recebida, há de se considerar que toda ela referese a rendimentos do serviço ativo, o fato de os valores terem sido recebidos quando o contribuinte já se encontrava aposentado não assegura a essa verba a natureza de isenta. Por essa razão, é indiferente o reconhecimento de isenção sobre outras verbas recebidas. É desnecessário suscitar novos esclarecimentos ao contribuinte, uma vez que é do recorrente o ônus de comprovar que as verbas se referem a proventos. Diligências não se prestam à produção de provas que estão a cargo do contribuinte, portanto rejeitase a o pedido para realização de diligências. O fato de o produto da arrecadação do IRRF pertencer ao Estado da Federação não subtrai da União sua competência para fiscalizar e arrecadar o Imposto de Renda sujeito ao ajuste anual, que não se confunde com o imposto retido na fonte. Este é mera antecipação daquele. A União possui legitimidade ativa, pois não só possui competência tributária como tem interesse econômico e jurídico em fiscalizar e arrecadar o imposto apurado no ajuste anual. São inconfundíveis os conceitos de imposto retido na fonte e de imposto devido no ajuste anual, bem como os de competência tributária, legitimidade ativa e de titularidade do produto da arrecadação. Ademais, a ausência de retenção do imposto na fonte não exclui a competência da União para a constituição do crédito tributário de rendimentos sujeitos a incidência do imposto na DIRPF, nos termos da Súmula CARF n.12, verbis: “Constatada a omissão de rendimentos sujeitos à incidência do imposto de renda na declaração de ajuste anual, é legítima a constituição do crédito tributário na pessoa física do beneficiário, ainda que a fonte pagadora não tenha procedido à respectiva retenção.” A matéria tratada no REsp 989419/RS não é a mesma da qual se cuida nestes autos, portanto, não há que se falar em reprodução obrigatória (art. 62A do Regimento Interno do CARF). Os fundamentos acima, aliados ao fato de a União não ter sido parte na ação judicial, constituem razão suficiente para rejeitar a alegação de violação ao inciso XXXVI do art. 5º da Constituição. Fl. 163DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO Processo nº 19985.720089/201420 Acórdão n.º 2802003.352 S2TE02 Fl. 161 7 Do controle de legalidade do lançamento Cabe a este Conselho o controle de legalidade do lançamento tributário. Ao contestas a omissão de rendimentos, ainda que se fundamentando, exclusivamente, na natureza isenta da verba, o recorrente submeteu à apreciação do CARF a legalidade do lançamento referente à verba recebida acumuladamente em virtude de condenação ação judicial movida contra o Estado do Paraná. Estando a omissão de rendimentos em litígio, o CARF tem o dever de aferir a legalidade do lançamento, ainda que sob a ótica de fundamentação jurídica não provocada pelo recorrente, sobretudo quando o art. 62A do Regimento Interno do CARF (citado pelo recorrente de forma equivocada como sendo o art. 52A) determina reprodução obrigatória de decisão do Supremo Tribunal Federal – STF proferida na sistemática do art. 543B do Código de Processo Civil CPC. A tributação da verbas recebidas acumuladamente pelo recorrente deve respeitar o entendimento firmado pelo STF no RE 614.406, julgado em 23/10/2014, que transitou em julgado, em 09/12/2014. Eis a ementa desse julgado: IMPOSTO DE RENDA – PERCEPÇÃO CUMULATIVA DE VALORES – ALÍQUOTA. A percepção cumulativa de valores há de ser considerada, para efeito de fixação de alíquotas, presentes, individualmente, os exercícios envolvidos. Ainda que nos autos não tenha sido apontado o art. 12 da Lei 7.713/1988 como fundamentação legal da autuação, o demonstrativo do lançamento (fls. 47/49) evidencia que os valores recebidos acumuladamente foram tributados com base na tabela progressiva anual correspondente ao anocalendário do recebimento acumulado, sem qualquer indicação de que tenham sido empregadas alíquotas correspondentes aos exercícios (competência trabalhista) envolvidos. O conjunto de princípios inspiradores do processo administrativofiscal indica que não se poderia cerrar os olhos, no caso destes autos, a uma tributação de forma contrária ao que definiu o Supremo Tribunal Federal – STF, apenas porque ao impugnar a omissão de rendimentos, o recorrente não argumentou o que o STF veio a decidir posteriormente à interposição do recurso voluntário. Referese aos princípios da busca da verdade material, do formalismo moderado, da legalidade da tributação e ao da autotutela da Administração. Em razão de debates travados neste Colegiado acerca da espécie de provimento cabível nesses casos, resumidamente, os fundamentos adotados para aplicação da solução que resulta em excluir do lançamento os rendimentos recebidos acumuladamente foram: a) Haveria uma mudança de critério jurídico. Ao adotar interpretação da tributação dos rendimentos recebidos acumuladamente, o lançamento empregou critério jurídico equivocado, o que o afetou Fl. 164DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO 8 substancialmente, pois prejudicou a quantificação da base de cálculo, a identificação das alíquotas aplicáveis e o valor do tributo devido, caracterizandose um vício material a invalidá lo. Citamse excertos de ementas de alguns julgados, que trataram de situações análogas, e operam no mesmo sentido: (...) PIS – LEI COMPLEMENTAR 7/70 – BASE DE CÁLCULO – O parágrafo único do art. 6° da LC 7/70 estabeleceu que a base de cálculo correspondia ao faturamento do 6° mês anterior. Se o lançamento desrespeitou essa norma, e como ao julgador administrativo não é permitido refazer o lançamento, então resta apenas cancelar a exigência. (...).( CSRF/0105.163, de 29/11/2004)(grifos acrescidos) Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2008 DESPESA DE AMORTIZAÇÃO DE ÁGIO. NATUREZA JURÍDICOCONTÁBIL. Equivocase o lançamento que considera a despesa de amortização do ágio como despesa com provisão, pois o ágio é a parcela do custo de aquisição do investimento (avaliado pelo MEP) que ultrapassa o valor patrimonial das ações, o que não se confunde com provisões expectativas de perdas ou de valores a desembolsar. MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. A instância julgadora pode determinar que se exclua uma parcela da base tributável e que se recalcule o tributo devido, ou mesmo determinar que se recalcule a base de cálculo considerando uma despesa dedutível ou uma receita como não tributável, mas não pode refazer o lançamento a partir de outro critério jurídico que o altere substancialmente. (Acórdão 1302001.170, de 11/09/2013)(grifos adicionados) NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. INALTERABILIDADE DO CRITÉRIO JURÍDICO DO LANÇAMENTO EM RELAÇÃO AO MESMO SUJEITO PASSIVO. Na fase contenciosa, não é admissível a mudança do critério jurídico adotado no lançamento contra o mesmo sujeito passivo em relação aos fatos geradores já concretizados. (...) (Acórdão 2802002.489, de 17/09/2013)(grifos não constam do original) Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Anocalendário: 1996 LANÇAMENTO FISCAL. REDUÇÃO DE PREJUÍZO FISCAL. REDUÇÃO DE SALDO NEGATIVO. DIFERENÇA. No lançamento fiscal, a irregularidade de se lançar sem reduzir o prejuízo fiscal implica em erro na formação da própria base tributável, o que não é passível de correção por parte do julgador administrativo, que não pode alterar o lançamento. Neste sentido, a jurisprudência do CARF é tranqüila no sentido de se cancelar o auto de infração por inteiro. (...) 1401001.086, de 07/11/2013) (grifos acrescentados) Fl. 165DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO Processo nº 19985.720089/201420 Acórdão n.º 2802003.352 S2TE02 Fl. 162 9 Não há razão para adotar entendimento doutrinário controvertido acerca da interpretação do art. 146 do CTN1 para justificar que não haveria mudança de critério jurídico. Ressaltase que a razão subjacente à norma insculpida no referido dispositivo do CTN é a segurança dos direitos individuais do contribuinte. Se entenderse – à guiza de argumentação – que, em relação ao fatos já ocorridos, não seria possível alterar um critério certo por outro igualmente certo, com muita mais razão, em relação a fatos já ocorridos, seria vedada a mudança de um critério errado por outro certo. b) Não cabimento de revisão de ofício do lançamento A possibilidade de revisão de ofício do lançamento encontra, no mínimo, óbice no parágrafo único do art. 149, uma vez que o prazo decadencial já teria sido ultrapassado. c) O vício material do lançamento representa mais do que mero erro de aplicação de alíquota. Deveria ter sido calculado o imposto levandose em conta as tabelas e alíquotas da época em que os rendimentos deveriam ter sido pagos ao contribuinte. Diversamente, o lançamento adotou o regime de caixa sobre o montante recebido acumuladamente. O vício contido no lançamento não pode ser resumido a um mero erro na aplicação da alíquota. Ao adotar outra interpretação do dispositivo legal, a autoridade fiscal empregou critério jurídico equivocado, o que o afetou substancialmente, pois prejudicou a quantificação da base de cálculo, a identificação das alíquotas aplicáveis e o valor do tributo devido, caracterizandose um vício material a invalidálo. Reduzir a questão à correção da alíquota implica utilizar no lançamento uma fórmula de apuração em que a base de cálculo dos rendimentos recebidos acumuladamente é definida independente do ajuste anual. Todavia, o Ajuste Anual é a regra para os rendimentos da pessoa física e não consta da interpretação dada pelo STJ (em recurso repetitivo, portanto de reprodução obrigatória) ou pelo STF, que essa sistemática (ajuste anual) tenha sido afastada. A título de exemplo, cito trecho do Parecer PGFN/CAT Nº 815/2010 que no intuito de solucionar inúmeras dúvidas da expostas pela Secretaria da receita Federal indicou a forma de cálculo que o Fisco deveria adotar à época em que vigoraram os Pareceres da PGFN que autorizavam as revisões de ofício com base na jurisprudência firmada no STJ: 100. Temse, assim, nos termos acima fixados, conjunto de soluções para implemento concreto das decisões do Superior Tribunal de Justiça em âmbito de rendimentos acumulados. Concluise: a) Deve a Administração proceder aos cálculos de imposto de renda incidente sobre os rendimentos acumuladamente recebidos segundo o regime de competência, 1 São exemplos da referida divergência na doutrina: CARVALHO, Paulo de Barros, Curso de Direito Tributário 17 ed. Saraiva, São Paulo, 2005. p. 427; AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 13 ed. Saraiva, São Paulo, 2007, p. 351 e ss. Fl. 166DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO 10 seguindose às decisões do Superior Tribunal de Justiça, bem como se levando em conta a negativa do Supremo Tribunal Federal em conferir repercussão geral à matéria, a par de recente decisão do Tribunal Regional da 4ª Região, que definiu pela inconstitucionalidade de regra que possibilitaria utilização de regime de caixa, no cômputo dos valores de que trata a presente manifestação; b) A recomposição do valor tributável à época deve ser aplicada apenas na hipótese de a RFB possuir os dados necessários devendo por sua vez disponibilizar os referidos dados ao contribuinte para que este espontaneamente possa também verificar o valor do imposto devido. c) Nesses casos, devese somar os valores originalmente reconhecidos com os valores posteriormente recebidos, de uma única vez, de modo que se tenha uma nova base de cálculo. (...) Pelo conjunto de razões acima expostas, a manutenção da exigência com uma nova apuração, na essência, representaria um novo lançamento com outro critério jurídico. Substituirseia um critério declarado inconstitucional pelo que foi reconhecido como constitucional. Ocorre que não compete ao órgão de julgamento refazer o lançamento com outros critérios jurídicos mas tão somente afastar a exigência indevida. A decisão do STF no RE 614.406/RS implica reconhecimento de que seria inconstitucional a exigência pelo regime de caixa no caso dos rendimentos recebidos acumuladamente. Dessa forma, não se pode admitir a exigência de tributo com os fundamentos adotados no acórdão recorrido pois seria compactuar com a inconstitucionalidade declarada pelo STF relativa ao regime de caixa. Isto conduz à questão acima descrita de que a manutenção do lançamento exigiria adotarse outro critério jurídico pelo órgão julgador, uma inovação não autorizada, o que implica o cancelamento da exigência por este órgão julgador. Diante do exposto, voto por DAR PROVIMENTO ao recurso voluntário. (Assinado digitalmente) Jorge Claudio Duarte Cardoso Fl. 167DF CARF MF Impresso em 20/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 13/03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO, Assinado digitalmente em 13 /03/2015 por JORGE CLAUDIO DUARTE CARDOSO
score : 1.0
Numero do processo: 11065.002800/2002-05
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 14 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Thu Mar 19 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/07/1997 a 31/03/2002
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO - PRESSUPOSTOS - LIMITES - OMISSÃO - INOCORRÊNCIA.
Não se vislumbra qualquer omissão a sanar, em decisão que expressamente consigna que os embargos declaratórios oportunamente interpostos serão posteriormente examinados assim que seja retomado o devido processo legal, indicando os motivos de convencimento do órgão Julgador. Devem ser rejeitados os Embargos de Declaração interpostos, quando inocorrentes os pressupostos regimentais (necessidade de suprir dúvida, contradição ou omissão constante na fundamentação do julgado).
Embargos Rejeitados
Sem Crédito em Litígio
Numero da decisão: 3402-002.507
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos os embargos foram conhecidos e rejeitados.
GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO
Presidente Substituto
FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D'EÇA
Relator
Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente Substituto), Fernando Luiz da Gama Lobo d'Eça (Relator), Fenelon Moscoso de Almeida (Suplente), Pedro Sousa Bispo (Suplente), João Carlos Cassuli Júnior e Maurício Rabelo de Albuquerque Silva.
Nome do relator: FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/1997 a 31/03/2002 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO PRESSUPOSTOS LIMITES OMISSÃO INOCORRÊNCIA. Não se vislumbra qualquer omissão a sanar, em decisão que expressamente consigna que os embargos declaratórios oportunamente interpostos serão posteriormente examinados assim que seja retomado o devido processo legal, indicando os motivos de convencimento do órgão Julgador. Devem ser rejeitados os Embargos de Declaração interpostos, quando inocorrentes os pressupostos regimentais (necessidade de suprir dúvida, contradição ou omissão constante na fundamentação do julgado). Embargos Rejeitados Sem Crédito em Litígio Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos os embargos foram conhecidos e rejeitados. GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO Presidente Substituto FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D'EÇA AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 28 00 /2 00 2- 05 Fl. 382DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente e m 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente em 27/10/2014 por GILSON MA CEDO ROSENBURG FILHO 2 Relator Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente Substituto), Fernando Luiz da Gama Lobo d'Eça (Relator), Fenelon Moscoso de Almeida (Suplente), Pedro Sousa Bispo (Suplente), João Carlos Cassuli Júnior e Maurício Rabelo de Albuquerque Silva. Relatório Tratase de Embargos Declaratórios (fls. 339/341) interpostos em 25/03/13 pela d. PGFN, por suposta “omissão” e “contradição” no v. Acórdão nº 3402001.938 exarado pela C. 2ª Turma da 4ª Câmara do CARF (constante de arquivo em PDF sem numeração de páginas do processo físico) em sede de Embargos Declaratórios (fls. 331/332) que, em sessão de 24/10/12, por unanimidade de votos, houve por bem em “conhecer dos Embargos Declaratórios e, com fundamento no art. 60 do Decreto nº 70.23 5/72 acolhêlos, sem efeito infringente”, “apenas para corrigir o manifesto erro material na conclusão do voto do relator que deve ser retificada nos seguintes termos:“Isto posto, voto no sentido de conhecer e prover parcialmente os presentes Embargos Declaratórios, para anular presente processo a partir de fls. 301 incluindo o v. Acórdão nº 340200633 desta 2ª Turma (fls. 302/307) e os correspondentes Embargos Declaratórios interpostos pela d. PGFN (fls. 310/324), retomandose o devido processo legal”. O v. Acórdão ora embargado foi sintetizado sob a seguintes ementa e súmula: “ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/07/1997 a 3 1/03/2002 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO INEXATIDÃO MATERIAL CORREÇÃO ART. 60 DO DECRETO Nº 70.23 5/72. Constatado erro material de indicação de fls. na conclusão do voto do relator acompanhado à unanimidade pela Câmara, acolhemse os embargos de declaração apenas para supressão e retificação da inexatidão material, nos termos do art. 60 do Decreto nº 70.235/72. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, que os embargos foram conhecidos e acolhidos sem efeitos infringentes. GILSON MACEDO ROSENBURG FILHO Presidente Substituto FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D'EÇA Relator Participaram, ainda, do presente julgamento, os Conselheiros Gilson Macedo Rosenburg Filho (Presidente Substituto), Fernando Luiz da Gama Lobo d'Eça (Relator), Silvia de Brito Oliveira, Luiz Carlos Shimoyama (Suplente), João Carlos Cassuli Júnior e Maurício Rabelo de Albuquerque Silva.” Entende a d. PGFN que teria havido supostas “omissão” e “contradição” no v. Acórdão embargado, porque os embargos de fls. 293/296 não teriam sido objeto de análise, “em que pese aludir a uma posterior apreciação do embargos de fls. 293/296”. Fl. 383DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente e m 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente em 27/10/2014 por GILSON MA CEDO ROSENBURG FILHO Processo nº 11065.002800/200205 Acórdão n.º 3402002.507 S3C4T2 Fl. 3 3 É o relatório. Voto Conselheiro FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D'EÇA, Relator Os Embargos Declaratórios são tempestivos, merecem ser conhecidos mas, no mérito, não merecem ser acolhidos, ante a inexistência que qualquer omissão ou contradição na fundamentação do v. Acórdão embargado. Realmente, embora sustente que os embargos de fls. 293/296 não teriam sido objeto de análise, a própria d. PGFN expressamente reconhece “aludir” o v. Acórdão embargado “a uma posterior apreciação do embargos de fls. 293/296”, assim que retomado o devido processo legal. Nesse particular, não se vislumbra a existência de qualquer omissão ou contradição a sanar, em decisão que expressamente que os consigna que os embargos de fls. 293/296 serão posteriormente examinados assim que seja retomado o devido processo legal, donde os Declaratórios apresentam caráter nitidamente infringente, razão pela qual nesta matéria devem ser rejeitados, tal como proclamado pela Jurisprudência Administrativa e se pode ver das seguintes e elucidativas ementas: “PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO EMBARGOS DE DECLARAÇÃO PRESSUPOSTOS Devem ser rejeitados os Embargos de Declaração interpostos pelo sujeito passivo, quando não demonstrados os pressupostos do art. 27 do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes, ante a inexistência de dúvida, contradição ou necessidade de suprir omissão constante do julgado recorrido. EMBARGOS DECLARATÓRIOS LIMITES Não pode ser conhecido o pedido do sujeito passivo na parte que, a pretexto de retificar o acórdão, pretende substituir a decisão recorrida por outra, com revisão do mérito do julgado. Embargos de declaração rejeitados.” (cf. Acórdão 10805339, Rec. nº 114572, Proc. nº 10935.000705/9628 , em sessão de 22/09/1998, Rel. Cons. Maria do Carmo Soares Rodrigues de Carvalho) Isto voto no sentido de conhecer e rejeitar os Embargos declaratórios (fls. 339/341). É como voto. Sala das Sessões, em 14 de outubro de 2014 FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D'EÇA Fl. 384DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente e m 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente em 27/10/2014 por GILSON MA CEDO ROSENBURG FILHO 4 Fl. 385DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente e m 27/10/2014 por FERNANDO LUIZ DA GAMA LOBO D ECA, Assinado digitalmente em 27/10/2014 por GILSON MA CEDO ROSENBURG FILHO
score : 1.0
Numero do processo: 13770.000397/2005-83
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue May 27 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Mon Apr 06 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Período de apuração: 01/07/1988 a 29/02/1996
RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE.
Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão.
Numero da decisão: 3301-002.326
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NÃO CONHECER do recurso, nos termos do voto da relatora.
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente.
Fábia Regina Freitas - Relatora.
EDITADO EM: 10/03/2015
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Rodrigo da Costa Pôssas, José Adão Vitorino de Morais, Antônio Mario de Abreu Pinto, Andrada Marcio Canuto Natal, Maria Tereza Martinez Lopez e Fábia Regina Freitas (Relatora).
Nome do relator: FABIA REGINA FREITAS
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ementa_s : Assunto: Outros Tributos ou Contribuições Período de apuração: 01/07/1988 a 29/02/1996 RECURSO VOLUNTÁRIO. INTEMPESTIVIDADE. Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NÃO CONHECER do recurso, nos termos do voto da relatora. Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente. Fábia Regina Freitas - Relatora. EDITADO EM: 10/03/2015 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Rodrigo da Costa Pôssas, José Adão Vitorino de Morais, Antônio Mario de Abreu Pinto, Andrada Marcio Canuto Natal, Maria Tereza Martinez Lopez e Fábia Regina Freitas (Relatora).
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INTEMPESTIVIDADE. Não se conhece de apelo à segunda instância, contra decisão de autoridade julgadora de primeira instância, quando formalizado depois de decorrido o prazo regulamentar de trinta dias da ciência da decisão. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos, acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em NÃO CONHECER do recurso, nos termos do voto da relatora. Rodrigo da Costa Pôssas Presidente. Fábia Regina Freitas Relatora. EDITADO EM: 10/03/2015 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Rodrigo da Costa Pôssas, José Adão Vitorino de Morais, Antônio Mario de Abreu Pinto, Andrada Marcio Canuto Natal, Maria Tereza Martinez Lopez e Fábia Regina Freitas (Relatora). Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 77 0. 00 03 97 /2 00 5- 83 Fl. 76DF CARF MF Impresso em 06/04/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 25/03/2015 por RODRIGO DA COSTA POSSAS 2 Tratase, na origem, de pedido de restituição (fl. 03) apresentado em 13 de junho de 2005, relativo a valores pagos indevidamente ao título Programa de Integração Social PIS no ano de 1988, no valor de R$ 390.000,00. O mencionado crédito tem por origem os valores indevidamente recolhidos a maior do que os efetivamente devidos em razão de interpretação da aplicação dos critérios delimitados nos Decretos Lei 2445 e 2449, retirados do ordenamento jurídico pela Resolução do Senado Federal n. 49/95 c/c par. 2º. do art. 2º. Da MP 1244/95 e par. 2º. do art. 18 da MP 162136/98, considerando a semestralidade sem a correção monetária, a teor da jurisprudência firmada pelo Eg. STJ. A DRF em Vitória proferiu decisão (fls. 11/24), indeferindo o pedido de restituição e deixando de homologar os créditos. Concluiu a DRF que o direito da contribuinte, ora recorrente, de pleitear a restituição de valores recolhidos indevidamente extinguiuse no prazo de 5 anos contados a partir da data de protocolização do pedido, conforme inciso I, art. 165 e inciso I, art. 168 do Código Tributário Nacional, e deste modo período de contribuição indevida teria decaído em razão do prazo decadencial. Concluiu, ainda, que mesmo em se considerando o prazo decadencial mais elástico de 10 anos, o pedido formulado na hipótese dos autos estaria atingido pela decadência, razão pela qual o pleito deveria ser indeferido. Intimada, a empresa apresenta manifestação de inconformidade às fls. 27/34. Na mencionada peça, a contribuinte esclareceu que o pedido formulado não se referia a recolhimentos indevidos relacionados exclusivamente em 1988, mas relacionados aos recolhimentos entre 1988 e 1996. Pugnou pela reforma do despacho decisório por entender que a Autoridade Administrativa negou vigência à Resolução 49/1995 e à Lei n. 9715/96. Expôs a contribuinte, ora recorrente, que para efeito de contagem do prazo prescricional/decadencial, o dies a quo para o caso concreto se efetivou pela atribuição de efeitos concretos à declaração de inconstitucionalidade do recolhimento do PIS na forma do art. 15 da MP n. 1212 e do art. 18 da Lei n. 9.715/98, o que só ocorreu com a publicação da aludida Resolução. Assim, considerandose o prazo de cinco anos para o pedido de restituição e, ainda, contandose o prazo decadencial da publicação da aludida Resolução, temse que o pleito da contribuinte estaria tempestivo. A DRJ do Rio de Janeiro (fls. 55/59) rejeitou as alegações do contribuinte em sua manifestação de inconformidade e manteve o indeferimento do direito pleiteado ao fundamento de que o crédito pleiteado estaria decaído. Segundo o entendimento dos julgadores a quo, o direito de pleitear a restituição de tributos sujeitos ao lançamento por homologação encerrase em 5 (cinco) anos contados da extinção do crédito. No caso concreto, como o pedido de restituição foi apresentado em 13/06/2005 e os recolhimentos indevidos se deram entre julho/1988 e fevereiro/1996, encontrase ultrapassado o prazo de 5 anos do recolhimento indevido, donde extinto o direito à restituição. Intimado do referido acórdão em 19 de setembro de 2008 (fl. 61), o interessado apresentou Recurso Voluntário em 03 de novembro de 2008 (fls. 62/72). No apelo, a Recorrente pugna pela aplicação da jurisprudência do Eg. STJ, que concluiu pela inconstitucionalidade do efeito retroativo da LC 118 e pelo restabelecimento do prazo de dez anos para os créditos apurados anteriormente à vigência da citada norma. É o relatório. Fl. 77DF CARF MF Impresso em 06/04/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 25/03/2015 por RODRIGO DA COSTA POSSAS Processo nº 13770.000397/200583 Acórdão n.º 3301002.326 S3C3T1 Fl. 3 3 Voto Conselheira Fábia Regina Freitas O prazo legal para apresentação de recurso voluntário é de 30 (trinta) dias, contados da ciência da decisão de primeira instância, conforme disposto no art. 33 do Decreto nº 70.235, de 1972, in verbis: Art. 33. Da decisão caberá recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, dentro dos 30 (trinta) dias seguintes à ciência da decisão. No caso concreto, o contribuinte tomou ciência da decisão de primeira instância em 19/09/2008, conforme Aviso de Recebimento (AR) de fls. 61. O recurso foi apresentado em 03/11/2008, conforme carimbo de protocolo de fls. 62. Temse, portanto, que o recurso foi apresentado depois de já ultrapassado o prazo de 30 dias do recebimento da decisão de primeira instância. Nesse sentido, é forçoso concluir pela intempestividade do recurso, o que torna definitiva, na esfera administrativa, a decisão de primeira instância, nos termos do art. 42, I do Decreto nº 70.235, de 1972, in verbis: Art. 42. São definitivas as decisões: I – de primeira instância, esgotado o prazo para recurso voluntário sem que este tenha sido interposto; CONCLUSÃO Ante o exposto, voto no sentido de NÃO CONHECER do recurso voluntário, eis que perempto. Brasília, 22 de julho de 2014. Fábia Regina Freitas Relatora. Fl. 78DF CARF MF Impresso em 06/04/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 25/03/2015 por RODRIGO DA COSTA POSSAS 4 Fl. 79DF CARF MF Impresso em 06/04/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 10/03/2015 por FABIA REGINA FREITAS, Assinado digitalmente em 25/03/2015 por RODRIGO DA COSTA POSSAS
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Numero do processo: 13832.000135/99-92
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 27 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Mon Feb 23 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/09/1989 a 31/03/1992
Ementa. Atualização monetária
Deve ser utilizada a Regra Geral de Atualização Monetária aplicável a indébitos, que hoje está contida na Resolução n. 134, de 21.12.2010, que revogou a Resolução n. 561 do Conselho da Justiça Federal.
Numero da decisão: 3401-002.844
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário nos termos do voto da relatora.
Júlio César Alves Ramos Presidente
Ângela Sartori - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: JULIO CESAR ALVES RAMOS (Presidente), ROBSON JOSE BAYERL, JEAN CLEUTER SIMÕES MENDONÇA, ELOY EROS DA SILVA NOGUEIRA, ANGELA SARTORI e BERNARDO LEITE DE QUEIROZ LIMA
Nome do relator: ANGELA SARTORI
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Atualização monetária Deve ser utilizada a Regra Geral de Atualização Monetária aplicável a indébitos, que hoje está contida na Resolução n. 134, de 21.12.2010, que revogou a Resolução n. 561 do Conselho da Justiça Federal. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário nos termos do voto da relatora. Júlio César Alves Ramos – Presidente Ângela Sartori Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: JULIO CESAR ALVES RAMOS (Presidente), ROBSON JOSE BAYERL, JEAN CLEUTER SIMÕES MENDONÇA, ELOY EROS DA SILVA NOGUEIRA, ANGELA SARTORI e BERNARDO LEITE DE QUEIROZ LIMA AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 2. 00 01 35 /9 9- 92 Fl. 409DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS 2 Relatório Tratase de Pedido de Restituição cumulado com Pedido de Compensação de indébitos da contribuição para o FINSOCIAL, abrangendo o período de 01/09/1989 a 31/12/1992, presentes nas fls. 03/05, no valor de R$ 15.798,54, com débitos a serem compensados quanto aos tributos/contribuições IRPJ, COFINS, CSLL e PIS. O crédito reclamado pelo contribuinte decorre da declaração de inconstitucionalidade do Supremo Tribunal Federal STF, do art. 9º da Lei nº 7.689/88, do art. 7º da Lei nº 7.787/89, do art. 1º da Lei nº 7.894/89 e do artigo 1º da Lei nº 8.147/90, sendo considerados indevidos os recolhimentos a maior a título de FINSOCIAL. A DRF de Marília/SP, ao julgar o pleito, fls. 118/122 indeferiu o pedido feito pela recorrente, por ter transcorrido mais de cinco anos entre a data dos recolhimentos e a do pedido, estando extinto o direito do contribuinte. Foi então apresentado por parte da recorrente, Agrofertil Com. e Repres. de Prod. Agrop. de Piraju Ltda, Manifestação de Inconformidade, fls. 126/135, requerendo a reforma da decisão da DRJ. A 1ª Turma da Receita Federal de Julgamento de Ribeirão Preto, no acórdão 1.736, de 15 de julho de 2002, fls. 140/147, acompanhou o mesmo entendimento da DRF de Marília, declarando igualmente extinto o direito à restituição. Foi apresentado então Recurso Voluntário, fls. 152/174, que foi julgado pela Segunda Câmara do Terceiro Conselho de Contribuintes, onde, no Acórdão 30236.194, do dia 16 de junho de 2004, o Recurso foi provido por maioria de votos, afastando a decadência e determinando o retorno dos autos à origem para análise dos demais pontos relacionados à restituição. A PGFN interpôs Recurso Especial face à decisão do Conselho de Contribuintes, cuja Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais negoulhe provimento, mantendo o acórdão do Conselho de Contribuintes. Cumprindo a decisão do Conselho de Contribuintes, a DRF de Marília proferiu despacho decisório de fls. 313/331, relatando os procedimentos adotados e reconhecendo parcialmente o direito creditório que foi pleiteado, e deferindo os pedidos de compensação até o limite do crédito reconhecido. Efetivada a compensação, foi dada ciência ao contribuinte, onde, inconformado, apresentou Manifestação de Inconformidade às fls 366/370. A 4ª Turma da DRJ/RPO, prolatou então o Acórdão 1440.619, fls. 384/387, cuja ementa segue abaixo: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 01/09/1989 a 31/03/1992 REPETIÇÃO DE INDÉBITO. LIQUIDEZ E CERTEZA Fl. 410DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS Processo nº 13832.000135/9992 Acórdão n.º 3401002.844 S3C4T1 Fl. 6 3 Os valores recolhidos a maior ou indevidamente somente são passíveis de restituição/compensação caso os indébitos reúnam as características de liquidez e certeza. Assunto: Procedimento Administrativo Fiscal Período de apuração: 01/09/1989 a 31/03/1992 PRIMEIRA INSTÂNCIA. VINCULAÇÃO O julgador administrativo de primeira instância está vinculado ao entendimento da RFB expresso em atos normativos. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Irresignada, a empresa interpôs Recurso Voluntário, fls. 392/397, requerendo a consideração do período total pleiteado inicialmente e reconhecido pelo Conselho de Contribuintes, bem como para proceder a correção monetária com os índices corretos, e, por conseqüência, aplicandose os expurgos inflacionários. É o breve relato do necessário. Fl. 411DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS 4 Voto Conselheira Ângela Sartori O recurso é tempestivo, conforme fl. 335, e preenche os demais pressupostos para a sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. DO MÉRITO DA ALEGAÇÃO DE HOMOLOGAÇÃO TÁCITA Alega preliminarmente o contribuinte que houve decadência do direito do fisco em lançar, uma vez que já ultrapassados os cinco anos desde o fato gerador. Ocorre que aqui estamos tratando de um pedido de restituição, cumulado com um pedido de compensação, que foi transmitido em 03 de setembro de 1999 e cientificado o contribuinte do indeferimento em 08/02/2001. Dessa forma, não há que se falar em homologação tácita. DA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DAS COMPETÊNCIAS DE SET/89 a DEZ/1989 Primeiramente, cumpre destacar que a decisão do Conselho de Contribuintes não determinou a compensação de todas as competências pleiteadas pelo contribuinte, mas apenas afastou a alegação de decadência que fora o objeto de indeferimento pela DRJ inicialmente, e foi determinado expressamente o retorno dos autos para que fossem analisadas as demais questões atinentes à compensação. Dessa forma, procedeu a fiscalização à apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, tendo sido solicitado ao contribuinte, seus livros fiscais da época para fins de apuração da base de cálculo das contribuições. Ocorre que o contribuinte foi intimado para apresentar a cópia dos livros fiscais relativos aos meses de setembro de 1989 a março de 1992 (período relativo ao pedido de restituição), mas limitouse a responder que os livros contábeis haviam sido incinerados, pois o prazo de cinco anos para sua guarda já havia se esgotado. Apresentou uma relação das bases de cálculo e solicitou que fossem consideradas, alegando serem as mesmas das Declarações de Imposto de Renda. A autoridade considerou as bases propostas, no entanto, em razão de o contribuinte não ter apresentado a DIRPJ do anocalendário de 1989 e a RFB não possuir os valores mensais das bases de cálculo daquele ano, restou impossibilitada a análise relativa a setembro a dezembro de 1989. Entendo correto o posicionamento da fiscalização. Fl. 412DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS Processo nº 13832.000135/9992 Acórdão n.º 3401002.844 S3C4T1 Fl. 7 5 O prazo ordinário para manutenção dos livros fiscais em razão da possibilidade de análise pelo fisco para fins de eventual lançamento de ofício deve observar, dentre outros os seus prazos suspensivos e interruptivos. Além do mais, a apresentação desses livros ou outro meio probatório da base de cálculo das contribuições visa dar liquidez e certeza ao pleito do contribuinte que requer a compensação. Tratase, portanto, de documento indispensável para respaldar o seu pleito e, enquanto não deferido o seu pleito, deveria o contribuinte guardalos em bom estado, em razão do disposto no art. 170 do Código Tributário Nacional, in verbis: Art. 170. A lei pode, nas condições e sob as garantias que estipular, ou cuja estipulação em cada caso atribuir à autoridade administrativa, autorizar a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda pública. Parágrafo único. Sendo vincendo o crédito do sujeito passivo, a lei determinará, para os efeitos deste artigo, a apuração do seu montante, não podendo, porém, cominar redução maior que a correspondente ao juro de 1% (um por cento) ao mês pelo tempo a decorrer entre a data da compensação e a do vencimento. Dessa forma, por não haver documento outro que não mera planilha elaborada pelo contribuinte, para aferir a base de cálculo das contribuições e extrair a liquidez e certeza do crédito, há de ser indeferido o pleito. DA ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA – DOS EXPURGOS INFLACIONÁRIOS Afirma o recorrente que os créditos que foram deferidos, não foram atualizados como deveriam, ou seja, conforme o disposto na Resolução n. 561 do Conselho da Justiça Federal – CJF, de 02.07.2007, tendo o realizado na forma da Norma de Execução Conjunta SRF/COSIT/COSAR n. 08 de 27/06/1997 c/c IN SRF n. 21/97, art. 13, parágrafo 3º. Nesse ponto, entendo que a insurgência do contribuinte merece provimento. Deve ser utilizada a Regra Geral de Atualização Monetária aplicável a indébitos, que hoje está contida na Resolução n. 134, de 21.12.2010 , que revogou a Resolução n. 561 do Conselho da Justiça Federal, que firmou os seguintes índices a serem aplicados: 4.4 REPETIÇÃO DE INDÉBITO TRIBUTÁRIO 4.4.1 CORREÇÃO MONETÁRIA Lei n. 4.357, de 16.7.64 (OTN); Fl. 413DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS 6 Lei n. 6.899, de 8.4.81, regulamentada pelo Decreto n. 86.649, de 25.11.81 (ORTN); Decretolei n. 2.284, de 10.3.86; Decretolei n. 2.290, de 21.11.86, art. 60; Lei n. 7.730, de 31.1.89 (BTN); Lei n. 7.738, de 9.3.89; Lei n. 7.777, de 19.6.89; Lei n. 7.801, de 11.7.89; Lei n. 8.383, de 30.12.91 (Ufir); Lei n. 9.069, de 29.6.95; Lei n. 9.250, de 26.12.95 (Selic); Lei n. 9.430, de 27.12.96. 4.4.1.1 INDEXADORES Observar regras gerais no item 4.1.2 deste capítulo. De 1964 a fev/86 ORTN De mar/86 a jan/89 OTN (Os débitos anteriores a jan/89 deverão ser multiplicados, neste mês, por 6,17); Jan/89 IPC/IBGE de 42,72% (Expurgo, em substituição ao BTN) Fev/89 IPC/IBGE de 10,14% (Expurgo, em substituição ao BTN) De mar/89 a mar/90 BTN; De mar/90 a fev/91 IPC/IBGE (Expurgo, em substituição ao BTN e ao INPC de fev/91); De mar/91 a nov/91 INPC/IBGE; Dez/91 IPCA série especial Art. 2, parágrafo 2, da Lei n. 8.383/91; De jan/92 a jan/96 Ufir (Lei n. 8.383/91); A partir de jan/96 Selic Art. 39, parágrafo 4, da Lei n. 9.250, de 26.12.95) Destaquese que esse é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça STJ, julgado nos termos do art. 543C do CPC (vinculante a este Conselho, nos termos do art. 62A do RICARF), in verbis: Fl. 414DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS Processo nº 13832.000135/9992 Acórdão n.º 3401002.844 S3C4T1 Fl. 8 7 TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE RENDA. COMPLEMENTAÇÃO DE APOSENTADORIA. LEI 7.713/88 (ART. 6º, VII, B), LEI 9.250/95 (ART. 33). 1. Pacificouse a jurisprudência da 1ª Seção do STJ no sentido de que, por força da isenção concedida pelo art. 6º, VII, b, da Lei 7.713/88, na redação anterior à que lhe foi dada pela Lei 9.250/95, é indevida a cobrança de imposto de renda sobre o valor da complementação de aposentadoria e o do resgate de contribuições correspondentes a recolhimentos para entidade de previdência privada ocorridos no período de 1º.01.1989 a 31.12.1995 (EREsp 643691/DF, DJ 20.03.2006; EREsp 662.414/SC, DJ 13.08.2007; (EREsp 500.148/SE, DJ 01.10.2007; EREsp 501.163/SC, DJe 07.04.2008). 2. Na repetição do indébito tributário, a correção monetária é calculada segundo os índices indicados no Manual de Orientação de Procedimentos para os Cálculos da Justiça Federal, aprovado pela Resolução 561/CJF, de 02.07.2007, do Conselho da Justiça Federal, a saber: (a) a ORTN de 1964 a fevereiro/86; (b) a OTN de março/86 a dezembro/88; (c) pelo IPC, nos períodos de janeiro e fevereiro/1989 e março/1990 a fevereiro/1991; (d) o INPC de março a novembro/1991; (e) o IPCA – série especial – em dezembro/1991; (f) a UFIR de janeiro/1992 a dezembro/1995; (g) a Taxa SELIC a partir de janeiro/1996 (ERESP 912.359/MG, 1ª Seção, DJ de 03.12.07). 3. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/08. (REsp 1012903/RJ, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 08/10/2008, DJe 13/10/2008) Afora isso, cumpre destacar que a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional possui o Parecer PGFN/CRJ n. 2601/2008, publicado no DOU em 08/12/2008, Ato n. 10 de Publicado em 11/12/2008, que dispensa a PGFN de interpor recursos nas ações que requeiram a inclusão dos índices expurgados de planos econômicos para atualização dos créditos tributários. Dessa forma, entendo que deva ser realizada a correção monetária considerandose os expurgos inflacionários do período. CONCLUSÃO Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, dar provimento parcial para determinar a atualização monetária nos termos da Resolução n. 134, de Fl. 415DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS 8 21.12.2010 do Conselho da Justiça Federal, considerandose os expurgos inflacionários dos períodos pertinentes. Ângela Sartori Fl. 416DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 09/02/2015 por ANGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 09/02/2015 por A NGELA SARTORI, Assinado digitalmente em 11/02/2015 por JULIO CESAR ALVES RAMOS
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Numero do processo: 10240.001733/2007-77
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 10 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Thu Mar 19 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2003, 2004, 2005, 2006
QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO. PREVISÃO NA LEI COMPLEMENTAR N105/2001.
A Lei Complementar nº 105/2001 permite a quebra do sigilo por parte das autoridades e dos agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente.
DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. CONDIÇÃO PARA DEFINIÇÃO DO TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL.
A teor do acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial no 973.733 - SC, sujeito ao regime do art. 543-C do Código de Processo Civil, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado do tributo ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo não ocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, o prazo decadencial é regido pelo art. 173, inciso I, do CTN.
Somente nos casos em que o pagamento foi feito antecipadamente, o prazo será de cinco anos a contar do fato gerador (art. 150, § 4o, do CTN).
DECADÊNCIA. RENDIMENTOS SUJEITOS AO AJUSTE ANUAL. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO.
O Imposto de Renda Pessoa Física é tributo sujeito ao lançamento por homologação e, portanto, nos casos de rendimentos submetidos a tributação no ajuste anual, o direito da Fazenda constituir o crédito tributário decai após cinco anos contados da data de ocorrência do fato gerador, que se perfaz em 31 de dezembro de cada ano, desde tenha havido pagamento antecipado do tributo e não seja constatada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação.
DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS
Para os fatos geradores ocorridos a partir de 1° de janeiro de 1997, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção relativa de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações.
Numero da decisão: 2202-002.979
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, QUANTO A PRELIMINAR DE PROVA ILÍCITA POR QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO: Pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar. Vencidos os Conselheiros PEDRO ANAN JUNIOR (Relator), JIMIR DONIAK JUNIOR (Suplente convocado) e FÁBIO BRUN GOLDSCHMIDT que acolhem a preliminar. Designado para redigir o voto vencedor ANTONIO LOPO MARTINEZ. QUANTO A PRELIMINAR DE DECADÊNCIA: Por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar. QUANTO AO MÉRITO: Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Antonio Lopo Martinez - Presidente Redator Designado
(Assinado digitalmente)
Pedro Anan Junior Relator
Participaram Do Presente Julgamento Os Conselheiros: ANTONIO LOPO MARTINEZ (Presidente), JIMIR DONIAK JUNIOR (Suplente convocado), SUELY NUNES DA GAMA, PEDRO ANAN JUNIOR, MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA, FABIO BRUN GOLDSCHMIDT. Ausente, justificadamente, o Conselheiro RAFAEL PANDOLFO.
Nome do relator: Pedro Anan Junior Relator
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PREVISÃO NA LEI COMPLEMENTAR N105/2001. A Lei Complementar nº 105/2001 permite a quebra do sigilo por parte das autoridades e dos agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. PAGAMENTO ANTECIPADO. CONDIÇÃO PARA DEFINIÇÃO DO TERMO INICIAL DO PRAZO DECADENCIAL. A teor do acórdão proferido pelo Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial no 973.733 SC, sujeito ao regime do art. 543C do Código de Processo Civil, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado do tributo ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo não ocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, o prazo decadencial é regido pelo art. 173, inciso I, do CTN. Somente nos casos em que o pagamento foi feito antecipadamente, o prazo será de cinco anos a contar do fato gerador (art. 150, § 4o, do CTN). DECADÊNCIA. RENDIMENTOS SUJEITOS AO AJUSTE ANUAL. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. O Imposto de Renda Pessoa Física é tributo sujeito ao lançamento por homologação e, portanto, nos casos de rendimentos submetidos a tributação no ajuste anual, o direito da Fazenda constituir o crédito tributário decai após cinco anos contados da data de ocorrência do fato gerador, que se perfaz em 31 de dezembro de cada ano, desde tenha havido pagamento antecipado do tributo e não seja constatada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 24 0. 00 17 33 /2 00 7- 77 Fl. 295DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 2 DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS Para os fatos geradores ocorridos a partir de 1° de janeiro de 1997, a Lei nº 9.430, de 1996, em seu art. 42, autoriza a presunção relativa de omissão de rendimentos com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, QUANTO A PRELIMINAR DE PROVA ILÍCITA POR QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO: Pelo voto de qualidade, rejeitar a preliminar. Vencidos os Conselheiros PEDRO ANAN JUNIOR (Relator), JIMIR DONIAK JUNIOR (Suplente convocado) e FÁBIO BRUN GOLDSCHMIDT que acolhem a preliminar. Designado para redigir o voto vencedor ANTONIO LOPO MARTINEZ. QUANTO A PRELIMINAR DE DECADÊNCIA: Por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar. QUANTO AO MÉRITO: Por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Antonio Lopo Martinez Presidente – Redator Designado (Assinado digitalmente) Pedro Anan Junior – Relator Participaram Do Presente Julgamento Os Conselheiros: ANTONIO LOPO MARTINEZ (Presidente), JIMIR DONIAK JUNIOR (Suplente convocado), SUELY NUNES DA GAMA, PEDRO ANAN JUNIOR, MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA, FABIO BRUN GOLDSCHMIDT. Ausente, justificadamente, o Conselheiro RAFAEL PANDOLFO. Fl. 296DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 296 3 Relatório O presente processo, trata de autuação contra o RECORRENTE SELINO PEREIRA, conforme auto de infração de fls. 10/20 e 181, para cobrança do Imposto de Renda Pessoa Física, exercícios de 2003, 2004 2005 e 2006, anoscalendários de 2002, 2003, 2004 e 2005, no valor de R$ 567.917,67 (quinhentos e sessenta e sete mil, novecentos e dezessete reais e sessenta e sete centavos), valor já acrescido dos juros de mora e multa de oficio, calculados de acordo com a legislação de regência. Intimado por edital, foi requerido os extratos bancários junto as instituições financeiras através de RMF. O lançamento de oficio decorreu de procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo RECORRENTE, tendo sido constatado omissão de rendimentos caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovados, conforme fls. 12/14, descrição dos fatos e enquadramento legal do auto de infração. No dia 10/12/2007, foi juntada a impugnação de fls. 184/207, cujo teor, em suma foi o seguinte: 1) Cita farta doutrina e jurisprudência administrativa e dos tribunais; 2) Argui ofensa a princípios constitucionais e legais; 3) É nulo de pleno direito a quebra do sigilo fiscal e bancário, quando ausente a indispensável fundamentação, estabelecida a partir de fatos tidos, em tese, como ilícitos ou ilegais — Fl. 199; 4) Fls. 202/206. Argui a decadência dos fatos geradores ocorridos de janeiro de 2002 a outubro de 2002; 5) 0 simples fato de alguém efetuar depósitos em um banco não 6, por si só, comprobatório de que ele tenha auferido rendimentos tributáveis. E necessário o nexo da evidência do auferimento de rendimentos; 6) A autoridade fiscal não demonstrou utilização desses valores do depósito (presumido), como renda auferida, como gastos incompatíveis com o rendimento declarado ou até mesmo crescimento patrimonial injustificado; 7) A própria legislação determina que o dever de prova é do fisco, não bastando lançar sem o esteio da comprovação. Cabe a autoridade administrativa a prova da efetiva renda do recorrente com os supostos repasses. Estes não trazem nem uma presunção relativa, porque não se deposita somente renda; 8) Cabe ao fisco o ônus da prova; Fl. 297DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 4 9) Imprescindível que seja comprovada a utilização dos valores depositados como renda consumida, bem como seja comprovada a utilização dos valores em aplicação no mercado financeiro, evidenciando sinais exteriores de riqueza, visto que, por si só, depósitos bancários, cheques emitidos e aplicações financeiras não constitue fato gerador do imposto de renda, pois caracterizam disponibilidade econômica de renda e proventos; 10) 0 RECORRENTE exercia a atividade de intermediação, compra e venda de madeira; 11) Requer o cancelamento do crédito tributário arbitrado, lavrado no auto de infração, por não encontrar respaldo para sua exigência, tendo como base apenas os extratos bancários por não ter sido comprovado sinais exteriores de riqueza. O art. 42 da Lei 9.430/96 acaba por atingir o que não é renda. A Delegacia da Receita Federal de Julgamento de Belém, ao examinar o pleito decidiu por unanimidade em negar provimento a impugnação, através da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2002, 2003, 2004, 2005 INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDFADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou ilegalidade de dispositivos legais. As leis regularmente editadas segundo o processo constitucional gozam de presunção de constitucionalidade e de legalidade até decisão em contrário do Poder Judiciário. DECISÕES ADMINISTRATIVAS. EFEITOS. São improficuos os julgados administrativos trazidos pelo sujeito passivo, pois tais decisões não constituem normas complementares do Direito Tributário, já que foram proferidas por órgãos colegiados sem, entretanto, uma lei que lhes atribuísse eficácia normativa, na forma do art. 100, II, do Código Tributário Nacional. DECISÕES JUDICIAIS. EFEITOS. vedada a extensão administrativa dos efeitos de decisões judiciais, quando comprovado que o contribuinte não figurou como parte na referida ação judicial. DECADÊNCIA. INOCORRÊNCIA. Para o IRPF, o fato gerador do imposto sobre os rendimentos sujeitos ao ajuste anual aperfeiçoase no momento em que se completa o período de apuração dos rendimentos e deduções: 31 de dezembro de cada Fl. 298DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 297 5 anocalendário, quando se constata que o sujeito passivo sofreu retenção do imposto de renda na fonte pagadora ao longo do exercício, à medida que recebe rendimentos tributáveis, ou recolheu o tributo mensalmente, quando sujeitos ao CamêLeão. NULIDADE. INOCORRÊNCIA. O auto de infração deverá conter, obrigatoriamente, entre outros requisitos formais, a capitulação legal e a descrição dos fatos. Somente a ausência total dessas formalidades é que implicará na invalidade do lançamento por cerceamento do direito de defesa. Ademais, se o sujeito passivo revela conhecer plenamente as acusações que lhe foram imputadas, recebendoas, uma a uma, de forma meticulosa, mediante defesa, abrangendo não só outras questões preliminares como razões de mérito, descabe a proposição de cerceamento do direito de defesa. Comprovada a legitimidade do lançamento efetuado de oficio e cumpridas as formalidades legais dispostas em lei para sua efetivação, afastamse, por improcedentes, as preliminares arguidas. OMISSÃO DE RENDIMENTOS PROVENIENTES DE DEPÓSITOS BANCÁRIOS. Para os fatos geradores ocorridos a partir de janeiro de 1997, a Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, no seu art. 42, autoriza a presunção de omissão de rendimentos com base em valores depositados em conta bancária para os quais o titular não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos. ONUS DA PROVA. DISTRIBUIÇÃO. 0 ônus da prova existe afetando tanto o Fisco como o sujeito passivo. Não cabe a qualquer delas manterse passiva, apenas alegando fatos que a favorecem, sem carrear provas que os sustentem. Assim, cabe ao Fisco produzir provas que sustentem os lançamentos efetuados, como, ao contribuinte as provas que se contraponham à ação fiscal. Nesse passo, o Fisco deve comprovar regularmente seu direito ao crédito tributário provando o acréscimo patrimonial. Ja o contribuinte deve apresentar. Devidamente intimado desse decisão, o Recorrente apresenta tempestivamente recurso voluntário onde reitera os argumentos da impugnação. É o relatório. Fl. 299DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 6 Voto Vencido Conselheiro Pedro Anan Junior O recurso preenche os pressupostos de admissibilidade portanto deve ser conhecido. Antes de adentrarmos ao mérito devemos analisar as preliminares suscitadas pelo Recorrente. Nulidade Violação Sigilo Bancário A primeira preliminar a ser analisada diz respeito ao nulidade parcial do lançamento tendo em vista que a autoridade fiscalizadora, teria fundamentado o auto no artigo 42 da Lei 9.430, de 1996, onde teria ocorrido omissão de rendimentos com base em depósitos bancários de origem não comprovada. Por sua vez o Recorrente alega que tais informações só poderiam ser obtidas através de decisão judicial, desta forma teria ocorrido quebra no seu sigilo bancário de forma inadequada. O crédito tributário debatido no presente recurso tem como fundamento o art. 42, da Lei nº 9.430/95. Para chegar à comprovação da materialidade do tributo — depósitos bancários sem origem identificada — o Fisco utilizouse de Requisição de Informações de Informação Financeira — RMF (fls. 47, 50, 52, 54, 56, 58, 60, 62, 64, 68 e 70 do eprocesso), instrumento administrativo que teria como objetivo dar eficácia ao disposto na Lei Complementar nº 105/01, na Lei nº 9.311/96 e no Decreto nº 3.724/01. Ocorre que o PLENO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, ao julgar o Recurso Extraordinário nº 389.808/PR, decidiu dar INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO a esses atos normativos, de modo a considerar imprescindível a requisição ao Poder Judiciário de permissão para violar o sigilo de dados do contribuinte. O julgamento recebeu a seguinte ementa: SIGILO DE DADOS – AFASTAMENTO. Conforme disposto no inciso XII do artigo 5º da Constituição Federal, a regra é a privacidade quanto à correspondência, às comunicações telegráficas, aos dados e às comunicações, ficando a exceção – a quebra do sigilo – submetida ao crivo de órgão equidistante – o Judiciário – e, mesmo assim, para efeito de investigação criminal ou instrução processual penal. SIGILO DE DADOS BANCÁRIOS – RECEITA FEDERAL. Conflita com a Carta da República norma legal atribuindo à Receita Federal – parte na relação jurídicotributária – o afastamento do sigilo de dados relativos ao contribuinte. Fl. 300DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 298 7 (RE 389808, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 15/12/2010, DJe086 DIVULG 09052011 PUBLIC 10052011 EMENT VOL0251801 PP00218 RTJ VOL00220 PP00540) A supracitada decisão teve como objetivo tanto conciliar a necessidade do Fisco de ter acesso a dados sigilosos para conseguir atingir seu desiderato, quanto preservar o sigilo de dados dos contribuintes e a inafastabilidade da jurisdição em matérias sensíveis à violação de direitos, garantias explicitadas nos incisos XII e XXXV, do art. 5º, da CF: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XII é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; XXXV a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito; O Supremo Tribunal Federal, portanto, ao enfrentar o tema ora apreciado, não declarou a inconstitucionalidade de qualquer dispositivo, nem mesmo a inconstitucionalidade sem redução de texto. Simplesmente, analisando o ordenamento tributário brasileiro, adotou interpretação conforme a Constituição, fixando aos enunciados infraconstitucionais analisados um conteúdo deôntico compatível com a Carta Maior. Transcrevese, abaixo, trecho extraído do voto do Relator (acompanhado pela maioria dos demais Ministros), que explicita a técnica de julgamento aplicada: Assentando que preceitos legais atinentes ao sigilo de dados bancários hão de merecer, sempre e sempre, interpretação, por mais que se potencialize o objetivo, harmônica com a Carta da República, provejo o recurso interposto para conceder a segurança. Defiro a ordem para afastar a possibilidade de a Receita Federal ter acesso direto aos dados bancários do recorrente. COM ISSO, CONFIRO À LEGISLAÇÃO DE REGÊNCIA – LEI Nº 9.311/96, LEI COMPLEMENTAR Nº 105/01 E DECRETO Nº 3.724/01 — INTERPRETAÇÃO CONFORME À CARTA FEDERAL, TENDO COMO CONFLITANTE COM ESTA A QUE IMPLIQUE AFASTAMENTO DO SIGILO BANCÁRIO DO CIDADÃO, DA PESSOA NATURAL OU DA JURÍDICA, SEM ORDEM EMANADA DO JUDICIÁRIO. (Destaque nosso, STF. RE 389.808/PR. Rel. Min. Marco Aurélio. Julg. em 15/12/10). A respeito do tema, deve ser repisado o conteúdo da cláusula de reserva de plenário, inserida no art. 97 do Texto Constitucional, abaixo transcrita: Fl. 301DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 8 Art. 97. Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público. A decisão proferida no âmbito do Recurso Extraordinário 389.808, embora tenha sido por maioria simples (5X4), foi dotada de quorum insuficiente à declaração de inconstitucionalidade de qualquer dispositivo, que é de seis votos (maioria absoluta), conforme preceito constitucional acima reproduzido. Isso prova, matematicamente, que o desfecho do tema conferido pelo STF não implicou no reconhecimento de inconstitucionalidade dos enunciados infraconstitucionais analisados. Na realidade, conforme expresso no julgamento, o precedente referido realizou interpretação conforme a Constituição, técnica que, embora atue no mesmo plano significativo de declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto, dela se diferencia por não afastar significados, mas compelir a aplicação de uma interpretação específica, que torna o dispositivo analisado compatível com a Constituição. A sutileza é relevante. Basta verificar que, na interpretação conforme a Constituição, não se declara a inconstitucionalidade de qualquer enunciado ou significado a ele atribuído. A interpretação conforme a Constituição, portanto, não se confunde com a declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto, como bem aponta o Professor e Ministro Gilmar Ferreira Mendes: Ainda que não se possa negar semelhança dessas categorias e a proximidade do resultado prático da sua utilização, é certo que, enquanto na interpretação conforme à Constituição se tem, dogmaticamente, a declaração de que uma lei é constitucional com a interpretação que lhe é conferida pelo órgão judicial, constatase, na declaração de nulidade sem redução de texto, a expressa exclusão, por inconstitucionalidade, de determinadas hipóteses de aplicação (Anwendungsfalle) do programa normativo sem que se produza alteração expressa do texto legal (MENDES, Gilmar Ferreira, Jurisdição constitucional: o controle abstrato de normas no Brasil e na Alemanha. 5 ed. – São Paulo: 2005, pp. 354355). Desse modo, concluise que: a) não existe dispositivo regimental que impeça o julgamento do tema pelo CARF, a partir da revogação realizada pela Portaria nº 545/13; b) o STF, ao enfrentar o tema em sede de jurisdição difusa, não declarou a inconstitucionalidade de qualquer enunciado, aplicando a interpretação conforme a Constituição (que dispensou, inclusive, a cláusula de reserva de Plenário exigida pelo art. 97 da CF/88); c) não incide o óbice inserido no art. 26 – A do Decreto 70.235/72, pois o deslinde do feito dispensa qualquer reconhecimento de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo, conforme desfecho conferido ao tema pelo STF, ao analisar o RE nº 389.808. Pelo mesmo motivo, não se cogita de aplicação da Súmula nº 2 do CARF e do art. 62 – A do Regimento Interno do CARF; d) segundo a interpretação conforme a Constituição realizada pelo STF (RE nº 389.808), a requisição de informações financeiras é valida e seus dispositivos normativos, Fl. 302DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 299 9 contidos na Lei Complementar nº 105/01, Lei 9.311/96 e Decreto 3724/01 vigentes, desde que ocorra a prévia autorização do Poder Judiciário. Reforçando uma diretiva óbvia e inerente ao devido processo legal, o art. 30, da Lei nº 9.784/99, determina que são inadmissíveis, no processo administrativo, as provas obtidas por meios ilícitos. O dispositivo busca retirar os incentivos para que os agentes públicos desviemse dos procedimentos regulares, através da inutilização de seu trabalho quando realizado de forma que contrarie o direito. A ilicitude da prova, no caso, é corolário lógico da incompatibilidade da sua obtenção com os ditames fixados pelo STF, em interpretação conforme a Constituição. A constituição válida do crédito tributário exige prova da materialidade revelada através de procedimento válido perante o ordenamento jurídico pátrio. Malgrado essa hipótese, não há obrigação tributária pela ausência de prova que, validamente, ratifique o conceito de fato previsto na hipótese normativa tributária. Ressalto a importância do tema em questão, dentro de um estado democrático de direito. A regra positivada em nosso ordenamento tem origem na doutrina e jurisprudência americanas (exclusionary rules, caso Elkins v. United States), que consolidaram o entendimento segundo o qual o Estado, enquanto defensor dos direitos fundamentais, terá como Pírrica toda vitória obtida com base na violação desses Direitos, pois, com o pretexto de vencer uma batalha contra um ilícito isolado, leva à bancarrota o próprio Estado Democrático de Direito que almeja proteger1. Ocorre que não só as provas obtidas ilicitamente são vedadas, como também aquelas que delas se derivam. A doutrina do “fruit of the poisonous tree”, ou simplesmente “fruit doctrine” – “fruto da árvore envenenada”, aplicada primeiramente na jurisprudência americana (caso Silverthine Lumber Co. v. United States), estabelece que as provas obtidas por meios ilícitos contaminam aquelas delas decorrentes. Assim, tanto as conclusões decorrentes dos dados bancários obtidos através da quebra ilegal do sigilo, quanto os outros elementos probatórios que deles originamse, são fruto da prova que restou contaminada pela ausência de requisição prévia ao poder judiciário para quebra do sigilo bancário. Como visto, a finalidade do art. 30, da Lei nº 9.784/99 é coibir os abusos estatais através da inutilização dos efeitos dos atos ilícitos cometidos por seus agentes. Dessa forma, qualquer prova que tenha sido produzida à margem do critério definido pelo STF revelase estéril ao nascimento válido da obrigação tributária. Na hipótese, somente foi possível a constituição do crédito tributário com base no art. 42 da Lei nº 9.430/95, através das provas obtidas junto às instituições financeiras por meio de quebra de sigilo bancário sem prévia autorização judicial ou do titular da conta bancária. Ou seja, se a fiscalização não houvesse expedido a RMF, não teria concluído pela omissão de rendimentos, e não teria lavrado o auto de infração sob esse argumento. Sendo assim, entendo que as seguintes infrações devem ser excluídas, pois carecem de materialidade obtida no seio de um devido processo legal (conforme entendimento adotado pelo STF): 1 COSTA ANDRADE, Manuel da. Sobre as proibições de prova em processo penal. Coimbra: Coimbra Editora, 1992. p. 73. Fl. 303DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 10 Diante do exposto acolho a preliminar de nulidade parcial suscitada pelo Recorrente. Decadência parcial anocalendário 2002 Inicialmente, há que se fazer algumas considerações acerca do prazo decadência a ser aplicado aos tributos sujeitos ao lançamento por homologação. Com a devida vênia daqueles que pensam diferente, encontra pacificado neste Conselho o entendimento, ao qual me filio, de que o Imposto de Renda Pessoa Física – IRPF é um tributo sujeito ao lançamento por homologação, ou seja, aquele em que a lei determina que o sujeito passivo, interpretando a legislação aplicável, apure o montante tributável e efetue o recolhimento do imposto devido, sem prévio exame da autoridade administrativa, conforme definição contida no caput do art. 150 do Código Tributário Nacional – CTN, tendo sua decadência regrada, em princípio, pelo § 4o deste mesmo artigo (cinco anos contados da data do fato gerador), independentemente de haver ou não pagamento do tributo. O referido dispositivo legal exclui do seu escopo expressamente apenas os casos em que for constatada a ocorrência de dolo, fraude ou simulação, aplicandose, nessa hipótese, a regra geral prevista no art. 173 do CTN, inciso I (cinco anos a contar do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado). Entretanto, com o advento da Portaria MF no 586, de 21 de dezembro de 2010, que alterou o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF (aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009), os julgados no âmbito deste Tribunal deverão observar o disposto nas decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C do Código de Processo Civil, devido a inclusão do art. 62A, in verbis: Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei no 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. § 1o Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543B. {1} § 2º O sobrestamento de que trata o § 1º será feito de ofício pelo relator ou por provocação das partes. No que diz respeito ao prazo decadencial para constituição do crédito tributário, assim se pronunciou o Superior Tribunal de Justiça no Recurso Especial no 973.733 – SC, de 12/08/2009, de relatoria do Ministro Luiz Fux, submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução no 8/08 do STJ: EMENTA PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO Fl. 304DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 300 11 CPC. TRIBUTÁRIO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. INEXISTÊNCIA DE PAGAMENTO ANTECIPADO. DECADÊNCIA DO DIREITO DE O FISCO CONSTITUIR O CRÉDITO TRIBUTÁRIO. TERMO INICIAL. ARTIGO 173, I, DO CTN. APLICAÇÃO CUMULATIVA DOS PRAZOS PREVISTOS NOS ARTIGOS 150, § 4º, e 173, do CTN. IMPOSSIBILIDADE. 1. O prazo decadencial qüinqüenal para o Fisco constituir o crédito tributário (lançamento de ofício) contase do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado da exação ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo inocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, inexistindo declaração prévia do débito (Precedentes da Primeira Seção: REsp 766.050/PR, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 28.11.2007, DJ 25.02.2008; AgRg nos EREsp 216.758/SP, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 22.03.2006, DJ 10.04.2006; e EREsp 276.142/SP, Rel. Ministro Luiz Fux, julgado em 13.12.2004, DJ 28.02.2005). 2. É que a decadência ou caducidade, no âmbito do Direito Tributário, importa no perecimento do direito potestativo de o Fisco constituir o crédito tributário pelo lançamento, e, consoante doutrina abalizada, encontrase regulada por cinco regras jurídicas gerais e abstratas, entre as quais figura a regra da decadência do direito de lançar nos casos de tributos sujeitos ao lançamento de ofício, ou nos casos dos tributos sujeitos ao lançamento por homologação em que o contribuinte não efetua o pagamento antecipado (Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 163/210). 3. O dies a quo do prazo qüinqüenal da aludida regra decadencial regese pelo disposto no artigo 173, I, do CTN, sendo certo que o "primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado" corresponde, iniludivelmente, ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível, ainda que se trate de tributos sujeitos a lançamento por homologação, revelandose inadmissível a aplicação cumulativa/concorrente dos prazos previstos nos artigos 150, § 4º, e 173, do Codex Tributário, ante a configuração de desarrazoado prazo decadencial decenal (Alberto Xavier, "Do Lançamento no Direito Tributário Brasileiro", 3ª ed., Ed. Forense, Rio de Janeiro, 2005, págs. 91/104; Luciano Amaro, "Direito Tributário Brasileiro", 10ª ed., Ed. Saraiva, 2004, págs. 396/400; e Eurico Marcos Diniz de Santi, "Decadência e Prescrição no Direito Tributário", 3ª ed., Max Limonad, São Paulo, 2004, págs. 183/199). 5. In casu, consoante assente na origem: (i) cuidase de tributo sujeito a lançamento por homologação; (ii) a obrigação ex lege de pagamento antecipado das contribuições previdenciárias não Fl. 305DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 12 restou adimplida pelo contribuinte, no que concerne aos fatos imponíveis ocorridos no período de janeiro de 1991 a dezembro de 1994; e (iii) a constituição dos créditos tributários respectivos deuse em 26.03.2001. 6. Destarte, revelamse caducos os créditos tributários executados, tendo em vista o decurso do prazo decadencial qüinqüenal para que o Fisco efetuasse o lançamento de ofício substitutivo. 7. Recurso especial desprovido. Acórdão submetido ao regime do artigo 543C, do CPC, e da Resolução STJ 08/2008. Depreendese, assim, que nos casos em que a lei não prevê o pagamento antecipado do tributo ou quando, a despeito da previsão legal, o mesmo não ocorre, sem a constatação de dolo, fraude ou simulação do contribuinte, o prazo decadencial é regido pelo art. 173, inciso I, do CTN, considerandose que “primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado” corresponde ao primeiro dia do exercício seguinte à ocorrência do fato imponível. Posteriormente, acolhendo os embargos de declaração oposto pela Fazenda Nacional no Agravo Regimental no Recurso Especial no 674.497/PR (2004/01099782), julgado em 09/02/2010, a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, assim se manifestou: PROCESSUAL CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. TRIBUTO SUJEITO A LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. RECOLHIMENTOS NÃO EFETUADOS E NÃO DECLARADOS. ART.173, I, DO CTN. DECADÊNCIA. ERRO MATERIAL. OCORRÊNCIA. ACOLHIMENTO. EFEITOS MODIFICATIVOS. EXCEPCIONALIDADE. 1. Tratase de embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional objetivando afastar a decadência de créditos tributários referentes a fatos geradores ocorridos em dezembro de 1993. 2. Na espécie, os fatos geradores do tributo em questão são relativos ao período de 1o a 31.12.1993, ou seja, a exação só poderia ser exigida e lançada a partir de janeiro de 1994. Sendo assim, na forma do art. 173, I, do CTN, o prazo decadencial teve início somente em 1o 1.1995, expirandose em 1o 1.2000. Considerando que o auto de infração foi lavrado em 29.11.1999, temse por não consumada a decadência, in casu. 3. Embargos de declaração acolhidos, com efeitos modificativos, para dar parcial provimento ao recurso especial. O relator, Ministro Mauro Campbell Marques, esclarece no voto condutor que: Do acurado reexame dos autos, verifico que razão assiste à embargante. Sobre o tema, a Primeira Seção desta Corte, utilizandose da sistemática prevista no art. 543C do CPC, introduzido no ordenamento jurídico pátrio por meio da Lei dos Recursos Fl. 306DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 301 13 Repetitivos, ao julgar o REsp 973.733/SC, Rel Min. Luiz Fux (j. 12.8.2009), reiterou o entendimento no sentido de que, em se tratando de tributo sujeito a lançamento por homologação não declarado e inadimplido, como o caso dos autos, o Fisco dispõe de cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado para a constituição do crédito tributário, nos termos do art. 173, I, do CTN. Somente nos casos em que o pagamento foi feito antecipadamente, o prazo será de cinco anos a contar do fato gerador (art. 150, § 4º, do CTN). [...] Na espécie, os fatos geradores do tributo em questão são relativos ao período de 1º a 31.12.1993, ou seja, a exação só poderia ser exigida e lançada a partir de janeiro de 1994. Sendo assim, na forma do art. 173, I, do CTN, o prazo decadencial teve início somente em 1º.1.1995, expirandose em 1º.1.2000. Considerando que o auto de infração foi lavrado em 29.11.1999, temse por não consumada a decadência, in casu. Concluise, assim, que a aplicação do prazo decadencial previsto art. 150, §4o, do CTN passou a ter uma condição adicional, qual seja, a existência de pagamento antecipado de tributo. Inexistindo pagamento antecipado, deslocase o prazo decadencial para o “primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado” (art. 173, inciso I), restando claro que, nos casos de fatos geradores ocorridos no dia 31 de dezembro de cada ano, o lançamento só poderá ser efetuado no ano seguinte. Retornando ao caso em concreto, tratase de lançamento referente aos anos calendários de 2002 a 2005, em que foi apurada omissão caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada, infrações sujeitas ao imposto apurado na declaração de ajuste anual, cujo fato gerador se perfaz em 31 de dezembro de cada ano. Para o anocalendário 2002, o prazo decadencial começou a fluir em 31.12.2002, de modo que o lançamento poderia ter sido formalizado até 31.12.2007 (cinco anos da data do fato gerador). Assim, visto que o presente Auto de Infração foi cientificado pessoalmente ao contribuinte em 11/2007, não há que se falar em decadência no presente caso. Diante do exposto, voto por não acolher a preliminar de decadência parcial suscitada pelo recorrente no que se refere ao anocalendário de 2002. Mérito OMISSÃO DE RENDIMENTOS – DEPÓSITOS BANCÁRIOS – PRESUNÇÃO. Fl. 307DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 14 Parte do auto de infração elaborado pela autoridade lançadora teve como base o artigo 42, caput e §§ 1º e 2º, da Lei nº 9.430, de 1996: “Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos.” Nos termos da referida norma legal presumese omissão de rendimentos sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. No presente caso foi comprovado através de documentação e provas que a Contribuinte é titular das contas bancária, sendo que o lançamento foi efetuado a partir da presunção relativa de omissão de rendimentos calcada em depósitos bancários de origem não demonstrada, nos termos artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996. Não houve demonstração por parte da Contribuinte através de provas hábeis, a origem dos valores depositados na sua conta bancária, sendo que o mesmo foi intimado para demonstrar que os valores depositados em sua conta bancária não representam rendimentos omitidos. Desta forma verificase que os depósitos bancários que formaram a base de cálculo do auto de infração são valores que foram movimentados e não foram oferecidos a tributação, não havendo nenhuma evidência de que alguma dessas importâncias foram declaradas pela Contribuinte ou têm natureza isenta, uma vez que a Contribuinte nada trouxe para esclarecer e comprovar a origem dos referidos depósitos. Podemos concluir que o Contribuinte não conseguiu demonstrar que não houve omissão de rendimentos, pois não apresentou nenhum documento ou prova que comprovariam que os depósitos efetuados em sua conta bancária possuíam origem isenta ou já submetida à tributação. Simplesmente alega que os valores objeto do auto de infração não são de sua titularidade. Desta forma, é devida a presente tributação com base em depósitos bancários de origem não comprovada. Fl. 308DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 302 15 Diante do exposto rejeito a preliminar de decadência parcial relativa ao ano calendário de 2002 e no mérito nego provimento ao recurso apresentado pelo Recorrente. (Assinado Digitalmente) Pedro Anan Junior Relator Fl. 309DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 16 Voto Vencedor Conselheiro Antonio Lopo Martinez, Redator designado Este voto direcionase exclusivamente a preliminar de prova ilícita por quebra do sigilo bancário, ponto na qual divirjo do Conselheiro Relator. Inobstante o bem fundamentado voto do Relator, entendo que ao apreciar a questão da licitude da prova estamos essencialmente enfrentando uma questão preliminar. O sigilo bancário sempre foi um tema cheio de contradições e de várias correntes. Antes da edição da Lei Complementar n° 105, de 2001, os Tribunais Superiores tinham a forte tendência de albergar a tese da inclusão do sigilo bancário na esfera do direito à privacidade, na forma da nossa Constituição Federal, sob o argumento que não é cabível a sua quebra com base em procedimento administrativo, amparado no entendimento de que as previsões nesse sentido, inscritas nos parágrafos 5º e 6º do artigo 38, da Lei nº 4.595, de 1964 e no artigo 8º da Lei nº 8.021, de 1990, perdem eficácia, por interpretação sistemática, diante da vedação do parágrafo único do artigo 197, do CTN, norma hierarquicamente superior. Pessoalmente, não me restam dúvidas, que o direito ao sigilo bancário não pode ser utilizado para acobertar ilegalidades. Por outro lado, preservase a intimidade enquanto ela não atingir a esfera de direitos de outrem. Todos têm direito à privacidade, mas ninguém tem o direito de invocála para absterse de cumprir a lei ou para fugir de seu alcance. Tenho para mim, que o sigilo bancário não foi instituído para que se possam praticar crimes impunemente. Desta forma, é indiscutível que o sigilo bancário, no Brasil, para fins tributários, é relativo e não absoluto, já que a quebra de informações pode ocorrer nas hipóteses previstas em lei. No comando da Lei Complementar nº. 105, de 10 de janeiro de 2001, notase o seguinte: “Art. 1° As instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados. (...) § 3º Não constitui violação do dever de sigilo: I a troca de informações entre instituições financeiras, para fins cadastrais, inclusive por intermédio de centrais de risco, observadas as normas baixadas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo Banco Central do Brasil; II o fornecimento de informações constantes de cadastro de emitentes de cheques sem provisão de fundos e de devedores inadimplentes, a entidades de proteção ao crédito, observadas às normas baixadas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo Banco Central do Brasil; Fl. 310DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10240.001733/200777 Acórdão n.º 2202002.979 S2C2T2 Fl. 303 17 III o fornecimento das informações de que trata o § 2º do art. 11 da Lei nº 9.311, de 24 de outubro de 1996; IV a comunicação, às autoridades competentes, da prática de ilícitos penais ou administrativos, abrangendo o fornecimento de informações sobre operações que envolvam recursos provenientes de qualquer prática criminosa; V a revelação de informações sigilosas com o consentimento expresso dos interessados; VI a prestação de informações nos termos e condições estabelecidos nos artigos 2º, 3º, 4º, 5º, 6º, 7º e 9º desta Lei Complementar. (...) Art. 6º As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. (...) Art. Revogase o art. 38 da Lei n°° 4.595, de 31 de dezembro de 1964.”. Se antes existiam dúvidas sobre a possibilidade da quebra do sigilo bancário via administrativa (autoridade fiscal), agora estas não mais existem, já que é claro na lei complementar, acima transcrita, a tese de que a Secretaria da Receita Federal tem permissão legal para acessar os dados bancários dos contribuintes, está expressamente autorizado pelo artigo 6° da mencionada lei complementar. O texto autorizou, expressamente, as autoridades e agentes fiscais tributários a obter informações de contas de depósitos e aplicações financeiras, desde que haja processo administrativo instaurado. Assim, estaria afastada a pretensa quebra de sigilo bancário de forma ilícita, já que há permissão legal para que o Estado através de seus agentes fazendários, com fins públicos (arrecadação de tributos), visando o bem comum, possa ter acesso aos dados protegidos, originariamente, pelo sigilo bancário. Ficam o Estado e seus agentes responsáveis, por outro lado, pela manutenção do sigilo bancário e pela observância do sigilo fiscal. Desta forma, dentro dos limites estabelecidos pelos textos legais que tratam o assunto, os AuditoresFiscais da Receita Federal poderão proceder a exames de documentos, livros e registros de contas de depósitos, desde que houver processo fiscal administrativo instaurado e os mesmos forem considerados indispensáveis pela autoridade competente. Devendo ser observado que os documentos e informações fornecidos, bem como seus exames, Fl. 311DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 18 devem ser conservados em sigilo, cabendo a sua utilização apenas de forma reservada, cumprido as normas a prestação de informações e o exame de documentos, livros e registros de contas de depósitos, a que alude a lei, não constitui, portanto, quebra de sigilo bancário. Sempre é bom lembrar que o sigilo fiscal a que se obrigam os agentes fiscais constitui um dos requisitos do exercício da atividade administrativa tributária, cuja inobservância só se consubstancia mediante a verificação material do evento da quebra do sigilo funcional, quando, então, o agente envolvido sofrerá a devida sanção. Requisições de Movimentação Financeira – RMF emitidas seguiram rigorosamente as exigências previstas pelo Decreto nº 3.724/2001, que regulamentou o art. 6º da Lei Complementar 105/2001, inclusive quanto às hipóteses de indispensabilidade previstas no art. 3º, que também estão claramente presentes nos autos. Em verdade, verificase que o contribuinte foi intimada a fornecer seus extratos bancários, no entanto não os apresentou, razão pela qual não restou opção à fiscalização senão a emissão da Requisição de Informações sobre Movimentação Financeira – RMF. Desse modo, ausente qualquer ilicitude na prova decorrente da transferência de sigilo bancário para a Receita Federal do Brasil, posto que a Lei Complementar 105, de 2001 confere às autoridades administrativas tributárias a possibilidade de acesso aos dados bancários, sem autorização judicial, desde que haja processo administrativo e justificativa para tanto. E é este o caso nos autos. Ademais, a tese de ilicitude da prova obtida não está sendo acolhida pela Câmara Superior de Recursos Fiscais, conforme a jurisprudência já consolidada. Rejeito, portanto, o questionamento preliminar argüido quanto ilicitude da prova por quebra do sigilo bancário. (Assinado Digitalmente) Antonio Lopo Martinez – Redator Designado Fl. 312DF CARF MF Impresso em 19/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 19/02/2015 por PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 19/02/2015 po r PEDRO ANAN JUNIOR, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por ANTONIO LOPO MARTINEZ
score : 1.0
Numero do processo: 10805.908199/2011-75
Turma: Terceira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 03 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Mon Feb 23 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Exercício: 2002
LUCRO PRESUMIDO. PERCENTUAIS. REQUISITOS ESPECÍCOS. PROVA. INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. POSICIONAMENTO JUDICIAL SUJEITO Á SISTEMÁTICA DOS RECURSOS REPETITIVOS. VINCULAÇÃO DA ESFERA ADMINISTRATIVA.
1. Os percentuais de lucro presumido, no imposto sobre a renda e na contribuição social sobre o lucro líquido, definidos para serviços equiparados à hospitalares, para exercícios anteriores à 2009, independem de comprovação de requisitos específicos, limitado a exigência do objeto próprio da atividade.
2. Possibilidade de reconhecimento de crédito pleiteado, se o conjunto probatório e as condições especiais da demanda justifiquem a relativização do formalismo processual, com base no princípio da verdade real.
Numero da decisão: 1803-002.498
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, pelo provimento do recurso voluntário, com reconhecimento do direito creditório, nos termos do voto do Relator.
(assinado digitalmente)
Fernando Ferreira Castellani - Relator
(assinado digitalmente)
Carmen Ferreira Saraiva Presidente
Composição do colegiado. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Rodrigues Mendes, Arthur José André Neto, Fernando Ferreira Castellani, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Meigan Sack Rodrigues e Carmen Ferreira Saraiva.
Nome do relator: FERNANDO FERREIRA CASTELLANI
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PERCENTUAIS. REQUISITOS ESPECÍCOS. PROVA. INTERPRETAÇÃO DA LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA. POSICIONAMENTO JUDICIAL SUJEITO Á SISTEMÁTICA DOS RECURSOS REPETITIVOS. VINCULAÇÃO DA ESFERA ADMINISTRATIVA. 1. Os percentuais de lucro presumido, no imposto sobre a renda e na contribuição social sobre o lucro líquido, definidos para serviços equiparados à hospitalares, para exercícios anteriores à 2009, independem de comprovação de requisitos específicos, limitado a exigência do objeto próprio da atividade. 2. Possibilidade de reconhecimento de crédito pleiteado, se o conjunto probatório e as condições especiais da demanda justifiquem a relativização do formalismo processual, com base no princípio da verdade real. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, pelo provimento do recurso voluntário, com reconhecimento do direito creditório, nos termos do voto do Relator. (assinado digitalmente) Fernando Ferreira Castellani Relator (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 90 81 99 /2 01 1- 75Fl. 151DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 152 2 Carmen Ferreira Saraiva –Presidente Composição do colegiado. Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Rodrigues Mendes, Arthur José André Neto, Fernando Ferreira Castellani, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Meigan Sack Rodrigues e Carmen Ferreira Saraiva. Relatório A Recorrente formalizou o Pedido de Compensação (PER/DComp) 42523.75403.190106.1.2.048944, em 19.01.2006, fls. 0208, com base em pagamento a maior de imposto sobre a renda de pessoa jurídica (IRPJ), código 2089, no valor de R$ 13.112,73, contido no DARF de valor total de R$ 11.934,90, recolhido em 31.03.2003, referente ao período de apuração de dezembro de 2002, apurado pelo lucro presumido. No despacho decisório, proferido em 03/01/2012, fls. 11, consta: Valor do crédito pleiteado no PER/DCOMP: 13.112,73 A partir das características do DARF discriminado no PER/DCOMP acima identificado, foram localizados um ou mais pagamentos abaixo relacionados, mas integralmente utilizados para quitação de débitos do contribuinte, não restando crédito disponível para restituição. (...) Diante da inexistência do crédito, INDEFIRO o Pedido de Restituição. Enquadramento legal: Art. 165 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Pelo entendimento exarado no despacho decisório, foi identificada a utilização do valor integral da DARF de referência do pedido de restituição, não existindo, dessa forma, qualquer crédito a ser restituído. Cientificada, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade, fls. 1623. Esclarece, inicialmente, tratarse de empresa que desenvolve atividade de análise clínicas, laboratoriais, patologia clínica e ultrassonografia. Seu objeto, em seu contrato, é descrito como “prestação de sérvios de laboratórios de análises e medicina diagnóstica.” Alega, a recorrente, que é optante do regime de tributação pelo lucro presumido, tendo recolhido, regularmente, IRPJ e CSLL a partir de bases de cálculo presumidas correspondentes aos percentuais de 32%. Após a edição da Instrução Normativa IN/SRF nº 539/2005 e da resposta de consulta realizada pela recorrente, anexada aos autos, entendeu ter realizado recolhimentos a maior, durante o período de 30/10/2000 a 28/07/2005, na medida em que poderia ter utilizado as bases presumidas reduzidas, respectivamente em 8% e 12%. Fl. 152DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 153 3 Por força de sua interpretação, apresentou inúmeros pedidos de restituição, mediante PER/DCOMP, para cada DARF mensal recolhido a maior, assim como os posteriores pedidos de compensação com os valores futuros, mediantes novos PER/DCOMP. Defende, a recorrente, que após a edição da IN/SRF 539/2005, suas atividades de análises laboratoriais foram equiparadas a serviços hospitalares, de forma que a tributação nos patamares elevados de 32% de lucro presumido é ilegal, devendose aplicar, retroativamente, as alíquotas diminuídas. Em suas palavras temos que: Com a edição da IN/SRF nº 539/2005, em 25/04/2005, que deu nova redação ao artigo 27, da IN/SRF nº 480/2004, a interessada foi equiparada a “serviços hospitalares”. Sendo assim, a interessada começou a apurar o seu IRPJ e a CSLL pela alíquota de 8% e de 12%, respectivamente. Os impostos e as contribuições já pagas e declaradas em DCTF foram recalculadas e se verificou que a interessada pagou à maior os tributos. Assim, o contribuinte providenciou o pedido de restituição eletrônica através do programa PER/DCOMP. Uma vez que a IN/SRF nº 539/2005 atribuiu nova interpretação à lei em vigor, o entendimento deve retroagir no espaço e surtir os efeitos desde a vigência da lei em questão. O recorrente, ainda, explica que realizou o pagamento dos DARF conforme lançamentos em DCTF, de acordo com a apuração pelo lucro presumido com base nos patamares majorados de 32%. Isso implicou na impossibilidade de identificação, pelo sistema de mero cruzamento dos dados, dos valores indevidamente recolhidos. Defende que a fiscalização deveria examinar a aplicação da nova interpretação, recalculando, a partir de cada DCTF, o valor a maior constante em cada DARF. Esclarece que o decurso do prazo legal impediria a retificação das DCTF’s. Salienta, ainda, que foi realizada consulta formal e específica pelo contribuinte, acerca da aplicação das alíquotas reduzidas, devendo ser adotada, obrigatoriamente, a solução, pela fiscalização. Acusa que o único elemento analisado pela autoridade fiscal, para fundamentar o despacho decisório de indeferimento, foi a correspondência de valores constantes de DCTF e DARF. Ressalta a inaplicabilidade dos efeitos da IN/SRF nº 791, de 10/12/2007, que revoga a IN/SRF nº 539/2005, por tratarse de regra prejudicial ao contribuinte. Continua sua argumentação, demonstrando, contabilmente, invocando os dados informados em DIPJ 2004, a apuração efetivamente realizada, assim com os cálculos necessários para a identificação do seu crédito. Basicamente, refaz os cálculos do imposto devido, alterando a base presumida de 32%, para os 8% (IRPJ) e 12% (CSLL). Anexa planilhas de cálculo. Conclui, ao final, requerendo a procedência do pedido de restituição. Fl. 153DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 154 4 Junta, ao processo, contrato social, solução de consulta citada, planilha demonstrativa do cálculo do IRPJ com base presumida de 32%, de apuração do IRPJ no período, de novo cálculo do IRPJ com base presumida de 8%, assim como nova apuração, demonstrativa do crédito recolhido a maior (fls. 28 a 49). Está registrado como ementa do Acórdão da 4ª TURMA/DRJ/BSB nº 03 54.207, de 22/08/2013, fls. 5461, decisão, por unanimidade, de improcedência da manifestação de inconformidade, nos termos em que segue: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2002 PRESTADOR DE SERVIÇOS HOSPITALARES. PERCENTUAL DE LUCRO PRESUMIDO. REQUISITOS. Para serem considerados serviços hospitalares, as atividades dos contribuintes que desejem usufruir do benefício legal de redução de alíquota, em face da legislação tributária de regência e orientação traçada pela Administração tributária, devem atender cumulativamente todas às exigências e/ou requisitos previstos nos normativos, devidamente comprovada mediante documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido A Delegacia de Julgamento utiliza como fundamento de sua decisão, inicialmente, a faculdade, e não obrigatoriedade, da administração tributária intimar o contribuinte para esclarecimentos ou realizar diligencias diretas. Nos termos da decisão, temos: De início, cabe esclarecer que o despacho decisório foi formalizado com base nas informações prestadas pela contribuinte em Per/Dcomp e DCTF apresentadas a Receita Federal. Eventual intimação para prestar esclarecimentos ou realização de diligência fiscal é uma faculdade da autoridade fiscal competente, haja vista ela dispor das informações prestadas em declarações, não havendo, assim, se falar em nulidade do ato questionado. Continua, a decisão, argumentando que o procedimento de compensação, nos termos do art. 170 do Código tributário nacional, exige a existência de créditos líquido e certo do sujeito passivo. No caso em tela, não existiria crédito a ser compensado, já que a totalidade do valor constante da DARF está alocada para a quitação de IRPJ confessado em DCTF. Nos termos da decisão da DRJ, temos: Nos termos do art. 170 do Código Tributário Nacional, a compensação de crédito tributário somente poderá ser autorizada com crédito líquido e certo do sujeito passivo. O crédito é certo quando não há dúvida relativa à sua existência e é Fl. 154DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 155 5 líquido quando é conhecido o seu exato valor. Sendo líquido e certo o crédito (premissa básica à compensação), procederseá ao encontro das contas devedora e credora. In casu, a compensação realizada na DCOMP 42523.75403.190106.1.2.048944, não foi homologada por inexistência do crédito compensado, haja vista o pagamento relativo ao DARF ali discriminado, foi integralmente utilizado para quitar débito de IRPJ do PA 30/09/2002, confessado em DCTF, conforme consta no despacho decisório. Analisa, ainda, sequencia de normas que regulam a aplicação da alíquota diferenciada de presunção de lucro para os serviços hospitalares, demonstrando os requisitos para sua aplicação. Vejamos: Como se nota no dispositivo acima, na vigência dos referidos normativos, a definição de serviços hospitalares abrange aqueles prestados por empresário ou sociedade empresária que exerça uma ou mais das atribuições previstas no art. 23 da IN SRF 360/2003; aqueles que atendam ao requisito do art. 27 da IN SRF n.º 480, de 2004, e aos requisitos implementados pela alteração do art. 27 da IN 480/2004, dada pela IN SRF n.º 539, de 2005. Vale consignar que no exame de matéria controvérsia relativa à aplicação da legislação tributária, o julgador administrativo devese ater aos exatos limites da norma, não podendo ser extensiva para não alcançar exação não prevista em lei ou fazer desonerações ou estender benefício sem previsão legal. Daí, a sábia inteligência do legislador complementar ao prever a interpretação restritiva da legislação tributária. Portanto, para serem considerados serviços hospitalares, as atividades dos contribuintes que desejem usufruir do benefício legal de redução de alíquota, em face da orientação traçada pela Administração tributária, devem atender cumulativamente todas às exigências e/ou requisitos previstos nos atos normativos, transcritos em linhas pretéritas, devidamente comprovada mediante documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal. Destaca, ainda, que mesmo que cumpridos os requisitos para a eventual utilização da alíquota diferenciada, o procedimento correta para isso seria a retificação das DCTF e DIPJ. De outro lado, cumprida todas exigências/requisitos, para ter direito a eventual direito creditório, a manifestante antes de apresentar os Per/Dcomp, nas hipóteses em que admitidas pela legislação tributária de regência, deveria ter retificado em tempo hábil suas declarações (DCTF e DIPJ), cuja competência para apreciálas é do Delegado da Receita Federal de jurisdição do sujeito passivo. Concluiu, ao final, que a consulta anexada pelo recorrente não autoriza a aplicação da alíquota diferenciada pelo recorrente, limitandose a indicar os requisitos necessários para isso. Destaca, por fim, a ausência de força vinculante das decisões judiciais e administrativas citadas pelo recorrente. Fl. 155DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 156 6 Notificada em 04.11.2013, fl. 63, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 04.12.2013, fls. 6569. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge. Reitera todos os argumentos apresentados na manifestação de inconformidade, destacando que o único argumento para a improcedência, pela Delegacia de Julgamento, referese ao suposto não preenchimento dos requisitos necessários para a aplicação da equiparação a serviços hospitalares. Inova, tão somente, ao trazer uma série de documentos dos órgãos de vigilância, atestando sua condição de estabelecimento equiparado a hospitalar, como forma de justificar a utilização das alíquotas reduzidas de lucro presumido. Conclui alegando que a divergência resumese, nessa etapa, a mera comprovação da situação de fato. Vale dizer, ainda, que existem, ao todo, sessenta e seis recursos voluntários do contribuinte, versando sobre o mesmo assunto, relativos a totalidade das PER/DCOMP apresentadas na mesma oportunidade, relativa aos 60 meses anteriores a percepção da alteração da interpretação da norma, em suposto respeito as regras de decadência tributária. Toda numeração de folhas indicada nessa decisão se refere à paginação eletrônica dos autos em sua forma digital ou digitalizada. É o Relatório. Voto Conselheiro Fernando Ferreira Castellani, Relator. O recurso voluntário apresentado pela Recorrente atende aos requisitos de admissibilidade previstos na legislação, assim, o conheço. A discussão do caso em tela referese ao reconhecimento de crédito tributário, decorrente de aplicação retroativa de interpretação acerca da legislação tributária, no tocante aos diferentes percentuais de presunção de lucro. Mais que isso, versa acerca da prova dos requisitos para tal aplicação, além da regularidade da própria via eleita, qual seja, pedido de restituição de créditos não identificáveis na escrituração, diante de ausência de retificação. A análise do presente caso, engloba, assim, três diferentes pontos: i. sujeição ou não do recorrente às alíquotas diferenciadas de lucro presumido; ii. Comprovação dos requisitos; iii. Adequação da via eleita. Passemos aos pontos. Inicialmente, vale dizer, que o contribuinte, laboratório de análises, pode ser beneficiado pelo sistema de percentuais reduzidos do lucro presumido, aplicável as atividades hospitalares. Alertese para o fato de que não tratarei, ainda, da comprovação dos requisitos fáticos para tal sujeição, mas apenas seus aspectos normativos. Durante os exercícios de 2000 a 2005, o recorrente ofereceu a tributação seus resultados com base na presunção de 32%, regra geral para os prestadores de serviços. Em 2005, com a edição da IN/SRF nº 539/2005, norma que alterou a IN/SRF 480/2004, efetivamente explicitouse a possibilidade de aplicação do percentual de 8% e 12%, respectivamente, para o IRPJ e a CSLL, para as instituições de assistência de saúde, auxiliares das hospitalares, dentre elas os laboratórios de análises estruturados empresarialmente. Fl. 156DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 157 7 IN/SRF 480, com redação dada pela IN/SRF 539/2005: (...) Art. 27. Para fins do disposto nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles diretamente ligados à atenção e assistência à saúde, de que trata o subitem 2.1 da Parte II da Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária n º 50, de 21 de fevereiro de 2002, alterada pela RDC n º 307, de 14 de novembro de 2002, e pela RDC n º 189, de 18 de julho de 2003, prestados por empresário ou sociedade empresária, que exerça uma ou mais das: I seguintes atribuições: a) prestação de atendimento eletivo de promoção e assistência à saúde em regime ambulatorial e de hospitaldia (atribuição 1); b) prestação de atendimento imediato de assistência à saúde (atribuição 2); ou c) prestação de atendimento de assistência à saúde em regime de internação (atribuição 3); II atividades fins da prestação de atendimento de apoio ao diagnóstico e terapia (atribuição 4). Vale dizer que esse diploma foi posteriormente alterado pela IN RFB nº 791, de 2007, passando a ter nova redação. Art. 27. Para os fins previstos nesta Instrução Normativa, são considerados serviços hospitalares aqueles prestados por estabelecimentos assistenciais de saúde que dispõem de estrutura material e de pessoal destinada a atender a internação de pacientes, garantir atendimento básico de diagnóstico e tratamento, com equipe clínica organizada e com prova de admissão e assistência permanente prestada por médicos, que possuam serviços de enfermagem e atendimento terapêutico direto ao paciente, durante 24 horas, com disponibilidade de serviços de laboratório e radiologia, serviços de cirurgia e/ou parto, bem como registros médicos organizados para a rápida observação e acompanhamento dos casos. Parágrafo único. São também considerados serviços hospitalares, para os fins desta Instrução Normativa, aqueles efetuados pelas pessoas jurídicas: I prestadoras de serviços préhospitalares, na área de urgência, realizados por meio de UTI móvel, instaladas em ambulâncias de suporte avançado (Tipo "D") ou em aeronave de suporte médico (Tipo "E"); e II prestadoras de serviços de emergências médicas, realizados por meio de UTI móvel, instaladas em ambulâncias classificadas nos Tipos "A", "B", "C" e "F", que possuam médicos e equipamentos que possibilitem oferecer ao paciente suporte avançado de vida. Fl. 157DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 158 8 A norma em questão, por sua própria natureza, tem nítido viés interpretativo, na medida em que não poderia, de forma alguma, alterar conteúdo de lei tributária. Não poderia definir nova hipótese de incidência, ou mesmo modificala em qualquer aspecto. As duas situações dependem da observância da estrita legalidade. Por exclusão, portanto, somente resta à instrução normativa, no contexto do presente caso, a possibilidade de mero conteúdo interpretativo. Assim, a norma inserida na IN SRF 539/2005 é norma interpretativa, regulada pelo mandamento expresso no art. 106, I do Código Tributário Nacional. Em outras palavras, sujeitase ao efeito retroativo no tempo. Desta forma, correta a interpretação do contribuinte de que se sujeitaria, em tese, aos percentuais diminuídos de presunção do lucro e, com isso, seria credor de valores recolhidos indevidamente aos cofres públicos. No que tange a existência de consulta formal à administração, acerca da aplicação das alíquotas reduzidas ao contribuinte, vale dizer que sua conclusão, pela forma extremamente reticente e pouco objetiva, nada atesta. Não afirma, confirma ou infirma a aplicação da norma ao contribuinte consulente. Apenas explicita o critério legal, dizendo quais os requisitos que devem ser satisfeitos. Com isso, ela nada conclui, mas apenas direciona a discussão para a análise fática de seus requisitos. Vejamos o teor da resposta a consulta, comunicada ao contribuinte pela Comunicação SEORT nº 831/2006, fls 37 a 45. CONCLUSÃO 19. Diante do exposto e com base nos atos legais citados, solucionase a presente consulta informando à consulente o seguinte: 19.1. à prestação de serviços hospitalares aplicamse os percentuais de 8% e 12% sobre a receita bruta para fins de determinação das bases de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, respectivamente. 19.2. serviços hospitalares são aqueles prestados por empresário ou sociedade empresária que exerça uma ou mais das atribuições elencadas pelo art. 27 da IN SRF nº 480, de 2004, na redação dada pela IN SRF nº 539, de 2005, tratadas pela RDC nº 50, de 2002, e que possua estrutura física condizente com o disposto no item 3 da Parte II da retro citada resolução, devidamente comprovados por meio de documento competente expedido pela vigilância sanitária estadual ou municipal; 19.3. não se consideram serviços hospitalares aqueles prestados exclusivamente pelos sócios da pessoa jurídica ou referentes unicamente ao exercício de atividade intelectual, de natureza científica, dos profissionais envolvidos, ainda que envolvam o concurso de auxiliares ou colaboradores, e, também, quando a sua pessoa jurídica, prestadora do serviço, não possuir estrutura física condizente para desempenhar suas atividades. Neste caso, para a tributação com base no lucro presumido, aplicarseá o percentual de 32% (trinta e dois por cento) para a determinação das bases de cálculo do Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Fl. 158DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 159 9 Reafirmase, então, que a solução da consulta citada pelo contribuinte não soluciona a questão concreta. Apenas indica a necessidade de preenchimento de alguns requisitos para a subsunção aos termos da lei. Nada mais. Houvesse cumprido, a consulta, seu dever normativo, restaria claro a que norma estaria sujeito o contribuinte. Não bastassem esses argumentos, vale ressaltar que o STJ pacificou seu entendimento acerca do assunto, por intermédio do Recurso Especial 1.116.399, sujeito a sistemática dos recursos repetitivos, com a seguinte ementa: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AOS ARTIGOS 535 e 468 DO CPC. VÍCIOS NÃO CONFIGURADOS. LEI 9.249/95. IRPJ E CSLL COM BASE DE CÁLCULO REDUZIDA. DEFINIÇÃO DA EXPRESSÃO "SERVIÇOS HOSPITALARES". INTERPRETAÇÃO OBJETIVA. DESNECESSIDADE DE ESTRUTURA DISPONIBILIZADA PARA INTERNAÇÃO. ENTENDIMENTO RECENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. RECURSO SUBMETIDO AO REGIME PREVISTO NO ARTIGO 543C DO CPC. 1. Controvérsia envolvendo a forma de interpretação da expressão "serviços hospitalares" prevista na Lei 9.429/95, para fins de obtenção da redução de alíquota do IRPJ e da CSLL. Discutese a possibilidade de, a despeito da generalidade da expressão contida na lei, poderse restringir o benefício fiscal, incluindo no conceito de "serviços hospitalares" apenas aqueles estabelecimentos destinados ao atendimento global ao paciente, mediante internação e assistência médica integral. 2. Por ocasião do julgamento do RESP 951.251PR, da relatoria do eminente Ministro Castro Meira, a 1ª Seção, modificando a orientação anterior, decidiu que, para fins do pagamento dos tributos com as alíquotas reduzidas, a expressão "serviços hospitalares", constante do artigo 15, § 1º, inciso III, da Lei 9.249/95, deve ser interpretada de forma objetiva (ou seja, sob a perspectiva da atividade realizada pelo contribuinte), porquanto a lei, ao conceder o benefício fiscal, não considerou a característica ou a estrutura do contribuinte em si (critério subjetivo), mas a natureza do próprio serviço prestado (assistência à saúde). Na mesma oportunidade, ficou consignado que os regulamentos emanados da Receita Federal referentes aos dispositivos legais acima mencionados não poderiam exigir que os contribuintes cumprissem requisitos não previstos em lei (a exemplo da necessidade de manter estrutura que permita a internação de pacientes) para a obtenção do benefício. Daí a conclusão de que "a dispensa da capacidade de internação hospitalar tem supedâneo diretamente na Lei 9.249/95, pelo que se mostra irrelevante para tal intento as disposições constantes em atos regulamentares". 3. Assim, devem ser considerados serviços hospitalares "aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde", de sorte que, "em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar, excluindose as simples consultas médicas, atividade que não se identifica com as prestadas no âmbito hospitalar, mas nos consultórios médicos". 4. Ressalva de que as modificações introduzidas pela Lei 11.727/08 não se aplicam às demandas decididas anteriormente à sua vigência, bem como de que a redução de alíquota prevista na Lei 9.249/95 não se refere a toda a receita bruta da empresa contribuinte genericamente considerada, mas sim àquela parcela da receita Fl. 159DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 160 10 proveniente unicamente da atividade específica sujeita ao benefício fiscal, desenvolvida pelo contribuinte, nos exatos termos do § 2º do artigo 15 da Lei 9.249/95. 5. Hipótese em que o Tribunal de origem consignou que a empresa recorrida presta serviços médicos laboratoriais (fl.. 389), atividade diretamente ligada à promoção da saúde, que demanda maquinário específico, podendo ser realizada em ambientes hospitalares ou similares, não se assemelhando a simples consultas médicas, motivo pelo qual, segundo o novel entendimento desta Corte, faz jus ao benefício em discussão (incidência dos percentuais de 8% (oito por cento), no caso do IRPJ, e de 12% (doze por cento), no caso de CSLL, sobre a receita bruta auferida pela atividade específica de prestação de serviços médicos laboratoriais). 6. Recurso afetado à Seção, por ser representativo de controvérsia, submetido ao regime do artigo 543C do CPC e da Resolução 8/STJ. 7. Recurso especial não provido. Percebese, portanto, que a exigência das licenças e outros requisitos são, a rigor, irrelevantes, bastando, portanto, o mero enquadramento pela descrição do objeto social. A eventual desconsideração de sua natureza depende de construção de prova robusta de elementos concretos para caracterizar eventual simulação e fraude (falsidade de objeto social). Desta forma, no primeiro aspecto de análise do presente voto, de viés estritamente normativo, concluo absolutamente correta a pretensão do contribuinte de enquadrarse na aplicação dos percentuais de 8% e 12%, adrede citados, pela equiparação aos serviços hospitalares. A retroatividade no tempo, da interpretação, encontra respaldo em nosso sistema normativo. Passemos a análise do preenchimento dos requisitos necessários, agora em sua dimensão fática, à equiparação pleiteada. O recorrente é pessoa jurídica da espécie sociedade limitada, regularmente constituída segundo as leis de regência. Para o enquadramento pleiteado, precisa cumprir uma série de exigências de prestação de serviço de forma específica, com natureza empresarial. Esse requisito, ainda, depende de confirmação pela autoridade sanitária a qual esteja vinculada. Preenchidos esses requisitos, possível a equiparação. O recorrente preenche os requisitos exigidos pela lei. De fato, como bem alertado, a r. decisão da Delegacia de Julgamento tem por principal fundamento a não comprovação de existência de atestado da Vigilância Sanitária acerca do preenchimento de tais requisitos. Em sede de recurso voluntário do contribuinte, foram juntados diversos documentos para a comprovação dessa condição, tais como as licenças sanitárias das Prefeituras de São Bernardo do Campo, de Santo André e do Órgão Federal responsável (SIVISA – Sistema de informação em vigilância sanitária), além de contratos de prestação de serviços com diversas instituições. A rigor, essas licenças sanitárias somente são concedidas aos estabelecimentos que preenchem os requisitos mínimos descritos na legislação de regência, com especial atenção à Resolução – RDC nº 50, de 2002, emitida pela Diretoria da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, com o objetivo de aprovar o Regulamento Técnico destinado ao planejamento, programação, elaboração, avaliação e aprovação de projetos físicos de Fl. 160DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 161 11 estabelecimentos assistenciais de saúde, a ser observado em todo território nacional, na área pública e privada. Em assim sendo, fica presumivelmente comprovado em favor do contribuinte o requisito exigido pela legislação, em função dos documentos carreados aos presentes autos. Afasto, assim, este específico impeditivo lembrado pela Delegacia de Julgamento para o reconhecimento do crédito pleiteado. Desta forma, entendo que o contribuinte traz prova da presença dos requisitos necessários para a aplicação dos percentuais de 8% e 12% aqui aludidos, equiparado à unidade hospitalar. Resta, por fim, analisar se a existência do direito de crédito pleiteado pode ser reconhecida pelo instrumento jurídico utilizado, assim como seu manejo no caso concreto. Tratase, exatamente, do último ponto de análise. O recorrente utilizouse de pedido de restituição eletrônica de crédito (PER/DCOMP). O crédito apontado decorre de incorreta interpretação e aplicação da legislação tributária, já que tratase de recolhimentos de tributos sujeitos à sistemática do lançamento por homologação, ou seja, pelo contribuinte definidos e apurados. Dessa forma, por evidente, a “contabilidade fiscal” do sujeito passivo não identificaria, de imediato, a existência do crédito. O caminho natural para a identificação de tais créditos pela administração tributária seria a retificação das declarações (DIPJ ou DCTF), o que geraria nova apuração, a menor do que os recolhimentos realizados. O confronto, posterior, com os valores recolhidos (DARF), mostraria o crédito. Optou, contudo, o recorrente, pela utilização direta do pedido de restituição, eletrônico, indicando, em sede de manifestação de inconformidade, a origem de seu crédito, tanto no aspecto interpretativo (fundamento), como operacional (apresenta planilhas de calculo do valor devido e recolhido a maior). Há de se entender que o contribuinte não optou pela melhor via. A administração tributária negou a restituição, tanto pelo despacho decisório, quanto pelo v. acórdão da D. Delegacia de Julgamento, basicamente, pela impossibilidade de identificação do crédito, pelo simples confronto dos dados da contabilidade fiscal do recorrente. Em sede de análise da manifestação, inclusive, alerta o julgador ser faculdade da administração realizar intimações ou mesmo diligenciar pela busca da verdade dos fatos. Por força disso, o pleito foi simplesmente indeferido. Assim, uma primeira impressão, formalista, concluiria pela improcedência, também, do recurso voluntário, já que inadequado o procedimento. Contudo, o presente caso merece análise mais detalhada. Entendo que as regras do processo administrativo não podem ser ignoradas ou flexibilizadas de maneira inconsequente. Regras formais e processuais existem para atingir determinadas finalidades e não por mero capricho do legislador. As regras processuais não guardam um fim em si mesmas. Devem ser, em regra, cumpridas e observadas. Fl. 161DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 162 12 O rigor formal, contudo, no processo administrativo, pode e deve ser pontualmente adequado as demandas específicas, de forma a permitir que ao contribuinte não lhe seja negado seu direito. De maneira muito mais perceptível do que no processo judicial, a esfera administrativa pode analisar as diferentes situações, tentando identificar graus de desvio de forma, passíveis ou não de relevação, em confronto com o direito pleiteado e sem afronta às normas de competência. Certamente, existirão desvios de forma ou de procedimento contornáveis, e outros, contudo, incontornáveis. De qualquer forma, o rigor da dinâmica administrativa processual deve ser pautado, sempre, no princípio da verdade real e em suas implicações para o resguardo do direito material. Em assim sendo, a negativa da administração de diligenciar a busca da verdade material, ou mesmo permitir, ou exigir, a comprovação do preenchimento do requisito formal (documentos da vigilância sanitária) parece incompatível, ou, ao menos, muito inadequada, frente aos princípios norteadores do processo administrativo fiscal e aos objetivos que tais princípios perseguem. O caso em tela envolve situação que, a rigor, a administração poderia ter solucionado com diligência, já na instância inicial. A busca da verdade real, especialmente em situações em que o contribuinte pleiteia sua verificação, não são mera faculdade da administração; ao contrário, são obrigações, ainda que não explicitadas em norma de competência funcional, mas decorrentes das regras processuais e das garantias do contribuinte. Somese o fato de que o tempo decorrido, no presente caso, entre o pedido de restituição e o despacho decisório negativo, inviabilizou a retificação das obrigações acessórias respectivas, pelo decurso do prazo legal de 5 anos. Fosse despachado em prazo razoável a negativa de crédito pela inexistência de linguagem adequada (DIPJ/DCTF) para demonstrálo, poderia o contribuinte atender aos desígnios da administração e o presente processo sequer chegaria a este Corte. A demora da administração tributária não pode implicar em cerceamento do exercício do direito de crédito do contribuinte. Desta forma, por todo o exposto, entendo que o sujeito passivo está abrangido pela regra da incidência do percentual de lucro presumido reduzido, comprovou os requisitos necessários e, apesar da evidente inadequação formal inicial, pode ter seu pleito atendido, em claro equilíbrio entre o rigor formal e a verdade material. Procedente, assim, em sua totalidade o recurso voluntário e, em consequência, reconhecido o direito creditório. É como voto. (assinado digitalmente) Fernando Ferreira Castellani Fl. 162DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA Processo nº 10805.908199/201175 Acórdão n.º 1803002.498 S1TE03 Fl. 163 13 Fl. 163DF CARF MF Impresso em 23/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 20/02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 20 /02/2015 por FERNANDO FERREIRA CASTELLANI, Assinado digitalmente em 22/02/2015 por CARMEN FERREIRA S ARAIVA
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Numero do processo: 13888.723869/2011-09
Turma: Terceira Turma Ordinária da Primeira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Primeira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 29 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Mon Mar 30 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2006, 2007, 2008
INCORREÇÕES, OMISSÕES OU INEXATIDÕES NO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. LAVRATURA DE NOVO AUTO DE INFRAÇÃO.
Nos termo do art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/72, apuradas, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, é legítima a lavratura de auto de infração, para a exigência do crédito tributário não constituído.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO DO TRIBUTO E JUROS DE MORA.
Não se verifica a hipótese da denúncia espontânea, se não há prova nos autos da satisfação das condições impostas pelo art. 138, CTN.
MULTA QUALIFICADA. EMPRESAS FICTÍCIAS.
A utilização de empresas fictícias, com a finalidade de evitar a incidência da carga tributária, importa na aplicação do art. 72, da Lei nº 4.502/64, c.c. art. 44, §1o, da Lei nº 9.430/96.
PAGAMENTO SEM CAUSA. EMPRESAS FICTÍCIAS.
Caracteriza pagamento sem causa, previsto no art. 674, §1º, do RIR, os valores depositados em favor de empresas fictícias.
TAXA SELIC. O Enunciado nº 4 da súmula de jurisprudência do CARF, determina a legalidade, neste Conselho, da exigência da Taxa Selic.
ARGUMENTO DE NATUREZA CONSTITUCIONAL
Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, exceto quando tenha sido declarado inconstitucional por decisão plenária definitiva do Supremo Tribunal Federal ou na hipóteses de decisão definitiva de mérito, proferida na sistemática prevista pelos artigos 543-B e 543-C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil (arts. 62 e 62-A, Anexo II, do Regimento Interno desta Casa).
Numero da decisão: 1103-001.079
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, rejeitar a preliminar, por unanimidade, e, no mérito, negar provimento ao recurso, por maioria, vencidos os Conselheiros Breno Ferreira Martins Vasconcelos e Marcos Shigueo Takata apenas acerca da qualificação da multa sobre o IRRF.
Assinado digitalmente
Aloysio José Percínio da Silva- Presidente.
Assinado digitalmente
Fábio Nieves Barreira- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eduardo Martins Neiva Monteiro, Fábio Nieves Barreira, André Mendes de Moura, Breno Ferreira Martins Vasconcelos, Marcos Shigueo Takata e Aloysio José Percínio da Silva.
Nome do relator: FABIO NIEVES BARREIRA
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COAN & CIA LTDA. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2006, 2007, 2008 INCORREÇÕES, OMISSÕES OU INEXATIDÕES NO LANÇAMENTO DE OFÍCIO. LAVRATURA DE NOVO AUTO DE INFRAÇÃO. Nos termo do art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/72, apuradas, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, é legítima a lavratura de auto de infração, para a exigência do crédito tributário não constituído. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. AUSÊNCIA DE PAGAMENTO DO TRIBUTO E JUROS DE MORA. Não se verifica a hipótese da denúncia espontânea, se não há prova nos autos da satisfação das condições impostas pelo art. 138, CTN. MULTA QUALIFICADA. EMPRESAS FICTÍCIAS. A utilização de empresas fictícias, com a finalidade de evitar a incidência da carga tributária, importa na aplicação do art. 72, da Lei nº 4.502/64, c.c. art. 44, §1o, da Lei nº 9.430/96. PAGAMENTO SEM CAUSA. EMPRESAS FICTÍCIAS. Caracteriza pagamento sem causa, previsto no art. 674, §1º, do RIR, os valores depositados em favor de empresas fictícias. TAXA SELIC. O Enunciado nº 4 da súmula de jurisprudência do CARF, determina a legalidade, neste Conselho, da exigência da Taxa Selic. ARGUMENTO DE NATUREZA CONSTITUCIONAL Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade, exceto quando tenha sido declarado AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 72 38 69 /2 01 1- 09 Fl. 160DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 3 2 inconstitucional por decisão plenária definitiva do Supremo Tribunal Federal ou na hipóteses de decisão definitiva de mérito, proferida na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil (arts. 62 e 62A, Anexo II, do Regimento Interno desta Casa). Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, rejeitar a preliminar, por unanimidade, e, no mérito, negar provimento ao recurso, por maioria, vencidos os Conselheiros Breno Ferreira Martins Vasconcelos e Marcos Shigueo Takata apenas acerca da qualificação da multa sobre o IRRF. Assinado digitalmente Aloysio José Percínio da Silva Presidente. Assinado digitalmente Fábio Nieves Barreira Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Eduardo Martins Neiva Monteiro, Fábio Nieves Barreira, André Mendes de Moura, Breno Ferreira Martins Vasconcelos, Marcos Shigueo Takata e Aloysio José Percínio da Silva. Relatório Em 08 de junho de 2009, a recorrente, escorada no art. 138, CTN, protocolou, na Delegacia da Receita Federal de Piracicaba, requerimento de denúncia espontânea (fls. 04/05). As obrigações tributárias teriam origem na relação jurídica que manteve com as empresas fictícias Carsena Representação Comercial Ltda., CNPJ nº 08.423.418/000113, e CJM Representação Comercial de Gêneros Alimentícios e Refeições Prontas Ltda., CNPJ nº 08.323.147/000124. Assim, tendo em vista que as aludidas empresas haviam optado pela tributação pelo sistema do Lucro Presumido, as notas fiscais emitidas pelas empresas fictícias eram utilizadas como “despesas” pela recorrente, de modo a diminuir a base de cálculo do IRPJ, CSLL, PIS e COFINS. Disse ainda a recorrente, no aludido documento, que as obrigações instrumentais seriam retificadas, de maneira a que fossem apurados devidamente os tributos Fl. 161DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 4 3 devidos, com a finalidade de inclusão do crédito tributário nos benefícios instituídos pela Lei nº 10.941/09. Em decorrência da petição protocolada, foi instaurado procedimento de fiscalização, que resultou na apuração das seguintes infrações, consoante “Termo de Verificação Fiscal nº 001”, (fls. 359/361), Proc. nº 13888.004358/201003, as seguintes razões: “No exercício das funções de Auditor Fiscal da Receita Federal do Brasil, constatei as infrações abaixo descritas: PAGAMENTO SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO: DESPESAS OPERACIONAIS NÃO USUAIS OU NORMAIS NO TIPO DE TRANSAÇÕES. OPERAÇÕES OU ATIVIDADES DA EMPRESA. VERIFICAÇÃO DAS INFRAÇÕES: A presente fiscalização foi iniciada em 23/06/2009, em razão da empresa ter protocolado correspondência, onde, alegando amparo no art. 138 do CTN, denunciou espontaneamente que se utilizou de empresas fictícias de representação comercial para promover a redução das bases de cálculo de tributos federais e aduziu que os valores envolvidos foram efetivamente usados para o pagamento de outros fornecedores de forma geral. As empresas denunciadas foram: CARSENA REPRESENTAÇÃO COMERCIAL LTDA CNPJ 08.423.418/000113 e CJM REPRESENTAÇÃO COMERCIAL DE GÊNEROS ALIMENTÍCIOS E REFEIÇÕES PRONTAS LTDA CNPJ 08.323.147Q000124. Em correspondência posterior, protocolada em 04/09/2009, a empresa formalmente declara que os responsáveis legais pelas empresas denunciadas simplesmente emprestavam seus nomes e que desconheciam as operações das empresas "fantasmas" a quais, na verdade, eram geridas por Geraldo J. Coan & Cia Ltda. Em 25/06/06/2009, no atendimento ao Termo de Início de Procedimento Fiscal, o contribuinte apresentou os originais e cópias das notas fiscais emitidas pelas empresas fictícias, quando constatamos que no período fiscalizado foram faturados R$ 30.064.987,11, por intermédio de nota fiscais inidôneas. PAGAMENTOS A CARSENA E CJM Em 27/08/2009, foi lavrado o Termo de Intimação Fiscal N° 0922/1, intimando o contribuinte para apresentar cópia frente e verso dos cheques utilizados para liquidação dos valores escriturados como pagos às empresas CARSENA, CJM e outros fornecedores selecionados por amostragem. Considerando, o atendimento parcial desta intimação, em 05/07/2010, foi lavrado o Termo de Intimação Fiscal N° 0922/2, quando, em 07/072010, o contribuinte apresentou relação definitiva, onde reconhece e relaciona todos os pagamentos referentes às notas fiscais Fl. 162DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 5 4 emitidas pelas empresas CJM Representação Comercial e CARSENA Representação Comercial, anexo 1. PAGAMENTOS A RODRIGUES GARCIA & MIRANDA FILHO ADVOGADOS Da análise dos elementos fornecidos pelo contribuinte em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal N° 0922/1, de 27/08/2009, verificamos que 60 cheques contabilizados como utilizados para liquidar duplicatas por serviços prestados pelo fornecedor Rodrigues Garcia & Miranda Advogados foram, de fato, depositados em contas correntes mantidas no Banco Nossa Caixa Nosso Banco pelas empresas fictícias denunciadas, conforme consta do verso dos respectivos cheques a seguir: (...) PAGAMENTO A PROFORMA CONSTRUÇÕES LTDA Durante o ano calendário de 2008, o contribuinte contabilizou como custos incorridos valores pagos por serviços prestados pela empresa Proforma Construções Ltda CNPJ 36.293.652/000109. Verificase, contudo, que o serviços prestados, conforme discriminado nas notas fiscais, abaixo mencionadas, referemse a execução de serviços de reforma em diversas escolas do município de Macaé, portanto não usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. (...)” Posteriormente, foi lavrado este lançamento de ofício, tendo em vista o erro no cálculo do tributo, relativamente ao IRRF, decorrente de pagamento sem causa, realizado nos autos do Proc. nº 13888.004358/201003. A recorrente ofertou impugnação (fls. 50/74), julgada improcedente, mantendose o lançamento de ofício (fls.95/111). Inconformada, interpôs recurso voluntário (fls. 129/156), aduzindo, em síntese: a) formação de dois processos distintos (art. 18, §3o, Decreto nº 70.235/72); b) ausência de provas nestes autos (art. 9o, Decreto nº 70.235/72); c) ofensa à competência (arts. 18, caput e 32 do Decreto nº 70.235/72), pois somente a DRJ poderia dar início a eventual procedimento de revisão do lançamento para agravamento da exigência. A DRF/Piracicaba não tinha competência para solicitar o processo à DRJ, nem para encaminhálo indevidamente ao AFRF de outra jurisdição (DRF/Osasco) para atuar no processo que culminou no lançamento tributário; d) ocorreu erro de direito (relacionado à determinação da base de cálculo), erro do critério jurídico (de fundamento), devendo ser declarada a nulidade do lançamento Fl. 163DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 6 5 complementar e da autuação complementada, já que não pode ser retificado ou complementado o citado erro de direito; e) não foi comprovado pela fiscalização que os pagamentos foram feitos a beneficiários não identificados. Não resta a menor dúvida de que os pagamentos foram para a própria recorrente. A contribuinte emitia cheques nominais a ela mesma, que fazia o saque deles; f) ilegalidade da multa, em face da denúncia espontânea. É o relatório. Voto Conselheiro Fábio Nieves Barreira I. PRELIMINARES – VÍCIOS PROCESSUAIS Inicio pelos vícios formais do lançamento, aduzidos pela recorrente. Diz o art. 18, §3º, do Decreto nº 70.235/72: Art.18. A autoridade julgadora de primeira instância determinará, de ofício ou a requerimento do impugnante, a realização de diligências ou perícias, quando entendêlas necessárias, indeferindo as que considerar prescindíveis ou impraticáveis, observando o disposto no art. 28, in fine. §1º Deferido o pedido de perícia, ou determinada de ofício, sua realização, a autoridade designará servidor para, como perito da União, a ela proceder e intimará o perito do sujeito passivo a realizar o exame requerido, cabendo a ambos apresentar os respectivos laudos em prazo que será fixado segundo o grau de complexidade dos trabalhos a serem executados. §2º Os prazos para realização de diligência ou perícia poderão ser prorrogados, a juízo da autoridade. §3º Quando, em exames posteriores, diligências ou perícias, realizados no curso do processo, forem verificadas incorreções, omissões ou inexatidões de que resultem agravamento da exigência inicial, inovação ou alteração da fundamentação legal da exigência, será lavrado auto de infração ou emitida notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada.” Nos termo do art. 18, §3º, verificadas incorreções, há dois caminhos a seguir: a) lavratura de auto de infração; ou b) realização de lançamento complementar. Fl. 164DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 7 6 Portanto, presente a falha, que pode ser denunciada por qualquer autoridade competente (art. 986, RIR/99), qualidade que possui o AFR autuante, é lícita a realização de lançamento complementar ou novo auto de infração: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF Ano calendário: 2003 ALTERAÇÃO DA FUNDAMENTAÇÃO LEGAL DA EXIGÊNCIA. COMPETÊNCIA. A alteração da fundamentação legal da exigência é atividade vinculada à autoridade fiscal detentora de poderes para constituir o crédito tributário. Verificada incorreção no lançamento de que resulte alteração da fundamentação legal da exigência, deve ser lavrado Auto de Infração ou notificação de lançamento complementar, devolvendose, ao sujeito passivo, prazo para impugnação no concernente à matéria modificada. LANÇAMENTO IMPROCEDENTE Não há como prosperar o lançamento, cuja apuração do crédito tributário está em desacordo com a legislação de regência. Recurso Voluntário Provido.(CARF, AC. 2801003.290, Rel. Cons. TANIA MARA PASCHOALIN) O Fisco, no caso, optou por novo lançamento de ofício, tendo em vista que na correção da base de cálculo não se observou a regra prevista no art. 20, da INSRF nº 15/2001, aplicandose, equivocadamente, a alíquota de 1,5% (fls. 686/689, Proc. nº 13888004358/2010 03). É condição, a tanto, ordem escrita do Superintendente, do Delegado ou do Inspetor da Receita Federal (art. 906, RIR/99), que se deu mediante a emissão do MPF nº 0812500/00812/11. Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/08/1991 a 31/07/2000 REEXAME DO MESMO PERÍODO OBJETO DE FISCALIZAÇÃO ANTERIOR. ART. 906 DO RIR. NULIDADE NÃO CONFIGURADA. O Mandado de Procedimento Fiscal que expressamente autoriza a realização das verificações obrigatórias em relação aos cinco anos anteriores é instrumento que atende a exigência do art. 906 do RIR, configurando a ordem escrita necessária para autorizar o reexame de um mesmo período pela Fiscalização. MANDADO DE PROCEDIMENTO FISCAL (MPF). FUNÇÃO E EFEITOS. LANÇAMENTO. NULIDADE INEXISTENTE. O MPF é instrumento de controle da própria Receita Federal do Brasil em relação à atividade de fiscalização, proporcionando transparência e segurança ao contribuinte. A relevância do objeto e do momento do início da fiscalização, constantes no MPF, são relevantes para determinar a espontaneidade do contribuinte, mas não apresentam qualquer implicação em relação à validade do auto de infração. DECADÊNCIA. LANÇAMENTO POR HOMOLOGAÇÃO. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. A Súmula Vinculante n° 8, do Supremo Tribunal Federal, implicou na declaração de inconstitucionalidade do art. 45 e da Lei n° 8.212, de 1991, que fixava em 10 anos o prazo de decadência para o lançamento das contribuições sociais. Na hipótese de lançamento por homologação, deve ser aplicado o disposto no artigo 150, § 4° do CTN, de modo que o lançamento de ofício apenas pode alcançar os fatos geradores ocorridos nos 5 anos anteriores à constituição do crédito pela notificação do auto de infração. RECEITA. PAGAMENTOS A ITAIPU Fl. 165DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 8 7 BINACIONAL. RESERVA GLOBAL DE REVERSÃO (RGR). CUSTOS. IMPOSSIBILIDADE DE EXCLUSÃO. A interpretação do art. XII do Decreto Legislativo nº 23/73 c/c art. 43, I, do Decreto nº 4.525/2002, regulamentado pelo art. 44 da IN SRF nº 247/2002, deve ser de que os serviços abrangidos pela não incidência são apenas aqueles relacionados com a venda de materiais e equipamentos destinados aos trabalhos de construção e obras complementares e acessórios, não se aplicando à receita obtida pelo contribuinte, paga por Itaipú Binacional, pela utilização da rede do contribuinte para o transporte da eletricidade. Também a RGR configura custo da atividade, não existindo previsão legal autorizando sua exclusão. Recurso parcialmente provido.(CARF, AC. 3403002.516, Rel. IVAN ALLEGRETTI). Acrescentase que não se trata de notificação lançamento complementar, mas auto de infração complementar. Até aqui, nenhuma ilegalidade, na medida em que, evidenciada a deficiência do crédito constituído no Proc. nº 13888004358/201003. Ressaltase o fato, também, de que em que pese a quantidade de documentos que instruíram o lançamento ser parca, ela não impediu o conhecimento da imputação ao recorrente e possibilitou a sua defesa, daí porque não houve afronta ao art. 9º, do Decreto nº 70.235/72. Portanto, não há qualquer nulidade no Proc. nº 13888.723869/201109. II. DA MULTA QUALIFICADA II.I DENÚNCIA ESPONTÂNEA A recorrente defende que realizou denúncia espontânea, na moldura do art. 138, CTN, tendo direito ao pagamento do tributo, sem o pagamento da multa. Conforme se lê do texto do art. 138, CTN, a denúncia espontânea se aperfeiçoa se realizada antes de iniciado qualquer procedimento administrativo ou medida de fiscalização e acompanhada do pagamento dos tributos e juros de mora. A recorrente cumpriu uma das condições impostas pelo art. 138, CTN, pois confessou as infrações tributárias, antes da instauração de medida ou procedimento de fiscalização. Porém, o ato não veio acompanhado do pagamento dos tributos confessados, bem como seus consectários legais. Acrescentase que a adesão a parcelamento não tem o condão de satisfazer a exigência do art. 138, pois, nessa modalidade de satisfação do crédito tributário, o pagamento não se dá de maneira integral. A matéria não importa maiores digressões, pois o STJ, no REsp 1.102.577/DF, Rel. Ministro Herman Benjamin, DJe 18/05/2009, adjetivado com os efeitos do Fl. 166DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 9 8 art. 543C do CPC, decidiu nesse sentido, fato que vincula este Órgão de Julgamento, nos termos do art. 62A, do Regimento Interno do CARF. Daí porque afasto a espontaneidade regrada no art. 138, CTN. II.II QUALIFICAÇÃO DA MULTA Nos termos do art. 44, da Lei nº 9.430/96, a regra é aplicação da pena de 75%, em caso de cometimento de infração tributária, que deve ser qualificada, nas hipóteses de sonegação fiscal: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) a) na forma do art. 8o da Lei no 7.713, de 22 de dezembro de 1988, que deixar de ser efetuado, ainda que não tenha sido apurado imposto a pagar na declaração de ajuste, no caso de pessoa física; (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) b) na forma do art. 2o desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) A recorrente confessou ter se utilizado de empresas fictícias, com a finalidade de deixar de pagar tributos, fato que se encaixa nas hipóteses previstas no art. 72, da Lei nº 4.502/64: Art. 72. Fraude é toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. Por outro lado, a recorrente se defende com a alegação de ter agido de boafé, pela realização da denúncia espontânea, sendo não razoável a exigência da penalidade nesse patamar (art. 2º, Lei nº 9.784/99). Fl. 167DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 10 9 Observo que o instituto da denúncia espontânea não guarda relação com atos de boafé. Buscou o legislador conceder ao contribuinte faltoso a possibilidade de correção da sua falha, independentemente de boafé, sendo, por isso, premiado com a dispensa do pagamento da penalidade. Portanto, o exercício ao direito da denúncia espontânea não revela boafé da recorrente. Como consequência, mantenho a penalidade aplicada. III. IRRF – PAGAMENTO SEM CAUSA No que tange à exigência do IRFonte do pagamento sem causa ou a destinatários não identificados, o art. 674, do RIR vigente, determina que: Art.674.Está sujeito à incidência do imposto, exclusivamente na fonte, à alíquota de trinta e cinco por cento, todo pagamento efetuado pelas pessoas jurídicas a beneficiário não identificado, ressalvado o disposto em normas especiais (Lei nº 8.981, de 1995, art. 61). §1º A incidência prevista neste artigo aplicase, também, aos pagamentos efetuados ou aos recursos entregues a terceiros ou sócios, acionistas ou titular, contabilizados ou não, quando não for comprovada a operação ou a sua causa (Lei nº 8.981, de 1995, art. 61, § 1º). §2º Considerase vencido o imposto no dia do pagamento da referida importância (Lei nº 8.981, de 1995, art. 61, § 2º). §3º O rendimento será considerado líquido, cabendo o reajustamento do respectivo rendimento bruto sobre o qual recairá o imposto (Lei nº 8.981, de 1995, art. 61, § 3º).” Verificase nestes autos, “Relatório Fiscal a Agravo de Exigência”, fls. 12/17, Proc. nº 13888.723869/201109, a exigência do tributo, por pagamento a beneficiário não identificado, tem por motivação administrativa: PAGAMENTO SEM CAUSA OU A BENEFICIÁRIO NÃO IDENTIFICADO Conforme declaração da própria empresa, o modus operandi utilizado foi a criação das empresas laranjas, Carsena e CJM, cujo objetivo era a emissão de notas fiscais frias, para com isso majorar seus custos e consequentemente reduzir seu lucro. Por outro lado, com a simulação dos pagamentos, através de saques em dinheiro na boca do caixa, tinha o caminho livre para desviar recursos da empresa, sabese lá para onde ou para quem. Certo, neste caso, é que está perfeitamente caracterizado o pagamento sem causa desde que a operação não existiu , bem como o pagamento a beneficiário não identificado. (...) Fl. 168DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA Processo nº 13888.723869/201109 Acórdão n.º 1103001.079 S1C1T3 Fl. 11 10 Estando confessado, pela recorrente, de que as empresas as quais os pagamentos foram realizados, gerando despesas artificiais, são fictícias, os pagamento realizados não possuem motivação mercantil. Nesse passo, fica caracterizado o pagamento sem causa, previsto no art. 674, §1º, do RIR. Portanto, o ato administrativo de lançamento de ofício foi corretamente motivado é deve ser mantido. IV. QUESTÕES CONSTITUCIONAIS Quanto à ilegalidade da Taxa Selic e outros questionamentos de cunho inconstitucional, em razão do art. 62, do Regimento Interno deste Tribunal, Anexo, II, esta Corte Julgado é incompetente para afastála. V. CONCLUSÃO Diante do exposto, RECEBO o recurso interposto pela recorrente para NEGARLHE PROVIMENTO. Assinado digitalmente Fábio Nieves Barreira Relator Fl. 169DF CARF MF Impresso em 30/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 03/03/2015 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 03/03/201 5 por FABIO NIEVES BARREIRA, Assinado digitalmente em 30/03/2015 por ALOYSIO JOSE PERCINIO DA SILVA
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Numero do processo: 11065.002711/2007-65
Turma: Primeira Turma Especial da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Dec 03 00:00:00 UTC 2014
Data da publicação: Wed Mar 04 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2003, 2004, 2005
IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS DECORRENTES DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE NATUREZA PERSONALÍSSIMA POR PESSOA JURÍDICA. INEXISTÊNCIA.
Nos termos do ordenamento jurídico pátrio, não há qualquer vedação à prestação de serviços de natureza personalíssima por pessoas jurídicas, especialmente em virtude do princípio da livre iniciativa, apenas sendo cabível o lançamento tributário nas hipóteses em que restar comprovada, cabalmente, a ocorrência de simulação no tocante à constituição do vínculo societário, ou, também, naquelas em que a prestação de serviços dissimula a existência de relação de emprego, na forma do art. 3° da CLT. Não havendo, assim, a comprovação de simulação em quaisquer dos casos, não merece subsistir o auto de infração.
Hipótese em que restou comprovada a inexistência de vínculo empregatício, bem como a affectio societatis existente entre os sócios, relativa à repartição proporcional dos lucros por ocasião da distribuição dos dividendos.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 2801-003.875
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso para cancelar o lançamento. Vencidos os Conselheiros José Valdemir da Silva (Relator) e Marcelo Vasconcelos de Almeida que negavam provimento ao recurso. Designado Redator do voto vencedor o Conselheiro Carlos César Quadros Pierre.
Assinado digitalmente
Tânia Mara Paschoalin - Presidente.
Assinado digitalmente
José Valdemir da Silva - Relator.
Assinado digitalmente
Carlos César Quadros Pierre Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Tânia Mara Paschoalin, Flávio Araújo Rodrigues Torres, Marcelo Vasconcelos de Almeida, José Valdemir da Silva, Carlos César Quadros Pierre e Márcio Henrique Sales Parada.
Nome do relator: JOSE VALDEMIR DA SILVA
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS DECORRENTES DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DE NATUREZA PERSONALÍSSIMA POR PESSOA JURÍDICA. INEXISTÊNCIA. Nos termos do ordenamento jurídico pátrio, não há qualquer vedação à prestação de serviços de natureza personalíssima por pessoas jurídicas, especialmente em virtude do princípio da livre iniciativa, apenas sendo cabível o lançamento tributário nas hipóteses em que restar comprovada, cabalmente, a ocorrência de simulação no tocante à constituição do vínculo societário, ou, também, naquelas em que a prestação de serviços dissimula a existência de relação de emprego, na forma do art. 3° da CLT. Não havendo, assim, a comprovação de simulação em quaisquer dos casos, não merece subsistir o auto de infração. Hipótese em que restou comprovada a inexistência de vínculo empregatício, bem como a affectio societatis existente entre os sócios, relativa à repartição proporcional dos lucros por ocasião da distribuição dos dividendos. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, dar provimento ao recurso para cancelar o lançamento. Vencidos os Conselheiros José Valdemir da Silva (Relator) e Marcelo Vasconcelos de Almeida que negavam provimento ao recurso. Designado Redator do voto vencedor o Conselheiro Carlos César Quadros Pierre. Assinado digitalmente Tânia Mara Paschoalin Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 27 11 /2 00 7- 65 Fl. 575DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 576 2 Assinado digitalmente José Valdemir da Silva Relator. Assinado digitalmente Carlos César Quadros Pierre – Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros:Tânia Mara Paschoalin, Flávio Araújo Rodrigues Torres, Marcelo Vasconcelos de Almeida, José Valdemir da Silva, Carlos César Quadros Pierre e Márcio Henrique Sales Parada. Relatório Tratase de recurso voluntário apresentado contra decisão proferida pela 4a Turma da DRJ/.POA Por bem descrever os fatos, reproduzse abaixo o relatório da decisão recorrida: Através do Auto de Infração foi apurado imposto suplementar no valor de R$ 227.666,50 relativos aos exercícios de 2003 a 2005 em decorrência da omissão de rendimentos relativos ao trabalho prestado por sóciogerente. A descrição dos fatos e a legislação infringida constam do referido Auto. O total do crédito tributário é de R$ 505.214,38. Em sua defesa (fls. 365/412) o impugnante, através de suas procuradoras (fls. 413/416), preliminarmente, argúi que o lançamento é passível de nulidade por afrontar o disposto no inciso V do art. 149 do CTN e princípios constitucionais. Transcreve ementas de decisões administrativas a respeito de nulidade do lançamento. Quanto ao mérito argumenta, em síntese, que: a presente autuação foi baseada em presunções, o que é inadmissível face ao princípio da verdade material nos termos do art. 142 do CTN; a autoridade administrativa pretende inverter o ônus da prova dos fatos que alega, "a despeito de existir presunção legal para respaldar o procedimento fiscal no caso concreto, condicionado à comprovação material da dita omissão de receitas" (sic); não foi demonstrada a disponibilidade econômica e jurídica (fato gerador do IRRF) da suposta renda omitida; os documentos analisados pela fiscalização (notas fiscais, contratos de prestação de serviços da Policlínica Central Ltda. e MMZ Comércio e Participações Ltda. A despeito de eventuais Fl. 576DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 577 3 irregularidades formais e não materiais, fazem prova em favor do não faz prova em favor do próprio impugnante (v.g. declaração de terceiros); a autoridade fiscal jamais comprovou os valores pretensamente tributáveis na esfera do patrimônio pessoal do impugnante, por exemplo, efetivamente acresceram ao patrimônio deste mediante sinais exteriores de riqueza incompatíveis com sua renda declarada (não se noticia, na ação fiscal, nenhuma diligência para investigar contas correntes, de investimentos, registros imobiliários etc), ficando evidente a violação ao princípio da verdade material no procedimento fiscal; a prova no Processo Administrativo Fiscal de que tratam os arts. 15,16 29 do Decreto n° 70.235/72 somente deve ser providenciada pelo contribuinte quando o crédito tributário for líquido e certo, com todos os pressupostos de validade atendidos. as informações por ele prestadas na declaração de rendimentos se presumem verdadeiras e que "qualquer outra renda declarada como paga por terceiros é apenas o ponto de partida para novas investigações" (sic); inexiste comprovação material de omissão de receita no procedimento fiscal e passa a discorrer sobre meios de prova (diretos ou indiretos) transcrevendo ementas de decisões administrativas e a opinião de tributarista a respeito da matéria. Verificase que das fls. 381/385 o impugnante apenas reproduz a descrição dos fatos que embasaram o lançamento. Prossegue discorrendo sobre os meios de prova previstos no art. 332 e seguintes do Código de Processo Civil CPC (Lei 5.869/73) e conclui, após enumerar o que entende ser indícios de irregularidades apontados pela fiscalização, tais elementos não comprovam a disponibilidade econômica e jurídica da renda na pessoa física (fato imponível). Reforça que o imposto de renda deve tributar somente os acréscimos patrimoniais disponíveis econômica/juridicamente para o contribuinte, como exemplo, seria a faculdade de alguém consumir o acréscimo. Entende ser indevida a desconsideração da prestação de serviço por parte da empresa MMZ, tendo em vista que o disposto no art. 6481 do RIR/1999 se aplica a sociedade civil prestadora de serviços relativos a profissão legalmente regulamentada, o que não é o caso da referida empresa, a qual tem fins comerciais. Enfatiza que se os serviços não foram prestados, como declarados no contrato da MMZ, e que como sócio, recebeu pró labore; A empresa Policlínica Central poderia ser enquadrada como tendo praticado distribuição disfarçada de lucros em benefício de pessoas ligadas ou à sociedades por eles constituídas. Cita o Fl. 577DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 578 4 entendimento de renomados tributaristas acerca de princípios constitucionais e o caráter interpretativo do art. 129 da Lei 11.196/2005. Ao final, requer, preliminarmente, a nulidade do lançamento tendo em vista a violação do princípio da verdade material, nos termos do art. 142, caput do Código Tributário Nacional, por falta de comprovação da existência (v.g. certeza) do fato imponível. Na linha da eventualidade, pede a improcedência do lançamento, eis que: "a) não existe comprovação material da omissão receitas lançadas, conforme defendido no mérito; b) a prestação de serviço foi prestada pela pessoa jurídica MMZ, a ela sendo devida a correspondente remuneração, como lhe assegura a Constituição, o Código Tributário Nacional e art. 129 da Lei n° 11.196/2005; c) impõese a exclusão integral dos juros calculados à taxa SELIC, face à ilegitimidade de sua cobrança, senão, alternativamente, d) a exclusão integral dos juros de mora calculados sobre a multa de oficio proporcional, por ausência de previsão legal que autorize, visto que a norma do art. 61, § 3o da Lei n° 9.430/96, não serve para tanto. " Acompanham a impugnação os documentos em fls. 417/425. A impugnação apresentada foi julgada improcedente em parte, conforme acórdão de (fls.511/527numeração digital), assim ementado a seguir: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física IRPF Exercício: 2003, 2004,2005 Ementa: NULIDADE IMPROCEDÊNCIA. Não procedem as argüições de nulidade quando não se vislumbra nos autos qualquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto n° 70.235/72. ARGÜIÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. Argüições de inconstitucionalidade fogem à competência da instância administrativa, salvo se já houver decisão do Supremo Tribunal Federal declarando a inconstitucionalidade da lei ou ato normativo, hipótese em que compete à autoridade julgadora afastar a sua aplicação. "Súmula I o CC n° 2: O Primeiro Conselho de Contribuintes não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de leis tributárias. " OMISSÃO DE RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA CONTRATO DE TRABALHO DE NATUREZA PERSONALÍSSIMA Fl. 578DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 579 5 Os rendimentos auferidos pela prestação individual de serviços de natureza gerencial, que são prestados de forma pessoal, são tributados na pessoa física. As convenções particulares, relativas à responsabilidade pelo pagamento de tributos, não podem ser opostas à Fazenda Pública, par modificar a definição legal do sujeito passivo das obrigações tributárias correspondentes. DECISÕES JUDICIAIS EFEITOS As decisões judiciais, à exceção das proferidas pelo STF sobre a inconstitucionalidade das normas legais, não se constituem em normas gerais, razão pela qual seus julgados não se aproveitam em relação a qualquer outra ocorrência, senão àquela objeto da decisão. MULTA DE OFÍCIO. APLICABILIDADE. A multa de ofício, prevista na legislação de regência é de aplicação obrigatória nos casos de exigência de imposto decorrente de lançamento de ofício, não podendo a autoridade administrativa furtarse à sua aplicação. JUROS DE MORA. TAXA SELIC. Sobre os créditos tributários vencidos e não pagos incidem juros de mora calculados com base na taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC. "SÚMULA I o C C N° 4: A partir de I o de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, nos período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia – SELIC para títulos federais ", Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Cientificado da decisão de 1a instância em 12.07.2011(fl.468numeração digital), a contribuinte, representado por seu inventariante, apresentou recurso em 09.08.2011( fls.470/508numeração digital). Em sua defesa sustenta os argumentos da impugnação e ao final pede: reforma do julgamento de primeiro grau para efeito de desconstituição do lançamento com extinção do crédito tributário, conforme razões recursais a)não existe comprovação material de b)serviço prestado pela pessoa jurídica MMZ, a ela sendo devida a correspondente remuneração, como lhe a asseguram a Constituição, o Código Tributário Nacional e art. 129 da Lei 11.196/2005, como lhe asseguram a lei societária e fiscal, c) consumouse errônea quantificação de rendimentos considerados prestação de serviços de natureza personalíssima; d) impõese a exclusão integral dos juros de mora calculados sobre a multa de ofício proporcional. É o Relatório Voto Vencido Fl. 579DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 580 6 Conselheiro José Valdemir da Silva, Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade, portanto merece ser conhecido. Cuida o presente lançamento de Omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas, decorrente de Omissão de Rendimentos relativos ao trabalho prestado por sócio gerente(fls.356). Percebese dos autos que, essencialmente, a discussão centrase na possibilidade ou não de os rendimentos percebidos nos anos calendário 2002, 2003 e 2004, em decorrência de prestação de serviços de natureza personalíssima, serem tributados na pessoa jurídica constituída para tal fim. Entende o Recorrente que sim, invocando inclusive o art. 129 da Lei nº 11.196, de 2005, a seguir transcrito, o qual teria natureza interpretativa, à luz do disposto no art. 106, do CTN, aplicandose retroativamente. Art. 129 Para fins fiscais e previdenciários, a prestação de serviços intelectuais, inclusive os de natureza científica, artística ou cultural, em caráter personalíssimo ou não, com ou sem a designação de quaisquer obrigações a sócios ou empregados da sociedade prestadora de serviços, quando por esta realizada, se sujeita tão somente à legislação aplicável às pessoas jurídicas, sem prejuízo da observância do disposto no art. 50 da Lei n° O art. 50 da Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002, o Código Civil, estabelece: Art. 50 Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. Por sua vez o art. 106, do CTN determina: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivo interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; Fl. 580DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 581 7 c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática Ora, como bem exposto no acórdão recorrido o art. 129 invocado efetivamente criou direito novo, na medida em que cria as "empresas unipessoais" para fins de tributação como pessoas jurídicas, antes consideradas pessoas físicas perante a legislação tributária. O certo é que até a edição do art. 129 da Lei nº 11.196, de 2005, os rendimentos decorrentes de prestação de serviços de natureza personalíssima, a exemplo do artista, por expressa previsão legal não poderiam ser considerados rendimentos de pessoa jurídica. Por oportuno, confirase a legislação compilada no Decreto nº 3.000, de 26 de março de 1999, Regulamento do Imposto de Renda – RIR/1999, art. 150: Art. 150. As empresas individuais, para os efeitos do imposto de renda, são equiparadas às pessoas jurídicas (Decreto Lei n° 1.706, de 23 de outubro de 1979, art. 2°). § 1° São empresas individuais: I As firmas individuais (Lei n°4.506, de 1964, art. 41, § 1 0, alínea "a"); II as pessoas físicas que, em nome individual, explorem, habitual e profissionalmente, qualquer atividade econômica de natureza civil ou comercial, com o fim especulativo de lucro, mediante venda a terceiros de bens ou serviços (Lei n°4.506, de 1964, art. 41, § 1°, alínea "b"); III as pessoas físicas que promoverem a incorporação de prédios em condomínio ou loteamento de terrenos, nos termos da Seção II deste Capitulo (Decreto Lei n° 1.381, de 23 de dezembro de 1974, arts. 1° e 3°, inciso III, e Decreto Lei n° 1.510, de 27 de dezembro de 1976, art. 10, inciso I). § 2° O disposto no inciso II do parágrafo anterior não se aplica às pessoas físicas que, individualmente, exerçam as profissões ou explorem as atividades de: I médico, engenheiro, advogado, dentista, veterinário, professor, economista, contador, jornalista, pintor, escritor, escultor e de outras que lhes possam ser assemelhadas (Decreto Lei n° 5.844, de 1943, art. 6°, alínea "a", e Lei n°4.480, de 14 de novembro de 1964, art. 3°); II profissões, ocupações e prestação de serviços não comerciais (Decreto Lei n°5.844, de 1943, art. 6°, alínea "b"); III agentes, representantes e outras pessoas sem vínculo empregatício que, tomando parte em atos de comércio, não os pratiquem, todavia, por conta própria (Decreto Lei n°5.844, de 1943, art. 6°, alínea "c"); Fl. 581DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 582 8 IV serventuários da justiça, como tabeliães, notários, oficiais públicos e outros (Decreto Lei n°5.844, de 1943, art. 6°, alínea "d" V corretores, leiloeiros e despachantes, seus prepostos e adjuntos (Decreto Lei n°5.844, de 1943, art. 6°, alínea "e") VI exploração individual de contratos de empreitada unicamente de favor, qualquer que seja a natureza, quer se trate de trabalhos arquitetônicos, topográficos,terraplenagem, construções de alvenaria e outras congêneres, quer de serviços de utilidade pública, tanto de estudos como de construções (Decreto Lei n°5.844, de 1943, art. 6°, alínea T); VII exploração de obras artísticas, didáticas, cientificas, urbanísticas, projetos técnicos de construção, instalações ou equipamentos, salvo quando não explorados diretamente pelo autor ou criador do bem ou da obra (Decreto Lei n°5.844, de 1943 art. 6°, alínea "g")." Ou seja, à época dos fatos geradores aqui discutidos, os valores recebidos pelo interessada são decorrentes de prestação de serviços de natureza eminentemente pessoal, quer dizer, são resultados do fruto de seu desempenho pessoal e, por força da legislação então vigente, deveriam ser tributados na pessoa física. Assim sendo, incabível a aplicação da retroatividade benigna a que alude o inciso I, do art 106 do CTN, anteriormente transcrito, posto que o art. 129 da Lei nº 11.196, de 2005 além de não ser expressamente interpretativo, representa introdução de nova norma no ordenamento jurídico. Assim, até 2005, os rendimentos decorrentes de prestação de serviços de natureza personalíssimas obrigatoriamente tinham que ser tributados na pessoa física. A partir daí, podem ser tributados em pessoa jurídica constituída para tal propósito. Quanto à retroatividade benigna a que alude o art. 106, inc. II, do CTN, anteriormente transcrito, também não se aplica ao caso, conforme se demonstrará a seguir. A alínea “a” se aplicaria quando a Lei nova deixa de definir o ato não definitivamente julgado como infração. Nos autos em apreço, a infração cometida pela recorrente foi omissão de rendimentos, infração essa que jamais deixou de ser considerada como tal ante a legislação em vigor em nosso ordenamento. A alínea “b” cuida de atos que deixam de ser tratados como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão e ressalva que estão excluídos os atos fraudulentos e os que tenham implicado em falta de pagamento de tributo. Já de pronto se verifica que a ressalva quanto à falta de pagamento impediria a aplicação do dispositivo. Portanto, seja pela regra geral esculpida na alínea “a” ou pela regra particular prevista na alínea “b”, a tese da contribuinte não encontra amparo. Em relação à alínea “c”, basta registrar que não houve edição de Lei nova prevendo penalidade menos severa para a infração omissão de rendimentos. Dessa forma, comprovado que à época dos fatos geradores aqui em discussão, por expressa previsão legal os rendimentos lançados deveriam ser tributados na Fl. 582DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 583 9 pessoa física, mostramse estéreis os demais argumentos do contribuinte inclusive quanto à não aplicação ao caso do disposto no § 4º do art. 3° da Lei n° 7.713, de 1988, ou no CTN (arts. 118, inc. I, 123 e 149, inc. VII). Inicialmente destaco que, a fiscalização decorreu de representação do Ministério Pública Federal relativa a fatos que teriam sido verificados na Empresa Policlínica Central Ltda da qual o Recorrente é proprietário com sua esposa Rita Carmen Zaduchliver. O Recorrente em depoimento ao Poder Judiciário (fl.18/28), afirmou que os rendimentos do trabalho que ele prestava à Policlínica relativos às atividades gerenciais próprias de um sóciogerente, seriam pagos pela Policlínica Central Ltda à MMZ Comércio e Participações Ltda sob as alegações que poderia ter suas despesas pessoais efetivadas no exercício de suas funções pagas pela MMZ, com intuito de reduzir a tributação incidente sobre os rendimentos pagos pela Policlínica Central Ltda. Aduz o Recorrente que os serviços prestados pela MMZ estão relacionados com atividade de natureza gerencial referentes à Gestão de saúde operados pela Policlínica Central, ou seja que a MMZ desenvolvia atividades gerenciais e não as atividades referenciadas nas notas fiscais emitidas. Alega ainda, que os serviços eram prestados pelo sr. Moacir Zaduchliver, ora Recorrente, que também se referia a serviços de diagnósticos por imagem realizados em “ equipamentos de propriedade da MMZ”, cedidos para a Policlínica Central (fl.108), conforme contrato firmado entre MMZ x Policlínica Central Ltda. Notese às(fls.53/57) a Policlínica Central Ltda informou que a MMZ prestou os seguintes serviços: –Responsável pela política de manutenção e credenciamento das empresas e prestadoras de serviços para Policlínica; –Responsável pela política de custos das assistências, envolvendo as negociações financeiras e operacionais com toda a base e credenciados; –Acompanhamento das atividades da Policlínica junto a órgão e entidades como, por exemplo, a Agência Nacional de Saúde; –Acompanhamento e análise das espécies de atendimento por especialidades; –Análises e assessoria aos gestores das áreas técnicas da Policlínica; Acompanhamento da central de guias; –Acompanhamento e orientação na formatação técnica de contratos de prestações de serviços assistenciais e ocupacionais; h) Orientações e acompanhamento das ações de auditorias. Verificase no Contrato de Gestão, Acompanhamento e Controle de Planos de Saúde(fls.97/98) firmado pela empresa MMZ e a Policlínica Central Ltda especifica que seriam prestados os seguintes: a)serviços de consultoria e assessoria na gestão de negócios e recursos humanos, b)análise de investimentos e contratos, assessoria de marketing, assessoria Fl. 583DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 584 10 em conferência de contas médicas, planejamento e implantação de projetos de prevenção em saúde, tal documento, a exemplo das informações prestadas pela Policlínica Central, indicam a prestação de atividades gerenciais na Policlínica Central. Diferentemente do contrato de .prestação de serviços, as notas fiscais emitidas pela empresa MMZ Comércio e Participações Ltda(fls.66 a 93),em nome da Policlínica Central Ltda, constam no campo descrição dos serviços prestados, a expressão “relação e interpretação de mamografias e impressão de laudos de Raio x e laboratoriais O Recorrente aduz que o depoimento pessoal atesta a intenção de efetivar uma elisão fiscal para pagar menos tributos, dentro da liberdade contratual que lhe reserva a ordem jurídica, bem como, as declarações de terceiros, em documentos particulares confrontados, indicam que a parte envolvida na prestação de serviços objeto de fiscalização, especialmente quanto à gestão de negócios da Policlínica, é a empresa MMZ Comércio e Participações Ltda, ainda que mediante subcontratação de outras empresas ( SDI, Agile Informática), mas nunca o Recorrente na condição de pessoa física. Afirma, ainda, em resposta a Intimação fiscal a empresa SDIServiço de Diagnóstico por Imagem, prestou serviços na condição de subcontatados a MMZ, o que está a corroborar que efetivamente era a MMZ que auxiliava, assessorava a Policlínica Central na consecução de seus negócios, e não o Recorrente, como pessoa física. Este elemento infirma a disponibilidade econômica e jurídica da renda na pessoa física(fato imponível). Portanto, analisando as informações prestadas pela Policlínica Central, verificase que os serviços prestados pela MMZ estão relacionados com atividade de natureza gerencial referentes à gestão dos planos de saúde operados pela Policlínica Central. Ou seja, a Policlínica informou que a MMZ desenvolvia "atividades gerenciais" e não as atividades referenciadas nas notas fiscais emitidas pela MMZ. Aduziu, entretanto, que também se referiam a serviços de diagnósticos por imagem realizados “ em equipamentos de propriedade da MMZ, cedidos para a Policlínica Central. No presente caso, a matéria fática é a mesma: Contrato de prestação de serviços, depoimento do Recorrente no Processo Judicial, nas respostas as intimações realizados no curso da ação fiscal, deixam claro que os serviços foram executados pela pessoa física do contribuinte, em caráter personalíssimo e individual. Os rendimentos devem ser tributados na pessoa física do efetivo prestador do serviço. Portanto, a decisão de piso não merece reparo. O Recorrente argumenta, ainda, que sobre a diferença de IRPF exigível não seriam devidos juros e/ou multa de ofício. Registrese por derradeiro, que a multa de ofício deve ser aplicada sobre a “totalidade ou diferença de tributo ou contribuição”, conforme dicção do caput do art. 44 da Lei n. 9.430, de 1996. Ora, no caso, de uma forma ou de outra, parte do imposto já foi pago e, portanto, a multa deve incidir apenas sobre a diferença, in verbis: Art. 44 Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: Fl. 584DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 585 11 I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; Pelo que diz o inciso VI do art. 97 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, Código Tributário Nacional (CTN), somente a lei pode estabelecer as hipóteses de dispensa ou redução de penalidades. Por falta de previsão legal, as razões do Recorrente não afastam a sanção. Da mesma forma, não se pode dispensar os juros de mora. O art. 161 do CTN disciplina que o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta. Com referência ao pedido de compensação dos recolhimentos efetuados pela empresa MMZ Comércio e Participações Ltda a título de imposto de renda pessoa jurídica e contribuições, no sentido de deduzilos do valor do imposto apurado na pessoa física da autuada, razão assiste ao contribuinte. Com relação ao pedido de compensação, entendo indevido haja vista se trata de pessoas distintas. Diante dos fatos aqui esposados, entendo correto o lançamento dos valores como rendimentos recebidos pelo contribuinte pessoa física. Ante o exposto, voto por negar provimento ao recurso. Assinado digitalmente José Valdemir da Silva Voto Vencedor Conselheiro Carlos César Quadros Pierre, Redator Designado. Apesar do brilhante voto do Conselheiro Relator, peço permissão para discordar do seu entendimento quanto à questão de mérito. Conforme se verifica nos autos, a questão versa sobre Omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas, decorrente de Omissão de Rendimentos relativos ao trabalho prestado por sócio gerente(fls.356). Percebese dos autos que, essencialmente, a discussão centrase na questão de se saber se os rendimentos percebidos nos anos calendário 2002, 2003 e 2004 são ou não decorrentes de suposta prestação de serviços de natureza personalíssima, e se tais rendimentos poderiam ser tributados na pessoa jurídica do recorrente. Fl. 585DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 586 12 A matéria em discussão já foi debatida diversas vezes no CARF; destaco em especial o voto do Conselheiro Alexandre Naoki Nishioka, no processo n 18471.001253/200532, que passo a adotar integralmente nas linhas abaixo. Antes de adentrar nos aspectos específicos do caso em tela, contudo, parece ser oportuna uma digressão jurídica a respeito do tema, de notável importância no cenário jurídico e econômico que se apresenta, hodiernamente, em especial quando se trata de serviços de natureza artística, como sói ocorrer in casu. Com efeito, a prática de constituição de sociedades para prestação de serviços de natureza personalíssima, em especial por artistas e desportistas, não constitui preocupação, no campo tributário, precipuamente, adstrita ao âmbito nacional, mas, igualmente, constitui notável importância internacionalmente. Nesse sentido, consoante salienta Martin Jau, em artigo destinado ao tema, muito embora existam, no cenário mundial, práticas abusivas na constituição de sociedades para prestação dos referidos serviços ("Star company" ou "RentAStart company"), em virtude de eventuais benefícios fiscais, especialmente nos casos de constituição de pessoa jurídica em paraísos fiscais, sem qualquer propósito negocial, em diversos casos a constituição de pessoas jurídicas atende a um propósito específico, sendo descabida a mera requalificação dos rendimentos (JAU, Martin. Star companies in international tax law. Disponível em http://www.schillerlegal.ch/tl_files/schillerlegal/images/Publikationen/Jau_Star_Companies.pd f acesso em 20.11.2010). As discussões atinentes ao tema, dada a dificuldade de seu tratamento, levou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico ("OCDE"), no que toca à redação de sua convençãomodelo para evitar a dupla tributação, a incluir um parágrafo específico em seu artigo 17, mais especificamente o parágrafo segundo, para abarcar as hipóteses de remuneração, pelos serviços artísticos ou de esportista, à pessoa jurídica. Demonstrada a relevância da questão, inclusive em seara internacional, passase à análise específica do ordenamento jurídico interno, a fim de perquirir a possibilidade de constituição da sociedade MMZ Comércio e Participações Ltda no caso ora objeto de análise. Nesse sentido, fazse mister assinalar, em um primeiro momento, um aspecto de fundamental importância para a análise jurídica que irá se desenvolver em seguida, qual seja, o conceito de personalidade jurídica. A este respeito, é preciso frisar que, de acordo com a orientação hoje dominante, representada pelo escólio de Antônio Carlos Rodrigues do Amaral, a personalidade jurídica constitui realidade criada juridicamente, estabelecida, portanto, em estrita consonância com as regras gerais e abstratas deste campo do conhecimento (AMARAL, Antônio Carlos Rodrigues do. (et. al.) Apontamentos sobre a Desconsideração da Personalidade Jurídica e os Serviços de Natureza Intelectual. In: ANAN JR., Pedro (et. al.). Prestação de Serviços Intelectuais por Pessoas Jurídicas Aspectos Legais, Econômicos e Tributários. São Paulo: MP Editora, 2008, p. 298). Este aspecto específico, pois, constitui notável importância no exame dos casos concretos, eis que, como se observa na prática, e no presente caso não é diferente, a simples natureza do serviço prestado, seja artístico ou outros considerados de natureza Fl. 586DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 587 13 personalíssima, afigurase como único elemento analisado pela fiscalização para a requalificação dos rendimentos na pessoa física daquele que os presta pessoalmente, sem que se leve em consideração outros aspectos juridicamente indispensáveis. De fato, a realidade fática, decorrente da natureza das coisas, ao contrário do que vem ocorrendo nas fiscalizações, não pode se confundir com aquela desenvolvida abstratamente pelo legislador. Nesse sentido, assim, a análise da plausibilidade de constituição de pessoas jurídicas deve partir de um cenário jurídico, a partir do qual deverão ser analisados os elementos do caso concreto. Feita esta breve ressalva, de caráter introdutório, entendo que se deva recorrer ao texto da Constituição, com o propósito específico de verificar, desta sorte, os princípios e regras que norteiam a constituição e funcionamento das pessoas jurídicas. Nesse sentido, no que toca à Carta Magna, portanto, mais especificamente compulsandose os termos dos artigos 1°, IV, 5°, XIII e XVII e, igualmente, o texto do artigo 170, caput e parágrafo único, verificase, consoante aduz Alexandre Luiz Moraes do Rêgo Monteiro, "uma ampla proteção à liberdade econômica, cujos limites esbarram na própria função social da empresa, fundada na dignidade da pessoa humana e na valorização do trabalho. Dentro destes limites, assim, o ordenamento garante a plena liberdade de constituição e utilização de pessoas jurídicas para o desenvolvimento de atividade econômicas." (MONTEIRO, Alexandre Luiz Moraes do Rêgo. Caso Felipão e Caso Ratinho: O mito da impossibilidade de pessoas jurídicas prestarem serviços artísticos ou intelectuais e seus reflexos tributários. In: CASTRO, Leonardo Freitas de Moraes e. Planejamento Tributário: análise de casos. São Paulo, MP Editora, 2010, p. 238). Efetivamente, verificase, do texto constitucional, que o princípio da livre iniciativa e, bem assim, da liberdade de empresa, é alçado ao status de direito fundamental do contribuinte, ressaltando o constituinte originário, por duas oportunidades, a estrita observância ao referido preceito (art. 1°, IV e art. 170, caput da Constituição). Assim é que, sob o prisma constitucional, em um primeiro momento, não se pode apontar qualquer vedação à constituição de sociedades para a prestação de serviços de caráter personalíssimo. Com fundamento nas diretrizes de direito constitucional, o direito civil, profundamente influenciado pelo pensamento de juristas italianos até a primeira metade do século XX, houve por bem definir o contrato social como uma comunhão de interesses e de escopo, razão pela qual, segundo prelecionava Tullio Ascarelli, referido documento passou a ser reconhecido como espécie de negócio plurilateral, onde as partes têm o propósito de unir esforços para um objetivo comum (Vide: ASCARELLI, Tullio. Saggi di Diritto Commerciale. Milão: Dott. A. Giuffrè, 1955, p. 130). O Código Civil pátrio, por sua vez, acolheu expressamente os fundamentos reproduzidos supra, estatuindo, em seu artigo 981, que "celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício o de atividade econômica e a partilha dos resultados", não estabelecendo, assim,qualquer requisito, notadamente no que toca à prestação de serviços de caráter personalíssimo, para que se atribua personalidade jurídica à sociedade. Fl. 587DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 588 14 Aliás, muito pelo contrário. Analisandose os termos do Código Civil, mais especificamente no que atine ao seu art. 966, parágrafo único, extraise que o legislador, como salienta Gustavo Tepedino, inclusive, previu expressamente a possibilidade de prestação de serviços intelectuais, supostamente de caráter personalíssimo, por pessoas jurídicas, ressalvando, apenas, que, via de regra, sua prestação não seria considerada elemento de empresa (TEPEDINO, Gustavo. Sociedade prestadora de serviços intelectuais: qualificação das atividades privadas no âmbito do Direito Tributário. In: TEPEDINO, Gustavo. Temas de Li cito Civil, Tomo III. Rio de Janeiro: Renovar, 2009, pp. 100101). Em razão de sua importância para a análise do presente caso, entendo oportuno trazer à baila referido dispositivo, verbis: "Art. 966. Considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa." Com fundamento em tais premissas, pois, verificase que no campo do direito civil, previamente objeto de análise, não há qualquer óbice à constituição de sociedades para prestação de serviços de caráter personalíssimo, ressalvandose, apenas, as hipóteses em que o Fisco logre comprovar, à luz de uma minuciosa análise dos fatos, a ocorrência de simulação, na forma do art. 149 do CTN, no tocante à celebração do contrato social, evidenciando, em provas firmes e robustas, a inexistência de affectio societatis no caso concreto, isto é, ausência de comunhão de esforços para um objeto comum, na forma como requerido pelo art. 981 do CC/02. Vale ressaltar, no que toca a este aspecto, que resta insuficiente, para a determinação de sujeito passivo diverso, a aplicação da regra do art. 50 do Código Civil pátrio, como preconiza parte da doutrina, servindo referido dispositivo, apenas, como norte para a aplicação da regra do art. 149, VII, do CTN. E isto porque referido dispositivo legal, conquanto insuficiente para determinar a sujeição passiva no campo tributário, tarefa atribuída expressamente à lei complementar pelo art. 146, III, "a" da CF/88, igualmente se reporta a um espectro maior de casos, não se referindo, pois, necessariamente às hipóteses em que a constituição da pessoa jurídica deriva de ato simulado, mas àquelas em que, durante sua existência jurídica, se verificar, por parte de seus sócios, desvio da finalidade prevista no contrato social ou confusão patrimonial. Resta claro então que a legislação confere, de maneira ampla, a tutela ao princípio da livre iniciativa, afigurandose possível a organização de pessoas jurídicas para a prestação de serviços de natureza personalíssima. Contudo, no caso concreto, tenho o entendimento de que não se trata de serviços de natureza personalíssima. De fato, percebo que a pessoa jurídica MMZ Comércio e Participações Ltda subcontratou várias empresas, SDIServiço de Diagnóstico por Imagem e Agile Informática, para prestar os seus serviços para a Policlínica geral. Fl. 588DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 589 15 Ora, por lógico, se o serviço poderia ser prestado por outras empresas, através de subcontratação, não há, no caso, a existência de serviço personalíssimo. Ms não é só, mesmo se o serviço prestado fosse de natureza personalíssima, ainda assim tenho o entendimento de que, no caso em tela a autuação estaria equivocada. É que além dos limites impostos pela legislação cível, analisada em conjunto com o Código Tributário Nacional, igualmente não se pode olvidar que o princípio da livre iniciativa encontra limites constitucionais na valorização do trabalho humano. Nesse sentido, retomando o teor da Carta Magna, observase, nos já citados artigos 1°, IV e, bem assim, no próprio art. 170, caput da Constituição, que o constituinte originário, ao garantir como fundamento da República Federativa do Brasil e da própria ordem econômica a livre iniciativa, impôs, ao mesmo tempo, a necessidade da valorização do trabalho humano. Confirase: "Art. 1° A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constituise em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) IV os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; (... ) M. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:" De fato, como se percebe, o constituinte, ao elencar os princípios norteadores da ordem econômica e, da mesma maneira, ao dispor a respeito dos fundamentos da República, houve por bem conferir idêntico status hierárquico aos preceitos em referência, imprimindo, destarte, como autêntico limite constitucional à livre iniciativa, assim, a valorização do trabalho humano. Da exegese proposta decorre, desta feita, que a interpretação dos limites impostos ao exercício da livre iniciativa, em consonância com o texto da Lei Maior, esbarram nos princípios atinentes ao resguardo do direito do trabalhador, mormente nos casos em que configurada relação empregatícia. Reconhecese, portanto, já no texto da Lei Maior, por inferência, a desigualdade econômica entre empregador e empregado, estabelecendo, a partir desta premissa, a necessária observância pelo empresário, no exercício de sua livre iniciativa e da sua liberdade de empresa, dos direitos do trabalhador. Por esta razão precípua, assim, sendo certo que a legislação confere, de maneira ampla, a tutela ao princípio da livre iniciativa, afigurandose possível a organização de pessoas jurídicas para a prestação de serviços de natureza personalíssima, cumpriria à fiscalização, com espeque na norma contida no art. 149, VII do CTN, demonstrar que a constituição de sociedade, no caso em tela, teve por finalidade dissimular relação de emprego entre o sócio desta última e o tomador dos serviços, aplicando, destarte, para os fins tributários, Fl. 589DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 590 16 o princípio da primazia da realidade, encartado no texto da Consolidação das Leis do Trabalho, em seu art. 6°. Consoante salienta Alexandre Luiz M. do Rêgo Monteiro, contudo, para a comprovação da existência de vínculo empregatício em caráter incidenter tantum, de acordo com o texto do art. 3° da CLT, não basta "apenas a comprovação da relação de pessoalidade, (...) mas, sim, a cabal demonstração da ocorrência dos demais requisitos que pudessem descaracterizar a prestação dos serviços por meio de pessoas jurídicas", a saber, a não eventualidade, subordinação e remuneração mediante salário (Op. cit., p. 242). A verificação, assim, da existência conjunta dos elementos previstos pelo art. 3° da CLT, permite ao Fisco, com arrimo no princípio da primazia da realidade, considerar em caráter incidental a existência de vínculo empregatício que, em virtude especificamente do seu aspecto pessoal, já citado, impede que a tributação recaia sobre a pessoa jurídica ensejando, destarte, a aplicação do art. 149 do CTN. À guisa de todo o exposto, pois, podese concluir, em uma análise sistemática do ordenamento jurídico, que o Código Tributário Nacional, mais especificamente em seu art. 149, VII, admite o lançamento tributário, em hipóteses como a presente, desde que explicitamente demonstrado, pelo Fisco, (i) o caráter simulado do contrato de sociedade princípio da primazia da realidade, forma específica de simulação albergada no campo do direito do trabalho. É preciso observar, a este respeito, que a constituição de pessoas jurídicas para a prestação de serviços artísticos, em diversos casos, constitui legítimo propósito negocial, consoante lembram Dick Molenaar, jurista holandês especialista no tema, e Harald Grams, em bulletin publicado em conjunto pela International Bureau of Fiscal Documentation (IBFD). Segundo demonstram os citados autores, especialmente nos casos de artistas de renomada fama, as despesas podem chegar a aproximadamente 70% da remuneração do artista, as quais poderiam ser divididas (i) no pagamento de comissão para agentes empresários, (ii) gastos com a produção do evento, tais como pagamento de vôos, viagens locais, hospedagem, seguros, valores estes que são incrementados em direta proporção com a fama do artista; e, por fim (iii) despesas indiretas com consultores, advogados, empregados (staff), dentre inúmeros outros gastos (MOLENAAR, Dick (et. al.). RentAStar the purpose of article 17(2) of the OECD Model. In: Irterratior Bureau of Fiscal Documentatiom Bulletin, vol. 56, number 10. Amsterdam: IBFD, oct/2002, p. 506), o que demonstra, conclusivamente, o descabimento da requalificação dos rendimentos em toda e qualquer hipótese. Com fundamento em todo o exposto, cumpre mover para a análise do caso vertente, para o fim de aferir a legitimidade de atribuição dos rendimentos à pessoa física do Recorrente. A este respeito, com a devida vênia do decisum guerreado, entendo inexistir fundamento para a requalificação dos rendimentos no caso vertente. Com efeito, compulsandose os termos do contrato social de MMZ Comércio e Participações Ltda., acostado aos autos às fl. 116, observase que o seu objeto “ o comércio, a importação e exportação de equipamentos cirúrgicos e médico hospitalares em geral, a representação comercial, a administração de bens próprios, a prestação de serviços de assessoria e consultoria em âmbito administrativo e econômico, a gestão de negócios e Fl. 590DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 591 17 serviços de consultoria médica e na área de saúde em geral. É permitida a participação em outras sociedades como acionista ou quotista”. Sob este prisma, verificase que, ao contrário do aduzido pela decisão a quo, os rendimentos auferidos por MMZ Comércio e Participações Ltda., atribuídos ao Recorrente em sua pessoa física constituem objeto da pessoa jurídica. O que efetivamente importa, assim, para a aferição da regularidade da constituição da sociedade é a verificação da existência de affectio societatis entre os sócios, demonstrando haver, de fato, uma comunhão de interesses, seja quais forem, para a prestação de determinada atividade social. No presente caso, portanto, não havendo a fiscalização demonstrado, de forma inolvidável, o caráter simulado do contrato social, não há que se falar em tributação na pessoa do Recorrente. Movendose à aferição de vínculo empregatício, apto a permitir o deslocamento da tributação da sociedade para o Recorrente, igualmente tenho para mim que não resta verificada in casu, haja vista que a fiscalização não logrou comprovar a existência cumulativa de subordinação, pessoalidade, não eventualidade e onerosidade do serviço prestado pelo Recorrente. De fato, analisandose, primeiramente, os contratos celebrados junto à Policlínica Central qualquer relação de emprego entre as partes, mesmo porque cláusulas como a presente são comuns em contratos de prestação de serviços desta natureza. Além disso, consoante já dito, pessoa jurídica MMZ Comércio e Participações Ltda subcontratou várias empresas, SDIServiço de Diagnóstico por Imagem e Agile Informática, para prestar os seus serviços para a Policlínica geral; não havendo, portanto, exclusividade na prestação de serviços por parte da pessoa jurídica, o que reforça a inexistência de vínculo empregatício, na hipótese. Aliás, o próprio auto de infração reforça a inexistência de vínculo empregatício, na medida em que não capitulou, como infração, a ocorrência de omissão de rendimentos com vínculo empregatício, mas, de outra sorte, simples omissão de rendimentos recebidos de pessoas jurídicas que se revestiriam de um suposto caráter personalíssimo. Analisandose, nesta linha, os requisitos necessários à formação da relação de emprego, verificase, já de pronto, que a fiscalização não logrou comprovar a existência de habitualidade, ou não eventualidade, dos serviços prestados pelo Recorrente. Em virtude de tais fatos, portanto, ausente a precisa demonstração de cumprimento dos requisitos elencados pelo art. 3° da CLT, não há como se entender presente qualquer vínculo empregatício. Por todas as razões já longamente expostas, tenho para mim que deva ser dado provimento ao recurso do contribuinte. Ante tudo acima exposto e o que mais constam nos autos, voto por dar provimento ao recurso. Fl. 591DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN Processo nº 11065.002711/200765 Acórdão n.º 2801003.875 S2TE01 Fl. 592 18 Assinado digitalmente Carlos César Quadros Pierre Fl. 592DF CARF MF Impresso em 04/03/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 26/02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 26/ 02/2015 por CARLOS CESAR QUADROS PIERRE, Assinado digitalmente em 28/02/2015 por JOSE VALDEMIR DA SI LVA, Assinado digitalmente em 03/03/2015 por TANIA MARA PASCHOALIN
score : 1.0
Numero do processo: 10120.725064/2013-37
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jan 20 00:00:00 UTC 2015
Data da publicação: Fri Feb 27 00:00:00 UTC 2015
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2010, 2011
EXTRATOS BANCÁRIOS. OBTENÇÃO ILÍCITA.
Improcede a alegação de obtenção ilícita de informações bancárias, porquanto a requisição de extratos e documentos bancários junto à instituição financeira foi efetuada com absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, não estando sujeita à prévia autorização judicial.
IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ÔNUS DA PROVA. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96. SÚMULA CARF Nº 26.
A presunção estabelecida no art. 42 da Lei n° 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. O extrato bancário é prova suficiente para a fiscalização efetuar lançamento com base em omissão de rendimentos. O ônus da prova cabe ao contribuinte que deve justificar e comprovar a causa dos depósitos em conta bancária.
IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MULTA QUALIFICADA. INTERPOSTA PESSOA. APLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 34.
Nos lançamentos em que se apura omissão de receita ou rendimentos, decorrente de depósitos bancários de origem não comprovada, é cabível a qualificação da multa de ofício, quando constatada a movimentação de recursos em contas bancárias de interpostas pessoas.
MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO.
A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicá-las nos moldes da legislação que a instituiu.
CONTROLE DA CONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO. ATRIBUIÇÃO DO JUDICIÁRIO. SÚMULA CARF Nº 02.
O controle da constitucionalidade das leis pertence ao Poder Judiciário, de forma difusa ou concentrada, não cabendo ao órgão julgador administrativo negar vigência à norma emanada do Poder Legislativo, sob pena de invasão indevida de um poder na esfera de competência exclusiva do outro.
Numero da decisão: 2201-002.641
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento aos Recursos Voluntários.
Assinado digitalmente
MARIA HELENA COTTA CARDOZO - Presidente.
Assinado digitalmente
NATHÁLIA MESQUITA CEIA - Relatora.
EDITADO EM: 29/01/2015
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: MARIA HELENA COTTA CARDOZO (Presidente), VINICIUS MAGNI VERCOZA (Suplente convocado), GUILHERME BARRANCO DE SOUZA (Suplente convocado), FRANCISCO MARCONI DE OLIVEIRA, NATHALIA MESQUITA CEIA e EDUARDO TADEU FARAH. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros GERMAN ALEJANDRO SAN MARTÍN FERNÁNDEZ e GUSTAVO LIAN HADDAD.
Nome do relator: NATHALIA MESQUITA CEIA
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OBTENÇÃO ILÍCITA. Improcede a alegação de obtenção ilícita de informações bancárias, porquanto a requisição de extratos e documentos bancários junto à instituição financeira foi efetuada com absoluta observância das normas de regência e ao amparo da lei, não estando sujeita à prévia autorização judicial. IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. ÔNUS DA PROVA. ART. 42 DA LEI Nº 9.430/96. SÚMULA CARF Nº 26. A presunção estabelecida no art. 42 da Lei n° 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. O extrato bancário é prova suficiente para a fiscalização efetuar lançamento com base em omissão de rendimentos. O ônus da prova cabe ao contribuinte que deve justificar e comprovar a causa dos depósitos em conta bancária. IRPF. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. MULTA QUALIFICADA. INTERPOSTA PESSOA. APLICABILIDADE. SÚMULA CARF Nº 34. Nos lançamentos em que se apura omissão de receita ou rendimentos, decorrente de depósitos bancários de origem não comprovada, é cabível a qualificação da multa de ofício, quando constatada a movimentação de recursos em contas bancárias de interpostas pessoas. MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO. A vedação ao confisco pela Constituição Federal é dirigida ao legislador, cabendo à autoridade administrativa apenas aplicálas nos moldes da legislação que a instituiu. CONTROLE DA CONSTITUCIONALIDADE. PROCESSO ADMINISTRATIVO. ATRIBUIÇÃO DO JUDICIÁRIO. SÚMULA CARF Nº 02. O controle da constitucionalidade das leis pertence ao Poder Judiciário, de forma difusa ou concentrada, não cabendo ao órgão julgador administrativo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 50 64 /2 01 3- 37 Fl. 1281DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 2 negar vigência à norma emanada do Poder Legislativo, sob pena de invasão indevida de um poder na esfera de competência exclusiva do outro. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento aos Recursos Voluntários. Assinado digitalmente MARIA HELENA COTTA CARDOZO Presidente. Assinado digitalmente NATHÁLIA MESQUITA CEIA Relatora. EDITADO EM: 29/01/2015 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: MARIA HELENA COTTA CARDOZO (Presidente), VINICIUS MAGNI VERCOZA (Suplente convocado), GUILHERME BARRANCO DE SOUZA (Suplente convocado), FRANCISCO MARCONI DE OLIVEIRA, NATHALIA MESQUITA CEIA e EDUARDO TADEU FARAH. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros GERMAN ALEJANDRO SAN MARTÍN FERNÁNDEZ e GUSTAVO LIAN HADDAD. Relatório Por meio do Auto de Infração, de fls. 1.016 e seguintes, lavrado em 14/06/2013, exigese do Contribuinte CARLOS AUGUSTO DE ALMEIDA RAMOS o montante de R$ 7.571.681,13 de imposto sobre a renda da pessoa física (IRPF), R$ 11.357.521,70 de multa de ofício qualificada e R$ 1.195.772,29 de juros de mora (atualizados até a data da lavratura do auto de infração), totalizando um crédito tributário de R$ 20.124.975,12, referente aos anos calendários 2010 e 2011, decorrente de Omissão de Rendimentos caracterizados por Depósitos Bancários de Origem não Comprovada. Devido à caracterização de responsabilidade solidária pela fiscalização, o crédito tributário anteriormente mencionado também foi atribuído ao Sr. GEOVANI PEREIRA DA SILVA. O Termo de Verificação Fiscal (TVF), de fls. 1.026, relata que: · as infrações apuradas foram verificadas a partir da fiscalização da empresa Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA (“Operação Monte Carlo”). Ao longo do referido procedimento, constatouse que a Alberto & Pantoja é inexistente de fato, e que era utilizada, única e exclusivamente, com o objetivo de permitir que o presente Contribuinte pudesse movimentar recursos financeiros próprios na rede bancária, sem oferecêlos à tributação. Fl. 1282DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 3 3 · foi enviada Requisição de Movimentação Financeira ao HSBC Bank Brasil S/A. Pelos extratos bancários foi possível verificar que a conta bancária era alimentada pela empresa Delta Construções S/A. O banco encaminhou também cópia de uma procuração dando plenos poderes ao Sr. Geovani Pereira da Silva para representar a empresa Alberto & Pantoja “perante os bancos em geral”. · o Magistrado responsável a pela ação penal aponta que a organização se valia de interpostas pessoas, além de empresas de fachada, concluindo que o Sr. Geovani Pereira da Silva era pessoa de confiança do Contribuinte. Na sentença condenatória, o Exmo Sr. Juiz Federal Alderico Rocha Santos deixa claro que uma das empresas utilizadas pelo grupo é a Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA. Destaca que outro trecho da sentença são reforçadas as evidências de que o Sr. Geovani Pereira da Silva agia sob o comando do Sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos (Contribuinte), principalmente no tocante à movimentação financeira dos recursos oriundos das atividades deste último. · diante do exposto é possível asseverar que o Sr. Geovani Pereira da Silva movimentava os recursos financeiros de seu chefe, Sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos, através de contas bancárias cadastradas em nome de empresas inexistentes de fato. Também, está claro que a empresa Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA era uma das empresas utilizadas com esta finalidade. · o Contribuinte é o real beneficiário da conta nº 0416/0041654 cadastrada em nome da empresa Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA no banco HSBC. Na verdade, o Contribuinte utilizou a referida conta para movimentar grandes somas de recursos próprios através do sistema bancário, devendo ser considerado o efetivo titular da conta analisada. · em 18/03/2013, foi encaminhado ao sujeito passivo um Termo de Constatação e Intimação Fiscal, com ciência em 25/03/2013, solicitando que justificasse a origem /natureza dos recursos que havia recebido pela conta bancária nº 0416/00416/54 no banco HCBC, da qual é titular de fato. Mais do que simplesmente a origem dos recursos, os quais já sabiase que eram provenientes da empresa Delta Construções, o Contribuinte foi intimado a esclarecer a natureza das operações que o fizeram receber mais de R$ 27.000.000,00 entre 21/05/2010 e 13/05/2011. · o Contribuinte informou que desconhece a origem de tais depósitos, posto que nunca teve acesso às mencionadas contas bancárias. · em 18/04/2013, foi encaminhado ao Sr. Geovani Pereira da Silva o Termo de Constatação, solicitando esclarecimentos sobre os depósitos efetuados na conta que movimentava no banco HSBC, em nome da empresa Alberto & Pantoja. O Sr. Geovani não ofereceu os esclarecimentos solicitados. · nem o Contribuinte nem seu procurador explicaram a origem dos valores creditados na conta bancária do HSBC e considerando o fato de que tais valores não foram declarados na DIRPFs do Contribuinte relativas aos anos calendários de 2010 e 2011, restou caracterizada a omissão de rendimentos, de acordo com o art. 42 da Lei nº 9.430/96. · se qualificou a multa com base no art. 44, §1º da Lei nº 9.430/96, pois o Contribuinte utilizou intencionalmente conta bancária em nome de pessoa jurídica inexistente de fato Fl. 1283DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 4 (interposta pessoa), para não aparecer como real beneficiários dos recursos que transitaram pela referida conta, agindo com evidente intuito de fraude. · o Sr. Geovani tinha interesse comum na situação que constitui o fato gerador da obrigação tributária aqui evidenciada, pois era figura de destaque na organização citada pelo Juiz Federal, justamente com a função de cuidar das contas das empresas inexistentes de fato. Além disso, ao movimentar/administrar a conta bancária do Contribuinte, o Sr. Geovani fez dezenas de retiradas em espécie que totalizavam mais de R$ 13.500.000,00, demonstrando, assim, que também se beneficiava daquele dinheiro. · O Sr. Geovani Pereira da Silva, CPF nº 319.166.00115, é sujeito passivo solidário em relação ao crédito tributário lançado em desfavor do Sr. Carlos Augusto Almeida Ramos, de CPF nº 284.844.52115, em decorrência dos depósitos efetuados na conta cadastrada em nome da Alberto & Pantoja. Às fls. 1.038 foi lavado Termo de Sujeição Passiva Solidária ao sr. Geovani Pereira da Silva (responsável solidário). O Contribuinte tomou ciência do Termo de Encerramento da Ação Fiscal em 24/06/2013 (AR Postal fl. 1.064), enquanto o responsável solidário foi notificado em 21/06/2013 (AR Postal – fl. 1.063). Ambos apresentaram Impugnação em 19/07/2013, o Contribuinte às fls. 1.068 e o responsável solidário às fl.s 1.098, nas quais trouxeram as seguintes alegações: · Sigilo Bancário – Necessidade de Autorização Judicial o acesso às informações da sociedade empresária, seguradas por sigilo constitucionalmente qualificado, se deu mediante mera notificação à instituição bancária, fato que macula todo o lançamento fiscal, pois eivado de nulidade a importar seu encerramento. O Auto de Infração é nulo, pois viola a reserva constitucional de jurisdição para afastamento do sigilo bancário do contribuinte. Apenas o magistrado pode afastar o sigilo bancário, premissa que não fica afastada pelo fato de haver contra o Contribuinte sentença penal a estabelecer haver utilização de interposta pessoa para movimentação bancária. Apresentam jurisprudência no sentido de que o fato de haver sentença penal a estabelecer a existência de interposta pessoa não afasta o dever de a administração pública obter, pela via judicial, autorização para afastar seu sigilo bancário, pois as esferas de atuação são independentes. Alega que a proteção ao sigilo bancário constitui espécie do direito à intimidade, consagrado no art. 5º, X, da Constituição Federal, sendo uma das garantias do indivíduo contra o arbítrio do Estado e, apesar de não ser absoluta, sua relatividade deve guardar contornos com a própria lei, sob pena de abrir caminho para descumprimento da garantia à intimidade constitucionalmente assegurada. Se houve quebra de sigilo bancário sem ordem judicial, está maculado na origem, por inconstitucionalidade, o lançamento e se este foi obtido por meio de prova inválida, todas as demais dela decorrentes também o serão. · Depósito Bancário – Presunção Relativa, Arbitramento e Ônus da Prova O tributo tão só foi lançado com base em suposta discrepância entre os valores depositados na conta corrente da sociedade empresária e os valores expostos em declarações fiscais tanto do contribuinte principal, quanto do solidário. A obtenção dos dados não se deu pela entrega das informações pelo contribuinte originário, ou seja, a sociedade empresária, mas sim por ato forte da autoridade fazendária. · Inaplicabilidade da Multa Qualificada a sonegação, a fraude e o conluio são definidos, segundo os artigos 71 a 73 da Lei nº 4.502/64. A autuação ora impugnada entendeu ter ocorrido fraude, no entanto não é toda e qualquer ação praticada com o objetivo de impedir a ocorrência do fato gerador que pode ser qualificada como fraude. O que caracteriza a fraude, do ponto de vista fiscal, é o dolo, questionando se a lei fiscal Fl. 1284DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 4 5 que define fraude como o ato doloso tendente a impedir a ocorrência do fato gerador do tributo está se referindo ao dolo civil ou penal. Entende a defesa que se trata do dolo definido pela lei penal. Fraude Fiscal é aquela caracterizada pela prática de uma ação ou omissão intencionalmente criminosa, tendente a impedir a ocorrência do fato gerador, como a falsificação de um documento, emissão de nota fiscal espelhada ou calçada, é a adulteração de documentos contábeis, entre outros. A conduta do Contribuinte não almejou o impedimento da ocorrência do fato gerador. A acusação que lhe é feita é de omitir dados da movimentação financeira, que pode ser aferida mediante programa da Receita Federal, estando impossibilitado o aferimento da conduta dolosa. Não se pode falar em fraude à lei sem que exista dolo e não se pode falar em dolo onde não ocorra uma especial direção subjetiva e consciente da vontade do agente que possa caracterizar intenção fraudulenta e, por sua vez, não se pode falar em intenção fraudulenta toda vez que a autoridade fiscal tiver a possibilidade de rever as declarações prestadas pelo contribuinte, pois, assim, é impossível a consumação da suposta conduta, ante a eterna vigilância desta autoridade. O Contribuinte não agiu com o intuito de impedir, retardar, excluir ou modificar as características essenciais do tributo (art. 72 da Lei nº 4.502/64). No caso de a declaração de rendimentos não conter nenhum valor, não impede o fisco de obter por outros meios. · Inconstitucionalidade da Multa Qualificada se, apenas por argumentação hipotética, for mantida a autuação, a multa na forma em que foi estabelecida não pode prevalecer, pois se afigura confiscatória. O Supremo Tribunal Federal (STF) já se manifestou sobre essa espécie de multa, que exorbita o valor do tributo. A limitação ao poder de tributar, art. 150, inciso IV, da Carta da República, se estende também às multas decorrentes de obrigações tributárias, ainda que não tenham elas natureza de tributo. O Contribuinte reproduz trechos do voto do relator Ministro Ilmar Galvão no âmbito da Adin 551 e do Ministro Marco Aurélio de Melo, concluindo que a parte do Auto de Infração que impôs a incidência de multa deve ser anulado, eis que tem essência confiscatória, uma vez que se amolda em exatidão no caso julgado pela suprema Corte, no qual se declarou a inconstitucionalidade do dispositivo que impôs multa confiscatória. A 21ª Turma da DRJ/RJ1, na sessão de 04/12/2013, pelo Acórdão 1261.845, de fls. 1.134 e seguintes, julgou improcedente a Impugnação, nos seguintes termos: PRELIMINAR. SIGILO BANCÁRIO. EXAME DE EXTRATOS. AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. DISPENSABILIDADE. É lícito ao Fisco, na forma da Lei Complementar nº 105/2001, examinar informações relativas ao contribuinte, constantes de documentos, livros e registros de instituições financeiras e de entidades a elas equiparadas, inclusive os referentes a contas de depósitos e de aplicações financeiras, independentemente de autorização judicial, quando houver procedimento de fiscalização em curso e tais exames forem considerados indispensáveis. Inexistindo decisão do Supremo Tribunal Federal, estabelecendo efeito vinculante e/ou aplicação erga omnes em relação a julgado que considerou inconstitucional a quebra do sigilo bancário, deve a Autoridade Administrativa, em obediência ao princípio da legalidade, seguir os ditames da legislação vigente. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. A Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996, no seu art. 42, estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do Fl. 1285DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 6 imposto correspondente sempre que o titular da conta bancária, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em sua conta de depósito ou de investimento. INTERPOSTA PESSOA. Quando provado que os valores creditados na conta de depósito pertencem a terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta. MULTA QUALIFICADA (150%). INTERPOSTA PESSOA. É lícita a imposição da multa qualificada de 150% quando constatada a omissão de rendimentos apurados mediante depósitos bancários de origem não comprovada feitos por intermédio de interposta pessoa, diante da caracterização da fraude, na forma da Súmula Carf nº 34. ALEGAÇÕES DE INCONSTITUCIONALIDADE. A instância administrativa é incompetente para manifestarse sobre a constitucionalidade da legislação que ampara a exigência fiscal. O Contribuinte foi notificado do acórdão em 16/12/2013, conforme documento dos correios de fls. 1.162, e o responsável no dia 18/12/2013 (AR. de fls. 1.159) vindo apresentar Recurso Voluntário às fl.s 1.164, em 10/01/2014, e o de fls. 1.218, em 13/01/2014, respectivamente, reafirmando as argumentações das Impugnações, em resumo: · Nulidade do Auto de Infração em razão do afastamento arbitrário do sigilo bancário, matéria sob reserva de jurisdição, ocorrendo em produção de prova ilícita. Aponta que o STF já decidiu, no seu órgão pleno, que ladeia e ofende a CRFB/88 a quebra de sigilo bancário do contribuinte, pela autoridade fazendária, sem a autorização constitucional para tanto. Cita RE 389.808, 555112, 387604. Independência da esfera penal e administrativa, fazendo com que a sentença em ação penal não induz a esfera administrativa. · Requer a reforma da decisão, pois, na forma do art. 142 do CTN, compete ao Agente Fazendário, como dever jurídico, determinar se os valores encontrados na conta corrente do Contribuinte são ou não receita tributável. Não incumbe ao contribuinte o dever jurídico de provar não auferir renda, mas incumbe à Autoridade Administrativa o dever jurídico de provar haver receita. Os depósitos em conta bancária deveriam ser apenas um marco, mesmo inicial, de investigação do Fisco, para se aferir ter ocorrido, ou não, renda, não podendo ela se desincumbir desse dever jurídico de perseguição da verdade material dos aspectos fáticos a autorizarem a incidência tributária. Cita jurisprudência administrativa Acordão 10417.494, CSFR 0102,741. Alegação de que depósito em conta corrente não é elegível a fato gerador do imposto de renda que é a obtenção econômica ou jurídica da renda. · Ilegalidade da majoração da multa a 150% inexistência de dolo ou fraude. · Inconstitucionalidade da multa aplicada em face de sua da natureza confiscatória. É o relatório. Voto Conselheira Nathália Mesquita Ceia. Fl. 1286DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 5 7 Os recursos são tempestivos e reúnem os demais requisitos de admissibilidade, portanto, deles conheço. Inicialmente, cabe pontuar que o processo em questão apresenta 02 defesas (Recurso Voluntário) em razão de ter sido atribuída responsabilidade solidária ao Sr. Geovani Pereira da Silva. Assim, é apresentada para apreciação do presente Colegiado a defesa do Sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos e do Sr. Geovani Pereira da Silva (responsável solidário). Tendo em vista que os argumentos de defesa apresentados em ambos os Recursos Voluntários são os mesmos, a apreciação do mérito, no presente voto, será efetuada conjuntamente para ambas as defesas. Assim, a análise e conclusão aqui proferidos aproveitarão aos dois contribuintes (Sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos e do Sr. Geovani Pereira da Silva), aqui conjuntamente denominados “Recorrentes”. I. DA PRELIMINAR I.1. Da Quebra do Sigilo Bancário Os Recorrentes alegam que as provas que embasaram o lançamento — extratos bancários — foram obtidas pelo Fisco com quebra de sigilo bancário sem autorização judicial em procedimento ilegal e inconstitucional tornando nulo o lançamento posto que fundado em provas ilícitas. Argumentam ainda que o fato de haver sentença penal, pendente de trânsito em julgado, não afasta o dever de a administração pública obter, pela via judicial, a autorização para afastar seu sigilo bancário, pois as esferas de autuações são independentes. Em princípio, cabe destacar que não foi a sentença penal que ensejou a quebra do sigilo bancário da Sociedade Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA. Conforme relatado no Termo de Verificação Fiscal, de fls. 1.050, o procedimento fiscal decorreu da fiscalização da sociedade em questão. O Termo de Início do Procedimento Fiscal, de fls. 02, requereu à sociedade a apresentação dos livros e registros contábeis. Uma vez não encontrada a sociedade no endereço registrado no CNPJ, promoveuse a intimação dos sócios, que também não foram encontrados. Diante do referido cenário a Autoridade Fazendária, onde nem a sociedade e nem os sócios eram localizados, promoveu Requisição Sobre Movimentação Financeira (RMF) ao HSBC Bank Brasil S/A, solicitando não apenas os extratos, mas também ficha de cadastro do correntista, bem como instrumento de procuração outorgando poderes a terceiros para movimentar a conta. Os fatos acima foram descritos de forma detalhada no Termo de Verificação Fiscal, de fls. 1.050. Nesta senda, verificase que afirmação dos Recorrentes de que a quebra do sigilo bancário foi em decorrência da ação penal, não se sustenta, logo, a Administração Pública não se eximiu de apurar fatos e produzir provas que a viabilizassem a perseguir o crédito tributário, vindo os dados da ação penal apenas corroborar com as provas já apurada na esfera administrativa. Logo, no mesmo sentido não se sustenta a alegação dos Recorrentes quanto existência de interdependência no presente processo entre as esferas administrativa e jurisdicional. Fl. 1287DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 8 Quanto argumentação de impossibilidade de Requisição de Movimentação Financeira sem prévia autorização judicial por parte da Administração Tributária, cabem as seguintes considerações. Embora a possibilidade de requisição às instituições bancárias já estivesse prevista no art. 197, II do Código Tributário Nacional (CTN), somente com edição da Lei Complementar nº 105/01, regulamentada pelo Decreto nº 3.724/01 foi autorizado à Receita Federal proceder à quebra do sigilo bancário no âmbito do processo administrativo fiscal, sem prévia autorização judicial. Código Tributário Nacional Art. 197. Mediante intimação escrita, são obrigados a prestar à autoridade administrativa todas as informações de que disponham com relação aos bens, negócios ou atividades de terceiros: (...) II os bancos, casas bancárias, Caixas Econômicas e demais instituições financeiras; Lei Complementar nº 105/01 Art. 1ºAs instituições financeiras conservarão sigilo em suas operações ativas e passivas e serviços prestados. (...) § 3º Não constitui violação do dever de sigilo: (...) III – o fornecimento das informações de que trata o§ 2º do art. 11 da Lei no9.311, de 24 de outubro de 1996; Art. 6º As autoridades e os agentes fiscais tributários da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios somente poderão examinar documentos, livros e registros de instituições financeiras, inclusive os referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Parágrafo único. O resultado dos exames, as informações e os documentos a que se refere este artigo serão conservados em sigilo, observada a legislação tributária. O teor do art. 6º da Lei Complementar nº 105/01 autoriza a busca de informações junto às instituições financeiras, sem prévia autorização judicial, sempre que houver processo administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente. Conforme destacado acima, na hipótese dos autos, a Autoridades Lançadora, ao solicitar à instituição financeira os extratos bancários da pessoa jurídica, buscava identificar quem era o responsável pela movimentação financeira. Diante do exposto, não há qualquer irregularidade no presente procedimento administrativo fiscal já que o Auditor Fiscal estava se valendo de meios e instrumentos de Fl. 1288DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 6 9 fiscalização criteriosamente dados pelo ordenamento jurídico para que a ação fiscal pudesse ter o resultado desejado pela sociedade. Dessa forma, agiu o Fisco dentro da legalidade ao requisitar as informações sobre a movimentação bancária às instituições financeiras, com base no art. 6º da Lei Complementar nº 105/01. Os Recorrentes colacionam decisão do STF no RE 389.808/PR destacando que a o afastamento do sigilo bancário por parte da Receita Federal sem prévia autorização judicial conflita com a Carta da República. Em que pese a referida decisão socorrer o direito dos Recorrentes, a mesma não foi proferida sob a sistemática prevista no art. 543–B do Código de Processo Civil (CPC), não havendo, portanto, obrigatoriedade da presente Corte Administrativa em acompanhar a decisão do STF na forma do art. 62A do Anexo II da Portaria nº 256/09 (Regulamento do CARF RICARF): Lei nº 5.869/73 (CPC) Art. 543B. Quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica controvérsia, a análise da repercussão geral será processada nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, observado o disposto neste artigo. Portaria nº 256/09 RICARF Art. 62A. As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos artigos 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. § 1º Ficarão sobrestados os julgamentos dos recursos sempre que o STF também sobrestar o julgamento dos recursos extraordinários da mesma matéria, até que seja proferida decisão nos termos do art. 543B. § 2º O sobrestamento de que trata o § 1º será feito de ofício pelo relator ou por provocação das partes. No mesmo sentido, uma vez que a referida decisão foi proferida em sede de controle difuso de constitucionalidade e não em sede de controle concentrado, procedimento legislativo negativo, a Lei Complementar nº 105/01 continua em vigor e com eficácia plena. Cabe observar que a matéria está em sede de recurso repetitivo no STF no RE 601.314/SP, Ministro Ricardo Lewandowski, pendente de julgamento e sem efeito suspensivo. Assim, até a manifestação do STF em sede de Recurso Repetitivo ou em controle concentrado a Requisição de Movimentação Financeira com base no art. 6º da Lei Complementar nº 105/01, sem prévia autorização judicial não fere o ordenamento jurídico pátrio. Neste diapasão a Administração Tributária jungida ao princípio da legalidade em sua atividade administrativa plenamente vinculada de cobrança do crédito tributário (art. 3º Fl. 1289DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 10 do CTN), não pode, sob pena de responsabilidade funcional, eximirse de aplicar o art. 6º da Lei Complementar nº 105/01 que se encontra vigente e eficaz. Ante o exposto não acolhe a preliminar de nulidade por Requisição de Movimentação Financeira sem prévia autorização legal, bem como a consequente por violação do direito a privacidade e o sigilo de dados garantido no art. 5º da CRFB. II. DO MÉRITO II.1. Do Depósito Bancário Os Recorrentes alegam que compete a Autoridade Tributária o ônus de comprovar a existência da renda, afirmando que não existe o ônus ao contribuinte de provar se dado depósito é ou não renda. Assim, os depósitos em conta bancária deveriam ser apenas um marco, mesmo inicial, de investigação do Fisco, para se aferir ter ocorrido, ou não, renda, não podendo ela se desincumbir desse dever jurídico de perseguição da verdade material dos aspectos fáticos a autorizarem a incidência tributária. Assim, conclui que o fato elegível pela fiscalização, depósito em conta bancária não é elegível como fato gerador do imposto de renda, pois não representa obtenção econômica ou jurídica da renda. A argumentação levantada pelos Recorrentes não se sustenta a partir da vigência da Lei nº 9.430/96 (art. 42) que determinou recair sobre o contribuinte o ônus de comprovar a origem dos depósitos bancários, sob pena de se presumir que os próprios depósitos são rendimentos omitidos, sujeitos à aplicação da tabela progressiva: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. Quando o art. 42 da Lei nº 9.430/96 determina que o depósito bancário não comprovado caracteriza omissão de receita, não se está tributando o depósito bancário, e sim o rendimento presumivelmente auferido, ou seja, a disponibilidade econômica a que se refere o art. 43 do CTN. Notese que os depósitos bancários são apenas a forma, o sinal de exteriorização, pelos quais se manifesta a omissão de rendimentos objeto de tributação. Os depósitos bancários se apresentam, num primeiro momento, como simples indício da existência de omissão de rendimentos. Entretanto, esse indício se transforma na prova da omissão de rendimentos, quando o contribuinte, tendo a oportunidade de comprovar a origem dos recursos aplicados em tais depósitos, se nega a fazêlo, ou não o faz satisfatoriamente. Fl. 1290DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 7 11 Atentese que há uma distinção entre presumir a ocorrência do fato gerador e presumir a natureza de determinado fato. A existência do fato jurídico (depósito bancário) foi comprovada pela Fiscalização através dos dados bancários do contribuinte. Portanto não há presunção. O que a Autoridade Fiscal presume, com base em lei e em razão do contribuinte não se desincumbir de seu ônus, é a natureza de tal fato, ou seja, presumir que tal fato (o fato cuja ocorrência foi comprovada) seja gerador de rendimentos ou proventos de qualquer natureza. Nesta nova realidade erigida pelo legislador à condição de presunção legal, a caracterização da ocorrência do fato gerador do imposto de renda não se dá pela mera constatação de um depósito bancário, isoladamente considerado, mas sim pela falta de esclarecimentos da origem dos numerários depositados. Ou seja, há uma correlação lógica estabelecida pelo legislador entre o fato conhecido (ser beneficiado com depósito bancário sem demonstração de sua origem) e o fato desconhecido (auferir rendimentos) e é esta correlação que dá fundamento à presunção legal em comento, de que o dinheiro surgido na conta bancária, sem qualquer justificativa, provém de receitas ou rendimentos omitidos. Isso posto, no presente caso, a fiscalização não se desincumbiu de aplicar o art. 142 do CTN, violando o seu dever de buscar os fatos que comprovam a existência do fato gerador, uma vez que buscou e juntou aos autos do processo os extratos bancários que comprovam a existência dos depósitos bancários. A função do Fisco é, entre outras, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento e intimar o titular da conta bancária a apresentar os documentos, informações e esclarecimentos, com vistas à verificação da ocorrência de omissão de receitas. Procedimento este atendido no presente processo administrativo fiscal. Portanto, a Lei nº 9.430/1996, tornou lícita a utilização de depósitos bancários de origem não comprovada como presunção legal de omissão de receitas ou de rendimentos. A presunção em favor do Fisco transfere ao contribuinte o ônus de elidir a imputação, mediante a comprovação com documentação própria e individualizada que justifique os ingressos ocorridos em suas contas correntes de modo a garantir que os créditos/depósitos bancários não constituem fato gerador do tributo devido, haja vista que pela mencionada presunção, a sua existência (créditos/depósitos bancários desacompanhada da prova da operação que lhe deu origem), espelha omissão de receitas, justificandose sua tributação a esse título. Tratase, afinal, de presunção relativa, passível de prova em contrário. O presente tema encontrase pacificado no âmbito do presente Conselho pela Súmula nº 26 do CARF, que permite a aplicação do dispositivo legal após o ano calendário de 1997. Súmula nº 26 do CARF A presunção estabelecida no art. 42 da Lei nº 9.430/96 dispensa o Fisco de comprovar o consumo da renda representada pelos depósitos bancários sem origem comprovada. A jurisprudência colacionada pelos Recorrentes é anacrônica, abordando entendimento jurisprudencial anterior a janeiro de 1997, início da eficácia da Lei ora em tela. Por exemplo, o Acórdão 10417.494 aborda o exercício de 1993 e 1994, enquanto o Acórdão CSRF/0102.741 aborda os exercícios de 1991 a 1993. Assim, tais julgados não são parâmetros Fl. 1291DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 12 para embasar a pretensão dos Recorrentes, uma vez que o presente Auto de Infração apura omissão de rendimentos referente aos anos calendários de 2010 e 2011, ou seja, fatos geradores ocorridos sob a égide do art. 42 da Lei nº 9.430/96. Assim, como os Recorrentes não apresentaram a origem/natureza dos depósitos bancários, a fiscalização, autorizada pelo disposto no art. 42 da Lei nº 9.430/96 entendeu que os referidos depósitos correspondem a renda não oferecido à tributação. II.2. Da Qualificação Multa de Ofício O Termo de Verificação Fiscal, de fls. 1.026, relata que houve ação intencional na interposição de pessoa jurídica para aparecer como real beneficiária dos depósitos. Confira se: Ao utilizar, intencionalmente, conta bancária em nome de uma pessoa jurídica inexistente de fato (interposta pessoa), para não aparecer como real beneficiário dos recursos que transitaram pela referida conta, o sujeito passivo agiu com evidente intuito de fraude, ensejando a aplicação da multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento), conforme art. 44,§1º, s Lei nº. 9.430/96. Já a 21ª Turma da DRJ/RJ1 reafirmou as conclusões da Fiscalização nos seguintes termos: Foi constatado pela fiscalização que Carlos Augusto de Almeida Ramos e Geovani Pereira da Silva se valeram de uma série de artifícios para esconder a ocorrência dos fatos geradores do Imposto de Renda, utilizandose da pessoa jurídica Alberto & Pantoja Construções e Transportes Ltda, constituída com sócios aparentes, empresa esta cuja sede não foi localizada no endereço cadastrado da Receita Federal do Brasil. Ademais, foi emitida procuração dos sócios dando amplos poderes para que Geovani Pereira da Silva movimentasse as contas, em benefício de Carlos Augusto de Almeida Ramos. Os Recorrentes argumentam que não é e qualquer ação praticada com objetivo de impedir a ocorrência do fato gerador do tributo que pode ser qualificada como fraude, destacando que é o dolo que caracteriza a fraude. Portanto, destaca que a conduta, no caso da autuação, não almejou o impedimento da ocorrência do fato gerador. A acusação que é feita no sentido de omitir dados de movimentação financeira, pode ser aferida mediante Programa da Receita Federal. Desta feita, impossibilitada está o aferimento de conduta dolosa. A defesa dos Recorrentes não aborda os fatos descritos no Termo de Verificação Fiscal e reafirmados pelo Acórdão aquo – interposição de pessoa jurídica para omissão de imposto de renda sendo estranha ao presente ponto da autuação já que a multa não foi qualificada por omissão de dados da movimentação financeira. O fato descrito no Termo de Verificação Fiscal relata a conduta intencional dos Recorrentes de fraude. Conforme determinação do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, a multa de ofício de 75% pode ter seu percentual duplicado em caso de fraude prevista no art. 72 da Lei nº 4.502/64: Lei nº 9.430/96 Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: Fl. 1292DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO Processo nº 10120.725064/201337 Acórdão n.º 2201002.641 S2C2T1 Fl. 8 13 I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; (...) § 1o O percentual de multa de que trata o inciso I do caput deste artigo será duplicado nos casos previstos nos arts. 71, 72 e 73 da Lei no 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. Lei nº 4.502/64 Art . 72. Fraude é tôda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do impôsto devido a evitar ou diferir o seu pagamento. A Autoridade Lançadora caracterizou o dolo ao demonstrar que os Recorrentes, intencionalmente, utilizaram a conta bancária de pessoa jurídica inexistente, visando o não recolhimento do imposto (IRPF). Uma vez que a utilização da pessoa jurídica inexistente objetivava a mudança da sujeição passiva tributária do Sr. Carlos Augusto de Almeida Ramos para Alberto & Pantoja Construções e Transportes LTDA, no intuito de impedir a ocorrência do fato gerador do Imposto Sobre a Renda (IRPF) para aquele, resta comprovada a conduta dos Recorrentes para modificar o elemento subjetivo do fato gerador. Diante do exposto a Autoridade Lançadora demonstrou a ocorrência da conduta fraudulenta e o seu dolo, não havendo irregularidades na aplicação do art. 44, §1º da Lei nº 9.430/96. Frisese que a presente Corte Administrativa já pacificou entendimento pela Súmula do CARF nº 34: Súmula CARF nº 34: Nos lançamentos em que se apura omissão de receita ou rendimentos, decorrente de depósitos bancários de origem não comprovada, é cabível a qualificação da multa de ofício, quando constatada a movimentação de recursos em contas bancárias de interpostas pessoas. II.3. Da Natureza Confiscatória da Multa Qualificada Os Recorrentes argumentam que aplicação de multa ao percentual de 150% possui caráter confiscatório e, portanto, inconstitucional. Inicialmente, destacase que a vedação de confisco estabelecida na CRFB é dirigida ao legislador. Tal princípio orienta a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. A ponderação quanto a razoabilidade e o efeito confiscatório do inciso I e do §2º, ambos, do art. 44 da Lei nº 9.430/96 perpassa pela ponderação da constitucionalidade dos Fl. 1293DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO 14 referidos dispositivos em face do art. 150, IV da CRFB e do princípio constitucional implícito da razoabilidade. Já é posição consolidada nos tribunais administrativos o entendimento de que a arguição de inconstitucionalidade de lei não deve ser objeto de apreciação nesta esfera, a menos que já exista manifestação do Supremo Tribunal Federal, uniformizando a matéria questionada. No âmbito do presente órgão colegiado tal matéria já foi consolidada pela Súmula do CARF nº 2: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Isso posto, diante da atividade plenamente vinculada a qual está jungida a Administração Tributária, seja quanto a cobrança do tributo (art. 3º do CTN), seja quanto procedimento de lançamento do fato gerador (art. 142 do CTN), é poder dever da presente Corte Administrativa aplicar a legislação vigente ao tempo do fato gerador sob pena de responsabilidade funcional. Até a presente data não há notícia quanto existência de liminar em Ação Direta de Inconstitucionalidade para suspender a eficácia do §2º do art. 44 da Lei nº 9.430/96, bem quanto a existência de decisão proferida em sede de controlo concentrado ou sede de Recurso Repetitivo compreendendo ser confiscatório a multas previstas nos respectivos dispositivos legais. Neste senda, improcede o pleito dos Recorrentes para compreender confiscatória a qualificação da multa de ofício ao percentual de 150%. Conclusão Diante do exposto, oriento meu voto no sentido de rejeitar a preliminar e, no mérito, negar provimento aos Recursos Voluntários. Assinado Digitalmente Nathália Mesquita Ceia Fl. 1294DF CARF MF Impresso em 27/02/2015 por RECEITA FEDERAL - PARA USO DO SISTEMA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 29/01/2015 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 29/01/20 15 por NATHALIA MESQUITA CEIA, Assinado digitalmente em 30/01/2015 por MARIA HELENA COTTA CARDOZO
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