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Numero do processo: 11831.004259/2003-14
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Dec 07 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2003
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO APLICÁVEL AO PLEITO.
Conforme a Súmula CARF 91, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 09 de junho de 2005 o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador, ao que se subsume o presente caso, uma vez que a declaração de compensação foi encaminhada em 04.06.2003 para a recuperação de valores apurados com relação a saldos negativos de 1995.
Numero da decisão: 9101-003.080
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos à Delegacia da Receita Federal em São Paulo, para a verificação da certeza e liquidez do crédito.
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Presidente
(assinado digitalmente)
Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
Nome do relator: DANIELE SOUTO RODRIGUES AMADIO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2003 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO APLICÁVEL AO PLEITO. Conforme a Súmula CARF 91, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 09 de junho de 2005 o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador, ao que se subsume o presente caso, uma vez que a declaração de compensação foi encaminhada em 04.06.2003 para a recuperação de valores apurados com relação a saldos negativos de 1995.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos à Delegacia da Receita Federal em São Paulo, para a verificação da certeza e liquidez do crédito. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo - Presidente (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto.
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DECADÊNCIA. Recorrente ALPARGATAS S.A. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2003 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. PRAZO APLICÁVEL AO PLEITO. Conforme a Súmula CARF 91, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 09 de junho de 2005 o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador, ao que se subsume o presente caso, uma vez que a declaração de compensação foi encaminhada em 04.06.2003 para a recuperação de valores apurados com relação a saldos negativos de 1995. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, com retorno dos autos à Delegacia da Receita Federal em São Paulo, para a verificação da certeza e liquidez do crédito. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Presidente (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Leonardo de Andrade Couto (suplente convocado), Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra e Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 83 1. 00 42 59 /2 00 3- 14 Fl. 187DF CARF MF Processo nº 11831.004259/200314 Acórdão n.º 9101003.080 CSRFT1 Fl. 3 2 Relatório Tratamse de declarações de compensação (Efls. 2 ss.) apresentadas em 04.06.2003 para a recuperação de valores apurados de IRRF realcionado a juros sobre capital prórpio em 2003 com relação a saldos negativos de 1995, pleito este negado pelo Despacho da Delegacia da Receita Federal em São Paulo (Efls. 18 ss.), com fundamento na decadência do direito à restituição, aduzindo que a declaração estaria prejudicada em função da negativa ao pedido de restituição (Efl. 19). Insurgindose, a Recorrente apresentou manifestação de inconformidade (Efls. 23 ss.) pleiteando a aplicação do prazo decenal. Com o acórdão n. 15361, a Delegacia da Receita Federal de Julgamento de São Paulo (Efls. 56 ss.) indeferiu o pleito do contribuinte, aplicandose o prazo decadencial de cinco anos, contado da data do pagamento indevido. A Recorrente apresentou recurso voluntário (Efls. 65 ss.), renovando as razões postas para defender a inaplicabilidade da Lei Complementar n. 118/05, com o objetivo de afastar a decadência. O recurso voluntário foi julgado pelo acórdão n. 110300.022 (Efls. 74 ss.), em que se que manteve o entendimento de que o pedido de restituição deveria ser formulado no prazo de cinco anos, contados da data do pagamento indevido. A contribuinte interpôs então recurso especial (Efls. 83 ss.) requerendo a sua procedência no sentido de homologar as compensações, com fundamento nas alegações de decadência, e cancelar as exigências. O recurso foi recepcionado por despacho de admissibilidade às Efls. 1102 ss. e a Recorrida ofereceu contrarrazões às Efls. 507 ss. Passase à apreciação do recurso. Voto Conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio Relatora O recurso é tempestivo e dele o conheço, nos termos do despacho de admissibilidade. Tratase de pedido de restituição encaminhado em 2003 com relação a débitos de 1995, pleito este que, por formulado anteriormente à vigência da Lei Complementar n. 118/05, deve observar o prazo decenal correspondente aos cinco anos decadenciais para o lançamento de ofício/homologação tácita do pagamento antecipado, somado de mais cinco anos prescricionais para o pedido de restituição, nos termos do que decidido pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 566.621, sob a sistemática do artigo 543B, §3º, do Código de Processo Civil: “DIREITO TRIBUTÁRIO – LEI INTERPRETATIVA – APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI COMPLEMENTAR Nº 118/2005 – DESCABIMENTO – VIOLAÇÃO À SEGURANÇA JURÍDICA – NECESSIDADE DE OBSERVÂNCIA DA Fl. 188DF CARF MF Processo nº 11831.004259/200314 Acórdão n.º 9101003.080 CSRFT1 Fl. 4 3 VACACIO LEGIS – APLICAÇÃO DO PRAZO REDUZIDO PARA REPETIÇÃO OU COMPENSAÇÃO DE INDÉBITOS AOS PROCESSOS AJUIZADOS A PARTIR DE 9 DE JUNHO DE 2005. Quando do advento da LC 118/05, estava consolidada a orientação da Primeira Seção do STJ no sentido de que, para os tributos sujeitos a lançamento por homologação, o prazo para repetição ou compensação de indébito era de 10 anos contados do seu fato gerador, tendo em conta a aplicação combinada dos arts. 150, § 4º, 156, VII, e 168, I, do CTN. A LC 118/05, embora tenha se autoproclamado interpretativa, implicou inovação normativa, tendo reduzido o prazo de 10 anos contados do fato gerador para 5 anos contados do pagamento indevido. Lei supostamente interpretativa que, em verdade, inova no mundo jurídico deve ser considerada como lei nova. Inocorrência de violação à autonomia e independência dos Poderes, porquanto a lei expressamente interpretativa também se submete, como qualquer outra, ao controle judicial quanto à sua natureza, validade e aplicação. A aplicação retroativa de novo e reduzido prazo para a repetição ou compensação de indébito tributário estipulado por lei nova, fulminando, de imediato, pretensões deduzidas tempestivamente à luz do prazo então aplicável, bem como a aplicação imediata às pretensões pendentes de ajuizamento quando da publicação da lei, sem resguardo de nenhuma regra de transição, implicam ofensa ao princípio da segurança jurídica em seus conteúdos de proteção da confiança e de garantia do acesso à Justiça. Afastandose as aplicações inconstitucionais e resguardandose, no mais, a eficácia da norma, permitese a aplicação do prazo reduzido relativamente às ações ajuizadas após a vacatio legis, conforme entendimento consolidado por esta Corte no enunciado 445 da Súmula do Tribunal. O prazo de vacatio legis de 120 dias permitiu aos contribuintes não apenas que tomassem ciência do novo prazo, mas também que ajuizassem as ações necessárias à tutela dos seus direitos. Inaplicabilidade do art. 2.028 do Código Civil, pois, não havendo lacuna na LC 118/08, que pretendeu a aplicação do novo prazo na maior extensão possível, descabida sua aplicação por analogia. Além disso, não se trata de lei geral, tampouco impede iniciativa legislativa em contrário. Reconhecida a inconstitucionalidade art. 4º, segunda parte, da LC 118/05, considerandose válida a aplicação do novo prazo de 5 anos tãosomente às ações ajuizadas após o decurso da vacatio legis de 120 dias, ou seja, a partir de 9 de junho de 2005. Aplicação do art. 543B, § 3º, do CPC aos recursos sobrestados. Recurso extraordinário desprovido.” Subsumese, portanto, a questão, à Súmula CARF 91, de obrigação vinculada deste colegiado, nos seguintes termos: “Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.” Fl. 189DF CARF MF Processo nº 11831.004259/200314 Acórdão n.º 9101003.080 CSRFT1 Fl. 5 4 Assim sendo, votase por DAR PROVIMENTO ao Recurso Especial da contribuinte, determinadose o retorno dos autos à Delegacia da Receita Federal em São Paulo para a verificação da liquidez e certeza do crédito, porque considerado não decaído por este colegiado. (assinado digitalmente) Daniele Souto Rodrigues Amadio Fl. 190DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10805.722170/2011-06
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010
NÃO CONHECIMENTO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE.
Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta caracterizada a divergência interpretativa entre os colegiados dos Acórdãos recorrido e paradigma.
MULTA. RETROATIVIDADE BENÉFICA. APLICAÇÃO
Quando da aplicação, simultânea, em procedimento de ofício, da multa prevista no revogado art. 32, § 5º, da Lei no. 8.212, de 1991, que se refere à apresentação de declaração inexata em GFIP, e também da sanção pecuniária pelo não pagamento do tributo devido, prevista no art. 35, II da mesma Lei, deve-se cotejar, para fins de aplicação do instituto da retroatividade benéfica, a soma das duas sanções eventualmente aplicadas quando do lançamento, em relação à penalidade pecuniária do art. 44, inciso I, da Lei 9.430, de 1996, que se destina a punir ambas as infrações já referidas, e que se tornou aplicável no contexto da arrecadação das contribuições previdenciárias desde a edição da Medida Provisória no. 449, de 2008. Assim, estabelece-se como limitador para a soma das multas aplicadas através de procedimento de ofício o percentual de 75%.
Numero da decisão: 9202-006.134
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Heitor de Souza Lima Junior Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
Nome do relator: HEITOR DE SOUZA LIMA JUNIOR
1.0 = *:*
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ementa_s : Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 NÃO CONHECIMENTO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta caracterizada a divergência interpretativa entre os colegiados dos Acórdãos recorrido e paradigma. MULTA. RETROATIVIDADE BENÉFICA. APLICAÇÃO Quando da aplicação, simultânea, em procedimento de ofício, da multa prevista no revogado art. 32, § 5º, da Lei no. 8.212, de 1991, que se refere à apresentação de declaração inexata em GFIP, e também da sanção pecuniária pelo não pagamento do tributo devido, prevista no art. 35, II da mesma Lei, deve-se cotejar, para fins de aplicação do instituto da retroatividade benéfica, a soma das duas sanções eventualmente aplicadas quando do lançamento, em relação à penalidade pecuniária do art. 44, inciso I, da Lei 9.430, de 1996, que se destina a punir ambas as infrações já referidas, e que se tornou aplicável no contexto da arrecadação das contribuições previdenciárias desde a edição da Medida Provisória no. 449, de 2008. Assim, estabelece-se como limitador para a soma das multas aplicadas através de procedimento de ofício o percentual de 75%.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. . (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada).
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 21; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 2157; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT2 Fl. 493 1 492 CSRFT2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 10805.722170/201106 Recurso nº Especial do Procurador e do Contribuinte Acórdão nº 9202006.134 – 2ª Turma Sessão de 24 de outubro de 2017 Matéria Contribuições Previdencárias Recorrentes FAZENDA NACIONAL FRIGORÍFICO ASTRA DO PARANÁ LTDA. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 NÃO CONHECIMENTO. PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL DE DIVERGÊNCIA. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE. Não se conhece de Recurso Especial de Divergência, quando não resta caracterizada a divergência interpretativa entre os colegiados dos Acórdãos recorrido e paradigma. MULTA. RETROATIVIDADE BENÉFICA. APLICAÇÃO Quando da aplicação, simultânea, em procedimento de ofício, da multa prevista no revogado art. 32, § 5º, da Lei no. 8.212, de 1991, que se refere à apresentação de declaração inexata em GFIP, e também da sanção pecuniária pelo não pagamento do tributo devido, prevista no art. 35, II da mesma Lei, devese cotejar, para fins de aplicação do instituto da retroatividade benéfica, a soma das duas sanções eventualmente aplicadas quando do lançamento, em relação à penalidade pecuniária do art. 44, inciso I, da Lei 9.430, de 1996, que se destina a punir ambas as infrações já referidas, e que se tornou aplicável no contexto da arrecadação das contribuições previdenciárias desde a edição da Medida Provisória no. 449, de 2008. Assim, estabelecese como limitador para a soma das multas aplicadas através de procedimento de ofício o percentual de 75%. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 80 5. 72 21 70 /2 01 1- 06 Fl. 493DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 494 2 . (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior – Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em exercício), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri, Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior e Ana Cecília Lustosa da Cruz (Suplente convocada). Relatório Em litígio, o teor do Acórdão nº 2301003.765, prolatado pela 1a. Turma Ordinária da 3a. Câmara da 2a. Seção deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, na sessão plenária de 15 de outubro de 2013 (efls. 400 a 415). Ali, por maioria de votos, deuse parcial provimento ao Recurso Voluntário, na forma de ementa e decisão a seguir: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/01/2009 a 31/12/2010 AQUISIÇÃO DE PRODUTO RURAL DE PESSOA FÍSICA É devida, pelo produtor rural pessoa física, contribuição previdenciária incidente sobre a receita bruta proveniente da comercialização da sua produção. RESPONSABILIDADE DO ADQUIRENTE A empresa adquirente da produção de produtores rurais pessoas físicas fica subrogada nas obrigações de tais produtores e está obrigada a arrecadar, mediante desconto, a contribuição previdenciária por ele devida. MATÉRIA SUB JUDICE CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RENÚNCIA Em razão da decisão judicial se sobrepor à decisão administrativa, a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial, individual ou coletiva, antes ou depois do lançamento, implica renúncia ao contencioso administrativo fiscal relativamente à matéria submetida ao Poder Judiciário. MULTA DE MORA Fl. 494DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 495 3 Diante da caracterização da mora, a autoridade administrativa, com base no art. 35 da Lei nº 8.212/1991, não pode excluir a multa por atraso. LANÇAMENTOS REFERENTES FATOS GERADORES ANTERIORES A MP 449. MULTA MAIS BENÉFICA. APLICAÇÃO DA ALÍNEA “C”, DO INCISO II, DO ARTIGO 106 DO CTN. LIMITAÇÃO DA MULTA MORA APLICADA ATÉ 11/2008. A mudança no regime jurídico das multas no procedimento de ofício de lançamento das contribuições previdenciárias por meio da MP 449 enseja a aplicação da alínea “c”, do inciso II, do artigo 106 do CTN. No tocante à multa mora até 11/2008, esta deve ser limitada ao percentual previsto no art.61 da lei 9.430/96, 20%. APLICAÇÃO DA MULTA DE 75% COMO MULTA MAIS BENÉFICA ATÉ 11/2008. AJUSTE QUE DEVE CONSIDERAR A MULTA DE MORA E MULTA POR INFRAÇÕES RELACIONADAS À GFIP. Em relação aos fatos geradores até 11/2008, nas competências nas quais a fiscalização aplicou a penalidade de 75% prevista no art. 44 da Lei 9.430/96 por concluir se tratar da multa mais benéfica quando comparada aplicação conjunta da multa de mora e da multa por infrações relacionadas a GFIP, deve ser mantida a penalidade equivalente à soma de: multa de mora limitada a 20% e multa mais benéfica quando comparada a multa do art. 32 com a multa do art. 32A da Lei 8.212/91. Recurso Voluntário Provido em Parte. Decisão: I) Por unanimidade de votos: a) em não conhecer do recurso, na questão da inconstitucionalidade, nos termos do voto da Relatora; b) em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, para, nas competências que a fiscalização aplicou somente a penalidade prevista na redação, vigente até 11/2008, do Art. 35 da Lei 8.212/1999, esta deve ser mantida, mas limitada ao determinado no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente, nos termos do voto do(a) Redator(a); b) em negar provimento ao Recurso nas demais alegações da Recorrente, nos termos do voto do(a) Relator(a); II) Por maioria de votos: a) em negar provimento ao recurso, na questão da comercialização da produção rural, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Damião Cordeiro de Moraes e Adriano Gonzáles Silvério, que votaram em dar provimento nesta questão; b) em dar provimento parcial ao recurso, para retificar a multa, nos termos do voto do Redator. Vencidos os Conselheiros Bernadete de Oliveira Barros e Marcelo Oliveira, que votaram em manter a multa aplicada; c) em dar provimento parcial ao recurso para, até 11/2008, nas competências que a fiscalização aplicou a penalidade de 75% (setenta e cinco pro cento), prevista no art. 44, da Lei 9.430/96, por concluir se tratar da multa mais benéfica quando comparada aplicação conjunta da multa de mora e da multa por infrações Fl. 495DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 496 4 relacionadas à GFIP deve ser mantida a penalidade equivalente à soma de: *) multa de mora limitada a 20%; e *) multa mais benéfica quando comparada a multa do art. 32 com a multa do art. 32A da Lei 8.212/91, nos termos do voto do Redator. Vencidos os Conselheiros Damião Cordeiro de Moraes, Wilson Antonio de Souza Correa e Adriano Gonzáles Silvério, que votaram em dar provimento parcial ao Recurso, para que seja aplicada a multa prevista no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, se mais benéfica à Recorrente; d) em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, para aplicar ao cálculo da multa pelo descumprimento de obrigação acessória o art. 32A, da Lei 8.212/91, caso este seja mais benéfico à Recorrente, nos termos do voto do(a) Relator(a). Vencidos os Conselheiros Bernadete de Oliveira Barros e Marcelo Oliveira, que votaram em dar provimento parcial ao Recurso, no mérito, para determinar que a multa seja recalculada, nos termos do I, art. 44, da Lei n.º 9.430/1996, como determina o Art. 35A da Lei 8.212/1991, deduzindose as multas aplicadas nos lançamentos correlatos, e que se utilize esse valor, caso seja mais benéfico à Recorrente. Enviados os autos à Fazenda Nacional para fins de ciência do Acórdão em 11/12/2013 (efl. 416), sua Procuradoria apresentou, em 13/01/2014 (efl. 429), Recurso Especial, com fulcro no art. 67 do Anexo II ao Regimento Interno deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, aprovado pela Portaria MF no. 256, de 22 de julho de 2009 (efls. 417 a 428). Alegase, no pleito, quanto à matéria de retroatividade benéfica da multa, divergência em relação ao decidido pela 1a. Turma Ordinária da 4a. Câmara da 2a. Seção deste CARF, em 17/05/12, no âmbito do Acórdão no. 240102.453 e, ainda, em relação ao decidido, por esta 2a. Turma da CSRF, em 09/03/10, no âmbito do Acórdão no. 920202.086, de ementas e decisões a seguir transcritas. Acórdão 240102.453 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/07/2005 a 31/12/2006 MPF. PRORROGAÇÃO. NECESSIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DA AUTORIDADE FISCAL. INEXISTÊNCIA. Havendo prorrogação de MPF dentro do prazo de sua validade, não há o que se falar em substituição da autoridade fiscal. PREVIDENCIÁRIO. ALIMENTAÇÃO. NÃO INCIDÊNCIA DE CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS INDEPENDENTEMENTE DE INSCRIÇÃO NO PAT. APLICAÇÃO EXCLUSIVAMENTE PARA AS PRESTAÇÕES IN NATURA. Independentemente de inscrição no PAT, não incidem contribuições sociais, desde que a empresa faça a prestação in natura. Fl. 496DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 497 5 APURAÇÃO COM ESTEIO EM FOLHAS DE PAGAMENTO E RECIBOS. PRESUNÇÃO DA OCORRÊNCIA DOS FATOS GERADORES. INOCORRÊNCIA. Não há o que se falar em presunção dos fatos geradores das contribuições lançadas quando a apuração fiscal se deu com base na documentação exibida pelo sujeito, principalmente em folhas e recibos de pagamento. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. APLICAÇÃO DA MULTA PREVISTA NO ART. 44, I, DA LEI n.º 9.430/1996. Nos lançamentos de ofício de contribuições sociais, aplicase a multa prevista no art. 44, I, da Lei n.º 9.430/1996, não se cogitando da aplicação da multa moratória prevista no art. 61 da mesma Lei. MULTA CARÁTER CONFISCATÓRIO. IMPOSSIBILIDADE DE DECLARAÇÃO PELA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. Não pode a autoridade fiscal ou mesmo os órgãos de julgamento administrativo afastar a aplicação da multa legalmente prevista, sob a justificativa de que tem caráter confiscatório. JUROS SELIC. INCIDÊNCIA SOBRE OS DÉBITOS TRIBUTÁRIOS ADMINISTRADOS PELA RFB. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especialde Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Recurso Voluntário Negado Decisão: por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. Ausente momentaneamente o conselheiro Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira Acórdão 920202.086 ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Data do fato gerador: 01/04/2001 a 30/0/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. PENALIDADE DECORRENTE DO DESCUMPRIMENTO DE OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. DECADÊNCIA. O prazo decadencial aplicável à exigência de multa decorrente de omissão de informações em GFIP é aquele previsto no artigo 173, inciso I, do CTN, ou seja, tem inicio no primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. PENALIDADE. GFIP. OMISSÕES.INCORREÇÕES. RETROATIVIDADE BENIGNA. Fl. 497DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 498 6 A multa prevista no art. 44, inciso I da Lei 9.430, de 1997, decorrente do lançamento de ofício é única, no importe de 75% (se não duplicada), e visa apenar, de forma conjunta, tanto o não pagamento (parcial ou total) do tributo devido, quanto a não apresentação da declaração ou a declaração inexata, sem haver como mensurar o que foi aplicado para punir uma ou outra infração.No presente caso, em que houve a aplicação da multa prevista no revogado art. 32, § 5º, que se refere à apresentação de declaração inexata, e também da sanção pecuniária pelo não pagamento do tributo devido no prazo de lei,estabelecida no igualmente revogado art. 35, II, o cotejo das duas multas, em conjunto, deverá ser feito em relação à penalidade pecuniária do art. 44,inciso I, da Lei 9.430, de 1997, que se destina a punir ambas as infrações já referidas, e que agora encontra aplicação no contexto da arrecadação das contribuições previdenciárias.Recalcular o valor da multa, se mais benéfico ao contribuinte, de acordo como disciplinado no art. 44, I da Lei no 9.430, de 1996, deduzidos os valores levantados a título de multa nas NFLDs correlatas. Recurso especial negado. Decisão: por maioria de votos, em negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Gustavo Lian Haddad (Relator), Gonçalo Bonet Allage, Manoel Coelho Arruda Junior e Rycardo Henrique Magalhães de Oliveira. Designado para redigir o voto vencedor o Conselheiro Elias Sampaio Freire. Após defender a existência de divergência interpretativa, caracterizada pela similitude de situações fáticas e soluções diametralmente opostas, em linhas gerais, argumenta a Fazenda Nacional em sua demanda que: a) Antes das inovações da MP 449/2008, atualmente convertida na Lei 11.941/2009, o lançamento do principal era realizado separadamente, em NFLD, incidindo a multa de mora prevista no artigo 35, II da Lei 8.212/91, além da lavratura do auto de infração, com base no artigo 32 da Lei 8.212/91 (multa isolada). Com o advento da MP 449/2008, instituiuse uma nova sistemática de constituição dos créditos tributários, o que torna essencial a análise de pelo menos dois dispositivos: artigo 32A e artigo 35A, ambos da Lei 8.212/91; b) O art. 32A citado trata de preceito normativo destinado unicamente a penalizar o contribuinte que deixa de informar em GFIP dados relacionado a fatos geradores de contribuições previdenciárias, nos termos do art. 32, inciso IV, da Lei 8.212/91. O atual regramento não criou maiores inovações aos preceitos do antigo art. 32 da Lei 8.212/91, exceto no que tange ao percentual máximo da multa que, agora, passou a ser de 20% (vinte por cento). Assim, a infração antes penalizada por meio do art. 32, passou a ser enquadrada no art. 32A, com a multa reduzida. c) Contudo, a MP 449/2008 também inseriu no ordenamento jurídico o art. 35A, que corrobora a tese suscitada no acórdão paradigma e ora defendida, no sentido de que a o art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96 abarca duas condutas: o descumprimento da obrigação principal (totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento) e também o descumprimento da obrigação acessória (falta de declaração ou declaração inexata). Por certo, devese privilegiar a interpretação no sentido de que a lei não Fl. 498DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 499 7 utiliza palavras ou expressões inúteis e, em consonância com essa sistemática, temse que, a única forma de harmonizar a aplicação dos artigos citados é considerar que o lançamento da multa isolada prevista no artigo 32A da Lei 8.212/91 ocorrerá quando houver tão somente o descumprimento da obrigação acessória, ou seja, as contribuições destinadas a Seguridade Social foram devidamente recolhidas. Por outro lado, toda vez que houver o lançamento da obrigação principal, além do descumprimento da obrigação acessória, a multa lançada será única, qual seja, a prevista no artigo 35A da Lei 8.212/91; d) Houve lançamento de contribuições sociais em decorrência da atividade de fiscalização que deu origem ao presente feito. Logo, de acordo com a nova sistemática, o dispositivo legal a ser aplicado seria o artigo 35A da Lei 8.212/91, com a multa prevista no lançamento de ofício (artigo 44 da Lei 9.430/96). Nessa linha de raciocínio, a NFLD e o Auto de Infração devem ser mantidos, com a ressalva de que, no momento da execução do julgado, a autoridade fiscal deverá apreciar a norma mais benéfica: se as duas multas anteriores (art. 35, II, e 32, IV, da norma revogada) ou o art. 35A da MP no. 449; e) Cita, ainda, a necessidade de observância da IN RFB no. 1027, de 2010, e, uma vez que a autoridade fiscal efetuou o lançamento nos exatos termos determinados pela referida Instrução Normativa, que goza de presunção de validade, deve ser mantida a multa na forma constante no auto de infração de obrigação principal. Requer, assim, quanto à matéria, que seja conhecido e dado total provimento ao presente recurso, com a consequente reforma acórdão recorrido a fim de que prevaleça a forma de cálculo utilizada pela autoridade fiscal para aferição da multa mais benéfica ao contribuinte, em conformidade com o que dispõe a Instrução Normativa nº 1.027/2010. O recurso foi admitido pelo despacho de efls. 432 a 437. Cientificada a autuada em 30/03/16 (efl. 440), esta apresenta, em 08/04/16 (efl. 442), Recurso Especial de sua iniciativa de efls. 443 a 454 e anexos, onde alega divergência do Recorrido em relação ao decidido pela 1a. Turma Ordinária da 4a. Câmara da 2a. Seção deste CARF, através do Acórdão 2401001.969, prolatado em 21 de janeiro de 2014, de ementa e decisão a seguir transcritas: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/09/2003 a 30/11/2006 SUBROGAÇÃO NA PESSOA DO ADQUIRENTE DAS CONTRIBUIÇÕES INCIDENTES SOBRE A COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO RURAL POR PESSOAS FÍSICAS E SEGURADOS ESPECIAIS. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE PELO STF. IMPROCEDÊNCIA Declarada pelo Supremo Tribunal Federal, em decisão plenária (RE n.363.852/MG), a inconstitucionalidade do art. 1.º da Lei n. 8.540/1992 e as atualizações posteriores até a Lei n. 9.528/1997, as quais, dentre outras,deram redação ao art. 30, IV, da Lei n. 8.212/1991, são improcedentes as contribuições previdenciárias exigidas dos adquirentes da produção rural da pessoa física e do segurado especial na condição de subrogado. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Fl. 499DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 500 8 Período de apuração: 01/09/2003 a 30/11/2006 ERROS MATERIAIS NA LAVRATURA DE TERMO DE INÍCIO DE AÇÃO FISCAL. INEXISTÊNCIA DE PREJUÍZO AO ADMINISTRADO OU LESÃO AO INTERESSE PÚBLICO. NULIDADE. INOCORRÊNCIA.Não há de se declarar a nulidade de procedimento fiscal em razão de erros materiais que não provoquem prejuízo ao contribuinte ou lesão ao interessepúblico. MPF. PRORROGAÇÃO. COMANDO NO SISTEMA INFORMATIZADO. DISPONIBILIZAÇÃO PELA INTERNET. Com a edição do Decreto n. 6.104/2007 e da Portaria RFB n. 4.066/2007abriusea possibilidade da Administração Tributária efetuar a prorrogação doMPF mediante simples comando no sistema informatizado, podendo ocontribuinte visualizar a prorrogação mediante consulta na internet. Recurso Voluntário Provido Decisão: por unanimidade de votos: I) rejeitar as preliminares suscitadas; e II) no mérito, dar provimento ao recurso. Em linhas gerais, argumenta a contribuinte em sua demanda, quanto à matéria: a) No Acórdão recorrido, o voto condutor firmou entendimento no sentido de que a inconstitucionalidade alcançada pela recorrente, sobretudo, aquela contida no STFRE 363.856, estancouse pelo advento da Lei no. 10.256, de 2001, que teve por objetivo restabelecer a legalidade da exigência em questão. Entretanto, contrariamente e de maneira antagônica, a colenda 1a. Turma da 4a. Câmara da 2a. Seção deste Conselho, através do Acórdão no. 240101.969, reconheceu a ilegalidade, porquanto, a inexigibilidade sobre as Contribuições Previdenciárías em questão, fundamentando, sobretudo, que, a Lei no. 10.256, de 2001, não teve a virtude de restabelecer a legalidade da exação, de modo que o julgamento proferido pelo S.T.F. (no RE 363.852MG) deixou claro que tais Contribuições devem estar amparadas por Lei Complementar, consoante exige o art 195, § 4°. da CF/88. Entende ter ensinado a Suprema Corte que, todas as demais tentativas de ressuscitar a exigência através de Leis Ordinárias, são natimortas na sua essência, as quais contém vício formal antecedente; b) Não se pode perder de vista, ademais, a ilegalidade que macula a exigência em apreço, não só porque a recorrente tem julgado a seu favor Mandado de Segurança anteriormente impetrado, mas porque a Lei no. 10.256, de 2001, é inservível para legitimar a cobrança, uma vez que: b.1) As contribuições previdenciárias obrigam a todo e qualquer seguimento da sociedade que, de uma ou outra forma, estão obrigados a contribuírem para a seguridade social, todavia de forma diferenciada e descriminada atendendo as necessidades e capacidade contributiva de cada setor da sociedade, afastando o confisco e a bitributação. b.2) Entende que a no. 10.256, de 2001, alterou substancialmente o conteúdo das hipóteses de incidência contributiva atreladas aos produtores rurais, pessoas físicas, passando a exigir de forma sobreposta e indiscriminada as contribuições previdenciárias sobre Fl. 500DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 501 9 o resultado da comercialização dos produtos agrícolas em substituição ao regime geral de recolhimento, tomando letra morta as disposições especiais demandadas pelo art. 195, § 8°. da CF/88. Não se pode exigir contribuição previdenciária sobre as aquisições feitas pela impugnante junto aos seus fornecedores, produtores rurais pessoas físicas, tomando como base de cálculo o resultado ou receita bruta proveniente da comercialização da produção agrícola, quando estes exercem atividade empregadora, haja vista trataremse de contribuintes cuja hipótese de incidência tributária subvencionase à folha de salários, (art. 25, §2°. Lei 8.212/91, redacionado pela Lei no. 8.540, de 1992). A hipótese de incidência ensartada no art. 25, através da alteração procedida pela Lei no. 10.256, de 2001, é reservada especialmente àqueles que exerçam atividade sob regime de economia familiar, sem empregados, onde a exigência indiscriminada à todos os produtores rurais pessoas físicas, empregadores ou não, deixa a exceção Constitucional posta no art 195, § 8°. CF/88 estéril e natimorta na sua essência; b.3) Entende que é vedado ao legislador infraconstitucional igualar a sujeição passiva para a contribuição previdenciária, alcançando os produtores rurais empregadores, sem distinguir aquele que exerce a respectiva atividade sob regime de economia familiar, como excepcionalmente, definida pela Constituição Federal. Se o legislador Constituinte distinguiu e especificou o campo de atuação do fato gerador, não pode o Ordinário, ao bel prazer, estender e modificálo substituindo a hipótese de incidência indiscriminadamente, à todos os produtores rurais, empregadores ou não, querendo aquilo que não se quis. Com efeito, a obrigação tributária descrita no art. 25 da Lei no. 8.212, de 1991, só pode produzir eficácia quando ocorrer um enlace entre os elementos arbitrados pelo Constituinte, exigindo a figura do produtor rural exercente da atividade em regime de economia familiar com a comercialização da produção rural obtida sem a utilização de empregados. Qualquer exigência indiscriminada, ou sobreposta entre ambos produtores rurais pessoas físicas, (empregadores e nãoempregadores), seria inconstitucional e ilegal; b.4) Entende que que a exigência lapidada pela Lei no. 10.256, de 2001, acarreta um "bis in idem" ou bitributação, haja vista o produto arrecadado sobre o resultado da comercialização é sobreposto com o recolhimento relativo ao saláríodecontribuição, possuindo ambas idêntica destinação. Assim, a Lei no. 10.256, de 2001, ao alterar as disposições do art. 25 da Lei no. 8.212, de 1991, além da investir na bitributaçâo, tratou contribuintes desiguais de forma igualitária, criando fonte de custeio dissociada daquelas autorizadas pela Constituição Federal, haja vista ter contemplado como base imponível o resultado da produção rural dos empregadores produtores rurais em geral, sendo que esta é reservada apenas para aqueles que exerçam atividade sob regime de economia familiar, sem empregados. Porquanto, a exigência sob análise, ao dissociar a base de cálculo do núcleo do fato gerador, estabeleceu hipótese já prevista, traduzindo em nova exação, sob afronta do art. 195, § 4°. da CF/88, o qual não respalda sobrepor fonte de custeio ou expansão da Seguridade Social anteriormente tributada, especialmente, sem reverenciar o contido no art. 154, I da CF/88; b.5) Entende que à Lei no. 10.256, de 2001, ordinária, competia apenas implementar as contribuições cujos fatos geradores foram claramente definidos pelo legislador Constituinte, nada mais. Ao exercer materialmente função elástica, instituindo e criando nova forma de exação, modificando a base imponivel, cuja matéria é reservada à Lei Complementar, despese de validade e eficácia, não podendo produzir efeitos indiscriminados contra o contribuinte, produtor rural pessoa física empregador. Fl. 501DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 502 10 b.6) De todo exposto, entende deveras ilegal sujeitar a recorrente obrigandoa ao recolhimento das guisadas Contribuições, havendo ser subtraída da subrogacão lhe endereçada pelo art. 30, IV da Lei 8.212/91, diante da imperdoável inconstitucionalidade, "incidenter tantum", que assola as alterações procedidas na estrutura material do art. 25 da Lei 8.212/91 através da Lei 10.256/2001 que extrapassou as fronteiras da hipótese de incidência, indo à caça de propriedades estranhas à contextura descrita na Constituição Federal. Requer assim a recorrente: 1) que seja o presente Recurso Especial conhecido, diante da demonstração da divergência de interpretação legislativa tributária sobre o caso concreto; 2) que lhe seja dado integral provimento, para reformar o recorrido, reconhecendo a ilegalidade da exação previdenciária incidente sobre a receita bruta proveniente da comercialização da sua produção, mediante subrogação, bem assim, decretar a nulidade do lançamento. O recurso foi regularmente admitido, consoante despachos de efls. 478 a 483. Encaminhados os autos à PGFN para fins de ciência, ocorrida em 17/10/16 (efl. 484), esta apresentou, em 31/10/16 (efl. 492), contrarrazões de efls. 485 a 491, onde, em breve síntese, alega: a) O Acórdão do RE nº 596.177/RS veio apenas a reforçar em sede de repercussão geral o já decidido nos autos do RE nº 363.852/MG e a forma aplicada pelo recorrido ao caso em questão, uma vez que no âmbito do referido RE nº 596.177/RS houve oposição de Embargos de Declaração pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional, os quais, notese, foram providos para explicitar que a decisão nos autos do RE nº 596.177/RS não abrange a discussão da constitucionalidade da redação do art. 25 da Lei nº 8.212/91 com a redação dada pela Lei nº 10.256, de 2001, inclusive posteriormente à Emenda Constitucional nº 20/1998; b) No caso do RE nº 363.852/MG se ressalvou expressamente a superveniência de lei em conformidade com a EC 20, de 1998, que vem a ser exatamente a Lei nº 10.256, de 2001, sendo que a questão atinente à constitucionalidade da Lei nº 10.256, de 2001 tanto não foi apreciada que foi reconhecida como matéria de Repercussão Geral no RE nº 718.874/RS, que permanecia ainda pendente de julgamento; c) Assim sendo, não cabe o pronunciamento da inconstitucionalidade da Lei nº 10.256, de 2001, por força do enunciado nº 2 da Súmula do CARF e , destarte, atualmente, a contribuição previdenciária do empregador rural pessoa física é recolhida com base na redação do art. 25 da Lei nº 8.212 conferida pela Lei nº 10.256, de 2001 – cuja constitucionalidade não foi apreciada pelo STF. Isso porque, nos termos do RE nº 363.852/MG, a superveniência de lei ordinária, posterior à EC nº 20 de 1998, seria suficiente para afastar a pecha de inconstitucionalidade da contribuição previdenciária do empregador rural pessoa física. Com a edição da Lei nº 10.256, no ano de 2001, sanouse o referido vício. Cita jurisprudência oriunda do TRF da 4a. Região, onde se declarou a constitucionalidade da cobrança da contribuição rural em tela, após 2001, ressaltando que a subrogação em si mesma considerada não foi declarada inconstitucional: O referido dispositivo continua tendo utilidade prática em relação aos tributos recolhidos pelos segurados especiais e dos empregadores rurais depois da edição da Lei nº 10.256, de 2001, que adequou a técnica de tributação à nova redação constitucional. Fl. 502DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 503 11 Requer, assim, que seja negado provimento ao Recurso Especial do Contribuinte no ponto impugnado. É o relatório. Voto Conselheiro Heitor de Souza Lima Junior, Relator Inicio a análise pelo Recurso Especial do Contribuinte, pelo fato de seu pleito. por conter alegação quanto à insubsistência da obrigação principal, se constituir em prejudicial à análise do pleito fazendário, que se limita a discutir a multa eventualmente aplicável sobre tal obrigação principal (multa inexistente caso não subsista esta última obrigação). 1. RECURSO ESPECIAL DO CONTRIBUINTE Pelo que consta no processo quanto a sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende a estes requisitos de admissibilidade. Todavia, discordo do exame de admissibilidade de efls. 478 a 483, quanto à caracterização de divergência interpretativa. Explico. Notório que no presente caso se está diante de caso onde existe, por parte da recorrente, a impetração de Mandado de Segurança (vide petição inicial de efls. 185 a 210, em especial pedido de efl. 209), onde se nota (e a própria autuada admite existir, consoante impugnação à efl. 146 e Recurso Voluntário à efl. 368) plena identidade entre a matéria objeto do Recurso Voluntário, apreciada pelo Colegiado a quo e aquela objeto daquela ação judicial, o que, ainda, também já havia sido referendado pela autoridade julgadora de 1a. instância (efl. 355), verbis: "(...) Quanto ao mérito propriamente dito, isto é, quanto à validade material da exigência das contribuições sociais objeto de lançamento, considerando a plena identidade entre os fatos geradores objeto de lançamento e a discussão judicial travada pelo contribuinte junto à União Federal, de rigor entenderse que tal matéria não pode ser apreciada por este Colegiado. Segundo o artigo 38, parágrafo único, da Lei nº 6.830/1980, a propositura pelo contribuinte de mandado de segurança, ação anulatória ou declaratória de nulidade de crédito da Fazenda Nacional importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. (...) A partir de tal fato (existência de ação judicial com identidade de objeto em relação ao feito administrativo), verificase a necessidade de não conhecimento da matéria que se constitui no mérito do Recurso Especial aqui analisado (inconstitucionalidade da exação em Fl. 503DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 504 12 análise) que, em meu entendimento, se constituía, também, em objeto de seu pedido deduzido em sede de Recurso Voluntário, mais especificamente no item 14 de efl. 371 e repisado, agora, em sede de Recurso Especial, no item 21 de efl. 454. Já no Acórdão paradigma, por sua vez, não há qualquer indício de existência de ação judicial de iniciativa do contribuinte, por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto daquele processo administrativo (ainda que se trate, ali, também, do instituto da subrogação), daí a plena cognição ali exercida pelo Colegiado paradigmático quanto à aplicabilidade dos efeitos das decisões do STF em sede de inconstitucionalidade à matéria mencionada. Todavia, noto que, transmudada àquele Colegiado a presente situação fática sob análise, onde há a existência de Mandado de Segurança com idêntico objeto do feito administrativo em tela (no que tange à obrigação principal), não há como se afirmar como o Colegiado paradigmático se posicionaria. Cogitável, por exemplo, in casu, a aplicação da Súmula CARF no. 01, sendo esta, porém, totalmente estranha ao feito paradigma, dado ali inexistir medida judicial de iniciativa do autuado. Destarte, considerada a existência de dissimilitude fática essencial (existência, no presente caso, de medida judicial com identidade de objeto com o feito administrativo), tornase impossível a caracterização de divergência interpretativa. Subsidiariamente, como razão de decidir adicional para fins de não conhecimento, entendo que, quanto à matéria objeto do pleito do Contribuinte (que se resume à ilegalidade da exação por força de sua inconstitucionalidade), é, a partir da existência do MS de petição inicial de efls. 185 a 210, plenamente aplicável a referida Súmula CARF no. 01, que estabelece: Súmula CARF nº 1: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. Destarte, pelos fundamentos acima expostos, voto por não conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. 2. RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL Pelo que consta no processo quanto a sua tempestividade, às devidas apresentação de paradigmas e indicação de divergência, o recurso atende aos requisitos de admissibilidade. Ainda, da análise do Mandado de Segurança de efls. 185 a 210, entendo não estar a matéria da sistemática da multa aplicável após o advento da MP no. 449, de 2008, abrangida em nenhum momento, no referido mandamus. Assim, rejeito a existência de concomitância quanto à matéria, conheço do recurso da Fazenda Nacional e passo à análise de mérito. Fl. 504DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 505 13 Sob análise, a Lei no. 8.212, de 1991, cujos dispositivos de interesse aplicáveis à análise do recurso, são abaixo reproduzidos, abrangendose as redações anterior e posterior à edição da Medida Provisória no. 449, de 2008: Lei 8.212, de 1991 (Antes da edição da MP 449/08) Lei 8.212, de 1991 (Após a edição da MP 449/08) Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) IV informar mensalmente ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, por intermédio de documento a ser definido em regulamento, dados relacionados aos fatos geradores de contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS. (Inciso acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). (...) § 1º O Poder Executivo poderá estabelecer critérios diferenciados de periodicidade, de formalização ou de dispensa de apresentação do documento a que se refere o inciso IV, para segmentos de empresas ou situações específicas. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 2º As informações constantes do documento de que trata o inciso IV, servirão como base de cálculo das contribuições devidas ao Instituto Nacional do Seguro SocialINSS, bem como comporão a base de dados para fins de cálculo e concessão dos benefícios previdenciários. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 3º O regulamento disporá sobre local, data e forma de entrega do documento previsto no inciso IV. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 4º A não apresentação do documento previsto no inciso IV, independentemente do recolhimento da contribuição, sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente a multa variável equivalente a um multiplicador sobre o valor mínimo previsto no art. 92, em Art. 32. A empresa é também obrigada a: (...) IV declarar à Secretaria da Receita Federal do Brasil e ao Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS, na forma, prazo e condições estabelecidos por esses órgãos, dados relacionados a fatos geradores, base de cálculo e valores devidos da contribuição previdenciária e outras informações de interesse do INSS ou do Conselho Curador do FGTS; (Redação dada pela MP nº 449, de 2008). (...) § 1o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 2o A declaração de que trata o inciso IV constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do crédito tributário, e suas informações comporão a base de dados para fins de cálculo e concessão dos benefícios previdenciários. (Redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 3o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). §4o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). §5o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). §6o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). §7o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). §8o (Revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 9o A empresa deverá apresentar o documento a que se refere o inciso IV ainda que não ocorram fatos geradores de contribuição previdenciária, aplicando se, quando couber, a penalidade prevista no art. 32A. Fl. 505DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 506 14 função do número de segurados, conforme quadro abaixo: (Parágrafo e tabela acrescentados pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). 0 a 5 segurados 1/2 valor mínimo 6 a 15 segurados 1 x o valor mínimo 16 a 50 segurados 2 x o valor mínimo 51 a 100 segurados 5 x o valor mínimo 101 a 500 segurados 10 x o valor mínimo 501 a 1000 segurados 20 x o valor mínimo 1001 a 5000 segurados 35 x o valor mínimo acima de 5000 segurados 50 x o valor mínimo § 5º A apresentação do documento com dados não correspondentes aos fatos geradores sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente à multa de cem por cento do valor devido relativo à contribuição não declarada, limitada aos valores previstos no parágrafo anterior. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 6º A apresentação do documento com erro de preenchimento nos dados não relacionados aos fatos geradores sujeitará o infrator à pena administrativa de cinco por cento do valor mínimo previsto no art. 92, por campo com informações inexatas, incompletas ou omissas, limitadas aos valores previstos no § 4º. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 7º A multa de que trata o § 4º sofrerá acréscimo de cinco por cento por mês calendário ou fração, a partir do mês seguinte àquele em que o documento deveria ter sido entregue. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 8º O valor mínimo a que se refere o § 4º será o vigente na data da lavratura do auto de infração. (Parágrafo (Redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008) § 10. O descumprimento do disposto no inciso IV impede a expedição da certidão de prova de regularidade fiscal perante a Fazenda Nacional. (Redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008) § 11. Em relação aos créditos tributários, os documentos comprobatórios do cumprimento das obrigações de que trata este artigo devem ficar arquivados na empresa até que ocorra a prescrição relativa aos créditos decorrentes das operações a que se refiram. (Redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do art. 32 no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). I de dois por cento ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a vinte por cento, observado o disposto no § 3o; e (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). II de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de dez informações incorretas ou omitidas. (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso I do caput, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 2o Observado o disposto no § 3o, as multas serão reduzidas: (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008.: I à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou: (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). II a setenta e cinco por cento, se houver apresentação da declaração no prazo fixado em Fl. 506DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 507 15 acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 9º A empresa deverá apresentar o documento a que se refere o inciso IV, mesmo quando não ocorrerem fatos geradores de contribuição previdenciária, sob pena da multa prevista no § 4º. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 10. O descumprimento do disposto no inciso IV é condição impeditiva para expedição da prova de inexistência de débito para com o Instituto Nacional do Seguro SocialINSS. (Parágrafo acrescentado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). § 11. Os documentos comprobatórios do cumprimento das obrigações de que trata este artigo devem ficar arquivados na empresa durante dez anos, à disposição da fiscalização. (Parágrafo renumerado pela Lei nº 9.528, de 10.12.97). (...) Art. 35. Sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa de mora, que não poderá ser relevada, nos seguintes termos: (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). I para pagamento, após o vencimento de obrigação não incluída em notificação fiscal de lançamento: a) oito por cento, dentro do mês de vencimento da obrigação; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). b) quatorze por cento, no mês seguinte; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). c) vinte por cento, a partir do segundo mês seguinte ao do vencimento da obrigação; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). II para pagamento de créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento: intimação. (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). I R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). II R$ 500,00 ( quinhentos reais), nos demais casos. (incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). (...) Art. 35. Os débitos com a União decorrentes das contribuições sociais previstas nas alíneas “a”, “b” e “c” do parágrafo único do art. 11, das contribuições instituídas a título de substituição e das contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, não pagos nos prazos previstos em legislação, serão acrescidos de multa de mora e juros de mora, nos termos do art. 61 da Lei no 9.430, de 1996. (Redação dada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). I – (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). a) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). b) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). c) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). II – (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). a) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). b) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). c) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). d) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). III – (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). a) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). b) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). c) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). d) (revogada pela Medida Provisória nº 449, de 2008). Fl. 507DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 508 16 a) vinte e quatro por cento, em até quinze dias do recebimento da notificação; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). b) trinta por cento, após o décimo quinto dia do recebimento da notificação; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). c) quarenta por cento, após apresentação de recurso desde que antecedido de defesa, sendo ambos tempestivos, até quinze dias da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). d) cinqüenta por cento, após o décimo quinto dia da ciência da decisão do Conselho de Recursos da Previdência Social CRPS, enquanto não inscrito em Dívida Ativa; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). III para pagamento do crédito inscrito em Dívida Ativa: a) sessenta por cento, quando não tenha sido objeto de parcelamento; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). b) setenta por cento, se houve parcelamento; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). c) oitenta por cento, após o ajuizamento da execução fiscal, mesmo que o devedor ainda não tenha sido citado, se o crédito não foi objeto de parcelamento; (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). d) cem por cento, após o ajuizamento da execução fiscal, mesmo que o devedor ainda não tenha sido citado, se o crédito foi objeto de parcelamento. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). § 1º Na hipótese de parcelamento ou reparcelamento, incidirá um acréscimo de vinte por cento sobre a multa de mora a que se refere o caput e seus incisos. § 1o (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 2o (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). § 3o (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008) § 4o (revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008). Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35, aplicase o disposto no art. 44 da Lei nº 9.430, de 1996. (Incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008). Fl. 508DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 509 17 § 2º Se houver pagamento antecipado à vista, no todo ou em parte, do saldo devedor, o acréscimo previsto no parágrafo anterior não incidirá sobre a multa correspondente à parte do pagamento que se efetuar. § 3º O valor do pagamento parcial, antecipado, do saldo devedor de parcelamento ou do reparcelamento somente poderá ser utilizado para quitação de parcelas na ordem inversa do vencimento, sem prejuízo da que for devida no mês de competência em curso e sobre a qual incidirá sempre o acréscimo a que se refere o § 1º deste artigo. § 4o Na hipótese de as contribuições terem sido declaradas no documento a que se refere o inciso IV do art. 32, ou quando se tratar de empregador doméstico ou de empresa ou segurado dispensados de apresentar o citado documento, a multa de mora a que se refere o caput e seus incisos será reduzida em cinqüenta por cento. (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). Notese permanecer em litígio, no caso sob análise, somente o recálculo mais benéfico de multa perpretado pela autoridade julgadora recorrida, que optou por: a) nas competências que a fiscalização aplicou somente a penalidade prevista na redação, vigente até 11/2008, do Art. 35 da Lei 8.212/1999, mantêla, mas limitada ao determinado no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996; b) até 11/2008, nas competências que a fiscalização aplicou a penalidade de 75% (setenta e cinco pro cento), prevista no art. 44, da Lei 9.430/96, manter a penalidade equivalente à soma de: *) multa de mora limitada a 20%; e *) multa mais benéfica quando comparada a multa do art. 32 com a multa do art. 32A da Lei 8.212/91 e c) para aplicar ao cálculo da multa pelo descumprimento de obrigação acessória o art. 32A, da Lei 8.212/91, caso este seja mais benéfico à Recorrente. Com a devida vênia ao entendimento esposado no recorrido, entendo, a propósito, que, em verdade, o referido art. 35, da Lei no. 8.212, de 1991, regrava, anteriormente à sua alteração promovida pela MP no. 449, de 2008, duas multas de natureza diferenciada, a saber: a) em seu inciso I, o dispositivo regulamentava a aplicação de multa de natureza moratória, decorrente do recolhimento espontâneo efetuado pelo contribuinte a destempo, sem qualquer procedimento de ofício da autoridade tributária e mantida aqui a espontaneidade do contribuinte; b) em seu inciso II, o referido art. 35 estabelecia a aplicação de multa para o caso Fl. 509DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 510 18 de lavratura de Notificação de Lançamento pela autoridade fiscalizadora, neste caso se tratando, aqui, de multa de ofício. Ainda, de se notar a possibilidade de aplicação, já anteriormente à edição da MP no. 449, de outras espécies de multa (também de ofício), quando da constatação, também em sede de ação fiscal, de descumprimento das obrigações acessórias, na forma preconizada pelos §§4o. e 5o. do art. 32 da Lei no. 8.212, de 1991, convertendose, nesta hipótese, a obrigação acessória em principal. Cediço em meu entendimento que, o que se passou a ter agora, a partir do advento da MP no. 449, de 2008, foi a existência de um dispositivo único a regrar a aplicação das multas aplicáveis em sede de ação fiscal, abrangendo a constatação, através de procedimento de ofício, tanto de falta de pagamento como a de falta de declaração (ou de declaração a menor) em GFIP de fatos geradores ocorridos/contribuições devidas, a saber, o art. 35A daquela mesma Lei no. 8.212, de 1991, acrescentado pela referida MP. Este também é o entendimento majoritário esposado por esta Câmara Superior, conforme excertos dos seguintes votos constantes dos Acórdãos CSRF 9.202 003.070 e 9.202003.386, os quais se adotam, aqui, como razões de decidir. Acórdão 9.202003.070 – Voto do Conselheiro Marcelo Oliveira “ (...) Portanto, pela determinação do CTN, acima, a administração pública deve verificar. nos lançamentos não definitivamente julgados, se a penalidade determinada na nova legislação é menos severa que a prevista na lei vigente no momento do lançamento. Só não posso concordar com a análise feita, que leva à comparação de penalidades distintas: multa de ofício e multa de mora. (...) Ocorre que o acórdão recorrido comparou, para a aplicação do Art. 106 do CTN, penalidade de multa aplicada em lançamento de ofício (grifos no original), com penalidade aplicada quando o sujeito passivo está em mora, sem a existência do lançamento de ofício, e decide, espontaneamente, realizar o pagamento. Para tanto, na defesa dessa tese, há o argumento que a antiga redação utilizava o termo multa de mora (grifos no original). Lei 8.212/1991: Art. 35. Sobre as contribuições sociais em atraso, arrecadadas pelo INSS, incidirá multa de mora (grifos no original), que não poderá ser relevada, nos seguintes termos: (Redação dada pela Lei nº 9.876, de 1999). Fl. 510DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 511 19 I para pagamento, após o vencimento de obrigação não incluída em notificação fiscal de lançamento (grifos no original): (...) II para pagamento de créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento (grifos no original): Esclarecemos aqui que a multa de lançamento de ofício (grifos no original), como decorre do próprio termo, pressupõe a atividade da autoridade administrativa que, diante da constatação de descumprimento da lei, pelo contribuinte, apura a infração e lhe aplica as cominações legais. Em direito tributário, cuidase da obrigação principal e da obrigação acessória, consoante art. 113 do CTN. A obrigação principal é obrigação de dar. De entregar dinheiro ao Estado por ter ocorrido o fato gerador do pagamento de tributo ou de penalidade pecuniária. A obrigação acessória é obrigação de fazer ou obrigação de não fazer. A legislação tributária estabelece para o contribuinte certas obrigações de fazer alguma coisa (escriturar livros, emitir documentos fiscais etc.): são as prestações positivas de que fala o §2º do art. 113 do CTN. Exige também, em certas situações, que o contribuinte se abstenha de produzir determinados atos (causar embaraço à fiscalização, por exemplo): são as prestações negativas, mencionadas neste mesmo dispositivo legal. O descumprimento de obrigação principal gera para o Fisco o direito de constituir o crédito tributário correspondente, mediante lançamento de ofício (grifos no original). É também fato gerador da cominação de penalidade pecuniária, leiase multa, sanção decorrente de tal descumprimento. O descumprimento de obrigação acessória gera para o Fisco o direito de aplicar multa, igualmente por meio de lançamento de ofício (grifos no original). Na locução do §3º do art. 113 do CTN, este descumprimento de obrigação acessória, isto é, de obrigação de fazer ou não fazer, convertea em obrigação principal, ou seja, obrigação de dar. Já a multa de mora não pressupõe a atividade da autoridade administrativa, não tem caráter punitivo e a sua finalidade primordial é desestimular o cumprimento da obrigação fora de prazo. Ela é devida quando o contribuinte estiver recolhendo espontaneamente um débito vencido. Essa multa nunca incide sobre as multas de lançamento de ofício (grifos no original) e nem sobre as multas por atraso na entrega de declarações. Portanto, para a correta aplicação do Art. 106 do CTN, que trata de retroatividade benigna, o Relator deveria ter comparado Fl. 511DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 512 20 a penalidade determinada pelo II, Art. 35 da Lei 8.212/1991 (créditos incluídos em notificação fiscal de lançamento (grifos no original)), antiga redação, com a penalidade determinada atualmente pelo Art. 35A da Lei 8.212/1991 (nos casos de lançamento de ofício (grifos no original)). Conseqüentemente, divirjo do acórdão recorrido, pelas razões expostas. (...)” Acórdão 9.202003.386 – Voto do Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos "(...) Verifico, assim, que, ainda que a antiga redação do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, tenha utilizado apenas a expressão “multa de mora”, independentemente da denominação que tenha se dado à penalidade, não resta dúvida de que estavam ali descritas duas diferentes espécies de multas: a) as multas de mora e b) as multas de ofício. As primeiras eram cobradas com o tributo recolhido espontaneamente. As últimas, cobradas nos lançamentos de ofício e através de notificação fiscal de lançamento de débito, ou, posteriormente, após a fusão entre a SRP e RFB, através de auto de infração (lançamento de obrigação principal) e auto de infração (no caso de obrigação acessória convertida em obrigação principal através de lavratura de AI pelo seu descumprimento), ambas por força de ação fiscal, tal como ocorria com os demais tributos federais. Ainda, quanto às multas de ofício, estas duas situações supra elencadas se encontravam, respectivamente, regradas na forma dos antigos arts. 35, II (multa referente à obrigação principal constituída através de NFLD ou AI) e 32, IV, §4o. ou §5o. (ambos referindose à obrigação acessória convertida em obrigação principal através de lavratura de AI pelo seu descumprimento), ambos da Lei nº 8.212, de 1991, sendo que, com a alteração legislativa propugnada no referido diploma, passaram a estar regradas conjuntamente na forma de seu art. 35A. Assim, entendo que a penalidade a ser aplicada não pode ser aquela mais benéfica a ser obtida pela comparação da antiga “multa de mora” estabelecida pela anterior redação do art. 35, inciso II, da Lei nº 8.212, de 1991, com a do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, agora referida pela nova redação dada ao mesmo art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, pela Lei nº 11.941, de 2009 e que, notese, pressupõe a espontaneidade, inaplicável à situação fática em tela. A propósito, entendo que, para fins de aplicação da retroatividade benéfica, se deva comparar àquela antiga multa regrada na forma da anterior redação do art. 35, inciso II, da Lei nº 8.212, de 1991 (repetindose, indevidamente denominada Fl. 512DF CARF MF Processo nº 10805.722170/201106 Acórdão n.º 9202006.134 CSRFT2 Fl. 513 21 como “multa de mora”, nos casos de lançamento por força de ação fiscal), quando somada à multa aplicada no âmbito dos AIs conexos, lavrados de ofício por descumprimento de obrigação acessória (na forma da anterior redação do art. 32, inciso IV, §4o ou 5o da Lei nº 8.212, de 1991), a multa estabelecida pelo art. 44, da mesma Lei nº 9.430, de 1996, e atualmente aplicável quando dos lançamentos de ofício,consoante disposto no art. 35 A, da Lei nº 8.212, de 1991. Assim, aplicandose o entendimento aqui adotado agora ao caso sob análise, entendo que se deva manter a cobrança das penalidades lançadas no presente auto, bem como aquelas aplicadas no âmbito do auto de obrigação acessória vinculado, limitado o somatório de ambas ao patamar estabelecido pelo art. 44 da Lei no. 9.430, de 1996 (75%), na forma propugnada pela Fazenda Nacional. O percentual de 75% (quando da inexistência de agravamento ou qualificação de multa) é o limite atual para sanções pecuniárias, decorrente de lançamento de ofício, quando de falta de declaração ou de declaração inexata, conforme previsto no art. 44, I da mesma Lei nº 9.430, de 1996, e referenciado no art. 35A, da Lei nº 8.212, de 1991, aplicável aqui a retroatividade da norma, caso benéfica, em plena consonância, inclusive, com a sistemática estabelecida pelo art. 476A da Instrução Normativa RFB no. 971, de 2009, acrescido pela Instrução Normativa RFB no. 1.027, de 22 de abril de 2010, sistemática esta também expressa na Portaria Conjunta PGFN/RFB no. 14, de 2009 e já adotada pela autoridade autuante. Diante do exposto, voto no sentido de dar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional, de forma a que se aplique a retroatividade benéfica em consonância com a sistemática estabelecida pelo art. 476A da Instrução Normativa RFB no. 971, de 2009, acrescido pela Instrução Normativa RFB no. 1.027, de 22 de abril de 2010, sistemática esta também expressa na Portaria Conjunta PGFN/RFB no. 14, de 2009. É como voto. (assinado digitalmente) Heitor de Souza Lima Junior Fl. 513DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10860.904337/2011-82
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007
SISTEMA EQUIVALENTE AO REGISTRO DE ENTRADAS E REGISTRO DE CONTROLE DA PRODUÇÃO E DO ESTOQUE. ARTIGO 388 DO RIPI/2002. LÍNGUA ESTRANGEIRA (INGLESA). AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO PREJUÍZO À PERFEITA APURAÇÃO DO ESTOQUE PERMANENTE.
Pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos.
Não merece prosperar a acusação genérica de que o sistema de controle alternativo utilizado pelo contribuinte não é adequado e hábil ao controle de mercadorias, em razão de adotar língua estrangeira, devendo haver demonstração concreta de dificuldades na fiscalização.
IPI. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA, PRODUTO INTERMEDIÁRIO E EMBALAGENS ISENTOS. ZONA FRANCA DE MANAUS. DIREITO DE CRÉDITO. INEXISTÊNCIA.
A sistemática de apuração não cumulativa do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, ressalvada a previsão em lei, tem como pressuposto a exigência do tributo na etapa imediatamente anterior, para abatimento com o valor devido na operação seguinte, não bastando a mera incidência jurídica, de forma tal que as aquisições isentas de matérias-primas, produtos intermediários e materiais de embalagem, mesmo que oriundas da Zona Franca de Manaus, não garantem crédito de IPI, por ausência de previsão legal específica.
INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN.
A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN.
AUDITORIA DE ESTOQUE. QUEBRAS E PERDAS. PERCENTUAL. ARTIGOS 448 E 449 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO CST Nº 45/77.
No procedimento de auditoria de estoque para verificação da correção no que tange ao pagamento do IPI, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, para fins de comparação com a quantidade de produtos registrados pelo contribuinte como produzidos em seus livros fiscais, utilizando-se, para tanto, de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção.
Caso sejam encontradas diferenças, é possível ao contribuinte justificá-las, com base nas quebras/perdas normalmente existentes tanto em relação a (i) insumos, como (ii) processo produtivo e (iii) estoques de produtos acabados, conforme Parecer Normativo CST nº 45/77.
Numero da decisão: 3401-003.877
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para manter as glosas relativas aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da recorrente e (b) por maioria de votos, para (b1) manter as glosas, no que se refere a créditos decorrentes de aquisições da Zona Franca de Manaus, vencido o relator e os Conselheiros André Henrique Lemos e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco; e (b2) afastar as glosas de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela recorrente, vencidos o Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo, por carência de fundamento da glosa em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designados para redigir votos vencedores os Conselheiros Robson José Bayerl, em relação a aquisições da Zona Franca de Manaus, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, em relação ao valor tributável mínimo.
ROSALDO TREVISAN (PRESIDENTE) - Presidente.
AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA - Relator.
ROBSON JOSÉ BAYERL - Redator designado.
LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco.
Nome do relator: AUGUSTO FIEL JORGE DOLIVEIRA
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ARTIGO 388 DO RIPI/2002. LÍNGUA ESTRANGEIRA (INGLESA). AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DO PREJUÍZO À PERFEITA APURAÇÃO DO ESTOQUE PERMANENTE. Pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos. Não merece prosperar a acusação genérica de que o sistema de controle alternativo utilizado pelo contribuinte não é adequado e hábil ao controle de mercadorias, em razão de adotar língua estrangeira, devendo haver demonstração concreta de dificuldades na fiscalização. IPI. NÃO CUMULATIVIDADE. AQUISIÇÃO DE MATÉRIAPRIMA, PRODUTO INTERMEDIÁRIO E EMBALAGENS ISENTOS. ZONA FRANCA DE MANAUS. DIREITO DE CRÉDITO. INEXISTÊNCIA. A sistemática de apuração não cumulativa do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, ressalvada a previsão em lei, tem como pressuposto a exigência do tributo na etapa imediatamente anterior, para abatimento com o valor devido na operação seguinte, não bastando a mera incidência jurídica, de forma tal que as aquisições isentas de matériasprimas, produtos AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 86 0. 90 43 37 /2 01 1- 82 Fl. 1604DF CARF MF 2 intermediários e materiais de embalagem, mesmo que oriundas da Zona Franca de Manaus, não garantem crédito de IPI, por ausência de previsão legal específica. INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 82/2001. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO ("VTM") DE IPI. ARTIGO 142 DO CTN. A incongruência entre os elementos e a motivação apresentados pela fiscalização, de um lado, e o fundamento legal indicado, de outro, ensejam o reconhecimento de carência de fundamentação e improcedência da autuação, por força no disposto no artigo 142, do CTN. AUDITORIA DE ESTOQUE. QUEBRAS E PERDAS. PERCENTUAL. ARTIGOS 448 E 449 DO RIPI/2002. PARECER NORMATIVO CST Nº 45/77. No procedimento de auditoria de estoque para verificação da correção no que tange ao pagamento do IPI, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, para fins de comparação com a quantidade de produtos registrados pelo contribuinte como produzidos em seus livros fiscais, utilizandose, para tanto, de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção. Caso sejam encontradas diferenças, é possível ao contribuinte justificálas, com base nas quebras/perdas normalmente existentes tanto em relação a (i) insumos, como (ii) processo produtivo e (iii) estoques de produtos acabados, conforme Parecer Normativo CST nº 45/77. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado dar parcial provimento ao recurso voluntário apresentado, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos, para manter as glosas relativas aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da recorrente e (b) por maioria de votos, para (b1) manter as glosas, no que se refere a créditos decorrentes de aquisições da Zona Franca de Manaus, vencido o relator e os Conselheiros André Henrique Lemos e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco; e (b2) afastar as glosas de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela recorrente, vencidos o Conselheiros Robson José Bayerl e Fenelon Moscoso de Almeida; e (c) por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo, por carência de fundamento da glosa em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida. Designados para redigir votos vencedores os Conselheiros Robson José Bayerl, em relação a aquisições da Zona Franca de Manaus, e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, em relação ao valor tributável mínimo. ROSALDO TREVISAN (PRESIDENTE) Presidente. AUGUSTO FIEL JORGE D' OLIVEIRA Relator. Fl. 1605DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.605 3 ROBSON JOSÉ BAYERL Redator designado. LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (Presidente), Robson José Bayerl, Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado e Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Relatório O processo administrativo ora em julgamento decorre de Pedido de Ressarcimento de Saldo Credor do Imposto sobre Produtos Industrializados (“IPI”) relativo ao 4º Trimestre do ano de 2007, no valor de R$ 10.601.370,03. Conforme despacho decisório de fls. 761 e seguintes, foi anulado o ato decisório anterior, resultante tratamento eletrônico no âmbito do Sistema de Controle de Créditos e Compensações, com fundamento na Lei nº 9.784/1999, e deferido parcialmente o pedido do contribuinte, para reconhecer direito creditório no valor de R$ 4.633.415,20 e glosar o valor de R$ 5.967.954,83. Os motivos da glosa constam no Relatório Fiscal de fls. 675 e seguintes e estão colocados abaixo: a) créditos indevidos ante a ausência de Registro de Controle da Produção e do Estoque ou seu equivalente, relativos a inúmeras operações de retorno de mercadorias (devolução de vendas/revendas, devolução de mercadorias para substituição em garantia etc); b) créditos indevidos decorrentes da aquisição de insumos isentos provenientes da Zona Franca de Manaus; c) o contribuinte teria dado saída a produto com emissão de nota fiscal com destaque insuficiente do IPI, por deixar de observar normas legais que tratam do valor tributável mínimo; d) divergências numéricas nos estoques do contribuinte, registradas no sistema do contribuinte sob os códigos CN02 ("perdas no processo produtivo") e CN06 ("diferenças de quantidades de mercadorias estocadas"). Após ter sido cientificada dessa decisão, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade, julgada improcedente, em 05/11/2013, pela 3ª Turma da Fl. 1606DF CARF MF 4 Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém PA ("DRJ”), em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/10/2007 a 31/12/2007 PAF. ATO NORMATIVO. INCONSTITUCIONALIDADE. ILEGALIDADE. PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE. A autoridade administrativa não possui atribuição para apreciar a argüição de inconstitucionalidade ou de ilegalidade de dispositivos que integram a legislação tributária. IPI. CRÉDITOS. DEVOLUÇÕES OU RETORNOS. É permitido ao estabelecimento industrial creditarse do imposto relativo a produtos tributados recebidos em devolução ou retorno, desde que mantenha escrituração e controles que lhe permitam comprovar sua condição de detentor de tal direito. IPI. CRÉDITOS. AQUISIÇÕES DESONERADAS. O princípio da não cumulatividade do IPI é implementado por meio da escrita fiscal, com crédito do valor do imposto efetivamente pago na operação anterior e débito do valor devido nas operações posteriores. Assim, o direito ao crédito do IPI condicionase a que as aquisições de insumos utilizados no processo de industrialização tenham sido efetivamente oneradas pelo imposto. IPI. VALOR TRIBUTÁVEL. REGRA GERAL. Como regra geral, o valor tributável dos produtos nacionais e dos produtos de procedência estrangeira é o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, vedada a dedução de descontos, diferenças ou abatimentos concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. IPI. INSUMOS INUTILIZADOS OU DETERIORADOS. CRÉDITOS. ESTORNO. Deve ser anulado, mediante estorno na escrita fiscal, o crédito do IPI relativo a insumos que hajam sido furtados ou roubados, inutilizados ou deteriorados. IPI. DESTAQUE. FALTAS HAVIDAS NOS ESTOQUES. Apurada a falta no estoque de produtos, o contribuinte deve proceder ao pagamento do imposto sobre a totalidade dos bens faltantes, efetuando o seu destaque em nota fiscal especialmente emitida para esse fim, no momento da verificação da falta. DCOMP. CRÉDITO. HOMOLOGAÇÃO. LIMITE DO CRÉDITO. Fl. 1607DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.606 5 As declarações de compensação apresentadas à Receita Federal do Brasil somente podem ser homologadas no exato limite do direito creditório comprovado pelo sujeito passivo". O contribuinte, ora Recorrente, foi cientificado dessa decisão em 22/11/2013, conforme documento de fls. 917, apresentando tempestivo Recurso Voluntário, em 20/12/2013 (fls. 920), no qual requer a reforma ou a nulidade da decisão recorrida, pelas seguintes alegações: (i) a Recorrente alega que possuiria sistema permanente de controle de estoques alternativo ao Registro de Controle da Produção e Estoque apto a demonstrar de forma quantitativa a movimentação de estoques; nesse tópico, ainda pede que seja reconhecida a nulidade da decisão recorrida, pois ao apreciar a matéria, justifica o manutenção do indeferimento do pedido por motivos adicionais e estranhos ao que teria sido apontado no despacho decisório; (ii) não haveria restrições ao crédito de IPI decorrente de aquisições de insumos provenientes da Zona Franca de Manaus; (iii) a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001, além disso, a Recorrente defende os preços praticados e afirma que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistir preço corrente no mercado atacadista; (iv) seria regular o procedimento de contabilização em relação aos insumos nos códigos CN02 e CN06; Em seguida, os autos foram remetidos ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais ("CARF") e distribuídos à minha relatoria. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Augusto Fiel Jorge d' Oliveira O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos para a sua admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento, para que o Colegiado aprecie as matérias a seguir. Créditos por Devolução ou Retorno de produtos e sistema equivalente ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque Nesse tópico, a Fiscalização reconhece que há direito de crédito relativo a produtos tributados recebidos em devolução, porém, "condicionado à comprovação inequívoca de que a mercadoria retornou entrou nos estoques do Contribuinte e, teve, posteriormente, saída tributada", na esteira do procedimento e requisitos previstos no artigo 167 e seguintes do Regulamento do IPI de 2002. Porém, a Fiscalização glosou tais créditos, sob o entendimento de que a Recorrente não teria atendido a um dos requisitos desse procedimento, o previsto no artigo 169, inciso II, b, do Regulamento do IPI de 2002, abaixo transcrito: “Art. 169. O direito ao crédito do imposto ficará condicionado ao cumprimento das seguintes exigências ( Lei nº 4.502, de 1964, art. 27, § 4º): (...) II pelo estabelecimento que receber o produto em devolução: (...) b) Fl. 1608DF CARF MF 6 escrituração das notas fiscais recebidas, nos livros Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque ou em sistema equivalente nos termos do art. 388”; (grifos nossos) De acordo com a Fiscalização, a Recorrente não disporia de sistema alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque que fosse adequado e hábil ao controle de mercadorias, tal como determina o artigo 388 do Regulamento do IPI, in verbis: “Art. 388. O estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, e o comercial atacadista, que possuir controle quantitativo de produtos que permita perfeita apuração do estoque permanente, poderá optar pela utilização desse controle, em substituição ao livro Registro de Controle da Produção e do Estoque, observado o seguinte: I o estabelecimento fica obrigado a apresentar, quando solicitado, aos Fiscos Federal e Estadual, o controle substitutivo; II para a obtenção de dados destinados ao preenchimento do documento de prestação de informações, o estabelecimento industrial, ou a ele equiparado, poderá adaptar, aos seus modelos, colunas para indicação do valor do produto e do imposto, tanto na entrada quanto na saída; e III o formulário adotado fica dispensado de prévia autenticação”. (grifos nossos) Isso porque o sistema de controle da Recorrente adotava o inglês e não o português como língua. Ressaltese que esse foi o único motivo apontado pela Fiscalização para não aceitar o sistema adotado pela Recorrente e, por consequência, glosar os créditos escriturados, como se verifica do trecho do Termo de Verificação Fiscal, já transcrito linhas acima, no relatório deste Acórdão. Por sua vez, o acórdão recorrido manteve o lançamento nessa parte, pelos seguintes fundamentos: “Logo, o direito ao creditamento em questão não decorre imediatamente do registro isolado, no Livro de Registro de Entradas, do retorno dos produtos ao estabelecimento industrial. E, quanto ao documento em língua inglesa denominado “Stock History”, mesmo quando afastados os óbices normativos e a perplexidade diante da manutenção e exibição à Administração Tributária Brasileira, pelo contribuinte, de registros que não se encontram grafados em vernáculo, verificase que o referido documento (...) não exibe, induvidosamente, os mesmos elementos do livro a que pretende substituir e nem representa um controle quantitativo de produtos que permita a perfeita apuração do estoque permanente e de seu fluxo, o mesmo se dando em relação às folhas avulsas (“fichas”) cujos exemplares acompanham a impugnação, as quais não são impressas com os mesmos elementos do livro substituído, não são numeradas tipograficamente e muito menos exibem autenticação do Fisco Estadual ou da Junta Comercial (...), não podendo ser reputadas, à evidência, como “sistema de controle” do fluxo de envio e retorno de mercadorias”. Diante dos termos da decisão recorrida, a Recorrente pede que seja reconhecida a sua nulidade, pois ao apreciar a matéria, mantém o lançamento apresentando Fl. 1609DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.607 7 motivos adicionais e estranhos ao que teria sido apontado no Auto de Infração. Além disso, a Recorrente defende que possuiria sistema permanente de controle de estoques alternativo ao Registro de Controle da Produção e Estoque apto a demonstrar de forma quantitativa a movimentação de estoques. Para tanto, acosta aos autos documento intitulado “Termo de Constatação” elaborado por firma de auditoria independente que atesta que examinou minuciosamente o sistema utilizado pela Recorrente no período de janeiro de 2006 a dezembro de 2009 e que tal sistema “possibilita a apuração quantitativa permanente do estoque e de seu fluxo, bem como possibilitam o rastreamento e controle quantitativo das suas saídas (vendas e/ou revenda de mercadoria e devoluções de venda de mercadoria”. Além disso, aduz a Recorrente que as informações em “língua inglesa” são mínimas e não são fundamentais para a compreensão das informações apresentadas, tendo em vista que o objeto de análise consiste na correlação entre números, datas e códigos de identificação de cada produto. Quanto ao pedido de nulidade, há que se concordar com a Recorrente quando alega que a decisão recorrida acaba mantendo a autuação por outros fundamentos que não os expostos para fundamentar o lançamento. Se acusação do lançamento é que o controle alternativo utilizado pela Recorrente é imprestável, pois o sistema de controle quantitativo de produtos adota como idioma o inglês, deve a autoridade julgadora decidir nos limites da acusação, a partir da qual a lide foi instaurada. Desse modo, não pode a autoridade julgadora manter o lançamento, sob o argumento de que aceita o idioma inglês no controle alternativo, porém, o sistema ainda assim é imprestável, não atende ao artigo 388 do Regulamento do IPI, pois os registros nele feitos não têm como observar os requisitos previstos para o Registro de Controle da Produção e do Estoque que pretende substituir, em violação ao disposto nos artigos 383 a 386, do Regulamento do IPI. Tal julgamento levaria a uma alteração no critério jurídico do lançamento, vedada pelo artigo 146, do CTN. Entretanto, o pedido deve ser rejeitado, tendo em vista que, diferente do que alega a Recorrente, a decisão recorrida não tangencia a apreciação quanto à possibilidade de utilização de idioma estrangeiro no sistema de controle alternativo, mas, a meu ver, afasta essa hipótese, apesar de dar mais ênfase na manutenção do lançamento a fundamentos inovadores e adicionais ao que foi apresentado na autuação. Com relação à utilização de língua estrangeira em sistemas do contribuinte que devem atender também aos propósitos de fiscalização da Receita Federal, o CARF já decidiu que "a forma de apresentação dos registros e arquivos em meio magnético a que estão obrigadas as pessoas jurídicas por força do disposto no artigo 11 da Lei 8.218/91 é aquela definida no ADE COFIS nº 15/2001, que, como se viu, não faz qualquer referência à língua em que as mercadorias devem ser descritas", em acórdão que possui a seguinte ementa: "ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Exercício: 2005 ARQUIVOS DIGITAIS. DADOS EM IDIOMA ESTRANGEIRO. CONTEÚDO DAS INFORMAÇÕES PRESTADAS. INFRAÇÃO QUANTO À FORMA. INOCORRÊNCIA. Fl. 1610DF CARF MF 8 Os arquivos digitais e sistemas das pessoas jurídicas que utilizam sistema de processamento eletrônico de dados devem observar, quanto à forma, as disposições contidas no ADE COFIS nº 15/2001. O fato de as informações estarem em língua estrangeira não constitui infração pelo não atendimento da forma de apresentação dos registros e respectivos arquivos. Recurso de Ofício Negado" (Acórdão nº 3102001.641; 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária; Sessão de 23/10/2012; Relator: Conselheiro Ricardo Paulo Rosa Relator; decisão unânime) No caso específico do sistema de controle alternativo aqui discutido, o CARF também já teve a oportunidade de examinar a sua adequação às normas de regência, em processo da própria Recorrente que tratava de pedido de ressarcimento de IPI do período de apuração relativo ao quarto trimestre de 2006, quando, conforme “Termo de Constatação” acostado pela Recorrente, o sistema adotado era o mesmo que o adotado no período do lançamento ora em julgamento. Na sessão de julgamento do dia 14/10/2014, a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara afastou a glosa de créditos em razão de o sistema utilizar a língua inglesa, pelas seguintes razões, expostas no voto do Conselheiro Relator Carlos Alberto Nascimento e Silva Pinto: “A recorrente apresenta inúmeros elementos, com telas do sistema e descrições do funcionamento do mesmo, que demonstram que o seu sistema de controle estaria apto para comprovar o seu direito creditório. A fiscalização, contudo, não aceitou o sistema pois o mesmo utilizaria o idioma inglês, o que o tornaria inábil para este fim. Neste ponto, verificando os documentos trazidos aos autos, constatase que o sistema foi desenvolvido na língua inglesa. Não se trata, contudo, de um documento complexo, redigido em uma língua obscura, mas sim de um software que, assim como tantos outros, utiliza o idioma inglês. Verificase ainda que as informações dos documentos fiscais são apresentadas conforme constam nestes documentos, e que por meio dele é possível a apuração do estoque permanente, o que permite a análise da veracidade dos créditos pleiteados. Desta forma, constatado que a recorrente possui sistema de controle quantitativo de produtos que permite a apuração do seu estoque permanente, não se mostra correta a glosa de seus créditos referentes a estornos de saídas em razão de retorno à produção própria e revendas referentes aos CFOPs 1.201/2.201/2/1.202/2.202/1.949/2.949, devendo a autoridade fiscal verificar a regularidade dos créditos pleiteados pela recorrente por meio da análise dos dados contidos no sistema por ela utilizado”. (grifos nossos) (Acórdão nº 3201001.767; decisão unânime) Ao se examinar as telas do sistema juntadas pela Recorrente em seu Recurso Voluntário, verificase que são pertinentes as conclusões a que chegou a 1ª Turma Ordinária da 2ª Câmara, no Acórdão nº 3201001.767: não se trata de um documento complexo, mas sim de um software que possui sua versão na língua inglesa. Fl. 1611DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.608 9 Além disso, pela própria natureza do sistema de controle alternativo de estoque de que trata do artigo 388 do Regulamento do IPI de 2002, as informações mais importantes a serem lidas e examinadas pelo auditor fiscal são relativas a números (código da TIPI, alíquota do imposto, quantidade etc) ou palavras cujo idioma é indiferente (identificação do produto, especificação da unidade como quilograma, litro, etc), sendo certo que as palavras em língua estrangeira devem aparecer intitulando quadros e colunas, de forma repetitiva, o que, em princípio, não se traduz em dificuldade de compreensão e de fiscalizar os dados nela contidos. Nesse sentido, impende destacar que a Fiscalização em nenhum momento apresenta uma dificuldade concreta na leitura do sistema da Recorrente, fazendo uma acusação genérica de impossibilidade de aceitação do sistema, por utilizar a língua inglesa, deixando, portanto, de apontar, de forma direta de que modo a língua inglesa impede a "perfeita apuração do estoque permanente". Ante o exposto, considerando que a glosa do direito de crédito tem como fundamento exclusivo a adoção da língua inglesa e que não restou demonstrado pela Fiscalização que tal particularidade impede que o sistema “permita perfeita apuração do estoque permanente”, proponho ao Colegiado superar esse óbice e determinar que a autoridade fiscal verifique a regularidade dos créditos pleiteados pela Recorrente pelo exame dos dados contidos no sistema da Recorrente. Direito de crédito de IPI decorrente da aquisição de insumos isentos de fornecedores localizados na Zona Franca de Manaus A questão que se coloca nesses autos é se, à luz do ordenamento jurídico vigente, a Recorrente faz jus ao direito de crédito de IPI decorrente de operações de aquisição de insumos oriundos da Zona Franca de Manaus. Impende esclarecer que não há qualquer questionamento quanto à isenção fruída pelos fornecedores da Recorrente, tendo a Fiscalização se voltado apenas contra o direito de crédito de IPI escriturado pela Recorrente. Também, apesar de a Recorrente mencionar, em seu Recurso Voluntário, o artigo 237 do Regulamento do IPI, em nenhum momento a Recorrente afirma, muito menos, apresenta notas fiscais e outros documentos comprobatórios, no sentido de que as aquisições se deram com amparo no artigo 6º, parágrafo 1º, do Decreto Lei nº 1.435/1975, dispositivo que prevê o direito de crédito em operações específicas. Desse modo, a discussão se cinge à análise do direito de crédito em aquisições de insumos isentos da Zona Franca de Manaus, considerando a isenção na saída do fornecedor como válida e diferente da isenção prevista no artigo 6º, do DecretoLei nº 1.435/1975. A Constituição da República prevê, em seu artigo 153, parágrafo 3, inciso II, que o IPI será "será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores" (grifos nossos). Já com relação ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e sobre prestações de Serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação ("ICMS"), a não cumulatividade encontra assento constitucional no artigo 155, parágrafo 2º, inciso I, da Constituição da República, que determina que o ICMS "será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada operação relativa à circulação de mercadorias ou prestação de serviços com o montante cobrado nas anteriores pelo mesmo ou outro Estado ou pelo Distrito Federal" (grifos nossos). Fl. 1612DF CARF MF 10 Porém, em relação ao ICMS, de forma diversa do que ocorre com o IPI, há uma ressalva expressa ao direito de crédito em relação à isenção, pois, de acordo com o artigo 155, parágrafo 2º, inciso II, da Constituição da República, "II a isenção ou nãoincidência, salvo determinação em contrário da legislação: a) não implicará crédito para compensação com o montante devido nas operações ou prestações seguintes; b) acarretará a anulação do crédito relativo às operações anteriores". Essa ressalva vem de antes da Constituição de 1988, mais precisamente, decorre da Emenda Constitucional nº 23/1983, conhecida como "Emenda Passos Porto", e alterou unicamente a disciplina de créditos e débitos do ICMS, para transformar o que era regra direito de crédito nas aquisições isentas em exceção, mantendo incólume a disciplina de créditos e débitos referente ao IPI. Nas palavras do Ministro Marco Aurélio: "Deuse a transformação da regra em exceção, como disse: a isenção ou a não incidência implicará crédito e estou modificando a ordem das expressões "não implicará" é a regra "crédito de imposto para abatimento daquele incidente nas operações seguintes, salvo determinação em contrário da legislação". O crédito, portanto, tãosomente no tocante ao ICM, só poderia decorrer de disposição legal. Houve modificação, em si, quanto ao IPI? Não. O IPI continuou com o mesmo tratamento que conduziu esta Corte a assentar uma jurisprudência tranquilíssima no sentido do direito ao crédito. Não houve mudança. A Emenda Constitucional nº 23 apenas alterou o preceito da Carta então em vigor que regulava o ICM"1. Como se verifica, existia uma jurisprudência firme, no sentido de que a aquisição de insumo isento gerava direito de crédito de IPI, com fundamento direto no princípio constitucional da nãocumulatividade do IPI, previsto no artigo 153, parágrafo 3º inciso II, da Constituição da República, considerando ainda que o legislador constituinte quando pretendeu ressalvar esse direito em relação à isenção, o teria feito de forma expressa, como se deu em relação ao ICMS. Entretanto, no ano de 2007, houve uma guinada no entendimento do Supremo Tribunal Federal ("STF"), por ocasião dos Recursos Extraordinários nº 353.657/PR e nº 370.682/SC, passando o STF a não reconhecer o direito de crédito de IPI não somente nas aquisições isentas, mas também nas aquisições sujeitas à alíquota zero e não tributadas, conforme ementas de julgados a seguir: "IPI INSUMO ALÍQUOTA ZERO AUSÊNCIA DE DIREITO AO CREDITAMENTO. Conforme disposto no inciso II do § 3º do artigo 153 da Constituição Federal, observase o princípio da nãocumulatividade compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores, ante o que não se pode cogitar de direito a crédito quando o insumo entra na indústria considerada a alíquota zero. (...) (RE 353.657, Rel. Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, DJe 7.3.2008) ***** "Recurso extraordinário. Tributário. 2. IPI. Crédito Presumido. Insumos sujeitos à alíquota zero ou não tributados. Inexistência. 3. Os princípios da nãocumulatividade e da seletividade não ensejam direito de crédito 1 RE 212.4842. Data de Julgamento: 05/03/98. Fl. 1613DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.609 11 presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 4. Recurso extraordinário provido". (RE 370682, Rel. Min. Ilmar Galvão, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, DJe 19.12.2007) Essa jurisprudência foi reafirmada no ano de 2015, em processo de relatoria do Ministro Gilmar Mendes, em que foi reconhecida a repercussão geral do tema, em decisão que possui a ementa a seguir: "Recurso extraordinário. Repercussão geral. 2. Tributário. Aquisição de insumos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero. 3. Creditamento de IPI. Impossibilidade. 4. Os princípios da não cumulatividade e da seletividade, previstos no art. 153, § 3º, I e II, da Constituição Federal, não asseguram direito de crédito presumido de IPI para o contribuinte adquirente de insumos não tributados ou sujeitos à alíquota zero. Precedentes. 5. Recurso não provido. Reafirmação de jurisprudência". (RE 398365 RG, Relator: Min. Gilmar Mendes, julgado em 27/08/2015) Com base nesse entendimento do STF, a Fazenda Nacional defende a impossibilidade de os contribuintes escriturarem crédito de IPI em decorrência de aquisições isentas de insumos provenientes da Zona Franca de Manaus. Segundo a Fazenda, tal como decidido pelo STF, o princípio constitucional da não cumulatividade não albergaria o direito de crédito em aquisições isentas, sendo necessário para o surgimento do direito de crédito que a operação anterior esteja sujeita ao efetivo pagamento do IPI. Portanto, a ausência de direito de crédito nas aquisições isentas da Zona Franca de Manaus teria como fundamento o artigo 153, parágrafo 3, inciso II, da Constituição da República. Além disso, os defensores dessa corrente, muitas vezes, apontam o artigo 150, parágrafo 6ª, da Constituição da República2, como um fundamento adicional para não se reconhecer o direito de crédito em tais situações, pois esse dispositivo constitucional exigiria lei específica para a concessão do direito de crédito. No CARF, o entendimento quanto à matéria também vacilou, ao longo dos anos, seguindo as oscilações ocorridas no âmbito do Poder Judiciário. No ano passado, a 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais teve a oportunidade de apreciar novamente a matéria, firmando o entendimento, por maioria de votos, favorável à tese da Fazenda Nacional, em decisão que possui a seguinte ementa: Ementa: "Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2008 IPI. CRÉDITOS DE PRODUTOS ISENTOS. AMAZÔNIA OCIDENTAL. ZFM. IMPOSSIBILIDADE. 2 Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: (...) § 6º Qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, sem prejuízo do disposto no art. 155, § 2.º, XII, g. Fl. 1614DF CARF MF 12 Em regra, é inadmissível, por total ausência de previsão legal, a apropriação, na escrita fiscal do sujeito passivo, de créditos do imposto alusivos a insumos isentos, não tributados ou sujeitos a alíquota zero, uma vez que inexiste montante do imposto cobrado na operação anterior. A apropriação de crédito ficto ou presumido de IPI depende de autorização de lei específica a teor do que dispõe o § 6º do art. 150 da CF, o que não acontece no caso dos produtos adquiridos da ZFM e da Amazônia Ocidental, uma vez que não satisfizeram as condições estabelecidas no art. 82, inc. III do RIPI/2002". (Acórdão nº 9303004.205; Sessão de 09/08/2016; Relatora: Vanessa Marini Cecconello; Redator Designado: Andrada Márcio Canuto) Trecho do Voto Vencedor: "Como a sistemática da nãocumulatividade não dá direito à apropriação de crédito de IPI em entradas de insumos não tributados por tal imposto, este creditamento só poderá ser admitido quando autorizado por lei específica, pois a Constituição Federal proíbe expressamente a concessão de crédito presumido ou ficto, sem lei que autorize, conforme dispõe o §6º do art. 150 da CF, situação que se harmoniza com a opção do constituinte pelo sistema de crédito para efetivação do princípio da nãocumulatividade. (...) Desta forma, para que haja o direito ao crédito de IPI na aquisição de insumos desonerados, a título de crédito presumido, fazse necessário lei específica nesse sentido. Por esta razão que, o Regulamento de IPI de 2002, em seu art. 175, estabeleceu o benefício de creditamento ficto de IPI, como se devido fosse, nas aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem, de fornecedores situados na Zona Franca de Manaus, apenas quando da ocorrência de isenção prevista no inciso III do art. 82 do RIPI/2002". Contudo, a situação jurídica da Zona Franca de Manaus é peculiar, de modo que não se pode olhar para as aquisições de insumos isentos daquela região do país e de seus efeitos, no que dizem respeito à tributação do IPI, da mesmo forma que se olha para as demais aquisições isentas de insumos. Tanto é assim que o Ministro Marco Aurélio deixou claro, no julgamento dos Embargos de Declaração no Recurso Extraordinário nº 566.819 que naquele recurso não se estava em jogo situação jurídica regida "por legislação especial acerca da Zona Franca de Manaus", a indicar que, não se poderia aplicar diretamente, sem um detido exame de todos os nuances envolvidos, a tese firmada pelo STF quanto à generalidade dos casos de aquisições isentas às aquisições isentas da Zona Franca de Manaus. Como bem observado em seu Voto, nos debates ocorridos em sessão de julgamento, após o Ministro Marco Aurélio fazer essa ressalva, também a Ministra Cármen Lúcia admitiu, dizendo "o caso da Zona Franca, por exemplo, que aí é outra coisa". Aliás, os precedentes do STF que firmaram a tese pela ausência de direito à crédito de IPI nas aquisições de insumos isentos não tinham como origem fornecedores localizados na Zona Franca de Manaus. Portanto, é inegável a particularidade existente quanto ao regime jurídico das aquisições de insumos isentos daquela região, para efeito de direito de crédito de IPI, o que decorre da realidade histórica, geográfica, econômica e social da Região Norte do país, que Fl. 1615DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.610 13 desde a Constituição de 1946 (artigo 199) merece atenção especial dos Poderes Legislativo e Executivo, com vistas ao seu desenvolvimento, proteção e integração ao território nacional. Em 1953, foi editada a Lei nº 1.806/1953, que dispôs sobre o Plano de Valorização Econômica da Amazônia, criou a superintendência da sua execução e deu outras providências. Após, veio a Lei nº 3.173/1957, que cria uma zona franca na cidade de Manaus. Em seguida, a Lei nº 5.173/1966, que tratou do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, extinguiu a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA) e criou a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Finalmente, foi editado o DecretoLei nº 288/1967, que regula a Zona Franca de Manaus e, em seu artigo 9º, confere a isenção de IPI da qual se discute a possibilidade de gerar direito de crédito para o adquirente, nos seguintes termos: "Art. 9° Estão isentas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) todas as mercadorias produzidas na Zona Franca de Manaus, quer se destinem ao seu consumo interno, quer à comercialização em qualquer ponto do Território Nacional". Essa isenção, e aqui começa a distinção que é necessária ser feita, não é uma isenção de natureza fiscal, portanto, não é regida diretamente pelo artigo 176 e seguintes do Código Tributário Nacional. É uma isenção de natureza extrafiscal que tem como fundamento de validade o artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, in verbis: "Art. 43. Para efeitos administrativos, a União poderá articular sua ação em um mesmo complexo geoeconômico e social, visando a seu desenvolvimento e à redução das desigualdades regionais. § 1º Lei complementar disporá sobre: I as condições para integração de regiões em desenvolvimento; II a composição dos organismos regionais que executarão, na forma da lei, os planos regionais, integrantes dos planos nacionais de desenvolvimento econômico e social, aprovados juntamente com estes. § 2º Os incentivos regionais compreenderão, além de outros, na forma da lei: (...) III isenções, reduções ou diferimento temporário de tributos federais devidos por pessoas físicas ou jurídicas". (grifos nossos) Na realidade, tratase de uma isenção de incentivo regional que tem matriz na própria Constituição, não se sujeitando, portanto, ao requisito de estar prevista em lei específica, tal como determina o artigo 150, parágrafo 6º, da Constituição da República. É da própria Constituição que essa isenção emana, com o objetivo de efetivar os objetivos fundamentais da República, listados no artigo 3º, da Constituição3. 3 Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I construir uma sociedade livre, justa e solidária; II garantir o desenvolvimento nacional; III erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Fl. 1616DF CARF MF 14 Além disso, o regime jurídico aplicável à Zona Franca de Manaus foi expressamente recepcionado pela Constituição de 1988, que no artigo 40 do ADCT afirma: "Art. 40. É mantida a Zona Franca de Manaus, com suas características de área livre de comércio, de exportação e importação, e de incentivos fiscais, pelo prazo de vinte e cinco anos, a partir da promulgação da Constituição. Parágrafo único. Somente por lei federal podem ser modificados os critérios que disciplinaram ou venham a disciplinar a aprovação dos projetos na Zona Franca de Manaus". E, depois, as Emendas Constitucionais de nº 42/2003 e 83/2014, incluíram os artigos 92 e 92A, para ampliar o prazo previsto no artigo 40 do ADCT, primeiro, por mais 10 (dez) anos, e depois, por mais 50 (cinquenta) anos, o que resulta na manutenção da Zona Franca até o ano de 2073. Sobre esse ponto, a Ministra Carmen Lúcia já teve a oportunidade de afirmar: "Para preservar o projeto desenvolvimentista concebido sob a vigência da ordem de 1967 para a região setentrional do país, o poder constituinte originário tornou expressa a manutenção, por tempo determinado, da disciplina jurídica existente, afirmando a finalidade de apoio ou fomento para a criação de um centro industrial, comercial e agropecuário na região da Zona Franca de Manaus. O quadro normativo préconstitucional de incentivo fiscal à Zona Franca de Manaus foi alçada à estatura constitucional pelo art. 40 do ADCT, adquirindo, por força dessa regra transitória, natureza de imunidade tributária". (ADI nº 310; julgada em 19/02/2014) Portanto, a isenção e demais benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus possuem estatura constitucional, com fundamento de validade nos artigos 43, parágrafo 2º, III, da Constituição da República e artigos 40, 92 e 92A, do ADCT. Agora, com relação à isenção de IPI, a sua particularidade reside justamente na necessidade de estar acompanhada do direito de crédito do adquirente para que tenha efetividade, devendose, portanto, fazer a distinção e afastar a aplicação da jurisprudência que se firmou para a generalidade dos casos. Como mencionado, o objetivo da isenção é extrafiscal, no sentido de estimular a instalação de um pólo industrial na região, ocupála para garantir a segurança nacional e a proteção da Floresta Amazônica e de toda a sua biodiversidade, gerar desenvolvimento econômico e social na região, diminuir a pobreza e fazer a integração dessa região com o restante do país. Porém, nesse caso, se a isenção não andar junta, de mãos dadas, com o direito de crédito, perdese o benefício almejado. A única forma da isenção ser efetiva é acompanhada do direito de crédito. Para ilustrar, peço vênia para tomar emprestado o exemplo singelo, porém, interessante, levantado pelo Ministro Luís Roberto Barroso, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 592.891, que será novamente mencionado adiante. A situação hipotética colocada é a seguinte: uma indústria em São Paulo, capital, tem a opção de comprar ordinariamente um determinado insumo que custa sem o IPI $100. De um fornecedor localizado em Santo André, SP, incide IPI no valor de $20, o que resulta em um custo total de R$120, com a possibilidade de crédito de $20. Portanto, um custo efetivo de $100. Já o fornecedor localizado na Zona Franca de Manaus está beneficiado pela isenção, portanto, $0 (zero) a título de IPI. Fl. 1617DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.611 15 Admitindose que a isenção não gera direito de crédito ao adquirente, os dois fornecedores ofertariam o insumo a um mesmo custo à indústria de São Paulo, capital, pelo valor de $100, sendo a única vantagem de se comprar na Zona Franca de Manaus um diferimento no desembolso do IPI. Enquanto ao se comprar do fornecedor de Santo André, SP, a indústria deverá desembolsar o IPI de forma imediata, na compra de fornecedor da Zona Franca de Manaus, a indústria só teria que fazer o desembolso na operação seguinte. A pergunta que deve ser feita é se esse mero diferimento seria incentivo suficiente para que se adquira insumos na Zona Franca de Manaus ou para que determinada empresa se instale na Zona Franca e tenha condições de oferecer com competitividade seus produtos no mercado. A resposta é não. Nesse cenário, as empresas localizadas na Zona Franca de Manaus perdem, por completo, qualquer atratividade, levando em consideração que elas já largam em desvantagem e nunca conseguiriam ter o mesmo preço sem IPI de uma empresa localizada, por exemplo, em Santo André, SP, em razão de custos de logística, como frete e seguros no transporte. Enquanto a distância entre Manaus e São Paulo, capital, gira em torno de 4.000km, a depender do trajeto, a distância entre Santo André e São Paulo, capital, é de 20km. Mas não é só. A distância do mercado consumidor é apenas uma entre as diversas dificuldades enfrentadas por aqueles que empreendem naquela região, existindo inúmeros desafios a serem enfrentados na instalação e desenvolvimento de um projeto industrial naquela parte do país, como dificuldades para obtenção de mãodeobra especializada, de fornecedores de bens e serviços etc. Por todas essas dificuldades e tendo em vista os objetivos fundamentais da República, arrolados no artigo 3º, da Constituição, é que um plano de desenvolvimento para a região foi concebido, vem sendo pensado, aprimorado e implementado por todas essas décadas. Portanto, a isenção sem que venha acompanhada do direito de crédito, perde se, por completo, e o direito de crédito existe justamente para, em conjunto com outros incentivos, anular esse custo de logística e tentar colocar as empresas lá localizadas em grau de competitividade com empresas localizadas em outros lugares do país. Não por outro motivo, o Ministro Marco Aurélio, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 212.4842, afirmou: “não podemos confundir isenção com diferimento, nem agasalhar uma óptica que importe reconhecerse a possibilidade de o Estado dar com uma das mãos e retirar com a outra”. Nessa linha de entendimento, oportuno citar o alentado voto do Juiz Federal Roberto Jeuken, no julgamento da Apelação em Mandado de Segurança nº 1999.61.00.014490 0, pela 3ª Turma do Tribunal Regional da 3ª Região: “De fato, as isenções de produtos oriundos das chamadas zonas livre de comércio, qualificamse como um incentivo regional assegurado diretamente no corpo da lei maior, conforme se depreende da análise do art. 43 e § 2º, não obstante a necessidade da lei instituidora, inclusive porque a opção poderá se dar em face dos outros benefícios assegurados no mesmo preceptivo, esmaecendose, portanto as objeções que pudessem ser opostas em face do art. 150, § 6° da mesma, na redação conferida pela EC. 03, de 17.03.93. Não se cuida portanto de desoneração emergida da vontade discricionária do legislador ordinário, com fundamento direto nas raias do art. 176 do CTN, Fl. 1618DF CARF MF 16 onde a previsão do art. 150 § 6º opera seus efeitos e sim de outorga derivada daquele assento constitucional, desde a promulgação do vigente ordenamento, revestindose assim de igual estatura e de maior antigüidade em relação a exigência contida neste outro cânone magno.(...) Portanto, poderá ser afirmado que a migração destas isenções para o âmbito da lei maior, confere as mesmas, relevo superior ao já desfrutado no âmbito do parágrafo único do artigo 176 do CTN, onde dotada de características especiais, frente as demais normas isentivas, fundadas no seu caput.. Tal peculiaridade coloca estas desonerações de caráter regional, por força daquele preceito, no mesmo patamar constitucional da incumulatividade, em ordem a que a desconsideração dos créditos dela advindos, substanciaria a prática de dar com uma mão e tirar com a outra (voto do Ministro Marco Aurélio no RE 212.484), não admitida no Excelso Pretório. (...) Contudo, naqueles casos onde a outorga deita lastro no art. 43 da lei maior, a atuação legislativa processase no patamar da própria Constituição, e em sede privativa da União, a qual tem dentre suas elevadas funções, a de promover a unidade nacional através do desenvolvimento regional. Portanto, neste contexto, o direito ao crédito emerge das próprias finalidades que estão subjacentes a este especial atuar, proporcionando a efetividade do benefício. De sorte que, no caso, o direito ao crédito é o discrímen que qualifica a utilização destes créditos e não aquele direito fundado tão somente na primeira parte do inciso II do art. 153, §3º (será nãocumulativo) então erigido ao patamar de um princípio absoluto, intocável e balizador da compensação que efetivarseá ao em olvido a técnica indicada na mesma sede e no mesmo dispositivo, porém considerada como de uma categoria, mera regra de aplicação de um princípio maior, a ser ajustada consoante farto entendimento doutrinário pátrio, para contemplar crédito de imposto e não imposto pago. Portanto, no caso daquelas isenções concedidas as empresas situadas na Zona Franca de Manaus, a exemplo do que também ocorreria nas chamadas Zonas Livres de Comércio, é preciso ter presente que a desoneração tem objetivos de desenvolvimento regional, colaborando de molde a baratear a aquisição dos insumos, e a obtenção de preço final mais competitivo, nos produtos resultantes do processo de industrialização, na medida em que o adquirente não precisa pagar o valor do imposto. De fato, se as empresas, adquirindo o produto intermediário a preços mais vantajosos, não pudessem creditarse do montante que seria devido à título de IPI, que se erigia no diferencial que motivara a aquisição de empresa situada em local distante, se tomado em conta as regiões sul e sudeste, por certo ela acabaria mudando de fornecedor, tendo em vista outras indústrias do mesmo ramo, situadas na mesma região, barateando o transporte. Portanto, a finalidade buscada com a isenção, barateamento do custo de produção, restaria frustrado e aquelas empresas lá situadas, que fizeram elevados investimentos para iniciar a produção em locais que no muito das Fl. 1619DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.612 17 vezes, além de distantes, são inóspitos e não possuem mão de obra qualificada, não iriam adiante”. (grifos nossos) Verificase, por conseguinte, que a isenção deve estar acompanhada do direito de crédito, sob pena de se tornar inócua, não atingindo as finalidades para as quais foi instituída, tornando letra morta todo o regime jurídico cuidadosamente editado com esse objetivo e os dispositivos constitucionais que o recepcionaram e lhe deram vida longa até 2076. Além disso, nesse caso, a não aceitação do direito de crédito implica a transformação da figura da isenção e uma figura de mero diferimento que, muito embora seja uma espécie de benefício fiscal, não foi aquele escolhido pelo legislador para o atingimento do fim por ele pretendido. Observem que o legislador possui, nos termos do artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, três instrumentos para atingir o desenvolvimento e reduzir as desigualdades regionais: a isenção, a redução de tributos e o diferimento de tributos. Ao ter escolhido a isenção, que é o maior incentivo possível e adequado ao atingimento dos fins almejados, não se pode interpretar a sua aplicação, de um modo que a torne ineficaz, esvaziada, com a mesma força de um benefício de diferimento que é uma mera alteração no prazo de pagamento do tributo ou na data de ocorrência do fato gerador , justamente o menor incentivo, a arma de menor calibre, dentre os que poderia o legislador se utilizar. E o único modo de a isenção ser plena, na sistemática própria do IPI, é que venha acompanhada do respectivo direito de crédito. Portanto, ante o exposto, podese concluir que: (i) a isenção do artigo 9º DecretoLei nº 288/1967 se qualifica como uma isenção para incentivo regional e tem fundamento direto no artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, sendo recepcionada na ordem constitucional vigente, conforme artigos 40, 92 e 92A, do ADCT; (ii) não tem como fundamento legal, dessa forma, no artigo 176 e seguintes do CTN, não se sujeitando, assim, ao disposto no artigo 150, parágrafo 6º, da Constituição da República; (iii) nesse caso, a outorga de isenção para incentivo regional só é eficaz e produzirá os efeitos pretendidos, atingindo os fins para os quais foi concebida, se acompanhada do direito de crédito, que não tem como fundamento o princípio da não cumulatividade previsto no artigo 153, parágrafo 3º, inciso II, da Constituição da República, mas encontra fundamento de validade de igual estatura, qual seja, o no artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, considerandose ainda a especial posição que ocupa a Zona Franca de Manaus e seu regimento jurídico no ordenamento jurídico pátrio. Por fim, cabe ressaltar que esse entendimento está em linha com as manifestações do Supremo Tribunal Federal, por ocasião do julgamento do Recurso Extraordinário nº 566.819, no qual a Ministra Relatora Rosa Weber já proferiu seu voto, reconhecendo o direito de crédito nas aquisições de insumos isentos provenientes da Zona Franca de Manaus, sendo seguida pelos Ministros Edson Fachin e Luís Roberto Barroso. Todavia, o julgamento foi interrompido com um pedido de vistas do Ministro Teori Zavascki, que expôs que seu entendimento até o início do julgamento era pelo não reconhecimento do direito de crédito, mas que, diante dos debates, havia pensado ser mais prudente pedir vistas para aprofundar seus estudos sobre a matéria. A grande preocupação que o Ministro Teori Zavascki externou dizia respeito ao fundamento para amparar o direito de crédito, já que o direito de crédito no caso não possuía assento no princípio da não cumulatividade, artigo 153, parágrafo 3º, inciso II, da Constituição da República, sendo certo Fl. 1620DF CARF MF 18 que o artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República, prevê apenas a isenção e não a isenção acompanhada pelo direito de crédito. Com relação a esse ponto, na linha do que já se expôs, acredito que o direito de crédito tenha fundamento no próprio artigo 43, parágrafo 2º, inciso III, da Constituição da República e artigo 9º, do DecretoLei nº 288/1967, pois essa isenção, para ser efetiva e atingir o seu objetivo de incentivo regional, deve obrigatoriamente estar acompanhada do direito de crédito. Por esse motivo, quando, anos mais tarde, o legislador tratou de projetos específicos para produção de “produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária” e outorgou a isenção na saída dos produtos da Zona Franca de Manaus, ele deixou claro que aquela isenção era acompanhada do direito de crédito (artigo 6, caput, e parágrafo 1º, do Decreto nº 1.435/1975), não havendo razões para se impor tratamento diferenciado para um e outro caso. Além disso, à época da edição da legislação que inseriu a isenção que está a se tratar, o entendimento era firme no sentido de que, ao determinar a isenção em uma operação, a operação seguinte fruiria direito de crédito de IPI, pois, como lembrado pelo Ministro Marco Aurélio no julgamento do RE nº 212.4842, até determinado momento, a "jurisprudência tranquilíssima no sentido do direito ao crédito". Assim, o emprego de uma interpretação histórica, levando em conta a intenção original do legislador e a norma que se extraía da legislação à época e que foi considerada por aqueles que se instalaram na região setentrional, também levaria a essa conclusão. Ademais, o direito de crédito guarda ainda fundamento nos artigos que alçaram o regime jurídico da Zona Franca de Manaus à estatura constitucional, artigos 40, 92 e 92A do ADCT, que indicam e garantem uma proteção e irredutibilidade de direitos que visem o desenvolvimento e proteção da Zona Franca de Manaus. Pelo exposto, entendo que o Recorrente tem direito de crédito de IPI sobre as aquisições de insumos isentas oriundas da Zona Franca de Manaus, motivo pelo qual, nessa parte, o pedido de ressarcimento formulado merece ser deferido, homologandose as compensações correspondentes. Base de Cálculo do IPI – Valor Tributável Mínimo O CTN, em seu artigo 47, inciso II, alíneas “a” e “b”, prevê que a base de cálculo do IPI nas saídas de produtos industrializados será: “a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente”. Como se verifica, o legislador complementar estabeleceu um parâmetro mínimo para a base de cálculo apenas na impossibilidade de se determinar o valor da operação, quando deveria se adotar o preço corrente no mercado atacadista. A Lei nº 4.502/1964 sofreu várias alterações ao longo dos anos e, atualmente, prevê regras para a fixação da base de cálculo que vão além dos contornos previstos no CTN. No artigo 14 existe a previsão do valor tributável para as operações de importação e para as saídas de produtos nacionais e no artigo 15 constam os parâmetros para o estabelecimento de um piso nas mais diversas situações, devendo as regras gerais do artigos 14 serem observadas em conjunto com as regras específicas do artigo 15. Assim, ficando restrito aos dispositivos relacionados ao lançamento ora analisado, quando o artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, quanto aos Fl. 1621DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.613 19 produtos nacionais, determina que constitui valor tributável “o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial” e que “§ 1º. O valor da operação compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário”, tal dispositivo não pode ser lido de forma isolada, mas em conjunto com as regras do artigo 15 da Lei nº 4.502/1964. Com isso, caso esteja a se tratar de “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, há ainda que se observar o disposto no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que afirma que o valor tributável não poderá ser inferior “ao custo do produto, acrescido das margens de lucro normal da empresa fabricante e do revendedor e, ainda, das demais parcelas que deverão ser adicionadas ao preço da operação”. Logo, se a norma do artigo 14, inciso II, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, expressa que o valor da operação compreende o preço do produto mais frete e demais despesas e na situação específica prevista no artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, o valor tributável mínimo deve corresponder ao custo do produto mais margem de lucro mais frete e despesas, podese concluir que, quando o preço do produto for inferior ao seu custo, uma leitura conjunta das normas gerais e especiais levará à aplicação da norma especial, que determina um valor tributável mínimo, aplicando a norma geral para as demais operações nas quais o preço da operação não bate o piso estabelecido pela Lei. No Regulamento do IPI vigente à época dos fatos geradores, o valor tributável do IPI e o valor tributável mínimo estão tratados nos artigos 131 ao 138. Diante desse tecido normativo, considerando o disposto no artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Constituição, que diz que cabe a Lei Complementar a definição da base de cálculo dos tributos, muitos defendem a inconstitucionalidade do valor tributável mínimo, nos termos colocados na legislação ordinária, por contrariar o que prevê o artigo 47, inciso II, do CTN. Conforme defende a doutrina, “o valor tributário fixado nas leis e decretos mencionados afronta basilares princípios de nosso ordenamento e garantias dos contribuintes, pois não atende ao disposto na Constituição, já que trata de forma incompatível com a base de cálculo indicada na lei complementar (parâmetro formal) e permite que o IPI incida sobre valores que não necessariamente refletem o conteúdo das operações jurídicas praticadas com produtos industrializados (única base de cálculo possível para este imposto). O único parâmetro existente para uma base de cálculo diferente do efetivo valor da operação com produto industrializado, como estabelece o CTN, é o preço corrente no mercado atacadista (só adotado na ausência do primeiro) e não poderia o legislador ordinário e menos ainda o poder executivo estabelecerem base presumida, seja de percentual do preço de varejo ou a que trata do custo de fabricação do produto, com outros acréscimos” 4. Com base nesse mesmo raciocínio, o Supremo Tribunal Federal declarou a inconstitucionalidade do artigo 14, inciso II, parágrafo 2º, da Lei nº 4.502/1964, que afirmava a inclusão na base de cálculo do IPI dos valores relativos aos descontos incondicionais, 4 “IPI – Questões Fundamentais”. IPI. Base de Cálculo e Valor tributável mínimo. Renata Correia. MP Editora. São Paulo. 2008. p. 143 Fl. 1622DF CARF MF 20 dispositivo que teve sua eficácia suspensa recentemente, pela Resolução do Senado Federal nº 01/2017. Vejam abaixo a ementa da decisão: “IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS – VALORES DE DESCONTOS INCONDICIONAIS – BASE DE CÁLCULO – INCLUSÃO – ARTIGO 15 DA LEI Nº 7.798/89 – INCONSTITUCIONALIDADE FORMAL – LEI COMPLEMENTAR – EXIGIBILIDADE. Viola o artigo 146, inciso III, alínea “a”, da Carta Federal norma ordinária segundo a qual hão de ser incluídos, na base de cálculo do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, os valores relativos a descontos incondicionais concedidos quando das operações de saída de produtos, prevalecendo o disposto na alínea “a” do inciso II do artigo 47 do Código Tributário Nacional”. (RE 567935, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 04/09/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe216 DIVULG 03112014 PUBLIC 04112014) Porém, penso que não cabe a esse Colegiado adentrar nessa discussão, tendo em vista o que determina a Súmula CARF nº 02, nem sendo possível, a meu ver e de forma diversa do que foi decidido no Acórdão nº 3302003.361, da 2ª Turma Ordinária, da 3ª Câmara, em sessão de 27/09/2016, aplicar diretamente o que restou decidido no RE nº 567.935 no presente caso, pois, apesar de ambos tratarem da base de cálculo do IPI, a discussão aqui é diversa. Desse modo, nesse julgamento, os dispositivos da Lei Federal que tratam da matéria devem ser tidos como válidos e eficazes. No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grandeza custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor”. Realmente, preço e custo não se confundem e, olhando apenas para o fundamento legal relacionado ao preâmbulo da IN, o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, parece que a Instrução Normativa teria extrapolado o seu poder regulamentar, ao estabelecer um valor tributável mínimo sem relação com o preço do produto, mas vinculado ao Fl. 1623DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.614 21 custo de fabricação. Porém, embora não indique expressamente, a Instrução Normativa tem amparo legal, pois regulamenta não apenas aquele dispositivo, mas os dispositivos da Lei nº 4.502/1964 que tratam da base de cálculo do IPI, incluindo o artigo 15, inciso III, da Lei nº 4.502/1964, que trata do valor tributável mínimo, a partir do custo de fabricação do produto. E, como já exposto, tais dispositivos não podem ser lidos de maneira isolada, mas em conjunto e harmonia, sendo certo que, em se tratando de operação com “produtos saídos do estabelecimento industrial, ou do que lhe seja equiparado, com destino a comerciante autônomo, ambulante ou não, para venda direta a consumidor”, a norma que determina que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, deve ser lida como determinando que o valor tributável é constituído pelo preço do produto, salvo quando inferior ao custo do produto mais margens de lucro normal da empresa fabricante, hipótese em que se aplica esse último critério de determinação da base de cálculo. Outro argumento da Recorrente é pela legitimidade dos preços por ela praticados, defendendo que o sistema jurídico permitiria a flutuação dos preços, de acordo com as negociações realizadas, e que definição de preço é uma decisão gerencial, a partir de dados de mercado e do que os concorrentes estão fazendo. Com relação a esse argumento, não há como discordar da Recorrente. Ninguém melhor que a Recorrente, conhecedora de seu mercado de atuação, para fixar e determinar o preço nas operações de compra e venda com a sua clientela. Desde que o preço seja certo, justo e verdadeiro, está presente o preço, um dos elementos da compra e venda, que deve ser aceita como legítima. É de se reconhecer também que, em sua atuação no mercado, por vezes, por questões mercadológicas, a Recorrente possa vender seus produtos por preço bem inferior ao custo de aquisição do principal insumo. Mas o que se questiona no lançamento em julgamento não é o preço, livremente pactuado entre as partes e que deve ser tido como legítimo. O que se questiona é a base de cálculo adotada para as operações relacionadas no lançamento. A Fiscalização em nenhum momento questiona o preço estabelecido pela Recorrente e seus clientes. O que se questiona é a base de cálculo adotada. Portanto, embora se concorde com as considerações da Recorrente quanto à formação de seu preço, tais considerações não são capazes de afastar o lançamento realizado. Por último, a Recorrente defende que o critério para recomposição da base de cálculo adotado pela Fiscalização só poderia ser aplicado quando inexistisse preço corrente no mercado atacadista, afirmando existir uma ordem de aplicação para métodos de determinação da base de cálculo no artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI. Com efeito, para fins do artigo 137, parágrafo único, do Regulamento do IPI, os métodos previstos nos incisos I e II do artigo 137 devem ser aplicados se inexistir preço corrente no mercado atacadista. Contudo, tais normas se referem às hipóteses previstas no artigo 136, inciso I, referente a operação realizadas “quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência” e no artigo 136, inciso II, referente a operações realizadas “quando o produto for remetido a outro estabelecimento da mesma empresa, desde que o destinatário opere exclusivamente na venda a varejo”, situações que não guardam relação com o presente lançamento, tendo a Fiscalização, a meu ver, no presente caso, aplicado a regra prevista no artigo 136, inciso III. Fl. 1624DF CARF MF 22 Pelo exposto, deve ser mantida glosa relacionada às saídas de produtos por valor abaixo do valor tributável mínimo. Lançamentos relativos aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente A Fiscalização não concordou com o tratamento fiscal que a Recorrente deu a valores lançados em relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente, nos códigos CN02 e CN06. No código CN02, a Recorrente registrava a quantidade de insumos com defeito de fabricação e insumos substituídos em razão de quebra/perda no processo produtivo, porém, segundo informou no curso da Fiscalização, não sabia precisar o que exatamente se enquadrava em um caso ou em outro. Com relação a esses valores, a Fiscalização entendeu que deveria ocorrer o estorno do IPI registrado quando da sua entrada, com fundamento no artigo 193, inciso VI, do Regulamento do IPI de 2002. Destacou ainda, em relação às quebras/perdas no processo produtivo, que não se aplicava o artigo 449 do Regulamento de IPI, pois, no caso concreto, era impossível o conhecimento do percentual de quebras/perdas de seu processo produtivo, tanto em razão de a Recorrente não dispor dessa informação, quanto pela ausência de um laudo hábil a justificar tais quebras/perdas. Já no código CN06 foram registrados valores relativos à diferença entre a quantidade real de insumo existente no estoque e a quantidade escriturada. Nessa hipótese, a Fiscalização defende que deveria a Recorrente emitir nota fiscal, com lançamento do IPI, com base no artigo 123, alínea "o", do Regulamento do IPI de 2002 e Parecer Normativo CST nº 569/71. Em sua defesa, a Recorrente inicialmente desenvolve a tese que de que tais valores compõe o custo dos produtos industrializados a que dá saída e, dessa forma, já se submetem à tributação pelo IPI, não havendo que se falar em estorno de crédito em relação aos valores registrados no código CN02 e destaque de imposto em relação ao código CN06. Em seguida, apresenta os seguintes argumentos: (i) deveria ser considerado o percentual de quebras no processo produtivo da Recorrente, em torno de 0,50% (meio por cento) dos insumos adquiridos, o que seria razoável para aquela indústria; (ii) no que se refere ao lançamento de valores registrados no código CN02, não havendo a devolução, não há que se falar em estorno de crédito; e (iii) no que diz respeito à infração relacionado ao código CN06, não poderia haver exigência de emissão de nota fiscal com destaque de imposto, pois a Recorrente não praticou a venda do insumo, mas, no máximo, glosa do crédito da aquisição de insumo. No presente caso, a Fiscalização realizou algo próximo a uma auditoria de estoque, cujo procedimento estava previsto, à época dos fatos geradores nos artigos 448 e 449 do Regulamento do IPI de 2002, abaixo transcritos: “Art. 448. Constituem elementos subsidiários, para o cálculo da produção, e correspondente pagamento do imposto, dos estabelecimentos industriais, o valor e quantidade das matériasprimas, produtos intermediários e embalagens adquiridos e empregados na industrialização e acondicionamento dos produtos, o valor das despesas gerais efetivamente feitas, o da mãode obra empregada e o dos demais componentes do custo de produção, assim Fl. 1625DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.615 23 como as variações dos estoques de matériasprimas, produtos intermediários e embalagens (Lei nº 4.502, de 1964, art. 108). § 1º Apurada qualquer falta no confronto da produção resultante do cálculo dos elementos constantes desse artigo com a registrada pelo estabelecimento, exigirseá o imposto correspondente, o qual, no caso de fabricante de produtos sujeitos a alíquotas e preços diversos, será calculado com base nas alíquotas e preços mais elevados, quando não for possível fazer a separação pelos elementos da escrita do estabelecimento. (Incluído pelo Decreto nº 4.859, de 14.10.2003) § 2º Apuradas, também, receitas cuja origem não seja comprovada, considerarseão provenientes de vendas não registradas e sobre elas será exigido o imposto, mediante adoção do critério estabelecido no § 1º. (Incluído pelo Decreto nº 4.859, de 14.10.2003) Art. 449. As quebras alegadas pelo contribuinte, nos estoques ou no processo de industrialização, para justificar diferenças apuradas pela fiscalização, serão submetidas ao órgão técnico competente, para que se pronuncie, mediante laudo, sempre que, a juízo de autoridade julgadora, não forem convenientemente comprovadas ou excederem os limites normalmente admissíveis para o caso (Lei nº 4.502, de 1964, art. 58, § 1º)”. (grifos nossos) Como se verifica, no procedimento de auditoria de estoque, a Fiscalização realiza o cálculo da produção, a fim de comparar com a quantidade de produtos produzidos tal como é registrada pelo contribuinte em seus livros fiscais, para verificar a correção no que tange ao pagamento do IPI. Para tanto se utiliza de componentes do custo de produção, como valor, quantidade e variação de estoque de insumos, e mão de obra empregada na produção. Assim, por exemplo, fixada a premissa de que para a produção de 10 automóveis é necessária a aquisição de 15.000 parafusos e o emprego de 18 funcionários na linha de produção, na hipótese de a indústria registrar a produção de 10 automóveis, porém, tiver adquirido 20.000 parafusos e contar com 24 funcionários na linha de produção, a Fiscalização, salvo a existência de uma justificativa razoável, poderá chegar à conclusão, obviamente com a adição de mais elementos subsidiários do que os utilizados nesse singelo exemplo, de que a produção da indústria, na realidade, foi de 13 carros, devendo lançar a diferença de imposto, nos termos do parágrafo 1º, do artigo 448, do Regulamento do IPI. Todavia, o contribuinte poderá justificar as diferenças encontradas, com base nas quebras normalmente existentes seja no estoque seja no processo de fabricação. Desse modo, se existir uma justificativa razoável para que ocorra quebra no estoque de insumo em determinado percentual, a aquisição de insumo a maior, nesse mesmo percentual ficaria justificada, pela constatação de que o excesso não se integra a produto não oferecido à tributação, mas acaba quebrando no próprio estoque. Por outro lado, pode ser que existam motivos para quebra no processo de produção, de modo que a indústria adquira uma quantidade de insumos que não corresponderia, em tese, à quantidade de produtos fabricados, mas que se justifica por conta desse percentual de quebra ou perda durante o processo produtivo. Fl. 1626DF CARF MF 24 Essas justificativas são apresentadas seguindo o disposto no artigo 449 do Regulamento do IPI, que tem como base legal o artigo 58, parágrafo único, da Lei nº 4.502/1964. Enquanto o dispositivo legal versa sobre um ajuste de estoque realizado pelo próprio contribuinte, dentro de um percentual de tolerância de quebra/perda, previamente estabelecido pela autoridade fiscal para ele, o dispositivo regulamentar trata da auditoria de estoque realizada pela Fiscalização, motivo pelo qual, deve ser interpretado dentro desse contexto. Nesse sentido, o artigo 449 do Regulamento do IPI prevê que cabe ao contribuinte alegar a quebra – e, a quem alega, também cabe provar , contudo, se os percentuais de quebra/perda excederem os limites normais daquele processo industrial ou houver dúvidas em relação à prova apresentada, a autoridade julgadora – e não a autoridade lançadora – submeterá a questão para que órgão técnico competente emita laudo a respeito. Em linha com o que determina o artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972, acredito que a remessa da questão dos percentuais de quebra/perda no processo produtivo para trabalho técnico é uma faculdade e não uma obrigação da autoridade julgadora que, portanto, deverá fazêlo quando entender necessário. Sobre a matéria, impende citar o Parecer Normativo CST nº 45/77 que, apesar de editado sob égide de Regulamento do IPI anterior ao que regulava os fatos geradores objeto do lançamento, esclarece que as quebras/perdas podem se relacionar tanto aos insumos quanto aos estoques de produtos acabados e que, uma vez admitido o percentual de quebra/perda, os créditos escriturados na aquisição de tais insumos devem ser mantidos, conforme a seguir: “1 A admissibilidade de quebras de estoque para produtos acabados estendese às quebras de estoque de insumos, obedecidas as mesmas condições estabelecidas no Regulamento. (...) 5 Como no regime do Decreto nº 70.162/72 controlamse não apenas os estoques de produtos acabados, como também os estoques de insumos, no Registro de Controle da Produção e do Estoque (art. 157, § 4º, itens VI e VII), é de admitiremse, por analogia do artigo 189 do mesmo Regulamento, as quebras de "estoque" de insumos, em casos excepcionais, previamente justificados e aprovados em processo. Retifiquese, neste aspecto, o item 3 do PN nº 351/71, que estende a norma do artigo 189 citado às quebras de insumos "no processo" de industrialização. (...) 7 Resta determinar se deve ou não ser estornado o crédito fiscal correspondente aos insumos perdidos, por quebra decorrente do próprio processo industrial. (...) Desta forma, é de concluirse que se o insumo passa pelo processo fabril e nele se perde, sob a forma de aparas, resíduos, evaporação, etc., ou se inutiliza inteiramente, em decorrência de deficiências inerentes ao processo, tais como falhas do equipamento, rompimento de embalagens e semelhantes, ocorre a hipótese de o insumo ter sido "consumido" no processo de industrialização. Deve, portanto, no caso, ser mantido o crédito fiscal correspondente a esses insumos”. Fl. 1627DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.616 25 Entretanto, no caso ora em análise, a Fiscalização não precisou efetivamente realizar um trabalho mais elaborado de auditoria de estoque, aproveitandose de informações existentes em relatórios internos de movimentação dos estoques da Recorrente, no código CN02, os valores relativos às quebras e perdas, nos quais devem se incluir os valores referentes a produtos com defeito de fabricação de fornecedores estrangeiros, não devolvidos, no que se concorda com o argumento exposto pela Recorrente nesse sentido, e no código CN06, a diferença entre o estoque real e o registrado, que por constar em registro diverso e separado, assumese seja relativo aos valores que excedam os valores normais de quebras/perdas de estoque e processo produtivo, observados pela Recorrente. Assim, não precisou a Fiscalização buscar elementos e realizar cálculos para obtenção de produção, pois já tinha disponível os valores de divergência entre os insumos efetivamente utilizados na produção e insumos que não o foram, seja por quebra/perda seja por outras razões. É bem verdade que poderia, a partir da divergência da quantidade de insumo, exigir o imposto, com base no valor do produto industrializado, nos termos do 448, parágrafo 1º, do Regulamento do IPI de 2002, porém, limitouse a exigir o imposto, com base em valor menor, no valor do próprio insumo. Com as informações relativas aos valores registrados sob o código CN02, a Fiscalização ainda intimou a Recorrente por diversas vezes, pedindo expressamente um laudo que justificasse o percentual de quebras/perdas ali registrado, porém, a Recorrente respondeu o seguinte: Termo de 28/06/2010: “a) a Fiscalizada, no momento, não pode informar acerca da existência de laudo ou estudo que ampare o não estorno de IPI em razão dos valores registrados no código supra citado; b) através dos controles fiscais/contábeis da Empresa não é possível determinar se os valores registrados sob o código em tela são oriundos de quebra, perda, devolução par ao estoque por defeito do insumo, substituição de insumos na linha, etc; Termo de 28/03/2011: “a) não existe documentação comprobatória que esclareça os motivos dos valores que compõem o código em tela – se quebra/perda ou rejeição pelo controle de qualidade de insumo importado; ambos os casos estão agrupados indistintamente sob o código CN02”; Apenas após iniciado o contencioso é que a Recorrente trouxe maiores explicações, ao expor que o percentual de quebras no processo produtivo da Recorrente girava em torno de 0,50% (meio por cento) dos insumos adquiridos, apresentando para tanto apenas uma planilha, acostada como Doc. 05 da Impugnação e do Recurso Voluntário, em que compara os valores registrados nas rubricas em discussão, CN02 e CN06, com os valores registrados na rubrica CN01 ("Consumido na Produção"), e que este valor seria razoável para aquela indústria. Contudo, em que pese o percentual de quebras/perdas apontado pela Recorrente ser baixo e parecer realmente bastante razoável, mesmo após a carência probatória Fl. 1628DF CARF MF 26 decidida em primeiro grau, a Recorrente não trouxe provas adicionais para acompanhar as suas alegações, sejam documentos contábeis que demonstrassem os valores expostos como registrados na rubrica CN01, seja um estudo mais aprofundado, seja um laudo emitido por profissional com conhecimento especializado na indústria em questão que pudesse chancelar e confirmar a alegada realidade dessa indústria. Nesse cenário, entendo que não merece reparos a decisão recorrida, que entendeu que a Recorrente não se desincumbiu do ônus probatório quanto ao percentual de quebras/perdas em sua indústria, deixando que atender ao disposto no artigo 16, inciso III, do Decreto nº 70.235/1972. Portanto, deve ser mantido o lançamento referente ao estorno do IPI registrado na entrada de tais insumos, pois, ainda que não se exija a anulação do crédito de insumo que não foi devolvido, há que se anular o crédito de insumo inutilizado ou deteriorado, quando ausente a comprovação de que está inserido em percentual aceitável de quebra/perda. No que se refere ao código CN06, como exposto, em razão da existência de diferença entre as quantidades reais e escrituradas de estoque, devese reconhecer que a aquisição não se enquadra na hipótese do artigo 164, inciso I, do Regulamento do IPI de 2002, nem mesmo em insumos que "forem consumidos no processo de industrialização", por estarem registrados em conta diversa à conta destinada às quebras/perdas de insumos e, ainda que estivessem em conta específica para registro desses valores, não poderia se admitir a manutenção do crédito, em razão da ausência de demonstração da normalidade e razoabilidade do percentual de quebra/perda encontrado. Dessa maneira, com fundamento no artigo 123, inciso I, alíneas "o" combinada com "u", do Regulamento do IPI de 2002, há de se manter a glosa relacionada a essa matéria. Conclusão Pelo exposto, proponho ao Colegiado conhecer e dar provimento parcial ao Recurso Voluntário, para: (i) para manter as glosas relativas aos códigos CN02 e CN06 de relatórios internos de movimentação dos estoques da recorrente e relativas ao valor tributável mínimo; e (ii) afastar as glosas relativas a a créditos decorrentes de aquisições da Zona Franca de Manaus; afastar as glosas de créditos por Devolução ou Retorno de produtos, em razão do sistema de controle alternativo ao Registro de Entradas e Registro de Controle da Produção e do Estoque adotado pela Recorrente. Augusto Fiel Jorge d' Oliveira Relator Fl. 1629DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.617 27 Voto Vencedor Conselheiro Robson José Bayerl, Redator designado Com relação ao exame do direito de crédito de IPI pelas aquisições isentas de matériasprimas, materiais intermediários e de embalagem da Zona Franca de Manaus – ZFM, temse que a não cumulatividade do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI vem fixada no art. 153, § 3º, II da CF/88, como princípio vetor do tributo, nos seguintes termos: “Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: I importação de produtos estrangeiros; II exportação, para o exterior, de produtos nacionais ou nacionalizados; III renda e proventos de qualquer natureza; IV produtos industrializados; V operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a títulos ou valores mobiliários; VI propriedade territorial rural; VII grandes fortunas, nos termos de lei complementar. § 1º É facultado ao Poder Executivo, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei, alterar as alíquotas dos impostos enumerados nos incisos I, II, IV e V. (...) § 3º O imposto previsto no inciso IV: I será seletivo, em função da essencialidade do produto; II será nãocumulativo, compensandose o que for devido em cada operação com o montante cobrado nas anteriores; III não incidirá sobre produtos industrializados destinados ao exterior. IV terá reduzido seu impacto sobre a aquisição de bens de capital pelo contribuinte do imposto, na forma da lei. (Incluído pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003)” (destaquei) Como se observa do preceptivo em destaque, a apuração não cumulativa do IPI, que ora interessa, se dá pelo abatimento do valor cobrado nas aquisições e o valor devido pela saída do produto tributado, de modo que é pressuposto inarredável para o direito ao creditamento, na etapa seguinte do ciclo produtivo, que tenha havido cobrança de imposto na etapa imediatamente anterior e não a mera incidência tributária. Fl. 1630DF CARF MF 28 Neste sentido a redação do art. 49 do Código Tributário Nacional: “Art. 49. O imposto é nãocumulativo, dispondo a lei de forma que o montante devido resulte da diferença a maior, em determinado período, entre o imposto referente aos produtos saídos do estabelecimento e o pago relativamente aos produtos nele entrados. Parágrafo único. O saldo verificado, em determinado período, em favor do contribuinte transferese para o período ou períodos seguintes.” A própria norma legal impositiva do imposto em comento, Lei nº 4.502/64, de maneira transversa, sinaliza nessa direção, quando determina que seja estornado o crédito do imposto relativo aos insumos empregados na fabricação de produtos isentos, não tributados ou sujeitos à alíquota zero, nestes termos: “Art. 25. A importância a recolher será o montante do imposto relativo aos produtos saídos do estabelecimento, em cada mês, diminuído do montante do imposto relativo aos produtos nele entrados, no mesmo período, obedecidas as especificações e normas que o regulamento estabelecer. (Redação dada pelo DecretoLei nº 1.136, de 1970) § 1º O direito de dedução só é aplicável aos casos em que os produtos entrados se destinem à comercialização, industrialização ou acondicionamento e desde que os mesmos produtos ou os que resultarem do processo industrial sejam tributados na saída do estabelecimento. (Redação dada pelo DecretoLei nº 1.136, de 1970) § 2º (Revogado pelo DecretoLei nº 2.433, de 1988) § 3º. O Regulamento disporá sobre a anulação do crédito ou o restabelecimento do débito correspondente ao imposto deduzido, nos casos em que os produtos adquiridos saiam do estabelecimento com isenção do tributo ou os resultantes da industrialização estejam sujeitos à alíquota zero, não estejam tributados ou gozem de isenção, ainda que esta seja decorrente de uma operação no mercado interno equiparada a exportação, ressalvados os casos expressamente contemplados em lei. (Redação dada pela Lei nº 7.798, de 1989)” Com efeito, se se deveria estornar o crédito efetivo pela aquisição tributada de matériaprima, produto intermediário e material embalagem aplicados na industrialização de produtos que não sofriam a incidência do tributo, lato senso, com mais razão ainda na hipótese em que a própria aquisição do insumo já ocorresse de forma desonerada do imposto, raciocínio não prejudicado pelo advento do art. 11 da Lei nº 9.779/99. Como se observa dos textos legais, é condição sine qua non para aproveitamento dos créditos de IPI, pela sistemática de apuração não cumulativa, a efetiva cobrança do imposto na aquisição, aqui entendida na acepção de exigir, fazer com que seja pago, e não simplesmente que incida a norma tributária, de modo que a isenção, a não tributação ou a sujeição à alíquota zero, não garantem direito de crédito pela sistemática não cumulativa de apuração do IPI. Essa é a orientação contemporânea do Supremo Tribunal Federal, fixada no RE 398.365/RS, e também no CARF, como exposto no voto vencido, a partir da análise histórica da jurisprudência pátria acerca do tema. Fl. 1631DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.618 29 Abro um parêntese apenas para dissentir da afirmação que era firme a jurisprudência do STF, desde a promulgação da CF/88, no sentido de admitir o crédito presumido pelas aquisições isentas de IPI, ante a inexistência de vedação constitucional semelhante àquela prevista para o ICMS (art. 155, § 2º, II, “a”), ao passo que esse entendimento somente se sedimentou com a decisão prolatada no RE 212.484/RS, em 05/03/98. Tocante à apropriação do crédito presumido de IPI pelas aquisições de insumos, isentas, provenientes da ZFM, especificamente, a questão está afetada à sistemática da repercussão geral no RE 592.891/SP, porém, pendente de decisão de mérito. Portanto, inexiste qualquer precedente judicial, com força vinculante, que submeta este tribunal administrativo a conferir o direito de crédito em debate, a teor do art. 62 do RICARF/15 (Portaria MF 343/2015) e 26A do Decreto nº 70.235/72. Respeitante ao exame históricoeconômico da criação da ZFM engendrado pelo i. Relator, como fundamento para o reconhecimento do direito de crédito, entendo que as razões ali arroladas não são suficientes para garantir o pretendido creditamento, uma vez que não há, na legislação de regência daquela área, qualquer dispositivo que estipule o direito vindicado. Consoante art. 150, § 6º da CF/88, qualquer subsídio ou isenção, redução de base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só pode ser concedido mediante lei específica, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias taxativamente enumeradas ou o correspondente tributo ou contribuição, de sorte que o reconhecimento do crédito ficto pelas aquisições de insumos isentas da ZFM, a meu sentir, viola o texto constitucional. Mesmo a alegação de pretensa extrafiscalidade da isenção sub examine não se apresenta como fundamento ao deferimento do crédito, isto porque a envergadura constitucional da ZFM, como elemento catalisador do desenvolvimento econômico e social da região amazônica, não arrima essa conclusão, porquanto os incentivos fiscais criados pelo DL 288/67 e legislação correlata, como instrumentos para alcance daquele objetivo, não elencam esse crédito presumido (ou ficto, como preferem alguns) dentre eles. Com efeito, quando assim o quis, o legislador textualmente implementou crédito dessa natureza, como ocorreu no art. 6º, § 1º do DecretoLei nº 1.435/75, verbis: “Art 6º Ficam isentos do Imposto sobre Produtos Industrializados os produtos elaborados com matériasprimas agrícolas e extrativas vegetais de produção regional, exclusive as de origem pecuária, por estabelecimentos localizados na área definida pelo § 4º do art. 1º do Decretolei nº 291, de 28 de fevereiro de 1967. § 1º Os produtos a que se refere o ‘caput’ deste artigo gerarão crédito do Imposto sobre Produtos Industrializados, calculado como se devido fosse, sempre que empregados como matériasprimas, produtos intermediários ou materiais de embalagem, na industrialização, em qualquer ponto do território nacional, de produtos efetivamente sujeitos ao pagamento do referido imposto. Fl. 1632DF CARF MF 30 § 2º Os incentivos fiscais previstos neste artigo aplicamse, exclusivamente, aos produtos elaborados por estabelecimentos industriais cujos projetos tenham sido aprovados pela SUFRAMA.” Outrossim, não se pode olvidar que os benefícios fiscais da ZFM não se limitam à isenção do IPI pelas saídas de produtos industrializados para outros ponto do território nacional, mas se estendem à isenção pelas aquisições de insumos, por parte de empresas localizadas na ZFM, de qualquer parte do território nacional ou mesmo do exterior, com garantia de isenção, também, do Imposto de Importação respectivo. Essas medidas necessariamente redundam em desoneração tributária de toda a cadeia produtiva, com claros ganhos de produtividade para empresas instaladas na área de abrangência da ZFM, daí porque a análise de cunho econômico não pode ser, com o devido respeito, simplista, como no exemplo proposto pelo voto vencido, sem considerar todas as demais variáveis. Outrossim, aspectos de natureza econômica, ao menos em sede contenciosa administrativa, não servem de sustentáculo à concessão do crédito postulado. Mesmo porque, se enveredarmos por essa trilha, algumas situações reais constatadas causariam espécie e obnubilariam o pretenso direito creditório arguido, como se verifica, p.e., nesse mesmo processo, relativo a pedido de ressarcimento, onde a apropriação de créditos pelas aquisições isentas da ZFM resultou em elevação do saldo credor apurado e requerido, de maneira que a União foi instada a devolver, sob forma de ressarcimento, valores que nunca adentraram os cofres públicos. Ou seja, pretendese o ressarcimento ou devolução do que nunca foi pago, por força da isenção, o que, a meu sentir, carece de lógica jurídica. Demais disso, os ganhos decorrentes desses incentivos regionais poderiam ser qualificados também como financeiros, pela ótica da ausência de desembolso por parte dos adquirentes, acarretada pela desoneração, dos tributos incidentes diretamente sobre as aquisições. Por esse ângulo, perde força o argumento de necessidade de reconhecimento do direito de crédito como forma de não equiparálo a mero diferimento, como anotado no voto vencido, isso porque, a análise conjuntural exige a avaliação de todas as variantes econômicas, aí incluída a integralidade dos incentivos da ZFM, e não apenas a isenção do IPI pelas saídas de produtos industrializados, isoladamente. Não se pode perder de vista, ainda, que o princípio da seletividade interfere nessa equação, ao estabelecer alíquotas distintas para os produtos, em função da sua essencialidade, ao invés de uma alíquota linear ou única, o que resulta na possibilidade de, em certa etapa do ciclo produtivo, posterior àquela beneficiada com isenção, que incida uma alíquota menor que as etapas anteriores ou até mesmo uma alíquota zero, profligando qualquer possibilidade de se verificar diferimento do tributo. Noutro giro, reconhecer o crédito presumido/ficto pelas aquisições isentas de matériaprima, produto intermediário e embalagens da ZFM equivale, por via oblíqua, a investir o julgador administrativo em legislador ordinário, ao passo que, como enfadonhamente repetido, não existe qualquer dispositivo que, explícita ou implicitamente, confira o direito de crédito ora altercado, seja pela leitura do art. 43, § 2º da CF/88, seja pelos arts. 40, 92 e 92A do ADCT. Fl. 1633DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.619 31 Por esse motivo, compartilho a mesma perspectiva do saudoso Min. Teori Albino Zavascki, citado pelo i. Relator, segundo o qual, mesmo tomando o art. 43, § 2º da CF/88 como lastro constitucional para as vantagens fiscais atribuídas à ZFM, de modo a pretensamente afastar o art. 153, § 3º e sua regulação ordinária do princípio da não cumulatividade, o seu texto prevê tãosomente que os incentivos regionais compreenderão, dentre outros, isenções, reduções ou diferimento de tributos, nada mencionando sobre créditos presumidos ou fictos. Notese que a própria dicção do sobredito artigo, consubstanciado na expressão “dentre outros”, conduziria à possibilidade de criação do indigitado direito de crédito, ao estabelecer que os incentivos regionais não se limitam àqueles catalogados, todavia é mister do legislador ordinário a sua implementação, não do julgador administrativo. Em apertada síntese: a apropriação de créditos pelas aquisições isentas de insumos da Zona Franca de Manaus carece de respaldo legal, devendo ser mantida a glosa realizada pelas autoridades fiscais. Com essas considerações, voto por negar provimento ao direito de creditamento de IPI por aquisições isentas, mesmo que originárias da Zona Franca de Manaus – ZFM. Robson José Bayerl Fl. 1634DF CARF MF 32 Voto Vencedor Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 1. Com as vênias de estilo, em que pese o, como de costume, bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge d'Oliveira, apresento voto divergente, no sentido de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, conforme se passa a expor. I. VALOR TRIBUTÁRIO MÍNIMO 2. Como se sabe, em conformidade com o art. 46 do Código Tributário Nacional,5 o imposto sobre produtos industrializados, previsto no inciso IV do art. 153 da Constituição de 1988, 6 tem, como fato gerador: (i) o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; (ii) a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51 da norma;7 e (iii) a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. O art. 51 do diploma em referência, por sua vez, determina que a contribuinte do imposto é o industrial (ou equiparado) e o comerciante de produtos sujeitos ao IPI que os forneça a industriais ou equiparados. Da simples leitura de tais dispositivos, é possível se concluir, e.g., que a venda de distribuidora para consumidor final não se convola como fato gerador do imposto. 3. Uma vez definida a sua materialidade, depreendese da leitura do art. 478 a base de cálculo do IPI correspondente em uma operação de saída do produto interno: (i) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria, ou (ii) na falta dele, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente. Nos termos do quanto preceituado pelo art. 190 do Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI),9 constitui 5 Código Tributário Nacional Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: I o seu desembaraço aduaneiro, quando de procedência estrangeira; II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; III a sua arrematação, quando apreendido ou abandonado e levado a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a natureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo. 6 Constituição da República de 1988 Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre: (...) IV. Produtos industrializados. 7 Código Tributário Nacional Art. 51. Contribuinte do imposto é: I o importador ou quem a lei a ele equiparar; II o industrial ou quem a lei a ele equiparar; III o comerciante de produtos sujeitos ao imposto, que os forneça aos contribuintes definidos no inciso anterior; IV o arrematante de produtos apreendidos ou abandonados, levados a leilão. Parágrafo único. Para os efeitos deste imposto, considerase contribuinte autônomo qualquer estabelecimento de importador, industrial, comerciante ou arrematante. 8 Código Tributário Nacional Art. 47. A base de cálculo do imposto é: I no caso do inciso I do artigo anterior, o preço normal, como definido no inciso II do artigo 20, acrescido do montante: a) do imposto sobre a importação; b) das taxas exigidas para entrada do produto no País; c) dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; II no caso do inciso II do artigo anterior: a) o valor da operação de que decorrer a saída da mercadoria; b) na falta do valor a que se refere a alínea anterior, o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente; III no caso do inciso III do artigo anterior, o preço da arrematação. 9 Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Art. 190. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: (...) II dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1o O valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. § 2o Será também considerado como cobrado ou debitado pelo contribuinte, ao comprador ou destinatário, para efeitos do disposto no § 1o, o valor do frete, quando o transporte for realizado ou cobrado por firma controladora ou controlada do estabelecimento contribuinte ou por firma com a qual este tenha relação de interdependência, mesmo quando o frete seja subcontratado. § 3o Não podem ser deduzidos do valor da operação os descontos, diferenças ou abatimentos, concedidos a qualquer título, ainda que incondicionalmente. § 4o Nas saídas de produtos a título de consignação Fl. 1635DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.620 33 "valor tributável" dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial, assim entendido como o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário. 4. O art. 195 do RIPI/2010, por seu turno, de forma a ecoar o preceptivo normativo do alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional, dispõe a respeito da necessidade de um valor mínimo tributável no caso de produto destinado a outro estabelecimento do próprio remetente: o preço corrente no mercado atacadista da praça do próprio remetente, cf. inciso I do art. 15 da Lei nº 4.502/1964 e art. 2º do DecretoLei no 34/1966, conforme abaixo se transcreve: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Valor Tributável Mínimo Art. 195. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente quando o produto for destinado a outro estabelecimento do próprio remetente ou a estabelecimento de firma com a qual mantenha relação de interdependência. 5. Para a caracterização da relação de interdependência, por sua vez, necessária a configuração de ao menos uma das hipóteses previstas no art. 612 do RIPI/2010: (i) participação, direta ou indireta, de mais de 15% no capital social; (ii) comungarem de ao menos um diretor ou sócio com funções de gerência; (iii) quando uma tiver vendido/consignado à outra no ano anterior mais de 20% de seus produtos com exclusividade territorial ou mais de 50% em qualquer hipótese; (iv) quando uma delas for a única adquirente de um ou mais produtos da outra; (v) quando uma vender à outra produto que tenha fabricado ou importado por meio de contrato de participação ou semelhante, conforme disposição a seguir trasladada: Decreto nº 7212/2010 (Regulamento do IPI) Firmas Interdependentes Art. 612. Considerarseão interdependentes duas firmas: I. quando uma delas tiver participação na outra de quinze por cento ou mais do capital social, por si, seus sócios ou acionistas, bem como por intermédio de parentes destes até o segundo grau e respectivos cônjuges, se a participação societária for de pessoa física; II. quando, de ambas, uma mesma pessoa fizer parte, na qualidade de diretor, ou sócio com funções de gerência, ainda que exercidas sob outra denominação; III. quando uma tiver vendido ou consignado à outra, no ano anterior, mais de vinte por cento no caso de distribuição com exclusividade em determinada área do território nacional, e mais de cinquenta por cento, nos demais casos, do volume das vendas dos produtos tributados, de sua fabricação ou importação; IV. quando uma delas, por qualquer forma ou título, for a única adquirente, de um ou de mais de um dos produtos industrializados ou importados pela outra, ainda quando a exclusividade se refira à padronagem, marca ou tipo do produto; ou V. quando uma vender à outra, mediante contrato de participação ou ajuste semelhante, produto tributado que tenha fabricado ou importado. Parágrafo único. Não caracteriza a interdependência referida nos incisos III e IV a venda de matériasprimas e produtos intermediários, destinados exclusivamente à industrialização de produtos do comprador. mercantil, o valor da operação referido na alínea “b” do inciso I e no inciso II do caput, será o preço de venda do consignatário, estabelecido pelo consignante Fl. 1636DF CARF MF 34 6. Uma vez configurada a situação de interdependência, deve o aplicador se voltar, necessariamente, ao preço corrente da praça do remetente, por expresso desígnio da alínea b do inciso II do art. 47 do Código Tributário Nacional conjugada com o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Duas são as questões que merecem, a partir de então, maior reflexão: em primeiro lugar, o sentido de "preço corrente" e, em segundo lugar, o sentido de "praça". Diante da dúvida sobre se o preço corrente da localidade seria aquele praticado pelo remetente, considerado de maneira individual e apartado do restante da praça, ou se, para o cálculo, deveria a autoridade fiscal considerar todo o mercado local, a Coordenação do Sistema de Tributação editou o Parecer Normativo CST nº 44/1981, que entendeu pela necessidade de consideração do universo das vendas realizadas na localidade, de modo a utilizar, como sinônimo de "praça", a "cidade".10 Assim, para se encontrar o "preço corrente", necessário se levar em consideração a média ponderada do preço praticado pelos estabelecimentos da cidade do remetente: Parecer Normativo CST nº 44/1981 Imposto Sobre Produtos Industrializados 4.16.04.02 Valor Tributável Mínimo Remessas Para Interdependentes "1. Indagase, para encontro do limite mínimo do valor tributável do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), na hipótese prevista no artigo 46, inciso I, letra a , do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979 (RIPI), qual a extensão do entendimento da expressão "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". (...). 3. A base da norma que se examina, originariamente, foi o disposto no inciso I do artigo 15 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964, verbis: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço normal de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, ou, na sua falta, ao preço corrente no mercado atacadista do domicílio do remetente, quando o produto for remetido, para revenda, a estabelecimento de terceiro, com o qual o contribuinte tenha relações de interdependência (art. 42). 4. No texto transcrito observase que a regra de apuração do valor tributável destacava a hipótese de venda por atacado a outros compradores ou destinatários, podendo ser entendida como o preço praticado pelo próprio remetente. 4.1 A alteração 5ª do artigo 2º do DecretoLei nº 34, de 18 de novembro de 1966, deu nova redação ao inciso transcrito, e excluiu a possibilidade daquele entendimento, definindo que: Artigo 15. O valor tributável não poderá ser inferior: I ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, quando o produto for remetido a outro 10 Sentido utilizado também no Recurso Extraordinário nº 71.253/PR, proferido pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal em 21/05/1973, de relatoria do Ministro Xavier de Albuquerque. Ementa: "ICM. REMESSA PARA OUTRO ESTADO. INCIDÊNCIA SOBRE O VALOR DA MERCADORIA NA PRAÇA DO REMETENTE. DESNECESSIDADE, EM CERTOS CASOS, DE PROCESSO REGULAR PARA O ARBITRAMENTO DESSE PREÇO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO NÃO CONHECIDO". Fl. 1637DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.621 35 estabelecimento da mesma pessoa jurídica ou a estabelecimento de terceiro, incluído no artigo 42 e seu parágrafo único. 5. A norma superveniente determina, pois, ser "o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente..." a base mínima para o valor tributável nas hipóteses que menciona. 6. Registram os Dicionários da Língua Portuguesa que mercado, convencionalmente, significa a referência feita em relação à compra e venda de determinados produtos. 6.1. Isto significando, por certo, que numa mesma cidade, ou praça comercial, o mercado atacadista de determinado produto, como um todo, deve ser considerado relativamente ao universo das vendas que se realizam naquela mesma localidade, e não somente em relação àquelas vendas efetuadas por um só estabelecimento, de forma isolada. 7. Por isso, os preços praticados por outros estabelecimentos da mesma praça que a do contribuinte interessado em encontrar o valor tributável do IPI através do preço corrente no mercado atacadista devem ser considerados para o cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do artigo 46 do RIPI/79. 8. Quando não puder ser conhecido, por inexistente, o preço corrente no mercado atacadista relativo a qualquer produto, o comando legal a ser seguido encontrase no artigo 46, § 6º (parte final), combinado com o disposto no parágrafo único do artigo 44 do já mencionado Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 09 de março de 1979" (seleção e grifos nossos). 7. No ano seguinte à edição do Parecer Normativo CST nº 44/1981, com o objetivo de elucidar o vocábulo "produto" (item 6.1), bem como no sentido de esclarecer o cálculo da média ponderada, foi editado o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Em perfeita consonância com o repertório normativo analisado até o presente momento, o ato dispôs que, para fins de determinação do valor tributável mínimo, devem ser consideradas "as vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI". Assim, deve a autoridade autuante fazer com que participe do cálculo da média ponderada não apenas os valores praticados pelos remetentes da praça, como também pelos seus interdependentes (que estejam também na mesma praça e caso existam , evidentemente, sob pena de contradição com o texto do art. 195 do RIPI/2010 e do Parecer Normativo CST nº 44/1981), conforme abaixo se reproduz: Ato Declaratório Normativo CST nº 5, de 04/05/1982 O Coordenador do Sistema de Tributação, no uso das atribuições que lhe confere o item II da Instrução Normativa SRF nº 34, de 18 de setembro de 1974, e tendo em vista o Parecer CST/DET nº 892/82: Declara, em caráter normativo, às Superintendências Regionais da Receita Federal e demais interessados, que o termo produto, constante do subitem 6.1 do Parecer Normativo CST nº 44, de 23 de novembro de 1981, indica uma mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, Fl. 1638DF CARF MF 36 tipo, modelo, espécie, qualidade e número, se houver, na forma indicada no inciso VIII do art. 205 do Regulamento aprovado pelo Decreto nº 83.263, de 9 de março de 1979 (RIPI). Declara, igualmente, que, do produto assim caracterizado, para efeito de cálculo da média ponderada de que trata o § 5º do art. 46 do RIPI/79, que determinará o valor tributável mínimo a que alude o art. 46, inciso I, do mesmo Regulamento, deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI. 8. Aventouse, a partir de então, para fins de apuração do "preço corrente", hipótese em que, no mercado atacadista a que essa regra se refere, existir um único distribuidor, sendo este interdependente do estabelecimento industrial fabricante do produto cujo valor tributável mínimo se pretenda determinar. A Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit), por meio da Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011,11 solicitou à CoordenaçãoGeral de Tributação (Cosit) orientação relativa à possibilidade da aplicação da regra de fixação de valor tributável mínimo determinada pelo inciso I do art. 195 do RIPI/2010 neste caso específico, o que conduziu à edição da Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012, no sentido de que, em tais casos, o preço corrente "(...) corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas por atacado do produto", em conformidade com o trecho abaixo transcrito: Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012 "(...) 9. (...) existindo diversos estabelecimentos atuantes no mercado atacadista, não será válida a determinação do valor tributável mínimo tomando por base o preço praticado por apenas um estabelecimento, isoladamente considerado. Devese levar em conta “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”. 9.1. Agora, se “o mercado atacadista de determinado produto, como um todo”, possui um único vendedor, é inevitável que o valor tributável mínimo seja determinado a partir das vendas por este efetuadas. Nem por isso tais operações de compra e venda por atacado deixarão de caracterizar a existência de um “mercado atacadista”, possibilitando, portanto, a aplicação da regra estatuída no inciso I do art. 195 do RIPI/2010. 9.2. Assim, o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único nas vendas que efetue, por atacado, do citado produto. 10. Dessa forma, as operações realizadas por este estabelecimento corresponderão ao “universo das vendas” a que se refere o Parecer 11 Consulta Interna nº 4, de 02/08/2011 realizada pela Divisão de Tributação da Superintendência Regional da Receita Federal do Brasil da 10ª Região Fiscal (SRRF10/Disit): "(...) quando uma distribuidora é a única vendedora no mercado atacadista do país ou da região do fabricante, os preços por ela praticados devem ser utilizados para determinação do valor tributável mínimo referido no artigo 195, inciso I, do RIPI/2010? Ou, em função do que consta no trecho acima transcrito do Parecer Normativo CST nº 44/81, deve se entender que a regra do artigo 195, inciso I, do RIPI/2010 só pode ser aplicada nos casos em que o mercado atacadista seja composto por mais de um vendedor?". Fl. 1639DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.622 37 Normativo CST nº 44, de 1981, e tais operações de compra e venda configurarão o “mercado atacadista” de que trata o inciso I do art. 195 do RIPI/2010. Conclusão 11. Diante do exposto, na hipótese de existir no mercado atacadista a que se refere o inciso I do art. 195 do RIPI/2010 um único distribuidor, interdependente de estabelecimento industrial fabricante de determinado produto (sem similar para efeito de comparação de preços), o valor tributável mínimo aplicável a esse estabelecimento industrial fabricante corresponderá aos próprios preços praticados pelo distribuidor único nas vendas por atacado do citado produto" (seleção e grifos nossos). 9. Assim, para fins de determinação do preço mínimo, deve a autoridade autuante: (i) verificar a existência de relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, nos termos do art. 612 do RIPI/2010; (ii) caso configurada tal relação, deverá verificar se a contribuinte obedeceu, por sua vez, à regra do valor tributável mínimo, assim entendido como o "preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente", em conformidade com o art. 195 do RIPI/2010 obtido por meio da média ponderada dos preços das "vendas efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente, no atacado, na mesma localidade, excluídos os valores de frete e IPI".12 Para tal finalidade, deverá, ainda: (ii.a) considerar como "produto" aquela mercadoria perfeitamente caracterizada e individualizada por marca, tipo, modelo, espécie, qualidade e número, e (ii.b) considerar o termo "praça" como município, cidade, local ou freguesia do estabelecimento do remetente, preceptivos do Parecer Normativo CST nº 44/1981 e do Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982. Por fim, caso constate que (iii) a parte interdependente é o único fornecedor/distribuidor da praça do remetente ("mercado monopolista local"), o valor tributável mínimo aplicável será a média ponderada dos preços praticados por este distribuidor único para aquele produto. 10. Divergência passaria a existir, observese a latere, diante da completa ausência de mercado atacadista onde está localizado o estabelecimento remetente, situação enfrentada pelo Acórdão CARF nº 3403002.285, proferido em sessão de 26/06/2013, sob a relatoria do Conselheiro Antônio Carlos Atulim,13 no qual o colegiado entendeu, vencidos os Conselheiros Rosaldo Trevisan e Alexandre Kern, pela necessidade de se considerar, como valor mínimo tributável, apenas os custos de fabricação e demais despesas incorridas com os produtos. Em sentido oposto, é possível se apontar a situação específica verificada no Acórdão CARF nº 3201001.204, proferido em sessão de 25/02/2013, de Relatoria do Conselheiro Luciano Lopes de Almeida Moraes, referenciado nas contrarrazões da Procuradoria da Fazenda Nacional, em que, diante da inexistência de outros atacadistas na praça do remetente, foram utilizados os preços das notas de saída das distribuidoras registrase, no entanto, que tal 12 Em outras palavras, o "mercado atacadista" da praça do remetente (art. 195 RIPI/2010) é composto pelas vendas do mesmo produto "efetuadas pelos remetentes e pelos interdependentes do remetente [estes, caso existam], no atacado, na mesma localidade" (Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982). 13 Acórdão CARF nº 3403002.285 Ementa: "VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. EMPRESAS INTERDEPENDENTES. Inexistindo mercado atacadista na cidade em que está localizado o estabelecimento remetente, o valor tributável mínimo do IPI a ser observado nas vendas para empresa interdependente deve ser apurado com base na regra do art. 196, parágrafo único, II, do RIPI/2010, considerandose apenas e tãosomente os custos de fabricação e demais despesas incorridas pelo remetente dos produtos". Fl. 1640DF CARF MF 38 precedente, além de isolado, foi decidido, no mérito, por voto de qualidade e de maneira contrária à regra geral determinada pela legislação do IPI. 11. Cabe observar que, com o advento do Decreto nº 8.393, de 28/01/2015, que entrou em vigor na data da sua publicação, restou revogado o Decreto nº 1.217/1994,14 de modo a incluir, com supedâneo no art. 8º da Lei nº 7.798/1989, produtos correspondentes ao códigos TIPI 3303 a 3307 (3303.00.10, 3305.30.00, 3304.10.00, 3305.90.00, 3304.20, 3307.10.00, 3304.30.00, 3307.30.00, 3304.9, 3307.4, 3305.20.00, e 3307.90.00) no Anexo III da lei em referência, que dispõe da seguinte forma: Lei nº 7.798/1989 Art. 7º. Equiparamse a estabelecimento industrial os estabelecimentos atacadistas que adquirirem os produtos relacionados no Anexo III [entre os quais, cosméticos], de estabelecimentos industriais ou dos seguintes estabelecimentos equiparados a industrial: (...) III. estabelecimentos comerciais de produtos cuja industrialização haja sido realizada por outro estabelecimento da mesma firma ou de terceiros, mediante a remessa, por eles efetuadas, de matériasprimas, produtos intermediários, embalagens, recipientes, moldes, matrizes ou modelos. (...) § 1º. O disposto neste artigo aplicase nas hipóteses em que adquirente e remetente sejam empresas interdependentes, controladoras, controladas ou coligadas (Lei nº 6.404, art. 243, §§ 1º e 2º) ou interligadas. (...) Art. 8º. Para fins do disposto no artigo anterior, fica o Poder Executivo autorizado a excluir produto ou grupo de produtos cuja permanência se torne irrelevante para arrecadação do imposto, ou a incluir outros cuja alíquota seja igual ou superior a quinze por cento" (seleção, grifos e colchetes nossos). 12. Assim, ao se equiparar o atacadista a estabelecimento industrial (quando vier a adquirir, e.g., produtos cosméticos de indústria ou equiparado que fizer parte do mesmo grupo empresarial), na qualidade de novel contribuinte do IPI, promovese substanciosa alteração da lógica tributária da operação, no sentido de se criar regra específica antielisiva por meio de alteração na TIPI que tem como efeito a expansão do aspecto pessoal do imposto para pessoas que antes não se sujeitavam a tal materialidade. Aquela contribuinte que organizar os seus negócios de modo a dividilos entre industrial e atacadista, poderá continuar a fazêlo sem se sujeitar a uma tributação maior, pois o distribuidor passará a se creditar do valor de IPI sobre os produtos entrados em seu estabelecimento por meio de compensação em conta gráfica. 13. Em que pese a medida ser em tudo elogiável, portanto, do ponto de vista de buscar uma forma de equalização de mercado, cabe se registrar, em sede de excursus, até mesmo em proveito da cronologia normativa que ora se estabelece, que a forma contramajoritária eleita para instituíla tem sido posta sob vergasta: (i) primeiro, porque, por meio de decreto presidencial, terseia criado tributo onde antes não havia para todo o setor de cosméticos. De fato, o art. 97 do Código Tributário Nacional explicita em minúcias o conteúdo e a expressão da legalidade: "(...) o consequente normativo, isto é o an e o quantum debeatur, representados pela definição do sujeito passivo, da base de cálculo e da alíquota, todos devem ser previstos na própria lei",15 ponto sobre o qual já escrevemos, e.g., no Acórdão CARF nº 14 Decreto nº 1.217/1994 Art. 1º Ficam excluídos do Anexo III à Lei nº 7.798, de 10 de julho de 1989, os produtos classificados nos códigos 3301.90.03, 3303, 3304, 3305, 3306 e 3307, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados, aprovada pelo Decreto nº 97.410, de 23 de dezembro de 1988. 15 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 7ª edição, 2017, p. 314. Fl. 1641DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.623 39 3401003.216, de minha relatoria, proferido em sessão de 23/08/2016: a autorização franqueada pela lei, no caso, o art. 8º da Lei nº 7.798/1989, acima transcrito, para que determinados produtos sejam acrescentados à TIPI, tratase de permissivo de mitigação excessivamente pretensioso, pois encontra obstáculo na norma de estatura complementar. Possível seria a redução ou a dispensa do tributo por meio de norma executiva, como, aliás, fizera o Decreto nº 1.217/1994, mas jamais o aumento ou criação de tributo novo, uma vez que "(...) o princípio da legalidade não tolera um aumento de tributo sem lei que o estabeleça".16 Em (ii) segundo lugar, a iniciativa do Poder Executivo contrariou o texto expresso do art. 4º da Lei nº 7.798/1989, ao determinar que o IPI incidente sobre produtos nacionais, salvo no caso de industrialização por encomenda, deve ser recolhido uma única vez: ou (ii.a) na saída do estabelecimento industrial, ou (ii.b) na saída do estabelecimento a ele equiparado: Lei nº 7.798/1989 Art. 4º Os produtos sujeitos aos regimes de que trata esta Lei pagarão o imposto uma única vez (...) a) os nacionais, na saída do estabelecimento industrial ou do estabelecimento equiparado a industrial; b) os estrangeiros, por ocasião do desembaraço aduaneiro. 14. O art. 47 do Código Tributário Nacional é expresso ao se referir ao preço "o preço corrente da mercadoria, ou sua similar, no mercado atacadista da praça do remetente". Em igual sentido, de maneira igualmente expressa, o inciso I do art. 195 do Decreto nº 7212/2010 (RIPI), ao tratar do valor tributável mínimo, referese ao "ao preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente". Uníssonos e uniconcordes, como não poderiam deixar de ser, o Parecer Normativo CST nº 44/1981 e o Ato Declaratório Normativo CST nº 5/1982, cujo trecho a seguir se transcreve: "deverão ser consideradas as vendas efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente". Harmoniosa com tal determinação legal também a Solução de Consulta Interna Cosit nº 8, de 13/06/2012: "o valor tributável mínimo aplicável às saídas de determinado produto do estabelecimento industrial que o fabrique, e que tenha na sua praça um único distribuidor, dele interdependente, corresponderá aos próprios preços praticados por esse distribuidor único". A fixação da "regra do remetente" encontrou ressonância, ainda, na jurisprudência deste Conselho.17 15. Em igual sentido, a posição deste Conselho, conforme se denota da leitura do Acórdão CARF nº 20218.215, proferido em 14/08/2007, de relatoria da Conselheira Maria Teresa Martinez López, que negou provimento a recurso de ofício por unanimidade de votos, redigido com a seguinte ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados IPI Período de apuração: 10/02/1999 a 31/12/1999 Ementa: BASE DE CÁLCULO. FIRMAS INTERDEPENDENTES. 16 Idem, p. 316: "Isso inclui a proibição de se restabelecer uma tributação, mesmo que a redução se tenha dado por ato do próprio Executivo, por delegação legal. Uma coisa é a lei autorizar o Executivo a reduzir a tributação. Não implicará, entretanto, a possibilidade de aumentar a carga tributária sem decisão específica do legislador". 17 Acórdão CARF nº 20216475, proferido em sessão de 09/08/2005, sob a relatoria da Conselheira Maria Cristina Roza da Costa. Ementa: "IPI. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. INTERDEPENDÊNCIA. Aplicase o disposto no inciso I, letra “a”, c/c § 5º do art. 68 do RIPI/82, com a interpretação dada pelo ADN CST nº 5/82, quando ocorrer interdependência entre fabricante e adquirente nos termos do art. 394, inciso IV, do RIPI/82. Recurso provido". Fl. 1642DF CARF MF 40 Caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos remetente e adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, conforme preceitua o art. 123, I, “a”, do RIPI/98, que equivale ao preço médio praticado na localidade, e não o praticado pelo adquirente. Recurso de ofício negado. 16. Transcrevese, ainda, por pertinente, trecho do voto do caso, em tudo semelhante ao presente: "O que se verifica dos autos é que, ignorando a determinação legal acima exposta, a fiscalização arbitrou a base de cálculo do IPI tomando o valor de revenda do adquirente interdependente. O art. 123 do RIP1/98 é claro ao estabelecer que quando ficar caracterizada a interdependência entre os estabelecimentos do remetente e do adquirente, o valor mínimo tributável é o preço corrente no mercado atacadista da praça do remetente, que equivale ao preço médio praticado na localidade, não podendo ser considerado como o praticado pelo adquirente" (seleção e grifos nossos). 17. Necessária menção deve ser feita, ainda, ao Acórdão CARF nº 204 02706 (Processo Administrativo nº 16175.000298/200517), proferido em sessão de 15/08/2007, de relatoria da Conselheira Nayra Bastos Manatta, por unanimidade de votos, que tratou especificamente da determinação da base de cálculo mínima do IPI: "(...) limitouse, a fiscalização, a tomar como valor tributável mínimo o valor de revenda do adquirente interdependente como base de cálculo do remetente. Tal procedimento não encontra qualquer respaldo legal" (seleção e grifos nossos), tendo sido lavrada a seguinte ementa: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim se proceder por inexistir vendas do produto na mesma praça da remetente, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando o custo de fabricação do produto, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, bem assim do seu lucro normal e das demais parcelas que devam ser adicionadas ao preço da operação. As vendas realizadas pela empresa adquirente do produto, localizada em outra praça, não se prestam para cálculo do valor mínimo tributável, se consideradas isoladamente. 18. Por fim, em igual sentido, o Acórdão CARF nº 340100.768, proferido em sessão de 25/05/2010, de relatoria do Conselheiro Dalton César Cordeiro de Miranda, proferido por unanimidade de votos: IPI. REMESSAS PARA INTERDEPENDENTES. VALOR TRIBUTÁVEL MÍNIMO. No caso de saídas para empresas interdependentes o valor tributável mínimo a ser considerado como base de cálculo do imposto é o preço Fl. 1643DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.624 41 corrente no mercado atacadista da praça comercial do remetente, ou, caso não seja possível assim proceder, o valor mínimo tributável deve ser calculado considerando as especificidades e características (marca, tipo, modelo, espécie, volume, qualidade) dos produtos distintos empregados para sua formação de preços. 19. Por derradeiro, durante as pesquisas realizadas para a elaboração do presente voto, deparouse este Relator com a informação de que tramita, no Congresso Nacional, o Projeto de Lei nº 1.559/2015, com o seguinte teor: "Art. 1º Esta Lei tem por objetivo, para os fins previstos na Lei nº 502 de 30 de novembro de 1.964, definir “praça” como a cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Art. 2º O artigo 15 da Lei nº 4.502 de 30 de novembro de 1.964, passa a vigorar acrescida do seguinte parágrafo único: “Art. 15.......................................................................................... Parágrafo único. O termo praça, tratado neste artigo, se refere à cidade onde está situada a remetente.” (NR) Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação" (seleção e grifos nossos). 20. Transcrevese, abaixo, trecho da justificativa do projeto de lei em comento: "A lei do IPI fala em preço tributável mínimo, quando da venda de produtos para empresas interdependentes. Ocorre que o Fisco Federal vem distorcendo o conceito da praça, vindo a expandilo de forma totalmente arbitrário e sem critério. Dessa forma, vários contribuintes são autuados sob a alegação de que não seguiram o preço mínimo tributável, pois, na visão fiscal, o preço de venda deveria considerar os preços praticados em outras cidades. Ou seja, os contribuintes estão vivendo um clima de total insegurança jurídica, já que o fisco federal não acolhe o conceito de praça hoje consagrado, o qual diz ser a cidade onde está o remetente. Dessa forma, e para evitar a insegurança jurídica trazida pela interpretação da lei fiscal, necessário deixar pacificado o entendimento corrente, que diz que praça corresponde à cidade onde está situado o remetente das mercadorias. Isto posto, acreditado estar aperfeiçoando o regime jurídico pátrio que trata da matéria, conto com o apoio dos pares na rápida aprovação da presente proposição. Sala das Sessões, em 14 de maio de 2015" (seleção e grifos nossos). 21. O projeto de lei, com regime ordinário de tramitação, foi aprovado por unanimidade, em 11/11/2015, pela Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados e aguarda, desde 29/12/2016, designação de relator na Comissão de Fl. 1644DF CARF MF 42 Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Casa Legislativa. Recortase, abaixo, trecho do relatório de aprovação do projeto pela Comissão de Finanças e Tributação: "A proposição em epígrafe (...) pretende modificar o art. 15 da Lei n.º 4.502, de 30 de novembro de 1964, que dispõe sobre o Imposto sobre Produtos Industrializados, no que se refere à fixação do menor valor tributário aceito pela administração fiscal, no caso de remessas a outro estabelecimento da empresa ou de terceiro (3º) ou ainda que opere exclusivamente em venda a varejo, para determinar que o termo “praça” seja definido como a cidade onde está situado o estabelecimento remetente. Alega o autor que o fisco federal tem expandido o conceito “praça”, de forma arbitrária e sem critério, promovendo insegurança jurídica e lavrando autuações indevidas, com base em preços praticados em outras cidades. Sujeita à apreciação conclusiva das Comissões em regime de tramitação ordinária, e ao exame de mérito, previstos no artigo 54, inciso II, e no artigo. 24, inciso II, do Regimento Interno desta Casa. O projeto de lei em tela não recebeu emendas no prazo regimental junto à Comissão de Finanças e Tributação. Quando a determinação do valor tributável para efeito de cálculo dos preços praticados no mercado atacadista da praça do remetente, será considerado o universo das vendas realizadas naquela localidade (...). Demais normas tributárias citadas como o ADN nº 5, de 1982, ao determinar o cálculo da média ponderada para a apuração do valor tributário mínimo, bem como o Parecer CST nº 3313, de 1982, também voltado para o cálculo da média ponderada, fixam que deverão ser consideradas as vendas do produto, efetuadas pelo remetente e pelos interdependentes do remetente, no atacado, sob determinadas condições, na mesma localidade. Não obstante a matéria já se achar plenamente esclarecida não está definida em lei de forma explícita. Isto posto, com vistas a permitir a correta adoção da lei, prevenindo excessos interpretativos, consideramos oportuna a inclusão do dispositivo proposto" (seleção e grifos nossos). 22. Em que pese se tratar de dispositivo de lege ferenda, o que inviabiliza em absoluto o seu uso como fonte formal, não há de se ignorar o trâmite da matéria como vetor argumentativo de interesse e, por outro lado, a medida, consentânea com a jurisprudência deste Conselho, como se demonstrou, de fato possibilitaria maior grau de segurança jurídica à atividade do lançamento, tendo como efeito a desejável redução da matéria contenciosa, a redução do estoque de processos judiciais e administrativos e, logo, a maior celeridade na prestação jurisdicional. Cabe destacar, ademais, que o Superior Tribunal de Justiça, no Recurso Especial nº 1.190.037/SP, de relatoria do Ministro Luis Felipe Salomão, ao tratar do prazo prescricional do cheque, definiu "praça" como "município"18. E não poderia ser de outra forma, pois a alínea 'a' do inciso I e 'b' do inciso II do art. 11 da Lei Complementar nº 95/1998, que 18 Recurso Especial nº 1.190.037/SP Trecho da ementa: "4. O cheque é ordem de pagamento à vista, sendo de 6 (seis) meses o lapso prescricional para a execução após o prazo de apresentação, que é de 30 (trinta) dias a contar da emissão, se da mesma praça, ou de 60 (sessenta) dias, também a contar da emissão, se consta no título como sacado em praça diversa, isto é, em município distinto daquele em que se situa a agência pagadora". Fl. 1645DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.625 43 trata da elaboração, a redação, a alteração e a consolidação das leis, determina que o legislador, com o objetivo de obter clareza, deve usar as palavras e expressões em seu sentido comum, e expressar as mesmas idéias de preferência sempre pelas mesmas palavras. Por este motivo é que o sentido de praça como algo distinto de "município" somente poderia ser alterado por meio de preceptivo normativo editado especificamente com esta finalidade. 23. Feitas tais considerações, observase que a opção da contribuinte pela "(...) criação da fábrica como uma empresa inscrita em CNPJ diferente",19 implica, como recordam Carlos Eduardo Toro, Fernando Aurelio Zilveti e Bianca Britto, a observância de "(...) um valor mínimo determinado pela legislação do IPI", mas desde que observados os requisitos de sua aferição. Recordese: ainda que a decisão empresarial da contribuinte constitua vera imoralidade ao aplicador, a eventual ausência de propósito negocial de uma determinada estrutura societária é indiferente ao direito na esfera federal, e não pode ser utilizada como fundamento para a desconsideração de negócios jurídicos20. Desta forma, fosse a acusação de subfaturamento, e.g., tocaria à autoridade fiscal a demonstração da prática dos preços diferenciados para, em seguida, proceder à aplicação do art. 148 do Código Tributário Nacional, de forma a arbitrar o valor ou preço dos bens. 24. Não se ignora, portanto, que muitas empresas, notadamente do ramo de cosméticos, mas não somente, adotem tal estrutura também devido a outros aspectos não pertinentes à legislação do IPI, seja por razões tributárias ou extratributárias, como, para permanecer apenas na análise da tributação federal, a arquitetura fiscal desenhada pelo próprio governo federal para a cobrança do PIS e da Cofins.21 A concentração da incidência traduzida pela cobrança monofásica sobre a saída do importador ou do industrial, conforme previsto, e.g., na Lei nº 10.147/2000, ao onerar o produtor com a carga de toda a cadeia de consumo, tem por efeito deslocar a agregação de valor ao momento seguinte, da distribuição, o que é plenamente aceitável, como restou sedimentado no Acórdão CARF nº 3403002519, proferido em sessão de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti.22 Necessário se aceitar, nas 19 ZILVETI, Fernando Aurelio, TORO, Carlos Eduardo, e BRITTO, Bianca. "Operações do setor industrial aspectos tributários", In: SANTI, Eurico Marcos Diniz de. Curso de direito tributário e finanças públicas do fato à norma, da realidade ao conceito jurídico. São Paulo: Editora Saraiva Selo Direito GV, 2009, pp. 969 a 978. 20 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo Branco. Argumentação tributária de lógica substancial. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 2016, p. 176: "A disposição da presença de propósito negocial no elemento de refutação permite a sua consideração como um elemento protetivo que, uma vez comprovado, elide a hipótese de simulação ou abuso (...) como tal instituto é indiferente ao direito positivo (...) não é capaz o intérprete autêntico, no campo do direito, de colocar a sua vontade sobre o ordenamento, sob o risco de malferir a legalidade e, consequentemente, a validade da decisão". 21 ANDRADE, José Maria Arruda de. "É fundamental repensar política econômica que se vale de tributos". In: Revista Consultor Jurídico (Conjur) Coluna "Estado da Economia", 17/04/2016, disponível em: <http://www.conjur.com.br/2016abr17/estadoeconomiapoliticaeconomicavaletributos repensada?imprimir=1>, último acesso em 04/06/2017. Em recente artigo sobre o tema, o autor se volta ao momento posterior à instituição do regime nãocumulativo do PIS e da Cofins: "(...) mais do que a não cumulatividade, o resultado foi arrecadatório, com a criação de categorias econômicas com distintas e variadas cargas (isso sem contar a concomitância com regimes distintos: o cumulativo e o concentrado e monofásico, por exemplo). A progressão de anos e governos só tornou mais agudo o afastamento aos ideais de uma praticabilidade nos termos expostos no início. Logo foram criados inúmeros regimes especiais para determinadas cadeias produtivas, isenções (gastos tributários indiretos) para determinados produtos, acúmulo (ou “empoçamento”) de créditos em algumas operações; regimes de monetização de créditos para alguns e até mesmo “fast track" para os setores que conseguiam convencer o governo de sua importância. Em pouco tempo, encontramos setores que não só não contribuem com essas duas contribuições sociais, como, de fato, acabam por receber recursos do governo para saldar outros tributos com aquilo que não pagaram diretamente" (seleção e grifos nossos). 22 Acórdão CARF nº 3403002.519, proferido em sessão de 22/10/2013, sob a relatoria do Conselheiro Ivan Alegretti, que assevera, com correção, que a criação da empresa industrial, separada da empresa distribuidora, foi Fl. 1646DF CARF MF 44 palavras de Gerson Augusto da Silva, que "(...) a política fiscal constitui, pois, uma das políticas econômicas de tipo instrumental. Sua racionalidade se define no plano da eficácia operacional".23 Assim, não há de aceitar reprovação sobre opção de estrutura negocial do jurisdicionado que advém, em grande parte, como se percebe, das intervenções tributárias promovidas pelo próprio Estado na condução de sua política fiscal. II. ANÁLISE DA APLICAÇÃO DA IN Nº 82/2001 AO PRESENTE CASO 25. Considerou a autoridade fiscal que as saídas de produtos manufaturados a partir de telas de cristal líquido foram importadas com insuficiência de destaque de IPI, uma vez que a contribuinte teria se valido de base de cálculo abaixo do custo de aquisição ou de fabricação do produto, ou abaixo de sua soma com o valor devido a título de ICMS, PIS e Cofins, em ofensa ao art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com fundamento no art. 131 do RIPI/2002, conforme se recorta do bem fundado voto do Conselheiro Relator Augusto Fiel Jorge D'Oliveira o seguinte trecho: "No presente caso, o lançamento tem como fundamento a Instrução Normativa nº 82 de 2001, que remete § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, que, por sua vez, regulamenta o artigo 14, parágrafo 1º, da Lei nº 4.502/1964, aquele dispositivo acima mencionado que trata de valor tributável de produtos nacionais. Também aponta o artigo 15, inciso I, da Lei nº 4.502/1964, além de uma série de dispositivos do Regulamento do IPI. Assim, ao verificar que o valor da operação entre a Recorrente e seus clientes era muito inferior ao valor do custo do principal insumo utilizado na fabricação do produto, a Fiscalização obteve nova base de cálculo, a partir do custo desse insumo mais os tributos incidentes nas vendas pela Recorrente. Contra o lançamento, a Recorrente afirma que não haveria embasamento legal para a aplicação da regra de valor tributável mínimo de IPI, não sendo conciliável a base de cálculo apresentada no artigo 131 do RIPI/2002 e a apresentada pela IN SRF 82/2001. O raciocínio da Recorrente é, em parte, procedente. Enquanto o artigo 131 do RIPI/2002, que sucedeu e tem a mesma redação do § 1º do art. 118 do Decreto nº 2.637, de 25 de junho de 1998, trata o valor da operação como o preço do produto, a base de cálculo da IN SRF 82/2001, parte da grande custo de fabricação, ao determinar que “os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor'" (seleção nossa, grifos do original). 26. Assim, da leitura do relatório fiscal, denotase que se exigiu da contribuinte recorrente a aplicação de vero "valor tributável mínimo", diverso do valor de venda, com fundamento no art. 1º da Instrução Normativa SRF nº 82/2001, com a seguinte redação: Instrução Normativa SRF nº 82/2001 Art. 1º Os preços do vendedor poderão ser diferenciados para um mesmo produto, a partir de um preço de "(...) induzida pelos efeitos econômicos da política fiscal, que, sobreonerando o setor produtivo, compeliu os produtores a atuarem também na atividade de revenda/distribuição". 23 SILVA, Gerson Augusto. Estudos de Política Fiscal. Brasília/DF: Ministério da Fazenda Escola de Administração Fazendária (ESAF), Coleção Gerson Augusto da Silva, 1983, p. 59. Fl. 1647DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.626 45 venda básico, desde que estabelecidos em tabelas fixadas segundo práticas comerciais uniformemente consideradas, nunca inferiores ao custo de fabricação, acrescido dos custos financeiros e dos de venda, administração e publicidade, além do lucro normalmente praticado pelo vendedor (g.n.). 27. A norma regulamentar expedida pela então Secretaria da Receita Federal determinou a aplicação de um "preço mínimo" consistente na soma dos seguintes montantes: (i) custo de fabricação; (ii) custo financeiro; (iii) custo de venda; (iv) custo de administração; (v) custo de publicidade; e (vi) lucro normalmente praticado pelo vendedor. De fato, ao se cotejar tal preceptivo com o art. 131 do RIPI/2002, não se encontra convergência entre os textos: Decreto nº 4.544, de 26/12/2002 (RIPI/2002) Art. 131. Salvo disposição em contrário deste Regulamento, constitui valor tributável: I. dos produtos de procedência estrangeira: a) o valor que servir ou que serviria de base para o cálculo dos tributos aduaneiros, por ocasião do despacho de importação, acrescido do montante desses tributos e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis; b) o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento equiparado a industrial; e II. dos produtos nacionais, o valor total da operação de que decorrer a saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. § 1º O valor da operação referido nos incisos I, alínea b e II, compreende o preço do produto, acrescido do valor do frete e das demais despesas acessórias, cobradas ou debitadas pelo contribuinte ao comprador ou destinatário (g.n.). 28. Assim, o que se estatui no RIPI/2002 é o (i) preço do produto acrescido do (ii) valor do frete e (iii) das despesas acessórias, do que decorre a conclusão de que a Instrução Normativa em apreço extrapolou o conceito apontado pelo regulamento e, portanto, pelo próprio legislador. Isto porque, em primeiro lugar, o art. 131, ecoando o inciso III e § 1º do art. 14 da Lei nº 4.502/1964, aponta para a regra geral de composição da base de cálculo do imposto diante da inexistência de norma específica, tendo a contribuinte adotado, conforme se percebe a partir da análise dos documentos trazidos ao presente processo administrativo, justamente o preço constante das notas fiscais, acrescido de frete e despesas acessórias, para alcançar o IPI lançado em conta gráfica. Não poderia ser diferente, pois o preço nem sempre corresponderá à soma de custo e lucro normalmente praticado, e tampouco consta, na acusação fiscal, a alegação de subfaturamento, carecendo de competência a autoridade recursal para reestruturar os critérios jurídicos do lançamento, sob pena de violação não apenas do art. 146 do Código Tributário Nacional, mas do próprio primado de segurança jurídica que deve orientar a relação fiscocontribuinte. Assim, há de se estabelecer que nem sempre a realização de venda com "margens negativas" será vedada pelo ordenamento para fins de tributação pelo IPI, da mesma forma que a constatação de prejuízo fiscal não tem por implicação a fraude ao imposto de renda, sendo plausível e sobretudo verossímil a oscilação de preços no segmento dos eletroeletrônicos, como ocorre no presente caso. Em todo caso, em nenhum momento a autoridade fiscal envida esforços no sentido de demonstrar a violação, por parte da contribuinte, da base de cálculo prevista no art. 131 do RIPI/2002: a recorrente, por Fl. 1648DF CARF MF 46 outro lado, é hábil e oportuna ao demonstrar que manteve o preço de venda dos produtos acima do preço de aquisição dos insumos para a sua produção. 29. Em complemento, cumpre esclarecer que diversa é a norma insculpida no art. 15 da Lei nº 4.502/1964 ao estabelecer a regra aplicável para fins de apuração do valor tributável mínimo que, como se sabe, apenas será acionada caso atendidos os seus requisitos ou predicados mínimos, como, v.g., a demonstração da relação de interdependência entre os estabelecimentos da contribuinte fiscalizada, ou de transferência para estabelecimento do mesmo titular, ou saídas para comerciante autônomo para venda direta ao consumidor, o que, de todo modo, não foi feito durante o procedimento fiscal. Assim, por um lado, o art. 14 da lei de 1964, da mesma forma que o art. 131 pelo RIPI/2002, como se demonstrou mais acima, não se presta a fundamentar a Instrução Normativa. E, ainda que se busque auxílio no art. 15, igualmente será cancelado o auto de infração em virtude de carência probatória, pois não comprovados os requisitos autorizadores da aplicação do VTM. Na realidade, na medida em que o art. 131 do RIPI estabelece um "valor tributável" composto por preço, frete e despesas acessórias, a Instrução Normativa nº 82/2001, ao estabelecer que o preço "(...) não poderá ser inferior a (...)" acaba por criar um valor tributável mínimo não previsto pelo seriado normativo que deu conta da matéria, de forma a inovar o ordenamento e, ao fazêlo, incorrer em ilegalidade. Recordese, em segundo lugar, que, ao menos no caso brasileiro, a aplicação do direito deve ser feita de acordo com regras de competência em razão da matéria, o que não é novo ao âmbito da aplicação: tal raciocínio possibilitou ao Supremo Tribunal Federal descortinar a existência, e.g., de leis complementares "materialmente ordinárias", como se teve notícia, em 2008, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 377.4573/PR (“Cofins incidente sobre sociedades civil de profissões regulamentadas”). Assim, os regulamentos, tais como o Regulamento Aduaneiro (R.A.), o Regulamento do Imposto de Renda (RIR), o Regulamento do IPI (RIPI), o Regulamento do IOF (RIOF), o Regulamento do ITR (RITR), o Regulamento da contribuição para o PIS/PASEP e da Cofins, o Regulamento do Processo Administrativo Federal (RPAF) ou o Regulamento da CPMF têm, como fundamento de validade não o fundamento geral dos decretos executivos presidenciais, mas, na condição de reunião de leis federais (aprovadas pelo Congresso Nacional), o art. 13 da Lei Complementar nº 95/1998: Lei Complementar nº 95/1998 – Art. 13. As leis federais serão reunidas em codificações e consolidações, integradas por volumes contendo matérias conexas ou afins, constituindo em seu todo a Consolidação da Legislação Federal. § 1º A consolidação consistirá na integração de todas as leis pertinentes a determinada matéria num único diploma legal, revogandose formalmente as leis incorporadas à consolidação, sem modificação do alcance nem interrupção da força normativa dos dispositivos consolidados. 30. Assim, a redação de um decreto deve preservar o conteúdo normativo original dos dispositivos consolidados, tornandoos unicamente orgânicos e sistematizados. Não é diverso o objetivo do Decreto nº 4.544/2002 (RIPI) que, por seu turno, deve se valer das especificações da TIPI e das Instruções Normativas: especificações, esclareçase, que não podem evidentemente se chocar com aquelas do regulamento, que consolida posição majoritária, em detrimento, e.g., da TIPI, que veicula disposição executiva, regulamentar ou administrativa. Neste sentido, a tarefa dos Regulamentos encontra fundamento na própria ordem constitucional, cujo art. 59, que se volta a tratar do processo legislativo, determina, em seu parágrafo único, que a lei complementar deverá dispor sobre a consolidação Fl. 1649DF CARF MF Processo nº 10860.904337/201182 Acórdão n.º 3401003.877 S3C4T1 Fl. 1.627 47 das leis, tarefa que, como se viu, coube à Lei Complementar nº 95/1998. Logo, aquilo que inicialmente mereceria tratamento indistinto na forma de "decretos", nomen iuris generalizante, revela natureza jurídica diversa, pois, em que pese o idêntico rótulo, como se sabe desde a publicação da clássica obra de 1975 de autoria de José Souto Maior Borges24, devem tais instrumentos ser separados ratione materiae. O regulamento, portanto, ao expressar força de lei, sob os auspícios da disciplina integrativa veiculada pela norma complementar de fundamento constitucional, afasta as regras regulamentares naquilo em que forem contrárias às suas disposições. Desta feita, descabe à Administração fixar norma a seu talante ou alvedrio à revelia de disposição específica de norma consolidante (RIPI), o que derrui a Instrução Normativa SRF nº 82/2001 de fundamento ou lastro positivo e, conseqüentemente, de validade jurídica no ordenamento. Assim, voto por conhecer e, no mérito, dar provimento ao recurso voluntário interposto para a finalidade de afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item. Leonardo Ogassawara de Araújo Branco, Redator Designado 24 BORGES, José Souto Maior. Lei Complementar Tributária, São Paulo: Editora RT, 1975. Fl. 1650DF CARF MF 48 Declaração de Voto Conselheiro Rosaldo Trevisan, A necessidade de expressar, em declaração de voto, os fundamentos que utilizei para divergir do voto do relator, no que se refere ao chamado “valor tributável mínimo”, surgiu da leitura do voto vencedor, quando do recebimento da formalização. Daí a não indicação no resultado do julgamento de tal circunstância. No referido resultado, constou: “... por voto de qualidade, afastar a autuação em relação ao valor tributável mínimo e a multa de ofício a ele correspondente, por carência de fundamento da autuação em relação a este item, vencidos o relator e os Conselheiros Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes e Fenelon Moscoso de Almeida.” (grifo nosso) Designado o Conselheiro Leonardo Ogassawara de Araújo Branco para redigir o voto vencedor em relação ao tema, percebo que, em tal voto, os fundamentos externados não coincidem com os que adotei na votação, apesar de estarem também abrangidos pela expressão “carência de fundamento da autuação”. E isso se deve, fundamentalmente, à ambiguidade de tal expressão. Enquanto o redator designado entendeu que a “carência de fundamento da autuação” se referia à ilegalidade da Instrução Normativa SRF no 82/2001, entendo que se refere à ausência de motivação para aplicação, ao caso, de um valor tributável mínimo, sem os requisitos apresentados no próprio voto do redator designado, à margem da discussão sobre a legalidade ou não da referida norma infralegal. Em síntese, ainda que entenda legal a referida Instrução Normativa, não verifico, no lançamento, justificativa para sua aplicação ao caso concreto, em face do contexto em que emitida a norma infralegal (em disciplina a outro comando infralegal, presente no art. 118, § 1o do RIPI/1998, que, por seu turno, encontra fundamento legal no artigo 14, § 1o da Lei no 4.502/1964, acrescentado pelo art. 27 do DecretoLei no 1.593/1977, na redação dada pelo art. 15 da Lei no 7.798/1989), nem para a aplicação do art. 15 da mesma Lei no 4.502/1964 (apenas citado no auto de infração), sem qualquer aprofundamento dos requisitos necessários a tal aplicação pela fiscalização. Registro aqui, assim, para que não reste ambígua ou obscura a decisão, que a conclusão à qual chego é idêntica à alcançada pelo redator designado: há carência de fundamento na autuação, que adota injustificadamente, no caso, a Instrução Normativa SRF no 82/2001. Mas, ao contrário do redator designado, não entendo tal IN como ilegal, mas, simplesmente, como não aplicável ao caso concreto, diante dos elementos e da motivação apresentados pela fiscalização. Não merece nenhuma apara, assim, o resultado do julgamento. No entanto, da ementa (que deve refletir o posicionamento majoritário do colegiado) deve ser expurgada qualquer menção a eventual ilegalidade da referida IN. Rosaldo Trevisan Fl. 1651DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11020.001729/2004-13
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Feb 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/03/2004 a 31/03/2004
PIS/COFINS. FRETE NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA.
Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e da Cofins sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo.
A observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02, eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na operação de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo frete na operação de venda, e não frete de venda quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-006.128
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado) e Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Érika Costa Camargos Autran.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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CRÉDITO. FRETE. TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS. Recorrente PRIME LUMBER INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MADEIRAS LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/03/2004 a 31/03/2004 PIS/COFINS. FRETE NA TRANSFERÊNCIA DE PRODUTOS ACABADOS ENTRE ESTABELECIMENTOS DA MESMA EMPRESA. Cabe a constituição de crédito de PIS/Pasep e da Cofins sobre os valores relativos a fretes de produtos acabados realizados entre estabelecimentos da mesma empresa, considerando sua essencialidade à atividade do sujeito passivo. A observância do critério da essencialidade, é de se considerar ainda tal possibilidade, invocando o art. 3º, inciso IX, da Lei 10.833/03 e art. 3º, inciso IX, da Lei 10.637/02, eis que a inteligência desses dispositivos considera para a r. constituição de crédito os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda quais sejam, os fretes na “operação” de venda. O que, por conseguinte, cabe refletir que tal entendimento se harmoniza com a intenção do legislador ao trazer o termo “frete na operação de venda”, e não “frete de venda” quando impôs dispositivo tratando da constituição de crédito das r. contribuições. Recurso Especial do Contribuinte Provido. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em darlhe provimento, vencidos os conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado) e Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), que lhe negaram provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 02 0. 00 17 29 /2 00 4- 13 Fl. 175DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (suplente convocado), Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire (suplente convocado), Valcir Gassen (suplente convocado em substituição à conselheira Érika Costa Camargos Autran), Vanessa Marini Cecconello, Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em exercício). Ausentes, justificadamente, os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto e Érika Costa Camargos Autran. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Contribuinte com fundamento nos artigos 64, inciso II, 67 e seguintes, do Anexo II do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256/09, contra o acórdão nº 3801001.531, que decidiu por não reconhecer o direito ao creditamento das contribuições não cumulativas (PIS e COFINS) sobre despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa. Não conformada com tal decisão a Contribuinte interpõe o presente Recurso. Requer a reforma do acórdão recorrido para que seja reconhecido o crédito pleiteado, uma vez que os valores relativos aos fretes de transferência estão contemplados no artigo 3º, inciso II e IX, da lei nº 10.833/03. O recurso foi admitido mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Câmara competente. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões requerendo que seja negado provimento ao Recurso Especial da Contribuinte, mantendose o acórdão proferido pela e. Turma a quo. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.110, de 12/12/2017, proferido no julgamento do processo 11020.001230/200597, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.110): Fl. 176DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 4 3 "O recurso foi apresentado com observância do prazo previsto, bem como dos demais requisitos de admissibilidade. Sendo assim, dele tomo conhecimento e passo a decidir. Com efeito, a discussão posta a esta E. Câmara Superior, diz respeito exclusivamente ao direito de aproveitamento de créditos de PIS/COFINS não cumulativos, sobre despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa. Sem embargo, a decisão recorrida negou provimento ao recurso voluntário, por entender de que seria impossível o creditamento das contribuições não cumulativas (PIS e COFINS) sobre despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa, por não se relacionar com operação de venda. Para melhor compreensão dos fatos, verifico que a Contribuinte é uma sociedade que se dedica à industria e ao comércio , exercendo também atividade de exportação de madeira. Nada obstante, verifico que os fretes relacionados a transferência entre filiais, ocorrem em razão da Contribuinte possuir unidades produtivas em diversas localidades do Brasil, embora, para se fazer a exportação necessita transferir as mercadorias para as filiais localizadas junto aos portos de Paranaguá, Itajaí e Rio Grande. A transferência se faz necessária para a formação de lotes para a exportação (venda). Há também uma unidade produtiva destinada ao mercado interno, localizada distante do mercado consumidor, no município de Bom Jesus, interior do Estado do Rio Grande do Sul, desta unidade as mercadorias são transferidas para a matriz localizada em Caxias do Sul, de onde são feitas as vendas, uma vez que a matriz está localizada próxima do mercado consumidor. Dessa forma, os fretes de transferência ocorrem unicamente por questão de logística. Neste sentido, adoto como fundamento em minhas razões de decidir o voto condutor do acórdão nº 9303005.116, de 17 de maio de 2017, julgado pela sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º a 3º do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015, de Relatoria da Ilustre Conselheira Tatiana Midori Migiyama, versando sobre a mesma matéria, que passa a fazer parte integrante deste voto. Vejamos: "Eis que, pela leitura do acórdão recorrido e do indicado como paradigma, é de se constatar a divergência jurisprudencial, pois, no acórdão recorrido, entendeuse que não há previsão legal para crédito de PIS e Cofins não cumulativos sobre valores de fretes de produtos acabados realizados entre os estabelecimentos da mesma empresa, somente tendo direito de crédito o frete contratado para entrega de mercadorias aos clientes, na venda, quando o ônus for suportado pelo vendedor. Enquanto, no acórdão indicado como paradigma, concluiuse que as despesas com fretes para transporte de produtos em elaboração e, ou produtos acabados entre estabelecimentos, pagas e/ou creditadas às pessoas jurídicas, mediante conhecimento de transporte ou de notas fiscais de prestação de serviços, geram créditos de PIS e Cofins, passiveis de dedução da contribuição devida e/ou de ressarcimento/compensação. Ventiladas tais considerações, importante, a priori, discorrer sobre os critérios a serem observados para a conceituação de insumo para a constituição do crédito de PIS e de Cofins trazida pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03, bem como para a aplicação do art. 3º, inciso IX, das referidas Leis (“IX – armazenagem de mercadoria e frete na operação de venda, nos casos dos incisos I e II, quando o ônus for suportado pelo vendedor”). Em relação ao conceito de insumo, para fins de fruição do crédito de PIS e da COFINS não cumulativos, não é demais enfatizar que se trata de matéria controvérsia. Eis que a Constituição Federal não outorgou poderes para a autoridade fazendária definir livremente o conteúdo da não cumulatividade. Fl. 177DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 5 4 O que, por conseguinte, concluo que a devida observância da sistemática da não cumulatividade exige que se avalie a natureza das despesas incorridas pelo contribuinte – considerando a legislação vigente, bem como a natureza da sistemática da não cumulatividade. Sempre que estas despesas/custos se mostrarem essenciais ao exercício de sua atividade, devem implicar, a rigor, no abatimento de tais despesas como créditos descontados junto à receita bruta auferida. Importante elucidar que no IPI se tem critérios objetivos (desgaste durante o processo produtivo em contato direto com o bem produzido ou composição ao produto final), enquanto, no PIS e na COFINS essa definição sofre contornos subjetivos. Tenho que, para se estabelecer o que é o insumo gerador do crédito do PIS e da COFINS, ao meu sentir, tornase necessário analisar a essencialidade do bem ao processo produtivo da recorrente, ainda que dele não participe diretamente. Continuando, frisese tal entendimento que vincula o bem e serviço para fins de instituição do crédito do PIS e da Cofins com a essencialidade no processo produtivo o Acórdão 3403002.765 – que, por sua vez, traz em sua ementa: "O conceito de insumo, que confere o direito de crédito de PIS/Cofins não cumulativo, não se restringe aos conceitos de matéria prima, produto intermediário e material de embalagem, tal como traçados pela legislação do IPI. A configuração de insumo, para o efeito das Leis nºs 10.637/2002 e 10.833/2003, depende da demonstração da aplicação do bem e serviço na atividade produtiva concretamente desenvolvida pelo contribuinte." Vêse que na sistemática não cumulativa do PIS e da COFINS o conteúdo semântico de insumo é mais amplo do que aquele da legislação do IPI, porém mais restrito do que aquele da legislação do imposto de renda, abrangendo os “bens” e serviços que integram o custo de produção. Ademais, notase que, dentre todas as decisões do CARF e do STJ, é de se constatar que o entendimento predominante considera o princípio da essencialidade para fins de conceituação de insumo o que, em respeito a segurança jurídica das jurisprudências emitidas pelo Conselho e pelo Tribunal Superior, é de se atestar a observância do princípio da essencialidade para a adoção do conceito de insumo, afastando o entendimento restritivo dado pela autoridade fazendária na IN SRF nº 247/02. Não obstante a esses pontos, ressurgindome à questão posta, passo a discorrer sobre o tema desde a instituição da sistemática não cumulativa das r. contribuições. Em 30 de agosto de 2002, foi publicada a Medida Provisória 66/02, que dispôs sobre a sistemática não cumulativa do PIS, o que foi reproduzido pela Lei 10.637/02 (lei de conversão da MP 66/02) que, em seu art. 3º, inciso II, autorizou a apropriação de créditos calculados em relação a bens e serviços utilizados como insumos na fabricação de produtos destinados à venda. É a seguinte a redação do referido dispositivo: “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI;” Em relação à COFINS, temse que, em 31 de outubro de 2003, foi publicada a MP 135/03, convertida na Lei 10.833/03, que dispôs sobre a sistemática não cumulatividade dessa contribuição, destacando o aproveitamento de créditos decorrentes da aquisição de insumos em seu art. 3º, inciso II, em redação idêntica àquela já existente para o PIS/Pasep, in verbis (Grifos meus): Fl. 178DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 6 5 “Art. 3º Do valor apurado na forma do art. 2º a pessoa jurídica poderá descontar créditos calculados em relação a: [...] II bens e serviços, utilizados como insumo na prestação de serviços e na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda, inclusive combustíveis e lubrificantes, exceto em relação ao pagamento de que trata o art. 2º da Lei nº10.485, de 3 de julho de 2002, devido pelo fabricante ou importador, ao concessionário, pela intermediação ou entrega dos veículos classificados nas posições 87.03 e 87.04 da TIPI; (Redação dada pela Lei nº 10.865, de 2004)”. Posteriormente, em 31 de dezembro de 2003, foi publicada a Emenda Constitucional 42/2003, sendo inserida ao ordenamento jurídico o § 12 ao art. 195: “Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições: [...] §12 A lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições incidentes na forma dos incisos I, b; e IV do caput, serão não cumulativas.” Com o advento desse dispositivo, restou claro que a regulamentação da sistemática da não cumulatividade aplicável ao PIS e à COFINS ficaria sob a competência do legislador ordinário. Vêse, portanto, em consonância com o dispositivo constitucional, que não há respaldo legal para que seja adotado conceito excessivamente restritivo de "utilização na produção" (terminologia legal), tomandoo por "aplicação ou consumo direto na produção" e para que seja feito uso, na sistemática do PIS/Pasep e Cofins não cumulativos, do mesmo conceito de "insumos" adotado pela legislação própria do IPI. Nessa lei, há previsão para que sejam utilizados apenas subsidiariamente os conceitos de produção, matéria prima, produtos intermediários e material de embalagem previstos na legislação do IPI. É de se lembrar ainda que o IPI é um imposto que onera efetivamente o consumo, diferentemente do PIS e da Cofins que são contribuições que incidem sobre a receita, nos termos da legislação vigente. E nessa senda, haja vista que o IPI onera efetivamente o consumo, a não cumulatividade relacionase ao conceito de insumo como sendo o de bens que são consumidos ou desgastados durante a fabricação de produtos. Enquanto a sistemática não cumulativa das contribuições ao PIS e a Cofins está diretamente relacionada às receitas auferidas com a venda desses produtos. Sendo assim, resta claro que a sistemática da não cumulatividade das contribuições é diversa daquela do IPI, visto que a previsão legal possibilita a dedução dos valores de determinados bens e serviços suportados pela pessoa jurídica dos valores a serem recolhidos a título dessas contribuições, calculados pela aplicação da alíquota correspondente sobre a totalidade das receitas por ela auferidas. Não menos importante, constatase que, para fins de creditamento do PIS e da COFINS, admitese também que a prestação de serviços seja considerada como insumo, o que já leva à conclusão de que as próprias Leis 10.637/2002 e 10.833/2003 ampliaram a definição de "insumos", não se limitando apenas aos elementos físicos que compõem o produto. Nesse ponto, Marco Aurélio Grego (in "Conceito de insumo à luz da legislação de PIS/COFINS", Revista Fórum de Direito Tributário RFDT, ano1, n. 1, jan/fev.2003, Belo Horizonte: Fórum, 2003) diz que será efetivamente insumo ou serviço com direito ao crédito sempre que a atividade ou a utilidade forem necessárias à existência do processo ou do Fl. 179DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 7 6 produto ou agregarem (ao processo ou ao produto) alguma qualidade que faça com que um dos dois adquira determinado padrão desejado. Sendo assim, seria insumo o serviço que contribua para o processo de produção – o que, podese concluir que o conceito de insumo efetivamente é amplo, alcançando as utilidades/necessidades disponibilizadas através de bens e serviços, desde que essencial para o processo ou para o produto finalizado, e não restritivo tal como traz a legislação do IPI. Frisese que o raciocínio do ilustre Prof. Marco Aurélio Greco traz, para tanto, os conceitos de essencialidade e necessidade ao processo produtivo. O que seria inexorável se concluir também pelo entendimento da autoridade fazendária que, por sua vez, validam o creditamento apenas quando houver efetiva incorporação do insumo ao processo produtivo de fabricação e comercialização de bens ou prestação de serviços, adotando o conceito de insumos de forma restrita, em analogia à conceituação adotada pela legislação do IPI, ferindo os termos trazidos pelas Leis 10.637/2002 e 10.833/2003, que, por sua vez, não tratou, tampouco conceituou dessa forma. Resta, por conseguinte, indiscutível a ilegalidade das Instruções Normativas SRF 247/02 e 404/04 quando adotam a definição de insumos semelhante à da legislação do IPI. As Instruções Normativas da Secretaria da Receita Federal do Brasil que restringem o conceito de insumos, não podem prevalecer, pois partem da premissa equivocada de que os créditos de PIS e COFINS teriam semelhança com os créditos de IPI. Isso, ao dispor: ∙ O art. 66, § 5º, inciso I, da IN SRF 247/02 o que segue (Grifos meus): “Art. 66. A pessoa jurídica que apura o PIS/Pasep nãocumulativo com a alíquota prevista no art. 60 pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: § 5º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) I utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) a. Matérias primas, os produtos intermediários, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) b. Os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. (Incluído pela IN SRF 358, de 09/09/2003) art. 8º, § 4ª, da IN SRF 404/04 (Grifos meus): “Art. 8 º Do valor apurado na forma do art. 7 º, a pessoa jurídica pode descontar créditos, determinados mediante a aplicação da mesma alíquota, sobre os valores: § 4 º Para os efeitos da alínea "b" do inciso I do caput, entendese como insumos: utilizados na fabricação ou produção de bens destinados à venda: a) a matéria prima, o produto intermediário, o material de embalagem e quaisquer outros bens que sofram alterações, tais como o desgaste, o dano ou a perda de propriedades físicas ou químicas, em função da ação diretamente exercida sobre o produto em fabricação, desde que não estejam incluídas no ativo imobilizado; b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no País, aplicados ou consumidos na produção ou fabricação do produto; II utilizados na prestação de serviços: Fl. 180DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 8 7 a) os bens aplicados ou consumidos na prestação de serviços, desde que não estejam incluídos no ativo imobilizado; e b) os serviços prestados por pessoa jurídica domiciliada no país, aplicados ou consumidos na prestação do serviço. Tais normas infraconstitucionais restringiram o conceito de insumo para fins de geração de crédito de PIS e COFINS, aplicandose os mesmos já trazidos pela legislação do IPI. O que entendo que a norma infraconstitucional não poderia extrapolar essa conceituação frente a intenção da instituição da sistemática da não cumulatividade das r. contribuições. A Receita Federal do Brasil extrapolou sua competência administrativa ao “legislar” limitando o direito creditório a ser apurado pelo sujeito passivo. Considerando que as Leis 10.637/02 e 10.833/03 trazem no conceito de insumo: a. Serviços utilizados na prestação de serviços; b. Serviços utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; c. Bens utilizados na prestação de serviços; d. Bens utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda; e. Combustíveis e lubrificantes utilizados na prestação de serviços; f. Combustíveis e lubrificantes utilizados na produção ou fabricação de bens ou produtos destinados à venda. Vêse claro, portanto, que não poderseia considerar para fins de definição de insumo o trazido pela legislação do IPI, já que serviços não são efetivamente insumos, se considerássemos os termos dessa norma. Não obstante, depreendendose da análise da legislação e seu histórico, bem como intenção do legislador, entendo também não ser cabível adotar de forma ampla o conceito trazido pela legislação do IRPJ como arcabouço interpretativo, tendo em vista que nem todas as despesas operacionais consideradas para fins de dedução de IRPJ e CSLL são utilizadas no processo produtivo e simultaneamente tratados como essenciais à produção. Ora, o termo "insumo" não devem necessariamente estar contidos nos custos e despesas operacionais, isso porque a própria legislação previu que algumas despesas não operacionais fossem passíveis de creditamento, tais como Despesas Financeiras, energia elétrica utilizada nos estabelecimentos da empresa, etc. O que entendo que os itens trazidos pelas Leis 10.637/02 e 10.833/03 que geram o creditamento, são taxativos, inclusive porque demonstram claramente as despesas, e não somente os custos que deveriam ser objeto na geração do crédito dessas contribuições. Eis que, se fossem exemplificativos, nem poderiam estender a conceituação de insumos as despesas operacionais que nem compõem o produto e serviços – o que até prejudicaria a inclusão de algumas despesas que não contribuem de forma essencial na produção. Nesse ínterim, cabe trazer que a observância do critério de se aplicar o conceito de “despesa necessária” para a definição de insumo, tal como preceituado no art. 299 do RIR/99 não seria a mais condizente, pois direciona a sistemática da não cumulatividade das referidas contribuições à sistemática de dedutibilidade aplicada para o imposto incidente sobre o lucro. O que, entendo que não há como se conferir que os custos ou despesas destinadas à aferição e lucro possam ser considerados como insumos necessários para o aferimento da receita. Com efeito, por conseguinte, podese concluir que a definição de “insumos” para efeito de geração de crédito das r. contribuições, deve observar o que segue: Se o bem e o serviço são considerados essenciais na prestação de serviço ou produção; Fl. 181DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 9 8 Se a produção ou prestação de serviço são dependentes efetivamente da aquisição dos bens e serviços – ou seja, sejam considerados essenciais. Tanto é assim que, em julgado recente, no REsp 1.246.317, a Segunda Turma do STJ reconheceu o direito de uma empresa do setor de alimentos a compensar créditos de PIS e Cofins resultantes da compra de produtos de limpeza e de serviços de dedetização, com base no critério da essencialidade. Para melhor transparecer esse entendimento, trago a ementa do acórdão (Grifos meus): “PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 535, DO CPC. VIOLAÇÃO AO ART. 538, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC. INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 98/STJ. CONTRIBUIÇÕES AO PIS/PASEP E COFINS NÃO CUMULATIVAS. CREDITAMENTO. CONCEITO DE INSUMOS. ART. 3º, II, DA LEI N. 10.637/2002 E ART. 3º, II, DA LEI N. 10.833/2003. ILEGALIDADE DAS INSTRUÇÕES NORMATIVAS SRF N. 247/2002 E 404/2004. 1. Não viola o art. 535, do CPC, o acórdão que decide de forma suficientemente fundamentada a lide, muito embora não faça considerações sobre todas as teses jurídicas e artigos de lei invocados pelas partes. 2. Agride o art. 538, parágrafo único, do CPC, o acórdão que aplica multa a embargos de declaração interpostos notadamente com o propósito de prequestionamento. Súmula n. 98/STJ: "Embargos de declaração manifestados com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório ". 3. São ilegais o art. 66, §5º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 247/2002 Pis/ Pasep (alterada pela Instrução Normativa SRF n. 358/2003) e o art. 8º, §4º, I, "a" e "b", da Instrução Normativa SRF n. 404/2004 Cofins, que restringiram indevidamente o conceito de "insumos" previsto no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e n. 10.833/2003, respectivamente, para efeitos de creditamento na sistemática de nãocumulatividade das ditas contribuições. 4. Conforme interpretação teleológica e sistemática do ordenamento jurídico em vigor, a conceituação de "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, não se identifica com a conceituação adotada na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, posto que excessivamente restritiva. Do mesmo modo, não corresponde exatamente aos conceitos de "Custos e Despesas Operacionais" utilizados na legislação do Imposto de Renda IR, por que demasiadamente elastecidos. 5. São "insumos", para efeitos do art. 3º, II, da Lei n. 10.637/2002, e art. 3º, II, da Lei n. 10.833/2003, todos aqueles bens e serviços pertinentes ao, ou que viabilizam o processo produtivo e a prestação de serviços, que neles possam ser direta ou indiretamente empregados e cuja subtração importa na impossibilidade mesma da prestação do serviço ou da produção, isto é, cuja subtração obsta a atividade da empresa, ou implica em substancial perda de qualidade do produto ou serviço daí resultantes. 6. Hipótese em que a recorrente é empresa fabricante de gêneros alimentícios sujeita, portanto, a rígidas normas de higiene e limpeza. No ramo a que pertence, as exigências de condições sanitárias das instalações se não atendidas implicam na própria impossibilidade da produção e em substancial perda de qualidade do produto resultante. A assepsia é essencial e imprescindível ao desenvolvimento de suas atividades. Não houvessem os efeitos desinfetantes, haveria a proliferação de microorganismos na maquinaria e no ambiente produtivo que agiriam sobre os alimentos, tornandoos impróprios para o consumo. Assim, impõese considerar a abrangência do termo "insumo" para contemplar, no creditamento, os materiais de limpeza e desinfecção, bem como os serviços de dedetização quando aplicados no ambiente produtivo de empresa fabricante de gêneros alimentícios. 7. Recurso especial provido. ” Fl. 182DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 10 9 Aquele colegiado entendeu que a assepsia do local, embora não esteja diretamente ligada ao processo produtivo, é medida imprescindível ao desenvolvimento das atividades em uma empresa do ramo alimentício. Em outro caso, o STJ reconheceu o direito aos créditos sobre embalagens utilizadas para a preservação das características dos produtos durante o transporte, condição essencial para a manutenção de sua qualidade (REsp 1.125.253). O que, peço vênia, para transcrever a ementa do acórdão: COFINS – NÃO CUMULATIVIDADE – INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA – POSSIBILIDADE – EMBALAGENS DE ACONDICIONAMENTO DESTINADAS A PRESERVAR AS CARACTERÍSTICAS DOS BENS DURANTE O TRANSPORTE, QUANDO O VENDEDOR ARCAR COM ESTE CUSTO – É INSUMO NOS TERMOS DO ART. 3º, II, DAS LEIS NºS 10.637/2002 E 10.833/2003 1. Hipótese de aplicação de interpretação extensiva de que resulta a simples inclusão de situação fática em hipótese legalmente prevista, que não ofende a legalidade estrita. Precedentes. 2. As embalagens de acondicionamento, utilizadas para a preservação das características dos bens durante o transporte, deverão ser consideradas como insumos nos termos definidos no art. 3º, II, das Leis n. 10.637/2002 e 10.833/2003 sempre que a operação de venda incluir o transporte das mercadorias e o vendedor arque com estes custos. Tornase necessário se observar o princípio da essencialidade para a definição do conceito de insumos com a finalidade do reconhecimento do direito ao creditamento ao PIS/Cofins nãocumulativos. Sendo assim, entendo não ser aplicável o entendimento de que o consumo de tais bens e serviços sejam utilizados DIRETAMENTE no processo produtivo, bastando somente serem considerados como essencial à produção ou atividade da empresa. Dessa forma, para fins de se elucidar a atividade do sujeito passivo, importante recordar que é pessoa jurídica de direito privado, dos ramos de indústria, comércio, importação e exportação de alimentos, em especial, o arroz. Os fretes de produtos acabados em discussão, para sua atividade de comercialização, são essenciais para a sua atividade de “comercialização”, eis que: ∙ Sua atividade impõe a transferência de seus produtos para Centros de Distribuição de sua propriedade; caso contrário, tornarseia inviável a venda de seus produtos para compradores das Regiões Sudeste, CentroOeste e Nordeste do país; Os grandes consumidores dos produtos industrializados e comercializados pelo sujeito passivo, possuem uma logística que não mais comporta grandes estoques, devido à extensa diversidade de produtos necessários para abastecer suas unidades, bem como devido ao custo que lhes geraria a manutenção de locais com o fito exclusivo de estocagem, visto a alta rotatividade dos produtos em seus estabelecimentos; O que, impõese para fins de comercialização e sobrevivência da empresa, os Centros de Distribuição; O sujeito passivo, que possui sede em Porto Alegre, se viu obrigada a manter Centros de Distribuição em pontos estratégicos do país, considerando a localidade dos maiores demandantes de seus produtos. Considerando, então, a atividade do sujeito passivo, devese considerar os fretes como essenciais e, aplicandose o critério da essencialidade, é de se dar provimento ao recurso interposto pelo sujeito passivo. Não obstante à essa fundamentação e ignorandoa, cabe trazer que, tendo em vista que: A maioria dos fretes são destinados ao Centro de Distribuição da empresa, para que se torne viável a remessa dos produtos e são realizados com a demora usual de 15 dias até a chegada do produto, para conseguir atender a sua demanda de pedidos, o sujeito passivo, Fl. 183DF CARF MF Processo nº 11020.001729/200413 Acórdão n.º 9303006.128 CSRFT3 Fl. 11 10 devido à demora no trânsito das mercadorias, já transacionou as mercadorias, sendo que ao chegarem as mercadorias ao destino muitas já se encontram vendidas; A mercadoria já é vendida em trânsito, para quando chegar ao Centro de Distribuição já sair para a pronta entrega ao adquirente, descaracterizando, assim, um frete para mero estoque com venda posterior. É de se entender que, em verdade, se trata de frete para a venda, passível de constituição de crédito das contribuições, nos termos do art. 3º, inciso IX, das Lei 10.833/03 e Lei 10.637/02 – pois a inteligência desse dispositivo considera o frete na “operação” de venda. A venda de per si para ser efetuada envolve vários eventos. Por isso, que a norma traz o termo “operação” de venda, e não frete de venda. Inclui, portanto, nesse dispositivo os serviços intermediários necessários para a efetivação da venda, dentre as quais o frete ora em discussão. Em vista de todo o exposto, voto por conhecer o Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, dandolhe provimento". Com essas considerações, voto no sentido de dar provimento ao Recurso da Contribuinte, para reconhecer o direito ao crédito de COFINS sobre despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial da Contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento, para reconhecer o direito ao crédito das contribuições não cumulativas sobre despesas com fretes de produtos acabados entre estabelecimentos da mesma empresa. assinado digitalmente Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 184DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13888.901911/2008-25
Turma: Primeira Turma Especial da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Nov 07 00:00:00 UTC 2012
Ementa: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Exercício: 2006 NULIDADE. No caso de o enfrentamento das questões na peça de defesa denotar perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento não há que se falar em nulidade do ato em litígio. PRODUÇÃO DE PROVAS. ASPECTO TEMPORAL. A peça de defesa deve ser formalizada por escrito incluindo todas as teses de defesa e instruída com os todos documentos em que se fundamentar, sob pena de preclusão, ressalvadas as exceções legais. PER/DCOMP. ÔNUS DA PROVA. Cabe à Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, inclusive quando se tratar de retificação dos dados declarados, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de tributo pago a maior. DOUTRINA.JURISPRUDÊNCIA. Somente devem ser observados os entendimentos doutrinários e jurisprudenciais para os quais a lei atribua eficácia normativa. INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 1801-001.248
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora.
Nome do relator: Carmen Ferreira Saraiva
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No caso de o enfrentamento das questões na peça de defesa denotar perfeita compreensão da descrição dos fatos que ensejaram o procedimento não há que se falar em nulidade do ato em litígio. PRODUÇÃO DE PROVAS. ASPECTO TEMPORAL. A peça de defesa deve ser formalizada por escrito incluindo todas as teses de defesa e instruída com os todos documentos em que se fundamentar, sob pena de preclusão, ressalvadas as exceções legais. PER/DCOMP. ÔNUS DA PROVA. Cabe à Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, inclusive quando se tratar de retificação dos dados declarados, já que o procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de tributo pago a maior. DOUTRINA.JURISPRUDÊNCIA. Somente devem ser observados os entendimentos doutrinários e jurisprudenciais para os quais a lei atribua eficácia normativa. INCONSTITUCIONALIDADE DE LEI. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 88 8. 90 19 11 /2 00 8- 25 Fl. 457DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 217 2 Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto da Relatora. (assinado digitalmente) Ana de Barros Fernandes Presidente (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria de Lourdes Ramirez, Ana Clarissa Masuko dos Santos Araújo, Carmen Ferreira Saraiva, João Carlos de Figueiredo Neto e Ana de Barros Fernandes. Relatório A Recorrente formalizou o Pedido de Ressarcimento ou Restituição/Declaração de Compensação (Per/DComp) em 11.07.2008, fls. 5259, utilizandose do crédito relativo ao saldo negativo de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) no valor de R$7.188,50 referente ao anocalendário de 2005. Em conformidade com o Despacho Decisório Eletrônico, fl. 12, as informações relativas ao reconhecimento do direito creditório foram analisadas das quais se concluiu pelo indeferimento do pedido. Restou esclarecido que Analisadas as informações prestadas no documento acima identificado, constatouse que não foi apurado saldo negativo, uma vez que, na Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica (DIPJ), correspondente ao período de apuração do crédito informado no PER/DCOMP, consta imposto a pagar. Valor original do saldo negativo informado no PER/DCOMP com demonstrativo de crédito: R$7.188,50 Valor do imposto a pagar na D1PJ: R$18.723,65. Diante do exposto. NÃO HOMOLOGO a compensação declarada no PER/DCOMP acima identificado. Valor devedor consolidado, correspondente aos débitos indevidamente compensados, para pagamento até 31/07/2008. Cientificada, a Recorrente apresentou a manifestação de inconformidade, fls. 0103, argumentando Em 30/06/2006 a empresa entregou a DIPJ/2006, recibo de entrega nº. 38.82.49.81.3052, referente ao ano calendário de 2005, demonstrando, de forma incorreta, em seus quadros próprios (Ficha 11) a existência de saldo negativo de I.R.P.J. Esse fato acarretou, por parte da Secretaria da Receita Federal do Brasil, a lavratura do Termo de Intimação com o N° de Rastreamento 680608690 (saldo Fl. 458DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 218 3 negativo de IRPJ), apontando irregularidades no preenchimento do PER/DCOMP 11903.25031.110706.1.3.022356 (IRPJ) . No entender da empresa não se tratava de correção do PER/DCOMP acima, mas tãosomente da retificação da DIPJ/2006.[...] O Despacho Decisório — N° de Rastreamento: 775573125 de 18/07/2008 e recebido em 30/07/2008 — Referente ao saldo negativo de IRPJ, Processo 13888.901911/200825. a) DIPJ Ao receber o Despacho Decisório a empresa procedeu à retificação da DIPJ referente ao exercício de 2006, anocalendário de 2005, preenchendoa corretamente e apontando os saldos negativos do I.R.P.J. , cujo recibo de entrega tem o n° 29.79.49.30.04 09 . b) PER/DCOMP — O PER/DCOMP com demonstrativo de crédito n° 11903.25031.110706.1.3.022356 entregue em 11/07/2006 foi corretamente preenchido. Conclui Diante do exposto, confiando na imparcialidade dessas nobres Autoridades Julgadoras, a Impugnante requer que sejam acatadas as alterações constantes na DIPJ/2006 RETIFICADORA, homologando a compensação declarada no PER/DCOMP em questão, tendo em vista os débitos ainda estarem dentro do período prescricional, provando não ter havido nenhuma má fé, mas apenas erro no preenchimento da DIPJ/2006, corrigindo assim, e no todo, as informações antes incorretas, não restando débito nenhum da parte da empresa. Está registrado como resultado do Acórdão da 4ª TURMA/DRJ/RJO I/RJ nº 1232.214, de 14.07.2010, fls. 122128:“Manifestação de Inconformidade Improcedente”. Restou ementado ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2005 PER/DCOMP. COMPENSAÇÃO DE DÉBITOS COM SALDO NEGATIVO. ERRO NO PREENCHIMENTO DA DIPJ RETIFICADORA. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO IRRF COMPENSADO NA APURAÇÃO DAS ESTIMATIVAS MENSAIS. A legislação impede que os valores do IRRF utilizados como dedução na apuração das estimativas mensais sejam igualmente deduzidos no cálculo do IRPJ ao término do ano calendário. Notificada em 09.08.2010, fl. 134, a Recorrente apresentou o recurso voluntário em 08.09.2010, fls. 135139, esclarecendo a peça atende aos pressupostos de admissibilidade. Discorre sobre o procedimento fiscal contra o qual se insurge, reiterando os argumentos apresentados na manifestação de inconformidade, em especial O preenchimento incorreto da DIPJ/2006 Original acarretou a lavratura do Despacho Decisório, rastreamento n2 775573125, em 18/07/2008 (Saldo Negativo de IRPJ), pela Delegacia da Receita Federal em Piracicaba/SP, que apontou irregularidade no preenchimento do PER/DCOMP nº 11903.25031.110706.1.3.02 Fl. 459DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 219 4 2356 (IRPJ). Não se tratava, pois, de corrigir o PER/DCOMP acima, mas tão somente de proceder a retificação da DIPJ/2006, o que foi feito. A Recorrente entregou, em 28 de Agosto de 2008, a DIPJ/2006 Retificadora, recibo de entrega nº 29.79.49.30.0409, a fim de sanar os erros de preenchimento da DIPJ/2006 Original. [...] A Recorrente, ao efetuar a retificação da DIPJ/2006, em 28 de Agosto de 2008, na tentativa de sanar os erros de preenchimento na ficha 12A da DIPJ/2006 Original, ainda assim, o fez de forma incorreta, o que resultou no não acolhimento da manifestação de inconformidade, pela DRJ/RJ1. Por tal razão, a Recorrente voltou a retificar a DIPJ/2006, em 27 de Agosto de 2010, recibo de entrega n 2 24.72.78.69.4402, consignando corretamente os valores nas Fichas 50 e 12A (Linhas 13 e 17), conforme os registros do sistema da Receita Federal do Brasil, resultando, desta forma, no preenchimento CORRETO da DIPJ/2006. [...] Portanto, a Recorrente reconhece falha no preenchimento da referida ficha (12A), na qual os valores utilizados como dedução do imposto de renda retido, ao invés de constarem na Linha 12A/13, deveriam estar somados às estimativas mensais pagas (R$6.094.66), totalizando o valor de R$24.865,65, na Linha 12A/17. Reconhece, ainda, a Recorrente, a divergência da informação e da utilização do total do Imposto de Renda retido na fonte, onde, conforme declarado pelas fontes pagadoras, o valor correto é de R$19.603,56 (códigos 1708 e 8045), ao contrário do valor de R$19.817,50, informado anteriormente pela Recorrente, acarretando uma compensação maior e incorreta da qual deveria realmente ter sido utilizada, da ordem de R$213,94, o que alterou o saldo negativo do Imposto de Renda a Pagar de R$7.188,50 para R$6.974,56. Importante destacar que a Recorrente, desde já, se propõe a quitar esta diferença apurada mediante orientação fiscal, pois o valor a compensar foi utilizado para a quitação de débitos do PIS (6912) e do IPI (5123). através de PER/DCOMPs, não mais passíveis de retificação, eis que constituem objetos de despacho decisório. A Recorrente também colaciona ao processo o relatório "Resumo do Beneficiário [...]" do anocalendário de 2005, com sete páginas e fornecido pela Delegacia da Receita Federal do Brasil, agência do Município de Capivari/SP, que possibilitou o ajuste e retificação da Ficha 50 da DIPJ/2006. [...] Por estas razões, deve ser anulado o Acórdão nº 1232.214, proferido pela 4ª Turma da DRJ/RJ1, assim como o Despacho Decisório proferido pela Delegacia da Receita Federal em Piracicaba/SP, para o fim de ser aceita retificação da DIPJ/2006 e recalculada a diferença a pagar de IRPJ pela Recorrente. Com o objetivo de fundamentar as razões apresentadas na peça de defesa, interpreta a legislação pertinente, indica princípios constitucionais que supostamente foram violados e faz referências a entendimentos doutrinários e jurisprudenciais em seu favor. Conclui Por todo o exposto, confiando na imparcialidade dessas nobres Autoridades Julgadoras, requer que seja acolhido o presente Recurso Voluntário, para o fim de acatar a retificação da DIPJ/2006 efetuada em 27 de Agosto de 2010, homologando a compensação declarada no PER/DCOMP nº 11903.25031.110706.1.3.022356 e orientando a Recorrente sobre a forma de recolher a diferença de IRPJ apurada e, Fl. 460DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 220 5 conseqüentemente, anular o Acórdão nº 1232.214, proferido pela 4ª Turma da DRJ/RJ1, assim como o Despacho Decisório emitido pela Delegacia da Receita Federal em Piracicaba/SP, já que a Recorrente retificou a DIPJ/2006 e está disposta a quitar a diferença apurada. É o Relatório. Voto Conselheira Carmen Ferreira Saraiva, Relatora O recurso voluntário é tempestivo, e considerando o preenchimento dos demais requisitos legais de sua admissibilidade, merece ser apreciado. A Recorrente alega que os atos administrativos são nulos. O Despacho foi lavrado por servidor competente que verificou a regularidade do Per/DComp, com a regular intimação para que a Recorrente pudesse cumprilo ou impugná lo no prazo legal, ou seja, com observância de todos os requisitos legais que lhes conferem existência, validade e eficácia. As formas instrumentais adequadas foram respeitadas, os documentos foram reunidos nos autos do processo, que estão instruídos com as provas produzidas por meios lícitos. As garantias ao devido processo legal, ao contraditório e à ampla defesa com os meios e recursos a ela inerentes foram observadas. Ademais o ato administrativo está regularmente motivado, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos de modo explícito, claro e congruente1. O enfrentamento das questões na peça de defesa denota perfeita compreensão da descrição dos fatos e dos enquadramentos legais que ensejaram os procedimentos de ofício, que foi regularmente analisado na decisão de primeira instância de julgamento administrativo e da qual a pessoa jurídica foi regularmente cientificada. Assim, estes atos contêm todos os requisitos legais, o que lhes conferem existência, validade e eficácia. As formas instrumentais adequadas foram respeitadas, os documentos foram reunidos nos autos do processo, que estão instruídos com as provas produzidas por meios lícitos, em observância às garantias ao devido processo legal. O enfrentamento das questões na peça de defesa denota perfeita compreensão da descrição dos fatos e dos enquadramentos legais que ensejaram os procedimentos de ofício. A proposição afirmada pela defendente, desse modo, não tem cabimento. A Recorrente solicita a realização de todos os meios de prova. Sobre a matéria, vale esclarecer que no presente caso se aplicam as disposições do processo administrativo fiscal que estabelece que a peça de defesa deve ser formalizada por escrito incluindo todas as teses e instruída com os todos documentos em que se fundamentar, precluindo o direito de a Recorrente praticar este ato e apresentar novas razões em outro momento processual, salvo a ocorrência de quaisquer das circunstâncias ali previstas. Embora lhe fossem oferecidas várias oportunidade no curso do processo, a Recorrente não apresentou a comprovação inequívoca de quaisquer fatos que tenham correlação com as 1 Fundamentação legal: inciso LIV e inciso LV do art. 5º da Constituição Federal, art. 142 do Código Tributário Nacional, art 6º da Lei nº 10.593, de 6 de dezembro de 2001, art. 10 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 e art. 50 da Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999. Fl. 461DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 221 6 situações excepcionadas pela legislação de regência 2. A realização desses meios probantes é prescindível, uma vez que os elementos probatórios produzidos por meios lícitos constantes nos autos são suficientes para a solução do litígio. A justificativa arguida pela defendente, por essa razão, não se comprova. A Recorrente suscita que a Per/DComp deve ser deferida. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo administrado pela RFB, passível de restituição, pode utilizálo na compensação de débitos. A partir de 01.10.2002, a compensação somente pode ser efetivada por meio de declaração e com créditos e débitos próprios, que ficam extintos sob condição resolutória de sua ulterior homologação. Também os pedidos pendentes de apreciação foram equiparados a declaração de compensação, retroagindo à data do protocolo. Posteriormente, ou seja, em de 30.12.2003, ficou estabelecido que a Per/DComp constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados, bem como que o prazo para homologação tácita da compensação declarada é de cinco anos, contados da data da sua entrega. Ademais, o procedimento se submete ao rito do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, inclusive para os efeitos do inciso III do art. 151 do Código Tributário Nacional. O procedimento de apuração do direito creditório não prescinde comprovação inequívoca da liquidez e da certeza do valor de tributo pago a maior3. O pressuposto é de que a pessoa jurídica deve manter os registros de todos os ganhos e rendimentos, qualquer que seja a denominação que lhes seja dada, independentemente da natureza, da espécie ou da existência de título ou contrato escrito, bastando que decorram de ato ou negócio. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor dela dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais4. A legislação prevê que no regime de tributação com base no lucro real a pessoa jurídica pode deduzir do valor apurado no encerramento do período, o IRRF incidente sobre as receitas que integraram a base de cálculo correspondente, inclusive aquele referente ao código de arrecadação nº 1708, decorrente de prestação de serviço entre pessoas jurídicas e ao código de arrecadação nº 8045 originário de comissões e corretagens pagas à pessoa jurídica5. Cabe à Recorrente produzir o conjunto probatório nos autos de suas alegações, inclusive quando se tratar de retificação dos dados declarados6. Ela apresenta em sede de recurso voluntário as informações constantes na Tabela 1. 2 Fundamentação legal: art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. 3 Fundamentação legal: art. 165, art. 168, art. 170 e art. 170A do Códido Tributário Nacional, art. 9º do Decreto Lei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, 1º e art. 2º, art. 51 e art. 74 da Lei nº 9.430, de 26 de dezembro de 1996, art. 49 da Lei nº 10.637, de 30 de dezembro de 2002 e art. 17 da Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003. 4 Fundamentação legal : art. 195 do Código Tributário Nacional, art. 51 da Lei nº 7.450, de 23 de dezembro de 1985, art. 6º e art. 9º do DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, art. 37 da Lei nº 8.981, de 20 de novembro de 1995, art. 6º e art. 24 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995 e art. 1º e art. 2º da Lei nº 9.430, de 27 de dezembro de 1996. 5 Fundamentação legal: Lei 10.833 de 29 de dezembro de 2003, art. 83 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995 e art. 6º da Lei nº 9.064, de 20 de junho de 1995. 6 Fundamentação legal:§ 1º do art. 147 do Código Tributário Nacional e art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. Fl. 462DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 222 7 Tabela 1 – Apuração detalhada do saldo negativo de IRPJ do anocalendário de 2005 Meses Descrição (A) Janeiro R$ (B) Fevereiro R$ (C) Março R$ (D) Abril R$ (E) Maio R$ (F) Junho R$ (G) Julho R$ (H) Lucro Real 12.745,54 13.968,90 37.183,24 59.039,04 13.027,07 14.820,45 46.776,54 IRPJ Apurado 1.911,83 2.095,34 0,00 8.855,86 0,00 2.223,07 7.016,48 () IRPJ Devido Meses Anteriores 0.00 1.911,83 2.095,34 2.095,34 8.855,86 8.855,86 8.855,86 () IRRF 838,42 183,51 0,00 5.909,11 0,00 0,00 0,00 (=) IRPJ Devido 1.073,41 0,00 2.095,34 851,41 8.855,86 6.632,79 1.839,38 Meses Descrição (A) Agosto R$ (I) Setembro R$ (J) Outubro R$ (K) Novembro R$ (L Dezembro R$ (M) Anual R$ (N) Lucro Real 94.399,16 118.888,01 117.904,91 165.771,01 124.824,43 124.824,43 IRPJ Apurado 14.159,87 17.833,20 17.685,74 24.865,65 18.723,66 18.723,66 () IRPJ Devido Meses Anteriores 8.855,86 14.159,87 17.833,20 17.833,20 24.865,65 24.865,65 () IRRF 4.190,97 1.278,48 0,00 6.370,50 0,00 832,57 (=) IRPJ Devido 1.113,04 2.394,85 147,46 661,95 6.141,99 6.974,56 A partir da análise do Livro Razão, fls. 206212, do Livro de Apuração do Lucro Real (LALUR), fls. 187198, das Declarações de Imposto de Renda Retido na Fonte (DIRF) no somatório de R$19.603,56, fls. 199205, dos recolhimentos pelo código nº 5993 no montante de R$6.094,66, fls. 110120, inferese que a motivação para apresentação da DIPJ retificadora em 27.08.2010, fls. 151186, não é possível comprovar inequivocamente os erros nos dados anteriormente informados à RFB. Apesar de várias oportunidades oferecidas no curso do processo, a Recorrente não apresentou o Livro Diário escriturado à época em que os eventos ocorreram para corroborar os dados registrados recentemente no Livro Razão. Além disso, os autos não estão instruídos com as DCTF retificadoras indicando os mesmos assentamentos constantes na DIPJ tem natureza somente informativa. Assim, a ausência de comprovação explícita, clara e congruente, de que tem direito ao reconhecimento do crédito a título de saldo negativo de negativo de IRPJ do anocalendário de 2005 no valor de R$6.974,56, leva à conclusão de a inferência denotada pela defendente, nesse caso, não está comprovada. No que concerne à interpretação da legislação e aos entendimentos doutrinários e jurisprudenciais indicados pela Recorrente, cabe esclarecer que somente devem ser observados os atos para os quais a lei atribua eficácia normativa, o que não se aplica ao presente caso7. A alegação relatada pela defendente, consequentemente, não está justificada. Atinente aos princípios constitucionais que a Recorrente aduz que supostamente foram violados, cabe ressaltar que o CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária, uma vez que no âmbito do processo 7 Fundamentação legal: art. 100 do Código Tributário Nacional e art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972. Fl. 463DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES Processo nº 13888.901911/200825 Acórdão n.º 1801001.248 S1TE01 Fl. 223 8 administrativo fiscal, fica vedado aos órgãos de julgamento afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade8. A proposição afirmada pela defendente, desse modo, não tem cabimento Em face do exposto voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carmen Ferreira Saraiva 8 Fundamentação legal: art. 26A do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972 e Súmula CARF nº 2. Fl. 464DF CARF MF Impresso em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES - VERSO EM BRANCO CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 08/11/2012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 08/11/2 012 por CARMEN FERREIRA SARAIVA, Assinado digitalmente em 13/11/2012 por ANA DE BARROS FERNANDES
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Numero do processo: 16561.720189/2013-68
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Primeira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Aug 16 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Nov 06 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 1201-000.269
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para apreciação de documentos e elaboração de relatório conclusivo.
(assinado digitalmente)
Roberto Caparroz de Almeida - Presidente
(assinado digitalmente)
Luis Fabiano Alves Penteado - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães e Eduardo Morgado Rodrigues. Ausente justificadamente o Conselheiro Rafael Gasparello Lima.
Relatório
Nome do relator: LUIS FABIANO ALVES PENTEADO
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Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para apreciação de documentos e elaboração de relatório conclusivo. (assinado digitalmente) Roberto Caparroz de Almeida Presidente (assinado digitalmente) Luis Fabiano Alves Penteado Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Roberto Caparroz de Almeida (Presidente), Luis Fabiano Alves Penteado, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar, Luis Henrique Marotti Toselli, Eva Maria Los, José Carlos de Assis Guimarães e Eduardo Morgado Rodrigues. Ausente justificadamente o Conselheiro Rafael Gasparello Lima. Relatório Em procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pela empresa supra, segundo consta da descrição dos fatos, foi efetuado, no anocalendário de 2008, IRPJ, CSLL, Cofins e PIS, tendo em vista a omissão de receita operacional caracterizada pela falta de comprovação de devolução/cancelamento de vendas, a glosa de despesas com RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 65 61 .7 20 18 9/ 20 13 -6 8 Fl. 6366DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 3 2 destruição de materiais sucateados sem laudo, a tributação dos valores recebidos a título de Juros sobre Capital Próprio (JCP) e a majoração indevida de custos causada por não se computar no valor do estoque final de 31/12/2008 o estoque de mercadorias em poder de terceiros, ocasionando a redução indevida do lucro líquido. O crédito tributário exigido neste processo está composto dos seguintes montantes: O enquadramento legal para o lançamento dos tributos encontrase descrito nos autos de infração. Consta no Termo de Verificação Fiscal (TVF) de fls.4616 a 4635 que, na DIPJ do anocalendário de 2008, a contribuinte apurou prejuízo fiscal e base de cálculo negativa da CSLL nos valores de R$ 219.892.938,75 e R$ 293.918.566,41, respectivamente. Constatou a fiscalização que, na DIPJ, linha 24, Ficha 04A, foi informado o Custo das Mercadorias Revendidas no valor de R$ 2.676.293.567.62 (dois bilhões, seiscentos e setenta e seis milhões, duzentos e noventa e três mil, quinhentos e sessenta e sete reais e sessenta e dois centavos). Verificouse, na linha 23, da Ficha 04A Custo dos Bens e Serviços Vendidos e linha 05 da Ficha 36A Balanço Patrimonial da DIPJ, que o valor do estoque final existente em 31/12/2008 foi de R$ 306.421.736,12 (trezentos e seis mil, quatrocentos e vinte e um mil, setecentos e trinta e seis reais e doze centavos). Porém, no Balancete de encerramento e Balanço Patrimonial da contabilidade, de 31/12/2008, o valor do estoque final é de R$ 314.034.148,57. Portanto, divergente daquele constante na DIPJ. A diferença de valor entre a DIPJ e o Balanço Patrimonial anexado no Livro Diário foi de R$ 7.612.412.45. A fiscalização verificou, também, divergência entre o valor do estoque final registrado no livro registro de inventário modelo 7, livro físico, por estabelecimento e o valor constante do Fl. 6367DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 4 3 balancete e balanço patrimonial e, ainda, com aquele informado na DIPJ, conforme pode ser observado abaixo. O valor do estoque final (livro registro de inventário mod.7) teve a seguinte composição, por estabelecimento: Constatou o fisco que parte considerável do estoque da contribuinte foi armazenado em depósitos fechados e armazéns gerais de terceiros, cujo saldo não foi considerado na apuração do resultado do exercício (31/12/2008). Em outros termos, o estoque em poder de terceiros não foi registrado no livro Registro de Inventário. Da análise de informações prestadas pelo contribuinte, em meio magnético arquivo de entradas e de saídas do livro fiscal, entregue em 11/03/2013 e 27/03/2013, verificouse que a empresa remeteu, durante o ano de 2008, mercadorias para os seguintes depósitos/armazéns gerais: Aurora Terminais e Serviços Ltda CNPJ N° 01.777.936/000196 Excel do Brasil Ltda CNPJ N° 02.487.195/002620 DHL Logistics (Brazil) Ltda CNPJ N° 02.836.056/002400 Descrição da movimentação do estoque em poder de terceiros: Os estabelecimentos filiais da empresa HPB remetem as mercadorias para os depósitos fechados/armazéns gerais, emitindo Nota Fiscal com o código CFOP 5905, que significa "Remessa de Mercadorias para depósito fechado/armazém geral". Portanto, não se trata de venda. No momento da venda da mercadoria, o estabelecimento vendedor HPB emite nota fiscal de saída, em nome do cliente com o código CFOP 5106/6106 que significa "Venda de mercadoria adquirida ou recebida de terceiros, que não deva por ele transitar". Fl. 6368DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 5 4 Simultaneamente, o depósito/armazém geral emite uma nota fiscal de retorno simbólico da mercadoria para a HPB com o código CFOP 5907, que significa "Retorno Simbólico de mercadoria depositada em depósito fechado ou armazém geral". A HPB, por sua vez, escritura as notas fiscais no livro registro de entradas modelo 1, com o CFOP 1907, que significa "Retorno simbólico de mercadoria remetida para depósito fechado ou armazém geral" Da análise dos livros e documentos fiscais pela fiscalização: Diante da ausência de escrituração, no livro inventário, do estoque em poder de terceiros, a fiscalização fez o levantamento das mercadoria remetidas para depósito/armazém geral, durante o ano de 2008, por meio das notas fiscais com código CFOP 5905, constantes do livro fiscal de saída, modelo 2, e apurou o valor de R$ 499.592.087,55. A composição deste valor, por nota fiscal, encontrase em meio magnético no Anexo n° 1 HP Nota Fiscal de Saída Remessa de mercadorias para dep. Fechado e armazém geral – CFOP5905. Considerando que na venda da mercadoria, o depósito fechado/armazém geral emite nota fiscal de retorno simbólico de mercadoria com o CFOP 5907, para a proprietária da mercadoria, a empresa HPB, esta escritura o seu livro registro de entradas modelo 1, com o CFOF 1907. A fiscalização fez o levantamento das mercadorias que retornaram do depósito/armazém geral, escrituradas no livro Registro de Entradas, modelo 1, de CFOP 1907, e apurou o valor de R$ 306.356,123,24. A composição deste valor, por nota fiscal, encontrase no Anexo n° 2 HP Relação de Notas Fiscais de Entradas CFOP 1907. Portanto, durante o ano de 2008, foram remetidas mercadorias para armazenar em depósito/armazém geral de terceiros no valor de R$ 499.592.087,55. E retornaram, desses depósitos/armazém geral, mercadorias no valor R$ 306.356.123,24. Considerando, que a empresa não informou se havia estoque inicial (01/01/2008) em poder de terceiros, concluise que permaneceu em estoque no final de 2008, no mínimo, o montante de R$ 193.235.964,31 (=R$ 499.592.087,55 R$ 306.356.123,24). Ocorre que o contribuinte não registrou esse estoque em poder de terceiros, no valor de R$ 193.235.964,31, em seu livro Registro de inventário e, consequentemente, não computou esse montante no seu estoque final para fins de apuração do CMV Custo das Mercadorias Vendidas, majorando indevidamente o custo no mesmo valor, ocasionando redução indevida do lucro tributável do período. Diante disso, a fiscalizada foi intimada a esclarecer o fato, conforme Termo de Constatação e Intimação de 22/11/2013. Em resposta de 29/11/2013, o contribuinte informou que: Parte das mercadorias adquiridas pela HP do Brasil são armazenados em depósitos ou armazéns gerais e quando remetidas a esses estabelecimentos são suportadas por notas fiscais de remessas emitidas com o CFOP 5905; Por ocasião das vendas dessas mercadorias, são emitidas notas fiscais de retorno simbólico para a HP do Brasil e, simultaneamente, a emissão de nota fiscal de venda ao cliente. Na nota fiscal de retorno simbólico da mercadoria é mencionado o número da nota fiscal de venda. Fl. 6369DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 6 5 As referidas notas fiscais (notas fiscais de compra, venda e respectivas notas fiscais de remessa e retorno a armazém/depósito) são escrituradas normalmente nos livros fiscais; A entrada por ocasião da compra, assim como a saída, por ocasião da venda das mercadorias resultam na movimentação dos estoques. No entanto, a movimentação dos estoques em decorrência das notas fiscais de remessa e retorno dos armazéns não são demonstradas no livro registro de inventário, modelo 7; Todas as mercadorias, mesmo aquelas em poder de terceiros, ou melhor sob a guarda em armazéns especializados contratados pela HP do Brasil permanecem em estoque devidamente registradas no livro registro de inventário, modelo 7. Para exemplificar, a empresa anexou algumas notas fiscais de remessas para armazéns, venda e retorno simbólico; Ressaltou que a definição em "poder de terceiros" é bem ampla, contudo no caso da HP do Brasil, tais mercadorias são destinadas exclusivamente à armazenagem/depósito sem qualquer impacto ao resultado do exercício para fins de determinação do Lucro Real e da Base de Cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Liquido; Embora não exista esta segregação contábil quanto a estoque em poder de terceiros, a HP do Brasil dispõe de controle físico de inventário por estabelecimento, denominados sistemas lógicos que refletem a posição física de cada armazém. Esta segregação é facilmente identificada através de reporte de saldo de estoque, no campo "Storage Bin.", através do qual é possível obter exatamente a localização das mercadorias, inclusive internamente no próprio armazém; Nesse sentido, acredita que o fato de não haver a abertura analítica das mercadorias em poder de terceiros descrita no livro registro de inventário não implica em inconsistências na determinação das bases tributáveis pelo IRPJ e CSLL, uma vez que o momento e valores relativos aos custos e receitas envolvidas nesses processos foram preservados. Conclusão da Fiscalização Uma vez que o contribuinte não logrou comprovar que o estoque em poder de terceiros foi computado no estoque final de 31/12/2008, para fins de apuração do Custo das Mercadorias Vendidas, apesar das alegações, o valor de R$ 193.235.964,31 foi adicionado ao lucro líquido para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro. INFRAÇÃO 2 GLOSA DA DEVOLUÇÃO/CANCELAMENTO DE VENDAS DE MERCADORIAS DIPJ O contribuinte declarou na DIPJ, na linha 09 Vendas Canceladas, Devoluções e Descontos Incondicionais, na Ficha 06A Demonstração do Resultado, o valor de R$ 255.238.575.61 (duzentos e cinquenta e cinco milhões, duzentos e trinta e oito mil, quinhentos e setenta e cinco reais e sessenta e um centavos). Quando iniciada a ação fiscal, em 12/01/2012, a empresa foi intimada a apresentar a contabilidade e as notas fiscais, em meio magnético. Analisando esses arquivos, especificamente o arquivo de vendas devolução de vendas/ cancelamento de serviços (CFOP 1201/1202/2201/2202) – constatouse que a somatória dessas notas fiscais é de R$ 72.114.201,90, divergente do declarado na DIPJ. Fl. 6370DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 7 6 A fiscalização limitouse a examinar as contas contábeis 31020000A008 e 31020000A160, no valor de R$ 19.641.717,47 e R$ 177.265.386,55, respectivamente, totalizando o valor de R$ 196.907.103,72. Considerando que apenas o valor de R$ 72.114.201,90 havia sido comprovado por meio de notas fiscais, intimouse novamente a fiscalizada, em 27/03/13, a comprovar o valor restante. Em resposta de 12/04/2013, o contribuinte informou e apresentou arquivo magnético complementar com o valor (R$ 85.361.983,51) referente ao retorno de mercadorias que não deram entrada no estabelecimento do cliente. Informou que o retorno dessas mercadorias foi escriturado no Livro Registro de Entrada modelo 1 com o CFOP 1949/2949, que significa "outras Entradas Não Especificadas". A fiscalização analisou e considerou comprovado o valor de R$ 85.361.983,51. Também na resposta de 12/04/2013, o contribuinte apresentou um resumo dos valores de cancelamentos e devoluções, por conta contábil. Esclareceu ainda, na mesma resposta, que na devolução/cancelamento da venda de mercadorias a empresa realizou os seguintes procedimentos: a) no retorno de mercadoria por motivo de recusa no recebimento pelo cliente cancelamento de venda o retorno ocorreu com a mesma nota fiscal de saída emitida pela vendedora (HP do Brasil) e a escrituração no livro registro de entrada ocorreu pelo CFOP 1949 e 2949; b) no caso de venda de mercadoria em que houve o recebimento pelo cliente e, posterior, devolução parcial ou total, o cliente emitiu nota fiscal de saída (devolução de compra) para acompanhar a mercadoria até o estabelecimento do vendedor com o CFOP 5201/5202/6201/6202. Quando da entrada da mercadoria no estabelecimento vendedor (HP do Brasil), a escrituração no livro registro de entrada ocorreu pelo CFOP 1201/1202/2201/2202. A fiscalizada informou também que todos os valores que afetaram a apuração do Lucro Real e da Base de Cálculo da CSLL estão suportados pelos respectivos documentos fiscais e registros nos respectivos livros, no entanto, esclareceu que algumas transações não implicam ou se originam de notas fiscais propriamente ditas, em virtude de sua natureza e interface com a contabilidade. Em 22/04/2013, o contribuinte apresentou informações complementares, em meio magnético, demonstrando a composição dos valores extraídos dos registros fiscais com a relação dos respectivos documentos fiscais, a saber: "a) Retorno de mercadorias vendidas que não deram entrada no estabelecimento do cliente totalizando R$ 85.361.983,51; b) Transações relativas a emissão de notas fiscais de serviços canceladas no mês de emissão totalizando R$ 52.479.479,50; c) Transações relativas a emissão de notas fiscais de serviços canceladas fora dos meses de emissão totalizando R$ 27.861.584,01; d) Devoluções de vendas registradas nos livros de entrada com código efetivo de devolução de vendas (CFOP) totalizando R$ 75.585.924,33. Valor total de devoluções no ano de 2008: R$ 241.288.971,40 Valor mencionado na resposta de 11/04/2013: R$ 238.940.000,00" Ainda, na resposta, esclareceu que "considerando o mecanismo sistêmico Fl. 6371DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 8 7 adotado pela HP do Brasil é possível que a variação apresentada corresponda à falta de interface entre os sistemas fiscais e a contabilidade, uma vez que os valores das notas fiscais canceladas e notas fiscais de entradas relativas a devoluções mencionadas nos itens "a" a "d", mostramse superiores ao valor deduzido como devolução de venda na determinação do lucro e da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro". Assim, de acordo com a resposta do contribuinte, as notas fiscais de devolução/cancelamento de mercadoria, que suportam os valores escriturados na contabilidade foram de R$ 160.947.907,84, conforme composição a seguir. Retorno de mercadorias vendida: R$ 85.361.983,51 (CFOP 1949/2949) Devoluções de vendas: R$ 75.585.924,33 (CFOP 1201/1202/2201/2202) Total.............................................R$ 160.947.907,84 A fiscalização discordou do contribuinte em relação ao valor da devolução de vendas R$ R$ 75.585.924,33 (CFOP 1201/1202/2201/2202). Este montante corresponde ao valor escriturado no livro registro de entrada, modelo1, mas NÃO corresponde ao valor total das notas fiscais apresentadas à fiscalização, que é de R$ R$ 72.114.201,90, conforme arquivo magnético de vendas fornecido pelo contribuinte em 24/02/2012 no formato Access. A relação analítica contendo as notas fiscais de devolução/cancelamento está no anexo n° 3 HP Relação das Notas Fiscais de Devolução de Vendas Por Estabelecimento CFOP 1201e1202e2201e 2202. Refazendo a demonstração da resposta do contribuinte, temos: Retorno de mercadorias vendida. R$ 85.361.983,51 (CFOP 1949/2949) Devoluções de vendas: R$ 72.114.201,89 (CFOP 1201/1202/2201/2202) Total.............................................R$157.476.185,40 O valor das notas fiscais que comprovam e suportam o valor escriturado na contabilidade é de R$ 157.476.185.40. Portanto, do montante de R$ 196.907.103.72 o contribuinte apenas comprovou os valores de R$ 72.114.201,90 e R$ 85.361.983,51, totalizando R$ 157.476.185,40. Portanto, a fiscalizada deixou de comprovar a importância de R$ 39.430.918,32. Dessa forma, por falta de comprovação, o valor de R$ 39.430.918,32 (trinta e nove milhões, quatrocentos e trinta mil, novecentos e dezoito reais e trinta e dois centavos) foi considerado indedutível para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSL. INFRAÇÃO 3 GLOSA DO CUSTO COM MATERIAL SUCATEADO A fiscalização verificou na escrituração do balancete contábil a dedução da despesa com Material Sucateado, conta contábil 35560000A082, no valor de R$ 44.671.919,51. No termo de intimação de 27/03/2013, o contribuinte foi intimado a comprovar por documentos hábeis e idôneos e a apresentar laudo técnico de destruição do material sucateado, no valor de R$ 44.671.919,51. Fl. 6372DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 9 8 Em resposta de 22/04/2013, a empresa informou o seguinte: i) que a despesa foi apropriado ao resultado do exercício de 2008; ii) que "o levantamento dos laudos de acompanhamento de destruição de material emitidos pela Receita Federal em 2008, os quais suportam a dedução de despesas na determinação do lucro real e, apuramos o valor de R$ 9.071.882,89 (nove milhões, setenta e um mil, oitocentos e oitenta e dois reais e oitenta e nove centavos)". iii) "que parte dos valores apropriados ao resultado do exercício de 2008 corresponde a remessas para destruição as quais estão suportadas por pedidos de solicitação de acompanhamento de destruição de material protocolados pela Receita Federal do Brasil e que em 31 de dezembro de 2008 aguardavam a visita do Inspetor Fiscal para destruição. Essas transações totalizavam naquela ocasião R$ 25.115.403,04, que pode ser comprovado no CDROM contendo o ANEXO INT 27 03 LAUDOS DE DESTRUIÇÃO DE MATERIAL EMITIDOS EM 2008" Considerando que a fiscalizada comprovou apenas R$ 9.071.882,89 da referida despesa, concluiuse que ficou sem a devida comprovação o valor de R$ 35.600.036,62, conforme quadro abaixo. Dessa forma, conforme planilha abaixo, temos: Portanto, a despesa no valor de R$ 35.600.036,62 (trinta e cinco milhões, seiscentos mil, trinta e seis reais e sessenta e dois centavos), contabilizada na conta contábil n° 35560000A082 e reconhecido no resultado de 2008, foi considerada indedutível para fins de apuração do imposto de renda e da base de cálculo da CSLL. INFRAÇÃO 4 JUROS SOBRE O CAPITAL PRÓPRIO (JCP). INDEDUTIBILIDADE. FALTA DE ADIÇÃO NA APURAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO. A fiscalização constatou que na contabilidade da fiscalizada foi escriturada a despesa, conta contábil 38170000A109 Juros IC, de juros sobre o capital próprio no valor de R$ 74.025.827,66. Em 22/03/2013, o contribuinte foi intimado a comprovar as despesas incorridas com os juros sobre o capital próprio no valor de R$ 74.025.827,66 (setenta e quatro milhões, vinte e cinco mil, oitocentos e vinte e sete reais e sessenta e seis centavos). Na resposta de 22/04/2013, a fiscalizada apresentou cópia dos lançamentos contábeis e do contrato de fechamento de câmbio relativos aos pagamentos de juros sobre o Capital Próprio pagos, no valor de R$ 74.025.827,66. Fl. 6373DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 10 9 Verificouse que ocorreram dois lançamentos na conta contábil n° 38170000A109 com JCP: Mês 07/2008 R$ 35.568.086,10 Mês 12/2008 R$ 38.457.741,56 O Valor Total – JCP R$ 74.025.827,66 Os valores dos JCP foram efetuados em nome da HEWLETT PACKARD GLOBAL INVESTMENTS B.V. localizado nos Países Baixos, Holanda. Em 23/09/2013, o contribuinte foi intimado a explicar o porquê da falta de adição do valor incorrido com as despesas de juros sobre o capital próprio (JCP) de R$ 74.025.827,66 na apuração da base de cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL. Na resposta de 26/09/2013, o contribuinte informou que: "Na apuração do Lucro Real DIPJ 2009 AnoCalendário de 2008 Ficha 09A, foi declarado o valor de adições no total de R$ 344.122.733,49. No entanto, ao transportar essas mesmas adições para a apuração da CSLL Ficha 17A, houve uma falha e o valor de R$ 74.025.627,66 não foi igualmente declarado nesta ficha. Assim, o total de adições na base da CSLL foi de R$ 270.097.105,83; Após a análise detida dos controles internos da empresa, verificamos que o valor de R$ 74.025.627,66 de JCP foi devidamente considerado como adição indedutível para ambos os cálculos dos tributos em questão, IRPJ/CSLL Sendo assim, entendemos que não há divergências nas bases de cálculo do IRPJ e CSLL da empresa fiscalizada, anobase 2008, mas tão somente a necessidade de retificar a DIPJ 2009 AnoCalendário de 2008, a fim de incluir na base de cálculo da CSLL o valor de R$ 74.025.627,66, decorrente do pagamento de JCP". Em resposta complementar, apresentada em 02/10/2013, informou "que para fins de Demonstrações Financeiras o JSCP é excluído do DRE e lançada diretamente na linha de Lucros/Prejuízos Acumulados, conforme demonstrado na DMPL Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido". A fiscalização verificou que a empresa adicionou a referida despesa juros sobre o capital próprio (JCP), no valor de R$ 74.025.827,66 ao lucro líquido para fins de determinação do lucro real, no ano calendário de 2008, conforme Livro de Apuração do Lucro Real. No entanto, o valor não foi adicionado na apuração da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Analisando as demonstrações financeiras do contribuinte, constatouse que os resultados apresentados não permitem a dedução dos juros sobre capital próprio em virtude da INEXISTÊNCIA de lucro do exercício e da AUSÊNCIA de lucros acumulados e reservas de lucros, conforme demonstrado abaixo: DIPJ Ficha 06A Demonstração do Resultado do Exercício Demonstração do Resultado do Exercício DRE...R$ 362.711.171,41 DIPJ Ficha 37A Passivo Patrimônio Líquido (PL) i. Capital Subscrito Domiciliados/Residentes Exterior ...R$ 544.720.540,00 ii. Reserva de Reavaliação...................................................R$ 7.516.851,90 Fl. 6374DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 11 10 iii. Lucros Acum. e/ou Saldo à Dispôs, da Assembléia......... R$ 0,00 iv. Prejuízos Acumulados............................................... R$ 146.745.498,57 v. Total do Patrimônio Líquido...................................... R$ 405.491.893,33 Portanto, o contribuinte não preenche os requisitos legais para fins de dedutibilidade. Assim sendo, o valor de R$ 74.025.827,66 foi adicionado à base de cálculo da CSLL. Ajuste do Preço de Transferência Verificouse que a contribuinte ofereceu à tributação o valor de R$ 25.106.714,49 (vinte e cinco milhões, cento e seis mil, setecentos e catorze reais e quarenta e nove centavos), conforme informado na DIPJ, linha 10, Ficha 09A, lucro real, e linha 10, Ficha 17A, no Cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. A fiscalização não constatou divergência em relação a essa adição. Cientificada da autuação, a contribuinte, representada pelos procuradores Celso Costa e Diego Marchant (fls. 5759 a 5764), ingressou com a impugnação de fls. 5585 a 5608, alegando: Reconhece as infrações relativas à glosa do custo com material sucateado e da tributação dos valores recebidos a título de JCP (Infrações 3 e 4) e, portanto, não apresentará defesa sobre ambos os pontos. No tocante a esses pontos, deixa expresso o seu pedido de removimentação das bases tributárias, considerando, inclusive, os montantes de prejuízos de IRPJ e bases negativas de CSLL. Não obstante, informa que os valores devem ser adicionados a título de adição temporária, passível de exclusão na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL nos períodos de disponibilização dos respectivos laudos. Quanto à infração l: Falta de Escrituração de Estoque em Poder de Terceiros, ocorreu erro de direito, o que ocasiona nulidade. A Fiscalização, alegou: "Considerando que a empresa não informou se havia estoque inicial (01/01/2008) em poder de terceiros, concluise que permaneceu em estoque final de 2008, no mínimo, o montante de R$ 193.235.964,31 ( R$ 499.592.082,55 R$ 306.356.123,24)" fls 9 do TVF." Da análise do trecho acima, resta claro que a fiscalização encontrou uma situação de diferença de estoque. Segundo a fiscalização, o saldo final de estoque em poder de terceiros, por não ter sido controlado de forma a permitir identificar a parte em poder da empresa e a parte em poder de terceiro, deveria ser considerado igual a zero. Porém, ao refazer a movimentação de estoques, a partir da metodologia comparativa obtida entre as entradas e saídas registradas nos Modelos 1 e 2 do Livro de Fl. 6375DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 12 11 Registro de Inventários, referentes aos CFOP 5905 e 5907, a fiscalização concluiu que o estoque deveria ser de R$ 193.235.964,31, ou seja, uma clara situação de diferença de estoque. Ora, se houvesse diferenças no estoque, deveria a fiscalização dar o tratamento de omissão de receitas por levantamento quantitativo, nos termos no artigo 286 do Regulamento do Imposto de Renda ("RIR/99"). Não obstante, de maneira curiosa, a fiscalização propõe a glosa de custos, o que demonstra claro erro de direito na lavratura do presente auto de infração, motivo pelo qual o mesmo, nesse tópico, deve ser cancelado. Desmistificando o cenário criado pela fiscalização As demonstrações financeiras estão corretas: Da análise do TVF, primeiramente, cumpre afastar quaisquer especulações acerca de eventuais incertezas em relação à qualidade das demonstrações contábeis e aos controles fiscais da impugnante. Pelo motivo acima, importa rebater as alegações da fiscalização, tais como as afirmações feitas à fl. 7 do TVF: "Como podese observar, há divergência no estoque final entre os valores da DIPJ, do Balancete/Balanço Patrimonial e do Livro Inventário: Valor informado na DIPJ............................R$ 306.421.736,12 Valor constante do Balancete/Balanço Patrimonial ...R$ 314.034.148,57 Valor registrado no Livro Inventário ...............R$ 320.174.773,86" Da análise do trecho acima, poderseia suspeitar que as demonstrações contábeis da impugnante não merecem crédito, dado que há três valores diferentes para supostamente a mesma informação. Não obstante, a simples resposta para estas diferenças é que elas decorrem dos diferentes critérios de avaliação que são adotados na DIPJ, Balancete e nos Livros de Registro Inventário. A primeira diferença diz respeito às diferenças entre o Livro de Registro de Inventário Modelo 7 (R$ 320.174.773,86) e o Balancete (R$ 314.034.148,57). Tal diferença pode ser facilmente explicada pelo fato do Livro de Registro de Inventário não atender aos Princípios Contábeis. O Livro de Registro de Inventário visa acompanhar a movimentação física dos estoques junto a terceiros (compras, vendas, etc.) . Não contempla ajustes requeridos pelos Princípios Contábeis, a exemplo de provisões para obsolescência, ajustes a valor de mercado, juros sobre compras, etc. Essa a razão da diferença entre o Livro de Registro de Inventário e o Balancete. Explicada, portanto, a origem da diferença! A diferença entre o Balancete e a DIPJ, por sua vez, pode ser facilmente explicada no quadro abaixo: Fl. 6376DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 13 12 O quadro acima demonstra a composições dos valores que foram incluídos na DIPJ (Ficha 36A, linha 4) , que totalizam R$ 306.421.736,12. Conforme se verifica acima, a diferença entre o valor da DIPJ e do Balancete se refere a um adiantamento de R$ 7.612.412,45 feito aos despachantes aduaneiros que importam as mercadorias da impugnante que finalizada a importação, constarão do estoque. Ocorre que para fins de preenchimento da DIPJ, esse valor deve constar de linha específica Linha 6 da Ficha 36A (Adiantamento a Fornecedores). Em resumo: R$ 314.034.148,57 R$ 7.612.412,45 = R$ 306 .421.736,12! Explicado, portanto, a diferença entre a DIPJ e o Balancete. Assim, resta cristalino que não há inconsistências nos valores apontados na DIPJ, balancete e o Livro de Registro de Inventário Modelo 7, pois esses documentos utilizam critérios distintos de valoração. III.1.c) Da fragilidade das análises efetuadas pela Fiscalização um resultado originado de premissas equivocadas Nulidade por Erro de Fato. Fl. 6377DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 14 13 Conforme descrito acima, a fiscalização partiu de premissas equivocadas para concluir que a impugnante aumentou o custo das mercadorias vendidas ("CMV") em R$ 193.235.964,31. O equívoco da fiscalização tem como pilar a falta de segregação dos estoques em poder de terceiros das demais contas de estoque. Nesse ponto, cabe esclarecer que a falta da referida escrituração em separado poderia apenas e tão somente constituir a inobservância das melhores práticas relativas à forma de apresentação analítica das demonstrações contábeis. A impugnante reconhece que a segregação dos estoques em poder de terceiros poderia dar maior clareza para o usuário das demonstrações financeiras. No entanto, a referida falta de segregação não causa nenhum impacto contábil, seja no campo patrimonial, seja na apuração do resultado. Em se tratando de uma questão de apuração de tributos, como é o caso em tela, vale ressaltar que não há qualquer normativo tributário federal que determine a referida segregação, tampouco que imponha penalidades às pessoas jurídicas que não observem tal prática. Vale ressaltar ainda que a fiscalização efetuou inúmeros testes na apuração de receitas e custos da impugnante e não constatou diferenças. Caso houvesse identificado diferenças, certamente teria procedido ao arbitramento do lucro ou teria lavrado acusação de omissão de receitas, o que não se verificou no caso em tela. Não obstante soubesse que a impugnante não possuía os estoques em poder de terceiros segregados das demais contas do estoque, a fiscalização procedeu ao cálculo do CMV sem procurar verificar a consistência do total das movimentações de estoque, atendose a procurar criar um critério a fim de identificar uma segregação do montante de estoque em poder de terceiros. Ao fazer isso, infelizmente, incorreu em erro. Nesse cenário, a fiscalização cruzou as Notas de Remessa para Armazém (CFOP 5905), apuradas a partir do Livro de Registro de Inventário Modelo 2, ocorridas no ano de 2008, que totalizam R$ 499.592.087,55. A seguir, comparou com o valor das mercadorias que retornaram de armazém (CFOP 5907), apuradas, também, a partir do Livro de Registro de Inventário Modelo 1, que totalizam R$ 306.356.123,24. Na sequência, o fiscal, por entender que a impugnante não comprovou que o valor relativo ao estoque em poder de terceiros estava computado no estoque final em 31 de dezembro de 2008, conforme informado na DIPJ, adicionou o valor de R$ 193.235.964,31 ao lucro líquido para fins de apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL, em razão de suposta baixa indevida de custos de mercadorias vendidas, ou seja, na visão da fiscalização a impugnante teria majorado indevidamente o CMV, já que o valor de R$ 193.235.964,31 deveria estar registrado no saldo dos estoques de 31 de dezembro de 2008. Fl. 6378DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 15 14 Ora, por óbvio que a ausência de segregação não permite a conclusão abstraída pela fiscalização, pois os estoques em poder de terceiros podem estar junto aos demais estoques, como de fato é o caso da impugnante. Diante da ausência de segregação a fiscalização deveria ter procedido à análise da totalidade da movimentação de estoques, considerando todas as movimentações de entrada e saída a partir de Notas Fiscais de compra no mercado interno e externo e vendas para clientes, a fim de averiguar se a escrituração do Livro de Registro de Inventário Modelos 3 e 7, bem como a contabilidade, refletiam de forma adequada a movimentação efetiva dos estoques da impugnante e, caso contrário, a origem das diferenças. Observe que no curso da ação fiscal a impugnante informou que: a) não controlava em separado a movimentação dos estoques; e b) o Livro de Registro de Inventário Modelo 7 refletia adequadamente a movimentação dos seus estoques. No contexto, acima, portanto, a fiscalização, ciente da ausência de controles segregados, deveria ter procedido a testes junto ao Livro de Registro de Inventário Modelo 3 e 7, a fim de averiguar o impacto das informações prestadas pela impugnante. A fiscalização poderia ter efetuado por si mesma a averiguação acima, ou então, solicitado a impugnante demonstrasse a consistência da sua movimentação total de estoques. Nenhuma das duas averiguações foi efetuada. Infelizmente este vultoso ajuste foi pautado em uma simples subtração (R$ 499.592.082,55 R$ 306.356.123,24), sem maiores investigações que seriam aplicáveis neste caso. O motivo da metodologia utilizada pelo fiscal estar inconsistente decorre do fato de supor que todas a movimentações constantes nos Livros de Registro de Inventário Modelo 1 e 2 estão refletidas no Livro de Registro de Inventário Modelo 3 e 7. Essa suposição está incorreta. Na sistemática utilizada pela impugnante os CFOP 5905 e 5907, por se tratarem de movimentações não relevantes para efeitos, não estão refletidas no Livro de Registro de Inventário Modelos 3 e 7. Dessa forma, eventuais inconsistências nas movimentações ocorridas nos CFOP 5905 e 5907 no Livro de Registro de inventário Modelos 1 e 2 não têm o condão de impactar as movimentações ocorridas no Livro de Registro de Inventário Modelo 3 e 7. O controle de entradas e saídas efetivas efetuado pela impugnante (i.e., movimentações efetivas com terceiros, com repercussão patrimonial) é adequadamente efetuado por meio de sistemas lógicos da impugnante, refletidos no Livro de Registro de Inventário Modelo 3 e 7. As movimentações de compra e venda junto a terceiros geram lançamentos nos sistemas lógicos e no Livro de Registro de Inventário Modelo 3 e 7. Essa afirmação, reiterese, foi dada pela impugnante no curso da ação fiscal. Conforme resposta da Impugnante de 29/11/2013, transcrita às fls. 9 e 10 do TVF: "Em resposta de 29/11/2013, o contribuinte informou que: Fl. 6379DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 16 15 A entrada por ocasião da compra, assim como a saída, por ocasião da venda das mercadorias resultam em movimentação dos estoques. No entanto, a movimentação dos estoques em decorrência das notas fiscais de remessa e retorno dos armazéns não são demonstradas no livro registro de inventário, modelo 7; Todas as mercadorias, mesmo sendo aquelas em poder de terceiros, ou melhor, sob a guarda de armazéns especializados contratados pela HP Brasil permanecem em estoque devidamente registradas no livro registro de inventário, modelo 7. Para exemplificar, a empresa anexou algumas notas fiscais de remessa para armazéns, venda e retorno simbólico; Ressaltou que a definição da definição "em poder de terceiros" é bem ampla, contudo no caso da HP do Brasil, tais mercadorias são destinadas exclusivamente à armazenagem/depósito sem qualquer impacto ao resultado do exercício para fins de determinação do Lucro Real e da Base de Cálculo da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido; Embora não exista esta segregação contábil quanto a estoque em poder de terceiros, a HP do Brasil dispõe de controle físico de inventário por estabelecimento, denominado sistemas lógicos que refletem a posição física de cada armazém. Esta segregação é facilmente identificada através de reporte de saldo de estoque, no campo "Storage BIN", através do qual é possível obter exatamente a localização das mercadorias, inclusive internamente no próprio armazém; Nesse sentido, acredita que o fato de não haver a abertura analítica das mercadorias em poder de terceiros descrita no livro registro de inventário não implica em inconsistências na determinação das bases tributáveis pelo IRPJ e CSLL, uma vez que o momento e valores relativos aos custos e receitas envolvidas nesses processos foram preservados." Assim sendo, resta demonstrada a fragilidade dos trabalhos da fiscalização, que simplesmente glosou o valor de R$193.235.964,31, talvez por não ter compreendido integralmente os efeitos e desdobramentos das respostas fornecidas pela impugnante. Outro fato que demonstra a fragilidade do trabalho das fiscalização diz respeito ao fato do fiscal simplesmente "esquecer" os valores declarados nas Fichas 4A e 3 6A da DIPJ. Conforme se vê nas fichas 04 A (Custo dos Bens e Serviços Vendidos – PJ em Geral), linhas 20 a 23, e 36 A (Ativo – Balanço Patrimonial) linha 05, da DIPJ/2009, os valores relativos a estoque inicial, final e custos estão devidamente conciliados entre si e com contabilidade da impugnante. Da análise dos referidos números, resta claro que o fiscal testou os saldos de estoque inicial, final e custo e não encontrou divergências, uma vez que a escrita fiscal e contábil da impugnante é plenamente conciliada. Assim sendo, resta clara a necessidade de cancelamento da exigência relativa à Infração 1, dado o erro de fato detectado nas premissas utilizadas pela Fiscalização. Fl. 6380DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 17 16 Subsidiariamente, caso o cancelamento solicitado não seja provido, a impugnante solicita diligência a fim de proceder a investigação das alegações aqui prestadas, do forma a efetivamente testar os saldos contábeis dos estoques totais da impugnante. III.l.d) Da nulidade do auto de infração por falta de motivação o motivo da glosa não foi apresentado. Conforme demonstrado acima, a fiscalização, de forma equivocada, se prendeu ao fato da impugnante não possuir segregação dos valores de estoque em poder de terceiros e a premissas totalmente incorretas para exigir a glosa do vultoso montante R$ 193.235.964,31, sem tecer qualquer comentário acerca da natureza. Se a fiscalização entendeu por glosar RS 193.235.964,31 do custo da impugnante, é porque supôs que tal valor seria indedutível. Esta ilegalidade (indedutibilidade), contudo, deveria ter sido demonstrada e comprovada e, nunca pode simplesmente ser resultado de uma simples subtração. Da leitura atenta do TVF, contudo, não se identifica um parágrafo sequer dedicado ao apontamento ou descrição dos motivos pelo qual o vultuoso valor é indedutível. A título ilustrativo, caso estivéssemos tratando da indedutibilidade de despesas com constituição de provisão, certamente o fiscal deveria descrever a natureza da despesa de provisão, comprovála e citar que o inciso I do artigo 13 da Lei n° 9.249/95 determina que as provisões são indedutíveis na apuração do lucro real. Caso a despesa indedutível fosse um pagamento de multa de trânsito, certamente a autoridade fiscal citaria o artigo 299 do RIR/99 concluiria que as despesas com pagamento de multas de trânsito não são necessárias à atividade da empresa. Embora longo, o texto do TVF simplesmente efetua uma subtração e determina que o valor de R$ 193.235.964,31 é indedutível, sem tecer os motivos que levaram a tal conclusão. Ressaltese que o dever de motivar os atos administrativos (gênero no qual se incluem os autos de infração) é tema incontroverso, dada a clareza da Lei 9.784/99 (Lei do processo administrativo federal), art. 2º (10), a esse respeito. O próprio Decreto 70.235/72 é explícito nesse sentido, ao tratar em seu art. 10 dos requisitos do auto de infração, que incluem a legislação infringida, devidamente descrita. Vejamos: "Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; Fl. 6381DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 18 17 V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matricula". Demais disso, sabese que a atividade administrativa de lançamento é estritamente vinculada, ex.vi. dos arts. 3º e 142, parágrafo único, do Código Tributário Nacional. Nesse passo, caso se entenda que o fundamento da autuação decorre da desobediência à lei, tal descompasso entre a conduta do contribuinte e a lei deve estar expressamente consignado (descrição do fato ilícito). Todavia, conforme já se disse, não se observa uma linha sequer no trabalho fiscal, dedicada à justificação da indedutibilidade do referido valor. Vale ressaltar que a jurisprudência administrativa reconhece a necessidade da Fiscalização demonstrar os motivos que levaram à glosa de uma despesa. Vejamos: IRPJ DESPESAS DE SERVIÇOS EFETIVIDADE DA PRESTAÇÃO ÔNUS DA PROVA GLOSA CABIMENTO Não é lícito ao Fisco proceder â glosa de despesas de serviços suficientemente descritos em notas fiscais, se a fiscalização deixa de reunir provas, ou mesmo indícios, de que os serviços não foram ou não poderiam ter sido prestados. Cabível, entretanto, a glosa, se o contribuinte deixa de comprovar documentalmente os lançamentos contábeis relativos As despesas de serviços. Recurso especial parcialmente provido. (Câmara Superior de Recursos Fiscais CSRF Primeira Turma / ACÓRDÃO CSRF/0103.972 em 18/06/2002) (g.n.) NORMALIDADE E USUALIDADE ÔNUS DA PROVA GLOSA CABIMENTO Se a fiscalizada não apresenta os comprovantes fiscais dos dispêndios contabilizados, está o fisco tolhido na sua missão de verificar a efetividade, a necessidade e a usualidade do dispêndio. Ao contrário, se apresentado documento hábil, cabe ao fisco fazer a prova da sua indedutibilidade, à vista dos serviços nele descritos." (1o Conselho de Contribuintes / 7a. Câmara / ACÓRDÃO 10707.694 em 17.06.2004) (g.n.) Assim sendo, resta clara a necessidade de cancelamento da exigência relativa à infração 1, dado o erro de fato detectado nas premissas utilizadas pela Fiscalização. III. 2 Infração 2 Glosa da devolução/cancelamento de vendas de mercadorias DIPJ Conforme demonstrado anteriormente, a fiscalização solicitou esclarecimento à impugnante em relação ao valor declarado na DIPJ de R$ 255.238.575,61, relativo a vendas canceladas, devoluções e descontos incondicionais. A impugnante disponibilizou os arquivos magnéticos de contabilidade e notas fiscais, que totalizavam R$ 72.114.201,90 (devoluções de venda e cancelamento de serviços) e R$ 85.361.983,51 (retorno de mercadorias que não deram entrada no estabelecimento do cliente). Na mesma resposta, a impugnante apresentou um resumo dos valores de cancelamentos e devoluções, por conta contábil, totalizando R$ 245.602.051,93. Fl. 6382DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 19 18 Também foi esclarecido pela impugnante todo o procedimento que envolve a devolução/cancelamento da venda de mercadorias. No caso de retorno de mercadoria por motivo de recusa no recebimento pelo cliente cancelamento de venda o retorno ocorre com a mesma nota fiscal de saída emitida pela vendedora (Impugnante) e a escrituração no livro registro de entrada ocorre pelo código CFOP 1949 e 2949. No caso de venda de mercadoria em que houve o recebimento pelo cliente e, posterior, devolução parcial ou total, o cliente emite nota fiscal de saída (devolução de compra) para acompanhar a mercadoria até o estabelecimento do vendedor com o CFOP 5201/5202/6201/6202. Quando da entrada da mercadoria no estabelecimento vendedor (Impugnante), a escrituração no livro registro de entrada ocorre pelo CFOP 1201/1202/2201/2202. A impugnante esclareceu ainda que, mesmo que todos os valores tenham sido suportados pelos respectivos documentos fiscais e que tenham afetado a apuração do Lucro Real e da base de cálculo da CSLL, algumas transações não implicaram ou originaram faturamento, uma vez que foram canceladas dentro do mesmo dia. Em 22 de abril de 2013, a impugnante apresentou novo arquivo magnético com a composição dos valores extraídos dos registros fiscais. Dentre os valores indicados, em relação ao código CFOP 1201/1202/2201/2202 a impugnante declarou o valor R$ 75.585.924,33. A Fiscalização, no entanto, não concordou com o valor informado ao passo que há divergência com o montante somado nas notas fiscais entregues em 12 de janeiro de 2012, o qual totalizou R$ 72.114.201,90. Diante dos documentos e esclarecimentos ao longo da fiscalização, o fiscal concluiu que, do montante declarado na DIPJ e no Balancete (RS 196.907.103,72), a impugnante somente conseguiu comprovar RS 157.476.185,40, que é a soma de RS 72.114.201,90 e R$ 85.361.983,51. A impugnante passou a analisar a suposta diferença de R$ 39.430.918,32 e chegou a algumas conclusões. Para tanto, fez uma minuciosa análise do Razão Contábil e detectou que valores de R$ 72.114.201,90 e R$ 85.361.983,51 foram subvalorizados. Ademais, no preenchimento da DIPJ, o valor de R$ 3.760.343,44, que corresponde a valores pagos em processos movidos por consumidores, foi indevidamente incluído na referida linha da DIPJ. Vejamos o quadro abaixo: Fl. 6383DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 20 19 Da análise do quadro acima, notase que o valor de RS 72.114.201,90 foi incorretamente informado à fiscalização. Conforme se verifica no relatório de Notas de Devolução, o valor correto é de R$ 75.185.119,24 (doc. 04). Ademais, podemos verificar que o valor de R$ 85.361.983,51 foi também foi incorretamente informado à fiscalização. Conforme se verifica no relatório de Notas de Recusa, o valor correto é de R$ 109.532.095,52 (doc. 05). Nesse contexto, não obstante o cuidado e os esforços da ação fiscal, a impugnante não deixa de transparecer que contribuiu acidentalmente à apuração incorreta da infração contida nesse tópico. Assim sendo, pede a revisão do lançamento à luz das informações trazidas e o princípio da verdade material, bem como se coloca à disposição para quaisquer diligências que sejam necessárias. Assim sendo, resta comprovado que a infração 2 também deve ser cancelada. PEDIDO Ante o exposto, requer o cancelamento dos itens 1 e 2 do Auto de Infração, pelos motivos expostos ao longo da presente defesa. A impugnante reconhece as infrações relativas à glosa do custo com material sucatado e da tributação dos valores recebidos a título de JCP (Infrações 3 e 4) e, portanto, não apresentará defesa sobre ambos os pontos. Não obstante, informa que os valores devem ser adicionados a título de adição temporária, passível de exclusão na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL nos períodos de disponibilização dos respectivos laudos. Em qualquer hipótese, no tocante a esses pontos, não obstante, deixa expresso o seu pedido de removimentação das bases tributárias, considerando, inclusive, os montantes de prejuízos de IRPJ e bases negativas de CSLL. A impugnante protesta ainda pela produção posterior de todas as provas em Direito admitidas e pela oportuna sustentação oral de suas razões de defesa. Como forma de dirimir as dúvidas levantadas pela fiscalização, a impugnante colocase à disposição para quaisquer diligências que se façam necessárias. Relação de Documentos que instruem a presente impugnação Doc 01 Contrato Social Doc 02 Procuração e Substabelecimento Doc. 03 Auto de Infração Doc. 04 Fl. 6384DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 21 20 Relatório de Notas Fiscais Devolução Doc. 05 Relatório de Notas Fiscais Recusa Da decisão da DRJ A 3° Turma de Julgamento da DRJ/POR julgou improcedente a Impugnação apresentada e manteve integralmente o lançamento fiscal, conforme ementa abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2008 ESTOQUE FINAL. SUBAVALIAÇÃO A falta de estoque de mercadorias apurada mediante cotejo entre o Registro de Inventário e o saldo existente em depósitos de terceiros, decorrente da movimentação de entradas e saídas, permite a tributação como subavaliação de estoques. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2008 MATÉRIA NÃO IMPUGNADA. Considerase definitiva, na esfera administrativa, a exigência relativa à matéria que não tenha sido expressamente contestada. NULIDADE. Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando observados os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. ENQUADRAMENTO LEGAL. Mantémse o lançamento, quando nele presentes os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal, dentre eles o enquadramento legal coerente com a infração apurada. IMPUGNAÇÃO. ÔNUS DA PROVA. As alegações apresentadas na impugnação devem vir acompanhadas das provas documentais correspondentes, sob risco de impedir sua apreciação pelo julgador administrativo. DILIGÊNCIAS. PRESCINDIBILIDADE. INDEFERIMENTO. Estando presentes nos autos todos os elementos de convicção necessários à adequada solução da lide, indeferese, por prescindível, o pedido de diligência. JUNTADA POSTERIOR DE DOCUMENTAÇÃO. A juntada posterior de documentação só é possível em casos especificados na lei. INTIMAÇÃO. ENDEREÇAMENTO. Dada a existência de determinação legal expressa, as notificações e intimações devem ser endereçadas ao sujeito passivo no domicílio fiscal eleito por ele. SUSTENTAÇÃO ORAL. Inexiste previsão legal, na esfera do julgamento administrativo de primeira instância, para oferecimento de sustentação oral. Fl. 6385DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 22 21 Recurso Voluntário A Recorrente apresentou Recurso Voluntário por meio do qual ratifica seus argumentos trazidos em Impugnação. Voto Conselheiro Luis Fabiano Alves Penteado Relator Admissibilidade O Recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos legais, assim, merece ser apreciado. Preliminar Nulidade Alega a Recorrente nulidade da autuação por erro de direito. Sustenta sua posição ao afirmar que a fiscalização identificou uma diferença de estoque e que segundo consta do TVF, o saldo final de estoque em poder de terceiros não teria sido registrado no livro de inventário. Em outras palavras, a contribuinte não teria feito prova de que o estoque alegadamente em poder de terceiros já fazia parte do estoque final registrado nas demonstrações financeiras de 31/12/2008. Assim, segundo a Recorrente, se a fiscalização encontrou uma diferença entre o total de mercadorias remetido para armazenagem junto a terceiros e o total devolvido, o saldo final do estoque em poder de terceiros deveria ter sido considerado como igual a "zero" e, portanto, a diferença existente deveria ter sido apontada como mercadoria vendida e não registrada na contabilidade, o que configuraria omissão de receitas prevista no art. 286 do RIR/99. Alega a Recorrente que a glosa de custos efetivada pela fiscalização foi medida equivocada, que desrespeita o art. 286 do RIR e jurisprudência dominante do CARF no sentido de que o lançamento fiscal deve se referir à omissão de receita quando a suposta infração for identificada por meio de levantamento de escrituração do livro registro de inventário cotejada com as compras e vendas de mercadoria da contribuinte, tendo sido equivocado o lançamento fiscal de glosa de custos. Entendo que cabe razão à Recorrente e para justificar minha posição, destaco o disposto no art. 286 do RIR: Art. 286. A omissão de receita poderá, também, ser determinada a partir de levantamento por espécie de quantidade de matériasprimas e produtos intermediários utilizados no processo produtivo da pessoa jurídica (Lei nº 9.430, de 1996, art. 41). § 1º Para os fins deste artigo, apurarseá a diferença, positiva ou negativa, entre a soma das quantidades de produtos em estoque no início do período com a quantidade de produtos fabricados com as matériasprimas e produtos intermediários utilizados e a soma das quantidades de produtos cuja venda houver sido registrada na escrituração contábil da empresa com as quantidades em estoque, no Fl. 6386DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 23 22 final do período de apuração, constantes do Livro de Inventário (Lei nº 9.430, de 1996, art. 41, § 1º). § 2º Considerase receita omitida, nesse caso, o valor resultante da multiplicação das diferenças de quantidade de produtos ou de matériasprimas e produtos intermediários pelos respectivos preços médios de venda ou de compra, conforme o caso, em cada período de apuração abrangido pelo levantamento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 41, § 2º). § 3º Os critérios de apuração de receita omitida de que trata este artigo aplicamse, também, às empresas comerciais, relativamente às mercadorias adquiridas para revenda (Lei nº 9.430, de 1996, art. 41, § 3º). Me parece que o art. 286 do RIR/99 não deixa dúvidas de que uma vez apuradas diferenças no estoque do contribuinte e que tais diferenças não sejam devidamente explicadas e comprovadas, deve o fiscal considerar as diferenças identificadas como omissão de receita, tendo sido de todo equivocada a glosa de custos lançado pelo fiscal. Como destacado pela ora Recorrente, a jurisprudência do CARF traz inúmeros exemplos de casos de autuação por omissão de receita decorrente de diferenças apuradas em estoque: OMISSÃO DE RECEITA — DIFERENÇA DE ESTOQUE — O cotejo entre o registro de inventário e o saldo apurado em movimentação de estoque, em caso de diferença a maior no registro de inventário, importa em omissão de compras de mercadorias não alienada, indicando omissão de receita. GLOSA DE DESPESAS — NOTA FISCAL INIDÔNEA — O registro de despesa com nota de emitente declarado inidôneo pela Receita Federal, só pode prevalecer se o contribuinte demonstra a efetivação prestação do serviço ou a entrada de mercadorias, além do pagamento realizado. GLOSA DE DESPESAS — SERVIÇOS PRESTADOS — COMPROVAÇÃO Os serviços contratados devem restar comprovados, por elementos que demonstrem sua efetiva realização, iniciando tal demonstração pelo pagamento realizado. ( Proc. 10821.000786/200144 Acórdão n. 10807.358 16/04/2003 8°Câmara do Conselho de Contribuintes) IRPJ OMISSÃO DE RECEITAS DIFERENÇA DE ESTOQUES Constatada diferença a maior no estoque de mercadorias em relação ao estoque inventariado, presumese ter a pessoa jurídica vendido mercadorias sem a correspondente contabilização, afigurandose correta a imputação fiscal de omissão de receitas, não infirmada por prova cabal produzida em sentido contrário.( Proc. 10675.001386/98 75 Acórdão 10514.136 12/06/2003 Primeiro Conselho de Contribuintes) Assim, face o flagrante erro de enquadramento legal da autuação que seguiu no sentido de glosa de custos quando na realidade restou evidenciada a infração de omissão de Fl. 6387DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 24 23 receita, padece de nulidade por vício material o lançado efetuado, devendo ser cancelada a autuação no que se refere à infração 01. Mérito Quanto à infração 02 que se refere à divergência entre o valor das notas fiscais e aquele declarado em DIPJ no que concerne às operações de devolução e cancelamento de venda de mercadorias, me parece que tratase de discussão de natureza mais fática (provas) que jurídica. Isso porque, a discussão gira em torno do entendimento da fiscalização de que a ora Recorrente não demonstrou através da apresentação de notas fiscais a integralidade do montante que fora declarado na DIPJ como sendo decorrente de vendas canceladas e devoluções, tendo sido, conseqüentemente, glosado o valor de R$ 39.430.918,32. Pois bem, a Recorrente informou em DIPJ o montante de R$ 255.238.575,61 à título de vendas canceladas, devoluções e descontos incondicionais e durante a fiscalização teria apresentado arquivos magnéticos de contabilidade e notas fiscais que totalizam R$ 74,1 milhões em relação às devoluções e cancelamentos e R$ 85,3 milhões de retorno de mercadorias. Explica a Recorrente que no caso de cancelamento de venda, em que o cliente se recusa a receber a mercadoria, tal retorno se dá com base na mesma nota fiscal de saída originalmente emitida pela ora Recorrente e a entrada é registrada com os códigos CFOPs 1949 e 2949. Já nos casos de devolução de compra em que o cliente recebe a mercadoria e, posteriormente, efetua uma devolução parcial ou integral, o retorno da mercadoria é lastreado por nota fiscal de saída emitida pelo cliente com os códigos CFOPs 5201/5202/6201/6202 e a posterior entrada no estabelecimento da ora Recorrente é registrada no Livro Registro de Entradas com os códigos CFOPs 1201/1202/2201/2202. Explica ainda a Recorrente que todas as transações foram comprovadas através das mencionadas notas fiscais, contudo, nem todas as operações deram origem a um faturamento propriamente dito, tendo em vista que o cancelamento ocorreu no mesmo dia da venda. Em abril de 2013, a ora Recorrente apresentou um novo arquivo magnético que abrangia os lançamentos com código CFOP 1201/1202/2201/2202, que desta vez somou R$ 75.585.924,33, contudo, a fiscalização não aceitou tal levantamento, tendo em vista a divergência encontrada em relação aos números de janeiro de 2012 que somava R$ 72.114.201,90. Desta sorte, fora considerado como comprovado apenas o valor de R$ 157,4 milhões que equivale à soma dos R$ 72,1 milhões e R$ 85,3 milhões acima citados., restando não comprovado o montante de R$ 39,4 milhões que foi tributada. Em Recurso Voluntário a Recorrente traz o seguinte quadro explicativo de tal diferença: Fl. 6388DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 25 24 Segundo a Recorrente, os valores acima de R$ 72,1 milhões e R$ 85,3 milhões foram informados de forma equivocada ao fisco, sendo que os valores corretos são R$ 75,2 milhões e R$ 109,5 milhões respectivamente e que a integralidade de tais valores fora comprovado através de relatório de notas fiscais. O julgadores da DRJ não aceitaram tal argumento e julgaram improcedente a Impugnação da Recorrente neste ponto por entenderem que as alegações não foram acompanhadas de provas. Contudo, diante da enormidade de documentos fiscais juntados aos autos e da alegação que me parece coerente em valores de que a Recorrente incorreu em equívoco ao informar valores à fiscalização que eram inferiores àqueles lastreados por documentação fiscal, me parece que seria temeroso tomar qualquer decisão sobre a procedência ou não do lançamento antes de certificação final acerca da documentação apresentada pela Recorrente no intuito de comprovar o montante integral de devoluções e cancelamentos informados em DIPJ, cabendo aqui diligência para averiguação dos documentos acostados. Conclusão Diante do exposto, CONHEÇO do Recurso Voluntário para DETERMINAR a CONVERSÃO DO JULGAMENTO EM DILIGÊNCIA para que a autoridade fiscal: i) proceda à análise das notas fiscais de devolução emitidas pelos clientes da Recorrente e informe o valor total comprovado; ii) proceda à análise de todas as notas fiscais canceladas emitidas pela Recorrente e informe o valor total comprovado; iii) elabore relatório conclusivo acerca dos valores identificados nos itens "i" e "ii" acima, por período de apuração e eventual ajuste de exclusão de tais valores no cálculo do lançamento fiscal oram em discussão. iv) intime a Recorrente a se manifestar sobre o resultado da diligência no prazo de 30 (trinta) dias e após isso retornem os autos para julgamento por esta Turma. Fl. 6389DF CARF MF Processo nº 16561.720189/201368 Resolução nº 1201000.269 S1C2T1 Fl. 26 25 É como voto! (assinado digitalmente) Luis Fabiano Alves Penteado Fl. 6390DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10920.723414/2014-96
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 17 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 22 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011
DESCONSIDERAÇÃO DA OPERAÇÃO PELA FISCALIZAÇÃO. SIMULAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. VENDA DE BENS DO ATIVO. INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE PROVAS.
Para desconsiderar um ato jurídico executado pelo contribuinte sob fundamento de ter sido perpetrado com simulação e objetivo único de evasão fiscal, deve a fiscalização trazer provas ou ao menos evidências robustas neste sentido.
Não é possível tratar a venda de todo um segmento de negócios pelos sócios da empresa como uma simples alienação de bens do ativo da pessoa jurídica com base em fundamento único de que a tributação do ganho de capital é menor na pessoa física.
TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. DECORRÊNCIA.
Tratando-se de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplicam-se à CSLL, por relação de causa e efeito, os mesmos fundamentos do lançamento primário.
Numero da decisão: 1302-002.389
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Rogério Aparecido Gil (Relator) e Ester Marques Lins de Sousa.
(assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado - Presidente.
(assinado digitalmente)
Rogério Aparecido Gil - Relator.
(assinado digitalmente)
Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa - Redator Designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente, justificadamente o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo.
Nome do relator: ROGERIO APARECIDO GIL
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 DESCONSIDERAÇÃO DA OPERAÇÃO PELA FISCALIZAÇÃO. SIMULAÇÃO. GANHO DE CAPITAL. VENDA DE BENS DO ATIVO. INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE PROVAS. Para desconsiderar um ato jurídico executado pelo contribuinte sob fundamento de ter sido perpetrado com simulação e objetivo único de evasão fiscal, deve a fiscalização trazer provas ou ao menos evidências robustas neste sentido. Não é possível tratar a venda de todo um segmento de negócios pelos sócios da empresa como uma simples alienação de bens do ativo da pessoa jurídica com base em fundamento único de que a tributação do ganho de capital é menor na pessoa física. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. DECORRÊNCIA. Tratandose de tributação reflexa decorrente de irregularidades apuradas no âmbito do Imposto sobre a Renda, constantes do mesmo processo, aplicamse à CSLL, por relação de causa e efeito, os mesmos fundamentos do lançamento primário. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros Rogério Aparecido Gil (Relator) e Ester Marques Lins de Sousa. (assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 92 0. 72 34 14 /2 01 4- 96 Fl. 422DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 423 2 (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Relator. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Redator Designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Cesar Candal Moreira Filho, Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (Relator), Rogério Aparecido Gil, Ester Marques Lins de Sousa, Gustavo Guimarães da Fonseca, e Luiz Tadeu Matosinho Machado (Presidente). Ausente, justificadamente o Conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo. Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto face ao Acórdão nº 1150.643, de 15 de julho de 2015, da 3ª Turma da DRJ de Recife (DRJ/REC) que, por unanimidade de votos, manteve integralmente a autuação, registrandose a seguinte ementa: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2011 ARGUIÇÃO DE ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. DELEGACIAS DE JULGAMENTO. INCOMPETÊNCIA. APRECIAÇÃO. As Delegacias de Julgamento devem observar a legislação tributária vigente no País, sendolhes defeso apreciar arguições de inconstitucionalidade e de ilegalidade de normas regularmente editadas. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2011 GANHO DE CAPITAL. ALIENAÇÃO DE ATIVO. SIMULAÇÃO RELATIVA. TRIBUTAÇÃO. NEGOCIO DISSIMULADO. Uma vez verificado houve simulação na transferência de parte do ativo para sócio, com o objetivo de fugirse da tributação de ganho de capital na pessoa jurídica, devese desconsiderar o negócio simulado e tributarse o dissimulado. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2011 TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. A decisão prolatada no lançamento matriz estendese aos lançamentos decorrentes, em razão da íntima relação de causa e efeito que os vincula. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido Contextualização Fl. 423DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 424 3 Conforme registrado no Termo de Verificação Fiscal e Termo de Sujeição Passiva Solidária (fls. 19/30), a abertura da Fiscalização foi motivada por relatório apontando possíveis irregularidades tributárias praticadas pela Recorrente e seu sócio Alberto Correia, na constituição e posterior venda da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda. CNPJ 12.120.144/000160. O período fiscalizado abrange os anos calendários de 2010 e 2011 e os tributos verificados são IRPJ e CSLL. Ao longo deste período, ocorreram os seguintes fatos relevantes: a ALG Preservantes de Madeira Ltda. foi constituída em 23/06/2010 com os sócios Alberto Correia, CPF 164.321.93915, Geraldina Maria Bona Correia, CPF 655.306.75972 e Indústria Química DIPIL Ltda., sendo que a DIPIL integralizou suas cotas mediante a cessão e transferência dos direitos relativos à titularidade do registro de dois produtos perante o IBAMA das marcas dos mesmos dois produtos junto ao INPI, pelo valor contábil total de R$1.000,00. Na época da constituição da ALG.. os sócios da DIPIL eram: Alberto Correia, e Geraldina Maria Bona Correia. O valor total do capital social da empresa corresponde a R$ 2.000,00. Depois disso, em uma sequência de atos ocorridos em poucos meses, a DIPIL retirase da sociedade e então a ALG é vendida, em 29/03/2011, por R$ 9,3 milhões, sendo que o IR sobre o ganho de capital foi apurado e recolhido na pessoa física do sócio Alberto Correia, à alíquota de 15%. A Ação Fiscal Em 06 de março 2014, foi iniciado o Procedimento Fiscal na empresa, e a contribuinte foi intimada a apresentar: 1 cópia do estatuto social e suas alterações nos últimos cinco anos, que identifiquem os responsáveis pela Cooperativa; 2 documentação relativa à integralização de cotas da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda, CNPJ 12.120.144/000160 pela Industria Química Dipil, ocorrida em 23/03/2010 A documentação deve incluir Laudos de Avaliação, Atas das Assembleias das sociedades interessadas e demais documentos relativos a operação; 3 documentação relativa a transferência das quotas acima referidas 4 indicar os códigos e as denominações das contas contábeis em que foram efetuados os lançamentos referentes à integração de quotas referida no item 2 e a transferência das mesmas, referida no item 3, assim como copia dos lançamentos contábeis referentes a estas operações, Os dados referidos acima devem incluir TODO o período da operação 5 informar se a empresa é parte em ação judicial em face da União para eximirse ou reduzir o pagamento de tributos federais. Em caso positivo, apresentar os principais documentos pertinentes ao feito, tais como petição inicial, decisões proferidas, depósitos judiciais. Fl. 424DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 425 4 Em 14 de março de 2014, a contribuinte entrega os documentos solicitados e informa não ser parte em Ação judicial para se eximir ou reduzir o pagamento de tributos federais. Em 02 de junho de 2014, a contribuinte é cientificada da continuidade da ação fiscal. Em 07 de julho de 2014, a contribuinte é intimada a apresentar: 1 ultimo Balanço Patrimonial disponível; 2 relação completa, em papel e em meio magnético — planilha eletrônica, de todos os bens e direitos relacionados pelo contribuinte no seu ativo não circulante. 3 documentação comprobatória de propriedade dos Imóveis e Veículos listados no item anterior. Em 11 de julho a contribuinte entrega os documentos solicitados. Em 21 de agosto de 2014, o Sócio administrador da DIPIL e sócio remanescente de ALG. Alberto Correia é intimado a apresentar: 1 cópia do Contrato de Compra e Venda da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda., CNPJ 12.120.144/000160 realizado no anocalendário de 2011; 2 demais documentos que possuir referentes a operação referida acima, incluindo comprovantes do valor recebido. 3 relação completa dos bens, constantes do seu patrimônio, inclusive os que estiverem em nome do cônjuge, desde que não gravados com cláusula de incomunicabilidade; 4 documentação comprobatória de propriedade dos bens listados no item anterior, sujeitos a registro público. Em 28 de agosto é apresentada resposta com os documentos solicitados, entre eles o contrato de compra e venda da empresa ALG Preservantes. ALG Preservantes de Madeira A Fiscalização analisou brevemente a constituição da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda., CNPJ 12.120.144/000160, e suas alterações contratuais no período fiscalizado para que fosse possível compreender o que efetivamente se passou durante este processo. 23/06/2010 É criada a empresa ALG PRESERVANTES DE MADEIRA LTDA, CNPJ 12.120.144/000160, com capital social de R$ 2.000,00, integralizado por Geraldina Maria Bona Correia (R$ 98,00 em moeda corrente), Alberto Correia (R$ 102,00 em moeda corrente) e Indústria Fl. 425DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 426 5 Química DIPIL Ltda. (R$ 800,00 em moeda corrente e R$ 1.000,00 mediante a cessão e conferência à sociedade dos direitos relativos a titularidade do registro dos produtos MADEPIL TRI 90 e MADEPIL AC 40, COM REGISTRO no Instituo Brasileiro do Meio Ambiente IBAMA e no Instituto Nacional da Propriedade Industrial INPI). 18/10/2010 Primeira alteração cadastral. DIPIL transfere sua participação na sociedade para os demais sócios, na seguinte proporção: 918 quotas para Alberto Correia e 882 quotas para Geraldina Maria Bona Correia (transferência aprovada em reunião de quotistas realizada em 28/06/2010 cinco dias após a constituição da mesma). INDÚSTRIA QUÍMICA DIPIL LTDA. CNPJ 78.175.189/0001 ATA DE REUNIÃO DE QUOTISTAS REALIZADA EM 28 DE JUNHO DE 2010. DATA: 28/06/2010; HORA: 10:00h; LOCAL: sede social da Sociedade localizada na cidade de Massaranduba/SC, na Rodovia Guilherme Jensen SC 413, s/n2, Km 13, Bairro Industrial, CEP 89108000; PRESENÇAS: sócios representando a totalidade do capital social; MESA DIRIGENTE: Presidente: ALBERTO CORREIA, Secretária: GERALDINA MARIA BONA CORREIA; DELIBERAÇÕES TOMADAS POR UNANIMIDADE: (conforme ordem do dia): 1º) Autorizada a lavratura da presente ata em forma de sumário; 2°) Aprovada a redução do Capital Social da Sociedade em 1.800 (mil e oitocentas) quotas de capital, no valor nominal de R$ 1,00 (um real), cada uma, com consequente redução do capital social no valor de R$ 1.800,00 (mil e oitocentos reais), na proporção da participação dos sócios, em virtude de o mesmo ser excessivo em relação ao objeto social da Sociedade, nos termos do art. 1.082, II, da Lei n.º 10.406 de 10.01.2002; 3°) O montante reduzido será restituído aos sócios ALBERTO CORREIA e GERALDINA MARIA BONA CORREIA, na proporção de suas participações no capital social, mediante a entrega de 1.800 (mil e oitocentas) quotas da Sociedade ALG PRESERVANTES DE MADEIRA LTDA., pessoa jurídica brasileira de direito privado (...) 01/12/2010 Segunda alteração cadastral. A sócia Geraldina Maria Bona Correia retirase da sociedade transferindo suas 980 quotas para o sócio Alberto Correia que passa ter a integralidade das 2000 quotas da empresa. 29/03/2011 Terceira alteração cadastral. O sócio Alberto Correia retira se da sociedade, transferindo suas ações, por R$ 9.300.000,00 para a empresa Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Ltda., CNPJ 12.402.388/000136. A denominação da sociedade é alterada para Tecnologias de Madeiras Brasileiras Comércio de Preservantes Ltda. Alberto Correia declara como Ganho de capital a alienação efetuada recolhendo imposto a alíquota de 15% Fl. 426DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 427 6 No contrato de compra e venda apresentado podemos destacar algumas cláusulas que demonstram a real operação ocorrida: CONSIDERANDO QUE: a) (...) b) o objeto social da DIPIL consiste na fabricação, comercialização, importação e exportação de defensivos agrícolas, inseticidas, fungicidas, pesticidas, produtos domissanitáríos e produtos de limpeza, produtos veterinários e preservantes de madeira para uso em geral; c) a Compradora deseja comprar da DIPIL apenas o seu negócio de preservantes de madeiras, o qual inclui o respectivo setor relacionado ao CCA (Arseniato de Cobre Cromatado), mais precisamente os preservantes de madeira para uso em geral e comercializados pela Sociedade, Madepil TRI90 e Madepil AC40, além da respectiva lista de clientes conforme Anexo 7.19 ao presente Contrato ("Negócio "). d) a fim de implementar a negociação pretendida, o Vendedor está realizando uma reestruturação societária, através da qual (i) o Vendedor constituiu a Newco juntamente com a DIPIL, que foi constituída para segregar o Negócio, (ii) a DIPIL contribuiu para o capital social da Newco mediante conferência dos direitos relativos à titularidade dos ativos relacionados ao Negócio, conforme listados no Anexo D ("Ativos"), que foram transferidos da DIPIL para a Newco pelo seu valor contábil, e (iii) o Vendedor realizou uma redução de capital da DIPIL, por meio da qual o Vendedor recebeu quotas da Newco detidas pela DIPIL, de acordo com as disposições previstas na Cláusula II abaixo (doravante denominada "Reestruturação Societária"); (...) Com base em tais elementos da operação, a Fiscalização assim concluiu: Resta evidente que todo o valor da ALG decorre do valor comercial dos registros e das marcas dos dois produtos, de modo que a intenção da Industria Química DIPIL sempre foi vender essas marcas, tendo engendrado uma sucessão de atos para ocultar a ocorrência do fato gerador e evitar o pagamento de tributos na pessoa jurídica (DIPIL), à alíquota mais gravosa de 34% (IRPJ + CSLL). Ressaltese que a ALG Preservantes de Madeira Ltda. permaneceu inativa durante todo o ano de 2010, o que reforça o argumento de falta de propósito negocial na sua constituição. Em consulta ao SPED NF eletrônica verificamos que a ALG Preservantes de Madeira Ltda. somente começou a emitir nota fiscal de vendas a partir do momento em que foi negociada, ou seja, final de março de 2011. Portanto, uma empresa que foi criada com capital social de R$ 2.000,00, antes mesmo de realizar qualquer atividade passou a valer mais de 9 milhões de reais. Fl. 427DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 428 7 Simulação A Fiscalização assim embasou suas conclusões acerca da ocorrência de simulação: As hipóteses de atos jurídicos simulados estão previstas no Código Civil Brasileiro no art. 167, verbis: Art. 167. É nulo o negócio jurídico simulado, mas subsistirá o que se dissimulou, se válido for na substância e na forma. § 1º Haverá simulação nos negócios jurídicos quando: I aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem; II contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; III os instrumentos particulares forem antedatados, ou pósdatados. § 2º Ressalvamse os direitos de terceiros de boafé em face dos contraentes do negócio jurídico simulado, (grifos nossos) Acerca da simulação, leciona Carlos Roberto Gonçalves (GONÇALVES, C. R. Direito Civil Brasileiro, volume I: parte geral, p.442): "Simular significa fingir, enganar. Negócio simulado, assim, é o que tem aparência contrária á realidade. A simulação é produto de um conluio entre os contratantes, visando obter efeito diverso daquele que o negócio aparenta conferir. Não é vício do consentimento, pois não atinge a vontade em sua formação. E uma desconformidade consciente da declaração, realizada de comum acordo com a pessoa a quem se destina, com o objetivo de enganar terceiros ou fraudar a lei. Tratase, em realidade, de vício social. A causa simulandi tem as mais diversas procedências e finalidades. Ora visa a burlar a lei, especialmente a de ordem pública, ora a fraudar o Fisco, ora a prejudicar credores, ora até guardar em reserva determinado negócio."" (grifos) Tratando dos conceitos de simulação relativa e absoluta, explica o eminente jurista Alberto Xavir: "A mais importante classificação das espécies de simulação é a que distingue a simulação absoluta da simulação relativa; na simulação absoluta aparentase celebrar um negócio jurídico quando, na realidade, não se pretende realizar negócio algum; na simulação relativa, as partes celebram, efetivamente, um contrato, mas, para enganar terceiros, o ocultam com um contrato aparente Fl. 428DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 429 8 distinto do primeiro pela sua natureza ou pelas suas cláusulas e condições. E daí que, enquanto na simulação absoluta existe apenas um negócio jurídico correspondente à vontade declarada — o contrato simulado — na simulação relativa existem dois negócios jurídicos: o negócio simulado, correspondente à vontade declarada enganadora e o contrato, por baixo dele oculto ou encoberto o negócio dissimulado, correspondente à vontade real dos seus autores, (grifos) No caso sob exame, de acordo com os fatos ulteriormente descritos, tratase de simulação relativa, que é assim definida pelos professores Matiello e Gonçalves: "A simulação dividese em relativa e absoluta. Haverá simulação relativa quando o negócio aparentar conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas das a quem realmente se conferem, ou transmitem, e ainda quando visa encobrir a existência de outro, de diferente natureza " (grifos) As sociedades empresárias têm o direito a se reorganizarem através de cisões e incorporações. Contudo, no caso em tela, a sociedade empresária ALG Preservantes de Madeira Ltda., CNPJ 12.120.144/000160 foi criada tão somente com o fito de dissimular o ganho auferido pela Industria Química DIPIL na alienação das marcas comerciais dos produtos MADEPIL TRI 90 e MADEPIL AC 40. De acordo com o art. 982 do Código Civil "considerase empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário, sujeito a registro". E segundo o art. 966 do mesmo diploma legal, "considerase empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços". O Código Civil define, portanto, as sociedades empresárias a partir da atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços. E qual é ou foi a atividade econômica organizada desenvolvida pela ALG Preservantes de Madeira Ltda. antes de sua alienação? Nenhuma. Ela foi criada em 23 de junho de 2010. Transferiu as cotas da empresa Industria Química DIPIL (que detinha as propriedades das marcas dos produtos MADEPIL TRI 90 e MADEPIL AC 40 em reunião aprovada cinco dias após a sua constituição) para os demais sócios e foi alienada para a empresa Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Lida em março do ano seguinte sem desenvolver, neste período, qualquer atividade operacional, conforme se pode constatar pela ausência de Notas Fiscais emitidas no período. Lançamentos de Oficio Com base em tais fatos e fundamentos a Fiscalização lavrou os seguintes autos de infração: Nos autos de infração anexos, estão sendo constituídos de ofício os créditos tributários de IRPJ e CSLL incidentes sobre o ganho de capital na alienação da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda. O custo de aquisição de R$ 2.000,00 foi abatido. Fl. 429DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 430 9 O valor recolhido de IRPF sobre ganhos de capital (R$ 1.394.700,00), foi abatido da exigência de ofício, relativa a IRPJ sobre a venda dos mesmos bens, no mesmo período de apuração. Qualificação da Multa A Fiscalização qualificou a multa de ofício em 150% com base nos seguintes fatos e fundamentos: Os fatos acima descritos, especialmente a utilização da simulação com o objetivo de dissimular a alienação da ALG Preservantes de Madeira Ltda. e reduzir/suprimir ilicitamente o ganho de capital e as bases de cálculo de IRPJ e CSLL, caracterizam sobejamente a sonegação (art. 71, I, da Lei 4.502/64), que, neste caso, definese pela ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais e o conluio (art. 73, da Lei 4.502/64), que é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos. Desta forma, estamos constituindo de ofício os créditos tributários de IRPJ e CSLL, incidentes sobre o ganho de capital, com a multa qualificada de 150% (cento e cinquenta por cento) conforme determinação do art. 44, § 1o da Lei n° 9.430/96, com redação dada pela Lei n° 11.488/2007. Sujeição Passiva Solidária do Sócio Alberto Correia A Fiscalização concluiu pela responsabilidade solidária do sócio, Alberto Correia, com base nos seguintes fatos e fundamentos: De acordo com o Código Civil de 2002 (Art. 45 c/c 985), as sociedades adquirem personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos e têm, como atributo da personalidade jurídica, capacidade civil para ser titular de direitos e obrigações e patrimônio próprio. Vige, no Direito brasileiro, o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica e, de acordo com o Código Civil de 2002 (art. 1.052), nas sociedades limitadas, em regra, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas. Contudo, tal regra geral de limitação da responsabilidade dos sócios não é absoluta, pois o próprio Código Civil, assim como o Código Tributário Nacional, trazem exceções a esta regra. Uma exceção que se aplica ao caso concreto é trazida pelo art. 1.016 do Código Civil, verbis: Art. 1.016. Os administradores respondem solidariamente perante a sociedade e os terceiros prejudicados, por culpa no desempenho de suas funções. O senhor Alberto Correia, CPF 164.321.93915 era o sócioadministrador da Industria Química DIPIL Ltda. e, também, da ALG Preservantes de Madeira Ltda. quando foi feita a simulação demonstrada de forma cabal nos itens anteriores. Desta forma, deve ele responder solidariamente com a sociedade pelos atos dolosos praticados. Fl. 430DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 431 10 No que diz respeito ao Código Tributário Nacional, a responsabilidade do sócio administrador por atos com infração à lei está determinada no art. 135, verbis: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, propostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado, (grifamos) A responsabilidade pelo crédito tributário ora apurado, portanto, não se limita à empresa Indústria Química DIPIL Ltda. bem como não se prende apenas às considerações acerca de ter ou não capacidade econômica e financeira para o pagamento dos tributos ora apurados. Conforme amplamente relatado no presente Termo seu sócio Alberto Correia CPF 164.321.93915 esta representando o papel para o qual foi previamente preparado, pois deliberadamente destinado a ocupar o polo passivo da obrigação tributária de forma a reduzir a incidência tributaria. Desse modo, são solidariamente responsáveis pelos créditos tributários ora constituídos as pessoas física e jurídica acima destacadas, nos termos da legislação de regência, mormente o artigo 135, inciso III, da Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Diante dos fatos e dos fundamentos de direitos narrados, para garantia do amplo direito de defesa e do devido processo legal damos ciência deste Termo, assim como dos Autos de Infração anexos ao Sr. Alberto Correia, CPF 164.321.93915 na condição de sujeito passivo solidário pelos créditos constituídos de ofício. Representação Fiscal Para Fins Penais A Fiscalização autuo processo específico para a expedição de Representação Fiscal para Fins Penais, nos seguintes termos: Tendo em vista a constatação de fatos que, em tese, configuram crimes contra a ordem tributária previstos na Lei n° 8.137, de 27 de dezembro de 1990 e, em obediência ao disposto no art. 1° do Decreto n° 2.730, de 10 de agosto de 1998, e Portaria SRF nº 326, de 15 de março de 2005, formalizamos Representação Fiscal para Fins Penais, protocolizada sob o n°. 10920.723417/201420 De acordo com o art. 34 da Lei 9.249/95, extinguese a punibilidade do crime quando o agente promover o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia. Decisão da DRJ e Impugnação A DRJ acolheu os fundamentos e conclusões da DRF e, nos termos do acórdão recorrido, julgou improcedente a Impugnação da Recorrente. Fl. 431DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 432 11 Para chegar a essa conclusão, o acórdão recorrido destacou que, em conformidade com o Termo de Verificação Fiscal e Termo de Sujeição Passiva Solidária, a Recorrente teria engendrado estratégia para fugir da tributação incidente sobre ganho de capital pela venda de parte de seu ativo. A Recorrente alega que a DRJ só concluiu dessa forma, por não ter analisado e concluído corretamente sobre as informações e documentos apresentados na fase de fiscalização. Tempestividade do Recurso Voluntário A Recorrente foi intimada do Acórdão recorrido, em 01/09/2015 (fl. 369) e interpôs recurso voluntário, em 30/09/2015 (fls. 371/414) e apresentou as seguintes razões de defesa. Preliminar Alegação de Erro na Identificação do Sujeito Passivo A Recorrente alega não guarda relação jurídica com os fatos geradores de IRPJ, CSLL e multas em exigência no presente caso. Salienta que a operação deuse no âmbito da referida ALG Preservantes de Madeira Ltda. e o sócio Alberto Correia e que, por esse motivo, não poderia ser sujeito passivo nessa ação fiscal. Simulação e Multa Qualificada A Recorrente alega que desde o início de suas atividades tinha por objetivo devolver ativos aos acionais a valor contábil. Isto é, na forma menos onerosa e em conformidade com a legislação de regência. Defende que não caracterizaria simulação a operação por meio da qual a Recorrente transferiu para seu sócio ativo integralizado no capital da empresa ALG, para que fosse vendido sob a incidência de 15% de imposto de renda sobre o ganho de capital, em vez da incidência de 34%, caso você vencido a valor de mercado diretamente da ALG para terceiro. Sustenta que, o fato de optar pela forma menos onerosa não poderia ser considerada como infração à lei. Dessa forma requereu que fosse afastada a multa de ofício qualificada a 150%. Alegação de Não Utilização da Taxa Selic para Atualização dos Débitos Alegou que não haveria fundamento para a atualização dos débitos em questão pela Taxa Selic, por ser a forma mais gravosa ao contribuinte. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Rogério Aparecido Gil Relator Fl. 432DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 433 12 O recurso voluntário interposto pela empresa contribuinte é tempestivo e está regularmente representada. Conheço do recurso. No entanto, o devedor solidário, Alberto Correia, não interpôs recurso. O caso, portanto, envolve a constituição e posterior venda da empresa ALG Preservantes de Madeira Ltda. CNPJ 12.120.144/000160 a empresa Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Ltda. Sendo que, considerouse que as quotas transferidas diretamente pelo sócio remanescente, Alberto Correia (pessoa física), à compradora foram consideras pela Fiscalização como sendo, em realidade, de titularidade da Recorrente, Indústria Química DIPIL Ltda. Nesse contexto, chama à atenção a alegação da Recorrente de que a operação teve por objetivo restituir ativos aos respectivos sócios. Caso essa fosse a real intenção da Recorrente, os direitos e titularidade sobre os produtos químicos: Madepil TRI90 e Madepil AC40 teriam de ser restituídos à Recorrente, pois foi ela quem integralizou esses ativos como capital da ALG, e não o sócio diretor, Alberto Correia, que havia integralizado R$ 102,00 em espécie para a constituição da ALG. Também não há como conceber o motivo econômico pelo qual a Recorrente teria transferido para o sócio diretor, Alberto Correia, gratuita e integralmente seus direitos e titularidade sobre os referidos produtos químicos. Sobretudo, considerandose o fato de que, em realidade, não correspondiam aos R$1.000,00 registrados na referida integralização, mas a R$9.300.000,00, como foram vendidos para a Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Ltda. Nessa mesma linha de incongruência econômica, também não há como se admitir como operação legítima e revestida de juridicidade, o fato de as referidas quotas, representadas pelos referidos ativos (produtos químicos: Madepil TRI90 e Madepil AC 40), que haviam sido integralizadas como capital pertencente à empresa criada, ALG Preservantes de Madeira Ltda., terem sido vendidas como se fosse patrimônio particular da pessoa física, o referido diretor sócio, Alberto Correia. Ora, o capital era da pessoa jurídica (ALG). Portanto, o ganho de capital era da pessoa jurídica, e não sócio remanescente. A tributação incidente, por conseguinte, deve ser apurada com base nas alíquotas devidas pela empresa (IRPJ, à alíquota de 25% e CSLL a 9%, total 34%) e não pela pessoa física (IRPF, 15%). Assim sendo, independentemente de se considerar a ocorrência ou não de simulação, no caso, não encontro respaldo legal para a alienação na forma como ocorreu. Ou seja, alienouse empresa (pessoa jurídica), mediante tributação do ganho de capital como se fosse patrimônio de pessoa física. Especificamente nesse ponto, é que se deve verificar a assertiva alcançada pela Fiscalização. Pois, em realidade, quem auferiu ganho de capital foi a Recorrente, já que não foi juntado aos autos documento algum que pudesse ao menos indicar que o sócio diretor, Alberto Correia teria recebido R$9.300.000,00 da compradora, Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Ltda. Ao contrário, as informações levantadas, os documentos examinados pela Fiscalização e os registros do TVF evidenciam que a Recorrente recebeu os R$9.300.000,00 pela alienação dos direitos e titularidade sobre os referidos produtos químicos (Madepil TRI90 e Madepil AC40). Fl. 433DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 434 13 Observese que, não se trata aqui de desconsideração de negócio jurídico, sob o entendimento de tratarse de intuito de dissimular a ocorrência de fato gerador do tributo o a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária. Pois, nessa hipótese, poderseia invocar as disposições do art. 116, parágrafo único do CTN, abaixo transcritas. Tratase, em realidade, de infração direta à legislação aplicável que define a ocorrência do fato gerador em questão e as respectivas alíquotas para os respectivos tipos de contribuintes (pessoas físicas e pessoas jurídicas). É exatamente essa a situação verificada neste processo. A Recorrente, na qualidade de contribuinte e responsável pela tributação incidente pelos ganhos que auferir na alienação de seu capital, não cumpriu com as determinações legais tributárias aplicáveis, ao apurar e recolher 15% de Imposto de Renda sobre o ganho auferido na alienação de seus direitos e titularidade sobre produtos químicos. Código Tributário Nacional CTN Art. 116. Salvo disposição de lei em contrário, considerase ocorrido o fato gerador e existentes os seus efeitos: Parágrafo único. A autoridade administrativa poderá desconsiderar atos ou negócios jurídicos praticados com a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, observados os procedimentos a serem estabelecidos em lei ordinária. (Incluído pela LCP nº 104, de 2001) Está demonstrado que, independentemente das informações prestadas e dos documentos apresentados pela Recorrente, a alienação foi realizada, de fato, pela Recorrente e, sobre ela, é correta a incidência de 34% de IRPJ e CSLL. Por esses fundamentos, não há como acolher as alegações da Recorrente de que: a) teria havido erro quanto à identificação do sujeito passivo; e b) de que seria devida a tributação a 15% de IRPF. Qualificação da Multa Na forma certificada pela Fiscalização, a redução das bases de cálculo de IRPJ e CSLL, relativamente ao ganho de capital caracterizam sonegação (art. 71, I, da Lei 4.502/64), que, neste caso, definese pela ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, o conhecimento por parte da autoridade fazendária da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais e o conluio (art. 73, da Lei 4.502/64), que é o ajuste doloso entre duas ou mais pessoas naturais ou jurídicas, visando qualquer dos efeitos referidos. Nessa mesma linha, entendo que é de se manter a qualificação da multa de ofício em 150%. Sujeição Passiva Solidária do Sócio Alberto Correia A Fiscalização concluiu pela responsabilidade solidária do sócio, Alberto Correia e a DRJ ratificou esse entendimento. Fl. 434DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 435 14 Conforme registrado, o devedor solidário não interpôs recurso. Somente a empresa contribuinte que, por sua vez, não adentrou nos fatos e fundamentos, com base nos quais a Fiscalização concluiu pela responsabilidade passiva solidária. Somente nos dois trechos abaixo transcritos a Recorrente apenas mencionou tal responsabilidade: Conforme fundamentado no relatório de fiscalização, bem como entendido no julgamento da DRJ, entendeu haver simulação e, por conta disto, impõe a multa agravada de 150% ao mesmo tempo em que exige a complementação da tributação e, além disto, inclui o Sr. Alberto Correia como responsável solidário. (...) E que não se fale em responsabilização solidária entre a Recorrente e o Sr. Alberto Correia, pois não houve qualquer infração a lei, pelo contrário, houve sim o cuidado em não se afastar dos preceitos legais que tratam da matéria. Verificase, portanto, que não houve defesa em favor do devedor solidário, Alberto Correia. Analisandose os fatos e os fundamentos, com base nos quais o acórdão recorrido manteve tal responsabilidade passiva solidária, concluindose nos seguintes termos: 28. Correta a responsabilização (solidária) do Sr. Alberto Correia , com fundamento no art. 135 do CTN, uma vez que, ao tentar encobrir o real negócio, por meio de atos formalmente legais, mas simulados, como explicado, tentou encobrir do fisco a ocorrência de fato gerador, o que caracteriza sonegação, nos termos do art. 71 da Lei n° 4.502, de 1964, e de consequente infração de lei, nos termos do caput do referido art. 135 do CTN. Observase, portanto, que tanto a Fiscalização como a DRJ concluem pela ocorrência de responsabilidade passiva solidária. Todavia, fundamentam seu entendimento nas disposições do art. 135 do CTN, que trata, em realidade, da responsabilidade tributária de terceiros, verbis: Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos: I as pessoas referidas no artigo anterior; II os mandatários, prepostos e empregados; III os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Verificando o contexto em que transcorreram os fatos em questão, é possível concluir que a fundamentação correta, no caso, está prevista nas disposições do art. 124 do CTN, a seguir transcritas: Art. 124. São solidariamente obrigadas: I as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato gerador da obrigação principal; Fl. 435DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 436 15 (...) Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta benefício de ordem. O fato de o devedor solidário ser sócio diretor da empresa DIPIL e ser acionista majoritário remanescente na empresa ALG evidencia que, Alberto Correia apresentavase como pessoa diretamente interessada na situação que constituía o fato gerador da obrigação tributária principal. Isto é, em comum interesse com a Recorrente, DIPIL, detinha pleno interesse que ocorresse a menor tributação possível sobre os ganhos auferidos na venda da ALG, como de fato procedeu, recebendo os direitos e titularidade sobre os registros dos produtos químicos e os vendendo, como se propriedade particular sua fosse. Na forma retro demonstrada, a operação somente encontraria respaldo legal se concretizada, por meio da real titular de tais direitos, a DIPIL. De modo que , a forma como se realizou a alienação em questão leva à conclusão de que o sócio diretor, Alberto Correia detinha reais interesses comuns na forma do transcrito art. 124, parágrafo único. Com base em tais fatos e fundamentos, mantenho a responsabilidade passiva solidária do sócio diretor, Alberto Correia. Alegação quanto à não incidência da taxa SELIC para atualização de débitos fiscais A Recorrente ainda alegou que não seria devida a aplicação da Taxa SELIC na atualização de créditos tributários administrados pela Administração Tributária Federal. O acórdão recorrido conclui pela aplicabilidade da SELIC, com fundamento nas disposições do § 3° do art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996. Além da expressa previsão legal, cabe registrar que aplicase ao presente, a Súmula Carf nº 4, aprovada pela Portaria CARF n° 106, de 21/12/2009, verbis: Súmula CARF n° 4: A partir de 1° de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais." Assim, também não há como acolher tais razões da Recorrente, mantendose a exigência dos juros moratórios calculados com base na taxa SELIC, inclusive sobre a multa de ofício qualificada. Ainda nessa matéria, a Súmula Carf nº 2, a seguir transcrita, afasta a possibilidade de o Carf apreciar alegação de inconstitucionalidade de lei, verbis: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Conclusão Por todo o exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. Fl. 436DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 437 16 (assinado digitalmente) Rogério Aparecido Gil Fl. 437DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 438 17 Voto Vencedor Conselheiro Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa – Redator designado. Com a devida vênia, discordo do entendimento do Ilustre Relator. Vejamos os motivos: A fiscalização no Termo de Verificação Fiscal discorreu sobre o caso ora analisado da seguinte forma, verbis: 23/06/2010 É criada a empresa ALG PRESERVANTES DE MADEIRA LTDA, CNPJ 12.120.144/000160, com capital social de R$ 2.000,00, integralizado por Geraldina Maria Bona Correia (R$ 98,00 em moeda corrente), Alberto Correia (R$ 102,00 em moeda corrente) e Indústria Química DIPIL Ltda. (R$ 800,00 em moeda corrente e R$ 1.000,00 mediante a cessão e conferência à sociedade dos direitos relativos a titularidade do registro dos produtos MADEPIL TRI 90 e MADEPIL AC 40, COM REGISTRO no Instituo Brasileiro do Meio Ambiente IBAMA e no Instituto Nacional da Propriedade Industrial INPI). 18/10/2010 Primeira alteração cadastral. DIPIL transfere sua participação na sociedade para os demais sócios, na seguinte proporção: 918 quotas para Alberto Correia e 882 quotas para Geraldina Maria Bona Correia (transferência aprovada em reunião de quotistas realizada em 28/06/2010 cinco dias após a constituição da mesma). INDÚSTRIA QUÍMICA DIPIL LTDA. CNPJ 78.175.189/0001 ATA DE REUNIÃO DE QUOTISTAS REALIZADA EM 28 DE JUNHO DE 2010. DATA: 28/06/2010; HORA: 10:00h; LOCAL: sede social da Sociedade localizada na cidade de Massaranduba/SC, na Rodovia Guilherme Jensen SC 413, s/n2, Km 13, Bairro Industrial, CEP 89108000; PRESENÇAS: sócios representando a totalidade do capital social; MESA DIRIGENTE: Presidente: ALBERTO CORREIA, Secretária: GERALDINA MARIA BONA CORREIA; DELIBERAÇÕES TOMADAS POR UNANIMIDADE: (conforme ordem do dia): 1º) Autorizada a lavratura da presente ata em forma de sumário; 2°) Aprovada a redução do Capital Social da Sociedade em 1.800 (mil e oitocentas) quotas de capital, no valor nominal de R$ 1,00 (um real), cada uma, com consequente redução do capital social no valor de R$ 1.800,00 (mil e oitocentos reais), na proporção da participação dos sócios, em virtude de o mesmo ser excessivo em relação ao objeto social da Sociedade, nos termos do art. 1.082, II, da Lei n.º 10.406 de 10.01.2002; 3°) O montante reduzido será restituído aos sócios ALBERTO CORREIA e GERALDINA MARIA BONA CORREIA, na proporção de suas participações no capital social, mediante a entrega de 1.800 (mil e oitocentas) quotas da Fl. 438DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 439 18 Sociedade ALG PRESERVANTES DE MADEIRA LTDA., pessoa jurídica brasileira de direito privado (...) 01/12/2010 Segunda alteração cadastral. A sócia Geraldina Maria Bona Correia retirase da sociedade transferindo suas 980 quotas para o sócio Alberto Correia que passa ter a integralidade das 2000 quotas da empresa. 29/03/2011 Terceira alteração cadastral. O sócio Alberto Correia retirase da sociedade, transferindo suas ações, por R$ 9.300.000,00 para a empresa Tecnologia de Madeiras Brasileiras Participações Ltda., CNPJ 12.402.388/000136. A denominação da sociedade é alterada para Tecnologias de Madeiras Brasileiras Comércio de Preservantes Ltda. Alberto Correia declara como Ganho de capital a alienação efetuada recolhendo imposto a alíquota de 15% No contrato de compra e venda apresentado podemos destacar algumas cláusulas que demonstram a real operação ocorrida: CONSIDERANDO QUE: a) (...) b) o objeto social da DIPIL consiste na fabricação, comercialização, importação e exportação de defensivos agrícolas, inseticidas, fungicidas, pesticidas, produtos domissanitáríos e produtos de limpeza, produtos veterinários e preservantes de madeira para uso em geral; c) a Compradora deseja comprar da DIPIL apenas o seu negócio de preservantes de madeiras, o qual inclui o respectivo setor relacionado ao CCA (Arseniato de Cobre Cromatado), mais precisamente os preservantes de madeira para uso em geral e comercializados pela Sociedade, Madepil TRI 90 e Madepil AC40, além da respectiva lista de clientes conforme Anexo 7.19 ao presente Contrato ("Negócio "). d) a fim de implementar a negociação pretendida, o Vendedor está realizando uma reestruturação societária, através da qual (i) o Vendedor constituiu a Newco juntamente com a DIPIL, que foi constituída para segregar o Negócio, (ii) a DIPIL contribuiu para o capital social da Newco mediante conferência dos direitos relativos à titularidade dos ativos relacionados ao Negócio, conforme listados no Anexo D ("Ativos"), que foram transferidos da DIPIL para a Newco pelo seu valor contábil, e (iii) o Vendedor realizou uma redução de capital da DIPIL, por meio da qual o Vendedor recebeu quotas da Newco detidas pela DIPIL, de acordo com as disposições previstas na Cláusula II abaixo (doravante denominada "Reestruturação Societária"); (...) Com base em tais elementos da operação, a Fiscalização assim concluiu: Fl. 439DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 440 19 Resta evidente que todo o valor da ALG decorre do valor comercial dos registros e das marcas dos dois produtos, de modo que a intenção da Industria Química DIPIL sempre foi vender essas marcas, tendo engendrado uma sucessão de atos para ocultar a ocorrência do fato gerador e evitar o pagamento de tributos na pessoa jurídica (DIPIL), à alíquota mais gravosa de 34% (IRPJ + CSLL). Ressaltese que a ALG Preservantes de Madeira Ltda. permaneceu inativa durante todo o ano de 2010, o que reforça o argumento de falta de propósito negocial na sua constituição. Em consulta ao SPED NF eletrônica verificamos que a ALG Preservantes de Madeira Ltda. somente começou a emitir nota fiscal de vendas a partir do momento em que foi negociada, ou seja, final de março de 2011. Portanto, uma empresa que foi criada com capital social de R$ 2.000,00, antes mesmo de realizar qualquer atividade passou a valer mais de 9 milhões de reais. Vejase que a questão central da presente autuação, diz respeito a ausência de propósito negocial na operação levada a cabo pela autuada, pois, segundo a fiscalização “a intenção do contribuinte sem foi vender as marcas pertencentes pela ALG, encobrindo a tributação mais gravosa de 34% (IRPJ e CSLL)." Como visto, a autuação baseiase na necessidade de existência de propósito negocial para realização de operações societárias. Aqui, a controvérsia se desdobra na possibilidade das Autoridades Administrativas, quando da análise das operações de reestruturação societária que originaram o ganho de capital – mais especificamente a operação que possibilitou a venda de participação societária – possam entrar na motivação do contribuinte para proceder de tal forma. Assim, as Autoridades verificariam se as mesmas estariam providas de algum propósito negocial, podendo, conforme o caso, desconstituílas, requalificálas, e tributar o ganho de capital na pessoa jurídica ao invés da física, pois a tributação sobre a primeira é maior, etc. Pois bem, a despeito da clara insegurança jurídica que a análise da motivação dos contribuintes em situações como a descrita acima, ou seja, apesar do contrassenso que seria permitir aos julgadores deste Conselho que averiguassem o intuito daqueles que agiram em conformidade com a lei tributária, o assunto merece uma análise mais detida. Em sua marcante tese de doutoramento (“Teoria da Imposição Tributária”, Ed. Saraiva, 1983) Ives Gandra da Silva Martins, apresentou pela primeira vez, à luz do direito tributário moderno, que o tributo correspondia a uma norma de rejeição social. Na sua brilhante obra, argumentou que a norma tributária não goza da mesma aceitação que normas como a do direito à vida. Neste sentido, chegou à conclusão de que, quanto à norma tributária, tratavase de norma de restrição de direitos em favor da sobrevivência do Estado, retirando da sociedade parcela daquilo que produz, objetivando o preenchimento das finalidades públicas. A norma de rejeição social implica sempre restrição de direitos. No mesmo sentido, a norma tributária implica restrição do direito à propriedade, aos rendimentos e ganhos do trabalho e capital e proventos de qualquer natureza, razão pela qual os princípios pertinentes à norma de rejeição social são igualmente aplicáveis à norma tributária. Fl. 440DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 441 20 Na vanguarda de tais princípios, estão aqueles que compõem o primado da legalidade, estes: o princípio da estrita legalidade (apenas o que estiver plenamente desenhado na lei obriga), da tipicidade fechada (impõe que o legislador preveja, na maior medida do possível, os aspectos necessários à constituição do fato gerador) e o princípio da reserva da lei (vincula a imposição tributária à reserva de lei formal, entendida como aquela elaborada com participação precípua da representação popular). Para o debate em tela, me reservo à análise do princípio da estrita legalidade que, em outras palavras, decorre do caráter de restrição imputados tanto à Administração quanto ao Administrado. Sobre o referido princípio Hely Lopes Meirelles (Direito Administrativo Brasileiro. 35ª ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 41.) expressa: “A legalidade, como princípio de administração (CF, art. 37, caput), significa que o administrador público está, em toda a sua atividade funcional, sujeito aos mandamentos da lei e às exigências do bem comum, e deles não se pode afastar ou desviar, sob pena de praticar ato inválido e exporse a responsabilidade disciplinar, civil e criminal, conforme o caso. A eficácia de toda a atividade administrativa está condicionada ao atendimento da Lei e do Direito. É o que diz o inc. I do parágrafo único do art. 2º da Lei n. 9.784/99. Com isso, fica evidente que, além da atuação conforme à lei, a legalidade significa, igualmente, a observância dos princípios administrativos.” Como exposto, o princípio da estrita legalidade aplicado à Administração, compreende a ideia de subordinação da Administração Pública às leis, sendo que esta somente poderá fazer aquilo determinado em lei, e não aquilo que a lei expressamente proibir. Estando, o ato administrativo, estritamente aprisionado aos quadrantes da lei, não cabe à Administração adentrar na motivação do particular em proceder conforme os ditames legais. A alegação de “inexistência de propósito negocial” advém de construção jurisprudencial estrangeira que não encontra validade no nosso Ordenamento Jurídico, justamente por conflitar com uma gama de princípios, como o da Legalidade Tributária, descrito acima, além de outros princípios como a livre de iniciativa e iniciativa, estes últimos provenientes da Ordem Econômica. Neste sentido, colaciono as seguintes ementas provindas de Acórdãos deste Conselho: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. PROPÓSITO NEGOCIAL. EMPRESA VEÍCULO. Os dispositivos legais concernentes ao registro e amortização do ágio fiscal não vedam que as operações societárias sejam realizadas, única e exclusivamente, com fins ao aproveitamento do ágio. Bem como, notase que tal regra não está presente em nenhum outro dispositivo legal de nosso sistema jurídico, seja nacional ou federal. Neste tom, registrase, nenhuma norma pátria veda que a realização de negócios tenha por finalidade a redução da carga tributária de forma lícita. É o que se observa no §3º, art. Fl. 441DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 442 21 2 o da Lei das SA, o qual dispõe que a companhia pode ter por objeto participar de outras sociedades (empresa veículo), também, como forma de beneficiarse de incentivos fiscais. Somese a tal assertiva o fato de que a contribuinte possuía motivação negocial, clara, posto que encontravase impedida, por regras da ANEEL, de realizar a incorporação diretamente. Motivo pelo qual se valeu de uma empresa veículo. (Acórdão nº 1302001.978; Relatora: Talita Pimenta Felix; Data da Sessão: 14/09/2016) REQUISITOS PARA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. EXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. Ausente conduta tida como simulada, fraudulenta ou dolosa, a busca de eficiência fiscal em si não configura hipótese de perda do direito de dedução do ágio, ainda que tenha sido a única razão aparente da operação. A existência de outras razões de negócio que vão além do benefício fiscal, apenas ratifica a validade e eficácia da operação. UTILIZAÇÃO DE EMPRESAVEÍCULO. LEGALIDADE. MANUTENÇÃO DA DEDUTIBILIDADE DO ÁGIO. A utilização de empresaveículo que viabilize o aproveitamento do ágio, por si só, não desfigura a operação e invalida a dedução do ágio, se ausentes a simulação, dolo ou fraude. (Acórdão nº 1201001.507; Relator: Luis Fabiano Alves Penteado; Data da Sessão: 14/09/2016). As ementas acima são contundentes ao afirmarem que a existência de propósito negocial seria apenas um “plus” para demonstrar a validade e lisura das operações societárias; não havendo fundamento para a referida exigência no âmbito da legalidade, nem cabendo à Administração realizar exigências diversas das previstas em lei. Neste ponto, é importante pontuar que a lei tributária assume seu atributo de imperatividade quando constatada a ocorrência do fato jurídico tributário, não tolerando outra conduta do sujeito passivo que não o adimplemento da obrigação tributária, sob pena de sanção punitiva. Contudo, a imperatividade da lei tributária reside, justamente, no consequente de sua norma, ou seja, na obrigação do sujeito passivo em recolher um valor exprimível em moeda ao sujeito ativo da prestação. Esta obrigação decorre da verificação de um fato ocorrido em determinada local e tempo, e constituída por meio do lançamento tributário. Assim, se o atributo imperativo da lei tributária está em seu consequente, concluise que somente haverá fraude à referida lei, se seu comando (recolher tributo) for frustrado por quem incorra no fato jurídico tributário. Fl. 442DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 443 22 Não existe, contudo, qualquer comando imperativo no antecedente da norma tributária obrigando o particular a incorrer no fato jurígeno tributário, sendo ele livre para organizarse da forma que, licitamente, lhe oferte menor oneração. Por outro lado, é importante ressaltar que mesmo os atos procedidos pelo contribuinte em plena atenção às disposições legais podem ser desconsiderados uma vez constatada a finalidade de dissimular a ocorrência do fato gerador do tributo, ou a natureza dos elementos constitutivos da obrigação tributária, isto é, quando se comprove que o sujeito passivo agiu com dolo, fraude ou simulação. Ocorre que, o ato cujo efeito é consoante o ordenamento, não pode ser considerado como abusivo. O legislador tributário, não desconsidera o fato de o contribuinte buscar uma maneira menos onerosa de conduzir seus negócios, seja por motivos tributários, societários, econômicos ou quaisquer outros. A liberdade de iniciativa e autoorganização de que dispõe a iniciativa privada é uma garantia constitucionalmente assegurada que, como tal, não deve sofrer restrições. Assim, se o legislador emite norma que permite que o contribuinte aliene seu ativo/participação societária na pessoa física ou jurídica, a opção em vender pela pessoa física não pode ser considerada resultado abusivo! Por isso, discordo da afirmação ínsita na decisão recorrida, quando afirma que “...o direito de autoorganização não existe para que os contribuintes paguem menos impostos, devendo ser exercido com algum propósito extratributário, a fim de que eventual supressão de tributos seja oponível ao Fisco.” (Acórdão de Impugnação) À vista do exposto, tendo os atos sido procedidos em conformidade com a lei; não havendo fraude, dolo ou simulação na execução dos mesmos, e não sendo dada a análise quanto à existência, ou não, de propósito negocial, considero indevida a tributação do ganho de capital na empresa ora recorrente, bem como a qualificação da multa de ofício. Assim, voto no sentido de DAR provimento ao recurso voluntário. Por fim, cabe esclarecer, que restam prejudicados a análise dos demais argumentos suscitados pela autuação, em virtude do provimento integral do recurso voluntário do contribuinte no que se refere ao mérito da autuação. É como voto. (assinado digitalmente) Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa Fl. 443DF CARF MF Processo nº 10920.723414/201496 Acórdão n.º 1302002.389 S1C3T2 Fl. 444 23 Fl. 444DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19985.725039/2015-10
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Dec 04 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2011
ISENÇÃO. SÚMULA CARF. COMPROVAÇÃO DA MOLÉSTIA GRAVE POR MEIO DE LAUDO PERICIAL OFICIAL E DA NATUREZA DOS PROVENTOS.
Cumpridos os requisitos referentes à natureza dos rendimentos provenientes de aposentadoria e à comprovação do acometimento de moléstia grave, por meio de laudo pericial emitido por serviço médico oficial, a contribuinte faz jus à isenção do imposto de renda.
Numero da decisão: 2201-003.988
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Carlos Henrique de Oliveira - Presidente.
(assinado digitalmente)
Ana Cecília Lustosa da Cruz - Relatora.
EDITADO EM: 20/11/2017
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim.
Nome do relator: ANA CECILIA LUSTOSA DA CRUZ
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SÚMULA CARF. COMPROVAÇÃO DA MOLÉSTIA GRAVE POR MEIO DE LAUDO PERICIAL OFICIAL E DA NATUREZA DOS PROVENTOS. Cumpridos os requisitos referentes à natureza dos rendimentos provenientes de aposentadoria e à comprovação do acometimento de moléstia grave, por meio de laudo pericial emitido por serviço médico oficial, a contribuinte faz jus à isenção do imposto de renda. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Carlos Henrique de Oliveira Presidente. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora. EDITADO EM: 20/11/2017 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Carlos Henrique de Oliveira, Ana Cecília Lustosa da Cruz, Dione Jesabel Wasilewski, José Alfredo Duarte Filho, Marcelo Milton da Silva Risso, Carlos Alberto do Amaral Azeredo, Daniel Melo Mendes Bezerra e Rodrigo Monteiro Loureiro Amorim. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 98 5. 72 50 39 /2 01 5- 10 Fl. 81DF CARF MF 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário contra decisão primeira instância que julgou procedente em parte a impugnação apresentada pelo sujeito passivo. Nesta oportunidade, utilizome trechos do relatório produzido em assentada anterior, eis que aborda de maneira elucidativa os fatos objeto dos presentes autos, nos termos seguintes: A contribuinte, contribuinte acima identificado insurgiuse contra o lançamento consubstanciado na Notificação de Lançamento de folhas 08 a 13, relativa ao anocalendário 2010, da qual tomou ciência em 22/09/2015, que apurou crédito tributário total de R$ 11.713,27. Motivou o lançamento a constatação de omissão de rendimentos tributáveis apurada após a entrega da declaração retificadora, da seguinte forma: 1. rendimentos indevidamente considerados como isentos por moléstia grave, relativos ao Instituto Nacional do Seguro Social e São Paulo Previdência, tendo em vista que o laudo apresentado não continha todos os requisitos exigidos pela legislação, como descrição da moléstia, elementos que fundamentaram o laudo e número de registro do profissional médico no órgão público; 2. rendimentos recebidos do Banco do Brasil, decorrentes de ação da Justiça Federal, no valor de R$ 1.069,33, informado no campo dos rendimentos isentos e não tributáveis como auferidos do Ministério do Planejamento. Em sua impugnação, às fls. 01 a 03, a interessada, em síntese, requer o cancelamento da notificação, alegando que os rendimentos auferidos são isentos por ser pensionista e portadora de moléstia grave. Para instruir sua defesa, anexou documentos de fls. 05 a 22. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Juiz de Fora (MG) julgou procedente em parte a impugnação, conforme a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2011 RENDIMENTOS ISENTOS. MOLÉSTIA GRAVE. Somente pode ser acatada a isenção do IRPF sobre rendimentos de pensão quando ficar comprovado ser o contribuinte portador de moléstia grave, por meio de laudo médico oficial. Fl. 82DF CARF MF Processo nº 19985.725039/201510 Acórdão n.º 2201003.988 S2C2T1 Fl. 3 3 RESTITUIÇÃO RECEBIDA INDEVIDAMENTE. MULTA DE OFÍCIO. JUROS DE MORA. Deve ser excluída a multa de ofício lançada sobre a devolução da restituição resgatada ou compensada indevidamente, incidindo, porém, juros de mora sobre tal devolução. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Posteriormente, foi interposto recurso voluntário, no qual o contribuinte sustentou, em síntese, que: a) a Instrução normativa RFB 1500 incluiu a necessidade de descrição nominal da enfermidade (alzheimer) a partir do dia anterior a emissão do Laudo Médico, fato até então não exigido na Lei n.º 7.713/88, Lei n.º 8.451/92 e Lei n.º 11.052/2004; b) o laudo médico apresentado é autêntico e atende as condições legais para a isenção do imposto de renda da contribuinte. É o relatório. Voto Conselheira Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora Conheço do recurso, pois se encontra tempestivo e com condições de admissibilidade. Conforme narrado, os presentes autos tratam da omissão de rendimentos tributáveis indevidamente classificados como rendimentos isentos auferidos por portador de moléstia grave. Sobre da matéria, os incisos XIV e XXI, art. 6º, da Lei n.º 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelas Leis n.º 8.541, de 23 de dezembro de 1992, e n.º 11.052, de 29 de dezembro de 2004, assim determinam: Art. 6o Ficam isentos do imposto de renda os seguintes rendimentos percebidos por pessoas físicas: (...) XIV os proventos de aposentadoria ou reforma motivada por acidente em serviço e os percebidos pelos portadores de moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, hanseníase, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, Fl. 83DF CARF MF 4 hepatopatia grave, estados avançados da doença de Pagel (osteíte deformante), contaminação por radiação, síndrome da imunodeficiência adquirida, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída depois da aposentadoria ou reforma; (...) XXI os valores recebidos a título de pensão quando o beneficiário desse rendimento for portador das doenças relacionadas no inciso XIV deste artigo, exceto as decorrentes de moléstia profissional, com base em conclusão da medicina especializada, mesmo que a doença tenha sido contraída após a concessão da pensão. Por sua vez, o art. 30 da Lei nº 9.250, de 26 de dezembro de 1995, passou a veicular a exigência de que a moléstia fosse comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, nos termos a seguir: Art. 30. A partir de 1º de janeiro de 1996, para efeito do reconhecimento de novas isenções de que tratam os incisos XIV e XXI do art. 6° da Lei n" 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com redação dada pelo art. 47 da Lei n°8.541, de 23 de dezembro de 1992, a moléstia deverá ser comprovada mediante laudo pericial emitido por serviço médico oficial, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. § 1º O serviço médico oficial fixará o prazo de validade do laudo pericial, no caso de moléstias passíveis de controle. § 2º Na relação das moléstias a que se refere o inciso XIV do art. 6º da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, com a redação dada pelo art. 47 da Lei nº 8.541, de 23 de dezembro de 1992, fica incluída a fibrose cística (mucoviscidose). Salientase que a isenção por moléstia grave, quando estabelecida em 1988 pela Lei 7.713, não fazia referência quanto à forma de sua comprovação. Contudo, com a superveniência da Lei 9.250, em 1995, foi instituída forma específica para reconhecimento da moléstia pelas autoridades tributárias. A partir da edição da mencionada lei, tornouse indispensável a apresentação do laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Dessa forma, a isenção sob análise requer a consideração do binômio: moléstia (grave) e natureza específica do rendimento (provenientes de aposentadoria, reforma, pensão ou reserva remunerada), sendo o laudo pericial oficial requisito objetivo para a demonstração da moléstia grave. No presente caso, a Delegacia de Origem, ao apreciar a controvérsia sobre o direito à isenção, assim se manifestou: A impugnante apresentou, objetivando comprovar a moléstia grave, um laudo emitido pela Secretaria da Fazenda São Paulo Previdência, atestando ser a interessada portadora de moléstia grave – CID 10 G30, desde 27 de setembro de 2008. Fl. 84DF CARF MF Processo nº 19985.725039/201510 Acórdão n.º 2201003.988 S2C2T1 Fl. 4 5 A fiscalização desconsiderou o documento apresentado, afirmando que não continha todos os requisitos exigidos pela legislação, como descrição da moléstia, elementos que fundamentaram o laudo e número de registro do profissional médico no órgão público. Realmente procedem os argumentos da autoridade lançadora. Ainda que se possa concluir, apesar da não formação na área médica, que a moléstia grave G30 tratase de "Mal de Alzheimeir", tal fato deveria estar expressamente descrito no laudo, enquadrando a moléstia entre as elencadas na legislação, o que não ocorreu. Também, e de suma relevância, o laudo deveria ter sido emitido por médico do serviço médico oficial, o que absolutamente não está comprovado. O documento apresentado foi assinado por três médicos, com carimbos onde consta serem vinculados à empresa Ambiental Qualidade de Vida do Trabalho. Deveria a litigante ter apresentado laudo médico oficial que preenchesse todos os requisitos da legislação, o que também não ocorreu. O segundo requisito relevante, qual seja, serem os rendimentos oriundos de aposentadoria, reforma ou pensão, foi comprovado para os valores auferidos do Instituto Nacional do Seguro Social e de São Paulo Previdência. Apenas para o terceiro rendimento omitido, auferido do Banco do Brasil, oriundo de ação judicial, não houve comprovação da natureza do rendimento. Sendo assim, não tem a contribuinte o direito à isenção do imposto de renda sobre os rendimentos de pensão por ela percebidos nem sobre os rendimentos auferidos por meio de ação judicial, por não preencherem todos os requisitos legais. Assim, foi desconsiderado o laudo médico apresentado, em razão da ausência da descrição nominal da doença, bem como em razão da inexistência de comprovação da sua natureza oficial. Também restou consignado na decisão de piso que não foi demonstrada a natureza dos rendimentos auferidos da fonte pagadora Banco do Brasil, mas apenas dos rendimentos recebidos do INSS e da São Paulo Previdência. Com a análise dos argumentos dispostos, em sede de recurso voluntário, observase que foi devidamente apresentado laudo médico pericial com o timbre do Governo do Estado de São Paulo e com o Selo de autenticidade da SPPREV, no qual consta a CID 10 G30 (que corresponde ao mal de Alzheimeir), emitido em 31 de outubro de 2014, no qual consta a data de início da doença em 27 de setembro de 2008., fls. 72. Alega a recorrente que a ausência da descrição nominal da doença e a ausência dos números de registro dos médicos ocorreram em razão do curto espaço de tempo para aplicação da IN 1500 da RFB, que foi publicada no Diário Oficial da União, no dia 30 de outubro de 2014, ou seja, no dia anterior à emissão do laudo. Desse modo, entendo que restou devidamente comprovado o acometimento de moléstia grave prevista em lei, pois, embora não conste nominalmente a doença da contribuinte no laudo, há expressa menção à CID correspondente. Fl. 85DF CARF MF 6 Além disso, sobre o fundamento da Delegacia de Origem de que os três médicos que assinaram o laudo são oriundos da Ambiental Qualidade de Vida do trabalho, a recorrente comprova que a mencionada empresa foi contratada pela SPPREV, conforme notícia publicada no jornal anexo aos autos, fls. 75. No que se refere ao requisito acerca da natureza dos proventos (aposentadoria, pensão, reforma ou reserva remunerada), não foram objeto de autuação rendimentos recebidos do Banco do Brasil, os quais a Delegacia de Origem considerou não comprovada a natureza. Conforme a Notificação de Lançamento, fls. 10, a omissão se refere aos proventos recebidos da SPPREV e do INSS, que tiveram a comprovação da natureza reconhecida pela decisão de primeira instância. Nesse contexto, considerando o teor da Súmula CARF n.º 63, que dispõe expressamente sobre a isenção do portador de moléstia grave, observase que os proventos decorrentes de aposentadoria ensejam o direito à isenção, quando cumulativamente considerados com a comprovação de moléstia grave, como segue: Súmula CARF nº 63: Para gozo da isenção do imposto de renda da pessoa física pelos portadores de moléstia grave, os rendimentos devem ser provenientes de aposentadoria, reforma, reserva remunerada ou pensão e a moléstia deve ser devidamente comprovada por laudo pericial emitido por serviço médico oficial da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios. Dessa forma, assiste razão à recorrente quanto ao direito à isenção pleiteada sobre os proventos de natureza comprovada (valores oriundos do Instituto Nacional de Seguro Social e da São Paulo Previdência). Diante do exposto, conheço do recurso voluntário para, no mérito, darlhe provimento. (assinado digitalmente) Ana Cecília Lustosa da Cruz Relatora Fl. 86DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10814.001320/94-19
Turma: Primeira Câmara
Seção: Terceiro Conselho de Contribuintes
Data da sessão: Tue Apr 11 00:00:00 UTC 2000
Ementa: IMUNIDADE — FUNDAÇÃO PÚBLICA- A imunidade do artigo 150, inciso VI, alínea "a" e § 2° da Constituição Federal, alcança os Impostos de Importação e sobre Produtos Industrializados, vez que a significação do termo "patrimônio", não é o contido na classificação dos impostos adotados pelo CTN, mas sim a do art. 57 do Código Civil, que congrega o conjunto de todos os bens e direitos, a guisa do comando normativo do art. 110 do próprio CTN.
Numero da decisão: CSRF/03-03.101
Decisão: ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente
julgado, vencido o Conselheiro Henrique Prado Megda.
Nome do relator: Nilton Luiz Bartoli
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''''' • o+ , MINISTÉRIO DA FAZENDA• 4- CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA TURMA Processo n°. : 10814.001320194-19 Recurso n°. : RD/301-0.317 Recorrida : ia CÂMARA DO TERCEIRO CONSELHO DE CONTRIBUINTES Matéria : ISENÇÃO Recorrente : FUND. PADRE ANCHI. C. PAUL DE RÁDIO E TV EDUCATIVA Interessada : FAZENDA NACIONAL Sessão de : 11 DE ABRIL DE 2000 Acórdão n°. : CSRF/03-03.101 IMUNIDADE — FUNDAÇÃO PÚBLICA- A imunidade do artigo 150, inciso VI, alínea "a" e § 2° da Constituição Federal, alcança os Impostos de Importação e sobre Produtos Industrializados, vez que a significação do termo "patrimônio", não é o contido na classificação dos impostos adotados pelo CTN, mas sim a do art. 57 do Código Civil, que congrega o conjunto de todos os bens e direitos, a guisa do comando normativo do art. 110 do próprio CTN. Vistos relatados e discutidos os presentes autos de recurso interposto por FUNDAÇÃO PADRE ANCHIETA CENTRO PAULISTA DE RÁDIO E TV EDUCATIVA. ACORDAM os Membros da Terceira Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, por maioria de votos, DAR provimento ao recurso, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado, vencido o Conselheiro Henrique Prado Megda. E‘tç.,' SN PER -ii RODRIGUES PRESIDE ,----- ------ NI?ON L je BART I R LAT*" FORMALIZADO EM: 1 g MAI ?_000 Participaram ainda do presente julgado os Conselheiros CARLOS ALBERTO GONÇALVES NUNES, MOACYR ELOY DE MEDEIROS, MÁRCIA REGINA MACHADO MELARE, PAULO ROBERTO CUCO ANTUNES e JOÃO HOLANDA COSTA. Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Recorrente : FUN. PADRE ANCHIETA C. PAUL DE RÁDIO E TV EDUCATIVAS Recorrida : i a CÂMARA DO 3° C. CONTRIBUINTES Recurso n° : RD/301-0.317 RELATÓRIO Trata-se de exigência tributária constituída pelo auto de infração contra a Recorrente, fundação pública Estadual, que realizou importação de mercadorias destinadas à operação de suas emissoras de radiodifusão educativa, Rádio e Televisão Cultura, ou seja, para a consecução de seus objetivos institucionais legais, pleiteando a exoneração da aplicação da legislação tributária com fundamento na imunidade recíproca com fundamento no artigo 150, item VI, alínea "a", § 2a da Constituição Federal e Lei n° 9.849/67, que a institui como fundação. Entendendo que não era caso de imunidade, e buscando subsídios de fundamento no Código Tributário Nacional, que classifica o Imposto sobre Produtos Industrializados na categoria de imposto sobre a produção e não imposto sobre o patrimônio, a fiscalização lavrou o auto de infração, cobrando da autuada o crédito tributário no montante de Cz$ 426.081,14 conforme artigo 135 do Decreto n.° 91030/85 (R.A.). A Recorrente instrumentalizou tempestiva Impugnação, desenvolvendo a tese de que, como fundação pública, está imune da incidência normativa constitutiva da obrigação tributária, corroborando por jurisprudência e a doutrina que entendem que não há razão jurídica para dela (imunidade) se excluírem o Imposto de Importação e Imposto Processo o° : 10814 001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 sobre Produtos Industrializados, como tributos incidentes sobre o patrimônio. Desta forma e conforme a Constituição Federal de 1988, a imunidade tributária foi estendida as fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, gozando portanto da imunidade constitucional na importação de bens para o exercício de sua finalidade, estando exonerada do recolhimento dos Impostos de Importação e do Imposto sobre Produtos Industrializados vinculado. A decisão de primeira instância manteve o lançamento tributário, por entender que a impugnação fundamentou-se em pareceres doutrinários e jurisprudência que se remetem à Constituição Federal de 1967 e não na atual ordem tributária, e que o conceito de patrimônio contido na atual constituição não engloba os "Impostos sobre o Comércio Exterior", conforme a separação dada pelo Código Tributário Nacional, que classifica como impostos sobre patrimônio os que dizem respeito à propriedade imobiliária e sua transmissão, e sobre automóveis Ressalta ainda, não ter a impugnante direito a isenção em razão da Lei n° 8032/90, que rege a concessão de isenções, pois não coloca as Fundações Públicas no rol de entidades beneficiadas por isenção subjetiva, e não haver qualquer outra isenção aplicável ao produto importado. Tendo tomado ciência da decisão singular, a Recorrente interpôs Recurso Voluntário, tempestivo, alegando basicamente a mesma tese da Impugnação, inovando no que se refere à interpretação da imunidade na Constituição Federal de 1967 em comparação ao da Constituição de 1988, afirmando que ambas abordam a imunidade sob o mesmo contexto, e, salientando que a imunidade da fundação difere Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° CSRF/03-03 101 da do Poder Público, vez que o requisito encontra-se na parte final do § 2° do art. 150, da Constituição Federal ressalva "ao patrimônio, à renda e aos serviços vinculados a suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes" e postulando pela exclusão do crédito tributário e consectários legais. O acórdão da Colenda Câmara recorrida decidiu, por maioria de voto, negar provimento ao recurso voluntário, mantendo o lançamento do crédito tributário. Assim, o presente feito alçou a esta Eg. Câmara Superior de Recursos Fiscais, para julgamento, em decorrência de Recurso de Divergência, interposto pela Fundação Padre Anchieta, com fundamento no art. 4°, inciso li, do Regimento Interno aprovado pela Portaria do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento n.° 540192, vigente na época do protocolo. Consubstanciado no Acórdão n.° 301-27.858, a Procuradoria da Fazenda Nacional, ofereceu suas contra razões ao Recurso Especial, requerendo seja mantida a decisão recorrida, negando-se provimento ao recurso especial de divergência. É o Relatório. Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 VOTO CONSELHEIRO RELATOR NILTON LUIZ BARTOLI O Recurso Especial foi devidamente aparelhado por decisões que tratam da mesma matéria e que são de Câmara distinta da qual provem este feito, justificando a procedência da admissibilidade. Como vimos, trata-se de exigência tributária constituída por Auto de Infração que entendeu devido os Impostos de Importação e, sobre Produtos Industrializados pela Recorrente, fundação pública Estadual, que realizou importação de mercadorias destinadas à operação de suas emissoras de radiodifusão educativa, Rádio e Televisão Cultura, ou seja, para a consecução de seus objetivos institucionais legais, pleiteando a exoneração da aplicação da legislação tributária com fundamento na imunidade recíproca com fundamento no artigo 150, item VI, alínea "a" e § 2a da Constituição Federal. Antes de adentrarmos ao mérito, entendo conveniente ressaltar que o presente recurso proporcionou-me oportunidade ímpar para analisar a questão com maior profundidade e refletir a respeito da correta interpretação do artigo 150, item VI, alínea "a" e § 2a da Constituição Federal, que será demonstrado, para que seja analisado cada termo relevante a deslinde da questão, ainda, muito polêmica dentre nossas Casas Julgadoras. Imprescindível firmar-se uma posição definitiva, que, para minha surpresa, é contrária ao meu entendimento anterior. Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° CSRF/03-03 101 Preliminarmente, necessário localizar a norma imunizante dentro do sistema jurídico brasileiro, vez que sem esse juízo espacial e do alcance do conteúdo da imunidade, seremos incapazes de por fim à celeuma criada neste processo e às diversas posições antagônicas que reinam nas diversas Câmaras deste Egrégio Conselho de Contribuintes. A imunidade pleiteada é assim colocada na Constituição Federal, art. 150, inciso VI, alínea "a", cic o parágrafo 2° do mesmo artigo: "Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: VI - instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros; Parágrafo 2° - A vedação do inciso VI, a, é extensiva às autarquias e às fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, no que se refere ao patrimônio, à renda e aos serviços, vinculados a suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes." Inicialmente, é necessário deixar claro que, a Imunidade tratada pela Constituição Federal de 1988, tem o mesmo conteúdo e abrangência da imunidade disposta na Constituição Federal de 1967, alterada substancialmente pela Emenda Constitucional n.° 1 de 1969. Assim, quando se falar em Imunidade Constitucional, entenda-se a abrangida pelas duas constituições. Em seqüência, salienta-se que a hermenêutica jurídica admite vários métodos de interpretação da norma legal, sendo certo que o bom intérprete da norma constitucional não pode olvidar que a Lei Magna , Processo n° : 10814.001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 tem supremacia sobre as demais e que não tem por escopo regular a conduta humana. Na verdade, a Constituição de um estado democrático "contém em seu bojo uma filosofia, ou melhor uma orientação ética e moral, baseada no princípio de que os homens não são meios, mas fins em si mesmo..." e "sem dúvida, a Constituição não é mera estrutura normativa, mas um texto que alberga no seu todo conteúdos sociológicos, jurídicos, políticos, culturais, sendo o seu campo ilimitado, do qual a imunidade tributária faz parte desse todo". (BERNARDO RIBEIRO DE MORAES, doutrina publicada da Rev. Dialética de Direito Tributário n.° 34, pg. 20 e 21). Cônscio que a Carta Maior tem apoio ético e ideológico, onde o homem é um fim em si mesmo, assegurando-lhe os meios para atingir este fim, verifico que a imunidade tributária é instituída em função de considerações de interesse geral, políticos, religiosos, sociais ou econômicos e que deve ser interpretada segundo essa orientação. Com efeito, A.A. Contreiras de Carvalho afirma que a imunidade tributária baseia-se "em razões políticas, senão também, religiosas, morais e culturais" (in "Doutrina e Aplicação do Direito tributário", Ed. Freitas Bastos, p. 153). lves Gandra, citado por Bernardo Ribeiro de Moraes, na doutrina citada, foi feliz em sua síntese sobre a matéria: "As imunidades tributárias foram criadas, estribadas em considerações extrajudiciais, atendendo à orientação do Poder Constituinte em função das idéias políticas ..>,. vigentes, preservando determinados valores políticos, religiosos, educacionais, sociais, culturais e econômicos, todos eles fundamentais à sociedade 1 Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 brasileira". ( "Comentários à Constituição do Brasil", vol. VI, pags. 170/171, nota 1) Assim é que o intérprete da Constituição tem que buscar a origem e o escopo maior da norma imunizadora, as exigências sociais que originaram a imunidade tributária. É o método teleológico, hoje, sabidamente, mais relevante que o gramatical. O PRINCIPIO DA IMUNIDADE RECIPROCA A Constituição Federal promulgada em 1988 consagrou como um dos pilares da sociedade brasileira o princípio do Federalismo, outorgando independência política e econômica aos Estados Membros e Distrito Federal, bem como aos municípios brasileiros, pela autonomia municipal. Essa independência e autonomia econômica, financeira e política estão diretamente relacionadas à desvinculação com o Poder da União, que até então era controlador das finanças públicas e dos direcionamentos políticos dos outros entes públicos, face à centralização do poder autoritário das décadas de 60 a meados da década de 80, inspirados no regime de controle do Estado e do cidadão. Note-se que, a dependência econômica traz, inexoravelmente, a dependência política, e, assim, a Constituição Federal outorga a cada ente político da Federação a Competência Tributária, ou seja, o poder de instituir tributos destinados à sua manutenção, na forma do art. 145 in verbis: "Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os seguintes tributos:" o Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 O tratamento reservado pela Constituição Federal ao Sistema Tributário Nacional é um dos mais completos e detalhistas dentre todas as constituições do mundo contemporâneo. Ora, indubitavelmente há, no mundo capitalista, relevante importância o Poder exercido pelos Entes Políticos, face a carga de recursos que arrecada pela tributação, o que reforça o requisito da autonomia contido no princípio do federalismo. Dentre os tributos que estão sujeitos às respectivas competências tributárias, está o « Imposto", espécie do gênero "tributo", que é mais especificamente tratado pela Constituição, para cada ente, nos artigos 153, para a União, 155, para os Estados e o Distrito Federal, e 156, para os Municípios. Percebe-se que o detalhe do regramento constitucional para o Sistema Tributário Nacional, visa, principalmente delinear os contornos das competências tributárias dos entes políticos, com o fim de evitar-se, de um lado, invasões de competências e, de outro, abuso do poder de tributar, que já fora preocupação de grandes juristas como Rubens Gomes de Souza, Aliomar Baleeiro, Rui Barbosa Nogueira e tantos outros. Pautada nos princípios do federalismo e da autonomia, com vistas também no controle da Competência Tributária, a Constituição Federal contemplou o art. 150, na Seção li - Das Limitações ao Poder de Tributar, que açambarcou, dentre os limites, o princípio da imunidade recíproca, ou seja, a vedação de os entes políticos instituírem impostos uns dos outros. ...Note-se que o limite do poder de tributar está adstrito à - espécie "Imposto" do gênero "Tributo", vez que os recursos . Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03.101 arrecadados dessa tributação é não vinculado à atividade estatal, conforme a classificação dos tributos consagrada pelo Prof. Geraldo Ataliba. CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS SEGUNDO GERALDO ATALIBA Segundo o Mestre de Direito Tributário, Prof. Geraldo Ataliba, os tributos classificam-se em "vinculados" e "não vinculados", ou seja: I - Vinculados são os tributos cuja hipótese de incidência consiste numa atuação estatal (ou numa repercussão desta), incluem-se aí as TAXAS e as CONTRIBUIÇÕES DE MELHORIA. II - Não Vinculados são os tributos cuja hipótese de incidência consiste num fato ou ato qualquer que não uma atuação estatal, ou seja, um ato praticado no exercício dos direitos civis, incluem-se aí tão somente os IMPOSTOS. Há inquestionável correlação entre o fato de a imunidade alcançar os limites da competência tributária tão somente dos imposto, uma vez que independem do ato do estado, ou seja, o estado não necessitaria lançar mão do imposto para ressarcir a prestação de uma atividade estatal ou propagar a equidade como ocorre no caso da contribuição de melhoria. Como visto, o ente político pode ser, sim, sujeito passivo de uma relação jurídica tributária, desde que há, para o ente tributante, competência para instituir determinado tributo. O CONCEITO CONSTITUCIONAL DE "PATRIMÔNIO" Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Como vimos, o art. 150, VI, alínea "a" estabelece a imunidade recíproca e define, para tanto, seu alcance tão somente aos impostos, da seguinte forma: "Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: VI - instituir impostos sobre: a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;" Mas o que significa o termo "Impostos sobre o Patrimônio", dentre os impostos previstos na Constituição sob a tutela da Competência Tributária outorgada aos Entes Políticos? Pode efectivamente o conceito de patrimônio - um tanto deturpado no art. 150 da Lei Maior - ser reduzido ao bel prazer das conveniências da arrecadação? Eis o cerne central da questão, saber se os Impostos incidentes sobre a importação de bens estão ou não sob o termo "Impostos sobre o Patrimônio" a que se refere o art. 150, VI, alínea "a", da Constituição Federal de 1988. Primeiramente necessário conceituar, dentro do direito o termo "patrimônio", vez que o termo "imposto", prescinde, no caso de conceito. O Código Civil, em seu art. 57, trata "patrimônio" como o coletivo de coisas: "Art. 57. O patrimônio e a herança constituem coisas universais, ou universalidades, e como tais subsistem, embora não constem de objetos materiais." Processo n° : 10814 001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Considerando que as coisas coletivas, ou universais, são verificadas quando se encaram agregadas em todo, temos que, o patrimônio é um coletivo de coisas é uma universalidade dentro do mundo das coisas. Em verdade o Código Civil, ao tratar das diferentes classes de bens, ora atribui a denominação de coisa, ora atribui a denominação de bem, sendo que se entende por coisa, o conceito mais abrangente dentre ambos. Mas para adequar o vocabulário aos Impostos em discussão, adotaremos o termo "bens". O dicionário "Vocabulário Jurídico" de De Plácido e Silva (3a Edição, 1973, Editora Forense, Rio de Janeiro) define assim patrimônio: "PATRIMÔNIO - Derivado do latim patrimonium, de pater, originariamente quer o vocábulo significar os bens da família ou os bens herdados dos pais. Nesse restrito sentido, tinham-no, primitivamente, os romanos, que chegavam, mesmo, a distingui-lo sob a denominação de família, simplesmente, ou de família pecúnia, conforme se registra nos fragmentos da XII Tábuas, a respeito do Direito das Sucessões. Aliás, aludindo ao patrimônio, primitivamente, os romanos chamavam-no de res. Foi esta a denominação mais antiga. Patrimônio. No sentido jurídico, seja civil ou comercial, ou mesmo no sentido do Direito Público, patrimônio entende-se o conjunto de bens, de direitos e obrigações, apreciáveis economicamente, isto é, em dinheiro, pertencentes a uma pessoa, natural ou jurídica, e constituindo uma universalidade. O patrimônio, assim, integra o sentido de um complexo de direitos e de relações jurídicas, apreciáveis em dinheiro ou só um valor econômico, em qualquer aspecto em que seja tido, isto é, com 11 Processo : 10814.001320/94-19 Acórdão n° . CSRF/03-03 101 valor de troca, valor de uso ou como um interesse, de que possa resultar um fato econômico. Nessa acepção, o patrimônio é considerado uma universalidade de direito, constituindo, assim, uma unidade jurídica, abstrata e distinta dos elementos materiais que o compõem, de modo que podem estes ser alterados, pela diminuição ou aumento, ou mesmo desaparecerem, sem que seja afetada sua existência, que se apresenta juridicamente a mesma durante a vida do titular dos direitos ou relações jurídicas que o formam. A idéia de patrimônio está intimamente ligada à de pessoa, de modo que chegam a considerá-lo como "prolongamento da personalidade" (RAOUL DE LA GRASSERIE). Nesta razão é que PLANIOL assentou que: L As pessoas somente podem ter um patrimônio. II. Toda pessoa tem necessariamente um patrimônio. III.Cada pessoa pode ter, unicamente, um patrimônio. IV.0 patrimônio é inseparável da pessoa. Destas regras se infere que o patrimônio: a) Assenta na própria natureza da pessoa, considerada como capaz de ser sujeito, ativo ou passivo, de direitos e obrigações, somente tendo aptidão para possuir bens ou assumir obrigações. b) Que o patrimônio não significa simplesmente riqueza, pois que pode ser constituído por direitos, que não se mostrem de valor positivo, embora apreciáveis economicamente, ou possam resultar num valor econômico positivo. c) Que o patrimônio, desde que se apresenta como uma universalidade, tem que ser único, embora, por uma ficção jurídica, se permita seu fracionamento, como nos casos dos benefícios de inventário e na sucessão dos bens do ausente. d) Somente, assim, excepcionalmente, poderá o patrimônio ser dividido em massas distintas. e) Quer então significar que a totalidade do patrimônio somente se separa da pessoa quando esta morre, porque nas alienações de bens que formam seu conteúdo não há transferência de patrimônio, mas de parcelas dele. (Nota: que são substituídas pelo dinheiro que também constitui patrimônio)." (grifos e nota acrescidos ao original) Processo n° : 10814001320194-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Observa-se, portanto, que o patrimônio é uma universalidade composta de bens e direitos, e que, independentemente da natureza dos elementos, forma um todo abstrato, indivisível e inseparável da pessoa. Patrimônio, quanto à sua essência ("conjunto de determinações que fazem que uma coisa seja o que é e se distinga de outra qualquer", Vocabulário de Filosofia, de R. Jolivet, 1975, Agir, Rio, pág, 83), é, segundo, os juristas, "um conjunto de direitos e obrigações" ou, como o definem os contabilistas, "o patrimônio compreende tanto os valores que se possui ou tenha a receber como os que se tem de dar ou restituir." (Contabilidade Superior, de FREDERICO HERRMANN JR., 5 a edição, Editora Atlas S.A., SP, páginas 114 e 116, respectivamente.). Não é por outra razão, aliás, que o saldo patrimonial tanto pode ser positivo como negativo, sendo negativo naturalmente o "valor dos empenhos que sobram depois de exaurido o ativo." (Obra de FREDERICO HERRMANN JR. citada, pág. 124). Outro aspecto a considerar pertinente à matéria é que a palavra "patrimônio", no art. 150, VI, da vigente Constituição, sucedâneo do art. 19, III, da Emenda Constitucional n.° 1/69, palavra essa que foi reproduzida nos arts. 29 e 32 do Código Tributário Nacional, tem mais conotação de ativo ou de bens do que propriamente de patrimônio. Explicando claramente o sentido desta última palavra, dizem DOMINGOS D'AMORE e ADAUCTO DE SOUZA CASTRO, no seu "Curso de Contabilidade", 10 volume, Edição Saraiva, SP, 1964: "Seguindo a técnica jurídica, patrimônio é o conjunto de direitos e obrigaç;es, suscetíveis de apreciação econômica, pertencentes a uma pessoa natural ou - jurídica. (Pág. 58)." (grifei). .111111w 14 Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03.101 "No sentido econômico, é o "complexo de elementos materiais e imateriais, ativos e passivos, submetidos a uma administração. (Pág. 59)." (grifei). "O patrimônio pode ser estudado sob o tríplice aspecto: jurídico, econômico e específico. Qualquer que seja, contudo, o aspecto que se tenha em vista, evidencia-se a dúplice natureza dos elementos aue o compõem: de uma parte, apresentam-se os valores positivos e, de outra, os valores negativos, que correspondem, sob o ponto de vista contábil, ao ativo e ao passivo do patrimônio (Pág. 67)." (grifei). Na mesma linha, o FREDERICO HERRMANN JR. na obra, edição e editora acima mencionadas, págs. 110/111: "Os bens atuais e os que tem a receber de terceiros representam os elementos positivos, e os que devem ser restituídos em espécie ou em moeda são negativos na equação patrimonial. Os primeiros constituem o ativo e os outros formam o passivo." Em seguida, refere-se às considerações de FABIO BESTA: "Sob o aspecto econômico, o ativo é um conjunto de bens que a pessoa de fato possui, sozinha ou em conjunto com terceiros. O passivo representa os bens que devem ser deduzidos para ser entregues aos terceiros que haviam cedido temporariamente bens equivalentes. Sob o aspecto jurídico, o ativo é a soma dos bens sobre os quais a pessoa tem direito de posse ou domínio." E ainda: "ATIVO (s.m.). Diz-se do conjunto de bens e de créditos que constituem patrimônio de uma pessoa jurídica." (IÈDO BATISTA NEVES, "Vocabulário Enciclopédico de Tecnologia Jurídica", vol. I, Forense, pág. 257). Nenhuma referência a qualquer elemento negativo. .,,.Do exposto, não é difícil concluir que ativo é a totalidade dos fls. bens e direitos de uma pessoa física ou jurídica ou, gomo o definem ainda 1G Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 mais rigorosamente DOMINGOS D'AMORE e ADAUCTO DE SOUZA CASTRO, in obra, volume, edição, editora, e ano supra referidos, pág. 68: "Dessa forma, o ativo apresenta-se como um conjunto de direitos reais e pessoais (bens e créditos)," ao passo que "o passivo representa o conjunto de obrigações a favor de terceiros." E, por fim, à pág. 105, os mesmos autores incluem, no ativo, justamente os "imóveis, móveis e utensílios, mercadorias, matéria-prima, títulos de renda, bancos, caixa, títulos a receber, clientes, devedores, etc," (Nossos os grifos). Ainda aqui, nenhum elemento neaativo. A propósito não percamos de vista a lição de CARLOS MAXIMILIANO . "Embora seja verdadeira a máxima atribuída ao apóstolo São Paulo - a letra mata, o espírito vivifica -, nem por isso é menos certo caber ao juiz afastar-se das expressões claras da lei, somente quando ficar evidenciado ser isso indispensável para atingir a verdade em sua plenitude. O abandono da fórmula explícita constitui um perigo para a certeza do Direito, a segurança jurídica; por isso é só justificável em face de mal maior, comprovado: o de uma solução contrária ao espírito dos dispositivos, examinados em conjunto. As audácias do hermeneuta não podem ir a ponto de substituir, de fato, a norma por outra. k) Entretanto, o maior perigo, fonte perene de erros, acha-se no extremo oposto, no apego às palavras. Atenda-se à letra do dispositivo; porém com a maior cautela e justo receio de sacrificar as realidades morais, econômicas, sociais, que constituem o fundo material e como o conteúdo efetivo da vida jurídica, a sinais, puramente lógicos, que da mesma não revelam senão um aspecto, de todo formal. Cumpre tirar da fórmula tudo o que na mesma se contém, implícita e explicitamente, o que, em regra, só é possível alcançar com experimentar os vários recursos da Hermenêutica." ( in "Hermenêutica e Aplicação do Direito", 9 a edição/ 3a tiragem, Forense, Rio, 1984, pág. 111). 14 Processo n° . 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Aproveitando o conceito ora detalhadamente estudado e o Código Civil, verifica-se que, no caso, a Recorrente é pessoa jurídica, fundação pública, cuja constituição é, primordialmente, a destinação de um patrimônio à consecução de certos objetivos. Ao transportarmos o conceito de "patrimônio" do Código Civil para a regra imunizante do art. 150, VI, alínea "a", da Constituição Federal, verificamos que os "Impostos sobre o Patrimônio" alcançam a universalidade de coisas (móveis, imóveis, fungíveis, infungíveis, consumíveis, divisíveis e indivisíveis) sujeitas às mais diversas ações da pessoa segundo as atividades lícitas que venha a praticar. Ou, no caso, é a universalidade de coisas que ingressam ou saem da esfera da propriedade da fundação pública, segundo os ditames da lei que a instituiu ou segundo os seus objetivos estatutários. O CONCEITO CONSTITUCIONAIS E A ESTRUTURA DE CLASSIFICAÇÃO DOS IMPOSTOS DO CTN, A contrariedade surgida a partir da diferença entre o conceito de patrimônio desenvolvido segundo as regras basilares do Código Civil Brasileiro e o conceito dado ao termo patrimônio pela classificação dos Impostos adotada pelo Código Tributário Nacional tem sua razão. O Cientista do Direito Paulo de Barros Carvalho, em parecer publicado na Revista Dialética de Direito Tributário, n.° 33, pág. 147, ensina: "As coisas não mudam de nome, nós é que mudamos o modo de nomear as coisas. Portanto, não existem nomes verdadeiros ou falsos das coisas. Apenas existem nomes - aceitos, nomes rejeitados e nomes menos aceitos que outros, como nos ensina Ricardo 11 Processo n° : 10814 001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Guibourg. Esta possibilidade de inventar nomes para as coisas chama-se liberdade de estipulação. Ao inventar nomes (ou ao aceitar os já inventados) traçamos limites na realidade, como se a cortássemos idealmente em pedaços e, ao assinalar cada nome, identificássemos o pedaço que, segundo nossa decisão, corresponderia a esse nome. Um nome geral denota uma classe de objetos que apresentam o mesmo atributo. Nesse sentido, atributo significa a propriedade que manifesta dado objeto. Todo nome cuja significação está constituída de atributos é, em potencial, o nome de um número indefinido de objetos. Desse modo, todo nome geral cria uma classe de objetos. Ordinariamente, um nome geral é introduzido porque temos a necessidade de uma palavra que denote determinada classe de objetos e seus atributos peculiares. Entretanto, menos freqüentemente, introduz-se um nome para designar uma classe por mera questão de utilidade: é imprescindível para o direcionamento de certas operações mentais que alguns sejam agrupados segundo critérios específicos." Assim, segundo a origem do nome "patrimônio" do Código Civil, outros objetos receberam esse nome com o fim de atribuir- lhe o conceito de coletividade de coisas, mas, nem sempre o coletivo universal que trata o Código Civil. O Código Comercial atribui ao nome "patrimônio" o conjunto de bens de propriedade do comércio e dos sócios, para distingui-los. A Lei de Sociedades Anônimas, antes da recente alteração, dava ao patrimônio o conceito de conjunto de bens, direito e deveres que deveriam ser dimensionados no balanço patrimonial, ou ...seja, incluía no conjunto do "patrimônio" deveres ou dívidas, criando a figura do patrimônio negativo, ou até, abusando da lógica formal, d 12 ' Processo n° : 10814 001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 patrimônio inexistente ou o não patrimônio. A Lei das Sociedades Anônimas adotou do nome "patrimônio" a nomenclatura do "patrimônio líquido", como se pudesse imaginar um patrimônio bruto cujo conjunto, em si mesmo contém coisas que não são patrimônio, mas a ele não pertencem. No Código Tributário Nacional o nome "patrimônio" teve uma ligação direta com o conceito "propriedade imobiliária", única e exclusivamente. Como poderia o CTN distinguir ou interpretar o conteúdo e alcance do conceito de "patrimônio", se a Constituição atual, e mesmo a vigente à época da edição da Lei n.° 5.172, de 25.10.66, não distinguia. Ora, comparando-se a significação do termo "patrimônio" dada pelo art. 57 do Código Civil e a estrutura de classificação adotada pelo Código Tributário Nacional, do Título III, verifica-se que o conteúdo e alcances dos termos são distintos, apesar de serem expressos pela mesma nomenclatura, razão indiscutível da contrariedade. Contudo, se adotarmos o conceito da classificação dos impostos do Código Tributário Nacional, fatalmente estaremos limitando o alcance da significação do conceito. Aliás, deveremos rediscutir a significação do termo "patrimônio", contido no art. 178, da Lei n.° 6.404/76: "Art. 178. (Grupo de Contas) - No balanço, as contas serão classificadas segundo os elementos do patrimônio que registrem, e agrupadas de modo a facilitar o conhecimento e a análise financeira da companhia. §1° (Ativo) - No ativo, as contas serão dispostas em ordem decrescente de graus de liquidez dos elementos (do patrimônio) nele registrados, nos seguintes grupos: Processo n° : 10814.001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 a) ativo circulante; b) ativo realizável a longo prazo; c) ativo permanente, dividido em investimentos, ativo imobilizado e ativo diferido." Verifica-se que essa norma jurídica congrega sob a mesma sigla de patrimônio as mercadorias em estoques, as matérias- primas, as máquinas, os móveis, os veículos, os imóveis, ou seja, o conjunto de coisas de valor positivo que sejam na data do balanço de propriedade da sociedade. Aliás, o conceito de patrimônio, até esse ponto do art. 178, da Lei n° 6.404/76, está correto, pois não discrimina os bens segundo sua destinação final se para vender se para usar ou qualquer que seja. Desta forma, não é cabível atribuir ao conceito constitucional de "patrimônio" restrição de abrangência que ele não tem, ex vi mera classificação, inadequada contida no Código Tributário Nacional, como se dele fosse a origem do conceito de patrimônio. Aliás, o Código Tributário Nacional não estabelece conceito de patrimônio, o que é plenamente preenchido pelo Código Civil. A propósito, o art. 110 do CTN assim dispõe, no mesmo sentido, conforme abaixo descrito: "A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance dos institutos, conceitos e formas de direito privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pela Constituições dos Estados, ou pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias." DA IMUNIDADE CONSTITUCIONAL SOBRE O PATRIMÔNIO Processo n° : 10814001320194-19 Acórdão n° CSRF/03-03 101 Diante da fixação de conceito, retomemos a questão da Imunidade Constitucional sobre o Patrimônio instituída pela norma contida no art. 150, inciso IV, alínea "a", abordando o conceito de imunidade e de sua aplicação no caso em tela. O Professor Paulo de Barros Carvalho, que já foi membro deste Egrégio Conselho, ensina em seu livro "Curso de Direito Tributário", Ed. Saraiva, 7a Edição, 1995, pág. 113, que o termo impostos, tributos não vinculados, na verdade deve ter interpretação mais abrangente, contemplando, inclusive as taxas de poder de polícia e afirma "a proposição de que a imunidade é instituto que só se refere aos impostos carece de consistência veritativa" Ou seja, se para o mestre, o conceito de imposto do art. 150, VI, analisado segundo uma interpretação sistêmica da Constituição Federal é deveras limitando, devendo contemplar dentro da nomenclatura "imposto" taxas e contribuições de melhoria (que afeta diretamente a propriedade), o que diria, então quanto à cobrança de impostos sobre a importação? O conceito delineado em seu livro (cit. retro) deixa a questão clara: "Ao coordenar as ponderações que até aqui expusemos, começa a aparecer o vulto jurídico da entidade. É mister, agora, demarcá-lo, delimitá-lo, defini-lo, atento, porém, às próprias críticas que aduzimos páginas atrás, a fim de que não venhamos, por um tropeço metodológico, nelas nos enredar. Recortamos o conceito com auxílio de elementos jurídicos substanciais à natureza, pelo que podemos exibi-la como A CLASSE FINITA E IMEDIATAMENTE DETERMINÁVEL DE NORMA JURÍDICA, CONTIDAS NO TEXTO CONSTITUCIONAL FEDERAL, E QUE ESTABELECEM, DE MODO EXPRESSO, Processo n° : 10814.001320/94-19 Acórdão n° CSRF/03-03 101 INCOMPETÊNCIA DAS PESSOAS POLÍTICAS DE DIREITO CONSTITUCIONAL INTERNO PARA EXPEDIR REGRAS INSTITUIDORAS DE TRIBUTOS QUE ALCANCEM SITUAÇÕES ESPECÍFICAS E SUFICIENTEMENTE CARACTERIZADAS." ••• "O impedimento se refere apenas à instituição de tributos, com o que se evita sejam aquelas situações oneradas por via desse instrumento jurídico-impositivo." (grifos nossos) As situações de que fala o mestre são: a tributação recíproca em prol da manutenção da autonomia das pessoas políticas e garantia do princípio do federalismo, e da própria competência constitucional tributária. Deve-se lembrar que a Primeira Constituição da República, em 1891, previa que "É proibido aos Estados tributar bens e rendas federais ou serviços a cargo da União, e reciprocamente.", o que confirma a tese do Prof. Paulo e dá maior abrangência ao conceito de patrimônio, a partir da constatação de sua origem. A tese de doutorado do Professor e Desembargador do Tribunal Regional Federal da 3 8 Região, Américo Masset Lacombe, ao tratar do tema "Normas Imunizantes e lsentivas" - Capítulo 5 da Tese - salienta: "A imunidade constitui, um bloqueio a uma das previsões abstratas futuras que poderão figurar na composição da norma tributária. O que distingue a imunidade da isenção é o veículo normativo. Enquanto a isenção é veiculada por lei, a imunidade é veiculada pela Constituição, e, assim sendo, só poderá ser um bloqueio a uma previsão futura. O art. 19, III, da Carta -.,vigente, institui a imunidade em relação aos ,,,, Processo n° 10814001320/94-19 Acórdão n° . CSRF/03-03 101 diversos impostos, inclusive, é óbvio, ao imposto de importação." Não bastassem estes argumentos jurídicos esboçados nesta peça, conveniente ressaltar os julgados do Supremo Tribunal Federal que, em síntese, sustenta serem imunes do imposto de importação e do imposto sobre produtos industrializados as instituições de assistência social, desde que não se restrinja, como de modo algum se deve restringir, o conceito da palavra "patrimônio", e, de fato, é praticamente unânime o entendimento do E. Supremo Tribunal Federal no sentido de não se limitar tal conceito. Eis alguns dos acórdãos que interpretam impecavelmente a acepção da palavra em causa: (a) IMUNIDADE TRIBUTÁRIA DAS INSTITUIÇÕES DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (CONSTITUIÇÃO, ART. 19, III, LETRA C). Não há razão jurídica para dela se excluírem o imposto de importação e o imposto sobre produtos industrializados, pois a tanto não leva o significado da palavra "patrimônio", empregada pela norma constitucional. Segurança restabelecida. Recurso Extraordinário conhecido e provido, por decisão unânime. - Relator: Min.Xavier de Albuquerque (RE 88.671 - RJ, R.T.J. 90, ps. 263/5). (b) INSTITUIÇÃO EDUCACIONAL DE FINS FILANTRÓPICOS. IMPORTAÇÃO DE BENS DESTINADOS A OBJETIVOS INSTITUCIONAIS. IMUNIDADE TRIBUTÁRIA (C.F., ART. 19, III, C). Recurso Extraordinário conhecido e provido, por decisão unânime. Relator: Min. Oscar Corrêa (RE 93.729 - SP, R.T.J. 104, ps. 248/250). (c) IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. IMUNIDADE. A imunidade a que se refere a letra c do inciso 111 do artigo 19 da Emenda Constitucional n. 1/69 abrange o imposto de importação, quando o bem importado pertencer a entidade de assistência social que faça jus ao benefício por observar os requisitos do art. 14 do CTN. Precedente do STF. Recurso Extraordinário conhecido e provido, por maioria. Relator: Min. Moreira Alves.(RE. 89.173 - SP, R.T.J. 92, ps. 321/6). , Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 PARTE DO VOTO DO EXMO. SENHOR MINISTRO MOREIRA ALVES: "Pela finalidade a que alude o artigo 19, III, c, da Constituição Federal, como bem salienta Baleeiro, em passagem transcrita no voto acima referido, "deve abranger os impostos que, por seus efeitos econômicos, segundo as circunstâncias, desfalcariam o patrimônio, diminuiriam a eficácia dos serviços ou a integral aplicação das rendas aos objetivos específicos daquelas entidades presumidamente desinteressadas, por sua própria natureza". Entre esses impostos está o imposto de importação, que incide sobre bem da recorrente a ser aplicado em objetivo específico da entidade, onerando- a, consequentemente, em razão de seu patrimônio. Não há, pois, que aplicar critérios de classificação de impostos adotados por leis inferiores à Constituição, para restringir a finalidade a que esta visa com a concessão da imunidade. Nem se pretenda que a cláusula final - "observados os requisitos da lei"- da letra c do inciso III do artigo 19 da Constituição permita à legislação complementar ou ordinária estabelecer, direta ou indiretamente, quais os impostos abarcados pela imunidade, e quais os que estão fora de seu âmbito. Essa cláusula diz respeito, não a isso, mas, apenas, aos requisitos que as instituições de educação ou de assistência social devem preencher para que mereçam o benefício constitucional. Por isso mesmo, o artigo 14 do CTN, ao se referir a tais requisitos, se limita a determiná-los em relação ao que deve observar a instituição para gozar da vantagem constitucional." (d)IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. Bem pertencente a patrimônio de entidade de assistência social beneficiada pela imunidade prevista na Constituição Federal. Não incidência do tributo. Recurso Extraordinário não conhecido. - Relator: Min. Rodrigues Alckmin (STF, Processo: 87.913 - SP). (e) Irmandade da Santa Casa da Misericórdia. Importação de equipamento hospitalar destinado ao uso dessa instituição de assistência social. Imunidade tributária. Recurso Extraordinário conhecido e provido, para deferir o mandado de segurança. ". ') 4 Processo n° : 10814001320/94-19 Acórdão n° . CSRF/03-03 101 Relator: Min. Soarez Munoz (STF, n. do processo: 92.423, DJ de 16.05.80, p. 03488). (f) IMUNIDADE TRIBUTÁRIA. SESI: - Imunidade tributária das instituições de assistência social (Constituição Federal, art. 19, III, letra c). A palavra "patrimônio" empregada na norma constitucional não leva ao entendimento de excetuar o imposto de importação e o imposto sobre produtos industrializados. - Recurso Extraordinário conhecido e provido. (Nossos os grifos). (RE 89.590 - RJ - Rel. Min. Rafael Mayer). Decisão: Conhecido e provido, decisão unânime. (g)IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO. IMUNIDADE. O artigo 19, III, "c", da Constituição Federal não trata de isenção mas de imunidade. A configuração desta está na Lei Maior. Os requisitos da lei ordinária, que o mencionado dispositivo manda observar, não dizem respeito aos lindes da imunidade, mas àquelas normas reguladoras de constituição e funcionamento da entidade imune. Inaplicação do art. 17 do Decreto-Lei n.° 37/66. Recurso Extraordinário conhecido e provido. PARTE DO VOTO DO EXMO. SENHOR MINISTRO SOARES MUNOZ: "Nenhuma dúvida foi suscitada quanto a ser o recorrente instituição de assistência social e fazer jus, nessa qualidade e em princípio, à imunidade prevista no art. 19, III, c, da Constituição Federal. (RE 93.770 - RJ - Rel. Min. Soares Murioz. Recte.: SESI. Recdo.: União Federal)". Decisão: Conheceu-se do recurso e a ele se deu provimento, nos termos do voto do Ministro Relator. Votação uniforme. (R.T.J. 102, ps. 304/7). (h) RECORRENTE: UNIÃO FEDERAL. - RECORRIDO: SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA (SESI). Importação de aparelhos médicos, para equipar o Serviço Médico de sua Delegacia Regional de Amapá. Incidência do art. 19, III, "c", da Constituição da República. Recurso Extraordinário não conhecido. (RE 93.543-6 - RJ - Rel. Min. Soares Mutioz, Recte. União Federal. Recdo.: Serviço Social da Indústria (SESI) - LEX, JSTF, vol. 30, pág. 268). Pelas decisões da nossa Suprema Corte à vedação ao poder ..,.de tributar patrimônio, vê-se que o referido Tribunal deu à palavra "patrimônio" sentido mais amplo do que o que lhe emprestaram as nossas i. Processo n° : 10814 001320/94-19 Acórdão n° CSRF/03-03 101 instâncias administrativas. A este respeito, vale a pena destacar o trecho seguinte do voto proferido no Ac. 301-26.663 do então Conselheiro Wiademir Clóvis Moreira: "Em nenhum lugar, a atual Constituição ou a anterior deixou sequer implícito que o termo "Patrimônio" tem a limitação que lhe dá o CTN para alcançar exclusivamente a propriedade imobiliária urbana ou rural. Se a Constituição não distingue, não pode a lei ou o intérprete desta distinguir. Patrimônio público, segundo Pedro Nunes (in Dicionário de tecnologia Jurídica) "é o conjunto de bens próprios de uma entidade pública que os organiza e disciplina para atender a sua função e produzir utilidades públicas que satisfaçam às necessidades coletivas". Em se tratando pois, do poder público, cuja função essencial é prestar serviços à coletividade, em nome e por conta desta mesma coletividade, é inconcebível que o seu patrimônio, no sentido mais amplo, possa vir a ser onerado por encargo tributário imposto pelo próprio poder público. E indubitavelmente, o Imposto de Importação afeta o patrimônio do importador. Não há justificativa de natureza lógica, econômica, jurídica ou mesmo filosófica que sancione esta vinculação do conceito de patrimônio à forma como estão distribuídos os impostos no Código Tributário Nacional. Ademais, os julgados do Egrégio Supremo Tribunal Federal, citados pela recorrente, enfaticamente confirmam que os impostos de importação e sobre produtos industrializados, este último quando vinculado ao primeiro, não estão excluídos do conceito de patrimônio para efeito da imunidade tributária. E importante ressaltar que as fundações aqui mencionadas passaram, com o advento da nova Constituição (art. 37), a integrar a administração pública. É de se somar ao presente voto, o prolatado pelo Eminente Conselheiro Wlademir Clóvis Moreira (Acórdãos n°s 302- 32.485, 301-26..667), cujo teor corrobora com a posição atual. Como se não bastassem os argumentos retro expostos, é de se pensar, ainda, o critério temporal da ocorrência dos fatos, para '5 4 Processo n° : 10814.001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 verificarmos que, ainda que não estivesse alcançado pela imunidade, o Imposto de Importação não poderia incidir sobre a mercadoria importada pela Recorrente. Note-se que, no caso de importação, a mercadoria importada ao chegar ao País, já é de propriedade da pessoa que a importou e já compõe o seu "patrimônio". Tanto que o Regulamento Aduaneiro, aprovado pelo Decreto n.° 91.030/85, em seu art. 514, prevê as situações em que a mercadoria importada, ainda que antes do despacho aduaneiro, são retiradas da esfera da propriedade do importador, ou àquele que se assemelhe a figura de importador, pela pena de perdimento. Se assim, indiscutível que a mercadoria, mesmo antes de desembaraçada já pertença ao importador, fazendo parte de seu patrimônio, sendo que, no caso em que se discute, amparado pela imunidade constitucional. A matéria não é nova nesta Câmara Superior de Recursos Fiscais. Ao contrário, sobre ela muito se pesquisou, discutiu e decidiu, ensejando a formação de copiosa jurisprudência. Apenas para mencionar, relembro a Decisão estampada no Acórdão n° CSRF/03-02.898 de 24 de agosto de 1998 de minha lavra, cuja Ementa transcrevo: "IMUNIDADE — FUNDAÇÃO PÚBLICA — A imunidade do artigo 150, inciso VI, letra "a" e § 2° da Constituição Federal, alcança os Impostos de Importação e sobre Produtos Industrializados, vez que a significação dos impostos adotada pelo CTN, mas sim a do art. 57 do Código Civil, que congrega o conjunto de todos os bens e direitos, a guisa do comando normativo do art. 110 do próprio CTN." ^,1 Processo n° . 10814,001320/94-19 Acórdão n° : CSRF/03-03 101 Igual decisões é encontrada em diversos outros julgados desta Câmara Superior de Recursos Fiscais, assim, estando perfeitamente evidenciada a improcedência da ação fiscal, considerando que o termo patrimônio contido no art. 150, inciso VI, alínea "a" e, no respectivo § 2°, da Constituição Federal e, considerando que a norma imunizante tem por objetivo preservar o princípio da imunidade recíproca e o princípio do federalismo, conheço do Recurso Especial de Divergência para dar-lhe provimento. Sala das Sessões, Brasília, lide abril de 2000 NlylON Z BARy2LI 1Q Page 1 _0000200.PDF Page 1 _0000300.PDF Page 1 _0000400.PDF Page 1 _0000500.PDF Page 1 _0000600.PDF Page 1 _0000700.PDF Page 1 _0000800.PDF Page 1 _0000900.PDF Page 1 _0001000.PDF Page 1 _0001100.PDF Page 1 _0001200.PDF Page 1 _0001300.PDF Page 1 _0001400.PDF Page 1 _0001500.PDF Page 1 _0001600.PDF Page 1 _0001700.PDF Page 1 _0001800.PDF Page 1 _0001900.PDF Page 1 _0002000.PDF Page 1 _0002100.PDF Page 1 _0002200.PDF Page 1 _0002300.PDF Page 1 _0002400.PDF Page 1 _0002500.PDF Page 1 _0002600.PDF Page 1 _0002700.PDF Page 1 _0002800.PDF Page 1
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Numero do processo: 10976.000690/2008-99
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Sep 14 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Nov 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL
Ano-calendário: 2002, 2003, 2004
INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS. APLICAÇÃO DO DECIDIDO NO RESP Nº 1.118.893/MG.
Ainda que as decisões do STJ exaradas sob o regime do art. 543-C do CPC (recursos repetitivos) devam ser reproduzidas no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, ao se aplicar o decidido por aquela Corte na verificação dos efeitos de decisões judiciais transitadas em julgado que declararam inconstitucional a Lei nº 7.689, de 1988 (REsp nº 1.118.893/MG), deve-se cotejar as circunstâncias jurídicas e fáticas que envolvem o caso concreto e a decisão transitada em julgado com os limites do decidido no recurso especial em tela. Discrepâncias normativas e de precedentes demonstram que a hipótese não se subsume ao repetitivo, e justificam a sua não aplicação.
INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS.
Os precedentes dos RE nº 146.733/SP e nº 138.284/CE, posteriormente confirmados no julgamento da ADI nº 15-2/DF, possuem força para, com o seu advento, impactar ou alterar o sistema jurídico vigente ao tempo da prolação de decisão judicial, transitada em julgado, que declarou a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, fazendo cessar automaticamente sua eficácia.
Numero da decisão: 9101-003.092
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no me´rito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego.
(assinatura digital)
Adriana Gomes Rego - Presidente em exercício e Redatora designada.
(assinatura digital)
Luís Flávio Neto - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andre´ Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Arau´jo, Lui´s Fla´vio Neto, Flavio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rego (Presidente em exerci´cio).
Nome do relator: LUIS FLAVIO NETO
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ementa_s : Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL Ano-calendário: 2002, 2003, 2004 INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS. APLICAÇÃO DO DECIDIDO NO RESP Nº 1.118.893/MG. Ainda que as decisões do STJ exaradas sob o regime do art. 543-C do CPC (recursos repetitivos) devam ser reproduzidas no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, ao se aplicar o decidido por aquela Corte na verificação dos efeitos de decisões judiciais transitadas em julgado que declararam inconstitucional a Lei nº 7.689, de 1988 (REsp nº 1.118.893/MG), deve-se cotejar as circunstâncias jurídicas e fáticas que envolvem o caso concreto e a decisão transitada em julgado com os limites do decidido no recurso especial em tela. Discrepâncias normativas e de precedentes demonstram que a hipótese não se subsume ao repetitivo, e justificam a sua não aplicação. INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS. Os precedentes dos RE nº 146.733/SP e nº 138.284/CE, posteriormente confirmados no julgamento da ADI nº 15-2/DF, possuem força para, com o seu advento, impactar ou alterar o sistema jurídico vigente ao tempo da prolação de decisão judicial, transitada em julgado, que declarou a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, fazendo cessar automaticamente sua eficácia.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no me´rito, por voto de qualidade, em negar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Lui´s Fla´vio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego. (assinatura digital) Adriana Gomes Rego - Presidente em exercício e Redatora designada. (assinatura digital) Luís Flávio Neto - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andre´ Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Arau´jo, Lui´s Fla´vio Neto, Flavio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rego (Presidente em exerci´cio).
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COISA JULGADA. Recorrente ESAB INDUSTRIA E COMERCIO LTDA Interessado UNIÃO (FAZENDA NACIONAL) ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Anocalendário: 2002, 2003, 2004 INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS. APLICAÇÃO DO DECIDIDO NO RESP Nº 1.118.893/MG. Ainda que as decisões do STJ exaradas sob o regime do art. 543C do CPC (recursos repetitivos) devam ser reproduzidas no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, ao se aplicar o decidido por aquela Corte na verificação dos efeitos de decisões judiciais transitadas em julgado que declararam inconstitucional a Lei nº 7.689, de 1988 (REsp nº 1.118.893/MG), devese cotejar as circunstâncias jurídicas e fáticas que envolvem o caso concreto e a decisão transitada em julgado com os limites do decidido no recurso especial em tela. Discrepâncias normativas e de precedentes demonstram que a hipótese não se subsume ao repetitivo, e justificam a sua não aplicação. INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI Nº 7.689, DE 1988. EFEITOS PROSPECTIVOS DA COISA JULGADA. ALTERAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS JURÍDICAS. Os precedentes dos RE nº 146.733/SP e nº 138.284/CE, posteriormente confirmados no julgamento da ADI nº 152/DF, possuem força para, com o seu advento, impactar ou alterar o sistema jurídico vigente ao tempo da prolação de decisão judicial, transitada em julgado, que declarou a inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, fazendo cessar automaticamente sua eficácia. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por voto de qualidade, em negarlhe provimento, vencidos os AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 97 6. 00 06 90 /2 00 8- 99 Fl. 1692DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.693 2 conselheiros Luís Flávio Neto (relator), Cristiane Silva Costa, Daniele Souto Rodrigues Amadio e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento. Designada para redigir o voto vencedor a conselheira Adriana Gomes Rego. (assinatura digital) Adriana Gomes Rego Presidente em exercício e Redatora designada. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de Araújo, Luís Flávio Neto, Flavio Franco Correa, Daniele Souto Rodrigues Amadio, Gerson Macedo Guerra, Adriana Gomes Rego (Presidente em exercício). Relatório Tratase de recurso especial interposto por ESAB INDUSTRIA E COMERCIO LTDA (doravante “contribuinte” ou “recorrente”), em face do acórdão n. 1402001.516 (doravante “acórdão a quo” ou “acórdão recorrido”), proferido pela 2a Turma Ordinária, 4a Câmara, 1a Seção (doravante “Turma a quo”). O recurso especial interposto pelo contribuinte versa sobre os efeitos da coisa julgada obtida pelo contribuinte nos autos da ação judicial que declarou o seu direito à não incidência da CSLL. A decisão recorrida restou assim ementada: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2002, 2003, 2004 LIMITES DA COISA JULGADA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI No 7.689, DE 1988. APTIDÃO DA LEI No 8.212, DE 1991, PARA A EXIGÊNCIA DA CSLL. O trânsito em julgado da decisão que tiver desobrigado o contribuinte do pagamento da CSLL, por considerar inconstitucional a Lei no 7.689, de 1988, não impede que a exação seja exigível com base em norma legal superveniente que tenha alterado substancialmente os aspectos da hipótese de incidência. A Lei no 8.212, de 1991, constitui fundamento legal apto para exigir a CSLL de contribuintes que se acham desobrigados, por decisão judicial definitiva, de cumprir a Lei no 7.689, de 1988. MULTA ISOLADA. APLICAÇÃO EM CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO OU APÓS O ENCERRAMENTO DO ANO CALENDÁRIO. INSUBSISTÊNCIA. Fl. 1693DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.694 3 A multa isolada esta relacionada ao não recolhimento do carnêleão ou das estimativas devidas durante o anocalendário. Encerrado o anocalendário sem que os rendimentos ou lucros sejam oferecidos à tributação não cabe a exigência de multa isolada, mas sim a imposição de multa de ofício que pode ser de 75% ou 150%. Porém, encerrado o anocalendário e tendo o contribuinte oferecido os rendimentos ou lucros à tributação não cabe a exigência de multa isolada. A não ser a adoção desta lógica jamais se aplicaria, em relação ao carnêleão ou as estimativas, o disposto no artigo 138 do CTN. Imaginemos a situação em que o sujeito passivo, pessoa física ou jurídica, tenha obtido rendimentos sem oferecêlos à tributação. Passado quatro anos e onze meses ele resolve oferecer ditos rendimentos à tributação acompanhado do pagamento dos tributos e juros. Em havendo o pagamento espontâneo do imposto devido e juros não se pode imputar ao contribuinte multa pelo não recolhimento do carnêleão ou das estimativas. Agora, adotemos esta mesma situação, só que em vez de esperar quatro anos e onze meses para oferecer os rendimentos à tributação o sujeito passivo oferece logo após o período de apuração, quando da entrega da declaração. Se no primeiro caso não se lhe aplica a multa isolada, aqui onde a infração é de menor gravidade, ao menos no que diz respeito ao tempo decorrido para oferecer os rendimentos à tributação, também não há o que se falar em multa isolada, sob pena de adorarse situação que resulta em conflito explicito com o disposto no artigo 138, do CTN. Recurso Voluntário Provido em Parte. Em face da aludida decisão, foi interposto recurso especial pelo contribuinte, arguindo divergência de interpretação quanto à matéria pertinente aos efeitos da coisa julgada de ação judicial que afasta a exigência da CSLL (efls. 1598 e seg.). O referido recurso especial foi integralmente admitido por despacho (efls. 1666 e seg.). A PFN apresentou contrarrazões ao recurso especial (efls. 1670 e seg.), pugnando pela sua improcedência. Concluise, com isso, o relatório. Voto Vencido Conselheiro Luís Flávio Neto, relator. Em seu recurso especial, a recorrente apresentou analiticamente argumentos para a demonstração de divergência jurisprudencial, cumprindo com o que requer o art. 67 do RICARF. Compreendo que o despacho de admissibilidade bem analisou os requisitos de admissibilidade do recurso especial do contribuinte, concluindo corretamente quanto à legitimidade de seu integral conhecimento. O cerne do recurso especial em análise consiste em saber se o contribuinte possui em seu favor decisão judicial com trânsito em julgado que afaste de si a incidência da CSLL. Em sua essência, o tema em análise traz consigo o embate de princípios constitucionais, sopesados por meio de regras objetivamente estabelecidas pelo legislador ordinário. De um lado, o contribuinte tem a seu favor o fundamento notório e comezinho de que o princípio da segurança jurídica tem na coisa julgada um de seus mais consagrados estandartes, de forma que a obediência a uma decisão transitada em julgada, na Fl. 1694DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.695 4 ausência de ação rescisória competente para a sua desconstituição, deve ser reconhecida como prioridade absoluta. Por sua vez, o julgamento da ADIn 15, no qual foi declarada a constitucionalidade da CSL com efeitos erga omnes pelo e. Supremo Tribunal Federal (doravante “STF”), fez surgir um contraargumento, embasado no suposto ferimento do princípio da igualdade: não seria isonômico e conforme o princípio da livre concorrência se apenas algumas empresas, detentoras de decisões com trânsito em julgado, permanecessem desobrigadas do recolhimento de CSL. No embate desses princípios, há regras objetivamente estabelecidas pelo legislador ordinário que, com fundamento no Constituição Federal, tutelam os instrumentos processuais competentes para a desconstituição da coisa julgada (notadamente a ação rescisória), bem como prescrevem as condições para que da norma emanada da decisão transitada em julgado deixe de surtir efeitos (notadamente a modificação do estado de fato ou de direito). No âmbito do CARF, a decisão do legislador competente no sopesamento dos princípios em questão vincula o julgador administrativo (RICARF, art. 62) 1. O instituto da coisa julgada e o caso dos presentes autos. O caso em análise merece que se repise o que é a coisa julgada, qual a sua importância e justificativa no sistema jurídico, bem como qual a sua tutela no Direito positivo brasileiro. Quanto à definição da coisa julgada, nada mais adequado do que o recurso à doutrina processualista. Encontrase nos ensinamentos de FRANCESCO CARNELUTTI1 que a coisa julgada consiste numa declaração de certeza, na imperatividade e na inalterabilidade – pela preclusão de recursos –, que possui o comando da sentença, comando este suplementar ao da lei. Na clássica doutrina nacional, CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO2 também fornece a seguinte lição: “A coisa julgada é a situação de segurança quanto à existência ou inexistência de um direito, assegurada pela imutabilidade dos efeitos da sentença de mérito. Quer se trate de sentença meramente declaratória, constitutiva ou condenatória, ou mesmo quando a demanda é julgada improcedente, no momento em que já não couber recurso algum instituise entre as partes, e em relação ao litígio que foi julgado, uma situação, ou estado, de grande firmeza quanto aos direitos e obrigações que os envolvem, ou que não os envolvem.” Em comum na doutrina desses processualistas, é possível observar que a imutabilidade da norma é essencial para a definição do instituto da coisa julgada. Corroborando com esse entendimento GIUSEPPE CHIOVENDA observou que aludida imutabilidade das decisões já era prestigiada no Digesto romano, de forma que a res judicata imprimiria a um bem ou direito a certeza de sua fruição necessária para que a vida social se desenvolvesse da forma mais segura e pacífica. 1 CARNELUTTI, Francesco, Instituições do processo Civil. Apud: SANTOS, Moacyr Amaral. Comentário ao Código de Processo Civil, Vol. IV, Coleção Forense. São Paulo: Forense, 1998, p. 431432. Às pgs. 184185, conclui o autor, ainda, que: “Coisa julgada, então, significa a decisão de mérito que se obtém por meio do processo de cognição ou, em outros termos, a decisão sobre questões de fundo; as questões de fundo julgadas não são apenas as expressamente resolvidas, como também aquelas cuja solução seja uma premissa necessária para a solução das primeiras e que, portanto, resolvemse implicitamente (a chamada decisão implícita). Já que as questões de ordem não concernem à lide, sua solução não constitui nunca coisa julgada.” 2 DINAMARCO, Cândido Rangel. Nova era do processo civil. 3ª ed. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 200. Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.696 5 De longa data, o processualista OVÍDIO BATISTA DA SILVA3 igualmente aponta para a “imutabilidade do que foi declarado pelo juiz, no sentido de que nem as partes podem, validamente, dispor de modo diverso, transacionando sobre o sentido da declaração contida na sentença nem os juízes, em futuros processos, poderão modificar, ou sequer reapreciar, essa declaração”. A imutabilidade em questão pode alcançar apenas o processo em que foi proferida a decisão ou, ainda, estenderse em relação a outros processos, que envolvam as mesmas partes, as mesmas pretensões e o mesmo objeto. Tratase da distinção entre coisa julgada formal e material. Nas lições de PONTES DE MIRANDA4, a coisa julgada formal se dá “quando não mais se pode discutir no processo o que se decidiu”, de outra ponta, a coisa julgada material “é a que impede discutirse, noutro processo, o que se decidiu.”. Concluiu o jurisconsulto, então, que é “o direito material que determina a qualidade das suas regras, de modo que a coisa julgada formal ou material não é ofendida por essa mutabilidade, nem pela conseqüente alterabilidade dos termos da interpretação ou versão executiva inicial da sentença”. Também se colhe da obra da doutrina processualista ao menos duas perspectivas para justificar a autoridade da coisa julgada: a primeira de ordem política e a outra de ordem jurídica. O fundamento político consiste na necessidade de que a estabilização das relações sociais se opere de modo definitivo, isto porque a procura pela justiça não pode ser indefinida, à custa da instabilidade da vida em sociedade. Desse modo, MOACYR AMARAL SANTOS5, ao observar que a “verdadeira finalidade do processo, como instrumento destinado à composição da lide, é fazer justiça pela atuação da vontade da lei ao caso concreto”, destaca que a “procura da justiça, entretanto, não pode ser indefinida, mas deve ter um limite, por exigência de ordem pública, qual seja a estabilidade dos direitos que inexistiria se não houvesse um termo além daquela sentença que se tornou imutável”. No que tange a explicitação da perspectiva jurídica, ao menos duas teorias se polarizam, notadamente a sustentada por GIUSEPPE CHIOVENDA e a mantida por ENRICO TÚLIO LIEBMAN. Em CHIOVENDA6, encontrase a assim denominada “teoria da vontade do Estado”, segundo a qual a coisa julgada não consubstancia necessariamente a expressão da verdade dos fatos, mas a própria vontade do Estado aplicada ao caso concreto, de forma que “com a sentença só se consegue a certeza da existência de tal vontade e, pois, a incontestabilidade do bem reconhecido ou negado”. E em LIEBMAN7, por sua vez, identificase a concepção de coisa julgada não como necessariamente um efeito da sentença, mas sim um adjetivo, uma qualidade relacionada à definitividade e incontestabilidade desta. 3 SILVA, Ovídio Batista da. Sentença e coisa julgada. Porto Alegre: Ed. Sergio Antonio Fabris, 1988, p. 114. 4 MIRANDA, Pontes. Comentários ao Código de Processo Civil, Tomo V, Forense, 1974, p. 144; 190. 5 SANTOS, Moacyr Amaral. Comentário ao Código de Processo Civil, Vol. IV, Coleção Forense. São Paulo: Forense, 1998, p. 461462. 6 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. Vol. I. Saraiva: São Paulo, 1965, p. 371372. 7 LIEBMAN, Enrico Túlio. Eficácia e autoridade da sentença e outros escritos sobre a coisa julgada. Tradução de Alfredo Buzaid e Benvindo Aires, tradução dos textos posteriores à edição de 1945 e notas relativas ao direito brasileiro vigente de Ada Pellegrini Grinover. 4ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2006, p. 5. “A autoridade da coisa julgada não é um efeito da sentença, como postula a doutrina unânime, mas, sim, modo de manifestarse e produzirse dos efeitos da própria sentença, algo que a esses efeitos se ajunta para qualificalos e reforçalos em sentido bem determinado. Caem todas as definições correntes no erro de substituir uma qualidade dos efeitos da sentença por um efeito seu autônomo. Assim, quando HELLWIG – como já se viu – define a coisa julgada como o efeito específico da sentença, confunde justamente o efeito normal da sentença com a definitividade e incontestabilidade deste efeito.” Fl. 1696DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.697 6 Essa segunda teoria parece encontrar maior acolhida na doutrina nacional. Assim, HUMBERTO THEODORO JÚNIOR8 suscita que o legislador, ao tutelar a coisa julgada, “não tem nenhuma pretensão de valorar a sentença diante dos fatos (verdade) ou dos direitos (justiça). Impeleo tão somente uma exigência de ordem prática, quase banal, mas imperiosa de não mais permitir que se volte a discutir acerca das questões já soberanamente pelo Poder Judiciário. Apenas a preocupação de segurança nas relações jurídicas e de paz na convivência social é que explicam a res judicata.” A proteção à coisa julgada encontra fundamento na Constituição Federal, na qual foi expressamente consagrada entre os direitos fundamentais garantidos por seu art. 5o: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (…) XXXVI a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (doravante “LINDB”) delimita o conceito de coisa julgada em seu art. 6o, conforme a redação que lhe foi dada pela Lei nº 12.376/2010: Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. (...) § 3º Chamase coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.” O antigo Código de Processo Civil, de 1973 (doravante “CPC/73”), assim dispunha sobre o instituto da coisa julgada: Art. 467. Denominase coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário. Art. 468. A sentença, que julgar total ou parcialmente a lide, tem força de lei nos limites da lide e das questões decididas. Art. 469. Não fazem coisa julgada: I os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença; III a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo. Art. 470. Faz, todavia, coisa julgada a resolução da questão prejudicial, se a parte o requerer (arts. 5o e 325), o juiz for competente em razão da matéria e constituir pressuposto necessário para o julgamento da lide. Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação 8 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil. Vol. I, 34ª ed. Rio de Janeiro : Forense, p. 466. Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.698 7 no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II nos demais casos prescritos em lei. Art. 472. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros. Art. 473. É defeso à parte discutir, no curso do processo, as questões já decididas, a cujo respeito se operou a preclusão. Art. 474. Passada em julgado a sentença de mérito, reputarseão deduzidas e repelidas todas as alegações e defesas, que a parte poderia opor assim ao acolhimento como à rejeição do pedido. Art. 475. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença: I proferida contra a União, o Estado, o Distrito Federal, o Município, e as respectivas autarquias e fundações de direito público; II que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à execução de dívida ativa da Fazenda Pública (art. 585, VI). § 1o Nos casos previstos neste artigo, o juiz ordenará a remessa dos autos ao tribunal, haja ou não apelação; não o fazendo, deverá o presidente do tribunal avocálos. § 2o Não se aplica o disposto neste artigo sempre que a condenação, ou o direito controvertido, for de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários mínimos, bem como no caso de procedência dos embargos do devedor na execução de dívida ativa do mesmo valor. § 3o Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença estiver fundada em jurisprudência do plenário do Supremo Tribunal Federal ou em súmula deste Tribunal ou do tribunal superior competente. O Código de Processo Civil, publicado em 2015 (doravante “CPC/2015”), embora trate do instituto do trânsito em julgado em outros dispositivos esparsos, tutelou a matéria especialmente em seus arts. 502 a 508: Art. 502. Denominase coisa julgada material a autoridade que torna imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso. Art. 503. A decisão que julgar total ou parcialmente o mérito tem força de lei nos limites da questão principal expressamente decidida. § 1. O disposto no caput aplicase à resolução de questão prejudicial, decidida expressa e incidentemente no processo, se: I dessa resolução depender o julgamento do mérito; II a seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de revelia; III o juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvêla como questão principal. § 2. A hipótese do § 1o não se aplica se no processo houver restrições probatórias ou limitações à cognição que impeçam o aprofundamento da análise da questão prejudicial. Art. 504. Não fazem coisa julgada: Fl. 1698DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.699 8 I os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença; II a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença. Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; II nos demais casos prescritos em lei. Art. 506. A sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros. Art. 507. É vedado à parte discutir no curso do processo as questões já decididas a cujo respeito se operou a preclusão. Art. 508. Transitada em julgado a decisão de mérito, considerarseão deduzidas e repelidas todas as alegações e as defesas que a parte poderia opor tanto ao acolhimento quanto à rejeição do pedido. No caso dos autos, o contribuinte propôs perante a Justiça Federal o Mandado de Segurança n. 89.00.008110, o quanto teve o seu TRÂNSITO EM JULGADO em 03.11.1992, reconhecendose a inconstitucionalidade da CSLL (efl. 1630 e seg.). 1.1. A interpretação da súmula n. 239 do STF: a posição da Suprema Corte quanto à coisa julgada atinente às relações jurídicotributárias de trato continuado. A Súmula n. 239, enunciada pelo STF nos idos de 13.12.1963, possui a seguinte redação: “Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores.” A aludida Súmula foi editada em um momento histórico muito peculiar e, ainda, vocacionada a tutelar exclusivamente uma categoria de ações judiciais bem definida: ações repressivas, que se voltam contra um débito tributário específico, já existente e previamente identificado. Nessa categoria, estão a ação anulatória, os embargos à execução, a ação de repetição de indébito tributário e o mandado de segurança repressivo. Assim, por exemplo, se o contribuinte ajuizar ação anulatória em face da cobrança do IPTU do ano de 2010, cujo lançamento tributário já concretizado considere ilegal ou inconstitucional e, ao final, obtiver decisão favorável transitada em julgado, nada impedirá a administração municipal de prosseguir a cobrança em relação aos demais anos. A Súmula n. 239, do STF, nada mais faz que espancar dúvidas quanto a isso. A Súmula n. 239 não é aplicável em face de ações preventivas, que têm como objetivo essencial obter declaração do Poder Judiciário quanto à impossibilidade de estabelecimento de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o respectivo ente tributante, ainda que nenhum lançamento tributário já tenha sido realizado. Nessa categoria, destacamse a ação declaratória de inexistência de relação jurídicotributária e o mandado de segurança preventivo. Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.700 9 Essa distinção foi bem observada pelo Ministro TEORI ALBINO ZAVASKI, quando do julgamento do AgRg no Recurso Especial n. 703.526MG, in verbis: “Todavia, há certas relações jurídicas sucessivas que nascem de um suporte fático complexo, formado por um fato gerador instantâneo, inserido numa relação jurídica permanente. Ora, nesses casos, pode ocorrer que a controvérsia decidida pela sentença tenha por origem não o fato gerador instantâneo, mas a situação jurídica de caráter permanente na qual ele se encontra inserido, e que compõe o suporte desencadeador do fenômeno de incidência. Nestes casos, admitese a eficácia vinculante da sentença também em relação aos eventos recorrentes.” Ainda em seus fundamentos, o i. Ministro conclui que o juízo de certeza desenvolvido pela sentença sobre determinada relação jurídica concreta de caráter duradouro decorre de uma situação bem mais ampla que o fenômeno da incidência. A sentença irradia eficácia vinculante enquanto se mantiverem inalterados o direito e o suporte fático sobre os quais estabeleceu o juízo de certeza. Tais concepções são correntes no âmbito do STF, como se observa deste recente julgado: Embargos de declaração no agravo regimental no agravo de instrumento. Omissão. Ocorrência. Súmula 239/STF. Não aplicabilidade. 1. No acórdão recorrido, tomaramse por base os fatos e as provas dos autos para se concluir que as exações objeto de autuação estariam abrangidas pela decisão declaratória, de modo que incide, na espécie, a Súmula 279/STF. 2. A Súmula 239/STF só é aplicável nas hipóteses de processo judicial em que tenha sido proferida a decisão transitada em julgado de exercícios financeiros específicos. 3. Embargos de declaração acolhidos, sem efeitos infringentes. (STF, AI 791071 AgRED, Relator Min. DIAS TOFFOLI, Primeira Turma, julgado em 18/02/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe053 DIVULG 1703 2014 PUBLIC 18032014) Também o e. Superior Tribunal de Justiça (doravante “STJ”) possui posição bastante consolidada sobre a matéria, como se observa das ementas a seguir: TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS. IMPOSSIBILIDADE NESTA VIA. VIOLAÇÃO DOS ARTIGOS 165, 458, 463,II, E 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE AUXÍLIO ALIMENTAÇÃO PAGO EM RAZÃO DE HORAS EXTRAS. COISA JULGADA. LIMITAÇÃO PELO PEDIDO E CAUSA DE PEDIR. PRECEDENTE DA PRIMEIRA SEÇÃO. RCL n. 4.421/DF. SÚMULA 239/STF, INAPLICÁVEL, NO CASO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. (...) 3. Discutese nos presentes autos a ocorrência ou não de coisa julgada a impedir o prosseguimento de execução fiscal para a cobrança de contribuição previdenciária patronal sobre valores referentes a auxíliorefeição quando da prestação de serviços extraordinários, haja vista a existência de anterior sentença transitada em julgado na qual se concluiu pela procedência do pedido de nulidade das NFLDs, cuja causa de pedir foi a natureza indenizatória das verbas sobre as quais se pretende a incidência da contribuição. 4. A princípio, há coisa julgada em razão da identidade do pedido (inexistência de exigibilidade da exação) e causa de pedir (impossibilidade de incidência de contribuição previdenciária sobre parcela cunho indenizatório, especificamente valerefeição pago em razão de horas extraordinárias). Fl. 1700DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.701 10 5. Todavia, não seria recomendável conclusão acerca do tema em estudo, sem antes analisar o teor da Súmula 239 do Supremo Tribunal Federal, que estabelece: "decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores." 6. Segundo precedente do Supremo Tribunal (AI 11.227) que esclarece a aplicação da Súmula, quando a decisão se firma pela improcedibilidade da exação em razão de peculiaridades do ato de lançamento ou em razão de reconhecimento de prescrição, a coisa julgada ali reconhecida, é restrita àquele exercício. Todavia, se a conclusão for em razão de ilegalidade do imposto em si mesmo, ou de sua inconstitucionalidade, ou referirse a tributabilidade, então, tratandose de imposto continuativo e de obrigação periódica, o julgado proferido conservará sua eficácia, protegido sob o manto da coisa julgada. Se, todavia, a decisão que afasta a cobrança do tributo se restringe a determinado exercício (a exemplo dos casos onde houve a declaração de inconstitucionalidade somente do art. 8º, da Lei n. 7.689/88), aplicase o enunciado n. 239 da Súmula do STF, por analogia, in verbis: "Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores". 7. No caso dos autos, há julgado anterior, envolvendo as mesmas partes, afirmando a nulidade de NFLD'S em razão de contribuição previdenciária incidir sobre parcela reconhecida de natureza indenizatória. Assim, a decisão ataca o tributo em seu aspecto material da hipótese de incidência, não havendo como exigir o seu pagamento sem ofender a coisa julgada, ainda que para exercícios posteriores. Precedente: EREsp Nº 731.250 PE, Primeira Seção, Rel. Min. José Delgado, julgado em 28.5.2008; e REsp Nº 731.250 PE, Segunda Turma, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 17.4.2007. 8. Recurso especial parcialmente conhecido, e, nesta parte, provido. (STJ, REsp 1057733/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 28/06/2011, DJe 03/08/2011) TRIBUTÁRIO. ICMS. VENDA A PRAZO. ENCARGOS INCIDENTES. BASE DE CÁLCULO. VALOR TOTAL. LEGALIDADE DA INCLUSÃO. COISA JULGADA. SÚMULA 7/STJ. (...) 3. A orientação do STJ é de que, em matéria tributária, se a conclusão da sentença transitada em julgado "for em razão de ilegalidade do imposto em si mesmo, ou de sua inconstitucionalidade, ou referirse a tributabilidade, então, tratandose de imposto continuativo e de obrigação periódica, o julgado proferido conservará sua eficácia, protegido sob o manto da coisa julgada" (REsp 1.057.733/RS, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, DJe 3/8/2011). 4. Contudo, no mesmo precedente, ficou assentado que, "Se, todavia, a decisão que afasta a cobrança do tributo se restringe a determinado exercício (a exemplo dos casos onde houve a declaração de inconstitucionalidade somente do art. 8º, da Lei n. 7.689/88), aplicase o enunciado n. 239 da Súmula do STF, por analogia, in verbis: 'Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores'" (destaquei). (...) (AgRg no AREsp 501.291/RS, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 07/05/2015, DJe 01/07/2015) Tal questão não passou desapercebida pelo STJ ao prolatar o REsp 1.118.893, atinente ao tema da CSL ora sob julgamento, que assim consignou: Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.702 11 “6. Segundo um dos precedentes que deram origem à Súmula 239/STF, em matéria tributária, a parte não pode invocar a existência de coisa julgada no tocante a exercícios posteriores quando, por exemplo, a tutela jurisdicional obtida houver impedido a cobrança de tributo em relação a determinado período, já transcorrido, ou houver anulado débito fiscal. Se for declarada a inconstitucionalidade da lei instituidora do tributo, não há falar na restrição em tela (Embargos no Agravo de Petição 11.227, Rel. Min. CASTRO NUNES, Tribunal Pleno, DJ 10/2/45)”. Desse modo, a Súmula n. 239 do STF não obsta a fruição dos efeitos da coisa julgada obtida pelo contribuinte, não se prestando, portanto, como argumento para a manutenção dos lançamentos tributários impugnados. 2. Alterações na legislação enfrentada na ação judicial com trânsito em julgado. O rito dos recursos repetitivos e o REsp 1.118.893MG. A imutabilidade inerente às decisões transitadas em julgado deve representar a certeza absoluta quanto à aplicação de um determinado regramento legal a uma situação potencialmente praticável pelo beneficiário da medida judicial. Tratase, como se viu, de um direito fundamental, reconhecido pelo art. 5o, XXXVI, da Constituição, à estabilização das expectativas. A autoridade da coisa julgada deverá ser observada de maneira absoluta, salvo na hipótese de observarem uma das seguintes condições: Fatores legislativos: O legislador não possui competência para fazer cessar pura e simplesmente os efeitos da coisa julgada sem alterar o estado de direito por ela tutelada (CF, art. 5o, XXXVI). No entanto, a modificação do estado de direito promovida pelo legislador torna ineficaz a norma prescrita pela sentença, que passará a ter como objeto um sistema normativo já revogado. Fatores jurisdicionais: O Poder Judiciário, por meio de instrumento processual próprio (notadamente a ação rescisória) e em hipóteses restritas, tem competência para desconstituir a coisa julgada. Tanto o novo quanto o antigo Código de Processo Civil são expressos a respeito de duas hipóteses para que cessem os efeitos jurídicos da decisão transitada em julgado que tutela relações jurídicas de trato continuado: Antigo Código de Processo Civil Art. 471. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica continuativa, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito; caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; (...). Novo Código de Processo Civil Art. 505. Nenhum juiz decidirá novamente as questões já decididas relativas à mesma lide, salvo: I se, tratandose de relação jurídica de trato continuado, sobreveio modificação no estado de fato ou de direito, caso em que poderá a parte pedir a revisão do que foi estatuído na sentença; Fl. 1702DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.703 12 (...). A aplicação da norma processual requer que se identifique quando há “modificação no estado de fato ou de direito”, isto é, em que hipótese haveria essa mudança substancial no esquema normativo capaz de tornar ineficaz a coisa julgada. Para essa questão fulcral à solução do caso ora sob julgamento, há conceitos teóricos fundamentais que não podem ser desprezados, muitos deles retratados por TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR9 em trabalho publicado sobre o tema, da qual se destaca, in verbis: “Um regime jurídico é sempre um sistema significativo, isto é, conjunto de relações entre elementos, determinadas por regras (estrutura) e um conjunto de elementos determinados por regras (estrutura) e um conjunto de elementos, determinados por seus atributos (repertório), que conferem ao regime o seu sentido jurídico. Um sistema é alterado quando sua estrutura é modificada, quer pela introdução de novas regras, que substituem ou acrescem as anteriores, o que pode acontecer pela introdução de novos elementos, que também substituem ou acrescem os anteriores, exigindo novas regras. Mas nem toda alteração das regras ou dos elementos provoca uma mudança no sistema, isto é, muda o seu sentido. As relações (estrutura do sistema) são básicas ou secundárias, conforme sejam básicas ou secundárias as regras. Básicas são as regras cuja mudança mantém o sentido das relações. Por exemplo, admitindose que o jogo de xadrez é um sistema, a regra de que o cavalo se movimenta por duas casas em linha, com um terceiro movimento à casa esquerda ou direita é básica. Mudála é alterar a estrutura e o sentido do jogo (sistema). Já a regra que autoriza principiar o jogo com o movimento de um peão branco é secundária: se for combinado ao contrário, o sentido do jogo permaneceria. (...) no sistema da língua normativa que disciplina a pesca por razões ambientais, em termos de direito público, a substituição da regra: é proibido pescar em lagos sob proteção ambiental sob pena de multa de R$ 100,00 a ser recolhido ao Funda Nacional de Pesca pela regra é permitido pescar em determinado lago antes submetido à proteção ambiental altera a relação entre o eventual pescador e autoridade (muda o regime jurídico); já a substituição pela regra: é proibido pescar em lagos protegidos sob pena de R$ 200,00 a ser recolhido ao Fundo Nacional de Pesca não altera a relação (de proibição). Já os atributos, que definem os elementos, são essenciais ou contingentes. O atributo do recolhimento ao Fundo Nacional de Pesca é contingente, mas é essencial ao recolhimento a explicitação de algum destino a um determinado fundo público dado à multa. Esta é a base da colmatação das chamadas lacunas técnicas (no caso, quando se determina o recolhimento a um fundo, sem explicar qual).” A identificação de qual regra básica, cuja mudança seria capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada, depende da análise do objeto da respectiva ação judicial. A título de exemplo, podese cogitar de uma ação judicial promovida em face de uma lei municipal que estabelecesse alíquota de ISS no patamar de 15%, julgada procedente por decisão transitada em julgado, cujo pedido requeresse a declaração de inconstitucionalidade ou ilegalidade de cobranças superiores ao limite estabelecido por Lei Complementar, com fulcro no art. 156, § 3º, I, da Constituição Federal. 9 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Coisa julgada em matéria tributária e as alterações sofridas pela legislação da contribuição social sobre o lucro Lei n. 7.689/88. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 125. São Paulo: Dialética, 2006, p. 91. Fl. 1703DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.704 13 Nessa hipótese, a questão fundamental residiria em um elemento da obrigação tributária (e não da hipótese de incidência): a alíquota. Seriam indiferentes à autoridade da coisa julgada, por exemplo, alterações legislativas atinentes a questões procedimentais ou vocacionadas ao melhor delineamento da hipótese de incidência. A abrangência do pedido tornaria indiferente à autoridade da coisa julgada alterações na lei municipal que reduzissem a alíquota do ISS para 14% ou qualquer outro patamar superior àquele previsto pela Lei Complementar, notadamente no art. 8O, II, da Lei Complementar n. 116, no qual o atual limite é de 5%. A abrangência do pedido formulado também tornaria indiferente à autoridade da coisa julgada, por exemplo, alterações legislativas realizadas no texto da Lei Complementar 116, elevando o percentual máximo para 6% ou reduzindoo para 4%. A autoridade da coisa julgada permaneceria hígida, devendo o novo percentual da lei complementar ser respeitado. Em todas essas situações, teríamos a tutela de “relação jurídica de trato continuado”, em que NÃO “sobreveio modificação no estado de fato ou de direito”, o que obriga o respeito à coisa julgada (CPC/2015, art. 505, I). Nesse caso hipotético, fica claro como são restritas as hipóteses de modificação do estado de direito capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada. Para tanto, seria necessário, por exemplo, que o município passasse a exigir o ISS dentro dos limites previstos pela Lei Complementar ou, ainda, que houvesse uma Emenda Constitucional que revogasse a competência do Legislador Complementar para estabelecer limites máximos às alíquotas de ISS estabelecidas pelos municípios. Outro exemplo ilustrativo é fornecido por HELENILSON CUNHA PONTES10, in verbis: “Imaginese o efeito de uma lei que altera a alíquota ou a base de cálculo de um tributo em relação a um contribuinte que possui em seu favor declaração judicial transitada em julgado reconhecendolhe a isenção ou imunidade desse tributo enquanto preenchidas certas condições (juízo sobre a realidade). Nesse caso, embora o parâmetro legal existente à época da propositura da ação judicial pelo contribuinte tenha sido alterado por norma superveniente, tal modificação no estatuto jurídico da relação tributária não tem o condão de afastar a eficácia da coisa julgada antes existente.” Tratandose da CSL, os questionamentos suscitados perante o Poder Judiciário em meados da década de 90 gravitaram geralmente em torno de dois eixos: Inconstitucionalidade formal: exigência de lei complementar para a criação do tributo, o que tornaria indevida sua exigência pela adoção lei ordinária (Lei n. 7.689, de 15.12.1988). Inconstitucionalidade material: identidade da hipótese de incidência do IRPJ e da CSL, com a sobreposição de tributos sobre uma manifestação de riqueza. No caso dos autos, em 03.11.1992 houve o TRÂNSITO EM JULGADO da decisão proferida no Mandado de Segurança n. 89.00.008110, promovido pela recorrente, reconhecendose tanto a inconstitucionalidade material quanto formal desse tributo (efl. 1630 e seg.). No que se refere à inconstitucionalidade formal, a norma individual e concreta detida pelo contribuinte continuará a surtir os efeitos até que o estado de direito que 10 PONTES, Helenilson Cunha. Coisa julgada tributária e inconstitucionalidade. São Paulo: Dialética, 2005, p. 137. Fl. 1704DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.705 14 foi objeto da respectiva ação judicial seja alterado, ou seja, até que sejam veiculadas por Lei Complementar as normas que prescrevem todos os elementos mínimos necessários à incidência, ao cálculo e a identificação do sujeito passivo da CSL. Por sua vez, também foi declarada a inconstitucionalidade material da lei atinente à incidência da CSL, de modo a impedir que esse tributo tenha a mesma hipótese de incidência do IRPJ e onere duplamente a correspondente base de cálculo. A norma individual e concreta detida pelo contribuinte, então, lhe garante de forma imutável que não haja sobreposição do IRPJ e da CSL, afastando a incidência dessa última. Atualmente, é opinião corrente que a aludida sobreposição é autorizada pelo Texto Constitucional. O ponto fulcral do caso sob julgamento, contudo, é que o objeto da ação judicial transitada em julgado em benefício ao contribuinte consiste justamente em impedir que, em relação às partes processuais, haja a incidência da CSL sobre os signos de riqueza já onerados pelo IRPJ. Quais reformas legislativas seriam substancialmente suficientes para a alterações ao estado de direito façam cessar os efeitos da coisa julgada? Resposta: reformas legislativas que alterem a matriz legal da CSL (“lucro”) de tal forma que a sua incidência não seja mais coincidente com a do IRPJ (“renda”), bem como que não sobreponha ônus sobre base de cálculo já tributada por aquele imposto. Em tese, a alteração do estado de direito, requerida pelo CPC/2015 e pelo CPC/73 para que a coisa julgada deixe de surtir efeitos, poderia se dar, por exemplo, se uma lei fosse produzida pela União, revogando a cobrança da CSL e transferindo a fonte de receitas derivadas para outras contribuições (PIS e COFINS, por exemplo), que onerem outras bases autorizadas pela regra de competência tributária do art. 195 da Constituição Federal (receita ou faturamento, por exemplo), mediante o aumento das alíquotas incidentes sobre estas; Sem alterações no estado de direito desse jaez, a autoridade da coisa julgada permanece intacta. No tópico seguinte, serão analisadas criteriosamente as alterações legislativas realizadas na matriz legal da CSL, desde a sua criação até o período objeto do auto de infração sob julgamento. 2.2. A evolução legislativa da CSL: alterações realizadas sobre a Lei n. 7.689/88 até o período compreendido nos autos de infração. A Lei n. 7.689, de 15.12.1988, que instituiu a CSL, estabeleceu a matriz legal desse tributo, apresentando a seguinte redação original: Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social. Art. 2º A base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, antes da provisão para o imposto de renda. § 1º Para efeito do disposto neste artigo: a) será considerado o resultado do períodobase encerrado em 31 de dezembro de cada ano; b) no caso de incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades, a base de cálculo é o resultado apurado no respectivo balanço; c) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: Fl. 1705DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.706 15 1 exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 2 exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computado como receita; 3 exclusão do lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º, § 1º do Decretolei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988, apurado segundo o disposto no art. 19 do Decretolei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977, e alterações posteriores; 4 adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido. § 2º No caso de pessoa jurídica desobrigada de escrituração contábil, a base de cálculo da contribuição corresponderá a dez por cento da receita bruta auferida no período de 1º janeiro a 31 de dezembro de cada ano, ressalvado o disposto na alínea b do parágrafo anterior. Art. 3º A alíquota da contribuição é de oito por cento. Parágrafo único. No exercício de 1989, as instituições referidas no art. 1º do , pagarão a contribuição à alíquota de doze por cento. Art. 4º São contribuintes as pessoas jurídicas domiciliadas no País e as que lhes são equiparadas pela legislação tributária. Art. 5º A contribuição social será convertida em número de Obrigações do Tesouro Nacional OTN, mediante a divisão de seu valor em cruzados pelo valor de uma OTN, vigente no mês de encerramento do períodobase de sua apuração. § 1º A contribuição será paga em seis prestações mensais iguais e consecutivas, expressas em número de OTN, vencíveis no último dia útil de abril a setembro de cada exercício financeiro. § 2º No caso do art. 2º, § 1º, alínea b, a contribuição social deverá ser paga até o último dia útil do mês subseqüente ao da incorporação, fusão, cisão ou encerramento de atividades. § 3º Os valores da contribuição social e de cada parcela serão expressos em número de OTN até a segunda casa decimal quando resultarem fracionários, abandonandose demais. § 4º Nenhuma parcela, exceto parcela única, será inferior ao valor de dez OTN. § 5º O valor em cruzados de cada parcela será determinado mediante a multiplicação de seu valor, expresso em número de OTN, pelo valor da OTN no mês de seu pagamento. A Lei n. 7.738, de 09.03.1989, estabeleceu o vencimento da CSL para o último dia útil do mês de janeiro do exercício seguinte ao da apuração do resultado, facultado ao contribuinte o direito de optar pelo recolhimento parcelado de que tratava o art. 5º, §1º da Lei n. 7.689, de 15.12.1988: Art. 16. A contribuição social instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988 e o imposto de renda na fonte de que trata o art. 35 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, serão pagos até o último dia do mês de janeiro do exercício financeiro, ressalvado o direito à opção prevista no art. 17. Parágrafo único. As prestações da contribuição social, determinadas com base no balanço levantado em 31 de dezembro de 1988, pelos seus valores em cruzados, convertidos em cruzados novos pela paridade de CZ$ 1.000,00/NCz$ 1,00, serão atualizados monetariamente com base no coeficiente obtido com a divisão do índice do mês do efetivo pagamento pelo índice do mês de abril de 1989. Fl. 1706DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.707 16 Art. 17. A partir do exercício financeiro de 1990, a pessoa jurídica poderá optar pelo pagamento do saldo do imposto de renda, da contribuição social e do imposto de renda na fonte a que se referem o caput dos arts. 15 e 16, nos prazos de que tratam os arts. 3º, II e III, 6º e 7º do DecretoLei nº 2.354, de 24 de agosto de 1987, o art. 1º, § 1º, do DecretoLei nº 2.426, de 7 de abril de 1988, o art. 5º, § 1º, da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e o art. 37 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, pelos seus valores atualizados monetariamente. Parágrafo único. A atualização monetária será determinada mediante a multiplicação do valor em cruzados novos da quota do imposto de renda, da prestação da contribuição social ou do imposto de renda na fonte pelo coeficiente obtido com a divisão do índice do mês do efetivo pagamento pelo índice do mês do encerramento do períodobase. Art. 18. O imposto de renda devido pelas pessoas jurídicas, a contribuição social instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e o imposto de renda na fonte de que trata o art. 35 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, correspondentes a períodobase encerrado a partir de 1º de janeiro de 1989, em virtude de incorporação, fusão ou cisão serão pagos até o último dia útil do mês em que ocorrer a incorporação, fusão ou cisão, ressalvado o direito à opção prevista no artigo seguinte. A Lei n. 7.799/89, de 10.07.1989 (conversão da MP n. 68/89) substituiu o índice de atualização monetária de ONT para BTN fiscal: Art. 42. A contribuição social de que trata a Lei n° 7.689, de 15 de novembro de 1988, será convertida em BTN Fiscal, mediante a divisão de seu valor em cruzados novos pelo valor do BTN Fiscal no dia do encerramento do período base de sua apuração. § 1° A contribuição social será paga segundo o disposto nos §§ 1°, 2° e 3° do art. 5° da Lei n° 7.689, estabelecendose que as referências feitas a OTN, nessa Lei, ficam substituídas para BTN Fiscal. (Vetado) § 2° Nenhuma parcela da contribuição social, exceto parcela única, será inferior ao valor de cinqüenta BTN Fiscal. § 3° O valor em cruzados novos de cada parcela da contribuição social será determinado mediante a multiplicação de seu valor, expresso em BTN Fiscal, pelo valor do BTN Fiscal no dia do pagamento. § 4° O valor da reserva de reavaliação, baixado durante o períodobase, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do exercício, deverá ser adicionado ao lucro líquido para determinação da base de cálculo da contribuição social. A Lei n. 7.787, de 30.06.1989, também inseriu a regra de antecipação por estimativas para a CSL, à semelhança do IRPJ: Art. 8º A contribuição instituída pela Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, será paga, juntamente com as parcelas do Imposto de Renda Pessoa Jurídica, sob a forma de antecipações, duodécimos ou cotas, observadas, no que couber, as demais condições estabelecidas nos arts. 2º a 7º do DecretoLei nº 2.354, de 24 de agosto de 1987 A Lei n. 7.856, de 24.10.1989, elevou a alíquota da CSL de 8% para 10%, e para 14% no caso de instituições financeiras, a incidir já sobre os resultados apurados em 31.12.1989: Fl. 1707DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.708 17 Art. 2º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período base de 1989, a alíquota da contribuição social de que se trata o artigo 3º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passará a ser de dez por cento. Parágrafo único. No exercício financeiro de 1990, as instituição referidas no art. 1º do DecretoLei nº 2.426, de 7 de abril de 1988, pagarão a contribuição à alíquota de quatorze por cento. A Lei n. 7.988, de 28.12.1989, incluiu o lucro decorrente de exportações beneficiadas com incentivos fiscais na base de cálculo da CSL: Art. 1º A partir do exercício financeiro de 1990, correspondente ao período base de 1989: I passará a ser 18% (dezoito por cento) a alíquota aplicável ao lucro decorrente de exportações incentivadas, de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.413, de 10 de fevereiro de 1988; II o lucro decorrente de exportações incentivadas não será excluído da base de cálculo da contribuição social, de que trata a Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988; Art. 9º Revogamse o art. 8º da Lei nº 6.468, de 14 de novembro de 1977, o DecretoLei nº 1.692, de 29 de agosto de 1979, o § 1º do art. 17 do Decreto Lei nº 2.433, de 19 de maio de 1988, alterado pelo DecretoLei nº 2.451, de 29 de julho de 1988, o nº 3 da alínea c do § 1º do art. 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, e demais disposições em contrário. A Lei n. 8.034, de 12.04.1990, deu nova redação à alínea “c”, § 2o, art. 2o, da Lei n. 7.689/88, promovendo a elevação da base de cálculo da CSL para inclusão dos itens ali arrolados, para os resultados apurados a partir de 01.01.1990: Art. 2º A alínea c do § 1º do art. 2º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passa a vigorar com a seguinte redação: "Art. 2º....................................................................... 1º.................................................................................. c ) o resultado do períodobase, apurado com observância da legislação comercial, será ajustado pela: 1 adição do resultado negativo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 2 adição do valor de reserva de reavaliação, baixada durante o períodobase, cuja contrapartida não tenha sido computada no resultado do períodobase; 3 adição do valor das provisões não dedutíveis da determinação do lucro real, exceto a provisão para o Imposto de Renda; 4 exclusão do resultado positivo da avaliação de investimentos pelo valor de patrimônio líquido; 5 exclusão dos lucros e dividendos derivados de investimentos avaliados pelo custo de aquisição, que tenham sido computados como receita; 6 exclusão do valor, corrigido monetariamente, das provisões adicionadas na forma do item 3, que tenham sido baixadas no curso de períodobase. A Lei n. 8.114, de 12.12.90, fixou a alíquota de 15% de CSL para as instituições financeiras: Art. 11. A partir do exercício financeiro de 1991, as instituições referidas no artigo 1º do Decretolei nº 2.426, de 07 de abril de 1988, pagarão a contribuição prevista no artigo 3º da Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, à alíquota de quinze por cento. Fl. 1708DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.709 18 O Decreto n. 332, de 04.11.1991, ao regular a Lei nº 8.200 de 28.06.1991, fixou novas regras para a base de cálculo da contribuição social a incidir sobre os resultados de 31.12.91, determinando a adição dos valores referentes à parcela dos encargos de depreciação, amortização, exaustão, ou do custo de bem baixado a qualquer título, que corresponder à diferença de correção monetária pelo IPC e pelo BTN Fiscal: Art. 41. 0 resultado da correção monetária de que trata este capítulo não influirá na base de cálculo da contribuição social (Lei nº 7.689/88 e do imposto de renda na fonte sobre o lucro líquido (Lei nº 7.713/88, art. 35). § 1º Caso o resultado seja credor, sua distribuição a sócio ou acionista pessoa física acarretará a cobrança do imposto de renda na fonte, calculado segundo o previsto no art. 25 da Lei nº 7.713, de 22 de dezembro de 1988, devendo essa incidência ocorrer, também, na hipótese da redução do capital aumentado com parcela do referido resultado, na proporção do valor da redução. § 2º Os valores a que se refere o art. 39, computados em conta de resultado, deverão ser adicionados ao lucro líquido na determinação da base de cálculo da contribuição social (Lei nº 7.689/88) e do imposto sobre o lucro líquido (Lei nº 7.713/88, art. 35). 3º Não será atribuído custo às ações ou quotas recebidas em bonificação pelos acionistas ou sócios em razão da capitalização do saldo credor da correção monetária das contas referidas neste capítulo. Em 24.07.1991, a Lei n. 8.212 elevou a alíquota geral da CSL de 8% para 10% e fixou a alíquota de 15% de CSL todas as pessoas jurídicas cuja constituição, organização funcionamento e operações são fiscalizadas pela SUSEP, atribuindo, assim, mesmo tratamento dado às instituições financeiras: Art. 23. As contribuições a cargo da empresa provenientes do faturamento e do lucro, destinadas à Seguridade Social, além do disposto no art. 22, são calculadas mediante a aplicação das seguintes alíquotas: I 2% (dois por cento) sobre sua receita bruta, estabelecida segundo o disposto no § 1º do art. 1º do Decretolei nº 1.940, de 25 de maio de 1982, com a redação dada pelo art. 22, do Decretolei nº 2.397, de 21 de dezembro de 1987, e alterações posteriores; 9 II 10% (dez por cento) sobre o lucro líquido do períodobase, antes da provisão para o Imposto de Renda, ajustado na forma do art. 2º da Lei nº 8.034, de 12 de abril de 1990. 10 § 1º No caso das instituições citadas no § 1º do art. 22 desta Lei, a alíquota da contribuição prevista no inciso II é de 15% (quinze por cento). 11 § 2º O disposto neste artigo não se aplica às pessoas de que trata o art. 25. No mesmo ano, a Lei Complementar n. 70, de 30.12.1991, elevou a alíquota da CSL exclusivamente das instituições financeiras e para as pessoas jurídicas sujeitas à fiscalização da SUSEP, de 15% para 23%: Art. 11. Fica elevada em oito pontos percentuais a alíquota referida no § 1° do art. 23 da Lei n° 8.212, de 24 de julho de 1991, relativa à contribuição social sobre o lucro das instituições a que se refere o § 1° do art. 22 da mesma lei, mantidas as demais normas da Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988, com as alterações posteriormente introduzidas. Parágrafo único. As pessoas jurídicas sujeitas ao disposto neste artigo ficam excluídas do pagamento da contribuição social sobre o faturamento, instituída pelo art. 1° desta lei complementar. Fl. 1709DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.710 19 Ainda naquele ano, a Lei n. 8.383, de 30.12.1991, introduziu modificações no parâmetro de atualização e prazo para pagamento da CSL, dispondo, ainda, sobre a possibilidade de compensação de créditos provenientes de pagamento indevido ou a maior: Art. 44. Aplicamse à contribuição social sobre o lucro (Lei n.° 7.689, de 1988) e ao imposto incidente na fonte sobre o lucro líquido (Lei n° 7.713, de 1988, art. 35) as mesmas normas de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas. Parágrafo único. Tratandose da base de cálculo da contribuição social (Lei n° 7.689, de 1988) e quando ela resultar negativa em um mês, esse valor, corrigido monetariamente, poderá ser deduzido da base de cálculo de mês subseqüente, no caso de pessoa jurídica tributada com base no lucro real. Art. 79. O valor do imposto de renda incidente sobre o lucro real, presumido ou arbitrado, da contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988) e do imposto sobre o lucro líquido (Lei n° 7.713, de 1988, art. 35), relativos ao exercício financeiro de 1992, períodobase de 1991, será convertido em quantidade de Ufir diária, segundo o valor desta no dia 1° de janeiro de 1992. Parágrafo único. Os impostos e a contribuição social, bem como cada duodécimo ou quota destes, serão reconvertidos em cruzeiros mediante a multiplicação da quantidade de Ufir diária pelo valor dela na data do pagamento. Art. 80. Fica autorizada a compensação do valor pago ou recolhido a título de encargo relativo à Taxa Referencial Diária (TRD) acumulada entre a data da ocorrência do fato gerador e a do vencimento dos tributos e contribuições federais, inclusive previdenciárias, pagos ou recolhidos a partir de 4 de fevereiro de 1991. Art. 81. A compensação dos valores de que trata o artigo precedente, pagos pelas pessoas jurídicas, darseá na forma a seguir: (...) II os valores referentes à TRD pagos em relação às parcelas da contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988), do Finsocial e do PIS/Pasep, somente poderão ser compensados com as parcelas a pagar de contribuições da mesma espécie; Art. 89. As empresas que optarem pela tributação com base no lucro presumido deverão pagar o imposto de renda da pessoa jurídica e a contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 1988): I relativos ao períodobase de 1991, nos prazos fixados na legislação em vigor, sem as modificações introduzidas por esta lei; II a partir do anocalendário de 1992, segundo o disposto no art. 40. A Lei n. 8.541, de 23.12.1992, por sua vez, dispôs sobre a apuração e pagamento da CSL, estatuindo a base de cálculo do tributo em 10% da receita bruta mensal para empresas tributadas com base no lucro real, optantes pelo pagamento do imposto mensal calculado por estimativa: Art. 38. Aplicamse à contribuição social sobre o lucro (Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988) as mesmas normas de pagamento estabelecidas por esta lei para o Imposto de Renda das pessoas jurídicas, mantida a base de cálculo e Fl. 1710DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.711 20 alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta lei. § 1° A base de cálculo da contribuição social para as empresas que exercerem a opção a que se refere o art. 23 desta lei será o valor correspondente a dez por cento da receita bruta mensal, acrescido dos demais resultados e ganhos de capital. § 2° A base de cálculo da contribuição social será convertida em quantidade de Ufir diária pelo valor desta no último dia do períodobase. § 3° A contribuição será paga até o último dia útil do mês subseqüente ao de apuração, reconvertida para cruzeiro com base na expressão monetária da Ufir diária vigente no dia anterior ao do pagamento. Art. 39. A base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, apurada no encerramento do anocalendário, pelas empresas referidas no art. 38, § 1°, desta lei, será convertida em Ufir diária, tomandose por base o valor desta no último dia do período. § 1° A contribuição social, determinada e recolhida na forma do art. 38 desta lei, será reduzida da contribuição apurada no encerramento do anocalendário. § 2° A diferença entre a contribuição devida, apurada na forma deste artigo, e a importância paga nos termos do art. 38, §1°, desta lei, será: a) paga em quota única, até a data fixada para entrega da declaração anual, quando positiva; b) compensada, corrigida monetariamente, com a contribuição mensal a ser paga nos meses subseqüentes ao fixado para entrega da declaração anual, se negativa, assegurada a alternativa de restituição do montante pago a maior. A Lei n. 8.981, de 20.01.1995, aproximando ainda mais a CSL do IRPJ, introduziu os seguintes enunciados prescritivos: Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o Imposto de Renda das pessoas jurídicas, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta lei. § 1º Para efeito de pagamento mensal, a base de cálculo da contribuição social será o valor correspondente a dez por cento do somatório: a) da receita bruta mensal; b) das demais receitas e ganhos de capital; c) dos ganhos líquidos obtidos em operações realizadas nos mercados de renda variável; d) dos rendimentos produzidos por aplicações financeiras de renda fixa. § 2º No caso das pessoas jurídicas de que trata o inciso III do art. 36, a base de cálculo da contribuição social corresponderá ao valor da receita bruta ajustada, quando for o caso, pelo valor das deduções previstas no art. 29. § 3º A pessoa jurídica que determinar o Imposto de Renda a ser pago em cada mês com base no lucro real (art. 35), deverá efetuar o pagamento da contribuição social sobre o lucro, calculandoa com base no lucro líquido ajustado apurado em cada mês. § 4º No caso de pessoa jurídica submetida ao regime de tributação com base no lucro real, a contribuição determinada na forma dos §§ 1º a 3º será deduzida da contribuição apurada no encerramento do período de apuração. Fl. 1711DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.712 21 Art. 58. Para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro, o lucro líquido ajustado poderá ser reduzido por compensação da base de cálculo negativa, apurada em períodosbase anteriores em, no máximo, trinta por cento. Art. 59. A contribuição social sobre o lucro das sociedades civis, submetidas ao regime de tributação de que trata o art. 1º do DecretoLei nº 2.397, de 1987, deverá ser paga até o último dia útil do mês de janeiro de cada anocalendário. Art. 117. Revogamse as disposições em contrário, e, especificamente: (...) II o parágrafo único do art. 44 e o art. 47 da Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991; A Lei n. 9.065, de 20.06.1995, deu nova redação à alteração outrora introduzida pela Lei 8.981/95, estabelecendo a alíquota da CSL em 9% sobre a receita bruta ajustada, especificadamente para instituições financeiras: Art. 1º Os dispositivos da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, adiante indicados, passam a vigorar com a seguinte redação: (...) Art. 57. Aplicamse à Contribuição Social sobre o Lucro (Lei nº 7.689, de 1988) as mesmas normas de apuração e de pagamento estabelecidas para o imposto de renda das pessoas jurídicas, inclusive no que se refere ao disposto no art. 38, mantidas a base de cálculo e as alíquotas previstas na legislação em vigor, com as alterações introduzidas por esta Lei. (...) § 2º No caso das pessoas jurídicas de que trata o inciso III do art. 36, a base de cálculo da contribuição social corresponderá ao valor decorrente da aplicação do percentual de nove por cento sobre a receita bruta ajustada, quando for o caso, pelo valor das deduções previstas no art. 29. A Lei n. 9.249, de 26.12.1995, novamente alterou a alíquota da CSL, que passou a ser, em geral, de 8% e de 18% para as instituições arroladas no § 1º do art. 22 da Lei nº 8.212, de 24.07.1991, e a base de cálculo da CSL mensal para 12% da receita bruta: Art. 19. A partir de 1º de janeiro de 1996, a alíquota da contribuição social sobre o lucro líquido, de que trata a Lei nº 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passa a ser de oito por cento. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica às instituições a que se refere o § 1º do art. 22 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, para as quais a alíquota da contribuição social será de dezoito por cento. Art. 20. A partir de 1º de janeiro de 1996, a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas pessoas jurídicas que efetuarem o pagamento mensal a que se referem os arts. 27 e 29 a 34 da Lei nº 8.981, de 20 de janeiro de 1995, e pelas pessoas jurídicas desobrigadas de escrituração contábil, corresponderá a doze por cento da receita bruta, na forma definida na legislação vigente, auferida em cada mês do anocalendário. Fl. 1712DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.713 22 A Lei n. 9.316, de 22.11.1996, por sua vez, vedou a exclusão do valor da CSL na sua própria base de cálculo: Art. 1º O valor da contribuição social sobre o lucro líquido não poderá ser deduzido para efeito de determinação do lucro real, nem de sua própria base de cálculo. Parágrafo único. Os valores da contribuição social a que se refere este artigo, registrados como custo ou despesa, deverão ser adicionados ao lucro líquido do respectivo período de apuração para efeito de determinação do lucro real e de sua própria base de cálculo. Art. 2. A contribuição social sobre o lucro líquido, devida pelas instituições a que se refere o § 1º do art. 22 da Lei no 8.212, de 24 de julho de 1991, será calculada à alíquota de dezoito por cento. A Lei n. 9.430, de 27.12.1996, em especial, determinou: Art. 28. Aplicamse à apuração da base de cálculo e ao pagamento da contribuição social sobre o lucro líquido as normas da legislação vigente e as correspondentes aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71, desta Lei. Art. 29 dessa última Lei determinou que a apuração da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido corresponderá [...] à soma dos valores: I – de que trata o art. 20 da Lei nº 9.249, de 26 de dezembro de 1995; II – os ganhos de capital, os rendimentos e ganhos líquidos auferidos em aplicações financeiras, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não abrangidas pelo inciso anterior e demais valores determinados nesta Lei, auferidos naquele mesmo período. A Lei n. 9.532, de 10.12.1997, trouxe alterações em relação a inclusões e deduções da base de cálculo da CSLL: Art. 60. O valor dos lucros distribuídos disfarçadamente, de que tratam os arts. 60 a 62 do DecretoLei nº 1.598, de 1977, com as alterações do art. 20 do DecretoLei nº 2.065, de 26 de outubro de 1983, serão, também, adicionados ao lucro líquido para efeito de determinação da base de cálculo da contribuição social sobre o lucro líquido. Ao tutelar a tributação das controladas e coligadas no exterior, a MP n. 2158 35/2001 previu que para fim de determinação da base de cálculo da CSLL, os lucros, rendimentos e ganhos de capital seriam considerados disponibilizados na data do balanço no qual fossem apurados: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Parágrafo único. Os lucros apurados por controlada ou coligada no exterior até 31 de dezembro de 2001 serão considerados disponibilizados em 31 de dezembro de 2002, salvo se ocorrida, antes desta data, qualquer das hipóteses de disponibilização previstas na legislação em vigor. A Lei n. 10.637, de 30.12.2002 fixou a alíquota da CSL em 9% para os fatos geradores ocorridos a partir de 01.01.2003. Fl. 1713DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.714 23 Art. 37. Relativamente aos fatos geradores ocorridos a partir de 1o de janeiro de 2003, a alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), instituída pela Lei no 7.689, de 15 de dezembro de 1988, será de 9% (nove por cento). Por fim, houve ainda uma alteração legislativa em 2008, que não é aplicável ao caso concreto em vista do princípio da anterioridade, que impõe a sua vigência para fatos ocorridos a partir de 2009. No entanto, a referida alteração sequer influenciaria na análise ora empreendida: Art. 17. O art. 3o da Lei no 7.689, de 15 de dezembro de 1988, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 3o A alíquota da contribuição é de: I – 15% (quinze por cento), no caso das pessoas jurídicas de seguros privados, das de capitalização e das referidas nos incisos I a VII, IX e X do § 1o do art. 1o da Lei Complementar no 105, de 10 de janeiro de 2001; e II – 9% (nove por cento), no caso das demais pessoas jurídicas.” Como se pode observar, a Lei n. 11.727, de 23.06.2008 apenas alterou a alíquota da CSL para 15% para empresas de seguros privados, e de capitalização e para as instituições financeiras referidas nos incisos I a VII, e IX e X do art. 1º, §1º da Lei Complementar 105 de 2001, e para 9% para as demais pessoas jurídicas. 2.3. Inexistência de alterações substanciais sobre a legislação enfrentada na respectiva ação judicial: manutenção do “estado de direito” objeto da ação judicial. Analiticamente, as reformas legislativas implementadas “apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária”. Nenhuma delas foi substancial a ponto de representar “modificação no estado de fato ou de direito” capaz de fazer cessar os efeitos da coisa julgada, conforme prescrito pelo art. 505, I, do CPC/2015. No que é pertinente à inconstitucionalidade formal, é possível observar que apenas uma lei complementar tutelou a CSL até o momento. A Lei Complementar 70/91, como se viu, apenas elevou a alíquota da CSL em situações específicas, não se propondo a regrar quaisquer outros aspectos do tributo. Permanece inalterado, portanto, o estado de direito analisado pela decisão transitada em julgado, que reconheceu a aludida inconstitucionalidade formal do tributo. Materialmente, do mesmo modo, não houve reforma legislativa capaz de modificar o estado de direito declarado materialmente inconstitucional pela decisão transitada em julgado detida pelo contribuinte. As referidas reformas, como se pôde constatar, trataram de questões procedimentais, de alíquotas e de detalhes da base de cálculo. Alterações na alíquota da CSL são completamente irrelevantes, mantendo a coisa julgada sua plena eficácia. Notese que a alíquota da CSL sequer foi objeto da ação judicial transitada em julgado proposta pelo contribuinte. Fl. 1714DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.715 24 A inconstitucionalidade material declarada inter partes atingiu outros elementos da “regra matriz de incidência tributária”11: o critério material, do antecedente normativo (hipótese de incidência, fato gerador), e o seu desdobramento na base de cálculo, do consequente normativo (obrigação tributária). Da autoridade da coisa julgada defluem efeitos que atingem etapas anteriores à aplicação da alíquota no processo de aplicação do Direito: como a decisão transitada em julgado impede a incidência da CSL sobre o contribuinte, então a alíquota, que seria relevante caso fosse possível a incidência da norma de incidência tributária, tornase de todo irrelevante. As alterações realizadas na legislação atinente à base de cálculo da CSL igualmente não foram capazes de modificar o estado de direito tutelado pela ação judicial detida pelo contribuinte: referida norma individual e concreta impede que a CSL tenha como hipótese de incidência substrato que se sobreponha à hipótese de incidência do IRPJ, afastando a possibilidade de cobrança da contribuição. Por consequência, alterações pontuais na base de cálculo da CSL, que em nada modificaram a aludida sobreposição da CSL e do IRPJ, em nada modificam o estado de direito tutelado pela coisa julgada. Desde a sua criação até os tempos atuais, a CSL não alterou a sua hipótese de incidência: a pessoa jurídica domiciliada no Brasil (e as que lhe forem equiparadas) que vier a auferir lucro deverá apurar e recolher a contribuição social. Nem sequer uma única reforma foi realizada no art. 1o da Lei 7.689/88, que prescreve o aspecto material da hipótese de incidência da CSL, qual seja, auferir lucro (“Art. 1º Fica instituída contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, destinada ao financiamento da seguridade social”.) Também permaneceram inalterados elementos da obrigação tributária impugnados na ação transitada em julgado devido à sua conexão com o elemento material da hipótese de incidência da CSL. Nenhuma alteração tampouco foi realizada no caput do art. 2o da Lei 7.689/88, segundo o qual “a base de cálculo da contribuição é o valor do resultado do exercício, o qual deve ser considerado antes mesmo da provisão para o imposto de renda. Em especial, o § 1º, “c”, embora tenha ganho nova redação em 1989, 1990 e 2014, mantevese essencialmente inalterado. Conforme a Lei 7.689/88, o art. 2o, § 1º, “c”, seja em sua redação original ou em sua mais atual, a base de cálculo da CSL consiste basicamente no “o resultado do período base, apurado com observância da legislação comercial”, ajustado por adições, exclusões e compensações. A mesma diretriz da redação original da Lei 7.689 permanece inalterada desde a sua publicação, em 1988: a base de cálculo da CSL corresponde a acréscimos patrimoniais, ao “lucro” reconhecido pela legislação de regência. A sobreposição com o IRPJ é evidente e jamais deixou de existir. Embora seja possível argumentar que a Lei Complementar tenha outorgado possibilidades até mais amplas, não há dúvida que o legislador ordinário utiliza sistematicamente, como diretriz central do IRPJ, a teoria da renda enquanto acréscimo patrimonial. A constatação é pragmática: as regras do imposto de renda brasileiro, de forma geral, conduzem a uma base tributável que tende ao acréscimo patrimonial realizado pelo contribuinte em um determinado intervalo de tempo. 11 Vide: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário, linguagem e método. São Paulo: Noeses, 2011. Fl. 1715DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.716 25 Na sistemática do lucro real, a base de cálculo do IRPJ corresponde ao “lucro líquido do período de apuração ajustado pelas adições, exclusões ou compensações prescritas ou autorizadas” por lei. Da mesma forma da CSL, ainda, prevê a legislação que o lucro líquido será apurado “com observância das disposições das leis comerciais”.12 Novamente, portanto, constatase que a ação judicial transitada em julgado, por ter questionado justamente a sobreposição da hipótese de incidência da CSL e do IRPJ, permanece com plena eficácia técnica para normatizar o mesmo estado de direito da época de seu julgamento. É contundente notar que muitas das alterações realizadas sobre a base de cálculo da CSL se prestaram com constância para alinhála à base de cálculo do IRPJ. Tais alterações apenas evidenciam que a CSL e o IRPJ sempre permaneceram com hipóteses de incidência e bases de cálculo sobrepostas. Essa mesma conclusão foi alcançada pelo Colegiado desta CSRF a respeito dessa temática. Na Sessão de 20.01.2015, quando se prolatou o acórdão n. 9101002.087, o voto do i. Conselheiro Relator deu destaque à questão nos seguintes termos: “Ressaltese que a decisão que ampara o contribuinte foi no sentido da inconstitucionalidade da Lei no 7.689/884, na parte em que tomou o mesma fato gerador e base de cálculo do Imposto de Renda das pessoas jurídicas, no caso o lucro. E, apesar de todas as alterações, a Contribuição Social manteve como fato gerador e base de cálculo, o LUCRO”. Mais evidente ainda é a insignificância, ao presente caso, das alterações de natureza meramente procedimental, atinentes à data ou à forma de recolhimento do tributo. Ao analisar o período compreendido entre 1988 e meados de 2005, TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JR13 obteve a mesma conclusão, explicitando fundamentos irretocáveis, in verbis: “(...) para haver mudança nos ‘termos da relação’ é preciso que a modificação daquela consequência ocorra por força da modificação do fato gerador e não por simples alteração da alíquota, mantendose a mesma hipótese de incidência. Ora, a Lei n. 7.689/88 foi, de fato, submetida a inúmeras modificações. Nenhuma delas, porém alterou os ‘termos da relação’, de modo que, por se tratar de norma nova, pudesse ser ignorada a decisão transitada em julgado. (...) Ora, essa insistência na manutenção das demais normas da referida Lei aponta, justamente, para o cerne do esquema de ação julgado inconstitucional, cuja sentença transitou em julgado. Esse cerne do esquema de ação julgado inconstitucional, cuja sentença transitou em julgado. Esse cerne está em que a Lei n. 7.689/88 é, toda ela, inconstitucional por violação dos artigos 146 – III, 154 – I, 165 §5º, inc. III e 195, §§4º e 5º da Constituição Federal de 1988. Não se trata de inconstitucionalidade por elevação de alíquota ou aumento de 12 Decreto 3000/00 (Regulamento do Imposto de Renda), art. 247; DecretoLei no 1.598, de 1977, art. 6; Lei no 8.981, de 1995, art. 37, §1. 13 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Coisa julgada em matéria tributária e as alterações sofridas pela legislação da contribuição social sobre o lucro Lei n. 7.689/88. In: Revista Dialética de Direito Tributário, n. 125. São Paulo: Dialética, 2006, p. 90 e seg. Fl. 1716DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.717 26 tributo por alteração da base de cálculo, nem por ilegalidade nas disposições referentes à sua apuração etc. O cerne diz respeito à instituição de contribuição social por lei ordinária, por seu fato gerador ou sua base de cálculo coincidirem com impostos ou contribuições já existentes (lucro das pessoas jurídicas) e nesse cerne não se vê alterado pela legislação posterior que, a esse respeito, mantém as normas da Lei n. 7.689/88, o que, inclusive, é, reiterada e expressamente, disposto. (...) Em suma, devese entender que o caso da lei que instituiu a Contribuição sobre o Lucro Líquido (Lei n. 7.689/88) é exemplo típico de alteração legislativa que, por cingirse a alterações nominais e acessórias, que não modificam o estado de fato ou de direito (CPC, art. 471, I) existente à época de sua edição, não caracteriza alteração de regime jurídico, não podendo prejudicar a coisa julgada.” Concluise, portanto, que NÃO houve reforma legislativa para a introdução de alterações substanciais, capazes de inaugurar um novo esquema normativo com a modificação do estado de direito que foi objeto da ação judicial proposta pelo contribuinte e que goza da autoridade da coisa julgada. 2.4. O REsp 1.118.893, decidido pelo STJ sob a sistemática dos recursos repetitivos (CPC/73, art. 543C, CPC/2015, arts. 1.036 a 1.040). A fundamentação deste voto, até aqui exposta, poderia ser suplantada com fundamento no art. 62, § 2o, do RICARF. Ocorre que o STJ, sob a sistemática dos recursos repetitivos, por meio do REsp 1.118.893, assentou decisão exatamente sobre o tema ora sob julgamento, como se observa de sua ementa: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. RITO DO ART. 543C DO CPC. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO CSLL. COISA JULGADA. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI 7.689/88 E DE INEXISTÊNCIA DE RELAÇÃO JURÍDICO TRIBUTÁRIA. SÚMULA 239/STF. ALCANCE. OFENSA AOS ARTS. 467 E 471, CAPUT, DO CPC CARACTERIZADA. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL CONFIGURADA. PRECEDENTES DA PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PROVIDO. 1. Discutese a possibilidade de cobrança da Contribuição Social sobre o Lucro CSLL do contribuinte que tem a seu favor decisão judicial transitada em julgado declarando a inconstitucionalidade formal e material da exação conforme concebida pela Lei 7.689/88, assim como a inexistência de relação jurídica material a seu recolhimento. 2. O Supremo Tribunal Federal, reafirmando entendimento já adotado em processo de controle difuso, e encerrando uma discussão conduzida ao Poder Judiciário há longa data, manifestouse, ao julgar ação direta de inconstitucionalidade, pela adequação da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, ao texto constitucional, à exceção do disposto no art 8º, por ofensa ao princípio da irretroatividade das leis, e no art. 9º, em razão da incompatibilidade com os arts. 195 da Constituição Federal e 56 do Ato das Disposições Constitucionais Fl. 1717DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.718 27 Transitórias ADCT (ADI 15/DF, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, DJ 31/8/07). 3. O fato de o Supremo Tribunal Federal posteriormente manifestarse em sentido oposto à decisão judicial transitada em julgado em nada pode alterar a relação jurídica estabilizada pela coisa julgada, sob pena de negar validade ao próprio controle difuso de constitucionalidade. 4. Declarada a inexistência de relação jurídicotributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade da Lei 7.689/88, que instituiu a CSLL, afastase a possibilidade de sua cobrança com base nesse diploma legal, ainda não revogado ou modificado em sua essência. 5. Afirmada a inconstitucionalidade material da cobrança da CSLL, não tem aplicação o enunciado nº 239 da Súmula do Supremo Tribunal Federal, segundo o qual a “Decisão que declara indevida a cobrança do imposto em determinado exercício não faz coisa julgada em relação aos posteriores” (AgRg no AgRg nos EREsp 885.763/GO, Rel. Min. HAMILTON CARVALHIDO, Primeira Seção, DJ 24/2/10). 6. Segundo um dos precedentes que deram origem à Súmula 239/STF, em matéria tributária, a parte não pode invocar a existência de coisa julgada no tocante a exercícios posteriores quando, por exemplo, a tutela jurisdicional obtida houver impedido a cobrança de tributo em relação a determinado período, já transcorrido, ou houver anulado débito fiscal. Se for declarada a inconstitucionalidade da lei instituidora do tributo, não há falar na restrição em tela (Embargos no Agravo de Petição 11.227, Rel. Min. CASTRO NUNES, Tribunal Pleno, DJ 10/2/45). 7. "As Leis 7.856/89 e 8.034/90, a LC 70/91 e as Leis 8.383/91 e 8.541/92 apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária. Por isso, está impedido o Fisco de cobrar a exação relativamente aos exercícios de 1991 e 1992 em respeito à coisa julgada material" (REsp 731.250/PE, Rel. Min. ELIANA CALMON, Segunda Turma, DJ 30/4/07). 8. Recurso especial conhecido e provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543C do Código de Processo Civil e da Resolução 8/STJ. (REsp 1118893/MG, Rel. Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 23/03/2011, DJe 06/04/2011) O STJ delimitou com clareza o objeto do REsp 1.118.893, que tem abrangência para tutelar, conforme as regras dos recursos repetitivos (CPC/2015, art. 543C), “decisão judicial transitada em julgado declarando a inconstitucionalidade formal e material da exação conforme concebida pela Lei 7.689/88, assim como a inexistência de relação jurídica material a seu recolhimento”. 2.4.1. A construção da norma geral e concreta emanada do STJ pelo rito dos recursos repetitivos: a ratio decidendi do REsp 1.118.893 que vincula os Conselheiros do CARF. “Esta conclusão é inexorável em virtude da função que para nós exerce o STJ ao julgar o recurso especial: impor, ao resto do país, a obediência à interpretação que lhe parece a melhor (e, portanto, a única correta) acerca da lei federal”. TERESA ARRUDA ALVIM WAMBIER14 14 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Recurso especial, recurso extraordinário e ação rescisória. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008 , p. 266. Fl. 1718DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.719 28 Os mecanismos processuais, vocacionados a oferecer aos indivíduos segurança e efetividade na composição de conflitos, vêm experimentando constante evolução no Direito brasileiro. E é esse o contexto do advento da Lei 11.672, de 08.05.2008 que, ao introduzir o art. 543C ao CPC/73, regulamentou, no âmbito do STJ, o rito dos chamados “recursos repetitivos” ou “recursos representativos de controvérsia”. No CPC/2015, o rito dos recursos repetitivos passou a constar em seus arts. 1.036 a 1.040, com alterações pontuais. Em comum no CPC de 1973 e no de 2015, há dois elementos fundamentais na aplicação do rito dos recursos repetitivos: (i) multiplicidade de recursos sobre a matéria. Por meio deste aspecto quantitativo, fazse a segregação dos casos que seguirão o procedimento comum dos recursos especiais submetidos ao STJ daqueles afetados ao rito dos recursos repetitivos. (ii) idêntica questão de direito. As matérias afetadas pelo rito dos recursos repetitivos versam sobre questões de direito, de tal forma que a respectiva decisão do STJ terá eficácia sobre outras ações que apresentem pedido e causa de pedir equivalentes, sendo indiferentes aspectos subjetivos. Em uma espécie de julgamento por amostragem, são levados à apreciação dos i. Ministros do STJ tantos recursos especiais quanto sejam necessários para a “mais precisa percepção possível não apenas da questão de direito cuja relevância há de se aferir, como também do conflito em que ela se insere” 15. Os casos selecionados devem propiciar a ventilação dos mais relevantes argumentos no tocante a interpretação que deve ser atribuída à legislação federal, pois a norma decorrente do julgamento proclamado pelo STJ deverá ser aplicada a todos os demais casos que apresentem questão de direito equivalente. Atribuise à decisão do STJ, então, a feição de precedente com “força necessária para servir como ratio decidendi para o juiz subsequente”16. A norma enunciada pelo STJ, por meio de julgamento conduzido conforme o rito dos recursos repetitivos, deverá ser aplicada à generalidade dos processos que, em massa, forem conduzidos perante o Poder Judiciário, com uma decisão in concreto sobre a questão controvertida (ratio decidendi). Tratase, portanto, de norma geral e concreta17. A força vinculante das referidas decisões condiz com a função do STJ de corte uniformizadora, obrigando a todos “em favor da segurança jurídica que o ordenamento deve e precisa proporcionar aos que convivem no grupo social, como o fazem as normas de caráter geral positivadas pela função legislativa”18. 15 TALAMINI, Eduardo. Julgamento de recursos no STJ ‘por amostragem’. Informativo Justen, Pereira Oliveira e Talamini, 2008. Disponível em www.justen.com.br/informativo. 16 MESQUITA, José Ignácio Botelho et al. A repercussão geral e os recursos repetitivos: economia, direito e política, In: Revista de Processo, São Paulo, v. 38, n. 220, p. 1332, jun. 2013, p. 29. 17 Vide: CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 3541. 18 PASSOS, Calmon de. Súmula vinculante. Revista do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, v. 9, n. 1, jan. mar. 1997, p. 163176. Fl. 1719DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.720 29 E é de natural relevância ao presente julgamento notar que a norma em questão, emanada do STJ, não têm eficácia apenas perante os membros do Poder Judiciário. A referida ratio decidendi pode também influenciar os julgamentos de Tribunais Administrativos, como é o caso do CARF. São relevantes as observações de SAMUEL MEIRA BRASIL JUNIOR19, in verbis: “Mas e a administração pública? Poderíamos dizer que a administração pública não está obrigada a seguir o entendimento do STJ? Poderíamos sustentar que a interpretação do STJ sobre determinada lei não precisa ser observada pela administração pública? Haveria espaço para “dois direitos” – se é que podemos chamar assim , um ditado pelo STJ, outro advindo de interpretação contrária da administração pública? O STJ pode dizer que determinada exação tributária não incide e a administração pública pode dizer que incide, porque as decisões do STJ não vinculam? Os órgãos administrativos podem se recusar a reconhecer uma vantagem funcional (ou a reconhecêla, e for o caso), quando os precedentes do STJ dizem o contrário? A administração pública pode insistir em manter um procedimento licitatório quando o STJ afirma que um requisito essencial, com a falta de competitividade, não foi atendido? (...) A resposta a todas essa perguntas é um sonoro e convicto não! Não há como reconhecer a existência de duas interpretações para um só direito. A interpretação divergente de lei federal dada pela administração pública causa grave insegurança jurídica e acarreta a multiplicação desnecessária de processos. A interpretação unificadora do direito federal dada pelo STJ dever ser impositivamente observada, inclusive pela administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. Se o tributo é inexigível, então a respectiva pessoa jurídica de direito público não poderá reclamálo, justificando que os precedentes do STJ não são vinculantes. O mesmo argumento pode ser usado para as demais relações com a administração pública, sejam funcionais, contratuais ou outra qualquer. Portanto, não se compreende o porque da administração pública não estar vinculada aos precedentes do STJ. É dizer que os juízes não podem decidir contra o STJ, mas a administração pública pode. Ora, isso é incongruente! Como justificar essa dualidade de ações? O direito é um só, seja aplicado pela administração pública, seja aplicado pelos juízes. Não é possível dizer que um sistema normativo convive com dois ‘direitos’ distintos, aquele dos juízes e aquele da administração pública.” Em especial, o art. 62, § 2o, do RICARF, obriga aos seus Conselheiros que reproduzam as decisões do Supremo Tribunal Federal (doravante “STF”) e do STJ, desde que tenham sido proferidas pela sistemática da repercussão geral (CPC/73, art. 543B) e dos recursos repetitivos (CPC/73, art. 543C). O STJ, ao determinar a observância do REsp 1.118.893 conforme o regime dos recursos repetitivos, considerou o contexto da criação da CSL pela Lei n. 7.689/88 e de alterações legislativas realizadas na sua matriz legal. A decisão proferida prescreveu a sua abrangência a todas as situações em que leis supervenientes “apenas modificaram a alíquota e a base de cálculo da contribuição instituída pela Lei 7.689/88, ou dispuseram sobre a forma de pagamento, alterações que não criaram nova relação jurídicotributária”. Esse é o critério de 19BRASIL JUNIOR, Samuel Meira, Precedentes vinculantes e jurisprudência dominante na solução das controvérsias. Tese de doutorado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo, USP, 2010, p. 299300. Fl. 1720DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.721 30 distinção estabelecido no REsp 1.118.893, representando o núcleo da ratio decidendi dotada de efeito vinculante e que, por dever de ofício, estão os julgadores do CARF obrigados a reproduzir. Além da enunciação da norma geral e concreta sob o regime dos recursos repetitivos (ratio decidendi), também foi prolatada norma individual e concreta no julgamento do REsp 1.118.893, direcionada às partes do respectivo processual judicial cujo recurso especial foi selecionado. Naturalmente, a decisão individual e concreta em questão adotou a ratio decidendi que passou a ser aplicável a todos os demais litígios que versem sob a matéria. Ao aplicar a ratio decidendi consagrada pelo rito dos recursos repetitivos àquele caso concreto, o STJ observou que os períodos de apuração cuja cobrança pretendia o fisco correspondiam a 1991 e 1992. Desse modo, adotandose para o caso em questão o critério indicado para todos os demais casos que tratem da matéria, o STJ investigou a Lei n. 7.856/89, a Lei n. 8.034/90, a LC n. 70/91, a Lei n. 8.212. , a Lei n. 8.383/91 e a Lei n. 8.541/92, constando que nenhuma delas teve o condão de alterar de substancialmente o tributo que houvera sido objeto de decisão transitada em julgado, mas apenas modificaram alíquotas, alguns detalhes da base de cálculo ou dispuseram sobre a forma de pagamento. Para o caso concreto, então, concluiu que, “Por isso, está impedido o Fisco de cobrar a exação relativamente aos exercícios de 1991 e 1992 em respeito à coisa julgada material”. Não se pode confundir (i) a ratio decidendi da norma geral e concreta emanada pelo STJ conforme o rito dos recursos repetitivos, cuja reprodução é dever de ofício dos julgadores do CARF, (ii) com a norma individual e concreta veiculada no REsp 1.118.893 para a resolução do litígio estabelecido naquele específico processo, a qual consistiu na aplicação da ratio decidendi ao específico período de apuração ali discutido e cujo resultado interessa apenas às partes litigantes. No presente julgamento administrativo, os valores exigidos do contribuinte a título de CSL se referem ao período de 2002 a 2004, fazendose necessário, então, verificar a natureza das alterações legislativas realizadas na matriz legal do tributo até esse período. Esse exercício, como se viu, decorre da necessidade da adoção do critério enunciado pelo STJ para a aplicação do REsp 1.118.893 à massa de casos concretos tutelados pelo regime dos recursos repetitivos (ratio decidendi). Nesse mesmo sentido vem decidindo esta CSRF, como se constata dos acórdãos a seguir ementados CSRF, Sessão de 20.01.2015, acórdão n. 9101002.087. Assunto: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL Anocalendário: 2005 RELAÇÃO JURÍDICO TRIBUTÁRIA CONTINUATIVA. DECISÃO TRANSITADA EM JULGADA EM AÇÃO JUDICIAL QUE DECLARA A INCONSTITUCIONALIDADE DA EXIGÊNCIA DA CSLL NOS TERMOS DA LEI Nº 7.689/88. COISA JULGADA. DECISÃO POSTERIOR EM AÇÃO DIRETA DE CONSTITUCIONALIDADE. EFEITOS. ALCANCE TEMPORAL. RECURSO ESPECIAL 1.118.893 MG (2009/00111359), SUBMETIDO AO REGIME DO ARTIGO 543C DO CPC. ARTIGO 62 A DO REGIMENTO INTERNO DO CARF. Segundo entendimento do STJ proferido no julgamento do Recurso Especial 1.118.893 MG, submetido ao artigo 543 C do CPC: Fl. 1721DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.722 31 Nos casos que envolvem relação jurídico tributária continuativa, a decisão transitada em julgado, declarando a inexistência de relação jurídico tributária entre o contribuinte e o fisco, faz coisa julgada em relação a períodos posteriores. Nos casos em que há decisão judicial transitada em julgado, em controle difuso, declarando a inexistência de relação jurídico tributária entre o contribuinte e o fisco, mediante declaração de inconstitucionalidade de lei que instituiu determinado tributo, a decisão posterior, em controle concentrado, mediante Ação Declaratória de Constitucionalidade, em sentido oposto à decisão judicial transitada em julgado em nada pode alterar a relação jurídica estabilizada pela coisa julgada. CSRF. Sessão de 04.06.2012. Acórdão n. 9101001.369 LIMITES DA COISA JULGADA – Tendo o Superior Tribunal de Justiça, sob a sistemática dos chamados Recursos Repetitivos, reconhecido, na espécie, a efetiva ofensa à coisa julgada, nas hipóteses em que a decisão obtida pelo contribuinte reconhece a inconstitucionalidade incidenter tantum da exigência da CSLL originalmente, pelas disposições da Lei 7689/88 , sejalhe exigida, agora, com a simples referência à existência de diplomas normativos posteriores que rege a matéria, deve os conselheiros desta Corte, reproduzir tal entendimento no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, a teor do disposto no art. 62A do Regimento É, portanto, equivocado cogitar que o REsp 1.118.893, julgado sob o rito dos recursos repetitivos, teria eficácia técnica para alcançar exclusivamente lançamentos tributários realizados até os anos de 1991 e 1992. Tal interpretação destoa dos propósitos de segurança jurídica e de pacificação social em nossa sociedade, que exigem a distribuição em massa da justiça e que justificam os recursos repetitivos, de forma a conduzir para a insegurança jurídica e, em última análise, ao abarrotamento do Poder Judiciário, cuja única solução possível – ao menos diante dos elementos atuais do sistema jurídico brasileiro – será a aplicação do REsp 1.118.893. A ratio decidendi da norma competente emanada pelo STJ, como se evidenciou acima, é perfeitamente aplicável a quaisquer períodos, especialmente porque, até a presente data, não houve de fato alteração ao estado de direito atinente à CSL. 3. Os efeitos da ADIn. 15 sobre a coisa julgada detida pelo contribuinte. Como não foram realizadas modificações substanciais na matriz legal da CSL, mantendose o estado de direito tutelado pela ação judicial promovida pelo contribuinte, deve ser acatada a autoridade da coisa julgada. A essa norma individual e concreta prescrita pela decisão judicial transitada em julgada deve ser dada plena eficácia, salvo na hipótese de uma outra decisão competente do Poder Judiciário lhe retira do sistema. Para a solução do caso ora sob julgamento, portanto, é fundamental analisar a necessidade de ação rescisória para desconstituir a coisa julgada ou, como se sustenta no Parecer PGFN/CRJ n. 492/2011, se da ADIn n. 1520, julgada pelo STF em 2007, surtiriam 20 STF, ADI 15, Relator Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Tribunal Pleno, julgado em 14.06.2007, publicado em 31.08.2007. Ementa: ADIn: legitimidade ativa: "entidade de classe de âmbito nacional" (art. 103, IX, CF): compreensão da "associação de Fl. 1722DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.723 32 efeitos para desconstituir automaticamente a decisão transitada em julgado detida pelo contribuinte. 3.1. O respeito à coisa julgada e a essencialidade de nova norma individual e concreta decorrente de ação rescisória. “(...) se a rescisória é cabível, é, antes, necessária; sendo necessária, não se pode, fora dela, obterse o efeito jurídico que só por ela se pode licitamente obter.” ADA PELLEGRINI GRINOVER21 A hipótese de ajuizamento de ação rescisória para a desconstituição da coisa julgada, em face de pronunciamento definitivo do STF em sentido contrário, pode encontrar fundamento no art. 485, V, do CPC/73 Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: (...) V violar literal disposição de lei; O CPC/2015 trata da ação rescisória especialmente em seu no art. 966. O inciso V desse dispositivo assim dispõe: Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: (...) V violar manifestamente norma jurídica; O CPC/2015 também traz uma novidade aplicável à hipótese de execuções ajuizadas pelo particular contra as fazendas públicas. associações" de classe. Ao julgar, a ADIn 3153AgR, 12.08.04, Pertence, Inf STF 356, o plenário do Supremo Tribunal abandonou o entendimento que excluía as entidades de classe de segundo grau as chamadas "associações de associações" do rol dos legitimados à ação direta. II. ADIn: pertinência temática. Presença da relação de pertinência temática, pois o pagamento da contribuição criada pela norma impugnada incide sobre as empresas cujos interesses, a teor do seu ato constitutivo, a requerente se destina a defender. III. ADIn: não conhecimento quanto ao parâmetro do art. 150, § 1º, da Constituição, ante a alteração superveniente do dispositivo ditada pela EC 42/03. IV. ADIn: L. 7.689/88, que instituiu contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, resultante da transformação em lei da Medida Provisória 22, de 1988. 1. Não conhecimento, quanto ao art. 8º, dada a invalidade do dispositivo, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal, em processo de controle difuso (RE 146.733), e cujos efeitos foram suspensos pelo Senado Federal, por meio da Resolução 11/1995. 2. Procedência da arguição de inconstitucionalidade do artigo 9º, por incompatibilidade com os artigos 195 da Constituição e 56, do ADCT/88, que, não obstante já declarada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 150.764, 16.12.92, M. Aurélio (DJ 2.4.93), teve o processo de suspensão do dispositivo arquivado, no Senado Federal, que, assim, se negou a emprestar efeitos erga omnes à decisão proferida na via difusa do controle de normas. 3. Improcedência das alegações de inconstitucionalidade formal e material do restante da mesma lei, que foram rebatidas, à exaustão, pelo Supremo Tribunal, nos julgamentos dos RREE 146.733 e 150.764, ambos recebidos pela alínea b do permissivo constitucional, que devolve ao STF o conhecimento de toda a questão da constitucionalidade da lei. 21 GRINOVER, Ada Pellegrini. A marcha do processo. Rio de Janeiro : Forense, 2000, p. 335. Fl. 1723DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.724 33 Art. 535. A Fazenda Pública será intimada na pessoa de seu representante judicial, por carga, remessa ou meio eletrônico, para, querendo, no prazo de 30 (trinta) dias e nos próprios autos, impugnar a execução, podendo arguir: (...) § 5. Para efeito do disposto no inciso III do caput deste artigo, considerase também inexigível a obrigação reconhecida em título executivo judicial fundado em lei ou ato normativo considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou do ato normativo tido pelo Supremo Tribunal Federal como incompatível com a Constituição Federal, em controle de constitucionalidade concentrado ou difuso. § 6. No caso do § 5, os efeitos da decisão do Supremo Tribunal Federal poderão ser modulados no tempo, de modo a favorecer a segurança jurídica. § 7. A decisão do Supremo Tribunal Federal referida no § 5 deve ter sido proferida antes do trânsito em julgado da decisão exequenda. § 8. Se a decisão referida no § 5 for proferida após o trânsito em julgado da decisão exequenda, caberá ação rescisória, cujo prazo será contado do trânsito em julgado da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal. Esse é o único exemplo previsto no Direito positivo para que haja a desconstituição de decisão transitada em julgado sem o manejo de ação rescisória: como resposta à execução forçada do particular para o recebimento de devolução de tributo declarado inconstitucional por decisão transitada em julgado após decisão do STF que tenha definitivamente julgado constitucional a cobrança. A doutrina processualista é incisiva neste sentido. Confirase o magistério de HUMBERTO THEODORO JÚNIOR22: “Só por meio de outra decisão judicial é que, nos termos do próprio art. 471, I, do CPC, se admite reconhecer a cessação de eficácia de uma sentença transitada em julgado. O efeito da declaração de constitucionalidade ou de inconstitucionalidade não apaga, automaticamente, a coisa julgada. Em nome da segurança jurídica, a parte, para se subtrair à força da res iudicata, haverá de se valer da ação rescisória, ou de outro remédio processual equivalente, desde que ainda não atingido por preclusão ou decadência. É nesse sentido que se estabeleceu solidamente a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.” Na mesma linha, assevera LEONARDO GRECO23: “A segurança jurídica, como direito fundamental, é limite que não permite a anulação do julgado com fundamento na decisão do STF. O único instrumento processual cabível para essa anulação, quanto aos efeitos já produzidos pela sentença transitada em julgado, é a ação rescisória, se ainda subsistir prazo para sua propositura.” Em igual sentido, NELSON NERY JÚNIOR24 leciona: 22 THEODORO JR., Humberto. Coisa julgada em matéria fiscal lastreada em reconhecimento de inconstitucionalidade de lei – posterior declaração positiva de constitucionalidade da mesma lei pelo STF – efeitos. In: Revista Síntese de Direito Civil e Direito Processual Civil, n. 80, nov./dez. 2012, p. 99100. 23GRECO, Leonardo. Eficácia da declaração erga omnes de constitucionalidade ou inconstitucionalidade em relação à coisa julgada anterior, relativização da coisa julgada – enfoque crítico. Salvador: Jus Podivm, 2004, p. 156. Fl. 1724DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.725 34 “O sistema jurídico brasileiro não admite a relativização (rectius: desconsideração) da coisa julgada fora dos casos autorizados em numeros clausus, pois nesse caso houve negação do fundamento da república do Estado democrático de Direito (art. 1º, caput, da CF), que é formado, entre outros elementos, pela autoridade da coisa julgada.” Dado o seu caráter excepcional, as restritas hipóteses de cabimento da ação rescisória há tempos é objeto de controle do STF. Assim, na Sessão Plenária de 13.12.1963, o STF proclamou a sua Súmula n. 343, que restou assim ementada: “Não cabe ação rescisória por ofensa a literal disposição de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais. A essência desse antigo enunciado sumular consiste na compreensão de que não se pode considerar que uma decisão transitada em julgado ofenda literal disposição de lei quando, no tempo de sua prolação, os Tribunais do país apresentavam entendimentos divergentes quanto ao conteúdo normativo controvertido. Se havia dissenso jurisprudencial, não seria possível afirmar ser “manifesta” a violação normativa. Assim se verificando, nos termos da Súmula n. 343 do STF, a ação rescisória fundada em ofensa a literal disposição de lei, em violação manifesta da norma jurídica, deve ser julgada improcedente ou sequer ser conhecida. Sob o rito da repercussão geral, a referida Súmula n. 343 foi objeto de interpretação e, sob uma certa perspectiva, aparente flexibilização pela Suprema Corte. Assim restou ementado o RE 590.809, de 22.10.2014: AÇÃO RESCISÓRIA VERSUS UNIFORMIZAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA. O Direito possui princípios, institutos, expressões e vocábulos com sentido próprio, não cabendo colar a sinonímia às expressões “ação rescisória” e “uniformização da jurisprudência”. AÇÃO RESCISÓRIA – VERBETE Nº 343 DA SÚMULA DO SUPREMO. O Verbete nº 343 da Súmula do Supremo deve de ser observado em situação jurídica na qual, inexistente controle concentrado de constitucionalidade, haja entendimentos diversos sobre o alcance da norma, mormente quando o Supremo tenha sinalizado, num primeiro passo, óptica coincidente com a revelada na decisão rescindenda. (STF, RE 590809, Relator Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 22/10/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe230 DIVULG 21112014 PUBLIC 24112014) Não obstante a prolação de decisão de mérito sob o rito da repercussão geral no RE 590.809, o STF aparentemente prossegue com a adoção de interpretação restritiva quanto às hipóteses de cabimento da ação rescisória. Destacase, nesse sentido, o posterior 24 NERY JR., Nelson. Coisa julgada e estado democrático de direito. In: Estudos em homenagem à Profª Ada Pellegrini Grinover. YARSHELL, Flavio Luiz et al (coord.). São Paulo: DPJ editora, 2005, p. 727. Nelson Nery, ainda aduz que em “havendo choque entre esses dois valores(justiça da sentença e segurança das relações sociais e jurídicas), o sistema constitucional brasileiro resolve o choque, optando pelo valor segurança (coisa julgada) que deve prevalecer em relação à justiça que será sacrificada.” (op. cit., p. 717). Fl. 1725DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.726 35 julgamento do segundo Agravo Regimental na Ação Rescisória n. 1415, de 09.04.2015, assim ementado: SEGUNDO AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO RESCISÓRIA. INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO A LITERAL DISPOSIÇÃO DE LEI. SÚMULA 343 DO STF. INCIDÊNCIA TAMBÉM NOS CASOS EM QUE A CONTROVÉRSIA DE ENTENDIMENTOS SE BASEIA NA APLICAÇÃO DE NORMA CONSTITUCIONAL. PRECEDENTE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Não cabe ação rescisória, sob a alegação de ofensa a literal dispositivo de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais, nos termos da jurisprudência desta Corte. 2. In casu, incide a Súmula 343 deste Tribunal, cuja aplicabilidade foi recentemente ratificada pelo Plenário deste Tribunal, inclusive quando a controvérsia de entendimentos se basear na aplicação de norma constitucional (RE 590.809, Rel. Min. Marco Aurélio, DJe de 24/11/2014). 3. Agravo regimental a que se nega provimento. (STF, AR 1415 AgRsegundo, Relator(a): Min. LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 09/04/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe079 DIVULG 2804 2015 PUBLIC 29042015) Merece destaque, ainda, o julgamento do Agravo Regimental na Ação Rescisória n. 2370, julgada pelo STF em 22/10/2015, assim ementado: AÇÃO RESCISÓRIA. ART. 485, V, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. MATÉRIA CONSTITUCIONAL. RESCISÃO DE ACÓRDÃO QUE APLICOU JURISPRUDÊNCIA DO STF POSTERIORMENTE MODIFICADA. NÃO CABIMENTO DA AÇÃO RESCISÓRIA COMO INSTRUMENTO DE UNIFORMIZAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL. PRECEDENTE. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS EM RESCISÓRIA. FIXAÇÃO. 1. Ao julgar, em regime de repercussão geral, o RE 590.809/RS, (Min. MARCO AURÉLIO, DJe de 24/11/2014), o Plenário não operou, propriamente, uma substancial modificação da sua jurisprudência sobre a não aplicação da Súmula 343 em ação rescisória fundada em ofensa à Constituição. O que o Tribunal decidiu, na oportunidade, foi outra questão: ante a controvérsia, enunciada como matéria de repercussão geral, a respeito do cabimento ou não da “rescisão de julgado fundamentado em corrente jurisprudencial majoritária existente à época da formalização do acórdão rescindendo, em razão de entendimento posteriormente firmado pelo Supremo”, a Corte respondeu negativamente, na consideração de que a ação rescisória não é instrumento de uniformização da sua jurisprudência. 2. Mais especificamente, o Tribunal afirmou que a superveniente modificação da sua jurisprudência (que antes reconhecia e depois veio a negar o direito a creditamento de IPI em operações com mercadorias isentas ou com alíquota zero) não autoriza, sob esse fundamento, o ajuizamento de ação rescisória para desfazer acórdão que aplicara a firme jurisprudência até então vigente no próprio STF. 3. Devidos honorários advocatícios à parte vencedora segundo os parâmetros do art. 20, § 4º, do CPC. 4. Agravo regimental da União desprovido. Agravo regimental da demandada parcialmente provido. (STF, AR 2370 AgR, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 22/10/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe225 DIVULG 1111 2015 PUBLIC 12112015) Fl. 1726DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.727 36 É de extrema relevância para o julgamento do presente caso observar que o núcleo de todo esse debate no âmbito do STF consiste na interpretação restritiva ou ampliativa das hipóteses de cabimento da ação rescisória, consagrando a imprescindibilidade desta específica ação para a desconstituição da coisa julgada. A jurisprudência do STF, ao discutir a expansão ou não das hipóteses de ajuizamento de ações rescisórias, reafirma a consagrada imprescindibilidade da propositura deste específico instrumento processual para a competente desconstituição da coisa julgada. Sem decisão em ação rescisória, a higidez da autoridade da coisa julgada é plena de eficácia. É justamente devido a esse monopólio detido pela ação rescisória que as hipóteses de seu ajuizamento são discutidas de forma tão elevada perante o STF. A imprescindibilidade de ação rescisória para a desconstituição da coisa julgada corresponde a uma regra fundamental do sistema jurídico brasileiro. A autoridade da coisa julgada decorre essencialmente da necessidade da sociedade contar com decisões imutáveis que permitam a previsibilidade dos negócios jurídicos (perspectiva política), cujo paralelo jurídico encontra repouso no princípio da segurança jurídica e da certeza do direito (perspectiva jurídica). Há aqui uma relação interessante: caso a regra de desconstituição da coisa julgada não seja ela própria respeitada e aplicada nos estritos termos prescritos pelo legislador, com incerteza e insegurança quanto à sua extensão, logicamente ruiria a segurança jurídica e a certeza do direito de todo o sistema (perspectiva jurídica), com nefastas consequências à sociedade, como crises no mercado e na economia nacional (perspectiva política). Não há outra solução possível: devem ser coerentemente aplicáveis, do início ao fim, regras objetivamente prescritas pelo CPC/73 e, agora, pelo CPC/2016, para a tutela do específico instrumento processual de desconstituição da coisa julgada (ação rescisória). O pleito da União nos presentes autos, então, consiste na desconsideração da coisa julgada à revelia de autorização do Poder Judiciário. Não há como deferir tal pretensão. Afinal, repitase que, dada a essencialidade da ação rescisória, “não se pode, fora dela, obter se o efeito jurídico que só por ela se pode licitamente obter.”25 3.2. Os efeitos da ADIn n. 15, julgada pelo STF em 2007, sobre decisões judiciais anteriormente transitadas em julgado. É preciso ter muito claro quais são as consequências de uma decisão do STF, em sede de ADIn, ADC ou sob a sistemática da repercussão geral, sobre uma decisão obtida no passado pelo contribuinte. O STF, em julgados como o do RE 592.912 AgR, prolatado em 03.04.2012, tem afirmado que “a superveniência de decisão do Supremo Tribunal Federal, declaratória de inconstitucionalidade de diploma normativo utilizado como fundamento do título judicial questionado, ainda que impregnada de eficácia “ex tunc” (...) não se revela apta, só por si, a desconstituir a autoridade da coisa julgada, que traduz, em nosso sistema jurídico, limite 25 GRINOVER, Ada Pellegrini. A marcha do processo. Rio de Janeiro : Forense, 2000, p. 335. Fl. 1727DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.728 37 insuperável à força retroativa resultante dos pronunciamentos que emanam, “in abstracto”, da Suprema Corte”. O referido julgamento restou assim ementado: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COISA JULGADA EM SENTIDO MATERIAL INDISCUTIBILIDADE, IMUTABILIDADE E COERCIBILIDADE: ATRIBUTOS ESPECIAIS QUE QUALIFICAM OS EFEITOS RESULTANTES DO COMANDO SENTENCIAL PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL QUE AMPARA E PRESERVA A AUTORIDADE DA COISA JULGADA EXIGÊNCIA DE CERTEZA E DE SEGURANÇA JURÍDICAS VALORES FUNDAMENTAIS INERENTES AO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO EFICÁCIA PRECLUSIVA DA “RES JUDICATA” “TANTUM JUDICATUM QUANTUM DISPUTATUM VEL DISPUTARI DEBEBAT” CONSEQUENTE IMPOSSIBILIDADE DE REDISCUSSÃO DE CONTROVÉRSIA JÁ APRECIADA EM DECISÃO TRANSITADA EM JULGADO, AINDA QUE PROFERIDA EM CONFRONTO COM A JURISPRUDÊNCIA PREDOMINANTE NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL A QUESTÃO DO ALCANCE DO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART. 741 DO CPC MAGISTÉRIO DA DOUTRINA RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO. A sentença de mérito transitada em julgado só pode ser desconstituída mediante ajuizamento de específica ação autônoma de impugnação (ação rescisória) que haja sido proposta na fluência do prazo decadencial previsto em lei, pois, com o exaurimento de referido lapso temporal, estar seá diante da coisa soberanamente julgada, insuscetível de ulterior modificação, ainda que o ato sentencial encontre fundamento em legislação que, em momento posterior, tenha sido declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, quer em sede de controle abstrato, quer no âmbito de fiscalização incidental de constitucionalidade. A superveniência de decisão do Supremo Tribunal Federal, declaratória de inconstitucionalidade de diploma normativo utilizado como fundamento do título judicial questionado, ainda que impregnada de eficácia “ex tunc” como sucede, ordinariamente, com os julgamentos proferidos em sede de fiscalização concentrada (RTJ 87/758 RTJ 164/506509 RTJ 201/765) , não se revela apta, só por si, a desconstituir a autoridade da coisa julgada, que traduz, em nosso sistema jurídico, limite insuperável à força retroativa resultante dos pronunciamentos que emanam, “in abstracto”, da Suprema Corte. Doutrina. Precedentes. O significado do instituto da coisa julgada material como expressão da própria supremacia do ordenamento constitucional e como elemento inerente à existência do Estado Democrático de Direito. (RE 592912 AgR, Relator Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 03.04.2012, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe229 DIVULG 21.11.2012 PUBLIC 22.11.2012) Outros julgados do STF seguiram de maneira uniforme para a mesma conclusão, como se observa das ementas a seguir: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EXTRAORDINÁRIO. EMBARGOS À EXECUÇÃO. DESAPROPRIAÇÃO. BENFEITORIAS. PAGAMENTO EM ESPÉCIE. DISPOSITIVOS LEGAIS DECLARADOS INCONSTITUCIONAIS PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. COISA JULGADA. DESCONSTITUIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. É certo que esta Fl. 1728DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.729 38 Suprema Corte declarou a inconstitucionalidade de dispositivos que autorizam o pagamento, em espécie, de benfeitorias fora da regra do precatório. Isso não obstante, no caso dos autos, esse pagamento foi determinado por título executivo que está protegido pelo manto da coisa julgada, cuja desconstituição não é possível em sede de recurso extraordinário interposto contra acórdão proferido em processo de embargos à execução. Precedente: RE 443.356AgR, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence. Agravo regimental desprovido. (RE 473.715AgR, rel. Min. CARLOS BRITTO, Primeira Turma, DJe de 25 052007) Desapropriação: recurso do INCRA contra decisão proferida em execução, onde se alega impossibilidade do pagamento de benfeitorias úteis e necessárias fora da regra do precatório: rejeição: preservação da coisa julgada. Malgrado o Supremo Tribunal Federal tenha se manifestado, por duas vezes, quanto à inconstitucionalidade dos dispositivos legais que autorizam o pagamento das benfeitorias úteis e necessárias fora da regra do precatório (ADIn 1.187 MC, 09.02.1995, Ilmar; RE 247.866, Ilmar, RTJ 176/976), a decisão recorrida, exarada em processo de execução, tem por fundamento a fidelidade devida à sentença proferida na ação de desapropriação, que está protegida pela coisa julgada a respeito. (RE 431.014 AgR, rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, Primeira Turma, DJe de 25052007) Mais recentemente, no RE 730.462, sob a sistemática da repercussão geral, o STF novamente afirmou que as suas decisões não se prestam a automaticamente rescindir sentenças já transitadas em julgado, sendo imprescindível o ajuizamento de ação rescisória para tal fim. O aludido acórdão restou assim ementado: CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DE PRECEITO NORMATIVO PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. EFICÁCIA NORMATIVA E EFICÁCIA EXECUTIVA DA DECISÃO: DISTINÇÕES. INEXISTÊNCIA DE EFEITOS AUTOMÁTICOS SOBRE AS SENTENÇAS JUDICIAIS ANTERIORMENTE PROFERIDAS EM SENTIDO CONTRÁRIO. INDISPENSABILIDADE DE INTERPOSIÇÃO DE RECURSO OU PROPOSITURA DE AÇÃO RESCISÓRIA PARA SUA REFORMA OU DESFAZIMENTO. 1. A sentença do Supremo Tribunal Federal que afirma a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade de preceito normativo gera, no plano do ordenamento jurídico, a consequência (= eficácia normativa) de manter ou excluir a referida norma do sistema de direito. 2. Dessa sentença decorre também o efeito vinculante, consistente em atribuir ao julgado uma qualificada força impositiva e obrigatória em relação a supervenientes atos administrativos ou judiciais (= eficácia executiva ou instrumental), que, para viabilizarse, tem como instrumento próprio, embora não único, o da reclamação prevista no art. 102, I, “l”, da Carta Constitucional. 3. A eficácia executiva, por decorrer da sentença (e não da vigência da norma examinada), tem como termo inicial a data da publicação do acórdão do Supremo no Diário Oficial (art. 28 da Lei 9.868/1999). É, consequentemente, eficácia que atinge atos administrativos e decisões judiciais supervenientes a essa publicação, não os pretéritos, ainda que formados com suporte em norma posteriormente declarada inconstitucional. 4. Afirmase, portanto, como tese de repercussão geral que a decisão do Supremo Tribunal Federal declarando a constitucionalidade ou a Fl. 1729DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.730 39 inconstitucionalidade de preceito normativo não produz a automática reforma ou rescisão das sentenças anteriores que tenham adotado entendimento diferente; para que tal ocorra, será indispensável a interposição do recurso próprio ou, se for o caso, a propositura da ação rescisória própria, nos termos do art. 485, V, do CPC, observado o respectivo prazo decadencial (CPC, art. 495). Ressalvase desse entendimento, quanto à indispensabilidade da ação rescisória, a questão relacionada à execução de efeitos futuros da sentença proferida em caso concreto sobre relações jurídicas de trato continuado. 5. No caso, mais de dois anos se passaram entre o trânsito em julgado da sentença no caso concreto reconhecendo, incidentalmente, a constitucionalidade do artigo 9º da Medida Provisória 2.16441 (que acrescentou o artigo 29C na Lei 8.036/90) e a superveniente decisão do STF que, em controle concentrado, declarou a inconstitucionalidade daquele preceito normativo, a significar, portanto, que aquela sentença é insuscetível de rescisão. 6. Recurso extraordinário a que se nega provimento. (STF, RE 730462, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Tribunal Pleno, julgado em 28/05/2015, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL MÉRITO DJe177 DIVULG 08092015 PUBLIC 09092015) Como se pode observar, o Ministro TEORI ZAVASCKI, relator do RE 730.462, achou por bem ressalvar do quanto decidido as relações jurídicas de trato continuado. A ressalva, no entanto, atua como obter dictum, tão só para delimitar os traços do caso analisado sob o rito da repercussão geral. Significa dizer que, aquele julgado em específico, nada diz respeito a relações jurídicas de trato continuado. Sobre o cabimento de ação rescisória na hipótese de julgamento definitivo e diverso pelo STF: Embargos de Declaração em Recurso Extraordinário. 2. Julgamento remetido ao Plenário pela Segunda Turma. Conhecimento. 3. É possível ao Plenário apreciar embargos de declaração opostos contra acórdão prolatado por órgão fracionário, quando o processo foi remetido pela Turma originalmente competente. Maioria. 4. Ação Rescisória. Matéria constitucional. Inaplicabilidade da Súmula 343/STF. 5. A manutenção de decisões das instâncias ordinárias divergentes da interpretação adotada pelo STF revelase afrontosa à força normativa da Constituição e ao princípio da máxima efetividade da norma constitucional. 6. Cabe ação rescisória por ofensa à literal disposição constitucional, ainda que a decisão rescindenda tenha se baseado em interpretação controvertida ou seja anterior à orientação fixada pelo Supremo Tribunal Federal. 7. Embargos de Declaração rejeitados, mantida a conclusão da Segunda Turma para que o Tribunal a quo aprecie a ação rescisória. (RE 328812 ED, Relator Min. GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 06/03/2008, DJe078 DIVULG 30042008 PUBLIC 02052008 EMENT VOL0231704 PP00748 RTJ VOL0020403 PP01294 LEXSTF v. 30, n. 356, 2008, p. 255284) Nesse cenário, uma decisão do STF, em sede de ADIn, ADC ou sob a sistemática da repercussão geral, pode corresponder a um ponto de partida (i) para uma discussão: se seria este um fato suficiente para surja a legitimidade para o ajuizamento de ação rescisória. Para se ultrapassar esse debate, será preciso demonstrar que há o contexto ao Fl. 1730DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.731 40 ajuizamento de ação rescisória, qual seja: uma decisão transitada em julgado que “violar literal disposição de lei” (CPC/73), “violar manifestamente norma jurídica” (CPC/2015). Caso se compreenda que há legitimidade para a propositura da ação rescisória, então esta deve ser efetivamente ajuizada (ii). Somente após a prolação de decisão judicial suspensiva ou efetivamente desconstitutiva da coisa julgada é que esta deixaria de emanar os seus efeitos com toda a sua autoridade (iii). A ADIn n. 15, do STF, corresponde, então, a um possível antecedente para o ajuizamento de ação rescisória pela Fazenda Nacional. No entanto, ao contrário do que se parece crer no Parecer PGFN/CRJ n. 492/2011, a aludida declaração de constitucionalidade NÃO desencadeia, por si só e sem o intermédio de específica ação rescisória, efeitos imediatos sobre o contribuinte que obteve a seu favor decisão judicial transitada em julgado. A desconstituição da coisa julgada é justamente uma das possíveis consequências da ação rescisória, sendo a outra consequência pode ser, naturalmente, a sua manutenção (improcedência da ação rescisória). Todas essas reflexões apenas conduzem à constatação da absoluta imprescindibilidade da ação rescisória para a desconstituição da coisa julgado, apenas colocandose em dúvida em quais hipóteses a ação rescisória pode ser ajuizada. 3.3. A inexistência de decisão de mérito do STF com repercussão geral quanto ao tema do presente recurso especial. Como se pôde constatar, a autoridade da coisa julgada pode ser afastada por razões de ordem (i) legislativa e (ii) jurisdicional. Em relação à primeira, se o legislador não pode se voltar contra a coisa julgada (CF, art. 5o, XXXVI), a modificação do estado de direito – promovida pelo legislador – torna ineficaz a norma prescrita pela sentença que teve como objeto de sua tutela um sistema normativo já revogado. No presente caso, como se pôde concluir (tópico “2”, acima), não houve alteração substancial nas normas que tutelam a CSL e que foram objeto da decisão judicial proferida em benefício do contribuinte e que goza da autoridade da coisa julgada. Em relação à segunda, o sistema jurídico brasileiro elege a ação rescisória como instrumento processual competente para que o Poder Judiciário desconstitua a coisa julgada, nas hipóteses e condições previstas em lei. Não obstante, ainda em relação a uma posterior atuação do Poder Judiciário, cogitase de um segundo instrumento, que supostamente poderseia utilizar para a desconstituição da coisa julgada à revelia da propositura de ação rescisória. Para o rompimento desse monopólio, cogitase que o STF, ao analisar recurso extraordinário afetado pela sistemática da repercussão geral, possa proclamar que a declaração de constitucionalidade da CSL por meio da ADIn 15, em meados de 2007, tornou legítima a cobrança do referido tributo mesmo em face de contribuintes dotados de decisões judiciais transitadas em julgado que reconheceram a sua inconstitucionalidade e que sequer tenham sido desafiadas por ação rescisória. Tratase, contudo, de questão meramente teórica e sem consequências efetivas para o julgamento do presente recurso especial. Ocorre que o STF, até o presente momento, NÃO proferiu nenhuma decisão sob o rito da repercussão geral quanto ao aludido Fl. 1731DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.732 41 mérito, de forma que não há, por esse meio, norma que atribua à União legitimidade para desconsiderar os efeitos da coisa julgada obtida por decorrência automática da ADIn 15, isto é, à revelia de competente ação rescisória. A recente afetação do RE 949.297 (2016) como recurso representativo de repercussão geral, especificamente quanto ao tema objeto do presente recurso especial, é prova cabal de que o STF não possui decisão de tal magnitude. Se hoje não há decisão de mérito, mas mera afetação da matéria ao rito da repercussão geral, a segurança jurídica consagrada pelo instituto da coisa julgada conduz justamente ao dever de respeitarse a decisão judicial transitada em julgado na ação judicial proposta pelo contribuinte, o que é mandatório. Nesse cenário, voto por CONHECER e DAR PROVIMENTO ao recurso especial interposto pelo contribuinte. (assinatura digital) Luís Flávio Neto Voto Vencedor Conselheira Adriana Gomes Rêgo, Redatora Designada. Divergese do Relator, venia concessa, no que toca ao julgamento de mérito do presente recurso, trazendose a seguir as razões já expressas em julgados desta 1ª Turma da CSRF em que esta Conselheira figurou como Relatora (citemse os acórdãos nºs 9101002.583, de 14 de março de 2017; e 9101002.901, de 7 de junho de 2017). Como registra o Relator em seu voto, "no caso dos autos, o contribuinte propôs perante a Justiça Federal o Mandado de Segurança n. 89.00.008110, o quanto teve o seu TRÂNSITO EM JULGADO em 03.11.1992, reconhecendose a inconstitucionalidade da CSLL (efl. 1630 e seg.)", sendo que os valores exigidos do contribuinte a título de CSLL pela presente autuação fiscal alcança fatos geradores ocorridos nos anoscalendário de 2002 a 2004. O auto de infração foi lavrado em 22/12/2008. Ou seja, os fatos geradores alcançados no auto de infração aqui discutido ocorreram pelo menos dez anos após o trânsito em julgado da decisão pela qual se exonerou integralmente as a autora do recolhimento de CSLL. Ao longo desse período, a legislação de regência da CSLL sofreu diversas modificações por obra de normas supervenientes, tais como a Lei Complementar nº 70, de nº 1991 (art. 11); a Lei nº 8.383, de 1991 (arts. 41, 44, 79, 81, 86, 87, 89, 91 e 95); a Lei nº 8.541, de 1992 (ats. 22, 38, 39, 40, 42 e 43); a Lei nº 9.249, de 1995 (arts. 19 e 20); a Lei nº 9.430, de 1996 (arts. 28 a 30, sendo que o art. 28 remete aos arts. 1º a 3º, 5º a 14, 17 a 24, 26, 55 e 71 da mesma Lei); e a Lei nº 10.637, de 2002 (arts. 35 a 37, 45). Fl. 1732DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.733 42 Nesse quadro, embora a decisão firmada pelo STJ no Recurso Especial nº 1.118.893/MG (a qual, tomada sob a sistemática dos recursos repetitivos de que trata o art. 543C do CPC, de observância obrigatória no CARF), tenha afastado a possibilidade de cobrança da CSLL mesmo com as alterações legislativas naquela decisão mencionadas, é certo que a legislação analisada pelo STJ naquele julgado corresponde à Lei Complementar nº 70, de 1991, e às Leis nº 7.856, de 1989, nº 8.034, de 1990, nº 8.212, de 1991, nº 8.383, de 1991 e nº 8.541, de 1992. Verificase que o voto do Ministro Arnaldo Esteves Lima, relator do REsp, é calcado, na parte que analisa as citadas leis, no voto da Min. Eliana Calmon, por ocasião do REsp nº 731.250/PE, que analisa detalhadamente cada dispositivo dessas leis, mas apenas essas leis. Por conseguinte, algumas das normas que serviram para fundamentar o auto de infração não foram analisadas no julgamento do REsp nº 1.118.893/MG, notadamente a Lei nº 8.981, de 1995 (art. 57), Lei nº 9.249, de 1995 (art. 2º), e Lei nº 9.316, de 1996 (art. 1º). É importante destacar que já ao tempo da publicação dessas normas era pacífico o entendimento no âmbito do STF que a CSLL podia ser regulada por lei ordinária, pois no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 146.733/SP, em 29/06/1992, o Pleno do STF reconheceu, em sede de controle difuso, a constitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988 (a exceção do art. 8º do referido diploma). Tal entendimento foi confirmado no julgamento do RE nº 138.284/CE , em 01/07/1992, igualmente em controle difuso, cuja ementa ora transcrevo, com grifos: CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS. CONTRIBUIÇÕES INCIDENTES SOBRE O LUCRO DAS PESSOAS JURIDICAS. Lei n. 7.689, de 15.12.88. I. Contribuições parafiscais: contribuições sociais, contribuições de intervenção e contribuições corporativas. C.F., art. 149. Contribuições sociais de seguridade social. C.F., arts. 149 e 195. As diversas espécies de contribuições sociais. II. A contribuição da Lei 7.689, de 15.12.88, e uma contribuição social instituida com base no art. 195, I, da Constituição. As contribuições do art. 195, I, II, III, da Constituição, não exigem, para a sua instituição, lei complementar. Apenas a contribuição do parag. 4. do mesmo art. 195 e que exige, para a sua instituição, lei complementar, dado que essa instituição devera observar a tecnica da competência residual da União (C.F., art. 195, parag. 4.; C.F., art. 154, I). Posto estarem sujeitas a lei complementar do art. 146, III, da Constituição, porque não são impostos, não há necessidade de que a lei complementar defina o seu fato gerador, base de calculo e contribuintes (C.F., art. 146, III, "a"). III. Adicional ao imposto de renda: classificação desarrazoada. IV. Irrelevância do fato de a receita integrar o orçamento fiscal da União. O que importa e que ela se destina ao financiamento da seguridade social (Lei 7.689/88, art. 1.). V. Inconstitucionalidade do art. 8., da Lei 7.689/88, por ofender o princípio da irretroatividade (C.F., art, 150, III, "a") qualificado pela inexigibilidade da contribuição dentro no prazo de noventa dias da publicação da lei (C.F., art. 195, parag. 6). Vigencia e eficacia da lei: distinção. Fl. 1733DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.734 43 VI. Recurso Extraordinário conhecido, mas improvido, declarada a inconstitucionalidade apenas do artigo 8. da Lei 7.689, de 1988. Vejase, a propósito, que ambas as decisões do STF foram mencionadas no TVI, conforme trechos anteriormente transcritos. Assim, não se pode dizer que as Leis nº 8.981, de 1995, nº 9.249, de 1995 e nº 9.316, de 1996, estariam alcançadas pelo REsp 1.118.893/MG, a ponto de não poderem ser aplicadas a quem porventura tenha uma decisão judicial favorável fundamentada na inconstitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988 (que foi o objeto de pedir no caso concreto). Mas a alteração legislativa não é a única forma que podemos considerar como uma mudança no suporte jurídico decorrido entre a decisão judicial transitada em julgado e os fatos geradores objeto do lançamento. É preciso ter em conta, quando estamos tratando de constitucionalidade de leis, também as decisões definitivas do STF com efeitos erga omnes, pois, sendo o STF o “Guardião da Constituição”, seu pronunciamento em caráter definitivo afasta qualquer dúvida sobre a constitucionalidade/inconstitucionalidade de uma norma. Nesse contexto, como concluído na síntese final do Parecer PGFN/CRJ/Nº 492/2011, "possuem força para, com o seu advento, impactar ou alterar o sistema jurídico vigente, precisamente por serem dotados dos atributos da definitividade e objetividade", não apenas os precedentes "formados em controle concentrado de constitucionalidade, independentemente da época em que prolatados" e os "formados em sede de controle difuso de constitucionalidade, seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, desde que, nesse último caso, tenham resultado de julgamento realizado nos moldes do art. 543B do CPC", mas também aqueles, anteriores a 3 de maio de 2007, "formados em sede de controle difuso de constitucionalidade, seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, desde que, nesse último caso, tenham sido oriundos do Plenário do STF e sejam confirmados em julgados posteriores da Suprema Corte" (lembrando que 3 de maio de 2007 corresponde à data da alteração regimental do STF, introduzindo as disposições da Lei nº 11.418, de 2006). Tais precedentes, acrescenta o Parecer em sua síntese final, são objetivos e definitivos, configurando "circunstância jurídica nova apta a fazer cessar a eficácia vinculante das anteriores decisões tributárias transitadas em julgado que lhe forem contrárias". Nessa condição, quando vão no sentido da constitucionalidade de lei tributária, fazem com que o Fisco retome "o direito de cobrar o tributo em relação aos fatos geradores ocorridos daí para frente, sem que, para tanto, necessite ajuizar ação judicial". Confirase (sublinhouse): V Síntese do exposto 99. Eis a síntese das principais considerações/conclusões expostas ao longo do presente Parecer: (i) a alteração nos suportes fático ou jurídico existentes ao tempo da prolação de decisão judicial voltada à disciplina de relações jurídicas tributárias continuativas faz cessar, dali para frente, a eficácia vinculante dela emergente em razão do seu trânsito em julgado; (ii) possuem força para, com o seu advento, impactar ou alterar o sistema jurídico vigente, precisamente por serem dotados dos atributos da definitividade e objetividade, os seguintes precedentes do STF: Fl. 1734DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.735 44 (i) todos os formados em controle concentrado de constitucionalidade, independentemente da época em que prolatados; (ii) quando posteriores a 3 de maio de 2007, aqueles formados em sede de controle difuso de constitucionalidade, seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, desde que, nesse último caso, tenham resultado de julgamento realizado nos moldes do art. 543B do CPC; (iii) quando anteriores a 3 de maio de 2007, aqueles formados em sede de controle difuso de constitucionalidade, seguidos, ou não, de Resolução Senatorial, desde que, nesse último caso, tenham sido oriundos do Plenário do STF e sejam confirmados em julgados posteriores da Suprema Corte. (iii) o advento de precedente objetivo e definitivo do STF configura circunstância jurídica nova apta a fazer cessar a eficácia vinculante das anteriores decisões tributárias transitadas em julgado que lhe forem contrárias; (iv) como a cessação da eficácia da decisão tributária transitada em julgado é automática, com o advento do precedente objetivo e definitivo do STF, quando no sentido da constitucionalidade da lei tributária, o Fisco retoma o direito de cobrar o tributo em relação aos fatos geradores ocorridos daí para frente, sem que, para tanto, necessite ajuizar ação judicial; por outro lado, com o advento do precedente objetivo e definitivo do STF, quando no sentido da inconstitucionalidade da lei tributária, o contribuinteautor deixa de estar obrigado ao recolhimento do tributo, em relação aos fatos geradores praticados dali para frente, sem que, para tanto, necessite ajuizar ação judicial; (v) em regra, o termo a quo para o exercício do direito conferido ao contribuinte autor de deixar de pagar o tributo antes tido por constitucional pela coisa julgada, ou conferido ao Fisco de voltar a cobrar o tributo antes tido por inconstitucional pela coisa julgada, é a data do trânsito em julgado do acórdão proferido pelo STF. Excepcionase essa regra, no que tange ao direito do Fisco de voltar a cobrar, naquelas específicas hipóteses em que a cessação da eficácia da decisão tributária transitada em julgado tenha ocorrido em momento anterior à publicação deste Parecer, e tenha havido inércia dos agentes fazendários quanto à cobrança; nessas hipóteses, o termo a quo do direito conferido ao Fisco de voltar a exigir, do contribuinte autor, o tributo em questão, é a publicação do presente Parecer. Ora, como já disse, no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) nº 146.733/SP, em 29/06/1992, o Pleno do STF reconheceu, em sede de controle difuso, a constitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988 (a exceção do art. 8º do referido diploma). Tal entendimento foi confirmado no julgamento do RE nº 138.284/CE (em 01/07/1992, igualmente em controle difuso) e no julgamento da ADI nº 152/DF (em 14/06/2007, aqui já em controle concentrado de constitucionalidade). Nesse contexto, na inteligência do Parecer PGFN/CRJ n° 492, de 2011, que é citado no TVI, já com a decisão do STF no julgamento do RE nº 138.284/CE, há precedente objetivo e definitivo do STF a fazer cessar a eficácia vinculante da decisão tributária transitada em julgado em favor da Contribuinte. Por oportuno, esclareço que o acórdão do RE nº 138.284/CE transitou em julgado em 29/09/1992, sendo que em 12/04/1995 foi publicada Resolução do Senado Federal decorrente, que suspendeu os efeitos a execução do disposto no art. 8º da Lei nº 7.689, de 1988. Fl. 1735DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.736 45 Convém lembrar que, como dito alhures, a autuação fiscal no presente processo data de 22/12/2008, alcançando fatos geradores de CSLL de 2002 a 2004. Ou seja, não só a autuação fiscal se deu quando já havia precedente objetivo e definitivo do STF pela constitucionalidade da Lei nº 7.689, de 1988, como os próprios fatos geradores objeto da autuação também são posteriores ao precedente. A ementa do RE nº 138.284/CE já foi transcrita acima; cumpre, então, transcrever as ementas dos demais julgados citados, na parte de interesse: RE nº 146.733/SP: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO DAS PESSOAS JURIDICAS. LEI 7689/88. NÃO E INCONSTITUCIONAL A INSTITUIÇÃO DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO DAS PESSOAS JURIDICAS, CUJA NATUREZA E TRIBUTARIA. CONSTITUCIONALIDADE DOS ARTIGOS 1., 2. E 3. DA LEI 7689/88. REFUTAÇÃO DOS DIFERENTES ARGUMENTOS COM QUE SE PRETENDE SUSTENTAR A INCONSTITUCIONALIDADE DESSES DISPOSITIVOS LEGAIS. AO DETERMINAR, POREM, O ARTIGO 8. DA LEI 7689/88 QUE A CONTRIBUIÇÃO EM CAUSA JA SERIA DEVIDA A PARTIR DO LUCRO APURADO NO PERIODOBASE A SER ENCERRADO EM 31 DE DEZEMBRO DE 1988, VIOLOU ELE O PRINCÍPIO DA IRRETROATIVIDADE CONTIDO NO ARTIGO 150, III, "A", DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, QUE PROIBE QUE A LEI QUE INSTITUI TRIBUTO TENHA, COMO FATO GERADOR DESTE, FATO OCORRIDO ANTES DO INICIO DA VIGENCIA DELA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO CONHECIDO COM BASE NA LETRA "B" DO INCISO III DO ARTIGO 102 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL, MAS A QUE SE NEGA PROVIMENTO PORQUE O MANDADO DE SEGURANÇA FOI CONCEDIDO PARA IMPEDIR A COBRANÇA DAS PARCELAS DA CONTRIBUIÇÃO SOCIAL CUJO FATO GERADOR SERIA O LUCRO APURADO NO PERIODOBASE QUE SE ENCERROU EM 31 DE DEZEMBRO DE 1988. DECLARAÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DO ARTIGO 8. DA LEI 7689/88. ADI nº 152/DF: (...) IV. ADIn: L. 7.689/88, que instituiu contribuição social sobre o lucro das pessoas jurídicas, resultante da transformação em lei da Medida Provisória 22, de 1988. 1. Não conhecimento, quanto ao art. 8º, dada a invalidade do dispositivo, declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal, em processo de controle difuso (RE 146.733), e cujos efeitos foram suspensos pelo Senado Federal, por meio da Resolução 11/1995. 2. Procedência da arguição de inconstitucionalidade do artigo 9º, por incompatibilidade com os artigos 195 da Constituição e 56, do ADCT/88, que, não obstante já declarada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do RE 150.764, 16.12.92, M. Aurélio (DJ 2.4.93), teve o processo de suspensão do dispositivo arquivado, no Senado Federal, que, assim, se negou a emprestar efeitos erga omnes à decisão proferida na via difusa do controle de normas. 3. Improcedência das alegações de inconstitucionalidade formal e material do restante da mesma lei, que foram rebatidas, à exaustão, pelo Supremo Tribunal, nos julgamentos dos RREE 146.733 e 150.764, ambos recebidos pela alínea b do Fl. 1736DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.737 46 permissivo constitucional, que devolve ao STF o conhecimento de toda a questão da constitucionalidade da lei. Vejase que a supracitada ADI só confirma o entendimento do STF manifestado em sede de controle difuso de constitucionalidade, como se pode até verificar dos acórdãos que ela mesma menciona. Ademais, voltandose ao repetitivo nº 1.118.893/MG, de 2011, verificase que a manifestação acerca da ADI nesse julgado foi no sentido de não poder ela retroagir para alcançar os fatos geradores objeto do caso concreto lá julgado, de 1991. É flagrante no voto do Ministro que o valor perquirido foi a segurança jurídica daqueles que se comportaram segundo uma decisão transitada em julgado em controle difuso, consoante trecho que ora transcrevo: “Outrossim, o fato de o Supremo Tribunal Federal posteriormente manifestarse em sentido oposto à decisão judicial transitada em julgado em nada pode alterar a relação jurídica estabilizada pela coisa julgada, sob pena de negar validade à própria existência do controle difuso de constitucionalidade, fragilizando, sobremodo, a res judicata, com imensurável repercussão negativa no seio social.” Não se alegue aqui que o STF manifestou entendimento que condiciona a relativização da coisa julgada exclusivamente às decisões em sede de ação rescisória, no julgamento do RE nº 730.462/SP, em 28/05/2015, com repercussão geral. Conforme trecho da ementa do acórdão lavrado no RE, o qual, é de se assinalar, sequer trata de matéria tributária, resta ressalvada da indispensabilidade de ação rescisória, "a questão relacionada à execução de efeitos futuros da sentença proferida em caso concreto sobre relações jurídicas de trato continuado". Confirase (sublinhouse): 4. Afirmase, portanto, como tese de repercussão geral que a decisão do Supremo Tribunal Federal declarando a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade de preceito normativo não produz a automática reforma ou rescisão das sentenças anteriores que tenham adotado entendimento diferente; para que tal ocorra, será indispensável a interposição do recurso próprio ou, se for o caso, a propositura da ação rescisória própria, nos termos do art. 485, V, do CPC, observado o respectivo prazo decadencial (CPC, art. 495). Ressalvase desse entendimento, quanto à indispensabilidade da ação rescisória, a questão relacionada à execução de efeitos futuros da sentença proferida em caso concreto sobre relações jurídicas de trato continuado. Ora, o caso presente envolve justamente os efeitos futuros de sentença proferida em caso concreto sobre relações jurídicas de trato continuado. Isso porque diz com os efeitos, em relação a fatos geradores sucessivos ocorridos nos anoscalendário 2002 a 2004, de decisão em favor da Contribuinte declarando a impossibilidade de o Fisco lhe exigir CSLL, decisão essa transitada em julgado em 1992. Também não se alegue que há parecer da ProcuradoriaGeral da República em processo que trata do tema aqui discutido, com repercussão geral, em que aquela Procuradoria se manifesta pelo provimento de recurso extraordinário da Fazenda Nacional mas pondera que os efeitos devem ser prospectivos em homenagem à boafé dos contribuintes que possuem sentenças válidas e plenas de efeitos. Parecer desse jaez não vincula este Colegiado. Concluo, portanto, que a decisão judicial transitada em julgado em favor da Recorrente não possuía mais eficácia vinculante frente aos fatos geradores de CSLL sobre os Fl. 1737DF CARF MF Processo nº 10976.000690/200899 Acórdão n.º 9101003.092 CSRFT1 Fl. 1.738 47 quais recaiu a autuação fiscal, razão pela qual deve ser mantido o lançamento dessa contribuição. Nego provimento, portanto, ao recurso especial quanto à presente matéria de mérito. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 1738DF CARF MF
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