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Numero do processo: 10830.002533/2005-20
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Jun 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2000
RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO - CONTAGEM DO PRAZO DE DECADÊNCIA - INTELIGÊNCIA DO ART. 168 DO CTN
Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador.
Aplicação da Súmula CARF 91 ao caso.
Numero da decisão: 9101-003.626
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araújo - Presidente em Exercício
(assinado digitalmente)
Gerson Macedo Guerra - Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro André Mendes Moura, substituído pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto.
Nome do relator: GERSON MACEDO GUERRA
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Ano-calendário: 2000 RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO - CONTAGEM DO PRAZO DE DECADÊNCIA - INTELIGÊNCIA DO ART. 168 DO CTN Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplica-se o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Aplicação da Súmula CARF 91 ao caso.
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Aplicação da Súmula CARF 91 ao caso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em não conhecer do Recurso Especial. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araújo Presidente em Exercício (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Relator AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 00 25 33 /2 00 5- 20 Fl. 168DF CARF MF 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Ausente, justificadamente, o conselheiro André Mendes Moura, substituído pelo conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto. Relatório Tratase de Recurso Especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional diante do acórdão nº 110300.346, onde se entendeu que o indébito oriundo do desenquadramento do Contribuinte em questão do SIMPLES apenas ficou caracterizado após a conclusão de processo litigioso de exclusão do regime. Assim, para os julgadores a quo, valores pagos de janeiro a março de 2000 tornaramse indébito apenas em 05/01/2005, com o encerramento do processo administrativo que excluiu o Contribuinte do SIMPLES. Logo, como o pedido de restituição foi protocolado pelo contribuinte em 05/2005, não se reconheceu a decadência. Na origem tratase de pedido de restituição de IRPJ e CSLL pagos pelo regime do SIMPLES em jan/200, fev/2000 e mar/2000, protocolado em 05/2005 e utilizados para compensação de débitos em de IRPJ em 10/2006, através da DCOMP. Ao analisar a compensação a DRF Campinas, considerando que o pagamento objeto do pedido de restituição foi realizado em 31 de janeiro de 2000 e que a protocolização do pedido de restituição foi realizada em 31 de maio de 2005, concluiu que ocorreu a decadência do direito de pedir restituição, já que o pedido foi posterior a 05 anos do pagamento. Apresentada Manifestação de Inconformidade a DRJ manteve a decisão da DRF. Desse modo foi apresentado o competente Recurso Voluntário, que culminou na decisão antes mencionada, que possui a seguinte ementa: RESTITUIÇÃO E COMPENSAÇÃO DE INDÉBITO CONTAGEM DO PRAZO DE DECADÊNCIA INTELIGÊNCIA DO ART. 168 DO CTN prazo para pleitear a restituição ou compensação de tributos pagos indevidamente é sempre de 5 (cinco) anos, distinguindose o inicio de sua contagem em razão da forma em que se exterioriza o indébito. Se o indébito exsurge da iniciativa unilateral do sujeito passivo, calcado em situação Mica não litigiosa, o prazo para pleitear a restituição ou a compensação tem inicio a partir da data do pagamento que se considera indevido (extinção do crédito tributário). Todavia, se o indébito se exterioriza no contexto de solução jurídica conflituosa, o prazo para desconstituir a indevida incidência só pode ter inicio com a decisão definitiva da controvérsia. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, DAR provimento, para devolver os autos à unidade de origem (DRF) para exame do mérito, nos termos do relatório e voto que integram o pres, ente julgado. Fl. 169DF CARF MF Processo nº 10830.002533/200520 Acórdão n.º 9101003.626 CSRFT1 Fl. 169 3 Cientificada da decisão a Fazenda Nacional apresenta Recurso Especial de divergência, alegando que o marco inicial para contagem do prazo decadencial para repetição do indébito é a data de pagamento do tributo, cujo lançamento seja na modalidade homologação. O Recurso da Fazenda foi admitido pelo despacho do então presidente da 1ª Câmara. O contribuinte, devidamente cientificado da decisão e Recurso da Fazenda, não apresenta contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Gerson Macedo Guerra, Relator Sobre o conhecimento do Recurso entendo prudente o debate. Como visto, o caso em questão trata de pedido de restituição protocolado em 05/2005, de tributos pagos no 1º trimestre do ano 2000. Clara, portanto, a aplicação ao caso da Súmula CARF 91, que assim dispõe: Súmula CARF nº 91: Ao pedido de restituição pleiteado administrativamente antes de 9 de junho de 2005, no caso de tributo sujeito a lançamento por homologação, aplicase o prazo prescricional de 10 (dez) anos, contado do fato gerador. Considerando que no presente julgamento nova análise de admissibilidade é realizada, a despeito da inexistência da referida súmula quando da interposição do Recurso pela Fazenda Nacional, aplicase agora o artigo 67, §12º, III, do RICARF. Nesse contexto, não conheço o Recurso da Fazenda. É como voto. (assinado digitalmente) Gerson Macedo Guerra Fl. 170DF CARF MF 4 Fl. 171DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10880.720877/2006-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed May 23 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Aug 01 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/12/2004 a 31/01/2005
PER/DCOMP. HOMOLOGAÇÃO. CRÉDITO LEGÍTIMO RECONHECIDO EM AÇÃO JUDICIAL.
Deve a unidade de origem, considerando o valor do indébito comprovado decorrente de ação judicial, após o confronto e análise dos débitos indicados, homologar a compensação.
Recurso Voluntário Provido em Parte.
Numero da decisão: 3301-004.678
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário, para permitir a compensação dos créditos do FINSOCIAL com débitos de COFINS, após confronto e análise dos débitos indicados pelo contribuinte nos PER/DCOMP, com o crédito de R$ 6.646.789,00.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins Período de apuração: 01/12/2004 a 31/01/2005 PER/DCOMP. HOMOLOGAÇÃO. CRÉDITO LEGÍTIMO RECONHECIDO EM AÇÃO JUDICIAL. Deve a unidade de origem, considerando o valor do indébito comprovado decorrente de ação judicial, após o confronto e análise dos débitos indicados, homologar a compensação. Recurso Voluntário Provido em Parte.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário, para permitir a compensação dos créditos do FINSOCIAL com débitos de COFINS, após confronto e análise dos débitos indicados pelo contribuinte nos PER/DCOMP, com o crédito de R$ 6.646.789,00. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro - Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
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HOMOLOGAÇÃO. CRÉDITO LEGÍTIMO RECONHECIDO EM AÇÃO JUDICIAL. Deve a unidade de origem, considerando o valor do indébito comprovado decorrente de ação judicial, após o confronto e análise dos débitos indicados, homologar a compensação. Recurso Voluntário Provido em Parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso voluntário, para permitir a compensação dos créditos do FINSOCIAL com débitos de COFINS, após confronto e análise dos débitos indicados pelo contribuinte nos PER/DCOMP, com o crédito de R$ 6.646.789,00. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 08 77 /2 00 6- 18 Fl. 1398DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.399 2 Relatório Por pertinente, transcrevo o relatório da decisão recorrida, verbis: A empresa acima identificada apresentou Declarações de Compensação (DCOMP) em 14/01/2005 (fls. 03/06) e 15/02/2005 (fls. 07/10), informando um suposto crédito de R$ 6.646.789,00 (seis milhões, seiscentos e quarenta e seis mil, setecentos e oitenta e nove reais) proveniente da ação judicial n° 92.00151035 (fls. 04 e 08) com vistas à compensação de débitos de Contribuições para Financiamento da Seguridade Social – COFINS nos períodos de apuração de 12/2004 (fls. 05) e 01/2005 (fls. 09). 2. A DERAT/DIORT/EQITD proferiu, em 17/10/2008, Despacho Decisório de fls. 37/40, com ciência à empresa em 31/10/2008 (fls. 297/298), por intermédio do qual não homologou as DCOMP apresentadas em razão da "não comprovação da homologação da renúncia ou desistência da execução judicial pela Justiça Federal e a possibilidade da repetição de indébito em duplicidade" (fls. 40), 3. Em virtude desta decisão, a empresa apresentou, tempestivamente, a manifestação de inconformidade de fls. 42/52, acompanhada de documentos de fls. 53/192 e fls. 196/294, requerendo que a manifestação de inconformidade seja recebida em seu efeito suspensivo (fls. 43) e alegando as seguintes razões de fato e de direito, em síntese: 3.1. Apresenta às fls. 44/46 um resumo da Ação Ordinária de Repetição de Indébito n° 92.00151035. 3.2. Entende que efetuou, nos termos da legislação em vigor, a compensação do valor principal incontroverso, com a apresentação de Declarações de Compensação (DCOMP) com débitos de COFINS. 3.3. O Despacho Decisório é insubsistente, devendo ser reformado conforme será demonstrado. 3.4. Na petição inicial de execução (fls. 124/133), requereu a citação da União Federal para manifestarse quanto à satisfação do crédito por meio de compensação com débitos de COFINS. 3.5. Nos embargos à execução (fls. 141/155), a União Federal questionou apenas o montante do crédito, no tocante à inclusão da taxa SELIC no cálculo, não se manifestando sobre a compensação. Portanto, do ponto de vista processual, por força do art. 473 do Código de Processo Civil CPC, a forma de aproveitamento do crédito por meio de compensação ficou preclusa. Apresenta doutrina às fls. 48 sobre preclusão e acrescenta que, neste momento, não pode ser indeferida a compensação. 3.6. Houve desistência do precatório para compensação do montante incontroverso, tendo em vista que a Fazenda Nacional não se opôs à satisfação do crédito por meio de compensação do montante incontroverso, foi apresentada, em 05/10/2004, petição (fls. 160/163) com a informação de que seria promovida a compensação deste montante, o que representa efetivamente a desistência do recebimento do crédito via precatório. Fl. 1399DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.400 3 3.7. Segundo jurisprudência predominante do Superior Tribunal de Justiça STJ (fls. 49), a compensação deve ser analisada com base na legislação vigente à época da propositura da ação judicial. 3.8. Portanto, na época em que foi dado início à execução do julgado, encontravase em vigor a Instrução Normativa n° 21/97 que, em seu art. 17, exigia apenas a comprovação da desistência e não a homologação pelo Poder Judiciário contida nas instruções normativos nº 460/2004 e n° 600/2005. 3.9. A desistência não precisa ser expressa, comprovandose a mesma pela petição de 05/10/2004 (fls. 160/163), na qual informou em juízo a compensação do crédito incontroverso, tomando, assim, infundado o Despacho Decisório. 3.10. Não há suporte legal que sustente a exigência de comprovação da desistência ou renúncia à execução do título judicial contida na instrução normativa. E que, ao dar início à execução, renunciou ao precatório do valor principal, por meio da pretensão de compensação do crédito. 3.11. "Com relação à assunção de custas e honorários advocatícios, há que se assumir todas as custas e honorários do processo de execução." (fls. 51). 3.12. Os honorários foram definidos na sentença que julgou o processo principal e não na sentença da execução. "A bem da verdade, não houve condenação em custas e honorários no processo de execução, em razão da sucumbência recíproca." (fls. 51). 3.13. Discorre sobre honorários às fls. 51 e afirma que: "Em suma, muito embora a MANIFESTANTE tenha assumido o compromisso de arcar com as custas e honorários advocatícios tais verbas não foram arbitradas no processo de execução. Entretanto, a legislação não lhe obriga a abrir mão dos honorários advocatícios da Ação Ordinária, sendo a compensação pretendida completamente viável nestes termos". (fls. 52). 3.14. Portanto, uma vez demonstrada a legalidade da compensação efetuada, não pode ficar à mercê de exigências que não se coadunam com a lei. 3.15. Diante do exposto, requer a declaração de insubsistência do despacho decisório para que sejam homologadas as Declarações de Compensação. A 6ª Turma da DRJ/SPO, acórdão n° 1620.608, julgou improcedente a manifestação de inconformidade, com decisão assim ementada: FINSOCIAL. AÇÃO JUDICIAL. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. COMPENSAÇÃO. REQUISITOS. DESISTÊNCIA E CUSTAS PROCESSUAIS. Para que possa efetivar compensação na esfera administrativa, incumbe ao contribuinte comprovar a homologação pelo Poder Judiciário da desistência da execução judicial e a assunção das custas do processo, inclusive honorários advocatícios. MANIFESTAÇÃO DE INCONFORMIDADE. EFEITOS. SUSPENSÃO. COMPETÊNCIA. Fl. 1400DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.401 4 Não compete às Turmas das Delegacias da Receita Federal do Brasil de Julgamento DRJ a apreciação da suspensão da exigibilidade do crédito tributário em razão da interposição de manifestação de inconformidade. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/12/2004 a 31/01/2005 ATOS NORMATIVOS. LEGALIDADE. Não compete ao julgador administrativo a apreciação de questões que versem sobre a legalidade de atos normativos regulamente editados, sendo esta análise de competência exclusiva do Poder Judiciário. Compensação não homologada Em seu Recurso Voluntário a empresa repisa os argumentos de sua impugnação, em especial: Houve a preclusão quanto à forma de aproveitamento do crédito, uma vez que na petição que deu início à execução do julgado foi requerida a citação da União para manifestarse quanto à satisfação do crédito por meio da compensação, sendo que nos embargos à execução a União nada mencionou sobre a forma de aproveitamento por meio de compensação. Assim, do ponto de vista processual, a questão quanto a possibilidade de compensação já haveria se exaurido; Quando foi dado o início à execução do julgado, com pedido de aproveitamento do crédito por meio de compensação, ainda não estavam vigentes as instruções normativas nº 460/2004 e nº 600/05, que exigem a comprovação da homologação pelo Poder Judiciário da desistência da execução do título judicial ou a renúncia à sua execução; Apresentou, em 05/10/2004, petição junto ao Poder Judiciário, informando que promoveria a compensação do montante incontroverso do crédito. A 2ª Câmara/2ª Turma Ordinária, Resolução n° 3202000.191, converteu o julgamento em diligência, por considerar controvertidos dois pontos: a) comprovação da homologação, pelo Poder Judiciário, da desistência da execução do título judicial ou renúncia à sua execução e b) assunção de todas custas do processo de execução, inclusive honorários advocatícios. Diante disso, a Recorrente foi intimada a: (a) apresentar Certidão de Objeto e Pé em relação à Ação Ordinária Declaratória cumulada com pedido de repetição de indébito nº 92.00151035; (b) apresentar Certidão de Objeto e Pé em relação à Ação de Execução nº 2004.61.00.0192217, onde a interessada buscou executar a decisão proferida na citada ação ordinária; (c) esclarecer, detalhadamente, se houve a desistência da execução do título judicial ou renúncia à sua execução, devidamente homologada pelo Poder Judiciário. Em caso afirmativo, apresentar a documentação probante; (d) esclarecer, detalhadamente, se foi feita a assunção de todas custas do processo de execução, inclusive honorários advocatícios. Em caso afirmativo, apresentar a documentação probante e (e) apresentar outras informações e/ou documentos que entender necessários para a elucidação do caso em litígio. Fl. 1401DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.402 5 Cumprida a diligência, a autoridade fiscal informou: 6. Em resposta à intimação fiscal (fls. 349/350), o interessado apresentou os documentos às fls. e 360/375 e 383/417, reforçando as informações prestadas na manifestação de inconformidade e no recurso voluntário, desta vez apresentando o despacho judicial às fls. 412/416 sobre a desistência parcial do exequente e a extinção do cumprimento da sentença em relação à parte incontroversa da sentença. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. Conforme relatado, a Recorrente apresentou declarações de compensação (PER/DCOMP) transmitidas em 14/01/2005 e 15/02/2005, utilizandose de créditos referentes a pagamento indevido de FINSOCIAL, tendo por base decisão judicial referente à ação ordinária nº 92.00151035, da 6ª Vara Cível da Justiça Federal em São Paulo, contra débitos de COFINS nãocumulativa dos períodos de apuração dezembro de 2004 e janeiro de 2005. No trânsito em julgado da ação ordinária n° 92.00151035, ficou reconhecido o direito à restituição dos recolhimentos efetuados acima da alíquota de 0,5%, relativos às contribuições de FINSOCIAL, acrescidas de juros moratórios de 1% a partir do trânsito em julgado e correção monetária. Restou fixada a sucumbência recíproca. O despacho decisório da DERAT concluiu pela não homologação das declarações de compensação e pela cobrança dos créditos tributários da COFINS indevidamente compensados, por conta da não comprovação da homologação da renúncia ou da desistência da execução judicial pela Justiça Federal e o risco da repetição de indébito em duplicidade. Por meio da diligência determinada pela 2ª Câmara/2ª Turma Ordinária, que implicou na juntada de peças processuais e petições da Recorrente nos autos judiciais, certidões de objeto e pé, bem como outros esclarecimentos, ficou demonstrado que a empresa desistiu da execução por precatório, optando pela via da compensação. Dentre os documentos trazidos a estes autos pela Recorrente, consta a decisão proferida pelo MM. Juiz, que declara extinto o direito ao cumprimento da sentença até o limite das compensações efetuadas pela empresa, no tocante ao valor incontroverso de R$ 6.646.789,00, por ser objeto de compensação (efl. 415). Confirase: Fl. 1402DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.403 6 Dessa forma, a desistência foi devidamente homologada pelo Juízo, nos termos do art. 50, §2° da IN SRF n° 460/2004 (IN RFB n° 563/2005, IN SRF n° 600/2005 e subsequentes). Com razão a Recorrente quando afirma que Fazenda Nacional não se opôs à satisfação do crédito por meio de compensação do montante incontroverso. Quanto ao segundo ponto objeto da diligência, a “assunção de todas custas do processo de execução, inclusive honorários advocatícios”, ficou comprovado que não houve, no processo de execução do julgado da ação ordinária, sequer discussão quando ao crédito principal compensado, bem como a ação ordinária fixou a sucumbência recíproca. A negativa da homologação das compensações se deu em virtude da suposta falta de homologação pelo Poder Judiciário da desistência da execução do título judicial, bem como a ausência de demonstração do ônus das custas processuais, inclusive os honorários advocatícios relativos ao processo de execução. Ocorre que logrou êxito a Recorrente em afastar tais elementos de negativa. Assim, considerando: I a validade e legitimidade do crédito de R$ 6.646.789,00, informado em PER/DCOMP, porque decorrente da ação judicial n° 92.00151035 e, II que o STJ se manifestou em sede de repetitivo, no REsp n° 1.137.738, no sentido de que o contribuinte pode proceder à compensação dos créditos pela via administrativa, de acordo com as normas posteriores, que neste caso é art. 74, da Lei n° 9.430/96. Com isso, os créditos relativos a tributos administrados pela RFB, podem ser compensados com débitos próprios relativos a quaisquer tributos (com exceção das contribuições previdenciárias e tributos apurados na sistemática do Simples Nacional), diante da legislação superveniente mais benéfica que não tenha sido fundamento da decisão judicial mais restritiva. Por isso, é legítima a compensação de FINSOCIAL com COFINS, tal como pleiteado pela Recorrente. Fl. 1403DF CARF MF Processo nº 10880.720877/200618 Acórdão n.º 3301004.678 S3C3T1 Fl. 1.404 7 Então, é direito da Klabin S/A ter suas compensações analisadas, sob pena de enriquecimento ilícito do Estado. Cumpriu seu ônus probatório de demonstrar a legitimidade do crédito de R$ 6.646.789,00. Por conseguinte, deve a unidade de origem, considerando esse crédito legítimo demonstrado, fazer o cotejo com os débitos apontados e, após, homologar as compensações. Conclusão Pelo exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário, para permitir a compensação dos créditos do FINSOCIAL com débitos de COFINS, após confronto e análise dos débitos indicados pelo contribuinte nos PER/DCOMP, com o crédito de R$ 6.646.789,00. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro – Relatora Fl. 1404DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.001299/2012-16
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 27 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Simples Nacional
Ano-calendário: 2012
OMISSÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. NULIDADE DA DECISÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA.
É nulo o acórdão recorrido quando não enfrentar todas as matérias trazidas na impugnação. Levantada, de ofício, omissão do colegiado a quo na análise de matéria impugnada, devese anular o acórdão recorrido por cerceamento do direito de defesa.
Numero da decisão: 1001-000.621
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em declarar de ofício a nulidade da decisão de 1ª instância, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que lhe negou provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Edgar Bazhuni, quanto à nulidade, uma vez que entendeu que a motivação para a anulação é a inovação dos fundamentos da decisão recorrida.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
EDUARDO MORGADO RODRIGUES - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente)
Nome do relator: EDUARDO MORGADO RODRIGUES
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NULIDADE DA DECISÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. É nulo o acórdão recorrido quando não enfrentar todas as matérias trazidas na impugnação. Levantada, de ofício, omissão do colegiado a quo na análise de matéria impugnada, devese anular o acórdão recorrido por cerceamento do direito de defesa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em declarar de ofício a nulidade da decisão de 1ª instância, vencido o conselheiro Lizandro Rodrigues de Sousa, que lhe negou provimento. Votou pelas conclusões o conselheiro Edgar Bazhuni, quanto à nulidade, uma vez que entendeu que a motivação para a anulação é a inovação dos fundamentos da decisão recorrida. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) EDUARDO MORGADO RODRIGUES Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 0. 00 12 99 /2 01 2- 16 Fl. 57DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues, José Roberto Adelino da Silva e Lizandro Rodrigues de Sousa (Presidente) Relatório Tratase de Recurso Voluntário (fls. 48 a 54) interposto contra o Acórdão nº 0433.610, proferido pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Campo Grande/MS (fls. 41 a 42), que, por unanimidade, julgou improcedente a manifestação de inconformidade apresentada pela ora Recorrente, decisão esta consubstanciada na seguinte ementa: " ASSUNTO: SIMPLES NACIONAL Anocalendário: 2012 TERMO DE INDEFERIMENTO DA OPÇÃO AO SIMPLES NACIONAL. EXISTÊNCIA DE DÉBITOS COM A FAZENDA PÚBLICA FEDERAL. EXIGIBILIDADE NÃO SUSPENSA. A empresa que possui débitos com a Fazenda Pública Federal e não comprova que sua exigibilidade está suspensa não pode ingressar no Simples Nacional. Manifestação de Inconformidade Improcedente Sem Crédito em Litígio" Por sua precisão na descrição dos fatos que desembocaram no presente processo, peço licença para adotar e reproduzir os termos do relatório da decisão da DRJ de origem: " A contribuinte acima qualificada teve o seu pedido de inclusão no Simples Nacional indeferido tendo em vista a existência de débito(s) com a Fazenda Pública Federal, cuja exigibilidade não está suspensa, nos termos da Lei Complementar nº 123, de 14/12/2006, art. 17, inciso V, e conforme o Termo de Indeferimento da Opção pelo Simples Nacional com data de registro em 09/03/2012 (fls. 03). Ciente desta decisão, apresentou manifestação de inconformidade em 03/04/2012 (fls. 02) alegando, em síntese, que o débito motivador do indeferimento da opção pelo Simples Nacional foi objeto de parcelamento, conforme documentação em anexo. Por fim, pede sua inclusão no Simples Nacional. Juntou cópias de documentos de fls. 04 e seguintes." Inconformada com a decisão de primeiro grau, que julgou improcedente a sua manifestação de inconformidade, tão somente sob o argumento de que não apresentou CND, a ora Recorrente apresentou Recurso Voluntário reafirmando que comprovou que estarva em dia com suas obrigações. Fl. 58DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 4 3 É o relatório. Voto Conselheiro Eduardo Morgado Rodrigues O presente Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, portanto, dele conheço. Conforme narrado, já por ocasião da Manifestação de Inconformidade a Contribuinte alegou que os débitos indicados no Termo de Indeferimento do Simples (fl. 3) já se encontravam regularmente parcelados, conforme requerimento e guias de recolhimento juntadas (fls. 04 a33). Por sua vez, a DRJ de origem, ao julgar a Manifestação apresentada decidiu, em um voto cuja fundamentação preencheu apenas um único parágrafo, que consignou apenas que a ora Recorrente não trouxe Certidão Negativa de Débitos, o que comprovaria sua regularidade fiscal. Para ilustrar, transcrevo a integralidade do voto: "A manifestação de inconformidade é tempestiva e dela conheço. A interessada argumentou que os débitos ensejadores de sua exclusão do Simples haviam sido regularizados. Mas não trouxe a Certidão Conjunta Negativa ou Positiva com Efeitos de Negativa de débitos relativos a tributos federais e à dívida ativa da União, o que comprovaria sua regularidade fiscal. A tentativa de obtêla por meio da internet no sítio da Receita Federal não surtiu efeito, vez que ali foi certificado que as informações disponíveis são insuficientes para sua emissão, remetendo para consulta à sua situação fiscal, indicativa da existência de pendências. Conclusão. Em face do exposto e considerando tudo mais que dos autos consta, julgo improcedente a manifestação de inconformidade e mantenho o Termo de Indeferimento de Opção ao Simples Nacional, por seus próprios fundamentos. É o meu voto." Conforme se extrai da breve decisão, a DRJ de origem não chegou sequer a analisar a documentação trazida pela Recorrente, ou se manifestar quanto a existência ou não do parcelamento alegado. Ao que parece, a DRJ em comento entendeu que a única forma de se comprovar a improcedência do Termo de Indeferimento do Simples, ou, de outra forma, a inexistência de débitos capazes de obstar a opção seria por meio único e exclusivo da apresentação de CND. E neste esteio, uma vez que não apresentada a Certidão, parece ter considerado prejudicada a análise do restante da matéria alegada, incluindo demais documentos Fl. 59DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 5 4 de prova. O que justificaria o fato de não ter tecido uma linha sequer sobre o parcelamento que Recorrente alegou ter realizado, ou sobre a inexistência do débito específico apontado no Termo de Indeferimento. Com o devido respeito à atividade da d. DRJ, discordo de tal entendimento. Primeiramente, a Lei Complementar 123/06 ao tratar das vedações ao ingresso no Simples, em seu art. 17, inciso V, estabelece que a empresa que pretende participar do regime de tributação não pode ter débitos fiscais sem exigibilidade suspensa, como segue: Art. 17. Não poderão recolher os impostos e contribuições na forma do Simples Nacional a microempresa ou a empresa de pequeno porte: [...] V que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social INSS, ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa; [...] Nos mesmos termos, regular a Resolução CGSN nº 94/11: Art. 15. Não poderá recolher os tributos na forma do Simples Nacional a ME ou EPP: (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 17, caput) [...] XV que possua débito com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ou com as Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, cuja exigibilidade não esteja suspensa; (Lei Complementar nº 123, de 2006, art. 17, inciso V) [...] Conforme se extraí, ambos os diplomas estabelecem tão somente que a vedação é causada por "possuir débito" para com o INSS ou Fazendas Públicas Federal, Estadual ou Municipal, sem que a exigibilidade esteja suspensa. Notese que em momento algum qualquer um dos diplomas prescreve o dever de apresentar Certidão Negativa de Débitos. Em verdade, a normativa atinente ao regime do Simples trata a questão da regularidade fiscal de forma ampla, se reportando diretamente à existência ou não de débito fiscal sem exigibilidade suspensa. Para fins de Simples, pouco importa se a CND não pode ser expedida por alguma razão específica que não verdadeira existência de débitos exigíveis. Apenas a guisa de exemplo, notese que em alguns casos de parcelamento a emissão de CND pode requerer comparecimento pessoal do interessado em uma unidade de atendimento da respectiva DRF e/ou a conferência mecânica de alguma informação, o que poderia impossibilitar a emissão Fl. 60DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 6 5 imediata e/ou por meio da internet, contudo, não significaria que o contribuinte necessariamente estaria com débitos não resolvidos. Outrossim, conforme cediço, o processo administrativo fiscal também se rege pelos princípios do devido processo legal, duplo grau de jurisdição e da ampla defesa. Tais conclusões se extraem da interpretação sistemática dos seguintes dispositivos constitucionais: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) XXXIV são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas: a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder; (...) LIV ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; LV aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes; Confirmando nossas conclusões, temos a lição do ilustre professor James Marins, conforme se faz oportuno transcrever: Princípio da ampla instrução probatória: Do âmago do principio da ampla defesa emerge o direito à produção de provas, ou, mais propriamente, o direito à utilização de todos os meios de provas pertinentes à lide submetida a julgamento administrativo. (...) Esta garantia, consectário insuprimível do conteúdo jurídico do direito à ampla defesa, é conferida expressamente aos litigantes em processo administrativo através do art. 5º, LV, da CF/1988. Não podem, por isso mesmo, a legislação processual administrativa ou o órgão julgador obstaculizar o exercício do direito à prova, sob pena de incidência de cerceamento de defesa(...). Somente a prova ilícita poderá ser legalmente descartada como objeto de apreciação no Processo Administrativo(...). (...) Fl. 61DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 7 6 Princípio do duplo grau de jurisdição:A ideia de revisão recursal dos julgamentos administrativos ou judiciais atende a necessidades de qualidade e segurança da prestação estatal julgadora e é imperativo jurídico expresso no art. 5º, lV, da CF/1988. (...) Não pode, União, Estados, Distrito Federal ou Municípios, instituir, no âmbito de sua competência, a denominada "instância única" para julgamento das lides tributárias deduzidas administrativamente, sob pena de irremediável mutilação da regra constitucional e consequente imprestabilidade do sistema administrativo processual que, por falta de tal requisito constitucional de validade, não servirá para aperfeiçoar a pretensão fiscal impugnada, remanescendo carente de exigibilidade. (MARINS, James. Direito processual tributário brasileiro: administrativo e judicial. 9 ed. São Paulo: RT, 2016, pgs. 198 200.)(Grifouse) Nesta linha, temse duas conclusões importantes para o presente julgado. Primeiramente, o direito à ampla defesa que impende a necessidade de se autorizar ao jurisdicionado o uso amplo de todos os meios de provas lícitas. Conforme as lições supra, não cabe ao julgador administrativo restringir as formas de provas possíveis de serem utilizadas pelo contribuinte, sobretudo quando a própria legislação não o fez. A segunda conclusão reportase ao direito ao julgamento em duas instância do contribuinte. O Administrado não pode ter suas razões julgadas por apenas uma instância processual, sob pena de nulidade do julgamento. Tal circunstância se encontra expressa no Inciso II do Art. 59 do Decreto 70.235, como segue: Art. 59. São nulos: I os atos e termos lavrados por pessoa incompetente; II os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa. Diante destas considerações, parece claro que no caso em tela, de forma alguma poderia a autoridade julgadora de primeira instância, ou até mesmo a autoridade fiscal, restringir as formas em que a Recorrente poderia comprovar os seu direito, como o fez. Por tanto, afasto o entendimento adotado pela decisão de piso de que apenas a apresentação da CND seria prova hábil a demonstrar a inexistência de débitos para fins de opção do Simples. Fl. 62DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 8 7 Ocorre que a DRJ de origem, ao entender que a não apresentação de CND seria suficiente para negar provimento à Manifestação de Inconformidade, deixou efetivamente de analisar os argumentos e documentos apresentados pela Contribuinte por considerálos prejudicados. Uma vez que tal entendimento foi afastado, restou um "vácuo" jurisdicional, há matérias alegadas e provas apresentadas pela Contribuinte que carecem de apreciação pela primeira instância administrativa. Conforme já demonstrado, tal circunstância fere o princípio constitucional do duplo grau de jurisdição e da ampla defesa, tornado o respectivo acórdão de piso nulo. Tal entendimento já se encontra sedimentado na jurisprudência deste Conselho: OMISSÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. NULIDADE DA DECISÃO. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. É nulo o acórdão recorrido quando não enfrentar todas as matérias trazidas na impugnação. Levantada, de ofício, omissão do colegiado a quo na análise de matéria impugnada, devese anular o acórdão recorrido por cerceamento do direito de defesa. (Processo: 10410.721329/201281. 3ª Câmara / 1ª Turma Ordinária. 4 de outubro de 2017) OMISSÃO DO JULGAMENTO. PRETERIÇÃO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. É nulo, por preterição do direito de defesa, o Acórdão referente ao julgamento de primeira instância que deixa de se manifestar sobre matéria impugnada (argumento autônomo) capaz de, em tese, culminar no cancelamento, mesmo que parcial, do auto de infração. (Processo: 15983.720040/201517. 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária. 24 de maio de 2017.) CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. A falta de apreciação pela autoridade julgadora de primeira instância e razões de defesa apresentadas na impugnação constitui preterição do direito de defesa da parte, ensejando a nulidade da decisão assim proferida, "ex vi" do disposto no art. 59, item II, d o Decreto n.° 70.235/72. (Processo n.º 10880.038405/8901. 17/09/2002). Diante de todos os argumentos e fatos aqui expostos, temse claramente que o acórdão de primeira instância deve ser anulado em razão da omissão do tribunal a quo quanto a análise das razões e provas trazidas pela Contribuinte. Como consequencia, os autos devem ser baixados para que a DRJ de origem realize novo julgamento, desta vez superando a questão da ausência de apresentação de CND e Fl. 63DF CARF MF Processo nº 10280.001299/201216 Acórdão n.º 1001000.621 S1C0T1 Fl. 9 8 analisando todos os argumentos e prova trazidas aos autos, afim de se resguardar o direito constitucional à ampla defesa e ao duplo grau de jurisdição. Em face a todo o exposto, VOTO por RECONHECER A NULIDADE do Acórdão nº 0433.610da 2ª Turma da DRJ de Campo Grande/MS, devendo o processo ser baixado para novo julgamento, nos termos acima. É como voto. (assinado digitalmente) Eduardo Morgado Rodrigues Relator Fl. 64DF CARF MF
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Numero do processo: 15586.720056/2011-89
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jun 05 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jul 11 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2007, 2008
ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE.
A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição.
Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienantes e adquirentes integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidencia-se a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar.
MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO. INOCORRÊNCIA DE BIS IN IDEM.
A multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em bis in idem. A multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente.
A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do ano-calendário.
CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL
TRIBUTAÇÃO REFLEXA.
Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplica-se à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ.
Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2007, 2008
JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO.
A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic, que, diante das circunstâncias do caso, e para se evitar o reformatio in pejus, deve ter seu montante limitado ao somatório da taxa de 1% ao mês, acumulada no mesmo período.
Numero da decisão: 9101-003.611
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. No mérito, (i) quanto ao ágio interno e quanto à possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (iii) quanto à aplicação do índice, por unanimidade de votos, acordam em negar-lhe provimento. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que não conheceu do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar-lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento.
(assinado digitalmente)
Rafael Vidal de Araujo Relator e Presidente em Exercício.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício).
Nome do relator: RAFAEL VIDAL DE ARAUJO
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JUROS SOBRE MULTA. ESTIMATIVAS MENSAIS MULTA ISOLADA. Recorrentes FAZENDA NACIONAL VIAÇÃO JOANA D'ARC S/A ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 ÁGIO INTERNO. AMORTIZAÇÃO. INDEDUTIBILIDADE. A hipótese de incidência tributária da possibilidade de dedução das despesas de amortização do ágio, prevista no art. 386 do RIR/1999, requer a participação de uma pessoa jurídica investidora originária, que efetivamente tenha acreditado na "mais valia" do investimento e feito sacrifícios patrimoniais para sua aquisição. Inexistentes tais sacrifícios, notadamente em razão do fato de alienantes e adquirentes integrarem o mesmo grupo econômico e estarem submetidos a controle comum, evidenciase a artificialidade da reorganização societária que, carecendo de propósito negocial e substrato econômico, não tem o condão de autorizar o aproveitamento tributário do ágio que pretendeu criar. MULTA ISOLADA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM A MULTA DE OFÍCIO SOBRE O TRIBUTO DEVIDO NO FINAL DO ANO. INOCORRÊNCIA DE BIS IN IDEM. A multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em bis in idem. A multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 58 6. 72 00 56 /2 01 1- 89 Fl. 1183DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 3 2 A partir do advento da Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007, que alterou a redação do art. 44 da Lei nº 9.430/96, não há mais dúvida interpretativa acerca da inexistência de impedimento legal para a incidência da multa isolada cominada pela falta de pagamentos das estimativas mensais do IRPJ e da CSLL, concomitantemente com a multa de ofício decorrente da falta de pagamento do imposto e da contribuição devidos ao final do anocalendário. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL TRIBUTAÇÃO REFLEXA. Sendo a tributação decorrente dos mesmos fatos e inexistindo razão que demande tratamento diferenciado, aplicase à CSLL o quanto decidido em relação ao IRPJ. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2007, 2008 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de ofício proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic, que, diante das circunstâncias do caso, e para se evitar o reformatio in pejus, deve ter seu montante limitado ao somatório da taxa de 1% ao mês, acumulada no mesmo período. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial do Contribuinte. No mérito, (i) quanto ao ágio interno e quanto à possibilidade de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, por maioria de votos, acordam em negar provimento ao recurso, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto e Gerson Macedo Guerra, que lhe deram provimento e (iii) quanto à aplicação do índice, por unanimidade de votos, acordam em negarlhe provimento. Acordam, ainda, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial da Fazenda Nacional, vencido o conselheiro Luís Flávio Neto, que não conheceu do recurso. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar lhe provimento, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), que lhe negaram provimento. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo – Relator e Presidente em Exercício. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Flávio Franco Corrêa, Cristiane Silva Costa, Viviane Vidal Wagner, Luis Flávio Neto, Fernando Brasil de Oliveira Pinto (suplente convocado), Gerson Macedo Guerra, José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado), Rafael Vidal de Araújo (Presidente em Exercício). Fl. 1184DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 4 3 Relatório Tratase de recursos especiais de divergência interpostos pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e pela contribuinte acima identificada, fundamentados atualmente no art. 67 e seguintes do Anexo II da Portaria MF nº 343, de 09/06/2015, que aprova o Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). Esses recursos buscam reverter o que foi decidido no Acórdão nº 1402 001.180, de 11/09/2012, complementado pelo Acórdão nº 1402001.825, de 25/09/2014, por meio dos quais a 2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF deu provimento parcial a recurso voluntário anteriormente apresentado, para fins de, entre outras questões, reduzir a multa de ofício de 150% para 75% e cancelar a exigência da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL, mantendo, entretanto, o lançamento referente a IRPJ/CSLL no ajuste anual, com fundamento na glosa de despesas a título de amortização de ágio. O Acórdão nº 1402001.180 contém a ementa e a parte dispositiva transcritas abaixo: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO EFETIVAMENTE PAGO NA AQUISIÇÃO SOCIETÁRIA. PREMISSAS. As premissas básicas para amortização de ágio, com fulcro nos art. 7º, inciso III, e 8º da Lei 9.532 de 1997, são: i) o efetivo pagamento do custo total de aquisição, inclusive o ágio; ii) a realização das operações originais entre partes não ligadas; iii) seja demonstrada a lisura na avaliação da empresa adquirida, bem como a expectativa de rentabilidade futura. Nesse contexto não há espaço para a dedutibilidade do chamado “ágio de si mesma”, cuja amortização é vedada, haja vista que não encontra respaldo nas normas tributárias e fere um dos princípios básicos do IRPJ/CSLL, qual seja: a incidência sobre o lucro efetivamente auferido, sendo que no caso em questão essa prática ocorreu. MULTA DE OFÍCIO QUALIFICADA. INAPLICABILIDADE. INOCORRÊNCIA DE FRAUDE. Nos lançamentos de ofício para constituição de diferenças de tributos devidos, não pagos e não declarados, via de regra, é aplicada a multa proporcional de 75%, nos termos do art. 44, inciso I, da Lei 9.430/1996. A qualificação da multa para o percentual de 150% depende não só da intenção do agente, como também da prova fiscal da ocorrência da fraude ou do evidente intuito desta, caracterizada pela prática de ação ou omissão dolosa com esse fim. Na situação versada nos autos não houve dolo por parte do contribuinte, logo incabível a aplicação da multa qualificada. MULTA DE OFÍCIO ISOLADA NA FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. É inaplicável a penalidade quando há concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual. Fl. 1185DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 5 4 JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFICIO. Cabível a exigência de juros de mora sobre a multa de oficio à taxa Selic. Recurso Voluntário Provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Por maioria de votos, dar provimento parcial ao recurso para reduzir a multa de ofício aplicada junto com o tributo ao percentual de 75% e cancelar a multa isolada, nos termos do relatório e voto que passa a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Carlos Pelá e Moisés Giacomelli Nunes da Silva que davam provimento em maior extensão para excluir a exigência dos juros de mora sobre a multa de ofício; e o Conselheiro Leonardo de Andrade Couto, que votou pela manutenção da multa isolada. E o Acórdão nº 1402001.825, que acolheu embargos de declaração da PGFN contra a decisão acima referida, sem efeitos infringentes, expressa o seguinte: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2007, 2008 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO E CONTRADIÇÃO. Verificadas omissão e contradição no acórdão embargado, cumpre esclarecer a extensão do resultado do julgamento do recurso, sanando, assim, a omissão e a contradição levantadas. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2007, 2008 MULTA DE OFÍCIO ISOLADA NA FALTA DE RECOLHIMENTO POR ESTIMATIVA. É inaplicável a penalidade quando há concomitância com a multa de oficio sobre o ajuste anual, ainda que após a vigência das alterações da Lei 11.488/2007. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFICIO. Cabível a exigência de juros de mora sobre a multa de oficio à taxa de 1% ao mês. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em acolher os embargos de declaração para sanar a omissão e a contradição apontadas no acórdão 1402001.180; e confirmar o provimento parcial do recurso voluntário. Ausente o Conselheiro Carlos Pelá. Participou do julgamento o Conselheiro Sergio Luiz Bezerra Presta. RECURSO ESPECIAL DA PGFN Em seu recurso especial, a PGFN afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, especificamente Fl. 1186DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 6 5 quanto à parte da decisão que cancelou a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL. Para o processamento de seu recurso, a PGFN desenvolve os seguintes argumentos: DO CABIMENTO DO RECURSO ESPECIAL. a e. Câmara a quo julgou que não existe a possibilidade de se aplicar, cumulativamente, a multa de ofício pelo não recolhimento do imposto de renda apurado no lançamento e a multa isolada pelo descumprimento de obrigação acessória em relação aos exercícios de 2007 e 2008; por outro lado, a Segunda Turma da Segunda Câmara da Primeira Seção do CARF, ao analisar casos similares, interpretou a questão de modo diverso ao esposado pelo acórdão recorrido, senão vejamos: Acórdão 120200.410 MULTA POR FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVA. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO ACOMPANHANDO EXIGÊNCIA DE TRIBUTO. COMPATIBILIDADE. A falta de recolhimento da CSLL sobre a base de cálculo estimada por empresa que optou pela tributação com base no lucro real anual enseja a aplicação da multa de ofício isolada de que trata o inciso IV do § 1º do art. 44 da Lei nº 9.430/96. O lançamento é compatível com a exigência da contribuição apurada em procedimento fiscal, acompanhada da correspondente multa de ofício. Acórdão 1202000.964 MULTA ISOLADA. FALTA DE RECOLHIMENTO DE ESTIMATIVAS. CONCOMITÂNCIA COM MULTA DE OFÍCIO. LEGALIDADE. A incidência de multa isolada aplicável na hipótese de falta de pagamento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL não elide a aplicação concomitante de multa de ofício calculada sobre diferenças do IRPJ e da CSLL devidos na apuração anual, por observarem previsões legais específicas. tanto na hipótese do acórdão recorrido, quanto na hipótese dos acórdãos paradigmas, os fatos são similares. Entretanto, as soluções dadas pelos colegiados são inteiramente diferentes; observese que a Câmara a quo entende que não pode ser exigida concomitantemente a multa por lançamento de ofício e a multa isolada, considerando o princípio da consunção. Conforme se verifica dos seguintes trechos do voto condutor: [...]; por sua vez, a Segunda Turma da Segunda Câmara da Primeira Seção, entendeu que as duas multas podem ser exigidas simultaneamente, sem ofensa a qualquer dispositivo legal ou princípio do ordenamento jurídico pátrio, por se tratarem de hipóteses Fl. 1187DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 7 6 distintas. Destacaram, ainda, que as respectivas exigências são posteriores à alteração legislativa advinda com a Medida Provisória 351/07, convertida na Lei 11.488/07, o que afastaria qualquer alegação de concomitância. Vejase o voto condutor do acórdão 1202 000.964: [...]; no mesmo sentido temos o voto proferido no acórdão 120200.410: [...]; no cotejo analítico temos que: [...]; assim, estando devidamente prequestionada a matéria, e demonstrada a divergência jurisprudencial entre Câmaras do CARF, encontramse presentes os requisitos de admissibilidade do presente recurso; DOS FUNDAMENTOS PARA A REFORMA DO ACÓRDÃO RECORRIDO. o ordenamento jurídico pátrio rechaça a existência de bis in idem na aplicação de penalidades tributárias. Isso significa dizer, em suma, que não é legítima a aplicação de mais de uma penalidade em razão do cometimento da mesma infração tributária, sendo certo que o contribuinte não pode ser apenado duas vezes pelo cometimento de um mesmo ilícito; nesta esteira, temse como ocorrido o bis in idem se as referidas multas decorrerem de uma mesma infração; ao contrário, será lícita a concomitância se as multas resultarem de infrações diversas; como se sabe, no imposto de renda temse o chamado fato gerador complexivo, expressão criticada por alguns doutrinadores, mas aceita pela maioria. Significa dizer que, apesar de a disponibilidade jurídica ou econômica da renda ser adquirida no decorrer de todo anocalendário, o fato gerador apenas será considerado ocorrido no dia 31 de dezembro de cada ano; entretanto, apesar de o fato gerador se concretizar apenas no dia 31 de dezembro, o que, a princípio, faria com que o tributo fosse considerado devido a partir de tal data, foi criada a sistemática do recolhimento antecipado, a ocorrer mensalmente, nos termos previstos na Lei 7.713/1988; observese, nesse ponto, que essa sistemática de recolhimento antecipado se justifica diante da necessidade que possui a União de auferir receitas no decorrer do ano, precisamente a fim de fazer face às despesas em que incorre também nesse período. Caso não ocorresse essa antecipação mensal, a União apenas teria acesso às receitas decorrentes da arrecadação do IR ao final do anocalendário, ou no exercício seguinte, por ocasião do ajuste anual; vêse, portanto, que o recolhimento mensal antecipado auxilia a União a fazer frente às despesas incorridas durante o ano calendário, o que não ocorreria se a referida exação apenas fosse paga no exercício seguinte; sob essa ótica, o não recolhimento do IR mensal é infração bastante diversa daquela consistente na omissão de rendimentos apurada ao final do anocalendário; Fl. 1188DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 8 7 portanto, tratamse de infrações distinta das quais resultam penalidades distintas: da omissão de rendimentos decorre a multa de ofício prevista no art. 44, inciso I, da Lei 9.430/96; do descumprimento do regime de recolhimento mensal, decorre a multa isolada prevista no atual art. 44, inciso II, alínea “a”, da mesma Lei; a nova redação dada pela Lei nº 11.488/07 ao art. 44 da Lei nº 9.430/96, que alterou o percentual da multa isolada por falta de recolhimento mensal, de 75% para 50%, veio apenas reforçar essa distinção. O descumprimento do dever de antecipação deve ser sancionado na forma da lei, independentemente do valor do imposto calculado ao final do exercício, ou mesmo da inexistência de imposto a pagar no ajuste anual (pessoa física) ou da existência de prejuízo fiscal (pessoa jurídica); notese que a multa de ofício somente será devida caso exista tributo a pagar por ocasião do ajuste anual. Por outro lado, a multa isolada será devida ainda que, ao final do período, não tenha sido apurado imposto a pagar (pessoa física) ou seja demonstrado prejuízo fiscal (pessoa jurídica), já que a infração da qual resulta essa multa consiste, simplesmente, no descumprimento do regime de recolhimento mensal, não possuindo qualquer relação com o pagamento em si do imposto; tratamse de situações totalmente desvinculadas; em suma, as multas de ofício e isolada não decorrem da mesma infração, devendo ser analisadas separadamente; a primeira decorre do descumprimento da obrigação principal e a segunda do descumprimento da obrigação acessória. São multas inteiramente diversas, previstas em lei, e não possuem sequer a mesma base de cálculo no presente anocalendário (2008); portanto, a exigência conjunta não configura bis in idem, sequer afronta o princípio penal (não aplicável em âmbito tributário) da consunção; o fato de estar sendo exigida a multa de ofício decorrente do não pagamento de tributo, não elide a incidência da multa prevista no art. 44, inciso II, alínea “a”, tendo em vista que a lei não dispensa a cobrança da penalidade decorrente da obrigação acessória nesses casos; uma vez constatada a falta de pagamento do imposto devido mensalmente, após o término do anocalendário, há que ser aplicada a multa isolada sobre os valores devidos e não recolhidos pela pessoa física. Não existe limitação no sentido de que a multa isolada somente pode ser aplicada antes da apuração definitiva do imposto; sobre o tema objeto deste Recurso Especial são esclarecedores os argumentos contidos no voto condutor do acórdão 1302001.080 que trata de situação análoga referente à concomitância entre a multa isolada por falta de recolhimento de estimativas por pessoa jurídica com a multa de ofício pelo não recolhimento do imposto apurado em declaração anual, in verbis: no presente caso, restou plenamente configurada a pertinência da dupla exigência relativa à multa isolada e à multa de ofício; Fl. 1189DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 9 8 assim, face ao exposto, requer a União (Fazenda Nacional) seja dado provimento ao presente recurso, para reformar o acórdão recorrido, mantendose a multa isolada aplicada pela falta de recolhimento de estimativas em relação aos períodos posteriores à vigência da Medida Provisória nº 351/2007 e posteriormente Lei nº 11.488/2007. Quando do exame de admissibilidade do recurso especial da PGFN, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 25/01/2016, deu seguimento ao recurso, fundamentando sua decisão na seguinte análise sobre a divergência suscitada: A Procuradoria da Fazenda Nacional questiona a decisão na parte em que afastou a exigência de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas porque aplicada concomitantemente com a multa de ofício proporcional à falta de recolhimento dos tributos devidos no ajuste anual, e firma a divergência em face dos Acórdãos nº 120200.410 e 1202000.964, assim ementados relativamente ao tema sob análise: [...] A aplicação concomitante da multa isolada e da multa proporcional no âmbito do IRPJ e da CSLL é objeto de súmula aprovada pela 1ª Turma do CARF em 08/12/2014, nos seguintes termos: Súmula CARF nº 105 [...]; Contudo, os valores lançados não tiveram por fundamento o disposto na redação original do art. 44, §1º, inciso IV da Lei nº 9.430/96, e se referem apenas a ocorrências posteriores à sua alteração pela Medida Provisória nº 351/2007, convertida na Lei nº 11.488/2007. Por sua vez, o segundo paradigma apresentado reporta, ainda que dentre outras, ocorrências a partir de 2007 e o texto de sua ementa é confirmado no voto condutor do julgado, que é claramente favorável à exigência da multa isolada, ainda que aplicada multa proporcional sobre os tributos devidos no ajuste do mesmo anocalendário. Portanto, a recorrente demonstra o dissídio jurisprudencial no tema abordado. Constato, assim, que o recurso é tempestivo e que a recorrente identifica a divergência acerca da aplicação concomitante da multa isolada com a multa de ofício proporcional. Portanto, satisfeitos os pressupostos de admissibilidade, proponho que seja DADO seguimento ao recurso especial. CONTRARRAZÕES DA CONTRIBUINTE Em 09/03/2016, a contribuinte teve ciência do despacho que deu seguimento ao recurso especial da PGFN, e em 24/03/2016, ela apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os argumentos descritos a seguir: DO MÉRITO. DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA. anteriormente à exposição das razões do não provimento do Recurso Especial interposto, cumpre a Recorrida expor acerca da delimitação da matéria a ser apreciada pela Colenda Câmara Superior de Recursos Fiscais; Fl. 1190DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 10 9 conforme se depreende da leitura do Recurso Especial da Recorrente, foram apresentadas decisões paradigmas acerca, exclusivamente, da possibilidade de aplicação da multa isolada em concomitância com a multa de ofício (Acórdãos n° 120200.410 e 1202 000.964); com relação aos demais aspectos em que vencida a Recorrente na presente demanda administrativa (redução da multa qualificada para o percentual de 75%), não houve qualquer tipo de demonstração de decisões divergentes por parte da Recorrente, o que delimita a matéria a ser apreciada por esse Nobre Colegiado ao tema mencionado acima; ultrapassado esse primeiro aspecto, cumpre a Recorrida expor as razões de não provimento do Recurso Especial da Recorrente; DA ETAPA PREPARATÓRIA AO ATO DE REDUZIR O IMPOSTO. em contraposição à postura adotada pela Recorrente, destacamos que as condutas de recolhimento das antecipações ao longo do anocalendário e a apuração do ajuste ao final do período, embora distintas, estão interligadas na medida em que uma produz reflexos diretos na outra; ora, no momento do ajuste em comento certo é que deverão ser levados em consideração justamente os pagamentos realizados ao longo de todo o anocalendário, estes feitos para antecipação do fluxo de caixa do governo. Assim, impossível dissociar por completo uma conduta da outra alegando trataremse de situações desvinculadas, visto que estão, na realidade, intrinsicamente ligadas; nesse sentido, há precedentes dessa Colenda Câmara Superior, destacando que o recolhimento da estimativa mensal caracteriza etapa preparatória do ato de reduzir o imposto ao final do anocalendário; assim, inviável a tentativa de se explorar as condutas ensejadoras da aplicação de multa isolada e multa de ofício proporcional como comportamentos independentes quando, em verdade, a realização de uma (falta de pagamento de estimativa) provoca reflexos na outra (apuração de ajuste anual); DA NÃO APLICAÇÃO DA MULTA ISOLADA APÓS O ENCERRAMENTO DO ANOCALENDÁRIO. em linha com o disposto no item anterior, podese afirmar que não há que se falar em cobrança de multa isolada após o encerramento do anocalendário, visto que o dever de antecipar apenas existe antes do encerramento do período de apuração, sendo exigível, após isso, o dever de apurar e pagar tributo devido no ajuste; uma vez que as penalidades em apreço têm sua aplicabilidade calcada na falta de pagamento de tributo, e as duas condutas em questão (antecipação de tributo e apuração de ajuste anual) perfazem uma relação de causa e efeito, a concomitância da aplicação de multa isolada e multa proporcional estaria partindo de ações, embora distintas, ligadas materialmente; há de ser observado, ainda, que apesar de ligadas, as condutas de antecipar e apurar o ajuste não ocorrem concomitantemente, de maneira que o dever de antecipar perdura Fl. 1191DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 11 10 por todo o anocalendário, enquanto o dever de ajustar surge após encerrado o período de apuração; assim, encerrado o período de apuração, tudo o que não foi devidamente recolhido a título de antecipação de tributo se reflete na apuração do ajuste anual, momento em que será aferida eventual falta de recolhimento do imposto, quando, então, é cabível a penalidade correspondente, qual seja, a multa proporcional prevista no artigo 44, inciso I, da Lei n° 9.430 de 27 de Dezembro de 1996, uma vez que já se encontra ultrapassada a fase de recolhimento de estimativas; destacamse, nesse sentido, precedentes dessa Colenda Câmara Superior: [...]; aliás, é de se ressaltar que tal matéria já foi objeto de Súmula nessa Colenda Câmara: "Súmula CARF n° 105: A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1°, inciso IV da Lei n° 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício." (SESSÃO DE 08/12/2014) vale dizer que, como bem observado na decisão a quo, não há que se falar em possibilidade da concomitância ora analisada após a alteração da redação do artigo 44, promovida pela Lei n° 11.488/2007, uma vez que o legislador não previu a possibilidade da cumulatividade dessas multas, como fez claramente no §1º; interessante também trazer à discussão decisão proferida pela 3ª Turma da 1ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF a respeito da alteração trazida pela Lei n° 11.488/2007 (Acórdão 1103001.122); argumentase em referida decisão que a alteração teve o condão de corrigir deficiência da redação original, a qual previa aplicação da multa de ofício mesmo quando o tributo fosse integralmente pago com atraso, dando azo à discussão de como seria apurada a base de cálculo dessa multa nesses casos, o que deixou de ocorrer após a alteração da redação; deste modo, percebese que a alteração da legislação não altera o entendimento de que não é cabível a concomitância entre as aplicações de multa isolada e multa proporcional; isto posto, verificase que a cobrança do tributo, após o encerramento do anocalendário, juntamente com a multa de ofício de 75% acarreta a perda de eficácia da multa isolada de 50% sobre as estimativas não recolhidas; DO PEDIDO. por todo o exposto, a Recorrida pede a manutenção do acórdão no que determinou o provimento parcial do Recurso Voluntário, e assim, seja julgado improcedente o Recurso Especial da Fazenda Nacional. Fl. 1192DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 12 11 RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE Em seu recurso especial, a contribuinte também afirma que o acórdão recorrido deu à lei tributária interpretação divergente da que tem sido dada em outros processos, mas nesse caso a divergência diz respeito às seguintes matérias, assim identificadas no recurso: 1 da ausência de vedação legal ao aproveitamento de "ágio interno"; e 2 da ausência de previsão legal para incidência de juros sobre multa de ofício. Para o processamento do recurso especial, a contribuinte apresenta os seguintes argumentos: DO CABIMENTO DO RECURSO ESPECIAL: DO DEVIDO PREQUESTIONAMENTO DA MATÉRIA DEBATIDA E DA EXISTÊNCIA DE DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. DA AUSÊNCIA DE VEDAÇÃO LEGAL AO APROVEITAMENTO DE "ÁGIO INTERNO". no que concerne à possibilidade, ou não, de amortização do chamado "ágio interno", tal tema foi devidamente abordado no Recurso Voluntário, sendo que, especialmente nas fls. 14 a 18 do aludido recurso (Item IV.1.3), a Recorrente destacou, em síntese, que a circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação aplicável; por sua vez, o mesmo ponto foi expressa e diretamente analisado no v. acórdão recorrido, consoante se observa de trechos de sua ementa e do voto condutor do Conselheiro Relator: [...]; assim, não resta dúvida quanto à presença do requisito do prequestionamento em relação a este ponto; ocorre que o entendimento aventado no v. acórdão recorrido se encontra em divergência com outros dois arestos proferidos por outras I. Turmas Julgadoras, quais sejam, o Acórdão n° 1302001.145, de 6 de agosto de 2013, proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento do E. CARF no Processo n° 16682.720589/201135 ("paradigma I"), e o Acórdão n° 1301001.224, de 11 de junho de 2013, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da Primeira Seção de Julgamento do E. CARF no Processo n° 16327.001482/201052 ("paradigma II"). consoante se denota da descrição do voto condutor do Ilmo. Conselheiro Relator (o qual restou vencido em relação à arguição de nulidade formal, mas não em relação ao chamado ágio interno) no paradigma I "O AFRFB entendeu no seu termo de constatação, o qual faz parte integrante do auto de infração, que o ágio amortizado pela recorrente se trata de ágio interno (ausência de realização de pagamento, originado de operação sem propósito negocial e intragrupo), razão pela qual não se pode ser (sic) amortizado sob o enfoque contábil, societário e tributário(...)" (fl. 3384 dos autos do paradigma I); Fl. 1193DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 13 12 assim, inegável a similitude fática entre o v. acórdão recorrido, no qual se decidiu que "Em verdade não houve ingresso de novos recursos na empresa. Ou seja, não ocorreu pagamento por qualquer modalidade. De outro lado, não ocorreu tributação de ganho de capital para equilibrar a equação tributária. Está patente nos autos que o contribuinte pretendeu reduzir seu lucro tributável, artificialmente, aproveitandose da sua própria expectativa de lucros" e o paradigma I, decorrente de autuação em que "o AFRFB entendeu no seu termo de constatação, o qual faz parte integrante do auto de infração, que o ágio amortizado pela recorrente se trata de ágio interno (ausência de realização de pagamento, originado de operação sem propósito negocial e intragrupo)"; ocorre que a conclusão a que se chegou no paradigma I para a mesma situação fática tratada no v. acórdão recorrido diverge diametralmente da conclusão ora combatida, conforme se denota dos seguintes trechos da ementa e do voto do paradigma I: ÁGIO INTERNO. INCORPORAÇÃO REVERSA. AMORTIZAÇÃO. Para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vínculo. Não há dispositivo legal que vede ou anule tal ato devendo os atos da administração pública seguir o princípio da legalidade. Ocorrendo a incorporação reversa, o ágio poderá ser amortizado nos termos previstos nos art. 7º e 8º da Lei 9.532, de 1997. [...] assim, resta evidente a dicotomia de conclusões sobre a mesma situação fática ao interpretar os arts. 7º e 8º da Lei 9.5432/97, caracterizando o chamado dissídio jurisprudencial; enquanto o v. acórdão recorrido entendeu: "Definitivamente esse procedimento (ágio decorrente de compra e venda no mesmo grupo) não tem amparo na legislação do IRPJ/CSLL, tratase de uma despesa forjada, que não atende aos pressupostos de dedutibilidade de despesas necessidade, efetividade e usualidade, consagrados no artigo 299 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000 de 1999 (RIR/99)", no paradigma I se concluiu que "para fins fiscais, o ágio decorrente de operações com empresas do mesmo grupo (dito ágio interno), não difere em nada do ágio que surge em operações entre empresas sem vínculo. Não há dispositivo legal que vede ou anule tal ato devendo os atos da administração pública seguir o princípio da legalidade"; dessa feita, resta realizada a demonstração analítica da divergência de interpretação sobre a mesma legislação federal em situações fáticas similares com a indicação expressas dos pontos específicos que caracterizam tal divergência, nos termos do artigo 67 do Regimento Interno do CARF; e o mesmo se dá em relação ao paradigma II, conforme se observa de trechos de sua ementa e voto condutor: [...]; também em relação ao paradigma II, está evidente a decisão de divergência em relação ao v. acórdão recorrido; isso porque, em ambos os julgados se enfrenta a mesma questão fática: possibilidade de aproveitamento do chamado ágio interno decorrente de incorporação de empresas dentro do mesmo grupo econômico, nos termos da Lei 9.532/1997; Fl. 1194DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 14 13 por sua vez, na decisão combatida entendeuse que "Definitivamente esse procedimento não tem amparo na legislação do IRPJ/CSLL, tratase de uma despesa forjada, que não atende aos pressupostos de dedutibilidade de despesas necessidade, efetividade e usualidade, consagrados no artigo 299 do Regulamento do Imposto de Renda, aprovado pelo Decreto 3.000 de 1999 (RIR/99)", no paradigma II se asseverou que "de fato não há na legislação de regência qualquer óbice ao "ágio interno""; assim, mais uma vez presente nos julgados comparados a similitude fática utilização da chamada "empresa veículo" para a criação de ágio interno através de incorporação de empresas dentro do mesmo grupo ; com uma divergência de entendimento no v. acórdão recorrido se entendeu pela impossibilidade de aproveitamento do ágio, enquanto no aresto paradigma se entendeu pela validade do aproveitamento ; através da interpretação da mesma legislação federal Lei 9.532/97, RIR/99 e demais dispositivos aplicáveis; portanto, resta demonstrado o cabimento do presente Recurso Especial em relação à possibilidade, ou não, de aproveitamento do chamado ágio interno; DA AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. de acordo com a ementa do v. acórdão recorrido, "Cabível a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício à taxa de 1 % ao mês"; ocorre que, mais uma vez, o v. acórdão ora recorrido contraria o entendimento de outras turmas julgadoras desse E. CARF, inclusive dessa Câmara Superior de Recursos Fiscais; nesse sentido, é apresentado como paradigma, o recentíssimo julgado da 2ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção nos autos do PAF 10860.720541/201495, acórdão 3402 002.928 (Paradigma III), cuja parte da ementa do voto condutor se transcreve a seguir: JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO Não incidem juros de mora sobre a multa de ofício, por carência de fundamento legal expresso. [...] de plano fica clara a divergência entre o v. acórdão recorrido, pois, enquanto o primeiro entende que "restam devidos os juros de 1% ao mês a que alude o Código Tributário Nacional, esse sim, aplicável à multa de oficio proporcional não pago no vencimento", no aresto paradigma, ao se comentar o mesmo art. 161 do CTN, a conclusão tomada como fundamento de decidir é que "As multas são inequivocamente penalidades. Assim, restaria ilógica a leitura de que a expressão créditos ao início do caput abarca as penalidades. Tal exegese equivaleria a sustentar que: "os tributos e multas cabíveis não integralmente pagos no vencimento serão acrescidos de juros, sem prejuízos da aplicação das multas cabíveis"; ainda, no aresto paradigma se concluiu que "Não se tem dúvidas que o valor das multas também deveria ser atualizado, sob pena de a penalidade tornarse pouco efetiva ou até inócua ao fim do processo. Mas o legislador não estabeleceu expressamente isso, Pela Fl. 1195DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 15 14 carência de base legal, então, entendese pelo não cabimento da aplicação de mora sobre a multa de ofício, na linha que já vem sendo adotada por esta Turma"; ou seja, diferentemente da interpretação dada ao art. 161 do CTN no acórdão recorrido, no paradigma se entendeu há carência de base legal para se exigir juros de mora sobre multa de ofício; assim, estando demonstrado o cabimento do presente recurso por mais esse ponto, cabe passar as razões de sua procedência; DA IMPERATIVIDADE DE REFORMA DA DECISÃO RECORRIDA DO DIREITO A AMORTIZAÇÃO DO ÁGIO. inicialmente, oportuno frisar que tanto na autuação quanto no julgamento de 1ª instância, as Autoridades Fiscais partiram da prematura ideia de que a Recorrente teria promovido operações societárias junto a empresas vinculadas, com o intuito exclusivo de beneficiarse da amortização do ágio; a reestruturação societária ora tratada foi realizada visando a otimização das atividades mediante a habilitação da Recorrente para a captação de recursos. Isto é notório, dado que a operação permitiu o robustecimento das atividades da Recorrente, uma vez que o seu patrimônio foi avaliado a valor de mercado, não havendo, deste modo, nada de ilícito na realização de tais operações societárias. No campo da licitude, pode o contribuinte estruturarse para evitar a realização de fatos geradores ou mesmo a diminuição de bases de cálculo a eles relacionadas, sem, com a prática de tais atos, estar sujeito a autuações, multas e quaisquer outras penalidades; notase que a licitude é o limite da atuação do contribuinte, que não pode dela desviarse resvalando para o campo ilícito da simulação; deste modo, notase que as operações societárias promovidas pela Recorrente com o propósito de habilitarlhe à realização de captação de recursos e melhora das suas demonstrações financeiras representam apenas o exercício regular do direito de livre gestão das atividades econômicas (autonomia privada), corolário do princípio da liberdade plasmado no Preâmbulo da Constituição Federal; o princípio constitucional da livre iniciativa (art. 1º, IV, c/c art. 170, par. único, ambos da CF/88), em conjunto com o princípio da legalidade (art. 5º, II, CF/88), não deixam dúvidas a respeito da impossibilidade do Fisco obrigar os contribuintes que, dentre diversas operações lícitas, escolham aquela que redunde no menor ônus tributário; neste cenário, tendo adquirido as ações da Recorrente, a SODAM procedeu à avaliação de tal investimento, desdobrando o custo de aquisição em valor de patrimônio líquido e ágio, nos termos do artigo 385 do Regulamento do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (Decreto n° 3.000/99) e do artigo 20 do DL n° 1.598/77: [...]; com a aquisição do investimento (ações da Recorrente) a valor de mercado pela SODAM, este foi desdobrado em valor do patrimônio líquido e ágio, fundamentado economicamente na expectativa de rentabilidade futura, exatamente como preceitua o artigo acima citado; Fl. 1196DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 16 15 no entanto, de acordo com o v. acórdão recorrido, está patente nos autos que o contribuinte pretendeu reduzir seu lucro tributável, artificialmente, aproveitandose da sua própria expectativa de lucros, utilizando de procedimento que não tem amparo na legislação do IRPJ/CSLL, e que se trataria de uma despesa forjada; ocorre que, segundo o Código Civil, art. 167, haverá simulação nos negócios jurídicos quando estes aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente conferirem, ou os instrumentos particulares forem antedatados ou pósdatados; no caso ora analisado a Recorrente não praticou nenhum negócio jurídico que aparentou conferir ou transmitir direitos à pessoa diversa daquela que realmente conferiu; ainda neste sentido, sobre o art. 187 do Código Civil, destacase que a Recorrente não praticou qualquer ato manifestamente contrário aos limites impostos pelo seu fim; dessa forma, afastada a alegação de simulação, passase a demonstrar que, ao contrário do que sustentado no v. acórdão recorrido, é possível, sim, a dedução do chamado ágio interno; inclusive, destacase que este foi o entendimento apresentado em recente decisão prolatada pela mesma I. Turma prolatora do v. acórdão recorrido no Processo n° 10680.724392/201028 (Acórdão 110200.708); de acordo com a acertada decisão, "A circunstância da operação ser praticada por empresas do mesmo grupo econômico não descaracteriza o ágio, cujos efeitos fiscais decorrem da legislação fiscal. A distinção entre ágio surgido em operação entre empresas do grupo (denominado de ágio interno) e aquele surgido em operações entre empresas sem vinculo, não é relevante para fins fiscais"; nesse sentido, para a vedação à utilização do ágio pelo simples argumento de que ele teria decorrido de operação realizada entre empresas do mesmo grupo, seria necessário que a lei expressasse claramente a necessidade do ágio ser formado em aquisições com a participação de terceiros; aliás, no paradigma I, o Ilmo. Relator, bem destaca que, em passado recente, a fiscalização, por meio do Subsecretário de Tributação e Contencioso da RFB, apresentou proposta de Medida Provisória ("MP") exatamente no sentido de proibir a utilização de ágio gerado em operação intragrupo, sendo brilhante a conclusão do D. Conselheiro: [...]; aliás, tamanha razão assistia (e assiste) ao argumento acima exposto que, efetivamente, foi publicada, em 12 de novembro de 2013, a MP n° 627, que, dentre outras previsões, trouxe vedação expressa à exclusão de ágio decorrente de operação entre partes dependentes; assim, resta evidente que não havia, até a edição da MP n° 627/2013 base legal que autorizasse a glosa da exclusão dos valores referentes a ágio gerado em operação entre empresas de um mesmo grupo; Fl. 1197DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 17 16 é de se destacar que citado dispositivo legal foi convertido em lei, quando da edição da Lei n° 12.973/2014, in verbis: [...]; assim, I. Julgadores, fato é que a legislação brasileira (i) impõe o ônus da prova a quem alega a prática de simulação; (ii) não possui norma antielisiva regulamentada; (iii) não faz distinção entre ágio gerado em operações entre partes independentes e entre empresas do mesmo grupo; (iv) veda (art. 109, CTN) a adoção de princípios gerais de Direito Privado para a definição de efeitos tributário; somese a tais conclusões o fato de que as reorganizações societárias praticadas pela Recorrente (i) foram motivadas por razões econômicas e de mercado; (ii) foram praticadas de forma legítima, em respeito à legislação aplicável no Brasil e exterior; e (iii) foram baseadas em laudo de avaliação e realizadas em atenção ao princípio "arm'slengh"; por tais razões e diante de tais conclusões, é irrefutável que o v. acórdão recorrido merece reforma, no sentido de se reconhecer o direito à dedução de parcelas de ágio amortizadas com a incorporação da SODAM pela Recorrente, inclusive por refletir a mais acertada jurisprudência e mais abalizada doutrina sobre a matéria; DA IMPOSSIBILIDADE DE INCIDÊNCIA DOS JUROS SOBRE A MULTA. é sabido que todos os créditos tributários exigidos pelas dd. Autoridades Fiscais através de Autos de Infração são acrescidos de multa de ofício, sendo certo que, na prática, após 30 (trinta) dias da lavratura do ato de constituição de tais créditos, tais multas passam a ser mensalmente atualizadas com base na taxa de juros SELIC; as Autoridades Fiscais elegem como base legal de tal atualização o Parecer MF n° 28, de 02 de abril de 1998, emitido pela Coordenação Geral do Sistema de Tributação (COSIT) que, em cuja conclusão consta: [...]; ocorre, contudo, que o artigo 61 da Lei n° 9.430/96, utilizado como base legal pela COSIT para sustentar a incidência de juros sobre as multas de ofício, trata tão somente da incidência de juros sobre créditos tributários (débitos fiscais) decorrentes de tributos e contribuições, não havendo qualquer menção às multas de ofício aplicadas pela Receita Federal do Brasil. Confirase, ipsis litteris: [...]; como se vê, não há margem para qualquer interpretação acerca da possibilidade da incidência de juros sobre as multas de ofício aplicadas pelas Autoridades Fiscais. Pelo contrário, a legislação nacional é expressa no sentido de que apenas os débitos decorrentes de tributos e contribuições são atualizáveis; e justamente por tal motivo, essa Câmara Superior de Recursos Fiscais já apresentou o entendimento de que tais multas não são atualizáveis, conforme ementa transcrita abaixo: "RECURSO ESPECIAL—CONHECIMENTO. Não deve ser conhecido o Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional quando inexiste similitude fática entre o acórdão paradigma e o acórdão recorrido. Fl. 1198DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 18 17 JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO INAPLICABILIDADE Os juros de mora só incidem sobre o valor do tributo, não alcançando o valor da multa oficio aplicada". (Processo n° 10680.002472/200723. 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais. Julgado em 08/11/2010) a análise da legislação aplicável e dos precedentes administrativos acima expostos demonstra que o procedimento costumeiramente adotado pelo Fisco Federal, de calcular juros sobre a multa de ofício, carece de fundamentação legal. Tal procedimento somente seria válido nos casos em que a multa aplicada pelas autoridades fiscais correspondesse ao valor principal do crédito tributário, como, por exemplo, na hipótese de autuação do contribuinte por descumprimento da legislação fiscal (obrigação acessória) e correlata aplicação da multa administrativa; em tais hipóteses, como a multa administrativa corresponderia ao valor principal do débito (crédito tributário), sobre este valor poderiam ser aplicados os juros de mora, exatamente conforme dispõe o artigo 43 da Lei n° 9.430/96: [...]; o artigo acima transcrito é muito claro ao dispor acerca da incidência de juros de mora sobre o valor da multa apenas quando se tratar de constituição de crédito tributário correspondente à própria multa ou a juros de forma isolada; notase, deste modo, que em virtude da ausência de base legal que sustente a incidência dos juros sobre as multa de ofício ora lançadas, imperioso é o seu afastamento, na remota hipótese de manutenção da autuação; DO PEDIDO. ante todo o exposto, considerando as razões acima expostas que corroboram a regularidade do procedimento adotado, a Recorrente pede e espera que o presente Recurso Especial seja conhecido e provido, com a consequente reforma do v. acórdão recorrido e o cancelamento do Auto de Infração de origem. Quando do exame de admissibilidade do Recurso Especial da contribuinte, o Presidente da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento do CARF, por meio do despacho exarado em 19/08/2016, deu seguimento ao recurso, fundamentando sua decisão na seguinte análise sobre as divergências suscitadas: [...] Da vedação à amortização do ágio interno (Item 'I') Na abordagem referente à vedação à amortização do ágio interno, com o objetivo de demonstrar o dissenso, indicamse os paradigmas derivados dos Acórdãos nºs 1302001.145 (2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento CARF) e 1301001.224 (1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento CARF), cujos teores, a despeito de estarem anexados à petição, são parcialmente reproduzidos pela Recorrente na petição, tomando os seguintes destaques: [...] Fl. 1199DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 19 18 Ponderando sobre a controvérsia, compreendo que, mediante o cotejo entre os acórdãos resta demonstrado, seja perceptível a divergência de interpretação atribuída pelos colegiados. O tema tratado nos julgados dispõe de semelhança entre os fatos narrados, contudo, enquanto o Acórdão recorrido assentou a vedação ao aproveitamento do ágio entre empresas vinculadas para fins de dedutibilidade fiscal, os paradigmas apresentados sustentam que o planejamento em nada difere daquele cuja negociação ocorreu entre pessoas jurídicas independentes. Da incidência de juros sobre multa de ofício (Item 'II') Sobre outra questão, contrariamente ao que foi assentado no Acórdão recorrido, a Recorrente compreende que exista dissenso administrativo em relação à incidência de juros sobre multa de ofício pelos fundamentos justificados nos autos. Para preencher o requisito determinado pelo art. 67, caput, §§ 1º, 2º e 6º do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, é indicado o Acórdão nº 3402002.928 (2ª Turma Ordinária da 4ª Câmara da 1ª Seção de Julgamento CARF) como paradigma, cujos trechos da ementa e do voto condutor expõem: [...] A divergência jurisprudencial entre os julgados recorrido e paradigma acima tratados é constatável primo ictu oculi pelo simples cotejo dos trechos transcritos. Nesse sentido, a ideia sintetizada nas ementas exprimindo interpretações divergentes acerca da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício é definitivamente corroborada por raciocínios opostos sobre a questão no corpo dos Acórdãos sujeitos à apreciação. Diante do exposto, concluo que a Recorrente demonstrou a divergência de entendimento jurisprudencial em relação as seguintes matérias decididas nos acórdãos recorrido e paradigmas: vedação à amortização do ágio interno para fins de dedutibilidade na apuração do IRPJ/CSLL; e a ausência de previsão legal para cobrança de juros sobre multa de ofício. Levando em conta que a uniformização da jurisprudência administrativa é o escopo do Recurso Especial opino pelo SEGUIMENTO TOTAL ao Recurso Especial da contribuinte (Art. 68 e 70 do RICARF aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015). CONTRARRAZÕES DA PGFN Em 24/08/2016, o processo foi encaminhado à PGFN, para ciência do despacho que admitiu o recurso especial da contribuinte, e em 08/09/2016, o referido órgão apresentou tempestivamente as contrarrazões ao recurso, com os seguintes argumentos: DAS RAZÕES PARA MANUTENÇÃO DO ACÓRDÃO RECORRIDO. DO ÁGIO INTERNO. em apertada síntese, entendese por ágio ou deságio a diferença entre o valor de patrimônio líquido de uma participação societária e o seu custo de aquisição (montante pelo qual ela é negociada entre as partes contratantes). Se o valor de aquisição for maior que o patrimonial, terseá ágio, se for menor, deságio; Fl. 1200DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 20 19 no que tange aos investimentos realizados em sociedade coligada ou controlada, de acordo com o artigo 385 do RIR/99, em função do método de avaliação com base na equivalência patrimonial, o correspondente preço do ágio ou deságio deverá ser registrado pela parte que o suporta em conta distinta do valor patrimonial do investimento (desdobramento do custo de aquisição); na apuração do lucro real e do resultado do exercício ajustado para fins de incidência da CSLL, usualmente, a amortização do ágio ou deságio não é deduzida ou tributada. Via de regra, a dedução ou tributação dessa amortização no âmbito do IRPJ e da CSLL somente ocorrerá quando o investimento que lhe deu origem for alienado ou liquidado (arts. 391 e 426 do RIR/99), quando então o ágio ou deságio é considerado no preço de aquisição do investimento que está sendo extinto. Tal regra, todavia, não se aplica a certas hipóteses de incorporação, fusão ou cisão, quando a inclusão da amortização do ágio ou deságio na base de cálculo do IRPJ e da CSLL será admitida independentemente da alienação ou liquidação do investimento; de acordo com o artigo 386 do RIR/99, o qual repete os artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, quando uma pessoa jurídica absorve patrimônio de outra em conseqüência de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o artigo 385 do RIR/99, e o valor de mercado utilizado for embasado na previsão dos resultados de exercícios futuros, é possível desde já a dedução ou tributação da amortização do correspondente ágio ou deságio na apuração do IRPJ e da CSLL. Considera a legislação tributária que o investimento foi extinto com a incorporação, fusão ou cisão. Tal dedução ou tributação, contudo, observará certas condições estipuladas na legislação (por exemplo, 1/60 no mínimo para cada mês do período de apuração); vale destacar, por último, que, para existir, o ágio ou deságio deve sempre ter como origem um propósito negocial (aquisição de um investimento) e, assim, um substrato econômico (transação comercial). Somente registros escriturais, por exemplo, não podem ensejar o nascimento dessa figura econômica e contábil; entendese por propósito negocial a lógica econômica que levou ao surgimento do ágio ou deságio, ou seja, a razão negocial que ensejou a aquisição de um investimento por valor superior ou inferior àquele que custou originalmente ao alienante; há esse propósito quando, por exemplo, uma empresa adquire participação societária de outra com ágio com o intuito de auferir os prováveis resultados positivos que esta última terá no futuro; ou quando uma empresa adquire participação societária de outra com deságio porque a alienante precisava aumentar emergencialmente a liquidez de seu ativo; o ágio ou deságio, dessa forma, deve sempre decorrer da efetiva aquisição de um investimento oriundo de um negócio comutativo, onde as partes contratantes, interdependentes entre si e ocupando posições opostas, tenham interesse em assumir direitos e deveres proporcionais. À guisa de exemplo, se em um negócio o alienante pede pelo seu bem ou direito determinado sobrepreço, essa mais valia a ser paga pelo adquirente deve ser justificada pela expectativa de algum ganho. Se não há previsão de ganho, não há porque existir ágio; nesse esteio, o artigo 385, parágrafo 2º, do RIR/99, in fine, o qual repete o conteúdo do artigo 20 do DecretoLei nº 1.598/1977, determina que o lançamento do ágio ou deságio deve indicar como seu fundamento econômico uma das seguintes hipóteses: I valor Fl. 1201DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 21 20 de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas; para que ocorra a efetiva aquisição de um investimento, com o correspondente surgimento do ágio ou deságio, é imprescindível a existência de substrato econômico à sua realização, ou seja, de transação econômica que materialize o valor de aquisição ao mesmo tempo pago pelo adquirente e recebido pelo alienante; a aquisição de um investimento, assim como de qualquer bem ou direito, deve sempre importar o dispêndio de um gasto (econômico ou patrimonial) pelo adquirente e o ganho (também econômico ou patrimonial) pelo alienante. Sem essa troca de riquezas e da titularidade do investimento, não há que se falar em aquisição, e, como conseqüência, no surgimento de ágio ou deságio; mostrase, assim, a necessidade de o ágio ou deságio auferido por uma empresa com a aquisição de uma participação societária ter como origem um propósito econômico real, assim como um efetivo substrato econômico; a presença concomitante desses dois requisitos (propósito negocial + efetivo substrato econômico) é imprescindível ao reconhecimento da existência dessa figura econômica e contábil. A aquisição de um investimento por meio de mera escrituração artificial, sem a sua real materialização no mundo econômico, não é hábil a gerar ágio ou deságio; conforme bem esclarece o voto condutor do acórdão recorrido as operações discutidas nos presentes autos carecem de substrato econômico, verbis: [...]; DA INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. é preciso mencionar, inicialmente, que as decisões administrativas que afastam a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício o fazem a partir da literalidade do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996; os defensores da tese da nãoaplicação de juros sobre a multa salientam a menção do legislador a débitos de tributos e contribuições, diferentemente de legislação anterior, que reportava a débitos de qualquer natureza (DecretoLei nº 2.323, de 1987, e Lei nº 8.218, de 1991); a partir de uma interpretação supostamente literal, os que advogam essa tese defendem que apenas o valor de tributos e contribuições submeterseia aos juros moratórios. Assim, a multa de ofício, por não decorrer de tributo ou contribuição, mas sim do descumprimento de dever legal de declarálo ou pagálo, não sofreria a incidência de juros de mora; esse entendimento, com o devido respeito, incompleto e incorreto, foi defendido no voto vencedor do Acórdão nº 10196.523 e no voto vencido do Acórdão nº CSRF 910100.539; Fl. 1202DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 22 21 dissemos acima que a tese partiu de interpretação supostamente literal. Queremos dizer, com isso, que uma interpretação efetivamente literal conduz igualmente à conclusão de incidência de juros de mora sobre a multa de ofício; uma interpretação literal não pode olvidar do termo “decorrente de”, aposto antes das palavras “tributos e contribuições” no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996; segundo o dicionário Aurélio, o verbete decorrente significa: Decorrente. [Do lat. Decurrente.] Adj. 2 g. 1. Que decorre, que passa, que se escoa; decursivo. 2. Que decorre, que se origina: [...] dizer que “os débitos decorrentes de tributos e contribuições”, ou seja, “débitos cuja origem remonta a tributos e contribuições”, se sujeitam a juros de mora não é o mesmo que afirmar que “apenas os débitos de tributos e contribuições submeterseiam aos juros de mora”; mais do que isso, uma interpretação meramente literal do dispositivo, em verdade, advoga contra a tese da nãoincidência de juros, senão vejamos: para que os juros moratórios atingissem apenas o valor de tributos e contribuições, seria necessária que a redação do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, fosse a seguinte: “Art. 61. Os débitos de tributos e contribuições para com a União, administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. Ocorre que a redação, como vimos acima, não é essa! Não se pode suprimir a expressão “decorrente de”, constante do texto real e em vigor; a bem da verdade, acrescentese, uma interpretação exclusivamente literal do citado art. 61 é totalmente desaconselhável. Ora, o dispositivo fala em tributos e contribuições. Alguém ousaria nos dias atuais defender o caráter não tributário das contribuições? Queremos com isso dizer que, a partir de uma interpretação literal, poderseia cometer o equívoco de pensar que contribuições não são tributos; neste ponto, duas conclusões já se apresentam. A primeira delas é que não há respaldo legal para uma interpretação supostamente literal do art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, limitadora da incidência de juros de mora ao valor de tributos e contribuições ao mesmo tempo que exclua a sua incidência sobre a multa de ofício. Essa manobra suprime indevidamente a expressão “decorrente de tributos e contribuições”; portanto, literal por literal, é de prevalecer a interpretação que considera a incidência de juros moratórios sobre os tributos e quantias decorrentes, a exemplo da multa de ofício. (Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições...); a segunda conclusão diz respeito à necessidade de lembrarmos das finalidades da lei para alcançar a efetiva compreensão do comando legal; com efeito, uma interpretação pautada na finalidade do dispositivo legal ressalta sobremaneira a necessidade de incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício; é preciso ser dito, que as multas encerram em si duas finalidades precípuas: uma finalidade punitiva, em razão da prática de uma conduta reprovada pelo ordenamento Fl. 1203DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 23 22 jurídico e uma finalidade educativa, na medida em que o Contribuinte transgressor, bem como os demais Contribuintes, serão compelidos a não repetir tal conduta juridicamente indesejada; nosso ordenamento jurídico busca concretizar essas finalidades mediante uma expressão pecuniária. Ou seja, por meio de um gravame no patrimônio do Contribuinte infrator ou de uma ameaça de onerosidade no patrimônio dos demais Contribuintes são alcançados os caracteres punitivos e educativos da multa tributária; ora senhores Conselheiros, afastar a incidência de juros moratórios sobre as multas de ofício seria frustrar totalmente a finalidade dos dispositivos legais que cominam multa de ofício; sejamos pragmáticos: considerando que o Processo Administrativo Tributário se desenvolva e chegue ao seu final em aproximadamente 4 anos, e, sendo otimista, admitindo que uma posterior fase judicial seja concluída em 3 anos, a multa de ofício lançada teria algum impacto punitivo ou educativo após 7 anos de corrosão pela inflação? Decerto que não! assim, afastar a incidência de juros moratórios das multas de ofício significa igualmente retirar a finalidade a que se propõe os dispositivos que veiculam multas de ofício. Despiciendo mencionar o impacto negativo que tal entendimento traria nas boas praticas tributárias, bem como nos cofres públicos; vislumbrase ainda outro grave comprometimento da administração tributária. Como se sabe, não adimplida a obrigação tributária no prazo legal, nasce para o Contribuinte o dever de pagar o valor do tributo e mais a multa por sua mora; por ocasião de posterior lançamento, a multa de ofício correspondente passa a integrar aquele valor, aquele todo composto do tributo e da multa de mora, devido pelo Contribuinte; como se observa, a partir do lançamento, o tributo e a multa de ofício passam a ser devidos pelo contribuinte, e esse valor será uniformemente corrigido de acordo com a legislação. Não há possibilidade para a segregação das formas de correção deste montante total; em outras palavras, não é lógico que valor do tributo sofra a incidência de juros moratórios, enquanto que a multa de ofício não, sendo que ambas as verbas fazem parte de um mesmo todo (crédito tributário); ora senhores conselheiros, se o crédito tributário possui a mesma natureza da obrigação principal e esta, por sua vez, é composta tanto pelo tributo quanto pela penalidade pecuniária (leiase: multa de ofício), não é defensável um tratamento diferenciado para tais valores. Após o lançamento, tributo e multa se convolam em crédito tributário, e é sobre essa quantia que os juros deverão incidir; convém transcrever julgado do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que utiliza justamente o fundamento acima exposto para manter os juros sobre a multa de ofício: Fl. 1204DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 24 23 TRIBUTÁRIO. AÇÃO ORDINÁRIA. REPETIÇÃO. JUROS SOBRE A MULTA. POSSIBILIDADE. ART. 113, § 3º, CTN. LEI Nº 9.430/96. PREVISÃO LEGAL. 1. Por força do artigo 113, § 3º, do CTN, tanto à multa quanto ao tributo são aplicáveis os mesmos procedimentos e critérios de cobrança. E não poderia ser diferente, porquanto ambos compõe o crédito tributário e devem sofrer a incidência de juros no caso de pagamento após o vencimento. Não haveria porque o valor relativo à multa permanecer congelado no tempo. 2. O artigo 43 da Lei nº 9.430/96 traz previsão expressa da incidência de juros sobre a multa, que pode, inclusive, ser lançada isoladamente. 3. Segundo o Enunciado nº 45 da Súmula do extinto TFR "As multas fiscais, sejam moratórias ou punitivas, estão sujeitas à correção monetária." 4. Considerando a natureza híbrida da taxa SELIC, representando tanto taxa de juros reais quanto de correção monetária, justificase a sua aplicação sobre a multa. (TRF4ª Região, Ap. Cível nº 2005.72.01.0000311/SC, Rel. Des. DIRCEU DE ALMEIDA SOARES, 2ª T., v.u., j. em 29/01/2008, DE de 21/02/2008). convém mencionar, a propósito, dispositivos pertinentes do CTN: Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. [...] Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. [...] Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. não há dúvidas, segundo a dicção do art. 161 do CTN, do acréscimo de juros de mora sobre o crédito não adimplido no vencimento. Uma simples análise sistemática dos arts. 113, 139 e 161 do CTN revela que a multa de ofício (penalidade pecuniária), por integrar o crédito tributário, recebe igualmente o acréscimo moratório de juros; a Primeira e a Segunda Turma do STJ, já decidiram por manter os juros sobre a multa de ofício: Fl. 1205DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 25 24 TRIBUTÁRIO PROCESSO CIVIL MULTA PUNITIVA CORREÇÃO MONETÁRIA JUROS DE MORA INCIDÊNCIA. 1. Incide juros de mora e correção monetária sobre o crédito tributário consistente em multa punitiva. 2. Perfeitamente cumuláveis os juros de mora, a multa punitiva e a correção monetária. Precedentes. 3. Recurso especial não provido. (STJ, 2ª T, REsp 1146859/SC, Rel. Ministra Eliana Calmon, publ: 11/05/2010) TRIBUTÁRIO. MULTA PECUNIÁRIA. JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA. LEGITIMIDADE. 1. É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário. 2. Recurso especial provido. (STJ, 2ª T, REsp 1129990/PR, Rel. Ministro Castro Meira, publ: 14/09/2009) no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais CARF, a jurisprudência preponderante sobre o tema não é diferente. Há diversos julgados do CARF reconhecendo a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, dentre eles mencionem se: [...]; vale a pena citar algumas passagens do voto proferido no Acórdão 104 22.956, que se perfilha com os entendimentos por nós enunciados acima: [...]; a dicção da Súmula nº 4 do CARF corrobora nossos argumentos, na medida em que fala genericamente em débitos tributários: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. em respeito ao princípio da eventualidade, caso os ilustre julgadores entendam que o art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não abrange a multa de ofício, é preciso deixar claro que, ainda assim, incidiriam juros de mora à taxa de 1% ao mês; isso porque não se poderia desprezar o comando do já citado art. 161 do CTN, que diz: Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da Fl. 1206DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 26 25 imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. § 1º Se a lei não dispuser de modo diverso, os juros de mora são calculados à taxa de um por cento ao mês. § 2º O disposto neste artigo não se aplica na pendência de consulta formulada pelo devedor dentro do prazo legal para pagamento do crédito. como se observa, o caput determina a incidência dos juros de mora, facultando ao legislador ordinário a estipulação de juros em taxa diversa de 1% (um por cento) ao mês; por tudo o que já expusemos, cremos que a lei (Lei nº 9.430/96, art. 61, §3º), de fato, “dispôs de modo diverso” e determinou a aplicação da taxa Selic aos juros de mora; os que defendem que a multa de ofício não sofre a incidência de juros de mora à taxa Selic não podem se furtar da aplicação da taxa de 1%. Assim, já entendeu algumas vezes o CARF: [...]; repitase mais uma vez, a título de conclusão: cremos que o entendimento correto, pautado em uma interpretação sistemática e finalística das normas tributárias envolvidas, é aquela que afirma a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício e utiliza se da taxa Selic; DO PEDIDO. ante todo o exposto, requer a Fazenda Nacional que seja negado provimento ao citado recurso, mantendose o acórdão proferido pela eg. Turma a quo, nos pontos ora discutidos, por seus próprios fundamentos, bem como com fundamento nas razões expendidas acima. É o relatório. Fl. 1207DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 27 26 Voto Conselheiro Rafael Vidal de Araujo, Relator. Conheço dos recursos especiais, porque eles preenchem os requisitos de admissibilidade. O presente processo tem por objeto lançamento a título de IRPJ e CSLL referente aos anoscalendário de 2007 e 2008, e também lançamento de multa isolada por falta de recolhimento de estimativas mensais desses tributos no curso dos mesmos anoscalendário. A autuação fiscal está fundamentada na glosa de despesas relativas a amortização de ágio. A glosa da despesa repercutiu tanto na apuração das estimativas mensais, quanto na apuração de ajuste anual. As exigências a título de IRPJ e CSLL foram acompanhadas da multa qualificada de 150% A decisão de primeira instância administrativa manteve o lançamento, conforme elaborado pela Fiscalização. A decisão de segunda instância (ora recorrida), por sua vez, manteve o lançamento de IRPJ e CSLL no ajuste anual, mas reduziu a multa qualificada de 150% para 75%, e cancelou integralmente a multa isolada, em razão da concomitância com a multa de ofício que incidiu sobre o tributo lançado no ajuste. Além disso, essa decisão também tratou dos juros a serem aplicados sobre a multa de ofício, determinando que fosse adotado o índice de 1% ao mês, conforme previsto no CTN, e não a taxa Selic. O recurso especial da PGFN busca restabelecer o lançamento da multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL. E o recurso especial da contribuinte ataca a decisão recorrida na parte em que ela manteve (1) a glosa das despesas relativas à amortização de ágio e (2) a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. O exame da matéria que é objeto do recurso especial da contribuinte (cabimento ou não da glosa de despesa) deve preceder o julgamento da multa isolada, porque o que for decidido para aquela matéria pode ter implicações diretas na multa. É que se for afastada a glosa da despesa, deixa de haver falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais, e a multa isolada é automaticamente cancelada. Em razão disso, inicio o julgamento pelo recurso especial da contribuinte. RECURSO ESPECIAL DA CONTRIBUINTE No contexto do recurso especial da contribuinte, são duas as divergências a serem examinadas. Fl. 1208DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 28 27 1 DA AUSÊNCIA DE VEDAÇÃO LEGAL AO APROVEITAMENTO DE "ÁGIO INTERNO". O ponto central do debate desenvolvido ao longo dos autos diz respeito à regularidade do procedimento adotado pela recorrente (e condenado pela Fiscalização) de deduzir, nos anoscalendário de 2007 e 2008, do lucro real e da base de cálculo da CSLL, despesas relacionadas à amortização de ágio registrado em sua contabilidade. Em 29/09/2006, os acionistas da autuada (Viação Joana D'arc S/A) constituíram e integralizaram o capital social da pessoa jurídica Sodam Empreendimentos e Participações S/A com ações que possuíam da autuada. Com essa operação, esses acionistas passaram a ter participação direta na Sodam Empreendimentos e participação indireta na Viação Joana D'arc. Eles receberam ações da Sodam Empreendimentos, e essa se tornou controladora da Viação Joana D'arc. A referida transação, entretanto, foi realizada por valor bem superior ao valor das ações da Viação Joana D'arc, o que gerou registro de ágio na contabilidade da Sodam. Em 28/09/2007, a Sodam foi incorporada pela Viação Joana D'arc (incorporação reversa incorporação da investidora pela investida). O ágio foi transferido para o ativo da Viação Joana D'arc, que passou a amortizálo, deduzindoo de seus resultados tributáveis, considerando que tal prática estava amparada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, também contempladas no Regulamento do Imposto de Renda (RIR/1999), nos arts. 385 e 386. Foi essa dedução que a Fiscalização considerou indevida, e que motivou o presente lançamento. Muito bem. A respeito da figura do ágio, há que se dizer que seu conceito tributário foi introduzido no ordenamento brasileiro pelo DecretoLei nº 1.598, de 26 de dezembro de 1977. À época dos fatos discutidos nestes autos, dispunha o art. 20 do Decreto Lei, antes de ter sua redação alterada pela Lei nº 12.973, de 13/05/2014: Art 20 O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em: I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo 21; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o número I. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento. § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico: a) valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; Fl. 1209DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 29 28 b) valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam as letras a e b do § 2º deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração. O art. 385 do RIR/1999 é basicamente uma cópia do art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977. Em ambos os dispositivos, encontrase a determinação de que contribuintes que avaliam investimentos em sociedade controlada ou coligada pelo valor do patrimônio líquido registrem o ágio apurado na aquisição de participação societária em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Além disso, os dispositivos prevêem que tal ágio deve ser fundamentado em pelo menos um dos três fatores: a) valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; b) expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros ou; c) fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. Quando o art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977 e o art. 385 do RIR/1999 afirmam que o destinatário das regras ali expostas é o contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido, estão se referindo ao método da equivalência patrimonial. Segundo tal método, as variações observadas nos patrimônios líquidos da sociedades coligadas ou controladas provocam reflexos nos valores dos investimentos registrados na investidora. Observese o que dispõem os arts. 387 a 389 do RIR/1999, a respeito do método de equivalência patrimonial: Art. 387. Em cada balanço, o contribuinte deverá avaliar o investimento pelo valor de patrimônio líquido da coligada ou controlada, de acordo com o disposto no art. 248 da Lei nº 6.404, de 1976, e as seguintes normas (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 21, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso III): I o valor de patrimônio líquido será determinado com base em balanço patrimonial ou balancete de verificação da coligada ou controlada levantado na mesma data do balanço do contribuinte ou até dois meses, no máximo, antes dessa data, com observância da lei comercial, inclusive quanto à dedução das participações nos resultados e da provisão para o imposto de renda; (...) Art. 388. O valor do investimento na data do balanço (art. 387, I), deverá ser ajustado ao valor de patrimônio líquido determinado de acordo com o disposto no artigo anterior, mediante lançamento da diferença a débito ou a crédito da conta de investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 22). (...) Fl. 1210DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 30 29 Art. 389. A contrapartida do ajuste de que trata o art. 388, por aumento ou redução no valor de patrimônio líquido do investimento, não será computada na determinação do lucro real (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 23, e DecretoLei nº 1.648, de 1978, art. 1º, inciso IV). (...) O art. 389 do RIR/1999 é explícito ao determinar que os resultados auferidos pelas empresas coligadas ou controladas não devem ser computados na determinação do resultado da investidora. Assim, lucros apurados em uma investida devem ser objeto de tributação somente no âmbito daquela empresa. Embora tenham o reflexo de majorar o valor do investimento registrado na investidora, os lucros da investida não devem integrar a base tributável da pessoa jurídica que nela detém participação societária, sob pena de configurarse hipótese de dupla tributação. Caso a investidora tenha registrado, em sua contabilidade, ágio decorrente da expectativa de rentabilidade futura da investida, concluise que a causa do pagamento a maior efetivamente se concretizou, mas foi tributada somente na coligada ou controlada. Sendo assim, não há que se cogitar de amortização do ágio na investidora, uma vez que não ocorre, nesta pessoa jurídica, tributação do resultado positivo da investida. Somente seria lógico falar em amortização daquele ágio caso a concretização do motivo que lhe deu causa, qual seja, a lucratividade futura da investida, tivesse reflexos tributários na pessoa jurídica que pagou a "mais valia". Dessa forma, o dispêndio a maior poderia ser gradativamente recuperado sob a forma de despesas dedutíveis, se os lucros que o motivaram provocassem um maior recolhimento de tributos nos períodos posteriores à aquisição do investimento. Como, por determinação legal, não é esta a hipótese que se verifica no método de equivalência patrimonial, podese concluir que a regra geral é a da impossibilidade de utilização fiscal do ágio registrado na investidora. É o que reza expressamente o art. 391 do RIR/1999: Art. 391. As contrapartidas da amortização do ágio ou deságio de que trata o art. 385 não serão computadas na determinação do lucro real, ressalvado o disposto no art. 426 (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 25, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso III). Parágrafo único. Concomitantemente com a amortização, na escrituração comercial, do ágio ou deságio a que se refere este artigo, será mantido controle, no LALUR, para efeito de determinação do ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação do investimento (art. 426). Existem, contudo, duas exceções a tal regra. A primeira delas é indicada pelo próprio art. 391, quando ressalva o disposto no art. 426 do mesmo RIR/1999: Art. 426. O valor contábil para efeito de determinar o ganho ou perda de capital na alienação ou liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor de patrimônio líquido (art. 384), será a soma algébrica dos seguintes valores (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 33, e DecretoLei nº 1.730, de 1979, art. 1º, inciso V): Fl. 1211DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 31 30 I valor de patrimônio líquido pelo qual o investimento estiver registrado na contabilidade do contribuinte; II ágio ou deságio na aquisição do investimento, ainda que tenha sido amortizado na escrituração comercial do contribuinte, excluídos os computados nos exercícios financeiros de 1979 e 1980, na determinação do lucro real; III provisão para perdas que tiver sido computada, como dedução, na determinação do lucro real, observado o disposto no parágrafo único do artigo anterior. A primeira exceção à regra da impossibilidade de aproveitamento tributário do ágio tratado pelo art. 385 do RIR/1999 diz respeito, portanto, à apuração de ganho ou perda de capital. Se o investimento que deu causa à "mais valia" for alienado ou liquidado, o ágio ou deságio registrados na contabilidade da controladora devem compor o custo de aquisição considerado no cálculo do resultado tributável da operação, sobre o qual incidirão IRPJ e CSLL. Já a segunda exceção, que interessa mais diretamente à discussão desenvolvida nos presentes autos, referese a transformações societárias envolvendo investidoras, investidas e o ágio associado aos investimentos. A respeito da evolução histórica das previsões legais que contemplaram a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio em hipóteses de transformações societárias, remetome ao irretocável apanhado feito pelo nobre Conselheiro André Mendes de Moura no Acórdão nº 9101002.301: "Primeiro, o tratamento conferido à participação societária extinta em fusão, incorporação ou cisão, atendia o disposto no art. 34 do DecretoLei nº 1.598, de 1977: Art 34 Na fusão, incorporação ou cisão de sociedades com extinção de ações ou quotas de capital de uma possuída por outra, a diferença entre o valor contábil das ações ou quotas extintas e o valor de acervo líquido que as substituir será computado na determinação do lucro real de acordo com as seguintes normas: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) I somente será dedutível como perda de capital a diferença entre o valor contábil e o valor de acervo líquido avaliado a preços de mercado, e o contribuinte poderá, para efeito de determinar o lucro real, optar pelo tratamento da diferença como ativo diferido, amortizável no prazo máximo de 10 anos; (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) II será computado como ganho de capital o valor pelo qual tiver sido recebido o acervo líquido que exceder o valor contábil das ações ou quotas extintas, mas o contribuinte poderá, observado o disposto nos §§ 1º e 2º, diferir a tributação sobre a parte do ganho de capital em bens do ativo permanente, até que esse seja realizado. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) Fl. 1212DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 32 31 § 1º O contribuinte somente poderá diferir a tributação da parte do ganho de capital correspondente a bens do ativo permanente se: (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) a) discriminar os bens do acervo líquido recebido a que corresponder o ganho de capital diferido, de modo a permitir a determinação do valor realizado em cada períodobase; e (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) b) mantiver, no livro de que trata o item I do artigo 8º, conta de controle do ganho de capital ainda não tributado, cujo saldo ficará sujeito a correção monetária anual, por ocasião do balanço, aos mesmos coeficientes aplicados na correção do ativo permanente. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) § 2º O contribuinte deve computar no lucro real de cada período base a parte do ganho de capital realizada mediante alienação ou liquidação, ou através de quotas de depreciação, amortização ou exaustão deduzidas como custo ou despesa operacional. (Revogado pela Lei nº 12.973, de 2014) (Vigência) O que se pode observar é que o único requisito a ser cumprido, como perda de capital, é que o acervo líquido vertido em razão da incorporação, fusão ou cisão estivesse avaliado a preços de mercado. Contudo, para que se consumasse a perda de capital prevista no inciso I, o valor contábil deveria ser maior do que o acervo líquido avaliado a preços de mercado, e tal situação se mostraria viável, especialmente, quando, imediatamente após à aquisição do investimento com ágio, ocorresse a operação de incorporação, fusão ou cisão. Ocorre que tal previsão se consumou em operações um tanto quanto questionáveis por vários contribuintes, mediante aquisição de empresas deficitárias pagandose ágio, para, em logo em seguida, promover a incorporação da investidora pela investida. As operações ocorriam quase simultaneamente. E, nesse contexto, o aproveitamento do ágio, nas situações de transformação societária, sofreu alteração legislativa. Vale transcrever a Exposição de Motivos da MP nº 1.602, de 19971, que, posteriormente, foi convertida na Lei nº 9.532, de 1997. 11. O art. 8º estabelece o tratamento tributário do ágio ou deságio decorrente da aquisição, por uma pessoa jurídica, de participação societária no capital de outra, avaliada pelo método da equivalência patrimonial. Atualmente, pela inexistência de regulamentação legal relativa a esse assunto, diversas empresas, utilizando dos já referidos "planejamentos tributários", vem utilizando o expediente de adquirir empresas deficitárias, pagando ágio pela participação, com a finalidade única de gerar ganhos de natureza tributária, mediante o expediente, nada ortodoxo, de incorporação da empresa lucrativa pela deficitária. 1 Exposição de Motivos publicada no Diário do Congresso Nacional nº 26, de 02/12/1997, pg. 18021 e segs, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. Fl. 1213DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 33 32 Com as normas previstas no Projeto, esses procedimentos não deixarão de acontecer, mas, com certeza, ficarão restritos às hipóteses de casos reais, tendo em vista o desaparecimento de toda vantagem de natureza fiscal que possa incentivar a sua adoção exclusivamente por esse motivo. Não vacilou a doutrina abalizada de LUÍS EDUARDO SCHOUERI2 ao discorrer, com precisão sobre o assunto: Anteriormente à edição da Lei nº 9.532/1997, não havia na legislação tributária nacional regulamentação relativa ao tratamento que deveria ser conferido ao ágio em hipóteses de incorporação envolvendo a pessoa jurídica que o pagou e a pessoa jurídica que motivou a despesa com ágio. O que ocorria, na prática, era a consideração de que a incorporação era, per se, evento suficiente para a realização do ágio, independentemente de sua fundamentação econômica. (...) Sendo assim, a partir de 1998, ano em que entrou em vigor a Lei nº 9.532/1997, adveio um cenário diferente em matéria de dedução fiscal do ágio. Desde então, restringiramse as hipóteses em que o ágio seria passível de ser deduzido no caso de incorporação entre pessoas jurídicas, com a imposição de limites máximos de dedução em determinadas situações. Ou seja, nem sempre o ágio contabilizado pela pessoa jurídica poderia ser deduzido de seu lucro real quando da ocorrência do evento de incorporação. Pelo contrário. Com a regulamentação ora em vigor, poucas são as hipóteses em que o ágio registrado poderá ser deduzido, a depender da fundamentação econômica que lhe seja conferida. Merece transcrição o Relatório da Comissão Mista3 que trabalhou na edição da MP 1.609, de 19974: O artigo 8º altera as regras para determinação do ganho ou perda de capital na liquidação de investimento em coligada ou controlada avaliado pelo valor do patrimônio líquido, quando agregado de ágio ou deságio. De acordo com as novas regras, os ágios existentes não mais serão computados como custo (amortizados pelo total), no ato de liquidação do investimento, como eram de acordo com as normas ora modificadas. O ágio ou deságio referente à diferença entre o valor de mercado dos bens absorvidos e o respectivo valor contábil, na empresa incorporada (inclusive a fusionada ou cindida), será registrado na própria conta de registro dos respectivos bens, a empresa incorporador (inclusive a resultante da fusão ou a que absorva o patrimônio da cindida), 2 SCHOUERI, Luís Eduardo. Ágio em reorganizações societárias (aspectos tributários). São Paulo : Dialética, 2012, p. 66 e segs. 3 Relatório da Comissão Mista publicada no Diário do Congresso Nacional nº 27, de 03/12/1997, pg. 18494, http://legis.senado.leg.br/diarios/BuscaDiario?datSessao=01/12/1997&tipDiario=2. Acesso em 15/02/2016. 4 Na realidade, o número da Medida Provisória abordada é 1.602. Fl. 1214DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 34 33 produzindo as repercussões próprias na depreciação normal. O ágio ou deságio decorrente de expectativa de resultado futuro poderá ser amortizado durante os cinco anoscalendário subsequentes à incorporação, à razão de 1/60 (um sessenta avos) para cada mês do período de apuração. (...) Percebese que, em razão de um completo desvirtuamento do instituto, o legislador foi chamado a intervir, para normatizar, nos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532, de 1997, sobre situações específicas tratando de eventos de transformação societária envolvendo investidor e investida. Inclusive, no decorrer dos debates tratando do assunto, chegouse a cogitar que o aproveitamento do ágio não seria uma despesa, mas um benefício fiscal. Em breves palavras, caso fosse benefício fiscal, o próprio legislador deveria ter tratado do assunto, como o fez na Exposição de Motivos de outros dispositivos da MP nº 1.607, de 1997 (convertida na Lei nº 9.532, de 1997). Na realidade, a Exposição de Motivos deixa claro que a motivação para o dispositivo foi um maior controle sobre os planejamentos tributários abusivos, que descaracterizavam o ágio por meio de analogias completamente desprovidas de sustentação jurídica. E deixou claro que se trata de uma despesa de amortização." Depreendese da retrospectiva transcrita que os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 (produto da conversão da Medida Provisória nº 1.602/1997) foram erigidos pelo legislador com a específica finalidade de coibir a prática de planejamentos tributários abusivos em que empresas superavitárias adquiriam com ágio empresas deficitárias para serem em seguida incorporadas por elas. Tal incorporação reversa, também denominada de incorporação "às avessas", não tinha nenhum propósito negocial que não fosse a simples geração de ganhos de natureza tributária. Os arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 foram integralmente incorporados ao RIR/1999 por meio de seu art. 386. Como este artigo faz referência expressa a dispositivos do art. 385 (cópia do já reproduzido art. 20 do DecretoLei nº 1.598/1977), transcrevemse ambos a seguir: Art. 385. O contribuinte que avaliar investimento em sociedade coligada ou controlada pelo valor de patrimônio líquido deverá, por ocasião da aquisição da participação, desdobrar o custo de aquisição em (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20): I valor de patrimônio líquido na época da aquisição, determinado de acordo com o disposto no artigo seguinte; e II ágio ou deságio na aquisição, que será a diferença entre o custo de aquisição do investimento e o valor de que trata o inciso anterior. § 1º O valor de patrimônio líquido e o ágio ou deságio serão registrados em subcontas distintas do custo de aquisição do investimento (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 1º). § 2º O lançamento do ágio ou deságio deverá indicar, dentre os seguintes, seu fundamento econômico (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 2º): Fl. 1215DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 35 34 I valor de mercado de bens do ativo da coligada ou controlada superior ou inferior ao custo registrado na sua contabilidade; II valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros; III fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas. § 3º O lançamento com os fundamentos de que tratam os incisos I e II do parágrafo anterior deverá ser baseado em demonstração que o contribuinte arquivará como comprovante da escrituração (DecretoLei nº 1.598, de 1977, art. 20, § 3º). Art. 386. A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, apurado segundo o disposto no artigo anterior (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, e Lei nº 9.718, de 1998, art. 10): I deverá registrar o valor do ágio ou deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso I do §2º do artigo anterior, em contrapartida à conta que registre o bem ou direito que lhe deu causa; II deverá registrar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso III do §2º do artigo anterior, em contrapartida a conta de ativo permanente, não sujeita a amortização; III poderá amortizar o valor do ágio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração de lucro real, levantados posteriormente à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no máximo, para cada mês do período de apuração; IV deverá amortizar o valor do deságio cujo fundamento seja o de que trata o inciso II do §2º do artigo anterior, nos balanços correspondentes à apuração do lucro real, levantados durante os cinco anoscalendário subseqüentes à incorporação, fusão ou cisão, à razão de um sessenta avos, no mínimo, para cada mês do período de apuração. §1º O valor registrado na forma do inciso I integrará o custo do bem ou direito para efeito de apuração de ganho ou perda de capital e de depreciação, amortização ou exaustão (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §1º). §2º Se o bem que deu causa ao ágio ou deságio não houver sido transferido, na hipótese de cisão, para o patrimônio da sucessora, esta deverá registrar (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §2º): I o ágio em conta de ativo diferido, para amortização na forma prevista no inciso III; II o deságio em conta de receita diferida, para amortização na forma prevista no inciso IV. §3º O valor registrado na forma do inciso II (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §3º): Fl. 1216DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 36 35 I será considerado custo de aquisição, para efeito de apuração de ganho ou perda de capital na alienação do direito que lhe deu causa ou na sua transferência para sócio ou acionista, na hipótese de devolução de capital; II poderá ser deduzido como perda, no encerramento das atividades da empresa, se comprovada, nessa data, a inexistência do fundo de comércio ou do intangível que lhe deu causa. §4º Na hipótese do inciso II do parágrafo anterior, a posterior utilização econômica do fundo de comércio ou intangível sujeitará a pessoa física ou jurídica usuária ao pagamento dos tributos ou contribuições que deixaram de ser pagos, acrescidos de juros de mora e multa, calculados de conformidade com a legislação vigente (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §4º). §5º O valor que servir de base de cálculo dos tributos e contribuições a que se refere o parágrafo anterior poderá ser registrado em conta do ativo, como custo do direito (Lei nº 9.532, de 1997, art. 7º, §5º). §6º O disposto neste artigo aplicase, inclusive, quando (Lei nº 9.532, de 1997, art. 8º): I o investimento não for, obrigatoriamente, avaliado pelo valor do patrimônio líquido; II a empresa incorporada, fusionada ou cindida for aquela que detinha a propriedade da participação societária. §7º Sem prejuízo do disposto nos incisos III e IV, a pessoa jurídica sucessora poderá classificar, no patrimônio líquido, alternativamente ao disposto no §2º deste artigo, a conta que registrar o ágio ou deságio nele mencionado (Lei nº 9.718, de 1998, art. 11). Verificase que os arts. 385 e 386 do RIR/1999 guardam uma relação indissociável entre si, uma vez que requisitos à aplicação do segundo artigo são extraídos diretamente da redação do primeiro. O art. 385, conforme já mencionado, estabelece duas regras principais. A primeira determina que o ágio apurado em uma aquisição de participação societária em sociedade controlada ou coligada seja registrado em subconta separada daquela que registra o valor do patrimônio líquido da investida na época da aquisição. Já a segunda fixa os possíveis fundamentos econômicos do ágio pago na aquisição da participação societária (valor de mercado dos bens do ativo da investida superior ao registrado na contabilidade; expectativa de resultados positivos da investida nos exercícios futuros; fundo de comércio, intangíveis e outras razões econômicas). Por fim, o artigo ainda prevê que o ágio fundamentado em valor de mercado dos bens do ativo da investida ou na expectativa de resultados futuros deve ser baseado em documentação comprobatória, devidamente arquivada. Já o art. 386 trata, entre outras coisas, da possibilidade de aproveitamento tributário do ágio decorrente do fundamento econômico previsto no inciso II do §2º do artigo anterior (valor de rentabilidade da coligada ou controlada, com base em previsão dos resultados nos exercícios futuros). O caput do art. 386 traz o primeiro requisito que deve ser cumprido para que seja possível o aproveitamento do ágio: uma pessoa jurídica deve absorver o patrimônio de Fl. 1217DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 37 36 uma segunda, em que detenha participação societária adquirida com ágio. A respeito deste primeiro requisito exigido pela norma, recorro novamente ao Acórdão nº 9101002.301, pela assertividade da análise ali desenvolvida: "Percebese claramente, no caso, que o suporte fático delineado pela norma predica, de fato, que investidora e investida tenham que integrar uma mesma universalidade: A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio. A conclusão é ratificada analisandose a norma em debate sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária delineada pela melhor doutrina de GERALDO ATALIBA 5. Esclarece o doutrinador que a hipótese de incidência se apresenta sob variados aspectos, cuja reunião lhe dá entidade. Ao se apreciar o aspecto pessoal, merecem relevo as palavras da doutrina, ao determinar que se trata da qualidade que determina os sujeitos da obrigação tributária. E a norma em análise se dirige à pessoa jurídica investidora originária, aquela que efetivamente acreditou na mais valia do investimento, fez os estudos de rentabilidade futura e desembolsou os recursos para a aquisição, e à pessoa jurídica investida. Ocorre que, em se tratando do ágio, as reorganizações societárias empreendidas apresentaram novas pessoas ao processo. Como exemplo, podemos citar situação no qual a pessoa jurídica A adquire com ágio participação societária da pessoa jurídica B. Em seguida, utilizase de uma outra pessoa jurídica, C, e integraliza o capital social dessa pessoa jurídica C com a participação societária que adquiriu da pessoa jurídica B. Resta consolidada situação no qual a pessoa jurídica A controla a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C controla a pessoa jurídica B. Em seguida, sucedese evento de transformação societária, no qual a pessoa jurídica B absorve patrimônio da pessoa jurídica C, ou vice versa. Ocorre que os sujeitos eleitos pela norma são precisamente a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) cuja participação societária foi adquirida com ágio. Para fins fiscais, não há nenhuma previsão para que o ágio contabilizado na pessoa jurídica A (investidora), em razão de reorganizações societárias empreendidas por grupo empresarial, possa ser considerado "transferido" para a pessoa jurídica C, e a pessoa jurídica C, ao absorver ou ser absorvida pela pessoa jurídica B, possa aproveitar o ágio cuja origem deuse pela aquisição da pessoa jurídica A da pessoa jurídica B. Da mesma maneira, encontramse situações no qual a pessoa jurídica A realiza aportes financeiros na pessoa jurídica C e, de plano, a pessoa jurídica C adquire participação societária da pessoa jurídica B com ágio. Em seguida, a pessoa jurídica C absorve patrimônio da pessoa jurídica B, ou vice versa, a passa a fazer a amortização do ágio. 5 ATALIBA, Geraldo. Hipótese de Incidência Tributária, 6ª ed. São Paulo : Malheiros Editores, 2010, p. 51 e segs. Fl. 1218DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 38 37 Mais uma vez, não é o que prevê o aspecto pessoal da hipótese de incidência da norma em questão. A pessoa jurídica que adquiriu o investimento, que acreditou na mais valia e que desembolsou os recursos para a aquisição foi, de fato, a pessoa jurídica A (investidora). No outro pólo da relação, a pessoa jurídica adquirida com ágio foi a pessoa jurídica B. Ou seja, o aspecto pessoal da hipótese de incidência, no caso, autoriza o aproveitamento do ágio a partir do momento em que a pessoa jurídica A (investidora) e a pessoa jurídica B (investida) passem a integrar a mesma universalidade. São as situações mais elementares. Contudo, há reorganizações envolvendo inúmeras empresas (pessoa jurídica D, E, F, G, H e assim por diante). Vale registrar que goza a pessoa jurídica de liberdade negocial, podendo dispor de suas operações buscando otimizar seu funcionamento, com desdobramentos econômicos, sociais e tributários. Contudo, não necessariamente todos os fatos são recepcionados pela norma tributária. A partir do momento em que, em razão das reorganizações societárias, passam a ser utilizadas novas pessoas jurídicas (C, D, E, F, G, e assim sucessivamente), pessoas jurídicas distintas da investidora originária (pessoa jurídica A) e da investida (pessoa jurídica B), e o evento de absorção não envolve mais a pessoa jurídica A e a pessoa jurídica B, mas sim pessoa jurídica distinta (como, por exemplo, pessoa jurídica F e pessoa jurídica B), a subsunção ao art. 386 do RIR/99 tornase impossível, vez que o fato imponível (suporte fático, situado no plano concreto) deixa de ser amoldar à hipótese de incidência da norma (plano abstrato), por incompatibilidade do aspecto pessoal. Em relação ao aspecto material, há que se consumar a confusão de patrimônio entre investidora e investida, a que faz alusão o caput do art. 386 do RIR (A pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio...). Com a confusão patrimonial, aperfeiçoa se o encontro de contas entre investidor e investida, e a amortização do ágio passa a ser autorizada, com repercussão direta na base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Na realidade, o requisito expresso de que investidor e investida passam a compor o mesmo patrimônio, mediante evento de transformação societária, no qual a investidora absorve a investida, ou vice versa, encontra fundamento no fato de que, com a confusão de patrimônios, o lucro auferido pela investida passa a integrar a mesma universalidade da investidora. SCHOUERI6, com muita clareza, discorre que, antes da absorção, investidor e investida são entidades autônomas. O lucro auferido pela investida (que foi a motivação para que a investidora adquirisse a investida com o sobrepreço), é tributado pela própria investida. E, por meio do MEP, eventual acréscimo no patrimônio líquido da investida seria refletido na investidora, sem, contudo, haver tributação na investidora. A lógica do sistema mostrase clara, na medida em que não caberia uma dupla tributação dos lucros auferidos pela investida. 6 SCHOUERI, 2012, p. 62. Fl. 1219DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 39 38 Por sua vez, a partir do momento em que se consuma a confusão patrimonial, os lucros auferidos pela então investida passam a integrar a mesma universalidade da investidora. Reside, precisamente nesse ponto, o permissivo para que o ágio, pago pela investidora exatamente em razão dos lucros a serem auferidos pela investida, possa ser aproveitado, vez que passam a se comunicar, diretamente, a despesa de amortização do ágio e as receitas auferidas pela investida. Ou seja, compartilhando o mesmo patrimônio investidora e investida, consolidase cenário no qual a mesma pessoa jurídica que adquiriu o investimento com mais valia (ágio) baseado na expectativa de rentabilidade futura, passa a ser tributada pelos lucros percebidos nesse investimento. Verificase, mais uma vez, que a norma em debate, ao predicar, expressamente, que para se consumar o aproveitamento da despesa de amortização do ágio, os sujeitos da relação jurídica seriam a pessoa jurídica que absorver patrimônio de outra, em virtude de incorporação, fusão ou cisão, na qual detenha participação societária adquirida com ágio ou deságio, ou seja, investidor e investida, não o fez por acaso. Tratase precisamente do encontro de contas da investidora originária, que incorreu na despesa e adquiriu o investimento, e a investida, potencial geradora dos lucros que motivou o esforço incorrido. Prosseguindo a análise da hipótese de incidência da norma em questão, no que concerne ao aspecto temporal, cabe verificar o momento em que o contribuinte aproveitase da amortização do ágio, mediante ajustes na escrituração contábil e no LALUR, evento que provoca impacto direto na apuração da base de cálculo tributável. Considerandose o regime de tributação adotado pelo sujeito passivo, aperfeiçoase o lançamento fiscal e o termo inicial para contagem do prazo decadencial." Concluise, portanto, que o art. 386 do RIR/1999, sob o aspecto pessoal, se dirige à investidora que vier a incorporar sua investida (ou por ela ser incorporada), após ter efetivamente acreditado na mais valia do investimento, feito os estudos de rentabilidade futura e desembolsado os recursos para a aquisição da participação societária (tanto o valor do principal quanto o do ágio). Ou seja, quando ocorre a incorporação é que se dá a subsunção do fato à norma e surge a prerrogativa de amortização do sobrepreço, pago em momento anterior pela investidora em razão da confiança na rentabilidade futura da investida. Destaquese que a regra se aplica tanto à incorporação da investida pela investidora quanto, no sentido inverso, à hipótese em que a investidora é que é incorporada por sua investida. Em ambos os casos, a lei exige que a investidora envolvida na incorporação seja a "original" ou stricto sensu (no sentido de que a originalidade está indissociavelmente ligada à pessoa jurídica que paga o ágio e, por isso mesmo, tem confiança na rentabilidade futura, pois é quem assume o risco). A situação em que a investida incorpora sua investidora é denominada de incorporação reversa ou ainda de incorporação "às avessas". A previsão da possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio nesta hipótese é trazida pelo §6º, inciso II, do art. 386 do RIR/1999. O dispositivo faz uso de uma técnica legislativa transitiva, indicando assim que o que vale para o caput do art. 386 do RIR/1999 vale também para o seu §6º. As premissas de exegese da norma não são afetadas, sendo necessárias apenas as devidas adaptações para contemplar a situação prevista. Fl. 1220DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 40 39 De forma correlata ao que se analisou quanto ao aspecto pessoal, a confusão de patrimônios, principal item do aspecto material para fins de enquadramento no art. 386 do RIR/1999, consumase quando, na sociedade incorporadora, o lucro futuro e o investimento original com expectativa desse lucro (aquele que foi sobreavaliado) passam a se comunicar diretamente (os riscos se fundem: o risco do investimento assim entendidos os recursos aportados e o risco do empreendimento). Compartilhando o mesmo patrimônio a investidora e a investida, consolidase cenário no qual a pessoa jurídica detentora da "mais valia" (ágio) do investimento baseado na expectativa de rentabilidade futura passa a ser responsável também por honrar tal rentabilidade. Assim, a legislação permite que o contribuinte considere perdido o capital que foi investido com o ágio e deduza a despesa relativa à "mais valia". Configuração semelhante ocorre na incorporação reversa, na medida em que a pessoa jurídica responsável por gerar a rentabilidade esperada para o futuro passa a ser a detentora do ágio baseado na expectativa de tal rentabilidade. Sendo assim, pressupõese que a "mais valia" porventura contabilizada tenha sido efetivamente suportada por alguma das pessoas que participam da "confusão patrimonial". Para fins de acesso à dedutibilidade estabelecida pelo art. 386 do RIR/1999, a pessoa jurídica que efetivamente suportou o ágio pago na aquisição de um investimento deve incorporar tal investimento (incorporação da investida pela investidora) ou ser incorporada pela empresa em que investiu (incorporação "às avessas"). Em síntese, a subsunção aos artigos 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997, assim como aos artigos 385 e 386 do RIR/1999, exige a satisfação dos aspectos temporal, pessoal e material das hipóteses ali previstas. Na atual redação destes dispositivos, exclusivamente no caso em que houver o efetivo desembolso de valores (ou sacrifício de outros ativos) a título de investimento da investidora (futura incorporadora ou, no caso da incorporação reversa, incorporada) na investida (futura incorporada ou, no caso da incorporação reversa, incorporadora), é que haverá o atendimento aos aspectos pessoal e material. Se o ágio não foi de fato arcado por nenhuma das pessoas participantes da "confusão patrimonial", não há sentido em clamarse pela dedutibilidade das despesas decorrentes de amortização de ágio instituída pelo art. 386 do RIR/1999. No caso analisado nos presentes autos, é incontroverso que o ágio cujas despesas de amortização a recorrente (Viação Joana D'arc) pretende dedutíveis teve origem quando, em 2006, os seus antigos acionistas constituíram e integralizaram o capital social da pessoa jurídica Sodam Empreendimentos e Participações S/A, fazendo isso mediante a entrega das ações que possuíam da própria recorrente. O valor do capital social que estava sendo integralizado era muito maior que o valor das ações que estavam sendo entregues, e é essa diferença que gerou a escrituração de ágio na pessoa jurídica recém constituída. Os antigos acionistas da recorrente passaram, então, a ter participação direta na Sodam Empreendimentos e participação indireta na Viação Joana D'arc. Eles receberam ações da Sodam Empreendimentos, e essa se tornou controladora da Viação Joana D'arc. No ano seguinte, em 2007, a recorrente incorporou sua controladora (Sodam Empreendimentos e Participações S/A), trazendo o referido ágio para a sua contabilidade, e Fl. 1221DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 41 40 passou a deduzir de seu lucro líquido as despesas referentes à amortização desse ágio, sob o argumento de que sua situação amoldavase à previsão legal abrigada pelos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 e pelos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Ocorre que o entendimento defendido pela recorrente não tem amparo nos mencionados dispositivos legais ou em quaisquer outros. Interpretandose o conteúdo do art. 386 do RIR/1999 sob a perspectiva da hipótese de incidência tributária, verificase que não restaram observados, no caso concreto, os aspectos pessoal e material necessários à subsunção da situação fática à previsão normativa. A configuração do aspecto pessoal da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 requer, como foi visto, que a pessoa jurídica que vier a absorver o patrimônio da outra em que detenha participação societária (ou a ser absorvida por ela, no caso da incorporação "às avessas") tenha acreditado na "mais valia", feito estudos de rentabilidade futura e efetivamente desembolsado recursos para a aquisição do investimento. Analisando as operações societárias, não resta dúvidas de que não houve desembolso algum por qualquer das partes envolvidas no processo de constituição e integralização do capital social da empresa Sodam Empreendimentos e Participações S/A. O ágio, no valor de R$16.204.632,35, adveio simplesmente da diferença entre o valor do capital social da empresa que estava sendo constituída pelos antigos acionistas da recorrente, e o valor das ações da própria recorrente que estavam sendo entregues para a integralização do capital da nova empresa. Sendo assim, não há que se falar na existência de uma investidora real, que faria jus à possibilidade de aproveitamento tributário do ágio nos moldes delineados no art. 386 do RIR/1999. Além disso, também o aspecto material da hipótese de incidência do art. 386 do RIR/1999 não restou caracterizado no caso concreto. Para que o ágio possa ser objeto de aproveitamento fiscal, é necessária a ocorrência de "confusão patrimonial" entre investidora e investida porque assim passam a coexistir dentro da mesma pessoa jurídica a "mais valia" paga com base na expectativa de rentabilidade futura e o próprio investimento de que se espera tal rentabilidade. É justamente por conta deste encontro que a legislação permite que os contribuintes dêem por perdido o capital investido na "mais valia" e passem a utilizar as despesas de sua amortização como deduções da base de cálculo do IRPJ e da CSLL. Se não existiu o efetivo dispêndio da investidora por tal "mais valia", não há valor pago a maior que possa ser considerado perdido por ocasião de seu encontro, na contabilidade da mesma pessoa jurídica, com o investimento de que se esperava a produção futura de resultados positivos. Logo, perde o sentido a possibilidade de aproveitamento tributário do ágio. Assim, a amortização operada pela recorrente não teve amparo dos arts. 7º e 8º da Lei nº 9.532/1997 ou dos arts. 385 e 386 do RIR/1999. Conforme se viu, a possibilidade de aproveitamento fiscal do ágio só tem sentido em situações em que a investidora de fato, responsável por arcar com o dispêndio que faz nascer o ágio, incorpora a pessoa jurídica em que possua participação societária (investimento) ou é por ela incorporada. No caso dos autos, não existiu a figura da investidora originária porque não houve dispêndio apto a amparar a Fl. 1222DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 42 41 criação do ágio que se pretendeu amortizável. O ágio contabilizado decorreu de reavaliações dos valores de mercado do patrimônio da recorrente, cujas ações foram utilizadas na integralização do capital social da Sodam Empreendimentos, não tendo sido verificado nenhum dispêndio que viesse a satisfazer os aspectos pessoal e material da hipótese de incidência da benesse estabelecida no art. 386 do RIR/1999. Assim, concluise ser indiferente o fato de, ao final das operações societárias, o patrimônio das duas empresas envolvidas terem sido reunidos na pessoa jurídica da recorrente. Sem a realização de investimento efetivo que justifique o nascimento do ágio, não há que se falar na ocorrência de confusão patrimonial que possibilite a dedutibilidade prevista no art. 386 do RIR/1999. Importante ressaltar que, quando se estabelece a necessidade de que a investidora arque com a aquisição do investimento com ágio, não se restringe tal operação a uma compra e venda com o desembolso de valores monetários. O dispêndio a que se refere diz respeito a qualquer operação que gere ganhos para o alienante e gastos para o adquirente. Mais do que um pagamento em dinheiro, o que se espera como resultado desta operação é que haja variações patrimoniais para os envolvidos em valores proporcionais ao negócio celebrado. O ágio inicialmente contabilizado pela Sodam Empreendimentos e posteriormente incorporado pela recorrente foi criado sem esta troca de riquezas entre adquirente e alienante. A criação de tal ágio foi um fenômeno puramente contábil. Ninguém sacrificou valores ou direitos que justificassem sua criação. Isso só foi possível porque as empresas envolvidas pertenciam ao mesmo grupo econômico, estando submetidas ao controle dos mesmos acionistas. Assim, o negócio celebrado entre estas empresas não aconteceu em um ambiente de livre concorrência, em que os atos negociais visam a atender aos interesses de ambos os contratantes, que assumem direitos e deveres proporcionais. O fato de as empresas integrarem o mesmo grupo econômico adiciona novos elementos e interesses maiores ao negócio. Não necessariamente os atos celebrados têm como objetivo beneficiar todas as partes envolvidas. O entendimento aqui exposto é corroborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que já se pronunciou de forma contrária à possibilidade de geração de ágio em operações societárias envolvendo apenas empresas pertencentes a um mesmo grupo econômico, por meio do OfícioCircular/CVM/SNC/SEP nº 01/2007, de onde se transcreve o seguinte trecho: "Em nosso entendimento, ainda que essas operações atendam integralmente os requisitos societários, do ponto de vista econômico contábil é preciso esclarecer que o ágio surge, única e exclusivamente, quando o preço (custo) pago pela aquisição ou subscrição de um investimento a ser avaliado pelo método da equivalência patrimonial, supera o valor patrimonial desse investimento. E mais, preço ou custo de aquisição somente surge quando há o dispêndio para se obter algo de terceiros. Assim, não há, do ponto de vista econômico, geração de riqueza decorrente de transação consigo mesmo. Qualquer argumento que não se fundamente nessas assertivas econômicas configura sofisma formal e, portanto, inadmissível. Fl. 1223DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 43 42 Não é concebível, econômica e contabilmente, o reconhecimento de acréscimo de riqueza em decorrência de uma transação dos acionistas com eles próprios. Ainda que, do ponto de vista formal, os atos societários tenham atendido à legislação aplicável (não se questiona aqui esse aspecto), do ponto de vista econômico, o registro de ágio, em transações como essas, somente seria concebível se realizada entre partes independentes, conhecedoras do negócio, livres de pressões ou outros interesses que não a essência da transação, condições essas denominadas na literatura internacional como “arm’s length”. Portanto, é nosso entendimento que essas transações não se revestem de substância econômica e da indispensável independência entre as partes, para que seja passível de registro, mensuração e evidenciação pela contabilidade." (Grifouse) Assim, verificase que a CVM não chancela a existência contábil do ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico, sem dispêndio algum. Também o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) já se manifestou de maneira semelhante, por meio da Orientação Técnica OCPC nº 02/2008: "É importante lembrar que só pode ser reconhecido o ativo intangível ágio por expectativa de rentabilidade futura se adquirido de terceiros, nunca o gerado pela própria entidade (ou mesmo conjunto de empresas sob controle comum). E o adquirido de terceiros só pode ser reconhecido, no Brasil, pelo custo, vedada completamente sua reavaliação." Por fim, relevante ainda mencionar que o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) tampouco reconhece a legitimidade do ágio gerado intragrupo, como foi expresso nas seguintes Resoluções: Resolução CFC nº 1.110/2007 “O reconhecimento de ágio decorrente de rentabilidade futura gerado internamente (goodwill interno) é vedado pelas normas nacionais e internacionais. Assim, qualquer ágio dessa natureza anteriormente registrado precisa ser baixado.” Resolução CFC nº 1.303/2010 "48. O ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente não deve ser reconhecido como ativo. 49. Em alguns casos incorrese em gastos para gerar benefícios econômicos futuros, mas que não resultam na criação de ativo intangível que se enquadre nos critérios de reconhecimento estabelecidos na presente Norma. Esses gastos costumam ser descritos como contribuições para o ágio derivado da expectativa de rentabilidade futura (goodwill) gerado internamente, o qual não é reconhecido como ativo porque não é um recurso identificável (ou seja, não é separável nem advém de direitos contratuais ou outros direitos legais) controlado pela entidade que pode ser mensurado com confiabilidade ao custo." Fl. 1224DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 44 43 Os atos administrativos mencionados e parcialmente transcritos foram todos exarados de 2007 em diante, posteriormente, portanto, ao ano da operação societária que pretensamente originou ágio passível de aproveitamento tributário (2006). Isto não significa, entretanto, que o entendimento exposto nos atos administrativos daqueles órgãos fosse novo. A este respeito, observese a manifestação da própria CVM por ocasião do julgamento de recurso constante do Processo Administrativo CVM RJ 2007/3480: "RELATÓRIO No caso concreto, as demonstrações financeiras da Companhia do exercício de 2006 continham uma informação que a SEP e a SNC consideraram errada: o valor de um ativo (a participação acionária na CPM USA) foi contabilizado por um valor apurado em laudo de avaliação, mas esse bem estava, antes, contabilizado em companhia do mesmo grupo por valor mais baixo, e o aumento de seu valor se deu por incorporação entre partes relacionadas. A Companhia não recorreu quanto ao mérito desse entendimento, mas entende que ele somente foi manifestado pela CVM ao mercado através do Oficio Circular de 2007, divulgado em 14.02.2007,(...) SEP e SNC confirmam que essa dicção somente constou a partir do Oficio Circular 01/2007, mas sustentam que o entendimento já era este desde sempre, porque ele decorre dos princípios contábeis geralmente são aplicáveis à escrituração contábil das companhias brasileiras por força do art. 177 da Lei 6.404/76 (...) O recurso apresentado pela Companhia sustenta que a introdução desse entendimento pela CVM constituiria mudança de critério contábil de que trata o art. 186, §1º da Lei 6.404/76, e, por isso, a determinação de baixa do ágio poderia ser feita mediante ajuste de exercícios anteriores, na primeira ITR, como já teria sido aceito pela CVM em outros precedentes. Quanto ao primeiro ponto, entendo ter razão a área técnica. Não se pode afirmar que seja novo o entendimento da CVM quanto à impossibilidade contábil de aproveitamento do ágio interno (assim entendido como aquele gerado em operações entre partes relacionadas). Como lembra a SNC, essa impossibilidade está ligada ao Principio do Custo como Base de Valor — segundo os especialistas "o mais antigo e discutido principio de contabilidade" — que considera o valor de entrada como o que deve servir de base para registro de qualquer ativo, ressalvada a hipótese restrita (e mesmo inexistente em alguns países, como nos Estados Unidos) de reavaliação e, ainda, observandose o valor de recuperação, sempre que menor. Como destacam as áreas técnicas, esse principio foi expressamente reconhecido na "Estrutura Conceitual Básica de Contabilidade" desde a Deliberação 29/86, além de estar à base da Deliberação 183/95. Portanto, ainda que o OficioCircular 01/2007 tenha vindo a dar maior destaque à questão especifica do ágio interno, o entendimento da CVM sempre existiu, com fundamento do Principio do Custo como Base de Fl. 1225DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 45 44 Valor, e era público. Assim, não vejo como sustentar, portanto, que se possa falar em "mudança de critério contábil" (grifouse). Esses mesmos argumentos servem também para afastar a alegação de que não havia, até a edição da MP n° 627/2013 (convertida na Lei 12.973/204), base legal que autorizasse a glosa da exclusão dos valores referentes a ágio gerado em operação entre empresas de um mesmo grupo. O texto legal apenas explicitou com mais clareza o entendimento que há muito tempo já vinha sendo manifestado em relação ao ágio interno. O fato é que as próprias Ciências Contábeis tinham (e têm) restrições em relação à existência do ágio gerado internamente, por meio de operações societárias realizadas no interior de um grupo econômico e sem o lastro de efetiva circulação de riquezas. Com base nisso e na inexistência de lei que estabeleça tratamento tributário diferenciado para este instituto, forçoso se faz concluir pela inutilidade do denominado "ágio interno" para os fins tributários pretendidos pela recorrente. Ainda que não bastassem todos os argumentos já apresentados no sentido da indedutibilidade das despesas de amortização do ágio gerado nas operações societárias celebradas no interior do grupo econômico de que fazia parte a recorrente, a análise do caso realizada sob outro enfoque leva à mesma conclusão. O aproveitamento tributário do ágio discutido nos presentes autos consiste, como já foi dito por diversas vezes, na dedução de despesas decorrentes de sua amortização na apuração do lucro real e da base de cálculo da CSLL. Fazse relevante, portanto, analisar o caso sob a perspectiva da teoria atinente às despesas que têm relevância fiscal. Uma vez mais, pedese vênia para transcreverse excerto extraído do Acórdão nº 9101002.301, por sua concisão e clareza: "Definido que o aproveitamento do ágio pode darse por meio de despesa de amortização, mostrase pertinente apreciar do que trata tal dispêndio. No RIR/99 (DecretoLei nº 3.000, de 26/03/1999), o conceito de amortização encontrase no Subtítulo II (Lucro Real), Capítulo V (Lucro Operacional), Seção III (Custos, Despesas Operacionais e Encargos). O artigo 299 do diploma em análise trata, no art. 299, na Subseção I, das Disposições Gerais sobre as despesas: Art. 299. São operacionais as despesas não computadas nos custos, necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47). § 1º São necessárias as despesas pagas ou incorridas para a realização das transações ou operações exigidas pela atividade da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 1º). § 2º As despesas operacionais admitidas são as usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa (Lei nº 4.506, de 1964, art. 47, § 2º). Fl. 1226DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 46 45 § 3º O disposto neste artigo aplicase também às gratificações pagas aos empregados, seja qual for a designação que tiverem. Para serem dedutíveis, devem as despesas serem necessárias à atividade da empresa e à manutenção da respectiva fonte produtora, e serem usuais ou normais no tipo de transações, operações ou atividades da empresa. Por sua vez, logo após as Subseções II (Depreciação de Bens do Ativo Imobilizado) e III (Depreciação Acelerada Incentivada), encontra previsão legal a amortização, no art. 324, na Subseção IV do RIR/99. Percebese que a amortização constituise em espécie de gênero despesa, e, naturalmente, encontrase submetida ao regramento geral das despesas disposto no art. 299 do RIR/99. Despesa Diante de Fatos Construídos Artificialmente No mundo real os fatos nascem e morrem, decorrentes de eventos naturais ou da vontade humana. O direito elege, para si, fatos com relevância para regular o convívio social. No que concerne ao direito tributário, são escolhidos fatos decorrentes da atividade econômica, financeira, operacional, que nascem espontaneamente, precisamente em razão de atividades normais, que são eleitos porque guardam repercussão com a renda ou o patrimônio. São condutas relevantes de pessoas físicas ou jurídicas, de ordem econômica ou social, ocorridas no mundo dos fatos, que são colhidas pelo legislador que lhes confere uma qualificação jurídica. Por exemplo, o fato de auferir lucro, mediante operações espontâneas, das atividades operacionais da pessoa jurídica, amoldase à hipótese de incidência prevista pela norma, razão pela qual nasce a obrigação do contribuinte recolher os tributos. Da mesma maneira, a pessoa jurídica, no contexto de suas atividades operacionais, incorre em dispêndios para a realização de suas tarefas. Contratase um prestador de serviços, comprase uma mercadoria, operações necessárias à consecução das atividades da empresa, que surgem naturalmente. Ocorre que, em relação aos casos tratados relativos à amortização do ágio, proliferaramse situações no qual se busca, especificamente, o enquadramento da norma permissiva de despesa. Tratamse de operações especificamente construídas, mediante inclusive utilização de empresas de papel, de curtíssima duração, sem funcionários ou quadro funcional incompatível, com capital social mínimo, além de outras características completamente atípicas no contexto empresarial, que recebem aportes de milhões e em questão de dias ou meses são objeto de operações de transformação societária. Tais eventos podem receber qualificação jurídica e surtir efeitos nos ramos empresarial, cível, contábil, dentre outros. Fl. 1227DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 47 46 Situação completamente diferente ocorre no ramo tributário. Não há norma de despesa que recepcione uma situação criada artificialmente. As despesas devem decorrer de operações necessárias, normais, usuais da pessoa jurídica. Impossível estender atributos de normalidade, ou usualidade, para despesas, independente sua espécie, derivadas de operações atípicas, não consentâneas com uma regular operação econômica e financeira da pessoa jurídica. Admitindose uma construção artificial, consumarseia um tratamento desigual, desarrazoado e desproporcional, que afronta o princípio da capacidade contributiva e da isonomia, vez que seria conferida a uma determinada categoria de despesa uma premissa completamente diferente, uma liberalidade não aplicável à grande maioria dos contribuintes." Acrescentese à análise reproduzida que os pronunciamentos da CVM, CPC e CFC, transcritos alhures, deixam claro que as Ciências Contábeis não reconhecem o ágio gerado dentro de um mesmo grupo econômico. Assim, do ponto de vista contábil, são inexistentes tanto este ágio quanto as despesas decorrentes de sua amortização. Sendo inexistentes as despesas de amortização do "ágio interno", não podem afetar a apuração do lucro líquido e, consequentemente, do lucro real e da base de cálculo da CSLL (que decorrem do lucro líquido calculado nos termos da legislação comercial). Concluise, assim, que as despesas de amortização de ágio criado em operações como as analisadas nos presentes autos, internas, atípicas e integrantes de um processo de planejamento tributário que tem a finalidade específica de criar artificialmente hipótese próxima à requerida pelo art. 386 do RIR/1999, não se revestem das características de necessidade, usualidade e normalidade requeridas para sua dedutibilidade. Diante de todo o exposto, voto por NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte, na parte em que ele trata de divergência sobre amortização de ágio interno. 2 DA AUSÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL PARA INCIDÊNCIA DE JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Mantida a glosa da despesa referente à amortização de ágio, cabe analisar agora a divergência relativa à incidência de juros sobre a multa de ofício. Como já mencionado, a decisão recorrida tratou dos juros a serem aplicados sobre a multa de ofício, e determinou que fosse adotado o índice de 1% ao mês, conforme previsto no CTN, e não a taxa Selic. O recurso especial da contribuinte busca o completo afastamento dos juros sobre a multa de ofício, e não houve recurso especial da PGFN em relação a essa matéria, no sentido de se reivindicar o restabelecimento da taxa Selic. Sobre o tema, tenho sempre adotado as razões de decidir do Acórdão nº 910100.539, proferido em 11/03/2010 por esta 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, com a relatoria da Conselheira Viviane Vidal Wagner: Fl. 1228DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 48 47 De fato, como bem destacado pelo relator, o crédito tributário, nos termos do art. 139 do CTN, comporta tanto o tributo quanto a penalidade pecuniária. Em razão dessa constatação, ao meu ver, outra deve ser a conclusão sobre a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício. Uma interpretação literal e restritiva do caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96, que regula os acréscimos moratórios sobre débitos decorrentes de tributos e contribuições, pode levar à equivocada conclusão de que estaria excluída desses débitos a multa de ofício. Contudo, uma norma não deve ser interpretada isoladamente, especialmente dentro do sistema tributário nacional. No dizer do jurista Juarez Freitas (2002, p.70), "interpretar uma norma é interpretar o sistema inteiro: qualquer exegese comete, direta ou obliquamente, uma aplicação da totalidade do direito." Merece transcrição a continuidade do seu raciocínio: "Não se deve considerar a interpretação sistemática como simples instrumento de interpretação jurídica. E a interpretação sistemática, quando entendida em profundidade, o processo hermenêutico por excelência, de tal maneira que ou se compreendem os enunciados prescritivos nos plexos dos demais enunciados ou não se alcançará compreendêlos sem perdas substanciais. Nesta medida, mister afirmar, com os devidos temperamentos, que a interpretação jurídica é sistemática ou não é interpretação." (A interpretação sistemática do direito, 3.ed. São Paulo: Malheiros, 2002, p. 74). Daí, por certo, decorrerá uma conclusão lógica, já que interpretar sistematicamente implica excluir qualquer solução interpretativa que resulte logicamente contraditória com alguma norma do sistema. O art. 161 do CTN não distingue a natureza do crédito tributário sobre o qual deve incidir os juros de mora, ao dispor que o crédito tributário não pago integralmente no seu vencimento é acrescido de juros de mora, independentemente dos motivos do inadimplemento. Nesse sentido, no sistema tributário nacional, a definição de crédito tributário há de ser uniforme. De acordo com a definição de Hugo de Brito Machado (2009, p.172), o crédito tributário "é o vínculo jurídico, de natureza obrigacional, por força do qual o Estado (sujeito ativo) pode exigir do particular, o contribuinte ou responsável (sujeito passivo), o pagamento do tributo ou da penalidade pecuniária (objeto da relação obrigacional)." Convertese em crédito tributário a obrigação principal referente à multa de ofício a partir do lançamento, consoante previsão do art. 113, §1°, do CTN: "Art. 113 A obrigação tributária é principal ou acessória. Fl. 1229DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 49 48 § 1° A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito tributário dela decorrente. A obrigação tributária principal surge, assim, com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, o que inclui a multa de ofício proporcional. A multa de ofício é prevista no art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, e é exigida "juntamente com o imposto, quando não houver sido anteriormente pago" (§1°). Assim, no momento do lançamento, ao tributo agregase a multa de ofício, tornandose ambos obrigação de natureza pecuniária, ou seja, principal. A penalidade pecuniária, representada no presente caso pela multa de ofício, tem natureza punitiva, incidindo sobre o montante não pago do tributo devido, constatado após ação fiscalizatória do Estado. Os juros moratórios, por sua vez, não se tratam de penalidade e têm natureza indenizatória, ao compensarem o atraso na entrada dos recursos que seriam de direito da União. A própria lei em comento traz expressa regra sobre a incidência de juros sobre a multa isolada. Eventual alegação de incompatibilidade entre os institutos é de ser afastada pela previsão contida na própria Lei n° 9.430/96 quanto à incidência de juros de mora sobre a multa exigida isoladamente. O parágrafo único do art. 43 da Lei n° 9.430/96 estabeleceu expressamente que sobre o crédito tributário constituído na forma do caput incidem juros de mora a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. O art. 61 da Lei n° 9.430, de 1996, ao se referir a débitos decorrentes de tributos e contribuições, alcança os débitos em geral relacionados com esses tributos e contribuições e não apenas os relativos ao principal, entendimento, dizia então, reforçado pelo fato de o art. 43 da mesma lei prescrever expressamente a incidência de juros sobre a multa exigida isoladamente. Nesse sentido, o disposto no §3° do art. 950 do Regulamento do Imposto de Renda aprovado pelo Decreto n° 3.000, de 26 de março de 1999 (RIR/99) exclui a equivocada interpretação de que a multa de mora prevista no caput do art. 61 da Lei n° 9.430/96 poderia ser aplicada concomitantemente com a multa de ofício. Art. 950. Os débitos não pagos nos prazos previstos na legislação específica serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento por dia de atraso (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61). Fl. 1230DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 50 49 § 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subseqüente ao do vencimento do prazo previsto para o pagamento do imposto até o dia em que ocorrer o seu pagamento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, §1º). § 2º O percentual de multa a ser aplicado fica limitado a vinte por cento (Lei nº 9.430, de 1996, art. 61, § 2º). § 3º A multa de mora prevista neste artigo não será aplicada quando o valor do imposto já tenha servido de base para a aplicação da multa decorrente de lançamento de oficio. A partir do trigésimo primeiro dia do lançamento, caso não pago, o montante do crédito tributário constituído pelo tributo mais a multa de ofício passa a ser acrescido dos juros de mora devidos em razão do atraso da entrada dos recursos nos cofres da União. No mesmo sentido já se manifestou este E. colegiado quando do julgamento do Acórdão n° CSRF/0400.651, julgado em 18/09/2007, com a seguinte ementa: JUROS DE MORA MULTA DE OFÍCIO OBRIGAÇÃO PRINCIPAL A obrigação tributária principal surge com a ocorrência do fato gerador e tem por objeto tanto o pagamento do tributo como a penalidade pecuniária decorrente do seu não pagamento, incluindo a multa de oficio proporcional. O crédito tributário corresponde a toda a obrigação tributária principal, incluindo a multa de oficio proporcional, sobre o qual, assim, devem incidir os juros de mora à taxa Selic. Nesse sentido, ainda, a Súmula Carf n° 5: “São devidos juros de mora sobre o crédito tributário não integralmente pago no vencimento, ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando existir depósito no montante integral.” Diante da previsão contida no parágrafo único do art. 161 do CTN, buscase na legislação ordinária a norma complementar que preveja a correção dos débitos para com a União. Para esse fim, a partir de abril de 1995, temse a taxa Selic, instituída pela Lei n° 9.065, de 1995. A jurisprudência é forte no sentido da aplicação da taxa de juros Selic na cobrança do crédito tributário, como se vê no exemplo abaixo: REsp 1098052 / SP RECURSO ESPECIAL 2008/02395728 Relator(a) Ministro CASTRO MEIRA (1125) Órgão Julgador T2 SEGUNDA TURMA Data do Julgamento 04/12/2008 Data da Publicação/Fonte DJe 19/12/2008 Ementa PROCESSUAL CIVIL. OMISSÃO. NÃOOCORRÊNCIA. LANÇAMENTO. DÉBITO DECLARADO E NÃO PAGO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DESNECESSIDADE. TAXA SELIC. LEGALIDADE. Fl. 1231DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 51 50 1. É infundada a alegação de nulidade por maltrato ao art. 535 do Código de Processo Civil, quanto o recorrente busca tão somente rediscutir as razões do julgado. 2. Em se tratando de tributos lançados por homologação, ocorrendo a declaração do contribuinte e na falta de pagamento da exação no vencimento, a inscrição em dívida ativa independe de procedimento administrativo. 3. É legítima a utilização da taxa SELIC como índice de correção monetária e de juros de mora, na atualização dos créditos tributários (Precedentes: AgRg nos EREsp 579.565/SC, Primeira Seção, Rel. Min. Humberto Martins, DJU de 11.09.06 e AgRg nos EREsp 831.564/RS, Primeira Seção, Rel. Min. Eliana Calmon, DJU de 12.02.07).(g.n.) No âmbito administrativo, a incidência da taxa de juros Selic sobre os débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal foi pacificada com a edição da Súmula CARF n° 4, nos seguintes termos: Súmula CARF nº 4: A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais. Registro ainda uma outra decisão da Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça, reiterando o entendimento de que é “legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário” (AgRg no REsp 1.335.688PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 4/12/12), conforme a seguinte ementa: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. MANDADO DE SEGURANÇA. JUROS DE MORA SOBRE MULTA. INCIDÊNCIA. PRECEDENTES DE AMBAS AS TURMAS QUE COMPÕEM A PRIMEIRA SEÇÃO DO STJ. 1. Entendimento de ambas as Turmas que compõem a Primeira Seção do STJ no sentido de que: "É legítima a incidência de juros de mora sobre multa fiscal punitiva, a qual integra o crédito tributário.” (REsp 1.129.990/PR, Rel. Min.Castro Meira, DJ de 14/9/2009). De igual modo: REsp 834.681/MG, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de 2/6/2010. 2. Agravo regimental não provido. O voto que conduziu a referida decisão consignou: “[...] Quanto ao mérito, registrou o acórdão proferido pelo TRF da 4ª Região à fl. 163: ‘... os juros de mora são devidos para compensar a demora no pagamento. Verificado o inadimplemento do tributo, é possível a aplicação da multa punitiva que passa a integrar o crédito fiscal, ou seja, o montante que o contribuinte deve recolher ao Fisco. Se ainda assim há atraso na quitação da dívida, os juros de mora devem incidir sobre a totalidade do débito, inclusive a multa que, neste momento, constitui crédito titularizado pela Fazenda Pública, não se distinguindo da exação em si para efeitos de recompensar o credor pela demora no pagamento.’ ” Fl. 1232DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 52 51 Minha conclusão, portanto, sempre tem sido no sentido de que sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de ofício, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. Esse caso, entretanto, apresenta uma particularidade que precisa ser enfrentada. É que a decisão recorrida afastou a taxa Selic, determinando a aplicação dos juros de 1% ao mês, conforme previsto no CTN, e não houve recurso especial da PGFN em relação a esse ponto, reivindicando o restabelecimento da taxa Selic. O julgamento do recurso especial da contribuinte não pode produzir um resultado mais desvantajoso para ela (vedação da reformatio in pejus), de modo que, havendo negativa de seu recurso, a primeira impressão é de que os juros deveriam permanecer conforme definido pela decisão recorrida (juros de 1% ao mês). Haveria possibilidade de nova alteração na taxa de juros, apenas se fosse para afastála ou reduzila. Mas também não é desconhecido por ninguém que a taxa Selic é uma taxa mensal variável, às vezes menor, às vezes maior que 1% ao mês. Para se ter uma ideia, o montante acumulado de juros Selic entre 03/06/2011 (data de vencimento da multa de ofício) e o mês de abril/2018 é de 69,97%, enquanto que o montante acumulado dos juros de 1% ao mês no mesmo período, é de 82%. Contudo, não há como saber qual será o valor dessas taxas acumuladas quando, no futuro, a contribuinte for realizar o pagamento. O critério correto, diante das circunstâncias do caso, e para se evitar o reformatio in pejus, é que a taxa Selic pode (e deve) ser aplicada (em razão da Súmula CARF nº 4), mas o montante destes juros fica limitado ao somatório da taxa de 1% ao mês, acumulada no mesmo período. Nesse contexto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte, determinando a incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício nos termos definidos acima. RECURSO ESPECIAL DA PGFN Conforme mencionado, a PGFN suscitou divergência quanto à parte da decisão que cancelou a multa isolada por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ/CSLL, em razão da concomitância com a multa de ofício que incidiu sobre o tributo lançado no ajuste anual. Nesse caso, o objeto da contestação se refere ao entendimento exposto no acórdão recorrido no sentido de que a multa isolada pela falta de recolhimento das estimativas mensais não pode ser cobrada concomitantemente com a multa de ofício devida por conta da falta de pagamento do IRPJ e da CSLL apurados no ajuste anual. Fl. 1233DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 53 52 O acórdão recorrido adotou tal entendimento em relação aos anoscalendário 2007 e 2008. Até o advento da MP nº 351/2007 e da Lei nº 11.488/2007, a multa isolada devida por ausência de pagamento das estimativa mensais de IRPJ e de CSLL tinha a seguinte previsão: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos arts. 71, 72 e 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis. § 1° As multas de que trata este artigo serão exigidas: (...) IV isoladamente, no caso de pessoa jurídicas sujeita ao pagamento do imposto de renda e da contribuição social sobre o lucro liquido, na forma do art. 2°, que deixar de fazêlo, ainda que tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro liquido, no anocalendário correspondente; (...) Com as alterações introduzidas pela Lei nº 11.488/2007, passou a dispor a mesma Lei nº 9.430/1996: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata; II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (...) Observemse as alterações efetivas operadas pela mudança de redação: (i) a multa isolada não é mais calculada sobre "a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"; passando a incidir sobre o valor do pagamento mensal que deixar de ser pago na forma prevista no art. 2º da mesma lei; (ii) o percentual aplicável no cálculo da multa passa de 75% para 50%. Fl. 1234DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 54 53 A antiga redação do art. 44 efetivamente não deixava tão clara a distinção entre as multas de ofício e isolada. A base sobre a qual as multas incidiam era prevista de forma conjunta, no caput do artigo ("calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição"). O percentual aplicável para ambas as multas também era fixado no mesmo dispositivo, o inciso I do artigo ("setenta e cinco por cento"). Somente no inciso IV do §1º é que existia a previsão específica da exigência de multa isolada pelo não pagamento de IRPJ ou CSLL na forma do art. 2º da Lei nº 9.430/1996 (estimativas mensais com base na receita bruta do período). A falta de clareza na antiga redação do art. 44 e o fato de parte das previsões das duas multas constarem dos mesmos dispositivos (mesma base de cálculo, inclusive) foram, em grande medida, responsáveis pela sedimentação do entendimento desta Corte no sentido da impossibilidade de cobrança simultânea das multas isolada e de ofício. Por conta disso, editou se a multicitada Súmula CARF nº 105: Súmula CARF nº 105 : A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996, não pode ser exigida ao mesmo tempo da multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual, devendo subsistir a multa de ofício. Mas com o advento da MP nº 351, de 22/01/2007, e sua posterior conversão na Lei nº 11.488, de 15/06/2007, julgo terem sido extirpadas as fontes de dúbia interpretação do art. 44 no que diz respeito à previsão das multas isolada e de ofício. A nova redação é clara em relação às hipóteses de incidência de cada uma das multas, suas bases de cálculo e percentuais aplicáveis. Friso que a Súmula CARF nº 105 é explícita ao mencionar a impossibilidade de cobrança concomitante da "multa isolada por falta de recolhimento de estimativas, lançada com fundamento no art. 44 § 1º, inciso IV da Lei nº 9.430, de 1996" com a "multa de ofício por falta de pagamento de IRPJ e CSLL apurado no ajuste anual". Tendo sido a Súmula editada pela 1ª Turma da CSRF apenas em 08/12/2014, muito tempo após a revogação do inciso IV do §1º do art. 44 da Lei nº 9.430/1996 e o início da vigência da Lei nº 11.488/1997, seria esperado que ela fizesse alguma referência genérica como "A multa isolada por falta de recolhimento de estimativas não pode ser exigida (...)" caso não desejasse se referir especificamente à multa isolada prevista no dispositivo revogado em 2007. Neste mesmo sentido já se manifestou a CSRF no Acórdão nº 910100.947, cujo voto condutor assim se pronunciou: "Da comparação entre a redação vigente e a anterior do mesmo dispositivo, constatase que com as alterações introduzidas recentemente a penalidade isolada não deve mais incidir "sobre a totalidade ou diferença de tributo", mas apenas sobre "valor do pagamento mensal" a titulo de recolhimento de estimativa. Além disso, para compatibilizar as penalidades ao efetivo dano que a conduta ilícita proporciona, ajustouse o percentual da multa pela falta de recolhimento de estimativas para 50%, passível de redução a 25% no caso de o contribuinte, notificado, efetuar o pagamento do débito no prazo legal de impugnação. Fl. 1235DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 55 54 Desta forma, a penalidade isolada aplicada em procedimento de oficio em função da não antecipação no curso do exercício se aproxima da multa de mora cobrada nos casos de atraso de pagamento de tributo (20%). Providência que se fazia necessária para tomar a punição proporcional ao dano causado pelo descumprimento do dever de antecipar o tributo. Porém, este novo disciplinamento das sanções administrativas aplicadas no procedimento de oficio passaram a viger somente a partir de janeiro de 2007, portanto, após os fatos de que tratam os autos. No caso presente, em relação ao anocalendário 1998, a contribuinte foi autuada para exigir principal e multa de oficio em relação a CSLL não recolhida ao final do exercício e, concomitantemente, foi aplicada multa isolada sobre a mesma base estimada não recolhida. Como dito acima, essa dupla penalização sobre ilícitos materialmente relacionados e por força do principio da consunção, não pode subsistir." (Grifouse) Interpretando a contrario sensu a referida decisão, concluise que, a partir de janeiro de 2007, quando entrou em vigência a MP nº 351/2007, não subsistem os motivos que outrora impediam a cobrança concomitante das duas multas. Ainda quanto ao mérito, considero oportuno reproduzir os fundamentos de uma outra decisão do CARF, o Acórdão nº 1802001.408, em que foi negado provimento a recurso voluntário do contribuinte que pedia o cancelamento da multa isolada, a partir do mesmo tipo de argumentação das contrarrazões que foram apresentadas nos presentes autos: Voto Vencedor Conselheiro José de Oliveira Ferraz Corrêa, Redator designado. Em que pesem as razões de decidir do eminente relator, peço vênia para dele divergir quanto à multa isolada pela falta de recolhimento de estimativas mensais. A previsão dessa penalidade está contida no art. 44 da Lei 9.430/1996, com as alterações introduzidas pela Lei 11.488/2007, já vigentes à época dos fatos: Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) I – (...) II de 50% (cinqüenta por cento), exigida isoladamente, sobre o valor do pagamento mensal: (Redação dada pela Lei nº 11.488, de 2007) a) (...) b) na forma do art. 2º desta Lei, que deixar de ser efetuado, ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no ano calendário correspondente, no caso de pessoa jurídica. (Incluída pela Lei nº 11.488, de 2007) Fl. 1236DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 56 55 Ao determinar que a multa isolada será aplicada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a contribuição social sobre o lucro líquido, no anocalendário correspondente”, a norma legal evidencia aspectos importantes. Primeiramente, a clareza do texto não admite outra leitura, senão a de que a referida multa será aplicada “ainda que tenha sido apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa (...)”. Não há espaço para outra interpretação, a menos que se admita o afastamento de norma legal vigente, tarefa que não compete à Administração Tributária. Além disso, a hermenêutica jurídica ensina que se deve preferir a inteligência dos textos que torne viável o seu objetivo, ao invés da que os reduza à inutilidade. Nesse caso, um entendimento contrário (de que essa multa não incidira em caso de prejuízo ...) implicaria na supressão ou inutilidade de todo o adendo estabelecido na alínea “b” acima transcrita (ainda que tenha sido apurado prejuízo ...). Vêse também que o texto diz “ainda que tenha sido apurado prejuízo ....” e não “ainda que venha a ser apurado prejuízo...”, numa clara indicação de que a multa deve ser aplicada mesmo com o período já encerrado, e não apenas no ano em curso. Tais aspectos não deixam nenhuma dúvida de que as estimativas mensais configuram obrigações autônomas, que não se confundem com a obrigação tributária decorrente do fato gerador anual, em 31 de dezembro. Sua natureza jurídica, inclusive, a faz destoar totalmente do padrão traçado pelo art. 113 do CTN (que trata das obrigações tributárias), pois ela é uma obrigação que surge antes da ocorrência do fato gerador do tributo. Seu pagamento, por outro lado, nada extingue, gerando apenas um registro contábil de crédito a favor do contribuinte, a ser aproveitado no futuro. Além disso, nos termos do art. 44 da Lei 9.430/96, essa obrigação subsiste mesmo que a pessoa jurídica tenha apurado prejuízo fiscal ou base de cálculo negativa para a CSLL. Ou seja, existe ainda que não haja tributo devido no ajuste. Com mais razão, portanto, ela deve existir quando há tributo devido ao final do ano, e é esse o nosso caso. Realmente não há entre as estimativas e o tributo devido no final do ano uma relação de meio e fim, ou de parte e todo (porque a estimativa é devida mesmo que não haja tributo devido no ajuste), e, sendo assim, a multa pela falta de estimativas não se confunde com a multa pela falta de recolhimento do tributo apurado em 31 de dezembro. Ainda que assim não fosse, caberia assinalar que não há no Direito Tributário algo semelhante ao Princípio da Consunção (Absorção) do Direito Penal, o que também afasta os argumentos sobre a concomitância de multas. Finalmente, é preciso ressaltar que não há um regime de tributação de IRPJ/ CSLL em que o contribuinte apure o tributo anualmente e o recolha somente no ajuste, com vencimento no último dia útil do mês de março do ano subseqüente. Fl. 1237DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 57 56 O que há é um regime de apuração anual (opcional) no qual o contribuinte fica obrigado a realizar recolhimentos mensais no decorrer do ano, por meio de estimativas, ressalvada a possibilidade de suspender ou reduzir estes recolhimentos mensais mediante a elaboração de balancetes cumulativos de suspensão ou redução desta obrigação. Fosse o caso de um tributo com fato gerador instantâneo, ocorrido em 31 de dezembro, e com vencimento no mês de março subseqüente, todo o problema relativo ao descumprimento da obrigação estaria resolvido (compensado) pela multa normal de 75%, prevista no inciso I do art. 44 da Lei 9.430/1996, com as suas devidas majorações, quando cabíveis. Mas tratandose de tributo com fato gerador complexivo, como é o caso do IRPJ e da CSLL, em que a opção pela apuração anual impõe também a obrigação de recolhimentos mensais (as chamadas “antecipações”), a multa de 75%, embora puna o descumprimento da obrigação vencida em março do ano seguinte (ajuste anual), não resolve todos os problemas, porque ela não compensa o atraso no ingresso dos recursos, que deveriam ter sido recolhidos ao longo do próprio ano. O prejuízo sofrido pelos cofres públicos em relação ao atraso nas “antecipações” ficaria a descoberto, não fosse a multa isolada em questão, que está prevista justamente para preencher esta lacuna, dando eficácia ao regime de apuração anual com estimativas mensais. Se não houvesse essa multa isolada, nenhum contribuinte faria recolhimento de estimativas mensais, deixando para recolher todo o tributo de uma só vez, e somente no ajuste, em março do ano seguinte. Vejo com bastante clareza que a multa normal de 75% pune o não recolhimento de obrigação vencida em março do ano subseqüente ao de apuração, enquanto que a multa isolada de 50% pune o atraso no ingresso dos recursos, atraso esse verificado desde o mês de fevereiro do próprio ano de apuração (estimativa de janeiro), e seguintes, até o mês de março do ano subseqüente. Com efeito, estamos diante de penalidades distintas previstas para diferentes situações/fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos, não havendo, portanto, que se falar em concomitância de multas. Nestes termos, também em relação à multa isolada, nego provimento ao recurso voluntário. A aplicação das duas penalidades mencionadas acima é perfeitamente possível, uma vez que elas configuram penalidades distintas previstas para diferentes situações/ fatos, e com a finalidade de compensar prejuízos financeiros também distintos. O voto acima transcrito elucida com clareza esses aspectos. A contribuinte, ao deduzir indevidamente despesas de amortização de ágio no curso dos anoscalendário 2007 e 2008, acarretou dois prejuízos aos cofres públicos. Um deles, é de não ter recolhido integralmente, em 31/03/2008 e 31/03/2009, o tributo devido no ajuste anual dos referidos períodos (o que justifica a multa de ofício exigida juntamente com o tributo lançado em 04/05/2011). Antes disso, porém, já havia causado outro prejuízo, na medida em Fl. 1238DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 58 57 que valores já deveriam ter ingressado nos cofres públicos no curso dos próprios anos de 2007 e 2008, via recolhimento de estimativas mensais (o que justifica a multa isolada por falta das "antecipações"). Não é razoável pensar que a multa isolada somente pode ser exigida quando não existe valor de principal a ser exigido, na hipótese de prejuízo fiscal/base negativa de CSLL, ou de já se ter recolhido o tributo. Ora, se a multa isolada deve ser aplicada "ainda" que não haja tributo devido no ajuste (em razão de prejuízo fiscal ou base negativa de CSLL, conforme o texto da lei), com mais razão ela deve ser exigida se há tributo devido ao final do ano, e ainda não quitado. A noção de justiça força essa conclusão, e o fato de a lei utilizar a expressão "ainda", apenas a confirma. Não seria razoável punir por falta de "antecipações" aquele que nada deveu no ajuste anual, e exonerar dessa penalidade aquele que era realmente devedor de tributo. E se o texto legal diz “ainda que tenha sido apurado prejuízo ....” e não “ainda que venha a ser apurado prejuízo...”, esta é realmente uma clara indicação de que a multa deve ser aplicada mesmo com o período já encerrado, e não apenas no ano em curso. Diante de todo o exposto, não vislumbro óbice à cobrança cumulativa das multas isolada (art. 44, inciso II, alínea "b", da Lei nº 9.430/1996) e de ofício (art. 44, inciso I, da mesma Lei) para a infração apurada nos anoscalendário de 2007 e 2008. Desse modo, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN, para que sejam restabelecidas as multas isoladas por falta/insuficiência de recolhimento das estimativas mensais de IRPJ e CSLL nos anoscalendário 2007 e 2008. Resumindo, voto no sentido de: 1 NEGAR PROVIMENTO ao recurso especial da contribuinte, mantendo a glosa das despesas de amortização de ágio e também a incidência de juros de mora sobre a multa de ofício (nos termos definidos anteriormente neste voto); e de 2 DAR PROVIMENTO ao recurso especial da PGFN, para fins de restabelecer as multas isoladas por falta/insuficiência de recolhimento de estimativas mensais de IRPJ e CSLL nos anoscalendário 2007 e 2008. (assinado digitalmente) Rafael Vidal de Araujo Fl. 1239DF CARF MF Processo nº 15586.720056/201189 Acórdão n.º 9101003.611 CSRFT1 Fl. 59 58 Fl. 1240DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11080.009895/2008-87
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jun 13 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jul 16 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006
CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITO DE ICMS A TERCEIRO. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. NÃO INCIDÊNCIA
Nos termos do art. 62, §2º do Anexo II do RICARF/2015, em obediência à decisão plenária do STF, no julgamento do RE 606.107, não há que se falar em incidência de PIS e Cofins sobre os valores recebidos a título de cessão onerosa a terceiros de créditos de ICMS provenientes de exportação.
Numero da decisão: 9303-006.894
Decisão:
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(Assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em Exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. Recorrente BOMAG MARINI EQUIPAMENTOS LTDA, Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/10/2006 a 31/12/2006 CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITO DE ICMS A TERCEIRO. BASE DE CÁLCULO DO PIS E DA COFINS. NÃO INCIDÊNCIA Nos termos do art. 62, §2º do Anexo II do RICARF/2015, em obediência à decisão plenária do STF, no julgamento do RE 606.107, não há que se falar em incidência de PIS e Cofins sobre os valores recebidos a título de cessão onerosa a terceiros de créditos de ICMS provenientes de exportação. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (Assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em Exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Rodrigo da Costa Pôssas (Presidente em Exercício), Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luis Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran e Vanessa Marini Cecconello. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 00 98 95 /2 00 8- 87 Fl. 599DF CARF MF Processo nº 11080.009895/200887 Acórdão n.º 9303006.894 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo contra o Acórdão nº 330200.743, que, na parte de interesse, decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS deve compor a base de cálculo das contribuições (PIS/Pasep e Cofins). Insatisfeito, o sujeito passivo interpôs Recurso Especial suscitando divergência quanto à incidência das contribuições sobre os valores oriundos de transferência de crédito de ICMS para terceiros. Em síntese, argumenta o recorrente que tais valores não se caracterizam como receita. Mediante despacho de admissibilidade do Presidente da Câmara competente da Terceira Seção do CARF, foi dado seguimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo. Após ciência do despacho, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões. É o relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.890, de 13/06/2018, proferido no julgamento do processo 11080.101559/200542, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.890): "Depreendendose da análise do Recurso Especial interposto pelo sujeito passivo, entendo que devo conhecêlo, em respeito ao art. 67 do RICARF/2015, vez que comprovada a divergência. Quanto ao cerne da lide, especificamente à discussão acerca da incidência de PIS sobre as receitas decorrentes da cessão onerosa de créditos de ICMS, vêse que deve ser reconhecida a ilegitimidade da inclusão na base de cálculo do PIS das r. receitas referentes à transferência de créditos de ICMS a terceiros. Ora, já houve decisão proferida no Recurso Extraordinário n° 606.107/RS que restou assim ementado: “IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA Fl. 600DF CARF MF Processo nº 11080.009895/200887 Acórdão n.º 9303006.894 CSRFT3 Fl. 4 3 EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestar lhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. II A interpretação dos conceitos utilizados pela Carta da República para outorgar competências impositivas (entre os quais se insere o conceito de “receita” constante do seu art. 195, I, “b”) não está sujeita, por óbvio, à prévia edição de lei. Tampouco está condicionada à lei a exegese dos dispositivos que estabelecem imunidades tributárias, como aqueles que fundamentaram o acórdão de origem (arts. 149, § 2º, I, e 155, § 2º, X, “a”, da CF). Em ambos os casos, tratase de interpretação da Lei Maior voltada a desvelar o alcance de regras tipicamente constitucionais, com absoluta independência da atuação do legislador tributário. III A apropriação de créditos de ICMS na aquisição de mercadorias tem suporte na técnica da não cumulatividade, imposta para tal tributo pelo art. 155, § 2º, I, da Lei Maior, a fim de evitar que a sua incidência em cascata onere demasiadamente a atividade econômica e gere distorções concorrenciais. IV O art. 155, § 2º, X, “a”, da CF – cuja finalidade é o incentivo às exportações, desonerando as mercadorias nacionais do seu ônus econômico, de modo a permitir que as empresas brasileiras exportem produtos, e não tributos, imuniza as operações de exportação e assegura “a manutenção e o aproveitamento do montante do imposto cobrado nas operações e prestações anteriores”. Não incidem, pois, a COFINS e a contribuição ao PIS sobre os créditos de ICMS cedidos a terceiros, sob pena de frontal violação do preceito constitucional. V O conceito de receita, acolhido pelo art. 195, I, “b”, da Constituição Federal, não se confunde com o conceito contábil. Entendimento, aliás, expresso nas Leis 10.637/02 (art. 1º) e Lei 10.833/03 (art. 1º), que determinam a incidência da contribuição ao PIS/PASEP e da COFINS não cumulativas sobre o total das receitas, “independentemente de sua denominação ou classificação contábil”. Ainda que a contabilidade elaborada para fins de informação ao mercado, gestão e planejamento das empresas possa ser tomada pela lei como ponto de partida para a determinação das bases de cálculo de diversos tributos, de modo algum subordina a tributação. A contabilidade constitui ferramenta utilizada também para fins tributários, mas moldada nesta seara pelos princípios e regras próprios do Direito Tributário. Sob o específico prisma constitucional, receita bruta pode ser definida como o ingresso financeiro que se integra no patrimônio na condição de elemento novo e positivo, sem reservas ou condições. VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. Fl. 601DF CARF MF Processo nº 11080.009895/200887 Acórdão n.º 9303006.894 CSRFT3 Fl. 5 4 VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. IX Ausência de afronta aos arts. 155, § 2º, X, 149, § 2º, I, 150, § 6º, e 195, caput e inciso I, “b”, da Constituição Federal. Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. Constatase que a decisão proferida no RE 606.107/RS, em sede de repercussão geral, deve ser aplicada de acordo com o disposto no RICARF: “Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática prevista pelos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973 Código de Processo Civil (CPC), deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF.” Em vista de todo o exposto, dou provimento ao recurso especial interposto pelo sujeito passivo." Importante ressalvar que, da mesma forma que ocorreu no caso do paradigma, no presente processo o acúmulo de créditos do ICMS também foi decorrente de exportações para o exterior. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido e, no mérito, o colegiado deulhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 602DF CARF MF
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Numero do processo: 10830.010955/2007-31
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/06/2003 a 31/12/2003
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. SOLUÇÃO DE CONSULTA. SUJEIÇÃO PASSIVA.
Mera Solução de Consulta não possui o condão de trazer para o pólo passivo da relação jurídico-tributária terceiro não-contribuinte do tributo lançado, mormente não tendo sido esse terceiro o consulente.
NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. LANÇAMENTO. IPI. FABRICANTE DE BEBIDAS. DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS.
O estabelecimento industrial (in casu, o fabricante de bebidas) continua sendo o único sujeito passivo da relação jurídica tributária instaurada com a ocorrência do fato imponível consistente na operação de industrialização de produtos (artigos 46, II, e 51, II, do CTN). O "contribuinte de fato" (in casu, distribuidora de bebida) não integra a relação jurídica tributária pertinente.
NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. IPI. DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS. LANÇAMENTO.
Salvo se houver expressa determinação judicial, é incabível auto de infração de IPI contra distribuidora de bebida que não se subsume à definição legal de contribuinte desse tributo.
Numero da decisão: 3302-005.541
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de ilegitimidade passiva, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad e, no mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Renato Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad, que davam provimento para excluir os juros de mora sobre a multa de ofício. Designado o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Paulo Guilherme Déroulède - Presidente.
(assinado digitalmente)
Raphael Madeira Abad - Relator.
(assinado digitalmente)
Fenelon Moscoso de Almeida - Redator designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e Raphael Madeira Abad.
Nome do relator: RAPHAEL MADEIRA ABAD
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SOLUÇÃO DE CONSULTA. SUJEIÇÃO PASSIVA. Mera Solução de Consulta não possui o condão de trazer para o pólo passivo da relação jurídicotributária terceiro não contribuinte do tributo lançado, mormente não tendo sido esse terceiro o consulente. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. LANÇAMENTO. IPI. FABRICANTE DE BEBIDAS. DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS. O estabelecimento industrial (in casu, o fabricante de bebidas) continua sendo o único sujeito passivo da relação jurídica tributária instaurada com a ocorrência do fato imponível consistente na operação de industrialização de produtos (artigos 46, II, e 51, II, do CTN). O "contribuinte de fato" (in casu, distribuidora de bebida) não integra a relação jurídica tributária pertinente. NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. IPI. DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS. LANÇAMENTO. Salvo se houver expressa determinação judicial, é incabível auto de infração de IPI contra distribuidora de bebida que não se subsume à definição legal de contribuinte desse tributo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em rejeitar a preliminar de ilegitimidade passiva, vencidos os Conselheiros Walker Araújo, José Renato AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 83 0. 01 09 55 /2 00 7- 31 Fl. 2626DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 3 2 Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad e, no mérito, por maioria de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, vencidos os Conselheiros José Renato Pereira de Deus, Diego Weis Jr e Raphael Madeira Abad, que davam provimento para excluir os juros de mora sobre a multa de ofício. Designado o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Paulo Guilherme Déroulède Presidente. (assinado digitalmente) Raphael Madeira Abad Relator. (assinado digitalmente) Fenelon Moscoso de Almeida Redator designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Deroulede (Presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Walker Araujo, Vinicius Guimarães (Suplente Convocado), Jose Renato Pereira de Deus, Jorge Lima Abud, Diego Weis Junior e Raphael Madeira Abad. Relatório Tratase de Auto de Infração lavrado em razão da infração capitulada como recolhimento a menor do IPI por utilização indevida de crédito tributário (fls. 07 a 19) Por bem redigir os fatos, adoto o relatório de fls. 2429 e seguintes que embasou a decisão ora recorrida. Relatório Tratase de Auto de Infração de fls.07/12 e Demonstrativos de fls.13/19, lavrado contra a contribuinte acima identificada, que pretende a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI, no valor do principal de R$1.321.154,01 acrescido de juros de mora e da multa de ofício, totalizando o crédito tributário no valor de R$3.220.258,69. Consta na descrição dos fatos de fls.09/12 que foram apuradas as seguintes infrações: 001 – Créditos indevidos – Bebidas e Cigarros demais casos. O estabelecimento industrial recolheu a menor o IPI por se utilizar de crédito indevido no valor de R$291.405,42 no 2º decêndio de junho/2003, a título de“Estorno Ref. a 50% s/ pauta refrigerantes” conforme explicado no Termo de Verificação Fiscal, anexo, que é parte integrante do auto de infração, em Fl. 2627DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 4 3 especial no item B) Crédito indevido – estorno ref. 50% s/ pauta refrigerantes”. O enquadramento legal prevê infração aos arts: 24, inciso II, 34, inciso II, 65, I, 122, 123, inciso I, alínea “b” e inciso II, alínea “c”, 127, 139, §§1º e 2º, 164, 199, 200, inciso IV e 202, inciso II, do Decreto n°4.544, de 26 de dezembro de 2002, que aprova o RIPI/02 e arts.142 e 166 do Código Tributário Nacional CTN. 002 – IPI não lançado – Bebidas do Decreto nº97.976/89 – Saída de Produtos sem lançamento ou com insuficiência de lançamento do Imposto. O estabelecimento industrial promoveu a saída de produtos tributados – Refrigerantes de Guaraná, laranja e limão, com insuficiência de lançamento doIPI, conforme explicado no Termo de Verificação Fiscal, em especial no item A) Destaque de IPI a menor em notas fiscais de saída de refrigerantes”. O enquadramento legal prevê infração aos arts: 24, inciso II, 34, inciso II, 65, I, 122, 123, inciso I, alínea “b” e inciso II, alínea “c”, 127, 139, §§1º e 2º, 140, 143, 199, 200, inciso IV e 202, inciso II, do Decreto n°4.544, de 26 de dezembro de 2002, que aprova o RIPI/02 e art.142 do Código Tributário Nacional CTN. 003 – IPI não lançado – Bebidas do Decreto nº97.976/89 – Saída de Produtos sem lançamento ou com insuficiência de lançamento do imposto O estabelecimento industrial promoveu a saída de produtos tributados para aempresa Bella Bebidas Litoral Ltda, CNPJ 03.058.643/000265;03.058.643/000427; 03.058.643/000770 e 03.058.643/000931, sem o devido lançamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na nota fiscal, conforme explicado no Termo de Verificação Fiscal, em especial no item C) Falta de destaque de IPI em notas fiscais de saída para Bella Bebidas Litoral Ltda” O enquadramento legal prevê infração aos arts: 24, inciso II, 34, inciso II, 122, 123, inciso I, alínea “b” e inciso II, alínea “c”, 127, 139, §§1º e 2º, 140, 142, 143, 199, 200, inciso IV e 202, inciso II, do Decreto n°4.544, de 26 de dezembro de 2002, que aprova o RIPI/02 e art.142 do Código Tributário Nacional CTN. Às fls. 21/40 foi anexado o Termo de Verificação Fiscal que esclarece em síntese: • A) DESTAQUE DE IPI A MENOR EM NOTAS FISCAIS DE SAÍDA DE REFRIGERANTES no período de 18/06/2003 a 31/12/2003, o contribuinte destacou a menor o IPI nas notas fiscais de saídas de refrigerantes de guaraná, laranja e limão, conforme discriminado no "Anexo I ao Termo de Verificação Fiscal", elaborado a partir do demonstrativo "Notas Fiscais de Saídas de Refrigerantes com redução de IPI2003"( Folhas 88/128), constante da representação fiscal do processo administrativo 17883.000056/200591 (Folhas 76/128) e a partir do demonstrativo "Notas Fiscais Saídas de Refrigerantes por Decêndio/Cervejarias Cintra Mogi Mirim" referente ao período de 18/06/2003 a 31/12/2003 (Folhas 188/229), apresentado pelo Fl. 2628DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 5 4 contribuinte em 21/06/2007 (Folha 187), em atendimento ao Termo de Intimação Fiscal de 04/06/2007 (Folhas 184/186); • valor da Pauta de IPI foi calculado com base na Nota Complementar 222 da TIPI/2002 (Decreto 4.542 de 26/12/2002); • Anexo I ao Processo Administrativo Notas Fiscais de Saída com IPI destacado a menor – 2003 – em todas as notas fiscais apresentadas consta o CNPJ 02.125.403/000192, que era o CNPJ do estabelecimento em análise na época da emissão das notas fiscais (Folhas 180/181), tendo a contribuinte informado após intimação (Folha 187) que: "III — Em relação ao item 3 da presente intimação, informamos que utilizamos a redução de alíquota do IPI em 50% para os refrigerantes compostos de extratos de fruta, por entendermos que temos o direito previsto no Decreto 4.542 de 26/12/2002 NC (21) publicado no D.O.U. 27/12/2002."; • A Nota Complementar 221 da TIPI/2002 (Decreto 4.542 de 26/12/2002) dispõe: que “Ficam reduzidas de cinqüenta por cento as alíquotas do IPI relativas aos refrigerantes e refrescos, contendo suco de fruta ou extrato de sementes de guaraná, classificados no código 2202.10.00, que atendam aos padrões de identidade e qualidade exigidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e estejam registrados no órgão competente desse Ministério. "; • a redução de alíquota não é autoaplicável, a teor do artigo 65,I, do Decreto nº4.544, de 26/12/2002 (RTP1/2002) abaixo transcrito, sua fruição depende de prévia concessão do benefício pela Receita Federal do Brasil, mediante despacho fundamentado, reconhecendo que o produto satisfaz os requisitos legalmente exigidos; • B) CRÉDITO INDEVIDO " ESTORNO REF. A 50% S/ PAUTA REFRIGERANTES O contribuinte se creditou indevidamente, no 2º decêndio de junho/2003, do crédito no valor de R$291.405,42, conforme folha 052 de seu Livro Registro de Apuração do IPI Nº 001, e, intimado, conforme Termo de Intimação Fiscal de 29/10/2007 (Folhas 255/257). Em 29/11/2007, o contribuinte apresentou cópias de notas fiscais de saídas de refrigerantes de guaraná, laranja e limão referentes aos períodos identificados, mas todas as cópias de notas apresentadas referemse a notas fiscais de saída de refrigerantes de guaraná, laranja e limão, e constatamos, por amostragem, que o IPI foi destacado de forma correta, não havendo qualquer motivação para estorno de 50% do imposto nelas destacado, pois conforme destacou no item A), o benefício previsto na Nota Complementar 221 da TIPI/2002 (Decreto 4.542 de 26/12/2002) não é autoaplicável, a teor do artigo 65, I, do Decreto n° 4.544, de 26/12/2002 (RIPI/2002), sua fruição depende de prévia concessão do benefício pela RFB; Fl. 2629DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 6 5 • o contribuinte protocolizou em 28/05/2004, após os anos de 2000, 2001, 2002 e 2003, o processo administrativo 13009.000380/200486 no qual pleiteou a redução da alíquota do IPI de que dispõe a Norma Complementar NC (221) da TIPI de 2002, mas teve o seu pedido indeferido (Folhas 78/85); • mesmo que houvesse algum embasamento para o "Estorno ref a 50% s/ Pauta Refrigerantes", o IPI, que é tributo indireto, fora destacado em notas fiscais de saída emitidas anteriormente, para haver este estorno o contribuinte deveria ter comprovado que os adquirentes não se creditaram deste imposto e que tais adquirentes autorizam expressamente o estorno realizado, nos termos do artigo 166 do CTN e conforme jurisprudência. Além de o contribuinte não apresentar tal comprovação, nem sequer apresentou o demonstrativo do crédito no valor de RS291.405,42; • C) FALTA DE DESTAQUE DE IPI EM NOTAS FISCAIS DE SAÍDA PARA BELLA BEBIDAS LITORAL LTDA – no período de 17/02/2003 a 29/12/2003, o contribuinte não destacou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) nas notas fiscais de saídas para os estabelecimentos da empresa BELLA BEBIDAS LITORAL LTDA, de CNPJ's 03.058.643/000265, 03.058.643/000427, 03.058.643/000770 e 03.058.643/000931, conforme discriminado no "Anexo II ao Termo de Verificação Fiscal"; • os valores de pauta de IPI por caixa de mercadorias está indicado na coluna “PTA IPI” do anexo II ao Termo de Verificação Fiscal tendo sido calculado com base na Nota Complementar 222 da TIPI/2002 (Decreto 4.542 de 26/12/2002), a partir do demonstrativo "Notas Fiscais não tributadas de IPI em função de Liminar2003 ", referente ao período de 17/02/2003 a 31/12/2003 (Folhas 132/143), constante da representação fiscal do processo administrativo 17883.000057/200536 (Folhas 129/143) e a partir do demonstrativo "Notas Fiscais Saídas com Liminar de IPI/Cervejarias Cintra Mogi Mirim" referente ao ano de 2003 (Folhas 164/174), apresentado pelo contribuinte em 03/05/2007 (Folha 162/163); Anexo VI ao Processo Administrativo Notas Fiscais de Saída sem IPI destacado – 2003 – em todas as notas fiscais apresentadas consta o CNPJ 02.125.403/000192, que era o CNPJ do estabelecimento em análise na época da emissão das notas fiscais (Folhas 180/181); • Em 18/12/2002 foi distribuída a Ação Ordinária 2002.05.01.0098979 na qual a empresa Bella Bebidas Litoral Ltda, CNPJ 03.058.643/000184 pleiteia, entre outros (Folhas 276/303): "a) Seja concedida a tutela antecipada determinando a suspensão da exigibilidade do IP1 incidente nas aquisições de produtos que a Autora (matriz e filial) realizar junto a seus fornecedores — matriz e filial (relação anexa e outros que poderão vir a se tornar fornecedor), oficiandoos para que se abstenham de agregar (destacar) referida exação sobre tais Fl. 2630DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 7 6 produtos a partir desta data até que nova legislação venha regular a matéria, inclusive declarando o direito da Autora compensar créditos do IPI recolhido indevidamente, ressalvando o direito do Fisco em acompanhar os lançamentos. b) seja em final sentença, confirmada a tutela antecipada, reconhecendo e declarando a ilegalidade e inconstitucionalidade da cobrança do IPI por meio de Pautas Fiscais, desobrigando a Autora de seu recolhimento, enquanto nova sistemáticanão for editada pelo Congresso Nacional ou que lei complementar seja editada fixando os limites necessários ao Poder Executivo para alterar as alíquotas do IPI. " • Através do Ofício N° 100/2003 3ª VF DS, de 30/01/2003, o contribuinte foi informado da decisão que antecipou os efeitos da tutela jurisdicional proferida no bojo do processo de ação ordinária 2002.50.01.0098979 (Folha 311/316): "De ordem do Excelentíssimo Senhor, DOUTOR MACÁRIO RAMOS JÚDICE NETO, MM. Juiz Federal da 3a Vara da Seção Judiciária do Espírito Santo, remeto, em anexo, cópia da DECISÃO, que antecipou os efeitos da tutela jurisdicional, proferida no bojo dos autos do processo n° 2002.50.01.0098979 (ORDINÁRIA/TRIBUTÁRIA), movido por BELLA BEBIDAS LITORAL LTDA, em face da UNIÃO FEDERAL, informando Vossa Senhoria, que a mesma através de seus estabelecimentos matriz e filiais inscritas no CNPJ sob os ns.° 03.058.643/000184, 03.058.643/000265, 03.058.643/000346, 03.058.643/000427, 03.058.643/000508, 03.058.643/000699, 03.058.643/000770 e 03.058.643/000850, estão desobrigadas de recolher o imposto sobre produtos industrializados IPI, incidente sobre os produtos que as mesmas adquirirem, estando vedado à União Federal/Fazenda Nacional, qualquer ato no sentido de serem exigidos os valores do IPI sobre as compras a serem realizadas a partir da ciência do presente Oficio, devendo esta empresa fornecedora não destacar nas notas fiscais de venda o valor do IPI(...) " • através da Carta Precatória Cível N° 004/2003 3ª VF DS, de 30/01/2003, o contribuinte foi informado da extensão da decisão antecipatória de tutela proferida na ação ordinária 2002.50.01.0098979 para a filial 03.058.643/000931 (Folha 330) e assim deixou de destacar o IPI na venda de produtos para a empresa Bella Bebidas Litoral Ltda, no período de 17/02/2003 a 03/06/2003, conforme se verifica no Anexo II ao Termo de Verificação Fiscal; • contra a decisão que deferiu a antecipação de tutela, a União interpôs o Agravo de Instrumento 2003.02.01.0046730 (Folhas 413/432, 331/338), ao qual foi atribuído o efeito suspensivo (Folha 332, 425) e posteriormente foi julgado procedente por unanimidade, no julgamento realizado em 18/06/2003 (Folhas 331, 431): “...JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE O PEDIDO, a fim de determinar à União Federal que se abstenha e exigir da demandante o pagamento do IPI com base nas Fl. 2631DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 8 7 disposições contidas nas Leis nos 7.798/89 (artl 1°, 2º e 3º) e 8.218/91 (art. 1º), ou mesmo com base na legislação pretérita sobre o tema.JULGO IMPROCEDENTE O PEDIDO RELATIVO À COMPENSAÇÃO QUANTO AO TRIBUTO. OUTRORA RECOLHIDO UMA VEZ NÃO DEMONSTRADA A EXIGÊNCIA DO ART. 166 DO CTN", e em virtude desta decisão a contribuinte deixou de destacar o IPI na venda de produtos para a empresa Bella Bebidas Litoral Ltda, conforme se verifica no Anexo II ao Termo de Verificação Fiscal; (...) A DRJ, ao apreciar a questão negou provimento ao recurso, em julgamento no qual foi lavrada a seguinte ementa. REDUÇÃO DO IPI. CONDIÇÃO. O gozo da redução de 50% do IPI, a que se refere a Nota Complementar 221 da TIPI, depende de prévia concessão do benefício pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, através de Ato Declaratório, reconhecendo que o produto satisfaz os requisitos legalmente exigidos. FALTA DE RECOLHIMENTO DO IPI. O contribuinte do IPI, consoante art. 51, II, do CTN, é o industrial ou quem a lei a ele equiparar. A falta de recolhimento do IPI pelo sujeito passivo de direito, nos prazos previstos na legislação, enseja a sua exigência, acrescido de juros de mora calculados pela taxa SELIC. É correta a lavratura de auto de infração e a constituição do crédito tributário em discussão judicial, em função da fluência do prazo decadencial, ainda que a matéria encontrese sub judice. A Recorrente insurgiuse em face desta decisão (fls. 2429 e seguintes) e interpôs Recurso Voluntário (Fls. 2457 e seguintes) no qual sinteticamente alega: 1 Que possui direito à redução de alíquota prevista na Nota Complementar 2201 da TIPI/2002 (Dec. 4.542/2002) 2 Que não pode ser responsabilizada pelo IPI não destacado em virtude de ação judicial proposta por terceiros. 3 Que não podem ser exigidas correção monetária, multas e juros no caso concreto. 4 Que não podem ser exigidos juros de mora sobre a multa de ofício. É o relatório. Fl. 2632DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 9 8 Voto Vencido Conselheiro Raphael Madeira Abad Relator 1. Admissibilidade. O Recurso Voluntário foi apresentado de modo tempestivo, se reveste dos demais requisitos de admissibilidade previstos na legislação em vigor, e a matéria é de competência deste colegiado. 2. Preliminar de Ilegitimidade Passiva Que não pode ser responsabilizada pelo IPI não destacado em virtude de ação judicial proposta por terceiros. Tratase de pretensão, da Fazenda Nacional, de exigir da Recorrente tributos que deixou de recolher em razão de mandamento judicial que vedou que o fizesse, impedindo que esta, contribuinte de direito, calculasse e exigisse da contribuinte de fato os valores que deveria recolher aos cofres públicos. Não é demais destacar que dente as dezenas de sistemáticas existentes naquilo que Alfredo Augusto Becker denominou de "manicômio tributário" há a figura do contribuinte de direito, que possui o dever jurídico de recolher o tributo cujo ônus recai sobre o contribuinte de fato. Neste caso concreto, o Poder Judiciário, exercendo a sua jurisdição, ou seja, dizendo o direito, em autos de processo do qual não participava a Recorrente, determinou que esta, quando vendesse para a impetrante, não deveria computar o tributo, ou seja, deveria venderlhe a mercadoria sem que do valor da nota constasse o valor equivalente à carga tributária. É verdade que a relação jurídica legalmente prevista é entre o contribuinte de direito e o fisco, e a figura do "contribuinte de fato" não passa, ou melhor, não deveria passar de uma faceta econômica de um fenômeno jurídico. Ocorre que o próprio Código Tributário Nacional permitiu (merecendo destaque o artigo 166) que esta figura econômica fosse alçado à condição de contribuinte, possibilitando que ele discutisse uma relação da qual não é parte sob o aspecto jurídico, mas sob o aspecto econômico. Assim, estabelecida esta estranha relação pelo próprio CTN, e a partir do momento que o Poder Judiciário permite que alguém que não integra a relação jurídica (o contribuinte de fato) possa questionar um determinado tributo do qual não participa juridicamente, mas participa economicamente, admitese que o Judiciário alargou a relação jurídica, permitindo que este contribuinte de fato nela ingressasse. Simultaneamente, quando o Judiciário impede, veda, proíbe que a Recorrente, contribuinte de direito, componha o preço do seu produto levando em consideração o tributo que deverá receber para recolher ao fisco, ocorre algo que, a grosso modo, equiparase a um caso fortuito ou força maior. Fl. 2633DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 10 9 Em outras palavras, o Poder Judiciário, Estado Juiz, vedou que a Recorrente recebesse do contribuinte de direito os valores que deveria recolher aos cofres públicos. Agora o Poder Executivo, Estado Administração, exige que a Recorrente recolha aos cofres da União aquilo que o Estado Juiz impediu que recebesse. Tal raciocínio encontra respaldo na inteligência da Própria Receita Federal que em parecer (fls. 803), teceu afirmação em sentido análogo: " AÇÃO DECLARATÓRIA PROPOSTA PRO CONTRIBUINTE DE FATO DO IPI. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. EFEITOS QUANTO AO CONTRIBUINTE DE DIREITO. Admitido judicialmente o direito de ação em declaratória proposta pela compradora de produtos industrializados em face da União, onde se questiona a validade do regime de tributação imposto pela legislação, sem que a contribuinte industrial integre a lide, não cabe a esta suportar qualquer prejuízo decorrente de processo que não provocou. Deferida a antecipação de tutela no sentido de impedir a indústria tratada como pessoa estranha à lide de promover o destaque e o recolhimento do IPI, o eventual insucesso da autora quando da decisão definitiva deve ser por esta suportado, sendo lhe exigíveis os valores devidos e consectários moratórios ou punitivos." Pois tais motivos, EM RELAÇÃO A ESTE ARGUMENTO deve ser dado provimento ao presente recurso. 3. Mérito. 3.1. Que possui direito à redução de alíquota prevista na Nota Complementar 2201 da TIPI/2002 (Dec. 4.542/2002) A Recorrente sustenta que o artigo 65, I, do Decreto nº 4.544/2002 (Regulamento do IPI RIPI/ 02) lhe assegurava o direito à redução da alíquota do imposto para os produtos objeto das "Notas Complementares NC (211) e NC (221.) da TIPI, que serão declaradas, em cada caso, pela SRF, após audiência do órgão competente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MAPA, quanto ao cumprimento dos requisitos previstos para a concessão do benefício ". No caso em análise, os fatos jurídicos tributários, objeto de lançamento pela fiscalização, correspondem ao ano calendário de 2003, quando se submetiam à aplicação do disposto no Decreto nº 4.544/2002 RIPI 2002, que previa expressamente que as alíquotas seriam aplicadas em cada caso, pela SRF, após audiência do órgão competente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MAPA, quanto ao cumprimento dos requisitos previstos para a concessão do benefício. É certo que houve uma evolução na legislação a partir da publicação da IN SRF nº 1.135, de 2011, ocorre que a referida instrução limita expressamente a aplicação da observância exclusiva do disposto nas Notas Complementares NC (211) e NC (221) somente a partir da edição Decreto nº 7.212, de 15 de junho de 2010, RIPI 2010. Assim, não há como Fl. 2634DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 11 10 realizar uma interpretação extensiva quanto ao descumprimento da obrigação acessória dever instrumental acessório. A partir da análise do artigo 106, do Código Tributário Nacional, observase que a aplicação retroativa da lei não se amolda ao caso em análise: Código Tributário Nacional. Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; (...) (grifos não constam no original) Não há como aplicar o artigo 106, inciso II, alínea "b", tendo em vista que o descumprimento da ação implicou em falta de pagamento de tributo, não havendo, portanto, subsunção do fato à norma. Esta matéria já foi submetida à análise desta Câmara em 27 de julho de 2017, tendo sido lavrado o Acórdão :3302004.630, cuja ementa é abaixo transcrita. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/01/2008 a 31/12/2008 FALTA DE LANÇAMENTO. REDUÇÃO DE ALÍQUOTA DE 50%. FALTA DE CUMPRIMENTO DE REQUISITO. Para a utilização da redução de alíquota em 50%, de que trata Nota Complementar NC (221) da TIPI, até junho de 2010 era imprescindível o parecer prévio da SRFB mediante a expedição de Ato Declaratório Executivo. Por estas razões, é de se negar provimento ao Recurso, no que diz respeito a este tópico, mantendose a decisão prolatada pela DRJ. 3.2. Que não podem ser imputadas correção monetária e juros de mora no caso concreto. No caso concreto, tendo havido indevida aplicação da Nota Complementar NC (221) da TIPI, com consequente redução indevida de incidência tributária, sem o Fl. 2635DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 12 11 imprescindível parecer prévio da SRFB mediante a expedição de Ato Declaratório Executivo, temse que ocorreu a mora, devendo ser aplicadas as consequências dela decorrentes 3.3. Da incidência de juros de mora sobre a multa de ofício. A legislação prevê a incidência da taxa Selic, que no caso equivale a aplicação de juros de mora, sobre a impontualidade do pagamento, mas não em relação à multa. Assim, já decidiu este Colegiado: JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. Não existe amparo legal para a exigência de juros de mora sobre a multa de ofício. (Acórdão no 3403001.541, Rel. Cons. Antonio Carlos Atulim, unanimidade em relação ao tema, sessão de 24.abr.2012) Nesse sentido, deve ser retirada a incidência do juros de mora sobre a multa de ofício por falta de fundamento legal. 4. Conclusões. Conclusivamente, pelas razões já expostas é de dar provimento integral ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Conselheiro Raphael Madeira Abad Relator Fl. 2636DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 13 12 Voto Vencedor Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida Redator designado ERRO NA IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO PASSIVO As razões recursais focalizam precipuamente questões relativas ao erro na identificação do sujeito passivo, salientandose que o fato gerador do IPI, lançado e descrito no TVF, foi a saída de bebidas de estabelecimento industrial para distribuidora, sendo o estabelecimento industrial que promoveu a saída do produto industrializado do seu estabelecimento o contribuinte do imposto, definido pelo art. 24, inc. II, do RIPI/2002, com fulcro no art. 35, inc. I, alínea “a”, da Lei nº 4.052/64. Sobre a sujeição passiva envolvendo contribuinte de fato (distribuidora de bebidas) e contribuinte de direito (estabelecimento industrial fabricante de bebidas), o Superior Tribunal de Justiça STJ manifestouse por meio do REsp nº 903.394/AL, submetido a sistemática dos recursos repetitivos: EMENTA PROCESSO CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ARTIGO 543C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. IPI. RESTITUIÇÃO DE INDÉBITO. DISTRIBUIDORAS DE BEBIDAS. CONTRIBUINTES DE FATO. ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM . SUJEIÇÃO PASSIVA APENAS DOS FABRICANTES (CONTRIBUINTES DE DIREITO). RELEVÂNCIA DA REPERCUSSÃO ECONÔMICA DO TRIBUTO APENAS PARA FINS DE CONDICIONAMENTO DO EXERCÍCIO DO DIREITO SUBJETIVO DO CONTRIBUINTE DE JURE À RESTITUIÇÃO (ARTIGO 166, DO CTN). LITISPENDÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULAS 282 E 356/STF. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICOPROBATÓRIA. SÚMULA 7/STJ. APLICAÇÃO. 1. O "contribuinte de fato" (in casu, distribuidora de bebida) não detém legitimidade ativa ad causam para pleitear a restituição do indébito relativo ao IPI incidente sobre os descontos incondicionais, recolhido pelo "contribuinte de direito" (fabricante de bebida), por não integrar a relação jurídica tributária pertinente. [...] 12. Malgrado as Turmas de Direito Público venham assentando a incompatibilidade entre o disposto no artigo 14, § 2º, da Lei 4.502/65, e o artigo 47, II, "a", do CTN (indevida ampliação do conceito de valor da operação, base de cálculo do IPI, o que gera o direito à restituição do indébito), o estabelecimento industrial (in casu, o fabricante de bebidas) continua sendo o único sujeito passivo da relação jurídica tributária instaurada com a ocorrência do fato imponível consistente na operação de industrialização de produtos (artigos 46, II, e 51, II, do CTN), sendo certo que a presunção da repercussão econômica do IPI pode ser ilidida por prova em contrário ou, caso constatado o repasse, por autorização Fl. 2637DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 14 13 expressa do contribuinte de fato (distribuidora de bebidas), à luz do artigo 166, do CTN, o que, todavia, não importa na legitimação processual deste terceiro. Inferese do decidido que o "contribuinte de fato" (in casu, distribuidora de bebida) não integra a relação jurídica tributária pertinente ao fato gerador do IPI, sendo que o estabelecimento industrial (in casu, o fabricante de bebidas) continua sendo o único sujeito passivo da relação jurídica tributária instaurada com a ocorrência do fato imponível consistente na operação de industrialização de produtos (artigos 46, II, e 51, II, do CTN). Art. 46. O imposto, de competência da União, sobre produtos industrializados tem como fato gerador: (...) II a sua saída dos estabelecimentos a que se refere o parágrafo único do artigo 51; [...] Art. 51. Contribuinte do imposto é: (...) II o industrial ou quem a lei a ele equiparar; Importante ressaltar que não se trata aqui de questionarse a existência de prova de documento (ofício) que determinava o não destaque do imposto, como no precedente do processo n° 10830.011820/200873 (Acórdão nº 3302002.532), nestes autos, perquirese a existência de expressa determinação judicial para lavratura de auto de infração contra distribuidora de bebida que não se subsume à definição legal de contribuinte desse tributo, ao contrário, constatase a existência de permissivo judicial (MS n º2005.51.04.0014546) à constituição do crédito contra o fabricante contribuinte de direito, ainda que para prevenção da decadência. Assim sendo, nesse ponto, adotando e repisando as razões de decidir da decisão recorrida, apesar da existência da apontada Solução de Divergência COSIT nº 27, de 29/10/2002, ratificando que disciplinam apenas os procedimentos atinentes às empresas que realizaram a consulta, entendo que: "Não há amparo legal para constituir o crédito tributário no adquirente do produto, nem como contribuinte de direito e tampouco como contribuinte de fato pois a distribuidora não é sujeito passivo da obrigação.", somente podendo ser constituído e exigido do contribuinte de direito do imposto, no caso, a autuada. Corroborando esse entendimento, a conclusão exarada na apreciação do MS nº 2005.51.04.0014546 (fls.467/490), que denegou a segurança à autuada: Em síntese, entendo que a circunstância de ter havido decisões judiciais que, durante um certo período, impediram o recolhimento do tributo, pelo contribuinte de direito, não é óbice a que a União (sujeito ativo na relação jurídicotributário) busque, uma vez reformadas tais decisões, seu recebimento por meio de regular lançamento fiscal, em face do contribuinte de direito, não configurando o resultado da consulta fiscal impedimento para tanto. O entendimento defendido pela impetrante teria por conseqüência conferir às decisões antecipatórias de tutela proferidas nos autos das ações movidas pelas distribuidoras um caráter de definitividade (e irreversibilidade) que não é compatível com a própria natureza de tais decisões e que, consoante entende a impetrante, impediria a Fl. 2638DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 15 14 cobrança, ao menos em face do contribuinte de direito a impetrante mesmo após reformadas as decisões. Assim, penso que inobstante proferidas decisões judiciais impedindo a impetrante de efetuar destaques do valor do IPI nas notas fiscais de saída, tal circunstância não tem o condão de excluir sua qualidade de contribuinte de direito do tributo, nem de excluir o direito de a União, enquanto sujeito ativo, proceder a seu lançamento e cobrança, mormente se tais decisões judiciais não mais' vigoram, inclusive no tocante ao que nelas se dispunha acerca da atribuição de responsabilidade exclusiva às distribuidoras pelo pagamento do tributo, na hipótese de eventual insucesso das demandas. Notar que não há nenhuma decisão judicial, na Ação Ordinária nº 2002.50.01.0098943 ou no Mandado de Segurança nº 2005.51.04.0014546, com ordem expressa para alterar o sujeito passivo da obrigação tributária, não podendo a autoridade lançadora caracterizar a distribuidora de bebidas como tal, sendo incabível auto de infração de IPI contra distribuidora de bebida que não se subsume à definição legal de contribuinte desse tributo, ao contrário, a Fazenda Nacional foi autorizada a constituir créditos tributários referentes aos valores de IPI não recolhidos pela ora recorrente, ainda que com o fim de prevenir a decadência dos referidos tributos (fl. 466). A despeito do art. 811, inc. I 1, da Lei n° 5.869, de 11 de janeiro de 1973 – Código de Processo Civil CPC, fundamento legal do entendimento, inclusive explicitado em soluções de consulta, para excluir a responsabilidade dos fabricantes, caso o lançamento do crédito tributário fosse feito contra as distribuidoras que propuseram a ação judicial, com vista a afastar o destaque do IPI em notas fiscais e o seu conseqüente recolhimento, haveria um evidente erro na “identificação jurídica” do sujeito passivo da obrigação tributária, um típico “erro de direito”, residente no plano da interpretação e aplicação das normas jurídicas ao caso concreto, na valoração jurídica dos fatos: constituir crédito tributário face a contribuinte de fato (distribuidora) como se de direito (indústria) o fosse; clara incorreção dos critérios jurídicos que lastreiam o lançamento quanto ao aspecto pessoal da regramatriz de incidência tributária, conforme ensinamentos extraídos do Parecer PGFN/CAT nº 278/2014. Suficientes as razões expostas, ratificando a decisão recorrida, entendo que: "...inexiste reparo a ser feito no lançamento que constituiu o lançamento relativo ao IPI não destacado e não recolhido pela contribuinte." Pelo exposto, quanto ao erro na identificação do sujeito passivo, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. JUROS SOBRE MULTA DE OFÍCIO A recorrente também alega que não podem ser exigidos juros sobre a multa de ofício lançada. A incidência de juros de mora sobre o crédito tributário, composto pelo tributo e/ou penalidade pecuniária, guarda consonância com o CTN e leis ordinárias. 1 Art. 811. Sem prejuízo do disposto no art. 16, o requerente do procedimento cautelar responde ao requerido pelo prejuízo que Ihe causar a execução da medida: I se a sentença no processo principal Ihe for desfavorável; Fl. 2639DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 16 15 Art. 161. O crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora, seja qual for o motivo determinante da falta, sem prejuízo da imposição das penalidades cabíveis e da aplicação de quaisquer medidas de garantia previstas nesta Lei ou em lei tributária. Art. 139. O crédito tributário decorre da obrigação principal e tem a mesma natureza desta. Art. 113. A obrigação tributária é principal ou acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extinguese juntamente com o crédito dela decorrente. Além do CTN afirmar que o crédito tributário decorre da obrigação tributaria principal de pagamento de tributo, penalidade pecuniária ou ambos; e que, o crédito não integralmente pago no vencimento é acrescido de juros de mora; a incidência de juros de mora sobre a multa de oficio, após o seu vencimento, está prevista pelos art.43 (multa isolada) e art.61, § 3º (débitos para com a União), da Lei nº 9.430/96. Art.61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997, não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora, calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso. (...) §3º Sobre os débitos a que se refere este artigo incidirão juros de mora calculados à taxa a que se refere o § 3º do art. 5º, a partir do primeiro dia do mês subseqüente ao vencimento do prazo até o mês anterior ao do pagamento e de um por cento no mês de pagamento. Assim, tem plena previsão legal a incidência, ex lege, independente de lançamento, de juros moratórios sobre a multa aplicada, visto que se trata de débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. Também nesse ponto, quanto à não incidência dos juros de mora sobre a multa de ofício, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Fenelon Moscoso de Almeida Redator designado Fl. 2640DF CARF MF Processo nº 10830.010955/200731 Acórdão n.º 3302005.541 S3C3T2 Fl. 17 16 Fl. 2641DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.977118/2016-99
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jul 05 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2012
COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. DOCUMENTAÇÃO FISCAL.
O direito creditório somente pode ser deferido se devidamente comprovado por meio de documentação contábil e fiscal.
REPETIÇÃO DE INDÉBITO. LIQUIDEZ E CERTEZA.
Os valores recolhidos a maior ou indevidamente somente são passíveis de restituição/compensação caso os indébitos reúnam as características de liquidez e certeza.
Numero da decisão: 1401-002.604
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente)
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente)
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DIREITO CREDITÓRIO. DOCUMENTAÇÃO FISCAL. O direito creditório somente pode ser deferido se devidamente comprovado por meio de documentação contábil e fiscal. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. Os valores recolhidos a maior ou indevidamente somente são passíveis de restituição/compensação caso os indébitos reúnam as características de liquidez e certeza. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 97 71 18 /2 01 6- 99 Fl. 67DF CARF MF Processo nº 10880.977118/201699 Acórdão n.º 1401002.604 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Iniciemos com o relatório da Decisão de Piso. Trata o presente processo de Declaração de Compensação de crédito de Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ, referente a pagamento efetuado indevidamente ou ao maior no período de apuração 30/09/2012, no valor de R$ 167.406,52, transmitida através do PER/Dcomp nº [...]. A Derat São Paulo não homologou a compensação, por meio do despacho decisório eletrônico de fl. [...], pois o pagamento indicado no PER/Dcomp teria sido integralmente utilizado para quitar débito do contribuinte. Cientificado do despacho em [...], o recorrente apresentou a manifestação de inconformidade [...], para alegar que os créditos decorrentes do pagamento a maior já teriam sido “disponibilizados em razão da desvinculação dos mesmos das DCTFs daquele período”. Concluiu, para requerer a homologação do PER/Dcomp. Analisando a manifestação de inconformidade a Delegacia de Julgamento proferiu decisão nos seguintes termos: ASSUNTO: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica IRPJ Data do fato gerador: 30/09/2012 COMPENSAÇÃO. DIREITO CREDITÓRIO. DOCUMENTAÇÃO FISCAL. O direito creditório somente pode ser deferido se devidamente comprovado por meio de documentação contábil e fiscal. REPETIÇÃO DE INDÉBITO. LIQUIDEZ E CERTEZA. Os valores recolhidos a maior ou indevidamente somente são passíveis de restituição/compensação caso os indébitos reúnam as características de liquidez e certeza. Referida decisão baseouse no fato de a empresa não ter retificado a DCTF antes da decisão do indeferimento da compensação e, ainda, por não ter apresentado comprovação de que não existiria saldo de IRPJ a pagar no período. Cientificado da decisão o contribuinte apresentou recurso voluntário. No entanto, neste recurso, o único objeto de alegação é o pedido de prazo para realizar todas as retificações das declarações de maneira a demonstrar a existência do crédito solicitado. É o brevíssimo relatório. Fl. 68DF CARF MF Processo nº 10880.977118/201699 Acórdão n.º 1401002.604 S1C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.603, de 17/05/2018, proferido no julgamento do Processo nº 10880.977128/2016 24, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.603): "O recurso é tempestivo e preenche os requisitos legais, por isso dele tomo conhecimento. O crédito solicitado pela empresa trata de pagamento a maior ou indevido de IRPJ/CSLL. Inobstante a decisão eletrônica do PER/DCOMP e da Delegacia de Julgamento observo que sequer a DIPJ da empresa do referido período foi juntada a processo para fins de análise. Para o deslinde do caso realizei consultas à DIPJ apresentada referente ao período de apuração do pagamento, assim como sobre a disponibilidade do pagamento realizado. Analisando as informações constantes da DIPJ e da DCTF da empresa verificamos que, efetivamente, a empresa apurou na DIPJ e confessou como devido em sua DCTF o valor de IRPJ/CSLL do período de apuração do DARF. Restando configurado serem devidos os débitos aos quais o pagamento foi alocado. marTendo apurado este valor e pesquisando os pagamentos realizados durante todo o exercício, verificamos que a empresa realizou o pagamento e que este foi o mesmo pagamento objeto de PER/DCOMP analisado no presente processo. Assim, à vista do exposto, demonstrase que foi correta a decisão da delegacia de origem quando não homologou a compensação em face da inexistência de crédito, considerando que o pagamento a cujo crédito fora pleiteado já estava integralmente utilizado na quitação do débito confessado em DCTF, inexistindo saldo de crédito a ser reconhecido. Desta forma, não havendo crédito a ser reconhecido por este CARF, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. Fl. 69DF CARF MF Processo nº 10880.977118/201699 Acórdão n.º 1401002.604 S1C4T1 Fl. 5 4 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 70DF CARF MF
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Numero do processo: 10880.722058/2013-26
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu May 24 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Aug 14 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Data do fato gerador: 04/01/2011, 05/01/2011, 12/01/2011, 19/01/2011
INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. OCULTAÇÃO DA REAL ADQUIRENTE. FRAUDE NÃO DEMONSTRADA. PENA DE PERDIMENTO INCABÍVEL.
A medida extrema de perdimento dos bens a favor da União, nos moldes do art. 23, IV, §1º e §3º, do Decreto-Lei 1.455/76 somente se mostra cabível quando demonstrada cabalmente as fraudes imputadas ao contribuinte. É ônus da fiscalização munir o lançamento com todos os elementos de prova dos fatos constituintes do direito da Fazenda. Na ausência de provas, o lançamento tributário é nulo, por vício material.
Recurso Voluntário Provido.
Numero da decisão: 3301-004.710
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
Winderley Morais Pereira - Presidente
(assinado digitalmente)
Semíramis de Oliveira Duro - Relatora
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: SEMIRAMIS DE OLIVEIRA DURO
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira - Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro - Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro.
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Data do fato gerador: 04/01/2011, 05/01/2011, 12/01/2011, 19/01/2011 INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA. OCULTAÇÃO DA REAL ADQUIRENTE. FRAUDE NÃO DEMONSTRADA. PENA DE PERDIMENTO INCABÍVEL. A medida extrema de perdimento dos bens a favor da União, nos moldes do art. 23, IV, §1º e §3º, do DecretoLei 1.455/76 somente se mostra cabível quando demonstrada cabalmente as fraudes imputadas ao contribuinte. É ônus da fiscalização munir o lançamento com todos os elementos de prova dos fatos constituintes do direito da Fazenda. Na ausência de provas, o lançamento tributário é nulo, por vício material. Recurso Voluntário Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e do voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) Winderley Morais Pereira Presidente (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Winderley Morais Pereira (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Valcir Gassen, Liziane AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 72 20 58 /2 01 3- 26 Fl. 274DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 275 2 Angelotti Meira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado) e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Tratase de lançamento no valor de R$ 135.268,79, relativo à multa equivalente ao valor aduaneiro das mercadorias já comercializadas importadas através das Declarações de Importação (DI) analisadas, as quais foram identificadas como praticadas mediante ocultação do real adquirente em operações de comércio exterior. Foi aplicada a pena de perdimento às mercadorias importadas pela OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA e posteriormente enviadas para a EMINÊNCIA COMÉRCIO, em virtude da ocultação desta última empresa na operação de importação, aplicandose o disposto no § 3º, do art. 23, do DecretoLei nº 1.455/76. A empresa OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA foi objeto de ação fiscal com o objetivo de verificar se a mesma tinha capacidade econômicofinanceira para atuar no comércio exterior. A OSKN foi autuada para aplicação da multa prevista no art. 33, da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. Relata a fiscalização, o seguinte: (...) em procedimento de fiscalização na OKSN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA., CNPJ 08.989.948/000123, doravante denominada simplesmente OKSN, foram apurados fatos demonstrando que essa empresa efetuou, em nome próprio, operações de comércio exterior de terceiros, ocultando estes ao Fisco Federal, caracterizando assim a interposição fraudulenta de pessoas. Restou comprovado que embora a OKSN promovesse a importação de mercadorias em nome próprio, efetivamente registrando as declarações de importação e dando uma aparência de legalidade às operações, na realidade isso era feito ocultando do Fisco os reais beneficiários dessas operações, que foram as empresas listadas no doc. 21 (fls. 2168 a 2173), comprovadamente as verdadeiras encomendantes das mercadorias importadas pela OKSN. Foi lavrado, então, o presente Auto de Infração, com base no artigo 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, que prevê a multa de 10% (dez por cento) do valor da operação acobertada, aplicável à pessoa jurídica que cedeu seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, com vistas no acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. 4. DO PROCEDIMENTO DE FISCALIZAÇÃO 4.1 Da Diligência ao Estabelecimento da Empresa e Primeira Intimação Em 07/05/2012 foi lavrado o Termo de Início de Fiscalização e Intimação nº 110/2012 (fls. 62 a 74) intimando a empresa a apresentar, no prazo de 20 (vinte) dias contados da ciência, os documentos e esclarecimentos pertinentes à ação fiscal em curso. Fl. 275DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 276 3 Nesta mesma data foi realizada por essa fiscalização diligência no local indicado como domicílio fiscal da empresa, situado na Avenida Rio Branco, 45 – Sala 1705 – Centro – Rio de Janeiro/RJ. A ciência do Termo de Início de Fiscalização e Intimação foi dada pessoalmente nessa ocasião (fls. 64), à Sra. Maria Janeide M. Aragão, que se identificou como secretária do Sr. Lin Haiping, sócio administrador da OKSN, que não se encontrava presente. Foram anexados ao Termo de Início cópia da identificação funcional da Sra. Maria Janeide (fls. 74) e cópia de um alvará de licença para estabelecimento (fls. 73). Porém, este documento autorizava o funcionamento da OKSN na Rua Leandro Martins, 20 Sala 501, ou seja, tratase do alvará da antiga sede da empresa e não da atual. Mesmo assim, chamese atenção para o fato da licença vedar a circulação de mercadorias e armazenagem no local. Causou total estranheza o fato da sede de uma empresa que movimentou, somente no período fiscalizado, quase 40 milhões de reais, ser simplesmente uma sala comercial, com apenas uma secretária. Não é possível entender como, naquele local e através de que pessoas, possam ter sido negociadas todas as operações comercias que envolveram a nacionalização de mercadorias importadas com valor aduaneiro total de quase 17 milhões de reais, que é o cenário ora fiscalizado. 6. DA ANÁLISE FISCAL 6.1 DA CONSTITUIÇÃO E FUNCIONAMENTO DA EMPRESA Foram apresentadas, conforme protocolo de fls 76, cópias do contrato social e de sua primeira alteração (doc. 1), dos documentos de identificação dos sócios (doc. 2), de fatura de energia elétrica do mês de abril/2012 (doc. 3), de boleto bancário de serviços de telefonia/dados também do mês de abril/2012 (doc. 3), da notificação de lançamento do IPTU 2012 (doc. 3), de uma escritura de compra e venda (doc. 3) e de um Livro Registro de Empregados com data de abertura de outubro de 2009 (doc. 4). Quanto ao registro de empregados, existem no Livro 4 registrados, porém, na diligência ao estabelecimento em 07/05/2012, só estava presente a Sra. Janeide Aragão, secretária. Ela, da mesma forma que o sócio da empresa em entrevista, informou ser a única funcionária da empresa. Além disso, chamou imediatamente atenção o fato das faturas de energia elétrica (fls. 109) e telefonia (fls. 111) apresentadas estarem em nome de outra empresa, a AAS ASSESSORIA ADUANEIRA LTDA., CNPJ 09.154.495/000188, que é exatamente a prestadora de serviços aduaneiros da fiscalizada, cujo sócio majoritário com 99% de participação (fls. 2167) é o Sr. Alexandre Ayres dos Santos (inicias AAS), CPF 013.512.79718, já citado no presente relatório como sendo despachante e representante legal da fiscalizada. Afinal, quem funciona na Rio Branco 45, sala 1705? A empresa fiscalizada e o seu escritório de despacho funcionam na mesma sala comercial? Em busca desta resposta, fizemos ampla pesquisa na Internet, procurandose pela razão social da fiscalizada, pelo seu nome de fantasia (OARY), pelo nome de seu sócio e não existe absolutamente nada. O que encontramos, com muita facilidade, já que consta de vários apontadores de lista, foi a indicação da empresa AAS ASSESSORIA ADUANEIRA LTDA., cuja localização informada é a Av. Rio Branco, 45 Sala 1705 (fls. 2166), embora ao Fisco a AAS informe seu endereço de cadastro na Rua Cândido Portinari, 445, Barra da Tijuca (fls. 2167). Tais constatações inferem diretamente para a atuação da fiscalizada como interposta em suas operações de comércio exterior, pois não se entende de que forma Fl. 276DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 277 4 a OKSN pôde movimentar, somente no período fiscalizado, quase 17 milhões de reais em importações, a partir de uma sala comercial com área bruta de 63 m ² (fls. 113) , com apenas uma secretária, sem depósito nem exposição de mercadorias, sem vendedores, sem representantes comerciais, sem site na Internet e com um capital social de apenas R$ 100.000,00, totalmente incompatível com o porte de uma empresa que faturou, no período fiscalizado, aproximadamente 40 milhões de reais. 6.2 DA ORIGEM DOS RECURSOS UTILIZADOS PARA FECHAMENTO DE CÂMBIO E PAGAMENTO DE TRIBUTOS Esta análise foi pautada nos documentos listados abaixo, apresentados pela fiscalizada, que foram analisados em conjunto com os dados das declarações de importação registradas: · Extratos Bancários (doc. 7); · Contratos de Câmbio constantes nos dossiês de cada DI autuada (fls. 2630 a 9559); · Escrituração contábil composta dos Livros Diário (doc. 8 a 11) e Razão (doc. 12 a 15) dos anos de 2008 a 2011 e os Livros Registro de Entradas (doc. 16) e Registro de Saídas (doc. 17) dos anos de 2008 a 2012 (escriturados até abril). As operações de câmbio e pagamento de tributos das importações auditadas são feitas em uma única conta bancária, qual seja a conta 2649034, da agência 0716 do Banco HSBC. Esses extratos bancários apresentados pela fiscalizada, constantes do doc. 7, materializam e comprovam a alta movimentação financeira da empresa, apurada inicialmente através de consulta aos sistemas informatizados da RFB, já suscitada no item 2 do presente relatório e que atinge nos anos fiscalizados a cifra de R$ 39.868.213,34. Existe ampla movimentação de recursos a crédito na conta corrente da empresa, de forma “pulverizada”, ou seja, muitas entradas, com valores diversos, por meios também diversos, como por exemplo, cheques depositados pelo correntista, cheques depositados por terceiros, TED de diferente titularidade, depósito em dinheiro e recebimentos de títulos bancários emitidos pela correntista pagos em dinheiro e cheque. Segue abaixo uma reprodução de parte do extrato bancário de fls 227 e 228 de julho/2010, onde se vê entradas que variam de R$ 50,00 a R$ 178.918,00: (...) Através da análise dos extratos bancários é possível visualizar que os fechamentos de câmbio e os pagamentos de tributos são feitos exatamente com recursos oriundos dessas entradas diversas, como as citadas acima. A contabilidade apresentada (doc. 12 a 15) registra essas entradas como “Recebimento de Clientes” na Conta 1.1.2.01.01.001 Clientes Diversos no País (fls. 1305), porém, não as identifica. Ou seja, não há referência a que notas fiscais de venda essas entradas dizem respeito, nem consequentemente de que clientes se originaram. A não identificação dessas origens é presunção legal de interposição fraudulenta. Legalmente, o importador passaria a ser caracterizado como interposto fraudulento pelo fato de não ter conseguido comprovar a origem, disponibilidade e efetiva transferência dos recursos empregados no comércio exterior, conforme prevê Fl. 277DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 278 5 o Decreto Lei n° 1.455/76, art. 23, § 2°, com a redação dada pelo art. 59 da MP 66/2002. Porém, com o uso das novas tecnologias da fiscalização tributária, que se modernizou em busca da apuração de fraudes mais complexas, foi feito, sobretudo através do sistema CONTÁBIL, o cruzamento das informações das notas fiscais emitidas pela empresa com as declarações de importação por ela registradas. Nesse cruzamento de informações, através do qual foi possível verificar o conteúdo de cada nota fiscal de venda emitida, ficou evidenciada a integral transferência de mercadorias importadas através de uma declaração de importação a um único cliente, ou seja, ao destinatário da nota fiscal de venda, que agora tornase conhecido. Assim, obtevese a prova direta de que a fiscalizada realiza operações para revenda a encomendante predeterminado, pois, os aspectos quantitativos, qualitativos e temporais dessas operações, conforme minuciosamente explicitado no próximo tópico, comprovam tal fato. Dessa forma, ao invés de presumir, por ficção legal, a interposição fraudulenta por não comprovação de origem, foi possível comprovar documentalmente a existência dos reais beneficiários das operações, os identificando. Materializouse, então, nas importações da fiscalizada, um quadro de interposição fraudulenta comprovada, ao invés de presumida. Se essas importações tivessem sido realizadas diretamente com recursos fornecidos por esses beneficiários, restaria caracterizada a importação por conta e ordem desses. Como não foi verificada tal situação, restou caracterizada a importação por encomenda, conforme disposições da Lei n° 11.281/2006, regulamentada pela Instrução Normativa SRF n° 634, de 24 de março de 2006. (...) Em impugnação, a empresa alegou: Em sede preliminar, foi arguida nulidade dos lançamentos por vício relativo ao Mandado de Procedimento Fiscal (MPF). Aduziu a defesa que o MPF delimitava o objeto da fiscalização ao exercício 2012 e ao tributo IRPJ. Prosseguiu afirmando que, uma vez tendo sido objeto dos lançamentos as contribuições PIS e COFINS, não haveria outra solução senão a anulação do MPF e, consequentemente, do auto de infração. No mérito, a impugnante aduziu a ausência de provas e que a autoridade fiscal lançou com base em presunção, sem qualquer amparo legal. Ainda, postulou a inexistência de solidariedade com base no art. 124 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN). Segundo a defesa, todas as operações se caracterizam simplesmente como aquisição de mercadorias no mercado interno. Também foi alegado desproporcionalidade das multas aplicadas e caráter confiscatório, tendo a defesa afirmado que: “A MULTA POR CONVERSÃO DA PENA DE PERDIMENTO SOMENTE PODE SER APLICADA QUANDO A MERCADORIA AINDA NÃO TIVER SIDO DESEMBARAÇADA” (fl. 140). Outro pleito trazido pela impugnante é o da aplicação da retroatividade benéfica da multa aplicada com o advento da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, mormente por seu art. 33, que prevê multa de 10% do valor da operação por cessão de nome para a realização de operações de comércio exterior. Em suas Fl. 278DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 279 6 considerações finais, a ora impugnante pleiteou juntada posterior de outros elementos probatórios, dilação de prazo para impugnação e realização de diligência. Devidamente impugnado o auto de infração, a 2ª Turma da DRJ/FNS, no acórdão n° 0736.118, negou provimento ao apelo. Entendeu a DRJ que não há dúvida quanto à configuração da interposição fraudulenta: IMPORTAÇÃO. OCULTAÇÃO DO REAL ADQUIRENTE. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE TERCEIROS. DANO AO ERÁRIO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. A lei prevê a presunção de interposição fraudulenta de terceiros na operação de comércio exterior quando a origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados na importação de mercadorias estrangeiras não for comprovada. A ocultação do real adquirente e a interposição fraudulenta de terceiros em operações de comércio exterior, são consideradas dano ao Erário, punível com a pena de perdimento, que é convertida em multa equivalente ao valor aduaneiro, caso as mercadorias não sejam localizadas ou tenham sido consumidas. Em seu recurso voluntário, a empresa requer a nulidade do auto de infração e aponta que não há provas da conduta fraudulenta a ela imputada. É o relatório. Voto Conselheira Semíramis de Oliveira Duro, Relatora O recurso voluntário é tempestivo e reúne os pressupostos legais de interposição, dele, portanto, tomo conhecimento. De início, cumpre diferençar a interposição fraudulenta comprovada e a presumida para corretamente valorar as provas produzidas nestes autos, o que se faz a seguir. I.a Interposição fraudulenta comprovada O art. 23 do DecretoLei nº 1.455/1976 prescreve: Art. 23. Consideramse dano ao Erário as infrações relativas às mercadorias: (...) V estrangeiras ou nacionais, na importação ou na exportação, na hipótese de ocultação do sujeito passivo, do real vendedor, comprador ou de responsável pela operação, mediante fraude ou simulação, inclusive a interposição fraudulenta de terceiros. § 1º O dano ao erário decorrente das infrações previstas no caput deste artigo será punido com a pena de perdimento das mercadorias. Fl. 279DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 280 7 § 2º Presumese interposição fraudulenta na operação de comércio exterior a não comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados. § 3º A pena prevista no § 1º convertese em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida. A interposição fraudulenta nas operações de comércio exterior, prevista no artigo 23, do Decreto Lei nº 1.455/1976 e artigo 689, VI, § 3º e §3ºA do Regulamento Aduaneiro vigente (Decreto nº 6.759/09), é definida como a participação de terceiro agente em operação de comércio exterior com o objetivo de ocultar o real vendedor, comprador ou o sujeito responsável pela operação, praticada mediante fraude ou simulação. A penalidade cabível é a pena de perdimento, que será aplicada após o encerramento do procedimento especial instaurado nos termos da IN SRF nº 228/2002. A pena de perdimento também encontra guarida no art. 105 do DecretoLei nº 37, de 1966: Art. 105. Aplicase a pena de perda da mercadoria: VI – estrangeira ou nacional, na importação ou na exportação, se qualquer documento necessário ao seu embarque ou desembaraço tiver sido falsificado ou adulterado; O perdimento convertese em multa equivalente ao valor aduaneiro da mercadoria que não seja localizada ou que tenha sido consumida (§ 1º e do art. 689, do Regulamento Aduaneiro). Essa multa será exigida mediante lançamento de ofício que será processado e julgado nos termos da legislação que rege a determinação e exigência dos demais créditos tributários da União (§ 2º art. 73 da Lei 10.833/2003). A autoridade lançadora deve trazer elementos de prova para caracterização de interposição fraudulenta, uma vez que, em regra geral, considerase que o ônus de provar recai sobre quem alega o fato ou o direito: CPC/2015 Art. 373. O ônus da prova incumbe: I – ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito; II – ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor. A prova deve ser efetiva e inequívoca para aplicação da pena de perdimento, dessa forma deve ser comprovado objetivamente o dano ao Erário mediante fraude e simulação. Fl. 280DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 281 8 No que tange às infrações, o dolo e a culpa não podem ser presumidos, devem sim ser provados, conforme a lição de Paulo de Barros Carvalho1: Sendo assim, ao compor em linguagem o fato ilícito, além de referir os traços concretos que perfazem o resultado, a autoridade fiscal deve indicar o nexo entre a conduta do infrator e o efeito que provocou, ressaltando o elemento volitivo (dolo ou culpa, conforme o caso), justamente porque integram o vulto típico da infração. A autuação fiscal por interposição comprovada referese a graves condutas fraudulentas imputadas ao contribuinte, por isso o auto de infração deve trazer todo o suporte documental para avaliação da configuração de tais condutas ilícitas. I.b Interposição fraudulenta presumida A disposição legal do § 2º do art. 23 do DecretoLei nº 1.455/1976 prevê que a ausência de comprovação da origem, disponibilidade e transferência dos recursos empregados nas operações de comércio exterior enseja o perdimento ou multa substitutiva. Tratase de presunção legal, que pode ser afastada sempre que a empresa autuada comprovar a origem, a disponibilidade e transferência dos recursos empregados na operação de comércio exterior. Então, na interposição presumida as operações de comércio exterior não são realizadas pela própria empresa, mas por outrem. Por consequência, aplicase o perdimento e a declaração de inaptidão da empresa, com base no art. 81, § 1º da Lei nº 9.430/1996. Havendo presunção legal, cabe à autoridade administrativa apresentar provas do fato que enseja a aplicação dessa presunção, como ensina Fabiana Del Padre Tomé2: Qualquer que seja a modalidade de presunção, é imprescindível a prova dos indícios para, a partir deles, demonstrar a existência de causalidade com o fato que se pretende dar por ocorrido. A diferença reside na circunstância de que, tratandose da chamada presunção legal, a relação causal entre fato presuntivo e fato presumido dáse no âmbito prélegislativo. Identificando o aplicador do direito, no caso concreto, a situação prevista na hipótese da regra de presunção, há de concluir pela ocorrência do fato prescrito no consequente normativo: o fato presumido. A demonstração do fato presuntivo é condição inarredável para a constituição do fato presumido. I.c Caracterização da Interposição Fraudulenta neste caso 1 Direito Tributário Linguagem e Método. 6ª ed. São Paulo: Editora Noeses, 2015, p. 857. 2 A Prova no Direito Tributário. 4ª ed. São Paulo: Noeses, 2016, p. 299300. Fl. 281DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 282 9 Segundo a descrição do auto de infração, os dados coletados que caracterizariam que a autuada se ocultou ao Fisco nas operações de importação conduzidas pela OKSN, caracterizando dano ao Erário de forma comprovada, são os citados abaixo: 6.3 DAS OPERAÇÕES POR ENCOMENDA Nas fls. 2630 a 9559, estão os dossiês de importação de todas as 341 declarações autuadas na presente fiscalização, constando de extrato da DI, fatura (invoice), conhecimento de carga, contrato de câmbio, nota fiscal de entrada e notas fiscais de venda, através das quais a fiscalizada deu saída às mercadorias por ela importadas. Para melhor visualização de que as mercadorias importadas pela OKSN já tinham destinatário determinado ao serem desembaraçadas, os dados acima foram tabulados nas planilhas constantes dos doc. 22 a 26, separadas por ano, contendo cada planilha o número de todas as DI autuadas, a data de desembaraço das mesmas, a discriminação e quantidades dos itens importados através de cada uma delas, o número da nota fiscal de venda emitida pela fiscalizada com a totalidade dos itens importados em cada DI, a data de emissão dessa nota fiscal (para que possa ser comparada com a data de desembaraço), os dados do destinatário da nota fiscal (CNPJ e nome) e o valor aduaneiro da operação, já que é sobre este que se calcula a penalidade ora lançada. A análise dessas operações, sob os aspectos quantitativos, qualitativos e temporais, comprovam que as mesmas são para revenda a encomendante predeterminado. Sob os dois primeiros aspectos, levandose em conta a gama de produtos importados, bem como a grande quantidade de cada um deles, não seria razoável crer que, após cada desembaraço, a OKSN encontrasse aqui no mercado interno, por mero acaso e coincidência, uma só empresa interessada em exatamente toda a carga desembaraçada. Seria concordar que a fiscalizada fosse capaz de saber perfeitamente em quantidades e sortimento a exata demanda dos seus clientes. O aspecto temporal das operações que a fiscalizada tenta registrar como legais é ainda mais comprovador da fraude. A data de desembaraço, por exemplo, da DI 11/07163368 é 20/04/2012 (DI 220). A nota fiscal de entrada n° 538 (fls. 7110) e a de venda n° 539 (fls. 7111) também são de 20/04/2012. No campo fático, seria completamente inexequível desembaraçar, emitir nota de entrada e vender tudo em um mesmo dia. Se a OKSN estivesse operando a partir de desígnio e por conta e risco próprios, normalmente haveria um lapso temporal entre a importação e a revenda dos bens, dado que a tarefa de achar um comprador para o mesmo normalmente toma algum tempo. Mesmo considerando que em algumas operações a data da nota fiscal de venda não seja exatamente a mesma do desembaraço, o intervalo é de no máximo dois ou três dias, período no qual é igualmente impossível supor que a empresa receberia a mercadoria do exterior, ofertaria no mercado e venderia em lotes exatos. Enfim, é esse o “modus operandi” da OKSN e exatamente nesses moldes são todas as 341 operações autuadas na presente fiscalização. Isso pode ser visualizado nas planilhas constantes dos documentos 22 a 26, que contêm todas as operações dos anos de 2008 a 2012. Fl. 282DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 283 10 Entretanto, frisese que as planilhas se propõem apenas a fornecer uma melhor visualização. Os instrumentos de prova, efetivamente, são os próprios documentos, que como já citado, encontramse nas fls. 2630 a 9559. 6.4 DOS REAIS BENEFICIÁRIOS DAS OPERAÇÕES, OS ENCOMENDANTES No tópico anterior, ficou demonstrado que as mercadorias importadas pela OKSN tinham destinação certa ao serem desembaraçadas. Ao contrário de uma operação comum de importação, onde o importador nacionaliza mercadorias para oferecer no mercado interno, por sua conta e risco, as operações em questão foram feitas para destinatários predeterminados, sob demanda destes. Assim, a OKSN foi apenas uma intermediadora das operações, cujos reais beneficiários foram seus clientes, destinatários das notas fiscais de venda, verdadeiros compradores das mercadorias importadas. Como já citado anteriormente, se essas importações tivessem sido realizadas com recursos fornecidos por esses compradores, restaria caracterizada a importação por conta e ordem desses terceiros, que seriam tecnicamente chamados de reais adquirentes. Como isso não foi verificado, restou caracterizada a importação por encomenda, sendo os compradores das mercadorias chamados de encomendantes. Dessa forma, a OKSN é uma empresa que atua como importadora por encomenda, porém, e onde reside o problema, ocultando do Fisco essa informação. A lista dos clientes da OKSN, encomendantes das mercadorias importadas através das declarações de importação ora autuadas, encontrase no doc. 21. Essas empresas ficaram ocultas ao Fisco até a presente fiscalização. A OKSN registrou as declarações de importação, declarandose como real adquirente das mercadorias importadas, ocultando os reais encomendantes da relação jurídico tributária. Para essas empresas atuarem legalmente, adquirindo de um importador por encomenda, mercadorias de procedência estrangeira para comercialização, deveriam ter sido atendidas as regras para as importações sob encomenda previstas na Lei n° 11.281/2006 e na IN SRF n° 634/2006, quais sejam: 1a) A Declaração de Importação somente poderia ser registrada após a habilitação do encomendante no SISCOMEX; 2a) O encomendante deveria informar à Receita Federal as operações em que utilizaria um importador; e 3a) O importador por encomenda deveria indicar em campo próprio da DI o CNPJ do encomendante. De acordo com o parágrafo único do artigo 3° da IN SRF n° 634/2006, enquanto não estiver disponível o campo próprio da DI a que se refere o caput, o importador por encomenda deverá utilizar o campo destinado à identificação do adquirente por conta e ordem da ficha "Importador" e indicar no campo "Informações Complementares" que se trata de importação por encomenda. Fl. 283DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 284 11 Nada disso foi feito. Os encomendantes não foram habilitados, a RFB não foi informada que seria utilizado um importador por encomenda para realizar essas operações nem este importador, OKSN, indicou na DI quem seriam os encomendantes (fls. 2630 a 9559). Em pesquisa aos sistemas informatizados da RFB, verificase que os clientes da OKSN são, em sua maioria, empresas pequenas, localizadas em São Paulo, atuantes no conhecido mercado de venda de importados daquela capital. Tais empresas não possuem habilitação para operar no comércio exterior e dificilmente a obteriam, pois, as pesquisas aos sistemas apontam para diversas irregularidades, inclusive envolvimento em fraudes e omissão de declarações ao Fisco Federal. Ou seja, essas empresas, não poderiam, através delas próprias, importar as mercadorias que desejavam revender no mercado interno, pois não obteriam habilitação para tal fim. Também não poderiam, de forma legal, utilizar os serviços de importação de outra empresa, por encomenda ou por conta e ordem, pois para isto também precisariam estar habilitadas. Assim, se utilizaram da OKSN para fazer o que não poderiam fazer sozinhas. (...) Dentre as empresas mantidas ocultas nas operações da empresa OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA, verificouse que a autuada foi destinatária das mercadorias importadas sob o amparo de 05 declarações de importação, conforme constante da planilha abaixo: Na ação fiscal em desfavor da OSKN BRASIL, verificouse que as mercadorias das declarações de importação listadas foram transferidas na sua totalidade para a autuada, por meio das notas fiscais também listadas na planilha acima. Na próxima planilha transcrevemos as datas de registro e desembaraço das declarações de importação e também as datas de emissão das notas fiscais de venda das mercadorias constantes de cada D.I.: Fl. 284DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 285 12 O quadro acima corrobora o já mencionado no relatório final da ação fiscal em desfavor da empresa OSKN BRASIL, no que tange ao aspecto temporal das operações de importação efetuadas pela empresa. O lapso temporal entre o desembaraço das mercadorias e o seu repasse para a autuada foi mínimo, indicando, junto com os demais fatos apurados no decorrer da referida ação fiscal, o caráter de encomenda das importações efetuadas pela OSKN BRASIL. Os dados transcritos foram apurados por meio de consultas realizadas nos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil e com base nos documentos recebidos da empresa OSKN BRASIL. No anexo I do presente auto de infração juntamos os extratos das declarações de importação e as respectivas notas fiscais de venda. No anexo II, juntamos as partes de planilha constante do auto de infração lavrado em desfavor da OSKN BRASIL, onde consta a correlação das declarações de importação e as notas fiscais de venda das mercadorias à EMINÊNCIA COMÉRCIO IMPORTAÇÃO EXPORTAÇÃO LTDA. Com a emissão do MPF Nº 08155002013004, em desfavor da autuada, intimamos a mesma a informar se ainda estava de posse/propriedade das mercadorias adquiridas da OSKN BRASIL, importadas sob o amparo das declarações citadas acima. Em resposta (anexo III), o autuado informou ter em estoque apenas as mercadorias listadas abaixo: (...) O valor aduaneiro das mercadorias acima listadas foi apurado com base nas respectivas declarações de importação e consignados na nota fiscal de entrada das mesmas na contabilidade do autuado (anexo IV). Em relação às mercadorias comercializadas, configurouse, então, a hipótese prevista no § 3º, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76, abaixo transcrito: (...) Assim sendo, não restando dúvida quanto à aplicação da pena de perdimento às mercadorias importadas pela OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA e posteriormente enviadas para a EMINÊNCIA COMÉRCIO IMPORTAÇÃO EXPORTAÇÃO LTDA, em virtude da ocultação desta última empresa na operação de importação e, tendo em vista a não localização das referidas mercadorias, lavrase o presente auto de infração para aplicação da multa prevista no § 3º, do artigo 23, do DecretoLei nº 1.455/76. O valor cobrado no presente auto de infração é o somatório dos valores aduaneiros das declarações listadas na planilha 1, descontandose o valor das mercadorias ainda em estoque, conforme disposto na planilha 3. Como se observa acima, a autoridade fiscal afirma que a empresa C H Comércio de Presentes foi a real adquirente das mercadorias objeto das DI autuadas. E não como compradora no mercado interno, mas utilizandose da empresa OKSN em operações irregulares de comércio exterior mediante interposição fraudulenta, permanecendo oculta ao Fisco. Segundo a fiscalização, as operações de importação conduzidas pela OKSN eram sempre declaradas como próprias. Entretanto, a movimentação das mercadorias recém desembaraçadas evidenciava situação que não se coadunava como importações por conta própria, ou seja, a totalidade das mercadorias era integralmente revendida imediatamente após o desembaraço a uma única empresa (em cada caso) e geralmente através de uma única nota fiscal. Fl. 285DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 286 13 No auto de infração, a fiscalização faz menção ao Processo n° 10074.721681/201285: Em cumprimento a determinação contida no Mandado de Procedimento Fiscal nº 0815500201300434, procedemos à ação fiscal em desfavor da empresa EMINÊNCIA COMÉRCIO IMPORTAÇÃO EXPORTAÇÃO LTDA, tendo em vista que verificouse que a mesma era a real adquirente de mercadorias importadas pela empresa OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA, que agiu como interposta pessoa para ocultar a atuação do autuado nas referidas operações de importação, conforme relato a seguir. A empresa OSKN BRASIL COMÉRCIO IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA foi objeto de ação fiscal com o objetivo de verificar se a mesma tinha capacidade econômicofinanceira para atuar no comércio exterior. Transcrevemos abaixo trechos do relatório final da ação fiscal em desfavor da empresa OSKN BRASIL, onde estão expostos os fatos que ensejaram a lavratura de auto de infração em desfavor da referida empresa, tendo em vista o disposto no artigo 33, da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007. Observase do relato da autoridade fiscal, que o convencimento a respeito da ocorrência da interposição fraudulenta se deu após a ação fiscal sofrida pela OSKN, objeto do Processo n° 10074.721681/201285. Inclusive, cita que: Os instrumentos de prova, efetivamente, são os próprios documentos, que como já citado, encontramse nas fls. 2630 a 9559. As páginas 2630 a 9559 são do Processo n° 10074.721681/201285. Entretanto, é necessário esclarecer que ainda que nesse outro processo haja comprovação da interposição fraudulenta, nestes autos, não há. Neste processo, o auto de infração está acompanhado apenas de: 1) notas fiscais que supostamente acobertaram a saída (venda para a ora Recorrente) das mercadorias importadas, evidenciando que toda a operação fora previamente contratada e caracterizando a utilização de fraude mediante interposição; 2) planilha; 3) DIs; 4) cópia do Termo de Verificação Fiscal do Processo n° 10074.721681/201285 e 5) nada mais. Logo, entendo não haver elementos nestes autos capazes de confirmar o quadro fraudulento apontado pela fiscalização, matéria totalmente vinculada à produção de prova pela autoridade administrativa. Vejase que a própria DRJ fundamentou a manutenção do auto de infração, levando em conta a produção probatória no outro processo, o de n° 10074.721681/201285: Em diligência à sede da OSKN, verificouse que se tratava de uma mera sala comercial e contava com apenas um funcionário (secretária), o que inviabiliza sua atuação no comércio exterior por conta própria, uma vez ausentes infraestrutura humana e física para tal. Fl. 286DF CARF MF Processo nº 10880.722058/201326 Acórdão n.º 3301004.710 S3C3T1 Fl. 287 14 Tendo em conta tais circunstâncias e demais analisadas no curso do processo nº 10074.721681/201285, foi lavrada autuação com base no art. 33 da Lei nº 11.488, de 15 de junho de 2007, por cessão de seu nome para a realização de operações de comércio exterior de terceiros, com vistas ao acobertamento de seus reais intervenientes ou beneficiários. Através de consultas aos sistemas da Receita Federal, foi gerada a planilha acostada às fls. 8488, que evidencia os dados já expostos, e caracterizam que a ora impugnante se ocultou ao Fisco, caracterizando dano ao Erário de forma comprovada e não por presunção, o que permite a legislação em alguns casos. Deveria a autoridade lançadora ter trazido os elementos de prova para caracterização de interposição fraudulenta para este presente processo. Considerando o império da estrita legalidade, tipicidade tributária, motivação do lançamento tributário, devido processo legal e ampla defesa, diante da gravidade da fraude aduaneira imputada à Recorrente, o lançamento tributário desprovido de provas deve ser declarado nulo, por vício material. Por conseguinte, deve ser cancelada a multa de perdimento aplicada, diante da total ausência dos pressupostos legais para sua aplicação. Os demais argumentos ofertados pela empresa perdem seus objetos em face da questão principal controvertida de mérito lhe ser favorável. Conclusão Do exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Semíramis de Oliveira Duro Relatora Fl. 287DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13963.000421/2004-36
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 09 00:00:00 UTC 2012
Ementa: EXCLUSÃO SIMPLES
Ano calendário:
SIMPLES. OPÇÃO. IMPEDIMENTO LEGAL.
A emissão de Ato Declaratório Executivo de Exclusão do Simples baseado tão somente no Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE), não constitui elemento suficiente à exclusão pretendida, mormente na situação em que a contribuinte aporta ao processo elementos que autorizam concluir que os serviços por ela prestados não se enquadram na disposição legal que serviu
de fundamento para a referida exclusão. O exercício de atividade econômica vedada deve ser demonstrado de forma inequívoca.
SÚMULA CARF Nº 57.
A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal.
Recurso Voluntário Provido.
Sem Crédito em Litígio.
Numero da decisão: 1301-001.026
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros da Turma, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator.
Matéria: Simples- proc. que não versem s/exigências cred.tributario
Nome do relator: Guilherme Pollastri Gomes da Silva
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OPÇÃO. IMPEDIMENTO LEGAL. A emissão de Ato Declaratório Executivo de Exclusão do Simples baseado tãosomente no Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE), não constitui elemento suficiente à exclusão pretendida, mormente na situação em que a contribuinte aporta ao processo elementos que autorizam concluir que os serviços por ela prestados não se enquadram na disposição legal que serviu de fundamento para a referida exclusão. O exercício de atividade econômica vedada deve ser demonstrado de forma inequívoca. SÚMULA CARF Nº 57. A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal. Recurso Voluntário Provido. Sem Crédito em Litígio. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros da Turma, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto proferidos pelo Relator. (assinado digitalmente) Alberto Pinto Souza Junior Presidente. (assinado digitalmente) Fl. 131DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR 2 Guilherme Pollastri Gomes da Silva Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Wilson Fernandes Guimarães, Valmir Sandri, Paulo Jackson da Silva Lucas, Guilherme Pollastri Gomes da Silva, Carlos Augusto de Andrade Jenier e Alberto Pinto Souza Junior. Fl. 132DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR Processo nº 13963000421/200436 Acórdão n.º 1301000.026 S1C3T1 Fl. 2 3 Relatório A empresa optante pelo Sistema Integrado de Pagamentos de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte – Simples, foi excluída de ofício pelo Ato Declaratório Executivo DRF/FNS n° 552.655, de 02/08/2004, com efeitos a partir de 07/06/2002, com base em situação excludente, por pratica de atividade econômica vedada de reparação e manutenção de bombas e carneiros hidráulicos. Cientificada em 30/08/2004, em 13/09/2004, apresentou manifestação de inconformidade, alegando em síntese o seguinte: tece esclarecimentos sobre a impossibilidade da exclusão retroativa efetuada de oficio. discorda do fato de que a partir dos efeitos da exclusão fique sujeita às normas de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas, pois sua atividade econômica é o "comércio e recuperação de peças". que não pode ter vedada sua opção pelo Simples, uma vez que o exercício de sua atividade prescinde da prestação serviço profissional de engenheiro ou assemelhado e de qualquer outra profissão cujo exercício dependa de habilitação profissional legalmente exigida. que a legislação tributária de regência da matéria deve ser interpretada literalmente, além do que, foram violados, entre outros, os princípios constitucionais do direito adquirido e da estrita legalidade. Tendo em vista o Despacho da DRJ/BH n° 22, de 30/07/2007, houve solicitação de realização de diligência, para que ficasse caracterizada a prestação do serviço profissional que a pessoa jurídica exerce. Cientificada do Relatório, em 16/09/2008, a interessada apresentou em 24/09/2008, a declaração de que "não tem nenhum vínculo contratual com terceiros para a prestação de qualquer tipo de serviço" vedado na legislação. Acrescenta que exerce a atividade de "exploração de serviços de recondicionamento de redutores e motovariadores e outras peças de cerâmica e mecânicas em geral, e, que nenhum sócio ou qualquer funcionário tem curso superior". A 4ª Turma da DRJ/BH, por maioria de votos, indeferiu a solicitação da interessada alegando que: a hipótese de indeferimento da opção da requerente pelo Simples fundamentada na "reparação e manutenção de bombas e carneiros hidráulicos", pressupõe a obtenção de receita proveniente da atividade vedada, qualquer que seja a sua proporção em relação à totalidade auferida pela pessoa jurídica. Fl. 133DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR 4 consta no Relatório Fiscal: Efetuadas visitas ao estabelecimento, verificouse que a atividade preponderante do contribuinte, desde o anocalendário de 2002, é o conserto, instalação e reforma de motores elétricos e suas partes. Os serviços são prestados pelo sócioproprietário [..] , mecânico, e pelo único funcionário. A sistemática de trabalho pode ser descrita da seguinte forma: retirase o motor ou componente elétrico do estabelecimento do cliente [...] e levase à [interessada] e, após consertada e reformada, a peça é reinstalada no cliente. Observouse também que, como atividade secundária, a empresa efetua a venda de motores e equipamentos elétricos recondicionados.' a requerente informou à RFB que exercia a atividade de reparação e manutenção de bombas e carneiros hidráulicos. Houve a realização de diligência, oportunidade em que a requerente foi novamente intimada a apresentar suas alegações e produzir provas. analisando as Notas Fiscais, fls. 24/28, restou comprovado que a requerente presta serviço para a sociedade Cecrisa Revestimentos Cerâmicos S/A. Assim, analisando as informações constantes nos autos verificase que a requerente presta serviço de montagem e manutenção de equipamentos industriais, cuja atividade caracteriza prestação de serviço profissional de engenheiro. Logo, não lhe cabe razão. a partir dos efeitos da exclusão, ou seja, 07/06/2002, a requerente fica sujeita às normas de tributação aplicáveis às demais pessoas jurídicas, inclusive às obrigações tributárias principais e acessórias. Logo os efeitos do ato de exclusão devem prevalecer. Intimada da decisão da DRJ em 18 de março de 2009 , a empresa apresentou recurso voluntário, tempestivo, em 13 de abril de 2009, alegando que: a citada exclusão baseiase exclusivamente na disposição do artigo 9º, inc. XIII da lei n° 9.317, de 05 de dezembro de 1996. a exclusão parte de uma análise equivocada do citado artigo, na medida em que se dá interpretação extensiva do termo assemelhado, aos profissionais legalmente regulamentados, equiparando às oficinas mecânicas "de fundo de quintal" ao engenheiro mecânico, profissional que possui curso superior, está organizado em entidades de classe e está efetivamente impedido de optar pelo Simples. a empresa tem como atividade somente o comércio e recuperação de peças e que nenhum sócio ou qualquer funcionário têm curso superior, bem como inexiste exigência na lei para que este tipo de atividade tenha um responsável técnico na empresa. a classificação adotada pela Secretaria da Receita Federal é incorreta, já que não existe nível superior para a área e tampouco é necessário ter completado o segundo grau para atuar nela. Não se trata de profissão regulamentada. É uma categoria econômica, que dispensa a necessidade de uma reunião de profissionais liberais, como médicos e advogados. esses profissionais sequer possuem conselhos regionais como as profissões regulamentadas. Efetuadas visitas ao estabelecimento, verificouse que a atividade preponderante do contribuinte, desde o anocalendário de 2002, é o Fl. 134DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR Processo nº 13963000421/200436 Acórdão n.º 1301000.026 S1C3T1 Fl. 3 5 conserto, instalação e reforma de motores elétricos e suas partes. Os serviços são prestados pelo sócioproprietário (...), mecânico, e pelo único funcionário. A sistemática de trabalho pode ser descrita da seguinte forma: retirase o motor ou componente elétrico do estabelecimento do cliente (...) e levase à (interessada) e , após consertada e reformada, a peça é reinstalada no cliente. Observouse também que, como atividade secundária, a empresa efetua a venda de motores e equipamentos elétricos recondicionados (g.n.). a visita realizada à empresa pela fiscalização federal comprova tratar se de microempresa, cujo proprietário (mecânico) trabalha juntamente com apenas um funcionário, utilizandose de mãodeobra não qualificada, realizando conserto, instalação e reforma de motores elétricos e suas partes, deixando claro não se tratar de atividade privativa de engenheiro mecânico. junta jurisprudência a seu favor. É o relatório. Fl. 135DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR 6 Voto Relator Guilherme Pollastri Gomes da Silva Conheço do recurso voluntário por tempestivo. O assunto é deveras polêmico, mas comungo da tese de que a vedação inserida no inciso XIII, do art. 9º, da Lei nº 9.317/96 – atividades vedadas aos profissionais prestadores de serviços – é para alcançar as associações de prestação de serviço, dando interpretação extensiva ao termo assemelhados equiparando neste caso uma mera oficina mecânica, tocada por mecânicos, à engenheiros profissionais organizados em entidades de classe vedadas ao Simples. O litígio circunscrevese a elucidar, a partir do contrato social e alterações, declarações, código CNAE e Notas Fiscais, se a atividade econômica praticada pela empresa estaria inserida no rol das atividades que necessitariam de conhecimentos técnicos especializados de engenheiros e, por essa razão, teriam seu ingresso e permanência na sistemática simplificada vedada em Lei. No presente caso, não há quaisquer provas trazidas pelo fisco que os serviços prestados somente podem ser exercidos por profissionais habilitados, legalmente, no caso engenheiros. Pelo contrário, em resultado de diligência efetuada no estabelecimento da recorrente constatouse que, com efeito, a empresa presta simples serviços de assistência técnica e não possui em seus quadros funcionais pessoas com qualificação especializada em engenharia. Tenho manifestado de que a simples previsão de determinadas atividades no objeto social das empresas não são, por si só, suficientes à caracterização do exercício de fato e de direito da atividade. O Contrato Social prever o exercício de determinada atividade, por si só não constituiu o fato gerador. Digo de fato e de direito, pois, o exercício in concreto de uma das atividades previstas dentre os objetivos sociais depende de tradução em linguagem competente. Ou seja, a fiscalização deve apurar e trazer aos autos comprovação da prática da infração, in casu, o exercício de atividade vedada pelo regime simplificado. E a norma que instituiu o Simples, saliento, não excluiu indústrias que, normalmente, e de forma lógica, devem possuir em seus quadros engenheiros de produção. O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais em face à inúmeros julgados que decidiram de forma uniforme e reiterada sobre esta mesma matéria tributável editou a Súmula nº 57 que assim estabelece: “A prestação de serviços de manutenção, assistência técnica, instalação ou reparos em máquinas e equipamentos, bem como os serviços de usinagem, solda, tratamento e revestimento de metais, não se equiparam a serviços profissionais prestados por engenheiros e não impedem o ingresso ou a permanência da pessoa jurídica no SIMPLES Federal.” Por isso que a mens legis do inciso das atividades vedadas – XIII, 9º, deve ser interpretado sistemática e teleologicamente para as associações de profissionais que prestem Fl. 136DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR Processo nº 13963000421/200436 Acórdão n.º 1301000.026 S1C3T1 Fl. 4 7 serviços dentro de sua área de formação. Todavia, não é o caso, onde se constata que em seus serviços não há nem a necessidade, nem o engenheiro. Defendo também a tese, que, ao excluir o contribuinte do sistema por ele optado, o fisco deve produzir as provas que confirmem que os sócios da empresa exercem efetivamente a atividade de engenharia, em vista das Notas Fiscais, Contratos e Projetos verificados em auditoria. Por todos os elementos aqui analisados não há como afirmar que as atividades praticadas pela empresa necessitem de conhecimento técnico especializado de engenheiro. Ao contrário. As atividades descritas indicam que os serviços eram prestados pelo sócio proprietário que é mecânico e por mais um único funcionário. Penso, pois, que o ato declaratório combatido, tendo sido baseado tão somente no Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE), não constitui elemento suficiente à exclusão realizada, em especial nas circunstâncias retratadas nos presentes autos, em que a contribuinte reúne elementos que levam a concluir que os serviços por ele prestados não dependiam de habilitação profissional. Por todo o exposto, meu voto é no sentido de DAR PROVIMENTO ao recurso para manter a recorrente no sistema Simples de tributação. Voto pelo provimento do recurso voluntário. (assinado digitalmente) Guilherme Pollastri Gomes da Silva Relator Fl. 137DF CARF MF Impresso em 12/09/2012 por MOEMA NOGUEIRA SOUZA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente e m 14/08/2012 por GUILHERME POLLASTRI GOMES DA SIL, Assinado digitalmente em 06/09/2012 por ALBERTO P INTO SOUZA JUNIOR
score : 1.0
Numero do processo: 11080.928621/2009-70
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jul 06 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Ano-calendário: 2006
COMPENSAÇÃO. PAGAMENTOS INDEVIDOS DE ESTIMATIVA. AUTO DE INFRAÇÃO. LUCRO ARBITRADO. INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS POR ESTIMATIVA. VALORES RECOLHIDOS COMPENSADOS NA AUTUAÇÃO.
Contatando-se que o período de apuração referente aos créditos solicitados foi objeto de desclassificação da escrita e arbitramento, não mais existem débitos devidos a título de estimativa.
Também não mais existem os créditos decorrentes de pagamentos a maior em razão de todos os pagamentos terem sido utilizados, durante a autuação, no abatimento dos tributos apurados pelo lucro arbitrado.
Numero da decisão: 1401-002.593
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente e Relator
Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente)
Nome do relator: LUIZ AUGUSTO DE SOUZA GONCALVES
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PAGAMENTOS INDEVIDOS DE ESTIMATIVA. AUTO DE INFRAÇÃO. LUCRO ARBITRADO. INEXISTÊNCIA DE DÉBITOS POR ESTIMATIVA. VALORES RECOLHIDOS COMPENSADOS NA AUTUAÇÃO. Contatandose que o período de apuração referente aos créditos solicitados foi objeto de desclassificação da escrita e arbitramento, não mais existem débitos devidos a título de estimativa. Também não mais existem os créditos decorrentes de pagamentos a maior em razão de todos os pagamentos terem sido utilizados, durante a autuação, no abatimento dos tributos apurados pelo lucro arbitrado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente e Relator Participaram do presente Julgamento os Conselheiros Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa, Lívia de Carli Germano, Abel Nunes de Oliveira Neto, Luciana Yoshihara Arcângelo Zanin, Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Letícia Domingues Costa Braga, Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 92 86 21 /2 00 9- 70 Fl. 123DF CARF MF Processo nº 11080.928621/200970 Acórdão n.º 1401002.593 S1C4T1 Fl. 3 2 Relatório Trata o presente processo de PER/DCOMP apresentado pela empresa no qual solicita a compensação de pretensos créditos relativos a pagamento a maior de CSLL devida por estimativa. A origem dos créditos, consoante informado pelo recorrente desde sua impugnação, baseiase na retificação dos valores de apuração que, após a retificação das DIPJ e DCTF da empresa, resultaram como pagos a maior. Com base nestes créditos a empresa, por meio do PER/DCOMP objeto deste processo, a empresa realizou a compensação com débito da mesma contribuição de períodos subseqüentes. Quando da análise do PER/DCOMP o sistema informatizado reconheceu a existência do crédito mas, no entanto, considerou improcedente a utilização do crédito posto que o art. 10 da IN RFB nº 600/2005, veda a possibilidade de utilização de créditos relativos a pagamentos a maior de estimativa para a quitação dos valores devidos por estimativa de meses subseqüentes. O contribuinte, irresignado apresentou manifestação de inconformidade alegando a existência do crédito. A Delegacia de Julgamento, na análise da manifestação, a considerou improcedente. Ainda inconformado o contribuinte apresentou recurso voluntário no qual entende que não é cabível o indeferimento do crédito com base no art. 10, da IN 600/2005, haja vista que, quando da prolação do despacho decisório de nãohomologação referida norma não mais estava em vigor. É o breve relatório. Fl. 124DF CARF MF Processo nº 11080.928621/200970 Acórdão n.º 1401002.593 S1C4T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro Luiz Augusto de Souza Gonçalves Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º, 2º e 3º, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão nº 1401002.578, de 17/05/2018, proferido no julgamento do Processo nº 11080.928620/2009 25, paradigma ao qual o presente processo fica vinculado. O processo paradigma analisou a possibilidade de utilização de crédito relativo a pagamento a maior de CSLL devido por estimativa, relativo ao período de apuração de 30/09/2006, com débitos de mesma natureza de período subsequente. O presente processo tratase de pedido de compensação de crédito relativo a pagamento indevido ou a maior de estimativa de CSLL, do período de apuração de 30/04/2006, com débito de mesma natureza de período subsequente. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão nº 1401002.578): A análise do presente processo prendese, em síntese, à verificação da possibilidade de utilização de créditos relativos a pagamentos a maior da CSLL com débitos da mesma contribuição de períodos subseqüentes e, ainda, a força impeditiva do art. 10, da IN RFB nº 600/2005. A norma questionada impedia a utilização, por parte do contribuinte, dos valores pagos a maior durante o ano calendário com outros débitos com base na justificativa de que os valores pagos a maior por estimativa deveriam ser levados ao ajuste do exercício, como se pagamentos por estimativas fossem, no sentido de que estes pagamentos a maior compusessem o saldo credor a vir ser apurado no exercício. Ocorre, no entanto, que referida norma impeditiva não encontra respaldo nos ditames da Lei nº 9.430/96, no que trata de restituição/compensação. Assim, se um pagamento foi realizado a maior em um determinado período. A existência do crédito relativo a este pagamento a maior exsurge desde a data do referido recolhimento, na forma do art, 170, do CTN, matriz legal de todas as normas de compensação. A limitação realizada pelo art. 10, da IN 600/2005 desborda dos limites impostos pela normas a ela superiores e, por isso, não pode produzir eficácia contra os direitos nestas inseridos. Fl. 125DF CARF MF Processo nº 11080.928621/200970 Acórdão n.º 1401002.593 S1C4T1 Fl. 5 4 Em conformidade com este entendimento é que o CARF já se posicionou de forma consolidada, emitindo a Súmula nº 84, conforme abaixo transcrita e consoante os acórdão paradigmas precedentes que a justificaram. Súmula CARF nº 84: Pagamento indevido ou a maior a título de estimativa caracteriza indébito na data de seu recolhimento, sendo passível de restituição ou compensação. Acórdão nº 120100.404, de 23/2/2011 Acórdão nº 120200.458, de 24/1/2011 Acórdão nº 110100.330, de 09/7/2010 Acórdão nº 910100.406, de 02/10/2009 Acórdão nº 10515.943, de 17/8/2006. Verificado o teor da Súmula acima apresentada, há de se rever as decisões atacadas pelo recorrente. Assim decorreria este voto, quando da época de sua elaboração. Ocorre, no entanto, que iniciada a sessão de julgamento a representante do contribuinte informou acerca da existência de auto de infração lavrado por meio do processo nº 11080.732426/201161, pela sistemática do lucro arbitrado, no qual os pagamentos a maior de IRPJ e CSLL por estimativa realizados no ano e solicitados pela empresa em PER/DCOMP, para a compensação das estimativas devidas do mês de dezembro/2006. Verificase, pela consulta ao processo de auto de infração que para o ano de 2006 foi desconsiderada a escrituração fiscal da empresa e foi realizado o lançamento pelo lucro arbitrado trimestral. Da realização do lançamento foram utilizados os pagamentos por estimativa que não compuseram os saldos negativos já utilizados pela empresa (fls. 8831/8835 do processo nº 11080.732426/201161). Mais ainda, verificase que, sendo arbitrado o lucro, deixam de ser existentes os débitos por estimativa do ano de 2006, dada a modificação da sistemática de apuração do lucro. Ainda em consulta ao referido auto de infração constatamos que o mesmo já foi julgado em última instância por este CARF e mantido em definitivo os valores lavrados, já estando em fase de execução judicial (fls. 93232/93241 do processo nº 11080.732426/201161). À vista do exposto temos então que o PER/DCOMP objeto do presente processo, no qual são utilizados os pagamentos a maior de estimativas do ano de 2006 para a compensação com débitos de estimativa do mesmo ano, perdeu totalmente seu objeto, tanto pelo desaparecimento dos créditos, quanto dos débitos, em face Fl. 126DF CARF MF Processo nº 11080.928621/200970 Acórdão n.º 1401002.593 S1C4T1 Fl. 6 5 da lavratura de auto de infração pelo lucro arbitrado já julgado em definitivo na esfera administrativa. Por estas razões, deixo de analisar o presente recurso apenas em relação às limitações que levaram ao indeferimento do pedido e, analisando o caso em vista da verdade material, verificandose que deixaram de existir os débitos declarados no PER/DCOMP objeto deste processo, havemos de julgar no sentido de deixar de reconhecer os créditos em face de sua atual inexistência e determinar o cancelamento dos débitos declarados no PER/DCOMP em razão de igualmente não mais existirem, tudo em razão da lavratura do auto de infração pelo lucro arbitrado que modificou integralmente a situação dos débitos e créditos objeto do presente processo. Neste sentido voto por dar provimento ao recurso para: 1) Deixar de analisar os créditos solicitados, relativos aos pagamentos a maior de estimativa em razão de os créditos terem deixado de existir em face da lavratura do auto de infração do mesmo ano, no qual os referidos pagamentos foram utilizados; 2) Determinar o cancelamento dos débitos compensados no presente processo, tendo em vista trataremse de débitos de estimativa do ano de 2006, em face, também, da lavratura de auto de infração que apurou o IRPJ pelo lucro arbitrado e por consequência desfaz qualquer obrigação de recolhimento por estimativa." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º, 2º e 3º do art. 47, do Anexo II, do RICARF, voto por dar provimento ao recurso, nos termos do voto acima transcrito. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Fl. 127DF CARF MF
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