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Numero do processo: 10640.723142/2015-51
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 18 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Thu Apr 02 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano-calendário: 2010
DECADÊNCIA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN.
O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66).
INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL
Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA.
Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49).
Numero da decisão: 2001-001.747
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert.
Nome do relator: HONORIO ALBUQUERQUE DE BRITO
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ementa_s : ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 DECADÊNCIA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49).
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MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. APLICAÇÃO DO ART. 173, I, DO CTN. O dispositivo legal a ser aplicado na avaliação da decadência do direito de a Fazenda Pública lançar a multa por atraso na entrega da GFIP é o art. 173, I, do Código Tributário Nacional (Lei 5.172/66). INTIMAÇÃO PRÉVIA AO LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA DE EXIGÊNCIA LEGAL Por se tratar a ação fiscal de procedimento de natureza inquisitória, a intimação do contribuinte prévia ao lançamento não é exigência legal (Súmula CARF nº 46), e desta forma a sua falta não caracteriza cerceamento de defesa, a qual poderá ser exercida após a ciência do auto de infração. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. MULTA POR ATRASO NA ENTREGA DA GFIP. NÃO OCORRÊNCIA. Conforme já sumulado pelo CARF, a denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração (Súmula CARF nº 49). Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 10380.730319/2015-84, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito - Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros Honório Albuquerque de Brito, Marcelo Rocha Paura, André Luis Ulrich Pinto e Fabiana Okchstein Kelbert. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 64 0. 72 31 42 /2 01 5- 51 Fl. 40DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2001-001.747 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10640.723142/2015-51 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de documento de lançamento emitido pela Receita Federal do Brasil no qual é exigido do contribuinte crédito tributário de multa por atraso na entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O enquadramento legal foi o art. 32-A da Lei 8.212, de 1991, com redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009. Conforme se extrai do acórdão da DRJ, o contribuinte apresentou impugnação na qual alegou, em síntese, falta de intimação prévia e a ocorrência de denúncia espontânea. A turma julgadora da primeira instância administrativa concluiu pela total improcedência da impugnação e consequente manutenção do crédito tributário lançado. Cientificado, o interessado apresentou recurso voluntário onde, em síntese, alega prescrição/decadência, ocorrência de denúncia espontânea e falta de intimação prévia ao lançamento, invoca princípios constitucionais, cita jurisprudência. Requer ao final o cancelamento do crédito tributário lançado. É o relatório. Voto Conselheiro Honório Albuquerque de Brito - Relator Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF Desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2001-001.705, de 18 de fevereiro de 2020, paradigma desta decisão. O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade, portanto dele conheço e passo à sua análise. PRELIMINARES Informação incorreta no documento de lançamento O contribuinte alega que ou a Caixa Econômica Federal ou a Previdência Social teriam perdido os dados, e que por isso teria sido orientado pelo Fiscal Previdenciário a nova transmissão da GFIP, dando a entender que teria transmitido a declaração original no prazo legal, em data anterior à apontada no documento de lançamento, que é a data constante dos sistemas internos da Receita Federal. O recorrente entretanto não acosta Fl. 41DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2001-001.747 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10640.723142/2015-51 aos autos qualquer documento que comprove que teria havido uma transmissão em data anterior. Conforme prevê o art. 36 da Lei 9.784/99, que regula o processo administrativo no âmbito da administração publica federal, cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado. Assim sendo, a alegação feita, por não comprovada, não merece ser acatada. Prescrição/decadência Uma vez que não definitivamente constituído o crédito tributário em questão no âmbito administrativo, com relação à fluência dos prazos processuais o instituto a se avaliar a ocorrência é o da decadência do direito de a Fazenda Pública constituir o crédito por meio do lançamento. Trata-se de lançamento de ofício de multa por atraso na entrega da GFIP, e nesse caso o dispositivo legal a ser aplicado é o disposto no CTN, art. 173, I, verbis: Art. 173. O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue- se após 5 (cinco) anos, contados: I – do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; O lançamento só poderia ter sido efetuado, para cada competência lançada, a partir da data limite para entrega da declaração. Desta forma, o marco inicial para a contagem do prazo decadencial de 5 anos é o dia 1º de janeiro do ano seguinte ao da data limite para entrega no prazo da GFIP. Verifica-se no caso em questão, que a ciência pelo interessado do documento de lançamento se deu, de forma regular, para a competência mais antiga, antes da ocorrência da decadência do direito de a Fazenda Publica efetuar o lançamento do crédito. Se não ocorreu a decadência nem para a competência mais antiga, também não ocorreu para as demais. Intimação prévia ao lançamento A respeito da alegação do recorrente da inocorrência de intimação prévia ao lançamento, a mesma não procede e não tem o condão de afastar a multa aplicada. A ação fiscal é um procedimento de natureza inquisitória, onde o fiscal, ao entender que está em condições de identificar o fato gerador e demais elementos que lhe permitem formar sua convicção e constituir o lançamento, não necessita intimar o sujeito passivo para esclarecimentos ou prestação de informações. Não é a intimação prévia exigência legal para o lançamento do crédito. Nesse sentido a Súmula nº 46 deste CARF: Fl. 42DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 2001-001.747 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10640.723142/2015-51 Súmula CARF nº 46: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. O art. 32-A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, determina a necessidade da intimação apenas nos casos de não apresentação da declaração e a apresentação com erros ou incorreções. Na situação em comento, a infração de entrega em atraso da GFIP é fato em tese verificável de plano pelo auditor fiscal, a partir dos sistemas internos da Receita Federal, ficando a seu critério a avaliação da necessidade ou não de informação adicional a ser prestada pelo contribuinte. Não há aqui que se falar em cerceamento do direito de defesa ou ofensa ao princípio do contraditório. O contencioso administrativo só se instaura com a apresentação da impugnação pelo sujeito passivo, ocasião em que ele exerce plenamente sua defesa, o que lhe é facultado após a ciência pelo interessado do documento de lançamento, tudo na observância do devido processo legal. Ante o exposto, REJEITO as preliminares suscitadas no recurso e passo à apreciação do mérito. MÉRITO Denúncia espontânea Da Instrução Normativa RFB nº 971 de 2009: Art. 472. Caso haja denúncia espontânea da infração, não cabe a lavratura de Auto de Infração para aplicação de penalidade pelo descumprimento de obrigação acessória. Parágrafo único. Considera-se denúncia espontânea o procedimento adotado pelo infrator que regularize a situação que tenha configurado a infração, antes do início de qualquer ação fiscal relacionada com a infração, dispensada a comunicação da correção da falta à RFB. O art. 472 da IN RFB nº 971/2009, estabelece, como regra geral, que não é aplicada multa por descumprimento de obrigação acessória, caso haja denúncia espontânea da infração. O parágrafo único do dispositivo esclarece o que se considera denúncia espontânea para tal fim: procedimento adotado pelo infrator, antes de qualquer ação do Fisco, que regularize a situação que tenha configurado a infração. No caso da multa por atraso, uma vez ocorrida a entrega da declaração fora do prazo, tem-se configurada a infração (entrega em atraso) em caráter irremediável. Já o art. 476 da mesma IN RFB nº 971/2009 trata especificamente da aplicação das multas por descumprimento da obrigação acessória prevista no inciso IV do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, relativas à GFIP e, em Fl. 43DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 2001-001.747 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10640.723142/2015-51 seu inciso II, letra ‘b’, especificamente da multa aplicável, para a GFIP, no caso de “falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo”. Assim sendo, a aplicação da multa por atraso na entrega da GFIP é legal conforme especificamente regulada pelo art. 32-A da Lei nº 8.212, de 1991, e art. 476 da IN RFB nº 971, de 2009. A matéria já foi inclusive sumulada pelo CARF: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Desta forma, não procede a pretensão do recorrente de exclusão da multa com base na denúncia espontânea. Da multa aplicada A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional (art. 142 do CTN, parágrafo único). Logo, constatada a infração, no caso o atraso na entrega da GFIP, a autoridade fiscal não só está autorizada como obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa prevista na legislação que rege a matéria, sem emitir juízo de valor acerca da sua constitucionalidade ou de eventual afronta em tese a princípios do direto administrativo e constitucional ou de outros aspectos de sua validade. No caso em comento, a multa é exigida em função do não cumprimento no prazo da obrigação acessória, e sua aplicação independe do cumprimento da obrigação principal, da condição pessoal ou da capacidade financeira do autuado, da existência de danos causados à Fazenda Pública ou de contraprestação imediata do Estado. A multa é aplicada, por meio do mesmo documento de lançamento, por cada GFIP entregue em atraso no período fiscalizado, não havendo que se falar em infração continuada. Os valores são aplicados conforme definidos na lei, verificados os limites mínimos os quais independem do valor da contribuição devida. Também não cabe no caso invocar alteração de critério de atuação do Fisco para afastar a multa imposta. A correspondente alteração legislativa ocorreu já no início de 2009, com a inserção do art.32-A da Lei nº 8.212, de 1991, no arcabouço jurídico pela Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008, posteriormente convertida na Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, alterando a sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP, em especial com a previsão de aplicação da multa por atraso na entrega de GFIP, até então inexistente. A alteração em critérios do Fisco é legal se respaldada por correspondente alteração na legislação correlata. Jurisprudência Fl. 44DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 2001-001.747 - 2ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10640.723142/2015-51 No que se refere à jurisprudência citada, por falta de lei que lhe atribua eficácia normativa, não constitui norma geral de direito tributário decisão judicial ou administrativa que produz efeito apenas em relação às partes que integram o processo (art. 100 do CTN – Parecer Normativo CST nº 23, publicado no DOU de 9 de setembro de 2013). CONCLUSÃO: Por todo o exposto, voto por CONHECER do Recurso Voluntário, REJEITAR a preliminar suscitada e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO, conforme acima descrito. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que as razões de decidir nela consignadas são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, negar provimento ao Recurso Voluntário. (assinado digitalmente) Honório Albuquerque de Brito Fl. 45DF CARF MF Documento nato-digital
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Numero do processo: 10850.724446/2015-61
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano-calendário: 2010
AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO.
Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega.
LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46.
O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49.
A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração.
INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 2002-002.617
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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M. COSTA DOS SANTOS RIO PRETO Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Ano-calendário: 2010 AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 72 44 46 /2 01 5- 61 Fl. 69DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-002.617 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10850.724446/2015-61 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de Auto de Infração lavrado em nome do sujeito passivo acima identificado, onde se apurou a Multa por Atraso na Entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pelo Colegiado a quo. Cientificado do acórdão de primeira instância, o interessado ingressou com Recurso Voluntário com os argumentos a seguir sintetizados. - Alega a ocorrência de denúncia espontânea, conforme entendimento da Receita Federal constante da IN 971/09 e do Manual da GFIP/SEFIP. - Aduz que a multa em exame deveria observar os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. - Sustenta que não houve intimação do contribuinte omisso, como determina expressamente o art. 32-A da Lei 8.212/91, nem tampouco a imposição da multa no momento do recebimento da GFIP em atraso ou nos anos seguintes, tendo o fisco efetuado o lançamento nos estertores da decadência tributária. - Entende que a suposta infração de natureza acessória alcançou seu objetivo de forma plena e eficaz ante o pagamento integral do tributo consignado na GFIP antes de qualquer iniciativa fiscal. - Expõe que, ainda que tenha obedecido à regra da competência legislativa e tenha respeitado o processo legislativo, a lei será inconstitucional se atentar contra o princípio da razoabilidade. - Suscita o caráter confiscatório da multa aplicada. - Afirma que houve violação ao art. 146 do CTN. - Ressalta que não houve prejuízo ao erário, considerando que os encargos foram devidamente recolhidos. - Assevera que as multas aplicadas contrariam a jurisprudência administrativa e judicial. Fl. 70DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-002.617 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10850.724446/2015-61 Voto Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. No que concerne à ausência de intimação prévia ao lançamento, aplica-se o disposto na Súmula CARF nº 46, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). O previsto no art. 32-A da Lei nº 8.212/91 não contraria este entendimento. A intimação prévia somente será realizada quando for necessária, ou seja, quando a autoridade fiscal não dispuser de elementos suficientes para efetuar o lançamento, o que não se verifica no caso em tela, uma vez que se trata de multa pelo atraso na entrega de GFIP sem apuração de incorreções em seu conteúdo. Relativamente à alegação de denúncia espontânea, deixo de tecer maiores considerações haja vista o entendimento consolidado na Súmula CARF n° 49, também vinculante em relação à Administração Tributária Federal: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Quanto à infração apurada, equivoca-se o recorrente ao entender que a mesma poderia ser afastada em razão do pagamento integral do tributo consignado na GFIP. De acordo com o art. 32-A, II, da Lei 8.212/91, a multa incide sobre o montante das contribuições previdenciárias informadas no documento ainda que tenham sido integralmente pagas pelo contribuinte. A exigência da penalidade independe de sua capacidade financeira ou da existência de danos causados à Fazenda Pública. Também não há que se falar em alteração nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa e violação do art. 146 do Código Tributário Nacional - CTN. A alteração na sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP ocorreu com a inclusão do art.32-A da Lei Fl. 71DF CARF MF Documento nato-digital https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-002.617 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10850.724446/2015-61 8.212/91 pela Lei 11.941/09, ou seja, anteriormente ao ano calendário que aqui se examina. Vale lembrar que, segundo o art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicação das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Quanto aos questionamentos acerca da violação aos princípios constitucionais e do caráter confiscatório da multa, importa reproduzir o disposto na Súmula CARF n° 2, de observância obrigatória por seus Conselheiros no julgamento dos Recursos: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Cabe mencionar, por fim, que as decisões trazidas pelo recorrente somente vinculam as partes envolvidas naqueles litígios, não podendo ser estendidas genericamente a outros casos. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 72DF CARF MF Documento nato-digital
score : 1.0
Numero do processo: 11516.723761/2015-34
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Mon Mar 09 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano-calendário: 2010
AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO.
Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega.
AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO.
O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. Súmula CARF nº 46.
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO. PENALIDADE.
As penalidades por descumprimento de obrigações acessórias autônomas não estão alcançadas pelo instituto da denúncia espontânea grafado no art. 138, do Código Tributário Nacional. Súmula CARF nº49.
INCONSTITUCIONALIDADE.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Súmula CARF nº2.
Numero da decisão: 2002-002.281
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 11516.723760/2015-90, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(assinado digitalmente)
Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. Súmula CARF nº 46. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. ATRASO NA ENTREGA DA DECLARAÇÃO. PENALIDADE. As penalidades por descumprimento de obrigações acessórias autônomas não estão alcançadas pelo instituto da denúncia espontânea grafado no art. 138, do Código Tributário Nacional. Súmula CARF nº49. INCONSTITUCIONALIDADE. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Súmula CARF nº2. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 11516.723760/2015-90, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 51 6. 72 37 61 /2 01 5- 34 Fl. 42DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-002.281 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 11516.723761/2015-34 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2019, e, dessa forma, adoto neste relatório excertos do relatado no Acórdão nº 2002-002.276, de 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata o presente processo de auto de infração consubstanciando exigência referente à multa por atraso na entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, prevista no artigo 32-A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação da Lei nº 11.941, de 2009. Cientificada da decisão do colegiado de primeira instância, a qual julgou improcedente a impugnação, a empresa apresentou recurso voluntário, alegando, em síntese: cumprimento de forma espontânea da obrigação acessória; decadência do crédito exigido; caráter arrecadatório da multa, sem avaliação da oportunidade e conveniência de sua aplicação; ausência de intimação prévia e fiscalização orientadora; violação ao princípio constitucional do não confisco. Voto Conselheira Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-002.276, de 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão. O recurso é tempestivo e atende aos requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Quanto à alegação de decadência, impõe-se observar que nos casos de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária o prazo para a constituição do crédito tributário extingue-se em cinco anos contados do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado, conforme previsto no art. 173, I, do Código Tributário Nacional - CTN. É nesse sentido a Súmula CARF n° 148, de observância obrigatória pelos Conselheiros no julgamento dos Recursos: No caso de multa por descumprimento de obrigação acessória previdenciária, a aferição da decadência tem sempre como base o art. 173, I, do CTN, ainda que se verifique pagamento antecipado da obrigação principal correlata ou esta tenha sido fulminada pela decadência com base no art. 150, § 4º, do CTN. Tomando-se o ano-calendário de 2010, cuja competência mais antiga deveria ser apresentada até 05/02/2010, o lançamento só poderia ser efetuado após o vencimento do prazo, ou seja, a partir de 06/02/2010. Logo, inicia-se a contagem do prazo decadencial em 1º de janeiro de Fl. 43DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-002.281 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 11516.723761/2015-34 2011, encerrando-se em 31 de dezembro de 2015. Para o ano-calendário 2011, o prazo decadencial encerraria em 31 de dezembro de 2016. Dessa feita, não procede a preliminar de decadência suscitada. Como relatado, discute-se nestes autos a exigência referente à multa por atraso na entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP, prevista no artigo 32-A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação da Lei nº 11.941, de 2009. Esclareço que a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de responsabilidade funcional (art. 142 do CTN, parágrafo único). Assim, constatado o atraso ou a falta na entrega da declaração/demonstrativo, a autoridade fiscal não só está autorizada como, por dever funcional, está obrigada a proceder ao lançamento de ofício da multa pertinente. Ressalto ainda que a responsabilidade por infrações da legislação tributária é objetiva, não dependendo da intenção do agente e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato, nos termos do art. 136 do CTN. A exigência da penalidade independe da capacidade financeira ou de existência de danos causados à Fazenda Pública. Ela é exigida em função do descumprimento da obrigação acessória. No tocante à alegação de espontaneidade na entrega da Declaração, trago a Súmula CARF nº 49, de observância obrigatória por este colegiado: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. Quanto à alegação de falta de intimação prévia ao lançamento, no caso em tela, não houve necessidade dessa intimação, pois a autoridade autuante dispunha dos elementos necessários à constituição do crédito tributário devido. A prova da infração é a informação do prazo final para entrega da declaração e da data efetiva dessa entrega, a qual constou do lançamento. As disposições insertas no art. 32-A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, não contrariam o entendimento manifestado acima. Em nenhum momento há imposição de prévia intimação ao lançamento tributário. A intimação que antecede a constituição do crédito tributário somente será realizada se necessária, visando suprir o lançamento daqueles elementos previstos em lei e sem os quais ele poderia resultar ineficaz. Nesse sentido, é o que dispõe a Súmula CARF nº 46: Súmula CARF nº 46 O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. Acrescento que o artigo 55, da Lei nº123, de 2006, trata de fiscalizações trabalhistas, sanitárias, de segurança, de relações de consumo, entre Fl. 44DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-002.281 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 11516.723761/2015-34 outras, não se aplicando ao processo administrativo fiscal relativo a tributos, conforme explicitado em seu §4º. Quanto às alegações de violação a princípios constitucionais, não cabe tal discussão na esfera administrativa de julgamento, prevalecendo a vinculação à lei, que conduz à obrigatoriedade de observância e aplicação das normas regularmente editadas. Acrescento a Sumula CARF nº2, de observância obrigatória por este colegiado: Súmula CARF nº 2 O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Quanto à menção ao RE 582.461, observo que, entre outros temas, o STF apreciou na decisão a aplicação da multa moratória de 20%, por recolhimentos de tributos a destempo, que não se confunde com a multa exigida nestes autos, de multa por atraso na entrega da GFIP. Pelo exposto, voto por rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, por negar provimento ao recurso voluntário. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de rejeitar a preliminar suscitada no recurso e, no mérito, em negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 45DF CARF MF Documento nato-digital
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Numero do processo: 10980.006615/2003-68
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Sep 29 00:00:00 UTC 2010
Ementa: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP
Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003
PRELIMINAR. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NEGATIVA DE PROVA PERICIAL. AUSÊNCIA DE REQUISITOS LEGAIS. PRESCINDIBILIDADE.
Considera-se não formulado o pedido de perícia que não atenda aos requisitos legais. Ademais, o indeferimento de prova pericial prescindível guarda consonância com o ordenamento jurídico, inexistindo assim cerceamento do direito de defesa.
TESES E PEDIDOS. PROCESSO DIVERSO. NÃO CONHECIMENTO.
Não se toma conhecimento de teses suscitadas e pedidos formulados relativos a outro processo administrativo em curso.
COMPENSAÇÃO INDEVIDA. TRIBUTO NÃO CONFESSADO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO.
Verificada a compensação indevida de tributo ou contribuição não lançado de ofício nem confessado, deve ser promovido, consoante legislação vigente à época, o lançamento de ofício do crédito tributário, não se aplicando, no presente caso, a suspensão da exigibilidade introduzida posteriormente pela Lei nº 10.833/03 que deu nova redação ao artigo 74 da Lei nº 9.430/96.
MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA.
Afasta-se a multa de oficio, aplicada no patamar de 75%, por força do princípio da retroatividade benigna.
RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO.
Numero da decisão: 3802-000.271
Decisão: ACORDAM os membros da 2ª Turma Especial da Terceira Seção de
Julgamento, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso para dar-lhe provimento apenas para excluir a multa de lançamento de ofício de 75%. Vencido o Conselheiro Adélcio Salvalágio unicamente no ponto em que, de ofício, reconhecia a
suspensão da exigibilidade do crédito tributário em razão do respectivo processo de compensação ainda em curso.
Nome do relator: Francisco José Barroso Rios Redator ad hoc
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Recorrida DRJ de Curitiba/PR ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2003 a 31/03/2003 PRELIMINAR. INEXISTÊNCIA DE CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NEGATIVA DE PROVA PERICIAL. AUSÊNCIA DE REQUISITOS LEGAIS. PRESCINDIBILIDADE. Considerasenão formulado o pedido de perícia que não atenda aos requisitos legais. Ademais, o indeferimento de prova pericial prescindível guarda consonância com o ordenamento jurídico, inexistindo assim cerceamento do direito de defesa. TESES E PEDIDOS. PROCESSO DIVERSO. NÃO CONHECIMENTO. Não se toma conhecimento de teses suscitadas e pedidos formulados relativos a outro processo administrativo em curso. COMPENSAÇÃO INDEVIDA. TRIBUTO NÃO CONFESSADO. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. Verificada a compensação indevida de tributo ou contribuição não lançado de ofício nem confessado, deve ser promovido, consoante legislação vigente à época, o lançamento de ofício do crédito tributário, não se aplicando, no presente caso, a suspensão da exigibilidade introduzida posteriormente pela Lei nº 10.833/03 que deu nova redação ao artigo 74 da Lei nº 9.430/96. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. Afastase a multa de oficio, aplicada no patamar de 75%, por força do princípio da retroatividade benigna. RECURSO VOLUNTÁRIO PARCIALMENTE CONHECIDO E PROVIDO Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 1DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 99 2 ACORDAM os membros da 2ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento, por unanimidade de votos, conhecer parcialmente do recurso para darlhe provimento apenas para excluir a multa de lançamento de ofício de 75%. Vencido o Conselheiro Adélcio Salvalágio unicamente no ponto em que, de ofício, reconhecia a suspensão da exigibilidade do crédito tributário em razão do respectivo processo de compensação ainda em curso. (assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda Presidente (assinado digitalmente) Francisco José Barroso Rios Redator ad hoc (art. 17, inciso III, do Anexo II do RICARF) EDITADO EM: 14/11/2011 Participaram, ainda, da presente sessão de julgamento, os Conselheiros Adélcio Salvalágio (Relator), Alex Oliveira Rodrigues de Lima, Mara Cristina Sifuentes e Tatiana Midori Migiyama. Relatório O Relatório abaixo foi apresentado pelo Conselheiro Adélcio Salvalágio na sessão em que houve o julgamento do feito: Tratase de processo administrativo instaurado, na data de 26/01/2007 (fl. 01), por Material para Cobertura Irka Ltda., buscando a anulação do auto de infração de fls. 2325. Por descrever satisfatoriamente os acontecimentos até aquela fase do feito, adoto parte do relatório da decisão da DRJ, ora recorrida: “Trata o presente processo de auto de infração, às fls. 21/26, pelo qual se exige o recolhimento de R$ 2.433,20 de contribuição para o Programa de Integração Social PIS e R$ 1.824,88 de multa de lançamento de oficio de 75%, essa segundo a previsão do art. 86, § 1°, da Lei n° 7.450, de 23 de dezembro de 1985, e art. 2° da Lei n° 7.683, de 02 de dezembro de 1988, e art. 44, I, da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, além dos acréscimos legais. A autuação, lavrada 16/07/2003 e cientificada em 25/07/2003 (fl. 23), ocorreu devido à falta de recolhimento da contribuição para o PIS dos períodos de apuração de 01/01/2003 a 31/03/2003, conforme demonstrativo de apuração de fl. 21 e de multa e juros de mora de fls. 22, tendo como fundamento legal: art. 1° e 3° da Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970; art. 2°, I, 3°, 8°, I, e 9° da Lei n° 9.715, de 25 de novembro de 1998; art. 2° e 3° da Lei n° 9.718/98. À fl. 24, na Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal, é descrito que os valores devidos e não recolhidos foram objetos de Declaração de Fl. 2DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 100 3 Compensação através do Processo n° 10980.004499/200342, relativo a pagamento a maior ou indevido do PIS no período de janeiro a março de 1993 (fls. 58/59), sendo que, conforme Despacho Decisório de fls. 60/62, e ciência da contribuinte em 03/07/2003 (fl. 63), a referida Declaração de Compensação NÃO FOI HOMOLOGADA, tendo em vista o instituto da PRESCRIÇÃO previsto nos artigo 165, I, II e III e 168,1 e II, do Código Tributário Nacional e Ato Declaratório SRF n° 96/1999. Diante disso, foram consideradas indevidas as vinculações declaradas em DCTF (fls. 16/18), bem como devidos os correspondentes débitos.” (fl. 65). Como se vê, a recorrente solicitou, por meio do processo n° 10980.004499/200342, restituição seguida de compensação, cujos CRÉDITOS pleiteados, relativos ao PIS, pretendia compensar com DÉBITOS também do PIS dos períodos de apuração nos meses de janeiro à março/2003. Porém, a restituição foi indeferida nos termos do despacho decisório, sem número, constante nas fls. 79 destes autos, não se reconhecendo o direito creditório postulado, por conta da prescrição. Nesse contexto, o Fisco, de ofício (fl. 241), promoveu o lançamento, representado pelo auto de infração, para cobrança do PIS dos períodos de apuração nos meses de janeiro à março/2003, acrescido de multa e juros de mora. Insatisfeita, a empresa protocolou a impugnação de fls. 2756, postulando, em síntese, a anulação do lançamento, redução da multa e, eventualmente, a realização de perícia. Apreciandoa, a 3a Turma da DRJ de Curitiba/PR, através do acórdão de fls. 6471, negou provimento, mantendose o auto de infração. O Acórdão recorrido estribase no entendimento de que “uma vez não homologadas as compensações, pela autoridade administrativa competente, no instrumento próprio, temse o pressuposto, em âmbito administrativo, de que é indevida a pretensão de compensação. Mesmo que contra a nãohomologação, no processo correspondente, haja a possibilidade de apresentação de manifestação de inconformidade, não há, administrativamente, o reconhecimento do direito creditório que confira à compensação o efeito de satisfazer o crédito fiscal de PIS tornandose obrigatória, por dever de oficio, nos termos do art. 142 e parágrafo único do CTN, A ATIVIDADE ADMINISTRATIVA DE LANÇAMENTO, instrumento adequado para a Fazenda Pública garantir o interesse coletivo consubstanciado na exigência fiscal” (fl. 68). Noutras palavras, para a DRJ, tendo sido recusado o pleito de restituição e, por conseguinte, a compensação buscada, é cabível o lançamento de ofício para constituir o crédito tributário compensado indevidamente. Também ponderou que “as contrariedades dirigidas às razões do despacho decisório de não homologação de compensação, devem ser apresentadas no processo administrativo correspondente, não podendo ser providas em sede de impugnação de lançamento de oficio por falta de recolhimento” (fl. 64). Quanto a multa, anotou que “presentes os pressupostos de exigência, cobrase multa de oficio pelo percentual legalmente” (fl. 64). E, finalmente, no tocante ao pedido de perícia, considerouo como “não formulado”, vez que “não atende aos requisitos legais” (fl. 64). 1. Fl. 24: “Assim, procedemos o lançamento de oficio, conforme auto de infração lavrado nesta data com os devidos acréscimos legais”; Fl. 3DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 101 4 A recorrente foi intimada a pagar o débito ou recorrer (fls. 724). Apresentou, então, o recurso voluntário de fls. 7593. Sustenta, repisando em linhas gerais o que defendeu na impugnação, que: (i) PRELIMINARMENTE, informa que postulou, na “peça exordial perícia técnica, sob a forma de exame em sua documentação fiscal, a qual foi colocada à disposição do Julgador, com o fito de demonstrar os cálculos efetuados, bem como os índices utilizados para fins de correção monetária dos valores adjudicados. Entretanto, tal requerimento não recebeu acolhimento” (fl. 76). Diante disso, advogou nulidade do julgamento de 1a instância, por cerceamento do direito de defesa, diante do indeferimento do pedido de perícia; NO MÉRITO, (ii) inexistência de prescrição dos créditos declarados na compensação, porquanto o prazo para a recuperação de indébitos relativos a tributos lançados por homologação (PIS) seria de 10 anos (tese dos 5 + 5); (iii) os créditos tributários, objeto da compensação, são devidos, pois decorrem do período de janeiro a março de 1993, quando recolheu a contribuição ao PIS “tomando como base de cálculo a receita bruta operacional, nos termos dos Decretoslei n° 2.445 e 2.449, de 1988, declarados inconstitucionais pelo Colendo Supremo Tribunal Federal com a confirmação do Senado Federal (Resolução n. 49) ao invés de têla recolhido sobre o faturamento do 6° mês anterior, de acordo com a Lei Complementar n. 07, de 1970.”( fl. 86); (iv) possui direito à compensação, tendo seguindo fielmente os procedimentos ditados na legislação ao formalizar o processo n° 10980.004499/200342 (processo da compensação). E que, “em razão do recolhimento indevido de PIS, cobrado sob a imposição dos já citados DecretosLei inconstitucionais, procedeu a Recorrente à compensação deste valor pago a maior de PIS com débito do próprio PIS, nos termos da nova legislação que rege a matéria” (fl. 8990); (v) impertinência da multa aplicada, no percentual de 75%, tratandose de um confisco; FINALIZA, pedindo o acolhimento do recurso, para anular a decisão recorrida, determinando o retorno dos autos à 1a instância para a realização da perícia e posterior continuidade do feito; OU caso, afastada a preliminar, que seja, então, dado provimento ao recurso para cancelar o auto de infração; OU, que seja reformada a decisão para afastar a multa de 75% ou, quando menos, reduzila para uma patamar aceitável (fl. 93). É O SUCINTO RELATO. Voto Vencido Conselheiro Francisco José Barroso Rios, redator ad hoc designado para formalizar a decisão, uma vez que o Conselheiro Relator, Adélcio Salvalágio, não mais compõe este colegiado, retratando hipótese de que trata o artigo 17, inciso III, do Anexo II, do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009: Fl. 4DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 102 5 Abaixo reproduzo integralmente voto apresentado pelo Conselheiro Relator na sessão do dia 29 de setembro de 2010, entendimento que não foi acompanhado pelos demais conselheiros somente quanto à suspensão da exigibilidade do crédito tributário, nos termos do acórdão correspondente e do voto vencedor do Conselheiro Regis Holanda, colacionado na sequência: “Conselheiro ADÉLCIO SALVALÁGIO, Relator Cuidase de recurso voluntário aparelhado contra acórdão da 3a Turma da DRJ de Curitiba/PR, que, por unanimidade de votos, manteve o lançamento representado pelo auto de infração de fls. 235. O recurso é tempestivo, consoante registra certidão de fl. 97, e satisfaz os requisitos formais de admissibilidade. Portanto, dele conheço em parte. Colhese dos autos que a recorrente, através de outro processo, que tramita pelo n° 10980.004499/200343, postulou o reconhecimento de crédito tributário, decorrente de contribuições ao PIS, indevidamente recolhidas ou pagas a maior (fl. 24), no período de apuração de janeiro a marco de 1993. Afirmou que este crédito, ainda que parcialmente, se destinaria a compensar o débito também da Contribuição ao PIS dos períodos de apuração dos meses de janeiro a março/2003. Todavia, a DRF de Curitiba/PR, pelas razões contidas no despacho decisório, sem número, de fls. 79, indeferiu a compensação, ao entendimento de que teria se operado a prescrição. Verbis: “Considerandose as normas acima e tendo em vista que a presente Declaração de Compensação foi protocolada em 08/05/2003, e levandose em conta o instituto da prescritibilidade, há que se observar se os créditos passíveis de compensação conexos com a declaração em análise, não estavam prescritos à época da protocolização da Declaração sob pena de sua não homologação. (...) A análise dos DARF'S anexados ao processo conexos com a alegação do interessado revela que os documentos de arrecadação DARF’S código 6120 FINSOCIAL já estavam PRESCRITOS à data de protocolização da Declaração de Compensação.” (fl. 8). Indeferido o pedido de compensação, a autoridade fiscal, de ofício (fl. 24), lavrou o auto de infração ora atacado (fls. 235), promovendo o lançamento para cobrança da contribuição ao PIS, relativa aos períodos de apuração nos meses de janeiro a março/2003, acrescida da multa ofício de 75% e juros de mora. No recurso voluntário de fls. 7593, suscitamse preliminar e teses de mérito. Analisemos separadamente cada uma. I DA PRELIMINAR Informa a recorrente que postulou, na “peça exordial perícia técnica, sob a forma de exame em sua documentação fiscal, a qual foi colocada à disposição do Julgador, com o fito de demonstrar os cálculos efetuados, bem como os índices utilizados para fins de Fl. 5DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 103 6 correção monetária dos valores adjudicados. Entretanto, tal requerimento não recebeu acolhimento” (fl. 76). Diante disso, advogou nulidade do julgamento de 1a instância, por cerceamento do direito de defesa, diante do indeferimento do pedido de perícia. Tenho que não lhe assiste razão. A propósito, essa questão restou analisada com propriedade na decisão recorrida e, por espelhar também meu entendimento, adotoa, nesse trecho, como razões de decidir: “No que tange à solicitação de prova pericial, o inciso IV, do art. 16, do Decreto n° 70.235, de 1972, com a redação dada pelo art. 1° da Lei n.° 8.748, de 9 de dezembro de 1993, determina seus requisitos essenciais, ao passo que o § 1° do mesmo art. 16 estabelece que se considera não formulado o pedido que não atender a tais requisitos: ‘Art. 16. A impugnação mencionará: (...) IV as diligência, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que a justifiquem, com a formulação de quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificarão profissional de seu perito; (...) § 1°. Considerarseá não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16. (...)’ (Grifouse) No caso, não identificado, como determina a norma, o perito da parte interessada, devese, em rigor, considerar nãoformulado o pedido de perícia. Outrossim, observase que o pedido da interessada é dirigido à confirmação da materialidade da compensação que alega, portanto, conforme já foi esclarecido, consiste em matéria a ser discutida no Processo Administrativo Fiscal n° 10980.004499/200342. Ressaltese, ainda, que dentre os quesitos a serem respondidos em procedimento de perícia, a autuada pretende seja indicado o momento a partir do qual a fiscalização começou a aplicar índices de atualização monetária no cálculo do montante do crédito tributário apurado no presente auto de infração, e, ainda, se está havendo cumulação de juros no montante sob exame. Tais quesitos, todavia, são facilmente respondidos pelos demonstrativos integrantes do auto de infração em apreço (fls.21/22), que evidenciam a inexistência de atualização monetária dos débitos em litígio, bem como, por previsão legal, a cobrança de juros de mora com base na taxa SELIC, não cabendo, portanto, em âmbito administrativo, ponderar sobre o critério de cálculo utilizado na forma aplicada por determinação legal” (fls. 701). Fl. 6DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 104 7 De fato, o Decreto n° 70.235/72 (PAF), no art. 16, IV, expõe os requisitos do pedido de perícia. Este dispositivo anota que a impugnação mencionará as diligências, ou perícias que o impugnante pretenda sejam efetuadas, expostos os motivos que as justifiquem, com a formulação dos quesitos referentes aos exames desejados, assim como, no caso de perícia, o nome, o endereço e a qualificação profissional do seu perito. Contudo, no caso em testilha, não se avista pedido de perícia, que respeite os contornos da norma, formulado em 1° instância, juntamente com a impugnação. Nessa esteira, preconiza o § 1°, do referido dispositivo, que se considerara “não formulado o pedido de diligência ou perícia que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do artigo 16”. Como já se decidiu, “é de se indeferir a solicitação de diligência que deixar de atender aos requisitos previstos no inciso IV do art. 16 do Decreto nº 70.235/72”2. Nesse contexto, ao contrário do entendimento da recorrente, não se avista cerceamento ao seu direito de defesa. Vale dizer, o indeferimento da perícia em nada prejudicou sua defesa. Até porque, considerando que a análise técnica se destinava, basicamente, a examinar “sua documentação fiscal”, nada impedia que, por conta própria, tivesse trazidoa aos autos. Assim, afastase a preliminar. II NO MÉRITO TESES NÃO CONHECIDAS De início, consigno que não se pode tomar conhecimento, no caso em julgamento, das teses suscitadas pela recorrente no tocante a: (i) não ocorrência da prescrição dos créditos declarados na compensação (tese dos 5 + 5); (ii) regularidade da origem dos créditos tributários; (iii) possuir direito à compensação, tendo seguindo fielmente os procedimentos ditados na legislação ao formalizar o processo n° 10980.004499/200342. Essa discussão, por óbvio, é objeto do processo n° 10980.004499/200342. Logo, apreciála também aqui importa, claramente, em conhecer e analisar o mesmo pedido, em demandas distintas e concomitantemente em curso. A norma processual civil, que a meu sentir se aplica supletivamente aos processos administrativos, reconhece nesses casos a figura da litispendência. Vale dizer, no direito pátrio não se admite a multiplicidade de ações com a mesma natureza. Identificada a ocorrência, a ação posterior não é conhecida (CPC, arts. 267, V e 301). Portanto, tenho que nesse particular andou com acerto a decisão recorrida, ao registrar que não conheceria esta matéria. Verbis: “As contrariedades dirigidas às razões do despacho decisório de não homologação de compensação, devem ser apresentadas no processo administrativo correspondente, não podendo ser providas em sede de impugnação de lançamento de oficio por falta de recolhimento” (fl. 64). DA MULTA APLICADA 2. RV n° 125.921, no processo n° 10120.001553/9647; Fl. 7DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 105 8 Insurgese a recorrente contra a multa de ofício imposta no patamar de 75%, entendendo que é ilegal já que caracteriza confisco. A multa deve ser afastada, ainda que por razões diversas. A decisão da DRJ, nesse ponto, consigna que: “Em relação à multa de oficio, o fundamento legal de regência, art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996, expressa e objetivamente, prevê: ‘Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributo ou contribuição: I de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, pagamento ou recolhimento após o vencimento do prazo, sem o acréscimo de multa moratória, de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; II cento e cinqüenta por cento, nos casos de evidente intuito de fraude, definido nos artigos 71, 72 e 73 da Lei n. 4.502, de 30 de novembro de 1964, independentemente de outras penalidades administrativas ou criminais cabíveis.’ Assim, a multa aplicada calculada sobre o valor de contribuição cuja falta de recolhimento se apurou, hipótese tipificada, necessária e suficiente está em consonância com a legislação que rege a matéria, sendo o percentual de 75% o legalmente previsto, independentemente da caracterização de dolo ou culpa. Da mesma forma que em relação ao lançamento da contribuição, a aplicação da multa de oficio é devida, porquanto, em que pese a pretensão de compensação, por meio dela não se extinguiu o crédito tributário, em face do nãoreconhecimento do crédito submetido à autoridade administrativa competente, restando presente a falta de recolhimento, pressuposto legal da penalidade. E por conta do caráter vinculado da atividade fiscal, quaisquer pedidos ou alegações que ultrapassem a análise de conformidade do ato administrativo de lançamento com as normas legais vigentes como as suposições relativas a confisco somente podem ser reconhecidos pela via competente, o Poder Judiciário. Sintetizando, em procedimento administrativo fiscal, basta, ao convencimento da autoridade julgadora, a norma jurídica vigente e apta a incidir (eficácia potencial); se válida ou não, já é questionamento a ser apreciado pelo judiciário e, mesmo assim, para que a tutela beneficie a contribuinte deve ser ela parte interessada na contenda judicial ou, se não, deve referida tutela emanar, em última análise, do Supremo Tribunal Federal, segundo os termos do Decreto n° 2.346, de 1997” (fls. 6970). Contudo, em face do princípio da retroatividade benigna, previsto no art. 106, II, alínea “c”, do CTN, é cabível a exoneração da multa de ofício. Fl. 8DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 106 9 Sirvome dos fundamentos constantes do Acórdão n° 1414.742 da 4a Turma, da DRJ de Ribeirão Preto/SP, em julgamento de 26/01/2007, proferido nos autos do processo n° 13888.001401/200341, da empresa Silveira Distribuidora de Calçados Ltda: “No tocante à multa lançada, a legislação tributária vigente à época do lançamento determinava o lançamento de oficio das diferenças de tributos declarados como extintos ou suspensos, cuja extinção/suspensão não houvesse sido comprovada, conforme disposto no art. 90 da Medida Provisória (MP) n°2.15835, de 2001, que assim estabelece: Art. 90. Serão objeto de lançamento de oficio as diferenças apuradas, em declaração prestada pelo sujeito passivo decorrentes de pagamento, parcelamento, compensação ou suspensão de exigibilidade, indevidos ou não comprovados, relativamente aos tributos e às contribuições administrados pela Secretaria da Receita Federal. Por conseguinte, constatadas as irregularidades de recolhimento/declaração de tributos e contribuições administrados pela SRF, caberia à fiscalização efetuar o lançamento da importância não recolhida, aplicando a multa de oficio prevista no inciso I do art. 44 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, a seguir reproduzido: Art. 44. Nos casos de lançamento de oficio, serão aplicadas as seguintes multas, calculadas sobre a totalidade ou diferença de tributos ou contribuição. 1 de setenta e cinco por cento, nos casos de falta de pagamento ou recolhimento após o vencimento do premo, sem o acréscimo de multa moratória de falta de declaração e nos de declaração inexata, excetuada a hipótese do inciso seguinte; Cumpre observar, todavia, o entendimento da Secretaria da Receita Federal, de que no julgamento dos processos pendentes, cujo crédito tributário tenha sido constituído com base no art. 90 da MP n° 2.15835, as multas de oficio exigidas juntamente com as diferenças lançadas devem ser exoneradas pela aplicação retroativa do caput do art. 18 da Lei n° 10.833, de 29 de dezembro de 2003, desde que essas penalidades não tenham sido fundamentadas nas hipóteses versadas no caput desse artigo: Art. 18. O lançamento de oficio de que trata o art. 90 da Medida Provisória n° 2.15835, de 24 de agosto de 2001, limitarseá à imposição de multa isolada sobre as diferenças apuradas decorrentes de compensação indevida e aplicar seá unicamente nas hipóteses de o crédito ou o débito não ser passível de compensação por expressa disposição legal, de o crédito ser de natureza não tributária, ou em que ficar caracterizada a prática das infrações previstas nos art. 71 a 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964. A presente irregularidade não caracteriza compensação indevida, conforme as hipóteses previstas no art. 18 da Lei n° 10.833. de 2003, pelo que deixa de ser aplicável a imposição de multa de oficio sobre as diferenças devidas. Assim, em face do principio da retroatividade benigna, consagrado no art. 106, II, c, da Lei n° 5.172, de 25/10/1966 – CTN – há que se proceder à exoneração da multa de oficio aplicada sobre hipótese de incidência que a legislação vigente não mais enquadra como passível de imposição de penalidade”. Fl. 9DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 107 10 O caso acima teve a seguinte ementa, na parte que aqui interessa: “MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. EXONERAÇÃO. Exonerase a multa de oficio imposta sobre diferença apurada cm débito declarado na DCTF, tendo em vista a retroatividade benigna do caput do art. 18 da Lei n°10.833, de 2003” (4a Turma da DRJ de Ribeirão Preto, Acórdão n° 1414.742, julgamento de 26/01/2007, processo n° 13888.001401/200341, Rel. Luis Sérgio Borges Fantacini). A propósito, no mesmo sentido também já decidiu a 2a Turma da DRJ de Compinas/SP, no processo n° 13884.004220/200315: “LANÇAMENTO DE OFÍCIO. MULTA DE OFÍCIO. RETROATIVIDADE BENIGNA. Tratando de lançamento de ofício para a formalização de crédito tributário já informando em declaração capaz de configurar a confissão da dívida, deve ser excluída a multa de ofício, face ao instituto da retroatividade benigna, sempre que não tenha sido verificada a prática das infrações previstas nos arts. 71 a 73 da Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964” (Acórdão DRJ/CPS n° 12.426, de 10 de março de 1006). Importante destacar, para bem evidenciar a aplicação análoga do princípio da retroatividade benigna aos processos aqui destacados, as datas de cada um dos autos de infração: Processo n° Data do auto de infração Órgão julgador 10980.006615/200368 16/07/2003 Caso em julgamento 13888.001401/200341 17/06/2003 4a Turma, DRJ/Ribeirão Preto/SP 13884.004220/200315 15/10/2003 2a Turma, DRJ de Compinas/SP Citase, ainda, decisão do Poder Judiciário: “TRIBUTÁRIO. MULTA ISOLADA. REVOGAÇÃO. ARTIGO 44 DA LEI N° 9.430/96. 1. Da leitura do artigo 44 da Lei n° 9.430/96, na antiga redação e na atual, inferese que houve revogação da penalidade de 75%, relativamente à multa incidente no caso de recolhimento do tributo em atraso, sem o acréscimo de multa (art. 44, § 1°, II). 2. Por força da retroatividade benigna prevista no artigo 106, II, do CTN, uma vez que o recolhimento de tributo em atraso sem a multa de mora deixou de configurar infração passível de aplicação da multa de ofício, deve ser excluída da execução fiscal tal penalidade” (TRF da 4a R., 2a T., APELREEX n° 200570000317196, Relator(a) Luciane Amaral Corrêa Münch, D.E. 20/01/2010). Assim, fica excluída do lançamento a multa de 75%. DO LANÇAMENTO PARA PREVENIR DECADÊNCIA – suspensão da exigibilidade Por outra bamba, tenho que a conduta do fisco de efetuar de ofício o lançamento, no caso concreto, mostrouse razoável à época, ainda que unicamente para prevenir a decadência. O proceder constituiuse meramente numa cautela para evitar eventual perda do seu direito de constituir o crédito tributário, já que pelo tempo de trâmite do processo Fl. 10DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 108 11 n° 10980004499/200342, onde se discutiu a existência do tal crédito a compensar, poderia, ao seu final, ter passado mais de 5 anos da ocorrência do fato gerador, inviabilizando o recolhimento do tributo. Nesse contexto, há que se apreender que o lançamento teve por propósito unicamente prevenir a decadência, prosseguindose na exigência do tributo apenas e tãosomente se não reconhecido o direito à compensação ou, ainda que reconhecido, o crédito declarado for insuficiente para a quitação do débito representado pelo PIS do período indicado. Para ilustrar: “AÇÃO JUDICIAL. LANÇAMENTO DE OFÍCIO O artigo 63 da Lei nº 9.430, de 1996, com a redação conferida pela MP nº 2.15835, de 2001, é cristalino ao estabelecer que o Fisco pode, e deve, promover o lançamento de ofício para evitar a caducidade de seu direito potestativo, ainda que o sujeito passivo esteja sob o amparo de medida liminar ou de tutela antecipada, desde que não haja proibição judicial ao ato administrativo em referência” (1° Conselho, 3ª Câmara, RV n° 156.216, Processo n° 13808.001590/0081, Data da Sessão:29/03/2007, Relator: Flávio Franco Corrêa, Acórdão n° 10322945). Não se tem notícia, nestes autos, acerca do desfecho do processo de compensação n° 10980.004499/200342, bem como do processo n° 10980.00449753 (referido na fl. 8). Também não se conseguiu levar, no site do CARF, qualquer informação a respeito. Segundo a Chefe de Serviço da 3ª Seção/CARF (Sra. Cleuza Takafuji), respondendo a uma consulta que fiz3, “o último andamento dos dois processos foi dado em 4/8/2003, da Seção de Orientação e Análise Tributária da DRFB em Curitiba/PR para a Equipe de Liq. Rest./Comp. Ressarcimento daquela DRFB. Ambos foram protocolados na Gerência Regional de Administração do Ministério da Fazenda naquele estado: o primeiro, em 8/4/2003, e o segundo, em 8/5/2003. Após o protocolo, foram remetidos à DRFB em Curitiba, sem movimentação para nenhum outro órgão”. Inobstante, como bem pontuou o julgador da 5a Turma, da DRJ/Ribeirão Preto, Alessandro Vaine, em despacho lançado nos autos do processo n° 13830.001117/2003 3. Resposta da Sra. Cleuza: Dr. Adélcio, Boa noite! O último andamento dos dois processos foi dado em 4/8/2003, da Seção de Orientação e Análise Tributária da DRFB em Curitiba/Pr para a Equipe de Liq. Rest./Comp. Ressarcimento daquela DRFB. Ambos foram protocolados na Gerência Regional de Administração do Ministério da Fazenda naquele estado: o primeiro, em 8/4/2003, e o segundo, em 8/5/2003. Após o protocolo, foram remetidos à DRFB em Curitiba, sem movimentação para nenhum outro órgão. Cleuza Adelcio Salvalagio escreveu: Prezada Cleuza, Boa noite.! Preciso de um apoio seu. Estou relatando o processo n° 10980.006615/200368, da empresa “Material para Cobertura Irka Ltda.”, Contudo, este feito é vinculado a outros processos desta mesma empresa, a saber: 10980.004499/200342; 10980.004497/200353. Para finalizar meus estudos, necessito saber o desfecho destes dois casos. Tentei pelo site do CARF. Não tive êxito. Você pode me auxiliar, respondendo, basicamente, o que ocorreu com estes outros dois processos? Agradeço. Adélcio. Fl. 11DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 109 12 31 (recorrente: Distribuidora de Veículos Pompeiana Ltda.), este processo de compensação representa uma “questão prejudicial que, embora não esteja em julgamento, nem faça parte do mérito dos presentes autos, se coloca como antecedente lógico da decisão a ser proferida. Por decorrer a autuação de compensação indevida, resultado do indeferimento de pedido de restituição/compensação, com trâmite processual em separado, a decisão acerca da exação ora impugnada depende diretamente da decisão definitiva proferida no processo de compensação (...)”. E, complementando o raciocínio, anotou Alessandro Vaine que, uma vez proferida decisão em 2ª instância favorável ao contribuinte, no tal processo de compensação, caberá identificar “a existência de eventual saldo remanescente dos valores que integram o crédito tributário objeto do lançamento recorrido, procedendose à retificação do auto de infração, se for o caso. Tal averiguação independe da intempestividade da impugnação apresentada, já que seu escopo é assegurar perfeita correspondência entre a decisão definitiva sobre o procedimento de compensação referido, e o auto de infração dele decorrente, evitandose situação absurda de se reconhecer a validade da compensação em um processo e, em outro, exigir o tributo correspondente ao crédito tributário extinto, ausentes os pressupostos de certeza e liquidez.” Caso não se tenha reconhecido o direito à compensação, em decisão definitivamente julgada, nos autos do processo de compensação n° 10980.004499/200342, o auto de infração tratado no processo ora em julgamento permanecerá hígido e apto a cobrança do crédito nele estampado. De outro lado, não se desconhece que ao tempo do lançamento, como bem acentuou a decisão recorrida, inexistia norma autorizadora da suspensão da exigibilidade do débito compensado, enquanto pendente discussão acerca do direito do crédito tributário alegado pelo contribuinte. Contudo, essa não é a realidade nos dias de hoje. Com a edição da Medida Provisória n° 135, de 31 de outubro de 2003 (convertida na Lei n° 10.833, publicada em 30/12/2003), e a alteração promovida por seu art. 17 no art. 74 da Lei n° 9.430/96, esse cenário se alterou. Nesse sentido, informa o art. 74, da Lei n° 9.430, que o “O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão”. E o § único, do mesmo artigo 74, incluído pela Lei n° 10.833, de 2003, dispõe que “a manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9° e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto n° 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação”. De seu turno, informa o art. 151, III, do CTN, que “SUSPENDEM a exigibilidade do crédito tributário as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo.” Portanto, atualmente, a manifestação de inconformidade às DRJ’s e o recurso voluntário ao CARF, ofertados contra a nãohomologação de compensação, suspendem a exigibilidade do débito compensado. Essa situação, repito, não existia à época do lançamento Fl. 12DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 110 13 tratado neste processo. O lançamento é de 16/07/2003 (fl. 23 – data em que foi emitido o auto de infração), enquanto que a novel legislação somente passou a vigorar a partir de 31/10/2003, que é a data da MP n° 135. Assim, poderseia cogitar na existência de duas situações: UMA, para débitos compensados antes de 31/10/2003 (como é o caso destes autos), sendo, em princípio, inaplicável a suspensão da exigibilidade; OUTRA, para débitos compensados APÓS 31/10/2003, quando possível a suspensão da exigibilidade. A meu sentir, não se pode conferir tratamento diverso para situações absolutamente idênticas. Entendem alguns, para fazer a diferenciação, que a suspensão da exigibilidade do débito somente é possível após 31/10/2003, porquanto apenas a partir desta data, motivada pela edição da MP n° 135, é que a declaração de compensação, feita pelo contribuinte, passou a ter caráter de confissão de dívida. Ouso, data maxima venia, discordar. Não me parece inteiramente acertado esse raciocínio. Ora, para efetivar a compensação, em qualquer tempo, mesmo antes da edição da referida MP, pareceme inegável que o contribuinte, ao informar o débito a compensar, parte, necessariamente, da premissa de que o valor, de fato, é devido. Ou seja, partilho da opinião que o pedido de compensação acarreta, intrinsecamente, um reconhecimento de débito, mesmo que desprovido do caráter de confissão, que de fato não possui. Assim, ainda que somente com a MP n° 135 se tenha, efetivamente, conferido caráter de confissão de dívida à “declaração de compensação formulada pelo contribuinte”, não vejo óbice, sob este prisma, a reconhecer, também para pedidos de compensação formulados anteriormente a edição da referida norma, vale dizer, antes de 31/10/2003 (como é o caso dos autos), a possibilidade de suspensão da exigibilidade do crédito lançado. Valhome de mais um fundamento para corroborar este entendimento. Sabese que uma nova norma adjetiva, isto é, de natureza processual, tão logo publicada e existente no mundo jurídico, aplicase aos processos em curso. Significa dizer, então, que apanha os feitos pendentes no estado em que eles se acham, submetendoos à nova regulamentação. “As normas de direito processual, dada sua natureza de ordem pública, têm aplicação imediata, atingindo, inclusive, os processos pendentes de julgamento (...)”4. A meu sentir, pelo menos esta parte da MP n° 135, depois convertida na Lei n° 10.833/2003, e a alteração promovida por seu art. 17 no art. 74 da Lei n° 9.430/96, tem natureza de norma processual. Portanto, também sob esse ângulo de análise, parece razoável aplicarse a suspensão da exigibilidade para créditos lançados antes de 31/10/2003, desde que esteja pendente discussão acerca da existência (ou não) do alegado crédito declarado pelo contribuinte. Noutras palavras, o processo esteja em curso. Ou, com maior razão ainda, que já se tenha reconhecido, em decisão definitiva, a existência do tal crédito, como é o caso destes autos. Consequentemente, há que se reconhecer, de ofício, que a exigibilidade do crédito representado pelo auto de infração tratado nestes autos DEVE SER SUSPENSA até que se encerre o debate acerca do pedido de compensação, travado nos autos do processo n° 10980.004499/200342. Caso reconhecido o direito ao crédito postulado pela recorrente (ganho de causa, no referido feito), então haverá de se analisar o mérito do pedido de compensação na 4. STJ, 6ª T., REsp n° 674.319, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, DJ data: 03/10/2005, p. 351; Fl. 13DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 111 14 DRF de origem e, na hipótese de se declarar extinta a cobrança do PIS do período lançado (janeiro a março/2003), então, o crédito tributário representado pelo auto de infração NÃO poderá ser cobrado. Do contrário, afastada a compensação, ainda que parcialmente, ou inexistindo o direito ao crédito, o saldo do crédito tributário representado pelo auto de infração de fls. 235, com seus acréscimos, poderá ser exigido, fazendose, então, as devidas retificações no lançamento. CONCLUSÃO COM ESSES FUNDAMENTOS, conheço em parte do recurso, presente os requisitos de admissibilidade, e dou provimento apenas para excluir a multa de ofício, no patamar de 75%; no restante, embora mantido o lançamento, há que se reconhecer de ofício, que a exigibilidade do crédito tributário achase suspensa, devendo se aguardar o desfecho do processo de compensação, nos termos da fundamentação acima. Sala das Sessões, em 29 de setembro de 2010 Adélcio Salvalágio” Este, portanto, foi o entendimento defendido pelo Conselheiro Relator na ocasião em que o feito foi julgado, entendimento o qual fica aqui por mim consignado, por força do disposto no artigo 17, inciso III, do Anexo II, do Regimento Interno deste Conselho, aprovado pela Portaria MF no 256, de 22 de junho de 2009. Contudo, o voto em tela, como dito, não foi acompanhado pelos demais Conselheiros – dentre os quais me incluo – unicamente no que concerne à defendida suspensão da exigibilidade do crédito tributário. Nesse âmbito, seguimos o pensamento do Conselheiro Regis Xavier Holanda, no sentido de dar provimento em parte ao recurso apenas para excluir a multa de ofício de 75%, nos termos de seu voto vencedor, abaixo assentado. (assinado digitalmente) Francisco José Barroso Rios Redator ad hoc Voto Vencedor Conselheiro Regis Xavier Holanda, Redator. Com a devida vênia do i. relator, a divergência inaugurada cingese ao não reconhecimento, no presente caso, da suspensão da exigibilidade introduzida posteriormente pela Lei nº 10.833/03 que deu nova redação ao artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Verificada a compensação indevida de tributo ou contribuição não lançado de ofício nem confessado, deveria ser promovido, consoante legislação vigente à época, o lançamento de ofício do crédito tributário. Anotese que, ao tempo do lançamento, inexistia norma autorizadora da suspensão da exigibilidade do débito compensado, enquanto pendente discussão acerca do direito do crédito tributário alegado pelo contribuinte. Fl. 14DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 112 15 Com efeito, a suspensão da exigibilidade do débito somente tornouse possível em 31/10/2003, porquanto apenas a partir desta data, motivada pela edição da MP n° 135 – convertida na Lei nº 10.833/03 – é que a declaração de compensação, feita pelo contribuinte, passou a ter caráter de confissão de dívida e ser instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. Vejamos o teor do artigo 74 da Lei nº 9.430/96 com as alterações promovidas pela legislação superveniente, in verbis: “Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito, inclusive os judiciais com trânsito em julgado, relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.(Redação dada pela Lei nº 10.637, de 2002) (Vide Decreto nº 7.212, de 2010) ................................................................. § 5o O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação. (Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) § 6o A declaração de compensação constitui confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência dos débitos indevidamente compensados. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 7o Não homologada a compensação, a autoridade administrativa deverá cientificar o sujeito passivo e intimálo a efetuar, no prazo de 30 (trinta) dias, contado da ciência do ato que não a homologou, o pagamento dos débitos indevidamente compensados.(Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 8o Não efetuado o pagamento no prazo previsto no § 7o, o débito será encaminhado à ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional para inscrição em Dívida Ativa da União, ressalvado o disposto no § 9o. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 9o É facultado ao sujeito passivo, no prazo referido no § 7o, apresentar manifestação de inconformidade contra a não homologação da compensação. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 10. Da decisão que julgar improcedente a manifestação de inconformidade caberá recurso ao Conselho de Contribuintes. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) § 11. A manifestação de inconformidade e o recurso de que tratam os §§ 9o e 10 obedecerão ao rito processual do Decreto no 70.235, de 6 de março de 1972, e enquadramse no disposto no inciso III do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de Fl. 15DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 113 16 outubro de 1966 Código Tributário Nacional, relativamente ao débito objeto da compensação. (Incluído pela Lei nº 10.833, de 2003) .................................................................” Também a meu sentir, as disposições normativas acima tratadas têm natureza de norma processual. Todavia, a lei nova não retroage para modificar os atos processuais já praticados. Segundo a doutrina, o tema tem o seguinte significado e alcance: "As leis processuais brasileiras estão sujeitas às normas relativas à eficácia temporal das leis, constantes da Lei de Introdução ao Código Civil (...). A lei processual em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada (LICC, art.6o.). A própria Constituição Federal assegura a estabilidade dessas situações consumadas em face da lei nova (art. 5o., inc. XXXVI)... A questão colocase pois apenas no tocante aos processos em curso por ocasião do início da vigência da lei nova. Diante do problema, três diferentes sistemas poderiam hipoteticamente ter aplicação: a) o da unidade processual, segundo o qual, apesar de se desdobrar em uma série de atos diversos, o processo apresenta tal unidade que somente poderia ser regulado por uma única lei, a nova ou a velha, de modo que a velha teria de se impor para não ocorrer retroação da nova, com prejuízo dos atos já praticados até a sua vigência; b) o das fases processuais, para o qual distinguirseiam fases processuais autônomas (postulatória, ordinatória, instrutória, decisória e recursal), cada uma suscetível, de per si, de ser disciplinada por uma lei diferente; c) a do isolamento dos atos processuais, no qual a lei nova não atinge os atos processuais já praticados, nem seus efeitos, mas se aplica aos atos processuais a praticar, sem limitações relativas às chamadas fases processuais. Este último sistema tem contado com a adesão da maioria dos autores e foi expressamente consagrado pelo art. 2o do Código de Processo Penal: " a lei processual penal aplicarseá desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior". E, conforme entendimento de geral aceitação pela doutrina brasileira, o dispositivo transcrito contém um princípio geral de direito processual intertemporal que também se aplica, como preceito de superdireito, às normas de direito processual civil" (Ada Pellegrini Grinover /Cândido R. Dinamarco /Antônio Carlos A Cintra Teoria Geral do Processo21a. Ed., 2005, Malheiros: São Paulo, p.l00l02). Por conseguinte, vigente a nova lei processual, aplicase imediatamente a todos os processos em andamento, bem como aos que se iniciem, atendendose ao princípio tempus regit actum, tendo como referência a prática do ato processual. Segundo lição de Teresa Arruda Alvim Wambier em sua obra "Os agravos no CPC Brasileiro, 4a Ed. ampliada de acordo com a Lei 11.187/05, 2006, RT: São Paulo, p. 617 625, o princípio da não retroação da nova lei processual nos atos do processo já praticados ou consumados tem a seguinte disciplina: "As normas jurídicas, em princípio, regem as situações fáticas que ocorrem enquanto elas (normas) estão em vigor. Portanto, as normas jurídicas disciplinam situações que ocorrem no mundo empírico, no espaço que vai desde o momento em que entram em vigor até aquele em que foram tácita ou expressamente revogadas. Assim, e em princípio, as leis passam a regrar os atos imediatamente, ou seja, a Fl. 16DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 114 17 partir do momento em que passam a ser leis vigentes. Não são disciplinados pela lei nova fatos que ocorreram no passado, nem fatos que no futuro terão lugar, depois da sua (da lei) revogação. A lei, de regra, se aplica ao presente. Daí nossa receptividade à noção de direito adquirido processual, tão utilizada por Galeno Lacerda, em seu primoroso trabalho sobre direito intertemporal. (...) Dessas observações, feitas por um dos nossos autores clássicos no que diz respeito ao direito intertemporal, pode se, com a devida vênia dos que em contrário pensam, inferir o seguinte: é insuportável a idéia de que as partes possam ser legitimamente " surpreendidas" com a lei nova, incidente em processo pendente. Essa insuportabilidade é tanto jurídica quanto política já que incompatível com o Estado de Direito , e, como diz sabidamente o autor referido, é também "popularmente" intolerável (referindose ao autor Rubens Limongi França). Assim, a lei nova, ao incidir em processo pendente, não pode causar surpresas. Essa proteção à situação das partes acaba por ligarse inexoravelmente a uma figura, se não idêntica, análoga à do direito adquirido. Atentar aos princípios que inspiram a lei e ao sistema político em que vivemos é o único modo de o jurista não se tornar verdadeiro prisioneiro de jogos de palavras, em que vence o participante mais hábil. Vejase, por exemplo, a expressão "incidência imediata" em confronto com "situação consumada"; alterada norma que diga respeito a recurso, esta alteração atinge recurso já interposto, ou seja, recurso interposto em situação consolidada? A nosso ver, devese optar pela resposta que prestigie de modo mais incisivo e veemente os valores segurança e previsibilidade, que são verdadeiras finalidades do direito, considerado atemporalmente. Na esfera dos recursos, parece que realmente essa aplicação imediata não pode significar senão que o novo regime seja aplicável aos casos em que a decisão se tenha tornado recorrível já na vigência da nova lei. Assim, se a lei nova passa a vigorar, tendo sido já prolatada a decisão, ainda em curso prazo para a interposição do recurso, este deve ser interposto no antigo regime. O recurso segue o regime da lei vigente à época da prolação da decisão. Assim, entendemos que o dia em que a decisão é proferida é o que determina a lei que deve incidir (...) Há, portanto, identidade cronológica, entre o conhecimento do ato decisório (referindose ao primeiro grau) e sua publicidade; é a publicidade que revela o conteúdo do ato sentencial, que é escrito (...) Por isso, parece ressaltar evidente que os efeitos do julgamento (referindose aos tribunais) nascem e se exaurem no momento em que se realiza e termina o julgamento. O que se segue, como se disse, é mera e estrita documentação (...) Transpondose este raciocínio para o plano do processo e especificamente dos recursos, podese dizer que quem interpôs certo recurso sob determinado procedimento tem a legítima expectativa de vêlo julgado naquele regime. Até porque o fato de se ter alterado o regime do recurso pode, por exemplo, fazer desaparecer o interesse de agir para têlo interposto (...) Galeno Lacerda diz expressamente que " os recursos interpostos pela lei antiga e ainda não julgados, deverão sêlo, consoante as regras desta, embora abolidas ou modificadas" pela nova lei (" O novo direito processual civil, p.69)... Semelhantemente, a nova redação do art. 527, parágrafo único, do CPC (cf. Lei ll.l87/05), que dispõe sobre a irrecorribilidade das decisões referidas nos casos dos incisos II e III do mesmo artigo, somente incide em relação às decisões proferidas na vigência da lei nova. Assim, por exemplo, a decisão que determinar a conversão do agravo de instrumento em agravo retido, antes de as alterações da Lei ll.l87/05 entrarem em vigor, pode ser objeto de recurso de agravo, nos termos da revogada redação do art. 527, II". Dessa forma, tendo o presente sujeito passivo sido intimado, em 03 de julho de 2003 (fl. 10), do despacho decisório que indeferiu o direito creditório, o regime anterior ao estabelecido pela MP nº 135/03, de 30 de outubro de 2003 (DOU de 31/10/2003) posteriormente convertida na Lei nº 10.833, de 29 de dezembro de 2003 (DOU de 30/12/2003), Fl. 17DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A Processo nº 10980.006615/200368 Acórdão n.º 380200.271 S3TE02 Fl. 115 18 deve ser respeitado, de modo que não há que se falar, no caso presente, em efeito suspensivo por conta da aplicação do novel §11 do art. 74 da Lei nº 9.430/96. Apenas a título argumentativo, vejase que, a contrario senso, caso sobreviesse hoje novel legislação não mais atribuindo efeito suspensivo à manifestação de inconformidade e ao recurso de que tratam os §§9º e 10 do artigo 74 da Lei nº 9.430/96, a possibilidade de suspensão da exigibilidade dos débitos objeto de compensação já indeferida – e cientificada ao sujeito passivo – permaneceria incólume. Assim, verificada a compensação indevida de tributo não lançado de ofício nem confessado, cabível, consoante legislação vigente à época, o lançamento de ofício do crédito tributário, não se aplicando, no presente caso, a suspensão da exigibilidade introduzida posteriormente pela Lei nº 10.833/03 que deu nova redação ao artigo 74 da Lei nº 9.430/96. Da conclusão Ante o exposto, voto por CONHECER EM PARTE o recurso e DAR PROVIMENTO apenas para excluir a multa de lançamento de ofício de 75%. Sala das Sessões, em 29 de setembro de 2010 (assinado digitalmente) Regis Xavier Holanda Fl. 18DF CARF MF Emitido em 01/12/2011 pelo Ministério da Fazenda Autenticado digitalmente em 14/11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 14/ 11/2011 por FRANCISCO JOSE BARROSO RIOS, Assinado digitalmente em 16/11/2011 por REGIS XAVIER HOLAND A
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Numero do processo: 18470.908149/2012-18
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Feb 13 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Fri Mar 27 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2010
REPETIÇÃO DE INDÉBITO. RETIFICAÇÃO DE DCTF. APRESENTAÇÃO DE PER/DCOMP.
O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, fazse necessário a retificação da DCTF, de ofício ou pelo contribuinte.
DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. CERTEZA E LIQUIDEZ.
Em sede de restituição/compensação compete ao contribuinte o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito, cabendo a este demonstrar, mediante adequada instrução probatória dos autos, os fatos eventualmente favoráveis às suas pretensões.
Numero da decisão: 1401-004.251
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin - Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Carlos André Soares Nogueira, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Nelso Kichel, Letícia Domingues Costa Braga, Eduardo Morgado Rodrigues e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
Nome do relator: LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (documento assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Carlos André Soares Nogueira, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Nelso Kichel, Letícia Domingues Costa Braga, Eduardo Morgado Rodrigues e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente).
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RETIFICAÇÃO DE DCTF. APRESENTAÇÃO DE PER/DCOMP. O direito à repetição de indébito não está condicionado à prévia retificação de DCTF que contenha erro material. Na apuração da liquidez e certeza do crédito pleiteado, faz-se necessário a retificação da DCTF, de ofício ou pelo contribuinte. DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS. CERTEZA E LIQUIDEZ. Em sede de restituição/compensação compete ao contribuinte o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito, cabendo a este demonstrar, mediante adequada instrução probatória dos autos, os fatos eventualmente favoráveis às suas pretensões. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (documento assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente (documento assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin - Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Cláudio de Andrade Camerano, Daniel Ribeiro Silva, Carlos André Soares Nogueira, Luciana Yoshihara Arcangelo AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 18 47 0. 90 81 49 /2 01 2- 18 Fl. 140DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 1401-004.251 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 18470.908149/2012-18 Zanin, Nelso Kichel, Letícia Domingues Costa Braga, Eduardo Morgado Rodrigues e Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente). Relatório Trata-se de Recurso Voluntário interposto em face do v. Acórdão, que, por unanimidade de votos, não homologou as COMPENSAÇÕES informadas em DCOMP. Conforme bem relatado pela DRJ, trata o presente processo de DCOMP formulada pelo interessado, por meio da qual este declara a compensação de débitos com pagamentos efetuados a maior/indevido. Foi proferido Despacho Decisório, não homologando a compensação, vez que não comprovada nos autos a existência de direito creditório líquido e certo do contribuinte contra a Fazenda Pública passível de compensação, não há o que ser reconsiderado na decisão dada pela autoridade administrativa. Cientificado do Despacho Decisório, apresentou manifestação de inconformidade alegando que teria recolhido tributo/contribuição a maior do que o devido no período. Acrescenta que identificou a necessidade de retificação da DCTF e do Dacon para corrigir as informações originalmente declaradas e anexou documentação no intuito de comprovar suas alegações. Apreciados os argumentos da impugnação, a não homologação dos créditos pretendidos foi mantida, sob fundamento de que não teria restado comprovada a existência de direito creditório, razão pela qual vedou-se ao contribuinte a homologação das compensações declaradas. Inconformada, apresentou Recurso Voluntário onde reclama a comprovação da existência e da origem do crédito utilizado. É o relatório. Voto Conselheira Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Relatora. O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, por isso, dele tomo conhecimento. Mérito. Aduz a Recorrente que teria recolhido tributo/contribuição a maior do que o devido no período. Acrescenta que identificou a necessidade de retificação da DCTF e do Dacon para corrigir as informações originalmente declaradas Para comprovar a referida alegação, Fl. 141DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 1401-004.251 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 18470.908149/2012-18 apresentou a DIPJ do ano calendário, na qual indica a origem do crédito para fins de compensação em DCOMP. No entanto, os documentos apresentados pelo interessado, conforme decisão na origem, não foram suficientes para demonstrar a existência do referido crédito, posto que a simples alegações, bem como apresentação de demonstrativos de confecção própria, por si só, não tem o condão de comprovar a existência de pagamento a maior, que teria originado o crédito pleiteado pela contribuinte em sua declaração de compensação. Na hipótese de ter ocorrido erro no valor do débito confessado na DCTF, esta circunstância deveria ter sido documentalmente provada pela interessada por ocasião da apresentação da manifestação de inconformidade, o que não aconteceu em concreto. Portanto, uma vez não comprovada nos autos a existência de direito creditório líquido e certo do contribuinte contra a Fazenda Pública passível de compensação, não há o que ser reconsiderado na decisão dada pela autoridade administrativa Após isso, a Recorrente esclarece em sede de Voluntário que na revisão do balanço do fechamento do ano calendário de 2010, para apresentação da DIPJ do exercício de 2011, através de auditoria interna identificou-se o pagamento a maior dos tributos, gerando créditos tributários a seu favor, que foram objeto de PerDecomp. Contudo, como aponta a Recorrente em seu recurso que tal pedido de compensação não foi homologado sob a alegação da inexistência do crédito, nesta utilizado no valor de R$ 40.749,95 referente a competência do 3º. Trimestre de 2010 pago a maior, por DARF no valor de R$ 136.879,94, em 30/12/2010 que após utilizado passou a ser de R$ 44.193,32 e foi compensado no IRPJ do 1º. Trimestre de 2011 pelo valor de R$ 43.734,00 restando um saldo no valor de R$ 423,53 que foi utilizado pelo valor de R$ 43.734,00 restando um saldo no valor de R$ 423,53 que foi utilizado no Perd Comp posterior, conforme DCTF retificadora de para devida correção e identificação do referido crédito. Todavia, embora hajam alegações quanto a demonstração da liquidez e certeza do crédito, não se trata de mero erro de fato no preenchimento das DCOMPs, em sede de restituição/compensação compete ao contribuinte o ônus da prova do fato constitutivo do seu direito, consoante a regra basilar extraída do Código de Processo Civil, artigo 373, inciso I. Ou seja, é o contribuinte que toma a iniciativa de viabilizar seu direito à compensação, mediante a apresentação da PER/DCOMP, de tal sorte que, se a RFB resiste à pretensão do interessado, não homologando a compensação, incumbe a ele, o contribuinte, na qualidade de autor, demonstrar seu direito. Apesar da recorrente ter providenciado a retificação extemporânea da respectiva DCTF, os documentos apresentados são insuficientes para se apurar o valor correto do tributo referente ao período de apuração em discussão e confirmar as informações declaradas em DCTF – original ou retificadora e o conseqüente direito creditório advindo do pagamento a maior. O Recorrente não trouxe aos autos qualquer elemento além das declarações sob sua responsabilidade que pudesse comprovar a origem do seu crédito, tais como a escrituração contábil e fiscal. Se limitou, tão-somente, a argumentar que houve um erro de fato Fl. 142DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 1401-004.251 - 1ª Sejul/4ª Câmara/1ª Turma Ordinária Processo nº 18470.908149/2012-18 no pagamento do DARF e preenchimento da DCTF e que, por isso, faz jus ao reconhecimento do crédito. Para que se possa superar a questão de eventual erro de fato e analisar efetivamente o mérito da questão, deveriam estar presentes nos autos os elementos comprobatórios que pudéssemos considerar no mínimo como indícios de prova dos créditos alegados, o que não se verifica no caso em tela. Assim, nos termos do artigo 170 do Código Tributário Nacional, falta ao crédito indicado pelo contribuinte certeza e liquidez, que são indispensáveis para a compensação pleiteada. Pelo exposto, voto no sentido de NEGAR provimento ao Recurso Voluntário, mantendo a não homologação das compensações. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin - Relatora. Fl. 143DF CARF MF Documento nato-digital
score : 1.0
Numero do processo: 10880.914476/2009-61
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 04 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Fri Mar 20 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2004
SALDO NEGATIVO DE CSLL. RETENÇÃO NA FONTE COMPROVADA.
Comprovada a retenção na fonte de CSLL informada em DIPJ, reconhece-se o saldo negativo de CSLL correspondente.
Numero da decisão: 1001-001.676
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
(documento assinado digitalmente)
Sérgio Abelson - Presidente
(documento assinado digitalmente)
Andréa Machado Millan - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Andréa Machado Millan, José Roberto Adelino da Silva e André Severo Chaves.
Nome do relator: ANDREA MACHADO MILLAN
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IInntteerreessssaaddoo FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2004 SALDO NEGATIVO DE CSLL. RETENÇÃO NA FONTE COMPROVADA. Comprovada a retenção na fonte de CSLL informada em DIPJ, reconhece-se o saldo negativo de CSLL correspondente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Sérgio Abelson - Presidente (documento assinado digitalmente) Andréa Machado Millan - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Sérgio Abelson, Andréa Machado Millan, José Roberto Adelino da Silva e André Severo Chaves. Relatório O presente processo trata de Declaração de Compensação (DCOMP) que tem por crédito saldo negativo de CSLL do ano-calendário 2004. Transcrevo, abaixo, o relatório da decisão de primeira instância: A contribuinte transmitiu DCOMP, objetivando a utilização de saldo negativo de CSLL, referente ao ano-calendário de 2004, no valor de R$ 67.405,48 (fl.07), para a compensação de débitos. A Derat/SPO exarou DESPACHO DECISÓRIO (fl. 07) não homologando as compensações informadas em DCOMP. A não homologação das compensações deu-se pelos motivos expostos a seguir: AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 0. 91 44 76 /2 00 9- 61 Fl. 120DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 1001-001.676 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.914476/2009-61 As parcelas comprovadas para a composição do crédito não foram suficientes para gerar saldo negativo de CSLL (comprovado R$ 67.405,48 e a CSLL devida totalizou R$ 101.034,37). A contribuinte teve ciência do Despacho Decisório em 03/03/2009 (fl. 11) e dela recorreu a esta DRJ em 02/04/2009 (fls.15/17). As alegações da interessada são resumidas a seguir. Por primeiro, esclarece a Impugnante que o crédito de R$ 67.405,48, destacado na DIPJ/2005 refere-se ao resultado obtido entre o total devido da CSLL 2004 de R$ 101.034,37, deduzido o valor pago no ano de 2004, conforme comprovantes de recolhimentos em anexo, no total de R$ 168.439,85, chegando ao valor do Saldo Credor: R$ 67.405,48. Este valor está demonstrado na Ficha 17 na DIPJ 2005 (doc. 05). A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em São Paulo – SP, no Acórdão às fls. 62 a 65 do presente processo (Acórdão 16-67.061, de 25/03/2015), julgou parcialmente procedente a manifestação de inconformidade. Abaixo, sua ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Ano-calendário: 2004 Saldo Negativo de CSLL Constitui crédito a compensar ou restituir o saldo negativo de contribuição social apurado em declaração de rendimentos, desde que ainda não tenha sido compensado ou restituído. No voto, a decisão da DRJ ponderou que, segundo a DIPJ/2005 (fl.37), tinham sido efetuados pagamentos de estimativas de R$ 168.439,85, e apurada CSLL devida de R$ 101.034,37, resultando em saldo negativo de CSLL de R$ 67.405,48. Que em consulta ao Sistema SIEF da RFB, à fl. 61, constatou-se a existência de recolhimentos de R$ 167.534,61, alocados aos débitos de CSLL de estimativa. Que os valores retidos na fonte, segundo a contribuinte, somam R$ 923,24. Argumentou que, quanto a esta fonte, nenhuma documentação foi acostada aos autos, devendo, portanto ser glosada. Assim, deferiu o direito creditório de R$ 66.500,24 de saldo negativo de CSLL do ano-calendário de 2004, restando em litígio apenas os R$ 923,24 do IRRF. Cientificado da decisão de primeira instância em 01/10/2015 (Aviso de Recebimento à fl. 70), o contribuinte apresentou Recurso Voluntário em 23/10/2015 (recurso às fls. 72 a 75, carimbo aposto à primeira folha). No recurso, repete as alegações da Manifestação de Inconformidade. Ainda, para comprovação da CSLL retida, anexa comprovante anual de retenção da fonte pagadora BR Distribuidora S.A., à fl. 76, mostrando a retenção de R$ 8.724,76, de código 6190. É o Relatório. Voto Fl. 121DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 1001-001.676 - 1ª Sejul/1ª Turma Extraordinária Processo nº 10880.914476/2009-61 Conselheira Andréa Machado Millan, Relatora. O recurso apresentado atende aos requisitos de admissibilidade previstos no Decreto nº 70.235/1972 e Decreto nº 7.574/2011, que regulam o processo administrativo-fiscal. Dele conheço. Conforme relatório, resta em litígio apenas o valor de R$ 923,24, informado pela empresa como CSLL retida no ano-calendário de 2004. A DRJ não reconheceu o crédito correspondente por falta de comprovação da retenção informada. Para suprir a exigência, a empresa anexou, à fl. 76, comprovante anual de retenção no valor de R$ 8.724,76, de código 6190. O código 6190, referente a serviços de abastecimento de água, telefone, etc., aplica-se sobre o rendimento no percentual de 9,45%, dividido da seguinte forma: IR CSLL COFINS PIS/PASEP 4,8% 1,0% 3,0% 0,65% Então, dos R$ 8.724,76 retidos, corresponde à CSLL exatamente o valor de R$ 923,25 (R$ 8.724,76 x 1 / 9,45). Resta assim comprovada a retenção informada e, por consequência, o saldo negativo de CSLL ainda em litígio. Diante do exposto, voto por dar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Andréa Machado Millan Fl. 122DF CARF MF Documento nato-digital
score : 1.0
Numero do processo: 10245.000158/2006-64
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Jan 19 00:00:00 UTC 2012
Ementa: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF
Exercício: 2004
DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA.
ARTIGO 42, DA LEI Nº 9.430, DE 1996. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. CARACTERIZAÇÃO. Caracteriza omissão de rendimentos a existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
PERÍODO-BASE DE INCIDÊNCIA. APURAÇÃO MENSAL. TRIBUTAÇÃO NO AJUSTE ANUAL. Os valores dos depósitos bancários não justificados, a partir de 1º de janeiro de 1997, serão apurados, mensalmente, à medida que forem creditados em conta bancária e tributados como rendimentos sujeitos à tabela progressiva anual (ajuste anual).
PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS. ÔNUS DA PROVA. COMPROVAÇÃO. As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão- somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITO IGUAL OU INFERIOR A R$ 12.000,00. LIMITE DE R$ 80.000,00. FASE DE LANÇAMENTO Para efeito de determinação do valor dos rendimentos omitidos, não será considerado o crédito de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório desses créditos não comprovados não ultrapasse o Fl. 770 DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓPIA Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 2 valor de R$ 80.000,00, dentro do ano-calendário. Não comprovado, pelo contribuinte autuado, que a base presuntiva remanescente é inferior aos limites individual e anual para a verificação, eficaz a exigência por força de previsão legal específica. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. IDENTIFICAÇÃO DOS DEPOSITANTES. JUSTIFICATIVA DO DEPÓSITO. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. Incabível o lançamento tributário, tendo por base de cálculo depósitos bancários, na pessoa física do titular de conta bancária, quando restar identificado e justificado, por meio de documentação anexada aos autos, o conjunto de pessoas físicas e jurídicas depositantes dos valores questionados, bem como a sua motivação. Os valores assim apurados, quando for o caso, submeter-se-ão às normas de tributação específica prevista na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos (art. 42, § 2º, da Lei nº 9.430, de 1996). RESPONSABILIDADE OBJETIVA. MULTA DE OFICIO. A responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou responsável. O fato de não haver má-fé do contribuinte não descaracteriza o poder-dever da Administração de lançar com multa de oficio rendimentos omitidos na declaração de ajuste. ACRÉSCIMOS LEGAIS. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4).
Recurso parcialmente provido.
Numero da decisão: 2202-001.590
Decisão: ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso para excluir da base de cálculo da exigência o valor de R$ 242.900,00, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: Nelson Mallmann
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ementa_s : IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA - IRPF Exercício: 2004 DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. ARTIGO 42, DA LEI Nº 9.430, DE 1996. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. CARACTERIZAÇÃO. Caracteriza omissão de rendimentos a existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PERÍODO-BASE DE INCIDÊNCIA. APURAÇÃO MENSAL. TRIBUTAÇÃO NO AJUSTE ANUAL. Os valores dos depósitos bancários não justificados, a partir de 1º de janeiro de 1997, serão apurados, mensalmente, à medida que forem creditados em conta bancária e tributados como rendimentos sujeitos à tabela progressiva anual (ajuste anual). PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS. ÔNUS DA PROVA. COMPROVAÇÃO. As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão- somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITO IGUAL OU INFERIOR A R$ 12.000,00. LIMITE DE R$ 80.000,00. FASE DE LANÇAMENTO Para efeito de determinação do valor dos rendimentos omitidos, não será considerado o crédito de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório desses créditos não comprovados não ultrapasse o Fl. 770 DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓPIA Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 2 valor de R$ 80.000,00, dentro do ano-calendário. Não comprovado, pelo contribuinte autuado, que a base presuntiva remanescente é inferior aos limites individual e anual para a verificação, eficaz a exigência por força de previsão legal específica. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. IDENTIFICAÇÃO DOS DEPOSITANTES. JUSTIFICATIVA DO DEPÓSITO. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. Incabível o lançamento tributário, tendo por base de cálculo depósitos bancários, na pessoa física do titular de conta bancária, quando restar identificado e justificado, por meio de documentação anexada aos autos, o conjunto de pessoas físicas e jurídicas depositantes dos valores questionados, bem como a sua motivação. Os valores assim apurados, quando for o caso, submeter-se-ão às normas de tributação específica prevista na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos (art. 42, § 2º, da Lei nº 9.430, de 1996). RESPONSABILIDADE OBJETIVA. MULTA DE OFICIO. A responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou responsável. O fato de não haver má-fé do contribuinte não descaracteriza o poder-dever da Administração de lançar com multa de oficio rendimentos omitidos na declaração de ajuste. ACRÉSCIMOS LEGAIS. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). Recurso parcialmente provido.
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ARTIGO 42, DA LEI Nº 9.430, DE 1996. PRESUNÇÃO DE OMISSÃO DE RENDIMENTOS. CARACTERIZAÇÃO. Caracteriza omissão de rendimentos a existência de valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. PERÍODOBASE DE INCIDÊNCIA. APURAÇÃO MENSAL. TRIBUTAÇÃO NO AJUSTE ANUAL. Os valores dos depósitos bancários não justificados, a partir de 1º de janeiro de 1997, serão apurados, mensalmente, à medida que forem creditados em conta bancária e tributados como rendimentos sujeitos à tabela progressiva anual (ajuste anual). PRESUNÇÕES LEGAIS RELATIVAS. ÔNUS DA PROVA. COMPROVAÇÃO. As presunções legais relativas obrigam a autoridade fiscal a comprovar, tão somente, a ocorrência das hipóteses sobre as quais se sustentam as referidas presunções, atribuindo ao contribuinte o ônus de provar que os fatos concretos não ocorreram na forma como presumidos pela lei. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. DEPÓSITO IGUAL OU INFERIOR A R$ 12.000,00. LIMITE DE R$ 80.000,00. FASE DE LANÇAMENTO Para efeito de determinação do valor dos rendimentos omitidos, não será considerado o crédito de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório desses créditos não comprovados não ultrapasse o Fl. 770DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 2 valor de R$ 80.000,00, dentro do anocalendário. Não comprovado, pelo contribuinte autuado, que a base presuntiva remanescente é inferior aos limites individual e anual para a verificação, eficaz a exigência por força de previsão legal específica. DEPÓSITOS BANCÁRIOS. IDENTIFICAÇÃO DOS DEPOSITANTES. JUSTIFICATIVA DO DEPÓSITO. COMPROVAÇÃO DA ORIGEM DOS RECURSOS. Incabível o lançamento tributário, tendo por base de cálculo depósitos bancários, na pessoa física do titular de conta bancária, quando restar identificado e justificado, por meio de documentação anexada aos autos, o conjunto de pessoas físicas e jurídicas depositantes dos valores questionados, bem como a sua motivação. Os valores assim apurados, quando for o caso, submeterseão às normas de tributação específica prevista na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos (art. 42, § 2º, da Lei nº 9.430, de 1996). RESPONSABILIDADE OBJETIVA. MULTA DE OFICIO. A responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou responsável. O fato de não haver máfé do contribuinte não descaracteriza o poderdever da Administração de lançar com multa de oficio rendimentos omitidos na declaração de ajuste. ACRÉSCIMOS LEGAIS. JUROS MORATÓRIOS. TAXA SELIC. A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4). Recurso parcialmente provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. ACORDAM os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso para excluir da base de cálculo da exigência o valor de R$ 242.900,00, nos termos do voto do Relator. (Assinado digitalmente) Nelson Mallmann Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga, Rafael Pandolfo, Antonio Lopo Martinez, Guilherme Barranco de Souza, Pedro Anan Junior e Nelson Mallmann. Ausente, justificadamente, o Conselheiro Helenilson Cunha Pontes. Fl. 771DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 2 3 Relatório ROBERTO LEONEL VIEIRA, contribuinte inscrito no CPF/MF sob o nº 547.060.17815, com domicílio fiscal na cidade de Boa Vista – Estado de Roraima, à Rua Franco de Carvalho, nº 428 – Bairro São Francisco, jurisdicionado a Delegacia da Receita Federal do Brasil em Boa Vista RR, inconformado com a decisão de Primeira Instância de fls. 385/394, prolatada pela 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Belém – PA, recorre, a este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, pleiteando a sua reforma, nos termos da petição de fls. 410/425. Contra o contribuinte acima mencionado foi lavrado, em 03/02/2006, o Auto de Infração de Imposto de Renda Pessoa Física (fls. 280/289), com ciência através de AR, em 08/02/2006 (fls. 309), exigindose o recolhimento do crédito tributário no valor total de R$ 450.177,90 (padrão monetário da época do lançamento do crédito tributário), a título de Imposto de Renda Pessoa Física, acrescidos da multa de lançamento de ofício normal de 75% e dos juros de mora de, no mínimo, de 1% ao mês, calculado sobre o valor do imposto de renda relativo aos exercícios de 2002 a 2004, correspondente aos anoscalendário de 2001 a 2003, respectivamente. Da ação fiscal resultou, sob o ponto de vista da autoridade fiscal lançadora, a constatação das seguintes irregularidades: 1 RENDIMENTOS RECEBIDOS DE PESSOAS JURÍDICAS OMISSÃO DE RENDIMENTOS DO TRABALHO COM VÍNCULO EMPREGATÍCIO RECEBIDOS DE PESSOA JURÍDICA: Omissão de rendimentos recebidos de pessoa jurídica, decorrentes de trabalho com vinculo empregatício, conforme Termo de Verificação Fiscal que integra este Auto de Infração. Infração capitulada nos artigos 1º ao 3º, §§, da Lei nº 7.713, de 1988 e artigos 1º ao 3º, da lei nº 8.134, de 1990. 2 ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO: Omissão de rendimentos tendo em vista a variação patrimonial a descoberto, onde 'verificouse excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados / comprovados, conforme Termo de Verificação Fiscal que integra este Auto de Infração. Infração capitulada nos artigos 1º ao 3º, §§, da Lei nº 7.713, de 1988 e artigos 1º e 2º, da lei nº 8.134, de 1990. 3 DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA OMISSÃO DE RENDIMENTOS CARACTERIZADA POR DEPÓSITOS BANCÁRIOS COM ORIGEM NÃO COMPROVADA: Omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em contas de depósito ou de investimento, mantidas em instituições financeiras, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, conforme Termo de Verificação Fiscal que integra este Auto de Infração. Infração capitulada no artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996; art. 4º da Lei nº 9.481, de 1997 e artigo 21 da Lei n° 9.532, de 1997. Os AuditoresFiscais da Receita Federal do Brasil responsáveis pela constituição do crédito tributário lançado esclarecem, ainda, através do Termo de Verificação Fiscal (fls. 291/300), entre outros, os seguintes aspectos: Fl. 772DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 4 que ainda ausente quanto a apresentação de documentos, o contribuinte nos entrega os extratos bancários de movimentação financeira vinculada à Caixa Econômica Federal no AC 2002, conforme termo de recepção de documentos lavrado no dia 8 de jul/2005 (fl. 46); que desde então e até o dia 23 de novembro de 2004 houve uma série de intimações e respostas que por dever de oficio devemos acostar a este processo (retiramos os anexos para fins de economia processual, conforme já comentado), mas que não se referem a provas aos ilícitos tributários apontados neste Auto de Infração, motivo pela qual deixamos de comentálos neste Termo (fls. 47 a 66). Apenas para maior esclarecimento, houve um equivoco na condução deste procedimento administrativo na qual deixou de se considerar os rendimentos obtidos pelo cônjuge quando da análise de possi4 variação patrimonial à descoberto no AC 1999; que, em 17 de jan/2005, o intimamos a apresentar os extratos bancários da movimentação financeira realizada ao longo do AC 2003 (fls. 67 e 68). Recebemos um pedido de dilação do prazo em questão, pedido este plenamente concedido por esta fiscalização mediante a lavratura de termo especifico e cientificado, pessoalmente, na mesma data (fls. 69 a 71). No dia 16 de fevereiro de 2005 recebemos os extratos solicitados (fl. 72); que procedemos à análise dos depósitos efetuados em conta bancária, com posterior intimação para a comprovação da origem dos demais na qual esta fiscalização não obteve o discernimento necessário (fls. 73 a 75). Os créditos em questão foram cientificados conforme planilha anexa ao Termo; que intimamos a apresentar, além de outros esclarecimentos, os documentos comprobatórios para a atividade rural, ou seja, a Nota Fiscal do Produtor ou a Nota Fiscal de entrada no estabelecimento do comprador, caso este seja Pessoa Jurídica para os depósitos justificados como sendo oriundos da atividade rural – e documentos que comprovem a origem do deposito realizado no dia 18 de mar/03 no Banco Sudameris (fls. 155 a 158); que, em 20 de jul/2005, o contribuinte afirma que todos os documentos inerentes à atividade rural supostamente desempenhada ao longo do AC sob análise já foram entregues a esta fiscalização; assim, consideramos como não comprovada a atividade rural exercida e tributamos os depósitos bancários mediante a não comprovação da origem dos mesmos (fls. 168 a 181); que analisando o conteúdo da resposta, recebemos também documentos inerentes a compra de dois tratores, nos valores de R$18mil e R$5mil, e vendidos posteriormente por R$35mi1 e R$16,9mil, respectivamente, conforme depósitos bancários efetuados nos dias 17 de set e 15 de out/03. Desconsideramos as justificativas apresentadas de que tais depósitos referiramse a venda dos tratores, visto não haver qualquer registro nos órgãos competentes; que, ainda, em Termo escrito diverso ao já comentado, porém entregue na mesma data, o contribuinte deixa de se manifestar em relação a variação patrimonial à descoberto identificada neste procedimento administrativo fiscal, afirmando desconhecer o fato (fl. 182); que adicionalmente aos documentos solicitados, o intimamos a apresentar a natureza dos rendimentos recebidos a titulo de indenização (fls. 189 e 190), relacionando os documentos que assim o comprove, que foram declarados como isentos e nãotributáveis no Fl. 773DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 3 5 AC 2001, no valor de R$28.633,50 e já objeto de analise preliminar conforme resposta do contribuinte datada de 25 de jun/2004 (fl. 42). Irresignado com o lançamento o autuado apresenta, tempestivamente, em 10/03/2006, a sua peça impugnatória de fls. 316/331, instruído pelos documentos de fls. 332/383, solicitando que seja acolhida a impugnação e determinado o cancelamento do crédito tributário amparado, em síntese, nos seguintes argumentos: que não tendo sido encontrada nenhuma irregularidade relativamente aos anoscalendário de 1999 e 2000, a Ação Fiscal foi estendida para os anoscalendário de 2002 e 2003; que a questão mais grave reside no fato dos Auditores terem adotado o critério que lhes propiciasse maior base tributável, desprezando o principio da uniformidade que deve nortear qualquer procedimento de auditoria, visto que: (a) Para o anocalendário de 2002, optou pela Evolução Patrimonial, porque a Movimentação Financeira (depósitos bancários) não lhes permitia apurar nenhuma matéria tributável; (b) Para o anocalendário de 2003, optou pela Movimentação Financeira (depósitos bancários), porque pelo critério da Evolução Patrimonial não seria apurado nenhum crédito tributário; que tal situação aliada ao fato de que não se apurou nenhum sinal exterior de riqueza do impugnante incompatível com os seus rendimentos, evidencia a improcedência da autuação; que esta circunstância, por si só, já é suficiente para que o lançamento seja cancelado e refeito nos moldes adiante requerido; que os rendimentos recebidos pelo impugnante a titulo de Indenização, no valor de R$ 28.633,50, no anocalendário de 2001, por ocasião de sua exoneração do cargo em Comissão de Secretário de Estado da Fazenda do Estado de Roraima, conforme indicado na Ficha Financeira (fls. 252 e 253) e Memória de Cálculo de fls. 251, tem origem, exclusivamente, em férias não gozadas pagas em dobro, férias proporcionais e 13° salário proporcional; que o erro metodológico na formulação da planilha reside no fato de que o Auditor Fiscal considerou como "DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES" todos os valores dos cheques emitidos que foram sacados ou compensados nas várias contascorrentes bancárias do impugnante e sua esposa; que com este procedimento, todos os cheques que foram emitidos para o pagamento dos vários dispêndios efetuados pelo contribuinte, tais como compra de veículos, aquisição de imóveis, construção de imóveis, etc., foram computados em duplicidade. Uma vez como cheques emitidos e outra pelos DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES efetivamente realizados; que pela metodologia adotada, todos os cheques emitidos foram utilizados para consumo e/ou gastos que não aqueles que já constam como "DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES" na referida planilha, sem que a fiscalização identificasse os gastos representados pelos cheques emitidos; Fl. 774DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 6 que, por tais fundamentos, todos os valores indicados mensalmente, como cheque emitidos e/ou saques, na planilha de fls. 301 e 302, devem ser excluídos para a apuração do real fluxo financeiro de rendimentos e de DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES; que pelas mesmas razões elencadas no item anterior, os valores relativos às deduções com dependentes indicados no Item "2.1.b Dependentes" da referida planilha de fls. 302, devem ser excluídos dos DISPÊNDIOS/APLICAÇÕES, por não se constituir em desembolso efetivo de recursos, uma vez que tais deduções são fictas e consideradas apenas para fins de cálculo do Imposto de Renda; que, no que diz respeito aos depósitos bancários, o Auditor Fiscal no afã de tributar o maior valor, não levou em conta os documentos comprobatórios das origens dos depósitos apresentados pelo Impugnante; que grande parte dos documentos apresentados referese â comercialização de produtos rurais, sendo que eles não foram acatados, porque, na ótica do Auditor Fiscal, os mesmos não são documentos hábeis; que, por si só, as Declarações de Atividade Rural do Impugnante dos anos calendário de 2002 e 2003 (fls. 21 e 31), comprovam a sua condição de produtor rural, visto que o mesmo possuía sete pequenos imóveis rurais em 2002 e cinco no ano de 2003; que na Movimentação do Rebanho na Declaração de Atividade Rural (fls. 31), consta que o impugnante adquiriu 168 cabeças de gado e vendeu 80 cabeças, no ano calendário de 2003; que o fato é que o impugnante não possui nota fiscal das aquisições e nem das vendas de gado, sendo que nas transações os produtores forneciam apenas recibos pelos valores recebidos; que, deste modo, todas as vendas de gado que o impugnante fez estão acobertadas apenas pelos recibos que fornecera aos adquirentes, ou por Notas Promissórias, quando as vendas foram efetuadas a prazo; que as cópias do Cartão de Inscrição do Produtor, emitida pela Administração Fazendária de Frutal em 2003 (órgão do fisco Estadual) e do Cartão de Vacinação emitido pelo IMA (doc. 09), comprovam a condição de Produtor Rural do Impugnante; que em razão das condições descritas nos itens 23 a 28, somente a partir de 01/11/2005, foi que o impugnante conseguiu obter a Inscrição Estadual de Produtor Rural, para "CRIAÇÃO DE BOVINOS PARA CORTE", cuja cópia da FIC Ficha de Inscrição do Contribuinte, ora juntamos (doc. 10); que, portanto, não seria crível que o Impugnante possuísse várias propriedades rurais, com movimentação de rebanho comprovada, sem que delas auferisse alguma renda; que em razão das condições peculiares da comercialização do rebanho bovino no Estado de Roraima, e, tendo ficado comprovada a condição de produtor rural do Impugnante, há que ser admitido como documento hábil à comprovação de suas receitas da atividade rural, os recibos, romaneios e notas promissórias apresentados, por se constituir os tipos de documentos usuais naquelas transações na região; Fl. 775DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 4 7 que a análise da planilha de fls. 303/306 indica que o somatório dos pequenos valores (menores que R$ 12.000,00) é inferior a R$ 80.000,00, excluídos aqueles depositados nos dias 04 e 05 de novembro que não podem ser considerados individualmente, por referirem à conclusão de uma única operação. Após resumir os fatos constantes da autuação e as principais razões apresentadas pelo impugnante, os membros da Segunda Turma da Delegacia da Receita do Brasil de Julgamento em Belém PA, concluíram pela procedência parcial da ação fiscal e pela manutenção em parte do crédito tributário, com base, em síntese, nas seguintes considerações: que o contribuinte questiona o lançamento efetuado a titulo de omissão de rendimentos do trabalho com vinculo empregatício recebidos de pessoa jurídica, no valor de R$ 28.633,50. Alega que referido valor foi recebido por ocasião de sua exoneração do cargo em comissão, a qual ocorreu em 31/10/2001 (fl.260), a titulo de indenização por férias não gozadas, férias proporcionais e 13° salário proporcional; que para a Receita Federal do Brasil RFB os valor pagos a titulo dc indenização de férias são rendimentos tributáveis. A exceção fica por conta da situação em que indenização ocorre em decorrência de aposentadoria, rescisão de contrato de trabalho ou exoneração. Situações previstas nas Súmulas 125 e 136 do STJ; que levandose cm consideração as análises feitas nos itens 1 a 7 acima, refizemos o "Demonstrativo Mensal de Evolução Patrimonial" conforme ANEXO I, parte integrante deste acórdão. Como se vê, deixou de existir o acréscimo patrimonial a descoberto. Assim, esta parte do lançamento deve ser julgada improcedente; que há previsão legal para se considerar como receita os valores creditados em conta de depósito junta a instituição financeira quando o contribuinte. regularmente intimado, não comprovar mediante documentação hábil e idônea a origem dos recursos utilizados nessas operações; que, via de regra, para alegar a ocorrência do fato gerador, a autoridade administrativa deve estar munida de provas. Porém, nas situações em que a lei presume a ocorrência do fato gerador (as chamadas presunções legais). a produção dessas provas e dispensada; que para fins de justificar os depósitos bancários o contribuinte apresentou, durante a ação fiscal, diversos documentos tais como recibos assinados pelo próprio contribuinte, romaneios e notas promissórias para mostrar que seriam rendimentos oriundos de atividade rural; que além de não apresentar as Notas Fiscais de Produtor, que justificariam as receitas advindas da atividade rural, o contribuinte também não apresentou o livro caixa da atividade rural, o qual poderia servir, em conjunto com outros documentos, como prova idônea das operações comerciais e dos depósitos bancários em relação aos quais o contribuinte não conseguiu comprovar a origem. A decisão de Primeira Instância está consubstanciada nas seguintes ementas: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Fl. 776DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 8 Anocalendário: 2001, 2002, 2003 LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. FATOS GERADORES A PARTIR DE 01/01/1997. A Lei n° 9430/1996 estabeleceu em seu art. 42 presunção legal de omissão de rendimentos que autoriza o lançamento do imposto correspondente quando o titular da conta bancária não comprovar, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos valores depositados em sua conta de depósito. FÉRIAS. RECEBIMENTO EM PECÚNIA. Caracterizamse como não tributáveis os valores recebidos a titulo de indenização por férias não gozadas, por necessidade do serviço, quando tal recebimento ocorrer por ocasião de aposentadoria, rescisão do contrato de trabalho ou exoneração. VARIAÇÃO PATRIMONIAL A DESC013ERTO. Urna vez procedidos aos ajustes no Demonstrativo Mensal de Evolução Patrimonial, deixou de existir o acréscimo patrimonial a descoberto. Lançamento Procedente em Parte. Cientificado da decisão de Primeira Instância, em 08/07/2008, conforme Termo constante às fls. 395/398 e, com ela não se conformando, o recorrente interpôs, em tempo hábil (07/08/2008), o recurso voluntário de fls. 410/425, instruído pelos documentos de fls. 426/442, no qual demonstra irresignação contra a decisão supra ementada, no que diz respeito a omissão de rendimentos caracterizados por depósitos bancários sem a origem justificada, baseado, em síntese, nas mesmas razões expendidas na fase impugnatória, reforçado pelas seguintes considerações: que o Recorrente e sua esposa possuíam, em 31/12/2002, como "DINHEIRO EM ESPÉCIE" a importância de R$ 105.000,00, conforme consta em suas Declarações de bens; que, vale ressaltar, que estes valores foram utilizados com aplicação de recursos, pelo fisco, para a apuração de eventual Aumento Patrimonial a Descoberto no ano calendário de 2002. Portanto, esta importância de R$ 105.000,00 deve ser considerada como RECURSOS para fazer face aos depósitos de R$ 166.000,00 efetuados no mês de fevereiro de 2003 pelo Recorrente; que é importante destacar que a decisão recorrida manteve a exigência incidente sobre os depósitos bancários tidos com de origem não comprovada sob o único fundamento de que o Recorrente não comprovou, com notas fiscais, que os recursos utilizados para tais depósitos tiveram origem nas suas atividades rurais; que, quanto a venda do VEICULO TOYOTA HILUX por R$ 40.000,00, é de se dizer, que a comprovação do valor recebido em 10/02/2003, conforme prova documento de autorização de transferência é de 08/04/03, porque o adquirente só fez a transferência nesta data. E. e usual a transferência do veiculo Junto ao DETRAN ocorrer em data posterior à data do efetivo pagamento. Por tais razões, o Recibo deve ser acatado para comprovação da origem dos recursos depositados na data de 10/02/2003; Fl. 777DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 5 9 que, quanto a Venda de IMÓVEL por R$ 49.000,00, é de se dizer que a comprovação é feita através da Escritura (fls. 103 e doc. 01) e Recibo (fls. 104) comprovam que o Recorrente, atuando como procurador recebeu em 26/02/2003 a referida importância de R$ 49.000,00 e a depositou em sua conta bancária no dia seguinte. Vale ressaltar que o fisco não apresentou qualquer justificativa para glosa desta comprovação de origem; que, quanto a venda do TRATOR VALMET por R$ 35.000,00, é de se dizer, que a comprovação é através do Recibo de fls. 123 comprova a venda e o recebimento, em 15/09/2003, da referida importância pela venda do trator. Já o Recibo de fls. 171 e doc. 02 comprovam que o referido tratar foi adquirido em 04/01/2003 da empresa AGROPECUÁRIA ACORDI LTDA. pelo valor de R$ 18.000,00. Após ser submetido à reforma e inclusão de uma grade o mesmo foi vendido por R$ 35.000,00 à empresa VERTICAL CONSTRUÇÕES LTDA., conforme faz prova o Recibo de fls. 123. A cópia do cheque e o comprovante de Depósito (doc. 03) ora juntados, comprovam, extreme de dúvida, que o depósito de R$ 35.000,00 decorreu do recebimento da venda do citado trator. A recusa do Recibo pelo fisco sob o argumento de 'falta de registro nos órgãos competentes", não pode prevalecer, visto que inexiste exigência legal para registro da venda de trator em qualquer órgão. Por esta razão e em face das provas ora juntadas, o Recibo deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos para o depósito de R$ 35.000,00 efetuado em 17/09/2003; que, quanto à venda do TRATOR MASSEY FERGUSSON por R$ 16.900,00, é de se dizer que a comprovação é efetuada através do Recibo fls. 127 comprova o recebimento pela venda do trator Massey Fergusson, o qual foi adquirido em 25/02/99, pelo Recibo de fls. 173. Intimado a confirmar se vendeu o referido trator ao Recorrente, o Sr. Samuel Ribeiro de Campos confirmou a operação (fls. 360/362). Intimado a confirmar a compra do citado trator ao Recorrente, o Sr. Rogério Ribeiro Rodrigues a confirmou (fls. 363/365). No entanto, de forma inexplicável, o Auditor Fiscal autuante não juntou aos autos as referidas Intimações bem como as respectivas Respostas. A falta de juntada de tais documentos não nos parece mera obra do acaso. Por esta razão e por obediência aos princípios verdade material e da lealdade processual não observado pela fiscalização, a defesa as juntou conforme indicado acima. Importa destacar que referido trator, como indicado às fls. 362 estava em mau estado de conservação (sucata), tendo sido submetido à reforma e incluídos grade Roma e carreta de madeira para a venda. A recusa do Recibo pelo fisco sob o argumento de "falta de registro nos órgãos competentes", não pode prevalecer, visto que inexiste exigência legal para registro de Recibo de venda de trator em qualquer órgão. Por esta razão e em face das provas, ora apresentadas, o Recibo deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos para o depósito de R$ 16.900,00 efetuado em 15/10/2003; que, quanto à venda de LAVOURA DE ABACAXI por R$ 102.000,00, é de se dizer, que a comprovação é realizada através do o contrato particular de compra e venda de plantação de abacaxi de fls. 129 comprova que o Recorrente vendeu ao Sr. DIJALMA GOMES uma lavoura composta por uma plantação de abacaxi que possuía em sua propriedade no Município de FrutalMG. Como se vê referido Contrato Particular a referida plantação foi vendida pela importância de R$102.000,00, cujo pagamento conforme previsto no próprio Contrato foi avençado para ser feito à medida de realizasse a colheita. Deste modo, a importância de R$ 50.000,000 representada por 05 (cinco) depósitos de R$ 10.000,00 todos efetuados no dia 04/11/2003 e de R$ 30.000,00 representados por 03 (três) depósitos de R$ 10.000,00 cada efetuados no dia 05/11/2003 e mais o depósito de R$ 22.000,00 efetuado no dia 21/11/2003, todos referemse ao pagamento do valor de R$ 102.000,00 fixado no citado contrato. É de se ressaltar ser totalmente descabida a exigência do fisco de que tal transação fosse acobertada por Nota Fiscal do Produtor Rural, uma vez que o que foi vendido foi uma "Plantação de Abacaxi", e não os próprios frutos. Assim, o documento hábil à formalização da referida operação é o próprio Contrato. Releva registrar, ainda, que conforme reza o próprio Contrato, que o adquirente ficou com o ônus do trato da lavoura e colheita dos frutos, a quem caberia a emissão das notas fiscais, por ocasião da colheita e venda dos mesmos. Outro fato extremamente grave a registrar é que por ocasião da fiscalização o Sr DIJALMA GOMES foi Intimado a confirmar a citada compra da Lavoura de Abacaxi (fls. 367/368). Em 03/08/2003, às fls. 369/370 o mesmo confirmou a referida Fl. 778DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 10 transação. No entanto, o auditor fiscal não juntou aos autos a referida Intimação bem como a resposta como já fizera com aquelas referidas às vendas dos tratores já noticiadas. Matreiramente e com grave ofensa ao principio da lealdade processual, o Auditor não juntou aos autos a Intimação e a Resposta, porque as mesmas eram favoráveis ao recorrente. Por tais razões, o referido Contrato deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos depositados nos dias 04, 05 e 21 de novembro de 2003, no valor total de R$102.000,00; que no decorrer dos trabalhos de fiscalização, o qual durou quase de 03 (três) anos fls. 01 e 280, o Recorrente tentou entregar a sua Declaração de Rendimentos Retificadora com a inclusão das receitas da atividade rural relativa ao anocalendário de 2003, exercício de 2004, não sendo possível em face de recusa da própria Receita Federal; que é importante destacar, ainda, que o valor das receitas da atividade rural do Recorrente é bem superior Aquelas constantes dos Recibos e outros documentos juntados por ocasião da fiscalização para fazer prova da origem dos recursos depositados em suas contas bancárias em datas especificadas; que, deste modo, a referida Declaração de Rendimentos, ora juntada (doc. 04) e farta documentação acostada aos autos e exaustivamente referenciada, indicam que o Recorrente obteve no anocalendário de 2003, exercício de 2004 os seguintes valores mensais de receitas da atividade rural, conforme espelhado do quadro abaixo, cujos valores foram utilizados para fazer face aos vários depósitos em suas contas bancárias; que segundo o disposto no inciso II do § 3° do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pelo artigo 4° da Lei n° 9.481/97, os valores dos depósitos inferiores a R$ 12.000,00, desde que o seu somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse R$ 80.000,00, não serão considerados para fins apuração de eventual omissão de rendimentos; que por esta razão, a importância de R$ 71.467,41, representada pelo somatório dos créditos inferiores a R$ 12.000,00 no anocalendário de 2003, conforme demonstrado no "Anexo II Depósitos e/ou Créditos Inferior a R$ 12.000,00", deve ser sumariamente excluída da tributação, por força de disposição legal citada. É o Relatório. Fl. 779DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 6 11 Voto Conselheiro Nelson Mallmann, Relator O presente recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal e deve, portanto, ser conhecido por esta Turma de Julgamento. Não argüição de qualquer preliminar. Inicialmente se faz necessário observar, que a única matéria em discussão nesta fase recursal se restringe a omissão de rendimentos caracterizados por depósitos bancários de origem não justificada. Da análise dos autos do processo se verifica que a ação fiscal em discussão teve início em razão da movimentação financeira do recorrente e que pela análise dos extratos bancários apurouse a omissão de rendimentos caracterizada por valores creditados em conta de depósito, mantida em instituição financeira, em relação aos quais o contribuinte, regularmente intimado, não comprovou mediante documentação hábil e idônea a origem dos recursos utilizados nessas operações já na vigência do artigo 42, da Lei 9.430, de 1996. Notase, ainda, que foi o próprio contribuinte que forneceu os extratos bancários das contas nas instituições financeiras questionadas. A autoridade julgadora de primeira instância resolveu julgar procedente, nesta parte, o lançamento, por entender que o contribuinte não logrou comprovar a origem dos recursos depositados nas contas bancárias nos anoscalendário questionados. Inconformado, em virtude de não ter logrando êxito na instância inicial, o contribuinte apresenta a sua peça recursal a este E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais pleiteando a reforma da decisão prolatada na Primeira Instância onde se insurge contra o lançamento mantido pela autoridade julgadora, argüindo, tãosomente, matéria de mérito, tecendo considerações sobre a impossibilidade de se tributar por mera presunção, já que entende que os recursos que deram origem aos depósitos bancários lançados foram devidamente comprovados pela documentação acostada aos autos, bem como não houve a comprovação por parte da autoridade lançadora dos sinais exteriores de riqueza. Ao contrário do pretendido pela defesa, o legislador federal pela redação do inciso XXI, do artigo 88, da Lei nº 9.430, de 1996, excluiu expressamente da ordem jurídica o § 5º do artigo 6º, da Lei nº 8.021, de 1990, até porque o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não deu nova redação ao referido parágrafo, bem como soterrou de vez o malfadado artigo 9° do Decretolei n° 2.471, de 1988. Desta forma, a partir dos fatos geradores de 01/01/97, quando se tratar de lançamentos tendo por base valores constantes em extratos bancários, não há como se falar em Lei nº 8.021, de 1990, ou Decretolei n° 2.471, de 1988, já que os mesmos não produzem mais seus efeitos legais. Fl. 780DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 12 É notório, que no passado os lançamentos de crédito tributário baseado exclusivamente em cheques emitidos, depósitos bancários e/ou de extratos bancários, sempre tiveram sérias restrições, seja na esfera administrativa, seja no judiciário. Para por um fim nestas discussões o legislador introduziu o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, caracterizando como omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantido junto à instituição financeira, em relação às quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações, estipulando limites de valores para a sua aplicação, ou seja, estipulou que não devem ser considerados créditos de valor individual igual ou inferior a doze mil reais, desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de oitenta mil reais. Apesar das restrições, no passado, com relação aos lançamentos de crédito tributário baseado exclusivamente em depósitos bancários (extratos bancários), como já exposto no item inicial deste voto, não posso deixar de concordar com a decisão singular, que a partir do ano de 1997, com o advento da Lei n. 9.430, de 1996, existe o permissivo legal para tributação de depósitos bancários não justificados como se “omissão de rendimentos” fossem. Como se vê, a lei instituiu uma presunção legal de omissão de rendimentos. É conclusivo, que a razão está com a decisão de Primeira Instância, já que no nosso sistema tributário tem o princípio da legalidade como elemento fundamental para que flore o fato gerador de uma obrigação tributária. Ou seja, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Seria por demais mencionar, que a Lei Complementar não pode ser conflitada ou contraditada por legislação ordinária. E que, ante o princípio da reserva legal (CTN, art. 97), e o pressuposto da estrita legalidade, ínsito em qualquer processo de determinação e exigência de crédito tributário em favor da Fazenda Nacional, insustentável o procedimento administrativo que, ao arrepio do objetivo, finalidade e alcance de dispositivo legal, imponha ou venha impor exação. Assim, o fornecimento e manutenção da segurança jurídica pelo Estado de Direito no campo dos tributos assume posição fundamental, razão pela qual o princípio da Legalidade se configura como uma reserva absoluta de lei, de modo que para efeitos de criação ou majoração de tributo é indispensável que a lei tributária exista e encerre todos os elementos da obrigação tributária. À Administração Tributária está reservado pela lei o direito de questionar a matéria, mediante processo regular, mas sem sobra de dúvida deve se atrelar à lei existente. Com efeito, a convergência do fato imponível à hipótese de incidência descrita em lei deve ser analisada à luz dos princípios da legalidade e da tipicidade cerrada, que demandam interpretação estrita. Da combinação de ambos os princípios, resulta que os fatos erigidos, em tese, como suporte de obrigações tributárias, somente, se irradiam sobre as situações concretas ocorridas no universo dos fenômenos, quando vierem descritos em lei e corresponderem estritamente a esta descrição. Como a obrigação tributária é uma obrigação ex lege, e como não há lugar para atividade discricionária ou arbitrária da administração que está vinculada à lei, devese sempre procurar a verdade real à cerca da imputação, desde que a obrigação tributária esteja prevista em lei. Não basta a probabilidade da existência de um fato para dizerse haver ou não haver obrigação tributária. Fl. 781DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 7 13 Neste aspecto, apesar das intermináveis discussões, não pode prosperar os argumentos do recorrente, já que, a princípio, o ônus da prova em contrário é da defesa, sendo a legislação de regência cristalina, conforme o transcrito abaixo: Lei n.º 9.430, de 27 de dezembro de 1996: Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto à instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. § 2º Os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualizadamente, observado que não serão considerados: I – os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física ou jurídica; II – no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual igual ou inferior a R$ 1.000,00 (mil reais), desde que o seu somatório, dentro do ano calendário, não ultrapasse o valor de R$ 12.000,00 (doze mil reais). § 4º Tratandose de pessoa física, os rendimentos omitidos serão tributados no mês em que considerados recebidos, com base na tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela instituição financeira. Lei n.º 9.481, de 13 de agosto de 1997: Art. 4° Os valores a que se refere o inciso II do § 3° do art. 42 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passam a ser R$ 12.000,00 (doze mil reais) e R$ 80.000,00 (oitenta mil reais), respectivamente. Lei n.º 10.637, de 30 de dezembro de 2002: Art. 58. O art. 42 da Lei n° 9.430, de 27 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescido dos seguintes §§ 5° e 6°: Art. 42. (...) Fl. 782DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 14 § 5° Quando provado que os valores creditados na conta de depósito ou de investimento pertencem à terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos ou receitas será efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. § 6° Na hipótese de contas de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos ou de informações dos titulares tenham sido apresentadas em separado, e não havendo comprovação da origem dos recursos nos termos deste artigo, o valor dos rendimentos ou receitas será imputado a cada titular mediante divisão entre o total dos rendimentos ou receitas pela quantidade de titular. Instrução Normativa SRF nº 246, 20 de novembro de 2002: Dispõe sobre a tributação dos valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira em relação aos quais o contribuinte pessoa física, regularmente intimado, não comprove a origem dos recursos. Art. 1º Considerase omissão de rendimentos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida em instituição financeira, cuja origem dos recursos o contribuinte, regularmente intimado, não comprove mediante documentação hábil e idônea. § 1º Quando comprovado que os valores creditados em conta de depósito ou de investimento pertencem à terceiro, evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos é efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento. § 2º Caracterizada a omissão de rendimentos decorrente de créditos em conta de depósito ou de investimento mantidas em conjunto, cuja declaração de rendimentos dos titulares tenha sido apresentada em separado, o valor dos rendimentos é imputado a cada titular mediante divisão do total dos rendimentos pela quantidade de titulares. Art. 2º Os rendimentos omitidos serão considerados recebidos no mês em que for efetuado o crédito pela instituição financeira. Art. 3º Para efeito de determinação dos rendimentos omitidos, os créditos serão analisados individualizadamente. § 1º Para efeito de determinação do valor dos rendimentos omitidos, não será considerado o crédito de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o somatório desses créditos não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais), dentro do anocalendário. § 2º Os créditos decorrentes de transferência entre contas de mesmo titular não serão considerados para efeito de determinação dos rendimentos omitidos. Da interpretação dos dispositivos legais acima transcritos podemos afirmar, que para a determinação da omissão de rendimentos na pessoa física, a fiscalização deverá proceder a uma análise preliminar dos valores creditados em conta de depósito ou de Fl. 783DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 8 15 investimento mantida junto à instituição financeira, onde devem ser observados os seguintes critérios/formalidades: I – não serão considerados os créditos em conta de depósito ou investimento decorrentes de transferências de outras contas de titularidade da própria pessoa física sob fiscalização; II – os créditos serão analisados individualizadamente, ou seja, a análise dos créditos deverá ser procedida de forma individual (um por um); III – nesta análise não serão considerados os créditos de valor igual ou inferior a doze mil reais, desde que o seu somatório, dentro do anocalendário, não ultrapasse o valor de oitenta mil reais (com a exclusão das transferências entre contas do mesmo titular); IV – todos os créditos de valor superior a doze mil reais integrarão a análise individual, exceto os decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física fiscalizada; V – no caso de contas em conjunto cuja declaração de rendimentos tenham sido apresentadas em separado, os lançamentos de constituição de créditos tributários efetuados a partir da entrada em vigor da Lei n° 10.637, de 2002, ou seja, a partir 31/12/02, deverão obedecer ao critério de divisão do total da omissão de rendimentos apurada pela quantidade de titulares, sendo que todos os titulares deverão ser intimados para prestarem esclarecimentos; VI – quando comprovado que os valores creditados em conta de depósito ou de investimento pertencem à terceiro evidenciando interposição de pessoa, a determinação dos rendimentos é efetuada em relação ao terceiro, na condição de efetivo titular da conta de depósito ou de investimento; VII – os rendimentos omitidos, de origem não comprovada, serão apurados no mês em que forem recebidos e estarão sujeitos, com multa de ofício, na declaração de ajuste anual, conforme tabela progressiva vigente à época. Podese concluir, ainda, que: I na pessoa jurídica os créditos serão analisados de forma individual, com exclusão apenas dos valores relativos a transferências entre as suas próprias contas bancárias, não sendo aplicável o limite individual de crédito igual ou inferior a doze mil reais e oitenta mil reais no anocalendário; II – caracteriza omissão de receita ou rendimento, desde que obedecidos os critérios acima relacionados, todos os valores creditados em conta de depósito ou de investimento, em relação aos quais a pessoa física ou jurídica, não comprove a origem dos recursos utilizados nessas operações, desde que regularmente intimada a prestar esclarecimentos e comprovações; III – na pessoa física a única hipótese de anistia de valores é a existência de créditos não comprovados que individualmente não sejam superiores a doze mil reais, limitado ao somatório, dentro do anocalendário, a oitenta mil reais; Fl. 784DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 16 IV – na hipótese de créditos que individualmente superem o limite de doze mil reais, sem a devida comprovação da origem, ou seja, sem a comprovação, mediante apresentação de documentação hábil e idônea que estes créditos (recursos) tem origem em rendimentos já tributados, não tributáveis ou que estão sujeitos a normas específicas de tributação, cabe a constituição de crédito tributário como se omissão de rendimentos fossem, desde que regularmente intimado a prestar esclarecimentos e comprovações; V – na hipótese de créditos não comprovados que individualmente não superem o limite de doze mil reais, entretanto, estes créditos superam, dentro do ano calendário, o limite de oitenta mil reais, todos os créditos sem a devida comprovação da origem, ou seja, sem a comprovação, mediante apresentação de documentação hábil e idônea que estes créditos (recursos) tem origem em rendimentos já tributados, não tributáveis ou que estão sujeitos a normas específicas de tributação, cabe a constituição de crédito tributário como se omissão de rendimentos fossem, desde que regularmente intimado a prestar esclarecimentos e comprovações; VI os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específica previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos; VII para efeito de determinação do valor dos rendimentos omitidos, não será considerado o crédito de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório desses créditos não comprovados não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00, dentro do anocalendário. Como se vê, nos dispositivos legais retromencionados, o legislador estabeleceu uma presunção legal de omissão de rendimentos. Não logrando o titular comprovar a origem dos créditos efetuados em sua conta bancária, temse a autorização legal para considerar ocorrido o fato gerador, ou seja, para presumir que os recursos depositados traduzem rendimentos do contribuinte. É evidente que nestes casos existe a inversão do ônus da prova, característica das presunções legais o contribuinte é quem deve demonstrar que o numerário creditado não é renda tributável. É incontroverso, que é função do fisco, entre outras, comprovar o crédito dos valores em contas de depósito ou de investimento, examinar a correspondente declaração de rendimentos e intimar o titular da conta bancária a apresentar os documentos/informações/esclarecimentos, com vistas à verificação da ocorrência de omissão de rendimentos de que trata o artigo 42 da lei nº 9.430, de 1996. Contudo, a comprovação da origem dos recursos utilizados nessas operações é obrigação do contribuinte. Não comprovada a origem dos recursos, tem a autoridade fiscal o poder/dever de considerar os valores depositados como rendimentos tributáveis e omitidos na declaração de ajuste anual, efetuando o lançamento do imposto correspondente. Nem poderia ser de outro modo, ante a vinculação legal decorrente do Princípio da Legalidade que rege a Administração Pública, cabendo ao agente tãosomente a inquestionável observância da legislação. Por outro lado, também é verdadeiro, como visto anteriormente, que dos valores constantes dos extratos bancários do contribuinte, devem ser excluídos os valores dos depósitos decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física, os referentes a proventos, resgates de aplicações financeiras, estornos, cheques devolvidos, empréstimos Fl. 785DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 9 17 bancários etc., e ainda os depósitos de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00. Por fim, após efetuar a conciliação bancária e constatada a possibilidade de tributação com base nos depósitos/créditos, em virtude de se verificar que o somatório anual dos depósitos realizados em todas as contas bancárias mantidas pelo contribuinte é superior a R$ 80.000,00, ou que o contribuinte teve depósitos em valor superior a R$ 12.000,00, deve o contribuinte ser intimado para comprovar a origem dos recursos utilizados nas operações. Esta comprovação deverá ser feita com documentação hábil e idônea, devendo ser indicada à origem de cada depósito individualmente, não servindo, a princípio, como comprovação de origem de depósito os rendimentos anteriormente auferidos ou já tributados, se não for comprovada a vinculação da percepção dos rendimentos com os depósitos realizados. Assim, os valores cuja origem não houver sido comprovada serão oferecidos à tributação, submetendose aos limites individual e anual para os depósitos, como omissão de rendimentos, utilizandose a tabela progressiva vigente à época em que tenha sido efetuado o crédito pela Instituição Financeira. Não há dúvidas, que na presunção de omissão de rendimentos de que trata o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, o sujeito passivo é o titular da conta bancária que, regularmente intimado, não comprove a origem dos depósitos bancários. Assim sendo, resta claro de que o legislador atribuiu ao titular da disponibilidade financeira, e não à Administração Tributária, o ônus de identificar os negócios jurídicos que proporcionaram os depósitos. Não poderia ser mais ponderado. Afinal, é ele, contribuinte, que participa diretamente do negócio, o qual, na quase totalidade dos casos, se exterioriza pela produção de um instrumento formal que se constitui em prova documental da sua realização (recibo, contrato, escritura, nota fiscal, etc.). Em suma, a norma estabeleceu a obrigatoriedade de o contribuinte manter documentação probatória da origem dos valores que deposita em sua conta bancária. Fazse necessário reforçar, que a presunção criada pelo art. 42 da Lei n° 9.430, de 1996, é uma presunção relativa passível de prova em contrário. Ou seja, está condicionada apenas à falta de comprovação da origem dos recursos que transitaram, em nome do contribuinte, em instituições bancárias. A simples prova em contrário, ônus que cabe ao contribuinte, faz desaparecer a presunção de omissão de rendimentos. Por outro lado, a falta de justificação faz nascer à obrigação do contribuinte para com a Fazenda Nacional de pagar o tributo com os devidos acréscimos previstos na legislação de regência, já que a principal obrigação em matéria tributária é o recolhimento do valor correspondente ao tributo na data aprazada. A falta de recolhimento no vencimento acarreta em novas obrigações de juros e multa que se convertem também em obrigação principal. Assim, desde que o procedimento fiscal esteja lastreado nas condições imposta pelo permissivo legal, entendo que seja do recorrente o ônus de provar a origem dos recursos depositados em sua conta corrente. Ou seja, de provar que há depósitos, devidamente especificados, que representam ou não aquisição de disponibilidade financeira tributável ou não tributável, ou que já foi tributado. Desta forma, para que se proceda à exclusão da base de cálculo de algum valor considerado, indevidamente, pela fiscalização, se faz necessário que o contribuinte apresente elemento probatório que seja hábil e idôneo para comprovar a origem do valor depositado (créditos), independentemente, se tratar rendimentos tributáveis ou não. Os Fl. 786DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 18 valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributações específicas, previstas na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. É evidente, que depósitos bancários de origem não comprovada se traduzem em renda presumida, por presunção legal “júris tantum”. Isto é, ante o fato material constatado, qual seja depósitos/créditos em conta bancária, sobre os quais o contribuinte, devidamente intimado, não apresentou comprovação de origem, a legislação ordinária autoriza a presunção de renda relativamente a tais valores (Lei n° 9.430, de 1996, art. 42). Indiscutivelmente, esta presunção em favor do fisco transfere ao contribuinte o ônus de elidir a imputação, mediante a comprovação da origem dos recursos questionados. Pelo exame dos autos verificase que o recorrente, embora intimado a comprovar, mediante a apresentação de documentação hábil e idônea, a origem dos valores depositados em suas contas bancárias, não conseguiu equacionar, de forma razoável, os depósitos questionados com os pretensos valores recebidos e é isso que importa, justificar a origem dos depósitos de forma individualizada, coincidentes em datas e valores. Não há dúvidas, que a Lei nº 9.430, de 1996, definiu, portanto, que os depósitos bancários, de origem não comprovada, efetuados a partir do anocalendário de 1997, caracteriza omissão de rendimentos e não meros indícios de omissão, estando, por conseguinte, sujeito à tributação pelo Imposto de Renda nos termos do art. 3º, § 4º, da Lei nº 7.713, de 1988. Ora, no presente processo, a constituição do crédito tributário decorreu em face do contribuinte não ter provado com documentação hábil ou idônea a origem dos recursos que dariam respaldo aos referidos depósitos/créditos, dando ensejo à omissão de receita ou rendimento (Lei nº 9.430/1996, art. 42) e, refletindo, conseqüentemente, na lavratura do instrumento de autuação em causa. Ademais, à luz da Lei nº 9.430, de 1996, cabe ao suplicante, demonstrar o nexo causal entre os depósitos existentes e o benefício que tais créditos tenham lhe trazido, pois somente ele pode discriminar que recursos já foram tributados e quais se derivam de meras transferências entre contas. Em outras palavras, como destacado nas citadas leis, cabe a ele comprovar a origem de tais depósitos bancários de forma tão substancial quanto o é a presunção legal autorizadora do lançamento. Além do mais, é cristalino na legislação de regência (§ 3º do art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996), a necessidade de identificação individualizada dos depósitos, sendo necessário coincidir valor, data e até mesmo depositante, com os respectivos documentos probantes, não podendo ser tratadas de forma genérica e nem por médias. A legislação é bastante clara, quando determina que a pessoa física está obrigada a guardar os documentos das operações ocorridas ao logo do anocalendário, até que se expire o direito de a Fazenda Nacional realizar ações fiscais relativas ao período, ou seja, até que ocorra a decadência do direito de lançar, significando com isto dizer que o contribuinte tem que ter um mínimo de controle de suas transações, para possíveis futuras solicitações de comprovação, ainda mais em se tratando de depósitos de quantias vultosas. Nos autos ficou evidenciado, através de indícios e provas, que o suplicante recebeu os valores questionados neste auto de infração. Sendo, que, neste caso, está clara a existência de indícios de omissão de rendimentos, situação que se inverte o ônus da prova do fisco para o sujeito passivo. Isto é, ao invés de a Fazenda Pública ter de provar que a recorrente Fl. 787DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 10 19 possuía fontes de recursos para receber estes valores ou que os valores são outros, já que a base arbitrada não corresponderia ao valor real recebido, competirá a suplicante produzir a prova da improcedência da presunção, ou seja, que os valores recebidos estão lastreados em documentos hábeis e idôneos, coincidentes em datas e valores. A presunção legal júris tantum inverte o ônus da prova. Neste caso, a autoridade lançadora fica dispensada de provar que o depósito bancário não comprovado (fato indiciário) corresponde, efetivamente, ao auferimento de rendimento (fato jurídico tributário), nos termos do art. 334, IV, do Código de Processo Civil. Cabe ao contribuinte provar que o fato presumido não existiu na situação concreta. Não tenho dúvidas, que o efeito da presunção “júris tantum” é de inversão do ônus da prova. Portanto, cabia ao sujeito passivo, se o quisesse, apresentar provas de origem de tais rendimentos presumidos. Oportunidade que lhe foi proporcionado tanto durante o procedimento administrativo, através de intimação, como na impugnação, quer na fase ora recursal. Nada foi acostado que afastasse a totalidade da presunção legal autorizada. É transparente que o artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, definiu que os depósitos bancários, de origem não comprovada, caracterizam omissão de rendimentos e não meros indícios de omissão, razão pela qual não há que se estabelecer o nexo causal entre cada depósito e o fato que represente omissão de receita, ou mesmo restringir a hipótese fática à ocorrência de variação patrimonial ou a indícios de sinais exteriores de riqueza, como previa a Lei nº 8.021, de 1990. O contribuinte na tentativa de comprovar a origem dos depósitos bancários questionados apresenta, em síntese, os seguintes argumentos: que o Recorrente e sua esposa possuíam, em 31/12/2002, como "DINHEIRO EM ESPÉCIE" a importância de R$ 105.000,00, conforme consta em suas Declarações de bens; que, vale ressaltar, que estes valores foram utilizados com aplicação de recursos, pelo fisco, para a apuração de eventual Aumento Patrimonial a Descoberto no ano calendário de 2002. Portanto, esta importância de R$ 105.000,00 deve ser considerada como RECURSOS para fazer face aos depósitos de R$ 166.000,00 efetuados no mês de fevereiro de 2003 pelo Recorrente; que é importante destacar que a decisão recorrida manteve a exigência incidente sobre os depósitos bancários tidos com de origem não comprovada sob o único fundamento de que o Recorrente não comprovou, com notas fiscais, que os recursos utilizados para tais depósitos tiveram origem nas suas atividades rurais; que, quanto a venda do VEICULO TOYOTA HILUX por R$ 40.000,00, é de se dizer, que a comprovação do valor recebido em 10/02/2003, conforme prova documento de autorização de transferência é de 08/04/03, porque o adquirente só fez a transferência nesta data. E. e usual a transferência do veiculo Junto ao DETRAN ocorrer em data posterior à data do efetivo pagamento. Por tais razões, o Recibo deve ser acatado para comprovação da origem dos recursos depositados na data de 10/02/2003; que, quanto a Venda de IMÓVEL por R$ 49.000,00, é de se dizer que a comprovação é feita através da Escritura (fls. 103 e doc. 01) e Recibo (fls. 104) comprovam Fl. 788DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 20 que o Recorrente, atuando como procurador, recebeu em 26/02/2003 a referida importância de R$ 49.000,00 e a depositou em sua conta bancária no dia seguinte. Vale ressaltar que o fisco não apresentou qualquer justificativa para glosa desta comprovação de origem; que, quanto a venda do TRATOR VALMET por R$ 35.000,00, é de se dizer, que a comprovação é através do Recibo de fls. 123 comprova a venda e o recebimento, em 15/09/2003, da referida importância pela venda do trator. Já o Recibo de fls. 171 e doc. 02), comprovam que o referido trator foi adquirido em 04/01/2003 da empresa AGROPECUÁRIA ACORDI LTDA. pelo valor de R$ 18.000,00. Após ser submetido a reforma e inclusão de uma grade o mesmo foi vendido por R$ 35.000,00 à empresa VERTICAL CONSTRUÇÕES LTDA., conforme faz prova o Recibo de fls. 123. A cópia do cheque e o comprovante de Depósito (doc. 03) ora juntados, comprovam, extreme de dúvida, que o depósito de R$ 35.000,00 decorreu do recebimento da venda do citado trator. A recusa do Recibo pelo fisco sob o argumento de 'falta de registro nos órgãos competentes", não pode prevalecer, visto que inexiste exigência legal para registro da venda de trator em qualquer órgão. Por esta razão e em face das provas ora juntadas, o Recibo deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos para o depósito de R$ 35.000,00 efetuado em 17/09/2003; que, quanto a venda do TRATOR MASSEY FERGUSSON por R$ 16.900,00, é de se dizer que a comprovação é efetuada através do Recibo fls. 127 comprova o recebimento pela venda do trator Massey Fergusson, o qual foi adquirido em 25/02/99, pelo Recibo de fls. 173. Intimado a confirmar se vendeu o referido trator ao Recorrente, o Sr. Samuel Ribeiro de Campos confirmou a operação (fls. 360/362). Intimado a confirmar a compra do citado trator ao Recorrente, o Sr. Rogério Ribeiro Rodrigues a confirmou (fls. 363/365). No entanto, de forma inexplicável, o Auditor Fiscal autuante não juntou aos autos as referidas Intimações bem como as respectivas Respostas. A falta de juntada de tais documentos não nos parece mera obra do acaso. Por esta razão e por obediência aos princípios verdade material e da lealdade processual não observado pela fiscalização, a defesa as juntou conforme indicado acima. Importa destacar que referido trator, como indicado às fls. 362 estava em mau estado de conservação (sucata), tendo sido submetido à reforma e incluídos grade Roma e carreta de madeira para a venda. A recusa do Recibo pelo fisco sob o argumento de "falta de registro nos órgãos competentes", não pode prevalecer, visto que inexiste exigência legal para registro de Recibo de venda de trator em qualquer órgão. Por esta razão e em face das provas, ora apresentadas, o Recibo deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos para o depósito de R$ 16.900,00 efetuado em 15/10/2003; que, quanto a venda de LAVOURA DE ABACAXI por R$ 102.000,00, é de se dizer, que a comprovação é realizada através do o contrato particular de compra e venda de plantação de abacaxi de fls. 129 comprova que o Recorrente vendeu ao Sr. DIJALMA GOMES uma lavoura composta por uma plantação de abacaxi que possuía em sua propriedade no Município de FrutalMG. Como se vê referido Contrato Particular a referida plantação foi vendida pela importância de R$102.000,00, cujo pagamento conforme previsto no próprio Contrato foi avençado para ser feito à medida de realizasse a colheita. Deste modo, a importância de R$ 50.000,000 representada por 05 (cinco) depósitos de R$ 10.000,00 todos efetuados no dia 04/11/2003 e de R$ 30.000,00 representados por 03 (três) depósitos de R$ 10.000,00 cada efetuados no dia 05/11/2003 e mais o depósito de R$ 22.000,00 efetuado no dia 21/11/2003, todos referemse ao pagamento do valor de R$ 102.000,00 fixado no citado contrato. É de se ressaltar ser totalmente descabida a exigência do fisco de que tal transação fosse acobertada por Nota Fiscal do Produtor Rural, uma vez que o que foi vendido foi uma "Plantação de Abacaxi", e não os próprios frutos. Assim, o documento hábil à formalização da referida operação é o próprio Contrato. Releva registrar, ainda, que conforme reza o próprio Contrato, que o adquirente ficou com o ônus do trato da lavoura e colheita dos frutos, a quem Fl. 789DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 11 21 caberia a emissão das notas fiscais, por ocasião da colheita e venda dos mesmos. Outro fato extremamente grave a registrar é que por ocasião da fiscalização o Sr DIJALMA GOMES foi Intimado a confirmar a citada compra da Lavoura de Abacaxi (fls. 367/368). Em 03/08/2003, às fls. 369/370 o mesmo confirmou a referida transação. No entanto, o auditor fiscal não juntou aos autos a referida Intimação bem como a resposta como já fizera com aquelas referidas às vendas dos tratores já noticiadas. Matreiramente e com grave ofensa ao principio da lealdade processual, o Auditor não juntou aos autos a Intimação e a Resposta, porque as mesmas eram favoráveis ao recorrente. Por tais razões, o referido Contrato deve ser acolhido como documento hábil à comprovação da origem dos recursos depositados nos dias 04, 05 e 21 de novembro de 2003, no valor total de R$102.000,00; que no decorrer dos trabalhos de fiscalização, o qual durou quase de 03 (três) anos fls. 01 e 280, o Recorrente tentou entregar a sua Declaração de Rendimentos Retificadora com a inclusão das receitas da atividade rural relativa ao anocalendário de 2003, exercício de 2004, não sendo possível em face de recusa da própria Receita Federal; que é importante destacar, ainda, que o valor das receitas da atividade rural do Recorrente é bem superior Aquelas constantes dos Recibos e outros documentos juntados por ocasião da fiscalização para fazer prova da origem dos recursos depositados em suas contas bancárias em datas especificadas; que, deste modo, a referida Declaração de Rendimentos, ora juntada (doc. 04) e farta documentação acostada aos autos e exaustivamente referenciada, indicam que o Recorrente obteve no anocalendário de 2003, exercício de 2004 os seguintes valores mensais de receitas da atividade rural, conforme espelhado do quadro abaixo, cujos valores foram utilizados para fazer face aos vários depósitos em suas contas bancárias; que segundo o disposto no Inciso II do § 3° do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pelo artigo 4° da Lei n° 9.481/97, a seguir transcrito, os valores dos depósitos inferiores a R$ 12.000,00, desde que o seu somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse R$ 80.000,00, NÃO serão considerados para fins apuração de eventual omissão de rendimentos; que por esta razão, a importância de R$ 71.467,41, representada pelo somatório dos créditos inferiores a R$ 12.000,00 no anocalendário de 2003, conforme demonstrado no "ANEXO II DEPÓSITOS , E/OU CRÉDITOS INFERIOR A R$ 12.000,00", deve ser sumariamente excluída da tributação, por força de disposição legal citada. Não tenho dúvidas, que a responsabilidade pela apresentação das provas do alegado compete ao contribuinte que praticou a irregularidade fiscal. Tendo em vista a mais renomada doutrina, assim como dominante jurisprudência administrativa e judicial a respeito da questão vêse que o processo fiscal tem por finalidade garantir a legalidade da apuração da ocorrência do fato gerador e a constituição do crédito tributário, devendo o julgador pesquisar exaustivamente se, de fato, ocorreu à hipótese abstratamente prevista na norma e, em caso de recurso do contribuinte, verificar aquilo que é realmente verdade, independentemente até mesmo do que foi alegado. Após a análise da documentação apresentada tanto na fase impugnatória como na fase de recursal e observada as argumentações tanto da autoridade fiscal como do suplicante entendo que cabe razão parcial ao recorrente. Senão vejamos: Fl. 790DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 22 Como visto, a legislação determina que o simples depósito bancário não justificado perante a autoridade lançadora, nos termos da presunção legal, por si só, já caracterizará omissão de rendimentos ou de receita, passível de tributação pelo imposto de renda, no caso de pessoa física e, no caso de pessoa jurídica, também pelos demais impostos e contribuições incidentes sobre receitas omissas (IRPJ, CSL, PIS, COFINS). Por outro lado, a legislação determina, ainda, que os valores cuja origem houver sido identificada e/ou comprovada e que não foi adicionada na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, deverão se submeter às normas de tributação especifica. Ou seja, é incabível o lançamento tributário tendo por base de cálculo depósitos bancários, na pessoa física do titular de conta bancária, quando restar identificado, através de documentação anexada aos autos, as pessoas físicas e jurídicas depositantes dos valores questionados. Os valores assim apurados, quando for o caso, submeterseão às normas de tributação específica prevista na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. Não tenho dúvidas, que neste processo, se faz necessário à evocação da justiça fiscal, no que se refere à aplicação do previsto no § 2º do artigo 42, da Lei nº 9.430, de 1996, que prevê sua aplicação nos casos em que os valores cuja origem houver sido comprovada, que não houverem sido computados na base de cálculo dos impostos e contribuições a que estiverem sujeitos, submeterseão às normas de tributação específica prevista na legislação vigente à época em que auferidos ou recebidos. É de se ressaltar, que o fornecimento e manutenção da segurança jurídica pelo Estado de Direito no campo dos tributos assume posição fundamental, razão pela qual o princípio da Legalidade se configura como uma reserva absoluta de lei, de modo que para efeitos de criação ou majoração de tributo é indispensável que a lei tributária exista e encerre todos os elementos da obrigação tributária. À Administração Tributária está reservado pela lei o direito de questionar a matéria, mediante processo regular, mas sem sobra de dúvida deve se atrelar à lei existente. Com efeito, a convergência do fato imponível à hipótese de incidência descrita em lei deve ser analisada à luz dos princípios da legalidade e da tipicidade cerrada, que demandam interpretação estrita. Da combinação de ambos os princípios, resulta que os fatos erigidos, em tese, como suporte de obrigações tributárias, somente, se irradiam sobre as situações concretas ocorridas no universo dos fenômenos, quando vierem descritos em lei e corresponderem estritamente a esta descrição. Como a obrigação tributária é uma obrigação ex lege, e como não há lugar para atividade discricionária ou arbitrária da administração que está vinculada à lei, devese sempre procurar a verdade real à cerca da imputação, desde que a obrigação tributária esteja prevista em lei. Não basta a probalidade da existência de um fato para dizerse haver ou não haver obrigação tributária. É certo que a Lei nº 9.430, de 1996 (art. 42 e §§) operou uma significativa mudança no tratamento tributário conferido à movimentação bancária dos contribuintes de imposto de renda. Inverteu o ônus da prova ao atribuir ao contribuinte o ônus de provar que valores creditados não se referem a receitas ou rendimentos omitidos. Por outro lado, a omissão de receitas ou rendimentos, baseada em certos indícios, há de repousar, comparativamente, em dado concretos, objetivos e coincidentes, sólidos em sua estruturação, devendo ser descartados as opções simplistas, baseadas em provas emprestadas, cujos dados levantados não são conclusivos. Fl. 791DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 12 23 Não tenho dúvidas, da análise deste processo, que o maior obstáculo a ser sanado é a questão da base de cálculo. Ou seja, qual é a base de cálculo a ser tributada neste processo: é o somatório dos depósitos bancários, cujos depositantes estão devidamente identificados, onde a autoridade lançadora conhece a origem dos recursos (omissão de rendimentos caracterizados por depósitos bancários – presunção de omissão) ou deveria ser, quando for o caso, o somatório dos valores dos depositantes (omissão de rendimentos recebidos de pessoas físicas e/ou jurídicas, sem comprovação de já terem sido tributados). Ora, com as devidas vênias, entendo, que neste caso em especial onde os depositantes estão identificados e onde tenho a origem dos recursos o procedimento correto será, quando for o caso, o lançamento por omissão de rendimentos recebidos de pessoas físicas e/ou jurídicas com amparo na legislação específica. Nesta situação, a aplicação do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996, está incorreta, pois a origem dos recursos está identificada, a autoridade lançadora, nestas situações, deve aprofundar as suas investigações questionando a razão pelo qual os depositantes efetuaram os depósitos, procurando detectar possíveis omissões de rendimentos/receitas por parte dos depositantes e por parte do titular da conta bancária recebedora dos depósitos. É evidente, que não se pode questionar a possibilidade do fisco, partindo das informações fornecidas por terceiros, iniciar o trabalho fiscal, porém, antes de proceder à autuação, deveria aprofundar e confrontar tais dados com outros elementos necessários para caracterizar a irregularidade praticada. O ônus do lançamento é da autoridade tributária, o fato do suplicante não ter respondido as intimações não pode obstar a sua defesa na fase impugnatória ou na fase recursal, bem como vedar a possibilidade da matéria ser levantada de ofício pelo julgador. Para o não atendimento das intimações existe punição especifica que é o agravamento da multa de lançamento de ofício em 50% e que foi aplicada no presente caso. Evidentemente que, quer a nível de cidadão contribuinte, quer a nível de terceiros envolvidos, o interesse do Estado prevalece, segundo os princípio do bem comum e os objetivos da justiça social. Porém, o Estado não pode e nem deve avançar sobre o cidadão, ao arrepio de leis que regem especificamente o assunto, já que tal situação redundará, por sem dúvidas, em nulidade processual junto ao poder judiciário. E, inúteis esforços administrativos, com o risco de o mesmo Estado ser condenado ao pagamento de honorários de sucumbência e custas judiciais, acaso a questão seja levada àquele Poder. Ora, não é possível colocarse em plano secundário, como que num passe de mágica, o princípio da legalidade e da verdade material. Digase, a bem da verdade, que a legislação é clara por demais no sentido de que quando restar provado nos autos, que sobre os valores depositados/creditados se tem noticia dos depositantes, ou seja, se sabe quem os depositou e por via de conseqüência se conhece a origem dos recursos, incabível se torna à aplicação do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996 (lançamento com base em depósitos bancários). Por essas razões, não vejo como imprimir um tratamento diferenciado neste processo, onde consta nos autos documentação que identifica parte dos depositantes dos valores questionados, ou seja, onde parte dos valores de depósitos bancários está, devidamente, identificado. Assim sendo e após a análise de cada alegação apresentada firmo as seguintes posições: Fl. 792DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 24 1 – No que diz respeito dos recursos em espécie, sob a alegação de que o recorrente e sua esposa possuíam, em 31/12/2002, como “dinheiro em espécie” a importância de R$ 105.000,00, entendo que a razão está com a autoridade lançadora, já que não restou comprovado, através da apresentação de documentação hábil e idônea, coincidentes em datas e valores, que o “dinheiro em espécie” fora depositado na conta do recorrente. 2 – No que diz respeito a venda do veículo Toyota Hilux por R$ 40.000,00, entendo que o recorrente forneceu todos os dados relativo as operações, identificando a origem do recurso depositado, atendendo o disposto na legislação de regência, já que existe prova de que a autorização de transferência é de 08/04/03 e o depósito ocorre 10/02/2003, pois é usual a transferência do veiculo junto ao DETRAN ocorrer em data posterior à data do efetivo pagamento. 3 – No que diz respeito a venda de imóvel por R$ 49.000,00, entendo que o recorrente forneceu todos os dados relativo as operações, identificando a origem do recurso depositado, atendendo o disposto na legislação de regência, já que a comprovação foi feita através da Escritura (fls. 103 e doc. 01) e Recibo (fls. 104), estes comprovam que o Recorrente, como procurador, recebeu em 26/02/2003 a referida importância de R$ 49.000,00 e a depositou em sua conta bancária no dia seguinte. . 4 No que diz respeito a venda do trator Valmet por R$ 35.000,00, entendo que o recorrente forneceu todos os dados relativo as operações, identificando a origem do recurso depositado, atendendo o disposto na legislação de regência, já que a comprovação foi feita através do recibo de fls. 123, onde comprova a venda e o recebimento, em 15/09/2003, da referida importância pela venda do trator por R$ 35.000,00 à empresa Vertical Construções Ltda., conforme faz prova o recibo de fls. 123. A cópia do cheque e o comprovante de Depósito (doc. 03), comprovam a operação. 5 No que diz respeito a venda do trator Massey Fergusson por R$ 16.900,00, entendo que o recorrente forneceu todos os dados relativo as operações, identificando a origem do recurso depositado, atendendo o disposto na legislação de regência, já que a comprovação foi feita através do recibo de fls. 127, onde comprova o recebimento pela venda do trator o qual foi adquirido em 25/02/99, pelo recibo de fls. 173. Intimado a confirmar se vendeu o referido trator ao Recorrente, o Sr. Samuel Ribeiro de Campos confirmou a operação (fls. 360/362) fls. 123, onde comprova a venda e o recebimento, em 15/09/2003, da referida importância pela venda do trator por R$ 35.000,00 à empresa Vertical Construções Ltda., conforme faz prova o recibo de fls. 123. A cópia do cheque e o comprovante de Depósito (doc. 03), comprovam a operação. 6 No que diz respeito a venda da lavoura de abacaxi por R$ 102.000,00, entendo que o recorrente forneceu todos os dados relativo as operações, identificando a origem dos recursos depositados, atendendo o disposto na legislação de regência, já que a comprovação é realizada através do contrato particular de compra e venda de plantação de abacaxi de fls. 129 comprova que o recorrente vendeu ao Sr. DIJALMA GOMES uma lavoura composta por uma plantação de abacaxi que possuía em sua propriedade no Município de FrutalMG. Como se vê referido Contrato Particular a referida plantação foi vendida pela importância de R$102.000,00, cujo pagamento conforme previsto no próprio Contrato foi avençado para ser feito à medida de realizasse a colheita. Deste modo, a importância de R$ 50.000,000 representada por 05 (cinco) depósitos de R$ 10.000,00 todos efetuados no dia 04/11/2003 e de R$ 30.000,00 representados por 03 (três) depósitos de R$ 10.000,00 cada efetuados no dia 05/11/2003 e mais o depósito de R$ 22.000,00 efetuado no dia 21/11/2003, todos referemse ao pagamento do valor de R$ 102.000,00 fixado. Fl. 793DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 13 25 Diante disso, é de se excluir os depósitos bancários acima mencionados, ou seja o valor de R$ 242.900,00. Por outro lado, é de se manter os valores dos demais depósitos bancários, já que a falta de justificação de sua origem faz nascer à presunção de omissão de rendimentos e por via de conseqüência à obrigação do contribuinte para com a Fazenda Nacional de pagar o tributo com os devidos acréscimos previstos na legislação de regência. Ora, ao recorrente é atribuído o ônus de elidir a imputação, mediante a comprovação da origem dos recursos. O que se vê nos autos, porém, é que a defesa não consegue relacionar os valores que alega ter recebido da pretensa atividade rural, já que além de não apresentar as Notas Fiscais de Produtor, que justificariam as receitas advindas da atividade rural, o contribuinte também não apresentou o livro caixa da atividade rural, o qual poderia servir, em conjunto com outros documentos, como prova idônea das operações comerciais e dos depósitos bancários em relação aos quais o contribuinte não conseguiu comprovar a origem. Observando, que nem ao menos se dignou em declarar tais receitas em suas Declarações de Ajuste Anual, conforme se constata às fls. 17/31. Com todas as vênias necessárias, se nem mesmo o recorrente sabe o quanto foi depositado em suas contas, como poderia a fiscalização saber. O ônus da prova, neste caso especifico, é do contribuinte, o qual deverá comprovar, através de documentação hábil e idônea, a origem dos valores/créditos depositados em suas contas bancárias, pormenorizadamente, individualizandoos e identificandoos, de acordo com os respectivos contratos de locação, os quais estavam sob sua administração. O que não se pode, a meu ver e com a devida vênia, é se eleger como sujeito passivo, principalmente para fins de gozar de tributação minorada pelo imposto de renda, tudo o que, “lato sensu”, todo o contribuinte entenda ser conveniente para si e quando estiver com vontade de fazêlo. As ações praticadas pelos contribuintes para ocultar sua real capacidade econômica, e assim se beneficiar indevidamente de algum tratamento diferenciado, deve merecer sempre a ação saneadora contrária, por parte da autoridade fiscal, em defesa até dos legítimos beneficiários daquele tratamento. Na perquirição do fato de relevância econômica capaz de caracterizar a ocorrência do fato gerador do tributo, a ação fiscal jamais se deterá na superficialidade dos aspectos formais dos atos, fatos e negócios jurídicos dos contribuintes, aceitandoos como eles se apresentam e sem poder investigar o que realmente aconteceu. Muito pelo contrário, a função precípua do Fisco é a de examinar a essência e a natureza dos fatos e dos negócios jurídicos, nada se importando com a nomenclatura que os contribuintes lhes tenham emprestado. Assim, não pode o contribuinte usar em sua defesa o fato de ter criado em sua vida tributária uma situação indefinida para beneficiarse do princípio do in dublio pro reo, situação esta derivada da prática de ato contrário ao ordenamento jurídico. Os fatos devem ser devidamente comprovados de forma coerente e com meios de prova idôneos, que não deixe margem à dúvida quanto à consistência das operações. Isto não foi feito no presente processo, nada foi apresentado pelo suplicante que pudesse orientar o julgador. Fl. 794DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 26 Por fim, é de se dizer que simples alegações desacompanhadas de documentação que as comprovem não são suficientes para afastar a presunção legal de omissão de rendimentos prevista no art. 42 da Lei n.° 9.430, de 1996. Eis que, por força do caput e § 3.° do referido artigo, os depósitos bancários devem ser comprovados mediante documentação hábil e idônea. Como a responsabilidade pela apresentação das provas do alegado compete ao contribuinte que praticou a irregularidade fiscal e como, no presente caso, o contribuinte nada apresentou é de se manter o lançamento na forma que foi realizado pela autoridade lançadora. Cabe ainda um esclarecimento quanto ao limite de R$ 80.000,00 invocado pelo recorrente. Alega o recorrente, que segundo o disposto no inciso II do § 3° do artigo 42 da Lei n° 9.430/96, com a redação dada pelo artigo 4° da Lei n° 9.481/97, os valores dos depósitos inferiores a R$ 12.000,00, desde que o seu somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse R$ 80.000,00, não serão considerados para fins apuração de eventual omissão de rendimentos. Por isso, o recorrente entende que a importância de R$ 71.467,41, representada pelo somatório dos créditos inferiores a R$ 12.000,00 no anocalendário de 2003, conforme demonstrado no "Anexo II Depósitos e/ou Créditos Inferior a R$ 12.000,00", deve ser sumariamente excluída da tributação, por força de disposição legal citada. Não tenho dúvidas, que por ocasião da análise inicial, pela autoridade fiscal lançadora, dos valores constantes nos extratos bancários do contribuinte devem ser excluídos os valores dos depósitos decorrentes de transferências de outras contas da própria pessoa física, os referentes a proventos, resgates de aplicações financeiras, estornos, cheques devolvidos, empréstimos bancários etc., e ainda os depósitos de valor individual igual ou inferior a R$ 12.000,00, desde que o somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00. Por fim, após efetuar a conciliação bancária e constatada a possibilidade de tributação com base nos depósitos/créditos, em virtude de se verificar que o somatório anual dos depósitos realizados em todas as contas bancárias mantidas pelo contribuinte é superior a R$ 80.000,00, ou que o contribuinte teve depósitos em valor superior a R$ 12.000,00, deve o contribuinte ser intimado para comprovar a origem dos recursos utilizados nas operações. Assim sendo, para concluir a presente questão, entendo que se faz necessário resolver uma questão de legalidade do lançamento. Ou seja, se faz necessário uma análise mais profunda na questão dos limites de créditos dispensados para efeito de apuração da omissão de rendimentos. Não há dúvidas, que a legislação de regência autoriza o lançamento quando os depósitos não comprovados não alcançarem os valores limites individual e anual estipulados, ou seja, para que os depósitos/créditos bancários de origem não comprovada sejam considerados omissão de rendimentos, encontra limite no inciso II do § 3º do artigo 42 da Lei nº 9.430, de 1996 que diz: § 3º Para efeito de determinação da receita omitida, os créditos serão analisados individualmente, observado que não serão considerados: (...). II – no caso de pessoa física, sem prejuízo do disposto no inciso anterior, os de valor individual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o seu somatório, dentro do anocalendário, Fl. 795DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 14 27 não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais) (nova redação – Lei nº 9.481, de 1997). Pela análise da legislação de regência a primeira conclusão que se tira é de que o limite de R$ 80.000,00 só faz sentido se for no momento do lançamento e não no momento da intimação, já que se no momento da intimação se a soma for inferior a R$ 80.000,00 o contribuinte nem será intimado para a devida comprovação, ou seja, o limite de R$ 80.000,00 é relativo aos depósitos não comprovados. Em outras palavras, a Lei nº 9.430, de 1996, não autoriza o lançamento com base em depósitos bancários, não comprovados, que não alcancem os valores limites individual de até R$ 12.000,00 e anual de R$ 80.000,00, nela mesmo estipulados. Isso significa dizer que, sendo os depósitos não comprovados inferiores aos limites estabelecidos, desaparece a presunção de que os depósitos seriam omissão de rendimentos e, conseqüentemente, o lançamento não pode ter como fundamentação legal o art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996, não significando que, em constatado a fiscalização depósitos incomprovados menores que os referidos limites, não possa fazer o lançamento com outra fundamentação, como por exemplo, através do levantamento de origens e aplicações “fluxo de caixa” pelo consumo comprovado. Da análise dos autos se observa, que após a exclusão da base de cálculo dos depósitos que tiveram origem justificadas na fase recursal, os valores remanescentes superam os limites estabelecidos na legislação de regência. Ou seja, o limite individual de até R$ 12.000,00 e o limite anual de R$ 80.000,00. Ou seja, o total perfaz o valor de R$ 83.467,41. O equívoco está centrado no depósito de R$ 12.000,00, realizado em 22/08/2003, já que a interpretação do recorrente está equivocada “os valores dos depósitos inferiores a R$ 12.000,00, desde que o seu somatório dentro do anocalendário, não ultrapasse R$ 80.000,00, não serão considerados para fins apuração de eventual omissão de rendimentos”. O equívoco está em “os de valor individual ou inferior a R$ 12.000,00 (doze mil reais), desde que o seu somatório, dentro do anocalendário, não ultrapasse o valor de R$ 80.000,00 (oitenta mil reais). Resta claro, que a legislação regência somente ampara a exclusão dos valores iguais ou inferiores a R$ 12.000,00 e desde que a soma anual não ultrapasse o limite de R$ 80.000,00. Para finalizar a redação do presente acórdão, cabe, ainda, tecer alguns comentários sobre a aplicação da penalidade e dos juros de mora lançados com base na taxa SELIC. Quanto à multa de lançamento de ofício mantida é de se dizer, que se entende como procedimento fiscal à ação fiscal para apuração de infrações e que se concretize com a lavratura do ato cabível, assim considerado o termo de início de fiscalização, termo de apreensão, auto de infração, notificação, representação fiscal ou qualquer ato escrito dos agentes do fisco, no exercício de suas funções inerentes ao cargo. Tais atos excluirão a espontaneidade se o contribuinte deles tomar conhecimento pela intimação. Os atos que formalizam o início do procedimento fiscal encontramse elencados no artigo 7º do Decreto n.º 70.235/72. Em sintonia com o disposto no artigo 138, parágrafo único do Código Tributário Nacional CTN, esses atos têm o condão de excluir a Fl. 796DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 28 espontaneidade do sujeito passivo e de todos os demais envolvidos nas infrações que vierem a ser verificadas. Em outras palavras, deflagrada a ação fiscal, qualquer providência do sujeito passivo, ou de terceiros relacionados com o ato, no sentido de repararem a falta cometida não exclui suas responsabilidades, sujeitandoos às penalidades próprias dos procedimentos de ofício. Além disso, o ato inaugural obsta qualquer retificação, por iniciativa do contribuinte e torna ineficaz consulta formulada sobre a matéria alcançada pela fiscalização. Ressaltese, com efeito, que o emprego da alternativa “ou” na redação dada pelo legislador ao artigo 138, do Código Tributário Nacional CTN, denota que não apenas a medida de fiscalização tem o condão de constituirse em marco inicial da ação fiscal, mas, também, consoante reza o mencionado dispositivo legal, “qualquer procedimento administrativo” relacionado com a infração é fato deflagrador do processo administrativo tributário e da conseqüente exclusão de espontaneidade do sujeito passivo pelo prazo de 60 dias, prorrogável sucessivamente com qualquer outro ato escrito que indique o prosseguimento dos trabalhos, na forma do parágrafo 2°, do art. 7°, do Dec. n° 70.235, de 1972. O entendimento, aqui esposado, é doutrina consagrada, conforme ensina o mestre FABIO FANUCCHI em “Prática de Direito Tributário”, pág. 220: O processo contencioso administrativo terá início por uma das seguintes formas: 1. pedido de esclarecimentos sobre situação jurídicotributária do sujeito passivo, através de intimação a esse; 2. representação ou denúncia de agente fiscal ou terceiro, a respeito de circunstâncias capazes de conduzir o sujeito passivo à assunção de responsabilidades tributárias; 3 autodenúncia do sujeito passivo sobre sua situação irregular perante a legislação tributária; 4. inconformismo expressamente manifestado pelo sujeito passivo, insurgindose ele contra lançamento efetuado. (...). A representação e a denúncia produzirão os mesmos efeitos da intimação para esclarecimentos, sendo peças iniciais do processo que irá se estender até a solução final, através de uma decisão que as julguem procedentes ou improcedentes, com os efeitos naturais que possam produzir tais conclusões. No mesmo sentido, transcrevo comentário de A.A. CONTREIRAS DE CARVALHO em “Processo Administrativo Tributário”, 2ª Edição, págs. 88/89 e 90, tratando de Atos e Termos Processuais: Mas é dos atos processuais que cogitamos, nestes comentários. São atos processuais os que se realizam conforme as regras do processo, visando dar existência à relação jurídicoprocessual. Também participa dessa natureza o que se pratica à parte, mas em razão de outro processo, do qual depende. No processo administrativo tributário, integram essa categoria, entre outros: a) o auto de infração; b) a representação; c) a intimação e d) a notificação Fl. 797DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 15 29 (...). Mas, retornando a nossa referência aos atos processuais, é de assinalar que, se o auto de infração é peça que deve ser lavrada, privativamente, por agentes fiscais, em fiscalização externa, já no que concerne às faltas apuradas em serviço interno da Repartição fiscal, a peça que as documenta é a representação. Notese que esta, como aquele, é peça básica do processo fiscal. Portanto, o Auto de Infração deverá conter, entre outros requisitos formais, a penalidade aplicável, a sua ausência implicará na invalidade do lançamento. A falta ou insuficiência de recolhimento do imposto dá causa a lançamento de ofício, para exigilo com acréscimos e penalidades legais. É de se esclarecer, que a infração fiscal independe da boa fé do contribuinte, entretanto, a penalidade deve ser aplicada, sempre, levandose em conta a ausência de máfé, de dolo, e antecedentes do contribuinte. A multa que excede o montante do próprio crédito tributário, somente pode ser admitida se, em processo regular, nos casos de minuciosa comprovação, em contraditório pleno e amplo, nos termos do artigo 5º, inciso LV, da Constituição Federal, restar provado um prejuízo para fazenda Pública, decorrente de ato praticado pelo contribuinte. Por outro lado, a vedação de confisco estabelecida na Constituição Federal de 1988, é dirigida ao legislador. Tal princípio orienta a feitura da lei, que deve observar a capacidade contributiva e não pode dar ao tributo a conotação de confisco. Não observado esse princípio, a lei deixa de integrar o mundo jurídico por inconstitucional. Além disso, é de se ressaltar, mais uma vez, que a multa de ofício é devida em face da infração às regras instituídas pelo Direito Fiscal e, por não constituir tributo, mas penalidade pecuniária prevista em lei, é inaplicável o conceito de confisco previsto no inciso V, do art. 150 da Constituição Federal, não cabendo às autoridades administrativas estendêlo. Assim, as multas são devidas, no lançamento de ofício, em face da infração às regras instituídas pela legislação fiscal não declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, cuja matéria não constitui tributo, e sim de penalidade pecuniária prevista em lei, sendo inaplicável o conceito de confisco previsto no art. 150, IV da Constituição Federal, não conflitando com o estatuído no art. 5°, XXII da mesma constituição, que se refere à garantia do direito de propriedade. Desta forma, o percentual de multa aplicado está de acordo com a legislação de regência. Quanto à aplicação de multas de lançamento de ofício, se faz necessário ressaltar que a convergência do fato imponível à hipótese de incidência descrita em lei deve ser analisada à luz dos princípios da legalidade e da tipicidade cerrada, que demandam interpretação estrita. Da combinação de ambos os princípios, resulta que os fatos erigidos, em tese, como suporte de obrigações tributárias, somente, se irradiam sobre as situações concretas ocorridas no universo dos fenômenos, quando vierem descritos em lei e corresponderem estritamente a esta descrição. Da mesma forma, não vejo como se poderia acolher o argumento de inconstitucionalidade ou ilegalidade formal da multa de ofício aplicada e dos juros moratórios com base na taxa SELIC. Fl. 798DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN 30 É meu entendimento, acompanhado pelos pares desta Turma de Julgamento, que quanto à discussão sobre a inconstitucionalidade de normas legais, os órgãos administrativos judicantes estão impedidos de declarar a inconstitucionalidade de lei ou regulamento, face à inexistência de previsão constitucional. No sistema jurídico brasileiro, somente o Poder Judiciário pode declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público, através do chamado controle incidental e do controle pela Ação Direta de Inconstitucionalidade. No caso de lei sancionada pelo Presidente da República é que dito controle seria mesmo incabível, por ilógico, pois se o Chefe Supremo da Administração Federal já fizera o controle preventivo da constitucionalidade e da conveniência, para poder promulgar a lei, não seria razoável que subordinados, na escala hierárquica administrativa, considerasse inconstitucional lei ou dispositivo legal que aquele houvesse considerado constitucional. Exercendo a jurisdição no limite de sua competência, o julgador administrativo não pode nunca ferir o princípio de ampla defesa, já que esta só pode ser apreciada no foro próprio. Se verdade fosse, que o Poder Executivo deva deixar aplicar lei que entenda inconstitucional, maior insegurança teriam os cidadãos, por ficarem à mercê do alvedrio do Executivo. O poder Executivo haverá de cumprir o que emana da lei, ainda que materialmente possa ela ser inconstitucional. A sanção da lei pelo Chefe do Poder Executivo afasta sob o ponto de vista formal a possibilidade da argüição de inconstitucionalidade, no seu âmbito interno. Se assim entendesse, o chefe de Governo vetálaia, nos termos do artigo 66, § 1º da Constituição. Rejeitado o veto, ao teor do § 4º do mesmo artigo constitucional, promulguea ou não o Presidente da República, a lei haverá de ser executada na sua inteireza, não podendo ficar exposta ao capricho ou à conveniência do Poder Executivo. Facultaselhe, tãosomente, a propositura da ação própria perante o órgão jurisdicional e, enquanto pendente a decisão, continuará o Poder Executivo a lhe dar execução. Imaginese se assim não fosse, facultandose ao Poder Executivo, através de seus diversos departamentos, desconhecer a norma legislativa ou simplesmente negarlhe executoriedade por entendêla, unilateralmente, inconstitucional. A evolução do direito, como quer o suplicante, não deve pôr em risco toda uma construção sistêmica baseada na independência e na harmonia dos Poderes, e em cujos princípios repousa o estado democrático. Assim, não se deve a pretexto de negar validade a uma lei pretensamente inconstitucional, praticarse inconstitucionalidade ainda maior consubstanciada no exercício de competência de que este Colegiado não dispõe, pois que deferida a outro Poder. Ademais, estas matérias (inconstitucionalidade de leis e juros moratórios com base na taxa SELIC) já estão pacificadas no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, razão pela qual o Presidente do então Primeiro Conselho de Contribuintes, objetivando a condensação da jurisprudência predominante neste Conselho, conforme o que prescreve o art. 30 do Regimento Interno dos Conselhos de Contribuintes (RICC), aprovado pela Portaria MF nº 55, de 16 de março de 1998, providenciou a edição e aprovação de diversas súmulas, que foram publicadas no DOU, Seção I, dos dias 26, 27 e 28 de junho de 2006, vigorando para as decisões proferidas a partir de 28 de julho de 2006. Atualmente estas súmulas foram convertidas para o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF, pela Portaria CARF nº 106, de 2009 (publicada no DOU de 22/12/2009), assim redigidas: “O CARF não é competente para se pronunciar sobre a Fl. 799DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN Processo nº 10245.000158/200664 Acórdão n.º 220201.590 S2C2T2 Fl. 16 31 inconstitucionalidade de lei tributária (Súmula CARF nº 2)” e “A partir de 1º de abril de 1995, os juros moratórios incidentes sobre débitos tributários administrados pela Secretaria da Receita Federal são devidos, no período de inadimplência, à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia SELIC para títulos federais (Súmula CARF nº 4)”. Diante do conteúdo dos autos e pela associação de entendimento sobre todas as considerações expostas no exame da matéria e por ser de justiça, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso para excluir da base de cálculo da exigência o valor de R$ 242.900,00. (Assinado digitalmente) Nelson Mallmann Fl. 800DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 31/01/2012 por NELSON MALLMANN
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Numero do processo: 10540.720130/2007-93
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Nov 29 00:00:00 UTC 2011
Ementa: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR
Exercício: 2004
VALOR DA TERRA NUA (VTN). ARBITRAMENTO COM BASE NO SISTEMA DE PREÇOS DE TERRAS (SIPT). UTILIZAÇÃO DO VTN MÉDIO DITR. EM DETRIMENTO DA UTILIZAÇÃO DO VTN MÉDIO POR APTIDÃO AGRÍCOLA.
Incabível a manutenção do Valor da Terra Nua (VTN) arbitrado pela
fiscalização, com base no Sistema de Preços de Terras (SIPT), utilizando VTN médio das DITR entregues no município de localização do imóvel, por contrariar o disposto no art. 14 da Lei nº 9.393, de 1996.
Recurso provido em parte.
Numero da decisão: 2202-001.484
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar
provimento parcial ao recurso para restabelecer o Valor da Terra Nua – VTN declarado pela Recorrente, nos termos do voto do Relator.
Nome do relator: ANTONIO LOPO MARTINEZ
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE TERRITORIAL RURAL ITR Exercício: 2004 VALOR DA TERRA NUA (VTN). ARBITRAMENTO COM BASE NO SISTEMA DE PREÇOS DE TERRAS (SIPT). UTILIZAÇÃO DO VTN MÉDIO DITR. EM DETRIMENTO DA UTILIZAÇÃO DO VTN MÉDIO POR APTIDÃO AGRÍCOLA. Incabível a manutenção do Valor da Terra Nua (VTN) arbitrado pela fiscalização, com base no Sistema de Preços de Terras (SIPT), utilizando VTN médio das DITR entregues no município de localização do imóvel, por contrariar o disposto no art. 14 da Lei nº 9.393, de 1996. Recurso provido em parte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento parcial ao recurso para restabelecer o Valor da Terra Nua – VTN declarado pela Recorrente, nos termos do voto do Relator. (Assinado digitalmente) Nelson Mallmann – Presidente (Assinado digitalmente) Antonio Lopo Martinez – Relator Composição do colegiado: Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Lúcia Moniz de Aragão Calomino Astorga, Guilherme Barranco de Souza, Fl. 297DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 2 Antonio Lopo Martinez, Odmir Fernandes, Pedro Anan Junior e Nelson Mallmann. Ausentes, justificadamente, os Conselheiros Rafael Pandolfo e Helenilson Cunha Pontes. Fl. 298DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10540.720130/200793 Acórdão n.º 220201.484 S2C2T2 Fl. 2 3 Relatório Em desfavor do contribuinte, BARRA VELHA AGROPECUARIA LTDA., foi lavrado o Auto de Infração de fls. 01/04, no qual é cobrado o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural TTR, exercício 2004, relativo ao imóvel denominado Fazenda Santa Beatriz 11, localizado no município de Correntina BA, com área total de 5.845,6 ha, cadastrado na SRF sob o n° 3.146.2405, no valor de R$ 227.054,80 (duzentos e vinte e sete mil cinqüenta e quatro reais e oitenta centavos), acrescido de multa de lançamento de oficio e de juros de mora, calculados até 30/11/2007, perfazendo um crédito tributário total de R$ 502.245,21 (quinhentos e dois mil duzentos e quarenta e cinco reais e vinte e um centavos).A contribuinte foi intimada a comprovar o valor declarado como Valor da Terra Nua VTN, fl. 10. No procedimento de análise e verificação das informações declaradas na DITR/2004 e dos documentos coletados no curso da ação fiscal, conforme Demonstrativo de Apuração do Imposto Devido ITR, fl. 03, a fiscalização apurou a seguinte infração: a) sub avaliação do Valor da Terra Nua — VTN. A alteração do Valor da Terra Nua — VTN, conforme Descrição dos Fatos e Enquadramento Legal, fls. 02/03, decorreu da falta de comprovação do valor declarado. Daí considerouse os valores constantes do SIFT Sistema de Pregos de Terra, instituido através da Portaria SRF no 447 de 28/03/02, para o município de CORRENTINA, conforme extrato anexo. Não concordando com a exigência, a contribuinte apresentou impugnação de fls. 24/113, em 11/01/2008. A DRJRecife ao apreciar o lançamento julgou o lançamento procedente. Insatisfeito apresenta impugnação reiterando as razões da impugnação. É o relatório. Fl. 299DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 4 Voto Conselheiro Antonio Lopo Martinez, Relator O presente recurso voluntário reúne os pressupostos de admissibilidade previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal e deve, portanto, ser conhecido por esta Turma de Julgamento. A discussão principal de mérito diz respeito ao valor da terra nua. No cálculo do Valor da Terra Nua VTN, entendeu a autoridade lançadora que houve subavaliação, tendo em vista o valor constante do Sistema de Preço de Terras (SIPT), instituído pela então SRF em consonância ao art. 14, caput, da Lei n° 9.393, de 1996, razão pela qual o VTN declarado para o imóvel. Em síntese, podemos dizer que o VTNm/ha representa a média ponderada dos preços mínimos dos diversos tipos de terras de cada microrregião, observandose nessa oportunidade o conceito legal de terra nua previsto na legislação de regência sobre o assunto, utilizandose como data de referência o último dia do ano anterior ao do lançamento. A utilização da tabela SIPT, para verificação do valor de imóveis rurais, a princípio, teria amparo no art. 14 da Lei nº 9.393, de 1996. Como da mesma forma, o valor do SIPT só é utilizado quando, depois de intimado, o contribuinte não apresenta elementos suficientes para comprovar o valor por ele declarado, da mesma forma que tal valor fica sujeito à revisão quando o contribuinte comprova que seu imóvel possui características que o distingam dos demais imóveis do mesmo município. Não tenho dúvidas de que as tabelas de valores indicados no SIPT, quando elaboradas de acordo com a legislação de regência, servem como referencial para amparar o trabalho de malha das declarações de ITR e somente deverão ser utilizados pela autoridade fiscal se o contribuinte não lograr comprovar que o valor declarado de seu imóvel corresponde ao valor efetivo na data do fato gerador. Para tanto, a fiscalização deve enviar uma intimação ao contribuinte solicitando a comprovação dos dados declarados antes de proceder à formalização do lançamento. Vivemos em um Estado de Direito, onde deve imperar a lei, de tal sorte que o indivíduo só se sentirá forçado a fazer ou não fazer alguma coisa compelido pela lei. Daí porque o lançamento ser previsto no art. 142 do Código Tributário Nacional como atividade plenamente vinculada, isto é, sem possibilidade de a cobrança se firmar em ato discricionário, e, por outro lado, obrigatória, isto é o órgão da administração não pode deixar de cobrar o tributo previsto em lei. Assim, sendo se faz necessário uma análise preliminar sobre a possibilidade da utilização dos valores constantes da tabela SIPT, quando elaborada tendo por base as DITR do município onde se localiza o imóvel. Ou seja, se faz necessário enfrentar a questão da legalidade da forma de cálculo que é utilizado, nestes caso, para se encontrar os valores determinados na referida tabela. Razão pela qual, se faz necessário verificar qual foi metodologia utilizada para se chegar aos valores constantes da tabela SIPT, principalmente, nos casos em que restar Fl. 300DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ Processo nº 10540.720130/200793 Acórdão n.º 220201.484 S2C2T2 Fl. 3 5 comprovado, nos autos do processo, que a mesma foi elaborada tendo por base a média dos VTN das DITR entregues no município da localização do imóvel. Esta forma de valoração do VTN atenderia as normas legais para se proceder ao arbitramento do VTN a ser utilizado, pela autoridade fiscal, na revisão da DITR? Sem dúvidas, que tal ponto não deixa de ser importante, posto que, em se entendendo que as normas de cálculo utilizadas para a confecção da Tabela SIPT, tomada como base para o arbitramento do VTN pela autoridade fiscal, não se demonstram adequadas à lei, tal situação faria prevalecer o VTN indicado pelo contribuinte em laudo técnico ou de sua Declaração. Este é o caso questão, onde o VTN extraído do SIPT referese à média dos VTNs das DITRs apresentadas para o mesmo município e não do VTN médio por aptidão agrícola, onde se avalia os preços médios por hectare de terras do município onde esta localizado o imóvel, apurado através da avaliação pela Secretaria Estadual de Agricultura os preços de terras levando em conta de existência de lavouras, campos, pastagens, matas. O VTN, segundo a fls 13, é calculado sem aptidão agrícola. Analisando o conteúdo das normas reguladoras para a fixação dos preços médios de terras por hectare só posso concluir, que o levantamento do VTN, levando conta a média dos VTN constantes da DITRs, não condiz com o proposto pelo art. 14 da Lei nº 9.393, de 1996, verbis: Art. 14. No caso de falta de entrega do DIAC ou do DIAT, bem como de subavaliação ou prestação de informações inexatas, incorretas ou fraudulentas, a Secretaria da Receita Federal procederá à determinação e ao lançamento de ofício do imposto, considerando informações sobre preços de terras, constantes de sistema a ser por ela instituído, e os dados de área total, área tributável e grau de utilização do imóvel, apurados em procedimentos de fiscalização. § 1º As informações sobre preços de terra observarão os critérios estabelecidos no art. 12, § 1º, inciso II da Lei nº 8.629, de 25 de fevereiro de 1993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos Municípios. Assim se manifesta o art. 12 da Lei nº 8.629, de 1993: Artigo 12 Considerase justa a indenização que permita ao desapropriado a reposição, em seu patrimônio, do valor do bem que perdeu por interesse social. § 1º A identificação do valor do bem a ser indenizado será feita, preferencialmente, com base nos seguintes referenciais técnicos e mercadológicos, entre outros usualmente empregados: I valor das benfeitorias úteis e necessárias, descontada a depreciação conforme o estado de conservação; II valor da terra nua, observados os seguintes aspectos: a) localização do imóvel; Fl. 301DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ 6 b) capacidade potencial da terra; c) dimensão do imóvel. § 2º Os dados referentes ao preço das benfeitorias e do hectare da terra nua a serem indenizados serão levantados junto às Prefeituras Municipais, órgãos estaduais encarregados de avaliação imobiliária, quando houver, Tabelionatos e Cartórios de Registro de Imóveis, e através de pesquisa de mercado. (o grifo não é do original) Resta claro, que com a publicação da Lei nº 9.393, de 1996, em seu art. 14 dispõe que as informações sobre preços de terras observarão os critérios estabelecidos no artigo 12, § 1°, inciso II, da Lei n 8.629, de 25 de fevereiro de 1.993, e considerarão levantamentos realizados pelas Secretarias de Agricultura das Unidades Federadas ou dos municípios. Ora, se a fixação do VTNm não teve por base esse levantamento (por aptidão agrícola), o que está comprovado nos autos, já que a autoridade fiscal lançadora se utilizou do VTN médio das DITRs entregues no município, então não se cumpriu o comando legal e o VTNm adotado para proceder ao arbitramento pela autoridade lançadora não é legítimo, sendo inservível para o fim da recusa do valor declarado ou pretendido pelo contribuinte. Diante do entendimento que o VTN médio utilizado pela autoridade fiscal lançadora não cumpre as exigências legais determinadas pela legislação de regência, penso ser irrelevante continuar a discussão da questão do Laudo de Avaliação do VTN, já que compartilho com o entendimento, que nesses casos, deve ser restabelecido o VTN declarado pelo recorrente em sua DITR glosado pela autoridade fiscal. Ante ao exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso para restabelecer o Valor da Terra Nua – VTN declarado pela Recorrente. (Assinado digitalmente) Antonio Lopo Martinez Fl. 302DF CARF MF Impresso em 23/05/2012 por JOSE ROBERTO DE FARIA CÓ PI A Documento assinado digitalmente conforme MP nº 2.200-2 de 24/08/2001 Autenticado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ, Assinado digitalmente em 16/01/201 2 por NELSON MALLMANN, Assinado digitalmente em 16/01/2012 por ANTONIO LOPO MARTINEZ
score : 1.0
Numero do processo: 10530.726047/2015-57
Turma: Segunda Turma Extraordinária da Segunda Seção
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jan 29 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Tue Mar 31 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Ano-calendário: 2010
AUTO DE INFRAÇÃO. GFIP. MULTA POR ATRASO.
Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega.
LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46.
O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário.
DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49.
A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração.
INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02.
O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Numero da decisão: 2002-002.481
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado.
(documento assinado digitalmente)
Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Presidente e Relatora
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil.
Nome do relator: CLAUDIA CRISTINA NOIRA PASSOS DA COSTA DEVELLY MONTEZ
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GFIP. MULTA POR ATRASO. Constitui infração à legislação previdenciária deixar a empresa de apresentar GFIP dentro do prazo fixado para a sua entrega. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PRÉVIA. SÚMULA CARF Nº 46. O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO. SÚMULA CARF Nº 49. A denúncia espontânea não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 02. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao Recurso Voluntário. O julgamento deste processo seguiu a sistemática dos recursos repetitivos, aplicando-se o decidido no julgamento do processo 13811.726461/2015-06, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez – Presidente e Relatora Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez, Mônica Renata Mello Ferreira Stoll, Thiago Duca Amoni e Virgílio Cansino Gil. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 53 0. 72 60 47 /2 01 5- 57 Fl. 48DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 2002-002.481 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10530.726047/2015-57 Relatório O presente julgamento submete-se à sistemática dos recursos repetitivos, prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do Regulamento Interno do CARF (RICARF), aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, e, dessa forma, adoto neste relatório o relatado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, que lhe serve de paradigma. Trata-se de Auto de Infração lavrado em nome do sujeito passivo acima identificado, onde se apurou a Multa por Atraso na Entrega de Guia de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social – GFIP. O contribuinte apresentou Impugnação, a qual foi julgada improcedente pelo Colegiado a quo. Cientificado do acórdão de primeira instância, o interessado ingressou com Recurso Voluntário com os argumentos a seguir sintetizados. - Alega a ocorrência de denúncia espontânea, conforme entendimento da Receita Federal constante da IN 971/09 e do Manual da GFIP/SEFIP. - Aduz que a multa em exame deveria observar os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. - Sustenta que não houve intimação do contribuinte omisso, como determina expressamente o art. 32-A da Lei 8.212/91, nem tampouco a imposição da multa no momento do recebimento da GFIP em atraso ou nos anos seguintes, tendo o fisco efetuado o lançamento nos estertores da decadência tributária. - Entende que a suposta infração de natureza acessória alcançou seu objetivo de forma plena e eficaz ante o pagamento integral do tributo consignado na GFIP antes de qualquer iniciativa fiscal. - Expõe que, ainda que tenha obedecido à regra da competência legislativa e tenha respeitado o processo legislativo, a lei será inconstitucional se atentar contra o princípio da razoabilidade. - Suscita o caráter confiscatório da multa aplicada. - Afirma que houve violação ao art. 146 do CTN. - Ressalta que não houve prejuízo ao erário, considerando que os encargos foram devidamente recolhidos. - Assevera que as multas aplicadas contrariam a jurisprudência administrativa e judicial. Fl. 49DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 2002-002.481 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10530.726047/2015-57 Voto Conselheira Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez - Relatora Das razões recursais Como já destacado, o presente julgamento segue a sistemática dos recursos repetitivos, nos termos do art. 47, §§ 1º e 2º, Anexo II, do RICARF, desta forma reproduzo o voto consignado no Acórdão nº 2002-002.426, de 29 de janeiro de 2020, paradigma desta decisão. O Recurso Voluntário é tempestivo e reúne os requisitos de admissibilidade, portanto, dele tomo conhecimento. No que concerne à ausência de intimação prévia ao lançamento, aplica-se o disposto na Súmula CARF nº 46, com efeito vinculante em relação à Administração Tributária Federal: O lançamento de ofício pode ser realizado sem prévia intimação ao sujeito passivo, nos casos em que o Fisco dispuser de elementos suficientes à constituição do crédito tributário. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). O previsto no art. 32-A da Lei nº 8.212/91 não contraria este entendimento. A intimação prévia somente será realizada quando for necessária, ou seja, quando a autoridade fiscal não dispuser de elementos suficientes para efetuar o lançamento, o que não se verifica no caso em tela, uma vez que se trata de multa pelo atraso na entrega de GFIP sem apuração de incorreções em seu conteúdo. Relativamente à alegação de denúncia espontânea, deixo de tecer maiores considerações haja vista o entendimento consolidado na Súmula CARF n° 49, também vinculante em relação à Administração Tributária Federal: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. (Vinculante, conforme Portaria MF nº 277, de 07/06/2018, DOU de 08/06/2018). Quanto à infração apurada, equivoca-se o recorrente ao entender que a mesma poderia ser afastada em razão do pagamento integral do tributo consignado na GFIP. De acordo com o art. 32-A, II, da Lei 8.212/91, a multa incide sobre o montante das contribuições previdenciárias informadas no documento ainda que tenham sido integralmente pagas pelo contribuinte. A exigência da penalidade independe de sua capacidade financeira ou da existência de danos causados à Fazenda Pública. Também não há que se falar em alteração nos critérios jurídicos adotados pela autoridade administrativa e violação do art. 146 do Código Tributário Nacional - CTN. A alteração na sistemática de aplicação de multas vinculadas à GFIP ocorreu com a inclusão do art.32-A da Lei Fl. 50DF CARF MF Documento nato-digital https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf https://carf.economia.gov.br/acesso-a-informacao/boletim-de-servicos-carf/portarias-do-mf-de-interesse-do-carf-2018/portarias-mf-277-sumulas-efeito-vinculantes.pdf Fl. 4 do Acórdão n.º 2002-002.481 - 2ª Sejul/2ª Turma Extraordinária Processo nº 10530.726047/2015-57 8.212/91 pela Lei 11.941/09, ou seja, anteriormente ao ano calendário que aqui se examina. Vale lembrar que, segundo o art. 142 do CTN, a atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, não cabendo discussão sobre a aplicação das determinações legais vigentes por parte das autoridades fiscais. Quanto aos questionamentos acerca da violação aos princípios constitucionais e do caráter confiscatório da multa, importa reproduzir o disposto na Súmula CARF n° 2, de observância obrigatória por seus Conselheiros no julgamento dos Recursos: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Cabe mencionar, por fim, que as decisões trazidas pelo recorrente somente vinculam as partes envolvidas naqueles litígios, não podendo ser estendidas genericamente a outros casos. Por todo o exposto, voto por conhecer do Recurso Voluntário e, no mérito, negar-lhe provimento. Conclusão Importa registrar que nos autos em exame a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada na decisão paradigma, de tal sorte que, as razões de decidir nela consignadas, são aqui adotadas. Dessa forma, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do anexo II do RICARF, reproduzo o decidido no acórdão paradigma, no sentido de negar provimento ao Recurso Voluntário. (documento assinado digitalmente) Cláudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez Fl. 51DF CARF MF Documento nato-digital
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Numero do processo: 16327.720623/2016-25
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Primeira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Feb 11 00:00:00 UTC 2020
Data da publicação: Tue Mar 17 00:00:00 UTC 2020
Ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ)
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013
LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR POR EMPRESA CONTROLADA. CONVENÇÃO BRASIL-LUXEMBURGO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO DE RENDA. PREVALÊNCIA SOBRE A LEGISLAÇÃO INTERNA.
Não se confundem as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, e as dispostas na Convenção Brasil-Luxemburgo para evitar bitributação de renda. Não se trata de esvaziar o conteúdo do artigo 7º da convenção, mas sim de compatibilizá-lo com a legislação brasileira de tributação dos lucros no exterior que se insere na categoria de norma CFC, plenamente admitido pelo direito internacional. O que se tributa no Brasil os lucros auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano-calendário, o que não é o mesmo que alcançar os lucros totais auferidos pela empresa situada em Luxemburgo, sujeita às regras de tributação daquele Grão-Ducado. A bitributação, no caso, é evitada pela norma brasileira que assegura a compensação integral do imposto pago no exterior, até o limite do IRPJ e da CSLL apurados no Brasil.
SALDO NEGATIVO DE IRPJ RECONHECIDO E AINDA NÃO RESTITUÍDO. EXIGÊNCIA DE IRPJ NO MESMO ANO-CALENDÁRIO. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA EQUIDADE. DESCABIMENTO.
Ante a existência de saldo negativo de IRPJ formado no ano-calendário, objeto de pedido de restituição devidamente reconhecido em outro processo administrativo, mas pendente de pagamento, por uma questão de equidade descabe a aplicação de multa de ofício sobre os valores de IRPJ exigidos relativos ao mesmo período de apuração.
SALDO NEGATIVO. PERÍODOS ANTERIORES. IMPOSSIBILIDADE.
O saldo negativo de um período não inclui os créditos de mesma natureza dos períodos anteriores, uma vez que os fatos geradores e apuração são distintos.
ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO
Ano-calendário: 2011, 2012, 2013
JUROS SOBRE MULTA.
Nos termos da súmula CARF nº 108, incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.
Numero da decisão: 1302-004.329
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário com relação à aplicação do tratado Brasil-Luxemburgo, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Gustavo Guimarães da Fonseca e Breno do Carmo Moreira Vieira e, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso para cancelar a multa de ofício aplicada sobre a exigência de IRPJ do ano 2011, vencidos o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo que negava provimento nesta parte e o conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias que dava provimento para aproveitamento de saldo negativo para cancelar o imposto, juros e multa lançados e, por unanimidade de votos em negar provimento ao recurso quanto ao aproveitamento de saldo negativo de IRPJ do ano-calendário 2012 à compensação de prejuízos fiscais e à incidência de juros de mora sobre as multas de ofício. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado com relação à aplicação do tratado Brasil-Luxemburgo e ao cancelamento da multa de ofício sobre o IRPJ de 2011.
(documento assinado digitalmente)
Luiz Tadeu Matosinho Machado Presidente e Redator Designado
(documento assinado digitalmente)
Flávio Machado Vilhena Dias - Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Gustavo Guimaraes da Fonseca, Ricardo Marozzi Gregorio, Flávio Machado Vilhena Dias, Breno do Carmo Moreira Vieira e Luiz Tadeu Matosinho Machado.
Nome do relator: FLAVIO MACHADO VILHENA DIAS
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CONVENÇÃO BRASIL-LUXEMBURGO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO DE RENDA. PREVALÊNCIA SOBRE A LEGISLAÇÃO INTERNA. Não se confundem as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, e as dispostas na Convenção Brasil-Luxemburgo para evitar bitributação de renda. Não se trata de esvaziar o conteúdo do artigo 7º da convenção, mas sim de compatibilizá-lo com a legislação brasileira de tributação dos lucros no exterior que se insere na categoria de norma CFC, plenamente admitido pelo direito internacional. O que se tributa no Brasil os lucros auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano-calendário, o que não é o mesmo que alcançar os lucros totais auferidos pela empresa situada em Luxemburgo, sujeita às regras de tributação daquele Grão-Ducado. A bitributação, no caso, é evitada pela norma brasileira que assegura a compensação integral do imposto pago no exterior, até o limite do IRPJ e da CSLL apurados no Brasil. SALDO NEGATIVO DE IRPJ RECONHECIDO E AINDA NÃO RESTITUÍDO. EXIGÊNCIA DE IRPJ NO MESMO ANO-CALENDÁRIO. MULTA DE OFÍCIO. PRINCÍPIO DA EQUIDADE. DESCABIMENTO. Ante a existência de saldo negativo de IRPJ formado no ano-calendário, objeto de pedido de restituição devidamente reconhecido em outro processo administrativo, mas pendente de pagamento, por uma questão de equidade descabe a aplicação de multa de ofício sobre os valores de IRPJ exigidos relativos ao mesmo período de apuração. SALDO NEGATIVO. PERÍODOS ANTERIORES. IMPOSSIBILIDADE. O saldo negativo de um período não inclui os créditos de mesma natureza dos períodos anteriores, uma vez que os fatos geradores e apuração são distintos. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2011, 2012, 2013 JUROS SOBRE MULTA. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 72 06 23 /2 01 6- 25 Fl. 2656DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 2 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Nos termos da súmula CARF nº 108, incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, em negar provimento ao recurso voluntário com relação à aplicação do tratado Brasil-Luxemburgo, vencidos os conselheiros Flávio Machado Vilhena Dias (relator), Gustavo Guimarães da Fonseca e Breno do Carmo Moreira Vieira e, por maioria de votos, em dar provimento parcial ao recurso para cancelar a multa de ofício aplicada sobre a exigência de IRPJ do ano 2011, vencidos o conselheiro Paulo Henrique Silva Figueiredo que negava provimento nesta parte e o conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias que dava provimento para aproveitamento de saldo negativo para cancelar o imposto, juros e multa lançados e, por unanimidade de votos em negar provimento ao recurso quanto ao aproveitamento de saldo negativo de IRPJ do ano-calendário 2012 à compensação de prejuízos fiscais e à incidência de juros de mora sobre as multas de ofício. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado com relação à aplicação do tratado Brasil-Luxemburgo e ao cancelamento da multa de ofício sobre o IRPJ de 2011. (documento assinado digitalmente) Luiz Tadeu Matosinho Machado – Presidente e Redator Designado (documento assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias - Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Paulo Henrique Silva Figueiredo, Gustavo Guimaraes da Fonseca, Ricardo Marozzi Gregorio, Flávio Machado Vilhena Dias, Breno do Carmo Moreira Vieira e Luiz Tadeu Matosinho Machado. Fl. 2657DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 3 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Relatório Por economia processual, uma vez que o presente processo já foi relatado, quando do julgamento realizado por este colegiado, que acabou sendo convertido em diligência, transcreve-se o relatório constante na Resolução de nº 1302-000.649, cujo julgamento se deu no dia 16 de outubro de 2018: “Trata-se de Auto de Infração lavrado em face do ora Recorrente, Banco Bradesco S/A, no qual a fiscalização alega que, nos anos calendários de 2011, 2012 e 2013, o contribuinte, ao apurar o lucro real, deixou de adicionar na apuração do lucro tributável os valores dos lucros auferidos por sua controlada - Banco Bradesco Europa, com domicílio no Grão-Ducato de Luxemburgo. No Termo de Verificação Fiscal (fl. 1483 a 1513), a fiscalização afirma que, nas respostas aos termos de intimação emitidos, "o Banco Bradesco deixa claro que não adicionou os lucros disponibilizados no exterior relativos ao Banco Bradesco Europa em função do artigo 7º da Convenção entre a República Federativa do Brasil e o Grão- Ducado de Luxemburgo para evitar a Dupla Tributação em Matéria de Impostos sobre a Renda e o Capital". Assim, após contextualizar o histórico legislativo brasileiro da tributação de controladas e coligadas no exterior, citar os dispositivos do Tratado firmado entre Brasil e Luxemburgo para evitar a dupla tributação (Decreto nº 85.051/1980) e discorrer sobre o MEP e as disposições legais de tributação da renda no direito brasileiro, o agente fiscal conclui: No entanto, o § 6º do art. 25 da Lei nº 9.249/1995, ao dispor que os resultados da avaliação dos investimentos no exterior pelo método da equivalência patrimonial continuarão a ter tratamento previsto na legislação vigente, ressalvou que isto seria sem prejuízo do disposto nos §§ 1º, 2º e 3º do mesmo artigo. É cediço que a sistemática prevista na legislação vigente (DL 1.598/77) é a exclusão do resultado positivo da equivalência patrimonial quando da apuração do lucro real. Dessa forma, se a investida é empresa domiciliada no Brasil, os lucros não são tributados na investidora por ocasião de sua distribuição porque já foram na empresa investida. Entretanto, se a investida não é empresa domiciliada no Brasil, essa tributação deverá se dar por ocasião da disponibilização dos lucros. Portanto, o que o § 6º explicitou foi que, quando decorrentes de investimentos no exterior, os resultados positivos da equivalência patrimonial que afetam o lucro contábil, continuarão a ter o tratamento previsto na legislação vigente, ou seja, continuarão a ser excluídos para fins de apuração do lucro real, "sem prejuízo do disposto no §§ § 1º, 2º e 3º, isto é, sem prejuízo da tributação quando da disponibilização. E, como vimos, o artigo 74 estabeleceu, por presunção (ou ficção), uma identidade temporal a apuração (data do balanço) e a disponibilização dos lucros auferidos por empresa investida domiciliada no exterior. Em Impugnação apresentada, o Recorrente rebateu os termos da autuação com os argumentos que foram assim sintetizados pelo acórdão recorrido: - QUE o lançamento não observou as disposições do tratado celebrado entre o Brasil e o Grão-Ducado de Luxemburgo para prevenir a dupla tributação em matéria de imposto de renda; QUE o art. 7º do tratado em questão determina que os lucros de uma empresa domiciliada em um dos países contratantes só pode ser tributado nesse país, ficando excluída, conseqüentemente, a competência do outro país para tributar os mesmos lucros; QUE a interpretação proposta pela autoridade fazendária contraria a razão histórica e a própria finalidade do art. 7º do tratado (combate à tributação automática de controladas), esvaziando o seu conteúdo; QUE, em se tratando da tributação dos lucros Fl. 2658DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 4 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 de controladas domiciliadas em Luxemburgo, a regra do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24/08/2001, é afastada pelo art. 7º do tratado; - QUE, mesmo que se pudesse admitir a tributação sobre os lucros da controlada estrangeira, ainda assim não haveria nenhum valor exigível a título de imposto de renda da pessoa jurídica; - QUE no ano-calendário de 2011, a Impugnante apurou um Saldo Negativo de IRPJ no valor de R$ 1.632.862.454,65, saldo este que não foi totalmente compensado nem restituído, restando ainda um crédito de R$ 277.618.210,87, suficiente para absorver o imposto lançado de ofício naquele período (docs. fls. 1667/1980); - QUE no ano-calendário de 2012, a Impugnante apurou um Saldo Negativo de IRPJ no valor de R$ 528.133.449,88, saldo este que também não foi totalmente compensado nem restituído, restando ainda um crédito de R$ 199.430.749,88, suficiente para absorver o imposto lançado de ofício naquele período (docs. fls. 1981/2120); - QUE no ano-calendário de 2013, a Impugnante apurou um prejuízo fiscal de R$ 6.302.564.512,45, que foi parcialmente utilizado no REFIS, restando ainda um saldo disponível de R$ 89.564.794,95 (docs. fls. 2121/2128); QUE a adição dos lucros da controlada estrangeira, no valor de R$ 53.910.879,61, teria meramente o condão de reduzir o prejuízo fiscal do período, não podendo resultar daí nenhuma exigência de imposto; - QUE, na hipótese de ser mantido o lançamento do IRPJ, no todo ou em parte, descabida será a imposição de juros de mora sobre a multa de ofício, na medida em que tal incidência não encontra previsão no art. 61 da Lei nº 9.430, de 27/12/1996. A douta Delegacia da Receita Federal de Julgamento no Rio de Janeiro (RJ), ao analisar os argumentos lançados na Impugnação e os documentos acostados aos autos, entendeu por bem julgar parcialmente procedente o apelo do contribuinte, tendo o acórdão recebido a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA - IRPJ Ano- calendário: 2011, 2012, 2013 TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DE CONTROLADAS NO EXTERIOR. TRATADO INTERNACIONAL PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTA-ÇÃO. A aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001, no sentido de fazer tributar, no País, os lucros auferidos por meio de controladas no exterior, não viola os tratados internacionais celebrados com base na Convenção-Modelo da OCDE, destinados a evitar dupla tributação em matéria de imposto de renda. LANÇAMENTO DE OFÍCIO. APROVEITAMENTO DO SALDO NEGATIVO DE IRPJ. O Saldo Negativo do IRPJ que não houver sido objeto de Pedido de Restituição ou Declaração de Compensação poderá ser deduzido do imposto de renda devido, em eventual lançamento de ofício. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO - CSLL Ano- calendário: 2011, 2012, 2013 TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DE CONTROLADAS NO EXTERIOR. DECORRÊNCIA. As regras do imposto de renda relativas à tributação dos lucros auferidos por controladas no exterior aplicam-se, também, à contribuição social sobre o lucro líquido. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Ano-calendário: 2009 JUROS DE MORA. INCIDÊNCIA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. Os débitos relativos às multas de ofício, quando não recolhidos no prazo legal, sujeitam- se à incidência de juros de mora. Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Intimado do acórdão, o Recorrente apresentou recurso voluntário, no qual, no mérito, em síntese, repisa os argumentos apresentados na Impugnação, insistindo, ainda, em Fl. 2659DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 5 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 argumento subsidiário, na necessidade de consideração (compensação) dos prejuízos fiscais apurados nos anos-calendário autuados, bem como na impossibilidade de incidência de juros sobre as penalidades aplicadas. A Procuradoria da Fazenda Nacional, em petição acostadas aos autos (2.438 e 2.485) e após ser intimada do teor do Recurso Voluntário, apresentou contrarrazões, rebatendo, na totalidade, as teses de defesa apresentadas pelo Recorrente. Desta feita, ao final, requer a total improcedência do Recurso Voluntário.” Com o julgamento realizado, quanto ao mérito, o entendimento que prevaleceu por maioria no colegiado, contrário, ressalte-se, ao que defendeu este relator no voto constante naquela Resolução, foi de que, em síntese, o tratado firmado entre o Brasil e Luxemburgo não teria prevalência sobre o que dispõe o artigo 74 da MP 2.15835/2001. Contudo, entendeu-se que o julgamento deveria ser convertido em diligência, para que, basicamente, a Unidade de Origem se manifestasse acerca da “existência ou não de prejuízo fiscal, bem como de saldo negativo de IRPJ e CSLL, todos relativos aos anos- calendário de 2011 e 2012, não utilizados ou restituídos pelo Recorrente”. Assim, nos termos da informação fiscal de fls. 2525, a diligência foi devidamente realizada, tendo a douta fiscalização concluído que: - quanto aos valores dos prejuízos fiscais, estes foram devidamente compensados, dentro do limite dos 30%, pelo agente autuante. A fiscalização afirmou também que: “ainda que tenha restado saldo de prejuízo fiscal após a referida compensação, a utilização deste saldo é legalmente vetada”. - quanto ao saldo negativo de IRPJ, a autoridade fiscal demonstrou que esse existia apenas com relação ao ano de 2011, no valor de R$ 273.216.294,67. - quanto à CSSL, não se identificou saldo negativo disponível para nenhum dos anos calendários. Em manifestação de fls. 2539, a Recorrente deixou claro que, quanto aos prejuízos fiscais, não possui “saldo a ser compensado, pois a fiscalização já utilizou o limite do saldo permitido para tanto”. Contudo, com relação aos saldos negativos de IRPJ, a Recorrente contestou os valores apresentados pela fiscalização. No que se refere ao ano de 2011, o contribuinte afirmou que o valor atualizado em junho de 2019 do saldo negativo seria de R$476.281.802,60. Já no que se refere ao saldo negativo relativo ao ano-calendário de 2012, o Recorrente afirmou que teria um saldo remanescente no valor de R$325.849.902,23, também atualizado em junho de 2019. Para comprovar suas alegações, o Recorrente apresentou, tão somente, planilhas por ele elaboradas, em que consta a observação de que os “Saldos Negativos de IRPJ apurados nos anos-calendários de 2011 e 2012 foram parcialmente compensados, restando saldos (atualizados para Junho/2019) de: • 2011: R$ 476.281.802,60 e • 2012: R$ 325.849.902,23”. Após a manifestação do contribuinte, os autos retornaram ao CARF para julgamento. Este é o relatório. Fl. 2660DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 6 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Voto Vencido Conselheiro Flávio Machado Vilhena Dias, Relator. DA TEMPESTIVIDADE. Como se denota dos autos, o Recorrente, Banco Bradesco S/A, teve acesso ao acórdão recorrido, via intimação eletrônica, no dia 12/06/2017 (fl. 2243), apresentando o Recurso Voluntário em 12/07/2017 (comprovante fl. 2246). Ou seja, o Recurso foi apresentado dentro do prazo de 30 dias, nos termos do que determina o artigo 33 do Decreto nº 70.235/72. Portanto, sem maiores delongas, é tempestivo o Recurso Voluntário e, por cumprir os pressupostos para o manejo, esse deve ser analisado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Como relatado acima, a discussão de mérito travada nos autos do presente processo, que se refere à aplicação ou não dos tratados para evitar dupla tributação, no caso dos lucros auferidos por empresas controladas com domicílio no exterior, já foi decidida, sendo que o voto deste relator restou vencido pela maioria dos membros do colegiado. Naquela oportunidade, este relator proferiu a sua decisão no seguinte sentido: DOS PRESSUPOSTOS FÁTICOS E DAS PREMISSAS PARA ANÁLISE DA DEMANDA. Primeiramente, antes de se analisar os argumentos do Recorrente, para se verificar se há ou não razão no lançamento combatido, cumpre verificar os pressupostos da legislação e fixar algumas premissas. Neste ponto, inclusive, de partida, são de grande valia as colocações do Ministro do Superior Tribunal de Justiça, Napoleão Nunes Maia Filho, no voto proferido nos autos do Resp nº 1.325.709/RJ, que assim argumenta: Em síntese, o que é possível concluir é que o propósito de evitar evasão fiscal não legitima a infração aos ditames das garantias subjetivas do contribuinte, bem como aos conceitos básicos do sistema tributário, inclusive a preservação dos Tratados Internacionais, que trazem, como se sabe, as normas que devem reger a sua própria interpretação; assim, certos conceitos, essenciais à compreensão de sua inteireza positiva (essa expressão é do Professor PINTO FERREIRA) são ministrados no seu próprio texto, neste caso, o conceito de renda tributável. Pois bem. Com base neste entendimento, é que se analisará os pressupostos do ordenamento jurídico, em especial da legislação nacional e dos Tratados firmados pela República Federativa do Brasil, que dispõem sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de tributação dos lucros auferidos pelas controladas e coligadas de empresas brasileiras que são domiciliadas no exterior, bem como o entendimento dos Tribunais. Historicamente, o Estado brasileiro, desde o início da cobrança do Imposto sobre a renda, que se deu em 1924, através do Decreto nº 16.581/24, sempre tributou a renda auferida no território nacional (critério da territorialidade), ou seja, o Imposto sobre a renda não alcançava os rendimento e ganhos obtidos no exterior, independente do grau de vínculo (sucursal, filial, empresas coligas ou controladas) da entidade localizada em outro país com a entidade brasileira. Após algumas tentativas de se alterar a forma de tributação, em especial pelas modificações legislativas ocorridas nos anos de 1987 e 1988 (vide decretos 2.397/87, 2.413/88, 2.413/88 e 2.429/88), só com a redação dada ao artigo 25, da Lei 9.259/95, é que o sistema Fl. 2661DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 7 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 tributário brasileiro abandona de vez o critério da territorialidade, adotando o princípio da "renda mundial" ou da "tributação em bases universais". Neste sentido, como ensina Marciano Seabra de Godoi, "pelo critério da renda mundial, os Estados soberanos tributam tanto as rendas produzidas por seus residentes nos limites de seu território, quanto a renda produzida por seus residentes fora dos limites do seu território" (GODOI, Marciano de Godoi. A Nova Legislação sobre Tributação de Lucros Auferidos no Exterior (Lei 12.973/2014) como resultado do Diálogo Institucional Estabelecido entre o STF e os Poderes Executivos e Legislativo da União. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 278.) A mudança na forma de tributação e o alcance que a norma pretendia dar foram motivos de críticas de grande parte da doutrina, o que forçou, s.m.j, o ente competente para instituir e cobrar o Imposto sobre a renda - União Federal - a alterar a legislação anteriormente posta, dispondo, a Lei nº 9.532/97, que o imposto só teria incidência, em síntese, quando da disponibilização às sociedades residentes no Brasil dos lucros auferidos. Entretanto, sobreveio, em 2001, a edição da Lei Complementar 104, acrescentando dois parágrafos no artigo 43 do Código Tributário Nacional, que passou a ter a seguinte redação: Art. 43. O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. § 1o A incidência do imposto independe da denominação da receita ou do rendimento, da localização, condição jurídica ou nacionalidade da fonte, da origem e da forma de percepção. § 2o Na hipótese de receita ou de rendimento oriundos do exterior, a lei estabelecerá as condições e o momento em que se dará sua disponibilidade, para fins de incidência do imposto referido neste artigo. (destacou-se) Com essa modificação legislativa, em especial com a redação dada ao parágrafo 2º transcrito acima, houve o entendimento, por parte da União Federal, de que a adoção do critério da universalidade da renda, para fins de incidência do IR, estaria definitivamente autorizada pelo ordenamento jurídico pátrio, podendo, de fato, o legislador ordinário trazer as hipóteses em que se dariam a tributação das empresas localizadas no exterior, em especial, as controladas e coligadas. Assim, foi editada a MP 2.158/2001, que em seu artigo 74 determinava que "os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma de regulamento". Neste ponto, se vale, mais uma vez, dos ensinamentos de Marciano Seabra de Godoi, que, após discorrer sobre a edição daquela MP, assim se posiciona sobre a mudança legislativa então ocorrida: "Portanto, a primeira data-base definida para a imputação dos lucros foi 31 de dezembro de 2002. Menos de três meses antes dessa data, a Secretaria da Receita Federal expediu a Instrução Normativa 213. No art. 7º dessa Instrução Normativa, determinou-se que a tributação dos lucros auferidos no exterior se realizasse por intermédio dos ajustes dos Fl. 2662DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 8 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 valores dos investimentos conforme o método da equivalência patrimonial. Nos termos do parágrafo 1º do art. 7º, 'os valores relativos ao resultado positivo da equivalência patrimonial, não tributados no transcorrer do ano-calendário, deverão ser considerados no balanço levantado em 31 de dezembro do ano-calendário para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL'. Segundo o art. 8º da mesma Instrução Normativa, os lucros decorrentes dos investimentos que a legislação comercial (lei das Sociedades por ações) não mandar avaliar pelo método de equivalência patrimonial continuariam a ser tributados pelo imposto brasileiro somente na proporção em que ocorresse sua disponibilização (crédito ou pagamento do lucro) para a empresa investidora". (GODOI, Marciano de Godoi. A Nova Legislação sobre Tributação de Lucros Auferidos no Exterior (Lei 12.973/2014) como resultado do Diálogo Institucional Estabelecido entre o STF e os Poderes Executivos e Legislativo da União. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 282 e 283). Feita essa breve contextualização histórica quanto à tributação com bases universais pela sistema tributário brasileiro, sem, contudo, ter a pretensão de se esgotar o tema, em especial, acerca das mudanças imposta pela Lei 12.973/2014 no ordenamento jurídico pátrio, cumpre registrar que a redação do artigo 74 da MP 2.158/2001 foi objeto de diversas críticas da doutrina e de questionamentos dos contribuinte junto ao Poder Judiciário. A discussão judicial desaguou, como não poderia deixar de ser, no Supremo Tribunal Federal, que, através da ADIN 2.588, julgou a (in)constitucionalidade do malfadado artigo 74. No julgamento, que durou mais de 10 anos, com intenso debate entre os Ministros e a confecção de longos acórdãos, não se chegou a uma maioria de votos em diversos pontos da discussão. A ementa do julgado recebeu a seguinte redação: Ementa: TRIBUTÁRIO. INTERNACIONAL. IMPOSTO DE RENDA E PROVENTOS DE QUALQUER NATUREZA. PARTICIPAÇÃO DE EMPRESA CONTROLADORA OU COLIGADA NACIONAL NOS LUCROS AUFERIDOS POR PESSOA JURÍDICA CONTROLADA OU COLIGADA SEDIADA NO EXTERIOR. LEGISLAÇÃO QUE CONSIDERA DISPONIBILIZADOS OS LUCROS NA DATA DO BALANÇO EM QUE TIVEREM SIDO APURADOS (“31 DE DEZEMBRO DE CADA ANO”). ALEGADA VIOLAÇÃO DO CONCEITO CONSTITUCIONAL DE RENDA (ART. 143, III DA CONSTITUIÇÃO). APLICAÇÃO DA NOVA METODOLOGIA DE APURAÇÃO DO TRIBUTO PARA A PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS APURADA EM 2001. VIOLAÇÃO DAS REGRAS DA IRRETROATIVIDADE E DA ANTERIORIDADE. MP 2.158-35/2001, ART. 74. LEI 5.720/1966, ART. 43, § 2º (LC 104/2000). 1. Ao examinar a constitucionalidade do art. 43, § 2º do CTN e do art. 74 da MP 2.158/2001, o Plenário desta Suprema Corte se dividiu em quatro resultados: 1.1. Inconstitucionalidade incondicional, já que o dia 31 de dezembro de cada ano está dissociado de qualquer ato jurídico ou econômico necessário ao pagamento de participação nos lucros; 1.2. Constitucionalidade incondicional, seja em razão do caráter antielisivo (impedir “planejamento tributário”) ou antievasivo (impedir sonegação) da normatização, ou devido à submissão obrigatória das empresas nacionais investidoras ao Método de de Equivalência Patrimonial – MEP, previsto na Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976, art. 248); 1.3. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade dos textos impugnados apenas em relação às empresas coligadas, porquanto as empresas nacionais controladoras teriam plena disponibilidade jurídica e econômica dos lucros auferidos pela empresa estrangeira controlada; 1.4. Inconstitucionalidade condicional, afastada a aplicabilidade do texto impugnado para as empresas controladas ou coligadas sediadas em países de tributação normal, com o objetivo de preservar a função antievasiva da normatização. 2. Orientada pelos pontos comuns às opiniões majoritárias, a composição do resultado reconhece: 2.1. A inaplicabilidade do art. 74 da MP 2.158-35 às empresas nacionais coligadas a pessoas jurídicas sediadas em países sem tributação favorecida, ou que não sejam “paraísos fiscais”; 2.2. A aplicabilidade do art. 74 da MP 2.158-35 às Fl. 2663DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 9 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 empresas nacionais controladoras de pessoas jurídicas sediadas em países de tributação favorecida, ou desprovidos de controles societários e fiscais adequados (“paraísos fiscais”, assim definidos em lei); 2.3. A inconstitucionalidade do art. 74 par. ún., da MP 2.158-35/2001, de modo que o texto impugnado não pode ser aplicado em relação aos lucros apurados até 31 de dezembro de 2001. Ação Direta de Inconstitucionalidade conhecida e julgada parcialmente procedente, para dar interpretação conforme ao art. 74 da MP 2.158-35/2001, bem como para declarar a inconstitucionalidade da clausula de retroatividade prevista no art. 74, par. ún., da MP 2.158/2001.(ADI 2588, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, Relator(a) p/ Acórdão: Min. JOAQUIM BARBOSA, Tribunal Pleno, julgado em 10/04/2013, DJe-027 DIVULG 07-02-2014 PUBLIC 10-02-2014 EMENT VOL-02719-01 PP-00001) Pelo o que se observa da ementa e, em especial, dos votos proferidos pelos Ministros, pode-se sintetizar as conclusões a que chegou o Supremo Tribunal Federal da seguinte forma: Investida Localização Validade do artigo 74 da MP 2.158/01 Eficácia "erga omnes" e efeito vinculante Coligadas Jurisdição normal Inconstitucional Sim Paraíso Fiscal Constitucional (não alcançou a maioria) Não Controladas Jurisdição normal Constitucional (não alcançou a maioria) Não Paraíso Fiscal Constitucional Sim Ainda, da análise das decisões e do quadro acima, cumpre registrar que o Supremo Tribunal Federal chegou a três importantes conclusões no julgamento da ADIN 2.588, quais sejam: 1) Há que se diferenciar a tributação das investidoras com investidas com sede em paraísos fiscais, daquelas com sede em países com tributação normal. 2) Controladas e coligadas devem ter tratamento distinto; e 3) O princípio da irretroatividade, no caso da renda obtida no exterior, deve ser respeitado. No que importa para o caso em análise, como se verifica do quadro acima, o Supremo Tribunal Federal não chegou a uma maioria vinculativa no que tange aos lucros de controladas não domiciliadas em “paraíso fiscal”, nem para com lucros de coligadas domiciliadas em “paraíso fiscal”. Está-se diante de lucros de controladas não domiciliadas em “paraíso fiscal”. Como se sabe, contudo, mesmo não havendo um efeito vinculante, neste ponto, na decisão do STF, a este órgão é defeso se manifestar sobre constitucionalidade de norma legal, conforme Súmula CARF nº 2. Assim, a princípio, estava vigente e válido, à época dos fatos imponíveis, o disposto no artigo 74, da MP 2.158/01, que diz que o momento da tributação das controladas domiciliadas em países sem tributação favorecida seria aquele em que os lucros fossem disponibilizados nos balanços das entidades. Fl. 2664DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 10 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Contudo, não foi objeto de análise, por parte daquela Corte, a implicação ou aplicação do disposto na MP no caso de a entidade controlada ser domiciliada em países que firmaram Tratados para evitar a dupla tributação da renda com a República Federativa do Brasil. Esta ausência de análise por parte do STF é clara quando se verifica o excerto da decisão proferida nos autos do Recurso Extraordinário nº 541.090, em que também se discutia a (in)constitucionalidade do artigo 74 da MP 2.158/01. Veja-se: Prosseguindo no julgamento, o Tribunal, por maioria, deu parcial provimento ao recurso extraordinário para considerar ilegítima a tributação retroativa, nos termos do parágrafo único do art. 74 da MP nº 2.158-35/2001, vencidos os Ministros Joaquim Barbosa (Relator), Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello. Determinado o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que se pronuncie sobre a questão atinente à vedação da bitributação baseada em tratados internacionais, vencido o Ministro Dias Toffoli, não havendo se manifestado, no ponto, o Ministro Marco Aurélio. Votou o Presidente, Ministro Joaquim Barbosa. Redigirá o acórdão o Ministro Teori Zavascki, que reajustou seu voto. Impedido o Ministro Luiz Fux. Plenário, 10.04.2013. (destacou-se) No que se refere aos tratados, as suas implicações e a sua hierarquia dentro do ordenamento jurídico brasileiro, o Superior Tribunal de Justiça tem inúmeros julgados que exploram o tema, como também Supremo Tribunal Federal. Não se entrará aqui, até mesmo para não se perder o foco da autuação, na discussão que se dá entre os aderentes do sistema monistas ou dualistas dos ordenamentos jurídicos e, principalmente, na discussão doutrinária acerca do status dos Tratados firmados pelo Brasil, ou seja, se os Tratados se equiparariam às leis ordinárias ou às leis complementares. No presente voto, aceita-se como premissa que os tratados integram a ordenamento jurídico e eventual conflito com normas internas deverão ser solucionadas de acordo com os critérios cronológicos e da especialidade, como se observa do julgado abaixo proferido pelo Supremo Tribunal Federal: EXTRADIÇÃO - CRIMES DE CORRUPÇÃO PASSIVA E DE CONCUSSÃO - DISCUSSÃO SOBRE MATÉRIA PROBATÓRIA - INADMISSIBILIDADE - DERROGAÇÃO, NESTE PONTO, DO CÓDIGO BUSTAMANTE (ART.365, 1, IN FINE), PELO ESTATUTO DO ESTRANGEIRO - PARIDADE NORMATIVA ENTRE LEIS ORDINÁRIAS BRASILEIRAS E CONVENÇÕES INTERNACIONAIS - PROCESSO EXTRADICIONAL REGULARMENTE INSTRUÍDO - JURISDIÇÃO PENAL DO ESTADO REQUERENTE SOBRE OS ILÍCITOS ATRIBUÍDOS AOS EXTRADITANDOS - JULGAMENTO DA CAUSA PENAL, NO ESTADO REQUERENTE, POR TRIBUNAL REGULAR E INDEPENDENTE - RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO PENAL EXTRAORDINÁRIA CONCERNENTE AO DELITO DE CORRUPÇÃO PASSIVA - ACOLHIMENTO PARCIAL DA POSTULAÇÃO EXTRADICIONAL UNICAMENTE QUANTO AO CRIME DE CONCUSSÃO - PEDIDO DEFERIDO EM PARTE. CÓDIGO BUSTAMANTE - ESTATUTO DO ESTRANGEIRO - (...) A normatividade emergente dos tratados internacionais, dentro do sistema jurídico brasileiro, permite situar esses atos de direito internacional público, no que concerne à hierarquia das fontes, no mesmo plano e no mesmo grau de eficácia em que se posicionam as leis internas do Brasil. A eventual precedência dos atos internacionais sobre as normas infraconstitucionais de direito interno brasileiro somente ocorrerá - presente o contexto de eventual situação de antinomia com o ordenamento doméstico -, não em virtude de uma inexistente primazia hierárquica, mas, sempre, em face da aplicação do critério cronológico (lex posterior derogat priori) ou, quando cabível, do critério da especialidade. Precedentes. Fl. 2665DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 11 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 (...) .(Ext 662, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Tribunal Pleno, julgado em 28/11/1996, DJ 30-05-1997 PP-23176 EMENT VOL-01871-01 PP-00015) E o Superior Tribunal de Justiça, mesmo que partindo de outra premissa da que partiu o julgado acima (uma vez que coloca os Tratados no mesmo patamar das Leis Complementares), no julgado consubstanciado no REsp nº 1.161.467, coloca uma pá de cal sobre a discussão, quando afirma que os Tratados que tem como matéria de regulação a bi- tributação da renda terão prevalência sobre o direito brasileiro, quando nitidamente se confrontarem (antinomia) com leis internas. O critério da especialidade é invocado pelo STJ. Confira-se trecho da ementa do julgado: TRIBUTÁRIO. CONVENÇÕES INTERNACIONAIS CONTRA A BITRIBUTAÇÃO. BRASIL-ALEMANHA E BRASIL-CANADÁ. ARTS. VII E XXI. RENDIMENTOS AUFERIDOS POR EMPRESAS ESTRANGEIRAS PELA PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS À EMPRESA BRASILEIRA. PRETENSÃO DA FAZENDA NACIONAL DE TRIBUTAR, NA FONTE, A REMESSA DE RENDIMENTOS. CONCEITO DE "LUCRO DA EMPRESA ESTRANGEIRA" NO ART. VII DAS DUAS CONVENÇÕES. EQUIVALÊNCIA A "LUCRO OPERACIONAL". PREVALÊNCIA DAS CONVENÇÕES SOBRE O ART. 7º DA LEI 9.779/99. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. ART. 98 DO CTN. CORRETA INTERPRETAÇÃO. (...) 7. A antinomia supostamente existente entre a norma da convenção e o direito tributário interno resolve-se pela regra da especialidade, ainda que a normatização interna seja posterior à internacional. 8. O art. 98 do CTN deve ser interpretado à luz do princípio lex specialis derrogat generalis, não havendo, propriamente, revogação ou derrogação da norma interna pelo regramento internacional, mas apenas suspensão de eficácia que atinge, tão só, as situações envolvendo os sujeitos e os elementos de estraneidade descritos na norma da convenção. 9. A norma interna perde a sua aplicabilidade naquele caso especifico, mas não perde a sua existência ou validade em relação ao sistema normativo interno. Ocorre uma "revogação funcional", na expressão cunhada por HELENO TORRES, o que torna as normas internas relativamente inaplicáveis àquelas situações previstas no tratado internacional, envolvendo determinadas pessoas, situações e relações jurídicas específicas, mas não acarreta a revogação, stricto sensu, da norma para as demais situações jurídicas a envolver elementos não relacionadas aos Estados contratantes. (...) 11. Recurso especial não provido. (REsp 1161467/RS, Rel. Ministro CASTRO MEIRA, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/05/2012, DJe 01/06/2012) (destacou-se) Ao comentarem o posicionamento do Superior Tribunal de Justiça, que entende o critério da especialidade como uma das formas de se solucionar o conflito entre os Tratados e eventual norma de direito interno, Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro assim se posicionam: "O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento acerca desse ponto no sentido de que o disposto no art. 98 do CTN confere aos tratados caráter especial em face da legislação interna e, em razão dessa especialidade, afasta a incidência da norma nas situações sobre as quais se refira. Ressaltou a Corte que a antinomia supostamente existente entre a norma da convenção e o direito tributário interno resolve-se pela regra da especialidade, ainda que a normatização interna seja posterior à internacional. Assentou que o art. 98 deve ser interpretado à luz do princípio lex specialis der rogat generalis, não havendo, propriamente, revogação ou derrogação da norma interna pelo regramento internacional, mas apenas suspensão de eficácia que atinge, tão só, as situações envolvendo os sujeitos e os elementos de estraneidade descritos na norma da Fl. 2666DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 12 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 convenção. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF; Francisco Marconi de Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Págs. 101 e 102). Não se pode olvidar, neste ponto, como mencionado na ementa do julgado do STJ acima transcrita, que o Código Tributário Nacional, em seu artigo 98, preceitua que os "tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha". Exatamente por isso deve-se aplicar o critério da especialidade para a solução de eventual conflito entre normas de direito interno e os Tratados Internacionais. No que se refere ao critério da especialidade, o jurista italiano Norberto Bobbio, que teve grande influência na formação do pensamento jurídico brasileiro, já pontificava em seu clássico “Teoria do Ordenamento Jurídico”, que esse critério deve ser utilizado para solução de antinomias dentro de um ordenamento jurídico. Em suas palavras: O terceiro critério, dito justamente da lex specialis, é aquele pelo qual, de duas normas incompatíveis, uma geral e uma especial (ou excepcional), prevalece a segunda: lex specialis derogat generali. Também aqui a razão do critério não é obscura: lei especial é aquela que anula uma mais geral, ou que subtrai de uma norma uma parte da sua matéria para submetê-la a uma regulamentação diferente (contrária ou contraditória). A passagem de uma regra mais extensa (que abrange um certo genus) para uma regra derrogatória menos extensa (que abrange uma species do genus) corresponde a uma exigência fundamental de justiça, compreendida como tratamento igual das pessoas que pertencem à mesma categoria. A passagem da regra geral à regra especial corresponde a um processo natural de diferenciação das categorias, e a uma descoberta gradual, por parte do legislador, dessa diferenciação. (...) Entende-se, portanto, por que a lei especial deva prevalecer sobre a geral: ele representa um momento ineliminável do desenvolvimento de um ordenamento. Bloquear a lei especial frente à geral significa paralisar esse desenvolvimento. (BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 10ª edição, 1999. pág. 95 e 96) (destacou-se) Por fim, no que tange aos tratados e a necessidade de sua aplicação pelos Estados contratantes, imperioso transcrever passagem de trabalho de autoria de Paulo Ayres Barreto e Caio Augusto Takano, no qual, de forma cirúrgica, apontam a importância e a motivação dos Tratados para evitar a dupla tributação, em especial aqueles que seguem o modelo da OCDE, como no caso do Tratado Brasil/Luxemburgo: (...) Nesse cenário, os tratados em matéria tributária são meios pelos quais Estados soberanos se esforçam, usualmente em bases bilaterais, para harmonizar as regras de suas leis tributárias internas, estabelecendo limites a partir dos quais leis nacionais não se aplicam. Por meio dos tratados internacionais que visam evitar a dupla tributação da renda, o Brasil obrigou-se espontaneamente perante outros Estados de Direito a não exigir, no todo ou em parte, tributos a eles reservados. É esse o caso dos lucros. Conforme art. 7º, parágrafo 1º da Convenção Modelo da OCDE, 'os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado (...)". Exceção são os lucros apurados por estabelecimentos permanentes situados em outro Estado Contratante, os quais serão tributados, na parte em que oriundos do estabelecimento. Como relata Philip Baker, esse dispositivo possui um longo histórico e reflete o consenso internacional de que, em regra, até que uma empresa de um dos Estados contratantes possua um estabelecimento permanente em outro Estado (art. 5º da Convenção Modelo da OCDE), ele não deverá ser considerado como um participante na Fl. 2667DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 13 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 vida econômica desse Estado, não sendo, portanto, a ele conferido o direito de tributar os seus lucros. (BARRETO, Paulo Ayres e TAKANO, Caio Augusto. Tributação do Resultado de Coligadas e Controladas no Exterior, em face da Lei nº 12.973/2014. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 368 e 369) Assim, por tudo até aqui exposto, pode-se afirmar que (i) o Supremo Tribunal Federal declarou como constitucional a tributação de controladas no exterior, nos termos preconizados pelo artigo 74 da MP 2.158/2001; (ii) os tratados integram o ordenamento jurídico pátrio; e, (iii) no caso de conflito entre o disposto em norma interna e um Tratado Internacional, tendo em vista o critério da especialidade, deverá prevalecer o disposto no Tratado. Fixadas essas premissas, se analisará a seguir a motivação da autuação e se assiste razão ao Recorrente quando alega que, no presente caso, deve prevalecer o Tratado firmado entre a República Federativa do Brasil e o Grão-Ducado de Luxemburgo, em detrimento do que preceitua a legislação interna que regula a tributação dos lucros de controladas e coligadas domiciliadas no exterior. DA TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS DAS CONTROLADAS NO EXTERIOR QUANDO DA EXISTÊNCIA DE TRATADOS QUE VISAM EVITAR A TRIBUTAÇÃO DOS DOMICILIADOS NOS ESTADOS CONSIGNATÁRIOS. De pronto, deve-se ressaltar, que não há nos autos controvérsias acerca do fato de que o Banco Bradesco Europa, com domicílio em Luxemburgo, é uma controlada direta do Recorrente, nos exatos termos definidos pelo artigo 243, § 2º da Lei 6.404/76, que tem a seguinte redação: Art. 243. O relatório anual da administração deve relacionar os investimentos da companhia em sociedades coligadas e controladas e mencionar as modificações ocorridas durante o exercício. (...) § 2º Considera-se controlada a sociedade na qual a controladora, diretamente ou através de outras controladas, é titular de direitos de sócio que lhe assegurem, de modo permanente, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores. O termo de verificação fiscal, com base na documentação carreada nos autos, é claro neste sentido, quando afirma: O Banco Bradesco é controlador do Banco Bradesco Europa, que tem domicílio no Grão-Ducado de Luxemburgo. Nos anos-calendário 2011, 2012 e 2013, o percentual de participação do Banco Bradesco no capital do Banco Bradesco Europa manteve-se em de 99,97%. E esta informação é confirmada pelo próprio Recorrente, desde a peça de ingresso (Impugnação), quando afirma: Trata-se de Auto de Infração lavrado em face da IMPUGNANTE, formalizando exigência de Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) sobre os lucros apurados nos anos de 2011, 2012 e 2013 pela controlada da IMPUGNANTE, Banco Bradesco Europa, domiciliada em Luxemburgo. Assim, no presente Auto de Infração, não se tem dúvida de que a obrigação tributária em discussão tem nascimento nos lucros auferidos por uma controlada domiciliada em Luxemburgo (investida) de empresa domiciliada em território nacional (investidora). Fl. 2668DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 14 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Por outro lado, nos termos da IN RFB nº 1.037/2010 (inclusive suas alterações posteriores), o Grão-Ducado de Luxemburgo não é considerado como paraíso fiscal pela Receita Federal do Brasil. E a pergunta que precisa ser respondida para a solução do presente caso é: tendo em vista o tratado para evitar a dupla tributação firmado entre o Brasil e Luxemburgo (Decreto nº 85.051/1980), teria o Estado brasileiro competência para tributar riqueza (lucro) produzida no outro Estado signatário daquele Tratado? Para responder ao questionamento feito, não se pode olvidar que, como se depreende do TVF, a fiscalização motivou a lavratura do Auto de Infração, após afastar a aplicação do referido Tratado ao presente caso, pelo fato de que o disposto no artigo 74 da Medida Provisória 2.158-35/2001 autoriza a tributação "pela variação patrimonial positiva do patrimônio na controlada domiciliada no Brasil, que corresponde aos lucros da controlada no exterior." A fiscalização argumentou, ainda, no mesmo TVF, que "o artigo 74 estabeleceu, por presunção (ou ficção), uma identidade temporal entre a apuração (data do balanço) e a disponibilização dos lucros auferidos por empresa investida domiciliada no exterior". Assim, a princípio, aos olhos da fiscalização, o art. 74 da MP 2.158/01 pode dar a impressão de que se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos, tendo em vista o método de equivalência patrimonial e, por isso, não estariam sujeitos ao Tratado firmado pela República Federativa do Brasil. Contudo, pela leitura do artigo 7º do Tratado firmado entre a República Federativa do Brasil e o Grão-Ducado de Luxemburgo, não há dúvidas de que o Brasil está impedido (norma de bloqueio), pelo princípio da residência, de tributar lucros auferidos em sociedades independentes (mesmo que seja controlada direta), domiciliadas em Luxemburgo. Veja-se a redação do Decreto 85.051/1980: Artigo 7 Lucros das empresas 1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade na forma indicada, seus lucros serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 2. Com ressalva das disposições do parágrafo 3, quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado, serão atribuídos em cada Estado Contratante a esse estabelecimento permanente os lucros que obteria se constituísse uma empresa distinta e separada, exercendo atividades idênticas ou similares, em condições idênticas ou similares, e transacionando com absoluta independência com a empresa de que é um estabelecimento permanente. 3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente, é permitido deduzir as despesas que tiverem sido feitas para a consecução dos objetivos do estabelecimento permanente, incluindo as despesas de direção e os encargos gerais de administração assim realizados. 4. Nenhum lucro será atribuído a um estabelecimento permanente pelo simples fato de comprar mercadorias para a empresa. Fl. 2669DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 15 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos outros artigos da presente Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas disposições do presente artigo. Mais uma vez, se vale dos ensinamento de Paulo Ayres Barreto e Caio Augusto Takano, que assim interpretam o citado artigo 7º do modelo OCDE: Parece-nos correto asserverar, com apoio em Klaus Vogel, que há no art. 7º, parágrafo 1º duas normas jurídicas: (i) se uma empresa residente em um dos Estados contratantes exerça uma atividade e dela auferir lucros, então apenas o Estado de residência daquela empresa poderá tributá-los (regra geral); e (ii) se uma empresa exercer suas atividades no outro Estado por meio de um estabelecimento permanente aí situado, então esse Estado (e não o Estado de residência) poderá tributar lucros, mas unicamente na medida em que forem imputáveis ao estabelecimento permanente (regra de exceção). (...) Destarte, não se tratando de estabelecimentos permanentes, mas de empresas dotadas de personalidade jurídica própria, sejam elas coligadas ou controladas, deve-se aplicar a regra geral, que contém, na feliz expressão de Alberto Xavier, uma 'norma de reconhecimento de competência exclusiva' do país em que se encontra domiciliada a sociedade controlada. (BARRETO, Paulo Ayres e TAKANO, Caio Augusto. Tributação do Resultado de Coligadas e Controladas no Exterior, em face da Lei nº 12.973/2014. In Grandes questões atuais do direito tributário. 18º Volume. São Paulo: Dialética, 2014. Pág. 368 e 369) O citado artigo 7º do Tratado firmado pelo Brasil é muito claro no que visa proteger: os lucros auferidos pela empresa no exterior, devendo estes serem tributados somente no país onde a empresa independente tenha domicílio. Não há dúvidas, data venia, quanto a interpretação do dispositivo. Não há que se argumentar que, neste caso, a tributação estaria autorizada por ser uma exceção ao cumprimento do Tratado, como tentou direcionar o agente fiscal na sua fundamentação, quando, após analisar o artigo 10, item 06 do Tratado, afirma que o que foi vetado tributar, como dividendos pagos, foram os lucros não distribuídos. E que, por isso, "na medida em que a exigência se deu por presunção (ou ficção) de disponibilização de lucros apurados, não há porque se cogitar de imposto que, exigível ou pago no Grão-Ducado do Luxemburgo, fosse possível de dedução dos tributos aqui tratados". Em julgamento realizado por este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, o então relator, Conselheiro Marcos Shigueo Takata, após discorrer sobre o CFC e as peculiaridades da tributação em bases universais pretendida pelo fisco brasileiro, traz argumentos intocáveis para afastar a alegação de não aplicação de um tratado internacional que tem as mesmas bases do tratado ora analisado (modelo OCDE). Veja-se as lúcidas ponderações lançadas no voto proferido nos autos do processo administrativo de nº 12897.000193/2010-11 (acórdão nº 1103-001.122): A redação do art. 74 da MP 2.158/01 pode dar a impressão de que se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. Mas, podem ser tributados dividendos fictos? Antes de falar sobre dividendos fictamente distribuídos, trato do argumento de que o suporte fático eleito pela norma legal não são os dividendos, pois o que se tributa são os lucros antes de descontado o tributo pago no país de origem. E, por óbvio, só se cogita de dividendos após todas as despesas incorridas, nas quais se inclui o tributo pago sobre os lucros no país de origem. O que a sociedade delibera distribuir aos sócios ou acionistas, como dividendos, só pode ser o resultado líquido do tributo pago sobre o lucro. Fl. 2670DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 16 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Essa dimensão do pressuposto fático de incidência tributária é prevista textualmente no art. 1º, § 7º, da Instrução Normativa SRF 213/02: § 7º. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital de que trata este artigo a serem computados na determinação do lucro real e da base de cálculo de CSLL, serão considerados pelos seus valores antes de descontado o tributo pago no país de origem. O argumento não me impressiona, se interpretado o art. 1º, § 7º, da Instrução Normativa SRF 213/02 em seus devidos termos. Dividendos são distribuição de lucros apurados pela sociedade a seus sócios ou acionistas. E só há lucros distribuíveis após a despesa com pagamento de tributo sobre o lucro. Entretanto, o mesmo argumento caberia para tributação de lucros da sociedade controlada ou coligada no exterior. Lucros da sociedade são o resultado líquido de um período, após a despesa incorrida com tributo: só se pode falar de lucros, ainda mais lucros distribuíveis, após a despesa incorrida com tributo pago sobre o lucro; afinal o objeto da tributação, se não forem dividendos, é o lucro líquido auferido pela controlada ou coligada no exterior. A meu ver, o que o art. 1º, § 7º, da IN 213/02 fez, ao interpretar o comando legal, foi o seguinte. A norma legal confere o tax credit correspondente ao tributo pago no exterior, com a instituição da tributação em bases universais para a pessoa jurídica. Ao se ver sistematicamente o objeto da tributação, em bases universais, o valor do tributo pago no exterior não é despesa, mas ativo da controladora ou da coligada participante no Brasil –afinal, referido valor é compensável no País – ou melhor, desde que e no limite do que seja compensável no País. Logo, como a lei confere o tax credit relativo ao tributo pago no país de origem, o legislador infralegal, ao falar que os lucros do exterior da controlada ou coligada serão considerados antes de descontado o tributo pago no país de origem, simplesmente utilizou a expressão como técnica tributária de se reconhecer que tal valor não deve reduzir a base tributável, por ser um ativo. E a leitura que faço do art. 1º, § 7º, da IN SRF 213/02 é a de considerar os lucros antes de descontado o tributo pago no país de origem, no limite do compensável no País. Nesse passo, e nos termos acima expostos, cuida-se de técnica tributária que não desborda o limite legal. I.e., versa-se técnica de aplicação e, assim, de interpretação das normas legais, desde que (o antes de descontado) nos limites do imposto que seja compensável no País. Não se está, com isso, a tributar algo por ficção ou mesmo por presunção, ou precisamente: não se está definindo materialidade ou seu aspecto temporal por ficção, ou mesmo por presunção. É como entendo. Daí ter dito que o argumento não impressiona, interpretado o preceito em comentário em seus devidos termos. Como disse, a redação do art. 74 da MP 2.158/01 pode dar a impressão de que se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. Retomo, pois, a questão que considero fundamental: podem ser tributados dividendos fictos? A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 recai sobre dividendos fictos? É sabido que não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Nesse sentido, o art. 110 do CTN seria inclusive despiciendo, assumindo feição didática. Fl. 2671DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 17 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Também, por óbvio que o CTN não pode dar “carta branca” ao legislador ordinário, para, dessa forma, voltear a materialidade, inclusive em seu aspecto temporal, empregada pela Constituição Federal para outorga de competência tributária. Não é a isso que se presta o § 2º do art. 43 do CTN. E também não é diferente o que se passa em relação ao § 1º do art. 43 do CTN. Não é a lei ordinária que, a bel prazer, e a seu exclusivo talante, irá determinar como e quando se dá a disponibilidade econômica ou jurídica da renda, da receita ou do rendimento. Além disso, é regra hermenêutica elementar que o parágrafo de um artigo se subordina à cabeça (caput) dele. Sublinhe-se, ainda que seja evidente: o pressuposto adotado é a constitucionalidade do § 2º do art. 43 do CTN. Mais. Veja-se o que dispõe o art. 10 do Tratado Brasil-Holanda, incorporado ao direito doméstico pelo Decreto 331/92, que, na essência, é igual ao art. 10 do Tratado Brasil- Argentina (há uma variação no § 5º do art. 10, a qual não afeta a questão em dissídio): ARTIGO 10 Dividendos 1. Os dividendos pagos por uma sociedade residente em um Estado Contratante a um residente no outro Estado Contratante podem ser tributados nesse outro Estado. 2. Todavia, esses dividendos podem também ser tributados no Estado Contratante onde reside a sociedade que os paga, e nos termos da lei desse Estado; mas, se a pessoa que os receber for o beneficiário efetivo dos dividendos, o imposto assim incidente não poderá exceder 15% (quinze por cento) do montante bruto dos dividendos. O disposto neste parágrafo não prejudica a tributação da sociedade, no que diz respeito aos lucros dos quais se originaram os dividendos pagos. 3. O termo "dividendos", empregado no presente artigo, designa os rendimentos provenientes de ações ou direitos de fruição; ações de empresas mineradoras; partes de fundador ou outros direitos de participação em lucros, com exceção de créditos, bem como rendimentos de outras participações de capital assemelhados aos rendimentos de ações pela legislação tributária do Estado em que reside a sociedade que realiza a distribuição. 4. Não se aplica o disposto nos parágrafos 1 e 2 se o beneficiário dos dividendos, residente em um Estado Contratante, realiza negócios no outro Estado Contratante em que reside a sociedade que paga os dividendos, por intermédio de estabelecimento permanente ali situado, e se a participação, em virtude da qual os dividendos são pagos, se relaciona efetivamente ao estabelecimento permanente. Nesse caso aplicase o disposto no Artigo 7. 5. Quando um residente em um Estado Contratante tiver um estabelecimento permanente no outro Estado Contratante, este estabelecimento permanente pode estar, ali, sujeito a imposto retido na fonte, nos termos da legislação daquele Estado. Todavia, tal imposto não excederá 15% (quinze por cento) do montante bruto dos lucros do estabelecimento permanente, apurado após o pagamento do imposto de renda de sociedades, incidente sobre aqueles lucros. 6. Quando uma sociedade residente em um Estado Contratante recebe lucros ou rendimentos do outro Estado Contratante, esse outro Estado Contratante não poderá cobrar qualquer imposto sobre os dividendos pagos pela sociedade, exceto se tais dividendos forem pagos a residente desse outro Estado, ou se a participação em virtude da qual os dividendos são pagos, relacionarse efetivamente a um estabelecimento permanente situado nesse outro Estado; nem poderá sujeitar os lucros não distribuídos da sociedade a imposto sobre lucros não distribuídos, ainda que os dividendos pagos ou os lucros não distribuídos consistam, no total ou parcialmente, de lucros ou rendimentos provenientes desse outro Estado. Fl. 2672DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 18 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 7. As limitações de alíquota do imposto previstas nos parágrafos 2 e 5 não se aplicam aos dividendos ou lucros pagos antes do final do primeiro ano calendário seguinte ao ano de assinatura desta Convenção. É muito claro que o dispositivo convencional trata dos dividendos pagos, ao versar sobre a competência tributária cumulativa dos Estados contratantes sobre a materialidade em questão. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado Brasil-Holanda (e do art. 10 do Tratado Brasil-Argentina), em seu § 3º. Ainda, o referido § 3º do art. 10 do tratado não permite que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. E também remete ao Estado-fonte, i.e., ao Estado contratante em que reside a sociedade distribuidora dos dividendos, a qualificação residual de dividendos, mas coloca como um dos limites: a distribuição efetiva. É expressa nesse sentido a parte final do § 3º do art. 10 do tratado em questão. Interdita-se, pois, inserir na moldura de dividendos os fictos ou os distribuídos fictamente. Ainda, registre-se que o § 6º do art. 10 do tratado prevê – tal como no Modelo OCDE – cláusula de salvaguarda. Impede-se que um Estado contratante pretenda tributar indiretamente como dividendos ou até mesmo como lucros não distribuídos (o que é diferente de dividendos) certos valores correspondentes a lucros ou rendimentos. Os lucros e rendimentos de uma sociedade residente no Estado contratante “X” são realizados no Estado contratante “Y”. Se aquela sociedade residente no Estado “X” pagar dividendos a quem não seja residente no Estado “Y”, mesmo que os dividendos pagos sejam originários de lucros ou rendimentos realizados no Estado “Y”, tais dividendos não poderão ser tributados nesse Estado “Y”. O mesmo vale para lucros não distribuídos. Vedase uma tributação extraterritorial em tais moldes. Ao fazer esse registro, quero dizer que o tratado não dá margem a permitir que o art. 10 seja aplicado a dividendos fictos ou distribuídos fictamente. Todo o art. 10 do tratado em comentário cuida de dividendos pagos, ao delinear a competência tributária cumulativa do Estado contratante em que reside o sócio ou o acionista, com a do Estado contratante em que reside a sociedade que distribui (paga) os dividendos. Como o pressuposto é a constitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01, só posso concluir que o regime de transparência fiscal adotado não tem como materialidade os dividendos, pois, como se viu, não há como se tributarem dividendos fictos ou dividendos distribuídos fictamente. Adiante esclareço a materialidade do art. 74 da MP 2.158/014. A técnica de tributação não pode ser manejada ou manipulada para alcançar materialidade ou seu aspecto temporal por ficção legal, nos termos deduzidos alhures. Por outro lado, seja como corolário do que se deduziu, seja pela interpretação e aplicação direta do art. 10 dos tratados em jogo, fica evidenciado claramente o seguinte: o art. 10 do Tratado Brasil-Holanda e o art. 10 do Tratado Brasil-Argentina são inaplicáveis sobre o suporte fático em dissídio. Não vejo como se possa dar interpretação diversa. Essas são as duas primeiras exegeses extraíveis. Tais exegeses funcionam como fundamentos para a conclusão da inaplicabilidade do art. 10 dos tratados em debate sobre a materialidade em dissídio. Reitero-as. Fl. 2673DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 19 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Pelo art. 74 da MP 2.158/01 não se tributam dividendos fictos ou dividendos fictamente distribuídos. O art. 10 dos tratados em discussão, ao estabelecer a competência cumulativa dos Estados contratantes, não alcança os lucros auferidos e não distribuídos por controlada e coligada domiciliadas num dos Estados contratantes: ele delimita a competência cumulativa dos Estados contratantes, para a tributação dos dividendos efetivamente distribuídos Criticando a posição adotada na Solução de Consulta Interna COSIT nº 18/2013, Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro são taxativos quando afirmam pela impossibilidade de tributação dos lucros das empresas controladas, que estejam sediadas em países que firmaram Tratado para evitar a dupla-tributação com o Brasil, como no presente caso. Veja-se o entendimento exarado por aqueles autores: Sustentou-se na Solução de Consulta que o art. 74 da MP 2.158/2001 previa a tributação da renda dos sócios brasileiros decorrente de sua participação em empresas domiciliadas no exterior, de forma que a norma interna estaria incidindo em contribuinte brasileiro, não gerando qualquer conflito com os dispositivos do tratado que versam sobre a tributação de lucros. SCHOUERI (2013, p. 74) criticou o posicionamento, explicitando que o raciocínio desenvolvido peca ao não perceber que não é verdade que o art. 7º se limita a proteger do imposto brasileiro as empresas sediadas no exterior, aduzindo que o escopo do art. 7º não é subjetivo (as empresas), mas objetivo (os lucros das empresas). Com efeito, é falso o dilema que examina quem assume o ônus do imposto, posto que a limitação do art. 7º alcança os lucros de uma empresa de um Estado Contratante, pouco interessando, in casu, indagar quem suporta o encargo, seja a empresa estrangeira, seja a nacional, importando que nem uma nem outra estão sujeitas ao imposto brasileiro calculado sobre o lucro da empresa localizada no exterior. Destarte, a opção feita pela tributação da pessoa jurídica brasileira como sujeito passivo da relação jurídica tributária é equivocada, pois o Brasil não teria como exercer sua pretensão arrecadatória diretamente em face do lucro da pessoa jurídica estrangeira. (...) Ao prever a inclusão do lucro real da 'parcela do ajuste do valor do investimento' [previsto na Lei nº 12.973/14], tributa-se, na verdade, o lucro tranvestido de outro nome para justificar o argumento de que os lucros tributados seriam, de fato, pertencentes à controladora no Brasil e não da controlada no exterior, de modo a afastar-se a incompatibilidade com o art. 7º dos tratados para evitar a dupla tributação. Valeu-se o legislador, em deliberada intenção de evitar o conflito entre a tributação prevista para as controladas diretas e indiretas no exterior, e para as coligadas equiparadas às controladas, de nova denominação - parcela do ajuste do valor do investimento -, mas que em nada altera a sistemática anterior que se resume à tributação do lucro. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF; Francisco Marconi de Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Págs. 109 e 110). Este argumento também foi enfrentando pelo Superior Tribunal de Justiça, nos autos do Resp nº 1.325.709, quando o Ministro Relator, Napoleão Nunes Maia, assim se manifestou em seu voto, para afastar a tese da Fazenda Nacional de que se estaria, em verdade, tributando os dividendos fictamente distribuídos: 63 - Repita-se que a sistemática adotada pela Fazenda Pública, de adicionar o lucro obtido pela empresa controlada no Exterior para cômputo do lucro real da empresa Fl. 2674DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 20 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 controladora importa na tributação daquele mesmo lucro, em contraste com o disposto nas referidas Convenções Internacionais. Inclusive, não se pode deixar de mencionar que, no citado Resp, julgado pelo STJ, discutia-se caso idêntico ao presente e a Corte de Justiça, que tem como uma das funções a de pacificar o entendimento dos demais tribunais brasileiros, proferiu decisão privilegiando o disposto nos Tratados firmados pela República Federativa do Brasil, em detrimento da legislação que determina a tributação do lucros, mesmo que eles não tenham sido disponibilizados (ou o tenham sido "por ficção", nas palavras do agente fiscal). Veja-se a ementa do acórdão proferido: RECURSO ESPECIAL TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. MANDADO DE SEGURANÇA DENEGADO NA ORIGEM. APELAÇÃO. EFEITO APENAS DEVOLUTIVO. PRECEDENTE. NULIDADE DOS ACÓRDÃOS RECORRIDOS POR IRREGULARIDADE NA CONVOCAÇÃO DE JUIZ FEDERAL. NÃO PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS 282 E 356/STF. IRPJ E CSLL. LUCROS OBTIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NACIONAIS SEDIADAS EM PAÍSES COM TRIBUTAÇÃO REGULADA. PREVALÊNCIA DOS TRATADOS SOBRE BITRIBUTAÇÃO ASSINADOS PELO BRASIL COM A BÉLGICA (DECRETO 72.542/73), A DINAMARCA (DECRETO 75.106/74) E O PRINCIPADO DE LUXEMBURGO (DECRETO 85.051/80). EMPRESA CONTROLADA SEDIADA NAS BERMUDAS. ART. 74, CAPUT DA MP 2.157-35/2001. DISPONIBILIZAÇÃO DOS LUCROS PARA A EMPRESA CONTROLADORA NA DATA DO BALANÇO NO QUAL TIVEREM SIDO APURADOS, EXCLUÍDO O RESULTADO DA CONTRAPARTIDA DO AJUSTE DO VALOR DO INVESTIMENTO PELO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO, PARA CONCEDER A SEGURANÇA, EM PARTE. 1. Afasta-se a alegação de nulidade dos acórdãos regionais ora recorridos, por suposta irregularidade na convocação de Juiz Federal que funcionou naqueles julgamentos, ou na composição da Turma Julgadora; inocorrência de ofensa ao Juiz Natural, além de ausência de prequestionamento. Súmulas 282 e 356/STF. Precedentes desta Corte. 2. Salvo em casos excepcionais de flagrante ilegalidade ou abusividade, ou de dano irreparável ou de difícil reparação, o Recurso de Apelação contra sentença denegatória de Mandado de Segurança possui apenas o efeito devolutivo. Precedente: AgRg no AREsp. 113.207/SP, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 03/08/2012. 3. A interpretação das normas de Direito Tributário não se orienta e nem se condiciona pela expressão econômica dos fatos, por mais avultada que seja, do valor atribuído à demanda, ou por outro elemento extrajurídico; a especificidade exegética do Direito Tributário não deriva apenas das peculiaridades evidentes da matéria jurídica por ele regulada, mas sobretudo da singularidade dos seus princípios, sem cuja perfeita absorção e efetivação, o afazer judicial se confundiria com as atividades administrativas fiscais. 4. O poder estatal de arrecadar tributos tem por fonte exclusiva o sistema tributário, que abarca não apenas a norma regulatória editada pelo órgão competente, mas também todos os demais elementos normativos do ordenamento, inclusive os ideológicos, os sociais, os históricos e os operacionais; ainda que uma norma seja editada, a sua efetividade dependerá de harmonizar-se com as demais concepções do sistema: a compatibilidade com a hierarquia internormativa, os princípios jurídicos gerais e constitucionais, as ilustrações doutrinárias e as lições da jurisprudência dos Tribunais, dentre outras. 5. A jurisprudência desta Corte Superior orienta que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno, em razão da sua especificidade. Inteligência do art. 98 do CTN. Precedente: (RESP 1.161.467-RS, Rel. Min. CASTRO MEIRA, DJe 01.06.2012). Fl. 2675DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 21 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 6. O art. VII do Modelo de Acordo Tributário sobre a Renda e o Capital da OCDE utilizado pela maioria dos Países ocidentais, inclusive pelo Brasil, conforme Tratados Internacionais Tributários celebrados com a Bélgica (Decreto 72.542/73), a Dinamarca (Decreto 75.106/74) e o Principado de Luxemburgo (Decreto 85.051/80), disciplina que os lucros de uma empresa de um Estado contratante só são tributáveis nesse mesmo Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante, por meio de um estabelecimento permanente ali situado (dependência, sucursal ou filial); ademais, impõe a Convenção de Viena que uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para justificar o inadimplemento de um tratado (art. 27), em reverência ao princípio basilar da boa-fé. 7. No caso de empresa controlada, dotada de personalidade jurídica própria e distinta da controladora, nos termos dos Tratados Internacionais, os lucros por ela auferidos são lucros próprios e assim tributados somente no País do seu domicílio; a sistemática adotada pela legislação fiscal nacional de adicioná-los ao lucro da empresa controladora brasileira termina por ferir os Pactos Internacionais Tributários e infringir o princípio da boa-fé na relações exteriores, a que o Direito Internacional não confere abono. 8. Tendo em vista que o STF considerou constitucional o caput do art. 74 da MP 2.158- 35/2001, adere-se a esse entendimento, para considerar que os lucros auferidos pela controlada sediada nas Bermudas, País com o qual o Brasil não possui acordo internacional nos moldes da OCDE, devem ser considerados disponibilizados para a controladora na data do balanço no qual tiverem sido apurados. 9. O art. 7o, § 1o. da IN/SRF 213/02 extrapolou os limites impostos pela própria Lei Federal (art. 25 da Lei 9.249/95 e 74 da MP 2.158-35/01) a qual objetivou regular; com efeito, analisando-se a legislação complementar ao art. 74 da MP 2.158-35/01, constata- se que o regime fiscal vigorante é o do art. 23 do DL 1.598/77, que em nada foi alterado quanto à não inclusão, na determinação do lucro real, dos métodos resultantes de avaliação dos investimentos no Exterior, pelo método da equivalência patrimonial, isto é, das contrapartidas de ajuste do valor do investimento em sociedades estrangeiras controladas. 10. Ante o exposto, conheço do recurso e dou-lhe parcial provimento, concedendo em parte a ordem de segurança postulada, para afirmar que os lucros auferidos nos Países em que instaladas as empresas controladas sediadas na Bélgica, Dinamarca e Luxemburgo, sejam tributados apenas nos seus territórios, em respeito ao art. 98 do CTN e aos Tratados Internacionais em causa; os lucros apurados por Brasamerican Limited, domiciliada nas Bermudas, estão sujeitos ao art. 74, caput da MP 2.158-35/2001, deles não fazendo parte o resultado da contrapartida do ajuste do valor do investimento pelo método da equivalência patrimonial. (REsp 1325709/RJ, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, PRIMEIRA TURMA, julgado em 24/04/2014, DJe 20/05/2014) (destacou-se) Em que pese o citado precedente do STJ não ter sido proferido na sistemática dos Recursos Repetitivos e, por isso, não ser de aplicação vinculada deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e dos demais órgãos da administração pública, não se pode, data venia, desprezar a interpretação dada pelo Poder Judiciário em caso idêntico ao travado nos autos e, diga-se, em sentido diametralmente oposto ao que restou decidido no acórdão recorrido, sob pena de tornar completamente inseguras as relações entre fisco e os contribuintes. Neste ponto, vale o alerta feito por Marcus Lívio Gomes e Renata S. Cunha Pinheiro, que, após demonstrarem que a Lei nº 12.973/14 em nada alterou a materialidade tributável estabelecida pela MP 2.158-35/2001, que é o lucro auferido pela controlada no exterior, afirmam o seguinte: A nosso ver, esse ponto é de suma importância dado o cenário que se apresenta, em que o Brasil tem buscado ampliar sua participação nas políticas de combate ao planejamento Fl. 2676DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 22 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 tributário agressivo capitaneadas pela OCDE já que, se mantido o entendimento de que é possível tributar de forma automática os lucros auferidos pela pessoa jurídica no exterior antes da sua disponibilização à pessoa jurídica brasileira, quando auferido em país com o qual exista tratado para evitar a dupla tributação da renda, será tornar letra morta o disposto no art. 7º de todas as convenções firmadas pelo Brasil, o que torna sua posição no contexto mundial bastante contraditória e controvertida. (GOMES, Marcus Lívio e Pinheiro Renata S. Cunha. A Lei nº 12.973/2014 e os tratados para evitar a dupla tributação da renda. In Estudos Tributários do II Seminário CARF / Confederação Nacional da Indústria; Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF; Francisco Marconi de Oliveira, Marcus Lívio Gomes, Marcos Aurélio Pereira Valadão, Coordenadores. Brasília: CNI, 2017. Pág. 108). (destacou-se) E o entendimento exarado pelo Superior Tribunal de Justiça, já é acompanhado pelos Tribunais pátrios, como se observa da ementa dos julgados abaixo citadas: TRIBUTÁRIO. IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS SEDIADAS NO EXTERIOR. TRATADOS INTERNACIONAIS PARA EVITAR A DUPLA TRIBUTAÇÃO. CONFLITO DE NORMAS. ART. 74, CAPUT, DA MP Nº 2.158-35/2001. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE. PREVALÊNCIA DA NORMA VEICULADA NOS TRATADOS. TRIBUTAÇÃO EXCLUSIVA DOS LUCROS NO PAÍS DE DOMICÍLIO. REAVALIAÇÃO POSITIVA DOS INVESTIMENTOS EM CONTROLADAS SITUADAS NO EXTERIOR. NEUTRALIDADE DO MÉTODO DA EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL PARA FINS FISCAIS. ART. 23, PARÁGRAFO ÚNICO, DO DL Nº 1.598/1977. 1. Em matéria tributária, dispõe o art. 98 do CTN que os tratados e as convenções internacionais revogam ou modificam a legislação tributária interna, e serão observados pela que lhes sobrevenha. A doutrina adverte quanto à imprecisão técnica do dispositivo, porquanto não se trata, a rigor, de revogação da legislação interna, mas de suspensão da eficácia da norma tributária nacional, que readquirirá a sua aptidão para produzir efeitos se e quando o tratado for denunciado (Ricardo Lobo Torres). 2. A despeito da controvérsia no STF sobre a hierarquia normativa entre tratados em matéria tributária e lei interna, a questão se resolve no plano infraconstitucional. As disposições veiculadas nos tratados e convenções internacionais em matéria tributária, após se submeterem ao procedimento previsto no art. 49, inciso I, da CF, passam a integrar o ordenamento jurídico nacional. Eventual antinomia, assim, resolve-se pelo princípio da especialidade, prevalecendo o regramento internacional naquilo que conflitar com a norma interna de tributação. A norma interna deixa de ser aplicada na hipótese específica regulada pelo tratado, mas continua válida e aplicável a todas as situações que não envolvem os sujeitos e os elementos de estraneidade definidos no tratado. Ocorre, dessa forma, a suspensão da eficácia da norma interna e não propriamente revogação ou modificação. 3. Entender que a superveniência de norma interna conflitante com o tratado internacional modificaria o regramento a ser aplicado implica denúncia implícita do acordo, sem a adoção dos procedimentos constitucionais e legais para tanto, desprezando, ademais, os princípios da boa-fé, da segurança e da cooperação que norteiam as relações internacionais. Em favor da prevalência dos tratados, cabe invocar não somente o art. 98 do CTN, mas também o art. 5º, § 2º, da Constituição Federal e o art. 27 do Decreto nº 7.030/2009, que promulga a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. 4. O Brasil firmou acordos visando a evitar a dupla tributação e a prevenir a evasão fiscal, em matéria de imposto de renda, com a China (Decreto nº 762/1993) e a Itália (Decreto nº 85.985/1981). Ambos oferecem tratamento uniforme à matéria, seguindo o Modelo de Acordo Tributário sobre Renda e Capital da OCDE. O art. 7º dos Tratados adota o princípio da residência no tocante à tributação dos lucros das empresas, estabelecendo a competência exclusiva do país de domicílio da empresa para a tributação de seus lucros. 5. O ponto nodal da controvérsia decorre do disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001, que considera disponibilizados os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, independente de sua efetiva distribuição. 6. Equivoca-se a Fazenda Nacional ao Fl. 2677DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 23 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 sustentar que a tributação incide sobre os lucros obtidos por empresa sediada no Brasil, provenientes de fonte situada no exterior, na medida em que refletem positivamente no patrimônio da controladora, valorizando suas ações e demais ativos, pois a reavaliação positiva dos investimentos realizados em empresas controladas situadas no exterior não constitui renda tributável, conforme o disposto no parágrafo único do art. 23 do DL nº 1.598/1977 (na redação vigente até a Lei nº 12.973/2014). A norma do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001 em nada alterou o regime fiscal vigorante desde o art. 23 do DL nº 1.598/1977, que estabelece a neutralidade do método da equivalência patrimonial para efeitos fiscais, porque seu resultado positivo, relevante para a contabilidade, não é tributado. 7. Diante do evidente conflito do disposto no art. 74 da MP nº 2.158-35, que determina a adição dos lucros obtidos pela empresa controlada no exterior, para o cômputo do lucro real da empresa controladora, na data do balanço no qual tiverem sido apurados, deve prevalecer a norma do art. 7º dos Decretos nº 762/1993 e nº 85.985/1981, a fim de evitar a tributação dos lucros das empresas controladas pela impetrante na China e na Itália. (TRF4, APELREEX 2003.72.01.000014-4, PRIMEIRA TURMA, Relator JOEL ILAN PACIORNIK, D.E. 23/09/2015) (destacou-se) IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS POR EMPRESAS CONTROLADAS NO EXTERIOR. Considerando que as disposições dos Tratados Internacionais Tributários prevalecem sobre as normas de Direito Interno (conforme disposto no art. 98 do CTN e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça acerca do tema - REspº 1.325.709/RJ e REsp 1161467/RS), é descabida a cobrança de IRPJ e de CSLL sobre os lucros auferidos por empresa controlada situada no exterior. (TRF4, AC 2008.71.08.006698-0, SEGUNDA TURMA, Relator RÔMULO PIZZOLATTI, D.E. 21/03/2016) (destacou-se) Ademais, em diversas oportunidades, este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais enfrentou o tema sobre a tributação de lucro de controladas e coligadas de empresas brasileira que tenham domicílio no exterior. Veja-se, neste sentido, ementa do julgado que se transcreveu parte do voto alhures (Processo administrativo de nº 12897.000193/2010-11 - Acórdão nº 1103-001.122): Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2005, 2006 IRPJ - LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA - DIVIDENDOS FICTOS - LUCROS - TRATADO - ART. 10 OU ART. 7º 1 - A tributação do art. 74 da MP 2.158/01 não recai sobre dividendos fictos. Não se pode empregar ficção legal para alcançar materialidade ou se antecipar seu aspecto temporal quando a Constituição Federal usa essa materialidade na definição de competência tributária dos entes políticos. Ademais, o art. 10 do Tratado Brasil-Holanda trata dos dividendos pagos, não permitindo que se considerem como dividendos os distribuídos fictamente. O problema da qualificação de dividendos é resolvido pelo próprio art. 10 do Tratado Brasil- Holanda. Inaplicabilidade do art. 10 do tratado. 2 - O regime de CFC do Brasil do art. 74 da MP 2.158/01 considera transparente as controladas no exterior (entidade transparente ou pass-through entity): considera como auferidos pela investidora no País os lucros da investida no exterior; são os lucros em dissídio. Isso é considerar auferidos os lucros no exterior pela investidora no País, por intermédio de suas controladas no exterior. Não é o mesmo que ficção legal: é parecença com a consideração do lucro de grupo societário (tax group regime). O art. 7º do Tratado Brasil-Holanda é norma de bloqueio: define competência exclusiva para tributação dos lucros da sociedade residente num Estado contratante a este Estado. Regra específica em face de regra geral. A não aplicação da norma de bloqueio do art. 7º aos lucros em dissídio seria simplesmente desconsiderar, no âmbito de tratado, a personalidade jurídica da sociedade residente na Holanda. No mesmo sentido, bastaria um dos Estados contratantes proceder a uma qualificação a seu talante do que (não) sejam lucros de controlada residente noutro Estado contratante, para frustrar norma de Fl. 2678DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 24 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 tratado que as partes honraram respeitar. Intributabilidade com o IRPJ dos lucros em discussão, pela aplicação do art. 7º do Tratado Brasil-Holanda. IRPJ, CSLL - LUCROS DE COLIGADA NA ARGENTINA - ADI 2.588-DF No julgamento da ADI 2.588-DF, com trânsito em julgado em 17/2/14, reconheceu-se a inconstitucionalidade do art. 74 da MP 2.158/01 em relação a lucros de coligadas não situadas em “paraíso fiscal”. Efeitos do julgamento da ADI 2.588-DF sobre os lucros da coligada residente na Argentina. Intributabilidade, no País, desses lucros. CSLL - LUCROS DE CONTROLADAS NA HOLANDA - TRATADO Sofrem incidência da CSLL os lucros das pessoas jurídicas controladas sediadas na Holanda. MULTA ISOLADA - CONCOMITÂNCIA - MULTA PROPORCIONAL Apenado o continente, incabível apenar o conteúdo. Penalizar pelo todo e ao mesmo tempo pela parte do todo seria uma contradição de termos lógicos e axiológicos. Princípio da consunção em matéria apenatória. A aplicação da multa de ofício de 75% sobre a CSLL exigida exclui a aplicação da multa de ofício de 50% sobre CSLL por estimativa dos mesmos anos-calendário. (Acórdão nº 1103-001.122, sessão de 21/10/2014) Por fim, deve-se mencionar que deve ser aplicado à CSLL o aqui desenvolvido com relação ao IRPJ. É que o tratado firmado pelo Brasil (modelo OCDE) fala no item 3, do artigo 2 que a "convenção aplica-se também a quaisquer impostos idênticos ou substancialmente semelhantes que forem estabelecidos após a data de sua assinatura, adicionalmente ou em substituição aos impostos mencionados no parágrafo 2.", sendo os impostos que incidem sobre a renda, como é o caso também da CSLL. Sabe-se que, tecnicamente, a CSLL, por ter o fruto de sua arrecadação uma destinação específica, não pode ser caracterizada como um imposto e sim como uma contribuição. Contudo, ele é substancialmente igual ao Imposto sobre a renda, em todos os seus aspectos de apuração. Ademais, não se pode olvidar que, à época da celebração do Tratado não havia entrado em vigor a Constituição Federal de 1988, que, na interpretação dada pelo STF (vide ADI 447), previu a existência de cinco espécies tributárias passíveis de serem instituídas. A cobrança da CSLL nos moldes hoje exigidos pela União Federal não era possível quando da celebração do tratado. Colocando uma pá de cal acerca dessa discussão, com o objetivo de interpretar a legislação, o artigo 11, da Lei nº 13.202/2015, estipulou, expressamente, que os tratados para evitar dupla tributação englobam também a CSLL. Veja-se: Art. 11. Para efeito de interpretação, os acordos e convenções internacionais celebrados pelo Governo da República Federativa do Brasil para evitar dupla tributação da renda abrangem a CSLL. (destacou-se) Neste sentido, por se tratar de uma lei interpretativa, os seus efeitos podem retroagir a fatos pretéritos, mesmo que ocorridos antes da entrada em vigor da legislação, nos exatos termos do comando do artigo 106 do Código Tributário Nacional, que diz que a lei será aplicada a atos e fatos pretéritos, "em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados". Assim, por todo aqui exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO ao Recurso Voluntário apresentado e, por consequência, cancelar integralmente o crédito tributário constituído no Auto de Infração combatido. Fl. 2679DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 25 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 DOS SALDOS NEGATIVOS NOS ANOS-CALENDÁRIOS DE 2011 E 2012. Tendo este relator sido vencido quando ao mérito, deve-se apenas verificar a plausibilidade ou não do pedido subsidiário do Recorrente, no sentido de ver reconhecido os seus saldos negativos nos anos-calendários de 2011 e 2012 e, assim, afastar a exigência do pagamento do crédito tributário, na medida em que, a manutenção da autuação só teria o condão de reduzir aqueles saldos. Não se pode deixar de mencionar que a questão do aproveitamento dos prejuízos fiscais na apuração dos tributos – IRPJ e CSLL – tornou-se incontroversa, na medida em que o Recorrente afirmou em petição de fls. 2539, que não possui “saldo a ser compensado, pois a fiscalização já utilizou o limite do saldo permitido para tanto.” Assim, em primeiro lugar, entende-se que o contribuinte, ao discordar dos valores indicados como saldo negativos pela fiscalização, em cumprimento à Resolução exarada por este colegiado, deveria ter apresentado prova documental suficiente para desconstruir as afirmações do agente fiscal. Contudo, como mencionado, o único documento que o contribuinte trouxe aos autos foram planilhas por elaboradas, em que foi demonstrada a quantificação (cálculo) do IRPJ e da CSSL nos anos-calendários de 2011 e 2012. E o que se pode observar das planilhas apresentadas é que nelas não consta a composição do saldo negativo, suas compensações e os valores ainda restantes. O contribuinte parte de um saldo inicial – tanto para o IRPJ como para a CSLL e que em alguns casos se aproxima dos saldos iniciais apontados pela fiscalização – e deles subtrai o montante do crédito tributário constituído no presente processo. Não há, reitere-se, a demonstração da composição dos saldos negativos. Desta forma, para análise do pedido do contribuinte, considerar-se-á os valores apresentados pela fiscalização, sendo que houve a confirmação apenas de saldo negativo no ano de 2011 no valor de R$273.216.294,67. Deve-se ressaltar, por outro lado, que, no que se refere à CSSL, no Auto de Infração de fls. 1470, com a constituição de ofício dos créditos tributários, houve apenas ajustes dos “Saldo de Bases de Cálculo Negativas” relativos aos anos calendários que foram objeto da autuação. Assim, a discussão ora comento fica restrita ao IRPJ relativo aos anos de 2011 e 2012. O Recorrente não se manifestou também com relação à existência de saldo negativo de IRPJ relativo ao ano de 2013, sendo que este período sequer foi objeto da diligência determinada por este colegiado, até mesmo porque, como constou do acórdão recorrido, o “Auto de Infração de IRPJ não exigiu, absolutamente, nenhum centavo de imposto no que diz respeito ao ano-calendário de 2013 (fl. 1464). O que está indicado, com toda a clareza, nos Demonstrativos de Apuração que acompanham a peça fazendária, é a redução do prejuízo fiscal daquele período (fls. 1460 e 1468)”. Pois bem. Como demonstrado, foi reconhecido, pela própria fiscalização, na diligência realizada, que o saldo negativo de 2011, já descontados as compensações e autuações sofridas pelo Recorrente, é de R$273.216.294,67. Assim, uma vez que, no Auto de Infração de IRPJ, o Fl. 2680DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 26 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 valor principal do tributo constituído de ofício pela fiscalização é de R$ 7.571.154,63, este valor deve ser decotado daquele saldo, não podendo ser exigido do contribuinte a multa e os juros. Por outro lado, a mesma sorte não pode ser dada ao ano calendário de 2012, uma vez que, para este ano, não foi reconhecido qualquer saldo negativo passível de restituição ou compensação. Neste passo, são esclarecedoras as colocações da ex-Conselheira Maria Lucia Miceli, que compunha essa Turma de Julgamento, no voto proferido nos autos do processo nº 13706.006025/2002-91 (acórdão nº 1302-004.130). Confira-se: “Ocorre que o procedimento adotado pela recorrente em computar na apuração do saldo negativo do ano-calendário de 1999 os créditos dos períodos anteriores não encontra respaldo na legislação tributária. Cada ano-calendário tem sua forma de apuração e fato gerador distinto. Os créditos dos saldos negativos são demonstrados em suas respectivas Declarações de Informação da Pessoa Jurídica – DIPJ. A título de exemplo, caso o protocolo do pedido fosse feito em 2003, o direito à restituição do crédito relativo ao ano-calendário de 1997 estaria já decaído, pelo decurso do prazo de cinco anos, nos termos do artigo 168, inciso I c/c artigo 165, inciso I, ambos do CTN”. Desta forma, inexistindo saldo negativo no ano de 2012, não há que se falar em afastar a exigência do crédito tributário constituído de ofício pela fiscalização para este ano- calendário. Por fim, não se deve dar guarida à alegação do Recorrente, constante no Recurso Voluntário, no sentido de não ser possível a incidência dos juros sobre as multas aplicadas. É que o entendimento que prevaleceu e restou sumulado no CARF é no sentido de ser válida aquela incidência. Este é o teor da súmula CARF nº 108, que tem a seguinte redação: “Incidem juros moratórios, calculados à taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e Custódia - SELIC, sobre o valor correspondente à multa de ofício.” Por todo o exposto, superado o entendimento quanto ao mérito da discussão, VOTA-SE por DAR PARCIAL PROVIMENTO ao RECURSO VOLUNTÁRIO para afastar a exigência do crédito tributário do IRPJ relativo ao ano-calendário de 2011 e determinar o abatimento dos valores constituídos pela fiscalização no Auto de Infração do saldo negativo do contribuinte apurado nesse ano (2011), que foi devidamente confirmado pela fiscalização no valor de R$273.216.294,67. (documento assinado digitalmente) Flávio Machado Vilhena Dias Fl. 2681DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 27 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Voto Vencedor Conselheiro Luiz Tadeu Matosinho Machado – Redator designado Em que pese o brilhante e bem fundamentado voto do D. relator, como já é de praxe em sua lavra, houve por bem a maioria do colegiado em divergir de seu posicionamento na matéria relativa à tributação dos lucros auferidos no exterior pela contribuinte recorrente e ainda, quanto à multa de ofício aplicada sobre o lançamento de IRPJ do ano-calendário 2011. Da Tributação dos Lucros no Exterior No que concerne a primeira matéria o D. relator acolheu o argumento trazido pela recorrente quanto à prevalência do tratado entre o Brasil e Luxemburgo sobre a regra de tributação prevista no art. 74 da MP. 2158-35/2001. Conforme sintetizado no relatório, a recorrente alega que o lançamento não observou as disposições do tratado celebrado entre o Brasil e o Grão-Ducado de Luxemburgo para prevenir a dupla tributação em matéria de imposto de renda. Defende que o art. 7º do tratado em questão determina que os lucros de uma empresa domiciliada em um dos países contratantes só pode ser tributado nesse país, ficando excluída, conseqüentemente, a competência do outro país para tributar os mesmos lucros. Aduz que a interpretação proposta pela autoridade fazendária contraria a razão histórica e a própria finalidade do art. 7º do tratado (combate à tributação automática de controladas), esvaziando o seu conteúdo. Conclui que, em se tratando da tributação dos lucros de controladas domiciliadas em Luxemburgo, a regra do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 24/08/2001, é afastada pelo art. 7º do tratado. Este colegiado têm se manifestado, em sua maioria, no sentido de que que o art. 74 da MP. nº 2158-35/2001 é autêntica regra CFC (Controled Foreign Company Rule), podendo ser aplicada sem ferir os tratados firmados pelo Brasil para evitar a dupla tributação, acompanhando o posicionamento reiterado da Câmara Superior de Recursos Fiscais – CSRF, sobre a matéria. É o que se colhe das ementas dos recentes acórdãos proferidos por esta 2ª Turma, verbis: Acórdão nº 1302-003.720 – Relator Ricardo Marozzi Gregório ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2010 ACORDOS DE BITRIBUTAÇÃO. ARTIGOS 7º. CONTEÚDO. A parte dos artigos 7º das Convenções-Modelo dos acordos de bitributação que diz que “os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado” não pode ser entendida de maneira desvinculada da parte seguinte: “a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado”. Trata-se da forma que as Convenções-Modelo escolheram para dizer que o país da fonte só pode tributar o lucro do seu não residente se este exercer atividade neste país por intermédio de um estabelecimento permanente. Fl. 2682DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 28 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Isso porque é possível que uma atividade seja exercida sem um grau de conexão tal com o país da fonte que seja capaz de qualificá-lo no escopo do conceito de estabelecimento permanente contido nos artigos 5º daquelas mesmas Convenções-Modelo. Ainda assim, existe a conexão e o país da fonte poderia querer exercer sua jurisdição no sentido de tributar os correspondentes lucros. A regra daqueles dispositivos impede, então, que o país da fonte exerça essa jurisdição. Não se pode, portanto, querer atribuir à expressão “os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado” o sentido restritivo de impedir que um determinado país adote normas de transparência fiscal internacional. LUCROS NO EXTERIOR. NATUREZA DA TRIBUTAÇÃO. ACORDOS DE BITRIBUTAÇÃO. COMPATIBILIDADE. Independentemente de sua amplitude, o artigo 74 da MP nº 2.158-35/01 vai ao encontro das regras criadas em vários países em sintonia com o fenômeno da transparência fiscal internacional. Trata-se de normas antielisivas específicas que possuem a finalidade de evitar o diferimento da tributação dos lucros de empresas qualificadas como controlled foreign corporations (CFC). A lei tributa uma renda ficta da própria pessoa jurídica brasileira (a empresa residente). Em outras palavras, ela olha para a empresa residente e, sopesando o fato de que esta possui participação societária em outra empresa que apurou lucro no exterior, assume que há disponibilidade da renda e determina que se tribute como lucro da empresa brasileira um determinado valor estimado com base no lucro apurado pela empresa no exterior. Não se trata de "dividendos presumidos". Por isso, inexiste ofensa aos acordos de bitributação tanto nos dispositivos que tratam de lucros de empresas quanto naqueles que tratam de dividendos. Acórdão nº 1302-003.813 - Relator Paulo Henrique Silva Figueiredo ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) Ano-calendário: 2010 IRPJ. CSLL. LUCROS AUFERIDOS NO EXTERIOR. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, correspondentes ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. CONTROLADAS. PROPÓSITO DE EVITAR O DIFERIMENTO INDEFINIDO DA TRIBUTAÇÃO DOS LUCROS . REGRA CFC. A regra do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001, é autêntica regra CFC (Controled Foreign Company Rule), visando, precipuamente, evitar o diferimento por tempo indeterminado da tributação dos lucros apurados com base nos investimentos que a sociedade domiciliada no Brasil possua no exterior. TRIBUTAÇÃO EM BASES UNIVERSAIS. CONCEITO DE RENDA. ADEQUAÇÃO. A apuração de lucros em sociedades controladas no exterior caracteriza a aquisição de disponibilidade jurídica apta a dar nascimento ao fato gerador do imposto de renda, não havendo nenhum descompasso entre o disposto no art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001 com o conceito de renda contido no art. 43 do Código Tributário Nacional. BRASIL-HOLANDA. TRATADO PARA EVITAR DUPLA TRIBUTAÇÃO. TRIBUTAÇÃO DO LUCRO DA CONTROLADORA NACIONAL. AUSÊNCIA DE ANTINOMIA. Não há incompatibilidade entre os tratados internacionais para evitar dupla tributação e a aplicação do art. 74 da Medida Provisória nº 2.158-35, de 2001. No caso concreto, o Tratados firmado pelo Brasil com a Holanda não impede a tributação do resultado de Fl. 2683DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 29 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 empresa domiciliada no Brasil em função de sua renda obtida a partir dos lucros apurados em sociedade controlada domiciliada no exterior. TRATADOS INTERNACIONAIS. OCDE. CONVENÇÃO MODELO. ESTADOS NÃO MEMBROS. UTILIZAÇÃO. COMENTÁRIOS. APLICAÇÃO. Os Estados não membros da OCDE, ao utilizarem o texto das Convenções Modelo propostas por aquela Organização, devem seguir os Comentários inerentes a elas. EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL. RESULTADO. PARTICIPAÇÃO EM CONTROLADAS. LUCROS. GRANDEZAS DISTINTAS. O resultado total dos ajustes decorrentes da aplicação do método da equivalência patrimonial, ou as contrapartidas de tais ajustes, não se iguala, necessariamente, aos lucros auferidos em decorrência dos investimentos em controladas no exterior. No Acórdão nº 1302-003.720, cuja ementa é acima citada, o D. Conselheiro Ricardo Marozzi Gregório traz valioso ensinamentos sobre a tributação dos lucros auferidos no exterior, valendo a pena transcrevê-los, verbis: [...] Da premissa da tributação dos lucros auferidos no exterior: A compreensão sobre a natureza da tributação envolvendo os lucros auferidos no exterior é fundamental para o enfrentamento das razões alegadas pela recorrente. A tributação em bases universais das pessoas jurídicas residentes no Brasil tem seu fundamento legal no artigo 25 da Lei nº 9.249/95, verbis: Art. 25. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior serão computados na determinação do lucro real das pessoas jurídicas correspondente ao balanço levantado em 31 de dezembro de cada ano. Após uma turbulência legislativa 1 , restou estabelecido que esse dispositivo somente permitiria a tributação depois que os mencionados lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior fossem disponibilizados à pessoa jurídica situada no Brasil. Posteriormente, a Medida Provisória (MP) nº 2.158-35/01 promoveu duas siginificativas mudanças nesse quadro: com o artigo 21, a tributação foi estendida à CSLL 2 ; e com o artigo 74, definiu-se que a disponibilização ocorrerá antes e independetemente de qualquer distribuição no caso de lucros auferidos por empresas controladas e coligadas da pessoa jurídica brasileira. Confira-se: Art. 21. Os lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior sujeitam-se à incidência da CSLL, observadas as normas de tributação universal de que tratam os arts. 25 a 27 da Lei no 9.249, de 1995, os arts. 15 a 17 da Lei no 9.430, de 1996, e o art. 1oda Lei no 9.532, de 1997. (...) Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. Independentemente de sua amplitude, que teria ido além do padrão internacional ao alcançar empresas coligadas, lucros auferidos em países sem tributação favorecida e 1 Essa turbulência se deu com a transformação do conteúdo que constava na própria Lei nº 9.249/95, na IN/SRF nº 38/96 e na Lei nº 9.532/97, e já tinha como pano de fundo a tentativa de se tributar os lucros auferidos no exterior pelas Controlled Foreign Corporations – CFC – mediante o princípio da transparência fiscal. Cf. Luís Eduardo Schoueri, “Imposto de Renda e os Lucros Auferidos no Exterior”. In: Grandes Questões Atuais do Direito Tributário. vol 7. São Paulo: Dialética, 2003, pp. 303 a 313. 2 Na verdade, esse dispositivo foi originalmente editado no artigo 19 da MP nº 1.856-6/99 e, depois, sendo reeditado, até que ficou definitivamente positivado no artigo 21 da MP nº 2.158-35/01. Fl. 2684DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 30 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 rendas ativas, importa notar que esse artigo 74 vai ao encontro das regras criadas em vários países em sintonia com o fenômeno da transparência fiscal internacional 3 . Trata- se de normas antielisivas específicas que possuem a finalidade de evitar o diferimento da tributação dos lucros de empresas qualificadas como controlled foreign corporations (CFC). Impõe-se, então, compreender a sistemática adotada por esses comandos legais. Nesse sentido, é de se observar que a lei não teria eficácia se quisesse tributar diretamente os lucros de uma empresa não residente. Isso porque não há conexão (residência ou fonte) capaz de dar efetividade à jurisdição tributária brasileira. O que a lei faz é tributar uma renda ficta da própria pessoa jurídica brasileira (a empresa residente). Em outras palavras, ela olha para a empresa residente e, sopesando o fato de que esta possui participação societária em outra empresa que apurou lucro no exterior, assume que há disponibilidade da renda e determina que se tribute como lucro da empresa brasileira um determinado valor estimado com base no lucro apurado pela empresa no exterior. A adequação dessa determinação ao conceito constitucional de renda é uma decisão que deve ser levada a efeito por quem tem competência para isso, no caso, o Supremo Tribunal Federal - STF, à luz dos princípios constitucionais envolvidos (igualdade, capacidade contributiva, praticabilidade, etc.). E, como é de amplo conhecimento, o artigo 74 foi apreciado pelo STF, na ADI nº 2.588, restando decidida sua inconstitucionalidade apenas nos casos que tratam de lucros auferidos por coligadas não situadas em países com tributação favorecida. Não nos cabe aqui questionar a exatidão dessa decisão, mas, apenas, reconhecer sua aplicabilidade. Nem se pode estranhar essa forma de tributação. Afinal, em várias situações a legislação do imposto de renda tributa algo que não é necessariamente renda. Basta ver as margens predeterminadas do controle dos preços de transferência. Aliás, as próprias adições e exclusões ao lucro líquido, que o legislador arbitrariamente elege para se chegar ao lucro real, não deixam de ser uma prova de que o lucro real é muito mais uma ficção do que uma renda ideal. Diferentemente do que ocorre em alguns países onde a renda segue a teoria da fonte definida em espectros cedulares, o conceito de renda adotado no Brasil segue a teoria do acréscimo patrimonial (segundo o modelo desenvolvido pelos financistas Georg Schanz, Robert Haig e Henry Simons - modelo SHS) definido numa amplitude global 4 . Isso significa que considera-se renda quaisquer fluxos monetários e demais benefícios (que possam também ser avaliados em termos monetários) que ingressem na esfera patrimonial da pessoa durante o período considerado. O que ocorre é que a lei, em situações nas quais o legislador sopesa a confluência de diversos princípios e interesses coletivos, deixa de tributar algumas categorias de renda. A bem da verdade, nem mesmo o lucro líquido contábil pode se enquadrar exatamente no conceito financeiro de renda da teoria do acréscimo patrimonial que inspirou os elaboradores do Código Tributário Nacional - CTN - na positivação do seu artigo 43 5 . E não há nenhuma ofensa aos artigos 7º dos acordos de bitributação quando se adota esse tipo de tributação. Veja-se o típico conteúdo desses dispositivos, conforme as Convenções-Modelo adotadas pela OCDE e pela ONU, nos termos reproduzidos para o vernáculo pelo acordo celebrado entre o Brasil e a Espanha 6 : Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado, a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado. No último caso, os lucros da empresa serão tributáveis no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem atribuíveis a esse estabelecimento permanente. 3 Cf. João Francisco Bianco. Transparência Fiscal Internacional. São Paulo: Dialética, 2007, pp. 15 a 39. 4 Cf. Reuven S. Avi-Yonah, Nicola Sartori e Omri Marian, Global Perspectives on Income Taxation Law. New York: Oxford, 2011, pp. 17 a 23 5 Cf. Ricardo Marozzi Gregorio. Preços de Transferência: Arm's Length e Praticabilidade. São Paulo: Quartier Latin, 2011, p. 245. 6 Parágrafo 1 do Artigo 7 do Decreto nº 76.975/76. Fl. 2685DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 31 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Ora, a parte desses dispositivos que diz que “os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado” não pode ser entendida de maneira desvinculada da parte seguinte: “a não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado”. Trata-se da forma que as Convenções-Modelo escolheram para dizer que o país da fonte só pode tributar o lucro do seu não residente se este exercer atividade neste país por intermédio de um estabelecimento permanente. Isso porque é possível que uma atividade seja exercida sem um grau de conexão tal com o país da fonte que seja capaz de qualificá-lo no escopo do conceito de estabelecimento permanente contido nos artigos 5º daquelas mesmas Convenções-Modelo. Ainda assim, existe a conexão e o país da fonte poderia querer exercer sua jurisdição no sentido de tributar os correspondentes lucros. A regra daqueles dispositivos impede, então, que o país da fonte exerça essa jurisdição. Não se pode, portanto, querer atribuir à expressão “os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só são tributáveis nesse Estado” o sentido restritivo de impedir que um determinado país adote normas de transparência fiscal internacional. Esse, inclusive, é o entendimento esposado pela OCDE nos comentários de sua Convenção-Modelo. Nesse sentido, vide os seguintes excertos, conforme edição atualizada em 2010, com tradução livre: Parágrafo 23 dos comentários ao artigo 1º: 23. A utilização de “companhias de base” [“base companies”, em inglês] também pode ser tratada através de normas sobre sociedades controladas no exterior [“Controlled Foreign Corporations/CFC”, em inglês]. Um número significativo de países membros e não membros tem adotado tal legislação. Conquanto o desenho desse tipo de legislação varie consideravelmente de país para país, um traço comum dessas regras, agora internacionalmente reconhecidas como um instrumento legítimo para proteger a base tributária local, é que elas resultam na tributação, por um Estado Contratante, de seus residentes relativamente à renda proveniente de sua participação em certas entidades estrangeiras. Argumentou-se algumas vezes, com base em certa interpretação de dispositivos da Convenção tais como o artigo 7º, parágrafo 1º, e o artigo 10, parágrafo 5º, que esse traço comum da legislação sobre sociedades controladas no exterior estaria em conflito com tais dispositivos. Pelos motivos expostos nos parágrafos 14 dos comentários ao artigo 7º e 37 dos comentários ao artigo 10, esta interpretação não está de acordo com o texto dos dispositivos. A interpretação também não se sustenta quando os dispositivos são lidos em seu contexto. Portanto, muito embora alguns países tenham considerado útil esclarecer expressamente, em suas convenções, que a legislação das sociedades controladas no exterior não está em conflito com a Convenção, tal esclarecimento não se faz necessário. Reconhece-se que a legislação das sociedades controladas no exterior estruturada dessa forma não é contrária aos dispositivos da Convenção. Parágrafo 14 dos comentários ao artigo 7º: 14. O propósito do parágrafo 1º é traçar limites ao direito de um Estado Contratante tributar os lucros de empresas situadas em outro Estado Contratante. O parágrafo não limita o direito de um Estado Contratante tributar seus próprios residentes com base nos dispositivos relativos a sociedades controladas no exterior encontrados em sua legislação interna, ainda que tal tributo, imposto a esses residentes, possa ser computado em relação à parte dos lucros de uma empresa residente em outro Estado Contratante atribuída à participação desses residentes nessa empresa. O tributo assim imposto por um Estado sobre seus próprios residentes não reduz os lucros da empresa do outro Estado e não se pode dizer, portanto, que teve por objeto tais lucros (ver também o parágrafo 23 dos comentários ao artigo 1º e parágrafos 37 a 39 dos comentários ao artigo 10). Outrossim, o recente relatório final divulgado no âmbito da Ação 3 do projeto Base Erosion and Profit Shifting - BEPS, conduzido pela OCDE sob determinação de todos os países pertencentes ao chamado G-20, tratou como renda "atribuída aos acionistas" (attributed to shareholders) a parcela tributada no país que impõe a norma CFC. Nesse Fl. 2686DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 32 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 sentido, recomenda que sejam estabelecidas regras claras para a definição, computação e atribuição dessa parcela 7 . Portanto, não se trata de tributar a renda da CFC, mas, sim, uma parcela atribuída na renda do acionista. Por outro lado, também não se pode compreender a sistemática adotada pela lei brasileira como se estivesse tributando uma espécie de "dividendos presumidos". Primeiro, porque o dividendo é um conceito bem delineado no âmbito da legislação societária. Assim, não basta a mera deliberação dos sócios para que todo o lucro auferido num determinado período se converta em dividendos. Como se sabe, há diversas situações em que os lucros devem ser destinados, por determinação legal ou estatutária, a pessoas distintas dos sócios. Então, não se pode garantir que todo o lucro deve ser dividido segundo as participações societárias. Segundo, porque quando o dividendo é, de fato, distribuído, seguindo o método de alívio da bitributação jurídica utilizado pela maioria dos países, deve se dar o crédito do imposto retido pelo país da fonte. Porém, a legislação brasileira não faz exatamente isso. Como não houve, de fato, a distribuição do dividendo, não há imposto retido na fonte. Então, o que se possibilita é a compensação do imposto pago sobre o lucro pela empresa não residente. Vejam bem, não se trata de alívio da britributação jurídica, mas, sim, da bitributação econômica através da compensação de parcelas do imposto apurado pela empresa residente (a brasileira), segundo os complicados critérios estabelecidos no artigo 14 da IN/SRF nº 213/02 8 . E percebam que existe até a possibilidade de compensar aquele imposto do exterior com a CSLL devida pela empresa brasileira (artigo 15 da mesma IN) 9 . Confira-se: COMPENSAÇÃO DO IMPOSTO PAGO NO EXTERIOR COM O IMPOSTO DE RENDA DEVIDO NO BRASIL Art. 14. O imposto de renda pago no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada e o pago relativamente a rendimentos e ganhos de capital, poderão ser compensados com o que for devido no Brasil. § 1º Para efeito de compensação, considera-se imposto de renda pago no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada ou o relativo a rendimentos e ganhos de capital, o tributo que incida sobre lucros, independentemente da denominação oficial adotada e do fato de ser este de competência de unidade da federação do país de origem. § 2º O tributo pago no exterior, a ser compensado, será convertido em Reais tomando-se por base a taxa de câmbio da moeda do país de origem, fixada para venda, pelo Banco Central do Brasil, correspondente à data de seu efetivo pagamento. § 3º Caso a moeda do país de origem do tributo não tenha cotação no Brasil, o seu valor será convertido em Dólares dos Estados Unidos da América e, em seguida, em Reais. § 4º A compensação do imposto será efetuada, de forma individualizada, por controlada, coligada, filial ou sucursal, vedada a consolidação dos valores de impostos correspondentes a diversas controladas, coligadas, filiais ou sucursais. § 5º Tratando-se de filiais e sucursais, domiciliadas num mesmo país, poderá haver consolidação dos tributos pagos, observado o disposto no § 2ºdo art. 3ºe § 5ºdo art. 4º. § 6º A filial, sucursal, controlada ou coligada, no exterior, deverá consolidar os tributos pagos correspondentes a lucros, rendimentos ou ganhos de capital auferidos por meio de outras pessoas jurídicas nas quais tenha participação societária. 7 Cf. 2015 OECD Report: Designing Effective Controlled Foreign Company Rules, pp 9 e 10. 8 Interpretação administrativa para os artigos 26 da Lei nº 9.249/95, 16, § 2º, da Lei nº 9.430/96, e 1º, § 4º, da Lei nº 9.532/97. 9 Cuja base legal é o artigo 21, § único, da MP nº 2.158-35. Fl. 2687DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 33 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 § 7º O tributo pago no exterior, passível de compensação, será sempre proporcional ao montante dos lucros, rendimentos ou ganhos de capital que houverem sido computados na determinação do lucro real. § 8º Para efeito de compensação, o tributo será considerado pelo valor efetivamente pago, não sendo permitido o aproveitamento de crédito de tributo decorrente de qualquer benefício fiscal. § 9º O valor do tributo pago no exterior, a ser compensado, não poderá exceder o montante do imposto de renda e adicional, devidos no Brasil, sobre o valor dos lucros, rendimentos e ganhos de capital incluídos na apuração do lucro real. § 10. Para efeito do disposto no parágrafo anterior, a pessoa jurídica, no Brasil, deverá calcular o valor: I - do imposto pago no exterior, correspondente aos lucros de cada filial, sucursal, controlada ou coligada e aos rendimentos e ganhos de capital que houverem sido computados na determinação do lucro real; II - do imposto de renda e adicional devidos sobre o lucro real antes e após a inclusão dos lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior. § 11. Efetuados os cálculos na forma do § 10, o tributo pago no exterior, passível de compensação, não poderá exceder o valor determinado segundo o disposto em seu inciso I, nem à diferença positiva entre os valores calculados sobre o lucro real com e sem a inclusão dos referidos lucros, rendimentos e ganhos de capital, referidos em seu inciso II. § 12. Observadas as normas deste artigo, a pessoa jurídica que tiver os lucros de filial, sucursal e controlada, no exterior, apurados por arbitramento, segundo o disposto nas normas específicas constantes desta Instrução Normativa, poderá compensar o tributo sobre a renda pago no país de domicílio da referida filial, sucursal ou controlada, cujos comprovantes de pagamento estejam em nome desta. § 13. A compensação dos tributos, na hipótese de cômputo de lucros, rendimentos ou ganhos de capital, auferidos no exterior, na determinação do lucro real, antes de seu pagamento no país de domicílio da filial, sucursal, controlada ou coligada, poderá ser efetuada, desde que os comprovantes de pagamento sejam colocados à disposição da Secretaria da Receita Federal antes de encerrado o ano-calendário correspondente. § 14. Em qualquer hipótese, a pessoa jurídica no Brasil deverá colocar os documentos comprobatórios do tributo compensado à disposição da Secretaria da Receita Federal, a partir de 1ºde janeiro do ano subseqüente ao da compensação. § 15. O tributo pago sobre lucros, rendimentos e ganhos de capital auferidos no exterior, que não puder ser compensado em virtude de a pessoa jurídica, no Brasil, no respectivo ano-calendário, não ter apurado lucro real positivo, poderá ser compensado com o que for devido nos anos-calendário subseqüentes. § 16. Para efeito do disposto no § 15, a pessoa jurídica deverá calcular o montante do imposto a compensar em anos-calendário subseqüentes e controlar o seu valor na Parte B do Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur). § 17. O cálculo referido no § 16 será efetuado mediante a multiplicação dos lucros, rendimentos ou ganhos de capital computados no lucro real, considerados individualizadamente por filial, sucursal, coligada ou controlada, pela alíquota de quinze por cento, se o valor computado não exceder o limite de isenção do adicional, ou pela alíquota de vinte e cinco por cento, se exceder. § 18. Na hipótese de lucro real positivo, mas, em valor inferior ao total dos lucros, rendimentos e ganhos de capital nele computados, o tributo passível de compensação será determinado de conformidade com o disposto no § 17, tendo por base a diferença entre aquele total e o lucro real correspondente. § 19. Caso o tributo pago no exterior seja inferior ao valor determinado na forma dos §§ 17 e 18, somente o valor pago poderá ser compensado. Fl. 2688DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 34 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 § 20. Em cada ano-calendário, a parcela do tributo que for compensada com o imposto de renda e adicional devidos no Brasil, ou com a CSLL, na hipótese do art. 15, deverá ser baixada da respectiva folha de controle no Lalur. COMPENSAÇÃO COM A CSLL DEVIDA NO BRASIL Art. 15. O saldo do tributo pago no exterior, que exceder o valor compensável com o imposto de renda e adicional devidos no Brasil, poderá ser compensado com a CSLL devida em virtude da adição, à sua base de cálculo, dos lucros, rendimentos e ganhos de capital oriundos do exterior, até o valor devido em decorrência dessa adição. Terceiro, porque não há na legislação nada que garanta que se houver uma efetiva distribuição de dividendos a posteriori estes deixarão de ser tributados, tanto pelo país da fonte, quanto pelo Brasil. Ademais, inexiste qualquer previsão acerca dos efeitos daquela tributação sobre os “dividendos presumidos” em face da eventual tributação dos dividendos efetivamente distribuídos. É verdade que os parágrafos 38 e 39 dos comentários ao artigo 10 deixam aberta a possibilidade de uma determinada legislação CFC tratar ou não os rendimentos tributados na categoria dos dividendos. Apesar disso, o conteúdo desses parágrafos é claro quanto à chance de haver problemas na efetivação de benefícios concedidos no âmbito do acordo no caso de a legislação CFC tratar os rendimentos tributados na categoria dos dividendos. Veja-se tais comentários, conforme edição atualizada em 2010, com tradução livre: Parágrafos 38 e 39 dos comentários ao artigo 10: 38. A aplicação de tal legislação ou regras [de acordo com o parágrafo precedente, trata-se da legislação CFC ou de regras com efeitos similares] pode, porém, complicar a aplicação do artigo 23. Se a renda [da CFC] fosse atribuída ao contribuinte, cada item dessa renda teria que ser tratada na conformidade das provisões relevantes da Convenção (lucros de empresas, juros, royalties). Se é tratada como um dividendo presumido, então, ele é claramente derivado da companhia de base [a CFC], constituindo renda do país daquela companhia. Mesmo assim, não está claro se a renda deve ser tratada como um dividendo (artigo 10) ou como rendimentos não expressamente mencionados (artigo 21). Sob algumas dessas legislações ou regras, a renda tributável é tratada como um dividendo, com o resultado de que uma isenção concedida por uma convenção, por exemplo, uma isenção de uma filial, seja também estendida ao contribuinte. É questionável se a Convenção requer que isso seja feito. Se o país de residência considera que esse não é o caso, pode se alegado que ele está obstruindo a normal operação da isenção de uma filial mediante tributação do dividendo (na forma de "dividendo presumido") antecipadamente. 39. Aonde os dividendos são realmente distribuídos pela companhia de base [a CFC], as provisões da convenção bilateral têm que ser normalmente aplicadas porque há renda de dividendos dentro do escopo da convenção. Assim, o país da companhia de base pode submeter o dividendo a uma tributação na fonte. O país da residência do controlador aplicará os métodos normais de eliminação da bitributação (isto é, o método do crédito ou da isenção). Isso implica que o tributo retido deve ser creditado no país de residência do controlador, mesmo que o lucro distribuído (o dividendo) tenha sido tributado anos antes no âmbito da legislação CFC ou outras regras com efeitos similares. No entanto, a obrigação de dar o crédito nesse caso permanece questionável. Geralmente tal dividendo é isento da tributação (uma vez que ele já foi tributado no âmbito daquela legislação ou regras) e poderia ser arguido que não há base para o crédito do tributo retido. Por outro lado, o propósito do tratado seria frustrado se esse crédito pudesse ser evitado via simples antecipação da tributação pela oposição da citada legislação. O princípio geral estabelecido acima sugere que o crédito deveria ser concedido mesmo que os detalhes possam depender de tecnicalidades da citada legislação ou regras e do sistema de crédito dos tributos no exterior contra os tributos domésticos (por exemplo, tempo decorrido desde a tributação dos "dividendos presumidos"). Porém, os contribuintes que tenham recorrido a arranjos artificiais estão assumindo riscos que não estão completamente sob a salvaguarda das autoridades tributárias. Nada obstante a existência dessa possibilidade, como já se disse, não parece que a lei brasileira tenha seguido esse difícil caminho. Fl. 2689DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 35 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Registre-se, contudo, que a matéria sofrerá profundas alterações para os fatos geradores futuros por obra do conteúdo introduzido pela Lei nº 12.973/14. [...] (destaques cfe. o original) A discussão relacionada à existência de conflito entre o art. 7º do Tratado Brasil- Luxemburgo já foi objeto de apreciação pela 1ª Turma da CSRF, ao proferir o Acórdão nº 9101- 003.088, cujo voto da lavra do D. conselheiro André Mendes Moura propugnou no sentido de que não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2158-35/2001 e as disposições da MP 2158-35/2001. Dele se extraem as seguintes razões de decidir, verbis: [...] Voltando para o caso concreto, a matéria a ser analisada é se o Tratado Brasil- Luxemburgo teria repercussão na materialidade prevista pelo art. 74 da MP nº 2.15835, de 2001. A assunto já foi discutido em recentes julgamentos no presente Colegiado: Acórdão nº 9101-002.589 ("caso EAGLE"), nº 9101-002.751 (PETROBRÁS), nº 9101-002.832 (INTERCEMENT), cujas razões para decidir adoto nos presentes autos. Transcrevo o art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001: Art. 74. Para fim de determinação da base de cálculo do imposto de renda e da CSLL, nos termos do art. 25 da Lei no 9.249, de 26 de dezembro de 1995, e do art. 21 desta Medida Provisória, os lucros auferidos por controlada ou coligada no exterior serão considerados disponibilizados para a controladora ou coligada no Brasil na data do balanço no qual tiverem sido apurados, na forma do regulamento. O aspecto material da norma trata dos lucros auferidos no exterior, por intermédio das controladas ou coligadas, em quantum proporcional à participação da controladora do Brasil sobre o investimento. Para operacionalizar a apuração dos lucros auferidos de controladas/coligadas (investidas) no Brasil, quanto no exterior, tomou-se como base os resultados na contabilidade da investidora refletidos por meio do Método de Equivalência Patrimonial. Para investimentos no Brasil, a investidora contabiliza o resultado positivo da investida, proporcional à sua participação, e exclui o resultado na apuração do lucro real. Nesse caso, viabiliza-se a neutralidade porque, como o lucro auferido pela investida já foi tributado no Brasil, não cabe sua tributação no resultado da investidora. E principalmente porque a investida encontra-se no Brasil, ou seja, os lucros auferidos pela investida são necessariamente oferecidos à tributação. Situação diferente ocorre quando o investimento tem sede no exterior. Nesse caso, a legislação brasileira previu, inicialmente, o mesmo tratamento em relação à contabilização do resultado positivo da investida: o lucro proporcional à sua participação é incluído no resultado da empresa brasileira, e excluído na apuração do lucro real. Contudo, dispôs uma etapa complementar: se os lucros forem auferidos de controladas e coligadas, cabe a adição no resultado tributável, na proporção de participação da investidora brasileira sobre o investimento, ao final de cada ano- calendário. Parte-se da premissa de que os lucros são da investidora brasileira, e, por isso, a sua tributação não deve estar subordinada à política tributária adotada pelo país onde se encontra o investimento. Isso porque o país onde se encontra o investimento pode optar por tributar o lucro em bases tributáveis menores, e a controladora brasileira, que detêm poder de decisão sobre a investida, pode optar em não receber os lucros auferidos. Trata-se de situação Fl. 2690DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 36 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 em que a neutralidade que ocorre quando investidora e investida estão no Brasil é desvirtuada. Porque quando ambas estão no Brasil, a mesma alíquota é aplicada sobre o lucro da investida e o da investidora. Tributa-se o lucro de investida, e tal valor não é tributado pela investidora. Não há prejuízo no sistema. Por outro lado, se investida está em país de tributação menor, não há que se falar em neutralidade. Na realidade, operacionaliza-se um diferimento em tempo indeterminado da tributação. E, precisamente para se evitar tal diferimento, o art. 74 da norma em debate dispôs expressamente sobre aspecto temporal: o lucro presume-se distribuído para a empresa brasileira (na condição de detentora das ações/quotas da investida), na proporção de sua participação, ao final do ano-calendário. E a neutralidade, que se operacionaliza quando tanto investida quanto investidora estão no Brasil, também é tutelada ao se dispor quando a investida está no exterior. Vale transcrever o art. 26 da Lei nº 9.249, de 1995: Art. 26. A pessoa jurídica poderá compensar o imposto de renda incidente, no exterior, sobre os lucros, rendimentos e ganhos de capital computados no lucro real, até o limite do imposto de renda incidente, no Brasil, sobre os referidos lucros, rendimentos ou ganhos de capital. Como se pode observar, não se pode falar em bitributação. A neutralidade da tributação entre investida e investidora é operacionalizada por meio de outro mecanismo, mediante compensação do que a investida já recolheu aos cofres no exterior, e supera-se a questão do diferimento de tributação por tempo indeterminado. A tributação só se consuma se as alíquotas no exterior foram inferiores à praticadas no Brasil. Inclusive, é precisamente a situação tratada no caso concreto. Registre-se que a autoridade autuante deduziu do lançamento fiscal, com correção, os valores pagos pela Contribuinte a título de imposto de renda na Luxemburgo. Por sua vez, precisamente sobre a perspectiva de que a materialidade trata dos lucros auferidos pela investidora brasileira, que não se aplica o art. 7º da Convenção Brasil- Luxemburgo. Isso porque os lucros, apesar de auferidos pela empresa no exterior, pertencem, na medida da participação societária, ao seu investidor que se localiza no Brasil. Ou seja, a legislação brasileira diz respeito aos lucros auferidos pelo contribuinte, investidor, residente no Brasil. [...] Assim, não se comunicam as materialidades previstas no art. 74 da MP nº 2.158-35, de 2001, e as dispostas na Convenção Brasil-Luxemburgo para evitar bitributação de renda. Os lucros tributados pela legislação brasileira são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior, ao final de cada ano-calendário, havendo, nesse contexto, incidência do IRPJ e da CSLL. [...] Diante das premissas acima alinhadas, que adoto como razões de decidir, não podem ser acolhidas as alegações da recorrente no sentido de que o acordo para evitar a bitributação firmado entre Brasil e Luxemburgo deva prevalecer sobre a legislação interna. Não se trata de esvaziar o conteúdo do artigo 7º da convenção, como alega a recorrente, mas sim de compatibilizá-lo com a legislação brasileira de tributação dos lucros no exterior que, conforme acima explanado, se insere na categoria de norma CFC, plenamente admitido pelo direito internacional. Fl. 2691DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 37 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Trata-se, como analisado acima, de materialidades distintas, tributando-se no Brasil os lucros são aqueles auferidos pelo investidor brasileiro na proporção de sua participação no investimento localizado no exterior ao final de cada ano-calendário, o que não é o mesmo que alcançar os lucros totais auferidos pela empresa situada em Luxemburgo, sujeita às regras de tributação daquele Grão-Ducado. A bitributação, no caso, é evitada pela norma brasileira que assegura a compensação integral do imposto pago no exterior, até o limite do IRPJ e da CSLL apurados no Brasil. Ante ao exposto, acompanho a maioria do colegiado e voto no sentido de negar provimento ao recurso nesta parte. Do cancelamento da multa de ofício sobre o IRPJ lançado relativo ao ano- calendário 2011 A recorrente alegou ainda em seu recurso que, ainda que fossem devidos os valores exigidos a título de IRPJ relativo aos anos-calendário 2011 e 2012 a exigência deveria ser cancelada, pois possuía saldo negativo a compensar relativo ao ano-calendário 2011, em valor muito superior ao exigido no lançamento. O d. relator, com base nas conclusões das diligências determinadas na Resolução nº 1302-000.649, votou por acolher a pretensão da recorrente, verbis: [...] DOS SALDOS NEGATIVOS NOS ANOS-CALENDÁRIOS DE 2011 E 2012. Tendo este relator sido vencido quando ao mérito, deve-se apenas verificar a plausibilidade ou não do pedido subsidiário do Recorrente, no sentido de ver reconhecido os seus saldos negativos nos anos-calendários de 2011 e 2012 e, assim, afastar a exigência do pagamento do crédito tributário, na medida em que, a manutenção da autuação só teria o condão de reduzir aqueles saldos. Não se pode deixar de mencionar que a questão do aproveitamento dos prejuízos fiscais na apuração dos tributos – IRPJ e CSLL – tornou-se incontroversa, na medida em que o Recorrente afirmou em petição de fls. 2539, que não possui “saldo a ser compensado, pois a fiscalização já utilizou o limite do saldo permitido para tanto.” Assim, em primeiro lugar, entende-se que o contribuinte, ao discordar dos valores indicados como saldo negativos pela fiscalização, em cumprimento à Resolução exarada por este colegiado, deveria ter apresentado prova documental suficiente para desconstruir as afirmações do agente fiscal. Contudo, como mencionado, o único documento que o contribuinte trouxe aos autos foram planilhas por elaboradas, em que foi demonstrada a quantificação (cálculo) do IRPJ e da CSSL nos anos-calendários de 2011 e 2012. E o que se pode observar das planilhas apresentadas é que nelas não consta a composição do saldo negativo, suas compensações e os valores ainda restantes. O contribuinte parte de um saldo inicial – tanto para o IRPJ como para a CSLL e que em alguns casos se aproxima dos saldos iniciais apontados pela fiscalização – e deles subtrai o montante do crédito tributário constituído no presente processo. Não há, reitere-se, a demonstração da composição dos saldos negativos. Desta forma, para análise do pedido do contribuinte, considerar-se-á os valores apresentados pela fiscalização, sendo que houve a confirmação apenas de saldo negativo no ano de 2011 no valor de R$273.216.294,67. Deve-se ressaltar, por outro lado, que, no que se refere à CSSL, no Auto de Infração de fls. 1470, com a constituição de ofício dos créditos tributários, houve apenas ajustes dos Fl. 2692DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 38 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 “Saldo de Bases de Cálculo Negativas” relativos aos anos calendários que foram objeto da autuação. Assim, a discussão ora comento fica restrita ao IRPJ relativo aos anos de 2011 e 2012. O Recorrente não se manifestou também com relação à existência de saldo negativo de IRPJ relativo ao ano de 2013, sendo que este período sequer foi objeto da diligência determinada por este colegiado, até mesmo porque, como constou do acórdão recorrido, o “Auto de Infração de IRPJ não exigiu, absolutamente, nenhum centavo de imposto no que diz respeito ao ano-calendário de 2013 (fl. 1464). O que está indicado, com toda a clareza, nos Demonstrativos de Apuração que acompanham a peça fazendária, é a redução do prejuízo fiscal daquele período (fls. 1460 e 1468)”. Pois bem. Como demonstrado, foi reconhecido, pela própria fiscalização, na diligência realizada, que o saldo negativo de 2011, já descontados as compensações e autuações sofridas pelo Recorrente, é de R$273.216.294,67. Assim, uma vez que, no Auto de Infração de IRPJ, o valor principal do tributo constituído de ofício pela fiscalização é de R$ 7.571.154,63, este valor deve ser decotado daquele saldo, não podendo ser exigido do contribuinte a multa e os juros. Por outro lado, a mesma sorte não pode ser dada ao ano calendário de 2012, uma vez que, para este ano, não foi reconhecido qualquer saldo negativo passível de restituição ou compensação. Neste passo, são esclarecedoras as colocações da ex-Conselheira Maria Lucia Miceli, que compunha essa Turma de Julgamento, no voto proferido nos autos do processo nº 13706.006025/2002-91 (acórdão nº 1302-004.130). Confira-se: “Ocorre que o procedimento adotado pela recorrente em computar na apuração do saldo negativo do ano-calendário de 1999 os créditos dos períodos anteriores não encontra respaldo na legislação tributária. Cada ano-calendário tem sua forma de apuração e fato gerador distinto. Os créditos dos saldos negativos são demonstrados em suas respectivas Declarações de Informação da Pessoa Jurídica – DIPJ. A título de exemplo, caso o protocolo do pedido fosse feito em 2003, o direito à restituição do crédito relativo ao ano-calendário de 1997 estaria já decaído, pelo decurso do prazo de cinco anos, nos termos do artigo 168, inciso I c/c artigo 165, inciso I, ambos do CTN”. Desta forma, inexistindo saldo negativo no ano de 2012, não há que se falar em afastar a exigência do crédito tributário constituído de ofício pela fiscalização para este ano- calendário. Não obstante, a maioria do colegiado divergiu deste posicionamento, tendo em vista que o alegado saldo negativo de IRPJ, no montante de R$ 273.216.294,67, efetivamente apurado em favor da recorrente foi objeto de pedido de restituição já devidamente reconhecido no PA nº 16327-903462/2014-41, e se encontrava aguardando emissão de ordem bancária para seu pagamento, conforme se extrai do relatório de diligências (fl. 2527): [...] ► Saldo Negativo IRPJ - Ano-calendário 2011 Conforme consultas realizadas junto ao Sistema Sief e as informações extraídas do Processo Administrativo nº 16327-903462/2014-41 (PER/DCOMP 34917.97683.200213.1.2.02-2338), o Saldo Negativo de IRPJ reconhecido em favor do contribuinte, no ano-calendário de 2011, foi de R$ 1.628.460.538,45, valor este já compensado com outros tributos, restando um saldo de crédito confirmado no valor de R$ 273.216.294,67, conforme tela abaixo: Fl. 2693DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 39 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 Considerou o colegiado que, por ocasião do lançamento o contribuinte já havia solicitado a restituição do referido saldo negativo, não estando, portanto, disponível para o aproveitamento pelo Fisco naquela data, a não ser que o próprio contribuinte, renunciando a discutir a exigência do processo pleiteasse a extinção dos valores devidos com utilização de parte daquele saldo pleiteado no referido PA. Além disso, observou o colegiado que o saldo a restituir já se encontrava reconhecido na data do julgamento e era passível de pagamento do montante reconhecido a qualquer momento, de sorte que, autorizar a utilização de parte daquele saldo para a quitação de valor devido neste processo poderia implicar na extinção indevida do crédito tributário, sem sua liquidação de fato, se aquele valor já houver sido pago antes da decisão definitiva deste processo. Por outro lado, sopesou o colegiado que, de qualquer sorte, o contribuinte possuía saldo negativo, do próprio período de apuração da exigência, suficiente para realizar a extinção do crédito devido em 2011 e que o mesmo ainda não havia sido efetivamente restituído à recorrente na data do lançamento, de sorte que por uma questão de equidade, nos termos do art. 108, inc. IV, e §2º do CTN 10 , seria indevida, neste caso, a aplicação da multa de ofício relativa à parcela devida relativa ao IRPJ daquele período. Baseou-se o colegiado, analogicamente, na sistemática aplicada pela Receita Federal nos casos em que o contribuinte pleiteia restituição de 10 Art. 108. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada: I - [...] IV - a eqüidade. § 1 [...] § 2º O emprego da eqüidade não poderá resultar na dispensa do pagamento de tributo devido. Fl. 2694DF CARF MF Documento nato-digital Fl. 40 do Acórdão n.º 1302-004.329 - 1ª Sejul/3ª Câmara/2ª Turma Ordinária Processo nº 16327.720623/2016-25 IRPF em sua Declaração de Ajuste Anual em valores superiores ao devido e esta é reduzida, antes de efetivada a restituição, em face de alguma glosa de despesa, p.ex. Desta feita, considerando que, na data do lançamento, efetivamente existia saldo negativo de IRPJ do ano de 2011, em montante suficiente para a extinção das diferenças apuradas pela fiscalização, ainda pendentes de restituição ao sujeito passivo, houve por bem o colegiado, em sua maioria, em dar provimento parcial ao recurso para cancelar a multa de ofício aplicada sobre o IRPJ lançado relativo ao ano-calendário 2011. Por todo o exposto, voto no sentido de dar provimento parcial ao recurso voluntário. Luiz Tadeu Matosinho Machado Fl. 2695DF CARF MF Documento nato-digital
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