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Numero do processo: 10715.004208/2010-85
Turma: Segunda Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 31 00:00:00 UTC 2017
Ementa: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS
Período de apuração: 01/07/2007 a 27/07/2007
REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DE EMBARQUE NA
EXPORTAÇÃO. MULTA DO ART. 107, IV, E, DO DECRETO-LEI 37/1966 (IN
SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE.
RETROATIVIDADE BENIGNA.
Em se tratando de descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF 28/1994, a multa instituída pelo artigo 107, IV, e do DL 37/1966, deve ser mitigada diante do novo prazo imposto pela IN SRF 1.096/2010, em decorrência da retroatividade benigna.
Numero da decisão: 3302-004.709
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo
Nome do relator: LENISA RODRIGUES PRADO
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MULTA DO ART. 107, IV, E, DO DECRETO-LEI 37/1966 (IN SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em se tratando de descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF 28/1994, a multa instituída pelo artigo 107, IV, e do DL 37/1966, deve ser mitigada diante do novo prazo imposto pela IN SRF 1.096/2010, em decorrência da retroatividade benigna. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Walker Araújo. (assinatura digital) Paulo Guilherme Déroulède - Presidente (assinatura digital) Lenisa Prado - Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Paulo Guilherme Déroulède (Presidente), Walker Araújo, José Fernandes do Nascimento, Sarah Maria Linhares de Araújo, Maria do Socorro Ferreira Aguiar, José Renato Pereira de Deus, Charles Pereira Nunes e Lenisa Prado. A C Ó R D Ã O G E R A D O N O P G D -C A R F PR O C E SS O 1 07 15 .0 04 20 8/ 20 10 -8 5 CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária agosto de 2017 agosto de 2017 Obrigações Acessórias Obrigações Acessórias AMERICAN AIRLINES INC AMERICAN AIRLINES INC FAZENDA NACIONAL FAZENDA NACIONAL AA Fl. 376DF CARF MF 2 Relatório A questão tem início na lavratura de auto de infração contra a contribuinte American Airlines Inc. consolidando a exigência da multa prevista na alínea "e" do inciso IV do art. 107 do Decreto-lei 37/1966, com a redação conferida pelo artigo 77 da Lei n. 10.833/2003, regulamentado pelas Instruções Normativas SRF 28, de 1994, e 510, de 2005. De acordo com a descrição dos fatos apresentados pela autoridade fiscal, constatou-se que a contribuinte deixou de registrar as informações de embarque de Declarações de Exportação, na forma e prazo estabelecidos pelo artigo 37 da IN SRF 28/1994. Por esse motivo, foi imposta multa em desfavor da ora recorrente, no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por embarque desacompanhado do respectivo registro no SISCOMEX. Regularmente cientificada sobre a imposição da sanção pecuniária, a contribuinte apresentou impugnação, oportunidade na qual discorreu sobre os seguintes argumentos: a) em razão de erro operacional de seu estabelecimento no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, as informações concernentes ao embarque das mercadorias foram fornecidos ao SISCOMEX com atraso que excedeu entre 1 a 8 dias do prazo previsto na legislação de regência; b) ao contrário do que afirma a autoridade fiscal, para a imposição de multa não basta a mera inobservância da legislação aduaneira; é necessária a demonstração da intenção dolosa do contribuinte em fraudar o controle aduaneiro, bem como a comprovação de dano ao Erário, o que não restou configurado na hipótese dos autos; c) a aplicação da pena é desarrazoada e desproporcional, devendo ser aplicado o que dispõe o artigo 654 do Regulamento Aduaneiro vigente há época dos fatos (Decreto n. 4.543/2002), a qual prevê a relevação da multa quando a infração não tenha resultado em falta ou insuficiência de recolhimento de tributos; d) o Superior Tribunal de Justiça consolidou o entendimento que se aplica às infrações de uma mesma espécie, apuradas numa mesma ação fiscal, a teoria da continuidade delitiva, de modo que, ainda que se entendesse pela configuração da infração, esta somente poderia ensejar a imputação de uma multa no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por todas as infrações apuradas pela fiscalização. A impugnação foi julgada improcedente pela Delegacia de Julgamentos de Florianópolis (SC), em acórdão que resultou na seguinte ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração: 01/12/2004 a 31/12/2004 REGISTRO NO SISCOMEX DOS DADOS DE EMBARQUE. PRAZO. Fl. 377DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 377 3 O registro dos dados de embarque no Siscomex em prazo superior a 7 dias, contados da data do efetivo embarque, para a via de transporte aérea, caracteriza a infração ontida a línea e", inciso IV, do artigo 107 do DecretoLei n° 37/66. PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA DA LEI TRIBUTÁRIA. Aplica-se a lei tributária, em matéria de penalidades, a ato ou fato pretérito não definitivamente julgado quando for mais benéfica ao sujeito passivo. INFRAÇÃO CONTINUADA. EMBARQUES DIFERENTES. MERA REITERAÇÃO DA CONDUTA INFRACIONAL. É incabível falar em infração continuada quando os atos caracterizadores da infração não resultam do aproveitamento das condições objetivas que balizaram a prática das infrações anteriores. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. Tendo em vista a presunção de constitucionalidade das normas legais que foram legitimamente inseridas no ordenamento jurídico, cabe à autoridade administrativa tão somente verificar se os fatos subsumemse na norma de regência e aplicar a penalidade em face da existência de expressa determinação legal, dado que o lançamento não é atividade discricionária, mas, bem ao contrário, vinculado e obrigatória. Impugnação rocedente em Parte Crédito Tributário Mantido Parte Irresignada, a contribuinte interpôs recurso voluntário, o que ensejou a subida dos autos a este Conselho. Em 27 de janeiro de 2015, a 1ª Turma Especial desta 3ª Seção de julgamentos, ao apreciar os argumentos defendidos pelo contribuinte, deu provimento ao recurso voluntário, em decisão que foi assim sumariada: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Período de apuração:01/11/2006 a 30/11/2006 DENÚNCIA ESPONTÂNEA. APLICAÇÃO ÀS PENALIDADES DE NATUREZA ADMINISTRATIVA. INTEMPESTIVIDADE NO CUMPRIMENTO DE Fl. 378DF CARF MF 4 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. RETROATIVIDADE BENIGNA. Aplica-se o instituto da denúncia espontânea às obrigações acessórias de caráter administrativo cumpridas intempestivamente, mas antes do início de qualquer atividade fiscalizatória, relativamente ao dever de informar, no Siscomex, os dados referentes ao embarque de mercadoria destinada à exportação. Recurso Voluntário Provido. Com supedâneo no artigo 67, do Anexo II do RICARF, a Procuradoria da Fazenda Nacional interpôs recurso especial contra a decisão proferida no apelo do contribuinte. Ultrapassado o juízo inicial de admissibilidade, o recurso foi levado a julgamento pela 3ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais, tendo sido parcialmente provido. Segue ementa do acórdão: Assunto: Obrigações Acessórias Período de apuração: 01/11/2006 a 30/11/2006 PENALIDADE ADMINISTRATIVA. ATRASO NA ENTREGA DE DECLARAÇÃO OU PRESTAÇÃO DE INFORMAÇÕES. DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A denúncia espontânea não alcança as penalidades infligidas pelo descumprimento de deveres instrumentais, como os decorrentes da inobservância dos prazos fixados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil para prestação de informações à administração aduaneira, mesmo após o advento da nova redação do art. 102 do Decreto-lei 37/1966, dada pelo art. 40 da Lei n. 12.350, de 2010. Recurso Especial Provido em Parte. Naquela assentada, restou determinado que o processo deveria retornar à instância a quo para apreciação das demais questões trazidas em recurso voluntário e que não foram objeto de deliberação na oportunidade de seu julgamento. É o relatório. Voto Conselheira Relatora Lenisa Prado Na oportunidade do primeiro julgamento do recurso voluntário, foram apreciados os seguintes argumentos: Fl. 379DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 378 5 (i) Sobre a denúncia espontânea- a turma de julgamento concluiu que a multa imposta deve ser cancelada, em estrita obediência ao artigo 138 do CTN, uma vez que a contribuinte informou à administração tributária as infrações por ela praticadas, antes de iniciado qualquer procedimento fiscalizatório. (ii) Sobre a nulidade do auto de infração- tal argumento não foi reconhecido por aquele Colegiado, já que "a fiscalização apresentou planilha contendo o número das declarações, a data do embarque e a data em que foi enviada a declaração e a que vôo pretendia" o que não resulta na nulidade argüida pelo contribuinte. (iii) Sobre a ausência de dano ao Erário- foi afastada a argumentação sobre inexistência de dano aos cofres públicos porque prevaleceu o entendimento que houve embaraço à fiscalização, já que: "as declarações a que as empresas de transporte são obrigadas a apresentar são obrigações acessórias com finalidade exclusiva de auxiliar a fiscalização das importações e exportações, possibilitando a ciência do que cada empresa que utiliza a transportadora tem transportado, para onde vai e se foi recolhido o tributo a que esta operação está sujeita". (iv) Sobre a multa singular e o Princípio da Proporcionalidade e Razoabilidade - o colegiado não constatou equívocos na decisão proferida na impugnação, já que a multa foi imposta sobre cada informação prestadas em atraso em relação cada vôo (proporcional ao número de viagens). Concluiu-se, portanto, que foram respeitados os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Integram o recurso voluntário as seguintes alegações: 1. PRELIMINARES. SOBRE A NULIDADE DO AUTO DE INFRAÇÃO POR CERCEAMENTO AO DIREITO DE DEFESA: * O auto de infração não fornece qualquer elemento que comprove que a contribuinte tenha deixado de prestar informações no prazo de 2 dias; * Não foram indicadas no auto de infração os números das Declarações de Exportação relacionando-os com os respectivos conhecimentos aéreos (AWBs); * Indica a existência de várias decisões administrativas proferidas pelos órgãos julgadores da Receita Federal que declararam nulas as autuações idênticas à que se submete a julgamento. 2. MÉRITO. DA RETROATIO IN MELIUS 1 . * Após a lavratura do auto de infração foi publicada a Instrução Normativa RFB n. 1.096, de 13/13/2010, que ampliou o prazo para registro dos dados pertinentes no SISCOMEX para 7 dias2. Afirma que o art. 106 do CTN permite que a dilação do prazo pela publicação da recente norma deve gerar benefícios a seu favor, já que não é mais considerada infração o não fornecimento de informações no prazo de 2 dias. 1 Transcrição ipsis literis da petição de recurso voluntário. 2 O prazo anterior era de 2 dias, conforme determinava a IN RFB 28, de 27/04/1997. Fl. 380DF CARF MF 6 Considerando que não poderão ser objeto de deliberação por este Colegiado as matérias abordadas no recurso voluntário e que já foram objeto de deliberação, nos resta apreciar, unicamente, o argumento sobre o fato superveniente, que é a publicação da IN RFB n. 1.096/2010 e se seus efeitos retroagem à data dos fatos descritos no auto de infração. E, sobre esse tópico, filio-me à vasta jurisprudência deste Conselho, que reconhece que os efeitos benignos da IN RFB n. 1.096/2010 devem surtir efeitos em hipóteses análogas à dos autos. Isso porque estamos diante de uma sanção (ainda que na seara tributária) e a melhor interpretação sobre o texto contido no inciso XL do artigo 5º da Constituição Federal 1988 impõe o reconhecimento que a lei penal deverá retroagir, sempre que for para beneficiar o réu (no caso, o contribuinte apenado pela multa). A propósito, e ilustrativamente, segue a ementa de julgado deste Conselho3, o qual adoto como fundamento: TERCEIRA SECÃO DE JULGAMENTO / 2ª CAMARA / 2ª TURMA ORDINARIA / ACÓRDÃO 3202-000.486 em 25/04/2012 ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS. MULTA. Data do fato gerador: 04/07/2006, 06/07/2006, 10/07/2006, 11/07/2006, 13/07/2006, 15/07/2006, 23/07/2006 e 29/07/2006 REGISTRO EXTEMPORÂNEO DOS DADOS DE EMBARQUE NA EXPORTAÇÃO. MULTA DO ART. 107, IV, 'E' DO DL 37/1966 (INs SRF 28/1994, 510/2005 E 1.096/2010). VIGÊNCIA E APLICABILIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Em se tratando do descumprimento do prazo de registro dos dados de embarque na exportação estabelecido pelo art. 37 da IN SRF no 28/1994, a multa instituída no art. 107, IV, 'e' do Decreto-lei no 37/1966, na redação dada pelo art. 77 da Lei no 10.833/2003, somente começou a ser passível de aplicação a partir de fatos ocorridos a partir de 15/2/2005, data em que a IN SRF no 510/2005 entrou em vigor e fixou prazo de dois dias para o registro desses dados no Siscomex. Uma vez que a IN SRF no 1.096/2010 fixou o prazo de sete dias para o registro dos dados no Siscomex, deve ser aplicada, com fulcro no princípio da retroatividade benigna, a norma mais benéfica ao contribuinte. CONTAGEM DE PRAZO. DIA ÚTIL. A contagem dos prazos estipulados na legislação tributária deve seguir os ditames do artigo 210 do Código Tributário Nacional. Os prazos iniciam e terminam apenas em dias úteis. SISCOMEX. INDISPONIBILIDADE. PROVA. A parte que alega a indisponibilidade do sistema SISCOMEX deve apresentar prova irrefutável sobre tal situação. A mera 3 Acórdão n. 3202-000.486, proferido no julgamento do Processo Administrativo n. 10715.001370/2010-41, em 25/04/2012. Fl. 381DF CARF MF Processo nº 10715.004208/2010-85 Acórdão n.º 3302-004.709 S3-C3T2 Fl. 379 7 alegação, sem comprovação do alegado, não é capaz de influir no entendimento do julgador. MULTA. EFEITO CONFISCATÓRIO. INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA N. 02 DO CARF. De acordo com a Súmula n. 02 do CARF, o órgão não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade da lei tributária. Recurso voluntário conhecido em parte. Na parte conhecida, preliminar de nulidade do auto de infração não acolhida e, no mérito, recurso voluntário provido em parte. (grifos adicionados) Assim, entendo que o recurso voluntário deve ser provido para que as multas impostas em decorrência das informações prestadas dentro do prazo de 7 dias (IN SRF n. 1.096/2010) sejam canceladas. Diante do exposto, voto por dar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Relatora Lenisa Prado - Relatora Fl. 382DF CARF MF
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Numero do processo: 16095.720049/2014-14
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Jun 21 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 08 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2011
TEMPESTIVIDADE. INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admite-se a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento - AR.
DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindo-a integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante.
MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
Recurso Voluntário Negado
Crédito Tributário Mantido
Numero da decisão: 1401-001.910
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente
(assinado digitalmente)
Livia De Carli Germano - Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: LIVIA DE CARLI GERMANO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ Ano-calendário: 2011 TEMPESTIVIDADE. INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admite-se a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento - AR. DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindo-a integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido
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INTIMAÇÃO POR MEIO FÍSICO E POR MEIO ELETRÔNICO. No caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico admitese a contagem dos prazos processuais a partir do Aviso de Recebimento AR. DIVERGÊNCIA ENTRE DIPJ E DCTF. RETIFICAÇÃO DE DECLARAÇÃO. A declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente. Se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. MULTA DE OFÍCIO. PROPORCIONALIDADE. NÃO CONFISCO. Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Recurso Voluntário Negado Crédito Tributário Mantido Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 09 5. 72 00 49 /2 01 4- 14 Fl. 201DF CARF MF 2 Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Jose Roberto Adelino da Silva, Abel Nunes de Oliveira Neto, Livia De Carli Germano, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Relatório Tratase de auto de infração para cobrança de IRPJ e CSLL relativos ao ano calendário 2011, acrescido de multa de 75% e juros Selic, em virtude de divergências entre os valores declarados na DIPJ e os constantes das DCTFs e DARFs recolhidos. A contribuinte era tributada pelo lucro real trimestral. Impugnada a autuação, esta foi julgada improcedente pela DRJ em São Paulo em 10 de dezembro de 2014, em acórdão assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 PRINCÍPIOS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. Descabidas as alegações de que teria havido transgressão a Princípios que regem a Administração Pública ou a Princípios Constitucionais quando a auditoria fiscal transcorreu nos estritos termos das normas tributárias, e o lançamento foi devidamente efetivado na forma da legislação vigente. NULIDADE. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Tendo sido o ato praticado por autoridade competente e inexistente a alegada preterição do direito de defesa, descabe falarse em nulidade do auto de infração. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 FALTA DE DECLARAÇÃO E/OU RECOLHIMENTO. Cabível a exigência fiscal lastreada em informações contidas na DIPJ quando não logra o contribuinte demonstrar a existência de erro na declaração. MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO. Por expressamente prevista em lei, não há que se falar em caráter confiscatório da multa de ofício aplicada pela autoridade fiscal. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO CSLL Data do fato gerador: 30/06/2011, 30/09/2011, 31/12/2011 FALTA DE DECLARAÇÃO E/OU RECOLHIMENTO. Cabível a exigência fiscal lastreada em informações contidas na DIPJ quando não logra o contribuinte demonstrar a existência de erro na declaração. Fl. 202DF CARF MF Processo nº 16095.720049/201414 Acórdão n.º 1401001.910 S1C4T1 Fl. 202 3 MULTA DE OFÍCIO. CARÁTER CONFISCATÓRIO. Por expressamente prevista em lei, não há que se falar em caráter confiscatório da multa de ofício aplicada pela autoridade fiscal. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal em 18 de dezembro de 2014. A fl. 131 consta termo de ciência por abertura de mensagem indicando que o destinatário teve ciência do acórdão por meio de sua Caixa Postal na data de 18 de dezembro de 2014, sendo a ciência realizada por seu procurador 135.556.33805 SILVIA SAHEKI KAWAMURA. A fl. 132 consta aviso de recebimento AR constando como data de entrega 22 de dezembro de 2014. O recurso voluntário foi apresentado em 20 de janeiro de 2015 (fl. 134144 e 145). Nesta peça a recorrente alega, em síntese, que: (i) apresentou corretamente os valores devidos em sua DIPJ e em suas DCTFs originais, no entanto estas DCTFs foram retificadas sem o seu conhecimento ou consentimento, passando a apresentar valores zerados; (ii) foi instaurada auditoria interna para apurar esta falha contábil a fim de verificar o responsável por este fato; (iii) o fato de os valores permanecerem declarados em sua DIPJ demonstra a sua boafé; (iv) a multa aplicada, de 75%, tem caráter abusivo e confiscatório cita julgados do TRF e STF. Recebi o processo em distribuição realizada em 15 de fevereiro de 2017. Voto Conselheira Relatora Livia De Carli Germano A peça recursal não traz qualquer alegação acerca da tempestividade. Conforme relatado, o destinatário recebeu mensagem com acesso aos documentos relacionados abaixo por meio de sua Caixa Postal em 18 de dezembro de 2014 (quintafeira). Neste caso, nos termos do artigo 23 do Decreto 70.235/1972, a data da ciência, para fins da contagem do prazo de 30 dias para a apresentação do recurso voluntário, será (i) a data em que o destinatário efetuar consulta à mensagem na sua Caixa Postal ou, não o fazendo, (ii) o 15º dia após a data de entrega acima informada. Fl. 203DF CARF MF 4 No caso, a mensagem foi consultada na caixa postal no mesmo dia de sua entrega, 18 de dezembro de 2014, conforme comprova o Termo de Ciência por Abertura de Mensagem de fl. 131. Considerada esta data, o prazo para recurso voluntário teria expirado em 19 de janeiro de 2015 (segundafeira), de maneira que o recurso voluntário apresentado em 20 de janeiro seria intempestivo. Não obstante, a contribuinte também foi intimada por meio físico, tendo recebido o Aviso de Recebimento dos Correios em 22 de dezembro de 2014 (segundafeira) (fl. 132). Considerada esta data, o prazo para a apresentação do recurso voluntário seria o dia 21 de janeiro, o que levaria à conclusão pela tempestividade no caso concreto. A questão é saber o que prevalece no caso em que o contribuinte opta pelo Domicílio Tributário Eletrônico mas permanece recebendo intimações por meio físico. O artigo 23 do Decreto 70.235/1972, que trata das intimações, não contempla resposta a esta pergunta, indicando apenas que "§ 3o Os meios de intimação previstos nos incisos do caput deste artigo não estão sujeitos a ordem de preferência.". Tampouco a regulamentação dada pela Receita Federal sobre a matéria esclarece a questão de forma expressa. A Portaria SRF 259/2006 que "dispõe sobre a prática de atos e termos processuais, de forma eletrônica, no âmbito da Secretaria da Receita Federal" apenas indica que a prática de atos de forma eletrônica dispensa a física, sem nada concluir em caso de haver ambas (artigo 2o, § 3º A utilização de meio eletrônico desobrigará o sujeito passivo de protocolar os documentos em papel na RFB."). No caso em questão, verificase que embora se tratasse de processo eletrônico todas as intimações recebidas pela contribuinte antes do acórdão da DRJ o foram em meio físico. A empresa também praticou todos os atos processuais por meio físico. Assim, revelase de conformidade com o princípio da moralidade administrativa e da segurança jurídica concluir que, no caso, ela poderia confiar no prazo contado a partir da intimação recebida por meio de AR. Considero, portanto, o recurso voluntário tempestivo. O recurso preenche também os demais requisitos de admissibilidade, portanto dele conheço. Não obstante, melhor sorte não assiste à recorrente quanto à procedência das razões recursais. A transmissão de declarações à Receita Federal depende do conhecimento de dados específicos sobre a pessoa em questão, sendo dever desta zelar por seus dados, salvo situações excepcionais. No caso, a Recorrente não fez sequer prova de que teve seus dados indevidamente acessados por terceiros, de maneira que quaisquer argumentos de força maior não passam de meras alegações. A legislação em vigor prevê que a declaração retificadora tem a mesma natureza da declaração originariamente apresentada, substituindoa integralmente. Assim, em regra a última declaração apresentada pelo contribuinte é a que prevalece para todos os fins. No caso, se a empresa apresenta DIPJ e DCTFs contendo tributos a pagar e depois retifica a DCTF para indicar valores zerados, é correta a constituição do crédito tributário por meio do lançamento de ofício de tais débitos, como procedeu a autoridade autuante. Fl. 204DF CARF MF Processo nº 16095.720049/201414 Acórdão n.º 1401001.910 S1C4T1 Fl. 203 5 Quanto à penalidade aplicada, o artigo 44 da Lei 9.430/1996 determina que o lançamento de ofício seja acompanhado da cobrança de multa de 75%. Sendo tal exação prevista em lei, os argumentos relacionados à impossibilidade de se cobrar o percentual aplicadas em face dos princípios da vedação ao confisco e da proporcionalidade demandariam uma análise da sua constitucionalidade, o que é vedado a este Tribunal, nos termos da Súmula CARF n. 2: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Vale ressaltar que a não observância de enunciado de súmula do CARF é, inclusive, causa de perda de mandato dos Conselheiros, nos termos do Regimento Interno do CARF (art. 45, VI do Anexo II da Portaria MF 343/2015). Diante do exposto, conheço do recurso voluntário e, no mérito, nego provimento. Ressalto que em sessão de julgamento foi noticiada a existência de petição do contribuinte informando que os valores objeto do auto de infração discutido no presente processo foram integralmente quitados via compensação. Diante da juntada extemporânea dessa informação aos autos, considero que ela deve ser considerada pela unidade de origem na execução dos débitos em questão. (assinado digitalmente) Livia De Carli Germano Fl. 205DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13016.000051/2004-46
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Fri Sep 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.371
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004 NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado.
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decisao_txt : Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 5; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1850; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => CSRFT3 Fl. 2 1 1 CSRFT3 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS CÂMARA SUPERIOR DE RECURSOS FISCAIS Processo nº 13016.000051/200446 Recurso nº Especial do Procurador Acórdão nº 9303005.371 – 3ª Turma Sessão de 25 de julho de 2017 Matéria PIS/COFINS. INCIDÊNCIA. CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DO ICMS. EXPORTAÇÃO. Recorrente FAZENDA NACIONAL Interessado MADEM SA INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MADEIRAS E EMBALAGENS ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/01/2004 a 31/01/2004 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo das contribuições. Recurso Especial do Procurador Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 01 6. 00 00 51 /2 00 4- 46 Fl. 190DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 3 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência interposto pela Fazenda Nacional contra o Acórdão 380300.846. Na parte de interesse ao presente litígio, o colegiado a quo decidiu que a cessão onerosa de créditos do ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições do PIS e da COFINS. A Fazenda Nacional requer a reforma do acórdão argumentando, em síntese, que a cessão onerosa de créditos de ICMS é uma operação que equiparase a verdadeira alienação de direitos a titulo oneroso, originando receita tributável, devendo compor a base de cálculo da PIS/ COFINS, conforme dispõe o art. 1° §§ 1º e 2º da Lei nº 10.637/2002, bem como o art. 1° da Lei nº 10.833/2003. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. O contribuinte apresentou contrarrazões. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303005.319, de 25/07/2017, proferido no julgamento do processo 13016.000004/200401, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303005.319): "Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF, haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. Fl. 191DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 4 3 O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, cuja decisão possui a seguinte ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deu se em 05/12/2013. Fl. 192DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 5 4 Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 09 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte." Fl. 193DF CARF MF Processo nº 13016.000051/200446 Acórdão n.º 9303005.371 CSRFT3 Fl. 6 5 Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 194DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.000143/2008-61
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Jul 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Sat Sep 23 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Data do fato gerador: 16/05/2006
AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL.
Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal.
Recurso Especial do Procurador Negado.
Numero da decisão: 9303-005.458
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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ementa_s : Assunto: Processo Administrativo Fiscal Data do fato gerador: 16/05/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Recurso Especial do Procurador Negado.
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ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Data do fato gerador: 16/05/2006 AUTO DE INFRAÇÃO. AUSÊNCIA OU ERRO NA MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação ou motivação errônea do lançamento alcança a própria substância do crédito tributário, de natureza material, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Recurso Especial do Procurador Negado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em negarlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Erika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 00 01 43 /2 00 8- 61 Fl. 869DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 870 2 Relatório Tratase de recurso especial de divergência, tempestivo, de acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010, interposto pela Procuradoria da Fazenda Nacional ao amparo do art. 67, do Anexo II, do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 22 de junho de 2009, em face do Acórdão nº 3202000.516, que possui a seguinte ementa: ASSUNTO: VALORAÇÃO ADUANEIRA Data do fato gerador: 16/05/2006 VALORAÇÃO ADUANEIRA. DESCLASSIFICAÇÃO DO VALOR DE TRANSAÇÃO. UTILIZAÇÃO DE MÉTODOS SEQUENCIAIS DO AVA – ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA. Verificado que houve vinculação entre as partes – importador e exportador – e que esta vinculação influenciou no preço, deve ser afastado o 1º Método de Valoração Aduaneira. O valor aduaneiro deverá ser determinado com base nos métodos subsequentes previstos, observada a ordem sequencial estabelecida no Acordo de Valoração Aduaneira, sob pena de acarretar a nulidade material do lançamento administrativo. Recurso de Ofício provido, para retificar, no mérito, o teor da decisão a quo. O presente processo referese a lançamentos de ofício, veiculados através de Autos de Infração para a cobrança do Imposto de Importação, PISImportação e COFINS Importação, acrescidos de multas de ofício e juros moratórios, em decorrência de alegada irregularidade no valor aduaneiro atribuído pela Recorrente na importação de um “forno elétrico de resistência, semicontínuo, para brasagem com atmosfera controlada, controlado por CLP, utilizado na fabricação de radiadores, marca Abar Ipsen, modelo CAL 14X65X192, número de série BM 1480, ano de fabricação 1994”, formalizada através da Declaração de Importação 06/05568639, registrada em 16/05/2006. A turma julgadora a quo, por maioria de votos, deu parcial provimento ao Recurso de Ofício para reconhecer a nulidade do auto de infração por vício material, devido a descrição imprecisa dos fatos geradores. A Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial (fls. 793 a 800), suscitando divergência em relação à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento. O Recurso Especial foi integralmente admitido pela comprovação da divergência suscitada, conforme despacho de admissibilidade às fls. 808 a 810. O sujeito passivo apresentou suas contrarrazões às fls. 819 a 823. É o relatório. Fl. 870DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 871 3 Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O Recurso Especial de divergência foi interposto pela Fazenda Nacional em 01/11/2013, conforme documentos anexados às fls. 793 a 800, de forma tempestiva, de acordo com o disposto no art. 7º, §§ 3º e 5º, da Portaria MF nº 527, de 2010. A recorrente alega divergência jurisprudencial em relação à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento: enquanto a decisão recorrida entendeu que vício na motivação do lançamento seria vício de natureza material, os acórdãos paradigmas decidiram que a natureza do vício seria formal. Cotejando as decisões, constatase a divergência jurisprudencial apontada, acerca da aplicação do instituto da nulidade. Diante da comprovação do dissídio jurisprudencial alegado e atendido os demais requisitos de admissibilidade, conheço do recurso. Portanto, a matéria devolvida ao Colegiado cingese à natureza do vício que ensejou a anulação do lançamento. Tratase de questão estritamente processual, qual seja, na nulidade por cerceamento de defesa aduzida em razão de má ou incompleta descrição da infração ou dos fundamentos da autuação. No caso em análise, a Fiscalização não aceitou os valores atribuídos pelo contribuinte, quando do preenchimento da respectiva Declaração de Importação. Entretanto, cabia a ela demonstrar porque não aplicou o 2º e 3º Métodos de Valoração, e sim o 6º Método, com base em procedimentos previstos no AVA – Acordo de Valoração Aduaneira. Ausente essa demonstração nos autos, os demais arrazoados apresentados como fundamentação do entendimento fiscal revelamse destituídos da força probante necessária para conferirlhes segurança jurídica. Sendo assim, o julgador a quo reconheceu a nulidade do lançamento, por vício material, visto que se tratava de erro de conteúdo, não de formalização. Transcrevese trecho do voto condutor do acórdão, no qual fica clara a motivação da decisão ora recorrida: “[...] o que houve foi uma errônea aplicação da norma tributária, já que não permitida a aplicação per saltum de método posterior se não exaurida a possibilidade de aplicação dos métodos de valoração pretéritos. Não houve qualquer vício na descrição dos fatos, requisito essencial do lançamento administrativo, mas um desacordo entre o preceito legal e o caso examinado. O vício, destarte, é de conteúdo, não de formalização, hipótese que o qualifica como material, tal como defende Eurico de Santi, citado por Marcos Vinicius Neder e Maria Tereza López (Processo Administrativo Fiscal Comentado, Dialética, 3ª. Ed: São Paulo, 2010, p. 566), para quem Fl. 871DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 872 4 “... se o lançamento objeto de invalidação apresentar vício em seu processo de produção, é caso de anulação; se o vício estiver instalado em seu produto, é caso de nulidade. Vincula, portanto, a anulação aos problemas que se referem ao processo de produção do lançamento (vícios formais) e a nulidade aos problemas inerentes ao conteúdo do ato (vícios materiais).” Ainda sobre o mesmo tema, acrescem Neder e López, na mesma obra e página: “Assim, se a invalidade do lançamento decorre de problemas nos pressupostos de constituição do ato, ou seja, na aplicação da regramatriz de incidência e na comprovação da ocorrência do fato (direito material), dizse que o vício é material. Se a anulação decorre de vício de forma ou de formalização do ato, o vício é formal e se aplica o artigo 173, inciso II, para reinício da contagem do prazo decadencial”. A recorrente alega que não haveria como caracterizar a natureza do vício como sendo material, por se tratar de vício relacionado à motivação. Segundo seu entendimento, a deficiência do Auto de Infração podia ser facilmente sanada com a correção, pela autoridade fiscal, do motivo pelo qual não foram aplicados o 2º e o 3º Métodos de Valoração, configurando, dessa forma, como vício relativo à formalização do lançamento, de natureza formal. Não assiste razão à recorrente. Não restam dúvidas que o vício do lançamento está em seu conteúdo, não em sua formatação: o vício referese à descrição dos fatos, requisito essencial do lançamento administrativo, com a ausência dos fatos que motivaram à Autoridade Fiscal a desconsiderar os métodos 2 e 3 do AVAGATT, revelando um desacordo entre o preceito legal e o caso examinado. A alegação de que a deficiência na descrição dos fatos originários do lançamento constituiria causa pura e simples para a anulação do lançamento por vício formal, relacionado a elemento de exteriorização do ato administrativo, não deve prosperar, por se tratar da própria substância do ato. Esta turma julgadora enfrentou a matéria em 26 de abril de 2016, no Acórdão nº 9303003.811, da lavra da Conselheira Vanessa Marini Cecconello, cuja ementa abaixo transcrevo: AUTO DE INFRAÇÃO. RECLASSIFICAÇÃO FISCAL. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO. NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. Sendo a descrição dos fatos e a fundamentação legal da autuação elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, a falta de motivação e indicação das normas de interpretação adotadas na reclassificação fiscal de mercadoria importada alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Fl. 872DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 873 5 A ausência de motivação no Auto de Infração acarreta a sua nulidade, por vício material. Transcrevo trecho do voto vencido (vencedor nesse ponto) do acórdão 9303 003.811, que externa os fundamentos da referida decisão, adotada em nossas razões de decidir: “A relevância de se distinguir se o vício que maculou o lançamento é de ordem formal ou material está no fato de o Código Tributário Nacional CTN prolongar o prazo de decadência para que seja constituído o crédito tributário quando se reconhece a existência do vício formal, conforme inteligência do seu art. 173, inciso II. O vício formal pode ser entendido como aquele que atinge o procedimento e, não raro, pode ser sanado sem a necessidade de anulação do ato de lançamento original, podendo ser corrigido pela própria autoridade julgadora. O vício material, por sua vez, por macular a substância do lançamento, norma individual e concreta, prejudica a validade da obrigação tributária, sendo imprescindível nesses casos a realização de um novo ato administrativo de lançamento. Os requisitos do auto de infração, dentre eles a descrição dos fatos e a fundamentação legal, estão estabelecidos no art. 10 do Decreto nº 70.235/72 e no art. 142 do Código Tributário Nacional: [...] Sendo a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e da fundamentação legal elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, o equívoco em análise alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Embora a distinção entre os vícios de ordem formal e material não seja tarefa simples, o caso em exame mostra claramente estarse diante da ocorrência de vício de ordem material, assertiva corroborada pelos fundamentos bem lançados no acórdão recorrido ao negar provimento ao recurso de ofício, proferido pela Ilustre Conselheira Irene Souza da Trindade Torres Oliveira, e que passam a integrar as razões de decidir deste julgado:[...]” A i. relatora cita, ainda, outro recente precedente da CSRF (Acórdão nº 9101 002.146) no mesmo sentido, cuja ementa abaixo transcrevo: NULIDADE DE LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL. VÍCIO FORMAL. ASPECTOS QUE ULTRAPASSAM O ÂMBITO DO VÍCIO FORMAL. Fl. 873DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 874 6 Vício formal é aquele verificado de plano no próprio instrumento de formalização do crédito, e que não está relacionado à realidade representada (declarada) por meio do ato administrativo de lançamento. Espécie de vício que não diz respeito aos elementos constitutivos da obrigação tributária, ou seja, ao fato gerador, à base de cálculo, ao sujeito passivo, etc. A indicação defeituosa ou insuficiente da infração cometida, da data em que ela ocorreu, do montante correspondente à infração (base imponível); e dos documentos caracterizadores da infração cometida (materialidade), não configura vício formal. Transcrevo ementas de outros julgados no mesmo sentido: AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DO LANÇAMENTO E DESCRIÇÃO DOS FATOS GERADORES. IMPROCEDÊNCIA. VÍCIO MATERIAL, NÃO FORMAL. A falta de indicação suficiente dos fatos que motivaram o lançamento e da origem do crédito tributário fulmina o lançamento por vício material. (grifei) (Acórdão 9202003.285, sessão de 30 de julho de 2014, 2ª Turma CSRF, Rel. Gustavo Lian Haddad) NULIDADE. VÍCIO MATERIAL. O vício material ocorre quando o auto de infração não preenche aos requisitos constantes do art. 142 do Código Tributário Nacional, havendo equívoco na construção do lançamento quanto à verificação das condições legais para a exigência do tributo ou contribuição do crédito tributário, enquanto que o vício formal ocorre quando o lançamento contiver omissão ou inobservância de formalidades essenciais, de normas que regem o procedimento da lavratura da auto, ou seja, da maneira de sua realização. (grifei) (Acórdão 2403002.707, de 10/09/2014, Relator: Marcelo Magalhães Peixoto) NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. PROVIMENTO. VÍCIO. MATERIAL. DESCRIÇÃO DO FATO GERADOR. A descrição do fato gerador constituise no núcleo do lançamento tributário, sua essência. Quando a descrição do fato gerador não permite a conclusão sobre sua ocorrência o lançamento é improcedente, como no caso do lançamento original em questão. (grifei) (Acórdão 2301004.055, de 15/05/2014, Relator: Marcelo Oliveira) DISCRIMINAÇÃO DOS FATOS GERADORES. INSUFICIÊNCIA. NULIDADE DO LANÇAMENTO. O lançamento deve evidenciar a ocorrência dos fatos geradores das contribuições previdenciárias de forma clara e precisa, sob pena de nulidade por vício material. (grifei) Fl. 874DF CARF MF Processo nº 16561.000143/200861 Acórdão n.º 9303005.458 CSRFT3 Fl. 875 7 (Acórdão 2302002.258, de 22/11/2012, Relatora: Liége Lacroix Thomasi) Portanto, sendo a descrição dos fatos, a correta determinação da matéria tributável e da fundamentação legal elementos substanciais e próprios da obrigação tributária, os equívocos na sua determinação no decorrer da realização do ato administrativo de lançamento ensejam a sua nulidade por vício material, uma vez que o mesmo não poderá ser convalidado ou sanado sem ocorrer um novo ato de lançamento. Por isso, o equívoco em análise alcança a própria substância do crédito tributário, não havendo de se cogitar em vício de ordem formal. Diante do exposto, considero que a nulidade do lançamento efetuado possui natureza material, razão pela qual NEGO PROVIMENTO AO RECURSO ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL. (assinatura digital) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 875DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10821.720408/2013-14
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2010
DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF.
Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado.
Numero da decisão: 2202-004.009
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso.
(Assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente.
(Assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio- Relatora
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal.
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF Exercício: 2010 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF. Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio- Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal.
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. ERRO DE PREENCHIMENTO NA DIRF. Comprovado, em fase recursal, o erro no preenchimento da DIRF deve ser provido o recuso em nome dos princípios da verdade material e formalismo moderado. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, dar provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Márcio Henrique Sales Parada, Rosy Adriane da Silva Dias, Denny Medeiros da Silveira, Dílson Jatahy Fonseca Neto, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 82 1. 72 04 08 /2 01 3- 14 Fl. 148DF CARF MF 2 Por bem descrever os fatos, adoto o relatório da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA): O contribuinte foi notificado de lançamento relativo ao imposto sobre a renda, exercício 2011, anocalendário 2010 (fls.8 a 11), por meio do qual formalizouse a exigência de imposto suplementar, no valor de R$9.458,71, acrescido de multa de ofício e juros de mora, calculados até abril de 2012, totalizando um crédito tributário de R$17.596,98, até a data da notificação. O lançamento foi motivado por omissão de rendimentos recebidos da WGT Tecnologia em Informática Ltda, no valor de R$54.720,00. O contribuinte contesta o lançamento à fl.2, argumentando em síntese que não houve omissão de rendimentos, pois foi recebido dessa fonte pagadora apenas o valor declarado. Refere erro do responsável pela transmissão, corrigido com declaração retificadora que anexa aos autos à fl.4. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Salvador (BA), negou provimento à Impugnação em decisão cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF. Anocalendário:2010 DECLARAÇÃO DE AJUSTE ANUAL. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. Mantémse o lançamento quando rendimentos tributáveis auferidos pelo contribuinte tenham sido omitidos na declaração de ajuste anual. Impugnação Improcedente. Cientificado da decisão (AR fls. 143) apresenta o Recurso Voluntário de fls. 31/32, no qual reitera as alegações já suscitadas na Impugnação e requer, em fase recursal, a juntada dos seguintes documentos: a) Contrato Social (fls. 41/46); b) GFIP (fls. 64/82); c) GPS (fls. 49/60); d) DIPJ (fls 111/127); e) Informe de Rendimentos do Período (fls. 110); f) DIRF Original; g) DIRF Retificada; h) Folha de pagamento do Ano; Fl. 149DF CARF MF Processo nº 10821.720408/201314 Acórdão n.º 2202004.009 S2C2T2 Fl. 149 3 Voto Conselheira Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual, dele conheço. Antes de analisarmos o Recurso Voluntário, é imprescindível que seja analisada a possibilidade de juntada de provas em fase recursal. Isso porque, conforme mencionado na decisão recorrida, a glosa dos valores recebidos como omissão de receitas foi mantida em virtude da ausência de documento idôneo à comprovação da moléstia grave. O Recurso Voluntário do contribuinte teve como objetivo, fundamentalmente, a trazer aos autos a mencionada documentação. O artigo 16 § 4º do Decreto 70.235/72 determina que "a prova documental será apresentada na impugnação, precluindo o direito de o impugnante fazêlo em outro momento processual, a menos que: a) fique demonstrada a impossibilidade de sua apresentação oportuna, por motivo de força maior; b) refirase a fato ou a direito superveniente; c) destinese a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Todavia, esse Conselho, em razão do princípio do formalismo moderado que se aplica aos processos administrativos, têm admitido a juntada de provas em fase recursal como se verifica pelas ementas abaixo transcritas: "IMPOSTO DE RENDA PESSOA FÍSICA. AUTUAÇÃO POR DEDUÇÃO INDEVIDA DE IMPOSTO RETIDO NA FONTE. COMPROVAÇÃO IDÔNEA EM FASE RECURSAL. ADMITIDA EM HOMENAGEM AO PRINCÍPIO DO FORMALISMO MODERADO. Comprovada idoneamente, por demonstrativos de pagamentos de rendimentos, a retenção de imposto na fonte, ainda que em fase recursal, são de se admitir os comprovantes apresentados a destempo, com fundamento no princípio do formalismo moderado, não subsistindo o lançamento quanto aeste aspecto. Recurso provido" (Ac 2802001.637, 2ª Turma Especial, 2ª Seção, Sessão 18/04/2012) "PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. PRECLUSÃO. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72 deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, especialmente instrumentalidade das formas e formalismo moderado. O controle da legalidade do ato de lançamento e busca da “verdade material” alçada como princípio pela jurisprudência dessa Corte impõem flexibilidade na interpretação de regras relativas à instrução da causa, tanto no tocante à iniciativa quanto ao momento da produção da prova. Recurso voluntário provido para anular decisão de primeira instância." (Ac 1102 Fl. 150DF CARF MF 4 000.859, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 09/04/2013) "PEDIDO DE RESTITUIÇÃO / DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PRECLUSÃO. APRESENTAÇÃO DE NOVAS PROVAS NO RECURSO VOLUNTÁRIO. POSSIBILIDADE. O art. 16 do Decreto n. 70.235/72, que determina que a prova documental deva ser apresentada na impugnação, precluindo o direito de se fazêlo em outro momento processual, deve ser interpretado com temperamento em decorrência dos demais princípios que informam o processo administrativo fiscal, tais como o formalismo moderado e a busca da “verdade material”. A apresentação de provas após a decisão de primeira instância, no caso, é resultado da marcha natural do processo, pois, não tendo a decisão de piso considerado suficientes os documentos apresentados pelo contribuinte para a comprovação do seu direito creditório, trouxe ele novas provas, em sede de recurso, para reforçar o seu direito". (Ac 1102001.148, 1ª Câmara/2ª Turma Ordinária, 1ª Seção, Sessão 29/04/2014) Conforme se verifica pelo trecho da decisão recorrida abaixo transcrito, a razão do indeferimento da Impugnação foi a insuficiência das provas apresentadas pelo Impugnante: O contribuinte invoca erro no preenchimento da declaração do imposto de renda retido na fonte (Dirf), transmitida originalmente pela fonte pagadora dos rendimentos que lhe estão sendo atribuídos no lançamento. Consta, entretanto, da base de dados que nela figura como sócio gerente. E como responsável por essa pessoa jurídica, a retificação da Dirf em momento posterior à sua ciência do lançamento não pode operar quaisquer efeitos sobre a infração que lhe é apontada, a menos que tivesse sido justificada nos autos com documentos comprobatórios do erro que alega, a exemplo da escrituração contábil tempestivamente registrada. As GPS de fls. 48/63, as Relações de Trabalhadores constantes do arquivo SEFI (fls.64/83) e a folha de prólabore de fls. 84/107 confirmam que o valor de prólabore mensal pago ao Recorrente no valor de R$ 510,00, condizente, portanto, com os valores constantes da DIRF retificadora de fls. 04. 3) CONCLUSÃO Em face do exposto, dou provimento ao recurso. (Assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio. Fl. 151DF CARF MF Processo nº 10821.720408/201314 Acórdão n.º 2202004.009 S2C2T2 Fl. 150 5 Fl. 152DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16561.720184/2012-54
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Jul 04 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Aug 21 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Ano-calendário: 2007, 2008
GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA. PESSOA FÍSICA. SUJEITO PASSIVO.
Ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo - JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários - CVM, concluiu corretamente a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao Fisco e apurou o tributo devido, apontando como sujeito passivo a pessoa física.
APURAÇÃO DO TRIBUTO. CUSTO DO BEM ALIENADO. FALTA DE QUESTIONAMENTO ESPECÍFICO.
O que o recurso questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria a pessoa física mas a pessoa jurídica, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo ou de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal e o recurso não aponta onde estaria o erro, se for considerado que o sujeito passivo é a pessoa física.
MULTA QUALIFICADA. DOLO. FRAUDE. RESULTADO.
A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros.
Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputam dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais.
Numero da decisão: 2202-004.013
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar as preliminares, vencido o Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que suscitou a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância. No mérito, quanto às infrações, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal, que deram provimento ao recurso. Quanto à qualificação da multa, pelo voto de qualidade, manter a multa qualificada, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Fernanda Melo Leal, que a reduziram para 75%. O Conselheiro Martin da Silva Gesto votou pela conclusões em relação à preliminar de nulidade. O Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto informou que apresentará declaração de voto. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF).
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa- Presidente.
(assinado digitalmente)
Júnia Roberta Gouveia Sampaio - Relatora.
(assinado digitalmente)
Marcio Henrique Sales Parada - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Fernanda Melo Leal, Denny Medeiros da Silveira, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF).
Nome do relator: JUNIA ROBERTA GOUVEIA SAMPAIO
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PESSOA FÍSICA. SUJEITO PASSIVO. Ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, concluiu corretamente a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao Fisco e apurou o tributo devido, apontando como sujeito passivo a pessoa física. APURAÇÃO DO TRIBUTO. CUSTO DO BEM ALIENADO. FALTA DE QUESTIONAMENTO ESPECÍFICO. O que o recurso questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria a pessoa física mas a pessoa jurídica, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo ou de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal e o recurso não aponta onde estaria o erro, se for considerado que o sujeito passivo é a pessoa física. MULTA QUALIFICADA. DOLO. FRAUDE. RESULTADO. A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros. Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputam dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 56 1. 72 01 84 /2 01 2- 54 Fl. 1674DF CARF MF 2 enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, rejeitar as preliminares, vencido o Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que suscitou a preliminar de nulidade da decisão de primeira instância. No mérito, quanto às infrações, por maioria de votos, negar provimento ao recurso, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto e Fernanda Melo Leal, que deram provimento ao recurso. Quanto à qualificação da multa, pelo voto de qualidade, manter a multa qualificada, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio (Relatora), Martin da Silva Gesto, Dilson Jatahy Fonseca Neto e Fernanda Melo Leal, que a reduziram para 75%. O Conselheiro Martin da Silva Gesto votou pela conclusões em relação à preliminar de nulidade. O Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto informou que apresentará declaração de voto. Foi designado o Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada para redigir o voto vencedor. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF). (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente. (assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Relatora. (assinado digitalmente) Marcio Henrique Sales Parada Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Fernanda Melo Leal, Denny Medeiros da Silveira, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Marcio Henrique Sales Parada. A Conselheira Cecília Dutra Pillar proferiu seu voto na sessão de 07/06/2017, porém não votou em relação à preliminar de nulidade da decisão de primeira instância, razão pela qual o Conselheiro Denny Medeiros da Silveira (Suplente Convocado), que a substitui, votou apenas em relação a essa preliminar (art. 58, § 5º, do Anexo II do RICARF). Relatório Trata o presente Auto de infração de lançamento de imposto de renda pessoa física relativo a fatos geradores ocorridos em 2007 e 2008 de R$ 130.200.725,93, de multa de ofício de R$ 195.301.088,86 e juros de mora calculados até 30/11/2012 de R$ 43.173.305,39. Conforme documentação dos autos e relatado pela autoridade fiscal, no Termo de Verificação Fiscal, a fiscalização que deu origem ao presente auto iniciouse junto à CM Indústria e Comércio Ltda por meio da Diligência Fiscal determinada pelo MPF nº Fl. 1675DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.675 3 08.1.85.002012000417 (fls.3). Conforme o Termo de Intimação Fiscal nº 01 (fls. 4) o escopo do trabalho fiscal era a comprovação da origem dos valores que constituiriam o custo da participação alienada. De acordo com a fiscalização, a empresa não fez a necessária comprovação do ágio, argumentando que se tratava de participação societária adquirida no ano de 1973, cujos documentos comprobatórios não mais possuía. Em relação ao lançamento dos deságios como exclusão em 2007 e 2008, a empresa esclareceu que, na verdade, tratavamse de ágios, lançados como exclusão a título de deságios, por não existir linha própria nas DIPJ´s respectivas. Em razão das respostas acima mencionadas, a Diligência Fiscal foi transformada em Fiscalização, sendo, então, emitido o MPF nº 08.1.85.002012002789 em face da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO, por meio do qual a fiscalização intimou a empresa para que apresentasse documentos relativos à aquisição, em setembro/73, das ações da Vigor que geraram o ágio, tais como contrato de compra e venda, comprovantes de pagamentos, etc. Em resposta a empresa apresentou, dentre outros elementos, cópias dos "Livros Registro de Ações Nominativas nº 3 r 4, Livros de Registro de Transferência das Ações nºs 2 e 3, Livro de Presença de Acionistas nº 2, Livro de Atas das Reuniões da Diretoria nº 2, Livro de Atas das Reuniões da Diretoria nº 2, Certidão da JUCESP , indicando a Ata da AGE de 14/09/1973, a qual retrata a eleição do Sr. Carlos Alberto Mansur para Diretor de Relações Públicas da Vigor, bem como, a Ata da AGO de 22/04/1974, a qual retrata a eleição do Sr. Carlos Alberto Mansur para Diretor VicePresidente da Vigor Doc. 12 a 18 Depois de fazer a análise dos mencionados documentos, concluiu a autoridade fiscal (fls. 1218) Do exposto sobre os registros nos livros citados, constatase impossibilidade de determinar com clareza em qual momento as ações passaram a pertencer à pessoa jurídica ou pessoas jurídicas. Sabese, apenas, que elas foram adquiridas pelos Mansur em 1973, mas não se sabe o valor pago, o qual seria a base de tudo para o cálculo do custo contábil quando da sua alienação. No demonstrativo de cálculo, apresentado juntamente com os livros citados, se limitou apenas a indicar o valor do ágio a partir da aquisição das ações pela CM e, a partir daí, passando a corrigilo, porém sem explicar como ele se originou" Depois de fazer um histórico de todas alterações societárias ocorridas, desde o momento da aquisição em 1973 até a alienação em 2007 (fls. 1220 à 1225), a autoridade fiscal menciona a operação de alienação da participação societária detida pela Fiscalizada na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA, a qual era controladora da S/A FÁBRICA DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS VIGOR. Em 21/11/2007 foi assinado o Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças. Por meio do referido contrato, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA vendeu à BERTIN S/A 56% das quotas do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA (controladora da Vigor), pelo preço de R$ 400.000.000,00, sendo R$ 200.000.000,00 no ato da assinatura e o restante em 25 parcelas atualizadas pela SELIC. Fl. 1676DF CARF MF 4 Todavia, ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, conclui a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao fisco pela empresa fiscalizada. Isso porque, a empresa fiscalizada (CM Indústria e Comércio) fez uma cisão parcial, transferindo parcela do seu patrimônio para a GOULT PARTICIPAÇÕES Ltda., parcela esta constitutiva da participação societária de 99,9% a CM detinha na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. A participação restante de 0,01% pertencia a Carlos Alberto Mansur. A entrada da GOULT no quadro societário foi registrada em 30/10/2007. Relata ainda a fiscalização que a GOULT foi constituída em 20/07/2007, tendo como sócios Roberto Mário Amaral de Lima Neto e Carlos David Albuquerque Braga, com capital de R$ 100,00. Em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a Goult recebe a parcela cindida do PL da empresa fiscalizada, constitutiva da participação societária de 99;9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da Vigor. Ao analisar as mencionadas informações, a fiscalização intimou a empresa JBS (incorporadora da adquirente BERTIN S/A), para que apresentasse o contrato de compra e venda das ações da VIGOR e constatou a existência de contrato que, de acordo com a fiscalização, confirmaria as informações publicadas nos órgãos acima mencionados (CVM, CADE, etc). Por meio do mencionado contrato, o autuado (Carlos Alberto Mansur) juntamente com Carlos Alberto Mansur Filho, constavam como vendedores de 56% das quotas do capital da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. Em razão dos fatos acima narrados a fiscalização conclui que: Diante do exposto, até o presente momento, constatase que houve duas versões para alienação das ações da Vigor, uma, amparada pelo contrato de compra e venda de 21/11/2007, informada e declarada à Receita Federal e, outra, amparada no contrato de compra e venda de 25/11/2007, informada ao público e demais órgãos governamentais, diferente daquela. É importante frisar que todos os atos contratuais necessários para a operação que foi informada ao público e demais órgãos governamentais, com inclusão da Goult Participações Ltda, foram aquivados na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP. No entanto, todos os atos que incluíram a Goult foram anulados por alterações contratuais não arquivadas na JUCESP. (...) Em resposta a esta intimação, a JBS apresentou cópia autenticada do Instrumento Particular de Distrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Venda e Outras Avenças, datado de 21/11/2007, assinado por Carlos Alberto Mansur representando a CM Indústria e Comércio Ltda e pelo representante da Bertin S/A. (grifos no original) (fls. 1232 a 1235) Fl. 1677DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.676 5 Diante do exposto, concluiu a fiscalização que a operação a ser considerada como verdadeira seria a alienação das ações da BERTIN pelas pessoas físicas Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho, uma vez que, para que a operação declarada à Receita Federal (que revogaram os efeitos da cisão da CM) tivesse validade jurídica deveriam ser arquivadas e registradas na JUCESP: Vejamos: "Da análise das duas situações apresentadas, constatase que: A primeira operação, declarada à Receita Federal, referese à alienação efetuada pela CM Indústria e Comércio Ltda, das quotas sociais da Gestior, para Bertin S/A, ou seja, tratase de uma operação de pessoa jurídica para pessoa jurídica. Nesse caso, o ganho de capital estaria inserido na própria demonstração de resultados da empresa, onde a receita de alienação seria diminuída do custo contábil, incluindo nele o eventual ágio. (...) Frisese que o eventual ágio considerado como parte do custo contábil deve ser devidamente comprovado, fato que a contribuinte não conseguiu fazêlo, embora tenha tido prazo considerável para tal. No entanto, para que esta operação tivesse validade jurídica, as alterações que revogaram os efeitos da cisão da CM, transferindo as quotas da Gestior para a Goult, deveriam ser arquivadas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o que não ocorreu. Vale lembrar que os atos sujeitos ao registro público somente têm validade e produzem os efeitos pertinentes a partir da sua formalização. Para finalizar, a autoridade fiscal utiliza como fundamento legal a embasar a necessidade de registro público para a validade dos negócios jurídicos perante a terceiros o artigo 1.157 do Código Civil. Intimado, o contribuinte apresentou Impugnação (fls. 1282 a 1316), na qual alega o seguinte: a) Preliminarmente, que haveria erro na identificação do sujeito passivo, uma vez que a venda teria sido realizada pela CM, controladora da GESTIOR para a BERTIN. Isso porque: a.1) o próprio auto de infração reconhece que a cisão foi rescindida. Todavia, invocando o artigo 1.154 do Código Civil para reger as relações fisco/contribuinte, a fiscalização anula os efeitos da rescisão sob o argumento de que esta não teria validade pelo fato de tal rescisão não se encontrar registrada na JUCESP. a.2) o impugnante não alienou, nos três períodosbase apontados, qualquer bem que tenha gerado ganho de capital nos termos postos no auto de infração e os valores Fl. 1678DF CARF MF 6 apontados pela ação fiscal foram regularmente declarados pelo contribuinte em suas declarações anuais de ajustes, a justo título, como dividendos que são. a.3) que os valores apontados como omissão de rendimentos pela autoridade fiscal também se referem a dividendos a.4) que em nenhum momento houve qualquer questionamento em relação ao valor dos contratos. b) Quanto ao mérito: b.1) Traz à colação o Instrumento Particular de Retificação, Ratificação, e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, celebrado entre o impugnante, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA e a BERTIN S/A em 14 de maio de 2009 (fls. 1320/1323), por meio do qual as partes resolvem "tornar sem efeito o Instrumento Particular de Distrato firmado em 21/11/2007, bem como reiterar as cláusulas e condições do Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras avenças firmado em 21/11/2007 ("Primeiro Contrato") (Cláusula 1). b.2) Que a fiscalização intimou para obter o contrato o Grupo JBS (sucessora) e não a empresa BERTIN (sucedida), interveniente nos dois contratos. Além do tempo transcorrido entre a transferência, de fato, o Grupo JBS, embora tenha depois adquirido o controle da Vigor, não teve qualquer participação no negócio. b.3) que a fiscalização não intimou a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA para explicar porque considerava válido o primeiro contrato, ao invés disso, decidiu por sua conta e risco, tomar partido do segundo. Tivesse intimado a empresa sob fiscalização, a CM INDÚSTRIA teria obtido o Instrumento de Particular de Retificação trazido junto com a Impugnação. b.4) que as Declarações de Rendimento do Impugnante (fls. 1144/1154 e 1155/1163) e as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (fichas 38 A), anoscalendário 2007 e 2008 da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO demonstram a absoluta consistência entre as declarações prestadas pelo contribuinte e pela empresa, pois ambas Declarações refletem os dividendos pagos. b.5) que as declarações de rendimentos mencionadas comprovam que a cisão que a autoridade fiscal tomou como negócio real foi revogada e o negócio celebrado entre as partes refletia uma situação patrimonial que abstraia completamente a referida cisão. A prova disso é que a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA, na sua declaração de rendimentos, respeitando o regime de competência, declara a venda mencionada e apura o seu resultado. Tais fatos estão demonstrados nas declarações de rendimentos tempestivamente entregues. b.6) A prova de que a Receita Federal conhecia o distrato da cisão é a Declaração de Rendimentos, por ser este o instrumento, por excelência, de comunicação entre o fisco e o contribuinte. b.7) As escriturações das duas partes envolvidas na alienação discutida nos autos refletem a transação da mesma forma. As duas partes, o grupo Mansur e o grupo Bertin, registraram a operação da mesma forma. A venda e compra da GESTIOR teve o preço de mais de oitocentos milhões e a compra e venda da GOULT teve o preço de cem reais. Fl. 1679DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.677 7 b.8) que os pressupostos necessários para aplicação da multa agravada não foram demonstrado na hipótese dos autos. A Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento negou provimento à Impugnação (fls. 1449 à 1469) em decisão cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Anocalendário: 2007, 2008 GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE PARTICIPAÇÃO SOCIETÁRIA LEGITIMIDADE PASSIVA TRIBUTAÇÃO PESSOA FÍSICA. Correto o lançamento de ganhos de capital na alienação de participação societária na pessoa física detentora das quotas representativas do capital social, quando fartamente demonstrado nos autos que a operação foi realizada tendo como parte vendedora o próprio contribuinte e não pessoa jurídica de cujo capital participe. GANHOS DE CAPITAL MULTA QUALIFICADA PROCEDÊNCIA. Evidenciado nos autos que o contribuinte agiu de forma dolosa tendente a ocultar do Fisco a real operação de venda de participação societária, apresentando contrato revogado e instrumento de alteração de contrato social não registrado, com o objetivo de atribuir à pessoa jurídica a titularidade das quotas alienadas, deve ser aplicada a multa qualificada sobre o valor do imposto de renda a pagar. Cientificada da decisão acima transcrita (AR fls. 1478), a Impugnante apresentou o recurso voluntário de fls 1479/1509 no qual reitera as alegações já suscitadas quando da Impugnação. Alega, em particular, que o "não é possível, em razão de todas as transformações, seja da empresa, seja do País, pois só neste período tiveram em curso quatro moedas diferentes, se determinar o custo de um investimento através de uma pesquisa no Registro de Comércio, como fez a fiscalização, em detrimento dos livros Diários (fls. 1324/1398) das empresas intervenientes e dos livros LALUR (fls 1428/1443). Por fim, ressalta que em 18/07/2013 a fiscalização encerrou o procedimento fiscal aberto da empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO o que demonstra que o agente fiscal não encontrou qualquer irregularidade relativa a apuração de ganho de capital na empresa, uma vez que encerra a fiscalização sem qualquer lançamento. A Procuradoria da Fazenda Nacional apresentou as contrarrazões de fls. 1522 a 1544, nas quais reitera as alegações já suscitadas pela Delegacia da Receita Federal de Julgamento. Em 13 de julho de 2016 o Recorrente juntou aos autos cópia de parecer dos juristas Sacha Calmon Navarro Coêlho, Misabel de Abreu Machado Derzi e Igor Mauler Santiago e, em 26 de agosto de 2016, cópia do Parecer do jurista Paulo de Barros Carvalho (fls. 1625 à 1671), sobre a discussão travada nos presentes autos. Foi dada vista dos referidos pareceres à Procuradoria da Fazenda Nacional (fls. 1622) Fl. 1680DF CARF MF 8 É o relatório. Voto Vencido Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio Relatora O recurso preenche os pressupostos legais de admissibilidade, motivo pelo qual dele conheço A discussão travada nesses autos se resume à validade jurídica da alienação das ações da VIGOR pela empresa CM PARTICIPAÇÕES. De forma muito simples, a questão posta para decisão do colegiado é definir qual a verdadeira negociação realizada: se uma alienação ações de pessoa física para uma pessoa jurídica (como quer a fiscalização) ou uma alienação de pessoa jurídica para pessoa jurídica (como alega o Recorrente). Para facilitar a análise, faremos a seguir um quadro com a documentação relevante e sua respectiva numeração no eprocesso. Evento Data Numeração no eprocesso 1 Ações da VIGOR adquiridas por CAM Indústria e Comércio e R.Mansur S/A (futura UNITED Ind. Comercio) 1973 fls. 301/313 2/3 . Cisão parcial da CAM e Criação da CM com ações da VIGOR; Cisão parcial da UNITED e versão das ações da VIGOR para patrimônio da CM, que passa deter 74,69% de VIGOR 1988 fls. 624/645 4 Criação da empresa GESTIOR e transferência da participação na VIGOR por meio de cisão parcial da CM 14/02/2006 fls. 833/847 5 Criação da GOULT 20/07/2007 6 Entrada do Recorrente (99,9%) e seu filho (0,1%) na GOULT 29/10/2007 1084/1086 7 Cisão Parcial de CM e transferência da participação da GESTIOR para GOULT 30/10/2007 939/946 8 Contrato de compra e venda entre a CM e a BERTIN a respeito da alienação de participação acionária em GESTIOR (e, consequentemente, da participação na VIGOR) 21/11/2007 1073/1083 9 Recorrente assina contrato de venda de ações de GOULT para BERTIN 25/11/2007 1028/1048 10 Instrumentos Particulares de Alteração e Consolidação do Contrato Social da Gestior Participações e 26/11/2007 997/1009 Fl. 1681DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.678 9 Instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retirada da GOULT. 11 Instrumento de Ratificação e Consolidação da venda confirmando operação realizada por CM e BERTIN e instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retidada da GOULT. 14/05/2009 997/1009 As operações relevantes para a compreensão da questão posta nos autos centramse nos eventos destacados nos itens 7 a 11 da tabela acima. De acordo com a fiscalização, o contrato de compra e venda das ações da VIGOR realizado entre CM e a BERTIN em 21/11/2007, não seria válido, uma vez que, na época da venda, o controle acionário das ações da GESTIOR teria sido transferido para GOULT. Alega ainda que o contrato de compra e venda realizado entre o Recorrente e a BERTIN, datado de 25/11/2007, confirma que a operação efetivamente realizada teria sido a constante desse último contrato. O Recorrente, por sua vez, alega que a operação efetivamente realizada foi a Venda do Controle da VIGOR para BERTIN, por meio da empresa CM (contrato de 21/11/2007), uma vez que o contrato firmado em 25/11/2007 teria sido revogado em 26/11/2007. Tal revogação teria sido ratificada, posteriormente, em 14/05/2009. De acordo com o trabalho fiscal e a decisão recorrida, três elementos justificariam a tributação tal como prevista no lançamento: a) simulação dos contratos que atestam a venda das ações da CM à BERTIN, uma vez que a transferência desses ativos teria sido, na realidade, feita pela pessoa física b) ainda que os contratos não fossem simulados, eles não teriam quaisquer efeitos fiscais, uma vez que, nos termos do artigo 1.154, as alterações societárias que revogaram a cisão parcial da CM e a entrada da GOULT no quadro societário da GESTIOR não teriam sido registradas da JUCESP; c) a verdadeira operação teria sido aquela comunicada ao CADE e a CVM, segundo a qual a venda teria sido realizada pela pessoa física. A lide em questão centrase na validade dos negócios jurídicos entabulados pelas partes, levandose em consideração as provas juntadas aos autos. É o que passaremos a analisar. 1) PRELIMINARES O Recorrente aponta nulidade do Auto de Infração por erro na identificação do sujeito passivo. A Delegacia de Julgamento se limitou a afirmar, com fundamento no art. 59 do Decreto nº 70.235/72, que não haveria que se falar em nulidade, uma vez que, sob o aspecto formal, os atos praticados no processo foram lavrados por pessoa competente (inciso I) e os despachos e decisões foram igualmente lavrados por autoridades competentes e sem preterição do direito de defesa (inciso II). Fl. 1682DF CARF MF 10 Entendo que o alegado erro na identificação do sujeito passivo se confunde com o mérito e, por isso, será juntamente com ele analisada. Na sessão de julgamento, o Conselheiro Dilson Jatahy suscitou, de ofício, duas nulidades da decisão recorrida em razão das seguintes omissões: a) não se pronunciou em relação ao arbitramento do custo de aquisição; b) restou silente quanto ao ato de que as parcelas recebidas nos meses de dezembro de 2007 à dezembro de 2010 referemse à dividendos. A turma, por maioria, entendeu por bem rejeitar as referidas preliminares, uma vez que ambas partem do pressuposto de que a operação discutida nesses autos referese a uma alienação realizada pela pessoa jurídica CM. Todavia, tal premissa (alienação por pessoa jurídica) restou vencida nesse colegiado. 2) MÉRITO 2.1) DA ALIENAÇÃO REALIZADA PELA EMPRESA CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO Conforme exposto no extenso relatório, a fiscalização entendeu que, no caso em questão, haveria uma dissimulação da operação praticada. Isso porque, ao contrário do constante nas declarações enviadas à Receita Federal, a real operação seria aquela declarada ao público (CVM e CADE). Para respaldar a desconsideração do negócio jurídico declarado a fiscalização trouxe como prova os seguintes elementos: a) Cópia dos atos publicados na CVM e CADE b) O contrato obtido junto à incorporadora da BERTIN a empresa JBS c) O fato de que o depósito dos valores ter sido feito na conta do Recorrente d) Os distratos que validariam as informações prestadas à Receita Federal não terem sido objeto de arquivamento perante à JUCESP. Em contraposição às mencionadas alegações, o Recorrente traz os seguintes elementos: a) O contrato considerado de 25/11/2007 teria sido revogado em 26/11/2007 pela alteração do contrato social da GESTIOR, bem como pelo instrumento de retificação do contrato social da GESTIOR prevendo a retirada da GOULT. b) Instrumento Particular de Retificação, Ratificação, e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, celebrado entre o impugnante, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA e a BERTIN S/A em 14 de maio de 2009 (fls. 1320/1323), por meio do qual as partes resolvem "tornar sem efeito o Instrumento Particular de Distrato firmado em 21/11/2007, bem como reiterar as cláusulas e condições do Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras avenças firmado em 21/11/2007 b) as Declarações de Rendimento do Impugnante (fls. 1144/1154 e 1155/1163) e as Declarações de Informações Econômico Fiscais da Pessoa Jurídica (fichas 38 A), anoscalendário 2007 e 2008 da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO (fls.1512 à 1515) que demonstram a consistência entre as declarações prestadas pelo contribuinte e pela empresa. Fl. 1683DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.679 11 c) os lançamentos contábeis constantes da contabilidade da CM que registram a venda de ações à BERTIN (razão analítico de fls. 1516/1517) d) Os valores depositados na conta corrente do autuado, ora Recorrente, referemse à distribuição de dividendos realizada pela CM Indústria e Comércio aos seus sócios, em face dos lucros contabilmente acumulados. Ressalta também que a distribuição dos dividendos foi devidamente registrada na declaração de rendimento dos sócios. 2.1.1. NULIDADE DO NEGÓCIO JURÍDICO Para analisarmos a validade da venda realizada pela empresa CM do controle acionário da VIGOR para empresa BERTIN é importante verificar no negócio jurídico, tal como entabulado, se operação realizada padece de alguma das causas de nulidade dos negócios jurídicos previstas no artigo 166 e 167 do Código Civil. Antes de analisarmos a simulação apontada no trabalho fiscal, é importante registrar que o contrato questionado não padece de qualquer dos defeitos mencionados no artigo 166. Isso porque a parte era capaz, o objeto era lícito e determinado (venda do controle acionário da VIGOR), o motivo era igualmente lícito, não possuía forma imperativa prescrita em lei e não tinha qualquer cominação de nulidade determinada em lei. Quanto a simulação alegada no trabalho fiscal, pela análise dos autos, entendemos que esta não foi comprovada. Isso porque não há indício de ocorrência de simulação absoluta ou relativa. Com efeito, o objetivo do contrato era conferir o controle acionário da VIGOR para BERTIN. Esse controle acionário poderia se dar por meio da pessoa jurídica CM ou da pessoa física do Recorrente. O fato do recorrente ser o acionista majoritário da pessoa jurídica não retira a distinção necessária entre esta (pessoa jurídica e a pessoa do sócio). Além disso, é importante registrar que o preço previsto para operação e o pagamento das parcelas, não foi, em momento algum, questionado no trabalho fiscal. Em outras palavras, não houve qualquer alegação de que os valores envolvidos fossem menores do que o valor real da operação. Não há que se falar, portanto, em declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. Outro ponto relevante é que, em nenhum momento, a fiscalização apontou qualquer indício de irregularidade ou falsidade dos livros contábeis da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO ou da BERTIN. Esse último dado (regularidade dos registros contábeis) tem especial relevância porque a própria legislação do imposto de renda determina o valor probatório da contabilidade, conforme se verifica pelos artigos 923 e 924 do Regulamento do Imposto de Renda que assim dispõe: Art. 923. A escrituração mantida com observância das disposições legais faz prova a favor do contribuinte dos fatos nela registrados e comprovados por documentos hábeis, segundo sua natureza, ou assim definidos em preceitos legais (Decreto Lei nº 1.598, de 1977, art. 9º, §1º); Fl. 1684DF CARF MF 12 Art. 924. Cabe à autoridade administrativa a prova da inveracidade dos fatos registrados com observância (grifamos) Diante do exposto nos mencionados artigos, é possível concluir que a contabilidade, juntamente com os livros fiscais, é elemento fundamental de toda investigação fiscal. O que se verifica pela documentação trazida aos autos, bem como do relatório fiscal, é que a fiscalização apontou problema na comprovação do ágio registrado pela empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todavia, não levou adiante a investigação quanto ao ágio, tendo, inclusive encerrado o trabalho fiscal junto a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. A jurisprudência deste Conselho é firme em reconhecer a força probatória da contabilidade, a qual poderá se dar a favor ou contra o contribuinte. Na decisão constante do Acórdão nº 2600727, relatado pela Conselheira Bernadete de Oliveira Barros, fica claro que, para desconsiderar a contabilidade como elemento de prova, a autoridade fiscal demonstrar que esta não merecia fé. Vejamos: (...) Vários documentos apreendidos demonstram, ainda, que a empresa Meta Organização Contábil S/C Ltda, sediada em Curitiba, também faz parte do grupo Meta, pois comprova o controle administrativo e financeiro exercido pelo Grupo sobre a referida empresa. A fiscalização, após constatada a existência de folhas de pagamentos frias, de receitas não contabilizadas e de grande volume de tributos suprimidos, entendeu que a contabilidade das empresas do Grupo Meta não era merecedora de fé, sendo imprestável para identificação dos fatos geradores das contribuições previdenciárias o que levou ao entendimento arbitrado. (grifamos) Nesse mesmo sentido, mencionese a decisão proferida no Acórdão nº 205.00929, cuja ementa é a seguinte: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias PERÍODO DE APURAÇÃO: 01/05/2001 a 31/07/2003 RESTITUIÇÃO DA RETENÇÃO DE 11% ESTABELECIDA DA LEI N.º 9.711/98 A restituição dos valores retidos pressupõe a existência de mão de obra compatível com os serviços prestados. Quando a contabilidade não registra o movimento real da remuneração dos segurados a seu serviço, o faturamento e o lucro, serão apuradas, por aferição indireta, as contribuições efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. Recurso Voluntário Negado.(grifamos) Do voto da Conselheira Liege Lacroix Thomasi destacase o seguinte trecho: (...) Também a contabilidade da empresa se mostrou eivada de vícios que a macularam, não podendo comprovar a escassa mão de obra referida pela recorrente. Pelos dados constantes do processo, a fiscalização atestou que a contabilidade da recorrente não se prestou a fazer prova a seu favor pelas inúmeras irregularidades existentes, dentre as quais Fl. 1685DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.680 13 destacase lançamentos contábeis equivocados (fls. 615/622) e pagamentos aos sócios em decorrência do seu trabalho, mas efetuados à título de 'lucro distribuído' antes mesmo da sua apuração. Na análise da contabilidade de uma empresa a auditoria fiscal verifica a obediência das formalidades intrínsecas e extrínsecas determinadas pela legislação comercial, fiscal e resoluções do Conselho Federal de Contabilidade, que visam possibilitar que os usuários da contabilidade possam analisar a situação da empresa versando seus interesses e que a demonstração dos resultados seja correta para apuração dos tributos que forem previstos em lei. Os princípios contábeis que regem a contabilidade visam, justamente, que os demonstrativos reflitam a real situação da empresa no período analisado. Assim a escrituração contábil que preenche os requisitos determinados na legislação, faz prova a favor do contribuinte, contrariamente, aquela que apresenta vícios que a tornam inidônea e os demonstrativos contábeis incorretos, não deve ser considerada. No caso presente, a fiscalização apontou a existência de diversos equívocos contábeis que viciaram a escrita do contribuinte, não podendo fazer prova a seu favor, tendo em vista que, comprovadamente, não registrou o movimento real de remuneração dos segurados a seu serviço e deixou de registrar diversos itens ou contabilizouos de maneira diverso no previsto pela boa técnica contábil ou com divergência da legislação tributária, ou que, diante dos fatos que estão descritos no relatório do indeferimento do pedido de restituição, fls. 688/691, feriu os princípios contábeis. (grifamos) No caso dos autos, entendo que a fiscalização não se desincumbiu do ônus de demonstrar a incorreção ou erro dos lançamentos contábeis relativos à alienação realizada pela empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Isso porque, como já dito, a única objeção apontada em relação a escrituração foi a falta de comprovação do ágio conforme se verifica pelo trecho abaixo transcrito: Do exposto sobre os registros nos livros citados, constatase impossibilidade de determinar com clareza em qual momento as ações passaram a pertencer à pessoa jurídica ou pessoas jurídicas. Sabese, apenas, que elas foram adquiridas pelos Mansur em 1973, mas não se sabe o valor pago, o qual seria a base de tudo para o cálculo do custo contábil quando da sua alienação. No demonstrativo de cálculo, apresentado juntamente com os livros citados, se limitou apenas a indicar o valor do ágio a partir da aquisição das ações pela CM e, a partir daí, passando a corrigilo, porém sem explicar como ele se originou" Conforme se verifica, em momento algum, a fiscalização questionou a alienação efetuada pela empresa. A objeção centravase na ausência de comprovação do ágio, Fl. 1686DF CARF MF 14 que, certamente, poderia impactar a apuração do IRPJ da empresa, mas, de forma alguma, configura um indicativo de que a venda teria sido realizada pelo sócio. Como já dito, a fiscalização não apontou qualquer indício de falsidade dos valores envolvidos na operação e reconheceu o pagamento do preço. É relevante também observar que a empresa CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO decorreu da cisão parcial da empresa CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA em 1988. A fiscalização não contesta a existência da mencionada empresa, existência essa, claramente demonstrada em toda documentação juntada ao trabalho fiscal. Ademais, ainda que se desconsidere os efeitos do distrato realizado em 26/11/2005 e, por conseguinte, se considere que na data da realização da venda pela CM (21/11/2007) esta não possuía a propriedade das ações, a alienação não seria inválida. Isso porque o Código Civil, em seu artigo 1268, §1º, admite validade da chama venda a non domino, nestes termos: Art. 1.268. Feita por quem não seja proprietário, a tradição não aliena a propriedade, exceto se a coisa, oferecida ao público, em leilão ou estabelecimento comercial, for transferida em circunstâncias tais que, ao adquirente de boafé, como a qualquer pessoa, o alienante se afigurar dono. § 1o Se o adquirente estiver de boafé e o alienante adquirir depois a propriedade, considerase realizada a transferência desde o momento em que ocorreu a tradição. (grifamos) Diante do mencionado dispositivo legal, verificase que é possível reconhecer a validade da venda a non domino, desde que o alienante (no caso a CM) se torne adquirente da propriedade. É exatamente o que ocorreu com o desfazimento da transferência do controle da VIGOR para GOULT. Além disso, é importante registrar que a empresa adquirente (BERTIN) participou de todas as operações societárias mencionadas nesse processo. Conforme esclarece ORLANDO GOMES: Parece absurda a venda de coisa alheia, pois, intuitivamente, a coisa vendida deve pertencer ao vendedor. Uma vez, porém, que pelo contrato, o vendedor se obriga, tãosó, a transferir a propriedade da coisa, nada obsta que efetue a venda de bem que ainda não lhe pertence; se consegue adquirilo para fazer a entrega prometida, cumprirá especificamente a obrigação; caso contrário, a venda resolvese em perdas e danos. A venda de coisa alheia não é nula, nem anulável, mas simplesmente ineficaz. (GOMES, Orlando. Contratos. 18 ed. Rio de Janeiro, Forense, 1999, p.228). (grifamos) Nesse mesmo sentido, valiosas as lições de PONTES DE MIRANDA: Uma vez que o contrato de compra e venda é consensual e por ele só se promete a transmissão da propriedade e da posse, ou só da posse, nada obsta a que seja objeto de tal contrato o bem alheio, isto é, o bem de propriedade, ou de posse, ou de propriedade e de posse alheias.Não há qualquer invalidade, nem ineficácia. Se o vendedor vem a prestar, por ter adquirido o bem, ou por ter encarregado o dono de prestar a propriedade e a posse ou só a propriedade ou só a posse, cumpriu o que prometeu. Se falha, inadimpliu, e há consequências do Fl. 1687DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.681 15 inadimplemento. Se prestou propriedade, ou posse, em vez de prestar propriedade e posse, houve adimplemento ruim. A compra e venda do bem alheio é eficaz apenas entre o vendedor e o comprador. Não se pode dizer, a priori, que não tenha efeitos quanto ao terceiro, porque isso depende de outro negócio jurídico, ou situação de direito, entre o vendedor e o terceiro. O terceiro pode propor contra o vendedor as ações que lhe tocam, e talvez não tenha ações, nem pretensões, nem direitos, a despeito de ter sido o dono (MIRANDA, Pontes "Tratado de Direito Privado, vol. 39, ed. Borsoi, 1962, §4.266, nº 3, pg. 26) (grifamos) Dessa forma, todas as circunstâncias que precederam à realização do negócio, ou seja, todo histórico de controle das ações da VIGOR por parte da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO, bem como os contratos firmados pelas partes e refletidos na escrituração contábil e fiscal da empresa, permitem concluir que a venda foi feita pela pessoa jurídica da CM. Da mesma forma, não há que se falar em invalidade do negócio ainda que se conclua que, no momento da alienação, o controle da VIGOR pertencia a empresa GOULT. Isso porque, com o distrato realizado em 26/11/2007, a CM voltou a possuir o controle acionário da VIGOR, consolidando, assim, a propriedade das referidas ações. 2.2) INVALIDADE DO INSTRUMENTO DE RETIFICAÇÃO DO CONTRATO SOCIAL DA GESTIOR PREVENDO A RETIRADA DA GOULT E DO INSTRUMENTO PARTICULAR DE RETIFICAÇÃO, RATIFICAÇÃO, E CONSOLIDAÇÃO DE CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE QUOTAS EM RAZÃO DA AUSÊNCIA DE REGISTRO NA JUCESP Ainda que se considere válida a alienação, é importante analisar se a ausência de registro dos instrumentos societários que concluem o distrato da operação, informada à CVM e ao CADE, poderiam produzir efeitos, uma vez que não foram registrados na JUCESP. Isso porque, conforme exposto no relatório, a fiscalização entendeu que: "Da análise das duas situações apresentadas, constatase que: A primeira operação, declarada à Receita Federal, referese à alienação efetuada pela CM Indústria e Comércio Ltda, das quotas sociais da Gestior, para Bertin S/A, ou seja, tratase de uma operação de pessoa jurídica para pessoa jurídica. (...) No entanto, para que esta operação tivesse validade jurídica, as alterações contratuais que revogaram os efeitos da cisão da CM, transferindo as quotas da Gestior para a Goult, deveriam ser arquivadas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o que não ocorreu. Vale lembrar que os atos sujeitos ao registro público somente têm validade e produzem os efeitos pertinentes a partir da sua formalização. Vejamos o que diz o Código Civil a respeito: Art. 1.154. O ato sujeito a registro, ressalvadas disposições especiais da lei, não pode, antes do cumprimento das respectivas Fl. 1688DF CARF MF 16 formalidades, ser oposto a terceiro, salvo prova de que este o conhecia. Parágrafo único. O terceiro não pode alegar ignorância, desde que cumpridas as referidas formalidades. De acordo com o dispositivo citado, o ato da revogação por meio das alterações contratuais não pode ser oposto a terceiros, incluindo entre estes, a Fazenda Nacional. O registro mencionado no artigo 1157 do Código Civil é exigido para dar publicidade ao ato, a fim de que terceiros possam dele tomar conhecimento e, se for o caso, questionálo. No entanto, como bem ressalta o Recorrente, caso se comprove que terceiro teve acesso ao ato por outros meios, ele gerará todos os efeitos, ainda que não registrado. É exatamente por esse motivo, que o artigo menciona que o ato não poderá ser oposto ao terceiro, salvo prova de que este o conhecia. A Receita Federal tem acesso às informações do contribuinte, em razão das diversas obrigações acessórias a que este está submetido. Sendo assim, é corriqueiro que fiscalização tenha conhecimento dos diversos atos do contribuinte ainda que não realizado o competente registro. Dessa forma, o registro das operações perante a junta é irrelevante para determinar a tributação aplicável. Tanto é assim que diversas autuações fiscais desconsideram as operações registradas na Junta, sob o argumento de que, em seu conjunto, não seriam oponíveis ao fisco. A jurisprudência desse Conselho tem decidido, reiteradamente, que o registro na Junta Comercial é irrelevante para que o ato possua efeitos perante à fiscalização. Nesse sentido, citese o Acórdão 1102001.206, de 24/09/2014, cuja ementa é a seguinte: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 1989, 1990 IRPJ. INCORPORAÇÃO. CRÉDITOS DA INCORPORADA. COMPENSAÇÃO COM DÉBITOS DA INCORPORADORA. POSSIBILIDADE. A incorporação transfere débitos e créditos da incorporada para a incorporadora, a partir do momento em que aprovada pelos sócios o ato societário. O registro da Junta Comercial é mera formalidade que visa dar conhecimento do ato a terceiros para que estes possam questionálo nas hipóteses legalmente previstas. O Fisco, por exigências próprias, toma conhecimento da incorporação no momento da apresentação da declaração de encerramento da empresa. Inexigibilidade do registro para efeitos fiscais. (grifamos) Merece transcrição, pela clareza com que aborda a questão, os seguintes trechos do voto do Conselheiro Relator Francisco Alexandre dos Santos Linhares: O cerne da questão é saber se o crédito. utilizado pela Contribuinte lhe pertencia no momento da compensação' ou se era crédito de terceiro. A, 'contribuinte deliberou, assim como também deliberou a empresa incorporada, operação, de incorporação' da ,segunda pela primeira em' " , 15,03.2003 e Q registrou na JUCEES,em 18.03.2003, antes, portanto, da extinção 'do débito tributário' pela compensação. Também não há, 'questionamento acerca do crédito utilizado. A operação; Fl. 1689DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.682 17 todavia, ainda não foi registrada na JUCERJA, em virtude de exigências formais da própria JUCERJA, Não consta' oposição de credores à incorporação. A dúvida é saber se o ato societário é suficiente para fins fiscais ou se, de fato, o registro, na JUCERJA condiciona à validade da operação. (...) A Lei 6.404/76, aplicável subsidiariamente aos casos da espécie, tem disposição semelhante:. . Art: 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes .sucede em todos'os direitos e obrigações. §1º A assembléia geral da companhia incorporadora. se aprovar. protocolo da operação, deverá autorizar o 'aumento de' capital a ser subscrito e realizado pela incorporada mediante versão do seu patrimônio .liquido, e nomear os peritos que o avaliarão. § 2º A sociedade que houver de ser. incorporada, se aprovar o protocolo da operação. autorizará seus administradores a praticarem;' os atos necessários' à . incorporação. inclusive a subscrição do aumento de capital da incorporadora. § 3 º Aprovados .pela assembléia. geral da incorporadora o laudo de avaliação e a incorporação: extinguese a incorporada, competindo à primeira promover o arquivamento e a publicação dos atos da incorporação. Em ambas as normas, apresentase claro que a extinção da pessoa jurídica se dá no' momento da aprovação do ato societário, que deverá a posteriori, ser.arquivado e publicado. A legislação fiscal não destoa deste entendimento. A Lei.9.430/96 considera o encerramento da empresa; para. fins fiscais, como 'a data do evento societário. Confirase: Art.1º I" A partir do ano calendário de 1997, o imposto de renda das pessoas jurídicas será determinado com base no lucro real, presumido, ou' arbitrado, por períodos de apuração trimestrais, encerrados nos dias 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de. cada ano calendário, observada a'legislação vigente, com as alterações desta Lei. §1 º Nos' casos de 'incorporação, fusão ou cisão, a apuração da base de cálculo e do imposto de renda devido será efetuada na data do evento, observado o disposto no art. 21 da Lei n° 9.249, de 26 de dezembro de 1995. §2°Na'extinção da pessoa jurídica, pelo encerramento da liquidação, a apuração da base de cálculo e do imposto devido será efetuada na data desse evento.' A lei 9.249/95, por sua vez, determina a apresentação do balanço' de encerramento da empresa sem fazer qualquer menção ao registro na Junta Comercial. Fl. 1690DF CARF MF 18 (...) Por fim, o regulamento do imposto de renda mais uma vez fortalece a. interpretação de'que a extinção da pessoa jurídica incorporada se dá na data da deliberação, conforme se vê do artigo 235: Art. 235.A pessoa jurídica que tiver parte ou todo o seu patrimônio absorvido em virtude de incorporação, fusão ou cisão deverá levantar balanço específico na data desse evento (Lei n° 9.249, de 1995, art. 21, e Lei . n° 9.430, de 1996, art. 1º, §1º ). §1ºConsiderase data do evento a data da deliberação que aprovar a incorporação, fusão. ou. cisão. Enfim, para fins fiscais, a data da incorporação, portanto a data em que a. incorporadora assume direitos e obrigações da incorporada, é a data do evento .societário que deliberou a extinção da pessoa jurídica. Não há uma só norma que condicione; a eficácia da incorporação ao registro do ato societário na . junta comercial. Nesta data,' a . pessoa jurídica' incorporadora, sucessora universal da incorporada, passa a figurar na relação obrigacional que tem .como contraparte a Fazenda Nacional e, portanto, a ser. titular do crédito .tributário surgido quando estava em funcionamento a incorporada. Sendo . titular do crédito, o crédito é seu, não de terceiros. Sendo seu o crédito (assim . como sãos seus os débitos da incorporada), pode compensálos com débitos seus também. Não há norma 'que vede a extinção do crédito. por esta modalidade. o registro; como muito bem frisado pela Contribuinte, serve para dar conhecimento a 'terceiros da decisão, para que estes possam oporse ao ato societário, acaso se sintam prejudicados. No caso do Fisco, o arquivamento (é. isto mesmo; mero arquivamento Lei 8.934/94, artigo 32) é absolutamente desnecessário para que ele tome conhecimento do ocorrido e possa se opor ao ato praticado. Isso porque o próprio Fisco impôs obrigações específicas para a. comunicação a ele do ato praticado. De posse da informação,pode manejar todas as ferramentas necessárias para impugnar o ato, caso seja lesivo aos seus interesses. Nesse mesmo sentido, mencionese as decisões constantes dos Acórdãos 1402 001142 e 1402 000 431. Diante do exposto, não há que se falar em invalidade do distrato que reafirmou a operação originalmente efetuada (venda da CM do controle acionário da Vigor por meio da empresa GESTIOR) pelo simples fato de que tal operação não foi registrada na JUCESP. 2.3) DA OPERAÇÃO COMUNICADA AO CADE E À CVM Finalmente, é importante analisar se a operação de venda comunicada ao CADE e a CVM, seria suficiente para desconstituir a alienação realizada pela CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Isso porque mencionados atos foram uma das provas trazidas pela fiscalização para atestar a simulação da venda promovida pela CM e estabelecer a sujeição passiva na pessoa do Recorrente. Fl. 1691DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.683 19 A declaração prestada pelo contribuinte junto à CVM ou ao CADE não é suficiente para, isoladamente, determinar a natureza jurídica do negócio realizado. Como bem ressalta o parecer juntado aos autos, a informação prestada à CVM não tem o condão de anular o ato efetivamente praticado, apenas sujeitaria o Diretor às sanções previstas pelo art. 11 da Lei nº 6.385/76. Da mesma forma, a impropriedade das informações fornecidas ao CADE não tem efeito anulatório do negócio jurídico efetivamente realizado. Isso porque, de acordo como artigo 54, §4º da Lei nº 8.884/94 (que regulava a prevenção e repressão às infrações contra a ordem econômica à época dos fatos geradores), não se exigia a notificação prévia dos atos de concentração. Tais atos geravam os seus efeitos até que o CADE apreciasse a operação e então decidisse pela sua manutenção ou reversão. É importante registrar que, ainda que a operação fosse reprovada, a consequência não seria a nulidade dos atos praticados. Caberia às partes firmar novos negócios jurídicos para desconstituir os efeitos dos negócios já exteriorizados. Além disso, mesmo que exista um pronunciamento formal da CVM definindo a natureza jurídica de determinado ato, tal pronunciamento não será vinculante quanto a sua natureza fiscal. Nesse sentido, elucidativo o exemplo da Deliberação nº 207/96 da CVM que disciplinou a natureza jurídica dos juros sobre o capital próprio, sob o enfoque do acionista, como uma participação no resultado. A pretensão dos contribuintes era de que a referida deliberação fosse vinculante o que determinaria a identificação do JCP aos dividendos. No entanto, o Ministro Mauro Campbell, ao definir a natureza jurídica do JCP no julgamento do Recurso Especial nº 1.200.492/RS (submetido à sistemática do artigo 543 C do Código de Processo de Civil de 1973), fez clara distinção dos efeitos fiscais dos eventos societários, conforme se verifica pela seguinte passagem do seu aditamento ao voto: Desse modo, optandose por um conceito único de JCP, sacrificamse, necessariamente, ou os propósitos tributários da Lei 9.249/95, ou os princípios societários, protegidos pelas Deliberações CVM nº 207/96 e 683/12. A melhor solução, portanto, é a cisão dos efeitos produzidos pelo instituto jurídico para efeitos tributários e para efeitos societários. (grifamos) Em face do exposto, a ausência de submissão de um ato de concentração empresarial ao CADE ou sua submissão errônea não gera sua nulidade e não pode, isoladamente, ser utilizada como prova da simulação. 3) DA INAPLICABILIDADE DA MULTA DE 150% Finalmente, ainda que se considere os atos praticados como simulados, o que, como visto, não foi comprovado, é importante analisar a qualificação da multa promovida pelo trabalho fiscal. Isso porque as divergências quanto à interpretação jurídica dos fatos não se identifica com a fraude, elemento essencial a qualificação da multa. A respeito da impossibilidade de se equiparar a simulação às hipóteses prescritas pelos citados arts. 71, 72 e 73, destaco Acórdão nº 9101002.189, proferido pela Câmara Superior deste Conselho, nestes termos: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Anocalendário: 2001, 2002 MULTA QUALIFICADA. Para que se possa Fl. 1692DF CARF MF 20 preencher a definição do evidente intuito de fraude que autoriza a qualificação da multa, nos termos do artigo 44, II, da Lei 9.430/1996, é imprescindível identificar a conduta praticada: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente, arts. 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. A mera imputação de simulação não é suficiente para a aplicação da multa de 150%, sendo necessário comprovar o dolo, em seus aspectos subjetivo (intenção) e objetivo (prática de um ilícito). (grifamos) No voto vencedor da decisão acima mencionada, proferido pela Conselheira Lívia de Carli Germano, fica claro que a norma relativa à imputação de multa qualificada não faz menção a simulação. Vejamos: “Ocorre que o artigo 44, II, da Lei 9.430/1996 não faz qualquer menção à simulação. Na verdade, tal dispositivo estabelece a aplicação de multa de 150 % nos casos de evidente intuito de fraude, definidos nos arts.71, 72 e 73 da Lei n 4.502, de 30 de novembro de 1964,(...)(redação vigente à época da autuação). Ora, para que se pudesse completar a definição de "evidente intuito de fraude", que autorizaria a qualificação da multa de ofício, seria imprescindível a identificação da conduta praticada pelo contribuinte: se sonegação, fraude ou conluio respectivamente 71, 72 e 73 da Lei 4.502/1964. No caso porém, não houve qualquer fundamentação neste sentido, do que se conclui que o agravamento da penalidade carece de suporte material e, por isso, não pode subsistir” (Processo nº 18471.000009/200633. 1ª Turma. Sessão de 21.01.2016) Em face do exposto, ainda que se entenda que a fiscalização se desincumbiu do ônus de comprovar a simulação, entendo que não foi demonstrada a ocorrência de qualquer das hipóteses dos arts. 71,72 e 73 da Lei nº 4.502/64, motivo pelo qual, a multa aplicada deverá ser reduzida para o percentual de 75%. 4) CONCLUSÃO Em face de todo o exposto, rejeito a preliminar e, no mérito, dou provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Júnia Roberta Gouveia Sampaio Voto Vencedor Conselheiro Marcio Henrique Sales Parada Redator designado. O caso que ora está em análise é bastante complexo, considerando as operações societárias que envolve. Assim, natural que tenha despertado um longo debate, neste Colegiado. Natural também que haja opiniões diversas sobre o assunto, tanto em sede de preliminares quanto de mérito, bem como em relação à aplicação de penalidade. Assim, peço licença à ilustre Relatora, Conselheira Junia Roberta Gouveia Sampaio, bem como ao nobre Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, que expressou voto Fl. 1693DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.684 21 diverso, registrado aqui em sua brilhante declaração, para divergir de suas conclusões pelas seguintes razões que passo a exprimir, buscando ser direto e sucinto. Em relação às nulidades suscitadas pelo contribuinte em seu recurso voluntário, quais sejam: erro na identificação do sujeito passivo e erro no cálculo do tributo devido por "arbitrar" a apuração e não considerar "o custo efetivo da lei", foram rejeitadas pelo colegiado, como já apontado pela Relatora, porque só fazem sentido se fosse admitida a defesa do contribuinte de que quem efetuou a alienação que aqui se discute foi a pessoa jurídica CM e não a pessoa física Carlos Alberto Mansur. Em relação à nulidade da decisão de 1ª instância levantada de ofício pelo Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto, também foi rejeitada pelos membros do colegiado, uma vez que, considerando que a alienação deuse pela pessoa física, não há que se falar ou se admitir que recebimentos por ele realizados decorreram de distribuição de dividendos da pessoa jurídica. Por essas razões, meu voto vencedor cingese às questões em que foi vencida a Relatora. Ao analisar o recurso do contribuinte, verifico três pontos a serem tratados: I haveria erro na identificação do sujeito passivo; II haveria erro no cálculo do tributo (custo de aquisição das quotas alienadas), III estaria incorreta a qualificação da multa aplicada (150%). I O CORRETO SUJEITO PASSIVO DA EXIGÊNCIA TRIBUTÁRIA Para embasar meu raciocínio, colho do Relatório elaborado pela ilustre Relatora os seguintes trechos: Em 21/11/2007 foi assinado o Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças. Por meio do referido contrato, a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA vendeu à BERTIN S/A 56% das quotas do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA (controladora da Vigor), pelo preço de R$ 400.000.000,00, sendo R$ 200.000.000,00 no ato da assinatura e o restante em 25 parcelas atualizadas pela SELIC. Todavia, ao analisar os registros na Junta Comercial do Estado de São Paulo JUCESP, o Parecer Técnico referente a Ato de Concentração da Secretaria de Acompanhamento Econômico, o Relatório do Ato de Concentração emitido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE e os documentos da Comissão de Valores Mobiliários CVM, conclui a fiscalização que a operação efetivamente realizada foi distinta da declarada ao fisco pela empresa fiscalizada. (...) Relata ainda a fiscalização que a GOULT foi constituída em 20/07/2007, tendo como sócios Roberto Mário Amaral de Lima Neto e Carlos David Albuquerque Braga, com capital de R$ 100,00. Em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a Goult recebe a parcela cindida do PL da empresa fiscalizada, Fl. 1694DF CARF MF 22 constitutiva da participação societária de 99,9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da Vigor. O contribuinte Carlos Mansur tinha participação e controle acionário na CM INDÚSTRIA há muito tempo (vejase registro de alteração contratual nas folhas 624 a 645). Então, decidese alienar a VIGOR para a empresa BERTIN (mediante a alienação da GESTIOR, que era controladora da VIGOR). Analisandose e planejandose tal alienação, decidiuse que a melhor forma, ou a mais econômica ou a mais vantajosa, seria diretamente da pessoa física de Carlos Mansur à BERTIN. Para dar ensejo a tal desiderato, constituise a empresa GOULT, uma empresa que não tinha outra finalidade que não viabilizar essa operação de alienação. Vejamos que no Relatório consta que ela foi criada em 20/07/2007, com um capital de R$ 100,00. Logo depois da criação, em 29/10/2007, foi registrada na JUCESP a 1ª Alteração contratual, por meio da qual foi feita a transferência de 99,9% das quotas para o Sr. Carlos Alberto Mansur e 1 quota para Carlos Mansur Filho. Na 2ª alteração contratual a GOULT recebe a parcela cindida do PL da CM INDÚSTRIA, constitutiva da participação societária de 99,9% que ela detinha da GESTIOR PARTICIPAÇÕES – controladora da VIGOR. Por essa narrativa, pareceme claro o "papel" da empresa GOULT, da qual Carlos Mansur detinha, repito, 99,9% das quotas. Além da questão tributária, temse ainda outros campos, como o econômico, o empresarial e o do consumidor, a encaminhar a alienação pela pessoa física. Vejamos que em 27 de novembro de 2007, o jornal O Estado de São Paulo (Estadão), noticiou que "o Grupo Bertin, segundo maior exportador de carne bovina do país, anunciou a compra do controle da Vigor, uma das líderes no mercado de produtos lácteos da região Sudeste". Nessa notícia, que interessa ao mercado e a investidores, informase ainda que "foram compradas 56% do total de 74,69% das ações ordinárias da Goult Participações, de propriedade de Carlos Alberto Mansur...Carlos Alberto vendeu o controle, mas continuará na gestão, dividindo as decisões com os novos controladores...". (disponível em http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,frigorificobertincompraavigor,86375, pesquisa realizada em 29/07/2017). Ou seja, o "nome" de Carlos Alberto Mansur faz diferença no mercado, considerando sua expertise empresarial, e o fato de ter vendido e "continuar na gestão" representa informação relevante e com efeitos econômicos. Além disso, tratandose de grandes grupos empresariais, com ações negociadas em bolsa de valores, interessa também a terceiros e investidores. Logo depois dessas operações, o mesmo jornal O Estado de São Paulo noticiava em 27 de agosto de 2009 que "depois de registrar lucro recorde no segundo trimestre do ano, a Bertin prepara finalmente sua abertura de capital..." A citada cisão na CM INDÚSTRIA foi formalizada em 30 de outubro de 2007 e registrada na JUCESP em 07/12/2007. A partir daí, conforme o registro público, ela não era mais a proprietária indireta da VIGOR (fl. 883 a 903). Ademais, essa operação de alienação da VIGOR, considerandose a necessidade de verificação de concentração econômica, "em benefício da transparência e uniformidade de condutas" e a defesa da concorrência e interesse do consumidor, foi analisada Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.685 23 pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, que emitiu Parecer Técnico em 21 de dezembro de 2007. Concluiu que em se tratando "da compra, pela Bertin, de 56% das quotas representativas do capital social da Goult Participações Ltda, controladora indireta da Vigor", a recomendação era "aprovação sem restrições" (fls. 863 a 867). No Relatório do CADE, que consta das fls. 868 a 870, também foi essa a operação analisada. E se fosse outra operação, onde não existisse Goult e a CM INDÚSTRIA alienasse a VIGOR, através de suas controladas, à BERTIN, qual seria o Parecer da SAE/MF? Não se sabe. E onde estariam o interesse do consumidor, a transparência, a uniformidade e a defesa da concorrência? É que a operação que o contribuinte quer que seja considerada para fins tributários, apenas, não é a operação que foi informada aos órgãos de controle, de interesse público e econômico e aos investidores e consumidores. Ou seja, a ser como pretende o Recorrente, terseia uma realidade diversa, única, no campo tributário. Ressaltese ainda que durante os procedimentos fiscais na CM INDÚSTRIA, intimouse a empresa JBS (fl. 952 a 988), incorporadora da adquirente BERTIN, a apresentar o Contrato de Compra relativo à aquisição das ações da VIGOR efetuada pela BERTIN e o demonstrativo de eventual ágio apurado na operação. A empresa circularizada respondeu para demonstrar o "eventual ágio" a partir da aquisição de 56% do capital da GOULT, pelo valor de R$ 400.000.000,00. Apresentou ainda uma cópia de contrato onde Carlos Mansur e seu filho de um lado e a BERTIN de outro, acertam a venda da VIGOR, "considerando que a GOULT é sócia controladora do capital da GESTIOR ... que por sua vez é acionista controladora da VIGOR...". Destaquese, o contrato que a JBS tinha cópia e conhecia era esse, não de uma alienação pela CM INDÚSTRIA. E foi a partir daí que a fiscalização tomou ciência da real operação. Não foi um redirecionamento, como alega o Recorrente, porque não conseguiu apurar o valor do ágio que a CM contabilizara e que enfim fizera com que a tributação, se a alienação se desse diretamente por ela pessoa jurídica, e não pela pessoa física de Carlos Mansur, ficasse bastante menor. Vejamos que na operação que a Recorrente quer fazer valer perante o Fisco, a alienação dáse pela CM à BERTIN, portanto de pessoa jurídica para pessoa jurídica e, nesse caso, o ganho de capital estaria inserido na apuração de resultados da empresa e a receita seria diminuída dos custos contábeis, incluindo nele um ágio contabilizado, o que fez com que não houvesse ganho de capital a tributar na pessoa jurídica, segundo a fiscalização. O que se verifica é que depois de todos os efeitos, da submissão ao CADE e SAE, do registro na JUCESP, do anúncio perante terceiros, a CM resolve fazer um "distrato", uma "revogação", uma "anulação" do negócio, desde a cisão e transferência do controle da VIGOR à GOULT. Fl. 1696DF CARF MF 24 Entretanto, com reflexo apenas no campo tributário, porque nos demais os efeitos, observase, já estavam exauridos, inclusive com a tradição das quotas e o pagamento do preço diretamente em uma conta da pessoa física de Carlos Mansur, conforme combinado em um dos aditamentos do contrato. Para justificar o recebimento diretamente na conta da pessoa física, o recurso diz que "por seu turno, a CM Industria e Comércio Ltda distribuiu como dividendos aos seus sócios, face seus lucros contabilmente acumulados, a totalidade dos valores recebidos pela mencionada venda, como consta das declarações de rendimentos destes mesmos sócios controladores."(sublinhei) Afigurase uma "conta de chegada", onde a empresa CM distribui, como dividendos não tributáveis, em registro posterior à venda (DIPJ), exatamente o valor das parcelas pagas no negócio que envolveu a pessoa física, que recebeu o dinheiro, e a compradora BERTIN. Resumiu a fiscalização, em seu Termo de Verificação, que: Diante do exposto, até o presente momento, constatase que houve duas versões para a alienação das ações da Vigor, uma, amparada no contrato de compra e venda de 21/11/2007, informada e declarada à Receita Federal e, outra, amparada no contrato de compra e venda de 25/11/2007, informada ao público e demais órgãos governamentais, diferente daquela. Destacou ainda que todos os atos contratuais com a inclusão da GOULT foram arquivados na JUCESP. Entretanto, todos esses atos contratuais foram pretensamente "anulados" por alterações não arquivadas na JUCESP. Segundo Marco Aurélio Greco, ao tratar de planejamento tributário, não há uma definição do que seja um plano, mas a experiência mostra que, como regra, há algumas características que se repetem cuja constância permite afirmar existir essa figura. Em síntese, menciona a circunstância de haver um objetivo escolhido previamente à escolha dos instrumentos a serem utilizados, ou seja, um predomínio do fim sobre o meio. O plano pode se materializar numa única operação ou em um conjunto delas; no segundo caso, importante é sublinhar que ele deve ser visto como uma unidade formada por uma pluralidade de negócios, o que implica o enquadramento no tipo tributário dever ser o do negócio global (conjunto) e não de cada um separadamente. Nesse conceito, assumem importância o efeito prático e a intenção objetiva dos negócios. O autor segue dizendo que um plano tem como características o encadeamento de etapas, explicando que entre essas: a) a posterior só existe se ocorrer a anterior (e vice versa) e b) a anterior “constrói” o pressuposto legal ou 'de fato' do cabimento e da realização da posterior. Aponta ainda, como características de um plano, buscar no arcabouço legal existente uma estrutura formal que sirva ao objetivo visado ainda que ela seja não usual e, por vezes, até mesmo inadequada ao caso concreto, e a neutralização de efeitos indesejáveis que adviriam dos negócios celebrados se eles se mantivessem com o perfil que lhes é próprio. Em relação a essas duas características, aponta a ocorrência de “coincidências”. Conclui que nessas hipóteses, a variável “tempo”, em que os fatos ocorreram, pode assumir papel relevante para aferir a natureza do negócio global e levar à sua adequada Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.686 25 qualificação jurídica (GRECO, Marco Aurélio. Planejamento Tributário. 3ª ed. Dialética Editora, São Paulo: 2011, p. 125/126). A PFN apontou em suas contrarazões várias datas que demonstram ter havido formalização de documentos ao tempo em que as operações estavam concluídas e seus efeitos já se encontravam exauridos (fls. 1522 a 1544). O recurso diz que: "Registrese, ademais, que toda a operação foi retificada e consolidada em 14/05/2009 (fls. 1320/1323) através do Instrumento Particular de Retificação, Ratificação e Consolidação ... ou seja, em data posterior às comunicações feitas ao CADE e ao SEAD, de modo que, se as retificação e consolidação foram posteriores às comunicações, obviamente que as comunicações àqueles órgãos somente poderiam retratar a operação anterior, que deixou de existir em 14/05/2009." (destaques no original) Ou seja, o recurso admite que "a operação anterior", que existiu!, só "deixou de existir em 14/05/2009", depois, portanto, que todos os efeitos, comunicações, registros, tradição e pagamento, já haviam sido realizados. Enfim, analisando essa operação de alienação de participação societária, o que se pode concluir é que o contribuinte escolheu e planejou um caminho a seguir. Nesse caminho, existem a lei, os atos administrativos, o interesse de terceiros e a transparência perante o público. Não se pode, posteriormente, apenas para reduzir a carga tributária, "revogar" ou "anular" (e não se encontram razões ou vícios que justificassem uma anulação) ou desfazer tal operação, sem que houvesse qualquer propósito negocial, uma vez que o fim seria o mesmo, a alienação da VIGOR à BERTIN, havendo reflexo, repito, apenas na redução dos tributos a pagar. Em conclusão, considerandose a operação real, aquela que foi perpetrada e que, ineficazmente, pelas razões aqui expostas, se tentou alterar posteriormente, está correta a identificação do contribuinte na pessoa física de Carlos Alberto Mansur. No recurso (fls. 1479 a 1511) o contribuinte demonstra ter perfeito conhecimento das imputações que lhe são feitas, especificando valores, infrações, enquadramento legal, percentual de multa e a razão de seu agravamento. Alega, contudo, que a fiscalização "não intimou a CM Indústria a lhe explicar porque considerava como válido o primeiro contrato...Tivesse intimado a empresa sob fiscalização, a CM Indústria e Comércio, terlheia apresentado o instrumento, a trazido a estes autos por ocasião da impugnação e tudo estaria esclarecido." Registrese que não se está deixando de analisar nenhuma alegação ou documento do Recorrente sob o argumento de preclusão. De acordo com o Decreto 70.235, de 1972, "é a impugnação da exigência, formalizada por escrito e instruída com os documentos em que se fundamentar" que inaugura a fase litigiosa do procedimento. Então, dizer que na fase que precedeu ao lançamento a CM não foi intimada, e que naquele caso "tudo estaria esclarecido", é entender que haveria um "litígio" antes de formalizado o lançamento. Fl. 1698DF CARF MF 26 Ao contrário, após a formalização da exigência fiscal, o contribuinte autuado, a pessoa física, foi regularmente cientificado do Auto de Infração e foilhe ofertado o direito de impugnar e recorrer, com a apresentação de todos os documentos que lhe fossem convenientes, inclusive em relação à CM Indústria e Comércio, da qual fora sócio controlador. Diz, adicionalmente, que houve um "arbitramento ilegal" da base de cálculo do tributo, quanto ao custo do bem envolvido na apuração do ganho de capital. II PORQUE HAVERIA ERRO NO CÁLCULO DO TRIBUTO, SEGUNDO O RECURSO ? Diz o recurso que: Olvidou que o lançamento do tributo no auto de infração não decorreu de qualquer troca de sujeito passivo ou de operação, mas sim do fato que a fiscalização desconsiderou o custo do ativo vendido, com base no custo de aquisição do mesmo, para eleger em seu lugar outro custo que arbitrou, a seu bel prazer, para o ativo. No TVF, o cálculo do tributo, a partir do ganho de capital apurado para a pessoa física de Carlos Mansur está demonstrado com base no previsto na IN SRF nº 84, de 2001. Considerouse o preço à vista dos 56% das quotas da GOULT, em 25/11/2007, o preço à vista dos restantes 44%, de acordo com a operação exercida em 08/09/2008, e explicouse, a respeito dos custo de aquisição que: E o ganho de capital foi assim calculado: Portanto, não há um "arbitramento a bel prazer", ou um cálculo que impedisse o conhecimento, compreensão e, consequentemente, o contraditório. Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.687 27 Existe um tópico do recurso intitulado: "ii) Custo das Quotas de Capital Alienadas", onde se afirma que "contra todas as evidências, a fiscalização, nestes autos, defende que a transferência ocorreu pela venda das cotas do capital da Goult pelo Sr. Carlos Alberto Mansur, e que a operação como feita e declarada pelo contribuinte consistia em fraude". A seguir, falase da inexistência de "fraude" (que trataremos no item relativo ao agravamento da multa), da contabilização pela CM Indústria e Comércio de ágio em seus Livros contábeis e fiscais e da apuração de seu Lucro Real. Após discorrer sobre o custo de aquisição dos ativos pela CM, em uma história iniciada em 1973, e da formação de ágio, conclui o recurso que "fato é que o custo dos ativos alienados como declarado é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas..." Mas vejamos que o pretenso "erro" ou "arbitramento ilegal" que teria sido efetuado pela fiscalização ao apurar o ganho de capital decorrente da operação em questão, na pessoa física de Carlos Mansur não é expressamente apontado ou questionado. O que se questiona neste tópico é o mesmo que já foi debatido no anterior, que o sujeito passivo não seria Carlos Mansur mas a CM Indústria e Comércio, e, se fosse a pessoa jurídica, haveria um "outro custo", com composição de ágio, a ser considerado. Mas, já se deixou claro aqui porque se entende que o sujeito passivo não é a CM pessoa jurídica, e sim Carlos Mansur e, sendo assim, nada existe para ser tratado, em alegado erro de cálculo de apuração, pois o cálculo empregado está descrito e demonstrado no Termo de Verificação Fiscal, e onde está o erro, se considerar que o sujeito passivo é a pessoa física, o recurso não aponta. III MULTA QUALIFICADA. MANUTENÇÃO. Existe também um tópico intitulado "i) do indevido agravamento da multa ausência de fraude". Primeiro, a fiscalização não "tomou outro rumo" porque não conseguiu apurar o custo de aquisição dos bens alienados. Ela tomou outro rumo porque durante seu procedimento descobriu, mediante informações prestadas por terceiros, que havia uma "outra operação", que até então lhe fora ocultada. Surgiu um contrato de compra e venda em que aparecia a GOULT, que detinha as quotas da VIGOR, alienadas à BERTIN. Uma operação que a CM Indústria tentara desfazer, com atos posteriores, não registrados na JUCESP nem informados aos órgãos de controle econômico, como já se tratou aqui. E aí, no recurso, sublinhase novamente que a fiscalização "não logrou opor qualquer reparo ao custo apurado e declarado pela CM na venda mencionada." Mas, de novo, não se está considerando que foi a CM quem vendeu, mas a pessoa física, como já tratado. Então, o fato de não se contradizer o custo apurado pela CM não é a base para a qualificação ou não da multa. No Acórdão 9202003.128, de 27 de março de 2014, consta que: MULTA QUALIFICADA. MANUTENÇÃO. Fl. 1700DF CARF MF 28 A fraude se caracteriza por uma ação ou omissão, de uma simulação ou ocultação, e pressupõe, sempre, a intenção de causar dano à fazenda pública, num propósito de liberado de se subtrair no todo ou em parte a uma obrigação tributária. Assim, ainda que o conceito de fraude seja amplo, deve sempre estar caracterizada a presença do dolo, um comportamento intencional, específico, de causar dano à fazenda pública, onde, utilizandose de subterfúgios, escamoteia na ocorrência do fato gerador ou retardam o seu conhecimento por parte da autoridade fazendária. Ou seja, o dolo é elemento específico da sonegação, da fraude e do conluio, que a diferenciada declaração inexata ou da falta ou pagamento a menor do tributo ou da omissão de rendimentos na declaração de ajuste anual, seja ela pelos mais variados motivos que se possa alegar. Dessa forma, o intuito doloso deve estar plenamente demonstrado (nota fiscal fria, calçada, declaração do beneficiário do pagamento de que não prestou os serviços etc), sob pena de não restarem evidenciados os ardis característicos da fraude, elementos indispensáveis para ensejar o lançamento da multa qualificada. O intuito do contribuinte de fraudar não pode ser presumido: Compete ao fisco exibir os fundamentos concretos que revelem a presença da conduta dolosa. Se, por um lado, cabe ao contribuinte comprovar as despesas deduzidas dos rendimentos tributáveis declarados, sob pena de serem glosados, como ocorreu no lançamento em comento, de outra banda, compete à fiscalização apresentar os elementos de prova que demonstrem a intenção do contribuinte de fraudar o fisco. A multa qualificada não é aplicada somente quando existem nos autos documentos com fraudes materiais, como contratos e recibos falsos, notas frias etc. Decorre também da análise da conduta ou dos procedimentos adotados pelo contribuinte que emergem do processo.(...)(sublinhei) A lei 4.502/64, art. 72, conceituou fraude como “toda ação ou omissão dolosa tendente a impedir ou retardar, total ou parcialmente, a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, ou a excluir ou modificar as suas características essenciais, de modo a reduzir o montante do imposto devido, ou a evitar ou diferir o seu pagamento.” Na lição de VENOSA: A fraude é vício de muitas faces. Está presente em um sem número de situações na vida social e no Direito. Sua compreensão mais acessível é a de todo artifício malicioso que uma pessoa emprega com intenção de transgredir o Direito ou prejudicar interesses de terceiros. A má fé encontra guarida não só na fraude, mas também em outros vícios, como dolo, coação e simulação. (VENOSA. Silvio de Salvo, Direito Civil, 4ª ed. Parte Geral. Atlas: 2004, p. 505/506) A multa de 150%, segundo PAULO DE BARROS CARVALHO, “é a espécie de multa que tem por conteúdo a agravação da penalidade...É aplicada quando a Administração demonstra, por elementos seguros de prova, no Auto de Infração, a existência da intenção do sujeito infrator de atuar com dolo, fraudar ou simular situação perante o Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.688 29 Fisco” (CARVALHO, Paulo de Barros, Curso de Direito Tributário, 21 ed. Saraiva, 2009, p. 581). Pelo que se pode perceber, "fraude é vício de muitas faces" e na sua caracterização e para a aplicação da multa qualificada que aqui se discute, deve estar presente o dolo. Ao final de nossa análise quanto à questão da identificação do sujeito passivo como sendo a pessoa física, dissemos que não encontramos propósito negocial no pretenso "desfazimento" do negócio inicialmente perpetrado, registrado e informado, que não reduzir a carga tributária. Assim, a intenção dos agentes pareceunos clara. Após exauridos os efeitos dos atos praticados, intentouse dar forma a uma outra operação, que não teria mais efeitos econômicos, porque já analisada pelos órgãos de controle, ou efeitos perante terceiros porque já registrada (e assim ficou) na JUCESP. Também já fora divulgada a investidores e futuros compradores/adquirentes, como aconteceu com a JBS, que enfim tinha arquivado era o contrato entre os Mansur e a BERTIN. Não é possível, assim, verificar que não tenha havido intenção de reduzir a carga tributária a ser suportada pelas pessoas envolvidas, quando se busca fazer uma "nova operação", entregando declarações ao Fisco informandoa. Aliás, esse é outro grande argumento do recurso, de que nas declarações entregues ao Fisco, a operação informada era aquela envolvendo duas pessoas jurídicas e não a pessoa física. Mas observamos que na DIPJ/2008, a GOULT, que tinha como sócios BERTIN S/A com 56% e Carlos Alberto Mansur com 44%, declarouse "dona" da GESTIOR (que detinha as ações da VIGOR), no valor de R$ 127.194.825,67. (fl. 1164 a 1185). Na DIPJ seguinte, relativa ao ano calendário de 2008, a GOULT já informa que tinha como sócios BERTIN, com 99,99% e uma outra pessoa física, com 0,01%. Essas declarações também foram entregues à Receita Federal. E o que está correto, afinal? E a CM também se declara em DIPJ "dona" (indireta) das ações da VIGOR? Existe uma inconsistência. O recurso diz que: Ora, é mais que óbvio de que houve um erro de fato no preenchimento dos documentos de fls. 989/996 e 997/999, um mero erro de digitação na data aposta nos documentos, erro este que, absolutamente, não poderia subtrair dos documentos societários a força probatória que a lei lhes atribui, muito menos alterar a verdade dos fatos. O documento de fls. 989/996 é o "instrumento particular de reratificação de alteração do contrato social datada de 30.10.2007 e outras avenças". A fiscalização anotou que ele não fora registrado na JUCESP. Objetivava anular a cisão da CM, a qual tinha transferido a participação na GESTIOR para a GOULT. Ele está datado em 26/11/2007 e diz que seu objetivo era alterar um outro contrato, que só seria registrado na JUCESP em 07/12/2007. Fl. 1702DF CARF MF 30 O documento de fls. 997 a 999 é a revogação da entrada da GOULT como sócia da GESTIOR. Também não foi registrado na JUCESP, segundo anotado pela fiscalização. Tem data de 26/11/2007 e objetiva retificar uma alteração de contrato social que só seria registrada na JUCESP em 09/01/2008. Não faz nenhum sentido que mediante instrumentos que sequer viriam a ser registrados, se alterasse, em novembro, outros instrumentos que só seriam registrados em dezembro e janeiro seguintes. Obviamente que, elaborados posteriormente, os instrumentos foram antedatados e, data vênia, creditar isso a "erro de digitação", considerando as operações que aqui se analisam, é incrível. Temse ainda o seguinte registro, no TVF, em relação à conduta do agente, em relação a registros documentais: Enfim, ao realizar um negócio jurídico e informar a operação de duas formas diversas, está clara a intenção do contribuinte em reduzir a carga tributária incidente sobre a alienação. Para a Receita Federal, apresentou DIPJ's com informações conflitantes, defendendo perante a fiscalização, posteriormente, aquela que mais lhe convinha; para o mercado e para a Junta Comercial, ou seja, para o público, deixou clara a real operação realizada, que o foi pela pessoa física, envolvendo a GOULT. Informar à Receita Federal atos e negócios que enfim se reputa dissociados da realidade fática, com o intuito de reduzir a carga tributária, caracteriza enfim a "fraude" e aqui se procurou ainda demonstrar a intenção do agente, que inclusive apresentou à fiscalização documentos com datas e fatos irreais. Entendese, portanto, que houve sim um retardamento de recolhimento de tributos, que enfim ensejaria um não recolhimento, caso não houvesse o procedimento de ofício que aqui se analisa. Presentes, dessa feita, os antecedentes e os conseqüentes, para a aplicação da multa qualificada. CONCLUSÃO Sendo assim, VOTO por negar provimento ao recurso, mantendo a qualificação da multa. (assinado digitalmente) Marcio Henrique Sales Parada. Fl. 1703DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.689 31 Declaração de Voto Conselheiro Dilson Jatahy Fonseca Neto. Congratulo a i.Relatora pela clareza do seu relatório e pela bem fundamentada e minuciosa exposição dos fatos e da posição doutrinária adotada. Igualmente, registro os louros que merece a posição do voto que inaugurou a divergência, já verbalmente antecipado nesta sessão. Contudo, considero necessário incluir terceira posição, vez que não me filio a nenhum dos dois votos proferidos. Preliminar: É imperioso que esta turma, antes de adentrar no mérito, analise questão preliminar suscitada pelo Recorrente. Ainda que tenha sido ofuscada pela relevância da discussão de mérito, especificamente acerca da sujeição passiva, não pode ser olvidada: afirma o Contribuinte que houve omissão no acórdão recorrido, senão vejamos: "Ressaltase, desde já, que o auto de infração, contrariando o disposto no §2º do artigo 3º da Lei nº 7.713/88, considerou como custo na apuração que procedeu, um valor que houve por bem arbitrar, e não o custo efetivo de lei. Assim ainda que viesse a ser admitida a mudança arbitrária do sujeito passivo como pretendeu o auto de infração, ainda assim o mesmo estaria eivado de vício por não obedecer o preceito legal quanto ao custo do bem envolvido na apuração de ganho de capital. Sobre esta ilegalidade, aliás, não se pronunciou a decisão recorrida, preferiu ignorála. " fl. 1.481 (grifo no original); Remontando à Impugnação, percebese que o Contribuinte efetivamente levantou a questão do arbitramento do custo de aquisição. Fêlo não apenas no tópico em que combateu o "agravamento" (qualificação) da multa, mas também abriu todo um tópico para o tema, senão vejamos: "A diferença apurada nestes autos não decorre deste fato, a diferença de imposto que se tenta cobrar é decorrente do fato que a fiscalização abandonou o custo apurado para a operação sem explicar o porquê, e adotou um outro custo, artificial, ao seu bel prazer, sem nenhum respaldo legal. A lei estabelece que o custo do ativo alienado é o valor pago por ele. A fiscalização, contudo, atribuiu a venda a quem não era o proprietário do ativo, e com isto teve de dar um passo além, qual seja, o de ungirse da liberdade de decretar o custo do ativo. Decretou este custo de forma a produzir a diferença de imposto que tenta cobrar nestes autos. Diferença, portanto, que não decorre de nenhuma manobra de qualquer um dos contribuintes presentes nestes autos que visasse disfarçar uma operação real com alguma outra que lhe fosse mais favorável." fl. 1.310; (...) Fl. 1704DF CARF MF 32 "Repitase, o que houve foi que a fiscalização, percebendo a correção do lucro apurado pela pessoa jurídica, tentou tributar na pessoa física, arrumandolhe um custo, a seu critério em substituição ao custo de lei." fl. 1.311; (...) "A diferença de imposto, como também já vimos, é decorrente de dois fatores, o primeiro é negar ao contribuinte o legítimo custo da operação e o segundo em transformar dividendos, renda classificada pela lei como não tributável, em rendimento sujeito á tributação. Em ambos os casos, a pretensa diferença no imposto apurada pela fiscalização nada tem a ver com a tal fraude que os autos tentam, mas não conseguem demonstrar." fl. 1.313; (...) "Não é possível, em razão de todas essas transformações, seja da empresa, seja do País, pois só neste período tiveram em curso quatro moedas diferentes, se determinar o custo de um investimento através de uma pesquisa no Registro do Comércio, como fez a fiscalização, em detrimento dos livros Diário da empresa intervenientes e dos livros LALUR. Considerada a complexidade para o controle dos investimentos em empresas coligadas e controladas avaliadas por equivalência patrimonial fica evidente que não há como se chegar ao custo fiscal do investimento sem se fazer valor do LALUR, livro desprezado pela fiscalização, no presente caso. (...) Fato é que o custo dos ativos alienados como declarados é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas. Se encontrou um erro no custo declarado, então porque não autuou a quem de direito? Para evidenciar o que ora se afirma, e facilitar a localização, o impugnante anexa co´pias do Livro Diário e Razão onde foram apurados pela CM Indústria e Comércio os resultados da participação societária, a baixa no LALUR dos custos ali controlados (docs. anexos)..." fl. 1.315 Por sua vez, o acórdão recorrido chegou a incluir tal argumento no relatório, na parte da impugnação ver itens 21, 27, 30, 32, 33 e 34 do relatório do acórdão recorrido (fls. 1.453/1.454). No voto, entretanto, apenas afirmou que: "Em relação aos cálculos do ganho de capital, o impugnante não apresenta nenhuma contestação específica." fl. 1.466; Perguntase: dessa afirmação, é possível entender que a DRJ concordou com o lançamento? que a forma como foi apurada a base de cálculo foi analisada? Não se trata de julgamento; há, pelo contrário, declaração expressa de que não se julgará a matéria. Não se discute aqui o mérito da questão, mas apenas a nulidade por cerceamento do direito de defesa. Voltando à Impugnação, especificamente nos excertos transcritos, percebese que o Contribuinte foi claro em afirmar que entende que o custo de Fl. 1705DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.690 33 aquisição da apuração do ganho de capital deve ser aquele mesmo calculado pela CM Indústria em sua contabilidade, senão vejamos novamente: "A diferença apurada nestes autos não decorre deste fato, a diferença de imposto que se tenta cobrar é decorrente do fato que a fiscalização abandonou o custo apurado para a operação sem explicar o porquê, e adotou um outro custo, artificial, ao seu bel prazer, sem nenhum respaldo legal." fl. 1.310; (...) "A diferença de imposto, como também já vimos, é decorrente de dois fatores, o primeiro é negar ao contribuinte o legítimo custo da operação e o segundo em transformar dividendos, renda classificada pela lei como não tributável, em rendimento sujeito á tributação. Em ambos os casos, a pretensa diferença no imposto apurada pela fiscalização nada tem a ver com a tal fraude que os autos tentam, mas não conseguem demonstrar." fl. 1.313; (...) "Fato é que o custo dos ativos alienados como declarados é o correto, a fiscalização nada conseguiu, além de levantar suspeitas infundadas. Se encontrou um erro no custo declarado, então porque não autuou a quem de direito? Para evidenciar o que ora se afirma, e facilitar a localização, o impugnante anexa cópias do Livro Diário e Razão onde foram apurados pela CM Indústria e Comércio os resultados da participação societária, a baixa no LALUR dos custos ali controlados (docs. anexos)..." fl. 1.315 De outra banda, a Procuradoria da Fazenda Nacional também identificou a contestação dessa questão, tanto assim que discorreu sobre a matéria em suas Contrarrazões: "Já o custo de aquisição corresponde ao valor do capital social de R$ 74.510.099,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e dez mil, noventa e nove reais), dividido em 74.510.099 quotas iguais, com valor nominal de R$ 1,00 cada, conforme constou da segunda alteração do contrato social da Goult Participações. Frisese que, no período, não houve a incorporação de lucros ou reservas de lucro de modo a aumentar o custo de aquisição. A metodologia de cálculo utilizada pela fiscalização não apresenta equívocos. No recurso, ao tratar do “custo das cotas de capital alienadas”, o contribuinte insiste em trazer para discussão fatos que envolvem a empresa CM Indústria e Comércio. Porém, como já foi exposto acima, a verdadeira operação foi realizada pela pessoa física. Dessarte, despiciendo enfrentar alegações que envolvem pessoa jurídica que não auferiu o ganho de capital." fl. 1.544; Enfim, a correta identificação do custo de aquisição é elemento essencial para a apuração da base de cálculo (ganho de capital) e do próprio Imposto de Renda. Fl. 1706DF CARF MF 34 A análise dessa questão poderia ter levado a DRJ a proferir decisão diametralmente oposta. Ou não. Não cabe fazer julgamento de mérito sobre a questão, em sede de preliminar. Certo é, entretanto, que a omissão cerceou o direito de defesa do Recorrente, até porque não tem noção dos argumentos que poderia ter acrescentado ao recurso sobre a matéria. Constatase, portanto, hipótese de omissão no acórdão recorrido, incidindo no art. 59, II, do Decreto nº 70.235/1972, cerceamento do direito de defesa. Da segunda infração: No ensejo da omissão acima, constatase do auto de infração e do TVF que foram imputadas ao Contribuinte duas infrações: "001 GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE BENS E DIREITOS OMISSÃO DE GANHOS DE CAPITAL NA ALIENAÇÃO DE AÇÕES/COTAS NÃO NEGOCIADAS EM BOLSA Omissão de ganhos de capital obtidos na alienação de ações ou quotas, conforme Termo de Verificação Fiscal, parte integrante e indissociável deste Auto de Infração." fl. 1.268 (...) "002 OMISSÃO DE RENDIMENTOS Omissão de rendimentos apurados conforme descrita no Termo de Verificação Fiscal, parte integrante e indissociável deste Auto de Infração." fl. 1.271; Segundo o TVF, tratamse dos "acréscimos sobre as parcelas", que foram tributados separadamente do ganho de capital (fl. 1.244). Em relação à segunda infração, o Contribuinte argumentou na impugnação que: "A segunda pretensa infração, apontada no auto de infração é qualificada, singelamente, como "OMISSÃO DE RENDIMENTOS". Esta omissão teria se configurado pela não inclusão na Declaração de Rendimentos do impugnante de trinta e seis parcelas entradas na conta bancária do impugnante, nos meses de dezembro de 2.007 a dezembro de 2.010, exceto no mês de fevereiro de 2.010, totalizando a quantia de R$ 75.376.244,47 (...)." 1.290; "Tais valores, também, correspondem a dividendos creditados ao impugnante e regularmente declarados em suas Declarações de Ajustes (fls. 1144 e seguintes e 1155 e seguintes)" fl. 1.293; Novamente, o acórdão quedou silente sobre a matéria. Dessa vez, porém, não há uma única linha discorrendo sobre a contestação, nem mesmo para afirmar que foi genérica e não merece julgamento. Imperioso ressaltar que o Contribuinte voltou a contestar a segunda infração no seu Recurso Voluntário, nos exatos termos da Impugnação (fl. 1.481). Pois bem. Tratase de nova omissão no acórdão recorrido, configurando nova hipótese de cerceamento do direito de defesa. Fl. 1707DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.691 35 MÉRITO: Tendo sido vencido em relação às nulidades do acórdão recorrido, dou continuidade ao julgamento da lide. Da Infração 001: Chegando à questão central dessa lide, encontrome numa situação efetivamente curiosa. Como já foi suscitado aqui pelo patrono, foi demonstrado nos pareceres e é de conhecimento público, a Fazenda Nacional tem tendência a desconsiderar atos de reorganização social que, sem o que denominam "propósito negocial", findem por levar a estruturas que diminuem a tributação. É o caso, por exemplo, da empresa veículo utilizadas em relação ao ágio ou à alienação de ativos especificamente no tocante à apuração de ganho de capital. Por sua vez, os Contribuinte muito se utilizaram dessa estrutura criação de uma empresa cujo propósito é exatamente transferir um determinado ativo para outrem, operação de casa e separa etc. , entre outros motivos, por levar a uma economia tributária. Este e.CARF tem muitas vezes aceito essa posição apresentada pela Fazenda e afastado negócios jurídicos formalmente perfeitos ao argumento de que não têm uma "substância" subjacente. Por exemplo: Acórdão CSRF nº 9101002.429, de 18/08/2016: OPERAÇÕES DE REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA. PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS. FALTA DE PROPÓSITO NEGOCIAL. INADMISSIBILIDADE. Não se pode admitir, à luz dos princípios constitucionais e legais entre eles os da função social da propriedade e do contrato e da conformidade da ordem econômica aos ditames da justiça social , que, a prática de operações de reorganização societária, seja aceita para fins tributários, pelo só fato de que há, do ponto de vista formal, lisura per se dos atos quando analisados individualmente, ainda que sem propósito negocial. GANHO DE CAPITAL. CONSTITUIÇÃO DE SOCIEDADE SEM PROPÓSITO NEGOCIAL. PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ABUSIVO. O sólido e convergente acervo probatório produzido nos autos demonstra que o contribuinte valeuse da criação de uma sociedade, para a alienação de bens classificados em seu ativo permanente, evadindose da devida apuração do respectivo ganho de capital, por meio de simulação, que é reforçada pela ausência propósito negocial para sua realização. (...) Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer o Recurso Especial do Contribuinte, vencido o Fl. 1708DF CARF MF 36 conselheiro Rafael Vidal de Araújo, que não o conheceu. E, no mérito, em negarlhe provimento: i) por maioria de votos, quanto ao planejamento tributário abusivo, vencidos os conselheiros Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), que lhe deram provimento; e ii) por voto de qualidade, quanto à qualificação da multa, vencidos os conselheiros Cristiane Silva Costa, Luís Flávio Neto, Nathalia Correia Pompeu e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio), que lhe deram provimento. Solicitaram apresentar declaração de voto os conselheiros Luís Flávio Neto e Marcos Antonio Nepomuceno Feitosa (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio). No voto vencedor, o conselheiro relator esclareceu que as razões pela qual entendeu inválido o planejamento efetuado. Convém breve transcrição: " Alegam as contribuintes, em seu recurso especial, que “não se deve perder de vista o fato de que a Constituição Federal consagrou a autonomia privada como direito fundamental, direito este consistente na aptidão conferida ao cidadão em se autorregular em suas relações privadas, desde que observados os limites de licitude e interesse coletivo constantes do ordenamento jurídico brasileiro.” (efls.793) Ora, é justamente o interesse coletivo que deve delimitar aquela autonomia privada. Explicase. Até poucas décadas atrás, assim no Brasil, como no mundo, prevalecia o pensamento liberal, que privilegiava a liberdade econômica e a propriedade privada, em detrimento de quaisquer outros interesses sociais. Tal pensamento, com o correr dos anos, quedouse superado por aquele que passou a priorizar o bemestar social. A Constituição Federal de 1988, em vários de seus dispositivos, deixa claro esse novo posicionamento (...) É, pois, o interesse coletivo que impede que as empresas ajam, em seus negócios particulares, como se não pertencessem a uma coletividade, a uma comunidade, a um grupo social. É bem verdade que, a se entender que eventual vantagem fiscal que se possa ter em razão de determinada estrutura de negócios seja impeditiva à realização do próprio negócio em si, terseia a invalidade, para fins tributários, de boa parte das incorporações, fusões e cisões que comumente ocorrem nas atividades empresariais (mas não é este o caso presente). Isso porque é evidente que, para o emprego dessas operações de rearranjo societário, pelas empresas, são analisados, dentre outros aspectos, também o aspecto tributário. Fl. 1709DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.692 37 Porém, o que não se pode admitir, à luz dos princípios constitucionais e legais acima expostos entre eles os da função social da propriedade e do contrato e da conformidade da ordem econômica aos ditames da justiça social —, é que, para a adoção dessas operações, seja analisado, única e exclusivamente, o seu aspecto tributário (falta de propósito negocial). Por outro lado, a adoção de operações de reorganização societária, pelas empresas, de forma a esconder, ou subtrair à incidência tributária, a verdadeira operação da qual resulta as operações, implica a consideração dessas operações como simuladas, com a consequente qualificação da multa de ofício aplicada. Isso porque, não possuindo essas operações qualquer propósito negocial, configuramse, antes, meros artifícios jurídicos, simples truques organizacionais, objetivando burlar a tributação, ao aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas (“empresas veículo”, “interpostas pessoas”, “testas de ferro”, “laranjas”, etc.) daquelas às quais realmente se conferem, ou transmitem, na precisa dicção do § 1º do art. 167 do Novo Código Civil, e dessa forma, impedindo ou retardando, total ou parcialmente, o conhecimento, por parte da autoridade fazendária, da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária principal, sua natureza ou circunstâncias materiais, ou das condições pessoais do contribuinte, suscetíveis de afetar a obrigação tributária principal ou o crédito tributário correspondente (art. 71 da Lei nº 4.502, de 30 de novembro de 1964). No presente caso, o que se verifica é que a reorganização societária procedida consubstanciouse em operação simulada que visou, exclusivamente, uma indevida redução tributária sobre alienações de imóveis e florestas. Basta ver que a empresa Saiqui, originária de cisão da Transpinho como muito bem ressaltado na decisão da DRJ e no voto vencedor da decisão recorrida não possuía qualquer estrutura física ou mãodeobra apta a desenvolver as atividades objeto de seu contrato social: (...) Além disso, os imóveis por ela (Saiqui) transacionados, e que foram, todos, recebidos de seus sócios mediante integralização de capital, foram a eles mesmos restituídos, por meio de distribuição de lucros, com a consequente descapitalização total da empresa ao final dessas operações. Assim, procedente a afirmação da Fazenda Nacional, em contrarrazões, de que, na realidade, estáse diante de uma “empresa veículo, com único intuito de diminuir a tributação sobre as operações realizadas” (efls. 960). Ou seja, em que pese a regularidade formal das operações, como a venda dos ativos foi feita de por meio de operação que Fl. 1710DF CARF MF 38 escondeu a verdadeira operação realizada, caracterizando a simulação com o objetivo exclusivo de economia tributária. A simulação, que é dolosa, no caso em questão, restou caracterizada pelo dolo específico do tipo previsto art. 44 da Lei 9.430/1996, que remete ao art. 71 da Lei n. 4.502/1964, impondo a multa qualificada." Imprescindível, entretanto, ler a brilhante Declaração de Voto proferida também neste mesmo acórdão nº 9101002.429, e que transcrevo alguns trechos: "Colhese do clássico ensinamento de EZIO VANONI1 que, “no direito privado, a causa é sinteticamente definida como a razão econômicojurídica do negócio, como a finalidade a que se destina o negócio objetivamente considerado. Por outras palavras, causa é a função prática que caracteriza o negócio jurídico, em garantia da qual o direito concede a sua tutela”. No caso, a causa da reorganização patrimonial ora sob julgamento consiste na segregação de parcela do patrimônio do particular para integralização de capital personalidade jurídica de entidade reconhecida pelo Direito para a exploração de atividade econômica no setor imobiliário. A motivação de reorganizações patrimoniais dessa natureza pode ser muito variada e, diante de seu caráter íntimo, não apresenta relevância jurídica. (...) (...) No Brasil, o particular possui um núcleo de direitos livre de intervenções, dentro do qual está inserido o planejamento tributário1. Mais especificadamente, essa garantia dos contribuintes decorre das liberdades econômicas asseguradas pelo Constituinte. Conforme leciona TÉRCIO SAMPAIO FERRAZ JÚNIOR2, essas liberdades atribuem ao ser humano um espaço que não pode ser absorvido pela sociabilidade, tendose como reconhecida a capacidade de “reger o próprio destino, expressar a sua singularidade como indivíduo, igual entre iguais: o homem como distinto e singular entre iguais”. Não há dúvidas que o Estado, por meio da tributação, deve participar dos resultados econômicos bem sucedidos dos particulares a ele conectados. Conforme o princípio da legalidade, o legislador deve eleger, dentro de seu respectivo âmbito de competência tributária, fatos geradores que captem capacidades contributivas conforme uma dosagem adequada. Dessa forma, ao mesmo tempo em que a Constituição Federal garante aos particulares a existência desse âmbito de liberdade, outorga ao Poder Legislativo a competência para regular e interferir em seu exercício, inclusive no que diz respeito aos planejamentos tributários. Não se trata de questão reclusa ao Direito brasileiro: geralmente, há nos ordenamentos jurídicos estrangeiros normas gerais general anti avoindance rules – 1 Nesse sentido, vide: ÁVILA, Humberto. Eficácia do Novo Código Civil na Legislação Tributária. In Grumpenmacher, Betina Treiger (coord.) Direito Tributário e o novo Código Civil São Paulo: Quartier Latin, 2004, p. 7577. 2 FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito Constitucional: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos fundamentais e outros temas. – Barueri, SP : Manole, 2007, p. 196. Fl. 1711DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.693 39 GAAR) ou normas específicas (specific anti avoindance rules – SAAR) para a reação aos planejamentos tributários não tolerados. As normas gerais de reação ao planejamento tributário se prestam a alcançar algumas ou todas as espécies tributárias, com a prescrição de critérios para a identificação do “abuso”. Já as normas específicas incluem no âmbito de incidência da norma tributária, casuisticamente, situações que a experiência tenha demonstrado serem utilizadas pelo contribuinte como substitutas não tributadas ou ainda menos onerosas e que, por decisão do legislador, devem ser submetidas àquela tributação mais onerosa. No Brasil, diante de decisão clara do legislador brasileiro, compete à administração fiscal o papel de atribuir eficácia à intervenção estatal sobre as liberdades econômicas dos particulares, especialmente sobre o seu patrimônio. Essa intervenção, no entanto, depende prévia e clara autorização do legislador. (...) Há mais um esclarecimento que se mostra necessário em face do planejamento tributário sob análise: não há qualquer norma, no ordenamento jurídico brasileiro, que autorize distinguir reorganizações patrimoniais motivadas por proposítos tributários ou extratributários. A adoção desse critério, à sombra da lacuna legislativa, entre muitos outros óbices que podem ser suscitados, encontra vedação no art. 108 do CTN, por ofensa à equidade e aos princípios gerais de direito público. A título ilustrativo, suponhase que um casal (“A”) vislumbre na reorganização patrimonial, com integralização de todos os seus imóveis em uma pessoa jurídica imobiliária, a forma de evitar longas disputas entre os herdeiros após a sua morte. Suponha se, ainda, que o casal vizinho (“B”), que não possui filhos, decida conduzir reorganização semelhante, mas com o único motivo de usufruir do regime de tributação do lucro presumido. Suponhase, então, que ambos os casais conduzam reorganização semelhante, passando a explorar, de fato, a atividade imobiliária por meio de suas respectivas pessoas jurídicas. Nesse exemplo, haveria tratamento não isonômico entre os casais “A” e “B” caso, para fins de opção à sistemática do lucro presumido, fosse utilizado como critério de discriminação a existência de motivos extratributários (“propósito negocial”). Enquanto o primeiro casal (“A”) poderia gozar da opção de submeter os rendimentos com aluguel e venda de bens imóveis à tributação conforme a sistemática do lucro presumido, o casal vizinho (“B”) restaria privado dessa opção, de forma submeter rendimentos de natureza semelhante obrigatoriamente à tributação pelo lucro real. Fl. 1712DF CARF MF 40 No entanto, NÃO há lei que autorize a referida discriminação com base na aferição subjetiva de motivos extratributários (“propósitos negociais”). Apenas se poderia atribuir tratamento distinto entre contribuinte que se encontram em condições semelhantes (“A” e “B”) caso o legislador houvesse prescrito tal discrímen, com o delineamento do que viriam a ser esse conceito de “propósito negocial” até hoje não delineados e desconhecidos no Direito positivo brasileiro. A jurisprudência do CARF tradicionalmente reconhece os efeitos jurídicos de reorganizações patrimoniais reais, isto é, que não contenham vícios de fraude, simulação ou dolo para a evasão de tributos. Vide, nesse sentido, os acórdão n. 10323357, n. 3402 001.908, n. 3302003.138." (...) No caso, a simulação a que se refere o art. 149, VII, do CTN, corresponderia à “mentira” quanto à prática de um ato relevante para fins tributários. Sonegase da Administração Fiscal a verdade dos fatos ocorridos. O ato simulado é um ato aparente, que não existe no mundo dos fatos, mas apenas de forma precária no mundo jurídico. Na simulação absoluta, o contribuinte buscaria construir determinado invólucro que, caso real, lhe atribuiria benefícios fiscais, embora nada exista. Na simulação relativa, a ocorrência do fato gerador de uma obrigação tributária seria ocultada pela oposição do ato simulado. No Direito tributário brasileiro, então, a simulação se presta à sonegação, ou seja, oo ilícito. O que se combate não é a utilização de formas anormais, atípicas, para se alcançar determinado resultado. Combatese o ato doloso da evasão de tributos em que as partes realizam um determinado negócio jurídico, mas declaram ao fisco que outro teria sido realizado. Notese que para se verificar a ocorrência de simulação não se teria relevância o efetivo propósito de uma operação, como a economia de tributos. Interessaria demonstrar que, por meio dos negócios jurídicos apresentados pelo contribuinte, foram ocultadas do Fisco as verdadeira configuração dos atos praticados pelo contribuinte. Nesse cenário, embora muito se discuta o assunto, o legislador complementar brasileiro sempre limitou os poderes da administração fiscal para desconsiderar atos praticados pelo contribuinte, restringindoos para tornar inoponíveis apenas atos “simulados”. Não há a outorga, pelo legislador competente (lei complementar), para que a administração fiscal considere inoponível atos que não possam ser qualificados como “simulados”. Isso significa que o legislador competente não considera o conceito de “simulação”, tal como prescrito pelo Direito civil, tão estreito a ponto de permitir atos que não deveriam ser tolerados, nem tão amplo a ponto de permitir arbitrariedades por parte do fisco. O legislador tributário complementar, desde e edição do CTN (anos 60) até hoje, considera suficiente que a administração fiscal reaja exclusivamente em face de atos Fl. 1713DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.694 41 simulados, fraudulentos, com o dolo da evasão de tributos, reconhecendose a legitimidade das demais práticas (planejamento tributário). A apurada análise da questão exige que se diferencie a simulação dos negócios jurídicos praticados da simulação da pessoa jurídica. Nesse primeiro, reconhecese a personalidade jurídica das pessoas jurídicas envolvidas, mas evidenciase a simulação dos negócios jurídicos praticados por estas. Embora não descarte a priori a possibilidade de simulação da própria pessoa jurídica, pareceme tratase de hipóteses rara. A “pessoa jurídica” é ficção criada pelo Direito para segregarse uma personalidade jurídica dotada de direitos, inclusive patrimoniais, e apta a assumir deveres, com autonomia em relação ao seus sócios. A existência da pessoa jurídica, portanto, é questão mais de direito que de fato. Parece mais factível a ocorrência de simulação de negócios jurídicos, em que se atribuam a pessoas jurídicas existentes rendimentos que não decorram, verdadeiramente, de suas atividades. Desse modo, no âmbito do Direito civil e, por remissão do legislador complementar, também do Direito tributário, são reais e existentes atos de transmissão de direitos que efetivamente façam com que seja alterado o titular de direitos e obrigações de um determinado acervo patrimonial. Ainda que a reorganização patrimonial possa ser verificada documentalmente, isso pode ser irrelevante para fins tributários se tais documentos contivessem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira. Caso se simule a segregação de fontes produtoras de receitas, submetendo indevidamente parte ou todos os seus rendimentos à tributação mais branda decorrente do lucro presumido, estará sujeito ao lançamento de ofício da diferença do tributo que seria devido conforme o lucro real. Caso não seja possível a apuração do lucro real, deve ser apurado, nos termos da legislação, o lucro arbitrado. Diante de simulação, com o dolo específico da evasão de tributos, deverá, ainda, ser imposta multa qualificada. Operações que apenas simulam a segregação de fontes produtoras de rendimentos devem ser transparentes aos olhos da fiscalização tributária: inoponível, a operação dissimulada, por transparente aos olhos do fisco, conduz a que se desvende a operação verdadeira que se procurou ocultar, à qual devem ser aplicadas as consequências tributárias correspondentes à espécie. A aferição da simulação, contudo, parece requerer atenção distinta diante de empresas com rendimentos ativos ou passivos. No caso da restruturação societária em que se segrega uma atividade operacional (por exemplo, produção de peças de reposição), a demonstração do efetivo exercício da atividade econômica pela entidade segregada (no exemplo, a produção das peças ou a sua terceirização). Outro exemplo emblemático consiste em uma indústria de calçados, tributada Fl. 1714DF CARF MF 42 pelo lucro real, segregar a sua atividade de distribuição e constituir oito distribuidoras de calçados, sem estrutura física ou funcionários suficientes para a realização de suas atividades típicas, passando a realizar a venda a preço de custo a essas empresas que, tributadas pelo lucro presumido, realizariam a venda a preço de mercado. A inexistência de estrutura operacional e negocial para o desempenho das atividades de distribuição de calçados, nesse segundo exemplo, pode ser determinante para evidenciar a simulação, de forma a tributar os rendimentos nas mãos da indústria, que verdadeiramente os auferiu. Já no caso de rendimentos passivos, como aplicações financeiras, a estrutura operacional requerida para a sua condução tende a ser, por natureza, ínfima. Suponhase, por exemplo, que um casal com 15 imóveis constitua uma pessoa jurídica imobiliária, integralizandoos ao seu capital social. O marido seria o administrador da empresa, enquanto que a esposa cuidaria das contas a pagar e a receber. Ambos receberiam pro labore e dividendos na proporção da participação acionária. Os contratos celebrados, os encargos assumidos, as receitas recebidas, as negociações etc. realizados em nome da pessoa jurídica. Seria exigida alguma estrutura profissional sofisticada, com outros funcionários ou uma sala locada para a sua sede, a fim de que se reconheça a legítima existência dessa pessoa jurídica para fins de opção ao lucro presumido? A resposta parece ser negativa, embora o volume de negócios imobiliários realizados possa demandar aferição diferenciada. Este Tribunal administrativo mantém longa tradição ao tratar da segregação operacional e societária de fontes produtoras, com correta intolerância a restruturações comprovadamente simuladas, sujeitandoas, inclusive por dever funcional do agente fiscal (ato vinculado e não discricionário), às multas qualificadas. Vide, nesse sentido, acórdãos n. 10307260 e 101 95.208. (...) Reside na má compreensão dessa questão aparentemente teórica um enorme perigo. Ao justificar os seus atos exclusivamente a partir de uma controvertida concepção sobre princípio da solidariedade, de forma a tornar pouco relevante a autorização de decisão clara do legislador para a intervenção no patrimônio particular (princípio da legalidade), a administração fiscal se desvia da Constituição Federal. Ao adotarse como justitificativa um suposto dever fundamental de pagar tributos, pela exploração do princípio da capacidade contributiva em uma controvertida vertente ativa (isto é, tributase todo aquele que apresente capacidade contributiva, com a flexibilização da legalidade), fragilizase gravemente, ainda, a eficácia dos princípios da segurança jurídica, da certeza do direito, de iniciativa privada, de livre concorrência e da igualdade, pois não há como prever questões fundamentais à vida social e econômica, como: O que, afinal, ostenta fato gerador dos tributos? Quem deve pagar? A tributação entre concorrentes de Fl. 1715DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.695 43 mercado fica condicionada ao arbítrio de um agente fiscal na mensuração de critérios próprios para a estabilização da justiça social via tributos? As normas constitucionais relevantes para a matéria, especialmente aquelas que asseguram o Direito à livre iniciativa, à livre concorrência, à legalidade, à segurança jurídica, à igualdade, à solidariedade e à observância da capacidade contributiva na eleição legal do fato gerador, obrigam que se reconheçam premissas fundamentais para que este julgamento seja coerente, como: (i) não se sustentam, no Brasil, teses sobre o dever fundamental de pagar tributos por todas as capacidades contributivas descobertas, já que, diferente dessa suposta “sujeição” automática e constante ao arbítrio da administração, vige com dignidade Constitucional o dever do particular contribuir com parcela de seu patrimônio sempre que incorrer no fato gerador previamente escolhido por decisão do legislador competente; ii) a norma constitucional se limita a atribuir competência ao legislador para regular a liberdade do contribuinte à realização de seus planejamentos tributários, mas não possui eficácia para legitimar, de forma imediata, a reação da Administração tributária a situações consideradas abusivas; iii) para a reação ao abuso, deve ser enunciada lei complementar de reação a planejamentos tributários realizados conforme determinado padrão não tolerado, a qual encontraria limites materiais nos nas normas constitucionais analisados. O peculiar detalhismo da Constituição brasileira não chegou ao ponto de prever uma norma geral de reação a planejamentos tributários considerados abusivos, mas estabeleceu que compete ao legislador complementar regular a matéria por meio de norma geral (“GAAR”) e, ao legislador ordinário, a competência para prescrever normas específicas (“SAAR”). (...) Nesse cenário, retornase à questão: qual a competência da administração fiscal e, ainda, dos Conselheiros do CARF, para desconsiderar os efeitos jurídicos de atos praticados pelo contribuinte e que tenham como consequência a redução ou o diferimento do ônus fiscal? A resposta parece ser clara: a administração fiscal apenas pode considerar inoponíveis atos simulados. Como não há lei que outorgue à administração fiscal a compentencia para a desconsideraração dos efeitos jurídicos que defluiriam de atos que não possam ser qualificados como simulados, não é suficiente que a fiscalização subjetivamente repute um determinado planejamento tributário como “abusivo”. Nos limites da competência que me foi outorgada pelo sistema jurídico vigente, portanto, cabeme julgar como correto o lançamento nas hipóteses em que a administração fiscal tenha cumprido o seu ônus probatório de demonstrar a ocorrência de atos simulados pelo contribuinte, engendrados com o dolo de evadir tributos, o que enseja a qualificação da multa para 150% Fl. 1716DF CARF MF 44 e todas as demais consequências. Com a mesma carga mandatória, cabeme julgar como indevida, por ilegalidade, a desconsideração de restruturação patrimonial efetivamente levada a termo pelo contribuinte, em que não reste demonstrada a ocorrência de atos simulados, fraudulentos, com o dolo de evadir tributos." (grifos no original) Esse acórdão da Câmara Superior não é o único a tratar da matéria. Outro curioso exemplo pode citado: Acórdão CARF nº 2202003.318, de 13/04/2016: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. NEGÓCIO JURÍDICO INDIRETO. SIMULAÇÃO. A simulação existe quando a vontade declarada no negócio jurídico não se coaduna com a realidade do negócio firmado. O fato gerador decorre da identificação da realidade e dos efeitos dos fatos efetivamente ocorridos, e não de vontades formalmente declaradas pelas partes contratantes. (...) Acordam os membros do colegiado, pelo voto de qualidade, rejeitar as preliminares e, no mérito, dar provimento parcial para compensar os tributos e contribuições pagos pela empresa ZMM Empreendimentos e Participações Ltda., relativos aos rendimentos reclassificados, com o imposto apurado no Auto de Infração, antes da aplicação da multa de ofício, vencidos os Conselheiros Junia Roberta Gouveia Sampaio, Martin da Silva Gesto, Dílson Jatahy Fonseca Neto e José Alfredo Duarte Filho (Suplente convocado), que deram provimento integral. Neste, o relator esclareceu que: "Pelo conjunto probatório constante dos autos e pelos argumentos apresentados exaustivamente no Termo de Encerramento da Ação Fiscal, parte integrante do Auto de Infração, não me resta dúvida de que ocorreu uma simulação por parte do fiscalizado, com o objetivo de se submeter a regras mais favoráveis de tributação em relação aos valores por ele recebidos da empresa FERROUS, em virtude dos serviços prestados. (...) O Recorrente não logrou contrapor de forma convincente os argumentos da Fiscalização, notadamente se analisarmos o conjunto das transações, sem focar em cada uma individualmente. Cada transação isolada, do ponto de vista formal, pode até ostentar legalidade, porém quando analisado o conjunto das atividades percebese que os atos praticados possuíam finalidade distinta daquela que parecia. Na simulação, a declaração recíproca das partes não corresponde à vontade efetiva, pois ela se caracteriza pela divergência entre o ato aparente (realização formal) e o ato que se quer materializar (oculto). A causa da ocultação está sempre Fl. 1717DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.696 45 voltada para se alcançar algum benefício que não poderia ser obtido caso se utilizasse das vias normais. Para que não se configure simulação se torna necessário que as partes queiram praticar esses atos não apenas formalmente, mas também materialmente, porquanto na simulação os atos exteriorizados são sempre desejados pelas partes, mas apenas formalmente, pois materialmente o ato praticado é outro. Pode ser citado outro exemplo, ainda mais recente, de julgamento no qual foi desconsiderado o planejamento tributário, especificamente da "empresa veículo" no acórdão CARF nº 1301002.156, de cuja fundamentação extraíse que: "Consta do Termo de Constatação Fiscal, anexo aos autos de infração, que a recorrente era detentora de 836.074 ações ordinárias do capital social da Pisa Papel, no valor de R$ 2.645.325.98, e o restante das ações da Pisa Papel eram detidas pela OESP Gráfica e pelas pessoas físicas do Grupo OESP. Por decisão estratégica do Grupo OESP, no anocalendário de 2000, decidiuse pela alienação das participações societárias detidas nas empresas Paranaprint, Pisa Papel e, indiretamente na Pisa Florestal, à Norske Skog Pisa. Para tanto, as empresas envolvidas celebraram um contrato definindo todos os passos a serem adotados pelas partes com vistas a alcançar a transferência do controle acionário das empresas do Grupo OESP acima mencionadas, contemplando a utilização de uma holding destinada exclusivamente para esse fim, a Popescu Participações S/A. (...) (...) No recurso voluntário apresentado, a recorrente sustenta que os atos societários foram efetivamente realizados e gozam de plena validade jurídica. Não admite que houve simulação pois as operações pactuadas entre as partes não aparentaram direito diverso daquele que foi realmente contratado, não contém quaisquer declarações ou cláusulas não verdadeiras, assim como não causaram quaisquer prejuízos a terceiros, inclusive ao Fisco. (...) Analisando as provas trazidas aos autos, firmei convicção de que os atos societários praticados pela recorrente são simulados. Ao contrário do que sustenta a recorrente, os negócios jurídicos realizados, se analisados isoladamente são formalmente válidos, entretanto, da análise conjunta, extraise que em sua essência se prestaram a fins diversos do que os declarados, caracterizando a hipótese de simulação prevista no inciso II do art. 102 do antigo Código Civil [de 1916, vigente à época dos fatos], conforme a seguir demonstrado: A empresa Popescu Participações S/A, a despeito de constar no contrato social que seu objeto seria a participação em outras sociedades, na verdade, foi verdadeira empresa veículo, criada Fl. 1718DF CARF MF 46 especificamente para implementação do "planejamento tributário" engendrado. (...) Assim, nas operações societárias implementadas não se verifica a intenção efetiva das partes em compor uma sociedade. Certamente, a intenção dos contratantes não era aquela que aparentava ser, o que, efetivamente, caracteriza a simulação." De outro lado, também não são poucos os julgamentos que aceitam as operações indiretas realizadas pelo contribuinte, mesmo quando muitas delas são realizadas em um mesmo dia, como se extrai dos seguintes precedentes: Acórdão CARF nº 1201001.618, de 10/04/2017: PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO. LEGALIDADE E VERACIDADE DAS OPERAÇÕES. APROVAÇÃO DA REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA POR AUTORIDADES FISCALIZADORAS E REGULADORAS. AUSÊNCIA DE SIMULAÇÃO OU ARTIFICIALIDADE. EXISTÊNCIA DE PROPÓSITO NEGOCIAL "BUSINESS PURPOSE". OPONIBILIDADE AO FISCO. Não pode o fisco desconsiderar operações sob entendimento de terem sido executadas de forma simulada ou artificial quando todo o conjunto das operações foi monitorado, avaliado e aprovado pelos órgãos fiscalizadores e reguladores como o BACEN, CADE e CVM. O contribuinte não é obrigado e optar pela via onerosa do ponto de vista fiscal quando existem outras opções que se apresentam mais eficientes, desde que possuam essência alinhada com a forma adotada e possuam propósito negocial (business purpose). A existência de "step transactions" e a execução de diversas etapas no mesmo dia, por si só, não são suficientes para viciar a operação ou negarlhe oponibilidade ao fisco, ainda mais quando todas as possíveis opções identificadas pelo autoridade fiscal também se baseiam em "step transactions" executadas num curto espaço de tempo. (...) Acordam os membros do Colegiado, por maioria de votos, em DAR provimento ao Recurso Voluntário. A Conselheira Eva Maria Los acompanhou o Relator pelas conclusões e apresentará declaração de voto. Vencidos os Conselheiros José Carlos de Assis Guimarães, Paulo Cezar Fernandes de Aguiar e Roberto Caparroz de Almeida, que negavam provimento ao Recurso Voluntário. Ao longo do voto, o Relator esclareceu que o simples fato de que uma operação societária se deu por diversos "passos", e mesmo que estes "passos" tenham se dado em um único dia, não é suficiente para configurar como simulado o negócio. Vejamos: "Como já dito, a fiscalização parte do racional que a Recorrente executou reorganização societária que cujas etapas vistas de forma isolada ou em conjunto, se mostraram artificiais e Fl. 1719DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.697 47 desconexas com a realidade e cujo objetivo único foi o ganho fiscal representado pela não tributação de um ganho de capital que deveria ter sido tributado. Além de questionar a natureza de cada uma etapas, a ordem em que ocorreram e os valores pelos quais foram registrados, a fiscalização propõe alternativas (devidamente corrigidas pela DRJ) para que a Associação entre Itaú e Unibanco ocorresse e, claro, o tributo tido como devido fosse pago. Diz a fiscalização que a operacionalização de diversos atos "step transactions" num período diminuto de tempo demonstra de forma clara a artificialidade da operação. Enxergo aqui uma contradição enorme no argumento do fiscal. Isso porque, ao mesmo tempo em que depõe contra as chamadas "step transactions", traz alternativas que também se operacionalizam através de várias etapas, ou seja, que também são "step transactions". Aliás, conforme acima demonstrado, a opção trazida pelo fiscal e pela DRJ incorporam mais "steps" que o modelo adotado pela Recorrente. De qualquer forma, me abstraindo de qualquer preconceito, vejo no caso concreto ser plenamente justificável a adoção de uma reorganização societária baseada em diversas etapas que ocorrem quase que simultaneamente. (...) Os objetivos eram unir as operações dos bancos no Banco Itaú (que era uma companhia fechada) e unir os acionistas no Itaú Holding (ora Recorrente). Para alcançar tais objetivos era inevitável o cumprimento de etapas em seqüência, sendo impossível fazer isso através de um único ato. Por outro lado, não haveria sentido que se aguardasse um tempo entre uma etapa e outra, pois, os objetivos finais que eram a união de bancos e acionistas deveria ser alcançado o mais rápido possível. Aliás, cabe aqui uma pergunta: existe uma regra quanto ao tempo que deve transcorrer entre uma operação e outra para tornar o conjunto de atos legal? Seria uma semana, um mês, um ano? Logicamente, não existe essa regra. O que deve ser avaliado é se o caso concreto justifica tal encadeamento simultâneo de atos societários. (...) Minha intenção neste tópico é discorrer sobre o direito do contribuinte de efetuar suas escolhas que, desde que legais e não artificiais ou simuladas, são válidas, ainda que isso leve à uma redução da tributação. Tratase do direito do contribuinte de escolher o melhor caminho, não cabendo ao Fisco apontar qual seria e, menos ainda, desconsiderar as opções escolhidas pelo Fl. 1720DF CARF MF 48 contribuinte para definir uma diferente que implique em maior tributação. Ora, parece óbvio mas o óbvio tem que ser dito: se o contribuinte tem a opção de escolher o melhor caminho, aquele que seja mais eficaz do ponto de vista fiscal, temos também que inexiste lei que obrigue o contribuinte, diante de 02 opções legais e válidas, a escolher aquela que lhe traga tributação mais severa. Também pode ser citado: Acórdão CARF nº 1302001.980, de 14/09/2016: SIMULAÇÃO. EMPRESA VEÍCULO. NEGÓCIO INDIRETO. Não se deve confundir simulação relativa com negócio jurídico indireto, pois quando verificamos o que os autuantes denominam como "empresa veículo", notase perfeitamente que tal sociedade foi constituída para surtir os efeitos que lhes eram próprios e não para dissimular outros negócios jurídicos. O fundamento central da autuação demonstrouse frágil para justificar a desconsideração dos atos praticados, ao verificarmos que não havia obstáculos na legislação tributária para que o mesmo resultado tributário fosse obtido sem a utilização das ditas empresas veículos. ABUSO DE DIREITO. ART. 116, PARÁGRAFO ÚNICO, CTN. INAPLICÀVEL O parágrafo único do art. 116 do CTN é uma norma de eficácia limitada, pois só adquirirá plena eficácia a partir do momento em que for publicada a sua lei ordinária integrativa. Se a Lei Complementar 104/01 exigiu que a lei ordinária estipulasse procedimentos específicos como condição para a aplicação da norma tributária específica sobre abuso de direito (parágrafo único do art. 116 do CTN), não há como tal condição ser dispensável para a aplicação da norma de direito privado sobre o abuso do direito (art. 187 do CC) no campo tributário. (...) Acordam os membros do colegiado: em rejeitar a preliminar de decadência suscitada e, no mérito, por maioria de votos, em dar provimento ao recurso voluntário, vencido o Conselheiro Marcelo Calheiros Soriano. Os Conselheiros Ana de Barros Fernandes Wipprich e Luiz Tadeu Matosinho Machado votaram pelas conclusões. Acordaram ainda, por unanimidade, em negar provimento ao recurso de ofício Expostas as diversas posições e entendimentos, faço um breve resumo da lide: De um lado, o Contribuinte admite que decidiu adotar a estrutura de criar uma empresa para vender o ativo diretamente na pessoa física com o propósito de gerar economia tributária. Em tese, a tributação diretamente pela pessoa física levaria a uma despesa Fl. 1721DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.698 49 tributária menor, haja vista que incorre(ia) em alíquota de 15%, antes os 15% + 10% do IRPJ e 9% da CSL. Acontece que, realizando as contas, percebeu que não haveria tributação de ganho de capital se a alienação fosse feita pela pessoa jurídica, vez que seria incorporado ao custo de aquisição um ágio. Além disso, percebeu o risco de que a estrutura a criação de uma empresa para figurar como intermediária na alienação do ativo fosse desconsiderada pelo Fisco ao argumento de ser abusiva. Portanto, decidiu volver sobre seus próprios passos para realizar a tributação da forma corriqueiramente aceita pela Fazenda Nacional, i.e., pela pessoa jurídica que historicamente era proprietária do ativo. Diante da autuação, o Contribuinte passou a defender a desconsideração do negócio efetuado por meio da empresa veículo argumentando em petição juntada após o Recurso Voluntário que, "Assim, à vista do entendimento em voga na seara do Direito Tributário, cristalizado, sobretudo, neste Colendo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, a transferência da participação da empresa CM na empresa GESTIOR para a GOULT, bem como a operação consubstanciada no contrato de venda das quotas sociais da GOULT pelo Recorrente à BERTIN, poderiam ser maculadas pelo véu da fraude ou simulação, já que foram realizadas justamente às vésperas da concretização do negócio entabulado, dando ensejo a suspeitas de qual o real intento almejado pela súbita transferência da VIGOR em operações estruturadas, com o fim exclusivamente de obter economia tributária. Como consabido, este Colendo CARF orientase justamente no sentido de retirar os véus que porventura tentam encobrir os negócios jurídicos realizados, a fim de buscar sua real essência e, por conseguinte, a tributação a que eles devem se sujeitar, o que, in casu, levaria à inexorável conclusão de que o único negócio que poderia ser considerado válido é o que fora previsto no primeiro contrato, firmado entre as empresas CM e BERTIN." fl. 1.562; Em outras palavras, além de afirmar que seus atos de cisão da CM Indústria e transferência do ativo para a GOULT foram desconstituídos, argumenta que deve ser adotada a "teoria do filme", vez que historicamente o ativo pertencia à pessoa jurídica e que só foi transferido à pessoa física quando da formalização da alienação. De outro lado, diante do vulto econômico da operação, a Fazenda Nacional iniciou sua fiscalização buscando analisar o ágio. Fosse capaz de glosálo, geraria ganho de capital para tributar. Acontece que não logrou fazêlo. Ainda assim, no âmbito de sua fiscalização, entendeu que a alienação do ativo não havia sido realizada como descrevia o Contribuinte. Ao invés de ter sido vendida diretamente pela proprietária histórica, o ativo havia sido incorporado a uma empresa e havia negócio de venda realizado diretamente pela pessoa física. Decidiu por aceitar a estrutura que sempre recusa: considerou válido um negócio elaborado por meio de empresa veículo exatamente para economizar tributação. Para complicar, acusa ocorrência de fraude ante a Fl. 1722DF CARF MF 50 apresentação de documentos que, entende, foram elaborados com o único fim de impedir à Fazenda Nacional o conhecimento do fato gerador. Defende, no auto de infração, na DRJ e nas Contrarrazões ao Recurso Voluntário a manutenção do negócio jurídico formulado por meio de empresa veículo, argumentando que o fato de historicamente o ativo pertencer à pessoa jurídica é irrelevante e que não é possível desconsiderálo vez que ele se revestiu de todas as formalidades. Quem tem razão? Fazse necessário responder a algumas perguntas: Em primeiro lugar, em abstrato, é válida a criação de uma pessoa jurídica com o único propósito de incorporar um ativo e, por meio dessa reestruturação societária, alienálo diretamente pela pessoa física ao invés da pessoa jurídica historicamente proprietária? Em segundo lugar, em abstrato, qual o fato gerador do imposto de renda sobre o ganho de capital? Em terceiro lugar, a forma é relevante para o direito em geral e especificamente para o caso concreto? Em quarto lugar, no caso concreto, quem é o alienante? qual o valor da alienação? Em quinto lugar, caso o sujeito passivo esteja corretamente identificado, a apuração da base de cálculo está correta? 1. Da utilização de empresa veículo: Segundo o TVF, o ativo (GESTIOR) foi transferido da CM Indústria para a GOULT, empresa criada poucas semanas antes, e, subsequentemente, esta foi alienada para a BERTIN. Em outras palavras, houve utilização de "empresa veículo" (GOULT) com o único propósito de segregar o ativo e transferilo ao terceiro adquirente. Se é verdade que tal estruturação societárianegocial é muitas vezes contestada pelo Fisco, não foi o caso na lide ora sob julgamento. Pelo contrário, a autoridade lançadora foi expressa em afirmar que: "A segunda operação, declarada ao público e demais órgãos governamentais (...) é a que reputa ser verdadeira. Nesse caso, a operação se referiu a uma alienação de quotas sociais da Goult efetuada pelas pessoas físicas Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho, à Bertin S/A." 1.237; Igualmente, a DRJ afirmou que: "Resta, portanto, perfeitamente comprovado, em face de todos os documentos acima referidos, que Carlos Alberto Mansur e Carlos Alberto Mansur Filho alienaram as quotas representativas do capital social da Goult Participações Ltda, controladora da Gestior Participações Ltda, acionista controladora da S.A Vigor, para a Bertin S.A, na forma como descrito no Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças firmado, em 25/11/2007 (fls. 959/969), cujos pagamentos ocorreram como apresentado Fl. 1723DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.699 51 no Demonstrativo de Pagamentos (fl. 1.072), ratificado pelos extratos bancários de fls. 1.091/1.138. " fl. 1.464; Ainda, a Procuradoria da Fazenda Nacional, em Contrarrazões ao Recurso Voluntário, esclareceu que: "Isso porque, em 30/10/2007, semanas antes da alienação da Vigor, houve uma cisão parcial na CM Indústria e transferência de parcela de seu patrimônio para a Goult Participações Ltda. A parcela transferida correspondia à participação societária que a CM detinha até então na Gestior Participações. A mencionada cisão foi registrada na Junta Comercial. Também foi objeto de registro a entrada da Goult no quadro societário da Gestior Participações." fl. 1.531; (...) " É de se notar, como ficou indicado em cada parágrafo acima, que todas as alterações nos Contratos Sociais da CM Indústria e Comércio Ltda, da Gestior Participações Ltda e da Goult Participações Ltda foram devidamente protocoladas e registradas na Junta Comercial do Estado de São Paulo. Tais alterações confirmam que a CM Indústria e Comércio já não tinha mais participação societária na Gestior quando houve a alienação da Vigor S/A." fl. 1.533; (...) "Todos os atos e documentos acima descritos confirmam que a venda da Vigor foi realizada pelo recorrente, por meio da alienação de participação societária na Goult Participações para Bertin S/A, conforme constou do contrato de 25 de novembro de 2007. Aliás, os demonstrativos de pagamento apresentados pela JBS, ratificados por extratos bancários demonstram, também, que o contribuinte recebeu diretamente da Bertin os valores decorrentes da referida alienação. Nesse caso, como a alienação foi realizada por Carlos Alberto Mansur, correto o lançamento realizado em face da pessoa física." fl. 1.537; (...) "Pelas razões expostas, está claro que a operação verdadeira e efetivamente realizada é aquela que consta do TVF: alienação realizada pela pessoa física, e não pela empresa CM Indústria e Comércio. Logo, não existe a nulidade alegada pelo recorrente, pois o sujeito passivo do lançamento foi corretamente identificado pela fiscalização." fl. 1.542; Tampouco o Recorrente afirma ser ilícita ou abusiva a prática. Pelo contrário, o Parecer dos Profs. Sacha Calmon e Misabel Derzi juntado pelo Contribuinte é expresso em afirmar que: "Assim é que a primeira opção negociai cogitada pelas partes no caso em análise, isto é, a venda das ações da VIGOR pela pessoa Fl. 1724DF CARF MF 52 física do Consulente, não seria inválida, ainda que tivesse o único propósito de economia fiscal, tendo em vista que o caso seria de planejamento tributário lícito." fl. 1.606; Apenas, tanto na Impugnação e nos Pareceres quanto no Recurso Voluntário, afirma que não foi esse o negócio que prevaleceu no caso concerto. Concordo com a licitude desse meio: em tese, não há qualquer ato ilícito, abusivo nem simulado na criação (ou utilização) de uma empresa veículo para a transferência de um ativo. Em muitos casos, há inclusive uma motivação (subjetiva) alheia à questão tributária. Contudo, essa motivação externa não é indispensável. Em suma, constatase que, se se entender por manter o lançamento tal como realizado no qual os atos formais ocorreram em um prazo inferior a um mês e com utilização de uma empresa com atividade econômica exclusiva de holding , estarseá reconhecendo a validade da utilização de uma empresa veículo para transferir um ativo da pessoa jurídica para a pessoa física antes de uma alienação onerosa, o que pode resultar, inclusive, em redução de tributação em outros casos. 2. Do imposto de renda sobre o ganho de capital: Muito se discutiu, até o momento, sobre a identificação de qual o negócio jurídico de compra e venda válido. Inclusive, no seio dos pareceres, fui suscitada a questão da venda a non domino para demonstrar que o negócio pode ser realizado por quem não seja proprietário da coisa. A verdade, entretanto, é que o imposto de renda sobre o ganho de capital incide, propriamente dito, sobre a alienação e não sobre o contrato de compra e venda. É o que se depreende do comando legal: Lei nº 7.713/1988: Art. 3º O imposto incidirá sobre o rendimento bruto, sem qualquer dedução, ressalvado o disposto nos arts. 9º a 14 desta Lei. (Vide Lei 8.023, de 12.4.90) § 1º Constituem rendimento bruto todo o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos, os alimentos e pensões percebidos em dinheiro, e ainda os proventos de qualquer natureza, assim também entendidos os acréscimos patrimoniais não correspondentes aos rendimentos declarados. § 2º Integrará o rendimento bruto, como ganho de capital, o resultado da soma dos ganhos auferidos no mês, DECORRENTES DE ALIENAÇÃO de bens ou direitos de qualquer natureza, considerandose como ganho a diferença positiva entre o valor de TRANSMISSÃO do bem ou direito e o respectivo custo de aquisição corrigido monetariamente, observado o disposto nos arts. 15 a 22 desta Lei. § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem ALIENAÇÃO, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua AQUISIÇÃO, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e Fl. 1725DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.700 53 venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. Lei nº 8.981/1995 (redação vigente à época dos fatos): Art. 21. O ganho de capital percebido por pessoa física em decorrência da ALIENAÇÃO de bens e direitos de qualquer natureza sujeitase à incidência do Imposto de Renda, à alíquota de quinze por cento. (grifei) Em outras palavras, o fato gerador é o auferimento de ganho de capital (rendimento) na alienação de um bem ou direito (ativo). Desnecessário discorrer, aqui, sobre a noção de "auferimento". Impende definir, por outro lado, a noção de alienação e de ganho de capital. 2.1. Alienação: Alienação3 é, conforme EMILIO BETTI, hipótese de "ato dispositivo", pela qual alguém adquire um direito em consequência direta da perda do mesmo direito por outra pessoa4. Pode se extrair da Lei nº 10.406/2002, que alienar é transmitir a propriedade5. Pode se dar por diversas formas, tais como a tradição (que pode ser a entrega física ou jurídica da coisa) e o registro em cartório. Registrase que o mero negócio jurídico entre as partes não leva à transferência da propriedade, Art. 1.267. A propriedade das coisas não se transfere pelos negócios jurídicos antes da tradição. Ainda, Art. 1.245. Transferese entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no Registro de Imóveis. § 1o Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel. 2.1.1. Da formalidade na alienação: A despeito da classificação em negócios formais e informais, todo negócios jurídico tem forma. Remontando à lição de EMILIO BETTI, alguns têm forma específica, porquanto a Lei a estabelece taxativamente, enquanto outros não há exigência pre estabelecida6. É o que se extrai, igualmente, dos arts. 104, III, 107 e 166, IV e V do CC/2002. 3 "a·li·e·na·ção (latim alienatio, onis) substantivo feminino (...) 2. Cessão ou transmissão de bens ou direitos. ≠ INALIENAÇÃO; a·li·e·nar (latim alieno, are) verbo transitivo 1. Transferir para domínio alheio (por venda, troca, doação, etc.)." DICIONÁRIO PRIBERAM, voc. "alienação", disponível em: https://www.priberam.pt/DLPO/aliena%C3%A7%C3%A3o, acessado em 29/06/2017 4 E. BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, 2ª ed., Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 2002, p. 292. 5 Vide, entre outros, os arts. 307, 444, 445, 501, §único, 533, II, 576, 579, 587, 879, 1.144, 1.245, §1º, 1.267, 1.268 e 1.275 e.g. 6 E. BETTI, Teoria generale del negozio giuridico, 2ª ed., Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 2002, p. 125. Fl. 1726DF CARF MF 54 A constituição de uma pessoa jurídica exige forma específica, que é a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, como se observa do Código Civil: Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbandose no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. Art. 985. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição, no registro próprio e na forma da lei, dos seus atos constitutivos (arts. 45 e 1.150). Art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculamse ao Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais, e a sociedade simples ao Registro Civil das Pessoas Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de sociedade empresária. Não se confunde, anotese, a pessoa jurídica (que pode ser uma associação, uma fundação etc.) com a sociedade, este um contrato (art. 981 e seguintes do CC/2002). A sociedade nasce entre os sócios desde a firma do contrato social; já a pessoa jurídica, apenas com o registro. Reforçase esse entendimento o art. 986 e seguintes, do mesmo diploma, que regula as sociedades não personificadas. Enfim, em relação à formalidade na constituição e modificação das sociedades personificadas, é relevante ler o art. 997, I, IV e parágrafo único, art. 998, art. 999, caput e parágrafo único, art. 1.003, caput e parágrafo único, sobretudo7: Art. 1.057. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição de titulares de mais de um quarto do capital social. Parágrafo único. A cessão terá eficácia quanto à sociedade e terceiros, inclusive para os fins do parágrafo único do art. 1.003, a partir da averbação do respectivo instrumento, subscrito pelos sócios anuentes. Em suma, constatase que a alienação das cotas de uma sociedade encontra se sujeita a formalidade específica, qual seja, a averbação da mudança do contrato social. Sem essa formalidade, o ato até pode ser existente, válido e eficaz entre as partes (o sócio e o adquirente), mas não tem eficácia em relação à sociedade e muito menos a terceiros. Tratase de ineficácia, como diz a Lei expressamente, e não invalidade. Em outras palavras, até a averbação, o adquirente pode inclusive imitirse na posse (situação de fato) da coisa, passando a exercer os atos de controle e de administração econômicos da empresa. Contudo, o alienante só perderá a propriedade e o alienatário só se tornará proprietário das quotas quando da averbação. 2.2.Do momento do fato gerador: 7 Tratamse das normas referentes às sociedades simples mas que têm aplicabilidade subsidiária à sociedade ltda., nos termos dos arts. 1.052 a 1.054 do CC/2002. Fl. 1727DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.701 55 Definido o conceito de alienação, bem como a sua formalidade no caso de transferência da propriedade de quotas sociais, impende retornar à legislação tributária. Percebese que o fato gerador é o auferimento de rendimento, especificamente o ganho de capital identificado em qualquer tipo de alienação. Ora, só ocorre o fato gerador se houver alienação com apuração de ganho de capital. O negócio jurídico subjacente pouco importa para a alienação como já foi anotado em relação ao art. 1.267 do CC/2002 , bem como para apuração do ganho de capital a ser tributário, como se observa do art. 3º, § 3º, da Lei nº 7.713/1988, que convém repetir: Art. 3º (omissis) § 3º Na apuração do ganho de capital serão consideradas as operações que importem ALIENAÇÃO, a qualquer título, de bens ou direitos ou cessão ou promessa de cessão de direitos à sua AQUISIÇÃO, tais como as realizadas por compra e venda, permuta, adjudicação, desapropriação, dação em pagamento, doação, procuração em causa própria, promessa de compra e venda, cessão de direitos ou promessa de cessão de direitos e contratos afins. Nessa senda, constatase que o fato gerador não é o negócio jurídico subjacente; não pode incidir o imposto sobre o mero contrato de compra e venda ou sobre a promessa de doação. Só há ganho de capital caso haja transferência da propriedade. Nesse sentido, por exemplo, IMPOSTO DE RENDA. GANHO DE CAPITAL. TRIBUTAÇÃO DO COMPRADOR. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE GANHO. A tributação pelo Imposto de Renda sobre Ganho de Capital pressupõe a existência de ganho do contribuinte na alienação de um bem ou direito, sendo certo que tal tributação, portanto, sempre deve incidir sobre o vendedor e não sobre o comprador. Também não há ganho de capital quando não existiu alienação de qualquer bem ou direito ou quando o valor de suposta alienação não é superior ao valor de aquisição do objeto da venda em virtude de óbvia falta de preenchimento dos aspectos material e quantitativo da hipótese de incidência do tributo. (acórdão CARF nº 1201001.618, de 10/04/2017) Em suma, inexistindo alienação, não pode haver tributação. 2.3. Ganho de capital: Ainda na identificação do fato gerador, é imperioso entender a identificação da base de cálculo. Como já afirmado, à exaustão, a alienação pode ser decorrente de diversos negócios jurídicos, gratuitos ou onerosos (e.g. a doação ou a compra e venda). O bem ou direito, em ambos os casos, terá um valor econômico. A Lei estabelece a forma de identificar esse valor do bem ou direito alienado: Fl. 1728DF CARF MF 56 Art. 19. Valor da transmissão é o preço efetivo de operação de venda ou da cessão de direitos, ressalvado o disposto no art. 20 desta Lei. Parágrafo único. Nas operações em que o valor não se expressar em dinheiro, o valor da transmissão será arbitrado segundo o valor de mercado. Tratandose de imposto de renda, deve incidir sobre o "produto do capital" ou sobre o "acréscimo patrimonial". Não pode incidir sobre o próprio patrimônio, sobre o próprio capital. Logo, para apurar a base sobre a qual incide, devese excluir o montante tido anteriormente, i.e., o custo de aquisição. Daí, que o ganho de capital é exatamente a diferença positiva (sobra) do valor da alienação em relação ao custo de aquisição. 2.4. Da sujeição passiva: Tendo em vista que o fato gerador é a apuração de ganho de capital na alienação de bem ou direito, denotase que o sujeito passivo será definido exatamente pelo ato jurídico relevante: a alienação. Da própria definição de ganho de capital na alienação, na qual se busca identificar a renda pelo acréscimo patrimonial, podese inferir que o contribuinte será aquele que auferiu o ganho de capital, i.e., o alienante. É este quem observa um acréscimo no valor do bem, na comparação do seu valor no momento da alienação em relação ao seu valor no momento da aquisição. Esse é o entendimento mesmo nos casos de doação (art. 23, §2º, II, da Lei nº 9.532/1997), a despeito de o benefício econômico do negócio subjacente ser do alienatário e não do doador. 3. No caso concreto: No caso concreto, como bem expôs o Prof. Paulo de Barros em seu Parecer juntado aos autos, "Devese ressaltar que, indisputadamente, os documentos que dão suporte às duas formas de efetivar a operação de venda das ações de VIGOR foram produzidos e não se discute, em nenhum momento, a sua existência. Com efeito, na lida de questões societárias de grande monta, é comum que se considere diversas vias para a implementação do negócio de fundo, cada uma com sua forma jurídica correspondente, estando a decisão sobre a formatação final sujeita a uma série de ponderações negociais que identifiquem o caminho que melhor compatibilize as vantagens financeiras, empresariais, trabalhistas, tributárias e, com não menos importância, a segurança jurídica e previsibilidade quanto aos efeitos da transação. O que se põe em jogo é saber qual das formas construídas melhor se condiz com o negócio praticado à luz dos critérios jurídicos e, especialmente, em meio às demais etapas da operação, tal como factualmente registrada." fl. 1.637 (grifei); Efetivamente, constam nos autos, entre outros elementos: · inúmeros contratos de compra e venda e alterações, um figurando como vendedor ora a CM ora o Recorrente, ambos distratados em algum momento; Fl. 1729DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.702 57 · registros contábeis e declarações fiscais que apontam ambas as pessoas como vendedoras, especificamente o Razão Analítico da CM INDÚSTRIA (fls. 138/143), · DIPJ/2008 "normal" da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., transmitida às 17:24:29 do dia 22/12/2008, na qual consta participação na GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. o valor de R$ 127.194.825,67 e como sócios a Bertin (56%) e o Contribuinte (44%) (fls. 1.164/1.185); · DIPJ/2008 "incorporação" (evento em 15/12/2008) da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., transmitida às 18:24:41 do dia 22/12/2008, na qual consta participação na GESTIOR sob o valor de 94.823.072,22 somada a R$ 32.371.753,45 a título de resultado de equivalência patrimonial e como sócios a BERTIN (99%) e outra pessoa física (não o contribuinte nem seu filho) com 1% (fls. 1.186/1.212); · DAA Retificadora do Recorrente, entregue em 16/10/2009, referente ao anocalendário de 2008, registrando a venta de 41.725.655 quotas de sua particiapção na GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., ao custo de aquisição de R$ 41.725.655,00, para a BERTIN S.A., em 25/11/2007, pelo mesmo valor de R$ 41.725.655,00 (fls. 1.153/1.154) Como, então, definir o sujeito passivo? Despiciendo analisar todos os argumentos suscitados por ambos os lados. Convençome, como defendido pelos supracitados pareceres que ambos os negócios são existentes e, na medida em que se formalizaram, são aptos a gerar os respectivos efeitos. A questão, como pormenorizei anteriormente, não é definir quem é o vendedor mas sim quem é o alienante. Tomando sempre em consideração que a estrutura adotada pelo Contribuinte de utilizar uma empresa veículo é válida, porquanto inexiste norma jurídica proibindoa, passo à análise dos fatos e documentos, como narrados e/ou comprovados nos autos por ambas as partes: · 14/09/1973: Ata de Assembleia da VIGOR registrando o Sr. Ricardo Mansur como acionista majoritário (fls. 303/305); · 01/12/1977: Constituição da CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. (fls. 368/468); · 09/12/1988: Alteração do Contrato Social da CAM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. para registrar a sua cisão com a criação da CM INDÚSTRIA LTDA. (fls. 273/276) · 29/12/1988: Constituição da CM INDÚSTRIA LTDA. (fl. 238 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); Fl. 1730DF CARF MF 58 · 30/12/1993: Alteração do Contrato Social da CRM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. para registra a sua cisão com transferência de investimentos para a CM Indústria Ltda. (fls. 279/287); · 30/01/1998: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA LTDA., registrado na JUCESP, com o registro do aumento do capital pela integralização das ações da VIGOR e da LECO (fl. 288/298); · 13/03/1998: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA LTDA. registrando a integralização das ações da VIGOR e da LECO (fls. 626/636); · 2006: início das tratativas entre a CM e a Bertin, inclusive com a criação da Gestior (fl. ... informação dada pelo Contribuinte em Recurso Voluntário); · 14/02/2006: Constituição da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. ( informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 28/12/2006: Elevação do capital da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. pela integralização das ações da VIGOR e da LECO (fl. 241 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 20/07/2007: Constituição da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. por outras pessoas físicas; (fl. 213/218); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA., registrada na JUCESP, registrando a entrada do Recorrente e a saída dos sócios originais, (fls. 219/232); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES, registrado na JUCESP, pela qual o Recorrente transfere todas as suas quotas, menos uma, para a CM INDÚSTRIA (fls. 188/199); · 29/10/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES, posterior à anterior, registrado na JUCESP, pela qual a CM Indústria saí da sociedade, transferindo para a nova Sócia GOULT todas as suas quotas (fls. 200/211 e 904/915); · 30/10/2007: Registro na JUCESP de cisão da CM INDÚSTRIA com transferência das quotas da GESTIOR para a GOULT (fl. 34/46), pela redução de capital da CM Indústria para a restituição de valores para o sócio quotista Carlos Mansur (fl. 240 informação dada pela CM Indústria em sua fiscalização); · 30/10/2007: Alteração do Contrato Social da CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA., registrado na JUCESP, aprovando a cisão parcial com incorporação do acervo cindido à GOULT (fls. 883/896) com apresentação de Laudo de Avaliação (fls. 897/903), identificando como valor da parcela cindida em R$ 162.994.143,31; Fl. 1731DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.703 59 · 30/10/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrando na JUCESP, aprovando da incorporação dos ativos cindidos da CM INDÚSTRIA (fls. 920/930); · 21/11/2007: Contrato de venda figurando a CM INDÚSTRIA como vendedora (fl. 145/166), registrado em 31/10/2008 em cartório de Registro de Títulos e Documentos (repetido em fls. 1.073/1.086, dessa vez entregue pela sucessora da BERTIN); · 25/11/2007: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrado na JUCESP, pela qual o Contribuinte transfere à BERTIN 56% das quotas sociais (fls. 1.028/1.047); · 26/11/2007: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. em função da sua venda pela CM para a BERTIN S.A. (fl. 242); · 26/11/2007: assinado "Instrumento Particular de ReRatificação de Alteração do Contrato Social [da CM Indústria] datado de 30.10.2007 e Outras Avenças" (fls. 989/996), no qual os sócios revogam a cisão parcial da CM Indústria e a consequente incorporação do patrimônio cindido à GOULT, mas ainda assim: "3. Ainda, os sócios resolvem aprovar a redução do capital social da Sociedade no montante de R$ 74.509.999,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e nove mil, novecentos e noventa e nove Reais), por considerálo excessivo em relação ao objeto social da Sociedade, nos termos do Artigo 1.082, inciso II, do Código Civil, passando o mesmo de R$ 80.000.000,00 (oitenta milhões de Reais) para R$ 5.490.001,00 (cinco milhões, quatrocentos e noventa mil, e um Reais), dividido em 5.490.001 (cinco milhões quatrocentos e noventa mil, e uma) quotas, no valor nominal de R$ 1,00 (um Real) cada, mediante o cancelamento de quotas representativas do capital social da Sociedade de titularidade dos sócios. 4. Em virtude da redução do capital social da Sociedade mencionada no item 3 acima, aprovar a restituição do montante de R$ 74.509.999,00 (setenta e quatro milhões, quinhentos e nove mil, novecentos e noventa e nove Reais) ao sócio quotista Carlos Alberto Mansur." fl. 990; · 26/11/2007: firma de "Instrumento Particular de Retificação de Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. datada de 30.10.2007" (fls. 997/999), pelo qual revogam a entrada da GOULT nessa empresa GESTIOR, determinando que a CM INDÚSTRIA E COMÉRCIO LTDA. retorne à situação de sócia; Fl. 1732DF CARF MF 60 · 26/11/2007: firma de "Instrumento Particular de Alteração e Consolidação do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA. datada de 30.10.2007" (fls. 1000/1.009), pelo qual registram a transferência pela CM INDÚSTRIA de 56% das quotas dessa empresa GESTIOR para a BERTIN S.A.,; · 26/11/2007: Firma de "Instrumento Particular de ReRatificação de Alteração do Contrato Social [da GOULT] datada de 25.11.2007" (fls. 1.048/1.055), pelo qual se revoga a transferência das quotas do Contribuinte para a BERTIN, retornando o Recorrente à situação de sócio com 99% das quotas (1% pertencente ao seu filho); · 27/11/2007: Fato Relevante publicado no Diário Oficial Empresarial (fl. 871), originalmente elaborado em 25/11/2007; registrando que a BERTIN adquiriu 56% das quotas da GOULT, e que esta era detentora de 64,69% do Capital Social da VIGOR; · 30/11/2007: Deferida a alteração do Contrato Social da GOULT (fl. 916/951); · 21/12/2007: emissão do Parecer Técnico 06735/2007 do COGCE/SEAE/MF (fls. 863/867), informando que a BERTIN adquiriu do Recorrente as ações da GOULT, sendo que esta seria controladora indireta da VIGOR por meio da GESTIOR, mas que concluiu que: "17. As requerentes informam que a operação não resultará em qualquer concentração horizontal e/ou integração vertical entre as atividades desenvolvidas pelas postulantes. No Brasil, nenhuma das empresas controladas e ligadas à Betin (sic) atua no mesmo mercado em que a Vigor atua. (...) 19. Diante dos fatos acima apresentados, esta Sear concluiu que a operação não é capaz de gerar prejuízos ao ambiente concorrencial brasileiro (...)." fl. 866; Em outras palavras, percebese que a análise não foi em relação à alienante, nem mesmo da estrutura utilizada para a transferência do ativo, mas sim em relação à potencialidade de prejuízos pela integração da VIGOR à BERTIN; · 01/02/2008: Ato de Concentração nº 08012.014331/200784 do CADE (fls. 858/870), que igualmente analisou a potencialidade do de prejuízo concorrencial da integração da Vigor à Bertin, mas que registrou que a transferência se deu por meio da venda pelo Recorrente das ações da GOULT, no qual ficou registrado, registrando ainda que: "3. DATA DA NOTIFICAÇÃO Fl. 1733DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.704 61 De acordo com as requerentes, a operação foi formalizada por meio do "Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e outras Avenças", em apartado confidencial, assinada em 25 de novembro de 2007, sendo que a apresentação da operação aos órgãos brasileiros de defesa da concorrência deuse em 14 de dezembro de 2007." fl. 869; (...) 6. PARACERES (...) A Secretaria de Direito EconômicoSDE/MJ (fl. 128) e a Procuradoria do CADEProCADE (fls. 132/138) concordaram com o teor do parecer da SEAE/MF. A ProCADE analisou, ainda, o instrumento contratual que formalizou a operação e concluiu que, no mencionado contrato, não se observam cláusulas que possam ser nocivas à concorrência." fl. 870; · 23/02/2008: Republicação de Fato Relevante no Diário Oficial Empresarial (fl. 872). Tratase de republicação do Fato Relevante publicado em 27/11/2007, em atendimento a Ofício da CVM, agregando informações referentes ao preço e à razão da aquisição do controle indireto da VIGOR, mas ratificando a informação que o negócio se formalizada pelo contrato de 25/11/2007, em decorrência de aquisição de participação da GOULT. · 25/06/2008: 1ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur) em 25/11/2007, com firmas reconhecidas mas em data ilegível, alterando a conta bancária onde deveria ser feito o pagamento (fl. 970/973); · 22/09/2008: 2ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur) em 25/11/2007, consolidando o exercício da Opção de Compra pela compradora, notificada aos vendedores (Carlos Mansur e Filho) em 08/09/2008, (fl. 974/978); · 01/10/2008: Alteração do Contrato Social da GOULT, registrado na JUCESP, pela o Contribuinte se retira da empresa, transferindo para a BERTIN suas quotas (fls. 1.056/1.058). · 03/10/2008: Contrato de Venda e Compra de Quotas e outras Avenças" (fls. 1.139/1.143), entre o Contribuinte e a BERTIN, tendo como objeto 100% do capital social da GOULT pelo valor de R$ 100,00 (cem reais); · 03/10/2008: Alteração do Contrato Social da GOULT em relação à alteração datada de 01/10/2008, pela qual se ratifica a saída do Fl. 1734DF CARF MF 62 Contribuinte, mas se altera o valor das cotas transferidas: antes eram 32.783.443, representando 44% da empresa, agora são 99 quotas representando 99% da empresa (fls. 1.059/1.067); · 03/10/2008: Alteração do Contrato Social da GESTIOR PARTICIPAÇÕES LTDA., em decorrência da venda de quotas pela CM INDÚSTRIA para a BERTIN S.A. e da venda de quotas pelo Recorrente para FERNANDO BERTIN (fl. 242 informação do contribuinte e fls. 1.027/1.027 ); · 09/10/2008: emissão do Parecer Técnico nº 06212/2008 COGCE/SEAE/MF (fls. 873/878), informando que a BERTIN consolidava o controle da GOULT PARTICIPAÇÕES LTDA. pela aquisição das 44% das cotas restantes do Recorrente, e assim o controle indireto da VIGOR, mas o qual se analisou "13. O contrato que formaliza a presente operação data de CONFIDENCIAL e o seu valor é de, aproximadamente CONFIDENCIAL. De acordo com as Requerentes a presente notificação é resultado de uma operação realizada no Brasil, entre empresas brasileiras e com efeitos concorrenciais limitados no mercado brasileiro. Assim, informaram que a operação foi notificada apenas às autoridades antitruste brasileiras, fato ocorrido em 29 de setembro de 2008. 14. Destacase que, no documento que formaliza o presente Ato, Contrato de COmpra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças, não consta cláusula de não concorrência." fl. 876; Ainda assim, percebese que a análise não foi em relação à alienante, nem mesmo da estrutura utilizada para a transferência do ativo, mas sim em relação à potencialidade de prejuízos pela integração da VIGOR à BERTIN; · 14/05/2009: 3ª Alteração do Contrato de Venda firmado pelo Contribuinte (Carlos Mansur), registrado em cartório de Registro de Títulos e Documentos em 10/06/2009, no qual acordam a extensão do prazo para o pagamento do preço (fl. 979/983); · 14/05/2009: firmado "Instrumento Particular de Retificação, Ratificação e Consolidação de Contrato de Compra e Venda de Quotas com Opção de Venda e Compra e Outras Avenças" (fl. 1.320/1.323): firmado pela CM INDÚSTRIA, Carlos Mansur e BERTIN, visava anular a cisão da CM, tornar sem efeito o distrato de 21/11/2007, reiterar o contrato de venda de 21/11/2007 e tornar sem efeito o contrato de 25/11/2007; Enfim, percebese que há uma série de negócios jurídicos, sejam contratos de compra e venda, rescisões, revogações e alterações de Contratos Sociais, muitos dos quais parecem ser contraditórios entre si. Isso não os torna, em abstrato, nulos nem inexistentes. Fl. 1735DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.705 63 Como bem discorrido pela i.Relatora e pelos Pareceres anexos, é plenamente aceitável a venda a non domino, pela qual uma pessoa se compromete (contrato meramente consensual) a realizar a transferência de determinado bem ou direito a outrem. Desde que o faça ou seja, que a propriedade passe ao adquirente, por qualquer meio estará adimplida a obrigação. De outro lado, não satisfazendo a obrigação por impossibilidade, e.g. , não há nulidade nem simulação do contrato, per si, mas mera inadimplência que se converterá em restituição dos valores porventura pagos e em perdas e danos, se for o caso. Nesse contexto, ressalto, é irrelevante do ponto de vista tributário as notícias publicadas a título de Fato Relevante ou de informação às autoridades antitrute. Esses atos (publicações e informações) não têm o condão de alienar as quotas, mas apenas servem de prova que esse negócio jurídico, a compra e venda firmada entre o Contribuinte e a BERTIN, era/foi válido e existente entre as partes. Tampouco são hábeis a comprovar que o negócio jurídico firmado entre a CM Indústria e a Bertin fosse inexistente ou nulo. Nessa esteira, o negócio particular de desconstituição da cisão é válido entre as partes, como acordo em que prometem fazêlo ou que se comprometem a não impedir o seu registro (vide arts. 219, 221 etc. do CC/2002). Contudo, não tem validade em relação à sociedade (que continua cindida) e em relação a terceiros (inclusive o fisco) enquanto não for averbado. Portanto, entendo que a alienação das quotas se deu do Contribuinte, Carlos Mansur, para a BERTIN, porque era ele o proprietário das quotas ao tempo da transferência. Consequentemente, é ele o sujeito passivo do imposto sobre a renda incidente sobre o ganho de capital. 4. Da apuração do ganho de capital do custo de aquisição: Tendo em vista que o valor da alienação dos bens não foi questionado em qualquer momento, seja pelo Fisco seja pelo Contribuinte, impossível enfrentar esse ponto. O mesmo não pode ser dito em relação ao custo de aquisição que, conforme já explorado nas preliminares, foi objeto de expressa impugnação e recurso voluntário, sendo tratado também pelas Contrarrazões oferecidas pela Fazenda Nacional. Estabelece a Lei 7.713/1991 que: Art. 16. O custo de aquisição dos bens e direitos será o preço ou valor pago, e, na ausência deste, conforme o caso: (...) § 2º O custo de aquisição de títulos e valores mobiliários, de quotas de capital e dos bens fungíveis será a média ponderada dos custos unitários, por espécie, desses bens. In casu, o Contribuinte adquiriu as quotas da GOULT, inicialmente, pelo valor de R$ 99,00, como se depreende da 1ª Alteração Contratual dessa empresa, datada de 29/10/2007 (fls. 219/232). Posteriormente, quando da cisão da CM INDÚSTRIA, recebeu a título de retirada o valor de R$ 74.509.999,00, consubstanciadas nas quotas da GESTIOR que foram incorporadas à GOULT, com o respectivo aumento do capital desta de R$ 100,00 para R$ 74.510.099,00, como se depreende das informações prestadas pela CM INDÚSTRIA, pela Fl. 1736DF CARF MF 64 alteração dos Contratos Sociais das empresas envolvidas (fls. 34/46, 200/211, 240, 883/896, 897/903 e 920/930), e ainda pela DAA do contribuinte (fls. 1.153/1.154). Efetivamente, esse foi o mesmo valor apurado pela autoridade lançadora: "A respeito do custo de aquisição cabem as seguintes explicações: Nos casos de participações societárias (ações ou quotas) de propriedade de pessoas físicas, o que deve ser considerado como custo de aquisição é o valor do patrimônio líquido da sociedade. Acréscimos no PL da empresa investida, como reservas e lucros, por exemplo, devem ser considerados para efeito de custo de aquisição, desde que eles sejam incorporados ao capital social. Conforme as Declarações de Imposto de Renda PJ da Goult, relativas aos anoscalendários de 2007 e 2008, os seus Patrimônios Líquidos são, respectivamente, de R$ 175.792.566,25 e R$ 143.419.604,80, os quais contêm como Reserva de Reavaliação os valores de R$ 99.220.904,22 e R$ 97.610.258,01. Doc. 68 e 69 Em 2007 há lucros acumulados de R$ 2.061.563,03 e, em 2008, Prejuízos de R$ 28.700.752,21. Como se observa, os lucros não foram incorporados ao capital social e a Reserva de Reavaliação não está amparada pela mesma isenção dos lucros, razão pela qual consideramos apenas o valor do capital social de R$ 74.510.099,00, equivalentes a 74.510.099 quotas." (fl. 1.241/1.242); Ora, se o próprio Contribuinte declarou ter que adquirido as quotas de Goult por R$ 100,00 e, posteriormente, acrescentou a esse o valor das quotas da Gestior, recebidas da CM Indústria por R$ 74.510.099,00, então está correto o custo de aquisição utilizado pela autoridade lançadora, posto que foi por esse valor que o ativo havia sido incorporado ao seu patrimônio. Razão pela qual entendo que não assiste razão ao recurso nesse ponto. Da segunda infração: A identificação da sujeição passiva ganhou tamanho relevo que sombreou os demais pontos que da defesa do contribuinte ser enfrentados. Nem por isso podem ser olvidados. Passo à análise, portanto, do Recurso em relação à segunda infração. O TVF esclareceu que, "Os acréscimos sobre as parcelas foram tributados em separado do ganho de capital, conforme esclarece o art. 19, §3º da IN SRF nº 94/2001, combinado com o Parecer Normativo nº 1, de 24/09/2002." fl. 1.245 Em outras palavras, entendeu a autoridade lançadora que, tendo sido pago em conjunto com o valor das parcelas do preço um "acréscimo", tal montante "extra" não poderia ser tributado como ganho de capital, devendo ser apurado pelo ajuste anual. Efetivamente, os juros podem ter natureza remuneratória ou indenizatória (juros de mora). Em qualquer das hipóteses, não se configuram pagamento do preço da coisa Fl. 1737DF CARF MF Processo nº 16561.720184/201254 Acórdão n.º 2202004.013 S2C2T2 Fl. 1.706 65 vendida, propriamente dita, mas sim compensação pela indisponibilidade dos recursos durante certo prazo. Nesse sentido, correta a tributação em separado desses valores, pelo ajuste anual, se se entenderem tributáveis. Já o Contribuinte afirmou que esses valores são, na verdade, dividendos e que também foram devidamente declarados na sua DAA como tal. Depreendese, portanto, que defende serem isentos, bem como afirma que não os omitiu. Percebese, portanto, que o julgamento dessa infração 002 depende intrinsecamente da definição em relação à causa pela qual os valores foram depositados na conta do Contribuinte. Em outras palavras, compreendendose que os recursos identificados na infração 001 são, efetivamente, pagamento de preço, como quer a Fazenda Nacional, então esses valores identificados na infração 002, pagos em conjunto, são, efetivamente, "acréscimos" vez que não fazem parte do preço acordado , não são isentos e devem ser tributados pelo ajuste anual (não afirmou o Contribuinte, em momento algum que esses acréscimos poderiam ser juros de mora; por outro lado, depreendese dos contratos que os pagamento parcelados seriam acrescido de 50% da Taxa Selic à época do adimplemento, logo é compreensível que fossem correção monetária/juros remuneratórios). Se, por outro lado, se compreender que os valores apontados na infração 001 são efetivamente dividendos, não há razão para dar natureza distinta a esses recursos identificados na infração 002. Diferentemente do que sustentam a defesa e os ilustríssimos Pareceristas, data maxima venia, compreendo que o negócio jurídico que melhor fundamenta a alienação realizada na prática tendo a BERTIN como adquirente e o Recorrente como alienante é a compra e venda celebrada diretamente pelo Contribuinte. Efetivamente, constatase, dos autos, que após a celebração do contrato de 21/11/2007 ainda que o documento tenha sido revogado ele, pessoa física, ainda firmou três alterações ao longo dos anos de 2008 e 2009 em relação a esse mesmo contrato. Mais, era ele o legítimo proprietário da coisa à época da alienação e, sem dúvidas, estava amparado em um contrato de venda que justificava a transferência. Qual o negócio jurídico entre o Contribuinte e a CM INDÚSTRIA, entretanto, que justificava a alienação pelo Contribuinte diretamente para a BERTIN à época desse ato? De um lado, poderíamos argumentar pela dação em pagamento (vez que devia à CM INDÚSTRIA a devolução das quotas, conforme o contrato particular não formalizado); pagamento por terceiro, pagamento com subrogação ou doação, também são cogitáveis exemplo. Contudo, não há argumentação nesse sentido, portanto seriam meras elucubrações. Noutra senda, mais convence como causa da alienação o contrato firmado em 25/11/2007, figurando o alienante como vendedor. Esse contrato só foi "tornado sem efeitos" em 14/05/2009 (fls. 1.320/1.323). Acontece que a maior parte dos seus efeitos já haviam sido observados: a alienação da coisa já havia ocorrido em 25/11/2007 (fl. 1.028/1.047). Ora, adimplida a obrigação, o contrato já surtiu seus efeitos. O Contrato de 14/05/2009 tem, portanto, objeto em tese possível mas com efeitos impossíveis, haja vista que o fato que busca impedir já ocorreu e já se exauriu. Poderseia falar em recompra (nova venda), o que não é o objetivo do contrato de 2009 nem pode ser depreendido dos seus termos, já que ratificam a aquisição do ativo pela BERTIN. Somase, apenas como elementos complementares mas de forma alguma essenciais ou suficientes: além das alterações do contrato de compra e venda subsequentes à sua revogação, o próprio contribuinte declarou em sua DAA, entregue em 16/10/2009, ter efetuado alienação de ativos para a BERTIN. Ora, ainda que se aceitasse o "sem efeito" de 2009, Fl. 1738DF CARF MF 66 o documento firmado em 25/11/2007 vinculava as partes e justificou a declaração pelo Contribuinte ao Fisco do fato dessa forma em outubro de 2009. Logo, se era válida ao tempo da alienação a venda pelo próprio alienante, é compreensível que os pagamentos efetuados em sua conta se referiam aos preço e, consequentemente, os acessórios a juros, razão pela qual não se pode reformar o lançamento nesse ponto. Da multa qualificada: Em relação à multa qualificada, não observo simulação nos distratos, nas alterações não registradas e demais documentos apresentados. Pelo contrário, como vastamente defendido, tratamse de negócios jurídicos existentes e válidos, apenas ineficazes, seja por não terem adimplido suas formalidades, seja porque os efeitos que buscavam surtir eram impossível pelo exaurimento do seu objeto. Portanto, inexistente simulação, mas apenas mais uma forma pela qual o negócio foi cogitado, não vejo como manter a multa qualificada. Dispositivo: Diante de tudo quanto exposto, voto por dar provimento parcial ao recurso voluntário para afastar a qualificação da multa de ofício. (assinado digitalmente) Dilson Jatahy Fonseca Neto Fl. 1739DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 16327.001355/2008-39
Turma: 1ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 1ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Ano-calendário: 2003, 2004, 2005, 2006
LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO FORMAL.
Não existe vício formal quando o erro identificado no lançamento diz respeito à prova da infração imputada ao sujeito passivo por parte da Fiscalização.
Numero da decisão: 9101-003.038
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à natureza do vício, vencido o conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (relator originário), que não conheceu do recurso. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Adriana Gomes Rego. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em dar-lhe provimento. Votaram pelas conclusões da redatora ad hoc, os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto. Declarou-se impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Nos termos do Art. 58, §13 do RICARF, foi designada pelo Presidente de Turma de Julgamento como redatora ad hoc para o mérito desse julgamento, a conselheira Adriana Gomes Rego. E, conforme Art. 58, §5º, Anexo II do RICARF, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto não votou nesse julgamento, quanto ao conhecimento, por se tratar de processo originalmente relatado pelo conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que ocupou a posição de presidente, com voto já proferido e consignado na sessão de 06/07/2017.
(assinado digitalmente)
Carlos Alberto Freitas Barreto - Presidente
(assinado digitalmente)
Adriana Gomes Rêgo - Redatora ad hoc e Redatora Designada
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto, Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Gerson Macedo Guerra e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio).
Nome do relator: ADRIANA GOMES REGO
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2003, 2004, 2005, 2006 LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO FORMAL. Não existe vício formal quando o erro identificado no lançamento diz respeito à prova da infração imputada ao sujeito passivo por parte da Fiscalização. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer parcialmente do Recurso Especial, apenas em relação à natureza do vício, vencido o conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão (relator originário), que não conheceu do recurso. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Adriana Gomes Rego. No mérito, por unanimidade de votos, acordam em darlhe provimento. Votaram pelas conclusões da redatora ad hoc, os conselheiros Cristiane Silva Costa e Luís Flávio Neto. Declarouse impedida de participar do julgamento a conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio, substituída pelo conselheiro José Eduardo Dornelas Souza. Nos termos do Art. 58, §13 do RICARF, foi designada pelo Presidente de Turma de Julgamento como redatora ad hoc para o mérito desse julgamento, a conselheira Adriana Gomes Rego. E, conforme Art. 58, §5º, Anexo II do RICARF, o conselheiro Carlos Alberto Freitas Barreto não votou nesse julgamento, quanto ao conhecimento, por se tratar de processo originalmente relatado pelo conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão, que ocupou a posição de presidente, com voto já proferido e consignado na sessão de 06/07/2017. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 00 13 55 /2 00 8- 39 Fl. 1057DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.058 2 (assinado digitalmente) Carlos Alberto Freitas Barreto Presidente (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Redatora ad hoc e Redatora Designada Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros Carlos Alberto Freitas Barreto, Adriana Gomes Rêgo, Cristiane Silva Costa, André Mendes de Moura, Luís Flávio Neto, Rafael Vidal de Araújo, Gerson Macedo Guerra e José Eduardo Dornelas Souza (suplente convocado em substituição à conselheira Daniele Souto Rodrigues Amadio). Relatório Na condição de Redatora ad hoc, reproduzo o relatório do Conselheiro Relator, Marcos Aurélio Pereira Valadão, depositado na sessão de julho de 2017: Por bem descrever os fatos, reproduzo o relatório da decisão recorrida, no que interessa à presente lide (destaques da transcrição): UNIBANCO UNIÃO DE BANCOS BRASILEIROS S/A recorre a este Conselho contra a decisão proferida pela OITAVA TURMA DA DRJ SÃO PAULO I, que julgou procedente a exigência do IRPJ e procedente em parte a CSLL, pleiteando sua reforma, com fulcro no artigo 33 do Decreto nº 70.235/1972 (PAF). [...]. Em razão de sua pertinência, transcrevo o relatório da decisão recorrida: Em consequência de procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias, em 17/09/2008, foram lavrados, contra a instituição financeira contribuinte acima identificada, os Autos de Infração a seguir discriminados, para formalização e cobrança do crédito tributário neles estipulados, no valor total de R$ 360.866.115,47, incluindo multa de ofício (75%) e juros de mora (calculados até 29/08/2008). A ciência da autuação ocorreu em 18/09/2008 (fls. 07 e 26). a) Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) Lucro Real (fls. 03 a 06verso): [...]; b) Contribuição Social (CSLL) (fls. 26verso a 30verso): [...]. Nas Folhas de Continuação dos Autos de Infração (fls. 05 e 27), o auditor fiscal autuante identifica as infrações à legislação tributária: IRPJ – “GLOSA DE PREJUÍZOS COMPENSADOS INDEVIDAMENTE. SALDO DE PREJUÍZOS INSUFICIENTES”, tendo em vista a inexistência de prejuízo fiscal a compensar, conforme controle SAPLI; e CSLL – “COMPENSAÇÃO INDEVIDA DE BASE DE Fl. 1058DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.059 3 CÁLCULO NEGATIVA DE PERÍODOS ANTERIORES (FINANCEIRAS)”, conforme demonstrativo SAPLI. O “Demonstrativo da Compensação de Prejuízos Fiscais SAPLI”, referente ao período de 1998 a 2006; o relatório de inconsistências referente à CSLL; o “Histórico da Compensação de Prejuízos Fiscais”, o “Demonstrativo da Base de Cálculo Negativa da CSLL (SAPLI)”; referente ao período de 1992 a 2006, e o Histórico da Contribuição Social sobre o Lucro, extraídos do “Sistema de Acompanhamento de Prejuízo, Lucro Inflacionário e Base de Cálculo Negativa da CSLL” (SAPLI), documentos sobre os quais se assentam as infrações constatadas pelas fiscalização, encontramse às fls. 08 a 24 e 34 a 44verso. Irresignada com o lançamento, a interessada, por intermédio de seu advogado e procurador (fls. 98 a 108, 96 e 62), apresentou, em 20/10/2008, a impugnação de fls. 63 a 93, acompanhada dos documentos de fls. 93 a 200, 203 a 429 e 432 a 468. Ao descrever os fatos, a impugnante assevera que, analisando os documentos intitulados “Histórico da Compensação de Prejuízos Fiscais” (fls. 34/37) e “Histórico da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido” (fls. 43/44verso), identificou uma série de referências a fiscalizações externas e a processos administrativos relativos a autos de infração anteriormente lavrados, o que o levou a concluir que a suposta insuficiência de prejuízos fiscais e base de cálculo negativa decorreu do fato de o ilustre fiscal autuante ter assumido, como definitivas, as compensações realizadas de ofício pela fiscalização naqueles outros autos de infração, os quais, contudo, são todos objeto de impugnações ainda pendentes, seja na esfera administrativa, seja na judicial, encontrandose o crédito tributário correspondente (e respectivas compensações de prejuízos) com sua exigibilidade suspensa. Alega que os autos de infração são nulos de pleno direito, por absoluta falta de motivação e por cerceamento do direito de defesa. [...]. 3.3. Registra também que a autoridade fiscal, relativamente ao crédito tributário lançado, não considerou diversas decisões proferidas nos processos referidos no SAPLI, que restabeleceram parte dos resultados negativos glosados; e nem considerou que a glosa remanescente, objeto do processo nº 16327.002295/200103, é questionada pelo Impugnante em processo judicial, nos autos do qual foi proferida decisão suspendendo a exigibilidade do crédito tributário, de modo que os valores de IRPJ e CSL correspondentes à compensação daqueles prejuízos fiscais (R$ 147.315.542,73) e base de cálculo negativa (R$ 208.833.899,31) deveriam ter sido lançados sem multa de ofício, nos termos do art. 63 da Lei nº 9.430/96, e com exigibilidade suspensa. [...]. Sob o tópico “I Preliminarmente: Nulidade do Auto de Infração por Cerceamento ao Direito de Defesa e Vício de Motivação”, subtópico “1.1 quanto à suposta insuficiência de Prejuízos Fiscais e Base de Cálculo Negativa da CSLL”, a impugnante sustenta que, no histórico em que constam diversas reduções de seu estoque de prejuízos fiscais e de base de cálculo negativa de CSLL, quanto aos anos de 1990 e 1991 (IRPJ fls. 34, históricos 2/27 e 4/27), e quanto ao ano de 1998 (CSLL fls. 43, histórico 5/14), consta apenas a indicação do motivo “05 Fl. 1059DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.060 4 Fiscalização Externa”, sem que tenha sido indicado o processo administrativo correspondente. Aponta que a falta de indicação do processo administrativo em que se procedeu à redução do prejuízo fiscal ou da base negativa da CSLL é prejudicial à sua defesa, uma vez que, por exemplo, no ano de 2002, o autuante considerou uma redução nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL de R$ 25.668.165,27 por conta do processo nº 16327.0001263/200514 (fls. 36verso, histórico 22/27 e 43verso, histórico 10/14), quando, na realidade, o auto de infração que deu origem àquela redução foi integralmente cancelado pelo Conselho de Contribuintes (doc. de fls. 109/121). Consigna, ainda, a impugnante, constar, às fls. 01 e 24, quanto aos anos de 2004 (IRPJ) e 2005 (CSLL), que, além da compensação ter excedido o saldo de prejuízos e base negativa da CSLL acumulados, teria também excedido o limite de 30% do lucro líquido ajustado, quando é certo, porém, que este excesso absolutamente não ocorreu, nem sequer está indicado em lugar algum. [...]. A impugnante alega, ainda, que houve decisões que interferem nos valores glosados, neste sentido aponta: quanto ao anocalendário de 1998 (base de cálculo negativa declarada R$ 157.865.202,28 fl. 299 histórico 3/14 fl. 44verso), a alteração do valor das adições (diferença de R$ 200.864.804,32 histórico 5/14 fl. 43) por força de fiscalização externa que a interessada identificou como sendo decorrente do auto de infração que deu origem ao processo 16327.001898/200261 (diferença a adicionar: R$ 168.733.831,26 fl. 315) e do processo 16327.002295/200103 (adição “exofício no valor de R$ 32.130.973,06 fl. 318). Ocorre que, nos autos daquele processo administrativo, foi interposto recurso ainda pendente de julgamento pelo Conselho de Contribuintes (doc. 09), sendo certo, porém, que, independentemente do julgamento daquele recurso, por conta da decisão final proferida nos autos do processo nº 16327.002295/200103, aquela adição “ex oficio”, no valor de 32.130.973,306, já deverá ser reduzida para R$ 15.804.928,72 (doc. 05). quanto ao anocalendário de 1999, relativamente ao IRPJ, houve um aumento do prejuízo fiscal para R$ 130.061.310,07, por força de “fiscalização externa”, acreditando a impugnante tratarse do mesmo processo nº 16327.001898/200261 (fls. 310/311 itens 6.2.2 e 6.2.3). O autuante, ao considerar como definitivas as compensações de ofício procedidas pela fiscalização, deveria também observar os prejuízos fiscais que passaram a existir por conta daqueles mesmos autos de infração. Entende que o prejuízo fiscal de 1999 foi alterado “para” R$ 121.938.921,12 (doc. 09) que, somados aos R$ 23.872.900,16, originalmente declarados, corresponderiam ao valor correto de prejuízos fiscais de R$ 145.801.821,28. de forma absolutamente contraditória, no ano de 2000, o ilustre fiscal autuante ainda reduz os prejuízos fiscais do Impugnante em R$ 7.100.863,41 (fls. 16), quando, conforme facilmente se verifica às fls. 62 (fl. 316) do referido processo nº 16327.001898/200261, esta compensação nada mais é do que uma parcela daquele prejuízo de R$ 121.928.921,12 revertido pela fiscalização para o ano de 1999, e desconsiderada pelo ilustre fiscal autuante, como visto acima. Fl. 1060DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.061 5 quanto ao ano de 2002, tanto para o IRPJ como para a CSL, constou uma redução de prejuízo fiscal (fls. 36verso, histórico 22/27) e base de cálculo negativa (fls. 43verso, histórico 10/14) no valor de R$ 25.668.165,27, por conta do auto de infração que deu origem ao processo nº 16327.001263/200514, que, por sua vez, foi integralmente cancelado pelo Conselho de Contribuintes (fls. 109 a 121). quanto ao IRPJ, no que diz respeito ao anobase de 1997, a alteração indicada às fls. 35 (histórico 9/27 e 10/27) decorre do processo 16327.002295/200103 (fls. 156/200 e 203/250), contudo, não foi registrada a parcela do prejuízo fiscal restabelecida pela decisão do Conselho de Contribuintes (totalizando um prejuízo compensado de ofício de R$ 147.315.542,73 = R$ 121.411.885,70 + R$ 25.903.657,03). Quanto à CSLL, observa a contribuinte que o valor indicado às fls. 44verso, como correspondendo ao lucro após a decisão do Conselho de Contribuintes naquele processo 16327.002295/200103 (de R$ 18.678.166,86), corresponde corretamente ao valor da infração mantido pelo Conselho (R$ 227.512.066,27 = R$ 170.789.082,41 + R$ 56.722.983,76) menos o prejuízo do exercício já compensado de ofício (R$ 208.833.899,31 = R$ 121.411.885,70 + 87.422.013,61). E prossegue: ~ em decorrência da decisão final proferida nos autos do processo administrativo nº 16327.002295/200103, foram realizadas compensações de ofício de prejuízos do próprio anobase de 1997, nos valores de R$ 147.315.542,73 (IRPJ) e R$ 208.833.899,31 (CSLL). Não concordando a impugnante com a exigência remanescente, desmembrada para o processo nº 16327.001040/200719, ajuizou a ação ordinária nº 2007.61.00.0184349, pleiteando a anulação total do lançamento, tendo sido deferida a antecipação de tutela pleiteada para suspender a exigibilidade do crédito tributário, nos termos do artigo 151, V, do CTN, doc. de fls. 348 a 445. Julgada procedente a ação judicial, restará cancelada a compensação de ofício realizada, decorrendo daí o cancelamento do presente lançamento no valor correspondente; não sendo definitiva tampouco aquela compensação de ofício, em face da tutela antecipada que suspendeu a exigibilidade do crédito tributário, os valores de IRPJ e CSL que deixaram de ser pagos por conta da compensação, pelo Impugnante, daqueles prejuízos e base negativa deverão igualmente ter sua exigibilidade suspensa, não sendo devido qualquer valor a título de multa, nos termos do art. 63 da Lei nº 9.430/96. O mesmo ocorre quanto às adições “ex oficio” efetuadas por conta daquele processo 16327.002295/200103, nos autos do processo nº 16327.001898/200261; o mesmo raciocínio acima se aplica quanto ao valor remanescente exigido no processo nº 16327.000002/200498, também questionado em juízo, com liminar que suspende a exigibilidade do crédito tributário (ação ordinária nº 2007.61.00.0212266, doc. 10 fls. 446/449). [...]. A decisão recorrida está assim ementada: LANÇAMENTO. NULIDADE. Não procede a arguição de nulidade do lançamento quando não se vislumbra nos autos qualquer das hipóteses previstas no art. 59 do Decreto nº 70.235/72. DECISÕES JUDICIAIS. ALCANCE. Decisões judiciais que suspendem a exigibilidade de créditos tributários discutidos em outros processos administrativos não têm o condão de afastar a multa de ofício aplicada no presente processo, uma Fl. 1061DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.062 6 vez que o prejuízo fiscal e/ou base de cálculo negativa da CSLL, apontados pela fiscalização nesses outros processos administrativos, não foram objeto de demanda nem de decisão judicial. [...]. Lançamento Procedente. Cientificada da aludida decisão, a contribuinte apresentou recurso voluntário, no qual contesta as conclusões do acórdão recorrido, repisa as alegações da peça impugnatória e, ao final, requer o provimento. Ao julgar o recurso, a Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF proferiu o Acórdão nº 140200.538, de 24 de maio de 2011, cujas ementa e decisão transcrevo, no que interessa à presente lide: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA – IRPJ Data do fato gerador: 31/12/2003, 31/12/2004, 31/12/2005, 31/12/2006 LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO FORMAL. DETERMINAÇÃO DA EXIGÊNCIA. É nulo, por vício formal, o lançamento que, embora identifique a infração tributada, não atenda, adequadamente ao disposto no artigo 10, inciso V, do Decreto 70.235/1972, quanto à determinação da exigência. [...]. Recurso Voluntário Provido em Parte. [...]. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado: 1) por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso de ofício; 2) pelo voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário, para que os autos de infração sejam declarados parcialmente nulos, por vício formal, nos termos do relatório e voto que passam a integrar o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Carlos Pelá, Moises Giacomelli Nunes da Silva e Leonardo Henrique Magalhães de Oliveira, que davam provimento ao recurso, acolhendo a preliminar de nulidade por vício material. Inconformado, o contribuinte apresenta recurso especial por divergência, argumentando, em síntese, que os vícios do lançamento não são vícios formais, como decidiu o acórdão recorrido, mas, sim, materiais, impossibilitando, nessa hipótese, seja efetuado novo lançamento após o transcurso do prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN. O recurso especial foi admitido pelo presidente da Quarta Câmara da Primeira Seção do CARF. Devidamente cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões, a seguir resumidas: a) que, preliminarmente, o Recorrente não pretende a uniformização de teses jurídicas, objetivo primordial do recurso especial interposto com base na configuração da divergência, mas, sim, o revolvimento do conjunto fático probatório; Fl. 1062DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.063 7 b) que, quanto à segunda divergência apontada, de que, caso admitido o vício formal, o novo lançamento estaria fulminado pela decadência, porquanto devem ser mantidos inalterados a descrição dos fatos, a capitulação legal e o quantum exigido, não merece prosperar, uma vez que sequer houve ainda um segundo lançamento; e c) que, no mérito, o vício do lançamento é formal, e não material, como defendido pela Recorrente. É o Relatório. Esse foi o relatório apresentado pelo Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. Voto Vencido Conselheira Adriana Gomes Rêgo Relatora ad hoc O voto depositado na sessão de julho de 2017, pelo relator originário, Dr Marcos Aurélio Pereira Valadão, era no sentido do não conhecimento de ambas as matérias suscitadas pelo Recurso Especial da Contribuinte, conforme ora se transcreve. O recurso é tempestivo, porém, entendo que a divergência não restou comprovada e, por isso, não conheço do especial. Da contraposição dos fundamentos expressos nas ementas e nos votos condutores dos acórdãos recorrido e paradigmas, evidenciase que a Recorrente não logrou êxito em comprovar a ocorrência do alegado dissenso jurisprudencial, como a seguir demonstrado, por matéria recorrida (destaques do original transcrito): (1) “existência de vício material, e não formal, a obstar a aplicação do art. 173, II, do CTN” Decisão recorrida: LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO FORMAL. DETERMINAÇÃO DA EXIGÊNCIA. É nulo, por vício formal, o lançamento que, embora identifique a infração tributada, não atenda, adequadamente ao disposto no artigo 10, Inciso V, do Decreto 70.235/1972, quanto à determinação da exigência. [...]. Ora, à toda evidência, os demonstrativos dos sistemas da Receita Federal de controle de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, tomados como parte integrante do auto de infração, não possuem notas explicativas suficientemente adequadas para esclarecer a origem dos valores. A Fiscalização deveria ter juntado, além dos demonstrativos do Sapli, as DIPJ, autos de infração e demais decisões que embasaram seus cálculos e, principalmente, demonstrar adequadamente a origem das divergências encontradas. [...]. Fl. 1063DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.064 8 O limite entre o vício formal e o vício material é tênue. No presente caso, os lançamentos foram motivados, a infração foi adequadamente identificada, há descrição dos fatos e demonstrativo da determinação da exigência, porém este último insuficiente, o que caracteriza o vício formal. Acórdão paradigma nº 19200.015, de 2008: NULIDADE VÍCIO MATERIAL. ERRO NA CONSTRUÇÃO DO LANÇAMENTO. Comprovado, em grau de recurso, a existência de erro material na base de cálculo do imposto lançado, resta nulo o Auto de Infração. [...]. No Auto de Infração, acusase o Recorrente de ter praticado “omissão de rendimentos” quanto à importância recebida do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, da ordem de R$ 29.811,53, conforme se lê às fls. 04. Contudo, o AI (fl. 03) indica a importância de R$ 811,53 como sendo os “Rendimentos Tributáveis”, no que pode ter sido um erro de digitação, de processamento. Acórdão paradigma nº 20601.806, de 2009: PREVIDENCIÁRIO. NORMAS PROCEDIMENTAIS. LANÇAMENTO. ERRO [NA] DESCRIÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. VÍCIO MATERIAL. NULIDADE. A descrição clara e precisa do fato gerador, bem como da base de cálculo (matéria tributável) do tributo lançado, in casu, contribuições previdenciárias, é condição sine qua non à validade do lançamento, e a sua ausência e/ou equívoco importa na nulidade material do ato, configurando afronta aos preceitos do artigo 142 do Código Tributário Nacional. RELATÓRIO FISCAL DA NOTIFICAÇÃO. OMISSÕES. O Relatório Fiscal tem por finalidade demonstrar/explicitar, de forma clara e precisa, todos os procedimentos e critérios utilizados pela fiscalização na constituição do crédito previdenciário, possibilitando ao contribuinte o pleno direito da ampla defesa e contraditório. Omissões ou incorreções no Relatório Fiscal, relativamente aos critérios de apuração do crédito tributário levados a efeito por ocasião do lançamento fiscal, que impossibilitem o exercício pleno do direito de defesa e contraditório do contribuinte, enseja a nulidade da notificação. [...]. Pugna a contribuinte pela reforma da decisão recorrida, a qual manteve parte substancial da exigência fiscal em comento, aduzindo para tanto que a ilustre autoridade fazendária, ao promover o lançamento, adotou base de cálculo equivocada. [...]. Consoante se positiva da Informação Fiscal acima transcrita, concluise que a fiscalização não logrou apurar, de forma clara e precisa, a base de cálculo das Fl. 1064DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.065 9 contribuições previdenciárias ora lançadas, contrariando o disposto na legislação de regência, notadamente no artigo 142 do CTN. Com relação a essa primeira matéria, não ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois se trata de situações fáticas distintas. Enquanto na decisão recorrida tratouse de vício na determinação da exigência — os demonstrativos dos sistemas da Receita Federal de controle de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, tomados como parte integrante do auto de infração, não possuem notas explicativas suficientemente adequadas para esclarecer a origem dos valores, nos acórdãos paradigmas apontados (Acórdãos nºs 19200.015, de 2008, e 20601.806, de 2009), ao contrário, tratouse de vício na base de cálculo do imposto lançado – indicação do valor de R$ 811,53, como rendimentos omitidos, quando o correto seria R$ 29.811,53 (primeiro acórdão paradigma) e de vício na descrição da base de cálculo — adoção de base de cálculo equivocada (segundo acórdão paradigma). Ou seja, no lançamento a que se reporta a decisão recorrida inexistiu qualquer erro ou vício na base de cálculo do imposto lançado, na descrição da base de cálculo ou, ainda, nos critérios de apuração do crédito tributário levados a efeito por ocasião do lançamento fiscal, mas, apenas, na demonstração adequada da origem das divergências encontradas. São, pois, situações fáticas distintas, a demandarem, forçosamente, decisões diversas, insuscetíveis de uniformização por meio do Recurso Especial de divergência. (2) “inaplicabilidade do art. 173, II, do CTN, quando o lançamento, refeito em razão da existência de vício formal no primeiro lançamento, diferir deste materialmente” Decisão recorrida: Não há ementa correspondente a essa matéria. [...]. Por fim, registro que cabe à unidade de origem promover a repetição dos autos, sanando as falhas ora apontadas, no prazo de 5 anos contados da definitividade desta decisão. Outrossim, na formalização de novo lançamento de ofício, a autoridade administrativa deverá também observar eventuais decisões que se tornaram ou vierem a se tornar definitivas após a lavratura dos autos de infração originais, bem como escoimar eventuais erros na determinação da base de cálculo dos autos ora anulado. Acórdão paradigma nº 10195.776, de 2006: LANÇAMENTO NULO POR VÍCIO FORMAL — NOVO LANÇAMENTO — Para que a regra decadencial, nos tributos lançados por homologação, se desloque para a do inciso II do artigo 173, o lançamento efetuado em consequência da declaração de nulidade por vício formal do primeiro deve, com este, coincidir materialmente, não podendo inoválo. [...]. Os principais requisitos dos dois lançamentos devem manterse inalterados: a descrição dos fatos, a capitulação legal e o quantum exigido. Fl. 1065DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.066 10 No caso dos autos, não há coincidência entre o primeiro lançamento, tornado nulo, e o novo lançamento, ora vergastado. [...]. Como não se trata de lançamento efetuado apenas com vista a corrigir erros formais, o presente lançamento deve ser analisado como um novo lançamento referente aos fatos geradores do anocalendário de 1992, cuja ciência do contribuinte só foi realizada em 03 de março de 2000. Acórdão paradigma nº 10323.064, de 2007: DECADÊNCIA. VÍCIO FORMAL. NOVO LANÇAMENTO COM ALTERAÇÃO DE CONTEÚDO MATERIAL. A norma do art. 173, II, da Lei 5.172/66 (CTN Código Tributário Nacional) contempla apenas as retificações de vícios de ordem formal, por disposição expressa, sem abranger a hipótese de alteração da materialidade do lançamento original. [...]. Sobre o tema, tenho a opinião de que a referida norma legal não comporta inovações no novo lançamento que não sejam aquelas estritamente relativas à correção do vício formal motivador da anulação do lançamento original. [...]. [...]. No caso concreto, cotejandose o auto de infração original, de IRPJ (fls. 08/27 do processo nº 13116.000941/200187), e o tratado neste processo (fls. 23/41), constatase que a nova descrição dos fatos é totalmente diversa da anterior e apenas cinco bases de cálculo são coincidentes, aquelas relativas aos meses de março, abril, maio, julho e dezembro de 1996, de um total de vinte e três. Além dessas inovações, também a multa originalmente aplicada, de 75%, nos termos do art. 44, I, da Lei 9.430/96, foi alterada para 150%, prevista no art. 44, II, do mesmo ato legal. No que se refere a essa segunda matéria, também não ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, pois se trata de situações fáticas distintas. Enquanto na decisão recorrida tratase da futura formalização de novo lançamento de ofício, ainda não ocorrido por ocasião do julgamento de segunda instância, nos acórdãos paradigmas apontados (Acórdãos nºs 10195.776, de 2006, e 10323.064, de 2007), ao contrário, tratouse de lançamento já efetuado em consequência da declaração de nulidade por vício formal do primeiro lançamento. Esse ponto, aliás, foi bem frisado pela Fazenda Nacional, em suas Contrarrazões (efls. 980981, destaques do original): Quanto à segunda divergência apontada, de que, caso admitido o vício formal, o novo lançamento estaria fulminado pela decadência, porquanto devem ser mantidos inalterados a descrição dos fatos, a capitulação legal e o quantum exigido, não merece prosperar, uma vez que sequer houve ainda um segundo lançamento. Em um contexto fático jurídico totalmente diverso, os paradigmas reconheceram a ocorrência da decadência, apesar da anulação do lançamento por vício formal, porque ficou demonstrada a ausência de perfeita identidade entre Fl. 1066DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.067 11 os dois lançamentos, não podendo haver inovação material no lançamento tornado nulo por vício formal. Contudo, percebase que, no presente caso concreto, não há um segundo lançamento a demonstrar a divergência, o que houve até o momento foi tão somente o reconhecimento da existência de vício formal a ensejar novo lançamento. [...]. Pela simples leitura do acima transcrito, constatase que as decisões se deram diante [de] situações fáticas diversas, porquanto, tal discussão somente estará aberta quando ocorrer o novo lançamento. Ainda, o próprio Despacho de Admissibilidade de Recurso Especial (efls. 975) reconhece a dependência dessa segunda matéria à posterior lavratura de novo auto de infração (destaque do original): Em relação a esta matéria, trazida como divergente, vale lembrar que qualquer discussão sobre a possibilidade de novo lançamento, com fulcro no artigo 173, II, do Código Tributário Nacional, depende da verificação do que será alterado quando do novo (segundo) lançamento. É a partir desse lançamento que se abre o prazo e a possibilidade de discussão sobre a alteração do lançamento, se de ordem formal ou material. São, pois, situações fáticas distintas, a demandarem, forçosamente, decisões diversas, insuscetíveis de uniformização por meio do Recurso Especial de divergência. Também não ocorre o alegado dissenso jurisprudencial, por inexistir divergência de entendimento passível de uniformização. Tanto na decisão recorrida, quanto nos acórdãos paradigmas apontados (Acórdãos nºs 10195.776, de 2006, e 10323.064, de 2007), chegouse à mesma conclusão, de que cabe à unidade de origem promover a repetição dos autos, sanando as falhas [...] apontadas (acórdão recorrido), ou seja, de que é possível corrigir erros formais do lançamento (primeiro acórdão paradigma) e de que são admissíveis retificações de vícios de ordem formal (segundo acórdão paradigma). De se notar, por oportuno, que o fato de, no novo lançamento, se observar eventuais decisões que se tornaram ou vierem a se tornar definitivas após a lavratura dos autos de infração originais, bem como se escoimar eventuais erros na determinação da base de cálculo dos autos [...] anulado, não se confunde, de nenhuma forma, com inovação do lançamento ou com alteração da materialidade do lançamento original. Por conseguinte, voto por não conhecer do recurso especial do contribuinte, por não restar comprovada a existência de divergência jurisprudencial entre o acórdão recorrido e os paradigmas apontados. Esse foi o voto do relator Conselheiro Marcos Aurélio Pereira Valadão. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 1067DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.068 12 Voto Vencedor Conselheira Adriana Gomes Rêgo Redatora Designada Ouso discordar do eminente relator quanto ao conhecimento do Recurso Especial do Contribuinte apenas no que concerne aos dois paradigmas que tratam da matéria relacionada à natureza do vício: Acórdão nº 19200.015, de 2008, e nº 20601.806, de 2009. Do Conhecimento (1) Da Natureza do vício de nulidade: formal ou material Acordaram os membros da 2ª Turma da 4ª Câmara, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso de ofício; e, quanto ao recurso voluntário, pelo voto de qualidade, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, anulando parcialmente os autos, por vício formal, sintetizado na ementa a seguir: Decisão recorrida nº140200.538: LANÇAMENTO. NULIDADE. VÍCIO FORMAL. DETERMINAÇÃO DA EXIGÊNCIA. É nulo, por vício formal, o lançamento que, embora identifique a infração tributada, não atenda, adequadamente ao disposto no artigo 10, Inciso V, do Decreto 70.235/1972, quanto à determinação da exigência. Acórdão paradigma 1: Acórdão nº 19200.015, de 2008: NULIDADE VÍCIO MATERIAL. ERRO NA CONSTRUÇÃO DO LANÇAMENTO. Comprovado, em grau de recurso, a existência de erro material na base de cálculo do imposto lançado, resta nulo o Auto de Infração. [...]. No Auto de Infração, acusase o Recorrente de ter praticado “omissão de rendimentos” quanto à importância recebida do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, da ordem de R$ 29.811,53, conforme se lê às fls. 04. Contudo, o AI (fl. 03) indica a importância de R$ 811,53 como sendo os “Rendimentos Tributáveis”, no que pode ter sido um erro de digitação, de processamento. Na decisão recorrida, não foi apontado inconsistência concreta na base de cálculo, sendo apontado apenas pelo relator um problema de indeterminação da base de Fl. 1068DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.069 13 cálculo, carecendo de maiores explicações a respeito de sua origem. Mas a defesa questionou também o montante da base de cálculo: [...]. Ora, à toda evidência, os demonstrativos dos sistemas da Receita Federal de controle de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, tomados como parte integrante do auto de infração, não possuem notas explicativas suficientemente adequadas para esclarecer a origem dos valores. A Fiscalização deveria ter juntado, além dos demonstrativos do Sapli, as DIPJ, autos de infração e demais decisões que embasaram seus cálculos e, principalmente, demonstrar adequadamente a origem das divergências encontradas. [...]. No Acórdão paradigma, a defesa também se insurgiu contra a base de cálculo objeto da autuação, porém o apontamento da inconsistência concreta foi considerada grave pelo julgador, nos seguintes termos: No Auto de Infração, acusase o Recorrente de ter praticado "omissão de rendimentos" quanto à importância recebida do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, da ordem de R$ 29.811,53 conforme se lê às fls. 04. Contudo, o AI (fl. 03) indica a importância de R$ 811,53 como sendo os "Rendimentos Tributáveis", no que pode ter sido um erro de digitação, de processamento. O fato é que tal importância (R$ 811,53) é totalmente alienígena, não encontra respaldo em nada do que consta dos autos. (destacouse). (...) Também não me parece necessário perquirir sobre a validade, ou não, da aplicação do dispositivo isentivo pelo qual clama o Recorrente, ante a inconsistência do AI. Para tanto, seria imperativo "refazer" o AI, partindose da premissa de que o valor dos rendimentos nele lançados seja (devesse ser) R$ 29.811,53, o que abriria o debate sobre se esse é o valor correto ou a importância de R$ 24.857,18, lançada na declaração retificadora. Mas, a meu ver, a inconsistência do AI é tamanha que, se assim procedêssemos, estaríamos refazendo o lançamento. Quem julga não lança. Acórdão paradigma 2: Acórdão nº 20601.806, de 2009: Fl. 1069DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.070 14 PREVIDENCIÁRIO. NORMAS PROCEDIMENTAIS. LANÇAMENTO. ERRO [NA] DESCRIÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. VÍCIO MATERIAL. NULIDADE. A descrição clara e precisa do fato gerador, bem como da base de cálculo (matéria tributável) do tributo lançado, in casu, contribuições previdenciárias, é condição sine qua non à validade do lançamento, e a sua ausência e/ou equívoco importa na nulidade material do ato, configurando afronta aos preceitos do artigo 142 do Código Tributário Nacional. Tratase também de situação que envolve a quantificação da base de cálculo. Neste caso, assim como no Recorrido, houve inicialmente a provocação da defesa apontando possíveis inconsistências do auto de infração. Da mesma forma que no Recorrido, o problema da indeterminação da base de cálculo também surge neste paradigma, em que pese ter seguido de um passo a mais: diligência para suprir tal indeterminação. Na diligência, o autuante não logrou êxito em sanar a inconsistência e desfazer a indeterminação, permanecendo a indeterminação detectada antes da diligência. Assim, o colegiado em face da clara inconsistência e indeterminação da base de cálculo apresentada, decidiu anular o auto de infração por vício material. Como se vê, a situação fática desse paradigma muito se assemelha ao do recorrido, apenas diferindo em relação ao grau de certeza da inconsistência encontrada, pois neste paradigma a inconsistência se mostra mais grave e exposta. Independentemente de, no recorrido, não ter sido apontado concretamente pelo julgador qualquer mácula na base de cálculo, assim como ocorreu no paradigma, não há como dissociar essa indeterminação dos elementos constitutivos da obrigação tributária, principalmente a verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação e a determinação da matéria tributável, discussão essa afeta a conteúdo que remete necessariamente aos elementos constituintes do art. 142 do CTN. Eis abaixo trecho do recorrido que deixa claro essa situação: O que existe, repito, são insuficiências nos elementos dos demonstrativos para determinação das exigências, anexados aos autos de infração (extratos do Sapli), que neste caso realmente dificultam ou em alguns casos inviabilizam a determinação da base de cálculo. O que para autoridade fiscal seria de simples entendimento, na verdade não é, daí a insuficiência. Frisese que, tal qual manifestou o ilustre conselheiro Carlos Pela, compartilho do entendimento de que a ausência ou insuficiência na descrição dos fatos é vício material, pois, fere o núcleo da regra matriz de incidência, implicando em descumprimento do disposto no art. 142 do CTN. Mas repito, não é essa a situação versada nos autos, cuja descrição da infração tributada – compensação indevida de prejuízos fiscais no IRPJ e bases negativas de períodos anteriores da CSLL – está adequada. Logo, não há que se falar em vício material. Fl. 1070DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.071 15 Dessa forma, discordo da conclusão chegada pelo relator ao analisar o conhecimento dessa matéria: (...) no lançamento a que se reporta a decisão recorrida inexistiu qualquer erro ou vício na base de cálculo do imposto lançado, na descrição da base de cálculo ou, ainda, nos critérios de apuração do crédito tributário levados a efeito por ocasião do lançamento fiscal, mas, apenas, na demonstração adequada da origem das divergências encontradas. Nos paradigmas, houve o entendimento de erro e indeterminação da base de cálculo. A diferença do paradigma 1 para o 2, é apenas uma questão de grau da inconsistência observada na base de cálculo, não afetando a estrutura da similitude naquilo que é relevante. No recorrido, não se entendeu que houve erro, mas, sim, indeterminação da base de cálculo. Nesse contexto, o elemento em comum aqui relevante é a indeterminação da base de cálculo e as consequências tributárias dela no sentido de afetar ou não núcleo da regra matriz de incidência tributária. Portanto, há o dissenso jurisprudencial na medida em que, enquanto os fatos expostos nos paradigmas indicam que a ausência de um dos elementos mencionados no art. 142 do CTN (matéria tributável), no caso a indeterminação da base de cálculo, implica em vício de natureza material; o acórdão recorrido sustenta que tal situação reflete vício de natureza formal. Por todo o exposto, conheço do recurso especial do contribuinte no que diz respeito a esses dois paradigmas (Acórdãos nº 19200.015 e nº 20601.806), porém não conheço da 2ª divergência, pelas mesmas razões que o relator. MÉRITO A matéria posta à apreciação desta Câmara Superior referese à existência, ou não, de vício formal no lançamento em análise, o que, em caso afirmativo, permitiria o reinício do prazo para novo lançamento, na forma do art. 173, inciso II, do Código Tributário Nacional – CTN (Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966). Defende a Recorrente que não se trata de vício formal, mas de vício material, impossibilitando que, nessa hipótese, seja efetuado novo lançamento após o transcurso do prazo decadencial previsto no art. 173, inciso I, do CTN. Analisase, primeiramente, a distinção existente entre vício formal e vício material. Em breve síntese, temse que o vício formal ou instrumental se caracteriza pela violação de normas de natureza formal, estando ligado ao desatendimento de dois dos cinco elementos do ato administrativo: a “competência” e a “forma”. Já o vício material ou substancial corresponde à transgressão de normas de conteúdo material, dizendo respeito, portanto, aos três elementos restantes do ato administrativo: o “objeto”, o “motivo” e a “finalidade”. Fl. 1071DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.072 16 Haverá, por conseguinte, vício formal nos casos de incompetência da autoridade e de inobservância do procedimento previsto em lei; ocorrerá vício material, por sua vez, nas situações de ilegalidade do objeto, de inexistência de motivos e de desvio de finalidade. Porém antes de se adentrar em critérios distintivos comumente debatidos na doutrina e jurisprudência administrativa entre um tipo de nulidade e outra, é bom que se verifique se, de fato, estarse diante de uma efetiva nulidade, e não de uma improcedência qualquer em relação ao mérito, porque se nem de nulidade, vista como gênero, se tratar, por qual razão averiguar a sua espécie (nulidade formal ou material)? Também é bom salientar que o escopo deste julgamento na CSRF se limita a determinar apenas o tipo de nulidade, uma vez que ficou assentado pela decisão recorrida que o auto de infração é nulo por vício formal, não recorrendo a PFN dessa situação e não podendo o CARF agravar a situação da recorrente (por aplicação do princípio do non reformatio in pejus). Todavia, também é sabido que a relevância dessa determinação prendese apenas a implicações relacionadas à decadência: se prevalecerá a regra do art. 173, II do CTN, ou não em relação a um novo lançamento que eventualmente se faça. Este é o fim maior desse recurso especial: afastar a regra do art. 173, II do CTN, vez que, na ótica da recorrente, seria uma nulidade material. Dessa forma, se ficar afastada a hipótese de nulidade como gênero, por óbvio, a regra da decadência que se aplicaria sobre o novo lançamento não seria a do art. 173, II do CTN, pois esta só se aplica para o gênero nulidade e a espécie vício formal. Caso contrário, ou seja, se ficar demonstrado que houve efetivamente uma nulidade como gênero, daí. sim, seria necessário ainda se averiguar que tipo de nulidade seria esta: formal ou material. Posto isso, passase à análise do critério que permitirá saber se se está efetivamente diante de uma nulidade como gênero. Critério do prejuízo A doutrina e a jurisprudência têm assentado que o critério de identificação de nulidade, de uma forma geral (nulidade como gênero), passa sempre pela demonstração da existência ou não de eventual prejuízo causado à defesa (princípio do prejuízo), passando ao largo de se importar se a origem da nulidade é formal ou material. Assim, se houve prejuízo à defesa e este é considerado grave, cerceando o seu direito de defesa, o auto de infração pode ser considerado nulo, a não ser que se esteja na fase inquisitória. Ou seja, não há nulidade sem prejuízo (pas de nullité sans grief). É bom que se diga que embora o Acórdão recorrido tenha passado ao largo dessa verificação do prejuízo causado, indiretamente o fez através das seguintes passagens: A Fiscalização deveria ter juntado além dos demonstrativos do Sapli as DIPJ, autos de infração e demais decisões que embasaram seus cálculos e, principalmente, demonstrar adequadamente a origem das divergências encontradas. Fl. 1072DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.073 17 É certo que a recorrente buscou compreender a origem dessas glosas/diferenças e se defender do lançamento, até porque sua defesa foi produzida por profissionais experientes na área, o que não é privilégio de todos os contribuintes. É certo também ser majoritária a jurisprudência do Conselho no sentido de afastar as alegações de nulidade quanto o contribuinte demonstra compreender as infrações tributadas. Todavia, no presente caso, os vícios formais ultrapassam os limites do razoável e comprometem a certeza do crédito tributário. (...) O que existe, repito, são insuficiências nos elementos dos demonstrativos para determinação das exigências, anexados aos autos de infração (extratos do Sapli), que neste caso realmente dificultam ou em alguns casos inviabilizam a determinação da base de cálculo. O que para autoridade fiscal seria de simples entendimento, na verdade não é, daí a insuficiência. Na segunda passagem acima grifada, observese que o relator demonstra conhecimento em relação à tese que descarta a nulidade se ficar constatado a compreensão da matéria e assim permitir a sua defesa, sem lhe causar prejuízo. Porém, na primeira passagem quando afirma que a defesa foi elaborada por "profissionais experientes", na verdade deixa transparecer o fato de o contribuinte ter eventualmente compreendido a autuação. Entretanto, na terceira passagem, identifica possível prejuízo à defesa, correlacionando a uma eventual incerteza na base de cálculo. Ocorre que incerteza na base de cálculo é um problema eminentemente de mérito, ligandose à improcedência ou não do lançamento. Há nessas passagens, portanto, uma clara contradição na utilização do critério do prejuízo à defesa, mesmo que o relator não tenha se referido a esse critério de forma direta. Se por um lado, deixa a entender que o contribuinte entendeu a autuação, por outro, aponta um prejuízo à defesa, mas o faz associando isso a um problema de conteúdo, como ficará demonstrado mais adiante. Nesse contexto, a primeira conclusão a que se chega é que se estaria diante de um auto de infração que pecou, apenas, em não demonstrar adequadamente a origem das divergências encontradas, ainda que possam ter efetivamente ocorrido essas divergências. Vejase, exemplificativamente, o períodobase de 2000: Fl. 1073DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.074 18 No caso, deixouse indeterminada a origem da base de cálculo final na medida em que não haveria informações a respeito dos vários processos administrativos que afetaram o saldo que foi questionado, havendo apenas a informação genérica a respeito de que houve uma "fiscalização externa", o que poderia inviabilizar o direito de defesa do contribuinte. Como se vê, o lançamento fiscal desatendeu ao disposto no art. 9º do PAF (grifei): Art. 9o A exigência do crédito tributário e a aplicação de penalidade isolada serão formalizados em autos de infração ou notificações de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade, os quais deverão estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito. Dessa forma, estamos diante da matéria relacionada à existência e à quantificação do saldo de prejuízos fiscais que possui um determinado contribuinte. Isso porque a quantificação do saldo em determinado período de apuração depende de eventos ocorridos no passado que são informados pelo contribuinte, paulatinamente, em suas declarações de imposto de renda e são refletidas em um sistema próprio de controle da Receita Federal, denominado SAPLI. Ou seja, o sistema trabalha com informações fornecidas pelo contribuinte, porém eventualmente alteradas em função de autos de infração ou notificações de lançamento, quando esses têm repercussão no saldo de prejuízos e/ou bases de cálculo negativas. Ora, mas em casos como este, onde surge uma indeterminação em que se impede de fornecer respostas precisas ao contribuinte a respeito da formação da base de cálculo, flagrantemente se está colocando em xeque a própria base de cálculo, adentrouse indubitavelmente em questões de mérito e não de forma. De toda sorte, analisando o recurso bem se vê que a Recorrente defendese adequadamente, produzindo uma defesa robusta, que levou a DRJ a cancelar parte do lançamento e submetêlo a recurso de ofício. A informação que teoricamente faltava e que provocou a anulação do auto de infração indubitavelmente foi suprida pela defesa, indicando os referidos processos em que fora autuada, possibilitando que a DRJ produzisse um arrazoado substancial em relação à interferência desses processos na presente autuação. Ou seja, na fase em que o processo estava na instância ao quo do CARF, não se colocou mais em dúvida que os processos em referência eram aqueles mesmos, mas a discussão passou a ser de conteúdo, isto é, a respeito das implicações da existência daqueles processos no que se refere a afetar ou não a base de cálculo do tributo. O trecho abaixo extraído do voto da DRJ dá conta do nível de detalhe e precisão que estão sendo adotados, demonstrando que o exercício do direito de defesa e do contraditório estão sendo exercidos plenamente: Reclamação da defesa: Fl. 1074DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.075 19 Quanto ao ano de 1999, a interessada verificou, a partir dos históricos 14/27 e 17/27 do SAPLI (fls. 35verso e 36) que o prejuízo fiscal do exercício foi aumentado em decorrência de fiscalização externa (de R$ 23.872.900,16 para R$ 130.061.610,07), alteração que entende ser decorrente do P.A. n° 16327.001898/200261, já acima mencionado. Expõe a contribuinte que nos autos daquele processo o Termo de Verificação Fiscal (fls. 300/313) foi objeto de reratificação (fls. 314/318), em que o prejuízo fiscal de 1999 foi alterado para R$ R$ 145.801.821,28, e que tal alteração teria sido ignorada pela autoridade lançadora. Resposta DRJ: 6.2.1. Acontece que, segundo os históricos 14/27 a 17/27 (fls. 35 verso e 36), a alteração no SAPLI decorrente da ação fiscal a que se refere o Termo de Reratificação de Termo Fiscal ocorreu em 30/04/2002, após, portanto, a lavratura do referido termo de reratificação (24/04/2002). Além disso, em 27/12/2004, por força de ação fiscal controlada no Processo Administrativo n° 16327.001858/200481, foi consignado que, em 1999, a interessada havia apurado um Lucro real antes da compensação de R$ 69.698.398,79 (histórico 16/27) que, posteriormente, em consequência de decisão de I a instância, foi alterado para R$ 36.302.398,79 (histórico 15/27). Portanto, a retificação procedida pelo Termo de Reratificação não iria modificar o saldo de prejuízos fiscais para fins de utilização no presente processo. Outra reclamação da defesa: 6.3. Reclama ainda a autuada que de forma absolutamente contraditória no ano de 2000 o ilustre fiscal autuante ainda reduz os prejuízos fiscais do Impugnante em 7.100.863,41 (fls. 16), quando conforme facilmente se verifica às fls. 62 (fl. 3^5) do referido processo n° 16327.001898/200261 esta compensação nada mais é do que uma parcela daquele prejuízo de R$ 121.928.921,12 revertido pela fiscalização para o ano de 1999 e desconsiderada pelo ilustre fiscal autuante. Resposta da DRJ: 6.3.1. Com efeito, não há nada de contraditório entre a informação de valores a tributar extraída do Termo de re Ratifícação do Termo de Verificação (fls. 314/317) e o registro no SAPLI (fls. 36 e 26), isto porque foi consignado e devidamente registrado naquela autuação a compensação de prejuízo fiscal de R$ 7.100.863,41, para o anocalendário de 2000. E o debate prossegue sempre nesses mesmos termos, de forma que se percebe claramente que o pressuposto de os processos em referência serem outros que não aqueles indicados pela defesa, não mais é questionado durante o contraditório. Outrossim, é verdade que em situações como esta, envolvendo glosa de prejuízos fiscais, a jurisprudência tem, invariavelmente, empreendido diligências, para melhor Fl. 1075DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.076 20 instruir o processo, e não à sua anulação, pura e simples, quer seja por vício formal, quer seja vício material. Aliás, essa deveria ter sido a solução a ser adotada pelo colegiado a quo, que já não se pode propor aqui, haja vista, como dito, que implicaria uma reformatio in pejus. Mas a verdade é que esse caminho eventual da diligência é mais um indício de que não se está diante de uma nulidade, mas, no máximo, de improcedência. Dessa forma, concluise que não houve prejuízo à defesa no caso concreto para se afirmar que estarseia diante de uma nulidade (como gênero). E sendo assim, a regra da decadência que se aplicaria ao novo lançamento não seria a do art. 173, II do CTN, pois esta só se aplica para o gênero for nulidade e a espécie, vício formal. Mas ainda que se queira buscar a natureza de eventual vício no caso ora em análise, não se consegue chegar a um vício de natureza formal, como ora se passa a demonstrar. Da existência de três critérios para identificação da natureza do vício A linha entre o vicio material e o vício formal muitas vezes é tênue, por isso a doutrina e a jurisprudência têm construído alguns critérios objetivos, procurando facilitar a identificação de uma situação ou outra. Essa distinção, como já se colocou, tem sua razão prática de ser: alargar mais ou não a decadência a depender do tipo de nulidade envolvida. Por bem ilustrar essa questão, trago à colação trecho do voto do ilustre Conselheiro Rafael Vidal, proferido em sessão recente da CSRF (Acórdão nº 9101002.976, de 6/7/2017), que tratou detalhadamente a respeito da distinção da natureza desses vícios e abordando também os referidos critérios: (...) Nem sempre é tarefa fácil distinguir o vício formal do vício material, dadas as inúmeras circunstâncias e combinações em que eles podem se apresentar. O problema é que os requisitos de forma não são um fim em si mesmo. Eles existem para resguardar direitos (p/ ex., o direito ao contraditório e à ampla defesa). É a chamada instrumentalidade das formas, e isso às vezes cria linhas muito tênues de divisa entre o aspecto formal e o aspecto substancial das relações jurídicas. É esse o contexto quando se afirma que não há nulidade sem prejuízo da parte. Nesse sentido, vale trazer à baila as palavras de Leandro Paulsen: Não há requisitos de forma que impliquem nulidade de modo automático e objetivo. A nulidade não decorre propriamente do descumprimento do requisito formal, mas dos seus efeitos comprometedores do direito de defesa assegurado constitucionalmente ao contribuinte já por força do art. 5º, LV, da Constituição Federal. Isso porque as formalidades se justificam como garantidoras da defesa do contribuinte; não são um fim, em si mesmas, mas um instrumento para assegurar o exercício da ampla defesa. Alegada eventual irregularidade, cabe, à autoridade administrativa ou judicial verificar, pois, se Fl. 1076DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.077 21 tal implicou efetivo prejuízo à defesa do contribuinte. Daí falar se do princípio da informalidade do processo administrativo. (PAULSEN, Leandro. Constituição e Código Tributário à luz da doutrina e da jurisprudência. 13ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2011.) A Lei nº 4.717/1965 (Lei da Ação Popular), ao tratar da anulação de atos lesivos ao patrimônio público, permite, em seu art. 2º, uma análise comparativa entre os diferentes elementos que compõe o ato administrativo (competência, forma, objeto, motivo e finalidade): “Art. 2º São nulos os atos lesivos ao patrimônio das entidades mencionadas no artigo anterior, nos casos de: a) incompetência; b) vício de forma; c) ilegalidade do objeto; d) inexistência dos motivos; e) desvio de finalidade. Parágrafo único. Para a conceituação dos casos de nulidade observarseão as seguintes normas: a) a incompetência fica caracterizada quando o ato não se incluir nas atribuições legais do agente que o praticou; b) o vício de forma consiste na omissão ou na observância incompleta ou irregular de formalidades indispensáveis à existência ou seriedade do ato; c) a ilegalidade do objeto ocorre quando o resultado do ato importa em violação de lei, regulamento ou outro ato normativo; d) a inexistência dos motivos se verifica quando a matéria de fato ou de direito, em que se fundamenta o ato, é materialmente inexistente ou juridicamente inadequada ao resultado obtido; e) o desvio de finalidade se verifica quando o agente pratica o ato visando a fim diverso daquele previsto, explícita ou implicitamente, na regra de competência.” (grifos acrescidos) Pela enumeração dos elementos que compõe o ato administrativo, já se pode visualizar o que se distingue da forma, ou seja, o que não deve ser confundido com a aspecto formal do ato (a competência, o objeto, o motivo e a finalidade). No contexto do ato administrativo de lançamento, vício formal é, via de regra, aquele verificado de plano, no próprio instrumento de formalização do crédito, e que não está relacionado à realidade jurídica representada (declarada) por meio deste ato. O vício formal normalmente não diz respeito aos elementos constitutivos da obrigação tributária, ou seja, à verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, à determinação da matéria tributável, ao cálculo do montante do tributo devido e à identificação do sujeito passivo, porque aí está a própria essência da relação jurídicotributária. Fl. 1077DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.078 22 O vício formal a que se refere o artigo 173, II, do CTN abrange, por exemplo, a ausência de indicação de local, data e hora da lavratura do lançamento, a falta de assinatura do autuante, ou a falta da indicação de seu cargo ou função, ou ainda de seu número de matrícula, todos eles configurando elementos formais para a lavratura de auto de infração, conforme art. 10 do Decreto nº 70.235/1972, mas que não se confundem com a essência/ conteúdo da relação jurídicotributária, apresentada como resultado das atividades inerentes ao lançamento (verificação da ocorrência do fato gerador, determinação da matéria tributável, cálculo do montante do tributo devido, etc. CTN, art. 142). Aliás, um erro nos elementos que identificam a essência/conteúdo da relação jurídicotributária até pode ser considerado como um vício formal desde que, por exemplo, ele se apresente como resultado de uma evidente discrepância entre o que se pensou e o que se exteriorizou pela escrita (as inexatidões materiais devidas a lapso manifesto e os erros de escrita ou de cálculo), quando todo o contexto do que está sendo dito aponta num determinado sentido, e um ponto específico, desconexo do conjunto das ideias, aponta em outro, ou dá uma informação simplesmente fora de contexto, etc. Mas mesmo diante desse tipo de situação, vale novamente lembrar que não há nulidade sem prejuízo da parte. Penso que a verificação da possibilidade de refazimento (repetição) do ato de lançamento, com o mesmo conteúdo, para fins de apenas sanear o vício detectado, é um referencial bastante útil para se examinar a espécie do vício. Se houver possibilidade de o lançamento ser repetido, com o mesmo conteúdo concreto (mesmos elementos constitutivos da obrigação tributária), sem incorrer na mesma invalidade, o vício é formal. Isso é um sinal de que o problema está nos aspectos extrínsecos e não no núcleo da relação jurídicotributária. Em resumo, os critérios normalmente utilizados pela doutrina e jurisprudência para separar um vício de outro são os seguintes: 1) Critério legal: 1.1) Critério do art. 10 do PAF; 1.2) Critério do art. 142 do CTN 2) Critério do motivo/motivação 3) Critério da inovação do lançamento É bom que se ressalve que o critério mais genérico do prejuízo, utilizado acima para concluir pela inexistência de vício, na verdade, permeia a aplicação de cada um Fl. 1078DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.079 23 deles, norteado pelo elemento teleológico do ato administrativo (finalidade) que por sua vez se guia também pelo princípio da instrumentalidade da forma1. Primeiro critério O primeiro critério, ora denominado de "critério legal", se vale de dispositivos de leis com determinados requisitos. A grosso modo, quando houver ofensa aos ditames do art. 10 do Código de Processo Administrativo Fiscal – PAF (Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972), regra de natureza processual, seria vício formal; se violar os ditames do art. 142 do CTN, norma de índole substancial, estaríamos diante de um vício material. Dispõe o art. 10 do PAF: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente: (...) III a descrição do fato; (...); V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; (...) Por sua vez, o art. 142 do CTN dispõe: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. Segundo critério Um segundo critério utilizado seria assemelhado ao primeiro, porém só de natureza mais teórica. De toda sorte guardaria ainda uma certa simetria com o outro critério, se interligando um conceito de um com o dispositivo legal previsto no outro critério (art. 10 do PAF/art. 142 do CTN). Tratase de trazer os ensinamentos colhidos no direito administrativo para ser aplicado no ato administrativo do lançamento, referindose à distinção entre motivo e motivação. Cabe aqui antes bem assentar esses conceitos para depois verificar se o acórdão recorrido o utilizou de forma devida. Uma coisa é o motivo, que é o próprio fenômeno de ocorrência do fato gerador, independentemente da motivação trazida pelo fiscal, pois esta 1 As formas não são um fim em si mesmas, funcionando como meio de garantir determinado objetivo (efetividade do processo). (José Roberto dos Santos Bedaque Efetividade do processo e Técnica processual São Paulo: Malheiros Editores, 2006, p.4950.) Fl. 1079DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.080 24 significa os fundamentos de fato e de direito transpostos em linguagem pela autoridade administrativa para sustentar o lançamento. Em apertada síntese, é um critério de distinção importado do direito administrativo e aplicado no direito tributário comportarseia da seguinte forma: 1) vício por ausência de motivo > vício material; 2) vício por ausência ou deficiência na motivação > vício formal Ou seja, se identificado vício no primeiro elemento (motivo), tratarseia de vício material porque afetaria o núcleo da regramatriz de incidência do tributo, descumprindo assim também o núcleo do art. 142 do CTN; caso contrário, isto é, se o vício estiver na ausência ou deficiência da motivação, seria de natureza formal, porque tratarseia apenas da exteriorização formal do motivo, este existente. Havendo então uma mácula na forma em que foi exteriorizado o motivo através de sua motivação, tratarseia de um vício formal, ligandose por consequência indiretamente ao não atendimento também dos requisitos do art. 10 do PAF. Caso essa mácula afete direta ou indiretamente os elementos constitutivos da obrigação tributária: fato gerador, base de cálculo, sujeição passiva etc, tratarseia de vício de natureza material. Terceiro critério O Acórdão já referido, da CSRF, da lavra do ilustre Conselheiro Rafael Vidal, também faz menção a um terceiro critério que seria como um teste de reforço aos dois primeiros. Tratarseia de verificar em tese se no refazimento do novo lançamento haveria a possibilidade de inovação ou não do mesmo: Penso que a verificação da possibilidade de refazimento (repetição) do ato de lançamento, com o mesmo conteúdo, para fins de apenas sanear o vício detectado, é um referencial bastante útil para se examinar a espécie do vício. Se houver possibilidade de o lançamento ser repetido, com o mesmo conteúdo concreto (mesmos elementos constitutivos da obrigação tributária), sem incorrer na mesma invalidade, o vício é formal. Isso é um sinal de que o problema está nos aspectos extrínsecos e não no núcleo da relação jurídicotributária. Há uma decisão da Câmara Superior de Recursos Fiscais, o Acórdão nº 910100.955, que explicita bem esse aspecto: Acórdão nº 910100.955 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2000 NULIDADE DO LANÇAMENTO. VÍCIO MATERIAL. A verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação, a determinação da matéria tributável, o cálculo do montante do tributo devido e a identificação do sujeito passivo, definidos no art. 142 do Código Tributário Nacional — CTN, por serem elementos fundamentais, intrínsecos, do lançamento, sem cuja delimitação precisa não se pode admitir a existência da obrigação tributária em concreto, antecedem e são Fl. 1080DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.081 25 preparatórios à formalização do crédito tributário, a qual se dá no momento seguinte, mediante a lavratura do auto de infração, seguida da notificação ao sujeito passivo, quando, ai sim, deverão estar presentes os seus requisitos formais, extrínsecos, como, por exemplo, a assinatura do autuante, com a indicação de seu cargo ou função e o número de matricula; a assinatura do chefe do órgão expedidor ou de outro servidor autorizado, com a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula. [...] Ocorre, no entanto, que o primeiro critério (legal), a depender do vício, não se mostra exaustivo, pois se não se confirmar a subsunção a seus elementos, ainda não se conclui peremptoriamente que não se trata de vício formal. Da mesma forma, o segundo critério (motivo/motivação) também apresenta dificuldades de aplicação, porque a descrição da motivação (motivos de fato e de direito), por ser a exteriorização do motivo (da ocorrência do fato gerador), faz com que uma coisa se confunda com a outra, levando o intérprete a vacilar, sem perceber essa correlação intrínseca. Aliás, esse problema da indeterminação e confusão que pode ocorrer na aplicação do segundo critério foi bem divisada pelo Conselheiro Rafael Vidal naquele voto aqui já referido quando enfrentou uma preliminar de conhecimento do recurso especial, nos seguintes termos: É que problemas relativos à motivação podem ser examinados sob dois tipos de abordagem: um deles consiste em examinar se a Fiscalização se desincumbiu do ônus de comprovar a ocorrência do fato gerador (aspecto material); o outro é entender que problemas na motivação (descrição do motivo) afrontariam disposições legais que regulam a feitura do lançamento (aspecto formal). Em face da indeterminação semântica, assentase aqui a premissa que o segundo critério (motivo/motivação) não é um bom caminho para diferenciar vício de natureza formal do vício de natureza material. Daí a necessidade de se fazer o seu desdobramento da seguinte forma , conforme já colocado: 1) vício no motivo > vício material; 2) vício relevante prescrito em lei na motivação, não afetando fato gerador> vício formal (art. 10 do PAF); 3) vício relevante na motivação (afetando o fato gerador)> vício no motivo > vício material. (art. 142 do CTN) Fl. 1081DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.082 26 4) vício na motivação irrelevante ato convalidado (não há nulidade) seja pelo art. 60 2do o PAF ou pelo critério de ausência de prejuízo à defesa (princípio da instrumentalidade das formas). O critério de distinção então deixa de ser o par (motivo/motivação), para ser (motivação relevante que afeta ou não o fato gerador). Bem se vê o esforço de tradução do mesmo para se chegar, apenas indiretamente, na mesma conclusão que pode se chegar pelo outro caminho: critérios legais. Ou seja, esse critério do motivo/motivação cria um grau teórico maior de abstração, talvez desnecessário e complicador, para depois se assentar, ao fim e ao cabo, nos art. 10 do PAF (Vício formal) e 142 do CTN (Vício Material). Daí porque o critério legal (art. 10 do PAF/art. 142 do CTN), é mais objetivo e simples de usar. Alinhavadas essas premissas iniciais, passase a averiguar o caso concreto, a partir dos critérios adotados pela decisão recorrida. O acórdão recorrido adotou a linha de raciocínio que se reflete na utilização tanto do primeiro critério (art. 10 do PAF/art. 142 do CTN) quanto o do segundo (motivo/motivação), com uma certa prevalência do segundo sobre o primeiro, na medida em que se baseou fortemente no posicionamento manifestado pelos ilustres doutrinadores Marcos Vinicius Neder e Maria Tereza Martinez. Eis abaixo o trecho o voto condutor: (...) O limite entre o vicio formal e o vício material é tênue. No presente caso os lançamentos foram motivados, a infração foi adequadamente identificada, há descrição dos fatos e demonstrativo da determinação da exigência, porém este último insuficiente, o que caracteriza o vício formal. Quanto a caracterização de vicio material, transcrevo o posicionamento manifestado pelo Marcos Neder e Maria Tereza Martinez na obra Processo Administrativo Fiscal Comentado, 3a. Edição (2010), pag. 206/207: "A Descrição do Fato Descrição é ato ou efeito de descrever. Descrever é contar, pormenorizadamente, o fato. Por meio da descrição, relevamse os motivos fático e legal que levaram à autuação, estabelecendo a conexão entre os meios de prova coletados e/ou produzidos e a conclusão chegada pela autoridade fiscal. Seu objetivo é convencer o julgador da plausibilidade legal da autuação, demonstrando a relação entre a matéria constatada no auto com a hipótese descrita na norma jurídica. 2 Art. 60. As irregularidades, incorreções e omissões diferentes das referidas no artigo anterior não importarão em nulidade e serão sanadas quando resultarem em prejuízo para o sujeito passivo, salvo se este lhes houver dado causa, ou quando não influírem na solução do litígio. Fl. 1082DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.083 27 Os enunciados que atendem aos requisitos "III" (descrição dos fatos) e "IV" (disposição legal infringida) do artigo 10 do Decreto n° 70.235/72 formam a motivação do lançamento, que nada mais é que a descrição dos motivos que desencadeiam o surgimento da obrigação tributária em concreto, tornando possível identificar os sujeitos e quantificar o crédito tributário. Assim, a motivação elaborada pelo auditor é requisito de natureza formal do lançamento, enquanto a existência de motivo fático e legal vinculase ao conteúdo do ato. A indicação da disposição legal infringida é elemento essencial à lavratura do auto de infração, porém, a jurisprudência administrativa tem admitido que eventuais incorreções no enquadramento legal no auto de infração podem ser superadas quando descritos com precisão quais os fatos que deram margem à tipificação legal e à autuação. Por outro lado, a errônea compreensão dos fatos ocorridos ou do direito aplicável pelo auditor é vício que dificilmente poderá ser sanado no curso do processo, pois incide no motivo do ato. Não é vício formal na descrição, mas no próprio conteúdo do ato. Não adianta a repetição do lançamento pela autoridade com a finalidade de aproveitamento do ato anterior pela sua convalidação. pois remanesce na nova norma individual e concreta introduzida a mesma anomalia. A correção só poderá ser empreendida por meio da invalidação do lançamento original e a formalização de nova exigência fiscal, se ainda dentro do prazo decadencial. (...) Ressaltese que a lei traz a descrição dos fatos como elemento obrigatório do auto de infração, e, se constar de termo avulso (v.g., folha de continuação do auto de infração), devese fazer referência expressa desse fato no auto de infração. A ausência de correlação entre as duas peças pode levar à alegação de não conhecimento dos motivos da autuação pelo contribuinte e à nulidade do lançamento. No presente caso não há que se falar em "errônea compreensão dos fatos ocorridos ou do direito aplicável pelo auditor", também não se trata de vício na motivação do ato, muito menos há falta de correlação do termo de descrição dos fatos com os demonstrativos de determinação da exigência. Portanto, à luz da legislação, jurisprudência e doutrina, não há que se falar em vício material. O que existe, repito, são insuficiências nos elementos dos demonstrativos para determinação das exigências, anexados aos autos de infração (extratos do Sapli), que neste caso realmente dificultam ou em alguns casos inviabilizam a determinação da base de cálculo. O que para autoridade fiscal seria de simples entendimento, na verdade não é, daí a insuficiência. Porém, assim concluiu o relator: Fl. 1083DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.084 28 Frisese que, tal qual manifestou o ilustre conselheiro Carlos Pelá, compartilho do entendimento de que a ausência ou insuficiência na descrição dos fatos é vício material, pois, fere o núcleo da regra matriz de incidência, implicando em descumprimento do disposto no art. 142 do CTN. Mas repito, não é essa a situação versada nos autos, cuja descrição da infração tributada compensação indevida de prejuízos fiscais no IRPJ e bases negativas de períodos anteriores da CSLL está adequada. Logo, não há que se falar em vício material. Assim, temse que a decisão recorrida, pelo primeiro critério (art. 10 do PAF/ art. 142 do CTN), na prática, disse que a matéria tributável não foi afetada porque a descrição dos fatos relacionados à matéria tributada (art. 142 do CTN) foi adequada, não havendo vício material, mas houve apenas falha na determinação da exigência (art. 10, inciso V do PAF Vício formal): Eis abaixo trecho do recorrido que deixa claro esse aspecto: Todavia, a meu m ver, é patente o vício formal, em razão da inobservância do artigo 10, inciso V, do Decreto 70.235 de 1972, que dispõe: Art. 10. O auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta, e conterá obrigatoriamente; V a determinação da exigência e a intimação para cumpri la ou impugnála no prazo de trinta dias; (...) Ora, a toda evidência os demonstrativos dos sistemas da Receita Federal de controle de prejuízos fiscais e bases negativas da CSLL, tomados como parte integrante do auto de infração, não possuem notas explicativas suficiente adequadas para esclarecer a origem dos valores. (...) (grifos do original) Porém, como já se colocou retro, a análise da conformidade ao art. 142 do CTN deve ser uma análise de conteúdo e não de forma, motivo pelo qual se discorda desse entendimento. Já pelo segundo critério (motivo/motivação), em resumo, a decisão disse que não há problemas no motivo3 (fato gerador compensação de saldo de prejuízos insuficientes): No presente caso não há que se falar em "errônea compreensão dos fatos ocorridos ou do direito aplicável pelo auditor", também não se trata de vício na motivação do ato, muito menos há falta de correlação do termo de descrição dos fatos com os demonstrativos de determinação da exigência. Portanto, à luz da 3 Na verdade, o relator utilizase da terminologia motivo para se referir à motivação, à luz da doutrina que cita. Isso porque no parágrafo seguinte ele aponta erro em parte da motivação. Fl. 1084DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.085 29 legislação, jurisprudência e doutrina, não há que se falar em vício material. (...) Mas, apesar disso, afirma que a situação poderia ensejar a inviabilização na deteminação da base de cálculo: O que existe, repito, são insuficiências nos elementos dos demonstrativos para determinação das exigências, anexados aos autos de infração (extratos do Sapli), que neste caso realmente dificultam ou em alguns casos inviabilizam a determinação da base de cálculo. O que para autoridade fiscal seria de simples entendimento, na verdade não é, daí a insuficiência. (destacou se) Assim, parece haver uma certa contrariedade de fundamentos na decisão recorrida, motivo pelo qual não acompanho o relator. Feitas essas considerações, no que diz respeito ao lançamento propriamente dito, no que se refere especificamente ao IRPJ, aplicável também à CSLL (efls. 39 a 46) , tem se que, sob o ponto de vista meramente formal, de fato possui todos os requisitos previstos no art. 10 do PAF (I a qualificação do autuado; II o local, a data e a hora da lavratura; III a descrição do fato; IV a disposição legal infringida e a penalidade aplicável; V a determinação da exigência e a intimação para cumprila ou impugnála no prazo de trinta dias; VI a assinatura do autuante e a indicação de seu cargo ou função e o número de matrícula). Assim, não há dúvida, pelo critério 1, que a descrição de fato e a determinação da exigência estão presentes no auto de infração sob o ponto de vista formal do art. 10 do PAF. Também não se vislumbra qualquer problema no procedimento, outro elemento que a doutrina e jurisprudência consideram como parte da forma do lançamento, que implicaria também em vício de natureza formal. Nesse contexto, é improcedente a conclusão chegada pela decisão recorrida de que não foram observados os requisitos previstos no art. 10 do Decreto 70.235/72. Diferentemente do alegado, a "determinação da exigência" (certa ou errada) consta do lançamento conforme tela extraída abaixo: "O sujeito passivo fica intimado a recolher ou impugnar, no prazo de 30 (trinta) dias, (...) o débito (...) acima discriminado (...)”. Fl. 1085DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.086 30 Portanto, não se trata mesmo de vício formal a irregularidade nele observada pela decisão recorrida. Sob o enfoque do art. 142 do CTN, temse que o lançamento (auto de infração) aparentemente contempla todas as exigências ali listadas: verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente; determinar a matéria tributável; calcular o montante do tributo devido; identificar o sujeito passivo; e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. (destacouse) Ocorre que a verificação quanto ao cumprimento dos critérios de que trata esse artigo 142 do CTN deve recair sobre uma análise do conteúdo do lançamento e não da forma. Por conseguinte, se o que se analisa é o conteúdo, chegase à conclusão que eventual vício que pode advir de uma indeterminação de base de cálculo só poderá ser de natureza material. Tanto é assim que, na parte dispositiva, o relator do acórdão recorrido deixa isso transparecer: Por fim, registro que cabe à unidade de origem promover a repetição dos autos, sanando as falhas ora apontadas, no prazo de 5 anos contados da definitividade desta decisão. Outrossim, na formalização de novo lançamento de oficio, a autoridade administrativa deverá também observar eventuais decisões que se tornaram ou vierem a se tornar definitivas após a lavratura dos autos de infração originais, bem como escoimar eventuais erros na determinação da base de cálculo dos autos ora anulado . Conclusão Diante do exposto, voto no sentido: 1) Negar provimento ao recurso de oficio; 2) Quanto ao recurso voluntário, sejam os autos de infração declarados parcialmente nulos, por vício formal, cabendo à unidade de origem realizar novo lançamento dessa parte com observância do art. 173 inciso II do CTN. Portanto, chegase à conclusão pelo primeiro critério, tanto o do art. 10 do PAF quanto pelo art. 142 do CTN, que se está mesmo diante de um vício de natureza material. Fl. 1086DF CARF MF Processo nº 16327.001355/200839 Acórdão n.º 9101003.038 CSRFT1 Fl. 1.087 31 Por conseguinte, não se tratando, no caso, de vício formal,— como entendeu a decisão recorrida, não é possível o reinício do prazo para novo lançamento na forma do art. 173, inciso II, do CTN. Do exposto, voto por conhecer do recurso especial do sujeito passivo para darlhe provimento. (assinado digitalmente) Adriana Gomes Rêgo Fl. 1087DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 13807.015087/2001-75
Turma: Segunda Turma Ordinária da Segunda Câmara da Segunda Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu Aug 10 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Aug 29 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda Retido na Fonte - IRRF
Exercício: 1998
DCTF. DIFERENÇA ENTRE VALORES DECLARADOS E PAGOS. AUTO DE INFRAÇÃO. POSSIBILIDADE.
Correto o lançamento que exige o imposto não recolhido, em razão da auditoria que apurou diferenças entre os valores declarados em DCTF e os efetivamente liquidados.
Numero da decisão: 2202-004.107
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Marco Aurélio de Oliveira Barbosa - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Jose Ricardo Moreira.
Nome do relator: MARCO AURELIO DE OLIVEIRA BARBOSA
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Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA RETIDO NA FONTE IRRF Exercício: 1998 DCTF. DIFERENÇA ENTRE VALORES DECLARADOS E PAGOS. AUTO DE INFRAÇÃO. POSSIBILIDADE. Correto o lançamento que exige o imposto não recolhido, em razão da auditoria que apurou diferenças entre os valores declarados em DCTF e os efetivamente liquidados. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Marco Aurélio de Oliveira Barbosa, Junia Roberta Gouveia Sampaio, Dilson Jatahy Fonseca Neto, Rosy Adriane da Silva Dias, Martin da Silva Gesto e Jose Ricardo Moreira. Relatório Adoto o relatório da Resolução nº 38050.006, da 5ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento, de 20/03/2009 (fls. 281/284), complementandoo ao final. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 80 7. 01 50 87 /2 00 1- 75 Fl. 451DF CARF MF Processo nº 13807.015087/200175 Acórdão n.º 2202004.107 S2C2T2 Fl. 452 2 Com a finalidade de descrever os fatos sob foco neste processo, até o julgamento na Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento (DRJ), adoto o relatório do acórdão de fls. 210 a 213 da instância a quo, in verbis: "Trata o presente processo de lançamento de Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF realizado em decorrência de erros ou inconsistências verificados nas Declarações de Contribuições e Tributos Federais DCTF dos 1º e 2º trimestres de 1997, segundo o disposto nas Instruções Normativas n° 45/1998 e n° 77/1998 (fls. 04 a 16). No Auto de Infração do IRRF (fls. 07), foram apontados os enquadramentos legais do imposto, da multa de ofício vinculada, dos juros de mora devidos em função de falta de recolhimento ou pagamento do principal (2932), dos juros de mora não pagos (6583) e da multa de ofício isolada em decorrência da falta de pagamento da multa de mora (6380). A Interessada apresentou sua impugnação em 28/12/2001 (fls. 01 a 03), por intermédio de seus Diretores (fls. 26 a 35), solicitando a juntada dos comprovantes (fls. 17a 25) de recolhimentos de todos valores apontados no Auto de Infração e requerendo que sejam apurados os fatos mediante a verificação junto ao banco no qual foi recolhido o tributo e correção do código do pagamento através de um Redarf, se necessário, sanando, dessa forma qualquer incorreção. Às fls. 180 a 187, consta análise da impugnação por parte da Delegacia de origem, na qual se concluiu pela manutenção parcial do lançamento, tendo os autos sido enviados para julgamento." A decisão de primeira instância declarou o lançamento procedente em parte, excluindo a multa vinculada (Lei n° 11.051/2004, art. 25). As fls. 228/233 encontrase o recurso voluntário, por meio do qual o contribuinte traz as seguintes razões, em síntese: I. Que o material que se devolve para julgamento diz com o débito de R$ 36.668,56 segundo tabela da decisão a quo que transcreve; II. Que a mesma decisão consignou que esse montante compreende a quarta semana de fevereiro de 1997 e teve o dia 26.02.1997 como data de vencimento; III. Que, ainda segundo a decisão primeira, a Recorrente teria juntado DARF (fls. 20) que serviria para comprovar o recolhimento desse montante, mas, por meio de revisão de ofício, notouse que o valor recolhido estava "alocado" a outro débito; IV. Que somente após ter examinado o conteúdo da decisão a quo, cotejandoo com o demonstrativo de fls. 180/186, a Recorrente compreendeu o motivo de sua autuação, frisando que Fl. 452DF CARF MF Processo nº 13807.015087/200175 Acórdão n.º 2202004.107 S2C2T2 Fl. 453 3 só tomou conhecimento esse demonstrativo no mesmo momento em que tomou conhecimento da decisão a quo; V. Que, como consta da cópia da DCTF do primeiro trimestre de 1997 anexa (fls. 234/241), a Recorrente registrou que era devedora, dentre outros valores, da importância de R$ 36.668,56, com os dados que menciona e estampa (página 3/6 de seu apelo, fls. 230); VI. Que esse valor foi pago em 05.02.1997, conforme DARF de fls. 20, de onde constou vencimento nesse mesmo dia; VII. Que, todavia, registrou por equívoco, na página 27 da mesma DCTF, que era devedora, dentre outros valores, da importância de R$ 36.668,56, conforme dados que menciona e estampa (página 4/6 de seu apelo, fls. 231); VIII. Que, assim, é forçoso concluir que a Recorrente registrou por duas vezes, numa mesma DCTF, um único débito. Contudo, o débito registrado na quarta semana de fevereiro de 1997 não foi seguido de nenhum recolhimento nem deveria, pois não existia de fato; IX. Que, para demonstrar que não existia esse débito, junta cópias de páginas de seu Diário (fls. 242/259); X. Que, por precaução, requer seja convertido o julgamento em diligência, para que a fiscalização examine seus documentos e livros; XI. Que não está apresentando provas extemporaneamente, nem suprimindo instância. É o relatório. Na sessão de 20/03/2009, 5ª Turma Especial da Terceira Seção de Julgamento resolveu converter o julgamento em diligência, conforme Resolução nº 38050.006 (fls. 281/284), para que autoridade fiscalizadora: a) verifique e identifique, pelo Razão e em correspondência com o Diário, os lançamentos contábeis da retenção de R$ 36.668,56 lançada na DCTF do 1º trimestre/1997 na 1ª semana de fevereiro; b) faça o mesmo em relação à retenção informada, na DCTF, relativamente à quarta semana de fevereiro, buscando constatar se, como afirma a Recorrente, não houve, naquela semana, a retenção que ela informou e que lhe está sendo cobrada. Em atendimento à diligência, a Delegacia Especial da Receita Federal do Brasil de Fiscalização em São Paulo elaborou o Relatório de Encerramento do Procedimento Fiscal de fls. 428/432, tendo intimado o Contribuinte a se manifestar em 10/03/2011 (A.R. de fl. 433). O Contribuinte não apresentou resposta, conforme termo de fls. 436/437. É o relatório. Fl. 453DF CARF MF Processo nº 13807.015087/200175 Acórdão n.º 2202004.107 S2C2T2 Fl. 454 4 Voto Conselheiro Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator O recurso é tempestivo e atende às demais condições de admissibilidade. Portanto, merece ser conhecido. Os números de folhas aqui referidos são relativos ao processo após a sua digitalização (numeração do eprocesso). Trata o presente processo de lançamento de Imposto sobre a Renda Retido na Fonte IRRF , realizado em decorrência de erros ou inconsistências verificados nas Declarações de Contribuições e Tributos Federais DCTF dos 1º e 2º trimestres de 1997. O recurso está restrito ao valor de R$ 36.668,56, pois os demais valores mantidos foram recolhidos conforme DARFs de fls. fls. 268/270 (exceto os juros de mora isolados de R$ 1,63). Alega a Recorrente que registrou por duas vezes, numa mesma DCTF, um único débito, porém o débito registrado na quarta semana de fevereiro de 1997 não foi seguido de nenhum recolhimento, pois não existia de fato. Em atendimento à diligência solicitada pelo CARF, a autoridade fiscal emitiu as seguintes conclusões, conforme Relatório de Encerramento do Procedimento Fiscal de fls. 428/432: Os documentos apresentados não atenderam a indagação do Relator e o não atendimento ao Termo de Diligência e Solicitação de Documentos Razão Contábil, com ciência via postal m 27/01/11 pelo contribuinte acima identificado, inviabilizou à autoridade fiscalizadora de: a) verificar e identificar, pelo Razão e em correspondência com o Diário, os lançamentos contábeis da retenção de R$ 36.668,56 lançada no 1º trimestre/1997 na 1ª semana de fevereiro; b) Efetuar o mesmo procedimento em relação à retenção informada, na DCTF, relativamente à quarta semana de fevereiro, buscando constatar se, como afirma a Recorrente, não houve, naquela semana, a retenção que ela informou e que está sendo cobrada. Portanto o contribuinte não identificou através de sua escrituração comercial e fiscal os lançamentos contábeis referentes as duas retenções de valor idêntico, ou seja, R$ 36.668,56 lançadas no 1º trimestre/1997 e os respectivos fatos geradores. Fl. 454DF CARF MF Processo nº 13807.015087/200175 Acórdão n.º 2202004.107 S2C2T2 Fl. 455 5 Embora intimado a se manifestar sobre o resultado da diligência, o Contribuinte não apresentou resposta, conforme termo de fls. 436/437. Do relatório fiscal elaborado em função da diligência solicitada pelo CARF, concluise que o Contribuinte não logrou comprovar que não ocorreu a retenção informada. Assim, não havendo comprovação por meio da escrituração fiscal e contábil, não há como acatar as alegações recursais. É regra geral no Direito que o ônus da prova é uma conseqüência do ônus de afirmar e, portanto, cabe a quem alega. Nesse caso, o Recorrente apenas alegou e nada provou e, segundo brocardo jurídico por demais conhecido, "alegar e não provar é o mesmo que não alegar". Diante do exposto, voto no sentido de negar provimento ao recurso voluntário. (assinatura digital) Marco Aurélio de Oliveira Barbosa Relator Fl. 455DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11762.720108/2013-40
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 05 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Regimes Aduaneiros
Data do fato gerador: 10/10/2008
Ementa:
PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA.
A impetração de mandado de segurança coletivo, por substituto processual, não se configura hipótese em que se deva declarar a renúncia à esfera administrativa.
Numero da decisão: 3402-004.678
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para que seja integrada a decisão recorrida para que ela aprecie o mérito apenas quanto à discussão objeto do mandado de segurança coletivo, nos termos do voto do Relator.
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente.
Diego Diniz Ribeiro- Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
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ementa_s : Assunto: Regimes Aduaneiros Data do fato gerador: 10/10/2008 Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo, por substituto processual, não se configura hipótese em que se deva declarar a renúncia à esfera administrativa.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 14; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1597; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T2 Fl. 4.790 1 4.789 S3C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 11762.720108/201340 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3402004.678 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 28 de setembro de 2017 Matéria Concomitância Recorrente LOGIN LOGÍSTICA INTERMODAL S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Data do fato gerador: 10/10/2008 Ementa: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo, por substituto processual, não se configura hipótese em que se deva declarar a renúncia à esfera administrativa. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso para que seja integrada a decisão recorrida para que ela aprecie o mérito apenas quanto à discussão objeto do mandado de segurança coletivo, nos termos do voto do Relator. Jorge Olmiro Lock Freire Presidente. Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório 1. Tratase de Auto de Infração que tem por objetivo a cobrança de crédito tributário referente a Imposto de Importação, IPIimportação, PISImportação e COFINS AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 76 2. 72 01 08 /2 01 3- 40 Fl. 4790DF CARF MF 2 Importação, devidamente acrescido dos consectários legais e que originalmente totalizava o importe de R$ 8.004.19,30. Segundo a acusação fiscal o II e o IPIimportação estariam sujeitos à isenção, enquanto que o PISImportação e o COFINSImportação estariam submetidos à alíquota zero, o que decorreria de regime tributário favorecido no caso de importações de partes e peças destinadas às embarcações registradas ou préregistradas no Registro Especial Brasileiro – REB. 2. Detalhando melhor os fatos, a Recorrente faz jus a um regime tributário beneficiado em operações de importação dos bens alhures citados desde que tais bens apresentem uma destinação específica, o que encontra guarida nas leis n. 8.032/90, 9.493/97 e 10.865/04. Tratase, portanto, de um benefício fiscal condicionado. 3. Segundo a fiscalização, para que o benefício fiscal aqui tratado seja fruído é indispensável a (i) comprovação de inexistência de similar nacional; bem como que (ii) os produtos importados de fato sejam empregados em embarcações registradas ou préregistradas no Registro Especial Brasileiro – REB. Assim, com o escopo de apurar se tais condições foram atendidas, deuse início a um procedimento fiscalizatório registrado sob o n. 071540002012 015030, o qual redundou na presente autuação com base em dois fundamentos autônomos, sendo eles (i) a Recorrente não demonstrou que os bens importados não apresentavam similar nacional, nos termos do que exige o disposto no art. 17 do Decretolei n. 37/661; e, ainda (ii) a Recorrente não fez prova de que os bens listados nas tabelas de fls. 3.684/3.690 de fato foram empregados em embarcações registradas ou préregistradas no Registro Especial Brasileiro – REB. 4. Devidamente notificado, o contribuinte apresentou tempestiva Impugnação (fls. 3.714/3.753), oportunidade em que alegou o que sumariamente segue abaixo: (i) em relação à similaridade, aduz que: (a) o art. 1o da lei n. 8.032/902 revogou todas as isenções e reduções de II e IPI, de caráter geral ou especial, concedidas no caso de importação de produtos estrangeiros para, ato contínuo, em seus artigos 2o e 3o conceder a isenção de II e IPI na hipótese de importação de partes, peças e componentes destinados ao reparo, revisão e manutenção de embarcações3, independentemente do produto importado ter ou não similar nacional; 1 "Art. 17 A isenção do impôsto de importação sòmente beneficia produto sem similar nacional, em condições de substituir o importado." 2 "Art. 1º Ficam revogadas as isenções e reduções do Imposto de Importação e do Imposto sobre Produtos Industrializados, de caráter geral ou especial, que beneficiam bens de procedência estrangeira, ressalvadas as hipóteses previstas nos artigos 2º a 6º desta lei." 3 "Art. 2º As isenções e reduções do Imposto de Importação ficam limitadas, exclusivamente: (...). II aos casos de: (...). j) partes, peças e componentes destinados ao reparo, revisão e manutenção de aeronaves e embarcações; (...)." "Art. 3º Fica assegurada a isenção ou redução do Imposto sobre Produtos Industrializados, conforme o caso: I nas hipóteses previstas no art. 2º desta lei, desde que satisfeitos os requisitos e condições exigidos para a concessão do benefício análogo relativo ao Imposto de Importação; (...)." Fl. 4791DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.791 3 (b) que destoar da interpretação acima e impor a realização de exigência não prevista em lei para a fruição do benefício fiscal implica ofensa ao princípio da tipicidade cerrada, bem como ao disposto no art. 111 do Código Tributário Nacional; (c) a exigência de prova quanto à inexistência de similaridade nacional após o desembaraço das mercadorias importadas redundaria em alteração do critério jurídico do lançamento, razão pela qual a presente autuação estaria em descompasso com o disposto no art. 146 do CTN; (d) que a inexistência, no desembaraço aduaneiro, de exigência de prova quanto à similaridade nacional configura prática reiterada pela autoridade administrativa, reclamando, por conseguinte, a incidência da regra prescrita no art. 100 do CTN; (ii) em relação à destinação do bem importado, assevera que: (a) fez prova de que os bens importados estavam vinculados à embarcações devidamente inscritas no Registro Especial Brasileiro – REB (fls. 2.031/2.054), o que estaria comprovado pela apresentação de notas fiscais de entrada (fls. 2.765/3.130, 3.881/3.900 e 3.908/3.925) e de saída (fls. 2.062/2.170; 2.204/2.329 e 3.133/3.699) referentes às mercadorias relacionadas nas DI's fiscalizadas, bem como na tabela de controle de importação (3.902/3.907); e, por fim (b) em relação às DI's n.s 12/07002102 e 12/08153554 haveria uma exigência em duplicidade, uma vez que os tributos aqui debatidos e relacionados a tais declarações já estavam sendo exigidos nos PA's n.s 10711.723289/201284 e 10715.724361/201294. 5. Devidamente processada a Impugnação, o processo foi convertido em diligência pela DRJSão Paulo (fls. 4.055/4.071) para que fossem apurados: (i) a aludida duplicidade em relação às DI's n.s 12/07002102 e 12/0815355 4; e (ii) verificar a concomitância da discussão aqui deflagrada com aquela esposada no mandado de segurança coletivo autuado sob o n. 0028166.42.2012.4.01.3400, com trâmite pela Justiça Federal de Brasília, e que fora impetrado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima, da qual a Recorrente é associada. 6. Referida diligência foi atendida e, ato contínuo, adveio o acórdão n. 16 61.011 (fls. 4.272/4.316), que julgou parcialmente procedente a Impugnação do contribuinte nos termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: REGIMES ADUANEIROS Data do fato gerador: 10/10/2008 Fruição das isenções ou das reduções de tributos devidos em importações, concedidas a partes, peças e componentes destinados ao reparo, revisão e manutenção de aeronaves e embarcações. O regime somente beneficia mercadoria sem similar nacional. Fl. 4792DF CARF MF 4 Concomitância. O objeto do Mandado de Segurança Coletivo é específico para a exigência do Imposto de Importação e do Imposto sobre Produtos Industrializados. O presente Auto de Infração exige multa de mora.Inaplicável a legislação invocada, por se referir à multa de ofício. De acordo com a legislação, a isenção do imposto de importação somente beneficia produto sem similar nacional, em condições de substituir o importado. Estão sujeitas ao licenciamento não automático as importações amparadas por benefícios fiscais isenção ou redução do imposto de importação. Duplicidade de exigência dos tributos de Declaração de Importação. Impugnação Procedente em Parte. Crédito Tributário Mantido em Parte. 7. Uma vez intimado da decisão alhures, o contribuinte apresentou o Recurso Voluntário de fls. 4.385/4.426, oportunidade em que repisou os fundamentos expostos em sua Impugnação. 8. Submetido à julgamento, esta Turma julgadora, em sua antiga composição, resolveu baixar o presente caso em diligência (resolução n. 3402000.801 fls. 4.579/4.584) para que fossem tomadas as seguintes providências: (i) juntada de cópia das principais peças do mandado de segurança autuado sob o n. 0028166.42.2012.4.01.3400, em especial as cópias da inicial, sentença, embargos de declaração, decisão integrativa, apelação e, se houver, acórdão da apelação e eventuais recursos especial e extraordinários e correlatas decisões; e, ainda (ii) a análise de todas as notas fiscais (de entrada e de saída) apresentadas pela Recorrente, em especial aquelas acostadas com a Impugnação, com a consequente preparação de tabela analítica capaz de promover a distinção (i) dos bens sem prova de similar nacional, mas com prova de adequado destino da mercadoria importada (ii) daqueles bens sem prova de similar nacional e também sem prova da adequada destinação no mercado nacional. 22. Da conclusão da diligência deve ser dada ciência ao contribuinte, abrindolhe o prazo de 30 (trinta) dias para, querendo, pronunciarse sobre o feito, o que deve ser feito com especial ênfase para as questões fáticas aqui tratadas. Ato contínuo, o presente processo deverá ser devolvido para o seu processamento e julgamento por este Tribunal Administrativo. (...). 9. Em cumprimento a sobredita diligência foram acostado aos autos os documentos de fls. 4.589/4.770, a respeito do qual o contribuinte manifestouse as fls. 4+779/4.786. Fl. 4793DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.792 5 10. É o relatório. Voto Conselheiro Relator Diego Diniz Ribeiro 11. O Recurso Voluntário é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento. I. Da suposta concomitância parcial de instâncias 12. Conforme exposto no relatório alhures, parte da impugnação apresentada pelo contribuinte não foi conhecida pela instância a quo ao fundamento que haveria parcial concomitância entre a insurgência do contribuinte e o objeto do litígio retratado no mandado de segurança coletivo autuado sob o n. 0028166.42.2012.4.01.3400, impetrado pelo Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima SYNDARMA (FLS. 4.637/4.662). 13. Segundo consta da inicial do aludido mandamus, a impetrante, na qualidade de substituto processual, assim vindicou em nome dos seus associados: (...). Fl. 4794DF CARF MF 6 14. Diante deste quadro, a DRJ do Rio de Janeiro, por intermédio do acórdão n. 1661.011, assim prescreveu: (...). Entendese que o PEDIDO constante do Mandado de Segurança Coletivo n° 0028166.42.2012.4.01.3400 referente à ... desde que atendidas às condições específicas previstas na Lei n° 8.032/90 e na Lei n° 9.493/97... ENGLOBA necessariamente o exame da comprovação ou não da similaridade do produto importado com o nacional. De outro modo, ao levar ao Poder Judiciário a discussão referente de quais são as condições específicas previstas na Lei n° 8.032/90 e na Lei n° 9.493/97 para se permitr a fruição das isenções ou das reduções de tributos devidos em importações, concedidas a partes, peças e componentes destinados ao reparo, revisão e manutenção de aeronaves e embarcações, necessariamente o exame dessas condições específicas permeará a questão da comprovação ou não da similaridade do produto importado com o nacional. Portanto, HÁ IDENTIDADE DOS PEDIDOS quanto ao Mérito, o que respalda a CONCOMITÂNCIA. (...) (grifos constantes no original). 15. O reconhecimento da suposta concomitância pela instância a quo redundou na seguinte disposição: (...) Acordam os membros da 23ª Turma de Julgamento, por unanimidade de Votos, em relação ao total lançado de R$ 8.004.193,30: Não conhecer da impugnação quanto aos valores que foram levados ao judiciário, no montante de R$ 1.049.255,24, para os quais fica o crédito tributário mantido; (...) (grifos nosso). 16. Tracejado este cenário fático, mister se faz neste instante precisar se o ajuizamento do mandamus coletivo aqui mencionado redunda ou não na concomitância com a instância administrativa provocada pelo contribuinte por meio da sua impugnação. 17. A respeito do tema, i.e., concomitância de processos administrativo frente à demandas de caráter coletivo, já tive a oportunidade de manifestarme no âmbito acadêmico em trabalho4 realizado em coautoria com Carlos Augusto Daniel Neto, oportunidade em que assim me manifestei: Em uma definição preliminar, a concomitância é um pressuposto negativo de admissibilidade de impugnações e recursos administrativos, consistente na inexistência de processo judicial ajuizado pelo contribuinte antes ou durante o curso do processo administrativo fiscal. 4 No prelo. Fl. 4795DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.793 7 Tal medida tem o condão, em síntese, de garantir a unidade da jurisdição, evitando que decisões contraditórias sejam proferidas nos âmbitos judicial e administrativo, como medida de segurança jurídica para o jurisdicionado. Em razão da ação de um modelo de monopólio da última palavra por parte do Judiciário, nos casos em que se verifica a concomitância, deve prevalecer o processo judicial, em detrimento do administrativo. Primeiramente, cumpre repisar as bases legais do regime jurídico da concomitância no PAF, com menção inicial ao art. 1º, §2º do DecretoLei n 1.737/1979, ao art. 1º da Lei nº 6.830/1980 (Lei de Execuções Fiscais), e ao art. 78, §2º da Portaria MF nº 343/2015 (RICARF), verbis: DecretoLei nº 1737/79 Art 1º Serão obrigatoriamente efetuados na Caixa Econômica Federal, em dinheiro ou em Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional ORTN, ao portador, os depósitos: §2º A propositura, pelo contribuinte, de ação anulatória ou declaratória da nulidade do crédito da Fazenda Nacional importa em renúncia ao direito de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso interposto. LEF Art. 38 A discussão judicial da Dívida Ativa da Fazenda Pública só é admissível em execução, na forma desta Lei, salvo as hipóteses de mandado de segurança, ação de repetição do indébito ou ação anulatória do ato declarativo da dívida, esta precedida do depósito preparatório do valor do débito, monetariamente corrigido e acrescido dos juros e multa de mora e demais encargos. Parágrafo Único A propositura, pelo contribuinte, da ação prevista neste artigo importa em renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto. RICARF Art. 78. Em qualquer fase processual o recorrente poderá desistir do recurso em tramitação. § 2º O pedido de parcelamento, a confissão irretratáve l de dívida, a extinção sem ressalva do débito, por qualquer de suas modalidades, ou a propositura pelo contribuinte, contra a Fazenda Nacional, de ação judicial com o mesmo objeto, importa a desistência do recurso. Sob um prisma subjetivo, se verifica na literalidade dos dispositivos que a legislação exige sempre que a propositura da ação judicial tenha sido realizada pelo próprio contribuinte, que está sendo parte também na discussão administrativa ou que tem legitimidade e interesse para interpor impugnações e recursos nesta seara. Fl. 4796DF CARF MF 8 Por outro lado, sob uma perspectiva procedimental, cumpre observar também que os dispositivos arrolaram expressamente os tipos de ações propostas pelo contribuinte que tem o condão de gerar a concomitância com efeitos de obstar o conhecimento dos pleitos administrativos: i) ação anulatória ou declaratória de nulidade do crédito; ii) ação de repetição de indébito; e iii) mandado de segurança. Apesar do art. 38 da LEF mencionar expressamente o "mandado de segurança", cabe uma breve consideração ao fato de que essa lei foi escrita e promulgada às vésperas do início da década de 80, reportandose assim à figura processual regulamentada na Lei nº 1.533/1951, que previa expressamente que o MS seria impetrado individualmente, especialmente em seu art. 1º, §2º ("Quando o direito ameaçado ou violado couber a varias pessoas, qualquer delas poderá requerer o mandado de segurança."). O mandado de segurança coletivo somente foi inserido no ordenamento jurídico brasileiro com a promulgação da Constituição de 1988, que trouxe previsão expressa em seu art. 5º, LXX ("O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por:"), e atualmente encontra maior regulamentação na Lei nº 12.016/2009. Isso deixa claro, pois, que ao mencionar "mandado de segurança", a LEF referese exclusivamente à modalidade de tutela individual, visto que era a existente legislativamente à época, não sendo crível que o legislador pretendesse aí, no bojo das regras de execução fiscal, antever um instrumento processual que só seria positivado anos depois. O MS Coletivo apenas foi regulamentado expressamente e de forma geral (isto é, fora de campos normativos específicos) com o art. 21 do Lei nº 12.016/2009: Art. 21. O mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por partido político com representação no Congresso Nacional, na defesa de seus interesses legítimos relativos a seus integrantes ou à finalidade partidária, ou por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há, pelo menos, 1 (um) ano, em defesa de direitos líquidos e certos da totalidade, ou de parte, dos seus membros ou associados, na forma dos seus estatutos e desde que pertinentes às suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial. Parágrafo único. Os direitos protegidos pelo mandado de segurança coletivo podem ser: I coletivos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os transindividuais, de natureza indivisível, de que seja titular grupo ou categoria de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica básica; II individuais homogêneos, assim entendidos, para efeito desta Lei, os decorrentes de origem comum e da atividade ou situação específica da totalidade ou de parte dos associados ou membros do impetrante. Assim, uma análise literal e histórica parece militar a favor da impossibilidade de concomitância entre um mandado de Fl. 4797DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.794 9 segurança coletivo e um processo administrativo movido por um contribuinte. Outro ponto que merece destaque é o papel que o contribuinte ostenta no caso de MS Coletivo movido por entidade com legitimidade para tanto. Isso é relevante pois, nos termos do art. 18 do CPC, " ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico" é dizer, quando a associação ou organização sindical, apenas a título de exemplo, impetra o mandamus, não há qualquer dúvida de que atue ali exclusivamente como parte, ainda que o direito material vindicado pertença a esfera patrimonial de terceiros, i.e., seus associados ou sindicalizados. Nesse caso, o impetrante goza de uma legitimidade extraordinária a título de substituto processual outorgada pela própria Constituição Federal, em seu art. 5º, LXX, que não se confunde com aquela representação veiculada no inciso XXI do mesmo artigo, verbis: (...). XXI as entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente; LXX o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por: a) partido político com representação no Congresso Nacional; b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses de seus membros ou associados; (...). Nesse sentido, inclusive, é o posicionamento de longe data assumido pelo Supremo Tribunal Federal, a exemplo do ilustrativo voto do Min. Marco Aurélio no RE 364.051/SP, transcrito abaixo: No tocante ao mérito, há de distinguirse, sob o ângulo da legitimidade, o disposto nos incisos XXI e LXX do artigo 5º da Constituição Federal. O primeiro versa sobre a representação judicial e extrajudicial dos filiados pelas entidades associativas, consideradas as ações em geral. Exigese a autorização para ingressar em Juízo, que pode constar do estatuto da sociedade. Já o segundo, norma específica disciplinadora do mandado de segurança coletivo, estampa, por si próprio, substituição processual, a revelar que os partidos políticos com representação no Congresso Nacional, as organizações sindicais, as entidades de classe e associações legalmente constituídas e em funcionamento há pelo menos um ano têm legitimidade para propositura do mandado de segurança. Fl. 4798DF CARF MF 10 Consolidouse a tal ponto a distinção entre a representação e a substituição processual nos incisos analisados que o STF editou a súmula nº 629, nos seguintes termos: A impetração de mandado de segurança coletivo por entidade de classe em favor dos associados independe da autorização destes. Assim, resta claro que embora as associações sejam entidades com legitimidade para impetrar mandados de segurança, no caso do inciso LXX do art. 5º da CF/88 o MS Coletivo é instrumento privativo desta entidade, enquanto na hipótese do inciso XXI o MS seria um instrumento geral, manejável tanto pelo indivíduo separadamente como também pela entidade na condição de representante processual, cuja autorização daquele é exigida como condição dessa legitimidade representacional. É preciso que fique absolutamente claro que a substituição processual não se confunde com a representação. Este atua processualmente em nome alheio, e para a defesa de interesses e pretensões alheias, ao passo que aquele age em nome próprio, no interesse dos substituídos. Neste sentido é a precisa lição de Giuseppe Chiovenda: As posições fundamentais e secundárias acima examinadas assumeas normalmente a própria pessoa que se afirma titular da relação deduzida em juízo. Mas excepcionalmente assumeas pessoa que não se afirma e apresenta como sujeito da relação substancial em litígio. Como no direito substancial casos se verificam em que se admite alguém a exercer no próprio nome direitos alheios, assim também outro pode ingressar em juízo no próprio nome (isto é, como parte) por um direito alheio. Ao introduzir e analisar essa categoria, porfiei em definirlhe o caráter, atribuindolhe a denominação de substituição processual. Categoria e denominação são hoje aceitas a todos, inclusive pela jurisprudência da Corte de Cassação, (aresto de 8 de abril de 1926, na Giurisprudenza italiana, 1926, p. 489; de 13 de julho de 1931, no Foro italiano, 1932, p. 735; de 24 de julho de 1934, no Foro italiano, 1935, p. 59). Muitos dos casos por mim incluídos em tal categoria são comumente explicados como casos de representação; mas, conquanto se produzam, aí, alguns efeitos análogos aos da representação, não é de representação que se trata, de vez que o representante processual age em nome de outro, de sorte que parte na causa é, na verdade, o representado; ao passo que o substituto processual age em nome próprio e é parte na causa. Como tal responde pelas despesas judiciais, não servir como testemunha etc. O fato, porém, de ser o substituto processual autorizado por lei a comparecer em juízo pelo direito alheio decorre de uma relação em que aquele se encontra com o sujeito dele. Esta relação, em que ele se encontra com o titular, constitui o interesse como condição da substituição processual, apresentado, pois, como coisa bem diferente do interesse como condição da ação que se faz valer. (CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil. Vol. II. Campinas: Bookseller; 1998, p. 300302) Como se depreende da ilustrativa cita do mestre italiano, a relação jurídica de fundo é distinta nos dois casos: na Fl. 4799DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.795 11 substituição processual a relação de fundo possui natureza de direito material, dando legitimidade extraordinária para a entidade pleitear tutela de direito alheio, mas em nome próprio, enquanto na representação a relação jurídica é processual, com a atribuição de um mandato processual para que a entidade defenda direito alheio em nome do mandatário, e não em seu próprio nome tratase de legitimação ordinária decorrente da existência de pretensão do mandatário, mas cujo exercício no âmbito do processo é atribuído a terceiro. A distinção fica ainda mais patente quando se analisam os efeitos da coisa julgada decorrente de um MS Coletivo, no qual atuou a entidade como substituto processual, e em um MS Individual, onde ela atuou como representante. Tal regramento, emprestado do tratamento dado à matéria no Código de Defesa do Consumidor, foi consignada no art. 22 da Lei nº 12.016/2009, verbis: Art. 22. No mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa julgada limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos pelo impetrante. § 1o O mandado de segurança coletivo não induz litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada não beneficiarão o impetrante a título individual se não requerer a desistência de seu mandado de segurança no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência comprovada da impetração da segurança coletiva. Como se vê, a lei reconhece claramente a possibilidade de coexistência de mandados de segurança coletivo e individuais, mas limitando subjetivamente a eficácia daquele em relação a estes, nos casos em que o sujeito opte por prosseguir a sua discussão própria da matéria. Ora, se sequer há que se falar em litispendência no âmbito judicial, pela existência de MS individual e coletivo, a fortiori não haveria que se cogitar também de concomitância entre este e o procedimento administrativo, visto que é prerrogativa constitucional do contribuinte ter acesso à via judicial e administrativa, e a todos os recursos e meios de defesa a ela inerentes, exercidos em contraditório (art. 5º, LV da CF/88), somente lhe sendo afastado a via administrativa nos casos em que sponte propria optou por acessar prioritariamente o Judiciário, cujas decisões prevalecem sobre aquela proferidas em processos administrativos. A coisa julgada em ação coletiva nunca poderá prejudicar os substituídos, até mesmo porque a legitimação extraordinária decorre de lei, e não da vontade destes, e cercear o seu acesso posterior e individual ao Judiciária seria, inequivocamente, um ofensa ao art. 5º, XXXV da Constituição (a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito). Nesse sentido é a lição do saudoso Min. Teori Albino Zavascky: "O interessado que optar pela nãovinculação poderá ser beneficiado, mas jamais prejudicado, com o resultado da Fl. 4800DF CARF MF 12 demanda coletiva. Conseqüências negativas ao seu patrimônio jurídico dependeriam de previsão legal, inexistente em nosso ordenamento" (ZAVASCKY. Teori Albino. Processo Coletivo, 2ªed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007, p. 225) A distinção entre o mandado de segurança coletivo e o individual e o alcance de ambos é relevante quando se analisa a incidência ou não da Súmula CARF nº 1 no caso em tela: Importa renúncia às instâncias administrativas a propositura pelo sujeito passivo de ação judicial por qualquer modalidade processual, antes ou depois do lançamento de ofício, com o mesmo objeto do processo administrativo, sendo cabível apenas a apreciação, pelo órgão de julgamento administrativo, de matéria distinta da constante do processo judicial. É preciso, para definir a aplicabilidade ou não da mesma, a análise dos seus fundamentos determinantes, consubstanciados nos acórdãos paradigmas de sua elaboração, procedimento este imposto pelo art.489, §1º, V do Código de Processo Civil (Lei 13.105/2016), que se aplica subsidiariamente ao procedimento administrativo (art. 15), verbis: Art. 489. São elementos essenciais da sentença: I o relatório, que conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo; II os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões principais que as partes lhe submeterem. § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: (...) V se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos; (...). No caso da súmula em comento, os acórdãos em questão são os seguintes, conforme pesquisa no sítio virtual do CARF: Acórdão nº 10193877, de 20/06/2002; Acórdão nº 10321884, de 16/03/2005; Acórdão nº 10514637, de 12/07/2004; Acórdão nº 10706963, de 30/01/2003; Acórdão nº 10807742, de 18/03/2004; Acórdão nº 20177430, de 29/01/2004; Acórdão nº 20177706, de 06/07/2004; Acórdão nº 20215883, de 20/10/2004; Acórdão nº 20178277, de 15/03/2005; Acórdão nº 20178612, de 10/08/2005; Acórdão nº 20177430, de 29/01/2004, Acórdão nº 30330029, de 07/11/2001; Acórdão nº 30131241, de 16/06/2003, Acórdão nº 30236429, de 19/10/2004, Acórdão nº 30331801, de 15/03/2005, Acórdão nº 30131875, de 15/06/2005. Fl. 4801DF CARF MF Processo nº 11762.720108/201340 Acórdão n.º 3402004.678 S3C4T2 Fl. 4.796 13 Compulsandoos individualmente, verificase que absolutamente todos versam sobre ações individuais propostas ou mandados de segurança individuais impetrados pelo contribuinte, pessoalmente, sem haver um precedente sequer que tratasse da questão dos mandados de segurança coletivos. Essa minuciosa análise dos acórdãos paradigmas que embasaram a súmula CARF nº 01 bastam para demonstrar que ela não pode ser aplicada em casos outros que não sejam de ações individuais, sob pena de considerarse não fundamentada a decisão proferida com base nela, com fulcro no art.489, §1º, V do Novo CPC. Por fim, cumpre mencionar que a 3ª CSRF deste CARF possui precedente recentíssimo, julgado unanimemente, no sentido de reconhecer a inexistência de concomitância nos casos de mandado de segurança coletivo, no acórdão CSRF nº 9303 005.189, julgado em 18 de Maio de 2017 e assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/04/1999 a 31/01/2007 PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO. CONCOMITÂNCIA. INEXISTÊNCIA. A impetração de mandado de segurança coletivo, por substituto processual, não se configura hipótese em que se deva declarar a renúncia à esfera administrativa. Em seu voto, o Conselheiro Andrada Natal entendeu que no MS Coletivo o substituto teria capacidade de ajuizar a ação independente da autorização do substituído, na linha da Súmula nº 629 do STF e que nos termos do art. 22, §1º da Lei nº 12.016/2009, o MS Coletivo não induz litispendência para ações individuais. 18. Diante deste quadro, resta claro que a impetração de mandado de segurança coletivo não tem o condão de implicar o reconhecimento da concomitância com processo administrativo. Dispositivo 19. Ex positis, dou provimento parcial ao recurso voluntário interposto para reformar o acórdão recorrido, devendo o presente caso ser devolvido à instância julgadora a quo para que ela aprecie o mérito apenas da discussão indevidamente suprimida em razão de equivocado reconhecimento de concomitância de instâncias. 20. É como voto. Diego Diniz Ribeiro Relator. Fl. 4802DF CARF MF 14 Fl. 4803DF CARF MF
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Numero do processo: 16682.720227/2014-97
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Segunda Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Jul 03 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Sep 12 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/03/2009 a 31/12/2009
RECURSO DE OFÍCIO. BASE DE CÁLCULO. DUPLICIDADE. EQUÍVOCO.
Confirma-se, em sede de recurso de ofício, a exclusão de valores incluídos na base de cálculo do tributo, quando comprovado o lançamento em duplicidade.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. DECADÊNCIA. FATO GERADOR. TERMO INICIAL DO PRAZO QUINQUENAL.
Na hipótese de pagamento de remuneração variável com base na Participação nos Lucros ou Resultados, o fato gerador das contribuições previdenciárias é mensal e aperfeiçoa-se no último átimo do respectivo mês em que ocorreu a prestação de serviços pelos trabalhadores. A partir daí, conta-se o prazo de cinco anos para a constituição do crédito tributário mediante o lançamento de ofício, quando há antecipação de pagamento.
NULIDADE. DEFICIÊNCIA DA CAPITULAÇÃO LEGAL.
Descabe cogitar de nulidade do lançamento tributário quando os requisitos legais para a lavratura do auto de infração foram devidamente observados pela autoridade fiscal.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS DESLIGADOS. RESCISÃO DO CONTRATO DE TRABALHO. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS.
Nas situações de desligamento de segurado empregado, decorrentes de rescisão do contrato de trabalho, a parcela paga na rescisão a título de Participação nos Lucros ou Resultados não entra no cômputo da vedação ao pagamento em mais de duas vezes no ano civil ou em periodicidade inferior ao previsto na lei de regência. Em todos os casos comprovados nos autos, por meio de documentação hábil, afasta-se a incidência da tributação por desrespeito à periodicidade.
PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. MAIS DE UM INSTRUMENTO COLETIVO DE NEGOCIAÇÃO. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS. COMPATIBILIZAÇÃO.
Não há óbice na lei de regência ao pagamento da Participação nos Lucros ou Resultados mediante dois planos distintos, tais como convenção e acordo coletivo. Nada obstante, é obrigatória a compatibilização, na origem, entre os instrumentos coletivos de negociação para a realização dos pagamentos a um mesmo segurado em frequência igual ou superior ao prazo legalmente estipulado e, no máximo, duas vezes no mesmo ano civil, sob pena de incidência da tributação sobre os valores pagos.
TERCEIROS. CONTRIBUIÇÃO DEVIDA AO INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA (INCRA). INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2.
Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
(Súmula Carf nº 2)
Numero da decisão: 2401-004.913
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso de ofício e, no mérito, negar-lhe provimento. Por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e rejeitar a preliminar de nulidade. Por maioria, não reconhecer a decadência da competência 03/2009, vencido o relator. No mérito, por voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir os valores lançados referentes à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. Vencidos o relator e os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa que davam provimento parcial em maior extensão ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores pagos a título de PLR que, dentro de cada semestre civil, não excederam a periodicidade semestral. Os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa também votaram pela exclusão dos valores relativos à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess. Julgamento iniciado na reunião de junho, quando o relator proferiu o seu voto. Julgamento realizado em julho, sem a presença do relator, pois faltou à sessão de julgamento do dia 3/7/2017.
(assinado digitalmente)
Miriam Denise Xavier Lazarini - Presidente
(assinado digitalmente)
Carlos Alexandre Tortato - Relator
(assinado digitalmente)
Cleberson Alex Friess - Redator Designado
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez.
Nome do relator: CARLOS ALEXANDRE TORTATO
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BASE DE CÁLCULO. DUPLICIDADE. EQUÍVOCO. Confirmase, em sede de recurso de ofício, a exclusão de valores incluídos na base de cálculo do tributo, quando comprovado o lançamento em duplicidade. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. DECADÊNCIA. FATO GERADOR. TERMO INICIAL DO PRAZO QUINQUENAL. Na hipótese de pagamento de remuneração variável com base na Participação nos Lucros ou Resultados, o fato gerador das contribuições previdenciárias é mensal e aperfeiçoase no último átimo do respectivo mês em que ocorreu a prestação de serviços pelos trabalhadores. A partir daí, contase o prazo de cinco anos para a constituição do crédito tributário mediante o lançamento de ofício, quando há antecipação de pagamento. NULIDADE. DEFICIÊNCIA DA CAPITULAÇÃO LEGAL. Descabe cogitar de nulidade do lançamento tributário quando os requisitos legais para a lavratura do auto de infração foram devidamente observados pela autoridade fiscal. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. PAGAMENTOS A BENEFICIÁRIOS DESLIGADOS. RESCISÃO DO CONTRATO DE TRABALHO. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS. Nas situações de desligamento de segurado empregado, decorrentes de rescisão do contrato de trabalho, a parcela paga na rescisão a título de Participação nos Lucros ou Resultados não entra no cômputo da vedação ao pagamento em mais de duas vezes no ano civil ou em periodicidade inferior ao previsto na lei de regência. Em todos os casos comprovados nos autos, por AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 68 2. 72 02 27 /2 01 4- 97 Fl. 4285DF CARF MF 2 meio de documentação hábil, afastase a incidência da tributação por desrespeito à periodicidade. PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS OU RESULTADOS. MAIS DE UM INSTRUMENTO COLETIVO DE NEGOCIAÇÃO. PERIODICIDADE DOS PAGAMENTOS. COMPATIBILIZAÇÃO. Não há óbice na lei de regência ao pagamento da Participação nos Lucros ou Resultados mediante dois planos distintos, tais como convenção e acordo coletivo. Nada obstante, é obrigatória a compatibilização, na origem, entre os instrumentos coletivos de negociação para a realização dos pagamentos a um mesmo segurado em frequência igual ou superior ao prazo legalmente estipulado e, no máximo, duas vezes no mesmo ano civil, sob pena de incidência da tributação sobre os valores pagos. TERCEIROS. CONTRIBUIÇÃO DEVIDA AO INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA (INCRA). INCONSTITUCIONALIDADE. SÚMULA CARF Nº 2. Este Conselho Administrativo de Recursos Fiscais não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. (Súmula Carf nº 2) Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Fl. 4286DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.285 3 Acordam os membros do colegiado, por unanimidade, em conhecer do recurso de ofício e, no mérito, negarlhe provimento. Por unanimidade, em conhecer do recurso voluntário e rejeitar a preliminar de nulidade. Por maioria, não reconhecer a decadência da competência 03/2009, vencido o relator. No mérito, por voto de qualidade, dar provimento parcial ao recurso voluntário para excluir os valores lançados referentes à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. Vencidos o relator e os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa que davam provimento parcial em maior extensão ao recurso voluntário para excluir do lançamento os valores pagos a título de PLR que, dentro de cada semestre civil, não excederam a periodicidade semestral. Os conselheiros Rayd Santana Ferreira, Andréa Viana Arrais Egypto e Luciana Matos Pereira Barbosa também votaram pela exclusão dos valores relativos à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. Designado para redigir o voto vencedor o conselheiro Cleberson Alex Friess. Julgamento iniciado na reunião de junho, quando o relator proferiu o seu voto. Julgamento realizado em julho, sem a presença do relator, pois faltou à sessão de julgamento do dia 3/7/2017. (assinado digitalmente) Miriam Denise Xavier Lazarini Presidente (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Relator (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Redator Designado Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Miriam Denise Xavier Lazarini, Carlos Alexandre Tortato, Rayd Santana Ferreira, Cleberson Alex Friess, Luciana Matos Pereira Barbosa, Francisco Ricardo Gouveia Coutinho, Andréa Viana Arrais Egypto e Claudia Cristina Noira Passos da Costa Develly Montez. Fl. 4287DF CARF MF 4 Relatório Tratamse de recurso voluntário (fls. 4187/4242) e de ofício interpostos em face do acórdão nº. 0738.318 (fls. 4077/4109) proferido pela DRJ Florianópolis/SC, cuja ementa restou assim redigida: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS PREVIDENCIÁRIAS Período de apuração: 01/03/2009 a 31/12/2009 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS. REQUISITOS ESTABELECIDOS EM LEI. A participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada em desacordo com a lei específica, integra o salário de contribuição. ASSUNTO: OUTROS TRIBUTOS OU CONTRIBUIÇÕES Período de apuração: 01/03/2009 a 31/12/2009 PARTICIPAÇÃO NOS LUCROS. REQUISITOS ESTABELECIDOS EM LEI. A participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada em desacordo com a lei específica, integra o salário de contribuição. CONTRIBUIÇÃO PARA O INCRA. EMPRESA URBANA. EXIGIBILIDADE. A contribuição para o INCRA, mesmo após a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a publicação das Leis nº 7.787/89, nº 8.212/91 e nº 8.213/91, permanece plenamente exigível, inclusive em relação às empresas dedicadas a atividades urbanas. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/03/2009 a 31/12/2009 DECADÊNCIA. SÚMULA VINCULANTE Nº 08 DO STF. A decadência das contribuições sociais previdenciárias é regida pelas disposições contidas no Código Tributário Nacional, conforme determinado pela Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal nº 08, publicada no DOU de 20/06/2008. ARGÜIÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE. INCOMPETÊNCIA DAS INSTÂNCIAS ADMINISTRATIVAS PARA APRECIAÇÃO. As autoridades administrativas estão obrigadas à observância da legislação vigente no País, sendo incompetentes para a apreciação de argüições de inconstitucionalidade de atos legais regularmente editados. Fl. 4288DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.286 5 Impugnação Procedente em Parte Crédito Tributário Mantido em Parte Os Autos de Infração (AI DEBCAD n° 51.059.2902, AI DEBCAD n° 51.059.2910 e AI DEBCAD n° 51.059.2929) do presente processo originamse da exigência de contribuições não recolhidas à Seguridade Social e a Terceiros, em razão de ter a fiscalização considerado que os pagamentos à título de Participação nos Lucros ou Resultados teriam sido realizados em desacordo com a Lei 10.101, de 2000, nos termos do Relatório Fiscal de fls. 122/163. O processo foi constituído dos seguintes autos de infração: a) AI DEBCAD n° 51.059.2902, no valor de R$ 10.183.300,80, que apura as contribuições destinadas ao financiamento dos benefícios concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho GILRAT, incidentes sobre valores pagos a segurados empregados a título de Participação nos Lucros e Resultados – PLR; b) AI DEBCAD n° 51.059.2910, no valor de R$ 1.461.082,35, que apura as contribuições devidas às Terceiras Entidades e Fundos (Terceiros): FNDE (Fundo Nacional) de Desenvolvimento da Educação), INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), incidentes sobre valores pagos a segurados empregados a título de Participação nos Lucros e Resultados PLR; c) AI DEBCAD n° 51.059.2929, no valor de R$ 1.106.880,54, que apura as contribuições devidas às Terceiras Entidades e Fundos (Terceiros): SESI (Serviço Social da Indústria) e SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), incidentes sobre valores pagos a segurados empregados a título de Participação nos Lucros e Resultados PLR. Cabe ressaltar que, no período fiscalizado, a autuada mantinha convênio regular com estas duas entidades, razão por que as contribuições foram levantadas em Auto de Infração em separado A ora recorrente tomou ciência dos referidos AI em 31/03/2014 (fl. 5). Segundo a Autoridade fiscal, foram apuradas as seguintes irregularidades: a) SOUZA CRUZ efetuou o pagamento de verbas a título de PLR, em diversas competências do ano de 2009, com base em Acordos Coletivos pactuados com entidades sindicais, conforme o nível salarial a que pertencem seus empregados, dividindoos nas seguintes categorias: Grupos Salariais 34, 35, 36, 37, 38, 39 e acima aplicáveis aos empregados de nível gerencial; e Profissionais e Operacionais aplicáveis aos demais empregados da Empresa, nãogerentes, de acordo com a característica funcional de cada um. Fl. 4289DF CARF MF 6 Explica que ao longo do procedimento fiscal a Empresa apresentou os Acordos de PLR pagos em 2009, relativos a diversos exercícios, aos empregados de nível Gerencial (Anexo III Acordos de PLR Nível Gerencial) e de níveis Profissional e Operacional (Anexo IV Acordos de PLR Níveis Profissional e Operacional). Discorre a respeito do procedimento adotado para apuração dos valores pagos indevidamente a título de PLR, conforme segue: Esclarece, ainda, que efetuou os cálculos dos valores pagos a título de PLR aos empregados da Empresa e constatou que, embora o cálculo estivesse correto, o pagamento foi feito em desacordo com a lei de regência. Desta forma, somente os beneficiários relacionados na planilha do Anexo I – “Pagamentos Irregulares a Título de PLR” fazem parte do presente levantamento. Os códigos de rubricas de folha de pagamento 9177, 9178 e 9179, vistos no item 4.4 do REFISC, dizem respeito a tipos de PLR concedidos pela Fiscalizada que não foram considerados irregulares no presente levantamento. Frisa que nenhum dos diversos Acordos relacionados nos itens 4.2 e 4.3 do relatório fiscal faz referência expressa a mais de dois pagamentos por ano, seja a que exercício se referir. Porém, a combinação de regras de distribuição de parcelas de mais de um Acordo referente à mesma categoria de empregados, seja por liquidação do PLR do biênio Fl. 4290DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.287 7 2008/2009 ou antecipação do biênio 2009/2010, cria a situação onde diversos empregados recebem pagamentos a título de PLR por mais vezes ao ano do que a lei permite. Alega que a despeito de a Fiscalizada possuir diversas categorias de PLR, cabendo a alguns integrantes de nível Gerencial, por exemplo, o enquadramento em mais de uma categoria, há que se concluir que todos os valores pagos em 2009 têm exatamente a mesma natureza, qual seja "pagamento de Participação nos Lucros e Resultados", independente da denominação que venha a ser dada pela Empresa ou a que biênio se refira. Por fim, diz que a Lei n° 10.101/2000 não exige que a distribuição de Lucros deva, necessariamente, ser feita em pagamento único, com a lavratura de apenas um Acordo entre empregados e entidade sindical, e com uma só denominação. Tampouco obsta a celebração de acordo com regras distintas por categoria funcional de trabalhadores, decorrência natural do fato de que não é necessário estender à totalidade dos empregados o programa da PLR. Desta forma, se assim quisesse, a empresa poderia ter criado todas as categorias de PLR que possui no momento, acordando com a entidade sindical ou comissão de empregados o pagamento de antecipação em determinada competência e a consolidação final em competência diversa, com mais de seis meses de intervalo, totalizando no máximo dois pagamentos ao ano. Após a apresentação de sua peça impugnatória (fls. 3328/3371), foi inicialmente o julgamento da mesma na instância a quo convertido em diligência, nos seguintes termos (fls. 3690/3692): Pelo que se extrai dos dados acima, ao que tudo indica, algumas parcelas de PLR foram realmente lançadas em duplicidade. Diante disso, entendo que se faz necessária a realização de diligência à autoridade lançadora, a fim de que esta apresente os esclarecimentos pertinentes em relação à insurgência da Autuada, uma vez que inexistem nos autos elementos suficientes que possibilitem formar convicção. Outrossim, caso se reconheça pela procedência da alegação, cumpre a autoridade fiscal elaborar uma planilha complementar demonstrando a inconsistência apurada, por DEBCAD`s, estabelecimentos e competências, bem como os valores anteriores e os novos (DE/PARA), nas quais as contribuições lançadas deverão sofrer retificação em razão da situação exposta. Dessa forma, com base no disposto nos arts. 18 a 29 do Decreto nº 70.235, de 06 de março de 1972, PROPONHO o encaminhamento dos autos à autoridade lançadora para esclarecimentos/revisão do lançamento quanto à situação acima relatada. Por fim, dêse ciência ao sujeito passivo sobre o resultado da diligência, fornecendolhe também cópia deste despacho, bem como sobre as novas informações trazidas aos autos pela autoridade lançadora, para, querendo, manifestarse no prazo de 30 (trinta) dias. Às fls. 3715/3720, foi realizado o Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, onde a autoridade lançadora informa que, de fato, as bases de cálculo originalmente Fl. 4291DF CARF MF 8 apuradas estavam em duplicidade. Cientificada do resultado, a ora recorrente não apresentou contrarrazões. A peça impugnatória da contribuinte foi julgada parcialmente procedente, mantendose, em parte, os créditos tributários apurados nos AI DEBCAD n° 51.059.2902, AI DEBCAD n° 51.059.2910 e AI DEBCAD n° 51.059.2929, nos seguintes termos: Em face do referido acórdão, a recorrente apresentou recurso voluntário de fls. 4187/4242, alegando, em síntese: • Que o dispositivo legal que embasou a exigência tributária (art. 22, inciso I da Lei nº 8.212/91) traz uma redação genérica, não determina matéria tributável ou penalidade cominada ao Contribuinte nem faz menção à suposta violação a Lei n° 10.101/00. Prossegue afirmando que a inobservância da exigência da correta capitulação legal possui o condão de viciar, de forma insanável, o respectivo auto de infração, uma vez que impossibilitando o conhecimento dos elementos o seu direito de defesa resta cerceado. • Que o presente Auto de Infração foi lançado em 31.03.14, por entender o Fiscal que a recorrente deixou de recolher as contribuições a terceiros incidentes sobre fatos geradores ocorridos no período de 03/2009 a 12/2009. Assim, aduz que o débito em debate encontrase parcialmente fulminado pela decadência, posto que lançado quando já transcorrido o prazo decadencial de 5 (cinco) anos previsto no art. 150, §4º, do Código Tributário Nacional • No que concerne às questões de mérito, alega que o descumprimento de uma simples formalidade legal nos Fl. 4292DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.288 9 pagamentos das participações nos lucros não possui o condão de autorizar que tais parcelas sejam integradas à base de cálculo das contribuições previdenciárias. • Requer, caso o pedido de anulação integral da autuação não seja acolhido, que sejam excluídos da base de cálculo das contribuições previdenciárias os pagamentos das primeira e segunda parcelas aos segurados, realizados com intervalo semestral, bem como aqueles pagamentos ocorridos na mesma data de PLR, já que sobre esses pagamentos não há que se cogitar qualquer descumprimento da periodicidade prevista na Lei n° 10.101/00; a impossibilidade de a participação nos lucros integrar o conceito de “saláriodecontribuição”; a exclusão das parcelas lançadas em duplicidade; e a inexigibilidade da contribuição ao INCRA. • Reforça que, em que pese a Lei nº 7.787/89 ter sido expressa no sentido de que a contribuição ao INCRA teria sido extinta, cabe ressaltar que as leis nºs 8.212/91 e 8.213/91, que tratam do custeio e do plano de benefício da Previdência Social, respectivamente, também não contemplaram a referida contribuição. • Destaca a impossibilidade de caracterização da contribuição ao INCRA como Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, sendo evidente que a cobrança da mesma não mais encontra respaldo no ordenamento jurídico pátrio. • Afirma que, sendo firmado posicionamento no sentido que há amparo legal para a cobrança da contribuição ao INCRA, cumpre determinar a sua base de cálculo para que seja analisada a possibilidade da sua incidência sobre a participação nos lucros. • Afirma que tais parcelas não são enquadradas como salário. Evoca o que dispõe o artigo 7º, inciso XI da Constituição Federal, pela qual o constituinte originário optou por deixar expressa a impossibilidade de integração da participação nos lucros ao salário do trabalhador, não delegando qualquer espaço para o legislador dispor de forma diferente. • Suscita que das dezenas de negociações que estipulavam que a recorrente distribuiria seus lucros sempre foi previsto o pagamento em um mês específico, com o adiantamento parcial em outro mês, sempre respeitado o intervalo de seis meses, conforme regras previstas nos programas próprios. • Alega que somente efetuou o pagamento da participação nos lucros em periodicidade superior à definida em lei em razão da única possibilidade fática e jurídica possível de coadunar dois instrumentos válidos e de observância cogente. • Afirma que, além da hipótese supracitada de mudança de categoria sindical, outra situação ensejou esporádicos pagamentos em mais de duas datas no mesmo semestre civil pela recorrente, pagamentos estes que, da mesma forma, encontram Fl. 4293DF CARF MF 10 se amparados pela legislação trabalhista, visto que foram todos feitos a funcionários que tiveram seu contrato de trabalho extinto. • Suscita que a interpretação dada à legislação infraconstitucional, no sentido de que o desrespeito a alguma formalidade no pagamento da participação nos lucros ensejaria a sua integração ao saláriodecontribuição dos empregados, frustra a efetividade do texto constitucional, o que não pode prevalecer. • Conclui que a rígida interpretação da Lei nº 10.101/00 a ponto de ensejar a cobrança de contribuições previdenciárias sobre a PLR em razão de descumprimento de simples formalidade, também viola o art. 218, §4º da Constituição Federal. • Pede, subsidiariamente a exclusão das parcelas pagas com o intervalo semestral de que trata a Lei 10.101. /2000. Destaca que o entendimento que determina a exclusão das parcelas pagas em respeito à periodicidade de 6 (seis) meses é pacífico tanto no âmbito do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, como no âmbito do Poder Judiciário. • Busca esclarecer, por fim, que a autuação incluiu indevidamente parcelas pagas no mesmo período a título de PLR, mas que apenas por um controle contábil interno são divididas em duas rubricas. É o relatório. Fl. 4294DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.289 11 Voto Vencido Conselheiro Carlos Alexandre Tortato Relator Admissibilidade O recurso é tempestivo e atende aos demais requisitos de admissibilidade, assim, dele tomo conhecimento. Do recurso de ofício O presente recurso de ofício decorre da exclusão da base de cálculo do lançamento originariamente realizado, dos valores lançados em duplicidade, em decorrência de equívoco do AFRFB que fora induzido a erro pelos próprios documentos fornecidos pela contribuinte. Assim, discorro as razões apontadas no próprio acórdão recorrido, as quais são suficientemente claras para entender que se tratou, de fato, de um equívoco que fora sanado e não maculou o lançamento: Em análise preliminar, uma vez que não há nos autos elementos suficientes que possibilitem formar convicção, essa autoridade julgadora propôs a realização de diligência, através o despacho da 5ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Florianópolis, de 16 de setembro de 2014, a fim de que o auditor notificante apresentasse os esclarecimentos pertinentes à insurgência da Autuada. E caso se reconhecesse a procedência da alegação, que fosse elaborada uma planilha complementar demonstrando a inconsistência apurada, por DEBCAD´s, estabelecimentos e competências, bem como os valores anteriores e os novos (DE/PARA), nas quais as contribuições lançadas deverão sofrer retificação em razão da situação exposta. Em cumprimento à solicitação de diligência, foi emitido o Termo de Encerramento de Diligência Fiscal, anexo às folhas 3715/3714, onde a autoridade lançadora, com base na nova documentação apresentada pela Empresa, assim concluiu: Fl. 4295DF CARF MF 12 Pelo que se observa do supracitado termo, as bases de cálculo originalmente apuradas, no valor total de R$ 20.492.829,45, foram revisadas e as eventuais impropriedades identificadas foram retificadas, consoante Anexos elaborados pela autoridade lançadora. Assim sendo, considerando que a Fiscalizada, cientificada do resultado da diligência, não apresentou suas contrarazões, entendo que devese manter as novas bases de cálculo apuradas no valor total de R$ 10.731.101,48. Assim, mantenho o entendimento da instância a quo e nego provimento ao recurso de ofício. Do Recurso Voluntário 1) Preliminarmente 1.1) Da Decadência Pleiteia a recorrente a decadência do lançamento correspondente ao pagamento da PLR na competência 03/2009. O presente lançamento foi cientificado à recorrente em 31/03/2014 (fl. 5), razão pela qual os lançamentos que contemplam o período até 31/03/2009 estariam decaídos por força da contagem do prazo decadencial pelo art. 150, § 4º do CTN. Trata o presente lançamento de contribuição previdenciária incidente sobre a folha de salários da recorrente, sendo que, se verificado o recolhimento parcial do referido tributo na determinada competência, a contagem do prazo decadencial se dá a partir da ocorrência do fato gerador (pagamento), por força da Súmula CARF nº. 99: Para fins de aplicação da regra decadencial prevista no art. 150, § 4°, do CTN, para as contribuições previdenciárias, caracteriza pagamento antecipado o recolhimento, ainda que parcial, do valor considerado como devido pelo contribuinte na Fl. 4296DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.290 13 competência do fato gerador a que se referir a autuação, mesmo que não tenha sido incluída, na base de cálculo deste recolhimento, parcela relativa a rubrica especificamente exigida no auto de infração. Nos termos da decisão da DRJ, que ao que parece, compulsou os sistemas informatizados da RFB, temos que: Compulsando os autos e analisando as competências compreendidas no presente lançamento (03/2009 a 07/2009 e 09/2009 a 12/2009), verificase que, para o fato gerador do lançamento, ocorreu recolhimento parcial anterior ao início do procedimento de fiscalização em todas as referidas competências, conforme registrado nos sistemas informatizados da Receita Federal do Brasil. E, conforme o entendimento manifestado no Parecer PGFN/CAT Nº 1617/2008, devese aplicar a regra contida no § 4º, art. 150 do CTN para todas as competências abrangidas no presente Auto de Infração. Assim, consubstanciada a existência de pagamento parcial, voto por reconhecer a decadência da incidência da contribuição previdenciária incidente sobre os pagamentos de PLR na competência 03/2009. 1.2) Nulidade por Deficiência da Capitulação Legal Alega a recorrente que seria nulo o auto de infração por insuficiência de capitulação legal apta a ensejar o lançamento. Aponta que haveria afronta ao artigo 11, III, do Decreto 70.235/72 e, assim, seria nulo o auto de infração por infringência ao art. 142 do CTN, ao passo que somente o Art. 22, I, da Lei nº. 8.212/91 não seria suficiente para a lavratura do auto de infração em atendimento aos requisitos legais. Ora, ao discorrer sobre todos os pagamentos de PLR da recorrente, analisar seus programas, características etc e desqualificálos como tal (PLR), e fazer incidir a contribuição previdenciária prevista no art. 22, I, da Lei nº. 8.212/91, não configura qualquer nulidade do Auto de Infração. Assim, afasto a preliminar aventada, posto que os requisitos legais para a lavratura do auto de infração foram devidamente observados pela autoridade fiscal, em especial o art. 10 do Decreto 70.235/72 e 142 do CTN. 2) Do Mérito 2.1) Do Programa de Participação nos Lucros Diz a Carta Política de 1988: Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: (...) Fl. 4297DF CARF MF 14 XI participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei; (grifouse) (...) Como se percebe da leitura do trecho destacado, a PLR desvinculada da remuneração é um direito social previsto expressamente no texto constitucional. Entretanto, tratase de preceito de eficácia limitada, pois submetido ao regramento definido em lei, o qual lhe dá capacidade de produzir os efeitos visados pelo legislador constituinte. Ainda que a lei admita certa flexibilidade na negociação e elaboração do instrumento de ajuste entre empresas e empregados, prevendo formalidades, critérios e parâmetros mínimos ou mesmo indutivos, em alguns casos, a PLR desvinculada da remuneração está condicionada, necessariamente, à observância do estabelecido pela lei ordinária. No âmbito das contribuições previdenciárias, a Lei nº 8.212, de 1991, contém previsão de não incidência tributária para a participação nos lucros ou resultados da empresa, desde que paga ou creditada de acordo com a lei específica: Art. 28 (...) § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: (...) j) a participação nos lucros ou resultados da empresa, quando paga ou creditada de acordo com lei específica; (...) A lei específica a que alude a lei previdenciária é a Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000, a qual disciplinou a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa, nos termos da regulamentação exigida pelo inciso IX do art. 7º da Constituição da República de 1988. Reproduzo, abaixo, alguns dos seus artigos: Art. 1º Esta Lei regula a participação dos trabalhadores nos lucros ou resultados da empresa como instrumento de integração entre o capital e o trabalho e como incentivo à produtividade, nos termos do art. 7º, inciso XI, da Constituição. Art. 2º A participação nos lucros ou resultados será objeto de negociação entre a empresa e seus empregados, mediante um dos procedimentos a seguir descritos, escolhidos pelas partes de comum acordo: I comissão paritária escolhida pelas partes, integrada, também, por um representante indicado pelo sindicato da respectiva categoria; II convenção ou acordo coletivo. § 1º Dos instrumentos decorrentes da negociação deverão constar regras claras e objetivas quanto à fixação dos direitos substantivos da participação e das regras adjetivas, inclusive mecanismos de aferição das informações pertinentes ao Fl. 4298DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.291 15 cumprimento do acordado, periodicidade da distribuição, período de vigência e prazos para revisão do acordo, podendo ser considerados, entre outros, os seguintes critérios e condições: I índices de produtividade, qualidade ou lucratividade da empresa; II programas de metas, resultados e prazos, pactuados previamente. § 2º O instrumento de acordo celebrado será arquivado na entidade sindical dos trabalhadores. (...) Art. 3º A participação de que trata o art. 2º não substitui ou complementa a remuneração devida a qualquer empregado, nem constitui base de incidência de qualquer encargo trabalhista, não se lhe aplicando o princípio da habitualidade (...) § 3º Todos os pagamentos efetuados em decorrência de planos de participação nos lucros ou resultados, mantidos espontaneamente pela empresa, poderão ser compensados com as obrigações decorrentes de acordos ou convenções coletivas de trabalho atinentes à participação nos lucros ou resultados. Primeiramente, entendo que deve ser afastada a alegação da recorrente de que a previsão constitucional do art. 7º, XI, por si só, configura imunidade à participação nos lucros e resultados percebidos pelos trabalhadores e, consequentemente, seria ilegal as estipulações impostas para fins de evitar a incidência tributária (entendase Lei nº. 10.101/00). Como se vê do próprio texto constitucional, este atribuiu à legislação infraconstitucional a regulação sobre a definição do pagamento sobre lucros ou resultados. Esta é, inclusive, a própria conclusão de acórdão mencionado pela recorrente em sede de recurso voluntário (Acórdão nº. 2401003.112): A Participação nos Lucros e Resultados PLR concedida pela empresa aos seus funcionários, como forma de integração entre capital e trab alho e ganho de produtividade, não integra a base de cálculo das contribuições previdenciárias, por força do disposto no artigo 7º, inciso XI, da CF, mormente por não se revestir da natureza salarial, estando ausentes os requisitos da habitualidade e contraprestação pelo trabalho, conquanto que observados os requisitos legais inscritos na Lei nº 10.101/2000. (grifo nosso) Assim, entendo que a interpretação a ser empregada deve conjugar os dispositivos acima elencados, entendendose o comando constitucional que, é, sim, imunidade, como pacificamente reconhecido pela doutrina, o que todavia não significa deixar de reconhecer e atender aos requisitos da legislação infraconstitucional, que o regulam, interpretandoos em conjunto com a disposição e a intenção do constituinte. Fl. 4299DF CARF MF 16 Assim, sob estas disposições, passamos a analisar cada um dos fundamentos que levaram a fiscalização à descaracterizar o plano de Participação nos Lucros ou Resultados da recorrente. 2.2) Dos pagamentos que excedem a periodicidade 2.2.1) Das parcelas pagas na mesma data com registro contábil em separado Conforme demonstrado acima, o fundamento da autoridade fiscal que desqualifica o PLR da recorrente é a infringência ao § 2º do art. 3º da Lei nº. 10.101/2000, com redação vigente à época dos fatos, que vedava o pagamento em mais de duas parcelas no ano, respeitada a periodicidade semestral: Art. 3º. [...] § 2o É vedado o pagamento de qualquer antecipação ou distribuição de valores a título de participação nos lucros ou resultados da empresa em periodicidade inferior a um semestre civil, ou mais de duas vezes no mesmo ano civil. Segundo a recorrente, tal fato decorreria da existência de pagamentos que, ainda que realizados num mesmo mês, por questão de controle contábil interno eram dividos em duas rubricas. Traz como exemplo: Em que pese a alegação da recorrente, quanto a esta fundamentação específica, entendo que esta não merece prosperar. Percebase que, ainda que os referidos pagamentos em março se tratassem de uma única parcela que tivesse simplesmente sido desmembrada para fins contábeis, a periodicidade estaria violada ante a existência de 3 pagamentos no mesmo ano civil. Neste caso, ante a ausência de pertinência da alegação da recorrente, afasto o argumento de mero equívoco contábil a fim de afastar a infração à periodicidade do pagamento da PLR. 2.2.2) Dos pagamentos a beneficiários desligados Art. 477, § 6º CLT Alega a recorrente que, alguns dos pagamentos que desobedeceram a regra da periodicidade decorrem da rescisão de contratos de trabalho que, por força da lei trabalhista, Fl. 4300DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.292 17 exigem o pagamento da totalidade das verbas devidas aos empregados, por força do art. 477, § 6º da CLT: Art. 477 – É assegurado a todo empregado, não existindo prazo estipulado para a terminação do respectivo contrato, e quando não haja ele dado motivo para cessação das relações de trabalho, o direito de haver do empregador uma indenização, paga na base da maior remuneração que tenha percebido na mesma empresa. § 6º O pagamento das parcelas constantes do instrumento de rescisão ou recibo de quitação deverá ser efetuado nos seguintes prazos: a) até o primeiro dia útil imediato ao término do contrato; ou b) até o décimo dia, contado da data da notificação da demissão, quando da ausência do aviso prévio, indenização do mesmo ou dispensa de seu cumprimento.” Colaciona o exemplo da Sra. Elizabeth Piovezan Benamor que, desligada em dezembro de 2009, recebeu naquele mês o valor da PLR a que teria direito em abril do ano seguinte, ferindo assim a periodicidade pois já havia recebido pagamento a título de PLR em outubro de 2009. Comprova, por meio de documentação hábil, o desligamento da referida empregada, o que, todavia, não tem o condão de estender a referida conclusão aos demais pagamentos colacionados pela fiscalização. Em que pese o hercúleo trabalho a que estaria submetida, deveria a recorrente juntar pormenorizadamente todos os termos de rescisão e respectivos comprovantes de pagamentos dos empregados que teriam recebido PLR fora da regra de periodicidade em razão do desligamento da empresa. Assim, ante a mera alegação por meio de um exemplo específico, entendo por insuficiente para afastar as razões do lançamento. 2.2.3) Do pedido de manutenção do lançamento somente sobre os pagamentos excedentes Pleiteia a recorrente, subsidiariamente, que o lançamento seja mantido somente sobre os valores que excedem a regra tida por violada pela autoridade fiscal, qual seja, a periodicidade do pagamento. Ou seja, pugna a contribuinte que não sejam os planos de PLR descaracterizados em sua totalidade e, assim, todos os pagamentos a este título sejam enquadrados como salário de contribuição, mas somente aqueles que excedam a regra prevista de dois pagamentos anuais respeitada a semestralidade. Colaciona jurisprudência neste sentido. Quanto ao pedido específico da recorrente, primeiramente temos que trazer a realidade fática em que a mesma se encontra e os planos de PLR analisados pela fiscalização. Fl. 4301DF CARF MF 18 Extraise do Relatório Fiscal que foram analisadas as dezenas de planos de PLR mantidas pela recorrente com os mais diversos sindicatos aos quais seus empregados estão vinculados, em diversas regiões. Nos termos da própria fiscalização, foi apurado o presente lançamento para fins de exigência somente em face daqueles empregados onde se constatou irregularidade no pagamento (ou seja, mais de duas parcelas), sem se desconsiderar os pagamentos feitos aos demais empregados onde não se apurou qualquer irregularidade. Dessa forma, visa a recorrente que, nesses levantamentos objeto da autuação, seja afastado o lançamento sobre a totalidade dos valores pagos (por exemplo, 3 parcelas) e mantido somente sobre o que se excede o permissivo legal (duas parcelas anuais). Neste sentido, entendo pertinente o pleito da recorrente. Ora, os planos foram analisados e se atestou que estes são válidos, foram devidamente elaborados e, portanto, os pagamentos realizados são sim decorrentes de programas de PLR. Se, como de fato percebido, para alguns funcionários, em determinados meses, independente de qual tenha sido o motivo, foram verificadas incorreções no pagamento da PLR que não tenham respeitado o dispositivo legal, por qual motivo deveriam todos os pagamentos perderem a natureza de PLR? Pensemos. Se desrespeitada a periodicidade, aqueles valores pagos (a título de exemplo, o primeiro de cada semestre), com base no programa aprovado, nas métricas estipuladas, de acordo com as regras dos programas, atendendo todos os seus requisitos, deveriam deixar de ser PLR? Ao que nos parece, não. Bem enfrentada esta matéria, o presente colegiado já a enfrentou e, em voto sob a relatoria do então i. presidente Conselheiro André Luis Marsico Lombardi, assim decidiu no Acórdão nº. 2401004.218 PAF nº. 16327.001625/201026: Especificamente quanto ao desrespeito à periodicidade legal, temos que o vício pode se reportar à formulação do plano, que prevê pagamentos, por exemplo, em três parcelas no mesmo ano civil, ou pode se referir à execução do plano, ou seja, a formulação atende à periodicidade legal, mas quando foi efetuado o pagamento, ele transgride o pacto e, consequentemente, a legislação. Pelo critério que temos utilizado na análise do PLR, imperioso esta distinção entre os vícios relativos à formulação do plano e os vícios referentes à sua execução, fazem total diferença. Vejamos. A legislação estabelece um conjunto de regras para que determinada rubrica seja considerada como participação nos lucros ou resultados para fins de não incidência de contribuição previdenciária. Somente em caso de cumprimento de todos os pressupostos legais é que se pode afirmar que a rubrica tem natureza jurídica de participação nos lucros (senão vira prêmio ou, trivialmente, salário). Repisese, a regra é o pagamento integrar a remuneração e somente quando pertencente a um plano de participação nos lucros e resultados, inteiramente de acordo com a lei, nos termos do artigo 7°, XI, da CF, é que se pode atribuir a natureza excepcional de pagamento não integrante da remuneração. Fl. 4302DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.293 19 Assim, se há algum vício na formulação do plano, seja das regras relativas ao alcance do lucro ou do resultado, seja das condições relativas ao cálculo do valor devido a cada trabalhador e da periodicidade dos pagamentos, a descaracterização reportase ao somatório do plano e, portanto, a todos os pagamentos a que se refere. No caso em comento, não consta que o PLR (conveção) ou o PR previram pagamentos em mais de duas parcelas ou em periodicidade inferiror a um semestre, de sorte que a formulação nos planos não foi o problema, mas sim a sua execução. Portanto, não devese desconsiderar integralmente o plano, formulado sob o enfoque da periodicidade, em respeito à legislação, mas apenas os pagamentos que transbordem as limitações legais. Assim, como constatado pelo próprio AFRFB que os planos de PLR da recorrente não ostentam quaisquer ilegalidades, voto no sentido de excluir do presente lançamento o primeiro pagamento a título de PLR em cada semestre dos meses não atingidos pela decadência (abril a dezembro de 2009), mantendo o presente lançamento somente sobre aqueles que ferem a referida regra de periodicidade, ou seja, pagos em desacordo com o § 2º do art. 3º da Lei nº. 10.101/2000. Melhor explicitando, deverão ser excluídos do presente lançamento sempre do segundo pagamento em diante de cada semestre do anocalendário de 2009, posto que pagos em desacordo com os Planos de PLR da recorrente. 2.3) Da Inexigibilidade das contribuições ao INCRA Pleiteia a recorrente a inexigibilidade das contribuições exigidas, incidentes sobre a base de cálculo apurada em decorrência da descaracterização dos pagamentos a título de PLR, destinadas ao INCRA. Apresenta uma série de argumentos a fim de afastar a referida exigência. Em que pesem as alegações da recorrente, entendo que estas possuem, ao final, nítido caráter constitucional e, adentrar na análise das mesmas, implicaria em violação à Súmula CARF nº. 02: Súmula CARF nº 2: O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Ademais, corroborase tal entendimento com o próprio reconhecimento, pelo Supremo Tribunal Federal, da Repercussão Geral da matéria, por meio do RE nº. 630.898. Assim, por entender devida a referida contribuição, posto que consubstanciada em legislação (ainda) vigente, afasto as alegações da recorrente neste ponto específico. CONCLUSÃO Isto posto, voto por conhecer do recurso voluntário e de ofício para, no mérito: Fl. 4303DF CARF MF 20 a) negar provimento ao recurso de ofício; b) dar parcial provimento ao recurso voluntário, para o fim de: b.1) reconhecer a decadência para o lançamento da competência 03/2009; b.2) afastar o lançamento sobre os valores pagos a título de PLR que, dentro de cada semestre civil do anocalendário de 2009, excedam a periodicidade semestral. É como voto. (assinado digitalmente) Carlos Alexandre Tortato Fl. 4304DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.294 21 Voto Vencedor Conselheiro Cleberson Alex Friess Redator Designado Peço vênia para divergir do I. Relator, no que tange ao reconhecimento da decadência na competência 03/2009, à incidência de tributação sobre os valores pagos à segurada desligada Elizabeth Piovezan Benamor e ao afastamento do lançamento sobre os valores pagos a título de Participação nos Lucros ou Resultados, com base na falta de extrapolação da periodicidade dos pagamentos. Decadência Na hipótese dos autos, que trata de pagamento de remuneração variável com base na Participação nos Lucros ou Resultados, o fato gerador das contribuições previdenciárias é mensal e aperfeiçoase na competência em que realizada a prestação de serviços pelos trabalhadores. Mais especificamente, o critério temporal que delimita a hipótese de incidência para o nascimento da obrigação tributária concretizase no último átimo do respectivo mês. Tendo em conta a contagem do prazo decadencial quinquenal na forma do §4º do art. 150 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966, que veicula o Código Tributário Nacional (CTN), pela existência de antecipação de pagamento, seria possível o lançamento do crédito tributário relativo à competência 03/2009 até o dia 31/03/2014. Dado que a ciência do lançamento fiscal ao sujeito passivo deuse exatamente nesse mesmo dia, 31/03/2014 (fls. 5), não há que se falar em decadência da competência 03/2009. Pagamentos a beneficiários desligados Art. 477, § 6º, CLT Nesse ponto do recurso voluntário, concordo com todas as ponderações do I. Relator, no sentido de que os casos de desligamento de segurado empregado, decorrentes de rescisão do contrato de trabalho, devem ser excluídos da regra geral da vedação do pagamento da Participação nos Lucros ou Resultados em mais de duas vezes no ano civil ou em periodicidade inferior ao previsto na lei de regência (art. 3º, § 2º, da Lei nº 10.101, de 19 de dezembro de 2000). A toda a evidência, ao pagamento na rescisão do contrato de trabalho, a título de Participação nos Lucros ou Resultados, não se cogita, em princípio, de forma disfarçada de substituição ou complementação da remuneração devida ao trabalhador. Fl. 4305DF CARF MF 22 Embora comprovado, por meio de documentação hábil, o desligamento de um dos trabalhadores da empresa, trazidos como exemplo, a Srª Elizabeth Piovezan Benamor, o conjunto fáticoprobatório pontual carreado aos autos não possui o condão de estender a referida conclusão aos demais pagamentos colacionados pela fiscalização. Contudo, em relação a Sra. Elizabeth Piovezan Benamor, que, desligada em dezembro de 2009, recebeu naquele mês o valor da Participação nos Lucros ou Resultados a que teria direito em abril do ano seguinte, as provas estão juntadas aos autos. Ao menos nesse exemplo, a recorrente desincumbiuse do seu ônus probatório. Logo, cabe excluir os valores lançados referentes à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. Manutenção do lançamento fiscal somente sobre os pagamentos excedentes A existência de pagamentos em desacordo com o § 2º do art. 3º da Lei nº 10.101, de 2000, não acarreta, indistintamente, a incidência da contribuição previdenciária sobre a totalidade dos valores pagos a título de Participação nos Lucros ou Resultados. A tributação do somatório dos pagamentos efetuados é medida necessária apenas quando existe vício na formulação do plano de Participação nos Lucros ou Resultados, em que o próprio instrumento de negociação transgride a disciplina prevista na Lei nº 10.101, de 2000. Ao revés, quando a mácula está circunscrita à execução do plano, devem integrar a remuneração do trabalhador tão somente os pagamentos extras que extrapolem às limitações legais. Nessa hipótese, os pagamentos realizados conforme a sistemática de desoneração operaram efeitos plenos, não sendo contaminados pelas irregularidades posteriores. Por sua vez, com base na disciplina estabelecida pela Lei nº 10.101, de 2000, não vislumbro obstáculo à coexistência simultânea de diferentes instrumentos de negociação coletiva para regulamentar o pagamento pela empresa da Participação nos Lucros ou Resultados aos segurados empregados, tais como convenção e acordo coletivo, como forma de adequação às peculiaridades empresariais e aos interesses específicos das partes envolvidas. De igual maneira, inexiste vedação no texto legal de regência à fixação de uma parcela de antecipação a título de Participação nos Lucros ou Resultados. Porém, em qualquer caso de mais de um instrumento de negociação válido no período de aferição é obrigatório o respeito ao critério de periodicidade dos pagamentos disposto no § 2º do art. 3º da Lei nº 10.101, de 2000, avaliado no conjunto, uma vez que o legislador ordinário elegeu, como regra cogente, para afastar a incidência da norma tributária, o cumprimento de determinado parâmetro objetivo no que diz respeito à Participação nos Lucros ou Resultados. Fl. 4306DF CARF MF Processo nº 16682.720227/201497 Acórdão n.º 2401004.913 S2C4T1 Fl. 4.295 23 Com essa linha de pensamento, verifico que o Relatório Fiscal que integra a autuação fiscal, acostado às fls. 122/162, é bastante claro que, no caso do processo em apreço, a extrapolação da regra de periodicidade contida no § 2º do art. 3º da Lei nº 10.101, de 2000, não é reflexo da simples falha da execução do programa de Participação nos Lucros ou Resultados da empresa autuada, mas sim da ausência de compatibilização, na origem, entre os diferentes instrumentos coletivos de negociação. Para melhor compreensão dos fatos, transcrevo a parte correspondente da acusação fiscal (fls. 156): (...) 4.9 Analisando os termos dos diversos Acordos relacionados nos itens 4.2 e 4.3 e constantes dos Anexos III e IV, percebese que nenhum deles faz referência expressa a mais de dois pagamentos por ano, seja a que exercício se referir. Porém, a combinação de regras de distribuição de parcelas de mais de um Acordo referente à mesma categoria de empregados, seja por liquidação do PLR do biênio 2008/2009 ou antecipação do biênio 2009/2010, cria esta situação em que diversos empregados recebem pagamentos a título de PLR por mais vezes ao ano do que a Lei permite. 4.10 Considerando isto, e a despeito de a empresa possuir diversas categorias de PLR, cabendo a alguns integrantes de nível Gerencial, por exemplo, o enquadramento em mais de uma categoria, há que se concluir que todos os valores pagos em 2009 têm exatamente a mesma natureza, qual seja "pagamento de Participação nos Lucros e Resultados", independente da denominação que venha a ser dada pela empresa ou a que biênio se refira. Desta forma, ficam vinculados estritamente aos preceitos exarados pela Lei nº 10.101/2000, a lei específica que definiu os requisitos para concessão da PLR atribuídos pela Constituição Federal. 4.11 A Lei nº 10.101, de 2000 não exige que a distribuição de Lucros deva, necessariamente, ser feita em pagamento único, com a lavratura de apenas um Acordo entre empregados e entidade sindical, e com uma só denominação. Tampouco obsta a celebração de acordo com regras distintas por categoria funcional de trabalhadores, decorrência natural do fato de que não é necessário estender à totalidade dos empregados o programa da PLR. Desta forma, se assim quisesse, a empresa poderia ter criado todas as categorias de PLR que possui no momento, acordando com a entidade sindical ou comissão de empregados o pagamento de antecipação em determinada competência e a consolidação final em competência diversa, com mais de seis meses de intervalo, totalizando no máximo dois pagamentos ao ano. No entanto, não o fez. (...) Fl. 4307DF CARF MF 24 O defeito reside na própria concepção dos planos, sem a necessária harmonização entre os acordos e convenções sindicais. Logo, todos os pagamentos apurados pela autoridade fiscal estão submetidos à incidência da contribuição previdenciária, assim como à tributação reflexa pelas contribuições devidas a terceiros. Por fim, cabe ressaltar que a autuada menciona em seu recurso voluntário situações de mudança da categoria do empregado dentro da empresa e/ou de mudança do sindicato a que estava subordinado, o que teria implicado o pagamento da participação nos lucros em periodicidade superior à definida em lei em razão da tentativa de coadunar dois instrumentos válidos e de observância cogente para o mesmo trabalhador. No entanto, tal discurso vem despedido de dados concretos, que permitam o julgador avaliar com segurança a ocorrência, bem como o alcance dessas situações excepcionais, as quais levariam à perturbação na execução do programa de Participação nos Lucros ou Resultados. Conclusão Ante o exposto, DOU PARCIAL PROVIMENTO ao recurso voluntário para excluir os valores lançados referentes à empregada Elizabeth Piovezan Benamor. É como voto. (assinado digitalmente) Cleberson Alex Friess Fl. 4308DF CARF MF
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