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Numero do processo: 16327.910602/2011-95
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF
Data do fato gerador: 31/07/2004
PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA
Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Restituição no prazo de 5 anos. O art. 150, § 4º do CTN, cuida de regulamentar o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir o lançamento com o Pedido de Restituição. O artigo 74 da Lei nº 9.430/96, cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento.
Recurso Voluntário Negado.
Numero da decisão: 3402-004.495
Decisão: Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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ementa_s : Assunto: Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguros ou relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF Data do fato gerador: 31/07/2004 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Restituição no prazo de 5 anos. O art. 150, § 4º do CTN, cuida de regulamentar o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir o lançamento com o Pedido de Restituição. O artigo 74 da Lei nº 9.430/96, cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento. Recurso Voluntário Negado.
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PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. Recorrente BANCO VOLKSWAGEN S.A. Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF Data do fato gerador: 31/07/2004 PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. DIREITO DE CRÉDITO. PRAZO PARA HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. INOCORRÊNCIA Inexiste norma legal que preveja a homologação tácita do Pedido de Restituição no prazo de 5 anos. O art. 150, § 4º do CTN, cuida de regulamentar o prazo decadencial para a homologação do lançamento, não se podendo confundir o lançamento com o Pedido de Restituição. O artigo 74 da Lei nº 9.430/96, cuida de prazo para homologação de Declaração de Compensação, não se aplicando à apreciação de Pedidos de Restituição ou Ressarcimento. Recurso Voluntário Negado. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Jorge Olmiro Lock Freire, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Pedro Souza Bispo, Carlos Augusto Daniel Neto, Maria Aparecida Martins de Paula, Diego Diniz Ribeiro, Thais De Laurentiis Galkowicz e Waldir Navarro Bezerra. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 16 32 7. 91 06 02 /2 01 1- 95 Fl. 88DF CARF MF Processo nº 16327.910602/201195 Acórdão n.º 3402004.495 S3C4T2 Fl. 3 2 Trata o presente processo de Recurso Voluntário contra a Decisão da DRJ em Ribeirão Preto (SP), que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade, mantendo o Despacho Decisório eletrônico proferido, que, por sua vez, indeferiu o Pedido de Restituição, referente a suposto pagamento de IOF a maior no ano de 2004. Conforme o que consta do referido Despacho Decisório, o pleito foi negado tendo em vista que o DARF discriminado no PER estava integralmente utilizado para a quitação do débito de IOF, não restando saldo de crédito disponível para a restituição almejada. Cientificada da decisão proferida, a empresa interpôs a Manifestação de Inconformidade alegando homologação por decurso de prazo, já que ultrapassado o prazo de cinco anos entre a data de envio, tanto do Pedido de Restituição (PER) quanto da Declaração de Compensação (DCOMP) a ele atrelada, e a data de proferimento do Despacho Decisório. Com base nessas considerações requer a reforma da decisão, com a consequente homologação da compensação declarada. No entanto, os argumentos aduzidos pelo Recorrente não foram acolhidos pela primeira instância de julgamento administrativo fiscal, conforme Ementa do Acórdão nº 14060.739, prolatado pela DRJ em Ribeirão Preto (SP): ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE OPERAÇÕES DE CRÉDITO, CÂMBIO E SEGUROS OU RELATIVAS A TÍTULOS OU VALORES MOBILIÁRIOS IOF Data do fato gerador: 31/07/2004 RESTITUIÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. RECOLHIMENTO VINCULADO A DÉBITO DECLARADO. Correto o Despacho Decisório que indeferiu o pedido de restituição por inexistência de direito creditório, tendo em vista que o recolhimento alegado como origem do crédito está integralmente alocado à débito validamente declarado em DCTF. PEDIDO DE RESTITUIÇÃO. HOMOLOGAÇÃO TÁCITA. IMPOSSIBILIDADE. Não há previsão legal para a homologação tácita de pedido de restituição, nem previsão de perda do poder de decidir por decurso de prazo em pedidos desta natureza. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Devidamente cientificada desta decisão a recorrente interpôs, tempestivamente, o presente recurso voluntário, alegando as seguintes razões: (i) consta do Despacho Decisório que "foram localizados pagamentos, mas que foram integralmente utilizados para a quitação de débitos do Recorrente, não restando crédito disponível para restituição". Porém, tanto o Pedido de Restituição (PER) quanto a respectiva Compensação (DCOMP), foram realizados em dezembro/2006, operandose, portanto, a homologação da compensação em dezembro de 2011; Fl. 89DF CARF MF Processo nº 16327.910602/201195 Acórdão n.º 3402004.495 S3C4T2 Fl. 4 3 (ii) cita e transcreve como base legal, o §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional (CTN), bem como, registra o Acórdão nº 3801000.530, de 29/09/2010, proferido pelo CARF nos autos do PAF nº 10830.007499/9736; (iii) conclui que, dessa forma operouse a homologação tácita em dezembro de 2011, não havendo sequer a possibilidade de discussão acerca da existência do crédito do Recorrente por meio de Despacho Decisório proferido em 2012, ou seja, após o decurso do mencionado prazo qüinqüenal. Por fim, requer que o presente Recurso Voluntário seja recebido e julgado, com a conseqüente reforma da decisão recorrida e homologação da compensação declarada. É o relatório. Voto Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3402004.467, de 26 de setembro de 2017, proferido no julgamento do processo 16327.910558/201113, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3402004.467): "1. Da admissibilidade do Recurso O Recurso Voluntário é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, devendo ser conhecido por este Colegiado. 2. Objeto da lide Verificase que o Recorrente não contesta a inexistência do indébito tributário demonstrada no Despacho Decisório. O que se discute no recurso é a alegação de homologação tácita quanto ao Pedido de Restituição (PER). 3. Análise do Pedido Como relatado, o Recorrente pede o provimento do seu recurso unicamente sob o argumento da homologação tácita do seu Pedido de Restituição (PER) nº 01445.28437.211206.1.2.046453, como base no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional. Aduz que tanto o Pedido de Restituição (PER) quanto a respectiva Compensação (DCOMP), foram realizados em 21 e 26 dezembro de 2006, respectivamente e, como base no §4º do art. 150 do Código Tributário Nacional, operouse a homologação tácita da compensação em 26/12/2011, não havendo sequer a possibilidade de discussão acerca da existência do crédito do Recorrente, por meio de Fl. 90DF CARF MF Processo nº 16327.910602/201195 Acórdão n.º 3402004.495 S3C4T2 Fl. 5 4 Despacho Decisório proferido em 03/01/2012, ou seja, após o decurso do mencionado prazo qüinqüenal. Pois bem. É cediço que o Código Tributário Nacional (CTN), regulamenta o prazo decadencial de 5 anos para o agente fiscal homologar o lançamento por homologação, que ocorre quando o contribuinte, por determinação legal, em substituição ao agente arrecadador, possui a obrigação de apurar o tributo devido, em face da ocorrência do fato gerador da obrigação tributária, efetuar o seu recolhimento e realizar a respectiva declaração. No contexto do procedimento de homologação das compensações, no qual se atesta a existência e a suficiência do direito creditório invocado para a extinção dos débitos compensados, a única limitação imposta à atuação da Administração Tributária é o prazo de cinco anos da data da apresentação das declarações de compensação, depois do qual os débitos compensados devem ser extintos, independentemente da existência e suficiência dos créditos, conforme determina o artigo 74, §5° da Lei n° 9.430, de 1996. Destaco a seguir seu conteúdo: Art. 74. O sujeito passivo que apurar crédito relativo a tributo ou contribuição administrado pela Secretaria da Receita Federal, passível de restituição ou de ressarcimento, poderá utilizálo na compensação de débitos próprios relativos a quaisquer tributos e contribuições administrados por aquele Órgão.(Redação dada pela Medida Provisória nº 66, de 2002) § 1º (...). § 5º O prazo para homologação da compensação declarada pelo sujeito passivo será de 5 (cinco) anos, contado da data da entrega da declaração de compensação.(Redação dada pela Lei nº 10.833, de 2003) (Grifei). No mesmo sentido, define a Instrução Normativa RFB nº 1.300, de 2012, assim como as Instruções Normativas que a sucederam na regulamentação dessa matéria. Como se vê, por disposição legal expressa, a homologação tácita é aplicável unicamente à Declaração de Compensação, não havendo possibilidade de sua aplicação aos Pedidos de Restituição e Ressarcimento (PER). Isto ocorre porque quando o contribuinte realiza um pedido de compensação, nada mais está fazendo do que um lançamento por homologação: apura o tributo devido, realiza a declaração, e substitui o pagamento em espécie, por um pagamento com crédito tributário que possui junto ao ente tributante. E é por essa razão que, quando não há a apreciação expressa do pedido de compensação, passados 5 anos após a sua apresentação, ocorre a respectiva homologação. Em última análise, o que há é a homologação do lançamento realizado pelo contribuinte, sendo que o pagamento da obrigação tributária se dá com a utilização do seu direito creditório. Portanto, tal regra não se aplica ao caso do Recorrente com relação ao Pedido de Restituição de fls. 25/27, datado de 21/12/2006, justamente por se tratar de Pedido de Restituição e não de uma Fl. 91DF CARF MF Processo nº 16327.910602/201195 Acórdão n.º 3402004.495 S3C4T2 Fl. 6 5 Declaração de Compensação. O Pedido de Restituição não pode ser confundido com uma Declaração de Compensação, muito embora em ambos os casos esteja a se tratar de direito a um crédito tributário. A compensação está sempre atrelada a um lançamento. E é por isso que a ela se aplica o prazo decadencial de 5 anos previsto no art. 150 do CTN. O pedido de restituição não. Ele é independente de qualquer lançamento e requer necessariamente um pronunciamento do Fisco. Contudo, embora o Fisco deva nortear seus atos observando a eficiência e a celeridade, pois sua ação deve preservar os interesses públicos, nada o impede de, quase seis anos após o Pedido de Restituição (PER) formulado pelo Recorrente, indeferilo, por não vislumbrar o direito pleiteado. Não há a homologação tácita desse pedido, porquanto não ocorre qualquer lançamento que enseje a aplicação do artigo 150, § 4º, do CTN, como defende a Recorrente. Não há previsão legal para essa homologação. De se observar, também, que o Recorrente não rebate a alocação do pagamento (crédito solicitado no PER) ao débito de IOF do período de apuração tratado neste processo, o qual consta confessado em DCTF. Não contesta, portanto, a inexistência do indébito tributário demonstrada no Despacho Decisório, dando margem ao entendimento de que o crédito almejado no Pedido de Restituição, não existe. Desta forma, considerando que o Recorrente se limitou a argüir a homologação tácita do Pedido de Restituição, com base no artigo 150, § 4º, do CTN, sem trazer qualquer documentação ou argumentação que comprovasse a existência de seu crédito, não há mesmo como acatar o seu pedido. 4. Dispositivo Ante tudo acima exposto e o que mais constam nos autos, voto por negar provimento ao recurso voluntário." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, nego provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 92DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11610.006633/2010-40
Turma: Primeira Turma Extraordinária da Primeira Seção
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Thu Oct 26 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Ano-calendário: 2009 , 2010
OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO.
Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade.
DCTF. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49.
A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF n. 49. Assim, impossível aplicar-se o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de DCTF em atraso.
Numero da decisão: 1001-000.001
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente.
(assinado digitalmente)
Edgar Bragança Bazhuni - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
Nome do relator: EDGAR BRAGANCA BAZHUNI
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ementa_s : Assunto: Obrigações Acessórias Ano-calendário: 2009 , 2010 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. DCTF. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF n. 49. Assim, impossível aplicar-se o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de DCTF em atraso.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA - Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni - Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva.
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ATRASO NA ENTREGA DA DCTF Recorrente COMÉRCIO DE METAIS LINENSE LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2009 , 2010 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. DCTF. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. IMPOSSIBILIDADE. APLICAÇÃO DA SÚMULA CARF Nº. 49. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Aplicação da Súmula CARF n. 49. Assim, impossível aplicarse o benefício previsto no art. 138 do CTN no caso de multa por entrega de DCTF em atraso. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em negar provimento ao recurso, nos termos do relatorio e votos que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) LIZANDRO RODRIGUES DE SOUSA Presidente. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Lizandro Rodrigues de Sousa (presidente), Edgar Bragança Bazhuni, Eduardo Morgado Rodrigues e Jose Roberto Adelino da Silva. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 61 0. 00 66 33 /2 01 0- 40 Fl. 83DF CARF MF Processo nº 11610.006633/201040 Acórdão n.º 1001000.001 S1C0T1 Fl. 84 2 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto pela Recorrente em face de decisão proferida pela 2ª Turma da Delegacia Regional de Julgamento em Campo Grande (MS), mediante o Acórdão nº 0429.907, de 06/11/2012 (efls. 53/56), objetivando a reforma do referido julgado. O crédito tributário lançado se refere à exigência de multa por atraso na entrega de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, referente ao período de maio a dezembro de 2009 e de janeiro a abril de 2010, conforme Notificações de Lançamento (efls. 24/46) e extrato do processo à efls. 48/49. Em homenagem à economia processual, adotarei parte do Relatório constante no referido Acórdão de primeira instância, pelo que peço vênia para transcrevêlo: A impugnante arguiu a ilegalidade da DCTF e da imposição da multa, porquanto instituídas por ato administrativo, expedido pela Receita Federal. Sustentou que as obrigações acessórias, em atenção ao princípio da legalidade, devem ser necessariamente instituídas por lei. Ademais, quanto à multa, alegou no caso concreto os efeitos da denúncia espontânea, prevista no art. 138 do Código Tributário Nacional – CTN. Ao final, pediu o cancelamento do auto de infração. A DRJ analisou a impugnação apresentada pela contribuinte e considerou procedente o lançamento com a seguinte ementa: ASSUNTO: OBRIGAÇÕES ACESSÓRIAS Anocalendário: 2009,2010 OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. LEGALIDADE. ATO ADMINISTRATIVO. Em se tratando de obrigação tributária acessória, a lei estabelece as linhas gerais, cabendo ao ato administrativo especificar conteúdo, forma e periodicidade. OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA. MULTA POR ATRASO NO CUMPRIMENTO. EFEITOS DA DENÚNCIA ESPONTÂNEA. INAPLICABILIDADE. A denúncia espontânea não afasta a aplicação da multa por atraso no cumprimento de obrigações tributárias acessórias. Ciente da decisão de primeira instância em 28/05/2015, conforme Aviso de Recebimento à efl. 42, a recorrente apresentou recurso voluntário em 26/06/2015, conforme carimbo de recepção à efl. 70. No recurso interposto (efls. 70/78), a recorrente reitera os argumentos trazidos em sede de impugnação. Fl. 84DF CARF MF Processo nº 11610.006633/201040 Acórdão n.º 1001000.001 S1C0T1 Fl. 85 3 É o Relatório. Voto Conselheiro Edgar Bragança Bazhuni, Relator O recurso é tempestivo e dele conheço. Observo, inicialmente, que não há discussão quanto ao atraso ter efetivamente ocorrido. De igual modo, não há qualquer contestação quanto ao cálculo do valor da multa exigida. Os argumentos da recorrente, a exemplo do que ocorreu em primeira instância, se baseiam na denúncia espontânea, por ter entregue a declaração antes de qualquer procedimento fiscal e nas ilegalidades da instituição da entrega da DCTF e da multa pelo descumprimento da obrigação acessória. Esses argumentos foram fundamentadamente afastados em primeira instância, pelo que peço vênia para transcrever o excerto, a seguir, do voto condutor do acórdão recorrido, adotandoo desde já como razões de decidir, em cumprimento aos ditames do §1º do art. 50 da Lei nº 9.784/1999: O fato que deu ensejo à aplicação da multa ora impugnada foi o atraso na entrega da DCTF. Não resignada, a impugnante alegou ofensa ao princípio da legalidade e invocou também os efeitos da denúncia espontânea. Não procede a alegação de ofensa ao princípio da legalidade, pois, em se tratando de obrigação tributária acessória, à lei cabe definir genericamente a obrigação, deixando ao ato administrativo o detalhamento da conduta a ser exigida do contribuinte. Vale dizer, a lei estabelece a obrigação de prestar informações à Fazenda, enquanto o ato administrativo especifica o conteúdo, a forma e a periodicidade. Nesse sentido decidiu o E. Superior Tribunal de Justiça – STJ, como se vê da ementa abaixo transcrita: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. MULTA. ATRASO NA ENTREGA DA DCTF. A instrução normativa 73/96 estabelece apenas os regramentos administrativos para a apresentação das DCTF's, revelandose perfeitamente legítima a exigibilidade da obrigação acessória, não havendo que se falar em violação ao princípio da legalidade. 2. Embargos de declaração acolhidos. (EDcl no AgRg no Resp nº 507.467, DJ 09/12/2003) Do voto condutor da decisão, proferido pelo Ministro Luiz Fux, colhese o seguinte trecho: Deveras, a questão a ser debatida consiste em saber se subsiste respaldo legal para a edição da obrigação de entrega de Declaração de Contribuições Federais e da aplicação da penalidade imposta decorrente do atraso na entrega da DCTF. Fl. 85DF CARF MF Processo nº 11610.006633/201040 Acórdão n.º 1001000.001 S1C0T1 Fl. 86 4 Entende o embargante ser descabida a multa, porquanto a Instrução Normativa 73 de 18/12/96 não poderia ter instituído a penalidade, uma vez que se trata de matéria reservada à lei, consoante dispõe o art. 97, V do CTN. A exigibilidade de multa pelo atraso na entrega das informações imposta pelo Regulamento do Imposto de Renda de 1980, decorre do Decreto nº 1.968/82 que, em seu art. 11, assim preceitua: "Art. 11 A pessoa física ou física ou jurídica é obrigada a informar à Secretaria da Receita Federal os rendimentos que, por si ou como representante de terceiros, pagar ou creditar no ano anterior, bem como o Imposto de Renda que tenha retido. §1º (...) §2º Será aplicada multa em valor equivalente ao de uma ORTN para(..) §3º Apresentada a informação fora do prazo e antes de qualquer procedimento exofficio, ou se, após a intimação, for apresentada no prazo nela fixado, a multa prevista no parágrafo anterior será reduzida a metade" Posteriormente, o dispositivo acima restou alterado pelo Decretolei nº 2.065/83, que assim assentou: "Art. 11. A pessoa física ou jurídica é obrigada a informar à Secretaria da Receita Federal os rendimentos que, por si ou como representante de terceiros, pagar ou creditar no ano anterior, bem como o Imposto de Renda que tenha retido. §1º A informação deve ser prestada nos prazos fixados e em formulário padronizado aprovado pela Secretaria da Receita Federal. §2º Será aplicada multa de valor equivalente ao de uma OTRN para cada grupo de cinco informações inexatas, incompletas ou omitidas, apuradas nos formulários entregues em cada período determinado. §3º Se o formulário padronizado (§ 1º) for apresentado após o período determinado, será aplicada multa de 10 ORTN, ao mês calendário ou fração, independentemente da sanção prevista no parágrafo anterior. (grifo nosso) Destarte, forçoso concluir que a instrução normativa 73/96 (fl.42) estabelece apenas os regramentos administrativos para a apresentação das DCTF's, revelandose perfeitamente legítima a exigibilidade da obrigação acessória, não havendo que se falar em violação do princípio da legalidade. Isto posto, acolho os embargos para sanar a omissão apontada. Inexiste, por outro lado, ofensa à legalidade no que tange à multa, uma vez que há previsão expressa no art. 7º da Lei nº 10.426/2002 tanto da DCTF, quanto da multa pelo não cumprimento da obrigação acessória. No que tange à ultima alegação, é pacífico no âmbito do Superior Tribunal de Justiça o entendimento segundo o qual os efeitos da denúncia espontânea não se Fl. 86DF CARF MF Processo nº 11610.006633/201040 Acórdão n.º 1001000.001 S1C0T1 Fl. 87 5 aplicam às chamadas obrigações acessórias, conforme se percebe pelo teor da ementa abaixo reproduzida. TRIBUTÁRIO. MULTA MORATÓRIA. ART. 138 DO CTN. ENTREGA EM ATRASO DA DECLARAÇÃO DE RENDIMENTOS. 1. A denúncia espontânea não tem o condão de afastar a multa decorrente do atraso na entrega da declaração de rendimentos, uma vez que os efeitos do artigo 138 do CTN não se estendem às obrigações acessórias autônomas. Precedentes. 2. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp 11340 / SC 2011/01079325, Segunda Turma, Relator Ministro Castro Meira, julgado em 13/09/2011, Dje 27/09/2011) Quanto às ilegalidades levantadas pela recorrente, tanto da instituição, quanto da aplicação da multa pelo não cumprimento da obrigação acessória, reproduzo, a seguir, a base legal do lançamento, o referido artigo 7º da Lei nº 10.426, de 2002, que criou uma regra específica de sanção para o descumprimento da obrigação acessória relativa às declarações DIPJ, DCTF, DIRF e DACON: Art. 7º O sujeito passivo que deixar de apresentar Declaração de Informações EconômicoFiscais da Pessoa Jurídica DIPJ, Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais DCTF, Declaração Simplificada da Pessoa Jurídica, Declaração de Imposto de Renda Retido na Fonte DIRF e Demonstrativo de Apuração de Contribuições Sociais DACON, nos prazos fixados, ou que as apresentar com incorreções ou omissões, será intimado a apresentar declaração original, no caso de nãoapresentação, ou a prestar esclarecimentos, nos demais casos, no prazo estipulado pela Secretaria da Receita Federal SRF, e sujeitarseá às seguintes multas: (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) I de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidente sobre o montante do imposto de renda da pessoa jurídica informado na DIPJ, ainda que integralmente pago, no caso de falta de entrega desta Declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3; [...] § 1º Para efeito de aplicação das multas previstas nos incisos I, II e III do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo originalmente fixado para a entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, da lavratura do auto de infração. (Redação dada pela Lei nº 11.051, de 2004) § 2º Observado o disposto no § 3º, as multas serão reduzidas: I à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; [...] § 3º A multa mínima a ser aplicada será de: I R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de pessoa física, pessoa jurídica inativa e pessoa jurídica optante pelo regime de tributação previsto na Lei nº 9.317, de 5 de dezembro de 1996; II R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos. Fl. 87DF CARF MF Processo nº 11610.006633/201040 Acórdão n.º 1001000.001 S1C0T1 Fl. 88 6 Por fim, em relação ao instituto da denúncia espontânea, tema que versa os autos, suscitado pela recorrente, é respaldado por entendimento sumulado do CARF: Súmula CARF nº 49: A denúncia espontânea (art. 138 do Código Tributário Nacional) não alcança a penalidade decorrente do atraso na entrega de declaração. A hipótese colocada, sem dúvida alguma, configura aquela a situação prevista na Súmula acima mencionada, desta forma, diante da especificidade da Súmula CARF nº. 49 e conforme Regimento Interno deste Conselho, que prevê a obrigatória observância das Súmulas CARF pelos conselheiros, não havendo que se falar, portanto, em benefícios da denúncia espontânea. Diante do exposto, voto por negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) Edgar Bragança Bazhuni Fl. 88DF CARF MF
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Numero do processo: 10280.904973/2011-35
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Sep 27 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Oct 18 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3402-001.068
Decisão: Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique a composição da base de cálculo adotada pela contribuinte ao recolher a Contribuição, levando em conta as notas fiscais emitidas, as escritas contábil e fiscal e outros documentos que considerar pertinentes, elaborando, ao final, Relatório Conclusivo com a discriminação dos montantes totais tributados e, em separado, os valores de outras receitas tributadas com base no alargamento promovido pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, de modo a se apurar os valores devidos, com e sem o alargamento, e confrontá-los com o recolhido, apurando-se, se for o caso, o eventual montante de recolhimento a maior em face do referido alargamento da base de cálculo das contribuições.
(assinado digitalmente)
Jorge Olmiro Lock Freire - Presidente e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: JORGE OLMIRO LOCK FREIRE
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ALARGAMENTO DA BASE DE CÁLCULO. Recorrente RODOBENS CAMINHÕES CIRASA S.A. (SUCESSORA DE BELÉM DIESEL S.A.) Recorrida FAZENDA NACIONAL Resolvem os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique a composição da base de cálculo adotada pela contribuinte ao recolher a Contribuição, levando em conta as notas fiscais emitidas, as escritas contábil e fiscal e outros documentos que considerar pertinentes, elaborando, ao final, Relatório Conclusivo com a discriminação dos montantes totais tributados e, em separado, os valores de outras receitas tributadas com base no alargamento promovido pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, de modo a se apurar os valores devidos, com e sem o alargamento, e confrontálos com o recolhido, apurandose, se for o caso, o eventual montante de recolhimento a maior em face do referido alargamento da base de cálculo das contribuições. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Presidente e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros: Jorge Olmiro Lock Freire, Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne e Carlos Augusto Daniel Neto. RELATÓRIO Tratase de recurso voluntário contra decisão da Delegacia de Julgamento em Campinas que julgou improcedente a manifestação de inconformidade, conforme ementa abaixo: (...) AMPLIAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 02 80 .9 04 97 3/ 20 11 -3 5 Fl. 210DF CARF MF Processo nº 10280.904973/201135 Resolução nº 3402001.068 S3C4T2 Fl. 186 2 A inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em recurso extraordinário, não gera efeitos erga omnes, sendo incabível sua aplicação a contribuintes que não façam parte da respectiva ação. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL (...) PROVA DOCUMENTAL. PRECLUSÃO. A prova documental do direito creditório deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de o contribuinte fazêlo em outro momento processual sem que verifiquem as exceções previstas em lei. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Versa o processo sobre pedido de restituição de crédito de contribuição não cumulativa, o qual foi indeferido pela DRF de origem, em razão de o recolhimento indicado ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pela contribuinte em outro PER/DCOMP. A interessada apresentou a manifestação de inconformidade, sustentando seu direito creditório na inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/1998 (RE nº 390.840/MG e RE nº 585.235, com repercussão geral). O julgador de primeira instância não acolheu as razões de defesa da interessada, sob os seguintes fundamentos: A autoridade a quo procedeu corretamente ao indeferir o pleito da interessada, eis que existem débitos, confessado pela própria contribuinte por meio de DCTF e outro PER/DCOMP, no valor igual ao do recolhimento objeto do pedido de restituição, de forma que inexiste saldo passível de restituição. Seria necessário que, no mínimo, a interessada houvesse retificado sua DCTF até a transmissão do seu PER/DCOMP, fazendo constar o suposto débito inferior ao declarado, o que faria exsurgir a possibilidade de se alegar pagamento a maior. Como não o fez, não havia saldo de pagamento sobre o qual a autoridade fiscal tivesse que se manifestar. No tocante à inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo, não se discute o entendimento do STF, exposto nos REs mencionados pela interessada. Tampouco se questiona a vinculação do CARF à decisão proferida no RE julgado na sistemática de repercussão geral, conforme prevê seu regimento. Sobre a revogação do § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718, pela Lei nº 11.941, apenas deve ser esclarecido que tal revogação não tem efeitos retroativos, e portanto não atinge o período a que se refere o PER/DCOMP em análise. Ainda que os óbices quanto à utilização integral do recolhimento não existissem, e que fosse possível estender os efeitos do julgado do STF para o presente caso, a interessada não se desincumbiu de demonstrar e provar o suposto recolhimento a maior. A cópia parcial do balancete apresentada permite vislumbrar tão somente as receitas financeiras do período, mas não o faturamento da empresa. Assim, não haveria como se apurar o total da base de cálculo e a contribuição devida, para comparála com o recolhimento efetuado e concluirse pela eventual existência de recolhimento a maior, e em que montante. E mais, não tendo a interessada apresentado provas de seu suposto crédito, precluiu do direito de fazêlo em outro momento, a teor do disposto no art. 16 do Decreto nº 70.235/72. Fl. 211DF CARF MF Processo nº 10280.904973/201135 Resolução nº 3402001.068 S3C4T2 Fl. 187 3 Cientificada, a contribuinte apresentou recurso voluntário tempestivo, alegando e requerendo o que se segue: a) Requer a recorrente a reunião dos processos apontados de modo a haver seu julgamento conjunto em face da existência de conexão entre os mesmos. b) Houve falta de aprofundamento da investigação dos fatos, o que contraria o contido no art. 76 da IN RFB nº 1300/12. A DCTF não é o único meio hábil de prova da existência de crédito passível de restituição. Nem o art. 165 do CTN e nem o art. 74 da Lei nº9.430/96 condicionam o reconhecimento do crédito à retificação de declarações, tratandose de formalidade, a qual não pode se sobrepor ao direito substantivo. c) Acerca das provas juntadas para demonstrar a existência do crédito pleiteado, a decisão recorrida alegou a insuficiência para o intento, entretanto esse entendimento não merece prosperar, eis que os documentos colacionados são suficientes para a comprovação do direito de crédito alegado. O valor recolhido indevidamente sobre as receitas financeiras está devidamente lastreado nas receitas financeiras destacadas no balancete em anexo à manifestação de inconformidade, documento este obrigatório paras as pessoas jurídicas, possuindo, inclusive, força probante para recolhimento de estimativas em caso de pessoa jurídica optante pelo lucro real mensal, nos termos do art. 230 do RIR/99. d) Com relação à preclusão da produção da prova, a alínea "c" do §4º do art. 16 do Dec. nº 70.235/72 possibilita a produção de provas em outro momento processual, quando se destine a contrapor fatos ou razões posteriormente trazidas aos autos. Nesse passo, para corroborar os fatos já demonstrados pela documentação carreada à manifestação de inconformidade, e também com vistas a contrapor os argumentos da decisão recorrida, requer a juntada do livro Razão, o qual, por si só, tem o condão de comprovar o direito creditório ora postulado. e) Quanto ao mérito, a discussão encontrase totalmente superada na jurisprudência do STF que, em sessão plenária, declarou a inconstitucionalidade do parágrafo 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98 no julgamento do RE nº 390840/MG em 9.11.2005. Não há dúvida de que esse entendimento do STF, com repercussão geral reconhecida, deve ser aplicado ao caso dos autos. Assim é que na base de cálculo do PIS e da Cofins somente deveriam ter sido incluídos pela recorrente os valores correspondentes ao seu faturamento, ou seja, os ingressos que correspondem as suas receitas das vendas de mercadorias e da prestação de serviços, razão pela qual a decisão a quo deve ser reformada a fim de que seja deferido o direito creditório pleiteado. É o relatório. VOTO Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução nº 3402001.050, de 27 de setembro de 2017, proferida no julgamento do processo 10280.900096/201212, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu na Resolução 3402001.050: Fl. 212DF CARF MF Processo nº 10280.904973/201135 Resolução nº 3402001.068 S3C4T2 Fl. 188 4 "Atendidos os requisitos de admissibilidade, tomase conhecimento do recurso voluntário. Como se sabe, é obrigatória aos membros deste CARF a reprodução do conteúdo de decisão definitiva de mérito proferida pelo STF e pelo STJ na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil. Também não se desconhece que foi declarada a inconstitucionalidade do § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98 pelo Supremo Tribunal Federal, tendo sido reconhecida a repercussão geral, para reafirmar a jurisprudência do Tribunal nesse sentido1. Em consequência, para as empresas que se dedicam à venda de mercadorias comerciais e industriais e/ou à prestação de serviços, é ao total das receitas oriundas dessas atividades que corresponde a base de cálculo das contribuições do PIS e da Cofins enquanto aplicável aquele ato legal2 . No que concerne à possibilidade de reconhecimento do direito creditório independentemente da retificação da DCTF, este CARF já decidiu favoravelmente à própria contribuinte, mediante o Acórdão nº 3302004623 – 3ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, de 27 de julho de 2017, no processo nº 10280.905792/201126, no qual foi apurado, em diligência, que a recorrente demonstrou cabalmente a existência do crédito. Conforme assentado na Resolução nº 3401000.737, da 3ª Seção/4ª Câmara/1ªTurma Ordinária, de 24/07/2013, esta 3ª Seção de Julgamento do Carf tem orientado sua jurisprudência no sentido de que, não obstante a 1 RECURSO EXTRAORDINÁRIO. TRIBUTO. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ de 1º.09.2006; REs 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 18.08.2006)Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso Improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS, prevista no art. 3º, § 1º, da Lei nº 9.718/98. (RE 585235/MG, Relator: Min. Cézar Peluso, julgado em 10/09/2008). 2 Acórdão nº 9303002.444– 3ª Turma, de 08 de outubro de 2013 Relator: JÚLIO CÉSAR ALVES RAMOS PIS E COFINS. ALARGAMENTO. EMPRESAS INDUSTRIAIS E DE SERVIÇOS. Nos termos do quanto decidido pelo Pleno do STF no julgamento dos recursos extraordinários nºs 357.950, 390840, 358273 e 346084, deve ser repudiada a ampliação do conceito de faturamento intentado pelo § 1º do art. 3º da Lei 9.718/98. Em conseqüência, para as empresas que se dedicam à venda de mercadorias comerciais e industriais e/ ou à prestação de serviços, é ao total das receitas oriundas dessas atividades que corresponde a base de cálculo das contribuições PISe PASEP enquanto aplicável aquele ato legal. Acórdão nº 3401003.828– 4ª Câmara / 1ª Turma Ordinária, de 29 de junho de 2017 Relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/07/2003 a 31/07/2003 DECLARAÇÃO DE COMPENSAÇÃO. PAGAMENTO INDEVIDO OU A MAIOR. COFINS. BASE DE CÁLCULO. RECEITAS FINANCEIRAS. ART. 3º, § 1º, LEI Nº 9.718/98. INCONSTITUCIONALIDADE. As receitas que não se caracterizam como próprias da atividade da entidade, tal como estabelecido pelo estatuto ou contrato social, não compõem o seu faturamento, conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal, em repercussão geral, ao declarar a inconstitucionalidade da ampliação do conceito de receita bruta promovida pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Devese, assim, ser acolhido o resultado da diligência constante no Relatório de Diligência Fiscal. Considerando a comprovação documental da validade do crédito, consistente em recolhimento indevido ou a maior de Cofins sobre receitas financeiras, deve o sujeito passivo ter atendido o seu pleito creditório. Recurso Voluntário provido. Direito creditório reconhecido. Fl. 213DF CARF MF Processo nº 10280.904973/201135 Resolução nº 3402001.068 S3C4T2 Fl. 189 5 preclusão do art. 16, §4° do Decreto nº 70.235/72, em situações em que há alguns indícios de provas, o julgamento pode ser convertido em diligência para análise da nova documentação acostada. No presente processo, embora a recorrente não tenha produzido a prova necessária por ocasião da apresentação de seu pedido ou da manifestação de inconformidade, apresentou, posteriormente, no Recurso Voluntário, outros documentos na tentativa de comprovação do direito alegado. Assim, resguardando eventual julgamento posterior do Colegiado na linha dos entendimentos acima apontados, voto no sentido de converter o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique a composição da base de cálculo adotada pela contribuinte ao recolher a Contribuição, levando em conta as notas fiscais emitidas, as escritas contábil e fiscal e outros documentos que considerar pertinentes, elaborando, ao final, um Relatório Conclusivo com a discriminação dos montantes totais tributados e, em separado, os valores de outras receitas tributadas com base no alargamento promovido pelo §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, de modo a se apurar os valores devidos, com e sem o alargamento, e confrontálos com o recolhido, apurandose, se for o caso, o eventual montante de recolhimento a maior em face do referido alargamento da base de cálculo das contribuições. Após a intimação da recorrente do resultado da diligência, concedendolhe o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, nos termos do art. 35 do Decreto nº 7.574/2011, o processo deve retornar a este Colegiado para prosseguimento." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, converto o julgamento em diligência para que a Unidade de Origem verifique a composição da base de cálculo adotada pela contribuinte ao recolher a Contribuição, levando em conta as notas fiscais emitidas, as escritas contábil e fiscal e outros documentos que considerar pertinentes, elaborando, ao final, um Relatório Conclusivo com a discriminação dos montantes totais tributados e, em separado, os valores de outras receitas tributadas com base no alargamento promovido pelo § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, de modo a se apurar os valores devidos, com e sem o alargamento, e confrontálos com o recolhido, apurandose, se for o caso, o eventual montante de recolhimento a maior em face do referido alargamento da base de cálculo das contribuições. Após a intimação da recorrente do resultado da diligência, concedendolhe o prazo de 30 (trinta) dias para manifestação, nos termos do art. 35 do Decreto nº 7.574/2011, o processo deve retornar a este Colegiado para prosseguimento. (assinado digitalmente) Jorge Olmiro Lock Freire Fl. 214DF CARF MF
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Numero do processo: 11080.731133/2012-47
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Oct 24 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI
Período de apuração: 01/08/2007 a 30/06/2010
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS. SÚMULA CARF Nº 2. APLICAÇÃO.
Em conformidade com a Súmula CARF nº 2, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária.
ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. SÚMULA 227-TFR. ART. 146-CTN. ÂMBITO DE APLICAÇÃO. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. HOMOLOGAÇÃO DE LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. REVISÃO ADUANEIRA. POSSIBILIDADE.
O desembaraço aduaneiro não representa lançamento efetuado pela fiscalização nem homologação, por esta, de lançamento "efetuado pelo importador". Tal homologação ocorre apenas com a "revisão aduaneira" (homologação expressa), ou com o decurso de prazo para sua realização (homologação tácita). A homologação expressa, por meio da "revisão aduaneira" de que trata o art. 54 do Decreto-lei no 37/1966, com a redação dada pelo Decreto-lei no 2.472/1988, em que pese a inadequação terminológica, derivada de atos infralegais, não representa, efetivamente, nova análise, mas continuidade da análise empreendida, ainda no curso do despacho de importação, que não se encerra com o desembaraço. Não se aplicam ao caso, assim, o art. 146 do CTN (que pressupõe a existência de lançamento) nem a Súmula 227 do extinto Tribunal Federal de Recursos (que afirma que "a mudança de critério adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento").
CHATÃO.
Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas chatão, classificam-se no código NCM 7018.10.20.
CORRENTE DE LATÃO.
Corrente de metal comum, contendo engastadas ao longo da corrente imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, utilizadas em calçados, vestuários e seus acessórios, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas corrente de latão, classificam-se no código NCM 7018.90.00.
PEDRAS ACRÍLICAS.
Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de acrílico (plástico), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas pedras acrílicas, classificam-se no código NCM 3926.90.90.
PLAST BAND.
Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de plástico, montadas em suportes de plástico, próprias para aplique em calçados, bolsas femininas, chapéus e em vestuário, comercialmente denominadas plast band, classificam-se no código NCM 3926.90.90.
APLICAÇÃO DE ALÍQUOTA MENOR QUE A DEVIDA.
Aplicação de alíquota do imposto, menor do que a devida, por erro de alíquota/classificação fiscal dos produtos, justifica o lançamento de ofício da diferença, com os respectivos acréscimos legais.
SAÍDAS COM SUSPENSÃO DO IPI. ESTABELECIMENTO EQUIPARADO A INDUSTRIAL. IMPOSSIBILIDADE.
A suspensão do IPI prevista no art. 29 da Lei no 10.637, de 2002, é aplicável tão-somente às saídas promovidas por estabelecimento industrial, não sendo possível a sua extensão àquelas operações realizadas por estabelecimento equiparado a industrial, por falta de previsão legal.
Numero da decisão: 3401-004.020
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em negar provimento ao recurso, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos (a1) para manter a classificação adotada no lançamento em relação aos produtos "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", "plast band" e "acessórios para calçados"; e (a2) pela possibilidade de revisão aduaneira, não havendo, no caso, alteração de critério jurídico, em relação ao produto "plast band"; e (b) por maioria de votos (b1) pela possibilidade de revisão aduaneira em relação aos demais produtos, não havendo, no caso, alteração de critério jurídico, vencidos o relator e o Conselheiro André Henrique Lemos; (b2) pela procedência do lançamento no que se refere à suspensão do IPI promovida por estabelecimento equiparado a industrial, vencidos o relator e o Conselheiro Tiago Guerra Machado. Designado para redigir o voto vencedor, em relação à possibilidade de revisão aduaneira, o Conselheiro Rosaldo Trevisan, e, em relação à saída com suspensão do IPI, o Conselheiro Robson José Bayerl.
Rosaldo Trevisan - Presidente e redator designado.
RELATOR LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO - Relator.
Robson José Bayerl - Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes, Augusto Fiel Jorge DOliveira, André Henrique Lemos e Tiago Guerra Machado.
Nome do relator: LEONARDO OGASSAWARA DE ARAUJO BRANCO
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SÚMULA CARF Nº 2. APLICAÇÃO. Em conformidade com a Súmula CARF nº 2, este Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO. SÚMULA 227TFR. ART. 146 CTN. ÂMBITO DE APLICAÇÃO. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. HOMOLOGAÇÃO DE LANÇAMENTO. INEXISTÊNCIA. REVISÃO ADUANEIRA. POSSIBILIDADE. O desembaraço aduaneiro não representa lançamento efetuado pela fiscalização nem homologação, por esta, de lançamento "efetuado pelo importador". Tal homologação ocorre apenas com a "revisão aduaneira" (homologação expressa), ou com o decurso de prazo para sua realização (homologação tácita). A homologação expressa, por meio da "revisão aduaneira" de que trata o art. 54 do Decretolei no 37/1966, com a redação dada pelo Decretolei no 2.472/1988, em que pese a inadequação terminológica, derivada de atos infralegais, não representa, efetivamente, nova análise, mas continuidade da análise empreendida, ainda no curso do despacho de importação, que não se encerra com o desembaraço. Não se aplicam ao caso, assim, o art. 146 do CTN (que pressupõe a existência de lançamento) nem a Súmula 227 do extinto Tribunal Federal de Recursos (que afirma que "a mudança de critério adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento"). “CHATÃO”. Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 08 0. 73 11 33 /2 01 2- 47 Fl. 965DF CARF MF 2 comercialmente denominadas “chatão”, classificamse no código NCM 7018.10.20. “CORRENTE DE LATÃO”. Corrente de metal comum, contendo engastadas ao longo da corrente imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, utilizadas em calçados, vestuários e seus acessórios, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas “corrente de latão”, classificamse no código NCM 7018.90.00. “PEDRAS ACRÍLICAS”. Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de acrílico (plástico), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas “pedras acrílicas”, classificamse no código NCM 3926.90.90. “PLAST BAND”. Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de plástico, montadas em suportes de plástico, próprias para aplique em calçados, bolsas femininas, chapéus e em vestuário, comercialmente denominadas “plast band”, classificamse no código NCM 3926.90.90. APLICAÇÃO DE ALÍQUOTA MENOR QUE A DEVIDA. Aplicação de alíquota do imposto, menor do que a devida, por erro de alíquota/classificação fiscal dos produtos, justifica o lançamento de ofício da diferença, com os respectivos acréscimos legais. SAÍDAS COM SUSPENSÃO DO IPI. ESTABELECIMENTO EQUIPARADO A INDUSTRIAL. IMPOSSIBILIDADE. 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Acordam os membros do colegiado, em negar provimento ao recurso, da seguinte forma: (a) por unanimidade de votos (a1) para manter a classificação adotada no lançamento em relação aos produtos "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", "plast band" e "acessórios para calçados"; e (a2) pela possibilidade de revisão aduaneira, não havendo, no caso, alteração de critério jurídico, em relação ao produto "plast band"; e (b) por maioria de votos (b1) pela possibilidade de revisão aduaneira em relação aos demais produtos, não havendo, no caso, alteração de critério jurídico, vencidos o relator e o Conselheiro André Henrique Lemos; (b2) pela procedência do lançamento no que se refere à suspensão do IPI promovida por estabelecimento equiparado a industrial, vencidos o relator e o Conselheiro Tiago Guerra Machado. Designado para redigir o voto vencedor, em relação à possibilidade de revisão aduaneira, o Conselheiro Rosaldo Trevisan, e, em relação à saída com suspensão do IPI, o Conselheiro Robson José Bayerl. Fl. 966DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 966 3 ROSALDO TREVISAN Presidente e redator designado. RELATOR LEONARDO OGASSAWARA DE ARAÚJO BRANCO Relator. ROBSON JOSÉ BAYERL Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Fenelon Moscoso de Almeida, Robson José Bayerl, Mara Cristina Sifuentes, Augusto Fiel Jorge D’Oliveira, André Henrique Lemos e Tiago Guerra Machado. Relatório 1. Tratase auto de infração, lavrado em 31/08/2012, situado às fls. 486 a 490, que formaliza a cobrança de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) não recolhido, referente ao período de apuração compreendido entre 01/08/2007 e 30/06/2010, no valor histórico de R$ 5.718.090,35. 2. Segundo se depreende do termo de encerramento de procedimento fiscal, situado às fls. 491 a 505, a infração foi lavrada em decorrência de a contribuinte não realizar o recolhimento do IPI na saída de produtos tributados, em virtude: (i) de erro de classificação fiscal dos produtos identificados como "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", "plast band", e "acessórios para calçados"; e (ii) de utilização indevida de suspensão do imposto. A autoridade fiscal procedeu à apuração do imposto devido, nos termos do demonstrativo de fls. 268 a 451 e, em seguida, à reconstituição da escrita fiscal de fl. 476. 3. A contribuinte, cientificada pessoalmente em 31/08/2012, apresentou, em 01/10/2012, impugnação, situada às fls. 508 a 585, argumentando, em síntese, preliminarmente: (i) a classificação fiscal das mercadorias deve ser feita de acordo com a premissa de que as atividades da contribuinte estão voltadas essencialmente ao mercado de bens de uso pessoal, notadamente o mercado de calçados, vestuário e bijuterias; (ii) não pode a classificação fiscal adotada no desembaraço por parte da autoridade aduaneira quando da importação da mercadoria ser alterada na operação interna; (iii) a autoridade fiscal desconsiderou os critérios de classificação que levam em consideração a destinação, finalidade, característica, composição (material) das mercadorias adquiridas e revendidas; (iv) discorda da classificação adotadas pela autoridade fiscal para os produtos identificados como "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", "plast band", e "acessórios para calçados"; (v) para os produtos "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", e "plast band" revendidos com os mesmos códigos da TIPI pelos quais foram desembaraçados, aplicase a disposição do art. 146 do Código Tributário Nacional; (vi) seja reconhecido a Impugnante, nas hipóteses em que for equiparada a industrial, na forma do artigo 9, incisos I e IV do Decreto n° 7.212/2010, se valer do benefício da suspensão do IPI, conforme dispõe o artigo 29 da Lei n° 10.637/2002, sem prejuízo da manutenção do respectivo crédito, uma vez que a restrição imposta pela IN RFB nº 429/2004, posteriormente, a IN RFB nº 948/2009, extrapola os limites legais; (vii) considerando a complexidade das questões debatidas, requer prazo suplementar de 30 dias para juntada de documentação. Fl. 967DF CARF MF 4 4. Em sessão 27/11/2013, foi proferido o Acórdão DRJ nº 1447.024, situado às fls. 839 a 869, e proferido pela 12ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Ribeirão Preto (SP), sob a relatoria do AuditorFiscal Luís Fernando Mayor da Silva, que decidiu, por votação unânime, julgar improcedente a impugnação apresentada, nos termos da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 01/08/2007 a 30/06/2010 CHATÃO. Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas “chatão”, classificamse no código NCM 7018.10.20. CORRENTE DE LATÃO. Corrente de metal comum, contendo engastadas ao longo da corrente imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, utilizadas em calçados, vestuários e seus acessórios, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas “corrente de latão”, classificamse no código NCM 7018.90.00. PEDRAS ACRÍLICAS. Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de acrílico (plástico), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizadas para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos, comercialmente denominadas “pedras acrílicas”, classificamse no código NCM 3926.90.90. PLAST BAND Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de plástico, montadas em suportes de plástico, próprias para aplique em calçados, bolsas femininas, chapéus e em vestuário, comercialmente denominadas “plast band”, classificamse no código NCM 3926.90.90. PROCESSO DE CONSULTA. EFEITOS DE SUA SOLUÇÃO. As soluções em processo de consulta têm efeito vinculante relativamente ao consulente. CLASSIFICAÇÃO FISCAL. INEXISTÊNCIA DE MUDANÇA DE CRITÉRIO JURÍDICO. Fl. 968DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 967 5 Em se tratando de classificação fiscal, a adoção de critério jurídico, nos termos do art. 146 do CTN, ocorre no ato do lançamento e não do desembaraço da mercadoria. APLICAÇÃO DE ALÍQUOTA MENOR QUE A DEVIDA. Aplicação de alíquota do imposto, menor do que a devida, por erro de alíquota/classificação fiscal dos produtos, justifica o lançamento de ofício da diferença, com os respectivos acréscimos legais. ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/08/2007 a 30/06/2010 SAÍDA COM SUSPENSÃO DO IPI. ESTABELECIMENTO EQUIPARADO A INDUSTRIAL. INAPLICABILIDADE. A saída com suspensão do IPI prevista no art. 29 da Lei nº 10.637, de 2002, só é aplicável às saídas promovidas por estabelecimento industrial, não alcançando as operações realizadas por estabelecimento equiparado a industrial. CONTENCIOSO ADMINISTRATIVO. ILEGALIDADE E INCONSTITUCIONALIDADE. APRECIAÇÃO. É vedado aos órgãos do Poder Executivo afastar, no âmbito administrativo, a aplicação de lei, decreto ou ato normativo, por inconstitucionalidade ou ilegalidade. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/08/2007 a 30/06/2010 APRESENTAÇÃO DE PROVAS E DOCUMENTOS FORA DE PRAZO. Sob pena de preclusão temporal, o momento processual para o oferecimento da impugnação é o marco para apresentação de provas e alegações com o condão de modificar, impedir ou extinguir a pretensão fiscal. A juntada posterior de documentação só é possível em casos especificados na lei. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido 5. A contribuinte, intimada da decisão em 27/10/2015 por meio de sua Caixa Postal eletrônica, em conformidade com o Termo de Abertura de Mensagem situado à fl. 1538, interpôs, em 24/11/2015, recurso voluntário, situado às fls. 1586 a 1667, no qual reiterou as razões defendidas em sua impugnação. Fl. 969DF CARF MF 6 6. Em 17/02/2016, a Procuradoria da Fazenda Nacional protocolou contrarrazões de recurso voluntário, situadas às fls. 1675 a 1692, nas quais requereu a negativa de provimento do recurso interposto pela contribuinte. É o relatório. Voto Vencido Conselheiro Relator Leonardo Ogassawara de Araújo Branco 7. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os requisitos formais de admissibilidade e, portanto, dele tomo conhecimento. I. REVISÃO FISCAL E CLASSIFICAÇÃO FISCAL DOS PRODUTOS 8. Passase à análise do argumento de alteração de critério jurídico com a peculiaridade de se tratar o presente caso de IPI "nacional". Assim, alega a contribuinte ter franqueado à autoridade aduaneira o contato com o produto internalizado que, em momento posterior, veio a receber nova classificação fiscal a partir de análise exclusivamente contábil e à revelia das específicas regras ínsitas ao sistema harmonizado, o que se traduz como insegurança jurídica e indevida alteração de critério jurídico. Passase, a seguir, à análise da questão devolvida ao conhecimento deste Conselho. I. 1. DA VEDAÇÃO À ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO I. 1. a. Do estabelecimento das premissas: revisão fiscal vs. revisão aduaneira convívio, limitações e convergências 9. A revisão do lançamento tem como pressuposto a viabilidade do conhecimento, por parte da autoridade aduaneira, dos pressupostos fáticos que deram origem à obrigação tributária, o que ocorre, por exemplo, nos casos de resposta a consulta formulada pela contribuinte, de parametrização dos produtos por meio dos canais vermelho ou cinza, ou Fl. 970DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 968 7 ainda se, quando do processo de desembaraço aduaneiro, as declarações de importação são objeto de revisão aduaneira para fins específicos de alteração da classificação fiscal. 10. Em todos os casos acima referidos, erigese a presunção relativa de que a autoridade aduaneira teve ao menos a possibilidade de acesso a todas as informações necessárias para formar a sua convicção a respeito do enquadramento legal de uma determinada mercadoria, ou, em outras palavras, para adotar um critério jurídico apto a pautar a sua relação jurídica com o contribuinte presunção esta que restará elidida em um caso, eg., de fraude, o que corrobora a premissa adotada de suficiência de dados para a construção do convencimento e consequente viabilidade da adoção de um critério jurídico. Tal racional, ademais, habilita também aqueles casos em que não se demonstra dissensão entre o conteúdo da DI e o produto importado. Não havendo suspeita e comprovação de eventual declaração falsa, reputase verdadeira a informação prestada e, logo, não há que se falar em desconhecimento das premissas fáticas para a percussão da norma jurídica. Em outras palavras, uma vez realizado o exame documental e efetuado o desembaraço com dispensa da verificação da mercadoria, só não se poderá falar em sedimentação de um critério no caso de se comprovar que os documentos não espelham ou refletem a realidade da operação, sobretudo naqueles casos em que tal conduta foi observada em mais de uma oportunidade: o desembaraço de diversas mercadorias sob o mesmo fundamento jurídico, implica claramente a cristalização de um critério jurídico que servirá de baliza ou pólo magnético para orientar a relação fisco contribuinte. 11. Não se trata, de maneira nenhuma, de negar à recorrida a plena eficácia do art. 54 do DecretoLei nº 37/1966 combinado com o art. 570 do Decreto nº 4.543/2002, que prevêem a possibilidade da revisão aduaneira como ato por meio do qual, após o desembaraço, apurase a regularidade do pagamento dos impostos e demais gravames devidos, bem como a exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração de importação: DecretoLei nº 37, de 18/11/1966 Art.54. A apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício fiscal aplicado, e da exatidão das informações prestadas pelo importador será realizada na forma que estabelecer o regulamento e processada no prazo de 5 (cinco) anos, contado do registro da declaração de Fl. 971DF CARF MF 8 que trata o art.44 deste DecretoLei. (Redação dada pelo DecretoLei nº 2.472, de 01/09/1988) Decreto nº 6.759, de 05/02/2009 Art. 638. Revisão aduaneira é o ato pelo qual é apurada, após o desembaraço aduaneiro, a regularidade do pagamento dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda Nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração de importação, ou pelo exportador na declaração de exportação (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 54, com a redação dada pelo DecretoLei no 2.472, de 1988, art. 2o; e DecretoLei nº 1.578, de 1977, art. 8º). § 1o Para a constituição do crédito tributário, apurado na revisão, a autoridade aduaneira deverá observar os prazos referidos nos arts. 752 e 753. § 2o A revisão aduaneira deverá estar concluída no prazo de cinco anos, contados da data: I do registro da declaração de importação correspondente (DecretoLei nº 37, de 1966, art. 54, com a redação dada pelo DecretoLei no 2.472, de 1988, art. 2o); e II do registro de exportação. § 3o Considerase concluída a revisão aduaneira na data da ciência, ao interessado, da exigência do crédito tributário apurado. 12. Evidenciase que os erros de fato constatados serão revistos com base nos dispositivos em referência: não se premia o dolo ou a máfé do contribuinte, pois neste caso o ato poderá (deverá) ser revisto a qualquer tempo. O que não se evidencia, e jamais se poderia evidenciar, é a contrariedade destes dispositivos infralegais ao art. 146 do Código Tributário Nacional: Lei nº 5.172/1966 (Código Tributário Nacional) "Art. 146. A modificação introduzida, de ofício ou em conseqüência de decisão administrativa ou judicial, nos critérios jurídicos adotados pela autoridade Fl. 972DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 969 9 administrativa no exercício do lançamento somente pode ser efetivada, em relação a um mesmo sujeito passivo, quanto a fato gerador ocorrido posteriormente à sua introdução". 13. Não se confunde, neste passo, (i) a chamada "revisão fiscal", para fins aduaneiros, com (ii) a "revisão de lançamento" ou "revisão tributária" stricto sensu. 14. A (i) revisão fiscal, conforme preceptivo normativo do DecretoLei nº 37/1966, tem o escopo de verificar, textualmente: (i) regularidade do pagamento dos impostos e demais gravames; (ii) aplicação de benefício fiscal; e (iii) exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração. Apurase, por meio deste expediente, se os tributos e demais consectários foram pagos, se há aplicação de benefício e em que termos, e se as informações da declaração correspondem às características dos produtos importados. Diante da discrepância entre a mercadoria objeto de importação e a informação prestada, procedese à revisão fiscal. 15. Diversa é a (ii) revisão tributária (do lançamento): enquanto na primeira o que se revisa são os fatos que deram ensejo a um vínculo jurídicotributário, nesta o que se revisa são os critérios do próprio lançamento. Enquanto na revisão fiscal os fatos corretos substituem os incorretos e dão ensejo a um novo lançamento, nesta o que se revisa é, diante dos mesmos fatos, o próprio lançamento que, revolvido em suas entranhas, é reconfigurado. 16. Assim, a afirmação de que "(...) prestadas as informações na Declaração de Importação e ocorrido o despacho aduaneiro, o contribuinte passa a estar protegido pelo art. 146 do Código Tributário Nacional"1 deve ser temperada: desde que as informações prestadas estejam em conformidade com os produtos efetivamente importados. Assim, o que se veda é a modificação do lançamento "(...) e, portanto, sua revisão, quando decorrente de erro de direito".2 17. A revisão fiscal ou aduaneira prevista pelo art. 54 do DecretoLei nº 37/1966 e pelo art. 570 do Decreto nº 4.543/2002 permanece hígida no ordenamento, porém 1 SILVEIRA, Francisco Secaf Alves. "Aspectos controvertidos da tributação na importação imposto de importação, IPI e ICMS: do batismo da mercadoria à revisão fiscal". In: SANTI, Eurico Diniz de e CANADO, Vanessa Rahal. Tributação do setor industrial. São Paulo: Editora Saraiva Direito GV (Série "GVLaw"), 2013, p. 318. Fl. 973DF CARF MF 10 conhece a limitação imposta pelo Código Tributário Nacional, diploma recepcionado como lei complementar pela Constituição da República de 1988. Assim, prestase a revisar os erros de fato, mas jamais os erros de direito. Ao se propor a alterar os termos da relação que mantém com o contribuinte, o Estado deverá fazêlo apenas com relação aos fatos geradores ainda a serem praticados, sem alcançar aqueles já praticados, pois o passado prossegue resguardado: sob o crivo dos novos critérios, talvez de uma nova política fiscal, decidirá o contribuinte se continuará ou não a realizar importações, resguardado o direito de organizar os seus negócios. 18. Não há que se falar, assim, em aplicação de regra especial ("lex specialis derogat legi generali") ou posterior ("lex posterior derogat legi priori"): os dispositivos, ambos editados nos últimos dois meses do ano de 1966, devem ser interpretados não como opostos, mas dois lados de uma mesma moeda, com faces diversas, porém pertencentes a um mesmo campo ou âmbito de aplicação as normas de tributação incidentes sobre o comércio internacional. Na dicção do decretolei, o Estado poderá revisar os erros de fato, as inconsistências, o nãopagamento dos tributos incidentes sobre a importação. O Código Tributário Nacional impõe, na condição de norma geral de matéria tributária, a condição de que não sejam transmudados os critérios jurídicos. Assim, por mais que a área aduaneira apresente suas peculiaridades, não podendo ser encarada simplesmente do ponto de vista da tributação, tampouco está infensa à disciplina de temas afetos aos outros campos do direito. 19. Denotase, sob o pálio desta análise, que inexiste sobreposição, mas complementariedade e harmonia entre os diplomas irmãos. A conclusão semelhante, a respeito de não serem diplomas estanques,3 chegou o Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida, conforme se extrai da declaração de voto apresentada no Acórdão CARF nº 3401003.424, proferido em sessão de 22/02/2017, de minha relatoria, ao analisar a compatibilidade entre o art. 54 do DecretoLei nº 37/1966 e o inciso I do art. 173 do Código Tributário Nacional: "E a leitura, com um olho do art. 54 e outro no art. 138, no sentido de auferir a máxima eficácia e harmonia ao sistema jurídico vigente, não deixa dúvidas da plena compatibilidade das normas, mesmo para os que entendem (micro)sistemas incomunicáveis: o do Decretolei nº 37, de 18 de novembro de 1966, e o da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). 2 Idem, p. 319. 3 Necessário se ressaltar que a concordância entre nossa posição e a do Conselheiro Fenelon Moscoso de Almeida é com relação à complementariedade dos diplomas, e não quanto à aplicabilidade do art. 146 do Código Tributário Nacional ao presente caso. Fl. 974DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 970 11 Assim, revendo meu posicionamento, para os próximos julgamentos, não entendo possível negar eficácia à tudo isso e fazer prevalecer o comando isolado do art. 54, do DL nº 37/66, obstando a apuração e constituição de credito tributário, lançado por homologação, não pago e ainda não caduco, em conflito hermenêutico interno, com o art. 138, do mesmo DL, e externo, com o art. 173, I, do CTN e com a jurisprudência do STJ de reprodução obrigatória no âmbito do CARF" (seleção e grifos nossos). 20. Com convicção: se todos os elementos do produto são conhecidos pelo Estado no momento da importação, não havendo sequer indícios de que os dados fornecidos contrariam a realidade, ou, dito de outra forma, para nos valermos de vocabulário de uma específica tradição de pensamento, diante da convergência entre eventos e fatos, a classificação fiscal da mercadoria em um determinado código da nomenclatura é um ato de aplicação do direito por excelência, que em nada difere de qualquer ato jurídico de concreção: para uma mercadoria se aplica tal alíquota de acordo com o código tal da nomenclatura comum, da mesma forma que para um crime se aplica uma tal pena de acordo com o dispositivo do Código Penal. O que se afirma, neste caso, é o critério jurídico para a classificação a partir da interpretação das regras da Convenção Internacional sobre o Sistema Harmonizado de Designação e de Codificação de Mercadorias, e jamais os fatos, que são conhecidos e não colocados em disputa. 21. Tal entendimento não é estranho a este Conselho, que aplica idêntico vetor racional ao entender, corretamente, que a perícia não pode jamais classificar o produto importado, mas apenas fornecer subsídios ao aplicador ao esclarecer os atributos e as características do material a se classificar. Isto ocorre porque a decisão de vincular um produto a um código se trata de um típico ato de aplicação do direito. O classificador se volta às regras e metaregras de seu repertório normativo, enquanto que o perito se volta aos elementos constitutivos do produto. Logo, indiferente é, ao profissional que realiza a perícia, a classificação correta, padecendo de qualquer propósito a pretensão de que, por meio de um laudo técnico, "tipifiquese" ou "classifiquese" o produto, pois não é tarefa do químico, do engenheiro ou do matemático aplicar o direito: podem participar da confecção da norma concreta, mas jungidos, restritos e atrelados a seu especialíssimo campo de atuação. Suas considerações técnicas acerca do produto deverão ser, sempre que pertinentes, acolhidas com Fl. 975DF CARF MF 12 redobrado interesse pelo direito, que envidará esforços para compreendêlas. Contudo, quaisquer suposições no que pertine à sua inserção em uma ou outra posição da nomenclatura deverão ser relegadas ao esquecimento no momento da fundamentação da decisão. 22. O art. 146 do Código Tributário Nacional não pode ser ignorado pelo aplicador ao tratar da revisão do lançamento, pois atua como norma reguladora das limitações constitucionais ao poder de tributar e, neste sentido, resguarda o valor jurídico da segurança jurídica, de modo a deslindar previamente o conflito eventual entre legalidade e boafé do contribuinte: "(...) essa tensão é resolvida pela lei complementar, que dá prevalência à proteção à boafé".4 Assim, "(...) não se pode invocar a legalidade para a revisão de lançamento por erro de direito"5 e, ressalvado o caso em que uma característica do bem avaliado estivesse oculta do conhecimento do aplicador, "(...) a avaliação não é mera questão de fato, mas antes um resultado de conclusões acerca das propriedades valorativas do bem",6 ou, em outras palavras, uma questão de direito: "(...) na verdade, poucas são as questões que não constituem modificação de critério jurídico em matéria de lançamento". 23. Recordese: a informação oculta ou falseada pela contribuinte, com o desígnio de iludir a autoridade aduaneira, está sujeita à revisão fiscal, e este é o sentido do art. 54 do DecretoLei nº 37/1966 que converge para a previsão do art. 149 do Código Tributário Nacional: lançase de ofício quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento de declaração obrigatória (inciso IV), ou quando se comprove omissão ou inexatidão por parte da pessoa legalmente obrigada (inciso V), ou diante da ação ou omissão do sujeito passivo (inciso VI), ou quando o sujeito passivo tenha agido com dolo ou simulação (inciso VII), ou deva ser apreciado fato não conhecido ou não provado na ocasião do lançamento, o (inciso VIII), ou se comprovada fraude ou falta funcional, ou mesmo omissão por parte da autoridade fiscal (inciso IX). Assim, diante de um novo arranjo fático, a revisão (dos fatos) permitirá um novo lançamento (de ofício). Tal situação, como se percebe por meio desta decomposição lógica dos predicados legislativos acima analisados, é em tudo diversa da previsão do art. 146, que se volta à revisão do lançamento original. Colocada a questão sob tais premissas, utilizase o seguinte exemplo, em tudo consentâneo com o caso sobre o qual ora nos debruçamos: "(...) por exemplo, no caso do imposto sobre produtos industrializados, adotase classificação fiscal para a identificação da alíquota aplicável à luz 4 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 5ª edição, 2015, pp. 620622. 5 Ibidem. 6 Ibidem. Fl. 976DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 971 13 da seletividade. Se um mesmo produto recebia, antes, uma classificação e, posteriormente, outra classificação é adotada, não há dúvida de que se está sobre o mesmo fato o qual, entretanto, passa a ser apreciado de outro modo: o aplicador da lei vê, no mesmo fato, características que antes não eram tomadas em conta. Conquanto se trate de uma apreciação do fato, temse novo critério jurídico, i.e., nova valoração jurídica do fato. Uma mudança em tais critérios jurídicos dobrase à regra do art. 146".7 24. Assim, "(...) a mera divergência na interpretação da norma que culmina em classificação equivocada configura erro de direito",8 não havendo possibilidade de revisão do lançamento sob pena de se malferir norma complementar de limitação ao poder de tributar. Por este motivo, tal prisma argumentativo, sequer há a necessidade de se afirmar que a "(...) seleção do canal de conferência aduaneira (parametrização) dá o colorido da intervenção estatal no despacho aduaneiro e, via de conseqüência, da modalidade de lançamento aí contido", ainda que tal raciocínio apresente um desdobramento útil para a apreciação da matéria:9 "Canal verde significa carência de verificação documental, física e valorativa, presumidos corretos os dados informados pelo sujeito passivo, que ainda poderão ser verificados na revisão aduaneira lançamento por homologação. Nos canais amarelo, laranja, vermelho e cinza, se não houve exigência fiscal, ou se existente, tenha sido aceita pelo sujeito passivo, tem se delineado o lançamento por declaração, porquanto percebese interação entre as partes na feitura da norma individual e concreta. De outro lado, sempre que houver aceitação de qualquer exigência fiscal, e a Alfândega tiver de substituir os dados informados pelos que entende corretos, haverá lançamento de ofício" (seleção e grifos nossos). 7 Ibidem. 8 SILVEIRA, Francisco Secaf Alves. "Aspectos controvertidos da tributação na importação imposto de importação, IPI e ICMS: do batismo da mercadoria à revisão fiscal". In: SANTI, Eurico Diniz de e CANADO, Vanessa Rahal. Tributação do setor industrial. São Paulo: Editora Saraiva Direito GV (Série "GVLaw"), 2013, p. 320. 9 MACHADO, Corintho Oliveira. "Confusão entre revisão de declaração e Revisão de lançamento no Despacho Aduaneiro". In: BRITTO, Demes (coord.). Questões controvertidas do Direito Aduaneiro. São Paulo: Editora IOB Folhamatic EBSSAGE, 2014, p. 94: Fl. 977DF CARF MF 14 25. Assentese com a afirmação do autor de que há "(...) muita confusão entre revisão aduaneira e revisão de ofício de lançamento tributário",10 pois são dois institutos em tudo diversos, com natureza e regime próprios, cada qual voltado a seu campo próprio de aplicação. Assim, irreprochável a conclusão do autor ao afirmar que "a revisão aduaneira, revê o despacho aduaneiro; a revisão de ofício revê o lançamento", 11o que demonstra com clareza a inexistência de regras sobrepostas, pois duas são as "revisões". O estranhamento quanto à afirmação provém da própria dificuldade ou contradição inerente ao chamado "lançamento por homologação", pois a ideia de que o contribuinte "(...) apure, ele mesmo, o montante devido (...) sem qualquer participação do Estado"12 não é consentânea com a determinação do art. 142: a concepção da existência da figura do "autolançamento" não convive em harmonia e equilíbrio com a expressão "compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento" (art. 142 CTN). 26. A dificuldade é redobrada para o aplicador que entender pela existência de recolhimento de tributo sem lançamento, pois, neste caso, desatendido restará o art. 3º do Código Tributário Nacional ao estabelecer que o tributo é "(...) cobrado mediante atividade administrativa plenamente vinculada", o que conduziria à conclusão de se estar a antecipar algo que tributo não é. A dificuldade de harmonização dos dispositivos conduziu o legislador a adotar "(...) uma solução criativa, buscando conciliar a necessidade de ocorrência de um lançamento, de um lado, e, por outro, as contingências práticas da economia de massa"13 (grifos nossos). Repitase: o reconhecimento da impossibilidade "(...) de uma atuação da Administração para cada lançamento individualmente considerado" ensejou a criação da figura do "lançamento por homologação". O tributo, para ser cobrado, precisa ser lançado, sob pena de não ser tributo: Código Tributário Nacional Art. 150. O lançamento por homologação, que ocorre quanto aos tributos cuja legislação atribua ao sujeito passivo o dever de antecipar o pagamento sem prévio exame da autoridade administrativa, operase pelo ato em que a referida autoridade, tomando conhecimento da atividade assim exercida pelo obrigado, expressamente a homologa. 10 Ibidem. 11 Ibidem. 12 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 7ª edição, 2017, p. 654. 13 Idem, p. 655. Fl. 978DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 972 15 27. Assim, a afirmação do Conselheiro Rosaldo Trevisan no Acórdão CARF nº 3401003.117, de minha relatoria, proferido em sessão de 16/03/2016, de que a imensa maioria dos produtos importados é parametrizada atualmente pelo canal verde, no qual "(...) não foi verificada nem a mercadoria importada nem os documentos que ampararam a importação" está correta, e os Balanços Aduaneiros divulgados pela Receita Federal do Brasil demonstram com clareza que, ao menos desde 2014, é possível se afirmar que cerca de 90% das declarações de importação não sofreram qualquer exame prévio da autoridade aduaneira. Há substancial distância, contudo, entre esta constatação e a conclusão de que, nestes casos, não haveria lançamento, ou que haveria recolhimento de tributo independentemente de lançamento. Assim, afirmar que "(...) não houve necessariamente lançamento" naqueles casos em que a autoridade administrava realizou o desembaraço sem prévio exame da mercadoria ou dos fatos constitutivos da obrigação tributária, é, concessa venia, absolutamente equivocada, pois lançamento houve, sob pena da inexistência de tributo a ser cobrado, e esta é a dicção expressa do art. 150 do Código Tributário Nacional, com força de lei complementar: lançamento por homologação, que ocorre quando há obrigação de se antecipar pagamento "sem prévio exame da autoridade administrativa". Não vislumbramos, contudo, na mesma linha do voto em referência, homologação, que são dois momentos lógicojurídicos diversos. 28. Encontrase, ademais, argumentação bastante semelhante no sentido da modernização da alfândega brasileira no substancioso voto do Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira no Acórdão CARF nº 3401003.119, de minha relatoria, proferido em sessão de 16/03/2016: "Cada hora a mais dedicada pela autoridade fiscal para analisar um aspecto de determinada importação implicará, inevitavelmente, em um tempo maior de espera para essa importação, e também para todas as outras que estão na fila aguardando a atenção desta autoridade fiscal. Isso, sem falarmos nas mercadorias perecíveis, que demandam prioridades particulares e acabam por passar à frente das outras, Ocorre que a duração de tempo de cada despacho aduaneiro significa em maior ou menor custo para o importador (preço do tempo de armazenamento). Ocorre que a duração maior de tempo no despacho de um importador, significará custo maior para este importador Fl. 979DF CARF MF 16 e também custo maior para os outros que aguardam sua vez. Esta é uma realidade que o sistema SISCOMEX vem lidando. A aduana moderna, cada vez mais, procura soluções para dar maior agilidade ao processamento nos portos e aeroportos e pontos de fronteira, e para dar condições para que se possa fazer uma fiscalização mais aprofundada e efetiva após a passagem das mercadorias pelos recintos alfandegados. É a articulação dos controles aduaneiros com a logística para se chegar à celeridade e à eficiência almejadas nesses tempos atuais. (...). Mas qual a lógica da revisão aduaneira? A norma que autoriza a revisão aduaneira, no prazo de cinco anos do registro da Declaração de Importação, possibilita à administração trabalhar a posteriori do fato econômico e logístico. Ela possibilita à administração verificar a regularidade do despacho, que havia sido liberado naquelas condições precárias para uma análise mais detalhada, quando se tinha muitas importações concorrentes e o impacto real sobre os custos pelo tempo de fiscalização" (seleção e grifos nossos). 29. Tais considerações que ecoam nos dois votos referenciados sobre a moderna aduana brasileira, que cada vez mais prima pela agilidade para a tarefa do desembaraço aduaneiro e pela consequente liberação dos produtos importados, é de extrema importância e deve ser levada em consideração pelo legislador. Não há dúvidas de que a Administração necessita envidar esforços para a rápida liberação dos produtos importados, o que demanda a criação de uma logística adequada. Contudo, tal argumento, de caráter extrajurídico, não nos parece ser suficiente, com todas as vênias, para afastar a vigência do Código Tributário Nacional, que disciplina tributos, inclusive aqueles que incidem sobre o comércio internacional. Não apenas os típicos tributos aduaneiros (imposto de importação e imposto de exportação), como também aqueles que se voltam a balancear ou nivelar os mercados interno e exterior. 30. A discordância com relação à conclusão dos votos acima citados tem implicação direta sobre possibilidade ou não da aplicação da Súmula nº 227 do Tribunal Federal de Recursos não em virtude da extinção da Corte ou pela senilidade da norma, mas Fl. 980DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 973 17 pela crença de inexistir lançamento.14 Tampouco prospera o argumento de que a redação da súmula, ao tornar defesa a modificação dos critérios jurídicos que deram origem ao lançamento, tratarse de redação anacrônica, feita para um tempo em que a autoridade fiscal poderia vistoriar in loco a maioria das cargas importadas, e que a sua aplicação nos dias de hoje entravaria portos e aeroportos. A crítica, de lege ferenda, ainda que importante, está em desconformidade com o art. 146 CTN e, não obstante prestigiar ideários de praticabilidade em detrimento da segurança jurídica, é desnecessária: como se demonstra no presente voto há instrumentos para se rever o lançamento realizado em desconformidade com a realidade fática, de maneira que não se prestigia a fraude ou a simulação, mas tampouco se permite a insegurança, a aplicação nãoestável das normas. 31. É bastante evidente que a prática revela a enorme dificuldade decorrente das escolhas realizadas pelo legislador, sobretudo ao se ter em conta que há tributos exigíveis independentemente de constituição formal, como "antecipação" que se sujeita a ulterior homologação do pagamento, bem como a previsão expressa insculpida no Capítulo III do anteprojeto de lavra de Rubens Gomes de Sousa de "tributos que não dependem de lançamento", ou seja, sem vincular qual seria o sujeito da relação jurídicotributária apto ou obrigado a efetuar o lançamento.15 Contudo, como se sabe, a redação original não prevaleceu e é possível se entender o recolhimento realizado pela contribuinte quando do despacho aduaneiro como lançamento sujeito a homologação, conforme, ademais, extraise dos trechos da ementa do Acórdão CARF nº 3403002.555, proferido em sessão de 23/01/2013, de relatoria do Conselheiro Rosaldo Trevisan: "O desembaraço aduaneiro não homologa, nem tem por objetivo central homologar integralmente o pagamento efetuado pelo sujeito passivo. Tal homologação ocorre apenas com a revisão aduaneira (homologação expressa), ou com o decurso de prazo (homologação tácita)" (seleção e grifos nossos). 14 Acórdão CARF nº 3401003.117, de minha relatoria, proferido em sessão de 16/03/2016. Extraise do voto do Conselheiro Rosaldo Trevisan: "A Súmula no 227, do TFR, tem teor irretocável: em nome da segurança jurídica, não há argumento que fragilize a afirmação de que “a mudança de critério jurídico não autoriza a revisão do lançamento”. O problema é aplicar tal súmula em casos nos quais não houve necessariamente lançamento nem homologação, como o presente". 15 Idem, p. 657. Cf. art. 175 do anteprojeto do Código Tributário Nacional. Fl. 981DF CARF MF 18 32. Como seria possível a homologação de lançamento se lançamento não houve? Afirmar, como se faz acima, que a revisão homologa de maneira expressa ou tácita o pagamento efetuado é pressupor algo a ser homologado. Assim, uma questão é se houve ou não lançamento e outra questão, em tudo diversa, é perscrutar se houve ou não fixação de um critério jurídico. De fato, no desembaraço, homologação não há e, neste exato sentido, o voto do Conselheiro Eloy Eros da Silva Nogueira no Acórdão CARF nº 3401003.119, de minha relatoria, proferido em sessão de 16/03/2016: "(...) as importações desembaraçadas sob o canal verde, sem qualquer conferência, não podem ser consideradas como homologação de lançamento (...) a aceitação pela autoridade do despacho aduaneiro das informações constantes da Declaração de Importação não significa (...) a homologação do lançamento" (seleção e grifos nossos). 33. De fato, o desembaraço aduaneiro não homologa o lançamento, muito pelo contrário: neste momento haverá apenas a antecipação do pagamento, sendo o crédito extinto "sob condição resolutória da ulterior homologação" (§1º do art. 150 do CTN). Este, ademais, é um dos aspectos do art. 54 do DecretoLei nº 37/1966: verificação, para fins de revisão, da "regularidade do pagamento dos impostos e demais gravames". Nada se homologa no momento do desembaraço, ainda que vistoriada a mercadoria e a documentação do importador. Observese que outro aspecto central do art. 54 em referência, a verificação da "exatidão das informações prestadas" tampouco interfere na plena eficácia do art. 146 CTN. Tanto é assim que o próprio Código Tributário Nacional, dentro da mesma Seção II (Modalidades de Lançamento) prevê expressamente, no parágrafo único do art. 149, a possibilidade da revisão fiscal do lançamento: Código Tributário Nacional Art. 149 (...). Parágrafo único. A revisão do lançamento só pode ser iniciada enquanto não extinto o direito da Fazenda Pública. 34. E não poderia ser diferente: uma vez contatado o erro ou a imprecisão quanto aos fatos constitutivos da obrigação tributária, a sua contraparte, ou seja, o crédito correspondente, deverá ser refeito, e esta a serventia da revisão fiscal, em tudo consentânea com o art. 54 do DecretoLei nº 37/1966. Inimaginável seria o Código Tributário Nacional Fl. 982DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 974 19 prever disposições mutuamente excludentes no parágrafo único do art. 149 e no caput do art. 146: devese compreender que cada qual opera em um âmbito diverso de aplicação. O lançamento pode e deve ser modificado se o crédito lançado não mais corresponde à obrigação correspondente, pois os fatos correspondem necessariamente aos eventos, para nos valermos desta didática separação. A homologação do pagamento é um momento posterior. Poderá ocorrer tacitamente, transposto o decurso dos anos, ou de maneira expressa. O que não pode se perder de vista é que um lançamento houve, independentemente de "prévio exame da autoridade administrativa". 35. Observese, ademais, que haverá casos em que a autoridade aduaneira atuará em conjunto com a contribuinte para realizar o lançamento com base nas declarações por ele prestadas, o que lhe confere uma natureza "mista" ou "por declaração". Nestes casos, em que o lançamento transparece de maneira ainda mais evidente, em que "(...) o sujeito passivo, ou um terceiro, apresenta uma série de informações à autoridade fiscal, e esta, com base nas informações assim coletadas, efetua o lançamento",16 opera a previsão do art. 147 do Código Tributário Nacional: Código Tributário Nacional Art. 147. O lançamento é efetuado com base na declaração do sujeito passivo ou de terceiro, quando um ou outro, na forma da legislação tributária, presta à autoridade administrativa informações sobre matéria de fato, indispensáveis à sua efetivação. 36. Uma vez esclarecida a existência do lançamento, seja por homologação, seja por declaração ("lançamento misto"), passase à questão já abordada anteriormente por este voto: equivocarse quanto à classificação da mercadoria constitui um "erro de fato" ou um "erro de direito"? Para se responder a tal pergunta, e talvez melhor colocála, basta que o aplicador compreenda o ato de classificar como uma decisão (sujeita ao direito), e jamais como uma postura técnica de saber alheio, contra a qual as normas jurídicas, em particular as tributárias, seriam inoponíveis. À importação de uma mercadoria aplicase uma determinada alíquota com fundamento em uma tal classificação jurídica, e o trabalho de classificar não pode ser reduzido a um ideal maquínico de subsunção mecânica movido a Fl. 983DF CARF MF 20 proposições lógicodedutivas como se construtos de matemática euclidiana fossem. Esta concepção descritivista do próprio direito, que enxerga o ato de interpretar como "(...) a prancha da máquina de impressão que ao descer confere colorido jurídico aos fatos"17 merece nossa reprovação. Isto porque aplicar não depende unicamente da depuração dos textos, como se tal atividade prescindisse de escolhas. Na verdade, há de se admitir a existência de atividades preparatórias à interpretação (que pressupõem escolhas), fatores que condicionam a interpretação (que pressupõem escolhas), elementos que influem na interpretação (que pressupõem teorias) e argumentos que participam da interpretação e da justificação,18 elementos estes que militam em desfavor de um formalismo exagerado: "A 'tese descritivista' (...) pressupõe um objeto 'diretamente' suscetível de conhecimento por parte do intérprete. Isso, no entanto, não ocorre, porque toda interpretação envolve a intermediação discursiva ou o condicionamento de métodos, argumentos ou teorias (...) a atividade descritiva também é intermediada por processos discursivos permeados por escolhas"19 (seleção e grifos nossos). 37. O ato de classificar é um ato de decidir e não pode ser relegado para fora das fronteiras do campo do direito, que restaria refém do saber alheio dos "classificadores", algo que poderia ser tido como uma espécie de casta de uma nova escola da Exegese.20 Para Rubens Gomes de Sousa, neste sentido, não caberia ao Fisco a prerrogativa de invocar o "erro de direito" com a finalidade de revisar lançamento anterior,21 aquilo que chamamos mais acima de "revisão tributária" (que revolve os critérios fundacionais do próprio lançamento), e muito menos adotar uma dada conceituação jurídica para, em um segundo momento, revêla, de forma a albergar outra, mais onerosa ao contribuinte. Esta era a posição 16 Idem, pp. 653654: "Atualmente, são raras as hipóteses dessa espécie de lançamento. Podese citar, como exemplo, o que se dá para os tributos aduaneiros, já que estes são lançados a partir de informações que o próprio contribuinte presta por meio da Declaração de Importação". 17 BECKER, Alfredo Augusto. Teoria Geral do Direito Tributário. São Paulo: Editora Lejus, 2003, p. 319. 18 ÁVILA, Humberto. "Função da ciência do direito tributário: do formalismo epistemológico ao estruturalismo argumentativo". In: OLIVEIRA, Ricardo Mariz de, SCHOUERI, Luís Eduardo, e ZILVETI, Fernando Aurelio. Revista de Direito Tributário Atual. São Paulo: Editora Dialética, publicação do Instituto Brasileiro de Direito Tributário (IBDT), 2013, pp. 197198. 19 Idem, pp. 197200. 20 ANDRADE, José Maria Arruda de. Interpretação da norma tributária. , pp. 3536: "A Escola da Exegese teve sua origem no pensamento jurídico francês no começo do século XIX (...). A supremacia do texto escrito (...) confirma a desconfiança daquela escola para com os juízes", de onde provém a famosa expressão de Montesquieu do "juiz boca da lei". "Outro elemento importante dessa escola é a crença na racionalidade jurídica do corpo legislativo que, em sua completude, autorizaria a vedação de nãodecisão por parte do intérprete". 21 SOUSA, Rubens Gomes. Compêndio de legislação tributária. São Paulo: Editora Resenha Tributária, 3ª edição, 1975, p. 108. Fl. 984DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 975 21 jurisprudencial, aliás, que registrava ser pacífica já em sua época: o critério jurídico na apreciação do fato gerador, para o autor do anteprojeto do Código Tributário Nacional, deverá ser estável.22 38. Para que reste bastante claro, nada obsta a alteração de critério jurídico que implica potencial alteração de classificação fiscal de um determinado produto, pois os entendimentos e as normas se alteram conforme o tempo e conforme a própria composição das instituições. Tal alteração, no entanto, valerá para as relações e obrigações vindouras, a serem constituídas, mas jamais para aquelas formadas em momento anterior, quando outro era o critério adotado. O aplicador pode alterar a norma, mas não retroagir seus efeitos de modo a afetar fatos geradores ocorridos antes do início da vigência do novel entendimento. 39. Entre os mais percucientes estudos sobre o tema da revisão tributária deve ser trazido, sem qualquer espaço para dúvidas, aquele realizado por Ruy Barbosa Nogueira na sua clássica tese de cátedra "Teoria do lançamento tributário". Na época em que a escreveu, o CTN ainda era um projeto, mas já então, confirmando o apontamento realizado por Rubens Gomes de Sousa, relatava que "(...) a prática, a doutrina e a legislação, na proteção da certeza jurídica não admitem, em princípio, que seja feita revisão do lançamento pela superveniência de outros critérios jurídicos".23 Aduziu, ainda, que o Supremo Tribunal Federal já havia enfrentado a questão no Recurso Extraordinário nº 37.141, cujo acórdão foi prolatado em 26/08/1958, no qual se decidiu que "(...) não é lícito ao fisco rever o lançamento fiscal com base em mudança de critério, mas só com fundamento em êrro de fato".24 40. Já escrevemos a respeito do tema em artigo acadêmico25 que se voltou a analisar os limites da reconstrução do lançamento tributário, conforme trecho que abaixo se transcreve: 22 Ibidem. 23 NOGUEIRA, Ruy Barbosa. Teoria do lançamento tributário.São Paulo: Editora Resenha Tributária, 1973, p. 133. O Capítulo VIII, "A revisão do lançamento", está compreendido entre as páginas 99138. 24 Ibidem. 25 BRANCO, Leonardo Ogassawara de Araújo. "Construção e reconstrução do lançamento tributário: da tirania do texto à tirania do espírito". In: JARDIM, Eduardo Marcial Ferreira (coord.) e BORGES, Letícia Menegassi (org.). Reflexões sobre temas tributários. São Paulo: Editora Intelecto, 2017, pp. 87112. Artigo desenvolvido no contexto do Grupo de Pesquisa Direito Mackenzie, vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Fl. 985DF CARF MF 22 "Noticia Ruy Barbosa Nogueira que também no Código Tributário da Alemanha, de 1919, elaborado por Enno Becker, o lançamento retificativo ou a chamada "verificação retificativa" não pode ser pautada por uma alteração de critérios meramente jurídicos, o que impede que se aplique "(...) retroativamente à realização do fato gerador um critério jurídico diferente do então adotado, e assim prevê para garantir a certeza do direito".26 O preceito, em seu entendimento, teria "(...) grande aplicação, protegendo a estabilidade jurídica".27 Na esteira do ensinamento de Tullio Ascarelli, preleciona ser absolutamente inadmissível que o fisco possa venire contra factum proprium de maneira a anular ex officio um lançamento, substituindo o por outro, "(...) ou ainda proceder a lançamento suplementar, baseandose na alegação de ter passado a adotar critérios jurídicos diferentes dos que aceitara por ocasião de um primeiro lançamento".28Ainda sob a lição de Ascarelli, haveria "(...) uma falta de certeza jurídica se o fisco pudesse (...) voltar a lançar (...) em virtude de uma mudança de critérios jurídicos, não obstante todos os prazos e tôda a organização instituída para a revisão das declarações dos contribuintes".29 Assim, para Ruy Barbosa Nogueira, enquanto o fisco é detentor da direção do procedimento do lançamento, caberia a ele a fixação final dos seus elementos. Apenas caberia uma revisão quanto aos erros de fato, pois se admite que "(...) as relações fáticas da vida, das quais partem os fatos geradores tributários legais são (...) numerosas e multiformes".30 A postura de fato é consentânea com a concepção materializada na expressão nemo potest venire contra factum proprium, ou nulli concedictur venire contra factum proprium, ora entendida como corolário da segurança jurídica, da proteção da confiança e da previsibilidade, entendido pelo Supremo Tribunal Federal como vera vedação a comportamentos contraditórios.31Tal vetor proibitivo de comportamento dissonante opera naqueles casos em que a contribuinte "(...) tem a sua confiança, gerada por um ato estatal anterior, 26 Idem, p. 134. 27 Idem, p. 135. 28 Idem, p. 136. 29 Ibidem. 30 Idem, p. 137. 31 Supremo Tribunal Federal REsp 1143216/RS, 1ª Seção, relator Ministro Luiz Fux, acórdão publicado em 09/04/2010. Fl. 986DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 976 23 frustrada por uma nova manifestação estatal posterior contraditória",32 com algum parentesco com duas velhas conhecidas do direito privado, a surrectio e a supressio, que igualmente tutelam a confiança no decurso do tempo. As preocupações em torno da bona fide são frequentes no direito e na reflexão sobre o seu abuso, e se manifestam em expressões antigas como tu quoque ou exceptio doli, sobretudo nas relações entre os particulares, consistindo em vetores interpretativos importantes para iluminar as relações jurídicas pautadas antes pelo primado do direito do que por disposições de império. Neste sentido, como preleciona Luís Flávio Neto, "(...) quando o Fisco emite um ato administrativo, tornando transparente a sua interpretação quanto à mais correta aplicação do Direito a uma determinada situação, instalase um farol em meio à tempestade de incertezas (...)”. Em situações como estas, que envolvem, por exemplo, decisões anteriores, “(...) a boafé objetiva, a proteção da confiança e a segurança jurídica poderiam socorrer o contribuinte, com uma aplicação mais ampla da norma geral de não autuação de condutas condizentes com interpretações oficiais do Fisco”,33 fazendo eco ao posicionamento de outros autores que se debruçaram sobre a aplicabilidade da doutrina dos atos próprios34" (seleção e grifos nossos). 41. Não é diverso tal posicionamento da quase sexagenária decisão do Supremo Tribunal Federal de 1958 a jurisprudência contemporânea ao momento da leitura pública deste voto: em igual sentido, o Acórdão nº 3302002.444 proferido pela 2ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção deste Conselho, em sessão de 25/02/2014: "ASSUNTO: CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Período de apuração: 31/05/2005 a 31/12/2007 32 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica – entre permanência, mudança e realização no direito tributário. São Paulo: Editora Malheiros, 2011, p. 401. 33 FLÁVIO NETO, Luís. "Segurança jurídica, proteção da confiança, boafé e proibição de comportamentos contraditórios no direito tributário: 'nemo potest venire contra factum proprium'". São Paulo: IBDT/Edições Loyola, Revista de Direito Tributário Atual nº 36, 2º semestre de 2016, pp. 222239. 34 RUBINSTEIN, Flávio. Boafé objetiva no direito financeiro e no direito tributário brasileiros. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, sob orientação do Professor Titular Régis Fernandes de Oliveira, 2008, pp. 4142. Fl. 987DF CARF MF 24 RECLASSIFICAÇÃO DE PRODUTO INAPLICABILIDADE DO ARTIGO 149 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL. REVISÃO DE ERRO DE DIREITO. Apenas é permitida a revisão do lançamento tributário quando houver erro de fato, entendendose este como aquele relacionado ao conhecimento da existência de determinada situação. Não se admite a revisão quando configurado erro de direito consistente naquele que decorre do conhecimento e da aplicação incorreta da norma. Seguese a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça STJ, no sentido de que o contribuinte não pode ser surpreendido, após o desembaraço aduaneiro, com uma nova classificação, proveniente de correção de erro de direito" (grifos nossos). 42. Do acórdão ora referido se extrai o seguinte trecho: "(...) a fiscalização entendeu que os produtos importados pela Recorrente não poderiam seguir com a classificação fiscal indicada pela contribuinte no momento do desembaraço. Não há, pelo que consta dos autos, divergência quanto à natureza do produto, que permanece sendo o mesmo, mas à forma como foi classificado. Tal diferença é primordial para se compreender que não houve “erro de fato”, o que ocorreria se a fiscalização tivesse indicado que a importação de produto diverso daquele declarado pela Recorrente" (grifos nossos). 43. Esta também era a posição sumulada do extinto Tribunal Federal de Recursos (TFR) editada em 1986, já referida em momento anterior do presente voto: Tribunal Federal de Recursos (TFR) Súmula nº 227 de 24/11/1986 "A mudança de critério jurídico adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento". 44. O posicionamento sustentado pelo Tribunal Federal de Recursos, outrora já sumulado, foi reeditado e reiterado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), como, Fl. 988DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 977 25 por exemplo, no Recurso Especial nº 202.958/RJ, relatado pelo Ministro Franciulli Netto e cujo acórdão foi publicado em 22/03/2004: “RECURSO ESPECIAL ALÍNEAS "A" E "C" TRIBUTÁRIO "IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO RECLASSIFICAÇÃO TARIFÁRIA REVISÃO DO LANÇAMENTO IMPOSSIBILIDADE AUSÊNCIA DE ERRO QUANTO À IDENTIFICAÇÃO FÍSICA DA MERCADORIA ART. 149 DO CTN. A impetrante importou da França 2.200 Kg do produto TESAL e recolheu o imposto de importação após regular conferência da mercadoria pela autoridade fiscal. Diante dessas circunstâncias, é de elementar inferência que não poderia o contribuinte, em momento posterior, ser notificado para novo recolhimento do imposto de importação, sob a alegação de que a classificação do produto deveria ser diversa, com incidência de alíquota maior. O art. 149 do CTN autoriza a revisão do lançamento, dentre outras hipóteses, "quando se comprove falsidade, erro ou omissão quanto a qualquer elemento definido na legislação tributária como sendo de declaração obrigatória", ou seja, quando há erro de direito. Se a autoridade fiscal teve acesso à mercadoria importada, examinando sua qualidade, quantidade, arca, modelo e outros atributos, ratificando os termos da declaração de importação preenchida pelo contribuinte, não lhe cabe ulterior impugnação do imposto pago por eventual equívoco na classificação do bem. Divergência jurisprudencial não configurada ante a ausência de similitude fática entre os acórdãos confrontados. Recurso especial improvido” (STJ REsp nº 202.958/RJ, Min. Franciulli Netto, publicado em 22/03/2004) (grifos e destaques nossos). 45. No Recurso Especial nº 478.389/PR, de Relatoria do Ministro Humberto Martins, cujo acórdão foi publicado em 05/10/2007, constou em ementa que "(...) se a autoridade fiscal teve acesso à mercadoria importada, examinando sua qualidade, quantidade, marca, modelo e outros atributos, ratificando os termos da declaração de importação preenchida pelo contribuinte, não lhe cabe ulterior impugnação ou revisão". Este Fl. 989DF CARF MF 26 é justamente o caso ora em análise em que, conforme se expôs, contou com mercadorias parametrizadas pelo canal vermelho. 46. Em idêntico sentido o entendimento do Ministro Luiz Fux no Recurso Especial nº 1.112.702/SP, cujo acórdão foi publicado em 06/11/2009 nos seguintes termos: "(...) a revisão de lançamento do imposto, diante de erro de classificação operada pelo Fisco aceitando as declarações do importador, quando do desembaraço aduaneiro, constituise em mudança de critério jurídico vedada pelo CTN". Assim, "(...) o lançamento suplementar resta, portanto, incabível quando motivado por erro de direito". 47. A posição é também reiterada pela jurisprudência ainda mais recente do Superior Tribunal de Justiça, conforme se tem notícia a partir do acórdão a seguir transcrito, do Recurso Especial nº 1.347.324/RS, de relatoria da Ministra Eliana Calmon, de 14/08/2013: “TRIBUTÁRIO IMPORTAÇÃO DESEMBARAÇO ADUANEIRO RECLASSIFICAÇÃO DA MERCADORIA REVISÃO DE LANÇAMENTO POR ERRO DE DIREITO IMPOSSIBILIDADE SÚMULA 227 DO EXTINTO TFR. 1. É permitida a revisão do lançamento tributário, quando houver erro de fato, entendendose este como aquele relacionado ao conhecimento da existência de determinada situação. Não se admite a revisão quando configurado erro de direito consistente naquele que decorre do conhecimento e da aplicação incorreta da norma. 2. A jurisprudência do STJ, acompanhando o entendimento do extinto TRF consolidado na Súmula 227, tem entendido que o contribuinte não pode ser surpreendido, após o desembaraço aduaneiro, com uma nova classificação, proveniente de correção de erro de direito. 3. Hipótese em que o contribuinte atribuiu às mercadorias classificação fiscal amparada em laudo técnico oficial confeccionado a pedido da auditoria fiscal, por profissional técnico credenciado junto à autoridade alfandegária e aceita por ocasião do desembaraço aduaneiro. 4. Agravo regimental não provido” (STJ AgRg no REsp nº 1.347.324/RS – Agravo Regimental no Recurso Especial – Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, publicado em 14/08/13) (grifos e destaques nossos). Fl. 990DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 978 27 48. Observese que, em nome da segurança e da previsibilidade das relações jurídicas, o Superior Tribunal de Justiça chegou a adotar a postura extremada de afirmar que sequer o erro de classificação por parte do contribuinte permitiria a alteração do critério jurídico da classificação fiscal: “TRIBUTÁRIO – IMPORTAÇÃO – IPI – DESEMBARAÇO DUANEIRO ERRO A INTERPRETAÇÃO JURÍDICA DOS ATOS RECLASSIFICAÇÃO A MERCADORIA IMPOSSIBILIDADE. 1. O contribuinte não pode ser surpreendido, após o desembaraço aduaneiro, com uma nova classificação, proveniente de correção de erro de direito. 2. O erro de direito cometido pelo contribuinte, mas não detectado pelo Fisco, é o mesmo que alteração de critério jurídico, vedado pelo CTN. Precedentes. 3. Recurso especial provido” (STJ REsp nº 1079.383/SP – Min. Eliana Calmon, Segunda Turma, publicado em 01/07/09) (grifos e destaques nossos). 49. Há de se apontar para o fato de que, independentemente de quem incorreu em erro, seja Estado ou particular, o que se prestigia, na dicção da Corte Superior, é a estabilidade das relações e da aplicação do direito. A decisão que impede a modificação dos critérios jurídicos que regem o relacionamento entre o Estado e os particulares prestigia a segurança jurídica e, portanto, o próprio convívio social. Assim, o dispositivo torna defesa a aplicação de critério jurídico novo a fatos geradores anteriores à sua introdução, de maneira a atestar a sua irretroatividade: "(...) o dispositivo é severo com o Fisco",35 que "(...) deve primeiro divulgar o novo critério para depois poder aplicálos nos lançamentos futuros pertinentes a fatos geradores também futuros",36 ponto no qual diverge de Alberto Xavier, para quem a norma se destinaria aos fatos geradores já ocorridos, porém ainda não lançados:37 em 35 AMARO, Luciano. Direito tributário brasileiro. São Paulo: Editora Saraiva, 16ª edição, 2010, pp. 380381. 36 Ibidem. 37 Ibidem. Fl. 991DF CARF MF 28 um ou outro autor, o que se coloca em relevo como impossibilidade é a alteração dos fundamentos diante da permanência dos fatos. I. 1. b. Da aplicação das premissas firmadas ao caso concreto 50. Assim, o que se discute no caso concreto é a formação de um critério jurídico por parte das autoridades públicas, seja a autoridade autuante, seja a autoridade aduaneira que atuou em momento pregresso. 51. E o que resta, ao nos voltarmos ao caso concreto da recorrente? De um lado, resta a sedimentação jurisprudencial em torno do tema por mais de meio século, desde a decisão do Supremo Tribunal Federal de 1958 até as decisões mais recentes, sejam aquelas proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça, sejam aquelas proferidas por este Conselho, o que aponta para o amadurecimento institucional que cede lugar a regularidades comportamentais.38 De outro lado, resta um relacionamento que, a considerar apenas o período fiscalizado, remonta a um lapso temporal considerável, período no qual se realizou a importação reiterada da mesma mercadoria por um mesmo critério, sem qualquer óbice ou dificuldade, conhecidos todos os pressupostos fáticos da operação e em nenhum momento se alega a incompatibilidade entre a DI e os produtos importados. Assim, para onde quer que se olhe, o que há é estabilidade e uniformidade. 52. Há de se sustentar, portanto, que “(...) a segurança jurídica pode da mesma forma ter como objeto não a norma propriamente dita, mas a sua aplicação uniforme”.39 e, bem poderíamos adicionar, sem qualquer prejuízo, a sua aplicação estável. Assim, seja por uma questão de uniformidade da aplicação do entendimento jurisprudencial, neste caso tanto judicial como administrativo, seja por um imperativo de estabilidade que deve pautar as relações, de maneira a não ser admissível a alteração de critérios para fatos pretéritos, entendo pela completa inaplicabilidade do DecretoLei nº 37/1966 ao presente caso, albergado pelo manto da proteção do art. 146 do Código Tributário Nacional, pois referente a operação interna posterior à internalização da mercadoria em território nacional, devendo, portanto, este colegiado dar provimento ao recurso voluntário neste particular, exceto para o produto "plast band", que foi objeto da Solução de Consulta n° 54 SRRF 10/Diana, de 2006, formulada pela 38 ANDRADE, José Maria Arruda de. Interpretação da norma tributária. São Paulo: MP Editora/APET, 2006, p. 137. 39 ÁVILA, Humberto. Segurança jurídica – entre permanência, mudança e realização no direito tributário. São Paulo: Editora Malheiros, 2011, p. 142. Fl. 992DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 979 29 própria recorrente, em que restou definido código NCM diverso daquele defendido pela recorrente, restando, assim, prejudicada a análise do mérito quanto à classificação fiscal dos demais produtos. I. 2. DA CLASSIFICAÇÃO DOS PRODUTOS 53. Uma vez vencido quanto à proposta explanada no item anterior, para se resolver a questão sob litígio, alcançandose a classificação correta, é necessário se recorrer a um quadro de referências normativas bastante específico, a começar pelas regras gerais de interpretação (RGI) estabelecidas no anexo da Convenção Internacional do Sistema Harmonizado de Designação e Codificação de Mercadorias firmada em 1983, à qual o Brasil veio a aderir três anos depois, e que dão base à Tarifa Externa Comum (TEC) e internalizadas ao direito brasileiro por meio do Decreto Legislativo nº 71/1988 e promulgada por meio do Decreto nº 97.409/1988. 54. Para tal análise, deverá o aplicador considerar, ainda, as notas explicativas do sistema harmonizado (NESH) que servem de orientação interpretativa até o nível das subposições, aprovadas pelo Decreto nº 435/1992, bem como as regras gerais complementares (RGC) da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) que, por seu turno, é fonte para a Nomenclatura Brasileira de Mercadorias (NBM) aplicáveis aos itens e subitens, e de acordo com texto atualizado pela Instrução Normativa RFB nº 807, de 11/01/2008, que incorporou as alterações efetuadas pela Organização Mundial das Alfândegas (OMA) decorrentes da Recomendação do Conselho de Cooperação Aduaneira de 26/06/2004, em vigor a partir de 01º/01/2007 ("Quarta Emenda ao Sistema Harmonizado"), conforme se passa a fazer. Antes, no entanto, necessário se decidir a respeito das premissas fáticas adotadas, ponto sobre o qual se insurge a contribuinte de maneira preliminar, e cujo acatamento redundaria, necessariamente, na necessidade de se dilatar a produção probatória previamente ao conhecimento do mérito. 55. Segundo se depreende da leitura do relatório fiscal, o produto normalmente identificado nas notas fiscais de entrada como "chatão" se trata de imitação de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais. É utilizado para diversos fins, como confecção Fl. 993DF CARF MF 30 de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos. Nas, estes produtos foram normalmente identificados como "chatão". Contesta a recorrente a classificação fiscal adotada com o fato de que tal produto pode se apresentar com a composição química de vidro, acrílico ou plástico, e não apenas vidro 56. Segundo se depreende da leitura do relatório fiscal, o produto normalmente identificado nas notas fiscais de entrada como "corrente de latão" se trata de uma corrente de metal comum, contendo engastadas ao longo da corrente imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados. É utilizada em calçados, vestuários e seus acessórios, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos. Contesta a recorrente a classificação fiscal adotada com o fato de que o produto "corrente de latão" pode se apresentar com pedras de acrílico, sintética ou plástica, e não apenas com pedras de vidro, assim como, podem ser desacompanhadas de qualquer tipo de pedra. 57. Segundo se depreende da leitura do relatório fiscal, o produto normalmente identificado nas notas fiscais de entrada como "pedra acrílica" se trata de Imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de acrílico (plástico), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais. É utilizada para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos. Contesta a recorrente a classificação fiscal adotada com o fato de que o produto "pedra acrílica" pode apresentar, em sua composição, acrílico, sintética ou plástica, e não apenas acrílico. 58. Segundo se depreende da leitura do relatório fiscal, o produto normalmente identificado nas notas fiscais de entrada como "plast band" se trata de imitação de pedras preciosas ou semipreciosas, de plástico, montadas em suportes de plástico, próprias para aplique em calçados, bolsas femininas, chapéus e em vestuário. Contesta a recorrente a classificação fiscal adotada com o fato de que o produto "plast band" pode se apresentar em diversas composições químicas. 59. Argumenta a autoridade fiscal que o art. 339, inciso IV, e o art. 353, inciso II, ambos do RIPI/2002, ao disporem sobre as obrigações acessórias da contribuinte, impõem a obrigação de identificação da mercadoria na nota fiscal de saída do estabelecimento industrial ou equiparado a industrial. Como as notas fiscais emitidas pelo estabelecimento não possuem elementos que permitissem a perfeita identificação dos produtos, foram dadas "(...) várias oportunidades ao contribuinte para que apresentasse dados complementares, mas a Fl. 994DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 980 31 empresa não conseguiu sanar as deficiências de seus sistemas de controle". De fato, em 07/08/2012, foi lavrado o Termo de Constatação, situado às fls. 251 a 260, com a descrição dos produtos em apreço, tendo a impugnante permanecido inerte, sem apresentar informações complementares. Tampouco em sua impugnação ou no recurso voluntário que se sucederam há notícia nos autos de provas que dêem conta de elidir, ainda que minimamente, a descrição dos produtos, motivo pelo qual não resta outra alternativa ao aplicador senão analisálos de acordo com os documentos fiscais da própria contribuinte, inviabilizandose, assim, qualquer proposta de diligência para a finalidade de se constatar a procedência ou não de tais alegações. I. 2. a. Chatão 60. A autuada, ora recorrente, deu saída ao produto denominado chatão classificandoo no código 7104.20.90, com alíquota correspondente de 12%, enquanto que a fiscalização reputou, como correto, o código 7018.10.20, com alíquota de 20% da TIPI vigente à época dos fatos. De acordo com o relatório fiscal, o produto chatão se trata de uma imitação de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, não montado nem engastado em outros materiais. É utilizado para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos. 61. A autoridade fiscal lastreou o seu posicionamento no racional adotado pela Solução de Consulta n° 4 SRRF 10/Diana, de 2010, que analisou produto com as mesmas características do comercializado pela contribuinte ora recorrente, classificandoo no código NCM nº 7018.10.20. Como consabido, as soluções de consulta proferidas pelas Dianas apenas vinculam e amparam as empresas consulentes, não produzindo efeitos para os demais contribuintes. No entanto, a mercadoria objeto da consulta é idêntica ao produto denominado chatão: tratase de "pedras sintéticas", imitação de pedra cristal com banho de níquel ou de ouro na parte de trás a fim de gerar maior brilho da pedra, cujas facetas imitam uma pedra preciosa ou semipreciosa. Pode ser fabricada tanto na cor cristal (incolor) quanto com cores de pedras preciosas ou semipreciosas naturais. Apresentamse soltas, ou seja, não montadas nem engastadas em outros materiais. São utilizadas na confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos, em conformidade com a figura abaixo: Fl. 995DF CARF MF 32 62. Transcrevese, da Solução de Consulta em análise, o seguinte trecho, em tudo pertinente à classificação do presente produto: As pedras objeto desta consulta não possuem a mesma composição química nem a mesma estrutura cristalina das pedras naturais imitadas, nem sequer são utilizadas em joalharia ou ourivesaria. Também não são pedras reconstituídas. Assim sendo, incabível classificar as pedras em questão, de cristal, na pretendida posição 71.04.6. Já a posição 70.18 compreende, entre outros produtos, as imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de vidro. As NESH, agora referentes aos produtos da posição 70.18, dizem que essa posição engloba um conjunto de artefatos de vidro de aparência muito diversa, mas cuja característica essencial é a de servirem, na quase totalidade dos casos, diretamente ou depois de transformados, para decoração ou ornamentação. Também explicam as características dessas imitações, transcritas a seguir: As imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, que não devem ser confundidas com as pedras sintéticas ou reconstituídas da posição 71.04 (ver a este respeito a Nota Explicativa correspondente) e que são constituídas por um vidro especial (por exemplo, o strass), muito denso e refringente, incolor ou diretamente corado por meio de óxidos metálicos. As pedras desta natureza são geralmente obtidas por corte nos blocos de vidro de fragmentos Fl. 996DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 981 33 do tamanho dos objetos que se desejam; estes fragmentos colocamse em seguida sobre uma chapa de folha de ferro recoberta de tripoli, que se introduz em um forno. Pela ação do calor, as arestas dos fragmentos arredondamse. Por fim, se for o caso, procedese à lapidação (em brilhante, em rosa, etc.) ou à gravura (imitação de camafeus ou de entalhes). Também se podem obter estas pedras por moldação direta (no caso, por exemplo, de pedras de certo formato para berloques). Muitas vezes, revestese a face interior de uma camada de tinta metálica refletora (acabamento para imitar pedras preciosas).Verificase que as características das pedras objeto desta consulta combinam perfeitamente com a descrição constante dessas NESH da posição 70.18: são de strass (vidro especial), destinamse a decoração e ornamentação, são incolores ou coradas diretamente na massa, e são revestidas na face inferior com camada metálica refletora. Portanto, as pedras em análise classificamse nessa posição 70.18. No âmbito dessa posição 70.18, as imitações de pedras preciosas ou semipreciosas enquadramse na subposição 7018.10 (aplicação da RGI 6), e mais precisamente no item 7018.10.20 (aplicação da Regra Geral Complementar RGC 1)" (seleção e grifos nossos). 63. Assim, ao se tomar como ponto de partida a Regra Geral para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) nº 1 (texto da posição 70.18) e nº 6 (texto da subposição7018.10), e Regra Geral Complementar (RGC) nº 1 (texto do item 7018.10.20), e com base nos esclarecimentos das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, é possível se afirmar que o produto "chatão" se classifica no código 7018.10.20 da TEC aprovada pela Resolução Camex nº 43, de 22/12/2006 (publicada em 26/12/2006) e, logo, da TIPI, não merecendo o recurso voluntário ser provido neste particular. I. 2. b. Corrente de latão 64. A contribuinte ora recorrente deu saída ao produto denominado "corrente de latão", classificandoo no código 7117.19.00, a uma alíquota correspondente de Fl. 997DF CARF MF 34 12%, enquanto a fiscalização reputou como correto o código 7018.90.00, com alíquota de 20% da TIPI vigente à época dos fatos. 65. O produto "corrente de latão" se encontra descrito no relatório fiscal como uma corrente de metal comum, contendo engastadas ao longo da corrente imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de strass (vidro especial), de formatos variados, utilizadas em calçados, vestuários e seus acessórios, assim como na fabricação de bijuterias e outros ornamentos: 66. Tal posicionamento adotado pela fiscalização decorre da Solução de Consulta n° 5 SRRF 10/Diana, de 2010, na qual se definiu que o código correto para produto com as mesmas características do comercializado pela contribuinte recorrente seria o nº 7018.90.00. Observese que as pedras utilizadas nas correntes em análise não possuem a mesma composição química nem a mesma estrutura cristalina das pedras naturais imitadas, nem sequer são utilizadas em joalharia ou ourivesaria, e não são pedras reconstituídas, o que afasta a sua classificação como pedras de strass, na pretendida posição 71.16: não se tratar de obra de pedra sintética nem de outra matéria descrita nessa posição em referência. 67. Por outro lado, em consonância com o texto da Solução de Consulta n° 5 SRRF 10/Diana, de 2010, a posição 70.18 compreende, entre outros produtos, as imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de vidro, e suas obras, exceto bijuterias. As NESH referentes aos produtos dessa posição englobam um conjunto de artefatos de vidro de aparência muito diversa, "(...) mas cuja característica essencial é a de servirem, na quase totalidade dos casos, diretamente ou depois de transformados, para decoração ou ornamentação". Assim, as imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, que não devem ser Fl. 998DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 982 35 confundidas com as pedras sintéticas ou reconstituídas da posição 71.04, em estrita consonância com a Nota Explicativa correspondente, são constituídas por um vidro especial (por exemplo, o strass), muito denso e refringente, incolor ou diretamente corado por meio de óxidos metálicos. Transcrevese, abaixo, o texto da solução de consulta, em tudo pertinente ao presente caso: "As pedras desta natureza são geralmente obtidas por corte nos blocos de vidro de fragmentos do tamanho dos objetos que se desejam; estes fragmentos colocamse em seguida sobre uma chapa de folha de ferro recoberta de tripoli, que se introduz em um forno. Pela ação do calor, as arestas dos fragmentos arredondamse. Por fim, se for o caso, procedese à lapidação (em brilhante, em rosa, etc.) ou à gravura (imitação de camafeus ou de entalhes). Também se podem obter estas pedras por moldação direta (no caso, por exemplo, de pedras de certo formato para berloques). Muitas vezes, revestese a face interior de uma camada de tinta metálica refletora (acabamento para imitar pedras preciosas).Verificase que as características das pedras objeto desta consulta combinam perfeitamente com a descrição constante dessas NESH da posição 70.18: são de strass (vidro especial), destinamse a decoração e ornamentação, são incolores ou coradas diretamente na massa, e são revestidas na face inferior com camada metálica refletora. Portanto, as pedras que compõe as correntes em tela, quando apresentadas isoladamente, classificamse nessa posição 70.18. Assim, as correntes objeto desta consulta, que são obras de strass (vidro especial) mas não são bijuterias, também se classificam na posição 70.18, visto que essa posição também compreende as obras de imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de vidro" (seleção e grifos nossos). 68. Assim, ao se tomar como ponto de partida a Regra Geral para Interpretação do Sistema Harmonizado, aplicandose ao caso a RGI nº 6, as obras de imitações de pedras preciosas ou semipreciosas enquadramse na subposição 7018.90, devendo o produto denominado "corrente de latão" ser classificado no código NCM nº 7018.90.00 da TEC Fl. 999DF CARF MF 36 aprovada pela Resolução Camex nº 43, de 22/12/2006 (publicada em 26/12/2006) e, logo, da TIPI, não merecendo o recurso voluntário ser provido neste particular. I. 2. c. Pedra acrílica 69. A contribuinte recorrente deu saída ao produto denominado pedra acrílica classificandoo no código 7104.20.90, alíquota 12%, enquanto a fiscalização reputou como correto o código 3926.90.90, com alíquota correspondente de 15% da TIPI vigente à época dos fatos. 70. O produto "pedra acrílica" foi descrito no relatório fiscal como imitação de pedras preciosas ou semipreciosas, de acrílico (plástico), de formatos variados, não montadas nem engastadas em outros materiais, utilizado para diversos fins, como confecção de fivelas e acessórios de metal em metalúrgicas e fabricação de bijuterias e outros ornamentos. O posicionamento adotado pela fiscalização se lastreou na Solução de Consulta n° 6 SRRF 10/Diana, de 2010, na qual definiu que o código correto para produto com as mesmas características do comercializado pela fiscalizada é o 3926.90.90: 71. A posição 71.04, pretendida pelo consulente, compreende as "pedras sintéticas ou reconstituídas, mesmo trabalhadas ou combinadas, mas não enfiadas, nem montadas, nem engastadas". Contudo, as Notas Explicativas do Sistema Harmonizado (NESH), aprovadas pelo Decreto nº 435, de 28/01/1992 e com seu texto atualizado pela Instrução Fl. 1000DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 983 37 Normativa RFB nº 807, de 11/01/2008 (publicado no suplemento de 07/02/2008), relativas às pedras sintéticas ou reconstituídas dessa posição 71.04, assim são definidas: (a) pedras sintéticas: aquelas com a mesma composição química e a mesma estrutura cristalina que as pedras preciosas ou semipreciosas extraídas da crosta terrestre, ou aquelas utilizadas em joalharia ou ourivesaria para substituir as pedras preciosas ou semipreciosas naturais; ou (ii) pedras reconstituídas, obtidas artificialmente por qualquer processo (quase sempre por aglomeração e prensagem ou fusão ao maçarico), a partir de resíduos de pedras preciosas ou semipreciosas naturais, previamente pulverizadas, com a mesma estrutura cristalina das pedras naturais imitadas. Recortase, da solução de consulta em apreço: "As pedras sintéticas e as pedras reconstituídas podem, em certos casos, distinguirse das pedras preciosas ou semipreciosas naturais por exame microscópico (de preferência, em meio diferente do ar), devido à presença, no seu interior, de bolhas gasosas redondas e, às vezes, de estrias curvas, que não se encontram nas pedras preciosas ou semipreciosas naturais" (seleção e grifos nossos). 72. A "pedra acrílica" em análise não é utilizada em joalharia ou ourivesaria, e tampouco se trata de pedra reconstituída, o que afasta a classificação na pretendida posição 71.04. A sua classificação, assim, deve ser "(...) dada, por conseguinte, pela sua matéria constitutiva": "As imitações de pedra, de acrílico (plástico), classificamse, portanto, na posição 39.26 como "Outras obras de plásticos", por inexistir posição específica para esse tipo de produto na Nomenclatura. No âmbito da posição 39.26, inexistindo subposição específica para as imitações de pedras, estas se classificam na subposição residual 3926.90 (aplicação da RGI 6); igualmente inexistindo item específico nessa subposição, o produto classificase no item residual 3926.90.90 (aplicação da Regra Geral Complementar RGC 1)" (seleção e grifos nossos). Fl. 1001DF CARF MF 38 73. Assim, com base nas Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) 1 (texto da posição 39.26) e 6 (texto da subposição 3926.90), e Regra Geral Complementar (RGC) 1 (texto do item 3926.90.90), e com os esclarecimentos das Notas Explicativas do Sistema Harmonizado, o produto "pedra acrílica" se classifica no código 3926.90.90 da TEC aprovada pela Resolução Camex nº 43, de 22/12/2006 (publicada em 26/12/2006) e, logo, da TIPI, não merecendo o recurso voluntário ser provido neste particular. I. 2. d. "Plast band" 74. A contribuinte recorrente deu saída ao produto denominado "plast band" classificandoo no código 7116.20.90, alíquota 12%, enquanto a fiscalização reputou como correto o código 3926.90.90, com alíquota correspondente de 15% da TIPI vigente à época dos fatos. 75. O produto foi descrito pelo relatório fiscal como imitações de pedras preciosas ou semipreciosas, de plástico, montadas em suportes de plástico, próprias para aplique em calçados, bolsas femininas, chapéus e em vestuário. Nas notas fiscais de entrada, estes produtos foram normalmente identificados como "plast band", com denominação comercial de "cordão de fios paralelos com encaixes plásticos e pedras": 76. A autuação tomou por base o fundamento da Solução de Consulta n° 54 SRRF 10/Diana, de 2006, formulada pela própria recorrente, na qual foi definido que o código correto para o produto em questão é o nº 3926.90.90, conforme reproduzida abaixo: Fl. 1002DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 984 39 "A função desses cordões é suportar as imitações e facilitar o manuseio e o transporte das mesmas. Inclusive, as imitações de diâmetro de 4mm são facilmente removíveis dos cordões, o que caracteriza, sem sombra de dúvida, a função de suporte desses cordões. Incabível, portanto, classificar o produto na posição 58.08, pretendida pelo consulente, como artigo ornamental análogo a passamanaria (...) as imitações de pedra classificam se, portanto, na posição 39.26 como "Outras obras de plástico", por inexistir posição específica para esse tipo de produto no Capítulo 39 (Plásticos e suas obras). No âmbito da posição 39.26, inexistindo subposição específica para as imitações de pedras, estas se classificam na subposição residual 3926.90; igualmente inexistindo item específico nessa subposição, o produto classificase no item residual 3926.90.90" (seleção e grifos nossos). 77. Assim, com base nas Regras Gerais para Interpretação do Sistema Harmonizado (RGI) 1 (texto da posição 39.26) e 6 (texto da subposição 3926.90), e Regra Geral Complementar RGC1 (texto do item 3926.90.90), o produto "plast band" se classifica no código 3926.90.90 da TEC aprovada pela Resolução Camex nº 42, de 26/12/2001 (publicada em 29/12/2001 e republicada em 09/01/2002) e, logo, da TIPI, não merecendo o recurso voluntário ser provido neste particular. I. 3. APLICAÇÃO DA ALÍQUOTA ZERO PARA "ACESSÓRIOS PARA CALÇADOS" 78. Verificase a existência de notas fiscais de saída com descrição dos produtos como “aces. para calçados” (acessórios para calçados), tendo a contribuinte registrado, nestes casos, classificação fiscal sob o código NCM nº 6406.10.00 (“partes superiores de calçados e seus componentes, exceto contrafortes e biqueiras rígidas”), cuja alíquota é 0%. 79. Entendeu a autoridade fiscal que os “acessórios para calçados”, integrantes da planilha apresentada pela contribuinte, em conformidade com o item 10 do relatório fiscal, em decorrência das operações de industrialização a que foram submetidos, Fl. 1003DF CARF MF 40 passaram a ter características específicas de objetos de adorno pessoal, classificandose, portanto, no código NCM nº 7117.19.00, cuja alíquota é de 12%. 80. Em conformidade com os fatos anteriormente descritos no presente voto, as notas fiscais emitidas pela contribuinte não possuem elementos que permitem a perfeita identificação de determinados produtos, de forma que, em 07/08/2012, foi lavrado o Termo de Constatação, situado às fls. 251 a 260, quedandose, diante dele, inerte a recorrente, de sorte que, como registrado pela decisão recorrida, "(...) não se comprovam os equívocos alegados pela impugnante [ora recorrente], pois as notas fiscais de saída possuem denominações genéricas, tais como, 'acessórios para calçados' ou 'corrente de latão', inexiste reparo a ser feito no lançamento". Tampouco envida esforços a recorrente para elidir, ainda que minimamente, os argumentos sustentados pela autoridade fiscal em seu relatório. 81. Assim, tampouco devem prosperar as razões da contribuinte quanto à aplicação da alíquota zero para os genericamente denominados "acessórios para calçados", devendo ser negado provimento ao recurso voluntário neste particular. II. DO DIREITO AO APROVEITAMENTO DO BENEFÍCIO FISCAL DA SUSPENSÃO DO IPI AO EQUIPARADO A INDUSTRIAL 82. Discutese o lançamento de IPI na saída de materiais de embalagem fabricados e vendidos pela recorrente com suspensão do imposto com o fundamento de que a remetente se trata de estabelecimento equiparado a industrial, em que pese a disposição do art. 29 da Lei nº 10.637/2002 consignar que o benefício da suspensão se aplica unicamente às saídas de estabelecimento industrial destinadas aos estabelecimentos que se dediquem, preponderantemente, à elaboração dos produtos referidos pelo dispositivo: Lei nº 10.637/2002 Art. 29. As matériasprimas, os produtos intermediários e os materiais de embalagem, destinados a estabelecimento que se dedique, preponderantemente, à elaboração de produtos classificados nos Capítulos 2, 3, 4, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 23 (exceto códigos 2309.10.00 e 2309.90.30 e Ex01 no código 2309.90.90), 28, 29, 30, 31 e 64, no código 2209.00.00 e 2501.00.00, e nas posições 21.01 a 21.05.00, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados TIPI, inclusive aqueles a que corresponde a notação NT Fl. 1004DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 985 41 (não tributados), sairão do estabelecimento industrial com suspensão do referido imposto. § 1o O disposto neste artigo aplicase, também, às saídas de matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem, quando adquiridos por: I estabelecimentos industriais fabricantes, preponderantemente, de: a) componentes, chassis, carroçarias, partes e peças dos produtos a que se refere o art. 1o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002; b) partes e peças destinadas a estabelecimento industrial fabricante de produto classificado no Capítulo 88 da Tipi; c) bens de que trata o § 1oC do art. 4o da Lei no 8.248, de 23 de outubro de 1991, que gozem do benefício referido no caput do mencionado artigo; (Incluído pela Lei nº 11.908, de 2009). II pessoas jurídicas preponderantemente exportadoras. § 2o O disposto no caput e no inciso I do § 1o aplicase ao estabelecimento industrial cuja receita bruta decorrente dos produtos ali referidos, no ano calendário imediatamente anterior ao da aquisição, houver sido superior a 60% (sessenta por cento) de sua receita bruta total no mesmo período (seleção e grifos nossos). 83. Acrescese à argumentação de decisão de primeiro piso ser esta aposição da Receita Federal do Brasil externada pela Solução de Consulta COSIT nº 68, de 21/03/2014, no seguinte sentido: "Não fazem jus à suspensão do IPI de que trata o art. 46, inciso I, do RIPI/2010, as aquisições de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem realizadas por estabelecimento que não for caracterizado como estabelecimento industrial (contribuinte do IPI), pela legislação do imposto. A suspensão do imposto só é aplicável quando o Fl. 1005DF CARF MF 42 adquirente das matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem for um estabelecimento industrial (contribuinte do IPI) e dedicado preponderantemente à elaboração dos produtos relacionados no mencionado inciso I" (seleção e grifos nossos). 84. Tal posição, ademais, acaba de ser reafirmada pela Solução de Consulta Disit/SRRF10 nº 1007, de 30/03/2017, com a seguinte ementa: "ASSUNTO: Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI EMENTA: AQUISIÇÃO DE MATÉRIAPRIMA PARA A FABRICAÇÃO DE PARTES OU PEÇAS DE VEÍCULOS. DIREITO À SUSPENSÃO DO IPI. Enquadramse na hipótese de suspensão do IPI de que trata o art. 29 da Lei nº 10.637, de 2002, as aquisições de matériasprimas ou de produtos intermediários (bobinas de aço fabricadas especificamente para a industrialização de partes, peças e componentes de veículos) feitas de estabelecimento industrial, quando tais matériasprimas ou produtos intermediários forem utilizados no processo produtivo do estabelecimento adquirente que fabrique, preponderantemente, componentes, chassis, carroçarias, partes e peças empregados na industrialização dos produtos autopropulsados classificados nas posições 84.29, 8432.40.00, 8432.80.00, 8433.20, 8433.30.00, 8433.40.00, 8433.5 e 87.01 a 87.06 da TIPI. SOLUÇÃO DE CONSULTA VINCULADA À SOLUÇÃO DE CONSULTA COSIT Nº 143, DE 17 DE FEVEREIRO DE 2017. DISPOSITIVOS LEGAIS: Lei nº 10.637, de 2002, art. 29, § 1º, I, “a”; Instrução Normativa RFB nº 948, de 2009; Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 12, de 2014; Parecer Normativo Cosit nº 19, de 2013" (seleção e grifos nossos). 85. Acrescentase, ainda, à argumentação da decisão a quo, a motivação do termo de verificação fiscal no sentido de que, na medida em que se considera a suspensão do IPI um benefício, atraise a aplicação do art. 111 do Código Tributário Nacional no sentido Fl. 1006DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 986 43 da literalidade da legislação aplicável à matéria. A questão, como se pode perceber, é de interpretação do texto legislativo, o que se passa a enfrentar com os devidos cuidados. 86. O recurso à interpretação literal propugnado pela autoridade fiscal milita em desapreço ao argumento que sustenta o auto de infração, pois o art. 29 se refere unicamente a "estabelecimento", havendo necessidade, portanto, de um grau mais refinado de raciocínio para se aplicar a norma, e tanto é assim que a própria decisão recorrida sentiu necessidade de se valer do § 2º do artigo para entender o estabelecimento como industrial, o que abandona ao desamparo a pretensão de se alcançar a precisão interpretativa por meio da literalidade. A bem da verdade, é possível se afirmar que existe uma condição (essa sim literal, expressa e incontroversa) para o gozo da suspensão: o vendedor do material de embalagem será, necessariamente, um "estabelecimento industrial". O mesmo não se pode afirmar quanto ao adquirente, que poderá ser um estabelecimento de qualquer espécie, desde que elabore (verbo "elaborar" de raiz latina laborare, assim como "colaborar", ou seja, "trabalhar com"), de maneira preponderante, com os itens descritos no caput. Assim, dois são os requisitos para o aproveitamento do benefício: (i) que o vendedor seja um estabelecimento industrial; e (ii) que o adquirente seja um estabelecimento que desenvolva, de maneira preponderante, determinados produtos da TIPI. 87. Observese, no mesmo sentido, que o uso de duas expressões, primeiramente "estabelecimento" (ao se referir sobre o adquirente), e depois "estabelecimento industrial" (para se referir ao vendedor) deve ser entendido como desígnio do legislador de expressar idéias diferentes, nos termos da determinação da alínea 'a' do inciso II do art. 11 da Lei Complementar nº 95/1998, que, em cumprimento e observância ao parágrafo único do art. 59 da Constituição de 1988, preceitua que o legislador deve expressar a idéia, quando repetida no texto, por meio das mesmas palavras e expressões no desígnio de se obter clareza nas disposições normativas. Assim, o uso de duas expressões deve necessariamente indicar dois significados, como forma de boa técnica legislativa, sobretudo a se ter em conta que a Lei nº 10.637/2002 é norma posterior à lei complementar em referência. 88. Diante dos argumentos expendidos, assim, fazse necessário se construir o sentido de "estabelecimento" utilizado para o adquirente e, neste sentido, ao se analisar o § 1º do art. 29,40 depreendese que o caput deve ser aplicado também às saídas de 40 § 1º O disposto neste artigo aplicase, também, às saídas de matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem, quando adquiridos por: Fl. 1007DF CARF MF 44 MP, PI e ME quando adquiridos por estabelecimentos industriais. Inexiste sentido em tal preceptivo senão estender a moldura de "estabelecimentos" (em geral) também para os estabelecimentos industriais que fabricam, preponderantemente, os itens discriminados nas alíneas 'a', 'b' e 'c'. Tal leitura, ademais, é consentânea com a alínea 'c' do inciso III do art. 11 da Lei Complementar nº 95/1998, que preceitua que, por meio por meio dos parágrafos, devem ser expressos: (i) os aspectos complementares à norma enunciada no caput do artigo; e (ii) as exceções à regra por ele estabelecida. Desta feita, o caso em análise se trata não de uma exceção, evidentemente, mas de uma complementação: "também" os estabelecimentos industriais devem estar contemplados pelo benefício. Assim, as técnicas de interpretação não podem passar ao largo das normas complementares a que as leis ordinárias, como a presente, devem obediência, sobretudo a se ter em vista que a literalidade não é suficiente para esclarecer o sentido de "estabelecimento" utilizado pelo caput ao se referir ao adquirente. 89. Entende a contribuinte, por outro lado, que, apesar de ter partido da premissa correta de aplicar à espécie o art. 29 da Lei nº 10.637/2002, a autoridade fiscal concluiu de maneira equivocada ao concluir que o estabelecimento equiparado a industrial não gozaria do mesmo benefício do industrial. 90. Para que melhor se compreenda a matéria sob análise, a legislação exigiu, para fins de aproveitamento do benefício, que o adquirente da mercadoria atenda a determinados requisitos, entre os quais desenvolver, de maneira preponderante, determinados produtos da TIPI, estabelecendo, como marco miliário para o entendimento de "preponderância" o percentual de, no mínimo, 60% da receita bruta no ano calendário anterior. Assim, evidentemente, tal dado deve ser informado pelo adquirente, pois não se cogitaria que obrigar o vendedor a declarar as receitas brutas de seus clientes. Estes, por seu turno, devem realizar a prestação da informação "sob as penas da lei", regra veiculada também pela Instrução Normativa RFB nº 948, de 16/06/2009: Instrução Normativa RFB nº 948/2009 Art. 21. Sairão do estabelecimento industrial com suspensão do IPI as matériasprimas, os produtos intermediários e os materiais de embalagem destinados a estabelecimento que se dedique, preponderantemente, à elaboração de I estabelecimentos industriais fabricantes, preponderantemente, de: a) componentes, chassis, carroçarias, partes e peças dos produtos a que se refere o art. 1o da Lei no 10.485, de 3 de julho de 2002; b) partes e peças destinadas a estabelecimento industrial fabricante de produto classificado no Capítulo 88 da Tipi; c) bens de que trata o § 1oC do art. 4o da Lei no 8.248, de 23 de outubro de 1991, que gozem do benefício referido no caput do mencionado artigo; (Incluído pela Lei nº 11.908, de 2009). Fl. 1008DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 987 45 produtos classificados nos Capítulos 2 a 4, 7 a 12, 15 a 20, 23 (exceto códigos 2309.10.00 e 2309.90.30 e Ex 01 do código 2309.90.90), 28 a 31 e 64, no código 2209.00.00 e 2501.00, e nas posições 21.01 a 2105.00 da TIPI, inclusive aqueles a que corresponde a notação NT (nãotributados). § 1º Para fins do disposto neste artigo, as empresas adquirentes deverão declarar ao vendedor, de forma expressa e sob as penas da lei, que atendem a todos os requisitos estabelecidos. 91. Uma vez apresentada, de forma expressa, a declaração do adquirente ao estabelecimento industrial vendedor, inexiste obrigação adicional, acessória ou instrumental, a ser exigida da contribuinte recorrente, que esgotou seu dever de diligência nos termos tanto da lei como da norma complementar. 92. Verifiquese, ademais, que, no caso de prestação de declaração falsa por parte do adquirente, além da sujeição genérica "às penas da lei" (inclusive criminais), o legislador previu sanção específica consistente na imputação de responsabilidade sobre obrigação tributária dela decorrente, em conformidade com o art. 9º da Lei nº 4.502/1964 refletido no inciso VI do art. 25 do RIPI: Responsáveis Art. 25. São obrigados ao pagamento do imposto como responsáveis: (...) VI os que desatenderem as normas e requisitos a que estiver condicionada a imunidade, a isenção ou a suspensão do imposto (Lei no 4.502, de 1964, art. 9o, § 1o, e Lei no 9.532, de 1997, art. 37, inciso II). 93. Não obstante, este o entendimento da Receita Federal do Brasil, em conformidade com a Solução de Consulta nº 97/2003, DISIT da 7ª Região Fiscal: Fl. 1009DF CARF MF 46 94. Assim, estabelecese com hialina clareza que o critério de discrímen para o aproveitamento do benefício é: (i) subjetivo quanto à origem, uma vez que se exige saída de estabelecimento industrial; e (ii) objetivo quanto ao destino, uma vez que se exige a saída de MP, PI e ME destinados a estabelecimento que se dedique, preponderantemente, à elaboração dos produtos listados no art. 29 da Lei nº 10.637/2002, sendo, portanto, indiferente o tipo do estabelecimento do destinatário da mercadoria, se pessoa física ou jurídica. 95. Tal constatação, ademais, advém do congraçamento do desejo do Poder Executivo expresso no item 20 da Exposição de Motivos da Medida Provisória nº 66/2002, com o desiderato do Congresso Nacional, ao converter tal dispositivo no art. 29 da Lei nº 10.637/2002, o que convolaria uma decisão em contrário deste Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, parte integrante que é do Ministério da Fazenda, em vero comportamento contraditório da Administração, em ofensa à funçãobloqueio da vedação ao comportamento contraditório, sobre o qual já escrevemos em outras oportunidades, como no Acórdão CARF nº 3401003.290, proferido em 17/02/2017, de minha relatoria,41 que expressa o respeito à confiança legítima da contribuinte, cujo comportamento se pautou pela política fiscal proposta conjuntamente pelos Poderes Executivo e Legislativo. 96. Transcrevese, a seguir, o trecho pertinente da exposição de motivos a fim de que não reste qualquer dúvida a respeito do conteúdo eficacial que se pretendeu conferir 41 Acórdão CARF nº 3401003.290, proferido em 17/02/2017, de minha relatoria. Ementa: "IMPORTAÇÃO. PENA DE PERDIMENTO. CONVERSÃO EM MULTA. EMBARCAÇÃO NÃO PROCEDENTE DO EXTERIOR OU A ELE DESTINADO. ATIPICIDADE DA CONDUTA. CARÊNCIA PROBATÓRIA. DESPACHO DECISÓRIO PRÉVIO. DEVER DE COERÊNCIA ("NEMO POTEST VENIRE CONTRA FACTUM PROPRIUM"). PROTEÇÃO DA CONFIANÇA. Diante da ausência de elementos caracterizadores da infração, a Administração entendeu no caso concreto pela atipicidade da conduta em virtude da ausência de provas indicativas de que as embarcações seriam procedentes do exterior ou a ele destinado (art. 104 do DecretoLei nº 37/66). Dever de coerência e proteção da confiança ("nemo potest venire contra factum proprium"), devendo ser afastada a multa imposta". Fl. 1010DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 988 47 ao art. 31 da Medida Provisória nº 66/2002 e, por decorrência, ao art. 29 da Lei nº 10.637/2002: "Medida Provisória nº 66/2002 Exposição de Motivos (...). 20. O art. 31 institui a suspensão do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), na saída dos produtos que menciona, visando evitar a acumulação de créditos, o que implica atribuir melhores condições operacionais e de fluxo financeiro para as empresas nacionais, tornandoas mais competitivas, inclusive mediante redução de preços de seus produtos" (seleção e grifos nossos). 97. Diante da impossibilidade de se punir a contribuinte que se ajustou ao desígnio da política fiscal proposta pela própria Administração, e uma vez estabelecidos os critérios para o reconhecimento da suspensão para os estabelecimentos, sejam eles industriais ou comerciais, pessoas físicas ou jurídicas, partese, por final, à indagação sobre: (i) se o benefício facultado à remetente industrial se estende ou não à contribuinte equiparada à industrial; e (ii) se, no caso concreto, a contribuinte efetivamente atendeu à determinação em referência de exigir, dos adquirentes, declaração expressa no sentido de cumprirem os requisitos do art. 29 da Lei nº 10.637. 98. Em primeiro lugar, o estabelecimento da contribuinte foi considerado equiparado a industrial, conforme art. 9º, inciso I, do RIPI/2002, e art. 9o, inciso I, do RIPI/2010 (estabelecimentos importadores de produtos de procedência estrangeira, que derem saída a esses produtos), ou conforme art. 9º, inciso IV, do RIPI/2002, e art. 9º, inciso IV, do RIPI/2010 (estabelecimentos comerciais de produtos cuja industrialização haja sido realizada por outro estabelecimento da mesma firma ou terceiro, mediante a remessa, por ele efetuada, de matérias primas, produtos intermediários,embalagens, recipientes, moldes, matrizes ou modelos), ou conforme art. 9º, § 4º, do RIPI/2002, e art. 9º, § 6º, do RIPI/2010 (estabelecimentos industriais que derem saída a matériaprima adquirida de terceiros, com destino a outros estabelecimentos, para industrialização ou revenda), o que conduziu a autoridade fiscal a entender que a recorrente não atendeu ao preceptivo normativo da regra de que a suspensão só poderia ser aplicada nas saídas de estabelecimento industrial. Fl. 1011DF CARF MF 48 99. Necessário se destacar que, à época dos fatos geradores praticados pela contribuinte, já vigorava o texto da Instrução Normativa SRF nº 429/2004, posteriormente sucedida pela Instrução Normativa RFB nº 948/2009, que disciplinaram o benefício, que previram expressamente a inaplicabilidade da suspensão para saídas de estabelecimentos equiparados a industrial, não havendo notícia nos autos de qualquer provimento judicial que afastasse a sua vigência para o caso da contribuinte em virtude de ilegalidade: Instrução Normativa RFB nº 948/2009 Art. 27. O disposto nesta Instrução Normativa não se aplica: (...) II a estabelecimento equiparado a industrial, salvo quando se tratar da hipótese de equiparação prevista no art. 4º. 100. Em igual sentido, a Solução de Consulta Cosit nº 58, de 19/01/2017, cuja ementa abaixo se transcreve: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI OPERAÇÃO DE REVENDA. ESTABELECIMENTO COMERCIAL DE BENS DE PRODUÇÃO. EQUIPARAÇÃO A INDUSTRIAL. SETOR AUTOMOTIVO. SAÍDA DE PARTES E PEÇAS. IMPOSSIBILIDADE DE SUSPENSÃO DO IMPOSTO. Na operação de revenda, o estabelecimento industrial, quando der saída a matérias primas, produtos intermediários e materiais de embalagem adquiridos de terceiros, importados ou não, com destino a outros estabelecimentos, para industrialização ou revenda, são considerados estabelecimentos comerciais de bens de produção e obrigatoriamente equiparados a estabelecimento industrial em relação a essas operações. A suspensão do IPI a que se refere o art. 5º da Lei nº 9.826, de 1999, diz respeito a venda dos produtos nele relacionados por estabelecimento industrial, ou seja, fabricante dos mencionados produtos, não alcançando os estabelecimentos equiparados a industrial, salvo quando se tratar da hipótese de equiparação prevista no art. 4º da IN RFB nº 948, de 2009. Fl. 1012DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 989 49 Dispositivos Legais: Lei nº 9.826, de 1999; art. 5º; Decreto nº 7.212, de 2010, art. 9º, § 6º; e IN RFB nº 948, de 2009, arts. 2º, 3º, 4º e 27 (seleção e grifos nossos). 101. Tal ressalva, no entanto, desborda não da lei, mas unicamente da norma infralegal, de caráter meramente administrativo ou regulamentar e, por configurar cláusula limitativa de direito, não deve prosperar. 102. Para além da previsão da legalidade como propriedade indissociável do Estado de Direito, garantia do cidadão contra os abusos do poder, conforme se denota a partir da leitura do inciso II do art. 5ª da Constituição Federal de 1988,42 o inciso I do art. 150 veda à União Federal, como limitação ao poder de tributar, exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça, corolário do "(...) direito de concordar com a tributação e controlar o modo como os recursos arrecadados são empregados".43 Assim, em matéria tributária, um comportamento não deve ser apenas exigido em virtude da lei, mas existe o comando expresso para que a obrigação esteja descrita, prevista, corporificada na lei. Em poucas palavras, tratamos, aqui, da chamada reserva de lei: "(...) ao legislador cumpre definir o antecedente e o conseqüente da norma tributária"44 conseqüente do qual participa, em posição privilegiada, a base de cálculo. "Chamase reserva de lei a característica, que decorre da comparação do artigo 150 com o artigo 5º: enquanto este tolera a delegação, a reserva de lei implica que somente a lei (ela mesma) é que institui ou majora tributo" (seleção e grifos nossos). 103. Partese, então, à questão sobre o que seria instituir ou majorar um tributo, o que ganha prumo a partir da análise do art. 146, II, da Constituição Federal ao dispor que cabe à lei complementar "regular as limitações ao poder de tributar". 104. No ordenamento pátrio, a matéria tributária é regida pelo Código Tributário Nacional que, em geral, cumpre a função prevista pelo inciso II do art. 146 da 42 Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 Art. 5º (...). II ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei 43 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. São Paulo: Editora Saraiva, 5ª edição, 2015, p. 285. 44 Idem, p. 296. Fl. 1013DF CARF MF 50 Constituição. Em seu art. 97 explicita em suas minúcias o conteúdo e a expressão da legalidade, o que serve de norte magnético para o intérprete que se volta ao estudo da sujeição passiva: Código Tributário Nacional Art. 97. Somente a lei pode estabelecer: I a instituição de tributos, ou a sua extinção; II a majoração de tributos, ou sua redução, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; III a definição do fato gerador da obrigação tributária principal, ressalvado o disposto no inciso I do § 3º do artigo 52, e do seu sujeito passivo; IV a fixação de alíquota do tributo e da sua base de cálculo, ressalvado o disposto nos artigos 21, 26, 39, 57 e 65; V a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias a seus dispositivos, ou para outras infrações nela definidas; VI as hipóteses de exclusão, suspensão e extinção de créditos tributários, ou de dispensa ou redução de penalidades. § 1º Equiparase à majoração do tributo a modificação da sua base de cálculo, que importe em tornálo mais oneroso. § 2º Não constitui majoração de tributo, para os fins do disposto no inciso II deste artigo, a atualização do valor monetário da respectiva base de cálculo. 105. Todos os momentos da hipótese da relação jurídicotributária devem estar previstos em lei. Em especial, somente a lei pode estabelecer a base de cálculo e a sujeição passiva contemplada pelo tributo. Por outro lado, para que não restem dúvidas, prevê expressamente o § 1º do art. 97 do CTN que a modificação da base de cálculo do tributo se equipara à sua majoração. Em outras palavras: "(...) não se contenta o legislador complementar em exigir que o tributo seja genericamente previsto na lei; tampouco lhe basta a definição da hipótese tributária na lei: também o consequente normativo, isto é o an e o quantum debeatur, representados pela definição do sujeito passivo, da base de cálculo e da alíquota, todos devem ser previstos na própria lei".45 106. Não há possibilidade de se prever extensão da base de cálculo de um determinado tributo, portanto, por meio de atos infralegais, salvo naqueles casos expressamente discriminados pela própria norma de regência. Dito de outro modo, o regulamento não é instrumento hábil para a criação ou para a majoração de tributos, e tampouco para a modificação da base de cálculo do tributo que se equipara, ex lege, à sua majoração. Não se concebe que, sem lei, ou, diante da ambiguidade da lei, busquese uma extensão interpretativa unicamente porque este é o valor defendido pelo aplicador. 45 Idem, p. 299. Fl. 1014DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 990 51 107. Sem o lastro positivo, o argumento formulado assume feição contramajoritária. Sem o fundamento legal expresso, a decisão cujas razões se apóiam unicamente em construtos doutrinários, sejam nacionais ou internacionais, é inválida. Isto porque a liberdade puramente subjetiva de estabelecer valores “conduz a uma luta eterna de valores e de ideologias, a uma guerra de todos contra todos (...). O que para um é o diabo, para outro é Deus”;46 os valores valem para algo e para alguém – sua dimensão incontida pela falta de deferência ao direito posto apenas conduz à tiranização dos demais elementos que compõem a decisão, e o que resta, a bem da verdade, é a vontade do aplicador manifestada sob um discurso legitimador que ora se vale da doutrina (nacional e internacional), de princípios, de postulados, de interpretações que flertam com a reconstrução histórica de uma pretensa mens legislatoris, e de outros expedientes retóricoracionais.47 O que não se pode obviar, contudo, é a determinação expressa de que, salvo em casos pontuais, a base de cálculo deve estar definida em lei ordinária, por dicção do art. 97 do Código Tributário Nacional. 108. Assim, merece procedência o recurso voluntário da contribuinte neste particular. III. PRINCÍPIOS DA LEGALIDADE E DA SEGURANÇA JURÍDICA 109. As alegações concernentes à aplicação dos princípios da legalidade e da segurança jurídica não devem ser conhecidas, pois escapam à competência deste Conselho, em conformidade com o teor da Súmula CARF nº 02: Súmula CARF nº 2. O CARF não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. 46 SCHMITT, Carl. “La tiranía de los valores”, In: Revista de Estudios Politicos nº 115, Madrid: Instituto de Estudios Políticos, Enero/Febrero de 1961, p. 75: “(...) ao final da luta entre valorizadores e desvalorizadores se ouvirá em ambos os bandos um horrível pereat mundus”. 47 Supremo Tribunal Federal – ADPF nº 101/DF (24/06/2009) – Trecho do voto do Ministro Eros Grau“(...) quem estabelece os valores? Ora, os valores não são, existem apenas enquanto dotados de validez. Valem para algo ou para alguém. Em outros termos, existem somente enquanto valem para alguém; ou, por outra, não existem (...) A submissão de todos nós a essa tirania é tanto mais grave quanto se perceba que os juristas em especial os juízes quando operam a ponderação entre princípios fazemno, repito, para impor os seus valores, no exercício de pura discricionariedade” Fl. 1015DF CARF MF 52 110. Assim, não merecem conhecimento as alegações constitucionais arrostadas no recurso voluntário da contribuinte. Assim, voto por conhecer e, no mérito, dar parcial provimento ao recurso voluntário interposto, unicamente para a finalidade de reconhecer a: (i) alteração de critério jurídico para os produtos denominados "chatão", "corrente de latão", "pedra acrílica", e "acessórios para calçados", devendo ser exonerado o crédito tributário correspondente; e (ii) a saída com suspensão do IPI prevista no art. 29 da Lei nº 10.637, de 2002 promovidas por estabelecimento industrial equiparado. Relator Leonardo Ogassawara de Araújo Branco Relator Fl. 1016DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 991 53 Voto Vencedor Conselheiro Robson José Bayerl, Redator designado Conforme designação constante da ata lavrada na sessão de julgamento correspondente, coubeme a redação do voto vencedor atinente ao descabimento da suspensão estabelecida pelo art. 29 da Lei nº 10.637/2002 ao caso sub examine, antecipando as vênias de estilo ao i. Relator, para dele divergir a respeito da matéria. Nesse diapasão, para início desse voto, colho o seguinte excerto do próprio voto vencido que, a meu sentir, fixa as balizas inaugurais do debate: “86. O recurso à interpretação literal propugnado pela autoridade fiscal milita em desapreço ao argumento que sustenta o auto de infração, pois o art. 29 se refere unicamente a "estabelecimento", havendo necessidade, portanto, de um grau mais refinado de raciocínio para se aplicar a norma, e tanto é assim que a própria decisão recorrida sentiu necessidade de se valer do § 2º do artigo para entender o estabelecimento como industrial, o que abandona ao desamparo a pretensão de se alcançar a precisão interpretativa por meio da literalidade. A bem da verdade, é possível se afirmar que existe uma condição (essa sim literal, expressa e incontroversa) para o gozo da suspensão: o vendedor do material de embalagem será, necessariamente, um "estabelecimento industrial". O mesmo não se pode afirmar quanto ao adquirente, que poderá ser um estabelecimento de qualquer espécie, desde que elabore (verbo "elaborar" de raiz latina laborare, assim como "colaborar", ou seja, "trabalhar com"), de maneira preponderante, com os itens descritos no caput. Assim, dois são os requisitos para o aproveitamento do benefício: (i) que o vendedor seja um estabelecimento industrial; e (ii) que o adquirente seja um estabelecimento que desenvolva, de maneira preponderante, determinados produtos da TIPI.” (destacado) A leitura desse trecho permite inferir, então, que a suspensão em tela exige dois requisitos cumulativos, acrescento eu: (i) que o vendedor seja um estabelecimento industrial; e (ii) que o adquirente seja um estabelecimento que desenvolva, de maneira preponderante, determinados produtos da TIPI. Definidos esses marcos, o próximo passo consiste em subsumilos à situação vertente, cumprindo acentuar que desde o relatório fiscal já vinha sendo destacado que o autuado o vendedor (fornecedor) das matériasprimas, produtos intermediários e materiais de embalagem a que alude o art. 29 da Lei nº 10.637/02 nessas operações não é estabelecimento industrial, como exige o preceptivo, porquanto as mercadorias por ele vendidas são Fl. 1017DF CARF MF 54 importadas, e não fabricadas, o que o torna estabelecimento equiparado a industrial (importador). Para que não paire qualquer dúvida sobre essa condição, o próprio contribuinte, em recurso voluntário, frisa a natureza das operações (efl. 935), após transcrever o art. 9º, I do Decreto nº 4.544/02: Ou seja, inegavelmente o recorrente já não atende a primeira das exigências necessárias à utilização da requestada suspensão do imposto: que o estabelecimento vendedor seja industrial, ao passo que se cuida de estabelecimento equiparado a industrial, e como tal, não contemplado na norma suspensiva. Logo, mostrase despiciente debater se os estabelecimentos adquirentes, nestes autos, os clientes do recorrente, satisfazem ou não o requisito de se dedicar preponderantemente à elaboração de produtos classificados nos capítulos mencionados do dispositivo, uma vez que não compete ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF se manifestar sobre o direito abstrato, i.e. o direito em tese, eis que, tal qual as entidades integrantes do Poder Judiciário, não é órgão de consulta à legislação tributária, na esfera administrativa. Da mesma forma, improfícuo o debate se as instruções normativas editadas pela RFB (INs 429/2004 e 948/09) e os atos opinativos exarados (Solução de Consulta COSIT nº 68, de 21/03/2014, e Solução de Consulta Disit/SRRF10 nº 1007, de 30/03/2017) desbordaram de sua função, isso porque, como dito, de nenhuma valia é examinar se a preponderância da elaboração dos produtos alcança apenas os estabelecimentos industriais ou se estenderia aos estabelecimentos equiparados, quando o vendedor dos materiais, o fornecedor das MP, PI e ME, in casu, o contribuinte autuado, ora recorrente, não se reveste da condição de estabelecimento industrial. Nesse sentido, distintamente do que aduz o i. Relator, em seu voto, a previsão que a suspensão deva ser aplicada exclusivamente às saídas de estabelecimento industrial não advém de norma infralegal, in casu, instruções normativas, mas é textual do dispositivo legal em análise (caput): “Art. 29. As matériasprimas, os produtos intermediários e os materiais de embalagem, destinados a estabelecimento que se dedique, preponderantemente, à elaboração de produtos classificados nos Capítulos 2, 3, 4, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 23 (exceto códigos 2309.10.00 e 2309.90.30 e Ex01 no código 2309.90.90), 28, 29, 30, 31 e 64, no código 2209.00.00 e 2501.00.00, e nas posições 21.01 a 21.05.00, da Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados TIPI, inclusive aqueles a que corresponde a notação NT (não tributados), sairão do Fl. 1018DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 992 55 estabelecimento industrial com suspensão do referido imposto.” Essa situação foi detectada com percuciência pela decisão de primeiro grau administrativo, que assim abordou a questão: “Como visto, a lei que instituiu o mencionado benefício da suspensão não prevê a inclusão dos estabelecimentos equiparados a industrial. O legislador não pretendeu ampliar o alcance da regra exonerativa com a intenção de beneficiar, tanto aos estabelecimentos que industrializem seus produtos quanto àqueles que são contribuintes do IPI por equiparação: na condição de importadores dos produtos revendidos, por exemplo. Apesar da equiparação a industrial ser promovida por lei, há distinção entre os estabelecimentos industriais e os apenas equiparados, sujeitandose, cada um destes, às obrigações e procedimentos previstos na legislação do IPI. A IN SRF nº 429/2004, e posteriormente a IN RFB nº 948/2009, ao vedar a suspensão em favor de estabelecimentos equiparados a industriais, vem ao encontro do texto legal, sem extrapolálo. Portanto, não há dúvida que a suspensão do IPI de que trata o art. 29, da Lei nº 10.637/2002, não contempla as saídas promovidas por estabelecimentos equiparados a industriais, sendo irrelevante o fato de o adquirente e destinatário dos bens atenderem aos demais requisitos legalmente estipulados para aproveitamento do benefício. O estabelecimento da Impugnante foi considerado equiparado a industrial, conforme art. 9º, inciso I, do RIPI/2002, e art. 9º, inciso I, do RIPI/2010 (estabelecimentos importadores de produtos de procedência estrangeira, que derem saída a esses produtos), ou conforme art. 9º, inciso IV, do RIPI/2002, e art. 9º, inciso IV, do RIPI/2010 (estabelecimentos comerciais de produtos cuja industrialização haja sido realizada por outro estabelecimento da mesma firma ou terceiro, mediante a remessa, por ele efetuada, de matérias primas, produtos intermediários, embalagens, recipientes, moldes, matrizes ou modelos), ou conforme art. 9º, § 4º, do RIPI/2002, e art. 9º, § 6º, do RIPI/2010 (estabelecimentos industriais que derem saída a matériaprima adquirida de terceiros, com destino a outros estabelecimentos, para industrialização ou revenda). Cabe ao estabelecimento equiparado a industrial proceder ao pagamento do IPI devido relativo aos produtos que dele saírem, em obediência aos artigos 24 e 34 do RIPI/2002 (artigos 24 e 35 do RIPI/2010).” (destacado) Portanto, diversamente da conclusão estampada no voto vencido, o recorrente não satisfez os quesitos para emprego da suspensão reclamada. Outrossim, ainda que, aparentemente, essa tese não tenha sido ventilada em recurso, registro que não é possível, ao argumento de integração da norma ou mesmo de sua interpretação, estipular que existe equivalência entre estabelecimento industrial e equiparado a industrial a ponto de se afirmar que a referência isolada a uma ou outra espécie de contribuinte Fl. 1019DF CARF MF 56 do IPI, na legislação tributária, abrangeria a ambos indistintamente, especialmente para as hipóteses de suspensão do imposto, que ora interessa. Segundo o art. 8º do Decreto nº 4.544/02 (RIPI/02), estabelecimento industrial é o que executa qualquer das operações referidas no art. 4º do mesmo diploma (transformação, montagem, beneficiamento, acondicionamento ou reacondicionamento e renovação ou recondicionamento), de que resulte produto tributado, ainda que de alíquota zero ou isento, enquanto os estabelecimentos equiparados a industriais são aqueles arrolados taxativamente no seu art. 9º, não podendo haver equiparação sem respaldo legal. Nesse passo, de plano se afasta a possibilidade de equivalência anteriormente mencionada, de maneira que a referência a apenas uma das espécies de sujeito passivo da exação, na legislação de regência, não pode se alargada à outra por via interpretativa, seja para reconhecerlhe vantagens, seja para imporlhe obrigações ou restrições, ex vi do art. 111 do Código Tributário Nacional, sob pena de usurpação de atribuição legiferante. Especificamente quanto à suspensão do imposto, nas hipóteses que inventaria o regulamento, quando houve a intenção de estendêla para além do industrial, ou mesmo para optar por apenas uma espécie de equiparado a industrial, o decreto o fez de modo pontual e exaustivo, como se pode notar nos seguintes casos elencados no art. 40 do RIPI/02: “Art. 42. Poderão sair com suspensão do imposto: (...) II os produtos remetidos pelo estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, diretamente a (...); III os produtos remetidos pelo estabelecimento industrial, ou equiparado a industrial, a depósitos fechados ou (...); (...) V os produtos, destinados à exportação, que saiam do estabelecimento industrial para (Lei nº 9.532, de 1997, art. 39): (...) IX o veículo, aeronave ou embarcação das posições 87.02, 87.03, 87.04, 87.05, 88.02, 89.01, 89.02, 89.03 e 89.06 da TIPI, que deixar o estabelecimento industrial exclusivamente para emprego em provas de engenharia pelo próprio fabricante, desde que a ele tenha de voltar, não excedido o prazo de permanência fora da fábrica, que será de trinta dias, salvo motivos de ordem técnica devidamente justificados, e constará da nota fiscal para esse fim expedida; X os produtos remetidos, para industrialização ou comércio, de um para outro estabelecimento, industrial ou equiparado a industrial, da mesma firma; XI os bens do ativo permanente (máquinas e equipamentos, aparelhos, instrumentos, utensílios, ferramentas, gabaritos, moldes, matrizes e semelhantes), remetidos pelo estabelecimento industrial a outro estabelecimento da mesma firma, para serem utilizados no processo industrial do recebedor; Fl. 1020DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 993 57 (...) Art. 43. As bebidas alcóolicas e demais produtos de produção nacional, classificados nas posições 22.04, 22.05, 22.06.00 e 22.08 da TIPI, acondicionados em recipientes de capacidade superior ao limite máximo permitido para venda a varejo sairão obrigatoriamente com suspensão do imposto dos respectivos estabelecimentos produtores, dos estabelecimentos atacadistas e das cooperativas de produtores, quando destinados aos seguintes estabelecimentos (Lei nº 9.493, de 1997, arts. 3º e 4º): (...) Art. 44. Sairão do estabelecimento industrial com suspensão do imposto: (...) Art. 45. Serão desembaraçados (importador – equiparado a industrial)com suspensão do imposto: (...)” (destacado e acrescentado) Assim, a remissão feita na legislação do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI a estabelecimento industrial e/ou equiparado a industrial, seja qual for a finalidade, não pode ser interpretada de forma extensiva para incluir um ou outro, tornandoos equivalentes, razão suficiente para fixar que a previsão inserta no art. 29 da Lei nº 10.637/02, consoante a qual os insumos que lista deverão sair do estabelecimento industrial com suspensão, não alcança as saídas promovidas por estabelecimento importador desses produtos, equiparado a industrial, por falta de previsão legal. Com essas considerações, sobre essa matéria, voto por negar provimento ao recurso voluntário. Robson José Bayerl Fl. 1021DF CARF MF 58 Conselheiro Rosaldo Trevisan, redator designado em relação à possibilidade de revisão aduaneira, Registro, por meio do presente voto, divergência em relação ao posicionamento externado pelo relator, unicamente no que se refere ao item I de seu voto, intitulado "Revisão Fiscal e Classificação Fiscal dos Produtos". As considerações são semelhantes às externadas por ocasião do voto vencedor por mim elaborado no Acórdão no 3401003.117, de 16/03/2016, de relatoria do mesmo conselheiro vencido no presente julgamento. No entanto, cabe registrar algumas diferenças entre aquele arrazoado e este, a começar pelo título do item I, que era "Da Revisão do Lançamento Tributário", e passou a ser "Revisão Fiscal e Classificação Fiscal dos Produtos". Parece ter admitido já (ou ao menos) no título o relator que não se trata de revisão de lançamento tributário, o que denota evolução, embora tenhamos restrições ao próprio uso da palavra “revisão” na maioria dos casos referentes a matéria aduaneira, nos quais há, de fato, “visão”. Já no item 9, ao início de seu arrazoado, sustenta o relator que: A revisão do lançamento tem como pressuposto a viabilidade do conhecimento, por parte da autoridade aduaneira, dos pressupostos fáticos que deram origem à obrigação tributária, o que ocorre, por exemplo, nos casos de resposta a consulta formulada pela contribuinte, de parametrização dos produtos por meio dos canais vermelho ou cinza, ou ainda se, quando do processo de desembaraço aduaneiro, as declarações de importação são objeto de revisão aduaneira para fins específicos de alteração da classificação fiscal. Como tal parágrafo trabalha com as premissas utilizadas ao longo do voto do relator, é bom que se esclareça que: (1) a revisão aduaneira ocorre sempre após o desembaraço (o que torna inócua a parte final do parágrafo); (2) apesar de ter abandonado no título a expressão “revisão do lançamento”, parece ter o relator a retomado nas premissas de seu voto; e (3) pareceu admitir o relator que, nos canais de conferência verde e amarelo, nos quais não houve “visão”, ou, nas suas palavras, “conhecimento, por parte da autoridade aduaneira”, dos pressupostos fáticos que deram origem à obrigação” (ainda que não necessariamente tributária – vejase que a alteração da classificação pode não ter efeitos tributários), seria incorreto falar se em “revisão”. E segue o relator, em seu voto, a traçar as premissas a nortear seu entendimento, no item 10: Em todos os casos acima referidos, erigese a presunção relativa de que a autoridade aduaneira teve ao menos a possibilidade de acesso a todas as informações necessárias para formar a sua convicção a respeito do enquadramento legal de uma determinada mercadoria, ou, em outras palavras, para adotar um critério jurídico apto a pautar a sua relação jurídica com o contribuinte presunção esta que restará elidida em um caso, eg., de fraude, o que corrobora a premissa adotada de Fl. 1022DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 994 59 suficiência de dados para a construção do convencimento e consequente viabilidade da adoção de um critério jurídico. Tal racional, ademais, habilita também aqueles casos em que não se demonstra dissensão entre o conteúdo da DI e o produto importado. Não havendo suspeita e comprovação de eventual declaração falsa, reputase verdadeira a informação prestada e, logo, não há que se falar em desconhecimento das premissas fáticas para a percussão da norma jurídica. Em outras palavras, uma vez realizado o exame documental e efetuado o desembaraço com dispensa da verificação da mercadoria, só não se poderá falar em sedimentação de um critério no caso de se comprovar que os documentos não espelham ou refletem a realidade da operação, sobretudo naqueles casos em que tal conduta foi observada em mais de uma oportunidade: o desembaraço de diversas mercadorias sob o mesmo fundamento jurídico, implica claramente a cristalização de um critério jurídico que servirá de baliza ou pólo magnético para orientar a relação fiscocontribuinte. Em tal item, parece o relator tratar do canal amarelo de conferência, no qual há exame documental, mas não verificação da mercadoria. Mas as conclusões são alargadas inclusive ao canal verde, no qual não se vê nem mercadoria nem documentos. E adicionese a isso tudo a premissa erigida sem qualquer fundamento normativo/científico de que a unidade teve a oportunidade de acesso a informações necessárias para o que seria a formação de um “critério jurídico”. Para não negar vigência ao comando do artigo 54 do DecretoLei no 37, de 18/11/1966, que expressamente prevê a revisão aduaneira, e afrontaria, segundo alguns, o comando do artigo 146 da Lei no 5.172, de 25/108/1966, o relator faz distinção entre o que denomina “revisão fiscal” para fins aduaneiros, e “revisão de lançamento” (ou “revisão tributária” stricto sensu). Daí, provavelmente, a mudança no título, já mencionada. Mas a aparente “harmonia e complementaridade”, citada no artigo 19 do voto do relator, é previamente mitigada no item 17: A revisão fiscal ou aduaneira prevista pelo art. 54 do Decreto Lei nº 37/1966 e pelo art. 570 do Decreto nº 4.543/2002 permanece hígida no ordenamento, porém conhece a limitação imposta pelo Código Tributário Nacional, diploma recepcionado como lei complementar pela Constituição da República de 1988. Assim, prestase a revisar os erros de fato, mas jamais os erros de direito. Ao se propor a alterar os termos da relação que mantém com o contribuinte, o Estado deverá fazêlo apenas com relação aos fatos geradores ainda a serem praticados, sem alcançar aqueles já praticados, pois o passado prossegue resguardado: sob o crivo dos novos critérios, talvez de uma nova política fiscal, decidirá o contribuinte se continuará ou não a realizar importações, resguardado o direito de organizar os seus negócios. Estabelecendo hierarquia entre as normas, elas jamais serão verdadeiramente harmônicas e complementares, ainda mais se uma limita a outra em comandos que seriam de teores conflitantes (aliás, se não forem conflitantes não há o que limitar). Se são harmônicas e Fl. 1023DF CARF MF 60 complementares as normas, todos os seus comandos são aplicáveis, e não podem ser rechaçados em nome de hierarquia que era inexistente no momento de sua edição (observemse as datas de promulgação, e que o DecretoLei no 37, além de ser mais específico ao caso em análise – “revisão aduaneira”, é posterior à Lei no 5.172), e que, mesmo depois, não operou (a hierarquia) por norma, mas sim por matéria (não é o CTN que tem estatura de lei complementar, mas apenas os comandos afetos a normas gerais de legislação “tributária”). Em síntese, podese perceber que as premissas adotadas no voto do relator são ainda menos consistentes que as externadas por ocasião do Acórdão no 3401003.117, de 16/03/2016, e que não demonstram a percepção do que é, efetivamente, uma revisão aduaneira, poluindo toda a análise que as sucede, que é tratada como “aduaneira”, mas se mantém “tributária”, focada em lançamento, e em alegada alteração de critério jurídico, invocando a Súmula no 227, precedentes do STJ e a vetusta discussão sobre “erro de fato” e “erro de direito”. Por outro lado, evolui o raciocínio do relator ao reconhecer expressamente não ser o desembaraço uma homologação de lançamento (item 33), conclusão que, lastimavelmente, não é alastrada de forma adequada ao restante do texto. Reiteramos, assim, os termos daquele voto vencedor, com algumas adaptações. Em que pese a substancial argumentação do voto proferido, invocando a Súmula TRF no 227, o posicionamento de conhecidos tributaristas brasileiros sobre a matéria, e até um precedente deste CARF, entendo que as considerações externadas requerem um melhor detalhamento na seara aduaneira. Como reconhecem os próprios tributaristas, a área aduaneira apresenta suas peculiaridades, e não pode simplesmente ser encarada sob a ótica tributária.48 Sobre o tema da "revisão aduaneira", instituto tipicamente aduaneiro, e não tributário, já tivemos a oportunidade de externar entendimento em artigo publicado em 2012. Aproveitase para reproduzir excerto de tal estudo, plenamente aplicável ao caso aqui analisado:49 “O art. 638 do Regulamento Aduaneiro, com base no art. 54 do DecretoLei no 37, de 1966, com a redação com a redação dada pelo DecretoLei no 2.472, de 1988, estabelece que revisão aduaneira “é o ato pelo qual é apurada, após o desembaraço aduaneiro, a regularidade do pagamento dos impostos e dos demais gravames devidos à Fazenda Nacional, da aplicação de benefício fiscal e da exatidão das informações prestadas pelo importador na declaração de importação, ou pelo exportador na declaração de exportação”. 48 Geraldo ATALIBA já adevertia, na década de 80 do sécuilo passado, que "Daí o poderse dizer que a aduana é instituto fiscal, sim, mas não necessariamente tributário" (no prefácio à obra "Regimes Aduaneiros Especiais", p. 8, de Osíris de Azevedo Lopes Filho, editata pela RT/SP, em 1983). Como afirma Paulo de Barros CARVALHO: “A tributação incidente sobre o comércio exterior de bens no Brasil forma complicado feixe de normas jurídicas, com perfil peculiar e traços distintivos que o apartam de outros setores do sistema constitucional tributário” (no prefácio da obra "Tributos sobre o comércio exterior", p. 19, derivada da tese de doutorado de sua orientanda Liziane Angelotti Meira, editada pela Saraiva/SP, em 2012). Sobre as distinções entre Direito Tributário e Direito Aduaneiro, já discorremos em: "Direito Tributário e Direito aduaneiro Distinções Básicas", In: "Temas Atuais de Direito Aduaneiro", LEX/SP, 2008, p. 1155. 49 A revisão aduaneira de classificação de mercadorias na importação e a segurança jurídica: uma análise sistemática. In: BRANCO, Paulo Gonet; MEIRA, Liziane Angelotti; CORREIA NETO, Celso de Barros. Tributação e Direitos Fundamentais conforme a jurisprudência do STF e do STJ. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 341376. Fl. 1024DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 995 61 A revisão aduaneira assume crescente importância, na medida em que se está selecionando para conferência aduaneira, no despacho, um percentual cada vez menor de declarações de importação. Chegase até a cogitar a impropriedade da denominação do instituto, visto que o termo “revisão” sugere que já tenha havido uma primeira análise, o que nem sempre ocorre nas importações. No canal verde, por exemplo, sequer houve verificação da mercadoria ou exame documental; no amarelo, não ocorreu a verificação da mercadoria; e, mesmo no vermelho, pode ser que a verificação, feita por amostragem, não tenha abarcado especificamente o tópico que venha a ser discutido futuramente em procedimento de “revisão” aduaneira. Assim, a revisão aduaneira (cuja denominação fica cada vez mais inadequada), em verdade, tornase frequentemente a primeira oportunidade em que as informações prestadas pelo importador na declaração de importação são checadas pelo fisco. São numerosas as reclassificações de mercadorias desembaraçadas em canal verde (ou seja, sem qualquer intervenção humana).” (op. cit, p. 364) Também já efetuamos considerações sobre o tema em julgamentos anteriores, com acolhida unânime da turma: "CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS. DESEMBARAÇO ADUANEIRO. HOMOLOGAÇÃO. REVISÃO ADUANEIRA. POSSIBILIDADE. É possível a revisão aduaneira da classificação de mercadorias, não constituindo necessariamente tal ato “mudança de critério jurídico”. O desembaraço aduaneiro não homologa, nem tem por objetivo central homologar integralmente o pagamento efetuado pelo sujeito passivo. Tal homologação ocorre apenas com a revisão aduaneira (homologação expressa), ou com o decurso de prazo (homologação tácita)." (Acórdão n. 3403002.555, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, unânime, sessão de 23.jan 2013; e Acórdão n. 3403002.782, Rel. Cons. Rosaldo Trevisan, unânime, sessão de 25.fev 2014) (grifo nosso) É de se acrescentar que nos presentes autos sequer se menciona em quais canais de conferência foi a mercadoria desembaraçada, e tal matéria não é objeto de controvérsia específica. Os tributos devidos na importação são sujeitos a “lançamento por homologação”. O sujeito passivo (em regra, o importador) detalha em uma DI (declaração de importação) as mercadorias que está importando, suas classificações e seus valores, entre outras informações (como a alíquota, se ad rem), e paga os tributos devidos segundo seus cálculos, independentemente de qualquer ato administrativo. A declaração é, então, sujeita a conferência, podendo ser desembaraçada em canal verde (sem qualquer ato da autoridade fiscal), amarelo (com verificação apenas dos documentos), vermelho (com verificação dos documentos e da mercadoria, por amostragem), ou cinza (com procedimento especial de controle aduaneiro). Fl. 1025DF CARF MF 62 É míope e desconectada da realidade do comércio internacional a visão, comumente externada por tributaristas, de que o desembaraço aduaneiro é um ato cujo objetivo central seja o lançamento de crédito tributário, ou sua homologação. O crédito tributário é coadjuvante nesse processo, exatamente porque pode ser exigido a posteriori, mediante "revisão" aduaneira. Em zona primária (portos, aeroportos e pontos de fronteira), a principal preocupação é com o cometimento de fraudes (como a importação de mercadoria proibida), especialmente se houver possibilidade de que um procedimento de fiscalização posterior seja frustrado (v.g., pela própria inexistência de fato do importador ou do real adquirente da mercadoria). É essa a realidade, hoje, no Brasil e em todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento do mundo, que passaram a adotar, para não obstaculizar o comércio e para não entravar os portos, aeroportos etc., parâmetros de seletividade, fiscalizando efetivamente baixo percentual de cargas importadas, restringindo a análise àquelas que apresentem efetivo potencial de risco, não sendo o tema tributário, repitase, protagonista nessa discussão (em face de o crédito poder ser exigido a posteriori).50 Assim, aquele que invoca a Súmula no 227 do extinto Tribunal Federal de Recursos (TFR), no Brasil, para tratar de "revisão" aduaneira, está meio século atrasado na análise da questão, pois está a raciocinar na realidade da redação original do DecretoLei no 37/1966, e no contexto em que todas as mercadorias e todos os documentos de todas as declarações de importação eram (ou, ao menos, deveriam ser) examinados, quando hoje, a regra é a ausência de exame. Não é preciso muito esforço para perceber que a Aduana brasileira mudou em relação àquela que existia há meio século, à época em que se consolidou o entendimento expresso na súmula no 227, inadvertidamente mantido para a área aduaneira em realidade diversa, inclusive pelo STJ, como se depreende dos precedentes colacionados. Basta uma olhadela no sítio web da RFB para que vejamos quais as preocupações da aduana, hoje:51 "Aumento na Fluidez no Comércio Exterior Na importação, a fluidez é medida pelo percentual de declarações que são desembaraçadas com menos de 24 horas (Indicador do Grau de Fluidez). No primeiro semestre de 2015, 84,73% do total dos despachos de importação registrados foram liberados pela Aduana em menos de um dia. Isto representa uma melhora da fluidez na importação de 1,4% em relação ao primeiro semestre de 2014 e de 1,9% em relação ao primeiro semestre de 2013. (...) 50 Como não é possível (nem efetivo) fiscalizar um percentual elevado das cargas que chegam ao País ou dele saem, investese em mecanismos de seleção fundados em parâmetros objetivos previamente cadastrados, permitindo que se verifiquem em despacho as mercadorias sobre as quais recai o mais alto grau de risco, ou as mercadorias com indícios de prática de fraude para a qual a fiscalização a posteriori seja improdutiva. Algumas infrações, como as relativas a propriedade intelectual, a saúde, ou que possam resultar em contrabando, devem ser tratadas em tempo de despacho. Outras, como o simples erro de classificação fiscal, ou o simples preenchimento incorreto de campo, poderiam ser objeto de fiscalização a posteriori (a menos que haja elementos que levem à convicção de que a empresa infratora é inexistente de fato, ou não disporá de patrimônio para saldar a dívida a posteriori, v.g.). Assim, a exemplo do que ocorre em diversos países, o Brasil prioriza, em despacho, o tratamento de um quantitativo reduzido de declarações, dando maior fluidez ao comércio internacional. 51 Dados extraídos do documento intitulado "Balanço Aduaneiro 2015", disponível em http://idg.receita.fazenda.gov.br/dados/resultados/aduana#, acesso em 01 mar.2016. Fl. 1026DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 996 63 Mais rapidez dos tempos no despacho O tempo médio bruto de despacho na importação (DI), o qual computa do registro da declaração até o seu desembaraço, tem o tempo médio de 1,60 dias no período de janeiro a junho de 2015, o qual representa a redução de 2,43% no comparativo 2015 x 2014. (...) Declarações de Importação e Exportação No primeiro semestre de 2015, a Aduana do Brasil desembaraçou 1,71 milhões de declarações de operações de comércio exterior, sendo 1,159 milhões de despachos de importação e aproximadamente 560 mil despachos de exportação. (...)" Lamentavelmente, neste último relatório disponível, de 2015, a Aduana brasileira não divulgou o número de declarações por canal de conferência. Mas no anterior, de 2014, é possível acessar os números, inclusive de forma gráfica:52 "A capacidade de conferência no despacho e a gestão de risco evoluíram nos últimos 12 anos, de forma a permitir a maior fluidez ao comércio, conforme mostram os dois gráficos seguintes e, ao mesmo tempo, a aumentar o grau de eficácia na seleção e a efetividade da atuação da Receita Federal no combate às irregularidades nas operações de importação e exportação. O Brasil hoje tem um nível de seletividade, na importação, da ordem de 11,02%, índice menor que o de 2013 (11,21%) e 9,28% na exportação. Um dos indicadores do Custom Assessment Trade Toolkit – CATT, utilizado pelo Banco Mundial, relacionado ao nível de seletividade para controle do despacho aduaneiro, estabelece como parâmetro ideal 3% de seletividade. 52 Dados extraídos do documento intitulado "Balanço Aduaneiro 2014", disponível em http://idg.receita.fazenda.gov.br/dados/resultados/aduana/arquivoseimagens/balancoaduaneiro2014.pdf, acesso em 01 mar.2016. Fl. 1027DF CARF MF 64 É a essa realidade que se pretende aplicar o art. 146 do Código Tributário Nacional (CTN), imaginando que tenha sido efetuado no procedimento aduaneiro aqui descrito uma revisão como a malha do imposto de renda, ou uma fiscalização de IPI realizada na empresa. Atentese que a área em verde do gráfico corresponde ao percentual de declarações de importação para as quais não foi verificada nem a mercadoria importada nem os documentos que ampararam a importação (ou seja, declarações para as quais não houve qualquer intervenção humana). E a área em amarelo, às importações para as quais foram verificados apenas os documentos, cabendo destacar que, mesmo nas áreas vermelhas, foram verificados documentos e mercadoria por amostragem. Em síntese, a realidade e a própria legislação aduaneira hoje existentes são distintas do contexto tributário e aduaneiro do qual foram extraídas as conclusões que se informa serem amoldadas à Súmula no 227 do extinto TFR. Aliás, o período em que eram atuais e pertinentes tais discussões foi a década de 80 do século passado. E tais discussões levaram justamente à alteração do DecretoLei no 37/1966, em 1988. O Capítulo III do DecretoLei no 37/1966 (referente a "Normas Gerais de Controle Aduaneiro das Mercadorias") era originalmente subdividido em quatro seções (‘despacho aduaneiro’ arts. 44 a 47; ‘conferência’, arts. 48 a 52; ‘desembaraço’ art. 53; e ‘revisão’ art. 54), estabelecendo este último artigo (54), único a compor a Seção IV, que: "Seção IV Revisão Art 54. A revisão para apuração da regularidade do recolhimento de tributos e outros gravames devidos à Fazenda Nacional será realizada na forma que estabelecer o regulamento, cabendo ao funcionário revisor 5% (cinco por cento), das diferenças apuradas, revogado o art. 4º do Decreto lei nº 8.663, de 14 de janeiro de 1946." (grifo nosso) O Decretolei no 2.472/1988, porém, deu nova redação a todo o Capítulo III do DecretoLei no 37/1966, que passou a contar com apenas duas seções (‘despacho aduaneiro’ arts. 44 a 53; e ‘conclusão do despacho’ art. 54), dispondo, a partir de então, o artigo 54: "Seção II Da Conclusão do Despacho Art. 54. A apuração da regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício Fl. 1028DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 997 65 fiscal aplicado, e da exatidão das informações prestadas pelo importador será realizada na forma que estabelecer o regulamento e processada no prazo de 5 (cinco) anos, contado do registro da declaração de que trata o art.44 deste Decreto Lei." (grifo nosso) Percebase que o legislador, em 1988, não desejou somente retirar dos funcionários o percentual das diferenças apuradas, mas também libertarse da tradicional visão eminentemente tributária do despacho. E desejou ainda deixar claro que o despacho não termina com o desembaraço. Por isso intitulou o antigo artigo que tratava da "revisão", na nova redação, como "da conclusão do despacho".53 Assumese, com tal comando normativo, ainda vigente, que a fiscalização não se esgota com o desembaraço, e que a "apuração da regularidade" (sem utilizar mais o texto de estatura legal a palavra "revisão") da declaração desembaraçada não é efetuada fora, mas dentro do despacho, que ainda não está concluído até que haja manifestação expressa (com a "revisão") ou tácita (com o decurso do prazo para sua realização). O termo "revisão" aduaneira, inexistente na nova redação do art. 54, continuou a ser usado pelas normas de hierarquia inferior (v.g., Regulamentos Aduaneiros de 2002 e 2009), mas deve se advertir que não se está, de fato, naquilo que ficou conhecido como "revisão aduaneira", revisando algo, mas simplesmente apurando, em continuidade das verificações efetuadas (se efetuadas) antes do desembaraço, a regularidade da operação, em seus aspectos tributários ou aduaneiros, inclusive no que se refere a restrições/proibições à importação. Estava o Brasil cada vez mais se adequando à regulação aduaneira internacional, e se distanciando da visão à época externada pelos tribunais, que ainda pareciam imaginar que nos portos, aeroportos e pontos de fronteira tudo se verificava (ou tudo se presume que teria sido verificado), e que a discussão aduaneira era, em verdade, tributária (embora se possa relacionar substancial lista de temas que podem ser objeto de revisão aduaneira e sequer produzem consequências tributárias: importação de bens sem autorização do órgão competente, contrabando, importação de bens com falsidade na documentação de amparo etc.). E, de lá para cá, com o surgimento de canais de conferência (em 1997), que expressamente dispensaram a verificação em alguns casos, tornouse absolutamente dissociado da realidade o entendimento de que se estaria, em um desembaraço, promovendo uma verdadeira homologação de lançamento (ainda mais quando em cerca de 90% deles sequer se verificou nada). Mas o posicionamento em alguns julgados do STJ, de forma aparentemente cômoda, acabou congelado no tempo, a parecer que ainda se verifica (ou que se deveria ou teria como verificar) efetivamente 100% das cargas nos portos, aeroportos e pontos de fronteira brasileiros. É certo que tal posicionamento, pela impossibilidade de revisão, poderia perigosamente levar o Brasil de volta à década de 60 do século passado, quando as cargas 53 Para deixar ainda mais claro que o despacho aduaneiro não termina com o desembaraço, tal Decretolei, ao dar nova redação ao art. 102, § 1o do Decretolei no 37, de 1966, dispôs que “não se considera espontânea a denúncia apresentada: a) no curso do despacho aduaneiro, até o desembaraço da mercadoria; ...". Fl. 1029DF CARF MF 66 demoravam semanas (hoje, diante da relação funcionário / declarações de importação, seriam certamente meses) para serem verificadas, pois tal visão imporia efetivamente o dever de fiscalização de 100% da mercadoria importada e dos documentos correspondentes. E aí se poderia falar que o que ocorre depois do desembaraço seria uma efetiva "revisão". Estamos certos de que o problema não reside na Súmula no 227, mas em sua extensão a hipóteses em que não houve homologação alguma, mas simples liberação de mercadorias sob condição de posterior apuração de regularidade para conclusão do despacho. O desembaraço aduaneiro não representa lançamento efetuado pela fiscalização nem homologação, por esta, de lançamento "efetuado pelo importador". Tal homologação ocorre apenas com a "revisão aduaneira" (homologação expressa), ou com o decurso de prazo para sua realização (homologação tácita). A homologação expressa, por meio da "revisão aduaneira" de que trata o art. 54 do Decretolei no 37/1966, com a redação dada pelo Decretolei no 2.472/1988, em que pese a inadequação terminológica, derivada de atos infralegais, não representa, efetivamente, nova análise, mas continuidade da análise empreendida, ainda no curso do despacho de importação, que não se encerra com o desembaraço. Não se aplicam ao caso, assim, o art. 146 do CTN (que pressupõe a existência de lançamento) nem a Súmula 227 do extinto Tribunal Federal de Recursos (que afirma que "a mudança de critério adotado pelo fisco não autoriza a revisão de lançamento"). Ademais, se o julgador do CARF está a analisar matéria aduaneira, deve tomar como vigente o art. 54 do Decretolei no 37/1966, na redação que lhe deu o art. 2.472/1988, e que não apresenta a restrição defendida pela recorrente, pelo relator, e por julgados do STJ, não podendo o julgador administrativo negar vigência ao referido artigo 54, ainda que por afronta a dispositivo do CTN ou da própria Constituição, por determinação da Súmula CARF no 2 (que, por certo, não se refere somente a "lei tributária", mas também a lei "aduaneira, ou mesmo de outro ramo jurídico). A Súmula no 227, do TFR, tem teor irretocável: em nome da segurança jurídica, não há argumento que fragilize a afirmação de que “a mudança de critério jurídico não autoriza a revisão do lançamento”. O problema é aplicar tal súmula em casos nos quais não houve necessariamente lançamento nem homologação, como o presente. No presente processo, parece a recorrente entender que o teor da Súmula no 227 do TRF e dos julgados colacionados do STJ (que não vinculam este tribunal administrativo, salvo sistemática excepcional) lhe favorecem, mesmo tratando os autos de declarações de importação para as quais a recorrente sequer faz prova de que foram efetivamente verificadas por uma autoridade aduaneira. Deveria a recorrente ter apresentado ao menos uma declaração de importação onde o fisco efetivamente analisou a matéria aqui discutida. Afinal, todas as declarações de importação foram por ela registradas e está em sua posse a documentação de amparo. Resumemse, assim, os esforços da recorrente, em tecer considerações sobre revisão de critério jurídico, e sobre a jurisprudência do STJ, olvidandose a defesa de conectar tais temas a contento com o caso que se está a analisar. Fracassa, então, na tentativa de indicar que efetivamente teria havido alteração de critério pela fiscalização, e não meros atos administrativos de desembaraço / liberação de mercadorias no curso do despacho. Improcedentes, assim, as alegações de alteração de critério jurídico. Fl. 1030DF CARF MF Processo nº 11080.731133/201247 Acórdão n.º 3401004.020 S3C4T1 Fl. 998 67 Por fim, há que se detalhar melhor a informação, presente no voto do relator, sobre a existência de julgado unânime deste CARF em relação à matéria, consubstanciado no Acórdão no 3302002.444, ainda que seja pouco relevante para a formação de convicção, neste processo. Isso porque, na leitura do referido acórdão, percebi que o caso, além de ser substancialmente diverso do encontrado no presente processo, não tratou, de fato, unanimemente, da questão referente à "revisão aduaneira". No citado Acórdão, a matéria apreciada era bem distinta da aqui presente, pois já havia autuação anterior (lançamento), relativa à entrada das mercadorias no estabelecimento, tratando o contencioso sobre a saída destas mercadorias de tal estabelecimento. Ainda assim, na votação "unânime", três dos seis conselheiros da turma votaram "pelas conclusões", tendo um deles, inclusive, registrado a justificativa em declaração de voto, da qual aqui se transcreve excerto, pela relevância: "Convém, no entanto, ressaltar que, com devido respeito aos argumentos da relatora, não compartilho com a interpretação de que o artigo 146 do CTN se aplique à revisão aduaneira. É que a condição inserta no artigo 146 implica em um prévio lançamento tributário, o que entendo não ocorrer no despacho aduaneiro. (grifo nosso) Percebese, assim, que a votação, de unânime, só tem o resultado, não se podendo concluir que houve concordância com os argumentos externados pela relatora. Pelo contrário, os argumentos da relatora foram vencidos, pois a turma, por qualidade, visto que o presidente da turma estava entre os três conselheiros que votaram "pelas conclusões", entendeu prevalecer o posicionamento argumentativo externado nas "conclusões", ainda que apenas um conselheiro tenha especificamente motivado a discordância argumentativa. Pelo exposto neste voto, então, entendo que deve ser negado provimento ao recurso voluntário apresentado, em relação à matéria. Rosaldo Trevisan Fl. 1031DF CARF MF
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Numero do processo: 19515.002766/2006-51
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Wed Nov 29 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 29 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Física - IRPF
Exercício: 2002, 2003
PAF - PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL. RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. MATÉRIA SUMULADA. ALTERAÇÃO REGIMENTAL SUPERVENIENTE.
Incabível a exigência de atendimento a requisitos estabelecidos com base no Ricarf aprovado pelas Portarias MF nºs 343, de 2015, e 152, de 2016, em face de Recurso Especial interposto à luz do Ricarf anterior, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009.
IRPF. SÚMULA CARF 67. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. LANÇAMENTO DECORRENTE DE AMPLO PROCESSO DE FISCALIZAÇÃO.
Incabível a aplicação da Súmula CARF 67 aos lançamentos de APD quando restar comprovado por "Demonstrativo da Variação Patrimonial" e ainda por meio de outros meios de prova existência de incremento patrimonial do contribuinte.
Numero da decisão: 9202-006.270
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidas as conselheiras Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri (relatora) e Patrícia da Silva, que não conheceram do recurso. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em dar-lhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para das demais matérias constantes do recurso voluntário. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos - Presidente em exercício
(assinado digitalmente)
Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri - Relatora
(assinado digitalmente)
Maria Helena Cotta Cardozo - Redatora Designada
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos.
Nome do relator: RITA ELIZA REIS DA COSTA BACCHIERI
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RECURSO ESPECIAL. CONHECIMENTO. MATÉRIA SUMULADA. ALTERAÇÃO REGIMENTAL SUPERVENIENTE. Incabível a exigência de atendimento a requisitos estabelecidos com base no Ricarf aprovado pelas Portarias MF nºs 343, de 2015, e 152, de 2016, em face de Recurso Especial interposto à luz do Ricarf anterior, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009. IRPF. SÚMULA CARF 67. ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. LANÇAMENTO DECORRENTE DE AMPLO PROCESSO DE FISCALIZAÇÃO. Incabível a aplicação da Súmula CARF 67 aos lançamentos de APD quando restar comprovado por "Demonstrativo da Variação Patrimonial" e ainda por meio de outros meios de prova existência de incremento patrimonial do contribuinte. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer do Recurso Especial, vencidas as conselheiras Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri (relatora) e Patrícia da Silva, que não conheceram do recurso. Acordam, ainda, por unanimidade de votos, em darlhe provimento, com retorno dos autos ao colegiado de origem, para das demais matérias constantes do recurso voluntário. Designada para redigir o voto vencedor, quanto ao conhecimento, a conselheira Maria Helena Cotta Cardozo. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 27 66 /2 00 6- 51 Fl. 385DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 386 2 (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Redatora Designada Participaram do presente julgamento os Conselheiros Maria Helena Cotta Cardozo, Patrícia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada), Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri e Luiz Eduardo de Oliveira Santos. Relatório Adotando como base o relatório do acórdão recorrido, esclareço que contra o contribuinte foi lavrado Auto de Infração, fls. 146/151, para formalização de exigência de Imposto sobre a Renda de Pessoa Física (IRPF), relativa aos anoscalendário 2001 e 2002, exercícios 2002 e 2003, no valor total de R$ 1.577.337,11, incluindo multa de ofício e juros de mora, estes últimos calculados até 30/11/2006. A infração apurada pela autoridade fiscal, detalhada no Auto de Infração e no Termo de Verificação Fiscal, fls. 141/145, foi acréscimo patrimonial a descoberto, nos meses de janeiro a dezembro de 2001, fevereiro a outubro de 2002 e dezembro de 2002, caracterizado por excesso de aplicações sobre origens, em decorrência de remessas realizadas para o exterior em dólares. No que tange à movimentação de recursos no exterior há de se esclarecer que os fatos trazidos aos autos foram apurados durante as investigações do “Caso Banestado”, momento em que se identificou a empresa Beacon Hill Service Corporation como intermediária de diversas ordens de pagamento. Inconformado com a exigência, o contribuinte apresentou impugnação, fls. 160/182, e a autoridade julgadora de primeira instância julgou procedente o lançamento, por unanimidade de votos, conforme Acórdão DRJ/SPOII nº 1728.900, de 25/11/2008, fls. 222/229. Cientificado da decisão de primeira instância, em 11/03/2009, fls. 241, o contribuinte apresentou, em 31/03/2009, recurso voluntário. A 1ª Câmara / 2ª Turma Ordinária, por unanimidade de votos, aplicou a Súmula CARF nº 67/2010 e deu provimento ao recurso. O Acórdão recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA FÍSICA IRPF Exercício: 2002, 2003 ACRÉSCIMO PATRIMONIAL A DESCOBERTO. SAQUES OU TRANSFERÊNCIAS BANCÁRIAS. Fl. 386DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 387 3 Em apuração de acréscimo patrimonial a descoberto a partir de fluxo de caixa que confronta origens e aplicações de recursos, os saques ou transferências bancárias, quando não comprovada a destinação, efetividade da despesa, aplicação ou consumo, não podem lastrear lançamento fiscal. (Súmula nº 67 Portaria CARF nº 52, de 21/12/2010). Recurso Voluntário Provido Contra decisão a Fazenda Nacional interpôs Recurso Especial. Citando como paradigma o acórdão 9202002.455, a divergência foi assim resumida: 15. Ora, entendemos devidamente caracterizada a divergência jurisprudencial, considerando que: a) para o paradigma, se fisco se desincumbiu do ônus de tornar evidente o fato constitutivo do seu direito, ou seja, demonstrou o excesso de gastos sobre a origem de recursos, cabe ao contribuinte comprovar, mediante a apresentação de documentos hábeis e idôneos, que tais dispêndios foram suportados por rendimentos tributáveis, isentos ou tributados exclusivamente na fonte, visto que é dele, e não do Fisco, o dever de provar a origem dos rendimentos; b) diferentemente, o v. acórdão recorrido entende que para a manutenção do auto de infração, não basta a demonstração pelo Fisco o excesso de gastos sobre a origem de recursos, sendo necessária ainda a comprovação pelo Fisco (e não pelo contribuinte) da destinação do recurso, da efetividade da despesa ou da aplicação ou do consumo da renda. Contrarrazões do contribuinte juntada às efls. 365 e seguintes. É o relatório. Voto Vencido Conselheira Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Relatora Do conhecimento: Nos termos do relatório, tratase de recurso especial de divergência interposto pela Fazenda Nacional contra decisão que entendeu aplicável ao caso a Súmula CARF nº 67/2010. Em sede de contrarrazões o contribuinte pugna pela não conhecimento do recurso por ausência de prequestionamento da matéria e ainda impossibilidade de reexame de provas. Inicialmente esclareço que tanto o art. 17 do Decreto nº 70.235/72 que trata do Processo Administrativo Fiscal PAF, quanto o §5º do art. 67 do Regimento Interno do CARF são expressos no sentido de que a exigência de prequestionamento de matéria recorrida Fl. 387DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 388 4 é regra que se aplica exclusivamente ao contribuinte. Não poderia ser diferente, pois via de regra, salvo a necessidade de oposição de embargos o que não era o caso contra a decisão proferida, a primeira oportunidade de a Fazenda Nacional se manifestar nos autos se dá com a interposição do Recurso Especial. vale citar os dispositivos legais mencionados: "Art. 17. Considerarseá não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante." "Art. 67. Compete à CSRF, por suas turmas, julgar recurso especial interposto contra decisão que der à legislação tributária interpretação divergente da que lhe tenha dado outra câmara, turma de câmara, turma especial ou a própria CSRF. ... § 5º O recurso especial interposto pelo contribuinte somente terá seguimento quanto à matéria prequestionada, cabendo sua demonstração, com precisa indicação, nas peças processuais." Também não procede o argumento de que o recorrente busca uma reanálise das provas. O que se persegue com o recurso especial é definir a tese de que remessas de recursos ao exterior podem ser classificadas como aplicações financeiras para fins de apuração de Acréscimo Patrimonial. E aqui, embora seja possível a interposição de recurso com esse objetivo, temos um outro problema, isso porque o acórdão recorrido está fundamentado na Súmula CARF nº 67, aprovada por esta Câmara Superior de Recursos Fiscais. Via de regra, nos termos do art. 67 da então Portaria nº 256/2009, não caberia recurso especial de decisão de qualquer das turmas que aplicasse súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais ou do CARF; mesmo impedimento que consta no atual Regimento Interno. Nessas circunstâncias, conforme previsto no "Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial", perfeitamente aplicável ao caso, embora o recurso não possa ser utilizado como meio para se discutir o conteúdo da súmula utilizada, ele poderá ser admitido nas hipóteses em que o recorrente tenha como objetivo rediscutir se caberia ou não a aplicação da decisão sumulada ao caso enfrentado. Vale citar as explicações do Manual: 2.2.2 Utilização de Súmula do CARF Caso o acórdão recorrido tenha adotado entendimento de Súmula dos Conselhos de Contribuintes ou do CARF, ainda que a súmula tenha sido aprovada posteriormente à data da interposição do recurso, este não pode ter seguimento, relativamente à matéria sumulada (§ 3º, do art. 67, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015). Nesta hipótese de negativa de seguimento não cabe Agravo (art. 71, §2º, inciso VI, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, com a redação da Portaria MF nº 152, de 2016). Pode ocorrer, no entanto, de o recorrente questionar a aplicabilidade da súmula ao caso do acórdão recorrido. Nesta situação, o recurso pode ser admitido, desde que o paradigma, posterior à edição da súmula e tratando de situação similar à do Fl. 388DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 389 5 recorrido, deixe de aplicar o entendimento nela veiculado, justificando tal posicionamento. Isto porque, se o paradigma não veicula justificativa para a adoção de entendimento contrário à Súmula CARF, sujeitase à vedação contida no art. 67, §12, inciso III, do Anexo II, do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015. No caso concreto, a Fazenda Nacional cita como paradigma o acórdão nº 9202002.455 proferido em 08/11/2012, após a aprovação da súmula que se deu em 29/11/2010. Entretanto, referida decisão não faz qualquer referência à Súmula CARF nº 67, limitandose a concluir que transferências de valores para o exterior podem e devem ser classificadas como aplicações de recursos para fins de apuração de Acréscimo Patrimonial a Descoberto. Importante mencionar que, a Recorrente ao longo do seu recurso especial também não faz qualquer alusão que contraponha o entendimento do colegiado no uso da súmula ao caso concreto, ao contrário, a divergência jurisprudencial foi resumida simplesmente quanto ao ônus da prova: 15. Ora, entendemos devidamente caracterizada a divergência jurisprudencial, considerando que: a) para o paradigma, se fisco se desincumbiu do ônus de tornar evidente o fato constitutivo do seu direito, ou seja, demonstrou o excesso de gastos sobre a origem de recursos, cabe ao contribuinte comprovar, mediante a apresentação de documentos hábeis e idôneos, que tais dispêndios foram suportados por rendimentos tributáveis, isentos ou tributados exclusivamente na fonte, visto que é dele, e não do Fisco, o dever de provar a origem dos rendimentos; b) diferentemente, o v. acórdão recorrido entende que para a manutenção do auto de infração, não basta a demonstração pelo Fisco o excesso de gastos sobre a origem de recursos, sendo necessária ainda a comprovação pelo Fisco (e não pelo contribuinte) da destinação do recurso, da efetividade da despesa ou da aplicação ou do consumo da renda. Assim, considerando que não foram cumpridos os requisitos específicos para interposição de recurso especial contra acórdão cuja fundamentação tenha sido pela aplicação de súmula, nos termos do Manual de Admissibilidade de Recurso Especial, deixo de conhecer do recurso interposto pela Fazenda Nacional. Do mérito: Vencida quanto ao conhecimento passo ao mérito. Conforme mencionado no relatório, tratase de auto de infração para cobrança de Imposto de Renda Pessoa Física lavrado em razão da apuração de acréscimo patrimonial a descoberto. Consta do TVF que a ação fiscal teve como base, entre outros dispositivos, os art. 55, XIII, 806 e 807 do Decreto nº 3.000/99 RIR: Fl. 389DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 390 6 Art.55.São também tributáveis: ... XIII as quantias correspondentes ao acréscimo patrimonial da pessoa física, apurado mensalmente, quando esse acréscimo não for justificado pelos rendimentos tributáveis, não tributáveis, tributados exclusivamente na fonte ou objeto de tributação definitiva; Art.806.A autoridade fiscal poderá exigir do contribuinte os esclarecimentos que julgar necessários acerca da origem dos recursos e do destino dos dispêndios ou aplicações, sempre que as alterações declaradas importarem em aumento ou diminuição do patrimônio (Lei nº 4.069, de 1962, art. 51, §1º). Art.807. O acréscimo do patrimônio da pessoa física está sujeito à tributação quando a autoridade lançadora comprovar, à vista das declarações de rendimentos e de bens, não corresponder esse aumento aos rendimentos declarados, salvo se o contribuinte provar que aquele acréscimo teve origem em rendimentos não tributáveis, sujeitos à tributação definitiva ou já tributados exclusivamente na fonte. O acórdão recorrido, analisando o lançamento entendeu pela aplicação da Súmula CARF nº 67, fato contestado pela Fazenda Nacional em seu recurso especial. Referida súmula possui a seguinte redação: Súmula CARF nº 67: Em apuração de acréscimo patrimonial a descoberto a partir de fluxo de caixa que confronta origens e aplicações de recursos, os saques ou transferências bancárias, quando não comprovada a destinação, efetividade da despesa, aplicação ou consumo, não podem lastrear lançamento fiscal. Para melhor interpretação do seu texto, se faz essencial analisarmos o teor dos acórdãos de derem origem a aprovação da súmula que conforme consta no sítio deste Conselho seriam as decisões: CSRF/0104.603, acórdão nº 10617.156, acórdão nº 10615.820, acórdão nº 10419.123 e acórdão nº 10417.359. Todos os acórdãos, julgando lançamentos de IR sobre acréscimo patrimonial a descoberto concluíram ser essencial que a autoridade fiscal demonstre o efetivo ganho patrimonial do contribuinte, não se admitindo a presunção da sua existência por meio da análise de meras transferências bancárias, recebimento de depósitos e emissão de cheques. Salvo melhor juízo, para os citados julgados tais lançamentos somente subsistem se restar comprovado um incremento patrimonial, afinal 'acréscimo patrimonial' denota a idéia de uma riqueza nova a qual se caracteriza pelo excesso verificado entre todos os investimentos e despesas efetuados pelo contribuinte na obtenção desses novos ingressos em seu patrimônio. É em razão disso e com base no art. 55, XIII, 806 e 807 do Decreto nº 3.000/99 RIR que se exige que os lançamentos de APD sejam precedidos pela demonstração da evolução mensal patrimonial do contribuinte com base no seu 'fluxo de caixa' e ainda que haja outros elementos que corroborem com os indícios 'bancários' apurados pela fiscalização. Fl. 390DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 391 7 Entre os acórdãos que deram origem à súmula, vale citar a conclusão dos acórdãos 10417.359, 10419.123 e 10617.156. No primeiro acórdão a relatora, conselheira Leila Maria Scherrer Leitão, nos explica que não há qualquer impropriedade no lançamento de APD quando o levantamento se dá por meio do confronto entre 'origens/receitas' e 'aplicações/despesas', pois o sujeito passivo tem conhecimento da acusação, da infração tipificada, dos itens que a compõe, das provas levantadas pelo fisco podendo e devendo exercer seu direito de defesa por meio da apresentação de provas; de toda forma, deixa claro que a Fazenda não pode se furtar a comprovar a existência concreta do fato gerador. Neste cenário, derrubou parte do lançamento que tributava APD com base exclusivamente em cheques emitidos, extratos e depósitos bancários tidos como prova bastante da omissão de rendimentos e não apenas como indício a ser investigado e corroborado com outros elementos probatórios que autorizassem, em conjunto, a formação da convicção. No outro acórdão que deu origem à Súmula, o de nº 10419.123, o relator bem delimitou o caso: Não caberia a afirmação de que o lançamento no caso concreto não se baseara exclusivamente em extratos bancários (emissão de cheques), data vênia, improcede posto que não foi trazida aos autos nenhuma prova, ou sequer fortes indícios, de que o contribuinte realizara operações cujos resultados omitira ao fisco, depositados em sua conta corrente bancária Tudo não passou de presunção. E de presunção não autorizada por lei. De qualquer sorte, afigurase inegável, apesar da tributação ter origem em demonstrativos conhecidos por "fluxo de caixa", "fluxo financeiro" e "demonstrativos de origens e aplicações de recursos", "demonstrativos de evolução patrimonial", etc, que a origem da base de cálculo do tributo tomou exclusivamente como objeto de apuração os cheques emitidos (sem investigação) como renda consumida. Ora, tal procedimento que já não encontrava respaldo na jurisprudência do Egrégio Tribunal Federal de Recursos, foi definitivamente afastado pelo Decreto lei n.° 2.471, de 1988. Por fim, vale a análise do acórdão 10617.156 cujos acontecimentos fáticos se deram nas mesmas circunstâncias do lançamento ora analisado caso BANESTADO. No caso lá analisado além do fiscal ter deixado de realizar o confronto com base no 'fluxo de caixa' (conflito entre os recebidos e as aplicações mensais) do contribuinte, entendeu também o Colegiado que as provas eram frágeis; o fiscal no entendimento do colegiado sem qualquer apuração de ganho efetivo utilizouse exclusivamente das informações de remessa de divisa para o exterior à margem do sistema financeiro como prova robusta da ocorrência do fato gerador o que motivou o cancelamento do auto de infração. Importante transcrever parte do voto: A base de cálculo tributável teve origem em transações financeiras efetuadas em contas mantidas nos bancos americanos JP Morgan Chase/Beacon HillChello, Merchants Bank, Lespan Tbl e MTB Hudson Bank, nas quais o recorrente figuraria como ordenante de tais transações. A autoridade Fl. 391DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 392 8 autuante converteu cada transação pela taxa de conversão US$/Reais (disponível no sisbacen PTAX) da data da operação, tributando cada valor como omissão de rendimentos, em decorrência de variação patrimonial não respaldada por rendimentos declarados. Como consectário do imposto autuado, foi lançada a multa de oficio de 150%, já que o AuditorFiscal entendeu que a conduta do recorrente se subsumiu àquela do art. 44, II, da Lei n° 9.430/96. De plano, a autoridade autuante não poderia, simplesmente, considerar que as transações atribuídas ao recorrente seriam a base de cálculo do imposto lançado, como se o contribuinte não tivesse recursos declarados para fazer frente às remessas a si atribuídas. Ora, é cediço que a apuração da infração denominada "Acréscimo Patrimonial a Descoberto" deve ser feita a partir da metodologia de fluxos de caixa mensais, confrontando as origens (rendimentos declarados de todas as origens) com as aplicações de recursos (dispêndios efetuados pelo contribuinte). Assim procedendo, no mês em que as aplicações excederem as fontes de recursos, surge o acréscimo patrimonial a descoberto. Ocorre que a fiscalização assim não procedeu, considerando as meras transações como excesso de aplicações. Não houve qualquer confronto entre as origens e aplicações de recursos, não se podendo dizer, então, em que mês ocorreu o eventual excesso de aplicações sobre as fontes de recursos, ou se efetivamente houve acréscimo patrimonial a descoberto ao cabo de quaisquer dos anoscalendário em debate, já que a autoridade não solicitou esclarecimento sobre as origens de recursos e demais dispêndios do contribuinte, confrontandoos, aplicações e fontes, como exigido pelo art. 806 c/c o art. 807 do Decreto n°3.000/99. E acrescenta: No caso aqui em debate, as transferências em bancos norte americanos, imputadas ao contribuinte, foram consideradas como aplicação de recursos. Para tanto, seria necessário que a autoridade autuante comprovasse como tais transferências beneficiaram o recorrente, quer por consumo, quer por aumento patrimonial, isso, repisese, superando as questões anteriores da fragilidade probatória e da ausência do confronto das origens com as aplicações. Ocorre que não há qualquer prova nos autos demonstrando que o contribuinte tenha se beneficiado das remessas em debate, na via do consumo ou da aplicação de recursos. Observamos, portanto, que a súmula foi editada em um cenário onde a fiscalização de forma equivocada, diante da simples não comprovação pelo contribuinte da origem de valores apurados em razão de informações bancárias, utilizavase de uma presunção cuja aplicabilidade deveria estar acompanhada da existência de outros elementos que levassem a conclusão da ocorrência de um incremento patrimonial. Ou seja, a súmula não afasta a possibilidade de que transferências bancárias sejam classificadas como aplicações de recurso, o Fl. 392DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 393 9 que ela veda é que somente essa informação sirva como razão para sustentar lançamento de APD. Partindose dessa premissa nos resta apurar se no caso ora julgado haveria espaço para aplicação da Súmula CARF nº 67. O fato gerador atribuído ao contribuinte como acréscimo patrimonial restou caracterizado pela fiscalização em razão da remessa de valores pra contas bancárias de instituições financeiras localizadas no exterior. Tomouse como informações os dados compartilhados entre a Receita Federal do Brasil, a Polícia Federal e órgãos do Poder Judiciário em investigação que ficou conhecida como operação BANESTADO. Diante dos dados analisados pela fiscalização o APD foi assim apurado: Buscouse apurar eventual acréscimo patrimonial a descoberto correspondente ao excesso de aplicações sobre origens, não respaldado por rendimentos declarados/comprovados. Para este fim, mensalmente, cotejouse todas as disponibilidades do fiscalizado (declaradas ou não) com as aquisições de patrimônio, os dispêndios efetuados e outras aplicações de recursos. Assim, analisouse a evolução patrimonial alicerçandoa nas informações recuperadas dos sistemas informatizados desta Secretaria e nas coletadas de fontes externas, especificamente, das informações trazidas sobre a remessa de dólares para o exterior tendo como instituição financeira de origem CITIBANK e destinatária HUDSON BANK USA. Por fim, cabe esclarecer que: a) alocaramse as aplicações de recursos, com data de realização indefinida, no mês de dezembro, por ser este o mês mais favorável à fiscalizada no cômputo final da análise. Da mesma forma, os recursos, com data de realização indefinida, foram alocados no início do anocalendário, mês de janeiro, por ser este o mês mais favorável à fiscalizada (art. 112 do Código Tributário Nacional); b) foram considerados e lançados no demonstrativo da evolução patrimonial e financeira, como recursos/origens (anexos) os rendimentos tributáveis valores percebidos das fontes pagadoras e de pessoas físicas, insertos na Declaração de Ajuste Anual (Dirpl) dos exercícios sob exame, apresentada pelo fiscalizado; os rendimentos isentos e não tributáveis lucros e dividendos distribuídos, também inserto nas Dirpf; o s rendimentos tributados exclusivamente na fonte: 13° salário; alienação de veículo; Fl. 393DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 394 10 c) foram considerados e alocados no demonstrativo da evolução patrimonial e financeira, como dispêndios/aplicações (anexos); as deduções como: dependentes, despesas com instrução e despesas médicas, efetuadas nas Dirpf dos exercícios em exame; as remessas realizadas para o exterior em dólares convertidos para reais, pela tabela de cotação de compra do dólar dos Estados Unidos, fixados pelo Banco Central do Brasil, em vigor no dia da ocorrência do fato gerador da obrigação (art. 143 do CTN Lei 5172/66), como segue: (...) Feito o "Demonstrativo da Variação Patrimonial" fundada nas informações coletadas pela fiscalização, revelouse excessos de gastos não justificados com os rendimentos declarados, presumindose rendimentos auferidos e não submetidos à tributação nos meses de 01/2001 a 12/2001, 02/2002 a 10/2002 e 12/2002. Lembramos também, que o presente lançamento, como dito acima, é resultado de um amplo aparato de investigação que envolveu diversos órgãos nacionais e estrangeiros, tendo sido deflagrada grande operação de movimentação de recursos à margem do sistema financeiro nacional com a participação de centenas de contribuintes. Observamos portanto que, na visão do fiscal, o lançamento possui duas razões de ser. Cumprindo o que determinam os art. 806 e 807 do RIR/99, teríamos a comprovação por meio do confronto de informações financeiras de um excedente patrimonial e ainda teríamos fortes indícios/provas de conduta realizada com o intuito de ocultação de informações sobre fatos geradores do tributo. Neste cenário, confrontando o lançamento com o entendimento dos julgados que fundamentaram a Súmula CARF nº 67, concluo pela inaplicabilidade dessa ao caso concreto. Afastada a aplicação da súmula, necessário se faz o retorno dos autos ao Colegiado a quo para análise das demais questões postas no Recurso Voluntário. Diante do exposto, dou provimento ao recurso especial interposto pela Fazenda Nacional, devendo os autos retornarem à turma a quo para apreciação das demais matérias constantes dos recurso voluntário. (assinado digitalmente) Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri Voto Vencedor Conselheira Maria Helena Cotta Cardozo Redatora Designada Discordo do voto da Ilustre Conselheira Relatora, apenas no que tange ao conhecimento do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional, na parte em que aplica o Fl. 394DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 395 11 Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial para justificar a vedação do apelo à Instância Especial. O Recurso Especial ora analisado foi interposto em 13/03/2013 (fls. 269), portanto na vigência do Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 256, de 2009. Por outro lado, o Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial que se pretendeu aplicar ao presente caso, foi aprovado pela Portaria CARF nº 56, de 2016, na versão vigente a partir de setembro de 2017. Dito Manual foi elaborado com base no Regimento Interno do CARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 2015, e alterações posteriores, inclusive as promovidas pelas Portarias MF nºs 152, de 2016, e 329, de 2017. Assim, ao tempo da interposição do Recurso Especial ora tratado, em 2013, não havia qualquer ato administrativo adicional, vinculando ou estabelecendo procedimentos específicos atinentes aos Recursos Especiais, portanto não há como exigirse da Recorrente o cumprimento desses requisitos, àquela época. Corroborando esse entendimento, esclareçase que os requisitos relativos aos Recursos Especiais abordando matéria sumulada, transcritos no voto da Ilustre Conselheira Relatora como óbices ao conhecimento do apelo, foram inseridos no Manual de Exame de Admissibilidade de Recurso Especial, na versão vigente a partir de setembro de 2017, tendo em vista basicamente o disposto na Portaria MF nº 152, de 2016, que passou a prever o requerimento de Agravo: "Art. 71. Cabe agravo do despacho que negar seguimento, total ou parcial, ao recurso especial. § 1º O agravo será requerido em petição dirigida ao Presidente da Câmara Superior de Recursos Fiscais, no prazo de cinco dias contado da ciência do despacho que lhe negou seguimento. § 2º O agravo não é cabível nos casos em que a negativa de seguimento tenha decorrido de: (...) VI observância, pelo acórdão recorrido, de súmula de jurisprudência dos Conselhos de Contribuintes, da Câmara Superior de Recursos Fiscais ou do CARF, bem como das decisões de que tratam os incisos I a III do § 12 do art. 67, salvo nos casos em que o recurso especial verse sobre a não aplicação, ao caso concreto, dos enunciados ou dessas decisões." Diante do exposto, conheço do Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional. (assinado digitalmente) Maria Helena Cotta Cardozo Fl. 395DF CARF MF Processo nº 19515.002766/200651 Acórdão n.º 9202006.270 CSRFT2 Fl. 396 12 Fl. 396DF CARF MF
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Numero do processo: 10850.721133/2011-27
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Tue Dec 12 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Jan 08 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário
Período de apuração: 30/04/1999 a 30/11/2002
Ementa:
PIS. BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º, DA LEI Nº 9.718/98, QUE AMPLIAVA O CONCEITO DE FATURAMENTO. NÃO INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE RECEITAS NÃO COMPREENDIDAS NO CONCEITO DE FATURAMENTO ESTABELECIDO PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL PREVIAMENTE À PUBLICAÇÃO DA EC Nº 20/98.
A base de cálculo do PIS e da COFINS é o faturamento, assim compreendido a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza. Inadmissível o conceito ampliado de faturamento contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, uma vez que referido dispositivo foi declarado inconstitucional pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).
Diante disso, não poderão integrar a base de cálculo da contribuição as receitas não compreendidas no conceito de faturamento previsto no art. 195, I, b, na redação originária da Constituição Federal de 1988, previamente à publicação da Emenda Constitucional nº 20, de 1998.
Recurso voluntário provido. Direito creditório reconhecido.
Numero da decisão: 3402-004.784
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário.
Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto.
Diego Diniz Ribeiro - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Larissa Nunes Girard (suplente) e Carlos Augusto Daniel Neto.
Nome do relator: DIEGO DINIZ RIBEIRO
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ementa_s : Assunto: Normas Gerais de Direito Tributário Período de apuração: 30/04/1999 a 30/11/2002 Ementa: PIS. BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º, DA LEI Nº 9.718/98, QUE AMPLIAVA O CONCEITO DE FATURAMENTO. NÃO INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE RECEITAS NÃO COMPREENDIDAS NO CONCEITO DE FATURAMENTO ESTABELECIDO PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL PREVIAMENTE À PUBLICAÇÃO DA EC Nº 20/98. A base de cálculo do PIS e da COFINS é o faturamento, assim compreendido a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza. Inadmissível o conceito ampliado de faturamento contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, uma vez que referido dispositivo foi declarado inconstitucional pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Diante disso, não poderão integrar a base de cálculo da contribuição as receitas não compreendidas no conceito de faturamento previsto no art. 195, I, b, na redação originária da Constituição Federal de 1988, previamente à publicação da Emenda Constitucional nº 20, de 1998. Recurso voluntário provido. Direito creditório reconhecido.
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Waldir Navarro Bezerra - Presidente substituto. Diego Diniz Ribeiro - Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Larissa Nunes Girard (suplente) e Carlos Augusto Daniel Neto.
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 4; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1755; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C4T2 Fl. 2 1 1 S3C4T2 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10850.721133/201127 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3402004.784 – 4ª Câmara / 2ª Turma Ordinária Sessão de 12 de dezembro de 2017 Matéria Compensação Recorrente G. V. HOLDING S/A Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 30/04/1999 a 30/11/2002 Ementa: PIS. BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º, DA LEI Nº 9.718/98, QUE AMPLIAVA O CONCEITO DE FATURAMENTO. NÃO INCIDÊNCIA DA CONTRIBUIÇÃO SOBRE RECEITAS NÃO COMPREENDIDAS NO CONCEITO DE FATURAMENTO ESTABELECIDO PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL PREVIAMENTE À PUBLICAÇÃO DA EC Nº 20/98. A base de cálculo do PIS e da COFINS é o faturamento, assim compreendido a receita bruta das vendas de mercadorias, de mercadorias e serviços e de serviços de qualquer natureza. Inadmissível o conceito ampliado de faturamento contido no § 1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, uma vez que referido dispositivo foi declarado inconstitucional pelo plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Diante disso, não poderão integrar a base de cálculo da contribuição as receitas não compreendidas no conceito de faturamento previsto no art. 195, I, “b”, na redação originária da Constituição Federal de 1988, previamente à publicação da Emenda Constitucional nº 20, de 1998. Recurso voluntário provido. Direito creditório reconhecido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento ao Recurso Voluntário. Waldir Navarro Bezerra Presidente substituto. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 85 0. 72 11 33 /2 01 1- 27 Fl. 1315DF CARF MF 2 Diego Diniz Ribeiro Relator. Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Waldir Navarro Bezerra, Diego Diniz Ribeiro, Maria Aparecida Martins de Paula, Thais De Laurentiis Galkowicz, Pedro Sousa Bispo, Maysa de Sá Pittondo Deligne, Larissa Nunes Girard (suplente) e Carlos Augusto Daniel Neto. Relatório 1. Tratase de processo administrativo decorrente da apresentação de manifestação de inconformidade contra despacho decisório que não homologou compensação declarada pelo contribuinte. 2. Segundo consta dos autos, o contribuinte alega possuir um crédito tributário decorrente do pagamento a maior de PIS, nos termos exigidos pelo art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98, o qual foi julgado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, por intermédio do RE n. 357.950, afetado por repercussão geral. 3. Referida manifestação de inconformidade foi julgada improcedente pela DRJ de Ribeirão Preto (acórdão n. 1444.842 fls. 948/955) nos termos do que se depreende da ementa abaixo transcrita: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 30/04/1999 a 30/11/2002 AMPLIAÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. INCONSTITUCIONALIDADE. A inconstitucionalidade da ampliação da base de cálculo da Cofins e da Contribuição para o PIS/Pasep, reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em recurso extraordinário, não gera efeitos erga omnes, sendo incabível sua aplicação a contribuintes que não façam parte da respectiva ação. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 30/04/1999 a 30/11/2002 PROVA DOCUMENTAL. PRECLUSÃO. A prova documental do direito creditório deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de o contribuinte fazêlo em outro momento processual sem que verifiquem as exceções previstas em lei. Manifestação de Inconformidade Improcedente. Direito Creditório Não Reconhecido. 4. Diante deste quadro, o contribuinte interpôs recurso voluntário alegando a legitimidade do seu crédito, bem como a submissão do Poder Executivo ao precedente vinculante do STF veiculado no âmbito do julgamento do RE n. 390.840/MG. 5. É o relatório. Fl. 1316DF CARF MF Processo nº 10850.721133/201127 Acórdão n.º 3402004.784 S3C4T2 Fl. 3 3 Voto Conselheiro Diego Diniz Ribeiro 6. O recurso voluntário é tempestivo e preenche os demais pressupostos formais de admissibilidade, motivo pelo qual dele tomo conhecimento. I. O mérito da compensação realizada 7. A juridicidade do crédito do contribuinte deve ser reconhecida, haja vista que a sua origem decorre da inconstitucionalidade do art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98, assim reconhecida pelo STF quando do julgamento do RE n. 357.950, afetado por repercussão geral, e que restou assim ementado: CONSTITUCIONALIDADE SUPERVENIENTE ARTIGO 3º, § 1º, DA LEI Nº 9.718, DE 27 DE NOVEMBRO DE 1998 EMENDA CONSTITUCIONAL Nº 20, DE 15 DE DEZEMBRO DE 1998. O sistema jurídico brasileiro não contempla a figura da constitucionalidade superveniente. TRIBUTÁRIO INSTITUTOS EXPRESSÕES E VOCÁBULOS SENTIDO. A norma pedagógica do artigo 110 do Código Tributário Nacional ressalta a impossibilidade de a lei tributária alterar a definição, o conteúdo e o alcance de consagrados institutos, conceitos e formas de direito privado utilizados expressa ou implicitamente. Sobrepõese ao aspecto formal o princípio da realidade, considerados os elementos tributários. CONTRIBUIÇÃO SOCIAL PIS RECEITA BRUTA NOÇÃO INCONSTITUCIONALIDADE DO § 1º DO ARTIGO 3º DA LEI Nº 9.718/98. A jurisprudência do Supremo, ante a redação do artigo 195 da Carta Federal anterior à Emenda Constitucional nº 20/98, consolidouse no sentido de tomar as expressões receita bruta e faturamento como sinônimas, jungindoas à venda de mercadorias, de serviços ou de mercadorias e serviços. É inconstitucional o § 1º do artigo 3º da Lei nº 9.718/98, no que ampliou o conceito de receita bruta para envolver a totalidade das receitas auferidas por pessoas jurídicas, independentemente da atividade por elas desenvolvida e da classificação contábil adotada. (STF; RE 390840, Relator: Min. MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 09/11/2005, DJ 15082006 PP00025 EMENT VOL0224203 PP00372 RDDT n. 133, 2006, p. 214 215) Fl. 1317DF CARF MF 4 8. Referida decisão vincula este órgão julgador, nos termos art. 62, do RICARF, in verbis: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...). § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) 9. Assim, o crédito do contribuinte é juridicamente válido, cabendo à fiscalização tãosomente apurar se o montante aproveitado pelo contribuinte efetivamente retrata o aludido crédito. Dispositivo 10. Diante do exposto voto por dar provimento ao recurso voluntário interposto pelo contribuinte, reconhecendo a juridicidade do crédito por ele vindicado, de modo que a compensação apresentada pelo contribuinte seja analisada pela RFB apenas para fins de apuração quanto à exatidão do montante compensado. 11. É como voto. Diego Diniz Ribeiro Relator Fl. 1318DF CARF MF
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Numero do processo: 15504.014602/2009-97
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/10/2007 a 31/05/2008
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.902
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 50 4. 01 46 02 /2 00 9- 97 Fl. 456DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 457DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 458DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 459DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 460DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 461DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 462DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 463DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 464DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 465DF CARF MF Processo nº 15504.014602/200997 Acórdão n.º 9202005.902 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 466DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 19515.005196/2009-01
Turma: 2ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 2ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Sep 26 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Nov 28 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2004 a 31/12/2004
CONTRIBUIÇÕES PREVIDENCIÁRIAS. AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta.
O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo.
Numero da decisão: 9202-005.954
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009.
(assinado digitalmente)
Luiz Eduardo de Oliveira Santos Presidente em exercício e Relator
Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri.
Nome do relator: LUIZ EDUARDO DE OLIVEIRA SANTOS
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AUTO DE INFRAÇÃO. APLICAÇÃO DE PENALIDADE. PRINCÍPIO DA RETROATIVIDADE BENIGNA. LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, antes de tudo, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto que sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. O cálculo da penalidade deve ser efetuado em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, se mais benéfico para o sujeito passivo. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 19 51 5. 00 51 96 /2 00 9- 01 Fl. 759DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 2 (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Presidente em exercício e Relator Participaram do presente julgamento os Conselheiros Luiz Eduardo de Oliveira Santos (Presidente em Exercício), Maria Helena Cotta Cardozo, Patricia da Silva, Elaine Cristina Monteiro e Silva Vieira, Ana Paula Fernandes, Heitor de Souza Lima Junior, Ana Cecília Lustosa da Cruz (suplente convocada) e Rita Eliza Reis da Costa Bacchieri. Relatório O presente recurso foi objeto de julgamento na sistemática prevista no art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, adoto o relatório objeto do processo paradigma deste julgamento, n° 15979.000274/200701. Tratase de auto de infração, referente às contribuições devidas ao INSS, destinadas à Seguridade Social. A divergência em exame reportase à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. A Fazenda Nacional interpôs recurso especial requerendo que a retroatividade benigna fosse aplicada, essencialmente, pelos critérios constantes na Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Cientificado, o sujeito passivo não apresentou contrarrazões. É o relatório. Fl. 760DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 3 Voto Conselheiro Luiz Eduardo de Oliveira Santos – Relator Este processo foi julgado na sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9202005.782, de 26/09/2017, proferido no julgamento do processo 15979.000274/200701, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio nos termos regimentais, o inteiro teor do voto proferido naquela decisão (Acórdão 9202005.782): Pressupostos De Admissibilidade O Recurso Especial interposto pela Fazenda Nacional é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade, portanto deve ser conhecido. Do mérito Aplicação da multa retroatividade benigna Cingese a controvérsia às penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP nº 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009, quando mais benéfica ao sujeito passivo. A solução do litígio decorre do disposto no artigo 106, inciso II, alínea “a” do CTN, a seguir transcrito: Art. 106. A lei aplicase a ato ou fato pretérito: I em qualquer caso, quando seja expressamente interpretativa, excluída a aplicação de penalidade à infração dos dispositivos interpretados; II tratandose de ato não definitivamente julgado: a) quando deixe de definilo como infração; b) quando deixe de tratálo como contrário a qualquer exigência de ação ou omissão, desde que não tenha sido fraudulento e não tenha implicado em falta de pagamento de tributo; c) quando lhe comine penalidade menos severa que a prevista na lei vigente ao tempo da sua prática. (grifos acrescidos) De inicio, cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade Fl. 761DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 4 benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdãonº9202004.262 (Sessão de23dejunhode2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Fl. 762DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 5 A comparação de que trata o item anterior tem por fim a aplicação da retroatividade benigna prevista no art. 106 do CTN e, caso necessário, a retificação dos valores no sistema de cobrança, a fim de que, em cada competência, o valor da multa aplicada no AIOA somado com a multa aplicada na NFLD/AIOP não exceda o percentual de 75%. Prosseguindo na análise do tema, também é entendimento pacífico deste Colegiado que na hipótese de lançamento apenas de obrigação principal, a retroatividade benigna será aplicada se, na liquidação do acórdão, a penalidade anterior à vigência da MP 449, de 2008, ultrapassar a multa do art. 35A da Lei n° 8.212/91, correspondente aos 75% previstos no art. 44 da Lei n° 9.430/96. Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º doart. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pelaMP 449 (convertida na Lei 11.941, de 2009), tenham sido aplicadas isoladamente descumprimento de obrigação acessória sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal deverão ser comparadas com as penalidades previstas noart. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, bem assim no caso de competências em que o lançamento da obrigação principal tenha sido atingida pela decadência. Neste sentido, transcrevese excerto do voto unânime proferido no Acórdãonº9202004.499 (Sessão de 29desetembrode2016): Até a edição da MP 449/2008, quando realizado um procedimento fiscal, em que se constatava a existência de débitos previdenciários, lavravase em relação ao montante da contribuição devida, notificação fiscal de lançamento de débito NFLD. Caso constatado que, além do montante devido, descumprira o contribuinte obrigação acessória, ou seja, obrigação de fazer, como no caso de omissão em GFIP (que tem correlação direta com o fato gerador), a empresa era autuada também por descumprimento de obrigação acessória. Nessa época os dispositivos legais aplicáveis eram multa art. 35 para a NFLD (24%, que sofria acréscimos dependendo da fase processual do débito) e art. 32 (100% da contribuição devida em caso de omissões de fatos geradores em GFIP) para o Auto de infração de obrigação acessória. Contudo, a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, inseriu o art. 32A, o qual dispõe o seguinte: “Art. 32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do caput do art. 32 desta Lei no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: Fl. 763DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 6 I – de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de 10 (dez) informações incorretas ou omitidas; e II – de 2% (dois por cento) ao mêscalendário ou fração, incidentes sobre o montante das contribuições informadas, ainda que integralmente pagas, no caso de falta de entrega da declaração ou entrega após o prazo, limitada a 20% (vinte por cento), observado o disposto no § 3o deste artigo. § 1o Para efeito de aplicação da multa prevista no inciso II do caput deste artigo, será considerado como termo inicial o dia seguinte ao término do prazo fixado para entrega da declaração e como termo final a data da efetiva entrega ou, no caso de nãoapresentação, a data da lavratura do auto de infração ou da notificação de lançamento. § 2o Observado o disposto no § 3o deste artigo, as multas serão reduzidas: I – à metade, quando a declaração for apresentada após o prazo, mas antes de qualquer procedimento de ofício; ou II – a 75% (setenta e cinco por cento), se houver apresentação da declaração no prazo fixado em intimação. § 3o A multa mínima a ser aplicada será de: I – R$ 200,00 (duzentos reais), tratandose de omissão de declaração sem ocorrência de fatos geradores de contribuição previdenciária; e II – R$ 500,00 (quinhentos reais), nos demais casos.” Entretanto, a MP 449, Lei 11.941/2009, também acrescentou o art. 35A que dispõe o seguinte, “Art. 35A. Nos casos de lançamento de ofício relativos às contribuições referidas no art. 35 desta Lei, aplicase o disposto no art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996.” O inciso I do art. 44 da Lei 9.430/96, por sua vez, dispõe o seguinte: “Art. 44. Nos casos de lançamento de ofício, serão aplicadas as seguintes multas: I de 75% (setenta e cinco por cento) sobre a totalidade ou diferença de imposto ou contribuição nos casos de falta de pagamento ou recolhimento, de falta de declaração e nos de declaração inexata “ Com a alteração acima, em caso de atraso, cujo recolhimento não ocorrer de forma espontânea pelo contribuinte, levando ao lançamento de ofício, a multa a ser aplicada passa a ser a estabelecida no dispositivo acima citado, ou seja, em havendo lançamento da obrigação principal (a antiga NFLD), aplicase multa de ofício no patamar de 75%. Essa conclusão levanos ao Fl. 764DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 7 raciocínio que a natureza da multa, sempre que existe lançamento, referese a multa de ofício e não a multa de mora referida no antigo art. 35 da lei 8212/91. Contudo, mesmo que consideremos que a natureza da multa é de "multa de ofício" não podemos isoladamente aplicar 75% para as Notificações Fiscais NFLD ou Autos de Infração de Obrigação Principal AIOP, pois estaríamos na verdade retroagindo para agravar a penalidade aplicada. Por outro lado, com base nas alterações legislativas não mais caberia, nos patamares anteriormente existentes, aplicação de NFLD + AIOA (Auto de Infração de Obrigação Acessória) cumulativamente, pois em existindo lançamento de ofício a multa passa a ser exclusivamente de 75%. Tendo identificado que a natureza da multa, sempre que há lançamento, é de multa de ofício, considerando o princípio da retroatividade benigna previsto no art. 106. inciso II, alínea “c”, do Código Tributário Nacional, há que se verificar a situação mais favorável ao sujeito passivo, face às alterações trazidas. No presente caso, foi lavrado AIOA julgada, e alvo do presente recurso especial, prevaleceu o valor de multa aplicado nos moldes do art. 32A. No caso da ausência de informação em GFIP, conforme descrito no relatório a multa aplicada ocorreu nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º, da Lei nº 8.212/1991 também revogado, o qual previa uma multa no valor de 100% (cem por cento) da contribuição não declarada, limitada aos limites previstos no § 4º do mesmo artigo. Face essas considerações para efeitos da apuração da situação mais favorável, entendo que há que se observar qual das seguintes situações resulta mais favorável ao contribuinte: · Norma anterior, pela soma da multa aplicada nos moldes do art. 35, inciso II com a multa prevista no art. 32, inciso IV, § 5º, observada a limitação imposta pelo § 4º do mesmo artigo, ou · Norma atual, pela aplicação da multa de setenta e cinco por cento sobre os valores não declarados, sem qualquer limitação, excluído o valor de multa mantido na notificação. Levando em consideração a legislação mais benéfica ao contribuinte, conforme dispõe o art. 106 do Código Tributário Nacional (CTN), o órgão responsável pela execução do acórdão deve, quando do trânsito em julgado administrativo, efetuar o cálculo da multa, em cada competência, somando o valor da multa aplicada no AI de obrigação acessória com a multa aplicada na Fl. 765DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 8 NFLD/AIOP, que não pode exceder o percentual de 75%, previsto no art. 44, I da Lei n° 9.430/1996. Da mesma forma, no lançamento apenas de obrigação principal o valor das multa de ofício não pode exceder 75%. No AI de obrigação acessória, isoladamente, o percentual não pode exceder as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Observese que, no caso de competências em que a obrigação principal tenha sido atingida pela decadência (pela antecipação do pagamento nos termos do art. 150, § 4º, do CTN), subsiste a obrigação acessória, isoladamente, relativa às mesmas competências, não atingidas pela decadência posto que regidas pelo art. 173, I, do CTN, e que, portanto, deve ter sua penalidade limitada ao valor previsto no artigo 32A da Lei nº 8.212, de 1991. Cumpre ressaltar que o entendimento acima está em consonância com o que dispõe a Instrução Normativa RFB nº 971, de 13 de novembro de 2009, alterada pela Instrução Normativa RFB nº 1.027 em 22/04/2010, e no mesmo diapasão do que estabelece a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009, que contempla tanto os lançamentos de obrigação principal quanto de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente. Neste passo, para os fatos geradores ocorridos até 03/12/2008, a autoridade responsável pela execução do acórdão, quando do trânsito em julgado administrativo, deverá observar a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 que se reporta à aplicação do princípio da retroatividade benigna previsto no artigo 106, inciso II, alínea “c”, do CTN, em face das penalidades aplicadas às contribuições previdenciárias nos lançamentos de obrigação principal e de obrigação acessória, em conjunto ou isoladamente, previstas na Lei nº 8.212/1991, com as alterações promovidas pela MP 449/2008, convertida na Lei nº 11.941/2009. De fato, as disposições da referida Portaria, a seguir transcritas, estão em consonância com a jurisprudência unânime desta 2ª Turma da CSRF sobre o tema: Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009 Art. 1º A aplicação do disposto nos arts. 35 e 35A da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009, às prestações de parcelamento e aos demais débitos não pagos até 3 de dezembro de 2008, inscritos ou não em Dívida Ativa, cobrados por meio de processo ainda não definitivamente julgado, observará o disposto nesta Portaria. Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Fl. 766DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 9 § 1º Caso não haja pagamento ou parcelamento do débito, a análise do valor das multas referidas no caput será realizada no momento do ajuizamento da execução fiscal pela ProcuradoriaGeral da Fazenda Nacional (PGFN). § 2º A análise a que se refere o caput darseá por competência. § 3º A aplicação da penalidade mais benéfica na forma deste artigo darseá: I mediante requerimento do sujeito passivo, dirigido à autoridade administrativa competente, informando e comprovando que se subsume à mencionada hipótese; ou II de ofício, quando verificada pela autoridade administrativa a possibilidade de aplicação. § 4º Se o processo encontrarse em trâmite no contencioso administrativo de primeira instância, a autoridade julgadora fará constar de sua decisão que a análise do valor das multas para verificação e aplicação daquela que for mais benéfica, se cabível, será realizada no momento do pagamento ou do parcelamento. Art. 3º A análise da penalidade mais benéfica, a que se refere esta Portaria, será realizada pela comparação entre a soma dos valores das multas aplicadas nos lançamentos por descumprimento de obrigação principal, conforme o art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e de obrigações acessórias, conforme §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, e da multa de ofício calculada na forma do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009. § 1º Caso as multas previstas nos §§ 4º e 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, tenham sido aplicadas isoladamente, sem a imposição de penalidade pecuniária pelo descumprimento de obrigação principal, deverão ser comparadas com as penalidades previstas no art. 32A da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. § 2º A comparação na forma do caput deverá ser efetuada em relação aos processos conexos, devendo ser considerados, inclusive, os débitos pagos, os parcelados, os nãoimpugnados, os inscritos em Dívida Ativa da União e os ajuizados após a publicação da Medida Provisória nº 449, de 3 de dezembro de 2008. Art. 4º O valor das multas aplicadas, na forma do art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação anterior à dada pela Lei nº 11.941, de 2009, sobre as contribuições devidas a terceiros, assim entendidas outras entidades e fundos, deverá ser comparado com o valor das multa de Fl. 767DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 10 ofício previsto no art. 35A daquela Lei, acrescido pela Lei nº 11.941, de 2009, e, caso resulte mais benéfico ao sujeito passivo, será reduzido àquele patamar. Art. 5º Na hipótese de ter havido lançamento de ofício relativo a contribuições declaradas na Guia de Recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço e Informações à Previdência Social (GFIP), a multa aplicada limitarseá àquela prevista no art. 35 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009. Em face ao exposto, dou provimento ao recurso para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. Por fim, destacase que, independente do lançamento fiscal analisado referirse a Auto de Infração de Obrigação Principal (AIOP) e Acessória (AIOA), este último consubstanciado na omissão de fatos geradores em GFIP, lançados em conjunto, ou seja formalizados em um mesmo processo, ou em processos separados, a aplicação da legislação não sofrerá qualquer alteração, posto que a Portaria PGFN/RFB nº 14/2009 contempla todas as possibilidades, já que a tese ali adotada tem por base a natureza das multas. Conclusão Face o exposto, voto no sentido de CONHECER do recurso ESPECIAL DA FAZENDA NACIONAL, para, no mérito, DAR LHE PROVIMENTO, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14 de 04 de dezembro de 2009. É como voto. Face o exposto, voto por conhecer do Recurso Especial e, no mérito, darlhe provimento, para que a retroatividade benigna seja aplicada em conformidade com a Portaria PGFN/RFB nº 14, de 2009. (assinado digitalmente) Luiz Eduardo de Oliveira Santos Fl. 768DF CARF MF Processo nº 19515.005196/200901 Acórdão n.º 9202005.954 CSRFT2 Fl. 0 11 Fl. 769DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 11543.001562/2005-72
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Terceira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Sep 28 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Mon Oct 30 00:00:00 UTC 2017
Numero da decisão: 3401-001.191
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a unidade da RFB atenda o demandado na Resolução 3401-001.543
ROSALDO TREVISAN - Presidente.
TIAGO GUERRA MACHADO - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vice-presidente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado. O Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves atuou em substituição ao Conselheiro Robson José Bayerl, que declarou suspeição.
Nome do relator: TIAGO GUERRA MACHADO
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Recorrida FAZENDA NACIONAL Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, converter o julgamento em diligência, para que a unidade da RFB atenda o demandado na Resolução 3401001.543 ROSALDO TREVISAN Presidente. TIAGO GUERRA MACHADO Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Rosaldo Trevisan (presidente da turma), Leonardo Ogassawara de Araújo Branco (vicepresidente), Augusto Fiel Jorge D'Oliveira, Mara Cristina Sifuentes, André Henrique Lemos, Fenelon Moscoso de Almeida, Tiago Guerra Machado. O Conselheiro Carlos Alberto da Silva Esteves atuou em substituição ao Conselheiro Robson José Bayerl, que declarou suspeição. Tratase de Recurso Voluntário contra o Acórdão da DRJ/RJ( fls. 267 e seguintes, que julgou improcedente a Manifestação de Inconformidade (fls. 115/128), contra o indeferimento parcial dos Pedidos de Ressarcimentos no valor total de R$ 653.347,35, relativos à contribuição para o PIS/PASEP não cumulativa referente ao ano de 2005. Do Despacho Decisório e da Verificação Fiscal Precedente (fls 87 e seguintes) De forma preparatória ao despacho que negou parcialmente o direito creditório, a RFB procedeu à análise da veracidade dos pretensos créditos das contribuições não cumulativas decorrente da aquisição de café. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 15 43 .0 01 56 2/ 20 05 -7 2 Fl. 3252DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.239 2 Foi verificado que: Fl. 3253DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.240 3 Fl. 3254DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.241 4 Diante desse cenário, a Fiscalização recompôs o saldo de créditos excluindose tais operações como geradores do direito ao desconto por ocasião da sistemática não cumulativa: Da Manifestação de Inconformidade Irresignado, o contribuinte apresentou Manifestação de Inconformidade às fls. 116, que, em síntese, alega: Violação aos preceitos constitucionais do direito ao contraditório e da ampla defesa, e requer a nulidade nos termos do artigo 59, do Decreto 70.235/1972 Defende a ausência de nexo causal entre as operações Broca e Tempo de Colheita com as operações realizadas pela Recorrente, porque já adquiria café de algumas empresas citadas como “de fachada” antes da criação do PIS/COFINS não cumulativos e que os diretores da Recorrente não foram denunciados pelos Ministério Público Federal por ocasião daquelas investigações; Alega que todas as empresas com quem realizaram negócios de tal natureza estavam ativas no CNPJ e no SINTEGRA, porém, não juntou provas que houve o recebimento físico das mercadorias adquiridas nem provas relativas ao efetivo pagamento por tais aquisições. Da Decisão de Primeiro Grau Sobreveio o acórdão da DRJ/RJ que manteve o despacho decisório de fls. 90 e seguintes sob os fundamentos sumarizados na sua ementa abaixo: Fl. 3255DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.242 5 ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/01/2005 a 31/12/2005 Nulidade. Não padece de nulidade a decisão, lavrada por autoridade competente, contra a qual o contribuinte pode exercer plenamente o seu direito ao contraditório e à ampla defesa. PIS/Pasep. Ressarcimento/Compensação. Créditos da NãoCumulatividade. Glosa. Dissimulação. Negócio Ilícito. Comprovada a existência de simulação/dissimulação por meio de interposta pessoa, com o fim exclusivo de afastar o pagamento da contribuição devida, ou mesmo de se obter ressarcimento ou compensação mediante a utilização de créditos fictícios, é de se glosar os créditos decorrentes dos expedientes ilícitos, desconsiderando os negócios fraudulentos, a fim de fazer recair a responsabilidade tributária sobre o sujeito passivo. Matéria não Impugnada. Operamse os efeitos preclusivos previstos nas normas do processo administrativo fiscal em relação à matéria que não tenha sido expressamente contestada pelo impugnante. Processo Administrativo Fiscal. Elementos de Prova. A prova deve ser apresentada na manifestação de inconformidade, precluindo o direito de fazêlo em outro momento processual, por força do artigo 16, § 4°, do Decreto n° 70.235/72. Manifestação de Inconformidade Improcedente Direito Creditório Não Reconhecido Da decisão, destaco os seguintes trechos: Sobre a nulidade decorrente de cerceamento de defesa: Fl. 3256DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.243 6 Sobre a caracterização como fraude e simulação da compra de café de pessoas jurídicas para possibilitar o creditamento das contribuições sociais: Fl. 3257DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.244 7 Fl. 3258DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.245 8 Sobre a inexistência de questionamento dos cálculos apresentados no lançamento de ofício Do Recurso Voluntário Diante da decisão de primeiro grau, o contribuinte apresentou Recurso Voluntário a esse Tribunal administrativo, reprisando as teses da impugnação. Da Resolução 340100.543 e da subsequente Diligência O presente foi distribuído a essa Turma, sob a relatoria do Conselheiro Fernando Luiz da Gama Lobo D'Eça e, por ocasião da sessão de 21.05.2013, foi resolvido pelo colegiado, nos termos da Resolução ditada pelo relator (fls. 353 e seguintes), converter o julgamento do recurso em diligência, diante da previsão do artigo 82, da Lei Federal 9.430/1996 para que: Fl. 3259DF CARF MF Processo nº 11543.001562/200572 Resolução nº 3401001.191 S3C4T1 Fl. 3.246 9 A Recorrente seja intimada no prazo de 10 dias a fornecer e fazer juntar aos autos dos comprovantes de pagamentos do preço das mercadorias retratadas nas Notas Fiscais de aquisições feitas às comerciais atacadistas elencadas na r. decisão recorrida, bem como dos comprovantes de efetiva entrada das mercadorias em seu estabelecimento, devidamente instruídos com planilha resumo; A Fiscalização informe conclusivamente (com xerocópias) quais as data de publicação no DOU e a fundamentação dos atos que declararam a inaptidão do CNPJ das comerciais atacadistas elencadas na r. decisão recorrida, cujas Notas Fiscais de aquisição supostamente geradoras dos créditos ressarciendos foram glosadas; Como consequência, os autos foram encaminhados à origem para cumprimento da diligencia proposta, pelo que foi emitido respectivo Relatório às fls. 537 e seguintes, juntado ao presente. Nesse documento, o auditorfiscal acabou por reprisar as informações constantes na verificação fiscal inicial, sem, portanto, avaliar os documentos trazidos por ocasião da diligência, e resumindose a citar o Termo de Constatação do Processo n° 15586.720940/2013 85, do mesmo contribuinte, que tampouco veio a cumprir os termos solicitados na Resolução. Intimada, a Recorrente protestou contra a conclusão da diligência É o relatório. Conforme denotase do relatório, as conclusões exaradas no relatório de diligência não levaram em consideração o escopo delineado na Resolução anterior, ficando prejudicada sua utilização para os esclarecimentos necessários para o deslinde do presente processo. Por outro lado, não há como esse Tribunal, substituindo a função da unidade de origem, verifique se todo o arcabouço documental que a Recorrente trouxe por ocasião da diligencia tenha demonstrado o cumprimento do previsto no artigo 82, da Lei Federal 9.430/1996. Dito isso, minha proposta é de reenviar os autos para a unidade de origem, em diligência, para o efetivo cumprimento. Tiago Guerra Machado Relator Fl. 3260DF CARF MF
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Numero do processo: 10630.720140/2006-39
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Wed Oct 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Wed Dec 06 00:00:00 UTC 2017
Ementa: Assunto: Outros Tributos ou Contribuições
Ano-calendário: 2004
EMBARGOS. OMISSÃO.
A omissão da decisão recorrida em apreciar questão de fato suscitada no Recurso Voluntário enseja o acolhimento dos Embargos para que o fato seja apreciado.
EMBARGOS. CÁLCULO DO INDÉBITO. SUSCITAÇÃO DE ERRO.
O erro de cálculo suscitado, quando se revele inexistente, enseja a manutenção da decisão embargada.
Embargos Declaratórios Acolhidos, sem Efeitos Infringentes.
Numero da decisão: 3201-003.209
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Por maioria de votos acolher os embargos declaratórios, sem efeitos infringentes. Vencidos os Conselheiros Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Rodolfo Tsuboi. Designado para o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Giovani Vieira. Ficou de apresentar declaração de voto o Conselheiro Winderley Morais Pereira. Declarou-se impedida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, que foi substituída pelo Conselheiro Rodolfo Tsuboi. Fez sustentação oral a patrona do contribuinte, Drª Bárbara Cristina Romani Silva, OABDF 43.792, escritório Rolim Viotti e Leite Campos Advogados.
(assinatura digital)
WINDERLEY MORAIS PEREIRA - Presidente Substituto.
(assinatura digital)
PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA - Relator.
(assinatura digital)
MARCELO GIOVANI VIEIRA Redator designado.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Rodolfo Tsuboi.
Nome do relator: PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA
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OMISSÃO. A omissão da decisão recorrida em apreciar questão de fato suscitada no Recurso Voluntário enseja o acolhimento dos Embargos para que o fato seja apreciado. EMBARGOS. CÁLCULO DO INDÉBITO. SUSCITAÇÃO DE ERRO. O erro de cálculo suscitado, quando se revele inexistente, enseja a manutenção da decisão embargada. Embargos Declaratórios Acolhidos, sem Efeitos Infringentes. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Por maioria de votos acolher os embargos declaratórios, sem efeitos infringentes. Vencidos os Conselheiros Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Rodolfo Tsuboi. Designado para o voto vencedor o Conselheiro Marcelo Giovani Vieira. Ficou de apresentar declaração de voto o Conselheiro Winderley Morais Pereira. Declarouse impedida a Conselheira Tatiana Josefovicz Belisário, que foi substituída pelo Conselheiro Rodolfo Tsuboi. Fez sustentação oral a patrona do contribuinte, Drª Bárbara Cristina Romani Silva, OABDF 43.792, escritório Rolim Viotti e Leite Campos Advogados. (assinatura digital) WINDERLEY MORAIS PEREIRA Presidente Substituto. (assinatura digital) PEDRO RINALDI DE OLIVEIRA LIMA Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 63 0. 72 01 40 /2 00 6- 39 Fl. 476DF CARF MF 2 (assinatura digital) MARCELO GIOVANI VIEIRA – Redator designado. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Winderley Morais Pereira (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Rodolfo Tsuboi. Relatório Tratamse de Embargos de Declaração opostos pelo contribuinte em fls. 432 em face do Acórdão deste Conselho de fls. 412, em razão de omissão, contradição e obscuridade. O Presidente desta Turma de julgamento admitiu os Embargos de Declaração conforme Despacho de admissibilidade fls. 462, transcrito a seguir: "A 1ª Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção de Julgamento do CARF, em 08/12/2010, por meio do Acórdão nº. 320100.601 (aqui chamado de acórdão originário – efls. 1/5), deu provimento ao recurso voluntário interposto pela contribuinte, para determinar a aplicação do IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art.38, da Lei n° 8.880/94) para a correção monetária do crédito da então recorrente. Vejase a ementa do julgado: ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004 COMPENSAÇÃO. COISA JULGADA. EXPURGOS DO PLANO REAL. Tendo a decisão judicial determinado a aplicação de expurgos relativos ao Plano Real, à autoridade administrativa somente cabe aplicar o índice indicado na referida decisão. A Fazenda Nacional opôs embargos de declaração, os quais foram acolhidos e providos, com efeitos infringentes, nos termos do Acórdão nº. 3201002.312, de 24/08/2016, para negar provimento ao recurso voluntário, determinando a adoção do IPC como índice de correção monetária do crédito da contribuinte, conforme afirma ter sido determinado na decisão judicial. O julgado restou assim ementado: ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário:2004 EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PRESSUPOSTO. OMISSÃO. CONTRADIÇÃO. OBSCURIDADE. EXISTÊNCIA. Nos termos do artigo 65 do Regimento Interno do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, os Embargos de Declaração somente são oponíveis quando o acórdão contiver omissão, Fl. 477DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 477 3 contradição ou obscuridade entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual devia pronunciarse a turma. No caso, foi identificado pressuposto de omissão/contradição, cabíveis os embargos. Embargos Acolhidos A parte dispositiva da decisão assim se manifestou: “Por todo o exposto, verificada contradição no acórdão recorrido, visto restar caracterizada desconformidade entre a fundamentação e a conclusão, é de se ACOLHER os embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional, com efeitos infringentes, no sentido de negar provimento ao recurso voluntário, para aplicação do IPC como índice.” A contribuinte vem, por meio de embargos de declaração opostos tempestivamente, no item II.I do recurso, insurgirse contra o acolhimento dos aclaratórios opostos pela Fazenda Nacional, alegando que não houve omissão, tampouco contradição, no acórdão originário, qual seja, o Acórdão nº 320100.601, de 08/12/2010. Afirma a embargante: “Restando comprovada a ausência de qualquer vício na decisão que deu provimento ao Recurso Voluntário interposto pela Embargante, requerse sejam acolhidos esses aclaratórios com efeitos infringentes de modo a ser reformada a decisão embargada. Isso, por meio da rejeição dos Embargos de Declaração opostos pela União com a conseguinte manutenção da decisão anterior que proveu o Recurso Voluntário interposto pela Embargante.” Na verdade, como se vê, a embargante insurgese contra o despacho que acolheu os embargos da Fazenda Nacional, requerendo que estes sejam rejeitados. Acontece, porém, que, nos termos do arts. 66 e 67 do RICARF, o acolhimento, ou não, dos embargos de declaração opostos pelas partes ali autorizadas é prerrogativa do Presidente da Turma Ordinária que proferiu a decisão recorrida. In casu, o Presidente da Turma Ordinária decidiu que a decisão proferida restava viciada, por meio do despacho constante à efl. 409/411, que assim manifestou: “Em verdade, o vício apontado pela embargante caracteriza contradição no julgado, uma vez que, no acórdão recorrido, verificase disparidade entre os seus fundamentos e a sua conclusão. Explico. Na decisão administrativa, o voto vencedor condutor do acórdão fundamentase na decisão judicial proferida pelo TRF1ª Região, nos autos da Apelação Cível nº.1999.01.00.0323454/MG, mais especificamente no voto proferido pelo relator, MM. Juiz Hilton Queiroz. É o que claramente se vê do seguinte trecho do referido voto (grifos meus): [omissis] Entretanto, o Colegiado, mesmo adotando como fundamento de sua decisão o voto condutor do acórdão Fl. 478DF CARF MF 4 proferido pelo MM. Juiz Hilton Queiroz, concluiu, contraditoriamente, pela adoção do índice de correção monetária requerido no pedido formulado, e não aquele concedido no provimento jurisdicional em que se fundamentou. No pedido, a contribuinte requereu, de fato, a adoção do IGPM com índice de correção monetária em 1994, porém a decisão judicial não acatou o pedido na forma como posto, determinando, sim, a inclusão dos índices inflacionários na correção dos valores como fora pedido, porém determinando a adoção do IPC como índice. É o que se conclui facilmente da leitura da decisão judicial, integrandose a parte dispositiva do julgado com a sua fundamentação. Vejase o que diz a decisão judicial (grifos meus): [omissis] Assim, verificada contradição no acórdão recorrido, visto restar caracterizada desconformidade entre a fundamentação e a conclusão, é de se ACOLHER os embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional.” Os embargos de declaração ora sob análise, nos termos do art. 65 do Regimento Interno do CARF, não se mostram como instrumento pertinente para desafiar o despacho do Presidente de Turma que acolheu os aclaratórios da Fazenda Nacional, não merecendo, portanto, ser dado seguimento aos embargos nesta parte. De outro giro, no item II.II do recurso oferecido, alega a embargante que “o acórdão que julgou os Embargos de Declaração foi omisso ao deixar de enfrentar a questão relativa à imputação indevida dos valores devidos a título de FINSOCIAL nos meses de novembro de 1991 à março de 1992”. [sublinehi] Quanto a tal alegação, temse que a matéria acerca da suposta incorreição dos valores imputados, referentes ao período de novembro/1991 a março/1992, foi objeto da manifestação de inconformidade, ao que a DRJ decidiu que as alegações da querelante eram improcedentes, assim afirmando (efl. 289): “Nas mesmas planilhas vêse que os depósitos judiciais relativos aos meses nov/91 a mar/92 foram corretamente imputados, ou seja, foi utilizado 25% de cada valor depositado, considerando se a data do respectivo depósito.” Essa matéria foi devolvida por meio do recurso voluntário, no item II.2 da peça recursal, sem que, entretanto, fosse objeto de apreciação pelo Acórdão originário, nº. 3201 00.601. O segundo acórdão proferido, nº. 3201002.312, resultante do julgamento dos embargos opostos pela Fazenda Nacional, limitouse a decidir sobre a matéria que fora objeto daqueles embargos, de forma que não lhe seria cabível apreciar a matéria referente às alegações de incorreição da imputação, uma vez que tal não foi suscitado pela então embargante. Omissão ali, portanto, não há. A omissão se verifica, na verdade, no Acórdão originário, de número 3201 00.601, que não se manifestou sobre a matéria trazida no recurso voluntário, referente à suposta incorreição Fl. 479DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 478 5 dos valores imputados, relativos ao período de novembro/1991 a março/1992 Como nos autos não há qualquer indicação de ciência do Acórdão originário, pela contribuinte, em data outra senão aquela em que também lhe foi dada ciência do Acórdão do julgamento dos embargos de declaração da Fazenda Nacional (vide Ofício nº. 089/2017/DRF/GVS/Saort, de 16/02/2017 – à efl. 429), é de se tomar como tempestiva alegação de omissão da recorrente em relação à decisão originária, razão pela qual merecem os embargos ser acolhidos nesta parte. Conclusão Por todo o exposto, entendo que restou caracterizada a omissão apontada pela contribuinte, no Acórdão nº. 3201 00.601, apenas em relação à matéria que trata da imputação dos valores referentes ao período de novembro/1991 a março/1992, razão pela qual tenho por preenchidas as condições necessárias à admissibilidade do recurso, apenas nesta parte. Desse modo, na forma §3º do art. 65 do mesmo diploma legal, ACOLHO PARCIALMENTE os embargos de declaração opostos pela contribuinte, restando REJEITADOS os embargos de declaração opostos pela contribuinte, em caráter definitivo, na parte a que se refere à inexistência dos vícios dos embargos de declaração opostos pela Fazenda Nacional. Promovase nova distribuição deste processo, mediante sorteio." Após, os autos foram distribuídos e pautados nos moldes do regimento interno deste Conselho. Relatório proferido. Voto Vencido Conselheiro Relator Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Conforme o Direito Tributário, a legislação, os fatos, as provas, documentos e petições apresentados aos autos deste procedimento administrativo e, no exercício dos trabalhos e atribuições profissionais concedidas aos Conselheiros, conforme portaria de condução e Regimento Interno deste Conselho, apresentase este voto. Com admiração e respeito ao trabalho consistente, sério e conciso do Presidente desta Turma, em que pese ser atribuição do Presidente de Turma deste Conselho a elaboração do Despacho de Admissibilidade de Embargos, à Turma de julgamento também é conferida a responsabilidade da análise da admissibilidade de Embargos de Declaração, de modo que, não é aceitável o julgamento de Embargos sem a análise de sua admissibilidade durante a sessão de julgamento. Nos moldes dos Artigos 65 e 66, anexo II, do RICARF, que tratam dos Embargos de Declaração, assim como de sua admissibilidade, não há previsão legal que Fl. 480DF CARF MF 6 permita a substituição ou supressão do julgamento de Embargos de Declaração em sessão, pelo Despacho de Admissibilidade. Assim, ou os Embargos são admitidos pelo Presidente de Turma, ou não são. Não há previsão legal para a admissão parcial de Embargos de Declaração, o que é relevante, porque, caso contrário, seria permitido o precoce juízo de valor da causa, somente pelo Presidente de Turma, em lugar da atribuição que também é da Turma de julgamento. Assim, a análise que deve ser feita no Despacho de Admissibilidade é objetiva e restringida à análise dos requisitos de admissibilidade, que são a tempestividade, a presença de omissão, contradição ou obscuridade. Em respeito à prerrogativa do Presidente de Turma, se este nega a admissibilidade dos Embargos em seu despacho, por completo, à Turma os Embargos jamais seriam distribuídos e pautados para julgamento. Porém, não é este o caso. Em desacordo com o Despacho de Admissibilidade parcial de fls. 462 e diante da impossibilidade desta Turma de julgamento se furtar da análise da lide administrativa fiscal, é possível concluir que estão presentes não só um, mas todos os requisitos de admissibilidade dos Embargos de Declaração opostos pelo contribuinte. Por conter matéria preventa desta 3.ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais e presentes os requisitos de admissibilidade, os tempestivos Embargos de Declaração deveriam ser conhecidos em sua integralidade. Inicialmente, é importante registrar que os embargos se referem à obscuridade e não ao anterior despacho de admissibilidade de fls. 409, porque em momento nenhum o contribuinte insurgiuse contra o despacho de admissibilidade, simplesmente argumentou que não houve omissão no Acórdão original deste Conselho, de fls. 1. Como anteriormente abordado, à Turma de julgamento coube e cabe a análise da lide administrativa fiscal e o conseqüente pronunciamento a respeito da omissão, contradição ou obscuridade apresentada em Embargos. Assim, o que se trata aqui é a obscuridade apontada no Acórdão a quo, decorrente da utilização de rito e julgamento não usual: a reforma de acórdão dotado de completude, sem omissão, contradição ou obscuridade, por meio de Embargos de Declaração. A obscuridade, no Direito, se assemelha ao conceito usual de obscuridade, palavra que representa a falta de clareza ou claridade, a difícil compreensão, a confusão ou a vagueza, por exemplo. Esta falta de clareza ocorreu no momento em que foi reconhecida uma omissão onde não há, porque o Acórdão original reconheceu a coisa julgada e, remetida a análise à coisa julgada, verificase que o direito à atualização do crédito de Finsocial pelo IPC e pelo IGPM foi reconhecido integralmente em âmbito judicial. Logicamente, não se pode afirmar existir uma omissão a respeito da atualização ou não pelo índice IPC ou IGPM, se o Acórdão original reconheceu a coisa julgada e, nesta, foi reconhecido a atualização por tais índices. Fl. 481DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 479 7 Como conselheiro integrante da sessão de julgamento que tratou do segundo Acórdão deste Conselho de fls. 412, que modificou o acórdão original (em julgamento dos primeiros embargos) para negar provimento ao Recurso Voluntário, sem razão, por não haver omissão, apresentei Declaração de Voto e externei a posição de outros colegas Conselheiros participantes da sessão, como pode ser verificado no trecho transcrito a seguir, proveniente deste segundo e mencionado Acórdão: "Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em acolher os embargos com efeitos infringentes, nos termos do voto da Relatora. Vencidos os Conselheiros Ana Clarissa Masuko dos Santos Araujo, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima e Cássio Schappo, que negavam/rejeitavam provimento aos embargos. O Conselheiro Pedro Rinaldi de Oliveira Lima apresentará declaração de voto. A conselheira Tatiana Josefovicz Belisário declarouse impedida. Fez sustentação oral, pela Recorrente, o advogada Bárbara Cristina Romano Silva, OAB/DF 43.792." A lide apresentada nos primeiros Embargos de Declaração, opostos pela União, não possuía qualquer omissão e não cumpria os requisitos de admissibilidade. Hoje, após a reforma da decisão original deste Conselho, a lide passou a possuir extrema controvérsia e obscuridade, conforme já alertado anteriormente em minha declaração de voto, a qual reproduzo na íntegra e utilizo como fundamento de decidir para justificar a atual presença da obscuridade: "Com respeito e admiração das colocações da nobre Conselheira Relatora, apresento e reproduzo entendimento divergente que foi vencido mas acompanhado pela totalidade dos Conselheiros representantes dos contribuintes presentes em sessão, de forma a negar provimento aos Embargos de Declaração opostos pela Fazenda Nacional. É importante ressaltar, contudo, que mesmo tratandose de um órgão Paritário de previsão e fundamento constitucional, onde os julgamentos são proferidos em segunda instância administrativa de recursos fiscais, em razão do princípio da neutralidade do julgador não há distinção entre os Conselheiros, se representam o contribuinte ou o Estado. Isto porque, justamente, tratandose de um colegiado, o entendimento vencedor será válido no âmbito administrativo e representa a posição do órgão no caso em concreto. Mas ainda mais importante e adequado à finalidade deste Conselho, no entendimento deste Conselheiro que ora apresenta o voto divergente, é publicizar as diferentes posições de modo que, indicados pelo Estado ou pela iniciativa privada (contribuintes), ainda que tenham de se posicionar de forma neutra e de acordo com as leis, fatos e provas dos autos, os Conselheiros possuem seu histórico profissional de trabalho que permitem a colocação de diferentes entendimentos e teses. Nesta linha de raciocínio, entendese que a principal razão de existência de Conselhos Paritários é o debate gerado nos Fl. 482DF CARF MF 8 julgamentos e o resultado democrático proferido à sociedade, com a sua participação direta nos órgãos do Estado. Assim, na medida em que os contribuintes e a sociedade estão representados, cada vez mais o Estado terá acesso aos entendimentos da iniciativa privada e poderá servir e atender o cidadão de acordo com as suas necessidades e realidade econômica e social. E assim, no entender deste Conselheiro, o fato de todos os Conselheiros representantes dos contribuintes presentes em sessão votarem pelo não provimento dos Embargos de Declaração, precisa ser publicizado. Tratando a lide sobre o provimento ou não dos Embargos de Declaração opostos pela Fazenda Nacional, com o objetivo de ver aplicado os efeitos infringentes para alterar o Acórdão a quo e delimitar a incidência do IPC como índice de correção monetária, foi necessário analisar se houve omissão ou contradição conforme alegado. Iniciada a análise dos requisitos que permitiriam o provimento dos Embargos de Declaração, verificase nos autos que o Acórdão embargado, de n.º 320100.601, concluiu pelo provimento do Recurso Voluntário do contribuinte por voto de qualidade, Acórdão no qual consta o voto vencido e o voto vencedor. Logo, a partir desta informação já é possível logicamente concluir que o colegiado não foi unânime e, portanto, não se trata de tema ou entendimento superado neste Conselho e, conseqüentemente, houve colocações de dois pontos de vista, que se consubstanciaram no Voto Vencido e Voto Vencedor. Verificase também que após a decisão de primeira instância da DRJ/MG, o contribuinte solicitou a inclusão dos expurgos inflacionários do plano real nos cálculos e pediu a compensação integral do crédito de Finsocial, reconhecido em sentença judicial transitada em julgado. Estes fatos do trâmite deste procedimento administrativo podem ser rapidamente verificados na análise dos autos, por exemplo, em trecho do próprio relatório do Acórdão Embargado, conforme transcrito a seguir: "O pleito foi deferido em parte, no julgamento de primeira instância, nos termos do acórdão DRJ/JFA n90919.632, de 18/06/2008, proferida pelos membros da Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Juiz de Fora/MG, cuja ementa dispõe, verbis: 'ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2004 COMPENSAÇÃO Os expurgos inflacionários reconhecidos por decisão judicial a serem aplicados na atualização de créditos são os previstos na Súmula 41 do TRF/1"Regido. Solicitação Deferida em Parte'. O julgamento foi no sentido de deferir parcialmente a solicitação, para refazer a atualização dos créditos apurados incluindo os expurgos inflacionários previstos na Súmula 41 do Fl. 483DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 480 9 TRF/1.ª Região, ficando desde já homologadas as compensações efetuadas até o limite do crédito assim apurado. O Contribuinte protocolizou o Recurso Voluntário, tempestivamente, no qual, basicamente, reproduz as razões de defesa constantes em sua peça impugnatória. Reforça o pedido de compensação integral do crédito do Finsocial apurado e que sejam incluídos os expurgos inflacionários do plano Real. 0 processo digitalizado foi distribuído e encaminhado a esta Conselheira. É o Relatório." Logo, se após a decisão de primeira instância da DRJ/MG, o contribuinte solicitou em Recurso Voluntário a inclusão dos expurgos inflacionários do plano real e pediu a compensação integral do crédito de Finsocial, foi esta a controvérsia julgada neste Conselho, consubstanciada no Acórdão embargado. O voto vencido do Acórdão embargado assim tratou da controvérsia em segunda instância administrativa em seu trecho final: "A recorrente argumenta forma de atualização, índices. Alega não foram considerados os expurgos inflacionários reconhecidos na decisão judicial, pois procura incluir os expurgos do plano Real, que não estão sumulados pelo TRF da l.ª Região. No meu entender, os cálculos realizados pela autoridade preparadora estão corretos, pois os expurgos pretendidos pela recorrente não podem ser utilizados. Primeiro porque não constam de seu pedido original estes expurgos, não podendo ser renovado e alterado o pedido em sede de apelação. Em segundo lugar, porque o TRF, ao julgar a apelação, não deferiu estes expurgos, nem especificou seu índice, tornando a decisão ilíquida e impossível de ser utilizada. Assim, entendo que a decisão recorrida está correta e não merece ser alterada. Por todo o exposto voto por negar provimento ao recurso voluntário, tendo em vista que foram realizadas compensações, nos termos ajuizados, porém, remanescendo saldo devedor." O voto vencedor do Acórdão embargado, assim tratou da matéria controversa em segunda instância administrativa: Ousei discordar da ilustre Conselheira relatora e fui acompanhado pela douta maioria deste Colegiado, pois noto que as fls. 324/325 dos autos consta cópia de recurso de apelação, Fl. 484DF CARF MF 10 apresentado pelo contribuinte, ora recorrente, do qual consta o seguinte pedido: Diante de todo o exposto, requerem as Apelantes seja o presente Recurso admitido e provido, reformandose parcialmente a sentença proferida pelo MM. Juiz a quo, no que se refere ao índice de corre cão monetária a ser utilizado, reconhecendose, finalmente, o direito de utilizarem, para a correção de seus créditos que serão compensados, os índices que efetivamente expressam as reais distorções ocasionadas pela inflação, quais sejam, no entendimento pacifico dos Tribunais Superiores, o IPCIBGE, integral quanto aos exercícios de 1989 e 1990; o 1NPCIBGE quanto aos meses de fevereiro a dezembro de 1991, e a UFIR quanto ao exercício de 1992, em diante, além do IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art. 38, da Lei n° 8.880/94), pois só assim estarseá recompondo na integra o processo inflacionário ocorrido. (grifos acrescidos por este relator). Julgando este pedido, a Colenda 4a Turma do Tribunal Regional Federal da l.ª Regido, decidiu dar provimento ao apelo do ora recorrente, adotando o voto condutor do Exmo. Sr. Dr. Juiz de direito Hilton Queiroz, cujo dispositivo foi o seguinte: 'Ante o exposto: 1° nego provimento à remessa; 2. dou provimento, em parte, ao apelo da UNIA O; 3. dou provimento ao apelo das autoras para: a) afastar a obrigatoriedade de compensação tãosomente na execução da sentença; b) determinar a inclusão dos índices inflacionários .expurgados na correção dos valores a serem compensados; d) determinar que a verba honorária, em desfavor da UNIÃO, incida sobre o valor da causa.' As fls. 337, consta certidão de transito em jul gado da decisão acima. Urna vez que foi dado provimento ao pedido formulado no recurso do ora contribuinte e tendo esta decisão judicial transitado em julgado, esta Corte Administrativa só deve acatar o comando judicial, ou seja, a administração deve aplicar o IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art. 38, da Lei n° 8.880/94) para a correção do crédito do ora recorrente, portanto, VOTO por conhecer do recurso e darlhe provimento." A nobre Relatora, os Embargos de Declaração e o Despacho de Admissibilidade dos presentes embargos de declaração utilizam como principal fundamento o entendimento de que a decisão proferida no TRF 1.ª região não permitiu a aplicação do índice IGPM, mas permitiu somente a aplicação do IPC como correção monetária. Mas tal fundamento se mostra equivocado e não há razão para perdurar. Conforme apresentado acima, em cópia do recurso judicial de apelação juntado nos autos o contribuinte solicitou "IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art. Fl. 485DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 481 11 38, da Lei n° 8.880/94)", e o provimento judicial no âmbito do TRF 1.ª Região foi o provimento do apelo das autoras, e não o provimento parcial ou o "não provimento", conforme Ementa transcrita a seguir (fls. 388): "EMENTA TRIBUTÁRIO E CONSTITUCIONAL. FINSOCIAL. MAJORAÇÃO DE ALÍQUOTAS. INCONSTITUCIONALIDADE. EMPRESA COMERCIAL. COMPENSAÇÃO. EXPURGOS INFLACIONÁRIOS. VERBA HONORÁRIA. 1. A extinção do direito de pleitear a restituição ocorrerá após 05 (cinco) anos, contados da ocorrência do fato gerador, acrescidos de mais 05 (cinco) anos, contados da homologação tácita. Prescrição decenal. 2. São inconstitucionais as majorações objeto das Leis 7.787/89, 7.894(89 e 8.147190 (R.E. 150.7841/ PE, Rel. em. Min. Marco Aurélio, In D.J. de 02104/983), no tocante às empresas comerciais. 3. Cabe ao Judiciário o reconhecimento do direito de compensar valores indevidamente recolhidos ao Fisco, ficando a realização da compensação, propriamente dita, adstrita à esfera administrativa. 4. A jurisprudência do STJ pacificouse no sentido da inclusão cios expurgos inflacionários na conta de liquidação. A correção monetária plena nada acrescenta ao capital, ela apenas tenta preservar o poder aquisitivo da moeda corroído pela inflação. 5. A verba honorária deve incidir sobre o valor da causa por se tratar de pleito declaratório. 6. Apelo das autoras provido. 7. Apelo da UNIÃO provido, em parte. 8. Remessa improvida." Para ficar ainda mais claro, transcrevese trecho do pedido do contribuinte presente no mencionado recurso de apelação (fls. 385) e julgado no TRF 1.ª região: "III DO PEDIDO Diante de todo o exposto, requerem as Apelantes seja o presente Recurso admitido e provido, reformandose parcialmente a sentença proferida pelo MM. Juiz a quo, no que se refere ao índice de correção monetária a ser utilizado, reconhecendose, finalmente, o direito de utilizarem, para a correção de seus créditos que serão compensados, os índices que efetivamente expressam as reais distorções ocasionadas pela inflação, quais sejam, no entendimento pacífico dos Tribunais Superiores, o IPCIBGE integra1 quanto aos exercícios de 1989 e 1990, o INPCIBGE quanto aos meses Fl. 486DF CARF MF 12 de fevereiro a dezembro de 1991 e a UFIR quanto ao exercício de 1992 em diante, além do IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art. 38 da Lei 8880/94),pois só assim estarseá recompondo na integra o processo inflacionário ocorrido. Termos em que, Pedem e esperam deferimento." Dessa forma, por mais que a decisão judicial tenha mencionado que os índices de inflação real são refletidos pelo IPC, esta decisão judicial não limitou, vedou ou proibiu o provimento ao pedido do contribuinte em sede de recurso judicial de apelação. Ao contrário, deu provimento. Conforme trazido acima, o contribuinte solicita diversos índices em diferentes períodos. Conforme reproduzido pela nobre Relatora, neste voto também será necessário transcrever o trecho da referida decisão judicial que trata da "Correção Monetária", mas não para fundamentar a omissão ou contradição do Acórdão embargado no âmbito deste procedimento administrativo, mas sim para fundamentar que, se houve contradição ou omissão, foi na própria decisão judicial e não no Acórdão embargado, conforme segue: “DA CORREÇÃO MONETÁRIA. A jurisprudência temse consolidado no sentido do que o I.P.C. é o melhor índice aplicável à correção monetária, porque a correção monetária tem de ser feita de forma a recompor o poder aquisitivo da moeda. A Segunda Seção desta Corte já se pronunciou no sentido de que em sede de repetição de indébito, os valores devem ser corrigidos pelos índices de inflação real, que são refletidos pelo I.P.C., sendo devidos os expurgos efetuados pelos sucessivos planos econômicos do governo. (...) Ante o exposto: 1° nego provimento à remessa; 2. dou provimento, em parte, ao apelo da UNIÃO; 3. dou provimento ao apelo das autoras para: a) afastar a obrigatoriedade de compensação tãosomente na execução da sentença; b) determinar a inclusão dos índices inflacionários expurgados na correção dos valores a serem compensados; d) determinar que a verba honorária, em desfavor da UNIÃO, incida sobre o valor da causa.” Por fim, no âmbito administrativo, ainda em curso, verificase nestes autos que a controvérsia discutida e deliberada em segunda instância, consubstanciada no Acórdão embargado, tratou dos pedidos trazidos em Recurso Voluntário (fls. 323), conforme segue: "III PEDIDO Face ao exposto, a Recorrente requer a reforma do r. acórdão, para que seja aplicado o índice inflacionário do Plano Real na atualização de seu saldo credor, conforme determinado pelo acórdão transitado em julgado nos autos da Ação Ordinária n° 95.0007363, e também para que seja observada a conversão em renda dos depósitos judiciais Fl. 487DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 482 13 efetuados nas competências de novembro de 1991 à março de 1992 para, ao final:. serem homologadas integralmente as compensações controladas pelos PER/Dcomps n.º 17550.29828.260404.1.3.573580 e 22505.71912.260404.1.3.573781. Nestes termos, pede deferimento." No âmbito judicial, a referida decisão judicial utilizada como parâmetro, apesar de mencionar o IPC, dá provimento total à solicitação do contribuinte, que contém claramente o pedido de aplicação do "IGPM, em 1994 (expurgo do Plano Real art. 38, da Lei n° 8.880/94)", assim como ficou claro que o Voto Vencedor do Acórdão embargado tratou exatamente deste entendimento e é claro em reconhecer que o IGPM foi considerado na decisão judicial transitada em julgado, não restando omissão ou contradição para ser julgada neste Conselho. Diante de todo o exposto, mesmo diante de possíveis interpretações diversas sobre o que foi determinado judicialmente, a discussão da matéria foi superada no Acórdão embargado e não pode ser novamente discutida por meio de Embargos de Declaração. Assim, se a Fazenda Nacional pretende alcançar um novo julgamento, deveria utilizar outros meios e/ou instrumentos que não os Embargos de Declaração. Esta é a declaração de voto." Por fim, verificase que os primeiros Embargos foram utilizados para concretizar novo julgamento, de matéria já julgada e discutida em julgamento administrativo fiscal que, de forma clara e expressa, reconheceu a aplicação da coisa julgada em âmbito judicial. Assim, restou que o segundo Acórdão deste Conselho é obscuro com relação ao reconhecimento da coisa julgada, matéria tratada no Acórdão original, que terminou por ser modificada sem a completude do enfrentamento desta questão. Razões que justificariam o conhecimento integral e o provimento dos Embargos do contribuinte, assim como justificariam a concessão dos efeito infringentes, para sanar a obscuridade a respeito da coisa julgada judicial e restabelecer o Acórdão original deste Conselho. Contudo, unicamente em razão da responsabilidade institucional e hierárquica que possuo como Conselheiro e, de acordo com o Despacho de Admissibilidade de fls. 462, acompanho o Presidente desta Turma para que os Embargos não sejam conhecidos neste tópico. Com relação à imputação indevida dos valores devidos a título de FINSOCIAL nos meses de novembro de 1991 à março de 1992, em razão da conversão em renda dos depósitos judiciais, apesar de ser possível conhecer esta parte da lide, conforme Despacho de Admissibilidade de fls. 462, não há qualquer omissão, seja no Acórdão original, que tratou desta parte da lide de forma favorável ao contribuinte, seja no segundo Acórdão, Fl. 488DF CARF MF 14 porque esta parte da lide não foi submetida à lide apresentada nos primeiros Embargos de Declaração. Não é a posterior e conseqüente reforma do Acórdão original, que delimitou a lide à ser tratada nos primeiros Embargos de Declaração, mas sim o conteúdo daquele, que em momento algum insurgiuse contra o provimento dado no Acórdão original à esta parte da lide. Logo, por coerência com a minha posição já externada anteriormente, a decisão original de fls. 1 deveria ter sido mantida, no ponto em questão e em todos os outros pontos. Diante de todo o exposto, votase para REJEITAR PROVIMENTO AOS EMBARGOS, na parte conhecida. Voto proferido. (assinatura digital) Conselheiro Relator – Pedro Rinaldi de Oliveira Lima. Voto Vencedor O presidente da turma de julgamento designoume para redigir o voto vencedor. Em relação à matéria embargada relativa aos índices aplicáveis à atualização do indébito, a matéria não foi admitida pelo presidente da Turma no Despacho de Admissibilidade dos Embargos de Declaração, e por questão de competência, conforme artigo 65, §3º, do Regimento Interno do Carf – Portaria MF 343/2015, não poderia a Turma admitir nos Embargos matéria não admitida pela autoridade competente, restando tal matéria – índices – definitivamente julgada no acórdão de embargos 3201002.312, de fls. 412 e seguintes. Conforme Despacho de Admissibilidade dos Embargos de Declaração, houve admissão da matéria relativa à omissão do acórdão embargado em apreciar a questão da imputação dos valores referentes ao período de novembro/1991 a março/1992. Verifico que no Recurso Voluntário, às fls. 322 e seguintes, a empresa suscita a questão, reclamando que o cálculo fiscal não poderia considerar os débitos dos meses de novembro/1991 a março/1992, porque os depósito judiciais, na parte devida à União, já tinham sido convertidos em renda, e portanto, nenhum débito poderia ser cobrado. Observo, às fls. 125, 126 e 130, que o cálculo fiscal levou em conta tal fato, registrando, nas planilhas, o recolhimento de valores convertidos em renda. Portanto, não há como acatar a alegação da recorrente, razão pela qual votei, no que fui acompanhado pela maioria, por acolher os embargos, posto que verificada a omissão do acórdão embargado, porém, sem efeitos infringentes, mantendo a negativa de provimento. Marcelo Giovani Vieira, redator designado. Fl. 489DF CARF MF Processo nº 10630.720140/200639 Acórdão n.º 3201003.209 S3C2T1 Fl. 483 15 Declaração de Voto Conselheiro Winderley Morais Pereira A presente declaração de voto não se trata de posição discordante da decisão adotada pela maioria da turma, mas, esclarecer a minha posição quanto à possibilidade da reapreciação do despacho de admissibilidade realizada pelo Presidente da Turma, nos termos do art. 65 do Regimento Interno do CARF. In verbis. Art. 65. Cabem embargos de declaração quando o acórdão contiver obscuridade, omissão ou contradição entre a decisão e os seus fundamentos, ou for omitido ponto sobre o qual deveria pronunciarse a turma. §1º Os embargos de declaração poderão ser interpostos, mediante petição fundamentada dirigida ao presidente da Turma, no prazo de 5 (cinco) dias contado da ciência do acórdão: I por conselheiro do colegiado, inclusive pelo próprio relator; II pelo contribuinte, responsável ou preposto; III pelo Procurador da Fazenda Nacional; IV pelos Delegados de Julgamento, nos casos de nulidade de suas decisões; ou V pelo titular da unidade da administração tributária encarregada da liquidação e execução do acórdão. §2º O presidente da Turma poderá designar o relator ou redator do voto vencedor objeto dos embargos para se pronunciar sobre a admissibilidade dos embargos de declaração. § 3º O Presidente não conhecerá os embargos intempestivos e os rejeitará, em caráter definitivo, nos casos em que não for apontada, objetivamente, omissão, contradição ou obscuridade. § 3º O Presidente não conhecerá os embargos intempestivos e rejeitará, em caráter definitivo, os embargos em que as alegações de omissão, contradição ou obscuridade sejam manifestamente improcedentes ou não estiverem objetivamente apontadas. (Redação dada pela Portaria MF nº 39, de 2016) § 4º Do despacho que não conhecer ou rejeitar os embargos de declaração será dada ciência ao embargante. § 5º Somente os embargos de declaração opostos tempestivamente interrompem o prazo para a interposição de recurso especial. § 6º As disposições previstas neste artigo aplicamse, no que couber, às decisões em forma de resolução. § 7º Não poderão ser incluídos em pauta de julgamento embargos de declaração para os quais não haja despacho de admissibilidade. § 8º Admitese sustentação oral nos termos do art. 58 aos julgamentos de embargos. Fl. 490DF CARF MF 16 Nos termos previstos no RICARF, a competência para admitir os embargos declaratórios é do Presidente da Turma. O parágrafo 3º do art. 65, deixa cristalino que a decisão do Presidente de rejeitar os embargos em que a alegação de omissão, contradição ou obscuridade sejam manifestamente improcedentes ou não estejam objetivamente apontadas tem caráter definitivo e portanto, não são submetidas a nova apreciação pela turma julgadora. Nos casos em que os embargos não são admitidos na sua integralidade a matéria não chega a turma, pois, sendo a decisão definitiva os embargos são rejeitados e o processo tem seguimento normal a partir deste ponto. A questão, que tem suscitado debates na turma, ocorre quando a admissibilidade dos embargos é parcial, existindo matéria admitida para prosseguimento da análise dos embargos e matéria não admitida. Tenho me posicionado em obediência ao Regimento do CARF, que a matéria constante dos embargos cujo seguimento tenha sido negado pelo Presidente da Turma obedece as determinações do parágrafo 3º do art. 65 do Regimento, ou seja, em sendo admitido parcialmente os embargos declaratórios, tornase definitiva a decisão quanto a matéria que foi negado seguimento, não cabendo, quanto a esta matéria, reapreciação da decisão do Presidente pela turma julgadora. Assinado digitalmente Winderley Morais Pereira Fl. 491DF CARF MF
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