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Numero do processo: 13839.914401/2011-07
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Mar 22 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu May 17 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o PIS/Pasep
Período de apuração: 01/02/2002 a 28/02/2002
PIS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ.
Transitou em julgado decisão do STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática de recurso repetitivo, que deu pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, de observância obrigatória por este Conselho, nos termos do seu Regimento Interno.
Já o STF, entendeu pela não inclusão, no Recurso Extraordinário nº 574.706, que tramita sob a sistemática da repercussão geral, mas de caráter não definitivo, pois pende de decisão embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional, elemento necessário à vinculação deste CARF.
Recurso Voluntário Negado
Numero da decisão: 3301-004.456
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria qualificada de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. O Conselheiro Ari Vendramini votou pelas conclusões.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen.
Nome do relator: JOSE HENRIQUE MAURI
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ICMS NA BASE DE CÁLCULO. Recorrente QUÍMICA AMPARO LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O PIS/PASEP Período de apuração: 01/02/2002 a 28/02/2002 PIS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ. Transitou em julgado decisão do STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática de recurso repetitivo, que deu pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, de observância obrigatória por este Conselho, nos termos do seu Regimento Interno. Já o STF, entendeu pela não inclusão, no Recurso Extraordinário nº 574.706, que tramita sob a sistemática da repercussão geral, mas de caráter não definitivo, pois pende de decisão embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional, elemento necessário à vinculação deste CARF. Recurso Voluntário Negado Acordam os membros do colegiado, por maioria qualificada de votos, em negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. Vencidos os Conselheiros Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. O Conselheiro Ari Vendramini votou pelas conclusões. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Presidente e Relator. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 13 83 9. 91 44 01 /2 01 1- 07 Fl. 113DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 3 2 Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: José Henrique Mauri (Presidente Substituto), Liziane Angelotti Meira, Marcelo Costa Marques D'Oliveira, Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Maria Eduarda Alencar Câmara Simões (Suplente convocada), Ari Vendramini, Semíramis de Oliveira Duro e Valcir Gassen. Relatório Tratase de recurso voluntário interposto contra o Acórdão nº 06051.773, proferido pela 3ª Turma da Delegacia da Receita Federal do Brasil de Julgamento em Curitiba. Por meio de Despacho Decisório da Delegacia da Receita Federal de Jundiaí foi indeferido o pleito constante do Pedido Eletrônico de Restituição – PER transmitido pela contribuinte, em razão da realização de pagamento a maior. Em referido ato administrativo, a autoridade fiscal indeferiu o pleito da interessada tendo em vista que o DARF discriminado no PER estava integralmente utilizado para quitação do débito de PIS cumulativa/o, não restando saldo de crédito disponível para o reconhecimento do crédito solicitado. A contribuinte foi cientificada do citado despacho decisório e apresentou, tempestivamente, a Manifestação de Inconformidade cujo conteúdo é resumido a seguir. A interessada defende, em apertada síntese, o direito ao crédito solicitado com a alegação de ter incluído de forma indevida o ICMS na base de cálculo da contribuição recolhida. Diz que o ato administrativo foi proferido de forma precipitada e com flagrante desrespeito à legislação tributária, notadamente a que trata da necessidade de lançamento tributário (art. 142 do Código Tributário Nacional). Sustenta a legitimidade do indébito tributário informado no pedido de restituição alegando que no presente caso não existe óbice à restituição, nos termos do art. 165, do Código Tributário Nacional, uma vez que houve um erro na composição da base de cálculo da contribuição e que a vinculação do DARF, pago indevidamente, a um débito declarado em DCTF, constituise em uma mera informação. Relata que está juntando ao processo planilha por meio da qual se pode constatar a existência do pagamento a maior do que o devido e que este documento faz a prova necessária para confirmar o indébito alegado. Acrescenta que em caso de dúvida quanto ao crédito o julgamento pode ser convertido em diligência para que a interessada seja intimada a demonstrar, através de outros elementos, o crédito vindicado. Defende a tese relativa a improcedência da inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição alegando que referido tributo não integra o conceito de faturamento (receita bruta), pois tratase de mero ingresso de recursos, os quais devem ser repassados ao fisco estadual, e que o Supremo Tribunal Federal – STF, consoante o voto proferido pelo Ministro Marco Aurélio no Recurso Extraordinário nº 240.785/MG, entendeu que o valor do ICMS não pode compor a base de cálculo das contribuições Fl. 114DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 4 3 (PIS e Cofins). Sustenta que a interpretação da autoridade tributária relacionada com a questão da inclusão do ICMS nas receitas dos contribuinte (interpretação do art. 3º da Lei 9.718, de 1988) é contrária ao art. 110 do CTN, uma vez que não se caracteriza como juízo de inconstitucionalidade, mas sim como controle administrativo interno dos atos administrativos. Aduz, por fim, que a declaração de inconstitucionalidade (exclusão do ICMS da base de cálculo da contribuição) em referido RE é iminente e que o proferimento dela pelo Supremo Tribunal Federal tornará sua observância obrigatória pela Administração Tributária. Diante do exposto, requer a interessada o acolhimento da manifestação para o fim de afastar o Despacho Decisório questionado e deferir integralmente o pedido de restituição. O citado acórdão decidiu pela improcedência da manifestação de inconformidade, sob o fundamento, em síntese, que falece ao julgador da esfera administrativa competência para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária e pela impossibilidade de exclusão do valor devido a título de ICMS da base de cálculo da contribuição. Inconformada com a improcedência da manifestação de inconformidade, a contribuinte interpôs recurso voluntário, basicamente, repetindo os argumentos trazidos em sede de manifestação. Ao final, pugna pela reforma do acórdão recorrido. É o relatório. Fl. 115DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 5 4 Voto Conselheiro José Henrique Mauri, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 3301004.397, de 22 de março de 2018, proferido no julgamento do processo 13839.900183/201204, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 3301004.397): "O recurso voluntário apresentado é tempestivo e atende aos demais pressupostos de admissibilidade1. O núcleo da discussão em pauta é a inclusão ou não do ICMS na base de cálculo da Cofins. O acórdão recorrido enumera diplomas legais de regência, concluindo não haver previsão legal para a exclusão do ICMS da base de cálculo da Cofins: Pelas argumentações trazidas em sua manifestação de inconformidade, vêse, de pronto, que a pretensão da contribuinte implica negar efeito a disposição expressa de lei. Nesse contexto, cumpre registrar que não há na legislação de regência previsão para a exclusão do valor do ICMS das bases de cálculo do PIS e da Cofins, na forma aduzida pela interessada, já que esse valor é parte integrante do preço das mercadorias e serviços vendidos, exceção feita para o ICMS recolhido mediante substituição tributária, pelo contribuinte substituto tributário. De fato. A Lei Complementar nº 7, de 1970, a Lei Complementar nº 70, de 1991, a Lei nº 9.715, de 1998 (que resultou da conversão da Medida Provisória nº 1.212, de 1995 e suas reedições), a Lei nº 9.718, de 1998, e, mais recentemente, as Leis 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e 10.833, de 29 de dezembro de 2003, ao longo de seus dispositivos, definem expressamente todos os aspectos das hipóteses de incidência vinculadas ao PIS e à Cofins. As citadas normas definem os sujeitos passivos da relação tributária, os casos de nãoincidência, a alíquota, a base de cálculo, o prazo de recolhimento, etc., e submetem as contribuições às normas do processo administrativo fiscal, além do que, para os casos de atraso de pagamento e penalidades, as 1 Ressaltese ser desnecessário responder todos as questões levantadas pelas partes, em já havendo motivo suficiente para decidir (Lei n° 13.105/15, art. 489, § 1o , IV. STJ, 1ª Seção, EDcl no MS 21.315DF, julgado de 8/6/2016, rel. Min. Diva Malerbi). Fl. 116DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 6 5 subordina, de forma subsidiária, à legislação do imposto de renda. Como se percebe, nada resta a definir. Os atos legais descrevem expressamente todas as feições das exações instituídas, nada deixando ao alvedrio do intérprete. Quando remetem atribuições a normas de outro tributo, o fazem estabelecendo com precisão os limites da remissão; limites estes, aliás, que, in concreto, jamais se estendem sobre a definição das bases de cálculo das contribuições. O conceito de faturamento tem sua extensão perfeitamente delimitada pela explicitação de seu conteúdo e pela expressa enumeração das exclusões passíveis de serem efetuadas, não havendo dentre essas, como se vê, qualquer referência ao ICMS devido pela venda de mercadorias. Caso pretendesse o legislador excluir o ICMS na base de cálculo do PIS e da Cofins, estaria a hipótese expressamente prevista como uma das exclusões da receita bruta. Sobre o tema, o STJ decidiu, em recurso especial sob a sistemática de recurso repetitivo, pela inclusão do ICMS na base de cálculo das contribuições, já com trânsito em julgado. Já o STF entendeu pela sua não inclusão, em recurso extraordinário sob a sistemática da repercussão geral, mas em caráter não definitivo, pois pende de decisão sobre embargos de declaração protocolados pela Fazenda Nacional. É o que detalha decisão recente deste Conselho: PIS/COFINS. BASE DE CÁLCULO. INCLUSÃO DO ICMS. RECURSO REPETITIVO. STJ. TRÂNSITO EM JULGADO. CARF. REGIMENTO INTERNO. Decisão STJ, no Recurso Especial nº 1144469/PR, sob a sistemática do recurso repetitivo, art. 543C do CPC/73, que firmou a seguinte tese: "O valor do ICMS, destacado na nota, devido e recolhido pela empresa compõe seu faturamento, submetendose à tributação pelas contribuições ao PIS/PASEP e COFINS, sendo integrante também do conceito maior de receita bruta, base de cálculo das referidas exações", a qual deve ser reproduzida nos julgamentos do CARF a teor do seu Regimento Interno. Em que pese o Supremo Tribunal Federal ter decidido em sentido contrário no Recurso Extraordinário nº 574.706 com repercussão geral, publicado no DJE em 02.10.2017, como ainda não se trata da "decisão definitiva" a que se refere o art. 62, §2º do Anexo II do Regimento Interno do CARF, não é o caso de aplicação obrigatória desse precedente ao caso concreto. Recurso Voluntário Negado (CARF, 3º Seção, 4º Câmara, 2º Turma Ordinária, Ac. 3402 004.742, de 24/10/2017, rel. Conselheiro Jorge Olmiro Lock Freire). Fl. 117DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 7 6 Assim, transitada em julgado decisão do STJ, em recurso especial, sob a sistemática de recurso repetitivo, pela inclusão do ICMS na base de cálculo da PIS/Pasep e da Cofins, deve este Conselho observála, nos termos do seu Regimento Interno, descabendo analisar argumentos trazidos aos autos sobre o tema. A decisão do STF, em sentido contrário, em recurso extraordinário de repercussão geral, mas de caráter não definitivo, não tem o mesmo efeito. Nos ditos embargos, a Fazenda Nacional requer a modulação dos efeitos da decisão embargada, para que produza efeitos ex nunc, apenas após o julgamento dos embargos. Ora, se há pedido de modulação dos efeitos, tratase de atividade satisfativa, incluíndose na solução de mérito nos termos do art. 487 do atual CPC. E se assim é, podese afirmar que não houve ainda decisão definitiva de mérito, independentemente do transito em julgado. A embargante ainda suscita, entre outras questões, haver erro material ou omissão, por ter a corrente vencedora prestado ao art. 187 da Lei 6.404/76 efeito que ele não possui: estabelecer conceito de receita bruta: 7. Observese que, no caso dos autos, alguns votos da corrente vencedora2 [...] concederam grande relevância ao fundamento de que “receita bruta”, expressão a que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, ao longo de inúmeros julgados, equiparou ao vocábulo “faturamento” (art. 195, I, b, da Constituição), possui um sentido próprio no direito privado, definido no art. 187, I, da Lei 6.404/76. 8. No entanto, cumpre destacar que há um equívoco evidente em tal linha de argumentação: o mencionado dispositivo legal não estabelece qualquer conceito para receita bruta. Apenas disciplina que, na demonstração do resultado do exercício, deverá estar descrita a “receita bruta das vendas e serviços, as deduções das vendas, os abatimentos e os impostos”. A assertiva, simplesmente, permite concluir que tais expressões se referem a grandezas diferentes, mas não afirma que uma não esteja contida na outra. Levanta também, na mesma toada que os votos vencedores "deixaram de considerar o disposto no art. 12 do DecretoLei 1.598/77, reiteradamente citado pelos votos vencidos", que dá pela inclusão dos tributos na receita bruta: art. 12. A receita bruta compreende: I o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II o preço da prestação de serviços em geral; III o resultado auferido nas operações de conta alheia; e IV as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos I a III. § 1o A receita líquida será a receita bruta diminuída de: (...) III tributos sobre ela incidentes; e Fl. 118DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 8 7 (...) § 4o Na receita bruta não se incluem os tributos não cumulativos cobrados, destacadamente, do comprador ou contratante pelo vendedor dos bens ou pelo prestador dos serviços na condição de mero depositário. § 5o Na receita bruta incluemse os tributos sobre ela incidentes e os valores decorrentes do ajuste a valor presente, de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, das operações previstas no caput, observado o disposto no § 4o. (Grifos do original). Ainda que sejam três os pilares da argumentação da corrente vencedora, apenas um deles tratando do conceito de receita, tratase evidentemente de questão meritória. A recorrente traz aos autos planilha na qual recalcula a base de cálculo da Cofins "sem o ICMS", com a qual, juntamente como os documentos mencionados na seqüência, pretende provar o seu direito ao crédito em discussão: (...) Instrui o recurso voluntário com relatórios "NOVA GIA" a demonstrarem a apuração do ICMS, referente apenas a novembro de 2011, como também o balancete referente apenas a este período. O acordão recorrido assim se manifestou quando lhe fora levada dita planilha: "não sendo hábil para a comprovação do direito à repetição do indébito, uma simples planilha, desacompanhada de documentação contábil e fiscal que lhe conceda suporte e validade.A planilha segue abaixo". Tais elementos não demonstram o direito ao crédito sem que a questão de direito que defende, de não inclusão do ICMS na base de cálculo da contribuição, prospere. A planilha mencionada também não se fez acompanhar de documentos que lhe fizessem prova, para todos os períodos. Assim, também, a diligência que requer, para, eventualmente, "atestar in loco a regularidade da escrituração e do crédito", somente mereceria provimento, em caso de demonstração da exclusão do ICMS da base de cálculo da Cofins. Insurgese a recorrente contra a afirmação do acórdão de piso de que "o débito de Cofins cumulativa, do período de apuração de nov/2002 (para o qual consta alocado o pagamento objeto do pedido de restituição), foi constituído, nos termos do art. 142 do CTN, através de [...] DCTF apresentada pela interessada, posto que essa declaração constituí confissão de dívida e instrumento hábil e suficiente para a exigência do referido crédito tributário, conforme prevê o § 1º do art. 5º do Decretolei nº 2.124, de 13 de junho de 1984". Ainda que se apliquem tais normas, há decisões deste Conselho que têm entendido pela relativização de tal meio de prova, com as quais concordo, privilegiandose o princípio da verdade material: Fl. 119DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 9 8 COMPROVAÇÃO DO DIREITO CREDITÓRIO. INFORMAÇÕES CONSTANTES DA DOCUMENTAÇÃO SUPORTE. LIQUIDEZ E CERTEZA. PRINCÍPIO DA VERDADE MATERIAL. O direito creditório pleiteado não pode ser vinculado a requisitos meramente formais, nos termos do art. 165 do Código Tributário Nacional. Assim, ainda que a DCTF seja instrumento de confissão de dívida, a comprovação por meio de outros elementos contábeis e fiscais que denotem erro na informação constante da obrigação acessória, acoberta a declaração de compensação, em apreço ao princípio da verdade material Recurso Voluntário Provido (CARF, 3º Seção, 3º Câmara, 1º Turma Ordinária, Ac. 3301 002.678, de 08/12/2015, rel. Conselheiro Luiz Augusto do Couto Chagas). O acórdão de piso entendeu não ter se configurado qualquer das hipóteses do art. 165 do CTN, aquele que estabelece o direito à restituição de tributo, especialmente por que "não existe a comprovação de que tenha ocorrido, em face da legislação aplicável, pagamento da contribuição em valor a maior do que o devido"; como também porque "não foi demonstrada a existência de decisão judicial transitada em julgado reconhecendo a existência de indébito tributário (relativamente ao pagamento apontado no pedido de restituição – PER) que diga respeito à inclusão indevida do ICMS na base de cálculo da contribuição. não havendo decisão". Argumenta a recorrente ter havido erro na composição da base de cálculo da Cofins, visto que "a Recorrente considerou inadvertidamente o ICMS como componente de sua receita bruta", nos termos do inciso II, do dito artigo. Mais uma vez, somente com a demonstração do direito ao crédito, o que não ocorre, poderseia falar no dito erro. Assim, pelo exposto voto por negar provimento ao recurso voluntário." Importa registrar que nos autos ora em apreço, a situação fática e jurídica encontra correspondência com a verificada no paradigma, de tal sorte que o entendimento lá esposado pode ser perfeitamente aqui aplicado. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu negar provimento ao recurso voluntário. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Fl. 120DF CARF MF Processo nº 13839.914401/201107 Acórdão n.º 3301004.456 S3C3T1 Fl. 10 9 Fl. 121DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.723109/2010-60
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO ENTRE DISPOSITIVO E VOTO. EFEITOS INFRINGENTES.
Cabem embargos quando o acórdão apresenta omissão, contradição ou obscuridade. Configura contradição a divergência de entendimento expresso no voto e no dispositivo da decisão. Prevalece a tese sustentada no voto. Aplicam-se efeitos infringentes.
VALE TRANSPORTE.
O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição.
Isto porque, o artigo 5° II da Carta Magna reza que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer, senão em virtude de lei (Princípio da Legalidade). Mas esta mesma Constituição diz que faz parte do direito do trabalhador o reconhecimento das convenções coletivas do trabalho.
No presente caso não foi comprovado a previsão de pagamento de vale transporte em pecúnia.
DILAÇÃO DE PRAZO PARA PRODUÇÃO DE PROVAS.
Seguindo inteligência do Decreto 70.235 de 1972, em especial no artigo 16, IV, é imprescindível que seja demonstrada as razões justificadas da produção de prova.
No presente caso a Recorrente tão somente justificou-se para conseguir a dilação, que é empresa de atuação nacional e outras provas estariam, por certo, em outros estabelecimentos.
MULTA
No presente caso, a multa que mais beneficia a Recorrente é a do Artigo 61 da Lei 9.430 de 1996, até 11 de 2008.
Numero da decisão: 2301-005.295
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos de declaração com efeitos infringentes, para, sanando o vício apontado no Acórdão nº 2301-003.029, de 18/09/2012, rerratificar o acórdão embargado, de modo a adequar o dispositivo da decisão ao que consta do voto do relator.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Mauricio Vital, Wesley Rocha, Antonio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Wesley Rocha e João Bellini Junior (Presidente).
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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CONTRADIÇÃO ENTRE DISPOSITIVO E VOTO. EFEITOS INFRINGENTES. Cabem embargos quando o acórdão apresenta omissão, contradição ou obscuridade. Configura contradição a divergência de entendimento expresso no voto e no dispositivo da decisão. Prevalece a tese sustentada no voto. Aplicamse efeitos infringentes. VALE TRANSPORTE. O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição. Isto porque, o artigo 5° II da Carta Magna reza que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer, senão em virtude de lei (Princípio da Legalidade). Mas esta mesma Constituição diz que faz parte do direito do trabalhador o reconhecimento das convenções coletivas do trabalho. No presente caso não foi comprovado a previsão de pagamento de vale transporte em pecúnia. DILAÇÃO DE PRAZO PARA PRODUÇÃO DE PROVAS. Seguindo inteligência do Decreto 70.235 de 1972, em especial no artigo 16, IV, é imprescindível que seja demonstrada as razões justificadas da produção de prova. No presente caso a Recorrente tão somente justificouse para conseguir a dilação, que é empresa de atuação nacional e outras provas estariam, por certo, em outros estabelecimentos. MULTA No presente caso, a multa que mais beneficia a Recorrente é a do Artigo 61 da Lei 9.430 de 1996, até 11 de 2008. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 16 6. 72 31 09 /2 01 0- 60 Fl. 997DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos de declaração com efeitos infringentes, para, sanando o vício apontado no Acórdão nº 2301003.029, de 18/09/2012, rerratificar o acórdão embargado, de modo a adequar o dispositivo da decisão ao que consta do voto do relator. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Presidente. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Mauricio Vital, Wesley Rocha, Antonio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Wesley Rocha e João Bellini Junior (Presidente). Relatório Tratamse de embargos interpostos pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2301003.029. A embargante sustentou ter havido contradição entre o dispositivo da decisão, que indica provimento ao recurso voluntário na questão do valetransporte nos termos do voto do relator, e o próprio voto do relator, onde se constata a manutenção da autuação. Os embargos foram admitidos pelo presidente desta turma. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital Relator. A Embargante alega a existência de contradição entre o dispositivo da decisão e o voto. De fato, a contradição está evidente. O dispositivo da decisão assinalou o provimento do recurso voluntário, com a consequente desoneração do contribuinte no que se refere à incidência de contribuição previdenciária sobre valetransporte. Dele consta: Acordam os membros do colegiado I) Por unanimidade de votos: a) em dar provimento ao recurso, na questão do vale transporte, nos termos do voto do Relator; (Sem grifo no original.) Porém, ao analisar a matéria, o relator assim se manifestou em seu voto: Fl. 998DF CARF MF Processo nº 10166.723109/201060 Acórdão n.º 2301005.295 S2C3T1 Fl. 998 3 É bem verdade que o artigo 5° do Decreto 95.247/87, vedou a substituição do valetransporte por antecipação em dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento, que não seja o vale transporte. Mas a Lei 7.4181985, que instituiu o vale transporte, não faz menção neste sentido. Ao contrário, ela diz ser direito do trabalhador, respeitando o acordo ou a convenção coletiva de trabalho e que não possui natureza salarial. (Grifo do original.) ......................................................................................................... Neste sentir, se julgar que o Decreto 95.247 de 87 é o instituir de regras para o pagamento do vale transporte, estaríamos admitindo a sua superioridade à Lei 7.418 de 85, pois, dito pela lei em destaque, a regra geral é o pagamento do vale transporte. Só que no presente caso não foi localizada a previsão em convenção coletiva de trabalho, razão pela qual penso que deve ser mantida a autuação nesta rubrica. (Sem grifo no original.) ......................................................................................................... CONCLUSÃO Diante do acima exposto, como o presente recurso voluntário atende os pressupostos de admissibilidade, tenho que o mesmo deve ser conhecido, para DARLHE PARCIAL PROVIMENTO quanto o reconhecimento de não incidência de contribuição social em vale transporte paga em espécie ao trabalhador se atende o objeto da lei, bem como, no mérito, aplicar a multa prevista no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, até 11/2008, se mais benéfica à Recorrente, mantendo o crédito tributário a integralidade da decisão ‘a quo’ nas demais rubricas. (Sem grifo no original.) A tese exposta pelo relator, e que recebeu a adesão unânime da turma, foi de que o valetransporte poderia ser pago em dinheiro, uma vez que a lei não trouxe limitação quanto a isso e o decreto regulamentador não poderia fazêlo. Porém, as condições da lei deveriam ser observadas e, no caso em concreto, uma das condições, que é a previsão do pagamento do benefício em convenção coletiva, não teria sido adimplida pelo contribuinte, razão pela qual o relator pugnou pela manutenção da autuação. O texto da ementa reforça o entendimento do colegiado de que a convenção coletiva é condição necessária à exclusão do valetransporte do salário de contribuição: O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição.(Grifo do original.) Voto por acolher os embargos e rerratificar o acórdão embargado, dandolhe efeitos infringentes, de modo a adequar o dispositivo da decisão ao que consta do voto do relator. Fl. 999DF CARF MF 4 João Maurício Vital Relator Fl. 1000DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10166.723107/2010-71
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Thu May 10 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Thu Jun 21 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuições Sociais Previdenciárias
Período de apuração: 01/01/2006 a 31/12/2006
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. CONTRADIÇÃO ENTRE DISPOSITIVO E VOTO. EFEITOS INFRINGENTES.
Cabem embargos quando o acórdão apresenta omissão, contradição ou obscuridade. Configura contradição a divergência de entendimento expresso no voto e no dispositivo da decisão. Prevalece a tese sustentada no voto. Aplicam-se efeitos infringentes.
VALE TRANSPORTE.
O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição.
Isto porque, o artigo 5° II da Carta Magna reza que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer, senão em virtude de lei (Princípio da Legalidade). Mas esta mesma Constituição diz que faz parte do direito do trabalhador o reconhecimento das convenções coletivas do trabalho.
No presente caso não foi comprovado a previsão de pagamento de vale transporte em pecúnia.
DILAÇÃO DE PRAZO PARA PRODUÇÃO DE PROVAS.
Seguindo inteligência do Decreto 70.235 de 1972, em especial no artigo 16, IV, é imprescindível que seja demonstrada as razões justificadas da produção de prova.
No presente caso a Recorrente tão somente justificou-se para conseguir a dilação, que é empresa de atuação nacional e outras provas estariam, por certo, em outros estabelecimentos.
MULTA
No presente caso, a multa que mais beneficia a Recorrente é a do Artigo 61 da Lei 9.430 de 1996, até 11 de 2008.
Numero da decisão: 2301-005.296
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, acolher os embargos de declaração com efeitos infringentes para, sanando o vício apontado no Acórdão nº 2301-002.969, de 14/08/2012, rerratificar o acórdão embargado, de modo a adequar o dispositivo da decisão ao que consta do voto do relator.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Mauricio Vital, Wesley Rocha, Antonio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Wesley Rocha e João Bellini Junior (Presidente).
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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CONTRADIÇÃO ENTRE DISPOSITIVO E VOTO. EFEITOS INFRINGENTES. Cabem embargos quando o acórdão apresenta omissão, contradição ou obscuridade. Configura contradição a divergência de entendimento expresso no voto e no dispositivo da decisão. Prevalece a tese sustentada no voto. Aplicamse efeitos infringentes. VALE TRANSPORTE. O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição. Isto porque, o artigo 5° II da Carta Magna reza que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer, senão em virtude de lei (Princípio da Legalidade). Mas esta mesma Constituição diz que faz parte do direito do trabalhador o reconhecimento das convenções coletivas do trabalho. No presente caso não foi comprovado a previsão de pagamento de vale transporte em pecúnia. DILAÇÃO DE PRAZO PARA PRODUÇÃO DE PROVAS. 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(assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrea Brose Adolfo, Alexandre Evaristo Pinto, João Mauricio Vital, Wesley Rocha, Antonio Sávio Nastureles, Marcelo Freitas de Souza Costa, Juliana Marteli Fais Feriato, Wesley Rocha e João Bellini Junior (Presidente). Relatório Tratamse de embargos interpostos pela Fazenda Nacional em face do Acórdão nº 2301002.969. A embargante sustentou ter havido contradição entre o dispositivo da decisão, que indica provimento ao recurso voluntário na questão do valetransporte nos termos do voto do relator, e o próprio voto do relator, onde se constata a manutenção da autuação. Os embargos foram admitidos pelo presidente desta turma. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital Relator. A Embargante alega a existência de contradição entre o dispositivo da decisão e o voto. De fato, a contradição está evidente. O dispositivo da decisão assinalou o provimento do recurso voluntário, com a consequente desoneração do contribuinte no que se refere à incidência de contribuição previdenciária sobre valetransporte. Dele consta: Acordam os membros do colegiado I) Por unanimidade de votos: a) em dar provimento ao recurso, na questão do vale transporte, nos termos do voto do Relator; (Sem grifo no original.) Porém, ao analisar a matéria, o relator assim se manifestou em seu voto: Fl. 1890DF CARF MF Processo nº 10166.723107/201071 Acórdão n.º 2301005.296 S2C3T1 Fl. 1.890 3 É bem verdade que o artigo 5° do Decreto 95.247/87, vedou a substituição do valetransporte por antecipação em dinheiro ou qualquer outra forma de pagamento, que não seja o vale transporte. Mas a Lei 7.4181985, que instituiu o vale transporte, não faz menção neste sentido. Ao contrário, ela diz ser direito do trabalhador, respeitando o acordo ou a convenção coletiva de trabalho e que não possui natureza salarial. (Grifo do original.) ......................................................................................................... Neste sentir, se julgar que o Decreto 95.247 de 87 é o instituir de regras para o pagamento do vale transporte, estaríamos admitindo a sua superioridade à Lei 7.418 de 85, pois, dito pela lei em destaque, a regra geral é o pagamento do vale transporte. Só que no presente caso não foi localizada a previsão em convenção coletiva de trabalho, razão pela qual penso que deve ser mantida a autuação nesta rubrica. (Sem grifo no original.) ......................................................................................................... CONCLUSÃO Diante do acima exposto, como o presente recurso voluntário atende os pressupostos de admissibilidade, tenho que o mesmo deve ser conhecido, para DARLHE PARCIAL PROVIMENTO quanto o reconhecimento de não incidência de contribuição social em vale transporte paga em espécie ao trabalhador se atende o objeto da lei, bem como, no mérito, aplicar a multa prevista no Art. 61, da Lei nº 9.430/1996, até 11/2008, se mais benéfica à Recorrente, mantendo o crédito tributário a integralidade da decisão ‘a quo’ nas demais rubricas. (Sem grifo no original.) A tese exposta pelo relator, e que recebeu a adesão unânime da turma, foi de que o valetransporte poderia ser pago em dinheiro, uma vez que a lei não trouxe limitação quanto a isso e o decreto regulamentador não poderia fazêlo. Porém, as condições da lei deveriam ser observadas e, no caso em concreto, uma das condições, que é a previsão do pagamento do benefício em convenção coletiva, não teria sido adimplida pelo contribuinte, razão pela qual o relator pugnou pela manutenção da autuação. O texto da ementa reforça o entendimento do colegiado de que a convenção coletiva é condição necessária à exclusão do valetransporte do salário de contribuição: O vale transporte quando pago em dinheiro e previsto em Convenção Coletiva do Trabalho, não enseja salário contribuição.(Grifo do original.) Voto por acolher os embargos e rerratificar o acórdão embargado, dandolhe efeitos infringentes, de modo a adequar o dispositivo da decisão ao que consta do voto do relator. Fl. 1891DF CARF MF 4 João Maurício Vital Relator Fl. 1892DF CARF MF
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Numero do processo: 15987.000680/2009-29
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue May 15 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Fri Jun 15 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005
RECURSO ESPECIAL. DISSENSO JURISPRUDENCIAL. DEMONSTRAÇÃO. REQUISITO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. INADMISSIBILIDADE.
A demonstração do dissenso jurisprudencial é condição sine qua non para admissão do recurso especial. Para tanto, essencial que as decisões comparadas tenham identidade entre si. Se não há similitude fática entre o acórdão recorrido e os acórdãos paradigma, impossível reconhecer divergência na interpretação da legislação tributária.
Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005
SISTEMA NÃO CUMULATIVO DE APURAÇÃO. PRODUTO ADQUIRIDO DE COOPERATIVA. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. VEDAÇÃO DE CRÉDITO. INAPLICABILIDADE.
A pessoa jurídica que adquire produtos de cooperativas tem direito a apropriar-se do crédito correspondente, desde que observadas as demais condições e requisitos legais.
As reduções da base de cálculo sobre a qual incidem as Contribuições devidas pelas cooperativas não atrai a vedação de apropriação de créditos prevista para os casos em que são adquiridos produtos não sujeitos ao pagamento dessas Contribuições. Parecer Cosit nº 65/2014.
Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte.
Numero da decisão: 9303-006.705
Decisão: Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial. Não foi conhecida a matéria identificada como "direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa", vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Érika Costa Camargos Autran, que conheceram do recurso integralmente. No mérito, na parte conhecida, por unanimidade de votos, acordam em dar-lhe provimento parcial, para reconhecer o direito de crédito nas aquisições realizadas às cooperativas, mas somente para os produtos por elas vendidos sem a suspensão da incidência das Contribuições.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: RODRIGO DA COSTA POSSAS
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DIREITO DE CRÉDITO. AQUISIÇÕES DE COOPERATIVAS. Recorrente OUTSPAN BRASIL IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO LTDA. Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 RECURSO ESPECIAL. DISSENSO JURISPRUDENCIAL. DEMONSTRAÇÃO. REQUISITO. AUSÊNCIA DE SIMILITUDE FÁTICA. INADMISSIBILIDADE. A demonstração do dissenso jurisprudencial é condição sine qua non para admissão do recurso especial. Para tanto, essencial que as decisões comparadas tenham identidade entre si. Se não há similitude fática entre o acórdão recorrido e os acórdãos paradigma, impossível reconhecer divergência na interpretação da legislação tributária. ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 SISTEMA NÃO CUMULATIVO DE APURAÇÃO. PRODUTO ADQUIRIDO DE COOPERATIVA. AQUISIÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS NÃO SUJEITOS AO PAGAMENTO DAS CONTRIBUIÇÕES. VEDAÇÃO DE CRÉDITO. INAPLICABILIDADE. A pessoa jurídica que adquire produtos de cooperativas tem direito a apropriarse do crédito correspondente, desde que observadas as demais condições e requisitos legais. As reduções da base de cálculo sobre a qual incidem as Contribuições devidas pelas cooperativas não atrai a vedação de apropriação de créditos prevista para os casos em que são adquiridos produtos não sujeitos ao pagamento dessas Contribuições. Parecer Cosit nº 65/2014. Recurso Especial do Contribuinte Provido em Parte. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 15 98 7. 00 06 80 /2 00 9- 29 Fl. 1694DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 3 2 Acordam os membros do colegiado, por maioria de votos, em conhecer em parte do Recurso Especial. Não foi conhecida a matéria identificada como "direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa", vencidos os conselheiros Tatiana Midori Migiyama, Demes Brito e Érika Costa Camargos Autran, que conheceram do recurso integralmente. No mérito, na parte conhecida, por unanimidade de votos, acordam em darlhe provimento parcial, para reconhecer o direito de crédito nas aquisições realizadas às cooperativas, mas somente para os produtos por elas vendidos sem a suspensão da incidência das Contribuições. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Luiz Eduardo de Oliveira Santos, Demes Brito, Jorge Olmiro Lock Freire, Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. Relatório Tratase de recurso especial de divergência interposto pelo contribuinte contra decisão tomada no Acórdão nº 3403002.972, de 27 de maio de 2014, que recebeu a seguinte ementa: ASSUNTO: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social Cofins Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. NOTAS FISCAIS SEM CAUSA. GLOSA. Aquisições de mercadorias amparadas por notas fiscais emitidas por “noteiros”, pessoas jurídicas inexistentes de fato, precipuamente constituídas para esse fim, não dão direito a crédito. NÃO CUMULATIVIDADE. CREDITAMENTO. COMPRAS NÃO ONERADAS. VEDAÇÃO LEGAL. A aquisição de bens ou serviços não onerados pela contribuição não dá direito a crédito. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Período de apuração: 01/10/2005 a 31/12/2005 CONTRIBUIÇÃO SOCIAL NÃO CUMULATIVA. RESSARCIMENTO. CORREÇÃO. INCIDÊNCIA DE JUROS. VEDAÇÃO LEGAL. Fl. 1695DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 4 3 O aproveitamento de créditos não enseja atualização monetária ou incidência de juros sobre os respectivos valores por expressa vedação legal Recurso Voluntário Negado Direito Creditório Não Reconhecido A divergência suscitada no recurso especial referese (i) à nulidade da decisão recorrida pelo não suprimento de omissão apontada em sede de embargos declaratórios, (ii) ao direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa; (iii) ao direito de crédito nas aquisições realizadas junto a cooperativas, mesmo quando elas utilizam as reduções a que tem direito a posteriori e (iv) ao reconhecimento de inexistência de suspensão da incidência das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins na atividade de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café. O recurso especial foi admitido em parte, conforme despacho de admissibilidade do Presidente da Quarta Câmara da Terceira Seção do CARF. Contrarrazões da Fazenda Nacional foram apresentadas requerendo que não se admita o recurso e, no mérito, que lhe seja negado provimento. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido no Acórdão 9303006.692, de 15/05/2018, proferido no julgamento do processo 10845.720753/200901, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Acórdão 9303006.692): "Conhecimento do Recurso Especial O recurso especial do contribuinte foi admitido apenas em relação (i) ao direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa; (ii) ao direito de crédito nas aquisições realizadas junto a cooperativas, mesmo quando elas utilizam as reduções a que tem direito a posteriori e (iii) ao reconhecimento de inexistência de suspensão da incidência das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins na atividade de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café. A Fazenda Nacional, em sede de contrarrazões, esforçase em demonstrar que a recorrente não logrou êxito em comprovar a divergência jurisprudencial em relação ao direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa. Fl. 1696DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 5 4 Colho do recurso especial o excerto que bem retrata a linha de raciocínio defendida pela recorrente. Efetuandose o devido cotejo analítico temse que, enquanto o v. acórdão recorrido entende que deve ser mantida a glosa independentemente da comprovação da efetiva realização e pagamento da operação, o primeiro acórdão paradigma, em sentido oposto, assevera que a inidoneidade do fornecedor não afasta o direito de crédito do adquirente se demonstrado a ocorrência das operações e pagamento das transações. Em momento anterior, a recorrente contesta o entendimento defendido pelo i. Relator do acórdão recorrido. Nesse sentido, nos parece incorreto o voto do Ilustre Relator, dado que ignora a jurisprudência do tribunais, inclusive administrativo, e segue no sentido de que independe (sic) a boafé do adquirente (p. i do acórdão): "A propósito da prolatada boa fé da recorrente, digase liminar e definitivamente que, em face da objetividade das infrações tributárias, é desnecessário perquirir a intenção do agente". É curioso observar que a transcrição acima suprime boa parte do conteúdo do parágrafo da qual foi extraída. A parte suprimida deixa claro em seu preâmbulo, que é justamente o fragmento reproduzido no recurso, não é mais do que um comentário obter dictum, pois o fundamento da decisão é outro, em sentido contrário. Observese a íntegra do parágrafo. A propósito da propalada boa fé da recorrente, digase liminar e definitivamente que, em face da objetividade das infrações tributárias, é desnecessário perquirir a intenção do agente. Dito de outra forma, a despeito do amplo conjunto probatório formado nos autos do processo 15983.720078/201247, reproduzido, em parte, na decisão recorrida, que evidencia que Outspan, não só sabia, como participava ativamente do esquema fraudulento2, é irrelevante para o deslinde do presente litígio saber se a recorrente estava envolvida ou não no esquema revelado pelas sobreditas operações. Para tanto, basta que se ateste, no curso deste processo administrativo, que as notas fiscais que ampararam a tomada de crédito são idôneas para esse fim ou não. (grifos meus) E outras considerações presentes no voto condutor da decisão recorrida. A propósito, esta Turma Recursal já analisou a simulação perpetrada por JC Bins Cafeeira Colatina Ltda., MC da Silva Brasil Blend, Do Grão, L&L, Café Brasile, Giubert Café, Reicafé, WG de Azevedo, Ypiranga, entre outras pessoas jurídicas, por ocasião do recurso voluntário interposto nos autos do processo 10783.724858/201118. Na oportunidade, o Conselheiro Marcos Tranchesi Ortiz, no voto condutor do Acórdão nº 3403002.635, de 24 de novembro de 2013, entendeu restar escancarado que ao menos duas dessas pessoa jurídicas (JC Bins e MC da Silva) eram laranjas , cuja própria constituição seria simulada. Quanto às demais, embora não houvesse indício de vício de vontade na sua constituição, a simulação residiria apenas nos próprios contratos de compra e venda que celebravam. As empresas prestavamse ao serviço de troca de notas: recebiam a nota fiscal de produtor, e emitiam nota fiscal de venda à recorrente. O Conselheiro Marcos ainda sublinha que essas empresas... Fl. 1697DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 6 5 “...nada compravam, nada vendiam, não tinham estrutura pessoal, operacional e física nenhuma para operar no “comércio atacadista de café”; não tinham estoque, armazéns, funcionários. Nada.” (...) A propósito desse argumento, retomo aqui as pertinentes observações do Conselheiro Marcos Tranchesi Ortiz, quando analisouo em caso que envolvia os mesmos fornecedores: “Há um abismo de diferença entre a situação destes autos e a do precedente jurisprudencial mencionado. O que disse o STJ é que o contribuinte não pode ser prejudicado pela eventual e desconhecida inidoneidade de terceiro com quem contrata de boafé. A leitura do julgado revela que o tribunal condiciona o aproveitamento do crédito à demonstração de que a compra e venda efetivamente se realizou, justamente para alhear de seus comandos a hipótese de simulação. Aqui, as aquisições junto às empresas JC Bins e MC Silva não se amoldam à hipótese julgada já porque não se trata de negócio com terceiros, como se viu. E as demais aquisições tampouco, agora porque não houve entre as partes compra e venda efetiva. O REsp nº 1.148.444, enfim, consolida entendimento diametralmente contrário ao que favoreceria a recorrente. Há alguma dúvida de que o Colegiado recorrido, pelo menos na pessoa daqueles que não foram vencidos, entendeu que a recorrente estava envolvida nas operações fraudulentas de venda de notas fiscais e, por conseguinte, não se lhe aplicava a presunção de boafé consolidada na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e resguardada pela própria legislação tributária? No comentário transcrito no recurso, o então Relator do processo apenas registrou que, se a situação fosse outra, tomaria decisão idêntica. Mas a situação que o Colegiado enxergou e sobre a qual decidiu, por óbvio, não era outra e sim aquela narrada nos autos. Sua comparação com os fatos noticiados no paradigma demonstra absoluta ausência de identidade fática, se não vejamos. Excerto obtido do acórdão paradigma nº 3802002.382. Ao indeferir o pedido de ressarcimento assentado nessa fundamentação, a decisão recorrida não demanda qualquer reparo, porque, segundo ensina Paulo de Barros Carvalho, não há incompatibilidade entre o princípio constitucional da não cumulatividade e a exigência, para fins de aproveitamento do crédito, de documento hábil e de prova da efetiva ocorrência das operações documentadas: É, portanto, requisito para o aproveitamento do crédito que esteja ele vertido em documento hábil para certificar a ocorrência do fato que dá ensejo à apuração do crédito. [...] Fl. 1698DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 7 6 Cabe destacar, nesta exigência [3], a necessidade dos documentos atenderem ao que dispõe a legislação, no tocante à sua confecção, tipo, série e demais peculiaridades. Aquilo que se impõe, no caso, é o dever de o contribuinte conferir os documentos que acompanham os bens adquiridos, buscando identificar se atendem ou não ao que estabelecem os dispositivos legais que tratam da matéria. Nada mais. O derradeiro requisito, também percebido na já mencionada legislação, diz respeito à efetiva ocorrência das operações documentadas, o que já foi previamente lembrado letras acima. Ou, por outras palavras, o que estiver registrado – em documento fiscal – deve refletir a efetiva realização do negócio jurídico, com ingresso, real ou simbólico, da mercadoria no estabelecimento adquirente e o respectivo pagamento. Tais providências, quando tomadas em conjunto, evidenciam a boa fé do contribuinte, eximindo de eventuais responsabilidades caso seja posteriormente verificada a prática de ilícitos por terceiros [4] (grifos acrescidos) De fato, não há uma só palavra em todo o acórdão paradigma que faça menção à participação da autuada no esquema de compra de notas fiscais. Assim, uma vez que tenha comprovado o efetivo pagamento e recebimento das mercadorias, o Colegiado eximiua da responsabilidade pelas irregularidades praticadas por terceiros. Com efeito, como já disse, esse excludente de responsabilidade está previsto na própria legislação tributária. Lei 9.430/96 Art. 82. Além das demais hipóteses de inidoneidade de documentos previstos na legislação, não produzirá efeitos tributários em favor de terceiros interessados, o documento emitido por pessoa jurídica cuja inscrição no Cadastro Geral de Contribuintes tenha sido considerada ou declarada inapta. Parágrafo único. O disposto neste artigo não se aplica aos casos em que o adquirente de bens, direitos e mercadorias ou o tomador de serviços comprovarem a efetivação do pagamento do preço respectivo e o recebimento dos bens, direitos e mercadorias ou utilização dos serviços. As circunstâncias fáticas do paradigma não coincidem com as que são identificadas nos autos. Aqui, considerouse que a empresa fazia parte e atuava no esquema ilícito de compra e venda de notas fiscais que simulavam operações realizadas por pessoas jurídicas, lá, entendeuse que a empresa tinha agido de boafé. Fl. 1699DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 8 7 Assim, nessa parte o recurso especial do contribuinte não deve ser conhecido. Isto posto, uma vez que os demais requisitos de admissibilidade foram observados, passo ao exame de mérito dos assuntos remanescentes. Mérito 1 Direito de crédito nas aquisições realizadas junto a cooperativas A decisão de segunda instância negou o direito de crédito à recorrente para os produtos adquiridos junto às cooperativas tendo em vista essas mercadorias não estarem sujeitas ao pagamento das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins por parte do vendedor, por força da redução da base de cálculo prevista em lei. Observemse os fundamentos do voto (e folha 1.133 e 1.134). A afirmação recursal de que o café é um bem sujeito à incidência do PIS é uma impropriedade. As contribuições sociais não incidem sobre o valor dos bens, mas sobre o faturamento, entendido como tal o total das receitas auferidas pela pessoa jurídica. A contrario sensu, não incidem sobre receita não auferida. É o caso do produto das vendas de café adquirido aos cooperados, que é a eles repassado e, consequentemente, excluído da base de cálculo da contribuição apurada pela cooperativa. Ora, nessas condições, o preço de venda do café não foi onerado pela exação, razão pela qual não enseja direito a crédito da contribuição. Tomar crédito sem ter pagado a contribuição, em franco enriquecimento ilícito, as evidências do processo demonstram, muito agradaria ao recorrente, mas é repudiado por todo o ordenamento jurídico pátrio. Há, contudo, Solução de Consulta editada pela Secretaria da Receita Federal tratando do tema. Para maior clareza, transcrevo excerto dela extraídos. Solução de Consulta Cosit nº 65/2014 A dúvida principal da consulente é saber se a aquisição de produtos junto a cooperativas impede o aproveitamento de créditos no regime de apuração não cumulativa da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins. (...) As receitas das coopertativas, regra geral, estão sujeitas ao pagamento das contribuições. As exclusões da base de cálculo às quais as cooperativas têm direito não se confundem com não incidência, isenção, suspensão ou redução de alíquota a 0 (zero) nas suas vendas, o que impediria o aproveitamento de crédito por parte dos compradores de seus produtos. As sociedades cooperativas, além da incidência da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins sobre o faturamento, também apuram a Contribuição para o PIS/Pasep com base na folha de salários relativamente às operações referidas na MP nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001, art. 15, I a V. (...) Sabendose que, regra geral, não há impedimento ao aproveitamento de créditos nas aquisições de produtos junto a cooperativas, não há mais questão de interpretação da legislação tributária a ser resolvida. Basta aplicar literalmente a legislação referente à situação descrita na consulta, sendo vedada a apuração de créditos em relação às aquisições não sujeitas ao pagamento das contribuições. Fl. 1700DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 9 8 Até o anocalendário de 2011, enquanto vigiam para o café os artigos 8º e 9º da Lei nº 10.925, de 2004, os exportadores de café não podiam descontar créditos em relação às aquisições do produto com as suspensões previstas nos incisos I e III do art. 9º. Também não havia direito à apuração de créditos nas aquisições do produto com o fim específico de exportação, nos termos do art. 6º, § 4º, e 15, III, da Lei nº 10.833, de 2003, combinado com o art. 39, § 2º, da Lei nº 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Por outro lado, havia direito ao creditamento nas aquisições de café já submetido ao processo de produção descrito nos §§ 6º e 7º do art. 8º da Lei nº 10.925, de 2004, tendo em vista que sobre a receita de venda do café submetido a esta operação não se aplicava a suspensão da Contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins (art. 9º, § 1º, II, da Lei nº 10.925, de 2004). A partir do anocalendário 2012 não há mais direito ao desconto de créditos do art. 3º da Lei nº 10.637, de 2002, e da Lei nº 10833, de 2003, em relação às aquisições de café, tendo em vista a suspensão prevista no art. 4º da Lei nº 12.599, de 2012, e, a partir de 10 de julho de 2013, a redução de alíquota a 0 (zero) prevista no art. 1º, inciso XXI, da Lei nº 10.925, de 2004 (dispositivo incluído pela Lei nº 12.839, de 9 de julho de 2013). Ressalvese as hipóteses de crédito presumido previstas nos arts. 5º e 6º da Lei nº 12.599, de 2012. Ou seja, na situação específica, a empresa tem o direito de apurar créditos nas compras realizadas às cooperativas, desde que a saída do produto da cooperativa não tenha ocorrido com suspensão do pagamento das Contribuições para o PIS/Pasep e Cofins. Quanto a isso, percebese da leitura do acórdão recorrido que foram identificadas diferentes tipos de operações. No curso do procedimento fiscal, verificouse que, entre os fornecedores da Outspan, figuravam diversas sociedades cooperativas de produtores rurais. Intimadas a respeito da natureza de suas operações e dos procedimentos adotados na apuração das contribuições, especificamente com relação às operações que deram origem aos créditos pleiteados pelo recorrente, inclusive a esclarecer se exerceram cumulativamente as atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial6, apurouse que (fls. 19927 e seguintes do processo administrativo apensado nº 15983.720078/201247) algumas cooperativas revenderam produtos adquiridos de cooperados e valeramse da faculdade de excluir da base de cálculo os valores a eles repassados, ao amparo do inc. I do art. 15 da MP nº 2.15835, de 24 de agosto de 2001. Outras informaram que venderam toda a sua produção com “suspensão do PIS e COFINS”. Nestes dois casos,não se admitiu o creditamento. Um terceiro grupo de cooperativas informou que pequena parte pequena de suas vendas provinha de mercadorias adquiridas a não cooperados, mas que, nada obstante, excluíam da base de cálculo os repasses efetuados a seus cooperados, caso em que a Fiscalização admitiu a tomada de crédito segundo um rateio de receitas, apurado a partir da análise do DACON respectivo, consolidação no demonstrativo “Análise das Cooperativas” com o percentual dos valores aproveitáveis de diversas cooperativas fornecedoras da Outspan (fls. 20015/20016 do processo administrativo apensado nº 15983.720078/201247). Fl. 1701DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 10 9 Com base em todo o exposto, deve ser admitido o direito à apropriação de créditos nas aquisições de cooperativas de produtos que não deram saída com suspensão do pagamento das Contribuições. 2 Inexistência de suspensão da incidência das Contribuições Essa matéria foi tangenciada no tópico anterior uma vez que a Fiscalização Federal, como se viu dos excertos transcritos acima, tratou em conjunto as vendas com suspensão e as vendas com redução da base de cálculo. Cuidase, agora, especificamente das vendas com suspensão. As alegações da recorrente são no sentido de que não houve vendas com suspensão do pagamento das Contribuições, como a seguir se lê. Como o destaque da suspensão consiste em erro das fornecedoras ante a atividade agroindustrial evidenciado nas notas, há que se fazer o crédito integral, e eventualmente fiscalizar tais fornecedores. Diferentemente do que se possa imaginar, o café cru, ou o café verde, que são largamente adquiridos pela Recorrente e objeto destas indigitadas notas fiscais, não é o mesmo que café in natura. O café cru em grão, ou verde, certamente foram submetidos à atividade agroindustrial, por passar por padronização, beneficiamento, mistura etc. Ele não é o café moído ou torrado, mas está longe de ser um café in natura, que a Recorrente não adquiriu e que jamais teria a suspensão informada por alguns fornecedores. A sistemática de tributação do café é deveras complexa. À época, o § 6º do art. 8º da Lei 10.925/04 identificava operações com determinados produtos que, nos termos do § 1º1 do art. 9º, não poderiam sair com suspensão da incidência das Contribuições. § 6o Para os efeitos do caput deste artigo, considerase produção, em relação aos produtos classificados no código 09.01 da NCM, o exercício cumulativo das atividades de padronizar, beneficiar, preparar e misturar tipos de café para definição de aroma e sabor (blend) ou separar por densidade dos grãos, com redução dos tipos determinados pela classificação oficial Por seu turno, o inciso I, do § 1º do art. 8º do mesmo diploma legal especificava operações com determinados produtos que davam direito ao crédito presumido por serem vendidos com suspensão das Contribuições. cerealista que exerça cumulativamente as atividades de limpar, padronizar, armazenar e comercializar os produtos in natura de origem vegetal, classificados nos códigos 09.01, 10.01 a 10.08, exceto os dos códigos 1006.20 e 1006.30, 12.01 e 18.01, todos da NCM. 1 § 1o O disposto neste artigo: (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) I aplicase somente na hipótese de vendas efetuadas à pessoa jurídica tributada com base no lucro real; e (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) II não se aplica nas vendas efetuadas pelas pessoas jurídicas de que tratam os §§ 6o e 7o do art. 8o desta Lei. (Incluído pela Lei nº 11.051, de 2004) Fl. 1702DF CARF MF Processo nº 15987.000680/200929 Acórdão n.º 9303006.705 CSRFT3 Fl. 11 10 Não é de estranhar que o vendedor que exercesse cumulativamente algumas das atividades acima entendesse que se enquadrava na hipótese do inciso I do § 1º do art. 8º e, assim, vendesse seus produtos com suspensão. De toda sorte, cabia à Recorrente requerer a correção das informações contidas nas notas fiscais de compra dos produtos que adquirira, ex vi art. 62 da Lei 4.502/64. Das Obrigações dos Adquirentes e Depositários Art . 62. Os fabricantes, comerciantes e depositários que receberem ou adquirirem para industrialização, comércio ou depósito, ou para emprêgo ou utilização nos respectivos estabelecimentos, produtos tributados ou isentos, deverão examinar se êles se acham devidamente rotulados ou marcados ou, ainda, selados se estiverem sujeitos ao sêlo de contrôle, bem como se estão acompanhados dos documentos exigidos e se êstes satisfazem a tôdas as prescrições legais e regulamentares. (grifos acrescidos) § 1º Verificada qualquer falta, os interessados, a fim de se eximirem de responsabilidade, darão conhecimento à repartição competente, dentro de oito dias do recebimento do produto, ou antes do início do consumo ou da venda, se êste se der em prazo menor, avisando, ainda, na mesma ocasião o fato ao remetente da mercadoria. § 2º Se a falta consistir na inexistência da documentação comprobatória da procedência do produto, relativamente à identificação do remetente (nome e enderêço), o destinatário não poderá recebêlo, sob pena de ficar responsável pelo impôsto e sanções cabíveis. Nestes termos, com fundamento em tudo o que foi exposto até o presente momento, voto pelo não conhecimento do recurso especial do contribuinte em relação à matéria identificada como "direito de crédito integral do tributo quando comprovada a efetiva realização da operação que lhe deu causa" e, no mérito, por dar parcial provimento ao recurso, para reconhecer o direito de crédito nas aquisições realizadas às cooperativas, mas somente para os produtos por elas vendidos sem a suspensão da incidência das Contribuições." Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do RICARF, o recurso especial do contribuinte foi conhecido em parte e, no mérito, o colegiado deulhe parcial provimento, para reconhecer o direito de crédito nas aquisições realizadas às cooperativas, mas somente para os produtos por elas vendidos sem a suspensão da incidência das Contribuições. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 1703DF CARF MF
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Numero do processo: 11065.002245/2005-56
Turma: 3ª TURMA/CÂMARA SUPERIOR REC. FISCAIS
Câmara: 3ª SEÇÃO
Seção: Câmara Superior de Recursos Fiscais
Data da sessão: Tue Jul 25 00:00:00 UTC 2017
Data da publicação: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - Cofins
Período de apuração: 01/01/2005 a 31/03/2005
NÃO-CUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL.
Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da não-incidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo.
Recurso Especial do Contribuinte Provido.
Numero da decisão: 9303-005.315
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em dar-lhe provimento.
(assinado digitalmente)
Rodrigo da Costa Pôssas - Presidente em exercício e Relator
Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas.
Nome do relator: Relator
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Interessado FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/03/2005 NÃOCUMULATIVIDADE. CESSÃO DE CRÉDITOS DE ICMS ACUMULADOS DECORRENTES DE EXPORTAÇÕES. EXCLUSÃO DA BASE DE CÁLCULO POR FORÇA DE DECISÃO JUDICIAL VINCULANTE, NA FORMA REGIMENTAL. Havendo decisão definitiva do STF, com repercussão geral, no sentido da nãoincidência da Contribuição para o PIS e da Cofins na cessão onerosa para terceiros de créditos de ICMS acumulados, originados de operações de exportação, ela deverá ser reproduzida pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF, por força regimental, para fatos geradores anteriores à produção de efeitos da Lei nº 11.945/2009, que expressamente previu a sua exclusão da base de cálculo. Recurso Especial do Contribuinte Provido. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do Colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, em darlhe provimento. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Presidente em exercício e Relator Participaram da sessão de julgamento os Conselheiros Andrada Márcio Canuto Natal, Tatiana Midori Migiyama, Charles Mayer de Castro Souza (Suplente convocado), Demes Brito, Luiz Augusto do Couto Chagas (Suplente convocado), Érika Costa Camargos Autran, Vanessa Marini Cecconello e Rodrigo da Costa Pôssas. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 11 06 5. 00 22 45 /2 00 5- 56 Fl. 389DF CARF MF Processo nº 11065.002245/200556 Acórdão n.º 9303005.315 CSRFT3 Fl. 390 2 Relatório Tratase de Recurso Especial de Divergência, interposto pelo contribuinte, contra o Acórdão 330100.618, proferido pela 1ª Turma Ordinária da 3ª Câmara da 3ª Seção, que traz a seguinte ementa: ASSUNTO: CONTRIBUIÇÃO PARA O FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL COFINS Período de apuração: 01/01/2005 a 31/03/2005 BASE DE CÁLCULO, RECEITAS DE CESSÃO ONEROSA DE CRÉDITOS DE ICMS A TERCEIROS. As receitas decorrentes da cessão onerosa de créditos de Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS) a terceiros integram a base de cálculo da Cofins com incidência nãocumulativa. SALDO CREDOR TRIMESTRAL. RESSARCIMENTO O saldo credor trimestral da Cofins nãocumulativa deve ser apurado levandose em conta que as receitas decorrentes da cessão onerosa de créditos de ICMS a terceiros integram a base de cálculo mensal dessa contribuição. O saldo credor apurado exclusivamente pela nãoinclusão de tais receitas na sua base de cálculo não constitui crédito financeiro passível de ressarcimento e/ ou de compensação. RESSARCIMENTO. ATUALIZAÇÃO. TAXA SELIC. Inexiste previsão legal para a atualização do ressarcimento pela taxa Selic. Recurso Voluntário Negado. O contribuinte requer a reforma do acórdão no que tange à cessão à terceiros do crédito do ICMS, advindos da compra de insumos utilizados em mercadorias exportadas, ao argumento de que “...a recorrente alienou com deságio todos os valores referentes aos créditos de ICMS, não auferindo receita alguma, não podendo subsistir hipótese de incidência para a tributação dos referidos valores pela Cofins”. Alega, ainda, que “...tratase de titulo representantivo de parte patrimonial, mas que é anulada pelo encontro de contas. O que a empresa paga primeiramente, a titulo de 1CMS, tem o direito de creditarse posteriormente, em função de suas exportações. Se a empresa realiza cessão deste crédito, não há tributar a suposta capitalização, porque deixou de levar o suposto débito, quando o pagou.”. Mediante Despacho do Presidente da Câmara competente, foi dado seguimento ao recurso interposto. Fl. 390DF CARF MF Processo nº 11065.002245/200556 Acórdão n.º 9303005.315 CSRFT3 Fl. 391 3 Cientificada, a Fazenda Nacional apresentou contrarrazões ao recurso especial. É o Relatório. Voto Conselheiro Rodrigo da Costa Pôssas, Relator Os requisitos para se admitir o Recurso Especial foram cumpridos e foram respeitadas as formalidades regimentalmente previstas. A matéria tratada no presente litígio restringese ao fato de se as receitas decorrentes da transferência onerosa de créditos de ICMS, acumulados em razão de exportação para o exterior, devem, ou não, ser excluídas da base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins. O tema não é mais passível de discussão no CARF haja vista que o Supremo Tribunal Federal já decidiu a questão posta, com a devida declaração de repercussão geral, nos termos do artigo 543B da Lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973, antigo Código de Processo Civil. O Recurso Extraordinário nº 606.107/RS, que trata da matéria, foi interposto pela Fazenda Nacional, contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que considerou inconstitucional a inclusão, na base de cálculo da Contribuição para o PIS e da Cofins não cumulativas, dos valores dos créditos do ICMS provenientes de exportação que fossem cedidos onerosamente a terceiros. Em julgamento realizado pelo pleno do STF, em 22/05/2013, sob a relatoria da Ministra Rosa Weber, foi julgado o mérito, na seguinte decisão: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. TRIBUTÁRIO. IMUNIDADE. HERMENÊUTICA. CONTRIBUIÇÃO AO PIS E COFINS. NÃO INCIDÊNCIA. TELEOLOGIA DA NORMA. EMPRESA EXPORTADORA. CRÉDITOS DE ICMS TRANSFERIDOS A TERCEIROS. I Esta Suprema Corte, nas inúmeras oportunidades em que debatida a questão da hermenêutica constitucional aplicada ao tema das imunidades, adotou a interpretação teleológica do instituto, a emprestarlhe abrangência maior, com escopo de assegurar à norma supralegal máxima efetividade. (...) VI O aproveitamento dos créditos de ICMS por ocasião da saída imune para o exterior não gera receita tributável. Cuidase de mera recuperação do ônus econômico advindo do ICMS, assegurada expressamente pelo art. 155, § 2º, X, “a”, da Constituição Federal. Fl. 391DF CARF MF Processo nº 11065.002245/200556 Acórdão n.º 9303005.315 CSRFT3 Fl. 392 4 VII Adquirida a mercadoria, a empresa exportadora pode creditarse do ICMS anteriormente pago, mas somente poderá transferir a terceiros o saldo credor acumulado após a saída da mercadoria com destino ao exterior (art. 25, § 1º, da LC 87/1996). Porquanto só se viabiliza a cessão do crédito em função da exportação, além de vocacionada a desonerar as empresas exportadoras do ônus econômico do ICMS, as verbas respectivas qualificamse como decorrentes da exportação para efeito da imunidade do art. 149, § 2º, I, da Constituição Federal. VIII Assenta esta Suprema Corte a tese da inconstitucionalidade da incidência da contribuição ao PIS e da COFINS não cumulativas sobre os valores auferidos por empresa exportadora em razão da transferência a terceiros de créditos de ICMS. (...) Recurso extraordinário conhecido e não provido, aplicandose aos recursos sobrestados, que versem sobre o tema decidido, o art. 543B, § 3º, do CPC. O acórdão foi publicado em 25/11/2013 e o trânsito em julgado deuse em 05/12/2013. Por força da disposição, a seguir transcrita, do § 2º do art. 62 do RICARF, aprovado pela Portaria MF nº 343, de 9 de junho de 2015, a mencionada decisão do STF deve ser reproduzida por este relator: Art. 62. Fica vedado aos membros das turmas de julgamento do CARF afastar a aplicação ou deixar de observar tratado, acordo internacional, lei ou decreto, sob fundamento de inconstitucionalidade. (...) § 2º As decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional, na sistemática dos arts. 543B e 543C da Lei nº 5.869, de 1973, ou dos arts. 1.036 a 1.041 da Lei nº 13.105, de 2015 – Código de Processo Civil, deverão ser reproduzidas pelos conselheiros no julgamento dos recursos no âmbito do CARF. (Redação dada pela Portaria MF nº 152, de 2016) Registrese ainda, a título de observação, que, na forma da Lei nº 10.522/2002, art. 19, § 5º, com a redação dada pelo art. 21 da Lei nº 12.844/2013, também estão vinculadas a este entendimento as Delegacias de Julgamento e as Unidades de Origem da RFB, com a manifestação da PGFN na Nota transcrita parcialmente a seguir, no que interessa a esta discussão: NOTA /PGFN/CRJ/Nº 1.486/2013 (...) Fl. 392DF CARF MF Processo nº 11065.002245/200556 Acórdão n.º 9303005.315 CSRFT3 Fl. 393 5 2. Em razão de os referidos julgados terem repercussão na esfera administrativa e requerer atuação efetiva da RFB, e em observância do que foi definido na Nota PGFN/CRJ nº 1114/2012, que cumpre o disposto no Parecer PGFN/CDA nº 2025/2011, estas CRJ examina, infra, os itens referidos no parágrafo anterior, realizando a delimitação do tema ali tratado, nos seguintes termos: (...) 98 – RE 606.107/RS (...) Resumo: não incide PIS e COFINS sobre a cessão a terceiros do crédito presumido do ICMS decorrente de exportação. Data da inclusão:13/12/2013 DELIMITAÇÃO DA MATÉRIA DECIDIDA: as verbas referentes à cessão a terceiro de crédito presumido do ICMS decorrente de exportação não constituem base para incidência do PIS e da COFINS. Pelo exposto, voto por dar provimento ao Recurso Especial interposto pelo contribuinte. (assinado digitalmente) Rodrigo da Costa Pôssas Fl. 393DF CARF MF
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Numero do processo: 10980.916742/2011-87
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Terceira Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Thu Apr 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Jun 19 00:00:00 UTC 2018
Numero da decisão: 3301-000.591
Decisão: Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado.
(assinado digitalmente)
José Henrique Mauri - Presidente e Relator.
Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Valcir Gassen, Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro.
Nome do relator: JOSE HENRIQUE MAURI
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COFINS. Recorrente Sociedade Paranaense de Ensino e InformáticaSPEI Recorrida Fazenda Nacional Resolvem os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em converter o julgamento em diligência, nos termos do relatório e voto que integram o presente julgado. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Presidente e Relator. Participaram da presente sessão de julgamento os conselheiros José Henrique Mauri (Presidente), Marcelo Costa Marques d'Oliveira, Rodolfo Tsuboi (Suplente convocado), Valcir Gassen, Marcos Roberto da Silva (Suplente convocado), Antonio Carlos da Costa Cavalcanti Filho, Ari Vendramini e Semíramis de Oliveira Duro. Relatório Trata o presente processo administrativo de PER/DCOMP para obter reconhecimento de direito creditório do tributo por suposto pagamento a maior e aproveitar esse crédito com débito de outro tributo. A DRF, no despacho decisório, indeferiu o pedido, em razão do recolhimento indicado no PER/DCOMP ter sido integralmente utilizado para quitação de débito confessado pelo contribuinte, não restando crédito disponível para restituição ou compensação dos débitos informados no PER/DCOMP. Assim, diante da inexistência de crédito, o Pedido de Restituição foi indeferido e a compensação declarada não foi homologada, conforme o caso. Cientificada, a interessada apresentou manifestação de inconformidade cuja argumentação é a seguir resumida. RE SO LU ÇÃ O G ER A D A N O P G D -C A RF P RO CE SS O 1 09 80 .9 16 74 2/ 20 11 -8 7 Fl. 103DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 3 2 Sustenta que é uma instituição de educação sem fins lucrativos e, nos termos do art. 14, X da MP nº 2.15835, de 2001, estaria isenta da COFINS. Argumenta que tal dispositivo estabelece que tal isenção se dá, a partir de 01/02/1999, para as receitas relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13, o qual, por sua vez, referese às “instituições de educação e de assistência social” arroladas no art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997. Afirma que se encaixa nos requisitos legais, uma vez que: (a) não remunera, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; (b) aplica integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; e (c) assegura a destinação de seu patrimônio à outra instituição congênere, em caso de extinção. Anexa o seu Estatuto Social para provar o alegado. Relativamente à expressão “atividade própria” (art. 14, X, da MP 2.158/35), argumenta que deve ser entendida como aquela atividade regular e relativa à natureza essencial da entidade. Sustenta que ‘própria’ é toda a atividade prevista em seu estatuto, ou na lei, já que conexa à própria existência da pessoa jurídica. Assim, assevera que “a existência de finalidade lucrativa não devia ser vinculada à gratuidade ou não dos serviços prestados ou à forma de obtenção da receita, nas, sim, à forma como ela é aplicada. Caso constitua objetivo da instituição exercer atividade educacional sem fins lucrativos, ainda que o serviço seja prestado mediante o pagamento de mensalidade ou retribuições, a receita obtida com as mensalidades constitui receita própria de sua atividade e, desta forma, estaria isenta da COFINS.” Afirma, outrossim, que os princípios da legalidade e da legalidade tributária impede o Fisco de exigir tributo que não está previsto em lei, acrescentando que a lei, nesse caso, prevê expressamente uma isenção. Portanto, em seu entendimento, não há “espaço para que atos normativos como, por exemplo, decretos, instruções normativas, atos interpretatórios ou declaratórios criem qualquer redução ou limitação à isenção de COFINS prevista nos artigos 13 e 14 da MP 2.15835/01”. No seguimento, tece comentários sobre o instituto da compensação para afirmar que “tendo a instituição recolhido o tributo de forma indevida tem direito à restituição/compensação”. Em razão do alegado, requer a homologação da compensação pleiteada. A 3ª Turma da DRJ/CTA indeferiu a manifestação de inconformidade, nos termos do Acórdão 06041.978. Em seu recurso voluntário, a empresa: § Reitera os fundamentos de sua manifestação de inconformidade; § Declara que se subsume à isenção do art. 14, X da MP n° 2.15835; § Aduz que “todos os valores que são aplicados no desenvolvimento da atividade da entidade sem fins lucrativos são receitas decorrentes de atividades próprias”. § Defende a inaplicabilidade da IN n° 247/2002; § Junta documentos que comprovariam sua condição de isenta. É o relatório. Fl. 104DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 4 3 Voto Conselheiro José Henrique Mauri, Relator. O julgamento deste processo segue a sistemática dos recursos repetitivos, regulamentada pelo art. 47, §§ 1º e 2º, do Anexo II do RICARF, aprovado pela Portaria MF 343, de 09 de junho de 2015. Portanto, ao presente litígio aplicase o decidido na Resolução 3301000.589, de 19 de abril de 2018, proferido no julgamento do processo 10980.934789/200916, paradigma ao qual o presente processo foi vinculado. Transcrevese, como solução deste litígio, nos termos regimentais, o entendimento que prevaleceu naquela decisão (Resolução 3301000.589): "O recurso é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade, portanto dele tomo conhecimento. Os fundamentos da negativa do pleito da Recorrente pela DRJ foram: I. Na interpretação do art. 14, X da MP, entendeu o voto condutor que seriam receitas de atividades próprias das instituições a que se refere o art. 12 da Lei nº 9.532/97, apenas as receitas típicas dessas entidades, como as decorrentes de contribuições, doações e subvenções por elas recebidas, bem assim mensalidades ou anuidades pagas por seus associados, destinadas à manutenção da instituição e consecução de seus objetivos sociais, sem caráter contraprestacional. A DRJ aplicou o art. 47, da Instrução Normativa n° 247/2002: Art. 47. As entidades relacionadas no art. 9º desta Instrução Normativa: I – não contribuem para o PIS/Pasep incidente sobre o faturamento; e II – são isentas da Cofins em relação às receitas derivadas de suas atividades próprias. § 1º Para efeito de fruição dos benefícios fiscais previstos neste artigo, as entidades de educação, assistência social e de caráter filantrópico devem possuir o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social expedido pelo Conselho Nacional de Assistência Social, renovado a cada três anos, de acordo com o disposto no art. 55 da Lei nº 8.212, de 1991. § 2º Consideramse receitas derivadas das atividades próprias somente aquelas decorrentes de contribuições, doações, anuidades ou mensalidades fixadas por lei, assembléia ou estatuto, recebidas de associados ou mantenedores, sem caráter contraprestacional direto, destinadas ao seu custeio e ao desenvolvimento dos seus objetivos sociais. II. Atendeu ao comando do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98, aduzindo que se sujeitam à incidência da COFINS, as receitas decorrentes de atividades comuns às dos agentes econômicos, como as resultantes da venda de mercadorias e prestação Fl. 105DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 5 4 de serviços, inclusive as receitas de matrículas e mensalidades dos cursos ministrados pelas entidades educacionais, ainda que exclusivamente a seus associados e em seu benefício e, receitas de aplicações financeiras. Concluiu que estão sujeitas à COFINS, por força da Lei nº 9.718/98, as receitas de caráter contraprestacional, inclusive as mensalidades cobradas por instituições de educação e as receitas financeiras auferidas. A revisão dos dois pontos será feita a seguir. Isenção do art. 14, X, da Medida Provisória nº 2.15835, de 2001 Prescreve o art. 14, X da MP n° 2.15835: Art. 14. Em relação aos fatos geradores ocorridos a partir de 1o de fevereiro de 1999, são isentas da COFINS as receitas: (...) X relativas às atividades próprias das entidades a que se refere o art. 13. Por sua vez, o art. 13 do mesmo veículo normativo dispõe: Art. 13. A contribuição para o PIS/PASEP será determinada com base na folha de salários, à alíquota de um por cento, pelas seguintes entidades: III instituições de educação e de assistência social a que se refere o art. 12 da Lei n° 9.532, de 10 de dezembro de 1997; Notese que o art. 13, III da MP nº 2.15835/2001 ao fazer remissão ao art. 12 da Lei n° 9.532/1997, condiciona a Instituição ao cumprimento das exigências impostas por esta Lei. O art. 12 da Lei n° 9.532/1997, com redação vigente à época, exigia: Art. 12. Para efeito do disposto no art. 150, inciso VI, alínea "c", da Constituição, considerase imune a instituição de educação ou de assistência social que preste os serviços para os quais houver sido instituída e os coloque à disposição da população em geral, em caráter complementar às atividades do Estado, sem fins lucrativos. § 1º Não estão abrangidos pela imunidade os rendimentos e ganhos de capital auferidos em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável. § 2º Para o gozo da imunidade, as instituições a que se refere este artigo, estão obrigadas a atender aos seguintes requisitos: a) não remunerar, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados; b) aplicar integralmente seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos seus objetivos sociais; Fl. 106DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 6 5 c) manter escrituração completa de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades que assegurem a respectiva exatidão; d) conservar em boa ordem, pelo prazo de cinco anos, contado da data da emissão, os documentos que comprovem a origem de suas receitas e a efetivação de suas despesas, bem assim a realização de quaisquer outros atos ou operações que venham a modificar sua situação patrimonial; e) apresentar, anualmente, Declaração de Rendimentos, em conformidade com o disposto em ato da Secretaria da Receita Federal; f) recolher os tributos retidos sobre os rendimentos por elas pagos ou creditados e a contribuição para a seguridade social relativa aos empregados, bem assim cumprir as obrigações acessórias daí decorrentes; g) assegurar a destinação de seu patrimônio a outra instituição que atenda às condições para gozo da imunidade, no caso de incorporação, fusão, cisão ou de encerramento de suas atividades, ou a órgão público; h) outros requisitos, estabelecidos em lei específica, relacionados com o funcionamento das entidades a que se refere este artigo. § 3º Considerase entidade sem fins lucrativos a que não apresente superávit em suas contas ou, caso o apresente em determinando exercício, destine referido resultado integralmente ao incremento de seu ativo imobilizado. Ocorre que as mensalidades cobradas por instituições de educação estão ao abrigo da norma isentiva, como já pacificado pela Súmula CARF n° 107 e pelo REsp 1.353.111 RS, DJ 18/12/2015, julgado como recurso repetitivo, transitado em julgado desde 02/03/2016, verbis: Súmula CARF nº 107 A receita da atividade própria, objeto da isenção da Cofins prevista no art. 14, X, c/c art. 13, III, da MP nº 2.15835, de 2001, alcança as receitas obtidas em contraprestação de serviços educacionais prestados pelas entidades de educação sem fins lucrativos a que se refere o art. 12 da Lei nº 9.532, de 1997. REsp 1.353.111 – RS PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO REPRESENTATIVO DA CONTROVÉRSIA. ART. 543C, DO CPC. COFINS. CONCEITO DE RECEITAS RELATIVAS ÀS ATIVIDADES PRÓPRIAS DAS ENTIDADES SEM FINS LUCRATIVOS PARA FINS DE GOZO DA ISENÇÃO PREVISTA NO ART. 14, X, DA MP N. 2.15835/2001. ILEGALIDADE DO ART. 47, II E § 2º, DA INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF N. 247/2002. SOCIEDADE CIVIL EDUCACIONAL OU DE Fl. 107DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 7 6 CARÁTER CULTURAL E CIENTÍFICO. MENSALIDADES DE ALUNOS. 1. A questão central dos autos se refere ao exame da isenção da COFINS, contida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.15835/2001), relativa às entidades sem fins lucrativos, a fim de verificar se abrange as mensalidades pagas pelos alunos de instituição de ensino como contraprestação desses serviços educacionais. O presente recurso representativo da controvérsia não discute quaisquer outras receitas que não as mensalidades, não havendo que se falar em receitas decorrentes de aplicações financeiras ou decorrentes de mercadorias e serviços outros (vg. estacionamentos pagos, lanchonetes, aluguel ou taxa cobrada pela utilização de salões, auditórios, quadras, campos esportivos, dependências e instalações, venda de ingressos para eventos promovidos pela entidade, receitas de formaturas, excursões, etc.) prestados por essas entidades que não sejam exclusivamente os de educação. 2. O parágrafo § 2º do art. 47 da IN 247/2002 da Secretaria da Receita Federal ofende o inciso X do art. 14 da MP n° 2.15835/01 ao excluir do conceito de "receitas relativas às atividades próprias das entidades", as contraprestações pelos serviços próprios de educação, que são as mensalidades escolares recebidas de alunos. 3. Isto porque a entidade de ensino tem por finalidade precípua a prestação de serviços educacionais. Tratase da sua razão de existir, do núcleo de suas atividades, do próprio serviço para o qual foi instituída, na expressão dos artigos 12 e 15 da Lei n.º 9.532/97. Nessa toada, não há como compreender que as receitas auferidas nessa condição (mensalidades dos alunos) não sejam aquelas decorrentes de "atividades próprias da entidade", conforme o exige a isenção estabelecida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.15835/2001). Sendo assim, é flagrante a ilicitude do art. 47, §2º, da IN/SRF n. 247/2002, nessa extensão. 4. Precedentes do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF (...) 6. Tese julgada para efeito do art. 543C, do CPC: as receitas auferidas a título de mensalidades dos alunos de instituições de ensino sem fins lucrativos são decorrentes de "atividades próprias da entidade" , conforme o exige a isenção estabelecida no art. 14, X, da Medida Provisória n. 1.858/99 (atual MP n. 2.15835/2001), sendo flagrante a ilicitude do art. 47, §2º, da IN/SRF n. 247/2002, nessa extensão. 7. Recurso especial não provido. Acórdão submetido ao regime do art. 543C do CPC e da Resolução STJ 08/2008. Logo, deve a decisão de piso ser reformada nesse ponto. A respeito do cumprimento dos requisitos do art. 12 da lei n° 9.532/97, aponta a Instituição os artigos do seu Estatuto Social que comprovam exatamente o exigido pela Lei n° 9.532/97 (art. 1°, 3°, 30, 32, 34), junta a DIPJ alegando que sua condição sempre foi de conhecimento do fisco e prossegue: Fl. 108DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 8 7 Entendo que a prova do cumprimento dos requisitos é da Recorrente, contudo não foi instada a isso quando da edição do Despacho Decisório. No recurso voluntário, acostou documentos que merecem a análise da Delegacia de Origem. Alargamento da Base de Cálculo da COFINS – RE n° 585.235/MG RG Resta pacificado no STF o entendimento sobre a inconstitucionalidade do art. 3º, § 1º da Lei nº 9.718/98. Dessa forma, considerase receita bruta ou faturamento o que decorre da venda de mercadorias, da venda de serviços ou de mercadorias e serviços, não se considerando receita de natureza diversa. É o resultado econômico das operações empresariais típicas, que constitui a base de cálculo do PIS. O alcance do termo faturamento abarcando a atividade empresarial típica restou assente no RE nº 585.235/MG, no qual se reconheceu a repercussão geral do tema concernente ao alargamento da base de cálculo do PIS prevista no §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, reafirmando a jurisprudência consolidada pelo STF: RECURSO. Extraordinário. Tributo. Contribuição social. PIS. COFINS. Alargamento da base de cálculo. Art. 3º, §1º da Lei nº 9.718/98. Inconstitucionalidade. Precedentes do Plenário (RE nº 346.084/PR, Rel. orig. Min. ILMAR GALVÃO, DJ DE 1º.9.2006; REs nº 357.950/RS, 358.273/RS e 390.840/MG, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, DJ de 15.8.2006). Repercussão Geral do tema. Reconhecimento pelo Plenário. Recurso improvido. É inconstitucional a ampliação da base de cálculo do PIS e da COFINS prevista no art. 3º, §1º, da Lei nº 9.718/98. No voto, o Ministro Cezar Peluso consignou: O recurso extraordinário está submetido ao regime de repercussão geral e versa sobre tema cuja jurisprudência é consolidada nesta Corte, qual seja, a inconstitucionalidade do §1º do art. 3º da Lei nº 9.718/98, que ampliou o conceito de receita bruta, violando, assim, a noção de faturamento pressuposta na redação original do art. 195, I, b, da Constituição da República, e cujo significado é o estrito de receita bruta das vendas de mercadorias e da prestação de serviços de qualquer natureza, ou seja, soma das receitas oriundas do exercício das atividades empresariais... Em decorrência, apenas o faturamento decorrente da prestação de serviços e da venda de mercadorias (não se podendo incluir outras receitas, tais como aquelas de natureza financeira) pode ser tributado pelo PIS. Fl. 109DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 9 8 Logo, assiste razão à Recorrente quando alega que as receitas financeiras não podem compor a base de cálculo da COFINS. Conclusão Diante da plausibilidade do pleito da Recorrente, entendo necessária a conversão em diligência deste processo para a confirmação da tributação indevida pela COFINS sobre as receitas operacionais (“próprias”), bem como sobre as receitas financeiras. Isso porque a tributação sobre as “receitas próprias”, incluídas as mensalidades pagas por alunos, são isentas, nos termos do art. 14, X da Medida Provisória. Ao passo que a exclusão das receitas financeiras se dá com base na inconstitucionalidade do alargamento a base de cálculo da COFINS pelo art. 3º, §1º, da Lei n.º 9.718/1998. Por conseguinte, voto pela conversão do julgamento em diligência para que seja solicitado à unidade de origem que: a) Examine a documentação juntada pela Recorrente no recurso voluntário; b) Verifique, com base nessa documentação, se houve a indevida inclusão das receitas próprias e receitas financeiras na base de cálculo da COFINS, fazendo a segregação entre as receitas, se houver; c) Verifique o cumprimento pela Recorrente dos requisitos do art. 12 da Lei n° 9.532/1997. Para tanto, intime o sujeito passivo para prestar outros esclarecimentos, caso necessário; d) Aponte a exatidão do valor pleiteado pelo Recorrente, bem como se a utilização deste foi efetivamente realizada; e) Cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo para manifestação; f) Após, retorne o processo ao CARF para julgamento. É como voto." Importante frisar que os documentos juntados pela contribuinte no processo paradigma, como prova do direito creditório, encontram correspondência nos autos ora em análise. Desta forma, os elementos que justificaram a conversão do julgamento em diligência no caso do paradigma também a justificam no presente caso. Aplicandose a decisão do paradigma ao presente processo, em razão da sistemática prevista nos §§ 1º e 2º do art. 47 do Anexo II do RICARF, o Colegiado decidiu converter o julgamento em diligência para que seja solicitado à unidade de origem que: a) Examine a documentação juntada pela Recorrente no recurso voluntário; b) Verifique, com base nessa documentação, se houve a indevida inclusão das receitas próprias e receitas financeiras na base de cálculo da COFINS, fazendo a segregação entre as receitas, se houver; Fl. 110DF CARF MF Processo nº 10980.916742/201187 Resolução nº 3301000.591 S3C3T1 Fl. 10 9 c) Verifique o cumprimento pela Recorrente dos requisitos do art. 12 da Lei n° 9.532/1997. Para tanto, intime o sujeito passivo para prestar outros esclarecimentos, caso necessário; d) Aponte a exatidão do valor pleiteado pelo Recorrente, bem como se a utilização deste foi efetivamente realizada; e) Cientifique a interessada do resultado da diligência, concedendolhe prazo para manifestação; f) Após, retorne o processo ao CARF para julgamento. (assinado digitalmente) José Henrique Mauri Fl. 111DF CARF MF
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Numero do processo: 10283.720775/2014-33
Turma: Segunda Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Mon Feb 19 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed May 09 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2010
IN/SRF 243/2002. ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA.
A IN SRF nº 243/2002 não viola o princípio da legalidade tributária, estando em consonância com o que preconiza o art. 18 da Lei nº 9.430/96, na redação dada pela Lei nº 9.959/2000.
PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 9.430 DE 1996. INCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO.
Operação entre pessoas vinculadas (no qual se verifica o preço praticado) e a operação entre pessoas não vinculadas, na revenda (no qual se apura o preço parâmetro) devem preservar parâmetros equivalentes. Analisando-se o método do PRL, a comparabilidade entre preços praticado e parâmetro, sob a ótica do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, opera-se segundo mecanismo no qual se incluem na apuração de ambos os preços os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação.
Numero da decisão: 1402-002.873
Decisão:
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Eduardo Morgado Rodrigues, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso. Designado o Conselheiro Marco Rogério Borges para redigir o voto vencedor.
(assinado digitalmente)
Leonardo de Andrade Couto Presidente
(assinado digitalmente)
Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator
(assinado digitalmente)
Marco Rogério Borges - Redator Designado
Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro.Leonardo Luis Pagano Gonçalves.
Nome do relator: LUCAS BEVILACQUA CABIANCA VIEIRA
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decisao_txt : Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Eduardo Morgado Rodrigues, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso. Designado o Conselheiro Marco Rogério Borges para redigir o voto vencedor. (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto Presidente (assinado digitalmente) Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira - Relator (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges - Redator Designado Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro.Leonardo Luis Pagano Gonçalves.
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ILEGALIDADE. INEXISTÊNCIA. A IN SRF nº 243/2002 não viola o princípio da legalidade tributária, estando em consonância com o que preconiza o art. 18 da Lei nº 9.430/96, na redação dada pela Lei nº 9.959/2000. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. LEI 9.430 DE 1996. INCLUSÃO. FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. Operação entre pessoas vinculadas (no qual se verifica o preço praticado) e a operação entre pessoas não vinculadas, na revenda (no qual se apura o preço parâmetro) devem preservar parâmetros equivalentes. Analisandose o método do PRL, a comparabilidade entre preços praticado e parâmetro, sob a ótica do § 6º do art. 18 da Lei nº 9.430, de 1996, operase segundo mecanismo no qual se incluem na apuração de ambos os preços os valores de frete, seguros e tributos incidentes na importação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por voto de qualidade, negar provimento ao recurso. Vencidos os Conselheiros Caio Cesar Nader Quintella, Eduardo Morgado Rodrigues, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira e Demetrius Nichele Macei que votaram por dar provimento ao recurso. Designado o Conselheiro Marco Rogério Borges para redigir o voto vencedor. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 28 3. 72 07 75 /2 01 4- 33 Fl. 1047DF CARF MF 2 (assinado digitalmente) Leonardo de Andrade Couto – Presidente (assinado digitalmente) Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges Redator Designado Paulo Mateus Ciccone, Caio Cesar Nader Quintella, Marco Rogério Borges, Eduardo Morgado Rodrigues (suplente convocado em substituição ao conselheiro Leonardo Luis Pagano Gonçalves), Evandro Correa Dias, Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira, Demetrius Nichele Macei e Leonardo de Andrade Couto (Presidente). Ausente, justificadamente, o conselheiro.Leonardo Luis Pagano Gonçalves. Fl. 1048DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.048 3 Relatório Trata o presente feito de Recurso Voluntário interposto por FOXCONN MOEBG INDÚSTRIA DE ELETRÔNICOS LTDA em face de decisão proferida pela DRJ em Ribeirão Preto/SP que julgou improcedente a impugnação apresentada, mantendo crédito decorrente de ajustes de preço de transferência relativos ao anocalendário 2010. Adoto o relatório empreendido pela DRJ em sua integralidade complementandoo com o que entender necessário: Em procedimento de verificação do cumprimento das obrigações tributárias pelo sujeito passivo supracitado, foram lavrados os autos de infração exigindo o IRPJ e CSLL relativos ao anocalendário (AC) de 2010, tendo em vista a constatação de falta de adição, ao Lucro Real, das diferenças apuradas entre os preços praticados das mercadorias adquiridas de empresas vinculadas e os preços parâmetros apurados conforme as regras de "Preço de Transferência" determinado pela legislação tributária. O crédito tributário exigido neste processo está composto dos seguintes montantes: O enquadramento legal para o lançamento dos tributos encontrase descrito nos autos de infração. Sendo notificada da autuação, a contribuinte ingressou com a impugnação de fls.80 a 148, na qual alegou: ● A Impugnante, nos termos do seu contrato social, é pessoa jurídica de direito privado que tem como principal objeto a fabricação de aparelhos fotográficos e cinematográficos, peças e seus respectivos acessórios (CNAE 26.701/02). Para a consecução de tal objeto social, a Impugnante importa produtos e matériasprimas de pessoas vinculadas que são posteriormente utilizados como insumos em seu processo produtivo, majoritariamente da China e de Taiwan. Por essa razão, a Impugnante se encontra sujeita ao controle de preços de transferência. A Impugnante está localizada na Zona Franca de Manaus ("ZFM") e, de acordo com a legislação estadual, é beneficiada com regime especial do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços ("ICMS") o que acarreta o não recolhimento de tal tributo, tanto nas importações como na saída de seus produtos. Em relação ao anocalendário 2010, a Impugnante optou pela aplicação do Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de 60% ("PRL 60") ou o Método do Preço de Revenda menos Lucro com margem de 20% ("PRL20") para a maioria dos produtos, sendo que, para alguns, além do PRL, também calculou o preço parâmetro segundo o Método dos Preços Independentes Comparados ("PIC") e/ou o Método do Custo de Produção mais Lucro ("CPL"). A comparação entre os preços praticados (i.e., pagos às empresas vinculadas) e os preços parâmetros (calculados segundo os referidos métodos) resultou na necessidade de ajuste de preços de transferência no valor de R$ 930.617,99, conforme a respectiva DIPJ. ● Foi submetida a procedimento de fiscalização, no qual a autoridade lançadora afastou os métodos PIC e CPL, impôs a aplicação do método PRL e recalculou o método PRL60, alegando que deveria ter sido adotado o critério previsto na Instrução Normativa (IN) nº 243/2002. Fl. 1049DF CARF MF 4 ● O Auto de Infração veicula cerceamento do amplo direito de defesa da Impugnante, devendo ter sua nulidade decretada, na medida em que: (i) não está acompanhado de Termo de Verificação Fiscal ou documentos que explicitem com detalhes suficientes as supostas infrações cometidas pela Impugnante; (ii) não justifica a desconsideração dos métodos PIC e CPL adotados pela Impugnante; (iii) com relação ao método PRL, os dispositivos tidos como violados não estão relacionados à suposta realização dos cálculos com base na IN 243; bem como (iv) o Demonstrativo de Cálculos que suporta os ajustes cobrados no Auto de Infração não oferece qualquer segurança ou certeza com relação aos cálculos realizados pela autoridade lançadora. A autuação é precária e carente de motivação, o que dificulta muito o exercício de defesa pela Impugnante, revelandose, só por essa razão, a necessidade do seu cancelamento. O sucinto texto do Auto de Infração simplesmente: (a) descreve a data de intimação e da entrega de documentos; (b) alega que a Impugnante não teria realizado o cálculo dos métodos PIC e CPL em observância dos artigos 8o e 13 da IN 243; e (c) informa o valor do ajuste e do tributo complementar a ser recolhido. Questionase: em que momento houve a descrição do fato ilícito, i.e, do comportamento que contrariou algum comando legal e qual seria tal violação? Em relação à desconsideração dos métodos PIC e CPL, a fiscalização apenas cita o caput dos artigos 8o e 13 da IN 243 os quais descrevem os métodos — mas não dá qualquer indício de qual infração a Impugnante cometeu em relação a tais dispositivos legais, ou seja, qual a irregularidade no cálculo ou documentação dos referidos métodos. Mais ainda, o Auto de Infração invoca como capitulação o artigo 3o da Lei n° 9.249/95 e os artigos 241, 242, 244, 247 e 249, inciso I do Regulamento do Imposto de Renda de 1999 (Decreto n° 3.000/99). Não obstante, se a matéria objeto da presente autuação é o suposto descumprimento da IN 243, a referida capitulação está completamente equivocada. Inexiste no presente Auto de Infração vinculação entre os dispositivos indicados pela autoridade lançadora como fundamento legal e a suposta infração imputada à Impugnante, configurando, destarte, patente cerceamento do seu direito de defesa. Além dessa manifesta nulidade, verificase que os ajustes cobrados no presente Auto de Infração estão inteiramente suportados no Demonstrativo de Cálculos que não oferece qualquer margem de compreensão quanto aos cálculos realizados pela autoridade lançadora em detrimento daqueles realizados pela Impugnante. Vale ressaltar que tal demonstrativo não é parte do Auto de Infração, mas apenas foi encaminhado à Impugnante juntamente com o Termo de Constatação e Solicitação de Esclarecimento Fiscal n° 01. Em outras palavras, o Auto de Infração apenas indica o valor total dos ajustes realizados e do crédito tributário constituído, sem maiores detalhes. Nesse contexto, a partir da análise do Demonstrativo de Cálculos composto por um total de 128 páginas (doc. 04) não é possível identificar a fórmula seguida pela autoridade lançadora para o cálculo dos referidos ajustes. Apenas a título argumentativo, o entendimento a que se parece é que os cálculos dos ajustes deveriam seguir a reunião de colunas existentes na 01 com as colunas da página 65, i.e., a Impugnante estaria obrigada a analisar essas páginas em conjunto, para, apenas assim, poder conseguir visualizar a fórmula adotada pela autoridade lançadora. Não obstante, inexiste qualquer certeza se essa é a correta sequencia, não podendo tal suposição ser simplesmente atribuída à Impugnante, mas sim é de vir da autoridade lançadora apresentar documentos que forneçam com clareza todos os cálculos realizados, até mesmo para que a Impugnante possa contestálos de forma adequada. Fl. 1050DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.049 5 É evidente que tal fato, em conjunto com o erro na capitulação legal do Auto de Infração, além da ausência de Termo de Verificação Fiscal e demais documentos que descrevam com maiores detalhes as supostas infrações cometidas pela Impugnante, demonstra a precariedade do presente lançamento e, por conseguinte, a sua total ausência de motivação. Pelo exposto, resta demonstrada a fragilidade do Auto de Infração, de forma que a sua nulidade está evidenciada independentemente de qualquer discussão de mérito, sendo inegável o cerceamento ao direito de defesa da Impugnante em clara violação, sobretudo, ao artigo 10, incisos III e IV do Decreto n° 70.235/72. ● Nulidade do auto de infração por ofensa ao art. 20A da Lei nº 9.430/1996. Falta de motivação da desconsideração do PIC e CPL – cerceamento de defesa. De acordo com o previsto no artigo 20A, da Lei 9430/1996 (inovação trazida no artigo 51 da Lei 12715, de 17 de setembro de 2012) e no art. 40 da IN nº 1312/2012, cabe ao fiscal solicitar ao contribuinte a formulação de novo cálculo em casos de desqualificação do método ou de seus próprios critérios de cálculo, o que não foi feito no presente caso, em ofensa ao art. 144 do CTN. A fiscalização desconsiderou os métodos PIC e CPL de forma desmotivada e sem descrever o suposto ilícito cometido pela Impugnante, apenas afirmando que ela não cumpriu os artigos 8o e 13 da IN 243, que apenas trazem a definição dos métodos PIC e CPL. Não houve a indicação do motivo para a não aceitação do método adotado pela Impugnante e não foi feita a intimação para que ela apresentasse novos cálculos de acordo com qualquer outro método previsto na legislação . Cumpre salientar que a fiscalização foi concluída somente em junho de 2014, quando a nova redação da Lei n° 9430, com alterações promovidas pela Lei 12715, inclusive o artigo 20A, já eram plenamente aplicáveis. ● Obrigatoriedade da média do PRL ser calculada “produto a produto”. Ao interpretar o conteúdo do demonstrativo de Cálculos, notadamente, as informações contidas na página 01 em conjunto com a página 65, é possível verificar que existiriam dois preços parâmetros e dois ajustes distintos para idênticos produtos importados. Isso porque, o mesmo código da matéria prima aparece em várias linhas, resultando em distintos preços parâmetros e multiplicidade de ajustes para o mesmo bem importado. Ou seja, a autoridade fiscal descumpriu regra básica constante do artigo 18 da Lei 9430, que é a aplicação consistente do método por produto, dentre do anocalendário. Da análise artigo 6o da IN nº 243, bem como do artigo 18 da Lei 9430, a melhor exegese desses dispositivos, sobretudo, à luz das regras dos preços de transferência, determina que a média aritmética ponderada para o método PRL deve ser calculada "produto a produto", considerando todos os produtos acabados em que determinado componente é utilizado. Assim, não é possível que produtos idênticos importados, como por exemplo o componente VT3771000000, tenha diferentes preços parâmetros, bem como valores distintos a título de ajustes, como pretendido pela autoridade lançadora no Auto de Infração. Nesse mesmo sentido está o entendimento firmado pela Coordenação Geral de Tributação (COSIT) na recente Solução de Consulta n° 196, de 4 de julho de 2014, cujo entendimento, ressaltese, é vinculante a toda Administração Tributária Federal: Além disso, vale mencionar que as perguntas 016, 018 e 027 nas Perguntas e Respostas da DIPJ 2013, e outras nas DIPJ de anos anteriores, abordam a questão da média ser obrigatoriamente calculada "produto a produto”. Por todo o exposto, resta evidente que a média aritmética ponderada prevista na legislação de preço de transferência para o método PRL deve ser calculada "produto a produto", estando incorretos, portanto, os cálculos apresentados pela Fl. 1051DF CARF MF 6 autoridade lançadora, devendo também por este motivo ser reconhecida a nulidade do Auto de Infração. ● MÉRITO. Ilegalidade da IN nº 243. Existe diferença entre a forma de apuração do PRL 60 prevista na Lei nº 9.430/1996 e aquela fixada pela IN nº 243, a qual está fincada essencialmente na margem de cálculo a ser deduzida do preço líquido de revenda. A Lei 9430/1996 em nenhum momento incluiu a participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço líquido de venda como fator para apuração da margem de lucro de 60%, como faz a IN 243. Não bastasse isso, a IN 243 desconsidera solenemente algumas variáveis constantes da fórmula legal, notadamente a consideração do valor agregado no Brasil na base de cálculo da margem de lucro. Ocorre que tais determinações jamais poderão prevalecer em detrimento daquelas previstas em lei, em razão do princípio constitucional da legalidade. Caso analisemos a legislação de preços de transferência com cuidado, chegaremos à conclusão de que a própria Receita Federal do Brasil vem reconhecendo a incompatibilidade entre a sistemática da IN 243 e da Lei n° 9430. Isso porque, de acordo com a Receita Federal do Brasil, a fórmula de cálculo prevista pela IN 243 só foi válida a partir do anocalendário de 2002 (artigo 45 da IN 243°). Ora, se a Receita Federal do Brasil entendesse que a fórmula prevista pela IN 243 apenas reproduziria os termos da Lei 9430, certamente teria declarado seu caráter interpretativo e aplicado a IN 243 para fatos pretéritos, o que não ocorreu. Mas não é só. A Medida Provisória n° 563, de 03 de abril de 2012 ("MP 563"), por meio da qual se pretendeu introduzir uma grande evolução em matéria de preços de transferência, foi convertida na Lei 12715 e, de acordo com seu artigo 48, a margem aplicável à produção local, que antes era de 60%, foi substituída por uma margem de 20% (regra geral), com exceções para alguns setores, que possuem margens de 30% e 40%. A MP 563 foi convertida na Lei 12715, porém, os dispositivos da Lei 12.715/12 que tratam das regras de preços de transferência entraram em vigor somente a partir de 1o de janeiro de 2013. Ora, o estabelecimento dessa vacatio legis pelo legislador ordinário deixa claro que as alterações promovidas na Lei 9430 são inovações em nosso sistema jurídico, não se podendo alegar que a IN 243 traz apenas uma forma de interpretação da Lei 9430, passível de ser invocada antes mesmo das alterações promovidas pela Lei 12715. Ademais, a incompatibilidade entre a IN 243 e a Lei 9430 já vem sendo discutida também na esfera judicial. É meramente especulativa a afirmação fazendária de que o controle de preços de transferência só é efetivo caso a margem de lucro seja prédefinida, sem possibilidade de influência do valor agregado. Ora, se o legislador estabeleceu esta mútua influência entre margem efetiva e valor agregado, não cabe à administração questionála. Ademais, é falso dizer que margens fixas atendem melhor ao propósito da lei. Isso por que, segundo o princípio "arm's lenght" o valor da operação entre partes ligadas deve corresponder, na maior medida possível, ao valor que seria alcançado entre partes independentes, em condições de livre mercado; da mesma forma, a fórmula de aferição destes patamares deve ser permeável, na maior medida possível, às reais condições de mercado. O estabelecimento de presunção absoluta quanto à margem de lucro praticada por dado seguimento empresarial dissociase das reais condições de mercado, ofendendo, em última análise, ao princípio da capacidade contributiva. Por isso que o valor agregado no Pais foi incluído, pelo legislador, como elemento interno à base de cálculo da margem efetiva, calibrandoa de acordo com a realidade fática da operação sujeita a controle. Assim, transformase a Fl. 1052DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.050 7 presunção absoluta em presunção relativa (admite comprovação em sentido contrário), alinhandose as regras de preços de transferência ao primado constitucional da capacidade contributiva. Portanto, ainda que se considerem os argumentos da Fazenda, outra conclusão não pode ser obtida senão a da ilegalidade da IN 243 e, consequentemente, do auto de infração. Como se não bastasse a flagrante ilegalidade da IN 243, fato é que o cálculo do PRL 60 segundo a sistemática prevista pela IN 243 gera uma série de problemas e erros lógicos, quais sejam: 1) A IN 243 exige margem de lucro 150% sobre os custos não sujeitos ao controle de preços de transferência; 2) Para a sistemática da IN 243 é mais interessante importar produto acabado do que produzir no Brasil; 3) Erro lógico na sistemática da IN 243 — Teste do custo a partir do custo; ● É beneficiária do crédito estímulo do Imposto sobre Circulação de Mercadorias ("ICMS"), concedido pelo Estado do Amazonas por meio do Decreto n° 24.195, de 29 de abril de 2004 (doc. 05), garantindo um crédito estímulo de 100% (cem por cento) com relação ao ICMS incidente sobre as vendas dos produtos fabricados pela Impugnante, nos quais foram aplicadas às matériasprimas importadas de pessoas vinculadas. Segundo a lógica do benefício fiscal do Estado do Amazonas, o valor do crédito presumido neutraliza o efeito do débito de ICMS. Em outras palavras, não há de se falar no ICMS como integrante do preço dos produtos fabricados pela Impugnante nos quais as matériasprimas importadas foram incluídas. Nesse contexto, ao calcular a receita líquida de venda dos produtos fabricados pela Impugnante, a fiscalização reduziu do preço o valor de ICMS incidente sobre tais operações, quando este imposto não é efetivamente devido pela Impugnante, contrariando, destarte, a própria lógica contida na própria redação da alínea "b" do inciso II do art. 18 da Lei nº 9430 e do inciso II do artigo 12 da IN 243 abaixo transcritos: Em razão do benefício da ZFM, o ICMS não onerou os produtos da Impugnante, o que gerou, inclusive, uma diminuição no preço dos produtos no mercado, repassado aos clientes da Impugnante. O processo foi encaminhado em diligência, conforme despacho de fls.724 a 726, tendo retornado com o Relatório Fiscal de fls. 729 a 735, do qual a contribuinte teve ciência e apresentou impugnação de fls. 828 a 886, na qual alega: ● Como será detalhado adiante, esse Relatório Fiscal da Infração é muito mais do que uma simples resposta a uma diligência requerida pela DRJ/RPO: resulta novo lançamento, efetuado com base em fundamentos e esclarecimentos até então desconhecidos pela Impugnante. Esse fato traz decorrências lógicas: (i) a primeira delas é que o Relatório Fiscal da Infração confirma a precariedade da fiscalização originária e a nulidade do lançamento, nos termos do art. 142 do Código Tributário Nacional ("CTN") e do artigo 59 do Decreto n° 70.235/1972 ("Decreto 70.235"); e (ii) a segunda é que o "novo lançamento", por referirse a suposto crédito tributário relativo ao período de 2010, está extinto pela decadência, nos termos do artigo 156, inciso V, do CTN. ● Nulidade do lançamento, em decorrência da ausência de motivação e de cerceamento do direito de defesa da Impugnante. As expressões utilizadas pelo despacho da DRJ/RPO "anexe", "esclarece", "manifeste" direcionadas à Autoridade Fiscal deixam claro que essa decisão tenta "corrigir" o lançamento anterior, mediante convalidação dos insanáveis vícios de nulidade e omissões que maculam o lançamento. Isso, contudo, não é admitido pois não se pode convalidar ato nulo de pleno direito. Fl. 1053DF CARF MF 8 A propósito da nulidade do Auto de Infração, não é demais consignar que os seus vícios o enquadram perfeitamente no artigo 59, II, do Decreto 70.235. É indubitável que se houvesse espaço para se ajustar o lançamento e incluir novos fatos e fundamentos jurídicos, a ordem regular do processo estaria prejudicada, invalidando a própria regra do artigo 146 do CTN, que impede a alteração do critério jurídico do lançamento. Admitir inovação desse tipo significa reconhecer que, antes dela, o Auto de Infração não continha a devida motivação e, logo, não era válido, visto que contrário às regras do artigo 10 do Decreto 70.235 acima mencionado. É de se questionar, inclusive, a ordem dada por uma autoridade julgadora para a realização de um novo lançamento, para que não haja cerceamento do direito de defesa. Ora, como se sabe, o artigo 142 do CTN declara expressamente que a constituição do crédito tributário pelo lançamento é ato vinculado e privativo da autoridade administrativa. Ademais, as regras do sistema jurídico pátrio prestigiam a segurança jurídica, impedindo que a autoridade apta a constituir o crédito tributário, de ofício e sem que incorra nas condutas listadas em lei, altere o lançamento. Este só poderá ser revisto e modificado nas situações previstas no artigo 149 do CTN, o que não se vislumbra no presente caso. Ora, considerando que a descrição suficiente e completa dos fatos e da infração cometida é requisito essencial do Auto de Infração, nos termos do artigo 10, III do Decreto 70.235, cuja inexistência acarreta a nulidade do lançamento, temse que o esclarecimento a posteriori desses fatos e dos fundamentos do lançamento, os quais a Impugnante somente tomou conhecimento no Relatório de Infração Fiscal, representa novo auto de infração e não simples convalidação do lançamento anterior. Dessa forma, referido Relatório não se enquadra nas hipóteses do artigo 18 do Decreto nº 70.235/1972. A qualificação como novo lançamento pode também ser atestada em função dos esclarecimentos feitos pela Autoridade Fiscal no Relatório Fiscal da Infração acerca do ICMS incidente sobre as vendas da Impugnante, para fins de cálculo da receita líquida obtida com a venda dos produtos fabricados pela Impugnante. ● Permanência dos vícios dos quais já padeciam o auto de infração: Quando solicitada a anexar os demonstrativos nos quais se baseou para efetuar o lançamento, a Autoridade Fiscal se limitou a responder que o lançamento fora baseado nos cálculos constantes do Demonstrativo de Cálculo, única planilha de cálculo entregue pela Autoridade Fiscal à Impugnante e apresentada somente durante a fiscalização. Novamente, deve ser ressaltado que não é possível inferir o critério jurídico que norteia os cálculos indicados em tal documento, além do fato de este não ter sido devidamente anexado ao Auto de Infração ou ao Relatório Fiscal da Infração. Além disso, conforme também será adiante abordado em maior profundidade, a Autoridade Fiscal abstevese de esclarecer a solicitação feita pela DRJ/RPO acerca da demonstração de como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto. Também vale dizer que a Autoridade Fiscal não se manifestou no Relatório da Infração Fiscal sobre o ponto levantado pela Impugnante a respeito da inclusão de valores relativos ao frete, seguro e tributos no cálculo do (preço praticado (preço CIF). Dessa forma, caso seja entendido que o Relatório Fiscal da Infração representou auto de infração complementar, este também deve ser cancelado, pelo fato de que a Autoridade Fiscal, em sua segunda oportunidade de constituir o lançamento, abstevese de abordar todas as questões suscitadas pela DRJ/RPO, sem sequer anexar planilha de cálculo com as fórmulas que fundamentaram a vultuosa quantia exigida no Auto de Infração. ● Mérito. Obrigatoriedade de a média do PRL ser calculada “produto a produto”. Fl. 1054DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.051 9 Ao interpretar o conteúdo do Demonstrativo de Cálculos, notadamente, as informações contidas na página 01 em conjunto com a página 65, é possível verificar que existiriam dois preços parâmetros e dois ajustes distintos para idênticos produtos importados. Isso porque, como se verifica dos trechos da planilha a seguir transcritos, o mesmo código da matéria prima aparece em várias linhas, resultando em distintos preços parâmetros e multiplicidade de ajustes para o mesmo bem importado. Ou seja, a D. Autoridade fiscal descumpriu regra básica constante do artigo 18 da Lei 9.430, que é a aplicação consistente do método por produto, dentre do ano calendário. A Fiscalização, ao invés de calcular um preço parâmetro médio para o componente VT3771000000, considerando todos os produtos acabados em que tal componente é utilizado, optou por calcular vários preços parâmetros, com base no produto acabado (9RB00#50000, 9RB00#50100, 9RL00#50000, 9RL00#50100, 9RL00#50400, 9RR00#50000, 9RR00#50100, 9RR00#50200). Em outras palavras, a Fiscalização, ao invés de calcular o preço parâmetro por produto importado, o fez por produto acabado. Ressaltese que os produtos importados de vinculadas são sujeitos ao controle de preços de transferência e não os produtos acabados vendidos no Brasil. Conforme disposto no artigo 6o da IN 243 (vigente à época dos fatos), para efeito de determinação do preço parâmetro, a Fiscalização deveria obter o valor médio ponderado. Nesse mesmo sentido está o entendimento firmado pela CoordenaçãoGeral de Tributação (COSIT) na recente Solução de Consulta n° 196, de 4 de julho de 2014. Além disso, vale mencionar que as perguntas 016, 018 e 027 nas Pergunta e Respostas da DIPJ 2013, e outras nas DIPJ de anos anteriores, abordam a questão da media ser obrigatoriamente calculada "produto a produto". ● Impossibilidade da desconsideração dos métodos PIC e CPL: A fiscalização desconsiderou, de forma genérica, os Métodos PIC e CPL, deixando de indicar no Auto de Infração o motivo para tanto ou ainda qual teria sido a irregularidade cometida pela Impugnante, aduzindo simplesmente que a Impugnante "deixou de atender aos requisitos exigidos do art. 8o e art. 13° da Instrução Normativa SRF n° 243, de 11/11/2002, para utilização dos respectivos métodos" (PRL 60, PRL 20, PIC e CPL). Apenas no Relatório Fiscal da Infração, após a solicitação expressa pela DRJ/RPO, é que a Impugnante tomou conhecimento do motivo pelo qual a Autoridade Fiscal desconsiderou o PIC e o CPL. A Autoridade Fiscal esclareceu que desconsiderou o método PIC pelo fato de a Impugnante ter adotado como parâmetro para o cálculo faturas e invoices referentes à aquisição das mesmas matérias primas por pessoa jurídica vinculada no exterior de terceiros. Em seu fundamento, a Autoridade Fiscal entendeu que a comparação com operações de pessoa jurídica vinculada com terceiros não vinculados infringe a norma disposta no artigo 8o da IN 243. Aqui se percebe a total contradição da Autoridade Fiscal, pois esta afirma que o procedimento adotado pela Impugnante não seria respaldado pelo disposto no artigo 8° da IN 243, ao mesmo tempo em que reconhece que o preço parâmetro foi calculado pela Impugnante com base no valor que as empresas ligadas no exterior adquiriram essas matérias primas de outras empresas do exterior não ligadas, representando um evidente parâmetro de mercado (arm's length). Ou seja, ao (contrário do afirmado pela Autoridade Fiscal no Relatório Fiscal da Infração, essa situação se encontra expressamente prevista no artigo 8o, parágrafo único, inciso III (transcrito no referido relatório). Fl. 1055DF CARF MF 10 Além disso, importante ressaltar que a Impugnante adquiriu no mercado interno, inclusive, produtos idênticos e similares aos importados de pessoas vinculadas, o que, a despeito de representar um evidente parâmetro de mercado (arm's length) para fins de comparação do preço parâmetro foi simplesmente desconsiderado pela Autoridade Fiscal. Método CPL Mais uma vez restou demonstrado que a Autoridade Fiscal tangenciou a qualificação da infração, isso porque, ainda que o Relatório Fiscal da Autuação tenha pouco mais conteúdo do que o Auto de Infração, este continuou sem esclarecer qual a ilegalidade cometida pela Impugnante, limitandose a alegar ter havido afronta ao artigo 13 da IN 243 e que não foram entregues os documentos exigidos pela legislação. A Lei é clara ao dispor que o cálculo de acordo com o método CPL deve considerar unicamente três componentes: (i) Custo médio de produção; (ii) Impostos e taxas cobrados no país de exportação; e (iii) Margem de lucro correspondente a 20%. No entanto, embora a IN 243 estabeleça a composição do custo, a verdade é que a Lei 9.430 a própria IN 243 nada dispõem acerca dos documentos a serem utilizados para fins de comprovação dos custos de produção do exportador, ora localizado no exterior. Diante da omissão legislativa, é imperioso considerar (o que não foi feito pela Autoridade Fiscal), que tanto a Lei 9.430, em seu artigo 213, quanto a IN 243, em seu artigo 294 (vigente à época dos fatos) e a atual IN 1.312/12, em seu artigo 435, fazem menção a elementos complementares de prova que poderão ser utilizados pelo contribuinte, tais como, (i) publicações ou relatórios oficiais do governo do país do comprador ou vendedor ou declaração da Autoridade Fiscal desse mesmo país, quando com ele o Brasil mantiver acordo para evitar a bitributação ou para intercâmbio de informações e (ii) pesquisas efetuadas por empresa ou instituição de notório conhecimento técnico ou publicações técnicas, em que se especifiquem o setor, o período, as empresas pesquisadas e a margem encontrada, bem como identifiquem, por empresa, os dados coletados e trabalhados. Nesse contexto, se a Autoridade Fiscal discordou do cálculo efetuado pela Impugnante segundo o método CPL, deveria aquela ter apresentado os motivos que justificam a sua desconsideração. III.B.3 Apuração do PRL 60: Incompatibilidade da fórmula prevista pela IN 243 com a Lei 9.430 Conforme esclarecido no Relatório Fiscal da Infração, a Autoridade Fiscal recalculou os preços parâmetros relativo aos componentes importados pela Impugnante. Isso porque, a Autoridade Fiscal adotou a sistemática da IN 243 para o cálculo do preço parâmetro segundo o método PRL 60 em detrimento da sistemática da Lei 9.430, utilizada pela Impugnante. A sistemática de cálculo pelo método PRL 60 prevista pela IN 243 é incompatível com a Lei n° 9.430. Tal incompatibilidade já foi reconhecida pelo E. Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) e pela própria Receita Federal do Brasil ("RFB"). Algumas diferenças entre o conteúdo da Lei n° 9.430 e da IN 243 ensejam a apuração dos ajustes de preços de transferência apurados neste lançamento, a saber. Em nenhum momento o art. 18, II, item 1 da Lei n° 9.430 trata da participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço líquido de venda como fator para apuração da margem de lucro de 60%, como faz a IN 243. Não bastasse isso, a IN 243 desconsidera solenemente algumas variáveis constantes da fórmula legal, notadamente o valor agregado no Brasil, na base de cálculo da margem de lucro. Mas não é só. Em 03/04/2012, foi editada a Medida Provisória n° 563/2012, posteriormente, convertida na Lei n° 12.715/2012. Fl. 1056DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.052 11 Da análise do art. 48 dessa Lei, que introduz mudanças ao art. 18 da Lei n° 9.430, notase que a margem aplicável à produção local, que antes era de 60%, foi substituída por uma margem de 20% (regra geral), com exceções para alguns setores, que possuem margens de 30% e 40%. A referida alteração de margens coincidiu com a introdução, em nível legal, da sistemática de cálculo antes prevista somente na IN 243. A alteração legal evidencia a incompatibilidade da margem de 60% sobre o valor de revenda (ou de 150% de retomo sobre os custos) com a forma de cálculo contida IN 243, ou seja, a incompatibilidade da própria IN com a Lei n° 9.430. III.B.6 Os argumentos da Fazenda Nacional o PRL 60 segundo a IN 243 é uma presunção absoluta de lucratividade aplicável a todos os contribuintes? A Procuradoria da Fazenda Nacional ("PFN") tem sustentado que a forma de apuração do preço parâmetro estipulado pela IN 243 estaria de acordo com uma das interpretações possíveis da Lei n° 9.430. Assim, não haveria ilegalidade em seu teor, pois apenas a IN 243 explicita a racionalidade inserta no texto legal. III.B. 7 Problemas no cálculo do PRL 60 segundo a IN 243. Além de divergente daquele previsto na Lei 9.430, o cálculo do PRL 60 segundo a sistemática prevista pela IN 243 gera uma série de problemas e erros lógicos, o que já seria igualmente suficiente para afastar a sua aplicação. III.B.7.1 Ponto 1: IN 243 exige margem de lucro 150% sobre os custos não sujeitos ao controle de preços de transferência. III.B.7.2 Ponto 2: Para a sistemática da IN 243, é economicamente mais racional importar produto acabado do que produzir no Brasil III.B.7.3 Ponto 3: Erro lógico na sistemática da IN 243 Teste do custo a partir do custo III.B.8 Legalidade da conduta da Impugnante III.B.9 Desconsideração do benefício fiscal de ICMS concedido pelo Estado do Amazonas III.B.10 Método PRL A ilegítima inclusão dos valores relativos ao frete, seguro e tributos no cálculo do preço praticado (Preço CIF) III.B.11 A legítima aplicação do Método PRL 20 inclusive para os casos de produção local III.B.12 Os Tratados firmados pelo Brasil: a impossibilidade de limitação do princípio arm '& length pela lei interna A existência de Tratado firmado entre o Brasil e a China, país do qual a Impugnante importa os produtos que foram objeto de ajuste ● Ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício. Ao referirse ao “crédito tributário” o art. 161 do CTN não se refere à multa de ofício, mas apenas ao principal cobrado. Isso porque, se assim não fosse, não haveria necessidade do mesmo dispositivo ressalvar, logo em seguida, que a aplicação dos juros não causa prejuízo à imposição das penalidades cabíveis.Os juros moratórios cuja aplicação foi autorizada pelo lançamento limitamse àqueles aplicados sobre o tributo. É o que determinam os artigos 6o, §2° e 28 da Lei 9.430, únicos dispositivos legais constantes da capitulação legal do lançamento que tratam da aplicação dos juros de mora. E, ainda que assim não fosse, tendo sido aplicada a Taxa SELIC, depreendese da leitura do artigo 61 da Lei 9.430 que estabeleceu sua aplicação como juros moratórios que a referida taxa se aplica apenas sobre os tributos não pagos no vencimento. Logo, não há sequer como pretender aplicar a norma constante do artigo 161, §1° do Código Tributário Nacional, para que incidam juros de 1% sobre a multa de ofício lançada. ● Por fim, requer que todas as intimações relativas ao presente processo administrativo sejam feitas aos cuidados de FERNANDO TONANNI, com escritório à Av. Brigadeiro Faria Lima, n° 3.144, IIo andar, 01451000, São Fl. 1057DF CARF MF 12 Paulo, SP. enviando de tudo cópia à Impugnante no endereço constante dos autos. O r. Acórdão restou então assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Anocalendário: 2010 PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PREÇO PARÂMETRO PRL. CRÉDITO ESTÍMULO DO ICMS. O benefício fiscal de crédito estímulo do ICMS não modifica o resultado operacional da pessoa jurídica beneficiada, considerandose, na determinação do preço líquido de venda do bem, o valor do ICMS correspondente à alíquota normal do imposto. PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. CÁLCULO DA MÉDIA PONDERADA NO MÉTODO DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO (PRL). A média aritmética ponderada prevista na legislação de preço de transferência para o método PRL deve ser calculada produto a produto. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. DESPESAS COM FRETE, SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. O valor de frete e seguro, cujo ônus tenha sido do importador, e os tributos incidentes na importação devem ser incluídos na apuração dos preços praticados, assim como dos preços parâmetros, segundo o método PRL. ASSUNTO: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO Anocalendário: 2010 INCONSTITUCIONALIDADE. ARGÜIÇÃO. Às instâncias administrativas não compete apreciar vícios de ilegalidade ou de inconstitucionalidade das normas tributárias, cabendolhes apenas dar fiel cumprimento à legislação vigente. JUROS DE MORA SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. A incidência de juros de mora sobre a multa de ofício, após o seu vencimento, está prevista no artigo 61, § 3º, da Lei 9.430, de 1996. ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Anocalendário: 2010 NULIDADE. Não há que se cogitar de nulidade do lançamento quando observados os requisitos previstos na legislação que rege o processo administrativo fiscal. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. Não se configura cerceamento do direito de defesa se o conhecimento dos atos processuais pelo acusado e o seu direito de resposta ou de reação se encontraram plenamente assegurados. ATO NORMATIVO. ILEGALIDADE. APRECIAÇÃO. ADMINISTRAÇÃO TRIBUTÁRIA. VEDAÇÃO. É vedado ao julgador administrativo afastar a aplicação de entendimento da administração tributária expresso em ato normativo, com fundamento em sua suposta ilegalidade ou inconstitucionalidade. TRIBUTAÇÃO REFLEXA. CSLL. Aplicase à tributação reflexa idêntica solução dada ao lançamento principal em face da estreita relação de causa e efeito. Impugnação Improcedente Crédito Tributário Mantido O Recorrente apresenta então o presente Recurso Voluntário em que alega: (i) preliminarmente o cerceamento do direito de defesa e nulidades materiais do auto de infração, pois: ...a fundamentação do Auto de Infração se mostrou extremamente precária e defeituosa, o que impossibilitou o exercício do seu amplo Fl. 1058DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.053 13 direito de defesa. Além disso, o lançamento não se revestia da certeza e liquidez necessárias para a constituição do crédito tributário nos termos do artigo 142 do CTN, revelandose, só por essa razão, a necessidade do cancelamento da autuação. 24. Isso porque, não se identificava um parágrafo sequer dedicado ao apontamento ou descrição de eventual ilicitude praticada pela Recorrente, haja vista que o sucinto texto do Auto de Infração simplesmente: (a) descrevia a data de intimação e da entrega de documentos; (b) alegava que a Recorrente não teria realizado o cálculo dos métodos PIC e CPL em observância dos artigos 8º e 13 da IN 243; e (c) informava o valor do ajuste e do tributo complementar a ser recolhido. (...) 28. Ocorre que, segundo dispõe o artigo 10, inciso IV, do Decreto 70.235, é obrigação da autoridade lançadora indicar a disposição legal infringida no Auto de Infração. Ora, como a autoridade lançadora desconsiderou os cálculos de ajustes de preço de transferência da Recorrente sob o argumento de que não estariam em consonância com as disposições da IN 243, é evidente que a autoridade lançadora entendeu que as disposições legais infringidas eram artigos da própria IN 243, e não os dispositivos listados acima. 29. Além dessa manifesta nulidade referente ao enquadramento legal incorreto constante no Auto de Infração, é importante ressaltar que os ajustes que deram base ao lançamento estavam tão somente suportados em “Demonstrativo de Cálculo” que sequer era parte do Auto de Infração. (...) Diante do exposto, para que não haja cerceamento do direito de defesa, tornase necessário o retorno do presente processo à DRF de origem para que o autuante, ou outro servidor para tal designado, tome as seguintes providências: 1) Anexe ao processo os demonstrativos nos quais se baseou para fazer o lançamento e junte os demais documentos necessários à determinação da matéria tributável. 2) Esclareça e demonstre como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; 3) Intime a Recorrente a comprovar que, no anocalendário de 2010, ainda possuía o benefício de crédito estímulo de ICMS para “Câmera de vídeo de imagens fixas” e cumpriu todas as exigências fixadas na legislação estadual para a sua fruição. 4) Se manifeste a respeito das alegações da contribuinte (descritas nos itens acima), fazendo relatório circunstanciado. Fl. 1059DF CARF MF 14 5) Dê ciência à Recorrente do relatório e dos documentos e demonstrativos anexados ao processo, reabrindolhe o prazo para impugnar. (grifos da Recorrente) 35. As expressões utilizadas pelo despacho da DRJ “anexe”, “esclarece”, “manifeste” direcionadas à autoridade lançadora deixam claro que essa decisão busca “corrigir” o lançamento anterior, mediante convalidação dos insanáveis vícios de nulidades materiais e omissões que maculam o lançamento. Isso, contudo, não é admitido pois não se pode convalidar ato nulo de pleno direito. (ii) A impossibilidade de alteração do critério jurídico; (iii) Decadência direito de constituir créditos tributários referentes ao anocalendário de 2010/; 60. Considerando que a descrição suficiente e completa dos fatos e da infração cometida é requisito essencial do Auto de Infração, nos termos do artigo 10, III do Decreto 70.235, cuja inexistência acarreta a nulidade do lançamento, temse que o esclarecimento a posteriori desses fatos e dos fundamentos do lançamento, os quais a Recorrente somente tomou conhecimento no Relatório Fiscal, representa novo auto de infração e não simples convalidação do lançamento anterior. Dessa forma, referido relatório não se enquadra nas hipóteses do artigo 18 supra. 64. A Câmara Superior desse E. CARF (“CSRF”) já se manifestou, em diversas oportunidades, no sentido de que a realização de nova diligência para se apurar a matéria tributável significa que a obrigação tributária não estava definida e que, portanto, não há que se falar em lançamento substitutivo, mas, sim, em novo lançamento. Vejase, a título ilustrativo, as seguintes decisões (iv) Permanência dos vícios do auto de infração ante o não cumprimento de todos os requerimentos realizados pela DRJ, em sede de julgamento que determinou a baixada do caso em diligência. No mérito sustenta: (i) Desconsideração do benefício fiscal de ICMS concedido pelo Estado do Amazonas; 85. No anocalendário 2010, a Recorrente era beneficiária desse crédito estímulo, nos termos do Decreto Estadual n° 24.195/20046, na qualidade de indústria instalada no Estado do Amazonas. Tal benefício garantia um crédito estímulo de 100% (cem por cento) em relação ao ICMS incidente sobre as vendas dos produtos fabricados pela Recorrente, nos quais foram aplicadas às matériasprimas importadas de pessoas vinculadas. 87. Como demonstrado pela Recorrente, a despeito de esse benefício fiscal estar em vigência durante o período fiscalizado, a autoridade lançadora, ao calcular a receita líquida de venda dos produtos fabricados pela Recorrente, reduziu do preço o valor de ICMS incidente sobre tais operações, quando este imposto não é Fl. 1060DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.054 15 efetivamente devido pela Recorrente, contrariando, destarte, a própria lógica contida na redação da alínea “b” do inciso II do artigo 18 da Lei 9.430 e do inciso II do artigo 12 da IN 243 abaixo transcritos: Relatório Fiscal e pela decisão da DRJ, alegações essas que prescindiram da verificação dos efeitos da dedução do ICMS no cálculo da receita líquida de venda dos produtos e simplesmente optaram por adotar uma interpretação restritiva da legislação, extrai se da IN 243 que a própria RFB esclareceu que os impostos e contribuições que devem ser descontados da apuração do preço parâmetro com base no método PRL são aqueles que integram o preço do produto revendido, o que não ocorreu nos produtos revendidos pela Recorrente. (...) 97. Segundo o raciocínio da decisão da DRJ, o valor do ICMS deve ser considerado no cálculo do preço parâmetro da Recorrente, pelo simples fato de que na sistemática do benefício do crédito estímulo há incidência do ICMS, seguida de sua devolução do imposto apurado nas operações realizadas no período. Argumenta ainda que não há impacto do benefício do crédito estímulo do ICMS na receita operacional da Recorrente e que a exclusão do ICMS do cálculo do preço parâmetro representaria uma interpretação extensiva da norma pela Recorrente. (...) 100. É importante ressaltar que a finalidade da norma não é considerar os impostos e contribuições cujo fato gerador é a venda, a saída, das mercadorias, mas sim aqueles efetivamente incorridos pelo contribuinte. Caso contrário, o preço parâmetro não refletiria a realidade da operação do contribuinte! (ii) A obrigatoriedade de a média do PRL ser calculada “produto a produto” 114. Em outras palavras, ao invés de calcular o preço parâmetro por produto importado, a autoridade lançadora o fez por produto acabado. Ressaltese que os produtos importados de vinculadas são sujeitos ao controle de preços de transferência e não os produtos acabados vendidos no Brasil. 115. Conforme disposto no artigo 6º da IN 243, para efeito de determinação do preço parâmetro, a fiscalização deveria obter o valor médio ponderado. Vejamos: Art. 6º Para efeito de determinação do preço parâmetro com base nos métodos de que tratam os arts. 8º e 12, preliminarmente à comparação, os preços apurados serão multiplicados pelas quantidades relativas à respectiva operação e os resultados serão somados e divididos pela quantidade total, determinandose, assim, o valor médio ponderado do preço a ser comparado com aquele registrado em custos, computado em conta de resultado, pela empresa. Parágrafo único. Para efeito de Fl. 1061DF CARF MF 16 comparação, o preço médio ponderado dos bens, serviços e direitos adquiridos pela empresa vinculada, domiciliada no Brasil, será apurado considerandose as quantidades e valores correspondentes a todas as operações de compra praticadas durante o período de apuração sob exame. 116. Da análise artigo 6º acima transcrito, bem como do artigo 18 da Lei 9.430, a melhor exegese desses dispositivos, sobretudo à luz das regras dos preços de transferência, determina que a média aritmética ponderada para o método PRL deve ser calculada “produto a produto”, considerando todos os produtos acabados em que determinado componente é utilizado. Assim, não é possível que produtos idênticos importados, como por exemplo o componente VT3771000000, tenham diferentes preços parâmetros, bem como valores distintos a título de ajustes, como pretendido pela autoridade lançadora no Auto de Infração. 117. Nesse mesmo sentido está o entendimento firmado pela Coordenação Geral de Tributação (COSIT) na Solução de Consulta nº 196/2014, cujo entendimento é vinculante a toda Administração Tributária Federal (iii) Impossibilidade da desconsideração dos métodos PIC e CPL 125. Como se sabe, o artigo 18, §4º da Lei 9.430 determina que, na hipótese de utilização de mais de um dos métodos disponíveis para o controle nas importações, será considerado dedutível o maior valor encontrado, regra reproduzida no artigo 4º, §2º da IN 243, in verbis: §2º Na hipótese de utilização de mais de um método, será considerado dedutível o maior valor apurado, devendo o método adotado pela empresa ser aplicado, consistentemente, por bem, serviço ou direito, durante todo o período de apuração. 126. Não obstante tal previsão, a autoridade lançadora desconsiderou, de forma genérica, o PIC e o CPL, deixando de indicar o motivo para tanto ou ainda qual teria sido a irregularidade cometida pela Recorrente, aduzindo simplesmente que a Recorrente “deixou de atender aos requisitos exigidos do art. 8º e art. 13º da Instrução Normativa SRF n° 243, de 11/11/2002, para utilização dos respectivos métodos” (PRL 60, PRL 20, PIC e CPL). (...) 130. Aqui se percebe a total contradição, pois a autoridade lançadora afirma que o procedimento adotado pela Recorrente não seria respaldado pelo disposto no artigo 8º da IN 243, ao mesmo tempo em que reconhece que o preço parâmetro foi calculado pela Recorrente com base no valor que as empresas ligadas no exterior adquiriram essas matérias primas de outras empresas do exterior não ligadas, representando um evidente parâmetro de mercado (arm´s length). Essa contradição, contudo, foi ignorada pela decisão da DRJ. 131. Ora, ao contrário do afirmado pela autoridade lançadora no Relatório Fiscal, essa situação se encontra expressamente prevista no artigo 8º, parágrafo único, inciso III (transcrito no referido relatório), in verbis: Fl. 1062DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.055 17 Art. 8º A determinação do custo de bens, serviços e direitos, adquiridos no exterior, dedutível na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá ser efetuada pelo método dos Preços Independentes Comparados (PIC), definido como a média aritmética ponderada dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes. Parágrafo único. Por esse método, os preços dos bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, de uma empresa vinculada, serão comparados com os preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares: I vendidos pela mesma empresa exportadora, a pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou não residentes; II adquiridos pela mesma importadora, de pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou nãoresidentes; III em operações de compra e venda praticadas entre outras pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou nãoresidentes. 132. Além disso, importante ressaltar que a Recorrente adquiriu no mercado interno, inclusive, produtos idênticos e similares aos importados de pessoas vinculadas, o que, a despeito de representar um evidente parâmetro de mercado para fins de comparação do preço parâmetro foi simplesmente desconsiderado pela autoridade lançadora. (...) 143. Mais uma vez restou demonstrado que a autoridade lançadora tangenciou a qualificação da infração, isso porque, ainda que o Relatório Fiscal tenha pouco mais conteúdo do que o Auto de Infração, este continuou sem esclarecer qual a ilegalidade cometida pela Recorrente, limitandose a alegar ter havido afronta ao artigo 13 da IN 243 e que não foram entregues os documentos exigidos pela legislação. 144. Ao contrário do afirmado pela decisão da DRJ à fl. 23 que alega a ausência de documentos válidos que possam corroborar os cálculos feitos segundo o PIC e o CPL, deve ser ressaltado que, no curso da ação fiscal, a Recorrente forneceu planilhas e faturas comerciais (fls. 484719 do PAF) que suportam a opção por esses métodos, atendendo plenamente o disposto na IN 243, sendo completamente descabidas as afirmações nesse sentido. 145. Ou seja, caberia à autoridade lançadora e a decisão da DRJ apontarem quais documentos ou informações específicas que consideram pendentes e que ensejaram a desqualificação dos ajustes com base no CPL, fato que continua sem ser esclarecido até o presente momento. (...) 150. A legislação é clara ao dispor que o cálculo de acordo com o método CPL deve considerar unicamente três componentes: (i) custo médio de produção; (ii) impostos e taxas cobrados no país de exportação; e (iii) margem de lucro correspondente a 20%. No entanto, embora a IN 243 estabeleça a composição do custo, a verdade é que a Lei 9.430 e a própria IN 243 nada dispõem acerca Fl. 1063DF CARF MF 18 dos documentos a serem utilizados para fins de comprovação dos custos de produção do exportador, ora localizado no exterior. 151. Se a autoridade lançadora discordou do cálculo efetuado pela Recorrente segundo o CPL, deveria aquela ter apresentado os motivos que justificam a sua desconsideração. Ou seja, a autoridade lançadora não está autorizada, sem a apresentação de tais motivos, simplesmente desconsiderar os métodos utilizados pela Recorrente e propor um ajuste com base em outro método (PRL 60 calculado de acordo com a IN 243, o qual, conforme adiante demonstrado, é incompatível com a Lei 9.430), apresentando um ajuste muito maior no lucro real da Recorrente. (iv) Ilegalidade da IN 243/02 (v) Aplicação da PRL 20% inclusive para os casos de produção local (vi) Impossibilidade de as regras de preço de transferência serem aplicadas ante a existência de tratado internacional para evitar a dupla tributação com a China (vii) A ilegítima inclusão dos valores relativos ao frete, seguro e tributos no cálculo do preço praticado (Preço CIF) (viii) A ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício É o Relatório. Fl. 1064DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.056 19 Voto Vencido 1. ADMISSIBILIDADE O recurso é tempestivo e assinado por procuradores habilitados. 2. PRELIMINARES: 2.1 VÍCIO DE EXISTÊNCIA E FALTA DE MOTIVAÇÃO NO TVF: A parte autora alega que no auto de infração não se identificava um parágrafo sequer dedicado ao apontamento ou descrição de eventual ilicitude praticada pela Recorrente, haja vista que o sucinto texto do Auto de Infração simplesmente: (a) descrevia a data de intimação e da entrega de documentos; (b) alegava que a Recorrente não teria realizado o cálculo dos métodos PIC e CPL em observância dos artigos 8º e 13 da IN 243; e (c) informava o valor do ajuste e do tributo complementar a ser recolhido. A ausência de determinação da matéria tributável e motivação no TVF foi confirmada quando do primeiro julgamento da DRJ que baixou o feito em diligência para: Diante do exposto, para que não haja cerceamento do direito de defesa, tornase necessário o retorno do presente processo à DRF de origem para que o autuante, ou outro servidor para tal designado, tome as seguintes providências: 1) Anexe ao processo os demonstrativos nos quais se baseou para fazer o lançamento e junte os demais documentos necessários à determinação da matéria tributável. 2) Esclareça e demonstre como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; 3) Intime a Recorrente a comprovar que, no anocalendário de 2010, ainda possuía o benefício de crédito estímulo de ICMS para “Câmera de vídeo de imagens fixas” e cumpriu todas as exigências fixadas na legislação estadual para a sua fruição. 4) Se manifeste a respeito das alegações da contribuinte (descritas nos itens acima), fazendo relatório circunstanciado. 5) Dê ciência à Recorrente do relatório e dos documentos e demonstrativos anexados ao processo, reabrindolhe o prazo para impugnar. (grifos da Recorrente) Após retorno da diligência, a DRJ decidiu que: Cabe destacar que a possibilidade de ter havido cerceamento ao direito de defesa deve ser analisada in concreto, ou seja, se os atos e fatos ocorridos, efetivamente, prejudicaram o direito à ampla defesa da contribuinte. Fl. 1065DF CARF MF 20 Não se vislumbra, no caso, qualquer limitação à possibilidade de defesa da autuada, desde que, efetivamente, ela teve acesso a todas as informações constantes dos autos, inclusive, antes do lançamento, ela teve ciência do “Demonstrativo de Cálculo Método Preço de Revenda Menos lucro com Margem de 60%” e foi intimada a apresentar esclarecimentos e provas a respeito das divergências apuradas pelo fisco. Não há que cogitarse aqui da aplicação da máxima de que "não há nulidade sem prejuízo"na medida em que o vício que macula o TVF não se apresenta no âmbito de sua validade e/ou eficácia, mas da própria acomete sua própria existência/constituição do crédito tributário, nos termos do que prescreve a legislação tributária federal vejamos: O art.9, do Decreto n.70.235/1972 prescreve que a constituição do crédito tributário através do ato do lançamento tributário deve "estar instruídos com todos os termos, depoimentos, laudos e demais elementos de prova indispensáveis à comprovação do ilícito." (grifo nosso). A autoridade fiscal empreendeu a lavratura do TVF de modo extremamente sucinto deixando de acostar documentos imprescindíveis para demonstração da imputação de (in)observância das regras de preço de transferência pelo contribuinte; matéria que necessariamente demanda uma instrução probatória mínima, tanto que a DRJ reconhecendo a precariedade do auto determinou que a autoridade fiscal juntasse aos autos "os demonstrativos nos quais se baseou para fazer o lançamento e junte os demais documentos necessários à determinação da matéria tributável." A determinação da DRJ denuncia a "falta de motivação" do lançamento tributário realizado. Antes mesmo de analisar a validade do ato do lançamento tributário constatase ausência de documentos imprescindíveis para a própria determinação da matéria tributável. A compreensão exata da natureza e finalidade do ato do lançamento tributário não conduz a conclusão outra que não a constatação de vício formal. O lançamento tributário, nos termos do art.142, é ato administrativo privativo da Administração Tributária que tem por finalidade primeira "determinar a matéria tributária., vejamos: Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento, assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível. A falta de preenchimento de qualquer destes elementos ou a presença de equívoco substancial, relacionado à realidade dos fatos ou ao seu respectivo regramento legal, configura erro material, acarretando nulidade do lançamento de ofício, não podendo ser sanado ou convalidado no curso do processo administrativo, devendo à Administração Tributária proceder à lavratura de nova autuação e, jamais, a conversão em diligência quando do julgamento da impugnação. A própria DRJ reconheceu que o TVF carecia de elementos para "determinação da matéria tributável". Todo ato administrativo é integrado pelos elementos da competência, forma, objeto, finalidade e motivação. Muito embora realizado por autoridade plenamente competente na forma da lei carece de finalidade na medida em que não trouxe Fl. 1066DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.057 21 elementos necessários para determinação da matéria tributável, sem prejuízo da falta de motivação necessária. A DRJ operou em equívoco ao determinar a realização de diligência, sendo que estava diante de um flagrante vício formal de existência do ato que conduz inevitavelmente a medida de cancelamento do lançamento para que realizado outro observando o prescrito em lei. Senão outro é o entendimento de Marcus Vinícius Neder: "O art.9 do PAF, ao estabelecer que o auto de infração e a notificação do lançamento devem estar instruídos com todos os elementos de prova indispensáveis a comprovação do ilícito, explicita a necessidade de demonstração dos pressupostos com base nos quais o ato foi emanado. Deste modo, a lei define o momento processual adequado para a apresentação das provas coletadas no curso da ação fiscal. Não cabe à autoridade fiscal, após a interposição da impugnação pelo contribuinte, suprir deficiências probatórias do lançamento com a apresentação de novos elementos." (grifo nosso) Foi justamente o que ocorreu no presente caso ora em julgamento: quando da impugnação do contribuinte ante a precariedade do TVF lavrado a DRJ, ao invés de julgar pelo cancelamento do lançamento para que outro viesse a ser realizado, converteu o julgamento em diligência a fim de suprir elemento imprescindível que deveria constar do lançamento. Não bastasse a ausência do elemento da finalidade do lançamento tributário que deixou de realizar a determinação da matéria tributável, em descompasso com os arts. 142 (CTN) e 9 do PAF temse que padece, também, do vício de falta de motivação. O art. 10 do DecretoLei 70.235/72 prescreve que "o auto de infração será lavrado por servidor competente, no local da verificação da falta e conterá obrigatoriamente: (...) a descrição dos fatos(III) e a disposição legal infringida (IV)" que integram o elemento da motivação do lançamento. A ausência de motivação do lançamento é explicitada na determinação da DRJ à autoridade fiscal para que explicitasse os motivos pelos quais a contribuinte deixara de apurar o preço parâmetro no método PRL em desacordo com a IN 243. A lavratura do auto de infração em matéria de tal complexidade jamais poderia resumir em "inobservância das regras da IN 243" conforme lavrado pela autoridade fiscal tanto que determinado pela DRJ que a autoridade fiscal: (...) 2) Esclareça e demonstre como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; 3) Intime a Recorrente a comprovar que, no anocalendário de 2010, ainda possuía o benefício de crédito estímulo de ICMS para “Câmera de vídeo de imagens fixas” e cumpriu todas as exigências fixadas na legislação estadual para a sua fruição." Ora a demonstração de como apurado o preço parâmetro pela autoridade fiscal é pressuposto para imputação do ilícito de inobservância da IN 243, logo, a autuação não se sustenta. Como admitir a inobservância da IN 243 se a autoridade fiscal não demonstra de modo elementar o modo de apuração do preço parâmetro. Fl. 1067DF CARF MF 22 Cristalina, assim, a ausência de explicitação dos motivos que culminaram a autuação que evidentemente padece de falta de motivação decorrente da falta de compreensão pela autoridade fiscal da legislação de preço de transferência aplicável que determina o modo de apuração do preço parâmetro. O art.18, II, “b” da Lei 9.430/96 prevê que o modo de cálculo do preço parâmetro segundo o método PRL deveria partir do preço bruto de revenda e dele diminuir (i) os descontos incondicionais concedidos, (ii) os impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, (iii) as comissões e corretagens pagas e (iv) a margem de lucro de 20% ou 60%, conforme o caso, o que pode ser resumido no seguinte quadro: PRL= A (B+C+D+ ((AB) x 20%)) A: média aritmética de preços de revenda de bens e serviços a empresas não vinculadas B: descontos incondicionais concedidos e demonstrados em NF C: impostos e contribuições incidentes sobre as vendas D: comissões e corretagens pagas A autoridade fiscal se desincumbiria do seu mister funcional se meramente indicasse tal fórmula legal e demonstrasse o modo de apuração nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; o que corresponderia a motivação do TVF. A propósito do vício da falta de motivação no lançamento tributário Marcos Vinícius Neder e Maria Tereza Martinez Lopes lecionam que "não é vício formal na descrição, mas no próprio conteúdo do ato. Não adianta a repetição do lançamento pela autoridade com a finalidade de aproveitamento do ato anterior pela sua convalidação, pois remanesce na nova norma individual e concreta introduzida a mesma anomalia. A correção só poderá ser empreendida por meio da invalidação do lançamento original e a formalização de nova exigência fiscal."(2010:210) Senão outro é o entendimento deste E. CARF: Fl. 1068DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.058 23 Do até aqui exposto vislumbro que o TVF padece simultaneamente de vício formal (art.9, PAF) e vício material ante a ausência de motivação que conduzem inevitavelmente ao cancelamento e/ou anulação do auto de infração lavrado. Porventura, excepcionalmente, entendase que tais vícios de existência/constituição do crédito tributário são aptos de serem sanados com a diligência fiscal determinada pela DRJ e "nova impugnação" a suprir qualquer prejuízo do direito de defesa do contribuinte passo a análise das demais questões preliminares trazidas pelo recorrente. 2.2. IMPOSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO DE CRITÉRIO JURÍDICO Sustenta a recorrente em RV que na resposta da autoridade fiscal à diligência determinada pela DRJ houve a alteração do critério jurídico em descompasso ao previsto no art.146, do CTN. Muito embora permaneça fiel a posição inicial assumida pelo cancelamento do lançamento ante ao vício de existência/constituição tenho para mim que não há que se falar em alteração do critério; o que será melhor enfrentado no mérito. Por essa razão, afasto a preliminar suscitada. 2.3 DECADÊNCIA A questão da decadência suscitada resta prejudicada ante a manutenção do lançamento inicial. 2.4 PERMANÊNCIA DOS VÍCIOS Segundo a Recorrente, a autoridade fiscal deixou de cumprir 2 das 5 exigências requeridas pela DRJ quando baixou o julgamento em diligência: 1) Anexe ao processo os demonstrativos nos quais se baseou para fazer o lançamento e junte os demais documentos necessários à determinação da matéria tributável. 2) Esclareça e demonstre como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; No que decidiu a DRJ que: Contrariando essa alegação e nos termos da SC nº 196/2014 citada na impugnação, a metodologia fixada pela citada Lei para o cálculo do PRL é no sentido de apurar a média ponderada de preço de venda individualmente em relação à cada tipo de produto vendido. Assim, para o produto indicado pela contribuinte está correto o cálculo efetuado pela fiscalização, pois para um mesmo insumo importado foram obtidos diferentes produtos com diferentes valores de venda. Fl. 1069DF CARF MF 24 Portanto, não se sustenta o argumento de que a DRJ deixou de analisar o tema em espécie. 3. NO MÉRITO: 3.1 DO BENEFÍCIO FISCAL DE ICMS Decidiu a DRJ que: O preço parâmetro determinado de acordo com o Método PRL é obtido a partir da média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos, dentre outros valores, dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, dos quais faz parte o ICMS. Observase que o incentivo fiscal do crédito estímulo do ICMS, é concedido aplicandose um percentual sobre o saldo devedor do ICMS em cada período de apuração. O Crédito estímulo é uma devolução do imposto apurado normalmente pela diferença entre os débitos e créditos decorrentes das operações realizadas no período. O crédito estímulo representa um percentual do saldo devedor apurado. Operacionalmente, em cada mês de apuração, o contribuinte incentivado recolhe apenas a diferença entre o saldo devedor e o valor do crédito estímulo. Temse, assim, que o ICMS incide sobre os produtos vendidos e a contribuinte beneficiária somente obtém uma devolução desse imposto apurado (correspondente a um percentual sobre o saldo devedor do ICMS) nas operações realizadas no período, não se alterando, com esse benefício, a receita operacional da empresa. Portanto, referido benefício não tem nenhuma repercussão na apuração dos preços de transferência, que se prestam a outra finalidade, ou seja, a de verificar se os preços pelos quais a contribuinte importou (como no caso em tela) ou exportou produtos de/para empresas a ela vinculadas divergem do preço de mercado negociado por empresas independentes, em condições análogas. Como é sabido, a regra de preço de transferência é norma antielisiva que objetiva impedir que os contribuintes transfiram lucros de uma jurisdição com maior pressão para uma com menor pressão fiscal ou sem tributação, garantindose que se está praticando transações a preço de mercado. Nessa linha de raciocínio, na medida em que a recorrente transfere para o consumidor final, através da diminuição do preço praticado, o benefício econômico derivado de um benefício fiscal, quer me parecer que há impacto direto na receita líquida, devendo ser considerado, pois, para apuração do preçoparâmetro. A solução seria diversa, entretanto, caso o contribuinte utilizasse o benefício para aumentar sua margem de lucro, não repassando a diminuição no custo para o consumidor final. Então, se é verdade o que afirma a Recorrente de que a comercialização de seus produtos não é onerada pelo ICMS, de modo que o benefício fiscal é refletido no preço dos produtos, tornandoos mais baratos, a realidade não pode ser desconsiderada pela fiscalização, aumentando artificialmente o ajuste de preço de transferência. Fl. 1070DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.059 25 Como bem apontado pelo contribuinte, a finalidade da norma não é considerar os impostos e contribuições cujo fato gerador é a venda, a saída, das mercadorias, mas sim aqueles efetivamente incorridos pelo contribuinte. Caso contrário, o preço parâmetro não refletiria a realidade da operação do contribuinte! Ainda que o art.18, II, b, da Lei n.9.430 se refira à tributos "incidentes" sobre as vendas é cristalino que tratandose de norma que tem por propósito alcançar preço parâmetro referese, na realidade, aqueles tributos cobrados independentemente de tomar em conta o conceito fenômeno da incidência tributária que recebe todo um tratamento teórico normativo. O legislador ao se referir a "tributos incidentes" não se fez preocupado com o termo técnico do fenômeno da incidência tributária apenas pretendia se referir que deve ser considerado no alcance do cômputo do preço parâmetro os tributos efetivamente cobrados sobre as vendas. Incorre em grave equívoco a DRJ ao invocar o art.111, do CTN, como norma a conduzir a interpretação literal do prescrito na legislação de preços de transferência que não possui qualquer caráter de exclusão do crédito tributário, ao contrário tratase de norma antielisiva com vistas a alcançar preço parâmetro mais próximo da realidade de mercado. A realidade de mercado indicanos que as sociedades empresárias que operam no âmbito da ZFM são beneficiárias de um basket de incentivos fiscais federais (Suframa) e estaduais (ICMS) que tem aplicação, sobretudo, em suas operações de comércio exterior. Nessa perspectiva, não é cabível se reduzir do preço de revenda valor de ICMS alíquota de 12%, quando ele não é efetivamente devido e pago sob tal alíquota. Isso contraria a lógica contida na lei. A própria IN 243/02, ao regular o previsto no art.18, II, “b” da Lei 9.430/96, indica expressamente que subtraise da média aritmética dos produtos os tributos sobre as vendas efetivamente cobrados: “§ 7º. Para efeito deste artigo, serão considerados como: (...) II – impostos, contribuições e outros encargos cobrados pelo Poder Público, incidentes sobre vendas, aqueles integrantes do preço, tais como ICMS, ISS...(grifo nosso) Senão outro é o entendimento deste E. CARF, vejamos: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ Exercício: 2003 IRPJ. CSLL. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA. PREÇO PARÂMETRO PRL. SISTEMÁTICA DE APURAÇÃO DO CUSTO DE AQUISIÇÃO DE MERCADORIAS A EMPRESAS COLIGADAS. LEI Nº. 9.430/96. INSTRUÇÃO NORMATIVA SRF Nº. 243/2002. INCOMPATIBILIDADE. INEXISTÊNCIA 1 Fl. 1071DF CARF MF 26 A Lei nº. 9.430/96 estabelece que a margem de lucro será de “sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção”, enquanto que a IN 243/2002 estabelece que a margem de lucro será de 60% da parcela do preço líquido de vend a do produto referente à participação dos bens, serviços ou direitos impo rtados. 2 A Instrução Normativa SRF nº. 243/2002 não inova o ordenamento jurídico, estabelecendo critérios de fixação do custo de aquisição de bens importados a empresas coligadas em conformidade com as disposições inscritas na Lei nº. 9.430/96. 3. A consideração do montante do Imposto sobre Circulação de Mercad orias e Serviços (ICMS) a ser deduzido da operação deve ser feita com o bservância do benefício fiscal concedido pelo Estado do Amazonas . (Grifo nosso) Recurso voluntário parcialmente provido. Recurso de ofício desprovido. (Acórdão n.º 1103000.672, Relator Cons. Hugo Correia Sotero) Assim entendo que o preçoparâmetro deve ser recalculado considerando o benefício fiscal do ICMS concedido pelo Estado do Amazonas. 3.2 Impossibilidade da desconsideração dos métodos PIC e CPL A fiscalização pontuou no relatório fiscal quanto ao PIC que: Esclarecemos que na aplicação do preço parâmetro, com base no método PIC, o contribuinte realizou compras de matérias primas de empresas ligadas no exterior, com as respectivas faturas e as invoices. Essas mesmas empresas ligadas do exterior adquiriram essas matérias primas de outras empresas do exterior não ligadas, com as respectivas faturas e invoice dessas aquisições, cujo valor serviu de parâmetro na adoção do PIC, calculado pelo contribuinte. Como a situação descrita acima não tem respaldo legal, segundo artigo 8º, parágrafo único, inciso I, II e III da Instrução Normativa n° 243, de 11/11/2002, tal método foi desprezado e essa fiscalização elaborou novo cálculo para apuração do preço parâmetro através do método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL produção) com margem de Lucro de 60% (sessenta por cento), tendo por base os dados extraídos das planilhas entregues pelo contribuinte No que tange ao CPL o relatório fiscal apontou: Quanto à adoção do preço parâmetro, com base no método CPL, a legislação exige documentos hábeis para a comprovação dos custos de produção dos bens e serviços importados, fornecidos pela empresa vinculada, domiciliada no exterior, quais sejam: faturas comerciais de aquisição das matérias primas e outros bens e serviços utilizados na produção, planilha de rateio do custo de mão de obra e copias de folhas de pagamentos, comprovantes de custo com locação, manutenção e reparo dos equipamentos aplicados na produção, Fl. 1072DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.060 27 demonstrativos dos percentuais e dos encargos de depreciação, amortização Ou exaustão utilizados e das quebras e perdas alocadas, conforme disposto no parágrafo 4º do art. 13 da IN 243, de 11/11/2002. Devendo ainda apresentar cópia da declaração do imposto de renda entregue ao fisco do país, equivalente à DIPJ do Brasil. Elucidamos que qualquer documento de procedência estrangeira, para produzir efeitos legais no País e para valer contra terceiros e em repartição da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios ou em qualquer instância, juízo ou tribunal, deve ser verificado em vernáculo. Além disso, deve ser legalizado em seu país de origem, ou seja, consularizado e registrado em Cartório de Registro de Títulos e Documentos, conforme disposto no artigo 224 da Lei n° 10.406/2002, artigo 126 e 148 da Lei n° 5869/73 e Lei 6.015/73. Assim, como o contribuinte deixou de atender à exigência acima, o método CPL adotado pela empresa foi desconsiderado e esta fiscalização elaborou novo cálculo para apuração do preço parâmetro através do método Preço de Revenda menos Lucro (PRL produção) com margem de 60% (sessenta por cento), tendo por base os dados extraídos das planilhas entregues pelo contribuinte. Em relação a desconsideração dos métodos a DRJ se limita a afirmar que com relação à desconsideração pela fiscalização dos métodos PIC e CPL, verificase que a contribuinte se limita a questionar o procedimento adotado pelo fisco, mas não anexa ao processo qualquer documento válido que possa corroborar os cálculos feitos na apuração do preço parâmetro por aqueles métodos. Em relação ao PIC, percebam, senhores Conselheiros que os invoices utilizados como parâmetro para fins de cálculo foram referentes à aquisição das mesmas matérias primas junto a terceiros por pessoa jurídica vinculada no exterior. Ou seja, entendeu que a comparação com operações de pessoa jurídica vinculada com terceiros (não vinculados) infringiria o artigo 8º da IN 243. Ou seja, o mero fato de uma das empresas ser vinculada a Recorrente seria o suficiente para que suas transações realizadas com empresas não vinculadas fossem desconsideradas como parâmetro de operação de mercado? Eu entendo que não! Estaríamos restringindo aqui onde o legislador não restringiu. Vejam, a própria redação do art. 8, § único, III: Art. 8º A determinação do custo de bens, serviços e direitos, adquiridos no exterior, dedutível na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, poderá ser efetuada pelo método dos Preços Independentes Comparados (PIC), definido como a média aritmética ponderada dos preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, apurados no mercado brasileiro ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes. Parágrafo único. Por esse método, os preços dos bens, serviços ou direitos, adquiridos no exterior, de uma empresa vinculada, serão comparados com os preços de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares: I vendidos pela mesma empresa exportadora, a pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou nãoresidentes; II adquiridos pela mesma importadora, de pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou não residentes; III em operações de compra e venda praticadas entre outras pessoas jurídicas não vinculadas, residentes ou nãoresidentes. Fl. 1073DF CARF MF 28 Entre outras pessoas jurídicas não vinculadas, não vinculadas entre si! Independentemente de possuírem relação com a Recorrente. Assim entendo ter sido desconsiderada indevidamente a utilização do método PIC pela fiscalização. De sua parte, no que tange a CPL, o método foi desconsiderado pois a fiscalização entendeu que não foram juntados documentos em vernáculo. O que violaria a regra geral prevista, entre outras leis, ao que prevê o art. 192 do novo CPC: Art. 192. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso da língua portuguesa. Parágrafo único. O documento redigido em língua estrangeira somente poderá ser juntado aos autos quando acompanhado de versão para a língua portuguesa tramitada por via diplomática ou pela autoridade central, ou firmada por tradutor juramentado. Contra isso, aduziu a Recorrente a assinatura e promulgação do Decreto n° 8.660, em 29 de janeiro de 2016, o Brasil aderiu à Convenção de Haia, a qual regulamenta a Eliminação da Exigência de Legalização de Documentos Públicos Estrangeiros, também conhecida como “Convenção da Apostila”. Ocorre que tal Convenção tem seu escopo limitado à: Artigo 1º A presente Convenção aplicase a documentos públicos feitos no território de um dos Estados Contratantes e que devam produzir efeitos no território de outro Estado Contratante. No âmbito da presente Convenção, são considerados documentos públicos: a) Os documentos provenientes de uma autoridade ou de um agente público vinculados a qualquer jurisdição do Estado, inclusive os documentos provenientes do Ministério Público, de escrivão judiciário ou de oficial de justiça; b) Os documentos administrativos; c) Os atos notariais; d) As declarações oficiais apostas em documentos de natureza privada, tais como certidões que comprovem o registro de um documento ou a sua existência em determinada data, e reconhecimentos de assinatura. Entretanto, a presente Convenção não se aplica: a) Aos documentos emitidos por agentes diplomáticos ou consulares; b) Aos documentos administrativos diretamente relacionados a operações comerciais ou aduaneiras. As planilhas e faturas comerciais apresentados pela Recorrente não estão, portanto, cobertas pela referida Convenção. Assim, se houve erro na desconsideração da PIC, o mesmo não pode ser dito em relação ao método CPL, haja vista a não apresentação dos documentos comprobatórios de seu direito. Fl. 1074DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.061 29 3.3 Ilegalidade da IN 243/02 As normas de preço de transferência foram introduzidas no direito nacional pela Lei 9.430/96, segundo Paulo Ayres Barreto e Caio Augusto Takano como norma antielisiva específica, para evitar a manipulação artificial de resultados por intermédio de operações internacionais celebradas por partes relacionadas, permitindo que a tributação de empresas transnacionais se dê em conformidade com a sua capacidade contributiva. . A norma, pois, deve ser interpretada e aplicada buscando garantir a tributação adequada de uma operação entre partes vinculadas que poderia, em hipótese, ser realizada fora dos padrões do mercado. Seu objetivo não é aumentar a arrecadação artificialmente, mas garantir a arrecadação nos liames da lei. A polêmica aqui enfrentada é a dissonância que existe a Lei 9.430/96 e a IN 243/02, relativa à bens aplicados à produção, na medida em que esta utiliza critérios de proporcionalidade e isolamento do preço líquido de venda. A mera comparação entre os dispositivos já revela que a IN acabou ultrapassando seus limites normativos, vejamos: Art. 18, II, “d”, 1 da Lei 9.430/96 Art. 12, §11, IN 243/02 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: d) da margem de lucro de: (Redação dada pela Lei nº 9.959, de 2000) 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado Fl. 1075DF CARF MF 30 conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. O efeito da alteração teve alto impacto na fórmula, como apontado em declaração de voto nos autos do Processo Administrativo n. 16561.720068/201154, Acórdão n.º 9101.002.323, que peço vênia para transcrição adotandoa como razões de decidir: O inciso II do art. 18 da Lei n. 9.430/96, conforme a sua redação mantida entre 2000 e 2012 por força da Lei n. 9.959/2000, prescrevia de forma imediata a adoção da seguinte fórmula para o cálculo do preço parâmetro, para fins de possíveis ajustes no cálculo do IRPJ e da CSL: PP = PR – L L = 60% (PR − VA) Em que: PP à preço parâmetro, preço arm’s lenght. PR à preço de revenda líquido. VA à valor agregado na produção nacional L à lucro Considerando o conhecido valor líquido da operação de revenda (PR) e a margem de lucro (L) apurada conforme a fórmula legal, determinase o preço parâmetro (PP), que será o valor limite para que o correspondente bem, serviço ou direito importado de parte vinculada seja dedutível da base de cálculo do IRPJ ou da CSL. Notese que cada um desses fatores possui uma função determinante na fórmula prescrita no art. 18. II, da Lei n. 9.430/96, o que evidencia a decisão consciente do legislador ordinário ao enunciar a Lei n. 9.959/2000, sendo relevante destacar que: quanto maior o valor agregado no Brasil (“VA”), menor será “L” (lucro). Como o lucro deverá ser subtraído do preço de revenda (“PR”) para a composição preço parâmetro (“PP”), quanto menor “L”, maior será “PP”. E , quanto maior “L” e, portanto, o lucro tributável, menor será o “PP”. Para a composição de “L”, o percentual de 60%, adotado pelo legislador ordinário para o cálculo do PLR, deveria ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual tenha sido agregado o insumo importado e sujeito ao controle dos preços de transferência. Nesse seguir, quanto maior for o preço parâmetro (“PP”), mais liberdade terá o contribuinte para negociar com a empresa fornecedora (relacionada) sem o controle da administração tributária dos preços de transferência. Quanto maior for “PP”, menor serão as chances do contribuinte necessitar realizar ajustes nas bases de cálculo do IRPJ e da CSL para adicionar parcelas dos custos de bens, serviços e direitos que, por ultrapassar o preço parâmetro, passam a ser indedutíveis. Essa fórmula foi acatada pela administração fiscal tanto na IN 113/2000 quanto na IN 32/2001, (vide tópico “1”, acima) e encontrou justificativas por diferentes perspectivas, a saber: Equilíbrio: A adoção de uma margem de lucro de elevada, de 60%, seria balanceada pela subtração do valor agregado no Brasil dessa base; Indução: positiva. O legislador ordinário teria aliado o controle de preços de transferência com medidas indutoras de comportamento e de incentivo à produção nacional, de forma que: Fl. 1076DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.062 31 quanto maior for a agregação de valor no Brasil, maior será o preçoparâmetro e, consequentemente, menor será o ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. A referida fórmula estabelecida pela Lei n. 9.959/2000 foi submetida a críticas, em especial por não considerar a proporção do insumo importado de parte vinculada aplicada ao bem produzido no Brasil. Como se evidenciou no tópico “1”, acima, o legislador ordinário apenas realizou uma reforma legal para incorporar essa “melhoria” em 2012, com a edição da Lei n. 12.715. Por sua vez, em 2002, a IN 243 indicou a necessidade da adoção de uma outra fórmula para o cálculo do PRL60, diferente daquela que até então se compreendia a correta decorrência da Lei n. 9.959/2000. Tornouse notório o “Estudo comparativo dos normativos da legislação brasileira para o cálculo do preço parâmetro de bem importado usado em produção”, elaborado por VLADIMIR BELITSKY, “Ph.D em Matemática Aplicada pelo Instituto Tecnológico de Israel, Professor Associado do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, USP”. O referido estudo abstrai a seguinte fórmula da IN 243/2002: Como se pode observar, a fórmula indicada pela IN 243/2002 alterou fatores na fórmula abstraída dos enunciados prescritivos do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96 e pela IN 32/2001. Supõese que a intenção da SRF seria possibilitar a verificação da proporcionalidade do insumo importado agregado à produção nacional, pois isso não teria sido contemplado pelo legislador. A partir da publicação da IN 243/2002, sem que nenhuma alteração legal tenha sido realizada, a PFN também passou a sustentar que o art. 18, II, da Lei n. 9.430/96, possibilitaria a construção de uma segunda fórmula, diversa daquela que até então seria de aceitação geral: PP = PR − L − VA L = 60% PR A fórmula da IN 243/2002, conforme alegado, expressaria com maior clareza e, ainda, imprimiria melhorias a essa segunda fórmula que supostamente seria possível abstrair do texto do art. 18, II, da Lei n. 9.430/96. Conforme a fórmula que se abstrai imediatamente da Lei n. 9.430/96, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.959/2000, na linha do que indicava a IN n. 32/2001, o percentual de 60% deve ser aplicado sobre a totalidade do preço de venda do bem ao qual o insumo importado tenha sido agregado. Já a “segunda fórmula”, que supostamente fundamentaria a IN 243/2002, estabeleceria que a margem de lucro de 60% deveria incidir apenas sobre a parte do preço líquido de venda do produto referente à participação do bem, serviço ou direito importados: o percentual legal em questão seria aplicável tão somente sobre a parcela do preço líquido de venda proporcional ao custo do bem importado. Conforme o citado estudo elaborado pelo Prof. Dr. VLADIMIR BELITSKY, in verbis: “Constatação 4. O cálculo de PP segundo a fórmula da IN 243 pode ser visto como um procedimento de duas etapas consecutivas, sendo que: (i) a primeira etapa baseiase, plena e Fl. 1077DF CARF MF 32 exclusivamente, no princípio da proporcionalidade em participação ao lucro; e (ii) a segunda baseiase, plena e exclusivamente, no postulado de que a margem de lucro em cima de bem importado é de 60%”. O quadro a seguir procura sistematizar algumas características das normas, a fim de evidenciar a diferença entre elas: Um exemplo poderá tornar mais clara a distinção entre essas duas fórmulas. Para tanto, considerese que um determinado produto, produzido no Brasil a partir de insumos nacionais e outros importados de partes vinculadas, seja vendido por R$ 100,00 (ou seja, PR =100,00) e que o valor agregado no Brasil seja de R$ 50,00 (ou seja, VA = 50,00). Aplicandose as duas fórmulas, chegaremos a resultados muito distintos: A função de tais fórmulas é determinar se deverá ser realizado ajuste na base de cálculo do IRPJ e da CSL. Se o custo do bem, serviço ou direito importado de parte vinculada for superior aos valores em questão, a parcela excedente deverá ser adicionada à base de cálculo do IRPJ e da CSL, pois não seria considerada dedutível. O exemplo demonstra que as referidas fórmulas conduzem a preços parâmetro muito distintos, de forma as operações consideradas arm’s length, conforme a primeira fórmula, seriam aquelas praticadas até o limite de “R$ 70,00”, enquanto que, para a segunda fórmula, possivelmente todas as importações estariam sujeitas a ajustes, pois o valor resultante como “PP” seria negativo, qual seja, “R$ 10,00”, como se o importador pudesse, em condições de mercado, deixar de pagar pelos bens, serviços ou direitos e, ainda, receber troco. A doutrina há tempos denuncia essa divergência entre a IN 243/2002 e a Lei n. 9.430/96, com a redação que lhe foi dada pela Lei n. 9.959/00, como se observa da análise de LUÍS EDUARDO SCHOUERI, em obra de referência sobre o tema dos preços de transferência: “7.8.2.2. A diferença pode ser explicada pelos seguintes motivos: Cálculo da ‘margem de lucro’: a divergência dos resultados da Lei n. 9.959/00 e da IN n. 243/02 decorre, em parte, porque a Lei, ao prescrever a fórmula de cálculo da ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% incida sobre o valor integral do preço líquido de venda do produto diminuído do valor agregado no país. Já a Instrução Normativa, para o cálculo da mesma ‘margem de lucro’, determina que o percentual de 60% seja calculado apenas sobre a parcela do preço líquido de venda do produto referente à participação dos bens, serviços ou direitos importados, atingindo um resultado invariavelmente menor. Atua assim a IN n. 243/02 de forma inovadora e em flagrante excesso à Lei. Fl. 1078DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.063 33 Cálculo do ‘preçoparâmetro’: a expressão ‘preçoparâmetro’ é utilizada na legislação dos preços de transferência para denominar o preço obtido através do cálculo de um dos métodos prescritos e com o qual se deverá comparar o preço efetivamente praticado entre as partes relacionadas, na transação denominada ‘controlada’. O ‘preçoparâmetro’ é obtido de forma diversa na Lei n. 9.959/00 e na IN n. 243/02. Enquanto na Lei o limite do preço é estabelecido tomandose por base a totalidade do preço líquido de venda, a Instrução Normativa pretende que o limite seja estabelecido a partir, apenas, do percentual da parcela dos restringir o resultado almejado pelo legislador.” O efeito prático recebeu inúmeras críticas da doutrina especializada, por todos, as lições de Schoueri: (...) Chega a pasmar o resultado da aplicação da fórmula prevista na IN/SRF n.243/2002 para o método PRL com margem de 60%. A ser correta a interpretação do Fisco, exigirseia, na realidade, que o contribuinte tenha uma desproporcional margem de lucro de 150%, em qualquer hipótese.O raciocínio matemático é imediato: para um produto vendido a 100, com lucro de 60, o custo é de 40. Ora, nesse caso, o lucro (60) é de 150% sobre o custo (40). Claro que a tal absurdo não chegaria o legislador.Ao contrário,como mencionado, a Lei 9.430/1996 jamais pretendeu desestimular a industrialização local. Como visto, quanto maior o valor agregado ao bem produzido no País, tanto menos será a margem de lucro exigida. O próprio Poder Judiciário já tem afastado a aplicação da IN 243 ante sua afronta à legalidade tributária: TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO EM MANDADO DE SEGURANÇA. TRIBUTAÇÃO EM TRANSAÇÕES INTERNACIONAIS ENTRE PESSOAS JURÍDICAS VINCULADAS. METODOLOGIA DO PREÇO DE REVENDA MENOS LUCRO PRL. IN Nº 243/2002. ILEGALIDADE. RECURSO PROVIDO. Tratandose de transações internacionais entre pessoas jurídicas vinculadas, a tributação dáse através do conceito "preço de transferência", sob a metodologia, no caso da impetrante, do "Preço de Revenda menos Lucro" (art. 18 da Lei nº 9.430/1996). À guisa de complementar a disposição legal regente do assunto, sobrevieram instruções normativas da Secretaria da Receita Federal, incluindo a de nº 243/2002, que extrapolou o poder regulamentar que lhe é imanente, daí se avistando ofensa ao princípio da reserva da lei formal. Necessidade de se garantir à impetrante a utilização dos critérios de apuração do preço de transferência pelo método PRL, conforme art. 18 da Lei nº 9.430/1996, afastadas as alterações trazidas pela IN nº 243/2002. Fl. 1079DF CARF MF 34 Recurso provido. (TRF 3ª Região, TERCEIRA TURMA, AMS APELAÇÃO CÍVEL 316016 003404852.2007.4.03.6100, Rel. JUIZ CONVOCADO ROBERTO JEUKEN, julgado em 19/08/2010, eDJF3 Judicial 1 DATA:13/09/2010 PÁGINA: 257) Por último oportuna se faz transcrição da ementa de julgado proferido também pelo TRF 3 no mesmo sentido, vejamos: PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. ILEGITIMIDADE DA AUTORIDADE COATORA INDEVIDAMENTE SUBSTITUÍDA, APÓS AS INFORMAÇÕES DA AUTORIDADE CORRETA. POSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO, NO CASO DOS AUTOS. MAJORAÇÃO DO IR E DA CSL POR FORÇA DA MODIFICAÇÃO DA FORMA DE CÁLCULO DO PREÇO DE TRANSFERÊNCIA UTILIZADO EM OPERAÇÕES COM PESSOAS VINCULADAS NO EXTERIOR, CONSOANTE REGULAMENTAÇÃO DA INSTRUÇÃO NORMATIVA DA SRF 243/02. AFRONTA À PREVISÃO LEGAL RECONHECIDA. (TRF 3ª Região,APELAÇÃO CÍVEL Nº 002820225.2005.4.03.6100/SP Nessa perspectiva, muito embora os respeitáveis entendimentos contrários, voto pela ilegalidade da IN 243/02 dado que ultrapassados os limites normativos. 3.4 Aplicação da PRL 20% inclusive para os casos de produção local Subsidiariamente, alega que o percentual a ser aplicado seria o de 20%. Isto porque A técnica da proporcionalização tem como premissa uma ficção de a venda de um produto acabado é, na verdade, uma revenda de todos os componentes individualizados do produto acabado. Esta ficção se pauta em um percentual de participação, o qual é calculado tomandose a relação percentual entre o custo do bem importado e o custo total do bem. E, nessa toada, se a técnica da proporcionalização transforma a venda de um produto acabado em várias revendas, deveria se utilizar a margem de 20% aplicável às revendas. E esta conclusão pode ser comprovada com base nas alterações promovidas pela Lei 12.715 no artigo 18 da Lei 9.430 introduziram o novo PRL, o qual adota a técnica da proporcionalização, mas utiliza uma margem única de 20% para revenda e produção local. Entendo não haver base legal para a alteração do método com base nessa ficção. 3.5 Impossibilidade de as regras de preço de transferência serem aplicadas ante a existência de tratado internacional para evitar a dupla tributação com a China O tratado para evitar a dupla tributação assinado entre o Brasil e a China não possui o condão de afastar a aplicabilidade das regras brasileiras de preços de transferência, mas tão somente a possibilidade de limitar as hipóteses de sua aplicabilidade. Entendo que à Fl. 1080DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.064 35 luz do tratado, as regras de PT brasileira não são aplicáveis a pessoas vinculadas tal como disposto no art. 23 da Lei 9.430/96: Art. 23. Para efeito dos arts. 18 a 22, será considerada vinculada à pessoa jurídica domiciliada no Brasil: I a matriz desta, quando domiciliada no exterior; II a sua filial ou sucursal, domiciliada no exterior; III a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, cuja participação societária no seu capital social a caracterize como sua controladora ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; IV a pessoa jurídica domiciliada no exterior que seja caracterizada como sua controlada ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; V a pessoa jurídica domiciliada no exterior, quando esta e a empresa domiciliada no Brasil estiverem sob controle societário ou administrativo comum ou quando pelo menos dez por cento do capital social de cada uma pertencer a uma mesma pessoa física ou jurídica; VI a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que, em conjunto com a pessoa jurídica domiciliada no Brasil, tiver participação societária no capital social de uma terceira pessoa jurídica, cuja soma as caracterizem como controladoras ou coligadas desta, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; VII a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que seja sua associada, na forma de consórcio ou condomínio, conforme definido na legislação brasileira, em qualquer empreendimento; VIII a pessoa física residente no exterior que for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro de qualquer de seus diretores ou de seu sócio ou acionista controlador em participação direta ou indireta; IX a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que goze de exclusividade, como seu agente, distribuidor ou concessionário, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos; X a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, em relação à qual a pessoa jurídica domiciliada no Brasil goze de exclusividade, como agente, distribuidora ou concessionária, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos. Mas apenas as hipóteses descritas no art. 9 do Tratado, qual sejam: Empresas Associadas 1. Quando: a) uma empresa de um Estado Contratante participar direta ou indiretamente da direção, controle ou capital de empresa do outro Estado Contratante, ou b) as mesmas pessoas participarem direta ou indiretamente da direção, controle ou capital de empresa do outro Estado Contratante, e, em ambos os casos, as duas empresas estiverem ligadas, em suas relações comerciais ou financeiras, por condições aceitas ou impostas que difiram das que seriam estabelecidas entre empresas independentes, os lucros que, sem essas Fl. 1081DF CARF MF 36 condições, teriam sido obtidos por uma dessas empresas mas não o foram por causa destas condições, podem ser incluídos no lucro dessa empresa e tributados como tal. Entendo que o desvio das margens predeterminadas, conforme a Lei, que definem o padrão arm´s length, já é razão suficiente para aplicação das regras de TP, cumprindo com o requisito do tratado (que difiram das que seriam estabelecidas entre empresas independentes). Caso prevaleça o entendimento do fisco, e não seja dada oportunidade para a Recorrente apresentar novos cálculos, dada a relação das empresas no caso concreto, o Tratado não é capaz de afastar a aplicabilidade destas regras. 3.6 Da inclusão do frete, seguro e tributos aduaneiros ("CIF+II"): Caso prevaleça o método utilizado pela fiscalização, ainda assim seus cálculos deverão ser retificados. Isto porque foi utilizado como base o método CIF + II, ou seja, incluindo na base o valor do frete, seguro e tributos sobre a importação, em que pese sua contratação com terceiros. Ocorre que tal método não se coaduna com a natureza antielisiva das regras de preço de transferência, pois a contratação com terceiros impede eventual manipulação de preços objetivando a transferência de base tributável, estando fora, portanto, do objetivo da norma! Sua inclusão não teria outro objetivo que apenas o aumento do preçoparâmetro e diminuição da parcela dedutível. No escólio das lições de Gerd Rothmann, é importante notar que: o “preçoparâmetro” é um preço hipotético, apurado com base na forma estabelecida, taxativamente, pela Lei n. 9.430/96. Não se confunde, pois, como o preço efetivamente pago pelo importador (“preço praticado”). Assim, as deduções do preço médio de venda, para se chegar ao preço líquido de venda, são, exclusivamente, as previstas na lei (...) Como não entram no cálculo do hipotético “preçoparâmetro”, mas representam custos efetivos, os valores relativos a frete, seguro e ao imposto de importação, desde que seu ônus tenha sido do importador/revendedor (ou seja, na modalidade “FOB”), podem ser integralmente deduzidos para os efeitos de imposto de renda. Na modalidade CIF, o valor de frete e seguro já está embutido no “preço parâmetro”, de modo que não pode ser considerado, novamente, como despesa dedutível. Neste contexto, cabe apenas uma observação: se, na modalidade FOB, o transporte e o seguro são contratados com empresa coligada da matriz fornecedora da mercadoria, os respectivos valores pagos estão sujeitos à observância da legislação de preços de transferência. (Gerd Willi Rothmann Preços de transferência método do preço de revenda menos lucro: base CIF (+ II) ou FOB. A margem de lucro Fl. 1082DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.065 37 (20% ou 60%) em processos de embalagem e beneficiamento. RDDT 165, junho de 2009, p.5455.) Na mesma linha são as lições de Ramon Tomazela e Bruno Fajersztajn : Ademais, a esta altura da exposição, ressaltamos novamente que as regras de preços de transferência têm a finalidade de coibir a manipulação de preços em operações entre pessoas jurídicas brasileiras e suas partes consideradas relacionadas no exterior. Ora, no mais das vezes, os serviços de frete e seguro são prestados por terceiros não vinculados ao importador brasileiro e, logo, não são passíveis de manipulação. Assim, na medida em que somente se sujeitam a ajustes de preços de transferência os custos que podem ser manipulados, os valores de frete e seguros pagos a terceiros não devem estar sujeitos às regras de preço de transferência e, portanto, devem ser integralmente dedutíveis para fins de apuração do IRPJ e CSLL devidos pelo importador. Realmente, esses valores escapam ao controle exatamente porque são encargos pagos a terceiros, e não ao exportador cujo preço está sujeito à comparação, e somente interessa limitar a dedutibilidade de valores que, integrados aos preços, representem transferência indireta de lucros à pessoa vinculada (ou a país com tributação favorecida). Nada disso está em cogitação quando o importador no Brasil incorre em despesas com frete e seguro com pessoas não vinculadas. Controlar tais operações está fora do escopo das regras de preços de transferência. Idêntico raciocínio se aplica aos tributos aduaneiros, que são devidos à própria União Federal. Não faz sentido controlar tributos cuja incidência e quantificação decorrem de lei e são devidos ao Estado. (Preços de transferência. Frete, seguro e tributos devidos na importação e o método PRL. Revista de Direito Tributário Atual RDTA, São Paulo: Dialética, n. 29, p. 84 93, 2013.) Nesse sentido também caminhou a decisão proferida pela Câmara Superior de Recursos Fiscal (CSRF) nos autos do processo administrativo n. 16327.000966/200274 (acórdão n. 910101166), relatoria da Conselheira Karem Jureidini Dias: NORMAS GERAIS DE DIREITO TRIBUTÁRIO. INSTRUÇÃO NORMATIVA. VINCULAÇÃO. INOBSERVÂNCIA. NULIDADE. A autoridade administrativa, ao efetuar o lançamento, está vinculada à Instrução Normativa, bem como ao direito por ela conferido ao contribuinte. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA PRL INCLUSÃO DE CUSTOS COM FRETE, SEGURO E IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO NA APURAÇÃO DO CUSTO — A IN SRF n° 38/97, em seu artigo 4°, § 4°, estabelece que a inclusão dos valores de frete, seguro e imposto de importação na Fl. 1083DF CARF MF 38 composição do custo é uma faculdade do contribuinte importador. Pela vinculação da autoridade administrativa ao referido ato normativo, deve tal faculdade ser respeitada, sob pena de nulidade do lançamento. Peço, inclusive, vênia aos colegas para incorporar em meu voto as razões de decidir da então Conselheira Karem Dias a seguir transcritas: Ora, preço parâmetro é aquele apurado segundo um dos métodos estipulados por presunção legal. Em se tratando de presunção legal, ao menos a princípio (a depender de prova contundente em contrário), e por princípio, vale o quanto estipulado para cada um dos métodos. Já o preço praticado é aquele submetido à revisão por um dos métodos de apuração do preço de transferência. Logicamente, quanto maior o preço parâmetro menor o ajuste, porque menor a diferença entre o valor do preçoparâmetro e do preço praticado no caso da importação. Não há, portanto, que se falar em inclusão de frete e seguro no preço praticado a depender da inclusão no preço parâmetro, já que o preço parâmetro é presunção legal. Nessa toada, a despeito do moralmente irreparável entendimento que caminha no sentido de aproximar o método de apuração do preço parâmetro da realidade, fato é que a conclusão diverge do que determina o ordenamento jurídico Por último vale notar que tal entendimento vem prosperando na CSRF conforme se nota da decisão proferida nos autos do Processo nº 16327.001448/200600, Acórdão nº 9101002.940: PREÇOS DE TRANSFERÊNCIA. MÉTODO PRL. FRETE SEGURO E TRIBUTOS INCIDENTES NA IMPORTAÇÃO. Legitimidade da não inclusão de frete, seguro e tributos incidentes sobre a importação, pagos a pessoas não vinculadas, para a composição do preço praticado a ser comparado com o preço parâmetro conforme o método PRL. Embora a decisão tenha sido proferida quando estava em vigência a IN 38/97, a verdade é que a mudança legislativa posterior não foi capaz de alterar a racionalidade por detrás das regras de preço de transferência. Vejamos a clara exposição do Conselheirorelator: Ocorre que o lançamento tributário em questão desconsidera o binômio essencial prescrito pela Lei n. 9.430/96: i) operações realizadas com pessoas vinculadas e operações internacionais envolvidas. Para o frete e o seguro, foram contratadas empresas sem vínculos com o contribuinte, o que inviabiliza, por si, o preenchimento do binômio essencial de incidência da Lei n. 9.430/96. Os tributos sobre a importação são devidos à União e aos Estados, que obviamente não são estrangeiros e nem são vinculados ao contribuinte. Esse segundo fundamento para o cancelamento do auto de infração, portanto, decorre do princípio da legalidade em sua acepção mais explícita, que impede que se estenda a sanção normativa da Lei n. 9.430/96 ao frete, seguro e tributos incorridos pelo contribuinte, pois nenhuma dessas situações preenche o binômio prescrito como essencial Fl. 1084DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.066 39 pelo legislador, qual seja, (i) operação com partes vinculadas (ii) residentes em outros países. A própria exposição de motivos da Medida Provisória 563/12, posteriormente convertida na Lei 12.715/12, afirma que na aplicação das normas não devem ser considerados montantes pagos a entidades não vinculadas ou a pessoas não residentes em países de tributação favorecida ou ainda a agentes que não gozem de regimes fiscais privilegiados a título de fretes, seguros, gastos com desembaraço e impostos incidentes sobre as operações de importação para fins de cálculo do preço parâmetro pelo método PRL, vez que tais montantes não são suscetíveis de eventuais manipulações empreendidas com o intuito de esvaziar a base tributária brasileira. Bem notam o objetivo meramente esclarecedor do §6, do art. 18 da Lei 9.430/96, Tomazela e Fajersztajn quando afirmam que: Em verdade, a razão de ser do parágrafo 6º do art. 18 da Lei n. 9.430/96 reside no fato de que a importação pode ser realizada sob o regime CIF, no qual o exportador (vendedor) fica responsável pelas despesas com transporte e seguro. Por isso, a redação do dispositivo apenas esclarece a possibilidade de dedução dos custos relativos a frete e seguro, “cujo ônus tenha sido do importador”, ou seja, nos casos em que a importação tenha sido realizada na modalidade FOB. Tanto é assim que para os tributos incidentes na importação, que consubstanciam sempre ônus do importador, não há qualquer ressalva relativa ao ônus do tributo (Preços de transferência. Frete, seguro e tributos devidos na importação e o método PRL. Revista de Direito Tributário Atual RDTA, São Paulo: Dialética, n. 29, p. 8493, 2013.) Tal posicionamento é importante, porque independente da norma em vigor, não há alteração no fato de que tais valores não são suscetíveis de eventuais manipulações empreendidas com o intuito de esvaziar a base tributária brasileira. De todo o exposto, entendo que merece prosperar o recurso da contribuinte neste ponto devendo tais valores serem excluídos na apuração do preçoparâmetro. 3.7 A ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício A CSRF em linha com o que tem decidido o Superior Tribunal de Justiça tem decidido pela incidência de juros sobre a multa de ofício (Processo administrativo 16327.720442/201194, Recurso nº Especial do Contribuinte, Acórdão nº 9101003.004 1ª Turma): JUROS DE MORA SOBRE MULTA DE OFÍCIO. A obrigação tributária principal compreende tributo e multa de oficio proporcional. Sobre o crédito tributário constituído, incluindo a multa de oficio, incidem juros de mora, devidos à taxa Selic. No mesmo julgado recente, a 1ª Turma da Câmara Superior de Recursos Fiscais que decidiu pela incidência de juros de mora sobre a multa de ofício proporcional, Fl. 1085DF CARF MF 40 conforme se verifica a partir da ementa do Acórdão nº 9101002.514, de 13 de dezembro de 2016, do qual foi relator o Conselheiro Rafael Vidal de Araújo: JUROS SOBRE A MULTA DE OFÍCIO. INCIDÊNCIA. Por ser parte integrante do crédito tributário, a multa de ofício sofre a incidência dos juros de mora, conforme estabelecido no art. 161 do CTN. Precedentes do STJ. Motivo pelo qual deve ser mantida a manutenção dos juros sobre a multa de ofício. 4. Conclusão: Diante do todo exposto voto por: (i) acolher a preliminar de nulidade; (ii) pela ilegalidade da aplicação da IN SRF 243/02 a fatos anteriores a promulgação da Lei 12.715/2012; (iii) afastar a desconsideração do método PIC, por ausência de base legal; (iv) pela exclusão do ICMS no cômputo do preçoparâmetro considerando o benefício do ICMS para apuração da receita líquida; (v) pela exclusão de frete e seguros do preço praticado. É como voto. (assinado digitalmente) Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira Relator Fl. 1086DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.067 41 Voto Vencedor Conselheiro Marco Rogério Borges Redator Designado Como de costume, o voto do ilustre Conselheiro Lucas Bevilacqua Cabianca Vieira está muito bem fundamentado. Contudo, este colegiado, após ampla discussão, que remonta a muitos outros vários julgados da mesma matéria, divergiu do seu entendimento, no tocante aos pontos suscitados na peça recursal, tendo cabido a este Conselheiro a redação do voto vencedor. Considerando a decisão emanada na sessão de 19 de fevereiro de 2018, em que cujo resultado foi no sentido de por voto de qualidade, negar provimento ao recurso, sem especificar os pontos abordados pelo voto do ilustre relator, vou me manifestar neste voto vencedor em relação a todos os pontos suscitados na peça recursal, e dentro do possível, cotejando o voto vencido acima. 1. Preliminares: 1.1 Quanto a alegação da nulidade do auto de infração por conta do TVF e sua falta de motivação: Neste tocante, o eminente relator entendeu serem válidas alegações da recorrente, entendendo que o Termo de Verificação Fiscal padece simultaneamente de vício formal (art.9, PAF) e vício material ante a ausência de motivação que conduzem inevitavelmente ao cancelamento e/ou anulação do auto de infração lavrado. Contudo, acompanhando os demais conselheiros que votaram contra o posicionamento do nobre conselheiro relator, divirjo de tal posição. Analisando as alegações da recorrente, a mesma se insurge, nas suas palavras, do sucinto texto do Auto de Infração, que não identificava um parágrafo sequer dedicado ao apontamento ou descrição de eventual ilicitude praticada pela Recorrente. Contudo, compulsando todos os elementos dos autos, no que tange a autuação fiscal, o que se verifica que todos os elementos necessários foram colocados à recorrente para se manifestar se quisesse instaurar a fase litigiosa do procedimento administrativo. O elementos descritivos dos fatos que motivaram e fundamentaram a autuação fiscal estão inseridos dentro do próprio auto de infração (fls. 36 a 50), no tópico Fl. 1087DF CARF MF 42 próprio da descrição dos fatos relacionado à infração imputada. Neste tópico, e logo após, encontrase o enquadramento legal associado à infração imputada. Da leitura do auto de infração e suas peças componentes, vislumbro as remissões legais e fáticas necessárias, bem quais os artigos que a recorrente deixou de atender, motivadores da autuação fiscal. Como suscitado pela própria recorrente, o detalhamento que deu base ao lançamento fiscal, Demonstrativo de Cálculo anexo ao Termo de Constatação e Solicitação de Esclarecimento Fiscal nº 0001, no curso do procedimento fiscal, anteriormente à ciência da autuação fiscal. Este demonstrativo foi entregue para a recorrente se posicionar sobre o cálculo efetuado pela autoridade fiscal após análise dos elementos iniciais, em que aplica o critério PRL60, após uma série de premissas explicando como se chegou ao mesmo. Este Termo de Constatação e Solicitação de Esclarecimento Fiscal nº 0001, e respectivo anexo, são referenciados na descrição dos fatos para infração imputada, e foram parte integrante dos autos quando da ciência da autuação fiscal. Ou seja, quando da ciência da autuação fiscal, ocorrida em 26/06/2014, já haviam todos os elementos necessários à defesa da recorrente da autuação fiscal. O citado despacho da DRJ (fls. 724 a 726) cita as alegações da recorrente nos cinco itens da sua premissa para demandar a diligência, e foram baseadas na peça impugnatória da recorrente. Não há ali uma descrição para se reportar a estes 5 itens da premissa, na parte inicial, e sim aos itens ao final, após aos que solicita tomar providências, em que questiona a autoridade fiscal autuante. Nestes cinco itens das premissas transcreve as alegações da recorrente na sua peça impugnatória, e com base nesta. Não vislumbro nenhum posicionamento da autoridade a quo. Ela, ao analisar o processo, de forma monocrática, entendeu que mereceria melhor esclarecimentos aos pontos suscitados, o que não significa um julgamento dos fatos e premissas ali elencados, pois nem foi levado a deliberação do seu colegiado de primeiro grau administrativo. Solicitou, de forma monocrática no despacho, e até atendendo um reclame da recorrente, então impugnante, para anexar os elementos solicitados, que basearam a autuação. De certa maneira, era um posição da impugnante então, mas isto não a impossibilitou de contestar todo o mérito da autuação fiscal na sua peça impugnatória, alias, com bastante detalhes do que fora autuada e do seu entendimento a respeito. A autoridade, com este despacho de diligência supracitado não criou nenhuma peça processual nova, e seu relatório fiscal da infração (fls. 729 a 735) apenas foi criado para atender a demanda da autoridade julgadora de primeiro grau administrativo. O que se vislumbra neste relatório fiscal da infração são elementos que já compunham o processo, durante o procedimento fiscal, ao que procuro demonstrar os seus passos a seguir: termo de início da procedimento fiscal, cientificado em 13/08/2013 (fls. 05 a 07), em que solicita vários itens já sobre a matéria autuada pessoas vinculadas, métodos adotados para apuração do preço de transferência, planilhas de memória de cálculo que deram suporte ao método adotado. Intimação, digase de passagem, bem detalhada no seu pedir; Fl. 1088DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.068 43 termo de intimação fiscal nº 0001, cientificado em 02/04/2014, em que constata e remete à resposta ao termo de início de procedimento fiscal, e apresenta já elementos de constatação de requisitos não atendidos com base nos arts. 8º e 13 da IN SRF nº 243/2002, de forma bem detalhada, e solicitando informações complementares para o cálculo através do método PRL60; resposta da recorrente, datada de 24/04/2014 (fl. 35), em que entregou um CD, em resposta a intimação imediatamente acima citada; termo de constatação e solicitação de esclarecimentos fiscal nº 0001, cientificado em 21/05/2014 (fls. 31 a 34), em que menciona a resposta ao termo imediatamente acima citado, ocorrida em 24/04/2014, e uma análise desta resposta, já informando o não atendimento aos requisitos dos arts. 8º e 13 da IN SRF nº 243/2002, e intimando o mesmo a prestar esclarecimentos dos métodos aplicados, e apresenta planilhas elaboradas pela fiscalização, em que solicita a recorrente a se manifestar adotando o método PRL60; pedido de prorrogação da recorrente, datado de 10/06/2014 (fls. 12 a 30), alegando que os cálculos eram extremamente complexos, e pede mais 20 dias para atendimento. A autoridade fiscal, de próprio punho, recebeo, concedendo o prazo adicional, não o pedido, mas sim, o de 05 (cinco) dias úteis. Expirado o prazo concedido, e sem manifestação da recorrente, a autoridade fiscal lavrou o auto de infração em 24/06/2014 (fls. 36 a 50), e cientificoua em 26/06/2014 (fl. 51). Notase que a recorrente acabou não atendendo a intimação fiscal última, pediu prorrogação, expirou o prazo ficando silente, e foi autuada. Todos os elementos estão ali postos para a autuação, inclusive as memórias de cálculo entregues já antes da ciência do auto de infração à recorrente. O despacho de diligência promovido pela autoridade administrativa de primeiro grau, de forma monocrática, que não podemos chamar em conversão de julgamento em diligência já que não elaborado em análise conjunta com o colegiado, foi no pleito de solicitar maiores esclarecimentos, sem se criar um termo de verificação novo, apenas o respondendo, repetindo praticamente tudo que já estava dito anteriormente nos autos, exemplificando algo que constava nas planilhas apresentadas à recorrente durante o procedimento fiscal. A recorrente se manifestou posteriormente, praticamente repisando e repetindo tudo que constava já na sua peça impugnatória. Destarte, dado o todo acima exposto, não vislumbro a alegada nulidade do auto de infração, pois não houve, o que a recorrente apregoa, um termo de verificação complementar ou posterior, o que tornaria a autuação fiscal nula. Ademais, toda a descrição dos fatos estão relatados no auto de infração e seus elementos referenciados, constantes dos autos quando da sua ciência. Fl. 1089DF CARF MF 44 Vejo contidos no auto de infração todos os elementos requisitados pelo artigo 10 do Decreto 70.235/72. Sobre os critérios adotados pela autoridade fiscal, constam nitidamente nos autos, no auto de infração, na sua descrição dos fatos e enquadramento legal, conforme já transcrito no voto da decisão a quo, ao qual tomo liberdade e peço vênia para repetir aqui: Foi por esta fiscalização calculado o ajuste de preço de transferência individualmente, em relação a cada operação de importação, com base nas informações disponibilizadas pelo sujeito passivo e de acordo com Instrução Normativa SRF n° 243, de 11/11/2002, tendo sido apurado o valor de R$ 52.345.227,56 (cinquenta e dois milhões, trezentos e quarenta e cinco mil, duzentos e vinte e sete reais e cinquenta e seis centavos), conforme "Demonstrativo de Cálculo Método Preço de Revenda Menos Lucro com Margem de 60%, ... Constam também todos os artigos legais pertinentes ao caso (1999 (arts. 241, 242, 244, 247 e 249 do RIR/1999), e especificação dos métodos contestados e os aplicados. Ademais, o relatório fiscal em atendimento à diligência solicitada, nada inova ao que já exposto na autuação fiscal, sendo que apenas reforça pontos já explicitados anteriormente. Logo, e por todos esses fundamentos, ousase divergir do voto do preclaro relator neste ponto, NEGANDO PROVIMENTO ao recurso voluntário quanto este ponto. 1.2. Da alegação de impossibilidade de alteração de critério jurídico Neste ponto do voto, o eminente relator não deu provimento, nas suas palavras: Muito embora permaneça fiel a posição inicial assumida pelo cancelamento do lançamento ante ao vício de existência/constituição tenho para mim que não há que se falar em alteração do critério; o que será melhor enfrentado no mérito. Por essa razão, afasto a preliminar suscitada. Como já expus no tópico anterior, não vislumbro alteração do critério jurídico na resposta da autoridade fiscal autuante ao despacho de diligência efetuado pelo relator na primeira instância administrativa. Houve ali apenas uma resposta à demanda, com o mesmo teor da autuação fiscal. O julgador solicitou esclarecimentos, foram fornecidos com ciência a recorrente para se manifestar, o que não vislumbrei sua alegação de mudança de critério jurídico. Dentro da normalidade o ocorrido na busca da verdade material que deve permear o processo administrativo. Fl. 1090DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.069 45 Então, nos mesmos termos do relator, afastamos também esta preliminar suscitada. 1.3 Quanto a alegação de decadência Na mesma linha dos dois tópicos anteriores, não concordo com a alegação da recorrente que ocorreu um novo lançamento em virtude, do que entende, do relatório fiscal decorrente da diligência. Conforme já posicionado nos tópicos anteriores, não vejo o relatório da autoridade fiscal em atendimento como um novo relatório fiscal, e por isso, não houve cerceamento de defesa e nem mudança de critério jurídico. Por conseguinte, se válido, permanece a autuação fiscal efetuada. Não cabe em falar em nova autuação fiscal na resposta da diligência, e muito menos verificado nenhum dos aspectos alegados pela recorrente do §3º, do art. 18 do Decreto 70.235/1972, quais sejam incorreções, omissões ou inexatidões. Como se viu no tópico 1.1 acima, a recorrente restou silente na última intimação fiscal, após pedir prorrogação, quando questionada sobre os elementos apurados de ofício, e agora que suscitar discussões de omissão da autoridade fiscal, por matéria trazida ao bojo da análise e discussão na sua peça impugnatória e recursal, como a questão da dedução do ICMS incidente sobre as operações de venda. Muito oportunamente, suscitada a matéria na peça impugnatória, a autoridade julgadora solicita esclarecimentos isto dentro do princípio da busca da verdade material! Verdade essa que pode ir ao encontro de qualquer um dos lados. No caso, se não se pode diligenciar, pois estaria criando novo lançamento ou haveria uma comprovação de que haveria algo obscuro e errado na autuação fiscal é descabido. Não se pode silenciar, e depois reclamar que não ouvido. Procuro resguardar me de críticas a qualquer das partes, pois como conselheiro deste CARF, também sou contribuinte, e se vive a complexidade do nosso sistema tributário. Mas no caso, é muito próximo do caso o princípio nemo auditur propriam turpitudinem allegans. Assim, consoante a todo o exposto no meu voto (caso vencedor) em consonância com o discutido na sessão de julgamento, entendo que não há que se falar em decadência aqui no caso em litígio. 1.4 Quanto a alegação da permanência dos vícios Aqui acompanho o voto do eminente relator, que assim descreveu, sucintamente: Segundo a Recorrente, a autoridade fiscal deixou de cumprir 2 das 5 exigências requeridas pela DRJ quando baixou o julgamento em diligência: Fl. 1091DF CARF MF 46 1) Anexe ao processo os demonstrativos nos quais se baseou para fazer o lançamento e junte os demais documentos necessários à determinação da matéria tributável. 2) Esclareça e demonstre como foi apurado o preço parâmetro nos casos em que um mesmo insumo importado foi aplicado na produção de mais de um produto; No que decidiu a DRJ que: Contrariando essa alegação e nos termos da SC nº 196/2014 citada na impugnação, a metodologia fixada pela citada Lei para o cálculo do PRL é no sentido de apurar a média ponderada de preço de venda individualmente em relação à cada tipo de produto vendido. Assim, para o produto indicado pela contribuinte está correto o cálculo efetuado pela fiscalização, pois para um mesmo insumo importado foram obtidos diferentes produtos com diferentes valores de venda. Portanto, não se sustenta o argumento de que a DRJ deixou de analisar o tema em espécie. Acompanho e aproveito os fundamentos do mesmo, rejeitando a alegação da recorrente neste ponto. 2. No mérito 2.1. Quanto a alegação do Benefício Fiscal de ICMS Alega a recorrente na sua peça recursal que foi desconsiderado, na apuração do preço parâmetro calculado pela autoridade fiscal autuante, do benefício do crédito estímulo ICMS concedido pelo estado do Amazonas. Na palavras da recorrente: 85. No anocalendário 2010, a Recorrente era beneficiária desse crédito estímulo, nos termos do Decreto Estadual n° 24.195/20046, na qualidade de indústria instalada no Estado do Amazonas. Tal benefício garantia um crédito estímulo de 100% (cem por cento) em relação ao ICMS incidente sobre as vendas dos produtos fabricados pela Recorrente, nos quais foram aplicadas às matériasprimas importadas de pessoas vinculadas. 86. Segundo a lógica desse benefício fiscal do Estado do Amazonas, o valor do crédito presumido neutraliza o efeito do débito de ICMS, não havendo que se falar no ICMS como integrante do preço dos produtos fabricados pela Recorrente nos quais as matériasprimas importadas foram incluídas. Na decisão recorrida, o relator do voto, condutor da decisão assim dispõe sobre o tema: Fl. 1092DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.070 47 O preço parâmetro determinado de acordo com o Método PRL é obtido a partir da média aritmética ponderada dos preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos, dentre outros valores, dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas, dos quais faz parte o ICMS. Observase que o incentivo fiscal do crédito estímulo do ICMS, é concedido aplicandose um percentual sobre o saldo devedor do ICMS em cada período de apuração. O Crédito estímulo é uma devolução do imposto apurado normalmente pela diferença entre os débitos e créditos decorrentes das operações realizadas no período. O crédito estímulo representa um percentual do saldo devedor apurado. Operacionalmente, em cada mês de apuração, o contribuinte incentivado recolhe apenas a diferença entre o saldo devedor e o valor do crédito estímulo. Temse, assim, que o ICMS incide sobre os produtos vendidos e a contribuinte beneficiária somente obtém uma devolução desse imposto apurado (correspondente a um percentual sobre o saldo devedor do ICMS) nas operações realizadas no período, não se alterando, com esse benefício, a receita operacional da empresa. Portanto, referido benefício não tem nenhuma repercussão na apuração dos preços de transferência, que se prestam a outra finalidade, ou seja, a de verificar se os preços pelos quais a contribuinte importou (como no caso em tela) ou exportou produtos de/para empresas a ela vinculadas divergem do preço de mercado negociado por empresas independentes, em condições análogas. O eminente relator deste voto, na sua posição, entendeu que prevaleceria a posição da recorrente, pois no seu entender, o preço parâmetro deve refletir a operação do contribuinte, e, se, nas palavras da recorrente, é verdade que a comercialização de seus produtos não é onerada pelo ICMS, refletindo o benefício fiscal no preço dos produtos, tornandoos mais baratos, essa realidade não poderia ser desconsiderada pela autoridade fiscal. Com todo o respeito à posição do eminente relator, não se vislumbra na concessão do crédito estímulo do ICMS não representa necessariamente uma diminuição do preço, pois seus efeitos não envolvem uma diminuição da alíquota do ICMS, e sim uma contrapartida financeira, a título de crédito do imposto, que irá integrar seu resultado operacional. Ou seja, não há como comprovar os efeitos dos estímulos no preço praticado, pois alíquota do débito do ICMS é a mesma do mercado. Os efeitos serão sentidos é na lucratividade da recorrente. Ocorre uma restituição do ICMS decorrente do crédito estímulo concedido pelo estado do Amazonas, e sim um aumento do seu resultado não operacional. Em nenhum momento haverá repercussão na apuração dos preços de transferência, cujos critérios são para verificar se os preços pelos quais importou produtos, no caso concreto, de empresas vinculadas divergem do preço de mercado em condições normais e independentes. Fl. 1093DF CARF MF 48 Ademais, a legislação do preço de transferência em nenhum ponto dá tratamento a crédito de ICMS, não importando sua forma, igualandoa às figuras dos descontos concedidos, abatimentos, ou dos tributos incidentes sobre venda. Ou seja, não há previsão legal de deixar de deduzir o ICMS na apuração dos preçosparâmetro, nos termos do art. 12 da IN SRF nº 243/2002 que regulamenta o inciso II do art. 18 da Lei nº 9.4301/996. Não se pode aqui neste julgamento de se criar exclusões ou deduções não expressamente previstas nas normas, principalmente a alegada para recorrente, que não restou comprovado os seus efeitos no preço, conforme exposto na construção do presente raciocínio. Em suma, rejeitase a pretensão do recorrente quanto a este item. 2.2. Da alegação da obrigatoriedade da média do PRL ser calculada "produto a produto" Alega a recorrente que identificou dois preços parâmetros e dois ajustes distintos para idênticos produtos importados. Se valeu a decisão a quo da Solução de Consulta Cosit nº 196/2014, o que entendeu a recorrente ser uma interpretação extensiva no disposta desta solução de consulta, pois ali, seria o produto importado, ou seja, o insumo, e não o produto final. Contudo, lendo a Solução de Consulta nº 196/2014, não acompanho a posição da recorrente, pois ali é bem clara a posição adotada pela decisão a quo, no sentido de que a metodologia estabelecida na lei para o cálculo do PRL é o de apurar a média ponderada de preço de venda individualmente em relação a cada tipo de produto vendido. Nada mais lógico que determinado insumo pode ser utilizado em vários produtos, com diferentes valores de venda, o que, dependendo das circunstância, na apuração dos preço de transferência, poderia ocorrer dois preços parâmetros e a necessidade de dois ajustes distintos. Dessa sorte, não entendo cabível a alegação do recorrente, negandose a pretensão quanto a este item, conforme decisão do colegiado. 2.3. Da alegação da impossibilidade da desconsideração dos métodos PIC e CPL Na questão do método PIC, se posiciona o eminente relator que o fato da aquisição de terceiros das empresas ligadas no exterior à recorrente não seria suficiente para que as suas transações fossem desconsideradas como parâmetro de operação de mercado. Contudo, divirjo da posição do nobre relator, apesar da sua explanação muito bem fundamentada, acompanhando a posição adotado no caso conforme apurada pela autoridade fiscal autuante: Esclarecemos que na aplicação do preço parâmetro, com base no método PIC, o contribuinte realizou compras de matérias primas de empresas ligadas no exterior, com as respectivas faturas e as invoices. Essas mesmas empresas ligadas do exterior adquiriram essas matérias primas de outras empresas do exterior não ligadas, com as respectivas faturas e invoice Fl. 1094DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.071 49 dessas aquisições, cujo valor serviu de parâmetro na adoção do PIC, calculado pelo contribuinte. Como a situação descrita acima não tem respaldo legal, segundo artigo 8º, parágrafo único, inciso I, II e III da Instrução Normativa n° 243, de 11/11/2002, tal método foi desprezado e essa fiscalização elaborou novo cálculo para apuração do preço parâmetro através do método do Preço de Revenda menos Lucro (PRL produção) com margem de Lucro de 60% (sessenta por cento), tendo por base os dados extraídos das planilhas entregues pelo contribuinte Ou seja, está correta a postura adotada pela autoridade fiscal ao desconsiderar o tal método para apuração do preço parâmetro para fins de cálculo referentes à aquisição das matériasprimas de terceiros por pessoa jurídica vinculada no exterior, pois há uma infração ao artigo 8º da IN nº 243/2002. No que tange ao método CPL, acompanho o raciocínio do eminente relator, pois no seu voto supra aposto, assim posiciona, ao qual peço vênia para repetir e usar como fundamentos do meu voto: De sua parte, no que tange a CPL, o método foi desconsiderado pois a fiscalização entendeu que não foram juntados documentos em vernáculo. O que violaria a regra geral prevista, entre outras leis, ao que prevê o art. 192 do novo CPC: Art. 192. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso da língua portuguesa. Parágrafo único. O documento redigido em língua estrangeira somente poderá ser juntado aos autos quando acompanhado de versão para a língua portuguesa tramitada por via diplomática ou pela autoridade central, ou firmada por tradutor juramentado. Contra isso, aduziu a Recorrente a assinatura e promulgação do Decreto n° 8.660, em 29 de janeiro de 2016, o Brasil aderiu à Convenção de Haia, a qual regulamenta a Eliminação da Exigência de Legalização de Documentos Públicos Estrangeiros, também conhecida como “Convenção da Apostila”. Ocorre que tal Convenção tem seu escopo limitado à: Artigo 1º A presente Convenção aplicase a documentos públicos feitos no território de um dos Estados Contratantes e que devam produzir efeitos no território de outro Estado Contratante. No âmbito da presente Convenção, são considerados documentos públicos: a) Os documentos provenientes de uma autoridade ou de um agente público vinculados a qualquer jurisdição do Estado, inclusive os documentos provenientes do Ministério Público, de escrivão judiciário ou de oficial de justiça; b) Os documentos administrativos; c) Os atos notariais; Fl. 1095DF CARF MF 50 d) As declarações oficiais apostas em documentos de natureza privada, tais como certidões que comprovem o registro de um documento ou a sua existência em determinada data, e reconhecimentos de assinatura. Entretanto, a presente Convenção não se aplica: a) Aos documentos emitidos por agentes diplomáticos ou consulares; b) Aos documentos administrativos diretamente relacionados a operações comerciais ou aduaneiras. As planilhas e faturas comerciais apresentados pela Recorrente não estão, portanto, cobertas pela referida Convenção. Assim, se houve erro na desconsideração da PIC, o mesmo não pode ser dito em relação ao método CPL, haja vista a não apresentação dos documentos comprobatórios de seu direito. Ou seja, os elementos apresentados pela recorrente não são válidos para corroborar com os cálculos feitos na apuração do preço parâmetro para o método CPL. Destarte, afasto as alegações da recorrente neste tópico. 2.4. Da questão da ilegalidade da IN 243/02 No que tange a este ponto, da ilegalidade da IN 243, tal assunto tem causado constantes divergências nos colegiados deste CARF, e o eminente relator se posiciona como habitualmente vem se posicionando, pelo entendimento da ilegalidade da IN SRF nº 243/2002. Com todo respeito ao bem fundamentado voto do relator, há uma discordância deste posicionamento por parte deste colegiado, prevalecendo, por voto de qualidade do seu Presidente, posição divergente em relação à suposta ilegalidade da IN SRF nº 243/2002, entre os quais me incluo. Alega a recorrente da ilegalidade quanto à regulamentação dada pela IN SRF nº 243/2002 para a metodologia de cálculo dos preços parâmetros conforme o método Preço de Revenda menos Lucro com margem de 60%, devendo ser aplicados a fórmula do preço parâmetro prevista na Lei nº 9.430/1996, que no seu entender é diferente e melhor aplicável ao caso. Primeiramente, não procede a posição da recorrente de que a autoridade julgadora a quo manteve o Auto de Infração com base no argumento de impossibilidade de, na esfera administrativa, serem apreciadas questões relativas à inconstitucionalidade e ilegalidade de norma. No seu voto, a autoridade julgadora a quo traz outros argumentos para rechaçar as alegações da recorrente, compilando ementas e excertos de decisões do CARF a respeito. A respeito da questão da legalidade ou não da IN SRF nº 243/2002, que veio regulamentar as determinações da Lei 9.430/1996, alterada pelo artigo 2º da Lei 9.959/2000, no que tange ao cálculo do método do Preço de Revenda menos Lucro PRL (60%) para determinação do preço parâmetro, cabe um intróito a respeito. O preço parâmetro é o preço limite apurado "de cima para baixo", a partir do Preço de Revenda Líquido (PRL) visando estimar a dedutibilidade dos custos e margem de lucro relativos aos bens importado por pessoas jurídicas vinculadas localizadas no exterior. O produto importado, cujo preço extrapolar esse preço parâmetro calculado, sofrerá ajustes tomando essa parcela excedente indedutível para efeitos de tributação. Fl. 1096DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.072 51 A IN nº 243/2002, alterando uma IN anterior a respeito (IN SRF nº 32/2001) que adotava a fórmula adotada pela recorrente, passou a dar uma interpretação da respeito da regulamentação do tema do preço parâmetro. Primeiramente, consabido que há como definir uma única interpretação possível a determinado texto da lei. E a lei nunca será detalhada o necessário para aclarar todas as situações possíveis e encontráveis. Assim, surgem as normas regulamentares, que não se deve esperar que apenas registre literalmente o que a lei comanda. Assim, não cabe uma simples comparação da interpretação da lei com a interpretação da instrução normativa, o que no caso, envolve comparar a interpretação da lei nº 9.430/1996 (com alterações da lei nº 9.959/2000) com a interpretação trazida pela IN SRF nº 243/2002. A edição da lei nº 9.959/2000, que alterou o art. 18, inciso II da lei nº 9.430/1996, passa a criar a margem de lucro de 60% (na redação anterior só tinha de 20%), para os casos em que sobre a importação se agrega valor no país para subsequente revenda. Tal assunto passou a ser base da controvérsia, principalmente no que tange a base de cálculo sobre qual incide os 60%. Nos termos da lei, já com a redação da lei nº 9.959/00, o artigo 18 da lei nº 9.430/1996, foco da discussão, cabe ser repetido aqui: Art.18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: (...) II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: definido como a média aritmética dos preços de revenda dos bens ou direitos, diminuídos: a) dos descontos incondicionais concedidos; b) dos impostos e contribuições incidentes sobre as vendas; c) das comissões e corretagens pagas; d) da margem de lucro de: 1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção; 2. vinte por cento, calculada sobre o preço de revenda, nas demais hipóteses. (destaquei) Nesta redação, a utilização da contração gramatical da preposição ("de") com o artigo ("o") implica dizer que o valor agregado deve ser diminuído na apuração do preço parâmetro da mesma forma que os descontos, impostos e comissões; e não da margem de lucro Fl. 1097DF CARF MF 52 como quer a recorrente. A margem de lucro de sessenta por cento, por sua vez, seria calculada exclusivamente sobre o preço de revenda após deduzidos os valores mencionados. Admitese que a redação deste dispositivo não é da mais claras. Sobre esse ponto, cabe transcrever as observações da PGFN com base no voto pelo I. Conselheiro Ricardo Marozzi Gregorio acerca da falta de clareza do texto legal: Neste ponto, um importante aspecto deve ser observado. Tratase da falta de clareza do texto introduzido no item “1” da nova alínea “d”. Com efeito, afirmase que a margem de lucro de 60% deve ser “calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País” Ora, uma primeira leitura deste trecho faz pressupor que houve erro gramatical na utilização da preposição “de” juntamente com o artigo “o” antes da expressão “valor agregado”. Assim, para que ficasse gramaticalmente correta, ao invés de “do valor agregado” deveria se assumir que a lei quis dizer “o valor agregado”. [...] Quanto à primeira investigação, já se mencionou que uma possível premissa para a interpretação da falta de clareza do texto introduzido no item “1” da nova alínea “d” do artigo 18, inciso II, da Lei nº 9.430/96, é a aceitação de que houve um erro gramatical na utilização da preposição “de” juntamente com o artigo “o” antes da expressão “valor agregado”. Pois bem, uma outra possível premissa é a que sustenta que não houve erro gramatical, mas técnica redacional inapropriada. Para melhor esclarecimento, vale a pena reproduzir a íntegra do novo texto do artigo 18, inciso II, depois da alteração introduzida pela Lei nº 9.959/00: [...] A técnica redacional inapropriada, identificada por Victor Polizelli, decorre da percepção de que a expressão “do valor agregado” não se refere à palavra “deduzidos”, presente no mesmo item “1” da alínea “d”, mas sim à palavra “diminuídos”, que consta no caput do próprio inciso II. Esta técnica seria justificada pela intenção de se evitar a inserção de uma alínea “e”, pois a exclusão do valor agregado só se aplicaria na hipótese de bens aplicados à produção. [...] Assumindo essa premissa para as hipóteses de produção local, uma outra fórmula de apuração do preço parâmetro pode ser identificada: PP = PL – 0,6 x PL – VA.” 1 [...] Por outro lado, a tese de que o valor agregado deve ser incluído no cálculo da margem de lucro não está em sintonia à própria dicção do dispositivo legal. 2 Para abrigar a interpretação proposta pela contribuinte, o item 1 do inciso II do art. 18 da Lei nº 9.430/96 deveria ser redigido nos seguintes termos: “1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após deduzidos os valores referidos nas alíneas anteriores e o valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção.” ou 1 Preços de Transferência: uma avaliação da sistemática do método PRL. In: Tributos e Preços de Transferência.3º vol. São Paulo: Dialética, 2009. p. 170195. 2 Nesse sentido, vale conferir a declaração de voto proferida pelo Conselheiro João Otávio Oppermann Thomé no processo nº 10283.721285/200814 (Acórdão nº 110200.419). Fl. 1098DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.073 53 “1. sessenta por cento, calculada sobre o preço de revenda após a dedução dos valores referidos nas alíneas anteriores e do valor agregado no País, na hipótese de bens importados aplicados à produção.” . (grifos nossos) Assim, a questão envolve uma interpretação própria, e podemos dizer, equivocada, da recorrente dada ao art. 18 da lei nº 9.430/1996. Ademais, cabe destacar que a operação que se sujeita ao ajuste é a importação do insumo, ao se excluir do preço líquido de venda a margem de lucro calculada sobre o preço líquido de venda menos o valor agregado, obtémse o custo do insumo acrescido de percentual da margem de lucro praticado na revenda, mas não se alcança o custo do bem importado. Isso justifica a aplicação da proporcionalidade regulamentada pela IN SRF nº 243/2002, no seu § 11, do art. 12: Art. 12.[...] § 11. Na hipótese do § 10, o preço parâmetro dos bens, serviços ou direitos importados será apurado excluindose o valor agregado no País e a margem de lucro de sessenta por cento, conforme metodologia a seguir: I preço líquido de venda: a média aritmética ponderada dos preços de venda do bem produzido, diminuídos dos descontos incondicionais concedidos, dos impostos e contribuições sobre as vendas e das comissões e corretagens pagas; II percentual de participação dos bens, serviços ou direitos importados no custo total do bem produzido: a relação percentual entre o valor do bem, serviço ou direito importado e o custo total do bem produzido, calculada em conformidade com a planilha de custos da empresa; III participação dos bens, serviços ou direitos importados no preço de venda do bem produzido: a aplicação do percentual de participação do bem, serviço ou direito importado no custo total, apurado conforme o inciso II, sobre o preço líquido de venda calculado de acordo com o inciso I; IV margem de lucro: a aplicação do percentual de sessenta por cento sobre a " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado de acordo com o inciso III; V preço parâmetro: a diferença entre o valor da " participação do bem, serviço ou direito importado no preço de venda do bem produzido" , calculado conforme o inciso III, e a margem de lucro de sessenta por cento, calculada de acordo com o inciso IV. Ou seja, esta redação deixa claro que não se deduz o valor agregado da margem de lucro, mas diretamente do preço líquido de venda, e estabelece que a margem de Fl. 1099DF CARF MF 54 lucro deve ser calculada sobre a parcela do preço líquido de venda que corresponde ao bem importado, ou seja, a participação do bem importado no preço de venda do bem produzido. Isso possibilitaria a apuração do preço parâmetro do bem importado com maior precisão, em consonância do método PRL60, e à finalidade do controle dos preços de transferência. Ante o exposto, NEGO PROVIMENTO ao recurso voluntário quanto a este item. 2.5. Aplicação da PLR 20% inclusive para os casos de produção local Alega a recorrente que caso se reconheça a IN SRF nº 243/2002 como legal, que a margem a ser aplicada seria a de 20%. Contudo, não vejo espaço legal para reconhecer tal alegação, até porque, antes de adentrar em qualquer mérito da matéria, os eventos em litígio envolve anocalendário não alcançado pelas alterações promovidas pela lei nº 12.715 /2012, convertida pela MP nº 562, também de 2012. Nas palavras do próprio relator, no seu voto acima exposto: Subsidiariamente, alega que o percentual a ser aplicado seria o de 20%. Isto porque A técnica da proporcionalização tem como premissa uma ficção de a venda de um produto acabado é, na verdade, uma revenda de todos os componentes individualizados do produto acabado. Esta ficção se pauta em um percentual de participação, o qual é calculado tomandose a relação percentual entre o custo do bem importado e o custo total do bem. E, nessa toada, se a técnica da proporcionalização transforma a venda de um produto acabado em várias revendas, deveria se utilizar a margem de 20% aplicável às revendas. E esta conclusão pode ser comprovada com base nas alterações promovidas pela Lei 12.715 no artigo 18 da Lei 9.430 introduziram o novo PRL, o qual adota a técnica da proporcionalização, mas utiliza uma margem única de 20% para revenda e produção local. Entendo não haver base legal para a alteração do método com base nessa ficção. Acompanho seu posicionamento, NEGANDO PROVIMENTO quanto a este item. 2.6. Quanto à alegação da impossibilidade de as regras de preço de transferência serem aplicadas ante a existência de tratado internacional para evitar a dupla tributação com a China Sobre tal tema, o eminente relator se manifestou no sentido que o tratado não é capaz de afastar a aplicabilidade das regras do preço de transferência. Nas suas palavras: O tratado para evitar a dupla tributação assinado entre o Brasil e a China não possui o condão de afastar a aplicabilidade das regras brasileiras de preços de transferência, mas tão somente a possibilidade de limitar as hipóteses de sua Fl. 1100DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.074 55 aplicabilidade. Entendo que à luz do tratado, as regras de PT brasileira não são aplicáveis a pessoas vinculadas tal como disposto no art. 23 da Lei 9.430/96: Art. 23. Para efeito dos arts. 18 a 22, será considerada vinculada à pessoa jurídica domiciliada no Brasil: I a matriz desta, quando domiciliada no exterior; II a sua filial ou sucursal, domiciliada no exterior; III a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, cuja participação societária no seu capital social a caracterize como sua controladora ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; IV a pessoa jurídica domiciliada no exterior que seja caracterizada como sua controlada ou coligada, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; V a pessoa jurídica domiciliada no exterior, quando esta e a empresa domiciliada no Brasil estiverem sob controle societário ou administrativo comum ou quando pelo menos dez por cento do capital social de cada uma pertencer a uma mesma pessoa física ou jurídica; VI a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que, em conjunto com a pessoa jurídica domiciliada no Brasil, tiver participação societária no capital social de uma terceira pessoa jurídica, cuja soma as caracterizem como controladoras ou coligadas desta, na forma definida nos §§ 1º e 2º do art. 243 da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; VII a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que seja sua associada, na forma de consórcio ou condomínio, conforme definido na legislação brasileira, em qualquer empreendimento; VIII a pessoa física residente no exterior que for parente ou afim até o terceiro grau, cônjuge ou companheiro de qualquer de seus diretores ou de seu sócio ou acionista controlador em participação direta ou indireta; IX a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, que goze de exclusividade, como seu agente, distribuidor ou concessionário, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos; X a pessoa física ou jurídica, residente ou domiciliada no exterior, em relação à qual a pessoa jurídica domiciliada no Brasil goze de exclusividade, como agente, distribuidora ou concessionária, para a compra e venda de bens, serviços ou direitos. Mas apenas as hipóteses descritas no art. 9 do Tratado, qual sejam: Fl. 1101DF CARF MF 56 Empresas Associadas 1. Quando: a) uma empresa de um Estado Contratante participar direta ou indiretamente da direção, controle ou capital de empresa do outro Estado Contratante, ou b) as mesmas pessoas participarem direta ou indiretamente da direção, controle ou capital de empresa do outro Estado Contratante, e, em ambos os casos, as duas empresas estiverem ligadas, em suas relações comerciais ou financeiras, por condições aceitas ou impostas que difiram das que seriam estabelecidas entre empresas independentes, os lucros que, sem essas condições, teriam sido obtidos por uma dessas empresas mas não o foram por causa destas condições, podem ser incluídos no lucro dessa empresa e tributados como tal. Entendo que o desvio das margens predeterminadas, conforme a Lei, que definem o padrão arm´s length, já é razão suficiente para aplicação das regras de TP, cumprindo com o requisito do tratado (que difiram das que seriam estabelecidas entre empresas independentes). Acompanhase no mesmo sentido dos termos do voto acima, NEGANDO PROVIMENTO quanto a este item. 2.7. Da inclusão do frete, seguro e tributos aduaneiros ("CIF+II") Alega a recorrente que caso seja prevalecido o método utilizado pela autoridade fiscal autuante, ainda assim seus cálculos devem ser retificados, pois utilizado como base o método CIF+II, ou seja, incluindo na base o valor do frete, seguro e tributos sobre a importação, em que pese sua contratação com terceiros. O eminente relator, no seu voto, entende que cabível tal alegação da recorrente, pois entende que independente da norma em vigor, não há alteração no fato de que tais valores não são suscetíveis de eventuais manipulações empreendidas com o intuito de esvaziar a base tributária brasileira. Contudo, ousase divergir da bem fundamentada posição do nobre relator, no sentido de que a apuração do preço parâmetro, dos valores relativos a frete e seguro, cujo o ônus tenha sido do importador, e dos tributos incidentes na importação está expressamente consignado no art. 18 da lei nº 9.430/1996, caput e § 6º, dada antes da alteração promovida pela lei nº 12.715/2012, assim transcrito: Art. 18. Os custos, despesas e encargos relativos a bens, serviços e direitos, constantes dos documentos de importação ou de aquisição, nas operações efetuadas com pessoa vinculada, somente serão dedutíveis na determinação do lucro real até o valor que não exceda ao preço determinado por um dos seguintes métodos: I Método dos Preços Independentes Comparados PIC: [...] Fl. 1102DF CARF MF Processo nº 10283.720775/201433 Acórdão n.º 1402002.873 S1C4T2 Fl. 1.075 57 II Método do Preço de Revenda menos Lucro PRL: [...] III Método do Custo de Produção mais Lucro CPL: [...] (...) § 6º Integram o custo, para efeito de dedutibilidade, o valor do frete e do seguro, cujo ônus tenha sido do importador e os tributos incidentes na importação. E a própria IN SRF nº 243/2002, no seu § 4º, do artigo 4º não vacila sobre acompanhar o mesmo entendimento: Art. 4º (...) § 4º Para efeito de apuração do preço a ser utilizado como parâmetro, calculado com base no método de que trata o art. 12, serão integrados ao preço praticado na importação os valores de transporte e seguro, cujo ônus tenha sido da empresa importadora, e os de tributos não recuperáveis, devidos na importação. Destarte, a pretensão da recorrente que a apuração do preço praticado deve ser o de valor FOB (free on board) da mercadoria importada, não merece acolhida. Como decorrência de disposição legal e da necessidade de se comparar grandezas semelhantes, na apuração do preço praticado, devem ser incluídos os valores correspondentes a frete, seguro e imposto sobre importação, cujo ônus tenha sido do importador. Do contrário, haveria distorções com o preço parâmetro, que são as operações entre pessoas não vinculadas. É necessário manter ambos os valores preço praticado e preço parâmetro no mesmo nível comparativo. E de qualquer forma, na nova redação dada pela lei nº 12.715/2012 não alterou tal entendimento, apenas ao permitir a exclusão dos valores de frete, seguro e tributos na importação na apuração do preço praticado, na mesma toada do preço parâmetro, ou seja, mantendo a mesma base de comparação e grandeza dos valores. Dito isto, NEGO PROVIMENTO ao recurso quanto a este item. 2.8. A ilegalidade da cobrança de juros sobre a multa de ofício Aqui, mantémse a mesma posição do nobre relator, nos seus termos acima expostos, por NEGAR PROVIMENTO ao recurso voluntário quanto a este item. 3. Conclusão Ante todo o exposto, voto no sentido de NEGAR PROVIMENTO INTEGRAL ao recurso voluntário da recorrente. Fl. 1103DF CARF MF 58 (assinado digitalmente) Marco Rogério Borges Fl. 1104DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10580.729052/2010-11
Turma: Primeira Turma Ordinária da Terceira Câmara da Segunda Seção
Câmara: Terceira Câmara
Seção: Segunda Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Mar 07 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Tue Apr 24 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Obrigações Acessórias
Período de apuração: 01/04/2006 a 28/02/2007
CONTRIBUIÇÃO PREVIDENCIÁRIA. DECLARAÇÃO EM GFIP. OBRIGATORIEDADE. MULTA POR FALTA OU INEXATIDÃO DE DECLARAÇÃO.
A empresa é obrigada a informar, em Gfip, a totalidade das contribuições devidas à previdência social. Erro formal e boa-fé não elidem a obrigação de declarar, em Gfip, correta e tempestivamente, as contribuições previdenciárias. O descumprimento dessa obrigação, apurado em procedimento de ofício, sujeita o infrator à multa prevista no art. 32, §§ 4º e5º, da Lei nº 8.212, de 1991, se a aplicação da multa prevista no art. 35-A da mesma lei não resultar mais benéfica.
AFERIÇÃO INDIRETA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE.
O uso da aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, quando observados os requisitos legais, não acarreta nulidade nem cerceia o direito à ampla defesa. O descumprimento de intimação fiscal para o fornecimento de documentos justifica o uso da aferição indireta.
CONTRIBUIÇÃO PARA A PREVIDÊNCIA SOCIAL. INCIDÊNCIA SOBRE PAGAMENTOS DE REMUNERAÇÃO NÃO DECLARADOS. OBRIGATORIEDADE DE DECLARAR EM GFIP.
Incide contribuição previdenciária, patronal e dos trabalhadores, sobre os valores pagos a título de remuneração pelo trabalho. Sujeita-se ao lançamento de ofício os fatos geradores não declarados em Gfip e identificados pela fiscalização, através de documentos apresentados pela empresa.
GLOSA DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS DECLARADOS. ÔNUS DO DECLARANTE.
É correta a compensação, em Gfip, da contribuição previdenciária com créditos líquidos e certos da mesma contribuição. Cabe ao sujeito passivo a comprovação da liquidez e certeza dos créditos utilizados para compensação, cuja prova não se faz pela mera declaração em Gfip de créditos compensáveis. É correta a glosa de valores compensados quando não comprovados, os créditos, por meios hábeis.
PERÍCIA. DESNECESSIDADE. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA.
O indeferimento motivado de pedido de perícia não caracteriza cerceamento de direito de defesa. Não cabe perícia para fazer prova de fatos cujo ônus probante é da defesa e ela tem acesso às informações que pretenderia obter com a perícia. Nulidade do acórdão inexistente.
SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. VALE-TRANSPORTE. DESCONTO MENOR DO QUE O AUTORIZADO PELA LEI.
Não incide contribuição previdenciária sobre valores pagos a título de vale-transporte. A lei autoriza, mas não obriga, o desconto de até 6% da remuneração do empregado para custeio do vale-transporte. A ausência de desconto ou o desconto menor do que o autorizado não implicam descaracterização do benefício.
SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. ALUGUEL. EMPREGADO TRANSFERIDO.
A habitação fornecida pela empresa ao empregado contratado para trabalhar em localidade distinta de sua residência é isenta da contribuição previdenciária quando atendidos os requisitos legais. A transferência do empregado para outra localidade implica a alteração do seu domicílio e, portanto, da sua residência. Configura salário indireto o pagamento de aluguel a empregado transferido, nos termos da CLT, para outra localidade.
SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. CARTÃO DE PREMIAÇÃO.
Integra o salário de contribuição a totalidade dos rendimentos pagos, a qualquer título, ao empregado e trabalhador avulso destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a forma. Excluem-se do salário de contribuição os ganhos eventuais e os abonos expressamente desvinculados do salário. O pagamento habitual de valores a título de prêmio de produtividade, por meio de cartão de premiação, integra o salário de contribuição.
MULTA. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009.
Aplica-se a legislação inovadora quando mais benéfica ao sujeito passivo. A comparação das multas previstas na legislação, para efeito de aferição da mais benéfica, leva em conta a natureza da exação, e não a sua nomenclatura. Em se tratando de lançamento de ofício por descumprimento de obrigação acessória e principal, a aplicação da multa prevista no art. 35-A da Lei nº 8.212, de 1991, deve retroagir para beneficiar o contribuinte se resultar menor do que a soma das multas previstas nos artigos 32, §§ 4º e 5º, e 35, inc. II, da mesma lei.
Numero da decisão: 2301-005.198
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam, os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator.
(assinado digitalmente)
João Bellini Júnior - Presidente.
(assinado digitalmente)
João Maurício Vital - Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Andrea Brose Adolfo, Juliana Marteli Fais Feriato, Marcelo Freitas de Souza Costa, João Maurício Vital e Wesley Rocha.
Nome do relator: JOAO MAURICIO VITAL
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DECLARAÇÃO EM GFIP. OBRIGATORIEDADE. MULTA POR FALTA OU INEXATIDÃO DE DECLARAÇÃO. A empresa é obrigada a informar, em Gfip, a totalidade das contribuições devidas à previdência social. Erro formal e boafé não elidem a obrigação de declarar, em Gfip, correta e tempestivamente, as contribuições previdenciárias. O descumprimento dessa obrigação, apurado em procedimento de ofício, sujeita o infrator à multa prevista no art. 32, §§ 4º e5º, da Lei nº 8.212, de 1991, se a aplicação da multa prevista no art. 35A da mesma lei não resultar mais benéfica. AFERIÇÃO INDIRETA. CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. O uso da aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, quando observados os requisitos legais, não acarreta nulidade nem cerceia o direito à ampla defesa. O descumprimento de intimação fiscal para o fornecimento de documentos justifica o uso da aferição indireta. CONTRIBUIÇÃO PARA A PREVIDÊNCIA SOCIAL. INCIDÊNCIA SOBRE PAGAMENTOS DE REMUNERAÇÃO NÃO DECLARADOS. OBRIGATORIEDADE DE DECLARAR EM GFIP. Incide contribuição previdenciária, patronal e dos trabalhadores, sobre os valores pagos a título de remuneração pelo trabalho. Sujeitase ao lançamento de ofício os fatos geradores não declarados em Gfip e identificados pela fiscalização, através de documentos apresentados pela empresa. GLOSA DE COMPENSAÇÃO. COMPROVAÇÃO DOS CRÉDITOS DECLARADOS. ÔNUS DO DECLARANTE. AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 58 0. 72 90 52 /2 01 0- 11 Fl. 1896DF CARF MF 2 É correta a compensação, em Gfip, da contribuição previdenciária com créditos líquidos e certos da mesma contribuição. Cabe ao sujeito passivo a comprovação da liquidez e certeza dos créditos utilizados para compensação, cuja prova não se faz pela mera declaração em Gfip de créditos compensáveis. É correta a glosa de valores compensados quando não comprovados, os créditos, por meios hábeis. PERÍCIA. DESNECESSIDADE. CERCEAMENTO DE DIREITO DE DEFESA. O indeferimento motivado de pedido de perícia não caracteriza cerceamento de direito de defesa. Não cabe perícia para fazer prova de fatos cujo ônus probante é da defesa e ela tem acesso às informações que pretenderia obter com a perícia. Nulidade do acórdão inexistente. SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. VALETRANSPORTE. DESCONTO MENOR DO QUE O AUTORIZADO PELA LEI. Não incide contribuição previdenciária sobre valores pagos a título de vale transporte. A lei autoriza, mas não obriga, o desconto de até 6% da remuneração do empregado para custeio do valetransporte. A ausência de desconto ou o desconto menor do que o autorizado não implicam descaracterização do benefício. SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. ALUGUEL. EMPREGADO TRANSFERIDO. A habitação fornecida pela empresa ao empregado contratado para trabalhar em localidade distinta de sua residência é isenta da contribuição previdenciária quando atendidos os requisitos legais. A transferência do empregado para outra localidade implica a alteração do seu domicílio e, portanto, da sua residência. Configura salário indireto o pagamento de aluguel a empregado transferido, nos termos da CLT, para outra localidade. SALÁRIO INDIRETO. SALÁRIO UTILIDADE. CARTÃO DE PREMIAÇÃO. Integra o salário de contribuição a totalidade dos rendimentos pagos, a qualquer título, ao empregado e trabalhador avulso destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a forma. Excluemse do salário de contribuição os ganhos eventuais e os abonos expressamente desvinculados do salário. O pagamento habitual de valores a título de prêmio de produtividade, por meio de cartão de premiação, integra o salário de contribuição. MULTA. RETROATIVIDADE BENIGNA. APLICAÇÃO LEI Nº 8.212/1991, COM A REDAÇÃO DADA PELA MP 449/2008, CONVERTIDA NA LEI Nº 11.941/2009. PORTARIA PGFN/RFB Nº 14 DE 04 DE DEZEMBRO DE 2009. Aplicase a legislação inovadora quando mais benéfica ao sujeito passivo. A comparação das multas previstas na legislação, para efeito de aferição da mais benéfica, leva em conta a natureza da exação, e não a sua nomenclatura. Em se tratando de lançamento de ofício por descumprimento de obrigação acessória e principal, a aplicação da multa prevista no art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, deve retroagir para beneficiar o contribuinte se resultar menor do que a soma das multas previstas nos artigos 32, §§ 4º e 5º, e 35, inc. II, da mesma lei. Fl. 1897DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.896 3 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam, os membros do colegiado, por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do voto do relator. (assinado digitalmente) João Bellini Júnior Presidente. (assinado digitalmente) João Maurício Vital Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: João Bellini Júnior (Presidente), Antônio Sávio Nastureles, Alexandre Evaristo Pinto, Andrea Brose Adolfo, Juliana Marteli Fais Feriato, Marcelo Freitas de Souza Costa, João Maurício Vital e Wesley Rocha. Relatório Tratase de lançamento de ofício, Auto de Infração nº 37.280.6368, para a exigência de multa por descumprimento de obrigação acessória, consistente em deixar de informar em Gfip a totalidade das contribuições devidas à Previdência Social, nas competências de 4 a 12 de 2006 e 1 e 2 de 2007. O lançamento decorreu de ação fiscal, relativa ao período de 2/2006 a 2/2007, na qual a Autoridade Lançadora identificou que a empresa havia declarado, em Gfip, valores inferiores aos valores efetivamente devidos de contribuição previdenciária, parte patronal e dos segurados, bem como os valores reflexos relativos às contribuições a terceiros. Da ação fiscal, resultaram os seguintes autos de infração: Nº do auto de infração (Debcad) Período Valor Nº do PAF Matéria lançada 372806139 09/2010 1.000,00 10580.729062/201057 Multa por deixar de declarar em GFIP (art. 32A). 372806082 09/2010 1.431,79 10580.729053/201066 Multa por deixar de descontar contribuição devida pelos segurados (art. 92). 372806368 09/2010 551.239,15 10580.729052/201011 Multa por deixar de declarar em GFIP (art. 32, §§ 4º e 5º). 372806090 2/2006 a 2/2007 2.784.318,36 10580.729056/201008 Contribuições da empresa para a previdência social. 372806104 5/2006 a 2/2007 128.486,40 10580.729057/201044 Contribuições dos segurados descontadas, mas não declaradas e nem recolhidas. 372806112 2/2006 a 2/2007 493.208,37 10580.729059/201033 Contribuições a terceiros. 372806120 2/2006 a 2/2007 957.210,48 10580.729061/201011 Contribuições dos segurados não descontadas, não declaradas e nem recolhidas. O processos encontramse vinculados, sendo que o processo principal é o de nº 10580.729056/201008, ao qual os demais estão apensos. Fl. 1898DF CARF MF 4 Na ação fiscal, a Autoridade Lançadora constatou que a empresa não havia informado corretamente as bases de cálculo, contribuições e demais dados que deveriam constar das Gfip do período fiscalizado. Verificou, também, que o contribuinte não havia tributado os valores pagos a segurados relativos a despesas de alimentação por meio de empresa não inscrita no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), valetransporte, alugueis e cartão de premiação. A Fiscalização apurou, ainda, que a empresa possuía créditos e os considerou para efeito de cálculo do montante tributável, bem como levou em conta todos os pagamentos efetuados pelo contribuinte sob o CNPJ da matriz e das filiais. Inconformada com o lançamento, a Recorrente apresentou, em cada um dos processos, impugnações nas quais, em síntese, questionou a tributação das verbas tidas por salárioutilidade, alegou que seus créditos e pagamentos não haviam sido considerados pela Autoridade Lançadora e solicitou perícia para a verificação dos valores levantados pela Fiscalização. Também insurgiuse contra o cálculo das multas devidas. Por fim, a Recorrente pleiteou, em cada um dos processos, a anulação dos respectivos autos de infração e, subsidiariamente, a aplicação das multas na forma que, segundo a Recorrente, lhe seria mais benéfica. Em decorrência das constatações, a Autoridade Lançadora constituiu os pertinentes créditos tributários relativos a tais parcelas que, no seu entender, integrariam o salário de contribuição. Assim, surgiram os autos de infração para a constituição da contribuição previdenciária patronal e dos segurados, bem como das contribuições a terceiros e das multas relacionadas a incorreções nas Gfip. A instância a quo analisou as impugnações e, de tudo o que foi questionado, deu provimento ao pedido de exclusão dos valores pagos a título de despesas de alimentação, mantendo hígidas todas as demais infrações apontadas pela Autoridade Lançadora. A Recorrente, então, apresentou recursos voluntários repisando as alegações das impugnações. É o relatório. Voto Conselheiro João Maurício Vital O recurso é tempestivo e dele conheço. A Recorrente insurgiu contra a multa aplicada por omissão em informações que deveriam constar das Gfip no período de 2/2006 a 2/2007. A rigor, questionou dois aspectos do lançamento: a existência dos fatos geradores e o cálculo da multa. 1. Quanto aos fatos geradores Os fatos geradores da multa de que trata este processo foram a não declaração, em Gfip, das informações relativas à contribuição previdenciária. Apurou a Autoridade Fiscal que as informações declaradas estavam incompletas, como bem descrito no Relatório Fiscal (efl. 8): Fl. 1899DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.897 5 4.3. Do exposto, concluise que a autuada infringiu o disposto no art. 32, inciso IV, § 5º da Lei 8.212/91, acrescentado pela Lei n° 9.528, de 10.12.97, uma vez que deixou de informar nas GFIP’S das competências de 02/2006 a 02/2007, a totalidade das contribuições devidas a previdência Social. No caso presente, a Recorrente admitiu que não apresentou as Gfip corretamente, ou seja, que deixou de informar todos os valores e empregados nos documentos em razão de um erro formal. Alegou a boafé para que se aceitasse as Gfip apresentadas após o início do procedimento fiscal (efls. 1849 e 1850). Deste modo, sustentou a recorrente, em sua defesa, que tudo não passou de um mero erro formal de preenchimento de código de transmissão de GFIP, o qual poderia ter sido sanado a qualquer tempo! Bastaria, para tanto, uma simples intimação sua para retransmitiras GFIP's utilizando os códigos corretos a fim de corrigir o problema, sem maiores transtornos, valendose, inclusive, do princípio da boafé, que deve nortear as relações entre os contribuintes e a Administração Pública. Ao contrário disso, optou a Fiscalização pela lavratura deste lançamento sob as rubricas MT e MT1. (Grifo do original.) ......................................................................................................... E para que não restassem dúvidas a esse respeito, a ora recorrente providenciou a retransmissão de todas as GFIP's do período fiscalizado, restabelecendo as informações enviadas anteriormente, bem como mantendo as alterações dos dados referentes ao segurado Almir Nascimento Passos, e juntou a documentação à sua defesa (doc. 06 da Impugnação). (Grifo do original.) A apresentação da Gfip tempestiva, completa e corretamente, nos termos do art. 32, inciso IV, § 5º da Lei nº 8.212, de 1991, é obrigação objetiva dos contribuintes da contribuição previdenciária enumerados na lei. O seu descumprimento, independentemente do motivo, enseja a aplicação da multa prevista na legislação. Neste caso, o lançamento da multa é um dever da Autoridade Lançadora, dado o caráter vinculante da norma. A ausência, ou incorreção, do instrumento informativo implica, eventualmente, na necessidade da ação estatal para se certificar quanto à regularidade do contribuinte, no que concerne aos seus deveres tributários. Ora, se a tese da Recorrente, de que a boafé e o descumprimento por mero erro formal, fosse admitida, ninguém necessitaria mais cumprir qualquer obrigação acessória, no aguardo de que o Fisco aparecesse para lhe exigir o cumprimento, o que inviabilizaria totalmente a administração tributária. Como se sabe, a obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos (§ 2º do art. 113 do CTN). Essas obrigações são criadas justamente para que o Poder Público possa se instrumentalizar a fim de, atendendo aos comandos constitucionais, sobretudo a identificação da capacidade contributiva e a situação econômica e financeira dos contribuintes, exercer o sua competência tributante. Fl. 1900DF CARF MF 6 Por essa razão, o legislador atribuiu sanções a quem descumpre as obrigações acessórias que, inclusive, se convertem em obrigação principal pelo seu descumprimento (§ 3º do art. 113 do CTN). Essa medida legal visa justamente a compelir o administrado a prestar as informações exigidas de forma tempestiva e correta, de modo que o poder público possa contar com tais informações para cumprir seu mister. A não apresentação das informações, ou a apresentação intempestiva ou incompleta, sujeita o infrator às sanções que a lei determina. No presente caso, as informações foram apresentadas de modo incompleto. Portanto, não resta dúvidas de que houve os fatos geradores da multa aplicada e que a alegação da Recorrente, quanto à sua boafé ou ao mero erro formal cometido, não têm o condão de afastar aplicação da norma legal. Destaquese que a apresentação das Gfip após o início do procedimento fiscal é inócua e não elide a sanção, por conta do que consta no parágrafo único do art. 138 do CTN. 2. Dos valores da multa aplicada A Recorrente sustentou que os valores levantados na ação fiscal seriam indevidos. A julgar pelas alegações da Recorrente, é necessário verificar o quanto dos valores considerados pela Fiscalização são, de fato, devidos, porque disso resultam as informações a serem incluídas em Gfip e, por conseguinte, o valor da multa aplicada, porquanto se relaciona com os valores que teriam sido omitidos. A natureza de cada uma das verbas questionadas pela Recorrente foi objeto do Acórdão nº 0652.190, da 5ª Turma da DRJ/Curitiba, proferido nos autos do Processo nº 10580.729056/201008 que resultou da mesma ação fiscal e ao qual este processo está apenso. Por essa razão, em algumas passagens deste voto serão feitas referências àquele acórdão ou àquele processo. 2.1. Preliminar de nulidade por realização de aferição indireta pela Fiscalização A Recorrente alegou que o auto de infração deveria ser anulado porque a aferição indireta, no caso, não seria cabível, dado que feriria o regime de competência e, ainda, não teria havido justificativa para o uso daquele instituto e que isso teria inviabilizado o pleno exercício de seu direito de defesa. Destaquese que a Recorrente reproduziu, no recurso voluntário, quanto à matéria, os exatos termos que havia manifestado na impugnação. O colegiado a quo muito bem tratou da questão e peço vênia para reproduzir o pertinente trecho do voto do acórdão recorrido (efls. 2066 e 2067 do Processo nº 10580.729056/201008), com cuja conclusão concordo e cujos fundamentos também assumo como meus: 8. Em que pese o entendimento da impugnante, o Relatório Fiscal traz de forma clara e precisa, a matéria tributável (descrição dos fatos geradores), as contribuições devidas, o período do lançamento e todas as razões que ensejaram a lavratura do auto de Infração, indicando a origem das exigências lançadas, seus fatos geradores, o período a que se referem, como foram apurados os valores lançados e as razões dos procedimentos adotados. 8.1. Especificamente, quanto ao critério da aferição indireta utilizada em relação aos levantamentos (VT, VT1, AL, AL1), foi constatado pela fiscalização por meio do exame da contabilidade da empresa, que esta forneceu salárioutilidade na forma de Fl. 1901DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.898 7 habitação a alguns de seus trabalhadores sem demonstrar que a moradia era necessária ao deslocamento do seu trabalho. Também foi informado no Relatório Fiscal que uma parte dos empregados da impugnante teria participado com apenas 1% (um por cento) de desconto sobre seu salário para o custeio do vale transporte, procedimento este em desconformidade com a Lei 7.418/85 que regula a concessão do Vale Transporte. 8.2. Assim, com o objetivo de identificar os fatos geradores e verificar a consistência dos registros contábeis e Folhas de Pagamento, a Fiscalização intimou o contribuinte, por meio do Termo de Início do Procedimento Fiscal e nos demais Termos de Intimação Fiscal, (fls.239/263), a prestar informações e fornecer cópias dos documentos (contratos de aluguel, esclarecimentos quanto aos beneficiários pelo pagamento, bem como sobre a destinação do imóvel locado, além dos comprovantes de fornecimentos de Vale transporte), que deram ensejo aos registros da contabilidade e folhas de pagamento, cujos lançamentos contábeis, no caso dos aluguéis estão relacionados no Relatório Fiscal. 8.3. No entanto, a empresa não atendeu a totalidade das intimações feitas no procedimento fiscal, obstando à ação da Fiscalização e impedindo a auditoria fiscal de identificar a totalidade dos atos e fatos da contabilidade. Assim, diante da recusa da empresa em apresentar a documentação solicitada, a autoridade fiscal não teve alternativa a não ser lançar de ofício a importância que reputou devida, considerando a totalidade dos pagamentos registrados nos lançamentos contábeis discriminados no item 4.4.8.3 do Relatório Fiscal (Salário Utilidade na modalidade de Aluguel – Conta Razão 31101040015 e 31201020013), e nas Folhas de Pagamento da Matriz, em relação ao valor de Vale Transporte concedido a alguns empregados em percentual menor que o exigido em Lei, com base no art. 33, parágrafo 3º, da Lei 8.212/91, invertendose o ônus da prova, que passou a ser da autuada. Art. 33. À Secretaria da Receita Federal do Brasil compete planejar, executar, acompanhar e avaliar as atividades relativas à tributação, à fiscalização, à arrecadação, à cobrança e ao recolhimento das contribuições sociais previstas no parágrafo único do art. 11 desta Lei, das contribuições incidentes a título de substituição e das devidas a outras entidades e fundos. (...) § 3o Ocorrendo recusa ou sonegação de qualquer documento ou informação, ou sua apresentação deficiente, a Secretaria da Receita Federal do Brasil pode, sem prejuízo da penalidade cabível, lançar de ofício a importância devida.(grifei) (...) Fl. 1902DF CARF MF 8 §6° Se, no exame da escrituração contábil e de qualquer outro documento da empresa, a fiscalização constatar que a contabilidade não registra o movimento real de remuneração dos segurados a seu serviço, do faturamento e do lucro, serão apuradas, por aferição indireta, as contribuições efetivamente devidas, cabendo à empresa o ônus da prova em contrário. 8.4. Vale destacar, ainda o que diz o Relatório Fiscal de Diligência em relação à rubrica Vale Transporte, fls. 2041/2046, sobre o qual a impugnante não se manifestou: “Para que fosse utilizado o método de aferição direta, seria necessário que a empresa tivesse disponibilizado o valor fornecido em vale transporte, empregado a empregado, mês a mês. Assim, a auditoria poderia aplicar ao valor do salário, o valor do vale transporte, verificando qual o percentual a ser ressarcido pelo empregado, ou seja, até o percentual máximo de 6% do salário e a seguir, confrontando esse percentual, com o valor da rubrica 046. A diferença encontrada, empregado a empregado, mês a mês, seria o valor do salárioutilidade considerado como base de cálculo”. 8.5. Desta forma, a aferição indireta, conforme praticada pela fiscalização no presente caso, está completamente amparada na legislação vigente. 8.6. Por fim, deve ser ressaltado também que os anexos “DD – Discriminativo do Débito”, “RL – Relatório de Lançamentos”, e os ANEXOS de fls. 91/402 do Relatório Fiscal, ao indicar a base de cálculo apurada, as alíquotas aplicadas, e as contribuições exigidas, por competência, propiciaram o pleno exercício do direito do contraditório e da ampla defesa, constitucionalmente assegurado aos litigantes em processo administrativo, pelo que deve ser afastada tal preliminar de nulidade. (Grifos e negritos do original.) Entendo, pois, que não há nulidade no auto de infração em razão do uso de aferição indireta para apurar parcelas salariais tributadas, já que foram observados os requisitos legais para a sua aplicação, sem que tenha havido qualquer prejuízo à defesa da Recorrente. 2.2. Diferenças entre as remunerações e contribuições de segurados da matriz, constantes da folha de pagamento e as declaradas na Gfip (levantamentos MT e MT1), glosa na compensação de créditos de competências anteriores (levantamento CG) e pedido de perícia Por serem intrinsecamente relacionados, merecem uma análise conjunta os seguintes tópicos indicados pela Recorrente em sua peça recursal: a) diferenças entre as remunerações e contribuições de segurados da matriz, constantes da folha de pagamento e as declaradas na Gfip (levantamentos MT e MT1), b) glosa na compensação de créditos de competências anteriores (levantamento CG) e c) pedido de perícia. Nos termos do inc. IV do art. 16 do Decreto nº 70.235, de 6 de março de 1972, a Recorrente solicitou perícia, e indicou perito, para a) o refazimento dos cálculos constantes dos levantamentos MT e MT1, considerando os valores das Gfip que apresentara já Fl. 1903DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.899 9 sob o procedimento de ofício, e b) para esclarecer a origem dos valores e procedimentos adotados pela Fiscalização no caso do levantamento CG. Em relação aos valores identificados nos levantamentos MT e MT1, a Recorrente alegou que as diferenças apuradas na ação fiscal teriam sido resultantes de mero erro cometido pela empresa na transmissão das Gfip e que isso não teria resultado em falta de recolhimento. Afirma que, ao pretender retificar as Gfip para incluir informações faltantes, teria, inadvertidamente, transmitido as declarações como se novas Gfip fossem, o que teria ocasionado a sobreposição das informações anteriormente declaradas. Também sustentou, a Recorrente, que a Fiscalização teria deixado de considerar as informações sobre recolhimentos e compensações que resultaram sobrepostas pelo alegado erro de retificação de Gfip. Para sanar o erro cometido com a retificação das Gfip, a Recorrente tornou a apresentar as declarações, embora já sob procedimento de ofício, na tentativa de restabelecer as informações que enviara e que haviam sido substituídas. Na verdade, a apresentação das Gfip, as suas substituições indevidas e posteriores retificações intempestivas não têm a menor influência no deslinde da questão porque a investigação fiscal não se baseou nas Gfip para efetuar o lançamento, mas diretamente nas situações que configuraram fatos geradores das contribuições. A partir daí, a Autoridade Lançadora determinou as bases de cálculo, calculou o tributo correspondente, deduziu os pagamentos informados e os créditos identificados e lançou as diferenças devidas. Sobre a matéria, assim se manifestou o acórdão a quo (efl. 2069 do Processo nº 10580.729056/201008): 10.2. As bases de cálculo das contribuições foram extraídas das folhas de pagamento, cujas bases foram comparadas com as bases declaradas em GFIP’S, e as diferenças lançadas nos levantamentos DC e DM, para possibilitar a apropriação de possíveis sobras de guias. Nestes dois levantamentos, foram lançados os valores de remuneração, desconto de segurados, salário família, salário maternidade e compensação, conforme declarados em GFIP. Nestes termos, as eventuais sobras de recolhimento foram utilizadas para abatimento dos levantamentos MT e MT1, que contêm as diferenças entre as remunerações e as contribuições de segurados da matriz, constantes da Folha de Pagamento e as não declaradas em GFIP, bem como os demais levantamentos apurados nesta ação fiscal. 10.3. Assim, todos os créditos constantes no sistema informatizado da Receita Federal do Brasil e os comprovados pela contribuinte durante a ação fiscal foram devidamente considerados e abatidos dos lançamentos vinculados aos Autos de Infração de descumprimento de obrigação principal, sendo que a autuada teve acesso a todas as informações necessárias ao oferecimento de sua defesa administrativa. (Sem grifo no original.) Ao que se vê, a Autoridade Fiscal foi diligente em buscar, a partir das fontes primárias, e não das Gfip, as bases de cálculo das contribuições e, em relação aos levantamentos MT e MT1, essas bases de cálculo não foram contestadas no recurso voluntário. Fl. 1904DF CARF MF 10 O Fisco também agiu com correção ao considerar, em favor do contribuinte, todos os pagamentos apresentados e créditos que foram identificados. Alegou, a Recorrente, que seus pagamentos não teriam sido aproveitados. Não procede a alegação, pois os valores efetivamente recolhidos pela empresa a título de contribuição previdenciária foram devidamente considerados no lançamento, para efeito de calcular o montante devido. Os recolhimentos informados pela empresa constam do Relatório de Documentos Apresentados (RDA) (efls. 163 a 167 do Processo nº 10580.729056/201008) e do Relatório de Apropriação de Documentos Apresentados (Rada) (efls. 168 a 183 do Processo nº 10580.729056/201008). Os mesmos valores constam do auto de infração, Debcad nº 37.280.6090, constante do Processo nº 10580.729056/201008, na coluna de créditos, a reduzir o valor do tributo lançado (efls. 7 a 22 do Processo nº 10580.729056/201008). Também alegou, a Recorrente, que seus créditos não foram compensados no cálculo da contribuição devida. A alegação é descabida, pois o que se verifica no Levantamento CG, que corresponde ao item 4.4.11 e respectivos subitens do relatório fiscal que integra o auto de infração Debcad nº 37.280.6090, constante do Processo nº 10580.729056/201008 (efls. 199 a 201 daquele processo), é que os saldos remanescentes dos créditos informados foram integralmente aproveitados. Observase, a partir das informações da Delegacia da Receita Previdenciária de Salvador que conta dos autos do processo nº 10580.729056/201008 (efls. 273 a 279 daquele processo) e do relatório fiscal, o seguinte: a) o contribuinte teve, nos processos nº 35013.003375/200661 e 35013.003667/200601, reconhecido o direito de compensar sobras de recolhimentos de vários estabelecimentos, no valor total de R$ 4.200.318,26, que foram integralmente utilizados na operação concomitante que consta do processo nº 35013.003667/200601; b) dos créditos reconhecidos, restaram inaproveitados quatro recolhimentos do estabelecimento 14.306.831/002063, no valor total de R$ 33.428,78 (item 4.4.11.2 do relatório fiscal, Tabela A, efl. 199 do Processo nº 10580.729056/201008); c) a empresa, ao invés de informar nas Gfip, para compensação, o saldo dos pagamentos inaproveitados na operação concomitante, informou valor muito maior, R$ 135.203,86, além de informar, indevidamente, como compensações nas Gfip, valores que já haviam sido utilizados para a operação concomitante; d) a Autoridade Lançadora corrigiu o saldo dos créditos remanescentes (R$ 33.428,78), refez os cálculos das compensações e glosou o que estava em excesso. Notase, pois, que, ao contrário do afirmado pela Recorrente, os seus créditos foram aproveitados no procedimento fiscal. Destaquese que a Recorrente apresentou planilha intitulada Acompanhamento Saldo INSS Recuperar 2006 (efl. 1113 do Processo nº 10580.729056/2010 08), na qual constam valores muito diferentes dos que estão nos documentos emitidos pela Delegacia da Receita Previdenciária de Salvador (efls. 273 a 279 do Processo nº 10580.729056/201008). Porém, a Recorrente não apresentou qualquer comprovação dos valores que apontou e nem explicou, em seu apelo, qual a finalidade daquela planilha. A Recorrente solicitou perícia para levantar os valores refazer os cálculos dos levantamentos MT e MT1 e para verificar a origem dos valores constantes do levantamento CG. Fl. 1905DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.900 11 Ora, quanto aos levantamentos MT e MT1, os dados foram extraídos dos documentos fornecidos pela própria empresa e que estão nos autos do Processo nº 10580.729056/201008, sendo absolutamente desnecessária qualquer perícia para esse fim pois os documentos fundamentais pertencem à Recorrente. Pretende, a Recorrente, que uma perícia venha considerar as Gfip entregues sob procedimento de ofício, quando, na verdade, esses documentos inexistem, para efeitos jurídicos, por força do disposto no parágrafo único art. 138 do CTN. O que quer a Recorrente é que sejam aproveitadas as informações de créditos compensáveis que constam das Gfip extemporâneas; mas, se os créditos são hígidos, caberia à Recorrente fazer prova deles, pois a Gfip (tempestiva ou não) não é documento hábil para provar a origem dos créditos utilizados em eventuais compensações. Os documentos que amparariam os créditos alegados nas Gfip intempestivas, se existem, deveriam estar sob a guarda da própria Recorrente. Quanto ao levantamento CG, os documentos e informações também constam dos autos do Processo nº 10580.729056/201008, sobretudo a informação da Delegacia da Receita Previdenciária de Salvador que subsidiou o referido levantamento. Não há necessidade de perícia para evidenciar o que já está evidente. O que se percebe é que a Recorrente apenas alega que os créditos diligentemente buscados pela Fiscalização não estão corretos, sem apresentar qualquer contraprova e invocando uma perícia para que cumpra o papel que seria da Recorrente. Para bem fundamentar meu entendimento, socorrome do voto do que conduziu o Acórdão nº 2301005.129, desta turma, da lavra do Conselheiro João Bellini Júnior: A teor do disposto no o art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, com redação dada pelo art. 1º da Lei nº 8.748, de 1993, tais pedidos somente são deferidos quando necessários à formação de convicção do julgador. Ou seja, a perícia ou a diligência só têm razão de ser quando há questão de fato ou de prova a ser elucidada, a critério da autoridade administrativa que realiza o julgamento do processo. Além do mais, descabe diligência ou perícia para averiguação de fato que possa ser comprovado com a juntada de prova documental, cuja guarda e comprovação está a cargo do sujeito passivo, como se dá no presente caso. Portanto, indefiro o pedido de perícia, nos termos do art. 18 do Decreto nº 70.235, de 1972, por considerála despicienda porquanto todos os elementos necessários à decisão já se encontram nos autos. A despeito de toda a argumentação trazida no recurso e da juntada de centenas de folhas, a Recorrente não se desincumbiu, ao meu ver, do essencial, que seria provar que o débito lançado estaria errado ou que algum pagamento ou crédito não teria sido considerado na determinação do montante devido. Entendo que os valores das diferenças entre folha de pagamento e Gfip informados nos levantamentos MT e MT1 estão corretos, porquanto ali se indicam exatamente os valores calculados das contribuições devidas deduzidas de eventuais pagamentos e créditos conhecidos e comprovados pela Recorrente. 2.3. Salárioutilidade valetransporte (levantamentos VT e VT1) Fl. 1906DF CARF MF 12 No que concerne ao valetransporte, o acórdão recorrido entendeu procedente o lançamento porquanto o empregador não teria observado a legislação de regência quanto ao desconto de 6% do salário do empregado. É o que está nos seguintes trechos do voto condutor daquele julgado: 11.6. Assim, observase, pela leitura de texto legal acima, que o empregador é obrigado a adquirir os valestransporte para fornecêlos aos seus empregados, ficando evidenciado ainda, que o empregador deverá participar do custeio do benefício com a parcela que exceder 6% do salário básico do trabalhador, o que significa dizer, que são proibidas quaisquer outras formas de prestação do benefício, entre elas, o fornecimento do vale transporte em espécie, além da participação do trabalhador em percentual inferior a 6% do seu salário básico. ......................................................................................................... 11.8. Assim, a legislação transcrita não deixa dúvidas: o vale transporte, quando concedido nas condições e limites definidos na lei, possui natureza indenizatória, não incorporando a remuneração para quaisquer efeitos. No entanto, a inobservância da legislação específica transforma o pagamento do vale transporte em verba salarial que se incorpora à remuneração do empregado para todos os fins e efeitos. Porém, entendo que, neste ponto, reside razão à Recorrente. A questão dos autos é a incidência de contribuição previdenciária sobre os valores descontados do empregado em percentual menor do que 6% do seu salário. Sob o raciocínio do colegiado a quo, estariam excluídos da base de cálculo da contribuição apenas os valores suportados pela empresa menos a parcela descontada dos empregados, à razão de 6% de seus salários, não mais e não menos. Porém, a correta exegese do parágrafo único do art. 9º do Decreto nº 95.247, de 17 de novembro de 1987, que regulamentou a Lei nº 7.418, de 16 de dezembro de 1985, é que o desconto do empregado é uma faculdade do empregador, e não um requisito legal: Art. 9° O ValeTransporte será custeado: I pelo beneficiário, na parcela equivalente a 6% (seis por cento) de seu salário básico ou vencimento, excluídos quaisquer adicionais ou vantagens; II pelo empregador, no que exceder à parcela referida no item anterior. Parágrafo único. A concessão do ValeTransporte autorizará o empregador a descontar, mensalmente, do beneficiário que exercer o respectivo direito, o valor da parcela de que trata o item I deste artigo.(Sem grifo no original.) Assim, se o empregador optar por arcar, sozinho, com os custos de transporte de seus empregados, sem com eles dividilo ainda que autorizado, não terá desnaturado o benefício concedido pela lei, desde que os valores pagos sejam compatíveis com o custo do transporte do empregado de e para o trabalho. Portanto, entendo que os valores pagos ao empregado para a sua locomoção, mesmo que não tenha havido desconto de seu salário ou que Fl. 1907DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.901 13 esse desconto tenha sido menor do que 6%, subsumemse ao conceito de valetransporte e têm caráter indenizatório, razão pela qual entendo aplicarse, ao caso, Súmula Carf nº 89: Não há incidência de contribuição previdenciária sobre o vale transporte pago em pecúnia, considerando o caráter indenizatório da verba.(grifei) No mesmo sentido, decidiu unanimemente a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF) no Acórdão nº 9202005.387, cujo voto condutor encerra: Assim, a partir da edição das Súmula CARFs e AGU citadas, a mera inexistência de desconto nas remunerações dos segurados, em percentual diferente, aquém dos 6% legalmente citados, não é suficiente para que se conclua acerca da incidência das contribuições previdenciárias, tal como se admitiu no Acórdão paradigma, uma vez, repitase, permitido, na forma das Súmulas, o recebimento em pecúnia para que os segurados, posteriormente, fizessem frente às suas despesas de transporte. Daí entender este Conselheiro que a tributação aqui baseada somente na existência de desconto em percentual diferente dos 6%, mesmo quando acompanhada, no paradigma, de rejeição do caráter indenizatório da verba não poderia, à luz da Súmula CARF no. 89, subsistir e, assim, voto, por negar provimento ao Recurso Especial da Fazenda Nacional. Entendo, pois, que os valores resultantes dos levantamentos VT e VT1 devem ser excluídos do lançamento por, a despeito do quantum descontado dos empregados, se tratarem de valetransporte, verba de natureza indenizatória consoante Súmula Carf nº 89, sobre a qual não incide contribuição previdenciária. 2.4. Salárioutilidade aluguel pago a empregados (levantamentos AL e AL1) No caso dos autos, a Fiscalização identificou, nos registros contábeis da empresa, o pagamento de alugueis. Intimada a apresentar os respectivos contratos de locação, informando, no caso de aluguel residencial, a quem se destinava a moradia, a empresa não apresentou os documentos. Por consequência, a Autoridade Lançadora considerou os valores dos pagamentos escriturados como salários indiretos. 2.4.1. Dos alugueis pagos a Reginaldo Moreno dos Santos Quanto aos pagamentos de aluguel a Reginaldo Moreno dos Santos, a Recorrente alega que ele nunca foi seu empregado, senão o locatário de um imóvel que locara para ser utilizado como canteiro de obras em ItamarajuBA. Entretanto, apesar de haver sido intimada, no curso da ação fiscal a apresentar o contrato de locação, e podendo fazêlo inclusive na fase impugnatória ou mesmo nesta fase recursal, a Recorrente em nenhum momento apresentou o documento ou qualquer outro elemento para comprovar a natureza do aluguel. O Acórdão nº 0652.190, da 5ª Turma da DRJ/Curitiba, proferido nos autos do Processo nº 10580.729056/201008, manteve o lançamento sob o seguinte argumento: Fl. 1908DF CARF MF 14 11.30. Com relação aos valores lançados de locação ao Sr. Reginaldo Moreno dos Santos, a impugnante afirma que esta pessoa nunca foi segurado da mesma, sendo, na realidade, apenas, proprietário de um imóvel situado na Avenida ACM, 1020, ItamarajuBA, o qual foi locado pela impugnante no período de 15/06/2006 a 15/11/2006 para utilização como canteiro de uma de suas obras. 11.31. Contudo, verificase dos autos, que os recibos trazidos pela empresa, (fls. 2005/2010), vieram desacompanhados do contrato de locação, documento este que poderia comprovar suas alegações. 11.32. Neste sentido, cumpre destacar, novamente que as alegações da defesa que não estiverem acompanhadas da produção das provas competentes e eficazes desfiguramse e obliteram o arrazoado defensório, pelo que deve prosperar a exigibilidade fiscal. A parte que apenas alega, mas não produz prova, ou pelo menos indícios convincentes, dos fatos alegados, sujeitase às conseqüências do sucumbimento, porque não basta alegar. Para afastar o lançamento, são necessárias provas que infirmem o que consta do auto de infração, não bastando meras alegações, sobretudo quando os fatos são facilmente comprováveis e toda a eventual documentação estaria de posse da Recorrente. Bastaria apresentar o contrato de locação, ou outro elemento a confirmar que o imóvel teria sido destinado à instalação do canteiro de obras. Mas a Recorrente não logrou comprovar sequer se, de fato, teria havido uma obra naquela localidade. Ao omitir tais documentos, a Recorrente abre espaço para se rechaçar sua alegação e se admitir como absoluta a verdade apresentada pela Autoridade Lançadora. Portanto, em relação aos valores de aluguel pagos a Reginaldo Moreno dos Santos, constantes dos levantamentos AL e AL1, entendo correto o lançamento que os considerou de salário indireto. 2.4.2. Dos alugueis pagos a Almeida, Miyasaki & Cia. Ltda e ao Condomínio Edifício Marques de Herval A Recorrente admitiu, no recurso voluntário, que Neide Jane e Cristiano de Souza Bila eram seus empregados e que foram transferidos para a filial de MaringáPR, provenientes, respectivamente, de SalvadorBA e NiteróiRJ. Do recurso voluntário e da análise dos contratos locatícios (efls. 677 a 683 e 716 a 722 do Processo nº 10580.729056/201008) depreendese que a empresa locou dois imóveis na cidade de Maringá PR para habitação de seus empregados. Destaquese que os objetos de ambos os contratos são imóveis de uso residencial e que os locadores eram, em ambos os casos, representados pela imobiliária Almeida, Miyasaki & Cia. Ltda. Quanto aos valores pagos a Almeida, Miyasaki & Cia. Ltda e ao Condomínio Edifício Marques de Herval, a Recorrente sustentou que não integrariam o salário de contribuição, porquanto estariam enquadrados no que assevera o inc. XII do § 9º do art. 214 do Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, in verbis: §9º Não integram o saláriodecontribuição, exclusivamente: ......................................................................................................... Fl. 1909DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.902 15 XIIos valores correspondentes a transporte, alimentação e habitação fornecidos pela empresa ao empregado contratado para trabalhar em localidade distante da de sua residência, em canteiro de obras ou local que, por força da atividade, exija deslocamento e estada, observadas as normas de proteção estabelecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego; Não assiste razão à Recorrente. Conforme ela mesmo afirma, seus empregados foram transferidos para novo município, em outro estado da federação, a fim de trabalharem em uma filial da empresa. O art. 469 do DecretoLei nº 5.452, de 1º de maio de 1943 Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) define que a transferência implica a mudança do domicílio do empregado, como se vê: Art. 469 Ao empregador é vedado transferir o empregado, sem a sua anuência, para localidade diversa da que resultar do contrato, não se considerando transferência a que não acarretar necessariamente a mudança do seu domicílio . (Sem grifo no original.) A regra isentiva estabelece que a habitação fornecida pela empresa ao empregado contratado para trabalhar em localidade distinta de sua residência não integra o salário de contribuição. Entendese por residência o local onde a pessoa habitualmente é encontrada. O domicílio é, segundo o art. 70 do Código Civil Brasileiro, o lugar onde a pessoa estabelece a sua residência com ânimo definitivo. A residência é, pois, um dos elementos do domicílio. É como a doutrina assevera: O conceito de domicílio civil se compõe, pois, de dois elementos: o objetivo, que é a residência, mero estado de fato material; e o subjetivo, de caráter psicológico, consistente no ânimo definitivo, na intenção de aí fixarse de modo permanente. A conjunção desses dois elementos forma o domicílio civil. A residência é, portanto, apenas um elemento componente do conceito de domicílio, que é mais amplo e com ela não se confunde. (GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro, volume 1: parte geral. 10ª edição São Paulo: Saraiva, 2012.) A alteração do domicílio, por força do disposto no art. 469 da CLT, corresponde também à alteração da residência para o novo local de trabalho. A rigor, não é possível conceber que os empregados, saindo um de SalvadorBA e outro de NiteróiRJ para trabalharem em MaringáPR, município a centenas de quilômetros daqueles dois, não tenham transferido suas residências. Portanto, não se trata de habitação fornecida para empregado em razão de ele trabalhar distante de onde mora, mas de mudança da residência para próximo do novo local de trabalho, em razão da transferência do trabalhador, razão pela qual não se aplica o inc. XII do § 9º do art. 214 do Decreto nº 3.048, de 1999. Além disso, o fornecimento de habitação aos empregados em cidade onde não há limitação de moradia, como na hipótese dos autos, não ocorreu para o trabalho, mas pelo trabalho, o que caracteriza uma contraprestação e dá caráter salarial ao benefício, como já foi decidido por esta turma, em caso semelhante, no Acórdão n º 2301003.996, verbis: Fl. 1910DF CARF MF 16 No que tange ao fornecimento de habitação e sua caracterização como salárioutilidade, o TST possui a Súmula 367 que esclarece em que situações a habitação fornecida pode ser considerada como salárioutilidade, in verbis: Súmula TST 367 Utilidades "in natura". Habitação. Energia elétrica. Veículo. Cigarro. Não integração ao salário. I A habitação, a energia elétrica e veículo fornecidos pelo empregador ao empregado, quando indispensáveis para a realização do trabalho, não têm natureza salarial, ainda que, no caso de veículo, seja ele utilizado pelo empregado também em atividades particulares. II O cigarro não se considera salário utilidade em face de sua nocividade à saúde. O conteúdo da Súmula 367, portanto, o qual adotamos integralmente para o caso por conta da aplicação do art. 110 do CTN, exige que o fornecimento de habitação seja dispensável para a realização do trabalho. Tal dispensabilidade, em regra, depende de prova que o fisco deve providenciar, salvo os casos em que for fato notório. In casu, os contratos que constam dos autos apontam que os imóveis locados localizavamse em cidades com boa disponibilidade de imóveis, como Brasília. Como qualquer trabalhador, os diretores ao serem convidados para trabalhar fora de seu domicílio devem ter considerado se o novo salário tornaria vantajosa sua nova situação. Em cidades com ampla oferta de imóveis, dispondo de salário adequado, os diretores poderiam providenciar seu novo domicílio. Com relação às utilidades, boa parte da doutrina e da jurisprudência do TST se alinhou à teoria finalística – originalmente defendida entre nós por José Martins Catharino na década de 1950 – que distingue as utilidades fornecidas “para o trabalho” das utilidades fornecidas “pelo trabalho”. As primeiras , “para o trabalho”, seriam funcionais, instrumentais, verdadeiros equipamentos de trabalho e, portanto, sem natureza salarial; as segundas, “pelo trabalho”, seriam contraprestativas e com natureza salarial. Não nos parece que o fornecimento de habitação em cidades com boa oferta de imóveis possa ser considerado de maneira similar a um equipamento de trabalho, pois a esmagadora maioria dos trabalhadores que lá trabalham arcam com o custo da habitação com seu próprio salário. Situação diferente seria o fornecimento de habitação em uma localidade inóspita e que não permitisse que o próprio trabalhador, de qualquer nível, acomodasse a si e a sua família. Concluo, portanto, existir nítido caráter contraprestativo no fornecimento de habitação para o caso em análise. Assim, entendo que a inclusão dos valores despendidos com habitação de diretores na base de cálculo da contribuição previdenciária atende aos desígnios da lei. Portanto, o lançamento está correto ao considerar os valores de habitação pagos a Almeida, Miyasaki & Cia. Ltda e ao Condomínio Edifício Marques de Herval, Fl. 1911DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.903 17 constantes dos levantamentos AL e AL1, como salários indiretos e integrálos à base de cálculo da contribuição previdenciária. 2.5. Salárioutilidade prêmio de incentivo (levantamentos CP, CP1, CM e CM1) Por intermédio da empresa Mark Up, a Recorrente realizou pagamentos a funcionários, a título de premiação, mediante crédito de valores em cartão magnético, cartões tais com disponibilidade de saque em terminais de atendimento bancário. Enfim, o pagamento dava em pecúnia, por meio de créditos disponíveis. Segundo a Recorrente, a premiação seguia critérios eminentemente meritórios, ou seja, o empregado estaria sendo remunerado pelo seu trabalho (efl. 2137 do Processo nº 10580.729056/201008). Afirma, ainda, que tais verbas constituem mera liberalidade da empresa empregadora e que não foram diretamente foram pagas pela Recorrente, mas por meio de uma empresa especializada (efl. 2138 do Processo nº 10580.729056/201008). Aduz que o pagamento não cria ou modifica direitos, que possui caráter excepcional vinculado ao alcance de metas e que, por isso, carece de habitualidade (e fl. 2139 do Processo nº 10580.729056/201008), o que colocaria a verba fora do conceito de saláriodecontribuição. A Recorrente afirmou que as verbas pagas não seriam habituais, mas esporádicas, e, por conseguinte, estariam enquadradas na exclusão prevista no item 7 da alínea e do § 9º do art. 28 da Lei nº 8.212, de 1991, in verbis: § 9º Não integram o saláriodecontribuição para os fins desta Lei, exclusivamente: ......................................................................................................... 7.recebidas a título de ganhos eventuais e os abonos expressamente desvinculados do salário; Não assiste razão à Recorrente. De acordo com o art. 28, inc. I, da Lei nº 8.212, de 1991, os valores pagos a qualquer título para retribuir o trabalho integram o salário decontribuição: Art. 28. Entendese por saláriodecontribuição: I para o empregado e trabalhador avulso: a remuneração auferida em uma ou mais empresas, assim entendida a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, qualquer que seja a sua forma, inclusive as gorjetas, os ganhos habituais sob a forma de utilidades e os adiantamentos decorrentes de reajuste salarial, quer pelos serviços efetivamente prestados, quer pelo tempo à disposição do empregador ou tomador de serviços nos termos da lei ou do contrato ou, ainda, de convenção ou acordo coletivo de trabalho ou sentença normativa; A Recorrente faz a comum confusão entre eventualidade e habitualidade. De fato, as verbas recebidas eventualmente não estão sujeitas à contribuição previdenciária, sendo que o mesmo não acontece com as inabituais. Reproduzo o trecho do voto condutor do Acórdão nº 9202003.044 que assim abordou o tema: Fl. 1912DF CARF MF 18 Como se vê, da leitura do art. 22, I e do art, 28,I da Lei nº 8.212/91 e do art. 201, § 1º do RPS, que somente é exigido o requisito da habitualidade no que diz respeito ao “salário in natura”, por incluir, expressamente, no conceito de remuneração os “ganhos habituais sob a forma de utilidades”, sem fazer menção ao requisito habitualidade para os pagamentos em espécie. Ou seja, no campo de incidência das contribuições previdenciárias encontramse: a) a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho, inclusive gorjetas (salário em espécie); e b) os ganhos habituais sob a forma de utilidades (salário in natura). Podese, então, concluir que a lei, ao definir a hipótese de incidência da contribuição previdenciária, exige o requisito da habitualidade tão somente para o salário in natura. Por seu turno, o art. 28, § 9º , alínea “e”, item “7” prevê expressamente que as importâncias recebidas a título de ganhos eventuais são isentas de contribuições sociais previdenciárias: “Não integram o saláriodecontribuição (remuneração) para os fins desta Lei, exclusivamente: (...)as importâncias: (...)recebidas a título de ganhos eventuais (...).” Assim sendo, podese afirmar que “a totalidade dos rendimentos pagos, devidos ou creditados a qualquer título, durante o mês, destinados a retribuir o trabalho”, independentemente de serem ou não habituais, encontramse no campo de incidência das contribuições previdenciárias. Entretanto, “as importâncias recebidas a título de ganhos eventuais” encontramse excluídas da sua base de cálculo por se tratarem de importâncias atingidas pela isenção. Entendo que está sendo criada uma grande confusão ao tentarem comparar os conceitos de "habitualidade com o de não eventualidade" ou o "não habitualidade com o de eventualidade". Para o Dicionário Michaelis, as definições são: Habitual 1 Que acontece ou se faz por hábito. 2 Frequente, comum, vulgar. 3 Usual. Eventual 1 Dependente de acontecimento incerto. 2 Casual, fortuito. 3 Variável. De acordo com o Vocabuário Jurídico de Plácido e Silva: Habitualidade De habitual, entendese a repetição, a sucessividade, a constância, a iteração, na prática ou no exercício de certos e determinados atos, em regra da mesma espécie ou natureza, com a preconcebida intenção de fruir resultados materiais ou de gozo. Eventualidade De evento, significa o caráter e a condição do que é eventual, mostrando assim a possibilidade e a probabilidade do fato, cuja realização é esperada ou aguardada. Fl. 1913DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.904 19 A habitualidade, como requisito para que a prestação in natura, integre o saláriodecontribuição, diz respeito a freqüencia da concessão da referida prestação. Já a eventualidade, como elemento caracterizador da isenção prevista no art. 28, § 9º , alínea “e”, item “7”, ou seja, que decorram de importâncias recebidas a títulos de ganhos eventuais, dizem respeito a ocorrência de caso fortuito. No presente caso há de se assinalar, primeiramente, que foram realizados pagamentos em pecúnia, o que afasta a necessidade de se indagar a habitualidade com que o pagamento foi realizado. Entendo, pois, que o requisito da habitualidade não se aplica a recebimentos em pecúnia ocorridos em razão do trabalho. Mas, ainda que se aplicasse, não seria o caso dos prêmios pagos na hipótese dos autos. Esses prêmios, embora, em tese, fossem variáveis, nada tinham de eventuais e nem de inabituais; na verdade, eram pagos regularmente aos empregados, conforme se constata nos documentos dos autos (efls. 292 a 517 do Processo nº 10580.729056/201008). Em uma rápida análise, por amostragem, verificase que os empregados e respectivos valores recebidos se repetiram em praticamente todos os meses considerados na ação fiscal (2/2006 a 2/2007): eFolhas 292 a 329 330 a 385 399 a 465 466 a 517 Empregado Ângelo Mercury Garcia Ducineia Silva Conceição Jorge Lima de Deus Jaciara Balbino dos Santos Celso Antônio Majchrovicz Luiz Abrahao Filho Nivaldo Canella Antônio Carlos Fontana José Vogt fev/06 140,00 140,00 250,00 600,00 4.020,00 4.020,00 4.020,00 3.090,00 1.242,00 mar/06 140,00 140,00 250,00 600,00 4.982,79 4.020,00 3.090,00 1.242,00 abr/06 100,00 140,00 250,00 600,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 mai/06 100,00 200,00 250,00 600,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 jun/06 100,00 200,00 250,00 700,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 jul/06 100,00 200,00 250,00 700,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 ago/06 116,67 200,00 250,00 700,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 set/06 116,70 200,00 250,00 700,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 out/06 116,70 200,00 200,00 700,00 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 nov/06 116,70 200,00 250,00 933,34 4.020,00 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 dez/06 155,56 200,00 250,00 700,00 4.140,60 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 jan/07 116,67 200,00 250,00 700,00 4.140,60 4.502,40 4.020,00 3.090,00 1.242,00 fev/07 116,67 200,00 250,00 700,00 4.140,60 4.502,40 4.020,00 Essa modalidade de remuneração já foi, reiteradas vezes, objeto de análise no Carf, que coleciona vasta jurisprudência (a exemplo dos acórdãos nº 9201003.044, 2401 003.921 e 2301004.955) no sentido de considerar os cartões de premiação, exatamente como na espécie dos autos, como componente do saláriodecontribuição e, portanto, como elemento da base de cálculo da contribuição previdenciária, porquanto tratamse de rendimentos auferidos pelo trabalho, compondo, assim,a remuneração do empregado. Reproduzo a conclusão, na matéria, do voto condutor do Acórdão nº 06 52.190, da 5ª Turma da DRJ/Curitiba, proferido nos autos do Processo nº 10580.729056/2010 08 (efl. 2079 daquele processo), por bem expressar o meu entendimento: Fl. 1914DF CARF MF 20 11.38. Do exposto, entendese que os créditos em discussão foram pagos aos segurados, com habitualidade (02/2006 a 02/2007), em função do resultado de seus trabalhos junto à impugnante, sendo evidente que não se tratou de distribuição de premiação sem causa, mas de pagamentos com caráter tipicamente remuneratório, formalizados impropriamente por intermédio de cartões de incentivo, devendo sujeitarse em virtude disso à incidência de contribuição previdenciária. Portanto, o lançamento está correto ao considerar os pagamentos de cartão de premiação como saláriosdecontribuição. 3. Aplicação das multas de mora e de ofício A Recorrente sustenta que a comparação das multas, para efeito de aplicação da retroatividade benigna, estaria incorreta. Segundo sua interpretação, o § 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, em sua redação vigente quando do lançamento, teria sido revogado pela Medida Provisória nº 449, de 2008, convertida na Lei nº 11.941, de 2009, que acrescentou à Lei nº 8.212, de 1991. Segundo o seu entendimento, por ter havido entrega de Gfip contendo informações incorretas ou omissão de dados, deveria ser aplicada, no caso, a multa prevista no inc. I do art. 32A da Lei nº 8..212, de 1991, incluído pela Lei nº 11.941, de 27 de maio de 2009: Art.32A. O contribuinte que deixar de apresentar a declaração de que trata o inciso IV do art. 32 no prazo fixado ou que a apresentar com incorreções ou omissões será intimado a apresentála ou a prestar esclarecimentos e sujeitarseá às seguintes multas: (Incluído pela Medida Provisória nº 449, de 2008) I de R$ 20,00 (vinte reais) para cada grupo de dez informações incorretas ou omitidas, e ............................................................................................................. Não tem razão a Recorrente. O parâmetro de comparação utilizado pela Recorrente, que é o art. 32A, inc. I, da Lei nº 8.212, de 1991, não pode ser aplicado ao caso. Esse dispositivo não trata da multa resultante do lançamento de ofício, que é o caso dos autos. A norma sobre a matéria está no art. 35A da mesma lei. A Lei nº 11.941, de 2009, promoveu várias alterações nos modos de cálculo de multas previdenciárias. No que se refere ao lançamento de ofício em que haja, simultaneamente, falta de pagamento ou recolhimento e falta ou inexatidão de Gfip, estabeleceu que incidirá apenas a multa prevista no art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, que remete ao art. 44 da Lei no 9.430, de 27 de dezembro de 1996, que estabelece a multa de 75% sobre o valor da contribuição devida. Considerando que o encargo dos autos é, materialmente, multa de ofício, porquanto resultante de uma ação fiscal, vale invocar o posicionamento da CSRF sobre a matéria, cujo entendimento encontrase pacificado. Reproduzo, pois, parte do voto condutor do Fl. 1915DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.905 21 Acórdão nº 9202006.028, com cuja fundamentação concordo e assumo como parte das razões de decidir: De inicio (sic), cumpre registrar que a Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), de forma unânime pacificou o entendimento de que na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre dispositivos, percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Assim, a multa de mora prevista no art. 61 da Lei nº 9.430, de 1996, não é aplicável quando realizado o lançamento de ofício, conforme consta do Acórdão nº 9202004.262 (Sessão de 23 de junho de 2016), cuja ementa transcrevese: AUTO DE INFRAÇÃO OBRIGAÇÃO ACESSÓRIA MULTA APLICAÇÃO NOS LIMITES DA LEI 8.212/91 C/C LEI 11.941/08 APLICAÇÃO DA MULTA MAIS FAVORÁVEL RETROATIVIDADE BENIGNA NATUREZA DA MULTA APLICADA. A multa nos casos em que há lançamento de obrigação principal lavrados após a MP 449/2008, convertida na lei 11.941/2009, mesmo que referente a fatos geradores anteriores a publicação da referida lei, é de ofício. AUTO DE INFRAÇÃO DE OBRIGAÇÃO PRINCIPAL E ACESSÓRIA COMPARATIVO DE MULTAS APLICAÇÃO DE PENALIDADE. RETROATIVIDADE BENIGNA. Na aferição acerca da aplicabilidade da retroatividade benigna, não basta a verificação da denominação atribuída à penalidade, tampouco a simples comparação entre percentuais e limites. É necessário, basicamente, que as penalidades sopesadas tenham a mesma natureza material, portanto sejam aplicáveis ao mesmo tipo de conduta. Se as multas por descumprimento de obrigações acessória e principal foram exigidas em procedimentos de ofício, ainda que em separado, incabível a aplicação retroativa do art. 32A, da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação dada pela Lei nº 11.941, de 2009, eis que esta última estabeleceu, em seu art. 35A, penalidade única combinando as duas condutas. A legislação vigente anteriormente à Medida Provisória n° 449, de 2008, determinava, para a situação em que ocorresse (a) recolhimento insuficiente do tributo e (b) falta de declaração da verba tributável em GFIP, a constituição do crédito tributário de ofício, acrescido das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, respectivamente. Posteriormente, foi determinada, para essa mesma situação (falta de pagamento e de declaração), apenas a aplicação do art. Fl. 1916DF CARF MF 22 35A da Lei n° 8.212, de 1991, que faz remissão ao art. 44 da Lei n° 9.430, de 1996. Portanto, para aplicação da retroatividade benigna, resta necessário comparar (a) o somatório das multas previstas nos arts. 35, II, e 32, § 5o, ambos da Lei n° 8.212, de 1991, e (b) a multa prevista no art. 35A da Lei n° 8.212, de 1991. Pois bem, a Autoridade Fiscal, acertadamente, comparou, período a período, as multas calculadas sob as sistemáticas vigentes antes e depois da Medida Provisória nº 449, de 2008, conforme demonstrou Relatório Fiscal de Aplicação da Multa de Mora e da Multa Punitiva por Descumprimento das Infrações Relacionadas à Gfip (efls. 24 a 33), do qual destacase o seguinte trecho: O somatório das multas calculadas pela sistemática antiga (§5º do art. 32 da Lei 8.212/91; alínea “a” do inciso II do art. 35 da Lei n° 8.212/91, com redação dada pela Lei nº 9.876/99; e § 6° do art. 32, da lei n° 8.212/91) deve ser confrontado com a nova forma de cálculo introduzida pela Lei n° 11.941/09 (art. 35A na Lei 8.212/91 e art. 32A na Lei 8.212/91), aplicandose a multa menos gravosa. Dessa comparação, nos períodos em que seja mais vantajoso ao contribuinte a aplicação do art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991 (multa de 75%), não há a multa isolada por incorreções nas Gfip, pois a legislação inovadora reuniu essa infração com falta de pagamento ou recolhimento da contribuição. Por outro lado, nos períodos em que o menor valor da multa seja o resultante da aplicação dos anacrônicos artigos 35, inc. II, alínea "a", e 32, § 5º, da Lei nº 8.212, de 1991, há a aplicação das duas multas conjuntamente: a multa vinculada (do art. 35, inc. II, alínea "a") e a multa isolada (32, § 5º). Verificase, pois, que não cabe, no caso, a comparação entre a sistemática de cálculo da multa por incompletude na Gfip baseada no revogado § 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, com a redação da época do lançamento, e a modalidade prevista no art. 32A da mesma lei porque tratase de lançamento de ofício e, portanto, a comparação deve se dar entre modalidades aplicáveis a esse tipo de lançamento, vigentes nos dois distintos momentos. Pois bem. Considerando que, para a multa por inconsistências em Gfip deve se aplicar o § 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, sempre que não for mais vantajoso ao contribuinte a aplicação do art. 35A da mesma lei, é preciso, para se chegar ao montante adequado da multa, identificar, a cada período, o valor devido relativo à contribuição não declarada e comparálo com o valor resultante do produto do número de segurados pelo valor previsto no art. 92 da Lei nº 8.212, de 1991, prevalecendo o menor. É a inteligência do § 5º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991: Art. 32. ............................................................................................ § 4º A não apresentação do documento previsto no inciso IV, independentemente do recolhimento da contribuição, sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente a multa variável equivalente a um multiplicador sobre o valor mínimo previsto no art. 92, em função do número de segurados, conforme quadro abaixo: (Incluído pela Lei nº 9.528, de 1997). 0 a 5 segurados 1/2 valor mínimo Fl. 1917DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.906 23 6 a 15 segurados 1 x o valor mínimo 16 a 50 segurados 2 x o valor mínimo 51 a 100 segurados 5 x o valor mínimo 101 a 500 segurados 10 x o valor mínimo 501 a 1000 segurados 20 x o valor mínimo 1001 a 5000 segurados 35 x o valor mínimo acima de 5000 segurados 50 x o valor mínimo § 5º A apresentação do documento com dados não correspondentes aos fatos geradores sujeitará o infrator à pena administrativa correspondente à multa de cem por cento do valor devido relativo à contribuição não declarada, limitada aos valores previstos no parágrafo anterior. Segundo consta do relatório fiscal (efl. 27), o valor a que se refere o § 4º do art. 32 da Lei nº 8.212, de 1991, era, à época do lançamento, de R$ 50.112,65: 3.6 A empresa encontravase enquadrada, em todo o período fiscalizado, na sétima faixa. Desta forma, o valor da multa por competência, corresponde ao valor da contribuição devida limitandose a 35 vezes R$ 1.431,79, ou seja, R$ 50.112,65 (cinqüenta mil cento e doze reais e sessenta e cinco centavos). Com exceção da competência 13, em todas as competências o valor das contribuições não declaradas foi superior ao valor limite. No trecho acima citado, a Autoridade Fiscal afirma que apenas na competência 13/2006 o valor das contribuições não declaradas foi inferior a R$ 50.112,65; por conseguinte, para as demais competências atribuiu esse valor, enquanto que para a competência 13/2006, atribuiu o valor das contribuições omitidas, equivalente a R$ 37.683,68. De fato, efetuei os cálculos a partir das informações contidas no Relatório Fiscal, item 3.14 (efl. 30), considerando a exclusão dos valores dos levantamentos RE e RE1, conforme provimento dado à impugnação no acórdão recorrido, e também a exclusão dos valores dos levantamentos VT e VT1, que entendo serem indevidos pelas razões retro expostas. Mesmo com tais exclusões, os valores não declarados em todos os períodos, exceto 13/2006, seguem sendo muito maiores do que R$ 50.112,65, como se constata na tabela a seguir: Contribuições não declaradas, por competência (R$) Competência Valores não declarados apurados no lançamento Valores constantes dos levantamentos RE e RE1 Valores não declarados após exclusão dos levantamentos RE e RE1 Valores constantes dos levantamentos VT e VT1 Valores não declarados após exclusão dos levantamentos RE, RE1, VT e VT1 02/2006 188.356,41 1.044,00 187.312,41 2.477,41 184.835,00 03/2006 189.129,06 1.273,10 187.855,96 5.866,01 181.989,95 04/2006 184.585,41 560,43 184.024,98 3.726,08 180.298,90 05/2006 206.853,54 206.853,54 6.251,17 200.602,37 06/2006 235.865,04 235.865,04 4.126,15 231.738,89 07/2006 227.312,94 227.312,94 227.312,94 08/2006 226.355,48 226.355,48 226.355,48 Fl. 1918DF CARF MF 24 09/2006 230.701,76 230.701,76 230.701,76 10/2006 227.898,73 227.898,73 227.898,73 11/2006 243.894,08 243.894,08 243.894,08 12/2006 205.959,13 205.959,13 205.959,13 13/2006 37.683,68 37.683,68 37.683,68 01/2007 200.521,45 200.521,45 200.521,45 02/2007 200.056,48 200.056,48 200.056,48 Portanto, a comparação efetuada pelo agente do Fisco entre as sistemática da legislação anterior, do momento dos fatos geradores, e a legislação do momento do lançamento pode ser assim sintetizada: Legislação da época dos fatos geradores Legislação da época do lançamento Competência Art. 35, inc. II (24%) Art. 32, § 5º, cc § 4º Total das multas na legislação da época dos FG Art. 35A (75%) Total das multas na época do lançamento Modalidade mais vantajosa ao contribuinte fev/06 15.660,44 50.112,65 65.773,09 48.938,89 48.938,89Lançamento mar/06 20.648,28 50.112,65 70.760,93 64.525,90 64.525,90Lançamento abr/06 30.750,53 50.112,65 80.863,18 96.095,42 96.095,42Fatos geradores mai/06 43.969,65 50.112,65 94.082,30 129.984,18 129.984,18Fatos geradores jun/06 50.744,75 50.112,65 100.857,40 135.371,44 135.371,44Fatos geradores jul/06 49.059,14 50.112,65 99.171,79 131.267,72 131.267,72Fatos geradores ago/06 46.812,34 50.112,65 96.924,99 123.179,76 123.179,76Fatos geradores set/06 48.665,27 50.112,65 98.777,92 128.924,18 128.924,18Fatos geradores out/06 48.728,34 50.112,65 98.840,99 131.419,17 131.419,17Fatos geradores nov/06 52.979,92 50.112,65 103.092,57 141.281,81 141.281,81Fatos geradores dez/06 42.307,08 50.112,65 92.419,73 132.209,63 132.209,63Fatos geradores 13/2006 9.044,09 37.683,68 46.727,77 7.855,11 7.855,11Lançamento jan/07 42.949,14 50.112,65 93.061,79 134.216,04 134.216,04Fatos geradores fev/07 40.952,07 50.112,65 91.064,72 127.975,26 127.975,26Fatos geradores O lançamento está correto, porquanto aplicou a norma mais benéfica no momento da lavratura do auto de infração, e quanto a isso não há reparos. Destaquese, pois, que a comparação deverá ser feita novamente, quando do efetivo pagamento das contribuições. É o que estabelece a Portaria Conjunta PGFN/RFB nº 14, de 4 de dezembro de 2009: Art. 2º No momento do pagamento ou do parcelamento do débito pelo contribuinte, o valor das multas aplicadas será analisado e os lançamentos, se necessário, serão retificados, para fins de aplicação da penalidade mais benéfica, nos termos da alínea "c" do inciso II do art. 106 da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Código Tributário Nacional (CTN). Portanto, a execução do julgado deverá considerar a fase processual, sendo que, nos períodos em que se aplicar a multa prevista no art. 35A da Lei nº 8.212, de 1991, (multa de 75%), constante do Processo nº 10580.729056/201008, ao qual este processo está apensado, não incidirá qualquer multa de que trata o auto de infração sob análise nestes autos. 4. Conclusões Por todo o exposto, voto no sentido de rejeitar a preliminar de nulidade em razão da utilização de aferição indireta, negar o pedido de perícia, por desnecessária e, no mérito, negar provimento ao recurso. João Maurício Vital Relator Fl. 1919DF CARF MF Processo nº 10580.729052/201011 Acórdão n.º 2301005.198 S2C3T1 Fl. 1.907 25 Fl. 1920DF CARF MF
score : 1.0
Numero do processo: 10882.907065/2011-14
Turma: Primeira Turma Ordinária da Segunda Câmara da Terceira Seção
Câmara: Segunda Câmara
Seção: Terceira Seção De Julgamento
Data da sessão: Mon May 21 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Wed Jun 20 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Processo Administrativo Fiscal
Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009
CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE.
O não enfrentamento das alegações de defesa essenciais ao deslinde do litígio caracteriza cerceamento do direito de defesa e reclama a nulidade da decisão administrativa correspondente.
Numero da decisão: 3201-003.735
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para anular a decisão proferida pela DRJ.
(assinado digitalmente)
Charles Mayer de Castro Souza - Presidente e Relator.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior.
Nome do relator: CHARLES MAYER DE CASTRO SOUZA
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conteudo_txt : Metadados => pdf:unmappedUnicodeCharsPerPage: 0; pdf:PDFVersion: 1.4; X-Parsed-By: org.apache.tika.parser.DefaultParser; access_permission:modify_annotations: true; access_permission:can_print_degraded: true; access_permission:extract_for_accessibility: true; access_permission:assemble_document: true; xmpTPg:NPages: 6; dc:format: application/pdf; version=1.4; pdf:charsPerPage: 1353; access_permission:extract_content: true; access_permission:can_print: true; access_permission:fill_in_form: true; pdf:encrypted: true; producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; access_permission:can_modify: true; pdf:docinfo:producer: Serviço Federal de Processamento de Dados via ABCpdf; Content-Type: application/pdf | Conteúdo => S3C2T1 Fl. 741 1 740 S3C2T1 MINISTÉRIO DA FAZENDA CONSELHO ADMINISTRATIVO DE RECURSOS FISCAIS TERCEIRA SEÇÃO DE JULGAMENTO Processo nº 10882.907065/201114 Recurso nº Voluntário Acórdão nº 3201003.735 – 2ª Câmara / 1ª Turma Ordinária Sessão de 21 de maio de 2018 Matéria IPI. RESSARCIMENTO. Recorrente ABB LTDA Recorrida FAZENDA NACIONAL ASSUNTO: PROCESSO ADMINISTRATIVO FISCAL Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009 CERCEAMENTO DO DIREITO DE DEFESA. NULIDADE. O não enfrentamento das alegações de defesa essenciais ao deslinde do litígio caracteriza cerceamento do direito de defesa e reclama a nulidade da decisão administrativa correspondente. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em dar provimento parcial ao recurso voluntário, para anular a decisão proferida pela DRJ. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Presidente e Relator. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Charles Mayer de Castro Souza (Presidente), Paulo Roberto Duarte Moreira, Tatiana Josefovicz Belisario, Marcelo Giovani Vieira, Pedro Rinaldi de Oliveira Lima, Leonardo Correia Lima Macedo, Leonardo Vinicius Toledo de Andrade e Laercio Cruz Uliana Junior. Relatório AC ÓR DÃ O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 88 2. 90 70 65 /2 01 1- 14 Fl. 741DF CARF MF 2 A interessada apresentou pedido eletrônico de ressarcimento de crédito de Imposto sobre Produtos Industrializados IPI, com fundamento na Lei 9.779, de 1999. A unidade de origem reconheceu em parte o crédito vindicado, utilizado na compensação de débitos próprios. Por bem retratar os fatos constatados nos autos, passamos a transcrever o Relatório da decisão de primeira instância administrativa: Trata o presente processo de Pedido de Ressarcimento relativo ao 2º trimestre de 2009, nos termos da Lei nº 9.779/99, cujo Despacho Decisório de fl. 601, reconheceu, parcialmente, o crédito solicitado no PER/DCOMP n° 28392.91948.100709.1.1.016339, em virtude de trabalho fiscal. Segundo as informações fiscais, o contribuinte deu saída de produtos de sua fabricação sem destaque do IPI, deixou de estornar créditos de IPI nas saídas de insumos a empresas não industriais e revendedoras, não destacou o IPI nas saídas de insumos a estabelecimentos industriais e revendedoras. O contribuinte tomou ciência do Despacho Decisório em 12/11/2013, e irresignado apresentou sua Manifestação de Inconformidade deduzindo em sua defesa, o seguinte: 1. Superficialidade da instrução probatória com ferimento da Verdade Material e cerceamento ao direito de defesa da Requerente, o que acarreta nulidade do Despacho Decisório; 2. No mérito, que o direito creditório pleiteado está regular; 3. E que não incide o IPI, nas vendas de partes e peças utilizadas em reparos ou prestação de serviço; 4. Ilegalidade do método utilizado pela fiscalização para fazer o estorno dos créditos da requerente; O processo foi baixado para diligência em 27 de agosto de 2014, conforme Resolução de fls. , que solicitou esclarecimento sobre o seguinte: Nesse sentido, a fim de que sejam cumpridas as providências indispensáveis, voto, com fulcro no Decreto nº 70.235, de 1972, art. 18, para que o processo seja restituído à unidade de origem para a realização de diligência, que deverá confirmar, para cada produto e nota fiscal constante do Demonstrativo (1.2) – Revenda de Insumos (nac e estrangeira) Efetuadas a Empresas Industriais e Revendedoras – se tais insumos foram utilizados em alguma etapa de “industrialização” ou “revenda” no adquirente. A diligência retornou a esta DRJ com a informação de que a impugnação ao Auto de Infração de imposição de penalidade e que trata da mesma matéria e períodos de apuração foi julgada improcedente em 28/02/2014, conforme Acórdão 0950.187 3ª Turma da DRJ/JFA, tendo efetuado o recolhimento do débito, processo 16095.720185/201323. É o Relatório. Fl. 742DF CARF MF Processo nº 10882.907065/201114 Acórdão n.º 3201003.735 S3C2T1 Fl. 742 3 A 2ª Turma da Delegacia da Receita Federal de Julgamento em Ribeirão Preto/SP julgou improcedente a manifestação de inconformidade, proferindo o Acórdão DRJ/RPO n.º 1456.806, de 25/02/2015 (fls. 618 e ss.), assim ementado: ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS IPI Período de apuração: 01/04/2009 a 30/06/2009 IPI. FALTA DE LANÇAMENTO. SAÍDAS DE PRODUÇÃO PRÓPRIA E REVENDA DE INSUMOS. As saídas de produção própria bem como a revenda de insumos para industrialização ou nova revenda são passíveis de tributação pelo Imposto sobre Produtos Industrializados nos termos dos artigos 8º, 9º §4º e 24 do RIPI/2002. Irresignada, a contribuinte apresentou, no prazo legal, recurso voluntário de fls. 641 e ss., por meio do qual, além de requerer, por identidade de matéria, julgamento conjunto com os processos de nº 10882.907064/201170, 1010882.907066/201169, 10882.907067/201111, 10882.907068/201158, 10882.907069/201101 e 10882.907070/201127, suscita, em síntese, os seguintes argumentos de defesa: Nulidade da decisão da DRJ A DRJ copiou os fundamentos da decisão prolatada no processo administrativo de nº 16095.720185/201323, que consubstanciou auto de infração contra o mesmo contribuinte. Todavia, as defesas apresentadas no presente processo e no citado são bem diversas, inclusive foram elaboradas por patronos distintos. Os débitos referentes ao processo nº 16095.720185/201323 foram quitados, porque perdeuse o prazo para a interposição do recurso, mas isso em nada se relaciona com a materialidade dos fatos jurídicotributários que são objeto destes autos. Deveria ter a DRJ enfrentado todos os argumentos. Houve cerceamento do direito de defesa. Nulidade do Despacho Decisório O Despacho Decisório é nulo, em face da superficialidade das informações necessárias para a sua adequada decisão, o que fere o princípio da verdade material. O não reconhecimento de parte dos créditos devese à apuração de débitos em valor superior aos por ela apurados e à glosa de créditos referentes a estornos não realizados. Todavia, analisado o documento intitulado "Análise do Crédito", verificase uma completa superficialidade das alegações da fiscalização. Não houve explicação individualizada dos itens que o compõem. A fiscalização não se atentou para diversas situações em que não ocorre o fato gerador do IPI: a) saídas de insumos para utilização em conserto, manutenção ou reparo; b) revenda de insumos a não industriais ou a não revendedores. MÉRITO A fiscalização afirma que se deu saída, sem o destaque do IPI, de produtos de fabricação própria e de insumos (matériasprimas, produtos intermediários e material de embalagem) nacionais e importados a pessoas jurídicas revendedoras ou industriais. Não se atentou, contudo, que muitos desses produtos foram utilizados como insumos na manutenção e Fl. 743DF CARF MF 4 reparo, de modo que não poderiam ter sido tributados pelo IPI. Não é qualquer saída que autoriza a cobrança do imposto, mas aquela a que se realiza com a intenção de venda. No caso em que utilizou os insumos ou produtos industrializados na prestação de serviços de conserto, manutenção ou reparo, nunca teve a intenção de vendêlos, mas apenas de prestar o serviço (reproduz o art. 5º, XI, do RIPI/2010, e cita os Acórdãos nº 3202002.236 e 20215.523). A fiscalização não comprovou que as pessoas jurídicas compradoras dos insumos vendidos seriam revendedores ou industriais, o que, por si só, já é motivo de nulidade do Despacho Decisório. A fiscalização não separou as pessoas jurídicas adquirentes que são revendedores ou industriais das que não seriam (cita alguns exemplos de adquirentes de insumos que nunca revenderam ou os utilizaram nos seus processos industriais). Cita, por exemplo, a nota fiscal de nº 60004, que se refere a uma chave seccionadora 145 KV 2000A, que, obviamente, não foi utilizada no processo industrial da adquirente (produção de açúcar). A fiscalização utilizouse da mesma mercadoria para imputar duas infrações (cita a nota fiscal de nº 58535, que se refere a uma chave comutadora PS15120M, que se teria considerado como revenda de mercadoria a revendedores ou industriais e, ao mesmo tempo, como revenda de mercadoria a NÃO revendedores ou industriais). A fiscalização afirma que não foram estornados créditos quando da revenda de mercadorias a não revendedores e industriais, fato que foi levantado a partir da análise das notas fiscais de entrada e saída. Todavia, poderia ter solicitado documentos contábeis, como Livros Razão e de Apuração do IPI. A fiscalização afirmou que considerou para o estorno o valor do crédito destacado na nota fiscal de entrada mais próxima da nota fiscal de saída, ou das notas fiscais mais próxima, considerando a quantidade vendida. Não foram questionados critérios de contabilização de custos. Agiuse com verdadeira presunção. Deverseia ter ao menos adotado o critério de controle de estoques adotado pela empresa, que é da média ponderada, tal como declarado na DIPJ. O arbitramento do valor dos estoques é medida extrema (cita Acórdão nº 10707.694). O processo foi distribuído a este Conselheiro Relator, na forma regimental. É o relatório. Voto Conselheiro Charles Mayer de Castro Souza, Relator. O recurso atende a todos os requisitos de admissibilidade previstos em lei, razão pela qual dele se conhece. A Recorrente requer, inicialmente, o julgamento conjunto deste processos com outros idênticos, entre os quais o de nº 10882.907069/201101, ainda não distribuído. Não obstante a sua não distribuição conjunta mediante sorteio, não há, com efeito, prejudicialidade para o julgamento dos indicados para a pauta, pelo que é de se indeferir o pleito. No que respeita ao litígio, a Recorrente apresentou PER/DCOMPs por meio dos quais requereu, com fundamento no art. 11 da Lei nº 9.779, de 1999, o ressarcimento de créditos de IPI com origem no 4º trimestre de 2008 ao 3º trimestre de 2010. Tal como informado nos respectivos Despachos Decisórios, os valores foram parcialmente reconhecidos, em face dos seguintes motivos: a) constatação de que o saldo credor passível de ressarcimento é inferior ao valor pleiteado; b) ocorrência de glosa de créditos considerados indevidos e c) Fl. 744DF CARF MF Processo nº 10882.907065/201114 Acórdão n.º 3201003.735 S3C2T1 Fl. 743 5 redução do saldo credor do trimestre passível de ressarcimento, em decorrência dos débitos apurados em procedimento fiscal. Na ocasião, a fiscalização também lavrou auto de infração, exigindo multa de ofício isolada por falta de lançamento do imposto, com cobertura de crédito, nas notas fiscais respectivas. Os Despachos Decisórios foram mantidos pela DRJ, assim como mantida foi a autuação. A Recorrente, contudo, embora intimada, não apresentou recurso voluntário nos autos do processo administrativo de nº 16095.720185/201323 (o auto de infração), de modo que os valores lançados de ofício tornaramse definitivos (conforme ela mesma afirmou, já foram, inclusive, quitados). A DRJ transcreveu os fundamentos do voto condutor do Acórdão DRJ/JFA nº 0950.187, de 28/02/2014, e os adotou como razão de decidir. Afinal, os fatos são exatamente os mesmos. Em resumo, a falta de destaque do IPI nas saídas de produtos com alíquota positiva na TIPI ou nas saídas de insumos nacionais e importados a estabelecimentos industriais ou revendedores, bem como a não anulação do crédito do imposto na revenda de insumos a estabelecimentos não industriais ou não revendedores. Refeita a apuração do IPI em face da constatação desses fatos, é que se lavrou o auto de infração. Todavia, não se atentou a DRJ para o fato de que as defesas apresentadas no processo nº 16095.720185/201323 e nos processos que consubstanciam os pedidos de ressarcimento suscitam alegações diversas (foram, inclusive, apresentadas por escritórios de advocacia também diversos), que, assim, não foram enfrentadas nas decisões proferidas nos processos de ressarcimento, como o ora em julgamento, fato que, a nosso juízo, caracteriza cerceamento do direito de defesa da Recorrente e reclama a anulação da decisão, nos termos do art. 59, inciso II, do Decreto nº 70.235, de 1972. Referimonos, por exemplo, à alegação de que algumas das notas fiscais utilizadas pela fiscalização para comprovar as vendas de mercadorias recebidas ou adquiridas de terceiro referemse, na realidade, a uma prestação de serviços de reparo, conforme indicam as informações registradas nas acostadas à manifestação de inconformidade: a) nota fiscal nº 60404, com CFOP 6102, mas que, nos campos "Dados Adicionais" e "Descrição dos Produtos", traz a informação de tratarse a operação de um reparo; b) nota fiscal nº 60620, com CFOP 5102, que traz as mesmas informações registradas na anterior. Não sabemos se os valores correspondentes a tais notas fiscais foram ou não consideradas pela fiscalização. Porém, mesmo que acessássemos o processo que consubstanciou o auto de infração para verificálo, não se poderia suprimir uma instância administrativa, o que findaria por ocorrer se aqui, depois de fazêlo, decidíssemos a respeito, inclusive quanto às demais alegações de defesa. Ante o exposto, DOU PROVIMENTO PARCIAL ao recurso voluntário, para ANULAR a decisão pela DRJ, a fim de que outra seja proferida, para a qual devem ser consideradas todas as alegações encartadas na manifestação de inconformidade. É como voto. (assinado digitalmente) Charles Mayer de Castro Souza Fl. 745DF CARF MF 6 Fl. 746DF CARF MF
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Numero do processo: 10120.727701/2014-91
Turma: Primeira Turma Ordinária da Quarta Câmara da Primeira Seção
Câmara: Quarta Câmara
Seção: Primeira Seção de Julgamento
Data da sessão: Wed Apr 11 00:00:00 UTC 2018
Data da publicação: Mon Jun 18 00:00:00 UTC 2018
Ementa: Assunto: Imposto sobre a Renda de Pessoa Jurídica - IRPJ
Ano-calendário: 2009, 2010, 2011
IRPJ. OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS.
O art. 42 da Lei nº 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de rendimentos tributáveis com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a prova da origem dos recursos utilizados para acobertar seus depósitos bancários, a qual não pode ser substituída por meras alegações.
BASE DE CÁLCULO. SUBSTITUIÇÃO DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS POR MARGEM DE LUCRO. ATIVIDADE DE FACTORING.
Improcedente o pedido de substituição da base de cálculo, apurada pelos depósitos bancários de origem não comprovada, por suposta margem de lucro considerada a diferença entre o valor de face e o valor de venda do título de crédito à empresa de factoring por ausência de outros elementos que permitam apurar despesa operacional na data da transação.
RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN. ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário.
Numero da decisão: 1401-002.363
Decisão: Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário da Contribuinte e do apontado como responsável tributário, o Sr. Marcos Antonio de Almeida Ramos.
(assinado digitalmente)
Luiz Augusto de Souza Gonçalves - Presidente.
(assinado digitalmente)
Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin- Relatora.
Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa.
Nome do relator: LUCIANA YOSHIHARA ARCANGELO ZANIN
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OMISSÃO DE RENDIMENTOS. LANÇAMENTO COM BASE EM DEPÓSITOS BANCÁRIOS. O art. 42 da Lei nº 9.430/1996 autoriza a presunção de omissão de rendimentos tributáveis com base nos valores depositados em conta bancária para os quais o titular, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. Se o ônus da prova, por presunção legal, é do contribuinte, cabe a ele a prova da origem dos recursos utilizados para acobertar seus depósitos bancários, a qual não pode ser substituída por meras alegações. BASE DE CÁLCULO. SUBSTITUIÇÃO DOS DEPÓSITOS BANCÁRIOS POR MARGEM DE LUCRO. ATIVIDADE DE FACTORING. Improcedente o pedido de substituição da base de cálculo, apurada pelos depósitos bancários de origem não comprovada, por suposta margem de lucro considerada a diferença entre o valor de face e o valor de venda do título de crédito à empresa de factoring por ausência de outros elementos que permitam apurar despesa operacional na data da transação. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. ART. 135, III, DO CTN. ADMINISTRADOR DE FATO. INTERPOSIÇÃO FRAUDULENTA DE PESSOAS. CABIMENTO. Cabe a imposição de responsabilidade tributária em razão da prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos, nos termos do art. 135, III, do CTN, quando demonstrado, mediante conjunto de elementos fáticos convergentes, que os responsabilizados ostentavam a condição de administradores de fato da autuada, bem como que houve interposição fraudulenta de pessoa em seu quadro societário. AC ÓR Dà O GE RA DO N O PG D- CA RF P RO CE SS O 10 12 0. 72 77 01 /2 01 4- 91 Fl. 1894DF CARF MF 2 Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Acordam os membros do colegiado, em por unanimidade de votos, negar provimento ao recurso voluntário da Contribuinte e do apontado como responsável tributário, o Sr. Marcos Antonio de Almeida Ramos. (assinado digitalmente) Luiz Augusto de Souza Gonçalves Presidente. (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin Relatora. Participaram da sessão de julgamento os conselheiros: Luiz Augusto de Souza Gonçalves (Presidente), Lívia De Carli Germano, Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin, Guilherme Adolfo dos Santos Mendes, Abel Nunes de Oliveira Neto, Letícia Domingues Costa Braga, Daniel Ribeiro Silva e Luiz Rodrigo de Oliveira Barbosa. Fl. 1895DF CARF MF Processo nº 10120.727701/201491 Acórdão n.º 1401002.363 S1C4T1 Fl. 1895 3 Relatório Tratase de Recurso Voluntário interposto em face do Acórdão 1675.282 4ª Turma da DRJ/SPO, que por unanimidade de votos, julgou improcedentes as impugnações e manteve tanto o crédito tributário exigido quanto as Sujeições Passivas Solidárias imputadas ao Sr. Marco Antonio de Almeida Ramos e à Sra. Polyana Barbosa de Carvalho Silva. Por bem descrever os fatos, transcrevo em parte o Relatório do Acórdão recorrido naquilo que interessa à discussão da controvérsia posta para julgamento: O interessado foi autuado no IRPJ e reflexos, em 01/10/2014, pela aplicação da presunção legal de omissão de receitas, em face de depósitos bancários de origem não comprovada, referente aos anoscalendário de 2009, 2010 e 2011, tendo sido exigido o crédito tributário total de R$ 15.919.329,48, incluindo imposto, contribuições, multas de ofício de 150%, juros de mora calculados até 09/2014 (fls. 1 a 1696). O Termo de Verificação de Infração (TV), às fls. 1543 a 1548, dá conta, em resumo, dos seguintes fatos: “(...) DA SELEÇÃO DA EMPRESA PARA FISCALIZAR Em operação realizada pela Polícia Federal denominada Monte Carlo, que tinha como objetivo desvendar ... crimes praticados pelos comandantes dos jogos ilegais ... no Estado de Goiás e Distrito Federal, detectouse que a empresa acima ... seria destinatária de parte dos recursos ... dos jogos ilegais, e usada para lavagem de parte do dinheiro. A Policia Federal solicitou o afastamento do sigilo fiscal e bancário .... entre outros, da empresa acima .... O Juiz Federal PAULO AUGUSTO MOREIRA LIMA da Décima Primeira Vara da Justiça Federal em Goiás, ... processo n° 13277 11.2011.4.01.3500, determinou o afastamento dos ... sigilos ... e autorizou o compartilhamento da prova ... com a Receita Federal do Brasil (fls. 1437/1452). PROCEDIMENTOS DA FISCALIZAÇÃO Inicialmente fomos designados para efetuar diligência na empresa acima ..., através do Mandado de Procedimento Fiscal Diligência n° 01.2.02.00201200296 8, para verificar a possibilidade de existir recursos recebidos ... sem a correspondente declaração dos tributos .... Em 18/09/2013, emitimos o Termo de Intimação Fiscal solicitando (fls 02/03); 1) Livros Diário e Razão, ... autenticados, relativos aos anos calendários de 2009, 2010, 2011 e 2012; 2) Cópia dos Atos constitutivos da pessoa jurídica e todas as alterações contratuais posteriores, até a presente data. 3) Arquivos digitais com os registros contábeis referentes aos anos calendário de 2009, 2010, 2011 e 2012, em qualquer um dos seguintes formatos: MANAD(Manual Normativo de Arquivos Digitais), ou ADE COFIS N° 15/2001 (alterado pelo ADE COFIS n° 25/2010), ou SPED Contábil; 4) Extratos bancários, em papel e em arquivos digitais no formato da Carta Circular BACEN n° 3454/2010, relativo à conta corrente mantida pelo contribuinte, durante o período de 01/01/2009 a 31/12/2012, nas instituições financeiras do país;” Fl. 1896DF CARF MF 4 O TV relata, a seguir, sucessivas intimações e pedidos de dilação do prazo (fls. 04/15; 16/17; 22/25). E prossegue: “Em 18/02/2014, tendo em vista que a contribuinte não tinha mais se manifestado, emitimos novo Termo de Intimação Fiscal solicitando os documentos ... (fl. 28). Em 10/03/2014, ... a contribuinte apresentou as Notas Fiscais de Serviços, ... com os Borderôs financeiros que deram origens a prestação de serviços de Factoring, e os Extratos Bancários (fls. 30/1436). ... apesar da movimentação financeira da empresa acontecer durante ... 2009, 2010 e 2011, as Notas Fiscais e Borderôs ... apresentavam lacuna de cinco meses no ano de 2010 e todo o ano de 2011. Do exame dos extratos bancários comparados com os Borderôs das Operações Financeiras, constatamos que a empresa deveria ser fiscalizada. Solicitamos o encerramento do MPF Diligência n° 01.2.02.002012002968 e a emissão de MPF Fiscalização ... n° 01.2.02.00201400075. Em 08/07/2014, ... verificada a falta em determinados meses de 2010 e todo o ano de 2011, de Notas Fiscais e Borderôs, reintimamos a contribuinte para apresentar os documentos ... (fl. 106). Em 17/07/2014, a Contribuinte ... assim se manifestou (fl. 109/245): a) A empresa utiliza desde meados de 2010 o sistema de emissão de nota fiscal eletrônica e desta forma apresenta as respectivas NOTAS FISCAIS dos períodos elencados no item 1. b) A empresa esclarece que não tem deste período solicitado as memórias de cálculos, demonstrativos e borderôs que serviram para a cobrança dos serviços. A resposta ... deixou claro que o objetivo é impossibilitar a identificação ... dos depósitos em sua conta corrente bancária que foi originada pelas operações de Factoring, pois, uma vez identificados ..., o restante dos créditos automaticamente ficaria sem origem. Na análise ..., constatamos que os depósitos provenientes de cobrança dos títulos das operações de factoring eram de difícil identificação, já que por sua natureza, um borderô com vários títulos comportava valores e datas de vencimentos diversos, mas, por outro lado, as saídas dos valores das contas bancárias deveriamser nos valores constantes nos borderôs e não foi isso que encontramos. O que encontramos é que também não é possível identificar o pagamento da compra dos títulos. Sendo assim, e identificando que o montante dos depósitos/créditos nas contas bancárias da contribuinte são muito maiores do que os valores ... dos borderôs, fizemos o Termo de Constatação e Intimação fiscal, ... de 18/02/2014, em que demonstramos o montante de valores depositados/creditados em suas contas correntes bancárias e diminuímos o montante títulos comprados pelo contribuinte através das operações de Factoring, (que se espera serem cobrados através do sistema bancário), e intimamos a contribuinte para identificar com documentos hábeis e idôneos as suas origens, uma vez que identificamos que não foram oferecidos a tributação (fls. 246/393). ... a contribuinte respondeu ... em 10/09/2014 ...: A empresa em função dos fatos e ocorrências a qual foi submetida e exposta nos últimos tempos, teve em seu escritório, equipamentos (computador) e demais documentos (em forma física) vulneráveis, expostos e acessíveis a pessoas alheias ao ambiente e desconhecidas sem conhecimento por nos de seus paradeiros. ... esclarece desta forma, não ter condições de apresentar ... os documentos e esclarecimentos elencados no TERMO DE CONSTATAÇÃO E INTIMAÇÃO FISCAL, e ROGA que sejam mais explícitos no que diz respeito a "comprovar a Fl. 1897DF CARF MF Processo nº 10120.727701/201491 Acórdão n.º 1401002.363 S1C4T1 Fl. 1896 5 origem através de documentos hábeis e idôneos, dos depósitos bancários, efetuados em suas contas bancárias" para sabermos se existe outra forma de contribuir com documentos e esclarecimentos ...." Sendo assim, esses valores depositados/creditados nas contas bancárias da ... fiscalizada, que não são originários de operações de factoring, pois, não foram apresentados os borderôs com as respectivas notas fiscais que comprovam as referidas operações, ficam sujeitos a presunção legal de omissão de receitas, conforme ... Artigo 42 da Lei n° 9,430, de 27 de dezembro de 1996, ...: "Art. 42. Caracterizamse também omissão de receita ou de rendimento os valores creditados em conta de depósito ou de investimento mantida junto a instituição financeira, em relação aos quais o titular, pessoa física ou jurídica, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos utilizados nessas operações. § 1º O valor das receitas ou dos rendimentos omitido será considerado auferido ou recebido no mês do crédito efetuado pela instituição financeira. " Os valores depositados/creditados nas contas bancárias do contribuinte, sujeitos ao lançamento de ofício porque não foram contabilizados e nem declarados como receitas, são os valores abaixo ...: (...)” Os autos de infração constam às fls. 1454 a 1542, com as bases legais da autuação do IRPJ, a saber: art. 3º da Lei n° 9.249/95 e arts. 247, 248, 249, inciso II, 251, 277, 278, 279, 280, 287 e 288, todos do RIR/99 (fl. 1456). A demonstração da apuração dos depósitos não comprovados consta às fls. 1545, 1546 e 1549 a 1695, bem como no Termo de Constatação (fls. 246 a 393). Foram lavrados Termos de Sujeição Passiva em nome de: 1 MARCO ANTONIO DE ALMEIDA RAMOS, proprietário e administrador da empresa, por agir com evidente intuito de fraude, caracterizando a sujeição passiva solidária nos termos do art. 135, inciso III, do CTN, (fl. 1782) com ciência em 20/10/2014 (fl. 1750); 2 POLYANA BARBOSA DE CARVALHO SILVA, proprietária da empresa, por agir com evidente intuito de fraude, caracterizando a sujeição passiva solidária nos termos do art. 135, inciso III, do CTN, (fl. 1779) com ciência por edital em 29/12/2014 (fl. 1748). A empresa apresentou impugnação, em 31/10/2014 (fls. 1699 a 1728), por meio de seu advogado (fls. 1728 a 1736), alegando, em resumo, que: 1 o lançamento não considerou a natureza jurídica da sua atividade ao considerar omissão de receita a totalidade do valor depositado, a teor do artigo 42, e parágrafos, da Lei n° 9.430/96, visto que, no caso concreto, só o deságio é receita; 2 – assim, o lançamento é nulo, por violar os artigos 43 e 142, do CTN, pois cabe à fiscalização provar a existência de renda e, não cabe ao contribuinte provar se um depósito é ou não é renda; 3 – houve diversas intimações para demonstrar a origem dos depósito, o que criou o ônus de demonstrar que os depósitos não eram receita; houve, portanto, inversão do ônus da prova; e apesar da sua movimentação bancária, a apuração da matéria tributável deve ser feita com base em outros meios, nomeadamente os livros fiscais; 4 normas tributárias que criam presunções não podem ser interpretadas extensivamente, como fez a fiscalização, levando à ilegalidade do lançamento por considerar renda o mero depósito; Fl. 1898DF CARF MF 6 5 – não é toda e qualquer ação praticada com o objetivo de impedir a ocorrência do fato gerador do tributo que pode ser qualificada como fraude; o que caracteriza a fraude fiscal é o dolo; fraude, conforme definição legal, é a ação ou omissão dolosa tendente a impedir a ocorrência do fato gerador do tributo; em resumo: sua conduta não almejou impedir a ocorrência do fato gerador [por exemplo, falsificar o valor dos cheques ou dos aditivos dos contratos de 'factoring']; a acusação é apenas omitir dados da movimentação financeira, que pode ser aferida mediante programa da RFB, de modo que não agiu com o intuito de impedir, retardar, excluir ou modificar as características essências do tributo; 6 a multa aplicada de 150% é inconstitucional, conforme argumentos de praxe. O Sr. Marcos Antonio de Almeida Ramos apresentou impugnação, em 13/11/2014 (fls. 1753 a 1769), por meio de seu advogado (fls. 1769 a 1774), alegando, em resumo, que: 1 – o Termo de Sujeição Passiva Solidária é nulo, pois o AuditorFiscal é incompetente para imputar responsabilidade ao administrador, atribuição da Procuradoria da Fazenda Nacional; 2 não há descrição do ato praticado pelo administrador 'com evidente intuito de fraude'; 3 em vista da separação entre a pessoa jurídica e a pessoa dos seus sócios, bem como da limitação da responsabilidade estipulada por Lei, apenas excepcionalmente os sócios podem ser responsabilizados por débitos da empresa, o que não é o caso em tela, de modo que a pretensa solidariedade não tem fundamento jurídico, visto que os sócios não participaram diretamente da suposta infração fiscal; 4 – é certo que a suposta omissão de faturamento e conseqüente não recolhimento do imposto constitui infração, mas isso, por si só, é irrelevante para tornálo pessoalmente responsável pelo imposto devido; 5 não é verdade que a empresa tenha sido dissolvida, estando, sim, em plena atividade, conforme as declarações de imposto de renda e demais documentos anexos à defesa (*). (*): não há, no processo, qualquer documento anexado pelo impugnante. A Sra. Polyana Barbosa de Carvalho Silva não apresentou impugnação, razão pela qual deve ser declarada a respectiva revelia. Apreciada a impugnação da empresa, após afastadas as preliminares de nulidades, o lançamento foi julgado procedente, considerando que a presunção legal de omissão de receitas caracterizada por depósitos bancários de origem não comprovada não contém previsão para diferenciar o tratamento da omissão de receita conforme o tipo de atividade da empresa e também pressupõe que os artigos do CTN foram observados. A inversão do ônus da prova é decorrência lógica da presunção legal, embora a prova solicitada não seja de inocorrência de omissão, mas, sim, da origem dos créditos bancários, e vale notar que o afastamento do sigilo bancário e fiscal foi decretado pelo Poder Judiciário (fls. 1450 e 1452), ainda quanto à alegada ausência de dolo, é de se ver que o TV aponta que a causa da fiscalização na autuada foi o seu envolvimento em lavagem de dinheiro: Mantida a responsabilidade do sócio Marcos, com fundamento no art. 135, III do CTN, posto que argumento de que ele enquanto sócio não participou diretamente da infração fiscal é improcedente, pois o Sr. Marcos era o administrador da empresa e a pessoa jurídica cometeu lavagem de dinheiro. Mantida a responsabilidade da sócia Polyana Barbosa de Carvalho Silva, que não apresentou impugnação. Inconformados, apresentaram Recurso Voluntário a empresa LIBRA e seu sócio administrador Marcos, repisando em síntese os argumentos já tratados na impugnação. Fl. 1899DF CARF MF Processo nº 10120.727701/201491 Acórdão n.º 1401002.363 S1C4T1 Fl. 1897 7 É o relatório do essencial. Tabela do plano Voto Conselheira Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin Relatora. Os recursos apresentados são tempestivos e apresentam os demais resquisitos de admissibilidade, portanto eles tomo conhecimento. A empresa inicia seu recurso questionando juntamente a impossibilidade de inversão do ônus da prova com imputação ao contribuinte do ônus de demonstrar a origem dos depósitos bancários localizados em suas contas, sob pena de presumilos com renda, quando argumenta o caberia a fiscalização o dever legal de comprovar a existência de renda omitida a justificar a autuação. Já está pacificado nesse Conselho que o lançamento baseado no art. 42, da Lei nº 9.430/96, e que é legítimo o lançamento com base na presunção legal por ele instituída, desde que seguidos os procedimentos impostos no dispositivo: IRPF DEPÓSITOS BANCÁRIOS OMISSÃO DE RENDIMENTOS Presumese a omissão de rendimentos sempre que o titular de conta bancária, regularmente intimado, não comprova, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos creditados em suas contas de depósito ou de investimento (art. 42 da Lei n. 9.430, de 1996).(CARF. 2ª Seção. 2ª Câmara. 2ª Turma Ordinária. Ac. 2202002.207.Rel. Rafael Pandolfo. Julg. 12/03/13) A caracterização da ocorrência do fato gerador do imposto de renda não se dá pela mera constatação de um crédito bancário, considerada isoladamente, abstraída das circunstâncias fáticas. Pelo contrário, a caracterização está ligada à falta de esclarecimentos da origem dos numerários creditados e seu oferecimento à tributação, conforme dicção literal da lei. Existe, portanto, uma correlação lógica entre o fato conhecido – ser beneficiado com um crédito bancário sem origem ou não oferecido à tributação – e o fato desconhecido – auferir rendimentos. Essa correlação autoriza plenamente o estabelecimento da presunção legal de que o dinheiro surgido na conta bancária, sem qualquer justificativa, provém de rendimentos não declarados. Os fatos apurados e relatados pela fiscalização são mais do que suficientes para comprovar que os valores creditados em contas correntes mantidas pelos citados sócios pertencem à empresa Libra Factoring, fato este em nenhum momento contestado. A contribuinte ao invés de trazer provas de modo a descaracterizar a infração que lhe foi atribuída preferiu ficar no campo de meras alegações, limitandose a apontar supostas falhas no trabalho fiscal, alegando que não houve demonstração, de forma individualizada, qual lançamento bancário foi considerado receita omitida e qual não foi. Portanto, como dos autos se pode inferir, fez a autoridade lançadora exatamente o que a lei lhe atribuiu como responsabilidade, ou seja, constatada a existência de movimentação bancária em nome da empresa e em nome de pessoas interpostas, em valores muito superiores à receita/rendimento declarado, intimou a fiscalizada e os titulares de direito das contas a comprovarem a origem dos recursos depositados nas respectivas contas correntes. Fl. 1900DF CARF MF 8 Não tendo apresentado provas da origem do numerário depositado, agiu corretamente a fiscalização tributando os depósitos de origem não comprovada como receita omitida, com fulcro no art. 42 da Lei nº 9.430, de 1996. A Recorrente apresenta argumento subsidiário no sentido de que ainda admitindose a presunção de que todos os depósitos havido em sua conta bancária sem comprovação de origem poderiam ser considerados renda em seu favor, tal presunção deveria ser mitigada em razão da atividade de factoring praticada por ela. Segundo ela, sua atividade evita a conclusão de que todos os depósitos havidos na sua conta corrente, inobstante comprovação possam ser presumidos, na integralidade, como receita tributável, uma vez que a eles deveria ser aplicado o percentual de deságio autorizado pela própria Receita Federal do Brasil para se apurar o montante a ser analisado como valor tributável. Ampara seu argumento no ato Declaratório Normativo da Coordenação Geral do Sistema de Tributação (COSIT) n. 51/94, que definiu que na alienação de duplicatas à empresa de Factoring deve ser observada: i) a diferença entre o valor de face e o valor de venda do título de crédito à empresa de factoring será computada como despesa operacional na data da transação; ii) a receita obtida pela empresa de factoring, representada pela diferença entre a quantia expressa no título de crédito adquirido e o valor pago, deveria ser reconhecida, para efeito de apuração do lucro líquido do período, na data de apuração. Para apreciação deste argumento, importante destacar que no Termo de Constatção Fiscal restou observado que: Fl. 1901DF CARF MF Processo nº 10120.727701/201491 Acórdão n.º 1401002.363 S1C4T1 Fl. 1898 9 Tendo a fiscalização concluído ao final do TVF que: Ante o trabalho feito, consideradas todas as intimações realizadas ao contribuinte e os documentos por ele apresentados, com destaque aos "borderos de operações de factoring", notase que empresa recorrente não contabilizou as contas bancárias de todos os bancos, bem como que a movimentação bancária apurada foi muito superior à receita declarada, tendo a fiscalização apurado o montante tributável, seguindo os critérios de acordo com o sistema de débitos e créditos elaborado pela própria contribuinte, não restando oportunidade para qualquer outro casamento válido entre as informações apuradas de forma a se aferir a diferença entre o valor de face e o valor de venda do título de crédito à empresa de factoring e computála como despesa operacional na data da transação, justamente pela ausência de elementos indicativos de prova para tanto. Neste sentido: LANÇAMENTO. LUCRO REAL. DEPÓSITOS BANCÁRIOS DE ORIGEM NÃO COMPROVADA. ATRIBUIÇÃO DA MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA A ATIVIDADES DE FACTORING DE OUTRA EMPRESA. ÔNUS DA PROVA. PRESUNÇÃO LEGAL. Caracterizam omissão de receitas os valores creditados em contas de depósito ou de investimento mantidas junto a instituições financeiras, em relação aos quais o Contribuinte, regularmente intimado, não comprove, mediante documentação hábil e idônea, a origem dos recursos, nos termos do art. 42 da Lei 9.430/96. Por tratarse de uma presunção legal, o ônus da prova é do sujeito passivo. Para que se considerasse que a movimentação financeira pertencia a outra empresa, seria necessária a apresentação de provas, tais como, os contratos de faturização, notas fiscais e outros documentos que permitissem constatar a vinculação entre os depósitos e as operações alegadas. Fl. 1902DF CARF MF 10 ACÓRDÃO 1102000.748 em 09/05/2012 DA QUALIFICAÇÃO DA MULTA. No Termo de Verificação de Infração, anexo ao Auto de Infração (fls. 1453) traz como informação relativa à acusação de fraude, que inclusive foi utilizada para fundamento pela DRJ para manutenção da responsabilização do solidário e qualificação da multa no importe de 150%, justamente a falta da contabilização dos valores dos depósitos e seu oferecimento à tributação. O Recorrente alega que é errada a qualificação da multa e defende que há precedentes no sentido de que não pode ser qualificada a multa quando o lançamento é realizado com base em presunção de omissão de rendimentos, já que é necessária a comprovação cabal de conduta penalmente imputável prevista nos arts. 71, 72 ou 73 da Lei nº 4.502/64. Neste contexto, entendo não assistir razão ao recorrente. O elemento subjetivo da conduta adotada pela empresa é o dolo genérico, que se apresenta como a vontade consciente e livre de omitir a informação, ou de prestála de forma adulterada, vale dizer, falsa, não verdadeira. Além do dolo genérico, no presente caso também se verificou o dolo específico, caracterizado pela vontade voltada à redução do tributo ou da contribuição devidos à medida que utilizou de uma conta bancária aberta em nome de pessoa interposta para movimentar recursos próprios. Os fatos praticados pela autuada se enquadram no art. 71, I e II, da Lei nº 4.502, de 1964, pois é nítida a intenção de ocultar do Fisco a ocorrência do fato gerador das incidências fiscais correspondentes. Entendo que o "animus", vontade de querer o resultado, ou assumir o risco de produzilo, ficou evidenciado principalmente com o uso de interposta pessoa, bem como pelo enorme montante de receita omitida ao longo de todo o anocalendário de 2009, 2010 e 2011. DA RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO SÓCIO MARCOS. Em sede de Recurso Voluntário, o sócio administrador Marcos insiste nos mesmos argumentos jazidos na impugnação, no sentido de que o agente fiscal autuante não detinha competência para atribuirlhe responsabilidade, bem como que não teria sido imputada a ele a prática de ato volitivo no sentido de sonegar. No Termo de Sujeição Passiva Solidária (fl. 1782) notificado ao contribuinte constam os seguintes dizeres: Enquanto que no Termo de Verificação de Infração, anexo ao Auto de Infração (fls. 1453) traz como informação relativa à acusação de fraude, inclusive que foi utilizada para fundamento pela DRJ para manutenção da responsabilização do solidário. Fl. 1903DF CARF MF Processo nº 10120.727701/201491 Acórdão n.º 1401002.363 S1C4T1 Fl. 1899 11 Manter a responsabilidade do sócio Marcos, pois em razão da atividade, não havia como dizer que ele não sabia, como prova suficiente a imposição da responsabilidade tributária aqui discutida, tenho que não lograram os responsabilizados refutálos, até porque não se tratam de meros indícios isolados, como sugeriram os responsabilizados. Com efeito, o minuncioso trabalho fiscal demonstrou a ocorrência de variados fatos que convergem em um mesmo sentido, qual seja, o de que O Sr. Marcos não só era sócio de fato da autuada, como operacionalizavam e comandavam os seus negócios. Logrou a Fiscalização contextualizar os elementos de prova juntados, articulandoos de forma a formar conjunto indiciário robusto a demonstrar a condição de sócios/administradores de fato ostentada pelo recorrente, o que é suficiente para a imputação da responsabilidade tributária. Ante o exposto, nego provimento aos Recursos Voluntários da Empresa e do responsável solidário. É como voto. (assinado digitalmente) Luciana Yoshihara Arcangelo Zanin. Fl. 1904DF CARF MF
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